Você está na página 1de 6

As condições de produção dos periódicos dos clubes

de futebol de Belo Horizonte (1946-1950)


Marcus Vinícius Costa Lage

Doutorando em História e Culturas Políticas

Programa de Pós-Graduação em História. Universidade Federal de Minas Gerais

E-mail: mvclage@gmail.com

RESUMO: No presente artigo sistematizei algumas condições materiais e humanas de produção


de cinco periódicos que circularam entre 1946 e 1950 em Belo Horizonte e cujos títulos e/ou
subtítulos mencionavam os três principais clubes de futebol da capital mineira. O mapeamento
dos vínculos de seus principais responsáveis evidenciou, em especial, a existência de um grupo de
jornalistas esportivos profissionais associados a alguns dirigentes esportivos dos clubes de futebol
da capital mineira naquele contexto. Essas informações serão consideradas como pressuposto
para a análise de discurso desse noticiário esportivo belo-horizontino a ser desenvolvida, que
enfatizará, em linhas gerais, as disputas e hierarquias entre clubes de futebol e seus atores sociais
relacionando-as à distribuição e estruturação de poder existentes na própria sociedade, objeto de
estudo de minha pesquisa de doutorado.

PALAVRAS-CHAVE: Imprensa esportiva; clubes de futebol; identidade cultural.

A partir da consulta ao Catálogo de periódicos: 1895-1954 e de seus respectivos Índices,


elaborados por Joaquim Nabuco Linhares1, bem como da própria Coleção Linhares sob a guarda
da Biblioteca Central da UFMG, estima-se que, entre 1917 e 1953, tenha circulado em Belo
Horizonte cerca de 300 números de 38 publicações dedicadas ao esporte, em sua maioria, de
existência curta e/ou instável do ponto de vista temporal. Fracionando por décadas, os anos de
1940 representam mais de 60% dos títulos e cerca de 80% dos números de periódicos esportivos
da Coleção consultada, o que pode ser entendido tanto pelo crescente interesse público pelo
setor, sobretudo em relação ao futebol, como pela consolidação do jornalismo empresarial e
profissional belo-horizontino orientado para a produtividade e o lucro, também conhecido como
“grande imprensa”2.

Desse conjunto de periódicos esportivos constantes na Coleção Linhares, apenas cinco


títulos, todos publicados na segunda metade dos anos de 1940, faziam menção explícita, em seus

1 LINHARES, Joaquim Nabuco. Itinerário da imprensa de Belo Horizonte: 1895-1954. Belo Horizonte: Fundação João
Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1995, p. 43-582.
2 Cf. LUCA, Tânia Regina de. A grande imprensa no Brasil da primeira metade do século XX. In.: CONFERÊNCIA

INTERNACIONAL DA BRAZILIAN STUDIES ASSOCIATION (BRASA), 9ª, 2008, Nova Orleans. Anais...
Nova Orleans: Tulane University, 2008, p 1.
títulos e/ou subtítulos, ao “pertencimento clubístico”, identidade cultural que possibilita o
engajamento afetivo do público futebolístico e um dos principais elementos culturais desse tipo
de espetáculo3, sendo eles: A Raposa: a palavra da torcida cruzeirense (1946) e Olímpica: o Cruzeiro em
foco (1946-1949), sobre o Cruzeiro Esporte Clube; Vida Esportiva: sob os auspicios do Clube Atlético
Mineiro (1946-1950) e O Campeão: o Atlético em Revista (1949), sobre o Clube Atlético Mineiro; e
América: a voz dos americanos (1947-1950), sobre o América Futebol Clube. Ao todo, esses cinco
periódicos de clubes totalizaram 40 números; algo próximo a 20% dos títulos e 15% dos números
da imprensa esportiva dos anos de 1940.

As revistas América: a voz dos americanos, com doze números publicados entre novembro de
1947 e janeiro de 1950, e Vida Esportiva, com dezoito números entre julho de 1946 e maio de
1950, representam mais de 75% desse conjunto de periódicos clubísticos, o que demonstra a
efemeridade e/ou instabilidade temporal das demais publicações. A revista Olímpica: o Cruzeiro em
foco, por exemplo, editou seis números durante o quadriênio de novembro de 1946 e novembro
de 1949, tendo interrompido sua publicação por quase três anos após a publicação de seu número
inaugural. O jornal A Raposa: a palavra da torcida cruzeirense publicou apenas três números, entre 16
de junho e 1º de julho de 1946, enquanto a revista O Campeão: o Atlético em revista parece ter sido a
publicação dedicada e/ou vinculada a um clube de futebol com existência mais curta, com apenas
um número publicado em dezembro de 1949.

As informações relacionadas à periodicidade e produtividade associadas ao exame do


“expediente”, dos autores e dos anunciantes4, revelam que essas publicações eram uma iniciativa
de dois segmentos sociais que, por vezes, se interseccionavam, quais sejam: i) a dos jornalistas
esportivos profissionais ligados a veículos da “grande imprensa” belo-horizontina, explorando o
sentimento de “pertencimento clubístico”, preocupados com a perspectiva mercadológica da
produção e com o próprio processo de popularização do futebol; e, ii) a dos dirigentes amadores
de clubes de futebol da capital mineira interessados em legitimar suas ações políticas. Vejamos a
seguir especificamente os casos de A Raposa e de América, esta última associada à Olímpica e O
Campeão.

3 Cf. DAMO, Arlei Sander. A dinâmica das emoções no futebol de espetáculo. In.: Do dom à profissão: formação de
futebolistas no Brasil e na França. SP: Aderaldo & Rothschild Ed., Anpocs, 2007, p. 49-67. Para uma história do
“pertencimento clubístico” em Belo Horizonte, cf. SOUZA NETO, Georgino Jorge de. A Invenção Do Torcer Em Bello
Horizonte: da assistência ao pertencimento clubístico (1904-1930). 2010. 134 f. Dissertação (Mestrado em Lazer).
Universidade Federal de Minas Gerais. Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação, Belo Horizonte.
4 Esses dois aspectos investigados (periodicidade e produtividade; “expediente”, autores e anunciantes) são aqui

considerados como algumas das condições materiais e humanas de produção de uma publicação impressa,
respectivamente. Cf. LIE, Nadia. Casa en cifras. In.: Transición y transacción. La revista cubana Casa de las Américas
(1960-1976). Bélgica: Ediciones Hispamérica. Leuven University Press, 1996, p. 25-57.
A Raposa, primeiro periódico do gênero, era impresso pela Folha de Minas5, veículo da
“grande imprensa” belo-horizontina de extrema relevância para o noticiário esportivo e, mais
ainda, para o imaginário futebolístico da capital mineira, já que um ano antes, em 1945, seu
ilustrador, Fernando Pieruccetti, de pseudônimo Mangabeira, lançou as mascotes dos clubes de
futebol de Minas Gerais que registraram e, ao mesmo tempo, reforçaram elementos, significados
e tendências responsáveis por caracterizar as comunidades afetivas existentes, principalmente,
entorno do Atlético e do Cruzeiro6. Embora também pertencesse aos quadros da Folha de Minas,
José Fialho Pacheco, repórter policial consagrado pelo Prêmio Esso de Jornalismo nos anos de
19707, era identificado como diretor de A Raposa e, ao mesmo tempo, como dirigente esportivo
do Cruzeiro, ocupando o cargo de 1º secretário. Mais ainda, os periódicos aqui analisados
evidenciam sua proximidade com o grupo político de Mario Grosso, presidente do clube entre
1942 e 1947 e uma das inspirações de Mangabeira para representar o Cruzeiro através de uma
raposa8. Em determinada ocasião, a revista Vida Esportiva chegou a considerar Fialho Pacheco
integrante do “quartel general”9 de Grosso, o que explica, dentre outras questões, o
enaltecimento que o jornal A Raposa fazia de sua gestão, por exemplo, ao tratar da construção do
Estádio Juscelino Kubitschek de Oliveira 10, de propriedade do Cruzeiro, ou ainda promovendo
campanhas de arrecadação de fundos para que o clube se sagrasse tetracampeão em 1946, sob
anuência e incentivo do presidente11.

Já a revista América, lançada em novembro de 1947, explicitou sua vinculação a um grupo


de dirigentes americanos articulados entorno da presidência de Alair Couto logo em seu número
inaugural. A capa de seu primeiro número, inclusive, foi ocupada inteiramente por uma foto de
Couto. A partir de seu segundo número, lançado após uma interrupção de sete meses e
identificado prematuramente como “inicio de uma nova e promissora fase”12, América passou a
publicar o seu “Expediente” ao lado do editorial, apresentando hierarquicamente os atores e suas
funções dentro da revista, indício de que a publicação assumia maior clareza e solidez em seu

5 LINHARES, Joaquim Nabuco. A Raposa. In.: Itinerário da imprensa de Belo Horizonte, p. 427.
6 Cf. SILVA, Marcelino Rodrigues. A cidade dividida nas charges de Mangabeira. In.: Quem desloca tem preferência:
ensaios sobre futebol, jornalismo e literatura. Belo Horizonte: Relicário, 2014, p. 157-169.
7 Cf. EXXONMOBIL Química Limitada. 1974. Captado em:
http://www.premioexxonmobil.com.br/site/premio_principal/index.aspx?year=1974. Acesso em: 27 jun. 2016.
8 Cf. SILVA. A cidade dividida nas charges de Mangabeira, p. 159.
9 SANTOS, Cesar. Cruzeiro Esporte Clube. Padrão de glorias e celeiro inesgotavel do futebol brasileiro. Vida

esportiva: uma revista a serviço do esporte, Belo Horizonte, ano I, n. 4, p. 4-7, jun. 1947, p. 6.
10 Respectivamente: PACHECO, José Fialho. Trabalho e dedicação dos Cruzeirenses. A Raposa, Belo Horizonte, ano

I, n. 3, p. 1-8, 1 jul. 1946, p. 2. / FERNANDES, Otaviano. Doze meses a serviço do futebol mineiro. A Raposa, Belo
Horizonte, ano I, n. 3, p. 1-8, 1 jul. 1946, p. 2-3.
11 Respectivamente: QUANTO você daria para o Cruzeiro ser tetra-campeão. A Raposa, Belo Horizonte, ano I, n. 1,

p. 1-4, 16 jun. 1946, p. 1. / QUANTO você daria para o Cruzeiro ser tetra-campeão. A Raposa, Belo Horizonte, ano
I, n. 2, p. 1-6, 22 jun. 1946, p. 1-2. / QUANTO você daria para o Cruzeiro ser tetra-campeão. A Raposa, Belo
Horizonte, ano I, n. 3, p. 1-8, 1 jul. 1946, p. 7.
12 SEGUNDO numero. América: a voz dos americanos, Belo Horizonte, ano 2, n. 2, p. 1-32, jun. 1948, p. 3.
projeto. A maior parte de seus colaboradores, que oscilou de 15 a 18 membros, era de adeptos do
clube, vários deles dirigentes esportivos, jogadores e técnicos ligados à gestão de Alair Couto,
como, por exemplo: o vice-presidente Osvaldo Nobre, que foi identificado no segundo número
como “Diretor” da revista, além de ter sido eleito, em 1949, para presidência do clube; o Diretor
de Futebol Francisco Ferreira Alves Junior; o presidente do Conselho Deliberativo de 1948,
Sandoval Castro; e o técnico do time de futebol do América durante alguns meses de 1948 e em
1949, Yustrich. Havia ainda aqueles jornalistas esportivos profissionais conselheiros do clube
entre os colaboradores, como os casos de Álvaro Celso da Trindade, o Babaró, locutor esportivo
da Rádio Guarani, e Cipião Martins Pereira, colunista do jornal Estado de Minas e de periódicos
cariocas, como o Jornal do Brasil, Manchete e O Cruzeiro. A idealização clubista da publicação ficou
ainda mais evidente após o seu décimo número, que passou a identificar, em seu “Expediente”, o
“dr. Alair Gonçalves Couto” como seu fundador.

Apesar de sua clara vinculação com grupos políticos do clube, acredito que o segundo
número da revista representa sua integração à “grande imprensa” e em uma espécie de rede de
jornalistas esportivos profissionais de Belo Horizonte da qual fazia parte Januário L. Carneiro,
identificado como “Secretário” e, a partir do terceiro número, como “Diretor” de América. A
atuação de Carneiro é mais reconhecida a partir de 1952 quando então adquiriu e dirigiu a Rádio
Itatiaia13, mas sua presença no noticiário esportivo da cidade parece ter sido marcante entre 1946
e 1950. Ainda em relação à mídia radiofônica, Carneiro dirigiu alguns programas de rádio, como
o Boletim Mineiro, da carioca Emissora Continental14. Na imprensa escrita, foi também diretor das
revistas Olímpica15 e O Campeão16, além de Minas Clube (1950), “[r]evista social esportiva”17, e das
sucursais do Jornal dos Sports e O Globo Sportivo18, ambos dirigidos por Mário Filho a partir do Rio
de Janeiro, jornalista pioneiro da abordagem popular do noticiário esportivo brasileiro19.

O vínculo de Carneiro especificamente com a “grande imprensa” belo-horizontina parece


ter sido sua direção das páginas esportivas do jornal O Diário, periódico que, inclusive, foi

13 Cf. PRATA, Nair. A história do rádio em Minas Gerais. In.: CONGRESSO ANUAL EM CIÊNCIA DA
COMUNICAÇÃO, XXVI, 2003, Belo Horizonte. Anais..., Belo Horizonte: INTERCOM – Sociedade Brasileira de
Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2003, 19 f. Captado em:
http://www.locutor.info/Biblioteca/A%20HISTORIA%20DO%20RADIO%20EM%20MINAS%20GERAIS.pdf
Acesso em 27 jun. 2016.
14 EMISSORA Continental [propaganda]. América: a voz dos americanos, Belo Horizonte, ano 2, n. 11, p. 1-20, jul.-

ago.-set. 1949, p. 8.
15 LINHARES, Joaquim Nabuco. Olímpica. In.: Itinerário da imprensa de Belo Horizonte, p. 437.
16 ________. O Campeão. In.: Itinerário da imprensa de Belo Horizonte, p. 485.
17 ________. Minas Clube. In.: Itinerário da imprensa de Belo Horizonte, p. 498.
18 SERVIÇO especial do Jornal dos Sports e do O Globo Esportivo [propaganda]. América: a voz dos americanos,

Belo Horizonte, ano 2, n. 12, p. 1-20, jan. 1950, p. 7.


19 Cf. SILVA, Marcelino Rodrigues. Virada de jogo na imprensa esportiva. In.: Quem desloca tem a preferência, p. 191-

203.
identificado como gráfica de impressão dos números dois ao seis da revista América, e cuja
propaganda aparece em todas as suas edições a partir do terceiro número. Além disso, América,
Olímpica e O Campeão faziam propaganda uma das outras, sempre referenciando seu diretor,
Januário L. Carneiro, além de usar o mesmo clichê de anúncio de suas reportagens e a mesma
diagramação em algumas capas, indício de que essas revistas podem ter sido produto de um
mesmo interesse empresarial jornalístico.

Apesar de ser um periódico da Arquidiocese de Belo Horizonte, as características de O


Diario nos permite defini-lo como um veículo da “grande imprensa”. Sua relevância em relação
ao noticiário esportivo da capital mineira nos anos de 1940, por exemplo, se evidencia quando
observamos a sua iniciativa com o semanário especializado em esportes intitulado O Diario
Esportivo que, apesar de ter circulado por pouco mais de 16 meses, entre 1945 e 1946, foi o
periódico do gênero de maior produtividade na cidade até 1954, com 68 números publicados20.
Os procedimentos retóricos de O Diario Esportivo muito se aproximavam do jornalismo esportivo
popular, como atesta, por exemplo, o lançamento, em suas páginas, das mascotes dos clubes que
disputavam o campeonato mineiro de futebol profissional de 1945 desenhadas por Aroeira21, no
mesmo ano que Mangabeira lançava o coelho, o galo, a raposa e demais mascotes, consagradas ao
longo dos anos, na Folha de Minas.

A revista Vida Esportiva trata-se de um caso a parte. Assim como América, a capa inaugural
de Vida Esportiva trazia a foto do presidente do Atlético em 1945, Edward Nogueira,
demonstrando sua vinculação com grupos políticos do clube. Mais ainda, em editorial de
apresentação, o diretor-proprietário Nilton Isaias reforçava informação explicitada no título da
revista, definindo-a como “uma publicação [...] sob o patrocínio do Atlético”22 explicitando, em
“Agradecimento”23, quais os dirigentes do clube, considerados como “verdadeiros atleticanos”24,
eram responsáveis pelo empreendimento.

Ao mesmo tempo, diversos jornalistas esportivos profissionais figuraram em seus


quadros, demonstrando a proximidade da publicação com a “grande imprensa” belo-horizontina.
Nilton Isaias, seu diretor-proprietário, por exemplo, já havia dirigido a revista Minas Esportiva25
entre 1943 e 1946 com alguns jornalistas esportivos da cidade, como o caso de José de Araújo

20 LINHARES, Joaquim Nabuco. O Diario Esportivo. In.: Itinerário da imprensa de Belo Horizonte, p. 414.
21 A PARADA de 1945. O Diario Esportivo, Belo Horizonte, vol. I, n. 6, p. 1-12, 30 ago. 1945, p. 12.
22 VIDA Esportiva é um sonho que se tornou realidade na vida do Clube Atlético Mineiro. Vida esportiva: sob os

auspicios do Clube Atlético Mineiro, Belo Horizonte, ano I, n. 1, p. 1-26, jun. 1947, s/n [folha de rosto].
23 _____, s/n [folha de rosto].
24 _____, s/n [folha de rosto].
25 LINHARES, Joaquim Nabuco. Minas Esportiva. In.: Itinerário da imprensa de Belo Horizonte, p. 398.
Cotta, que também dirigiu O Diario Esportivo26 e mais tarde tornou-se produtor de cinejornais27, e
João Lino de Mattos, este último, inclusive, identificado como secretário no primeiro número de
Vida Esportiva. Ainda nesse número inaugural, o próprio Januário Carneiro aparece como redator-
chefe da revista, figurando, posteriormente e em diferentes momentos, como seu colaborador.

Embora a relação de Vida Esportiva com jornalistas esportivos profissionais tenha sido
constante até maio de 1950, seu vínculo clubístico aparentemente se desfez após um dos maiores
períodos de interrupção de sua circulação, de até nove meses28, quando o quarto número, de
junho de 1947, trouxe o subtítulo uma revista a serviço do esporte em substituição ao original sob os
auspícios do Clube Atlético Mineiro, tornando-se, ao menos em tese, uma publicação esportiva
independente dos clubes da cidade. Nesse sentido, me pergunto se, justamente por essa mudança
de orientação, a análise discursiva de Vida Esportiva, e uma investigação um pouco mais detida
sobre seu grupo de redatores e colaboradores poderá tornar essa revista em uma fonte
paradigmática para a compreensão da relação entre imprensa e clubes de futebol da cidade.

De qualquer maneira, considerando ao menos os três primeiros números de Vida


Esportiva, concluo que esses cinco periódicos se constituíram em publicações vinculadas e, em
vários momentos, impressas e/ou patrocinadas, por um veículo da “grande imprensa”, sendo,
inclusive, dirigidas por um jornalista profissional “providencial”29 de seus quadros. Mas, ao
mesmo tempo, como procurei demonstrar, esses projetos só se viabilizaram com colaborações de
alguns dirigentes dos clubes de futebol da cidade. Assim, tendo em vista essa dupla vinculação de
seus grupos produtores, avento a hipótese, para as análises discursivas a serem desenvolvidas,
que, nesses periódicos, os assuntos políticos dos clubes foram enquadrados, em um momento ou
outro, na cobertura popular do futebol, contemplando tanto a perspectiva do lucro e do mercado
editorial, características da “grande imprensa”, como a preocupação dos dirigentes esportivos
com a legitimação de suas ações.

26 ________. O Diario Esportivo. In.: Itinerário da imprensa de Belo Horizonte, p. 414.


27 CENTRO DE REFERÊNCIA AUDIOVISUAL. Projeto 100 anos de cinema 100 anos de BH. José de Araújo Cotta
[entrevista]. Belo Horizonte: Museu da Imagem e do Som; Prefeitura de Belo Horizonte, 16 jan. 1996 [edição 2015],
98’21’’. Captado em: https://www.youtube.com/watch?v=rq8Ktoi-YnI Acesso em: 28 jun. 2016.
28 Como a Coleção Linhares não possui o terceiro número de Vida Esportiva, é impossível precisar o período que a

revista ficou sem ser publicada entre agosto de 1946 e junho de 1947.
29 Noção desenvolvida por ROCCA, Pablo. Por qué, para qué una revista (Sobre su naturaleza y su función en el

campo cultural latinoamericano). Hispamerica, año XXXIII, n. 99, p. 3-20, dic. 2004, p. 14.