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APOLÔNIO DE TIANA

O Filósofo, Explorador e Reformador Social

do Primeiro Século depois de Cristo

G.R.S.Mead

Edição de 1901

Tradução de Ricardo A. Frantz

CONTEÚDO
I
Introdução

II
As Associações e Comunidades Religiosas do Primeiro Século

III
Índia e Grécia

IV
O Apolônio das Primeiras Descrições

V
Textos, Traduções e Literatura

VI
O Biógrafo de Apolônio

VII
Primeiros Anos
VIII
As Viagens de Apolônio

IX
Nos Santuários dos Templos e Retiros Religiosos

X
Os Gimnosofistas do Alto Egito

XI
Apolônio e os Governantes do Império

XII
Apolônio, o Profeta e Taumaturgo

XIII
Seu Estilo de Vida

XIV
Ele e Seu Círculo

XV
De Seus Ditos e Sermões

XVI
De Suas Cartas

XVII
Os Escritos de Apolônio

I. INTRODUÇÃO

Para o estudioso das origens do Cristianismo naturalmente não há período na


história ocidental de maior interesse e importância do que o primeiro século de
nossa era; e mesmo assim quão comparativamente pouco é conhecido sobre ele de
natureza realmente definida e confiável. Se já é tão lamentável que nenhum escritor
não-Cristão do primeiro século tenha tido intuição suficiente do futuro para registrar
sequer uma só linha de informação referente ao nascimento e crescimento do que
viria a ser a religião do mundo ocidental, igualmente desapontador é encontrar tão
pouca informação definida sobre as condições sociais e religiosas gerais da época.
Os governantes e as guerras do Império parecem ter constituído o interesse
principal dos historiógrafos do século seguinte, e mesmo neste departamento de
história política, ainda que os atos públicos dos Imperadores possam ser bastante
bem conhecidos, pois os podemos averiguar por registros e inscrições, quando
passamos aos seus atos e motivos privados já não nos encontramos mais no
terreno da história, mas geralmente na atmosfera do preconceito, escândalo e
especulação. Os atos políticos dos Imperadores e seus oficiais, entretanto, podem
no máximo lançar só uma tênue luz sobre as condições sociais gerais da época,
mas já não iluminam nada das condições religiosas, exceto até onde de algum
modo estas contatem o âmbito da política. Também poderíamos tentar reconstruir
uma imagem da vida religiosa da época a partir dos atos e editos Imperiais tanto
quanto poderíamos formar alguma idéia da religião privada deste país a partir de
um estudo dos estatutos e anais das sessões do Congresso.

As chamadas Histórias Romanas, com as quais estamos bem familiarizados, não


podem nos ajudar na reconstrução de uma imagem do ambiente onde, de um lado,
Paulo conduziu a nova fé na Ásia Menor, Grécia e Roma; e onde, de outro lado, já a
encontramos estabelecida nos distritos margeando o sudeste do Mediterrâneo. É
somente reunindo laboriosamente migalhas isoladas de informação e fragmentos
de inscrições que nos tornamos cônscios da existência da vida de um mundo de
associações religiosas e cultos privados que existiam neste período. Não que
mesmo assim tenhamos qualquer informação muito direta do que ocorria nestas
associações, guildas e irmandades; mas temos evidências suficientes para fazer-
nos lamentar agudamente a ausência de um conhecimento adicional.

Mesmo que este seja um campo difícil de lavrar, é extraordinariamente fértil em


interesse, e é de lastimarmos que comparativamente tão pouco trabalho tenha sido
feito nele até agora; e que, como ocorre tão amiúde, em sua maior parte seja
inacessível ao leitor em português. O trabalho que já foi feito sobre este assunto em
especial pode ser conferido através da nota bibliográfica anexa a este ensaio, na
qual é dada uma lista de livros e artigos tratando das associações religiosas entre
os gregos e entre os romanos. Mas se procurarmos obter uma visão geral da
situação dos assuntos religiosos no primeiro século, nos encontramos desprovidos
de um guia confiável; pois tratando deste assunto particular há só poucos livros, e
neles aprendemos pouco, que não interessa diretamente, ou imagina-se que
interesse, ao Cristianismo; enquanto que, no nosso caso, é justamente sobre o
estado do mundo religioso não-Cristão que desejamos ser informados.

Se, por exemplo, o leitor dirigir-se a trabalhos de história geral como o de Merivale,
History os the Romans under the Empire (História dos Romanos sob o Império –
Londres, 1865), ele encontrará, de fato, no capítulo iv, uma descrição do estado da
religião até a morte de Nero, mas aprenderá pouco de seu estudo. Se ele recorrer à
Geschichte der römischen Kaiserreichs unter der Regierung des Nero (História do
Império Romano sob o Reinado de Nero – Berlin, 1872), de Hermann Schiller, ele
encontrará muitas razões para abandonar as opiniões vulgares sobre os
monstruosos crimes imputados a Nero, como de fato poderia fazer pela leitura do
artigo de G.H.Lewes Was Nero a Monster? (Nero foi um Monstro? – Cornhill
Magazine, julho de 1863) – e ele também encontrará no livro IV, capítulo III, uma
visão geral da religião e da filosofia da época que é muito mais inteligente que a de
Merivale; mas tudo ainda é muito vago e insatisfatório, e nos sentimos fora da vida
íntima dos filósofos e religiosos do primeiro século.

Se, ainda, ele acorrer aos últimos escritores da história da Igreja que abordaram
esta questão específica, verá que eles estão inteiramente ocupados com os
contatos entre a Igreja Cristã e o Império Romano, e só incidentalmente nos dão
alguma informação sobre a natureza do que buscamos. Neste terreno específico, C.
J.Neumann é interessante em seu cuidadoso estudo Der römische Staat und die
allgemeine Kirche bis auf Dioclecian (O Estado Romano e a Igreja Geral até
Diocleciano – Leipzig, 1890); enquanto que o Prof. W.M.Ramsay, em seu The
Church in the Roman Empire before AD 170 (A Igreja no Império Romano antes de
170 d.C. – Londres, 1893) é extraordinário, pois ele tenta interpretar a história
romana através dos documentos do Novo Testamento, cujas datas em sua maioria
são tão calorosamente disputadas.

Mas, você pode dizer, o que tudo isso tem a ver com Apolônio de Tíana? A
resposta é simples: Apolônio viveu no primeiro século; seu trabalho foi realizado
precisamente entre estas associações religiosas, colégios e guildas. Um
conhecimento deles e de sua natureza nos daria uma ambientação natural para
grande parte de sua vida; e informação sobre suas condições no primeiro século
talvez nos ajudasse a entender melhor alguns dos motivos da tarefa que ele
empreendeu.

Entretanto, se apenas a vida e trabalhos de Apolônio fossem iluminados por este


conhecimento, poderíamos entender por quê tão pouco esforço tem sido feito nesta
direção; pois o caráter do Tianeu, como veremos, desde o século IV tem sido
encarado pouco favoravelmente, mesmo por poucos, enquanto que a maioria olha
para nosso filósofo não só como um charlatão, mas mesmo como um anticristo.
Mas quando exatamente este conhecimento sobre estas associações e ordens
religiosas é o que lançaria uma torrente de luz sobre a evolução inicial do
Cristianismo, não só a respeito das comunidades Paulinas, mas também a respeito
daquelas escolas que posteriormente foram condenadas como heréticas, é
espantoso que não tenhamos trabalhos mais satisfatórios feitos sobre o assunto.

Entretanto, pode ser dito que esta informação não está disponível simplesmente
porque não é encontrável. De modo geral isto é verdade; não obstante, muito mais
do que já foi feito até agora poderia ser tentado, e os resultados da pesquisa em
direções específicas e nos desvãos da história poderiam ser combinados, de modo
que o leigo pudesse obter alguma idéia geral das condições religiosas da época, e
fosse assim menos inclinado a se juntar à agora estereotipada condenação de todo
o esforço moral e religioso não-Judeu ou não-Cristão no Império Romano do
primeiro século.

Mas o leitor pode redargüir: As coisas sociais e religiosas naqueles tempos devem
ter estado em uma condição muito deplorável, pois, como este ensaio demonstra, o
próprio Apolônio passou a maior parte de sua vida tentando reformar as instituições
e cultos do Império. A isto respondemos: Sem dúvida havia muito a ser reformado,
e quando não há? Mas para nós seria não apenas mesquinho, mas nitidamente
maldoso, julgarmos nossos companheiros daqueles dias somente pelo alto padrão
de uma moralidade ideal, ou mesmo desclassificá-los sob o peso de nossas
próprias supostas virtudes e conhecimentos. Nossa opinião não é que não havia
nada a reformar, longe disto, mas que todas as acusações de depravação
levantadas contra a época não suportariam uma investigação imparcial. Ao
contrário, havia muito bom material pronto para ser desenvolvido de muitas
maneiras, e se não fosse assim, como poderia ter havido entre outras coisas
alguma Cristandade?

O Império Romano estava no auge de seu poder, e se não tivesse tido muitos
administradores notáveis e homens dignos na casta governante, uma consumação
política como aquela jamais poderia ter sido conseguida e mantida. Mais ainda, e
como jamais no mundo antigo, a liberdade religiosa era garantida, e onde
encontramos perseguições, como nos reinados de Nero e Domiciano, isso deve ser
atribuído a razões políticas antes que teológicas. Pondo de lado a disputada
questão da perseguição dos Cristãos sob Domiciano, a perseguição de Nero foi
dirigida contra aqueles que o poder Imperial considerava como revolucionários
políticos Judeus. Assim, também, quando encontramos os filósofos presos ou
banidos de Roma durante aqueles dois reinados, não foi porque fossem filósofos,
mas porque o ideal de alguns deles era a restauração da República, e isto os tornou
passíveis da condenação de serem não só agitadores políticos, mas também de
tramarem ativamente contra a majestas do Imperador. Apolônio, entretanto, foi
sempre um ardoroso defensor da regra monárquica. Quando, então, ouvimos sobre
filósofos sendo banidos de Roma ou sendo lançados na prisão, devemos lembrar
que isto não era uma perseguição total da filosofia por todo o Império; e quando
dizemos que alguns deles quiseram restaurar a República, devemos lembrar que a
sua vasta maioria não se envolvia na política, e este especialmente foi o caso dos
discípulos das escolas religioso-filosóficas.

II. AS ASSOCIAÇÕES E COMUNIDADES RELIGIOSAS DO PRIMEIRO SÉCULO

No campo da religião é bem verdade que os cultos estatais e instituições nacionais


do Império estavam quase sem exceção num estado lamentável, e deve ser notado
que Apolônio devotou muito tempo e trabalho para os reviver e purificar. De fato, a
força havia há muito se esvaído das instituições religiosas gerais do estado, onde
tudo era agora perfunctório; mas longe isto de não haver uma vida religiosa na
região, pois na medida em que os cultos oficiais e instituições ancestrais já não
satisfaziam às suas necessidades religiosas, mais diligentemente o povo se
devotava aos cultos privados, e avidamente se fazia batizar em todo aquele afluxo
de entusiasmo religioso que derivava cada vez com maior força do oriente. Sem
dúvida em toda essa fermentação houve muitos excessos, e mesmo abusos
penosos, de acordo como nossa atual concepção de decoro religioso; mas ao
mesmo tempo muitos encontravam nisto a devida satisfação para sua emoção
religiosa, e, se excetuarmos aqueles cultos que eram nitidamente viciosos, temos
em grande medida diante de nós o espetáculo, em círculos populares, do que, em
última análise, são fenômenos similares aos entusiasmos que em nossos dias
podemos encontrar freqüentemente em seitas como os Shakers e Ranters [seitas
inglesas surgidas no século XIX, caracterizadas por sua pregação veemente, seus
cultos onde havia grande agitação místico-física, e seus preceitos de pureza e
sobriedade de vida – NT], e nas assembléias de revivescência religiosa das
pessoas simples.

Não se deve pensar, contudo, que os cultos privados e os atos das associações religiosas
fossem todos desta natureza ou confinados a esta classe; longe disto. Havia irmandades,
comunidades e clubes religiosos – thiasi, erani, e orgeônes – de todos os tipos e
condições. Havia também sociedades de benefício mútuo, grêmios para funerais, e
companhias onde havia refeições grupais, os protótipos de nossos atuais Maçons,
Oddfellows, e etc. Estas associações religiosas não eram só privadas no sentido de que
não eram mantidas pelo Estado, mas também em sua maior parte eram privadas no
sentido de que o que faziam permanecia secreto, e talvez esta seja a razão principal para
que delas tenhamos registros tão falhos.

Entre elas devem ser enumeradas não somente as formas inferiores dos cultos de
mistérios de vários tipos, mas também as maiores, como os Mistérios Frígios, Báquicos,
Isíacos e Mitraicos, que estavam espalhados por todo o Império. Os famosos Mistérios de
Elêusis, entretanto, estavam sob a égide do Estado, mas ainda que fossem tão famosos,
como cultos estatais, eram muito mais perfunctórios.

Além disso, não deve ser pensado que os grandes tipos de cultos de mistérios
acima mencionados fossem uniformes mesmo entre eles mesmos. Não havia
somente vários degraus e graus dentro deles, mas também com toda a
probabilidade havia muitas formas em cada linha de tradição, boas, más e
indiferentes. Por exemplo, sabemos que era considerado obrigatório para todo
cidadão respeitável de Atenas ser iniciado nos Eleusinia, e por isso os testes não
poderiam ser muito exigentes; enquanto que no trabalho mais recente sobre o
assunto, De Apuleio Isiacorum Mysterirorum Teste (Sobre o Teste de Apuleio nos
Mistérios de Ísis – Leyden, 1900), o Dr. K.H.E. De Jong demonstra que numa forma
dos Mistérios de Ísis o candidato era convidado à iniciação através de um sonho;
isto é, ele devia ser psiquicamente impressionável antes que fosse aceito.

Aqui, então, temos um vasto terreno intermediário para o exercício religioso entre as
formas mais populares e indisciplinadas de culto e as formas mais altas, que poderiam ser
abordadas somente através da disciplina e treinamento da vida filosófica. O lado superior
destas instituições de mistérios despertou o entusiasmo de todos os melhores na
antigüidade, e aplauso irrestrito foi dado a uma ou outra de suas formas pelos maiores
pensadores e escritores da Grécia e Roma; de modo que não podemos senão pensar que
aqui o instruído encontrava aquela satisfação para suas necessidades religiosas que era
necessária não só para os que não poderiam se elevar ao ar rarefeito da razão pura, mas
também para aqueles que já haviam subido tão alto aos píncaros da razão que poderiam
captar um vislumbre do outro lado. Os cultos oficiais eram notoriamente incapazes de lhes
dar esta satisfação, e eram tolerados pelos ilustrados apenas como um auxílio para o
povo e um meio de preservar a vida tradicional da cidade ou estado.

Era pensamento geral que as pessoas mais virtuosas da Grécia fossem membros
das escolas Pitagóricas, tanto homens quanto mulheres. Após a morte de seu
fundador, os Pitagóricos parecem ter gradualmente se misturados às comunidades
Órficas e a “vida Órfica” era o termo reservado para uma vida de pureza e auto-
negação. Sabemos igualmente que os Órficos, e portanto os Pitagóricos, estavam
ativamente engajados na reforma, ou mesmo na reformulação completa, dos ritos
Baco-Eleusinos; eles parecem ter recuperado o lado puro do culto Báquico com a
reinstituição ou reimportação dos Mistérios Báquicos, e é muito evidente que tais
ascetas e profundos pensadores não poderiam ter-se contentado com uma forma
inferior de culto. Sua influência também se espalhou amplamente nos círculos
Báquicos em geral, de modo que vemos Eurípides colocando as seguintes palavras
na boca do coro dos iniciados Báquicos: “Envolto em vestes brancas eu fujo da raça
dos mortais, e jamais me aproximarei do vaso da morte novamente, pois eu criei
com alimento aquela alma sempre habitada” (de um fragmento de Os Cretenses.
Vide Aglaophamus, de Lobeck, p. 622). Tais palavras poderiam bem ser colocadas
na boca de um asceta Brâmane ou Budista, ávido por escapar dos laços de
Samsâra [a roda dos eternos nascimentos e mortes – NT]; e tais homens não
poderiam com justiça ser classificados indiscriminadamente junto com álacres
dissolutos – a concepção comum de uma companhia Báquica.

Mas, alguém poderia dizer, Eurípides e os Pitagóricos e os Órficos não constituem


evidência para o primeiro século; qualquer bem que tenha havido em tais escolas e
comunidades, tinha terminado há muito. Ao contrário, a evidência é toda contra esta
objeção. Filo, escrevendo em torno de 25 d.C., nos fala que em seus dias
numerosos grupos de homens, que em todos os aspectos levava esta vida de
religião, que haviam abandonado suas propriedades, se retirado do mundo e
devotado-se completamente à procura da sabedoria e ao cultivo da virtude,
estavam largamente espalhados por todo o mundo. Em seu tratado Sobre a Vida
Contemplativa, ele escreve: “Esta classe natural de homens é encontrada em
muitas partes do mundo habitado, tanto grego como não-grego, comungando no
bem perfeito. No Egito há multidões deles em cada província, ou nomo, como eles
chamam, e especialmente em torno de Alexandria”. Esta é uma declaração
importantíssima, pois se havia tantos devotados à vida religiosa em seu tempo,
segue-se que a época não era de pura depravação.
Não se deve pensar, contudo, que estas comunidades fossem todas de natureza
exatamente similar, ou de uma e mesma origem, a menos que fossem todos
Terapeutas ou Essênios. Temos só que lembrar das várias linhas de descendência
das doutrinas mantidas por inumeráveis escolas classificadas em bloco como
Gnósticas, como esbocei em meu último trabalho, Fragments of a Faith Forgotten
(Fragmentos de uma Fé Esquecida), e então voltarmo-nos aos belos tratados das
escolas Herméticas, para nos persuadirmos que no primeiro século a procura pela
vida religiosa e filosófica era largamente disseminada e multiforme.

Não estamos, porém, entre aqueles que acreditam que a origem das comunidades
dos Terapeutas de Filo, e dos Essênios de Filo e Josefo, deva ser derivada da
influência Órfica ou Pitagórica. A questão da origem precisa ainda está além do
poder da pesquisa histórica, e não somos daqueles que amplificam um elemento da
massa até que se torne uma fonte universal. Mas quando lembramos da existência
de todas estas comunidades tão amplamente disseminadas no primeiro século,
quando estudamos os registros imperfeitos mas importantes das mui numerosas
escolas e irmandades de natureza semelhante que passaram a contatar
intimamente com o Cristianismo em suas origens, não podemos senão sentir que
havia o fermento de uma forte vida religiosa agindo em muitas partes do Império.

Nossa grande dificuldade é que estas comunidades, irmandades e associações se


mantiveram à parte, e com raras exceções não deixaram registros de suas práticas
e crenças íntimas, ou se deixaram algum, foi destruído ou se perdeu. Para a maior
parte temos então que nos fiar em indicações gerais de caráter muito superficial.
Mas este registro imperfeito não é escusa para negarmos ou ignoramos sua
existência e a intensidade de suas práticas; e uma história que se propõe a formar
uma imagem da época é inteiramente insuficiente na medida em que omitir de sua
perspectiva este assunto tão vital.

Apolônio circulou neste ambiente; mas quão pouco seu biógrafo parece ter-se
apercebido do fato! Filóstrato tem uma apreciação retórica de uma vida filosófica
palaciana, mas nenhum sentimento para a vida religiosa. É só indiretamente que A
Vida de Apolônio, como agora é descrita, pode jogar alguma luz sobre estas
interessantíssimas comunidades, mas mesmo um clarão ocasional é precioso onde
tudo está em tamanha obscuridade. Fosse possível apenas entrar na memória viva
de Apolônio e ver com seus olhos as coisas que viu quando viveu dezenove
séculos atrás, quão inestimável página da história poderia ser recuperada! Ele não
só percorreu todos os países onde a nova fé estava assentando raízes, mas viveu
durante anos na maioria deles, e estava intimamente relacionado com diversas
comunidades místicas do Egito, Arábia e Síria. Certamente ele deve ter visitado
também algumas das primeiras comunidades Cristãs, deve ter palestrado até
mesmo com alguns dos “discípulos do Senhor”! Mas nenhuma palavra é dita sobre
isso, nem obtemos sequer um simples fragmento de informação sobre estes pontos
do que foi registrado sobre ele. Certamente ele deve ter-se encontrado com Paulo,
se não em outro lugar, pelo menos em Roma, em 66, cidade que ele teve de deixar
por causa do edito de banimento contra os filósofos, no mesmo ano em que
segundo alguns Paulo foi decapitado!

III. ÍNDIA E GRÉCIA

Há contudo uma outra razão pela qual Apolônio é importante para nós. Ele era um
admirador entusiástico da sabedoria da Índia. Aqui também se abre um tópico de
grande interesse. Que influências, se alguma houve, tiveram o Bramanismo e o
Budismo sobre o pensamento ocidental naqueles primeiros anos? Alguns
asseveram enfaticamente que houve grande influência; do mesmo modo enfático
outros negam que tenha havido alguma. Portanto é aparente que não há evidência
realmente inquestionável a respeito do assunto.

Exatamente como alguns atribuiriam a influência Pitagórica sobre a constituição das


comunidades Essênias e Terapêuticas, outros atribuiriam suas origens à
propaganda Budista; e não somente eles detectariam esta influência nos preceitos
e práticas Essênias, mas relacionariam até o ensino geral de Cristo a uma fonte
Budista sob uma feição monoteísta Judia. E não só, mas alguns diriam que dois
séculos antes, através do contato direto e comum da Grécia com a Índia, produzido
pelas conquistas de Alexandre, a Índia, via Pitágoras, teria influenciado forte e
duradouramente todo o pensamento grego posterior.

A questão certamente não pode ser resolvida com uma negativa ou afirmação
apressadas; requer não apenas um amplo conhecimento de história geral e um
estudo detalhado das indicações esparsas e imperfeitas sobre o pensamento e a
prática, mas também uma fina apreciação do valor correto da evidência indireta,
pois não temos nenhum testemunho direto de natureza realmente decisiva. Não
pretendemos possuir estas altas qualificações, e nossa maior ambição é
simplesmente dar umas indicações muito breves e gerais sobre a natureza do
assunto.

É claramente asseverado pelos antigos gregos que Pitágoras foi à Índia, mas como
a declaração foi feita por escritores Neo-Pitagóricos e Neo-Platônicos, posteriores
ao tempo de Apolônio, é objetado que as viagens do Tianeu sugeriram não só este
item na biografia do grande Samiano mas diversos outros, ou mesmo que o próprio
Apolônio, em sua Vida de Pitágoras, foi o autor do boato. A estreita semelhança,
entretanto, entre muitas das características da disciplina e doutrina Pitagóricas e o
pensamento e prática Indo-Arianas nos fazem hesitar ante rejeitar inteiramente a
possibilidade de Pitágoras ter visitado a antiga Âryâvarta.
E mesmo que não possamos ir tão longe a ponto de acalentar a possibilidade de
um contato direto pessoal, devemos levar em conta o fato de que Ferécides, o
mestre de Pitágoras, possa ter conhecido algumas das idéias principais da
sabedoria Védica. Ferécides ensinou em Éfeso, mas ele mesmo era muito
provavelmente persa, e é muito verossímil que um asiático instruído, ensinando
uma filosofia mística e baseando sua doutrina sobre a idéia do renascimento, possa
ter tido algum conhecimento direto ou indireto do pensamento Indo-Ariano.

A Pérsia deve ter estado naquele tempo em contato estreito com a Índia, pois perto
da morte de Pitágoras, no reinado de Dario, filho de Histaspes, e no fim do sexto e
início do sétimo século antes de nossa era, ouvimos sobre a expedição do general
Persa Scilax sobre o Indo, e aprendemos de Heródoto que neste reino da Índia (isto
é, o Punjab), ele constituiu a vigésima satrápia da monarquia Persa. Mais ainda,
havia tropas indianas entre as hostes de Xerxes; elas invadiram a Tessália e
lutaram em Platéia.

Do tempo de Alexandre em diante houve um contato constante e direto entre


Âryâvarta e os reinos dos sucessores do conquistador do mundo, e muitos gregos
escreveram sobre esta terra de mistérios; mas em tudo o que nos chegou
procuramos em vão por algo além de vagas indicações do que os “filósofos” da
Índia pensavam sistematicamente.

Que os Brâmanes tivessem nesta altura permitido que seus livros sagrados fossem
lidos pelos yavanas (os jônios, o nome genérico para os gregos nos registros
indianos) é contrário a tudo o que conhecemos de sua história. Os yavanas eram
mlechchhas [estrangeiros – NT], estranhos à sociedade dos árias, e tudo o que
poderiam obter da ciosamente guardada Brahma-vidyâ ou teosofia deve ter
dependido somente de observação externa. Mas a atividade religiosa dominante na
Índia de então era o Budismo, e é neste protesto contra as rígidas distinções de
casta e raça feitas pelo orgulho Bramânico, e na extraordinária novidade de uma
propaganda religiosa entusiástica entre todas as classes e raças da Índia, é que
devemos procurar pelo contato mais direto de pensamento entre a Índia e a Grécia.

Por exemplo, em meados do século III a.C., sabemos, pelo XIII Edito de Asoka, que
este imperador Budista da Índia, o Constantino do oriente, enviou missionários a
Antíoco II da Síria, Ptolomeu II do Egito, Antígono Gônatas da Macedônia, Magas
de Cirene, e Alexandre II do Épiro. Quando, em um terreno de registros tão
imperfeitos, a evidência do lado da Índia é tão clara e indubitável, quão mais
extraordinário é que não tenhamos nenhum testemunho direto de nosso lado sobre
uma atividade missionária tão grande. Mesmo que, então, meramente por causa de
uma ausência de toda informação direta a partir de fontes gregas, seja muito
temerário generalizarmos, não obstante por nosso conhecimento da época não é
ilegítimo concluirmos que nenhum grande impacto público poderia ter sido feito por
estes pioneiros do Dharma no ocidente. Com toda probabilidade estes Bhikshus
[sábios ascetas – NT] Budistas não produziram nenhum efeito sobre os
governantes ou sobre o povo. Mas foi sua missão inteiramente improfícua; e a
iniciativa missionária Budista para o ocidente termina com eles?

A resposta para esta pergunta, segundo nos parece, está oculta na obscuridade
das comunidades religiosas. Não podemos, contudo, ir tão longe a ponto de
concordar com os que cortariam o nó górdio assegurando dogmaticamente que as
comunidades ascéticas na Síria e no Egito foram fundadas por estes
propagandistas Budistas. Mesmo na Grécia já havia não só comunidades
Pitagóricas, mas mesmo antes destas, comunidades Órficas, pois mesmo aqui
acreditamos que Pitágoras antes desenvolveu o que encontrou já existindo, do que
estabeleceu algo inteiramente novo. E se eram encontradas na Grécia, é muito
mais que razoável supor que estas comunidades já existissem na Síria, Arábia e
Egito, cujas populações eram muito mais dadas a exercícios religiosos do que os
Gregos, céticos e amantes do riso.

Contudo, é crível que em tais comunidades, se em alguma delas, a propaganda


Budista tenha encontrado uma audiência receptiva e atenta; mas mesmo assim é
notável que elas não tenham deixado traços diretos nítidos de sua influência. De
todo modo, seja por mar, seja pela grande rota de caravanas, sempre houve uma
linha de comunicação aberta entre a Índia e o Império dos sucessores de
Alexandre; e é mesmo permissível especular que se fosse possível recuperar um
catálogo da grande biblioteca de Alexandria, por exemplo, talvez por acaso
descobríssemos que havia manuscritos indianos entre outros rolos e pergaminhos
das escrituras dos povos.

De fato, há frases nos tratados mais antigos da literatura Hermética Trismegística


que podem ser emparelhados tão próximo com frases dos Upanishads e do
Bhagavad Gitâ que quase se é tentado a acreditar que os escritores tinham algum
conhecimento do conteúdo geral destas escrituras Brâmanes. A literatura
Trismegística tem sua gênese no Egito, e seu primeiro depósito deve ser datado
pelo menos no primeiro século d.C., se a data não puder ser levada ainda mais
para trás. Ainda mais extraordinária é a similitude entre a elevada metafísica mística
do doutor Gnóstico, Basílides, que viveu entre o fim do primeiro e o início do
segundo século d.C., e as idéias Vedantinas. Mais ainda, tanto as escolas
Herméticas quanto as Basilidinas e suas predecessoras imediatas eram devotadas
à férrea auto-disciplina e ao profundo estudo filosófico, o que as poderia tornar
ávidas por acolher quaisquer filósofos ou místicos que pudessem chegar do
longínquo oriente.

Mas mesmo assim, não somos daqueles que por suas limitações de possibilidades
auto-impostas estão condenados a considerar algum contato físico direto como uma
explicação para a similaridade de idéias ou mesmo de frases. Considerando, por
exemplo, que há muita semelhança entre os ensinamentos do Dharma de Buda e o
Evangelho de Cristo, e que o mesmo espírito de amor e gentileza pervade a ambos,
ainda não há necessidade, por virtude desta semelhança, de procurar por uma
transmissão puramente física. Do mesmo modo quanto a outras escolas e
instrutores; condições semelhantes produzem fenômenos similares; esforços e
aspirações similares produzem experiências e idéias parecidas, e respostas
também semelhantes. E este acreditamos ser o caso não de uma maneira genérica,
mas que tudo é muito definidamente ordenado a partir de dentro pelos servos dos
verdadeiros guardiães das coisas religiosas neste mundo.

Não somos, pois, compelidos a enfatizar demais a questão da transmissão física,


ou a procurar mesmo encontrar prova de cópia. A mente humana em seus vários
graus é basicamente a mesma em todos os climas e idades, e sua experiência
interna tem um chão comum no qual a semente pode ser lançada, assim como é
cultivada e livrada de ervas daninhas. As boas sementes provêm todas do mesmo
granel, e os que as semeiam não prestam atenção alguma às distinções externas
de raça e credo feitas pelo homem.

Portanto, por mais difícil que seja provar, a partir de registros inquestionavelmente
históricos, qualquer influência direta do pensamento indiano sobre as concepções e
práticas de algumas destas comunidades religiosas e escolas filosóficas do Império
Greco-Romano, e mesmo que em qualquer caso particular a similaridade de idéias
não precise necessariamente ser assinalada pela transmissão física direta, de
qualquer maneira, a maior probabilidade, se não a maior certeza, continua sendo a
de que mesmo antes dos dias de Apolônio havia na Grécia algum conhecimento
privado das idéias gerais do Vedânta e do Dharma; enquanto que no caso do
próprio Apolônio, mesmo se descontarmos nove décimos do que é dito sobre ele,
sua única idéia parece ter sido disseminar largamente entre as irmandades e
instituições religiosas do Império alguma porção da sabedoria que ele trouxe
consigo da Índia.

Quando, então, descobrimos no final do primeiro e no início do segundo séculos,


entre associações místicas tais como as escolas Herméticas e Gnósticas, idéias
que nos lembram fortemente a teosofia dos Upanishads ou a ética esclarecida dos
Suttas, temos sempre que levar em conta não só a alta probabilidade de Apolônio
ter visitado tais escolas, mas também a possibilidade de ele ter nelas palestrado
amplamente sobre a sabedoria indiana. Não só isso, mas a memória de sua
influência pode ter perdurado por muito tempo em tais círculos, pois não
encontramos Plotino, o corifeu do Neo-Platonismo, como é chamado, tão
enamorado pelo que ele ouvira em Alexandria sobre a sabedoria da Índia, que em
242 ele partiu com a malfadada expedição Górdia ao oriente na esperança de
atingir aquela terra da filosofia? Com o fracasso da expedição e o assassínio do
Imperador, contudo, ele teve de voltar, para sempre desapontado em sua
esperança.

Porém, não devemos pensar que Apolônio tenha-se disposto a fazer uma
propaganda da filosofia hindu do mesmo modo que os missionários aprontam-se
para pregar sua concepção do Evangelho. De modo algum; Apolônio parece ter
tentado ajudar seus ouvintes, quaisquer que pudessem ser, do modo mais
adequado para cada um deles. Ele não começava lhes falando que aquilo no que
acreditavam era completamente falso e mortal para a alma, e que seu bem-estar
eterno dependia de sua adoção instantânea de seu esquema especial de salvação;
ele simplesmente tentava purgar e explicar melhor aquilo que eles já acreditavam e
praticavam. Que algum grande poder o susteve em sua atividade incessante, e em
sua obra quase universal, não é tão difícil de acreditar; e é uma questão do mais
profundo interesse, para aqueles que tentam enxergar através das névoas da
aparência, especular o modo como não só um Paulo mas também um Apolônio foi
ajudado e dirigido em sua obra a partir de dentro.

Mas ainda não nasceu o dia em que será possível para a mente comum no
ocidente abordar a questão livre de preconceitos, para aceitar o pensamento de
que, vistos de dentro, não só Paulo mas também Apolônio bem podem ter sido
“discípulos do Senhor” no verdadeiro sentido da palavra; e que mesmo que na
superfície das coisas suas tarefas possam parecer tão diferentes em muitos
aspectos, e mesmo, para os preconceitos teológicos, inteiramente antagônicas.

Por fortuna, contudo, já hoje existe um número crescente de pessoas pensantes


que não ficarão chocadas com esta crença, mas a receberão com alegria como se
fosse o anúncio do nascimento de um verdadeiro sol de retidão, que fará mais para
iluminar as multifárias vias da religião de nossa humanidade comum do que toda a
auto-retidão de qualquer corpo particular de religiosos exclusivistas.

Então, é nesta atmosfera de caridade e tolerância que pediríamos ao leitor abordar


a consideração de Apolônio e seus feitos, e não só a vida e atos de um Apolônio,
mas também de todos aqueles que têm tentado ajudar seus semelhantes em todo o
mundo.

IV. O APOLÔNIO DAS PRIMEIRAS DESCRIÇÕES

Apolônio de Tíana (pronuncia-se com o acento na primeira sílaba e o primeiro a


curto) foi o mais famoso filósofo do mundo greco-romano do primeiro século, e
devotou a maior parte de sua longa vida à purificação dos muitos cultos do Império
e à instrução dos ministros e sacerdotes de suas religiões. Com a exceção de
Cristo, nenhum personagem mais interessante apareceu na cena da história
ocidental nestes primeiros anos. Muitas e variadas e freqüentemente contraditórias
são as opiniões que têm sido sustentadas sobre Apolônio, pois o relato de sua vida
que chegou a nós é do feitio de uma história romântica antes que do de uma
história objetiva. E isto em certa medida talvez deva ser esperado, pois Apolônio,
além de seu ensino público, teve uma vida à parte, uma vida na qual mesmo seu
discípulo favorito não entra. Ele viaja até as terras mais distantes, e perde-se para o
mundo por anos inteiros; ele entra nos santuários dos templos mais sagrados e nos
círculos internos das comunidades mais fechadas, e o que ele diz ou faz lá
permanece um mistério, ou serve somente como uma oportunidade para tecerem
alguma história fantástica aqueles que não compreendem.

O estudo a seguir é simplesmente uma tentativa de colocar para o leitor um breve


esboço do problema que os registros e tradições sobre a vida do famoso Tianeu
representa; mas antes que tratemos da Vida de Apolônio, escrita por Flávio
Filóstrato no começo do século III, devemos dar uma breve notícia das referências
sobre Apolônio entre os escritores clássicos e os Padres da Igreja, e um curto
resumo da literatura de tempos mais recentes sobre o assunto, e das várias
oscilações da guerra de opinião a respeito de sua vida ao longo dos últimos quatro
séculos.

Primeiramente, então, as referências em autores clássicos e patrísticos. Luciano, o


espirituoso escritor da primeira metade do século II, toma como tema de uma de
suas sátiras o aluno de um discípulo de Apolônio, um daqueles que estavam
familiarizados com “toda a tragédia” (Alexander sive Pseudomantis – Alexandre, ou
o Pseudo-mago -, vi.) de sua vida. E Apuleio, um contemporâneo de Luciano,
classifica Apolônio junto com Moisés e Zoroastro, e outros Magos famosos da
antigüidade (De Magia – Sobre a Magia -, xc; ed. Hildebrand, 1842; ii, 614).

Cerca da mesma época, em uma obra intitulada Quaestiones et Responsiones ad


Orthodoxos (Perguntas e Respostas aos Ortodoxos), antigamente atribuída a
Justino, o Mártir, que floresceu no segundo quarto do século II, encontramos a
seguinte interessante declaração:

“Pergunta 24: Se Deus é o autor e mestre da criação, como os objetos consagrados


(τελεσ•ατα. Telesma era “um objeto consagrado, transformado pelos árabes em
telsam, talismã”; vide o Lexicon de Liddell e Scott, sub voc.) de Apollonius têm
poder nas (várias) ordens desta criação? Pois, como nós vemos, eles acalmam a
fúria das ondas e o poder dos ventos e impedem o ataque dos vermes e das bestas
selvagens”. ‡ (Justin Martyr, Opera – Obras -, ed. Otto; 2ª edição; Jena, 1849; ii, 32)

Dion Cássio, em sua história (Lib. I; xxvii, 18), que escreveu entre 211 e 212 d.C.,
diz que Caracala (Imperador entre 211 e 216) honrou a memória de Apolônio com
uma capela ou monumento (heroum).
Foi bem nesta época (216) que Filóstrato compôs sua Vida de Apolônio, a pedido
de Domna Julia, a mãe de Caracala, e é com este documento principalmente que
temos de lidar a seguir.

Lamprídio, que floresceu em meados do século III, informa-nos ainda que


Alexandre Severo (Imperador entre 222 e 235) colocou a estátua de Apolônio em
seu lararium [espécie de capela onde os romanos colocavam as imagens de seus
deuses protetores do lar – NT] junto com as de Cristo, Abraão e Orfeu (Life of
Alexander Severus – A Vida de Alexandre Severo -, xxix).

Vopisco, escrevendo na última década do século III, nos conta que Aureliano
(Imperador entre 270 e 275) dedicou um templo a Apolônio, de quem ele tivera uma
visão quando assediava Tíana. Vopisco fala do Tianeu como “um sábio da mais
larga fama e autoridade, um antigo filósofo, e um verdadeiro amigo dos Deuses”, e
mais, como uma manifestação da deidade. “Pois quem dentre os homens”, exclama
o historiador, “foi mais santo, quem mais digno de reverência, quem mais venerável,
quem mais divinal que ele? Ele foi quem deu vida aos mortos. Ele foi quem operou
e disse tantas coisas além do poder dos homens”. (Life of Aurelian – A Vida de
Aureliano, xxiv). Tão entusiástico é Vopisco sobre Apolônio, que prometeu que se
vivesse, escreveria uma breve história de sua vida em latim, para que seus feitos e
palavras pudessem estar na língua de todos, pois até então os únicos relatos
estavam em grego (“Quae qui velit nosse, groecos legat libros qui de ejus vita
conscripti sunt – Que quem quiser saiba que os gregos deixaram livros sobre sua
vida”. Estes relatos provavelmente foram os livros de Máximo, Merágenes e
Filóstrato). Vopisco, entretanto, não cumpriu sua promessa, mas sabemos que
perto desta data tanto Sotérico (um poeta épico Egípcio, que escreveu diversas
histórias poéticas em grego; floresceu na última década do terceiro século) quanto
Nicômaco escreveram Vidas sobre nosso filósofo, e logo depois Tácio Vitoriano,
trabalhando sobre as obras de Nicômaco (Sidonius Apollinaris, Epistolae - Cartas -,
viii, 3. Vide também Legrand d’Aussy, Vie d’Apollonius de Tyane – A Vida de
Apolônio de Tíana -, Paris, 1807; p. xlvii), também compôs uma Vida. Nenhuma
destas Vidas, contudo, chegou a nós.

Também foi exatamente neste período, a saber, os últimos anos do século III e os
primeiros do IV, que Porfírio e Jâmblico compuseram seus tratados sobre Pitágoras
e sua escola; ambos mencionam Apolônio como uma de suas autoridades, e é
provável que as primeiras 30 estâncias de Jâmblico sejam tomadas de Apolônio
(Porphyryus, De Vita Pythagorae – A Vida de Pitágoras -, seção ii, ed. Kiessling;
Leipzig, 1816. Iamblichus, De Vita Pythagorica – Sobre a Vida Pitagórica -, cap. xxv,
ed. Kiessling; Leipzig, 1913; vide especialmente a nota de Kiessling, pp. II sqq. Vide
também Porphyryus, Frag., De Styge – Sobre o Estige -, p. 285, ed. Holst).

Agora chegamos a um incidente que arremessa o caráter de Apolônio na arena da


polêmica Cristã, onde tem sido debatido até os dias de hoje. Hiérocles,
sucessivamente governador de Palmira, da Bitínia e de Alexandria, e um filósofo,
cerca do ano 305 escreveu uma crítica sobre as reivindicações Cristãs, em dois
livros, chamada Um Apelo Verdadeiro aos Cristãos, ou mais concisamente O
Amante da Verdade. Ele parece ter-se baseado em grande parte no trabalho
anterior de Celso e Porfírio (vide Duchesne sobre as obras recentemente
descobertas de Macário Magno, Paris, 1877), mas introduziu um novo tema de
controvérsia ao contrapor as obras maravilhosas de Apolônio à reivindicação dos
Cristãos de direito exclusivo sobre “milagres” como prova da divindade de seu
Mestre. Nesta parte de seu tratado, Hiérocles usa a Vida de Apolônio, de Filóstrato.

A esta pertinente crítica de Hiérocles, Eusébio de Cesaréia imediatamente replicou


em um tratado ainda existente, intitulado Contra Hieroclem (Contra Hiérocles – O
melhor texto é o de Gaynsford; Oxford, 1852: Eusebii Pamphili contra Hieroclem –
Eusébio Pânfilo contra Hiérocles; também existe em várias edições de Filóstrato.
Há duas traduções em latim, uma em italiano, uma em dinamarquês, todas reunidas
à Vita, de Filóstrato, e uma em francês, impressa à parte: Discours d’Eusèbe
Evêque de Cesarée touchant les Miracles attribuez par les Payens à Apollonius de
Tyane – Discursos de Eusébio, Bispo de Cesaréia, a respeito dos Milagres
atribuídos pelos Pagãos a Apolônio de Tíana -, tr. de Cousin; Paris, 1584, 12°, 135
pp.). Eusébio admite que Apolônio era um homem sábio e virtuoso, mas nega que
haja provas suficientes de que as maravilhas atribuídas a ele tenham mesmo
ocorrido; e mesmo se ocorreram, foram obra de “daimons” [preferimos manter a
palavra daimon, mantida também pelo autor (daemon), evidenciando sua fonte
grega (δαι•σν), e significando seres mais espirituais que o homem, de vários graus
de sublimidade, em vez da tradução contemporânea demônio, cujas associações
são completamente diversas em relação às originais – NT] e não de Deus. O
tratado de Eusébio é interessante; ele escrutiniza severamente as declarações de
Filóstrato, e mostra-se possuído de uma faculdade crítica de primeira linha. Tivesse
ele apenas usado esta faculdade nos documentos da Igreja, da qual foi o primeiro
historiógrafo, a posteridade lhe teria um débito eterno de gratidão. Mas Eusébio,
como tantos outros apologistas, só conseguia ver um lado da questão; quando
qualquer coisa tocante ao Cristianismo era chamada à cena, a justiça se tornava
estranha à sua mente, e ele teria considerado blasfemo usar sua faculdade crítica
sobre documentos que relatassem os “milagres” de Jesus. Mesmo assim o
problema dos “milagres” era o mesmo, como Hiérocles assinalou, e assim
permanece até hoje.

Depois a controvérsia reencarnou no século XVI, e quando a hipótese de ser o


“Diabo” a causa primeira de todos os “milagres” exceto os da Igreja perdeu sua
força com o progresso do pensamento científico, a natureza dos prodígios relatados
na Vida de Apolônio ainda era uma dificuldade tão grande que deu origem a uma
nova hipótese, a de plágio. A vida de Apolônio seria um plágio Pagão da vida de
Jesus. Mas Eusébio e os Padres que o seguiram não suspeitavam disto; eles
viveram numa época em que tal asserção poderia ter sido facilmente refutada. Não
há uma só palavra em Filóstrato que demonstre ter ele algum conhecimento da vida
de Jesus, e fascinante como é para muitos a teoria de “escrita tendenciosa” de
Baur, podemos somente dizer que como plagiador da história do Evangelho,
Filóstrato é um óbvio fracasso. Filóstrato escreve a história de um homem bom e
sábio, um homem com a missão de ensinar, revestida das maravilhosas histórias
preservadas na memória e embelezadas pela imaginação de uma posteridade
indulgente, mas não o drama da Deidade encarnada como o cumprimento da
profecia mundial.

Lactâncio, escrevendo em torno de 315, também atacou o tratado de Hiérocles, que


parece ter apresentado algumas críticas muito pertinentes; pois o Padre da Igreja
diz que ele enumera tantos de seus ensinamentos Cristãos internos (intima) que
algumas vezes ele parece ter seguido ao mesmo tempo o mesmo treinamento
(disciplina). Mas, diz Lactâncio, é em vão que Hiérocles tenta demonstrar que
Apolônio executou feitos similares ou mesmo maiores que Jesus, pois os Cristãos
não crêem que Cristo é Deus porque operou prodígios, mas porque todas as coisas
encontradas nele foram as que os profetas anunciaram (Lactantius, Divinae
Institutiones – As Instituições Divinas -, v 2, 3; ed. Fritsche; Leipzig, 1842; pp. 233,
236). E tomando este rumo Lactâncio viu muito mais claramente que Eusébio a
fragilidade da “prova milagrosa”.

Arnóbio, o professor de Lactâncio, entretanto, escrevendo no fim do século III, antes


da controvérsia, ao se referir a Apolônio ele simplesmente o classifica entre os
Magos, como Zoroastro e os outros mencionados na passagem de Apuleio a que já
nos referimos (Arnobius, Adversus Nationes – Contra as Seitas -, i, 52; ed.
Hildebrand; Halle, 1844; p. 86. O Padre da Igreja, contudo, com aquele
exclusivismo peculiar à visão Judeu-Cristã, omite Moisés da lista de Magos).

Mas mesmo depois da controvérsia ainda existe uma larga diferença de opinião
entre os Padres, pois já no fim do século IV João Crisóstomo, com grande
mordacidade, chama Apolônio de enganador e fazedor de más obras, e declara que
todos os incidentes de sua vida são ficção desqualificada (Johannes Chrysostomus,
Adversus Judaeos – Contra os Judeus -, v, 3, p. 631; De Laudibus Sancti Pauli
Apost. Homil. – Sobre as Honoráveis Homilias de São Paulo Apóstolo -, iv, p. 493 d;
ed. Monfauc). Jerônimo, ao contrário, na mesmíssima data, assume uma posição
quase favorável, pois, após ler Filóstrato, escreve que Apolônio encontrou em toda
parte algo que aprender e algo por onde se tornar um homem melhor (Hieronymus,
Ep. Ad Paulinum – Epístola aos Paulinos -, 53; texto a partir de Kayser, pref. ix). No
começo do século V também Agostinho, enquanto ridiculariza qualquer tentativa de
comparar-se Apolônio com Jesus, diz que o caráter do Tianeu era “muito superior”
àquele atribuído a Júpiter, no que se tratava de virtude (Augustinus, Epistolae –
Cartas -, cxxxviii. Texto citado por Legrand d’Aussy; op. cit., p. 294).

Por volta da mesma data também encontramos Isidoro de Pelúsio, morto em 450,
negando asperamente que houvesse qualquer verdade na reivindicação feita por
“alguns”, que ele não diz quem são, de que Apolônio de Tíana “consagrou muitos
locais em muitas partes do mundo para a segurança de seus habitantes” (Isidorus
Pelusiota, Epp. – Cartas -, p. 138; ed. J. Billius; Paris, 1585). É instrutivo comparar a
negativa de Isidoro com a passagem que já citamos do Pseudo-Justino. O escritor
de Perguntas e Respostas aos Ortodoxos no segundo século não poderia descartar
a pergunta através de uma simples negação; ele teve de admití-la e discutir o caso
em outras bases, quais sejam, a agência do Diabo. Nem o argumento dos Padres,
de que Apolônio usava magia para produzir seus resultados, enquanto que Cristãos
ignorantes poderiam realizar curas milagrosas através de uma simples palavra (vide
Arnóbio, loc. cit.), pode ser aceito como válido pelo crítico imparcial, pois não há
evidências para sustentar a pretensão de que Apolônio haja empregado tais
métodos para suas obras maravilhosas; ao contrário, tanto o próprio Apolônio
quanto seu biógrafo Filóstrato reiteradamente repudiam a acusação de magia
levantada contra ele.

Por outro lado, poucos anos depois, Sidônio Apolinário, Bispo de Claremont, fala de
Apolônio em termos os mais altos. Sidônio traduziu a Vida de Apolônio para o latim
para Leão, conselheiro do Rei Eurico, e escrevendo para seu amigo, diz: “Lêde a
vida de um homem que, religião à parte, se assemelha à vossa em muitos pontos;
um homem procurado pelos ricos, ainda que jamais tenha procurado riquezas; que
amava a sabedoria e desprezava o ouro; um homem frugal em meio a festins,
vestido de linho no meio dos purpurados, austero no meio da luxúria... Enfim,
falando claramente, talvez nenhum historiador encontrará nos tempos antigos um
filósofo cuja vida fosse igual à de Apolônio” (Sidonius Apollinaris, Epistolae - Cartas
-, viii, 3. Também Fabricius, Bibliotheca Graeca – Biblioteca Grega -, pp. 549, 565;
ed. Harles. A obra de Sidônio sobre Apolônio infelizmente foi perdida.)

Assim vemos que mesmo entre os Padres da Igreja as opiniões se dividiam;


enquanto que entre os próprios filósofos o louvor de Apolônio era ardente.

Pois Amiano Marcelino, “o último súdito de Roma que compôs uma história profana
na língua latina”, e amigo de Juliano, o Imperador filósofo, refere-se ao Tianeu
como “aquele celebérrimo filósofo” (amplissimus ille philosophus, xxiii, 7. Vide
também xxi, 14; xxiii, 19), enquanto que uns poucos anos depois Eunápio, discípulo
de Crisâncio, um dos professores de Juliano, escrevendo nos derradeiros anos do
século IV, diz que Apolônio era mais que um filósofo; era “um meio-termo, por
assim dizer, entre os deuses e os homens” (τι θεων τε κατ ανΦρωπου •εσο,
significando com isso presumivelmente alguém que tenha atingido o grau de ser
superior ao homem, mas ainda não igual aos deuses. Esta era a ordem “daimôníca”
dos gregos. Mas a palavra “daimon”, devido à aspereza sectarista, há muito
degradou-se de seu antigo patamar elevado, e a idéia original agora encontra
tradução na linguagem comum através do termo “anjo”. Compare com Platão,
Symposium – O Banquete, xxiii, παν τα δαι•σνιον•εταεν εστι θεου τε και ϑνητου –
“tudo o que é daimônico está entre Deus e o homem”. Não só Apolônio era um
adepto da filosofia Pitagórica, mas “exemplificou plenamente o seu lado mais divino
e prático”. De fato, Filóstrato deveria ter chamado sua biografia de “A Estada de um
Deus entre os Homens” (Eunapius, Vitae Philosophorum – Vidas dos Filósofos -,
Proêmio, vi; ed. Boissonade; Amsterdam, 1822; p. 3). Esta apreciação
aparentemente por demais exagerada talvez encontre uma explicação no fato de
que Eunápio pertenceu a uma escola que conhecia a natureza das realizações
atribuídas a Apolônio.

Na verdade, “tão tarde quanto no século V, encontramos um Volusiano, um


procônsul da África, descendente de uma antiga família romana e ainda fortemente
ligado à religião de seus ancestrais, quase adorando Apolônio de Tíana como um
ser sobrenatural” (Réville, Apollonius of Tyana; tr. do francês, p. 56; Londres, 1866.
Contudo, não fui capaz de descobrir com que autoridade esta declaração é feita).

Mesmo depois do declínio da filosofia encontramos Cassiodoro, que passou os


últimos anos de sua longa vida em um mosteiro, falando de Apolônio como o
“renomado filósofo” (“Insignis philosophus”; vide sua Chronicon – Crônica -, escrita
antes de 519). Do mesmo modo entre os autores bizantinos, o monge George
Syncellus, no século VIII, refere-se diversas vezes ao nosso filósofo, e não apenas
despido de toda a crítica adversa, mas declarando que ele foi a primeira e mais
notável de todas eminências que surgiram no Império. † (Chronographia. Vide
Legrand d’Aussy, op. Cit., p. 313). Tzetzes também, o crítico e gramático, chama
Apolônio de “todo-sábio e ante-conhecedor de todas as coisas” (Chiliades, ii, 60).

E mesmo que o monge Xiphilinus, no século IX, em uma nota para sua versão
abreviada da história de Dion Cássio, chame Apolônio de astuto ilusionista e
mágico, § (Citado por Legrand d’Aussy, op. cit. p. 286), não obstante Cedreno, no
mesmo século, dá a Apolônio o título não indigno de “adepto filósofo
Pitagórico” (φιλοσοφος ΙΙυφαγσρειος στοιχειω•ατικσς. Cedreno, Compendium
Historiarium – Compêndio de História -, i, 346; ed. Bekker. A palavra que traduzi
como “adepto” – stoicheiomaticos - significa “o que tem poder sobre os elementos”)
e relata diversos exemplos da eficácia de seus poderes em Bizâncio. De fato, se
podemos acreditar em Nicetas, no século XIII ainda havia em Bizâncio certas portas
de bronze, antigamente consagradas por Apolônio, que tiveram que ser postas
abaixo porque se haviam tornado objeto de superstição mesmo entre os próprios
Cristãos. (Legrand d’Aussy, op. cit., p. 308).

Tivesse a obra de Filóstrato desaparecido junto com as outras Vidas, o que


apresentei acima seria tudo o que conheceríamos sobre Apolônio (se excetuarmos
as suas controversas Cartas e umas poucas citações de um dos escritos perdidos
de Apolônio). Muito pouco, de fato, relativo a uma figura tão distinguida, mas o
bastante para mostrar que, com a exceção do preconceito teológico, o sufrágio da
antigüidade estava todo do lado de nosso filósofo.

V. TEXTOS, TRADUÇÕES E LITERATURA

Agora passamos aos textos, traduções e literatura geral sobre o assunto em tempos
mais recentes. Apolônio voltou à memória do mundo, depois do esquecimento na
idade das trevas, sob maus auspícios. Desde o início a antiga controvérsia
Hiérocles-Eusébio foi ressuscitada, e todo o assunto foi de uma vez retirado da
calma região da filosofia e história e arremessado mais uma vez na tumultuosa
arena do amargor e preconceito religiosos. Durante muito tempo Aldus hesitou em
publicar o texto de Filóstrato, e finalmente só o fez em 1501, com o texto de
Eusébio como apêndice, para que, como ele piamente diz, “o antídoto possa
acompanhar o veneno”. Junto apareceu uma tradução latina do florentino Rinucci
(Philostratus de Vita Apollonii Tyanei - Sobre a Vida de Apolônio de Tíana, por
Filóstrato, tr. por Rinucci, e Eusebius contra Hieroclem – Eusébio contra Hiérocles,
tr. por Acciolo; Veneza, 1501-04, fol.), a tradução de Rinucci foi retificada por
Beroaldus e impressa em Lion [1504?], e novamente em Colônia [1534]).

Em acréscimo à tradução latina o século XVI produziu também uma italiana (F.
Baldelli, Filostrato Lemnio della Vita di Apollonio Tianeo – A Vida de Apolônio de
Tíana, por Filóstrato de Lemnos, Florença, 1549, 8°) e uma francesa (B. de Vignère,
Philostrate de la Vie d’Apollonius – A Vida de Apolônio, por Filóstrato, Paris, 1596,
1599, 1611). A tradução de Blaise de Vignère subseqüentemente foi corrigida por
Frédéric Morel e mais tarde por Thomas Artus, Sieur d’Embry, com notas
bombásticas nas quais ataca ferozmente a taumaturgia de Apolônio. Uma tradução
francesa também foi feita por Th. Sibilet, em torno de 1560, mas nunca foi
publicada; o manuscrito estava na Biblioteca Imperial. Vide Miller, Journal des
Savants, 1849, p. 625, citado por Chassang, op. infr. cit. P. iv).

A editio princeps de Aldus foi superada um século depois pela edição de Morel (F.
Morellus, Philostrati Lemnii Opera – Obras de Filóstrato Lêmnio, Grega e Latina;
Paris, 1608), que por sua vez um século depois foi superada pela de Olearius (G.
Olearius, Philostratorum quae supersunt Omnia – As Obras Completas
Remanescentes de Filóstrato, Grega e Latina; Leipzig, 1709). Cerca de um século e
meio após o texto de Olearius foi superado novamente pelo de Kayser (o primeiro
texto crítico), cujo trabalho em sua última edição contém todo o moderno aparato
crítico (C.L.Kayser, Flavii Philostrati quae supersunt..., etc; Zurique, 1844, 4°). Em
1849 A. Westermann também editou um texto, Philostratorum et Callistrati Opera –
Obras de Filóstrato e Calístrato, na Scriptorum Graecorum Bibliotheca – Biblioteca
de Escritores Gregos; Paris, 1849, 8°). Mas Kayser trouxe à luz uma nova edição
em 1853 (?), e novamente uma terceira, com informações adicionais no Prefácio,
na Bibliotheca Teubneriana (Leipzig, 1870). Toda a informação que diz respeito aos
manuscritos, é encontrada nos Prefácios Latinos de Kayser.

Agora tentaremos dar alguma idéia da literatura geral sobre o assunto, para que o
leitor possa ser capaz de perceber algumas das várias oscilações da guerra de
opiniões nas indicações bibliográficas. Se o leitor comum for impaciente e ávido de
chegar a algo de maior interesse, ele poderá facilmente omitir sua consulta;
enquanto que se for um amante do caminho místico, e não tiver gosto pela
controvérsia, poderá ao menos simpatizar com o escritor, que foi compelido a
repassar as obras do último século e a dúzia dos séculos precedentes, antes que
pudesse aventurar uma opinião própria com clara consciência.

Um preconceito sectarista contra Apolônio caracteriza quase toda a opinião antes


do século XIX (para um sumário geral da opinião antes de 1807, em escritores que
mencionam Apolônio incidentalmente, vide Legrand d’Aussy, op. cit. pp. 313-327).
Dos livros especialmente dedicados a Apolônio, os trabalhos do Abade Dupin
(L’Histoire d’Apollone de Tyane convaincue de Fausseté et d’Imposture – A História
de Apolônio de Tíana, cheia de Falsidade e Impostura, Paris, 1705) e de Tillemont
(An Account of the Life of Apollonius Tyaneus – Um Relato da Vida de Apolônio de
Tíana, Londres, 1702; tr. do francês, do vol. ii da Histoire des Empereurs – História
dos Imperadores, de Lenain de Tillemont, 2ª ed. Paris, 1720: à qual são
acrescentadas Some Observations upon Apollonius - Algumas Observações sobre
Apolônio. A visão de Tillemont é que Apolônio foi enviado pelo Diabo para destruir a
obra do Salvador) são ácidos ataques ao Filósofo de Tíana em defesa do
monopólio Cristão dos milagres; enquanto que os do Abade Houtteville (A Critical
and Historical Discourse upon the Method of the Principal Authors who wrote for and
against Christianity from its Biginning – Um Discurso Crítico e Histórico sobre os
métodos dos Principais Autores que escreveram pró e contra o Cristianismo desde
seus Primórdios, Londres, 1739; tr. do francês do Abade Houtteville; ao qual é
acrescentada uma Dessertation on the Life of Apollonius Tyanaeus, with some
Observations on the Platonists of the Latter School – Dissertação sobre a Vida de
Apolônio Tianeu, com algumas Observações sobre os Platônicos da Última Escola,
pp. 213-254) e de Lüderwald (Anti-Hierocles oder Jesus Christus und Apollonius
von Tyana in ihren grossen Ungleichheit – Contra Hiérocles, ou Jesus Cristo e
Apolônio de Tíana em sua grande Desigualdade, editada por J.B.Lüderwald; Halle,
1793) são menos violentos, ainda que nas mesmas linhas. Um escritor sob
pseudônimo, entretanto, segue uma linha algo distinta, no século XVIII, ao
emparelhar os milagres dos Jesuítas e de outras Ordens Monásticas aos de
Apolônio, considerando-os todos espúrios e sustentando a autenticidade só dos de
Jesus (Phileleutherius Helvetius, De Miraculis quæ Pythagoræ, Apolloni Tyanensi,
Francisco Asisio, Dominico, et Ignatio Lojolæ tribuuntur Libellus – Libelo contra os
Milagres atribuídos a Pitágoras, Apolônio de Tíana, Francisco de Assis, Domingos e
Inácio de Loyola, Draci, 1734).

Não obstante, Bacon e Voltaire falam de Apolônio nos mais altos termos (Vide
Legrand d’Aussy, op. cit., p. 314, onde são dados os textos) e mesmo um século
antes de Voltaire, o Deísta inglês Charles Blount (The Two First Books of
Philostratus concerning the Life of Apollonius Tyanaeus – Os Dois Primeiros Livros
de Filóstrato a respeito da Vida de Apolônio de Tíana, Londres, 1680, fol. As notas
de Blount, geralmente atribuídas a Lord Herbert, suscitaram tamanha grita que o
livro foi condenado em 1693, e sobrevivem poucas cópias. As notas de Blount,
entretanto, foram traduzidas para o francês um século mais tarde, nos dias do
Enciclopedismo, e anexas a uma versão da Vita, sob o título Vie d’Apollonius de
Tyane par Philostrate avec les Commentaires donnés en Anglois par Charles Blount
sur les deux Premiers Livres de Cette Ouvrage – A Vida de Apolônio de Tíana, por
Filóstrato, com os Comentários feitos em Inglês por Charles Blount sobre os
Primeiros Livros desta Obra, Amsterdam, 1779; 4 vols., S°, com uma irônica
dedicatória ao Papa Clemente XIV, assinada “Philaletes”) ergueu sua voz contra o
opróbrio universal lançado contra o caráter do Tianeu; este trabalho, contudo, foi
rapidamente suprimido.

Em meio a esta guerra sobre milagres no século XVIII é agradável assinalar o curto
tratado de Herzog, que tenta dar um esboço da vida filosófica e religiosa de
Apolônio (Philosophiam Practicam Apollonii Tyanae in Sciagraphia – Memento
sobre a Filosofia Prática de Apolônio de Tíana, apresentado por M.Jo. Christian
Herzog; Leipzig, 1709; uma preleção acadêmica de 20 pp.) mas, pena, não houve
seguidores de exemplo tão liberal neste século de contendas.

O mesmo quanto à literatura anterior sobre a matéria. Falando francamente, nada é


digno de leitura; o problema não podia ser considerado calmamente neste período.
Parte-se do falso terreno da controvérsia Hiérocles-Eusébio, que foi apenas um
incidente (pois a taumaturgia é comum a todos os grandes instrutores e não
exclusiva de Apolônio ou Jesus), e foi acirrado pelo surgimento do Enciclopedismo
e do racionalismo do período Revolucionário. Não que a controvérsia sobre os
milagres cessasse mesmo no século passado; contudo, não obscureceu mais o
horizonte todo, e o sol de um julgamento tranqüilo pode ser visto irrompendo por
entre as névoas.

A fim de tornar o resto de nosso sumário mais claro anexamos no fim deste ensaio
os títulos das obras que apareceram desde o início do século XIX, em ordem
cronológica. Um relance nesta listagem mostrará que o último século produziu uma
inglesa (Berwick), uma italiana (Lancetti), uma francesa (Chassang), e duas alemãs
(Jacob e Baltzer) (Filóstrato é um autor difícil de traduzir; não obstante, Chassang e
Baltzer o conseguiram muito bem; Berwick também vale a pena, mas em sua maior
parte nos dá uma paráfrase antes que uma tradução e amiúde se engana no
sentido. Chassang e Baltzer são de longe as melhores traduções). A tradução do
Rev. E. Berwick é a única versão inglesa; em seu Prefácio, o autor, enquanto
proclama a falsidade do elemento milagroso na Vida, diz que o restante da obra
merece atenção cuidadosa. Nenhum mal sobrevirá à religião Cristã pela sua leitura,
pois não há alusão à vida de Cristo nele, e os milagres são baseados naqueles
atribuídos a Pitágoras.

Certamente este é um ponto de vista mais salutar do que o da controvérsia religiosa


tradicional, a qual, infelizmente, reviveu sob a grande autoridade de Baur, que diz
haver em alguns dos primeiros documentos da era Cristã (notavelmente os Atos
canônicos) escritos tendenciosos de apenas escasso conteúdo histórico,
representando os destinos variáveis das escolas e partidos e não as verdadeiras
histórias dos indivíduos. A Vida de Apolônio seria um destes escritos tendenciosos;
seu objetivo teria sido apresentar uma visão oposta ao Cristianismo e a favor da
filosofia. Baur, assim, divorcia todo o assunto de seu ponto de vista histórico e
atribui a Filóstrato um elaborado esquema do qual era inteiramente inocente. A
visão de Baur foi largamente adotada por Zeller em sua Philosophie der Griechen
(A Filosofia dos Gregos; v, 140), e por Réville, na Holanda.

Esta teoria Crística (levada por alguns extremistas ao ponto de negarem que
Apolônio jamais tenha existido) esteve em grande voga entre escritores deste tema,
especialmente os compiladores de artigos enciclopédicos; de qualquer modo esta é
uma posição mais tolerante do que a tradicional rinha milagreira, que novamente foi
ressuscitada em toda sua antiga estreiteza por Newman, que só usa Apolônio como
pretexto para uma dissertação sobre os milagres ortodoxos, aos quais devota
dezoito das vinte e cinco páginas de seu tratado. Noack também acompanha Baur,
e em alguma medida Pettersch, ainda que trabalhe o tema no terreno da filosofia;
enquanto que Möckeberg, pastor de S. Nicolai em Hamburgo, ainda que tente ser
justo com Apolônio, termina sua prolixa dissertação com uma erupção de louvores
ortodoxos a Jesus, louvores que de modo nenhum criticamos, mas que estão
totalmente deslocados neste assunto.

A evolução da controvérsia taumatúrgica de Apolônio-Jesus para a batalha Jesus-


contra-Apolônio e mesmo Cristo-contra-Anticristo, contou com a participação de
ardentes campeões de um lado contra na melhor das hipóteses fracos protestos de
outro, é um espetáculo penoso de contemplar. Quão tristemente Jesus e Apolônio
devem ter olhado, e ainda olham, para toda essa acidez e disputa inútil sobre suas
santas pessoas. Por que a posteridade deveria colocar suas memórias uma contra
a outra? Opuseram-se eles durante suas vidas? O fizeram seus biógrafos depois de
suas mortes? Por que então a controvérsia não cessou com Eusébio? Pois
Lactâncio admite francamente o ponto levantado por Hiérocles (para exemplificar
que Hiérocles somente se referiu a Apolônio como um exemplo entre muitos) – que
“milagres” não provam divindade. Baseamos nossos argumentos, diz Lactâncio,
não sobre milagres, mas no cumprimento da profecia (isto pelo menos devolveria
Apolônio ao seu ambiente natural, e confinaria a questão da divindade de Jesus ao
seu terreno Judeu-Cristão próprio). Tivesse esta postura mais sensível sido
retomada em vez da de Eusébio, quatro séculos atrás o problema de Apolônio teria
sido considerado em seu ambiente histórico natural, e muita tinta e papel teriam
sido poupados.

Com o progresso do método crítico, entretanto, a opinião finalmente em parte


recobrou seu equilíbrio, e é bom podermos recorrer a obras que resgatam o
assunto daquele obscurantismo teológico e o devolvem ao campo aberto da
pesquisa histórica e crítica. Os dois volumes do pensador independente Legrand
d’Aussy, que apareceram bem no início do século passado, são, para a época,
notavelmente livres de preconceito, e são uma tentativa de imparcialidade histórica
digna de louvor, mas a crítica ainda era jovem naquele período. Kayser, ainda que
não mergulhe completamente na matéria, decide que o relato de Filóstrato é
puramente uma “fabularis narratio” (narração fabulosa - NT), mas encontra
oposição consistente em I. Müller, que combate por um forte elemento de história
como pano de fundo. Mas de longe a melhor análise das fontes é a de Jessen (Sou
incapaz de oferecer qualquer opinião sobre o livro de Nielsen, pela minha
ignorância do dinamarquês, mas mas ele tem todo o aspecto de um tratado
cuidadoso e erudito, com abundância de referências). O estudo de Priaulx trata
somente do episódio indiano e não tem valor crítico nenhum para a avaliação das
fontes. De todos os estudos anteriores, contudo, os trabalhos de Chassang e
Baltzer são os mais inteligentes no geral, pois ambos escritores conhecem as
possibilidades da ciência psíquica, ainda que em sua maior parte do ponto de vista
precário dos fenômenos espíritas.

Quanto ao algo pretensioso volume de Tredwell, que, sendo em inglês, é acessível


ao grande público, é largamente reacionário, e é usado como uma fachada para
uma crítica adversa das origens do Cristianismo de um ponto de vista Secularista,
que nega desde o começo a possibilidade do “milagre” em qualquer acepção desta
palavra. É introduzida uma massa de dados numismáticos e outros bem
conhecidos, que são inteiramente irrelevantes, mas que parecem ser novos e
surpreendentes para o autor, e é dado um mapa antes da página de título,
pretendendo indicar o itinerário de Apolônio, mas que tem pouca relação com o
texto de Filóstrato. Na verdade, em parte alguma Tredwell demonstra que está
trabalhando sobre o próprio texto, e o assunto, nas suas mãos, é somente uma
desculpa para uma divagante dissertação sobre o século I sob o seu próprio ponto
de vista.

Tudo isso é lamentável, pois com a exceção da tradução de Berwick, que é quase
inencontrável, não possuímos nada de valor em inglês para o leitor comum (O
Pagan Christ – Cristo Pagão – de Réville é uma completa deformação do assunto, e
o tratamento de Newman sobre a matéria transforma seu tratado em um
anacronismo para o século XX), exceto o breve esboço de Sinnett, que é descritivo
antes que crítico ou explanatório.

É o que temos, então, a respeito da história da opinião sobre Apolônio; agora


passaremos ao Apolônio de Filóstrato, e tentaremos se possível descobrir alguns
traços do homem histórico, e a natureza de sua vida e obra.

VI. O BIÓGRAFO DE APOLÔNIO

Flávio Filóstrato, o escritor da única Vida de Apolônio que chegou até nós
(consistindo de oito livros escritos em grego sob o título geral Τα ες τον Τυανεα
Απολλωνιον), era um distinguido homem de letras que viveu no último quartel do
século II e na primeira metade do século III (c. 175 – 245 d.C.). Ele era um no
círculo de escritores famosos e pensadores que se formou em torno da Imperatriz
filósofa (η θιλοιφος, vide o artigo Filóstrato, no Dicionário de Biografias Gregas e
Latinas, de Smith; Londres, 1870; iii. 327 b.) Julia Domna, que foi o espírito
dirigente do Império durante os reinados de seu marido Septímio Severo e seu filho
Caracala. Todos os três membros da família imperial eram estudantes da ciência
oculta, e era eminentemente uma época em que as artes ocultas, boas ou más,
eram uma paixão. Assim o cético Gibbon, em seu esboço de Severo e sua famosa
consorte, escreve:

“Como a maioria dos africanos, Severo era apaixonadamente dedicado aos vãos
estudos da magia e divinação, profundamente versado na interpretação dos sonhos
e augúrios, e perfeitamente conhecedor da ciência da astrologia judiciária, que em
quase todas as eras exceto a presente, manteve seu domínio sobre a mente do
homem. Ele perdeu sua primeira esposa enquanto era governador da Gália
Lionesa. Procurando uma segunda, desejou ligar-se somente a alguma favorita da
fortuna; e tão logo descobriu que uma jovem dama de Emesa, na Síria, tinha um
horóscopo régio [os itálicos são de Gibbon - NA], ele solicitou e obteve sua mão.
Julia Domna [mais corretamente Domna Julia; Domna não sendo uma abreviação
de Domina, mas sim o nome sírio da Imperatriz - NA], (sendo este seu nome),
mereceu tudo o que os astros poderiam lhe prometer. Ela possuía, mesmo em
idade avançada [morreu em 217 d.C. - NA], os encantos da beleza, unidos a uma
imaginação brilhante, raramente concedida ao seu sexo. Suas cativantes
qualidades nunca fizeram qualquer impressão profunda na sombria e ciumenta
têmpera do marido [outros historiadores sustentam o contrário - NA], mas no
reinado de seu filho, ela administrou os principais negócios do Império com uma
prudência que avalizava a autoridade dele, e com uma moderação que às vezes
corrigia as selvagens extravagâncias dele. Julia dedicou-se às letras e à filosofia
com algum sucesso, e com a mais esplêndida reputação. Ela era a patrona de
todas as artes, e a amiga de todos os homens de gênio” (Gibbon, Decline and
Fall.... – Declínio e Queda do Império Romano, I, vi).

Vemos assim, mesmo a partir da apreciação algo mordaz de Gibbon, que Domna
Julia era uma mulher de caráter notável, cujos atos externos dão evidência de um
propósito interior, e cuja vida privada não foi descrita. Foi a seu pedido que
Filóstrato escreveu a Vida de Apolônio, e foi ela quem o proveu da base de certos
manuscritos que estavam em sua posse; pois a bela filha de Bassiano, sacerdote
do Sol em Emesa, era uma ardorosa colecionadora de livros de todas as partes do
mundo, especialmente de manuscritos de filósofos e de memorandos e notas
biográficas relacionadas aos estudantes famosos da natureza interna das coisas.

Que Filóstrato era o melhor homem a ser encarregado de tão importante tarefa, não
há dúvida. É verdade que ele era um habilidoso estilista e versado homem de
letras, um crítico de arte e aficcionado antiqüário, como podemos ver por seus
outros livros; mas ele era um sofista antes que um filósofo, e mesmo sendo um
entusiástico admirador de Pitágoras e sua escola, o era à distância, considerando-
os mais através de uma adorável e maravilhosa atmosfera de curiosidade e dos
embelezamentos de uma imaginação vivaz do que de um conhecimento pessoal de
sua disciplina, ou de um conhecimento prático das forças ocultas da alma com que
lidavam seus adeptos. Temos, portanto, que esperar um esboço da aparência de
uma coisa desde fora, antes que uma exposição da coisa em si desde dentro.

Abaixo damos uma listagem das fontes de onde derivaram suas informações a
respeito de Apolônio (uso inteiramente as edições do texto de Kayser de 1846 e
1870):

“Coletei meu material em parte das cidades que o amaram, em parte dos templos
cujos ritos e regras ele restaurou de seu antigo estado de negligência, e em parte
de suas próprias cartas [uma coleção destas cartas – mas não de todas – esteve
em posse do Imperador Adriano (117 – 138 d.C.), e foi depositada em seu palácio
de Âncio (viii, 20). Isto prova a grande fama que Apolônio desfrutava logo depois de
seu desaparecimento da história, e enquanto sua memória ainda era viva. Deve ser
notado que Adriano era um governante esclarecido, um grande viajante, um amante
da religião, e um iniciado nos Mistérios de Elêusis – NA]. Informações mais
detalhadas eu procurei do seguinte modo. Damis foi um homem de alguma
educação que antes costumava viver na antiga cidade de Ninus [Nínive – NA].
Tornou-se um discípulo de Apolônio e registrou suas viagens, nas quais ele diz que
também tomou parte, e também as concepções, ditos e predições de seu mestre.
Um membro da família de Damis trouxe à Imperatriz Julia seu livro de notas [τας
δελτους, tabuletas de escrever. Isto sugere que o relato de Damis não poderia ser
muito volumoso, ainda que Filóstrato mais adiante assegure sua natureza detalhada
(i, 19) - NA] contendo estas memórias, que até então não eram conhecidas. Como
eu era um do círculo da princesa, que era uma amante e patrona de todas as
produções literárias, ela me ordenou que reescrevesse estes esboços e melhorasse
sua forma de expressão, pois o ninivita expressou-se claramente, mas seu estilo
estava longe de ser correto. Também tive acesso a um livro de Máximo de Egue
[um dos secretários imperiais da época, famoso por sua eloqüência, e tutor de
Apolônio - NA], que continha todos os feitos de Apolônio em Egue [uma cidade não
longe de Tarso – NA]. Também há um testamento escrito por Apolônio, onde
podemos conhecer como ele quase desdenha a filosofia ως υποφεαζων την
φσλοσφιαν εγενετο. O termo υποφεαζων ocorre só nesta passagem, e não estou
bem seguro de seu significado – NA]. Quanto aos quatro livros de Merágenes [esta
Vida, de Merágenes, é casualmente mencionada por Orígenes, Contra Celsum, vi,
41; ed. Lommatzsch; Berlin, 1841; ii, 373 – NA] sobre Apolônio, não merecem
atenção, pois ele não sabe nada sobre a maioria dos fatos de sua vida” (i, 2,3).

A estas fontes é que Filóstrato deve sua informação, fontes que infelizmente já não
existem, exceto talvez umas poucas cartas. Tampouco Filóstrato poupou quaisquer
esforços para reunir mais informações sobre o assunto, pois em suas palavras
finais (viii, 31), ele nos conta que ele próprio viajou para muitas partes do “mundo” e
em toda parte deparou-se com os “ditos inspirados” (λογοις δαι•ονιος) de Apolônio,
e que ele conhecia especialmente bem o templo dedicado à memória de nosso
filósofo de Tíana e fundado às expensas imperiais (“pois os imperadores não o
julgaram indigno de honras semelhantes às devidas a eles mesmos”), cujos
sacerdotes, presume-se, tinham reunido toda informação que podiam a respeito de
Apolônio.

Uma análise inteiramente crítica do esforço de Filóstrato, portanto, deve levar em


conta todos estes fatores, e tentar assignar todas as declarações às suas fontes
originais. Mas mesmo então a tarefa do historiador seria incompleta, pois é
transparentemente óbvio que Filóstrato “embelezou” consideravelmente a narrativa
com numerosas notas e acréscimos próprios e com a composição de diálogos.

Já que os antigos escritores não separavam suas notas do texto, ou destacavam-


nas de um modo nítido, temos de estar constantemente em guarda para distinguir
as fontes originais das glosas do escritor (raramente temos uma indicação tão clara
como, por exemplo, em i, 25: “O que segue é o que eu fui capaz de saber... sobre a
Babilônia.”). De fato Filóstrato está sempre tirando partido da menção de um nome
ou tema para demonstrar seu próprio conhecimento, o qual é freqüentemente de
uma natureza altamente legendária e fantástica. Especialmente este é o caso na
descrição das viagens de Apolônio à Índia. Naquela época e por muito tempo
depois a Índia era considerada “o fim do mundo”, e uma infinidade das mais
estranhas “histórias de viajantes” e fábulas mitológicas estavam em circulação a
seu respeito. Só temos que ler os relatos dos escritores sobre a Índia (vide E.A.
Schwanbeck, Megasthenis Indica – A índia, por Megástenes; Bonn, 1846; e J.W.
McCrindle, Ancient India as described by Megásthenes e Arrian – A Índia descrita
por Megástenes e Arriano, Calcutá, Bombaim, Londres, 1877; The Commerce and
Navigation of the Erythraean Sea – O Comércio e Navegação do Mar Eritreu, 1879;
Ancient India as described by Ktesias – A Ìndia descrita por Ktésias, 1882; Ancient
India as described by Ptolemy – A Ìndia descrita por Ptolomeu, Londres, 1885; e
The Invasion of India by Alexander the Great – A Invasão da Índia por Alexandre o
Grande, Londres, 1893, 1896) do tempo de Alexandre em diante para descobrirmos
a fonte dos mais estranhos incidentes que Filóstrato registra como experiências de
Apolônio. Para tomarmos apenas um exemplo dentre centenas, Apolônio tinha de
cruzar o Cáucaso, um nome genérico para o grande sistema de montanhas que
guardam o limite norte de Âryâvarta. Prometeu foi acorrentado ao Cáucaso, como
todas as crianças têm aprendido durante séculos. Portanto, se Apolônio cruzou o
Cáucaso, deve ter visto aquelas correntes. E assim foi, conforme nos assegura
Filóstrato (ii,3). Não só isso, mas ele livremente acrescenta a informação de que
ninguém poderia dizer de que material elas eram feitas! Uma consulta a
Megástenes, contudo, logo reduz a longa narrativa de Filóstrato sobre as viagens
indianas de Apolônio (i, 41 – iii, 58) para um âmbito bem mais estreito, pois página
após página é pura invenção, retirada das numerosas histórias indianas às quais
nosso ilustrado escritor tinha acesso (um outro bom exemplo é encontrado na
discussão sobre os elefantes que Filóstrato toma da História da Líbia, de Juba, ii, 13
e 16). A julgar por estes escritores, Poro (talvez um título, ou o Rei de Purus), o rajá
vencido por Alexandre, era o legendário rei da Índia. De fato, falando sobre a Índia
ou qualquer outro país pouco conhecido, um escritor de então tinha de nutrir-se de
todas estas lendas associadas ou teria pouca chance de se fazer ouvir. Tinha de
dar à sua narrativa uma “cor local”, e este foi o caso especialmente em um esforço
retórico como o de Filóstrato.

Além disso, era moda inserir diálogos e colocá-los na boca de personagens bem
conhecidos em ocasiões históricas, e bons exemplos disto podem ser vistos em
Tucídides e no Ato dos Apóstolos. Filóstrato faz isso repetidamente.

Mas nos alongaríamos demais se entrássemos em uma investigação detalhada do


assunto, ainda que o escritor tenha preparado notas sobre todos estes pontos, pois
isso daria um volume inteiro e não um esboço. Só poucos pontos são dados
doravante, para alertar o estudante para que esteja sempre atento e separe
Filóstrato de suas fontes (não que Filóstrato de algum modo dissimule seus
embelezamentos; vide, por exemplo, ii, 17, onde ele diz: “Deixe-me, porém, contar o
que eu tenho a dizer sobre o assunto das serpentes, da maneira de caçá-las que é
descrita por Damis”).

Mas ainda que devamos estar agudamente atentos para a importância de uma
atitude inteiramente crítica onde fatos históricos definidos estão envolvidos,
deveríamos estar em guarda da mesma maneira contra o julgamento de tudo a
partir do ponto de vista dos preconceitos modernos. Há somente uma literatura da
antigüidade que foi tratada sempre com real simpatia no ocidente, e é a Judeu-
Cristã; só nela as pessoas foram treinadas para se sentirem à vontade, e tudo na
antigüidade que trata da religião de um modo diverso do Judeu ou do Cristão, é
sentido como estranho, e, se obscuro ou extraordinário, como repulsivo. Os ditos e
feitos dos profetas Judeus, ou de Jesus, e dos Apóstolos, são relatados com
reverência, embelezados com as maiores formosuras de fraseado, e iluminados
com o melhor pensamento da época; enquanto que os ditos e feitos de outros
profetas e instrutores têm sido em sua maior parte sujeitos à crítica mais antipática,
na qual não é feita nenhuma tentativa de entender seus pontos de vista. Tivesse um
julgamento benevolente sido concedido em toda a volta, o mundo hoje seria muito
mais rico em entendimento, em liberalidade de mente, em compreensão da
natureza, da humanidade e de Deus, em resumo, em experiência da alma.

Portanto, ao lermos a Vida de Apolônio, lembremos que devemos encará-la com os


olhos de um Grego, e não com os de um Judeu ou um Protestante. O Múltiplo em
sua própria esfera deve ser para nós uma manifestação tão autêntica do Divino
como o Um ou o Todo, pois de fato os “Deuses” existem a despeito da lei e do
credo. Os Santos e Mártires e Anjos aparentemente têm tomado o lugar dos Heróis
e Daimons e Deuses, mas a mudança de nome e de ponto de vista entre os
homens afeta muito pouco os fatos imutáveis. Sentir os fatos da religião universal
debaixo dos nomes sempre em mudança que os homens lhes atribuem, e então
penetrar plenamente simpáticos e compreensivos nas esperanças e temores de
cada fase da mentalidade religiosa – ler, talvez, as vidas passadas de nossas
próprias almas, é uma tarefa das mais difíceis. Mas até que consigamos nos
colocar compreensivamente no lugar de outros, jamais veremos mais que um lado
da Infinita Vida de Deus. Um estudante de religião comparada não deve temer os
nomes; ele não deve se intimidar quando depara-se com o “politeísmo”, ou
horrorizar-se quando encontra o “dualismo”, ou sentir uma satisfação maior quando
chega no “monoteísmo”; ele não deve assombrar-se quando pronuncia o nome de
Javé e desprezar o nome de Zeus; não deve imaginar um sátiro quando lê a palavra
“daimon”, ou figurar um sonho alado de beleza quando pronunciar a palavra “anjo”.
Para ele a heresia e a ortodoxia não devem existir; ele vê apenas sua própria alma
lentamente elaborando sua própria experiência, olhando para a vida de todos os
ângulos possíveis, de modo que eventualmente enfim ela possa ver o todo, e tendo
visto o todo, possa unificar-se a Deus.

Para Apolônio a mera forma da fé de um homem não era o essencial; ele estava em
casa em todas as terras, entre todos os cultos. Tinha uma palavra de auxílio para
todos, e um conhecimento íntimo do caminho particular de cada um, o que lhe
possibilitava devolvê-los à saúde. Tais homens são raros; os registros de tais
homens, preciosos, e não requerem nenhum embelezamento retórico.
Tentemos então, primeiramente, recuperar o perfil da primeira vida exterior e das
viagens de Apolônio, livre dos embelezamentos de Filóstrato, e então tentemos
considerar a natureza de sua missão, a feição da filosofia que ele tanto amava e
que para ele era sua religião, e enfim, se possível, o modo de sua vida interior.

VII. PRIMEIROS ANOS

Apolônio nasceu em Tíana (lendas das maravilhas que ocorreram no seu


nascimento estavam em circulação, e têm a mesma natureza de todas as lendas de
nascimento de grandes personagens), uma cidade no sul da Capadócia, em algum
momento dos primeiros anos da era Cristã, Seus pais eram de antiga linhagem e
considerável fortuna (i, 4). Numa idade precoce deu sinais de memória prodigiosa e
disposição estudiosa, e era notável por sua beleza. Com a idade de 14 anos foi
enviado a Tarso, um afamado centro de estudos daquele tempo, para completar
sua instrução. Mas mera retórica e estilo e a vida das “escolas” eram pouco afins ao
seu espírito sério, e ele logo passou a Egue, uma cidade no litoral a leste de Tarso.
Lá encontrou um ambiente mais adequado às suas necessidades, e mergulhou com
ardor no estudo da filosofia. Tornou-se íntimo de sacerdotes do templo de
Esculápio, onde curas ainda eram realizadas, e desfrutou da sociedade e instrução
de discípulos e instrutores das escolas de filosofia Platônica, Estóica, Peripatética e
Epicurista; mas mesmo tendo estudado estes sistemas de pensamento com
atenção, foram as lições da escola Pitagórica que ele absorveu com uma
extrordinária profundeza de compreensão (αρρητω τινι σοφια ενελαβε), mesmo que
seu professor, Euxeno, fosse apenas um repetidor das doutrinas e não um
praticante da disciplina. Mas tal repetição não era o suficiente para o espírito ávido
de Apolônio; sua “memória” extraordinária, que infundiu vida nas secas lições de
seu tutor, levaram-no adiante, e com dezesseis anos “ele elevou-se à vida
Pitagórica, levantado por algum Grande” (Sci., seu tutor então; isto é, a “memória”
dentro dele, ou seu “daimon”). Não obstante ele reteve sua afeição pelo homem que
lhe mostrara o caminho, e recompensou-o generosamente (i, 7).

Quando Euxeno perguntou-lhe como ele iniciaria seu novo modo de vida ele
respondeu: “Como o doutor purga seus pacientes”. Daí em diante ele recusou tocar
qualquer coisa que tivesse tido vida animal, considerando que isso densifica a
mente e a torna impura. Ele considerava que a única forma de alimentação pura era
a produzida pela terra: frutas e vegetais. Também se abstinha do vinho, pois
mesmo sendo feito de frutas, “tornava o éter túrbido [presumivelmente a substância
mental – NA] na alma”, e “destruía a compostura da mente”. Mais ainda, andava
descalço, deixou seu cabelo crescer livremente, e vestia-se somente com tecidos
de linho. Agora vivia no templo, para a admiração dos sacerdotes e com a
aprovação expressa de Esculápio (isto é, presumivelmente ele foi encorajado em
seus esforços por aqueles auxiliares invisíveis do templo através de quem as curas
eram indicadas através de sonhos, e ajuda era dada de modo psíquico e
mesmérico) e rapidamente se tornou tão famoso por seu ascetismo e vida pia, que
uma frase dos cilícios sobre ele (“Para onde estão correndo? Apressam-se para ver
o jovem?”) se tornou um provérbio (i, 8).

Com a idade de vinte anos seu pai morreu (sua mãe havia morrido alguns anos
antes), deixando considerável fortuna, que Apolônio dividiria com seu irmão mais
velho, um jovem selvagem e dissoluto de 23 anos. Sendo ainda menor, Apolônio
continuou a morar em Egue, onde o templo de Esculápio havia se tornado um
movimentado centro de estudos, e reverberava de um extremo a outro ao som dos
elevados discursos filosóficos. Chegando à maioridade, voltou a Tíana para tentar
salvar seu irmão de sua vida viciosa. Seu irmão aparentemente já havia dissipado
sua parte da herança, e Apolônio imediatamente deu metade de sua própria parte
para ele, e através de seus conselhos gentis devolveu-o à humanidade. De fato
parece ter devotado este tempo para colocar em ordem os assuntos da família, pois
então distribuiu o restante de seu patrimônio entre alguns parentes, mantendo para
si apenas uma mínima parte; precisava de pouco, dizia, e jamais casaria (i, 13).

Então fez um voto de silêncio por cinco anos, pois determinou-se que não
escreveria sobre filosofia antes de ter passado por toda sua disciplina. Estes cinco
anos foram passados na Panfília e na Cilícia, e ainda que passasse muito tempo
em estudo, não emparedou-se numa comunidade ou mosteiro, mas manteve-se em
movimento nas proximidades e viajava de cidade em cidade. As tentações de
quebrar seu voto auto-imposto foram enormes. Sua estranha aparência chamava a
atenção de todos, e o populacho amante do chiste fez o silencioso filósofo o alvo de
sua verve inescrupulosa, e toda a proteção que tinha contra suas insolências e mal-
entendidos era a dignidade de seu semblante e o olhar de seus olhos que agora
podiam ver o passado e o futuro. Muitas vezes esteve a ponto de imprecar contra
algum excepcional insulto ou falatório mentiroso, mas sempre se conteve com as
palavras: “Coração, sê paciente, e tu, língua, fica quieta” (compare com a Odisséia,
xx, 18) (i, 14).

Mesmo esta férrea repressão da fala comum não o impedia de fazer o bem. Já
nesta idade juvenil ele havia começado a corrigir abusos. Com olhos e mãos e
movimentos da cabeça, fazia-se entender, e em uma ocasião, em Aspendo, na
Panfília, evitou um grave furto de grãos silenciando a turba com seus gestos
imperiosos e então escrevendo o que queria dizer sobre uma tabuleta (i, 15).

Até aqui, aparentemente, Filóstrato depende do relato de Máximo de Egue, ou


talvez só até a época em que Apolônio deixou Egue. Agora há uma lacuna
considerével na narrativa, e tudo o que Filóstrato pôde produzir foram dois breves
capítulos de vagas generalidades (i, 16, 17) sobre cerca de 15 ou 20 anos (sou
inclinado a pensar, contudo, que Apolônio ainda era um homem jovem quando
iniciou sua viagem à Índia, em vez de ter já 46 anos, como alguns supõem. Mas as
dificuldades da maior parte da cronologia são insuperáveis), até que começam as
notas de Damis.

Depois dos cinco anos de silêncio, encontramos Apolônio em Antióquia, mas isto
parece ter sido apenas um incidente em uma longa série de viagens e trabalho, e é
provável que Filóstrato saliente Antióquia meramente porque o pouco que sabia
sobre este período da vida de Apolônio havia conseguido nesta movimentada
cidade. Mesmo do próprio Filóstrato sabemos incidentalmente mais adiante (i, 20;
iv, 38) que Apolônio havia passado algum tempo entre os Árabes, e havia sido
instruído por eles. E por Arábia entendemos o sul da Palestina, que nesta época
acolhia numerosas comunidades místicas. Os locais que visitou eram fora das
rotas, onde reinava o espírito da solitude, e não as populosas e agitadas cidades,
pois o tema de sua conversação, dizia, requeria “homens, e não povo” (φησας ουκ
ανφρπν εαυτω δειν αλλ ανδρων). Ele passou o tempo viajando de um a outro
destes templos, santuários e comunidades; de onde podemos concluir que havia
entre eles algo semelhante a um tipo de maçonaria comum, da natureza de uma
iniciação, que franqueava-lhe as portas de sua hospitalidade.

Mas onde quer que fosse, sempre observava uma divisão regular do dia. Ao nascer
do sol praticava certos exercícios religiosos sozinho, cuja natureza ele só transmitia
a quem passasse a disciplina dos “quatro anos” (cinco anos?) de silêncio. Então
palestrava com os sacerdotes do templo ou os líderes das comunidades, conforme
estava em um templo grego ou não-grego com ritos públicos, ou em uma
comunidade com uma disciplina peculiar à parte do culto público (ιδιοτοπα).

Então tentava trazer os cultos públicos de volta à pureza de suas tradições antigas,
e sugerir melhoramentos nas práticas das irmandades privadas. A parte mais
importante de seu trabalho era com aqueles que estavam seguindo a vida interna, e
que já olhavam Apolônio como um instrutor do caminho oculto. A estes camaradas
(εταιρους) e discípulos (ο•ιλητας), devotava muita atenção, estando sempre pronto
para responder suas perguntas e dar conselhos e instrução. Não que nisso
negligenciasse o povo; era seu costume invariável ensiná-lo; pois os que viviam a
vida interior (τους ουτω φιλοσοφουντας), ele dizia, deveriam ao raiar do dia entrar
na presença dos Deuses (isto é, presumivelmente, passar algum tempo em
meditação silenciosa), e então passar o tempo até o meio-dia dando e recebendo
instrução nas coisas santas, e só depois devotar-se aos afazeres humanos. Isto é,
a manhã era devotada por Apolônio à ciência divina, e a tarde, à instrução em ética
e na vida prática. Depois do trabalho do dia ele se banhava em água fria, como
faziam tantos místicos da época naquelas terras, notavelmente os Essênios e os
Terapeutas (i, 16).

“Depois destas coisas”, diz Filóstrato, tão vagamente como o escritor de uma
narrativa evangélica, Apolônio determinou-se a visitar os Brachmanes e Sarmanes
(isto é, os Brâmanes e Budistas. sarman é a corruptela grega do sânscrito
shramana e do páli samano, o termo técnico para um asceta ou monge Budista. A
ignorância dos copistas mudou sarmanes primeiro para germanes e depois para
hircanianos!). O que induziu nosso filósofo a fazer tão longa e perigosa jornada não
é esclarecido por Filóstrato, que diz simplesmente que Apolônio imaginou ser uma
boa coisa para um jovem viajar (isto mostra que Apolônio ainda era jovem, e não
entre 40 e 50, como alguns têm afirmado. Tredwell, p. 70, data as viagens indianas
em 41-54 d.C.). É mais que evidente, contudo, que Apolônio jamais viajou
meramente por amor da viagem. O que ele faz, faz com um propósito específico. E
seus guias nesta ocasião, como assevera a seus discípulos que tentavam dissuadí-
lo de seu projeto e recusaram acompanhá-lo, foram a sabedoria e seu orientador
interno (daimon). “Já que sois fracos de coração”, diz o peregrino solitário, “dou-vos
meu adeus. Pois eu mesmo devo ir onde quer que a sabedoria e meu eu interior me
levarem. Os Deuses são meus conselheiros e não posso fiar-me senão em suas
direções” (i, 18).

VIII. AS VIAGENS DE APOLÔNIO

E assim Apolônio parte de Antióquia e viaja para Ninus, relíquia da uma vez grande
Nina ou Nínive. Lá encontra com Damis, que se torna seu companheiro constante e
fiel discípulo. “Vamos juntos”, diz Damis em palavras que nos lembram algo das de
Rute, “tu seguindo Deus e eu a ti!” (i, 19)

Deste ponto em diante Filóstrato declara basear-se em grande medida na narrativa


de Damis, e antes de prosseguirmos, é necessário tentarmos formar uma imagem
do caráter de Damis, e descobrir até que ponto ele foi admitido na verdadeira
confiança de Apolônio.

Damis era um entusiasta que amava Apolônio com um afeto apaixonado. Ele via
em seu mestre um ser quase divino, possuidor de poderes maravilhosos que
continuamente o assombravam, mas que jamais pôde entender. Como Ânanda, o
discípulo favorito de Buda e seu companheiro constante, Damis avançou só
lentamente na compreensão da real natureza da ciência espiritual; ele tinha sempre
de ficar nos recintos externos dos templos e comunidades a cujos santuários e
círculos internos Apolônio tinha pleno acesso, enquanto que ele freqüentemente
professa sua ignorância dos planos e propósitos de seu mestre (vide especialmente
iii, 15, 41; v, 5, 10; vii, 10, 13; viii, 28). O fato adicional que ele inscreve em suas
notas como as “migalhas” (εκφατνισ•ατα) das “festas dos Deuses” (i, 19), aqueles
festejos que ele na maior parte das vezes podia conhecer só de segunda mão pelo
pouco que Apolônio julgava conveniente lhe contar, e que ele sem dúvida
geralmente compreendia mal e revestia com suas próprias fantasias, confirmará
isso, se alguma confirmação é necessária. Mas de fato é claramente manifesto em
toda parte que Damis estava fora do círculo da iniciação, e isso explica tanto seu
amor pelas maravilhas quanto sua superficialidade geral.

Um outro fato que sobressai na narrativa é sua natureza tímida (vide especialmente
vii, 13, 14, 15, 223). Ele teme constantemente por si e por seu mestre; e mesmo
perto do fim, quando Apolônio é preso por Domiciano, ele precisa ver com seus
próprios olhos a remoção sobrenatural das correntes que prendiam Apolônio para
convencer-se de que ele era uma vítima voluntária.

Damis ama e se maravilha; agarra um detalhe irrelevante e o amplifica, enquanto


que pode falar das coisas realmente importantes só o que ele fantasia ter ocorrido a
partir de poucas sugestões de Apolônio. À medida que a história avança, realmente
ele adquire um tom mais sóbrio; mas o que Damis omite, Filóstrato está sempre
pronto para suprir com seu próprio estoque de prodígios, se a chance aparece.

De qualquer maneira, mesmo que tivéssemos o escalpelo da crítica para cortar fora
cada pedaço de carne deste corpo de tradição e lenda, ainda restaria um esqueleto
de fatos que representariam Apolônio e nos dariam uma idéia de sua estatura.

Apolônio foi um dos maiores viajantes conhecidos da antigüidade. Dentre os países


e lugares que visitou os que se seguem são os principais que foram registrados por
Filóstrato (a lista está repleta de lacunas, pois não podemos supor que as notas de
Damis sejam algo semelhante a um registro completo dos numerosos itinerários;
não só isso, mas somos tentados a crer que todas as viagens em que Damis não
tomou parte estão omitidas).

De Ninus (i, 19) Apolônio passa para Babilônia (i, 21), onde permanece um ano e
oito meses (i, 40), e visita as cidades vizinhas de Ecbatana, a capital da Média (i,
39); de Babilônia até a fronteira da Índia nenhum nome é mencionado; a Ìndia foi
atingida provavelmente através do Passo Khaibar (ii, 6) (aqui de qualquer forma
eles vislumbram as gigantescas montanhas do Imaus, ou Himavat, ou Cordilheira
do Himalaia, onde estava o grande monte Meros, ou Meru. O nome do Olimpo
hindu, mudado para Meros em grego, desde o tempo da expedição de Alexandre,
deu margem ao mito de que Baco nascera da coxa – meros - de Zeus –
presumivelmente um dos fatos que levaram o Prof. Max Müller a estigmatizar toda a
mitologia como uma “doença da linguagem”), pois a primeira cidade que é
mencionada é Taxila (Attock) (ii, 20); e assim seguem caminho através dos
tributários do Indo (ii, 43) até o vale do Ganges (iii, 5), e finalmente chegam ao
“mosteiro dos sábios” (iii, 10), onde Apolônio passa quatro meses (iii, 50).

Este mosteiro provavelmente se localizava no Nepal; é nas montanhas, e a “cidade”


mais próxima é Paraca. O caos que Filóstrato fez da história de Damis, e antes dele
as maravilhosas transformações que o próprio Damis fez nos nomes indianos, é
presumivelmente demonstrado por esta palavra. Paraca, talvez, é tudo o que Damis
pôde fazer com Bharata, o nome genérico do vale do Ganges onde os árias
dominantes se estabeleceram. Também é provável que estes sábios fossem
Budistas, pois eles vivem em um τυρσις, um lugar que a Damis parecia um forte ou
fortaleza.

Tenho poucas dúvidas que Filóstrato não poderia conceber nada da geografia da
Índia a partir dos nomes no diário de Damis; todos lhe são desconhecidos, de modo
que tão logo esgota os poucos nomes gregos conhecidos por ele a partir dos
relatos da expedição de Alexandre, perde-se ele “nos confins da Terra”, e nada
pode fazer até que encontre novamente nossos viajantes já a caminho de volta na
embocadura do Indo. O fato saliente de que Apolônio estava estabelecendo uma
certa comunidade, o que era seu objetivo específico, impressionou tanto a
imaginação de Filóstrato (e provavelmente a de Damis antes dele) que ele a
descreveu como sendo a única em seu gênero na Índia. Apolônio foi à Índia com
um propósito e voltou de lá com uma missão diferente (referindo-se aos seus
instrutores ele diz: “Sempre me lembro de meus mestres e viajo por todo o mundo
ensinando o que aprendi deles”; vi, 18); e talvez suas incessantes indagações a
respeito daqueles “sábios” que ele procurava, induziram Damis a imaginar que só
eles fossem os “Gimnosofistas”, os “filósofos nus” (se formos tomar a palavra ao pé
da letra) da popular lenda grega, que igorantemente atribuía a todos os ascetas
hindus as mais extraordinárias peculiaridades que na verdade pertenciam só a um
reduzido grupo. Mas voltemos ao nosso itinerário.

Filóstrato embeleza o relato da viagem do Indo até a foz do Eufrates (iii, 52-58) com
as lendas de viajantes e nomes de ilhas e cidades que ele apanhou nos livros de
histórias da Índia que lhe eram acessíveis, e assim novamente voltamos à Babilônia
e à geografia familiar seguindo este itinerário: Babilônia, Ninus, Antióquia, Selêucia,
Chipre; e então a Jônia (iii, 58), onde ele passa um tempo na Ásia Menor,
especialmente em Éfeso (iv, 1), Esmirna (iv, 5), Pérgamo (iv, 9), e Tróia (iv, 11. Daí
Apolônio cruza para Lesbos (iv, 13), e subseqüentemente embarca para Atenas,
onde passa alguns anos na Grécia (iv, 17-33), visitando os templos da Hélade,
reformando seus ritos e instruindo os sacerdotes (iv, 25). A seguir o encontramos
em Creta (iv, 34) e depois em Roma no tempo de Nero (iv, 36-46).

Em 66 d.C. Nero emitiu um decreto proibindo qualquer filósofo de permanecer em


Roma, e Apolônio mudou-se para a Espanha, e desembarcou em Gades, a
moderna Cádiz; parece ter ficado na Espanha só um curto período (iv, 47); daí
cruzou para a África, e por mar de novo à Sicília, onde visitou as principais cidades
e templos (v, 11-14). Então Apolônio voltou à Grécia (v, 18), tendo transcorrido
quatro anos desde sua chegada em Atenas a partir de Lesbos (v, 19) (de acordo
com alguns, Apolônio estaria então com 68 anos de idade. Mas se ainda era jovem,
digamos em torno dos 30 anos, quando partiu para a Índia, ele então deve ter
passado um longo período naquele país, ou temos um registro muito imperfeito de
seus feitos na Ásia Menor, Grécia, Itália e Espanha, depois de seu regresso).

Do Pireu nosso filósofo embarca para Quios (v, 21), depois para Rodes e então
para Alexandria (v, 24). Em Alexandria ele passa algum tempo, e tem vários
encontros com o futuro Imperador Vespasiano (v, 27-41), e então empreende uma
longa viagem Nilo acima até a Etiópia, além das cataratas, onde ele visita uma
interessante comunidade de ascetas chamados vagamente de Gimnosofistas (vi, 1-
27).

Em seu retorno a Alexandria (vi, 28), ele foi convidado por Tito, recém coroado
Imperador, para encontrá-lo em Tarso. Depois deste encontro ele parece ter
retornado ao Egito, pois Filóstrato fala vagamente de ele ter passado algum tempo
no Baixo Egito, e sobre visitas aos fenícios, cilícios, jônios, aqueus, e também à
Itália (vi, 35).

Mas Vespasiano foi imperador de 69 a 79, e Tito, de 79 a 81. Como a entrevista


com Vespasiano ocorreu logo antes do início do reinado daquele imperador, é
razoável concluir que um número de anos foi gasto por nosso filósofo nesta viagem
à Etiópia, e que portanto a narração de Damis é das mais imperfeitas. Em 81
Domiciano tornou-se Imperador, e assim como Apolônio se opôs às loucuras de
Nero, igualmente criticou os atos de Domiciano. Com isso naturalmente ele se
tornou objeto de suspeita para o Imperador; mas em vez de permanecer longe de
Roma, ele determinou-se enfrentar o tirano face a face. Cruzando do Egito para a
Grécia e tomando um barco em Corinto, navegou pelo caminho da Sicília até
Puteoli, e então até a boca do Tibre, e daí para Roma (vii, 10-16). Ali Apolônio foi
preso e liberado (vii 17-viii, 10). Embarcando de Puteoli, novamente Apolônio voltou
à Grécia (viii, 15), onde passou dois anos (viii, 24). Então uma vez mais passou
para a Jônia na época da morte de Domiciano (viii, 25), visitando Esmirna e Èfeso e
outros de seus lugares favoritos. Então sob algum pretexto ele envia Damis para
Roma (viii, 28) e – desaparece; isto é, se podemos especular, ele empreendeu uma
outra viagem até o lugar amado acima de todos, a “terra dos sábios”.

Mas Domiciano foi morto em 96 d.C., e um dos últimos atos registrados de Apolônio
é sua visão deste evento no momento de sua ocorrência. Portanto o julgamento de
Apolônio em Roma teve lugar em torno de 93, e temos um intervalo de 12 anos
desde sua entrevista com Tito em 81, que Filóstrato só pode preencher com umas
poucas histórias vagas e generalidades.

Sobre sua idade na época de seu misterioso desaparecimento das páginas da


história, Fillóstrato diz que Damis não fala nada; mas alguns, acrescenta, dizem que
ele estava com 80, alguns com 90, e outros mesmo com 100 anos.

A estimativa de 80 anos parece concordar melhor com o resto das indicações


cronológicas, mas não há certeza no assunto com os materiais de que dispomos
hoje. Este é, pois, o perfil geográfico, por assim dizer, da vida de Apolônio, e
mesmo o mais displicente leitor deste esqueleto descarnado das jornadas
registradas por Filóstrato deve ficar impressionado com a indômita energia do
homem, e seu poder de perseverança.

Agora voltaremos nossa atenção a um ou dois pontos de interesse ligados aos


templos e comunidades que ele visitou.

IX. NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS E RETIROS RELIGIOSOS

Percebendo que a natureza dos negócios de Apolônio com os sacerdotes dos


templos e os devotos da vida mística era necessariamente do caráter mais íntimo e
secreto, pois naqueles dias era o costume invariável traçar uma nítida linha de
demarcação entre o interno e o externo, o iniciado e o profano, não devemos
esperar que possamos saber do relato de Damis e Filóstrato qualquer coisa exceto
meras exterioridades; não obstante, mesmo estas indicações externas são
interessantes.

O templo de Esculápio em Egue, onde Apolônio passou os anos mais


impressionáveis de sua vida, era um dos inúmeros hospitais da Grécia, onde a arte
curativa era praticada em linhas totalmente diferentes dos nossos métodos de hoje.
Somos logo apresentados a uma atmosfera carregada de influências psíquicas, a
um centro onde durante séculos os pacientes acorreram para “consultar o Deus”. A
fim de fazê-lo, era-lhes necessário passar por certas purificações preliminares e
seguir certas regras prescritas pelos sacerdotes; então passavam a noite no
santuário e em seu sono eram-lhes dadas instruções para a sua cura. Este método,
sem dúvida, só era empregado quando a habilidade do sacerdote era insuficiente;
de qualquer modo, os sacerdotes deviam ser profundamente versados na
interpretação daqueles sonhos e em sua causa básica. Também é evidente que
como Apolônio amava passar seu tempo no templo, ele deve ter encontrado lá
satisfação para suas necessidades espirituais, e instrução na ciência interna; ainda
que sem dúvida seus próprios poderes inatos logo o levassem para além de seus
instrutores e o assinalassem como um “favorito do Deus”. Os muitos casos
registrados em nossos dias de pacientes em transe ou em outras condições
psíquicas receitando para si mesmos, ajudarão o estudante a entender as
inumeráveis possibilidades de cura que na Grécia coroavam-se na personificação
de Esculápio.

Mais tarde o chefe dos sábios indianos faz um discurso sobre Esculápio e sua arte
curativa (iii, 44), onde toda a medicina é dita depender do diagnóstico psíquico e da
presciência (•αντεια).
Finalmente pode ser percebido que era costume invariável dos pacientes recordar
o fato de sua recuperação com uma tabuleta de ex-voto no templo, precisamente
como ainda hoje é feito em países Católicos Romanos (para o mais recente estudo
sobre Esculápio em inglês vide The Cult of Asclepios, de Alice Walton, Ph.D, em
Cornell Studies in Classical Philology – Estudos da Universidade de Cornell sobre
Filologia Clássica, n° III, Ithaca, NY, 1894).

Em sua viagem à Índia Apolônio viu muitos Magos na Babilônia. Ele costumava
visitá-los ao meio-dia e à meia-noite, mas o que transpirava disto Damis não sabia,
pois Apolônio não teria permitido acompanhá-lo, e ao responder à sua pergunta
direta diria somente: “Eles são sábios, mas não em todas as coisas” (i, 26).

A descrição de certo edifício, entretanto, a que Apolônio tinha acesso, parece ser
uma versão deturpada do interior do templo. O telhado era em forma de cúpula, e o
forro do teto era coberto de “safiras”; neste céu azul havia modelos dos corpos
celestes (“aqueles que eles consideram Deuses”), revestidos de ouro, como se se
movessem no éter. Além disso do teto estavam suspensos quatro “lygges” de ouro,
que os Magos chamavam de “Línguas dos Deuses”. Eram anéis ou esferas aladas
relacionadas à idéia de Adrasteia (ou Destino). Seus protótipos são descritos
imperfeitamente na Visão de Ezequiel, e as assim chamadas strophali ou spherulae
Hecatinas usadas em práticas mágicas podem ter sido descendentes degeneradas
destas “rodas vivas” ou esferas dos elementos vitais. O assunto é do mais vivo
interesse, mas desesperadamente impossível de ser trabalhado em nossa presente
era de ceticismo e profunda ignorância do passado. Os “Deuses” que ensinaram
nossa humanidade infante [eram] mais elevados que os que hoje evoluem em
nossa Terra. Eles deram o impulso, e, quando os filhos da Terra se tornaram
crescidos o suficiente para andarem com seus próprios pés, eles se retiraram. Mas
a memória de seus feitos e uma forma corrompida e degenerada dos mistérios que
estabeleceram permaneceu sempre na lembrança do mito e da lenda. Os videntes
captaram obscuros vislumbres do que eles ensinaram e como o fizeram, e a
tradição dos Mistérios preservou alguma coisa disso em seus símbolos e
instrumentos ou maquinismos. As lygges dos Magos diz-se que eram uma relíquia
desta memória.

A respeito dos sábios indianos é impossível tecer qualquer história consistente a


partir da fantástica confusão do romance de Damis-Filóstrato. Damis parece ter
misturado memórias e fragmentos de rumores sem qualquer esforço para distinguir
uma comunidade ou seita de outra, produzindo assim uma pintura borrada que
Filóstrato nos passa como uma imagem do “monte” e uma descrição dos “sábios”.
As confusas memórias de Damis (ele evidentemente compilou as notas das viagens
indianas muito tempo depois de elas terem acontecido), contudo, têm pouco a ver
com o verdadeiro mosteiro de seus ascéticos habitantes, que eram o objetivo da
longa jornada de Apolônio. Do que Apolônio ouviu e viu lá, seguindo seu invariável
costume em tais circunstâncias, não contou para ninguém, nem mesmo para
Damis, exceto o que poderia derivar da enigmática sentença: “Vi homens morando
na Terra e ainda assim sem estar nela, defesos de todos os lados, e mesmo assim
sem defesa alguma, e possuindo nada exceto o que todos possuem”. Estas
palavras ocorrem em duas passagens (iii, 15 e vi, II), e em ambas Filóstrato
acrescenta que Apolônio as escreveu (isto demonstra que Filóstrato deparou-se
com elas em algum escrito ou carta de Apolônio, e portanto são independentes do
relato de Damis neste particular) e pronunciou enigmaticamente. O sentido desta
frase não é difícil de adivinhar. Eles estavam na Terra, mas não pertenciam a ela,
pois suas mentes estavam estabelecidas nas coisas do alto. Eram protegidos pelos
seus poderes espirituais inatos, dos quais temos tantos exemplos na literatura
indiana; e ainda não possuíam nada exceto o que todos os homens possuiriam, se
apenas desenvolvessem o lado espiritual de seus seres. Mas esta explicação não é
suficientemente simples para Filóstrato, e então ele recorre a todas as memórias de
Damis, ou antes às lendas de viajantes, sobre levitação, ilusões mágicas e etc.

O líder da comunidade é chamado de Iarchas, um nome totalmente não indiano. A


violência feita sobre todos os nomes estrangeiros pelos gregos é notória, e aqui
temos que levar em conta um exército de copistas ignorantes, além de Filóstrato e
Damis. Eu sugeriria que o nome talvez seja uma corruptela de Arhat (I-Âryas, arχa(t)
s, arhat).

A ênfase principal da narrativa de Damis recai no conhecimento psíquico e


espiritual dos sábios. Eles sabem o que se passa à distância, podem revelar o
passado e o futuro, e ler as vidas passadas dos homens.

O mensageiro enviado para encontrar Apolônio carregava o que Damis chama de


uma âncora dourada (iii, 17), e se isto é um fato autêntico, sugeriria um predecessor
do dorje tibetano, o símbolo presentemente degenerado do “bastão de poder”, algo
como os raios que Zeus segura. Isto também apontaria para uma comunidade
Budista, ainda que devamos confessar que outras indicações apontam de modo
igualmente forte para costumes Brâmanes, como a marca de casta na testa do
mensageiro (iii, 7, II), o uso de bastões (de bambu) (danda), os cabelos longamente
crescidos, e o uso de turbantes (iii, 13). Mas na verdade toda a narrativa é confusa
demais para permitir alguma esperança de extrairmos detalhes históricos.

Sobre a natureza da visita de Apolônio, contudo, podemos julgar a partir da


misteriosa carta a seus hospedeiros:

“Eu vim a vós por terra e vós me destes o mar; não, antes, dividindo comigo vossa
sabedoria vós me concedestes o poder de viajar pelos céus. Estas coisas eu trarei
de volta à mente dos gregos, e conversarei convosco como se estivésseis
presentes, se eu não tiver bebido da taça de Tântalo em vão”.
É evidente, por estas sentenças crípticas, que o “mar” e a “taça de Tântalo” são
idênticos à “sabedoria” que foi concedida a Apolônio – a sabedoria que ele uma vez
mais traria de volta à memória dos gregos. Ele assim assume claramente que
voltava da Índia com uma missão específica e com os meios de levá-la a cabo, pois
não apenas ele de seus lábios tinha bebido do oceano da sabedoria no qual
aprendeu a Brahma-vidyâ, mas também aprendeu como conversar com eles
estando seu corpo da Grécia e o deles na Índia.

Mas um significado assim tão óbvio – óbvio pelo menos para todo estudante da
natureza oculta – estava além do entendimento de Damis ou da compreensão de
Filóstrato. E também sem dúvida é a menção à “taça de Tãntalo” (Tântalo é descrito
na fábula como tendo roubado a taça do néctar dos deuses; era a amrita dos
indianos, o oceano da imortalidade e sabedoria) nesta carta o que sugere o
eternamente adorável episódio da taça em iii, 32, e sua conexão com as fontes
místicas de Baco. Damis usa isso para “explicar” a última frase de Apolônio sobre
os sábios, qual seja, aquela de eles “não possuírem nada exceto o que todos
possuem” – que, entretanto, aparece em outro ponto de outra forma, como “não
possuindo nada, eles têm as posses de todos os homens” (iii, 15) (as palavras
ουδεν κεκτη•ενος ν τα παντων, que Filóstrato cita duas vezes assim, certamente
não podem ser mudadas para •ηδεν κεκτη•ενος τα παντων εχειν, sem praticar uma
violência contra seu significado).

Ao retornar à Grécia, um dos primeiros santuários que Apolônio visitou foi o de


Afrodite de Pafos, em Chipre (iii, 58). A maior peculiaridade exterior do culto pafiano
da Venus era a representação da deusa por um misterioso símbolo de pedra.
Parece ter tido o tamanho de uma pessoa, mas com a forma de uma pinha,
somente é claro com a superfície polida. Aparentemente Pafos era o mais antigo
santuário dedicado a Venus na Grécia. Seus mistérios eram muito antigos, mas não
autóctones; foram trazidos do continente, de onde depois constituiu-se a Cilícia, em
tempos de remota antigüidade. O culto ou consulta à Deusa se fazia através de
preces e da “pura labareda do fogo” e o templo era um grande centro divinatório
(vide Tácito, Historia, ii, 3).

Apolônio passou algum tempo ali e instruiu os sacerdotes integralmente a respeito


de seus ritos sagrados.

Na Ásia Menor ele apreciava especialmente o templo de Esculápio em Pérgamo;


curou muitos doentes lá, e deu instruções no método correto a adotar a fim de
procurar-se resultados confiáveis através dos sonhos prescritivos.

Em Tróia, nos contam, Apolônio passou uma noite sozinho junto ao túmulo de
Aquiles, antigamente um dos locais popularmente mais sagrados da Grécia (iv, II).
Não transpira o motivo de ele ter feito isso, pois a fantástica conversa com a
sombra do herói contada por Filóstrato parece desprovida de todo elemento de
verossimilhança. Mas como, contudo, Apolônio logo depois visitou a Tessália
expressamente para incitar os tessálios a renovar os antigos ritos tradicionais ao
herói (iv, 13), podemos supor que isso formou parte de seu grande esforço para
restaurar e purificar a antiga instituição da Hélade, para que, sendo os canais
tradicionais liberados, a vida pudesse fluir mais saudavelmente no corpo da nação.

Também há o rumor de que Aquiles teria dito a Apolônio onde encontrar a estátua
do herói Palámedes na costa da Eólia. Apolônio restaurou a estátua de acordo, e
Filóstrato nos diz que a viu com seus próprios olhos no local (iv, 13).

Mas isto seria um tópico de escasso interesse, se não houvesse mais menção a
Palámedes em outro lugar da narrativa de Filóstrato. O que tudo isso significa é
difícil de dizer com um Damis e um Filóstrato como intérpretes entre nós e o silente
e enigmático Apolônio. Palámedes foi um dos heróis perante Tróia, e que a lenda
diz ter sido o inventor das letras, ou quem completou o alfabeto de Cadmo (Berwick,
Life of Apollonius, p. 200 n.)

Agora, de duas sentenças obscuras (iv, 13, 33), percebemos que nosso filósofo via
Palámedes como o herói-filósofo do período Troiano, ainda que Homero quase não
o mencione.

Foi esta a razão, pois, para Apolônio ficar tão ansioso por restaurar sua estátua?
Nada disso; parece ter havido uma razão mais direta. Damis pensou que Apolônio
encontrara Palámedes na Índia; que ele estava no mosteiro; que Iarchas havia um
dia indicado um jovem asceta que podia “escrever sem nunca ter aprendido as
letras”; e que este jovem tinha sido ninguém senão Palámedes em uma de suas
vidas pregressas. Sem dúvida o cético dirá: “Claro! Pitágoras era uma
reencarnação do herói Eufórbio que lutou em Tróia, de acordo com a superstição
popular; portanto, naturalmente, o jovem indiano era a reencarnação do herói
Palámedes! Uma lenda simplesmente engendra a outra”. Mas de acordo com este
princípio, para sermos consistentes, esperaríamos descobrir que foi o próprio
Apolônio, e não um desconhecido asceta hindu, quem uma vez foi Palámedes.

De qualquer modo, Apolônio restaurou os ritos a Aquiles, e ergueu uma capela na


qual colocou a estátua desprezada de Palámedes (ele também construiu um recinto
em torno do túmulo de Leônidas em Termópilas (iv, 23). Os heróis do período
Trioano, então, pareceria, ainda guardavam uma relação com a Grécia, de acordo
com a ciência do mundo invisível na qual Apolônio havia sido iniciado. E se o cético
Protestante não pode viver com isto, pelo menos o leitor Católico Romano pode ser
induzido a suspender seu julgamento trocando “herói” por “santo”.
Pode ser possível que a atenção que Apolônio deu às tumbas e monumentos
funerários dos poderosos mortos da Grécia pode ter sido inspirada pelo círculo de
idéias que conduziram à ereção de inumeráveis dâgobas e stûpas nas terras
Budistas, originalmente sobre as relíquias do Buda, e à preservação subseqüente
de relíquias de arhats e grandes instrutores?

Em Lesbos Apolônio visitou o antigo templo dos mistérios Órficos, que em dias
antigos havia sido um grande centro de profecia e divinação. Aqui também lhe foi
concedido o privilégio de entrar no santuário interno ou adytum (iv, 14).

O Tianeu chegou em Atenas na temporada dos Mistérios Eleusinos, e a despeito


dos festivais e ritos não só o povo mas também os candidatos acorreram para ele,
negligenciando suas obrigações religiosas. Apolônio censurou-os, e ele mesmo
cumpriu os ritos preliminares necessários e apresentou-se para a iniciação.

Talvez possa surpreender o leitor ouvir que Apolônio, que já havia sido iniciado em
privilégios maiores do que Elêusis poderia proporcionar, se apresentasse ele
mesmo à iniciação. Mas as razões não precisam ser procuradas longe; os Eleusinia
constituíam uma das organizações intermediárias entre os cultos populares e os
genuínos círculos internos de instrução. Eles preservavam uma das tradições do
caminho interior, mesmo se seus oficiais naquela época houvessem esquecido o
que seus predecessores conheciam. Para restaurar estes antigos ritos à sua
pureza, ou para usá-los para seus fins originais, era necessário entrar nos recintos
da instituição; nada poderia ser feito de fora. A coisa em si era boa, e Apolônio
desejava apoiar a instituição dando o exemplo público de procurar a iniciação ali;
não que ele tivesse algo a ganhar pessoalmente.

Mas fosse o hierofante da época simplesmente ignorante, ou fosse ciumento da


grande influência de Apolônio, ele recusou admitir nosso filósofo, baseado na
alegação de que ele era um feiticeiro (γσης), e que ninguém que estivesse poluído
pelo intercurso com entidades malignas (δαι•σνια) poderia ser iniciado. A esta
acusação Apolônio respondeu com velada ironia: “Vós omitistes a mais séria
acusação que poderia ser lançada contra mim: isto é, que embora eu de fato
conheça mais dos ritos místicos do que seu hierofante, eu vim aqui simulando
desejar a iniciação de homens de maior sabedoria que eu”. Esta acusação era
verdadeira, ele havia sido dissimulado.

Estarrecido por estas palavras, atemorizado diante da indignação do povo excitado


pelo insulto feito ao seu ilustre convidado, e assombrado pela presença de um
conhecimento que ele já não podia negar, o hierofante implorou para nosso filósofo
aceitar a iniciação. Mas Apolônio recusou. “Eu serei iniciado mais tarde”, replicou;
“ele me iniciará”. Diz-se que se referia ao próximo hierofante, que presidia quando
Apolônio foi iniciado quatro anos mais tarde (iv, 18; v, 19).
Enquanto em Atenas, Apolônio falou asperamente contra a afeminação das
Bacanálias e as barbaridades dos combates de gladiadores (iv, 21, 22).

Os templos, mencionados por Filóstrato, que Apolônio visitou na Grécia, têm todos
a peculiaridade de serem muito antigos; por exemplo, Dodona, Delfi, o antigo
santuário de Apolo de Abe, na Fócida, as “grutas” de Anfiarau (um grande centro de
divinação através de sonhos, vide ii, 37) e Trofônio, e o templo das Musas no
Helicão.

Quando entrava nos adyta destes templos com o intuito de “restaurar” os ritos, era
acompanhado somente pelos sacerdotes, e certos discípulos imediatos (γνωρι•οι).
Isto sugere uma ampliação do significado do termo “restauração” ou “reforma”, e
quando lemos em outras partes sobre os muitos locais consagrados por Apolônio,
não podemos pensar senão que parte de sua obra era a reconsagração, e com isso
a purificação psíquica, de muitos destes centros antigos. Seu principal trabalho
externo, contudo, foi instruir, e, como Filóstrato retoricamente parafraseia, “taças de
suas palavras foram colocadas em todas as partes para o sedento delas beber” (iv,
24).

Mas não somente nosso filósofo restaurou os ritos antigos da religião; também
prestou muita atenção às antigas constituições e instruções. Assim o encontramos
instando os espartanos a retornarem ao seu antigo modo de vida, a seus exercícios
atléticos, sua vida frugal, e à disciplina da antiga tradição dórica (iv, 27, 31-34);
acima de tudo, ele louvou especialmente a instituição dos Jogos Olímpicos, cujo
elevado padrão ainda era mantido (iv, 29), enquanto que reconvocou o antigo
Conselho Anfictiônico ao seu dever (iv, 23), e corrigiu os abusos da assembléia Pan-
jônica (iv, 5).

Na primavera de 66 d.C., ele deixou a Grécia indo a Creta, onde parece ter passado
a maior parte de seu tempo nos santuários do Monte Ida e no templo de Esculápio
em Lêbene (“pois como toda a Ásia visita Pérgamo, toda Creta visita Lêbene”); mas
mui curiosamente recusou-se a visitar o famoso Labirinto em Cnossos, cujas ruínas
haviam sido recém descobertas para uma geração cética, mais provavelmente
porque (é lícito especular) uma vez foi centro de sacrifícios humanos, e assim
pertencia a um dos antigos cultos da mão esquerda.

Em Roma Apolônio continuou seu trabalho de reformar os templos, e com a


aprovação do Pontífice Máximo Telesino, um dos cônsules para o ano de 66 d.C.,
que também era um filósofo e um profundo estudioso da religião (iv, 40). Mas sua
permanência na cidade imperial foi bruscamente interrompida, pois em outubro
Nero coroou sua perseguição dos filósofos publicando contra eles um decreto de
banimento de Roma, e tanto Telesino (vii, II) quanto Apolônio tiveram de deixar a
Itália.

A seguir o encontramos na Espanha, fazendo seu quartel-general no templo de


Hércules em Cádiz.

Retornando à Grécia via África e Sicília (onde passou algum tempo e visitou Etna),
ele passou o inverno (de 67 d.C.?) em Elêusis, vivendo no templo, e na primavera
do ano seguinte embarcou para Alexandria, onde passou algum tempo, a caminho
de Rodes. A cidade da filosofia e do ecletismo por excelência recebeu-o de braços
abertos como a um velho amigo. Mas reformar os cultos públicos do Egito foi um
trabalho muito mais difícil do que qualquer outro que ele tentou antes. Sua presença
no templo (de Serápis?) inspirou respeito universal, tudo sobre ele e cada palavra
que pronunciava parecia emanar uma atmosfera de sabedoria e de “algo divino”. O
sumo-sacerdote do templo considerou com orgulhoso desdém: “Quem é sábio o
suficiente”, perguntou irônico, “para reformar a religião dos egípcios?” – somente
para deparar-se com a resposta confiante de Apolônio: “Qualquer sábio que venha
da parte dos indianos”. Aqui, como em toda parte, Apolônio opôs-se ao sacrifício
sangrento, e tentou substituí-lo, como o fizera noutros lugares, pela oferenda de
incenso modelado na forma da vítima (v, 25). Tentou reformar muitos abusos nos
modos dos alexandritas, mas sobre nenhum deles foi mais severo do que sobre sua
selvática excitação com as corridas de cavalos, que freqüentemente acabava com
efusão de sangue (v, 26).

Apolônio parece ter passado a maior parte dos vinte anos restantes de sua vida no
Egito, mas por Filóstrato não podemos saber nada do que ele fez nos secretos
santuários daquela terra de mistério, exceto que na prolongada jornada até a
Etiópia Nilo acima nenhuma cidade ou templo ou comunidade deixou de ser
visitado, e em todo lugar havia um intercâmbio de conselhos e instrução nas coisas
sagradas (v, 43)

X. OS GIMNOSOFISTAS DO ALTO EGITO

Agora chegamos à visita de Apolônio aos “Gimnosofistas” na “Etiópia”, a qual,


mesmo com o sucesso artístico e literário consumado na descrição de Filóstrato da
viagem de Apolônio ao Egito, é somente um incidente na história verdadeira da vida
não registrada de nosso misterioso filósofo naquela antiga região.

Tivesse Filóstrato dedicado um capítulo ou dois à natureza das práticas, disciplina e


doutrinas das inumeráveis comunidades ascéticas e místicas que abundavam no
Egito e adjacências naqueles dias, teria angariado a gratidão ilimitada dos
estudantes das suas origens. Mas disso ele não diz uma palavra; mas mesmo
assim ele quer-nos fazer crer que as reminiscências de Damis eram uma série
ordenada de notas do que realmente ocorreu. Mas em tudo é muito aparente que
Damis foi mais só um companheiro de viagem do que um discípulo iniciado.

Quem eram, pois, estes misteriosos “Gimnosofistas”, como são usualmente


chamados, e de onde veio este nome? Damis os chama simplesmente de
“Nus” (γυ•χοι), e é muito claro que o termo não deve ser entendido meramente
como desnudos fisicamente; de fato, nem aos indianos nem a estes ascetas do Alto
Egito podemos aplicar com propriedade este termo em seu significado puramente
físico, como transparece das descrições de Damis e Filóstrato. Uma frase casual
que sai dos lábios de um destes ascetas, ao narrar a história de sua vida, dá-nos
uma pista para o sentido verdadeiro do termo. “Com a idade de 14 anos”, ele diz a
Apolônio, “eu doei meu patrimônio àqueles que desejam estas coisas, e nu eu
procurei os Nus” (iv, 16) (A palavra γυ•νος, nus, porém, usualmente significa vestido
levemente, como, por exemplo, quando um homem é dito estar trabalhando “nu”,
isto significa que está só com uma roupa, e isto é evidente pela comparação feita
entre o costume dos Gimnosofistas e o do povo de Atenas na estação quente (vi, 6).

Este é o mesmo sentido que Filo emprega a respeito das comunidades


Terapêuticas, as quais ele declara serem muito numerosas em todas as províncias
do Egito e disseminadas por todas as regiões. Não vamos supor, porém, que estas
comunidades fossem todas da mesma natureza. É verdade que Filo tenta fazer que
a mais pia e mais importante de todas as comunidades fosse a sua comunidade
particular na margem sul do Lago Meris, que era fortemente Semítica senão
ortodoxamente Judia; e para Filo qualquer comunidade com uma atmosfera Judia
deveria naturalmente ser a melhor. A peculiaridade e maior interesse de nossa
comunidade, que estava na outra extremidade da Terra acima das cataratas, era a
de que ela tinha alguma ligação remota com a Índia.

A comunidade é chamada φροντιστηριον, no sentido de um lugar para meditação,


um termo usado por escritores eclesiásticos para significar um monastério, mas é
melhor conhecido dos estudantes clássicos pelo uso humorístico feito por
Aristófanes, que em As Nuves chama a escola de Sócrates de phrontistêrion, ou
“mercado de pensamentos”. O conjunto de monasteria (ιερα), presumivelmente
cavernas, santuários ou celas (pois eles não possuíam nem cabanas nem casas,
mas viviam ao ar livre), estava situado em uma colina ou ponto elevado não longe
do Nilo. Todos eram separados uns dos outros, espalhados pela colina, e dispostos
engenhosamente. Havia pouco mais que uma árvore no local, com a exceção de
um único grupo de palmeiras, sob cuja sombra eles faziam suas reuniões gerais (vi,
6).

É difícil tirar dos diálogos, postos nas bocas do líder da comunidade e de Apolônio
(vi, 10-13, 18-22), qualquer detalhe preciso sobre o modo de vida destes ascetas,
além de indicações gerais de uma existência de grande dureza e penúria física, que
eles consideravam o único meio de obter sabedoria. O que era a natureza de seus
cultos, se tinham algum, não nos é dito, exceto que ao meio-dia os Nus se
retiravam para seus monasteria (vi, 14).

Toda a inclinação dos argumentos de Apolônio, contudo, é lembrar a comunidade


de sua origem oriental e sua ligação primeira com a Índia, o que parecia ter sido
esquecido. As comunidades deste tipo particular no sul do Egito e norte da Etiópia
remontavam presumivelmente a alguns séculos, e algumas delas podem ter sido
antigamente Budistas, pois um dos membros mais jovens da nossa comunidade
que a abandonou para seguir Apolônio diz que juntou-se a ela por causa da
entusiástica narração sobre a sabedoria dos indianos feita por seu pai, que tinha
como certo a existência de um comércio marítimo com o oriente. Foi seu pai quem
lhe contou que estes “etíopes” vieram da Índia, e assim ele juntou-se a eles em vez
de fazer a longa e perigosa jornada até o próprio Indo (vi, 16).

Se há alguma verdade nesta história segue-se que os fundadores deste modo de


vida foram ascetas indianos, e se é assim devem ter pertencido à única forma de
religião indiana que empregava a propaganda, a saber, o Budismo.

Após dado o impulso, as comunidades, que presumivelmente foram supridas por


gerações de egípcios, árabes e etíopes, provavelmente foram deixadas
inteiramente por sua própria conta, e assim no decurso do tempo esqueceram sua
origem, e talvez até mesmo sua regra original. Tais especulações são permissíveis,
devido à repetida afirmação de uma conexão original entre estes Gimnosofistas e a
Índia. Toda a ênfase da história é que eles eram indianos que esqueceram sua
origem e afastaram-se da sabedoria.

O último incidente que Filóstrato registra sobre Apolônio entre os santuários e


templos é uma visita ao famoso e antiqüíssimo oráculo de Trofônio, perto de
Lebadéia, na Beócia. Diz-se que Apolônio passou sete dias sozinho nesta
misteriosa “caverna”, e retornou com um livro cheio de perguntas e respostas sobre
o tema “filosofia” (viii, 19). Este livro, no tempo de Filóstrato, ainda estava no palácio
de Adriano em Âncio, juntamente com um grupo de cartas de Apolônio, e muitas
pessoas costumavam visitar Âncio com o propósito específico de vê-lo (viii, 19, 29).

No palheiro de falatório lendário solenemente transcrito por Filóstrato a respeito da


gruta de Trofônio, uma agulha de verdade talvez possa ser descoberta. A “gruta”
parece ter sido um antigo templo ou santuário, cortado no coração de uma colina,
ao qual uma quantidade de passagens subterrâneas de considerável extensão
conduziam. Provavelmente em tempos antigos tinha sido um dos mais sagrados
centros do culto arcaico da Hélade, talvez mesmo uma relíquia daquela Grécia de
milhares de anos antes de Cristo, cuja única reminiscência, como Platão nos fala,
foi obtida por Sólon dos sacerdotes de Saís. Ou pode ter sido um santuário
subterrâneo da mesma natureza da afamada gruta Dictéia de Creta, que só em
torno de 1901 foi trazida à luz pelo trabalho infatigável de Messrs, Evans e Hogarth.

No caso das viagens de Apolônio, como no caso das comunidades e templos que
ele visitou, Filóstrato é um cicerone dos mais frustrantes. Mas talvez ele não deva
ser censurado por isto, pois a parte mais importante e mais interessante da obra de
Apolônio era de natureza tão íntima, executada como foi entre associações cujo
caráter secreto era tão ciosamente guardado, que ninguém fora de seus membros
poderia saber nada dela, e aqueles que vinham a saber pela iniciação não diriam
nada.

Portanto, é só quando Apolônio se adianta para executar algum ato público que
podemos obter algum traço histórico preciso dele; em todos os outros casos ele
passa para dentro do santuário de um templo ou penetra na privacidade de uma
comunidade e é perdido de vista.

Pode talvez nos surpreender que Apolônio, depois de sacrificar sua fortuna pessoal,
pudesse empreender viagens tão longas e caras, mas parece que ele
ocasionalmente era provido dos fundos necessários pelos tesouros dos templos (cf.
viii, 17), e que em toda parte lhe era livremente oferecida a hospitalidade do templo
ou comunidade do local onde calhava de ele estar.

Concluindo a presente parte de nosso assunto, podemos mencionar o bom serviço


feito por Apolônio afastando certos charlatães caldeus e egípcios que estavam
capitalizando os temores das cidades da margem esquerda do Helesponto. Estas
cidades haviam sofrido severamente com terremotos, e em seu pânico haviam
depositado grandes somas de dinheiro nas mãos destes aventureiros (que
“negociavam sobre o infortúnio alheio”), a fim de que executassem ritos
propiciatórios (vi, 41). Receber dinheiro para dar instrução na ciência sagrada ou
para desempenhar ritos sagrados era o mais detestável dos crimes para todos os
verdadeiros filósofos.

XI. APOLÔNIO E OS GOVERNANTES DO IMPÉRIO

Mas não só Apolônio vivificou e reconsagrou os antigos centros religiosos por


algum motivo inescrutável, e fez o que pôde para ajudar a vida religiosa do seu
tempo em suas múltiplas formas, mas também tomou uma parte decisiva, embora
indireta, na influência dos destinos do Império através das pessoas de seus
governantes supremos.

Esta influência, contudo, era invariavelmente de natureza moral e não política. Era
levada a cabo através de conversas e instrução filosóficas, pela palavra falada ou
escrita. Do mesmo modo que Apolônio em suas viagens conversou sobre filosofia,
e discursou sobre a vida de um homem sábio e sobre os deveres de um governante
sábio com reis (ele passou, nos dizem, não menos de um ano e oito meses com
Vardan, Rei da Babilônia, e foi o honrado hóspede do Rajá Indiano “Fraotes”),
governantes e magistrados, também tentou aconselhar para seu bem aqueles
imperadores que se dispunham a ouví-lo.

Vespasiano, Tito e Nerva eram todos, antes de sua elevação à púrpura, amigos e
admiradores de Apolônio, enquanto que Nero e Domiciano olhavam o filósofo com
temor.

Durante a breve estada de Apolônio em Roma, em 66 d.C., mesmo que nem uma
só palavra lhe houvesse escapado que pudesse ser transformada em um
pronunciamento traidor pelos numerosos informantes, não obstante ele foi trazido
perante Tigelino, o infame favorito de Nero, e submetido a um cerrado interrogatório
cruzado. Aparentemente até esta época Apolônio estava trabalhando para o futuro,
e tinha restringido sua atenção inteiramente à reforma da religião e à restauração
das antigas instituições das nações, mas a tirânica conduta de Nero, que não deu
paz nem mesmo ao mais inatacável dos filósofos, abriu completamente seus olhos
para um mal mais imediato, que parecia ser nada menos que a ab-rogação da
liberdade de consciência por uma tirania irresponsável. Daí em diante, portanto,
encontramo-lo vivamente interessado nas pessoas dos imperadores seguintes.

Na verdade, Damis, ainda que confesse sua inteira ignorância do propósito da


viagem de Apolônio à Espanha depois de sua expulsão de Roma, presume que
tenha sido para apoiar a iminente revolta contra Nero. Ele conjetura isso a partir de
três dias de entrevistas secretas de Apolônio com o Governador da Província da
Bética, que veio a Cádiz especialmente para vê-lo, e declara que as últimas
palavras do visitante de Apolônio foram: “Adeus, e lembre-se de Vindex” (v, 10).

É verdade que quase imediatamente depois irrompeu a revolta de Vindex, o


Governador da Gália, mas toda a vida e caráter de Apolônio são opostos a qualquer
idéia de intriga política; ao contrário, ele bravamente contestou a tirania e a injustiça
face a face. Ele se opunha à idéia de Eufrates, um filósofo de perfil muito diverso,
que teria posto um fim na monarquia e restaurado a república (v, 33); ele acreditava
que o governo por um monarca era o melhor para o Império, mas desejava acima
de tudo ver “o rebanho da humanidade” conduzido por “um pastor sábio e fiel” (v,
35).

De modo que embora Apolônio tenha apoiado Vespasiano enquanto ele tentou
realizar dignamente seu ideal, imediatamente censurou-o pessoalmente quando ele
privou as cidades gregas de seus privilégios. “Vós escravizastes a Grécia”, ele
escreveu. “Vós reduzistes um povo livre à escravidão” (v, 41). De qualquer maneira,
a despeito de sua censura, Vespasiano, em sua última carta a seu filho Tito,
confessou que eles eram o que eram exclusivamente por virtude do bom conselho
de Apolônio (v, 30).

De igual modo ele viajou a Roma para encontrar Domiciano face a face, e mesmo
que tenha sido posto em julgamento e todos os esforços tenham sido feitos para
prová-lo culpado de complot traidor com Nerva, ele não pôde ser indiciado por nada
de natureza política. Nerva era um bom homem, disse ao Imperador, e não um
traidor. Não que Domiciano tivesse realmente alguma suspeita de que Apolônio
estivesse pessoalmente intrigando contra ele; ele o colocou na prisão somente na
esperança de que poderia induzir o filósofo a revelar as confidências de Nerva e
outros homens eminentes que lhe eram objetos de suspeita, e que ele imaginava
que tinham consultado Apolônio sobre suas chances de sucesso.

Os negócios de Apolônio não eram com a política, mas com “os príncipes que lhe
pediam conselho sobre a virtude” (vi, 43).

XII. APOLÔNIO, O PROFETA E TAUMATURGO

Agora voltaremos nossa atenção por um breve momento àquele lado da vida de
Apolônio que o tornou objeto de invencível preconceito. Apolônio não foi somente
um filósofo, no sentido de ser um especulador teórico ou de ser o seguidor de um
modo de vida organizado escolado na disciplina da renúncia; ele foi também um
filósofo no sentido Pitagórico original do termo – um conhecedor dos segredos da
Natureza, que assim podia falar como alguém que tinha autoridade.

Ele conhecia o lado oculto das coisas da Natureza por experiência e não por ouvir
dizer; para ele a senda da filosofia era uma vida por onde o próprio homem se
tornava um instrumento do conhecimento. A religião, para Apolônio, não era
somente uma fé, era uma ciência. Para ele o espetáculo das coisas eram
aparências sempre mutantes; cultos e ritos, religiões e crenças, para ele eram todos
um só, considerando o espírito correto que jazia por trás deles. O Tianeu não via
diferenças de raça ou credo; tais estreitas limitações não eram para nosso filósofo.

Acima de todos os outros ele deve ter rido ante a palavra “milagre” aplicada aos seu
feitos. “Milagre”, em seu sentido teológico Cristão, era um termo desconhecido da
antigüidade, e é um vestígio de superstição hoje. Pois ainda que muitos acreditem
que seja possível para a alma efetuar uma multidão de coisas além das
possibilidades de uma ciência que está confinada inteiramente à investigação das
forças físicas, ninguém além daquele que não pensa acredita que pode haver
alguma interferência na operação das leis que a Deidade imprimiu na Natureza. – o
credo dos Miraculistas.

A maioria dos registros de taumaturgia de Apolônio são casos de profecias ou


previsão; de visão à distância e visão do passado; o de ver ou ouvir durante uma
visão; de curar os casos de obsessão ou possessão.

Ainda jovem, no templo de Egue, Apolônio deu sinais da posse dos rudimentos
desta percepção psíquica; não só sentiu corretamente a natureza do passado
sombrio de um rico mas indigno suplicante que desejava a restauração de sua
visão, mas previu, ainda que obscuramente, o mau fim de um que havia atentado
contra sua inocência (i, 12).

Ao encontrar Damis, seu futuro fiel criado ofereceu seus serviços para a longa
jornada à Índia considerando que conhecia as línguas dos diversos países por onde
teriam que passar. “Mas eu entendo-os todos, mesmo que jamais tenha-lhes
aprendido a língua”, respondeu Apolônio, em sua maneira enigmática usual, e
acrescentou: “Não vos admireis que eu saiba as línguas dos homens, pois eu
conheço até o que eles não nunca dizem” (i, 19). E com isso ele queria dizer
simplesmente que podia ler os pensamentos das pessoas, não que ele pudesse
falar todas as línguas. Mas Damis e Filóstrato não podiam entender um fato tão
simples da experiência psíquica; eles devem ter pensado que ele sabia não apenas
as línguas de todos os homens, mas também as dos pássaros e feras (i,20).

Em sua conversa com o monarca babilônio Vardan, Apolônio claramente reivindica


presciência. Ele diz que é um médico da alma e pode livrar o rei das doenças da
mente, não só porque sabia o que tinha de ser feito, isto é, a disciplina adequada
ensinada nas escolas Pitagórica e similares, mas também porque ele antevia a
natureza do rei (i, 32). De fato nos dizem que o assunto da presciência
(προγνωσεως), de cuja ciência (σοφια) Apolônio era um profundo estudioso, foi um
dos principais tópicos discutidos por nosso filósofo e seus hóspedes indianos. (iii,
42).

De fato, como Apolônio fala ao seu amigo filosófico e estudioso o Cônsul romano
Telesino, para ele a sabedoria era um tipo de divinização ou de tornar divina toda a
natureza, uma espécie de estado de perpétua inspiração (φειασ•σς) (i, 40). E assim
sabemos que Apolônio era informado de todas as coisas desta natureza pela
energia de sua natureza daimônica (δαι•ονιως) (vii, 10). Mas para os estudantes
das escolas Pitagórica e Platônica o “daimon” de um homem era aquilo que podia
ser chamado o Eu Superior, o lado espiritual da alma distinto do puramente
humano. É a melhor parte do homem, e quando sua consciência física é unificada
com o “morador do céu”, ele tem (de acordo com a filosofia mística mais elevada da
antiga Grécia), enquanto ainda na Terra, os poderes daqueles seres incorpóreos
intermediários entre os Deuses e os homens chamados “daimones”; um estado
ainda mais elevado, e o homem vivente se torna um Deus na Terra; e num estágio
ainda mais excelso ele se torna uno com o Bem e então se torna Deus.

Daí que encontramos Apolônio rejeitando indignadamente a acusação de magia


ignorantemente levantada contra ele, uma arte que atinge seus resultados por meio
do pacto com aquelas entidades inferiores que enxameiam nos domínios exteriores
da Natureza interna. Nosso filósofo repudiava igualmente a idéia de ser um profeta
ou adivinho. Com estas artes ele não tinha nenhuma relação; se alguma vez ele
disse algo que parecia presciência, era não por adivinhação no sentido vulgar da
palavra, mas devido “àquela sabedoria que Deus revela ao sábio” (iv, 44).

As mais numerosas das maravilhas atribuídas a Apolônio são exemplos


precisamente de tal presciência ou profecia (vide i, 22 [cf. 40], 34; iv, 4, 6, 18 [cf. v,
19], 24, 43; v, 7, 11, 13, 30, 37; vi, 32; vii, 26). Devemos confessar que as frases
registradas são freqüentemente obscuras e enigmáticas, mas este é o caso usual
neste tipo de profecia; pois os eventos futuros são vistos mais freqüentemente em
representações simbólicas, cujo significado não fica claro até ocorrer o evento, ou
ouvidos em sentenças igualmente enigmáticas. Às vezes, entretanto, temos
exemplos de previsão muito acurados, como a recusa de Apolônio de embarcar em
um navio que veio a naufragar na viagem (v, 18).

Os exemplos de visão de eventos presentes à distância, contudo – como o incêndio


de um templo em Roma, que Apolônio viu quando estava em Alexandria – são
claros o bastante. De fato, se as pessoas não soubessem mais nada do Tianeu,
teriam pelo menos ouvido falar como ele viu em Éfeso o assassinato de Domiciano
em Roma no exato momento de sua ocorrência.

Era meio-dia, para citarmos o vívido relato de Filóstrato, e Apolônio estava num dos
pequenos parques ou jardins dos subúrbios, ocupado em dar uma preleção sobre
algum absorvente tópico filosófico. “Primeiro ele baixou sua voz como se fosse
tomado de alguma apreensão; contudo, continuou sua exposição, mas vacilante, e
com muito menos força do que antes, como um homem que tem outra coisa em sua
mente além daquela sobre que está falando; finalmente ele cessou de todo de falar
como se não pudesse encontrar as palavras. Então, olhando fixamente para o chão,
deu três ou quatro passos para diante, gritando: ‘Matem o tirano, matem!’ E isto,
não como um homem que vê uma imagem num espelho, mas como um que tem a
própria cena diante de seus olhos, como se ele mesmo estivesse tomando parte
nela”.

Voltando-se para sua atônita audiência, ele lhes disse o que vira. Mas ainda que
eles esperassem que fosse verdade, recusaram-se a acreditá-lo, como se Apolônio
estivesse fora de si. Mas o filósofo gentilmente respondeu: “Vós, de vossa parte,
estais certos em adiar vosso regozijo até que as notícias sejam trazidas a vós do
modo usual; mas quanto a mim, agradecerei aos Deuses pelo que eu mesmo
vi” (viii, 26).

Pouco admira, assim, se lemos não só sobre uma quantidade de sonhos


simbólicos, mas sua interpretação correta, ser um dos ramos mais importantes da
disciplina esotérica da escola (vide especialmente i, 23 e iv, 34). Também não nos
surpreendemos de ouvir que Apolônio, baseado somente em seu conhecimento
interior, foi útil obtendo a libertação de um homem inocente em Alexandria, que
estava a ponto de ser executado junto com um grupo de criminosos (v, 24). De fato,
ele parece ter conhecido o passado secreto de muitos daqueles com quem entrava
em contato (vi, 3, 5).

A posse de tais poderes pode perturbar só levemente a crença de uma geração


como a nossa, para quem tais fatos da ciência psíquica estão se tornando a cada
dia mais familiares. Nem devem nos espantar os casos de cura por processos
mesméricos, ou mesmo os assim chamados “exorcismos de maus espíritos”, se
dermos crédito à narrativa Evangélica e estivermos acostumados com a história
geral dos tempos em que tais curas de possessão e obsessão eram um lugar
comum. Isto, contudo, não nos obriga a endossar as descrições fantásticas de tais
sucessos às quais Filóstrato se permite. Se for crível que Apolônio teve sucesso ao
tratar de obscuros casos mentais – casos de obsessão e possessão – de que
nossos asilos e hospitais estão cheios hoje em dia, e que em sua maior parte estão
além do âmbito da ciência oficial por sua ignorância dos verdadeiros fatores em
operação, igualmente é evidente que Damis e Filóstrato tinham pouco entendimento
nesta matéria, e deram rédea larga à imaginação em suas narrativas (vide ii, 4; iv,
20, 25; v, 42; vi, 27, 43). Talvez, contudo, Filóstrato em alguns casos esteja só
repetindo a lenda popular, cujo melhor exemplo é a cura da praga em Éfeso que o
Tianeu havia previsto em tantas ocasiões. A lenda popular diz que a origem da
praga estava ligada a um velho mendigo, que fora soterrado sob uma pilha de
pedras pela multidão enfurecida. Quando Apolônio ordenou que as pedras fossem
removidas, viu-se que o que havia sido um homem tinha se tornado agora um cão
enlouquecido espumando pela boca (iv, 10)!

Por outro lado, o registro de Apolônio “restituindo à vida” uma jovem de berço nobre
em Roma, é contado com grande moderação. Nosso filósofo parece ter encontrado
o féretro por acaso; então ele subitamente aproximou-se do leito, e depois de fazer
alguns passes sobre a donzela, e dizer algumas palavras inaudíveis, “despertou-a
de sua morte aparente”. Mas, diz Damis, “se Apolônio notou que a centelha da alma
ainda vivia, o que seus amigos deixaram de perceber – segundo consta estava
chovendo levemente e se via um tênue vapor em seu rosto – ou se ele fez a vida
nela aquecer-se novamente e assim restaurando-a”, nem ele nem ninguém
presente poderia dizer (iv, 45).

De uma natureza nitidamente mais fenomênica são as histórias de Apolônio


causando o desaparecimento do que estava escrito nas tabuletas de um de seus
acusadores perante Tigelino (iv, 44); ou removendo as cadeias de sua perna para
mostrar a Damis que ele realmente não era um prisioneiro, mesmo que estivesse
acorrentado nas masmorras de Domiciano (vii, 38); e seu
“desaparecimento” (ηφανσςη) do tribunal (viii, 5). Esta expressão, porém, só deve
ser tomada retoricamente, pois em viii, 8, o incidente é contado nas palavras
simples “quando ele deixou (απηλθε) o tribunal”.

Não devemos, pois, supor que Apolônio desprezasse ou negligenciasse os estudos


dos fenômenos físicos em sua devoção à ciência interna das coisas. Ao contrário,
temos diversos exemplos de sua rejeição da mitologia em favor de uma explicação
física dos fenômenos naturais. Tais, por exemplo, são suas explicações da
atividade vulcânica do Etna (v, 14, 17), e de um maremoto em Creta, acompanhado
de indicações corretas sobre a causa imediata da ocorrência. De fato uma ilha
distante havia explodido por causa de uma perturbação submarina, como mais
tarde foi averiguado (iv, 34). A explicação dos maremotos em Cádiz também pode
ser incluída na mesma categoria (v, 2).

XIII. SEU MODO DE VIDA

Agora apresentaremos ao leitor algumas indicações gerais do modo de vida de


Apolônio, e da maneira de seu ensino, do qual algo já foi exposto em “Primeiros
Anos”.

Nosso filósofo era um seguidor entusiasta da disciplina Pitagórica; melhor, Filóstrato


quer-nos fazer acreditar que ele fez mais esforços sobre-humanos para alcançar a
sabedoria do que mesmo o grande Samiano (i, 2). As formas externas desta
disciplina como exemplificadas em Pitágoras são deste modo resumidas pelo autor:

“Ele não usaria nada que proviesse de um animal morto, nem tocaria num bocado
de comida que anteriormente tivesse tido vida, nem a ofereceria em sacrifício; nem
mancharia de sangue os altares; mas só bolos de mel e incenso, e o serviço de sua
canção, subiriam deste homem para os Deuses, pois ele bem sabia que eles
aceitariam tais presentes muito mais que as centenas de bois imolados com a faca.
Pois ele, em verdade, mantinha conversas com os Deuses e aprendia deles o que
lhes agradava dos homens e o que lhes desagradava, e por isso possuía sua
natureza sábia. Para o restante, dizia, consultava o divino, e mantinha opiniões
sobre os Deuses que provavam ser falsas todas as outras; mas junto a ele,
declaradamente, chegava-se a alma [self, no original – NT] de Apolo, sem disfarce
(isto é, não sob alguma “forma”, mas em sua própria natureza), assim como se
aproximavam, ainda que ocultamente, Atena e as Musas, e outros Deuses cujas
formas e nomes a humanidade ainda não conhecia.

Daí que seus discípulos considerassem Pitágoras como um professor inspirado, e


recebessem suas regras como leis. “Em particular eles mantinham a regra do
silêncio a respeito da ciência divina. Pois eles ouviam entre eles muitas coisas
divinas e inenarráveis sobre as quais teria sido difícil manter silêncio, se não
tivessem antes aprendido que era justamente este silêncio que lhes falava” (i, I).

Esta era a declaração geral da natureza da disciplina Pitagórica pelos seus


discípulos. Mas, diz Apolônio em sua preleção aos Gimnosofistas, Pitágoras não foi
o inventor disso. Foi a sabedoria imemorial, e Pitágoras a havia aprendido dos
indianos (vide em conexão L.von Schroeder, Pythagoras und die Inder, eine
Untersuchung über Herkunft und Abstammung der pythagorischen Lehren –
Pitágoras e os Indianos, uma Dissertação sobre as Origens e Descendência do
Ensino Pitagórico; Leipzig, 1884). Esta sabedoria, continua, lhe havia falado em sua
juventude; ela disse:

“Pois sabei, jovem senhor, que não tenho encantos; minha taça está até a borda
cheia de fadigas. Abrace qualquer um meu modo de vida, e deve resolver-se a
banir de sua mesa todo alimento que uma vez teve vida, deve perder a lembrança
do vinho, e assim não mais poluir a taça da sabedoria – a taça que realmente
consiste de almas não manchadas pelo vinho. Nem a lã irá aquecê-lo, nem nada
feito de animais. Dou a meus servos sapatos de fibra, e nela eles podem dormir. E
se os encontro entretidos nos deleites amorosos, logo lhes trago aquela justiça que
segue os passos da sabedoria, para resgatá-los e corrigí-los; em verdade, sou tão
rigorosa com aqueles que escolhem meu caminho, que mesmo em suas línguas
ponho um ferrolho. Agora ouve de mim quais coisas ganharás, se perseverares. Um
senso inato de prontidão e de correção, e jamais sentir que o quinhão de outrem é
melhor que o próprio; eliminar pelo medo os tiranos antes que ser um temeroso
escravo da tirania; ter tuas pobres ofertas mais abençoadas pelos Deuses do que
aqueles que lhes apresentam o sangue dos touros. Se és puro, conceder-te-ei
como saber as coisas que virão, e encherei tanto teus olhos de luz que poderás
reconhecer os Deuses, os heróis, e provar e dominar as formas sombrias que
assumem a forma de homens” (vi, II).

Toda a vida de Apolônio demonstra que ele tentou seguir consistentemente esta
regra de vida, e as repetidas declarações de que ele jamais se juntaria aos
sacrifícios sangrentos dos cultos populares (vide especialmente i, 24, 31; iv, 11; v,
25), mas os condenava abertamente, mostram não só que a escola Pitagórica tinha
sempre dado o exemplo do modo mais elevado de sacrificar puramente, mas que
eles não só não foram condenados e perseguidos como heréticos por causa disso,
mas foram antes considerados como sendo de especial santidade, e como
seguindo uma vida superior do que os mortais comuns.

A restrição contra a carne de animais, entretanto, não estava baseada


simplesmente em idéias de pureza, tinha uma sanção adicional no amor positivo
para com os reinos inferiores e o horror de infligir sofrimento a qualquer criatura
viva. Assim Apolônio asperamente recusou-se a tomar parte de uma caçada,
quando convidado a fazê-lo por seu real hospedeiro na Babilônia. “Sire”, ele
replicou, “esquecestes que mesmo quando sacrificardes não estarei presente?
Muito menos então farei estas feras morrerem, e todo o resto quando seus espíritos
forem quebrados e forem constrangidos contra sua natureza” (i, 38) (Isto se refere à
manutenção de parques de caça, ou “paraísos”, pelos monarcas babilônicos).

Mas embora Apolônio fosse um irredutível mestre de si mesmo, ele não desejava
impor seu modo de vida sobre os outros, mesmo sobre seus amigos e
companheiros pessoais (se, é claro, não o fariam de livre vontade). Assim ele diz a
Damis que não deseja proibí-lo de comer carne e beber vinho, ele apenas reserva-
se o direito de abster-se e de defender sua conduta se chamado a fazê-lo (ii, 70).
Esta é uma indicação adicional de que Damis não era um membro do círculo
interno da disciplina, e este último fato explica o porquê de um seguidor tão fiel da
pessoa de Apolônio ainda estivesse não obstante tanto na escuridão.

E não só isso, mas Apolônio mesmo dissuade o Rajá Fraotes, seu primeiro
hospedeiro na Índia, que desejava seguir sua observância estrita, de fazê-lo,
porque isso o afastaria muito de seus súditos (ii, 37).

Três vezes por dia Apolônio orava e meditava; no alvorecer (vi, 10, 18; vii, 31), no
meio-dia (vii, 10), e no ocaso (viii, 13). Isto parece ter sido seu costume invariável;
não importa onde ele estivesse, parece ter devotado pelo menos uns poucos
momentos para meditação silenciosa nestes momentos. O objeto de seu culto é
sempre dito ter sido o “Sol”, isto é, o Senhor de nosso mundo e seus mundos
irmãos, cujo símbolo encantador é o orbe do dia.

Vimos no breve esboço devotado aos seus “Primeiros Anos” como ele dividia o dia
e repartia seu tempo entre as diferentes classes de seus ouvintes e inquiridores.
Seu estilo de ensino e prédica era o oposto do orador retórico ou profissional. Não
havia arte alguma em suas sentenças, nenhuma busca de efeito, nenhuma
afetação. Mas ele falava “como se de uma trípode” [a trípode era um banco de três
pés onde sentavam-se as Pitonisas ao proferir seus oráculos – NT], com palavras
como “Eu sei”, “Parece-me”, “Por que vós”, “Sabei”. Suas frases eram curtas e
compactas, e suas palavras carregavam convicção com elas e adequavam-se aos
fatos. Sua obra, dizia, não era procurar e questionar como havia feito em sua
juventude, mas ensinar o que sabia (i, 17). Ele não empregava a dialética da escola
Socrática, mas fazia seus ouvintes afastar-se de tudo o mais e dar ouvidos somente
à voz interior da filosofia (iv, 2). Ele tirava suas ilustrações de qualquer incidente
casual ou acontecimento doméstico (iv, 3; vi, 3, 38), e usava tudo para o
melhoramento de seus ouvintes.

Quando foi a julgamento, não fez preparação alguma para sua defesa. Ele tinha
vivido sua vida como ela se apresentava cotidianamente, preparado para a morte, e
assim continuaria (viii, 30). Acima de tudo agora era sua escolha deliberada
desafiar a morte pela causa das filosofia. E diante das repetidas solicitações de seu
velho amigo para que preparasse sua defesa, replicou:

“Damis, pareces ter perdido teu entendimento diante da morte, ainda que tenhas
estado tanto tempo comigo e eu tenha amado a filosofia desde mesmo minha
juventude (leia-se θιλοσοφω por θιλοσοφων), imaginei que estarias tu mesmo
preparado para a morte e igualmente conhecias bem meu generalato nisto. Pois
como os guerreiros no campo de batalha necessitam não só de boa coragem mas
também daquele generalato que os avisa quando lutar, assim devem os que amam
a sabedoria fazer um cuidadoso estudo das boas épocas de morrer, para que
possam escolher a melhor e não encontrar a morte todos despreparados. Que eu
escolhi e agarrei o momento que segundo a sabedoria era o melhor para a
contenda mortal – isto é, se há alguém que deseje matar-me – eu provei a outros
amigos quando estavas perto, tampouco cessei de ensinar-te isto em privado” (vii,
31).

Isto foram algumas poucas indicações de como nosso filósofo vivia, nada temendo
exceto a deslealdade a seu alto ideal. Agora faremos menção a alguns de seus
traços mais pessoais, e a alguns dos nomes de seus seguidores.

XIV. ELE E SEU CÍRCULO

Apolônio é dito ter tido formosíssima aparência (i, 7, 12; iv, 1) (Rathgeberger [G] em
seu Grossgriechenland und Pythagoras – A Magna Grécia e Pitágoras; Gotha,
1866; uma obra de maravilhosa indústria bibliográfica, refere-se a três supostos
retratos de Apolônio [p. 621]. Um no Campidoglio Museum of the Vatican,
Indicazione delle Sculture – Catálogo de Esculturas; Roma, 1840; p. 68, n° 75, 76 e
77; outro no Museu Real Boubon, descrito por Michel B.; Nápoles, 1837; p. 79, n°
363; e outro a réplica de uma contorniate, de Visconti. Não consegui encontrar sua
primeira referência, mas em um Guia do Museu Real Bourbon, traduzido por C.J.J.;
Nápoles, 1831; eu encontrei na p. 152 que o n° 363 é um busto de Apolônio, cerca
de 90 cm de altura, cuidadosamente executado, com uma cabeça semelhante a um
Zeus, com barba e longa cabeleira descendo sobre seus ombros, presos por uma
larga faixa. O busto parece ser antigo. Contudo, não pude obter uma reprodução
dele. E.Q. Visconti, no atlas de sua Iconographic Grecque; Paris, 1808; dá a
reprodução de uma contorniate, ou medalha com uma borda circular, cujo um dos
lados tem uma cabeça de Apolônio e a legenda APOLLONIVS TEANEVS. Esta
também representa nosso filósofo com barba e cabelos compridos; a cabeça é
coroada, e a parte superior do corpo coberta com uma túnica e o manto do filósofo.
A medalha, porém, é de artesania muito inferior, e o retrato não é agradável de
modo algum. Visconti em seu folheto devota um raivoso e ofensivo parágrafo a
Apolônio, “ce trop célèbre imposteur”, como o chama, basado em De Tillemont) mas
além disto não temos nenhuma indicação muito precisa de sua pessoa. Seus
modos eram sempre doces e gentis (i, 36; ii, 22) e modestos (iv, 31; viii, 15), e nisto,
diz Damis, ele parecia mais um indiano do que um grego (iii, 36); mas
ocasionalmente ele impreca indignado contra alguma barbaridade especial (iv, 30).
Seu temperamento era freqüentemente pensativo (i, 34), e quando não estava
falando mergulhava longamente em profundos pensamentos, durante o que seus
olhos ficavam fixos no chão (i, 10 et al.).

Ainda que, como vimos, fosse ferrenhamente inflexível consigo mesmo, estava
sempre pronto para desculpar os outros; se, de um lado, aplaudia a coragem dos
poucos que permaneceram com ele em Roma, de outro recusou acusar de covardia
os muitos que haviam fugido (iv, 38). Tampouco sua gentileza era demonstrada
simplesmente pela abstenção de acusar, ele era sempre ativo em atos positivos de
compaixão (cf. vi, 39).

Uma de suas poucas peculiaridades era gostar de ser chamado de “Tianeu” (vii,
38), mas não é dito o porquê disto. Dificilmente pode ter sido porque Apolônio fosse
particularmente orgulhoso de seu local de nascimento, pois mesmo que fosse um
grande amante da Grécia, tanto que às vezes poderíamos chamá-lo de patriota
entusiástico, seu amor pelos outros países era igualmente pronunciado. Apolônio
era um cidadão do mundo, se jamais houve algum, em cuja linguagem a terra natal
não influenciava, e um sacerdote da religião universal em cujo vocabulário a palavra
seita não existia.

A despeito de sua vida extremamente ascética, ele era um homem de forte


compleição, tamanha que mesmo quando havia atingido a avançada idade de 80
anos, dizem, ele ainda era rijo e saudável em cada membro e órgão, aprumado e
perfeitamente formado. Havia ainda um certo charme indefinível em torno dele que
o fazia mais agradável de ver do que mesmo o frescor da juventude, e mesmo que
sua face estivesse coberta de rugas, como o representavam as estátuas no templo
de Tíana no tempo de Filóstrato. De fato, diz seu retórico biógrafo, os relatos
decantam mais o charme de Apolônio em sua idade provecta do que a beleza de
Alcebíades em sua juventude (viii, 29).

Em resumo, nosso filósofo parece ter tido a presença mais encantadora e a


disposição mais amável; tampouco sua absoluta devoção à filosofia teve a natureza
do ideal eremítico, pois ele passou sua vida entre os homens. Não admira então
que tenha atraído a si tantos seguidores e discípulos! Teria sido interessante se
Filóstrato nos tivesse dito mais sobre estes “Apolônicos”, como eram chamados
(viii, 21), e se constituíam uma escola distinta, ou se se reuniam em comunidades
segundo o modelo Pitagórico, ou se eram simplesmente estudiosos independentes
atraídos à personalidade dominante da época no campo da filosofia. Porém, é certo
que muitos deles usavam a mesma roupagem que ele e seguiam o seu modo de
vida (iv, 39). Também é feita repetida menção aos acompanhantes de Apolônio em
suas viagens (iv, 47; v, 21; viii, 19, 21, 24), às vezes até dez de uma vez, mas a
nenhum deles permitia ensinarem até que houvessem cumprido o voto de silêncio
(v, 43).

Os mais notáveis destes seguidores foram Musônio, que era considerado o maior
filósofo da época depois do Tianeu, e que foi a vítima especial da tirania de Nero
(iv, 44; v, 19; vii, 16), e Demétrio, “que amava Apolônio” (iv, 25, 42; v, 19; vi, 31; vii,
10; viii, 10). Estes nomes são bem conhecidos da história; outros nomes já
desconhecidos são os do egípcio Dioscórides, que devido à má saúde foi deixado
para trás na longa viagem à Etiópia (iv, 11, 38; v, 43), Menipo, a quem livrara de
uma obsessão (iv, 25, 38; v, 43), Fédimo (iv, 11) e Nilo, que o seguiu deixando os
Gimnosofistas (v, 10 sqq, 28), e, é claro, Damis, que nos faz pensar que estava
sempre com ele desde a época de seu encontro em Ninus.

No geral imaginamos que Apolônio não estabeleceu nenhuma organização nova;


ele fez uso das já existentes, e seus discípulos foram aqueles que foram atraídos
para ele pessoalmente por uma invencível afeição que somente poderia ser
satisfeita estando continuamente perto dele. Parece certo que ele não treinou
ninguém para continuar sua missão; ele veio e se foi, ajudando e iluminando, mas
não deixou nenhuma tradição de linha definida, e não fundou nenhuma escola para
ser continuada por sucessores. Mesmo para seu sempre fiel companheiro, ao dar-
lhe adeus para o que ele sabia ser a última vez para Damis na Terra, ele não teve
nenhuma palavra a dizer sobre a obra a que devotara sua vida, a qual Damis jamais
entendeu. Suas últimas palavras foram só para Damis, para o homem que o amara,
mas jamais o conhecera. Foi uma promessa de vir a ele se precisasse de ajuda.
“Damis, sempre que pensares em coisas elevadas em meditação solitária, me
verás” (viii, 28).

Agora voltaremos nossa atenção a uma consideração de alguns dos ditos


atribuídos a Apolônio e das falas postas em sua boca por Filóstrato. Os ditos breves
com toda probabilidade são autenticamente tradicionais, mas as falas em sua
maioria são a elaboração artística das toscas notas de Damis. De fato, são
abertamente declaradas como tal; mas não obstante são interessantes por si, por
duas razões.

Em primeiro lugar, elas honestamente denunciam sua natureza, e não reivindicam


inspiração; são confessadamente documentos humanos que tentam dar uma
roupagem literária ao corpo tradicional de pensamento e pesquisa que a vida de
nosso filósofo construiu nas mentes dos seus ouvintes. O método era comum na
antigüidade, e os antigos compiladores de outras séries de documentos famosos
teriam se espantado se pudessem ver como a posteridade divinizaria seus esforços
e os consideraria como imediatamente inspirados pela fonte de toda a sabedoria.
Em segundo lugar, mesmo que não devamos supor que estamos lendo as palavras
reais de Apolônio, de qualquer modo estamos cônscios de estar em contato
imediato com a atmosfera interna do melhor pensamento religioso da mente grega,
e temos diante de nossos olhos a imagem de uma fermentação mística e espiritual
que influenciou todos os níveis da sociedade no primeiro século de nossa era.

XV. DE SEUS DITOS E SERMÕES

Apolônio acreditava na oração, mas quão diferentemente da vulgar! Para ele a idéia
de que os Deuses pudessem ser desviados da senda da estrita justiça pelas
súplicas dos homens era uma blasfêmia; que os Deuses pudessem se tornar
partidários de nossas esperanças e temores egoístas, para nosso filósofo era algo
impensável. Só sabia de uma coisa: que os Deuses eram os ministros do direito e
os rígidos administradores do justo merecimento. A crença comum, que persiste até
em nossos dias, de que Deus pode ser desviado de Seu propósito, de que pactos
poderiam ser feitos com Ele ou Seus ministros, era inteiramente desprezível para
Apolônio. Seres com quem pactos podiam ser feitos, que podiam ser influenciados
e obrigados, não seriam Deuses, mas menos que homens. Assim encontramos
Apolônio jovem conversando com um dos sacerdotes de Esculápio nos seguintes
termos:

“Já que os Deuses conhecem todas as coisas, imagino que alguém que entre no
templo com uma consciência correta em si rezaria assim: ‘Dai-me, oh Deuses, o
que me cabe!’ “ (i, II)

E assim também ele rezou, em sua longa jornada à Índia, na Babilônia: “Deus do
Sol, envia-me sobre a Terra até onde for bom para Ti e para mim; e que eu possa
conhecer o bem, e jamais conhecer o mal ou ser conhecido por ele” (i, 31).

Uma de suas preces mais comuns era, segundo Damis, assim: “Concedei, oh
Deuses, que eu tenha pouco e não precise de nada” (i, 34).

“Quando entrais nos templos, pelo que rezais?”, perguntou para nosso filósofo o
Pontífice Máximo Telesino. “Eu rezo”, disse Apolônio, “para que a retidão possa
imperar, para que as leis permaneçam intactas, para que o sábio seja pobre e os
outros, ricos, mas honestamente” (iv 40).

A fé de nosso filósofo no grande ideal de nada ter e ainda assim possuir todas as
coisas, é exemplificada em sua réplica ao oficial que demandava como ele
pretendia entrar nos domínios da Babilônia sem permissão. “Toda a Terra”, disse
Apolônio, “é minha, e me é dado que eu a percorra” (i, 21).
Há muitos exemplos de somas de dinheiro sendo oferecidas a Apolônio por seus
serviços, mas ele invariavelmente as recusava; e não só isso, mas seus seguidores
também recusavam todos os presentes. Quando o Rei Vardan, com verdadeira
generosidade oriental, ofereceu-lhe presentes, foram devolvidos; e nisto disse
Apolônio: “Vêde, minhas mãos, ainda que muitas, são todas parecidas”. E quando o
rei perguntou a Apolônio qual presente ele traria para ele da Índia, nosso filósofo
replicou: “Um presente que vos agradará, Sire. Pois se minha estada lá me tornar
mais sábio, voltarei a vós melhor do que sou agora” (i, 41).

Quando estavam cruzando as grandes montanhas em direção à Índia, diz-se que


teve lugar uma conversa entre Apolônio e Damis, a qual nos fornece um bom
exemplo de como nosso filósofo sempre usava os incidentes do dia para inculcar as
mais elevadas lições de vida. A questão dizia respeito a “embaixo” e “em cima”.
“Ontem”, diz Damis, “estávamos embaixo no vale; hoje estamos em cima, alto nas
montanhas, não muito distantes do céu”. “Então isto é o que tu queres dizer por
‘embaixo’ e ‘em cima’ “, disse Apolônio gentilmente. “Mas é claro!”, replicou Damis
impaciente, “se penso claramente; que necessidade temos de tais questões
inúteis?”. “E adquiriste um conhecimento maior da natureza divina estando mais
perto do céu sobre o topo das montanhas?”, continuou seu mestre, “Pensas que os
que observam o céu das alturas montanhosas estão algo mais perto do
entendimento das coisas?”. “Para falar a verdade”, disse Damis, um tanto
desconcertado, “eu pensei mesmo que desceria mais sábio, pois estive numa
montanha mais alto do que qualquer outro homem, mas temo não saber mais do
que antes de subir nela”. “Tampouco os outros homens saberão”, replicou Apolônio;
“tais observações os fazem ver o céu mais azul, as estrelas maiores, e o sol a
nascer da noite, coisas sabidas por aqueles que conduzem as ovelhas e cabras;
mas como Deus realmente se interessa pelo gênero humano, e como Ele tem vero
prazer em seu serviço, o qual é a virtude, a retidão e o senso-comum, eis que nem
[o monte] Athos o revelará àqueles que escalam seu cume, nem o Olimpo, que
suscita a admiração do poeta, a não ser que a alma o perceba; pois quando a alma,
pura e sem mistura, ascender a estas altitudes, juro-te, ela voará muito, muito mais
alto do que este Cáucaso altaneiro” (ii, 6).

Novamente, quando em Termópilas, seus seguidores estavam disputando sobre


qual seria o local mais alto da Grécia, estando então o Monte Eta em vista.
Acontecia de eles estarem bem ao pé da colina onde os espartanos foram
derrotados crivados de flechas. Subindo ao cume, Apolônio exclamou: “E eu acho
que este é o ponto mais alto, pois aqueles que aqui tombaram por amor à liberdade
fizeram-no tão alto como o Eta, e o elevaram muito acima de mil Olimpos” (iv, 23).

Um outro exemplo de como Apolônio transformava acontecimentos casuais em


boas ilustrações é o seguinte: Certa vez em Éfeso, em uma das estradas
pavimentadas perto da cidade, ele estava falando sobre dividirmos nossos bens
com os outros, e como deveríamos naturalmente ajudar uns aos outros. Ocorria que
um grupo de pardais estava pousado numa árvore próxima em perfeito silêncio.
Subitamente um outro pardal chegou voando e começou a chilrear, como se
quisesse dizer aos outros qualquer coisa. Imediatamente todo o bando começou a
pipilar também, e voaram todos atrás do recém-chegado. A supersticiosa audiência
de Apolônio ficou muito impressionada pelo comportamento dos pardais, e viu nisso
um augúrio de alguma coisa importante. Mas o filósofo continuou seu sermão. O
pardal, disse ele, convidou seus amigos para um banquete. Um garoto escorregou
em um campo próximo e esparramou-se algum grão que ele carregava em uma
bolsa; ele recolheu a maior parte e foi-se embora. O pequeno pardal, calhando de
encontrar os grãos que sobraram, imediatamente voou para convidar seus amigos
para o festim.

Então a maior parte da audiência correu para ver se era verdade, e quando
voltaram todos gritando e gesticulando maravilhados, o filósofo continuou: “Vêde
que cuidado os pardais têm uns para com os outros, e quão felizes ficam em
compartilhar seus bens. Mas nós homens não o aprovamos; antes, se vemos um
homem dividindo seus bens com outros homens, chamamo-lo de esbanjador,
extravagante, e de outros nomes, e acusamos os homens que recebem a partilha
de serem aduladores e parasitas. O que nos resta então senão encerrarmo-nos em
casa como aves de engorda, e empanturrarmos nossos estômagos na escuridão
até que rebentemos de gordura?” (iv, 3).

Em outra ocasião, em Esmirna, Apolônio, vendo um navio ser carregado, usou a


ocasião para ensinar às pessoas a lição da cooperação. “Olhai a marujada!”, ele
disse. “Vêde como alguns aprontaram os botes, alguns subiram as âncoras e as
prenderam, alguns dispuseram as velas para aproveitar o vento, como outros ainda
verificaram a proa e a pôpa. Mas se um único homem falhar em desempenhar uma
só de suas tarefas, ou negligenciar suas atribuições, sua navegação será ruim, e
terão a tempestade no meio deles. Mas se rivalizarem entre si, tentando equiparar-
se cada um a seus companheiros, tal barco terá céus favoráveis, e um bom tempo
e boa viagem sucederão” (iv, 9).

Novamente, em outra ocasião, em Rodes, Damis perguntou-lhe se ele conhecia


algo maior que o famoso Colosso. “Sim”, replicou Apolônio; “o homem que anda
nos honestos sendeiros da sabedoria que nos dá a saúde” (v, 21).

Também há um número de exemplos de respostas satíricas ou sarcásticas dadas


por nosso filósofo, e de fato, a despeito de seu temperamento usualmente grave,
ele não infreqüentemente zombava de seus ouvintes, e às vezes, se podemos dizer
assim, ironizava sua estultice (vide especialmente iv, 30).

Mesmo em tempos de grande perigo esta característica se mostrava. Um bom


exemplo é a resposta à delicada pergunta de Tigelino: “O que pensais de Nero?”.
“Penso melhor dele do que vós”, redargüiu Apolônio, “pois vós acreditais que ele
deveria cantar, e eu penso que ele deveria manter-se em silêncio” (iv, 44).

Também sua resposta a um jovem Creso [Creso, rei da Lídia, ficou famoso por sua
enorme riqueza – NT] da época é tão irônica quanto sábia; “Jovem senhor”, disse
ele, “penso que não sois vós que possuís vossa casa, mas que vossa casa vos
possui” (v, 22).

Do mesmo estilo também é a resposta a um glutão que jactava-se de sua gulodice.


Ele copiava Hércules, dizia, que era famoso tanto pela comida que comia quanto
por seus trabalhos.

“Sim”, disse Apolônio, “pois ele era Hércules. Mas vós, que virtude tendes, oh
montanha de gordura? A única coisa que chama a atenção em vós é a
possibilidade de explodirdes” (iv, 23).

Mas voltemos a momentos mais sérios. Em resposta à ardente súplica de


Vespasiano, “ensina-me o que deveria fazer um bom rei”, Apolônio diz-se que
respondeu algo nestes termos:

“Vós me pedis o que não pode ser ensinado. Pois a realeza é a maior coisa ao
alcance do mortal; e não é ensinada. Mas vos direi o que, se fizésseis, faríeis bem.
Não considereis a riqueza que é acumulada – em que ela é superior à areia reunida
casualmente? Nem aquela que provém de pesadas taxações que oprimem os
homens – pois o ouro que vem das lágrimas é vil e negro. Empregareis melhor do
que qualquer rei a riqueza, se atenderdes às necessidades dos desfavorecidos e
garantirdes a riqueza dos que possuem muito. Temei o poder de fazer o que vos
aprouver, assim o usareis com maior prudência. Não apareis as espigas que
sobressaem dentre as outras – pois Aristóteles não é justo neste ponto (vide
Chassang, op. cit., p. 458, para uma crítica desta declaração) – mas antes separai
sua animosidade como o joio dentre o grão, e intimidai os agitadores em disputa
não dizendo ‘Eu vos puno’, mas ‘Irei fazê-lo’. Submetei-vos à lei, oh Príncipe, pois
fareis leis mais sábias se vós mesmos não desprezardes a lei. Sê mais reverente
do que nunca aos Deuses; grandes são as dádivas que recebestes deles, e orai por
grandes coisas (Isto foi antes de Vespasiano tornar-se Imperador). No que tange ao
estado, agi como rei; no que tange a vós mesmos, agi como um homem comum” (v,
36).

E assim sempre do mesmo modo, dando bom conselho e demonstrando um


profundo conhecimento dos assuntos humanos. E se vamos supor que se trata de
mero exercício retórico de Filóstrato e não é baseado na substância do que
Apolônio disse, então devemos ter uma opinião melhor do retórico do que o resto
de seus escritos afiança.

Existe um diálogo Socrático extremamente interessante entre Tespésion, o abade


da comunidade Gimosofista, e Apolônio, sobre os méritos relativos dos modos
grego e egípcio de representar os Deuses. Segue-se algo como assim:

“Mas! Vamos imaginar”, disse Tespésion, “que os Fídias e os Praxíteles foram ao


céu e tiveram impressões das formas dos Deuses, e assim fizeram simulacros
deles, ou foi outra coisa que os fez esculpí-los?”

“Sim, foi outra coisa”, disse Apolônio, “algo prenhe de sabedoria”.

“O que foi? Certamente não podeis dizer que foi algo além de mera imitação!”

“A imaginação os conduziu – um trabalho mais sábio que a imitação; pois a


imitação somente apresenta o que foi visto, enquanto que a imaginação apresenta
o que jamais foi contemplado, concebendo-o em relação à coisa que realmente
existe”.

A imaginação, diz Apolônio, é uma das mais poderosas faculdades, pois nos
habilita a chegar mais perto das realidades. Geralmente se supõe que a escultura
grega era meramente uma glorificação da beleza física, e bastante desespiritual em
si mesma. Era uma idealização das formas e feições, membros e músculos, uma
glorificação vazia do físico com nada é claro correspondendo a ela realmente na
natureza das coisas. Mas Apolônio declarou que ela traz-nos para mais perto do
real, como Pitágoras e Platão disseram antes dele, e como todos os sábios
ensinaram. Ele queria dizer isto literalmente, e não vaga e fantasticamente. Ele
declarou que os protótipos e idéias das coisas são as únicas realidades. Ele queria
dizer que entre a imperfeição terrena e o mais excelso arquétipo divino de todas as
coisas existiam graus de crescente perfeição. Queria dizer que dentro de cada
homem existe uma forma da perfeição, embora é claro que ainda não
absolutamente perfeita; que o anjo no homem, seu daimon, era de uma beleza
divinal, o resumo de todos os mais finos traços que apresentou em suas muitas
vidas na Terra. Os Deuses também pertencem ao mundo dos arquétipos, dos
modelos, das perfeições, o mundo celeste. Os escultores gregos conseguiram
entrar em contato com este mundo, e a faculdade que usaram foi a imaginação.

Esta idealização da forma era um modo digno de representar os Deuses; “mas”, diz
Apolônio, “se entronizardes um falcão ou uma coruja ou um cão em vossos
templos, para representar Apolo ou Atena ou Hermes, podeis dignificar os animais,
mas fareis os Deuses perder dignidade”.

A isto Tespésion replicou que os egípcios não pretendiam dar nenhuma forma
específica aos Deuses; eles lhes atribuíam meramente símbolos aos quais era
associado um significado oculto.

“Sim”, responde Apolônio, “mas o perigo é que as pessoas comuns adorem estes
símbolos e concebam idéias deformadas sobre os Deuses. O melhor seria não ter
representação alguma. Pois a mente do adorador pode formar e adequar para si
uma imagem do objeto de sua adoração melhor do que qualquer arte”.

“Certamente”, contrafez Tespésion, e então acrescentou maliciosamente: “Havia um


velho ateniense por aí – não tolo – chamado Sócrates, que jurava pelos cães e
gansos como se fossem Deuses”.

“Sim”, replicou Apolônio, “ele não era tolo. Ele jurava por eles não como sendo
Deuses, mas para evitar de jurar pelos Deuses” (iv, 19).

Esta é uma encantadora passagem de sagacidade, do egípcio contra o grego, mas


todos estes diálogos podem ser considerados como sendo os exercícios retóricos
de Filóstrato antes do que de Apolônio, que ensinava “como tendo autoridade”,
como se “de uma trípode”. Apolônio, o sacerdote da religião universal, poderia ter
apontado o lado bom e o lado ruim tanto da arte religiosa grega quanto da egípcia,
e certamente ensinou o caminho mais elevado do culto desprovido de símbolos,
mas ele não defenderia um culto popular contra um outro. No diálogo acima há um
nítido preconceito contra o Egito e uma glorificação da Grécia, e isto ocorre de
modo marcante em diversos outros diálogos. Filóstrato era um campeão da Grécia
contra todas as outras terras; mas Apolônio, cremos, era mais sábio que seu
biógrafo.

A despeito da roupagem literária que é posta sobre os discursos mais longos de


Apolônio, eles contêm muitos nobres pensamentos, como podemos ver pelas
seguintes citações das conversas de nosso filósofo com seu amigo Demétrio, que
estava tentando dissuadí-lo de enfrentar Domiciano em Roma.

“A lei”, disse Apolônio, “nos obriga a morrer pela liberdade, e a natureza ordena que
morramos por nossos pais, nossos amigos, ou nossos filhos. Todos os homens
estão ligados por estes deveres. Mas um dever superior é imposto sobre o sábio;
ele deve morrer por seus princípios e a verdade que defende mais cara que a vida.
Não é a lei que lhe impõe a escolha, não é a natureza; é a força e coragem de sua
própria alma. Mesmo que o fogo e a espada lhe aflijam, não sobrepujarão sua
resolução ou o obrigarão à menor falsidade; mas ele guardará os segredos das
vidas alheias e tudo o que lhe for confiado à honra tão religiosamente como os
segredos da iniciação. E eu sei mais que os outros homens, pois sei que de tudo o
que sei, algumas coisas são para o bom, outras para o sábio, outras para mim
mesmo, outras para os Deuses, mas nada para os tiranos.
“Além disso, penso que um homem sábio não faz nada sozinho ou por si mesmo, e
nenhum pensamento seu é secreto, pois ele mesmo é sua testemunha. E se o
ditado famoso ‘conhece-te a ti mesmo’ é de Apolo ou de algum sábio que aprendeu
a conhecer-se e proclamou-o como um bem para todos, penso que o homem sábio
que conhece a si mesmo e traz seu espírito em constante camaradagem, para lutar
à sua destra, não temerá o que o vulgo teme, nem condescenderá em fazer o que a
maioria dos homens faz sem a menor vergonha” (vii, 15).

Nisto temos o verdadeiro desdém filosófico diante da morte, e também o calmo


conhecimento do iniciado, do confortador e do conselheiro de outros, a quem os
segredos de suas vidas foi confessado, e que nenhuma tortura poderia jamais
extrair de seus lábios. Aqui, também, temos a plena percepção do que é
consciência, da impossibilidade de ocultar o menor traço de mal no mundo interior;
e ainda o fulgurante brilho de uma ética superior que faz a conduta habitual das
massas parecer surpreendente – “o que eles fazem, e sem vergonha alguma”.

XVI. DE SUAS CARTAS

Apolônio parece ter escrito muitas cartas a imperadores, reis, filósofos,


comunidades e estados, ainda que não tenha sido de modo algum um
“correspondente prolixo”; de fato, o estilo de suas notas curtas é
extraordinariamente conciso, e foram compostas, segundo Filóstrato, “ao modo da
scytale dos lacedemônios” (scytale era uma vara, ou bastão, usado como cifra para
despachos escritos. “Uma tira de couro era enrolada obliquamente em torno, onde
os despachos eram escritos ao comprido, de modo que quando desenroladas eram
ilegíveis; os comandantes no exterior tinham uma vara de igual espessura, em torno
da qual enrolavam seus documentos, e assim se tornavam capazes de ler os
despachos” - Liddeell e Scott, Lexicon, sub voc. Daí que scytale veio a significar
geralmente um despacho espartano, que era caracteristicamente lacônico em sua
brevidade).

È evidente que Filóstrato teve acesso a cartas atribuídas a Apolônio, pois ele cita
um número delas (vide i, 7, 15, 24, 32; iii, 51; iv, 5, 22, 26, 27, 46; v, 2, 10, 39, 40,
41; vi, 18, 27, 29, 31, 33; viii, 7, 20, 27, 28), e não há razão para duvidarmos de sua
autenticidade. De onde ele as obteve, não nos diz, a menos que fossem a coleção
feita por Adriano em Âncio (viii, 20).

Para que o leitor possa ser capaz de apreciar o estilo de Apolônio anexamos um ou
dois espécimens destas cartas, ou antes notas, pois são tão curtas que não
merecem o nome de epístolas. Eis uma aos magistrados de Esparta:

“Apolônio aos Éforos, saudações!


“É possível para os homens não cometer erros, mas requer-se homens nobres para
reconhecer que os cometeram”

Tudo o que Apolônio coloca é um punhado de palavras em grego. Aqui, também, há


um interessante intercâmbio de notas entre os dois maiores filósofos da época,
ambos tendo sofrido prisão e estando em constante risco de morte.

“Apolônio a Musônio, o filósofo, saudação!

“Quero ir a vós, compartilhar conversa e teto convosco, e ser-vos de alguma


utilidade. Se ainda credes que Hércules uma vez resgatou Teseu do Hades,
escrevei o que precisais. Adeus!”

“Musônio a Apolônio, o filósofo, saudação!

“Boa recompensa se reserva para vós por vossos bons pensamentos; o que está
reservado para mim é um que espera seu julgamento e prova sua inocência.
Adeus.”

“Apolônio a Musônio, saudação!

“Sócrates recusou ser livre da prisão por seus amigos e compareceu perante os
juizes. Foi condenado à morte. Adeus”

“Musônio a Apolônio, o filósofo, saudação!

Sócrates foi condenado à morte porque não preparou sua defesa. Farei o mesmo.
Adeus!”

Contudo, Musônio, o Estóico, foi condenado à servidão penal por Nero.

Eis uma nota ao Cínico Demétrio, um dos mais devotados amigos de nosso filósofo:

“Apolônio, o filósofo, a Demétrio, o Cão (isto é, o Cínico), saudação!

“Eu vos dei a Tito, o imperador, para ensiná-lo o caminho da realeza, e vós em
troca destes-me poder falar-lhe com verdade; e com ele sêde tudo, menos irado.
Adeus!”

Em acréscimo às notas citadas no texto de Filóstrato, há uma coleção de noventa e


cinco cartas, em sua maior parte notas breves, cujo texto é oferecido na maioria das
edições (Chassang, op. cit., pp. 395 sqq., dá uma tradução Francesa delas). Quase
todos os críticos são de opinião de que não são genuínas, mas Jowett (artigo
“Apollonius”, Dictionary of Classical Biographies, de Smith) e outros pensam que
algumas delas podem muito bem ser autênticas.

Aqui damos uma amostra de uma ou duas destas cartas. Escrevendo para
Eufrates, seu grande inimigo, isto é, o campeão da pura ética racionalista contra a
ciência das coisas sagradas, ele diz:

17. “Os persas chamam de Magos aqueles que possuem faculdades divinas (ou
são divinos). Um Mago, então, é um que é um ministro dos Deuses, ou um que tem
por natureza a faculdade divina. Vós não sois nenhum Mago, mas rejeitais os
Deuses (isto é, é ateu)”.

Novamente, em uma carta endereçada a Críton, lemos:

23. “Pitágoras disse que a arte mais divina era a da cura. E se a arte da cura é a
mais divina, deve ocupar-se tanto da alma como do corpo; pois nenhuma criatura
pode estar bem enquanto a parte superior em si está doente”.

Escrevendo aos sacerdotes de Delfi contra a prática de sacrifícios sangrentos, diz:

27. “Heráclito era um sábio, mas mesmo ele (isto é, um filósofo de 600 anos antes)
jamais aconselhou as pessoas de Éfeso a limparem a sujeira com sujeira” (isto é,
expiar a culpa de sangue com sacrifício sangrento).

Ainda, àqueles que diziam ser seus seguidores, os que “se consideravam sábios”,
escreve em reprovação:

43. “Se alguém disser que é meu discípulo, então que acrescente que se mantém à
parte das termas, que não mata nada vivo, não come carne, é livre de inveja,
malícia, ódio, calúnia e sentimentos hostis, mas tem seu nome inscrito entre a raça
dos que alcançaram sua liberdade”.

Entre estas cartas é encontrada uma de alguma extensão endereçada a Valério,


provavelmente P. Valério Asiático, cônsul em 70 d.C. É uma sábia carta de
consolação filosófica para possibilitar que Valério suporte a perda de seu filho, e
segue assim (A.E.Chaignet, em seu Pythagore et la Philosophie pythagoricienne;
Paris, 1873; 2ª ed., 1874; cita-a como sendo genuíno exemplo da filosofia de
Apolônio):

“Não existe a morte de ninguém, exceto na aparência, e não existe nenhum


nascimento, a não ser aparente. A mudança do ser para o tornar-se parece ser o
nascimento, e a mudança do tornar-se para o ser parece ser a morte, mas na
verdade ninguém jamais nasce, e jamais alguém perece. Simplesmente um ser é
visível, e então, invisível; o primeiro pela densidade da matéria, o último pela
sutileza do ser – um ser que é o mesmo sempre, sua única modificação sendo o
movimento e o repouso. Pois o ser tem esta peculiaridade necessária: sua
mudança não é produzida por nada externo a si; mas o todo se torna partes e as
partes se tornam o todo na unidade de tudo. E se for perguntado: O que é isto que
às vezes é visto e às vezes é invisível, ora no mesmo, ora no diferente? – poderia
ser respondido: é o modo de todas as coisas aqui no mundo inferior, que quando
estão cheias de matéria são visíveis; devido à resistência de sua densidade, mas
são invisíveis devido à sua sutileza, quando se livram da matéria, mesmo que a
matéria ainda as circunde e flua através delas naquela imensidão de espaço que
existe nelas mas que não conhece nascimento ou morte.”

Mas por que esta falsa noção (de nascimento e morte) permaneceu tanto tempo
sem refutação? Alguns pensam que o que lhes sucede foi produzido por eles
mesmos. São ignorantes de que o indivíduo é trazido ao nascimento através dos
pais, e não pelos pais, assim como uma coisa produzida através da Terra não é
produzida dela. A mudança que sobrevém ao indivíduo não é nada que seja
causado pelo seu ambiente visível, mas é antes uma mudança na única coisa que
existe em cada um.

“E que outro nome pode ser dado a isso exceto o de ser primevo? A única coisa
que age e sofre se tornando tudo por tudo através de tudo, eterna deidade, privada
e afastada de seu próprio ser [self, no original – NT] por nomes e formas. Mas isso
é menos sério do que um homem lamentar-se quando passa de homem a Deus
pela mudança de estado e não pela destruição de sua natureza. O fato é que longe
de lamentar a morte deveríeis honrá-la e reverenciá-la. O modo melhor e mais
adequado para honrardes a morte é agora liberar o que foi para Deus, e dispor-vos
para encaminhar do modo costumeiro os que ficaram sob vossa responsabilidade.
Seria uma desgraça para um homem como vós deixar que o tempo e não a razão
se encarregue da cura, pois o tempo faz com que até mesmo as pessoas comuns
deixem de lamentar. A maior coisa é uma regra firme, e o melhor governante é
aquele que primeiro governa a si mesmo. E como seria permissível alterar o que
sucedeu pela vontade de Deus? Se há uma lei nas coisas, e há uma lei, e é Deus
quem a dispôs, o homem justo não terá desejo de tentar mudar as coisas boas, pois
tal desejo é egoísta, e contra a lei, mas ele pensará que todas as coisas que
sucedem são boas. Eia! curai-vos, dai justiça aos oprimidos e consolai-os; assim
secareis vossas lágrimas. Não deveis colocar vosso pesar pessoal acima de vossos
deveres públicos, mas antes colocai vossos deveres públicos antes de vosso pesar
pessoal. E vêde também que consolações ainda tendes! A nação se entristece
convosco por vosso filho. Dai algum retorno àqueles que o choram convosco; e isto
fareis mais rápido se cessardes de chorar do que se persistirdes. Não possuís
amigos? Como! ainda tendes outro filho! Não tendes mais o que partiu? Mas o
tendes! – responderá qualquer um que realmente pensa. Pois ‘aquele que é’ não
cessa jamais – melhor: é justamente pelo mesmo fato de que o será para sempre;
ou então ‘não é’, mas como o poderia ser quando o que ‘é’ jamais cessa de ser?

“Mas será dito que falhais na piedade para com Deus e sois injusto. Verdade,
falhais em piedade para com Deus, falhais na justiça para com vosso menino; pior,
falhais em piedade também para comigo. Não sabeis o que é a morte? Então matai-
me e enviai-me para a companhia da morte, e se não alterais o vestido que
colocastes nisto (isto é, sua idéia da morte), tereis me tornado nitidamente melhor
do que vós mesmos” (o texto da última frase é muito obscuro).

XVII. OS ESCRITOS DE APOLÔNIO

Mas além destas cartas Apolônio também escreveu alguns tratados, dos quais,
contudo, apenas um ou dois fragmentos foram preservados. Estes tratados são:

a. Os Ritos Místicos ou Sobre os Sacrifícios (O título completo é dado por Eudócia,


Jônia; ed. Villoison; Veneza, 1781; p. 57). Este tratado é mencionado por Filóstrato
(iii, 41; iv, 19), que nos diz que dispunha sobre o método apropriado de sacrificar a
cada Deus, as horas propícias para rezar, e as oferendas. Teve larga circulação, e
Filóstrato encontrou cópias dele em muitos templos e cidades, e nas bibliotecas dos
filósofos. Diversos fragmentos foram preservados (vide Zeller, Philosophie der
Griechen – A Filosofia dos Gregos, v. 127), dos quais o mais importante é
encontrado em Eusébio (Praeparat. Evangel., iv, 12-13; ed. Dindorf; Leipzig, 1867; i,
176, 177) e tem este conteúdo: “É melhor não fazer sacrifício algum a Deus, nem
acender um fogo, nem chamá-lo por nenhum nome que os homens dão às coisas
sensíveis. Pois ele não precisa de nada, nem mesmo dos Deuses, muito menos dos
homens pequeninos – nada que a Terra produza, nem vida alguma que ela
sustente, ou mesmo qualquer coisa que o ar límpido contenha. O único sacrifício
adequado a Deus é a melhor razão do homem, e não a palavra (Um jogo com os
significados de λσγος, que significa tanto razão como palavra) que sai de sua boca.

“Nós homens deveríamos procurar o melhor dos seres através da melhor coisa em
nós, pois o que é bom – age através da mente, pois a mente não necessita de
coisas materiais para fazer sua oração. Assim, para Deus, o poderoso Um, que está
acima de tudo, nenhum sacrifício deveria jamais subir.”

Noack (Psyche, I, ii, 5) nos conta que os eruditos estão convencidos da


autenticidade deste fragmento. Este livro, como vimos, estava em larga circulação e
era tido na mais alta conta, e diz-se que suas regras foram gravadas em pilares de
bronze em Bizâncio (Noack, ibid.).

b. Os Oráculos, ou Sobre a Divinação, 4 livros. Filóstrato (iii, 41) parece pensar que
o título integral era Divinação dos Astros, e diz que era baseado no que Apolônio
havia aprendido na Índia; mas o tipo de divinação sobre que Apolônio escreveu não
era a astrologia comum, mas algo que Filóstrato considerava superior à arte
humana comum nesta área. Ele, porém, nunca soube de alguém que possuísse
uma cópia desta obra rara.

c. A Vida de Pitágoras. Porfírio se refere a este livro, 8 (vide Noack, Porph. Vit.
Pythag., p. 15) e Jâmblico cita uma longa passagem dele (Ed. Amstelod., 1707, cc.
254-264)

d. O Testamento de Apolônio, a que já se fez referência, ao tratarmos das fontes de


Filóstrato (i, 3). Foi escrito no dialeto jônico, e contém um sumário de sua doutrina.

Um Hino à Memória também é atribuído a ele, e Eudócia fala de muitos outros (και
αλλαπολλα) trabalhos.

Aqui indicamos para o leitor toda a informação que existe a respeito de nosso
filósofo. Apolônio, então, foi um pilantra, um embusteiro, um charlatão, um fanático,
um entusiasta mal-orientado, ou um filósofo, um reformador, um trabalhador
consciente, um verdadeiro iniciado, um dos maiores da Terra? Isto cada um deve
decidir por si mesmo, de acordo com seu conhecimento ou sua ignorância.

De minha parte eu bendigo sua memória, e alegremente aprenderia com ele, de


onde quer que esteja.