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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.818.544 - SE (2019/0165009-4)

RELATOR : MINISTRO NEFI CORDEIRO


RECORRENTE : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
RECORRIDO : F C DE O N
ADVOGADOS : GILBERTO VIEIRA LEITE NETO - SE002454
PABLO FERNANDES ARAÚJO HARDMAN - SE002809
RECORRIDO : Z S DE V
RECORRIDO : R M DA S
ADVOGADOS : MARCELO LEAL DE LIMA OLIVEIRA - DF021932
LUIZ EDUARDO RUAS BARCELLOS DO MONTE -
DF041950
RECORRIDO : JAN
ADVOGADOS : CRISTIANO CÉSAR BRAGA DE ARAGÃO CABRAL -
SE002576
LUCIANO GUIMARÃES MATA - AL004693
JOSÉ ROLLEMBERG LEITE NETO - DF023656
RECORRIDO : M J V DE A
RECORRIDO : SDL
RECORRIDO : J I DE C P
ADVOGADO : MADSON LIMA DE SANTANA - SE003863
RECORRIDO : VICTOR FONSECA MANDARINO
ADVOGADOS : MÁRCIO MACÊDO CONRADO - SE003806
DANILO BARRETO CANOVES - SE010983
RECORRIDO : G DE M M
RECORRIDO : KCF
ADVOGADOS : FLAMARION D'AVILA FONTES - SE000724
ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BEZERRA - SE001637

DECISÃO
Trata-se de recurso especial interposto em face de acórdão que deu
provimento aos apelos defensivos para declarar a nulidade da interceptações
telefônicas utilizadas para embasar a sentença condenatória e absolver os réus,
julgando, por consequência, prejudicado o recurso do Ministério Público.
Opostos embargos de declaração, foram rejeitados.
Sustenta o Parquet violação dos arts. 613 e 610 do Código de Processo
Penal, bem como dos arts. 50, VII, e 215, do Regimento Interno do TRF/5ª
Região.
Aduz a ocorrência de nulidade procedimental, uma vez que o
Ministério Público Federal não foi intimado para o oferecimento de parecer,
anteriormente ao julgamento dos apelos defensivos.
Afirma, ainda, violação do art. 619 do CPP, tendo em vista a omissão
quanto à tese, apresentada em contrarrazões e nos embargos, de que a nulidade
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Edição nº 2788 - Brasília, Disponibilização: Segunda-feira, 04 de Novembro de 2019 Publicação: Terça-feira, 05 de Novembro de 2019
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das interceptações foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal apenas em
face de deputado federal, não alcançando os demais réus.
Requer o provimento do recurso, a fim de que o acórdão seja anulado,
devendo ser incluído em pauta após o envio de parecer pela Procuradoria
Regional da República.
Contra-arrazoado e admitido na origem, manifestou-se o Ministério
Público Federal pelo provimento do recurso.
É o relatório.
Decido.
De início, não cabe, em recurso especial, analisar a suposta afronta a
atos normativos que não se enquadram no conceito de tratado ou lei federal, de
que cuida o art. 105, III, da Constituição Federal, tais como resoluções,
regimentos internos de tribunais e decretos.
A tese de nulidade pela ausência de vista ao Ministério Público, para
parecer, foi assim dirimida pelo Tribunal de origem, ao julgar os aclaratórios,
in verbis (fls. 20.933-20.934):
A verdade é que o envio dos autos à PRR era, de fato, sine qua non à
validade do julgamento, mas isso foi feito. Cabia ao órgão ministerial de
segundo grau, fosse o caso de pretender exarar mais de uma cota, quiçá por
diferentes procuradores, fazê-lo quando teve a oportunidade - e a
oportunidade lhe foi dada.
Limitou-se, porém, no exercício insindicável de seus poderes
constitucionais (CF/88, 127, caput ), a apresentar contrarrazões, o que
não violou qualquer regra jurídica, nem desfalcou o contraditório de
seu contributo institucional, valendo lembrar, por oportuno, que a
unicidade e indivisibilidade do MP também são constitucionais (CF, Art.
127, § 1º). Tal posicionamento já e antigo na Corte. Vide, por todos, a ACR
3519, da lavra do Desembargador Federal Petrúcio Ferreira.

Do excerto, observa-se que a controvérsia foi debatida e julgada


apenas à luz de preceitos constitucionais, cuja apreciação, em recurso especial,
é vedada, sob pena de usurpação da competência do Supremo Tribunal
Federal. Nesse sentido: AgRg no AREsp 723.796/SP, Rel. Ministro ANTONIO
SALDANHA PALHEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 30/03/2017, DJe
20/04/2017.
Ademais, não haveria no limite legal nulidade pela ausência de
prejuízo ou pela falta de oportunidade de manifestação à parte acusatória, que
atuou em contrarrazões no mesmo grau de jurisdição (Procuradoria Regional),
foi intimada e participou da sessão de julgamento - onde igualmente poderia
ser apresentado o parecer.
Quanto à apontada omissão, asseverou o Tribunal local (fl. 20.932):
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Quanto à nulidade da prova, o acórdão foi claríssimo. Fez sua abordagem a
partir do julgamento realizado pelo STF, mas foi muito além dele.
Analisou intrinsecamente os mecanismos de produção da quebra de
sigilo telefônico, identificando diversas ilegalidades. Não bastasse, ainda
abordou a necessidade de absolvição mesmo que a prova fosse de se
reputar válida -- e não é.
Não há, portanto, falar em vício, se o Tribunal local, em recurso de
apelação, apresentou fundamentação completa e suficiente ao deslinde da
questão e acabou por declarar a nulidade da interceptação telefônica
relativamente a todos os réus. Decisão contrária aos interesses das partes não
significa decisão obscura, omissa ou contraditória, de modo que não cabem
embargos com o propósito de alterar a conclusão da decisão desfavorável aos
recorrentes.
Ante o exposto, nego provimento ao recurso especial.
Publique-se.
Intimem-se.
Brasília, 04 de novembro de 2019.

MINISTRO NEFI CORDEIRO


Relator

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