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MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO

MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS

EXCELENTÍSSIMA SENHORA DOUTORA JUÍZA DE DIREITO DA 1ª VARA DE


ENTORPECENTES DO DISTRITO FEDERAL

Autos nº 0729058-71.2019

O Ministério Público tomou ciência de decisão em Habeas


Corpus (Nº 0717007-31.2019.8.07.0000), que entendeu que poderiam ser
acessados os dados dos celulares apreendidos em poder de
M.V.D.L. que fossem datados de até 30 (trinta) dias do cumprimento dos
mandados de busca e apreensão. Por razões lógicas, a referida decisão
estende-se ao celular de V.B.A., uma vez que o HC foi impetrado contra decisão
que analisou o acesso a ambos os celulares.

Ocorre que a investigação que originou estes autos, a


denominada Operação Ganja, iniciou-se com a análise dos dados extraídos dos
celulares de M.V.D.L e de V.B.A., sem limitação de data.

A denúncia que inaugurou a presente ação penal tem como


base única e exclusivamente fatos extraídos dos dados dos aparelhos datados
de bem antes de 30 (trinta) dias da diligência de busca.

No Brasil, no dia 23 de novembro de 2017, o Supremo Tribunal


Federal, por unanimidade, reputou constitucional a questão referente ao acesso
a celulares por agentes de segurança pública não autorizado judicialmente e
reconheceu a existência de repercussão geral do tema suscitado, nos seguintes
termos:

CONSTITUCIONAL. PROCESSUAL PENAL. PERÍCIA REALIZADA PELA AUTORIDADE


POLICIAL EM APARELHO CELULAR ENCONTRADO FORTUITAMENTE NO LOCAL DO
CRIME. ACESSO À AGENDA TELEFÔNICA E AO REGISTRO DE CHAMADAS SEM
AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. ACÓRDÃO RECORRIDO EM QUE SE RECONHECEU A
ILICITUDE DA PROVA (CF, ART. 5º, INCISO LVII) POR VIOLAÇÃO DO SIGILO DAS
COMUNICAÇÕES (CF, ART. 5º, INCISOS XII). QUESTÃO EMINENTEMENTE
CONSTITUCIONAL. MATÉRIA PASSÍVEL DE REPETIÇÃO EM INÚMEROS PROCESSOS, A

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REPERCUTIR NA ESFERA DO INTERESSE PÚBLICO. TEMA COM REPERCUSSÃO GERAL.


(Agravo em Recurso Extraordinário 1.042075. Relator Ministro Dias Toffoli)

Cumpre-se, ainda, analisar uma decisão que apresenta


entendimento adotado pelo Superior Tribunal de Justiça, reconhecendo a
ilegalidade da medida de acesso dos agentes de segurança pública e a
decorrente nulidade dos elementos obtidos. Veja-se a ementa do acórdão em
questão:

PENAL. PROCESSUAL PENAL. RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE


DROGAS. NULIDADE DA PROVA. AUSÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL PARA A
PERÍCIA NO CELULAR. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO.
1. Ilícita é a devassa de dados, bem como das conversas de whatsapp, obtidas
diretamente pela polícia em celular apreendido no flagrante, sem prévia
autorização judicial.
2 Recurso ordinário em habeas corpus provido, para declarar a nulidade das
provas obtidas no celular do paciente sem autorização judicial, cujo produto deve
ser desentranhado dos autos.
(RHC 51.531/RO, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 19/04/2016,
DJe 09/05/2016)

Embora a decisão do TJDFT não tenha declarado a nulidade da


ação penal, ela limitou os dados “acessíveis” aos de até 30 (trinta) dias antes do
cumprimento das diligências autorizadas pelo Juízo.

Assim, diante da decisão do e. TJDFT, já transitada em julgado,


que permitiu o acesso aos dados dos celulares apreendidos apenas no período
de 30 (trinta) dias antes da apreensão e o fato de que os dados que
fundamentaram a peça vestibular extrapolam o limite temporal fixado na
instância superior, vê-se que não se poderia ter utilizado essa informação.

Por essa razão, o Ministério Público entende que, diante da


decisão superior, os fatos descritos na peça acusatória não estão amparados
pela liberação de acesso aos dados dos aparelhos celulares apreendidos, tendo
que ser considerados “inexistentes” na esfera judicial, razão pela qual se requer,
sem maiores delongas a aumentar o custo da máquina judiciária, a ABSOLVIÇÃO
SUMÁRIA dos denunciados. Neste sentido, oficia pela colocação em liberdade
com a máxima urgência de denunciados que porventura ainda estejam presos

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e revogação das cautelares substitutivas da prisão fixadas, além de restituição


de bens apreendidos.

Brasília, 07 de novembro de 2019.

Luciana Cunha Rodrigues


Promotora de Justiça
MPDFT

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