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Supremo Alfa

Volume I: Companheiros
GJA Guimarães
— Arquivo de Revisão —
Capítulo 1 - Acordando
Luana

O telefone toca, sei que está tocando, mesmo que


o som esteja no mudo e meu aparelho só vibre, sei, porque
consigo ouvir muito bem, afinal, sou uma loba. Viro-me
para o outro lado da cama e espero que, quem quer que
esteja do outro lado da linha, desista. Mas não é o que
acontece, o telefone toca mais e mais, até que, de olhos
ainda fechados, levanto-me e tateio toda a minha cama até
encontrá-lo.
— O quê? – pergunto já irritada.
— Isso são modos de atender ao telefone,
maninha? – A voz de Alec me acalma. Céus! Já faz quase
cinco meses que não o vejo. Pensei que tivesse passado
por coisas difíceis, porém, nada é mais difícil do que
estar longe dele.
— Oi, irmão – digo em um suspiro.
— Bem, assim está melhor, mas não o suficiente.
Eu tenho novidades. – Não me animo, as novidades de
Alec têm sido sobre alcateias, políticas e tudo o mais, e
isso não me interessa.
— Quê? – murmuro, pondo a mão direita sobre os
meus olhos, já que um facho de luz acabou de passar pela
cortina do meu quarto.
— Estou voltando para casa daqui a dois dias. –
Ergo-me de vez da cama, já completamente desperta.
— Sério?
— Sim, maninha, eu vou voltar porque é seu
aniversário e...
— Luana, minha querida, estou faminto! – Ian
entra no meu quarto sem nem ao menos bater e me olha
com aquela cara idiota de quem está passando fome há uns
cinco dias. Ian é alto, possui porte atlético, como todo
lobo, e é a minha maldita sombra quando meu irmão não
está presente.
— Alec, tenho que desligar agora, Ian resolveu
invadir meu quarto – digo em um resmungo.
— Maninha, eu... – ele tenta completar a frase,
mas minha atenção está completamente no idiota do beta
do meu irmão.
— Depois conversamos, tchau. – Desligo o
telefone na cara de Alec e armo uma carranca para Ian.
Vivi cercada por homens, já que Alec e eu sempre fomos
meio que inseparáveis. Alguns dos caras da alcatéia
passaram a ser bons amigos. Na verdade, Ian passou a ser
um bom amigo.
— O que será de mim quando você arranjar um
companheiro, quem irá me alimentar? – ele pergunta com
uma mão sobre o seu peito, de modo dramático. Passo por
Ian e dou um soco em seu braço.
— Acredito que isso não acontecerá tão cedo –
digo, e ele finge que não me ouve.
— E quem irá me bater? Qual mulher ousaria me
bater? – Ele está certo, Ian será o beta de Alec, e ele é
feroz, mais feroz do que um lobo deveria ser.
Às vezes, penso que os outros homens só me
respeitam por isso, Alec e Ian, os futuros Alfa e Beta da
alcateia. As mulheres aqui são... Invisíveis, acho que elas
já nascem com o rabo por entre as pernas e nunca
aprenderam como erguê-lo de lá. Não me passa
despercebido o fato de que Ian e Alec se revezam para
sair da alcateia, eles não me deixam só, nunca. A regra é
que um Beta nunca deixa seu Alfa. Então, que porra Ian
está fazendo aqui, me infernizando há cinco meses?
Começo a fazer suas panquecas e a fritar seu
bacon, Ian suspira em minhas costas.
— Por que o destino foi tão cruel comigo e não
quis que nós dois fôssemos companheiros? – ele
questiona, e sei que está fazendo uma carranca nas minhas
costas.
— Não se preocupe, Ian, você vai encontrar
alguém que te alimente e me esquecerá logo, logo.
Ian tem o coração no estômago, nunca vi alguém
comer tanto, o que é estranho, já que o homem parece uma
rocha de tão forte.
Termino seu café enquanto ele já está se
lambuzando com a comida. Sorrio, é bom conviver com
Ian... Os outros não fazem nada comigo, mal me olham. E
as mulheres... Elas não querem ser vistas nem no mesmo
ambiente que eu. E eu não quero conviver no mesmo
ambiente que meu pai. Vê? É como uma corrida eterna de
gato e rato. Sinto o cheiro dele antes que apareça na
cozinha, olho para os lados, para as minhas rotas de fuga,
tarde demais... Ian percebe alguma alteração em mim e
para de comer feito um cavalo, ele fecha seu semblante e
fica sério, alimentando-se vagarosamente. Alguns
segundos depois, meu pai aparece na porta.
Meu pai é como os outros lobos, e a única coisa
que indica sua idade são seus cabelos brancos. Ele senta-
se à mesa e começa a se servir, põe um bocado na boca e
cospe praticamente em minha cara toda a comida meio
mastigada.
— Que merda é essa? Bem se vê, não serve nem
para cozinhar! Sei que não deve servir para procriar
também, já que ainda não encontrou seu companheiro! –
ele cospe cada palavra em mim. Dou um passo para trás,
como se elas fossem socos.
Insultos... Ele me insulta sempre que me vê, se
não tivesse uma mesa entre nós, teria me batido.
Ian, que já havia terminado de comer tudo de seu
prato, olha para as minhas mãos cerradas embaixo da
mesa e se levanta.
— Ian, não deveria andar com ela, vai afastar
qualquer companheira que você poderia ter – ele fala isso
com cara de nojo.
— Não se preocupe, Alfa – Ian pisca um olho,
sorrindo, e me põe em suas costas –, Luana e eu nos
divertimos muito.
Ian começa a me carregar para fora da cozinha
como se fosse um saco de feijão. Ele sempre fez isso,
sempre deu a entender que nós dois tínhamos um
envolvimento carnal, o que é impossível, já que ainda sou
virgem. Já disse para ele que isso afastaria todas as
mulheres, mas Ian só sorri e diz que elas vêm de qualquer
forma. Maldito convencido.
— Droga, Ian, coloque-me no chão! – Estamos
quase na floresta.
— Ainda não, Lua.
Lua... Era assim que Alec me chamava quando era
pequeno, porque era assim que a minha mãe também me
chamava. Ela dizia que meus olhos se pareciam com a lua
cheia. Hoje, só Alec e Ian me chamam dessa forma.
Ele corre alguns quilômetros, sei para onde está
me levando; pela demora, definitivamente sei. Quando Ian
me põe no chão e olho ao redor, vejo várias árvores
derrubadas, algumas com buracos e marcas em seus
troncos, marcadas de sangue por punhos, destruídas por
socos. Eu sei exatamente disso porque fui eu quem
provocou tamanha destruição, venho aqui para liberar
energia ou toda vez que me seguro para não socar a cara
do meu próprio pai. Minha loba não gostou de ser
carregada por Ian, ela gosta de andar com suas próprias
patas, não gosta que a defendam, muito menos que tomem
as suas lutas para si. Ela também não gosta de mim a
maior parte do tempo, porque eu a escondo.
Quando Ian me põe no chão, avanço nele. Ian
defende-se do meu golpe e eu dou um chute alto que o
acerta em cheio em seu estômago. Ele sorri e vem em
minha direção, ficamos ali, lutando por todo o dia, e
quando ambos caímos no chão, estamos machucados,
doloridos e cansados. Ele ergue a mão.
— Empate.
— Vai sonhando, Beta – digo em um sorriso e
viro meu corpo em direção ao seu.
Ian me fita nos olhos, já que estamos deitados na
grama um ao lado do outro.
— Eu falei a verdade, Lua, você seria uma
companheira perfeita para mim.
— Isso porque ainda não conheceu a sua
companheira destinada. Quando conhecê-la, voltaremos a
ter essa conversa. – Ele para um pouco para pensar e me
olha novamente.
— Mas isso não nos impede de...
— Ian, eu já disse que não! – Ele sorri e dá de
ombros.
— Acho que eu nunca vou deixar de tentar – O
descarado confessa e sorri.
Ele sabe que sou virgem, sabe também que
nunca... Bem, nunca nem beijei ninguém. Sei que a ligação
entre companheiros é algo sagrado, algo destinado pelos
deuses, então, resolvi esperar por ele, por alguém
destinado a mim. Mesmo que a ideia não me agrade muito,
um companheiro é o mais antigo costume do meu povo, e
eu conheço casais que tiveram sorte, eles se amam de
verdade, dá para ver em seus olhos.
Quando era mais nova, costumava olhá-los e
desejar que um dia alguém me olhasse com toda aquela
devoção. Também já conheci companheiros que são
extremamente infelizes, como a minha mãe era. Mamãe
era o saco de pancadas do meu pai. Por que os Deuses
entregaram um companheiro como ele para ela? Ao
mesmo tempo em que acho esse um costume importante, o
odeio. Vi minha mãe aprisionada a um homem abusivo,
desleal, sem honra... Os laços dos companheiros nunca se
desfazem, são para toda a vida.
— Que tal uma corrida? – ele sugere, levantando-
se.
Ian já estava tirando a sua roupa e eu o segui no
processo. A transformação em lobo é simples para quem
já é acostumado a isso, a primeira vez nunca é fácil e dói
como o inferno. Em pouco tempo, um imenso lobo marrom
me encara, vejo-me espelhada em sua íris: uma loba
caramelo com imensos olhos azuis. O lobo de Ian pula em
mim com seus dentes em meu pescoço, não dói, porque
ele não aperta, mas sei que esse seria um golpe que
facilmente me mataria. Fui treinada desde pequena e
depois passei a treinar com Ian e Alec, eu já tive alguns
professores...
Ian e eu passamos a tarde correndo e caçando
pela floresta e, quando a noite cai, coloco meu pescoço
sobre o de Ian e suspiro. Minha loba sabe que algo vai
acontecer, sempre sinto isso. É como uma indigestão,
como algo entalado em minha garganta; e eu sei que algo
bom – ou ruim – está prestes a acontecer.
Capítulo 2 – Presente de
Aniversário
Luana

Adormeci na floresta, junto a Ian. Acho que,


durante a noite, nos transformamos de volta e acabamos
abraçados para aquecermos nossos corpos. Começo a
despertar porque sinto sua respiração em meu pescoço, e
algo em minhas costas.
— Tire a porra do seu pau das minhas costas, Ian!
– Levanto-me, ou tento, já que ele é o dobro de mim em
tudo.
— Shhhiiii... – Ele me prende mais ainda em um
abraço forçado.
— Você não tem nada para fazer hoje? – Isso faz
com que ele desperte e me solte. Sabia que Ian tinha se
esquecido de algo, ele sempre se esquece de coisas
referentes ao meu pai e obedece a Alec cegamente. Prova
disso é que, há cinco meses, ele não me larga, é como um
cão com seu osso. Sei que meu irmão pediu para ele
manter um olho em mim, mas isso não significa ficar vinte
e quatro horas em minha cola.
— Preciso resolver umas coisas hoje, não apronte
nada e não faça nada que eu não faria. – Ele levanta e
pisca para mim.
Rolo meu olhos e jogo-me novamente na grama,
Ian consegue ser um panaca quando quer.
Mais ou menos uma hora depois que ele parte,
caminho na ponta dos pés para o meu quarto na casa
grande. Embora meu pai me odeie, é lá que moro. É como
se fosse uma imensa aldeia com uma casa maior no centro,
essa é a residência do Alfa e de sua família. As que ficam
ao redor dela, são as casas da matilha.
Tomo um banho, visto uma roupa qualquer e pego
as chaves da caminhonete de Ian. Vejo meu celular
tocando, mas resolvo deixá-lo sobre a minha
escrivaninha. Amanhã, completarei dezenove anos...
Dirijo até a cidade sem nem perceber. Tive uma infância
como qualquer outro, fui ao colégio como qualquer outra
pessoa normal, e sei que não deveria, mas fiz amizades lá.
Na verdade, uma amiga.
— Hei, estranha!!! – ela grita quando me vê.
Raquel é a pessoa mais iluminada que conheço.
Sério, nunca a vi triste, e isso sempre me fez bem, estar
com ela me faz bem.
— Oi, Lôra! – Raquel é quase uma Barbie,
costumo chamá-la dessa forma.
Ela me abraça forte e me entrega um presente.
— Não precisava... – digo, já abrindo o
embrulho, a verdade é que adoro presentes, e ela bem
sabe disso.
— Precisava sim, não sei por que não podemos
comemorar seu aniversário amanhã.
— Coisas de família, Lôra, já disse – corto-a, não
deixando margem para que ela continue no assunto.
Ela me dá de presente um vestido incrível.
— Quem sabe você possa usá-lo em suas “coisas
de família”. – Faz aspas com os dedos e revira os olhos,
mas logo sorri novamente.
Tento esconder ao máximo minha família dela,
Raquel não sabe nem onde eu moro, e sei que isso a
chateia.
— Então, o que planejou para hoje? – pergunto de
modo ansioso, se tem uma coisa que Raquel é realmente
boa, é em planejar comemorações.
Nossa primeira parada foi em um salão de beleza,
fizemos limpeza de pele, cortamos os cabelos, demos
hidratação e fizemos as unhas.
— Hei, estranha, você está linda! – ela exclama,
enquanto admira minha imagem no espelho. Nunca fui
alguém muito vaidosa, mas tenho o gene do meu povo, e
as pessoas normais costumam prestar muita atenção em
mim por meu porte.
Resolvi fazer um corte repicado em meu cabelo, o
que me transformou quase em outra pessoa. Olho-me ao
espelho e realmente gosto do que vejo. Alec e eu temos
cabelo cor mel, com algumas mechas em tons mais claros,
e olhos incrivelmente azuis.
Quando saímos do salão, já eram quase cinco
horas, fomos comer algo e Raquel não parava de falar em
como seria o seu futuro a partir de agora, que arranjou um
estágio em uma grande empresa de moda.
— E você, Lu, o que pensa para o futuro? Não
deseja sair desta cidadezinha? – Raquel sempre odiou
este lugar, perdeu os seus pais muito cedo e odeia ser
dependente dos tios.
— Claro que desejo sair daqui, mas não quero
abandonar Alec... Vou ficar por aqui mesmo – respondo,
dando de ombros.
— Sempre disse que você não tem ambições!!!
Olha – ela me cutuca –, quem é aquele cara lindo te
encarando?!
Ela tinha razão, havia alguém do outro lado da rua
que não tirava o olho de mim, mas ele não era um homem,
e sim um lobo. Um lobo idiota o bastante para entrar no
território do meu pai sem aviso. Ele sorri para mim em
reconhecimento e vai embora.
— Uou! O que foi isso? Vocês se conhecem? Por
favor, diga que tem um namorado secreto! – Demoro
algum tempo para responder, pois ainda estou assimilando
o que acabou de acontecer.
— Não, Lôra, sinto muito.
Ela faz cara de triste, mas logo se ilumina por
inteira.
— Conheço essa cara. O que você quer?
— Aquela boate reabriu... - Ela diz, já fazendo
bico.
— Nem precisa dizer mais nada, não adianta
discutir com você mesmo – digo simplesmente.
Pagamos a conta e saímos do restaurante direto
para a casa dos tios de Raquel, os pais dela haviam
morrido em um acidente há uns sete anos e, desde então,
ela vive com eles. Tomamos um banho, ela me fez usar o
vestido que me deu e me emprestou algo para calçar.
Raquel também fez a minha maquiagem e deu uma
sacudida no meu cabelo.
— Hei, estranha, até eu te comeria – comentou,
enquanto me olhava de cima a baixo.
— Que linguajar é esse, mocinha? – indago séria,
imitando seu tio, mas logo caímos na gargalhada.
Pegamos um táxi até a boate e, como sempre,
Raquel não pega filas. Acho que ela tem o dom de ser
notada por onde passa. Assim, entramos logo que
chegamos à boate, enquanto uma fila gigantesca aguardava
lá fora.
O som toma meu corpo como vibrações, sinto o
cheiro de todos que estão aqui, e não há nenhum lobo,
apenas suor e hormônios à flor da pele. Bebemos três
tequilas cada uma e fomos para a pista. Logo estávamos
cercadas por homens que dançavam colados aos nossos
corpos. Raquel e eu sempre dançamos muito agarradas, o
que chama a atenção de vários homens em uma boate, eles
pensam que terminarão a noite com duas mulheres em sua
cama.
Não sei quantas músicas dançamos, mas Raquel
puxa meu braço e grita no meu ouvido:
— Feliz aniversário!
E é aí que eu sei que já é tarde, muito tarde, Ian
enlouqueceria, Alec chegaria logo pela manhã e eu... Ahh,
bebemos mais umas cinco tequilas e voltamos para a
pista. Já não sei de quem são as mãos que me tocam, não
me incomodo, não me preocupo. Só desejo que, por uma
madrugada, eu possa viver sem ter que ficar olhando no
meu ombro para ver se serei ataca por alguém.
Raquel e eu rejeitávamos os pedidos e os convites
de homens para irmos para um local mais confortável,
essa noite era nossa, e ambas sabíamos disso. Raquel e eu
dançamos juntas, coladas, nosso suor se misturando e
nossa respiração já um pouco cansada. Os homens vinham
como moscas no mel, eles pensam que só porque duas
mulheres dançam coladas são lésbicas, e qual homem não
sonha com sexo a três? Os rejeitávamos com pouco
esforço e continuávamos a nossa celebração.
— Meus pés estão me matando, já são cinco e
meia!!! – ela grita por cima da música, que ainda toca.
Viramos a noite aqui, Alec deve chegar as seis e
será impossível estar lá no horário.
Voltamos para a casa dos tios de Raquel e começo
a me bater em tudo em seu quarto. Ela, que já estava no
oitavo sono em sua cama, desperta com sua cara inchada.
— O que foi?
— Estou atrasada.
— Às seis da manhã? Ninguém está atrasada às
seis da manhã!!! – Ela bufa e enfia sua cara no
travesseiro.
— Terei um café com a minha família, isso é
importante – explico, já nervosa.
— O lance da família, vamos dar um jeito nisso!
Ela desperta magicamente, me faz por uma saia
longa com duas fendas gigantescas nas laterais e um
croped que deixa parte da minha cintura à mostra. Calço
as minhas botas e olho-me no espelho, nada mal. Ela
retira a maquiagem da noite passada e faz outra, realçando
os meus olhos azuis, que agora parecem mais com os
olhos de uma gata.
— Agora, vá e deixe os humanos normais
descansarem. Feliz aniversário!
Quando ela disse “os humanos normais”, todo o
meu corpo travou. Depois ri, ela não pode saber de nada.
Entro no carro de Ian e dirijo até a propriedade da
minha matilha. Vários veículos estranhos estão
estacionados, várias pessoas estranhas estão no nosso
território... Mas que merda é essa? Meu estômago
embrulha, devo ter bebido demais ontem, até lobos têm
ressaca, dependendo da quantidade de álcool ingerido.
— Merda, Lua, seu irmão quase me mata! – Sou
recepcionada por um Ian bravo. – Hei, você está linda! –
Ele olha para mim agora e me abraça. – Feliz aniversário
– diz em meu ouvido.
Vou em direção à porta principal da casa, quero
ver meu irmão e comprovar que está bem. Este
pressentimento está me matando.
— Você não deveria... – Ian tenta me parar.
Porém, é tarde demais, porque eu já abri
completamente a porta de entrada e quase dez pares de
olhos me encaram, muitos que eu nunca vi na vida.
— Ian, o que está acontecendo aqui? – sussurro, e
ele dá de ombros, como se pedindo desculpas.
— Onde está a mulher da minha vida? – Ouço a
voz de Alec e sorrio, sentindo-me à vontade para dar
alguns passos, mesmo no meio de tanta gente
desconhecida.
Avisto Alec, mas paro de caminhar... Paro porque
meu estômago agora não embrulha, ele está dando
cambalhotas, minhas pernas não me obedecem e meu olhar
está vidrado em um grande lobo atrás de Alec. Vejo
quando seus olhos escurecem e ele também trava no lugar.
Alec não percebe nada e vem até mim, abraça-me e gira-
me no ar.
— Senti tanto a sua falta, maninha. – Mas meu
olhar continuava nele... Ele, que caminhava em minha
direção e que parecia irritado ao olhar para o meu irmão.
Nesse momento, meus sentidos voltam, ninguém ameaça
meu irmão em minha frente.
— Também senti a sua falta, irmão – respondo
sem tirar os olhos do homem que agora estava a minha
frente. – O que está acontecendo aqui, Alec? – questiono.
— Não acredito que ninguém te contou – ele diz,
revirando os olhos.
— O quê? – Tiro meu olhar por um segundo da
cara do homem desconhecido e encaro meu irmão.
— Esse é o supremo Alfa, Noah. Ele veio junto
com seus mais valiosos guerreiros para...
Não ouço mais nada o que meu irmão diz. Então,
esse é o Supremo? Cerro os meus olhos para ele, e Alec
percebe.
— Lua... – ele me repreende.
Noah caminha para mim e, só por sua presença,
meu irmão se afasta. Ele dá um suave beijo em minha
bochecha, somente um roçar, e sussurra em meu ouvido:
— Companheira.
Não, não, não... Nem em um milhão de anos!!!
Não posso ser a companheira do Supremo! Todos sabem
das suas histórias, de casos por toda a alcateia que passa.
Caminho em passos largos, esbarrando em seu
ombro, passo por Noah e por um Alec boquiaberto. Ele
ouviu o que o Alfa disse. Subo as escadas e vou para o
meu quarto. Só a imagem dele me faz tremer, e minha loba
rosna, pedindo a proximidade. Não, não, não... Encosto
minhas costas na parede e escorrego até o chão, pondo a
minha cabeça em meus joelhos... Que belo presente de
aniversário que eu fui arranjar!
Capítulo 3 – Desafios de Alfas

Luana

Sinto quando ele entra em meu quarto e se abaixa


ao meu nível de visão, mesmo que esteja com meus olhos
fechados. Ele está próximo, sei que está próximo, tão
próximo o possível sem que me toque.
— Companheira – ele sussurra quase
delicadamente.
A sua voz é como um maldito chamado, e eu olho
para cima, fito em seus olhos e ele toca meu rosto, suas
mãos passam pelos traços do meu rosto e seus dedos
desenham o contorno da minha boca.
— Por que fugiu de mim? – Sua voz é dura dessa
vez, como se eu tivesse cometido um pecado, como se
devesse me desculpar por isso. Cerro meus olhos.
— Eu não fujo. – Ele sorri e... Droga! Era o
sorriso mais bonito que já vi em minha vida. Noah tem
olhos escuros, mas não negros, e cabelos escuros, ele é
forte e alto, chega a ser mais alto que eu.
Seu sorriso é substituído por um rosnar quando
ele olha para o meu corpo e percebe que a droga da saia
que a Lôra me fez vestir não cobre muita coisa. Ele se
levanta e me oferece a mão.
— Sabe o que somos, não é?
Afirmo com a cabeça. É claro que sei, isso não
torna mais fácil aceitar o fato. Aceito a sua mão e ele me
puxa facilmente para cima, nos encaramos e percebo seu
olhar escurecer novamente. Estou pronta para uma briga
porque sei o que é isso, seu lobo estava tentando tomar o
controle, mas ele consegue fazer com que recue.
Noah me pega de surpresa quando toma a minha
boca – digo toma porque foi isso o que ele fez, apossou-se
de algo que pressupõe ser dele... e o pior de tudo é que
retribui, fiz isso até sentir outro gosto, senão o dele, em
sua saliva, o gosto de mais alguém. – Mordo seu lábio e
ele rosna perigosamente. Sinto o gosto do sangue de Noah
em minha boca, ele limpa um filete que escorre dos lábios
e me olha de modo ameaçador.
— Você não vai fazer disso algo fácil, não é? –
me pergunta.
— Não, não vou – respondo de modo teimoso.
Ele me dá as costas e sai, sei que está irritado, sei
porque consigo sentir sua irritação.
Lembro-me da relação dos meus pais, da
completa falta de respeito, das traições, dos choros da
minha mãe, de quantas noites em claro tive que passar,
fazendo carinho em sua cabeça, enquanto ela soluçava em
meu colo.
Se esse Alfa pensa que vou passar por tudo isso,
está redondamente enganado.
Ouço novamente a porta do meu quarto se abrir e
meu corpo treme por outro motivo. Meu pai me põe
imprensada contra a parede e aperta o meu pescoço.
— O que você fez desta vez, heim? Por que o
Supremo saiu do seu quarto tão revoltado? E como posso
sentir o cheiro do sangue dele?
Ele cuspia as palavras em minha cara, com asco.
— Se ele te quiser, ele vai te ter, e você vai abrir
as pernas para ele quantas vezes o lobo desejar, está me
entendendo? – Ele dá um soco em meu estômago, fazendo
com que todo o ar suma dos meus pulmões.
Meu pai me arrasta escada abaixo, todos ficam em
silêncio e minha loba começa a sair. Posso suportar
algumas coisas sem revidar, algumas...
Ele me joga no chão e sei que estou aos pés de
Noah, posso sentir seu cheiro.
— Ela é sua, pode fazer o que quiser, Supremo - o
meu projeto de pai anuncia, com um respeito fingido.
Ele não sabe que Noah é meu companheiro, e está
me oferecendo como um pedaço de pano para aquecê-lo
durante a noite, e isso me irrita. Só lobos extremamente
fortes são capazes de fazer algum tipo de transformação
parcial, é preciso ter controle completo sobre o seu lobo
para isso. Eu consigo me transformar parcialmente,
minhas mãos já estavam como garras próximas a minha
saia.
— Lua, não! – Alec grita, porque sabe o que eu
vou fazer, e ele sabe que não terá volta.
Na nossa sociedade, quando qualquer um ataca
seu Alfa, é considerado um desafio pela matilha. Porém,
quando isso é feito por uma mulher, ela não tem o direito
de lutar por nada, sua pena é a morte. Estava a alguns
segundos de atacá-lo, quando ouço a grave voz do meu
irmão.
— Eu, Alec, herdeiro Alfa, desafio meu pai, o
atual Alfa, pelo posto de líder da matilha.
— Você, seu moleque, não vai fazer isso! Não por
causa dessa pequena vadia! Eu deveria tê-la matado
quando tive a chance! – meu pai cospe cada palavra
direcionada a mim.
Ouço dois rosnar misturados, o de Alec e o de
Noah. Meu companheiro põe seu braço protetoramente ao
redor da minha cintura. Ele percebe também quando me
encolho com seu toque em minhas costelas quebradas.
— Isso é um desafio, e eu não lhe devo
explicações. Diga sim e me enfrente, ou diga não e viva
com a vergonha - meu irmão bradou, de modo orgulhoso.
Meu pai rosna e voa em cima de Alec, que
estraçalha a janela da sala com o impacto. Ele está em
cima de Alec, desferindo vários socos, ele é um Alfa
poderoso, e eu bem sei o quanto seus golpes machucam.
Ele se aproveita enquanto Alec está desnorteado e começa
a se transformar em lobo.
“Vamos lá, irmão, eu te ensinei a controlar,
surpreenda esse idiota”.
Alec continua no chão, mas eu percebo suas mãos
mudarem, noto quando seus dedos se transformam em
garras no exato momento em que o imenso lobo pula em
seu pescoço. Alec ergue os seus braços, cravando uma de
suas mãos no coração do lobo e a outra sustentando seu
peso, e meu pai cai morto no chão. Alec está parcialmente
transformado e encara toda a nossa matilha, falando com o
olhar, desafiando cada um deles a contestar a luta e
desafiá-lo também, mas ninguém o faz. Ele caminha em
minha direção, porém, passa direto, nem me olha.
— Alec...
Meu irmão não para, e é como se as mesmas
garras que mataram o meu pai estivessem agora cravadas
também em meu coração. Noah tenta me puxar para si,
mas eu me afasto.
— Não.
Começo a caminhar com alguma dificuldade para
a floresta, como um animal que precisa ficar só para
lamber as suas feridas.
Capítulo 4 – Forasteiro
Luana

Caminho devagar pela floresta, sei que tem


alguém me seguindo, então, não vou para a minha cabana,
ao contrário, estanco como uma pária no meio do nada e
fico olhando para o vazio. Sinto um corpo encostar-se ao
meu por trás e algo afiado tocar o meu pescoço.
— Então, é você a companheira do Supremo
Alfa... Bonita, imagino quantas coisas poderemos fazer até
te devolver para ele em pedaços. Nós o destruiremos,
tiraremos tudo o que mais preza, Noah vai ruir.
— Não sei o que quer dizer, não sou companheira
de ninguém – digo, mesmo que isso faça com que minha
garganta toque na afiada navalha em meu pescoço e um
filete de sangue escorra. Ele recua por um segundo, e esse
é todo o tempo que preciso, dou uma cotovelada em suas
costelas e o jogo em minha frente, tomando sua navalha no
processo.
— Sua...
Ele não tem tempo para dizer mais nada, porque
um imenso lobo negro pula no homem, deixando-o
desacordado. Então, Noah está nu diante de mim. Logo
depois, abraçando-me e tocando desesperadamente cada
pedaço de mim.
— Hei, eu estou bem. – Toco em seu rosto e o
forço a olhar para o meu. – Estou bem, Noah, prometo. –
Ele respira profundamente e me abraça.
Logo atrás de nós, Alec marcha junto a Ian.
Novamente, ele mal me olha. Alec acena com a cabeça e
Ian carrega o homem desacordado para fora da floresta.
— Vamos voltar para casa – ouço Alec falar, mas
não me movo. Noah, que ainda parece desnorteado,
também não sai do seu lugar.
Ele se vira para mim, e acho que preferiria que
Alec nunca mais me olhasse do que ver a raiva que ele me
direcionou nesse olhar.
— Luana, não sou como nosso pai, não vou te
espancar para que me obedeça. Você está sob a proteção
da minha matilha agora, e vai seguir as minhas ordens ou
está fora.
Ele iria simplesmente... Simplesmente me
expulsar?!
Noah segura a minha mão e praticamente me
arrasta para casa. Sei que Alec não queria desafiar o
nosso pai, ele era um filho da puta, porém, era o nosso
pai. Sei que não foi fácil matá-lo, mas... Por que ele está
me odiando tanto?
Mal percebo quando subo as escadas.
Prontamente, pego uma roupa qualquer e caminho para o
banheiro. Depois de uma ducha, deito em minha cama, que
está relativamente menor, já que tem um homem
gigantesco deitado em um dos lados. Noah me abraça e...
Merda! Eu choro, choro pela morte do meu pai, porque
morrer, para ele, foi muito fácil, muito rápido... Ele
destruiu a nossa família, destruiu a minha mãe durante os
anos e tentou fazer o mesmo comigo. E, agora, ele
conseguiu. Finalmente, ele conseguiu o que sempre quis,
fez com que meu irmão me odiasse, e isso dói, dói mais
que qualquer soco na boca, no estômago, dói mais que
pernas e braços quebrados. Ele morreu rápido demais...
Adormeço com Noah dizendo palavras em meu
ouvido, palavras sem sentido algum, sons de consolo. Eu
durmo, e nunca me senti mais protegida do que ali, nos
braços do meu companheiro.
Capítulo 5 – Fugitivo
Luana

Abro os meus olhos e sinto o calor emanar do


corpo de Naoh às minhas costas, levanto-me e olho para
ele, dorme tão sereno... Noah é lindo, e não estaria na
posição de Supremo se não fosse o Alfa mais poderoso
vivo. Ele começa a se mover, seu semblante se fecha,
mesmo que ainda durma. Seus braços procuram por algo,
procuram por mim, sua companheira. Nunca pensei em
meu companheiro... Claro que pensei que, eventualmente,
aconteceria de encontrá-lo, mas nunca pensei exatamente
em como ele seria, só orava para que não fosse alguém
como meu pai, e sim que fosse alguém como Ian ou como
Alec. Pensar em Alec faz com que meu coração doa.
— Chega de lágrimas, companheira.
A voz de Noah sai arrastada, ainda embargada
pelo sono. Sento-me na cama e toco em seu rosto, seu
corpo se acalma e para de se movimentar. Desço os meus
lábios até os dele e lhe dou um casto beijo. Quando me
afasto, seus olhos estão completamente abertos e a me
observar.
— Por que me rejeitou ontem?
Tento sair de perto dele, mas é impossível fugir
de seu agarre.
— Responda, Luana. – Ele está sério, e esse é o
tom de alguém acostumado a mandar, acostumado a ser
obedecido.
— Eu... – Inconscientemente, toco em meus
próprios lábios. – Senti o gosto de outra pessoa em sua
boca.
Noah parece surpreso, suspira.
— Não pode pensar que não tive pessoas antes de
você, companheira – ele diz, um pouco mais calmo agora.
— Eu... Não. – Faço uma careta. – Eu conheço as
suas histórias, mas nunca tinha sequer beijado alguém, até
você aparecer. Tive raiva por sentir uma terceira pessoa
ao fazer isso.
Ele senta na cama. Noah me olha agora,
analisando-me, e não tenho vergonha por seu olhar
constante e intimidador.
— Sabe que é direito do companheiro possuir sua
mulher assim que a encontra, selando, assim, o laço, não
é?
Aceno positivamente com a cabeça e olho para
baixo. Noah ergue meu rosto e continua a falar:
— A maioria dos homens, ao encontrar suas
companheiras, as monta no mesmo instante, porque não
possuem o domínio sobre a sua fera. Eu tenho o total
controle sobre o meu lobo. Não é que não esteja me
segurando, e muito, para arrancar suas roupas com meus
dentes e montá-la, mas isso, pelo menos, eu te prometo,
você me esperou por todo esse tempo e eu esperarei até
que você me aceite.
Nobre, isso foi um gesto nobre, e meu olhar sobre
o Alfa que estava a minha frente mudou completamente.
Sem perceber, uma lágrima escapa dos meus olhos.
— Merda, chega de chorar, você está me matando
– ele diz desesperado, e eu fungo e sorrio.
— Juro que não sou uma chorona, mas é que
aconteceram coisas demais e ao mesmo tempo.
Noah, com uma mão só, consegue sustentar meu
pescoço e passar o polegar em meu lábio.
— Bom, você fica ainda mais linda quando sorri.
Ele me puxa de encontro ao seu corpo e nos
beijamos. Dessa vez, com calma, nos conhecendo, nos
sentindo.
Alguém bate na porta e Noah rosna por terem
interrompido nosso momento. É Leandro, o Beta de Noah,
e, pela sua cara, não são notícias boas.
— Ele escapou.
Noah ruge, não é um rosnar, é como um rei
realmente irritado. Aceno com a cabeça para que Leandro
saia e passo as minhas mãos sobre as suas costas, em
movimentos aleatórios. A respiração de Noah começa a se
regularizar. Os cabelos de Noah são tão negros quanto
seus olhos e, agora, que está com a cabeça um pouco
abaixada, tocam em seu queixo. Passo as minhas mãos por
ele, jogando-o para um dos lados, dou um leve beijo em
seu maxilar e arrasto meu rosto por sua pele, até chegar a
sua orelha.
— Shhiiiii, companheiro, está tudo bem. – Ele
suspira e vira, fitando em meus olhos.
— Ninguém jamais te tratará como ele te tratou,
isso é uma promessa.
Sei que ele não está falando do homem que me
atacou, Noah fala sobre o meu pai.
— Eu sei, agora tenho você.
E é a verdade, sei que Noah morreria antes de
permitir que alguém me ferisse. Sei, porque faria o mesmo
por ele. Entender isso é estranho e, ao mesmo tempo,
bom...
— Descanse, preciso resolver isso. – Ele beija a
minha testa e sai pela porta.
Mas Noah descobrirá que não sou uma mulher
muito boa em esperar.
Noah

Encontrar a minha companheira foi... Diria que


não estava bem procurando uma companheira neste exato
momento da minha vida. Porém, ela é a mulher mais linda
em quem já pus meus olhos. Caminhei até ela, abaixei-me
e, dessa vez, não me importei em abaixar-me, pensei
como nossos corpos se encaixariam perfeitamente no
sexo. Sussurrei em seu ouvido o que ela é para mim,
companheira. Sussurrei porque não queria que mais
ninguém soubesse, isso acontecendo agora vai ser tão
difícil de diversas formas... Agora, eu teria que protegê-
la. Minha companheira cheira a maçã verde,
estranhamente, é a única fruta que como. Ela cheira a
maçã verde e a diversos odores de humanos. Olho para
ela... Está de bota preta, com uma saia que não deixa nada
ao imaginário sobre suas pernas e com uma blusa que não
deixa nada ao imaginário sobre seus seios. Veja, sou um
lobo, e o nu não me incomoda, às vezes, nem me atiça,
mas a forma como que alguém se veste... Diria que essa
garota estava quente, e sinto uma vontade imensa de tirar a
sua roupa, parte por parte.
Estava com o pensamento longe, quando ela
passou direto por mim e subiu as escadas. Percebi que ela
não disse nada, não me reconheceu como seu. Cerro meus
olhos, está para nascer uma loba que vai me rejeitar.
— Noah, eu sinto muito. – Alec parece
mortificado, ele me contou muito sobre a sua gêmea, de
como ela era espirituosa e um ser livre. Duas coisas que
nunca combinaram muito com mulheres lobas. Ele também
me disse uma vez que seu futuro companheiro passaria por
maus bocados para domá-la. Lembro que tive afinidade
com Alec logo que o vi. Será que meu lobo já sabia de
seu grau de parentesco com ela? Ele rosna dentro de mim,
quer montá-la, marcá-la, quer rugir para todos que ela é
sua e que qualquer um que a tocar morrerá.
Subo as escadas e sigo seu cheiro até uma porta,
abro-a e minha companheira está no chão, com a cabeça
entre as pernas, e isso me desarma. Ajoelho-me diante
dela e sorrio, nunca antes havia me ajoelhado diante de
ninguém. Coloco-me entre as suas pernas e aproximo-me
sem tocá-la.
— Companheira. – Ela ergue a cabeça e olha em
meus olhos. Não consigo segurar as minhas mãos e a toco.
Ela é perfeita, lábios cheios e tentadores, que foram feitos
para serem beijados. – Por que fugiu de mim? – desejo
saber, não quero que ela fuja.
— Eu não fugi – ela me responde e sorrio. Seus
cabelos estão revoltos, como se tivesse acabado de sair
de uma noite de sexo quente. Seu corpo é perfeito, nunca
havia conhecido uma mulher tão sexy e, ao mesmo tempo,
tão vulnerável. Ergo-me, vejo-a, de baixo, olhar para
mim, ofereço a minha mão e ela segura.
— Sabe o que somos, não é? – Puxo-a para mim e
ela acena com a cabeça, meu controle tremula e a puxo de
encontro ao meu corpo, selando os nossos lábios.
Preciso sentir seu gosto... Isso não é um beijo, é
um desespero, uma necessidade, uma fome. Ela me morde
e... Porra! Isso dói. É a segunda vez que essa pequena
loba está me rejeitando, Alec tinha razão quando falou
sobre a irmã, isso não será fácil...
— Você não vai fazer disso algo fácil não é? –
Sinto o gosto de meu próprio sangue e limpo o que estava
escorrendo em minha boca, essa pequena diaba fez um
corte fundo.
— Não, não vou. – Penso comigo, qual mulher me
responderia dessa forma? Porra, qual ser me responderia
dessa forma? A resposta é: nenhum. Ninguém é corajoso
ou idiota o suficiente para me desafiar, exceto por minha
companheira. Dou as costas e saio. Merda, não sou
acostumado a coisas fáceis, meu caminho não foi fácil,
nem limpo, muito menos bonito. Porém, se tem uma coisa
que jamais pensei que precisaria lutar para conquistar,
seria a minha companheira.
Desço as escadas e o pai de Alec me encontra, ele
começa a se desculpar por Luana, mas eu mal o ouço e o
deixo falando sozinho. Vou de encontro ao meu Beta e meu
melhor amigo, Leandro. Ele está com um sorriso
gigantesco, que se fecha assim que vê a minha carranca.
— Pensei que tivesse encontrado a sua
companheira.
— E encontrei.
— O que aconteceu?
Rosno para ele e Leandro se cala.
Sinto um tumulto vindo em minha direção, o Alfa
joga Luana aos meus pés, a minha companheira...
— Ela é sua, pode fazer o que quiser, Supremo.
Ele está sorrindo para mim, e sinto uma
necessidade imensa de arrancar os seus dentes um por um.
— Lua, não! – Ouço Alec repreender a irmã por
algo, mas o que ela faria? Estava ali, aos meus pés, e
machucada por esse lixo, rosno. – Eu, Alec, herdeiro
Alfa, desafio meu pai, o atual Alfa, pelo posto de líder da
matilha.
Isso chama a minha atenção e olho para Alec, que
parece maior e mais feroz do que jamais vi.
— Você, seu moleque, não fará isso! Não por
causa dessa pequena vadia! Eu deveria tê-la matado
quando tive a chance!
Rosno e dou um passo em sua direção,
ameaçando-o com meu tamanho, ninguém vai ameaçar
minha companheira. Ele utiliza dessa distração para
avançar em Alec e jogá-lo janela afora, para o pátio em
frente a casa. Alec está apanhando, e feio, está se
deixando apanhar, para falar a verdade, já vi esse cara
lutando, e ele é bom. Minha companheira dá um passo em
direção à luta e eu coloco um dos meus braços em sua
cintura, impedindo-a de prosseguir, ela geme e estremece.
Olho para Luana direito e percebo como sua cintura está
em um roxo feio, se Alec não acabar com o desgraçado,
eu vou. Alec se transforma parcialmente e acaba com a
luta, mesmo sem se transformar em lobo. Ele caminha até
nós, acena para mim e passa direto para dentro da casa.
— Alec...
Ouço Luana sussurrar. Merda, sinto-a ferida,
posso sentir sua tristeza e, quando vou confortá-la, ela me
rejeita pela quarta vez, só hoje!
— Não.
Vejo a minha companheira mancar para a floresta,
ninguém a impede, ninguém a segue.
— O que foi tudo isso? – Leandro pergunta ao
meu lado.
— Eu não tenho certeza, mas quero saber.
Pergunte para as pessoas desta matilha, quero saber tudo
sobre ela, Leandro, cada maldita coisa.
Caminho atrás do seu cheiro e percebo, talvez
tarde demais, outro lobo a seguindo. Na verdade, esse
outro lobo estava prestes a cortar a garganta dela. Não
consigo segurar mais meu lobo, ele rasga a minha roupa e
corre em direção a minha companheira, pula em cima do
maldito e morde seu ombro. Controlo-o para que não o
mate, eu mesmo farei perguntas a esse desgraçado. Tomo
o controle e volto para a forma humana, sinto o cheiro do
sangue dela, toco-a, procurando por feridas.
— Hei, eu estou bem – ela sussurra e me toca,
acalmo-me com seu toque e percebo outro lobo atrás de
nós. Alec pede para seu Beta pegar o lobo caído no chão.
— Vamos para casa – ele diz mais para mim do
que para ela, sem fitá-la. Alec percebe que Luana não se
move, e nem eu. – Luana, não sou como nosso pai, não
vou te espancar para que me obedeça. Você está sob a
proteção da minha matilha agora, e vai seguir as minhas
ordens ou está fora.
Alec volta a caminhar e ela permanece. De uma
coisa eu sei sobre a minha companheira, ela é orgulhosa.
Não caminharia atrás de Alec por livre e espontânea
vontade, por isso, arrasto-a para lá. Ela caminha até seu
quarto e eu estou atrás. Abre sua gaveta, pega roupas, vai
ao banheiro e toma banho. Quando volta, eu estou deitado
sobre seus lençóis e ela se deita ao meu lado. Puxo-a para
mim e sinto um soluço sair de seu corpo. Minha
companheira chorava e meu lobo, lá dentro, choramingava
porque não sabemos o que fazer. Então, só fico ali,
fazendo carinho, abraçando-a e orando para que isso seja
suficiente, até que ela adormece.
Sei que ela chora novamente sem nem precisar
abrir meus olhos.
— Chega de lágrimas, companheira.
Estou completamente desperto após ela encostar
sua boca na minha, um pequeno gesto, lembro-me da sua
mordida ontem.
— Por que me rejeitou ontem?
Como que se lembrando do ocorrido, ela tenta
sair da cama, mas a seguro no lugar.
— Responda, Luana. – Merda, ela vai me
responder a isso, ela me deve isso.
— Eu... – Vejo-a tocar em seus lábios e sinto uma
porra de uma inveja de seus dedos. - Senti o gosto de
outra pessoa em sua boca.
Gosto de outra pessoa? Mas eu não fiquei com
ninguém... Fiquei com alguém há quase três dias, não
sabia que ela poderia sentir isso, o cheiro já deveria ter
se dissipado.
— Não pode pensar que não tive pessoas antes de
você, companheira. – Saber que ela me rejeitou por
ciúmes me deixa um pouco mais calmo.
— Eu... Não. – Ela faz uma cara engraçada e tento
não sorrir. – Eu conheço as suas histórias, mas nunca tinha
sequer beijado alguém, até você aparecer. Tive raiva por
sentir uma terceira pessoa ao fazer isso.
Minhas histórias... Aposto que conhece, as lobas
costumam se jogar em minha cama, e isso não é novidade
para ninguém. Sento-me ao seu lado e a olho. Como é
possível alguém como Luana nunca ter sequer beijado um
homem? Luana tem cara de ser experiente, ela tem um
corpo que foi feito para os prazeres carnais, e
simplesmente é intocada?
— Sabe que é direito do companheiro possuir sua
mulher quando a encontra, selando, assim, o laço, não é?
É meu direito tê-la e, nisso, ela não tem nenhuma
opinião. Na verdade, as lobas possuem pouca opinião em
nosso mundo. Nunca tive uma conversa com uma mulher,
exceto com a minha irmã mais nova. Elas não costumam
ter muito a dizer, mas sei que minha companheira é
diferente de qualquer outra.
— A maioria dos homens, ao encontrar suas
companheiras, as monta no mesmo instante, porque não
possuem o domínio sobre a sua fera. Eu tenho o total
domínio sobre o meu lobo. Não é que não esteja me
segurando, e muito, para arrancar suas roupas com meus
dentes e montá-la, mas isso, pelo menos, eu te prometo,
você me esperou por todo esse tempo e eu esperarei até
que você me aceite.
Não irei tomá-la à força, me mataria o ódio que
ela sentiria de mim depois do ato.
— Merda, chega de chorar, você está me matando.
– Não sei o que fazer quando ela chora.
— Juro que não sou uma chorona, mas é que
aconteceram coisas demais e ao mesmo tempo.
Ela tem o sorriso mais lindo que já vi, estou feliz
só por fazê-la sorrir, mesmo com seu rosto inchado de
tantas lágrimas.
— Bom, você fica ainda mais linda quando sorri.
Puxo-a para mim e, dessa vez, beijo-a com calma,
com paciência, tentando conhecê-la, decifrá-la.
Alguém bate na porta e meu Beta aparece com
uma cara de poucos amigos.
— Ele escapou.
Vejo a cena novamente passar por mim, o maldito
ameaçando-a...
Rujo.
Ela me toca, beija meu rosto, sussurra em meu
ouvido e todo o meu corpo estremece por dentro.
— Shhiiii, companheiro, está tudo bem. – Suspiro,
ela doma o meu lobo tão facilmente, não me passa
despercebido que é a primeira vez que ela me chama
assim, “companheiro”.
— Ninguém jamais te tratará como ele te tratou,
isso é uma promessa.
Sei que Luana deve ter sofrido vivendo com um
pai como ele, praticamente criei a minha irmã e nunca,
jamais, seria capaz de machucá-la.
— Eu sei, agora tenho você.
Tem, claro que tem! Não sei o que farei se essa
loba me rejeitar, o homem tem o direito de tomar sua
companheira, mas a minha me tem de quatro. O quão
ridículo é isso?
— Descanse, preciso resolver isso. – Beijo a sua
testa e desço as escadas.
Na cozinha, Alec está reunido com Ian, seu Beta,
e Leandro, o meu.
— Como isso aconteceu?
— Ele quebrou a tranca. Provavelmente, durante a
noite.
— Merda, isso dá uma vantagem de quase cinco
horas a ele. Preciso do seu melhor e mais rápido
rastreador, Alec, ele trabalhará junto ao meu.
— Isso significa que você precisa de mim. – Ouço
a voz de Luana ainda na parte de cima da escada, e ela
desce os degraus tranquilamente.
Olho para Alec, que agora encara a sua irmã.
— Nem pense nisso, Lua – Alec diz, sem olhá-la.
— Não venha com “Lua”, seu idiota! Ontem, você
nem olhou na minha cara! – Os dois se encaravam com
raiva e mágoa.
— Eu deveria?! Você me fez matar o nosso pai!
— Nosso pai?! Aquilo não poderia ser chamado
de pai por ninguém. Se você não o tivesse matado, eu
mesma teria.
— É disso o que estou falando! Você é
inconsequente e intolerante! Um dia, alguém vai te
machucar de verdade, e eu não estarei lá para te proteger!
— Eu não preciso ser protegida – minha
companheira rosna, e sei que não deveria, mas meu peito
infla de orgulho da loba que está a minha frente.
— Eu vou te manter segura, nem que, para isso,
tenha que aprisioná-la em seu quarto.
— Gostaria de vê-lo tentar, irmão.
— Já chega! Acredito que manter Luana segura
não seja mais a sua função, Alec. Sua irmã é a minha
companheira. – Ele para por um tempo, encarando-me,
dou um crédito ao garoto, não é qualquer lobo que faz
isso.
— Boa sorte com isso, essa pirralha vai conseguir
te matar ou te enlouquecer. Bem sei que quase conseguiu
fazer os dois comigo – ele fala sério, mas logo está
sorrindo para ela.
Luana corre de encontro ao seu irmão, que a
recebe de braços abertos.
— Ele poderia ter te matado - Alec diz
angustiado.
— Ele nunca seria capaz de me matar, e você sabe
disso. E eu sei que ele também nunca seria capaz de te
matar, Alec, porque você é o Alfa que o nosso pai nunca
conseguiu ser. Ele jamais entendeu que a força de um Alfa
não vem de seus músculos, e sim da sua família, da sua
matilha.
— Te amo, maninha. – Alec aperta mais Luana em
seus braços e ela sai de seu abraço algum tempo depois.
Caminha até mim e fica a minha frente, com seu corpo
junto ao meu.
— Eu não. – Ela dá língua para o seu irmão e
Alec sorri, minha companheira olha para todos os
presentes. – Então, quando vamos começar?
— Você não vai ficar fora disso não é? – Alec
pergunta, erguendo uma sobrancelha e já sabendo da
resposta.
— Você me conhece.
Alec suspira e eu o encaro, ele não pode estar
falando sério. Vejo minha companheira se afastar de mim
e ir para a porta de saída da casa.
— Sabe que eu sou a melhor coisa que aconteceu
por aqui, não é, maninho? Esta matilha era tão chata sem
mim.
— Ela tem razão – Ian, o Beta de Alec, responde
sorrindo.
— Não dê razão a ela, minha irmã já é assim sem
precisar de alguém que lhe dê corda.
— Você não está permitindo que a minha
companheira corra risco, correndo atrás de um lobo, não
é? – Minha irritação já está aparente, seu lugar não é lá
fora, correndo risco.
— Ela tem razão, é a melhor que temos e, se
quisermos encontrar o fugitivo, precisaremos de sua
ajuda. Noah, eu realmente gostaria de vê-lo tentar parar a
minha irmã quando ela põe algo na cabeça. – Encaro Alec
por um tempo. Pergunto-me qual o nível dessa matilha, se
seu melhor rastreador é uma fêmea.
— Então, meninos, eu não tenho o dia inteiro.
Ela aparece na marquise da porta com seu olhar
impaciente. Alec dá de ombros e caminha para o lado de
fora, seguido por Ian.
— Nunca vi alguém como ela – Leandro, meu
beta, me diz, quando estamos a sós.
— Nem eu – respondo, e não sei se isso é bom ou
ruim, nunca ter visto alguém como ela.
— Você não a marcou – ele continua a me
questionar.
— Não.
— Algo me diz que vou gostar de acompanhar
isso de perto – meu Beta provoca, enquanto gargalha.
— Cale-se, Leandro.
Caminho com ele até o lado de fora, onde os
outros já nos esperavam. Luana vem até mim e novamente
fica com o corpo a minha frente, tocando suas costas em
meu peito.
— Onde está o seu rastreador? – Alec questiona.
— Esse sou eu. – Meu Beta dá um passo à frente,
já tirando a sua roupa e iniciando a transformação.
Luana vira para mim e me beija. Não me sinto à
vontade em deixá-la ir sozinha.
— Não se despeça amor, eu vou com você –
anuncio enquanto sorrio.
Ela dá de ombros e começa a caminhar para a
floresta.
— Não vai se transformar?
— Eu não preciso. – Ela está parcialmente
transformada, como Alec, e isso me surpreende. Minha
loba é forte.
Caminho até Luana, já transformado, ela se abaixa
e faz carinho em minha pelagem.
— Ligo quando encontrar algo. – Percebo o
celular em sua mão, ela acena para Alec e Ian.
Caminho ao seu lado até que, em determinado
momento, ela me olha e diz:
— Que tal uma corrida?
— Ela não vai suportar nos acompanhar quando
nem ao menos está transformada – ouço a voz de
Leandro em minha mente.
— Não podemos nos atrasar, Leandro, vou pedir
para que ela se transforme, caso não consiga nos
acompanhar.
— Certo, Alfa.
Mas, quando percebo, Luana está correndo em
uma velocidade assombrosa, nós ficamos a uns cinco
passos atrás dela, que ainda está em forma humana.
— Ela é...
— Eu sei.
Capítulo 6 – Descobertas
Luana

Sigo o cheiro do fugitivo como um incenso que


deixa uma fragrância no ar. Então, corro. Corro e sinto
esta floresta como uma extensão do meu corpo, ela respira
junto a mim, meus passos certeiros nunca vacilam, até que
sinto outro cheiro e paro.
— O que aconteceu, Lua? – Leandro me pergunta,
e parece que meu apelido se tornou famoso.
Noah não diz nada, ele sabe que tem algo errado,
meu companheiro nu – e em toda a sua glória – fica em
minha frente e toca em meu rosto.
— Diga, amor, o que há? Você o perdeu?
— Não, eu... O cheiro dele está misturado com o
cheiro de alguém que conheço.
— Alguém da matilha?
— Não, é o cheiro da minha melhor amiga.
Caminho até sentir o cheiro de sangue de Raquel.
Não, não, não...
Noah me para.
— Leandro, vá ver o que há lá atrás.
Mas Leandro, por incrível que pareça, está tão em
choque quanto eu. Não sei o que está acontecendo com
ele.
— Fique aqui – Noah diz para mim e aceno
positivamente. – Sem corpo – ele grita e eu me sustento
em uma árvore de tanto alívio que sinto.
Caminho até onde Noah está, Leandro e eu nos
entreolhamos com preocupação espelhada em nossas
faces.
— Sabe o que é isso?
Aproximo-me da pulseira, dei para a Lôra em seu
aniversário. É uma pulseira com um pingente de lobo, ela
nunca tirava isso. A pulseira estava manchada de sangue,
o sangue dela.
— Isso é um aviso... Para mim.
— Como assim “para você”?
— Quem me atacou ontem te conhecia, essa
pessoa queria me ferir porque, assim, feriria você. Ele
não quer te matar, deseja te destruir antes.
— E por que não me disse isso antes? – Noah está
irritado.
— Porque nunca deixaria que eu viesse, se
soubesse.
Noah caminha até mim e dou alguns passos para
trás, nunca o vi tão... Intimidador.
— Você está indo para a minha casa, onde eu
posso trancá-la em um quarto e mantê-la segura. – Ele
rosna para mim.
— Se me tirar da minha casa agora, eu nunca vou
te perdoar, Noah!
— Pelo menos você estará viva para me odiar!
Ele agarra o meu braço e, para me soltar, desfiro
um golpe em sua perna, desestabilizando-o e fugindo do
seu agarre. Noah rosna para mim, com seus olhos negros
como a noite, e avança novamente em minha direção. Ele
me prende no chão. Com uma mão, sustenta as minhas
duas sobre a minha cabeça, seu joelho está entre as
minhas pernas, impedindo que eu me mova, Noah está
quase que com todo o seu peso sobre mim, não me
deixando espaço para fugir ou atacá-lo, e ele faz tudo isso
ainda com uma mão livre.
— Ela mora em frente a uma igreja azul, no centro
da cidade, na Rua Oceania! – grito para Leandro, que sai
após isso. Merda, espero que ele vá conferir se Raquel
está bem, porque eu, no momento, tenho um Supremo Alfa
gigante e irritado sobre mim. – Me larga, Noah!
— Largar você? Nunca, Luana, nunca irei largá-
la.
Ele me beija, e nossas línguas travam uma briga,
enquanto, com a mão livre, Noah consegue se livrar da
roupa que cobria o meu corpo. Desejo, raiva, posse,
medo, prazer... Esse lobo conseguia fazer tudo se misturar
ao mesmo tempo em meu corpo.
— Acho que fiz uma promessa que não posso
cumprir – ele diz, com sua boca quase encostada na
minha, posso sentir o volume próximo a minha coxa.
— Noah, eu...
— Você tem cinco segundos para me dizer não.
Depois disso, nunca mais poderá me negar.
Quando eu abro a boca para falar algo, ele me
beija. Perco-me em seus lábios, que agora estão mais
calmos, e ele entra em mim. Isso dói, mesmo sendo loba,
sinto um pouco de dor e de desconforto, mas Noah beija
meu pescoço, meus seios e, sem perceber, eu começo a
mover meus quadris, dizendo com o meu corpo que está
tudo bem ele também se mover. Noah entende o recado e
me monta. Quando sinto que tudo em meu corpo vai
explodir, ele morde o meu pescoço, selando, assim, o
nosso laço de companheiros. Tremo abaixo do seu corpo e
ele rosna meu nome, com sua boca ainda cheia do meu
sangue. Meu Alfa, meu companheiro, me olha com posse,
com desejo, com medo, com ódio... E, também, com amor.

Leandro
Corro de volta para a casa, me visto e pego um
dos carros, ninguém ousa ficar em meu caminho. Na
estrada, posso pensar direito sobre no que merda está se
passando comigo.
Quando vi a companheira de Noah pela primeira
vez, achei que ela tivesse um cheiro maravilhosamente
bom. Quando sinto o cheiro do sangue na floresta, vejo
que não era Luana, e sim sua melhor amiga, a dona do
cheiro. Meu lobo enlouqueceu ao sentir a sua fragrância
única, e isso deveria ser impossível, já que ela é só uma
humana.
Encontro a casa que Luana me indicou e bato na
porta, um senhor atende.
— Pois não?
— Raquel está? – testo o seu nome em minha
língua e realmente gosto do resultado.
— Não, minha sobrinha saiu ontem à noite e ainda
não voltou. – Todos os pelos do meu corpo se eriçam.
“Minha”, meu lobo rosna.
— Obrigado.
Viro-me e entro novamente no carro, dirigindo de
volta à matilha. Merda, eu estou ferrado. Minha
companheira não pode ser uma humana... Ou será que
pode?
Luana

Vejo um desenho tribal surgir em todo o meu


braço direito, o mesmo desenho que aparece no braço
esquerdo de Noah, nossa marca de companheiros – a
maioria não é tão grande assim, talvez a nossa seja porque
ele é o Supremo. O que isso faz de mim, a primeira dama?
— Desculpe – é a primeira coisa que ele diz
quando sua respiração regulariza.
— Acho bom que esteja se desculpando, porque
aquele lance de 5 segundos foi a maior enrolação que já
presenciei.
— Não estou pedindo desculpas por isso.
— Ah, não?
— Não. Estou pedindo desculpas porque sua
primeira vez não deveria ter sido no chão e no meio de
uma floresta.
Olho para Noah e ele realmente parece chateado
com isso.
— Foi com você, então, acredito que não tenha
sido das piores. – Ele sorri maravilhosamente. – E não se
preocupe, você terá o resto das nossas vidas para me
compensar por este dia.
Empurro-o de cima de mim e ele me deixa ir.
Pego o meu telefone e ligo para Alec.
— Ei, perdi o rastro, mas tenho uma pista.
Leandro está por aí?
— Ele saiu com um dos carros. Está tudo bem?
— Sim, estamos voltando.
Noah me olha sério.
— Lua, nunca mais me esconda algo.
Abro e fecho a minha boca.
— O quê? O que mais esconde de mim?
— Não é bem algo que escondo, é mais como se
fosse um segredo.
— Sem segredos, Lua – ele rosna.
— Não posso te contar até contar para Alec, e
isso não vai ser bonito.
Vejo que ele não gostou da minha resposta, mas
falei sério, não será bonito. Caminhamos de mãos dadas
de volta para casa e, quando chegamos lá, Leandro já
havia voltado e me disse que Raquel não estava em casa.
Ele não iria matá-la, ela é a única vantagem que tem sobre
mim, oro para que isso seja verdade. Fico com raiva,
porque, agora, a única coisa que posso fazer é esperar e
ver qual será seu próximo passo.
Capítulo 7 – Reencontros
Luana

Eu saí de uma nada, para alguma coisa. Depois de


voltar para casa, todos me encaram, encaram minha marca
como se tivesse nascido outro braço em meu corpo.
— Então, você vai embora – meu irmão diz,
olhando de mim para Noah.
— Claro que não!
— Ainda estamos discutindo isso. – Noah me olha
e sorri de lado.
Estamos os cinco novamente na cozinha, Ian,
Noah, Alec, Leandro e eu.
— Então, o que faremos? – pergunto, com meu
coração encolhido de preocupação.
— Não permitirei que se ponha em risco por uma
humana – Noah quem responde, também soube que ele não
é muito fã de humanos...
— Ela não é uma humana, Noah, é minha melhor
amiga, e não permitirei que alguém a fira.
O clima fica tenso.
— Diga – ele rosna.
— O quê?
— O seu segredo, você disse que não me contaria
até falar com seu irmão. Estamos aqui, então, diga.
Merda! Como dizem, nenhum tempo é melhor do
que agora.
— Do que ele está falando, maninha? – Alec me
pergunta preocupado.
— Eu... É melhor mostrar do que falar. Olha, vou
chamar alguém aqui, mas me prometa que não irá feri-la,
se não a quiser aqui, é só pedir para que saia.
— E quem é esse alguém?
— É uma loba.
Pego meu telefone e disco um número, todos me
acompanham com seus olhares curiosos.
— Venha até aqui, não na cabana, na casa. O Alfa
está morto.
Desligo o telefone sem que a pessoa do outro lado
diga sequer uma palavra.
— Lua... O que você aprontou?
Faço careta. Por que sempre pensam que aprontei
algo?
— Ela deverá chegar daqui a meia hora.
O almoço já estava quase encaminhado, então, me
levanto para conclui-lo. A mesa está posta, quando alguém
entra pela porta da frente. Olho para meu irmão e ele
congela em seu lugar.
— Você está viva... – é tudo o que Alec diz.
Nossa mãe dá alguns passos a mais e olha para
mim, que estou quase sentada no colo de Noah.
— Mãe, esse é...
— Eu sei quem ele é – ela me corta. E, pela sua
cara, minha mãe não aprova muito o meu companheiro, ele
também percebe isso. – Você não deveria ter feito isso,
Lua.
Um silêncio reina no lugar, ninguém sequer
respira porque o meu companheiro se ergue e encara a
minha mãe de cima, a mulher é uma rocha, o olha de volta
com intensidade.
— Não se meta em minha relação com minha
companheira. – Ele rosna para a minha mãe.
— Ela é minha filha! – grita de volta.
— Sua filha? – Alec parece acordar do transe. –
Onde você esteve quando ela precisou de você? Onde
estava quando aquele maldito abusivo a fazia de saco de
pancadas?
Ela me olha com seus olhos arregalados, merda...
— O que seu irmão quer dizer com isso Lua?
— Ela não te contou? De onde acha que todos os
machucados dela vieram? Vocês sempre mantiveram
contato, acreditou mesmo que as feridas que ela carregava
eram comuns para uma criança?
— Lua... Explique-se agora! – minha mãe ordena,
quase gritando.
— Não deveria ter raiva dela, Alec, foi tudo
minha culpa. Eu não suportava mais vê-la, não suportava
mais tudo o que nosso pai lhe fazia, ele estava matando-a!
Um dia, limpando seu sangue e enxugando suas lágrimas,
eu disse para ela ir embora, disse que ficaria bem, que
nós dois ficaríamos bem. Ambas sabíamos que ele a
mataria. Então, ela foi.
— Você era só uma criança, Lua! Por Deus!
— Sim, eu era, deixe-me concluir. Nosso pai não
conseguiu encontrá-la, então, inventou que nossa mãe foi
atacada por um clã e morreu. Mas, no fundo, ele sabia que
ela havia fugido com a ajuda de alguém. – Olho para a
minha mãe e peço desculpas. – Mas eu era a única pessoa
que mantinha contato com ela. No fundo, ele sabia que
tinha sido eu, então, me torturou para que contasse algo,
contudo, eu nunca disse nada. E quando você me ligou,
mãe, e me perguntou se estava tudo bem, eu disse que sim
porque você voltaria, caso contasse a verdade, e eu não
queria que voltasse.
— Lua, minha querida, você...
— Agora, vejo. Por que não conta toda a verdade
a ela, Lua? Por que não diz que essa pequena tortura que o
pai fez em você te deixou quase um mês desacordada? Por
que não conta que ele quebrou praticamente todos os
ossos de seu corpo? Por que não conta que não parou por
aí? Que ele sempre te machucava, sempre te maltratava?
Ela era a porra de uma criança, e você permitiu que ela
apanhasse em seu lugar!
— Eu não sabia, Alec.
— Não sabia??! É isso o que diz a si mesma todas
as noites para poder dormir?! O que achou que
aconteceria? O que achou que um cara abusivo e
agressivo faria com ela, indefesa e ao seu alcance? No
fundo, você sempre soube, e não venha me dizer o
contrário.
Minha mãe se cala e me olha. Sei que Alec está
certo. No tempo em que passamos juntas, ela me ensinava
a ser forte, me ensinava a não permitir ser quebrada.
— Eu...
— Já chega – a corto –, tudo isso não importa,
passou. Eu estou aqui, viva, você também. Não vamos nos
prender a detalhes.
Alec trinca seus dentes, não aceitando muito bem
o que eu disse.
— E preciso contar mais uma coisa.
— Qual coisa exatamente você contará a eles?
— Desculpe, mãe, mas prometi que não
esconderia mais nada do meu companheiro.
— Você não pode...
— Há uma matilha fantasma, foi criada por minha
mãe e eu ajudei um pouco.
— Uma matilha em meu território?
— Diria que são vizinhos.
— Merda, Lua! Tem noção do quanto isso é
perigoso e estúpido?
— Não fale assim com a sua irmã – ela repreende
Alec.
— Não fale assim comigo, não tem o direito.
— Já que estamos sendo tão sinceros, sabe por
que Lua esteve aqui todo esse tempo? Ela tinha um lugar
para ir, a minha matilha. E sabe por que ela resolveu ficar
aqui? Por sua causa. Então, antes de me culpar por tudo o
que aconteceu, olhe para si mesmo – minha mãe despeja
veneno em cada frase.
Alec rosna.
— Já chega! Os dois! A matilha é composta
somente por mulheres, e a mamãe é nossa Alfa! – solto de
vez.
Capítulo 8 – Chegada
Luana

Todos param de discutir ao mesmo tempo.


— Você não fez isso, criança...
“Ah, agora sou criança?”...
— Olha aqui, já chega! Não vou ficar te
observando julgar o meu companheiro e muito menos a
minha família! Eu confio neles.
— Sua boba, como se deixou enganar? Diga-me,
como ele te marcou? Diga-me se ele te deixou escolher ou
simplesmente tomou a sua voz, resolveu te marcar porque
assim te aprisionaria a ele?!
— Como vocês sobreviveram a tanto tempo
sozinhas? – Ian pergunta, do nada.
— Ah, pelo amor dos Deuses! Nós não
precisamos de vocês para nada, bem pelo contrário, se
não fosse por nós, a nossa espécie já teria se findado! –
Minha mãe me olha com mágoa. – E quanto a você, sabe
muito bem quem é a Alfa, e não sou eu! Você deveria ter
tomado o seu lugar há muito tempo. E, ao invés disso, está
agora enlaçada ao Supremo Alfa! Ele é tudo pelo que
lutamos contra, Lua. Como você pôde ser tão ingênua?!
— Eu não... – começo a dizer, mas ela me corta.
— Escolheu? Você não escolheu?! Exatamente!
Nós nos mudaremos para um local em que você não possa
nos encontrar.
— Você está me expulsando? – Noah põe seus
braços ao meu redor, confortando-me, e minha mãe olha
para isso enojada.
— Você “escolheu” seu lado. – Ela começa a
caminhar para a porta.
— Espere! Só me prometa uma coisa... – Minha
mãe vira para mim, prestando atenção. – Prometa que dará
a escolha para elas.
— Lua, eu nunca as obrigaria a fazer nada, sabe
disso.
— Então, prometa que lhes dará a escolha de ficar
comigo ou de continuar fugindo com você.
— Ficar com você? – Ela parece surpresa.
— Sim, não acredito que meu irmão ou meu
companheiro iria renegá-las. – Olho para ambos os
homens, que fazem um leve gesto afirmativo. – Elas
podem escolher ficar.
Minha mãe vai embora sem dizer nada, eu espero
que ela seja sincera com as garotas.
— Você e eu precisamos ter uma conversinha! –
Meu irmão agarra meu braço, mas Noah rosna para ele,
que se afasta.
— Diga o que precisa ser dito, Alec, não tenho
nada a esconder.
— Por quê? Por que não me contou sobre ela? –
Suspiro.
— Ele descobriria.
— Eu nunca teria contado!
— Eu sei que não, mas ele perceberia seus
sumiços, suas faltas. Ele não ligava para mim, Alec, foi
fácil passar dias fora de casa, ele nunca deu por minha
falta, mas você... – Alec suspira cansado.
— Entendo... Não gosto, mas entendo. Como
conseguiu criar uma matilha?
— Na verdade... Saía para me encontrar com a
mamãe, mas, certo dia, encontrei uma loba quase morta.
Nós conseguimos abrigo e cuidamos de suas feridas. Não
sei como, mas elas souberam sobre nós e começaram a
nos pedir ajuda, a fugir. Eu só... Não pude dizer não,
sabe? Essas garotas são incríveis, porém, foram
machucadas e maltratadas, elas não confiam em ninguém,
mas confiaram em mim, e espero que confiem em mim
para me seguirem desta vez. E espero que vocês façam
algo para encontrar a minha amiga, ou eu vou revirar esta
cidade de cima a baixo para encontrá-la! – Dito isso, me
desvencilho de Noah e caminho para o meu quarto.
Estava no banho, quando ouço a porta se abrir e
Noah entrar. Ele me olha com cautela e se aproxima de
mim, eu me afasto do seu toque.
— Por que me montou na floresta? – Ele cerra os
olhos, mas não diz nada. – Noah, me responda! Por que ali
e por que naquela hora?!
Noah é o Supremo, e minha mãe tem razão, ele
não faria nada sem ter calculado os prós e os contras. Ele
o fez naquele momento por uma razão, meu peito dói ao
imaginar que fui manipulada por ele. Quando o
enlaçamento é concluído, é impossível para qualquer uma
das partes se afastarem. Não impossível, já que algumas
pessoas conseguem, mas dói estar longe de seu
companheiro, é a pior dor que um lobo pode sentir.
— Lua, eu... – Ele tenta me tocar novamente, mas
me afasto, mesmo que todo o meu corpo doa, pedindo o
seu toque.
— Você fez isso de propósito, colocou uma
maldita coleira em mim sem o meu consentimento! Sabe o
que eu diria quando me deu cinco segundos para
responder? – Ele nega com a cabeça. – Parabéns,
Supremo, você jamais saberá.
Empurro Noah, que sai da minha frente. Eu o
aceitaria, estava disposta a aceitá-lo, mas Noah nunca me
permitiu isso, porque ele não é só um Alfa, ele é a droga
de um Supremo, e sempre terá a decisão final.
O restante do dia passou como um borrão, meu
irmão comandou que os lobos procurassem em todo o
canto por Raquel. Não vi Noah depois da nossa
discussão, sei que não posso fugir dele para sempre, mas
estou feliz por essas horas sozinha. Estou no sótão,
sentada em uma janela, é o lugar mais alto da
propriedade, costumava vir até aqui quando precisava
pensar ou só fugir de algo. Ouço pequenas batidas na
porta e uma garota, com cabelos negros e rosto angelical,
vem em minha direção.
— Oi. Alec me disse que você estaria aqui.
— Alec é um linguarudo – respondo friamente.
— Pelo menos ele não contou para o meu irmão,
que, por sinal, está revirando a propriedade em busca de
você. – Irmão? Olho para ela mais atentamente e eles têm
os mesmos olhos. – Prazer, acho que sou sua cunhada, me
chamo Alicia – continua a dizer.
Ela me oferece a mão e eu a pego sem falar uma
palavra.
— Então, você e meu irmão estão brigados? –
Alicia tenta iniciar uma conversa.
— Não sei se qualquer pessoa no mundo pode
estar “brigada” com seu irmão, ele é a lei, é o Supremo –
digo emburrada.
— Noah é um bom homem, um pouco possessivo
e cabeça dura, mas qual lobo não é? Ele me contou sobre
você por telefone, disse que tinha encontrado sua
companheira e que ela era perfeita. – Sorrio sem humor.
— Acredito que agora ele me ache algo bem
longe de perfeita.
— Noah é... Ele sempre se entediou bastante com
tudo, principalmente com as mulheres. Mulheres fáceis
que costumam fazer todos os seus desejos. Ele é o
Supremo, e não estaria nessa posição se não amasse
desafios e competições. E, pelo o que já ouvi sobre você,
é exatamente isso o que é.
— Não quero ser o desafio de ninguém. Não
quero que ele tente me dobrar, me amansar, me moldar...
Merda! É pedir demais ter sua própria opinião?!
— Não, não é. Mas, acredite em mim, nós não
somos tão submissas quanto pensam. Perto de um Alfa
forte, sempre existirá uma loba indestrutível. Acho que
você é perfeita para o meu irmão, e fico feliz em te ter na
família.
É impossível não sorrir para Alicia, ela é uma
boa pessoa e me faz lembrar de Raquel.
Percebo uma movimentação estranha no portão em
frente à propriedade, os lobos estão se amontoando por lá.
Vejo também um Noah olhando lá de baixo para mim e
para sua irmã. Um cheiro chega ao meu sensível olfato,
elas vieram.
— Luana! – Alicia tenta me segurar, mas eu pulo
da janela, quase dez metros em queda livre. Não foi a
primeira vez que fiz isso. Caio agachada e logo fico em
pé. Passo por um Noah boquiaberto, Alicia já está
chegando, correndo atrás de mim. Embrenho-me entre os
lobos e as vejo. Elas estão com medo, mas suas cabeças
estão erguidas.
— Deixem que passem! – grito.
Por incrível que pareça, todos os lobos presentes
acataram a minha ordem e, uma a uma, elas se prostraram
diante de mim.
Alec vem ao meu lado, ele e Ian falam ao mesmo
tempo:
— Merda!
Vejo seus olhos escurecerem e ambos rugirem,
entro em frente a ambos.
— Nem pensem nisso! Vocês não tocarão em
nenhuma delas sem o consentimento, estamos entendidos?
Eles rosnam para mim e param de avançar só
porque Noah se coloca em minhas costas e rosna. Isso não
poderia ser mais divertido, amiga sequestrada, meu irmão
e seu Beta encontrando suas companheiras, tem alguém
querendo me matar e eu ainda tenho assuntos inacabados
com Noah.
Capítulo 9 – Decepções
Luana

Metade delas decidiu por ficar comigo. Quatro


mulheres estão na nossa frente: Carmen, Ariadne,
Emanuela e Priscila. E, pela forma que os dois idiotas
estão agindo, sei que suas companheiras são as duas
últimas.
Agora, tenho a certeza do quanto Noah pode se
controlar, esses dois não sabem disfarçar absolutamente
nada, são como animais que querem acasalar, ficam com
aquela cara de psicopata. Depois de levar Ariadne e
Carmen para descansarem em seus respectivos quartos,
estamos aqui, Emanuela, Priscila, Noah, Ian, Alec e eu...
E eu nunca pensei que estaria nesta situação.
— Bem... Acho que isso é um pouco estranho –
digo, um tanto encabulada por toda a cena.
— Não tem nada estranho, elas são nossas
companheiras, não se meta nisso, Lua. – Alec rosna para
mim, e Noah rosna de volta, defendendo-me. Isso pode
ficar feio, e bem rápido.
Emanuela é morena, cabelos negros, seus olhos
são levemente puxados, ela tem uma boca cheia e carnuda
e um corpo esguio, Manu é a companheira do meu irmão.
Ela chegou até mim machucada, ficou alguns meses sem
sequer falar uma palavra, ela, como todas as outras, não
confia facilmente em alguém.
— Manu, você consegue sentir a ligação que tem
com meu irmão? – Ela acena afirmativamente, olhando
Alec de forma desconfiada. – E... Não quero que se sinta
pressionada aqui. Olha, meu irmão nunca te machucaria.
Você quer se enlaçar a ele? – Alec rosna mais ainda. –
Sério, Alec?! Estou aqui, tentando dizer que você não é
um animal descontrolado, dá para me ajudar um pouco?!
— Eu... Confio em você, Lua. Sei que ele não vai
me machucar, porque você diz que não vai, mas eu... Não
confio nele. – Manu diz com sua voz baixa e olhando para
baixo, isso machucou meu irmão, sei disso.
Priscila é ruiva e tem olhos verdes, ela olha para
mim quando fala:
— Digo o mesmo que a Manu.
— Certo, estão sob a minha proteção, e esses dois
não vão encostar em nenhuma de vocês até que ambas
permitam.
Alec e Ian rosnam para mim, mas, novamente,
Noah rosna de volta, fazendo-os retroceder, dizendo que,
quando eu falo, é ele, seu rei, que também fala.
Elas sobem as escadas e vão para o quarto de
hóspedes, sempre seguidas pelos olhares atentos de Alec
e de Ian.
— Olha aqui! – Bato na mesa, chamando a
atenção de ambos. – Toquem nelas agora e irão perdê-las
para sempre! – Isso chama a atenção de ambos. – Elas
estão machucadas, o que eu passei aqui nem se compara
ao que elas passaram! A história não é minha para contar,
mas ganhem a confiança delas e as duas se abrirão com
vocês... Elas não precisam de um lobo que só pensa em
sexo, precisam dos seus companheiros! A pergunta é:
Vocês serão capazes de serem essas pessoas?
Eles parecem encabulados agora, como se
tivessem levado uma bronca por ter feito algo errado.
Seguro o meu sorriso, porque, se risse agora, todo o meu
discurso iria por água abaixo. Ambos concordam com a
cabeça e me deixam sozinha, com Noah, na cozinha.
— Eu tenho orgulho de você, companheira – ele
diz, aproximando-se de mim, devagar.
— Ah, Noah... – Ele me toca e, dessa vez, não o
afasto. Então, nos beijamos. – Será que vamos passar
algum dia sem brigar? – pergunto e ele sorri.
— Espero que não - ele responde, e isso me
surpreende. – Você não precisa ter a mesma opinião que
eu, Lua, me diga sempre o que acha e prometo que
considerarei isso – ele diz, fazendo uma careta que logo
se dissolve. – O que fez hoje por essas garotas foi algo
digno de um verdadeiro Alfa.
— Não acredito que conseguiria fazer nada se
você não estivesse aqui.
— Com o tempo, eles se acostumarão a ouvir as
minhas palavras por sua boca.
— O que quer dizer?
— Eu não desejo uma companheira que fique
atrás de mim, quero alguém que fique ao meu lado, e você,
minha Lua, é digna disso.
— Vejo que se reconciliaram – Alicia diz da
porta, e eu sorrio para minha cunhada. – Falando nisso,
como conseguiu pular quase dez metros sem se estabacar
no chão?
— Eu sou boa em saltos. – Dou de ombros.
— Sobre isso, pensei que meu coração fosse sair
pela boca, teremos que conversar seriamente sobre esses
seus saltos – meu companheiro comenta, mas estou
ocupada demais com meu celular na mão, porque no visor
tem o número e o nome Lôra piscando.
— Quem é? – Alicia pergunta, chegando mais
perto para ver o celular.
— Vamos descobrir. – Atendo e coloco no viva
voz, eles ouviriam de qualquer forma mesmo.
— Ei, gatinha, ou melhor, lobinha – ouço um riso
rouco do outro lado.
— Onde está Raquel? – Leandro, o Beta de Noah,
aparece na cozinha e se junta a nós.
— Sua amiguinha... Eu vi vocês na outra noite,
comemorando... Vocês dançando juntas, aquilo estava sexy
pra caralho! Quem sabe nós três possamos nos divertir
juntos também.
Noah e Leandro rosnam
— Ora, vejo que não está sozinha. Noah, vou te
fazer sentir o que é perder tudo... Começando por essa sua
linda companheira.
— Nunca vou permitir que a toque. – Noah rosna
— Sabe o que é engraçado? É que, desta vez,
você não tem o poder de permitir nada. Essas duas
cresceram juntas, Luana nunca deixará nada acontecer a
sua amiguinha... Ela estava um pouco em choque quando
viu que nos transformamos, uma humana que foi jogada
neste nosso mundo... Que pena... Você por ela, Luana, esse
é o trato. Sabe onde me encontrar.
— Não toque nela!
— Ainda não toquei, porém, demore um pouco
mais e não poderei me segurar.
Ele desliga. Noah me olha.
— Você não vai fazer isso! Nem em um milhão de
anos vou colocar a sua vida em risco por causa de uma
humana!
— Ela é... – ele me corta.
— Não interessa o que ela é! Sei o que você é
para mim, e não permitirei que se coloque em risco!
— Eu não vou ficar... – Noah me pega de surpresa
e me põe sobre as suas costas. Então, ele me leva para o
sótão. Debato-me e arranho as suas costas.
— Me coloque no chão, Noah!
— Eu já disse uma vez, prefiro te ter viva e me
odiando do que fazer o seu enterro! – Ele me segura e
prende os meus braços com correntes, as mesmas que meu
pai usou para me prender. Foi aqui que ele quase me
matou, por isso gosto deste lugar, para que eu nunca
esqueça... E, agora, Noah me acorrenta no mesmo espaço,
e isso me machuca, ele não sabe o quanto.
— Noah! Não faça isso! – grito, mas ele bate a
porta e sai, e eu caio no chão.
Mais uma vez, neste chão de madeira que já foi
pintado com meu sangue, estou indefesa, sem poder me
transformar, já que as correntes são de prata. Grito até o
cansaço me tomar, porque tudo voltou, cada navalhada,
cada fratura, cada corte, cada humilhação... Aquele
desgraçado, mesmo morto, estava vivo em minha
memória, e foi Noah, meu companheiro, quem fez com que
toda essa dor voltasse.
Capítulo 10 – Quebrando
Correntes
Raquel

Encontro o cara que estava secando Luana um dia


antes do seu aniversário. Resolvi sair de casa à noite para
jantar e lá estava ele, com aquele olhar sedutor e um
sorriso cafajeste, o cara era quase um Deus grego.
— Oi, linda – ele diz quando me aborda na rua,
hoje foi um dia chuvoso, não há muitas pessoas por aqui, e
eu fico atenta.
— Oi... – respondo, andando um pouco mais
rápido.
— Vi você com uma garota um dia desses e me
interessei. Pode anotar meu número e passar para ela?
Penso: “Que mal tem? A estranha bem que
precisa de um namorado”. Paro e procuro meu celular na
minha bolsa, mas a próxima coisa que sinto é um cheiro
forte e vejo tudo nublar.
*****

Abro os meus olhos devagar, estão areentos...


Lembro-me do que aconteceu e fico alerta. Estou em um
colchão no chão, em um lugar abandonado, sei onde fica
isso, Luana e eu costumávamos vim para os galpões
abandonados para cabular aula. Uma risada chama a
minha atenção e olho para cima. O meu captor, o maldito
homem bonito, me olha e sorri. Ele começa a tirar sua
roupa. Merda, vou ser estuprada! Arrependo-me
prontamente de não ter tido minha primeira vez com meu
último namorado. Afasto-me, até que minhas costas
toquem na parede. O homem fica nu, como veio ao mundo,
e não é uma coisa muito difícil de se olhar, o maldito não
tem uma grama de gordura nesse corpo! Então, ele faz
algo que eu nunca, jamais, pensei que fosse ver.
Não, ele não começou a dançar tango, mas seu
corpo brilha, como o brilho da lua, e, depois de alguns
estalos, um imenso lobo me encara de volta. Isso é bem
mais estranho do que um cara nu dançando tango.
Lobisomem, sério? Se isso não estivesse acontecendo
diante de mim, nunca acreditaria. Ele volta a sua forma de
homem.
— Desculpe, sei que é humana, sei também que
nunca acreditaria se não visse. Por isso, me transformei. A
verdade é que, infelizmente, você é amiga da pessoa
errada, estava no lugar errado e hora errada.
— O que... O que quer dizer?
— Luana é a companheira do Rei Alfa, ou
Supremo Alfa, como o chamam. Ele... Matou o meu irmão,
jurei que tiraria tudo o que ele ama, e começarei por sua
amiguinha.
— Luana é...?
— Uma loba? Sim, claro.
Loba? Então, era isso que ela queria dizer com
“minha família é estranha”? Vamos ter uma conversinha
muito séria quando tudo isso acabar... Espero que acabe,
comigo viva, para variar. Nos filmes, a humana sempre
morre primeiro.
— O que vai fazer comigo?
— Espero que nada, se sua amiga se entregar a
mim, você será liberada.
— O que fará com ela?
Ele sorri e vai embora, deixando-me sozinha no
galpão escuro, úmido, e estou trancada. Merda, não posso
deixar que Lua caia nas mãos desse cara!

*****

O homem volta, ele está irritado, se sua postura


não diz isso, aposto que seus rosnados são bem
esclarecedores.
— Ore para que sua amiga venha, senão,
começarei a me desfazer de você, pedaço por pedaço.
Merda...

Noah

Os seus gritos ficarão marcados em minha


memória por toda a eternidade. Ela, provavelmente, vai
me odiar por toda a eternidade também. Não foi fácil
prendê-la, não foi fácil deixá-la, mas... O que eu poderia
fazer? Já conheço Luana o suficiente para saber que ela
correria em direção ao louco que quer matá-la, porque é
isso o que ela faz, ela coloca a vida dos outros à frente da
sua. Foi isso o que ela fez por sua mãe e por Alec, e com
sua amiga não seria diferente.
Proíbo qualquer um de ajudá-la a sair e vou eu
mesmo procurar por esse louco que ousa me desafiar,
deve ter alguma pista em algum lugar. Esse cara vai
cometer um erro e, quando o fizer, eu estarei aqui para
arrancar a sua cabeça.

Raquel
Ele volta, e não está mais sozinho, cinco homens o
acompanham agora.
— O que aconteceu? Por que saíram da matilha,
seus imbecis? – ele grita para os outros.
— O Supremo a trancou no sótão, ela não sairá
tão cedo. Ele está virando esta cidade abaixo, procurando
por nós.
— Se bem conheço essa garota, ela escapará. –
Outra voz desconhecida.
— Vou esperar por isso. E quanto a vocês,
mantenham o plano, criem uma distração para Noah,
machuquem-no um pouco, mas não o matem!

Alicia

Não acredito que meu irmão está fazendo isso


com Lua! Pego uma chave de fenda e subo até o sótão. Ela
está tão perdida em pensamentos que não percebe a minha
presença. Quando chego perto da minha cunhada, ela toma
a chave de fenda de mim e a aponta perfeitamente para o
meu pescoço.
— Calma, Lua... Eu não vim te fazer mal. – Isso
parece fazer com que ela desperte, Lua solta a ferramenta
e me olha apavorada, quase sem acreditar no que quase
me fez.
— Desculpe, Alicia.
— Tudo bem, vamos nos apressar. Noah saiu tem
quase quatro horas, precisamos ir logo.
— Nós?!
— Você não acha que eu permitiria que a minha
cunhada salvasse o dia sozinha, não é?
Ela sorri para mim, mas é um sorriso triste. Noah
a machucou, e ele ainda não sabe o quanto.
— Sabe onde devemos ir? – Ela pensa um pouco
e acena.
— Primeiro, teremos que pular.
Travo em meu lugar.
— O que quer dizer com pular?

Luana

Alicia me solta. Acho que só mesmo a irmã de


Noah para desafiá-lo. Não quero pensar nele agora
porque isso machuca, tenho que focar em encontrar
Raquel e tirá-la dessa enrascada em que está por minha
culpa. Imagino onde começar a procurar, se ele me viu
com Raquel, foi na nossa comemoração de aniversário, e
esbarrei com somente um lobo desconhecido, o cara do
outro lado da rua no restaurante.
Alicia já começa a se encaminhar até a porta.
— Primeiro, teremos que pular. – Ela trava e me
olha.
— O que quer dizer com pular? – Olho para a
janela e ela faz um não com a cabeça.
— Alicia, se sairmos pela porta, acha mesmo que
nos deixarão partir? Seu irmão provavelmente deu ordens
para que esta casa virasse uma fortaleza!
Ela caminha até a janela e olha para baixo.
— Se não quiser vir, eu entendo. – Alicia respira
profundamente.
— Eu vou.
— Não é difícil, quando o chão tiver chegando
perto, flexione seus joelhos.
— Você faz parecer fácil.
— Somos lobas, Alicia, dez metros não é nada!
Dito isso, pulo a janela e vejo quando Alicia,
atrás de mim, faz um salto perfeito. Ela ergue as mãos
para comemorar e eu tapo a sua boca, indicando um dos
carros.
Pegamos a estrada sem que ninguém perceba. Não
havia muitas pessoas na casa, acho que todos estão fora,
patrulhando ou caçando.
Chego até o restaurante e saio do carro, vou até a
mesa em que ele estava sentado e farejo.
— Não sinto nada – Alicia diz, após farejar.
— Você não sente porque o cheiro que está aqui
não lhe diz nada, mas, para mim, sim.
— O que quer dizer?
— Há uns galpões abandonados, Raquel e eu
costumávamos ficar por lá, é esse o cheiro que estou
sentindo.
— O que está fazendo?! – ela grita quando, com
uma faca, eu faço um talho em minha mão e passo na
mesa.
— Deixando um rastro, caso as coisas fiquem
feias.
— Você acha que as coisas ficarão feias?
— Provavelmente.
Dou um desconto para Alicia, para alguém que foi
protegida por toda a sua vida por Noah, a garota é bem
corajosa.
Volto para o carro e nos levo até o fim da estrada
próxima aos galpões. Pelo caminho, abri meu corte e
mantive minha mão para fora da janela.
Sinto o cheiro de Raquel, ela, definitivamente,
está aqui.
Raquel

Vejo no quarto o que posso usar ao meu favor, só


há produtos de limpeza, e eu não acredito que vou fazer
isso, sempre fui muito boa em química, bem que isso vai
me ajudar agora. Junto alguns ingredientes específicos e
dou graças por ser uma ex-fumante que carrega seu
isqueiro no bolso da calça. Isso pode me matar, mas
prefiro tentar fugir a ter a minha amiga sendo presa e
morta por esses loucos. Enrolo tudo com o pano que
cobria o colchão e ascendo à ponta... 3, 2, 1...
Capítulo 11 – Resgate?
Noah

Continuo procurando o sequestrador, quando sou


cercado por três lobos, volto a minha forma humana.
— O que querem? – Reconheço a marca da
matilha de Alec neles.
— Encontraram rastros do fugitivo, ele está a
Nordeste – um deles me responde, mas sinto que há algo
errado.
Poderia acreditar nele, se todos não estivessem
nervosos e se tivesse algum sentido em seus batimentos
terem oscilado quando me deu essa notícia, ele está
mentindo.
Quando me viro, encarando os três, eles sacam
armas, mas suas mãos estão tremendo e eu dou risada.
Eles atiram, balas normais, me ferem, doem como o
inferno, mas não me matarão. Eles atiram até não terem
mais balas. Quando me olham, ainda de pé, vejo o
desespero em suas faces.
— Minha vez – digo, sorrindo, e os ataco,
matando cada um de forma rápida.
Eles tentavam me distrair... Automaticamente,
penso em Luana e corro de volta para a sede da matilha,
merda...
Entro praticamente arrombando a porta. Alec e
Ian, que estavam em uma conversa com suas
companheiras, sobressaltam-se.
— Onde está Luana?
— Amarrada lá em cima, como você deixou –
uma delas responde com ódio, acho que não estarei no
cartão de natal dessas duas.
— Onde está a minha irmã, Alec?
— Não sei, não a vejo tem um tempo já.
Corro, subindo as escadas de três em três degraus.
Alec e Ian me seguem. Quando abro a porta do sótão, não
vejo ninguém por lá, só o que resta é o cheiro de Lua e de
Alicia e uma janela aberta.
— A doida pulou de novo! – Ian diz, olhando para
baixo, mas não penso sobre isso.
— Fui atacado por membros da sua matilha, eles
tentavam me distrair, agora sei o motivo.
— Alec, cara, está faltando um carro – seu Beta
diz.
Rosno e me seguro para não matar esses dois que
foram enganados por duas garotas.
Descemos as escadas e eles param no meio da
sala.
— Não podemos deixá-las sozinhas.
— Nós vamos também – uma das mulheres diz,
mas não me incomodo em saber qual.
— Não – todos respondemos, e elas ficam
emburradas no sofá.
— Um de vocês fica. Onde está meu Beta?!! –
Dou por falta de Leandro, não o vejo há um bom tempo; e
o maldito anda agindo fodidamente estranho.
— Nós também não o vimos, pensamos que ele
estivesse com você.
Ian fica, enquanto Alec e eu entramos em um carro
e seguimos o cheiro de Luana. Seu cheiro fica forte no
centro da cidade. Desço do carro e sinto o cheiro de seu
sangue em uma das mesas. Estava chovendo, e seu rastro
logo desapareceria.
— O que está fazendo? – Alec tenta me parar,
estou tirando minha roupa e me transformando no meio da
rua.
— Ela é minha companheira – é tudo o que eu
digo.
Alec me segue e logo estamos os dois
transformados e seguindo o cheiro do sangue de Luana.
Corremos até encontrar a caminhonete abandonada no
asfalto, é aí que ouvimos o estrondo e vemos o fogo.
MERDA!

Raquel

3, 2, 1...
Protejo meu rosto e coloco um pano em meu nariz,
essa fumaça provavelmente é tóxica. Metade do galpão foi
para os ares. Vejo um homem muito machucado no chão.
Céus, eu fiz isso! Ouço um rosnar e um lobo vem em
minha direção, com seus dentes para fora.
— Cachorrinho bom...

Leandro

Não sei o que estou seguindo, instinto talvez...


Sinto que a minha companheira precisa de mim, e estou
correndo como um louco, até que sinto de leve uma brisa
que traz o seu cheiro. Quando estou próximo a um galpão,
uma explosão ocorre, transformando tudo em um
amontoado de fogo e escombros. Ainda bem que estava
chovendo, o fogo se dissipará logo. Porém, preocupo-me
com o cheiro dela que senti ali, ela não pode estar...
Ouço um grito e sei que é ela. Não penso, quando
entro no galpão – ainda em chamas –, meus olhos ardem
pela fumaça. Vejo uma loira acuada por um lobo, sei que é
ela, vejo tudo em vermelho porque tem um lobo
ameaçando a minha companheira. Pulo e meus dentes
encontram com sua jugular, matando-o rapidamente.
Aproximo-me dela, que vai mais para trás, mais para as
chamas. Isso tudo vai cair daqui a pouco, volto a ser
humano, ela arregala os olhos e me encara de cima
abaixo, meu corpo responde pelo seu olhar admirado.
— Venha, linda, sou amigo da Lua, precisamos
sair daqui.
Ao ouvir o nome de sua amiga, ela parece acordar
e segura em minha mão, a pego no colo e corro para a
floresta.

Raquel

— Cachorrinho...
Ele corre em minha direção, grito... Merda, vou
morrer! Mas um lobo marrom pula nele e rasga seu
pescoço. O lobo olha para mim e caminha como um
predador, vou para trás. É aí que o brilho surge novamente
e, por Deus, que homem é esse?! Ele é perfeito... Estou
admirada demais por seu corpo, que penso que deveria
explodir lugares mais vezes, se for para ser salva por ele
sempre. Ele diz alguma coisa sobre Lua, e eu seguro em
sua mão, mais porque o ouvi me chamar de linda – mas
ele não precisa saber sobre isso.
Ele me cobre com seu corpo e me pega no colo,
seguro em seu pescoço e, quando já estamos na floresta,
afasto a minha cabeça do seu peito e o olho, olhos de um
azul escuro me encaram de volta. Ele retira o braço que
segurava a minha perna e sustenta todo o meu peso,
segurando-me só pela cintura. Com a outra mão, ele
segura o meu pescoço e me beija. Beijo? Acho que estou
aprendendo o significado dessa palavra neste exato
momento.

Luana

Quando ouço a explosão, peço para que Alicia


fique no carro e corro até próximo ao galpão, mas sou
interceptada por vários lobos.
— É ela... A companheira, olhe para as suas
marcas – um deles diz, e a repulsa me consome.
— Vamos nos divertir com você, garotinha.
— Onde ela está? – rosno para todos.
— A humana?
— Provavelmente, frita.
Todos riem e tento chegar ao galpão em chamas,
mas eles não deixam. Estou preocupada com Raquel e não
me foco completamente na luta, e essa era toda a vantagem
de que eles precisavam.

Alicia

Juro que obedeceria Luana e ficaria no carro, mas


um cheiro chama a minha atenção. Um cheiro de sangue
que revirou tudo o que há em mim, sei o que é isso,
companheiro.
Transformo-me e corro para dentro do galpão em
chamas. Lá, havia um homem caído. Lambo o sangue de
seu rosto e choramingo, até que ele desperta. O homem me
olha, e seus olhos mudam um pouco de cor.
— Vamos sair daqui – ele diz, e eu o acompanho.
Olho ao redor, procurando a amiga de Luana, mas
não encontro ninguém.
— Lua...
— O quê? Estou meio ocupada agora.
— Ela não está no galpão em chamas.
— E como você sabe disso, Alicia?...
— Encontrei meu companheiro, Lua, estou indo
com ele.
— Como assim, indo com ele?! Quem é ele?!
Transformo-me de volta quando estamos próximos
a uns carros na floresta e ele me olha de cima a baixo,
vejo o seu lobo à margem, mas há outra coisa em seu
olhar, raiva...
— Não consegui a companheira, mas a sorte
sorriu para mim, a irmã cai como uma dádiva em meu
colo.
— Foi você que...
— Sim, querida, e você vem comigo.
Merda!

Noah

Corro até Luana e ela está bravamente enfrentando


vários lobos, minha loba é feroz e corajosa, sinto o cheiro
de seu sangue e vejo tudo em vermelho. Ataco todos,
Luana e Alec me ajudam, até que nenhum sobre com vida,
nos transformamos de volta.
Abraço-a, procurando por machucados.
— Estou bem, Noah. Que marcas de tiro são
essas?! – Ela analisa o meu corpo e me olha feio. Sorrio
porque fico feliz que ela ainda se preocupe comigo. –
Alguém viu Raquel? – minha companheira grita e ouço
uma voz feminina responder de volta.
— Presente! – Raquel está próxima a Leandro, ele
está com uma mão em seu ombro, protegendo-a.
Lua corre em sua direção e a abraça.
— Lôra, que susto dos infernos! – Ela olha para a
sua amiga, que estava com os cabelos bagunçados,
vermelha e com a boca inchada. – Por que está vermelha
desse jeito?
— É... Não sei você, mas eu não sou muito
acostumada a falar com pessoas peladas. – Ela olha para
Leandro e parece mais envergonhada ainda.
Minha companheira olha para o próprio corpo nu
e dá de ombros.
— Você se acostuma.
Capítulo 12 – Caminho de
Casa
Luana

Quando conto para Noah que sua irmã encontrou o


companheiro e partiu com ele, meu companheiro não gosta
muito, mas aceita. Estamos no carro agora, Noah,
Leandro, Raquel e eu. Alec disse que faria as coisas
sumirem com alguns membros da matilha, não podíamos
deixar rastros. Meu irmão está irritado porque o seu
pessoal o traiu, mas ele não sabe, ainda não percebeu que
a nossa comunidade está em ruínas. Um dia, se algo não
mudar drasticamente, lobos lutarão contra lobos, e talvez
seja o fim da nossa raça. Não me passa despercebido que
Raquel, e até mesmo eu, foi alvo de lobos revoltados por
nossa proximidade com Noah. Será que a minha vida será
assim daqui para frente?
A voz de Noah me desperta do meu transe.
— Onde está a pessoa que te sequestrou, Raquel?
— Ele... Quando explodi o lugar, ele foi atingido,
provavelmente está morto – ela diz, triste, enquanto
Leandro abre o maior sorriso do mundo. O que há com
esses dois?
— Você explodiu o lugar? – pergunto perplexa.
— Acho que as aulas de química servem para
isso. Se você não tivesse dormido em todas, também
saberia. – Mostro a língua para minha amiga, que me olha
pelo retrovisor e sorri.
— Tenho certeza que as aulas de química não te
ensinaram a explodir coisas... – digo, e Raquel fica
vermelha.
Noah toca em minha mão e, embora eu estivesse
magoada com ele, preocupo-me com seus machucados e
desejo tê-lo por perto, desejo tê-lo... O que isso faz de
mim?!
Ele toca em meu queixo, erguendo a minha
cabeça, e me beija. Eu retribuo, ele me põe em seu colo e
nosso beijo se intensifica.
— Sério?! Vocês não vão fazer sexo aí atrás, né?
Já passei por coisas traumáticas o suficiente em um dia.
Sério, estranha, acho que sua vida sexual está muito mais
ativa que a minha.
— Duvido muito! – Gargalho, e Leandro rosna,
segurando a mão de Raquel.
Olho para Noah, ele dá de ombros e sussurra em
meu ouvido:
— Sinto muito.
— Sente? Então, me diga que não faria exatamente
a mesma coisa que fez.
Ele abre e fecha a boca algumas vezes, e eu
suspiro.
— Estou cansada, Noah... – digo, tentando me
afastar dele.
— Não, companheira. Eu... Não sou perfeito, e
nem você é, nós somos como dois elementos que fazem
um estrago gigante quando estão juntos. Eu não vou mudar,
e você também não... Não espero que mude. Pretendo
passar o resto da minha vida com você, e sei que será
algo movimentado e problemático, mas eu te amo do jeito
que é. Vou continuar tentando te prender e te amarrar,
porque meu instinto em te proteger é mais forte do que
qualquer prudência que eu tenha. E você vai continuar
lutando e sendo essa Alfa maravilhosa que é. Me aceite
como sou, Lua, eu te amo exatamente da forma que é.
Fico calada, só admirando Noah, admirando o
meu companheiro, um rei que está aos meus pés.
— Estranhaaa, se não casar com ele, eu caso! –
Dou risada da minha amiga maluca e me aconchego mais
ainda em Noah.
— Eu também te amo.
Capítulo 13 – Cárceres
Alicia

Olho para o meu captor, sou uma loba crescida, é


claro que poderia ter lutado com ele e tentado fugir, mas
eu prefiro arriscar. Confesso que sou uma romântica
incorrigível, prova disso é que saí da minha casa e do
meu conforto para vir aqui, ajudar Noah com sua
companheira. O pobre do meu irmão nunca havia me
pedido ajuda antes, percebi o quanto estava desesperado
quando me ligou.
E, agora, estou aqui, no carro, com meu
companheiro que, ao que tudo indica, é o homem que quer
destruir o meu irmão. Olho para o seu perfil enquanto
dirige, sua mandíbula está cerrada, como se tentasse tomar
uma importante decisão. Sua barba está por fazer, mas eu
o acho bonito dessa forma, ele tem olhos verdes, como
esmeraldas, e cabelos escuros e bagunçados, o homem é
lindo!
— Pare de olhar para mim assim. – Reviro os
meus olhos, sou acostumada a homens mandões.
— Então, qual o seu brilhante plano? – Ele olha
para mim e eu sorrio angelicalmente.
— Fique calada.
— Qual o seu nome? – Ele não responde e me
olha irritado novamente. – Sabe, eu gostaria mesmo de
saber o nome do meu captor e carrasco, afinal, você
provavelmente vai me matar. – Ele acena.
— Provavelmente – diz sério.
Eu me ajoelho no banco do carro e encosto a
minha boca em seu ouvido.
— Sabe, não me incomodaria de morrer por suas
mãos, não se for extremamente prazeroso. – Ele estremece
e aperta o volante com força, rosnando.
Eu volto para o meu assento, sento-me, estou com
uma blusa larga que encontrei no banco de trás do carro,
algo me diz que é dele. Coloco meus pés em cima do
painel e afivelo o cinto de segurança. Isso faz com que a
blusa, que era larga em mim, grude em cada centímetro do
meu corpo. Ele olha dos meus pés no painel do carro aos
meus seios e eu rio.
— Querido, como dizem, segurança é tudo! –
Arrumo o cinto entre os meus seios e ele olha mais ainda
para eles. – Acho que você precisa olhar para a estrada
para dirigir. – Ele parece acordar novamente e rosna,
ótimo papo esse nosso.
Ele pode até me negar, mas transformarei a vida
do meu querido companheiro em um belo e prazeroso
inferno.

Alec

Chamo alguns do bando para limpar o local,


queimar os mortos e tirar daqui qualquer resquício do
nosso povo. Mas minha cabeça está em casa, na loba que
parece uma índia, em minha companheira, Manu. Ela é
linda, pele morena, olhos puxados e negros, assim como
seus cabelos, negros, lisos e longos. Ela é esguia e tem um
porte dos primeiros da nossa espécie. Corro para casa no
único intuito de vê-la. Minha matilha está uma bagunça,
pelo que Noah contou, havia traidores, talvez alguns que
ainda eram leais ao meu pai e cultivaram ódio de mim e
de Lua. É horrível não poder confiar nos seus, temo pela
segurança da minha companheira em minha própria casa.
Sinto seu cheiro antes de chegar até a casa,
próxima ao rio, ela está com um vestido longo e claro.
Manu brinca com algumas pedras na beira do rio e eu me
aproximo de seu belo corpo sem que ela perceba. Encosto
o meu focinho em seu braço e Manu se assusta, tanto que
cai dentro da água.
Ela, agora completamente molhada, olha para mim
emburrada.
— Aposto que está se acabando de rir, Alec! – E
estava, é a primeira vez que ela me chama pelo meu nome.
Abaixo-me em minhas patas e a olho, ela joga água em
mim e tento me esquivar, mas acabo molhado também. Ela
sorri e é a coisa mais linda que já vi. Paro de me mover e
a próxima água que ela joga em minha direção me pega de
cheio no focinho, estou, agora, definitivamente pingando,
tanto quanto Manu.
Manu sai da água e posso admirar seu corpo, que
agora está desenhado por seu vestido molhado, minha
companheira é linda. Ela para de se mover e me encara,
sabe que estava olhando para o seu corpo. Então, sacudo-
me e a molho mais ainda, ela gargalha.
— Isso não é justo! – Ela se senta na beira do rio
e torce seu cabelo. Eu me aproximo, ainda transformado
em lobo, e sento-me ao seu lado, deito-me e apoio a
minha cabeça em seu colo, fecho os meus olhos. Manu
para e abaixa sua mão até a minha cabeça, fazendo
carinho em minha pelagem, suspiro. Isso deve ser um
começo...

Leandro
Chegamos até a casa da matilha e Noah pega sua
companheira pela mão e começa a subir as escadas.
— Ei, você nem pense em me deixar aqui,
sozinha, estranha! – Raquel grita para Luana.
Ela olha para trás, para nós dois.
— Você está muito bem acompanhada. – Luana
pisca para sua amiga e ela faz menção em seguir Lua
escada acima, e eu a seguro.
— Onde pensa que vai? – Ela abre e fecha a boca
olhando para mim. – Eles têm coisas a resolver, e nós
dois também.
— E o que eu teria a resolver com você? – ela
pergunta, ficando vermelha. Provavelmente, lembrando-se
do nosso beijo na floresta, e eu passo minha língua sobre
os meus lábios para ver se ainda sobrou um restinho do
seu gosto.
— Muita coisa, loirinha, mas, primeiro, você vai
tomar banho e descansar. – Seguro em sua mão e
praticamente a arrasto para o quarto em que estou
hospedado. Sinto falta da minha casa, imagino se Raquel
gostaria do meu cantinho.
Jogo uma das minhas blusas para ela, do jeito que
minha companheira é pequena, comparada a mim, minha
blusa deve ficar quase um vestido em seu corpo. Aponto
para o banheiro e cruzo os meus braços. Ela se irrita,
percebo por uma ruga que aparece entre suas
sobrancelhas.
— Pare de ficar me tratando como a droga de uma
criança! – ela diz irritada, e me aproximo perigosamente
dela.
— Loirinha, eu nunca faria as coisas que penso
em fazer com você se te achasse uma criança. Agora...
Você pode se comportar como uma e eu vou adorar tirar a
sua roupa e te dar um belo banho.
Ela fica mais vermelha ainda e corre para o
banheiro. Foi bom deixá-la sem graça, porém, como
consequência, meu corpo está duro como uma rocha,
merda.

Ian

Não gosto de deixar meu Alfa sozinho, mas cá


estou eu, olhando para Priscila, enquanto ela cozinha algo
no fogão. Nem o cheiro delicioso da comida se sobressai
ao cheiro delicioso dela, minha boca saliva.
— Então, vai ficar aí, salivando, ou vai
experimentar?
Ela nem imagina o que é que estou querendo
experimentar. Vou até minha loba com um sorriso
gigantesco. Ela está fazendo um molho, pega uma colher e
me oferece.
Eu passo o meu dedo no molho que está a colher.
— Ei, cuidado, isso está quente!
E ela nem sabe o quanto...
Passo o meu dedo ainda sujo em seu lábio e ela
me olha com seus lindos olhos verdes.
— Você disse que eu poderia experimentar – digo,
aproximando-me dela. Priscila abre sua boca, mas nenhum
som sai. Antes que ela me impeça, estou invadindo a sua
boca e a segurando forte de encontro ao meu corpo, minha
companheira é deliciosa...

Noah

Caminho com Lua até o seu quarto, sinto falta da


minha casa, do meu espaço. Ela segura em minha mão e
me leva até o banheiro. Lua pega uma esponja e começa a
lavar meu corpo delicadamente, a água escorre por mim,
levando toda a sujeira e sangue. Ela suspira ao perceber
que não estou machucado. Luana segura em minha mão e
beija meus dedos. Então, olha para cima, nos meus olhos.
— Sabe o que significa, a lua, para a nossa
espécie, companheira? – Ela fica calada. Então, eu
continuo: – A lua é nosso astro guia, é o que nos dá força,
é o que nos rege, e acho que sou o único lobo que não
precisa dela. Porque eu tenho a minha lua particular. –
Toco em seu pescoço e ela fecha os olhos, com seus
lábios entreabertos. Chego mais perto e sussurro: – Você,
minha lua, é toda a força da qual preciso. Fique comigo,
seja minha, seja a luz que iluminará todos os meus dias,
por favor...
Ela me olha e uma lágrima desce por seu rosto.
Lua fica na ponta de seus pés e beija meu pescoço,
subindo para a minha boca. Agarro suas pernas e as ponho
em volta de mim. Lua e eu agora estamos do mesmo
tamanho, e ela toca meus lábios.
— Eu te amo, Noah – ela sussurra em meu ouvido.
– Agora, me ame, companheiro.
Dessa vez, não a tomo, eu me dou para Luana, nos
amamos ali, embaixo da água que escorre pelos nossos
corpos. Devagar, não tiro nem por um segundo meu olhar
do seu e, quando o nosso prazer está prestes a chegar, Lua
vira o meu pescoço e me morde. Perco a força em minhas
pernas e caio ajoelhado, ainda dentro dela. Olho para os
nossos corpos completamente unidos, para minha
companheira com meu sangue em seus lábios e nossa
marca fecha completamente nossos braços.
— Você é meu, Noah, assim como eu sou sua.
Você é meu Supremo, meu Alfa, meu companheiro, meu
amor.
Arrasto-nos até a cama e encaixo meu corpo com
o de Lua, dormimos ali, molhados e saciados.
Capítulo 14 – Descobertas
Alicia

— Onde estamos? – Farejo o local. – Ah, sua


casa!
Meu companheiro suspira e joga as chaves em
cima da mesa. Ele mora em um apartamento quarto e sala,
daqueles sem divisórias. Tudo preto e simples, a casa de
um homem, o que eu poderia esperar?
Jogo-me em sua cama e ele para, estático, olhando
para as minhas pernas nuas. Sabendo disso, espreguiço-
me e acomodo-me ainda mais em seus travesseiros, tem o
cheiro dele, e isso me enche por dentro.
— Eu gosto de quase todo tipo de comida... Não
gosto muito de coisas doces, entretanto...
— Isso aqui não é um maldito hotel.
— Não? Desculpe, mas sou acostumada a ser bem
tratada.
— Claro que é, você deve ser uma princesinha
mimada.
Sento-me em sua cama e espreguiço-me.
— Você não sabe o quanto, lobinho.
Ele rosna com o apelido carinhoso e vem em
minha direção.
— Se não gosta do lindo apelido que lhe dei, por
que não me diz seu nome? – Sorrio, com meu hálito já
quase em seu rosto.
— Lucas. – Isso chama a minha atenção, olho em
seus olhos.
— Lucas do quê? – pergunto em um fio de voz.
— Lucas Denver. – Empurro-o, porque tudo volta,
tudo volta e sinto nojo dele, do seu cheiro. Ele está no
chão, olhando para mim, e eu não consigo respirar... Eu só
não sei como respirar novamente, sinto minha visão ficar
turva e a última coisa que vejo é Lucas, caminhando
novamente em minha direção, mas eu não quero que ele
me toque, não quero ser tocada por ele...

Luana

Acordo e sinto o corpo de Noah ao lado do meu.


Bem verdade que ele está me aprisionando com seus
braços e pernas, não sairia daqui mesmo se quisesse.
Viro-me de frente a ele e o observo dormir, Noah está
relaxado, tranquilo. Passo meus dedos em seu rosto, em
sua barba, que já está por fazer. Quando toco em seus
lábios, ele abre a boca e morde meu dedo, sorrindo.
— Ei! – Ele larga meu dedo e me puxa para cima
de seu corpo.
— Bom dia, companheira – Noah diz, com seus
olhos brilhando.
— Bom dia, amor. – Desço e lhe dou um beijo
demorado. Noah olha para meu quarto e fica sério de uma
hora para outra.
— Sabe que teremos que partir.
— Eu sei, Noah, vamos só esperar até que meu
irmão e Ian se resolvam com suas companheiras, pois, se
formos agora, é provável que ambas queiram ir comigo e
deixá-los.
— Você está concordando comigo sem brigar? –
Ele ergue uma sobrancelha.
— Esta não é a sua casa e, no fundo, sempre
soube que também não é a minha. – Dou de ombros e ele
segura o meu rosto.
— Me desculpe por prendê-la, isso a machucou, e
eu sinto muito.
Deito em cima do forte peito do meu companheiro
e deixo algumas lágrimas escaparem, eu não sei se posso
simplesmente perdoá-lo por isso.
— Eu terei todos os dias da nossa vida para me
redimir por isso, e acho melhor começar logo – ele diz e
me põe embaixo de seu corpo. Noah começa a beijar cada
centímetro do meu corpo, se for para acordar todos os
dias dessa forma, ninguém me verá reclamando.

Raquel

Termino o meu banho e olho para a blusa que


Leandro me deu, olho para as minhas roupas de baixo,
estão nojentas e as descarto, essa blusa é grande o
suficiente para que ele não perceba que estou sem nada
por baixo. Saio do banheiro e ele está com uma bandeja,
contendo suco, morangos e alguns pãezinhos.
— Venha comer. – Sério, tudo que sai da boca
desse homem é uma ordem, isso já está começando a me
irritar.
Tomo alguns goles do suco e começo a comer os
morangos, adoro morangos, e esses estavam maduros e
deliciosos. Já no segundo morango, resolvo olhar para
cima e Leandro está com seus olhos transformados, ele
acompanha o percurso da minha mão até a boca quando
mordo o morango ao meio e quando lambo meus lábios
para limpar o sumo que escorre. Quando vou pegar mais
um, ele agarra o meu pulso com força.
— Pare.
— Pensei que tivesse me dito para comer – digo,
fazendo beicinho.
— Não... – ele chega cada vez mais perto de mim
– me tente. Quer comer? Ok, coma, mas eu vou te comer
também.
Recado anotado, não brincar com o homem lobo.
— Deite.
— Eu não estou...
— Deite – ele me corta.
Na verdade, não estava com sono, deito e olho
para Leandro, que tira a sua calça e fica completamente
nu. Encaro-o boquiaberta.
— Está gostando do que vê, loirinha? – Cubro os
meus olhos.
— O que há com vocês e as roupas?!! Não sabem
ficar vestidos por mais de meia hora?!
O colchão se move ao meu lado. Leandro puxa
minhas mãos, que tampavam meus olhos, e me puxa de
encontro ao seu peito. Ele suspira e faz carinho em minhas
costas, pensei que não estivesse com sono, mas meus
olhos começam a pesar...

*****

Acordo, sentindo braços me apertarem por trás.


Apertarem? Abro os meus olhos de vez e não consigo me
mover, não consigo porque Leandro está com uma de suas
mãos abaixo da blusa, em meu seio, e a outra entre as
minhas pernas, mas que...
Tento me mover novamente e ouço um rosnar
perigoso em meu pescoço. Congelo no lugar e ele começa
a massagear onde suas mãos tocavam. Merda! Isso aqui
estava começando a ficar quente. Sinto a sua respiração
regular em meu pescoço, o maldito ainda estava
dormindo. O que será que acontece quando se acorda um
lobo? Seus dentes começam a arranhar meu pescoço e
tremo, não de medo – estranhamente. – Só posso estar
ficando louca...
Ele continua massageando meu seio. Com sua
outra mão, introduz um dedo dentro de mim e eu prendo a
respiração. Leandro começa a aumentar seus movimentos
e eu gemo, até que um orgasmo avassalador toma o meu
corpo e ele sorri... Sorri?!
— Você não estava dormindo!!! – digo, acusando-
o.
— Não, não estava – ele responde, simplesmente
tirando seu dedo de dentro de mim e o lambendo em
minha frente.
— Você... – Ergo a minha mão para bater nele e
Leandro segura meu pulso.
— Você é apertada, loirinha, teremos que brincar
muito para que eu possa montá-la sem machucá-la. – Abro
e fecho a minha boca algumas vezes, e Leandro se levanta
da cama, o maldito estava duro como uma haste e era
imenso! – Admirando? – ele pergunta e, dessa vez, não
fecho os meus olhos, só levanto da cama, passo por ele e
entro no banheiro.
Olho-me no espelho da pia e estou com a cara de
alguém que foi muito bem... Lembro-me de Leandro com
sua voz rouca: “Coma, mas eu vou te comer também”.
Estremeço, eu estou tão ferrada...

Alec

Estou aqui, por toda noite, observando-a dormir,


eu, em formato de lobo. Estranhamente, ela não se
incomoda em me ter por perto assim, porém, quando me
transformo em homem, as coisas mudam de figura. Subo
em sua cama quando o dia amanhece, ela se senta, ainda
sonolenta, e me abraça. Fico ali por um tempo, então, me
transformo, não sou de ferro.
Prendo-a com o meu corpo e ela me olha com
medo, odeio que ela me olhe assim, rosno, mas isso só
piora as coisas.
— A... Alec!
— Não vou te machucar, confia em mim. – Cheiro
seu pescoço, e ela começa a se debater.
Transformo-me de volta, ela ergue a mão para me
tocar, mas fujo do seu alcance.
— Alec, eu...
Saio do quarto e corro, uivo na floresta, chamo o
meu povo e eles, como eu, em forma de lobo, correm.

Ian

Ontem, depois de Priscila quase derrubar tudo da


mesa para fugir de mim, resolvo dar um pouco de espaço
para a minha companheira. Fico quase três horas longe
dela, e isso já está me matando.
— Ei, linda – chamo, pegando-a de surpresa, e
ela dá alguns passos para trás.
— Ian... – Toco em seus lábios.
— Olha, não sei pelo o que você passou, não sei
mesmo. Mas agora eu estou aqui e prometo que jamais
alguém irá lhe machucar.
— Nem você?
Céus, essa pergunta doeu no meu peito.
— Principalmente eu. Aceite-me, Priscila e serei
completamente seu. – Merda, ela estava demorando
demais para responder, o que eu posso fazer? Estava com
uma saudade danada, assalto a sua boca e a ergo, encosto
a minha testa na sua. – Diga que sim.
Ouço-a sussurrar:
— Sim.
Merda! Era tudo o que eu precisava ouvir. Pego a
minha pequena ruiva no colo e a levo até a minha casa,
coloco-a em minha cama e retiro a minha roupa. Ela ainda
me encara com um pouco de medo. Merda, só quero tirar
essa maldita expressão de seu rosto e matar o desgraçado
que a colocou lá.
Tento ter calma, mas meu lobo rosna e urra para ir
mais depressa. Beijo-a e tiro a sua roupa no processo, seu
seio cabe perfeitamente na palma da minha mão, ela geme
com o contato dos nossos corpos, e quando olho em seus
olhos, não há mais medo, só há desejo, desejo por mim.
Meu lobo rosna e eu mordo seu pescoço no mesmo
momento em que a penetro. Ela grita, sei que machuca e
deve doer... Mas seus gritos passam de dor a prazer em
alguns momentos. Minha, minha companheira, uma marca
aparece em nossos pulsos, nosso enlace, estamos unidos.
Quando acordo, o pequeno anjo ruivo ainda está
em meus braços, dou pequenos beijos em seu corpo, até
que ela desperta.
— Bom dia, linda. – Ela sorri.
— Bom dia.
— Agora, vamos conversar. O que fizeram com
você? – Ela trava seu corpo e tenta sair, mas eu não
permito. – Priscila, você é minha companheira, diga o que
fizeram com você.
Ela fecha os seus olhos com força.
— Olhe para mim e fale. – Ela não abre os olhos,
mas começa a falar.
— Eles nos... Colocavam-nos em galpões, nossas
aldeias nos venderam para alguém, dívida, não sei ao
certo o que aconteceu, mas... Eles queriam lobas.
Colocaram-nos em jaulas, em um acampamento... Eles...
Eles... Drogavam a comida e a água e... Entravam nas
jaulas e...
Rosno alto e a abraço. Esses malditos vão pagar!
Vou caçá-los, nem que seja no inferno!
Capítulo 15 – Matilha, Um
Alfa
Luana

Meu irmão colocou cada pessoa da matilha ao


lado de fora da casa, cada um, homem, mulher, criança e
idoso.
— Ao que parece, tínhamos traidores na matilha,
e ao que tudo indica, ainda temos. Se você não deve nada,
não tem nada a temer. Porém, uma coisa eu digo, qualquer
um que ousou ou ousar me trair terá seu destino junto à
morte.
Meu irmão parecia maior, mais forte, não vejo
mais aquele Alec sorridente através do homem que está a
minha frente, ele é um Alfa agora, e só isso.
Alec estava passando em frente a cada um deles,
até que a primeira morte veio, Alec arrancou o coração do
primeiro homem dali. Sei o que meu irmão estava
fazendo, medindo seus batimentos e usando o vínculo da
matilha, mas não tenho tanta certeza se essa era uma
técnica cem por cento segura. Dou um passo à frente e
Noah me segura, repreendendo-me com o olhar.
Meu irmão caminha mais uma vez, já matou três
da matilha. Quando para e olha direto nos olhos de
Manuela, ele a encara e acena, enfia seu braço no peito de
outro homem, arrancando o seu coração e jogando aos pés
dela. Manu não pisca, não tira os olhos dos de Alec.
— Essa é uma matilha, vocês são a minha família!
Que esse dia fique marcado, que ninguém ouse desafiar a
minha família ou não sobreviverá para contar.
Ouço o urro de toda a matilha, vejo quando eles
se transformam, seu uivo, sua corrida. Meu irmão se
transformou em um Alfa.

Lucas

O que deu nessa princesinha? De uma hora para a


outra, a louca me empurra e foge de mim como se eu
fosse... um monstro. Não sei por que, mas essa ideia me
feriu. Claro que sei por que, não sou estúpido.
Vejo quando seus olhos dilatam, ela não está
respirando. Droga, tudo o que eu precisava! Tento chegar
até ela, mas me empurra novamente e se afasta, até que cai
de cara no chão e desmaia. Pego a princesa e a coloco em
minha cama, minha camisa cobre seu corpo, ela está sobre
os meus lençóis e sinto o seu cheiro misturado ao meu.
Minha! Meu lobo rosna dentro de mim. Merda! Poderia
ser qualquer outra pessoa no universo, mas o destino é um
fodido hipócrita. Uso toda a minha força para não
encaixar meu corpo ao dela na cama, fico sentado em uma
poltrona, observando-a dormir, a maldita é linda. Sua pele
é suave e macia, seu corpo foi feito para o pecado, seu
cabelo, como seda, escorre nos meus lençóis...
Ela acorda sobressaltada pela manhã, joga meus
lençóis no chão, como se fosse pegar alguma doença
deles, e me olha com... nojo. Que merda que está
acontecendo aqui?! A princesa tenta fugir de mim, mas a
seguro e grudo seu corpo com o meu, meu lobo rosna
feliz.
— Me solta!!
— Até ontem, você estava praticamente se
jogando em meu colo. – Rosno em seu ouvido e ela treme,
mas é de medo, sinto o seu cheiro de medo e não gosto
disso.
— Até descobrir que você é um porco nojento! Eu
te odeio! – Solto-a, porque sinto uma porra de dor em meu
peito.
Depois disso, ela tenta fugir. Tentou pela porta da
frente, pela janela da sala, pela janela do banheiro, tentou
ligar para alguém. Então, eu fiz o óbvio, amarrei-a em
minha cama.
— ME SOLTA!
— Não adianta gritar, princesa. Ninguém vai te
ouvir ou vir correndo para te socorrer.
— Vão perceber que você me sequestrou!!!
— Agora vê que sou seu sequestrador?!
— Vejo que é um verme asqueroso – ela diz isso
com veneno em cada palavra. Viro-me de costas para que
ela não veja o quanto as suas palavras me afetaram. O que
eu fiz para que essa garota me odiasse tanto?!

Raquel

O brutamonte me arrastou para uma grande mesa,


cheia de gente que eu nunca vi na vida. Ele se senta e eu
arrasto uma cadeira para me sentar do outro lado, mas ele
segura em minha cintura e me puxa para seu colo.
— O que...?
— Shiiii...
Leandro põe um dedo em minha boca, calando
todas as minhas reclamações. Ele pega algumas frutas já
cortadas e começa a me dar comida na boca, seus dedos
sempre tocam em meus lábios, em meus dentes, ou em
minha língua, e ele nunca desgruda o olhar do meu.
— O que está acontecendo aqui?! – Lua grita,
caminhando em nossa direção com seu namorado logo
atrás, tentando impedi-la. Ela põe um dedo na cara de
Leandro. – O que você pensa que está fazendo?
Leandro a olha indiferente, mas não responde.
— Não brinque com a minha amiga ou eu vou...
— Ah, querida Alfa, eu vou brincar com sua
amiga, e vou brincar muito!
O brutamonte olha para mim enquanto fala, com a
cara mais descarada do mundo.
— Leandro! Deixe a minha amiga em paz!!!
— Ela é minha! – Leandro rosna e enfrenta Lua.
— Ei! Já chega! Primeiro, eu não sou nenhum
objeto para “ser” de alguém. Segundo, agradeço a sua
preocupação, mas eu sei me cuidar, estranha.
— Tem certeza, Lôra?!
— Sim, eu tenho. Ainda não saí correndo em
saber que pessoas que se transformam em lobos existem,
acho que sobrevivo a qualquer outra novidade.
— Sobre isso...
— Humanos não podem saber da nossa existência,
eles devem ser sacrificados quando nos descobrem – o
namorado de Luana fala, com sua voz forte e grossa, e eu
tenho certeza que ele não teria problema nenhum em me
“sacrificar”. Leandro aperta a minha cintura.
— Mas... – Lua empurra seu namorado. – Nós não
iremos fazer isso. Em contrapartida, você será a protegida
da matilha de Noah e... Viverá conosco.
— Eu já vivo nesta cidade, Luana.
Ela faz uma cara engraçada.
— Terá que se mudar quando eu for para a casa
de Noah.
— O quê?!!!
— Lôra, isso é sério... – ela tenta me convencer.
— Sabe o que é sério?! – Ergo-me do colo de
Leandro, porque parece ridículo ter uma discussão
sentada no colo de alguém. – Sério é ser sequestrada,
trancafiada, ser quase morta e, depois, ser quase comida
viva por um lobo!!! Sério é saber que a pessoa em que
você mais confiava no mundo não confiou em você o
suficiente para contar a verdade sobre si mesma! Quer
saber?! Para mim, já deu! Estou indo para a minha casa! E
você – aponto para Leandro – não ouse me impedir!
Começo a andar pela estrada, ando quase meia
hora. Não foi uma ideia muito inteligente sair dali assim,
mas quem eles pensam que são?! Não vou mudar toda a
minha vida por causa deles, não mesmo! Eu tenho planos,
tenho sonhos, sou uma garota livre, e ninguém vai me
roubar isso.
Ouço um carro na estrada, estrada deserta, é bom
ressaltar. Será que saí de um sequestro para outro? Um
carro para ao meu lado.
— Entra, loirinha, eu te levo.
Leandro está sério no banco do motorista, olho
para ele e continuo andando.
— Entra, você não vai conseguir voltar a pé – ele
diz novamente, tentando me convencer.
— Não pedi sua ajuda! E a humana aqui sabe
muito bem andar!
Ele põe o carro em minha frente e freia de vez.
— Entre no maldito carro ou eu vou te forçar a
isso. – Seus olhos brilham.
— Gostaria de vê-lo tentar!
Merda, o homem desce do carro e caminha até
mim como um predador. Corro, mas, em menos de um
minuto, ele me alcança, sua respiração está acelerada, ele
me põe em seu ombro e eu, como sou uma menina
crescida, esperneio e bato em suas costas. Se bem que a
vista daqui é ótima, ele tem uma bela bunda... Foco!
Continuo batendo nele, mesmo sabendo que isso não vai
adiantar muito. Então, ele me morde! Estou de cabeça
para baixo e o sacana morde um dos lados da minha
bunda!
— Aii!!! Isso dói, seu...
Ele me joga, não dentro do carro, mas em cima do
capô, e o que vejo em seu rosto me faz calar a boca bem
rápido. Ele prende as minhas mãos acima da cabeça e me
beija, inferno de homem que sabe beijar muito bem,
esqueço que estava irritada. Ele me pega no colo e me
deixa sentada no banco do carona, quando me sento ereta,
sinto doer onde ele me mordeu, ergo a blusa e estava lá, o
desenho perfeito de seus dentes!!
Ele olha para minha bunda, que agora está à
mostra, e sorri, o maldito está sorrindo!!! Cruzo os meus
braços e fecho a minha cara, não digo mais nenhuma
palavra. Quando chego em frente a casa dos meus tios,
saio do carro e bato forte a porta sem olhar para trás,
quem esse lobo pensa que é?!

Ian

Vou atrás de Alec para contar o que a minha


companheira me disse, se essa prática continua a
acontecer, temos um problema.
— Vendidas?! Isso aconteceu com Manu
também?!
— Alec, Irmão, isso é tráfico de lobas, elas eram
drogadas e estupradas. Não sei para qual fim, e não sei o
que aconteceu com Manu, mas aposto que não foi bonito.
Alec tem seu tempo, quebrando cada coisa da
sala.
— Lua! – ele grita, claro que ela ouviria. Luana e
Noah descem as escadas, Noah encara Alec com raiva,
não gostou que sua companheira fosse chamada aos
berros. – O que sabe sobre o tráfico de lobas?
— Então, elas já lhes contaram. Quando vieram
até mim, fui averiguar o local de onde fugiram, porém, não
tinha mais nada. Segui o rastro e também não deu em nada.
— Você estava caçando traficantes de lobas?! –
Noah encara sua companheira.
— Isso foi antes de te conhecer, amor. – Ele
suspira. – Se fosse agora, iria levá-lo junto. – Noah rosna
e Lua sorri. Esses dois combinam perfeitamente.
— Eles não podem ter sumido no ar!
— Também acho que não, só que não encontrei
mais nada. Então, não tenho nenhuma pista para seguir.
Alec, transtornado, sai da casa, já rasgando suas
roupas e transformando-se em lobo.
— O que há com ele?!
— Seu irmão está deixando o lobo no comando
por muito tempo, ele está fora de si, mal o reconheço.
— Acha que tem algo a ver com...?
— Sua companheira? Claro.
Capítulo 16 – Confiança
Luana

Vou à busca de minha futura cunhada, Manu está


em seu quarto, sentada na cama e olhando para as suas
mãos.
— Oi – sussurro para não assustá-la.
Quando me aproximo, ela me dá um forte abraço.
— Shiii... está tudo bem. O que aconteceu? Foi
Alec? Se meu irmão te fez alguma coisa, eu juro que corto
o...
— Não! Não, Alec não fez nada.
Enxugo as suas lágrimas e ela me olha.
— Eu... Sei que Alec é o meu companheiro, posso
sentir isso. Mas, toda vez que um homem me toca, é como
se... como se todas as memórias voltassem.
— Manu, sei que gosta do meu irmão, não é por
ser a minha família, mas ele é incrível! Converse com
Alec, toque nele, deixe que ele te faça esquecer-se de tudo
o que passou.
— E se...
— Nada de “e se”, você só vai saber se tentar.
Alec está fora de si, ele precisa de você, da sua
companheira.

Alec

Odeio me sentir impotente diante de algo, odeio


que a tenham machucado, me odeio por não ser o primeiro
a ter conhecido Manu, assim, ela nunca saberia o que é
sofrimento. Só em pensar no que fizeram com ela, todo o
meu sangue ferve. Depois de matar algumas pessoas com
quem convivi por toda a minha vida, não sei o que mais
doeu, matá-los ou ter a certeza de suas traições. Quero
fazer um lugar seguro para ela, um lugar onde nenhuma
maldade jamais irá alcançá-la. Nunca fiquei por tanto
tempo em forma de lobo, sinto que estou perdendo algo,
mas não me importo, deixo-o rosnar e matar os pobres
animais que são tolos o suficiente para atravessarem o
meu caminho, eu sou um predador. Paro, arrastando as
minhas patas na terra e com o focinho para o ar, farejo o
cheiro dela, do sangue de Manu. Mudo completamente a
minha trajetória, o cheiro vem do rio, ela pode ter se
ferido, corro mais rápido e tudo vira um borrão ao meu
redor.
Manu estava sentada na beira do rio, com um
vestido longo e solto, ela parece uma deusa. Aproximo-
me e vejo que sua mão sangra, lambo algumas vezes, até
estancar, e olho em seus olhos.
— Alec, eu... Desculpe-me por preocupá-lo, só
queria te chamar.
Ela diz, e sua voz é tão melodiosa que, por alguns
segundos, fico hipnotizado. Ela não tinha falado comigo
ainda, não mais do que algumas palavras. Se já fôssemos
companheiros, ela poderia me chamar a qualquer
momento, me chamar através do vínculo que teríamos.
— Eu... talvez não dê certo, quero tentar algo com
você. Prometa-me que não se moverá.
Aceno com a cabeça e fico imóvel. Faria qualquer
coisa que ela pedisse. Ela sorri envergonhada.
— Não... Quero que se transforme de volta e que
fique imóvel.
Ela quer que eu... Sei o quão grande é esse passo
para ela, sei que é importante, então, faço o que me pede.
Transformo-me de volta e só com sua proximidade todo o
meu corpo responde.
Manu toca no peito, em cima do meu coração, e
quando faço menção em tocá-la, ela me repreende.
— Não, Alec. – Congelo meu movimento, não
gosto de receber ordens, não mesmo. Seguro todo o meu
desejo em tomá-la e permito que ela faça o que deseje.
Manu me olha de cima a baixo, ela me rodeia,
passando suas mãos por cada canto de mim. Meu lobo fica
satisfeito com o seu toque, contudo, ele quer mais, eu
quero mais. Então, depois de dar uma volta completa ao
redor do meu corpo, ela para em frente a mim, na mesma
posição em que começou.
— Deite-se, Alec. – Rosno, mas a obedeço. Ela
sorri com o meu rosnar, antes tinha medo...
Deito-me na grama e minha companheira
engatinha do lugar em que estava. Ela está agora com a
cabeça próxima aos meus pés, vê-la de quatro,
engatinhando para mim é a coisa mais sexy que já
presenciei.
Ela continua engatinhando sobre o meu corpo até
chegar ao meu tórax, onde abaixa a sua cabeça e deposita
pequenos beijos. Manu sobe, ficando frente a frente com
meu rosto, beija primeiro meu queixo, minhas bochechas,
minha testa, meu nariz... Quando penso que ela vai beijar
a minha boca, Manu vira o rosto e eu rosno, mas sua
respiração rápida está em meu ouvido e a ouço dizer:
— Sua vez, companheiro.
Não espero mais que ela diga nada, seguro forte
em seu cabelo e faço o que desejei desde que a vi, eu a
beijo. Um beijo cheio de promessas e de devoção. Ela
está sentada sobre mim, eu desfaço os pequenos laços de
seu vestido e o ergo sobre a sua cabeça.
— Você é perfeita, companheira.
Beijo cada centímetro do corpo de Manu até vê-la
entregue a mim.
— Faça-me esquecer, Alec, apague todo o
passado – ela pede, com um fio de voz.
— Eu gostaria de poder, Manu. Porém, uma coisa
eu te prometo, depois de mim, ninguém jamais ousará
tocá-la, me aceita?
— Por todo e cada dia em que eu viver, sim.
Unimos-nos ali, na beira do rio, no meio da
floresta. Pela primeira vez em minha vida, com Manu em
meus braços, nua e saciada, eu me sinto inteiro. Olho para
seu braço, que agora tem linhas perfeitamente simétricas
que o envolvem, o nosso laço de companheiros, ela é
minha e é perfeita.

Raquel

Quem esses homens lobos pensam que são?!


Pensar em Leandro me deixa quente de raiva, digo a mim
mesma que estou quente por causa disso. Sei do que
preciso, dançar, pego meu telefone e ligo para a estranha.
— Ei, pensei que estivesse com raiva de mim –
ela atende ao telefone.
— Náh, me conhece, eu nunca fico com raiva de
você por mais de uma hora. Porém, nós temos que
resolver isso! Um tempo só para as garotas! Esta noite, o
que acha? Pode trazer as meninas daí também, nos
arrumamos aqui, em casa, e depois saímos para dançar!
Ouço um rosnar, não sei como Luana não morre de
medo desse homem ele parece, parece... Um predador.
Dou risada sozinha, é isso o que eles são, predadores.
— Eu vou! – Ouço no telefone um protesto como
“ah, não vai”... “Eu preciso de um tempo”... “Não vou
deixar”...
— Luana! Não ouse deixar que esses homens
gigantescos se coloquem entre a nossa amizade!
— Estarei aí com as meninas, não se preocupe.
Começo a separar roupas, meu guarda-roupa é
gigantesco, adoro vestir as pessoas. Hoje, vou me acabar
na pista de dança, até esquecer-me de certo... Ergo a blusa
e olho-me no espelho, a marca de seus dentes ainda está
lá, o maldito me marcou!

Luana
— Você não vai, muito menos sem mim! – Noah
está emburrado na cama.
— Amor, aposto que você tem a noite dos garotos,
eu também terei a noite das meninas, e isso não é uma
discussão.
Vejo que seus olhos brilham e sua carranca fica
ainda maior. Sento-me arregaçada em seu colo e beijo seu
forte pescoço.
— Vamos lá, companheiro, não fique com raiva
de mim por isso.
Noah troca as nossas posições e prende a minhas
mãos com algemas.
— O que você...?
— Shiiii...
Ele sabe que não gosto de estar presa...
Ele começa em meus pés e sobe, beijando e
lambendo todo o meu corpo como se fosse uma comida
extremamente saborosa, o homem está entretido nisso,
concentrado no que faz. Testo as algemas, minhas mãos
pinicam, desejando tocá-lo.
Seu membro está próximo a minha entrada,
deixando-me louca, mas ele não faz o maldito movimento
para entrar de vez. Eu rosno e ele me morde, dói um
pouco, não tanto, é uma mordida de advertência.
— Noah... Por favor...
— Isso, companheira, é para você entender que
será a minha prisioneira para sempre, e eu vou fazer com
que desfrute de cada maldito momento.
Noah se move com calma, olhando para cada
expressão em meu rosto.
— Abra os olhos.
Vejo em seus olhos a fera por trás de Noah, é um
ser imperial e lindo. Quando o nosso prazer vem, algo
mais acontece.
— Noah, o que está acontecendo?
Desespero-me e tento tirá-lo de cima de mim, mas
não consigo.
— Shiii, minha Lua, está tudo bem. – Ele abre as
algemas e faz carinho em meu rosto, Noah está
emocionado e uma lágrima foge de seu rosto.
— Noah! Diga-me o que está acontecendo! –
Sinto algo invadir meu corpo, tremores que não estavam
lá antes.
— Shiiii, você carregará o nosso filho. – Olho
para baixo, para nossos corpos unidos, senti quando ele
cresceu dentro de mim. – Vai demorar um pouco. – Noah
põe o meu corpo acima do seu e a minha cabeça em seu
peito.
— Nós seremos pais...
— Sim.
Não consigo segurar as minhas lágrimas, elas
descem pelo peito de Noah, e sei que, assim como eu, meu
companheiro está emocionado.
Capítulo 17 – Diversão
Alec

Estamos sentados na sala, Noah, Leandro, Ian e


eu. Já faz quase uma hora que Lua, a minha querida irmã,
carregou as nossas companheiras para a “noite das
meninas”, e, desde então, estamos os quatro aqui,
enfezados e calados.
— Sério que vamos simplesmente obedecer a
Lua?!
Olho de um a um e eles parecem pensativos.
Depois que a minha irmã desceu as escadas, todos
percebemos, em sua mudança de cheiro, que ela estava
grávida. E convenceu o Supremo, de alguma forma que
ainda não entendo, a deixá-la comemorar com as amigas.
— Se elas têm o direito de ter a noite das
meninas, nós também temos direito de ter a noite dos
homens.
— O que está pensando, Alec? Se sua irmã se
irritar, vou dizer que a ideia foi sua. – Noah rosna para
mim, só Lua mesmo para conseguir por um Supremo em
uma coleira.
— Nós também sairemos para uma boate que,
coincidentemente, é o mesmo local em que elas estarão. –
Isso chamou a atenção de todos.
— Elas vão a uma boate? Lua não me disse nada
sobre boates...
— Sim, cunhado, e você precisa ver Lua
dançando, todos os homens do lugar costumam tentar uma
chance com ela... Precisa vê-la dançando junto a certa
humana. – Leandro rosna, levantando-se e pegando as
chaves. – E... Aposto que elas incluirão as outras.
Todos nos levantamos, não vou ficar uma noite
sem a minha companheira, não agora que nos acertamos.

Raquel

As meninas chegam, graças a Jáh que meus tios


resolveram sair esta noite, assim, poderemos ficar à
vontade. Todas tomaram banho, estamos somente com as
roupas de baixo e eu analiso cada uma. Vou até o imenso
closet que tenho, jogando a roupa específica para cada
uma.
— Isso parece um shopping – Manu, a que
descobri ser a namorada de Alec, diz admirada.
Olho para a minha amiga de canto de olho, ela
parece diferente, radiante, põe uma mão em sua barriga
e... Espera aí!
— Você está grávida?!!!
— Ouch, Lôra, sabe que nossa audição é bem
mais apurada, não grite assim.
— Estranhaaaa, eu vou ser titia? – digo, já
abraçando-a.
— Sim!!! – Minha amiga sorri e não é mais aquela
garotinha de olhar perdido, seu olhar brilha de
felicidade... Gostaria de um dia encontrar o meu caminho,
como encontrou o dela... Depois de vestir e fazer
maquiagem e cabelo de todas, nos olhamos no imenso
espelho que tenho no meu quarto.
— Minha nossa senhora! Sabe o que estamos,
meninas? Quentes, muito quentes! – digo e todas riem.
Escolhi um vestido de franjas que desenhava o
corpo da ruiva que se chama Priscila, coloquei um batom
vermelho fatal em seus lábios e fiz uma maquiagem preta
esfumada. Para Manu, como ela é morena e tem longas
pernas, escolhi um vestido branco de corte reto e que tem
um comprimento acima do joelho, ela está parecendo uma
modelo.
Peguei para mim um vestido solto com a frente
completamente tapada e com as costas completamente
nuas, amo esse vestido. E para a minha amiga estranha,
escolhi um vestido novo que fiz tem pouco tempo, ele é
composto por grandes tiras negras que aderem
perfeitamente ao corpo, o vestido vai acima de seu joelho
e é completamente colado ao corpo. Deixei seu cabelo
solto e bagunçado e fiz uma maquiagem básica, ela está
linda.
— Meninas! Estamos prontas para a noite!!!
Chamamos um táxi, porque resolvemos que todas
iriam beber. Todas, menos a mais nova mamãe, é claro.
Mas Lua não gosta muito de dirigir.
Quando chegamos, a boate estava cheia, todos nos
olhavam enquanto caminhávamos, estava me sentindo
quase uma pessoa famosa, mas, também, essas meninas
são gatas de uma forma incomum.
Bebemos umas cinco doses de vodcas cada e as
meninas pareciam mais soltas e felizes. Lua fala em meu
ouvido:
— Obrigada por isso.
Ela olha para as duas, que estavam realmente
parecendo se divertir, e eu dou de ombros. Passo por elas
e as arrasto para a pista de dança, nós estamos em quatro.
Eu começo a dançar com a minha amiga estranha, nós já
dançamos há tanto tempo juntas e grudadas que sabemos
de cor cada passo que a outra vai dar. Veja, não é uma
dança com o espaço de uma mão entre os corpos, é uma
dança com talvez alguns poucos milímetros que separam o
meu corpo do de Lua. Rebolamos, nos tocamos... Até
percebermos que Manu e Priscila estavam meio travadas.
Então, nos separamos e cada uma tira uma delas para
dançar, eu pego Priscila e Lua pega Manu.
Dançar, muitas vezes, é sobre toque, intimidade,
confiança. Já estávamos com nossos corpos suados,
quando sinto um corpo masculino grudado em minhas
costas.
— O que falei sobre me tentar, loirinha? –
Congelo em meu lugar e vejo que Priscila já está envolta
por fortes braços possessivos. Ian, acho que é esse o seu
nome. Olho novamente para Leandro e ele une os nossos
corpos, falando em meu ouvido: – O que foi? Alguém
chegou antes de mim e comeu a sua língua?
Eu estou tão ferrada...

Noah

Sinto o cheiro da minha companheira misturado a


várias outras pessoas. Foi esse o cheiro dela que senti a
primeira vez que a vi, significa que ela esteve aqui.
Caminho com os rapazes até avistá-las na pista de dança,
olho para o meu Beta e ambos engolimos em seco.
Minha companheira estava usando um vestido que
mais parecia uma segunda pele. Por conta disso, posso
ver cada movimento que ela faz ao rebolar com esse seu
corpo tentador e esfregá-lo no de sua amiga. As duas
estão quase fazendo sexo na pista de dança, e isso é
quente como o inferno. Olho novamente para o meu Beta,
e ele parece tão petrificado quanto eu. Não nos movemos,
preferimos observar o show de longe. Até que elas param
e trocam de pares, Lua agora dança com Manu. Não é a
mesma coisa de quando estava dançando com Raquel, mas
vejo Lua tocar em Manu e deixá-la relaxada. Logo as duas
estão dançando perfeitamente juntas. Continuaria
observando, já que todos estavam com cara de tacho
olhando para as suas companheiras. Mas um grupo de
homens se cutucou e caminhou em direção a elas, então,
caminhamos até elas e, quando nos viram, eles se
dispersaram.
Chego por trás de Lua e Alec faz o mesmo com
sua companheira. Lua está de olhos fechados e rebola
descaradamente em minhas costas. Companheiro. Ouço a
sua voz em minha mente, mesmo sem estarmos
transformados em lobos. Viro Lua para mim e a beijo,
nunca pensei em estar tão completo. Na verdade, nunca
pensei que estava incompleto, até que a conheci, minha
outra metade.
Eu amo você.
Leandro

Grudo o meu corpo com o dela, sei o quanto a


afeto, posso sentir o cheiro de seus hormônios
borbulhando. Uma, duas, três músicas, mas nós não
estamos simplesmente dançando, estamos desbravando o
corpo um do outro. Ela toca em meus braços, em minhas
costas, em meu abdômen, Raquel me leva definitivamente
ao meu limite quando vira de costas e vejo-a
completamente nua na parte de trás. Seguro em sua cintura
e ela põe os braços ao redor do meu pescoço. Subo com
as minhas garras por toda a sua coluna, sinto sua pele
exposta arrepiar no processo. Então, seguro seu pescoço e
chamo o meu lobo, sinto a sua excitação se misturar com
medo quando me olha.
— Que tal, vamos ver quem come quem, a
Chapeuzinho Vermelho ou o grande Lobo Mau?
Ela olha para minhas mãos, que agora são garras,
e trava em seu lugar. Merda, esse vestido vermelho sangue
está puxando o instinto de caça do meu lobo.
— Corra! – Rosno para ela ameaçadoramente. E
minha loirinha corre, olho para cima e farejo, detecto seu
cheiro e sinto vontade de uivar. Vejo quando ela pega um
táxi, mas nós somos mais rápidos que um carro. Tiro a
minha roupa e corro até a casa em que ela mora, arrombo
a porta dos fundos e entro em seu quarto. Quando minha
loirinha bate a porta do quarto e suspira, eu rosno e
caminho em sua direção.
Ganhei, hora de pegar meu prêmio.

Alicia

O maldito me amarrou, acredita? Amarrou!!! Ele


caminha até mim e vira o meu rosto com força, tentando
me alimentar, mas eu não abro a boca.
— Olha aqui, princesinha, eu não te trouxe aqui
para morrer de fome em cima da minha cama!
— Eu não quero nada vindo de você!
Ele caminha até mim e segura forte o meu maxilar.
— E o que aconteceu para a princesa estar me
tratando dessa forma?
Cuspo em seu rosto, ele me encara furioso e se
afasta, batendo a porta quando sai.
Viro-me para o lado e as lágrimas que estava
segurando descem pelo meu rosto, acabo adormecendo.

*****
Lian estava... Ele parecia um psicopata me
perseguindo por todo o canto, em qualquer local que eu
ia. Qualquer pessoa que se relacionasse comigo
aparecia morta ou ferida. Lian era um homem doente,
ele colocou em sua cabeça que eu era a sua
companheira destinada, mas eu não sentia
absolutamente nada por ele. Até que um dia, quando
Noah estava viajando e eu voltava para casa, ele me
surpreende, Lian me prende, me obriga, eu era virgem
naquela época, ainda lembro das suas mãos sobre mim,
seu corpo, seu cheiro. Ele gostava de me ouvir gritar,
isso lhe dava mais prazer... Naquela noite, Lian quase
me marcou, mas meu irmão chegou, Noah chegou a
tempo, me viu amarrada, sangrando, destruída. Então,
ele caçou Lian por todos os cantos da terra e colocou
seu Beta para me vigiar por vinte e quatro horas.
Eventualmente, meu irmão encontrou Lian, dizem que
não foi algo muito bonito de se olhar.

*****

Acordo gritando e dou de cara com Lucas.


— Você estava falando o nome do meu irmão,
pedindo a ele para parar... Sua atitude mudou
completamente quando lhe disse o meu sobrenome. O que
o meu irmão te fez?
Viro-me no colchão, porque não quero que ele
veja as minhas lágrimas, não quero que ele me veja sofrer.
Lian me destruiu, eu era uma garota boba e inocente que
foi protegida sua vida toda por seu irmão mais velho.
Juntei meus pedaços que Lian espalhou pelo chão, grudei
meus cacos e me reergui. Esse idiota não vai me colocar
no chão novamente.

Raquel

Pode até ser sexy brincar de chapeuzinho


vermelho e lobo mau, mas, garanto, não é quando o lobo é
de verdade. Respiro, finalmente, quando chego até a casa
dos meus tios, subo para o meu quarto e encosto-me à
porta, fechando os meus olhos.
Ouço um rosnar. Por favor, que tenha sido só o
meu subconsciente... Abro somente um olho e há um lobo
imenso e de olhos verdes brilhantes caminhando em minha
direção. Merda, eu vou morrer. Ele rosna e caminha,
encurralando-me para a cama. Caio sentada e ele continua
vindo, arrasto-me em cima da cama. O que dizem
naqueles documentários de selva sobre predadores? Eles
gostam da caçada. Vou me fingir de morta. Loucura, eu sei.
Deito-me na cama e tento regularizar a minha respiração,
os rosnados param, mas sinto uma língua lambendo a
minha perna.
Abro meus olhos e vejo que o lobo sobe na cama
com suas quatro patas aprisionando meu corpo, ele abaixa
sua cabeça no meu pescoço, sempre me olhando nos
olhos. O problema é a cabeça dele, que dá umas quatro da
minha. A cama cede ao peso do lobo, mas ele não sai do
lugar. Ele está parado agora, olho em seus olhos e vejo...
Vejo Leandro, por incrível que pareça, eu vejo aquele
troglodita que ama dar ordens e ser sarcástico. Ergo a
minha mão e toco em seu pelo, isso é tão macio... Ele
lambe o meu rosto e eu dou risada.
— Parece que o lobo mal ganhou a corrida. Então,
qual o prêmio?
Eu e minha boca grande, o lobo avança em mim,
mas, no lugar de dentes, vejo a boca de Leandro
devorando a minha. O homem estava nu, de novo. Acho
que depois de passar algum tempo com esse povo já
posso abrir um negócio em alguma praia de nudismo.
— Para – digo, com algum esforço, e ele congela
no lugar, congela como o lobo, olhando-me de cima e
esperando alguma ação minha. Dou risada. – Nada não,
estava só testando.
Ele rosna e rasga meu vestido, rasga!!!
— Eiii!! Prevejo sérios problemas nessa relação!
Ele ergue uma sobrancelha.
— Sério? E quais?
— Você acabou de rasgar o vestido que demorei
um bom tempo fazendo, se isso se tornar um hábito... – Ele
me corta.
— Não se preocupe, loirinha, no que depender de
mim, você vestirá só blusas minhas e nada por baixo,
como na última noite. – Fico vermelha, tenho certeza que
estou vermelha. E ele sorri. – Claro que eu percebi que
não estava com roupa de baixo.
— Lean...
— Não quero falar sobre roupas agora, só se for
em como vou rasgar o resto delas.
E é isso que ele faz, e eu não digo mais nada
quando, com suas garras, ele transforma meu vestido em
tiras e rasga a minha calcinha junto.
— Eu sou...
Leandro para de tocar em meu corpo e me olha de
cima, olha tudo em mim.
— Eu sei, loirinha, serei seu primeiro e seu
último, pode apostar.
Eu deveria estar correndo de medo, certo? Digo
isso para a consciência que deveria existir em mim agora,
mas ela não me ouve. Está interessada demais com o que
certo lobo faz com sua boca e suas mãos.
Ele me deixa à margem, sempre à margem, sem
nunca me dar o meu prazer.
— Leandro... – reclamo.
— Merda, você está me deixando louco.
— Por favor...
— Isso vai doer, loirinha.
Mas eu não escuto, não quero saber se vai doer ou
não.
Ele, que estava com seus dedos massageando a
minha região íntima, resolve inseri-los e sinto uma dor
dos infernos. Mas ele me beija e vou relaxando.
— Desculpe loirinha, prometo que essa será a
única dor que lhe causarei. Como disse, você é apertada,
e fazer isso do modo convencional iria magoá-la, achei
melhor destruir sua barreira primeiro. Agora... Eu quero
meu prêmio.
Leandro avança em meu corpo e o sinto entrar
devagar. Ele tem razão, é grande para mim e me assusto
um pouco.
— Shiiii... Acostume-se comigo, não vou me
mexer até que queira.
Então, ele faz carícias e me beija. Em cada gesto,
sinto uma devoção. Até que me sinto quente novamente,
volto a gemer seu nome e a me mover. Leandro rosna, ele
se move dentro de mim e, merda, isso é bom. Ele empurra
a minha cabeça para o lado e me morde, Leandro
estremece em cima de mim, enquanto rosna o meu nome e
nem percebo a dor da mordida, já que o meu prazer vem
logo depois.
Adormecemos ali, um ao lado do outro, um
fazendo carinho no outro.
E foi assim que acordamos, certo? Errado! Meus
tios não conhecem muito o conceito de privacidade, e
quando ambos abrem a porta do meu quarto, dão de cara
com sua querida sobrinha nua e abraçada com um homem
gigantesco... E lindo... E forte... E... Tá, parei.
— Raquel!!! Explique-se mocinha.
— Que pouca vergonha é essa?!
Abro e fecho a minha boca algumas vezes, sem
saber o que dizer. Mal vejo quando Leandro se levanta e
oferece a mão para o meu tio.
— Prazer, sou Leonardo o... Noivo de sua
sobrinha.
NOIVO?!
Minha tia cai dura e não sei se é pela história de
noivo ou porque Leonardo estava completamente nu em
sua frente. O maldito não podia ter colocado uma roupa?!

Luana

Vejo Raquel correndo, faço menção de ir em sua


direção e Noah me prende pela cintura.
— Deixe que eles se resolvam.
— Se resolvam? Ele está prestes a devorá-la!!!
Olhe para ele, estava praticamente transformado!
— Devorá-la? Acredito que sim, mas do jeito que
eu estou louco para fazer desde que te vi nesse vestido.
— Você acha que eles...?
— Leandro está agindo estranho, nunca vi um
caso de companheirismo entre lobo e humana, mas
ninguém nunca disse que não poderia acontecer. Ele não
vai machucá-la. Agora, tire esse bico e venha satisfazer
seu companheiro.
Reviro os meus olhos.
— Minha vida é para te satisfazer, meu rei. – Ele
ri, um riso rico e encantador.
— Perto de você, meu amor, eu sou um mero
escravo.
Ouço um batimento cardíaco, então, outro e
outro... Acelerado, fugindo...
— O que foi? – Noah está preocupado, mas eu
não sei explicar.
— Algo está errado.
Ele olha para ambos os lados e fareja, sua postura
mudou completamente, ele me põe atrás de seu corpo e
seu semblante é sério.
— Vamos sair daqui.
Ele faz sinal para Ian e Alec e saímos da boate.
Sinto uma dor no peito e, quando olho para Manu
e Priscila, elas estão com as mãos no mesmo local que eu.
— Vocês também sentem. – As duas confirmam
com suas cabeças. – Alguém trouxe celular?!! – Por que
diabos eu tinha esquecido o celular logo hoje?
Tento ligar para minha mãe com o celular de Alec,
mas chama, chama, e ninguém atende.
— As outras estão em perigo – é tudo o que
consigo dizer.
Capítulo 18 – Mudanças
Não sei como, mas o nosso acampamento foi
descoberto, estamos cercadas e eles não são somente
lobos, há homens e lobos. Não podemos com todos eles,
são quase quinze...
— Corram! – aviso para as garotas, porém, eles
são mais rápidos, estamos presas.
— Então... Olha só o que encontrei, um prato
cheio para a nossa causa.
Uma a uma, eles injetam uma substância que as
deixam moles e sonolentas, estou ferida, sei que não
poderei correr. Chamo a minha loba, mato o homem que
estava me segurando e o outro que segurava Amanda.
— Encontre a minha filha! – grito para ela,
Amanda corre.
Um deles me dá um soco e eu tusso sangue.
— Acho que essa é velha demais para os nossos
fins, mas, a sua querida filhinha, aposto que é bem nova. –
Ele segura o meu rosto com força e arranca o meu
coração, por alguns segundos, ainda consigo ver meu
coração ali, em minha frente, até que tudo fica escuro.
Luana

— Noah! Eu não posso simplesmente voltar para


casa! Te disse que as garotas estão em perigo!
— Liguei para meu Beta, e sua amiga está bem,
Priscila e Manu estão bem e você está segura.
— Não são essas garotas!
— Olhe para mim, Lua, vocês são as únicas
garotas com quem me preocupo hoje, são as únicas que
devo manter seguras hoje, me entende? Prometo que
iremos procurar por elas, mas quando vocês estiverem
completamente seguras.
Meu companheiro é um teimoso, tentei dizer para
ele que seria muito mais rápido se fôssemos agora.
Poderia tentar rastreá-las, nunca a encontrarão sozinhos!
Mas ele me ouve? Claro que não!
— Lua, não é só a sua vida que colocará em risco
desta vez. Quero que pense em nosso filho antes de se
arriscar.
Suspiro e toco em minha barriga. Claro que não
arriscaria a vida do meu filho, mas ele crescerá e saberá
que sua mãe não é uma droga de uma covarde!
Estamos no carro, caminhando em direção à
matilha de Noah, os homens estão com seus instintos a flor
da pele, olham para todos os lados, farejam todos os
locais, nós nos entreolhamos, sabemos que nunca nos
permitirão fazer nada, mas sabemos também que só nós
poderemos arrumar isso, elas são nossas irmãs, nossa
matilha, e não abandonamos a família.
Faço uma prece silenciosa para que estejam bem,
todas elas...

Leandro

— Você a matou!!! – ouço Raquel, sempre


dramática, fazendo um escândalo porque a sua tia
desmaiou, a mulher simplesmente caiu dura!
— Eu não fiz nada.
— Não, olhe para você, Lê. – Olho para o meu
corpo e não entendo.
Ela pega em minha mão e me arrasta para dentro
do banheiro. Seu tio estava pegando algo com cheiro forte
e sua tia já estava quase recobrando os sentidos.
— Não fiz nada, Loirinha, nem tente me culpar! –
me defendo.
— Claro que não, a não ser aparecer nu, nessa
perfeição de corpo, em frente a minha tia! – Sorrio.
— Então, quer dizer que acha o meu corpo
perfeito? – Ela fica vermelha, adoro deixá-la encabulada.
— Eu... Isso não vem ao caso.
— Sei... – Puxo-a para mim, pois seu corpo
estava muito distante. Deixo-me escorregar com as costas
na parede, até que o meu olhar fique direto com o dela, e a
ponho por entre as minhas pernas. – Vê? Bem melhor
agora.
— Que história é essa de noivo?!
— Ah, isso?! Acredito que não tenha me ouvido te
pedir ontem, você estava tendo muito prazer para ouvir
meu pedido, mas tenho certeza de que a resposta foi: Sim,
Leandro, sim!
— Lê, é sério!!! – Olho direto em seus olhos.
— E quem disse que estou a brincar? Você é
minha, Raquel, só minha, e isso é muito mais do que um
noivado.
— O que quer dizer?
— Significa que sou seu companheiro.
— Oh, meu Deus! – Ela começa a andar de um
lado ao outro, vai ser realmente difícil explicar tudo.
Claro que talvez devesse ter conversado antes de marcá-
la, mas, aí, ela poderia ter dito não e isso,
definitivamente, não era uma opção.
— Você me mordeu! Eu vou virar um lobisomem,
como nos filmes! Meu Deus! Minha depilação nunca vai
ficar em dia! Isso é o pesadelo de qualquer mulher! –
Gargalho, qualquer outra pessoa estaria louca com a
situação, e é nisso que ela se preocupa?
— Você, meu amor, é minha companheira, e pode
se transformar em um lobo incrível e perfeito. Seu corpo,
depois da transformação, volta exatamente ao estado em
que estava.
— Como que posso me transformar em lobo?
— Feche os olhos. – Ela fecha os seus lindos
olhos e respira calmamente. – Agora, encontre algo dentro
de você, como um subconsciente, como outra consciência
dentro da sua, e chame...
Calei-me, porque ela já estava a brilhar, sua
pelagem era amarela, e seus olhos, em um tom incrível de
azul. Ela abre um olho, depois, outro, tenta caminhar e cai
de focinho no chão.
— Não pense, é natural, só caminhe.
Então, ela dá um passo, e outro... Depois, gira em
seu próprio corpo e começa a pular em mim. Contudo, o
banheiro é pequeno demais para nós dois, ela acaba
esbarrando na pia e destruindo-a, água jorra pelo cano.
— O que está aprontando com a minha sobrinha aí
dentro, senhor? Saiam agora!
Ela me olha desesperada.
— Faça o mesmo que antes só...
Vejo seu corpo nu aparecer em minha frente, ela
abre a porta para falar com o tio, ele a olha e, depois,
para mim. O velhinho cai de cara no chão.
— Ai. Meu. Deus!!!

Lucas

Sério, meu plano de atacar o Supremo foi


completamente falho. Quem pensei que era? Algum gênio
do crime?
Eu o vi matar o meu irmão e jurei vingança. Por
muito tempo, vivi em função disso. Tornando-me mais
forte, mais rápido... Pensei em tirar dele a mesma coisa
que tirou de mim, Noah tirou a única família que eu tive.
Lian me criou desde que nossos pais foram mortos, ele era
um cara agressivo, mas tente passar por tudo pelo que
passamos e não se tornar um filha da puta agressivo! Lian,
há algum tempo, vinha se tornando mais agressivo, mais
impaciente... Ele disse que tinha encontrado a sua
companheira, então, não me importava com seus sumiços.
Porém, seu humor estava a cada dia pior, o que me fez
pensar que sua companheira o rejeitou. Um dia, lembro-
me de ter perguntado a ele como tinha certeza que a havia
encontrado e ele me disse:
“Todo o meu corpo fica duro quando a vejo,
irmãozinho. Ela é minha, e só minha, mesmo que não
queira. Com o tempo, irá se acostumar a mim”.
Estranhei, o laço é o nosso mais sagrado rito,
deveria ser algo mútuo, consensual e... quase divino. Não
parecia exatamente o que Lian estava descrevendo... Olho
para o pequeno corpo em minha cama, embolada em uma
posição de proteção, seus cabelos, como cascatas negras,
caem por todo o travesseiro, seu corpo, que
miseravelmente já conheço, me faz vibrar de necessidade
pura. Por um momento, quando nos encontramos a
primeira vez, pensei que ela também sentisse que... Não
fiquei feliz ao saber que era irmã de Noah, mas senti que
ela me queria, e isso hoje parece um sonho bem distante.
Faz dois dias que ela só me olha com ódio e
medo. Merda, isso está me matando! Preferiria mil vezes
que ela tivesse me batido, enfiado a droga de uma faca em
meu peito, sinto que doeria menos!
Não gosto de vê-la assim... Não gosto de saber
que Liam tem algo a ver com seu medo de mim, porque sei
que tem, seu comportamento mudou completamente ao
saber o meu sobrenome.
— Ali, olhe para mim – tento usar a minha voz
mais gentil, não sou gentil, não sei como ser.
Ela finge que não me ouve e isso me deixa
irritado, essa pequena ninfa estava se esfregando em mim
há alguns dias e, agora, finge que não existo!
Ela se debate um pouco quando prendo o seu
corpo abaixo do meu, desiste quando percebe que não vai
adiantar gastar as suas energias, estar próximo a ela me
deixa... Não penso direito quando uso a minha língua para
sentir o gosto da pele sensível no seu pescoço, vou dando
pequenas mordidas em sua pele e toco o seu corpo abaixo
do meu, essa garota é viciante... Arrasto a minha bochecha
na sua, fazendo um leve carinho de lobos e encaro a sua
boca rosada, logo depois, encarando seus olhos e vejo...
Vazio.
É como olhar nos olhos de alguém que já está
morto.
— O que, Lucas? Por que resolveu parar? Seu
irmão não parou, pensei que estuprar mulheres fosse o
negócio da família.
Merda, isso me atingiu como um foguete,
estraçalhando o resto do meu coração. Quero confortá-la,
quero tirar esse seu olhar, eu gostaria que meu irmão
estivesse vivo, assim eu poderia matá-lo e tentar tirar um
pouco da dor nos olhos dela.
Rosno e saio do quarto.
Não sei aonde vou, só preciso... Eu preciso dela,
minha companheira. Tudo faz sentindo agora, os dias em
que Lian estava rondando a casa de Noah, como ele me
disse que tinha encontrado a sua companheira, o que ele
disse que faria com ela... Rosno em um clamor sofrido.
Meu irmão estava perturbado, sempre quis subir
na vida de uma matilha, acho que viu em Alicia o modo
mais fácil para isso e se convenceu de que sendo o
companheiro dela seria o melhor jeito de almejar o que
queria, contudo, ele estava enganado. Claro que todo o
meu corpo ascende em resposta ao dela e, desde que a vi,
ando duro como uma rocha, mas eu nunca, jamais, a
machucaria. E é por isso que entendo que a irmã de Noah
é minha, quero abraçá-la e fazer com que esqueça tudo o
que passou, quero lhe dizer que mais ninguém irá
machucá-la, que eu serei seu para sempre... Mas como
posso fazer isso, quando o responsável por toda a sua
tristeza foi o meu irmão? Como fazer isso – encaro uma
janela e o meu reflexo –, quando meus olhos, tão verdes
quanto os de Lian, são a prova viva de cada dor que ele a
fez passar?

Raquel

OK, talvez eu tenha uma queda por homens fortes,


altos, com voz rouca e sexy e...
— Minha querida, está ouvindo?
— Sim, tia, claro. – Tiro os olhos de Leandro, que
dá um sorrisinho de lado, o maldito parece ler a minha
mente.
Depois de todos os desmaios, estamos os quatro
aqui, sentados na sala e VESTIDOS, importante ressaltar
isso.
— Estava dizendo que essas não são atitudes de
uma moça de família e não toleraremos que isso se repita
nessa casa, mocinha.
— Cla... – estava me preparando para me
desculpar, quando Leandro me corta.
— É por isso que ela está indo morar comigo.
— Eu estou o quê?!
— Meu jovem, não sei como pensa que as coisas
são, mas não funcionam desse jeito nesta família! – meu
tio diz, encarando Leandro. Dou um voto para meu tio,
encarar esse homem, que mais parecia um gladiador, era
algo corajoso.
— Indo morar comigo, Loirinha, pega suas coisas.
“Pega suas coisas, pega suas coisas!”... Quem
ele pensa que é?
— Você e eu precisamos ter uma conversinha em
particular!
Arrasto Leandro pela mão até o meu quarto, ouço
meus tios gritarem de lá de baixo:
— A porta fica aberta, mocinha!!!
Leandro abre o meu guarda-roupa, como se fosse
dono do lugar, e começa a jogar as minhas roupas em cima
da cama, ou do que sobrou dela, já que só resta o colchão
no chão.
— Leandro, pare!!!
Vejo-o andar até mim e todo o meu corpo fica em
alerta com antecipação. Que merda, virei uma
ninfomaníaca!
— Pensando bem, não precisa das roupas. Quero
você nua e em minha casa, gemendo o meu nome e me
dando prazer.
— LÊ...
Ele ataca a minha boca e retribuo. Merda de
homem viciante, quando comecei a não ter opinião?
Leandro me põe de encontro à parede e sustenta o meu
corpo ali, só com o atrito entre os nossos corpos.
— Droga, loirinha, estou me segurando muito para
não sentir a sua carne macia e molhada ao redor do meu
membro – ele diz rouco. – Eu sei, sei o quanto está
preparada para mim, e isso me excita ainda mais.
Tento me recompor de algum modo.
— Olha aqui, seu grande, lindo e... sexy lobo. –
Ele sorri de modo predador. – Você não é meu dono! Eu
não vou morar com você, acabamos de nos conhecer!
— Tudo bem.
Ele me solta. Estranho, porque tudo foi fácil
demais. Leandro começa a tirar a sua roupa em minha
frente, o homem está... Ai, merda! Como isso tudo coube
dentro de mim? A anatomia humana é muito perfeita
para...
— Como assim, tudo bem? – pergunto, olhando-o
com receio, aí tem...
— Vou morar com você. Mas não me culpe se
seus tios tiverem um ataque todos os dias. – Ele começa a
andar para o corredor, completamente nu. – E, loirinha,
eles te ouvirão gemer e gritar meu nome por várias e
várias vezes, isso é uma promessa.
— Onde você pensa que vai assim, nu? –
sussurro, mas sei que me ouve.
— Estou com sede, vou pegar água.
Merda de homem... Paro para pensar e vejo que
coisas piores poderiam ter acontecido comigo do que ter
um homem lindo e sexy em minha cola.
— Eu aceito, seu idiota.
Vejo-o aparecer na porta com seu sorriso radiante
de quem acabou de vencer uma luta. Começo a jogar
roupas dentro de uma mochila, enquanto o xingo de todos
os nomes que vem em minha mente.
Se ele pensa que só um pode jogar esse jogo, está
muito enganado, vou ensinar para esse lobo que a
Chapeuzinho Vermelho também tem suas armas.

Capítulo 19 – Adeus
Noah
— Isso não está em discussão, Lua!
Rosno para a minha companheira teimosa que está
tentando me impedir de voltar para a minha casa e, lógico,
levá-la junto.
— Noah, eu não posso simplesmente ir embora!
Sei que não podemos sair pelo mundo procurando as
outras garotas só porque eu tive um pressentimento, já
entendi isso! Só que elas sabem que esta é minha casa,
podem me procurar aqui!
— Lua! Sua casa sou eu! Onde eu estiver, onde eu
morar, você é a minha companheira. Quando aceitará
isso?!
Vejo-a suspirar, merda de mulher que está me
enlouquecendo! Sustento seu rosto com os dedos.
— Tudo o que podemos fazer, estou fazendo. Há
lobos por toda a parte, procurando-as, seremos
informados se encontrarem algo.
— Eu sei, é só que...
— É só que está acostumada a fazer tudo sozinha!
Confie em mim, estou sendo sincero e honesto com você.
Ela me abraça e começa a fazer as malas. Pelo
menos essa eu venci. Sorrio, minha Lua é indomável, e
gosto disso nela. Olho para o seu ventre, onde um pedaço
nosso está sendo gerado. Nunca amei alguém assim em
toda a minha existência, essa garota é o meu mundo, e está
prestes a me dar o maior presente da minha vida, um
herdeiro.
Ela começa a rir alto.
— Raquel vai pirar.
Sei que Leandro está passando maus bocados para
convencê-la. De onde saíram tantas mulheres geniosas?
Essas duas só poderiam ser melhores amigas.
Penso em Alicia, minha irmã... Estou estranhando
a falta de comunicação... Tanto que pedi para um
rastreador procurá-la. Fico feliz em saber que ela
encontrou seu parceiro. Se tem alguém que merece ser
feliz, esse alguém é minha irmã.

Raquel

— Não, nem pense nisso! Eu não vou!


Que a estranha me desculpe, mas acabei de
quebrar tudo em um dos quartos de sua casa, acabei
jogando tudo nesse troglodita. Quem ele pensa que é?
Primeiro, me persegue como um lobo atrás de uma gazela.
Depois, me dá o maior prazer que já senti – certo, disso
eu não estou reclamando –, me transforma, me tira da
minha casa – quase matando meus tios no processo – e,
agora, quer me levar para outra cidade! Só aceitei sair
porque pensei que ele morasse aqui, não vou mudar a
minha vida toda por... por... por... Um pedaço de homem
sexy como o inferno!
— Loirinha, isso não está em discussão.
— Claro que está! É sobre a minha vida que
estamos falando!
— Não, é sobre a nossa vida. Minha vida está
completamente estruturada na sede do Supremo. Já fiquei
tempo demais nesta cidade pequena, tenho muitas coisas
para resolver por lá, e Noah também.
— Até parece que vai mudar alguma coisa! Vocês
amam andar nus por aí, devem morar em uma fazenda!
Ele começa a andar em minha direção com aquele
sorriso lindo de quem sabe que venceu a batalha.
— Manhattan, NY.
Eu ouvi Nova York?! Onde está a faculdade de
moda que quero fazer? Na cidade luz!
— E o que você faz em NY, senhor nudismo?!
Sério, o que ele faz naquela cidade?
— Tenho uma firma de advocacia.
— Você é advogado?
Olho-o de cima a baixo, ele está vestindo uma
calça de moletom cinza e está sem camisa, mostrando todo
o seu peitoral esculpido e... Foco, Raquel!
— Sim, sou. Sou advogado, Noah tem uma grande
firma de construção civil.
Imagino Leandro de terno, um elegante terno bem
cortado, o homem deve ficar lindo... Ele percebe onde os
meus pensamentos me levam e começa a me beijar...
Tão... bom... O empurro.
— Você não pode pensar que vai me convencer
sempre de tudo com beijos, sexo, essa voz rouca e esse
olhar sedutor e incrível...
Ele sorri de lado de novo. Merda, costumo ter
uma boca grande e falar tudo o que vem a minha mente,
isso, com Leandro, significa ter-me chamando-o de
gostoso de quase cinco em cinco minutos.
— Eu posso te convencer agora... – Ele beija o
meu pescoço. – Ou por todo o caminho de carro... – minha
imaginação fértil me leva a uma imagem minha e dele,
nus, em um carro, e eu gemo. Merda de homem. – E por
cada início, meio e fim dos nossos dias.
Lembro-me que disse que lhe ensinaria uma
lição... Nem consigo pensar em nada quando seus lábios
famintos descem para um dos meus seios. Prioridades,
Raquel, Prioridades!
O único problema – ou não – é que a minha
prioridade, no momento, é ter esse homem incrível
saciando cada pedaço do meu necessitado corpo.
Ele me vira de costas, estamos em pé, próximos à
parede, e apoio as minhas mãos nela. Lê gruda seu corpo
em minhas costas e me mata só roçando seu membro em
minha entrada.
— Lê... Por favor...
Ele para de maltratar a pele do meu pescoço.
— Diga sim, more comigo, diga sim...
Rosno, quero jogá-lo na cama e arranhar seu
peito, quero senti-lo em mim por inteiro, estou perdendo o
controle aqui. Minhas mãos começam a se transformar em
garras. Ele rosna em meu ouvido e minha... loba?...
retorna ao lugar dentro de mim. Tento me virar, uso toda a
minha força, porém, ele é mais forte e me submete.
— Diga, diga, diga...
Ele cantarola em meu ouvido, enquanto entra em
mim aos poucos. Quando o sinto me preencher em uma
estocada firme, não consigo mais segurar minha imensa
boca.
— Sim, Lê, sim!
Ele beija meu ombro quando tenho, talvez, o
melhor sexo de todo o universo. Sério, esse homem
deveria ser catalogado no Guinness Book.
Estamos ainda na parede, tentando acalmar nossa
respiração, saciados e preenchidos um pelo outro. Ele
sorri sexy em meu ouvido, com seu riso baixo e rouco.
Entendo o que ele fez... Merda de homem!
Empurro-o e levo as minhas malas para o lado de
fora.
Luana

Encontro com Manu e Priscila na parte de trás da


casa antes de irmos embora.
— Não podemos simplesmente não fazer nada!
— Não se preocupe, Manu, fiz umas ligações para
algumas mulheres nos outros bandos, elas disseram que
vão me retornar.
— Então, é o jeito...
— O que estão fazendo aí?! Estranha, não me diga
que está escondendo algo!
Raquel chega, com seu jeito desbocado de ser,
fiquei feliz ao saber que agora a minha amiga era como
eu.
— Shiiii...
Murmuro para ela, que logo se cala e sussurra:
— O que foi?
— Algumas lobas estavam sendo sequestradas.
Na verdade, Manu e Priscila passaram por isso, mas as
pessoas que as sequestraram sumiram. Estou com receio...
Tive um pressentimento de que as outras garotas que
escolheram ficar com a minha mãe estavam em perigo. E
se as pessoas que estavam sequestrando lobas voltaram?
— Merda, eu sou uma loba agora! Olhe aqui,
Estranha, já passei todas as minhas cotas de sequestro!
— Eu sei, Lôra, mas vamos ficar atentas, me
liguem todos os dias.
Abraço Manu e Priscila e caminho com Raquel
em direção aos carros.
— Então, ele te convenceu?
— Na verdade, ele me convenceu quando falou
em NY... – Rio, essa garota não muda nunca. – Sabe para
quantas festas vamos?! Podemos fazer faculdade e irmos
para cafés chiques, vai ser tipo um Sex and the City de
verdade!
— Claro, menos o fato de que terão dois lobos em
nossa cola.
— Por falar nisso, esse Leandro está me devendo
uma, já até imagino o que farei... – Ela ri diabolicamente.
— Não me importo de ter Noah grudado em mim.
— Onde está a minha amiga?! Quando se tornou
uma dona de casa? Nós somos jovens e lindas, e o mundo
nos pertence!
— Quem pertence a quem? – Noah beija a minha
bochecha e pega a minha mala.
Raquel aponta para o peito de Noah.
— Não se esqueça de que ela era minha antes de
ser sua!
Prendo o meu riso, só Raquel mesmo para
enfrentar Noah. Ele me puxa mais para perto de si e fecha
o semblante.
Leandro pega a minha amiga pela cintura.
— Desculpe, Alfa.
Ele pede desculpas, mas estava sorrindo enquanto
carregava Raquel para o carro.
— Eu sei andar, seu idiota!
Olho para o meu companheiro, que acompanha a
minha amiga com os olhos.
— Por favor, prometa-me que não terei que me
preocupar com você brigando com a minha melhor amiga.
– Ele não responde.
— Noah!!!
— Ela é companheira do meu Beta – é tudo o que
ele diz, mas não era essa a resposta que esperava.
Sorrio e o sigo. Isso, pelo menos, será divertido.
Capítulo 20 – A Casa do
Supremo
Luana

Chegamos até a... Não sei como chamar o que


estou vendo. Definitivamente, não é uma aldeia.
— Você é rico.
Não foi uma pergunta, e sim uma constatação.
Noah não se incomoda em me responder. Acabamos de
entrar em um condomínio fechado. As casas, em sua
maioria, tinham muito vidro, aço e madeira, fazendo um
contraste incrível com a paisagem. O local é altamente
seguro, há câmeras de vigilância em todos os cantos. Vi
homens armados por toda a parte também – homens não,
lobos. – Todos os funcionários são lobos, e parece que
todos os moradores também. O condomínio está dentro de
uma reserva gigantesca, e não sei como Noah conseguiu
uma aprovação para construir aqui... Ele me puxa do
banco do carro quando percebe que eu não estava saindo
do lugar. Olha-me de um modo engraçado.
— Você está bem?
Fecho a minha boca que, até então, estava aberta.
— Você não é nenhum chefe do crime organizado
ou coisa do tipo?
Ele ri.
— Tenho uma empresa de construção civil.
Todos saíram de sua casa e vieram recepcionar
Noah. Leandro e Lôra acabaram de chegar também. Olho
para minha amiga e ela move a sua boca sem sair nenhum
som.
“O homem é podre de rico”.
“Estou vendo” – respondo a ela, movendo apenas
os meus lábios também.
Estou atrás de Noah e só sinto o impacto, como se
alguém tivesse se jogado em seu pescoço.
— Noah, você voltou!
Rosno, porque ninguém que não seja íntimo de
Noah o chama pelo nome, até Leandro o chama de Alfa.
Não sei quem é essa sirigaita, mas sinto uma vontade
imensa de arrancar seus braços, que estão ao redor do
pescoço dele. Olho para Raquel, que me comprova
quando diz: vadia.
Saio detrás de suas costas.
— Alfa – enfatizo a palavra –, se já terminou de
ser recepcionado por sua... – meus olhos percorrem cada
pedaço dela que ainda está em contato com o corpo de
Noah – amiguinha, estou cansada.
Ela olha de mim para ele, e como meu querido
companheiro parece que perdeu a língua, ela não desgruda
de seu pescoço. Olho ao redor e já temos certo público.
Respiro fundo e fecho os meus olhos.
— Senti tanto a sua...
Quando abro meus olhos novamente, eles estão
brilhando, minhas mãos estão transformadas em garras,
me transformei parcialmente.
— Solte-o, se não quiser perder os seus braços –
ameaço e sorrio, sei o que eles veem, presas.
Ela se solta de Noah e me olha de cima a baixo,
dá as costas para mim e caminha até uma das casas,
rebolando.
— Estarei em meu quarto – ela diz, olhando para
Noah, e quando eu arrancaria aquele sorriso com minhas
garras, o idiota resolve acordar e me sustenta pela cintura.
— Não, Lua.
— Ah, olha só, ele fala!
— Lua...
“Você não pode me desafiar na frente da minha
matilha”.
Ouço-o em minha mente.
“Foda-se, Noah!”...
Ele se afasta de mim e caminha... Caminha para a
mesma casa que a vadia foi, eu não estou acreditando
nisso!
— Noah! – grito seu nome, mas ele não olha para
trás, me deixa ali, como uma idiota, cercada por um monte
de gente que eu não conheço.
Vejo Raquel e Leandro caminharem em minha
direção, ele ergue a mão para tocar em meu braço.
— Não. Me. Toque – rosno para ele e Leandro
para seu ato no ar.
Começo a tirar a minha roupa ali, na frente de
todos, eles olham a tatuagem que cobre todo o meu braço,
estou nua e os encaro, um a um. Então, transformo-me,
minha loba rosna para cada um deles, desafiando-os,
quando ninguém se move, eu corro, faço o que sempre fiz
quando estou machucada, vou para a floresta e corro.

Raquel

Chegamos à cidade e eu estou definitivamente


como um cachorrinho com a cara fora da janela,
admirando tudo. Até que começa a aparecer só floresta e
mais floresta. Então, passamos por um grande arco, um
portão eletrônico com câmeras e homens armados.
Leandro abre o vidro e um deles caminha até nós.
— Ei, Beta! Estávamos pensando que não
voltariam mais. Quem é a princesa?
Ele me olha e eu dou o meu melhor sorriso, se vou
morar com esse pessoal, no mínimo, devo ser simpática.
— Eu...
— Minha – Leandro me corta –, ela é minha.
Fecha os vidros sem maiores explicações e eu
estou ali, estarrecida com a sua falta de tato e de
educação. Pergunto-me como esse homem pode ser um
advogado...
Quando saímos do carro, avisto logo minha
amiga, ela está atrás de Noah, meio sem jeito, Lua nunca
foi uma garota de multidões. Uma mulher se engancha no
pescoço de Noah, ela está se esfregando nele
descaradamente.
Vadia – digo para a minha amiga, para que ela
fique esperta. Lua sai do local escondido em que estava,
atrás da montanha que era esse homem. Dou alguns
passos, aproximando-me, e Lê vem atrás.
Vejo quando a minha amiga muda suas feições,
seus olhos estão... repuxados e brilhantes, suas mãos estão
como garras. Porém, o pior foi quando ela sorriu, imensas
presas brotaram de seus lábios, incrível!
Vejo o que o filho de uma puta do Noah faz com
ela, indo atrás daquela vadiazinha e deixando Lua aqui,
sozinha, eu estaria chorando. Caminho em direção a ela
para confortá-la, mas Leandro me para e ergue a mão para
tocá-la.
— Não. Me. Toque – ouço-a sussurrar. Ele me
segura, apreensivo, como se... tivesse medo que ela fosse
me machucar. Minha amiga nunca me machucaria, certo?
A estranha começa a tirar a roupa, peça por peça,
e não vou te dizer que é um Striptease, porque não é. Ela
puxa suas roupas com calma, meticulosamente, com a
cabeça erguida. Então, nua, ela olha de um a um, me olha
também, com seus olhos brilhantes, minha amiga é a porra
de uma rainha! Essa realidade me bateu forte agora! Ela
se transforma, um lobo imenso e de pelagem
completamente mel, como os seus cabelos, rosna, e é um
som ameaçador. Algumas pessoas realmente dão um passo
para trás. Depois, vejo-a correr, rápida e precisa. E é
como se o tempo parasse, ninguém ousou se mover por
alguns segundos, até que uma criança corre ali, pelo meio,
e o mundo volta a girar novamente.
— Quando eu pegar esse seu amigo, eu vou...
Leandro tapa a minha boca e me carrega como um
saco de batatas até uma casa. Claro que eu faço meu papel
e esperneio, arranho as suas costas e, obviamente, não
adiantou nada.
Ele fecha as portas atrás de si e me encara,
suspirando, parece cansado.
— Você não pode ofender o Alfa na frente de
todos.
— Eu não posso ofender aquele filho de uma puta,
mas ele pode humilhar a minha amiga?!
— Ainda bem que as casas são a prova de som –
ele diz, simplesmente.
— Pera lá! Você está dando razão ao que Noah
fez?!
Ele dá de ombros.
— Ele é o Supremo.
Olho para o sofá dele e sorrio, o viciado em sexo
sorri de lado e me olha cheio de desejo.
— Espero que seu sofá seja confortável.
Ele me dá um sorriso completo e afirma com a
cabeça.
— Porque é nele que você vai dormir, e nem ouse
em vir atrás de mim!
Dou meia volta e começo a subir as escadas, o
quarto deve ser em cima, eu acho. Entro em um quarto
grande com uma cama imensa de casal, o cheiro dele está
impregnado em cada canto. Tranco a porta, só por via das
dúvidas, mas ele não vem atrás de mim.
Homens idiotas!

Leandro
Ainda estou assimilando as suas palavras, quando
ouço a porta do meu quarto bater e ser trancada, isso foi
diferente... Sempre consigo dobrá-la, mas, dessa vez, ela
parecia decidida. Eu vou matar Noah! Se ele quiser
acabar com sua relação, tudo bem, mas que não leve a
minha junto.
Entro na casa de Lorenlay sem ao menos bater,
Noah está esparramado no sofá, parece derrotado,
enquanto a idiota que está em cima dele, beijando o seu
pescoço, não percebe que ele não está ali de verdade.
— Saia!
— Você não me dá...
— Eu sou seu Beta, saia!
Ela olha para Noah, que não a defende, e sai,
olhando-me superior. Sempre disse para Noah que não era
bom ter um foda fixa dentro da nossa casa, e olha só o que
acontece!
— Não diga nada.
Jogo-me ao lado do meu Alfa, meu melhor amigo,
e cruzo os meus braços.
— Não precisava ter feito isso com ela.
— Sério? E o que a matilha diria, se eu não
tivesse feito? Que eu sou comandado por uma mulher. A
fofoca de que virei um fraco sairia de boca em boca e,
depois disso, viria a guerra. Guerra pela minha posição.
Sabe o quanto eu dei para que estivéssemos em paz hoje,
Leandro. Você, mais do que ninguém, sabe. Luana vai ter
que aprender a abaixar a sua cabeça.
— Cerveja?
Levanto-me, indo direto para a geladeira.
— Eu não terei o corpo quente da minha
companheira, não quero que você passe pelo mesmo
fardo, pode ir.
— Tarde demais, Alfa, minha companheira
acabou de me colocar para fora do meu próprio quarto.
— Por quê?
Ele pergunta interessado e eu sorrio.
— Ela me xingou. – Dou de ombros, não vou
mentir para ele. – Eu te defendi e cá estamos nós, no
mesmo barco.
— Saúde a isso! – Ele bate a sua garrafa na
minha.

Lucas

Caminho pela cidade de NY, até que os meus


nervos estão um pouco mais tranquilos. Vou até o bar que
sempre frequento. Depois da décima, eu acho – quem está
contando? –, dose de uísque, sinto alguém se aproximar de
mim, estou doido por uma boa briga...
— Lucas! Estava procurando por você, onde se
meteu?
Tenho nojo desse cara, ele é a pior espécie de
lobo, tive que fazer certa amizade com ele para poder
descobrir os padrões de Noah, não me orgulho por ter me
envolvido com essa gente.
— Por aí – respondo simplesmente.
— Tenho um esquema quente para te colocar!
Muito dinheiro envolvido, cara! São uns cientistas, uns
humanos. Eles querem só algumas fêmeas da nossa
espécie, acredita? Quando souberam sobre o Supremo,
ficaram interessados, mais ainda quando souberam sobre
a sua companheira e que ela está esperando cria. Isso é
grande, cara! Eles querem derrubar o Supremo! Tá
dentro?
Aceito, ele não me contaria tudo isso se não
soubesse que eu aceitaria e, caso fosse idiota o suficiente
para não aceitar, o pessoal dele, com certeza, me mataria,
ele me deu informação demais.
Temos uma reunião para amanhã com os
cientistas, humanos e lobos trabalhando juntos? Pouco
provável.
Caminho de volta ao meu apartamento e suspiro
antes de passar pela porta.
Vou para a cozinha e começo a fazer a janta, ela
não move um músculo, nem a sua respiração muda,
merda...
Caminho com uma bandeja até a cama e a coloco
em uma mesinha.
— Ali, olhe para mim.
Ela não se move.
— Por favor... Só olhe para mim.
Vejo-a se mover e virar seu corpo em minha
direção, seus olhos negros encaram os meus.
— Me desculpe.
Sei que essas duas palavras são tão poucas para
que ela me perdoe por tudo, me desculpe pelo idiota do
meu irmão, por todo o trauma que ele causou, por eu ter
sequestrado-a, por eu ser o seu companheiro.
Uma lágrima escorre pelo seu rosto e, quando
ergo a minha mão para pegá-la, ela se retrai.
— Por que não come? – Alicia olha para a
comida e, de novo, para mim.
— Se comer, te conto novidades sobre o seu
irmão.
Isso parece despertá-la. Ali se senta, ainda me
olhando de lado, e começa a comer.
— Você vai ser titia.
Ela abre completamente os olhos e sorri, e é como
se o sol se abrisse ali, no meu quarto.
— Eles estão de volta à casa de Noah.
— Aqui, em NY? – ela sussurra. E eu, como
estava admirado demais com sua voz, confirmo.
— Sim.
Quando ela sorri de novo, vejo que caí em uma
armadilha. Até então, ela não tinha noção de onde estava
e, veja, ela está definitivamente no quintal da sua própria
casa. Veja, se Alicia sair deste prédio, qualquer lobo da
cidade iria ajudá-la a fugir, e é por isso que não gosto
exatamente da ideia que me vem à mente, ela não vai
gostar.
Olhando por um lado, não tem como me odiar
mais do que já odeia.
Capítulo 21– Visita
Alec

Acordo com os gritos da minha companheira.


— Alec, vem aqui!
Levanto-me e corro, sei que, pelo seu tom de voz,
algo estava errado. Quando vou até a entrada da
propriedade, Manu está sustentando uma mulher. A mulher
tremia e olhava para todos os lados com seus olhos
vidrados.
— O que há?
— Esta é Amanda, ela é... da nossa antiga matilha.
Merda, Lua estava certa, algo aconteceu.
Após levar Amanda para dentro da casa e lhe
alimentar, começo a questioná-la.
— O que houve? Onde estão as outras?
Ela olha para mim e para Manu.
— Onde está Lua?
— Ela se mudou para a matilha do Supremo.
Amanda, confie em mim, tudo isso chegará até ela.
A mulher acena e começa a falar com uma voz
trêmula:
— Nós tínhamos arrumado um bom local,
seguro... Eles nos acharam, pegaram as outras.
— Eles? Quem são eles?
Nenhuma das duas respondeu, mas, pelo olhar que
Manu está, sei quem exatamente “eles” são. Os caras que
sequestraram a minha companheira. Depois de perguntar
onde exatamente tudo aconteceu e depois de saber que,
provavelmente, minha mãe está morta, deixo Manu
cuidando dela e saio da sala, dizendo que vou ligar para
Lua.
Quando pego no telefone, ligo para outra pessoa.

Ligação on...

— Quê?
— Nossa, você é sempre tão animado assim
durante as manhãs? Onde está a minha irmã?
— Não sei.
— Como assim “não sabe”?
— Tivemos um desentendimento.
— É...
— Diga logo, Alec!
— Uma das mulheres que era da matilha da minha
mãe chegou aqui hoje, procurando Lua. Ela estava
machucada, as outras foram aprisionadas, parecem ser as
mesmas pessoas que sequestraram Manu e Priscila há um
tempo.
— E como ela fugiu?
— Isso é o estranho, não acho que ela tenha
simplesmente fugido. Eles estavam em maior número,
seria fácil pegá-la de volta.
— O que tem em mente?
— Eles a seguiram, sabiam que ela viria atrás
de...
— Lua.
— Sim. Disse para Manu que falaria com ela, mas
conheço a minha irmã. Ela virá parar aqui ou irá ao local
onde tudo aconteceu, tentar farejar algo.
— Não se preocupe, ela não vai ficar sabendo.
— Não sei se essa é a melhor escolha, Noah...
— Não vou colocá-la em risco, Alec.
— Para onde ela foi?
— Está na floresta, não se preocupe, estou
monitorando tudo.
— Ela pode ficar dias na floresta, transformada
em lobo.
— Merda...

Ligação off...
Capítulo 22– Fugindo
Alicia

Confesso que saber sobre o meu irmão me


renovou os ânimos, e agora que sei que estou em casa...
Como ele pode ter me trazido para o meu próprio
território? Isso faz com que eu me questione se isso é
realmente um “sequestro”.
Ele tira a sua roupa em minha frente, está se
trocando. A nudez nunca foi algo estranho para nós, lobos.
Admiro o seu corpo definido de baixo a cima, ele tem uma
pele morena, como se fosse mel, seus olhos incrivelmente
verdes contrastam com seu tom de pele. Quando ele me
olha e percebe que eu estava encarando, desvio meu olhar,
fico com... vergonha por ter sido pega.
Ele caminha até a cozinha e ouço um tilintar, todo
o meu sangue gela, reconheço muito bem esse som.
Lucas caminha até mim segurando correntes.
Lucas

Sinto seu olhar percorrer o meu corpo como se


ela estivesse passando as mãos sobre ele. Quando a olho,
ela rapidamente tenta disfarçar, talvez ainda reste
esperança... Restaria, se eu não tivesse que prendê-la.
Quando retorno até sua presença com as
correntes, ela tenta se afastar, mas eu a seguro, seu frágil
corpo treme de medo.
Prendo suas mãos e seus pés com correntes de
prata. Tento deixá-la confortável, se é que isso é possível.
Ela me olha com um misto de emoções, porém, mais que
tudo, consigo ver a mágoa.
O problema é, agora que ela sabe onde estamos,
sei que fugiria. Depois que ela estivesse nos braços de
seu irmão, nunca mais colocaria nem os meus olhos sobre
ela. E tem também esse lance com os cientistas e as
fêmeas, eles querem atacar Noah, e não quero Alli perto
dele quando isso acontecer.
Não olho para trás, se olhasse, tenho certeza de
que iria soltá-la.
Caminho até o ponto de encontro. Reconheço
algumas escórias de lobos juntamente com um pessoal
muito bem armado. Colocam-nos em um carro
completamente negro, o carro tem um cheiro forte que
nubla os sentidos, não consigo gravar o caminho que o
mesmo percorre.
Entro em um edifício cheio de câmeras, há
humanos trabalhando, como se fosse um Call Center. Nós
vamos até uma parede branca, um dos caras armados abre
um painel e digita alguma senha, a parede se abre e, atrás
dela, posso ver um laboratório imenso. Atrás de muitos
vidros, vejo fêmeas, de distintas idades. Elas parecem
estar drogadas.
Um cientista nos recepciona, ele é velho, com um
sorriso amarelo e tem cheiro de morte.
— Vocês devem ser a mais nova força bruta – ele
diz, analisando-nos.
Vejo o cara que me chamou para participar desse
esquema, o cara do bar, ele não fica para ouvir o que o
cientista está a nos dizer, caminha até uma das salas,
abaixa suas calças e começa a estuprar uma das lobas que
está presa. Ninguém faz nada, como se isso fosse...
normal.
— Vou explicar o que há aqui, nós pagamos muito
bem, vocês só precisam sequestrar alguma fêmea de sua
raça. Ficarão ricos e, como podem ver – ele aponta para a
sala onde a loba estava sendo violentada –, vocês ainda
têm um bônus.
— E para quê querem as lobas? – Ele olha para
mim, intrigado. Acredito que nunca teve que responder a
essa pergunta, dinheiro e sexo compraria um lobo da
escória, me xingo internamente por isso.
— Acho que é o direito de vocês saberem,
estamos estudando o DNA para conseguirmos identificar a
parte dele que permite a vocês se curarem com facilidade.
Imagine isso, as doenças seriam exterminadas do mundo!
Não acredito em sua explicação, mas concordo e
finjo que faz sentido. Não acredito porque sei que ele está
atrás do Supremo e de sua companheira, se fosse para
estudar o nosso gene da cura, poderia fazer isso em
qualquer lobo, macho ou fêmea. Mas eles querem fêmeas,
querem a companheira do Supremo. A pergunta é: Por
quê?

Noah

Quando o dia nasce, resolvo finalmente ir atrás de


Lua. Passo primeiro na sala de operações, sei que, se ela
estivesse correndo perigo, eles seriam os primeiros a me
avisar. Porém, mesmo assim, resolvo dar uma passada por
lá.
— Alfa.
Todos fazem uma leve reverência quando me
veem, olho para os diversos monitores da sala.
— Como a minha companheira está?
Ravi, que é o perito em tecnologia da matilha,
analisa os monitores e dá de ombros.
— Segura – ele diz simplesmente, e isso me faz
querer voar em seu pescoço. Claro que ela está segura,
não vim aqui para saber o óbvio. Ele olha para mim e dá
de ombros novamente, virando-se para os seus monitores.
Respiro profundamente e viro-me para a saída,
caminhando até a floresta, tiro a minha roupa e me
transformo. Sei com o que me pareço, um imenso lobo
negro com olhos vermelhos.
Sinto o seu cheiro e a sigo sem o mínimo esforço.
Vejo-a levantar-se em suas patas quando sente a minha
aproximação. Veja, quando estou em forma de lobo, minha
consciência humana está ali. Porém, é mais expectadora
do que comandante, meu lobo está no comando e no
controle de cada ato. Arrependo-me de ter me
transformado para vir até ela quando Lua finca suas patas
na terra e rosna. Meu lobo vê seu ato como um desafio, e
ele é um Alfa.
Uso todo o poder que há no meu lobo para rosnar,
um rosnado que faz com que qualquer outro da matilha
rasteje comendo o solo, mas Lua não se move, ela mal
abaixa seu olhar, toda a sua postura me enfrenta.
Avanço vagarosamente para ela, enquanto rosno.
Ela também rosna, não desvia seu olhar e nem move um
músculo. Quando chego tão perto que nossos focinhos
quase se tocam, não consigo mais segurar meu lobo.
Ele está revoltado, irado, meu lobo a quer abaixo
dele, onde é o seu lugar. Ele está decepcionado e irritado
por ser logo a sua companheira a desafiá-lo tão
abertamente. Então, ele avança e tenta submetê-la. Como
meu lobo é maior que o de Lua, fico facilmente acima
dela, mesmo que ela já tenha mordido-o e arranhado-o
(nada fatal, então, não se importou). Quando ele está
acima de Lua, pode sentir o seu cheiro, o cheiro de um
companheiro é cegante e inebriante. As presas de meu
lobo estavam em sua garganta, sem apertar muito, só para
provar quem é o mais forte. Ele empurra o corpo da loba
de Lua para baixo, ela resiste, mas estamos em uma
posição melhor, o que nos permite exercer mais força
ainda sobre o seu corpo, suas patas cedem e se dobram.
Com a cara no chão e se debatendo atrás de mim,
o cheiro que a loba de Lua exala é forte demais para o
meu lobo. Ele, que já estava atrás dela, tenta se encaixar
entre suas ancas e montá-la, a luxúria nos invade como
uma bigorna sobre nossas cabeças. Quando ficamos na
posição exata para montá-la, ela nos surpreende, vira-se
rapidamente e, com toda a sua força, morde uma das
nossas patas traseiras. Não foi uma mordida de
brincadeira, Lua quase arranca o meu pé fora, e isso me
tira do torpor do vínculo de companheiros. Deixo-a
afastar-se um pouco, já tomando as rédeas da minha
consciência compartilhada. Sinto-os virem até mim, eles
sentiram que eu me machuquei.
Estamos ambos cercados, Lua e eu. Mas eles
rosnam para ela, e Lua, ainda altiva, os encara e rosna de
volta. Eu, mesmo me apoiando só em uma das patas, vou a
sua frente e rosno para todos, que colocam suas caras
entre as patas da frente, reverenciando-me.
Transformo-me de volta e olho para Lua,
pensando que ela faria o mesmo, mas sua loba só me olha
e caminha para o lado oposto da minha casa. Apoio-me na
árvore, já que meu tornozelo agora está em frangalhos.
— Alfa!
Ouço Leandro caminhar até mim.
— Temos que ir ao médico da matilha, isso não
vai se curar sozinho.
Olho para o meu ferimento, não vai mesmo. Ela
arrancaria meu pé fora, lembro-me do que Alec falou, que
ela poderia ficar vários dias em forma de loba, e suspiro.
Isso vai ser mais difícil do que pensei...
Mancando, apoio-me em Leandro e caminho até a
minha casa.

Raquel
O dia amanhece. Na verdade, já deve ter
amanhecido há algum tempo, já que não sou alguém muito
diurna.
Abro a porta com calma e caminho na ponta dos
meus pés até a sala, ele não está lá, e isso me deixou
triste. Provavelmente, deve ter saído com Noah para se
saciar no corpo de alguma vagabunda.
Pego algumas roupas em minha mala e... tomaria
uma ducha, contudo, através dos imensos panos de vidro
da casa, posso ver uma movimentação estranha. Saio
ainda com as roupas nas mãos e vejo Leandro e Noah
entrarem em uma mansão, sinto um cheiro ocre de ferro...
Sangue!
Automaticamente, penso em Leandro e apresso
meu passo, entrando na mansão mesmo sem ser
convidada. Ela é linda, nunca antes vi uma casa tão
perfeita, poderia tê-la admirado mais, se não percebesse
Leandro em pé. Olho-o de cima a baixo para ver se está
machucado.
— Está bem?
Ele acena para mim, a me olhar com evidente
interesse. Olho para Noah, que está no sofá, o homem está
com um ferimento imenso em seu tornozelo, como se seu
osso tivesse sido mastigado ali.
— Merda, o que foi isso?! Não me digam que tem
ursos nessa floresta!
— Isso não é nada, está tudo bem.
Ergo uma sobrancelha para Noah. Sério, amigo?!
Isso é estar bem? Tiro meu chapéu para esse homem, ele
definitivamente tem culhões. Depois, lembro-me do
acontecido ontem com Lua e fecho a minha cara para o seu
lado.
— Onde está Lua? – pergunto para Leandro, e não
para Noah, mas quem me responde é ele.
— Na mata.
— E você estava...?
— Na mata.
— Espera aí... Ela te fez isso? – pergunto
estarrecida, olhando para Noah, e ele confirma com a
cabeça. Abro o meu melhor sorriso e admiro o belo
trabalho de minha amiga. Noah rosna para mim e ergo a
sobrancelha novamente, encarando-o. Dou de ombros e
caminho até a porta.
Quando já estava quase saindo, Leandro segura
meu braço.
— Onde você pensa que vai?
— Encontrar Lua, é óbvio.
— Ah, mas não vai mesmo!
— Olha aqui, senhor Lobo Gostoso! Minha amiga
está precisando de mim, e não será você quem me
prenderá aqui!
— Raquel, é sério, Lua feriu Noah, ela pode te
ferir também – ouço-o falar meu nome e sinto falta de tê-
lo a me chamar de “loirinha”.
— Ela o feriu porque ele é um idiota que
mereceu! – Ouço um rosnar vindo de dentro da casa, algo
que gelou o meu sangue.
Leandro abre a boca para questionar, mas é
interrompido pela forte voz de Noah:
— Deixe-a ir.
Ele reluta por alguns instantes, me olha,
implorando com o olhar para que eu não vá, e eu, claro,
dou as costas e o deixo lá, sozinho. Amigas primeiro,
homens depois, essa é a lei do universo.

Luana

Corro pela floresta, descobrindo cada lugar, até


então, inexplorado. Meu sangue ferve, seguro lágrimas
que não ouso derramar por ele. Sabia que as coisas
mudariam quando viesse para a casa de Noah, para a sua
matilha, e eu estava disposta a enfrentar as mudanças
porque pensei que ele estaria ao meu lado. Como fui
idiota. Afinal, nós nunca estaremos ao lado deles, e sim
atrás, às suas costas ou aos seus pés!
Bela forma de me apresentar a sua matilha! Idiota!
Suprimo a minha consciência, entrego o meu corpo, minha
alma e mente à loba que há em mim, porque, nesse
momento, dói demais ser eu mesma.
Ela corre livre, olha para o céu e uiva, um uivo de
liberdade e de dor – nunca pensei que essas duas palavras
pudessem se encaixar tão bem. – Enquanto a minha loba
corre e caça, eu estou chorando por dentro, lágrimas que
nunca derramei. Choro pela minha mãe, que depositou
tantas responsabilidades sobre o meu ombro (eu pedi para
que ela fosse embora, disse que ficaria tudo bem, que
cuidaria de Alec, mas eu era só uma criança e se supõe
que ela seria uma mãe). Choro por Alec, meu gêmeo que,
mesmo sendo tão parecido fisicamente comigo, nunca
percebeu que eu escondia a dor como um buraco negro
dentro de mim, enquanto sorria e gargalhava de suas
piadas idiotas. Choro por uma criança de cabelos longos,
da cor de mel, e olhos azuis tão límpidos, porque vejo em
seu olhar tristeza e dor, uma menina que conheceu o pior
do mundo desde muito cedo, choro por mim, por essa
menina, essa garota que se perdeu há muito tempo.
Depois que meu lobo sacia sua fome, encosta-se
em uma árvore, apoia a cabeça em suas patas e fecha os
olhos, também fecho os meus, pensando em uma cura para
toda a merda que estou sentindo no momento.
Amanhece, sei porque conseguimos ouvir os
pássaros e sentir o tempo mudar, mas algo no ar chama a
nossa atenção. O cheiro dele...
Noah é um lindo e temível lobo negro com olhos
vermelhos. Eu sou mel, de olhos azuis e, embora seja
maior que muitos lobos, minha estatura não se compara a
sua. Ele dá alguns passos em minha direção e ela rosna,
pelo visto, não foi só a mim que Noah magoou, minha loba
é corajosa.
Noah caminha para nós e ela permanece em pé a
fitá-lo no fundo de seus olhos vermelhos. Então, ele rosna
e ela responde com um rosnar tão alto e raivoso quanto.
Mas o seu próximo rosnar é o que ele usa na matilha, para
mostrar que é o Alfa, ninguém permanece em pé ouvindo
isso. Quando percebo que minha loba vacila, coloco a
minha consciência junto a sua e renovo suas energias,
continuamos encarando-o como um igual. Até que ele nos
pega desprevenida, Noah avança ao nosso lado e se
movimenta, ficando nas costas da minha loba, no seu
ponto cego, ele sustenta nossa garganta com seus dentes,
dói, mas não é algo mortal. Sei que ele poderia me matar
se apertasse mais, e é isso que Noah quer provar, a sua
superioridade.
Minha loba treme, não de medo, ela se excita ao
ter seu companheiro tão próximo e as suas costas.
Meu. Forte. Alfa.
Ela estava entregue ao lobo de Noah e ele,
rapidamente, tenta montá-la. Desperto novamente com
seus pensamentos, “meu”... Meu? Ele nunca será meu, sei
disso agora, porque Noah me provou que não pertence a
ninguém. E como ele ousa me montar à força, como se
nada tivesse acontecido?
Giro o corpo da minha loba e abocanho sua pata,
sinto o gosto de seu sangue preencher toda a minha boca,
minha loba rosna para mim, porque estava machucando
nosso companheiro, a suprimo, e o encaro.
Estava perdida, permiti me levar pelo vínculo,
mas Noah não me conhece, passei muito tempo criando
muros para guardar toda a minha dor, e será atrás desse
muro que colocarei o meu amor por ele, porque eu amo
esse idiota!
Sinto o cheiro de vários lobos, rosnam para mim e
eu retorno, mas Noah os dispersa. Ele se transforma em
minha frente, seu olhar está magoado, preocupado... Em
menos de um segundo, jogo essa preocupação para o canto
escuro da minha consciência, olho-o nos olhos e viro-me,
caminhando mais para dentro da floresta.

Raquel

Quem aquele troglodita pensa que é para ficar me


olhando com aqueles olhos verdes, sexys e... Lá vou eu de
novo, sacudo a minha cabeça, tirando a imagem de Lê da
minha mente. Podem estar se perguntando como ainda não
estou surtando com todo esse lance de lobisomem, a
verdade é que sempre fui muito bem resolvida em relação
a tudo, sou aberta para o mundo e novas coisas, um lobo
gostoso me pareceu uma ótima de uma bela coisa.
Sacudo a minha cabeça novamente. Por que todos
os meus pensamentos se voltam para aquele idiota?
Começo a entrar na floresta. Veja bem, não sou
uma menina do mato, amo a cidade e seu movimento.
Sendo assim, entendam, estou me cagando com todo o
mínimo som que ouço, o que é ridículo, já que agora faço
parte do seleto grupo de predadores superdesenvolvidos.
Ahh, falando em predadores superdesenvolvidos,
elevo a minha cabeça e respiro profundamente, o cheiro
da Estranha entra pela minha narina e, automaticamente,
sei para onde ir, isso é tão legal...
Sigo o meu caminho, juro que estava me
comportando como uma menina crescida, até que um galho
entrou no meu caminho (juro que o galho apareceu do
nada), dou um grito e passo a mão várias vezes em minha
testa para tentar aliviar a dor.
Quando abro os meus olhos, vejo um lobo imenso,
lindo... Marrom, com olhos azuis, azuis como a lua azul.
Lembro-me de quando fui ver esse fenômeno com Lua...
Esse é um fenômeno que ocorre a cada dois anos e sete
meses, nós sempre marcamos de ir ver a Lua Azul juntas,
estou divagando novamente... O lobo tem olhos azuis
como os de Lua, e me olha intrigado.
— Estranha?
O lobo revira os olhos e sei que é Lua, qual outro
lobo reviraria os olhos para mim?
Corro ao seu encontro e a abraço, sua pelagem é
macia e faz cócegas no meu nariz, enquanto estou com a
respiração em seu pescoço, sinto o cheiro de Lê.
Ele nos encara ofegante (ok, talvez eu tenha
gritado um pouco alto), Lua vai para a minha frente e
rosna para ele, abaixa-se em suas patas e se prepara para
saltar em seu pescoço... Seu pescoço? Perai!
— Estou bem, Leandro, pode ir.
— Ouvi seu grito e...
— Eu caí, só isso. Agora, me deixe a sós com
Lua, antes que ela arranque essa linda cabeça que faz par
com esse corpo gostoso e forte.
Ele tira os olhos de Lua um pouco e me encara,
acena com a cabeça e vira as costas, caminhando devagar.
Viro-me para Lua.
— Então, querida, o que amigas lobas fazem? –
Ela me olha séria. – Nem me olhe assim, Estranha! Não
vou sair por aí lambendo seu rabo!
A loba pula em mim e começa a lamber meu rosto,
enquanto gargalho.
— Sério, Estranha, você está bem?
Ela me encara séria, pergunta idiota, se ela
estivesse bem, eu não estaria aqui, conversando com um
lobo.
Começo a tirar a minha roupa e ela senta,
encarando-me, sou nova nesse lance de nudez e
transformações.
— O quê?! Não vou ficar aqui, conversando com
um animal, podem pensar que sou louca!
Claro que ninguém aqui pensaria isso, já que
todos são... bem, lobos.
Fecho os meus olhos e tento me concentrar, como
Leandro me disse, abro um olho e Lua continua me
encarando.
— Vamos lá, vire de costas! Está inibindo o meu
poder lupino!
Ela faz um som engraçado com a boca e vira de
costas.
Chamo aquela parte de mim que sei que pertence
a outro ser, a minha loba, e me transformo.
Pulo nas costas de Lua e começamos a correr em
uma brincadeira estranha de pique pega.
Sei que minha amiga não está bem porque não
voltou a sua forma para falar comigo e, se não quer falar
comigo, significa que não está pronta para falar com
ninguém, e eu vou ficar aqui, ao seu lado, até que ela se
sinta melhor.
Capítulo 23– O Ataque
Ian

— Quando ela descobrir, vai te matar.


— Eu sei o que é bom para a minha irmã, Ian.
— Deveria saber o que é bom para si, ela vai
ficar pirada.
Lua vai simplesmente ficar fula com Alec por ele
não ter lhe contado sobre a garota que chegou aqui. Agora,
eu participo disso, faço uma careta.
— Por que diabos você me contou?
Ele sorri, o mesmo sorriso que usava quando era
criança, quando um dos dois aprontávamos algo e nunca
entregávamos um ao outro, nós levávamos a culpa juntos.
— Precisava conversar com alguém.
— Isso significa que não contou para Manu?
Ele faz uma cara engraçada e nega com a cabeça.
— Merda, Alec! Agora eu estarei mentindo para
Priscila também! – Ele dá de ombros e eu mudo de
assunto, falar sobre isso estava me irritando. – E Lua,
como está?
— Ela está com seu companheiro – ele responde
simplesmente, como se por “estar com seu companheiro”
signifique que Lua esteja ótima.
— Merda, cara, às vezes parece que não conhece
sua irmã!
Conheço Lua o suficiente, quando estava
machucada, ela ia para a floresta lamber suas feridas,
chorava sem derramar uma lágrima, porque não se
permitia fraquejar, é uma mulher incrível. Não menti
quando disse que adoraria que ela fosse a minha
companheira, seria uma honra, para mim, ter alguém como
Lua ao meu lado. Porém, agora, tenho a minha pequena
ruiva, o que não me dá espaço para pensar
romanticamente em mais ninguém.
— Você acha que... – o corto.
— Que ela brigou com Noah? Ou que não se
submeteu, ou que, mesmo carregando um filho dele, não o
obedece? Claro que acho, eu a conheço!
— Merda... É, deveria realmente ligar para a sua
irmã.
Saio da sala de Alec. Do outro cômodo, consigo
ouvi-lo discar os números. Como aqui não temos proteção
em relação ao som, ouvimos tudo o que ocorre. Saí da
sala mais por conveniência, ele e eu sabemos que
qualquer um pode ouvir a sua conversa.
Ouço o telefone chamar e a ligação cair. Então,
ele disca outro número.

Ligação on...

— Noah, estou tentando falar com Lua, pode


passar para ela?
— Não, não posso.
— E por que não?
— Porque ela não está.
— Noah... Onde está a minha irmã?
— Não se esqueça de quem eu sou, Alec, não te
devo explicações sobre nada, e muito menos sobre a
minha companheira.

Ligação off...

Entro em sua sala novamente.


— Isso não é bom, cara.
— Não, não é.
— Ela está preci...
— Não, ele tem razão. A vida de Lua não diz
respeito mais a nós.
— Ela é sua irmã!
— Ela é a companheira do Supremo!
Meu sangue ferve, sério, qualquer outro da
matilha não enfrentaria Alec. Contudo, sou mais do que
seu Beta, sou seu amigo. Encaro-o e digo, olhando em
seus olhos:
— Se quiser abandonar a sua irmã, tudo bem,
mas, quando estiver com sua cabeça no travesseiro e feliz
ao lado da sua companheira, lembre-se de todas as vezes
em que Lua cuidou de você.
Ele se levanta e me encara, seus olhos começando
a ficar levemente vermelhos, mas Alec não diz nada.
Então, eu saio e o deixo só.
Quando éramos pequenos, Lua vivia correndo
atrás de nós, ainda consigo ouvir a voz fina da menina,
gritando: Você vai se machucar, Alec! Já fez o dever de
casa? Vá tomar um banho!
Esse cara pode não ter tido uma mãe, mas tem
uma puta de uma irmã que o amou e o cuidou, e muito!
Serei sincero, o pai de Alec nunca se importou em treiná-
lo, ele era um filha da puta mesquinho, não queria que
Alec fosse mais poderoso que ele. Sendo assim, não o
treinava, pelo contrário, só vivia dizendo o quão fraco ele
era, tentando desestimulá-lo. Quando Lua presenciou uma
dessas cenas, no outro dia, ela nos levou até uma área
remota da floresta, uma área morta onde não havia
animais. Ali, quase ninguém ia por não ter comida. Ela
nos levou lá e começou a nos ensinar, Lua nos fez ter
orgulho de sermos o que somos, ela nos ensinou a nos
defender. E quando Alec se tornou forte o suficiente para
retribuir a tudo o que o seu pai fazia, lembro-me
exatamente do que Lua disse: Deixe-o pensar que é fraco,
deixo-o acreditar que está no comando. Um dia, Alec,
você será um grande Alfa. Um dia, ele vai te subestimar
e, nesse dia, perceberá o erro que cometeu por todos
esses anos. Você é incrível, meu irmão, e nunca deixe
ninguém te fazer acreditar no contrário.
Isso não tocou só Alec, tocou também a mim,
passei a treinar cada vez mais, porque eu queria ser um
bom Beta, mas também porque queria estar lá para fazer o
mesmo que ela fez por mim, queria ser forte.
— Está pensativo...
Ouço a voz de Priscila como a melhor música
soada em meu ouvido.
— Estava pensando em Lua, acha que está bem?
— Não nos falamos depois que ela partiu. Porém,
uma coisa que aprendi sobre a sua amiga é que, se tem
alguém que pode enfrentar o mundo, esse alguém é ela.
Abraço a minha mulher e respiro em seus cabelos.
— Eu só não queria que ela precisasse enfrentar o
mundo.
— Talvez não precise.
— Talvez.

Alec
Ouvir Ian falar tudo aquilo sobre Lua... É claro
que amo a minha irmã... Merda! Ela foi minha grande
inspiração desde sempre, fiquei feliz quando descobri que
ela era companheira do Supremo. Quem melhor que o rei
para protegê-la, certo? Pelo menos, é isso o que acho...
Lembro-me que, nos treinos, ela costumava me
derrotar sempre. Agora, sei o porquê, Lua estava sendo
treinada por nossa mãe. Um dia que me marcou
extremamente, o primeiro dia em que a derrotei.

*****

Ela me tirou de casa logo cedo, o pai viajaria, e


seu Beta costumava nos deixar soltos, ele não se
importava com o que fazíamos. Nós fomos para depois
da floresta, onde o terreno estava seco e não havia vida,
nós a chamamos de floresta morta, e quase ninguém do
bando caminhava por ali, diziam que era uma terra
amaldiçoada. Achava um saco Lua me incomodar sempre
para me treinar, afinal, eu era o próximo do comando,
com direito tanto por nascença quanto por herança, e
não precisava provar a ninguém que era o Alfa (era isso
o que eu pensava; hoje, sei o quanto era idiota). Então,
ela me deu uma bronca aquele dia e me carregou para a
floresta morta, fui reclamando, mas fui. Lua sempre
conseguia me convencer a tudo. Nós lutamos. Não era
uma lutazinha, Lua não pegava leve comigo, tinha muita
pancada e sangue envolvido – ficava com raiva porque
nunca conseguia vencê-la, ela sempre me fazia comer o
chão, e isso era humilhante. – Lua ficou nessa
brincadeira de me bater durante todo o dia, a lua já
estava no céu, quando, mais uma vez, ela me derruba (já
perdi a quantidade de vezes que ela fez isso), estava
sangrando, cansado, com a cara no chão e respirando
com força. Olho para cima, para ela, lembro-me do que
pensei, Lua parecia algum tipo de deusa, ela estava
séria, não conseguia absorver nada de suas feições.
— Eu desisto, você sempre me vence!
Lua me olhou decepcionada, fiquei com
vergonha nesse dia. Então, ela me respondeu com raiva:
— Se não percebeu o que estou tentando fazer
com você aqui, eu só posso estar perdendo o meu tempo!
Ergui-me do chão, Lua estava saindo da floresta,
quando eu gritei:
— Você está me ensinando a lutar, a vencer!
Ela voltou com seu olhar em fúria, me deu uma
rasteira e apertou o meu pescoço com o seu pé – quando
digo “apertou o meu pescoço”, não era um carinho,
estava começando a ficar sem ar. Ela, com seus dentes
cerrados, me disse:
— Não estou te ensinando a lutar ou a vencer,
Alec! Eu estou te ensinando a cair. E, mais importante
ainda, a se levantar.
Ela se afastou de mim e dei baforadas de ar para
dentro dos meus pulmões, e ela continuou:
— Agora, me diga: estou perdendo o meu tempo?

*****

Algo nesse dia estalou dentro de mim, como uma


casca que eu tivesse partido e que me transformou em algo
maior. Nós passamos a noite lutando, e o próximo dia,
cansados, com fome e sedentos, eu finalmente a derrotei.
Lua nunca mais lutou comigo, ela costumava treinar com
Ian, porém, nunca mais quis lutar comigo, como se tivesse
feito o seu papel, como se...
Minha irmã é realmente uma mulher incrível.
— Alfa, mandou chamar-me? – Amanda, a mulher
que chegou machucada, vem até mim ainda com algum
temor.
Odeio esse seu temor, me lembra de como minha
Manu foi magoada, revolto-me ao saber que elas temem
que eu ou alguém da minha matilha as machuque, isso é
ridículo!
— Sim, Amanda, já disse, não precisa temer, está
segura aqui. Sente-se.
Vagarosamente, Amanda se senta em uma cadeira
em frente a minha mesa.
— Então, sei que é difícil, mas preciso perguntar.
Por que acha que eles a deixaram fugir?
— Eles não me... Sua mãe os atacou, ela me deu a
brecha para fugir.
— E simplesmente deixou e correu?
— Sim, não me seguiram...
Algo me incomoda em toda essa história. Merda,
algo não se encaixa.
— Você já tinha sido sequestrada antes?
— Sim, mas... Não por eles, eram outros.
— Tem certeza?
— Sim... Nunca poderia esquecer os seus cheiros,
eles me...
Ela para de falar e olha para o vazio.
— E como te sequestraram da primeira vez?
— Estava saindo para caçar... Eles me drogaram,
lembro-me que, quando acordei, estava em uma jaula no
meio de um campo, fiquei desnorteada, pois não conhecia
nada dali. Havia várias outras em jaulas e vários
helicópteros, eles falavam em nos levar para outro lugar,
sabia que, se subisse naquele helicóptero, estaria perdida.
Eles fizeram uma ronda e nos deram outra dose da droga,
mas... eu acordei e...
— E?
Animo-a a continuar, já que parou e fechou a
boca, sinto que isso é importante, não gosto de fazer com
que ela reviva esses momentos, mas é necessário. Sei, por
Manu, que ela e Priscila conseguiram fugir na floresta,
não falaram nada sobre helicópteros e outro local.
— Quando acordei, a minha jaula estava aberta e
eu corri. Não me orgulho por isso, poderia ter ajudado
tantas outras garotas, e simplesmente fugi...
Fugiu? Simples assim? Como dessa última vez
simplesmente a deixou ir?!
— Há quanto tempo estava na matilha da minha
mãe?
— Há uma semana, mais ou menos.
Talvez...
— Não sentiu nada estranho após isso?
— Só uma dor de cabeça estranha...
Estranha é toda essa situação, sinto que a resposta
está aqui, na minha frente, e não consigo encontrá-la.
Sinto um cheiro de fumaça e quando me levanto
da minha cadeira e olho pela janela, uma cena que nunca
imaginei presenciar me olha de volta.
Fogo... Está tudo em chamas, estamos sendo
atacados!

Ian
Estava vendo o nosso estoque de comida para a
matilha, quando sinto um cheiro estranho no ar e gritos.
Caminho para fora do casebre e os vejo, lobos
desgarrados, eles nos atacavam, e não tive tempo para
pensar no motivo, um deles estava segurando Priscila pelo
braço, tentando arrastá-la para dentro da floresta, e esse
foi todo o sinal que meu lobo precisou para rugir.
O homem estava tão preocupado em carregar a
minha companheira que não se deu conta do imenso lobo
correndo em sua direção. Pego em seu antebraço e sinto o
gosto de seu sangue fétido, mas ainda não é o suficiente...
Quero arrancar seu membro que ousou tocá-la. Por isso,
não o solto. Puxo seu braço cada vez mais, até que
consigo rasgá-lo. Dou, então, meu golpe de misericórdia
quando avanço em seu pescoço e dilacero sua garganta.
Transformo-me de volta.
— Calma, ruivinha, estou aqui.
Abraço-a, mesmo sabendo que esse não é o
momento, afinal, isso é a merda de um ataque, o amor nos
leva a fazer coisas estúpidas.
— Eles estão... Levando todas... Estão...
Olho ao meu redor, encontro Alec lutando contra
três ao mesmo tempo para proteger Manu. Preciso manter
Priscila segura e ajudar meu Alfa, mas não há um local
seguro, todas as casas estão em chamas.
— Fique perto de mim. – Ela acena e vejo-a
andar as minhas costas.
Luto com pouca dificuldade com todos os que
ousam entrar em meu caminho, Alec tinha acabado de
derrotar os três que o atacavam.
— O que está havendo aqui, cara?
Mas meu Alfa – e amigo – ainda olhava para a
cena, concentrado, e, quando fala, fico tão estarrecido
quanto ele.
— Eles estão levando as mulheres, só querem as
mulheres, e o restante da matilha já percebeu isso, eles
não estão lutando.
Ele tinha razão, mais e mais delas eram arrastadas
e levadas, enquanto os machos não faziam nada... Os que
eram companheiros ainda lutavam, mas os outros... Eles
nem estavam tentando.
Vejo o quanto Alec olha para a cena, enojado,
vejo o quanto ele deseja ir até lá e lutar contra todos,
mesmo sabendo que perderia, mas eu, como ele, também
sei que isso seria uma sentença de morte para as nossas
companheiras. Eles são muitos, e nós dois nunca
conseguiríamos derrotá-los.
Quando tomam o que vieram pegar, alguns deles
nos olham, a mim e a Alec, mas sei que estão a olhar para
algo atrás de nós, para elas. Alec e eu rosnamos ao
mesmo tempo, ouço um chiado e todos dão meia volta e
vão embora.
Estamos aqui, no meio do lugar que um dia
chamamos de casa e que agora está aos pedaços. Estamos
aqui, rodeados pelas pessoas que um dia chamamos de
família e que agora são meros estranhos.
Amanda sai pela porta, ela estava na casa, mesmo
em chamas, acho que ficou com medo de sair e ser levada,
seu medo em morrer queimada era menor que isso.
Alec caminha em sua direção e põe sua mão
transformada em seu pescoço, a mulher treme da cabeça
aos pés, ouço Manu reclamar:
— Alec, o que está fazendo?
Eu mesmo gostaria de ter perguntado isso, pois
não sei o que diabos ele está fazendo. A mulher grita e
grita e cai no chão. Com suas garras pingando sangue,
Alec abre sua palma, de lá, o sangue escorre mais
rapidamente, e um pequeno objeto brilhoso aparece.
— Ela os trouxe até nós, ela também os levou até
o grupo de minha mãe.
Mais que merda é isso? Esses caras eram
desgarrados, mas estavam completamente organizados.
Cada um sustentando a mão de sua companheira,
olhamos os cadáveres dos nossos inimigos, cada um
estava com um ponto de escuta em seus ouvidos. Vimos
também flechas, que estavam com suas pontas queimadas,
o que, provavelmente, foi o grande causador do fogo.
Voltamos ao centro da matilha e lá, o restante deles nos
encara.
— O que faremos agora, Alfa?
Questionam a Alec.
Ele os encara, vejo certo nojo passar pelo rosto
de meu amigo.
— Vocês? O que quiserem, recuso-me a ser um
Alfa de uma matilha como essa, que prefere ver seus
membros feridos a protegê-los.
— Mas elas são só...
Um começou a responder e Alec o cortou com o
olhar.
— Estou lhes dando uma chance de fugir como os
vermes que são, aproveitem.
Um a um, eles saíram, e ficamos só ele e eu.
— Odeio repetir as palavras desse idiota, mas o
que vamos fazer?
— Vamos para a matilha de Noah, alguém me
ensinou a cair, Ian, e eu aprendi a levantar. Essa não é
mais minha casa, não mais.
Capítulo 24– Surpresas
Inesperadas
Alicia

Não acredito que estou amarrada, de novo!


Movimento os meus braços e percebo que Lucas não
deixou as correntes apertadas, o que não significa que não
esteja puta com ele.
Suspiro e fecho os meus olhos com força. Quando
a minha vida virou essa merda de bagunça?
Passo quase toda manhã aqui, tendo pena de mim
mesma.
Eu até posso ser a companheira dele – claro que
só digo isso para mim mesma, ele não vai me ver
admitindo isso tão cedo, ou nunca –, mas não sou a merda
de uma vítima! Prometi a mim mesma que jamais seria
uma vítima novamente! Movimento meus braços mais uma
vez e me contorço, tentando passar as pernas entre as
correntes, até que consigo e posso me levantar. Dou um
pulo de comemoração no meio de sua casa. Primeiro
passo: completo!
Vou até a sua cozinha, tenho que dar um jeito de
tirar essas correntes, chamaria muita atenção se saísse por
aí com minhas mãos e meus pés acorrentados. Vasculho
suas gavetas, confesso que não sou muito cuidadosa no
processo, acabo quebrando algumas coisas e jogando
gavetas no chão. Já sou desastrada, acorrentada, então,
nem se fala.
Merda, preciso de um alicate!
Reviro sua cozinha do avesso e, quando não
encontro nada, passo para o quarto e reviro seu guarda
roupa, nada ainda!
Isso estava me frustrando e me deixando com uma
vontade imensa de fazer xixi! Vou até o banheiro e me
sinto caminhando no corredor da morte de tantas correntes
que se arrastam atrás de mim. Enquanto estava no vaso,
me aliviando – sério, todo mundo tem seu momento –,
olho para sua pia e vejo a minha última luz! O armário
abaixo da pia. Próximo a ele, tem alguns azulejos
faltando, como se tivesse sido reparado há pouco tempo.
Caminho e fecho os meus olhos: Por favor, por favor...
Abro a porta e...
Isso!!! O maldito do alicate!!! Caminho de volta
ao quarto de Lucas e começo a trabalhar nas correntes em
meu tornozelo, dá trabalho, mas consigo. Fase dois:
concluída!!! Faltam só as dos pulsos, o que é um pouco
mais difícil, já que tenho que segurar o alicate ao
contrário para partir a corrente. Acho que demorei meia
hora, e me pareceu horas a mais!
Wow, fico tonta quando me livro da prata, como
se meus instintos, todos os cheiros e sensações, voltassem
ao mesmo. Sinto o cheiro dele, merda... Vantagens da
prata: meu corpo traíra não me trai. Desvantagens: bem...
todo o resto.
Vou até o seu guarda roupa novamente e encontro
uma blusa de flanela. Sério, ele deve ficar bem bonito
nela... Faço um vestido tomara que caia com sua blusa e
caminho até a saída.
Coloco a minha mão na maçaneta da porta de
entrada e congelo; se sair agora, é bem provável que
jamais irei vê-lo. Vou encontrar Noah, contar tudo a ele, e
meu irmão nunca mais permitirá que Lucas se aproxime de
mim... Noah me trancará em casa ou colocará um
segurança em minha cola e vai... Caçá-lo...
Eu... Prometi a mim mesma que jamais serei uma
vítima, e isso inclui o meu irmão. Não preciso contar nada
a ele (é o que digo a mim mesma, não que não quero que
Lucas morra ou que se machuque). Decisão tomada, dou o
primeiro passo para fora do meu cativeiro, dou meu
primeiro passo para longe dele, e isso me dói mais do que
pensei que fosse doer.
Não vou de elevador, desço as escadas
rapidamente e, no hall do prédio, avisto a rua.
Caminho pela rua, não é um bairro que conheça...
É um bairro sujo, e as pessoas me olham de modo
esquisito. Eles também têm cheiro de doença e de morte
em sua grande maioria, preciso ligar para alguém!
Avisto um bar e caminho até lá, ou tento, mas
mãos me agarram e me arrastam para um beco, braços
fortes, já que não consigo sair deles. Sei,
automaticamente, que não é Lucas, e desespero-me. Sinto
cada vez mais cheiro de podre, e o pânico me toma.
— Calma, gracinha... O que alguém como você
está fazendo perdida por aqui?
Seu hálito me causa ânsias de vômito, seu toque
me causa asco.
Sei o que ele é, um desertor, um lobo sem matilha,
estou ferrada.
Acabei de sair de um confinamento para,
provavelmente, morrer nas mãos desse monstro.

Lucas

Isso aqui não é uma comunidade de fundo de


quintal, isso é uma puta de uma organização. Há médicos
analisando cada mulher separada por quartos, algumas
delas estão grávidas... Elas estão amarradas, sedadas...
Isso é nojento! E uma pergunta martela em minha mente:
Como há várias delas grávidas... O que fazem com os
filhotes?
Isso é maior do que esses idiotas podem pensar!
Se o que está acontecendo aqui continuar, vai ser o fim da
nossa raça... Como eles não conseguem ver isso?! Porque
são desgarrados... Eles não se importam com a raça
porque não possuem matilha, eles não têm laços com
outros. Desgarrados... Eu sou considerado um.
Quando um lobo abandona ou é expulso de sua
matilha, é difícil ser aceito por outra, ainda mais quando
sabem o motivo da expulsão ou do abandono. Sem matilha
e sem vínculos, ele se perde. O lobo começa a ficar
agressivo, começa a matar humanos, comer da sua carne...
Veja, o lobo está sozinho e não tem nada a perder. Eles se
tornam assassinos da pior espécie, os não quistos de toda
comunidade, a escória. Meu irmão e eu éramos de uma
matilha. Quando Noah o matou e expôs meu irmão diante
de toda a comunidade, eles me expulsaram... Soube que
nenhuma outra matilha nunca me aceitaria, não quando
minha família tinha alguma rixa com o Supremo, ele
poderia ter me matado, mas fui condenado a um futuro
pior. É natural para um lobo ter seu bando, ele se torna
mais forte, mais forte com seu Alfa... Por isso, a matilha
de Noah é a mais poderosa, eles dividem o poder do
Supremo também.
— Está ouvindo, Lucas?
Acordo dos meus devaneios quando o médico
nojento me chama.
— Claro.
Na verdade, não estava ouvindo, estava ocupado
com meus próprios pensamentos e tentando absorver tudo
deste lugar.
— Então, aguardarei dois dias para que nos traga
uma prova da sua fidelidade.
O desgarrado idiota que me trouxe aqui põe seu
braço em meus ombros e seguro-me para não arrancá-lo
dali com meus dentes.
— Conheço esse cara, ele é intenso! Vai conseguir
muitas delas.
A prova de fidelidade é... trazer mulheres.
Despeço-me do cientista e sinto-me sujo,
infectado.
Disse que sou considerado um desgarrado, não
que sou um. Depois do que aconteceu ao meu irmão, eu só
fiquei sozinho. Foi difícil, às vezes, meu lobo arranhava a
minha carne, enlouquecido por contato com outro de nossa
espécie. Ele e eu enlouquecemos por um tempo, passei
quase um ano na forma de lobo, porque doía demais na
forma humana, a tentação de atacar, de devorar a tudo e a
todos, era muito forte, e eu não sou esse tipo de cara, não
mesmo.
Passo novamente pelo mesmo processo – vendas
e cheiro estranho; depois, carro negro –, fico inebriado e
não consigo me localizar. Depois de quase meia hora – eu
acho –, o carro para na mesma rua em que me buscaram,
não é muito distante de casa. Então, vou a pé.
Porra, assim que chegar em casa, vou pegar
algumas roupas e levar Alicia para um lugar bem longe de
toda essa merda, ela vai ficar no meio dessa briga, podem
usá-la para tirar algo de Noah. Não vou deixar que a
usem, não mesmo!
Estou quase no prédio, sinto uma angústia, algo
estranho... Apresso o passo. Quando estava passando por
uma rua, meu corpo para do nada, meu lobo comandou o
meu corpo de homem e isso nunca aconteceu antes. Apuro
meus sentidos e tento ouvir algo.
— Não sabe o que achei, a irmã do Supremo, ela
simplesmente caiu em meu colo.
Isso era tudo o que precisava ouvir. E, dessa vez,
meu lobo não precisa comandar nada, corro, seguindo
aquela voz, e encontro Alicia, a minha Alicia, ali, nos
braços desse ser desprezível. Lágrimas caíam pelo seu
rosto.
Reconheço o seu captor, era um dos caras que
estavam lá, ele saiu logo após as apresentações.
— Não, cara, o novato chegou, não vou precisar
de reforços.
Ele desliga o telefone e me encara.
— Isso é um bilhete premiado, novato! Te dou dez
por cento. Vamos, ajude-me a contê-la.
Alicia não se move mais, ela me encara, vejo
decepção em seu olhar, ela não pode pensar que eu... Ou
pode?

Alicia

Tento sair de seus braços a todo custo, mas ainda


me sinto um pouco fraca por causa do tempo que fiquei em
contato com a prata e não consigo sair de seu forte aperto.
Ele pega um telefone e começa a falar com alguém, mal o
ouço, ainda debato-me, até que... Um cheiro chama a
minha atenção e, automaticamente, torno-me mais calma,
ele está aqui, estou salva.
— Não, cara, o novato chegou, não vou precisar
de reforços. – Ele desliga o telefone e encara Lucas, eles
se... Conhecem? Como assim “novato”?! – Isso é um
bilhete premiado, novato! Te dou dez por cento. Vamos,
ajude-me a contê-la.
É como ter meu coração apunhalado por uma faca,
ele olha dentro dos meus olhos e não vejo nenhuma
mudança em sua face. O que esperava dele? Pensei que
fosse ser salva por um cavalheiro em uma armadura
brilhante?
— Claro.
Ouço-o responder e seguro minhas lágrimas, não
vou chorar na frente dele! Lucas fica diante de mim, o
desgarrado me empurra para ele e Lucas me sustenta.
— Talvez precisemos dar uma surra nessa aí, ela
é muito arisca.
Lucas me aperta de encontro ao seu corpo, forte...
Mais forte que o desgarrado, debato-me em seus braços.
Eu não acredito! Estou caindo nisso novamente,
cometendo os mesmos erros, sendo a inútil de uma
vítima!
Sinto sua respiração ofegante em meu cabelo e
isso me acalma... Seu forte aperto em mim agora se parece
como um abraço, ele esconde o meu rosto em seu peito e
ouço alguém engasgar. Logo após, ouço algo cair.
Ele se afasta de mim e eu quase caio no chão com
a falta de seu corpo me apertando. Lucas está de costas
para mim, com uma de suas mãos se apoiando na parede e
outra pingando sangue no chão. Via suas costas em
movimento por causa de sua respiração acelerada. Olho
para um dos meus lados e o corpo do desgarrado está lá,
ao lado de seu coração, ele me... protegeu?
— Lucas, eu...
Começo a andar em sua direção.
— Não encoste!
Ele me olha e vejo tantas coisas... Mágoa, dor,
decepção... Coisas que consigo identificar porque já tive
a minha cota de cada uma delas. Ele estava decepcionado
com... comigo?
Faço algo que nunca pensei que fosse capaz,
quebro uma barreira dentro de mim, ando rapidamente até
ele e abraço a sua cintura por trás.
— Me desculpe.
Em alguns minutos, sua respiração se normaliza e
ele tira a mão da parede e aperta a minha. Ficamos um
tempo ali, só com esse pequeno toque, que poderia
significar pouco, mas dizia tanto.
Ele faz um movimento circular com seus dedos em
minha mão, um carinho leve. Então, suspira e tira as
minhas mãos de perto dele.
— Precisamos ir – Lucas diz, sem me olhar, e
simplesmente caminha. Ele estava me dizendo com esse
gesto que... Bem, ele estava me dando uma escolha, a
escolha de segui-lo ou não. Fico algum tempo com minhas
pernas bambas, observando seu corpo, que cada vez se
afasta mais do meu. Ele não olha para trás nem diminui o
passo. Me deixaria ir? Estou livre... Então, por que me
sinto assim? Como se minhas mãos e pés estivessem se
atando?
Quando o abracei, foi como uma manhã fresca e
ensolarada, foi um suspiro em meu coração. A pergunta é:
Estou disposta a desistir da única coisa que me fez
inteira?
Corro.
Corro atrás de Lucas e desvio o olhar, quando sei
que me encara. Estamos novamente em sua casa, ele está
com a mão na maçaneta para abrir a porta e me lembro de
toda a bagunça que fiz.
— É... talvez eu tenha redecorado – digo para ele,
e Lucas ergue uma sobrancelha, abrindo a porta. Fico ali,
na entrada, vendo-o admirar sua casa completamente
bagunçada. Sério, parece que um furacão passou por aqui.
Então, ele para em minha frente com seus braços
cruzados por sobre o peito.
— Você me deixou amarrada – argumento,
empurrando-o e entrando.
Não o olho, mas sei que sorri. Como sei que ele
está sorrindo? Não sei, deve ser coisas estranhas de
comp...
— Justo, eu acho.
Ele está me encarando agora, sério...
— O que foi? – Cruzo meus braços como ele. –
Perdeu alguma coisa aqui?
Ele se aproxima de mim, agora, ficando somente
alguns centímetros de distância entre os nossos corpos.
— Minha blusa ficou muito boa em você.
Ele me olha de cima a baixo e eu sorrio, olhando
para os meus pés. Então, Lucas ergue meu rosto e... Não,
ele não me beijou, ele disse:
— Precisamos conversar.
Não estava esperando um beijo mesmo... Ou será
que estava?
Ele me faz sentar no sofá e puxa um banquinho,
sentando-se em minha frente. Então, me conta... Fico
horrorizada.
Lucas me conta sobre sequestro de lobas, que
aquele desgarrado me sequestraria. Eles estão fazendo
testes em lobas, humanos fazendo testes em lobas! Há
várias em cativeiro e estão sendo magoadas... Isso
poderia ter acontecido comigo se... se ele não tivesse
chegado.
— Precisamos salvá-las! – Estou, agora, andando
de um lado ao outro, isso é um absurdo! Algo precisa ser
feito!
— Não sei onde estão mantendo-as, eles me...
deram um tipo de droga que nublou meus sentidos por
algum tempo. E não posso voltar, o cara que te atacou
disse para alguém de lá que eu estava com você. Quando
encontrarem o corpo, virão me procurar, precisamos ir
embora.
— E ir embora para onde?
— Vou te levar para casa.
— Pensei que morasse aqui.
— Não para a minha casa, para a sua – ele diz,
mas não me olha nos olhos.
— Noah vai...
— Eu sei.
Quando Noah souber de tudo ele vai... vai atacá-
lo, vai matá-lo!!! Isso é loucura, é insano!
— Posso ir sozinha para casa, você não precisa
se arriscar.
Ele me olha e sorri.
— Preocupada comigo, Ali?
— É... Não quero te ver morto.
— Não vou te deixar sozinha, vou te levar para a
matilha do Supremo e contar tudo o que sei a ele.
— E... Por que faria isso?
— Você não deveria estar me fazendo essa
pergunta.
Ele pega as chaves do carro, junta algumas coisas
em uma mochila e, em alguns minutos, já estávamos
saindo novamente de sua casa.
Ele se sacrificaria por... mim?
Capítulo 25 – Família
Luana

Chegamos ao condomínio de Noah à tarde, vim


para a floresta quase na mesma hora que chegamos. No
outro dia, Raquel veio ficar comigo, porém, no finalzinho
do dia, ela foi embora. É difícil manter a forma de lobo
(ainda mais a Lôra, que é uma iniciante), e a floresta é
muito fria à noite. Ian veio buscá-la, ela estava fria e
tremendo, desculpou-se comigo e foi com ele.
O dia já amanheceu, um novo dia. Sabe o que
dizem na comunidade de lobos? Que os que conseguem
ficar mais tempo em sua forma lupina são os desgarrados.
Contudo, o que acho é que quem consegue ficar mais
tempo nessa forma, é alguém que não suporte voltar para a
sua forma humana, porque dói, dói mais ser quem é do que
um lobo. Os desgarrados, até mesmo em sua forma
humana, possuem características de lobos, eles não
conseguem voltar completamente para a sua forma
humana... Ouço um estalo na floresta e um homem com
barba, moreno, e de sorriso acolhedor, caminha em minha
direção. Ele não é só músculo como outros lobos, é
esguio e forte. Rosno para ele, que me devolve com um
sorriso. Fico parada no lugar, ele me intriga, está
carregando um cooler e se senta ao meu lado.
— Ei, acho que não tivemos o prazer de nos
conhecermos, sou Ravi. Na verdade, você não teve o
prazer de me conhecer, já que eu opero aquelas belezinhas
ali. – Ele aponta para cima de uma árvore e, se não
tivesse me indicado o local, nunca teria encontrado a
câmera. – E andei de olho em você.
Encaro-o novamente. O que diabos ele está
fazendo aqui?!
— Sou o nerd da matilha – ele começa a falar
sobre si mesmo e põe suas mãos no chão, atrás de suas
costas, esparramando-se mais ainda onde está. Ravi olha
para frente, admirando a paisagem, e continua com sua
conversa ininterrupta. – Se é que existe um nerd na
matilha, posso dizer que sou o cara que entende de
tecnologia por aqui. A verdade é que conheço Noah
desde... Bem, sempre. Cresci com ele, na verdade,
Leandro e eu crescemos com ele.
Quando ouço o nome de Noah, rosno e me
aproximo.
Ele ergue as suas mãos no ar.
— Ei, não estou aqui para defendê-lo, e ele não
me enviou. Na verdade, se soubesse que estou aqui, ele
me daria uma bronca imensa! – Com isso, Ravi sorri
novamente, se estivesse em minha forma humana, estaria
sorrindo também. Parece tão fácil sorrir perto dele, como
se emanasse essa energia de seus poros. – Não concordo
com o que Noah fez lá... Vê? Há homens na matilha que
acreditam na igualdade, no respeito mútuo... É que as
coisas estão mudando aos pouquinhos. O problema é que
há muito mais deles, que ainda acreditam na velha forma,
nos velhos costumes... Mas o mundo mudou, não é, Lua?
Ele olha para mim.
— Posso te chamar de Lua? Sei que seu nome é
Luana e tudo mais...
Deixo a minha língua pender por um lado da
imensa boca de meu lobo, me sinto confortável com ele.
— Vou levar isso como um sim. – Aproximo-me
mais dele e sento-me ao seu lado, consigo sentir o calor
emanando de seu corpo, e é bom sentir a proximidade de
alguém, de alguém da matilha de Noah. – Então, Lua, acho
que o mundo mudou, tanta tecnologia, tanta interatividade,
tantas pessoas exercendo seus direitos, mulheres que são
inteligentes e independentes... Mas vejo as nossas lobas
em um casulo, elas têm medo, sabe? Medo de ser... Bem,
alguém.
Reviro os meus olhos, não é medo, é opressão.
— Claro que o sistema que existe nas matilhas
não é favorável às mulheres, nunca foi, mas pode estar
mudando... Aos poucos, como disse. E Noah... Vocês não
pararam muito para conversar, não é? – Dou uma bufada
com minha respiração. – Foi o que pensei... Como te
disse, somos amigos desde pequenos, ele sempre foi
preparado para ser um Supremo... Noah foi um lobo que
já nasceu com olhos vermelhos, uma promessa de um
Supremo Alfa. Então, ele cresceu com esse peso
gigantesco sobre as suas costas, uma criança que já tinha
tantas responsabilidades... Ele sempre foi um chato. –
Ravi gargalha e enxuga algumas lágrimas que caem de
seus olhos. – Sério, o cara nunca soube se divertir.
Ele abre o cooler e tira de lá um sanduíche de
carne. Na verdade, era carne com pão, e não pão com
carne. Ele põe um em minha frente. Eu empurro o pão de
cima e como só a carne de dentro. Ele coloca mais um
para mim e pega outro para si.
— Onde estava... Ah, o Noah! Então, ele sempre
foi sério, responsável, solícito e poderoso. Esse era o
nosso Noah, mas ele costumava sorrir, às vezes, se
divertir um pouco também. Então, em um dia... Nossa
matilha antiga foi atacada por desgarrados. Noah era
apegado aos seus pais, mas, principalmente, a sua mãe.
Ele amava aquela mulher. No ataque, presenciou sua mãe
ser rasgada de fora a fora. Naquele dia, nós perdemos
tudo, Leandro, Noah e eu perdemos toda a nossa família...
E Noah se tornou... Duro. Alicia tinha só nove anos, Noah
praticamente a criou. Ele prometeu que iria protegê-la...
Ele prometeu que protegeria a nossa raça.
Ravi fica calado por algum tempo, suspira e
recomeça:
— Não concordo com algumas coisas de Noah,
mas... Sabe por que eu resolvi segui-lo? Eu só queria tirar
um pouco do peso das suas costas, nem que seja só um
pouco e... Noah tem um bom coração, ele realmente se
preocupa com o nosso povo, com todo ele, homens,
mulheres, crianças... Noah quer protegê-los. Olhe para as
mulheres de nossa matilha, elas são superprotegidas, acho
que ele ficou com a imagem de sua mãe na cabeça e em
sua mente, as mulheres devem ser protegidas pelos
machos... Isso poderia ser verdade, alguns séculos atrás.
Mas a verdade é que vocês são e podem ser tão poderosas
quanto nós, tão fortes quanto... Talvez, precisemos
conhecer alguém, uma mulher forte. Uma loba que sirva de
inspiração para as outras, alguém que faça com que elas
tenham orgulho do que são.
Ele levanta sua mão e faz carinho em minha
pelagem.
— E algo me diz, minha mais nova amiga, que
esse alguém é você.
Eu? A matilha de Noah deve me achar estúpida.
Ravi se levanta e limpa a sujeira de sua calça.
— Eu vou indo. Obrigado por me ouvir, estava
realmente precisando conversar com alguém, sabe,
desabafar e coisa do tipo – ele diz isso como uma
brincadeira, nós dois sabemos que quem está precisando
desabafar e ser ouvida aqui sou eu. – Ah, Lua, não diz
para o Noah, o cara pode realmente me bater e... Vê esse
rostinho? – Ele aponta para si mesmo. – Eu realmente o
amo.
Sorrindo, Ravi se afasta de mim e eu fico ali, na
floresta, pensando... Poderia voltar, mas não sinto
vontade, nada que me motive a voltar para aquela casa e
ver Noah com outra mulher.
Um cheiro familiar invade minhas narinas, respiro
fundo e dou um uivo forte com todo o ar do meu pulmão.
Transformo-me de volta, Raquel me deixou um par de
roupas, um short e uma blusa folgada. Então, as coloco e
corro, corro para aqueles cheiros tão familiares.
Novamente, toda a matilha está reunida no mesmo
local do dia em que cheguei, e Noah está lá. Ele, Ian,
Raquel, não ouso olhar em sua direção, só o sinto ali.
Continuo correndo, até que encontro com braços fortes e
reconfortantes que me apertam contra seu corpo.
— Minha pequena pestinha, como senti a sua falta
– Ian diz, fazendo carinho em meu cabelo e me apertando
com força contra o seu corpo.
Aperto a sua cintura e ele ri.
— Ei, minha menina, vai acabar me matando
desse jeito! – Ian brinca, ele tem toque, cheiro, tudo de
casa.
— Ei, largue a minha irmã seu, tarado! – ouço a
voz de Alec e sorrio, largando Ian e abraçando o meu
irmão.
Ele me afasta e encara o meu rosto, meus olhos
que, aposto, estão anormalmente mais claros – é isso o
que acontece quando fico por muito tempo transformada,
meus olhos não voltam por completo. – Ele ergue a sua
mão e eu movo meu rosto para o lado, fazendo com que
fique em contato direto com sua palma, fecho os meus
olhos, sentindo o seu toque.
— Oi, Alfa.
Abro os meus olhos quando ouço a voz de Manu.
Quando ela me chama assim, não posso ouvir nem o som
de uma agulha caindo no chão. Ela só poderia me chamar
assim se minha mãe...
— O que aconteceu com nossa mãe, Alec?
Ele olha para algo atrás de mim, para alguém. Sei
que é Noah, sem que precise me virar.
— Eu sinto muito, Lua – meu irmão me diz e
caminha atrás de Noah. Ian roça em minha mão quando
passa por mim, fazendo um gesto de conforto, e eu fico
ali, olhando para a cara de Manu e de Priscila, que
parecem estar confusas.
— O que está acontecendo aqui? – rosno para as
duas, que se sobressaltam com meu tom, não queria
assustá-las, mas estava começando a me irritar.
— Vamos para a minha casa, poderemos
conversar – ouço a voz de Raquel e concordo com a
cabeça. Caminhamos em direção a uma bela casa, estamos
em silêncio, algumas pessoas nos olham com curiosidade,
mas não interferem.
Algo não está certo, não mesmo...

Noah

A falta que sinto de Lua me deixa com humor do


cão. Ninguém ousa atravessar o meu caminho, eles mal me
olham na cara. Que tipo de líder fodido estou me
tornando? Vai fazer três dias, três porra de dias sem ela!
Ontem, sua amiga voltou, voltou sem a minha mulher. Ela
me disse que Lua está magoada e que não falou nem com
ela. E, se não falou com ela, que vá sonhando que falará
comigo.
Às vezes penso que a companheira de Leandro
não tem freios, e ela não me teme, ou teme e me enfrenta
assim mesmo, me enfrenta para proteger Lua. Proteger Lua
de mim.
Quando que me tornei esse tipo de cara?
Merda... Já vi sangue demais sendo derramado, só
quero protegê-la, é pedir demais que ela entenda isso?
Ninguém pode enxergar Lua como sendo a minha fraqueza,
senão, ela será o alvo de todo aquele que deseja me ferir.
É preferível que eles pensem que eu... Que eu não me
importo com ela. Quantos lobos existem que encontram
suas companheiras e, mesmo assim, não se importam
muito? Eles se deitam com outras e continuam suas vidas
normalmente. Mas eu... Eu desejo somente o seu corpo,
somente o seu cheiro, somente a sua voz, e isso está me
pondo louco.
— Ei, cara, tem um carro chegando. Avisaram que
é Alec e Ian – Leandro me avisa da porta do meu
escritório. Alec? Algo errado aconteceu para ele vir até
aqui sem ao menos avisar.
Saio da minha casa e vou até a área comum da
matilha, todos saíram de suas casas para ver quem eram
as pessoas que tinham chegado. Estava pronto para
questionar Alec sobre o motivo da sua aparição repentina,
quando ouço seu uivo, todos nós ouvimos, na verdade.
Meu coração se acelera em expectativa, vejo o olhar de
Alec e de Ian caírem sobre mim, eles me questionam com
seus olhos, mas pouco me importo. Só preciso vê-la, tocá-
la... Eu preciso dela.
Vejo Lua, descalça, sair da floresta. Todo o
pessoal da matilha sai do seu caminho, pois ela caminha
em linha reta, como se estivesse seguindo um cheiro,
minha pele coça de antecipação, ela corre e...
Passa direto por mim.
Lua não abraça o seu irmão, seria o
compreensível ela estar abraçando seu irmão gêmeo, mas
não, ela abraça Ian.
Fico ali, parado como um idiota, olhando aquela
demonstração pública de afeto.
— Minha pequena pestinha, como senti a sua falta
– Ian diz, e tudo o que entendi da sua frase foi a palavra
“minha”. Minha visão nubla e vejo tudo em vermelho,
estou perdendo o controle. – Ei, minha menina, vai acabar
me matando desse jeito! – E, novamente, tudo o que
absorvo é “minha”.
Estou pronto para atacá-lo, para matar aquele que
chama a minha companheira de sua, ela não pode estar
fazendo isso comigo, não aqui, em frente a toda a matilha.
— Ei, largue a minha irmã, seu tarado! – a voz de
Alec me desperta do torpor.
Vejo quando Lua larga o corpo de Ian e abraça seu
irmão, ele a afasta e põe sua palma em seu rosto. Lua,
como um filhotinho, roça sua bochecha na mão do irmão.
Eu quase iria... Perdê-la para sempre. Lua nunca
me perdoaria se atacasse Ian, ela nunca mais olharia para
mim.
— Oi, Alfa – ouço uma das mulheres se
direcionar a ela, e toda a matilha me encara, como se
esperasse que eu interferisse nesse titulo. Vejo Ravi olhar
para mim com um sorriso imenso.
Por alguns segundos, vejo o corpo de Lua
preocupado só em respirar.
— O que aconteceu com nossa mãe, Alec? – ela
pergunta em um sussurro.
Alec me olha e nego com a cabeça, para informá-
lo que ela não sabe de nada.
— Sinto muito, Lua. – Alec e Ian passam por ela e
caminham até mim, posso ver o rosto de Lua de relance
quando ela se vira, seus olhos ainda estão como os de sua
loba, e sua feição é de... sofrimento.
Rosno e caminho com passos firmes para a minha
casa, com Alec e Ian logo atrás de mim.

Luana

Sentamos em uma sala bem iluminada.


— Calma, Estranha, está começando a me
assustar. – Raquel senta-se ao meu lado e segura a minha
mão, que está cerrada em um punho. Suspiro e tento me
acalmar.
— Certo, meninas, falem o que aconteceu depois
que sai de casa.
Quem responde é Manu:
— Amanda, a garota nova... Ela chegou na
matilha. Estava machucada e cansada, disse que o
acampamento foi atacado, desgarrados, que queriam
novamente sequestrar mulheres. Mas parece que não eram
os mesmos que tentaram nos levar. – Manu para um pouco
e olha para Priscila. – Ela disse que sua mãe atacou um
deles e o outro, que a segurava, e ela conseguiu fugir,
Amanda disse que sua mãe gritou para procurar por você.
Então, ela não parou até chegar na casa de Alec... Mas ela
nos contou que... eles mataram a sua mãe.
Sinto o corpo de Raquel apertar o meu, mas sinto-
me fria, fria por dentro e por fora. De uma hora para
outra, o chão some dos meus pés, meu mundo desaba...
Ela não pode ter enfrentado tanto para simplesmente...
Simplesmente morrer. Morrer, como uma flor. Morrer,
acabada, como um objeto que se estraga e é jogado fora.
— Sinto muito, Alfa – Priscila diz em um fio de
voz.
Sinto vontade de voltar, todo o meu corpo clama
para que eu volte para a mata, para que me transforme,
para que fuja. Olho para as três mulheres ao meu redor,
elas precisam de mim, certo? Então, não posso sentir...
Sentir nada. Escondo o sentimento de perda, junto com a
falta que sinto de Noah, em uma caixa que estava
começando a ficar cheia demais.
— Sinto que isso é só o início da história. Onde
está Amanda? – Mantenho a minha voz firme.
— A matilha de seu irmão foi atacada...
Desgarrados colocaram fogo em tudo e levaram as
mulheres.
— Merda! Péssimo momento histórico para me
tornar uma loba! – Raquel diz, tentando deixar o ambiente
mais leve, mas não consigo pensar em nada.
Imagino o lugar em que nasci e cresci queimado,
tudo em chamas, todas as mulheres, agora sei lá onde,
sofrendo...
— Levaram-na? – pergunto, referindo-me a
Amanda.
— Não, Alec a matou.
— Alec o quê?!
— Ele... ele desconfiou pelos desgarrados terem
nos encontrado. Encontraram o acampamento de sua mãe
em menos de uma semana que Amanda se juntou e, um dia
depois que ela foi para a matilha, eles foram atacados
também. Alec disse que quando Amanda foi sequestrada,
eles a doparam, e ela acordou com uma dor na cabeça e
no pescoço, e sua jaula estava aberta. Ela simplesmente
saiu dali andando, sem ninguém a impedir. Então, ele tirou
de seu pescoço um objeto que diz ser um sinalizador.
Porém, quando ele tirou isso de seu corpo, ela
simplesmente morreu.
Não sei o que pensar, eu simplesmente estou
estarrecida demais com toda a situação. Algo precisa ser
feito, elas não podem ter simplesmente sido sequestradas
e ninguém fez nada!
— Como deixaram que todas elas fossem
sequestradas?
— Eles sabiam o que estavam fazendo, Alfa. Os
desgarrados estavam organizados, com comunicadores e
tudo. Eles tacaram fogo em todas as casas, o que obrigou
todos a saírem, foi uma confusão, toda a fumaça e tudo
queimando... Algumas pessoas tentavam apagar o
incêndio, foi difícil perceber, na hora, que estava sendo
um ataque. Eles deixaram claro que queriam as mulheres,
e a maioria da matilha preferiu não interferir – ela fala
isso rosnando, revoltada como eu. – Alec e Ian eram os
únicos que lutaram, e não podiam fazer muita coisa contra
todos eles, só puderam nos... Proteger.
— E por que Alec está aqui?
— Ele rejeitou o bando – ela afirma isso com a
cabeça erguida, orgulhosa de Alec. – Disse que não
queria chamar covardes de família, Lua. Então, vai se
juntar ao Supremo. Claro, se ele aceitar.
Penso em algo... Como tudo isso aconteceu e...
— Vocês tentaram falar comigo?
Elas olham uma para a outra.
— Nós... Dissemos para Alec que falaríamos com
você, e ele disse que te ligaria.
Ele pode ter realmente me ligado, estava na
floresta e como loba, meu celular provavelmente está sem
bateria.
Levanto-me decidida.
— Lua, o que vai fazer? – Manu me pergunta,
preocupada, e Raquel já está sorrindo, ela sabe o que vou
fazer.
— Não vou ficar aqui, enquanto os homens ficam
lá, conversando sobre o que está acontecendo! Não serei a
expectadora da porra da minha vida!
Claro, isso seria mais significativo se não tivesse
que parar no meio da rua e farejar, já que não sei onde
Noah mora.
Caminho em direção a uma mansão, é a maior
casa daqui, tem um jardim imenso e todo florido, sua
arquitetura é imponente e, não sei por que, mas me faz
lembrar – e muito – de Noah, do seu jeito, é a casa
perfeita para ele. Algumas pessoas nos olham passar, mas
não interrompem. Digo “nós” porque Raquel não perderia
isso por nada, e Priscila e Manu estão logo atrás de mim.
Disse que ninguém havia me interrompido?
Exceto por uma pequena vadia que resolveu entrar em
minha frente quando estava avistando uma porta, aposto
que eles estão ali.
— Queridinha, os moços grandes estão ali,
discutindo coisas sérias, você não pode entrar – ela diz,
como se esse espaço lhe pertencesse, como se a casa de
Noah fosse sua também.
Estamos em um corredor, um corredor cheio de
quadros que, aposto, são muito caros, e a pego
desprevenida quando invisto contra o seu corpo e a
coloco de encontro a parede.
— Queridinha, você pode abrir as pernas para o
Noah, mas nunca, jamais, esqueça-se de quem eu sou. –
Ergo-a na parede com a minha mão, que já estava
transformada, e vejo-a se debater em busca de ar. – E
nunca, jamais, esqueça-se de quem você sempre será: uma
ninguém.
Encosto a minha boca, que já estava transformada,
em seu pescoço, o cheiro ocre de seu medo enche as
minhas narinas e delicia a minha loba. Mordo-a ali,
tirando muito sangue, uma mordida feia. As mordidas não
servem só para marcar um companheiro, quando um Alfa
morde alguém de sua matilha, tirando seu sangue, significa
que esse alguém é uma pessoa indigna.
Jogo-a para o lado, seu corpo sai arrastando
quadros por toda a parede.
Continuo o meu caminho até a sala e, lá, encontro
Ravi, Noah, Ian, Leandro e Alec.
— Merda, Lua! Isso é sangue em sua boca?
Meu irmão parece preocupado, porém, estou
ocupada demais olhando dentro dos olhos de Noah. Sorrio
e lambo os meus lábios, ele acompanha cada movimento
meu, uma de suas mãos treme por cima da mesa.
— Não se preocupe, maninho, não é meu. –
Sorrio.
Passo meu antebraço em minha boca, não estou
disposta a ter mais do sangue dessa vadia louca dentro de
mim.
— O que está fazendo aqui, Lua? – ele pergunta,
com seu olhar sério.
— Estou aqui para a reunião, acho que meu
convite se extraviou.
— Você fica quase três malditos dias na floresta,
sem me dizer uma palavra, quase arranca o meu pé fora
quando fui atrás e estava agarrada com Ian na frente de
toda a matilha, não tem o direito de estar aqui. – Ele rosna
cada palavra.
E eu bato na mesa, olhando para ele.
— Sério, caras, acho melhor sairmos daqui e...
Ravi começa a falar, mas Noah e eu falamos
juntos:
— Fiquem!
— Direito de estar aqui?! Quem você pensa que é
para vir me falar sobre direitos? Você me montou sem o
meu total consentimento, você me tirou da minha casa e
me prometeu uma vida, você se atracou com a primeira
vadia que viu em sua frente e tentou me montar à força na
floresta. Agora, eu repito, “Supremo”, quem é você para
falar sobre direitos? Eu sou a Alfa daquela matilha de
mulheres, você não ficará aqui, discutindo sobre elas, sem
que eu esteja presente. Se isso não diz respeito a mim,
então, não dirá a nenhum de vocês!
— Lua... – ele rosna meu nome novamente.
— Já chega, Noah! Isso aqui não é sobre nós dois!
Você não está vendo? Os desgarrados estão cada dia mais
organizados; se continuarem a atacar assim as pequenas
matilhas, nossa raça se extinguirá! Porque, sem as
mulheres, não haverá mais filhotes, nós seremos extintos!
Mas eu só vim aqui dar a minha opinião... Sabe o que
acho? Acho que isso que aconteceu com a matilha do meu
irmão vem acontecendo com matilhas ao redor de todo o
mundo. Porém, os alfas são idiotas, prepotentes e cheios
de si demais para reportar isso a você. Se quiser um
conselho, entre em contato com todos e os obrigue a dizer
a verdade, mapeie os ataques, precisamos ter uma
dimensão de tudo isso.
Olho para cada um presente, meu irmão e Ian
concordam com o que falei e Ravi está... Bem, com um
sorriso imenso no rosto.
Dou de ombros e caminho até a porta. Antes de
fechá-la, ouço Noah dizer:
— Não vá para a floresta, Lua, esta é sua casa, e
precisamos conversar.
Fecho a porta sem responder. Não sei se
“preciso” conversar com Noah.
— Lua, para onde está indo?
As meninas correm para me acompanhar, já que
estou quase na saída da casa.
— Para a floresta.
— Mas...
— Eu sei o que ele disse, eu só preciso ficar um
pouco só, volto à noite.
Caminho, e nenhuma delas me acompanha, dando-
me espaço. Eu só preciso...

Noah

Alec estar aqui não é um bom sinal. Chamo Ravi e


Leandro, eles são meus imediatos na matilha e meus
amigos desde... Bem, desde sempre. Alec e Ian sentam-se
em minha frente no escritório, ainda não consigo olhar
para Ian sem imaginar Lua o abraçando, e isso está me
deixando com os nervos a flor da pele.
— Por que estão aqui?
Sou direto, e eles se entreolham.
— Minha antiga matilha foi atacada, levaram
todas as mulheres.
— Antiga? – questiono-o.
— Sim, Supremo, viemos para lhe pedir que
aceite que nos juntemos a sua matilha.
Isso significa ter Lua próxima a ele, isso não me
deixa confortável. Sei que Lua e Ian não tem nada de
carnal, não é disso que sinto ciúmes. Ciúmes, é essa a
palavra, estou me contorcendo e me corroendo por dentro
de ciúmes. Mas tenho ciúme do modo com que ela se
refugiou nele, como se fosse seu porto seguro, sinto
ciúmes da confiança que minha Lua deposita nele, da
amizade e da cumplicidade... Perto dele, Lua se permite
ser... vulnerável. Ao contrário de mim, vejo Lua se armar
e construir muros toda a vez em que a olho, e quanto mais
tempo demora, mais os muros se solidificam.
— O que aconteceu com o resto de sua matilha,
Alec?
— Noah, nós fomos atacados por desgarrados,
eles estavam organizados, com equipamentos de alta
tecnologia, há algo grande acontecendo. O resto da
matilha não lutou, eles não defenderam as mulheres que
estavam sendo sequestradas. Não sei o que aconteceu com
eles, os abandonei. Na verdade, eles me abandonaram
quando escolheram não lutar, lhes dei ainda o benefício de
saírem com vida.
— Vocês ficarão em minha casa por enquanto.
Construirei uma para cada em minha propriedade. Sejam
bem vindos à matilha.
Algo grande está acontecendo? Claro que está,
esses sequestros não são normais, e o mais anormal ainda
é a organização de desgarrados, eles não andam em
bandos, muito menos atacam em conjunto. E onde diabos
que está a peste da minha irmã? Com toda essa história de
sequestro, ela deveria voltar para casa.
A porta do escritório é escancarada com força e
Lua, Raquel, Manu e Priscila invadem com suas cabeças
erguidas. Mas só consigo olhar para ela, é a primeira vez
que ela olha em meus olhos desde quando viemos para cá,
sinto tanta falta dela que todo o meu corpo treme.
— Merda, Lua! Isso é sangue em sua boca?
A voz de Alec me força a descer meu olhar para a
sua boca, sigo todo o percurso de sua língua, que passa
pelos seus lábios cheios de sangue, minha companheira é
poderosa e linda, e isso é sexy como a porra! Porém, ela
não deveria estar aqui.
— Não se preocupe, maninho, não é meu – ela
responde a Alec, mas não desprende seu olhar do meu.
Alivio-me por saber que o sangue não é dela. Contudo, se
não é dela, de quem é? Alguém da matilha,
provavelmente... Olhar para Lua me deixa duro como uma
rocha, essa garota está me pondo louco.
— O que está fazendo aqui, Lua? – Não sei se
consigo me conter por muito mais tempo, o desejo está
nublando minha vontade e meus julgamentos, ela precisa
sair daqui antes que ele comece a nublar meus atos.
— Estou aqui para a reunião, acho que meu
convite se extraviou – ela diz, com um sorriso no rosto.
Não quero envolvê-la nisso, esse assunto é perigoso,
ainda mais para ela, e vamos lá, Lua fica sem mal me
olhar por todo esse tempo e agora está aqui, encarando-
me porque não recebeu um convite para uma reunião?
— Você fica quase três malditos dias na floresta
sem me dizer uma palavra, quase arranca o meu pé fora
quando fui atrás de você e estava agarrada com Ian na
frente de toda a matilha, não tem o direito de estar aqui –
rosno cada palavra, deixo meu poder pingar por cada
sílaba.
Lua se aproxima mais de minha mesa e bate suas
duas mãos no tampo. Agora, estamos cara a cara, e ela me
enfrenta como um igual. Nenhum macho da matilha jamais
foi corajoso o suficiente para fazer isso, e aqui está, Lua,
a minha companheira, enfrentando-me sem um pingo de
receio.
— Sério, caras, acho melhor sairmos daqui e... –
ouço Ravi começar a falar.
Lua e eu o interrompemos e dizemos ao mesmo
tempo:
— Fiquem!
Ela me olha por um tempo, não desvia o olhar.
— Direito de estar aqui?! Quem você pensa que é
para vir me falar sobre direitos? Você me montou sem o
meu total consentimento, você me tirou da minha casa e
me prometeu uma vida, você se atracou com a primeira
vadia que viu em sua frente e você tentou me montar à
força na floresta. Agora, eu repito, “Supremo”, quem é
você para falar sobre direitos? Eu sou a Alfa daquela
matilha de mulheres, você não ficará aqui, discutindo
sobre elas, sem que eu esteja presente. Se isso não diz
respeito a mim, então, não dirá a nenhum de vocês!
Ela solta cada palavra e as sinto como um festim
me acertando no coração a cada sílaba. Porque ela estava
certa, Lua estava fodidamente certa sobre o meu
comportamento. Tudo o que ela fez a mim foi uma reação
do que eu lhe causei. De repente, sinto-me cansado,
cansado de lutar contra tudo, cansado de lutar contra ela.
Só queria abraçá-la, apenas senti-la próxima a mim.
— Lua...
— Já chega, Noah! Isso aqui não é sobre nós dois!
Você não está vendo? Os desgarrados estão cada dia mais
organizados; se continuarem a atacar assim as pequenas
matilhas, nossa raça se extinguirá! Porque, sem as
mulheres, não haverá mais filhotes, nós seremos extintos!
Mas eu só vim aqui dar a minha opinião. Sabe o que
acho? Acho que isso que aconteceu com a matilha do meu
irmão vem acontecendo com matilhas ao redor de todo o
mundo. Porém, os alfas são idiotas, prepotentes e cheios
de si demais para reportar isso a você. Se quiser um
conselho, entre em contato com todos e os obrigue a dizer
a verdade, mapeie os ataques, precisamos ter uma
dimensão de tudo isso.
Ela, então, tira o seu olhar do meu e sinto-me
exposto, exposto ali, sem o seu olhar, se é que isso é
possível. Lua olha para cada um, Ravi está com seu
maldito sorriso no rosto, esse cara não consegue se
controlar nunca, tudo, para ele, é uma imensa piada.
Minha Lua sai pela porta e sinto que a estou perdendo, a
cada dia, a cada segundo, a cada respiração.
— Não vá para a floresta, Lua, esta é sua casa, e
precisamos conversar.
Mas ela vai embora, vira-se e não olha para trás.
Imagino-a caminhar sem jamais olhar para trás, sendo só
um pontinho no horizonte, um pontinho que eu jamais serei
capaz de alcançar novamente.
— Eu acho que ela está certa – Ravi começa a
falar, tirando-me do meu devaneio. – Pensem comigo, se
uma matilha diz para outros que foram atacados por
desgarrados e os mesmo roubaram suas mulheres, é um
sinal de fraqueza, é meio óbvio que qualquer um tentaria
esconder isso a todo o custo.
Suspiro.
— Ravi e Leonardo, entrem em contato com os
outros Alfas. Alec e Ian, acompanhem-me, irei lhes
mostrar seus aposentos.
Quando abro a porta que dá para um corredor,
vejo todos os quadros jogados no chão, há um rastro de
sangue percorrendo toda a extensão da parede.
— Mas o que significa isso? – rosno para
ninguém em especifico.
Ian e Alec dizem ao mesmo tempo:
— Lua.
Quando chegamos até a sala, Lorenlay estava
sendo atendida pelo médico da matilha, havia uma
mordida em seu pescoço, algo feio. Ela corre de encontro
a mim, está se debulhando em lágrimas.
— Olhe o que ela fez comigo, Noah! Essa mulher
é louca! – ela diz, fazendo beicinho, e tenho pena de
Lorenlay por pensar que tinha alguma chance comigo. –
Ela precisa ir embora! Não podemos ter uma completa
descontrolada na matilha!
Ok, talvez isso já tenha ido longe demais.
— Cal, como está à ferida? – pergunto para o
nosso médico.
— Não foi você quem fez isso, Alfa? – aceno com
a cabeça negativamente.
— Por quê?
— Essa mordida não vai sarar, talvez se cure
como um ferimento humano... A única pessoa capaz de
fazer esse tipo de ferimento em sua matilha seria você.
— Eu disse! Ela é perigosa!
Só a voz dela me enjoa. Afasto-a de mim.
— Quero que me ouça com atenção, Lorenlay. Lua
é a minha companheira, a Sua Alfa. E a próxima vez que
tentar algo contra ela, serei eu a fazer esse machucado em
você. E pode apostar que não serei tão gentil.
Ela me olha assustada e corre, chorando, isso já
foi longe demais, preciso de Lua, preciso dela como o ar
que respiro, como a Lua que mantém cada lobo dentro de
nós forte.
Vejo as mulheres entrarem na casa sem ela.
— Onde ela está?
— Na floresta – Manu diz, enquanto abraça Alec.
Merda, parece que Lua tem o prazer de fazer
completamente o oposto do que peço. Rosno.
— Ela descobriu que nossa mãe está morta, Noah,
Lua está sofrendo – ouço seu irmão dizer ao meu lado.
— Ela disse que volta à noite – sua companheira
complementa.
Caminho até a entrada da minha casa e sento-me
em um banco no jardim, vejo as horas passarem, ela quer
um tempo, darei seu tempo. Enquanto o dia cai, passo por
minha mente o que poderia dizer a Lua para que ela
voltasse para mim, para que ela me... perdoasse por tudo.
Capítulo 26– Voltando Para
Casa
Luana

Perdi meu pai, mas bem, ele era um filho da puta.


Eu nunca havia perdido alguém que amasse... Perder,
engraçado essa palavra... “Perder”, como se tivesse
perdido um sapato ou um broche na floresta... Perder
implica em achar, e eu não posso encontrá-la. Nunca mais
poderei sentir seu cheiro, ouvir suas broncas. Como
alguém pode simplesmente ser apagada do universo?
Como alguém pode se sentir dono desse tipo de poder de
possuir uma imensa borracha e apagar uma pessoa? Uma
vida?
Sabe aquele sentimento estranho quando você
perde algo importante e fica com aquele desejo insano de
procurar?... Então, revira a casa pelo avesso, bagunça
tudo, procura em todo o canto, até encontrar aquilo que
havia perdido? Estou assim, ando pela floresta devagar,
ando pela floresta porque não tenho uma casa para revirar
ou colocar abaixo, e eu não corro desesperada, minhas
pernas parecem estar em câmera lenta. Sim, pernas, não
me transformo em loba porque, neste momento, eu quero
sentir, quero sentir cada mínima dor, sei que devo isso a
ela. Sendo assim, ando devagar e meus passos parecem
pesados, eles fazem um barulho imenso, os galhos que
piso parecem gritar com cada passo meu, e eu só caminho.
Caminho, procurando por algo que nunca irei encontrar.
Então, imagino... Quando que vou me cansar?
Quando que vou parar de procurar? Isso acontece
eventualmente, não é? Quando se perde algo e não o
encontra, você o esquece, o substitui por outro similar,
você segue em frente sem aquilo.
Cada canto do meu coração dói agora, como se
todos os vasos que bombeiam sangue nesse órgão
tivessem se rompido ao mesmo tempo. Nem me sinto mais
caminhar, é como se estivesse flutuando. Penso que está
chovendo, mas são só meus olhos, nublados de lágrimas
não derramadas. Vejo tudo por um vitral embaçado e
penso em como que vou conseguir desembaçá-lo...? Como
vou conseguir enxergar novamente, se tudo agora está
nublado?
É engraçado... Sempre vi aqueles que perderam
alguém serem consolados por outros que dizem o quanto
sentem muito, o quanto deveríamos ser fortes... Sentem
muito... Pesar, pena, não é sentir. Sentir muito é ter tantos
sentimentos dentro de você que qualquer outra mínima
coisa a se fazer parece com um trabalho gigantesco. No
meu caso, o trabalho gigantesco agora é caminhar. Eu
paro, estanco, porque, neste momento, eu sinto muito:
muita dor, muita tristeza, muita saudade, muita felicidade,
muita raiva, muita confusão... Sorrio, mesmo em meio às
lágrimas, e, por um momento, admiro-me que meu rosto
ainda saiba fazer isso. Sorrio, lembrando-me de tudo o
que ela me ensinou. Sorrio porque ela fez de mim uma
mulher forte.
A noite cai e ainda dói, eu me pergunto por que o
mundo continua girando e por que as coisas continuam
acontecendo ao meu redor. Pergunto-me por que eles não
pararam junto comigo, se não sentiram que algo está
faltando, que um pedaço sumiu? É como uma ferida
aberta, não a perdi, ela foi arrancada de mim, como se
alguém tivesse levado um pedaço de algum órgão meu e
ele continuasse sangrando, sangrando e me inundando por
dentro.
Minhas pernas começam a se mover, eu ando,
mesmo não querendo andar; respiro, mesmo não querendo
respirar, e quando paro em frente à Noah, eu o abraço,
mesmo não querendo abraçar. Assim como preciso me
mover, como preciso respirar, eu também preciso dele.
Noah

A tarde passa lentamente. Vejo as pessoas da


minha matilha passarem por mim sem entender muito a
minha presença ali. Sinto a presença dele ao meu lado,
nem preciso olhar para sua cara para saber que está
sorrindo.
— Merda! Um dia, vou quebrar seus dentes.
— Sempre diz isso, Noah, não seja um idiota.
Ergo uma sobrancelha e o encaro. Ravi e Leandro
são a minha família, logicamente, são os únicos que me
tratam assim.
— Do que está falando?
— Mude, cara, ou você vai perder a única coisa
que importa.
Então, ele sai. Às vezes, acho que Ravi vê a vida
como um de seus joguinhos online.
Continuo olhando para a floresta, até a noite cair...
Espero por Lua.
Vejo-a caminhar até mim, sinto uma fisgada em
meu coração, uma dor tão grande, tão gigantesca, que faz
com que meus joelhos se dobrem. Lua está usando nosso
vínculo, ela está dividindo algo comigo: sua dor. Ela
caminha até mim e me abraça, seu corpo está gelado, e
isso me assusta. Abraço seu corpo, que se encaixa tão
perfeitamente com o meu, e abraço também a sua dor.
Ficamos ali por um tempo que não sei contar, uma
infinidade de segundos, talvez?
Afasto-a de mim porque sinto a necessidade de
lhe fitar nos olhos. Ela está com os olhos brilhantes, seu
olhar carrega ainda características de sua loba, o que a
torna mais exótica e linda. Passo o meu polegar sobre seu
lábio inferior e o sinto tremer, poderia dizer qualquer
coisa para Lua, poderia pedir desculpas, poderia dizer
que vai passar, poderia dizer que sinto muito, mas resolvo
dizer algo que tenho a certeza absoluta de que é verdade:
— Eu estou aqui, aqui, com você, Lua.
Ficarei ao seu lado, lhe darei espaço quando
precisar... Essa garota se tornou o centro do meu universo.
Afasto-me dela e prendo a respiração. Ela me olha, me
analisa.
Lua dá um passo para trás e caminha para a minha
casa. Quando estava passando por mim, ela toca em minha
mão, só um leve roçar, mas que tenho certeza de que foi
proposital, e posso finalmente respirar. Caminho atrás de
Lua e, quando ela está próxima à porta, seguro em sua
mão.
Passamos por pessoas que nos reverenciam, levo-
a para meu quarto, para o nosso quarto. Ela olha para
minha cama e para em pé, não acredito que vá ser fácil
fazer com que ela confie em mim novamente.
Mas Lua está tão em modo automático que não diz
nem faz nada quando puxo, sobre a sua cabeça, a sua blusa
e tiro seu short. Coloco-a sentada na tampa do vaso,
enquanto preparo a banheira. Com o banho pronto,
coloco-a deitada ali e lavo os seus cabelos, lavo o seu
corpo, sinto uma leve protuberância em seu estômago,
meu filho.
Dou banho em Lua porque quero cuidar dela.
Hoje, eu vejo algo que o meu lobo não viu lá, na floresta,
quando ela quase arranca meu pé fora: Lua não precisa de
um macho que a monte, ela precisa de um companheiro, e
eu quero ser isso para ela.
Tiro-a da água e enxugo seu corpo, busco uma
camisa minha e coloco por sobre a sua cabeça. Minha
camisa se transforma quase que em um vestido no seu
corpo. Tiro os lençóis da minha cama e a coloco ali,
cubro-a, desligo a luz e estava prestes a sair, quando a
ouço:
— Fique.
A verdade é que o meu corpo deseja o dela tão
ardentemente que tenho medo de não conseguir me conter,
é instinto, um instinto fodido e animalesco. Tenho medo de
não ser a pessoa que ela está precisando neste momento.
Mesmo assim, faço meu caminho de volta, vou
para o banheiro e tomo uma ducha rápida. Deito-me ao
seu lado na cama, tendo seu corpo ali, tão perto, e me
sentindo tão longe da sua alma.
Viro-me para o lado e ela faz o mesmo, ao mesmo
tempo. Estamos um de frente para o outro, com nossas
respirações se misturando. Lua ergue sua mão e a põe
sobre o meu coração. Ela adormece sentindo o bater
descompassado dentro do meu peito, e eu adormeço
sentindo o mínimo toque de sua mão em contato com
minha pele.

Luana

Sinto seu corpo prender o meu, digo prender


porque não conseguia mover meus braços e nem pernas.
Ontem, Noah foi... Ele foi cuidadoso e atencioso, como
antes. Como costumava ser quando estávamos em minha
casa, em um vilarejo no interior. Porém, quando chegamos
aqui... É como se ele usasse uma máscara, como se...
como se fosse outra pessoa, uma pessoa que não sei muito
bem se aprovo. O que adianta tê-lo aqui, entregue em
quatro paredes, se diante de sua matilha ele me
menospreza?
Noah se mexe em seu sono, prevendo
provavelmente que tentaria sair de seu agarre novamente.
Suspiro, desistindo de minha missão. Ele me abraça,
como se temesse que eu fosse... fugir. Bem, era o que tinha
em mente mesmo, e o que não vai funcionar, pelo visto.
Fico um tempo em seus braços, não sei se quero
acordá-lo; se o acordasse, teríamos que conversar, e não
sei muito o que falar. Alguém bate na porta,
interrompendo meus pensamentos e despertando Noah, ele
rosna e me olha, pedindo com o olhar para que eu ficasse
ali.
Noah vai atender a porta e consigo reconhecer a
voz de Ravi, ele diz que Alicia chegou, só que ela está
acompanhada de Lucas, e ele e Leandro estão
praticamente se matando.
Ao ouvir o nome Lucas, Noah muda sua postura
completamente.
— Não saia daqui, Lua – ele diz e fecha a porta,
reviro meus olhos. Vai sonhando, companheiro.
Desço as escadas e deparo-me com a cena,
poderia ser cômica, se não fosse trágica: Leandro está
ensanguentado, mas nada sério, Noah está com um homem
preso por sua mão, vai matá-lo daqui a alguns segundos,
Alicia está gritando como uma louca, pedindo para Noah
parar. Então, ela me vê e, com seus lábios em movimento,
diz para mim: por favor, pare. Dou de ombros, confio em
Alicia e em seu julgamento, dou um salto, terminando de
descer as escadas, e paro logo atrás de Noah. Dessa
forma, dou-lhe uma leve rasteira, o que o desestabiliza e
faz com que solte o homem. Alicia corre para ele e Noah
olha para mim.
— Lua...
— Lua nada! Por que vocês, machos, nunca param
para analisar uma situação? Sua irmã está defendendo o
homem que você quer matar, por que seria?
— Não faço a mínima ideia, mas ele não vai pisar
em minhas terras e continuar vivo.
— Noah, por favor, será que eu posso tentar? Se
não conseguir te convencer, subo e te deixo fazer o que
quiser.
— Você não vai conseguir.
Ele diz simplesmente, e cruza os braços.
Vejo o estranho proteger Alicia com seu corpo,
protegendo-a... Bem... de Noah.
— Alicia, por que estava defendendo-o?
— Bem... eu...
Ela gagueja.
— Minha irmã nunca gostou de sangue, Lua, mas,
não se preocupe, vai ser limpo e rápido.
Noah tenta se aproximar do homem e eu seguro
em sua mão, o que o faz parar em sua caminhada.
— Alicia, só vou perguntar mais uma vez, não vou
posso lhe ajudar se não contar a verdade. Por que o
protegia?
— Porque... ele é... meu companheiro.
— O quê?!
Ouço Noah gritar do meu lado.
— Sem chances! Nem em um fodido mundo
paralelo! Não se aproxime da minha irmã!
— Noah, se eles são... – tento argumentar, mas ele
não permite.
— Não, Lua, você não sabe o que o irmão dele
fez com ela!
Suspiro alto, e um cheiro familiar queima a minha
narina, reconhecimento passa por minha face, olho para
Alicia e ela faz um sinal negativo com a cabeça. Sei quem
ele é, o cara que estava tentando me sequestrar, sou
realmente boa com esse lance de cheiros. Quando pego o
cheiro de alguém, nunca o esqueço. Confirmo com a
cabeça, informando para Alicia que eu não contaria para
ninguém, mas dou um passo para trás, e ela sabe o que
significa, vai ter que se defender.
Alicia infla seu peito e sai de detrás do homem.
— Mas eu sei, sei o que o irmão dele me fez,
Noah, afinal, isso aconteceu comigo, e não com você. Te
agradeço por tudo, mas já sou grandinha para tomar as
minhas decisões. Você não vai encostar nele e, se Lucas
não for bem vindo em minha casa, eu também não serei.
Dou algum crédito para Alicia, nunca vi alguém
enfrentar Noah assim, ninguém, além de... mim.
Ele cerra suas mãos em punhos e sai por uma
porta que não sei onde vai dar.
Caminho até Alicia e Lucas.
— Você está bem? – ela confirma com a cabeça,
olho para Lucas, que parece estar hipnotizado, olhando
para ela.
— Ei! – Estalo os meus dedos em frente aos seus
olhos, o que chama a sua atenção. – Machuque-a, e eu te
machuco, essa é a lei da vida.
Alicia segura o sorriso, senti falta dela.
— Só para constar, sabe que foi ele quem tentou
me sequestrar e que... Trancou Raquel naquele galpão.
— Sim, por isso ele e Leandro estavam brigando,
ela o reconheceu.
— Tudo bem, só queria saber se estava ciente.
Dou de ombros e sigo meu caminho. Na verdade,
o caminho de Noah, já que saio atrás dele. Passo pela
porta e desço uma escada, tem um centro de treinamento
aqui, encontro Noah esmurrando um saco de boxe que não
sei do que é feito, já que ainda não se desfez em pedaços.
Sento-me no chão.
— Primeiro, você... Agora... minha... irmã... me
enfrentando... – ele diz as palavras, intercalando-as entre
um soco e outro. – Isso... está... se tornando... um
maldito... de... um... costume!
— Você não está irritado por isso.
Ele para de socar o saco e caminha em minha
direção, Noah está com sua blusa grudada em seu corpo, e
seu cheiro parece estar intensificado.
— Não?
— Não. Está irritado porque aquele cara lá te traz
más memórias. Porém, se sua irmã, que viveu o que quer
que tenha ocorrido, na pele, consegue aceitá-lo, por que
você não?
— Ele vai machucá-la.
— Você também me machucou.
— Lua, eu...
— Noah, relações não são perfeitas. As pessoas,
na maioria das vezes, saem machucadas. Deixe que ela
tente, pelo menos.
— E você?
— Eu o quê?
— Vai tentar?
Quando isso se tornou algo sobre mim? Vejo Noah
ali, em minha frente, ele tem a barba por fazer e o olhar
mais sexy que já vi. Noah fica em frente a mim e, como
estou sentada em algo que se parece com um tatame, ele
fica de cócoras e me encara. Noah põe seus braços ao
lado do meu corpo e me encara.
— E você, Lua, vai tentar? – ele repete a mesma
pergunta e, de repente, estou ocupada demais, perdendo-
me em seus olhos, em seu cheiro, em cada pedaço dele,
que o meu corpo se torna imensamente ciente.
— Eu... – Poderia dizer qualquer outra coisa, mas
o que sai da minha boca é: – Você dormiu com ela?
Ele sorri.
— Você está com ciúmes?
Cruzo os meus braços e reviro meus olhos.
— Claro que não, só acho que mereço saber. –
Ele para um pouco, analisando-me.
— Não, não dormi com ela, não depois de você, e
você mente muito mal.
Ele passa sua bochecha de encontro a minha, em
um gesto de carinho, seus pelos do rosto arrepiam a minha
pele. Ele expõe suas presas, sei disso porque as sinto
arranharem a minha pele do pescoço, no mesmo local em
que ele me marcou como sua. Sua respiração pesada me
causa calafrios.
— Noah, eu não...
Ele ri e sua respiração arrepia cada pelo do meu
corpo.
— Eu também não, Lua, mas eu quero.
Diria que não tenho certeza se deveríamos, que
não tenho certeza se estávamos cometendo um erro, que
não tinha certeza se já tínhamos cometido um.
— Eu quero você, cada pedaço de você. – Ele me
olha de perto, sua boca está entreaberta, e seu olhar,
marejado.
Noah se afasta de mim, o que me deixa intrigada,
como estava de cócoras, ele se ajoelha e se põe entre as
minhas pernas. Noah me oferece uma caixa que não sei de
onde saiu. Não pego na caixa. Na verdade, olho para ela
como se fosse radioativa, isso não pode significar o que
penso que significa, não é?

Lucas

Conseguimos chegar ao condomínio que pertence


à matilha de Noah sem muitos problemas, Alicia estava
sem dizer uma palavra, o que, vindo dela, é bem
preocupante.
Os portões se abrem quando veem que ela está ao
meu lado, estaciono em frente a maior casa que vejo,
pressupondo que é a de Noah. Saio do carro e Alicia
continua sentada.
— Isso não é uma boa ideia.
— Isso não está em discussão.
— Você pode ir embora agora, já estou aqui.
— Não vou sair correndo de seu irmão, se é que é
isso o que espera de mim.
Ando até o seu lado e a puxo pelo braço. Claro
que isso, provavelmente, vai dar muito errado, porém,
estranhamente não me importo muito. Desde quando parei
de ter autopreservação?
Sabe qual foi a primeira coisa que aconteceu
quando coloquei os pés na casa de Noah? A mulher que
sequestrei, Raquel, aponta para mim e diz:
— Alguém me belisca, estou vendo meu
sequestrador.
A próxima coisa que aconteceu foi um homem
simplesmente voando em mim, só deu tempo de empurrar
Alicia para o lado e tentar me defender do seu ataque.
Ouço-a gritando algo, olho para ela, e ele me acerta em
cheio, sinto o sangue escorrer pelo meu rosto. Alicia
estava conversando com Raquel, que vem até Leandro e
toca em sua barriga, ela diz algo em seu ouvido, algo
envolvendo enfermeira e fantasias, o que tira sua atenção
de mim.
Mal me recupero da pancada que levei por ter
perdido a atenção, quando Noah prende a minha garganta.
Atacar Noah seria incitar uma disputa, então, não faço
nada. Quem diria que eu estaria aqui, morrendo através
das mesmas mãos que mataram o meu irmão...? Mas Noah
se desestabiliza e consigo finalmente sair do seu agarre. A
companheira de Noah está discutindo com ele, porém, mal
os escuto, estou ocupado demais olhando para ela, que
parece desesperada.
— Alicia, por que estava defendendo-o?
— Bem... eu...
Seus olhos lacrimejam, sei que Alicia nunca
poderia me perdoar, mesmo sendo por algo que não fui eu
que fiz. Sei que a minha presença a machuca, então, caso
consiga sair daqui vivo, vou embora. Talvez eu volte para
alguma floresta, talvez me transforme e não volte mais a
ser humano.
— Alicia, só vou perguntar mais uma vez, não vou
posso te ajudar se não contar a verdade. Por que o
protegia?
Ela me olha, gostaria de tirar esse desespero do
seu rosto, gostaria de dizer que está tudo bem, que ela não
precisa ficar com a consciência pesada por minha causa.
— Por que... ele é... meu companheiro.
Todo o meu mundo para de girar, só vejo Alicia
com seus cabelos negros bagunçados e seu rosto
angelical.
— Não, Lua, você não sabe o que o irmão dele
fez com ela!
Isso me atinge, atinge como a porra de um tiro em
meu peito, é uma dor quase física. Se pudesse apagar as
coisas pelas quais ela passou... Alicia me olha dentro dos
olhos e me empurra para trás, ela une as suas costas ao
meu peito, como se buscasse algum tipo de apoio, apoio
de... mim.
— Mas eu sei, sei o que o irmão dele me fez,
Noah, afinal, isso aconteceu comigo, e não com você. Te
agradeço por tudo, mas já sou grandinha para tomar as
minhas decisões, você não vai encostar nele, e se Lucas
não for bem vindo em minha casa, eu também não serei.
Ninguém nunca fez isso por mim, pensei que o
meu irmão tivesse feito. Agora sei que ele só estava em
busca dos seus próprios objetivos egoístas. Ela foi criada
como uma princesinha e eu não sou, bem... ninguém. Na
verdade, eu sou a escória, muitos me consideram um
desgarrado. Por que ela deixaria tudo para trás por mim?
Por mim, que, diante da sociedade que ela cresceu e vive,
não sou ninguém?
Ouço um barulho e meus olhos piscam.
— Machuque-a e eu te machuco, essa é a lei da
vida.
Machucá-la? Como se fosse capaz de fazer isso.
Estou sozinho na sala, Alicia dobrou um corredor
e a ouço gritar:
— Não fique aí parado, vem logo!
Sigo a sua voz, subindo uma escada. Logo depois,
entro em uma porta entreaberta. O quarto é gigantesco, em
tons de branco e lilás. Tem fotos dela em todas as fases da
sua vida, ela e um casal, quando era só um bebê, Alicia
chorando, enquanto três garotos tentavam consolá-la, ela
abraçada a Noah, ela com um homem que não conheço –
dessa, eu não gostei –, ela com Leandro...
— Senta – ela fala de um outro cômodo adjacente
e me sento em sua cama. Alicia vem com uma caixinha de
kit de primeiros socorros e começa a limpar meu rosto, o
que é ridículo, já que eu, provavelmente, já me curei.
Porém, mesmo assim, deixo-a fazer seu trabalho.
— Alicia...
— Não.
Não digo mais nada, enquanto ela limpa a minha
pele, que estava suja de sangue. Ficamos em silêncio, até
nossas respirações serem os únicos sons audíveis no
quarto.
— Eu não queria que você morresse, não queria
que Noah te matasse.
Eu sei, sei que, para ela admitir isso, já é um
imenso passo. Tenho medo de me mover e agir de modo
errado, tenho medo de afastá-la de mim novamente, tenho
medo de perder essa mínima fresta de esperança que vejo
em seu gesto, então, não me movo. Só observo seu peito
subir e descer, observo seu olhar subir pelo meu corpo até
encontrar meus olhos, observo-a erguer a sua mão e tocar
em meu rosto. Observá-la sem retribuir ao seu toque
estava me deixando louco, mas ficaria empedrado nessa
posição, se isso fizesse com que ela me tocasse mais.
Desejo aquela pequena ninfa que esfregou seu corpo
contra o meu no carro, desejo aquela mulher bem
resolvida que tentava me seduzir de qualquer forma.
Porém, eu também desejo essa menina que está quebrada
em minha frente, desejo pegá-la em minhas mãos e juntar
seus pedaços, desejo tantas coisas... Que não faço, espero
que ela se sinta confortável. Porra, eu posso esperar por
isso o tempo que for preciso.

Noah

Minha mãe costumava me dizer que, um dia,


encontraria alguém por quem valesse a pena destruir todo
o seu mundo. Na época, eu não entendia, não entendia e
respondia: eu nunca vou querer mudar meu mundo. Agora,
de joelhos, estou entregando o anel que era de minha mãe
a Lua, estou dizendo que ela é essa mulher.
Lua me olha em pânico, e eu começo a me sentir
como a porra de um idiota. Ela abre e fecha a boca
algumas vezes, sem tocar na caixa que está em minhas
mãos. Então, depois de algum tempo – tempo demais, se
me perguntarem –, ela me diz:
— Você não está me pedindo em casamento, não
é? – Ela olha de mim para a caixa e de volta para mim.
— Nós já estamos casados, Luana, isso não faria
sentido.
Ela ergue suas sobrancelhas e percebo que talvez
eu tenha começado a merda de uma briga.
— Nós não estamos casados.
— Nós estamos unidos, o que é muito maior que
um casamento.
— Se isso era para ser romântico, talvez você
precise de umas aulas, Supremo.
Ela está irritada, só me chama de Supremo quando
está irritada. Ela faz do meu título algo sujo saindo de sua
boca.
— Por que você simplesmente não pegou a caixa
sem falar nada?
— Porque eu não sou a merda de uma estátua sem
cérebro.
Levanto-me e começo a afastar-me. Quando
parece que estou ficando próximo a ela, percebo o abismo
que se encontra entre nós dois. Por que não tenho uma
relação normal de companheiros? Por que não é algo
simples que só envolve sexo?
— Isso não deveria ser complicado, Lua, não faça
disso algo complicado.
— Eu não estou tornando nada complicado. Ah,
esqueci, você é acostumado a ter coisas fáceis,
principalmente mulheres, talvez devesse ir atrás da
Lorenlay.
Ela diz o nome da outra loba com nojo, poderia
tentar convencê-la, poderia calá-la com um beijo, poderia
tentar fazer qualquer coisa, mas estou irritado e no limite,
irritado demais para tentar algo.
— Talvez eu devesse.
Começo a sair da sala de treinamento e não sinto
o seu cheiro me seguir, ela vai simplesmente me deixar ir?
— Cuidado! Ela está com uma pequena ferida no
pescoço!
Ouço-a gritar, lembro-me da ferida que causou na
loba e fico intrigado. Lua não deveria ser capaz de fazer
algo deste tipo em um membro da minha matilha, mas não
consigo pensar nisso no momento. Tudo o que penso é
nela, e desejo a todo custo arrancar isso de minha alma.
Então, eu corro, meu lobo uiva em liberdade e corre atrás
de uma presa, ele me pede sangue.
Capítulo 27– Reconciliações
Raquel

Esse troglodita não deveria saber beijar tão bem!


Digo, antes, meus instintos não estavam intensificados e já
achava que ele beijava fodidamente bem, agora, então...
— Lê...
— O que foi, minha Chapeuzinho? – ele sussurra,
enquanto roça sua barba em meu pescoço. Não foi muito
difícil tirá-lo de uma briga, o homem parece que pensa
com a cabeça de baixo, se é que me entende.
— Você não acha que eles se mataram, não é?
— Hum... Acredito que não. Não senti nenhuma
grande alteração de Noah, então, deve estar tudo bem.
Agora, você me disse algo sobre se vestir de enfermeira
para cuidar de mim.
Ele sorri de modo predador e eu corro, colocando
a distância de uma mesa entre nós.
— Não! Eu preciso ser forte! Não posso cair em
tentação!
— Do que está falando? – ele me questiona,
erguendo uma sobrancelha.
— Coisas de meninas, eu não terei nada com você
até Noah e Lua se resolverem!
Ele cerra os olhos e caminha em minha direção.
— E o que nós dois temos a ver com isso?
Na verdade, acabei de inventar essa história, só
queria que ele fosse conversar com Lua sobre Noah. Sabe,
acho que ter alguém parecido com o Supremo
conversando com ela poderia abrir sua mente.
— Tudo! Eles são nossos Alfas, Lua e eu sempre
fomos muito unidas! Ficamos chateadas juntas, felizes
juntas, até menstruamos juntas! Então, acho bom que você
tente fazê-la feliz!
— Você não está propondo que eu transe com sua
melhor amiga, porque, se está, você é bem mais safadinha
do que eu pensei.
— Não estou dizendo isso, quero que converse
com ela, a relação dos dois não anda boa, e o clima está
péssimo!
— Querida – ele consegue chegar até mim –, eu
só conheço um jeito de fazer uma mulher extremamente
feliz, não é tão rápido, mas atesto a garantia da satisfação.
— Merda, por que essa linda boca gostosa só fala
putaria? – sussurro para mim mesma, mas sei que ele
ouve.
— Porque, minha pequena ex-humana, é isso o
que você me causa.
Ele pega a minha mão e direciona, bem... Para os
seus países baixos, e... Santo céu, os países não estão tão
baixos assim.
— Lê... Fale com Lua que prometo que me
vestirei de enfermeira para você. – Ele rosna.
— Você não vai me deixar sair dessa, não é? Se
ainda não percebeu, não sou muito bom com as palavras
e... – Ele sorri, conheço esse sorriso, ele está dando o
bote. – E só vou falar com Lua se você for falar com
Noah.
— O homem me odeia! É capaz de ele arrancar a
minha pele, e você terá que brigar pela minha inocência
tomada, e esse corpo maravilhoso seu será ferido. Vê?
Ninguém sai ganhando com isso.
— Primeiro, Noah pode até não gostar muito de
você, mas ele nunca iria feri-la. Segundo, eu tenho certeza
que, depois de tudo o que fizemos, não sobrou muito de
você que possa ser intitulada de “inocente”. E, terceiro,
esse corpo maravilhoso estará a espera de uma enfermeira
sexy à noite.
Ele sai e me deixa ali, boquiaberta, merda de
homem! Onde será que o chefão dos trogloditas se meteu?
Vou em busca de Noah.
Leandro

Onde Lua estaria?... Se ela estiver na floresta, eu


estou perdido, se com Noah ela quase arrancou seu pé,
imagina comigo. Sigo seu cheiro até a sala de treinamento,
ela está dando socos e chutes no saco de boxe. Por um
segundo, fiquei com pena do saco.
— Você está grávida, não deveria estar fazendo
tanto esforço.
Talvez tenha sido a escolha de frase errada para
se começar uma conversa, já que ela me olha com um ódio
mortal.
— Estou grávida, não inválida.
Lobas devem ser mais resistentes do que mulheres
prenhas normais. Mas não é comum uma loba pegar cria.
Na verdade, é algo bem raro, ainda mais de dois puros,
como Noah e Lua.
— Posso treinar com você?
Ela dá de ombros e sobe no tatame, não estava
esperando um corpo a corpo, não seria bom machucá-la,
pois, além de ter meu Alfa me matando, a loirinha pode
ficar irritada. Preciso controlar meus passos e meus
movimentos.
Lua começa a me rodear, seus passos são leves,
mal a escuto se mover. Quando muda de posição, ela
avança e eu recuo, ela está me testando.
— Então... Como andam as coisas entre você e
Noah?
Ela ergue uma sobrancelha, pensei que fosse
responder a minha pergunta, mas Lua gira o corpo,
acertando-me um chute alto no estômago. O quê? Disse
que não era bom com conversas.
— Por que não pergunta para ele?
— Porque estou perguntando para você.
Sento-me no tatame.
— Cansou?
— Não vim lutar, estou aqui para conversar com
você, mas parece que prefere lutar, é isso o que faz, não
é? Você luta, tudo para você é uma maldita luta.
Ela para, ouço a sua respiração e só. Acho que
ela vai sair e Raquel vai me culpar eternamente por não
ter nem tentado conversar. Não sei se isso pode ser
considerado uma conversa, mas, se Lua sair agora,
significa que ela que não quis ouvir e não posso obrigá-la
a conversar comigo, certo? Ouço seus passos, porém, ela
não estava se afastando, ao contrário, Lua senta-se ao meu
lado e suspira. Então, ela começa a falar e falar, mesmo
que eu não tenha dito nada que a incitasse a fazer isso.
— Noah e eu não vamos bem, nem sei se existe
um nós mais. Nós só brigamos e, bem, brigamos. Poderia
ser mais simples se estivéssemos como lá, na matilha de
Alec, não tínhamos tantas brigas e as coisas pareciam
mais fáceis e só se passaram algumas semanas!!! Eu não
conheço ninguém aqui, estou em uma cidade que nunca vi
em minha vida e eu, aparentemente, sou a maluca que fica
em forma de lobo tanto tempo quanto um desgarrado e que
sai por aí, mordendo as pessoas. Agora, o lugar em que
cresci está aos pedaços, nem existe mais um “lugar”, claro
que era a merda de um lugar, mas era a minha casa.
Descobri que minha mãe está morta e não tenho nenhum
corpo para enterrar ou queimar, ou para me despedir. Tem
também essa história de desgarrado sequestrando
mulheres, as lobas do bando da minha mãe confiam em
mim, esperam algo de mim. Se eu não fizer algo por elas,
quem mais fará? Porque, sejamos sinceros, esses
sequestros devem estar acontecendo há certo tempo e,
provavelmente, ninguém nunca se importou, e também...
Ela para e respira, fecha a boca, como se não
fosse mais continuar.
— Também...?
— Também há um filho. Eu tenho 19 anos e estou
grávida, mas não é só isso: eu tenho 19 anos e estou
grávida de um lobo, do Supremo, do rei dos lobos!
Quando comecei a ter relações com Noah, nem pensei
sobre proteção, afinal, lobas não ficam grávidas
facilmente, certo? É algo raro e tudo o mais... E, bem, cá
estou eu, gravidíssima. Se tem uma coisa que se pensa que
vai ser com 19 anos, não é ser mãe, ninguém sonha: Com
19 anos, meu sonho será ser mãe. Quem sou eu para ser
mãe de alguém? Isso está me assustando, não existe um
curso de lobas de “como ser mãe ao entrar na vida
adulta e se unir ao rei dos lobos”. Vocês, machos,
pressupõem que nós já nascemos com esse gene. E se isso
não nasceu em mim?!
Ela olha para baixo, não vai chorar, não é? Não
sei o que fazer com mulheres chorando!
— Lua... Se tem algo que sei, é que essa criança
que está para nascer precisa de uma coisa muito
importante, ela precisa de uma casa. Você não pode ficar
pensando em “e se’s”. Isso, só o futuro poderá lhe dizer, o
que pode fazer agora é se perguntar: Que tipo de casa eu
quero dar para a minha criança? Em que tipo de mundo eu
quero que ela viva? E... Não tente me matar, mas vou ter
que falar sobre Noah.
Ela me olha e não diz nada, isso deve ser um bom
sinal, certo?
— Você e ele são iguais. Isso nunca vai dar certo,
se um dos dois não ceder em algo. Você quer que isso dê
certo?
Ela não responde a minha pergunta, fazendo outra
em seu lugar.
— E por que tenho que ser eu a ceder?
— Sabe quando ele te viu pela primeira vez? Ele
tinha o direito de te marcar na frente a todos, naquele
exato momento, sem que você dissesse ao menos uma
palavra, mas ele não o fez. Noah tinha o direito de te
trazer para a sua matilha, e, mesmo assim, não fez isso
sem que você concordasse em sair da sua casa. Quando
você correu para a floresta no primeiro dia em que estava
aqui e ficou lá por quase três dias, ele tinha todo o direito
de te renegar como companheira, afinal, você decidiu
abandoná-lo, e, mesmo assim, ele não o fez. Quando você
quase arrancou seu pé na floresta, ele tinha, por
obrigação, te punir. Você machucou o Alfa, você o
enfrentou, mas, mesmo assim, ele nada fez. Quando seu
irmão chegou e você abraçou Ian e mal olhou para a cara
dele, Noah poderia muito bem matá-lo, mas ele não o fez.
Quando suas amigas lhe chamaram de Alfa na frente a
toda a matilha, ele poderia tê-las punido por perjúrio de
tomar um título que não lhe pertence, mas ele também não
fez isso. Quando você entrou na sala de reunião e o
enfrentou mais uma vez, ele poderia ter te punido, mas,
novamente, nada fez. Quando Noah viu o pescoço de
Lorenlay e percebeu uma marca que, por direito, só ele
poderia ser capaz de fazer, ele também poderia castigá-la.
Porém, sabe o que ele fez? Noah ameaçou Lorenlay,
dizendo que, se ela se enfiasse em sua frente mais uma
vez, ele faria uma marcar bem pior nela, e não seria tão
agradável assim. E quando Lucas chegou, você enfrentou
Noah mais uma vez... E o que ele fez? Ele se retirou.
Então, me diga, Lua, quem aqui não está cedendo?
Saio e a deixo ali. Sinceramente, não sei o que
mais poderia falar, é diferente no escritório, são dados,
fatos, julgamentos e aplicações de leis, fora que minha
mente está completamente focada em uma loira sexy de
vermelho.

Raquel

Ceeerto, onde será que troglodita-mor se meteu?


A casa desse homem é realmente imensa, poderia viver
tranquilamente com alguém que não suporte e não me
cruzar com essa pessoa em nenhuma hora do dia. Caminho
até seu escritório. Na verdade, é o único local em que sei
chegar sem me perder, já que Lua nos trouxe até aqui
algum tempo antes – eu tenho algum senso de direção, tá?
Mínimo, mas ele está aqui, em algum lugar.
Dou uma leve batida na porta e Noah parece estar
concentrado com algo em seu computador. Como o El
Chefón, não se dignou a olhar para mim. Entrei, bati a
porta com força e sentei em uma parte de sua mesa. Fiquei
um tempo ali, só balançando as minhas pernas e olhando
para a bela paisagem do jardim que ele tem como vista de
sua janela.
— O que quer?
Onde me tiraram a porra de um homem bruto
como esse? Mordo a minha língua para não falar nada e
sorrio.
— Vim conversar.
— Não tenho tempo, saia.
Gentil, gentil, seja gentil, Raquel – repito para
mim mesma.
— Como você está?
Ele fecha seu computador e vira a sua cadeira na
minha direção. Noah cruza seus braços e me olha, e eu uso
todas as minhas forças para não me encolher diante dele,
maldito homem intimidador.
— Não finja que está preocupada comigo, ambos
sabemos que você não gosta muito de mim.
Desço da mesa e começo a andar de um lado para
o outro. O quê? Eu sou hiperativa.
— Não tenho nada contra você.
— Não?
— Não, eu não te conheço.
— Seus gestos para demonstrar que não me odeia
estão sendo bem explícitos – ele diz, de modo irônico.
— Não estou aqui para falar de mim.
— E por que está aqui?
Por que ele tem que ser tão direto? Está
transformando isso em uma merda de coisa difícil.
— Vim conversar com você sobre... Ahn... Você e
Lua.
Ele trinca os dentes e seus olhos ficam ainda mais
duros, se é que isso é possível.
— Não tenho nada a conversar sobre isso com
você.
— Aí que você se engana, eu...
— Saia, Raquel, eu não vou repetir – ele rosna e,
merda, meu corpo estremece. Fique firme, loira, firme
como um peito siliconado.
— Só me deixe te fazer algumas perguntas.
Ele acena com a cabeça, o que vejo como carta
branca para continuar.
— Quais as flores favoritas de Lua? – ele não
responde. – Qual a cor favorita dela, sua comida
predileta? Quais os tipos de caras que ela faz? Qual
horário que ela gosta de acordar? O que a faz sorrir? O
que a faz chorar? Quais os sonhos dela? Seus desejos?
Seus medos? Quais são as suas manias?
Ele continua calado.
— Exatamente! – digo triunfante. – Você não sabe
responder a nenhuma das questões!
Ele cerra novamente os olhos para mim.
— Por que está me fazendo essas perguntas?
— Porque você não a conhece! Por isso que não
respondeu! Você não conhece Lua, assim como ela não
conhece você. E isso vai acabar sufocando os dois, é
como se dois estranhos fossem obrigados a viverem em
uma mesma casa, eles vão tentar se matar por espaço,
porque não se respeitam, e não se respeitam porque não se
conhecem!
Noah olha para cima e alonga seu pescoço, ele
começa a sair de seu escritório e eu o interrompo.
— Amarelas. – Ele para de caminhar e só volta
quando completo a minha frase. – Suas flores favoritas
são rosas amarelas.
Então, ele vai embora, não tenho como saber se
Noah absorveu algo do que falei. Ham... Não sei se falei
muita coisa, de qualquer forma. Poderia ter dito algo
mais? Amo Lua, mas a Estranha é uma dor de cabeça
ambulante, e ela pode tentar esconder de qualquer um,
mas eu sei que seu maior sonho sempre foi ter uma
família, um marido e filho, e viver felizes para sempre.
Ouço um forte uivo, algo que treme cada pedaço
de osso em meu corpo. Meus ossos se dobram sem o meu
consentimento, e minha loba toma forma e assume o
comando. Isso foi um chamado, um chamado de um Alfa.
Noah

Ela tem razão? Eu não a conheço? Meu lobo quer


sair, ele quer correr novamente. Deseja ser liberto, não o
libertei com sexo, nem com lutas. Então, ele está me
exigindo passagem, rasgando a minha carne de dentro para
fora e, por um momento, tudo o que desejo é permitir que
ele saia.
Atravesso a minha casa e já vou tirando as poucas
roupas que me cobriam e deixando pelo caminho. Quando
chego ao pátio, várias pessoas da matilha já me
acompanhavam. Deixo que ele venha, dou boas vindas a
minha fera, deixo-a solta para destruir o mundo, se assim
for sua vontade. Por alguns minutos, permito-me
descansar, permito-me não ser aquele a tomar as decisões,
permito-me ficar como espectador.
Transformo-me e mais membros da minha matilha
se juntam, mas não é o suficiente, meu lobo quer todos
aqui. Então, ele uiva... Ele uiva, e O Chamado, nos lobos,
é tão forte que os obriga a se transformarem e virem ao
seu encontro. Quase trezentos lobos estão a nossa frente,
contudo, ainda não é o suficiente, meu lobo está
insatisfeito, irritado, ainda não é o suficiente. Percebo
junto e, por causa dele, que nunca será o suficiente se ela
não estiver por perto.

Luana

Ouço o seu uivo e, embora a minha loba


choramingue, querendo sair e correr ao seu encontro, fico
parada em meu lugar. Tudo que Leandro me falou invade a
minha mente, ele está certo. Eu não cedo, não cedo nada.
Não cedo um espaço para alguém em minha vida, pois
passei tempo demais me escondendo nas sombras. Não
cedo um espaço em meu coração, pois tenho medo demais
de repetir a relação dos meus pais... Eu não cedo, e todos
os motivos pelos quais isso acontece são por medo e
baseados em relações falhas de outras pessoas. Isso é o
suficiente? Ouço outro uivo de Noah, estou disposta a
cometer meus próprios erros? A ter as minhas próprias
falhas? A ceder?

Noah
Ele não desiste e uiva outra vez, nós não
queremos desistir, meu lobo quer que ela venha, que
caminhe até nós, quer que ela esteja em frente a toda a
matilha, quer que toda a matilha a reconheça. Os lobos
começam a ficar inquietos, começam a não entender nossa
posição em ainda ficarmos aguardando em frente a
propriedade, todos querem correr. Porém, meu lobo não
se move, ele continua reto e altivo, olhando para o
horizonte, com a certeza de que algo viria de lá, de que
alguém viria de lá. Meu lobo olha para esse espaço vazio
do mesmo modo que encarava as noites solitárias de lua
cheia, ele olha para esse espaço vazio como se tivesse a
encarar a própria lua.

Luana

Passo a mão pelo meu ventre, que já indica que


tem um serzinho crescendo nele, um pedaço meu e de
Noah. E penso: será que ele não merece uma chance?
Claro que meu filho merece a chance de ter um
pai e uma mãe, mas não tenho que tomar essa decisão por
ele, tenho que tomar por mim... Noah é capaz de fazer com
que todo o meu mundo trema, estar com ele é como...
como estar finalmente completa. Ele encaixa e enche cada
espaço que sobra em mim, cada pequena falha ou
machucado são preenchidos por sua presença em minha
vida. Minha reação com Noah vai muito sobre o fato de
que lobas não possuem voz em uma comunidade em que
ele é o líder, mas também pelo fato de ter medo... A última
coisa que minha mãe fez foi me chamar de idiota por ter-
me unido a ele, e suas palavras martelam em minha mente
por todo o tempo, como um lembrete de que ela se foi e
que estava decepcionada comigo. Porém, tirando toda a
opinião dos outros, o que sinto por Noah?
Merda! Eu...

Noah

Meu lobo continua na mesma posição, se fosse eu,


já teria ido embora há algum tempo. Ela não virá, ele só
está perdendo nosso precioso tempo. Ele rosna, e o
pessoal da matilha se afasta um passo. Contudo, o lobo
não rosnou para eles, rosnou para mim.
Lua aparece na entrada da minha casa e caminha
vagarosamente até nós, ela não se assusta pela quantidade
de lobos que está transformada a sua frente, não desvia o
andar, nem o olhar. Ela caminha em direção ao meu lobo e
temo com o que ele fará, costuma ser um tantinho sem
paciência, e temo que ele a machuque. Tento voltar para o
comando do nosso corpo e ele me prende, ouço o seu
rosnar em minha mente, ele nunca esteve tão forte. Será
que é por causa da proximidade dela? Estou preso em meu
próprio corpo e só me sobrou olhar e orar para que ele
não a magoe.
Quando chega a frente do meu lobo, que não se
moveu nem um centímetro sequer, Lua faz algo que eu
nunca pensei que a veria fazer.

Luana

Merda, eu amo aquele idiota!


Caminho para onde minha loba estava louca para
ir desde o início, e ela só falta ronronar em meu
subconsciente.
Todos da matilha de Noah estão lá, transformados,
todos atenderam ao chamado. O lobo de Noah está ali,
com seu olhar carmim, encarando-me. Caminho em sua
direção e, quando estou a sua frente, ajoelho-me e retiro o
cabelo que cobria a lateral do meu pescoço, exponho meu
pescoço para Noah. Quando um novato entra em uma
matilha, é esse o ritual que faz para entrar, ele fica ali, à
mercê do Alfa. Se o Alfa o achar indigno, ele o mata. Se
quiser puni-lo, ele o morde, uma mordida que sarará como
um ferimento humano, o que irá expor sua vergonha por
semanas. Ele se meche, finalmente, e caminha em minha
direção, sinto a sua respiração vindo no meu pescoço,
como baforadas, e cada célula do meu corpo vibra com o
rosnar que ele emite logo depois.

Noah

Ela se ajoelha diante de nós e expõe seu pescoço.


Meu lobo caminha em sua direção e, após cheirar o seu
pescoço, rosna. Mas Lua não recua nenhum centímetro, e
ele gosta disso, aprova... Aprova a forma com que Lua se
porta, aprova a forma corajosa e destemida, ele sente...
orgulho.
Com os dentes em seu pescoço, ele dá uma leve
lambida em sua carne sensível. Lua, então, sorri e o afaga,
como alguém que afaga a um cãozinho na rua. Só que,
neste caso, é um imenso rei lobo de olhos vermelhos.
Orgulhe-se, assim como eu. Não deixaria que
você a afastasse ainda mais. Ela é uma loba, é forte,
brava, destemida, leal... E é nossa.
Ouço-o dizer em minha mente, e isso nunca tinha
acontecido antes. Meu lobo uiva em reconhecimento ao
novo integrante de sua matilha, e todos os outros uivam
logo atrás. Mas Lua não se transforma, ela dá um leve
beijo no focinho do meu lobo, como se soubesse que quem
está controlando o meu corpo é ele, e não eu. E caminha
de volta para casa. Ele uiva mais uma vez e corre, corre
para a floresta, e todos os outros o acompanham.
Ela sabia que era eu, e não você, ela sabia. Terá
que fazer sua parte agora.
Foi a última coisa que o meu lobo se dignou a
falar. Sério? Meu lobo me dando conselhos amorosos, a
que ponto cheguei?

Luana

Quando me ajoelho, ouço uma voz sussurrar em


minha mente.
— Prazer em te conhecer, companheira.
— Quem é você?
Sei que não é Noah, e ele é a única pessoa que me
chama dessa forma.
— Sou seu.
— Não foi isso que eu...
— Isso é tudo o que importa.
— Mas...
— Seja bem vinda à matilha, eles sangrarão e
morrerão por você, você é minha, e é a Luna deles. Eles
verão em ti poder e força, assim como eu vejo, minha
Lua. Pode demorar um pouco, mas seja paciente, eu
também serei.
Olho dentro dos olhos vermelhos do lobo que está
em minha frente e não sei como isso aconteceu, mas tenho
a certeza de que quem falou comigo foi o lobo de Noah.
Nossos olhares travam em reconhecimento, e eu afago seu
pelo e beijo o seu focinho.
O normal, quando um lobo é aceito em um bando,
é correr com eles, como um igual. Porém, me despeço do
lobo e retorno para a casa. Ele me pediu para ser paciente
e eu serei, vou tentar não entrar mais em brigas
desnecessárias com Noah e, convenhamos, o lobo que
deveria ser o animal irracional parece muito mais sábio
do que ele.
Sinto sob minha pele um medo irracional, como se
algo de muito sério e grave estivesse prestes a acontecer.
Passo a mão pelo meu ventre e faço uma prece silenciosa
para que a minha cria consiga nascer em um mundo sem
tantas batalhas diárias.

Alicia
Toco em seu rosto, Lucas parece não respirar...
Passo os meus dedos por seus olhos, seu nariz, contorno
seu forte maxilar e meus dedos pousam em sua boca.
Resolvo olhá-lo, e o sentimento que emana dele me deixa
tonta por alguns segundos, tudo o que a minha loba quer é
pular nele e aceitá-lo, é unir meu corpo ao seu e
entrelaçar nossas almas, mas ele sorri de lado e uma
memória volta com toda a força.

*****

Ele estava sorrindo para mim, sorrindo quando


forçava seu corpo para dentro do meu mais uma vez. Ele
disse que queria me emprenhar, ligar, de forma
definitiva, sua existência a minha. Ele ficou irritado
quando me mordeu e nada demais aconteceu. Então, foi
para um plano B: lobas conseguem ter filhos de outro
lobo qualquer, só que é muito difícil. Ele disse que tinha
tempo, tomou seu tempo. Depois de horas, não sentia
nem mais dor, só via o seu sorriso e seu olhar enquanto
me montava, era algo doentio e eu nunca esquecerei
daquilo.

*****
Dou alguns passos para trás, afastando-me de
Lucas, e atrapalho-me com meus pés. Ele segura em minha
mão e me impede de cair. Meus olhos automaticamente
vão para a união de nossos dedos, eles ficam lá porque
não queria olhar para ele.
— Você se lembrou dele, não foi?
Ele está irritado, o que me faz olhar em sua cara.
Bem, ele realmente parece irritado.
— Desculpe? – sussurro.
— Não me peça desculpas, Ali. – Ele suspira e eu
afasto as nossas mãos.
— Temos que ir – ele diz, já se erguendo.
— Ir para onde? Acabamos de chegar!
— Preciso de uma reunião com seu irmão para
que possa contar sobre as mulheres.
Sinto-me mal por quase ter me esquecido desse
assunto.
— Você poderia omitir a parte em que foi
chamado para fazer parte da organização. – Não sei se
alguém poderá salvá-lo de Noah novamente. Quando meu
irmão descobrir que ele foi chamado e que aceitou
participar...
— Não posso omitir – ele dá de ombros –, não
vou.
Homem cabeça dura...
Ouço um uivo do meu irmão, todo o meu corpo
começa a se contorcer e me transformo. Seu chamado é
poderoso, e corro de encontro a ele.
Lucas me segue. Ainda em sua forma humana, ele
observa, enquanto toda a matilha se une, enquanto Lua
chega e se ajoelha, enquanto Lua é aceita. Então, depois
de mais um uivo, Noah corre e todos os outros correm
atrás. Mas eu não vou.
Pulo em Lucas, pulo de um lado ao outro, como
um imenso Labrador querendo brincar. Então, vejo-o tirar
sua roupa, peça por peça. Lucas se transforma em minha
frente, seu lobo é marrom e preto, ele é lindo...
Lucas pula, tentando me pegar, e eu desvio. Então,
começamos uma brincadeira estranha de correr e tocar,
ele e eu... E, se ele pudesse me ver agora, veria que estou
sorrindo.
Capítulo 28 – Planos
Raquel

Esse lance de lobo é bem diferente, mas é


incrível! Claro que, às vezes, me sinto possuída por outra
pessoa, mas, ainda assim, é incrível! Sinto o vento bater
no meu rosto, sinto o cheiro da floresta, do orvalho, da
noite, sinto o cheiro de vida. E o mais incrível disso tudo
é que posso sentir todos os outros, posso sentir a matilha!
São como uma imensa colmeia, cada um interligado ao
outro, como um gigantesco gráfico muito complexo. Eu os
sinto, suas vidas pulsam e pulsam, é um gráfico vivo com
batimentos cardíacos, isso é tão incrível! Sei que estou
usando a palavra incrível demais por aqui, porém, olho
para o meu querido lobo correndo ao meu lado e essa
palavra se repete em minha mente: “incrível”. Claro, essa
seguida de: gostoso, quente, brutamonte...
Leandro corre ao meu lado, tenho certeza de que
está se obrigando a correr mais devagar só para ficar
perto de mim, sei que seu lugar é à frente, ao lado de
Noah, já que ele é o Beta. Mas agora está aqui, correndo
ao meu lado, como se dissesse, com isso, que seu lugar
talvez tenha mudado. Nunca pensei em mim como alguém
de família. Céus, estranha e eu temos a mesma idade, nós
poderíamos ser consideradas crianças em alguns países –
eu acho. – E cá estou eu, encontrei um homem incrível, um
homem que é cabeça dura e firme, mas que tenho certeza
de que faria qualquer coisa por mim. E, neste momento, só
consigo pensar em como eu sou imensamente sortuda!
A matilha vai dormir na floresta hoje, continuam
todos transformados, não sei por que ainda não voltei a
minha forma normal, já que, quando tentei ficar muito
tempo com minha loba na floresta, com Lua, eu não
consegui. Noah deita-se em uma clareira e todos os outros
seguem seu exemplo. Leandro e eu deitamos ao seu lado,
enrosco-me no corpo quente do meu lobo e adormeço.
Certo momento da noite, desperto e vejo Noah se
levantar, ele sobe em uma pedra, olha para todos, de cima.
Então, ele olha para a lua, sem uivar nem nada, só
esperando. Ele olha para a lua como se aguardasse uma
resposta, como se esperasse ouvir algo de volta. Noah
passou horas ali, até o dia clarear, até a lua sumir do céu.
Olho para mim mesma e percebo que ainda estou
nessa forma, como loba. Olho novamente para Noah,
percebo que a ligação entre a matilha, aquele imenso
gráfico que havia notado antes, tem um denominador
comum: todas as pontas colidem em Noah. Percebo que
não fui eu, não foi minha força que me permitiu ficar nessa
forma, foi Noah, através do vínculo da matilha, ele me
cedeu seu poder. A mim e a diversos outros da matilha.
Consigo entender Noah um pouco mais, a dimensão de
suas ações, de suas preocupações, de suas
responsabilidades... Quantas vidas dependem dele?
Quantas pessoas esperam algo dele?
Voltamos para a área de casas andando. Veja,
podemos estar quase dentro de uma cidade grande, mas
temos uma imensa reserva ao nosso redor. Noah volta a
sua forma humana, estranho a mim mesma, porque sua
nudez não significa mais nada para mim, não fico com
vergonha, só acho normal. Merda, acho que virei uma
hippie doida! Recuso-me a abraçar uma árvore e cantar
Kumbaiá, eles não fazem isso, não né? Espero que não.
— Ravi e Leandro, teremos uma reunião em duas
horas. Tragam o que lhes pedi para averiguar.
Então, ele caminha até sua casa sem olhar para
trás. E eu fico aqui, pensando em quão solitário Noah se
parece agora.
Noah

Volto para a minha casa. Por um segundo, penso


em não ir para o quarto, e meu corpo se encaminha para o
centro de treinamento que tenho em minha casa. Porém,
quando estou quase chegando, as memórias voltam, a
memória de mim ajoelhado e Lua, bem... me rejeitando.
Rosno e caminho para o meu quarto, mas ela está lá, eu
sei pelo seu cheiro, parece que seu cheiro impregna cada
parte da minha casa, cada parte de mim.
Entro no quarto sem fazer nenhum tipo de barulho,
ela está lá, esparramada em minha cama, suas pernas
estão à mostra, já que usa somente uma camiseta grande e
sem mangas. No seu braço, a marca idêntica a minha
comprova o que todos já sabem, nosso vínculo. Às vezes,
paro para pensar que essa é a única coisa que temos em
comum, nossas marcas. Fico ali, só olhando para ela, só
vendo-a respirar, só sentindo o seu corpo a centímetros do
meu e não podendo fazer nada. Na verdade, tendo medo
de fazer algo... De fazer algo e acabar em uma maldita
guerra! Não posso enfrentar as guerras das matilhas se
estou com minha mente focada o tempo inteiro nela, se
meu corpo está constantemente consciente do dela. Minha
cabeça está aqui, e isso é tudo o que os meus inimigos
precisam para me derrubar. Isso precisa ser arrumado, ou
tenho Lua ao meu lado definitivamente ou não a tenho.

Luana

Sinto a proximidade de Noah, sinto-o caminhar


em minha direção, sinto quando o colchão afunda um
pouco, pois ele se senta na beira. Sinto seu olhar como
lambidas de fogo sobre o meu corpo, estou tão consciente
dele e ele nem ao menos me tocou. Noah só fica ali, me
olhando... Sinto o seu corpo se mover e eu abro um olho,
pois sou curiosa e preciso saber o que ele está fazendo.
Ele está com a cabeça baixa, sustentando-a entre
as mãos, parece preocupado. Lembro-me do que o lobo de
Noah me disse: “Seja paciente, eu também serei”.
Porém, não sou muito boa em ter paciência, não sou muito
boa em esperar.
Sento-me na cama e Noah fica com seu tronco
reto, mas não me olha. Ele não vira.

Noah

Sinto seu corpo se erguer, sinto seu olhar em


minhas costas como um maldito laser, e sei que o que
acontecer aqui, hoje, será decisivo em nossas vidas. E é
por isso que não começo nada, não digo nada, meus
histórico de inícios de conversas não são favoráveis a
mim. Então, só me calo e fico lá, esperando que ela dê o
primeiro passo.
Demora alguns minutos, parece como uma guerra
de quem fica em silêncio por mais tempo e dou risada
internamente. Por que tudo entre nós precisa ser uma
guerra?
Ela se levanta da cama, não a olho, mas sei que o
seu corpo se afasta do meu. Então, é isso o que vai
acontecer? Ela vai simplesmente ir?

Luana

Sei que ele não falará nada. Como dizem, um


gesto vale mais que mil palavras, não é?
Levanto-me da cama calmamente e afasto-me
somente alguns passos. Noah não me olha, ele está com
seu olhar vidrado em um espaço vazio. Sinto-me idiota
por estar fazendo isso sem ele nem ao menos me olhar,
mas... Não vou dar para trás agora, tomei uma decisão, sei
o que sinto por Noah, sei que o amo, sei que também sou
nova demais para saber o que significa este sentimento,
mas estou disposta a aprender, junto com ele.
Ergo a camiseta larga sobre a minha cabeça.
Estou nua, a uns tantos passos dele, e Noah ainda não me
olha. Então, dou alguns passos incertos em sua direção e
percebo que sua respiração começa a compassar de modo
mais rápido.
Continuo andando até chegar em sua frente, toco
em seu queixo e viro seu rosto para mim. Os olhos de
Noah brilham em vermelho quando olha o meu corpo, suas
mãos apertam a beira do colchão e sinto-o, o lobo, sinto o
lobo junto a Noah, ambos a me olharem.
— Companheiro.

Noah

Vejo a minha Lua ali, nua em minha frente, e meu


corpo responde de modo automático. Seguro-me para não
voar em cima dela como um animal, sinto o meu lobo
rosnar.
“Às vezes, ela vai se afastar, dê espaço, ela
sempre, sempre, voltará para nós, não se esqueça”.
Ouço-o dizer em minha mente. Afastar? Não vou
mais permitir que Lua se afaste mim. Quando ela pensar
que precisa se afastar, vou lhe mostrar que seu lugar é
aqui, comigo, onde jamais deverá sair.
— Companheiro.
— Lua... – Ela toca os meus lábios, impedindo-
me de continuar.
— Eu... Sei que sou difícil às vezes. Na verdade,
sei que, na maioria das vezes, eu estou armada contra
qualquer coisa. Sei que você merecia uma companheira
fácil de lidar, calma, obediente. – Nessa hora, ela faz uma
careta e me seguro para não rir. – Mas, sabe, talvez, desde
o início, você tenha pensado em me mudar, talvez tenha
visto em mim um desafio. Eu não vou mudar, não posso
mudar quem eu sou, mas estou disposta a ceder em
algumas coisas, é isso o que as pessoas fazem quando
amam, certo? Elas cedem.
Sorrio, porque ela está nua em minha frente e
fazendo um maldito discurso.
— Você está rindo! – ela diz, já fazendo bico.
— Isso quer dizer que você me ama?
— Claro que te amo, você é meu companheiro.
Não sei por que, mas essa resposta não me
agradou muito. Quero que Lua me ame não só porque sou
seu companheiro, quero que ela ame o líder, a pessoa, o
garoto, quero que ame tudo o que há em mim.
— Só por isso, Lua?
— Se fosse só por causa dos hormônios de
companheiros, eu não estaria aqui... Não estaria aqui se
não o admirasse, se não sentisse orgulho daquilo que é.
Eu me levanto, coloco-a sentada onde eu estava e
vou pegar algo que guardei na cômoda. Merda! Espero
fazer isso certo desta vez.

*****

Pego novamente a caixinha e caminho até ela. Lua


está como uma estátua, pelo menos ainda não correu, isso
deve ser um bom sinal. Ajoelho-me em frente a ela.
— Eu te amo, Lua. Estou aprendendo, meu lobo te
ama e sabe o quanto nós dois juntos somos certos um para
o outro, mas eu estou aprendendo. Eu quero aprender junto
com você, preciso de você em minha vida porque, ontem,
olhei para a Lua e descobri que ela não faz mais o mínimo
efeito em mim, não quando já encontrei a minha, não
quando conheci você. Preciso da sua força, preciso da sua
luz, preciso da bagunça que faz em minha vida, porque
essa bagunça me faz questionar tudo o que sou, me faz ser
um homem melhor e um Alfa melhor para a minha matilha.
Eu preciso de você, porém, é mais que necessidade, eu
quero. Está me ouvindo, Lua? Eu QUERO ter você em
minha vida. Casa comigo?
Ela não se move, mal respira. Merda, ela está sem
respirar por tempo demais.
— Lua?
Uma lágrima escorre pelo seu rosto e, depois,
outra... e outra... Merda, fiz algo errado.
— Lua, não chore! Está tudo bem, não precisa
responder agora, se não quiser, está tudo bem. – Sento-me
ao seu lado e passo a minha mão pelo seu rosto, limpado
suas lágrimas. – Merda, pare de chorar! Do que precisa?
Diga qualquer coisa e será sua.
Ela sorri em meio às lágrimas.
— Eu já tenho.
— O quê?
— O que preciso, tudo o que preciso, e está bem
aqui, em minha frente.
Lua me beija, e a força que estava esperando
encontrar na lua, ontem à noite, toma cada canto do meu
corpo agora. Minha Lua, luna, companheira, minha.

Luana

Entre as minhas lágrimas, nosso terno beijo


passou a ser algo duro, rápido, necessitado. Não queria
mais distinção entre o meu corpo e o de Noah, queria
fundir-nos, transformar-nos em um único ser de duas
partes. Tiro a sua roupa, ele me ajuda, Noah toca cada
canto de mim, ele beija cada canto de mim.
Noah segura as minhas mãos atrás das minhas
costas, faço força para me soltar e ele segura mais forte,
quero tocá-lo.
— Pare. – Poder derrama só dessa palavra que
ele profere, e paro de tentar sair de seu agarre.
Noah começa a se inclinar sobre o meu corpo,
fazendo-me deitar, ele continua segurando meus pulsos,
mas, dessa vez, estão sobre a minha cabeça. Ele não tira
os olhos de mim nem por um segundo, sinto seu corpo se
aproximar de mim e o meu vibra em antecipação. Noah
passa sua barba em minha bochecha, beija-me ali. Depois,
do outro lado. Então, toca os seus lábios nos meus e
sussurra:
— Seja minha, Lua, só minha, por hoje e por todo
o restante das nossas vidas, e que seja uma eternidade
enquanto estivermos os dois juntos, completos, eternos.
Ele não espera uma resposta. Na verdade, não sei
se consigo falar nada neste exato momento. Noah me toma
devagar, olhando em meus olhos, sinto seus vagarosos
movimentos me atormentarem.
— Noah...
Ele beija o meu pescoço e volta a me olhar nos
olhos, sem nunca interromper seus movimentos. Perco-me
em seus olhos vermelhos e intensos, perco-me na
sensação de seu corpo contra o meu, perco-me no cheiro
de nosso suor misturados, no som de nossos gemidos ao
estarmos, talvez, pela primeira vez, nos amando.

Noah

Lua está dormindo agora em meus braços, e eu


fico só observando-a, orando para não fazer alguma
merda e perdê-la, porque não sei se consigo me erguer se
algo assim acontecer. Isso não pode ser uma fodida de
uma opção. Olho para o relógio em cima da mesa e a
beijo.
— Me deixe dormir, Noah... – ela murmura e eu
continuo beijando seu rosto e pescoço, e ela abre os
olhos. – Você fica lindo quando sorri.
É a primeira coisa que diz.
— Isso significa que só fico “lindo” quando estou
com você.
— Você é lindo de qualquer jeito, seu idiota, e já
é presunçoso demais para me ter falando isso.
Gargalho e ela me observa. Quanto tempo que não
rio assim? Acho que desde a morte dos meus pais...
— Por que me acordou? – Ela boceja.
— Tem uma reunião agora. – Lua se cobre
novamente e vira para o outro lado.
— Me deixe dormir, tchau.
— Ah... Iria te chamar para participar, sabe,
discutir sobre o desaparecimento das lobas e coisas do
tipo, mas vejo que está com muito sono e...
Enquanto estava falando só essa frase, ela já tinha
levantado, pego suas roupas e já estava no banheiro. E
enquanto pensava sobre isso, ela já sai de lá como uma
bala e começa a me puxar pelo braço.
— Vamos, Noah, se apresse!
— Lua, eu estou nu – digo o óbvio.
— Até parece que todo mundo aqui já não te viu
pelado, vamos logo!
Gargalho novamente.
— Eu, definitivamente, não terei uma reunião
pelado, isso tiraria toda a minha moral de Alfa durão. –
Ela pensa um pouco e vai até o meu guarda roupa, pega
algumas coisas, joga em meu peito e me empurra para o
banheiro, fechando a porta a seguir.
— Se demorar, vou sem você! – ela grita do outro
lado e eu sorrio novamente, a mulher é como um tufão.
Saio do toalete, Lua e eu vamos para o escritório.
Ela corre na frente e reclama que eu estou andando
devagar de propósito, e eu andando normalmente atrás.
Chego no escritório e cumprimento Leandro,
Ravi, Alec e Ian. Vou até a minha cadeira e puxo Lua para
o meu colo, ela trava um pouco e depois se acomoda. Vejo
Ravi sorrir para ela e, quando olho para a minha Lua, ela
está com o mesmo sorriso para ele.
— Pare de sorrir para a minha mulher ou vou
quebrar seus dentes, Ravi.
Seu sorriso se abre mais ainda, se é que isso é
possível. O que esse idiota é? O maldito gato da Alice?
Suspiro.
— O que conseguiram?
— Tentamos entrar em contato com os Alfas,
conseguimos, na verdade, mas eles disseram que tudo está
normal. Acho que estão mentindo.
Tudo o que preciso agora é de Alfas mentirosos
que não aceitam a minha autoridade, merda...
A porta do escritório é aberta e Lucas entra com
Alicia logo as suas costas, eles pareciam que estavam
discutindo, e eu só ainda estou sentado, e não em seu
pescoço, porque Lua e meu filho ainda estão em meu colo.
— O que faz aqui? – rosno para o homem e não
faço nenhum esforço em esconder a minha repulsa.
— Preciso reportar algo.
— Diga.
— Humanos estão trabalhando em conjunto com
renegados para roubarem lobas, elas estão em um
laboratório na cidade, são estupradas diariamente... Eles
dizem que estão em busca do gene de cura do lobo, mas eu
não acredito. Tem algo a ver com as lobas.
— E como sabe disso?
Claro que a informação era de suma importância
e, se fosse outra pessoa, eu teria perguntado onde é esse
laboratório. Porém, não confio em Lucas, não confio que
esteja me dizendo a verdade.
— Porque eu vi. Fui chamado para fazer parte da
organização.
— Você o quê?!
— Eu aceitei e fui averiguar, mas eles me
drogaram, não sei onde o local fica. Quando voltei para o
meu apartamento, um renegado tinha capturado sua irmã.
Eu o matei, mas ele já tinha entrado em contato com a
base e informado que eu estava ali, vão me ligar ao
assassinato, vão me ligar a Alicia, por isso viemos aqui.
Ela toca em minha mão.
— Vá, Noah, você precisa averiguar.
— Saiam – digo para todos os outros. – Só vá?
Sem brigar para querer ir junto? – pergunto quando estou
a sós com ela.
— Não sou criança. Pareço ser, às vezes, mas
isso é sério. Você pode não se concentrar totalmente se eu
for junto, terão que encontrar o lugar e terão que fazer isso
rápido. Lucas disse que eles sabem que ele os traiu,
provavelmente, já devem ter mudado a operação de local.
Isso é sério, Noah, mais sério do que pensávamos. Se
médicos humanos estão envolvidos, eles já estão cientes
de nossa raça. Só... tome cuidado.
— Irei, não se preocupe. No momento, enquanto
não sabemos o que enfrentamos de verdade, o local mais
seguro para você e as outras garotas da matilha é aqui.
Preciso estar com a minha mente cem por cento nisso,
preciso saber que estará segura, me entende?
— Sim, eu entendo. Agora, vá!
Ela me enxota para fora do meu escritório. Eu
chamo os outros e pegamos os carros. Ela tem razão, se
tivermos sorte, encontraremos alguma pista, eles já devem
ter mudado de local.

Luana

— Eles vão ficar bem, certo?


— Estranha! Nós não vamos ficar sem fazer nada,
não é?
— Vamos orar para que fiquem seguros.
Estou ouvindo este tipo de coisa desde que Noah
pegou Alec, Lucas, Ian e Leandro e foi até o centro de
Nova York tentar encontrar o local que Lucas disse.
Agora, eu tenho três mulheres que não param de falar e
uma que está calada até demais, Alicia.
Ela só olha através da janela e fica quieta, quase
uma estátua.
— Meninas, por que não vão ver se a janta está
sendo preparada?
Ouço um “Sim, Alfa” em uníssono de Manu e Pri.
Raquel me olha de esguelha e eu reviro os meus olhos e
aceno para Alicia. Ela concorda com a cabeça e sai,
deixando-me sozinha com minha cunhada.
— Então... Quer me contar o que aconteceu?
Ela estava tão absorta em pensamentos que deu
um pulo quando ouviu a minha voz.
— Eu...
— Vamos lá, Alicia, que diabos aconteceu? – Não
me culpem, estou com os nervos a flor da pele.
Ela me olha por alguns minutos, suspira e começa
a falar:
— Sabe que foi ele quem sequestrou Raquel, não
é? Ele queria te sequestrar, na verdade, destruir o meu
irmão... Mas ele não é mau, sei que não é. E, mesmo
assim, eu não consigo...
Ela parece perdida em memórias e a deixo lá por
alguns instantes.
— O que não consegue?
— Não consigo olhar para ele e não lembrar
daquele dia... Lucas odeia Noah porque ele matou o seu
irmão.
— E por que Noah mataria o irmão dele? – Vamos
lá, Noah não é nenhum gênio fácil, mas também não sai
matando pessoas por aí, eu acho que não.
— O irmão dele me... Sequestrou. Ele colocou na
cabeça que era o meu companheiro, me montou e me
mordeu à força. Quando o enlaçamento não ocorreu, ele
só... Ficou tentando me deixar grávida.
Isso é... Terrivel. Sinto pena de Alicia, mas sei
que essa é a última coisa que ela precisa. Sabendo como é
meu querido Supremo, ele provavelmente a encheu de
cuidados e não a deixou sem proteção depois disso, ela já
teve gente demais sentindo pena.
— Isso é uma merda. – Não sou muito conhecida
por dar bons conselhos e, bem, a situação realmente é uma
merda.
Ela sorri, um riso triste.
— Você não tem noção do quanto. Quando vi
Lucas e soube que ele era o meu companheiro, fiquei feliz.
Pensei que havia finalmente encontrado a pessoa que faria
o meu passado desaparecer, que faria finalmente com que
a dor sumisse, que me faria esquecer de tudo pelo o que
passei. Então, descubro que é o irmão da pessoa que me
causou tudo isso. O engraçado é que os seus olhos são
quase idênticos, o que os torna ainda mais parecidos.
— Mais eles não são, certo? Lucas nunca a
magoaria.
— Não, ele não o faria.
— Quer saber, Alicia? Eu acho que você
encontrou o companheiro perfeito. – Isso chama a sua
atenção e ela me olha boquiaberta.
— Você pode não ter escutado o que acabei de
falar e...
— Não, ouvi perfeitamente – corto-a. – Você não
precisava de alguém que a fizesse esquecer o que passou,
precisa de alguém que te faça superar, e esse alguém é ele.
Não estou dizendo que vai ser fácil. Olhe para mim e seu
irmão, não há nada fácil por aqui, mas ele te curará, se
você permitir que assim o faça.
Alicia, de uma hora para a outra, gruda em mim e
me abraça, somos interrompidas pelo leve chute de meu
bebê. Ela se afasta, seus olhos estão marejados.
— Eu não acredito que vou ser titia, isso é tão
incrível! Já pensou em um nome?
Suspiro, claro que não pensei em um nome.
— Tudo o que penso, cunhadinha, é fazer com que
minha cria nasça em um mundo de paz.
O clima fica tenso, ficamos sérias e caladas por
alguns instantes, até que não aguento todo o silêncio.
— Merda, esse tempo sem notícias está me
matando!
— Podemos ir na sala de Ravi, aposto que ele tem
notícias.
Por que não pensei nisso antes? Ravi parece ser o
gênio da matilha – ou coisa do tipo –, ele está sempre
rodeado por eletrônicos de última geração e armamentos.
Quando estava passando pela sala para ir até o
escritório onde Ravi fica, Raquel me avista e corre para o
meu lado.
— Não me deixe na cozinha, Estranha, não sou a
droga de uma dona de casa, e sempre é mais divertido
com você. Sabe...? Quebrar regras, aprontar.
— Eu não faço esse tipo de coisas – defendo-me,
mas já sorrindo, e ela sorri junto.
Bato antes de entrar, ninguém pode me culpar por
ser mal educada. Ele está lá, sentado, monitorando
câmeras, procura espaços aéreos e fala por um
comunicador com... Noah. Fico espantada, quem diria que
fossem tão modernos?
Ravi percebe nossa presença e puxa duas cadeiras
que estavam ao seu lado. Ele tapa o microfone e sussurra
para mim:
— Eles encontraram um rastro, o espaço seria
perfeito para um laboratório, estão entrando agora.
Algo nisso tudo me incomoda...
— Como encontraram o rastro? Lucas não disse
que foi dopado e que seria difícil encontrar algo? Como
conseguiram em tão pouco tempo?
— Eles são desgarrados Lua, desgarrados deixam
sujeira por onde passam, deixam corpos e sangue.
— Tem uma pergunta que queria te fazer desde
que me transformei em loba... – Raquel diz, meio sem
jeito.
— O quê? – Não consigo tirar os meus olhos do
monitor, a área é afastada, é uma área abandonada de
antigas fábricas...
— Dizem que a ligação de companheiros é
inquebrável e que, se separados depois do enlaçamento,
eles sentem tanta dor que poucos são os que sobrevivem..
Então, como sua mãe conseguiu?
— Ela conhecia uma bruxa que disfarçou o seu
vínculo, ela não sentiu muita dor. – Algo nisso estava me
incomodando, fácil demais.
Área deserta, sem movimento por perto, sem
pessoas... Claro que é uma ótima área para se construir
um laboratório clandestino, mas principalmente por ser
uma área de fácil limpeza, limpeza... Abro meus olhos
como pratos e tomo o microfone de Ravi.
— Noah, todos! Saiam daí agora! É uma
armadilha, vão!
Meus olhos estão grudados na imagem de satélite
em tempo real. O prédio, alguns segundos depois, explode
em cinzas e chamas, nós estamos petrificados, olhando
para tudo isso sem acreditar, isso não pode estar
acontecendo, não mesmo...
Noah

Preciso terminar logo isso, essa situação não pode


mais ser sustentada... Humanos nos estudando, era tudo o
que precisava neste momento. Lucas nos levou até o seu
apartamento, nos indicou o local onde Alicia foi atacada
pelo desgarrado e, lá, encontramos uma pista que nos
levou até uma área industrial abandonada. Como o local
parecia ser deserto e como decidi não esperar por
reforços, ordeno que eles fiquem distantes e caminho em
direção ao galpão principal para averiguar a situação.
Pare.
Ouço a voz do meu lobo me dizer. Estava a certa
distância ainda do prédio principal e estanco no lugar.
Escuto também a voz de Lua me dizendo para correr, mas
é tarde demais, enxergo tudo em vermelho e, depois, o
branco me cega, não sinto mais nada.

Leandro

De que porra de inferno veio isso?!


— Noah!
Corremos todos até o lugar, estava em chamas,
uma nuvem de fumaça tomava o local rapidamente.
— Merda...
Separamo-nos, cada um foi para um canto em
busca de Noah, está difícil farejar por causa do cheiro
forte de fumaça, isso vai ser como procurar uma maldita
agulha num palheiro. Porra! Que ele esteja bem, recuso-
me a viver em um fodido mundo sem meu irmão.
Sinto cheiro de sangue, fraco, misturado com todo
o resto, acredito que só tenha sentido o cheiro por ser seu
Beta. Encontro-o caído, sujo, sangrando, desmaiado, sua
pulsação está baixa, baixa demais. Noah está quase morto.
Quando abro seus olhos, vejo sua pupila completamente
branca, a explosão o cegou, isso não pode estar
acontecendo...

Luana

O telefone toca algum tempo depois. Raquel e eu


ainda estamos petrificadas olhando para aquela imagem,
como se o mundo tivesse resolvido pausar nessa cena.
Isso só pode ser algum tipo de brincadeira, certo?
Mas eu ouço a conversa que Ravi tem ao telefone,
ele fala com Alec. Alec pede para chamarmos o médico e
prepararmos tudo na casa de Noah, pergunta sobre mim,
teme por mim e por minha cria, diz que Noah foi o único
que se machucou, que ele está mal.
Eu ouço tudo isso e mal consigo me mover, mal
consigo respirar. Você já recebeu uma notícia tão absurda,
algo que pensou que jamais aconteceria, e pensou que
estivesse em um sonho? Sério, só pode ser sonho, porque
a vida não seria uma fodida de uma sacana por tirá-lo de
mim. Toco em meu rosto, mas nenhuma lágrima está lá,
sinto-me seca, vazia, como se a minha própria alma
estivesse suspensa.
Caminho até a casa de Noah e, lá, várias pessoas
estavam em movimento. Havia um quarto na parte de
baixo que foi agilmente preparado com uma maca e vários
aparelhos hospitalares. Alicia estava desesperada,
chorando e sendo amparada pelas outras garotas. E eu
estou aqui, como uma casca vazia, agindo por instinto,
ficando em pé por instinto, respirando por instinto.

Alec

Merda, estamos quase chegando ao condomínio


que pertence à matilha, mas Noah está muito mal, algo
nele está errado, suas feridas estão tão sérias que não se
curam. Há uma barra de ferro que voou dos estilhaços do
prédio e está alojada em seu peito, não pudemos tirar, não
sabemos se ele pioraria quando retirasse isso. Sua
respiração é fraca, seus batimentos estão fracos... Penso
em Lua, no seu filho... Merda...
Chegamos voando na casa de Noah. Lá, pessoas
já vieram nos ajudar a carregá-lo para dentro. Vejo Lua na
sala, Alicia está chorando e desesperada, ela é sustentada
por outros da matilha, que não permitem que ela corra até
Noah. Lua está calma, seu olhar está vidrado no corpo de
seu companheiro.
O médico da matilha faz com que coloquemos
Noah em uma sala. Lá, ele começa a examiná-lo e nos
manda sair, mas Lua entra na sala e começa a desinfetar
suas mãos e a prender seus cabelos.
— Você não vai ficar aqui.
— Não, Alec, você não vai ficar aqui. Saia e leve
todos os outros juntos. Saiam todos.
Vejo Leandro, o Beta de Noah, sair da sala com a
ordem de Lua, seguido por Ravi e Lucas. Olho para a
minha irmã, que se parece como uma rocha agora. Por
quanto tempo eu precisei de Lua mais do que ela precisou
de mim? Quando ela se tornou alguém assim? Saio da sala
e a deixo lá, com Noah e o médico, oro para que ele
sobreviva, porque não há outro Supremo, eles não nascem
ao mesmo tempo, só pode haver um e, nesse estado da
comunidade de lobos, seria uma catástrofe, seria o
próprio caos.

Luana

Olho para Noah, ele quase não cabe na maca, tão


forte e agora... Sustento a sua mão, enquanto o médico
começa a fazer exames. Ele está sujo e sangrando, da
barra de ferro em seu peito sai um filete de sangue, seu
coração descompassado me assusta, sua respiração em
pequenas e raras lufadas é como uma prece para mim.
Fiquei ali, todo o tempo, pedindo: Vamos, respira de
novo, e de novo e de novo... Nós não costumamos prestar
muita atenção em coisas tão comuns como respirar, mas,
agora, estou sustentando a mão dele e orando por cada
respiração, a cada segundo, como se fosse um round de
uma luta. Seguro a sua mão, esperando que ele aperte de
volta, esperando um maldito milagre acontecer, esperando
esse sonho ruim acabar. Porém, sinto o seu cheiro, o seu
sangue mancha também os meus braços e eu sei, sei que
não é um sonho, sei que não pode ser. Mas, porra, como
eu gostaria que fosse.
Algum tempo depois, que pareceu uma eternidade
para mim, ele diz:
— Ele não está se curando como deveria, a barra
de ferro é o que está mantendo-o com vida. Caso tire, ele
terá hemorragia, não sei se sobreviveria a isso.
— Saia.
— O quê?!
— Saia.
O médico fecha a porta atrás dele. Do outro lado,
consigo ouvi-lo explicando a situação para Leandro e
Ravi, consigo ouvir os gritos de Alicia, o choro da
matilha.

Noah

Sinto-a ao meu lado, como uma fortaleza, a


minha companheira me acompanha. Noah deveria ter
entendido, ele deveria saber que o vínculo é raro, o
enlaçamento é sagrado, ele deveria ter entendido que
ela é tudo, ela é todo o nosso mundo. Ouço-a falar
comigo, não para ele, comigo:
— Por favor, volta para mim.
— Eu nunca, jamais, te deixei.
— Por que não está se curando?
— Talvez o nosso tempo tenha acabado, Lua.
Talvez, em algum lugar do mundo, esteja nascendo um
Supremo. Ou, talvez, alguém esteja se tornando um, é
como uma lei do universo, um Supremo Alfa, às vezes,
não nasce assim, ele se torna.
— Não entendo...
— Minha Lua... Sempre estarei aqui por você.

Leandro

Um aparelho faz uma zoada estranha, um bipe


contínuo, todos entramos ao mesmo tempo, porque
sabemos o que isso significa. Não, não, não...
Quando entramos, Lua está concentrada, de olhos
fechados. Quando ela abre seus olhos, eles brilham em um
tom leve de vermelho, como se fosse uma safira dentro da
água. Então, ela ordena:
— Tire isso.
O doutor e eu pegamos no ferro que está no peito
de Noah e o puxamos ao mesmo tempo. Assim que o ferro
sai, ela deposita suas mãos ali, fecha seus olhos, ele não
pode ter morrido...
É o que digo para mim mesmo, mas Noah não
respira, ele não se move, seu coração para.
Luana

Enquanto o lobo de Noah fala comigo, posso


sentir... Consigo sentir uma ligação diferente, uma ligação
que não me pertence, algo que não me pertencia, até então.
É como algo que estivesse aflorando em meu corpo, como
algo que está ali, mas não é necessariamente meu.
— Seu lobo idiota, você não vai se despedir de
mim, nem hoje nem nunca, está me ouvindo?
— O que está fazendo, Lua?
Sinto também a nossa ligação, uso um poder que
não é meu, uso o poder de Noah por direito, o poder do
Supremo.
— Tire isso dele.
Quando mãos que, confesso, mal vejo de quem
são, retiram aquela barra de ferro do peito do meu
companheiro, eu deposito minhas mãos no furo que fica.
Elas encharcam de sangue, do seu sangue.
Eu sinto meu laço com Noah como uma pequena e
frágil corrente que está prestes a se partir, mas há algo
diferente. Enquanto o meu laço e o de Noah se torna
frágil, enquanto Noah morre, algo dentro de mim fica cada
vez mais forte, uma ligação diferente, uma ligação que não
é minha. Fecho os meus olhos e concentro-me, envolvo
essa nova ligação entre a minha e a de Noah, entre a
ligação que protege a sua vida. Divido com ele a minha
energia de vida.
Vamos lá, funciona! Volta para mim!
— Como você está fazendo isso?!
Eu não sei, não sei como faço isso, mas meu
corpo se esgota, minhas pernas fraquejam e sei, sei que
estou usando uma força que não é minha. Só a minha
ligação com Noah não seria capaz de fazer isso, nossa
ligação é forte, porém, o que está acontecendo aqui é
praticamente um milagre. Os olhos de Noah abrem um
pouco, vejo o brilho vermelho, o brilho vermelho que se
espelha em meu olhar, porque, agora, divido algo com ele.
Sei que na história nunca existiram dois Supremos, mas
hoje, vendo-me espelhada em seus olhos, sei que estamos
escrevendo um novo capítulo na história do nosso povo.
Suas feridas começam a sarar, pessoas o rodeiam,
mas ele e eu travamos o olhar. Sei que é o lobo quem está
lá, não Noah.
— O que aconteceu?
— Era necessária nossa morte para o
surgimento de um novo Supremo. Agora, não sei o que
poderá acontecer, nunca antes houve dois. Porém, é
mais que isso, Lua, você uniu... Sua vida a nossa. Se um
dia morrermos, você também morrerá. Se um dia você
morrer, será a nossa ruína. Você nos uniu, a alma de
Noah, sua vida, estava em passagem, e você a puxou de
volta, você a solidificou com a sua própria. O que o faz
viver, é você. Você é a nossa vida agora.
Essas são as últimas palavras que entendo antes
de cair na completa escuridão.

Noah

Abro os meus olhos de vez porque sinto o corpo


de Lua cair, vejo quando seu irmão vai até ela, mas o meu
lobo está mais forte do que nunca, e ele é possessivo.
Rosno para Alec, que estanca em seu lugar.
— Toque nela e você morre.
Sei que é ridículo, que não faz sentido, mas ter
qualquer um tocando-a, neste momento, não seria algo
bom. Levanto-me e puxo alguns fios que estavam ligados a
mim. Vejo a minha irmã correr em minha direção e
também rosno para ela. Lucas a segura e não permite que
Alicia encoste em mim. Abaixo-me, toco em Lua, sinto a
sua pulsação, a dela e a do nosso filho, eles estão bem.
Sinto seu cheiro diferenciado, porque o cheiro do nosso
filho e o dela agora se misturam. Ergo-a em meu colo,
meu lobo nunca antes havia tomado o meu corpo enquanto
homem e, agora, parece que isso está se tornando um
hábito. Ele... Nós caminhamos com Lua no colo, e todos
abrem passagem, ninguém ousa nos interromper. Neste
momento, sei que tudo o que meu lobo pensa é nela, ele
não se preocupa com a minha irmã, com meus amigos,
com a matilha, ele está pouco se lixando para todo o resto,
porque o todo agora é ela.
Ele a coloca em cima da minha cama, tira a sua
roupa, o lobo abaixa a minha cabeça e fica ali, com o
rosto em sua barriga, como se sentisse algo a mais do que
os batimentos e os leves chutes do nosso filho.
— Que merda aconteceu aqui?
— Ela nos salvou.
— Agora, ele resolveu falar de novo.
— Eu sempre estive aqui, você que nunca soube
me ouvir.
— Ah, e por que agora eu “sei”?
— Lua.
Ele responde simplesmente com o nome de nossa
companheira, percebo o quanto essa garota encrenqueira e
espirituosa mudou completamente tudo.
— O que aconteceu?
— Vou te contar uma história, Noah... Há muito
muito tempo, os laços de companheiros entre a nossa
raça eram algo raro, reis e rainhas iam ao trono por
possuir esse laço. Os antigos diziam que um rei nunca
poderia ser um rei se não estiver completo, e um lobo
nunca estará completo sem a sua companheira. Quando
um lobo encontrava a sua destinada de alma, ele
liderava a todos, porque ele era o lobo completo. Foi daí
que surgiu o Supremo Alfa. Porém, esse raro laço tinha
seus prós e contras. Juntos, os dois lobos eram
completos, eram fortes e podiam usar certas magias que
foram esquecidas no dia de hoje. Todavia, se algo
acontecesse a um deles...
— A dor é imensa quando alguém perde o seu
companheiro, eu sei, já vi isso.
— Não, Noah, você pensa que já viu isso. Eles
não sentem dor, eles morrem, eles definham, porque
perdem o seu motivo de vida. Não há um “se”, não há
sobrevivência. Aquele que fica, logo segue o caminho
daquele que já se foi. Mas as antigas artes foram
esquecidas, as antigas uniões também. O gene desse
primeiro rei, o primeiro unido, foi passado de geração
em geração, e seu filho, com maior quantidade de poder
e pretensão a seguir seus passos, nasce com os olhos
vermelhos. Foi assim que você se tornou um Supremo.
Dizem que dois Supremos não coexistem, dizem que,
caso existissem dois Supremos, eles teriam que lutar até
a morte. Veja, com dois Supremos, poderia existir lados,
lados que entrariam em guerra.
— Não entendo... Por que está me contando tudo
isso?
— Porque nós estamos unidos a Lua.
— Eu sei.
— Não, Noah, não sabe. Nós estamos com
nossas almas unidas a dela.
— Merda! Isso significa que...
— Se morrermos, ela morre.
— Puta que me pariu! Isso não pode ser verdade.
— Você está disposto a testar essa tese?
— Infernos que não!
— Nem eu.
— Por que você está comandando o meu corpo?
— Sua alma ainda está fraca.
Vejo-o tocar em Lua novamente.
— Sei, isso não tem nada a ver em estar perto
dela de verdade.
— Você e eu somos um só, sempre estou perto
dela quando você está.
— Mas não é a mesma coisa, é? – Ele toca em seu
rosto, tão leve, como se tivesse medo de magoá-la.
— Não, não é.
— Você não vai sair daí e me devolver o controle,
não é? – Veja, estou fraco, por isso que ele conseguiu
tomar o meu corpo, não me incomodo em tê-lo perto de
Lua, afinal, ele sou eu.
Ouço sua risada rosnada, acho que isso é um não.
Fecho os meus olhos e o deixo ali, velando-a, enquanto
ela dorme. Lua estará segura, enquanto um de nós dois
estivermos por perto e, a partir de hoje, vou fazer de tudo
para que esse tempo seja o sempre.

Luana

Desperto, mas não abro meus olhos, sei que tem


alguém me encarando, sinto-me observada, como se duas
brasas estivessem em minha frente. Abro os meus olhos e
Noah está ali, seus olhos vermelhos e sorriso felino me
encaram.
— Companheira – ele sussurra.
Veja bem, está tudo escuro, e os olhos vermelhos
de Noah são como faróis no quarto. Claro que, com a
minha visão, consigo vê-lo perfeitamente, consigo ver que
ele está bem, suspiro de alívio.
— Por que não dormiu? Deve estar cansado.
— Não estou cansado, e não perderia o tempo que
tenho com você dormindo.
Sorri, um sorriso fácil e verdadeiro, e é aí que
vejo, não é Noah, é o lobo.
— Você percebeu.
— Bem... Digamos que você é mais aberto que
Noah.
Ele ergue a sua mão em frente ao meu rosto, estou
deitada de lado, e ele também. O lobo ergue sua mão, mas
não me toca de vez, ele só vai aproximando, como se
quisesse desfrutar do instante em que sua mão entrará em
contato com meu rosto. Não ouso nem respirar e, quando
sinto sua mão em minha face, fecho meus olhos e deleito-
me com seu toque.
— Abra os olhos, Lua... – ele pede, e eu os abro.
O lobo me olha com uma emoção que não consigo
nem descrever.
— Eu esperei tanto, tanto tempo, por você.
Algo em mim estala, algo em mim o reconhece,
algo em mim entende e sente exatamente o que ele está
falando. Noah ergue a mão e enxuga uma lágrima que
escorre pelo meu rosto.
— Como eu deveria te chamar?
— Eu sou ele, Lua, nós somos um só.
— Então, não se incomoda em ser chamado de
Noah?
— Não, é melhor do que lobo idiota.
— Você ouviu isso?
Ele gargalha.
— Sim, eu ouvi.
— Você não se incomoda?
Ele ainda está longe, como se tivesse receio de
me tocar, de se incomodar em ser ele, o lobo, e não ele,
Noah, a estar comigo agora.
— Vocês são um, e eu o amo. Então, a resposta é
não, nem um pouco.
Um sorriso lindo se abre e ele se aproxima um
pouco mais de mim, estamos a um dedo de distância
agora.
— Se dependesse de mim, você e eu já estaríamos
em um local seguro.
— O que quer dizer?
— Lua, eu demorei tempo demais para te
encontrar, não desperdiçaria nenhum segundo da minha
vida com outro ser que não fosse você.
Sorrio com isso, o lobo de Noah é cuidadoso,
atencioso, gentil... Pelo menos comigo.
— Mas não depende, Noah, toda uma raça
depende de você, a nossa raça.
— Mas eu dependo de você. Você não entende,
não é? Você é tudo o que tenho, tudo o que quero ter, tudo
o que desejaria um dia ter, tudo isso. Eu não preciso de
casa, você é meu lar, minha família.
Então, ele me beija, algo casto e doce, ele me
abraça forte e me põe protegida em seu corpo.
— Fica comigo para sempre, vai ser difícil estar
longe...
Quando ia abrir a minha boca para dizer que
sempre estaria com ele, que não iria para lugar nenhum,
ele me cala.
— Shiiiii... Não, não prometa algo que não vai
cumprir. Só me deixe ficar aqui, só me deixe te abraçar
pelo tempo de agora, e um amanhã eu te terei de novo,
Lua, minha Lua...
Eu não entendo... Não sei o que ele está falando,
mas meus olhos pesam, ainda estou cansada. Antes do
sono me ganhar, ouço-o dizer:
— Volte para mim, prometa que voltará para mim.

Raquel

Ok, isso, definitivamente, foi estranho, mas...


Bem, por isso que a chamo de Estranha, acontecem as
coisas mais loucas com essa garota. E, agora, cá estou, em
minha casa, a ex-casa de Lê, que agora é minha, óbvio,
claro que posso dividir com ele, às vezes. Meu grande
lobo mal está pensativo. Desde que Noah morreu, depois
voltou e depois, bem... Enlouqueceu com o lance de “não
me toque, não toque nela”... Isso foi estranho para mim, e
agora que percebo que talvez tenha sido estranho para ele
também. Já tinha coisa demais para lidar com o lance de
uivar para a lua e correr nua por aí, agora, mais essa,
magia-doida-de-vida-e-morte. Claro que não deve se
chamar assim, mas, como não sei, resolvi dar esse nome.
— Preciso de você, loirinha – ouço meu lobo
sussurrar, o que me desperta dos meus devaneios.
Vou encontrar Lê, que, quando entrou em casa, foi
direto para o banho. Entro no quarto e ele está sentado na
cama, com seu corpo e cabelo molhados ainda, como se
não tivesse se importado em se enxugar. Olho para ele e
meu coração dói, lembro-me de quando o galpão explodiu
e eu pensei que ele estivesse dentro. Eu iria perdê-lo, e
foi como se... como se eu também estivesse sumindo.
Olhando para ele ali, desolado, percebo, pela primeira
vez, Leandro com um ar fragilizado. Não vejo seus
sorrisos descarados, nem suas piadas sujas e, como se
uma necessidade, desejo vê-lo sorrir.
Quando encosto nele, percebo as suas lágrimas.
Merda, o homem está chorando, a última coisa que se
imagina em um homem desse tamanho é vê-lo chorar. E cá
está, o meu brutamonte com algumas lágrimas a escorrer
por seu rosto.
— Shiiii... Meu amor, está tudo bem.
Ele me abraça pela cintura e enfia seu rosto entre
os meus seios, seus ombros começam a dar espasmos e
vejo que seu choro piora. Desço minhas mãos pelos seus
ombros e acarinho seus braços, suas costas, faço
movimentos circulares, enquanto digo o quanto o amo, o
quanto ele é importante para mim, o quanto ele se tornou a
minha vida.
Com algum tempo, ele se acalma, sua respiração
se normaliza e eu tento me afastar para olhar em seu rosto,
mas ele rosna.
— Olha lá, já está rosnando, o brutamonte voltou
ao normal! – Ele me aperta mais e gargalha. Fico feliz por
ter feito com que sorrisse.
Lê olha para cima, e seus olhos vermelhos me
encaram com emoção e com a malícia de sempre.
— Eu quase perdi tudo...
— Não, eu quase perdi tudo. Vou ter que perguntar
para a Estranha qual o lance de morte e vida, porque, nem
ouse em morrer! Sério, vou te buscar nos confins só para
te dar uma surra por ter me deixado preocupada.
Ele sorri de lado.
— Eu... Poderia ter sido eu, sabe? Costuma ser eu
a ir aos locais antes de Noah, eu sou seu Beta. Mas ele
não deixou, ele quis ir sozinho. E quando tudo foi para os
ares, senti que falhei, falhei com Noah, falhei com você,
falhei com a matilha.
— Falhou por quê? Por que não foi você a se
estatelar todo?! – Afasto-me dele, porque isso me irritou.
— Era o meu dever, Raquel. Meu dever é ser a
merda do escudo dele, se necessário, meu dever é
proteger o meu Alfa, o meu irmão!
— Olha aqui, seu brutamonte – digo, colocando o
dedo em seu peito –, a sua porra de dever é se manter
vivo, não vai conseguir proteger ninguém se estiver
morto! Seu dever com todos nós é viver! Se você ama
algo, você vive por isso, não morre, não seja estúpido!
— Você está chorando.
— EU NÃO ESTOU CHORANDO!
Mentira, estou sim. Isso me irritou, não quero que
ele pense que é o maldito escudo do Capitão América!
Vamos lá, aquela porra nunca quebra, mas o meu homem,
embora seja um lobo, é feito de carne e osso!
Tento sair de perto dele, porque a minha vontade é
bater a porra da porta na cara de alguém, mas ele me
segura, e a droga do homem é forte como o inferno.
Ele me abraça.
— Me desculpe, loirinha, eu sinto muito...
Ainda com meu rosto abafado em seu peito,
suspiro.
— Eu preciso saber que, quando você sai nessas
missões de 007, você está ao menos tentando sair vivo, e
não se jogar na frente de alguém para se sacrificar! Você
não é a porra de escudo de ninguém, se fosse para alguém
ter um escudo gostoso desses, seria eu, e não Noah.
Sorrio e fungo, enxugando as minhas lágrimas.
— Gostoso? – Ele sorri de modo felino e me
sustenta em seus braços.
— Sério, Lê, você é o Beta, tem deveres, eu
entendo. Seu dever é estar ao lado de Noah, ele é como se
fosse a sua amante secreta e, tudo bem, estou bem com
isso. Mas fique AO LADO DELE, em pé, e volte para
casa.
Ele gargalha.
— Acho que você foi a primeira pessoa no mundo
a dizer que Noah é minha amante secreta, deixa só ele
saber disso.
— Peraí! Você não vai contar, vai? O Brutamonte-
mor já não gosta de mim, se você sair por aí, dizendo
todos os apelidos que coloco nele, então...
— Brutamonte-mor? Você não o chamou assim,
chamou?
— Talvez isso tenha escapado de minha boca em
algum momento...
Ele gargalha novamente e eu sorrio, gosto de vê-
lo rir.
— Para onde você vai?
Estava caminhando para a saída do quarto e olho,
sorrindo, para ele.
— Sério, loirinha, eu não brinquei quando disse
que estava precisando de você. E, quando digo
precisando, significa você sem roupas e embaixo de mim.
— Ah é? Quer saber, lobinho...? Se quiser, vai ter
que pegar!
Saio correndo pela casa e ouço um rosnar alto.
Leandro corre atrás de mim, mas, dessa vez, eu também
sou rápida. Nós, praticamente, destruímos a casa. Quando
ele ia me agarrar, eu desviava. Até que, para desviar dele,
fui parar em um canto da cozinha, sem saída.
— Ora, ora, veja se não é o meu prêmio
novamente.
Lê começa a me rodear, degustando de ter
finalmente pego a sua presa. Estou ofegando, e ele
também, nossas respirações se misturam. Leandro me
beija, enquanto a minha roupa é rasgada – de novo. –
Espero que ele seja rico, porque a próxima coisa que vou
fazer é roubar seu cartão de crédito e ir às compras.
Ele me ergue e rodeio a sua cintura com as minhas
pernas, nosso contato passa de desesperado para calmo.
Ele me coloca na bancada da cozinha, beija meu pescoço,
onde havia me mordido.
— Eu amo você.
É o que ele sussurra, enquanto me toma ali,
deliciosa e desesperadamente. Não consigo responder
nada, porém, o maldito me faz dizer várias vezes que eu o
amo, enquanto brinca comigo, deixando-me várias vezes à
beira do prazer.
Saciados um do outro, estamos agora na cama.
Deito sobre o corpo do meu lobo, ele é tão grande,
comparado a mim, que poderia muito bem fazê-lo de
colchonete. Leandro tem mania de brincar com meu
cabelo, ele passa a mão no meu couro cabeludo e afasta,
enquanto vários fios vão junto com sua mão. E foi assim
que eu adormeci, poderia dormir dessa forma pelo resto
da minha vida.

Lucas

Nunca senti um desespero tão cru como quando


senti o desespero de Alicia. A morte do meu irmão, dos
meus pais, passar tanto tempo sozinho em uma floresta,
isso foi fichinha perto do que senti com o desespero dela.
Sei que Ali sentiu a rejeição de Noah quando ele rosnou
para ela. Contudo, o que talvez ela não entenda é que, do
mesmo modo que senti esse desespero cru, um
companheiro também é capaz de sentir um instinto de
proteção em um nível completamente elevado. Tenho
certeza que ele atacaria até mesmo a irmã naquele
momento.
Agora, eu estou aqui, no meio da sala, todos já
foram para algum lugar, ou para suas próprias casas, e eu
estou debatendo internamente se pego as chaves do meu
carro e vou para o meu apartamento, ou se me encosto no
sofá e fico por aqui mesmo. Suspiro. Quando a minha vida
ficou tão confusa assim? Era tudo tão simples quando
vivia transformado... Caça, território, caça, descanso. A
vida de um lobo é simples. Por que a minha não é?
Porque, se fosse simples, não existiria ela. A resposta
vem em minha mente quando sinto o seu cheiro. Ali está
aqui.

Alicia

Estou há algum tempo sentada na escada,


observando Lucas de cima, tentando tomar uma decisão.
Tudo o que aconteceu aqui, hoje, serviu para me abrir os
olhos. Na verdade, foi como um soco no estômago.
Primeiro, saber que houve um acidente e, simplesmente,
que as pessoas que são mais importantes para mim
estavam lá. Depois, meu irmão morrendo, e depois, bem...
É como se eu tivesse perdido tudo e, no mesmo instante,
alguém dissesse: hei, é brincadeirinha, toma de volta.
Foi aí que eu percebi que, em um segundo tudo, pode
desmoronar em nossa cabeça e as coisas jamais voltarão
ao normal. Enquanto estou aqui, remoendo o meu passado,
o tempo está passando também, tempo que eu não vivo,
tempo que eu perco, um tempo que depois percebemos
que é tão valioso...
Eu posso escolher pular e viver algo incrível, ou
posso escolher ficar aqui em cima, só observando. O que
escolho?

Lucas

— Você vai ficar aí a noite inteira? – pergunto,


quando o olhar dela começa a me incomodar.
Alicia pula todos os degraus da escada em vem ao
meu encontro. Ela está diferente, isso pode ser algo bom,
certo? Ou talvez não seja, talvez ela finalmente vá me
mandar embora, ou coisa do tipo. Talvez ela tenha se
tocado que alguém como eu não foi feito para alguém
como ela.

Alicia

Decido pular, literalmente. Ele está a minha frente


e, embora sua postura demonstre um ser frio, calculista e
duro, seu olhar está preocupado, e sei que sua
preocupação é muito mais sobre mim do que gostaria.
— Você está bem?
Aproximo-me mais dele, consigo me perder em
seus olhos verdes. Desta vez, quando as lembranças
voltam, eu não corro. Eu fico, eu enfrento, porque ele está
aqui, bem aqui, em minha frente. E se tem um motivo na
vida para que eu seja forte, esse motivo é ele.
— Não, eu não estou.

Lucas

Merda, sabia que esse lance do Noah tinha


afetado-a e tudo o mais, não sou muito bom com esse
lance de sentimentos...
— Eu não estou bem há muito tempo – ela
continua a dizer, e paro o que estava fazendo, que era
olhar para todos os lados, em busca de algo que pudesse
me ajudar. Paro e olho para ela.
— Eu sinto muito. – E sinto, realmente, vou sentir
muito por toda a minha vida, porque eu me sinto
responsável pelas merdas que meu irmão fez com ela.
— Mas eu me sinto melhor quando estou com
você. Alguém me fez enxergar que eu precisava encarar
meu passado, não só esquecer ou deixar para lá, porque
tudo aconteceu, foi real.
Ela diz e, por alguns segundos, seu olhar se perde
e ela balança a cabeça, como se quisesse voltar à
realidade.
— A verdade, Lucas, é que eu preciso de você. E
acho que você é tudo o que eu tenho precisado há muito
tempo.
E o que dizer diante disso? Quando a minha
princesa está aqui, em minha frente, abrindo-se pela
primeira vez, o que dizer? Nunca fui muito bom com
palavras... Meu lobo rosna, eu rosno e a puxo para mim,
ia beijá-la, vou beijá-la... Porém, antes disso, segurando
seu rosto e, somente com o meu polegar afastando os
nossos lábios, eu digo para ela:
— Minha.
Alicia concorda, faz um leve movimento com a
cabeça, e esse era todo o consentimento de que eu
precisava. Meu lobo uiva internamente. E eu? Estou
perdido e inebriado demais para pensar em outra coisa
que não seja seu corpo.

Alicia

Meu.
Minha loba diz, e nosso beijo devasta cada
barreira que criei dentro de mim, cada insegurança, cada
merda que tenha acontecido no meu passado, nada disso
importa. Tudo em que consigo pensar é nele, no seu corpo
e na sensação que me provoca.
Lucas me ergue em seus braços e engancho as
minhas pernas em sua cintura, sinto que ele está duro e
meu corpo estremece de antecipação. Continuamos a nos
beijar, enquanto ambos tentamos tirar a roupa um do outro,
o que é algo complicado, estando nessa posição e em
movimento.
A próxima coisa que sinto é minhas costas sobre o
colchão. Seus olhos verdes brilham na fraca luz do meu
quarto, ele tira a sua roupa sem desviar os olhos de mim,
como um predador que não deseja que sua presa fuja ou se
movimente, Lucas me hipnotiza com seu olhar. Depois, ele
caminha até mim e, quando penso que ele vai deitar sobre
mim e me beijar novamente, ele sorri. Passa seus dedos
levemente, abrindo o botão do meu short, parece que
estava se obrigando a não tocar em minha pele, seus
movimentos eram calmos e precisos e estavam me
levando à loucura. Ele arrasta o short por toda a extensão
das minhas pernas e o tira, o contato do tecido faz com
que eu estremeça novamente.
Fico de joelhos em cima da cama e Lucas em pé e
nu, a minha frente, tira a minha blusa. Depois, faz o
mesmo caminho com as minhas roupas íntimas. Estamos
ambos aqui, nos encarando. As unhas dele crescem, seus
dentes também, Lucas está perdendo o controle. Quando
fecha suas mãos em punhos, sangue escorre pelo chão, já
que sua palma acaba de ser perfurada por suas próprias
unhas. Sei que Lucas preferiria ir embora a me machucar,
ir embora a perder o controle comigo, não vim até aqui
para morrer na praia, não mesmo.

Lucas

Começo a perder o controle, isso acontece porque


fiquei muito tempo como lobo, isso que caracteriza um
desgarrado. Estou perdendo o controle, como meu irmão
perdeu...
Sinto seu toque em minha mão, ela toca as minhas
garras manchadas de sangue, ela me olha... Toca as minhas
presas, me beija ali. Minha princesa dá castos beijos em
meu corpo, meu lobo ronrona, ele se afasta, ele permite,
ele a quer tanto quanto eu. Domados, nós acabamos de ser
domados.
— Melhor? – ela pergunta, com um sorriso
diabólico em seu rosto, e vejo aquela ninfa que me tentou
dentro do carro a primeira vez em que a vi.
— Talvez... – respondo, prendendo-a em meus
braços.
— Pois espero que você esteja muito melhor,
preciso das suas mãos e de todo o resto desse belo corpo
neste exato momento.
Rosno e, ali, de joelhos em sua cama, com ela
montada em meu colo. Coloco-a de encontro à parede,
olhando em seus olhos, faço algo que desejo fazer desde a
primeira vez que a vi. Ela é doce, apertada e linda, nos
perdemos em movimentos, ela sussurra o meu nome,
tenho-a ali, com sua boca rosada, seu pescoço vermelho
por causa da minha barba, estamos quase alcançando o
clímax quando minhas presas saem. Meu lobo toma o
controle, ele a morde.
Algo tão forte toma o meu corpo, tremores tão
intensos, um prazer que nunca, jamais, senti em nenhuma
outra ocasião. Eu a marquei hoje, mas ela me marcou um
tempo atrás, desde o dia em que bati meus olhos nos seus.
Vejo, como mágica, nossas marcas aparecerem, elas
pegam no nosso ombro e terminam em nosso peito, eu e
ela, como espelhos, como metades, como o que somos:
um.
Capítulo 29– Companheiro
Luana

Alguém anotou a maldita placa?! Minha cabeça


dói, meu corpo dói e estou presa. Presa? Abro os meus
olhos de vez e suspiro ao ver o que “presa” quer dizer no
meu caso: Noah.
Tento me mover e ele rosna, apertando-me mais
em seu agarre, tento novamente e, como da outra vez, não
funciona. Tenho a brilhante ideia de acarinhá-lo para que
me solte. Começo por seus braços, passo para seu peito,
pescoço... Ele me solta e permite que eu fique por cima do
seu corpo, mordo seu lábio inferior, ele não aguenta e
sorri.
— Sabia que estava acordado! – acuso-o.
Ele inverte nossas posições e me aprisiona abaixo
de seu corpo – talvez não tenha sido uma ideia tão
esplêndida animá-lo logo pela manhã.
— Oi, meu amor, fiquei sabendo que me salvou a
vida – ele sussurra, enquanto beija o meu pescoço,
enquanto arrasta a sua barba pela pele sensível do local,
causando-me tremores.
— Hum, talvez – é o que respondo, não me peça
para ser racional agora, isso está bom.
— Acho que você se esqueceu disso. – Ele sai de
cima de mim e sinto uma maldita falta do calor de seu
corpo.
Noah me entrega novamente a caixinha, pego-a e
abro-a. Lá estava um anel lindo, simples e lindo, tinha
umas pedrinhas incrustadas e não era novo, parece que o
anel já vivenciou muitas histórias. Demoro um tempo
analisando os desenhos do anel e Noah, inquieto, começa
a se mover na cama.
— Sim, Noah, eu aceito. Logo depois, ela põe o
anel no dedo e nunca mais o tira, pela eternidade – ele
imita a minha voz e a voz de um locutor.
— Ei! Eu não falo assim!
— Sim, fala, mas eu quero ouvir dessa deliciosa
boca. Então, diga.

Noah

— Eu aceito.
— E?
— E o quê? Já disse que vou me casar com você
– ela diz, enquanto sorri. – O que mais quer de mim,
Noah?
Aproximo-me dela, coloco o anel em seu dedo e
deposito um beijo ali, um beijo que subo para o seu braço,
em sua marca de união comigo, e termino em seu pescoço
novamente, ali, onde posso sentir seu cheiro tão nítido e
característico, seu cheiro que inebria cada célula do meu
corpo.
— De você, eu quero tudo.
— E o que seria esse tudo? – ela pergunta, em um
fio de voz, enquanto, com minhas mãos, desbravo cada
canto de seu corpo.
— Eu quero seu corpo – dito isso, começo a
acariciá-la em seu ponto sensível –, quero sua alma –
encaro-a em seus lindos olhos azuis –, quero o seu
coração, eu quero tudo. Porque ter pouco de você nunca
será o suficiente.
— Espero que você tenha outras metas de vida. –
Tiro os meus dedos e os lambo, ela acompanha cada
movimento meu.
— Por quê?
— Porque, Supremo, você já tem tudo de mim.
Tudo de mim é seu, tudo o que sou é seu: meu corpo,
minha alma, meu coração, meu mundo, meus sentidos,
meus desejos.
Dito isso, ela envolve sua perna ao redor de mim,
dando-me pleno acesso a sua intimidade, Lua...
Não digo nada, não eram necessárias mais
palavras, nós somos um. Eu desistiria de tudo por ela, do
meu posto, da minha matilha, da minha raça, da minha
família, desistiria de tudo por ela e por minha cria, que
cresce forte dentro dessa mulher incrível.
Sempre é uma explosão de sentidos quando
estamos juntos. Quando estou dentro de Lua, posso sentir
cada mínima coisa: o gosto da vida, o cheiro de cada
toque, o toque de cada sentido. Nosso corpos se encaixam
em maestria, sinto o cheiro de sangue quando ela arranha
as minhas costas, e isso faz com que eu invista com mais
necessidade. Sinto quando ela está preste a vir, puxo seu
rosto e vejo seus olhos semicerrados e sua boca
entreaberta.
— Olhe para mim, amor. – Ela abre seus olhos
por completo e encara os meus, encosto minha testa na
sua, meus lábios nos seus e sussurro: – Venha para mim,
minha Lua. – Suas pupilas dilatam, suas paredes se
fecham ao redor do meu membro e lá se foi o meu último
resquício de controle.
Cansados, ofegantes, mas felizes. Meu corpo já
sente falta do dela... Só em pensar que teremos que nos
separar por algum tempo...
Terei que ir até as principais matilhas tirar a
verdade dos Alfas, preciso saber para onde as mulheres
estão sendo sequestradas e montar um mapa de modus
operandi dessa organização. Uma hora eles vão cometer
um erro, um engano, e eu estarei lá para matá-los.

Luana

Já era o fim da tarde quando consegui me


desvencilhar dos braços de Noah. Ele fez algumas
ligações, marcou algo com os outros Alfas, meu
companheiro terá que ficar longe de mim por um tempo, e
isso está me deixando com um puta de um mau humor.
— Largue a minha amiga, seu tarado! – Já
estávamos na sala, mas Noah não conseguia tirar as mãos
de mim e nem eu conseguia tirar, as minhas, dele; até que
uma Raquel se jogou em cima de nós e ficou entre mim e
Noah. Meu companheiro rosna para ela, que o olha
emburrada e dá língua para ele. Seguro a minha risada,
Raquel está praticamente me sufocando com seu aperto.
— Desculpe, cara, tentei segurá-la – Leandro diz,
quando chega na porta, seguido por Alec, Ian e Ravi.
— Deveria ter tentado com mais afinco. – Noah
rosna para Leandro, que dá de ombros.
— Já disse, ela era minha antes de ser sua, lide
com isso, sou a amante de Lua, assim como você é de
Leandro, e não me vê ao redor dele mijando o chão para
marcar território.
Raquel põe a mão na boca, da mesma forma que
ela sempre fez quando acabava falando demais. Minha
amiga não tem filtro entre a cabeça e a boca.
— Eu sou o quê?!
Não aguento, não quando ela diz que Noah é o
amante de seu homem, gargalho. Sério, gargalho tanto que
chego a chorar.
— Hammm, eu não acredito que disse isso em voz
alta. – Ela dá de ombros, como se isso não fosse grande
coisa, e Leandro vem até nós e a pega pelas pernas,
colocando-a em suas costas.
— Ei!!! – Raquel grita, quando já está de ponta
cabeça.
— Vou tirar a minha companheira daqui antes que
raios comecem a sair desse seu olhar mortal – ele diz para
Noah, mas também está sorrindo.
— Não, não, LÊ! Coloque-me no chão!!!
— Não, loirinha, gosto dessa vista – ele retruca,
enquanto analisa a bunda empinada próxima ao seu rosto.
— É sério, então, vire-me para Lua. – Ele vira de
costas e minha amiga, como se fosse a coisa mais normal
do mundo, ergue metade do seu corpo, ficando na
horizontal, e olha para mim, que já estou sendo rodeada
novamente por Noah.
— Hoje é Lua Azul, Estranha, sabe o que
significa? Você e eu sem esses trogloditas! É o nosso
costume, não vá quebrar isso, sério, soube que existe uma
maldição para quem quebra práticas de amigas...
— Eu nunca furaria com você, Lôra. – Pisco-lhe
um olho e ela sorri.
— Não mesmo – Noah me diz, enquanto Raquel
sai, sendo rebocada pelo Beta.
— Noah...
— Não vou ficar longe de você, é a minha última
noite aqui. Provavelmente, ficarei fora por um semana,
uma semana sem você! Não vou desperdiçar uma noite!
Merda... Uma ideia começa a se formar em minha
mente, e se...
— Já sei! Vamos fazer uma festa na matilha!
Raquel ama organizar festas, a matilha está precisando
disso e, bem... A maioria deles ainda não me conhece
realmente.
Noah parece pensativo e concorda, pulo em seu
pescoço e beijo-lhe a face, saindo correndo de suas mãos
logo depois.
Sei que meu irmão, Ian, Lucas, Noah e Leandro
sairiam, iriam se separar para conseguir as informações
de que precisamos junto às matilhas. Então, quando saí,
Noah não veio atrás de mim, ele tinha coisas a resolver
com os outros.
Corro até a casa de Raquel, eles estavam se
agarrando no sofá, entro sorrindo, pois frustrarei um lobo.
— Lôra, vamos fazer uma festa na matilha para a
Lua Azul, verba livre! – é a primeira coisa que digo
quando abro a porta. Vejo Leandro cair de bunda no chão,
porque a minha amiga acabou de empurrá-lo para o lado
e, agora, caminha em minha direção.
— Alguém falou verba livre?!
— Raquel, você não vai me deixar aqui, desse
jeito! – um Leandro mal humorado diz, quando se levanta.
Ela caminha até ele de modo sedutor e toca em
seu peito nu.
— Aposto que consegue se virar bem sozinho ou
guarde tudo isso para mais tarde. – Ela beija a sua
bochecha e, quando ele vai agarrá-la, minha amiga, de
modo ágil, escapa e vem para trás de mim.
Quando Leandro para em minha frente, não tira os
olhos da loira encrenqueira às minhas costas. Eu dou
risada, o que chama a sua atenção.
— Não se esqueça, nessa nossa relação, você
sempre será a outra. – Pisco-lhe um olho e ele rosna o
nome da minha amiga.
— Raquel...
— Amor, o que posso fazer? Ela é a Alfa! E,
como sou sua mulher, devo ser a Beta de Lua também, nós
temos dever, o dever da matilha em primeiro lugar e tudo
o mais – ela diz de modo irônico, e só agora percebo o
quanto todos já passam a me chamar por esse titulo: Alfa.
Ele passa as mãos em seu rosto.
— Vou tomar banho, tenho umas coisas para tratar
com Noah, mas não se engane, loirinha, espero que sua
agilidade tenha aumentado desde ontem à noite, porque,
quando eu te pegar, e eu vou... Vou te fazer pagar por isso.
Sorrindo, o homem se afasta e ela suspira.
— Merda de homem gostoso e perfeito.
— Você está de quatro!
— Até parece que você também não está! E,
querida, você viu aquilo tudo ali?! Não me importo em
ficar de quatro, de três, fazer o quadradinho de oito...
— Chega, Lôra, informação demais!!!
Ela sorri.
— Por onde começamos?!
— Vamos chamar as outras e, depois, vamos sair
para fazer compras.
Encontramos Alicia junto a Lucas, os dois se
uniram recentemente e não se largam. Sequestramos
Priscila e Manu também. Como o meu companheiro é
extremamente protetor, agora estamos todos em suvis
pretas, com Lucas, Ravi e mais um monte de lobos
gigantes e armados até os dentes. Estou me sentindo a
filha do presidente.
— O que vamos fazer exatamente? – Manu
pergunta, sem entender muito.
Raquel e eu dizemos ao mesmo tempo:
— COMPRAS!
— Alguém me diz por que estou aqui? – É como
se Ravi tivesse uma dor física, o homem não gosta de
muito contato com pessoas.
— Não vamos demorar, prometo. – Toco em sua
mão e ele se acalma um pouco mais, estranho... Como se
fosse uma fobia.
A cidade aponta logo mais, entramos em um
shopping e começamos a comprar decorações. Fomos ao
mercado e compramos comidas, a uma loja de essência e
compramos vários tipos de velas e, enfim, Raquel
conseguiu me carregar até uma loja de roupa, a louca
entrou em uma loja hot de fantasias e estava, neste
momento, no provador.
— Não, você não está fazendo isso! – digo,
sorrindo, enquanto olho para a minha Lôra, extremamente
sexy e com um sorriso descarado na cara.
— Agora, ele vai me pagar.
— Ele vai ficar louco.
— Essa é a intenção.
Faltam só duas horas para a noite cair, corremos
para casa e cada uma se dividiu nas funções, todos os
outros da matilha também ajudaram, era uma coisa linda
de se ver, todos trabalhando em conjunto, se ajudando.
Algum tempo depois, já estava tudo pronto.
As meninas e eu fomos nos arrumar na casa de
Raquel, após expulsar Leandro de lá. Estamos com
vestido soltos, fáceis de tirar, porque não sabíamos se
iríamos nos transformar hoje.
Quando saímos, todas as velas estavam acesas,
era como ter vagalumes particulares. Nossos respectivos
companheiros vieram até nosso encontro. Noah toca em
minha bochecha, olha-me de cima a baixo e sorri. Mesas
cheias de comida estão distribuídas por todo o local, há
uma música baixa tocando, o que permite que todos
tenham uma conversa agradável, está tudo tão lindo...
Noah vai até o centro do espaço e todos se calam,
estou um passo atrás de seu corpo e ele me puxa para o
seu lado. Olho para Noah e percebo o que ele quis dizer
com esse gesto, Leandro e Raquel vem ao nosso lado,
minha amiga para ao meu lado, altiva e séria.
— Muitos de vocês já a conhece, mas, hoje,
gostaria de apresentá-los a sua Alfa, minha companheira.
Em minha ausência, Lua é a encarregada da matilha. Sei
que estamos em tempos conturbados, mas passaremos por
isso com orgulho.
As nuvens se abrem, a Lua Azul aparece. Olho
para cima e é como estar hipnotizada. Então, as imagens
vêm até mim, uma guerra, uma garota, sangue, muito
sangue, lobos no chão, humanos no chão... Desperto do
meu devaneio porque sinto a falta do contato de Noah, ele
está agora a minha frente.
— Você está brilhando.
Olho para meu corpo e o brilho da Lua é refletido
ali. Um arrepio corre pelo meu corpo, como um presságio,
e eu tenho medo, medo do amanhã.

Noah

Ela estava brilhando, se já viu como uma lua azul


se parece, pode imaginar o quanto estou maravilhado com
Lua neste exato momento.
— Você está brilhando – digo, constatando o
óbvio.
Seguro em sua mão e algo passa por mim, como
uma energia elétrica andando por todo o meu corpo, e
sinto um poder diferente de qualquer coisa que já senti,
era como...
— Magia.
Meu lobo diz em minha mente.
Todos eles se ajoelham, toda a minha matilha se
ajoelha diante de nós.
— Finalmente! Estamos juntos novamente, sabia
que seria ela.
— O que quer dizer com isso? – ele não responde
a minha pergunta.
— Eles os reconhecem, Noah, eles reconhecem
os seus reis. O ciclo foi quebrado. A magia foi liberta, é
tempo de mudança.
Olho para a minha companheira e concordo.
Decerto, é tempo de mudança.
— Ouçam, divirtam-se, festejem, brinquem,
comam e bebam durante esta noite. Amanhã, teremos uma
missão importante, e os que ficarem terão a missão mais
importante, proteger a minha Lua.
Acarinho a sua bochecha, puxo forte o ar para
dentro de mim, inalando o seu cheiro e o da minha cria,
tenho feito isso como um hábito, gravando os seus odores
em cada terminação nervosa do meu corpo só para saber
que estão bem, só para ter um pouquinho dos dois em mim
quando me for por alguns dias.
A matilha se levanta e se espalha pelo terreno,
Lua toca em minha face.
— Ficarei bem, Noah. Cuide-se e volte para mim
– ela diz, com seus olhos brilhantes.
— Sempre. – Nos beijamos e, por alguns
segundos, só quero tirá-la dali, sequestrá-la para um canto
onde só eu poderei vê-la ou tocá-la. Por alguns segundos,
desejo que só existam nós no mundo, nós e o nosso amor,
nós e mais ninguém. – Por que não saímos daqui? –
sussurro em seu ouvido, e ela sorri. Meu corpo já está
duro em antecipação, desejo rasgar seu vestido e tomá-la,
marcá-la uma e outra vez, para que qualquer um que a
veja saiba que matarei quem tocá-la.
— Nem pense nisso, Supremo. – Ela toca em
minha boca e põe os seus braços ao redor do meu
pescoço. – Hoje, você não será meu amante cheio de
tesão, nem um lobo no cio. Hoje, você será o meu
namorado. Então, quero ser mimada e acarinhada.
Quase caio no seu papo.
— Isso, e porque, se você sumir agora, sua amiga
vai querer nos matar – digo e ela gargalha.
— É, isso também.
Puxo Lua para mim, toda a matilha está feliz, mas
não é isso o que mais percebo, ela está com um sorriso
brincando no canto de seus lábios e percebo o quanto a
felicidade dela é importante para mim.
— Você fez isso – digo em seu ouvido.
— Eu? Não fiz nada – ela responde, olhando em
meus olhos.
— Você é o motivo disso acontecer, Lua. – Pego a
sua mão e a coloco acima do meu peito, no local exato
onde meu coração bate. – E também é o motivo disso
acontecer.
Uma lágrima escorre de seus olhos e eu
facilmente a capturo com meu polegar.
— Desculpe, estou sensível, deve ser a gravidez.
— E, por falar nisso – abraço-a por trás e
observamos toda a matilha se divertir –, como anda nosso
filho?
— Bem, eu acho. Não sinto as coisas que uma
mulher grávida deveria sentir – ela diz, com o semblante
um pouco preocupado.
— Você pode ser tudo, menos normal.
— Obrigada, eu acho – ela agradece, com uma
careta em sua face, e eu sorrio de sua expressão.
— Sério, Lua, o que foi aquilo?
Ela para por um segundo, pensando.
— O que foi que aconteceu com o lance da lua
azul?
— Eu... não sei – ela diz, mas sinto receio em sua
voz.
— Lua... O que conversamos sobre esconder
coisas?
Ela suspira.
— Minha mãe costumava me contar algumas
histórias de família... Ela me dizia que era descendente de
uma bruxa, mas bruxas não existem, certo? – ela pergunta
com certo receio, olhando para mim. – Minha mãe me
contava que o lobo foi criado de uma magia poderosa, o
primeiro lobo... Foi uma disputa de famílias, um homem
matou um de seus irmãos, ela era a herdeira de um grande
clã de bruxos e, com ódio, plantou uma maldição, ele
seria uma fera, uma besta... Mas a magia deixa um rastro,
e ela foi perseguida por essa fera... Só que... A magia que
ela lançou era muito poderosa, ela teve que abdicar de
certas coisas e, neste caso, foi parte de sua alma... Minha
mãe me disse que ninguém pode viver com sua alma
incompleta, a bruxa estava morrendo por causa disso...
Certo dia, ela cansou de fugir e de correr, então, um
imenso lobo de olhos vermelhos a encontrou e ela não
fugiu, só que o lobo, ele... cuidou dela. Eles se uniram, ele
dividiu parte de sua alma com ela, devolveu-lhe a vida.
Depois, ela descobriu que sua família, seu irmão, era
corrompida e usava a magia de modo errado, tinha
cometido atrocidades no povoado do lobo. Quando a
família dela soube da sua união com aquele homem,
ambos foram caçados e ele se sacrificou para protegê-la,
deixando um herdeiro. Ela me dizia que os lobos surgiram
daí, e que essas duas almas, os primeiros, juraram que se
encontrariam em algum momento, que ficariam a
eternidade em busca um do outro e que, um dia, fechariam
o círculo.
Lembro-me do que meu lobo disse: o círculo foi
fechado.
Ela suspira, vejo saudades em seus olhos, ela
sente a falta da mãe. Todas as suas palavras fazem sentido
para mim, cada sílaba.
Abraço-a e começamos uma dança lenta, porém,
meu lobo interrompe em minha mente.
— Eu te achei.

Leandro

Meu amor estava muito gostosa essa noite, um


vestido folgado escondia completamente seu corpo por
baixo, o que só me deixou mais aceso e com um desejo
insano de arrancar o tecido de seu corpo.
— Loirinha, o que tem aí embaixo? – pergunto,
agarrando-a pela cintura.
— A-há! Meu grande lobo gostoso, você vai
descobrir – a pequena ninfa diz, de forma descarada,
olhando para mim.
— E por que não agora? – Aperto seu corpo de
encontro ao meu.
— Porque hoje, meu lobo, sou eu quem dita as
regras. Ajudei nesta festa linda e vou aproveitá-la, e você
estará ao meu lado.
— Nem em um fod... – Ela me corta com um beijo
em meu pescoço, Raquel roça seus dentes ali, fazendo-me
calar, porque estava ocupado demais salivando.
— Vamos, amor, dê-me isso, uma noite.
Comporte-se, vamos conversar como um casal normal,
que tal? – ela diz, enquanto começa a andar pela festa,
sorrir e falar com cada pessoa neste fodido lugar. Não
quero que ela fale com ninguém, minha loirinha está me
esnobando, e isso me irrita.
Caminho atrás de seus passos como um fodido
cão atrás de seu dono. Merda! Estou começando a falar
como ela, sorrio pensando nisso, em como a minha vida
mudou desde que ela entrou.
— Do que quer falar? – pergunto, atrás dela, e ela
vira-se triunfante, a pestinha estava me esnobando de
propósito para que eu fizesse o que ela queria, que é
conversar. O pessoal do meu escritório iria rir de mim, se
me vissem cair desse jeito.
— Hum... Como é o seu trabalho? – Sério,
trabalho? Não me importo em falar, porque isso faz com
que ela olhe para mim, e só para mim.
— Tenho um escritório de renome. Hoje, eu quase
nunca apareço por lá. Costumo resolver as coisas por
telefone ou por e-mail, só pego casos grandes, a maioria
do meu pessoal é competente o suficiente para resolver
casos sem mim.
— Hum... Quem foi a sua primeira namorada? –
ela me pergunta e eu ergo uma sobrancelha.
— Você.
Ela revira os olhos e me dá as costas, começando
a se afastar de mim, mas eu a puxo e colo nossos corpos.
— Sério, loirinha, nunca namorei ninguém.
— Você é um safado, Leandro, me conta outra que
nunca ficou com ninguém antes de mim.
— Claro que fiquei, mas nunca namorei, eram só
fodas. Você é a minha primeira namorada, minha primeira
mulher, meu primeiro amor, com ênfase no Minha,
loirinha, nunca se esqueça disso.
Dançamos por alguns minutos, a música estava
lenta, seu cheiro me inebria, faço círculos em suas costas
e sei que isso a está afetando, pois seu cheiro muda, ela
está ficando excitada. Bem, talvez a nossa saída
estratégica se dê mais rápido do que pensei.

Luana

Estava eu, dançando com Noah, quando sou


atacada – digo “atacada” atacada. Raquel não consegue
chegar em um local normalmente, não mesmo. Ela pula
entre mim e Noah e me puxa pelo braço.
— Socorro, Estranha! Estou quase tirando a roupa
do ogro com os dentes! – ela sussurra para mim.
— E qual o problema? – sussurro de volta. – E
por que estamos sussurrando???
— Ouvido biônico, esqueceu?! – ela sussurra,
apontando para sua orelha. Eu olho para Noah, que está
com uma carranca ao lado de Leandro, que leva uma cara
bem parecida.
— Sei... Qual o problema?
— O problema é que nunca vou conseguir me
vingar se quero arrancar a minha própria roupa e me
oferecer em um ritual louco para ele!!!
— O quê?! – grito.
— Shiiiii... Cala a boca! Até parece que você não
tem fantasias.
Gargalho.
— Estranhas assim, não. – Ela revira os olhos.
— O ponto não é esse, afaste-me desse poço de
tentação – ela pede com uma cara de choro.
Seguro o meu riso e concordo com Raquel.
— Certo, vamos bolar um plano! Você e eu vamos
dançar e conversar, fazer coisas de garotas, vamos falar
de menstruação, dor no peito, depilação, tudo o que eles
odeiam, isso vai dar certo! – Raquel diz confiante.
Prendo o riso e assumo a missão de minha amiga
louca. Quando Noah e Leandro pensam em caminhar em
nossa direção, começamos a conversar sobre partos,
menstruação e dores, eles fazem uma careta dupla e se
sustentam no lugar.
— Está funcionando, Estranha! – ela sussurra.
— Falando em parto, quanto tempo falta? – Toco
instintivamente em meu ventre.
— Um mês e pouco.
— Sério?! Onde você está fazendo essas contas?
Porque tenho certeza que não se passaram nove meses.
— Nós somos lobos, Lôra, essa é a gestação de
um.
— Merda.
— O quê? Eles estão vindo?!
— Nããão, você vai ter uma porrada de
cachorrinhos saindo daí? Porque, se bem sei, sai um
monte, e eu não consigo imaginar isso.
— Não!!! Só o tempo é diferente, nós nos curamos
mais rápido, e também nos desenvolvemos mais
rapidamente. Paramos de envelhecer com uns vinte e
cinco anos e vivemos cinco vezes o tempo dos humanos.
— O QUÊ?! EU SOU IMORTAL!
— Não, sua louca!!! Não somos nada disso, só
duramos mais, é só.
— DURAMOS MAIS?! Eu não sou a porra de um
alface na geladeira! Sabe quantas coisas posso fazer em
tanto tempo? Tudo! Posso viver umas cinco vidas. Sério,
estou me sentindo uma espiã. Pera, EU POSSO SER UMA
ESPIÃ!
— Menos, ô espiã! – Rio da minha amiga
maluquinha.
— Sério, você não vai ter um monte de
cachorrinhos?
— Não, vou ter só um, e não será um cachorrinho,
será um bebê. Eles só se transformam com treze anos.
— Hummmm... – Ela me analisa.
— Que foi?
— Não parece que está grávida, não acredito que
vá sair uma criança daí.
— Sério, pare de olhar para a minha vagina, ou o
Noah vai começar a ficar com ciúmes.
O problema é, com nossa conversa, acabamos
esquecendo de dois homens ciumentos e irritados, e fomos
pegas desprevenidas quando Noah me pega no colo e
Leandro olha triunfante para Raquel.
— Nem pense nisso, Lua!!! – minha amiga grita
para mim, mas também ouço Noah e seu lobo em minha
mente: Seja nossa, vamos, amor, queremos ter o seu
cheiro entranhado em nosso corpo, queremos te ver
dormir, não queremos te dividir com mais ninguém, não
por esta noite, vem.
— Desculpe, Lôra – digo para a minha amiga,
enquanto Noah me carrega para a nossa casa, enquanto eu
olho para ele e sinto-me completa. Às vezes, eu quero o
mundo, tudo o que sonhei. Às vezes, eu quero só ele...
Talvez só ele possa ser os dois: o mundo e tudo o que
sonhei.
Alec

Olho para a minha linda, o meu amor. Ela está


incrível, Manu tem a pele morena que contrasta com o
vestido branco que usa.
— O quê? – ela me pergunta, enquanto sorri
discretamente.
— Eu sinto muito. – E realmente sinto, ela se uniu
a uma Alfa, alguém estruturado e com uma matilha.
— Não deveria, estou feliz aqui, Alec.
Ela olha para Raquel e Lua e sorri.
— Aqui, eu posso ser alguém.
— Como assim?
— Eu... Posso ser alguém, um alguém com
personalidade, com desejo e com querer. Aqui, eu posso
ter opinião, está no início, mas eu já posso ver a mudança
que essas duas estão fazendo. Sinto isso, e sei que também
sente, e foi por isso que resolveu vir até aqui, porque
também deseja participar dessa mudança.
Abraço Manu e sinto seu cheiro, merda de cheiro
bom.
— Eu... Ela é minha gêmea e, às vezes, nos acho
tão diferentes, sabe? Lua sempre teve essa coisa de
orgulho, de ter orgulho daquilo que é, de onde veio...
Sempre pensei “de onde isso vem?”... Sabe, ela era...
maltratada na matilha, eu fazia o que podia, mas não
poderia estar sempre presente e, mesmo assim, ela
exalava orgulho. Hoje, penso se isso não veio da mamãe,
ela e Lua tiveram contato sempre e, às vezes, Lua dava
umas sumidas, ela sempre sumia por alguns dias durante
os meses... Quando eu vi toda a matilha se virar contra
mim, pensei: “Se eles tivessem só um tantinho do
orgulho de Lua”... Eu sou um Alfa, Manu, mas estou
buscando, vim atrás de Noah, e também vim por ela, eu
quero ter esse orgulho de Lua, ter orgulho do que sou, ter
você se orgulhando de mim.
Ela me beija de forma apaixonada, invadindo
cada pedaço de mim com sua energia, sua loba.
— Eu já sinto.

Raquel

Merda... Depois que a Estranha saiu, você me


ouviu bem: SAIU... E me largou aqui, com esse poço de
perdição, Lê anda em minha direção de modo predador,
de novo. Merda, parece que estou sempre sendo a merda
da presa, e isso precisa mudar! Finco os meus pés no
chão, ele me olha, estranhando a minha reação, mas não
para seu caminhar. Quando Lê está em minha frente, toca
de leve em minha cintura e a ponta de seus dedos me
causam leves tremores. Fique forte, forte como... Merda,
como alguém forte, o Hulk, sei lá.
Ele arrasta a barba por fazer por meu rosto e se
afasta, estranhando a minha falta de movimento.
Nós nos encaramos por alguns momentos, e ele
não avança mais nem um centímetro. Certo, limites, isso
se chama limites.
— Não me diga que quer conversar agora – ele
rosna para mim.
— Não, quero brincar. – Ele sorri de modo
cafajeste, e isso me faz vibrar internamente.
— Disso eu gosto, loirinha. Então, o que tem em
mente?
— Surpresa!
— Não sei se gosto muito de surpresas, Raquel...
Diga o que tem em mente.
— Não, você vai fechar esses lindos olhos e
contar até... 400.
— Ah, mas eu não vou mesmo!!!
— Vamos... Eu vou correr. Que tal um esconde-
esconde na floresta?
Ele para por alguns segundos e começa a pensar...
Merda, chego perto dele e, em seu ouvido, sussurro:
— Não está curioso para saber o que tenho por
baixo do vestido?
Seus olhos brilham e ele rosna.
— Um, dois...
Mas ainda está com os olhos abertos... Quando
chego na parte que inicia a floresta, ele fecha os olhos,
isso vai ser divertido.

Luana

Noah me carrega em seus braços, não em suas


costas, em seus braços, como se fosse algo precioso.
Sinto-me como uma recém-casada entrando em sua casa
pela primeira vez.
Ele me coloca em cima da cama e tira o meu
vestido, Noah me tem nua em sua frente e faz algo que me
surpreende, ele se ajoelha.
Noah se ajoelha e põe seu rosto sobre o meu
ventre, ele fica ali, ouvindo um estalar do coração de
nosso filho. E eu acho isso tão bonito que lágrimas
começam a descer pelo meu rosto. Seguro-me para não
fazer nenhum tipo de barulho. Ele ficou ali, apenas
sentindo esse serzinho ganhando vida e crescendo a cada
segundo, desenvolvendo-se um pouco mais. E, com esse
gesto, eu tenho a certeza de que Noah dará tudo que eu
nunca tive a essa criança, ele lhe dará uma casa, um lar,
uma família, proteção, amor... Principalmente amor.
— Merda, você está chorando de novo! – ele diz
angustiado, como se tivesse saindo algo verde dos meus
olhos, e não lágrimas, e eu sorrio de sua expressão.
— Estou bem, Noah, não se desespere. É que ver
você com nosso filho me deixou emocionada.
— Eu também não tive uma família, Lua. Perdi a
minha cedo demais, na verdade, e não sabia o quanto
sentia falta disso, até agora. Porque, agora, eu quero vê-lo
crescer, andar, quero ajudá-lo, ensiná-lo, quero que ele
seja alguém muito melhor que eu. Quero que não cometa
os mesmo erros, quero segurar em sua mão e guiá-lo e,
tenho certeza que, assim como você, meu filho me
ensinará muito mais do que esperaria aprender em toda a
minha vida.
Toco no rosto de meu companheiro e uma lágrima
também escapa, eu a seco e o olho com amor, pois é isso
que sinto, eu o amo. Mas algo me incomoda desde o
evento da Lua Azul...
— O que foi?
— Não vou conseguir esconder nada de você,
nunca mais, não é?
— Não, não vai.
— Eu estou preocupada... O que aconteceu lá
fora... E se isso afetar o nosso filho de algum modo? E se
algo der errado?
— Nada vai dar errado e, bem, acho que sua mãe
tinha razão.
— Razão sobre o quê? Sobre bruxas? Vamos,
Noah, daqui a pouco vai me dizer que fadas existem!
— É...
— O QUÊ?!!! – Fadas, tipo asinhas e tudo o
mais? Não.
— Certa vez, conheci um cara, algum tempo atrás,
eles não gostam de ser chamados de fadas, preferem o
termo faes.
— Não brinca comigo!
— É sério, Lua, nós existimos. Por que não as
fadas e todo o resto?
— O que quer dizer sobre todo o resto? Você já
teve contato com mais algum sobrenatural?
— Vampiros.
M.E.R.D.A.S.A.N.T.A.
Fico boquiaberta por algum tempo e ele muda de
assunto, fazendo-me carinho e dizendo-me coisas bonitas.
Bem, pedi um namorado e acho que ganhei um marido esta
noite.

Leandro
— Quatrocentos – digo, em um rosnar, e caminho
em direção a floresta.
Farejo o seu cheiro, seu rastro é nítido. Depois,
terei que ensiná-la a esconder seus... Paro no caminho e
no meio do pensamento, encontro seu vestido. Penso: E se
ela não está de vestido... Rosno internamente e continuo
seguindo a trilha, encontro suas roupas íntimas mais a
frente. Mas que porra é essa?!
Caminho até a clareira, porque é lá que seu cheiro
me leva, temos uma caverna por aqui e... P.O.R.R.A.
Raquel está com uma capa vermelha sangue, sua
boca rubra faz um contraste com sua pele branca. A capa
está à frente de seus seios que, pela barriga nua, significa
que não há nenhum pano os cobrindo. Ela está de salto
alto, vermelho. Resumidamente, o que a cobre é uma capa
e uma saia mínima. Ela está com o capuz da capa sobre
sua cabeça, cabelos soltos, e olha-me de cima a baixo,
mordendo seu lábio inferior. PORRA!

Raquel

Surpreendê-lo era só o início, e sei que fiz isso


quando o vejo me olhar e petrificar no lugar. Leandro não
sabe, mas vou tirar muitas coisas dele hoje.
Começo a andar de costas para dentro da caverna
e ele vem, me segue. Mas não como antes, Lê não caminha
em minha direção como um predador, caminha como
alguém enfeitiçado. Dou pulos internos, INTERNOS,
porque, se fizesse isso agora – embora esteja querendo –,
estragaria tudo.

Leandro

Sigo-a para dentro da caverna. Merda, a mulher


parece o flautista encantado, e eu a sigo como a porra de
um zumbi. Há velas por toda a parte, há um colchão
forrado em um tecido vermelho sangue, mas eu não presto
atenção nisso, porque olho para ela, que caminha até mim.
— Oi, meu grande lobo – ela sussurra, próxima a
mim.
— Oi, minha Chapeuzinho.
Ela, na ponta dos pés, morde meu lábio inferior, e
eu rosno e gemo ao mesmo tempo, essa mulher vai ser a
minha ruína.
Avassalador, seguro em seu pescoço e travo uma
fodida de uma briga com sua língua.
Ela para o beijo aos poucos.
— Pare.
— Porra, Raquel, não sou a porra de um santo,
não vai ficar vestida assim e me mandar parar!
— Sim, vou, porque hoje – ela começa a tirar a
minha camisa e desabotoar a minha calça – eu vou
conhecer cada pedacinho deste delicioso corpo. Então,
deite-se e desfrute.

Raquel

Quer ver um homem te obedecer? Dê a entender


que vai fazer sexo oral com ele – o que não significa que
não farei. O quê?! Não sou a porra de uma freira.
Lê deita no colchão que arrumei, pedi um
favorzinho para Ravi... Claro que, quando ele soube quais
seriam os meus planos, me ajudou de imediato, contanto
que tirasse uma foto dele nessa posição.
Ele está nu e em toda a sua glória. Lê é lindo, e
demoro um tempo admirando meu homem.
— Merda, pare de me olhar assim.
— O quê, amor? Direitos iguais, eu posso muito
bem secá-lo e dizer que tem o corpo mais gostoso que já
vi, e o quanto gostaria de foder cada linda parte de seu
corpo.
Minhas palavras o atingem, sei porque ele fecha
os olhos e respira com dificuldade.
— Feche os olhos e coloca as mãos para trás.
Ele me obedece sem falar nada e eu caminho para
perto dele, deixando a minha capa roçar em seu corpo nu
de propósito. Então... Tcharan!!! Consigo o que queria e,
desta vez, dou pulinhos!!!

Leandro

Forço meus braços para frente do meu corpo.


— Merda, Raquel, você não me prendeu em uma
porra de corrente.
Ela caminha em frente a mim, fica em pé com uma
perna em cada canto do meu corpo e me olha de cima. A
porra da mulher parece uma deusa.
— Não, meu amor. Hoje, eu levarei meu tempo
com você, e não se preocupe, será prazeroso.
Dito isso, Raquel se abaixa diante de mim,
começa a me tocar e... Porra, ter sua pequena mão ao
redor de mim é fodidamente bom. Fecho meus olhos
novamente e puxo as correntes, isso é prata. Abro meus
olhos, porque sinto algo molhado ao redor de mim, vejo
sua boca vermelha trabalhando e... Merda, nunca senti
algo tão bom. Minha mulher é sexy como a porra! Sinto
que vou explodir, mas ela para e eu rosno.
Ela sobe por meu peito e começa a me beijar ali,
sempre me acarinhando com suas mãos. Então, quando
estou a ponte de... Ela para novamente. Raquel se afasta
de mim.
— Volte aqui, Loirinha. Quando eu me soltar,
você vai ficar alguns dias me sentindo dentro de você!
Mas ela para em um lençol que estava ao meu
lado, afasta a capa, ergue-a um pouco e começa a se tocar.
A porra da mulher se toca ali, na minha cara, enquanto eu
fico aqui, aguando por ter minhas mãos sobre esse
delicioso corpo. Raquel faz sons e caras que me
enlouquecem.
— Porra, loirinha, monte aqui, agora!
Ela me olha e, por alguns minutos, continua em
seu trabalho de me torturar, enquanto olha o meu corpo de
cima a baixo.
Então, ela levanta e caminha novamente para mim,
porra...

Raquel
Caminho até Lê novamente, sento-me em seu colo
e o beijo, beijo seu pescoço...
— Porra, vai logo, porra.
— Meu ogro tem uma boca linda e suja.
Ele sorri.
— Até parece que você não gosta dessa boca
linda e suja.
Abaixo meu corpo sobre o dele devagar, dando-o
acesso devagar...
— Porra, loira, entra logo!
Sorrio, ele está tão desesperado...
Apoio-me em seu peito e começo com
movimentos lentos e ritmados. Ele, abaixo de mim, se
move, tentando apressá-los, porém, quando o faz, eu saio.
— Porra!!! Não faz isso, Loirinha.
— Você não vai se mexer. Toda vez que se mover,
eu paro.
— Merda, só volte para a porra de seu lugar.
Volto a montar nele.
— Meu lugar?
— Sim, seu lugar.
Movimento-me com calma, não sei onde estou
arranjando tanta calma assim, talvez o fato de tê-lo em
minhas mãos me faça... Eu quero vê-lo louco e entregue.
Quando sinto que Leandro está por vir, diminuo mais
ainda os movimentos, e toda vez que o faço, ele rosna
irritado.
— Porra, Raquel, por favor.
Esse é um bom começo.
— Sabe, Lê, eu andei pensando... Você tem uma
firma de advocacia, tem sua vida firmada e tudo o mais...
— Porra, não vai ficar falando da firma agora.
— Algum problema com isso? – Ele rosna, mas
continua calado. – Então, eu descobri que vou viver por
muito tempo e não quero ser eternamente uma garota
saindo do colegial. Sendo assim, eu vou para a faculdade
de moda daqui.
— Nem na porra de seus sonhos! – Ele rosna e
geme ao mesmo tempo. – Com aquele monte de moleque
dando em cima de você, isso não está...
Giro meu quadril e ele perde o que falaria, digo
em seu ouvido:
— Diga sim, Lê, diga sim.
Em movimentos circulares e mais rápidos, repito
isso várias vezes em seu ouvido.
— Porra, Raquel, sim! Só termine isso e para de
me enlouquecer!
Em movimentos rápidos, monto em meu
companheiro e ambos chegamos ao prazer, ele e eu,
ofegantes, mas algo acontece. Sinto-o crescer dentro de
mim, e é como ser preenchida por algo. Desespero-me,
porque não consigo sair de cima dele.
— Calma, loirinha, você tem que ficar quietinha.
Mas eu não estava ouvindo, só sabia que ele
estava preso dentro de mim, e eu queria sair.
— Raquel! Onde estão as chaves? Abra isso!
Seu grito me desperta e abro suas correntes, ele
me abraça e põe a minha cabeça em seu ombro.
— Shiiii... Loirinha, deixe nossa cria ser
concebida.
CRIA? COMO ASSIM CRIA?! EU CRIEI UM
PEIXINHO NO AQUÁRIO E O DEIXEI MORRER!!!

Ian

Ainda me perco aqui, como um idiota olhando


para ela, contando as sardas de seu rosto, admirando as
diversas formas que ela tem de sorrir.
— Ian, pare de me olhar assim.
Abraço-a e é aí que desejo que seu corpo
esteja:protegido e contornado pelo meu.
Às vezes, ainda vejo nela uma sombra do seu
passado, do seu sofrimento, e desejo tirar isso de sua
vida, talvez construindo algo maior, algo que a faça
esquecer, ou que faça com que doa menos suas memórias.
— Então... Estamos aqui, nesta linda festa, e eu
queria te fazer uma pergunta.
— Qual? – ela diz, com o mesmo sorriso
estampado em seu rosto.
— Qual seu sonho?
— Sonho?
— Sim, ruivinha, sonho, o que você gostaria,
pense... Daqui a dez anos, como gostaria de se ver?
— Ham, com você. – Isso me faz abraçá-la mais
apertado. – Com filhos, uns dois ou três, feliz...
— Sabe o quanto filhos são difíceis? – pergunto
para ela e a vejo dar de ombros.
— Perguntou meu sonho, não significa que irão
virar realidade.
— Pois, ruivinha, essa será a minha mais nova
missão, transformar todos os seus sonhos em realidade e,
não se preocupe, só precisamos treinar com dedicação e
diariamente que os filhos virão.
Isso a faz enrubescer, ela fica tão linda toda
vermelha... Quanta sorte eu tive em encontrá-la.

Alicia

As duas loucas foram cada uma para o seu canto.


Sorrio, imaginando como será a vida do meu sobrinho
sendo criado por essas duas mulheres incríveis. Ele será
feliz, decerto. Feliz, uma palavra que há muito tempo eu
não ousava pronunciar.
— Companheira.
Ouço-o sussurrar as minhas costas e, com um
sorriso imenso, viro-me e rodeio meus braços em seu
pescoço, admiro a beleza de Lucas, seus olhos hipnóticos,
sua mandíbula forte, mas, principalmente, a forma com
que seu olhar muda quando estão direcionados a mim.
— Onde estava?
— Tive que resolver algumas coisas com Ravi...
Noah não achou uma boa ideia que eu fosse sozinho em
alguma alcateia. – Ele faz uma careta quando diz isso. –
Ele acha que não me receberiam muito bem, então, vou
com Leandro e Noah irá sozinho.
Acarinho sua face e ele, por alguns segundos,
fecha os olhos, gravando meu toque.
— Tenha paciência, logo será aceito pelo meu
povo, o meu irmão já o aceitou.
— Claro, depois de ter tentado me matar.
— Ham, nós estamos falando sobre Noah, ele
sempre vai partir para a briga antes de pensar.
— Não me importo que cada Alfa tente me matar,
acho que vale muito a pena, se o presente for você,
princesa.
Adoro quando ele me chama assim, amo quando
suas mãos me tocam de modo protetor e, ao mesmo tempo,
com urgência, amo me perder no seu gosto, me prender em
sua pele...

Noah

Acordo com batidas apressadas na porta do meu


quarto. Olho para Lua, que desperta junto comigo, rosno.
Quem é o idiota que me incomoda?
Quando abro a porta, meu Beta me encara
angustiado.
— Que merda aconteceu?
— Desculpa, cara, mas não foi com você que eu
vim falar.
Coloco o meu corpo de lado para que Lua fosse
vista por ele.
— Você precisa me ajudar, Raquel está calada.
— Eu sei que a mulher fala muito, mas ela estar
calada não deveria ser motivo para tanta preocupação –
minha Lua responde.
— Não, Lua. Ontem, nós fomos agraciados pelos
deuses e geramos uma cria... Desde então, ela não fala
nada, está com um olhar vidrado e não diz nada, não sei
mais o que fazer! – Meu Beta está desesperado, nunca o
havia visto assim antes.
— Raquel grávida?! – Lua fica boquiaberta por
um tempo, mas logo começa a juntar algumas coisas e se
veste, passa por nós dois e, quando Leandro começa a
andar atrás dela, eu seguro seu braço.
— Deixe-as – ordeno, mas caminho para perto
das escadas, elas não poderão nos sentir aqui, contudo,
poderemos ouvi-las. Isso é tudo o que posso oferecer ao
meu Beta para que ele não surte.

Luana

Raquel realmente está com seu olhar vidrado em


algum ponto a frente de seu rosto.
Quando me sento ao seu lado, ela joga os braços
ao redor de mim e começa a chorar.
— Shiiii... Lôra, shiiii... Está tudo bem.
Acarinho a minha amiga até que seus soluços
cessem.
— O que há de errado?
Ela funga algumas vezes, antes de me responder:
— Lembra-se daquela vez que tivemos que
plantar um caroço de feijão para o projeto da escola?
Lembra que o meu foi o único que morreu? Quem
consegue matar aquelas coisas? Basicamente, é só colocá-
los dentro de um algodão com água!
Isso não tem nada a ver com... Mas a minha amiga
continua a falar sem parar.
— Lembra daquele projeto de responsabilidade,
que tínhamos que cuidar de um ovo por uma semana? Eu
comprei três caixas para substituir o meu. Três!
Ela respira algumas vezes.
— Lembra do meu peixe? Perdi as contas de
quantas vezes joguei um peixe morto no vaso do
banheiro!!! E a planta? Lembra da planta?! QUEM,
NESTE MUNDO, NÃO CONSEGUE NEM CRIAR UM
CACTO?!
Ela eleva a voz, parece desesperada.
— Raquel isso foi...
— Isso não foi, Lua, isso é! Estou grávida e não
poderei trocar meu filho, não poderei cometer erros, nem
me enganar, nem jogá-lo pelo vaso, eu nunca jogaria uma
criança pelo vaso!
Ok, agora talvez ela tenha surtado um pouco.
— Você entende?! Lembra daquela... – Mas a
corto.
— Já chega! Raquel, o que você carrega não é um
peixe, nem uma planta, nem um ovo. Esse serzinho que
está crescendo de você se tornará a coisa mais importante
de toda a sua vida! Eu sei que tudo isso aconteceu com
você no passado, mas tem uma coisa que tenho certeza,
quando você ama alguém, você o coloca debaixo de si,
você o protege. Essa criança vai ter sorte em estar com
você e com Leandro, vocês serão ótimos pais!
— Mas eu não tenho idade para ser...
— Você teve idade o suficiente para atacá-lo no
meio da floresta como uma ninfa louca, deixe de besteira!
Não veja o seu filho como uma consequência de um ato
impensado, ele é uma dádiva, um milagre.
Ela toca em seu ventre e ouço passos na escada.
Lá, Leandro e Noah descem e nos escaram. Raquel corre
de encontro aos seus braços.
Noah vem para perto de mim.
— Belas palavras, meu amor.
Ouço Raquel sussurrar para Leandro:
— Você será o pai mais gostoso que este mundo já
viu.
É... Acho que certas coisas nunca irão mudar.
Ainda pela manhã, eles juntaram as coisas e
partiram. Noah deu ordens para a equipe de segurança e,
agora, eu estou sentada no jardim pacificamente. Estava,
na verdade. Porque um bando de crianças começa a correr
e a brincar logo à frente. Vejo uma menina, ela tem por
volta de cinco anos, ela caminha até mim e se apresenta:
— Oi, sou Bia.
Seu sorriso contagia e, logo, estou sorrindo
também. As outras crianças vêm até mim, chamando-me
para brincarmos juntos. Bem, pelo menos, o tempo pode
passar mais rápido.

Noah

Merda, sinto a falta de Lua como se fosse uma


porra de dor física, isso está me deixando irritado, sem
paciência alguma. Resolvi trocar as coisas de última hora.
Ian e Alec se separaram, cada um foi para um canto, para
uma matilha diferente. Sei que conheço esses dois há
pouco tempo, mas confio neles para tirar o necessário dos
Alfas. Leandro está sozinho e a caminho de outra matilha,
e eu estou... com meu querido cunhado.
Lucas é um espelho da minha falta de paciência.
Pelo visto, ele sente a falta da minha irmã como eu sinto a
de Lua.
— Você não deveria sair, nosso lugar é lá, com
ela – meu lobo diz, e eu rosno. – Sei onde é a porra do
meu lugar, mas nem sempre posso fazer tudo o que
quero.
Com isso, ele se cala e Lucas me olha intrigado.
— Olha, sei que não gosta de mim, e eu também...
— Não preciso gostar, a única pessoa que precisa
gostar de você é a minha irmã. Enquanto ela estiver feliz,
você vive.
— Iria dizer que eu também não sou seu maior fã,
mas Alicia te ama, então, acho que teremos que conviver.

******

Enquanto isso, no laboratório...

— Não, não e não!!! Vocês são incompetentes!


Por que as crias estão morrendo?!
Os cientistas se entreolham com receio de
responder.
— Digam, seus incompetentes!
— Tem coisas sobre essa raça que não
entendemos, sobre o vínculo de companheiros... As
crianças que estão nascendo não estão vingando, e não
conseguimos entender o porquê, não faz sentido algum.
— O 901 sobreviveu, não me venha com “eles
não vingam”!
— Sim, mas ele é...
— Ele é a porra de uma criança, não venha me
dizer que não pode controlar uma criança!
— Nós não conseguimos entender também a
ligação dos Alfas. Para averiguarmos o que faz deles o
que são, precisaríamos da amostra inicial.
— Sim, mas já tentamos pegar Noah mais de uma
vez e não funcionou. Merda! Tentei explodi-lo para
conseguir extrair pelo menos uma amostra do seu DNA, e
o maldito continua vivo, mas... Sabemos que a mulher
dele está grávida e, se não podemos ter o pai... O filho
será o suficiente. QUERO TODOS ATRÁS DAQUELA
MULHER, TRAGAM-NA PARA MIM, VIVA!

Noah

Merda, essa matilha é uma das mais antiquadas.


Por isso que decidi eu mesmo vir até aqui. Isso,
provavelmente, vai acabar em confusão.
— Prepare-se – digo para Lucas, assim que
entramos no território da matilha.
Aican, o Alfa dessa matilha, está na porta da casa,
com braços cruzados em seu peito. Não sou de observar
isso, mas o homem parece mais a porra de um urso do que
um lobo.
Desço do carro, seguido por Lucas. Toda a
matilha está a nossa frente, uns trinta homens. Não consigo
ver nenhuma mulher aqui. Todos nos olham com uma raiva
velada, sei que Aican só me suporta como Supremo, ele
não gosta de mim neste posto. Bem, talvez não goste de
mim de forma alguma.
— Supremo, a que devo a surpresa? – Aican
rosna, sem mover sequer um músculo.
— Precisamos conversar.
Ele olha para algo atrás de mim e responde:
— É claro, mas deixe o seu cachorro aí fora. –
Lucas rosna e dá alguns passos para frente, eu ponho meu
braço em seu caminho, impedindo-o de continuar.
— Vejo que não o educou muito bem – ele
continua com suas ofensas.
— Aican, gostaria de lhe apresentar o meu
cunhado, o companheiro de minha irmã, Alicia, Lucas,
meu mais novo lobo de confiança. E, como sabe, esse
círculo cresceu. Espero que trate Alec, Ian, Leandro,
Lucas e Ravi do mesmo modo que trataria a mim, porque
eles me representam, são a minha primeira linha de lobos,
e não admitirei que sejam tratados com desrespeito. Claro
que irei perdoá-lo por esta... Falha. Só desta vez.
Aican para por um tempo, encarando-me. Merda!
Sinceramente, estou pedindo internamente para esse idiota
me desafiar, para ele dar só um passo, só um motivo para
matá-lo, porque estou precisando disso... Sinto-me como a
porra de um vulcão prestes a explodir.
Se os Alfas dissessem a verdade, eu não
precisaria estar aqui. E, se eu não estivesse aqui, estaria
em minha casa, com minha companheira e minha cria. Ou
seja, é tudo culpa desses vermes.
Ele confirma com a cabeça e entra em sua casa, eu
começo a segui-lo, juntamente com Lucas, que está logo
atrás de mim. Passamos por todos os lobos como um
corredor polonês, não é só o Alfa que aparentemente me
odeia, imagino quantas matilhas têm o mesmo pensamento
de Aican. Merda, essa porra parece que nunca acaba. Eu
venço uma guerra e outra se forma.
Entramos na casa e fomos até seu escritório, ainda
nada de mulheres.
— Então, Noah, o que deseja? – ele diz meu nome
como um insulto. Ele sabe, eu sei, mas, mesmo assim,
forço-me a fingir que não percebo e a sorrir, porque não
tenho tempo para lidar com uma revolta neste exato
momento, não tenho tempo para lutar contra meu povo e
contra humanos para proteger o meu povo. Uma guerra de
cada vez.
— Onde está a sua mulher? – pergunto, e sei que
isso o atinge, ele começa a rosnar e para quando ergo uma
sobrancelha diante da sua reação.
— Nunca se preocupou com mulheres. Por que
isso agora?
— Elas são lobas, claro que me preocupo com
elas, fazem parte da nossa raça. Agora, responda a minha
pergunta.
— Ela está segura.
— Segura? Onde? E segura do quê?
Ele não responde, e minha paciência começa a
esvair.
— Se não me engano, Ravi entrou em contato com
você... Você disse que as mulheres estavam bem e que não
ocorreu nada. Penso que, talvez, você não tenha entendido
a pergunta dele, porque, se mentiu, isso pode ser
considerado traição.
— Nossa matilha foi atacada.
Merda, isso confirma. Essa porra está em uma
proporção maior do que imaginei.
— Quando?
— Há dois anos.
Como assim há dois anos?! Há quanto tempo essa
operação está acontecendo?

Ravi

Desde a manhã que estou aqui, com minhas telas,


observando Lua brincar com as crianças. Bia não larga de
sua mão. É impressionante ver essa criança confiar tanto
assim em alguém, ela não confia nem em Noah, e foi ele
quem a resgatou. Seus pais sofreram um acidente e ela
seria queimada junto com eles. Noah a tirou de lá e o
carro explodiu. Bia não se mistura desde então, não se
mistura nem com adultos nem com outras crianças, e ela...
Definitivamente não costuma fazer o que está fazendo com
Lua, ela não sorri, não sorria, antes, eu acho...
Mudanças, é isso o que ela é, é isso o que ela
trará para o nosso povo... Procuro Lua pelas imagens das
câmeras e não consigo encontrá-la em canto algum, mas
que porra...
Minha visão é tampada, farejo e reconheço seu
cheiro.
— Eu poderia ter te matado – digo para ela.
— Eu também. – Ela destampa meus olhos e,
sorrindo, senta-se ao meu lado.
— Então, não prefere presenciar as coisas de
verdade do que ficar aqui, nesta sala, sozinho?
— Ham, não sei não – digo, com uma careta. A
verdade é que não me dou muito bem com outras pessoas.
— Vamos, Ravi, por favooor! Seu sobrinho está
com desejo! – ela diz, pegando em seu ventre.
— Tenho certeza que desejos de grávidas são com
comida – respondo, sorrindo, e ela pisca para mim.
— Não sou uma grávida comum.
Ligo todas as defesas e, estranhamente, saio atrás
dela.
— Sei exatamente do que você precisa. – Lua
segura em minha mão e sai me arrastando. – Vocês são
perfeitos um para o outro, sério!
— Lua, você não está tentando me casar com
alguém, não é mesmo? Porque tenho certeza que sou
grandinho o suficiente para ter uma mulher com meus
próprios...
— Shiu, não essa. Essa é incrível, e você é idiota
o bastante para não ver.
Ela me leva até o jardim de sua casa e a criança
estava sentada em um banco.
— Bia, meu amor, venha cá! – Ela corre em nossa
direção e para quando me vê.
Lua se abaixa para ficar em seu plano de visão e
me puxa para baixo também, eu quase caio de cara no
chão e Bia dá um sorriso tímido.
— Este é Ravi. Ravi, esta é Bia.
Ham, o que digo para uma criança?
Mas não preciso falar nada, ela logo se joga em
meus braços e me abraça.
— O que eu faço? – sussurro para Lua, mas ela só
sorri e sai andando.
Bia segura em minha mão e sai me arrastando
floresta adentro. Então, ela começa a me mostrar flores,
plantas, seus locais secretos, fala sobre fadas escondidas
nas árvores e bichos que pulam em você, se não se
comportar. Fico o restante do dia todo ali, com ela
segurando em minha mão. Com seu cabelo negro e olhos
brilhantes, Bia me olha com... confiança. Por que ela
confiaria logo em mim? E como que Lua sabia disso?!
Quando anoitece, despeço-me dela e vou para a
minha casa tomar um banho. Ando até o QG para ver se
está tudo em ordem e ela está lá, dormindo no sofá. Bia
está imunda, com a mesma roupa do nosso passeio, e
caída em um sono pesado. A maioria das pessoas pensa
que aqui é minha casa, já que fico aqui grande parte do
meu dia, acho que quando disse que iria para casa, ela
pensou que seria aqui. Chego próximo a ela e Bia
desperta.
— Ei, linda, o que faz aqui?
— Quero ficar com você, Ravi.
— Por quê?
— Lua me disse que deveria... Como é mesmo a
palavra? Viver. Eu não entendi, minha professora diz que
todos nós estamos vivos, mas eu perguntei isso para Lua,
e sabe o que ela me disse?
— Não, linda. O que Lua te disse?
— Que, às vezes, quando perdemos alguém, nós
morremos junto e nem percebemos. Ela disse que iria me
apresentar a alguém que também tinha que viver. Então,
ela trouxe você. E eu gostei, viver pode ser bom.
Bia dá de ombros e eu, chocado, quase caio de
cara no chão uma segunda vez. Lua, Lua... Acho que você
me deu um presente, uma filha. E talvez – talvez – eu ache
que viver possa ser bom também.
Sorrio para Bia, seguro em sua mão e digo:
— Vem, vamos para casa.

Raquel

Ham, não sinto nada de diferente.


— Merda, loira, para de olhar para baixo, vai
acabar tropeçando em algo.
— Você se sente diferente?
— É... impressionante. Estou gerando outro
mundo, com mais um mundo de possibilidades. Estar
gerando uma criança faz a gente se sentir um pouquinho
Deus, sabe? Criando algo tão maravilhoso e com um amor
tão incondicional. Você vai sentir isso também, loira, e
todo o seu mundo vai mudar, você não vai se importar por
isso.
Luana se sustenta em mim porque acabou de ser
atacada e quase cai de cara no chão.

Luana
Sou atacada e me desequilibro um pouco,
sustentando-me em Raquel, logo vem Ravi gritando atrás:
— Bia! Eu disse para você não correr desse jeito,
linda! Vai acabar se machucando!
Sorrio da cara preocupada dele, e devolvo o
abraço da garotinha que me agarra.
— Oi, meu amor.
Ela está com a cara em minha barriga.
— Shiiii... Posso ouvi-lo. Ei, vem logo, quero
brincar com você.
Bia conversa com meu filho e eu encaro Ravi,
todo bobo, olhando para a menina.
Vejo as outras crianças correndo de um canto ao
outro.
— Bia, por que não brinca com os outros? Meu
filho ainda vai demorar um pouquinho para nascer.
— Eu espero.
Olho para Ravi, e o mesmo faz uma careta para
mim e dá de ombros.
Abaixo-me e olho em seus olhos.
— Meu amor, olhe para mim. – Os olhinhos
brilhantes e espertos encaram os meus. – Ravi e eu nunca,
jamais, deixaremos que algo de mal te ocorra, não tenha
medo.
Ela olha de mim para Ravi, então, acena com a
cabeça e corre em direção as outras crianças. Porém, na
metade do caminho, ela volta correndo e diz:
— Não gosto do seu nome.
— Não, pequena? Quer me chamar de quê, então?
– Ravi pergunta, com aquele sorriso maravilhoso.
Ela para um pouco, pensa. Encabulada, olha para
o chão e, depois, o encara com coragem.
— Pai. Posso te chamar de pai?
E porque meu querido nerd estava ocupado
demais deixando algum mosquito entrar em sua boca
aberta, eu tive que responder:
— Claro que pode, querida.
Ela sorri e corre novamente.
— Bem vindo ao mundo, papai. – Dou um soco
em seu braço e, só aí, ele parece acordar.
— Ela me chamou de pai?

Noah

Merda, estamos na estrada, tenho que ir até mais


uma matilha... Os outros obtiveram os mesmo resultados,
todas as matilhas foram atacadas. Estamos na estrada, não
paramos, não dormimos... Sinto falta de Lua...

Ligação on...
— E aí, cara?
— Tenho certeza de que liguei para Luana, e não
para você, Ravi!
Ele ri, o desgraçado ri! Sei que é maluquice, mas
cerro os meus punhos de ciúmes, porque ele está lá, ao
lado dela, junto a ela, enquanto eu não.
— Onde está a minha mulher? – pergunto, sem a
mínima paciência.
— Ela me deu uma filha! – ele diz, ao invés de
responder a minha pergunta.
— Claro, meu amor – ouço a voz de Lua ao fundo
e todo o meu sangue ferve.
— Ravi, eu juro que vou te estripar assim que te
encontrar.
— Porra, Noah, estou te dando uma boa notícia,
mas parece que você não está pensando com a cabeça
certa neste momento. – Ele gargalha com mais uma de
suas piadinhas e eu juro que...
— Ravi, por que atendeu meu celular? Dê-me
isso aqui, seu idiota, e vá cuidar da sua filha! – ouço-a
novamente, ao fundo. – Oi, companheiro – ela diz, com
uma voz feliz.
— Me explique que porra que está acontecendo!
— Céus, Noah! Por que não para por um
segundo e respira?! Não sei como conseguiu ficar vivo
até agora, sendo tão estourado!
— Luana... – rosno o seu nome.
— A vontade de desligar o telefone na sua cara
é bem grande neste exato momento. Contudo, como me
tornei um ser evoluído, vou responder a sua pergunta
tão educada. Lembra-se da Bia? A garotinha?
Claro que lembro, a garota não se mistura com
ninguém, já a mandei para psicólogos, já tentei colocá-la
em escolas, já tentei de tudo. Não respondi, e ela
continuou:
— Bem, eu percebi que ela e o Ravi são perfeitos
um para o outro e, veja, Bia tem um pai e, agora, Ravi
tem outra coisa a fazer do que ficar jogando RPG.
Lua tirando Ravi de seus jogos? Isso, sim, é um
milagre...
— Lua, eu...
— Não, Noah, eu não quero desculpas, estou
cansada. Eu quero mudanças. Está tudo bem por aqui,
sinto sua falta. E por aí? Como andam as coisas?
— Más notícias, em todas as matilhas que
conseguimos ir, houve ataques. Lua, nosso povo está
sendo atacado em todo fodido canto, isso não é só uma
experiência, eles são organizados, têm dinheiro... E um
dos ataques foi há dois anos.
Ouço-a respirar profundamente.
— Noah, resolva isso e volte para casa, volte
para mim, está entendendo?
— Sempre.

Ligação off...

*****

Enquanto isso, nos laboratórios...

— Como assim nenhum dos incompetentes


arranjou uma forma de entrar naquele condomínio
fechado?!
— O lugar é cercado, tem tecnologia de ponta,
armamento de ponta. Ou saímos explodindo tudo ou não
conseguiremos acesso.
— SEUS IDIOTAS! Será que não conseguem
fazer nada?! Pensem como eles! Essas mulheres são
presas fáceis! Elas estão sempre desprotegidas e não
sabem lutar!
— Os lobos disseram que ela é
diferente...Teremos que ter cuidado com essa loba. E, pelo
armamento que a cerca, ela não é qualquer uma.
— Claro que não, ela é a rainha deles! Eu quero
saber mais do que isso. O que ela gosta? De quem ela
gosta? Quais seus hábitos?!
— Nós... Disseram que ela se colocou em perigo
algum tempo atrás, por uma amiga, mas a amiga está
dentro do condomínio, junto a ela.
— Então, ela é do tipo que se importa... Eles são
os mais fáceis... Busquem algo, façam-na vir até nós, ela
virá, conheço esse tipo, como se pudesse salvar o mundo!
Estamos perto, rapazes, vão ao trabalho!

Ravi

Coloco a minha princesinha para dormir e vou


para o meu quarto. Eu estava querendo mudanças, certo?
Agora, ela está batendo na minha cara, isso é, bom,
assustador, mas bom.
Depois de dar mais uma olhada na segurança e
ver como estão os vigias, durmo.

Luana

Não consigo dormir, não dá. Como se algo


estivesse me incomodando. De repente, a casa está muito
apertada e eu quero sair, respirar ar puro. Uma má
sensação me toma, mau pressentimento...
Bia

Sabia! Levanto-me da cama na ponta dos pés, eu


disse para o papai e para Lua que eles existiam! Sigo as
fadas e, quando vou pegá-las, elas fogem. Estão indo para
a floresta, mas não vou desistir, corro atrás delas!

Luana

Vejo uma sombra entrar na floresta, farejo e sinto


o cheiro de Bia. Mas que merda...
Corro atrás dela. Mesmo sendo rápida, Bia está
muito à frente, só consigo segui-la porque tenho um nariz
realmente bom. Será que ela está fugindo de casa? Será
que aconteceu algo?

Bia
Estou quase... Quase...
Pulo uma clareira. Nunca vim nesta área da
floresta, é proibida, mas a fada está lá, então, continuo
correndo e...
PEGUEI!
Quando abro as minhas mãos, não é uma fada... é
uma coisa preta que pisca uma luz verde. Alguém vem por
trás de mim e me segura.
— ME LARGA!

Luana

Estou quase fora dos limites da matilha, mas seu


rastro é claro para mim. Então, continuo correndo, e vejo
homens, todos vestidos de preto, segurando-a.
— Soltem-na, agora!
— Transforme-se e ela morre. – Ele aponta uma
arma para a cabeça da menina, ela está soluçando de tanto
chorar.
— Bia, meu amor, olhe para mim, vai ficar tudo
bem.
— Caminhe até aqui, devagar...
— Soltem-na!
— Faça o que pedimos e soltaremos a criança.
— Bia – digo, olhando em seus olhos –, quando
ele te soltar, corra para o seu pai, está me ouvindo? Não
pare, não olhe para trás, só corra para o seu pai. – Ela
acena com a cabeça e eu caminho para os cinco homens,
eles são humanos, dou conta de cinco humanos.
Quando me aproximo, eles soltam Bia e me
seguram. Deixo que ela corra sem revidar. Quando
percebo que ela já está a uma boa distância, começo a
revidar.
Rasgo a garganta de um deles e, quando estava
pronta para atacar o outro, sinto duas picadas em meu
corpo, minhas pernas ficam moles, meus olhos, pesados...
Sinto braços me carregarem, ouço-os dizer:
— Bem, o plano era sequestrar a garota e pedir
uma troca entre as duas, mas, veja, isso é sorte grande!
Vamos sair daqui, antes que a garota avise a mais alguém.

Ravi

— Pai, acorda!!!
Desperto com Bia me sacudindo.
— O que foi? Aconteceu algo? Você está bem?
Está machucada? Teve um pesadelo? Está com fome?
— Cala a boca, pai, é a Lua! Homens maus estão
lutando com ela!
— Onde, Bia?
— Na floresta.
Ligo todos os monitores, que também estão em
minha casa, procuro por Lua.
Vamos, vamos... Apareça...
Vejo um carro preto, grande, Lua está sendo
carregada, é aí que percebo nosso erro de segurança...
Nós somos inatingíveis, nunca alguém poderia
entrar aqui sem que soubéssemos, mas... Nunca nos
preparamos para que as pessoas de dentro não saíssem.
Pego o comunicador e falo com os ômegas.
— Portão sul, siga essa porra desse carro, eles
levaram Luana!
Merda! Merda, merda, merda!

Ligação on...

— O que aconteceu?
— Venha para casa.
— O que aconteceu com minha companheira,
Ravi?
— Ela foi sequestrada.
Noah desliga em minha cara sem querer detalhes,
e sinto que o decepcionei, o desapontei. Não meu Alfa, o
meu amigo. E isso dói, porra, como isso dói.
— Calma, pai. Lua é forte, ela vai ficar bem.
Sorrio e abraço a minha pequena.
— Espero que tenha razão, meu amor.

Noah

— O que aconteceu? Noah! Noah! – ouço Lucas


gritar, mas já estou correndo, não me preocupo em tirar a
minha roupa, só chamo o meu lobo, a transformação vem e
rasga tudo o que estava vestindo.
Então, corro, e não me importa se tem a porra de
um país entre nós, eu corro, corro como nunca antes corri,
corro sem me preocupar com alguém vendo um lobo
gigante em alta velocidade.
Minhas patas sangram, eu sei porque sinto o
cheiro de sangue, mas isso não faz com que diminua a
velocidade, não... Preciso vê-la. Ela vai estar bem, ELA
TEM QUE ESTAR BEM!
Não sei quanto tempo se passa, não sei quantas
horas se passam, eu só quero chegar em casa, mas...
Sinto o cheiro da minha terra, mas não sinto o
cheiro dela, não sinto a porra do cheiro de Lua! Nunca me
senti tão deslocado em minha própria terra, ela não está
aqui. Onde ela está?
Quando o meu lobo uiva, eu uivo junto. Não é um
chamado, não é uma apreciação, é só um lamento. Porque,
neste momento, eu me sinto sangrar, sangrar por dentro.
Capítulo 30– Sacrifícios
Luana

Acordo e estou amarrada em uma mesa, amarrada


com prata. Tento me soltar, não consigo.
— Bem, vejo que a primeira dama acordou.
Um velho se aproxima de mim, com uma
prancheta na mão, ele me analisa de cima a baixo. Estou
nua, posso sentir isso. Nunca me incomodei com a nudez,
mas ter esse verme me olhando de cima a baixo como se
fosse... uma coisa, me deixa enojada!
Ele toca em minha barriga e eu rosno, impulsiono,
uso tudo o que há em mim para sair dali, as amarras
balançam. Quando penso que faço um avanço, sinto outra
picada.
— Teremos que ter cuidado com essa aí, deixem-
na sempre sedada. Você viu os olhos dela? Estava em um
tom de vermelho, descubram o porquê dessa anomalia. E
comecem os testes, façam os exames, descubram tudo o
que puderem sobre esse bebê!
E é aí que eu percebo... Eles queriam as mulheres
por um motivo, pelo o que elas são capazes de gerar, e eu,
coloquei meu filho em risco... Noah nunca me perdoaria
por isso...
A última coisa que passa em minha mente é... Eu
nunca me perdoarei por isso.

*****

Enquanto isso, no território do Supremo, eis que surge


uma estranha...

“Você vai sentir um leve desconforto” –


lembrem-me de dizer para Suzanna que voltar no tempo
não causa um leve de um desconforto, causa UM PUTA
DE UM DESCONFORTO!
Sustento-me em uma árvore, estou tonta, sinto
como se tivessem tirado meus órgãos por alguns segundos
e os colocado de volta. Poderia dizer: “Sinto que tiraram
a alma do meu corpo”. Porém, eu não a sinto mais desde
que vi Dante desaparecer em minha frente. E a última
coisa que ele me disse? “Desculpe-me”. E quando
perguntei por quê, ele me respondeu: “Porque eu era um
idiota, e você vai descobrir”.
Ele já é um idiota, isso lá eram horas para
piadas? Todos sumiram, tipo PUFF, em minha frente! E,
bem, se eles sumirem, acredito que eu também vá, talvez
eu nem chegue a nascer.... Meu nome é Megan Mickels, e
tive que voltar no tempo, ao passado, para proteger a
minha família de ser exterminada por um anjo maluco.
Vê? Eu não estou muito bem, não estou mesmo. A
vida era mais simples quando minha única preocupação
era em não ter a minha cabeça explodida por uma bala.
Vê? Vida, morte, coisas simples. Mas nãããão, eu tinha que
descobrir o mundo dos “vampiros”. Depois, os lobos.
Depois, ser T.R.A.N.S.F.O.R.M.A.D.A. Depois, matar o
vampiro mais idiota que eu já conheci – que, por sinal,
deveria ser o meu papai vampiro. – Depois, herdei o seu
território, comecei a namorar um cachorro
superdesenvolvido – sorrio internamente, ele odeia ser
chamado disso. – No meio disso tudo, descubro que anjos
existem. Sim, ANJOS! Descubro que meu pai era um...
demônio? Céus, o que isso faz de mim? E minha mãe era
um... Arcanjo! Que, na vida passada, era ninguém mais,
ninguém menos, que a filha de Cadreel, vulgo Diabo, sim,
o capiroto! Os meus amigos são anjos caídos, minha
melhor amiga é uma bruxa, meu pai é um filho da puta –
ok, isso não é nenhuma novidade. – Mas, vê? Minha vida
se complicou, e muito, nesses últimos tempos!
Não estou bem, bem se vê isso, porque, quando
ergo a minha cabeça e o mundo para de girar um pouco,
descubro que estou cercada, umas trinta armas apontadas
para mim, vários lobos transformados. A última coisa que
penso antes de desmaiar é:
Obrigada, amiga, de todos os lugares para me
jogar em uma viagem no tempo ao passado, me largou
no meio de uma porra de uma alcateia comandada pelo
Silvester Stalone!!!

Noah

— Quem é ela? – pergunto para todos que não


sabem me dizer como ela entrou em meu território,
ninguém deveria entrar no meu território! Muito menos
depois do que aconteceu a Lua.
Eu não durmo, não como, não sinto. Porra! Não
sei nem onde procurá-la! Os rastros se foram. Eles podem
muito bem ter pego um avião e sumido no mundo!
Hoje deveria ser dia dos pais, certo? Eu deveria
ter a porra de um bom dia, curtindo com a minha família, e
agora...
— Acalme-se, iremos encontrá-la e mataremos
todos os que tocaram em nossa família!
Meu lobo me diz, e não sei como o desgraçado
consegue ficar tão calmo, talvez seja porque não é ele que
está comandando o corpo, só fica buzinando em minha
mente como a porra de um psicólogo fajuto.
— Tentou entrar em contato com ela?
— Claro que tentei, você sabe que tentei! Ela está
viva, mas algo está interferindo na nossa ligação?
Ravi me mostra as gravações da floresta, da
estranha que agora está no sofá da minha casa. Na tela,
consigo identificar um imenso clarão e a mulher surgindo
do nada. Não estou com cabeça para essa merda, não
mesmo!
— O que acha? – pergunto para o meu lobo.
— Tome cuidado.
— Por quê?
— Ela é poderosa.
— Alguém conseguiu alguma coisa?!
Eles não me respondem, ninguém conseguiu
nenhuma pista do paradeiro de Lua. O que estão fazendo
com a minha mulher e com meu filho?
Será que o surgimento dessa mulher é uma
simples coincidência? Aproximo-me dela, sinto o seu
cheiro, ela cheira a... Não consigo identificar, só sei que
não é humana. Merda, não estou preparado para isso.
— Tranquem-na!
Quando Leandro se aproxima do seu corpo, ela
acorda e posso sentir um poder... Merda de lobo que está
sempre certo!
Megan

Sinto alguém me erguer, sinto cheiro de lobo e,


quando ele me toca, imagens começam a surgir em minha
mente... Um incêndio, mortes, um menino de lindos olhos
verdes e obstinados, o menino junto a dois amigos, uma
mulher de olhos azuis, como a Lua, já vi essa garota em
algum lugar... Imagens de uma loira e eles... Cineprivê!
Informações demais por aqui! Desvencilho-me de seu
toque, porém, como o homem era forte, tive que usar
compulsão. Não é algo que eu goste de fazer, mas,
adivinhem? Ser neta do diabo e filha de um demônio junto
com um arcanjo tem as suas vantagens, e uma delas é que
o meu pai de verdade, Elloah, era mestre em compelir
pessoas para fazerem a sua vontade.
Sinto outra pessoa vindo em minha direção, uso a
minha velocidade para me afastar. Não sei o quem são
essas pessoas, a única coisa que sei, é que o relógio está
rodando e o tempo está acabando! Preciso sair daqui o
mais rápido possível!
— Já chega!
Ouço alguém esbravejar. Quando olho em sua
direção, percebo que ele, nitidamente, é o líder. Então, o
que faço? O mato primeiro, lógico.
Estou brincando, não fiz isso. Mas, sim, seria algo
que eu faria, só prefiro não fazer porque me avisaram que
tudo o que eu fizesse neste tempo poderia ter sérias
consequências no futuro. Eu não vim aqui para matar
ninguém. Na verdade, eu vim sim. Vim matar um anjo que
voltou no tempo para matar a minha família, porque o
maluco era apaixonado pela minha mãe. Vê? A cada
segundo, minha vida fica mais complicada.
Por isso, abaixo as minhas mãos e liberto o lobo,
não preciso de mais complicações.
— Quem é você? – ouço a voz em minha cabeça.
Mas que diabos!!! Como, infernos, alguém pode entrar em
minha mente? Vou ter uma séria conversa com meu tio
Vittore sobre isso, parece que suas aulas não foram tão
eficazes assim.
— Saia da porra da minha mente!
— Essa seria outra pergunta, como eu posso me
comunicar com você por aqui?
— Meu querido, isso não é a porra de um
telefone sem fio! É a minha cabeça! Eu agradeceria se
mantivesse distância!
— Só consigo me comunicar com o pessoal da
minha matilha, ou com minha companheira. Então,
como?
— Fale com a porra de sua boca, ou eu não vou
responder nada!
— Espero que seja mais educada usando sua voz
do que a sua mente. Quero respostas, e agora!
“Quero respostas, e agora”. Quem esse cara
pensa que é? Respira, Megan. Meu lema é: Não arranje
confusão, não se meta em problemas!
— Meu nome é Megan, e não sei como
conseguimos nos comunicar telepaticamente.
Sério, não sei.
— O que é você? – ele me pergunta, com seus
olhos cerrados.
Essa é uma pergunta que eu adoraria responder...
Mas, o que eu diria?
Faça escolhas fáceis... ham...
— Vampiro. – Abro a minha boca e mostro as
minhas presas.
Todos me olham com uma cara não muito boa...
Certo, talvez dizer que sou um vampiro em uma sala
repleta de lobisomem não tenha sido a melhor das
escolhas.
— E o que está fazendo aqui? – ele pergunta, e sei
que está desconfiado.
— Na verdade, eu meio que caí aqui.
— Caiu de onde?
— Fui jogada, uma briga que não deu muito certo.
Enfim, coisas acontecem.
— Onde está Luana? – ele me pergunta do nada.
E quando ele fala em Luana, lembro-me
automaticamente da garota de olhos azuis claros, e
lembro-me de onde já a tinha visto... Da casa daquela
bruxa, Sofia, na casa dela havia porta-retratos com essa
garota, e a bruxa me agradeceu, ela também pareceu que
me conhecia.... Merda! E se, no futuro, eu já tivesse
voltado no tempo? E se Sofia me conhecia do passado?
Do tempo que estou agora? Porra, eu não sou a merda de
uma cientista maluca, deveriam ter me mandado para cá
com alguém que entenda as maluquices do continnum
espaço-tempo, estou me sentindo dentro do seriado
Fringe.
O problema é, meu amigo lobo jogou a pergunta
no ar para ver se eu sabia de quem ele estava falando e,
bem, algo me entregou, porque eu realmente sei, mas sei
porque vi uma foto sua no passado! Como explicar isso?
— Onde está a minha Lua?
Ele pergunta novamente e, dessa vez, aperta o meu
braço e imagens vêm até mim. Morte, sangue, ele é um
líder, um Supremo Alfa, nem lembrava que isso existia.
Depois, vem ela, imagens com ela, Luana. Sinto o seu
amor, seu desespero, ela está grávida, sinto uma dor tão
crua que me aperta por dentro. Ele me solta.
— Sem contato, por favor.
— Onde está Luana? Você sabe de algo. Então,
conte-me.
— Olha, eu vou ser sincera com você. Eu não
posso dizer de onde vim, ou quem sou de verdade, só o
que sei é que, de todos os lugares do mundo, eu caí aqui.
E isso não pode ser coincidência, acho que vim aqui por
algum motivo, porque eu deveria estar aqui, estar aqui
para ajudá-los.
Chamem-me de ser evoluído, mas me identifiquei
com a dor desse cara. Espero não estar tomando a decisão
errada...

Raquel

— Temos que fazer alguma coisa! Eles,


nitidamente, não têm nenhuma pista, não podemos deixar
que Lua enfrente isso sozinha!
— E o que faremos, Raquel? Sei que Lua se
arriscaria por qualquer uma de nós, mas... O que fazer? –
Alicia me responde, e essa é uma ótima pergunta.
Priscila e Manu estavam caladas, elas se
entreolham e confirmam com a cabeça.
— Vocês não farão nada, nós faremos – Priscila
diz.
— Nem pensem nisso, vamos agir juntas! – digo
para as duas, que parecem estar certas do que dizem.
— Você está grávida, Raquel, não vai a lugar
algum. E tem mais, isso é maior do que Lua, ela é nossa
Alfa, e claro que nos arriscaríamos por ela. Porém, essa
organização dizimou nossas irmãs, isso tem que acabar! É
pela Lua, mas é também por cada loba que foi
sequestrada, cada loba que foi abusada... – Manu diz, com
firmeza.
— Qual o plano?
— Seremos iscas – Priscila responde.
— Isca? Isso não me parece um plano muito
bom...
— Não sem isso. – Ela abre a mão e mostra uma
luz brilhando, é um rastreador. – Peguei das coisas de
Ravi, assim que sairmos, vocês esperam que liguemos o
sinal, esperam e avisam para eles. Dessa forma,
poderemos encontrar a localização de Lua.
— Meninas, eu não acho que...
— Nós não estamos pedindo nada, estamos
informando a vocês duas. Sem Lua, toda a luta foi em vão!
Aproveitaremos a chegada dessa mulher estranha e
sairemos. Diga a Ravi para nos encontrar.
Elas saem pela porta.
— Não acho que essa seja uma boa ideia.
— Nem eu – Alicia me responde. – Mas, você
tem alguma?
— Bem... Não.
— Então, vamos orar para que a delas funcione,
elas são corajosas.
Espero que funcione... Não precisamos de mais
dois homens enlouquecidos por aqui.

Megan

Estou praticamente o dia inteiro aqui, ficando a


par da investigação que tem, bem... nada. Eles não têm
nada, nunca participei de uma investigação que não
tivesse nenhuma pista, isso é frustrante. Depois de dizer
que era tipo uma policial, eles me deram algum crédito.
Noah, esse é o nome do líder, apresentou-me todos os
fatos e, agora, estou vendo a filmagem do dia que sua
mulher foi levada. Já é a quinta vez que a rodo, tentando
encontrar algo...
— Elas se foram!
Um homem chega nervoso e dá essa notícia para
Noah. Isso deve ser sério, porque todos os homens travam
no lugar. E por que diabos só têm homens aqui? Isso é tão
esquisito...
— Priscila e Manu foram embora.
— Perguntem para Alicia e Raquel, elas estavam
passando tempo demais juntas, aposto que sabem o que
está acontecendo. Merda! Será que terei que trancar todas
essas mulheres em uma jaula para que não saiam de um
local seguro?
Ok, isso foi levemente machista.
— Se tiver alguma ideia, fale agora, estamos
ficando sem opções por aqui.
— Preciso ir ao local onde ela foi levada. – Ele
concorda sem fazer grandes perguntas, e sei que, se não
fosse por causa do desespero em não saber onde sua
mulher está, ele nunca me ouviria. Esse cara não parece o
tipo que para e ouve a opinião de alguém.
Quando ele estava me levando até a floresta, um
homem nos alcança.
— Elas se fizeram de isca, mas o problema é que
Ravi disse que o rastreador que levaram não foi ligado,
não temos como encontrá-las também.
Ele rosna, mas apressa seu passo. Quando
chegamos ao local, ele me olha de modo impaciente.
Suspiro e respiro profundamente.
Sempre pude ver a energia remanescente de um
lugar, é como entrar na cena de um crime, como estar lá e
poder pausar a fita e olhar atentamente para cada detalhe.
É como se a cena se formasse em minha mente, consigo
ver com detalhes o que aconteceu aqui. Eles injetaram
alguma droga nela, mas quero ver antes. Então, volto,
rebobino essa “fita” imaginária até que eles estão
sozinhos, os dois caras que a levaram. Eles abrem a porta
e eu vejo uma logomarca.
Reconheço essa logo, essa foi a minha primeira
missão, nunca me esquecerei disso. Meu pai adotivo me
deu a missão de matar cada acionista dessa empresa.
Depois, ele a comprou e a transformou em uma das
empresas mais rentáveis da atualidade. Essa é a antiga
Force, a empresa que, junto com Augustos, eu também sou
dona.
— Eu... conheço essa empresa.
Vejo um fogo de esperanças passar pelo olhar de
Noah, e agora eu sei, sei que não foi por acaso que caí
aqui. Isso tudo também tem a ver com a minha vida, e
muito!

Manu

— Está querendo desistir? – Priscila me pergunta,


e sei o que ela sente, porque também sinto.
— Estou com medo, já desisti de muitas coisas
em minha vida, e Lua não será uma delas. – É a verdade,
desistir de Lua agora é desistir de todo o progresso que
fizemos até então. Desistir de uma causa maior, de
reconhecimento.
Por muito tempo, tempo demais, nós, lobas, nos
curvamos. Lua chegou para nos mostrar que esse tempo
chegou ao fim! Desistir dela seria o mesmo que desistir da
minha própria vida, porque viver uma vida sem
liberdades é o mesmo que estar morta por dentro, ela me
ensinou isso. Penso em Alec e meu coração dói, sei que
essa, provavelmente, será uma missão suicida, mas o fato
é: ninguém sabe onde ela está, ninguém sabe como
descobrir onde ela está. Estamos às cegas, contra um
inimigo desconhecido e que possui uma nítida vantagem,
alguém precisa fazer algo.
E se esses alguéns forem duas mulheres
desarmadas, mas obstinadas, então, que seja!
Pego no rastreador para ligá-lo, mas somos
atacadas e ele cai no chão. Olho para Priscila,
desesperada.
— Veja o que achamos... – um dos desgarrados
diz.
— Não sei se ainda querem lobas...
— Vamos levá-las. Se não quiserem, nos
divertimos e daremos um fim nelas.
Eles nos arrastam para uma casa, uma casa
comum, como se tivesse uma família vivendo feliz do lado
de dentro. Não se dão ao trabalho de nos vendarem e de
esconder para onde nos levam, isso é preocupante.
Lá, digitam uma senha, não há ninguém dentro da
casa, posso sentir isso. Um velho computador se acende, e
um médico idoso aparece do outro lado da tela.
— O que querem? Disse para não me
interromperem! Espero que seja importante!
— Encontramos essas duas perambulando pela
região.
— Matem-nas, não precisamos de mais lobas e
não podemos deixar pontas soltas.
O desgarrado que estava com Priscila puxa seu
pescoço para trás e encaixa uma faca ali.
— Não! Priscila! – grito e tento me mover para
ajudá-la. Mas algo na tela chama a minha atenção, o
médico estava olhando para trás, ele sorri.
— Tragam-nas intactas. O avião chegará logo –
ouço uma voz conhecida do outro lado.
— Lua?!

Luana

— Ela não está colaborando!


— Segurem-na, seus idiotas! São quatro homens
contra uma única mulher!
O homem grita, enquanto me debato naquela maca
recoberta por ferro. Eles me doparam, não consigo
acessar a minha conexão com Noah, vejo tudo tão turvo...
Ouço um barulho, como um bip, e minha atenção
vai até a conversa que o homem que está no comando tem
com alguém. Estou tão dopada que não consigo
diferenciar muito as suas palavras, não consigo uni-las em
uma frase, mas diferencio algo, as vozes de Manu e de
Priscila. Isso faz com que volte a me debater, concentro-
me e consigo entender uma parte da conversa:
— Tragam-nas intactas. O avião chegará logo.
— Lua?!
O que essas idiotas fizeram?!
— Vejo que se interessa por algo, vejo que tem
alguém que pode domá-la... Coloquem-na junto ao 901!
— Mas, senhor... O 901 matou qualquer um que
se...
— Eles são da mesma espécie, quero ver como se
comporta junto a ela.
— Com todo o respeito, senhor... Mas outros da
mesma espécie foram mortos pelo 901. Se algo acontecer
a ela, todo o nosso trabalho... Nós ainda não conseguimos
nada do seu bebê e...
— Eu estou sendo pressionado! Toda esta
operação está quase indo para os ares! Se não
conseguirmos algo nesta semana, perderei meu emprego, e
você também!
Sinto a maca se mover, as minhas amarras se
soltarem, mas estou dopada. Quando me empurram para
dentro de uma sala, eu dou alguns passos incertos. A
última coisa que vejo, antes de desmaiar, é um lobo vindo
em minha direção.

Noah

Meu lobo sente o poder emanando do corpo de


Megan quando ela vai ao local em que Lua foi levada, ela
está concentrada.
— Ela não está aqui – ele me diz em minha
mente.
— Como assim “não está aqui”? Não estou
muito bom para charadas, estou vendo a porra da
mulher em minha frente!
— Ela está... Coletando as informações que
ocorreram neste local.
— Como assim coletando?
— Já ouvi histórias assim, algumas pessoas com
esse tipo de dom são capazes de captar a aura das
pessoas e, quando são poderosas o bastante, captam os
resquícios de energia que sobraram no ambiente, são
capazes de, com somente um toque, acessarem as
lembranças de algumas pessoas.
— Você quer dizer que ela está captando os
resquícios de energia do local onde a Lua foi levada? E
no que isso nos ajuda?
— Se ela for poderosa o suficiente, e posso
apostar que é, ela pode montar uma cena do que
aconteceu aqui, se a energia estiver “fresca”.
— É como rastrear algo?
— Sim, como o nosso faro, só que ela vê o que já
aconteceu.
Agora eu tenho que me preocupar com mais duas
mulheres desaparecidas. Que a minha irmã e Raquel me
aguardem, tenho certeza de que tem o dedo das duas
metido nisso!
— Eu... conheço essa empresa.
— Eu disse!
Meu lobo está feliz, está aliviado... Mas eu não
confio nela. Vamos lá, a mulher quase caiu em meu colo,
do nada, e agora vai dar uma de boa samaritana!
— Não faça isso!
Não vou arriscar a vida de mais ninguém. Chamo
a minha matilha e, novamente, ela está como a
encontramos, cercada.
— Agora, diga, quem é você, de onde veio e por
que está nos ajudando? E não minta!
Ela sorri. Que diabo de mulher sorri quando está
cercada por lobos ferozes?
— Que decepção, pensei que estávamos
consolidando uma boa amizade – ela diz, com decepção
fingida estampada em sua face.
— Responda, ou você morre.
Ela... Gargalha. Gargalha! Essa mulher só pode
ser louca! Ela olha ao redor, enxuga algumas lágrimas que
caíram de tanto que riu, funga e me diz:
— Desculpe, pensei que fosse uma piada. Porque,
sério, eu sou a única que sabe algo de sua... Como se
chama mesmo? Companheira.
— Pense com a porra de sua cabeça, ela é a
nossa única vantagem!
O problema é, estou pensando com a minha
cabeça, não vou confiar em alguém que não confia em
mim para dizer a verdade sobre si mesma.
— Diga a verdade ou morra.
Ela ergue uma sobrancelha e olha para mim de
modo divertido.
— Embora adorasse fazer com que percebesse
que eu sou uma pessoa bem difícil de matar, estou sem
tempo e realmente quero ajudar nessa bagunça. Então, eu
conto a verdade, mas só para você.
Leandro se transforma ao meu lado.
— Não está pensando em... – ele diz, através da
ligação da matilha.
— Saiam.
E ele sai, nenhum dos meus ousaria discutir
comigo, não com meus nervos tão alterados, ficar longe de
Lua é como ter a porra de uma crise de abstinência. O que
estão fazendo com a minha Lua e com meu filho? Pensar
nisso me faz perceber que estou perdendo tempo, tempo,
tempo demais perdido. Só queria arrancar de Megan o que
sabe e ir atrás dela, não me incomodaria em destruir tudo
no processo e nem pelo caminho.

Megan

Como isso pode ter acontecido? A Force, no


futuro, é uma empresa de segurança, a melhor empresa de
segurança privada, eles estão em contato com... Segredos
de todo mundo. Eu sou tão idiota! Como não pensei que
eles saberiam sobre o mundo sobrenatural? Depois do
meu último encontro com Augustos, meu pai adotivo,
claro que ficou bem na cara que ele sabia exatamente o
que o meu povo era...
Noah retira todos. Sério, eu quase acredito
naquilo de “diga ou te mato”, quase.
— Então, a verdade.
— Primeiro, preciso que prometa algo. – Vejo-o
afirmar com a cabeça. – Me prometa que, nos próximos
vinte e oito anos, ninguém da sua matilha que teve contato
comigo irá para Chicago.
Eu não posso desperdiçar uma das poções que
Suzana me deu, poções para apagar memórias, vou
precisar delas mais tarde com aqueles cabeças duras. E,
bem, eu nunca vi ninguém daqui lá, no futuro. Sei que
lobos vivem por quase cinco vezes a vida de um humano
normal. Então, é um tanto estranho não tê-los visto em
Chicago, já que moram em NY.
— Certo, diga a verdade.
Sabe o que dizem sobre a verdade? Quem nem
sempre é aquilo o que queremos ouvir...
— Eu sou do futuro.
Ele me olha sério.
— Não estou aqui para piadas.
Merda! Por que as pessoas nunca acreditam em
viagem no tempo? Sério, vamos brincar de abrir nossa
mente para o desconhecido...
— Megan Mickels, sou a mestre de todos os
Sobrenaturais de Chicago, voltei ao passado para ajudar
uns amigos a sobreviverem. Tem uma anjo maluco
tentando matá-los, se morrerem no passado, eu nunca terei
existido. Meu... namorado corre risco de vida, minha
família corre risco de vida. Caí aqui por engano, mas
acredito que tenha sido o destino brincando de me
sacanear novamente, porque acabo de descobrir que a
empresa que sequestrou a sua mulher é a Force, uma
empresa que surgirá no futuro, empresa da qual sou
acionista.
Acionista é melhor que filha do dono e herdeira,
certo?
Ele demora um tempo assimilando tudo e sei que
ainda não acreditou completamente no que disse, e eu,
sinceramente, não tenho tempo para isso.
— Você disse que essa empresa surgirá no futuro.
Por que sequestraram Lua?
— Essa não é a Force, não ainda. Essa é a
empresa que será a base da Force.
— E o que eles querem com Lua e com as lobas?
— Essa é uma ótima pergunta...
— Então, sua informação não me ajuda – ele diz,
já irritado. O que há com esse homem e toda essa
irritação? Nem eu, que estou em uma missão suicida que
pode virar o mundo de ponta cabeça, estou nesses nervos
todos.
— Na verdade, eu sei exatamente onde é a base
de sua operação.
Vejo o lobo surpreso, é... Eu sei. Do pior jeito.
Agora descobri como toda a informação que Augustos me
deu para a minha primeira missão não bateu exatamente,
ele disse que foi porque, provavelmente, alguém já tinha
tentado atacar a base e eles se preveniram. E se esse
alguém fui eu? Digo, eu no passado? Lembro que xinguei
até a oitava geração da pessoa que estragou com meu
esquema, talvez tenha sido eu mesma.

Leandro

Ainda bem que Noah me mandou de volta,


poderia ter acontecido um desastre por aqui. Estou na
casa de Noah, tentando segurar Alec e Ian de
enlouquecerem para o lado da minha loirinha e de Alicia.
Não tenho como entender pelo o que estão passando, não
quero nem pensar em como estaria se fosse Raquel no
lugar de Priscila ou de Manu...
— Não entendo por que diabos vocês não
impediram! Já não basta a minha irmã, agora temos mais
duas sumidas! E por quê?! Por nada! Porque vocês se
metem nas coisas e acabam causando uma droga de uma
confusão! – acusa Alec.
— Não acredito que não pensaram que isso seria
perigoso, eu não acredito que não mediram as
consequências! Isso é irresponsabilidade! – grita Ian.
O problema é que Lucas e eu estávamos irritados,
sairia uma briga daqui, com certeza.
— Irresponsável?! Vocês se arriscam o tempo
todo e não tem ninguém os acusando de
irresponsabilidade! – grita Alicia.
— Sabe o que é, Alicia? Os machões aí pensam
que não é válida a preocupação das garotas com Lua! –
diz Raquel, minha loirinha está irritada, toda vermelha de
raiva, toco em suas costas para lhe dar algum conforto.
— Ela é minha irmã! Não venha me dizer que não
acho válida a preocupação com a minha irmã! – Alec,
agora, estava próximo, próximo demais...
— Ela é a nossa ALFA! Não venha com essa de
irresponsabilidade! Qualquer um de vocês se arriscaria,
seria irresponsável, morreria por Noah! Então, não me
venha com a sua porra de hipocrisia machista! Aquelas
garotas seguem Luana, sua líder! Não venha menosprezar
o esforço delas para encontrá-la, fizeram muito mais do
que qualquer um de vocês!
Alec e Ian se aproximam ainda mais, coloco-me
em frente à Raquel, protegendo-a com o meu corpo, e
Lucas faz o mesmo para Alicia.
— Já chega! – ouço Noah gritar da entrada.
Ele olha para todos nós, que ainda estamos nos
encarando. O telefone de Lucas toca e ele sobe as escadas
para o quarto.
— Ela tem razão. Nós ainda não fizemos nada
para salvá-las, mas isso mudará agora.
Luana

Sinto uma dormência em meu corpo, mas consigo


me localizar um pouco. Estou em uma sala gradeada, uma
prisão. Mas não estou só, sei disso, mesmo sem abrir
meus olhos. Há alguém me tocando, ele está deitado
abaixo dos meus seios, em minha barriga. Sua pequena
cabeça descansa ali, ergo a minha mão e toco em seus
cabelos, que são imensos e estão emaranhados, ele está
sujo. Quando toco-o, seu corpo congela no lugar e ele
rosna, afastando-se de mim. Ouço um ruído e, logo,
frases:
— Ele se transformou de volta no corpo humano,
é a primeira vez que a cobaia 901 se transforma em
humano desde o seu nascimento!
Olho para o garoto, que já está do outro lado do
cômodo. Ele dever ter uns três anos. Como esse garoto
nunca esteve em forma humana antes? Continuo ouvindo
as vozes:
— A pergunta é “por quê”. Por que ele não a
atacou? Matou facilmente outros de sua espécie... Mas
ela, além de não matá-la, ele se mostrou em sua forma
humana!
Ouço o garoto se transformar em lobo, um lobo
com um olho de cada cor. Ele rosna e fica em frente à
porta... Protegendo a mim?
Vejo a cara do cientista por trás disso tudo, ele
olha para mim, sorrindo.
— Parabéns, você acabou de ganhar mais alguns
dias com vida. Descubram por que essa anomalia está
acontecendo! – ele grita para outras pessoas atrás dele.
Anomalia? Esse garoto não matou, ou matou? E
por que o chamam de cobaia 901?!
— O que você quer? – rosno para o velho que
está no comando.
— Ainda não percebeu? Estamos tentando criar
soldados que se curem rápido, velozes, fortes e ferozes.
Reconhece algo nessas características? Descobri, com
testes, que vocês não são suscetíveis depois de velhos.
Então, comecei a estudá-los ainda dentro da barriga das
mães. Só que não contava com a dificuldade das fêmeas
de sua espécie em engravidar... Com um tempo de estudo,
conseguimos desenvolver um soro, esse soro faria com
que o lado fera de vocês fosse suprimido, mas... Ninguém
era forte o suficiente... Todas as mulheres morreram assim
que entraram em contato com o soro, todas as cobaias
jovens também morreram, exceto o 901...
Isso é... nojento...
— Por que o chama assim?!
— Ele ganha o nome de seu número, ele foi a
tentativa 901. Mas algo deu errado, a cobaia 901 rasgou a
sua mãe ainda em seu útero depois de injetarmos o soro.
E, desde então, a cobaia nunca teve um corpo humano,
viveu por todo esse tempo em forma de lobo. Eu te
pergunto, por que agora resolveu mudar? O que causou
nele?
Fico calada, porque não sei o que responder, não
sei a resposta.
— Não se preocupe, responderá daqui a algumas
horas... Duas amigas suas estão chegando, veremos até
quando ficará sem cooperar.
Priscila e Manu... Ele irá usá-las para me fazer...
O pequeno lobo quando vê que o médico se foi, se põe em
minha perna e suspira. Abaixo-me e o abraço.
— Não se preocupe, querido, vou proteger você
também.
O único problema é que nem sei como proteger a
mim mesma.
Capítulo 31 – Grandes Planos
Noah

Todos estão aguardando por Megan, ela está


parada, diz que tem que decidir algo. Estamos todos
prontos e perdendo tempo.
— Tempo é algo que eu não posso ter o prazer de
perder Noah.
Ela responde, mesmo sem que eu tenha dito uma
palavra. A pergunta é: como ela tem uma ligação comigo?
— Nós deveríamos ir! – Alicia continua com isso
em mente.
— Não – Leandro e eu respondemos ao mesmo
tempo. Raquel, estranhamente, está quieta. Vejo-a quando
toca em sua barriga e lembro-me de dias atrás, quando
Lua repetia o mesmo gesto, lembro-me de sentir meu filho
em sua barriga, de como o cheiro dos dois se mistura de
um modo lindo...
Raquel me flagra olhando-a, ela está séria e acena
para mim, sei o que ela quer dizer:
Traga-a de volta para mim.
Sei que isso deveria ser algo privado, mas não
consigo não ouvir quando ela puxa o meu Beta, lhe beija e
diz:
— Volte para casa.
— E você, não saia dela – meu Beta responde
sério.
— Não, Lê, não estarei em casa até que volte para
mim, entendeu? Volte para casa, para mim, para seu filho,
sua casa.
Coisas demais permeiam em minha cabeça neste
instante. O que estão fazendo com ela? Como ela está?
Está ferida? Porém, a principal, penso em onde errei, em
como errei, sei o que Raquel quer dizer, nunca me sentirei
bem novamente enquanto ela não estiver comigo, nunca
mais me sentirei em casa sem ela...
— Decidi! – Megan diz e se levanta. – Não saiam
de dentro da casa, não saiam! Não importa o que vejam lá
fora, fiquem aqui, estão me entendendo?! Vou tentar ser
rápida e, depois, vamos atrás das garotas.
Seguro em seu braço quando ela está prestes a
sair.
— Esse não foi o acordo – rosno para ela.
— Não me peça para salvar a sua companheira
sem saber como está o meu, eu vim aqui para salvá-lo. Só
preciso saber que ainda está vivo.
Isso me faz soltá-la.
— Ninguém sai. – Fico olhando pela janela,
quando, a quase cinco metros de distência, ela risca algo
no chão, diz algumas palavras que não entendo e algo sai
das sombras, algo que não é deste mundo, que não deveria
existir.

Megan

Não posso acreditar que isso seja egoísmo, afinal,


essa é a minha missão, não é? Salvar a minha família, não
quero chegar lá e ser tarde demais para isso, eu não posso
perdê-los. Sei que é arriscado convocar o barghest[1]...
Pode me perguntar como sou capaz de fazer isso, a
verdade é que meu tio Vittore – ainda estranho em chamá-
lo de tio, vamos lá, o cara parece ter a minha idade –,
depois de me contar sobre as minhas origens... Disse-me
também que meu pai, Elloah, era o único que podia
caminhar livremente do submundo para a Terra, ele e meu
querido avô, Cadreel. Então, ele disse que eu poderia
invocar algo de lá, já que tenho o sangue do meu pai,
poderia ser capaz de fazer isso. E eu perguntei: Por que
diabos vou querer invocar algo do inferno?!
E sabe o que ele me respondeu? Que Dante – sim,
Dante, meu namorado – era, bem... um demônio. Isso não
foi novidade, mas ele disse que, nesta época em que estou
agora, Dante é o cachorro de Cadreel, ele mantêm a sua
coleira em rédea curta, ele é o cachorro do inferno.
Pensem, Dante já tinha desaparecido no futuro e lá estava
eu, “seu namorado é o cachorro de estimação do diabo”
– que coisa sutil de se dizer. – Então, aprendi que a droga
dessa invocação que as pessoas não costumam usar é bem
rara, porque, vamos lá, quem iria querer levar o cachorro
do diabo para dar um passeio? O fato é que Dante, nesta
época em que estou, era mais o barghest do que Dante, um
homem. Se o barghest estiver vivo, meu Dante também
estará, pelo menos, eu espero que sim.
Desenho os símbolos como Vittore me ensinou,
digo as palavras que ele me deu, penso em Dante, em
como sua energia se parece para mim, e o dia se fecha,
não como uma nuvem passando pelo céus, mas como a
noite caindo de um segundo para o outro. Sou cercada
pela escuridão, reconheço-o, seu poder, suas sombras, seu
jeito de trazer a morte.

Noah

O dia escurece. Das sombras, sai um lobo


gigantesco e de olhos vermelhos – não vermelhos como os
de um Supremo, não como os meus. – Seus olhos são
como lavas incandescentes, sei que é um lobo porque
ouço seu rosnar, mas ele não tem forma. São só sombras,
como se sombras estivessem em constante movimento ao
seu redor.
— Mas que porra é essa? – ouço Lucas perguntar,
enquanto puxa a minha irmã para um abraço.
— Isso está me causando calafrios, é assuntador,
é como... – Raquel começa a dizer, mas meu Beta logo
completa.
— É como a própria morte. Essa mulher nos
enganou, Noah, ela trouxe a morte para o seu território.
— É a morte, mas é também seu companheiro.
Todos se assustam e ficamos na janela, sendo
meros expectadores dessa cena incrível que estava se
desenrolando em nossa frente.
— Eu te disse...
— Não me venha com “eu te disse”, lobo. Sabia
que ela era poderosa.
— Você não entende, Noah, há criaturas mais
antigas que os lobos, mais antigas que o próprio tempo,
tão antigas quanto a criação do mundo. Todos os
sobrenaturais foram seus descendentes em alguma parte
do caminho, e isso não é diferente conosco.
— O que quer dizer? Que somos descendentes de
vampiros?
— Ela não é um vampiro, não só um vampiro. E,
respondendo a sua pergunta, fomos criados por uma
bruxa, como já lhe contei. Mas nunca se perguntou como
as bruxas foram criadas?
— Elas simplesmente nasceram?
— Sim, mas, a sua descendência... Elas
descendem de anjos caídos, o poder de uma bruxa são
resquícios do poder de um anjo. Se o caído for
descendente de um anjo caído que se tornou um
demônio, ela será uma bruxa das trevas. Se descender de
um anjo que caiu depois da grande batalha, ela será
uma bruxa de luz.
— Então, Megan é um anjo?
— Ela é a mistura da luz com a escuridão, nunca
pensei que alguém como ela existisse...
— Já que você anda tão espertinho assim, me
diga: Por que conseguimos conversar telepaticamente,
se não fiz nenhuma ligação com ela?
— Não, não fez, mas... E se ela fez com você?
As sombras avançam para cima de Megan, e ela
fica ali, em pé, enfrentando-as sem medo... Como alguém
pode enfrentar a morte em sua forma mais crua e não
fraquejar sequer uma vez?

Megan
Sinto suas sombras se fecharem ao meu redor,
lembro que nunca tive medo do poder de Dante, mas,
agora, a vontade em revidar, em me defender, é imensa.
Meu corpo sente o perigo, minha consciência sente o
perigo, mas o meu coração – ah, esse idiota – diz que ele
nunca me machucaria. Se eu morrer aqui, já sabem a quem
culpar.
Ele corre para mim e não me movo um centímetro,
um milímetro sequer, acho que estou dando um novo
significado para a frase: abraçando a morte.
O barghest passa por mim e sinto – como da
primeira vez em que realmente vi seu poder – um filete de
sangue escorre pela minha bochecha, ele só me arranha.
Ele toma forma. Agora, consigo ver nitidamente
todo ele como um lobo real, só que mais escuro que a
penumbra da noite. Não preciso me abaixar para ficar em
seu nível de visão, em pé, ficamos cara a cara.
Olho dentro dos seus olhos, não sei o que ele
sente, o que ele pensa. Não é meu Dante, não ainda.
Ele fareja o ar e tenho uma ideia. Passo o dedo
sobre o corte e tiro de lá sangue, ofereço-o, estou com a
minha mão estendida para ele.
O barghest caminha devagar, como se tivesse
esperando alguma armadilha... Eu, sinceramente, não sei
como ainda estou viva. Ele abaixa a cabeça e passa a
língua em minha palma. Depois, para e me encara.
— Você sente, não é? É você no meu sangue, você
está entranhado na minha alma, você também me marcou.
Sei que isso é estranho, amor, mas confie em mim.
Ele encosta sua cabeça em minha mão, lembro-me
de quando Dante não conseguia voltar a sua forma normal,
lembro-me de como eu quase o havia perdido e dos dias
que passei a sós com o barghest. Eu o conheço, conheço
sua personalidade. Acarinho-o, abraço-o.
— Senti tanto a sua falta...
O barghest suspira em meu pescoço, como se me
conhecesse. Na verdade, ele me reconheceu, e isso me
alivia imensamente, algo conhecido neste tempo em que
sou somente uma visitante.
— Cuida dele para mim? – peço para o imenso
lobo negro a minha frente. Ele pende a cabeça para um
dos lados. – Dante, cuide dele. Há alguém querendo matá-
lo e, barghest, não deixe que ele saiba que me encontrou,
certo?
Ele pende a cabeça para o outro lado e some no
ar. O sol volta, a vida volta. Neste tempo, esses dois são
só escuridão, mas, no futuro, eles são um misto lindo entre
claro e escuro...
— Precisamos ir – Noah diz, caminhando para o
carro. Confirmo com a cabeça e ando atrás dele.
O único problema é que teremos que pegar um
avião. O avião em si não é o problema, e sim o destino:
Florença.
É realmente uma bela cidade, e o problema é que
fica bem próxima ao território de certo líder vampiro,
Vittore. Sinto que não gostarei de enfrentar meu tio no
passado... Espero, sinceramente, não esbarrar com ele por
lá.

Manu

Somos jogadas em uma sala, um velho está com


uma prancheta na mão e nos olha de baixo a cima. Priscila
está paralisada, sei que as memórias voltam a sua cabeça,
eu fico a sua frente e estufo o meu peito. Lua está aqui, sei
que está.
— Outra corajosa... Não é algo comum de se
encontrar por aqui.
Ele olha ao redor da sala, vejo recipientes de
vidro com fetos, bebês, partes de corpos de homem,
partes de corpos de lobos... Sinto vontade de vomitar, mas
engulo a bile que sobe, não vou dar tamanho gostinho a
esses vermes.
— Luana também era muito corajosa... – Isso
chama a minha atenção e viro a minha cabeça em sua
direção, coisa errada a se fazer, porque ele sorri e eu caí
direitinho em sua armadilha. Agora, ele sabe que eu tenho
algum tipo de ligação com Lua. – Veja, preciso que sua
amiga colabore comigo... No início, a única coisa
importante era o seu bebê, mas, agora que ela conseguiu
algum progresso com a cobaia 901, vou precisar dela viva
e domada, e você vai me ajudar com isso.
— Vai sonhando! – é a única coisa que digo, não
vou permitir que Lua caia na armadilha desse verme!
Entram vários homens e me algemam com prata.
Priscila não precisa ser contida, ela está em choque, em
um canto, fechada em si mesma, espero que eles se
esqueçam dela...
Sou arrastada para uma cela e, pelo caminho, vejo
coisas que vão me causar pesadelos durante muito
tempo... Mulheres, os gritos, a dor, o choro...

Luana

Acordo e, estranhamente, ainda sou... eu. Consigo


me mover normalmente, andar normalmente. O que quer
que eles tenham me dado, o efeito se foi. Olho o pequeno
dormindo abraçado a mim, tenho pouco tempo... Fecho os
meus olhos e concentro-me.
— Noah... Vamos, lobo, me diz que está ouvindo!
— Lua... – ouço-o como um sussurro. – Onde
você está?! Está bem?! Alguém te fez algo?!
— Não sei onde estou, fui dopada para chegar
até aqui. Estou bem, não me fizeram nada, eu acho. Você
precisa ser rápid...
Não consigo mais me comunicar com ele, como se
alguém tivesse cortado um fio.
— Então, ela também consegue se comunicar
telepaticamente, Fabiana? – Vejo uma mulher sair
sorrindo detrás de uma pilastra, ela segurava uma pedra
negra que brilhava.
— Sim, Dr. Ermer, ela estava se comunicando,
provavelmente, com seu companheiro. – Ermer... Então, é
esse o nome desse velho.
— Luana... Esse é o seu nome, certo? Sabe que,
enquanto estava dormindo, fizemos uns testes... Parabéns,
você terá uma menina, claro, se ela sobreviver.
Avanço em sua direção, consigo destruir algumas
das grades, mesmo elas sendo de prata. Porém, uma
barreira me repele para trás... magia. Fabiana sorri, já sei
de onde vem a magia. Como alguém pode estar ajudando
esse verme a fazer isso? São crianças...
— Sua filha sobreviverá, se nos ajudar em algo...
Vou lhe explicar. Tudo isso – ele aponta ao redor de si
mesmo – foi feito para que fossem criados soldados
perfeitos, só que vocês, estranhamente, são muito difíceis
no quesito reprodução... O 901, como seu nome mesmo já
diz, foi a nossa 901ª tentativa. Ninguém sobreviveu, e
nenhum outro feto chegou a vingar, antes dele.
Ele é um monstro... 901 pessoas de nossa raça
mortas... Mortas, às vezes, sem nem mesmo ter a
oportunidade de viver.
— Essa cobaia – Ermer continua – é todo o
sucesso que esta operação já teve. Claro que poderia
testar em você e em seu bebê, mas isso demoraria um
pouco, e preciso de resultados urgentes. Parece que o 901
gosta de você, quero que o... Eduque. Preciso que ele
esteja apresentável para fazer uma aparição aos
investidores desta operação.
— Você está louco?! Eu nunca faria isso, ele é só
uma criança!
— Suspeitei que diria isso, e trouxe um presente.
Ele prega as mãos e pés de Manu na parede, em
frente a mim, ela tenta ser forte, mas posso imaginar a dor
que isso causa. Ermer começa a fazer cortes em seu corpo
com uma lâmina de prata. Fico quase uma hora vendo-a
sofrer, ouvindo seus gritos... Seus gritos ecoarão em mim
por toda a eternidade.
— Já chega!
— Já? Eu estava começando a me divertir... –
Manu está desmaiada, o piso, outrora branco, está
vermelho, repleto de seu sangue.
— Eu faço o que me pediu, só não machuque
nenhuma das duas.
— Duas?
— Sim, eu sei que Priscila está aqui também.
Ele confirma com a cabeça e, antes de sair, me diz
algo que faz todo o meu corpo tremer.
— E não se esqueça, se suas amiguinhas não
forem incentivo o suficiente, lembre-se que há algo dentro
de você que eu quero. Não me ajude e sua filha será a
902.

Noah

Falar com Lua me deixou mais inquieto, agora


tenho a completa certeza de que ela está bem, forte como
sempre... Aguente só mais um pouco, Lua... Já estou
chegando!
Estamos quase pousando em Florença, tive que
fretar um avião. Como Ravi sabe pilotar, foi mais fácil
subir com um arsenal de armas, já que não tinha nenhum
humano para questionar.
— Você está bem? – pergunto para Megan, que
está ao meu lado, estranhamente quieta. Pelo visto, o
encontro de algumas horas atrás com aquilo a abalou.
— Espero que não sejamos azarados... – é tudo o
que ela me responde. Mas... Azarados por quê?
O avião pousa, estou tão perto de Lua... Pelo
menos, agora, estamos na mesma cidade.
— Vamos matar esses bastardos que ousaram
brincar com a nossa espécie! – um grito de guerra é
ouvido por todos os meus guerreiros. Megan ainda está
calma, calma e quieta. O que há com essa mulher?
Alguns já desceram do avião e estranho o
silêncio. Megan e eu descemos juntos.
— Bem, acho que nós somos azarados – ela diz
simplesmente e dá de ombros.
Quando ela diz “azarados” é estar cercados por...
vampiros.
— Quando me disseram que um bando de
transformados estava se encaminhando para o meu
território, pensei: eles não seriam loucos. Sempre é bom
me surpreender.
Porra... Parece que a merda do destino está
conspirando contra tudo!

Megan
Estou com um mau pressentimento... As coisas
não serão fáceis, elas nunca são. Antes mesmo de colocar
um pé para fora do avião, sei quem me aguarda ali:
Vittore.
— Quando me disseram que um bando de
transformados estava se encaminhando para o meu
território, pensei: eles não seriam loucos. Sempre é bom
me surpreender.
Vittore está impecável, como sempre, bem vestido
com um terno elegante. Ele nos olha com um sorriso de
canto de boca. Noah rosna.
— Não faça isso.
— Não podemos perder tempo!
— Noah, eu o conheço, e ele vai matar todo
mundo aqui! Você quer salvar Lua? Então, sobreviva a
isso.
— Bem, vejo que conseguiu domar seu cachorro –
ele diz para mim, referindo-se a Noah. Ele dá um passo
para atacá-lo e eu toco em seu braço.
Céus, só não faça com que ele tenha a brilhante
ideia de conferir o que tem no avião, porque, senão, pode
pensar que...
— Olhem o que eles estão trazendo no avião!
Eu já disse que sou azarada?
Os homens de Vittore saem com todo o arsenal de
Noah. Vittore sorri, deve pensar que viemos em uma
missão para matá-lo ou alguma coisa do tipo.
Eles vieram preparados, pois algemam todo o
pessoal de Noah com prata. Isso, a cada segundo, fica um
pouco mais bonito.
Ele nos coloca em grandes carros negros, sei para
onde estamos indo, para a sua casa em Roma.
— Alguma ideia brilhante?
— Sua mulher está aqui, Noah, está mais
próximo dela do que estava lá, em sua casa, não encha
meu saco!
Depois disso, ele milagrosamente se cala. Não sei
vocês, mas não acho que esse homem ouve muitos nãos
em sua vida.
Chegamos à casa de Vittore, e sua mansão está
exatamente igual como da última vez em que a vi. O
homem ficou esse tempo todo sem decorar a casa, que
coisa mórbida. Sério, quem não muda nada na casa em
trinta anos?!
— Você não vai... – Noah começa a falar, mas
Vittore logo o corta.
— Eu conheço você, “Supremo”. Sabe, eu deixo
vocês viverem por aí, deixo pensarem que têm algum
controle sobre qualquer coisa, deixo que escolham...
Líderes. Mas não queira que eu lide com seres inferiores
como vocês, porque não irei. Em contrapartida – ele vem
até mim e segura o meu queixo –, você... O que é você?
Ele faz um sinal com a mão e algumas pessoas
começam a levar o povo de Noah para fora dali. Ele
resiste, eles resistem, mas a força de um vampiro é
equiparada a dos lobos, e eles estão em desvantagem por
causa da prata.
— O que vai fazer com eles?
— E ela fala! – Ele sorri debochado. – Eles serão
comida para o meu povo. Dê adeus, meu pessoal não é
conhecido por ser educado na hora das refeições.
Abaixo a minha cabeça, Vittore vê isso como
sinal de rendição, ledo engano. Abro o meu corpo para o
poder adormecido em mim, dou as boas vindas para o
lado sombrio que herdei do meu pai, deixo o seu poder
fluir por mim. As mentes de cada pessoa desta sala são
tão acessíveis como portas entreabertas... Menos a de
Vittore. Ele olha ao redor, enquanto seu pessoal solta cada
um dos membros da matilha de Noah. Eles vêm para trás
de mim, sinto Noah ao meu lado e, quando Vittore me
olha, sei que seu próximo passo será o ataque. Não posso
lutar contra ele.
— Eu te amo, seu idiota! Mas eu juro por Deus, se
você me atacar, serei obrigada a me defender!
Seus olhos brilham com algum sentimento, Vittore
costuma ser frio, ele não demonstra nada, e ver seus olhos
brilharem me traz um pouco de esperança.
— Quem é você? – novamente, essa pergunta, a
pergunta que não posso responder...
— Sei que tem uma marca em seus dois pulsos,
sei que o sabor que mais sente falta é de vinho, sei que
seu irmão se chamava Elloah e sei, Vittore, eu sei que eu
sou a única pessoa capaz de te fazer sorrir.
Eu liberto o seu pessoal.
— O que está fazendo? – Noah me questiona,
alarmado, ao meu lado.
— Confie em mim, da mesma forma que sempre
confiei em você, da mesma forma que sempre confiarei.
Ele me olha com suas sobrancelhas unidas, como
sou idiota! Ele não me conhece! Lembro-me de Dante
falando-me sobre o sangue: Cuidado com sangue, ele é o
líquido mais poderoso que existe.
Dou alguns passos para frente, Vittore não move
um músculo quando pouso a minha mão onde deveria
haver um coração batendo, mas não há, não há porque ele
não está vivo.
Vittore olha em meus olhos, está tentando entrar
em minha mente, mas não a abro para ele. Ao invés disso,
jogo meu cabelo para o lado e deixo meu pescoço
exposto. Ele foi o primeiro vampiro que me mordeu, ele é
o meu tio, mas também é o criador da vampira que há em
mim.
— Megan, não... – ouço Noah começar a falar,
mas o interrompo, com meus olhos grudados aos de
Vittore.
— Está tudo bem.
As presas dele se alongam, Vittore me olha de
modo interrogativo, ele não consegue entender a minha
entrega ante ele. Se tem algo que sei sobre esse cara
desde que o conheci, é que ele nunca me machucaria.
Desde que o vi pela primeira vez, ele agiu com carinho
comigo, tratou-me como se sempre me conhecesse... E
se... E se ele conheceu? Se eu já tiver interferido no
passado, se Vittore me conhece no futuro porque me
conheceu de início, aqui? Ah, esse negócio de viagem no
tempo está me dando uma puta de uma dor de cabeça!
Meus pensamentos se vão quando sinto sua presa perfurar
a minha carne sensível do pescoço. Ele não demora muito
tomando o meu sangue, suas presas se retraem, mas ele
continua com sua boca quase encostada onde outrora
estavam seus dentes. Sinto um arrepio, sua respiração. De
uma coisa eu sei: Vittore não precisa respirar, e se está
aqui, a dar suspiros, deve realmente estar admirado com
algo.
— Como isso é possível?
Afasto-me um pouco dele, Vittore não cura o
ferimento que me causou, mas eu não me importo, logo irá
curar sozinho.
— Confia em mim?
Ele parece pensativo... Sei o que sentiu quando
provou do meu sangue, ele sentiu seu sangue misturado ao
meu.
— Abra a sua mente para mim – ele diz, cerrando
os seus olhos.
— Nem fodendo, seu idiota! Eu te disse que você
não entraria mais em minha mente, e não vai!
Ok, talvez tenha sido a coisa errada a se dizer, ele
trava a mandíbula. Vittore é rápido quando segura o meu
pescoço com força e me ergue. Atrás de mim, ouço os
lobos reagirem, há uma merda de uma briga, e eu estou
aqui, olhando dentro desses olhos chocolates, enquanto
ele tenta me matar. Algo dentro de mim ainda diz: “ele
nunca te machucaria”, mas ele não é ele, não ainda.
Abro a minha mente e deixo uma memória surgir.

*****

Eu estava enlouquecendo, tendo que receber em


minha casa os garotos: Marcus, Enzo, Vittore. Garotos é
modo de falar. Agora, junte esses três a Leonardo, que já
vivia comigo, a Dante, que agora não sai da minha casa
– mais especificamente da minha cama, vocês não irão
me ver reclamando sobre isso –, a Kyle, meu amigo
assassino que resolveu tirar suas férias em minha casa,
a Angelo, que parece a cada dia mais perdido, e a John,
meu garoto nerd que foi recentemente transformado em
vampiro por... Bem... por mim.
Eu estava enlouquecendo, sério. Eu vivia
sozinha e, do dia para a noite, minha casa é invadida
por esses brutamontes! Estava passando pelo corredor,
quando alguém me puxa pelo braço.
Vittore estava impecável, com um terno bem
desenhado para o seu corpo, ele sorri quando me vê.
— Vamos fugir, pequena – ele sussurra.
— Pare de me chamar de pequena! E como assim
fugir?
— Você está precisando de um tempo, Megan,
está a ponto de estourar. Então, tomei a liberdade de
programar o seu dia.
— Programar o meu dia com quem?
— Comigo, é claro. – Ele sorri de canto de boca.
— Você está fazendo isso só para irritá-lo, não
é?
Ele dá de ombros. Vittore e Dante sempre fazem
de tudo para irritar um ao outro, eu costumo ficar fora
de suas disputas, mas acho que estou precisando
realmente de um tempo.
— E, no seu plano maligno, como acha que ele
não nos encontrará?
— Não me subestime, pequena. Vem.
Ele pula a janela e eu pulo atrás. Vittore já
estava com um carro pronto, entro e encosto a minha
cabeça em seu ombro, enquanto ele dirige. Logo, meus
olhos pesam, me sinto tão confortável perto dele... Antes
de pegar no sono, sinto seus lábios em minha testa, um
pequeno gesto que eu nunca tive em minha infância e
que gritava em meu subconsciente: família.
Acordo quando o carro para em um porto, há um
iate lá.
— Sério que vai me colocar dentro de um barco?
– Eu não gosto muito de barcos... Minhas amigas me
convenceram, depois de muito custo, a ir para um
cruzeiro, ficar dentro de um barco só com água ao redor
é tão... chato.
— Não seja fresca, vamos.
Ele anda até o iate e eu vou atrás. Vittore põe
essa coisa para andar, enquanto sento-me no convés e
fico olhando a cidade desaparecer e não ouço... nada...
Suspiro.
Não ouço Léo e suas piadas, não ouço Marcus
reclamando, Enzo e suas cantadas, Angelo e suas
dúvidas... Só silêncio.
Quando olho para o lado, ele está lá, me
olhando, vestindo apenas uma bermuda. Nunca tinha
visto Vittore assim, quase... humano.
— Vá se trocar.
— Para de mandar em mim, você não é meu pai
– falo isso brincando, mas sei que o machuca.
Arrependo-me logo depois de ter dito a frase, eu
e minha boca grande. Vittore disfarça com um sorriso e
aponta para uma porta.
Vou até uma das cabines e tem várias roupas lá.
Qual é? Eu e esses homens me comprando um guarda
roupa novo sempre!
Coloco um biquíni e uma bata e saio para
encontrá-lo.
Ele está sentado onde eu estava, com seus pés
pendendo para fora do iate, sento-me ao seu lado.
— Sinto muito. – Ele me encara. – Sério, Vittore,
não quis dizer aquilo. Sempre quis ter uma família e,
desde que te encontrei, tenho isso. Você é a minha
família, preciso que saiba disso, e me orgulho em te ter
por perto.
Isso o afeta, ele ergue a mão e faz um carinho
leve em minha bochecha.
— Se eu tivesse uma filha, gostaria que fosse
assim, exatamente como você.
— Você tem. – O abraço e fico ali, com a cabeça
em seu ombro.
Meus olhos pesam novamente, ouço-o sussurrar:
— Eu devo ter algum tipo de sonífero, não é
possível. – Rio internamente por ele fazer uma piadinha.
A verdade é que eu não costumava dormir muito, sempre
tive receio. Quando se está dormindo, qualquer coisa
pode lhe acontecer, e dormir perto dele é uma grande
prova de confiança, na verdade.
Sinto o meu corpo cair em queda livre, esse
sonho de novo não... água. Abro meus olhos e impulsiono
meu corpo para cima. Vejo, de baixo, Vittore
gargalhando, eu nunca o vi assim, e quase o perdoo por
ter me jogado na água... Quase...
A lembrança passa mais rápido... Vittore e eu na
água, ele me mostrando o mundo subterrâneo,
ensinando-me a “não respirar”.
Lembro-me que, quando voltamos para casa,
Dante e Vittore quase se matam, eu tive que afastá-los.
Não sei qual é o lance desses dois, mas algo me diz que
é bem maior do que eu.

*****

Tranco novamente a minha mente, ele me olha, me


analisa.
— Parem.
Com sua ordem, todos os vampiros param de
atacar.
— Do que precisa, pequena? – Vittore pergunta.
Pequena... Certas coisas nunca mudam, nem no
passado.
Luana

Ergo a minha mão e ele a toca, seus olhos são


incríveis, um azul e outro, verde; é um menininho lindo...
Sorrio ao encontrar uma pequena flor nesse deserto de
tristeza, meu sorriso logo morre ao pensar que serei eu,
eu, quem irá trair essa criança da pior forma possível.
Pelo o que ouvi dizer, fui a única em que ele confiou o
suficiente para se aproximar desde que nasceu e, se
decepcioná-lo, talvez isso marque essa criança por toda a
vida, sei disso. Mas, se eu não o fizer... Toco em minha
barriga, minha pequena... Uma menina.
O garoto toca com sua pequena mãozinha por
cima da minha, sorrio e ele repete o gesto.
— Você consegue me entender?
Ele gira toda a sua cabeça para um lado, como um
pequeno filhote faria.
— Meu nome é Lua... – Ele arregala seus
pequenos e lindos olhos e corre para um canto da cela. De
lá, ele tira umas folhas que estavam rasgadas, corre para
mim e me entrega o papel. Na folha, estava um campo,
árvores e uma imensa lua no céu. – Sim – aponto para o
desenho –, Lua, esse é o meu nome.
Ele faz um pequeno “O” com sua boca, acho que
ele pensa que eu e o desenho somos a mesma coisa. Olho
novamente para a folha e percebo que tudo o que esse
garoto conhece é o que está desenhado nos livros
rasgados da cela, ele nunca... Nunca conheceu nada de
verdade, nem a luz do sol, nem a luz da lua, ele nunca
pisou na grama, tampouco respirou o ar de um dia
chuvoso com aquele cheirinho de terra.
Olho novamente para o garoto e lágrimas
escorrem do meu rosto, ele toca em uma delas, suas
sobrancelhas estão juntas, ele está concentrado. Pega uma
de minhas lágrimas com seu pequeno dedo e a põe em sua
boca, faz um não com a cabeça e me olha emburrado.
Eu entendo, seco as minhas lágrimas e dou um
sorriso fraco, o garoto sorri novamente.
— Vejo que os dois já são amigos – Ermer diz, de
uma distância segura de nós dois.
Eu não respondo nada, só o encaro, enquanto o
garoto se coloca em minha frente e, em uma rapidez
impressionante, transforma-se em lobo. Nunca vi alguém
se transformar tão rápido.
— Daqui a cinco horas, teremos algumas visitas,
acho bom você treinar seu cãozinho para fazer alguns
truques. Caso ele não se comporte, enviarei a cabeça de
suas amigas para os seus maridos, e caso isso não seja o
suficiente para você, nunca se esqueça de que temos um
poder maior. – Ele aponta para a bruxa. – Poderemos
apagá-la e fazer testes em sua filha a qualquer instante.
Vejo quando os olhos da bruxa brilham de um
modo estranho e, como se para confirmar o que acabara
de dizer, meu corpo fica mole e cansado, meus olhos se
fecham, eu adormeço.

Noah

Meu pessoal está se alimentando e descansando,


enquanto Leandro, Vittore, Megan e eu estamos em seu
escritório, em uma reunião. Olho para Megan e trinco
meus dentes, ela está no sofá, com sua cabeça no colo do
vampiro, está em sono profundo. Ótima hora para dormir!
— Se eu fosse você, pararia de olhar para ela
assim – o vampiro diz para mim, enquanto suas mãos
passeiam no cabelo dela. Como essa mulher consegue
ficar tão à vontade junto com esse sanguessuga? Há pouco
tempo, ele estava prestes a nos matar, e fora que a minha
Lua está sumida. Isso não é tempo para tirar a porra de
uma soneca!
— Nós estamos perdendo tempo! – rosno para
ele, e o maldito só ergue uma sobrancelha.
— O seu lobo está com o meu pessoal da
tecnologia analisando todo o lugar e movimentação de
onde Megan nos indicou, precisamos de um plano, não
sabemos o que eles têm ali dentro, mas sabemos que eles
têm conhecimento do mundo sobrenatural, estarão
preparados para nós. Então, ter um plano e não correr
para a morte certa não é bem o que chamo de “perder
tempo”.
Sei que o vampiro tem razão, mas sinto a minha
pele quase soltar da minha carne, minha respiração está
falha, todo o meu corpo, tencionado. Eu a quero, preciso
dela, e todo o resto que se exploda!
— Calma, cara.
Sinto o toque do meu Beta em meu braço e vejo
tudo em vermelho, sinto a necessidade de arrancar cada
dedo da sua mão que está em contato com a minha pele.
Ele ergue as mãos, percebendo onde os meus olhos
estavam indo, um sinal de rendição.
— Noah, precisa ter calma. Qualquer passo em
falso colocará tudo a perder, e você sabe disso.
Sei? É claro que eu sei, porém, a cada segundo,
eu penso que ela pode estar sendo morta, sendo magoada,
sofrendo... Não sei se resistiria a um mundo sem ela, não
mais...
— Nós não resistiríamos.
Ouço o meu lobo dizer e sei, sei que ele tem total
razão.
Saio do escritório e caminho até uma grande
varanda. Leandro vem atrás. Agora eu tenho a porra de
uma babá!

Alicia

Ando de um lado ao outro, saber que meu irmão


está na casa de um vampiro não ajudou muito em meu
ânimo. Nem sabia que essas coisas existiam. Sério?
Vampiros? Como algo morto pode viver?!! Estou tão
absorta em pensamentos que não vejo quando meus passos
me levam até uma parede de músculos, se não fosse por
suas mãos me sustentarem, teria caído de cara no chão.
— Ei, princesa, está tentando cavar um buraco
com seus pés? – Olho para Lucas, que sorri, ele fica tão
lindo sorrindo... Abraço-o com força, ele rapidamente
envolve seus braços em meu corpo e me abraça de volta,
sinto o seu corpo se esvaziar com um suspiro.
— Eles ficarão bem, Noah vai conseguir trazê-las
de volta, seremos uma família novamente, iremos rir disso
daqui a alguns anos – minha voz sai abafada por estar com
a cara em sua camiseta.
Ele não confirma se o que disse será uma
verdade, ele não me dá tapinhas nas costas, apenas diz:
— Eu estarei com você.
Olho para Lucas, seus olhos brilhantes, quase
amarelos, mostram que ele ficou muito tempo em uma
transformação, seu corpo emana um poder que me deixa
confortável. Percebo que esse homem incrível estando
comigo, seja lá qual for o cenário que o futuro nos
reserva, poderei enfrentar.
— Eu... – Ele me corta com um sorriso e me puxa
pela mão.
— Fiz algo para você.
Lucas me leva até meu quarto. Lá, posso ver uma
iluminação indireta a luz de velas, uma mesa redonda e
uma comida extremamente cheirosa.
— Você fez tudo isso?
Ele coça atrás de seu pescoço e dá de ombros.
— Me viro um pouco na cozinha e percebi que
você não comeu nada durante todo o dia. Sei que está
preocupada, princesa, mas precisa estar forte para
qualquer que seja o resultado da empreitada de Noah, seu
irmão precisará de você.
Caminho até a mesa, uma carne ao molho madeira
faz com que meu estômago dê sinal de vida. Ele sorri e
puxa a cadeira para que me sente.
Lucas me olha enquanto coloco uma porção de sua
comida em minha boca, ele segue todos os movimentos
dos meus lábios.
— Delícia... – Ele continua olhando para os meus
lábios.
— Sim, é – é o que responde, e eu sorrio.
Continuo comendo e Lucas me traz várias frutas
como sobremesa, amo frutas. Elas estavam maduras e
suculentas. Quando sinto o rico sabor da fruta atingir a
minha língua, fecho meus olhos para saborear ao máximo.
Ouço um rosnar vindo dele, seus olhos estão em ouro,
suas mãos, em garras. Meu companheiro está perdendo o
controle, mas quem disse que eu o quero controlado?
Pego outro pedaço e, dessa vez, o encaro, mastigo
devagar. Enquanto o sumo molha toda a minha boca, passo
a língua para limpar e, novamente, Lucas segue todo o
percurso dela.
Quando vou pegar outro, ele segura a minha mão.
— Coloque outro pedaço nessa boca, princesa, e
não responderei pelos meus atos – sua voz está rouca,
porque suas presas estão salientes.
— Pensei que queria me alimentar, e eu amo
frutas... –digo, fazendo beicinho, e ele rosna novamente.
Lucas perde o agarre em minha mão e, rapidamente, eu
pego mais um pedaço e o mordo, sorrindo vitoriosa
depois.
Não pensei que um lobo fosse tão rápido, ele
prende as minhas mãos acima da minha cabeça, estou
encostada na parede, suas garras ferem meu pulso e sinto
o cheiro de sangue, do meu sangue.
Ele está com suas presas em meu pescoço, mas
não me machuca, só fica ali.
— Eu amo você. – Todo o seu corpo se tenciona
quando ouve essa frase sair da minha boca. Beijo todo o
seu rosto, repetindo essa mesa frase, sinto suas garras
voltarem, suas presas recuarem.
— Você não deveria ter feito isso. Merda, Alicia!
É perigoso, poderia ter te ferido!
— Confesso, talvez tenha tentado a sua fera um
pouco, mas, Lucas, eu não te quero pela metade! Não
quero que tenha que ficar se segurando quando está
comigo, quero você sem controle, sem pensar. Olha para
mim! – Seus olhos amarelos encaram os meus. – EU
QUERO VOCÊ!
Lucas fecha seus olhos e um sorriso descarado
estampa sua cara quando os abre. Lucas está com seus
olhos amarelos, suas garras saem um pouco e, quando ele
ri, posso ver as suas presas.
— Você gosta de jogar, princesa? Então, vamos
jogar.
Lucas caminha até mim, não tenho medo, meu
homem é assim, mais fera do que homem, e isso não me
assusta.
Ele me prende na parede e me beija de modo
necessitado. Rapidamente, prendo-me em sua cintura, mas
estamos em movimento. Lucas passa suas garras pelas
minhas costas e tira toda a minha roupa. No rastro, o
cheiro de meu sangue sobe novamente. Ele me leva até o
banheiro. Meu banheiro é imenso, tem uma imensa pia e
um espelho tão grande quanto.
Ele me põe no chão e rasga também a sua roupa,
rastros de suas garras também ficam em seu corpo
espelhando as minhas marcas. Lucas beija meu pescoço,
onde me marcou, e eu fecho os meus olhos, rendendo-me à
sensação, ele me vira de costas.
— Abra os olhos, olhe para mim – Lucas
sussurra, e é isso o que faço. Pelo espelho, posso ver seu
corpo forte atrás do meu, seus olhos me hipnotizam. Ele
segura o meu pescoço com suas mãos, que estão em meio
a transformação. Não aperta, apenas segura. – O que você
disse que queria, princesa?
Lucas percorre os meus braços e encontra as
minhas mãos, está segurando a minha mão de modo
possessivo sobre a bancada do banheiro, mas seu olhar
nunca abandona o meu.
— Você – digo, em um fio de voz.
Sinto-o, aos poucos, me preencher. Lucas me toma
por trás, ele fecha os olhos quando nos unimos de modo
íntimo.
— Isso não vai ser leve, princesa. Diga agora, se
não quiser, sinto que não poderei parar, se começar.
Sinto-o ali, a me preencher por completo.
— Há tempo para o amor – digo, olhando para
ele, que respira pesadamente –, e há tempo para a foda,
meu querido.
Lucas sorri.
— Porra de mulher perfeita – ele rosna, enquanto
começa a se mover em meu interior, sinto o mundo girar
ao meu redor. Se ele não estivesse me prendendo por trás,
aposto que cairia.
Nós dois estamos descontrolados, enquanto
murmuramos palavras sem sentido, enquanto sentimos o
suor um do outro, enquanto ambas as nossas garras
marcam o corpo de seu companheiro. Quando meu prazer
vem, minhas pernas bambeiam, Lucas não demora e logo o
sinto estremecer atrás de mim. Ele me pega no colo, me
senta no vaso e começa a preparar a banheira com meus
sais de banho.
Olho ao redor, para a bagunça que fizemos, há
sangue por todo o banheiro, meu e dele. A bancada do
banheiro está trincada onde antes estavam as nossas mãos,
sorrio. Como pudemos fazer tudo isso?
Sinto seus braços me rodearem novamente e ele
entra comigo em minha banheira. Lucas me lava com
delicadeza, até que seus toques deixam de ser somente
limpeza para se tornarem algo extremamente prazeroso.
— O que está fazendo, Lucas? – pergunto, já com
um sorriso no canto da boca.
— Você quem disse, princesa. – Ele me puxa e me
põe sentada arregaçada em seu colo.
— Eu disse o quê? – o questiono.
— Que haverá tempo para a foda e tempo para o
amor, e, bem, acho que agora é o tempo do amor. – Ele
olha fundo em meus olhos. – Eu te amo.
Terminei a minha noite ali, sendo amada por meu
lobo, até que meus olhos começaram a pesar e o cansaço
venceu sobre mim.

Vittore

Sinto os finos de fios de seu cabelo sobre os meus


dedos, tão frágil... Se ela não tivesse me mostrado, nunca
acreditaria que um dia eu poderia amar alguém assim...
Não deste modo. Pego-a no colo e carrego-a até meu
quarto.
Ela abre seus olhos quando estava tirando a minha
blusa para me juntar a ela em minha cama.
— O que está fazendo, Vittore? – ela pergunta
com sua voz sonolenta.
— Não se preocupe, não irei violentá-la. – Ela ri,
um riso fraco, e caçoa de mim.
— “Não irei violentá-la”. Às vezes, você fala
como se estivéssemos um século atrás. E eu sei que não
me fará nada. Faz falta, não é?
No pé da cama, paro e a encaro.
— O quê?
— Ter alguém em quem se possa confiar o
suficiente para estar exposto. – Sorrio.
— Posso ter a mulher que quiser em minha cama,
me dando prazer, mas encontrar alguém para dividir a
minha cama... Nunca pensei que encontraria.
— Sei o que quer dizer – ela sussurra, enquanto
põe sua cabeça em meu peito. – Eu consegui encontrar
algumas pessoas, e sei que também irá.
Sei que ela está quase dormindo e que não
deveria lhe perguntar mais nada, mas a curiosidade me
vence.
— Quais pessoas encontrou?
— Você, Léo, Angelo... Dan... te. – Ela adormece.
Dante?! Só conheço um ser chamado Dante, e não
acredito que ela... Não, não mesmo!

Lucas

Acordo quando ouço uma movimentação no


quarto, fico alerta e acabo acordando Alicia no meio da
noite. Lá, no meio do nosso quarto, estava uma garotinha,
Bia, esse é seu nome. Ela nos olha com aqueles imensos
olhos pidões.
— Tia Ali, meu pai e tia Lua vão voltar quando? –
A garotinha estava sendo forte, mas podia perceber que
estava a ponto de chorar. Olho para Alicia, que tem os
olhos como espelhos da pequena menina, minha
companheira estava quase se debulhando em lágrimas ao
ver a criança.
— Vem cá, querida. – Ela demora um pouco para
subir na cama e engatinha ao meu encontro. – Espero que
eles voltem logo, também sinto falta de todos. Queria te
pedir uma coisa. Pode dormir aqui, conosco? É que a Ali
também está sentindo muito a falta do irmão...
Bia faz que sim com a cabeça e deita entre mim e
minha princesa, a menina fica com seu rosto virado para
mim, faço carinho em sua cabeça, até que seus olhos
fecham em um sono pesado.
Olho para minha princesa e ela está chorando e
sorrindo ao mesmo tempo.
— Eu amo você – ela sussurra. Olho para a
pequena menina, nunca pensei que fosse me dar bem com
crianças, mas, agora, imagino alguns pequenos correndo
por aí, com os lindos olhos da minha mulher.
Luana

Abro os meus olhos lentamente, um olho azul e


outro verde me encaram de volta.
Merda! Aquela bruxa realmente me derrubou...
Imagino se ela cumpriu com o que disse e fez algo com a
minha menina, mas não tenho muito tempo para pensar
sobre isso.
Olho ao redor e há um temporizador em contagem
regressiva, ele agora está em três horas e descendo cada
vez mais, isso significa que fiquei apagada por duas
horas...?
Sinto uma pontada em minha barriga, a dor faz
com que me dobre sobre meu próprio corpo, mas logo
passa. Isso é estresse demais para um bebê que ainda nem
veio ao mundo.
Calma, meu amor, você nem mesmo nasceu e já
está tendo que lutar, você não deveria ter que aprender a
lutar tão cedo...
A pequena mão do garoto toca a minha.
— Confia em mim? – Ele se aconchega mais em
mim e aperta ainda mais a minha mão.
Ermer aparece na nossa frente e, quando o
pequeno vai rosnar e se transformar, eu ergo dois dedos
na frente de seu rosto, fazendo com que sua atenção se
volte para mim.
— Não, querido, fique calmo...
O garoto olha para mim como se estivesse em
algum tipo de transe.
— Está tudo bem. – Ele respira e fica em sua
forma humana. Ermer se aproxima mais e o garotinho não
esboça nenhum tipo de ação agressiva para ele, ele não
tenta atacá-lo.
— Muito bem – ouço a voz nojenta do homem. –
Agora, outra porta será aberta, é um lavatório. Lá,
encontrarão roupas limpas. Limpem-se, durmam, que irei
acordá-los na hora que os acionistas chegarem.
Com isso, ele se vira e vai embora. E foi assim,
deste modo, que vendi minha alma ao diabo.

Alec

Preciso sair daqui, eu só preciso encontrá-la,


saber que está bem, sentir seu cheiro... Então, corro, corro
em forma de lobo no território deste vampiro, corro em
direção à cidade, porque preciso dela, preciso senti-la,
saber que está bem, eu preciso de Manu, porque o ar que
entra em meus pulmões já não é o suficiente para me
manter vivo, não sem ela, nunca sem ela.
Sou arremessado, alguém vem com tudo em um
dos lados do meu corpo, Ian...
— Saia da minha frente.
— Se for para lutar com você para te impedir,
lutarei.
Nossos lobos se rodeiam, se medem, rosnam um
paro o outro, ambos com suas presas expostas.
— Estou cansado de não fazer nada!
— Não vou permitir que estrague tudo, Alec!
Não posso perder minha companheira também. De todos
que fossem fazer algum tipo de besteira, estava
apostando em Noah, não em você. E o Supremo tem se
mostrado calculista. Também estou querendo correr
atrás delas, quero encontrá-las de qualquer forma, mas
agir sem pensar pode fazer com que eles nos percebam
chegar, pode levá-las para outro canto e nunca mais
teremos essa chance!
— Não teremos chance nenhuma se demorarmos
e elas estiverem mortas!
— Nós conseguiremos, irmão! Iremos salvá-las!
— Como pode ter tanta certeza assim, Ian?
— Porque o destino não seria tão cruel conosco,
fazendo-nos encontrá-las para logo arrancá-las de
nossas vidas, os deuses não fariam isso conosco.
Deuses... Espero que eles estejam escutando Ian e
suas preces, porque nem isso sou capaz de fazer mais, não
sou capaz nem mesmo de ter fé novamente, não sem ela.

Ravi

Estou trabalhando com Carlos, o chefe de


segurança do vampiro. O local que Megan indicou é um
edifício no meio da cidade, tem quase 700 funcionários.
Eu nunca diria que ali existia um laboratório secreto...
Mas buscamos as plantas, desvendamos arquivos que
estavam criptografados e, depois de quase a noite inteira,
finalmente pudemos abrir os malditos arquivos! O edifício
tem mais quatro andares abaixo, a segurança é alta e, nos
andares de cima, tem pessoas comuns que trabalham em
uma empresa de telemarketing... Quase 700 civis entre nós
e os desgraçados. Tenho que dar um crédito, eles
realmente sabem se esconder. Meu telefone toca e é o
número de Alicia, Carlos diz que vai chamar Vittore e me
deixa a sós na sala, atendo ao telefonema.

Chamada on...

— Ei, Ali...
— Papai!
— Ei, minha pequena princesinha! Como está?
Só conversar com Bia, ouvir sua voz, faz com que
um sorriso bobo apareça em meus lábios.
— Bem... Já está voltando? Achou tia Lua?
— Achei sim, agora só falta buscá-la. Está se
alimentando bem? Se comportando?
— Sim! Cuidei da tia Alicia essa noite, ela
estava com medo.
Ouço um fungar no telefone e sei que a minha
menina está chorando, isso parte o meu coração...
— Ei, linda, o que houve?
— É... minha culpa. Tia Lua estava me
protegendo e...
— Shiii... Não, nada é sua culpa, princesa. É
culpa dos homens maus, não sua!
— Deixa eles de castigo?
— Sim, meu amor, um castigo permanente, pode
apostar.
— Tia Alicia quer falar, tchau, pai.
— Tchau linda.
Ouço, no fundo, Lucas dizer: Vem, florzinha,
vamos lá fora. Depois, ouço a voz de Alicia do outro lado
da linha:
— Volte para essa criança, Ravi, isso não é um
pedido, é uma ordem. Está me ouvindo?!
— Sim, chefe.
Ela desliga o telefone e eu fico ali, com cara de
tacho, até que Noah, Vittore, Megan, Alec, Ian e Leandro
entram na sala... O dia vai ser longo...

Luana

Tomo o meu banho e dou banho no pequeno. Seu


cabelo cor de mel é longo, acredito que ninguém nunca o
tenha cortado... Ele me olha com esses olhinhos cheios de
esperança, nem acredito que serei eu a tirar isso dele,
tirar a esperança de uma criança que nunca teve nada...
Eles nos deram roupas brancas, estou com um top
branco e uma calça folgada da mesma cor, o pequeno
também se veste todo de branco.
Deito no colchão sujo e ele se acomoda ao meu
lado...
— O que será que nos aguarda, pequeno?

Manu

Toco em seu ombro.


— Pri, você está bem? – Ela olha meu estado,
suja de sangue e ferida, e treme, afastando-se cada vez
mais de mim.
Ela está quebrada, foi um erro trazê-la aqui, eu
deveria ter sabido mais antes de arrastá-la para isso.
— Eu quis. Foi a minha escolha – ela diz, como
se tivesse lido os meus pensamentos.
O cientista vem até nossa ala, onde vários outros
lobos estavam presos. Ele passa de cela em cela.
Para em frente a nossa.
— Elas duas servirão para a demonstração.
E sei, sei que ele não cumprirá o que prometeu a
Lua, o velho acabou de assinar o nosso mandado de
morte.
“Alec, cadê você?”...
Olho para Pri, que agora treme
incontrolavelmente, espero que Lua esteja bem...

Megan

Depois de ser acordada por um dos que seguem


Vittore, ambos nos encaminhamos para a sala de
operações. Lá, Ravi, o cara de óculos – sério que lobos
usam óculos? Acho que ele é o primeiro que vejo
usando...
— O prédio é bem protegido, está em uma região
central, tem uma empresa de fachada com quase 700 civis
e está abaixo do nível do solo. É impossível atacá-los
sem antes passar por cima dos civis – ele diz.
— Que seja. Passaremos por cima dos civis –
Noah resmunga, e ele está sério. Não vou deixar esses
caras matarem tanta gente inocente só para salvar alguém
que eles amam.
— Claro, Noah, vamos entrar no prédio matando
todo mundo e anunciando para o mundo o que somos. Fora
que tenho certeza de que a segurança dos laboratórios é
bem mais pesada e preparada para seres como vocês.
— E o que pretende fazer? Esperar mais quanto
tempo? Até todos estarem mortos? – Seus olhos
vermelhos comprovam que o homem está ficando fora de
si.
Vittore se coloca a minha frente.
— Modere o seu tom, lobo.
— Temos que armar algo para que eles saiam,
talvez um incêndio – Ian sugere.
— Não, chamaria atenção dos meios de
comunicação – rejeito a ideia.
— Nos infiltrarmos demoraria demais e... – Alec
começa, mas o corto.
— Fora de cogitação.
— Só se todos os civis magicamente saíssem do
caminho usando a suas próprias pernas – Leandro diz
debochado.
Olho para cada um ali presente e dou de ombros.
— Como você faria isso? Por acaso tem uma
flauta mágica por aí? – Noah rebate com ironia.
Olho para Vittore, fazer isso mostraria a ele
exatamente quem eu sou. Não desvio do seu olhar,
enquanto digo:
— Posso controlar a mente de todos e tirá-los do
prédio. Deixo o caminho livre para vocês, mas vou
precisar que alguém fique comigo, protegendo-me, pois
ficarei vulnerável enquanto faço isso.
— Você está dizendo que pode simplesmente
controlar a mente de 700 pessoas ao mesmo tempo?
Ainda não tiro os meus olhos dos de Vittore,
quando respondo:
— Sim.

Vittore

Só há uma pessoa com esse tipo de poder. Claro


que eu posso influenciar humanos, mas não nessa
proporção. Esse poder foi dado ao primeiro em comando
no submundo, o braço direito de Cadreel, esse poder foi
dado a Astaroth, Elloah, meu irmão.
E para Megan possui-lo... Isso não pode ser, ou
pode? Meu irmão teve uma filha?! Eu tenho uma...
sobrinha.
— Eu cuido de você, Megan.
Claro que cuidaria, ela é minha família, agora sei.
Ela faz sinal afirmativo, enquanto sorri.
— Ainda temos o problema de que provavelmente
eles estarão preparados e nos esperando – Ravi diz, e
Megan sorri mais ainda.
— Eles estão esperando por lobos, não por
vampiros.
— Cada um de vocês trabalhará com um dos
meus, eles não estarão esperando por isso – anuncio,
enquanto todos concordam.
Megan está sorrindo, como se fosse acostumada a
guerra, a luta... Pelo o que você já passou?

Luana

Fomos retirados da cela, o garotinho segura a


minha mão e caminha ao meu lado, olhando sempre para
tudo ao seu redor. Somos encaminhados para uma caixa de
vidro. De lá de cima, como se estivessem em
arquibancadas, oito homens engravatados nos olham.
Consigo ouvir a voz de Ermer através de autofalantes:
— Essa é a nossa cobaia mais promissora, com o
901, conseguimos fazer com que a fraqueza deles sumisse.
Olho para o garoto. O que Ermer quer dizer com
isso?
— Esse é o nosso primeiro grande avanço. Com o
gene do 901, poderemos criar um exército de crianças tão
poderosas quanto ele, crianças que serão criadas para o
que desejarem. Para fazer um teste, Luana, abra a cápsula
ao seu lado e pegue o que tem lá dentro.
Caminho até onde era a porta. Lá, há um buraco
onde coloco a minha mão. Sinto o contorno do metal frio
em minha mão, uma arma... O que ele quer que eu faça
com isso? Seguro na arma e volto para a minha posição,
ergo-a até meu nariz e consigo sentir o cheiro nítido da
prata.
— Atire no 901.
O QUÊ?!

Noah

Estamos em carros pretos e a caminho do prédio,


é uma rua movimentada. Enquanto Megan desce do carro,
Vittore, nem por um segundo, tira o seu olhar de cima
dela. Os carros se separam, ele e Megan ficam a certa
distância de nós. Ela encosta em um dos carros,
escondendo-se um pouco do olhar dos curiosos que
caminham pela calçada, fecha seus olhos e, quando os
abre, estão verdes, brilhantes. Seus cabelos começam a
balançar com um vento que não existe, é sua energia que
os movimenta.
— Que porra é essa mulher, cara? – ouço meu
Beta perguntar e adoraria responder, mas eu não sei. Só
agradeço por ela ter caído em minhas terras, isso me
deixa mais próximo de Lua, meu lobo se contorce dentro
de mim. Mataremos todos!
Algo começa a acontecer, de algum modo, eles
sabem o que Megan está fazendo e todos os seguranças do
andar estão agora prontos para atacá-los. Vejo que as
pessoas pararam de andar por essa rua e acredito que isso
tenha sido trabalho dela. Megan tirou primeiro os
transeuntes do bairro para depois trabalhar com o pessoal
de dentro do prédio. Quando ia levantar, um dos vampiros
de Vittore toca em meu braço.
— Eles ficarão bem, o mestre não nos chamou,
deixo-os resolverem sozinhos.
Vittore estava sério, e quando as armas são
disparadas, ele ergue uma mão e é como ver tudo em
câmera lenta. As balas, como se estivessem flutuando no
ar, e ele, arrancando a cabeça de um por um como se
fossem meros bonecos.
As pessoas começam a sair do prédio, uma
multidão começa a passar pelas portas, vejo que os
seguranças que sobraram no local olham para tudo sem
entender o que está acontecendo. Quando todos os civis
saem, ela tira também os seguranças daqueles andares,
percebo que não há mais ninguém caminhando pela rua...
Megan também mudou o caminho daqueles que estavam
passando por ali. Seu poder é impressionante...

Vittore

Vejo-a chamar tanto poder para si, poder que já


estava dentro dela. Megan é incrível. Não é só o poder do
meu irmão que corre em suas veias, posso sentir algo
mais, mas não consigo identificar o quê. Vejo os humanos
se aproximando, são como insetos, insignificantes.
Quando ela termina a sua parte do trabalho, toco
em seu braço e é como ser atingido por uma descarga
elétrica, seu olhar varre o meu rosto, ela fecha os olhos
novamente e suspira. Quando tenta dar um passo, vacila, e
eu a seguro.
— Estou bem.
— Não, não está. Está fraca.
— Não sou acostumada a usar esse lance tanto
assim. É hora de entrarmos.
— Você não deveria...
— Eu vou.
É o que ela responde, e sua cara séria não deixa
margem para conversas ou argumentos. Chamo meus
vampiros e os lobos caminham juntos ao nosso encontro.
— Você queria uma guerra, lobo, agora terá.

Luana

— O quê? Eu não vou atirar nele...


— Pensei que fosse dizer isso...
Uma parede é aberta ao nosso lado, mostrando
outro cubo de vidro. De lá, as garotas nos olham
assustadas.
— Atire nele ou eu atirarei em uma delas – ele
diz. – Ele irá se curar.
— Isso é prata, ele não vai se curar.
— Sim, vai, mas aposto que a sua amiga não.
Então, qual a sua escolha?
Olho para as meninas desesperadas do outro lado
e para o garoto, eu peço desculpas silenciosas quando
aponto a arma para a sua barriga. Ele não foge, não reage,
só me olha daquele jeito, como se eu fosse um super
herói, e isso me mata por dentro.
Eu choro e ele sorri, como se entendesse a minha
dor. Eu puxo o gatilho e seu corpo é lançado para trás com
o impacto. Há um furo imenso em seu estômago, e sua
blusa, outrora branca, está agora manchada de vermelho,
mas ele não demora muito e se cura completamente.
Olha-me, e nunca me esquecerei desse olhar,
decepção, dor, traição...
Então, ouço outro barulho de tiro e a voz de
Ermer:
— Ele se cura completamente com prata, enquanto
a sua espécime natural, como podem ver, não resiste.
Olho para o cubo ao meu lado e o corpo de minha
amiga se espalha no chão, o sangue, tão rubro quantos
seus cabelos, mancha cada canto do lugar. Um grito
silencioso de pura dor sai dos meus lábios e, de uma
coisa eu tenho certeza, eles morrerão, todos eles morrerão
por isso.

Noah
Quando tudo está limpo, entramos no prédio e não
há nenhum pé de gente por aqui. Tem uma caixa no
elevador que precisa de uma senha, provavelmente, algo
que dê para o andar inferior.
— É melhor eu ir sozinha, provavelmente, terão
guardas lá, com armas de prata – Megan diz.
— Já chega. Não me peça para ficar aqui,
esperando, porque não vou, não ligo se levar alguns tiros
pelo caminho.
Ela fecha os olhos, parece tonta. Dá para perceber
que o que fez antes a esgotou, mas não me preocupo,
porque tem a porra de um vampiro em sua cola que
prefere olhar para ela do que olhar por onde está andando.
Nunca vi um vampiro como ele. Vampiros e lobos têm
poderes semelhantes, um vampiro pode matar um lobo
com suas próprias mãos, assim como lobos também são
capazes de matar os vampiros. Mas esse cara...
Entramos Megan, Vittore, meu Beta, Alec e eu no
elevador.
— Merda. Qual o código?
— 122F 855H 477W 298T 179G – Megan diz, e
nem me preocupo em perguntar como diabos ela sabe
disso.
Ela dá um passo para frente e põe seu corpo
diante do meu, a frente de todos, como um escudo. Quando
as portas se abrem, o vampiro acorda de seu transe e faz o
mesmo que fez lá fora, impedindo que as balas cheguem
até ela. Percebo que Megan fez isso de propósito, Vittore
não nos protegeria, mas ela sabia que ele a protegeria,
então, colocou-se a nossa frente.
Matamos os guardas rapidamente, os vampiros
conseguem tirar suas armas, enquanto nós concluímos o
serviço.
Ian e Ravi descem do elevador logo após.
— Vamos nos dividir, matem todos pelo caminho!
Resgatem os que estiverem presos, achem as nossas
companheiras!
Ouço um barulho imenso, como uma explosão, e a
energia de Lua me chamando até seu encontro, nem
percebo os que aparecem pelo meu caminho, transformo-
me e mato todos que ousam interferir, médicos, guardas,
pessoas, qualquer um no meu caminho está tendo o mesmo
fim. Ian e Alec me encontram em uma mesma área, parece
que eles também foram impulsionados a virem até aqui.

Luana

Vejo o corpo de Pri e sinto uma queimação


percorrer todo o meu, sinto-me possuída por uma energia
mais antiga que o tempo.
Deixe-me ajudá-la.
A voz de uma mulher me dizia em minha mente.
Deixar? Eu não me importo, não me importo em ser
possuída por algo se, no final, eles estiverem mortos,
todos eles. Deixo o controle de meu corpo, sinto-me
erguer as minhas mãos, mas não fui eu quem fez isso, uma
energia azul brilha das minhas mãos. E todo o vidro é
derretido como lava.
Olho para a criança e digo: Mate todos!
Mas a voz que sai não é minha, é a minha com a
de outra pessoa. O menino se transforma e pula de uma
altura impressionante até os caras de terno. Meu corpo
gira até a porta e de lá sai. Fabiana, a bruxa que trabalha
com Ermer, também está com as mãos erguidas e, de lá,
sai um brilho avermelhado.
— Ora, ora, quem tinha magia... Vamos ver se é
páreo para uma bruxa de verdade!
Ela aumenta o poder de suas mãos e os direciona
para mim, meu corpo não se defende, só fica ali,
recebendo toda a carga. Depois da explosão, o nosso riso.
— Bruxa de verdade, Fabiana? Você não
reconheceria uma bruxa de verdade nem se ela estivesse a
sua frente! Não me insulte com isso que chama de poder,
você não sabe com quem está falando, mas aprenderá a se
ajoelhar diante de um superior.
Ela deixa meu corpo liberar mais energia e,
mesmo assim, não ataca Fabiana, parece que queria lhe
mostrar algo... Algo que Fabiana reconheceu, porque ela
se ajoelha e parece desesperada.
— Senhora... Eu não sabia! Não sabia que era
você, todos pensam que está morta...
— Você ajudou a magoar a minha família, e isso é
alta traição.
Nunca vi alguém gritar tanto em toda a minha
vida, não sei o que ela – ou eu – fazia com a bruxa a nossa
frente, mas isso parecia doer. Como o vidro, ela parece se
derreter diante de nós, deixando só uma gosma.
— Quem é você?
Pergunto internamente.
— Você conheceu o meu companheiro, que
também é seu.
— Você é a bruxa da lenda...
— Não, nós somos, você e eu somos a mesma
pessoa.
— E por que não me ajudou antes?
— Luana, tudo a seu tempo, tudo tem seu
propósito. Até mesmo a morte.
Sinto novamente meu corpo e sei que, seja lá o
que ela tenha feito em mim, se foi.
Olho para a porta, agora aberta, e, de lá, meu
imenso lobo aparece altivo, Noah...
Mas meu olhar logo cai para Ian, meu melhor
amigo, que agora vê o corpo de sua companheira caído no
chão. Morta. E o grito que sai dele gela todos os meus
ossos, porque eu não a protegi, esse era o meu trabalho, e
eu falhei miseravelmente.

Alec

Minha morena está bem, respiro normalmente ao


sentir sua respiração. Depois de alguns segundos, percebo
o sangue em todo o seu corpo, sangue que não era dela,
seu rosto está marcado por lágrimas, e é aí que olho para
onde ela olha, para o corpo da companheira do meu amigo
no chão...
Ian corre até lá e abraça seu corpo inerte, seus
ombros convulsionam em um choro desesperado, mas isso
ainda não acabou, percebo, pelo barulho que vem dos
outros corredores. Toco no ombro do meu amigo.
— Haverá tempo para o pesar, Ian, agora é hora
de sangue, de vingança.
Meu amigo se levanta, com seus olhos marejados,
ele olha para Lua e acena. Então, transforma-se em lobo e
corre para o fogo aberto, para a luta.
Megan

Caminho pelos corredores sem me preocupar com


quem tenta me atingir, sei que Vittore está me protegendo.
Caminho até a sala de operações, preciso saber quem está
à frente deste circo. Acho o computador e coloco o
mesmo número de acesso da entrada. Lá, há pastas com os
nomes de todos os acionistas, e um chama a minha
atenção: Augustos.
E percebo que ele me enganou... Ele será o único
sobrevivente disso tudo, meu pai adotivo. Quando ele me
adotou, provavelmente já sabia quem eu era, me usou para
os seus fins... Me fez construir para ele uma empresa... Me
fez tirar todos os que ficavam em seu caminho,
provavelmente, todos os que tinham uma ideia contrária a
sua. Augustos criará a Force em cima dos escombros
desta empresa, mas a Force será sóo sua, por minha causa.
E, no meu tempo, ele estava atrás de... vampiros. Que tipo
de monstro eu criei?
— Acredito que deveríamos sair daqui – ouço a
voz de Vittore, que parece me acordar. – Temos dois
minutos até tudo explodir – ele diz, apontando para um
timer. E o pior, não era um explosivo direcionado, ele,
provavelmente, estava dentro das paredes do prédio, eu
faria isso. Faria isso porque aprendi com a pessoa que
fez, Augustos.

Vittore

Seguro em Megan e começo a tirá-la dali, mas ela


consegue me deter e me empurra.
— Chame os seus vampiros, mande que levem
todos os lobos, todos os sobreviventes até a sala em que
Noah está.
— Eu não me importo com eles.
— Sei que não. Mas estamos perdendo tempo
aqui, eu não vou deixá-los para trás. Então, ou você me
ajuda, ou vai embora.
Cerro meus olhos, mas logo sorrio, ela se parece
com meu irmão...
Todos, levem todos os sobreviventes até a sala
principal onde o líder dos lobos está, agora!

Luana

Uma mulher que não conheço entra na sala, mas a


minha atenção vai para Ermer, que tenta fugir
sorrateiramente. Noah segue o meu olhar e pega o verme
pelo pescoço.
— Não o mate. – Até Ermer olha para mim sem
entender. – Ele deu a ordem para matar Priscila, sua morte
deverá ser através das mãos de seu companheiro, de Ian.
Noah concorda comigo e só dá um soco no
cientista, apagando-o.
— Tudo vai para os ares em um minuto – a mulher
anuncia, algo em mim diz para confiar nela.
— Precisa sair, agora! – Alec grita com Manu,
grudada em seu corpo.
— Não, não dá mais tempo. Esperem todos
chegarem aqui.
— E o quê?! Vamos morrer todos juntos e
abraçados? – Leandro grita.
— Vocês confiaram em mim até aqui, confiem
novamente.
Ela fecha os olhos e um imenso círculo negro é
desenhado ao nosso redor.
— Fiquem dentro do círculo, só isso o que peço.
Todos os outros chegam, mas Ian ainda está do
lado de fora do círculo.
— Por favor, Ian, não faz isso...
Ele me olha, mas não está ali, está perdido em
pensamentos.
— Ian, eu sei que é egoísta, mas eu preciso de
você, por favor, faz isso por mim.
Ele caminha em minha direção, como um zumbi,
sem vida. Mas, pelo menos, está dentro do círculo.
Lembro-me do garotinho... Ele está completamente sujo de
sangue. Não se aproxima de nós.
Abaixo-me e olho em seus belos e hipnotizantes
olhos.
— Confia em mim, só mais essa vez – digo para
ele e ergo a minha mão em sua direção.
Ele dá alguns passos incertos.
— Dez segundos! – a mulher diz.
— Por favor, vem! – ele corre em minha direção e
eu o abraço. – Me desculpe, pequeno, me desculpe...

Noah

As explosões começam e, quando está prestes a


nos atingir, é como se uma redoma invisível nos
protegesse. Essa redoma fica negra e sinto o poder do
barghest novamente. Quem é essa mulher para usar tão
livremente o poder de um ser tão temível quanto ele?

Megan
Não sei se isso vai dar certo. Chamo meu querido
lobo do submundo, deixo o seu poder fluir por cada canto
de mim, moldo as suas sombras como um escudo, deixo
seu poder me consumir, isso faz com que meu coração
doa, doa com saudade do meu amor... Quando abro meus
olhos novamente, estamos todos acima do prédio, abaixo,
só uma cratera com escombros nos olha de volta. Desço
todos devagar, mas o poder não me deixa...

Luana

Se não estivesse presente, nunca acreditaria no


que acabou de acontecer. Uma redoma negra nos protege,
e quando nossos pés tocam o chão, a redoma se
transforma em grandes asas negras atrás da mulher, asas
como sombras, sem contorno... É assustador, mas, mesmo
assim, muito bonito. Ela nos protegeu.

Vittore
Ela sorri de lado, enquanto as sombras se
solidificam em um corpo quase humanoide, isso a beija e
uma lágrima cai de seu rosto, as sombras se vão e Megan
quase cai no chão.
— Vou te levar para minha casa – digo-lhe, ela
nega.
— Não, tenho coisas ainda para resolver no
território dos lobos, leve-me para lá.

*****

Megan está adormecida em meus braços, enquanto


meu jato particular está cheio de lobos e a caminho de
suas casas. Ela não pensou que a deixaria sozinha, ou
pensou?

Luana

Toda vez que Noah encosta em mim, o garoto


rosna. Isso é bonitinho, mas meu companheiro não está
gostando nada.
Beijo sua testa e o deito em meu peito. Logo
depois, colo-me nos braços de Noah, sinto-o suspirar.
— Eu sinto muito, Lua... – ele diz em um sussurro.
Olho para Ian.
— Eu também, não tê-la por perto o destrói.
Ele me abraça mais apertado.
— Você sempre pensa nos outros primeiro, eu
sinto muito pela nossa cria. Não consigo mais sentir o
cheiro do nosso filho em você, eu sinto muito...
Ele diz com uma voz embargada, realmente estava
triste. Mas... Eu não perdi minha filha, ela continua aqui,
viva e bem... Olho para Ermer, caído no chão. E se, no
tempo em que estive desacordada, ele fez algo com minha
menina?
Olho ao redor e percebo que tudo mudou...
Consigo perceber agora. Consigo entender agora... Olho
para Noah e sei do papel dele na nossa sociedade, que
está quebrada, rachada. Ele é o único elo.
Capítulo 32 – Encontrando um
Lar
Ravi

Chegamos, finalmente, em casa e somos recebidos


com festa. Minha pequena não desgruda do meu pescoço
desde que cheguei.
— Papai! Onde está a tia Lua?! – Ela estava doida
para ver que Lua estava realmente viva e bem, não
acredito que Noah irá querer dividi-la com mais ninguém,
não hoje.
— Ela está com seu tio Noah, ele está cuidando
dela. Quando der, eu te levo lá. Ei, quero te apresentar a
alguém!
Caminho com Bia até Alicia e Lucas, que estavam
cuidando do garoto que foi resgatado por Lua. Quando
chego lá, Alicia os apresenta:
— Esta é Bia. Bia, este é o seu mais novo amigo.
Eles travam o olhar um no outro e cerram a
mandíbula, minha menina cruza seus braços em frente ao
peito e diz:
— Não gosto dele.
E simplesmente sai em passos duros, deixando
todos boquiabertos.

Luana

Noah me leva até o banho, lava cada parte do meu


corpo, prestando atenção em cada detalhe, como se
tivesse fazendo um mapa de mim. Quando termina, em
silêncio, me seca e penteia os meus cabelos. Seguro suas
mãos.
— Olhe para mim, Noah. – Ele me olha e vejo sua
dor, seus olhos duros com um ódio, ódio que não é
direcionado a mim, mas, mesmo assim, o sinto.
— Não cometerei esse mesmo erro, Lua, não me
importo com mais ninguém que não seja você. À partir de
hoje, você será o centro de meu mundo.
Abraço-o, escondendo a preocupação em meus
olhos, isso é o que mais eu temia...
Quando nos saciamos um no outro e o cansaço
toma nossos corpos, aguardo Noah dormir e saio do seu
agarre, orando aos céus para que ele não perceba a minha
escapulida. Caminho até as masmorras. Lá, encontro um
lobo vigiando Ermer.
— Saia.
Ele não pergunta nada, só me obedece. O velho
cientista me olha de dentro da cela e sorri, o maldito
ainda sorri para mim.
— O que você fez com ela? – questiono-o sobre
meu bebê, e seu sorriso aumenta ainda mais.
— Desenvolvemos um soro... Se sua cria não está
morta, então, funcionou. – Seu olhar parece alucinado. –
Consegui! Eu consegui fazer um soldado perfeito!
Minhas garras coçam pelo contato iminente entre
elas e a garganta desse lixo, mas penso em Ian e não faço
nada.
Dou meia volta e caminho para ao meu quarto,
agarro-me a Noah, que facilmente me aperta de encontro
ao seu corpo. Demoro a dormir, estou olhando para o anel
em meu dedo, enquanto lágrimas silenciosas escorrem
pela minha face.

Noah

Acordo com minha Lua em meus braços... Onde


ela nunca deveria sair, jamais. Não estava brincando
quando disse aquilo, à partir de hoje, tudo será segundo
plano comparado a ela. Depois de amá-la e de saciar
ambos os nossos corpos, adormecemos agarrados um ao
outro.
Mas hoje é o dia, o dia do enterro de Priscila, e o
dia em que o cientista ganhará a punição da matilha.

Luana

Acordo e não vejo Noah, ele deve ter me deixado


descansar por mais tempo... Vou até o banheiro, todo um
banho demorado, visto-me e saio à procura de todos,
principalmente de Ian, preciso vê-lo...
Quando saio da mansão de Noah, todos estão do
lado de fora, formando um círculo. Não é Noah que está a
frente, e sim meu amigo. No centro do círculo, Ermer está
sem amarras, livre, livre para sua morte.
Noah me vê chegar e acena com a cabeça. Ian
corre até Ermer e começa a dilacerar seu estômago, seu
intestino, enquanto o homem grita em agonia. Em meio aos
gritos, ele repetia uma frase:
— Eu consegui!
Isso me dá calafrios.
Quando seus gritos cessam, vejo outros se
transformarem em lobo e irem até o corpo, cada um
carregando uma parte da carne do homem. Essa é a lei da
matilha, esse é o julgamento do meu povo.
Vejo a mulher que nos salvou junto com o
vampiro, ela o puxa até um canto particular e começam
uma conversa que, confesso, não me incomodo em escutar.
Tiro a minha roupa, transformo-me e vou até o meu amigo.

Megan

O que vi os lobos fazerem com o cientista não me


enoja, já vi coisas piores. Puxo Vittore, que estranhamente
ainda está aqui, para um local privado.
— Você precisa ir.
— Nem sonhe com isso.
— Sério, Vittore. Precisa ir, e não me procure, até
o dia em que eu te encontrar, em que eu for em busca de
você. Isso pode afetar todo o futuro e, se você mudar o
futuro, eu nunca viria até o passado! É um ciclo, e não
pode quebrá-lo, prometa-me!
Ele me olha de canto e suspira.
— Esperarei por você, sobrinha.
Abraço-o forte.
— Obrigada.
Então, Vittore some do nada, como fumaça.
Ian

Como se matar esse verme me trouxesse algo...


Minha garganta dói de tanto gritar seu nome e saber que
ela jamais escutará. Meu pulso dói, porque tudo o que
tenho feito é socar tudo o que há em minha frente. Sou uma
casca, a porra de uma casca vazia!
Nem me lembro de quem eu era, não me lembro
de quem eu era antes dela, não posso ser ninguém depois,
é impossível!
Corro, porque não suporto ficar parado; a frase
“Volta para mim” é repetida milhares de vezes em minha
mente, mas eu não consigo dizer em voz alta, eu não
posso. Porque, dizer em voz alta, é o mesmo que constatar
que ela jamais voltará, jamais. Não importa...
Nada mais importa.
Queria ter ficado lá, queria ter sido explodido
junto com o prédio, queria que a minha existência não
existisse mais, porque é isso o que estou fazendo,
existindo, como um banco, que existe.
Dói, minha alma é dilacerada, meu corpo não vê
mais sentido em viver, minha mente já não existe mais.
Tudo o que sinto é raiva e dor, tudo o que vejo é um
mundo que continuará sendo feliz sem ela, e eu odeio o
mundo por isso.
Sei que alguém me segue, meu corpo pede por
uma briga. Dou boas vindas a quem quer que seja tolo o
suficiente para vir ao meu encontro.
A loba de Lua me olha e eu invisto contra, ela se
transforma em humana e me olha, eu também me
transformo. Ela não diz nada, só ajusta seu corpo em
posição de defesa, e eu a ataco. Passo o dia inteiro
lutando com Lua, como costumávamos fazer quando
éramos menores, quando as coisas não eram tão
complicadas, quando ainda existia algo dentro de mim, a
não ser dor.
Cansados, sujos e com a noite surgindo ao nosso
redor, ela finalmente abre sua boca.
— Eu deveria tê-la protegido.
Eu queria dizer: “Não, Lua, eu deveria tê-la
protegido”, mas não consigo pronunciar palavras. Sons
saem da minha boca, murmúrios de dor, caio de joelhos e
abraço as suas pernas. Meu choro sai do meu corpo e leva
todo o resto de sentimento que havia em mim. Eu não
tenho mais nada, não tenho mais um caminho a seguir, não
tenho mais uma vida.

Megan
Fico aguardando Luana voltar. À noite, ela
caminha até sua casa, e a paro antes que entre.
— Sei que... – Mas ela me corta.
— Obrigada por nos ajudar, não conseguiríamos
sem você.
— Sei que não me conhece. E sei de algo que
também acontecerá, sei, assim como você também sabe. A
hierarquia dos lobos está um completo caos. Pelo o que
vi, haverá guerra entre seu próprio povo, mas você já
sabia disso.
Ela afirma com a cabeça. Sorrio e olho para o céu
estrelado.
— Eu sempre fui usada... Desde pequena. Sempre
estive nas guerras de outras pessoas, eu nunca tive uma
família de verdade, não desejaria isso para criança
alguma.
Falo, enquanto olho a sua barriga, sei que há vida
ali. Embora os lobos pensem que não, sei, e Lua também
sabe. Continuo a dizer:
— Este é o endereço de uma bruxa de confiança, e
este – entrego uma das ogivas que Suzana tinha feito para
mim, elas eram capazes de apagar memórias, mas,
também, com a bruxa certa, poderiam ser capazes de se
transformar em outras magias, era uma magia muito
poderosa –, é um presente para você.
À noite, aconteceu o enterro de Priscila, todos
vestidos de branco, enquanto o corpo da jovem mulher era
queimado em uma fogueira. Vejo Ian se isolar, ir embora.
Sei o que Luana precisa fazer, só não sei se terá
coragem o suficiente para isso.
Capítulo 33 – Despedidas
Luana

Não vejo Raquel desde que voltei, encontrá-la me


faria fraquejar em minha decisão, e eu não posso. Se ela
olhar em meus olhos, vai saber o que penso em fazer, vai
saber e tentará me impedir. Vou atrás da minha pequena.
Bia, quando me vê, corre ao meu encontro.
— Tia Luaaa!!!
Sinto seus bracinhos me prenderem.
— Oi, amor, como está?
— Bem, senti sua falta.
Isso faz com que lágrimas se derramem pelo meu
rosto.
— Não chora, tia Lua!
— Eu vou sentir sua falta, pequena.
— Minha falta? Para onde vai? – Sorrio fraco
para ela.
— É o nosso segredo, certo? Eu preciso ir,
porque todos nós precisamos nos curar.
— Não pode se curar aqui? Posso trocar os
curativos e...
— Não, pequenina, não posso. Mas vou voltar,
prometo.
— Promete?
— Sim, não importa o tempo que passe, eu vou
voltar. Quero que entregue isso para seu tio Noah quando
o seu papai for lhe colocar para dormir. Faz isso?
Ela concorda com a cabeça e me abraça, sinto
novas lágrimas se derramarem pelo meu rosto.
Caminho em busca do meu outro pequeno, o vejo
só e me abaixo ao seu nível de visão.
— Ei, vim me despedir de você.
Ele me olha com suas sobrancelhas unidas e seus
lindos e únicos olhos me encarando.
— Quero te pedir, por favor, cuida do Noah para
mim? Fica com ele, seja o coração dele enquanto eu não
puder estar por perto, promete?
Frases demais para uma criança, porém, quando
deixo a minha palma para cima, ele coloca a sua, me olha
sério, me dá as costas e vai embora. E também é isso que
faço, eu caminho, deixando-me para trás, deixando-me
com ele.

*****
Encontro com Manu na floresta, ela me olha.
— Eu sabia que iria embora – é a primeira coisa
que diz. Sento-me em uma árvore caída e ela me
acompanha. – Não posso te pedir para que fique, Lua –
ela continua –, mas saiba que tudo já mudou, e você foi a
responsável por isso, nós não deixaremos que as coisas
voltem ao que era, nós teremos um lugar, Alfa, isso eu te
prometo. Vá, faça o que tem que fazer, o que precisar ser
feito, sua matilha irá aguardá-la.
Levanto-me sem dizer uma palavra, mas Manu
continua a falar:
— Só... se deixá-lo aqui, ele morrerá. Sabe disso,
não é?
Sim, eu sei, por isso que mudo o caminho das
minhas pernas e vou ao encontro de Ian.

Megan

Vejo quando Lua sai do território, e sei que ela


não vai voltar por um bom tempo. Tomou uma decisão. Às
vezes, não há decisões certas ou boas, mas, às vezes,
precisamos tomá-las para protegermos as pessoas que
amamos. Isso dói, dói como o inferno, mas nunca me
arrependi de tê-las tomado, não enquanto as pessoas que
amo continuassem respirando.
Meu papel aqui acabou, é hora de encontrar
aqueles idiotas e salvar seus belos traseiros, isso vai ser
complicado, difícil... Mas não estou acostumada a coisas
fáceis, então, respiro fundo e, como Lua, dou um até logo
ao território do Supremo.

Luana

Caminho até Ian e sento-me ao seu lado.


— Sinto-me em coma, Lua, não tenho mais casa,
porque cada canto daquele lugar tem o cheiro dela, e todo
dia eu morro um pouco mais, porém, continuo vivendo! Eu
só preciso desligar, quero que essa dor pare!
— Eu sei... Estou indo embora, Ian. Não quero
falar sobre isso agora, mas vou te explicar quando puder.
E, assim como eu te pedi antes, te peço agora: eu preciso
de você, fica comigo?
Meu amigo me olha.
— Porque eu não sei se consigo fazer isso
sozinha, e é algo que precisa ser feito, você precisa de
uma nova casa, e eu preciso de alguém para construir uma.
Deixe-se nascer em uma nova vida, tenta isso, por ela...
Coloco sua mão em minha barriga e ele sente,
assim como eu, sua energia.
— Sua sobrinha precisa de você, assim como eu.
Ian parece não entender, mas, mesmo assim, ele se
levanta e caminha ao meu lado. Vamos até a bruxa que
Megan nos indicou, a caminho de Chicago.

Ravi

— Hora de dormir, pequena.


Pego a minha menina no colo e a coloco na cama,
dando um beijo estalado em sua testa, o que a faz sorrir.
— PAI! – ela grita, assustando-me. – Quase me
esqueço de entregar a carta da tia Lua para o tio Noah.
Ela puxa, de debaixo do travesseiro, uma carta.
Merda... Isso não pode significar boa coisa...
— O que Lua te disse mais, Bia?
— Ela disse que era segredo, mas como é meu
pai, acho que não tem problema. Ela disse que estava indo
embora, que precisava se curar, mas que voltaria. Vou
sentir falta dela...
— Eu também, meu amor, eu também... – Abraço
a minha pequena. – Agora, durma.
Corro para a casa do meu amigo, ele já está
louco, andando de um lado ao outro. Quando olha para
mim, sabe que algo não está certo. Entrego-lhe o papel e
saio. Não quero estar na frente de Noah quando ele for ler
essa carta.

Noah

Estava tudo certo, tinha conversado com Leandro,


ele ficaria à frente da matilha. Eu me mudaria com Lua
para um local distante, onde nunca mais nada disso lhe
aconteceria. Não a encontro em canto algum, suponho que
deva estar com Ian, consolando-o. E, embora meu corpo e
meu lobo exijam que eu vá atrás dela, não vou. Não
cometerei esse erro novamente, não deixarei meu ciúme
interferir em nossa relação.
Estou a horas caminhando de um lado ao outro em
minha casa, já está tarde, tarde demais...
Ravi chega em minha porta e seu olhar é o mesmo
de quando me deu a notícia de que tinham levado Lua,
algo vai mau... Entrega-me um papel e consigo identificar
a caligrafia da minha Lua.

*****

Noah,
Hoje eu sei do que o nosso povo precisa, eles
precisam de um Supremo, de um Alfa. Não de um marido,
não de um amante, não de alguém que coloque a segurança
de sua companheira acima da união da matilha. E eu
também preciso disso, embora me dilacere por dentro,
preciso que seja o líder, acima de ser meu, seja deles.
A nossa espécie brigará, terá guerra, você sabe,
eu também sei. Os Alfas das outras matilhas se unirão
contra você, lutarão entre si e conseguirão fazer o que os
humanos nunca conseguiram, conseguirão que a nossa
espécie seja extinta.
Enquanto eu estiver por perto, a minha segurança
sempre interferirá no seu julgamento, nos seus atos. E se
fosse só por mim, Noah, não me incomodaria em te ter só
para mim, não me incomodaria em ter o tempo presente
com você. Um dia com você já seria o suficiente para dar
sentido a toda a minha existência. Mas eu carrego um ser,
uma menina, nossa filha. E eu, talvez pela primeira vez,
esteja pensando nela também. Pela primeira vez, eu não
estou à frente em uma guerra, colocando-e em risco, estou
fugindo disso para protegê-la, acho que isso é meio que
ser mãe também. Por ela, Noah... Ela, que merece ter uma
infância sem saber o que é dor, merece conhecer o mundo
sem rótulos e sem preconceitos para com o seu gênero,
nossa menina merece ter um lar seguro, merece acordar
todo dia sem ter medo do amanhã. Porque o tempo
presente seria o suficiente para mim, mas não para ela,
não para ela, que ainda nem nasceu. ELA MERECE UM
FUTURO.
Sei que não tenho a moral de te pedir algo como
sua companheira, já que isso é uma despedida, um até
logo. Mas te peço algo, em nome da matilha e em nome da
nossa menina: Dê orgulho ao nosso povo, faça com que
eles, todos eles, homens e mulheres, sintam orgulho
daquilo que são, transforme as matilhas em uma única
PRIDE! Transforme a matilha em um local seguro para a
nossa filha viver, vença as guerras, lute, seja forte, faça o
que tiver que ser feito. Porque, às vezes, alguém precisa
sujar as mãos, meu amor, eu sei e tenho certeza de que
você, mais do que ninguém, também sabe disso.
Nós voltaremos para você, eu te prometo isso. E,
neste tempo, sobreviva. Faça isso por nós. Eu te deixei um
presente, você só precisa abrir os olhos e enxergá-lo,
fique com ele, ame-o, ensine-o, ele merece alguém como
você para amá-lo.
Eu te Amo.
Sempre Sua,
Lua.

*****

Termino de ler suas palavras... O que Lua está


dizendo? Ela perdeu o bebê, certo? Não consigo sentir o
cheiro da criança... Também não consigo pensar neste
momento, quebro toda a minha casa, tudo.
E quando não há mais nada para ser destruído,
deixo as minhas costas escorregarem pela parede.
Conheço Lua, não irei encontrá-la, ela dará um jeito de
sumir do mapa.
O desespero me toma, minha respiração acelera
incontrolavelmente, seguro a minha cabeça com as mãos
e, estava tão absorto em meu próprio sofrimento, que não
vejo quando uma mãozinha se aproxima da minha cabeça.
Quando ergo meu olhar, um olho azul e outro
verde me encaram. Então, ele me abraça e lembro-me do
que Lua escreveu na carta:
Eu te deixei um presente, você só precisa abrir
os olhos e enxergá-lo, fique com ele, ame-o, ensine-o,
ele merece alguém como você para amá-lo.
Mas, como posso amar alguém, quando meu
próprio coração criou pernas e resolveu sair caminhando
para longe de mim?

Luana

A cada passo que dou, meu coração sangra um


pouco mais, já estamos quase no endereço que Megan nos
deu. Quando bato na porta, Megan está lá, com uma
mulher.
— Esta é Sofia, Luana. Vou deixar conversarem a
sós.
E ela sai, tão repentinamente quanto entrou em
nossas vidas.
Entro em sua casa, com Ian, e ela me pergunta o
que desejo.
— Gostaria de nublar meu cheiro e meu vínculo
para que meu companheiro não possa me encontrar.
— E por que faria isso?
Conto-lhe toda a história, ela me pede para tocar
em minha barriga e, quando o faz, seus olhos se arregalam
como pratos.
— Ela é a filha da Senhora... Isso significa que
você é...
Não entendo o que diz, mas ela começa a fazer as
malas rapidamente e nos coloca dentro de seu carro.
— Vou fazer mais que ajudá-los, irei junto. Essa
criança que carrega precisa ser protegida, e farei isso
enquanto viver.
“Confie nela”.
Ouço a voz da mulher em minha mente.
“Por que confiaria em você?”...
“Eu sou você. Só quero proteger a nossa filha.
Você poderá criá-la, Lua, mas teremos que assumir
nossa posição de líder. A hora chegará, seja mais cedo
ou mais tarde”.
E essa foi a última vez que ouvi a sua voz.

Raquel

Algumas semanas depois...


Olho para Noah, enquanto estou abraçada ao meu
delicioso companheiro. Meu coração dói por ele, dói
também pela Estranha ter ido embora sem ao menos me
dar uma explicação!
— O que ele está fazendo? – pergunto a Lê, que
olha para o seu amigo também.
Noah estava sem camisa, cuidando do jardim que
existe abaixo da janela de seu quarto. Ele procurou por
Lua, todos procuraram, sem sucesso. É como se ela
tivesse sido apagada do mapa por uma borracha gigante.
Noah sofreu, acho que ainda sofre. Mas ele está aqui, em
pé, tomando as decisões e enfrentando as guerras.
— Plantando rosas. Já disse para ele que este
terreno não é muito bom para rosas amarelas, ele já tentou
umas três vezes, e as sementes morrem sem ao menos
nascerem.
Lembro-me do que disse a Noah, que as flores
preferidas de Lua eram rosas amarelas... Ele está fazendo
isso... Por ela.

Luana

Sinto as contrações, minha filha está vindo.


Choro, enquanto mais uma onda de dor toma meu corpo,
Sofia está fazendo o parto, enquanto Ian segura a minha
mão na dele.
Passamos quase uma hora nesse trabalho, até que
a minha pequena nasce, chora e, quando olho para Ian, ele
está sorrindo e chorando, como eu. É a primeira vez,
depois de Priscila, que o vejo sorrir.

Noah

As guerras vieram, a morte também veio. Nosso


povo se matou... Tive que ir, de matilha em matilha,
matando cada Alfa e colocando alguém de minha inteira
confiança em seu lugar. Hoje, Alec, Leandro, Ravi e
Lucas possuem sua própria matilha e são Alfas de seu
povo. Sento-me na mureta em frente a minha casa e olho
para a floresta. A espero, todo o fim do dia, a espero no
mesmo local, como daquela vez em que ela estava na
floresta e, quando o sol se pôs, veio aos meus braços,
como se soubesse que pertencesse a eles. Todos os dias,
vejo o pôr do sol daqui. Todos os dias, a espero chegar.
Ainda há revoltas, com tudo o que está
acontecendo, elas continuam com força total. Sei que,
onde quer que ela esteja, está bem, segura. Olho para trás
e um mar de rosas amarelas brilham junto com o pôr do
sol, é meu presente para ela. Depois de muito tempo,
consegui fazer com que elas crescessem, já faz oito anos...
E ainda sinto sua presença como um lembrete. Às vezes,
olho para trás, pensando que sua sombra passou por ali,
às vezes... Às vezes, desejo tanto que ela esteja presente
que a sinto me tocar.
Kailan, meu pequeno grande homem, cresce a
cada dia mais, com seus olhos um de cada cor e com uma
força gigantesca para uma criança. Ele não gosta muito de
falar, mas me observa, enquanto eu a espero. Acho que ele
também aguarda Lua voltar. Às vezes, o pego olhando
para a lua no céu, com tanta saudade quanto eu.
Vou te esperar, Lua... Volte para mim.

Luana
Às vezes, a dor que sinto com a falta de Noah é
tanta... Sinto falta dele, do seu cheiro, do seu corpo. Sinto
falta de quem eu sou quando ele está por perto.
Mas sei o que está acontecendo nas matilhas, e
não posso expor a minha princesinha a isso. Olho minha
pequena, que já está com oito anos, e sorrio, ela é linda...
Contos
Luana

Lembro-me de que minha mãe estava amarrada,


sangrando, destruída. Mais uma vez, meu pai a machucou,
eu fui escondida até o sótão, onde sabia que a encontraria,
fui com água e comida, mesmo contestando as ordens do
Alfa de que ninguém deveria ajudá-la.
O que vi em seus olhos me assustou, seu olhar
estava apagado, quase morto. Ali, eu entendi a frase que
ela me disse algum tempo atrás: “Existem várias formas
de se matar alguém sem envolver sangue”. Percebi que
meu pai estava matando-a, destruindo-a, esmigalhando seu
orgulho, seu amor próprio, sua esperança… Eu percebi
que iria perdê-la enquanto ela continuasse naquela
situação, e não queria perdê-la.
— Você precisa ir embora.
Ela se move um pouco quando escuta o som da
minha voz.
— Eu não… - A corto, mesmo sendo uma miúda
na época, já tinha muita personalidade. De fato, fui uma
criança sem muita infância e que foi obrigada a crescer
rápido demais.
— Dê um jeito de desfazer o vínculo! – grito para
ela, que se encolhe.
Minha mãe estava em uma posição onde era
puxada por dois lados: enquanto seu instinto de loba dizia
que deveria ficar junto ao seu companheiro, seu instinto
de sobrevivência dizia para correr o mais rápido
possível.
— Vá embora! Eu não posso perder você! –
continuo a encará-la, e ela me olha de volta, acenando
com a cabeça.
Naquele dia, e com minha ajuda, minha mãe foi
embora. Ela fugiu para sobreviver, mas, hoje, entendo o
ódio do meu irmão pela mulher que nos deu a vida... Hoje,
olhando esses lindos olhos azuis que piscam para mim,
minha Sarah…
Minha mãe sabia que, quando fosse embora, nada
aconteceria a Alec, já que ele era o próximo Alfa, mas a
mim… Ele saberia que alguém a ajudou, e tudo o que
fazia com ela, passou a fazer em dobro a mim quando ela
se foi.
Ela sacrificou uma parte da própria filha para ter
uma parte de si mesma de volta e, olhando para a minha
menina, sei que jamais faria o mesmo. Recuso-me a
sacrificar qualquer parte que seja de sua vida, quero que a
minha menina passe por tudo, quero que tenha escolhas,
opções, eu quero que ela seja feliz.
Estou segurando a câmera, enquanto Sarah dá seus
passos incertos.
— Diz oi para o papai, meu amor!
— Papa… - ela diz, com sua voz meiga.
Já tenho vários desses arquivos em vídeo. Gravei
todos os acontecimentos da vida de Sarah, cada pequeno
detalhe, porque sei que Noah escolheria estar aqui, sei
que estou roubando algo dele e que, provavelmente, nunca
me perdoará por isso. Filmar esse diário para Noah me
faz ter esperanças de que um dia o encontrarei novamente.
Meu peito dói por ele não poder participar de cada
pequeno novo passo de Sarah, mas as coisas estão
complicadas e…
Aproveite os seus anos de paz, Lua.
A bruxa diz em minha mente e continua:
Nossa menina é diferente, é especial, e chegará
um momento em que você terá que assumir nosso trono
para poder protegê-la e proteger aqueles a quem
amamos.
Não é a primeira vez que ela fala em “assumir
tronos” e em “estar preparada”, só queria que falasse
sem rodeios! Mas, agora, a única coisa que consigo
questioná-la é:
Você não sente a falta dele?
“Já me sinto feliz pelo tempo que pude passar
com ele em sua vida. Sei que, se não for nessa, em outra
vida poderemos nos unir, sou paciente, Lua… Outra
encarnação não é nada, diante de todo o tempo em que
já o esperei”.
Meu coração dói com suas palavras, abraço a
minha menina para me conformar com o pequeno pedaço
dele que há nela.
“Acalme o seu coração, criança. E prepare-se, o
destino está nublado e haverá tempo para a guerra e,
também, para o amor”.

Noah

Eu era só um garoto quando meus pais me


chamaram para ter uma conversa séria. Na época, lembro-
me de que imaginei: “Agora que vão falar sobre sexo?
Tarde demais para isso”.
Mas eles só sentaram lá, se olharam, como se um
olhar pudesse dizer tanto um para o outro. Nunca vi
alguém se comunicar como eles, bastava só se olharem,
como se estivessem ligados por algo maior. Ligados, não,
sintonizados na mesma frequência. Sabe o que isso fez de
mim? Um garoto encrencado, porque não tinha como jogar
um contra o outro, não existia a hipótese de dizer “mas
meu pai deixou”, ou “a mãe não liga”, porque eles eram
um, a opinião deles era só uma.
Então, eles se beijam em minha frente, algo
rápido, mas que, mesmo assim, faz com que uma careta
involuntária saia de mim. Mesmo que não goste de tanta
demonstração pública de afeto assim, às vezes, me pegava
olhando para os dois, admirando-os… Eu tinha completo
fascínio na relação de meus pais. Nunca os vi brigar,
levantar a voz um com o outro, eles sempre foram dois e,
ao mesmo tempo, um.
Naquele dia, ela olhou para mim e sorriu. E meu
pai e eu olhamos para ela com cara de bobos, ela é tão
linda quando sorri…
— Eu tenho uma coisa importante para te dar,
Noah – ela diz, ainda com um sorriso na voz.
Só os encaro, eles se olham novamente e minha
mãe me estende uma caixa. Abro-a e vejo que, dentro, há
um anel feminino.
— Para que que eu vou querer isso? – essa foi a
minha primeira reação. E eles riram, riram porque, na
época, sabiam que eu não entenderia…
— Um dia, você vai encontrar alguém que destrua
todo o seu mundo, e será a esse alguém que dará esse
presente. Foi o primeiro anel que seu pai me deu.
— Mas… Você não destruiu o mundo do papai. –
Eu não conseguia entender… Até há alguns anos, eu não
consegui entender…
Meu pai ri, com sua voz forte e rouca.
— Você está enganado, Noah, ela destruiu sim. E,
no lugar onde antes existia o meu mundo, dos escombros,
nasceu algo lindo e fabuloso. Às vezes, é preciso deixar
algo morrer para que outra coisa surja mais forte.
Eles se olharam, ambos com lágrimas nos olhos…
Alguns dias depois, fomos atacados…
Alguns dias depois, eles foram massacrados…
Alguns dias depois, tudo o que sobrou da minha
família foi essa caixa idiota com o anel, minha irmã
chorona e meus dois amigos.
Eu não conseguia entender na época. Não
consegui entender há alguns anos. Hoje, giro o anel que
Lua deixou para trás em minha mão… E eu sei, hoje, eu
sei.
Ela destruiu todo o meu mundo.

Raquel

Eu não acredito, não acredito que a Estranha


simplesmente sumiu! Estou agora na casa de Noah,
enquanto Leandro tenta me parar, mas ele que nem venha,
nada ficará no meu caminho neste momento. Como assim
“Lua foi embora”? Foi embora?! – jogo os meus braços
para o ar irritada. Entro como uma louca no quarto de
Noah.
— O que você fez?! Onde ela está? – Ele nem se
mexe, o maldito nem se move! – Seu brutamonte-mor, se
pensa que eu vou ficar aqui, parada, sem ter respostas,
está muito enganado! Então, espero que você seja… - Ele
ergue a mão e me estende um papel.
Caminho até ele meio desconfiada, pego o papel e
logo reconheço a caligrafia da minha amiga. Lágrimas
caem dos meus olhos como cachoeiras, ela realmente foi
embora… Paro e olho para Noah, que está de cabeça
baixa, derrotado, seus ombros estão curvados e mal ouço
sua respiração, o homem está um caco!
Ajoelho-me em frente a ele para que assim possa
encarar seu rosto, Noah tem olheiras, seus cabelos, que
antes havia aparado, estão longos; sua barba, por fazer.
Noah está destruído… Entendo o que Lua fez, realmente
entendo, mais que ninguém, agora que tenho o meu próprio
baby, mas espero que ela saiba… Espero que saiba que
dilacerou pessoas, que as feriu, e que, talvez, essas
feridas não cicatrizem.
Toco no rosto de Noah e seus olhos apagados me
encaram, ele está apertando algo com força em seu punho.
Toco em sua mão, forçando-o a abrir, e vejo o anel de Lua
em sua palma, o anel que ele deu para ela e que minha
amiga deixou para trás.
— O que faço, Raquel? Diga-me, o que vou fazer
sem ela? – Sua voz estava rouca, disseram-me que ele,
por esses dois dias, gritou e quebrou tudo de sua casa.
Leandro só me permitiu vir até ele agora, vejo o por quê.
O problema é que também estou me perguntando a
mesma coisa, o que vou fazer sem a minha amiga
estranha? Seguro forte em sua mão.
— Você fará o que ela pediu, Noah. Ela precisa
de uma família, de um lar seguro? Construa isso para ela,
deixe tudo pronto para que, quando ela volte, vocês
finalmente possam ser felizes. Vocês e sua filha.
Ele faz um som gutural de sofrimento.
— Ela não está grávida, Raquel. Deve ter perdido
nosso filho nos laboratórios, não senti o cheiro da cria
nela, ela não pode estar grávida, isso deve ser
psicológico. E agora está sozinha, pensando que tem uma
criança!
— Não vou entrar neste detalhe, se ela estiver
grávida, você descobrirá mais cedo ou mais tarde. Mas
precisa se reerguer, você tem um povo para guiar, para
liderar, não é só Lua que depende de você, somos nós,
Noah! Sou eu, seu Beta, seus amigos, sua sobrinha!
Ele ergue o olhar.
— Sobrinha?
— Sim, não aguentei e fui fazer um exame para
ver o sexo.
— Quero só ver Leandro cuidando de uma garota!
– ele diz, sorrindo, mas o sorriso não chega aos seus
olhos.
— Ele será um pai incrível, Noah. E você
também. – Ele sabe que estou falando do garoto o qual
Lua disse na carta. – Olhe ao seu redor.
Noah olha para o quarto completamente destruído,
sua porta pendendo para o lado.
— É assim que você está por dentro agora, junte
os destroços, construa algo novo. Quem disse que algo
bom não pode surgir de escombros? Você já teve seu
tempo de sofrer, agora, não pode se dar ao luxo. Toda uma
raça depende de que você se erga e faça aquilo o que
nasceu para fazer, lidere. E tanto eu quanto sua sobrinha,
teremos muito orgulho de você.
Ele me olha e fica parado por um tempo.
— Pensei que não gostasse de mim.
— E quem disse que eu gosto? – digo, enquanto
sorrio, mas uma lágrima escapa e Noah vê. Merda, queria
ser forte na frente dele, mas Lua também me machucou. Eu
queria entender seu lado sem me magoar, juro que gostaria
de ser um ser humano (ou ser-lobano, que seja) superior,
mas não sou! Neste momento, estou magoada porque ela
simplesmente foi embora sem ter me dito nada, sem se
despedir, sem me dar nenhuma satisfação. Lua foi embora
e não olhou para trás, como se nossa amizade não
significasse absolutamente nada!
Noah me abraça e, enquanto lágrimas escorrem de
ambos os nossos rostos, deixo ir toda a mágoa, toda a
frustração. Noah precisará de apoio, esse brutamonte
precisará de uma mulher forte ao seu lado para ajudá-lo a
definir a sociedade de lobos como algo igualitário.
PRIDE, ORGULHO… Entendo o que Lua quis dizer, nós
não somos monstros, não somos bestas, como os cientistas
pensaram. Mas, quando ela diz orgulho, Pride, quis dizer
dentro das matilhas, ter orgulho daquilo que somos,
sermos unidade, e não lobos, sermos uma matilha. E eu
quero estar aqui para construir isso. E quando Lua voltar,
espero que tenha uma ótima explicação para me dar…

Algumas semanas depois…

Merda, sinto uma dor dos infernos, nunca senti


tanta dor em minha vida! Fomos atacados semana passada,
estamos bem, mas Leandro já estava surtando, imagina
agora, com a nossa menina nascendo. Repetia para mim
mesma: “Eu sou uma garota crescida, sou uma garota
crescida”… Mas, ahhhhhhhh, isso dói! Meu grito corta
toda a casa.
Leandro corre ao meu encontro junto a mulher que
me ajudaria no parto, ele anda de uma lado para o outro,
enquanto a mulher me pede para fazer força e respirar
fundo. Tenho vontade de xingar a mulher, mas a dor é tanta
que não perco meu tempo com isso. Não consigo me focar
em nada, pois meu lobo está caminhando de um lado ao
outro, com seu olhar desesperado.
— Porra Leandro! Planta a porra dos seus pés no
chão ou sai daqui! – digo, em meio aos meus gritos, e ele
caminha até mim. Leandro está com um terno, tinha ido
resolver alguns problemas de terrenos da matilha, e eu lhe
liguei quando comecei a sentir as contrações.
Ele se ajoelha ao meu lado, encosta sua testa na
minha e respira, consigo respirar fundo finalmente. Junto a
ele, sinto-me completa. Outra pontada de dor me consome,
sinto-me sendo rasgada de dentro para fora, a forte mão
do meu companheiro aperta a minha.
— Vamos lá, loirinha, deixe-me ver a nossa
boneca – ele sussurra, com os olhos cheios de lágrimas, e
como não consigo negar nada para esse homem,
concentro-me, forço, mesmo que isso faça com que a dor
aumente a cada segundo. Então, sinto-me dormente e ouço
um choro.
Sorrio, porque quando olho nos olhos da minha
pequena menina, toda a dor que passei se esvai, como se
nunca tivesse acontecido, o prazer que senti ao segura a
minha pequena no colo apaga toda a dor que eu já senti na
vida e descubro que faria isso mil vezes, se fosse preciso,
só para poder olhar nesse pequeno rosto. Olho para
Leandro, que chora como um bebê. Meu grande lobo mal
se derrete quando toca com medo o pequeno rosto da
nossa menina. Nossa. Como duas pessoas completamente
irresponsáveis e loucas podem ter conseguido trazer ao
mundo algo tão perfeito? Neste momento, sei que faria
tudo por ela, lembro-me de Lua e a entendo, só agora
posso entender.

Cinco anos depois...

Estou quase concluindo a minha faculdade de


moda. O quê? Eu tive um filho, não morri. Claro que amo
a minha princesinha, Loren, e seu pai gostoso. Dou risada
quando avisto Leandro com Loren em seus braços, minha
menina estava usando um bonito vestido de babados e
marias-chiquinhas prendendo seus cabelos loiros, ela
parecia uma boneca. Meu querido eterno namorado
ciumento está com sua mandíbula travada e a olhar para
os garotos que faziam grupo comigo, ele só não percebia
que todas as mulheres da faculdade o olhavam nesse
momento.
Caminho com um sorriso imenso e, quando chego
perto de ambos, Loren se joga em meu colo e me abraça.
— Oi, amor. – Dou um leve beijo em Lê.
— Ainda bem que isso está acabando, não sei se
conseguiria suportar mais um ano com você rodeada por
esses moleques que só faltam babar em sua carne.
— Eles podem até babar, mas o único que prova é
você. –Ele rosna e me beija. Acarinho a minha pequena,
que já estava cochilando em meu colo, Leandro cuidava
dela em um turno e eu, em outro. As guerras e revoltas já
não ocorrem com tanta frequência, mas nós sempre
estamos escoltadas quando meu companheiro não está
perto.
Noah nos convidou para passarmos o fim de
semana em sua casa, o que me faz crer que o homem está
aprontando algo. Quando chegamos lá, ele rapidamente
pega Loren de meus braços, dá um beijo estalado em sua
cabeça e a leva para o sofá. Toda vez que o vejo agir
dessa forma com a minha pequena, penso em tudo o que
está perdendo com a sua própria filha, penso também no
pai incrível que essa criança está deixando de ter, espero
que Lua saiba o que está fazendo…
Kailan está logo atrás de Noah, ele acena para
nós, como se fosse um adulto, mas não sai de perto de seu
pai. É incrível ver como esse menino, que já foi tão
machucado na vida, confia tanto em Noah. Seus olhos
coloridos, chamam a atenção por onde quer que passe, e
sua mutação, enquanto lobo, o torna, talvez, o membro
mais forte da alcateia de sua geração.
— Fico feliz que tenham aceitado o meu convite –
Noah inicia, e tenho certeza de que desse mato sai coelho.
— O que há, Noah? – Leandro já pergunta,
impaciente.
— Sabe que a última alcateia rebelde foi
destruída e que preciso de alguém de confiança para
guardar a área e repovoar o local. – Ele acena com a
cabeça e já sei onde tudo isso vai dar. – Você seria o Alfa
perfeito para isso, meu amigo.
— Nem pensar. Não vou te abandonar! – Leandro
diz exaltado, e Noah olha para mim, pedindo ajuda
silenciosamente para que eu possa convencer meu
companheiro do contrário.
— Tudo bem, nós vamos – digo certa.
— Raq… - Corto Leandro.
— Quando a minha faculdade terminar, iremos e
cuidaremos do território que designa, será uma honra.
Ele acena para mim em agradecimento e
reconhecimento. Não é que Noah esteja afastando todos
dele, como Leandro pensa, ele está unindo o útil ao
agradável. Lua já deveria ter voltado… E a desilusão, a
espera, está destruindo-o a cada dia um pouco. Olhar para
nós é como ter um constante lembrete daquilo que ele
deveria ter, mas não tem. Ravi já está como Alfa de uma
alcateia, assim como Alec e, agora, Leandro. Ele ficará
sozinho com seu povo, seus guerreiros. Pedimos um líder,
e é isso o que recebemos. Noah está mais sereno, mais
calmo e, também, mais forte. Nas grandes guerras que
ocorreram, não se viu um lobo mais sanguinário e frio
como ele, agora, é como se o peso disso estivesse
cobrando o seu preço, e ele precisa ficar sozinho. Sem os
nossos olhares o observando esperar por Lua toda santa
noite, sem olhares ao perceber que mais uma noite se vai
e ela não aparece. Noah precisa de espaço, e é isso que
daremos a ele.

Noah

Ver Kailan crescer foi uma das melhores coisas


que aconteceu em minha vida. É o meu ponto de luz em
meio a todo o mar de escuridão em que se tornou a minha
existência após Lua ir embora.
Sua infância não foi fácil, Kailan não gostava de
ser tocado, não falava com ninguém, tampouco confiava.
Estranhamente, após Lua ir embora, o menino se apegou a
mim como se eu fosse um bote salva vidas, mas eu
também estava afundando. Então, em certo dia, percebi
que, se me afogasse, o garoto iria comigo. Eu nadei.
Nadei porque queria salvá-lo, vê-lo sorrir e crescer,
queria ensiná-lo… Hoje, olhando para Kailan, vejo que
era ele o meu bote, meu bote sem furos, seguro, e foi ele
quem me salvou.
Olho para o garoto, que agora é um homem feito,
ele está emburrado ao meu lado. Hoje, meu filho está tão
forte e tão alto quanto eu, parece mais um irmão do que
um filho, na verdade. Continua calado e emburrado, e eu
sei que é porque estou aqui. Aqui, vendo o sol se pôr,
olhando para a floresta e esperando que ela apareça a
qualquer momento.
Em todo este tempo, Kailan esteve comigo. Desde
pequeno, em cada santo dia, em cada espera, em toda
decepção em ter que dar as costas todos os dias sem ela.
Minhas noites eram um inferno, e ele cresceu vendo a
bagunça que a ausência de Lua fazia em mim. Por isso,
agora, ele está emburrado, continua vindo aqui, todos os
dias, comigo, como se dissesse, com esse gesto, que não
estou só, que ele está aqui, que sabe o que sinto, e sei, que
toda a sua postura demonstra que ele está cansado,
cansado da espera.
— Por que você ainda a espera? – Kailan encara
a floresta com ódio, vejo o meu garoto com seus olhos,
verde e azul, faiscando.
— Eu não tenho mais nada a fazer nesta hora do
dia. – Dou de ombros, tentando amenizar a situação.
— Ela não vai voltar, pai. Sabe disso, não é?
Enquanto você está aqui, sofrendo a cada porra de dia, ela
está por aí, fazendo qualquer coisa e não se importando
com o que deixou para trás.
— Kailan, não fale assim de sua… - tento
repreendê-lo, mas ele me corta.
— Mãe?! – Ele me olha ainda mais revoltado. –
Ela não é a porra da minha mãe! Ela me abandonou, da
mesma forma em que te abandonou, ela sequer olhou para
trás, pai! Você esteve comigo, você! Foi você quem me
criou! Não dê esse título a ela, não quando tudo o que ela
fez por nós foi ir embora!
Ele respira fundo. Suas palavras me cortam como
navalhas. Não sei o que dizer, com o tempo, ficou cada
vez mais difícil proteger a memória de Lua de todos os
seus questionamentos, de toda a sua raiva. E, agora, não
tenho mais forças para isso.
Foi muito difícil ensinar a Kailan a viver em
sociedade, sua agressividade e sua raiva são latentes,
assim como sua força e sua regeneração. Junte isso tudo
no mesmo pacote e temos uma bomba relógio prestes a ir
para os ares.
A verdade é que Lua me machucou ao partir, mas
ela não sabe o que fez com ele. Ela enfiou uma faca em
seu coração e a deixou lá por todo esse tempo. E, agora,
meu filho está aqui, em frente a mim, e precisando que
alguém puxe a faca para fora, para que, assim, a ferida
possa se curar. Eu também cansei de ter feridas abertas,
quinze anos… Já fazem quinze anos que ele e eu temos
essa ferida em carne viva e pulsando, e eu preciso
escolher se a deixo aberta ou se cuidarei dos ferimentos
do meu próprio filho.
O sol está se pondo, Kailan se levanta e, quando
não saio do meu lugar, me questiona:
— Você não vem?
Sento-me no muro baixo que percorre toda a
minha casa.
— Isso é um adeus, filho. Já está na hora de
seguirmos em frente.
Ele se senta ao meu lado e suspira, como se eu
tivesse tirado uma tonelada de suas costas.
Ela não vai voltar?
Não me surpreendo ao não obter resposta do meu
lobo traidor. Desde que Lua se foi, ele não fala mais uma
palavra. Sei que está aqui, mas mudo.
Eu poderia ficar esperando por ela, já esperei por
quinze anos, poderia… Se não fosse condenar o meu filho
ao mesmo destino que eu, Kailan precisa seguir em frente,
e somos um time no mesmo barco, enquanto um ficar, o
outro também ficará. Então, hoje, eu decido pegar o remo
e movimentar o barco, porque sei que o meu filho merece
ver o restante do oceano. Infernos, talvez eu também
mereça isso.
Passaram-se tantos anos… Eu perdi seu corpo,
depois, seu cheiro, aos poucos, saiu das coisas no quarto,
da roupa de cama. Então, desapareceu aos poucos da
minha memória, e eu não soube o que fazer com isso. Já
perdi muitas pessoas, muitas pessoas que amei e que,
agora, estão mortas, mas ninguém nunca me ensinou a
passar pelo luto de alguém vivo.
Meu filho e eu ficamos ali, até o sol nascer. Por
toda a noite, lembranças passaram por mim. Chegou um
momento em que eu me questionei se realmente um dia a
encontrei... Se tudo não foi um sonho, porque, agora,
parece que foi... Um sonho, só um sonho... Agora, eu
despertei.
Epílogo

Sarah

Minha mãe, meu tio Ian, tia Sofia e eu sempre nos


mudamos. Novos colégios, novos países, novas línguas,
novas pessoas. Somos uma família incomum... Mas, desde
cedo, aprendi que a nossa família é muito maior que nós
quatro. Desde cedo, aprendi a ter orgulho daquilo que sou,
daquilo que faço parte, nós somos a matilha, e a matilha
faz parte de cada um de nós.
No início, minha mãe disse que estávamos fugindo
da guerra que se arrastou por anos no mundo dos lobos.
Depois, quando a guerra se acalmou, ela nos disse que
deveríamos estar preparados para a guerra que virá, fala
sobre uma visão que teve em uma Lua Azul, onde havia
lobos e bruxas mortos pelo chão. Diz que, nessa guerra, a
balança do universo penderá para um dos lados: bem ou
mal. Se eu acredito em todas essas loucuras? Claro que
sim! Sei que ela seria a primeira a voltar para casa, se
pudesse, se pudesse voltar para ele...
Bem... Vamos voltar ao presente, onde estou neste
momento? Exatamente em frente ao meu pai – estou
vendo-o de verdade pela primeira vez, longa história. –
Ele está boquiaberto e olhando de mim para minha mãe,
enquanto ela se afasta, não culpo o homem, eu também
estou. Vamos lá, quando ela disse “Sarah, vamos para a
casa do seu pai”, pensei que o “vamos” incluísse duas
pessoas. Não é assim que se ensina na escola? Pois é,
parece que minha mãe tem seu próprio modo de lidar com
a norma gramatical.
O problema é que meu pai não está sozinho, há um
projeto de oferenda que não sai do seu pé – eu poderia
tentar engoli-la, mas é claro que isso não vai acontecer.
Sei que a minha mãe o ama e, pelo seu olhar idiota, isso é
recíproco. Então, tem alguém sobrando por aqui – e, como
se eu já não tivesse o bastante em minhas costas, neste
exato momento, ainda tem um cara que parece uma porta,
de olhos coloridos, e que me odeia sem motivo aparente.
Eu disse que a minha família era incomum? Você ainda
não viu nem a metade.

[1] Monstruoso e sobrenatural cão negro com enormes dentes e garras.