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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL

CAMPUS DE AQUIDAUANA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS CULTURAIS (PPGCult)

Disciplina Seminários de Pesquisa do Mestrado interdisciplinar em Estudos Culturais


(PPGCult/UFMS/CPAq), ministrada pelos professores doutores, Iára Quelho de Castro e
Miguel Rodrigues de Sousa Neto

Diálogos possíveis com a Bixa travesty, preta e periférica, Linn da Quebrada.


Diego Aparecido Cafola1

Lina Pereira, mais conhecido pelo seu nome artístico Linn da Quebrada, é – “nem ator,
nem atora – atroz”2, cantora, compositora e performance. Ela nasceu na periferia da Capital
Paulista, numa área pobre da Zona Leste, foi criada no Interior de São Paulo, onde passou a
infância e a adolescência nas cidades de Votuporanga e São José do Rio Preto. Foi criada por
sua Tia, dentro da religião testemunha de Jeová. Ela se identifica como Bixa travesty, preta e
periférica e quando ouvimos os discursos nas mídias digitais, percebemos uma explicitação de
diversos incômodos sobre a cultura hegemônica brasileira e sobre sí mesma, enquanto sujeita
que não se enquadra nas normas socioculturais vigentes. Buscaremos entender por uma
perspectiva interseccional (entre raça, classe, gênero e sexualidade) por meio da lente
interdisciplinar dos Estudos Culturais quem é essa sujeita que começou a ser visível
nacionalmente, sobretudo nas redes sociais, após 2016 (data da postagem do seu primeiro clipe
postado no youtube, intitulado “Enviadescer”3) e perceber quais questões estão entorno dela.
Para isso, primeiro, precisamos entender qual é o local, dentro dessa hegemonia, que a
Linn está ocupando. Dialogaremos com Raymond Williams sobre o conceito de hegemonia
cultural (que bebe de Antonio Gramsci), cultural alternativa, cultura de oposição, cultura
residuais ou emergentes, a partir do texto Base e superestrutura na teoria cultural marxista.
Também traremos Stuart Hall, utilizaremos o texto A centralidade da Cultura: notas sobre as
revoluções culturais do nosso tempo. Bem como, com o Bahbah com a obra O local da cultura
no que se refere a cultura, os “entres-lugares”.

1
Bolsista CAPES pelo Programa de Pós-graduação em Estudos Culturais – da Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul, Campus Aquidauana (PPGCult/UFMS/CPAQ). Orientado pelo professor doutor Miguel Rodrigues
de Sousa Netto.
2
PEREIRA, Néli. De testemunha de Jeová a voz do funk LGBT, MC Linn da Quebrada se diz 'terrorista de gênero'.
O Globo. Disponível em: http://g1.globo.com/musica/noticia/2016/09/de-testemunha-de-jeova-voz-do-funk-lgbt-
mc-linn-da-quebrada-se-diz-terrorista-de-genero.html
3
Ver: Canal: Linn da Quebrada, música: MC Linn da Quebrada - Enviadescer - Clipe Oficial. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=saZywh0FuEY.

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS CULTURAIS (PPGCult)


Telefone: 67 3241-0396 | https://cpaq.ufms.br/mestrado-em-estudos-culturais/ | ppgcult.cpaq@ufms.br
Unidade I | CEP: 79200-000 | Aquidauana | MS | Brasil
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Para que haja uma cultura dominante, necessariamente, precisa existir os que são
dominados, os “outros”. Segundo Homi Bhabha, “a articulação social da diferença, da
perspectiva da minoria, é uma negociação complexa, em andamento, que procura conferir
autoridade aos hibridismos culturais que emergem em momentos de transformação histórica 4.
Williams dia que “que em qualquer sociedade e em qualquer período há um sistema central de
práticas, significados e valores, que podemos definir propriamente como dominantes e
efetivos”5.
Nesse sentido Williams afirma que:

(...) a ideia de hegemonia, em seu sentido amplo, é portanto especialmente


importante nas sociedades em que a política eleitoral e a opinião pública são
fatores significativos, e em que se considera que a prática social depende do
consentimento de certas ideias dominantes que, na realidade, expressam as
necessidades de um classe dominante.6

Há movimentos provocados por tensionamentos, diálogos e resistência por grupos


minoritários, ou por aqueles que constituem algo para além da hegemonia, mas a partir dela.
Pois segundo o autor não tem como estar fora dessa hegemonia, mas sempre em relação a ela.
Ou seja, “Temos então que considerar que a existência, no interior de uma cultura dominante e
efetiva, de formas de vida social e cultura alternativa e de oposição está submetida à variação
histórica, e suas origens são muito significativas como um fato da própria cultura dominante”7.
No texto de Raymond nos apresenta a dialética da hegemonia, ou seja, suas
características com as transformações sociais. Ele apresenta uma visão do conceito de cultura
alternativa e de oposição, bem como o de cultura emergente e residual e sua relação dialética
com a hegemonia. Pois,

acima de tudo, temos de fornecer uma explicação que leve em conta os


elementos de mudança reais e constantes. Temos de deixar claro que a
hegemonia não é algo unívoco; que de fato, suas próprias estruturas internas
são altamente complexas, e têm de ser renovadas, recriadas e defendidas
continuamente; e do mesmo modo elas podem ser continuamente desafiadas
e em certos aspectos modificadas8.

4
BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 21.
5
WILLIAMS, Raymond. Base e superestrutura na teoria cultural marxista. Revista USP, n. 66, 2005, p.217.
6
WILLIAMS, Raymond. Palavras-chave: um vocabulário de cultura e sociedade. São Paulo: Boitempo, 2007
7
WILLIAMS, Raymond. Base e superestrutura na teoria cultural marxista. Revista USP, n. 66, 2005, p. 218.
8
Idem, p.216.

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Nesse sentido, o que antes era alternativo pode modificar seu locus e se transforma em
cultura de oposição no sentido de “que encontra um modo de vida diferente e quer mudar a
sociedade a partir de sua experiência”. Por emergente entende-se

que novos significados e valores, novas práticas, novas significações e


experiências, são criadas continuamente. Mas a tentativa de incorporá-la é
imediata, só porque são parte – e ainda assim nem mesmo uma parte definida
– da prática contemporânea efetiva. De fato, é significativo como essa
tentativa é rápida em nosso tempo, e como a cultura dominante está alerta,
agora, a qualquer coisa que possa ser tida como emergente.”9

Para nos auxiliar nessa discussão também nos apoiaremos em Bhabha no conceito de
entre-lugar. Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de
subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos
inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de sociedade 10. É
nessa estratégia de subjetivação (singular e coletiva) que Linn pode estar inserida. Sua
identificação como bixa travesti nos traz pistas para explorar esses novos signos de identidade.
Além disso, ela também afirma seu lugar como preta e periférica, ou seja, marcadores um de
sexualidade, gênero, raça e classe.
Para Bhabah,

o afastamento das singularidades de “classe” ou “gênero” como categorias


conceituais e organizacionais básicas resultou em uma consciência das
posições dos sujeitos – de raça, gênero, geração, local institucional, localidade
geopolítica, orientação sexual – que habitam qualquer pretensão à identidade
no mundo moderno. O que é teoricamente inovador e politicamente crucial é
a necessidade de passar além das narrativas de subjetividades originárias e
iniciais e de focalizar aqueles momentos ou processos que são produzidos na
articulação de diferenças culturais11

É na produção das diferenças culturais e nos embates cultural e político com essa
hegemonia que Linna Pereira se insere. “Os termos do embate cultural, seja através de
antagonismo ou afiliação, são produzidos performativamente”12. Bhabah também afirma que,

9
Idem, p. 209.
10
BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 19.
11
BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 20.
12
BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 21.

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“a articulação social da diferença, da perspectiva da minoria, é uma negociação complexa, em


andamento, que procura conferir autoridade aos hibridismos culturais que emergem em
momentos de transformação histórica”13.
Linn se produz perfomativamente, além de artista, bixa travestry, preta e periféirca é
ativista social pelos direitos civis da comunidade LGBT, com enfoque na população trans e
população negra. Levando em consideração apenas as letras das músicas da Linn (a terrorista
de gênero14), disponíveis nas plataformas digitais, sua performance, a priori, nos parece
transgressora, radical, um enfrentamento direto da cultura hegemônica, sobretudo pela sua fala
não formal que também reflete seu meio e sua identificação com seu público. Para entender
sobre gênero e sexo, performance de gênero conversarei com algumas das muitas contribuições
de Judith Butler aos estudos feministas e às pesquisas sobre sexualidade e gênero dentro das
ciências humanas15, os conceitos de performance e performatividade.
Podemos encontrar sobre esse tema em algumas obras de Butler, dentre elas o capítulo
inscrições corporais, subversões e performatividade, nos tras pista para entender sobre essas
questões que podemos perceber na travesti. A autora afirma que,

Por mais que crie uma imagem unificada da “mulher” (ao que seus críticos se
opõem frequentemente), o travesti também revela a distinção dos aspectos da
experiência do gênero que são falsamente naturalizados como uma unidade
através da ficção reguladora da coerência heterossexual. Ao imitar o gênero,
a drag revela implicitamente a estrutura imitativa do próprio gênero – assim
como sua contingência. Aliás, parte do prazer, da vertigem da performance,
está no reconhecimento da contingência radical da relação entre sexo e gênero
diante das configurações culturais de unidades causais que normalmente são
supostas naturais e necessárias. No lugar da lei da coerência heterossexual,
vemos o sexo e o gênero desnaturalizados por meio de uma performance que
confessa sua distinção e dramatiza o mecanismo cultural de sua unidade
fabricada16.

Para além de sua performance, em seus discursos Linn denuncia várias violências que a
população trans sofre constantemente e critica o desinteresse, ou melhor, a invisibilidade dessas
questões pela maior parte da sociedade brasileira. Esse ativismo político nos faz deparar com

13
Ibidem.
14
PEREIRA, Néli. De testemunha de Jeová a voz do funk LGBT, MC Linn da Quebrada se diz 'terrorista de
gênero'. O Globo. Disponível em: http://g1.globo.com/musica/noticia/2016/09/de-testemunha-de-jeova-voz-do-
funk-lgbt-mc-linn-da-quebrada-se-diz-terrorista-de-genero.html
15
Da performance à performatividade: possíveis diálogos com Judith Butler na antropologia de um festival de
cinema
16
Butler p. 225

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outro conceito importante, o de artivista, que torna necessário um aprofundamento sobre essas
questões. Afim de entender melhor o conceito de artivismo que algumas pesquisadoras
vinculam a esta terrorista de gênero, voltaremos nosso interesse para entender o que é esse
artivismo. Se, em linhas gerais, esse conceito tem relação com a utilização da arte como
ativismo política. Linn afirmou que seu corpo é político. Nesse sentido, precisamos perceber
como que essa bixa travesti utiliza seu corpo como política. Expresso na sua performance, para
além de seu corpo, existe em seu discurso um enfretamento.
Seu discurso de enfrentamento nas entrevistas se modifica, às vezes mais incisivos, às
vezes mais brando, dependendo do local que está ocupando que também está relacionado com
quem está do outro lado da tela assistindo. Em grande parte de suas entrevistas proferidas nos
mais diversos canais que tem grande visibilidade nacional, é utilizado linguajar mais cordial e
culto, mesclando com gírias cotidianas de seu universo com discursos acadêmicos.

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