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Viagem pelo Médio São Francisco

Rogério Suzart foi ao encontro


de espécies como S.flagellatus,
S.fulminantis, C.gilbertoi, C.altus
Piscicultura Intensiva de Peixes Anuais
o relato de uma experiência de procriação
de Killifishes em grande escala
Ecologia, Histórico e Reprodução
Fundulopanchax amieti ,
Fundulopanchax avichang
e Kryptolebias brasiliensis

killifishBrasil #10
www.killifishbrasil.com.br

A incrível jornada
de Dalton Nielsen
ao sul de Goiás
e a redescoberta
da espécie anual
mais desejada
do mundo

Simpsonichthys
parallelus
ÍNDICE:
Índice e Editorial pág 2
KILLI-NOTÍCIAS pág 3
Uma Aventura pelo Médio São Francisco pág 4
Alimentos Vivos pág 12
KILLI-FOTOS pág 15
Simpsonichthys parallelus pág 17
Fundulopanchax amieti pág 20
Doenças: Íctio pág 23
Leptolebias citrinipinnis pág 25
KILLI-ENCONTROS pág 28
Kryptolebias brasiliensis pág 29
Fundulopanchax avichang pág 32
Piscicultura Intensiva de Peixes Anuais pág 35 Foto: Nothobranchius sp. “Nyando River”
Agradecimentos e Links pág 39

EDITORIAL:
Este é o nosso Boletim de número 10 e representa uma grande conquista para nós que nos
últimos anos participamos da evolução da killifilia brasileira, com a união de tantos criadores em
prol da pesquisa e da conservação dos killis no Brasil e no mundo.

Desde 2002, quando demos início ao Grupo Killifish Brasil, muita coisa mudou. Talvez nem
esperássemos que o grupo se tornasse consistente e unido como hoje somos. Mas nos mantemos
firmes nestes 4 anos de luta, crescemos e nos tornamos um grande veículo de informações sobre
estes animais e ciclo de vida fascinantes. Hoje temos o enorme privilégio de contar com a experiência
de grandes criadores, recentes e antigos, todos unidos, sem vaidade, num só grupo de “amigos”,
ajudando e incentivando os novos criadores e formando uma consciência que, com toda certeza,
trará inúmeros benefícios para a conservação destes animais.

Apesar de ser o país com a maior diversidade de espécies de killifishes em todo o mundo,
o Brasil “ainda” apresenta uma grande carência de informações sobre estes animais. Se dentre os
aquaristas são poucos os que já tiveram algum contato com os killis, no meio científico a situação
não é muito diferente. E como podemos preservar aquilo que não conhecemos? Este é o nosso
maior desafio! É com este “espírito” que buscamos não só o crescimento deste maravilhoso
hobby, mas também fomentar a curiosidade de novos apaixonados, formando novos cientistas e
pesquisadores (amadores ou profissionais), todos empenhados na conservação destes animais.
Basta notar que na história da killifilia nacional, grandes descobertas que em muito ajudaram a
ciência foram realizadas por nós, maravilhados amantes dos Killifishes.

Talvez por aguçar tanto a nossa curiosidade é que a killifilia se torne um verdadeiro “vício”
, o que, aliado ao fato de formar grandes amizades (mesmo a distância), faz dos killiófilos não
apenas criadores, mas grandes apaixonados. Que este nosso Décimo Boletim Killifish Brasil seja o
símbolo de um crescimento contínuo da killifilia Brasileira, ajudando na formação de novos amantes
e conservadores destes maravilhosos peixes.

Parabéns a todos nós e uma ótima leitura!!!


Rogério Suzart

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KILLI-NOTÍCIAS
Novas espécies descritas

Junho 2006 - Zootaxa, 1244: 41-55 (2006) - Três novas espécies de Simpsonichthys, subgênero
Hypsolebias (Teleostei: Cyprinodontiformes: Rivulidae) WILSON J. E. M. COSTA & GILBERTO C.
BRASIL. Todas originárias da drenagem do Rio Paracatu, Bacia do Rio São Francisco: Simpsonichthys
virgulatus, Simpsonichthys gibberatus e Simpsonichthys fasciatus

Agosto 2006 - Zootaxa 1306: 25-39 (31 Aug. 2006) - Três novas espécies de Killifishes do mesmo grupo
da Simpsonichthys antenori (Teleostei: Cyprinodontiformes: Rivulidae) . WILSON J. E. M. COSTA.
todas originárias da bacia do Rio São Francisco, Brasil: Simpsonichthys janaubensis, Simpsonichthys
mediopapillatus e Simpsonichthys macaubensis.

COLABORARAM NESTA EDIÇÃO:


Rogério Suzart - rrsuzart@yahoo.com.br
Anne Marie Gebers - annegebers@gmail.com
André Carletto - agcarletto@yahoo.com
Fábio Origuela - maratecoaralacortei@yahoo.com.br
Dalton Nielsen - dnielsen@uol.com.br
Gustavo Grandjean - grandjean@gmail.com
Francisco Falcon - falcon@killifishbrasil.com.br
Nilo Mendes (revisão) - profnilomendes@yahoo.com.br
Adriana Falcon (revisão final) - adrifalcon7@yahoo.com.br

EQUIPE KILLIFISH BRASIL:


Administradores do Fórum Killifish Brasil
Francisco Falcon Colaboradores dos Boletins:
Rogério Suzart
Adriano Félix
Moderadores do Forum Killifish Brasil: Alex Ribeiro
Adriano Félix Bruno Graffino
Anne Marie Gebers Dalton Nielsen
Bruno Graffino Edson Marques Lopes
Fábio Origuela Fabiano Leal
Fabrício Oliveira Fábio Origuela
Francisco Falcon Francisco Falcon
Gilson Gil Gilson Gil
Gustavo Grandjean Gustavo Grandjean
Márcio Alexandre Márcio Alexandre
Nilo Mendes Nilo Mendes
Rogério Suzart Ricardo Fachin
Rogério Suzart
Biólogos consultores:
André Carletto Layout do Site e Boletim
André De Luca Francisco Falcon
Bruno Graffino
Dalton Nielsen Capa: Gustavo Grandjean

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UMA AVENTURA PELO MÉDIO SÃO FRANCISCO
Texto por Rogério Suzart
Fotos por R. Suzart, Dalton Nielsen e André Carletto

Figura 1: Rio São Francisco: longa ponte da cidade de Ibotirama – BA.

Na última viagem que havia realizado, em fevereiro de 2004, o São Francisco havia passado pela
maior enchente das últimas décadas, o que impossibilitou nosso acesso e limitou os planos originais da
nossa viagem, que fiz acompanhado de dois grandes amigos: André Carletto, de São Paulo (atualmente
residindo nos EUA) e Cláudio Antonelli (da Itália e atualmente residindo em Salvador-BA). Assim, com a
idéia de empreender o mesmo plano impossibilitado há dois anos, pela terceira vez voltei à região do Médio
São Francisco, em fevereiro do ano corrente (2006), desta vez na companhia de outro grande amigo, Dalton
Nielsen (de São Paulo) e de Samuel Neto (da Bahia). Este plano contemplava a pesquisa da margem
esquerda do “Velho Chico”, região noroeste do estado da Bahia, nas bacias do Rio Preto e Rio Grande. Os
índices pluviométricos tal qual a época em que aconteceram as chuvas favoreciam a pesquisa de Rivulideos
anuais na região, o que nos animava bastante.

Figura 2: poça encontrada em área sem ocorrência anterior de Rivulideos (na foto: Rogério e Dalton).

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Logo no primeiro dia de viagem, tivemos ótimas surpresas, ainda no caminho ao São Francisco,
quando localizamos algumas poças com killis anuais (figura 2), numa área onde não havia nenhuma
referência de ocorrência destes animais, situação que oferecia uma grande chance de termos descoberto
mais uma nova espécie de peixe anual na Bahia. Seguimos viagem atravessando os maravilhosos cartões
postais da chapada Diamantina (figura 3), até uma pequena vila, já próximo de Ibotirama, onde fomos
obrigados a passar a noite devido às fortes chuvas que caíam no momento, apesar da parca estrutura que
o vilarejo oferecia.

Figura 3: chapada Diamantina, Bahia.

No dia seguinte, seguimos viagem em direção às Bacias do Rio Preto e Rio Grande, objetivos
principais desta expedição, passando primeiramente pela cidade de Ibotirama, onde atravessamos uma
longa ponte sobre o Rio São Francisco e logo em seguida tivemos nosso segundo contato com Rivulideos
anuais nesta viagem, numa grande área alagada onde foram encontrados Simpsonichthys flagelatus (figura
4) e uma espécie de Cynolebias que não identificamos naquele momento.

Figura 4: área alagada onde foram


encontrados Simponichthys flagelatus
(imagem no canto esquerdo superior)
e uma espécie do gênero Cynolebias
não identificada.

Seguimos viagem até a


cidade de Barra e entramos no
entroncamento, em estrada de
barro, na direção do extremo
noroeste da Bahia. No entanto,
devido às chuvas que caíam
naquele momento e no dia anterior,
como a estrada de chão era nas
margens do Rio Grande e este
se encontrava muito cheio, nosso
acesso foi novamente dificultado.
Mesmo assim, conseguimos

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adentrar nesta estrada cerca de 80 quilômetros, passando por vários trechos alagados, quando o nosso
acesso foi definitivamente impossibilitado e fomos obrigados a retornar, frustrando e adiando outra vez o
plano feito desde a viagem anterior, em 2004. Belas paisagens formam o cenário desta região (figura 5),
que compreende a Área de Proteção Ambiental das Dunas e Veredas do Baixo Médio São Francisco, como
as grandes dunas continentais de mais de 50 metros de altura, as veredas formadas por grandes buritis e
o belo Rio Icatu. Nestas longínquas áreas, o homem ainda vive em harmonia com o meio ambiente, tirando
deste somente o essencial à sua vida e gerando pouquíssimos impactos neste, o que, portanto, fornece
certa segurança de que a área permanecerá preservada por mais um bom tempo.

Figura 5: paisagens da APA Dunas e Veredas do Baixo Médio São Francisco.

Nos 80 quilômetros que conseguimos penetrar nestas terríveis estradas, visualizamos ambientes com
características que favorecem muito a ocorrência de Rivulideos, sugerindo uma pesquisa mais detalhada,
porém, o excesso de água dificultava qualquer observação e foi encontrada apenas uma enorme variedade
de Caraciformes, Ciclídeos e Siluriformes (figura 6).

Figura 6: Exemplos de peixes encontrados na viagem.

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Então, novamente fomos obrigados a mudar nossos planos de viagem e voltar para Ibotirama,
planejando novamente todo o trajeto a ser percorrido nos próximos dias, de forma a melhor aproveitar o nosso
limitado tempo disponível. Chegamos a Ibotirama no meio da tarde e decidimos explorar melhor uma área que
visitei em 2003, na minha primeira viagem ao São Francisco, quando passei muito rapidamente por cidades
como Bom Jesus da Lapa e Riacho de Santana, onde havia percebido muitos locais interessantes que não
havia podido explorar por falta de tempo naquela ocasião. Assim, seguimos em direção ao sul, passando por
outras poças onde em 2004 encontramos Simpsonichthys picturatus e flagelatus, além das Cynolebias altus.
Porém, neste ano (2006), mesmo com muita persistência, encontramos apenas Simpsonichthys flagelatus
(muito comuns desde o estado de Minas Gerais até a região do Baixo Médio São Francisco) e as Cynolebias
altus (figura 7), mas não o Simpsonichthys picturatus, confirmando um fenômeno que já havíamos observado
em ocasiões anteriores: nem sempre os peixes anuais de uma mesma poça são encontrados num mesmo
momento. Diversas são as hipóteses que poderiam desencadear este fenômeno, como por exemplo, as
espécies maiores se alimentarem das menores no início da temporada (neste caso as Cynolebias predando
o Simpsonichthys picturatus), os peixes terem ciclos de vida com tempos diferenciados, etc.
Conseguimos chegar a Bom Jesus da Lapa somente pela noite, onde descansamos esperançosos
para ter no dia de amanhã mais surpresas e um quadro favorável à conservação de Rivulideos.
No dia seguinte,
acordamos cedo e decidimos
explorar o trecho ao leste, em
direção a Riacho de Santana,
voltando em seguida para o sul,
indo até Malhada, e retornando
novamente ao leste para
Guanambi, onde passamos
a terceira noite. Durante este
dia, desta vez com um pouco
mais de tempo disponível do
que nas viagens dos anos
anteriores, pudemos observar
mais atentamente locais onde
inclusive já havíamos passado
Figura 7: Macho de Cynolebias altus. anteriormente, e com isto,
conseguimos encontrar populações novas, com diferentes padrões de coloração e formatos de corpo e
nadadeira, inclusive em locais onde não havia nenhuma referência de ocorrência de peixes anuais. Dentre
as novas populações que encontramos estão o Simpsonichthys fulminantis e flagelatus, além de diversas
Cynolebias como leptocephalus, gilbertoi e perforatus. Devido às péssimas condições da estrada e ao
cansaço acumulado do terceiro dia de viagem, os poucos quilômetros que compõem este trecho se tornaram
uma longa jornada que nos tomou o dia inteiro.
Este foi sem dúvidas o dia mais produtivo e emocionante desta viagem, pois dentre os novos biótopos
descobertos, 2 populações de Simpsonichthys fulminantis chamaram a nossa atenção, primeiro pela
ampliação da área de ocorrência desta espécie, e segundo pelos padrões de cor variados e diferenciados
em relação aos peixes da localidade típica, em Guanambi.
Além desta importante surpresa, ainda tive a oportunidade de encontrar, pela primeira vez, aquele
que pra mim é o mais belo exemplar dentre todos os grandes peixes do gênero Cynolebias: a Cynolebias
gilbertoi. Antes de chegar a Guanambi, já no final da tarde, passamos ainda pela poça do Simpsonichthys
carlettoi, e finalmente conseguimos encontrar exemplares adultos dos peixes que vivem em simpatria
com esta bela espécie, pois nos anos anteriores havíamos encontrado somente filhotes ou fêmeas, o que
impossibilitava a identificação visual das espécies, que identificamos como Simpsonichthys flagelatus e
Cynolebias leptocephalus ou perforatus (não foi possível a identificação visual da espécie de Cynolebias).
No dia seguinte, após termos passado a última noite em Guanambi-BA, seguimos em direção
nordeste, de volta a Salvador. Fiz questão de passar novamente pelas poças onde em anos anteriores
encontrei os Simpsonichthys fulminantis e Cynolebias leptocephalus em Guanambi, e Simpsonichthys ghisolfi
e Cynolebias leptocephalus, em Macaúbas, para verificar a situação dos biótopos, quando percebemos
mais uma surpresa guardada pela natureza: ao contrário de todas as outras poças onde passamos, estas

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Figura 8: seqüência 1: S. fulminantis (Guanambi); seqüência 2: S. fulminantis nova população “1” (BR); e
seqüência 3: S. fulminantis nova população “2” (BM).

últimas poças estavam completamente secas, apresentando inclusive o solo rachado pelo sol. Esta não foi
a primeira vez que verificamos este fenômeno dentre as poças da Bacia do São Francisco e mais uma vez.
Em outras viagens também já havia sido possível verificarmos poças cheias e poças vazias em regiões
próximas geograficamente (apenas no restrito polígono formado pelas cidades Bom Jesus da Lapa, Riacho
de Santana, Macaúbas, Malhada e Guanambi - figura 9), confirmando assim que os períodos chuvosos não
ocorrem exatamente nos mesmos meses no decorrer dos anos.
Isto demonstra a resistência destes fascinantes animais que foram obrigados a aumentar muito
seu poder de adaptação, devido à dependência destes para com os aspectos climáticos. Justifica ainda
o porquê de mesmo pertencendo à mesma bacia (e neste caso, também à mesma região: Médio São
Francisco), e estando localizadas tão próximas geograficamente, algumas espécies da região apresentarem
grande diferenciação entre as diapausas e/ou na regularidade de nascimentos. Este fato pode também
ser suportado por diversas hipóteses, como o distanciamento das poças em relação ao Rio São Francisco,
diferenciação do solo dentre as poças, barreiras na topografia local, dentre outra razões, que poderiam agir
sobre a permeabilidade do solo, índices pluviométricos, etc. E gerando tais diferenciações de caracteres do
ciclo de vida entre as espécies.
Como, por exemplo, disto, podemos citar o caso dos Simpsonichthys adornatus e igneus, que
através de diversos relatos e de experiências pessoais, foi constatado que estas espécies apresentam uma
diapausa mais longa e nascimentos menos regulares, precisando de hidratações sucessivas (com intervalos
entre 1 a 2 meses) para o nascimento dos alevinos, enquanto outras espécies da mesma região como
Simpsonichthys magnificus e fulminantis têm uma diapausa menor e normalmente apresentam nascimentos
mais regulares, com a maioria dos ovos eclodindo numa mesma hidratação.

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Figura 9: mapa da Bahia, e no detalhe, o polígono formado
pelas cidades Guanambi, Riacho de Santana, Bom Jesus da
Lapa e Malhada.

Seguem imagens que demonstram as fases do biótopos anuais da bacia do Rio São Francisco:

a) poças secas e, portanto, com os ovos dos peixes anuais enterrados (biótopo do Simpsonichthys fulminantis,
Cynolebias leptocephalus e possivelmente de Simpsonichthys ghisolfi, em Guanambi-BA, em fevereiro de 2006):

b) poças enchendo, apenas com peixes juvenis (o mesmo biótopo que o anterior, em fevereiro de 2003, confirmando
que as chuvas não ocorrem no mesmo período ao longo dos anos);

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c) poças cheias, em estágio pleno de desenvolvimento dos peixes e dos diversos organismos aquáticos (biótopo do
Simpsonichthys carlettoi, flagelatus e Cynolebias perforatus ou leptocephalus, em Guanambi-BA, em fevereiro de
2004):

d) poças extremamente cheias, devido à enchente da bacia do São Francisco em 2004, na qual era muito difícil até
mesmo se encontrar os peixes nas poças, devido à dispersão destes nas grandes poças (biótopo do Simpsonichthys
magnificus, flagelatus e uma Cynolebias perforatus, em Malhada, em fevereiro de 2006):

e) poças secando, com os peixes sofrendo com as altas temperaturas e com a baixa taxa de oxigênio dissolvido
na água, até mesmo já apresentando o dorso fora d’água, exposto às aves predadoras (biótopo do Simpsonichthys
fulminantis, flagelatus e Cynolebias gilbertoi e perforatus ou leptocephalus, em Bom Jesus da Lapa-BA, em fevereiro
de 2006):

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Esta viagem nos rendeu muitas surpresas, como a descoberta de novas populações e espécies, além
da confirmação da ampliação da área de distribuição de algumas espécies. Foi possível ainda a confirmação
de muitas situações anteriormente verificadas e que influenciam diretamente a vida dos Rivulideos anuais,
o que nos ajuda a entender cada vez mais sobre o complexo ciclo vital destes animais.
Felizmente o estado de conservação de toda região do Médio São Francisco pouco foi alterado desde
a primeira viagem até o ano corrente (entre 2003 e 2006), apenas com o crescimento da área ocupada com o
plantio de soja, especialmente nas proximidades de Guanambi e Malhada, na divisa com o estado de Minas
Gerais. A grande distância dos grandes centros urbanos brasileiros e o difícil acesso desencadeado pela
situação crítica das estradas da região também proporcionam certa estabilidade da situação de conservação
dos biótopos dos Killis da região do Rio São Francisco, pois atrasam a antropização destas remotas áreas.
Porém, algumas ações isoladas como drenagem de áreas alagadas para plantação e o desmatamento
provocado pelas queimadas para transformar a terra em pastos para criação de gado também põem em
risco a sobrevivência de diversas espécies, o que acontece somente próximo das maiores cidades da região.
A falta de informação geral sobre os peixes anuais, seja por parte da população local quanto por parte dos
órgãos responsáveis pela fiscalização do uso e ocupação do solo é outro grande problema, pois não há
como proteger intencionalmente algo que não se conhece.
O aquecimento global e as mudanças climáticas decorrentes deste aquecimento são, talvez, o
maior motivo de preocupação no que tange à preservação dos killifishes da bacia do “Velho Chico”, pois
como estes animais dependem diretamente de fenômenos climáticos como as chuvas e a evaporação para
conseguirem completar o seu ciclo de vida, qualquer sutil alteração no clima pode desencadear a extinção
de uma população ou de várias espécies em poucos anos.
Assim, com um belo pôr-do-sol a nossa frente, após alguns dias de fascínio e exaltação da natureza,
voltamos para casa com a lição de que estamos apenas iniciando o longo caminho para o entendimento do
vasto conjunto de fatores que influenciam a vida dos killis na natureza.

... belo pôr do sol no caminho de volta pra casa ...

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ALIMENTOS VIVOS
Dicas e truques para aumentar sua produção
por André Carletto

Como todos os criadores de killies sabem, alimentos vivos são essenciais no sucesso de criação da
maioria das espécies. Conheço muita gente que se gabou de ter descoberto uma fórmula secreta de patê
ou uma ração nova no mercado e que havia eliminado completamente a necessidade de alimentar seus
killies com alimentos vivos. Após algum tempo, todos voltaram a alimentar seus peixes com algum alimento
vivo (muitos, após perderem mais da metade dos seus peixes para doenças, problemas com a água ou
degeneração dos alevinos).
Apesar de toda importância que devemos dar ao cultivo de alimentos vivos, não podemos esquecer
do nosso foco: os nossos peixes. Digo isso por já ter visto, várias vezes, criadores de killies gastando
mais tempo com os alimentos vivos do que com os peixes: tentando criar Tubifex, conseguir a minhoca no
tamanho certo, inventar fórmulas para alimentar artêmias até a fase adulta, etc...
Com todas as facilidades que tinha em criar alimentos vivos no Brasil, não podia imaginar quão
difícil seria alimentar os meus peixes aqui nos EUA. Durante 5 meses do ano não tenho como aproveitar
as fontes mais prolíficas de alimentos vivos por aqui: larvas de mosquito, “bloodworms”(Chironomus) e
Daphnias cultivadas em tanques fora de casa. Como diz o ditado: a necessidade leva ao improviso. Com
o tempo aprendi algumas dicas e desenvolvi alguns truques que aumentaram muito a minha produção de
alimentos vivos, o que hoje me permite alimentar bem os meus peixes mesmo durante o inverno. Apesar de
algumas das dificuldades que enfrento serem fora da realidade do Brasil, acredito que estas dicas e truques
possam facilitar ainda mais o cultivo de alimentos para os peixes de que tanto gostamos, independente da
localização do criatório.

Enquitréias

Começo minha seção de dicas por estes animais,


por eles serem uma das minhas fontes de alimentos
vivos mais confiáveis. Por não necessitarem de luz
solar ou níveis de calor muito altos, as Enquitréias estão
disponíveis o ano todo e são muito ricas em nutrientes.
Sinceramente, orgulho-me do sucesso que tenho com
Enquitréias. Enquanto morava no Brasi, nunca tive
muito sucesso e por ter outras fontes de alimentos
vivos disponíveis, nunca dediquei muita atenção
a estes pequenos vermes. Aqui nos EUA aprendi
algumas dicas básicas e com o tempo desenvolvi meus
próprios métodos que hoje fazem minha produção tão
Foto 1: Cultura de Enquitréias
consistente.
A primeira dica que aprendi foi com relação ao substrato de cultivo: turfa. Por aqui, ninguém utiliza
carvão, como fazia no Brasil. Na verdade, não precisa ser turfa, qualquer que seja o substrato sendo
utilizado para os peixes anuais, pode ser utilizado com Enquitréias. Adicionando uma pequena quantidade
de terra (para dar um pouco de liga na turfa) e aproximadamente 10% (em peso) de calcário agrícola
(para tamponar o PH), consigo manter uma cultura bastante ativa por um longo período (7-9 meses).
Outra dica importante: alimento. Já tentei praticamente de tudo, aveia, esterco de galinha, ração de
gato, etc. Nada teve um sucesso tão bom quanto biscoito de cachorro. Quebro os biscoitos em pequenos
pedaços e assim que a quantidade anteriormente dada for consumida, adicione um pouco mais. Se os
pedaços de biscoito começarem a mofar, remova o bolo mofado e reduza um pouco a quantidade sendo
administrada.
Outro fator importante: temperatura. Enquitréias não se dão muito bem com temperaturas altas,
portanto mantenham as culturas no local mais fresco possível. Assim que a cultura atingir o pico de produção
(aqui em casa, minhas culturas chegam a lembrar um prato de “Miojo vivo”), aguarde algumas semanas

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e divida a cultura em dois. Adicione mais substrato novo a cada uma das metades e assim suas culturas
estarão sempre produtivas, sem o perigo de um colapso.

Daphnias

Sempre gostei muito de utilizar Daphnias como alimentos vivos. Apesar de não serem muito
nutritivas, elas podem ser mantidas nos aquários, de forma que podem ser consumidas a qualquer
momento. Infelizmente, as Daphnias se alimentam de algas o que normalmente significa manter a
cultura no sol. Durante o verão e parte da primavera e outono mantenho alguns tanques de plástico com
Daphnias no meu quintal. Porém, durante 5 meses do ano, tenho que trazer minhas culturas para dentro.
Com o tempo, desenvolvi um alimento para minhas Daphnias que não só permite que eu mantenha
minhas culturas produzindo durante o inverno (apesar de produzirem menos do que no verão), mas também
aumenta minha produtividade durante os meses quentes do ano. Mantenho pronta uma mistura de 2 partes
de fermento biológico liofilizado, 2 partes de Spirulina em pó e uma parte de Páprica (tempero utilizado na
culinária alemã). Um vez por semana (a cada dois dias, durante o inverno) dissolvo 2 colheres de chá da
mistura em água, e adiciono aos tanques de Daphnias. Caso a água esteja ficando transparente muito antes
da próxima alimentação, aumente a frequência. Caso nas paredes do tanque estejam se formando longos
filamentos, semelhantes a algas, mas de cor esbranquiçada (colônias de bactérias), reduza a frequência.
Costumo manter caramujos (eu uso Planorbis sp, mas Ampullaria sp também podem ser utilizados)
no meus tanques de Daphnias. Eles ajudam a eliminar o excesso de algas e colônias de bactérias, nos
tanques. A cada duas semanas, sifono o fundo dos tanques e completo com água retirada de aquários.

“Microfex” Foto 2: Cultura de Micro Tubifex

Apesar de não serem extremamente produtivos, os Micro Tubifex (ou “Dero Worms” como são
conhecidos aqui nos EUA) são excelentes como uma fonte variada de alimento, principalmente para peixes
jovens ou espécies de pequeno porte (Aphyoplatys, Diapteron, Plesolebias, etc...). Devagar e sempre, venho
mantendo uma cultura há mais de 3 anos.
Mantenho 3 esponjas de limpeza industrial (iguais à metade áspera das esponjas de cozinha)
dentro de um recipiente de plástico. Alimento os vermes todos os dias com uma pastilha de Spirulina (ração
utilizada na alimentação de cascudos e Ancistrus) por esponja. Outras rações de peixe também podem
ser utilizadas. Como os vermes consomem muito alimento, a água fica suja com muita rapidez. Adicionar
Daphnias à cultura de “Microfex” ajuda a manter a água em condições mais estáveis além de ser uma fonte
extra de alimento.

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Vermes do vinagre

Nenhum alimento vivo é mais simples de cultivar do que


os vermes do vinagre. Ponha uma cultura inicial em um pote ou
garrafa com vinagre de maçã (diluído em 50% de água), adicione
alguns pedaços de maçã e espere algumas semanas. A cultura
vai produzir por meses ou até mesmo por anos! Os vermes do
vinagre são significativamente menores do que micro-vermes e
constituem um excelente alimento para alevinos novos. Além de
não poluir a água como náuplios ou micro-vermes, os vermes do
vinagre se mantêm na coluna d’água, facilitando a alimentação
dos alevinos.
O problema é como coletar os “malditos”. Como eles são
cultivados em água com vinagre, não é possível simplesmente
sifoná-los diretamente para os alevinos. Filtrá-los é praticamente
impossível (eles passam até mesmo através de papel-filtro para
café) e o método de separação em uma garrafa “long-neck” além
de demorar várias horas, coleta mais vermes do que podem ser
utilizados. Recentemente aprendi um método bastante eficiente
de se coletar esses pequenos vermes: mantenha um pequeno
pedaço de esponja de limpeza na superfície da cultura. Na hora Foto 3: Cultura de Vermes do vinagre
de oferecer os vermes aos alevinos, retire a esponja da cultura,
aperte para remover o excesso de vinagre e lave a esponja em
um recipiente de coleta. A água ficará repleta desses vermes.
Antes de retornar a esponja à cultura, aperte-a novamente para
que não introduza muita água limpa na cultura, diluindo o vinagre.

Náuplios de artêmia

Com exceção do custo dos cistos e a eventual dificuldade em achá-los em períodos de entressafra,
os náuplios de artêmia são quase um alimento perfeito. Nutritivos e aceitos por todos os peixes (inclusive
exemplares adultos de espécies de médio porte, como Callopanchax ), são extremamente simples de cultivar
(basta adicionar água!). Por mais simples que seja eclodir artêmia, alguns procedimentos podem aumentar
a taxa de eclosão e o valor nutricional dos náuplios. Já há algum tempo, venho utilizando água do mar para
eclodir minhas artêmias, ao invés de água com sal. Pelo menos para os cistos que utilizo, água do mar
parece aumentar a taxa de eclosão. Outra dica: não adianta tentar enriquecer os náuplios com complexos
de vitaminas! Assim que eclodem os náuplios não possuem boca e não se alimentam por 36 – 48 horas.
Esperar este tempo para que eles absorvam os nutrientes também não é recomendável, uma vez que
durante este período os náuplios vão consumir suas reservas energéticas do ovo. Na verdade, quanto antes
os náuplios forem dados aos peixes, melhor. Desencapsular os cistos para facilitar o processo de eclosão
também aumenta o valor nutricional dos náuplios. Porém acho o processo muito trabalhoso para o pequeno
incremento no valor nutricional.

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KILLI-FOTOS Aqui estão as fotos enviadas pelos membros do grupo Killifish Brasil
e votadas pelos participantes do nosso grupo.

3º Lugar: Maratecoara lacortei


Autor: Luiz Adriano Pinheiro Costa
1º Lugar: Pseudoepiplays annulatus
9% dos votos
Autor: Mayler Martins
12% dos votos

4º Lugar: Nothobranchius guenteri “Zanzibar”


Autor: Gleidson Magno
8% dos votos
2º Lugar: Aphyosemion australe “Chocolate”
Autor: Anne Marie Gebers
10% dos votos

5º Lugar (empate):

Autores das fotos selecionadas:

Anne Marie Gebers


Brizola
Maratecoara lacortei
Gleidson Magno
Autor: Luiz Adriano Costa
7% dos votos Irineu Klosowski
Simpsonichthys reticulatus
Javier Villamil
Autor: Mayler Martins
7% dos votos Luiz Adriano Pinheiro Costa
Marcelo de Oliveira Bordignon
Mayler Martins

Obrigado a todos que enviaram fotos e participaram! 15


FOTOS SELECIONADAS
PELA NOSSA EQUIPE:

Destaque: Simpsonichthys reticulatus - foto: Mayler Martins

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Simpsonichthys parallelus (Costa, 2000)
por: Dalton Nielsen
fotos: Gustavo Grandjean e Francisco Falcon

Família: Rivulidae
Subfamília: Cynolebiatinae
Supertribo: Simpsonichthyina Costa, 1998
Tribo: Cynolebiini Hoedeman, 1961
Gênero: Simpsonichthys Carvalho, 1959
Subgênero: Simpsonichthys
Espécie: paralellus Foto: Macho de S.parallellus

Trabalho de descrição: Costa, W.J.E.M., 2000. Descrições de quatro novas espécies de peixes anuais
do gênero Simpsonichthys (Cyprinodontiformes: Rivulidae) das bacias dos rios São Francisco e Paraná,
nordeste e centro do Brasil. Revista Aquário 3(25): 8-15.

Etimologia: Do latim parallelus (paralelo) em referência ao padrão de faixas do macho.

Localidade Típica: Alagado sazonal na várzea do Rio Formoso na Bacia do Rio Paraná, dentro do Parque
Nacional das Emas.

Histórico:
Em 2000, Wilson Costa publicou a descrição de uma nova espécie de Simpsonichthys do grupo da
S. boitonei. Muitas espécies de Simpsonichthys haviam sido descobertas nos últimos anos, mas poucas
relacionadas a esse grupo, na verdade, apenas a S. marginatus, em 1996, fora encontrada após a descoberta
da S. zonatus em 1989. A descoberta desta espécie e, posteriormente da S. cholopteryx, abriu uma enorme
possibilidade da existência de inúmeras espécies de Simpsonichthys por todo o planalto central brasileiro,
especialmente no estado de Goiás, pois a localização geográfica da S. parallelus e da S. cholopterys é
distante em aproximadamente 500 km da S. boitonei, e nesta lacuna não há conhecimento de nenhuma
espécie de Simpsonichthys ou qualquer outra espécie de peixe anual. O grande problema está na atividade
econômica que impera nesta região - a agricultura - que já deve ter exterminado várias espécies sem mesmo
tê-las conhecido.
A grande restrição para conseguirmos introduzir esta espécie ao hobby se referia à localização de sua
localidade típica, pois fora encontrada dentro de um Parque Nacional de Preservação Ambiental, o Parque
Nacional das Emas, ao sudoeste do estado de Goiás perto da fronteira com estado do Mato Grosso.
Analisando uma foto de satélite da região, verifiquei que o Rio Formoso possuía grande parte de seu
percurso fora do Parque e provavelmente poderia haver outras poças com esta espécie nestas localidades.
Posteriormente, recebi a informação que fora encontrada uma população a cerca de 40 km rio abaixo. Com as

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fotos de satélite, mais as informações adicionais
do encontro de uma nova população, programei
uma viagem com o objetivo de encontrar
S.parallelus e a S. cholopteryx. Como possuía
as coordenadas em GPS da localidade da S.
cholopteryx, achei que seria mais fácil encontrá-
la, mas a realidade se mostrou inversa.
Convidei alguns amigos para me
acompanhar nesta aventura, era uma viagem
longa e com pouco tempo para procurar os
peixes com dedicação, mas ninguém conseguiu
disponibilidade para me acompanhar e acabei
fazendo a viagem sozinho. Parti no dia 27 de
Abril de 2006, bem cedo, de Taubaté rumo a Foto: Macho de S.parallellus
Chapadão do Céu, pequena cidade às margens do
Parque Nacional das Emas, em Goiás, e após rodar
1.041km cheguei a Chapadão do Céu perto das 20
horas. A primeira providência foi arrumar um local
para dormir e tomar um longo banho.
No dia seguinte, acordei cedo e tentei achar
algum acesso até o Rio Formoso. As estradas não
chegavam perto do rio, a alternativa foi entrar nas
fazendas e tentar chegar perto do rio pelas fazendas,
já que as poças de Simpsonichthys costumam
ser perto dos rios. Na primeira fazenda que entrei,
encontrei uma várzea com boas características para
peixes anuais, mas repleta de Rivulus scalaris, havia
tantos Rivulus que era possível pegá-los com a mão.
Após três tentativas frustradas de chegar perto do
Rio Formoso, encontrei uma estrada de terra que se
Foto: Biótopo de S.parallellus
dirigia à sede de uma fazenda. Chegando à sede,
consegui informações sobre uma trilha até o Rio Formoso. A trilha possuía uns cinco quilômetros e passava
por um pasto e áreas de mata. Chegando às proximidades do Rio Formoso, observei uma várzea com vários
tufos de gramíneas dentro da poça, muito parecidos com o biótopo da S. zonatus. Ao passar a rede em uma
área mais aberta, apareceram vários exemplares de S. parallelus, todos já adultos e sexados. Simpátricos
às S. parallelus havia Rivulus scalaris, porém em menor quantidade.
A poça possuía a forma arredondada com aproximadamente 400m2. A profundidade era de 50 cm, e
a água era clara com pH 6,8 e dureza carbonatada e total igual a zero.
Após coletar alguns exemplares, embalei-os e encaminhei-me em direção à poça da S.
cholopteryx que estava a cerca de 180 km por uma estrada de terra muito empoeirada. Ao chegar
à localidade, havia um acampamento do MST (Movimento dos Sem Terra) que impediram que eu
tentasse coletar, pois achavam que eu fosse espião dos fazendeiros. Chegaram a ameaçar jogar
pedra no carro e acabei saindo da localidade debaixo de palavras de ordem contra os latifundiários.

Habitat:

Apenas duas populações conhecidas: uma dentro do Parque Nacional das Emas e outra fora do
parque. É provável que existam mais populações ao longo do curso do Rio Formoso, afluente do Rio
Correntes, bacia do Rio Paraná.

Descrição:

É a menor espécie de Simpsonichthys já encontrada, o maior exemplar coletado possuía apenas


3,2 cm. Uma característica da espécie é a ausência de nadadeiras pélvicas igual a S. boitonei. Os machos
possuem padrão de colorido único, com faixas azuis verticais pelo corpo, suas nadadeiras ímpares são
alaranjadas com uma borda negra, sua nadadeira caudal é elíptica e possui olhos azuis com uma barra
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vertical escura, únicos no gênero. As fêmeas possuem coloração castanho-claro-amarelado, com uma
mancha preta na parte central do corpo e barras verticais mais escuras. As nadadeiras possuem pequenos
pontos escuros irregulares.

Foto: Fêmea de S.parallellus

Reprodução em aquário - (Francisco Falcon)

Apesar de seu diminuto tamanho, logo quando os peixes chegaram ao aquário, houve a disputa
de território. Os machos dominantes mataram os menores e, em algumas ocasiões, atacavam as fêmeas.
Passado este primeiro momento, que durou dois dias, os peixes começaram a desovar e com uma razoável
freqüência.
Separei dois aquários para esta espécie: o primeiro com um casal (num pequeno aquário de 25cm)
e outro, maior (60cm), com três machos e duas fêmeas, com um pequeno aquário redondo servindo como
recipiente para o substrato (pó de casca de coco), aonde os peixes desovaram. Curiosamente, encontrei
mais ovos no aquário que tinha um casal do que no outro, talvez por haver mais machos e eles passarem o
tempo perseguindo uns aos outros ao invés de cortejar as fêmeas. Após 1 mês desovando, retirei o substrato
e após retirar o excesso de umidade em jornal, examinei à procura de ovos.
Os ovos são desproporcionais ao tamanho do peixe, grandes e fáceis de serem visualizados no
substrato, tal como ocorre em S.zonatus e S.boitonei. A incubação acompanha as demais espécies do
gênero, sendo que após 60 dias, em ambiente quente, a maioria dos ovos já está pronta para eclodir.
De uma turfa coletada dia 1/7 e mantida à temperatura ambiente ( 26ºC) no dia 25/8 havia cerca de 20
ovos ainda claros, cerca de 5 embrionados mas não-prontos para eclodir, e diversos ovos já prontos para
eclosão. Retirei manualmente da turfa os ovos que não estavam prontos, passando para um saco menor,
para serem hidratados posteriormente, e então molhei o substrato com os ovos que já estavam prontos. Em
cerca de uma hora apareceram os primeiros alevinos, cerca de 15, proporcionalmente grandes e famintos.
Como alimento inicial ministrei microvermes e náuplios de artêmia, e eles cresceram rapidamente, estando
completamente sexados em quatro semanas, sendo que, no primeiro nascimento que obtive, o numero de
fêmeas foi ligeiramente maior do que o de machos (cerca de 7 machos e 10 fêmeas).

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Fundulopanchax amieti (Radda, 1976)

Texto: Francisco Falcon


Fotos: Francisco Falcon, André Carletto e Ed Pürzl.
Família: Nothobranchiidae Garman, 1895
Subfamília: Nothobranchiinae Garman, 1895
Tribo: Nothobranchiini Garman, 1895
Subtribo: Aphyosemiina Huber, 2000
Gênero: Fundulopanchax Myers, 1924
Subgênero: Paraphyosemion Kottelat, 1976
Espécie: amieti
Histórico:

Este belo killifish africano, originário dos


Camarões, foi descrito em 1976 por A.C.Radda,
em homenagem ao Prof. Jean-Louis Amiet,
entomologista e ecologista francês que trabalhou
na Universidade de Yaoundé, Camarões, e
que publicou uma revisão dos Aphyosemion
provenientes daquele país. Foi encontrado pela
primeira vez por Eduard Puerzl em 13 de Dezembro
de 1975, na estrada para Koupongo, 500 metros
a oeste de Somakak, na bacia hidrográfica do rio
Sanaga, sudoeste dos Camarões. Posteriormente Foto: Biótopo de Fp.amieti. Cortesia de Ed Pürzl.
foi encontrado também em outras localidades dentro da mesma região.

Ecologia:

Na natureza, vive em florestas ao pé de planaltos, onde habita pequenos riachos, de água ácida e
pouca correnteza, com profundidade de cerca de 30cm nas margens, bem mais profundos na região central,
com temperatura variando entre 20ºC e 26ºC. Vivem em simpatria com outros killies, como Procatopus,
Aphyosemion ahli, A.riggenbachi e Epiplatys infrafasciatus dentre outros não-killies, como Alestes longipinnis
e Barbus guirali.
É considerado um peixe semi-anual, pois seus métodos reprodutivos adaptam-se às condições do
ambiente, podendo seus ovos permanecerem na água até eclodirem, ou passarem por períodos de seca,
entrando em diapausa até serem novamente hidratados pelas chuvas e eclodirem.

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Comportamento e Reprodução:

Como na maioria dos killies, os


machos são rivais entre si, e costumam
perseguir incessantemente as fêmeas, sendo
recomendável colocar mais uma fêmea para
cada macho, a fim de se evitar agressões mais
sérias.
Reproduzem-se de maneira semelhante
aos seus congêneres, colocando os ovos no
fundo do aquário, podendo ser usado para isso,
“bruxinhas” colocadas no fundo do aquário,
aonde passam a maior parte do tempo; sendo
que o ideal é se verificar freqüentemente
(diariamente) as “bruxinhas”, recolhendo-se os ovos à medida em que são avistados.
Os ovos podem ser colocados em potinhos com água para incubação, o que leva cerca de três a
quatro semanas, sendo que é importante observar os ovos para se descartar ovos fungados antes que
contaminem outros ovos. Outra boa opção é colocar os ovos numa caixinha forrada com lã (foto acima), que
pode ser uma “bruxinha” usada para desova, ou até lã acrílica, daquelas usadas para filtragem, levemente
umedecida, aonde permanecem fora d´água até estarem prontos para eclodir (para isso é essencial a
verificação constante do desenvolvimento dos embriões), quando então deverão ser colocados na água.
Alguns criadores utilizam substrato (turfa, coxim ou pó de xaxim) no fundo do aquário, aonde os peixes
desovam por um período de 15 dias e posteriormente o substrato é removido, coado e guardado (da mesma
maneira como faríamos, por exemplo, com peixes do gênero Nothobranchius) e rehidratados depois de
45/60 dias.
Eu particularmente, e especificamente para esta espécie, tive mais êxito usando os dois primeiros
métodos (incubação em água e incubação em lã), mas como em killifilia não existem regras rígidas, o que
vale é a experiência e o bom senso de cada criador.Os peixes recém-nascidos alimentam-se imediatamente
de náuplios de artêmia e microvermes, e crescem relativamente rápido, sexando em aproximadamente
dois meses, sendo que geralmente nascem mais fêmeas do que machos. Estes peixes vivem até três anos
em aquário. Alguns criadores relatam experiências de deixarem peixes adultos e alevinos em um mesmo
aquário, com bastante espaço, aonde crescem e se reproduzem sem necessidade de se retirar os ovos/
alevinos.

Manutenção e Alimentação:

Podem ser mantidos em aquários de 30 ou 40cm (10/12litros) em trios, sendo que é importante
observar-se a qualidade da água, sendo ideal fazer uma troca parcial semanal de água (50%) para manter
a boa qualidade da água. Em aquários um pouco maiores pode-se usar pequenos filtros “copinho” para
auxiliar na qualidade da água.
São “bons de boca”, e é recomendável que lhes seja ministrada alimentação duas vezes ao dia, que
deve ser constituída de alimento vivo (enquitréias, dáfnias, tubifex e/ou artêmia viva) embora eu costume
forçar eles a comerem alimento industrializado (no caso, Color Bits). O sucesso na reprodução deste bicho
está diretamente ligado a uma boa e freqüente alimentação, pois estes peixes quando pouco alimentados
tendem logo a apresentar sinais de pouca alimentação, sendo que as fêmeas ficam bem magras e deixam
de produzir ovos.

Conclusão:

Trata-se de um dos mais belos representantes deste gênero, sendo um peixe de dificuldade mediana
no que diz respeito à manutenção e reprodução, e é indicado para os que já tem alguma experiência com
peixes do gênero Fundulopanchax, que em minha opinião é um dos grupos mais interessantes dentre os
Killifishes.

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DOENÇAS:
ÍCTIO ÍCTIO
por:
por: Anne
AnneMarie
MarieGebers
Gebers

A doença promovida pelo protozoário Ichthyophthirius multifiliis, do filo Ciliophora é comumente


chamada de íctio ou doença dos pontos brancos.
O Ichthyophthirius multifiliis é um ectoparasita ciliado que abrange tanto regiões tropicais como
sub-tropicais e temperadas (SCHOLZ, 1999); ele se aloja na pele e brânquias dos peixes de água doce,
alimentando-se de secreções, suco tissular, fragmentos de células e sangue. Alastrando-se rapidamente em
temperaturas que variam de 15 a 24°C, seu ciclo de vida completa-se em curtos períodos de 3 a 6 dias, onde
pode ter se multiplicado em milhares (NOGA, 1996), demonstrando assim sua alta “virulência”. As lesões
são severas e provocam o desequilíbrio osmótico do peixe; depois da infestação pelo íctio a mortalidade (até
90%) ocorre por danos causados a seu epitélio, como erosão e ulceração da pele, essas lesões dão entrada
a novas infecções secundárias. Os nódulos brancos na pele (dorso e nadadeiras) e guelras podem atingir o
tamanho de 1 mm ou mais, sendo assim facilmente identificáveis.
Ele geralmente acomete peixes com problemas de estresse, desnutridos ou com má qualidade de
água (THATCHER & NETO, 1994). E principalmente aparece no inverno onde as temperaturas da água
estão favoráveis ao seu desenvolvimento. Os peixes acometidos por estes parasitas apresentam o hábito
de se “coçar”, esfregando-se na areia do substrato, ou nos enfeites presentes no aquário, eles também
apresentam as nadadeiras fechadas e a respiração acelerada.
Em condições naturais existe um equilíbrio entre os agentes protozoários e os peixes, isso ocorre
devido a uma ativação do mecanismo imunológico de defesa por parte do hospedeiro. Quando este se
rompe, os ectoparasitas se desenvolvem em grande número, promovendo sua ação patogênica e induzindo
à morbidade, seguida da mortalidade.

Tratamentos:

O maior problema do íctio são as doenças secundárias que se instalam após a baixa de resistência;
peixes enfraquecidos geralmente tem pouca chance de se recuperarem, principalmente se não forem
tratados logo no início da infestação. Deve-se observar que existem peixes mais “sensíveis” para o íctio e
para estes o melhor mesmo é prevenir, mantendo sempre uma boa alimentação, temperatura constante e
com trocas parciais da água mantendo seus parâmetros (pH, dureza).
Um dos primeiros tratamentos é a elevação da temperatura da água para 30°C ou mais (deve-se
observar a tolerância do peixe) e a adição de sal (cloreto de sódio), 5g para cada 5 litros, na água; nos

23
casos de killis, eles aceitam bem este tratamento. A temperatura deve ser mantida alta por pelo menos uma
semana, e a redução deve ser feita de maneira gradativa.
Nos últimos anos foram definidas algumas linhas de pesquisa sobre uma possível imunização contra
o I. multifiliis, pois os produtos existentes no mercado (Azul de Metileno, Sulfato de cobre e Formalina
Comercial, entre outros), além de serem tóxicos, nem sempre são eficientes, principalmente no caso do íctio,
contudo ainda são muito utilizados. Entre eles o Azul de Metileno, que deve ser administrado em soluções
de 1%, tornando a água meio azulada. Uma das grandes contra-indicações deste produto são as possíveis
lesões nos órgãos reprodutores, tornando os peixes estéreis. A Formalina Comercial também é muito
utilizada, na dose de 0,2 mL/L é recomendada a imersão total do peixe por uma hora em dias alternados, por
três vezes. A utilização de Formalina junto com Verde de Malaquita (0,05mg/L) é recomendada quando já
existem infecções secundárias, apresentando bons resultados, contudo o Verde de Malaquita é um produto
proibido para peixes de consumo. O Sulfato de Cobre na dosagem de 0,63 mg/L também em banhos de uma
hora a cada 48 horas, apresenta bons resultados (CARNEIRO; SCHORER & MIKOS, 2005).
Os peixes também podem receber imunoestimulantes que aumentam sua proteção contras agentes
infecciosos como bactérias, doenças virais e infecções parasitárias. O imunoestimulante deve ser aplicado
antes do aparecimento da doença, pois sua ação é profilática. Sabe-se que existem fatores que predispõem
os peixes a uma baixa de imunidade como o estresse, mudança de pH e a diminuição da temperatura
ambiental, estes logicamente devem ser evitados.
Em killis existem alguns relatos de íctio em Pterolebias e Simpsonichthys, mas nada que uma boa
alimentação viva e um pouco de sal na água do aquário não ajudem a controlar.

Bibliografia:

CARNEIRO, P. C. F.; SCHORER, M. & MIKOS, J. D. Tratamentos terapêuticos convencionais no


controle do ectoparasita Ichthyophtirius multifiliis em jundiá (Rhamdia quelene). Pesq. Agrop. Bras. V. 40, n.
1, p. 99-102, 2005.
NOGA, E. G. Fish Disease: diagnosis and treatment. 1996. p.95-97.
SCHOLZ, T. Parasites in cultured and feral fish. Veterinary Parasitology, v.84, n. 3-4, p. 317-335,
1999.
THACHTER, V. E. & NETO, J. B. Diagnóstico, prevenção e tratamento das enfermidades de peixes
neotropicais de água doce. Revista Brasileira de Medicina Veterinária, v. 16, n. 3, p. 111-128,1994.

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Notas sobre Leptolebias citrinipinnis
Texto: Fábio
Texto: Fábio Origuela
Origuela de
de Lira
Lira
Fotos: Francisco
Fotos: Francisco Falcon
Falcon

Família: Rivulidae
Subfamília: Cynolebiinae Hoedeman, 1961
Tribo: Cynopoecilini Costa, 1990
Subtribo: Leptolebiina Costa, 1998
Gênero: Leptolebias Myers, 1952
Espécie: citrinipinnis

Origem:

Regiões alagadas presentes em áreas de restinga no município de Maricá, Rio de Janeiro. Também
foi encontrada em locais que atualmente encontram-se modificados pelo crescimento urbano, mas que no
passado provavelmente eram áreas de transição entre a Restinga e a Mata Atlântica.

Descrição:

Machos: Maior espécie dentre as Leptolebias, com machos apresentados tamanho médio de 3 cm,
mas podendo chegar até os 5 cm. Possuem o corpo alongado, comprimido lateralmente. Machos apresentam
anal e dorsal terminando em ponta, com a caudal fortemente lanceolada e peitoral com bordas arredondadas.
Origem da dorsal, na vertical, paralela ao 7º ou 8º raio da nadadeira anal. Machos apresentando o corpo de
cor vermelho amarronzado, com escamas de verde cítrico iridiscente. Nadadeiras dorsal, anal e caudal de cor
verde cítrico, com uma borda, de fora para dentro, na cor amarela, na nadadeira dorsal. Íris de cor amarela
com uma faixa vertical vermelha. Nadadeira peitoral transparente, com nadadeira pélvica avermelhada no
bordo externo.

Fêmeas: Variando seu tamanho entre 2 cm a 3 cm. Dorsal terminando em ponta, com anal
arredondada. Caudal levemente lanceolada. Origem da dorsal, na vertical, em paralelo na altura do 7º
ou 8º raio da nadadeira anal. Coloração característica a todas as outras espécies do gênero, variando da
cor bege à marrom-claro. Íris dourada, com faixa transversal vertical escura. Nadadeiras transparentes.

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Histórico:

Descrita por Costa, Lacerda e


Tanizaki apenas em 1988, esta espécie
já era do conhecimento do meio científico
desde pelo menos o início da década de
80, quando pesquisadores da Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro, em suas
incursões de coletas de anfíbios (Xenohyla
truncata), citavam de maneira informal o
encontro destes peixes anuais.
Estreitamente relacionada à
Leptolebias fluminensis, foi por algum tempo
confundida com ela, devido à sinonimização
feita por Costa em 1995, mas posteriormente
desfeita. Sabe-se que pertence ao mesmo
Foto 2 grupo que esta, junto à suposta Leptolebias
nanus e Lep. leitaoi.
Seu habitat (fotos 2 e 3) encontra-se
inserido numa região de restinga, separado
do mar por uma grande duna contínua
que segue por cerca de 2km. Encontra-se
alagado por pelo menos 9 meses ao ano,
mas mesmo em períodos secos é possível
encontrar exemplares, já que ao longo de
seu habitat sempre restam alguns poços,
onde alguns peixes costumam se refugiar. É
a única espécie ictiológica existente na poça,
dividindo espaço com anfíbios (Xenohyla
truncata, Hyla elegans), crustáceos
(caranguejos e microcrustáceos), além de
outros invertebrados. Abundante nas poças é
Foto 3
possível visualizar exemplares nadando por
sobre a água. Além destes biótopos à beira-
mar, L.citrinipinnis também é encontrada
em outras poças em área de transição
para Mata Atlântica. Nestas poças foram
encontradas vivendo em simpatria com Lep.
fractifasciatus e em outras à Nematolebias
papilliferus. Encontra-se atualmente em
estado vulnerável de conservação, mas
caso a especulação imobiliária continue
Foto 4: Fêmea de Leptolebias citrinipinnis crescendo de maneira desordenada na
região, acabará levando esta espécie à
extinção dentro de poucos anos.

Hábitos:

Peixes de fácil manutenção em


aquários, aceitam ração com facilidade. Por
serem territoriais aconselha-se não colocar
mais de um macho em pequenos aquários,
mas esta competição diminui quando
inseridos em aquários maiores.

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Reprodução:

De fácil manuseio, são peixes fáceis de reproduzir e extremamente prolíferos, podendo dar ninhadas
(dependendo do período de desova dos casais) de mais de 50 exemplares. O macho corteja a fêmea
estremecendo o corpo, quando então são abertas, em forma de exibição, suas nadadeiras dorsal e anal.
São peixes aradores, isto é, não mergulham no substrato durante a desova, bastando que seja
espalhada uma fina camada (0,5 cm) de turfa no aquário. Seu tempo de incubação pode variar de 30 a 45
dias.

Agradecimentos:

Agradeço ao apoio de toda equipe do Boletim, mas não só pelo apoio, mas pelo aprendizado nestes
anos de killiofilia (Falcon, Graffino, Suzart, Nilo...e todos os outros...). E a Aline Pedro, pelo apoio nas horas
alegres e difíceis, e pela compreensão das horas perdidas, para ela meu infinito carinho.

Bibliografia:

Costa, W. J. E. M. & Lacerda, M. T. C. 1988. Identité et redescription de Cynolebias sandrii et de


Cynolebias fluminensis (Cyprinodontiformes, Rivulidae). Revue Française de Aquariologie, 14(4):127-132.

Costa, W.J.E.M.; Lacerda, M. T. C.; Tanizaki, K. 1988. Description d’une nouvelle espèce de Cynolebias
des plaines côtières du Brésil sud-oriental (Cyprinodontiformes, Rivulidae). Revue Française de Aquariologie,
15(1): 21-24.

Cruz, C. A . G. & Peixoto, O. L. 1983. Novo peixe anual do Estado do Rio de Janeiro, Brasil (Pisces,
Cyprinodontidae). Arquivos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Itaguaí, jan./jun. 1983: 89-93

Faria, A. & Muller, H. 1937. Espécie da família Cyprinodontidae, Gênero Cynopoecilus, constatadas
em águas do Brasil. Revista Naval, 37 (3): 98-99.

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KILLI-ENCONTROS

Falcon, Carlos Santos, De Paula (Lynx),


Gleidson Magno e Mayler Martins, na estufa
do Falcon

Thiago, Geraldo, Carlos Santos, Falcon,


Fabiano (escondido), Gleidson Magnio e
De Paula na estufa do Falcon

Geraldo, Ricardo, Edson, Falcon e Danilo reunidos na estufa do Edson

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Kryptolebias brasiliensis
(Valenciennes in Humboldt & Valenciennes, 1821)

Família: Rivulidae
Subfamília: Kryptolebiinae Costa, 2004 Texto : Francisco Falcon
Gênero: Kryptolebias Costa, 2004 Fotos: Francisco Falcon e Alberto Reis
Espécie: brasiliensis

Histórico e Habitat:

Descoberto pelo Barão Alexander Von Humboldt entre 1799 e 1804, trata-se do primeiro Killifish
descrito para a América Latina, tendo sido descrito primeiramente por A.Valenciennes originalmente sob o
nome de Fundulus brasiliensis, tratando-se até então do nome mais antigo para uma espécie de Aplocheiloidei.
Posteriormente foi realocado por Garman (1895) para o gênero Rivulus, e bem recentemente o gênero
Kryptolebias foi criado, alocando então esta espécie. Trata-se de um habitante de pequenos cursos de água
ácida e levemente corrente dentro da Mata Atlântica, aonde permanece geralmente escondido entre folhas
secas no fundo destes cursos. Nestes locais, a umidade costuma ser mantida pela proteção das árvores,
sendo que em algumas épocas do ano a quantidade de água é tão pouca que nos surpreende a capacidade
que estes bichinhos tem de permanecer vivos com tão pouca quantidade de água! Geralmente é encontrado
em simpatria com Rivulus janeiroensis.

Descrição:

São peixes grandes, facilmente reconhecíveis pelo formato e pela cabeça maior e mais achatada que
nos Rivulus, sendo possível encontrar exemplares de 8cm ou mais. No que diz respeito ao colorido, possui
uma infinidade de detalhes, sendo o dorso pardo escuro e os flancos azuis escuros, com faixas azuladas
alternadas com faixas avermelhadas na metade posterior do corpo dos machos, sendo a nadadeira anal
amarelada com marcações avermelhadas e com o bordo vermelho escuro; igualmente a caudal é amarelada
com marcações avermelhadas, e possui o bordo inferior avermelhado, e o bordo anterior e o superior brancos.
A fêmea possui cores mais opacas, tendendo ao pardo-avermelhado, não possuindo as faixas no corpo e
apresentando pequenos pontos cintilantes ao longo dos flancos.

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Comportamento:

Tratam-se de peixes territoriais e bastante


tímidos, permanecendo em aquário escondidos
na maior parte do tempo. Permanecem boa
parte do tempo imóveis, às vezes fora d´água,
repousando acima da linha d´água ou grudados
no vidro. São também grandes saltadores, sendo
essencial manter os aquários bem tampados,
pois costumam saltar pelas menores frestas.

Distribuição:

É ainda encontrado em diversas


localidades dentro do Estado do Rio de Janeiro,
o que não significa que não encontra-se
ameaçado de extinção, uma vez que muitas
destas áreas correm o risco de serem destruídas
pelo desmatamento ilegal e pela expansão
das cidades costeiras do RJ. São conhecidas
populações em Tinguá, Barra da Tijuca, Silva
Jardim, Vila de Cava, Itacuruçá, Restinga
de Marambaia, Ilha da Marambaia (42km da
restinga), Muriqui, Japeri, dentre outras, com
pequenas variações de colorido, sendo algumas
populações mais azuladas e outras mais
avermelhadas.

Foto 2: Biótopo de K.brasiliensis e R.janeiroensis, em Tinguá/RJ Alimentação:

Na natureza, alimentam-se basicamente


de insetos e larvas, sendo que em aquário
facilmente adaptam-se a comer enquitréias,
larvas de mosquito, bloodworms, outros
alimentos vivos, e, em alguns raros casos,
comida industrializada. Os meus adaptaram-
se a comer ração tipo bits, e são bem famintos!
É importante ressaltar que estes peixes ficam
melhor se alimentados pelo menos duas vezes
Foto 3: Fêmea de K.brasiliensis ao dia, pois com pouca alimentação geralmente
ficam bem magros e não desovam.

Reprodução:

Apesar de difícil, a reprodução em aquário


já foi conseguida, sendo o fator principal para o
sucesso, a qualidade da água e a tranquilidade
para os peixes, uma vez que são bastante
tímidos. Consegui reproduzÍ-los colocando um
casal em um aquário aberto no quintal de minha
residência, repleto de plantas e uma “bruxinha”
flutuante e outro casal em outro aquário (60cm
x 25cm x 30cm) dentro de minha Killiroom, com
Foto 4: Casal de K.brasiliensis bastante plantas (Hydrocotyle leucocephala) e
uma “bruxinha”.
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Pude observar algumas vezes o macho
apresentar as cores bem escuras e “dançar” e
perseguir a fêmea freneticamente, sendo que
esta apresentava as cores bem claras, como
em resposta ao macho. A dança lembra a que
observei em outras espécies de killifishes como
A.australe, Pachypanchax e outros Rivulus.
Alimentando-os bem e deixando-os lá
por alguns meses, inspecionando diariamente a
“bruxinha”, logo encontrei ovos que foram então
removidos, colocados em pequenos potes com
água que era trocada parcialmente a cada dois
dias. Os ovos embrionaram e levaram cerca
de 20 dias para eclodir. Ministrei inicialmente
náuplios de artêmia e microvermes para os
alevinos, que vão crescendo lentamente,
levando cerca de três meses para atingirem
3cm, levando até 8 meses para atingirem a
maturidade sexual.
Foto 5: Jovem K.brasiliensis

Fotos 6 e 7: Vistas do biótopo de K.brasiliensis no interior da Mata Atlântica

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Fundulopanchax avichang (F.Malumbres & R.Castelo, 2001)

Texto e Fotos: Gustavo Grandjean

Podemos dizer que ele é um dos killis mais Família: Nothobranchiidae Garman, 1895
bonitos. E um dos menores também. O Fundulopanchax Subfamília: Nothobranchiinae Garman, 1895
avichang, descoberto em 2000 em uma coleta na Guiné Tribo: Nothobranchiini Garman, 1895
Equatorial pelos espanhóis Francisco Malumbres Viscarret Subtribo: Aphyosemiina Huber, 2000
e Francisco García Lora, é um dos killis mais cobiçados Gênero: Fundulopanchax Myers, 1924
no mundo, não apenas por ser novidade, mas por sua Subgênero: Paludopanchax Radda, 1977
beleza e particularidades. Espécie: avichang
Populações conhecidas: GEML 00/16 Nguba II
Tamanho: 3,5cm
Reprodução: Semi-anual, desova em turfa.
Diapausa: Entre 2 a 4 meses.
Origem: Nguba II, Bata, Guinéia Equatorial
Localidade-Tipo: 1º 45,651´Leste; 9º 49,443´Norte
Distribuição:

Ocorre em dois biótopos conhecidos em um charco sazonal na drenagem do Rio Ecucu em Nguba
II, Bata, Guiné Equatorial. Um deles tratava-se de um charco de água com pouca corrente, de uns 30 cm
de profundidade e água amarelo-âmbar, com substrato argiloso. O outro, uma poça de de água de chuva
transparente, com fundo de material vegetal em decomposição, em uma depressão do terreno. Não havia
conexão com o outro biótopo nem água corrente.

Conservação:

Aparentemente, essa expedição não foi a única que encontrou a espécie nos biótopos. A mesma
equipe retornou algumas vezes anos depois e não encontrou o peixe no local até 2003, quando uma
expedição relatou o ter encontrado vivendo em simpatria com Epiplatys grahami. Não há notícias sobre
o status de preservação da espécie, mas acredita-se que outros biótopos venham a ser encontrados na
região.

Descrição:

Uma das últimas espécies a serem descritas para o gênero Fundulopanchax (MYERS, 1924), o Fp.
avichang difere das demais espécies do grupo por seu tamanho diminuto e por apresentar nadadeira anal
lanceolada e desprovida de filamentos. Quando adulto, pode chegar a 4 cm no máximo, geralmente não
ultrapassa 3cm. A base do corpo é divida por duas faixas horizontais paralelas, vermelha e azul. A porção
ventral é laranja, sem máculas ou demais cores, enquanto a metade dorsal apresenta manchas vermelhas
sobre um fundo verde/ azul metálico. A nadadeira dorsal apresenta pontos vermelhos distribuídos no mesmo
padrão da metade superior da nadadeira caudal, sem as linhas vermelhas características do gênero. A
metade inferior é laranja, assim como toda a parte ventral do peixe.

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Fotos 2 e 3: macho e fêmea de Fundulopanchax avichang
Dimorfismo:

Os peixes atingem a maturidade sexual rapidamente. Com 1,5cm já é possível separar os machos,
já coloridos, das fêmeas. Estas (foto 3) apresentam um corpo bege/ acinzentado com uma faixa horizontal
de máculas vermelhas nos flancos.

Comportamento:

Os machos são agressivos e territorialistas, melhor mantê-los em casais ou trios. As fêmeas também
são um pouco agressivas, mas geralmente não são muito violentas entre si. São bastante ativos, o macho
costuma ser muito insistente durante a corte, que se repete durante horas.

Foto 4: biótopo de Fundulopanchax avichang - foto gentilmente cedida por Francisco Malumbres

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Manutenção:

Trata-se de um peixe de fácil manutenção, mas muito sensível a más condições da água e doenças
oportunistas como oodinnium. É um semi-anual que desova em substrato. Poucos criadores têm sucesso em
tirar ovos com “bruxinhas” ou musgo. Preferem alimentos vivos, mas aceitam ração industrializada quando
acostumados desde pequenos. Não são nada tímidos, principalmente na hora da alimentação.
Requerem um aquário não muito grande, mas exigem água de qualidade razoável, por isso trocas
parciais são importantes. Podem ser feitas a cada 15/20 dias, até 50% da água do aquário. Nessa ocasião
o substrato de desova pode ser trocado e seco para a diapausa. Pode-se optar pelo uso de um filtro de
acrílico ou de espuma com baixa aeração e pouca movimentação na água. Pode-se, também, a exemplo
dos criadores de Nothobranchius, adicionar uma certa quantidade de sal à água (1 a 2g/L), como medida
profilática. Preferem um pH levemente ácido, de 6 a 7 e água não muito mole, pois o biótopo original tem o
substrato argiloso.

Reprodução:

Os avichang têm fama de não desovarem em grandes quantidades, mas são killis bastante prolíficos
quando habituados ao ambiente e bem alimentados, com dieta rica em alimentos vivos com grande teor de
gordura, como tubifex e enquitréias.
Dá para se obter grandes desovas usando apenas tubifex de alimento e trocas de água. É muitíssimo
recomendável o uso de muitas plantas de poucas raízes, como Anubias e Microsorium. Elas servem de
abrigo às fêmeas, que são insistentemente procuradas pelo macho, incansável reprodutor.
Os ovos devem ser acondicionados em turfa não muito úmida e a diapausa dura, em geral, entre 2
a 4 meses. Recomenda-se acompanhar o desenvolvimento dos ovos até o momento certo para reidratação
da turfa. Os filhotes nascem relativamente grandes, já aceitam náuplios de artêmia nos primeiros dias. É
comum conseguir ninhadas de 40 ou mais alevinos de cada desova de casal, poucos nascem rastejantes e,
nas condições e parâmetros de água citados, o pareamento sexual é bem proporcional, quase 1:1. O mais
comum é que nasçam poucas fêmeas a mais que machos. O cuidado com a qualidade da água dos alevinos
deve ser redobrada, é nessa fase da vida que estão mais susceptíveis ao oodinium, que pode dizimar uma
ninhada. Trocas de água devem ser feitas e deve-se evitar ao máximo sobras de alimentos.
Avichang quer dizer “pequeno”. O menor dos semi-anuais é, também, um dos mais diferentes. Seu
padrão de colorido e tamanho diminuto o fazem uma jóia preciosa bastante cobiçada por todos. Estes
pequenos “Diapterons de turfa” chamam a atenção e provam que nem sempre os menores killis são os
menos atraentes e que nem sempre os mais lindos são os mais difíceis de criar.

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PISCICULTURA INTENSIVA DE PEIXES ANUAIS
Texto: Dalton Nielsen

Em 2001, participei de um projeto de piscicultura intensiva de peixes anuais. O projeto tinha


como objetivo desenvolver metodologia, em grande escala, de produção de peixes anuais da família do
Rivulidae.
A princípio, pensei que seria apenas colocar em prática o conhecimento que havia adquirido durante
20 anos de criação de killis. A minha experiência era baseada em uma estufa com 30 aquários e com
aproximadamente 25 espécies diferentes. O objetivo de minha pequena estufa era puramente hobbista,
mantinha várias espécies em pequena quantidade, mas no projeto, o objetivo era, ao contrário, manter
poucas espécies, mas em grande quantidade.
Apesar desta diferença de perspectiva, foi minha experiência em pequenas quantidades e a aplicação
de várias teorias que embasaram a elaboração e execução do projeto. Os pequenos problemas que ocorriam
em pequena escala em minha estufa de 30 aquários se ampliaram na produção em grande escala, tornando
a dedicação, planejamento e principalmente a higiene, fatores essenciais para o sucesso do projeto.
De início foram escolhidas 04 espécies: Cynopoecilus melanotaenia, Simpsonichthys constanciae,
Nematolebias whitei e Leptolebias minimus. Por problemas de adquirir matriz, a Leptolebias minimus foi
excluída do projeto.
Elaboramos um projeto construtivo com 650 aquários de 20 litros e 22 tanques de 120 litros, totalizando
15.400 litros dedicados à reprodução e 240 litros para estoque. Iniciamos a criação com cerca de 30 trios
de cada espécie, onde alocamos um trio em cada aquário. Após um ano de criação, já possuíamos peixes
em todos os aquários e tanques, totalizando 2.340 matrizes, sendo 65% de C. melanotaenia, 25% de S.
contanciae e os 10% restantes de N. whitei.
Além da estufa com os tanques, que ficavam no chão, e aquários, dispostos em prateleiras de 03
níveis, havia uma sala onde o substratos com os ovos eram armazenados, com temperatura e umidade
controladas, e uma terceira sala com mesas grandes onde os ovos de peixes eram selecionados e contados
manualmente.
O substrato era elaborado na própria criação, onde misturávamos 70% de pó de Xaxim com 30% de
Sphagnum sp. e triturávamos esta mistura em um triturador, transformando-a em um pó muito fino. Quanto
mais fino for o substrato, melhor acondicionado estará o ovo.
A produtividade do projeto estava relacionada a uma simples equação de pouca despesa com
a máxima produtividade, para isso contava apenas com mais dois ajudantes que trabalhavam 44 horas
semanais, no manejo dos peixes, dos alevinos, na elaboração da alimentação e na incubação dos ovos.
A rotina dos funcionários era alimentar os peixes, verificar as condições da água, manter a umidade
e temperatura compatível para o desenvolvimento embrionário dos ovos e contar a produtividade de
ovos por aquário. Todos aquários eram
numerados e em uma planilha Excel era
controlada a quantidade de ovos por
espécie colocados em um determinado
período.
A cada 15 dias era feita a
secagem dos ovos, onde aproveitávamos
para efetuar trocas parciais da água.
Os ovos eram encaminhados para uma
sala com temperatura média de 28ºC
e umidade relativa entre 90% a 95%.
Após 40 dias de incubação, os ovos
eram contados e separados conforme o
grau de desenvolvimento embrionário.
O desenvolvimento embrionário e a
quantidade de ovos eram executados
em princípio por amostragem. Após um
período de 02 meses, esta amostragem
foi substituída por verificação e
contagem ovo a ovo, multiplicando-se o
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trabalho, mas melhorando a qualidade das informações obtidas. A verificação ovo a ovo foi necessária, pois
encontrarmos uma quantidade, cerca de 8% a 10% dos ovos, em diapausa, apesar dos demais ovos do
mesmo lote apresentarem desenvolvimento embrionário normal.

Uma teoria para este fato foi levantada para tentar justificar o não embrionamento de alguns ovos:

“Na natureza alguns ovos devem permanecer em diapausa, mesmo que permaneçam em condições
químicas e físicas ideais, para eclodirem em anos futuros. Esta estratégia permite a sobrevivência da espécie
mesmo que ocorra escassez de chuva em anos seguidos; há relato de ovos de N. whitei que demoraram 06
anos para embrionar”.

Para que estes ovos “quebrassem” esta “dormência” embrionária, efetuava um choque com água
oxigenada e temperatura. Colocava os ovos em um aquário com água a 18ºC durante dois dias e subia a
temperatura para 28ºC após este período, juntamente com o acréscimo de água oxigenada 10 volumes. Após
este procedimento, voltávamos a secar os ovos por mais 15 dias nas mesmas condições de temperatura e
umidade.
Em um tanque mantínhamos alguns exemplares avulsos para reposição de alguns espécimes que
morriam. Como os aquários eram inspecionados diariamente, na hora da alimentação, a reposição dos
peixes mortos era efetuada com muita rapidez, não interferindo na produtividade.
A produtividade foi medida por fêmea de cada espécie, pois elaboramos algumas experiências
com variáveis de densidade populacional e estabelecemos o parâmetro por fêmea para mensurar a
produtividade.
Em alguns aquários havia um trio enquanto em outros havia apenas um casal, mas a média era
efetuada por fêmea, portanto em um aquário com trio a sua produção era dividida por dois, enquanto em um
aquário com um casal, a média produtiva era atribuída àquela determinada fêmea.
Os aquários com trio não apresentaram um significativo aumento médio de produtividade em relação
aos aquários com casal, logicamente houve mais postura, em números absolutos, e o manejo é mais
facilitado, pois o tempo gasto na alimentação é o mesmo, apenas a quantidade de alimento tem que ser
calibrada.
Características reprodutivas de Simpsonichthys constanciae

A espécie S. constanciae possui


em ambiente natural, geralmente dois
ciclos durante um ano, sendo o primeiro
entre os meses de Maio a Julho e o
segundo entre Outubro a Dezembro.
Esporadicamente, o período de chuva
correspondente aos meses do primeiro
ciclo pode não ocorrer, situação em que
os ovos aguardaram a próxima estação
para eclodirem. Estes ciclos estão
condicionados ao micro clima da região,
que proporciona chuvas suficientes nestas
duas estações, Outono e Primavera.

Apesar do verão ser uma estação com um elevado índice de precipitação, o índice de evaporação
também é elevado, chegando a superar o índice de precipitação, não permitindo que a poça encha, mas
mantendo a umidade ideal para os ovos.
Simpsonichthys constanciae possui as características reprodutivas gerais da família Rivulidae,
ou seja, possui o mecanismo de oviparidade eliminando os gametas na água, onde a fecundação e o
desenvolvimento são externos.

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Características reprodutivas de Cynopoecilus melanotaenia
Em condições naturais
Cynopoecilus melanotaenia possui
apenas um ciclo anual, e este é mais
longo do que o da S. constanciae,
iniciando-se entre os meses de Junho
e Julho e finalizando nos meses de
Novembro e Dezembro. É o período
onde as massas de ar migram do pólo
Sul e invadem a região sul do Brasil
trazendo chuvas e frio, com pouco índice
de evacuotranspiração.
Dentro da família Rivulidae, os
gêneros Campellolebias e Cynopoecilus,
possuem mecanismo reprodutivo
baseado na oviparidade, ocorre a
fecundação interna e desenvolvimento
externo.
A fecundação interna também ocorre em outras duas famílias da ordem Cyprinodontiformes,
em Anablepidae e Poeciliidae (Garman, 1895), mas há o desenvolvimento embrionário internamente,
viviparidade, com diferentes relações de dependência trófica entre o embrião e o corpo materno.
Para efetuar a fecundação interna, o macho altera a conformação dos primeiros raios da nadadeira
anal, que se unem e funcionam como órgão copulador, semelhante aos gonopódios nas famílias Poeciliidae
e Anablepidae.
As fêmeas possuem um local onde armazenam o espermatozóide do macho, podendo com apenas
uma cópula fecundar vários ovos por um longo período, característica definida como Superfetação.
Os machos de C. melanotaenia estão entre os mais agressivos dentre a família Rivulidae, com
batalhas constantes de defesa territorial, pois teoricamente um maior território pode proporcionar ao macho
um maior número de fêmeas para fecundar. São conhecidos popularmente na Europa como “gaúchos
brigadores”.
Esta diferença de comportamento, provavelmente está relacionada a uma maior quantidade de
machos do que fêmeas.

As variáveis medidas para elaboração de um parâmetro técnico de criação foram:

1. Condição física e química da água: A água era de baixa densidade com pH neutro ou ligeramente
ácido. A temperatura variava de acordo com a temperatura ambiental. Não há alteração significativa na
produtividade de ovos em decorrência da alteração da temperatura. Esperávamos que com aumento médio
da temperatura houvesse um aumento da postura, mas não identificamos esta correlação, apenas em C.
melanotaenia ocorreu o inverso, com a queda da temperatura há uma ligeira melhora na quantidade da
postura. este fato é facilmente explicável pela distribuição geográfica da espécie e período de ocorrência no
Rio Grande do Sul e Uruguai nos meses de Junho a Setembro.

2. Alimentação: A alimentação era composta de alimentos vivos: artêmia salina, Tubifex e Chironomus
sp.(bloodworms). Os alimentos eram oferecidos conforme a disponibilidade de oferta do mercado. Este
item demonstrou possuir a maior influência na postura dos peixes anuais, tanto em relação à quantidade
da postura como na qualidade dos ovos. Há uma melhora significativa, em todas as espécies, quando é
oferecido Chironomus sp. como dieta principal.

3. Densidade populacional: Aquários de 20 litros com casal ou trio e tanques com 120 litros com 30
casais. Os aquários mostraram-se mais produtivos, possivelmente se alimentaram melhor que nos tanques,
já que a alimentação mostrou-se a variável mais significativa na produtividade.

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Abaixo segue gráfico com média mensal de postura. A coluna da esquerda representa a quantidade
de ovos fêmea/dia.

Apesar de possuir fecundação interna, a C. melanotaenia mostrou-se ser o peixe mais prolífero dentro
das condições oferecidas. Particularmente fiquei surpreso com este fato, pois acreditava que a fecundação
interna fosse uma estratégia reprodutiva menos eficiente que a fecundação externa.

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NOTA: Simpsonichthys aff. ghisolfi RS03
foi classificada pelo Dr.Wilson Costa como
Simpsonichthys macaubensis.

Dúvidas? Críticas? Sugestões? Pedidos de reprodução deste material ou se quiser participar.


Escreva para: forum@killifishbrasil.com.br

AGRADECIMENTOS:

Adriano Félix, Alex Ribeiro, André Carletto, Anne Marie, Bruno Graffino, Dalton Nielsen, Edson Lopes, Fabiano

Leal, Fábio Origuela, Francisco Falcon, Gilson Gil, Gustavo Grandjean, Márcio Alexandre, Nilo Mendes, Ricardo

Fachin e Rogério Suzart que mais uma vez tornaram possível a realização deste trabalho. MUITO OBRIGADO!

Nossos agradecimentos também a todos os demais hobbistas que direta ou indiretamente estão contribuindo

para o avanço da killifilia no Brasil.

LINKS:
http://myfishroom.agcarletto.com/
Site do André Carletto

http://www.cynolebias.org
South American Annuals, informações detalhadas e centenas de fotos sobre anuais sul-americanos,
em Inglês.

http://www.killi.com

http://www.killi-data.org/
Como o próprio nome indica, um banco de dados sobre killis, em Inglês, administrado pelo Dr.Jean Huber

http://www.killifish.f9.co.uk/Killifish/Killifish%20Website/Index.htm
Killifishes from West Africa (muito boa página)

http://www.apk.pt/
Site da Associação Portuguesa de Killifilia

http://www.vascogomes.net/
Página do aquarista Vasco Gomes

http://www.cynolebias.org/public/links/index.html
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Outra boa seleção de links
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