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LICENCIATURA EM DIREITO

2 º ANO ( 1 º Semestre) – PL

DEPARTAMENTO DE DIREITO

TRABALHO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS

DIREITO À VIDA

PRINCÍPIOS DA UNIVERSALIDADE E IGUALDADE

ALUNA: Regina Maria de Almeida Soares Matias

DOCENTE: Prof. Doutor Pedro Trovão do Rosário

Lisboa, Dezembro, 2018

pg. 1
INDÍCE

I- INTRODUÇÃO- pag. 2 a 4

II- VIDA- pag. 5 a 6

III- DIREITOS FUNDAMENTAIS, DIREITOS HUMANOS E PRINCÍPIO


IGUALDADE, UNIVERSALIDADE E DA DIGNIDADE HUMANA-
pág. 7 a 13

IV- O DIREITO À VIDA- pag. 14 a 15

V- O ABORTO- INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ- pag.


16 a 19

VI- EUTANÁSIA- pag. 19 a 26

VII- EUTANÁSIA EM FACE DA CONSTITUIÇÃO PORTUGUESA- pag.


26 a 29

VIII- EM JEITO DE CONCLUSÃO- pag. 29 a 31

IX- Bibliografia- pag. 32

pg. 2
*

I. INTRODUÇÃO

Estamos a viver num mundo em que as violações aos direitos


humanos são quotidianas e as assimetrias sociais e económicas são enormes e
profundas. Não nos podemos calar à defesa dos direitos fundamentais da
pessoa humana. A discussão sobre a protecção de tais direitos é cada vez mais
significativa face à globalização, à malignidade e depravação dos sistemas
económicos, às guerras, às políticas sociais e ao avanço implacável, e muitas
vezes irresponsável, da ciência e da tecnologia.

A vida humana e os vários aspectos a ela “ Vida Humana” atrelados


têm sido alvo de imensos choques, oposições, sobretudo na proporção do
crescente desenvolvimento da sociedade científica e das novas técnicas da
Medicina que evoluem continuamente e que tornam o tema cada vez mais
complicado, exigindo o aperfeiçoamento de conhecimentos bioéticos e
biojurídicos no sentido de encontrar um caminho, uma resposta que agrade e
atenda à sociedade.

Portugal começou o seu luta e consolidação pelos Direitos


Fundamentais com a Revolução de 25 de Abril de 1974 restituindo aos
Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. Na execução destes direitos
e liberdades, o poder constituinte afirma a decisão do povo português de
defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos
cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar a
primazia do Estado de Direito democrático plasmando esta decisão no
preâmbulo da Constituição da República Portuguesa, doravante CRP, de 1976.
E embora o preâmbulo não constitua norma constitucional o facto é na prática
de pouca ou nenhuma importância dado que todos os princípios contidos no
preâmbulo se encontram expressos nas normas constitucionais, e desde logo
nos «Princípios Fundamentais».

“O reconhecimento e a proteção dos direitos do homem estão na base


das Constituições democráticas modernas. A paz, por sua vez, é o pressuposto

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necessário para o reconhecimento e a efetiva proteção dos direitos do homem
em cada Estado e no sistema internacional. Ao mesmo tempo, o processo de
democratização do sistema internacional, que é o caminho obrigatório para a
busca do ideal da paz perpétua, no sentido kantiano da expressão, não pode
avançar sem uma gradativa ampliação do reconhecimento e da proteção dos
direitos do homem, acima de cada Estado.””A Era dos Direitos” Bobbio (1992,
pg. 1)

A democracia é a sociedade dos cidadãos; cidadãos se constituem


pelo exercício de seus direitos e deveres fundamentais, garantidos pela
constituição e protegidos pelo Estado.

Artigo 2.º CRP- Estado de direito democrático- VII. As «bases» do


Estado de direito democrático são o pluralismo político e os direitos
fundamentais. IX. Ao Estado incumbe não apenas «respeitar» os direitos e
liberdades fundamentais mas também «garantir a sua efectivação». Gomes
Canotilho, Constituição república Portuguesa anotada- 3.ª edição

O direito fundamental mais importante é o direito à vida.

É, logicamente, um direito prioritário, pois é condição de todos os


outros direitos das pessoas. Ao conferir-lhe uma protecção absoluta, não
admitindo qualquer excepção, a Constituição criou o direito à vida em direito
fundamental qualificado:

Artigo 24.º CRP- Direito à vida : 1. A vida humana é inviolável; 2. Em


caso algum haverá pena de morte.

O direito à vida significa, primeiro e acima de tudo, direito de não ser


morto, de não ser privado da vida.

Será que ele é devidamente respeitado? E porque é que em muitos


casos essa importância se impõe e sobrepõe a uma vida que já não é vida, a
uma situação humilhante e degradante para a pessoa?

Ao longo deste trabalho, pretende-se refletir sobre algumas questões,


sobre o direito à vida, com dignidade, abordando o aborto, a eutanásia, e uma
morte digna.

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*

II- VIDA

Saber onde começa a vida é uma pergunta antiga. Tão antiga quanto
a arte de perguntar.

Só no dicionário Aurélio temos cerca de 18 tentativas para explicar o


conceito VIDA.

O conceito de vida confunde-se ao reunir definições religiosas,


científicas ou filosóficas sobre a natureza, o inicio e final desta. Científicamente
a vida acaba com a morte mas por exemplo em algumas crenças religiosas a
vida não acaba com a morte e sim, se renova com ela.

Vida é uma noção muito abrangente e admite diversas definições. A


mais comum significa existência. Do latim “vita”, que se refere à vida. É o estado
de ação ininterrupta comum aos seres organizados. É o período que decorre
entre o nascimento e a morte de um organismo. De um modo geral, considera-
se tradicionalmente que uma entidade é um ser vivo se revela as seguintes
ocorrências, pelo menos uma vez durante a sua existência: desenvolvimento, do
nascimento à morte; o crescimento; movimento (dinâmica celular); reprodução;
resposta a estímulos, que é a aptidão para perceber através dos sentidos, ter
consciência avaliando o meio ambiente e dando respostas às mudanças; e
evoluir, ou seja ser capaz de se modificar constante e progressivamente a fim de
melhorar as suas condições ou estado, é a evolução natural da espécie. E
segundo a teoria da evolução de Darwin, os organismos mais bem adaptados ao
meio têm maiores hipóteses de sobrevivência do que os menos adaptados,
deixando um número maior de descendentes. Os organismos mais bem
adaptados são, portanto, selecionados para aquele ambiente.

Muitos filósofos tentam defini-la, a Vida, como um fenómeno que


anima a matéria.

Os gregos não possuíam um termo único para exprimir o que nós


queremos dizer com a palavra vida. Serviam-se de dois termos ainda que
atribuíveis a uma origem comum: zoé, que exprimia o simples facto de viver

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comum a todos os seres vivos (animais, homens ou deuses). Zoé é a vida
natural, regida pelas normas da natureza e dos instintos puramente animais, livre
da cultura, da vontade e da liberdade humana.

E bíos, que indicava a forma ou maneira de viver própria de um


indivíduo ou de um grupo. Bios é uma vida baseada na prática do sujeito e
tradicionalmente gerada, exercida. Segundo Aristóteles, por uma qualidade
própria, que é a linguagem, o ser humano passa de zoé a animal político, o que
lhe possibilita uma vida política. Para Aristóteles, o ser humano não ingressa na
polis apenas “para viver, mas para a vida boa”.

A “vida boa”, como Aristóteles qualificava a vida do cidadão, era,


portanto, não apenas melhor, mais livre de cuidados ou mais nobre que a vida
ordinária, mas possuía qualidade inteiramente diferente. Era “boa” exatamente
porque, tendo dominado as necessidades do mero viver, tendo-se libertado do
labor e do trabalho, e tendo superado o anseio inato de sobrevivência comum a todas as
criaturas vivas, deixava de ser limitada ao processo biológico da vida.” ARENDT, Hannah. A
condição humana, pág. 46.

Portanto, já se percebeu que “vida” é uma palavras em que é difícil


encontrar unanimidade, é controversa, no mínimo dá azo a muito debate e
discussão. Cada uma das formas de entender a vida apresenta as suas
motivações especificas. Mas a ausência de entendimento absoluto não quer
dizer ausência absoluta de entendimento. Ou seja, há algumas coisas a respeito
das quais os cientistas estão de acordo, todas as coisas vivas consistem
de células. Sem células, nada tem vida neste planeta. Assim, o mais simples dos
sistemas vivos é a célula. Para utilizar a definição de forma mais genérica
utilizamos o conceito da biologia e defimos a vida como a capacidade das
estruturas moleculares de estabelecer material necessário para sobreviver em
um ambiente que apresente condições favorávéis à existência.

E a pergunta sobre o que é vida, e quando ela começa, é polémica,


sempre foi, e vai guiar boa parte da sociedade em que vivemos e este trabalho.

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X- III- DIREITOS FUNDAMENTAIS, DIREITOS HUMANOS E
PRINCÍPIO IGUALDADE, UNIVERSALIDADE E DA DIGNIDADE
HUMANA
*

De quem é e para que para quem é o Direito à Vida?

Aqui oferece-se o espaço e a primazia aos Princípios da Universalidade e


da Igualdade. Significa isto que todos têm o direito à vida, e os deveres que lhe estão
inerentes. Estão constituidos na parte I da CRP- Princípios gerais.

Artigo 12.º- Princípio da universalidade

1. Todos os cidadãos gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres


consignados na Constituição.

2. As pessoas coletivas gozam dos direitos e estão sujeitas aos deveres


compatíveis com a sua natureza.

Artigo 13.º - Princípio da igualdade

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer


direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua,
território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução,
situação económica, condição social ou orientação sexual.

O princípio da universalidade diz-nos que não existem pessoas com


mais ou menos direitos, mais ou menos deveres, do que outras. O universo de
que se fala são Todos, respeita ao colectivo, global, universo.

E é aqui que entra o Princípio da Igualdade, ou seja, ninguém, sem


excepção, pode ser prejudicado ou beneficiado conforme o n.º 2 do art. 13.º
CRP. Este princípio estabelece que os iguais devem ser tratados de forma igual e os
desiguais de forma desigual, na medida em que se desigualam, e todos temos uma
característica comum que nos torna iguais – ser português e cidadão de
Portugal.

Poderemos falar, seja a que nível for, no âmbito de que que ciência,
religião, filosofia for de direitos fundamentais e/ou de direitos humanos se não

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falarmos, entendermos a primazia do Princípio da dignidade da pessoa
humana?

Instituto algum pode ferir a dignidade da pessoa humana. A dignidade


da pessoa humana é um princípio, e um princípio é um alicerce do sistema
jurídico.

O Direito, segundo Kelsen é uma ordem normativa da conduta


humana, um sistema de normas que regulam o comportamento humano, logo
poderia inferir-se que este sistema de normas encimada pela Norma
Fundamental, relaciona-se com o “dever-ser”, e este “dever-ser” é produto de
uma vontade. Ora, é por isso que o Direito positiva a Dignidade Humana, CRP
artigo 1.º.

Artigo 1.º- República Portuguesa

Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa


humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade
livre, justa e solidária.

Mas, para além desse positivismo normativo, a dignidade humana


imana de uma qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano, que o
protege contra todo tratamento degradante e discriminação bem como assegura
condições materiais mínimas de sobrevivência. Logo, a pessoa humana é digna
de respeito absoluto pelo simples facto de ser pessoa, ou seja, pelo facto de ser
um elemento da espécie humana.

Assim sendo, a dignidade da pessoa humana não nos é dada ou


facultada pelo ordenamento jurídico dado que ela, na realidade e em rigor é
pertença do Ser-Humano - tal como de um orgão do corpo humano se tratasse -
que não lhe é dado ou retirado pelo Direito. É seu por inerência da sua condição,
da sua existência enquanto Pessoa.

O que temos é um Princípio de reconhecimento, de respeito pela sua


presença e essência, respeito, proteção e até mesmo promoção e
desenvolvimento da dignidade. E este Princípio norteia e alicerça um Estado de
Direito e os Direitos Fundamentais e Direitos Humanos como princípio
estruturante de qualquer sociedade democrática, livre e igualitária.

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No entanto, nem sempre foi assim, e podemos dizer que foi com o
Cristianismo que a Dignidade da Pessoa Humana nasce, ou seja, o Cristianismo
é o fundamento.

Vejamos, sobre a origem da Dignidade:

Antes da Grécia Antiga, cerca de 1750 a.c., na Mesopotâmia, existiu


o Código de Hamurabi, o primeiro conceito de lei conhecido. O Código do rei
sumério Hamurabi (1792-1750 ou 1730-1685 a.C.), é um dos mais antigos
conjuntos de leis escritas já encontrados, e um dos exemplos mais bem
preservados deste tipo de documento da antiga Mesopotâmia. Segundo os
cálculos, estima-se que tenha sido elaborado pelo rei Hamurabi por volta de 1700
a.C.. Fundador do primeiro Império Babilônico já estabelecia alguns direitos,
como direito à Dignidade, à honra, à família, entre outros.

No seu epílogo, Hamurabi afirma que elaborou o conjunto de leis


"para que o forte não prejudique o mais fraco, a fim de proteger as viúvas e os
órfãos" e "para resolver todas as disputas e sanar quaisquer ofensas". "A solução

das disputas", pelo historiador Luiz Marques para a revista História Viva, nº 50.

O Código de Manu surgiu posteriormente ao Código de Hamurábi, e


as suas regras foram apresentadas em forma de versos, singulariedade esta que
lhe proporcionou destaque. Segundo os indianos, o Código de Manu teria sido
redigido em meados do ano 1500 a.C. por Valmiki, considerado um santo
eremita, e promulgado entre os anos de 1300 a.C. a 800 a.C..

A previsão de reparação do dano decorrente do incumprimento da


obrigação de prestar serviços, existente no Código de Manu, divergiu da do
Código de Hamurábi, porque, neste havia a preocupação em dar ao lesado a
reparação equivalente ao dano que este sofreu, ou seja, se o agente causava
ofensas pessoais à vítima, a reparação se dava de forma idêntica, com ofensas
semelhantes. Era o “olho por olho, dente por dente”. Enquanto que no Código de
Manu reparação seria de forma pecuniária.

Essa diferença conferiu ao Código de Manu uma maior relevância


uma vez que excluiu o sentido de vingança que existia entre os membros das
famílias, decorrente da infindável violência física permitida pelas regras do

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Código de Hamurábi. Ora esta diferença já demonstrava a existência de direitos
à personalidade (RAO, 1991, p.52-53).

Na Grécia nasceu a amizade pelo saber, pela a sabedoria. A origem


etimológica da palavra pessoa encontra-se no termo grego prosôpon, que se
referia à máscara que os atores utilizavam em suas representações teatrais.
Independentemente de Platão e Aristóteles usarem os conceitos de substância,
natureza e essência ao homem, o pensamento grego desconhecia a realidade
de ser pessoa. Foram desenvolvendo o estudo da história natural do homem a
partir de uma perspectiva cosmológica, segundo a qual o ser humano era
compreendido como a realidade natural mais elevada. Não obstante, o homem,
ser um animal racional, portador de pensamento e possuidor de uma alma
intelectual, não só vegetativa ou sensitiva como nos restantes seres da natureza,
nem os gregos e nem os romanos conseguiram perceber nele a realidade única,
original, particular e concreta do ser pessoa.

Os Romanos inventores do direito civil. O direito constituiu umas das


notáveis realizações da civilização romana. Ainda, assim, tal como os Gregos
com uma sociedade com profundas assimetrias, desigualdades, onde quem
mandava era o Pater familias, que fazia o que quisesse, i.e. matar, torturar, e
claro acima deste o Imperador, o mais forte, poderoso e possuidor de um
exército.

É a concepção cosmológica grega que proporciona uma primeira


aproximação à questão da dignidade do homem, que, segundo Aristóteles, é
mais evidente naqueles que desenvolvem de forma destacada a actividade
intelectual própria da alma humana, como é o caso dos filósofos.

Para Platão e Aristóteles a dignidade do homem seria proporcional a


sua capacidade de pensar e conduzir a própria existência desde a razão.

No entanto nem Gregos nem Romanos, formularam diretamente a


noção de dignidade da pessoa humana.

Foi com cristianismo, que o conceito de pessoa teve um sentido


teológico, por se aplicar inicialmente às pessoas divinas, depois empregado para
definir o ser humano, até então concebido simplesmente como homem. Para o

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pensador franciscano Boaventura de Bagnoregio (1217-1274), contemporâneo
e amigo de Tomás de Aquino, era necessário ir além da definição a pessoa é
“uma substância individual de natureza racional”.

Ao revelar ao homem que é feito à “imagem e semelhança de Deus”,


a doutrina cristã confere, expressamente, liberdade e historicidade. O ser
humano é concebido como a união de um corpo material à alma espiritual, a
teologia observa o homem na sua ligação com o Ser Supremo. O homem não é
parte solta da substância divina ou uma alma violentamente presa ao corpo —
como ensinava Platão — mas uma criatura de Deus. “Então Deus disse:
“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.” Gênesis 1:26-28

Pensadores cristãos como São Tomás de Aquino e Santo Agostinho,


mostraram-se de extrema relevância para a idealização do princípio da
dignidade da pessoa humana.

Segundo Santo Agostinho o homem, enquanto sujeito passivo e ativo


de direitos e deveres, é capaz de escolher livremente como agir. É o ser humano,
enquanto ente dotado de razão, que dará rumo à sua própria existência e optará
por seguir a Lei Divina, ou a Lei Humana.

"Se o homem carecesse de livre-arbítrio da vontade, como poderia


existir esse bem, que consiste em manifestar a justiça, condenando os pecados
e premiando as boas ações? Visto que a conduta desse homem não seria
pecado nem boa ação, caso não fosse voluntária. Igualmente o castigo, como a
recompensa, seria injusto, se o homem não fosse dotado de vontade livre. Ora,
era preciso que a justiça estivesse presente no castigo e na recompensa, porque
aí está um dos bens cuja a fonte é Deus. Conclusão, era necessário que Deus
desse ao homem vontade livre". SANTO, Agostinho, O livre arbítrio, p. II, 1, 3.

São Tomás de Aquino argumenta “dignidade é algo absoluto e


pertence à essência” (da alma), e que “o corpo humano tem a máxima dignidade,
uma vez que a forma que o aperfeiçoa, a alma racional, é a mais digna”. Summa

Theologiae.

Diz, ainda, “justiça é uma vontade perene de dar a cada um o que é


seu, segundo uma razão geométrica”. “Ora, chama-se nosso o que nos é devido por uma igualdade proporcional.

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Por onde, o ato próprio da justiça não consiste senão em dar a cada um o que lhe pertence”; Summa Theologiae, Secunda Secundae Partis, q. LVIII,

art. XI)”

Esta consciência, este conhecimento de justiça igualitária


apresentada por Santo Tomás de Aquino revelou-se de particular relevância
para a concepção do princípio da dignidade da pessoa humana.

Foi esta retórica cristã por meio de ensinamentos da fé, tais como
alma, espírito e livre-arbítrio que gerou uma disciplina, um pensamento que se
preocupa com o homem enquanto fim em si mesmo, sujeito de direitos e
merecedor de respeito e dignidade. Deste modo, foi esta concepção que
posteriormente serviria para uma construção mais pormenorizada de dignidade
da pessoa humana, tema que seria abordado pelo filósofo Immanuel Kant
durante a segunda metade do século XIX.

A doutrina actual, ao tratar do princípio da dignidade da pessoa


humana, atribui a Kant a sua concepção original.

No entanto Kant, ao mesmo tempo em que, da perspectiva da filosofia


moral, procurou suportar como fundamental o conceito de dignidade da pessoa
humana, em consequênciada sua liberdade racional, bem como da sua
existência enquanto fim e jamais como meio “ homem não se pode atribuir valor
(preço), devendo ser considerado como um fim em si mesmo e em função da
sua autonomia enquanto ser racional”, tratou o ser humano como coisa do ponto
de vista jurídico, ao falar da condição daqueles que se submetiam ao marido, ao
pai e ao patrão, “(...) o servidor somente está submetido ao seu poder por um
contrato, e um contrato no qual uma das partes renunciara a sua liberdade inteira
em proveito alheio, cessando, por conseguinte, de ser uma pessoa (...)”.

Ora ao tratar o homem juridicamente como coisa colocou-se em


contradição com a sua perspectiva filosófica. Existe consequentemente uma
incompatibilidade entre a exposição teórica da dignidade da pessoa humana em
Kant e a sua aplicação no campo do direito.

Se é certo e indiscutível o entendimento de Kant que a autonomia


racional do ser humano serve como um dos fundamentos teóricos do princípio
da dignidade humana, também é certo e inadmissível, na prática, que o ser

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humano trate a um seu semelhante como coisa, logo a dignidade humana não
se pode limitar nem concretizar, nos dias de hoje a esta conclusão kantiana.

De acordo JORGE MIRANDA, compreender nos dias atuais o que é


o princípio da dignidade da pessoa humana é ter como premissa que o ser
humano, como fim de tudo, é um ente real cujas necessidades mínimas
concretas não podem estar sujeitas aos modelos abstratos tradicionais:

“ Em primeiro lugar, a dignidade da pessoa é da pessoa concreta, na


sua vida real e quotidiana; não é de um ser ideal e abstracto. É o homem ou a
mulher, tal como existe, que a ordem jurídica considera irredutível e insubstituível
10 e cujos direitos fundamentais a Constituição enuncia e protege 11. Em todo o
homem e em toda a mulher estão presentes todas as faculdades da
humanidade.” 10- Cf., por todos, RABINDRANATH CAPELO DE SOUSA, O direito geral de personalidade, Coimbra, 1995 , pp. 244-245
. Ou MI A COUTO (Cada Homem é uma Raça): «Inquirido sobre a sua raça, respondeu: — A minha raça sou eu, João Passarinho. - Convidado a

explicar-se, acrescentou: — Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor político».

11 Da mesma maneira que não é o mesmo falar em direitos do homem e direitos humanos, não é exactamente o mesmo falar

em dignidade da pessoa humana e em dignidade humana. Aquela expressão dirige-se ao homem concreto e individual; esta à humanidade,

entendida ou como qualidade comum a todos os homens ou como conjunto que os engloba e ultrapassa. Declarando a comunidade política

portuguesa «baseada na dignidade da pessoa humana», a Constituição afasta e repudia qualquer tipo de interpretação transpersonalista ou

simplesmente autoritária que pudesse permitir o sacrifício dos direitos ou até da personalidade individual em nome de pretensos interesses colectivos.

Todavia, no art. 26.° fala-se tanto em «dignidade pessoal» (n.° 3) como em «dignidade humana» (n.° 2).

ISTO É:

O Direito a não ser morto mas também a ter uma vida digna.

pg. 13
IV- O DIREITO À VIDA

O direito à vida é garantido pela CRP no:

Artigo 24.º CRP- Direito à vida:

1. A vida humana é inviolável;

2. Em caso algum haverá pena de morte.

“O direito à vida surge consagrado no n.º 1 não apenas na sua


dimensão subjectiva, como o primeiro dos direitos fundamentais- mais que um
direito, liberdade e garantia, ele constitui o prossuposto fundante de todos os
demais direitos fundamentais.” -Jorge Miranda, em Constituição Portuguesa anotada, tomo I”,

É indiscutível que a vida, entre todos os direitos, é o mais essencial,


visto que, como salienta Moraes (2000, pg. 61), “o direito à vida constitui-se em
pré-requisito à existência e ao exercício de todos os demais direitos”.

Sua inviolabilidade é garantida, não só constitucionalmente, como


pelos tratados internacionais.

Declaração Universal do Direito do Homem - 10 de Dezembro de


1948, A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Declaração Universal
dos Direitos Humanos como bastião contra a opressão e a discriminação e, pela
primeira vez, enunciou os direitos e as liberdades das pessoas.

Artigo 3.º- Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à


segurança pessoal.

O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, aprovado


pela XXI sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas, PARTE III

Artigo 6.º - O direito à vida é inerente à pessoa humana. Este direito


está protegido por lei. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da vida.

A tutela jurídica mediante ameaça ou lesão é prevista desde o


momento da concepção até o da morte.

pg. 14
É de tal ordem supremo o valor do direito à vida e a natureza absoluta
da protecção constitucional, que “O artigo 24.º desempenha, entre os direitos
fundamentais, um papel abolutamente ímpar. Membro restrito dos direitos
insusceptíveis de suspensão -Jorge Miranda, em Constituição Portuguesa anotada, tomo I”, em caso
de estado de sítio ou de estado de emergência, cfr. Art. art. 19.º, n.º 6 CRP e na
proibição de extradição de estrangeiros em risco de serem condenados a pena
de morte, art.º 33.º, n.º 3 CRP.

A superioridade que a vida recebe da Constituição da República exige


a proteção desse direito no âmbito do Direito Penal. Nesse campo, como não
poderia deixar de ser, a vida humana aparece como o bem jurídico de mais
elevado valor.

O direito à vida significa, primeiro e acima de tudo, direito de não ser


morto, de não ser privado da vida. Manifestações deste direito são,
especialmente, a proibição da pena de morte art.º 24, n.º 2 CRP e a punição do
homicídio, , arts. 131.º e segs. Do Cód. Penal.

O direito à vida impõe-se contra todos, perante o Estado e perante os


outros indivíduos.

No que respeita ao Estado ele implica:

(a) não poder dispor da vida dos cidadãos, a qualquer título que seja;

(b) obrigação de proteger a vida dos cidadãos contra os ataques ou


ameaças de terceiros,

(c) dever de abster-se de acções ou da utilização de meios que criem


perigo desnecessário ou desproporcionado para a vida dos cidadãos, i.e.,
utilização de armas de fogo contra manifestações.

No que respeita aos outros indivíduos, o direito à vida, além de


proibir qualquer atentado contra a vida de outrem, pode em certas circunstâncias
legitimar um dever de socorro ou de auxílio a quem se encontrar em perigo de
vida, cfr. art. 219.º Cód. Penal.

pg. 15
V- O ABORTO- INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ

A Constituição não garante apenas o direito à vida, enquanto direito


fundamental das pessoas. Protege igualmente a própria vida humana,
independentemente dos seus titulares, como valor ou bem objectivo - é nesse
sentido que aponta a redacção do n.º1, num entendimento do que deve ser a
contratualização social ou a definição de direitos fundamentais como o direito a
ter direitos na acepção de Hanna Harendt. E, as questões relacionadas com o
direito à vida deve ser entendido não só como a protecção da vida mas estendido
a momentos anteriores ao que a ciência define – hoje – como vida. Refiro-me
aos momentos posteriores à concepção e ao crescimento do feto humano bem
como a atribuição de espectativas jurídicas aos mesmos e às delimitações
jurídicas da interrupção voluntária da gravidez, vulgo aborto.

A CONCEPTUALIZAÇÃO JURÍDICA

Ao contrário do que se possa vir de pensar, Portugal nunca legalizou


a prática do aborto, muito menos criou qualquer legislação que o venha legitimar.

Depois de muita discussão, mais ou menos apaixonada, e na


sequência de dois referendos populares, entendeu-se dar voz ao Direito Penal
para regular a matéria.

E, foi no Capítulo Segundo do Código Penal, o qual regula os Crimes


contra a vida intra-uterina que o legislador resolveu dar voz aos anseios
manifestados maioritariamente nos mencionados referendos.

Estamos em crer que esta não é a melhor técnica legislativa pois, o


Direito penal, ultima ratio do sistema jurídico que só e apenas intervem quando
os demais não protegem os bens jurídicos que este visa tutelar. Mas, o salto
qualitativo foi dado pelo Direito Penal não no sentido de legitimar as práticas
abortivas mas, tão só e antes sim no de despenalizar algumas delas, isto pese
embora a subsistência das Leis 6/84 de 11.5; 90/97 de 30.7 e 16/2007 de 17.4
que introduzem as alterações várias ao Código Penal, primeiro no sentido da
não punibilidade dos abortos terapêuticos, fetopáticos ou resultado de conduta
criminal, alargando depois os prazos antes previstos.

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Sendo norma tipo a do artigo 140º do Código Penal, definida na
punição criminal à prática do aborto, seja sem ou com o consentimento da
mulher, reflecte a condenação do agente que, por si e com os conhecimentos
técnicos inerentes exerça sobre a mulher tal prática. O numero 3 do mesmo
aresto vem punir a própria mulher que der consentimento ao aborto praticado
por terceiro ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar. As molduras
penais no primeiro caso – de quem, sem o consentimento da mulher, a faça
abortar, é de 2 a 8 anos de prisão. No segundo caso, a da mesma prática mas
com o consentimento da mulher já será de prisão até 3 anos e, no terceiro e
ultimo caso, a condenação da própria mulher está prevista numa moldura que
varia até 3 anos de prisão. Podemos dizer sem exagero que os dois últimos
casos configuram uma repartição de culpa entre os agentes da prática do ilícito
penal.

O artigo 141º do Código Penal configura um agravamento da tipologia


prevista no artigo 140º em situações em que, pela acção abortiva, resulte a morte
ou a ofensa à integridade física da mulher grávida, sendo então aumentados nos
seus limites em 1/3.

Onde surge a grande alteração, resultado do segundo referendo, é no


artigo 142º do Código Penal, ao introduzir-se a alínea e) do seu número 1, o qual
vem despenalizar o aborto realizado por opção da mulher nas primeiras 10
semanas de gravidez. A verificação do tempo de gestação, os requisitos prévios
para a realização do aborto são condições de legitimação da prática
despenalizada.

Enquanto as indicações terapêuticas e fetopáticas resultam da


possibilidade real de perigo de morte ou grave e duradoura lesão para o corpo
da mulher, no primeiro caso, resultam da verificação, indubitável, da má
formação congénita do feto, por outro lado, a indicação criminal resulta da
convicção segura de que a gravidez resultou de crime contra a liberdade e
autodeterminação sexual (vg, violação, abuso sexual).

A inovação surge na concessão da disponibilidade da mulher grávida


para, sem qualquer causa justificativa como as antes descritas,s efazer abortar
desde que o faça até ás 10 semanas de gravidez.

pg. 17
E aqui, se por um lado se compreende muito bem a norma que foi
pensada no intuito de conferir condições de segurança na realização do aborto,
combatendo a prática das “parteiras” ilegais que, em condições de insegurança
para a saúde da mulher iam grassando. Claro que, a estatística tem vindo a
demonstrar que esta norma aliada a uma maior consciência do denominado
planeamento familiar veio reduzir o numero de abortos realizados em Portugal ,
pelo menos dos que nos são dados a conhecer, por outro lado, e esta é a razão
de ser do tratamento do tema nesta sede, o conhecimento relativo sobre o início
da vida e sobre a sua real amplitude, coloca em questão a legitimação de
violações possíveis ao Direito à Vida, tal como ela se nos apresenta em resultado
da evolução social, moral, cultural e religiosa.

Devemos realçar nesta senda que o prazo de 10 semanas funda-se


na conclusão da formação dos órgãos vitais por essa altura. Este prazo foi aceite
pelo Tribunal Constitucional como constitucionalmente tolerável para o efeito de
harmonizar a protecção da vida intra-uterina e o “direito a uma maternidade
consciente, principalmente conjugado com o direito ao livre desenvolvimento da
personalidade”. (ac do TC nº 288/98 e ac do TC nº 617/2006).

As duas grandes questões ou problemáticas surgem entre o


reconhecimento da liberdade individual e autonomia da vontade e o direito à vida,
consagrado como está na nossa Lei fundamental.

Mas, se por um lado o equilíbrio entre estes reconhecidos Direitos faz


prevalecer a liberdade e autodeterminação da mulher grávida, com a baliza
temporal apenas das 10 semanas, a prática e a realidade do nosso País têm
demonstrado graves violações aos princípios constitucionais quer da igualdade
quer da universalidade tal como configurados. Dizemos isto porque, se é
reconhecido o direito da mulher grávida a, dentro das 10 semanas de gravidez,
interromper a sua gravidez, não deixa também de ser verdade que as assimetrias
do nosso país, não permitem a todas as mulheres aceder em pé de igualdade a
consultas de planeamento familiar que evitariam ou pelo menos minimizariam a
gravidez indesejada quer porque e por outro lado, não permitem a todas as
mulheres o mesmo acesso aos profissionais de saúde que lhes permitam,
porque é seu desejo, interromper a gravidez dentro do limite ecográfico das 10
semanas. Ora, sabemos todos que nas grandes urbes é fácil quer o planeamento

pg. 18
familiar quer o acesso aos médicos que, dentro dos limites legais, realizam o
aborto. Ao invés, na província, com a crescente desafectação de unidades
médicas de proximidade, o acesso a um planeamento útil e atempado não se
torna possível ou viável, assim se levando avante muitas gravidezes claramente
indesejadas e, por outro lado, as mesmas circunstâncias espaciais impedem as
mulheres de aceder aos profissionais de saúde atempadamente para a
realização do aborto dentro das 10 semanas.

Se a Lei – e referimo-nos quer à norma constitucional que garante o


direito a uma saúde condigna para todos e a todos, as Leis de base da saúde e
as grandes opções políticas – não se aplica a todos e de igual forma, claro,
coloca-se em questão o princípio da universalidade, tão caro ao legislador
constituinte.

VI- EUTANÁSIA

As questões de quem define e decide sobre a vida e a morte, e de


que maneira, levam todos forçosamente à angústia de ter de tomar uma decisão
e se tornam grandes questões que a todos atingem. Esta nova simbiose da
filosofia e da vida cotidiana aparece notavelmente nas questões sobre as quais
as pessoas são forçadas a decidir, envolvendo a medicina avançada e a
engenharia genética. Esses desenvolvimentos são equivalentes a uma
democratização de Deus. Ulrich Beck

Matéria que pré-ocupa a humanidade desde desde sempre: A Morte.

E o que fazer, qual a atitude a tomar quando encontramos a doença


no caminho? É sabido do grande do conflito do ser humano diante da sua
finitude. Elabora e constroi os mais variados apetrechos para iludir a morte e
prolongar a vida. Vivemos uma obstinada luta contra a morte, e entra-se mesmo
em contradição quando a medicina nega, rebate o fim, não aceitando a morte do
doente, usando todos os meios para quebrar o ciclo natural da vida e morte,
mesmo quando a morte parece ser o caminho mais digno para a pessoa que não

pg. 19
pode ser curada. "Medicina é uma ciência de incerteza e uma arte de
probabilidade". O Médico William Osler (1849-1919).

Esquecemo-nos de que todos somos terminais ...

Entre as questões do término da vida a eutanásia evidencia um


posicionamento de relevo, principalmente, ou sobretudo, devido à
descriminalização da mesma em dois países europeus, Holanda e Bélgica, em
2002, ainda que com soluções legais diferentes, embora esta seja permitida em
mais países do mundo.

A Eutanásia tem sido relacionada a um conjunto de factos muito


diversos, alguns destes factos nada têm a ver com o significado primitivo da
palavra, em outras palavras, com a noção de “ boa morte”.

Vocábulo grego, composto de "eu" (bom, verdadeiro) e "thanatos"


(morte); literalmente, seria a "boa morte", uma morte sem sofrimento. Não tinha
a carga negativa que possui actualmente. Aliás, conta-se que o imperador
Augusto, sempre que lhe informavam que um conhecido havia morrido
serenamente, exclamava: "Que os deuses concedam, a mim e aos meus, uma
eutanásia assim!".

No presente, a eutanásia diz respeito a ajudar alguém em estado


terminal a pôr fim à vida, para aliviá-la de dor e sofrimento insuportáveis. “Ajuda”
esta que proporciona numerosos debates, mais ou menos acalorados, no âmbito
ético, religioso, médico e jurídico.

Existe quem defenda a eutanásia como uma ato de compaixão ou


piedade, outros há que a consideram uma forma de homicídio, o que os faz
recear pela legalização da mesma conquanto pode levar-nos por um caminho de
decisões politicas parecidas até como o que aconteceu com a Alemanha nazista,
numa eliminação sistemática de todos aqueles que as autoridades julgarem
inconvenientes, “estorvos” para a sociedade.

Pegando por aqui, e voltando ao significado que muitas vezes lhe dão,
e que nada têm a ver com a mesma, poderemos enconbrtar vários tipos de
eutanásia:

pg. 20
- Eutanásia Eugénica- consiste em eliminar vidas humanas, estando
estas em situações próximas ou não da morte, independentemente da vontade
do próprio, vidas estas que se consideram desprezáveis, por serem pessoas com
malformações de nascença, incapacidades físicas e psíquicas, a atrasos
mentais, como por exemplo o supra referido, da Alemanha nazi que criou um
programa de eliminação de recém-nascidos e crianças pequenas, que depressa
se estendeu a adultos e velhos, a que acresceram os critérios de não possuir a
cidadania alemã, criando centros de extermínio.

- Eutanásia económica ou social- onde o critério para eliminar


certas vidas humanas se alicerça numa perspectica utilitarista do homem,
suprimindo-se aqueles que significam uma forte responsabilidade para a
sociedade, e que não apresentam retorno, como sem-abrigos, velhos ou
doentes.

- Eutanásia criminal- aqui o fundamento para a supressão da vida


humana está no facto de aqueles, a quem esta visa, serem considerados
criminosos violentos, aqui poderemos falar até sobre outro prisma: a pena de
morte.

Mas estas ligações e concepções de eutanásia nascem do facto de


se tentar suavizar, ou mesmo suscitar a pena da população, por parte do poder
político a fim de legitimar as suas opções politicas, uma vez que a opinião pública
de liga a sentimentos nobres como piedade e misericórdia perante a dor do seu
semelhante.

Contudo, para usar de exactidão quanto ao assunto em causa, devem


ser eliminados do debate, os modelos de eutanásia que são subsidiários de
criações que a interpretam na lei como um bem que se deve realizar em prol da
sociedade, do todo, tendo como fim a salvaguarda dos interesses pessoais.

Também se deve considerar fora do debate da eutanásia, ou para


efeitos de definição desta, o “desligar a máquina” quando na situação em causa
a morte já tenha sido diagnosticada e declarada segundo o procedimento
correcto, e que estão plasmados na Lei 141/99, de 28 de Agosto, que estabelece
os princípios em que se baseia a verificação da morte, que diz nos seus artigos
2.º e 3.º:

pg. 21
Artigo 2.º- Definição- A morte corresponde à cessação irreversível das
funções do tronco cerebral e Artigo 3.º- Verificação- 1 - A verificação da morte é
da competência dos médicos, nos termos da lei.

Deve, ainda, afastado da discussão o suícidio que de modo autonomo


é executado, por doente em sofrimento. O princípio da indisponibilidade da vida
plasmada no art. 24.º da CRP é no suícidio marcado pela subjectividade
intrínseco ao sujeito. O Direito Penal rege-se por um princípio de intervenção
mínima, como expressão de uma ideia de necessidade da tutela, pelo que o
controlo sobre o suicídio transportar-nos-ia a uma averiguação quase sem
fundamento ou defesa possível por parte do Estado e, muitas vezes, inútil: quem
puniríamos pelos actos suicidas?

Atualmente a eutanásia pode ser classificada de várias formas, de


acordo com o critério considerado.

Quanto ao tipo de ação:

Eutanásia ativa: matar, administrando por exemplo uma dose fatal


de medicamentos, ou seja, um é um acto deliberado de provocar a morte, ainda
que sem sofrimento do paciente, por fins misericordiosos.

A eutanásia activa pode ser directa ou indirecta.

A Directa aquela que usa meios eficazes com a intenção de produzir


a morte imediata de um doente terminal e em grande sofrimento.

A Indirecta- Ortonásia ou Eutanásia Lenitiva- traduz-se na utilização


de medicamentos ou de tratamentos com o fim de aliviar a dor do paciente,
apesar de se saber que desse modo se encurta a sua vida, no entendimento,
claro, de que não há outros fármacos capazes de combater a dor, e
simultaneamente consigam ser neutros quanto ao tempo expectável de vida do
doente.

Eutanásia passiva ou omissiva: deixar morrer, por omissão de


tratamento terapêutico, ou seja, a morte do paciente ocorre, dentro de uma
situação de terminalidade, ou porque não se inicia uma ação médica ou pela
interrupção de uma medida extraordinária, com o objetivo de minorar o
sofrimento.

pg. 22
Existe um pendor para considerar a Eutanásia activa mais grave que
a passiva, isto porque do ponto perspectiva dos preceitos jurídicos já não é só a
questão da acção humana, mas a posição que o autor ocupa em relação ao bem
jurídico (a vida humana), por ser um agente qualificado.

Todavia a questão da eutanásia passiva não é evidente seus limites,


já que estes não são rigidos, tanto no de graduação mais elevada, a eutanásia
activa, como abaixo em relação a situações de morte que não é por eutanásia.

Ou seja, a eutanásia passiva é uma expressão muitas vezes


indevidamente utilizada para explicar, o que é uma boa prática médica, a
interrupção daquilo que serão tratamentos desmedidos, exagerados, ou
indesejáveis e muito custosos, e agravam o sofrimento, o que se designa por
futilidade terapeutica. Há um pensamento universal que se há terapeutica de que
se pode dispor, é porque é útil e sempre que possível deve ser usada. No
entanto, isso nem sempre é verdadeiro. Tratamentos que produzam a cura, com
restabelecimento do estado de saúde são potencialmente úteis, no entanto,
quando a cura não é possível em pacientes irreversíveis a intervenção deve ser
ao nível paliativo, confortadora, balsâmica, ao nível da dignidade humana.

Segundo uma frase do Papa João Paulo II: “É lícito, em sã


consciência, abdicar de métodos extraordinários que prolongariam a vida de
forma desproporcional, sem qualidade de vida. Tudo pode ser disponível, mas
nem tudo convém”.

Neste caso não se deve falar em eutanásia de tipo algum, pois


alimenta a confusão, e não favorece o esclarecimento dos limites entre a
eutanásia e o correcto exercício da medicina.

Eutanásia de duplo efeito: quando a morte é acelerada como uma


consequencia indireta das ações médicas que são executadas visando o alívio
do sofrimento de um paciente terminal. É a antecipação da morte de um doente
em estado terminal, como resultado indirecto das acções médicas realizadas
com o objectivo de aliviar o seu sofrimento, como por exemplo administratar
morfina para amenizar as dores oncológicas, tal “medicamento” acaba por
encurtar a vida do paciente.

pg. 23
Quanto ao consentimento do paciente:

Eutanásia voluntária: quando a morte é provocada atendendo a uma


vontade do paciente. Se, enquanto o paciente ainda apto, capacitado, tiver
declarado a vontade reflectida de morrer, então a pessoa que, nas circunstâncias
apropriadas, tira a vida de outra actua com base no seu pedido e realiza um acto
de eutanásia voluntária.

Eutanásia involuntária: quando a morte é provocada contra a


vontade do paciente. Se for imposta por terceiros a doentes capazes de ter
consentido ou recusado a sua própria morte, mas não o fez. Isto é, ou não lhe
perguntaram, ou perguntaram não tendo este dado o seu consetimento,
querendo continuar a viver, e deste modo foi desrespeitada a sua vontade.

Eutanásia não-voluntária: quando a morte é provocada sem que o


paciente tivesse manifestado sua posição em relação a ela, nem no passado,
nem tenha condições mentais de o fazer de forma clara e autêntica no presente,
porque é, por exemplo, um recém-nascido faltamente doente ou incapacitado,
ou porque a doença ou um acidente tornaram incapaz uma pessoa anteriormente
habilitada, sem que tenha previamente escolhido se sob certas circunstâncias
quereria ou não praticar a eutanásia.

Ante uma questão tão intricada, complexa, profunda e difícil, o Direito


Penal Português tentou tornar a questão menos complicada. Deste modo, e
muito por conta da questão andar em torno do “acto de matar”, os
comportamentos a que se faz referência são a partir da eutanásia ativa direta e
que no nosso ordenamento jurídico têm sido absorvidas por três possíveis
soluções, todas elas de incriminação: homicídio privilegiado, homicídio a pedido
e auxílio ou incitamento ao suicídio, sendo que o comportamento com maior
relevo é o homícidio, já que o incitamento ou auxilio ao suicídio podem ocorrer
de comportamentos muito abrangentes.

I. Homicídio privilegiado
“Artigo 133.º Homicídio privilegiado. Quem matar outra pessoa
dominado por compreensível emoção violenta, compaixão, desespero ou motivo
de relevante valor social ou moral, que diminuam sensivelmente a sua culpa, é
punido com pena de prisão de 1 a 5 anos.”

pg. 24
Nas palavras de Eduardo Correia, autor do Anteprojeto do Código
Penal, este artigo visa incluir a eutanásia ativa, seguindo-se, assim, «uma
solução intermédia: nem se pune como homicídio nem se deixa de punir. Aliás
este crime privilegiado tem também por função impedir que os tribunais deixem
de punir a eutanásia ativa por meio do recurso ao princípio da não exigibilidade.
Pretende-se a sua punição mas só dentro dos limites do artigo». Comissão Revisora do
Código Penal, Atas das Sessões da Comissão Revisora do Código penal: parte especial, Separata do “Boletim do

Ministério da Justiça”, Ministério da Justiça, Lisboa, 1979, p.30.

II. Homicídio a pedido da vítima

“Artigo 134.º Homicídio a pedido da vítima. 1 – Quem matar outra


pessoa determinado por pedido sério, instante e expresso que ela lhe tenha feito
é punido com pena de prisão até 3 anos. 2 – A tentativa é punível.”

O homicídio a pedido configura uma forma de privilegiamento do


crime de homicídio; privilegiamento este que incide tanto sobre a ilicitude como
sobre a culpa do agente.DIAS, Jorge de Figueiredo, BRANDÃO, Nuno, in DIAS, Jorge de Figueiredo (et alii),
idem, pp.90-91.

III. Incitamento ou ajuda ao suicídio

“Artigo 135.º Incitamento ou ajuda ao suicídio. 1 – Quem incitar outra


pessoa a suicidar-se, ou lhe prestar ajuda para esse fim, é punido com pena de
prisão até 3 anos, se o suicídio vier efetivamente a ser tentado ou a consumar-
se. 2 – Se a pessoa incitada ou a quem se presta ajuda for menor de 16 anos ou
tiver, por qualquer motivo, a sua capacidade de valoração ou de determinação
sensivelmente diminuída, o agente é punido com pena de prisão de 1 a 5 anos.”

Nesta situação o que muitos autores confrontam no caso desta


incriminação pelo Código Penal prende-se com a culpa, uma vez que, não sendo
o suicídio punido, porquê punir-se o incitamento ou auxílio a um ato que,
indendentemente dos outros ou do resto não é punido?

Na realidade, de acordo com o artigo 24.º da Constituição, resulta um


princípio da indisponibilidade da vida humana. Contudo essa indisponibilidade é
qualificada segundo a conduta de um terceiro, quer isto dizer que não é lícita a

pg. 25
intervenção de um terceiro na esfera de outrem. Deste modo a existência e
actuação de um terceiro é fundamental para a incriminação, uma vez que
estamos ou diante de um suícidio ou de um homicídio consoante a conduta do
agente.

«E quais serão as últimas palavras de quem já não pode falar?» (João


Lobo Antunes)

VII- Eutanásia em face da Constituição portuguesa

A inviolabilidade da vida integra o restritíssimo grupo de direitos


fundamentais insuscetíveis de suspensão. É um valor inalienável do Estado de
Direito Democrático.

Analisa-se, agora, a eutanásia diante da CRP, das normas e


princípios que nela estão recepcionadas, dos valores fundamentais em que
assenta a Constituição, do conjunto de direitos e deveres dela resultantes e a
vida social que ela enforma.

Vejamos, é na dialéctica entre o direito à vida e o direito à liberdade


que se situa em grande parte o cerne da questão, brincando, é quase como os
adolescentes quando atingem a maioridade e declaram: “Tenho mais de 18 anos
faço o que eu quiser”.

Na realidade, apoia-se a licitude da eutanásia essencialmente com


base no relevo que o ordenamento jurídico concede ao valor da liberdade, relevo
esse, ou importância, que se o afirmam até em relação ao valor da vida.

Mas se assim é, então o direito à vida, como outros direitos


fundamentais, seriam simplesmente uma expressão do direito de liberdade num
sentido mais abrangente: a vida seria mantida e cuidada só porque o seu titular
assim o desejaria, na medida exata da sua vontade.

Para além, do direito à liberdade, os defensores da eutanásia,


baseiam-se ainda nas normas constitucionais que legitimam os princípios da
dignidade da pessoa humana, ou do livre desenvolvimento da personalidade,

pg. 26
donde emanaria a superioridade da liberdade individual, assim quase que se
poderia afirmar que estes princípios passariam a ser regra geral de interpretação
de todos os direitos fundamentais, incluindo o direito à vida.

Porém, quer parecerer que a liberdade não pode prevalecer sobre a


vida, pois esta é a origem, a essência da própria liberdade. A vida é o princípio
e o fim de todos os direitos ou valores humanos, sem a qual nenhum deles tem
existência, é sequer compreendido. A liberdade pressupõe necessariamente a
vida.

Na expressão de Mário Raposo, «os textos legislativos reconhecem


os direitos fundamentais, mas é a vida que os cria e viabiliza». «Eutanásia – Alguns

Problemas Envolvidos», in Brotéria, vol. 150, 2, Fevereiro de 2000, pg. 227.

A dignidade da pessoa é a dignidade da pessoa livre, mas esta


liberdade presume a vida, e considerar a pessoa significa considerar a sua
liberdade, e, também aqui, tem que se considerar e presumir o respeito pela sua
vida, esta liberdade aplica-se mesmo em caso de incapacidade de exercício da
liberdade. O respeito da dignidade da pessoa sobrepõe-se à própria pessoa, e
pode em certos acontecimentos fora do comum, balizar essa liberdade (nos
casos de escravidão consentida, automutilação, prostituição, suicídio ou
eutanásia).

Por outro lado a dignidade da pessoa é fonte de direitos, mas também


de deveres, conforme parte I da CRP.

Estabelece o artigo 24º - “direito à vida” no seu nº 1, da Constituição


portuguesa: «A vida humana é inviolável», e o nº 2 do mesmo artigo: «Em caso
algum haverá pena de morte».

A respeito desta formulação do texto constitucional, pronuncia-se


Mário Raposo:

Diferentemente do que sucede com a generalidade das Constituições


e da própria Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 (art. 3º), a
Constituição portuguesa regista, no nº 1 do artigo 24º, que «a vida humana é
inviolável». Trata-se de uma fórmula normativa muito mais forte e expressiva do
que a consagração do direito à vida. Muito mais do que um direito é um valor. É

pg. 27
o valor fundacional que recebe da intransferível dignidade da pessoa o seu
decisivo sentido. «Eutanásia – Alguns Problemas Envolvidos», in Brotéria, vol. 150, 2, Fevereiro de 2000, pg.
267

Esta enunciação da constituição constitucional enfatiza a primazia da


vida sobre a liberdade. De acordo com o texto da norma fundamental, não se
alvitra tão-pouco uma casual renunciabilidade ou disponibilidade do direito à
vida, daí concluir que o direito à vida dependente da vontade do seu titular.
Alguma atitude ou posicionamento de renúncia ou disposição do direito à vida
colidiria com o princípio objectivo da inviolabilidade da vida humana.

Conquanto a concepção constitucional formal dos direitos


fundamentais compõe uma ordem objectiva e coerente de valores de
anterioridade estadual e indisponível - que se impõem ao próprio titular como
inalienáveis - e servem para consolidar toda a ordem jurídica, os direitos
fundamentais não são somente delimitadores da actividade estatal, mas
igualmente propósitos dessa actividade.

De mais a mais, e atendendo à ordenação sistemática do texto


constitucional português, encontramos, à cabeça do catálogo dos direitos,
liberdades e garantias pessoais:

1. Direito à vida- no artigo 24º


2. Direito ao livre desenvolvimento da personalidade- no artigo 26º,
nº1
3. Direito à liberdade e segurança - no artigo 27º, nº 1.

O princípio da inviolabilidade da vida humana torna, pois, claro e


inequívoco o carácter irrenunciável e indisponível do direito à vida.

Outros dos problemas, para além do supra, no debate da eutanásia


foi e é a questão da garantia da autenticidade dos pedidos de eutanásia ou de
auxílio médico ao suicídio. Vem sendo com frequência salientado, há motivos
para pôr em dúvida essa autenticidade em qualquer situação, uma vez que esses
pedidos são expressos em condições muito especiais. As situações e
circunstâncias em que normalmente são enunciados estão associados estados
depressivos graves.

pg. 28
Ora se o sofrimento do paciente é tão intenso, penoso e profundo que
o faz almejar pôr termo à vida, desdizendo dessa forma o instinto básico de
sobrevivência e de autoconservação do ser humano, será legítimo presumir que
a sua lucidez poderá ser afectada.

Afirma, a este respeito, Daniel Serrão:

“Os psicólogos afirmam que as decisões, quaisquer decisões,


tomadas por uma pessoa que sofre com grande intensidade não nascem mais
da pessoa como uma unidade organizada, um eu homogéneo (neste conceito se
fundamenta a atenuação de imputabilidade quando uma decisão tomada por
uma pessoa em estado de grande sofrimento se configura como um ilícito penal;
curiosamente o Código Penal português invoca esta perda de unidade e
organização do eu para reduzir a pena do médico que, dominado pela
perturbação que lhe provoca o sofrimento do doente, decide matá-lo). Parece,
portanto, que a perda de unidade produzida pelo sofrimento compromete, de
forma irremediável, a autonomia para a decisão; a pessoa que tem um
sofrimento insuportável já não é livre e, por isso, não pode conhecer, de forma
clara, qual é o seu melhor interesse em tal situação”. «Suicídio Assistido» in Novos Desafios
à Bioética, cit., pg. 255.

EM JEITO DE CONCLUSÃO:

Quando iniciei este meu trabalho, consciente das dificuldades


inerentes à amplitude do mesmo, pensava eu que iria chegar aqui e conseguir
concluir – com o minimo de certeza a quem pretende estudar estas matérias -,
mas, por incapacidade minha ou porque o tema é tão estruturalmente complexo,
apenas posso, consigo, retirar um conjunto de ilações e perguntas:

I - o Direito à vida não se confina à vida humana tal como ela é


entendida após o “nascimento completo”. Ele retroage a momentos anteriores
ao referido nascimento e após a fecundação. Aqui insere-se a problemática da
interrupção voluntária da gravidez e as “balizas” impostas pelo Direito estribado
que está no conhecimento, actual e limitado, da definição de vida.

II – O direito a morrer ou, a cristalização, segura, da inviolabilidade da vida


humana versus a sua maior ou menor disponibilidade. Não é certo que os

pg. 29
caminhos percorridos pelas sociedades ocidentais, mais ou menos liberais ou
presas de teorizações de cariz moral e religioso sejam os melhores. Se por um
lado se entende muito bem aquilo que deve ser a impossibilidade de cada um,
em determinado momento, de decidir sobre o instante em que a sua vida deve
cessar, a imposição legal de sua não admissibilidade pode colocar-nos a questão
de saber se não estará o próprio estado a limitar o Direito à Vida de cada um ao
impedir - tout court - a hipótese eutanásica.

III – Reconhecendo a paridade existente entre o Direito à Vida tal como


constitucionalmente consagrado e se vem de descrever, todas as questões
colocadas – quer a da interrupção voluntária da gravidez, quer a da eutanásia –
tal como conceptualizadas no nosso ordenamento jurídico, interligam-se claro
com princípios constitucionais estruturantes como o da Igualdade e o da
Universalidade. A falta de concessão de garantias a toda a população
portuguesa, sejam elas de informação, sejam de acesso igual e transversal para
todos a cuidados de saúde primários, não será, ela mesma, a imposição,
hipócrita, de abortos não pensados ou de eutanásias “legais” não escritas nem
aceites como tal?

IV- Suicídio para não morrer à fome- noticia na revista “Visão”


relativamente ao Iémen- isto é Suicídio ou Eutanásia activa por parte do Estado
do Iémen, e consequentemente da ONU!

V- Hospitais atrasam cirugias oncológicas, ou outras, urgentes (seja


por falta de pessoal ou condições); pacientes, absolutamente, sem recursos para
arcar com as despesas de uma cirurgia de urgência em casos operáveis e que
a quando de vaga estão numa fase inoperável: falta de sorte!? Ou a cínica e
silenciosa Eutanásia activa por parte do Estado? – artigo 64.º da CRP.

E por fim, um mar imenso, escuro e misterioso de questões que põem


em causa toda uma sociedade e o vislumbre da sua pacificação, equilibrio,
igualdade, universalidade e proporcionalidade. Com isto não se pretende
defender nenhuma das vertentes, pois aqui não cabem opiniões pessoais, sendo
que cada degrau subido em prol do direito à vida escorrega numa casca de
banana, seja esta o conformismo da sociedade, inaptidão ou incapacidade, seja
por factores económicos, individualistas e capitalistas dos Estados.

pg. 30
No entanto, continuaremos a lutar pelo Direito à Vida e tudo o que
encerra, pois é espirito gregário e absoluto do Ser-humano lutar pelo melhor para
com o próximo, e usando as palavras de São Tomás de Aquino:

“Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter,


método e faculdade para aprender, subtileza para interpretar, graça e
abundância para falar, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao
concluir.”

FIM

pg. 31
*

BIBLIOGRAFIA:

- Constituição da república Anotada, Jorge Miranda e Rui


Medeiros.

- Beatriz Fonseca Duarte Santos, Dissertação com vista à


obtenção do grau de Mestre em Direito, Universidade Nova de Lisboa.

A Era Dos Direitos, Norberto Bobbio.

- Sites:

- http://www.broteria.pt

- https://tvtd.up7.pt

- http://www.ufrgs.br

pg. 32