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30/03/2019 O dia da infâmia - 29/03/2019 - Vladimir Safatle - Folha

Vladimir Safatle (/colunas/vladimirsafatle/)

O dia da infâmia
A democracia não aceita que o ocupante da Presidência atente contra ela

29.mar.2019 às 2h00

EDIÇÃO IMPRESSA (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/fac-simile/2019/03/29/)

Dificilmente, poderia ser mais didático. Em uma comissão feita na Câmara


dos Deputados, o senhor ministro da Educação
(https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/03/entenda-os-85-dias-de-crise-de-velez-no-ministerio-da-educacao-em-

grafico.shtml) é confrontado pela deputada Tabata Amaral


(https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/03/desgaste-de-velez-aumenta-apos-entrevista-de-bolsonaro.shtml)

sobre a ausência gritante de um plano estratégico e de descrições mínimas


sobre projetos, responsáveis, cronogramas, resultados esperados e critérios
de avaliação. 

O ministro é questionado sobre números elementares da área no país. Sem


ser capaz de dizer nada concreto, ele remete aos seus secretários,
que mudam ao sabor do vento e não duram nem sequer duas 
semanas. Se alguém precisava de uma imagem final de como os integrantes
do governo atual não estão dispostos a governar (e nem seriam capazes,
se quisessem), essa imagem está agora disponível a todos.

Mas não deixa de ser sintomático que, praticamente no mesmo momento da


confissão do vazio educacional, o senhor Jair Messias continuasse sua guerra

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pessoal contra o presidente da Câmara. Pare de brincar e comece a governar


(https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/03/bolsonaro-esta-brincando-de-presidir-o-pais-diz-maia.shtml),

disparou o deputado contra o Planalto, frase logo revidada por acusações de


“irresponsabilidade” (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/03/bolsonaro-diz-que-fala-de-maia-e-
irresponsabilidade-e-que-nao-ha-brincadeira.shtml).

Marcelo Cipis/Folhapress

Alguns podem achar que isso é uma inabilidade vinda do “espírito


intempestivo” do ocupante da Presidência. Mas não. É uma lógica de
governo. Trata-se de vender a ideia de que as estruturas da “velha política”
estão a impedir que o novo governe, mesmo que o novo não seja capaz
de montar uma planilha elementar de ações com cronograma. 

Trata-se de dizer que as práticas fisiológicas da antiga Nova República estão a


tentar sufocar a revolução em marcha, mesmo que o partido do “novo”
comece a explodir a céu aberto com casos de corrupção e antigas práticas
de malversação de fundos, mesmo que os ocupantes do Planalto exalem um
cheiro 
insuportável de milicianos.

Essa tática não nasceu hoje. Ela serve para esconder exatamente o que o
senhor ministro da Educação mostrou —a saber, que, mesmo se quisesse, o
governo não saberia governar.

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Na falta do que fazer, sobra produzir o caos para vender a ordem. Dizer que o
Estado está cindido entre as forças da novidade e as forças da reação para: a)
justificar a paralisia carnavalesca do governo; b) preparar um expurgo final.

Nesse sentido, não são uma bravata a proposição criminosa de comemorar a


ditadura de 1964 (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/03/bolsonaro-determinou-comemoracoes-devidas-
do-golpe-de-1964-diz-porta-voz.shtml) e as declarações sórdidas de que foram
“probleminhas” (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/03/nao-houve-ditadura-teve-uns-probleminhas-diz-
as torturas, o terrorismo de Estado, a ocultação
bolsonaro-sobre-regime-militar-no-pais.shtml)

de cadáveres, os estupros, os assassinatos, a censura, o empastelamento de


jornais.

Erra quem acha que isso é acessório, assim como erra quem acha que o
racismo, o sexismo e o preconceito generalizado são manobras
diversionistas. Isso é o essencial, pois se trata do verdadeiro horizonte de
governo.

Essas não são afirmações passadistas, de quem está com os olhos fixos no
passado. Elas são declarações que miram o futuro, que visam impedir a
emergência dos que podem nos tirar dessa situação e inventar uma
democracia que nunca existiu. Elas visam anunciar o que está sendo
preparado e profundamente desejado pelos ocupantes do poder.

Em uma democracia, governantes que conclamam a população a festejar


uma ditadura de assassinos, de 
corruptos e de torturadores que tomou o seu próprio país por 20 anos
seriam objetos imediato de destituição.

A democracia não aceita que o ocupante do lugar da Presidência atente tão


abertamente contra ela, saudando aqueles que a destruíram. 

No Brasil, que parece apenas esperar o golpe de misericórdia para


institucionalizar a sua situação autoritária de fato, colocações dessa natureza
só podem ser barradas mostrando qual é o preço de uma nova ditadura,
quantas vozes nas ruas ela precisará calar, contra quanta violência legítima,
vinda do direito fundamental de resistência, ela precisará responder. 

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O dia 31 de março sempre será, na história deste país, o dia da infâmia e da


vergonha. Se alguém esqueceu, nós podemos lembrá-lo.

Vladimir Safatle
Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o
Fim do Indivíduo”.

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