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verso

(barulho
escuro
dos
corpos)

Jefferson Vasques
índice
Apresentação-Contato...........................1

Corpo-fátuo
Que sou ..........................................7
silêncio nos olhos..............................8
Bile...............................................
Corpo-fátuo: manhã .......................... 3
Primavera....................................... 4
Poesia incidental ........................... 15
16
Verão............................................17
Corpo-Fátuo: tarde ..........................
Tempo ao tempo.............................. 9
Poesia Incidental II .........................20
Outono............................................21
Bissextos........................................
Corpo-Fátuo: noite..........................
Presentinho ....................................
Inverno...........................................
hoje acordei com minha mãe nos olhos..........
Retoolhar.......................................
Nosreffej ....................................
Versos que me acordaram.................

Corpo-facho
Subverso........................................
Adestramento .................................
Por
fazer.................................................
Eu passarin......................................
Na voragem do quase........................
Línguas literais ...............................
catártis ........................................
Poema didático .............................
Diadia...........................................
Poética.........................................
Aceitação da noite.........................
Interpretação/Interpenetração............
arapuca.........................................
Negação da noite.............................
Quadrilha revisitada...........................
Prova dos nove................................
Espelhando......................................
Segurando o facho..........................
Às vias do fato...............................

Corpo-fato
Poema datado................................
Meu melhor verso ...........................
A vida em família...........................
Maios do mesmo? ............................
Prometeu envergonhado ....................
Relendo os clássicos I ....................
Solarium/Salarium ..........................
Pomba Negra ...............................
A Crise - Primeiro ato ...................
O Muro .........................................
Relendo os clássicos II ...................
Modelo de poema .........................
Realização ...................................
O que o sr. deseja? .........................
Contraditórios ...............................
ACrise – segundo ato........................
Questão de Ordem...........................
In farto.......................................
Relendo os clássicos III ..................
Perguntas à Senhora ........................
Daqui............................................
A crise - intervalo.........................
Introdução
“En la lucha de classes
todas las armas son buenas
Piedras noches poemas” leminski

Há uma cultura ainda muito presente em meio aos militantes de esquerda que
renega o corpo e as expressões da subjetividade. Cultura calcificada pela
urgência e dureza da luta, pela precisão e objetividade com que devem ser
planejadas as ações. Levada a ferro-e-fogo, essa postura rompe a dialética
entre razão e sentimento deixando um amplo flanco aberto ao inimigo (inimigo
esse que é, também, íntimo). É justamente nesses recônditos de sentidos-e-
emoções-recalcadas onde somos colonizados, sem que percebamos, por valores,
padrões de comportamento e desejos conservadores.

Por isso mesmo, é preciso fechar o punho, mas abrir o corpo: botar pra fora o
que querem que apodreça aqui dentro como amargura, como ânsia e medo, como vão
heroísmo ou culpa católica. Por isso, é preciso dançar outros corpos - que não os
das propagandas –, entoar outras canções – que não as do esquecimento –, escrever
nossa história. Precisamos criar juntos sentidos ao mundo. E isso passa, a meu
ver, pela tomada do poder em nossas mãos e pela superação do capitalismo. Mas,
também passa pela necessidade de construirmos, desde já, outras relações, valores
e formas de sentir e expressar. É preciso impedir que a negação da ordem
decalque em nossas faces as marcas de sua monstruosa máscara. Por isso é
preciso afirmar as sementes do novo para se superar o velho.

A construção do novo-ainda-imerso-no-velho é contraditória, dilacerante, em última


instância, impossível, mas é o que pode nos encher de esperança viva, não a
esperança que espera, mas a que nos resgata a humanidade e os sentidos. É o que
tento aqui com este primeiro livro, escrevendo para os que lutam – direta ou
indiretamente - contra a ordem imposta, ordem presente nas escolas, fábricas,
nos hospitais, nas casas, nos casais. Escrevo para os que se rebelam, para os que
lutando contra abismos não podem abismar-se, para os que precisam se enternecer
sem perder a dureza, jamais.

"Dividido em classe e nações presas a interesses contraditórios, ele [o ser humano]


atenta contra si mesmo e contra a natureza, mistifica-se e aliena-se em conceitos
e preconceitos que o levam à produção de armas mortíferas capazes hoje de
destruir a própria humanidade.(...) Este é o mundo em que vivemos, banal e
delirante, mas onde se torna cada dia mais clara a necessidade de despertar
e cultivar o que há de humano no homem. Os poetas podem ajudar nisso.
E não por mistificara realidade mas, pelo contrário, por revelá-la na
sua verdade, que é prosaica e, ao mesmo tempo, fascinante. O poeta sonha
no concreto o sonho de todos. Ele sabe que a poesia brota da banalidade do
mesmo modo que o poema nasce da linguagem comum. Está na tua boca,
na minha boca, a palavra que eventualmente se converterá em beleza. Ou não."
(Ferreira Gullar em "Poesia e a realidade contemporânea")

1
Artista? Poeta?
Durante muitos anos, não me interessei em publicar ora porque não enxergava
valor social no que escrevia ora porque temia alimentar a idéia romântica do
“artista”, esse ser visto como único-capaz de acessar certas chaves do
entendimento.

Mas aos poucos percebi que as poesias são parte de minha luta cotidiana, social e
íntima e, justamente por isso, é preciso socializá-las, abri-las ao confronto
saudável com outros olhos. É buscando desfazer o mito de artista que me exponho
e exponho os poemas que se seguem. É através dos avanços e retrocessos da obra -
reflexos de minha luta concreta -, é através da humanidade comum e singular de
minha experiência, suja e cristalina, que espero possam os leitores se
identificar (ou não) a ponto de se sentirem motivados a entoar sua vida na
garganta do futuro.

Entendo a arte como uma forma de apreensão da realidade, das múltiplas


determinações objetivas e subjetivas, individuais e coletivas, que conduzem nossas
vidas e, sobre as quais, temos mais ou menos influência. A arte é, assim como
a ciência, uma ferramenta fundamental para a compreensão do que somos e do que
podemos vir a ser no mundo.

Apesar de sua importância, vivemos em uma sociedade que afasta a grande


maioria de qualquer possibilidade de vivência artística sistemática. Obviamente,
ensinar que a língua, essa que sai de nossas bocas todo dia, pode se tornar
ferramenta de pesquisa sobre nós mesmos e sobre as relações que nos cercam é
faísca neste mundo de pólvoras.

Não experimentei em casa qualquer tipo de incentivo às artes. Na escola pública,


tampouco. Somente muito mais tarde, por conta própria, fui conhecer na flor da
pele o que era dançar, tocar, cantar, encenar. Mesmo com toda essa conjuntura
desfavorável, a situação peculiar que vivi fez com que a ficção e a poesia se
tornassem meu escudo e espada numa luta quixotesca contra o sem-sentido.

Tendo convivido com a morte desde cedo, lancei mão de mundos fantásticos para
agüentar o tranco. Escrever era praticar meu ascetismo; a forma que encontrei
para me encapsular numa concha, fugir do absurdo que a vida semelhava, fugir
do cheiro da morte que rondava a mesa da cozinha.

Mas, o movimento da realidade atuou sobre as contradições existentes nessa forma


alienada de viver e escrever. Seduzido pela vida, voltava a aceitar, em alguma
medida, o risco da morte. Minha poesia ganhava novos significados e formas.
As inúmeras descobertas que fazia sobre meu corpo promoviam uma escrita mais
solta, mais desejosa de se mostrar, de se excitar e incitar. A palavra não era

2
mais um amuleto macabro de salvação e mistificação, mas algo muito mais
próximo e concreto: era meu corpo, meu brinquedo perpétuo.

Por fim, a descoberta da luta de classes e a compreensão dos mecanismos que


regem o capital; a descoberta de como as desigualdades sistêmicas moldaram
minhas deficiências e limitaram minhas potencialidades, levaram meus pais e
sacrificam, a todo ano, milhares, me preencheu com o ódio e o amor necessários
para romper uma segunda concha, e fazer da palavra, novamente, um escudo e
arma, mas não contra a vida e, sim, contra o próprio ser humano que a destrói.

Enfim, poesia que me ajuda a lidar com as contradições de militante-contra-o-


sistema-mergulhado-na-vida-burguesa-até-o-pescoço, numa conjuntura difícil de
crises globais, neste cantinho latino-americano, no inicio do século XXI.

Alertas
Este livro é uma coletânea de poemas produzidos de forma esparsa ao longo de
vários anos e que, artificialmente, agrupei em três fases: corpo-fátuo; corpo-
facho; corpo-fato. São todos poemas da minha luta contra a ordem, seja a ordem
"natural" da vida, a ordem moral sobre o corpo, ou a ordem social do capital. São
poemas de um rapaz originário da classe média que vive dentro de um horizonte
de possibilidades que abarcam apenas 30% da sociedade brasileira. Me abro,
também com estes poemas, às contradições da minha posição social na intenção de
superá-las.

Apesar de construir o livro buscando seguir a ordem em que esses corpos (fátuo-
facho-fato) atingiram seu máximo desenvolvimento na minha vida, todos esses
corpos e momentos continuam, ainda hoje, se cruzando em meu peito. Não há,
portanto, uma ordem de leitura que deva ser seguida.

Este obra é parte de mim que afasto como que a fechar um ciclo, preparando-me
para outros desafios. É um primeiro livro, marco e compartilhamento, literatura
feita durante as anti-horas, ainda não desgrudada da dicção de poetas maiores.
Mas pulsa: sinal de que algo em mim teima e segue revirando a terra ruim que
lançaram cá dentro, segue plantando pombas e aguardando as asas da viragem.

Imprimo este livro buscando essa leitura compartilhada da vida que vai
iluminando nossas trincheiras. Por isso mesmo, sem teu retorno este livro será
fátuo: é no diálogo direto, facho, que a poesia pode se materializar em fato.

“Não há letras que sejam expressão enquanto não houver essência que
expressar nelas. Nem haverá Literatura Hispano-Americana
enquanto não houver Hispano-América.“ José Martí

email: jeffvasques@gmail.com blog: www.contra-ordem.blogspot.com


produtora popular em que trabalho e milito: www.camaracom.com.br
3
4
corpo
-fátuo

5
6
O que sou senão
esta pergunta
me fazendo?

7
Silêncio nos olhos

Sou uma criança.

Se quiser não acreditar,


não acredite,
problema é seu.

Sim, eu sei
o tempo e a vida
me deram esta cara de 30.
Mas já deu.
Não quero mais enganar ninguém:
sou criança.

Sim, sim,
tive que me virar
e me fazer passar
por esse
28.705.946-7
que fui até agora.

Sabe como é
meus pais, um dia,
simplesmente desapareceram...
vapt vupt se foram.
“Subiram por uma enorme escada até o céu”, foi o que me disseram
(mas eu achava mesmo que tinham ido com o papai-noel
– esse canalha).
E sobrei ali, no quintal, com a bola na mão
sem entender direito aquele

“mãe?”
silêncio

8
E foi na marra
que aprendi algumas coisas que me exigiram
(o tempo e a vida):
aprendi a fazer a barba e a minha própria comida
aprendi a escrever poesias
a declarar amor e imposto de renda
aprendi a mentir de verdade (e não como crianças fazem).
aprendi a ter medo de olhar nos olhos (e isso é uma crueldade pra
uma criança de minha idade)
aprendi todos os requisitos básicos de higiene
e, finalmente,
aprendi a não abraçar quemgosto
tão forte
que não pudesse soltá-la
caso fugisse
- por aquela escada
(enorme) -
a qualquer momento.

Aprendi muitas coisas, muitas maquiagens.


Compreendi os porquês da genética,
da química inorgânica e da gravidade.
Absorvi novas hipóteses sobre o surgimento do universo e
lancei mão de complexos algoritmos de otimização de dados.
E certo dia - seria inevitável -
compreendi a origem de todo o mal.
(Nesse dia entendi porque meus pais foram embora.)

E desde então
não pude ser omisso diante do que via
porque
me fazer adulto a esse ponto
seria matar lentamente a criança que sou.

Fora isso,

9
confesso,
tenho passado por um adulto razoável
e
com a ajuda de alguma teatralidade nata
própria de minha infantilidade secreta
quase me orgulho de ser
um cidadão comum, conseqüente, medíocre até.

Mas eu não agüento mais,


não, não agüento.
Tenho medo
que me grude à farsa
esta face.
Este disfarce me consome
as melhores horas do dia.
As me-lho-res!

Criança! É isso.

De agora em diante
não esconderei mais nada.
Tenho 8,
vontade de enfiar graveto em nariz de cachorro,
vontade de abraçar a todos (té você, viu, seu bobo!),
vontade de chorar num colo gostoso
por pura manha por pura manhã e
vontade de arranjar uma moça bem bonita pra casar.

Tenho 8, só 8, e carrego, ainda, uma bola entre as mãos.


O resto é silêncio se acumulando nos olhos.

10
Bile

às vezes, se matar é pouco

é preciso mesmo
desenterrar os mortos
um a um
corpo a corpo
pai, mãe, avó, avô, tios

tirar, cuidadoso,
a terra do que lhes resta
dos olhos
e aprumá-los à mesa da cozinha.

e, logo,
servir o almoço
tão cheiroso
que eu mesmo
- homem adulto -
fiz:
carne de panela ao molho
(verde)
(a receita do molho
vem de gerações,
minha mãe diz)

Sentados então
domingo em família
dizer a cada um
quão importantes foram
pra que me tornasse
hoje
esse quem sou:
assim.
e olhar com carinho
cada um dos corpos
envoltos
num silêncio constrangedor
(nunca soubemos lidar
com demonstrações de amor).

e de repente gritar
- felicitoso -
um brinde à minha própria vida!

E todos
- cabeças pensas -
não brindariam.
Corpo-Fátuo: manhã

sempre fui desde que me lembro olhando rachaduras à parede antes de


dormir alguém que não nasceu pro convívio. me habito no mero necessário.
moraria bem atrás de geladeira. sempre quis ser um coisa nenhuma um
oco de olhar meigo. sempre quis amar assim ninguém me vendo. e isso eu
sei venho aprendendo desde pequeno não semelha ser possível. amar como
deus é só pra deus. tento amar como coisa mais simples. queria amar
como essas aranhas que nos olham tranqüilas dos cantos das quinas.
queria amar como essa presença desapercebida de pernas finas e
movimento simpático. queria amar como calor desses raios chegando
mansinho pelas fendas todo dia adentrando o quarto com sua morna calma
rotineira. queria amar como a pitangueira de frente à janela dando
pitangas às formigas e sim também amar como as formigas em sua
humilde carreira pelas paredes da casa. amar como essas plantinhas
feias que nascem nas rachaduras do tempo. duram quase nada mas sempre
voltam obstinadas através do cimento do silêncio. queria amar como essa
presença tranqüila dos móveis da sala. como as cadeiras em seu servil
oferecer-se. como essa rede da varanda numa conversa franca com as
cores desbotadas da casa. pra isso não poupo esforços em habitar as
instâncias mínimas. busco a invisibilidade dos fundos. gasto horas
navegando as fendas dos tacos do quarto mergulhado nos mistérios do
ínfimo. gasto meu tempo assim dia e noite e assim amo como quem
conversa consigo sentado no chão gelado do banheiro. e ali me enterneço
com o movimento das gotas que pingam serenamente. passaria horas em
companhia das gotas essas presenças alentadoras amizades boas que
carregarei até minha velhice. sou companheiro das coisas que não podem
chegar a teor de vida que ninguém lhes doa existência. pois eu dôo.
tenho dó de retirar as cascas de pão da mesa pois elas me dizem tanto
da presença de outros do pão mastigado do café da conversa e a sujeira
que o vento traz à minha porta são como correspondências chegadas de
longe de outrora. Às vezes é tanto amor que sinto no mínimo, tamanho,
que estremeço e sobrevivo apenas desprezível embaixo de algum móvel.
vivo no soslaio. no anonimato que se pressente próprio das baratas.
nessas horas só as palavras são tão réles quanto eu. amo assim invisível
através das palavras: formiguinhas que despejo num canto para lhes ver
o caminho e lhes por o dedo no meio e ver que outro caminho tomam. por
mais que se percam se afastem que dêem caóticas voltas sempre retomam
sua carreira rumo ao escuro do chão.
Outras estações

Primavera

Lírios selvagens coroam o caos


ao que mãos colhem a flor da raiz.

Um discreto perfume
de raro bálsamo
exala o algodão
que tapa um

nariz.
Poesia incidental I

Um tênue fio se desfaz


em meio a engrenagens
e grossos ruídos.

Um único
fino fim
desata-se
de seus vis motivos.

E qual mágica
- ou intenso sonho -
corpos
flutuam
no vazio.

Em seu andar
- impaciente -
o poeta aguarda
um elevador

(ou um poema)
Pessoa
(para os heterônimos)

Sou entre tantos


e quase não existo.
Um cheiro estranho
não mais que isso.

Sei,
devo estar
em algum lugar
escondido

(entre esta úmida


sensação de chuva
e a ventofresca
impressão de secar)

Amanhã,
talvez,
ganhe um resfriado
e um pouco mais
de existência.
Outras Estações

Verão
Mormaço
de moscas
no céu
aberto
duma

bo
ca.
Corpo-fátuo: tarde
se saio para o mundo das gentes é por necessidade. e aí cumpro ser
penosamente. poucos percebem que os olho como uma roupa velha do armário a
cada vez que me abrem a porta do armário. no ônibus sou outrem e isso é
adorável. como quando o ônibus percorre ruas estreitas, quase como se
entrássemos nas casas alheias. assim coleciono intimidades. o cheiro das
comidas o barulho da pressão nas panelas entrevejo uma briga um casal
namorando alguém que canta alto sua música predileta. tantos brinquedos
perdidos nos telhados. queria amar assim da janela como um ônibus que
percorresse todos os cômodos das casas. adoro as abelhas que por engano
atravessam a janela e se perdem presas entre os bairros para nunca mais
voltarem. tão ingênuas na sua triste luta contra as transparências. queria
amar como as abelhas que sobem nas roupas das pessoas sem que percebam.
são tão belos e meigos os insetos que sobem nas pessoas. queria tê-los às
centenas em meu corpo mas sem percebê-los. na multidão dos centros me
esqueço. queria amar na multidão como quem esbarra e depois pede desculpa.
como quando frente a frente desvio para o mesmo lado uma duas três vezes.
amar encabulado nessa impossibilidade de nos tocarmos. amar como quem sai
de relógio só para ver se lhe perguntam as horas. amar como quem não olha
nos olhos. a não ser quando os olhos fogem prum outro lugar e eu sei bem
reconhecer quando os olhos fogem pra outros lugares pois os habito. finjo
pequenos ridículos para alegrar os transeuntes. acho tão linda essa palavra,
tão burocrática, tão fria, e, ao mesmo tempo, tão untada de pornografias
amorosas. transeuntes. finjo, com os fones, que a música me empolga e
requebro a cabeça, mexo um ou outro ombro e fecho olhos. finjo uma alegria
incontida, um sorriso besta que não se contém e diz um "olá" tão cheio de
nada transparente para quem tem olhos de ver. mas ninguém enxerga. finjo
falar sozinho, como se dialogasse ora com a mãe com quem brigo ora com
filhos a quem ensino ora comigo. gosto de provocar pequenos risos. não os
grandes. gosto do suave arquear das pontas dos lábios os olhos que se
deslocam do cinza diário e acendem um fósforo no vário pra logo depois
mergulharem no mais-que-esquisito seguir do tempo das cidades. amo assim
pelos meus pequenos fracassos e tropeços fingidos com arte. sem saber me
amam assim na alegria de aceitar que o erro, tão lindo, ainda vive mesmo
que no ponto cego do coração. lá onde mora a beleza da palavra
"transeunte". quero amar como mendigos que olham a ausência passar. sou
capaz de tecer complexíssimas filosofias apenas de ver o nada-olhar de
velhos mendigos. adoro como os ventos de antes das chuvas balançam os fios
e as copas e as saias e arrasta o pó e as sujeiras e as certezas. antes da
chuva é como se tudo fosse ser a última vez. isso dá uma sensação
libertadora de que a gente é pouco muito pouco. e as gentes parecem que vão
morrer. mas eu não. eu sento e sinto. chuva me estabelece. me devolve à
pele. quando chove os seres se retraem e dão espaço pro dizer das coisas em
si. no mundo poucos são os seres. muitas são as coisas. quando chove elas
vem à tona. e eu as ajudo. trago sacos plásticos pra soltá-los no vento de
antes da chuva. e esse é o amor que sinto de vê-los voar sem rumo e
reencontrá-los dias depois por acaso voando em minha direção.
tempo ao tempo

sigo virando
esta areia fi
na sobre
teu no
me
a

é
que
setor
neapen
asesómen
teapenasnome
Poesia incidental II

Uma unha no asfalto


ainda vive
arranha.

Um pneu solitário
sai da estrada
grogue.

(assim é morrer?)
um quase olho
fechado
sonha.

Do alto,

e acima de qualquer poesia,

corvos espreitam
o inevitável.
Outras Estações

Outono

A última
folha
livra-se ao
vento e es
vai-se ao acaso
dum po
ço
negro

evola em
es
pirais
e ao fim dis
man
cha
a lua

o n d u l a a n t e

u m a í r i s

h u m a n a
Bissextos
I.
tô tentanto, agora mesmo,
explicar pro meu peito
que o ano acabou

me olho no espelho
que reflete meu rosto
do mesmíssimo jeito
feito
nos dez minutos anteriores

me olho nos olhos


bem no meio do sombrio dos olhos
- lá onde sei que por trás dos tocos
ainda se escondem rastejantes
2006, 2005, 2003
e até 1997 -
lá onde a água é parada
e a cor não é das melhores.

Me olho nos olhos


e é como se todos que conheço
me olhassem de volta
apreensivos.
Os ignoro
e estico um sorriso orgulhoso
das vitórias do ano
- bem a la feliz 2008! -
o que faz rir
todos os ogros
que habitam
minhas dobras.

Desarmo o sorriso.
(me sinto melhor assim
e mais charmoso,
assim como
um homem manco
é mais charmoso)

Nada mudou
e pronto.

Mas,
lá fora
e acima
e adentro
os rojões explodem
meus argumentos.

o céu se enche de violetas,


gozos,
incandescências!

Mas meu olhar treinado


no despropósito
vê, apenas,
ao longe
a estrela da vida inteira
que humilde tremeluja
fria
no espaço turvo
da meia-noite
sem nem se dar conta que mais um ano se passou
e que eu, agora, já tenho trinta.

Posso ouvir
a algazarra dos vizinhos
e sua alegria sinceramente desmedida
desmedidamente sincera.
Sou, talvez,
a primeira indiferença
ranzinza
do bairro (da cidade? da estratosfera?)
em 2008.

Agora
às 2h36
de 01 de janeiro de 2008
o silêncio vindo das ruas
(e de dentro dos olhos górdos de peru)
já é o mesmo
das 22h45 do dia
31 de dezembro
do ano que se passou.

4 horas de um fogo branco


queimando o ano os meses dias e noites.
Queimando os suores, os medos,
os silêncios, os sonhos,
a surpresa dos primeiros prazeres,
e o enjôo dos beijos sem-amor.
Milrastros de pólvora
queimando
toda a história
toda a merda desse peso
às costas
dessa mão que não sabe o rosto
desse coração encravado no peito
dessa moeda engasgada na goela...
(e que água tão ardente
pode saciar a sede
de tanta secura nos corpos?)
bombas-relógio em contagem regressiva
enquanto todos aguardam
TRÊS nas salas,
DOIS nas cozinhas,
UM frente ao mar,
o momento para ser feliz de novo...
Pronto!
Gritem! Corram!
É a zero hora!
é a hora sem hora!

A vida toda de um ano


queimando-se em apenas
4 horas de
(comoventes)
artifícios
de fogos e esperança.

(Como deve sentir


a chegada do “novo”
- e com que fogo queima sua história -
o motorista que vi passar
guiando o ônibus
às justas
24 horas e 12 minutos
pela frente de minha casa?
E que na hora da virada
devia passar da segunda
para a primeira marcha
enquanto se preparava
para a lombada
e para mais um
ano?)
II.
Que esperanças
resistiriam
à insônia?

saber-se sempre o mesmo


sem noites, sem sonos,
sem fade out algum
entre o que foi
e o que será...

“a esperança é a última que morre...”


mas, antes dela
não morreremos todos nós?

Tão novo
é o ano
quanto mais
nos esquecemos
do que fomos,
e, principalmente,
do que não fomos.

Apagar uma a uma


as estrelas das trilhas
em que não nos arriscamos
até deixar
este estreito e reto caminho
artificialmente iluminado para
2008.

Isso.
Bebe champanhes, minha gente.
Bebe champanhes!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão
beber champanhes cidra cerezer.

Pudesse eu babar champanhes e esquecer


com a mesma verdade e prazer.

III.
Volto ao espelho,
esse insensível.
Tento, em vão,
me esquecer de algo pra ver se viro
o ano, se lhe passo uma rasteira,
se num lance mandinguento
deixo pra trás
definitivamente
o peso dos sóis e a abrasão das luas sobre meu dorso.

Metal pesado inflando-se de eclipses.

Mas resiste
em mim todos os anos
- numa siderurgia cirúrgica -
desde milnovecentos e tantos

(tempo fundindo-se ao coração-peito-nuca feito ferro-gusa)

nada trago
de novo

de novo
nada trago

É que quando nasci,


um anjo torto
- e filhadaputa -
disse:
Vai, Jefferson, vai ser um vinte-e-nove-de-fevereiro na vida!

IV.
Raia
no canto esquerdo da boca
desse que me olha do espelho
um risinho
qual uma esperança verde-musgo.

Talvez,
porque lhe tenha agradado
essa infame metáfora
do 29 de fevereiro...
Talvez,
porque ache
que este novo ano
- o de 2008 -
é bissexto.

Eu,
que vivo deste outro lado do espelho,
faria as contas,
para ter certeza,
primeiro...
Corpo-Fátuo: noite
à noite gosto de me perder pelas ruas pardas. olho casa por
casa. a garagem pálida o cachorro gordo e triste o macabro
tilintar dos talheres nos pratos o olhar vazio dos anões de
jardim os vultos nos vitrôs dos andares de cima a disposição das
grades das lanças dos cacos. o aconchego e a hostilidade próprios
de cada família. gosto quando do escuro cavernoso de um cômodo
por entre cortinas cintilam rostos empalhados numa luz azulada
que emana e pisca. pressinto o calor da sala o odor da rotina.
e amo assim todas essas coisas isoladas em suas salas. casa por
casa. separadas por finíssimas camadas de tijolos e tinta. eu
os amo como um vulto estranho que passa. como um barulho lá
fora. mais nada. chegado em casa deito e fecho os olhos que
parecem realmente nunca fechar. passeio pela casa visitando as
coisas por baixo observando a vida que só floresce no escuro no
sem-olhos a nutrir o silêncio duma densidade púrpura. os ruídos
da noite são meu canto terrível de ninar. tecer relações entre os
barulhos do incognoscível é tecer o próprio sono. restos de
gemidos murmurar de sons mímicos bater de portas roncos roucos
que as paredes ruminam. colo ouvidos e encolhido imagino como se
milhares de corpos flutuassem num mar fosforescente trás ali
sessenta centímetros. vejo como de suas peles florescem
translúcidas anêmonas verdes. queria amar como meu imaginar
noturno alimenta na boca o invisível. amar como essa sensação
de alguém a nos olhar no escuro. amar como um susto que não
acontece. sinto como a noite mais densa embaixo-da-cama se
conecta com o negror fundo dos bueiros. vejo tudo com olhos na
nuca. vejo uma única folha dentre as inúmeras dessa imensa
árvore iluminada pela lua que deve estar lá fora sem olhos na
rua. folha tão velha tão amarelada que só lhe botar olhos
fechados já lhe desprega o cansaço e se solta e segue sua
trajetória longa e leve e aleatória até acalmar-se num canto
qualquer de guia. imagino como amanhã ninguém a notará ali
folhinha. Imagino seus caminhos arrastados de asfalto as ruas
percorridas as enxurradas até que encontre enfim um canto ou
buraco ou um lago definitivo onde possa livremente decompor-se.
queria amar como coisa que apodrece de chuva e de tempo e mais
nada. queria te amar assim apodrecendo e me toco ali onde os
poros germinam o morno até que gozo esse amar morto que vem me
desfazendo. queria amar como mãe masturbando filho.
Presentinho
“ (...) porque com seu canto melodioso, elas o fascinam,
sentadas na campina, em meio a montões de ossos de corpos
em decomposição, cobertos de peles amarfanhadas”
Odisséia de Homero

você parece tão bonita


linda, mesmo,
e até me faz parecer um sujeito daqueles
que tem vontade de te dar coisas bonitas
e assobiar quando o vento pede

mas minhas vísceras


- ontem a noite -
já me disseram tudo

agora sei
que você não é a beleza, nem o amor, muito menos uma linda flor que
se cheire
nem seu olhar é o barulho duma gota d'água no meu ouvido
nem seu corpo é a lua derretida com chocolate branco sobre frutas
frescas

você é o terror nos olhos chupando mangas deliciosamente


você é o horror só de calcinha
você é o intestino grosso da minha noite em funcionamento
você é minha mãe magra e morta de lingerie transparente dançando de
olhos fechados na frente de um espelho

queria te dar
a beleza que você
não é

(dobras, furos, vultos, ocos, sumos, gozos,


mucos, húmus, crotos, grumos, brógros, mungruns)
queria te dar
esse cheiro dos suores
escorridos da rua inteira
que fermentam juntos
nos bueiros

queria te dar
o cu do medo entreabrindo-se
como uma flor
sensível
ao dedo

queria te dar o espasmo


de mim mesmo

mas não consigo

e assustado
- como um menino diante da primeira morte -
te dou este ainda fresco
pequeno e
remexidamente vivo
rabo de lagartixa.
Outras Estações

Inverno

O gélido frio da ausência de frio.

O tempo uivando nos ciprestes de Gogh.

O teso silêncio num véu envolvido.

Algumas pupas se rompem, outras não.


hoje acordei com minha mãe nos olhos

Vou te dizer uma coisa, mãe.


Me escuta, sei que você me escuta,
então ouve:
Não dá mais!
Poxa! Não dá!
Enxerga!
Olha ao teu redor!
A casa tá vazia e você tá morta, mãe!
Porra! olha!

Sinto muito, mãe,


mas já deu a minha hora
e não vou mais te fazer companhia.
Tem um sol lá fora.
Tem um céu lá fora.
Tem muita gente lá fora, mãe,
(inclusive,
tem alguém muito especial,
em algum lugar, lá fora,
me esperando
e eu não vou beijar teus olhos nela,
ah, não vou!)

Eu preciso ir agora!
Você entendeu?
Você entendeu, mãe?

Pára de limpar a casa. Deixa disso.


Deixa os pratos se sujarem na cozinha
e pára de perguntar se quero mais comida.
Pára!
Agora já sei me cuidar!
(e se não souber... que se foda! o problema é meu.)
Não! Não vai chover e eu não vou... escuta:
eu não vou, nunca mais, carregar guarda-chuvas
des-ne-ces-sa-ria-men-te!
Não sou mais criança!
(Não essa que você me quer!)

Me escuta: me deixa!
E se deixa!
se deixa ir... indo.

Tudo bem, vai...


vai se olhar - pela última vez -
no espelho da penteadeira.

Se penteia com aquela escova da Andaluzia que a vó lhe deu


coloca suas presilhas pretas
uma a uma
com a calma e com a vaidade
que os 3 filhos e marido não te permitiram em vida...
se faz linda e se apronta
pra sua morte definitiva.
E sem dramas! Sem dramas! que a morte
- a esta altura, a senhora bem sabe -
é bela
e, mais que bela,
é necessária
e - te prometo - vai chegando como uma chuva morna,
gota a gota no fim da tarde
sem grandes trovoadas.
Mas, antes,
se olha nos seus próprios...
esse negro dos seus olhos nos seus próprios olhos, mãe,
e te aceita
cada vez mais
pálida
bela
e morta.

Deixa o vento, mãe, invadir a casa


com seus nós de cabelos
com suas folhas caídas do tempo
com todo o lixo próprio que fizemos
deixa...

que a morte já é esse vento


deixa... deixa as cortinas bailarem
abre a casa e se abre
que a chuva já vem...

e não olha o retrato na parede, não mãe...


Pára de esperar o pai
que ele não vem,
vai

Deixa
de morrer
de vagar.

embora. vai.
se molha.

segue teu caminho


que agora é hora
do meu.

vá-te embora
e não me olha pra trás
vai e não acorda mais
em mim.

(que te prometo, mãe:


dia desses vou ser pai
e você renascerá
ali
no meu filho
ao avesso.)
Reto olhar
Meu olhar baixo
desabrocha mães
Meu olhar alto
empina pais.
profundícies y luzizsombras
e aliviado e simples
vou poder olhar em teus olhos
e te amar,

jefferson.
versos que me acordaram

É preciso buscar
qualquer coisa
de fogo

fátuo.
Corpo
-facho
Subverso

em algum lugar
dentro
te espero

fecho olhos
(e novamente os fecho (por dentro))

aguardo
humilde
(sob a chuva que te incandesce)
teu cheiro incerto
de cascas,
folhas,
restos

Foi longo o exílio


e o tempo
cinza
como pó de mortos na garganta
fez de minha língua
um silêncio grosso
de gosto estéril

Mas, agora,
ajoelhado sobre o que me resta
aguardo
sereno
circunflexo

e me ofereço
corpo
a tua desordem
e me ofertando
num véu branco
de vento e silêncio
solitário,
sim,
solitário e inteiro,
sei que surgirás
veludo clandestino em meu peito

e entorpecerá meus olhos


e sussurrará desejos
e abrirá meus lábios
com seus lábios
dentro
Adestramento

empunho a flor laranja


no centro de minha noite

(aguardo
- sozinho -
a fera
que dela
se alimenta)

empunho a flor laranja


no centro de minha noite

(ensino
- tremendo -
a morte
a comer
na minha mão.)
por fazer

a cada novo amor que começa


a cada velho amor que acaba
minha barba fica ainda
mais grossa

de início
não acreditava
coisa da minha cabeça
mera coincidência

coisa e tal

mas agora
estou me convencendo
- diante do espelho -
desta realidade
mais preta
mais dura
mais cheia

(bonito ver como o novo escuro da barba


austera a minha cara
numa rústica dureza antepassada
e ao mesmo tempo realça
o menino ingênuo nos meus olhos.)

eu sei eu sei
isso é algo totalmente banal
- hormonal, provavelmente-
e nem deveria virar um poema

mas é tão incrível


tão fantástico
ver algo assim
inexplicável
acontecendo aqui
na minha cara

que algo lá de dentro me fala

(misterioso silêncio
entre os olhos e a barba)

que é meu pai


- que mal conheci -
renascendo
renascendo
renascendo

pai, sinta-se em casa.

vou deixar a barba


por fazer.
Eu passarin

Acordei
com 257 baratas
assustadas
entre meu peito
e meu estomago

Levantei meio morto


e fui pra cozinha
buscar uma pêra,
um inseticida,
um conforto

abri a porta
e explodiram asas pios vôos:
dois passarinhos voavam voavam
assustados
(como naquele filme do Hitchcock, Corvos)

corri e abri
uma a uma
todas as janelas da casa

mas os passarinhos
simplesmente pousaram
sobre a geladeira
como se não entendessem nada
ou como se percebessem todas as minhas 257 baratas
e me olhavam assim
com seus olhinhos pretos
de uma ternura preta
bem pretinha e
me olhavam e
inclinavam as cabecinhas
com um olhar virgem
sem horizontes
céu aberto dentro deles

senti uma vertigem no peito


uma zonzura estranha
mas estranhamente boa
que até minhas baratas
fizeram silêncio.

e entendi.

fui até a maior janela da casa


e zarpei.
Na voragem do quase

I.
nasceu mirrado
talvez
quem-sabe
nem isso-mesmo
nem deixa-disso
meio sei-lá
com um quê-de-quase
meio um misto
de eu-nem-ligo
cum gemido
noutra metade

e respirava algo
ao teu ouvido
uma palavra
nem isso
como se minha boca
é que auscultasse
(tão perto e quase)
seu ouvido

e era
o olho traindo a mão atraindo o
peito traindo a boca atraindo
um jeito
de como quem vai
quando veio
de como quem nem
quando ai
como se
dissesse-que-não-me-disse
como quem nada
quisse
e assim chegando
mansinmanso...

roíamos o osso
do tesão
como
se o quase
fosse
o quando

como pó
de algo
tão pouco
em si
nu
ar

tanto?

II.
e foi mesmo
mais ou menos assim
(mais rápido ou lento)
que tudo foi
se precipitando

ante
pe
les
e um triz
entre

como dois penhascos


se observando

Quem seria pulo?


Quão fundo?
Quando?
Teu corpo me instalara
bomba de tempo - pomba
explodindo em asas no peito.

(E já não era esse vôo


formigando dentro
- num ante-grito -
a medida exata
de teu abismo?)

Éramos o oco
buscando o dentro
desnudos de mundo
pelados de tempo
latentes e tantos
em apenas dois!

e todos sabemos
que nessa hora em que os ventos
páram e o tempo
jorra
qualquer cílio contra cílio
basta
qualquer lábio entreaberto
basta
qualquer qualquer-coisa que arda
(té meia palavra)
basta
se teus olhos
lêem
ar
do
ro
sa
men
te
meus lábios
Falo.

III.
perdidos e envoltos
na voragem
dos quases
um impulso
mesmo-antes-que
age (não age)

e o silêncio nessas horas


sabe
o silêncio
essa água onde a onça bebe
silêncio que se aguarda
num pé-de-fuga
noutro-de-espádua

silêncio que se eletrifica


que se enlouquece enquanto se tira
a pele-de-menino dos olhos
liberando as mãos
para o que
os ares
de outros pulmões
ordenarem

H
mas não H de homens maiúsculos
que nessa hora em que tudo range,
quando a selva das gentes devora
e os contornos dos corpos gemem
é nessa hora
que não mais se sabe
o que finca ou o que fende
onde começa a fome
onde termina a sede
onde começa
o macho
e onde finda a
fêmea
é quando omem
é mais que omem
menos que homem

dia
entrevando-se
nas bocas e pernas da noite
aurora boreal dos corpos

silêncio cheio
desse cheiro
que sobe
de um útero
primeiro
e que move
mulher e homem
(essa coisa pouca
que juntada a outra
- tão pouca quanto -
inventa terra
inventa céu
inventa estrelas
e inventa um outro -
novo cometa)

suores e cheiros
tensão de eras
na química feroz
dos ferormônios
furor obscuro das moléculas
sob nossos olhos
sob nossos genes
e sobre nossas melhores intenções
odores
que se amam e se destroem
antes mesmo
de nós

silêncio extremo
sem espaço pra piscar
como janela suspensa de beijo
que se abre
imprevisível
justo quando
o entre
nasce
(e se enter
nesce)

IV.
e esse silêncio (de beijar-ou-não)
tem seu próprio
e impossível tempo
e qualquer coisa pode
te fazer
perdê-lo
porque entre um corpo
e outro
pode pousar um cisco
pode passar uma nuvem
pode um trem
descarrilar
é preciso
ser inteiro
no instante do “quase”:

um sim brilhante!
quasar!

mas não!
nos perdemos
afoitos-ingênuos-trêmulos
e um mínimo
descompasso (íntimo)
foi capaz de abrir,
(sim, senhoras e senhores...)
é capaz de abrir
a distância de uma vida
entre duas bocas
(...essa é a trágica mecânica dos corpos)

e uma vez instaurada


defasagem mínima,
roda do tempo perdida,
esse tempo
do-beijar-ou-não
caiu-me no chão
espati
fando-se
em
lilases
cristais
de trizes

E assim
o silêncio
(balão até então inflado de desejo)
murcha
emsimesmando-se
em seu eixo
que não é outra coisa
senão
medo
(sim... porque é o medo, e bem sabes disso,
seu poeta de merda, que é o medo que não
aceita o peso (e o brilho!) dessa cachoeira
jorrando em teu peito, é o medo - essa pedra
no meio - onde tropeçastes e perdestes o corpo,
a boca, o vôo e esse veludo respirado no
peito...)
esse pequeno medo de perder-se
- farol negro do achar-se -
te envolveu e te enganou
o instante apenas de

e a máquina do tempo e dos olhares


se engasgou
numa disritmia sincopada
típica da realidade
como o mundo que voltasse
com seus telefones
e músicas no rádio
com seus pernilongos
e carros
e calor ou frio...

e o que restávamos
nessa hora cheia de ponteiros
já nos corava

e o silêncio
jazia

estirado na esquina
onde um carro buzinava

silêncio a paisana
pescoço estralado
estômago roncando
latidos
da cachorra da vizinha

e assim
de volta ao mundo das coisas-que-são
(perdidos que estávamos entre as coisas-que-quase)
só me restava
falar sobre o clima
ou sobre a cachorra
da vizinha...
assim mesmo, frase ambígüa,
pra que um riso
aliviasse
o vexame de tanta
coisa caída
sobre nossos colos,
entre nossos pés,
sobre o tapete...

(tapete que segundos atrás nem mesmo


existia...)

V.
Meu primeiro beijo
foi quase

só o segundo teve
gosto-esôfago-dentes-língua-lábios-salivas-entre

Meu primeiro beijo


perdido
fugido-assustado
por entre
buzinas, sofás, quadros,
por entre nossas mãos
e teus olhos...
(Leopardos!
Não foram ali
que se espantaram
as plumas do beijo
de meus lábios?)

Beijo Primeiro
- que ainda persigo
pelos desvãos da carne -
impossível beijo
anterior ao próprio beijo
e que me ensinou
a entranhar
o susto primevo
desse desejo-maior-que-o-peito-maior-que-o-corpo-maior-que-o-dentro

beijo
Línguas literais

Ah! O espherográfico desejo


de escrever
à mão nua
a glútea redondez
da palavra em jeans:

bunda.
Catártis
(ou estoiras de contar às safadinhas antes do bom soninho)

foi bem ali


quando abaixastes
nua
de péli flesca lissa y luva
pélida
toda ancas
morna
e manga
quando baixastes
crua
caralha
com a frescura que uma
foda
sempre
caga
ali
quando abaixastes nua
e todas tuas coisas infladas
e aquele pus
e aquela doença
exposta
inflamando o corpo
e abaixadinha assim
olhavas
como uma cabritinha prestes
a ser sacrificada
como se um lúmpen todo de línguas
olhassem teu dorso
e por isso mesmo
exibisses
ainda mais
esse osso
que desponta à nuca
foi bem ali
- müliér -
quando gaxastes
à fêmea que há
ali
no meio
quando acocoroxastes
pra colher-me
o cheiro
o coiso
o osmo que grosma do chão
quando
intumescêsses o ar
inclivando-se
pra catar
o úmido
de olhinhos assim
nem tão fechados
nua de sóliventos
foi quando
um beija-fleur
no seu avôo de sorver súmus
o bicus
vem
vai
vem
vindo
sentindo a sanha
e vagarin
afunda o fino
e
sim!
- te assustas mas não o espantas -
e laceando o lento
vai cedendo
o sulco
ao sedento
sarin
que afoito e fino
fende o gomo
e suga
em teu rélis túrgido
o que há pouco
- bem pouco -
trojava eu
- melymélis -
em teu cromo de prata e cripta:

breu.
Poema didático sobre como ler um poema

I.
Vai, senhor leitor,
vai lendo o que tá aqui escrito
que
quando eu for gozar
eu aviso.

II.
Não me olhe assim
com essa cara.

É isso mesmo.

Essa coisa estranha


na tua boca
é melhor que nada.

III.
Aqui,
bem aqui
isso

agora
mais aqui
assim


vem
vem
desce
pra cá
assim e
continua
vai se enredando
se comprometendo
se enfiando em tudo
que é frincha, friso, risco

aí,
isso!

Eu sei que você gosta disto!

Ah, se gosta! Não é a toa


que está
aqui agora.

E não se faça de desentendido!

Só você largaria
tudo
por isto

safado! adora joguinhos!

E nunca se satisfaz
e quer ir sempte
além
entre
atrás
num vaievem
que fende-se
cada vez mais
intenso e profundo...

(adoro seus escrúpulos se perdendo em meus


caminhos)

Bom menino!
Vem,
faz mais um favor pra este bom velhinho,
move teus lábios
em silêncio
bem, mas bem
di-va-ga-ri-nho

ah!
assim!
isso!

sente
o verso
desta língua
- ainda fresca -
roçando tua própria língua
e se entrega
ao que lhe dita

sí-la-ba após sí-la-ba

até
que sejam
tua boca teus lábios
– oh, virgem leitor -
o orifíssil
em que
- sem palavras -
enfim o falo:

(orgasmo)
diadia

Levantar bem cedo


e surpreender as palavras
antes que vistam
seu hábito.

Dormir bem tarde


e deixar - cansado -
que as palavras
me dispam
o costume.
Poética

Poesia se faz de olvido


do sono que a língua
traga
solve no pálato
a palavra
e na ponta do lapso...

a guarda.

Poesia se diz faz de ouvido


do som que a língua’traia
sorve no cérebro
a palavra
e na ponta do lápis...

um guarda.
Aceitação da noite
I.
Esta outra noite
- mais funda -
que se acumula nos olhos
como poço antigo
e repleto
de luas.

Esta noite outra


- minha e tua -
que abre nos corpos
estrelas poros
quando mortos
fechamos
os olhos
juntos.

II.
Não resuma
a noite
à ânsia de se
colher
um cometa

por mais candente


que estejas
não

não resuma
noite
a qualquer
estrela
efêmera
deixa

que a face oculta


da lua
abrase teu dorso numa
chama sem olhos
e sem estrelas guias

aceita
afinal
que teu corpo seja
nesta noite
- mais que brilho -
breu

III.

assim
noite
após
colhe
a manhã
o horizonte
Interpretação
Interpenetração

bem aqui
rente
mora o perigo.

sente?
sente o risco?

chegue mais
assim
isso

bem aqui
entre
a língua
e o olvido?

sente?

sente o visco
entre
o que houve
e o que eu digo?


bem aí
isso

sente?

sente
ali onde
outros sentidos
se metem
entre?

Pois bem

é bem aqui
rente
(entre meu corpo
e teu corpo)
onde mora
o risco
que corro.
Arapuca

A
Um

Páss
ar
o

da
poesia

a a
s s

pra
tudo
que
é
dia.
Negação da noite
quando candente e suada de peles
ela (a fera a lua a estrela)
se arremessa em meu
gélidofosso de algas noites e luzis
um frio de trezentas mortes
me lambe a espinha
num fogo de fomes
me abrindo vulvas
na pele línguas
na nuca
como se sugássemos
o breu dos corpos
pela bocas
logo quando
entre horizontes coxas
raia

sêmen-lúmen

findo o eclipse
afundo no turvo turvo
de águas paradas
e como estranha pedra escura
lisa espessa e pesada
(como corpo de mãe que se amarra)
me afundo
fosco
e me faço
friamente
minério

Ela
– já menos fera, menos lua, menos estrela -
cansada e nua
cansada
cansada
e menos e menos nua
pelada
reflexo de brumas
se desata
vento de vozes
véu de asas

já é outra a claridade
de um sol sempiterno
fundindo os últimos mistérios
a fogo e ferro:
astro-lábios

resto apenas
como um campo fervente
de girassóis amarelos
sobre trezentos frios
corpos maternos

sou apenas minério


em seu núcleo movente de lava
Quadrilha revisitada

João comia Teresa que trepava com Beth


que não gozava com Carlos que olhava (demais) pro Fred
que enrabou o Fábio que nunca havia transado.

João saiu do Brasil, Teresa, do armário,


Beth pediu divórcio, Carlos pulou do oitavo,
o Fred purpurinou e o Fábio,
agora é Fábia e descobriu o amor por si própria
(que não tinha entrado na história).
Prova dos nove

2 mil 544 abraços


1 mil 666 beijos
893 mordidas-bem-dadas
484 transas (7 incontáveis)
49 promessas
33 não-cumpridas
17 loucuras
11 declarações
7 desesperos
4 ardências
2 amores
e 1 único medo...

...noves fora
zero?
espelhando

olho no olho

a
f
a
r
s
a

faz-se à face
Segurando o facho
(entre o dito e o não-dito)

é fátuo
mas é fogo:

tamo num mato


sem dono

o mar
não tá pra cachorro

e nem tente
caçar com gato
que é lebre
(e já subiu no telhado!)

se comprou não pague


que o pato anda caro
compre um cajado
que os coelhos
não ladram
mas...

Não corra!
Que se correr... o bicho tá pegando.
Não fique!
Que se ficar... a coisa anda comendo
e solta!

arranque os anéis
mas não entregue o ouro
o verão no bolso vale mais
que uma andorinha voando

não dê na cara
nem ofereça a outra
não dê um tapa
fique de boa
que pra te fazerem a cabeça
tem hora

pega leve
mas não largue os ossos
que os ofícios todos
já se foram

E se vierem de conversa mole...


não dá boi! não dorme! foge
dessas piranhas que se
conselho fosse bom
a onça era minha amiga.

Faça como eu, digo,


não fale como eu, faça:

Só dê ouvidos ao bom e velho dito


e feito! pronto!
É tiro
e queda!

é fogo
mas é fato...

deste mato
eu não saio...
Às vias do fato
acordo assustado
embrulhado na noite

o horror estrebucha um trem descarrilando

abro olhos seis vezes


sono após sonho
até o negro
desfazer-se
em púrpura

reconheço vagamente o oco


dum quarto

qual
não sei

lembro de vários
e rápido
me conecto a todos os momentos
em que acordei assustado
num quarto escuro
como este

(o da velha casa da infância onde acariciava com uma mão os


seios de minha mãe e com a outra a parede trincada; o quarto do
quintal, improvisado, onde Pessoa me beijava a chaga a hora de
dormir; o quarto cheio de gentes em que fui salvo de mim; o
primeiro quarto, quente e pequeno, que aluguei, e onde, quente e
pequeno, conheci os líquidos próprios da paixão; o quarto amplo e
branco das mãos dadas ao dormir e muito mais amplo e branco sem
as mãos... e tantos outros quartos ligados por esta mesma amnésia
escura e silente...]
não há mãe ao meu lado
tampouco corpo de mulher

há quarto
e uma fraca autoconsciência
se retomando
(sinto a barba: não sou mais criança
mas a pele ainda tem algum viço)
o horror que estrebucha um trem descarrilando
é a geladeira em seus perversos mecanismos
notívagos
(sabem seus inventores a terrível ação sobrenatural dessas
máquinas?)

e tudo se me vai voltando


e reconhecer tudo é
- lembro de Pessoa -
uma maçada (até mesmo meus tristes gostos literários regressam)
[alguma coisa deve se perder a cada noite pra nunca mais ser
lembrada: o nome de uma antiga namorada, o nojo da língua no
primeiro beijo, uma palavra pouco usada, algum tipo específico de
medo... um ano inteiro... mas, esta noite, parece que nada, nada
se evapora, e ao contrário, uma legião de pequenas memórias me
atacam antes mesmo que consiga rememorar meu nome...] -

acordo suado
mergulhado até o peito
de madrugada fria
enquanto a casa
vazia
estala um silêncio
sem séculos

pesado e perplexo
e ainda carregando a inconsciência dos órgãos internos
saio à varanda
onde a lua
delicadamente
limpa a roseira
pétala por pétala

e a tristeza entra pelos meus olhos


suavemente

(deve ser essa vontade


de ser limpo
longamente
um noite inteira
noite adentro
cen-ti-me-tral-men-te)

deito na rede
da varanda
que balança e range
e - inevitavelmente -
balança e range consigo
toda a minha vida
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá

olho o quintal balançadamente


(e são todos os quintais!
e é a minha vida toda
ali
sendo posta
- pra lá e pra cá -
a luz da lua!)

estou sozinho no reino que escolhi


a bandeira mal içada sobre as velhas telhas
não ostenta vitória e nem marcas de grandes guerras
apenas sussurra "é aqui"
onde o desejo e o susto me trouxeram

neste quintal
não há Rocinante
não há moinhos
e o muro do vizinho
a 2 metros
me lembra o estado avançado do capitalismo
em que nos encontramos

mas a madrugada numa casa de fundo num bairro tranqüilo duma


região próspera
é quase sem capitalismo e eu posso
me dar ao luxo de me sentir livre

(exatamente naquela hora


em que o vento assusta a roseira
e banha o rosto dum cheiro
de chuva ou de mar revolto
e a vida toda parece uma nau entre estrelas)

dura pouco
isso tudo

(o tempo que demora


pra perceber que o dia
já está amanhecendo
ainda que no escuro)

é tão triste
a liberdade
(a rede pára
de balançar)

é tão triste essa liberdade

((e não me sinto com vontade


alguma
de empurrar o mundo
pra me movimentar
de novo))

não sou
senhor de mim
e nunca quis ser

apenas aguardo
desde criança
um sinal

o sinal

e enquanto não chega com sua clarividência mágica


permito que, no escuro,
minhas partes
cresçam

(ainda me assusto
com o tamanho
de minhas mãos)

não há nada de que se orgulhar


tampouco há desprezo sobre os pratos de minha cozinha
não vou me prostrar
diante do sem-sentido
nem cuspir em sua cara

o balanço que essa noite me insinuara


não é possível
não sou mais nem menos do que qualquer um
esta noite

não me abro ao desespero pressentido


e abomino qualquer plenitude

sou apenas mais alguém


dentro da noite inteira
que acordou
com a geladeira
e saiu à varanda
pra tomar um ar

e antes que a noite


se esqueça de mim e se vá
decido - sem comoção -
cortar
rosa por rosa
toda a roseira

rosa por rosa

e faço isso sorrindo


como quem destrói a horrorosa pureza da vida

volto
fecho a porta com duas voltas de chave
(não quero que a manhã invada a casa tão cedo)
e já no quarto
vou reentrando às margens pardacentas
no sono
que deixei remexido

afundo devagar

deixo pra trás


a casa, a geladeira, o capitalismo,
a mãe morta, um chão de rosas,
e todas as promessas de mares nunca d'antes...

afundo devagar
nem melhor nem pior
(há, não nego, uma leve sensação de dever cumprido)

já sinto
o sono morno
entupindo meus ouvidos
e nesse calmo afogar
decido
deixar pra mais tarde
saber
em que novo quarto,
em que nova casa,
com que nova idade,
e sob qual lua alta
e pálida de esquecimento
acordarei
sozinho
(ou não).
corpo
-fato
Poema datado
Às 12h
do dia 18 de maio de 2007
a AOL, a Siemens e a IBM,
a Nokia, a Toyota e a Sony Corporation,

(Como não estragar o poema


se vim ao mundo
em meio
a um século de fogo?)

a Nestlé, a Boeing e a General Motors,


a Ford, o Citygroup e a Nippon Telephone,

(Como não estragar o poema


se as palavras
se incendeiam
antes
de tocarem o chão?)

assim como
a Daimler Chrysler e a Matsushita Electric,
a Exxonmobil e a Royal Dutsch/Shell
todas vão muito bem.
(a Wal-Mart,
cujo volume de vendas
é maior do que o produto interno bruto
da Arábia Saudita e Áustria,
é, agora, a vigésima economia do planeta)

(Como não estragar o poema se


- como um Midas moderno -
tudo que vejo sinto olho
tudo que desejo mijo em cima ou toco
vira ouro
lucro
capital?)
E às 12h05
do mesmo dia
(hora em que este poema começa a feder)
“A Epidemia de dengue atinge 90 cidades em São Paulo”
“Famílias sem-teto desocupam terreno em Itapecerica da Serra”
“OAB denuncia maus tratos contra detentos no Rio”
“Estudantes continuam ocupando a reitoria da USP”

(A eternidade
não é mais
que uma rima boba e fácil
depois de Hiroshima.)

Vejamos, pois,
as últimas notícias on-line:

12h18 - Jovem pula de bungee jumping e morre em Minas Gerais


12h20 - Para britânicos, 1º Harry Potter é o melhor livro desde 1982
12h33 - G4 fica mais perto de acordo sobre Rodada Doha
12h43 - Preços na internet caem 1,32% na primeira semana de maio
12h49 - Base americana é atacada por 50 rebeldes no Iraque
13h00 - Cerca de 4 mil frangos são sacrificados em Bangladesh
13h14 - Risco País em nova mínima recorde, aos 141 pontos
13h17 - Impasse em negociação sobre clima prejudica chances de Kyoto
13h26 - Al Qaeda pode aumentar atividades ao sul do Saara

Pronto.
O poema apodrece
velozmente
exatamente
às 13h33 desta sexta.
E te digo mais,
não é só ele.

“Chrysler contrata escritório para preparar plano de falência.”


Globo, Reuters e EFE – 05/12/2008
“GM fecha últimos acordos antes de concordata.”
“O declínio da indústria automobilística nos Estados Unidos chegou a uma situação
dramática no último dia 1º de junho quando a General Motors (GM), símbolo
empresarial da maior potência econômica do planeta, pediu concordata para evitar a
falência.” O Estado de São Paulo - 30/05/2009

“As mais importantes instituições financeiras do mundo, Citigroup e Merrill Lynch, nos
Estados Unidos; Northern Rock, no Reino Unido; Swiss Re e UBS, na Suíça; Société
Générale, na França declararam ter tido perdas colossais em seus balanços, o que
agravou ainda mais o clima de desconfiança, que se generalizou. No Brasil, as empresas
Sadia, Aracruz Celulose e Votorantim anunciaram perdas bilionárias.” Folha de São
Paulo – 20/4/2009
Meu melhor verso
(em memória do poeta revolucionário Maiakovski)

“Não comparo / a melhor geléia poética, /


qualquer das maiores glórias poéticas, /
com a simples notícia de jornal, /
se a esta / nosso auditório aplaude.”
Maiakovski

Vocês nos têm horror


porque queremos
abolir
a propriedade
privada.

Mas
em vossa sociedade
a propriedade
privada
já está abolida
para nove décimos
de seus membros.

(Karl Marx em “Manifesto Comunista”)


A vida em família ou Quando eu descia ao porão
"Quando eu descia ao porão,
levava flores para a minha filha
e livros e brinquedos para as crianças.

Nós assistíamos a
vídeos de aventura
enquanto
Elisabeth
cozinhava nosso
prato favorito.

Então,
nós sentávamos
todos
em volta da mesa e
comíamos
juntos."

Josef Fritzl, 73.


(preso por abusar sexualmente de sua filha Elisabeth ao longo de 24 anos
enquanto a mantinha encarcerada no porão, juntamente com 3 filhos,
frutos de incesto.)

Fonte: Folha de São Paulo, 06/06/2008


Maios do mesmo?

“Estudantes insatisfeitos ocupam universidade


exigindo contratação de mais professores,
a real construção de mais salas de aula
além de reformas em sua gestão.
A reitoria logo chama a polícia que
violentamente
desaloja os manifestantes.”

(Notícia de maio de 68 em Sorbonne, Paris)

Meus professores
sempre falaram
com fogo nos olhos
de 68.

E agora falam
com fogo no rabo
deste maio de 2007.

“Vivemos há muitos anos uma vida política nacional


de Plena Democracia e de Estado de Direito.
A atuação predatória de cidadãos que gozam
de privilégios, ao promover invasão de espaço
público, constranger servidores e impedir atividades
ad
min
istr
at
ivas,
de ensino e pesquisa desta Universidade,
constitui ação de má-fé
que extrapola os limites da lei,
tangenciando o crime comum
o crime comum o crime comum.”

(Abaixo-assinado de professores das univ. públicas paulistas maio de 2007, São Paulo - Brasil)
Prometeu envergonhado
"Qualquer ato, inspirado por posições políticas, destinado
a incitar indivíduos ou grupos extremistas a prejudicar o
revezamento da tocha olímpica será feito em detrimento,
não apenas dos Jogos Olímpicos, como também do espírito
olímpico que representa os ideais mais nobres da humanidade".

(Xinhua - agência oficial de informações da China – 2008- sobre


tentativas de manifestantes de impedir a chegada da tocha
olímpica à China em protesto contra o massacre promovido
contra os tibetanos que clamam independência)

Muitos deuses são necessários


para que uma tocha
que partiu da Grécia
- a olímpica -
chegue a Beijing, na China.
(império que hospeda
as Olimpíadas
e domina e massacra o Tibete)

Mal sabiam os deuses


quão Olímpico é este mundo.
Outros são os tempos e outros,
Prometeu,
são os donos do mundo.

Enquanto
em Nagano, Japão,
mais de 3000 policias são necessários
para que uma chama
deixe claro
quem a mantém
acesa
(querem até mesmo atravessar Lhasa
para que os mortos bem compreendam)

o fogo
(em sua forma mais fria e compacta)
se abre
contra a cara
contra a nuca
contra qualquer
parte em que se
mate
a vontade de monges lutarem por sua independência.

Mal sabiam os deuses


quão Olímpico é este mundo.
Outros são os tempos e outros,
Prometeu,
são os donos do mundo.

a China
terceiro Olimpo comercial deste mundo
e dona duma combustão
doirada
que faz girar o planeta
senhora de Yuan,
um dos mais inflamáveis
elementos da natureza
(financeira).

A China
essa enorme potência de pólvoras
não nota
como uma singela tocha,
- a olímpica -
pode bem lhe servir
de faísca.

E é um incêndio titânico
que se prepara,
não porque arderá toda a China
em poucos dias
mas porque
não se apaga:
fogo invertido
que se alastra
na escuridão incandescente dos peitos
de homens e mulheres,
velhos e crianças:
tochas vivas.

E é um incêndio titânico
que se prepara
não porque fará cinzas
da China
em poucos dias
mas porque seus dias
já encontraram
quem os vão contar.

Mal sabiam os deuses


quão Olímpico é este mundo.
Outros são os tempos e outros,
Prometeu,
são os donos do mundo.

Mas um outro fogo,


Prometeu,
que nos distingue dos animais
ainda nos acomete.
Veja:
quem mais enfrentaria a China,
esse gigante,
senão o Tibete?
Relendo Clássicos I
“Não queria compor outro Quixote — o que é fácil —,
mas «o» Quixote. Não vale a pena acrescentar que
nunca encarou a possibilidade de uma transcrição mecânica
do original; não se propunha copiá-lo. A sua admirável ambição
era produzir umas páginas que coincidissem — palavra por
palavra e linha por linha — com as de Miguel de Cervantes.”
Borges – Pierre Menard, autor do Quixote

Que diabo! Claro que mãos e pés


e cabeça e traseiro são teus!
Mas tudo isto que eu tranqüilamente gozo
é por isso menos meu?

Se posso pagar seis cavalos,


não são minhas tuas forças?
Ponho-me a correr e sou um verdadeiro senhor,
como se tivesse vinte e quatro pernas.

(Goethe citado por Marx em “O Capital”)


Pomba Negra

Este poema vivia dentro de mim desde o fim de 2006 quando


presenciei o suicídio de um rapaz de cima da torre da rádio
Muda, na Unicamp. Agora vive fora de mim.

I.

sem mais
nem menos
caía

vestido de negro
e de vento
caía

silencioso
como um
silêncio

caindo

quase
como qualquer
coisa

caindo

e que só ao seu peso


(já sem vento)
se
re
sum
ia

sem mais
nem menos
II.

O que lhe servira


de parapeito?

que medo?
que angústia cotidiana e clandestina?
que impossibilidade de ser ver nos espelhos?
que incondicional incapacidade para a mentira?

Se lançou
de sua
morte-em-vida
para a outra
vida-em-morte
volta
sem
ida
corte
(((e que vertigem era
essa que em mim se abria?
que partes de mim
não caíram nesse dia?
também não gritava eu
“Vida!”
em algum canto extremo
enquanto caías?)))

III.
não tinha amigos?
não tinha mais desejos?
vontade de encher a cara?
tomar um milkshake de morango?
assistir tv?

experimentara muito? tudo? nada?

não bastava viajar nas férias?


beijar mais mulheres?
Fuder?
Socar alguém?
Liquidar cruelmente
seu arqui-inimigo?

não tinha mais a vida?


e não havia outra
que emprestar de alguém?
que comprar?
alugar?
não havia mais como
sustentar
farsa mínima
em que se agarrar?
um diploma?
um filho?
um caso?
uma coisa
qualquer?
um fio fino
de morte
a escorrer
todo dia
pela
na
ri
na
es
qu
er
d
a
?

IV.

Não saltou como quem caía.


Saltou pra cima
varando a gravidade
do que o descia
e
rasgou o céu

pomba negra
e rasgou
o silêncio mórbido
do meio-dia
com o silêncio humano
de sua descida
silêncio intenso
como grito
que mal tem tempo
de se formar
ainda...

(e esse silêncio
se acumulou em minha vida
encheu meus ouvidos
meu coração meu peito
meu estômago e retina
e como um
animal selvagem
que me habitasse o dentro
foi e vem me devorando
ao meio
ainda)

e ainda era vida


enquanto caía
(impossivelmente era vida! era vida!
Mas, dois segundos após, o que mais seria?)
e talvez nunca fora
tão e tanta
flamejante ardente
bola de fogo viva
explodindo contra
o dia
a manchar
de vergonha
esse chão miserável
que pisamos
vida

chão
contra qual
seu corpo todo
gritava
“MENTIRA!!!”

e a velocidade (ab)surda
em que se imobilizara
me abriu a vertigem
do dia
ao meio
como se abre uma fruta
de uma só tacada
como se separa
com uma finíssima navalha
a metade podre
da sadia
(3 segundos
foram suficientes
pra cortar o mundo
ao meio)
e o dia não mais era
céu azul e pássaros
e frescor verde
em brisa...
a vida...
não era ainda...
e eu
sem qualquer coisa
fixa
em que pisar.

V.
a vida é dura
a vida é barra
essa vida vendida em troca de mais vida
essa vida capital-variável-na-contabilidade-capitalista
(e que debitado os impostos
faz a minha equivaler a
567 dinheiros mensais
de alguma roupa, pouca comida, um teto e qualquer coisa de alegria nos olhos
de uma mulher)
essa vida, produzida pra exportação, é louca varrida
como uma infinidade de mercadorias coloridas
dispostas em série sobre as prateleiras,
sob nossos olhos
e sobre nossos corações...
como uma infinidade de trabalhadores
cinzas
dispostos em linha
na sem-sentido tarefa de ganhar a vida
em bocados ao final do mês
como a incessante busca por mais
e mais
e mais e mais e mais-
-valia
como a incapacidade de
sofrermos e amarmos juntos
ainda...

a vida
a fazemos sem sentido
no início do século XXI
e especialmente na américa-latina

(E foi do alto deste século e de toda a américa


que você, rapaz vestido de negro,
se jogou feito bomba de vida)

a vida
é só o que temos (e não temos)

Mal nos damos conta


e já estamos vivos
convivas de uma festa
pra qual não fomos chamados...
Abrimos os olhos
e a taça de champanhe já está em nossas mãos
e todos nos sorriem um sorriso negro
e todos vomitam dinheiro pelos cantos da casa
e quando menos percebemos
rimos moedas ao pedirmos
mais uma taça.

Ninguém nasce com vida


(é no holerite que ela vem vencida e certificada?)
a vida se abre como trilha
no capinzal
a vida se mastiga como carne
de um outro animal
a vida ainda não é vida
quando surgimos pelados
e ignorantes
dos pistões do mundo
e que em pouco tempo
nos fazem
valor de troca
adestrando nossos corações
(cada diástole e sístole)
ao ritmo surdo
da oferta e procura
da oferta e procura
da oferta e procura.

a vida não nasce junto


com a gente
a vida só nasce
quando nasce
entre
entremãosentreolhosentrecheirosentrebeijosentremurosentresonhosentremedose
ntretantos

a vida
(essa em que entramos quando nascemos)
não é a mesma em que crescemos
e precisamos roubá-la
das mãos dos donos do mundo,
das mãos dos poucos
que a mantém em cativeiro...
é preciso retomá-la da solidão
em que somos feitos,
das engrenagens dessa máquina
que empilha tudo
que cheire
a gente...

a vida não nos é dada de graça


e ninguém olha os dentes
de um suicida

e mesmo
quem sai de dentro dela
num salto negro e sideral
a perde
por não mais achá-la
a perde
para
reencontrá-la

VI.
Você
garoto que mal conheci
e que saltou
numa segunda
do alto de sua
(e mal sabia nossa)
angústia
enquanto eu passava-passava-só-passava
e que desde então
cai ainda em minha vida...
você
de quem sinto a falta
como algo de mim
que também se foi
e não sei ao certo
o quê...
você,
talvez mais lúcido
que a grande maioria...
mais humano
que a pequena minoria
que alimenta essa máquina
que a tudo devora e nos isola
no alto de pilhas individuais de cobre e estanho
( de onde você se negou a continuar se equilibrando...)
você, rapaz,
(de quem não sei o nome e assim me dói menos)
que cortou nossas vidas
como uma rajada
como um raio
um cometa
ardente de sentido
neste céu
sub
des
indi
vid
es
qui
zhi
po
cri
na
ti
mor
t
você rapaz
(que não chegou a conhecer seus algozes secretos)
você
(rapaz que talvez fui um dia)
não tema!

Onde quer que estejas


fique tranqüilo
não tema
pois eu abri
aqui embaixo
os meus braços
e te agarrei
no último
instante.
(não... não o deixei passar como tantos outros...
essas moscas varejeiras
que olhavam teu vulto como um insulto
como um luto (sem luta)
a perguntar
como você era possível... )

Não!

Eu não te deixei passar


e te peguei aqui embaixo
(onde forjo um chão de batalhas junto com os meus)
e te deitei com cuidado
dentro de meu peito...
fechei teus olhos
que viram demais
e te cobri
com a terra pouca
dessa esperança
que me resta...
esperança de que a vida
(a verdadeira)
a arrancaremos
das entranhas dessa máquina
que nos tornamos
e dessa maior
que nos enlata.

E já sinto brotar
em meu peito
essa raiva maior que o mundo
como se um vento
me ardesse a cara
como se um grito
imenso
se armasse
dentro
crescido no silêncio
que tua boca instalara
(raiva fervida no tempo)
e que e vai ardendo
coração peito estômago retina
e assim devolvendo
vida
onde antes era medo (esse silêncio!)

E a qualquer
momento
esse grito - essa força - essa virulência toda
pode estourar
na minha boca, no meu gesto,
na praça, no ministério
e como animal selvagem que se propaga
à mesma velocidade
em que um corpo
cai
pode contaminar
outras tantas bocas e corações
e se fazer multidão
e rasgar o silêncio geral
e rasgar esse céu azul

VII.

e então
seremos muitos
e juntos
nos lançaremos
do ponto mais alto
de nossa revolta

Nossa queda
(inevitável como a gravidade)
destruirá
o chão
(oco)
deste mundo.
A crise - Primeiro ato - 10/03/08 – “o canto da ema”
“Você bem sabe que a ema quando canta
vem trazendo no seu canto um bocado de azar.”

[cena 1 - estilo butô - contração do tempo e espaço]


Close no rosto pálido do Mercado.
Fecha em seu olhar que tenta
dissimular a tensão
volta pro canto da boca
que ainda sorri
- mas treme -
alterna boca e olhar
boca e olhar boca e olhar
pupila
boca e olhar
grande close nas
pupilas, agora,
esquece a câmera aí uns 40 segundos
quando a
boca começar a se retrair
vai pra ela e funde com as
narinas que expandem e contraem
e não perde a gota de suor
que brota na testa
passa entre os olhos
nariz boca queixo
veia saltada no pescoço
pulsando pulsando pulsando
e pinga
caindo na cara dos...
[a câmera desce]
EUA
[ainda com a máscara neutra]
que agarra com uma mão
a perna direita
do Mercado
e mostra a outra espalmada em direção aos céus.
Cresce aos poucos
um som gutural
que emana de todo seu
corpo gordo e suplicante
"luuu koo rôôô"

[cena 2 - simbolista]
[a câmera abre]
Um corvo adentra o palco
andando vagarosamente.
Pára, olhando o Mercado.
O mesmo acontece mais
7 vezes.
Ao todo são oito corvos que olham atentamente
a cena, ao redor de Mercado e EUA.
Quando o público já estiver com os olhos acostumados à cena
abrem, de uma só vez, suas enormes asas negras.
[o canto de uma ema estoura,
no exato abrir de suas asas,
numa rotação mais
lenta
como uma sirena
ao contrário -
que persistirá até o final
do terceiro ato]

[cena 3 - expressionista]
Um operador da bolsa
surge do teto
pregado a uma cruz
(celulares pregados às mãos, aos pés e às orelhas).
É içado
sobre a platéia e
conduzido ritualisticamente
por todo o teatro
[é importante
que seu sangue respingue
nos rostos abismados do público -
o sacrifício tem que
ser o mais real
possível]

[cena 4 - backstage]
[um sinal de luz
discreto
no canto mais escuro do teatro
acende
indicando a porta
de emergência]

[TO BE CONTINUED...]

(FONTE DA PESQUISA CÊNICA)


Folha de São Paulo- 10/03

"Na sexta-feira, o mercado foi surpreendido pela notícia de que os EUA tiveram
a pior destruição de postos de trabalho desde 2003 (...) marcando o vigésimo!
mês consecutivo de queda. Para muitos economistas, foi a confirmação de que o
país mais rico do planeta está em recessão. "Não é possível dizer isso ainda,
mas com certeza o termo [recessão] ficou muito mais recorrente no mercado",
acrescenta Campos Neto."
O muro
(em memória do poeta e lutador Bertolt Brecht)

Quando o muro caiu foi uma festa!


Os senhores celebravam embriagados
e a plenos pulmões entoavam:

"Adeus, Karl! Adeus, Lênin!"

Quando o muro caiu foi uma orgia!


Vossas taxas de lucro ficaram rígidas
diante do mundo que de Berlim se abria:
Uno! Livre! Virgem!
(Jaziam sob os escombros
os empata-fodas comunistas)
E os senhores excitados cantarolavam:

"Adeus, Karl! Adeus, Lênin!"

Quando o muro caiu foi um orgasmo!


Todos gozavam de vossos produtos
e ajudavam, fascinados,
a reconstruir o enorme (e invisível)
Muro.
E nos shoppings, e nas igrejas,
nas escolas e nas praças,
nas universidades e nas fábricas,
só se ouvia a cantoria:

"Adeus! Adeus!
Adeus! Adeus!"
"Adeus, Karl! Adeus, Lênin!"
"Adeus, Karl! Adeus, Lênin!"
(E como Karl sempre dizia,
pela velha e boa dialética,
quando se chega ao ponto mais alto
é justo quando começa a queda.)

Quando, agora,
senhores de Wall Street,
vosso Muro
range e estala
e um fantasma ronda a Europa,
as Américas, a África e a Ásia...

Agora,
senhores de Wall Street,
de nada adianta
entoar cantigas.
Relendo clássicos II

Ouro! amarelo, reluzente, precioso ouro! (...)


Assim,um tanto disto tornará o preto branco,
o repugnante belo, o errado certo, o vil nobre,
o velho jovem, o covarde valente (...)

Vem, elemento danado,


tu, vulgar rameira da humanidade,
que instalas a disputa na multidão de nações (...)

(Shakespeare citado por Marx em “O Capital”)


Modelo de poema para períodos de recessão ou depressão econômica

[Um título simples mas provocativo,


como, por exemplo, "O Capital"]

[Uma epígrafe comovente baseada na fala desesperada


de um banqueiro (ou capitalista similar), coletada à
primeira página de qualquer jornal de grande circulação.]

[Um pequeno preâmbulo


em redondilha maior
- bem ao gosto popular
que descreva o método
pelo qual
se constrói este
poema:
a partir da base material
concreta - o poema -
é que se erguem
estes sentimentos e idéias:
a poesia.
Frisar
- pela repetição de versos que aos poucos vão se transmutando -
que é a produção e a
reprodução da vida
(através da classe em que está inserida)
que forja a métrica possível
desta epifania.]

[Uma primeira estrofe


(direta e contundente]
que revele ao leitor
os mecanismos da luta de
classes (tomando o cuidado
para não rimar "mais-valia"
com qualquer outra palavra. Melhor é
abrir-lhe o segredo escondido às sete chaves
num verso longo, branco e livre:
trabalho-não-pago expropriado pelo patrão.
Evitar, neste primeiro momento,
jogos neo-concretos com
as fases do capitalismo:
M-D-M, D-M-D', D-D'
o que, certamente,
afugentará o leitor.
Portanto,
nada de experimentalismos.]

[Uma segunda estrofe


já mais cadenciada e que
abusando das imagens
mostre como
a classe proletária
(que não tem nada a perder
além de seus próprios chavões)
é o único sujeito social capaz
de tomar o poder
e estabelecer
uma sociedade sem classes:
comunista.
(não esqueça da
beleza sublime ou trágica
necessária
para seduzir o leitor,
que a esta altura pensa
em abandonar o poema;
decomponha,
por exemplo, o real em meias-palavras:
comun
ist
a)]

[Uma terceira estrofe que


dialogue com o espanto
do leitor - evoque-o,
convidando-o para um
bate-papo franco.
(isso gera um distanciamento cativante!)
Demonstre a
inutilidade da poesia
em tempos obscuros e em países
periféricos
onde reina a mais-valia
absoluta.]
[Uma quarta estrofe
que retome o desenvolvimento
lógico da argumentação iniciada
jogando luz sobre o aparente caos econômico
desvelando a lógica subjacente
manifesta em suas crises cíclicas de
super-produção
quando
há mercadorias saindo pelo ladrão (lembre-se do humor!)
e pouco interesse em circulação.
É a revolta das forças produtivas
contra as estratificadas
relações de produção e de propriedade:
é o capital enfrentando o bafo quente
do trabalho.
Explorar a prontidão religiosa
com que os capitalistas
queimam
estoques e trabalhadores
para resgatar
sua taxa de lucro
crescente;
(as palavras GUERRA! e LUCRO! devem aparecer nessa altura
do poema em diversos tamanhos e direções
tensionando o espaço branco da folha)
Por fim, tornar sensível
pelas tônicas cada vez mais regulares
como os ciclos entre as crises
diminuem
e como as crises são cada vez mais
intensas, destrutivas e globais.
(Apenas aqui é permitido fazer referências
metalínguisticas a outros textos
- literários ou não -
que descrevam destruição, miséria e desespero.
Evite o apocalipse bíblico.)]

[Uma quinta e última


estrofe
que explore
com cinismo refinado
qualquer possibilidade
pequeno-burguesa
do leitor
abandonar este poema
e voltar
a sua vida normal.
(Explorar pateticamente as aliterações
e as assonâncias ad nauseam
denunciando, assim, para o bom leitor,
a farsa que é
ler este poema
a busca de algo que
não seja o real.)]

[Posfácio com referência bibliográfica.]


Realização
A casa própria.
O carro próprio.
A mulher própria.
Os filhos próprios.

Uma vida própria


cheia de amor-próprio.

Nada mais justo


que tenha uma morte
apropriada.
O que o sr. deseja?

Eu quero me aglutinar todo dentro de meu umbigo


e existir apenas em conexão do nada com o infinito.
Eu quero me enterrar todo inteiro vivo
e deixar só o dedinho pra fora
mínimo
pra sentir o vento e ter um pouco de frio
e assim não conseguir morrer por causa do frio.
Eu quero ficar tão só
quanto pó seja provável
acumular nos ouvidos.
Eu quero um quarto bem pequeno e hermético
onde somente a cama caiba
sem porta, janela e mais nada...
um cômodo quarto de hora
que me feche completamente
do lado de fora
da memória.
Eu quero delicadamente,
mas em muita alta velocidade,
jogar minha cabeça - subtilmente - contra a parede
e ouvir o som da verdade.
Eu quero um sono verde,
com sonhos vermelhos
e pesadelos amarelos.
Eu quero um telefeérico pro inferno
com um semáforo no meio.
Eu quero uma mulher bem fogosa,
mas com as extremidades cortadas...
quero lambê-la dos pés que não têm
à cabeça que também não têm
e nesse amor sobrenatural
gerar pequenos filhos falhos.
Eu quero uma aliteração sem fim,
um constante vento no cabelo
constante atrito do fogo com o tempo
um constante mijar no jardim.
Eu quero um esférico espelho para me olhar
por inteiro, por dentro.
Eu quero me chamar Raimundo e resolver todos problemas do planeta.
Eu quero uma colher de leite de magnésia no cu do meu temperamento.
Eu quero com um berro enrijecer todos bicos de seios.
Eu quero uma fonte de renda, uma cachoeira e volts.
Eu quero um cílio, um afago, um suspiro próximo ao ouvido.
Eu quero um fílio, meia dúzia de fósforos e um amor impossível.
Eu quero um dia de loucura e o resto que as nuvens decidam...

Ah! Sim! Desculpa!


Me desculpe!
pode ser um
MilkShake de Morango e um McLanche Feliz.
Contraditórios
eu estava xerocando uns poemas numa papelaria pra enviar prum concurso quando
entrou esta sinhazinha negra curvada velhinha velhinha como uma criança.
junto com ela vinha uma menina de uns 6 anos sua neta - ou bisneta - que ganhava
ares de adulta diante de um bichinho tão velhinho.
Deixei a atendente falando sozinha e não conseguia parar de olhar
pra velhinha que parecia nem se dar conta de mim.

"Queru láps i burracha", disse a nhazinha na velocidade de alguém que escreve o


que fala.
"Um ou dois lápis?", perguntou a atendente
"Ah... pód sê dois mess."
"Não vó, só um!"
"E borracha? Pode ser esta aqui?"
"Ah... pód sê..."
"Não, moça... pega esta outra", disse a menininha indicando uma outra 3 vezes
menor e 3 vezes mais barata
"Ah... eu queru ma caneta tumém."
"Não precisa vó!"
"Xxxiu!"
"Azul?"
"Ah... podi sê zu mess."
A nhazinha pegou a caneta e afastando-a dos olhos mirou longa e pausadamente o
objeto em sua mão como se duvidasse que aquilo fosse mesmo o que era. Fez um
pouco de força pra tirar a tampa mas estava presa, muito dura de tão nova. Passou
pra sobrinha que, antes mesmo de tentar abrir, recebeu uma reprimenda:
"Xiu... dêxa! Dêxa pá abri em casa. Em casa a gente vê issu!"
"Só isso, senhora?"
"Ah... só... é só... é só..."
"É R$1,75"
"Péra..."
Abriu sua bolsinha minúscula e catou as moedas com uma calma que não existe
mais neste mundo. Estendeu o braço enrugado e depositou as moedas na mão da
atendente com a delicadeza de quem confia um bem-te-vi doente. Fechou a
bolsinha de moedas e saiu com a netinha.

Queria escrever
como se contasse apenas
com aquela única
caneta-lápis-borracha.
Mas ainda escrevo
como quem acha
esferográficas no saguão da universidade.
A Crise - Segundo ato - 17/03/09 - "é de metal, mas FED"

[cena 1]
um feixe de luz desce
iluminando a mão, suplicante, dos EUA.

uma pomba
- mais que branca -
vinda do além-palco
plana
até a palma
de sua mão

o olhar da pomba
é meigo
e negro.

Abre o bico
e regurgita
uma moeda
dourada
brilhante.

[close nos olhos de EUA


que agora adquirem
o mesmo brilho
da moeda]

A pomba regurgita
uma outra moeda,
e outra, e mais uma,
e outra
e todas tilintam ao cair
no chão do palco.
seu bico,
não contendo o jorro
de verve
se abre
mera quantidade
e rasga-se
em ouro
- e lá vão seus olhos -
e a pomba vaza
por todos os poros
papel moeda

[um cheiro
se espalha no teatro
como carne humana
sendo queimada]

EUA chora
emocionado.

Mercado, assustado,
tenta puxar sua perna
que é fonte e tesão
do abraço emocionado
dos EUA.

O operador crucificado
de face para os céus
está iluminado
enternecido pela benção
[as letras na cruz
se transmutam de INRI
para FED]

EUA gargalha
quando o jorro
de prata
estoura os limites
brancos e mais-que-brancos
da pomba.

[cena 2 ]
Os oito corvos
- até agora imóveis ao redor da cena -
fecham suas asas e à beira do palco
se jogam levantando vôo.
Lentamente arrevoam
todo o teatro farejando
a origem do que
não cheira bem
[os corvos apenas
poderão pousar
- para se alimentar -
depois do último ato]

[cena 3]
Sentido-se enojado
pelo cheiro que se alastra
Mercado vomita
- longa e esplendnarizbocazedorasemente -
sobre a cabeça
de EUA.

[cena 4]
Senhores engravatados
surgem do fundo da platéia
distribuindo
lenços perfumados.

FONTE DA PESQUISE CÊNICA:


Jornal Folha de São Paulo – 17/3/2009

"O temor que atinge os mercados em todo o mundo --inclusive por aqui-- é causado por
uma nova ação do Fed (Federal Reserve, o BC americano) para evitar novos problemas
com as instituições financeiras. O Fed cortou, em um raro encontro em um fim de
semana, sua taxa de redesconto para 3,25%, além de aprovar uma ajuda para empresas
financeiras e o financiamento da compra do Bear Stearns.
Segundo o diário americano "The New York Times", a ação do Fed foi vista como
forma de evitar o "derretimento" (a quebra) do sistema financeiro americano --o que
agiria como uma espécie de "buraco negro" na economia global, arrastando outros
países para níveis mais agudos da crise e causando um colapso mundial. "
Questão de Ordem
(em memória do poeta revolucionário Roque Dalton)

Algo de mim se perdeu


por entre as pautas reivindicadas
quando foi não me lembro...
assembléias... reuniões... passeatas...

Algo de mim se perdeu


por entre as bandeiras levantadas
quando foi não me lembro...
conjunturas... estratégias... táticas...

Algo de mim se perdeu,


E não há nada,
absolutamente nada
em nenhuma ata...
(eu mesmo vasculhei exaustivamente os arquivos)

não se têm informes,


encaminhamentos,
palavras de ordem...
nada.
Apenas uma ausência
Enorme constante programática?

Algo de mim se perdeu


por entre as questões ordinárias...
E pode soar ridículo, burguês e desagradavelmente intimista,
mas sinto, camaradas,
que essa coisa perdida
era,
justamente,
a que me centralizava.
(subversiva, clandestina, revolucionária).
In farto
foi no correcorre
no lerolero
no vemcáqueeutambémquero
no pega empurra puxa
no é-pra-ontem que-a-revolução-é-hoje
que se formou a minha
consciência-express
nesse drive-thru da fast-foda
luta enlatada
desta marca nem-tão-famosa
mas cultuada:
“revolucionária ilimitada”

agora deu

quero me nutrir
da coisa in natura

me entregar
a bruta
contradição diária

quero mastigar tudo exatas


33 vezes antes de engolir

tô farto de gula
agora quero fome

vou ferver devagar


té que esse caldo
engrosse

e entorne
Relendo clássicos III

Todos eles têm um mesmo desígnio,


e entregarão sua força e seu poder
à besta.

E que só possa comprar ou vender


quem tiver o sinal,
a saber,
o nome da besta ou
o número do seu nome: 666.

(Deus na boca de João Evangelista ("Apocalipse") citado por Marx, "O


Capital - Crítica da Economia Política", Livro I - O Processo de
Produção do Capital, Capítulo II - O Processo de Troca, pág.97)
Perguntas à senhora

I.
Quando
- mais que uma rima -
a revolução chegar
à todas as vias
(de fato)...

Em que canto obscuro?


Por que ralos?
Embaixo de que cama,
se esconderá
a senhora?

II.
Quando for chegada a hora...
Quando a palavra for lâmina
na boca da maioria
e se fizer
vermelha e viva
em cada muro rua esquina...

Quando for chegada a hora...


a Senhora
se entregará às mãos curiosas?
às bocas sedentas?
aos corações injustiçados?

ou correrá o máximo
que teus pulmões agüentarem?

III.
Quando for chegada a decisiva hora
e a luta histórica bater a tua porta...
Tu, oh musa de merda,
- senhoura esnobe e farta -
deixarás toda sua classe de lado?

Ou continuará a cocota de seus poetinhas?


Daqui
I.
Escrevo no segundo andar
de uma casa grande
e cheia
de eletrodomésticos.

Escrevo num computador


comprado
a nem-tão-grandes esforços
desta nem-tão-nobre
(e minha)
classe média.

Escrevo
num tom grandiloquente,
típico dos poetas
pequeno-burgueses
do Brasil deste século.

Observo,
pela janela,
a cidade lá embaixo.
Burgo feroz
e do qual tão pouco,
ou nada,
sei...

do sangue coagulado à porta dos bares,


do azedume que escorre das fendas e dobras,
dos suores salivas escarros e linfas,
dos gozos cabíveis em 2x2...
lá onde a vida
é
despudoradamente
oferta e procura
caralho
buça
R$1,99

Estou distante disso tudo


e até mesmo
as metáforas que uso
são genéricas e insossas
como bem cabe a um flaneur
que vê a cidade
de sua janela
alta.

Enfim,
este poema teria tudo para ser um típico poema burguês
não fosse este nojo
esta ânsia que sinto
pelo que escrevo
e por tudo a minha volta.
(Não que me agrade a vida lá embaixo,
mas é que esta aqui
- conectada a todos os segundos andares de outras casas igualmente grandes -
não fede nem cheira
tão intensa
quanto o branco dos dentes num programa de auditório
tão profunda
quanto mais numerosos os canais de TV.

II.
E a poesia,
essa banha-restada-das-lipoaspirações-das-senhoras-excessivas-e-usada-pra-
enfeitar-
um-rei-apenas-ossos-de-tão-nu
essa masturbação-contínua-e-já-exaurida-que-goza-mas-nada-ejacula
essa borra-de-tédio-e-culpa-no-fundo-das-xícaras
essa poesia,
que vai bem com a cor do sofá e com o brilho das pratarias,
essa poesia, Senhoras, Senhores e Vossa Santíssima,
Já era!

Melhor seria que se jogasse,


agora, pela janela
e num último verso,
livre,
estourasse a cabeça contra o chão...
mas não,
teima em querer
ser mais do que apenas
a poesia-escrita-no-segundo-andar-de-uma-grande-casa.

Desce às ruas
e ali
se enche de medo
e desculpas
chora convulsivamente
a aspereza do verbo a dureza dos sentidos
parece se importar
e até usa
suas rimas mais pobres,
mas não...não pode esconder
esse cheiro raro
que exalam
suas finas
letras
e antes que brilhe no céu a primeira estrela
voltará para casa onde,
devidamente,
sofrerá insônia
e chá com bolachas.

III.
A poesia
não está acima,
além ou aquém,
nem mesmo
à esquerda ou à direita.
A poesia está dentro
da banca mais próxima nas livrarias shoppings megastores
e carrega uma etiqueta,
discreta,
no canto,
indicando seu preço.

A poesia,
com o perdão da palavra,
é uma mercadoria
como outra qualquer
e à noite paga boquete
às suas musas modernas:
Philco,
Coke,
Philips,
Wolks...

Que papel ainda resta


à poesia?
Versos de recibos, cupons fiscais, contratos imobiliários, promissórias, jornais...
É com esses papéis
que construo
um novo artefato
de puro oco,
enrolado,
descido à guela
numa espécie nova
de arte...
concreta.

Já sinto subindo
seu frenesi convulso
Re-verso do que sorvo
- anti-lira -
jorro de verve
dis-gerida
no qual exponho
avesso
o que fiz de mim nas mesas fartas desta classe.

E é neste movimento
(dialético e peristáltico)
que aprendo
como o doce aparente
é em essência azedo
e como, por dentro,
somos quase todos
o mesmo:
esse líquido quente de cheiro

IV.
Lá embaixo,
distante de mim,
a vida - reverso vomitado e escorrido desta outra -
cheira mal e odiosamente
persiste.

Burguês,
me refugio na poesia.
Mas não por muito
tempo!
A Crise – intervalo antes do Terceiro ato (julho de 2009)
[soa uma campainha]
A platéia pula em suas cadeiras, assustada. Uma voz sensual e feminina
informa: “Senhoras e senhores, faremos um pequeno intervalo agora.
Pedimos desculpas, mas é terminantemente proibida a saída do recinto
antes do término do 3º ato. Que Deus esteja com todos nós.” Alguns
textos e imagens são projetadas num telão durante o intervalo.

“Mais de 8.000 empresas quebraram no 1º semestre no Japão.” (France


Presse, julho-2009)

“Combate à fome do G8 não chega a miléssima parte dos pacotes anti-crise -


São US$ 15 BI para gastar em TRÊS ANOS contra a fome, enquanto para os
planos de socorro ao sistema financeiro foram US$ 15,1 TRI somente de
setembro de 2008 a fevereiro de 2009.” (Folha – junho 2009)
"Nossos mercados melhoram, parece que conseguimos evitar o colapso
mundial, mas reconhecemos que ainda muita gente se debatendo [contra os
efeitos da crise]", afirmou o mandatário americano, em declarações
concedidas ao final da reunião do G8 (grupo das sete maiores economias do
mundo e a Rússia), na cidade italiana de Áquila.

Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, afirmou ainda que “a crise


financeira que se converteu em uma profunda crise econômica, agora está
derivando para uma grande crise de desemprego e (…) há risco que chegue a
se tornar uma grave crise humana e social, com implicações políticas muito
importantes”. (Estado de S. Paulo – junho 2009)

"[] o percurso de um processo através de duas fases opostas, sendo


essencialmente, portanto, a unidade das duas fases, é igualmente a separação
das mesmas e sua autonomização uma em face da outra. Como elas então
pertencem uma à outra, a autonomização [] só pode aparecer violentamente,
como processo destrutivo. É a crise, precisamente, na qual a unidade se efetua,
a unidade dos diferentes". Karl

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