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Texto Roy Wagner

Em “A invenção da cultura” Roy Wagner se prolonga num debate acerca dos


modos como os antropólogos usam a sua cultura para compreender outra cultura com o
fim de abranger um conceito de cultura em geral.
É por meio de uma conceitualização entre convenção e invenção que será possível
compreender a criatividade inerente ao conceito de cultura em geral, embora a atividade
criativa da antropologia tire suas raízes nos modos como acessamos a cultura alheia por
meio de nossa própria cultura, como inventamos uma cultura para os outros através das
convenções de nossa própria cultura.
As relações complexas entre convenção e invenção se colocam nos contextos em
que os símbolos adquirem significado, ligados a experiência e as próprias relações que
se estabelecem entre os símbolos. Os símbolos se referem a contextos em que uma dada
cultura utiliza suas palavras, associam umas as outras e evocam ou referem-se sempre a
múltiplos contextos e adquirem usos específicos e variadas extensões. A convenção
conecta os signos de uso comum de uma dada sociedade construindo certos padrões ou
regras tanto no uso dos signos na comunicação quanto nas relações e associações que a
própria cultura realiza entre as palavras. A convenção abstrai os signos dos contextos
em que eles se inserem pelo próprio ato de simbolizar, ou seja, de representar algo
diferente do que se é. Os signos e suas associações simbolizam um conjunto de
contextos em que estão inseridos, e seus efeitos uns sobre os outros é sempre de
contraste, seja evidenciando certas simbolizações ‘coletivizantes’ seja realizando certas
simbolizações ‘diferenciantes’.
A convenção objetifica um dado contexto distinto integrando-o as regras
coletivamente seguidas, aos significados socialmente compartilhados, mas ao mesmo
tempo, diferencia ou distingue, certa facticidade especifica e individual daquelas regras
em contextos individuais e diferenciados, sem deixar, ainda, de coletivizá-los.
Seja como for, “A invenção da cultura” se prolonga nas relações entre modos de
simbolização ou modos de ações que tendem ora para seu aspecto coletivizante ou
convencional ora para seu aspecto diferenciante e criativo. “Invenção e convenção
mantêm entre si uma relação dialética, uma relação ao mesmo tempo de
interdependência e contradição. Essa dialética é o cerne de todas as culturas humanas
(...)” (WAGNER, 2012 p.95). É porque a convenção por meio da repetição e da
regularização de seus modos de simbolização não deixa de enquadrar nos modos
socialmente praticados e simbolizados práticas e discursos realizados por indivíduos
específicos e diferenciados, ao mesmo tempo, que estes mesmos indivíduos inventam
sua cultura ao adequar suas idiossincrasias às regras e imagens que socialmente se
prática ou se simboliza, ao mesmo tempo também que socializam e tornam coletivas
suas idiossincrasias particulares por meio da invenção da sua própria convenção. Ao
realizar ações convencionais os indivíduos inventam a cultura ao qual irão se “adequar’
por meio de símbolos e discursos culturalmente compartilhados e vivenciados.
Todo compartilhamento de regras e convenções é invenção, e toda invenção
requer uma comunicação em convenções compartilhadas para que faça sentido. Ao
lado dessa interdependência, existe um mascaramento ou uma ilusão cultural que perfaz
a convenção no sentido de que algumas adquirem sentido de natural ou inato, como se
fossem primeiras em relação a outro elemento distinto ou obviante ou diferenciante.
Uma palavra adquire sentido envolvida nas associações convencionais a partir dos
desempenhos em que atua articulando contextos e a significância relativa que esta
articulação adquire. Esta capacidade do símbolo de articular contexto, obter
significância e inserir-se em associações é chamado de extensão. É certo que as
definições das palavras e seus usos específicos estão envolvidos ou abarcam a extensão
que ela adquire nas articulações dos contextos. Também é certo que “A definição e a
extensão de uma palavra ou outro elemento simbólico constituem fundamentalmente
uma mesma operação. “p. 115, isso significa que não existem significados primários ou
inatos, todo uso das palavras é inovador por ser uma extensão das associações que as
palavras adquirem em contextos e convenções.
O significado das palavras é produto das associações, e é certo que “o significado
não seria sempre completamente relativo não fosse a mediação da convenção – a ilusão
de que algumas associações de um elemento simbólico são primarias e auto-evidentes. “
p. 115. Em resumo, uma denotação absoluta, sem referencia, que possui sentido em si
mesmo é a característica de um uso convencionalizado. Enquanto que a obviação,
conceito central que constitui os modos de invenção, é relacionado com a metáfora, ou
com a diferenciação. Enquanto que a convenção é ligada a práticas regulares e a
significados coletivizados, cujos contextos perfazem a sociabilidade, podemos
compreender que grande parte da cultura é o que Wagner chamada de ‘moralidade’. A
invenção, ao contrário, está envolvida com a ação, cujas associações, contextos e
símbolos são mobilizados por meio de construções complexas ligadas a metaforizações,
que reúne os elementos numa expressão distinta como também estabelece novas
associações a outros elementos.
A convenção é uma certa representação que os símbolos realizam quando
conectados por meio de um padrão único. A invenção é um contraste entre os contextos
simbolizados e os signos neles articulados. Toda simbolização convencional é palco
deste contraste. É no processo de diferenciar-se das coisas e das ações representadas que
a convenção distingue e diferencia contextos. Os modos de simbolização coletivizante e
aqueles diferenciantes se opõem da mesma forma que se opõem e se complementam
invenção e convenção. A invenção impõem distinções radicais especifica os fluxos da
simbolização convencional, e esse ato de diferenciar e de contrastar contextos tem
como efeito confundir ou misturar a distinção entre o símbolo e o simbolizado
convencionais, gerando o efeito de objetificação, articulando associações entre um
contexto e outro distinto. Portanto, a simbolização convencional objetifica quando
confere coletividade a um contexto distinto, e a simbolização diferenciante objetifica o
mundo convencional quando traça distinções e diferenças. As duas objetificações se
complementam: de um lado o individual é coletivizado, de outro lado o coletivo é
diferenciado. Dado que numa ação, a intenção do ator se demora em um ou em outro
modo de objetificação, a complementaridade dos dois modos é mascarada pela ilusão
cultural de que alguma das duas objetificações é da ordem do inato ou do pressuposto.
Uma simbolização convencional e aquela diferenciante estão ligadas ao inato e ao
campo da ação humana. Podemos dizer que há dois modos de convenção em que os
contextos podem se dar: seja num caso em que a convenção seja ligada ao reino do inato
e a invenção esteja ligada ao campo da ação humana, seja num caso em que a
convenção está ligada ao campo da ação humana e a invenção está no campo do inato.
Esta distinção é o que Wagner chama de controle ou mascaramento, ou ainda
contexto de controle em que a atenção de um ator se concentra e media a simbolização
ou quando há uma restrição a percepção consciente do ator. Esses dois modos de
objetificação funcionam conjuntamente na invenção, embora um se manifeste como
intenção consciente e concentrada atenção enquanto o outro se mascara como contexto
implícito em que a ação se desenvolvem. Se o ator age em interesse a algum contexto
especifico há outro contexto digamos subjacente que lhe é causa ou motivo e que ele
está ‘contrainventando’ ao realizar suas ações de maneira interessada e atenta. Logo,
toda invenção opera um contexto convencional e um contexto não convencional em que
um controla o outro. Mas esse controle não é permanente, os contextos convencionais e
não convencionais reciprocamente trocam de controles e permeiam-se mutuamente, o
que nos leva ao problema da relativização.
Toda ato de simbolização é duplo e misturado com o contexto convencional e o
não convencional. O problema é que um ou o outro devem ser mascarados, ou seja, não
participam conscientemente da ação do ator ao mesmo tempo, e é isso que permite
motivá-lo para ação consciente. Mas, “A tendência da motivação é sempre se opor à
relativização das distinções convencionais e contrariá-la. “ p. 145. Isso ocorre porque a
motivação não é algo somente interno ao ator, mas origina-se de múltiplas fontes, ou
seja, ela é função de distinções convencionais, ela é originada pela percepção do ator da
relativização dos contextos em que se realizam as distinções convencionais. AS
distinções e a relativização ocorrem devido ao caráter obviante da convenção que tende
a fundir sujeito e objeto, dentro e fora, e ‘contra-inventa’ uma articulação dos símbolos
entre contextos distintos e diferenciados como também originam-se da ilusão ou do
mascaramento presente em qualquer ação. Logo ação e intenção invalidam-se a si
próprias. Isso porque a motivação envolve essa ilusão fundamental que pode levá-la a
relativização, a distinção e intercambio entre contextos distintos, o que leva a uma
trapaça ou desvio em relação a intenção original, devido geralmente a certas resistências
presentes no caráter empírico de toda experiência. As convenções devem ser recriadas e
reinventadas no curso das distinções convencionais entre contextos, a partir do controle
e do mascaramento. Mas a invenção sabota ou confunde a própria convenção, logo a
motivação oriunda do controle está sempre em vias de resistência as intenções originais
do ator. Ao perceber a relatividade de certos contextos uns com os outros a intenção do
autor encontra uma resistente em relação a motivação que o mascaramento produz, com
a conseqüente reação de resistência. O ator não quer perceber o caráter relativo de suas
convenções e para isso mantém sua intenção resistente as motivações que contrariam
sua convenção. Essa resistência origina novos modos de lidar com situações novas a
partir dos controles convencionais, aspecto crucial da invenção suscitado pela
convenção.
Essa resistência ou controle a novas situações ou contextos sustenta uma distinção
entre inato e artificial pelo qual invenção e convenção se inserem em diferentes
sociedades. Nas sociedades como a ocidental ocorre a tendência da resistência á
articulação dos contextos convencionais por meio do uso de controles diferenciantes.
Um exemplo é a ciência, que por meio de modelos e regras convencionais se diferencia
no contato com eventos e situações diferenciantes que a tornam capaz de alargar as
fronteiras do conhecimento. Nas sociedades tribais a tendência é a resistência a
articulação de contextos não convencionais por meio do uso de controles coletivizantes.
AS pessoas continuamente reinventam sua cultura em ações motivadas por intenções
diferenciantes que sofrerão a resistência e a modificação de controles coletivizantes.
Dado que a ênfase no individuo se coloca a partir de suas ações, o modo como se
dá a dialética inventiva é a partir de um comprometimento do ator com uma convenção
que determina seu eu como inato e o externo como artificial. Dado que criamos um
mundo da ação a partir do eu e um eu a partir do mundo da ação há sempre uma
interpenetração entre as intenções do autor e seus compromissos com relação ao seu eu
e as pressões, motivações externas que reciprocamente se misturam. Os controles
convencionais sãos os meios pelos quais a cultura integra o eu a partir da previsão e da
regulação de suas ações, e é frente a esse controle que o eu nasce como resistência
motivadora. O eu também pode atuar com um papel diferenciante, utilizando sua
imagem, ou ‘o que ele é realmente’ com relação aos outros, e inventa para si um próprio
eu motivado, entretanto, pelas convenções coletivizantes que precipitam sobre ele
geralmente a culpa da ordem moral coletiva. Inventar ou aprender a personalidade parte
do fato de aprender a manter um equilíbrio entre a lida com a culpa de modo a não
confundir o que se é com o que se faz, mantendo uma convenção constitutiva da
personalidade. É preciso um controle diferenciante ao eu, mas ao mesmo tempo, ele não
pode levar a sério suas idiossincrasias, e correr o risco de precipitar-se na culpa por
identificar sua personalidade com suas ações. Não se levar a sério é ao mesmo tempo
levar muito a sério o que se deve fazer. Há um liame curto entre a credibilidade da
personalidade e a motivação de seus impulsos, porque, mesmo que a seriedade seja
importante para o eu, é preciso conectar-se ao mundo convencional da cultura, e isto só
é feito a partir da depreciação de sua própria personalidade.
Enquanto nossa cultura articula seus controles de modo a fazer seus sujeitos
agirem de forma consciente a partir do que é inato e do que é artificial, regulamos e
controlamos, tentando prever um mundo incidental, outras culturas concebem o mundo
como uma ordem convencional humana em que a distinção entre inato e artificial está
dada, elas a criam, ao tentar modificá-la, ajustá-la, diferenciando suas convenções nesse
processo. Outras culturas convencionam o que se deve fazer por meio de controles
diferenciantes em continua modificação, enquanto que o social precipita-os e os
mantêm condicionados. Mas eles não agem como se fossem guiados por padrões, os
controles mediam as convenções por meio de uma improvisação inventiva, por isso eles
não inventam a cultura por meio da regulação e da previsão. O ator, ao agir
conscientemente em sua diferenciação, lida com o mascaramento de uma cultura que
tenta, mas fracassa em convencionalizar sua diferenciação, e é esse movimento a
motivação destes atores.
Ao invés de um mundo convencionalizado em que o que é inato é o eu, neste
mundo das sociedades tribais, a propriedade inata das coisas é elidida pela ação
humana, mas jamais criada por ela. Os controles diferenciantes são usados como
controle da ordem inata das coisas. Os fenômenos mágicos são induções a matéria inata
das coisas e não criações do inato.
O inato é articulado e precipitado da articulação inventiva de controles
diferenciantes, porque ele é o motivado ou uma convencionalidade implícita. As ações
e interpetações convencionais suscitam estados ou relações inatos ao mesmo tempo
que realmente suscitam ações prescritas e convencionalizadas. Um exemplo é a família.
Essas sociedades vêem a família como o contexto implícito em que há ação individual
intencional, enquanto que nós vemos o individuo como o contexto implícito da família
como intenção racional. Dessa maneira homens e mulheres se constituem precipitando
as reações uns dos outros, colocando a prova os comportamentos. É por meio desta
precipitação que homens e mulheres criam a complementaridade social que a vida na
cultura se baseia. Dessa forma o social é um precipitado da diferenciação e sua
motivação, o que caracteriza essa cultura como uma “tradição” diferenciante com a
necessidade de evitar uma coletivização que leve o social a problemas com sua
relativização. A distinção entre o inato e a diferenciação podem levar o coletivo a
precipitar-se em conseqüências nem sempre pretendidas. Mas, podemos resumir que a
questão nestas sociedades é a relação entre um fundo inato pelo qual precipitam o social
e por meio dos quais as diferenciações são incitadas e estimuladas.
No tocante a invenção da sociedade podemos dizer que há duas maneiras de
relação entre a convenção e a dialética da invenção: ou a dialética é usada como
precipitado ou mediador da convenção coletiva ou a convenção coletiva pode ser usada
como unidade mediadora da dialética. As sociedades tribais estão envolvidas numa
dialética da diferenciação que trabalha e precipita um fundo coletivo comum, enquanto
que nossas sociedades integram a similaridade do coletivo num fundo de diferenças.
Culturas que medeiem o convencional por meio da diferenciação possuem como base de
suas ações e pensamentos a contradição e o paradoxo enquanto que as culturas que
medeiam a dialética por meio do convencional tendem a padronizar, regularizar seu
modelo de pensamento e ação. Dessa maneira, as sociedades tribais tendem a viver sua
invenção sob a alternância entre duas relações: por um lado as atividades ordinárias
envolvidas nas diferenciações motivadores do eu, por outro lado, as atividades
coletivizantes da comunidade envolvidas nas convenções dos rituais. Umas e outras
tendem a serem mutuamente opostas e criativas. As oposições diferenciantes da vida
cotidiana como o feminino o masculino, o particular e o geral, ao mesmo tempo
propiciam oposições entre a ordem dos humanos e aquela dos deuses ou entre vivos e
mortes como são produtos desta ultima.
“Os atos e papéis diferenciantes da existência cotidiana criam coletividade e
comunidade; os atos coletivizantes do ritual e do cerimonial criam as identidades,
papéis e outros aspectos diferenciantes da existência ordinária. Uma vez que a
alternância entre esses dois modos é ela própria concebida dialeticamente, cada
conjunto de relações pode ser entendido como "trabalhando contra" o outro. “ P. 281
A resistência a certos atos diferenciantes reforça o controle coletivizante e motiva os
atores a novas diferenciações, enquanto que a diferenciação dos controles coletivizantes
motiva os atores a novas coletivizações. Cada atividade contradiz e nega a outra e a
mantém afastada mantendo a sociedade sob a tendência da dialética. Enquanto que as
atividades cotidianas são controladas pelo coletivo e levam a novas diferenciações, as
atividades rituais são diferenciadas pelos indivíduos de modo a levar a esforços de
coletivização, precipitando o coletivo. É desta maneira que a cultura cria o eu e a
sociedade em alternâncias relacionais opostas, contrabalanceando atividades ordinárias
de diferenciação e atividades rituais de coletivização, mantendo sagrados e profano,
homens e poderes antropomórficos separados, propiciando a invenção da sua própria
sociedade. Eles mediam o convencional por meio da dialética entre os dois modos
opostos. “Ao inventar as relações das atividades rituais e cotidianas umas contra as
outras, eles contrainventam a totalidade, o quadro de referencia conceitual que inclui
ambas. “ p. 284

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