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27 - FILOSOFIA GERAL E DA RELIGIÃO

CENTRO BATISTA DE EDUCAÇÃO, SERVIÇO E PESQUISA.

INTRODUÇÃO

“A filosofia e a religião buscam a resolução do mesmo problema básico, a questão do Ser, do que existe, do homem e
seu dilema moral.”

As explicações e os métodos aplicados são diferentes, mas as respostas que buscam são idênticas. A filosofia que se
baseia inteiramente na razão nasceu, quando as academias gregas se afastaram das crenças nos deuses mitológicos,
considerando somente argumentos racionais, a busca pela solução dos problemas é somente através do pensamento
lógico.

A religião é o inverso da filosofia, se baseia na fé, acreditar em algo na qual não se pode comprovar, na crença
inabalável de ensinamentos impostos por revelações divinas, o que leva à rotinas e dogmas.

Explicar a misteriosa origem do universo somente com o uso da razão, sem mostrar o inexplicável como vontade
divina, iniciou um diálogo, muitas vezes um confronto entre fé e razão.

A filosofia variou entre épocas que acreditava em uma divindade superior e em épocas que não acreditava, essas
épocas refletem na busca do homem pelo conhecimento de si mesmo e do mundo onde vive.

O surgimento da filosofia se deu na tentativa de superar uma fé cega em que os gregos viviam, tentando explicar os
fenômenos através de causas racionais e não através dos mitos. Mais tarde, o cristianismo lutou para impor seu
domínio ideológico, e logo depois o renascentismo batalhou contra a inquisição da Igreja. O Iluminismo é a maior
expressão desse movimento, quando se esperava a superação total das crenças pela razão.

Porém, alguns filósofos acreditam que o melhor meio de alcançar as divindades é através da razão. Só é possível
conhecer o Autor do universo pela busca do conhecimento das coisas, assim a religião convidaria os homens ao
conhecimento e essa busca seria através da filosofia. Pensadores como Tomás de Aquino e Agostinho acreditam que
a filosofia complementa a religião.” https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/nutricao/religiao-e-filosofia/49687

“Ouve Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6, 4).

Neste versículo se encontra o fundamento de toda a religião e teologia judaica: Deus é um só.

Conquanto a afirmação do versículo seja eminentemente religiosa e inspirada também por motivos religiosos, ela
ocasionou, na própria história da filosofia, nada menos que uma revolução.

Outra passagem Bíblica é também muito importante para a história do pensamento ocidental.

Trata-se do primeiro versículo do livro do Gênesis, onde se afirma que o Deus único é o criador do céu e da terra, das
coisas visíveis e invisíveis, em uma palavra, de todas as coisas: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1, 1).

A síntese destas duas passagens, encontra-se numa outra, também registrada no Pentateuco, mais exatamente no
livro do Êxodo.

No capítulo terceiro deste livro, o relato sagrado diz-nos que Moisés perguntou a Deus qual era o Seu nome, ao que
este lhe respondeu: “Eu Sou” (Ex 3, 14).

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Ora, na cultura judaica, o nome revela o ser da pessoa. O Deus único, criador de todas as coisas, apresenta-se ainda
como o próprio Ser.

Assim o entenderam os principais pensadores cristãos ao longo da história, mas também tiveram outros que
refutaram e refutam firmemente acerca de toda verdade já declarada a nós.

Dizíamos que o Deus único e criador era, conforme o entenderam os principais autores cristãos, o próprio Ser. Na
verdade, cuida acrescer que é justamente por ser o próprio ser, que Deus só pode ser um, pois ser o próprio Ser
significa possuir a totalidade do ser.

Ora, é um absurdo pensar que pode haver duas totalidades. Desde muito cedo os cristãos entenderam isso. Por isso,
Êxodo 3, 14, onde se afirma que Deus é o próprio Ser, tornou-se, para eles, a principal justificativa de Deuteronômio 6,
4.

Esta forma de entender a natureza do Deus único, determinará também o modo como os cristãos, ao longo dos
séculos, formularam também o próprio conceito de criação, esboçado em Gn 1, 1.

De fato, é em virtude de Deus ser o próprio Ser que atende a Ele, e somente a Ele, criar todas as coisas que não são o
seu ser, as criaturas. E como fora do ser não há nada, importa dizer que esta criação se deu a partir do nada, ou seja,
Deus criou todas as coisas a partir do nada.

No âmbito teológico, Agostinho já delineia com meridiana clareza como as criaturas procedem por criação de Deus,
que é o próprio Ser.

Ele descreve como todas as criaturas foram criadas a partir do nada, atestando que elas não provêm nem da
substância divina, nem de qualquer matéria preexistente a Deus, pois, concomitantemente à criação da matéria
informe por Deus, o mesmo Deus a informou.

Por conseguinte, tudo veio a ser por Deus, que é o próprio ser, a partir do nada.

Assim sendo, ainda que titubeante, gradativa e paulatinamente o pensamento cristão foi construindo, a partir de Deus
concebido como o próprio Ser de Êxodo 3, 13-14, uma síntese que fizesse a conjunção das passagens de Dt 6, 4 e Gn
1, 1.

Até Agostinho, esta síntese é tão somente vislumbrada e tocada como que às apalpadelas pelos pensadores cristãos.

No entanto, desde o início da teologia cristã, Êxodo 3, 14 torna-se o elo entre Dt 6, 4 e Gn 1, 1, ou seja, o ponto de
intersecção entre o Deus único e o Deus criador.

O desafio será transformar estes pilares da fé em preâmbulos da fé (preambula fidei), isto é, em verdades metafísicas
que, assimiladas e conjugadas num todo racional harmonioso, tornem-se o fundamento racional da religião cristã.

Eis o desafio: costurar ou tecer uma síntese coerente entre estas verdades, a fim de ligá-las, de uni-las, fazendo-as
concordar de modo que uma coopere, auxilie, complete e complemente a outra.

Sem embargo, que Deus seja o próprio ser será ponto pacífico para quase a totalidade dos pensadores cristãos, até
porque será esta noção que dará o ensejo à síntese entre a unicidade de Deus e o fato de Ele ser o criador de todas
as coisas. É, pois, partindo da noção de Deus como que serão acolhidos, no contexto cristão, por exemplo, os
conceitos de participação e analogia, os quais explicarão como do uno pode proceder o múltiplo. As divergências
começarão, antes, quando cada um começar a definir o que é o ser.

Este estudo alia-se ao conhecimento afim de conhecer algumas vertentes filosóficas deixando o conhecimento
propício para continuar um estudo minucioso diante de muitas correntes filosóficas que colaboraram muito para a
compreensão de assuntos importantíssimos para a nossa vida cristã, pessoal e moral.

A Filosofia, sendo ela amiga do saber, o conduzirá na formação de seus conceitos religiosos, morais e éticos,
sobretudo, lhe fornecendo uma direção única, que somente os sábios a podem atingir – o “conhecer de si mesmo”.

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CAPÍTULO 1 - PRINCIPAIS CORRENTES FILOSÓFICAS

As principais correntes filosóficas existentes são as Quando tratamos do que é concreto, ela delimitará com
seguintes: metafísica, filosofia da religião, lógica, teoria a ciência em busca de diversas resposta para poder
do conhecimento, filosofia da linguagem, filosofia das explicar o significado do que é real, concreto e é
ciências, ética, filosofia política e estética. estudado, dando assim uma delimitação científica acerca
da realidade.
Como no ramo da teologia não há necessidade de
tratarmos de todas essas correntes, porém é interessante Mas quando se trata do que é abstrato conceitualmente
uma leitura posterior para aprofundamento nos assuntos de início, é onde torna a discussão mais difícil.
que não abordaremos.
Se Deus for tratado como um ser abstrato, Ele está
Serão abordados apenas os assuntos: metafísica, filosofia pendente a ser tanto um ser real como surreal.
da religião e ética (mais estritamente ligada para a ética
Da mesma forma as questões da imortalidade da alma e
cristã).
outras questões bidimensionais (que estão nessa
dimensão do “real” e noutra dimensão que a ciência não
alcança considerada como “surreal”).
1.1. METAFÍSICA
Ao delimitar a questão da metafísica em conceito da
“realidade” observamos que a realidade é repleta de leis,
estados, situações que fazem o homem tornar-se
escravo dela,

Ou seja, o homem não é o Senhor capaz de mudar a


realidade a seu bel prazer, pelo contrário, tem de se
acostumar com ela e aceitar suas regras, mesmo que as
tais o faça sofrer.

Quando observamos o mundo de um ponto de vista


Figura-Fonte: https://www.pensador.com/frase/OTM1/ metafísico observamos que a realidade existente foi e
não foi criada para o homem.
A metafísica é a parte da filosofia que investiga a
estrutura e a natureza dos seres e da realidade. Foi criada, porque é o lugar apropriado para ele viver,
não há em nenhum lugar no universo outro igual ao
nosso planeta, ou seja, a realidade aonde o homem está
Nesse sentido, é uma investigação mais ampla que a das inserido é o seu habitat natural.
ciências, pois elabora questões sobre a existência de
Porém, quando dizemos que a realidade não foi criada
Deus, a imortalidade da alma e a liberdade da vontade.
para o homem, entendemos num sentido de domínio,
Além disso, faz também perguntas sobre o próprio porque ela contém leis e regras que não se importam
fundamento das ciências, com o qual elas em geral não com o homem, aonde faz ele submeter-se
se preocupam, como: o que é a realidade? Existem automaticamente a tal sistema, mesmo que isso implique
objetos físicos? em seu sofrimento.

O importante na metafísica é a questão do que Se tratarmos da realidade como algo criado por um ser
realmente existe, daquilo que é real e o que realmente é Criador, observamos que o homem foi posto nessa
surreal. realidade como criatura, aonde não tem autonomia e

É necessário observar todas as coisas, para poder ter poder algum de mudar as coisas, afinal ele é criatura.

uma ideia concreta sobre a noção do que seja concreto


e abstrato.

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1.2. SONHO X REALIDADE realidades: a do aqui e agora (o mundo) e a dos sonhos.
Veremos que o ser humano não é apenas um ser
bidimensional, mas que pode ultrapassar essa realidade.

Um exemplo de que podemos ultrapassar o mundo


bidimensional é quando tratamos dos desejos, é quando
tratamos da fantasia e da ilusão.

Quantas pessoas estão no seu trabalho (mundo real) e


começam a ter ilusões sonhando com um carro novo
que passou na propaganda da TV (ilusão) e começa a
imaginar dirigindo esse carro (fantasia), daí então ele
sente um enorme sentimento de satisfação e orgulho em

Figura-Fonte: https://twitter.com/freddeghelt/status/316283072834306048
adquirir esse carro (prazer), então ele volta pra realidade
e sente um pequeno desejo de frustração.
A metafísica além de estudar a questão da realidade em
Observamos que em situações do dia-a-dia ele passa até
si, daquilo que é real, trata de outra realidade imposta
mesmo por várias dimensões diferentes o que torna o
pela a alma, os sonhos.
ser humano, um ser polidimensional.

1.3. REALIDADE VIRTUAL


ATÉ ONDE OS SONHOS FAZEM PARTE DA REALIDADE?
A realidade virtual é gerada por computadores,
especificamente pela internet.
Muitos sonhos são frutos dos cansaços que obtivemos Essa realidade está não apenas nos computadores, mas
durante o dia. nos celulares, nos Pagers, palmtop, tablete, etc.
A ciência explica que os sonhos são o regulador das Ambas conecta a maior rede social existente que é a
funções cerebrais, caso essa realidade seja quebrada, internet, fazendo assim cada um entrar numa nova
haverá uma série de sofrimentos para quem atropela realidade, a realidade virtual.
essa realidade surreal da mente humana.
Ao contrário do sonho, da imaginação e da fantasia, que
Normalmente os sonhos controlam a mente do são experiências privadas, a experiência da realidade
indivíduo, não dá a ele um direito racional de escolha, virtual pode ser compartilhada e possibilita interação
ele torna-se escravo mais uma vez da realidade, e uma entre diversos participantes.
realidade cruel que é produzida por ele mesmo, o seu
Assim, a realidade virtual pode ser definida como uma
subconsciente.
alucinação consensual gerada por computadores.
Uma coisa nos sonhos que ainda não é explicado na
ciência é a seguinte questão: por que há sonhos que
mostram acontecimentos futuros com clareza?

Alguns tentam explicar que o subconsciente prepara


todas as peças do jogo teatral para realizar essa visão
futura que ele mesmo criou.

Outros acreditam que a humanidade não tem potencial


para ver o seu futuro, e que isso não seria nada mais
além da intervenção do divino na vida humana.

Outros ainda creem que isso seja apenas coincidência, Figura-Fonte: https://www.menshealth.com/trending-news/g19526792/tech-gadgets-you-
will-use-within-10-years/
nada que conecte uma coisa a outra.

Porém, temos de admitir que somos seres Quando duas pessoas se encontram em um ambiente de

bidimensionais por natureza, vivemos em duas realidade virtual, duas consciências estão experienciando

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as mesmas coisas. Independentemente do nível de importante para esse ramo da filosofia são as pessoas e
controle consciente que alguém possua em um sonho, a religião em si.
ele, ao contrário da realidade virtual, é uma experiência
Exprimida nas perguntas: o quê faz o ser humano
privada de consciência.
procurar uma religião? Por que as pessoas precisam de
A realidade virtual proporciona prazeres, emoções, religião?
sentimentos e até mesmo situações que só poderiam ser
feitas na realidade. Filosofia da religião, nada mais é do que um dos
segmentos de estudos da filosofia.
Um exemplo disso é o namoro virtual, aonde dois
desconhecidos trocam sentimentos e emoções via
Seu principal objetivo é estudar a dimensão espiritual do
internet como se fossem dois conhecidos.
homem a partir de uma perspectiva filosófica com
Outro exemplo, é a compra de determinado objeto, indagações e pesquisas sobre a essência do fenômeno.
observa todas as características como se fosse numa Algumas das perguntas em que se baseiam os estudos
compra / venda a olho nu, daí efetua-se a negociação da filosofia da religião são:
do produto.
 O que é a religião?
O mundo virtual é uma nova dimensão criada pela
 Deus existe?
sociedade como uma subsociedade que é não é limitada
 Há vida após a morte?
a religião, cultura, país, fronteira, língua, renda, etc.

Uma sociedade global que envolve mais pessoas do que Os métodos usados para esse estudo são o
mesmo o maior país do mundo, China. antropológico, filológico e histórico-crítico comparativo:

1.4. FILOSOFIA DA RELIGIÃO E DEUS


Antropológico: reconstrução do passado religioso com
A filosofia da religião não procura especificamente a base na etnologia, ou seja, no estudo dos povos
pessoa de “Deus”, mas aquilo que faz uma pessoa, ou primitivos e atuais.
um grupo ir até uma determinada religião em busca de
algo que lhe faça religar ao divino. Filológico: comparação das línguas para encontrar

O ser humano desde seus primórdios sempre procurou palavras que são usadas para descrição e expressão do

o divino. sagrado, além das raízes comuns.

No princípio das religiões, sacrificar o seu próprio filho Histórico-crítico comparativo: comparação entre várias
era um meio de alcançar o divino e sobreviver, porque religiões no tempo e no espaço, buscando encontrar
se não houvesse o sangue não haveria a atuação da elementos em comum e díspares para descobrir o que
natureza, como por exemplo a chuva. constitui a essência do fenômeno religioso.
Alguns achavam que para alcançar o divino era
necessário quebrar a barreira da moral, enfim achavam
um pouco de tudo! Procuravam o divino em deuses que
eram piores que os humanos, em reencarnação, em
simbolismos da vida após a morte.

O ser humano sempre procurou se encontrar com o


divino através das religiões.

A filosofia da religião procura explicar o sentimento


humano em procurar algo relacionado ao divino para a
sua vida.

De início não parte para a premissa de um Deus criador,


Figura-Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=QxrdvuPAzt8
ou de vários deuses, ou até mesmo de nenhum deus. O

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CAPÍTULO 2 - PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS

Diferente da filosofia da religião, partiremos pra algo que


está além de qualquer religião, a questão de um único
Deus Criador, Onipotente, Onipresente e Onisciente.

Provas ontológicas: estão baseadas na ideia de Deus,


sendo sua existência deduzida diretamente, ou seja, o
conceito de Deus já implicaria sua existência. Um
exemplo clássico de prova ontológica é a de Santo
Anselmo.

Provas cosmológicas: estão baseadas no cosmo, no


princípio de causalidade e no fenômeno do devir.

Se há coisas no mundo que estão passando por


mudanças, teria de haver uma causa primeira para essas
mudanças, que não é causada por mais nada. Figura-Fonte: https://www.slideshare.net/vitor_vasconcelos/ontologia-e-metafsica-
apresentao-e-plano-de-aula

Outra versão do argumento é: se há seres contingentes,


eles devem ter sido causados a existir por outros seres, e
no início da cadeia deve existir um primeiro e necessário “A primeira e mais popular forma deste argumento
membro. remonta a Santo Anselmo no século 11 DC. Ele começa
afirmando que o conceito de Deus é "um ser do qual
Provas teleológicas (analógicas): estão baseadas nas
nada maior pode ser concebido." Já que a existência é
normas das coisas e no princípio de finalidade.
possível, e existir é maior do que não existir, então Deus
O mundo se pareceria com uma máquina, que portanto deve existir (se Deus não existisse, então um ser maior
teria de ter sido produzida por um designer inteligente. poderia ser concebido, mas essa ideia derrota a si
Um exemplo clássico de prova teleológica é proposto mesma-- você não pode ter algo maior do que algo do
por São Tomás de Aquino, comentando a seguir. Uma qual nada maior pode ser concebido!).
variação das provas teleológicas são as provas Portanto, Deus tem de existir. Descartes fez a mesma
antropológicas, que chegam a Deus partindo do homem, coisa, mas dessa vez raciocinando a ideia de um ser
assim denominadas por Mondim (1997). perfeito.
Provas morais: relacionam a moral com a vontade de
Deus. Com as provas acimas, trataremos detalhadamente O ateu Bertrand Russell disse que é muito mais fácil dizer
nesses temas a fim de explicar filosoficamente a que o argumento ontológico não é bom do que dizer
existência de Deus. exatamente o que ele tem de errado!

No entanto, os argumentos ontológicos não são muito


populares na maioria dos círculos cristãos nos dias de
2.1 PROVAS ONTOLÓGICAS
hoje.

Primeiro, eles parecem implorar a questão de saber


O argumento ontológico é um argumento baseado não como é Deus.
na observação do mundo (como os argumentos
Segundo, o apelo subjetivo é inferior aos descrentes, já
cosmológico e teleológico), mas apenas na razão.
que estes argumentos tendem faltar o apoio objetivo.
Especificamente, o argumento ontológico raciocina com
Terceiro, é difícil afirmar simplesmente que algo deve
base no estudo da existência (ontologia).
existir por definição. Sem uma boa sustentação filosófica

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quanto a por que uma coisa tenha de existir, Na forma vertical, argumenta-se que cada coisa criada
simplesmente definir alguma coisa à existência não é esteja sendo causada agora (imagine uma linha do
uma boa filosofia (como afirmar que os unicórnios são tempo com uma seta apontando para cima, começando
cavalos mágicos de um só chifre que existem). do universo até Deus).

Mesmo com esses problemas, vários proeminentes A versão horizontal mostra que a criação teve que ter
filósofos de hoje continuam trabalhando nesta forma uma causa no início (imagine essa mesma linha de
mais incomum do argumento teológico.” tempo apenas com uma seta apontando para trás, para

https://www.gotquestions.org/Portugues/argumento-ontologico.html
um ponto de partida no tempo).

Quando pensamos em Deus, de certa forma a mente já O horizontal é um pouco mais fácil de entender porque
tem uma pré-visualização de um Criador. não exige muito filosofar. O argumento básico é que
todas as coisas que têm um início têm que ter uma
A ideia ontologica é que a humanidade por natureza
causa.
tem uma noção de um Deus que vai além da
imaginação. O universo teve um começo, por isso, o universo teve
uma causa. Essa causa, estando fora de todo o universo,
Ontologicamente Ele é quem criou as leis morais,
é Deus.
naturais e físicas. Tais leis são as que fazem toda a
humanidade girar em torno delas. Alguém pode dizer que algumas coisas são causadas por
outras coisas, mas isso não resolve o problema. Isto é
Ao analisar naturalmente observamos que o mundo não
porque essas outras coisas tinham que ter causas
passa de um quebra-cabeças montado pelo Criador, ou
também, e isso não pode durar para sempre.
seja, tudo foi feito por Ele, tudo é d’Ele e tudo é para Ele.
Vamos dar um exemplo simples: árvores. Todas as
O princípio expresso é que Deus é Deus porque é o
árvores começaram a existir em algum ponto (já que não
Criador, dono da humanidade através do direito
têm sempre existido).
criacionista.
Cada árvore teve seu início em uma semente (a "causa"
2.2 PROVAS COSMOLÓGICAS
da árvore). Mas toda semente teve o seu início ("causa")
“O argumento cosmológico tenta provar a existência de em outra árvore. Não pode haver uma série infinita de
Deus através da observação do mundo que nos rodeia árvore-semente-árvore-semente, porque nenhuma série
(o cosmos). é infinita - não pode continuar para sempre.

Ele começa com o que é mais evidente na realidade: as Todas as séries são finitas (limitadas) por definição.
coisas existem.
Não há tal coisa como um número infinito porque até
Argumenta-se então que a causa da existência dessas mesmo a série de números é limitada (embora seja
coisas tinha que ser uma coisa "como Deus". sempre possível adicionar mais um, você está sempre em
um número finito).
Pode-se traçar estes tipos de argumentos de volta a
Platão, os quais têm sido usados por filósofos e teólogos Se existe um fim, não é infinito.
notáveis desde então.
Na verdade, todas as séries têm dois finais - no final e no
A ciência finalmente alcançou os teólogos do século 20, início (tente imaginar uma vara de um só fim!). Mas se
quando foi confirmado que o universo deve ter tido um não houvesse a primeira causa, a cadeia de causas nunca
começo. teria começado.

Sendo assim, hoje os argumentos cosmológicos são Portanto, há, pelo menos no começo, uma primeira
poderosos até para os não-filósofos. Há duas formas causa – uma que não teve início. Essa primeira causa é
básicas de tais argumentos, e a maneira mais fácil de Deus.
pensar neles pode ser a maneira "vertical" e "horizontal".
A forma vertical é um pouco mais difícil de entender,
Esses nomes indicam a direção de onde vêm as causas. mas é mais poderosa porque não só mostra que Deus
tinha que causar a "cadeia de causas" no princípio, mas

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que Ele ainda deve estar causando a existência das coisas e poderoso o suficiente para fazer o cosmo além de uma
agora. Mais uma vez, começamos ao constatar que as força desorganizada que seria o big-bang.
coisas existem.
Um exemplo disso é uma sala cheia de explosivos,
Em seguida, embora muitas vezes tendemos a pensar na poderá passar anos e nunca explodirão enquanto
existência como uma propriedade que as coisas meio alguém dotado de inteligência venha e acione o
que "possuem" - uma vez que algo é criado, a existência detonador, a única maneira de haver explosão é com a
é apenas parte do que é - este não é o caso. intervenção de alguém.

Considere o triângulo. Podemos definir a natureza de um O cosmo explica por si que há alguém além de tudo isso.
triângulo como "a figura plana formada ao se conectar O que até tempos atrás era infinito, hoje já é finito.
três pontos não em linha reta por segmentos de uma
Provando que o universo faz parte da criação, e se há
linha reta."
criação, há um Criador.
Observe o que não faz parte desta definição: a
Não há condição de haver nenhuma evolução no
existência.
universo por si só, afinal como poderia uma explosão
Esta definição de um triângulo seria verdadeira mesmo desorganizada (big-bang) criar um universo e leis tão
se nenhum triângulo existisse. Portanto, a natureza de matematicamente planejadas?
um triângulo - o que é - não garante que um exista
2.3 PROVAS TELÉOLÓGICAS
(como os unicórnios - todos sabemos o que são, mas
Sugestão: Vide vídeo https://www.youtube.com/watch?v=MEXdpos0jsU -
isso não faz com que existam).
“A palavra teleologia vem de telos, que significa
Porque existir não faz parte da natureza de um triângulo,
"objetivo" ou "propósito". A ideia é que leva um criador
os triângulos devem ser causados a existir por outra
para que haja um "propósito" e, por isso, onde vemos
coisa que já existe (alguém deve desenhar um em um
coisas que foram obviamente destinadas a um propósito,
pedaço de papel).
podemos supor que essas coisas foram feitas por uma
O triângulo é causado por outra coisa – o qual também razão.
deve ter uma causa. Isso não pode continuar para
Em outras palavras, um projeto implica um designer. Nós
sempre (nenhuma série infinita).
instintivamente fazemos essas conexões o tempo todo.
Portanto, algo que não precisa receber a existência deve
A diferença entre o Grand Canyon e o Monte Rushmore
existir para dar existência a tudo mais.
é óbvia: um foi projetado, o outro não.
Agora, aplique este exemplo a tudo no universo.
O Grand Canyon foi claramente formado por processos
naturais e irracionais, enquanto que o Monte Rushmore
Será que alguma parte existe por conta própria? Não. foi claramente criado por um ser inteligente, um
designer.
Então, não só o universo teve que ter uma primeira
causa para começar, mas precisa de algo para dar-lhe Quando estamos caminhando em uma praia e
existência agora. encontramos um relógio de pulso, não supomos que o
tempo e o acaso produziram o relógio aleatoriamente
A única coisa que não teria de ser dada a existência é
com areia. Por quê? Porque tem as marcas claras de
uma coisa que existe em sua própria natureza, algo que
design - tem um propósito, transmite informação, é
É existência.
especificamente complexo, etc.
Esse algo sempre existiria, não teria uma causa, não teria
Em nenhum campo científico é o design considerado
um começo, não teria limite, estaria fora do tempo e
espontâneo; sempre implica um designer, e quanto
seria infinito. Esse algo é Deus!”
maior o design, maior o designer. Assim, tomando os
https://www.gotquestions.org/Portugues/argumento-cosmologico.html pressupostos da ciência, o universo tem que ter um
As provas cosmológicas não tratam apenas do cosmo designer além de si mesmo (ou seja, um designer
relacionado a um “big-bang”, mas de alguém soberano sobrenatural).

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O argumento teleológico aplica este princípio a todo o A sociedade humana, a vida, a fé, a religião, em tudo o
universo. que está relacionado com a humanidade há uma sigilosa
prova do resquício da criação do Deus todo poderoso.
Se os projetos implicam um designer, e o universo
mostra marcas de design, então o universo foi projetado. Partindo da premissa da vida, do por que existimos e
Claramente, toda forma de vida na história da Terra tem para o quê fomos criados, observamos que há um Deus
sido altamente complexa. com um plano altamente maravilhoso para toda a
humanidade, onde tudo o que há na humanidade
Um único fio de DNA equivale a um volume da
expressa um resquício da glória vislumbrante de Deus.
Enciclopédia Britânica.
A analogia procura relacionar a vida humana com os
O cérebro humano tem cerca de 10 bilhões de gigabytes
princípios divinos. Analisamos a luta entre o bem e o mal.
de capacidade.
Sempre vemos que o bem é a única maneira de trazer
Além das coisas viventes aqui na Terra, todo o universo
uma satisfação pessoal, independente da nação, ou da
parece ter sido projetado para a vida.
cultura aonde o homem esteja inserido.
Literalmente centenas de condições são necessárias para
Percebemos que o sistema da vida leva o ser humano a
a vida na Terra - tudo, da densidade de massa do
acreditar no que o Criador tem para ele, um plano que
universo à atividade sísmica, deve ser ajustado para que
vai além de sua compreensão sendo um pouco
a vida possa existir. A chance de todas estas coisas
explicado pela religião.
aleatoriamente acontecendo é, literalmente, impossível.
2.4 PROVAS MORAIS
A probabilidade contra isso acontecer é muitas ordens
de magnitude maior do que o número de partículas
atômicas em todo o universo!

Com um projeto tão impressionante, é difícil acreditar


que somos simplesmente um acidente.

Na verdade, a recente conversão do famoso ateu e


filósofo Antony Flew ao teísmo foi baseada em grande
parte neste argumento.

Além de demonstrar a existência de Deus, o argumento


teleológico expõe falhas na teoria da evolução.

O movimento do Design Inteligente na ciência aplica a


teoria da informação aos sistemas de vida e mostra que
o acaso não pode sequer começar a explicar a Figura-Fonte: http://www.a12.com/redacaoa12/igreja/moral-nada-tao-facil-como-parece

complexidade da vida.
Quando se fala de provas morais, observamos que a
Na verdade, até mesmo as bactérias unicelulares são tão moralidade humana, em fazer o que é certo, sempre leva
complexas que, sem todas as suas partes trabalhando a pensar que aquilo é bom, agradável e realmente
em conjunto e ao mesmo tempo, elas não teriam satisfaz os sentimentos humanos.
potencial de sobrevivência. Isso significa que essas partes
A moralidade humana está inserida em cada ser humano
não poderiam ter se desenvolvido por acaso.
desde o seu nascimento, entende-se que se está inserida
Darwin reconheceu que isso poderia ser um problema é porque Alguém inseriu.
um dia ao avaliar o olho humano. Mal sabia ele que até
Que Alguém seria esse capaz de inserir a moralidade
mesmo as criaturas unicelulares têm muita complexidade
“divina” em cada ser humano? Não há outro além de
que não pode ser explicada sem um criador!”
Deus!
https://www.gotquestions.org/Portugues/argument-teleologico.html

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As provas morais desfaz o que Freud explica de que o As provas morais da existência de Deus são,
mal está na sociedade, de que a pessoa é o resultado do rigorosamente, encontradas tanto no mundo religioso
meio, porque naturalmente somos seres morais. como no mundo filosófico.

Sabemos que os princípios morais nos regem O décimo capítulo do Genesis é, com efeito, um
independente da sociedade, isso porque se a sociedade documento único. Sustenta-se que nenhuma compilação
é má, e fazemos o mal, sempre estaremos longe de igual se encontrou jamais na literatura de qualquer outro
sentir a relação entre a satisfação pessoal com a povo antigo. Seu sentido fundamental ainda está sendo
satisfação social. verificado através do mundo inteiro, atualmente.

Vemos que a moral pessoal torna-se maior mesmo que Procura provar esse capítulo do Genesis que as nações
a moral social, porque ela está inserida em cada ser tiveram uma origem comum e que todos os homens são
humano desde o seu nascimento, ou melhor, desde a irmãos, com uma unidade humana que tem raiz em
sua criação. Deus.

“As provas morais da existência divina são assim Há neste capítulo um propósito religioso, uma séria
chamadas porque têm seu ponto de partida na realidade tentativa para mostrar que a humanidade tem uma

moral. As provas morais da Existência de Deus são, por origem comum e que, embora sejamos povos e raças
separadas, somos um povo e uma raça só aos olhos do
outro lado, particularmente aptas a fazer compreender,
nosso Criador.
não apenas a que ponto o problema de Deus se enraíza
no mais profundo de nosso coração, mas ainda para b - Prova pelas aspirações da alma. O fato da
trazer solução verdadeira e concreta (...) na crença na inquietação humana é presente em seu universo físico.
existência de um Deus pessoal.
Agostinho nos apresenta como esta aspiração, às vezes,

1. DIVISÃO DAS PROVAS se processa no coração e, enquanto esta aspiração, que


necessariamente vai mergulhando num vácuo, não
Geralmente estas provas têm sido divididas em quatro, encontra a Deus, a alma humana anda tateando (At
que comumente se invocam em favor da existência de 17.27).
Deus, a saber:
Então, à procura de Deus, Agostinho pergunta: "E o que
Primeira Prova: A obrigação moral; é isto?" Perguntei à terra, e esta me respondeu: "não sou

Segunda Prova: As aspirações da alma; eu". E tudo que nela existe me respondeu a mesma
coisa. Interroguei o mar, os abismos e os seres vivos, e
Terceira Prova: O consentimento universal; e todos me responderam: "não somos o teu Deus; busca-o
acima de nós". Perguntei aos ventos que sopram, e toda
Quarta Prova: A de experiência mística.
a atmosfera com seus habitantes me responderam:
Estas provas, segundo se depreende, são vias que nos ''Anaxímenes está enganado".
conduzem a Deus e, necessariamente, a quarta prova (a
Anaxímenes foi um filósofo grego do século VI a.C.
da experiência mística), processa-se frequentemente na
pessoa salva que, tendo seu coração limpo estará apto Para ele, o ar é o princípio gerador de tudo. Todos os
para ver a Deus (SI 73.1; Mt 5.8). elementos mencionados responderam a Agostinho: "Não
somos o teu Deus". Interroguei (Agostinho) o céu, o sol,
a lua e as estrelas: "Nós também não somos o Deus que
a) - Prova pela obrigação moral. Esta prova está também procuras''. Pedi a todos os seres que me rodeiam o
relacionada com o fato do dever. Nossa ação no mundo corpo: "Falai-me do meu Deus, já que não sois o meu
não se processa e não pode processar-se ao acaso. Ela é Deus; dizei-me ao menos alguma coisa sobre ele". E
dirigida por fins morais que resumimos na ideia do exclamaram em alta voz: "Foi Ele quem nos criou". Diga-
dever. Ora, a obediência ao dever é essencialmente a me então a mim mesmo, e me perguntei: "E tu, quem
busca perseverante de um ideal de perfeição moral. és? E respondi: "Um homem". Então perguntei a verdade

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moral e esta me respondeu:' 'O teu Deus não é a terra, Isaque (Gn 26.24),
nem o céu, nem qualquer outro ser corporal".
Moisés (Êx 3.3 ),
É isso que a natureza das coisas afirma, e todos podem
Isaías (Is 6.1 ), e muitos outros servos de Deus de ambos
ver, pois a matéria é menor na parte que no todo.
os pactos, afirmaram ter entrado em contacto
Tu, alma, digo-te que és mais importante que o corpo, experimental com Deus de uma forma que ultrapassa
sem dúvida, pois és tu que lhe dás a vida, e nenhum seguramente os meios humanos de expressão, mas em
corpo pode fazer o mesmo a outro corpo. Mas o teu que desfrutaram da irresistível evidência da presença de
Deus é também a vida da tua vida. Deus.

c) - Prova pelo consentimento universal. Essa Poder-se-ia dizer, é verdade, admitir que uma tal pessoa
universalidade significa que há razões poderosas e errou ao afirmar isso, mas seria realmente impossível que
acessíveis a todas as inteligências, em favor da crença em todos se enganassem, e nos enganassem, falando, com
Deus. tanta força e convicção, das mesmas realidades
sobrenaturais que conheceram através de suas
A crença universal na existência de Deus faz parte das
experiências pessoais com Deus.
necessidades e dos ideais do homem.
Portanto, todas as provas da existência de Deus são
aplicações do princípio de razão suficiente moral:
O homem projeta todas as qualidades positivas que tem qualquer coisa tem sua razão, ou em si, ou numa outra.
em si de uma pessoa divina e faz dela uma realidade
Em outras palavras: o mais não pode sair do menos, nem
subsistente, capaz de suprir as suas próprias
o ser do nada.
necessidades e as suas próprias lacunas.
Cada prova, compreendendo um ponto de vista
Assim, por exemplo, a ideia de Deus como Pai, segundo
particular, precisa da aplicação do princípio de razão, no
o autor de Essência do Cristianismo, nasce da exigência
domínio da contingência, no movimento, no das causas
de segurança exigida pelo homem;
finais, nos domínios da obrigação moral, das aspirações
A ideia de Deus feito carne exprime a excelência do do homem e do consentimento universal.
amor pelos outros; a ideia de um Ser perfeitíssimo nasce
Cada vez, o princípio de razão obriga a concluir pela
para representar ao homem o que o homem gostaria de
experiência de um Ser existente por si, primeiro motor
ser mas não consegue tornar-se sem aquela
universal, inteligência infinita, princípio e fim da ordem
transformação, a qual chamamos "a redenção do nosso
moral, absoluta perfeição.
corpo" (Rm 8.23).
Quando nos recorremos ao Argumento Ontológico, não
A ideia de uma existência ultraterrena não é senão a fé
se fazem necessárias tais provas!
na vida terrestre não como ela é atualmente, mas como
deveria ser, a triplicidade invisível no homem (vontade, Mas, é evidente que, fora dele, elas são necessárias,
razão e amor), tomada na sua unidade e projetada sobre porque cada uma destas provas tem a vantagem de
ele, e daí por diante. colocar em relevo um aspecto da causalidade divina e
mostrar que, qualquer que seja o ponto de vista que se
Ora, só pode existir tal ansiedade na pessoa humana,
adote, o mundo não tem razão suficiente a não ser em
porque, sem sombra de dúvida, existe um Ser
Deus, se bem que não haja escolha entre estas duas
infinitamente moral que, necessariamente, exige que
conclusões: ou Deus, ou o absurdo total. Mas,
suas criaturas olhem para Ele.
necessariamente, jamais o absurdo total traria uma
d) - Prova pela experiência mística. Esta prova se torna ordem moral em qualquer tempo e lugar.”
evidente em toda a extensão da Bíblia.
Conclusão: Só em Deus, e não fora dele, pode e existe
Pessoas tais como Adão (Gn 3), esta ordem moral absoluta!

Abraão (Gn 12.7 ), http://miolodelivro.blogspot.com/2016/07/provas-morais-da-existencia-de-deus.html

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CAPÍTULO 3 - CAMPOS DE ESTUDO NA FILOSOFIA

normativa, ou seja, a primeira é uma ética “situacional”,


pode ser mudada de acordo com a situação existente;
enquanto a segunda é “normativa”, regras, leis, conduta
e princípios básicos que regem para sempre.

A diferença entre a ética filosófica e teológica é: a


oposição entre teologia e deontologia define muitas das
disputas no estudo geral da ética.

O que caracteriza uma ação correta?


Figura –Fonte: https://projetogospel.com/o-que-e-ateu-significado-ateismo-teismo/
A teologia defende que o comportamento ético tem de
ATEÍSMO ser avaliado em função de seus fins, enquanto a

Acerca do ateísmo podemos falar em linhas gerais que deontologia considera que o que importa são os

o ateísmo defende que Deus não existe. princípios, mesmo que deles resulte mais mal do que
bem.
É importante diferenciá-lo do agnosticismo, que
reconhece a importância da razão em relação a Deus, A filosofia procura estudar a ética e moral de uma

sobre o qual não podemos ter conhecimento seguro. maneira a poder explicar as respostas que existem em
cada era, mas ao mesmo tempo tomando uma descrição
ÉTICA
normativa (temporal) para que possa haver um controle,
A ética participa do campo da filosofia. evitando assim que a sociedade entre em colapso.

Ela é quem define a moral, a forma em que a filosofia Tal ética não tem importância se seus valores estão na
aplica determinados princípios para o comportamento religião ou não, o importante é que ela esteja
da humanidade. relacionada à moral, podendo anular a moral antiga,
reformular, ou criar uma diferente, o alvo não deixa de
Na verdade o objetivo da ética filosófica são apenas os
ser a sociedade, mantendo assim uma estabilidade com
costumes existentes na humanidade, ou seja, a maneira
a nova situação existente.
correta de comportamento a ser seguido em diversas
áreas. A sociedade historicamente sempre passou por
reformulações ético-morais, devido a evolução que vem
Um exemplo disso é que existe a ética política, a ética
ocorrendo derivada dos anos.
econômica, etc. Qual o melhor caminho? A ética
filosófica é uma, enquanto a ética teológica é outra. Um exemplo disso é que o comportamento que há em
Ambas diversificam uma da outra. sociedades que aplicam à pena de morte, e em
sociedades que aplicam o sistema presidiário.

As pessoas que convivem nesses sistemas são


acostumadas com eles, porém as pessoas que estão de
fora tomam uma postura coercitivamente contra, já que
ambos não participam da mesma cultura, ou melhor, não
compartilham a mesma sociedade.

Dum ponto histórico observamos que a sociedade alemã


tem certo receio com os neonazistas, porém na época
anterior a Segunda Grande Guerra Mundial o nazismo
caiu como uma solução para todos os problemas que a
A ética filosófica é descritiva, enquanto a teológica é

Figura-Fonte: https://mulherqueinveste.wordpress.com/2015/04/24/por-onde-comecar-a-
investir/

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sociedade alemã vinha sofrendo com a humilhação e o mal revelados nas Sagradas Escrituras, e isso em
mundial após a Primeira Grande Guerra Mundial. termos absolutos.” (Reavivamentos: História, benefícios e relevância)

Devemos procurar entender de maneira psicológica o Portanto, a ética cristã é o estudo sistemático da
que ocasionou a sociedade alemã adotar o nazismo em moralidade (do latim moralistas, que significa “a
todos os campos existentes. qualidade do que é moral”, “caráter”), e não o estudo de
costumes.
O fato que fez com que eles cooperassem com algo tão
cruel é que esse algo cruel era a única esperança e Por isso, ela procura a verdade e o bem através do
solução existente(para eles) para sair debaixo da forte supremo bem e da vontade de Deus revelada na Bíblia.”
humilhação que vinham passando, então a sociedade
não viu o nazismo como um movimento de atrocidades,
mas um movimento de esperança. A ética cristã não fica apenas nos papéis da Bíblia, muito
menos nas quatro paredes das igrejas, ela tem seu papel
A ética filosófica sempre irá procurar uma maneira em
fundamental em direcionar toda a sociedade a uma
que a sociedade viva bem de acordo com o momento
maneira íntegra com os padrões divinos que foram feitos
em que ela está vivendo.
para a sociedade.
ÉTICA CRISTÃ
Os padrões divinos são altíssimos, já que são puros,
Enquanto tratarmos de ética cristã, observaremos uma santos, incomparáveis e inestimáveis.
grande mudança.
Tais padrões encontram-se dentro da ética cristã, pois
essa deve direcionar e envolver os diversos ramos
existentes como a filosofia: a política, economia, família,
sociedade, etc., com um único diferencial, ela é
“imutável”, independente da evolução filosófica, ela
sempre foi e permanecerá a mesma.

A MORAL DA ÉTICA CRISTÃ

A moral está envolvida na ética cristã, faz parte, não há


como separar as duas, o termo moral vem do latim
moralis (relativo aos costumes), sendo a parte da filosofia
Figura –Fonte: http://pregandoaverdadeirafe.blogspot.com/2017/05/etica-crista-e-
ministerial-uma.html que trata dos atos humanos, dos bons costumes e dos
deveres dos homens.
Já que o objetivo da ética cristã é tratar os princípios
divinos de uma maneira moral para a vida do ser Desta maneira, temos a moral trabalhista, a moral sexual,
humano, implicando assim que toda a moral, toda a a moral nos negócios, a moral da aprendizagem, a moral
ética gira em torno de Deus, é criada por Deus e é política etc.
respondida apenas para Deus, o reflexo disto está em
A moral observa o que o homem faz, enquanto a ética
nossa sociedade como uma receptora da moral divina.
cristã pergunta por que e para que o homem faz; ao
Podemos enriquecer esse texto com a seguinte perguntar “por que e para que o homem faz?”
sentença:“(...) a ética cristã não é uma mera ciência de
A resposta que a sentença exige não é uma resposta
costumes e hábitos, não buscando a verdade e o bem
meramente filosófica, mas é uma filosofia cristã que
primariamente pela razão. A ética cristã não exclui a
abrange o principal aspecto envolvente que está na
razão, mas a leva cativa à obediência de Cristo (2 Co 10.
Palavra de Deus, ela entra como um mediador, como
5). Em sua essência, é normativa, enquanto a ética
uma base para as respostas filosóficas concernentes da
secular é mais descritiva. Vai muito além dos costumes,
ética cristã. Enquanto a moral faz diferente, trata
comportamentos ou atitudes, pois tem a ver com o bem

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singularmente dos costumes, ou seja, da maneira de humano, isto é, como a lei que potencia profundamente
conviver. a natureza humana, mas como um empecilho que
incomoda o homem.
Uma coisa é certa, muitas vezes dizemos o seguinte:
“doutrina bíblica não é uso e costume, uso e costume Desta maneira, os sofistas estabelecem uma oposição
depende de qual ramo denominacional você se especial entre natureza e lei, quer política, quer moral,
encontra, porém a doutrina bíblica é a mesma”. considerando a lei como fruto arbitrário, interessado,
mortificador, uma pura convenção, e entendendo por
Normalmente falamos da palavra “costume” relacionado
natureza, não a natureza humana racional, mas a
a questões sociais como: roupas, estilo de músicas, estilo
natureza humana sensível, animal, instintiva.
de culto, cortes de cabelo, lugares para sentar, etc.
E tentam criticar a vaidade desta lei, na verdade tão
Mas “costume” na ética cristã, especificamente na “moral”
mutável conforme os tempos e os lugares, bem como a
é totalmente relativo aos “princípios bíblicos” que estão
sua utilidade comumente celebrada: não é verdade -
envoltos na maneira de viver do homem para com o
dizem - que a submissão à lei torne os homens felizes,
Deus criador.
pois grandes malvados, mediante graves crimes, têm
O objetivo da moral é tratar exclusivamente dos frequentemente conseguido grande êxito no mundo e,
princípios bíblicos de maneira ética, trazendo à realidade aliás, a experiência ensina que para triunfar no mundo,
os preceitos divinos que estão expostos na Palavra, como não é mister justiça e retidão, mas prudência e
uma forma de conduta para a sociedade. habilidade.

A moral trata dos princípios para manter a sociedade Quanto ao direito e à religião, a posição da sofística é
cada vez mais em equilíbrio com a conduta exposta na extremista também, naturalmente, como na gnosiologia
Palavra. e na moral.

Nunca a moral bíblica será mudada, moldada, apagada A sofística move uma justa crítica, contra o direito
pela moral humana, ou filosófica, pelo contrário, a moral positivo, muitas vezes arbitrário, contingente, tirânico, em
bíblica é quem deve mudar, moldar e até apagar à moral nome do direito natural.
ética-filosófica, já que esta é situacional, lembrando que
Mas este direito natural - bem como a moral natural -
o mundo está perdido e necessita da luz que está nos
segundo os sofistas, não é o direito fundado sobre a
princípios da Palavra de Deus.
natureza racional do homem, e sim sobre a sua natureza
MORAL, DIREITO E RELIGIÃO animal, instintiva, passional.

Em coerência com o ceticismo teórico, destruidor da Então, o direito natural é o direito do mais poderoso,
ciência, a sofística sustenta o relativismo prático, pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas
destruidor da moral. forças brutas, a força e a violência podem ser o único

Como é verdadeiro o que tal ao sentido, assim é bem o elemento organizador, o único sistema jurídico

que satisfaz ao sentimento, ao impulso, à paixão de cada admissível.

um em cada momento. A respeito da religião e da divindade, os sofistas não só

Ao sensualismo, ao empirismo gnosiológico trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos

correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o do período precedente e posterior, mas - de harmonia

único bem é o prazer, a única regra de conduta é o com o ceticismo deles - chegam até o extremo, até o

interesse particular. ateísmo, pelo menos praticamente.

Górgias declara plena indiferença para com todo Os sofistas, pois, servem-se da injustiça e do muito mal

moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte que existe no mundo, para negar que o mundo seja

de vencer os adversários; que a causa seja justa ou não, governado por uma providência divina.

não lhe interessa.

A moral, portanto, - como norma universal de conduta -


é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir

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CAPÍTULO 4 - CONCEITO FILOSÓFICO

1
A maioria das definições de filosofia são razoavelmente 4.1 A FILOSOFIA PROPRIAMENTE DITA
controversa, em particular quando são interessantes ou
profundas.

Esta situação deve-se em parte ao fato de a filosofia ter


alterado de forma radical o seu âmbito no decurso da
história e de muitas das investigações nela originalmente
incluídas terem sido mais tarde excluídas.

Uma definição minimalista, mas satisfatória é que a


filosofia consiste em pensar sobre o pensamento.

Isto permite-nos sublinhar o caráter de segunda ordem


da disciplina e tratá-la como uma reflexão sobre gêneros
particulares de pensamento — formação de crenças e de Figura-Fonte: http://ifesaplicandoconhecimento.blogspot.com/p/filosofia.html

conhecimento — sobre o mundo ou porções


O desejo de conhecer a natureza das coisas é inato e se
significativas do mundo.
manifesta desde os primeiros momentos da vida
No Antigo Oriente, a filosofia confundiu-se com a humana.
religião.
A história da filosofia se entrelaça com a evolução da
Os povos orientais possuíram, através da religião, apenas cultura.
verdades filosóficas e não filosofia propriamente dita.
O seu desenvolvimento não é o da força criadora de um
Entretanto, na Grécia, a filosofia distinguiu da religião,
homem ou de uma época e sim da contribuição
mas confundiu-se com a ciência, constituindo, no início
intelectual de toda humanidade.
uma sabedoria universal.
O conhecimento filosófico se distingue do conhecimento
Com Sócrates, Platão a Aristóteles, a filosofia se 2
empírico ou vulgar, do conhecimento científico
caracteriza com mais nitidez, mas não perde o seu
particular e do conhecimento revelado ou teológico.
aspecto de síntese universal, sendo definida,
A filosofia se caracteriza pela natureza sintética e causal
sucessivamente, como ciência da alma, ciência das ideias
dos seus conhecimentos, pelo processo critico e reflexivo
e ciências dos princípios e das causas.
de suas investigações e pela sua função normativa e
Na idade média, a filosofia passa a ser profundamente
valorizadora.
influenciada pelo cristianismo.
A filosofia não é somente a arte de pensar é, portanto,
Daí a tendência da filosofia medieval em procurar
um sistema de conhecimentos naturais, metodicamente
harmonizar a razão com a fé, a filosofia com a teologia.
adquiridos e ordenados, que tende a explicar todas as
S. Tomás corrige e aperfeiçoa o sistema aristotélico, causas por suas razões fundamentais.
estabelece o verdadeiro objeto da filosofia e distingue
4.2 DUALISMO GREGO
esta da teologia e da ciência particular.

Para ele, a filosofia é o conhecimento científico que pela


A característica fundamental do pensamento grego está
luz natural da razão, considera as causas ou as razões
na solução dualista do problema metafísico-teológico,
mais elevadas de todas as coisas. Dessa forma, se
isto é, na solução das relações entre a realidade empírica
quisermos uma definição clara da filosofia, teremos que
e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em
nos aprofundar nos ensinos de Sto. Tomás, pois as
que Deus e mundo ficam separados um do outro.
definições modernas são inexatas e unilaterais.

1
O Termo filosofia significa “amigo do saber”. 2
Sistema filosófico que considera a experiência como único meio da verdade.

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A consequência desse dualismo é o irracionalismo, em Consoante à ordem cronológica e a marcha evolutiva
que fatalmente finaliza a serena concepção grega do das ideias pode dividir-se a história da filosofia grega em
mundo e da vida. três períodos:

O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do I. PERÍODO PRÉ-SOCRÁTICO (SÉC. VII-V A.C.)
princípio eterno da matéria obscura, que tende para
- Problemas cosmológicos. Período Naturalista: pré-
Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em
socrático, em que o interesse filosófico é voltado para o
parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar
até ele porque dele não deriva.

E a consequência desse irracionalismo outra não pode


ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado,
porque o grego tinha conhecimento de um absoluto
racional, de Deus, mas estava também convicto de que
ele não cuida do mundo e da humanidade, que não
criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo
contrário, que a humanidade é governada pelo Fado,
pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional.

O último remédio desse mal da existência será


procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão
interior e a indiferença heróica para com tudo, a
resignação e a renúncia absoluta. mundo da natureza;

4.3 O GÊNIO GREGO II. PERÍODO SOCRÁTICO (SÉC. IV A.C.)

A característica do gênio filosófico grego pode-se - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou


compendiar em alguns traços fundamentais: Antropológico: o período mais importante da história do
racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que
conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, o interesse pela natureza é integrado com o interesse
abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no pelo espírito e são construídos os maiores sistemas
conhecimento sensível. filosóficos, culminando com Aristóteles;

O conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas III. PERÍODO PÓS-SOCRÁTICO (SÉC. IV A.C. - VI A.C.)
aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse – Problemas morais. Período Ético: em que o interesse
realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo,
a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a entretanto, a metafísica;
Deus, sem o qual o mundo não tem explicação.
IV.PERÍODO RELIGIOSO: assim chamado pela
Embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, importância dada à religião, para resolver o problema da
o teor ético, o intelecto - tenham a primazia sobre o vida, que a razão não resolve integralmente.
"operar" - a ação, o prático, à vontade - o segundo
O primeiro período é de formação, o segundo de
elemento, todavia, não é anulado pelo primeiro, mas
apogeu, o terceiro de decadência.
está a ele subordinado; e o otimismo grego,
consequência lógica do seu próprio racionalismo, cederá PRIMEIRO PERÍODO
lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a
O primeiro período do pensamento grego toma a
irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser
denominação substancial de período naturalista, porque
tal concepção.
a nascente especulação dos filósofos é instintivamente
4.4 OS PERÍODOS PRINCIPAIS DO voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí
PENSAMENTO GREGO também o princípio unitário de todas as coisas; e toma,

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igualmente, a denominação cronológica de período pré- de Mileto, Anaxímenes de Mileto.
socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que
Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só
marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por
por virem cronologicamente depois, senão
conseguinte, o começo de um novo período na história
principalmente por imprimirem outra orientação aos
do pensamento grego.
estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu
Esse primeiro período tem início no alvor do VI século aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do
a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos movimento e da transformação dos corpos.
fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia
Os mais conhecidos são: Empédocles de Agrigento,
propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia
Anaxágoras de Clazômenas.
Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília,
favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa
pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar 4.6 PERÍODO SISTEMÁTICO
econômico.

Os filósofos deste período preocuparam-se quase


O segundo período da história do pensamento grego é
exclusivamente com os problemas cosmológicos.
o chamado período sistemático.
Estudar o mundo exterior nos elementos que o
Com efeito, nesse período realiza-se a sua grande e
constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a
lógica sistematização, culminando em Aristóteles, através
que está sujeito, é a grande questão que dá a este
de Sócrates e Platão , que fixam o conceito de ciência e
período seu caráter de unidade.
de inteligível, e através também da precedente crise
4.5 ESCOLA JÔNICA cética da sofística.

A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas O interesse dos filósofos gira, de preferência, não em
colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios torno da natureza, mas em torno do homem e do
antigos e os jônios posteriores ou juniores. espírito; da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral.

A escola jônica é também a primeira do período Daí ser dado a esse segundo período do pensamento
naturalista, preocupando-se os seus expoentes com grego também o nome de antropológico, pela
achar a substância única, a causa, o princípio do mundo importância e o lugar central destinado ao homem e ao
natural vário, múltiplo e mutável. espírito no sistema do mundo, até então limitado à

Essa escola floresceu precisamente em Mileto, colônia natureza exterior.

grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século,


até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494
Esse período esplêndido do pensamento grego
a.C., prolongando-se, porém ainda pelo V século.

Os jônicos julgaram encontrar a substância última das


coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa Depois do qual começa a decadência - teve duração
matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação bastante curta. Abraça, substancialmente, o século IV
derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a a.C., e compreende um número relativamente pequeno
sucessão dos fenômenos na matéria una. de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates, daí
derivando as chamadas escolhas socráticas menores,
Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria
sendo principais a cínica e a cirenaica, precursoras,
animada).
respectivamente, do estoicismo e do epicurismo do
Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de período seguinte; Platão e Aristóteles, deles procedendo
vista estático, procurando determinar o elemento a Academia e o Liceu, que sobreviverão também no
primordial, a matéria primitiva de que são compostos período seguinte e além ainda, especialmente a
todos os seres. Academia por motivos éticos e religiosos, e em seus

Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro desenvolvimentos neoplatônicos em especial - apesar de

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o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. ............................................................................................................
............................................................................................................
4.7 A SOFÍSTICA
............................................................................................................
............................................................................................................
............................................................................................................
............................................................................................................
............................................................................................................
............................................................................................................
............................................................................................................
............................................................................................................
............................................................................................................
............................................................................................................
Figura-Fonte: https://www.haikudeck.com/roma-education-presentation-5BIQC3ym8O ............................................................................................................
............................................................................................................
Após as grandes vitórias gregas, atenienses, contra o
............................................................................................................
império persa, houve um triunfo político da democracia,
............................................................................................................
como acontece todas as vezes que o povo sente, de
............................................................................................................
repente, a sua força. E visto que o domínio pessoal, em
............................................................................................................
tal regime, depende da capacidade de conquistar o povo
............................................................................................................
pela persuasão, compreende-se a importância que, em
............................................................................................................
situação semelhante, devia ter a oratória e, por
............................................................................................................
conseguinte, os mestres de eloquência.
............................................................................................................
Os sofistas, sequiosos de conquistar fama e riqueza no ............................................................................................................
mundo, tornaram-se mestres de eloquência, de retórica, ............................................................................................................
ensinando aos homens ávidos de poder político a ............................................................................................................
maneira de consegui-lo. ............................................................................................................

Diversamente dos filósofos gregos em geral, o ............................................................................................................

ensinamento dos sofistas não era ideal, desinteressado, ............................................................................................................

mas sobejamente retribuído. ............................................................................................................


............................................................................................................
O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber, a
............................................................................................................
cultura, uma enciclopédia, não para si mesma, mas como
............................................................................................................
meio para fins práticos e empíricos e, portanto,
............................................................................................................
superficial.
............................................................................................................
A época de ouro da sofística foi - pode-se dizer - a ............................................................................................................
segunda metade do século V a.C. ............................................................................................................
............................................................................................................
O centro foi Atenas, a Atenas de Péricles, capital
............................................................................................................
democrática de um grande império marítimo e cultural.
............................................................................................................
Os sofistas maiores foram quatro. Os menores foram ............................................................................................................
uma plêiade, continuando até depois de Sócrates, ............................................................................................................
embora sem importância filosófica. Protágoras foi o ............................................................................................................
maior de todos, chefe de escola e teórico da sofística. ............................................................................................................

ANOTAÇÕES ............................................................................................................

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CAPÍTULO 5 - PERÍODO SOCRÁTICO

5.1 A VIDA DE SÓCRATES uma aristocracia intelectual.

Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se,


tomou forma jurídica, na acusação movida contra ele por
Mileto, Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar
os deuses da pátria introduzindo outros.

Sócrates desdenhou defender-se diante dos juízes e da


justiça humana, humilhando-se e desculpando-se mais
ou menos.

Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução


empírica para a vida terrena, e sim o juízo eterno da
Figura-Fonte: http://blogdolion1.blogspot.com/2016/04/top-10-grandes-genios_18.html
razão, para a imortalidade. E preferiu a morte.
Sócrates nasceu em 470 ou 469 a.C., em Atenas, filho de
Declarado culpado por uma pequena minoria, assentou-
Sofrônico, escultor, e de Fenáreta, parteira. Aprendeu a
se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal,
arte paterna, mas dedicou-se inteiramente à meditação e
que o condenou à pena capital com o voto da maioria.
ao ensino filosófico, sem recompensa alguma, não
obstante sua pobreza. Sócrates, porém, recusou, declarando não querer
absolutamente desobedecer às leis da pátria.
Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre
modelo irrepreensível de bom cidadão. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade
da alma - que se teria realizado pouco antes da morte e
Combateu a cidade de Potidéia, onde salvou a vida de
foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável.
Alcebíades e na batalha de Delium, onde carregou aos
ombros a Xenofonte, gravemente ferido. Morreu Sócrates em 399 a.C. com 71 anos de idade.

Formou a sua instrução, sobretudo através da reflexão


pessoal, na moldura da alta cultura ateniense da época, 5.2 MÉTODO DE SÓCRATES
em contato com o que de mais ilustre houve na cidade
de Péricles.
É a parte polêmica. Insistindo no perpétuo fluxo das
Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos
3 coisas e na variabilidade extrema das impressões
sofistas , orientando-a para os valores universais,
sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo
segundo a via real do pensamento grego, foi Sócrates.
se transformam, concluíram os sofistas pela
Quanto à família, podemos dizer que Sócrates não teve, impossibilidade absoluta e objetiva do saber.
por certo, uma mulher ideal na Quérula Xantipa; mas
Sócrates restabelece-lhe a possibilidade, determinando o
também ela não teve um marido ideal no filósofo,
verdadeiro objeto da ciência.
ocupado com outros cuidados que não os domésticos.
O objeto da ciência não é o sensível, o particular, o
Quanto à política, foi ele valoroso soldado e rígido
indivíduo que passa; é o inteligível, o conceito que se
magistrado. Mas, em geral, conservou-se afastado da
exprime pela definição.
vida pública e da política contemporânea, que
contrastavam com o seu temperamento crítico e com o Este conceito ou ideia geral obtém-se por um processo
seu reto juízo. dialético por ele chamado indução e que consiste em
comparar vários indivíduos da mesma espécie, eliminar-
Diante da tirania popular, bem como de certos
lhes as diferenças individuais, as qualidades mutáveis e
elementos reacionários, aparecia Sócrates como chefe de
reter-lhes o elemento comum, estável, permanente, a
3
Sofistas: filósofos pré-socráticos que faziam da filosofia um meio de ganhar muito dinheiro. natureza, a essência da coisa.
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Por onde se vê que a indução socrática não tem o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio.
caráter demonstrativo do moderno processo lógico, que
O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de
vai do fenômeno à lei, mas é um meio de generalização,
todas as suas especulações e a moral, o centro para o
que remonta do indivíduo à noção universal.
qual convergem todas as partes da filosofia.
Praticamente, na exposição polêmica e didática destas
A psicologia serve-lhe de preâmbulo, a teodicéia de
ideias, Sócrates adotava sempre o diálogo, que revestia
estímulo à virtude e de natural complemento da ética.
uma dúplice forma, conforme se tratava de um
adversário a confrontar ou de um discípulo a instruir. Em psicologia, Sócrates professa a espiritualidade e
imortalidade da alma, distingue as duas ordens de
No segundo caso, tratando-se de um discípulo (e era
conhecimento, sensitivo e intelectual, mas não define o
muitas vezes o próprio adversário vencido), multiplicava
livre arbítrio, identificando a vontade com a inteligência.
ainda as perguntas, dirigindo-as agora ao fim de obter,
por indução dos casos particulares e concretos, um Deus não só existe, mas é também Providência, governa

conceito, uma definição geral do objeto em questão. o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo
com sacrifícios e orações.
A este processo pedagógico, em memória da profissão
materna, denominava ele maiêutica ou engenhosa Apesar destas doutrinas elevadas, Sócrates aceita em

obstetrícia do espírito, que facilitava a parturição das muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que

ideias. ele aspira reformar.

MORAL. É a parte culminante da sua filosofia. Sócrates


ensina a bem pensar para bem viver.
5.3 DOUTRINAS FILOSÓFICAS
O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança
com Deus, fim supremo do homem, é a prática da
A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. virtude.

E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo - Esta doutrina, uma das mais características da moral
isto é, torna-te consciente de tua ignorância - como socrática, é consequência natural do erro psicológico de
sendo o ápice da sabedoria, que é o desejo da ciência não distinguir a vontade da inteligência.
mediante a virtude. E alcançava em Sócrates intensidade
CONCLUSÃO: grandeza moral e penetração
e profundidade tais, que se concretizava se personificava
especulativa, virtude e ciência, ignorância e vício são
na voz interior divina do gênio ou demônio.
sinônimos. Sócrates reconhece também, acima das leis
Como é sabido, Sócrates não deixou nada escrito. mutáveis e escritas, a existência de uma lei natural -
Xenofonte, autor de Anábase, em seus Ditos independente do arbítrio humano, universal, fonte
Memoráveis, legou-nos de preferência o aspecto prático primordial de todo direito positivo, expressão da vontade
e moral da doutrina do mestre. divina promulgada pela voz interna da consciência.

Xenofonte, de estilo simples e harmonioso, mas sem Sublime nos lineamentos gerais de sua ética, Sócrates,
profundidade, não obstante a sua devoção para com o em prática, sugere quase sempre a utilidade como
mestre e a exatidão das notícias, não entendeu o motivo e estímulo da virtude. Esta feição utilitarista
pensamento filosófico de Sócrates, sendo mais um empana-lhe a beleza moral do sistema.
homem de ação do que um pensador. 4
GNOSIOLOGIA
Platão, pelo contrário, foi filósofo grande demais para
O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo
nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates; nem
humano, espiritual, com finalidades práticas, morais.
sempre é fácil discernir o fundo socrático das
Como os sofistas, ele é cético a respeito da cosmologia
especulações acrescentadas por ele.
e, em geral, a respeito da metafísica; trata-se, porém, de
Seja como for, cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido um ceticismo de fato, não de direito, dada a sua
o grande historiador do pensamento de Sócrates, bem
como o seu biógrafo genial. "Conhece-te a ti mesmo" - o 4
Gnosiologia: Estudo ou crítica do conhecimento.

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revalidação da ciência. tudo, consciência da própria ignorância inicial e,
portanto, necessidade de superá-la pela aquisição da
A única ciência possível e útil é a ciência da prática, mas
ciência.
dirigida para os valores universais, não particulares.
Esta ignorância não é, por conseguinte, ceticismo
Vale dizer que o agir humano - bem como o conhecer
sistemático, mas apenas metódico, um poderoso impulso
humano-se baseia em normas objetivas e transcendentes
para o saber, embora o pensamento socrático fique, de
à experiência.
fato, no agnosticismo filosófico por falta de uma
O fim da filosofia é a moral; no entanto, para realizar o metafísica, pois, Sócrates achou apenas a forma
próprio fim, é mister conhecê-lo; para construir uma conceptual da ciência, não o seu conteúdo.
ética é necessária uma teoria; no dizer de Sócrates, a
O procedimento lógico para realizar o conhecimento
gnosiologia deve preceder logicamente a moral.
verdadeiro, científico, conceptual é, antes de tudo, a
Mas, se o fim da filosofia é prático, o prático depende, indução: isto é, remontar do particular ao universal, da
por sua vez, totalmente, do teorético, no sentido de que opinião à ciência, da experiência ao conceito.
o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o
Este conceito é, depois, determinado precisamente
sábio, malvado, o ignorante.
mediante a definição, representando o ideal e a
A filosofia socrática, portanto, limita-se à gnosiologia e à conclusão do processo gnosiológico socrático, e nos dá a
ética, sem metafísica. A gnosiologia de Sócrates, que se essência da realidade.
concretizava no seu ensinamento dialógico, donde é
A MORAL
preciso extraí-la, pode-se esquematicamente resumir
nestes pontos fundamentais: ironia, maiêutica, Como Sócrates é o fundador da ciência em geral,
introspecção, ignorância, indução, definição. mediante a doutrina do conceito, assim é o fundador,
em particular da ciência moral, mediante a doutrina de
Antes de tudo, cumpre desembaraçar o espírito dos
que eticidade significa racionalidade, ação racional.
conhecimentos errados, dos preconceitos, opiniões; este
é o momento da ironia, isto é, da crítica. Sócrates, de par Virtude é inteligência, razão, ciência, não sentimento,
com os sofistas, ainda que com finalidade diversa, rotina, costume, tradição, lei positiva, opinião comum.
reivindica a independência da autoridade e da tradição, a
Tudo isto tem que ser criticado, superado, subindo até à
favor da reflexão livre e da convicção racional.
razão, não descendo até à animalidade - como
Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na ensinavam os sofistas.
imposição extrínseca de uma doutrina ao discente, mas o
É sabido que Sócrates levava a importância da razão
mestre deve tirá-la da mente do discípulo, pela razão
para a ação moral até àquele intelectualismo que,
imanente e constitutiva do espírito humano, a qual é um
identificando conhecimento e virtude - bem como
valor universal.
ignorância e vício - tornava impossível o livre arbítrio.
5
É a famosa maiêutica de Sócrates, que declara auxiliar
Entretanto, como a gnosiologia socrática carece de uma
os partos do espírito, como sua mãe auxiliava os partos
especificação lógica, precisa - afora a teoria geral de que
do corpo.
a ciência está nos conceitos - assim a ética socrática
Esta interioridade do saber, esta intimidade da ciência - carece de um conteúdo racional, pela ausência de uma
que não é absolutamente subjetivista, mas é a certeza metafísica.
objetiva da própria razão - patenteiam-se no famoso
Traçou, todavia, o itinerário, que será percorrido por
dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que, no
Platão e acabado, enfim, por Aristóteles.
pensamento de Sócrates, significa precisamente
consciência racional de si mesmo, para organizar Estes dois filósofos, partindo dos pressupostos socráticos,

racionalmente a própria vida. desenvolverão uma gnosiologia acabada, uma grande


metafísica e, logo, uma moral.
Entretanto, consciência de si mesmo quer dizer, antes de
PLATÃO
5
Maiêutica: Uma das formas pedagógicas do processo Socrático. Método indutivo mediante
perguntas.

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Diversamente de Sócrates , que era filho do povo, Platão Este caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, em
nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais Platão é tornado especialmente vivo angustioso, pela
viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-
ser, nascer e perecer de todas as coisas; em face do mal,
da desordem que se manifesta em especial no homem,
onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao
intelecto, a paixão contrasta com a razão. Assim,
considera Platão o espírito humano peregrino neste
mundo e prisioneiro na caverna do corpo.

Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo


para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do
inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico,
pelo Eros platônico.
Figura –Fonte: https://slideplayer.com.br/slide/3338322/
Platão como Sócrates, parte do conhecimento empírico,
aristocráticos e abastados, de antiga e nobre prosápia. sensível, da opinião do vulgo e dos sofistas, para chegar
ao conhecimento intelectual, conceptual, universal e
Aos vinte anos, Platão travou relação com Sócrates -
imutável.
mais velho do que ele quarenta anos - e gozou por oito
anos do ensinamento e da amizade do mestre. O conhecimento sensível deve ser superado por outro
conhecimento, o conhecimento conceptual, porquanto
Depois da morte do mestre, Platão retirou-se com outros
no conhecimento humano, como efetivamente,
socráticos para junto de Euclides, em Mégara.
apresentam-se elementos que não se podem explicar
Caído, porém, na desgraça do tirano pela sua fraqueza, mediante a sensação.
foi vendido como escravo. Platão, ao contrário de
Sócrates estava convencido, como também Platão, de
Sócrates, interessou-se vivamente pela política e pela
que o saber intelectual transcende, no seu valor, o saber
filosofia política.
sensível, mas julgava, todavia, poder construir
Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere indutivamente o conceito da sensação, da opinião;
do corpo, da qual a filosofia - como lemos no Fédon -
Platão, ao contrário, não admite que da sensação -
não é senão uma assídua preparação e realização no
particular, mutável, relativa - se possa de algum modo
tempo.
tirar o conceito universal, imutável, absoluto.
Dos 35 diálogos, porém, que correm sob o seu nome,
6
Aqui devemos lembrar que Platão, diversamente de
muitos são apócrifos , outros de autenticidade duvidosa.
Sócrates, dá ao conhecimento racional, conceptual,
No fundador da Academia, o mito e a poesia científico, uma base real, um objeto próprio: as ideias
confundem-se muitas vezes com os elementos eternas e universais, que são os conceitos, ou alguns
puramente racionais do sistema. conceitos da mente, personalizados.

A atividade literária de Platão abrange mais de cinquenta Deste mundo material e contingente, portanto, não há
anos da sua vida: desde a morte de Sócrates, até a sua ciência, devido à sua natureza inferior, mas apenas é
morte. A parte mais importante da atividade literária de possível, no máximo, um conhecimento sensível
verdadeiro - opinião verdadeira - que é precisamente o
Platão é representada pelos diálogos - em três grupos
conhecimento adequado à sua natureza inferior. Pode
principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e
haver conhecimento apenas do mundo imaterial e
formal, que representa a evolução do pensamento
racional das ideias pela sua natureza superior. Este
platônico, do socratismo ao aristotelismo.
mundo ideal, racional - no dizer de Platão - transcende
Este fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente, inteiramente o mundo empírico, material, em que
através da especulação, do conhecimento da ciência. vivemos.

6
Apócrifos: Escritos sem inspiração ou comprovação científica da autenticidade do mesmo.

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TEORIA DAS IDEIAS dos conceitos, que se obtém mediante a divisão e a
classificação, isto é, são ordenadas em sistema
Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da
hierárquico, estando no vértice a ideia do Bem, que é
ciência. A ciência é objetiva; ao conhecimento certo deve
papel da dialética (lógica real, ontológica) esclarecer.
corresponder a realidade.
Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas
Ora, de um lado, os nossos conceitos são universais,
ideias respectivas, assim a multiplicidade das ideias é
necessários, imutáveis e eternos (Sócrates), do outro,
unificada na ideia do Bem.
tudo no mundo é individual, contingente e transitório
(Heráclito). AS ALMAS

Deve, logo, existir, além do fenomenal, outro mundo de A alma, assim como o Demiurgo, desempenha papel de
realidades, objetivamente dotadas dos mesmos atributos mediador entre as ideias e a matéria, à qual comunica o
dos conceitos subjetivos que as representam. movimento e a vida, a ordem e a harmonia, em
dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma.
Todas as ideias existem num mundo separado, o mundo
dos inteligíveis, situado na esfera celeste. A faculdade principal, essencial da alma é a de conhecer
o mundo ideal, transcendental: contemplação em que se
A certeza da sua existência funda-a Platão na
realiza a natureza humana, e da qual depende
necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos
totalmente a ação moral.
conhecimentos e na importância de explicar os atributos
do ente de Parmênides, sem, com ele, negar a existência Segundo Platão, tais funções seriam desempenhadas por
do fieri. outras duas almas - ou partes da alma: a irascível
(ímpeto), que residiria no peito, e a concupiscível
Tal a célebre teoria das ideias, alma de toda filosofia
(apetite), que residiria no abdome - assim como a alma
platônica, centro em torno do qual gravita todo o seu
racional residiria na cabeça.
sistema.
Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são
A METAFÍSICA
subordinadas à alma racional.

Logo, segundo Platão, a união da alma espiritual com o


O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no corpo é extrínseca, até violenta.
mundo divino das ideias; e estas se contrapõem a
A alma não encontra no corpo o seu complemento, o
matéria obscura e incriada.
seu instrumento adequado.
O divino platônico é representado pelo mundo das
Mas a alma está no corpo como num cárcere, o intelecto
ideias e especialmente pela ideia do Bem, que está no
é impedido pelo sentido da visão das ideias, que devem
vértice.
ser trabalhosamente relembradas.
A existência desse mundo ideal seria provada pela
O MUNDO
necessidade de estabelecer uma base ontológica, um
objeto adequado ao conhecimento conceptual. O mundo material, o cosmos platônico, resulta da síntese
de dois princípios opostos, as ideias e a matéria.
Esse conhecimento, aliás, se impõe ao lado e acima do
conhecimento sensível, para poder explicar O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das
verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva ideias eternas, introduzindo no caos a alma, princípio de
realidade. movimento e de ordem.

Visto serem as ideias conceitos personalizados, Da ideia - ser, verdade, bondade, beleza - depende
transferidos da ordem lógica à ontológica, terão tudo quanto há de positivo, de racional no vir-a-ser da
consequentemente às características dos próprios experiência.
conceitos: transcenderão a experiência, serão universais,
Da matéria - indeterminada, informe, mutável, irracional,
imutáveis.
passiva, espacial - depende, ao contrário, tudo que há de
Além disso, as ideias terão aquela mesma ordem lógica negativo na experiência.

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MORAL origina-se a divisão do trabalho e, por consequência, a
distinção em classes, em castas, que representam um
Segundo a psicologia platônica, a natureza do homem é
desenvolvimento social e uma sistematização estável da
racional, e, por consequência, na razão realiza o homem
divisão do trabalho no âmbito de um estado.
a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem,
que é, ao mesmo tempo, felicidade e virtude. Segundo Platão, o estado ideal deveria ser dividido em
classes sociais.
Entretanto, esta natureza racional do homem encontra
no corpo não um instrumento, mas um obstáculo - que Três são, pois, estas classes: a dos filósofos, a dos
Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso guerreiros, a dos produtores, as quais, no organismo do
de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo estado, corresponderiam respectivamente às almas
nos sentidos, a vontade no impulso, e assim por diante. racional, irascível e concupiscível no organismo humano.

Então a realização da natureza humana não consiste em À classe dos filósofos cabe dirigir a república. Com efeito,
uma disciplina racional da sensibilidade, mas na sua final contemplam eles o mundo das ideias conhece a
supressão, na separação da alma do corpo, na morte. realidade das coisas, a ordem ideal do mundo e, por
conseguinte, a ordem da sociedade humana, e estão,
Agir moralmente é agir racionalmente, e agir
portanto, à altura de orientar racionalmente o homem e
racionalmente é filosofar, e filosofar é suprimir o sensível,
a sociedade para o fim verdadeiro.
morrer aos sentidos, ao corpo, ao mundo, para o
espírito, o inteligível, a ideia. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa
do estado, de conformidade com a ordem estabelecida
Em todo caso, visto que a alma humana racional se acha,
pelos filósofos, dos quais e juntamente com os quais, os
de fato, neste mundo, unida ao corpo e aos sentidos,
guerreiros receberam a educação. Os guerreiros
deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao
representam a força a serviço do direito, representado
espírito, para impedir que o primeiro seja obstáculo ao
pelos filósofos.
segundo, à espera de que a morte solte definitivamente
a alma dos laços corpóreos. À classe dos produtores, enfim, - agricultores e artesãos
- submetida às duas precedentes, cabe a conservação
Temos, destarte, uma classificação, uma dedução das
econômica do estado, e, consequentemente, também
famosas quatro virtudes naturais, chamadas depois
das outras duas classes, inteiramente entregues à
cardeais - prudência, fortaleza, temperança, justiça -
conservação moral e física do estado.
sobre a base da metafísica platônica da alma.
Na hierarquia das classes, a dos trabalhadores ocupa o
Quanto ao destino das almas depois da morte, eis o
ínfimo lugar, pelo desprezo com que era considerado
pensamento de Platão: em geral, o destino da alma
por Platão - e pelos gregos em geral - o trabalho
depende da sua filosofia, da razão; em especial, depende
material.
da religião, dos mistérios órfico-dionisíacos.
Na concepção ideal, espiritual, ética, ascética do estado
platônico, pode causar impressão, à primeira vista, o
A POLÍTICA comunismo dos bens, das mulheres e dos filhos, que

Os escritos em que Platão trata especificamente do Platão propugna para as classes superiores.

problema da política, são a República, o Político e as Leis. Entretanto, Platão foi levado a esta concepção política -

Na República, a obra fundamental de Platão sobre o tornada depois sinônimo de imanentismo, materialismo,

assunto, traça o seu estado ideal, o reino do espírito, da ateísmo - não certamente por estes motivos, mas pela

razão, dos filósofos, em chocante contraste com os grande importância e função moral por ele atribuída ao

estados e a política deste mundo. estado, como veículo dos valores transcendentais da
ideia. Ao contrário, o estado em nada se interessa - ao
Qual é, pois, a justificação da sociedade e do estado?
menos positivamente - pelo povo, pelo vulgo, pela
Platão acha-a na própria natureza humana, porquanto
plebe, cuja formação é inteiramente material e
cada homem precisa do auxílio material e moral dos
subordinada, consistindo sua virtude apenas na
outros. Desta variedade de necessidades humanas

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obediência, visto a alma concupiscível estar sujeita à alma Atenas e ingressou na academia platônica, onde ficou
racional. por vinte anos, até à morte do Mestre. Nesse período
estudou também os filósofos pré-platônicos, que lhe
Platão reconhece a importância da ginástica, mas não
foram úteis na construção do seu grande sistema.
passa de uma importância instrumental e parcial, pois o
prevalecer da cultura física do corpo torna os homens De volta a Atenas, em 335, treze anos depois da morte
grosseiros e materiais. de Platão, Aristóteles fundava perto do templo de Apolo
Lício, a sua escola. Esta escola seria a grande rival e a
Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios
verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia
físicos, que foi um dos indícios da decadência grega.

A RELIGIÃO E A ARTE

A ideia do Bem seria o centro da religião platônica.

Seu culto essencial é representado pela ciência e,


portanto, pela virtude que deriva necessariamente da
ciência. Entretanto, este absoluto - o Bem e as ideias -
embora transcendente, espiritual e ético, não pode
tornar-se objeto de religião, nem sequer da religião
Figura-Fonte: https://www.frasescurtas.com.br/2017/02/frases-aristoteles.html
assim chamada natural, dadas a sua impessoalidades e
inatividade a respeito do mundo. platônica. Aristóteles, malvisto pelos atenienses, foi
acusado de ateísmo.
Quanto à avaliação da religião positiva, Platão hostiliza o
antro morfismo, até querer banidos de seu estado ideal A respeito do caráter de Aristóteles, inteiramente
os poetas, inclusive Homero, pelos mitos fantásticos e recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico,
imorais, narrados em torno dos deuses e dos heróis. sem se deixar distrair por motivos práticos ou
sentimentais, temos naturalmente muito menos a revelar
É um politeísmo estranho, cujas divindades são os astros
do que em torno do caráter de Platão, em que, ao
e o cosmo, animados e racionais, os assim chamados
contrário, os motivos políticos, éticos, estéticos e místicos
deuses visíveis, subordinados ao Demiurgo, bem como à
tiveram grande influência.
ideia do Bem e às outras ideias.
Do diferente caráter dos dois filósofos, dependem
Platão pode, pois, conservar - reformada e purificada - a
também as vicissitudes exteriores das duas vidas, mais
religião helênica, como religião do seu estado ideal. As
uniforme e linear a de Aristóteles, variada e romanesca a
doutrinas estéticas de Platão são algo oscilante entre
de Platão.
uma valorização e uma desvalorização da arte.
Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura, de
Em todo caso, no conjunto do seu pensamento, em
estudo, de pesquisas, de pensamento, que se foi
oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego,
isolando da vida prática, social e política, para se dedicar
prevalece a desvalorização por dois motivos, teorético
à investigação científica.
um, prático outro.
O grande estagirita explorou o mundo do pensamento
O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de
em todas as suas direções.
uma cópia: cópia do mundo empírico, que é já uma
cópia do mundo ideal; cópia não de essências, como a Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos
ciência, mas de fenômenos. Por consequência, a arte restam, poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade
deveria ser, gnosiologicamente, inferior à ciência. “literária".

ARISTÓTELES Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do


modo seguinte, tendo presente a edição de Andronico
Este grande filósofo grego, filho de Nicômaco, médico
de Rodes.
de Amintas, rei da Macedônia, nasceu em Estagira,
colônia grega da Trácia, no litoral setentrional do mar ESCRITOS LÓGICOS: cujo conjunto foi denominado
Egeu, em 384 a.C. Aos dezoito anos, em 367, foi para Órganon mais tarde, não por Aristóteles. O nome,

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entretanto, corresponde muito bem à intenção do autor, objeto o universal e o necessário; pois não pode haver
que considerava a lógica instrumento da ciência. ciência em torno do individual e do contingente,
conhecidos sensivelmente.
É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles
mediante seus apontamentos manuscritos, referentes à Sob o ponto de vista metafísico, o objeto da ciência
metafísica geral e à teologia. O nome de metafísica é aristotélica é a forma, como ideia era o objeto da ciência
devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico, platônica.
que a colocou depois da física.
No sentido estrito, a filosofia aristotélica é dedução do
ESCRITOS MORAIS E POLÍTICOS: a Ética a Nicômaco, em particular pelo universal, explicação do condicionado
dez livros, provavelmente publicada por Nicômaco, seu mediante a condição, porquanto o primeiro elemento
filho, ao qual é dedicada; a Ética a Eudemo, inacabada, depende do segundo.
refazimento da ética de Aristóteles, devido a Eudemo; a
Também aqui se segue a ordem da realidade, onde o
Grande Ética, compêndio das duas precedentes, em
fenômeno particular depende da lei universal e o efeito
especial da segunda; a Política, em oito livros,
da causa.
incompleta.
Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente
Escritos retóricos e poéticos: a Retórica, em três livros; a
este processo de derivação ideal, que corresponde a
Poética, em dois livros, que, no seu estado atual, é
uma derivação real.
apenas uma parte da obra de Aristóteles.
Segundo Aristóteles, entretanto, de cujo sistema é
O PENSAMENTO
banido toda forma de inatismo, também os elementos
Segundo Aristóteles, a filosofia é essencialmente primeiros do conhecimento - conceito e juízos - devem
teorética: deve decifrar o enigma do universo, em face ser, de um modo e de outro, tirados da experiência, da
do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do representação sensível, cuja verdade imediata ele
mistério. defende, porquanto os sentidos por si nunca nos
enganam.
O seu problema fundamental é o problema do ser, não
o problema da vida. FILOSOFIA DE ARISTÓTELES

O objeto próprio da filosofia, em que está a solução do Partindo como Platão do mesmo problema acerca do
seu problema, são as essências imutáveis e a razão valor objetivo dos conceitos, mas abandonando a
última das coisas, isto é, o universal e o necessário, as solução do mestre, Aristóteles constrói um sistema
formas e suas relações. inteiramente original.

A filosofia aristotélica é, portanto, conceptual como a de Os caracteres desta grande síntese são:
Platão, mas parte da experiência; é dedutiva, mas o
Observação fiel da natureza - Platão, idealista, rejeitara a
ponto de partida da dedução é tirado - mediante o
experiência como fonte de conhecimento certo. Pode
intelecto da experiência.
considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia
A filosofia, pois, segundo Aristóteles, dividir-se-ia em científicas.
teorética, prática e poética, abrangendo, destarte, todo o
Unidade do conjunto - Sua vasta obra filosófica constitui
saber humano, racional.
um verdadeiro sistema, uma verdadeira síntese. Este vir-
Aristóteles é o criador da lógica, como ciência especial, a-ser, passagem da potência ao ato, requer finalmente
sobre a base socrático-platônica; é denominada por ele um não-vir a ser, motor imóvel, um motor já em ato, um
analítica e representa a metodologia científica. ato puro enfim, pois, de outra forma teria que ser
movido por sua vez.
Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas
gerais da lógica de Aristóteles, porque aí está a sua A necessidade deste primeiro motor imóvel não é
gnosiologia. absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser, do
movimento, do mundo.
Foi dito que, em geral, a ciência, a filosofia - conforme
Aristóteles, bem como segundo Platão - tem como Da análise do conceito de Deus, concebido como

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primeiro motor imóvel, conquistado através do necessários para isso.
precedente raciocínio, Aristóteles, pode deduzir
O estado é um organismo moral, condição e
logicamente a natureza essencial de Deus, concebido,
complemento da atividade moral individual, e
antes de tudo, como ato puro, e, consequentemente,
fundamento primeiro da suprema atividade
como pensamento de si mesmo.
contemplativa.
Deus é unicamente pensamento, atividade teorética, no
A política, contudo, é distinta da moral, porquanto esta
dizer de Aristóteles, enquanto qualquer outra atividade
tem como objetivo o indivíduo, aquela a coletividade. A
teria fim extrínseco, incompatível com o ser perfeito,
ética é a doutrina moral individual, a política é a doutrina
autossuficiente.
moral social.
Deus é, portanto, pensamento de pensamento,
Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política,
pensamento de si, que é pensamento puro. De Deus
de que acima se falou.
depende a ordem, a vida, a racionalidade do mundo; ele,
porém, não é criador, nem providência do mundo. O estado, então, é superior ao indivíduo, porquanto a
coletividade é superior ao indivíduo, o bem comum
A MORAL
superior ao bem particular.
Aristóteles trata da moral em Éticas, de que se falou
Segundo Aristóteles, a família compõe-se de quatro
quando das obras dele.
elementos: os filhos, a mulher, os bens, os escravos;
Consoante sua doutrina metafísica fundamental, todo ser além, naturalmente, do chefe a que pertence a direção
tende necessariamente à realização da sua natureza, à da família.
atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim, o
Deve ele guiar os filhos e as mulheres, em razão da
seu bem, a sua felicidade, e, por consequência, a sua lei.
imperfeição destes.
Visto ser a razão a essência característica do homem,
Não obstante a sua concepção ética do estado,
realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso
Aristóteles, diversamente de Platão, salva o direito
disto consciente. Logo, o fim do homem é a felicidade, a
privado, a propriedade particular e a família.
que é necessária à virtude, e a esta é necessária a razão.
O comunismo como resolução total dos indivíduos e
A característica fundamental da moral aristotélica é,
dos valores no estado é fantástico e irrealizável.
portanto, o racionalismo, visto ser a virtude ação
consciente segundo a razão, que exige o conhecimento Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas, e,

absoluto, metafísico, da natureza e do universo, natureza precisamente, duas classes reconhece: a dos homens

segundo a qual e na qual o homem deve operar. livres, possuidores, isto é, a dos cidadãos e a dos
escravos, dos trabalhadores, sem direitos políticos.
A virtude ética não é, pois, razão pura, mas uma
aplicação da razão; não é unicamente ciência, mas uma A RELIGIÃO E A ARTE

ação com ciência. Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. No

Como já foi mencionado, Aristóteles distingue duas entanto, este Deus, pelo seu efetivo isolamento do

categorias fundamentais de virtudes: as éticas, que mundo, que ele não conhece, não cria, não governa, não

constituem propriamente o objeto da moral, e as está em condições de se tornar objeto de religião, mais

dianoéticas, que a transcendem. do que as transcendentes ideia platônicas.

Noutras palavras, Aristóteles sustenta o primado do Não obstante esta concepção filosófica da divindade,

conhecimento, do intelecto, da filosofia, sobre a ação, à Aristóteles admite a religião positiva do povo, até sem

vontade, a política. correção alguma.

A POLÍTICA Explica e justifica a religião positiva, tradicional, mítica,


como obra política para moralizar o povo, e como fruto
A política aristotélica é essencialmente unida à moral,
da tendência humana para as representações
porque o fim último do estado é a virtude, isto é, a
antropomórficas; e não diz que ela teria um fundamento
formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios

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racional na verdade filosófica da existência da divindade, ............................................................................................................
a que o homem se teria facilmente elevado através do ............................................................................................................
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Figura-Fonte: http://www.recadox.com.br/frases/aristoteles/5884fTRf7rjXRo.html
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espetáculo da ordem celeste. ............................................................................................................
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Aristóteles como Platão considera a arte como imitação,
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de conformidade com o fundamental realismo grego.
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Não, porém, imitação de uma imitação, como é o ............................................................................................................
fenômeno, o sensível, platônicos; e sim imitação direta da ............................................................................................................
própria ideia, do inteligível imanente no sensível, ............................................................................................................
imitação da forma imanente na matéria. ............................................................................................................
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O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como
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é o caso da história, mas o que por natureza deve,
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necessária e universalmente, acontecer.
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Deste seu conteúdo inteligível, universal, depende a ............................................................................................................
eficácia espiritual pedagógica, purificadora da arte. ............................................................................................................

Nosso profundo desejo de detalhar todo conteúdo da ............................................................................................................

história da filosofia antes da exposição da filosofia da ............................................................................................................

religião nos trás grande desapontamento, mas temos ............................................................................................................

que reconhecer que nosso espaço é curto e, por isso, ............................................................................................................

precisamos citar apenas fragmentos da história da ............................................................................................................

filosofia. ............................................................................................................
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ANOTAÇÕES
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CAPÍTULO 6 - A METAFÍSICA

6.1 DEFINIÇÃO princípios e as causas mais elevadas", e, por isso, merece


ser chamada "filosofia primeira não só por sua
Denominada filosofia primeira, por Aristóteles, a
anterioridade e primazia sobre todas as formas de saber,
metafísica é a ciência das primeiras causas e dos
senão também pela anterioridade do seu objeto, a
primeiros princípios, isto é, a ciência que estuda os
substância imóvel, o ser em geral, fundamento dos seres
problemas que transcendem a realidade materiais e
particulares.
sensíveis.
A Idade Média aceitou o conceito aristotélico de
A palavra metafísica foi empregada, pela primeira vez,
metafísica.
por Andrônico de Rodes para designar os livros de
Aristóteles que vinham depois da física. Na Idade Moderna, Bacon considerou-a "ciência das
causas formais e finais", ao contrário da física, ciência das
Os filósofos medievais serviram-se dessa expressão para
causas eficientes e materiais.
indicar a parte da filosofia que trata das coisas que
ultrapassam a experiência sensível. Descartes fez das "coisas imateriais" sobretudo da alma e
de Deus, o objeto fundamental da metafísica.
A metafísica, embora se possa inspirar nos dados das
ciências experimentais, para ultrapassá-los e atingir a No século XVIII, com o progresso das ciências naturais e
essência das coisas, não se confunde com nenhuma com a eclosão das ideias racionalistas e enciclopedistas, a
dessas ciências, uma vez que sua finalidade é estudar as metafísica foi relegada ao abandono.
conclusões últimas a que nos pode levar o estudo dos
Kant procurou reabilitá-la, mas limitou sua esfera de
seres e fenômenos.
ação, pois negou a possibilidade do conhecimento
6.2 DIVISÃO objetivo.

A metafísica é dividida, geralmente, em três grandes Augusto Comte quis eliminar a metafísica ao admitir que
partes: somente as coisas sensíveis podem ser conhecidas.

- A crítica do conhecimento, que estuda a natureza, as 6.4 MÉTODO DA METAFÍSICA


possibilidades e os limites do conhecimento humano;

- A ontologia, que estuda os princípios constitutivos cio


ser e as condições mais gerais de toda a realidade;

- A teodicéia, que estuda, à luz da razão humana, a


existência, a natureza e a ação de Deus.

6.3 A NATUREZA DA METAFÍSICA

Na Antiguidade, a metafísica foi considerada como a


ciência que estuda as verdades que estão "além da
física".

"Há uma ciência, diz Aristóteles, que investiga o ser


enquanto ser e seus atributos essenciais. Esta ciência não Figura-Fonte: https://www.pinterest.co.uk/pin/476677941795276700/?lp=true

se confunde com nenhuma das chamadas ciências A metafísica se baseia na experiência.


particulares, pois elas não consideram, geralmente, o ser
Seu objeto não é uma simples ideia abstrata, mas o ser
como tal, e sim, unicamente, uma parte do mesmo".
existente e real. Ora, o conhecimento da existência e
Ao contrário, esta ciência pesquisa "os primeiros natureza de um ser real deve partir da observação.

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Somente através dos dados sensoríais, externos e Quatro doutrinas buscam resolver a questão do
internos, poderá a inteligência, por meio do raciocínio, conhecimento da verdade: O dogmatismo, o ceticismo,
atingir o ser universal em seus princípios e suas causas. o probabilismo e o pragmatismo.

6.5 VALOR DA METAFÍSICA O dogmatismo afirma que a verdade existe e que


podemos conhecê-la. É uma doutrina de realismo e de
A metafísica não representa uma construção arbitrária,
bom senso que a razão e a experiência confirma.
uma obra artística, ou uma crença irracional.
O ceticismo afirma que não podemos ter certeza de
Constitui, ao contrário, uma ciência autêntica e o seu
coisa alguma. A única atitude do espírito deve ser a
objeto, o ser universal, por se achar acima da matéria e
dúvida universal.
subtraído à mudança, não acarreta as causas do erro
provenientes dos objetos em perpétua transformação.

A metafísica vem ao encontro da necessidade natural da


inteligência humana de conhecer o porquê das coisas e
de penetrar no fundo da realidade.

A origem, a natureza e o destino do homem são


problemas que empolgam todos os espíritos. Por isso
todos os homens se preocupam com questões
metafísicas, mesmo sem o saberem.

É que até os problemas mais simples e materiais da


existência humana implicam em última análise, princípios
de ordem metafísica.
Figura-Fonte: http://thescienceoftheinvisible.blogspot.com/2017/02/probabilismo.html
CRÍTICA DO CONHECIMENTO
O probabilismo afirma que só podemos atingir a
Crítica do conhecimento, também chamada noética ou
verossimilhança, mas nunca a verdade. Nossos juízos são
gnoseologia, é a explicação ou interpretação filosófica do
apenas prováveis, mas nunca certos.
conhecimento humano.
O pragmatismo afirma que não cabe à inteligência
Seu objetivo é a determinação da natureza, dos limites e
conhecer as coisas e sim mostrar a utilidade das mesmas.
das possibilidades do conhecimento.
A verdade se caracteriza pela utilidade ou pela eficácia
Representa, por conseguinte, uma introdução necessária que possa ter para a ação.
ao estudo da metafísica uma vez que está somente se
Dessas doutrinas, a única aceitável é a do dogmatismo
poderá constituir, com autoridade e prestígio, baseada
moderado, que admite certa relatividade na aquisição da
na certeza e legitimidade de suas investigações.
certeza.
A crítica do conhecimento tem por objeto a
Três doutrinas procuram elucidar o problema do âmbito
determinação da natureza, dos limites e das
do conhecimento:
possibilidades do conhecimento.
O sensualismo ou empírico, o idealismo e, o realismo.
Embora os problemas do conhecimento tenham sido
considerados pelos filósofos da Antigüidade e da Idade O sensualismo admite que todas as nossas ideias provêm

Média, a crítica do conhecimento só surgiu como unicamente dos sentidos.

disciplina autônoma, na Idade Moderna, tendo sido Kant O idealismo admite que só podemos atingir as ideias e
seu principal sistematizador. que o mundo é simples representação.

A crítica do conhecimento procura saber: O realismo defende a realidade do mundo exterior e

1º) se somos capazes de conhecer a verdade; admite a existência do objeto distinto do sujeito. A razão,
a experiência e o senso comum atestam a veracidade da
2º) qual a extensão do nosso conhecimento.
tese realista

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CAPÍTULO 7- TEODICÉIA

7.1 DEFINIÇÃO existência perfeita: Deus abrange em sua natureza a


plenitude do ser e da perfeição;

causalidade universal: Deus é a razão de ser e a causa


primeira de tudo o que existe.

Interessa, por conseguinte, a teodicéia conhecer a


natureza, os atributos e as relações de Deus com o
universo. Dai dividisse o seu estudo em três partes
fundamentais:

- Existência de Deus;

- Natureza e atributo de Deus;

- Relações de Deus com o mundo.

ARGUMENTO ONTOLÓGICO
Figura-Fonte: https://pt.slideshare.net/daniel.luz/a-origem-do-mal

Os ontologistas proclamam que não é necessário


Segundo sua etimologia, teodiceía significa justificação
demonstrar a existência de Deus, pois, na sua opinião, a
de Deus. Esta denominação foi, a princípio, reservada às
existência de Deus é evidente por si mesma e que não se
obras destinadas a defender a Providência contra as
demonstra a evidência.
dificuldades suscitadas pelo problema do mal.
Certos ontologistas (Malebranche, Gioberti) admitem que
Mais tarde, teodicéia tornou-se sinônimo de teologia
temos a intuição de Deus na intuição do ser universal,
natural, aplicando-se ao estudo de Deus pela razão.
donde o nome de ontologismo conferido a essa
A teodicéia representa, portanto, uma ciência racional doutrina.
porque se baseia nos recursos naturais na inteligência
Outros (Sto. Anselmo, Descartes) se limitam a afirmar
humana. Distingue-se da teologia que estuda Deus à luz
que a existência de Deus é evidente a priori, bastando
dos dados da Revelação.
para isso compreender o que significa a palavra Deus.
MÉTODO

Devido ao caráter transcendente do seu objeto, a


teodicéia não é uma ciência experimental, como a física
ou a química.

Não representa também uma ciência abstrata e a priori,


como a geometria, pois seu objeto não é uma simples
abstração e sim a mais real e concreta das realidades.
Sendo Deus absoluto e real, infinito e concreto, e só Figura-Fonte: https://www.revistaplaneta.com.br/sem-fe-nem-deus/

podendo ser apreendido pelos seus efeitos, a melhor Com efeito, dizem eles, a palavra Deus quer dizer "O Ser
maneira de estudá-lo é partir da observação dos fatos que tem todas as perfeições". Ora, a existência e uma
para daí subir, por meio da razão, até o infinito e perfeição, logo Deus existe. Não se pode, portanto,
absoluto. conceber Deus, sem apreender ao mesmo tempo, sua

DIVISÃO existência.

A ideia de Deus compreende três noções: O argumento ontológico é falso. A intuição do ser
universal ou inteligível não representa a intuição de Deus
essência absoluta: Deus existe por si, independente de
ou do Ser infinitamente perfeito, mas apenas a intuição
toda causa;
do ser indeterminado.
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Por outro lado, não é evidente para todos, mesmo entre não tem em si próprio a razão suficiente de sua
os deístas, que Deus seja um ser absolutamente perfeito. existência, que não poderia ter-se originado do nada ou
do acaso —, só pode existir pela ação de um Criador
Muitos filósofos têm confundido Deus com o mundo e
incriado, eterno e necessário que é Deus.
certos povos têm emprestado uma natureza divina aos
astros, aos animais, etc. A existência do movimento — O movimento existe no
mundo. Ora, o movimento não é essencial, mas acidental
Além disso, o argumento ontológico constitui um
à matéria. A existência do movimento precisa, para sua
verdadeiro sofisma, pois passa, indevidamente, da ordem
explicação, de um primeiro motor imóvel, princípio
lógica
necessário e imutável de todo movimento.
O ARGUMENTO FIDEÍSTA E AGNÓSTICO
O dinamismo incessante do universo supõe um impulso
Os fideístas admitem que a existência de Deus é um inicial que só poderia ter sido dado por Deus.
problema que ultrapassa os recursos da razão humana,
A existência da vida — A vida existe sobre a terra. Ora, a
só podendo, por isso, ser resolvido pela fé.
terra não tendo possuído sempre seres vivos, como
Os agnósticos negam à razão e a fé o poder de provar a provam as observações geológicas; a vida só podendo
existência de Deus. Na sua opinião, nosso conhecimento originar-se da vida, como atestam as experiências
não vai além da experiência sensível. biológicas; os seres vivos só podendo gerar seres

Logo, tudo que transcende o plano dos sentidos é semelhantes a si mesmos, — como explicar a existência

inacessível ao conhecimento humano e, portanto, da vida em todos os seus graus, sem a intervenção de

indemonstrável. É o caso da existência de Deus. um poder superior às forças da matéria, de um ser


criador transcendente, enfim, de Deus?
Ora, como mostra S. Tomás, nosso conhecimento de
Deus tem, realmente, uma origem sensível, pois parte A existência da ordem do universo — Todo efeito em

dos efeitos sensíveis do poder divino. que se verifica a escolha de meios adequados para
atingir um fim, supõe uma causa inteligente. Toda ordem
Sob esse aspecto, não podemos ter um conhecimento
implica uma razão ordenadora.
perfeito de Deus, pois não existe nenhuma proporção
entre a natureza divina e suas obras sensíveis. Ora, no universo, quer no seu conjunto ou nas suas
partes, quer na sua natureza física, orgânica ou psíquica,
Mas a demonstração fornecida por essas obras nos
vamos encontrar uma coordenação harmoniosa e
permite conhecer Deus como causa das mesmas.
perfeita de meios e de fins.
Por conseguinte, ao contrário do que supõem os
Logo, a existência da ordem do universo prova a
fideístas e agnósticos, a inteligência humana, partindo
existência de uni ordenador perfeito, de uma causa
dos efeitos sensíveis, pode elevar-se, por meio do
infinitamente sábia que é Deus.
raciocínio, até à natureza e atributos da Causa Primeira
da realidade universal. PROVAS MORAIS

PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS A existência da lei moral — Todo ser livre tende a
realizar, na medida do possível, seu fim particular que é
Dividem-se as provas da existência de Deus em provas
o bem moral, e seu fim universal que é o bem supremo.
metafísicas e provas morais, conforme parte da realidade
objetiva do universo ou da realidade moral. A lei moral’ ou princípio do dever existe e se impõe à
nossa razão e à nossa vontade: o homem tem a noção
Na verdade, porém toda prova de Deus é metafísica,
do dever, que o impele a fazer o que é bom e evitar o
uma vez que a existência de Deus não é objeto de
que é mau.
apreensão intuitiva e só pode ser demonstrada à luz de
princípios metafísicos. Ora, essa lei — que não poderia provir do mundo físico,
nem da natureza humana, mas que existe formada em
PROVAS METAFÍSICAS
nossa consciência —, supõe uma causa e uma
A existência do mundo - O Mundo existe. Ora, o mundo, autoridade, que tenham os mesmos caracteres que ela,
— que é contingente, que não existe por si mesmo, que
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isto é, que sejam universais, imutáveis e eternas. tão real e viva como qualquer outra inclinação física,
intelectual ou social.
Logo, como não há lei sem legislador, obrigação sem
autoridade, e autoridade sem um ser real que a exerça, Deve, portanto, possuir uma causa e um objeto reais:
Deus existe como causa suprema da noção do dever, e uma causa soberanamente boa, inteligente e perfeita e
como autoridade que confere ao princípio do dever o um objeto com idênticos caracteres.
seu caráter imperativo absoluto.
Ë para essa causa e para esse objeto, aureolado por tais
O mérito e o demérito — Todo ato conforme ou caracteres, que o sentimento religioso impele,
contrário à lei moral merece uma recompensa ou irresistivelmente, a nossa alma.
penalidade proporcional ao seu grau de bondade ou
Por conseguinte, Deus existe como causa e objeto do
maldade.
sentimento religioso e das aspirações superiores da alma
Por conseguinte, o princípio do mérito e do demérito humana.
existe e nosso espírito o concebe como complemento
A experiência mística — Certas almas privilegiadas,
necessário do princípio do dever.
profundamente religiosas, como São Paulo, São
Ora, esse princípio que não deriva do mundo físico ou da Francisco de Assis, Santa Teresa, São João da Cruz, etc.,
natureza humana; que é universal, imutável e eterno têm afirmado ter estado em contacto direto e vivo com
como o princípio do dever; que não constitui apenas um Deus, de uma maneira que ultrapassa todos os meios de
fato intelectual, mas a garantia absoluta duma sanção expressão humana.
perfeita, adequada à lei moral, implica a existência de
Nesse "contato experimental" tiveram o ensejo de
uma causa real e absoluta, isto é, Deus.
desfrutar, com irresistível evidência, a presença soberana
O consentimento universal - A ideia de Deus não é de Deus.
apanágio dos filósofos e dos cientistas, nem urna noção
Poderíamos admitir, sem dúvida, como observa Jolivet,
moderna ou um conceito da civilização ocidental.
que essa "experiência mística" constitui simples ilusão.
"Ê uma ideia universal no tempo e no espaço".
Mas essa interpretação se apresenta cheia de
Em todos os quadrantes da terra, em todas as formas de dificuldades insuperáveis quando atentamos para o fato
cultura, em todos os povos, ao longo de toda a história, de a referida experiência se ter realizado com espíritos
sábio ou ignorante tem declarando sua crença num lúcidos e sadios, com caracteres retos, puros e leais, com
Senhor soberano do universo. pessoas cuja vida foi sempre um modelo de equilíbrio,
de elevação e de bondade.
"Nem as mitologias, observa Jolivet, por vezes tão
estranhas, onde se manifesta a crença em Deus, nem o O argumento baseado no fato místico consistirá,
ateísmo que se encontra na história, sobretudo portanto, em dizer que essa experiência mística das
contemporânea, podem dissimular o fato indiscutível do grandes almas cristãs é absolutamente inexplicável sem a
consentimento unânime do gênero humano cm torno da intervenção de Deus.
existência de Deus".
Não é possível acreditar que todos esses espíritos
As aspirações da alma humana — O sentimento religiosos se tenham enganado ao afirmarem, com
religioso, isto é, o conjunto das aspirações que levam o convicção serena e inabalável, a existência das mesmas
homem a procurar, além dos seres finitos, um ser infinito, realidades sobrenaturais que conheceram por
perfeito e absoluto, onde possa realizar a satisfação experiência pessoal.
plena e integral das suas tendências para a verdade, para
Resta apenas concluir, com Bergson, que há, na
a beleza e para a bondade, existe em todas as criaturas
unanimidade dos grandes místicos cristãos, ao
humanas e aparece com um relevo mais acentuado nas
descreverem suas experiências, "o sinal de uma
almas mais puras, inteligentes e livres.
identidade de intuição" que só se explica "pela existência
Ora, esse sentimento que representa um dos elementos real do Ser e com o qual (os místicos) se crêem em
constitutivos da natureza do homem é urna tendência comunicação."

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NATUREZA E ATRIBUTOS DE DEUS infinitamente uno e indivisível. Mas é também
absolutamente único. Supor dois ou mais Deuses
igualmente perfeitos, seria absurdo. Dois Deuses seriam
idênticos e então se confundiriam, ou seriam diferentes e
então não poderiam ser ambos infinitamente perfeitos.

Imensidade — Sendo infinito, Deus não pode ser


circunscrito ou limitado por qualquer coisa. A imensidade
é a perfeição infinita pela qual Deus, sem ser extenso, ou
ocupar algum espaço, porque é absolutamente simples,
o enche integralmente com a sua presença e
Figura- Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=z3OBLdZ9lIk
onipotência.
Natureza de Deus — O homem pode elevar-se, por
Imutabilidade — Toda mudança constitui um progresso
meio de sua inteligência, até o conhecimento da
ou uma decadência. Só mudam e se transformam os
natureza divina. Para isso, utiliza-se dos efeitos dessa
seres imperfeitos. Sendo necessariamente perfeito, Deus
natureza na realidade universal.
é imutável, isto é, permanece necessariamente idêntico a
Como os efeitos apresentam sempre alguma semelhança si mesmo, sem nenhuma mudança ou variação.
com a causa que os produziu, nosso conhecimento da
Eternidade — Sendo necessário e infinito, Deus não tem
natureza divina é, sem dúvida, real.
começo nem fim. Só possuem duração limitada os seres
Mas permanece incompleto e imperfeito, uma vez que imperfeitos. Deus, sendo infinitamente perfeito, é eterno.
uma coisa só pode ser conhecida perfeitamente quando Não tem passado, futuro nem presente.
considerada em si mesma.
ATRIBUTOS OPERATIVOS
Como Deus é perfeição absoluta e infinita e nossa
Inteligência — Sendo tudo, em Deus, infinito, sua
inteligência relativa e limitada, jamais poderemos
inteligência e sua ciência são também infinitas. Para
aprender a natureza divina na plenitude dos seus
saber, Ele não precisa raciocinar. Tudo vê e conhece por
atributos.
intuição direta e imediata.
Atributos de Deus — Podemos distinguir em Deus três
Vontade — A vontade divina não possui limite e é livre
espécies de atributos:
de todo obstáculo. A Deus basta querer para fazer. Age
- atributos entitativos ou metafísicos, que nos mostram com absoluta independência e sem contradição. Deus é
Deus como ser e substância absolutos; onipotente.

- atributos operativos, que no-lo revelam como ser ATRIBUTOS MORAIS


espiritual em suas operações ou atos;
Sabedoria — A inteligência infinitamente perfeita de
- atributos morais, que no-lo manifestam como pessoa Deus gera a sabedoria absoluta que o faz empregar os
moral. meios mais eficazes para os fins mais dignos. Deus tudo
governa com inteligência, segurança e ordem.
ATRIBUTOS ENTITATIVOS
Bondade — Deus é amor infinito e perfeito. Ama as
Simplicidade — Deus não é composto de partes, pois
coisas segundo seu valor e na proporção do seu mérito.
toda composição implica imperfeição. O composto
Sendo o Bem supremo, ama a si mesmo e a todos os
depende, necessariamente, dos elementos que o
seres criados, na medida em que participam da sua
constituem. Deus é, portanto, perfeitamente simples.
infinita perfeição, isto é, que imitam sua essência divina.
Infinidade — Deus é infinito, isto é, sem limite em seu
Justiça — Sendo em grau infinito, inteligente, sábio e
ser, pois é o ser por si, o ser que existe por sua própria
bom, Deus é justo. Possuindo santidade absoluta que é
essência. Nada existe além e acima de Deus1 que de
ordem do amor, Ele age com justiça infinitamente
nada depende e ao qual tudo esta subordinado.
perfeita. Por isso, pune o mal e recompensa o bem.
Unicidade — Sendo infinitamente simples, Deus é

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RELAÇÕES DE DEUS COM O MUNDO transcendente ao mundo.

Deus e o mundo. — Na explicação das relações de Deus Isto significa que Deus está unido ao mundo que criou,
com o mundo, cumpre-nos evitar os seguintes erros: mas dele se distingue como realidade independente.

a) O dualismo, que admite a coexistência de dois Sendo a Causa Primeira de tudo o que existe, Deus é
princípios, um de perfeição e outro de imperfeição, imanente pela sua presença continua e atuante, pois os
ambos eternos e necessários, concorrendo ambos para a seres existem e subsistem pela influência constante do
formação do mundo; seu poder criador e providencial.

b) O anteísmo, que afirma a identidade substancial de Essa imanência não deve ser entendida como
Deus e do mundo; identificação com o mundo, o que seria incidir no erro
panteísta.
c) O antropomorfismo, que humaniza Deus ou diviniza
o homem; A imanência ou presença divina não exclui a
transcendência, isto é, a absoluta independência de Deus
O dualismo é a negação da natureza divina; o panteísmo
no universo e o seu absoluto domínio sobre todas as
é contrário à experiência e à realidade moral; o
coisas.
antropomorfismo é absurdo dada a contingência e
imperfeição do homem. O exame da natureza e atributos divinos que acabamos
de realizar nos leva à conclusão de que Deus, sendo um
CRIAÇÃO E PROVIDÊNCIA
Ser infinito, substancialmente distinto do universo que
As relações entre Deus e o mundo são explicadas de criou, conserva e dirige, é um Ser pessoal, isto é, dotado
maneira racional tela doutrina da criação e da de uma personalidade autônoma, inteligente e livre.
providência.

Segundo a concepção criacionista, Deus, pelo seu poder


ANOTAÇÕES
e bondade infinitos, tirou o inundo do nada, isto é, sem
perda da sua substância, deu existência ao mundo. ............................................................................................................
............................................................................................................
Segundo a concepção providencialista, Deus não
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abandonou o mundo depois de criá-lo.
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Figura-Fonte: http://deamigoalider.blogspot.com/2013/03/descoberta-espiritual-amigo-1- ............................................................................................................
criacao.html
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Contínua, ao contrário, influir, a todo o momento, sobre
............................................................................................................
o mundo, com sabedoria e amor, para conservar e dirigir
............................................................................................................
no sentido dos fins estabelecidos pela ordem da criação.
............................................................................................................
IMANÊNCIA E TRANSCENDÊNCIA ............................................................................................................
............................................................................................................
O estudo da natureza de Deus e das suas relações com
............................................................................................................
o universo nos mostra que Ele é imanente e

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CAPÍTULO 8 - O PENSAMENTO MODERNO

8.1 TRANSCENDÊNCIA CRISTÃ E IMANÊNCIA MODERNA clássicas e menos ortodoxas de síntese entre cristianismo
e neoplatonismo (Pseudo Dionísio, Scoto Erígena, Mestre
Eckart, etc.).

E, por outra parte, o pensamento tradicional, helênico-


escolástico, aristotélico-tomista, encontrará nos grandes
valores da civilização moderna (a ciência natural, a
técnica, a história, a política) sua integração lógica.

O valor da ciência moderna não é teorético,


especulativo, metafísico, mas empírico e técnico.

Tal era também o pensamento do grande fundador da


ciência moderna, Galileu Galilei, que afirmava ser o
objeto da ciência não as essências metafísicas das coisas,
Figura-Fonte:http://brunopontescosta.blogspot.com/2011/05/voce-sabe-diferenca-entre-
imanencia-e.html e sim os fenômenos naturais, experimentalmente
provados e matematicamente conexos.
Achamos a característica específica do pensamento
clássico na solução dualista do problema metafísico. E destes conhecimentos experimentais e matemáticos de
fenômenos naturais derivava ele as primeiras grandes
Existem o mundo e Deus, mas são separados entre si:
aplicações técnicas da ciência moderna.
Deus não conhece, não cria, não governa o mundo.
Aplicações técnicas que possuem também um valor
Tal dualismo não será negado, mas desenvolvido no
espiritual, o do domínio natural do homem sobre a
pensamento cristão mediante o conceito de criação, em
natureza: contanto que o homem reconheça,
virtude da qual é ainda afirmadas a realidade e a
naturalmente, acima de si e de tudo, Deus.
distinção entre o mundo e Deus, mas Deus é feito
criador e regedor do mundo: o mundo não pode ter O que dissemos da ciência pode dizê-lo analogamente
explicação a não ser em um Deus que transcende o da história.
mundo.
A historiografia medieval é, sem dúvida, insuficiente,
O pensamento moderno, ao contrário, finaliza em uma ingênua, descuidada, pois, era escasso na mentalidade
concepção monista-imanentista do mundo e da vida: medieval o senso da concreticidade e da individualidade,
não somente Deus e o mundo são a mesma coisa, mas sem o qual não é possível a história verdadeira e própria.
Deus é resolvido num mundo natural e humano.
Mas a concepção medieval da história, que é a cristã e já
Consequentemente, não se pode mais falar em teve a sua expressão clássica na Cidade de Deus de
transcendência de valores teoréticos e morais, religiosos Agostinho é perfeitamente conciliável com a indagação
e políticos, pois "ser" e "dever ser" são a mesma coisa, o histórica moderna, devendo esta última fornecer à
"dever ser" coincide com o "ser". primeira a sua rica contribuição de fatos, o seu profundo
senso histórico, o seu interesse pela concretidade.
Pelo contrário, a passagem da concepção tradicional,
teísta, à concepção moderna, imanentista, representa Noutras palavras, é na Idade Média que se formou o
teoricamente uma ruptura. Estado distinto da Igreja, mas não leigo, imanentista,
ateu, bem como o laicado distinto do clero e organizado
O pensamento moderno, todavia, especialmente o
civilmente em graus de corporações, mas cristão,
pensamento da Renascença, tem seu precedente lógico
católico, romano.
no panteísmo após ter-se afirmado como extrema
expressão do pensamento neoplatônico, que permanece Poder-se-ia fazer notar que tal efetiva distinção e relativa
através de todo o pensamento cristão em tentativas mais autonomia do Estado (e do laicado) com respeito à Igreja

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(e ao clero) foram alcançadas através de uma longa luta intelectualista. Entretanto, concordam em um comum
contra o predomínio e a invasão destes últimos. fenomenismo, pois, em ambos, o sujeito é isolado do ser
e fechado no mundo das suas representações.
Mas cumpre ter presente que, na alta Idade Média, no
período bárbaro, nos séculos de ferro, a igreja romana e Não se conhecem as coisas e sim o nosso conhecimento
o clero católico desempenharam funções também leigas das coisas.
e profanas, como, por exemplo, a instrução cultural, a
4. Empirismo e racionalismo, após uma lenta, gradual e
assistência hospitalar, e até a agricultura, a indústria, o
silenciosa maturação, encontrarão uma saída prática,
comércio, as comunicações, etc., pelo fato de que
social, política, moral, religiosa no iluminismo e, portanto,
ninguém estava em condições de fazê-lo.
na revolução francesa (Segunda metade do século XVIII);
OS PERÍODOS DO PENSAMENTO MODERNO esta representa a concreta realização do pensamento
moderno na civilização moderna.
Este grande movimento especulativo, que é o
pensamento moderno, naturalmente não se manifesta Esse movimento começa na Inglaterra, triunfa na França
na sua significação imanentista senão na plenitude do e se espalha, em seguida, na Alemanha e na Itália.
seu desenvolvimento.
8.2 OS PENSADORES RENASCENTISTAS
Portanto, manifesta-se através de uma série de períodos,
que se podem historicamente (e dialeticamente) indicar
assim: Os Pensadores

1. Antes de tudo a Renascença, em que a concepção Do fundo eclético-neoplatônico do pensamento da

imanentista, humanista ou naturalista, é potentemente Renascença se destacavam algumas figuras de maior

afirmada e vivida. vulto, cuja série começa com Nicolau de Cusa e termina
com Giordano Bruno.
Trata-se, porém, de uma afirmação ainda não
plenamente consciente e sistemática, em que o novo é É uma nova concepção filosófica do mundo e da vida,

misturado com o velho. ainda não bem claramente esboçada, de que seus
próprios autores, às vezes, não têm clara consciência.
Este, muitas vezes, prevalece, ao menos na exterioridade
da forma lógica e literária. É uma época de transição, em que novo e velho se
entretecem mutuamente.
A Renascença é preparada pelo Humanismo, e tem
como seu equivalente religioso a reforma protestante. Os sistemas filosóficos da época conservam a linguagem
(latim) e a estrutura (silogística) da idade precedente.
2.A este primeiro período do pensamento moderno, que,
substancialmente, abrange os séculos XV e XVI, se As intuições e afirmações naturalistas, humanistas e

seguem o racionalismo e o empirismo, que abrangem os imanentista estão ao lado das profissões de fé católica,

séculos XVII e XVIII. feitas por motivos práticos, éticos e utilitários.

Após a revolução renascentista e protestante, sente-se a Entretanto, debaixo dessas aparências, germina o

necessidade de uma séria indagação crítica, não para pensamento moderno. É o crepúsculo que prenuncia a

demolir aquelas intuições revolucionárias, mas, ao alvorada de um novo dia.

contrário, para dar-lhes uma sistematização lógica. Nicolau de Cusa

É o que fará especialmente o racionalismo em relação ao Nicolau Krebs nasceu


conhecimento racional. em 1401 em Cusa, de

3.E outro tanto fará e empirismo em relação ao família modesta. Foi

conhecimento sensível. educado junto dos


Irmãos da vida comum
Empirismo e racionalismo são tendências especulativas,
em Deventer, onde
gnosiológicas, opostas entre si, como a gnosiologia
sofreu a influência do
sensista está certamente em oposição à gnosiologia
misticismo alemão; em

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seguida estudou na Universidade de Heidelberg, foco de Entregue à Inquisição romana, foi de novo processado;
nominalismo, e na de Pádua, onde aprendeu a mas, desta vez, recusou qualquer retratação e foi
matemática, o direito, a astronomia. condenado à morte, que lhe foi infligida em 1600.

Ordenado padre, teve parte notável no concílio de A realidade é una e infinita, constituída por dois
Basiléia (1432); foi, a seguir, legado pontifício, cardeal, princípios fundamentais, ativo um a alma do mundo,
bispo. Viveu seus últimos anos na Itália, onde faleceu em passivo o outro a matéria. São dois aspectos da mesma
1464. substância.

Bernardino Telésio A alma do mundo é concebida como sendo inteligente


ordenadora do mundo; mas não é transcendente, como
Mais claramente manifesta-se
o motor primeiro de Aristóteles e o Deus do cristianismo,
o imanentismo da Renascença
e sim imanente ao mundo, de que é precisamente a
em seu aspecto naturalista.
alma.
Nasceu em 1509 em Cosenza,
estudou especialmente em O Deus de Bruno é, pois, esta alma do mundo,
Pádua e faleceu em 1588. A concebida como imutável e infinita, gerando
sua obra fundamental é De eternamente o mundo finito e que se acha em perpétuo
rerum natura iuxta propria principia. vir-a-ser.

O pensamento de Telésio representa uma sistematização As almas particulares não passam de individuações
do naturalismo da Renascença: a saber, uma tentativa passageiras dessa alma cósmica.
para explicar a natureza mediante os princípios universais
Acima desse Deus imanente, também Bruno afirma a
imanentes à mesma natureza.
existência de um Deus transcendente, apreendido só por
O mundo natural é constituído de matéria e de força. fé, trata-se, porém, de uma fé imanente naturalista, bem
diversa da fé cristã.
A matéria é homogênea, preenche o espaço (que existe
antes da matéria) e é por si mesma inerte. Quanto à moral deve-se dizer o seguinte: Bruno, em
oposição à moral ascética e transcendente do
A força anima, penetra, move, transforma continuamente
cristianismo, sustenta que o homem realiza a sua
toda a matéria.
natureza, atinge a sua perfeição no furor heróico, a
O intelecto é reduzido aos sentidos, bem como o saber, na sua imanente e jubilosa participação racional
conceito universal é reduzido à sensação. Como é na vida do Todo-um.
naturalizado o pensamento, é também naturalizada a
É, pois, natural, que Bruno considere toda religião
vontade, no sentido materialista e hedonista.
histórica, positiva (inclusive o cristianismo), como um
Entretanto, haveria no homem também uma alma que saber infra-racional, mítico, simbólico, útil para dirigir
transcende a natureza e o mundo material, criada e moralmente o vulgo ignorante, e não como uma
infundida por Deus. revelação supra-racional de um Deus transcendente.

Giordano Bruno Tomás Campanella

Giordano Bruno é a maior expressão do imanentismo Tomás Campanella nasceu


renascentista. Nasceu em em Stilo, na Calábria, em
Nola em 1548, entrou na 1568, e também ele entrou
Ordem dos Dominicanos aos ainda moço na ordem dos
15 anos. Acusado de heresia e Dominicanos. É o maior
afastado de sua ordem, continuador de Telésio.
iniciou uma vida giróvaga Várias vezes processado por
através da Europa. De volta a heresia, foi, porém,
Veneza, foi processado pelo absolvido; entretanto,
tribunal da Inquisição e reconheceu os seus erros. condenaram-no por motivos políticos e passou no

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cárcere 27 anos, sendo, enfim, libertado. Sinagoga em 1656. Também as autoridades protestantes
o desterraram como blasfemador contra a Sagrada
As fontes principais do seu pensamento são: o
Escritura.
naturalismo telesiano e o idealismo neoplatônico.
Spinoza retirou-se, primeiro, para os arredores de
Quanto à metafísica, salientamos que Campanella afirma
Amsterdam, em seguida para perto de Leida e enfim
de novo e acentua a animação universal, o
refugiou-se em Haia.
pampsiquismo telesiano.
Aos vinte e cinco anos de idade esse filósofo, sem pátria,
Propriamente, a metafísica de Campanella é a doutrina
sem família, sem saúde, sem riqueza, se acha também
dos primeiros princípios do ser; são eles o poder, a
isolado religiosamente.
sabedoria, o amor.
Uma tuberculose enfraquecera seu corpo.
Tais princípios são absolutos e puros em Deus, relativos e
imperfeitos nas criaturas. Após alguns meses de cama, Spinoza faleceu aos
quarenta e quatro anos de idade, em 1677, em Haia.
Daí as coisas e o espírito serem uma mistura de ser e de
não-ser (ser limitado), ao passo que Deus é puro ser (ser Deixou uma notável biblioteca filosófica; mas a sua
infinito). herança mal chegou para pagar as despesas do funeral e
as poucas dívidas contraídas durante a enfermidade.
Para Campanella, a religião fundamental é a religião
natural, racional; as religiões positivas, históricas, seriam Um traço característico e fundamental do caráter de
expressões empíricas da religião natural. Spinoza é a sua concepção prática, moral, de filosofia,
como solucionadora última do problema da vida.
A característica essencial da própria revelação cristã e da
igreja católica seria a restauração da religião natural, E, ao mesmo tempo, a sua firme convicção de que a
racional, universal, obscurecida pela ignorância e pela solução desse problema não é possível senão
concupiscência. teóriticamente, intelectualmente, através do
conhecimento e da contemplação filosófica da realidade.
Portanto, o cristianismo seria reduzido à religião natural,
a que a Renascença em geral aspira. O Pensamento: Deus

Campanella viveu longamente na prisão, afastado da Spinoza quereria deduzir de Deus racionalmente,
vida real; suas obras, escritas no cárcere, manifestam logicamente, geometricamente toda a realidade.
uma mentalidade fantástica, idealista, utópica, em que
Não nos esqueçamos de que o Deus spinoziano é a
falta a experiência de uma escreve vida social-concreta.
substância única e a causa única; isto é, estamos em
Baruch Spinoza cheio no panteísmo.

Baruch Spinoza nasceu em A substância divina é eterna e infinita: quer dizer, está
Amsterdam em 1632, filho fora do tempo e se desdobra em número infinito de
de hebreus portugueses, perfeições ou atributos infinitos.
de modesta condição
Desses atributos, entretanto, o intelecto humano
social, emigrados para a
conhece dois apenas: o espírito e a matéria, a cogitatio e
Holanda. Recebeu uma
a extensio.
educação hebraica na
academia israelita de As leis do paralelismo psicofísico, que governam o

Amsterdam, com base mundo dos atributos, regem naturalmente todo o

especialmente nas mundo dos modos, quer primitivos quer derivados.

Sagradas Escrituras. Demonstrando muita inteligência, foi Cada corpo tem uma alma, como cada alma tem um
iniciado na filosofia hebraica (medieval-neoplatônico- corpo; este corpo constituiria o conteúdo fundamental
panteísta) e destinado a ser rabino. do conhecimento da alma, a saber: a cada modo de ser

Mas, depois de se manifestar o seu racionalismo e tendo e de operar na extensão corresponde um modo de ser e

ele recusado qualquer retratação, foi excomungado pela de operar do pensamento.

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Nenhuma ação é possível entre a alma e o corpo - como juntamente com o conhecimento racional. Visto que a
dizia também Descartes - e como Spinoza sustenta até o felicidade depende da ciência, do conhecimento racional
fundo. intuitivo - que é, em definitivo, o conhecimento das
coisas em Deus - o sábio, aí chegado, amará
O Homem
necessariamente a Deus, causa da sua felicidade e poder.
Spinoza passa a considerar o espírito humano, ou,
Tal amor intelectual de Deus é precisamente o júbilo
melhor, o homem integral, corpo e alma.
unido com a causa racional que o produz, Deus.
A cada estado ou mudança da alma, corresponde um
Este amor do homem para com Deus, é retribuído por
estado ou mudança do corpo, mesmo que a alma e o
Deus ao homem; entretanto, não é um amor como o
corpo não possam agir mutuamente um sobre o outro,
que existe entre duas pessoas, pois a personalidade é
como já se viu.
excluída da metafísica spinoziana, mas no sentido de que
Não é preciso repetir que, para Spinoza, o homem não é o homem é idêntico panteisticamente a Deus.
uma substância.
E, por conseguinte, o amor dos homens para com Deus
A assim chamada alma nada mais é que um conjunto de é idêntico ao amor de Deus para com os homens, que é,
modos derivados, elementares, do atributo pensamento pois, o amor de Deus para consigo mesmo (por causa
da substância única. precisamente do panteísmo).

E, igualmente o corpo nada mais é que um complexo de Chegado ao conhecimento e à vida racionais, o sábio
modos derivados, elementares, do atributo extensão da vive já na eternidade, no sentido de que tem
mesma substância. conhecimento eterno do eterno.

O homem, alma e corpo, são resolvidos num complexo A respeito da imortalidade da alma, devemos dizer que é
de fenômenos psicofísicos. excluída naturalmente por Spinoza como sobrevivência

Mesmo negando a alma e as suas faculdades, Spinoza pessoal porquanto pessoa e memória pertencem à

reconhece várias atividades psíquicas: atividade teorética imaginação.


e atividade prática, cada uma tendo um grau sensível e A imortalidade, então, não poderá ser entendida senão
um grau racional. como a eternidade das ideias verdadeiras, que

A Moral pertencem à substância divina.

Spinoza faz uma história natural das paixões, isto é, De sorte que imortais, ou eternas, ou pela máxima parte
considera as paixões teoricamente, cientificamente, e não imortal, serão as almas ou os pensamentos dos sábios,

moralisticamente, e as paixões podem ser tratadas com a ao passo que às almas e aos pensamentos dos homens

mesma serena indiferença que as linhas, as superfícies, as vulgares, como que limitados ao conhecimento e à vida

figuras geométricas. sensíveis, é destinado o quase total aniquilamento no


sistema racional da substância divina.
Spinoza esclarece precisamente e particularmente a
escravidão do homem sujeito às paixões. A Política e a Religião

Essa escravidão depende do erro do conhecimento Spinoza tratou particularmente do problema político e

sensível, pelo que o homem considera as coisas finitas religioso.

como absolutas e, logo, em choque entre si e com ele. Considera ele o estado e a igreja como meios irracionais

Então a libertação das paixões dependerá do para o advento da racionalidade.

conhecimento racional, verdadeiro; este conhecimento As ações feitas - ou não feitas - em vista das penas ou
racional não depende, entretanto, do nosso livre-arbítrio, dos prêmios temporais e eternos, ameaçados ou
e sim da natureza particular de que somos dotados. prometidos pelo estado e pela igreja, dependem do

Ele esclarece, em especial, a condição do sábio, libertado temor e da esperança, que, segundo Spinoza, são

da escravidão das paixões e da ignorância. paixões irracionais.

O sábio realiza a felicidade e a virtude simultânea e Elas, entretanto, servem para a tranquilidade do sábio e

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para o treinamento do homem vulgar. Quando, em 399 a.C., Sócrates foi executado, a alma de
Atenas morreu com ele, sobrevivendo apenas em seu
O estado, porém, não é dominador supremo, porquanto
orgulhoso discípulo, Platão.
não é o fim supremo do homem. Seu fim supremo é
conhecer a Deus por meio da razão e agir de E quando Felipe da Macedônia derrotou os atenienses
conformidade, de sorte que será a razão a norma em Queronéia em 388 a.C. e Alexandre incendiou a
suprema da vida humana. grande cidade de Tebas por completo três anos depois,
nem mesmo o fato de a casa de Píndaro ter sido
O papel do estado é auxiliar na consecução racional de
ostensivamente poupada conseguiu encobrir a realidade
Deus. Portanto, se o estado se mantivesse na violência e
de que a independência ateniense, no que se referia a
irracionalidade primitivas, pondo obstáculos ao
governo e pensamento, estava destruída de maneira
desenvolvimento racional da sociedade, os súditos -
irrevogável.
quando mais racionais e, logo, mais poderosos do que
ele - rebelar-se-ão necessariamente contra ele, e o O domínio da filosofia grega pelo macedônio Aristóteles
estado cairá fatalmente. refletia a sujeição política da Grécia pelos povos viris e
mais jovens do norte.
Faltando-lhe a força, faltar-lhe-á também o direito. E de
suas ruínas deverá surgir um estado mais conforme à A morte de Alexandre (323 a.C.) acelerou esse processo
razão. de decadência.

E, assim, Spinoza deduz do estado naturalista o estado O menino-imperador, ainda que continuasse bárbaro
racional. depois de toda educação recebida de Aristóteles, havia
aprendido a reverenciar a rica cultura da Grécia e
O outro grande instituto irracional a serviço da
sonhara em divulgar essa cultura pelo Oriente, na onda
racionalidade é, segundo Spinoza, a religião, que
de seus exércitos vitoriosos.
representaria um sucedâneo da filosofia para o vulgo.
O desenvolvimento do comércio grego e a multiplicação
O conteúdo da religião positiva, revelada, é racional; mas
dos postos de comercialização gregos por toda a Ásia
é a forma que seria absolutamente irracional, pois o
Menor haviam proporcionado uma base econômica para
conhecimento filosófico de Deus decairia em uma
a unificação daquela região como parte de um império
revelação mítica; a ação racional, que deveria derivar do
helênico; e Alexandre tinha a esperança de que, a partir
conhecimento racional com a mesma necessidade pela
daqueles movimentados postos, tanto o pensamento
qual a luz emana do sol, decairia no mandamento divino
grego como os produtos gregos fossem irradiar-se e
heterônomo, a saber, a religião positiva, revelada,
conquistar o mundo.
representaria sensivelmente, simbolicamente, de um
modo apto para a mentalidade popular, as verdades Mas ele subestimara a inércia e a resistência da
racionais, filosóficas acerca de Deus e do homem; tais mentalidade oriental, e a massa e a profundidade da
verdades podem aproveitar ao bem desse último, cultura oriental.
quando encarnadas nos dogmas.
Não passava de um sonho juvenil, afinal, supor que uma
Por conseguinte, o que vale nos dogmas não seria a sua civilização tão imatura e instável quanto a da Grécia
formulação exterior, e sim o conteúdo moral; nem se pudesse ser imposta a uma civilização
deveria procurar neles sentidos metafísicos arcanos, incomensuravelmente mais difundida e enraizada nas
porque o escopo dos dogmas é essencialmente prático, mais veneráveis tradições.
a saber: induzir à submissão a Deus e ao amor ao
A quantidade da Ásia mostrou-se demasiada para a
próximo, na unificação final de tudo e de todos em Deus.
qualidade da Grécia.
De Aristóteles à Renascença
O próprio Alexandre, na hora de seu triunfo, foi
Quando Esparta bloqueou e derrotou Atenas em fins do conquistado pela alma do Oriente; casou-se (dentre
século V a.C., a supremacia política saiu das mãos da várias damas) com a filha de Dario; adotou o diadema e
mãe da filosofia e da arte gregas, e o vigor e a o manto de gala persas; introduziu na Europa a ideia
independência da inteligência ateniense decaíram. oriental do divino direito dos reis; e por fim assombrou

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uma Grécia cética ao anunciar, num magnífico estilo A natureza, segundo Descartes, já o vimos, não possui
oriental, que ele era um deus. A Grécia caiu na dinamismo próprio. Todo dinamismo pertence ao
gargalhada; e Alexandre bebeu até morrer. criador.

René Descartes A natureza nada tem de divino, é um objeto criado,


situado no mesmo plano da inteligência humana, e, por
Para Descartes, o Deus criador
conseguinte, inteiramente entregue à sua exploração.
transcende radicalmente a
Isto consiste, ao mesmo tempo, na rejeição de todo
natureza. Deus Foi
naturalismo pagão (a natureza não é uma deusa).
"inteiramente indiferente ao
criar as coisas que criou". Não O Problema do Homem: a Moral
se submeteu a nenhuma
Recordemos seus três preceitos:
verdade prévia. Em virtude do
poder de seu livre-arbítrio, criou a) Submeter-se aos usos e costumes de seu país.

as verdades. b) Antes mudar os próprios desejos que a ordem do

Eis por que Deus quer que a soma dos ângulos de um mundo e vencer-se a si próprio do que à fortuna.

triângulo seja igual a dois ângulos retos. c) Ser sempre firme e resoluto em suas ações; saber

Acrescentemos que, para Descartes, Deus criou o mundo decidir-se mesmo na ausência de toda evidência,

instante por instante (é a "criação contínua"). O tempo é Segundo: Na medida em que Descartes considera o
descontínuo e a natureza não tem nenhum poder homem no que ele tem de essencial, enquanto espírito,
próprio. ou quando se ocupa do composto humano, sua moral

As leis da natureza só são o que são a cada momento, assume aspectos diferentes:

em virtude da vontade do criador. a) Consideremos o homem enquanto espírito, enquanto

É importante compreender que essa transcendência liberdade: o valor supremo é a generosidade. "A

radical de Deus possui duas consequências verdadeira generosidade que faz com que um homem

fundamentais. O livre-arbítrio humano e a independência se estime, no ponto máximo em que ele pode

da ciência. legitimamente estimar-se, consiste, em parte, na


consciência de que nada lhe pertence verdadeiramente,
Primeiro: O homem não é uma parte de Deus.
exceto essa livre disposição de suas vontades.
A transcendência do criador afasta qualquer panteísmo.
b) Se considerarmos o homem enquanto espírito, unido
O homem, simples criatura ultrapassada por seu criador
a um corpo somos obrigados a levar em conta as
(concebo Deus porque descubro em mim a marca de
paixões, isto é, a afetividade em sentido amplo. Paixão é,
sua infinitude, mas não o compreendo), recebo, assim,
para Descartes, tudo o que o corpo determina na alma.
uma autonomia que será perdida no sistema panteísta
O bom funcionamento do corpo, as ligações
de Spinoza.
harmoniosas entre os espíritos animais e os pensamentos
O homem é livre, pode dizer sim ou não às ordens de humanos são altamente desejáveis. A moral surge, então,
Deus. como uma técnica de felicidade e, nessa técnica, a
medicina desempenha importante papel. A moral surge
Deus propõe e o homem, por intermédio de seu livre-
aqui como uma aplicação direta ao mecanicismo
arbítrio, dispõe.
cartesiano.
Desse modo, Deus não é o culpado dos meus erros nem
O Programa Cartesiano
dos meus pecados. Sou eu que me engano, sou eu que
peco. Meu livre-arbítrio me faz merecedor ou culpado. "De acordo com o prefácio dos Princípios"

Segundo: Do mesmo modo, a transcendência de Deus Gostaria de explicar aqui a ordem que, parece-me,
vai tornar possível uma ciência puramente racional e devemos seguir para que nos instruamos.
mecanicista da natureza.
Primeiramente, o homem que ainda só possui

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conhecimento vulgar e imperfeito, deve, antes de tudo, pai", diz Maucaulay, "foi ofuscada pela do filh". Mas sir
encarregar-se de formar uma moral que seja suficiente Nicholas não era um homem comum."
para ordenar as ações da vida, porque isso não deve ser
A mãe de Bacon foi lady Anne Cooke, cunhada de sir
adiado e porque devemos, sobretudo procurar viver
William Cecil, lorde Burghley, que foi tesoureiro-mor de
bem.
Elizabeth e um dos homens mais poderosos da
E porque ela depende muito do uso, é bom que ele se Inglaterra.
exercite, por muito tempo, na prática de regras
O pai dela tinha sido o tutor-chefe do rei Eduardo VI; ela
pernitentes a questões fáceis e simples como as da
mesma era lingüista e teóloga, e não tinha dificuldade
matemática.
em se corresponder em grego com bispos.
Depois, quando já tiver adquirido o hábito de encontrar
Tornou-se instrutora do filho e não poupou esforços
a verdade nessas questões, ele deve começar a aplicar-
para que ele tivesse instrução.
se à verdadeira filosofia cuja primeira parte é a
metafísica, que contém os princípios do conhecimento, Bacon freqüentou a Universidade de Cambridge, e viveu

entre as quais está à explicação dos principais atributos também em Paris.

de Deus, da imaterialidade de nossas almas e de todas as Começou a sua carreira de homem político e jurista,
noções claras e simples que estão em nós. antes sob a rainha Isabel, e, depois, sob Jaime I, subindo

A segunda é a física, na qual, após ter encontrado os até aos mais altos cargos: advogado geral em 1613,

verdadeiros princípios das coisas materiais, examinamos membro do Conselho particular em 1616, chanceler do

em geral como o universo é composto; depois, em reino em 1618.

particular, qual a natureza da terra e de todos os corpos Foi agraciado por Jaime I com os títulos de Barão de
que se encontram mais comumente em torno dela como Verulamo e Visconde de S. Albano.
o ar, a água, o fogo, o ímã e outros minerais.
Entretanto foi acusado de concussão e condenado pelo
Após o que também é necessário examinar em particular Parlamento a uma multa avultuada.
a natureza das plantas, dos animais e, sobretudo, do
Perdoado pelo rei, retirou-se para as suas terras,
homem, a fim de que se seja capaz de, depois, encontrar
dedicando-se inteiramente aos estudos. Faleceu em
as outras ciências que lhe são úteis.
1626.
Desse modo, a filosofia é como uma árvore cujas raízes
Teve uma inteligência muito esclarecida, convencido da
são a metafísica, o tronco a física e os ramos que daí sai
sua missão de cientista, segundo o espírito positivo e
todas as outras ciências, que se reduzem a três
prático da mentalidade anglo-saxônia.
principais, a saber: a medicina, a mecânica e a moral; eu
acho que a mais elevada e mais perfeita moral, que O iniciador do empirismo é Francis Bacon.
pressupõe inteiro conhecimento das outras ciências, é o
Enalteceu ele a experiência e o método dedutivo de tal
último grau da sabedoria.
modo, que o transcendente e a razão acabam por
desaparecer na sombra.

O Empirismo – Bacon Falta-lhe, no entanto, a consciência crítica do empirismo,


que foram aos poucos conquistando os seus sucessores
Francis Bacon nasceu
e discípulos até Hume.
no dia 22 de janeiro
de 1561 na York Ademais, Bacon continua afirmando - mais ou menos
House, Londres, logicamente - o mundo transcendente e cristão; antes,
residência de seu pai continua a considerar a filosofia como esclarecedora da
sir Nicholas Bacon, essência da realidade, das formas, sustentáculo e causa
que nos primeiros dos fenômenos sensíveis.
vinte anos do reinado
É uma posição filosófica que apela para a metafísica
de Elizabeth tinha sido o Guardião do Sinete. "A fama do
tradicional, grega e escolástica, aristotélica e tomista.

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Entretanto, acontece em Bacon o que aconteceu a predecessores empiristas, ele sente, antes de mais nada,
muitos pensadores da Renascença, e o que acontecerá a a necessidade de instituir uma investigação sobre o
muitos outros pensadores do empirismo e do conhecimento humano, elaborar uma gnosiologia, para
racionalismo: isto é, a metafísica tradicional persiste neles achar um critério de verdade.
todos histórica e praticamente ao lado da nova filosofia,
Podemos dizer que a sua filosofia se limita a este
tanto mais quanto esta é menos elaborada, acabada e
problema gnosiológico, para logo passar a uma filosofia
consciente de si mesma.
moral (e política, pedagógica, religiosa), sem uma
John Locke adequada e intermédia metafísica.

João Locke nasceu em Locke não parte, realisticamente, do ser, e sim,


Wrington, em 1632. Estudou fenomenisticamente, do pensamento.
na Universidade de Oxford
No nosso pensamento acham-se apenas ideias (no
filosofia, ciências naturais e
sentido genérico das representações): qual é a sua
medicina.
origem e o seu valor? Locke exclui absolutamente as
Limita-se a nos oferecer, ideias e os princípios que deles se formam, derivam da
filosoficamente, uma teoria do conhecimento, mesmo experiência; antes da experiência o espírito é como uma
aceitando a metafísica tradicional, e do senso comum folha em branco, uma tabula rasa.
pelo que concerne a Deus, à alma, à moral e à religião.
No entanto, a experiência é dúplice: externa e interna.
Com relação à religião natural, não muito diferente do
A primeira realiza-se através da sensação, e nos
deísmo abstrato da época; o poder político tem o direito
proporciona a representação dos objetos (chamados)
de impor essa religião, porquanto é baseada na razão.
externos: cores, sons, odores, sabores, extensão, forma,
Locke professa a tolerância e o respeito às religiões
movimento, etc.
particulares, históricas, positivas.
A segunda realiza-se através da reflexão, que nos
Locke viajou fora da Inglaterra, especialmente em França,
proporciona a representação das próprias operações
onde ampliou o seu horizonte cultural, entrou em
exercidas pelo espírito sobre os objetos da sensação,
contato com movimentos filosóficos diversos, em
como: conhecer, crer, lembrar, duvidar, querer, etc.
especial com o racionalismo.
Ideias Metafísicas
Tornou-se mais consciente do seu empirismo, que
procurou completar com elementos racionalistas (o que, Em todo caso, Locke acredita poder atingir, antes de

entretanto, representa um desvio na linha do tudo, o nosso ser, depois o de Deus, e, finalmente, o das

desenvolvimento do empirismo, procedente de Bacon coisas.

até Hume). O nosso ser seria intuitivamente percebido através da

Em 1683 refugiou-se na Holanda, aí participando no reflexão. A existência de Deus seria racionalmente

movimento político que levou ao trono da Inglaterra demonstrada mediante o princípio de causa, partindo do
Guilherme de Orange. conhecimento imediato de uma outra existência (a
nossa).
De volta à pátria, recusou o cargo de embaixador e
dedicou-se inteiramente aos estudos filosóficos, morais, A existência das coisas, ao fim, seria sentida
políticos. Passou seus últimos anos de vida no castelo de invencivelmente, porque nos sentimos passivos em

Oates (Essex), junto de Sir Francisco Masham. Faleceu em nossas sensações, que deveriam ser causadas por seres

1704. externos a nós.

O Pensamento: A Gnosiologia Moral e Política

Locke pensa que o fim da filosofia é essencialmente Locke não admite, naturalmente, ideia e princípios inatos

moral; quer dizer: a filosofia deve proporcionar uma nem sequer no campo da moral. A sua moral, todavia, é

norma racional para a vida do homem. E, como os seus muito mais intelectualista do que empirista, pois ele lhe
reconhece o caráter de verdadeira ciência, universal e

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necessária. Entretanto, não basta ter construído uma fundamentalmente, no desenvolvimento do intelecto
moral em abstrato, embora racional. É preciso torná-la mediante a moral, precisamente pelo fato de que se trata
praticamente eficaz, isto é, faz-se mister uma obrigação de formar seres conscientes, livres, senhores de si
moral, que se imponha à nossa vontade. mesmos.

Ora, visto que é natural, no homem, a tendência para o Por conseguinte, a educação deve ser formativa,
próprio bem-estar, é natural que ele seja atingido pelas desenvolvendo o intelecto, e não informativa,
penas, pelas sanções, que precisamente lhe impedem tal erudita,igualmente Locke é fator de educação física, mas
realização. como o meio para o domínio de si mesmo.

Que parte tem a liberdade da vontade em tudo isto? Jorge Berkeley

Locke nega, propriamente, o livre arbítrio, porquanto nós Uma etapa ulterior do fenomenismo empirista é
nos inclinamos necessariamente para um bem representada por Berkeley.
determinado e devemos desejar o bem maior.
Jorge Berkeley nasceu
Quanto à política, Locke deriva a lei civil da lei natural, em 1685 perto de Dysert
racional, moral, em virtude da qual todos os homens - Castle, na Irlanda, de
como seres racionais - são livre iguais, têm direito à vida uma família de origem
e à propriedade; e, entretanto na vida política, não inglesa.Estudou no Trinity
podem renunciar a estes direitos, sem renunciar à College em Dublin,
própria dignidade, à natureza humana. formando-se mestre em
artes em 1707.
Ideias Pedagógicas

Com respeito à religião, Locke toma uma atitude


racionalista moderada. Admite uma religião natural, Ordenado pela Igreja anglicana, a princípio ensina grego
exigível também politicamente, porquanto (sua obra, um dia, assumirá um tom platônico), em
fundamentada na razão. E professa a tolerância a seguida hebreu e teologia no Trinity College.
respeito das religiões particulares, históricas, positivas.
Entre 1702 e 1710, podemos seguir, em seu caderno de
Locke interessou-se especialmente pelos problemas anotações (Commonplace book), a formação de seu
pedagógicos, escrevendo os Pensamentos sobre a pensamento.
Educação.
Berkeley então viaja pela França e pela Itália; em seguida
Aí afirma a nossa passividade, pois nascemos todos se decide a propagar o pensamento cristão nas
ignorantes e recebemos tudo da experiência; mas, ao possessões americanas da Inglaterra, partindo para as
mesmo tempo, afirma a nossa parte ativa, enquanto o Bermudas, onde sonha fundar um colégio, ideia à qual
intelecto constrói a experiência, elaborando as ideias deve renunciar, posto que o governo inglês não lhe
simples. envia os fundos prometidos.

Afirma-se que todos nascemos iguais, dotados de razão; Em 1740, sobrevém uma epidemia na Irlanda, que o
mas, ao mesmo tempo, todos temos temperamentos improvisa como médico; cuida de suas ovelhas com
diferentes, que devem ser desenvolvidos de água de alcatrão (receita que conheceu na América), na
conformidade com o temperamento de cada um. qual vê um remédio universal, o que o leva a uma cadeia
(seiris, em grego) de reflexões muito platônicas sobre a
Esta educação individual não exclui, mas implica a
natureza, a Providência e Deus.
educação, a formação social, para ampliar, enriquecer a
própria personalidade. Nominalismo de Berkeley

Tem muita importância a obra do educador, mas é a) Ele declara não compreender o que seja uma ideia
fundamental a colaboração do discípulo, pois trata-se da abstrata. Por isso ele se aproxima de Locke e do ponto
formação do intelecto, da razão, que é, necessariamente, de vista de todos os outros empiristas ingleses.
autônoma. A formação educacional consiste, portanto,
b) Todavia, se Berkeley nega a ideia abstrata, ele admite

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a ideia geral. No universo de Berkeley, os "signos" a.C.), Aristóteles (384-322
desempenham um grande papel. a.C.), etc.

Pensar não é, para ele, aprender uma essência abstrata, Aos quinze anos começou a
mas passar de uma imagem a outra graças à função ler Bacon (1561-1626), Hobbes
simbólica. (1588-1679), Galileu (1564-
1642) e Descartes (1596-1650),
Realismo ou Idealismo?
passando a dedicar-se às
matemáticas.

Filosofia de Berkeley, portanto, é a filosofia do realismo Ainda aluno da Universidade de Leipzig, escreveu, em
concreto levada às suas últimas consequências: o que 1663, um trabalho sobre o princípio da individuação;
existe é o que vemos e tocamos. O que não vemos e depois foi para Iena, a fim de seguir os cursos do
não tocamos não existe. matemático Ehrard Wigel.

Por conseguinte, Berkeley rejeita todas as "abstrações" Desde essa época, Leibniz se preocupou em vincular a
dos matemáticos e dos físicos. filosofia às matemáticas escrevendo uma Dissertação

Não aceita a "extensão inteligível" de Malebranche e só Sobre a Arte Combinatória.


admite um espaço sensível. Nesse trabalho procurou encontrar para a filosofia leis

As novas matemáticas do infinitesimal, portanto, serão tão certas quanto as matemáticas e esboçou as

falsas a seus olhos. premissas do cálculo diferencial, que inventaria ao


mesmo tempo que Newton.
Teologia
Por outro lado, no estudo da lógica aristotélica, Leibniz
Berkeley responde a isso, fazendo com que Deus
encontrou os elementos que o levaram à ideia de uma
intervenha. Deus já estava encarregado de explicar as
análise combinatória filosófica, vislumbrando a
admiráveis correspondências entre dados táteis e visuais,
possibilidade de cria um alfabeto dos pensamentos
era ele o autor dessa linguagem universal e benfazeja da
humanos, com o qual tudo poderia ser descoberto.
natureza.
Relativamente esquecido e isolado dos assuntos
E agora Berkeley nos diz que Deus é quem nos envia,
públicos, Leibniz veio a falecer a 14 de novembro de
numa ordem harmoniosa, nossas "ideia", isto é, nossas
1716.
percepções.

A ordem de minhas "ideia", sua admirável concordância


com as "ideia", isto é, com as percepções dos outros Racionalismo e Finalismo

espíritos, estão erigidas como prova do poder e da


bondade do Criador.
Essa síntese entre o racionalismo cartesiano e o finalismo
O mundo é uma mensagem de Deus. É um "discurso aristotélico apresenta como núcleo uma série de
que Deus faz aos Homens"; ele me fala diretamente princípios de conhecimento, dos quais se poderiam
quando decifro o mundo sensível. deduzir uma concepção do mundo e uma ética dotada

Quando as metafísicas materialistas falam de substância, inclusive de implicações políticas.

de força, de extensão abstrata, colocam uma tela de Um desses princípios é o de razão que consiste em
pesadas ficções entre Deus e essa palavra cotidiana de submeter toda e qualquer explicação ou demonstração a
Deus que é o mundo. duas exigências.

Leibniz É a razão necessária ou princípio de não-contradição.

Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig, a 1° de O princípio de razão afirma, portanto, que uma coisa só
julho de 1646, filho de um professor de filosofia moral. pode existir necessariamente se, além de não ser
Desde muito cedo, teve contato, na biblioteca paterna, contraditória, houver uma causa que a faça existir.
com filósofos e escritores antigos, como Platão (428-347
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CAPÍTULO 9 - PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO

Não estão, todos os bons espíritos, de acordo quanto à


verdade das leis de Newton?

Do mesmo modo todos concordam que é preciso ser


justo, que a coragem vale mais do que do que a
covardia, que não se deve mentir, etc...

As verdades da ciência newtoniana, assim como as


verdades morais, são necessárias (não podem não ser) e
universais (valem para todos os homens e em todos os
tempos).

Mas, sobre que se fundam tais verdades?


Figura-Fonte: http://www.ralphvils.com.br/2015/06/immanuel-kant.html

Emmanuel Kant Em que condições são elas racionalmente justificadas?

Em compensação, as verdades da metafísica são objeto


de incessantes discussões.
Kant nasceu, estudou, lecionou e morreu em
Koenigsberg. Jamais deixou essa grande cidade da Os maiores pensadores estão em desacordo quanto às
Prússia Oriental, cidade universitária e também centro proposições da metafísica. Por que esse fracasso?
comercial muito ativo para onde afluíam homens de O Rigorismo de Kant
nacionalidade diversa: poloneses, ingleses, holandeses.
Conservar a própria vida é um dever e, além disso, é
A vida de Kant foi austera (e regular como um relógio). uma coisa para a qual todos possuem uma inclinação
Levantava-se às 5 horas da manhã, fosse inverno ou imediata.
verão, deitava-se todas as noites às dez horas e seguia o
Ora, é por isso que a solicitude, freqüentemente inquieta,
mesmo itinerário para ir de sua casa à Universidade.
com que a maior parte dos homens se dedica a isso, não
Duas circunstâncias fizeram-no perder a hora: a é menos desprovida de todo valor intrínseco e é por isso
publicação do Contrato Social de Rosseau, em 1762, e a que sua máxima não possui nenhum valor moral.
notícia da vitória francesa em Valmy, em 1792.
É certo que eles conservam sua vida de acordo com o
Segundo Fichte, Kant foi "a razão pura encarnada". dever, mas não por dever. Em compensação, quando
A primeira obra importante de Kant - assim como uma contrariedades ou uma aflição sem esperança tenha
das últimas, o Ensaio sobre o mal radical - consagra-o ao roubado de um homem todo gosto de viver e se o
problema do mal: o Ensaio para introduzir em filosofia a infeliz, com ânimo forte, fica muito mais indignado com
noção de grandeza negativa (1763) herdeiro do otimismo sua sorte do que desencorajado ou abatido, se deseja a
dos escolásticos, assim como do da Aufklärung. morte e, no entanto, conserva a vida sem amá-la, não
por inclinação ou temor, mas por dever, então sua
O mal não é a simples "privatio bone", mas o objeto
máxima possui um valor moral.
muito positivo de uma liberdade malfazeja.
Ser bom, quando se pode, é um dever e, ademais,
A Ciência e a Metafísica
existem certas almas tão capacitadas para a simpatia
O método de Kant é a "crítica", isto é, a análise reflexiva. que, mesmo sem qualquer motivo de vaidade ou de
Consiste em remontar do conhecimento às condições interesse, elas experimentam uma satisfação íntima em
que o tornam eventualmente legítimo. irradiar alegria em torno de si e vivem os

Em nenhum momento Kant duvida da verdade da física contentamentos de outrem, na medida em que ele é

de Newton, assim como do valor das regras morais que obra sua.

sua mãe e seus mestres lhe haviam ensinado. Assegurar a própria felicidade é um dever (indireto, ao

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menos); pois, o fato de não estar contente com a própria A Dialética
situação, com o viver pressionado por inúmeros
A dialética para Hegel é o procedimento superior do
cuidados em meio de necessidades não satisfeitas,
pensamento é, ao mesmo tempo, repetimo-la, "a marcha
poderia facilmente tornar-se uma grande tentação de
e o ritmo das próprias coisas". Podemos resumir assim:
violar seus deveres.
1.° - A lógica tradicional afirma que o ser é idêntico a si
Mas, aqui ainda, sem pensar no dever, todos os homens
mesmo e exclui o seu oposto (princípio de identidade e
já têm, por eles próprios, a inclinação para a felicidade
de contradição); ao passo que a lógica hegeliana
mais duradoura e mais íntima, pois, precisamente nessa
sustenta que a realidade é essencialmente mudança,
ideia de felicidade, as inclinações se unificam numa
devir, passagem de um elemento ao seu oposto;
totalidade.
2.° - A lógica tradicional afirma que o conceito é
Hegel
universal abstrato, enquanto apreende o ser imutável,
Jorge Guilherme Frederico realmente, ainda que não totalmente; ao passo que a
Hegel nasceu em Stutgart, lógica hegeliana sustenta que o conceito é universal
em 1770. concreto, isto é, conexão histórica do particular com a
totalidade do real, onde tudo é essencialmente conexo
Estudou teologia e
com tudo;
filosofia.
3.° - A lógica tradicional distingue substancialmente a
Interessou-se pelos problemas religiosos e políticos,
filosofia, cujo objeto é o universal e o imutável, da
simpatizando-se pelo criticismo e pelo iluminismo; em
história, cujo objeto é o particular e o mutável; ao passo
seguida se dedicou ao historicismo romântico.
que a lógica hegeliana assimila a filosofia com a história,
Aproximou-se dos sistemas de Fichte e de Schelling, enquanto o ser é vir-a-ser;
afastando-se deles em seguida até combatê-los quando
4.° - A lógica tradicional distingue-se da ontologia,
professor nas universidades de Jena, Heidelberg e Berlim.
enquanto o nosso pensamento, se apreende o ser, não o
Nessa última universidade lecionou até á morte, esgota totalmente - como faz o pensamento de Deus; ao
adquirindo grande renome e exercendo vasta influência. passo que a lógica hegeliana coincide com a ontologia,

Faleceu em 1831 vítima de cólera. Renunciara, porquanto a realidade é o desenvolvimento dialético do

entrementes, aos ideais revolucionários e críticos, para próprio "logos" divino, que no espírito humano adquire

favorecer as tendências absolutistas e intransigentes do plena consciência de si mesmo.

estado prussiano. Kierkegaard

Corre o boato de que ele duvida da imortalidade da Kierkegaard é um


alma. dos raros autores

Na realidade, Hegel era ao mesmo tempo cuja vida exerceu

suficientemente prudente e suficientemente hermético profunda influência

para que se tornasse muito difícil fazer-lhe acusações no desenvolvimento

precisas dessa ordem! da obra.

O poeta Heinrich Heine, que seguiu seus cursos de 1821 As inquietações e

a 1823, conta, no entanto, que ele, um dia, respondeu angústias que o

bruscamente a um estudante que lhe falava do Paraíso: acompanharam

"O senhor então precisa de uma gorjeta porque cuidou estão expressas em seus textos, incluindo a relação de

de sua mãe enferma e porque não envenenou angústia e sofrimento que ele manteve com o

ninguém!" cristianismo – herança de um pai extremamente


religioso, que cultuava a maneira exacerbada os rígidos
Em todo caso, o futuro mostraria amplamente que a
princípios do protestantismo dinamarquês, religião de
filosofia do pensador oficial da monarquia escondia um
Estado. Sétimo filho de um casamento que já durava
grande poder explosivo!

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muitos anos – nasceu em 1813, quando o pai, rico obra. Para Kierkegaard, o homem que se reconhece
comerciante de Copenhague, tinha 56 e a mãe 44 –, finito enquanto parte e momento da realização de uma
chamava a si mesmo de "filho da velhice" e teria seguido totalidade infinita se compraz na finitude, porque a vê
a carreira de pastor caso não houvesse se revelado um como uma etapa de algo maior, cujo sentido é infinito.
estudante indisciplinado e boêmio.
Ora, comprazer-se na finitude é admitir a necessidade
Trocou a Universidade de Copenhague, onde entrara em lógica de nossa condição, é dissolver a singularidade do
1830 para estudar filosofia e teologia, pelos cafés da destino humano num curso histórico guiado por uma
cidade, os teatros, a vida social. finalidade que, a partir de uma dimensão sobre-humana,
dá coerência ao sistema e aplaca as vicissitudes do
Foi só em 1837, com a morte do pai e o relacionamento
tempo.
com Regina Oslen (de quem se tornaria noivo em 1840),
que sua vida mudou. O noivado, em particular, exerceria Mas o homem que se coloca frente a si e a seu destino
uma influência decisiva em sua obra. desnudado do aparato lógico não se vê diante de um
sistema de ideia mas diante de fatos, mais precisamente
A partir daí seus textos tornaram-se mais profundos e
de um fato fundamental que nenhuma lógica pode
seu pensamento, mais religioso.
explicar: a fé.
Também em 1840 ele conclui o curso de teologia, e um
Esta não é o sucedâneo afetivo daquilo que não posso
ano depois apresentava "Sobre o Conceito de Ironia",
compreender racionalmente; tampouco é um estágio
sua tese de doutorado.
provisório que dure apenas enquanto não se completam
Esse é o momento da segunda grande mudança em sua e fortalecem as luzes da razão.
vida.Em vez de pastor e pai de família, Kierkegaard
É, definitivamente, um modo de existir. E esse modo me
escolheu a solidão.
põe imediatamente em relação com o absurdo e o
Para ele, essa era a única maneira de vivenciar sua fé. paradoxo. O paradoxo de Deus feito homem e o
Rompido o noivado, viajou, ainda em 1841, para a absurdo das circunstâncias do advento da Verdade.
Alemanha.
Cristo, enquanto Deus tornado homem, é o mediador
A crise vivida por um homem que, ao optar pelo entre o homem e Deus.
compromisso radical com a transcendência, descobre a
É por meio de Cristo que o homem se situa
necessidade da solidão e do distanciamento mundano,
existencialmente perante Deus.
está em Diários.
Cristo é portanto o fato primordial para a compreensão
Filósofo ou Religioso?
que o homem tem de si. Mas o próprio Cristo é
A posição de Kierkegaard leva algumas pessoas a incompreensível.
levantar dúvidas
Não há portanto uma mediação conceitual, algum tipo
a respeito do
de prova racional que me transporte para a
caráter filosófico
compreensão da divindade.
de seu
pensamento. A mediação é o Cristo vivo, histórico, dotado, e o fato
igualmente incompreensível do sacrifício na cruz. Aqui se
Pra elas, tratar-
situam, as circunstâncias que fazem do advento da
se-ia muito mais
Verdade um absurdo: a Verdade não nos foi revelada
de um pensador religioso do que de um filósofo.
com as pompas do conceito e do sistema.
Para além das minúcias que essa distinção envolveria,
Ela foi encarnada por um homem obscuro que morreu
cabe verificar o que ela pode trazer de esclarecedor
na cruz como um criminoso.
acerca do estilo de pensamento de Kierkegaard.
O acesso à Verdade suprema depende pois da crença no
Pode-se perguntar, por exemplo, quais as questões
absurdo, naquilo que São Paulo já havia chamado de
fundamentais que lhe motivam a reflexão, ou, então,
"loucura". No entanto, é o absurdo que possibilita a
qual a finalidade que ele intencionalmente deu à sua

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Verdade. Se permanecesse a distância infinita que separa distância entre Deus e o homem e sufoca o sentimento
Deus e o homem, este jamais teria acesso à Verdade. Foi de angústia que acompanha a fé.
a mediação do paradoxo e do absurdo que recolocou o
Essa angústia, no entender de Kierkegaard, estaria
homem em comunicação com Deus.
ilustrada no episódio do sacrifício de Abraão.
Por isso devemos dizer: creio porque é absurdo.
Esse relato bíblico indica a solidão e o abandono do
Somente dessa maneira nos colocamos no caminho da
indivíduo voltado unicamente para a vivência da fé.
recuperação de uma certa afinidade com o absoluto.
O que Deus pede a Abraão – que ele sacrifique o único
Não há, portanto, outro caminho para a Verdade a não
filho para demonstrar sua fé – é absurdo e desumano
ser o da interioridade, o aprofundamento da
segundo a ética dos homens.
subjetividade. Isso porque a individualidade autêntica
supõe a vivência profunda da culpa: sem esse Não se trata, nesse caso, de optar entre dois

sentimento, jamais nos situaremos verdadeiramente códigos de ética, ou entre dois sistemas de valores.

perante o fato da redenção e, consequentemente, da Abraão é colocado diante do incompreensível e diante

mediação do Cristo. do infinito. Ele não possui razões para medir ou avaliar
qual deve ser sua conduta. Tudo está suspenso, exceto a
O Sofrimento Necessário
relação com Deus.
A subjetividade não significa a fuga da generalidade
O Salto da Fé
objetiva: ao contrário, somente aprofundando a
subjetividade e a culpa a ela inerente é que nos Abraão não está na situação do herói trágico que deve

aproximaremos da compreensão original de nossa escolher entre valores subjetivos (individuais e familiares)

natureza: o pecado original. e valores objetivos (a cidade, a comunidade), como no


caso da tragédia grega.
E a compreensão irradia luz sobre a redenção e a graça,
igualmente fundamentais para nos sentirmos Nada está em jogo, a não ser ele mesmo e a sua fé.

verdadeiramente humanos, ou seja, de posse da verdade Deus não está testando a sabedoria de Abraão, da

humana do cristianismo. mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de


Édipo ou de Agamenon.
A autêntica subjetividade, insuperável modo de existir, se
realiza na vivência da religiosidade cristã. A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo
infinito.
A subjetividade de Kierkegaard não é tributária apenas
da atmosfera romântica que envolvia sua época. Seu Mas, caso o sacrifício se tivesse consumado, Abraão

profundo significado a-histórico tem a ver, mais do que ainda assim não teria como justificá-lo à luz de uma ética

com essa característica do Romantismo, com uma humana.

concepção de existência que torna todos os homens Continuaria sendo o assassino de seu filho. Poderia
contemporâneos de Cristo. permanecer durante toda a vida indagando acerca das

O fato da redenção, embora histórico, possui uma razões do sacrifício e não obteria resposta.

dimensão que o torna referência intemporal para se Do ponto de vista humano, a dúvida permaneceria para
vivenciar a fé. sempre.

O cristão é aquele que se sente continuamente em No entanto Abraão não hesitou: a fé fez com que ele
presença de Deus pela mediação do Cristo. Por isso a saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano
religião só tem sentido se for vivida como comunhão do absoluto, âmbito em que o entendimento é cego.
com o sofrimento da cruz.
Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem
Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo de sua religioso.
época, principalmente o protestantismo dinamarquês,
A fé representa um salto, a ausência de mediação
penetrado, segundo ele, de conceituação filosófica que
humana, precisamente porque não pode haver transição
esconde a brutalidade do fato religioso, minimiza a
racional entre o finito e o infinito.

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A crença é inseparável da angústia, o temor de Deus é No entanto, a aplicação desta finalidade, a saber, fides
inseparável do tremor. quaerens intellectum, dá-se, diversamente, em teologia e
em filosofia.
Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé,
ela não pode ser elucidada pelo conceito. Este jamais Destarte, dentro do corpo de verdades contidas na
daria conta das tensões e contradições que marcam a revelação, descobrem-se algumas que, embora
vida individual. expressas na própria revelação, podem, todavia, ser
conhecidas, de per si, a parte da mesma revelação.
Existir é existir diante de Deus, e a incompreensibilidade
da infinitude divina faz com que a consciência vacile Ora, o corpo da filosofia cristã é formado, precisamente,
como diante de um abismo. destas verdades racionais que, não obstante reveladas
quanto ao modo, são naturalmente cognoscíveis:
Não se pode apreender racionalmente a
contemporaneidade do Cristo, que faz com que a O conteúdo da filosofia cristã é, portanto, o corpo das
existência cristã se consuma num instante e ao mesmo verdades racionais que foram descobertas, aprofundadas
tempo se estenda pela eternidade. ou simplesmente salvaguardadas, graças à ajuda que a
revelação deu à razão.
A fé reúne a reflexão e o êxtase, a procura infindável e a
visão instantânea da Verdade; o paradoxo de ser o Por conseguinte, cumpre ao filósofo cristão, ao tomar
pecado ao mesmo tempo a condição de salvação, já que contato com o dado revelado, cuidar de discernir se ele
foi por causa do pecado original que Cristo veio ao é ou não passível de ser admitido unicamente pela razão
mundo. natural.

Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões, Portanto, o primeiro trabalho da “razão cristã”, é o de
que afinal são derivadas de estar o finito e o infinito em investigar o que, na revelação, é de per si inteligível à
presença um do outro, não constituirão fundamento razão natural.
adequado da vida e da ação.
Ora, uma vez discriminado certo número de verdades
A filosofia deve ser imanente à vida. A especulação que a razão por si mesma conhece, importa ao filósofo
desgarrada da realidade concreta não orientará a ação, proceder de forma unicamente racional, com o fito de
muito simplesmente porque as decisões humanas não se alcançá-las novamente, só que desta vez como objetos
ordenam por conceitos, mas por alternativas e saltos. da sua ciência.

Desta feita, a fé entra aqui como uma luz para a razão,


fazendo-a enxergar uma série de respostas que ela
CONSIDERAÇÕES FINAIS
mesma poderá,doravante, conquistar sozinha.

Destarte, aquele pensador que souber reconhecer que o


Não devemos ignorar que, tanto em filosofia quanto em objeto do seu estudo, no qual se aplica a sua filosofia, ele
teologia, o fim da sabedoria cristã é o mesmo: fides o deve à luz da fé, poderá ser chamado, com justeza, de
quaerens intellectum (A fé procura a inteligência). filósofo cristão e a sua filosofia de filosofia cristã.

Tornar a verdade crida em verdade sabida, eis o Desta sorte, o filósofo cristão é um homem que realiza
itinerário, tanto da teologia, enquanto explicita o dado uma escolha entre os problemas filosóficos.
revelado e as suas conexões com outros dados revelados
De fato, o filósofo cristão é aquele que escolhe os seus
ou com outras verdades naturais, mas sem pretender
problemas filosóficos à luz da revelação cristã.
demonstrá-lo, quanto da filosofia cristã, que é composta
de um corpo de verdades essencialmente racionais, mas Ora, como a revelação cristã trata da salvação do
que se encontram também contidas na revelação: esse homem por Deus, fica claro que a sua projeção na
esforço da verdade acreditada para se transformar em filosofia, abarca apenas certo número de problemas.
verdade sabida é, verdadeiramente, a vida da sabedoria
Aliás, estes são bem definidos: Deus e a sua natureza e o
cristã, e o corpo das verdades racionais que esse esforço
homem: sua origem, natureza e destino último.
nos proporciona é a própria filosofia cristã.

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De sorte que muitas vezes podemos reconhecer um ....................................................................................
filósofo cristão pelos assuntos que lhe interessam ou por ....................................................................................
aqueles nos quais ele realmente se destaca. ....................................................................................
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Neste sentido, inclusive, é que, contanto que não se
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despreze os méritos inegáveis de Tomás de Aquino ....................................................................................
como comentador de Aristóteles, podemos dizer, sem ....................................................................................
dúvida alguma , que, em toda a filosofia de Tomás, foi na ....................................................................................
sua metafísica, máxime em sua teologia natural, que ele ....................................................................................
efetivamente superou o seu mestre grego. ....................................................................................
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Com efeito, é na teodiceia tomásica que se encontra o
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que há de mais original e criativo na filosofia do
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Aquinatense.
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Agora bem, o real é inesgotável; impossível, pois, é fazer ....................................................................................
uma síntese dele na sua totalidade. ....................................................................................
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No entanto, a fé, possibilita ao filósofo cristão fazer esta
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síntese do real, porquanto, de certo modo, simplifica-o.
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De resto, uma filosofia norteada pela fé pode, de fato, ....................................................................................
selecionar o que verdadeiramente constitui-se como ....................................................................................
uma síntese original da realidade: Deus, o homem e as ....................................................................................
relações do homem com Deus. ....................................................................................
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ANOTAÇÕES ....................................................................................
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- Evidências - As origens da filosofia (Parte 2), 2011- Acessado em Março de 2017


https://www.youtube.com/watch?v=1OZNr-Qvbq4

- FÉ E RELIGIÃO: UMA COMPREENSÃO DA VIDA!- acessado em Março de 2017


https://www.youtube.com/watch?v=6a190tb9DNE

- Afinal, o que é filosofia? Penso Logo Assisto - Acessado em Março de 2017


https://www.youtube.com/watch?v=Vr97ea-TRgA

- O Que é Filosofia? ● Mario Sergio Cortella- Acessado em Março de 2017

https://www.youtube.com/watch?v=rbn58GoevLY

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