Você está na página 1de 4

Poeta, o lado quase desconhecido do crítico literário Roberto Schwarz

RICARDO MUSSE

28/07/2017 06h00
Compartilhar0
Mais opções

PUBLICIDADE

RESUMO Formado em Yale e na Sorbonne, o crítico literário Roberto Schwarz, 78, que deu aulas na
USP e na Unicamp, tem uma produção poética pouco divulgada, mas de notável valor estético. Ousados
no linguajar e experimentais na forma, seus versos buscam se contrapor à dicção elevada de certos
parceiros de geração.

As novas gerações, inclusive os discípulos mais recentes do professor e crítico literário Roberto Schwarz ,
desconhecem a obra poética dele. Mas a predileção do intelectual de origem austríaca pela forma ensaio
deveria, por si só, alavancar a suspeita de sua afinidade com a poesia.

Schwarz resiste ao esforço coletivo de apagamento de rastros, noticiando, nas notas das inúmeras edições
de seus livros, a publicação de "Pássaro na Gaveta" (1959, Massao Ohno) e "Corações Veteranos" (1974,
Coleção Frenesi).

Nunca reeditados, os dois volumes atestam o engajamento de Schwarz numa determinada linhagem
poética –da qual dão pistas seus parcos ensaios sobre o gênero poesia (que, observe-se, ocupam número
de páginas menor do que o das dedicadas a reflexões acerca de teatro e cinema).

A avaliação de poemas de Mário (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954) em artigos de,


respectivamente, 1965 e 1987, indica que, do primeiro modernismo, Schwarz recomenda seguir Oswald,
mas não Mário. Uma escolha compartilhada pelos principais poetas de sua geração.

Nos demais textos sobre o gênero, Schwarz discorre sobre seus contemporâneos, destacando Francisco
Alvim, companheiro da Coleção Frenesi. Pratica também um acerto de contas com o concretismo, numa
análise ferina de um poema de Augusto de Campos.

Seus dois livros encontram-se fora de circulação e no acervo de poucas bibliotecas. Alguns versos, no
entanto, podem ser lidos em "Vinte e Seis Poetas Hoje" (1976, Labor), primeira edição comercial da
poesia dita marginal, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda e reeditada em 2007 (Aeroplano).

Trata-se, a meu juízo, de um dos pontos altos da antologia. Nada devem às criações dos demais autores da
Frenesi –Antônio Carlos de Brito, o Cacaso, Francisco Alvim, Geraldo Carneiro e João Carlos Pádua–
nem àquelas de poetas filiados aos outros grupos incluídos na compilação (Nuvem Cigana, tropicalistas,
neoconcretos etc.).

A principal (e mais pertinente) ressalva feita ao volume referia-se à limitação geográfica. Tratar-se-ia de
um recorte circunscrito à cena carioca.

A divulgação dos poetas da Coleção Frenesi não foge a esse diapasão. Afinal, lançada em 1974, na
livraria Cobra Norato, ela constitui expressão destacada da poesia que se fazia então na Guanabara.

Exilado, Roberto Schwarz residia na ocasião em Paris. Sua inserção no grupo deveu-se à correspondência
e à amizade com Cacaso, organizador informal da coleção.

Os livros foram editados pela Mapa Filmes, de Zelito Viana, a mesma produtora de "Terra em Transe"
(1967), de Glauber Rocha, e "Cabra Marcado para Morrer" (1984), de Eduardo Coutinho. O projeto
gráfico e as capas ficaram a cargo da designer Ana Luisa Escorel, filha de Gilda de Mello e Souza e
Antonio Candido.

RUPTURA

Logo no início da Nova República, desfez-se a frente ampla dos poetas, até então irmanados no combate à
ditadura.

O ruído mais estridente dessa cisão consistiu na polêmica suscitada pela publicação, em janeiro de 1985,
do poema "pós-tudo", de Augusto de Campos, no "Folhetim", suplemento da Folha. A apreciação crítica
de Schwarz foi contestada em réplica de Campos, que acusava o interlocutor de ser "mais sociólogo que
crítico e mais crítico que poeta".

Em pleno exercício de desqualificação do adversário, Augusto de Campos ainda "reconhecia" Roberto


Schwarz como poeta. Essa filiação seria desprezada nas repercussões desse conflito, nas manifestações
posteriores dos dois lados do "fla-flu" paulistano.

Em "Sobre a Crítica Literária Brasileira no Último Meio Século" (Imago, 2002), Leda Tenório da Motta,
professora da PUC-SP, reconstitui a controvérsia e classifica Schwarz como "principalmente um
prosador, embora lhe ocorra assinar bissextamente volumes de poesia, considerada 'imperita' por seus
críticos".

Já o livro-homenagem "Um Crítico na Periferia do Capitalismo: Reflexões sobre a Obra de Roberto


Schwarz" (Companhia das Letras, 2007, org. Maria Elisa Cevasco e Milton Ohata) ignora quase
completamente seus dois livros de poesia.

A exceção encontra-se no artigo de Francisco Alambert, que menciona, para fins retóricos, a recepção dos
poemas agrupados em "Pássaros na Gaveta" pelo então ícone modernista Sérgio Milliet (1898-1966).

Esse sequestro talvez seja resultado de um prurido, bastante compreensível na atual conjuntura, travejada
por falsos moralismos. O vocabulário, o conteúdo e a linha geral de "Pássaros na Gaveta" e "Corações
Veteranos" estão em profundo desacordo com o senso comum de nossa época.

No poema "Conto de Fadas", por exemplo, diz-se o seguinte: "O ratão transformara-se num príncipe
encantado de pau duro/ a bocetinha falante de Cinderela babava pelos bigodes".

A estratégia de se valer de expressões próximas de grafites de banheiros visava, antes de tudo, a romper
com a dicção elevada imposta pela "geração de 45" (do alto modernismo) e pelo concretismo (sobretudo
o de Haroldo de Campos). Tal gesto foi repetido por poetas os mais díspares, como o paulistano Roberto
Piva (1937-2010), de "Paranoia", e o carioca Zuca Sardan, de "Babylon - Mystérios de Ishtar".

O efeito dessa poesia nos anos da abertura (1975-84) foi incomensurável. Sua leitura suscitava uma
espécie de sopro de libertação em relação ao conservadorismo político, cultural e social martelado pelo
regime militar.

MAIO DE 68

Se um "scholar" destacado como ele –mestre por Yale, doutor pela Sorbonne Nouvelle e autor de artigos
na revista "Les temps Modernes", fundada por Sartre e Beauvoir, e do então já célebre ensaio "As Ideias
fora do Lugar"– escrevera poemas como "Conto de Fadas" ou "Passeata" ("Pau no imperialismo/ abaixo o
cu do papa"), sedimentava-se a convicção de que não era bravata o slogan estampado nos muros do Maio
de 1968: "Tudo é permitido".

"Passeata" constitui uma espécie de síntese do tom que perpassa "Corações Veteranos". O procedimento
de inversão utilizado em sua composição (figura de estilo denominada quiasma) é recorrente na tradição
dialética, apresentando-se aos borbotões na prosa do jovem Karl Marx .
As frases entrecruzadas no poema remetem a duas linhagens libertárias: a de resistência política,
encarnada na luta anti-imperialista, e a da contracultura, assentada numa demanda de mudança de
comportamento que não deixa de fora nem sequer a vida sexual do sumo pontífice.

A conexão entre forma artística e experiência histórica tem seu ápice no poema "Inoxidável".

Ei-lo: "Escovou os dentes até que sangrassem. Parou de escovar/ quando começaram a sangrar. Não
escove até que sangrem!/ Meus dentes sangram tão logo comece a escová-los. Antes,/ precisava escovar
muito, agora é começar e já estão sangrando./ Basta aproximar a escova e começam a sangrar./Às vezes
penso numa escova mais mole, mas sei que/ mesmo um pincel de barba esfregando bastante, não faz
menos/ efeito que o arame".

Há aqui um movimento de descontinuidade e inversão de perspectivas, "de construção indeterminada,


mas sempre exata", assim como uma recusa à individualização (seja dos personagens, seja da persona).
Daí emergem vozes que "muitas vezes, graças ao malabarismo da dramaturgia, não sabemos de quem são,
a quem se dirigem". Além disso, persiste a dúvida sobre a figura a quem atribuir o título do poema, "que
não é uma moldura neutra e que participa do jogo de incertezas do resto".

A análise da qual se extraíram os fragmentos acima, elaborada por Schwarz, refere-se ao livro "Elefante",
de Francisco Alvim, mas descreve perfeitamente procedimentos de sua própria poesia.

Essa indeterminação é um recurso estético típico do modernismo internacional. Recorrente nos romances
de William Faulkner (1897-1962), alcança expressão magistral no conto "La Señorita Cora", de Julio
Cortázar (1914-84).

CAPITALISMO

A consciência histórica ali traduzida esteticamente, na aliança entre imaginação e reflexão, não é local,
nacional ou cosmopolita, é indeterminada no quadro estreito do sistema mundo, alude ao mal-estar no
capitalismo.

Nos poemas de Schwarz, quando aparece um "narrador" determinado, a persona poética compõe-se na
figura do exilado, manifesta em "Emigração 71" ou nos versos finais de "Convalescença":

"Em surdina/ ligeira passa a felicidade pelas minhas/ pernas trêmulas e o súbito, embargado/ soluçante
desejo de viver/ os automóveis parados dos dois lados da rua/ o céu coberto/ a despeito de tudo a beleza/
quantos amigos presos/ visto um casaco".

Uma condição onipresente marcada por um sofrimento intenso, mesmo diante da festiva chegada da
primavera em Paris.

Aqui e ali, pululam poemas que recorrem à cor local, tentativas de mostrar as faturas da identidade (da
alegoria) nacional. A primeira estrofe de "Informe" diz: "O ridículo casou-se ao sinistro/ seu filho é
macabro e ministro". (Qualquer semelhança com o governo brasileiro atual é mera coincidência.)

No entanto, Schwarz procura manter-se alerta. Atento à estática inerente ao dinamismo do capital, evita
embarcar numa concepção evolutiva da história: "É uma ilusão de bobos [...] queremos crer que tudo não
é igual" (em "Política das Almas").

A condição de desterrado, indissociável da persona de "Corações Veteranos", é ampliada no tempo e no


espaço. Dezesseis poemas breves são agrupados sob o título de "Canções do Exílio", remetendo a
Gonçalves Dias (1823-1864).

Parte integrante desse conjunto, o poema prosa "Depois do Telejornal", supostamente autobiográfico,
relata o encontro com uma velha tia surda que "está em Nova York desde 42, fugiu dos nazistas em 39,
foi internada em 40 num campo francês, em 41 passou para um quartel em Casablanca e perdeu a mãe em
Buchenwald".
À maneira do narrador de "Minima Moralia", de Theodor W. Adorno, Schwarz, "em vez de se deter na
descrição de idiossincrasias, de especificidades irredutíveis [...] salienta na condição de banido a
condensação que o torna uma figura exemplar da vida mutilada", como o autor deste ensaio que o leitor
tem em mãos escreveu anos atrás em "Diagnóstico da Barbárie" (2011).

Assim, só resta ao indivíduo no capitalismo lutar pela emancipação política e social. Quem almeja se
enquadrar está condenado, como (no poema) "Ulisses": "A esperança posta num belo salário,/ corações
veteranos,/ este vale de lágrimas. Estes píncaros de merda".

RICARDO MUSSE, 55, é professor no departamento de sociologia da USP e autor de "Émile Durkheim:
Fato Social e Divisão do Trabalho".