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31/10/2019 Racismo à brasileira - Revista de História

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Racismo à brasileira
A eugenia e seu par inseparável, o autoritarismo, marcaram profundamente a
educação no Brasil na primeira metade do século XX
Sidney Aguilar Filho
1/1/2012  

Na Constituição brasileira de 1934, em seu artigo 138, está escrito que “Incumbe à União, aos Estados e
aos Municípios, nos termos das leis respectivas: b) estimular a educação eugênica”. No Brasil das décadas
de 1930 e 1940, a “educação eugênica” foi aplicada às crianças, em especial aos filhos da classe
trabalhadora mais empobrecida, sobretudo, nos termos da época, entre “órfãos e abandonados, pretos ou
pardos, débeis ou atrasados”.

Nada menos que três dos ministros da Educação, durante a Era Vargas, identificaram-se com esse ideal de
base racista. Francisco Campos (1891-1968), Belisário Penna (1868-1939) e Gustavo Capanema (1900-1985)
defenderam abertamente concepções eugênicas, assim como outros intelectuais da Educação, na época,
também defenderam argumentos semelhantes. Lourenço Filho (1897-1970), por exemplo, concluiu com
suas pesquisas que haveria uma relação entre velocidade de aprendizagem e “cor” – defendeu que as
crianças pretas possuiriam um déficit natural em relação às brancas na capacidade de aprendizagem, e
isso deveria ser levado em conta na composição das “salas seletivas” ou no “uso de mecanismos
corretivos” no processo de aprendizagem. Ou ainda, Afrânio Peixoto, que, em sua obra Noções de História
da Educação (1936), defendeu a segregação de crianças e adolescentes “degenerados” como forma de
garantir a “saúde da Nação”.

O termo “eugenia” (“boa geração”) foi cunhado, em 1883, pelo antropólogo


Afrânio inglês Francis Galton. Eugenia seria a ciência que lida com todas as influências
Peixoto que supostamente melhoram as qualidades inatas de uma pressuposta raça em
defendeu a favor da evolução da humanidade. Na afirmação de Galton, os cérebros de uma
segregação de “raça-pátria-nação” encontravam-se sobretudo em suas elites, e aí se deveria
concentrar a atenção e os esforços para o aprimoramento. Seria estatisticamente
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crianças e “mais proveitoso” investir


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adolescentes
nas elites e promover
Go MARo “melhor
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favorecer o pior”. Galton procurou demonstrar que as características humanas ❎
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“degenerados” (inclusive as intelectuais, culturais e morais) decorriam
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da hereditariedade fmais 🐦
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como forma de que da própria história.
garantir a
“saúde da Ao longo das primeiras décadas do século XX, o pensamento eugenista tornou-se
Nação” cada vez mais geneticista. O evolucionismo social procurou “mais na origem
genética e menos nas alterações genéticas herdadas” as explicações e
justificativas para “eugenia e disgenia”. A “pureza” da origem, ou a falta dela,
ganhou status explicativo da “superioridade e da inferioridade” humana e da nação.

No Brasil, as relações socioeconômicas sustentadas na lógica eugenista foram profundamente marcadas


pela história escravocrata. Durante o século XIX, a ideologia da eugenia expandiu-se no mais tardio reduto
escravocrata do mundo. Para quem defendia o direito do proprietário sobre uma propriedade humana,
essa lógica chegou com a intenção de legitimar a escravidão ou, diante do seu fim, fortalecer a ideia de
que a liberdade não seria acompanhada de igualdade. Os trabalhadores imigrantes europeus, que, no
século XIX, haviam sido considerados até a “salvação da raça brasileira” pelos racistas de então,
tornaram-se, na visão dos racistas da República, que engatinhava no início do século XX, cada vez mais
estrangeiros sujeitos à xenofobia e a diversas formas de preconceitos, difundidos no cotidiano de maneira
crescente. O imigrante pobre passou a ser associado à barbárie e sujeito às perseguições, em graus
diferentes de opressão. Os japoneses e os médio-orientais, sobretudo muçulmanos ou judeus, foram
unidos, por essa ideologia, aos trabalhadores nacionais identificados com a escravidão (pretos e pardos,
na linguagem documental da época), tidos como mais degenerados e perigosos.

As defesas do bem comum e da coisa pública foram os argumentos sistematicamente utilizados por
legisladores da Assembleia Constituinte de 1933-1934, em especial na bancada liderada por Miguel Couto
(1865-1934), como justificativa para a desigualdade de direitos com base na eugenia. Assim foram
traçadas as políticas públicas na área da Educação. Formar o cidadão como um trabalhador perfeito a ser
engrenado na máquina de produção, e educar o indivíduo para a vida da ação tornaram-se ações centrais
nas leis, discursos e práticas educativas, principalmente as escolares.

Os eugenistas tentaram “naturalizar” o processo histórico das sociedades nas quais se inseriam. No Brasil,
criaram um plano teórico gelatinoso, modernizante-conservador, o qual subsidiou e influenciou a
educação. Ideias que chegaram às leis e às políticas públicas. A sociedade brasileira era vista por esses
grupos como um organismo vivo, único e coletivo, preso pela genética a determinações políticas, culturais
e sociais. O determinismo biológico primava sobre as características históricas para fundamentar
estratégias de controle e manipulação social.

O destaque dessa corrente de pensamento no país foi Oliveira Viana (1883-1951), reconhecido por
defender a existência de uma única “raça”, a “ariana”, e explicar todo o “restante” da humanidade pela
“degenerescência”. A concepção racista da “origem poligênica da humanidade” fora rejeitada por
religiosos em virtude de contrapor-se ao criacionismo monoteísta. Oliveira Viana foi membro da
Subcomissão do Itamaraty e, dentro dela, da comissão responsável pelos assuntos “Religião e Família,
Cultura e Ensino Nacional, Saúde Pública e Colonização”, na qual nasceu o artigo 138 da Constituição de
1934. Ele enxergava a história dos povos a partir de determinantes biológicos. Para ele, referir-se ao
corpo da nação como um ser orgânico não era uma metáfora política roubada da biologia nem um
corporativismo simplista, e sim uma realidade inexorável em sua visão determinista “histórico-biológica”.
Viana, que clamava por uma “engenharia racial”, era chamado por Plínio Salgado (1895-1975) – o líder da
Ação Integralista Brasileira – de “o maior dos sociólogos”.

Ao justificar a intromissão e a intervenção do Estado tanto na vida pública quanto


na vida privada dos indivíduos, o pensamento eugenista revelava seu caráter A segregação
autoritário. Intervenção no amor, no trabalho, na política, no conjunto das relações ea
sociais, sem permitir qualquer liberdade de participação nas decisões, pois as desigualdade
justificativas estavam na pretensa verdade absoluta da ciência. As instituições de direitos
autoritárias e as práticas de segregação se reforçaram mutuamente na área de entre
Educação, pela prática da exclusão, da desigualdade de direitos de cidadania de cidadãos
crianças e adolescentes, pela condição econômica ou por sua “origem”. foram
legalizadas,
teorizadas e
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praticadas
Um olhar sobre o Brasil de Vargas (1930-1945) revela a segregação racial
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política estatal, implodindo a teoria da “democracia racial” brasileira. Antes, ao
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contrário, confirmam o autoritarismo extremado do Estado brasileiro e 2015
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detentores contra setores específicos da sociedade. Os estudos mais recentes sobre
a temática mostram, superando os desconfortos, que a segregação e a desigualdade de direitos entre
cidadãos foram legalizadas, teorizadas e praticadas no país.

Ultrapassadas as teorias racistas, depois do holocausto produzido pelo nazismo, a lógica que divide a
humanidade em raças hierarquizadas entre si felizmente conheceu seu declínio. Após a Segunda Guerra
Mundial (1939-1945), a temática da eugenia e de suas práticas no Brasil foi transformada em tabu, e o
mito da “nação sem preconceitos” se consolidou. A igualdade entre todos, mais do que realmente
construída historicamente, foi presumida e auxiliada pelo esquecimento de um passado constrangedor. Na
última década, no entanto, ressurgiram os debates a respeito do determinismo genético nos processos
educativos e a crescente medicalização da educação escolar. Por isso, precisamos estar atentos a fim de
evitarmos os “cochilos” da História.

Sidney Aguilar Filho é autor da tese “Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e
violência à infância desamparada no Brasil” (Unicamp, 2012).

Saiba mais
BAIA HORTA, Joaquim Silvério. O hino, o sermão e a ordem do dia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1994.
BITTENCOURT, Circe. Pátria, civilização e trabalho. São Paulo: Loyola, 1990.
D’ÁVILA, Jerry. Diploma de brancura. São Paulo: Ed. Unesp, 2005.

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