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Teoria da História

e Historiografia

Prof. Paulo Cesar dos Santos


Prof.a Graciela Márcia Fochi
Prof. Thiago Rodrigo da Silva

2016
Copyright © UNIASSELVI 2016

Elaboração:
Prof. Paulo Cesar dos Santos
Prof.a Graciela Márcia Fochi
Prof. Thiago Rodrigo da Silva

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

907
S237h Santos, Paulo Cesar dos
Teoria da história e historiografia/ Paulo Cesar dos Santos; Graciela
Márcia Fochi; Thiago Rodrigo da Silva. Indaial : UNIASSELVI, 2016.

209 p. : il.

ISBN 978-85-7830-952-7

1. História – Estudo e Ensino.


I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.

Impresso por:
Apresentação
Caro acadêmico! Bem-vindo ao Livro Didático da disciplina Teoria
da História e Historiografia! A intenção deste livro é apresentar o processo
pelo qual a história se constituiu como uma disciplina no campo das ciências
humanas. Deste modo, iremos expor (em uma perspectiva cronológica e
contextualizada) as principais teorias e escolas historiográficas dos últimos
quatrocentos anos. Para tanto, iremos relacionar os principais estudiosos,
como eles definiram e conceituaram a história. Também veremos a relação
da história com outras ciências.

Na Unidade 1 serão apresentadas questões concernentes à teoria da


história. Polêmicas como objetividade, verdade e método serão abordadas.
Também os principais teóricos da historiografia, da época iluminista até
o final do século XIX serão contemplados. Assim, veremos a relação de
alguns pensadores com o desenvolvimento da história enquanto campo do
conhecimento. Entre eles, Descartes, Vico, Kant, Hegel, Marx, Comte e Ranke.

Na Unidade 2 será discutida a produção historiográfica do século


XIX e como esta se relacionou com o conhecimento histórico do século XX.
Em especial, foram contemplados os intelectuais e as escolas teóricas. Os
intelectuais relacionados foram: Michele, Droysen, Buckhard, Weber, Walter
Benjamim e Michel Foucault. Entre as escolas de pensamento histórico, estão
relacionadas a Escola dos Annales, a Escola de Frankfurt, a Escola Marxista
Inglesa, a Historiografia Latino-americana, a Micro-História, a História
Ambiental e a História do Tempo Presente.

Na Unidade 3 será abordada a historiografia brasileira. Assim serão


relacionados os historiadores dos períodos colonial, imperial e republicano.
As influências teóricas e as diversas gerações de historiadores brasileiros
serão trabalhadas. Intelectuais como Varnhagen, Capistrano de Abreu, Sérgio
Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Gilberto Freire, além de pesquisadores
contemporâneos, terão sua produção acadêmica apresentada e analisada.

Um detalhe importante: procure ter em mãos e não hesite em


consultar dicionários toda vez que surgirem expressões e conceitos de
outras áreas, que ainda lhe são estranhos, como do campo da ciência e da
filosofia. Retome os conteúdos já abordados nas disciplinas de Introdução
ao Conhecimento Histórico, Metodologia do Ensino da História, História
Moderna e História Contemporânea.

Votos de uma jornada construtiva e satisfatória de conhecimentos!

Os autores

III
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

IV
V
VI
Sumário
UNIDADE 1 – TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA...................................................... 1

TÓPICO 1 – TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS............ 3


1 INTRODUÇÃO........................................................................................................................................ 3
2 APRESENTAÇÃO E DEFINIÇÃO DE CONCEITOS....................................................................... 4
2.1 CIÊNCIA.............................................................................................................................................. 4
2.2 TEORIA................................................................................................................................................ 5
2.3 PARADIGMA...................................................................................................................................... 6
2.4 MÉTODO............................................................................................................................................. 7
2.5 DISCURSO........................................................................................................................................... 8
2.6 HISTORIOGRAFIA............................................................................................................................ 8
2.7 EPISTEMOLOGIA.............................................................................................................................. 9
2.8 RAZÃO................................................................................................................................................. 9
2.9 IDEOLOGIA...................................................................................................................................... 10
2.10 DIALÉTICA..................................................................................................................................... 10
2.11 PROGRESSO.................................................................................................................................... 11
3 O CONTEXTO HISTÓRICO E INTELECTUAL DO ILUMINISMO......................................... 12
3.1 O EXEMPLO DE GIAMBATTISTA VICO..................................................................................... 14
4 O IDEALISMO ALEMÃO: AS PERSPECTIVAS DE KANT E HEGEL SOBRE A HISTÓRIA.....18
4.1 O EXEMPLO DE KANT................................................................................................................... 18
4.1.1 A ideia de história cosmopolita............................................................................................. 19
4.2 O PENSMENTO HEGELIANO: ESPÍRITO E RAZÃO NA HISTÓRIA................................... 20
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 23
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 28
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 29

TÓPICO 2 – O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX...................... 31


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 31
2 O POSITIVISMO COMTEANO: A FÍSICA SOCIAL E A HISTÓRIA ENQUANTO .
CIÊNCIA DO PASSADO..................................................................................................................... 32
3 O MATERIALISMO HISTÓRICO..................................................................................................... 34
4 O MATERIALISMO DIALÉTICO...................................................................................................... 38
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 41
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 42

TÓPICO 3 – O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX.......................... 45


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 45
2 A HISTÓRIA, AS FONTES E A ESCRITA........................................................................................ 45
3 O EXEMPLO DE LEOPOLD VON RANKE (1795-1888)................................................................ 47
4 O PROBLEMA DA OBJETIVIDADE NA CIÊNCIA E NA HISTÓRIA...................................... 49
5 A PROBLEMÁTICA DA VERDADE NA HISTÓRIA.................................................................... 53
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 56
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 60
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 61

VII
UNIDADE 2 – O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX........................... 63

TÓPICO 1 – A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO SÉCULO XIX: ALGUNS EXEMPLOS.........65


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 65
2 SÉCULO XIX: QUAL HISTÓRIA?..................................................................................................... 66
3 JULES MICHELET................................................................................................................................. 66
4 FUSTEL DE COULANGES.................................................................................................................. 68
5 JOHANN GUSTAV DROYSEN.......................................................................................................... 68
6 JACOB BUCKHARDT.......................................................................................................................... 69
7 MAX WEBER.......................................................................................................................................... 70
8 FRIEDRICH NIETZSCHE.................................................................................................................... 71
9 CHARLES-VICTOR LANGLOIS (1863- 1929) E CHARLES SEIGNOBOS (1854- 1942).......... 72
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 74
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 75

TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX ..................................................................... 77


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 77
2 A ESCOLA DE FRANKFURT.............................................................................................................. 77
3 THEODOR ADORNO (1903-1969)..................................................................................................... 78
4 WALTER BENJAMIN (1892-1940)....................................................................................................... 79
5 A NOVA ESQUERDA INGLESA....................................................................................................... 82
5.1 A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA DOS MARXISTAS INGLESES NA SEGUNDA
METADE DO SÉCULO XX.............................................................................................................. 83
6 A HISTORIOGRAFIA LATINO-AMERICANA............................................................................. 85
7 A TRADIÇÃO DOS ANNALES.......................................................................................................... 87
7.1 PRIMEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1929-1945).................................................... 89
7.2 SEGUNDA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1945-1968)................................................... 91
7.3 TERCEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (PÓS 1968...): NOVOS MÉTODOS,
OBJETOS E ABORDAGENS............................................................................................................ 93
8 O CASO DE MICHEL FOUCAULT................................................................................................... 96
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 99
RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................... 105
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 107

TÓPICO 3 – AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI................................................. 109


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 109
2 A NOVA HISTÓRIA CULTURAL.................................................................................................... 110
3 A MICRO-HISTÓRIA......................................................................................................................... 111
3.1 O MÉTODO INDICIÁRIO DE GINZBURG............................................................................... 112
4 HISTÓRIA E SABER LOCAL............................................................................................................ 114
5 LINGUÍSTICA E NARRATIVA........................................................................................................ 114
6 A HISTÓRIA AMBIENTAL............................................................................................................... 117
7 A HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE........................................................................................... 118
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................................. 120
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 123
RESUMO DO TÓPICO 3...................................................................................................................... 129
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 130

UNIDADE 3 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA...................................................................... 131

TÓPICO 1 – HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB À GERAÇÃO DE 1930................ 133


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 133

VIII
2 O PERÍODO ANTERIOR AO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO
BRASILEIRO (IHGB).......................................................................................................................... 133
3 O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO.................................................. 135
4 A GERAÇÃO DOS ANOS 1930 E SEUS DESDOBRAMENTOS............................................... 141
RESUMO DO TÓPICO 1...................................................................................................................... 148
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 149

TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA................... 151


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 151
2 OS ENSAÍSTAS DA REALIDADE HISTÓRICA BRASILEIRA................................................ 152
3 A PRODUÇÃO UNIVERSITÁRIA DE HISTÓRIA DO BRASIL, A FORMAÇÃO DE .
CENTROS DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HISTÓRICA............................................... 155
4 OS PRINCIPAIS DEBATES ACADÊMICOS................................................................................. 158
5 OS BRASILIANISTAS........................................................................................................................ 161
RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................... 165
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 166

TÓPICO 3 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA.................................. 167


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 167
2 NOVOS ESTUDOS, NOVAS INSTITUIÇÕES, NOVOS TEMAS: O CONTEXTO DAS .
TRANSFORMAÇÕES HISTORIOGRÁFICAS DAS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS.............. 168
3 HISTÓRIA ATLÂNTICA/ HISTÓRIA DA ESCRAVIDÃO/ BRASIL COLONIAL
E IMPERIAL.......................................................................................................................................... 170
4 NOVA HISTÓRIA CULTURAL, GÊNERO, NOVA HISTÓRIA SOCIAL E .
HISTÓRIA AMBIENTAL: OS NOVOS TEMAS DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA .
CONTEMPORÂNEA.......................................................................................................................... 173
5 OS DEBATES SOBRE O GOLPE MILITAR DE 1964................................................................... 181
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 184
RESUMO DO TÓPICO 3...................................................................................................................... 191
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 192

REFERÊNCIAS........................................................................................................................................ 193

IX
X
UNIDADE 1

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• definir, contextualizar e problematizar os principais conceitos que são


solicitados nos estudos dos temas de teoria da história e historiografia;

• apresentar os principais autores, teorias e paradigmas científicos da


História que compõem a matriz do pensamento da sociedade ocidental
moderna, e da influência que exerceram no pensamento científico e
histórico das gerações posteriores;

• abordar os fundamentos do pensamento iluminista, cartesiano, hegeliano,


positivista, marxista e historicista nos aspectos teóricos e metodológicos,
contextualizando o momento histórico em que foram formulados;

• estudar e contextualizar a matriz de pensamento marxista, as categorias


do materialismo histórico e dialético e suas implicações na análise e na
escrita da história.

• discutir e problematizar as questões de objetividade e verdade que


perpassam as principais tradições do pensamento científico e a produção
do conhecimento histórico.

PLANO DE ESTUDOS
Caro acadêmico! Esta unidade de estudos encontra-se dividida em três tópicos
de conteúdos. Ao longo de cada um deles, você encontrará sugestões e dicas
que visam potencializar os temas abordados e ao final de cada um, estão
disponíveis resumos e autoatividades que visam fixar os temas estudados.

TÓPICO 1 – TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS


INICIAIS

TÓPICO 2 – O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX

TÓPICO 3 – O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA:


CONCEITOS INICIAIS

1 INTRODUÇÃO
As disciplinas, os textos, os artigos que se prepõem a analisar e discutir
Teoria da História e Historiografia são em número muito inferior aos demais
temas da História, como por exemplo, História Regional, História Antiga, História
Medieval; assim como acabam sendo motivo de desinteresse e distanciamento
por parte dos estudantes e profissionais da história.

Refletir sobre estas questões significa pensar sobre os aspectos que


perpassam todo o processo de pesquisa, sistematização e comunicação da História.
O historiador e o profissional da história consciente e comprometido com o fazer
histórico não pode negligenciar tais aspectos, pois estará procedendo de forma
superficial com o conhecimento que está elaborando e até com o conhecimento
que se utiliza, cuja autoria não é sua.

Cardoso (1997) nos coloca a questão de que devemos estar despertos e atentos
em meio ao contexto social, político, econômico e cultural no qual nos encontramos,
pois este se apresenta tanto com ares de tradição sólida, como de renovação, se
encontra em pleno devir e superação, tende a se tornar outro, ainda mais aberto
e tolerante, porém ainda está sendo plasmado em meio a um modelo fortemente
estruturado, hierarquizado e conservador; em outdoors esboçam-se tempos de
mudança, mas as bases de realização prática encontram-se ainda sustentadas na
antiga matriz ideológica do capitalismo, que impera pelo menos há três séculos.

Rüsen (2009) discute que a Teoria da História conta com toda uma
identidade construída, porém o desafio está em estabelecer as fronteiras entre
a escrita da história (historiografia), o estudo crítico, fazer a história da história,
pois a historiografia, mal consegue ser separada de seu objeto mais evidente que
é a escrita da história.

A indecisão na forma de referir a atividade intelectual, o fazer/pesquisar


escrever em História (historiografia, história da história, teoria da história) é
resultado também da escassez de problematizações teóricas, fato que pode ser
verificado com facilidade se tomados os temas anunciados nos encontros dos
profissionais em história, nos títulos das dissertações e teses defendidas no
interior das instituições de ensino de pós-graduação e nas linhas de pesquisas
que são desenvolvidos pelas mesmas instituições.

3
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Trata-se de uma discussão e tema que requer aprofundamentos sobre


os conceitos e concepções teóricas que pertencem à teoria do conhecimento, à
história da filosofia e da ciência, e paradigmas científicos. Cientes disto, procurou-
se apresentar e definir os conceitos que vão ser mencionados com maior ênfase ao
longo deste Livro Didático.

Não perca de vista a ideia de recorrer e consultar um dicionário toda vez


que surgirem conceitos e expressões que lhe parecem estranhos ou incertos dos
significados que comportam. No sentido de lhe auxiliar, observe as sugestões de
consulta a seguir:

DICAS

DICINÁRIO DE CONCEITOS HISTÓRICOS

SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São
Paulo: Contexto, 2009.
Disponível em: <http://www.meuportalacademico.com.br/wp-content/uploads/2013/04/SIL-
VA-K-SILVA-M.-Dicion%C3%A1rio-de-conceitos-hist%C3%B3ricos.pdf>.

DICIONÁRIO DE FILOSOFIA

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
Disponível em: <http://charlezine.com.br/wp-content/uploads/2011/11/Dicionario-de-Filoso-
fia-Nicola-ABBAGNANO.pdf>.

2 APRESENTAÇÃO E DEFINIÇÃO DE CONCEITOS

2.1 CIÊNCIA
Compreende o processo, o percurso metodológico, os princípios lógicos
de investigação; tem por finalidade elaborar conhecimentos e/ou resolver os
problemas que o próprio homem formula ou que se apresentam em uma dada
realidade. Entre os principais métodos existe o da observação empírica, seja de
seres ou fenômenos naturais ou de fatos e fenômenos sociais, cuja finalidade
reside em promover o aprimoramento e melhoramento da vida e da humanidade.

A ciência moderna se desenvolveu e consolidou ao longo dos séculos


XVII, XVIII e XIX, tratou-se de um conhecimento obtido de forma natural,
independente e desarticulado das dimensões sobrenaturais, mitológicas, mágicas
e/fantásticas da realidade. É quando se acentua o distanciamento entre o campo
da fé, do espiritual, do religioso, do sagrado e do eterno (poder invisível) e o
campo do temporal, do método, do racional, do profano e do leigo (poder visível).

4
TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

A ciência acabou por se tornar em uma ideologia dominante – o


cientificismo, uma forma de saber superior, criada pelo positivismo no século
XIX. A ciência resumia-se na busca pela verdade a qualquer custo, almejava
extrair todos os segredos que houvesse na natureza, e para tanto deveria proceder
rigorosa observação empírica, lançando mão da imaginação, dos sentimentos
e das emoções quando investigava tanto os seres da natureza como os fatos e
acontecimentos humanos.

Surgiram muitas críticas à ciência, entre elas estão as que foram proferidas
por Nietzsche (1844-1900), quando afirmava que a ciência havia matado Deus.
Outros estudiosos começam a perceber que a racionalização e o cientificismo não
estavam dando conta de libertar o homem, pelo contrário, as forças produtivas do
capitalismo, que eram justificadas e estimuladas pelo saber científico-tecnológico,
favoreciam ainda mais a dominação predatória do homem sobre a natureza e do
homem sobre o próprio homem.

Para Max Weber (1983) a ciência não possui maior objetivo e sentido
do que o de fazer surgir novas questões, novos problemas, ser ultrapassada e
superada; que se trata de um fazer que jamais cessa e que não tem fim. Silva
(2009) apresenta que a ciência data de aproximadamente 10 mil anos, que teria
surgido no Oriente Médio, quando eram reunidos exemplares e conhecimentos
sobre plantas, animais e tecnologias.

No século XX, com as experiências das guerras mundiais, com o


aprofundamento da fome e da miséria, da concentração da riqueza e aumento das
desigualdades, dos conflitos étnico-raciais, os estudiosos passam a questionar os
objetivos, os meios e os fins da ciência e do cientificismo descomprometido com
a melhoria da vida humana.

2.2 TEORIA
Pode ser considerado desde o ato de ‘tomada de consciência’, a formulação
e organização do pensamento, a reflexão sobre a realidade, que almeja resultados
práticos, a ação e a transformação da realidade. Somente adquire o status de
teoria quando apresenta uma estrutura toda organizada de princípios, categorias,
métodos, regras e leis que podem ser aplicados e verificados diante de fatos,
fenômenos do mundo e da natureza.

Kuhn (2000) afirma que as teorias não são eternas, possuem certo tempo
de validade e que quando não dão conta de fornecer resultados e respostas
satisfatórios diante dos problemas e fatos, fornecem as condições para que outras
teorias sejam apresentadas em seu lugar:

5
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

A emergência de novas teorias é geralmente precedida por um período


de insegurança profissional pronunciada, pois exige a destruição em
larga escala de paradigmas e grandes alterações nos problemas e
técnicas da ciência normal. Como seria de esperar, essa insegurança é
gerada pelo fracasso constante dos quebra-cabeças da ciência normal
em produzir resultados esperados. O fracasso das regras existentes é o
prelúdio para a busca de novas regras. (KUHN, 2000, p. 95).

Silva (2009) apresenta que existem teorias em praticamente todas as áreas do


conhecimento, apesar de serem mais usuais e empregadas nas ciências biológicas e
exatas. Nas ciências humanas, as áreas do conhecimento que mais buscam formular
teorias são as da economia, a sociologia, a antropologia e a linguística.

A peculiaridade dos fenômenos e fatos humanos (o homem, o homem


no tempo) é que estes costumam ser atípicos, anárquicos, imprevisíveis e não
ocorrem duas ou mais vezes, bem como é raro conseguir estabelecer semelhanças e
repetições para com outros fatos e fenômenos ocorridos em outros locais, e por fim
serem classificados numa teoria rigorosa e precisa.

Silva (2009) aborda que os historiadores atualmente são mais receosos


em formular teorias do que em outras épocas (embora não dispensem conceitos,
categorias e modelos explicativos em suas análises). A autora explica que
durante o século XVIII e XIX, quando vigorava o historicismo, a escola metódica
e o materialismo histórico, muitos historiadores se preocupavam com o
estabelecimento de modelos que estruturavam as explicações da História, porém
com os questionamentos e as crises que a ciência sofreu ao longo do século XX,
em especial com a ascensão da Nova História, na segunda metade do século,
a História foi se tornando cada vez menos teórica, ou seja, cada vez menos
preocupada com os métodos, com categorias e explicações preestabelecidas para
proceder análises de fatos e fenômenos.

2.3 PARADIGMA
Kuhn (2000) discute que um paradigma corresponde aos elementos
que unem e aproximam membros de uma comunidade, e estes preparam um
campo de atuação, iniciam e formam outras pessoas e estudantes para serem
futuros membros da comunidade científica. Os paradigmas são compostos pelas
realizações científicas que são reconhecidas universalmente, são responsáveis por
legitimar a ciência feita e o conhecimento elaborado por um determinado grupo
ou nicho/campo de pesquisa.

É comum ouvirmos falar fulano de tal é weberiano, ciclano é marxista, isso


quer dizer que em suas atividades científicas e intelectuais apresentam estudos
que possuem temas, recortes temporais, aplicam métodos e categorias de análises
que pertencem originalmente aos paradigmas daqueles estudiosos.

6
TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

2.4 MÉTODO
Caminhos, procedimentos pelos quais se chega a um determinado
resultado coerente; técnicas para realizar praticamente uma ação teórica; regras
racionais que regulamentam, metodizam a pesquisa histórica no sentido de obter
reconhecimento científico e teor de verdade.

Diehl (2001) apresenta que os procedimentos metodológicos utilizados no


fazer histórico (fontes e narrativas) indicam os processos pelos quais o passado
humano é contemporaneizado como história.

Consiste no conjunto de elementos que compõe o percurso, as regras


e o tratamento investigativo, analítico e crítico atribuídos ao passado (fatos e
fenômenos humanos e sociais); uma vez coerentemente aplicados são responsáveis
por conferir ao conhecimento unidade, inteligibilidade e teor científico. O método
representa uma tentativa de destrinchar o passado dos interesses e visões/versões
que o alteram, o distorcem e o corrompem da verdade e de como os fatos e
fenômenos transcorreram.

Existem inúmeros métodos que são utilizados pelos pesquisadores e


estudiosos, cada paradigma estrutura-se de forma diferente e variável aos outros.
Determinados estudiosos participaram como idealizadores ou como adeptos,
observe a tabela a seguir:

QUADRO 1 - PRINCIPAIS PARADIGMAS DO CONHECIMENTO


PARADIGMAS PRESSUPOSTOS REPRESENTANTES
MÉTODO INDUTIVO:
O conhecimento é obtido com base nos fatos dados
POSITIVISMO da experiência vivida no mundo (empirismo). F. Bacon, T. Hobbes, J.
EMPIRISMO Tem como finalidade alcançar o formalismo lógico- Locke, Hume, A. Comte
matemático e a aplicação prática dos conhecimentos
obtidos.
MÉTODO DEDUTIVO:
Dotado de uma unidade funcional e coerência
interna.
FUNCIONALISMO Os elementos culturais representam a ligação de R. Descartes, Spinoza,
RAZÃO necessidade entre o grupo humano e o meio físico Leibniz
(necessidades biológicas e os imperativos culturais).
Parte-se de uma teoria geral para explicar o caso
particular.
METÓDO DIALÉTICO:
MATERIALISMO Considera relações concretas e materiais como Karl Marx, Friedrich
HISTÓRICO suficientes para explicar os fenômenos mentais, Engels
sociais, históricos.
MÉTODO SISTÊMICO: Preocupa-se com aspectos
quantitativos dos fenômenos e a inter-relação dos
Saussure, Claude Levi-
ESTRUTURALISMO objetos que o compõe.
Strauss, Jacques Lacan.
As estruturas pressupõem relações, existem
conexões entre as partes de um fenômeno.

FONTE: Os autores

7
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

ATENCAO

Caro acadêmico!

Ao longo deste Livro Didático, os principais paradigmas do conhecimento serão retomados e


discutidos no sentido de como foram introduzidos na escrita da história. Fique atento!

2.5 DISCURSO
O discurso é composto pelo universo de experiências, referências e
significados que compõem o imaginário de quem redige e narra o passado.
Estes são oriundos das posições em que os indivíduos se encontram ou querem
alcançar, aos grupos aos quais se encontram associados e filiados; aos ideais que
defendem ou querem galgar para si e para os demais integrantes e apoiadores.

O discurso possui e fornece informações dos indivíduos que tanto


abarcam a dimensão individual/particular como relações sociais e coletivas mais
amplas. Um discurso, uma narrativa deve ser entendida como um ato político,
no sentido de que almeja, objetiva, tem algo em vista. A finalidade de todo e
qualquer discurso é transmitir uma ideologia, alcançar algum fim.

2.6 HISTORIOGRAFIA
Diz respeito às variáveis que perpassam a produção e sistematização do
conhecimento histórico. Assemelha-se com as noções de “Filosofia da História”,
‘História das Ideias’, ‘História da Intelectualidade’, ‘História da escrita da
História’. O conhecimento histórico é tomado em perspectiva e no conjunto que o
compõe; são feitos balanços, análises, comparações e sínteses.

Trata-se do estudo do processo de redação da História propriamente dito,


onde se procura identificar de que forma os historiadores pesquisam, organizam
e narram o conhecimento, os métodos que foram utilizados, os elementos
discursivos, as categorias de análise e interpretação, o repertório conceitual, o
sentido e o valor moral e ético que foi atribuído aos fatos e ações humanas.

Cada profissional da história acaba por fazer a sua escolha, por


consequência os demais estudiosos que tomarão os escritos que este historiador
produziu, tenderão a procurar identificar semelhanças, aproximações ou
distanciamentos com relação a determinados paradigmas, tendências, escolas já
conhecidas assim como reconhecer se tal escrito, estudo e tese foi responsável
por formular e empreender alguma mudança ou revolução na forma de fazer/
escrever a história como até então havia sido feito.

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TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

DICAS

Ao longo deste Livro Didático serão apresentadas as principais escolas e


tendências historiográficas (Historicismo, Escola Metódica, os Annales, Nova História Cultural,
Micro-história, entre outras), que são reconhecidas no interior da produção do conhecimento
histórico. Prossiga na leitura do Livro Didático!

2.7 EPISTEMOLOGIA
É um modo de tratar um problema nascido de um pressuposto filosófico
específico no âmbito de determinada corrente filosófica. Estudo da  natureza,
das origens e da validade de um determinado conhecimento. Episteme significa
também "lugar", local onde o homem se instala, para conhecer e agir de forma
apropriada e de acordo com as regras estruturais daquela episteme.

Na frase, ‘as ciências humanas são parte da episteme moderna’, significa


dizer que as ciências humanas correspondem ao local de onde a sociedade
moderna retirava suas referências teóricas; por outro lado, pode-se dizer que a
teologia foi a episteme da Idade Média. Cada uma possui categorias, bases de
referências e valores específicos para analisar e interpretar a realidade. Abbagnano
(2007) explica que se trata de um modo de abordar um problema nascido de um
pressuposto filosófico específico, no âmbito de determinada corrente filosófica,
no interior de uma dada área do conhecimento.

2.8 RAZÃO
Abbagnano (2007) descreve que consiste na base de referenciais sob os
quais é possível proceder a indagações e investigações. Trata-se de uma faculdade
que é reconhecida no homem e não nas demais espécies e seres da natureza.

Razão também comporta a ideia de justa medida, postura comedida, de


uso de critérios e parâmetros racionais. É comumente empregada no sentido de
designar a força que liberta dos preconceitos, dos mitos, das opiniões enraizadas,
do mundo das aparências, permitindo estabelecer um critério universal ou comum
para a conduta do homem em todos os campos. Também é colocada como ponto
de referência e equilíbrio aos sentimentos desmedidos, às paixões, às emoções,
aos instintos viscerais, aos modos rudes e aos apetites primitivos.

Descartes (1979) identificou a razão ao bom senso e a definiu como sendo a


capacidade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso; de ser um instrumento
do conhecimento provável, e não apenas do conhecimento estabelecido. Para Hegel
(1995) a razão é a identidade da autoconsciência, do pensamento, da realidade, das
coisas e dos acontecimentos, como manifestação ou determinação.

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UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

2.9 IDEOLOGIA
Abbagnano (2007) descreve que o termo foi criado por Destut de Tracy, em
1801, para designar "a análise das sensações e das ideias". Outros estudiosos defendem
que consistiu na corrente filosófica que marcou a transição do empirismo iluminista
para o espiritualismo tradicionalista que floresceu na primeira metade do séc. XIX.
Napoleão empregou o termo para nomear os estudiosos que eram desfavoráveis
ao seu governo, porém com um sentido depreciativo, querendo designá-los como
pessoas sectárias, dogmáticas, sem senso político e distantes da realidade.

A palavra ideologia é também empregada para designar qualquer espécie


de análise filosófica, ou uma doutrina que possui validade objetiva e que é mantida
em nome dos interesses de quem a utiliza e se vale dela. Em meados do séc. XIX, a
última noção de ideologia passou a ser fundamental em meio ao paradigma marxista,
quando foi utilizada na interpretação da luta dos trabalhadores operários contra a
dominação dos proprietários capitalistas e da sociedade burguesa.

Segundo Marx (2010), os homens faziam a sua própria história, mas


não a faziam segundo sua própria vontade; não a faziam sob circunstâncias
de sua escolha, mas sob as circunstâncias que encontravam diante de si, que
foram legadas e transmitidas pelo passado, impingidas e plasmadas pelas
ideologias. Segundo Marx (2010) é também pelas formas ideológicas em que os
homens tomam consciência da sua condição de vida e das contrariedades que se
apresentam na vida material. Nesse sentido, pode-se entender ideologia como
sendo toda crença que é usada para o controle dos comportamentos coletivos,
entendendo-se o termo crença, em seu significado mais amplo, como noção de
compromisso da conduta, que pode ter ou não validade objetiva.

2.10 DIALÉTICA
Abbagnano (2007) discorre que a dialética pode ser compreendida como
método da divisão entre bem e mal (platônica) e como síntese dos opostos
(hegeliana). Levando em consideração estas duas definições pode-se pensar que
a dialética é um processo em que há um adversário que é combatido ou uma tese
que será refutada, existem dois protagonistas ou duas teses em debate, diálogo,
conflito; ou então, que é um processo resultante de conflito ou de oposição entre
dois princípios, dois momentos ou duas atividades quaisquer.

O conceito de dialética, como síntese dos opostos, defendida por Hegel,


sugere que se pense que a resolução das contradições se move dialeticamente e,
portanto, a filosofia hegeliana vê em toda parte a tríade de tese, antítese e síntese, nas
quais a antítese representa a "negação", "o oposto", ou "o outro" da tese, e a síntese
constitui a unidade e, ao mesmo tempo, a negociação, a certificação de ambas.

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TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

Assim como as teorias generalizadoras e racionalistas, a dialética também


acabou por sofrer críticas de que possuía a pretensão de ser mais uma fórmula e
modelo ideal e totalizador, bem como foi indicada como responsável por justificar
tudo o que aconteceu no passado e que se prevê ou se espera que aconteça no
futuro, uma espécie de “aconteceu por que tinha que acontecer”, “é aceitável o
mal em nome do bem”, “a escravidão em nome da liberdade”, e assim por diante.

2.11 PROGRESSO
Abbagnano (2007) descreve que consiste no raciocínio que os
acontecimentos históricos se desenvolvem num sentido desejável, em que se
dá o aperfeiçoamento crescente e que vai assim transcorrer rumo ao futuro. A
principal implicação da noção de progresso na sociedade que é a percepção do
‘curso dos eventos (naturais e históricos) como uma série unilinear’.

A noção de progresso é reconhecida como de autoria de Francis Bacon,


que a apresentou na obra Novum Organum, publicada em 1620. Este conceito
dominou as manifestações da cultura ocidental do séc. XIX e ainda continua
sendo o pano de fundo de muitas concepções filosóficas e científicas.

Por outro lado, a noção moderna de progresso reside na significação da


concepção de tempo com uma dinâmica cumulativa, que desloca a centralidade do
tempo cíclico à dinâmica temporal crescente e linear. O progresso é propriedade e
forma, a do progredir, construir (typisch aufbauend) e em expansão contínua.

Progresso refere-se, também, à emancipação humana, a evolução do saber


e da técnica, os desdobramentos cada vez mais complexos, em que impera a
racionalidade cumulativa e progressiva, cada vez mais complexa. É acompanhado
pelas noções de ‘secularização’, ou seja, explicações científicas que suplantam
as tradições religiosas e a “divina providência”; e a noção de ‘estado laico’ que
estabelece o fim da influência religiosa nas decisões políticas e vice-versa.

Tanto na história, na filosofia, na cultura e na sociedade, esta expressão


encontra-se relacionada à visão de acúmulo e síntese do passado e como profecia
realizável e triunfante no futuro, que interpreta a humanidade como uma grande
estrutura, que ao longo das eras e épocas caminha arduamente e constantemente
a um desenvolvimento glorioso, que conta com o campo técnico e científico como
os principais motores propulsores.

Da mesma forma como a ciência e a razão receberam fortes críticas dos


estudiosos, a noção de progresso também passou por este processo, especialmente
depois das duas grandes guerras mundiais do século XX, quando foram criados
comitês de ética cujos estatutos solicitam zelo pela dignidade e preservação da
vida, bem como antever riscos, custos e danos para com o meio ambiente e as
pessoas participantes de projetos/pesquisas e obras tanto no ramo científico,
da extração de matéria-prima da natureza, como em projetos de urbanização,
construção de usinas, estradas e de obras em geral.

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UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

3 O CONTEXTO HISTÓRICO E INTELECTUAL DO ILUMINISMO


O Iluminismo, ou século das luzes ou da ilustração, foi um movimento
intelectual e cultural do século XVIII, que almejava libertar o homem das
crenças mitológicas e de toda herança dogmática da época medieval. Defendia
os princípios da razão crítica, do progresso, da autonomia dos indivíduos e da
liberdade de pensamento. O Iluminismo não foi uma invenção da sociedade de
sua época propriamente dita, sustentava-se em bases teóricas que já haviam sido
defendidas ainda na Antiguidade e também na época da Renascença, porém
encontrou no século XVIII o melhor momento de alcance e amplitude.

Abbagnano (2007) descreve que é possível entender o Iluminismo como


uma linha filosófica que defende a razão como crítica e guia a todos os campos
da experiência humana. Kant (1724-1804) defende que o Iluminismo contou com
o empirismo como um grande aliado, ambos garantiram a abertura do domínio
da ciência e, em geral, do conhecimento, que por sua vez favoreceu à crítica da
razão, no sentido de que toda verdade poderia e deveria ser colocada à prova, e
eventualmente modificada, corrigida ou abandonada.

Os fundamentos teóricos que favorecem a ancoragem do movimento do


Iluminismo podem ser encontrados na física e sistematizados na obra de I. Newton
(1643-1727) ‘Princípios matemáticos de filosofia natural, publicada em 1687, nas
pesquisas de Boyle (1627-1691), que encaminham a química como ciência positiva; na
obra de Buffon (1707-1788) e de outros naturalistas, que assinalam as ciências biológicas
como responsáveis por explicar as etapas fundamentais de desenvolvimento.

O empirismo foi o ponto de partida e o pressuposto da filosofia defendida


como por exemplo de Voltaire (1694-1778), Diderot (1713-1784) e D'Alembert
(1717- 1783). A Enciclopédia continha o pensamento contrário aos privilégios que
foram reclamados posteriormente na Revolução Francesa, defendia a felicidade
ou o bem-estar do gênero humano, alcançados e desfrutados através de práticas
tolerantes e com fé no progresso. Estas noções enfraqueceram a ideia de fatalidade
histórica que impedia qualquer iniciativa de transformação da realidade. Segundo
Abbagnano (2007), o princípio da tolerância religiosa não só exigia a convivência
pacífica das várias tradições religiosas, como também impedia que a religião se
tornasse um instrumento de governo.

Dosse (2003) apresenta em 1880 que a História ganha um estatuto próprio


como disciplina e conhecimento científico, separada da literatura. Fochi (2015)
apresenta que quando os primeiros diplomas em História foram emitidos,
imediatamente foram fundadas as primeiras revistas de caráter erudito e científico.

Os historiadores se preocupavam no sentido de promover uma acumulação


volumosa de trabalhos científicos, os temas ganhavam uma abordagem linear
e eram enriquecidos pelos conhecimentos de outras áreas como a antropologia,
numismática, paleografia, epigrafia, diplomacia, entre outras. Rüsen (1997)
explica que o Iluminismo deu o primeiro passo na direção dos procedimentos de
crítica das fontes e da formulação de método histórico.

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TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

Entre os principais estudiosos pode-se relacionar Spinoza (1632-


1677), John Locke (1632-1704), Isaac Newton (1643-1727), Voltaire (1694-1778)
Montesquieu (1689-1755). Segundo Ruanet (1987) o Iluminismo, oferecia
inúmeras possibilidades ao homem de sua época, porém que com o passar dos
tempos acabou por apresentar equívocos e erros:

Ele acenou ao homem com a possibilidade de construir racionalmente


o seu destino, livre da tirania e da superstição. Propôs ideais de paz e
tolerância, que até hoje não se realizaram. Mostrou o caminho para que
nos libertássemos do reino da necessidade, através do desenvolvimento
das forças produtivas. Seu ideal de ciência era o de um saber posto a
serviço do homem, e não o de um saber cego, seguindo uma lógica
desvinculada de fins humanos. Sua moral era livre e visava uma
liberdade concreta, valorizando como nenhum outro período a vida das
paixões e pregando uma ordem em que o cidadão não fosse oprimido
pelo Estado, o fiel não fosse oprimido pela religião, e a mulher não
fosse oprimida pelo homem. Sua doutrina dos direitos humanos era
abstrata, mas por isso mesmo universal, transcendendo os limites do
tempo e do espaço, suscetível de apropriações sempre novas, e gerando
continuamente novos objetivos políticos. (RUANET, 1987, p. 26).

Isaac Newton, físico, matemático, filósofo e teólogo inglês ficou amplamente


conhecido com os três volumes de ‘Princípios matemáticos da filosofia natural’,
nos quais constam as famosas Leis de Newton, que compõem os princípios da
mecânica e de todo o pensamento moderno. As leis de Newton contêm o princípio
de ‘inércia’, em que todo corpo continua em seu estado (repouso ou movimento)
a menos que seja forçado a mudar; o princípio de ‘dinâmica’ em que a mudança é
proporcional à força atribuída; e o princípio de ‘ação e reação’ em que para toda
ação há sempre uma reação oposta e em igual proporção.

Um século anterior ao florescimento do movimento do Iluminismo existia


o movimento intelectual chamado de pensamento cartesiano. René Descartes
(1596-1650) foi um dos principais ideólogos e propagadores das ideias iluministas.
Escreveu a obra Discurso sobre o método, (Discurso sobre o método para bem
conduzir a razão na busca da verdade dentro da ciência) publicada no ano de 1637,
na qual consta a defesa da ideia de que para encontrar a verdade fazia-se necessário
empreender os procedimentos científicos tais como: fragmentar, fracionar, romper
em partes, reduzir, dividir: quebrar a integridade dos seres e das coisas; o que
sustentaria basicamente todo sistema e paradigma chamado cartesiano. Este
paradigma possuía forte relação com conhecimentos matemáticos e mecânicos,
e buscava essencialmente obter certeza e eliminar qualquer resquício de dúvida
tanto diante dos seres da natureza, fatos e fenômenos sociais.

Descartes buscava provar a existência do próprio eu (que duvida: portanto,


é sujeito de algo); que se expressava na máxima Ego cogito ergo sum, "eu que penso,
logo existo". Rejeitava as formas de conhecimento do mundo realizadas através
dos sentidos, da intuição, da subjetividade e dos sentimentos, defendendo a razão
e o pensamento como formas mais coerentes e significativas de conhecer.

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UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Para tanto, como método para realizar esta tarefa, propôs que se faziam
necessários os seguintes procedimentos:

• VERIFICAR: evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa


estudada.
• ANALISAR: dividir ao máximo as coisas, em suas unidades mais simples e
estudar essas coisas mais simples.
• SINTETIZAR: agrupar novamente as unidades estudadas em um todo
verdadeiro.
• ENUMERAR: as conclusões e princípios utilizados, a fim de estabelecer
coerência e ordem do pensamento.

Uma das críticas que foi feita ao método proposto por Descartes é a de que
uma vez divididas e reagrupadas todas as partes de um animal, por exemplo, o
custo inerente e imprescindível seria a vida daquele ser, ou seja, o reagrupamento
não seria capaz de reverter o rompimento e a desintegração da vida que havia
ocorrido em meio ao processo de investigação.

Na essência da filosofia de Descartes encontra-se a noção de ceticismo


com relação ao conhecimento histórico. Descartes não identificava na História
conhecimentos coerentes e com potencial de verdade, pois considerava a
História (o estudo do passado) uma espécie de fuga da realidade; que um
estudioso, uma vez mergulhado no passado, ficava estranho, indiferente ao
momento presente, à realidade; e de que as narrativas históricas resultavam
do conhecimento indireto do passado, e que eram exageradamente fantasiosas,
lendárias e fabulosas, não dignas de confiança.

3.1 O EXEMPLO DE GIAMBATTISTA VICO


O homem é uma vontade,
uma força e um conhecimento que tende para o infinito.

Giambattista Vico

Giambattista Vico (1668-1744), filólogo e historiador italiano, foi um pensador


que se interessou por direito, poesia, história, mitologia e linguagem, as ‘novas
ciências humanas’, como eram chamadas em sua época. Foi responsável pela escrita
de ‘Ciência Nova’ publicada em 1725, que se tornou um clássico no campo da teoria
da História, cujo valor e relevância somente foi reconhecida postumamente.

A obra de Vico se encontra em contraponto à duas tradições, tanto


a da época medieval como da época moderna, pois procura desvencilhar-se
da tradição que atribuía à história uma finalidade teológica (época medieval),
apresentava-se como um erudito antirracionalista, assistemático, cujos escritos
eram de difícil leitura e interpretação, isto em pleno Iluminismo, época em que
vigorava o modelo cartesiano.

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TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

As principais críticas de Vico ao pensamento de seu tempo voltavam-se


ao Iluminismo cartesiano, no ponto em que o homem não poderia conhecer o que
não é fruto da própria criação, que só é possível conhecer com propriedade o que
se fez e os seres da natureza não são obras humanas. Para Vico, a matemática, as
artes, a história, os costumes e a cultura são conhecíveis; já os animais, as florestas,
as aves, e demais seres da natureza constituem um conhecimento não verdadeiro.

No que se refere em específico ao campo da história, Vico fez inúmeras


contribuições. Vico defendia que o processo de realização do homem não se dava
de forma linear e que não se encontrava em marcha constante e que partia do
homem natural ao homem civilizado, do mitológico ao científico; mas que ocorria
em uma relação de integração progressiva, cíclica, espiralada, helicoidal, da
emoção à razão, da fantasia ao pensamento racional, conforme procura expressar
a imagem da escada espiral a seguir:

FIGURA 1 - FOTO DE AFONSO MASEDA VARELA. MUSEUS DO VATICANO

FONTE: <http://www.minube.com.br/fotos/sitio-preferido/3405/7639507>.
Acesso em: 15 jan. 2016.

ATENCAO

Caro acadêmico! Você deve se perguntar: – isso nada mais é que o sentido de
evolução que o Iluminismo defendia? – Vamos com calma. É exatamente a partir deste ponto que
se dá a grande ruptura que Vico apresentava em relação ao pensamento iluminista e evolucionista
de seu tempo. Mas vamos ver com mais profundidade como Vico discorreu sobre tal teoria.

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UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Para Vico os homens, as nações e as civilizações passam por três fases, nas
quais se destacam três linguagens, três tipos de governo e três jurisprudências.

Observe o quadro síntese a seguir:

QUADRO 2 - A DIVISÃO/EVOLUÇÃO DA HISTÓRIA SEGUNDO VICO


FASE PREDOMÍNIO
Quando predominavam os governos mágicos e divinos,
ou seja, teocráticos, ou repúblicas monásticas, geridas por
autoridades paternas.
Centrada em tradições religiosas surgem os primeiros
códigos morais, os matrimônios solenes, as famílias;
FASE/ERA DOS DEUSES
sepultam e cultuam seus mortos.
Na civilização grega, pode ser identificada com a época
DA INFÂNCIA,
dos oráculos, das adivinhações entre os gregos. Júpiter foi
o grande deus deste período, que se manifestava através
OU DOS SENTIDOS
de raios e trovões.
O pensamento e linguagem são cifrados, esotéricos,
(‘o imã ama o ferro, o sol é namorado da lua’)
figurativos, em versos, com acesso apenas à poetas
teólogos, que decifravam as mensagens e os mistérios das
coisas (coisas com alma, deuses).
Coisas inanimadas ganham vida e paixão; a fantasia e a
fábula dão sentido ao mundo.
Pode ser ilustrada com as experiências da Grécia narrada
por Homero em Ilíada e Odisseia (Ulisses, Aquiles e Teseu)
e a Roma dos reis (Rômulo).
Os heróis, homens fortes, semideuses, passam a ganhar
FASE/ERA DOS HERÓIS importância diante dos desígnios dos deuses. Surgem
as primeiras instituições políticas, os governos são
aristocráticos, ocorre a construção das primeiras cidades.
(‘tanto mais robusta a fantasia, tanto mais débil A estrutura social era mantida pela autoridade, sem
o raciocínio’) negociação e/ou discussão, pois a vontade de Deus deveria
ser atendida.
Diferenciam-se os grupos sociais dos patrícios e plebeus,
que passam a se relacionar de forma hostil e conflituosa.
O pensamento e a linguagem são ao mesmo tempo
poéticos, heroicos, herméticos e religiosos.
Corresponde à Grécia Clássica, à Roma Republicana e ao
mundo moderno. Processo longo e trabalhoso.
Predomínio do governo dos homens, repúblicas populares,
porém de fortes conflitos e tensões entre os grupos sociais,
que almejavam por igualdade.
As distinções sociais são demarcadas pela capacidade de
FASE/ERA DOS HOMENS trabalho.
Criam-se as condições favoráveis ao desenvolvimento da
LEIS RACIONAIS E UNIVERSAIS filosofia, centrada nas questões de verdade e justiça.
O reconhecimento dos direitos dos cidadãos fomenta
a elaboração dos códigos civis, a polis grega e o fórum
romano são os espaços primordiais destas realizações.
As leis como a do dever, da consciência e da razão ganham
espaço e se tornam universais
O pensamento e a linguagem são populares, benignas,
modestas, moderadas e de acesso a todos. Ocorre o
declínio da fantasia e da imaginação.

FONTE: Os autores

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TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

Vico compreendia que quando uma nação chega ao seu momento de


maior expressão na fase/era racional, concreta, lógico-demonstrativa, ocorre
uma espécie de retorno ao estágio mitológico, da fantasia, da magia e da lenda;
segundo ele as fases/eras vão e vem, retornam, recorrem, recomeçam. Veja como
procura explicar Reis (2001, p. 12).

Ela avança para a racionalidade, recusando a irrazão (corsi) e, depois,


retorna à irracionalidade (ricorsi), para novamente avançar, em um
nível acima, em uma razão equilibrada, que integra a razão em si a
irrazão (corsi), para recair no irracionalismo.

Vico não pode ser taxado como um relativista, de que compreendia cada
época como fase/era de forma particular e que possuía importância e relevância
indiferente uma da outra, pois aponta costumes e leis que foram elaborados ainda
em momentos primitivos, e que significam melhoramentos e desenvolvimentos
como verdades universais e que ocorreram em todas as civilizações, tais como o
sepultamento dos mortos, o casamento ritualístico e as tradições religiosas.

Outra preocupação de Vico em Ciência Nova foi o de demostrar que o


direito natural nasceu em todos os povos, mesmo que estes tivessem contato
entre si, ou seja, pode-se deduzir que para Vico, as atividades humanas possuem
um fundo comum e que é recorrente a todo gênero humano, o que depois mais
tarde foi estudado e aprofundado por Carl Jung (1875-1961) e compreendido
como ‘inconsciente coletivo’.

Vico defendia que a maior criação do homem é a sua própria história, que
esta não significa somente uma necessidade política ou econômica, mas o registro
da necessidade que o próprio homem tem de se expressar. Com isto Vico pretendia
colocar a História em grau de hierarquia maior do que as ciências naturais. Para
Vico o conhecimento histórico deveria ser compreensivo, e promover ao ser
humano, em sua diversidade, uma autoconsciência de sua própria vida. Estes
argumentos foram utilizados posteriormente para justificar a ciência enquanto
disciplina do conhecimento.

Burke (1997) considera Vico ‘o homem do futuro que nasceu no passado’,


pois anunciava reflexões que seriam contempladas posteriormente pelo
historicismo, existencialismo, estruturalismo e na fenomenologia.

UNI

CARO ESTUDANTE!

Inspiraram-se nos estudos de Vico estudiosos de diversas épocas. No século XIX, Goethe,
Herder, Dilthey, Ranke, Victor Cousin, Michelet e Marx; no século XX Collingwood, Croce,
Meinecke, Levi-Strauss, Piaget e os integrantes dos Annales, que serão abordados na
continuidade deste Livro Didático.

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UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

4 O IDEALISMO ALEMÃO: AS PERSPECTIVAS DE KANT E HEGEL


SOBRE A HISTÓRIA

4.1 O EXEMPLO DE KANT


Concordia discors.
Kant

Immanuel Kant (1724-1804) tem sua produção intelectual e filosófica


denominada de filosofia crítica, idealismo transcendental, que tinha como
finalidade estabelecer um método cognitivo e uma doutrina da experiência pelo
uso da razão que suplantasse a metafísica racionalista dos séculos XVII e XVIII,
que ele chamava de sono dogmático.

Kant foi leitor de Isaac Newton (1643-1727), John Locke (1632-1704), Gottfried
Wilhelm Leibniz (1646-1716) e David Hume (1711-1776). A principal questão de Kant
foi: com que direito e entre quais limites a razão pode formular juízos sintéticos a
priori sobre dados do sentido? Pergunta que procurou responder na obra ‘Crítica da
razão pura’, escrita entre os anos de 1781 e 1787.

As contribuições de Kant à História estão no sentido de favorecerem a


compreensão da ideia de progresso da humanidade na sua dimensão cultural.
Para Kant os homens possuem planos e objetivos diversos, que almejam por
desenvolvimento, e que se movem numa dinâmica do pior ao melhor, e que deve
ser percebida e buscada ao longo de toda a experiência humana e não localizada
em experiências individuais.

Segundo Kant, o fator responsável por colocar em movimento tal dinâmica


residia nos desejos antagônicos do homem em sociedade, o que favorecia o
desenvolvimento e a manifestação dos talentos individuais, bem como promovia a
diferenciação e o acúmulo de cultura.

Bodei (2001, p. 46) afirma que no entendimento de Kant:

é com a busca do ganho e com a avareza que nasce o comércio e, por


conseguinte, a benéfica troca entre os homens; é pela vaidade de serem
recordados, de deixar o próprio nome, que as pessoas realizam atos
de beneficência e fazem erguer hospitais ou asilos; é pela inquietação
e pela violência de homens sempre prontos a combaterem-se, que as
civilizações entram em contato.

Neste raciocínio, tanto leis, instituições e estruturas coletivas eram o


resultado materializado do operar de bilhões de homens, mesmo vivendo em
tempos e lugares diferentes.

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TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

Segundo Kant (2001), a História avançava por que existe uma espécie
de competição benéfica entre indivíduos e estes para se realizarem como
pretendem são dependentes uns dos outros. Para Kant (2001) a civilização é o
resultado do ondular de homens comedidos na discórdia pela concórdia e por
serem concordes na discórdia.

Para explicar este processo, Kant faz analogia entre o homem e uma
planta, ao ponto que se não tivéssemos outros indivíduos que concorrem pelos
mesmos bens que nós e se fizéssemos somente o que mais nos agrada, seríamos
como uma árvore, que se expande de forma horizontal e tranquila. Mas como
somos ameaçados pelos próprios semelhantes e podemos perder para estes os
bens que possuímos e almejamos, nos expandimos para o alto e de forma vertical;
competimos, nos qualificamos para obter e conservar tais bens.

UNI

Caro acadêmico! Percebe-se aqui a prefiguração da dialética que foi discutida e


aprofundada posteriormente por Hegel e Marx.

Nos estudos de Kant percebe-se o forte afastamento da noção de que a


providência divina representava um fator determinante da História, a ampla
defesa da ideia de racionalidade e de télos (fim/alvo) e de progresso, que se há
passos contínuos, conduziriam a humanidade à emancipação plena. A história,
guiada pela razão, seria a fonte maior a partir da qual se alcançaria a liberdade e
a perfeição humana. Estas intenções contagiariam a humanidade e se realizariam
em escala universal. A ideia de uma história universal se realizaria na conjugação
das forças do homem de posse e uso da razão apoiado nas disposições da natureza.

4.1.1 A ideia de história cosmopolita


Para Kant o fim supremo da natureza seria um ordenamento cosmopolita,
em uma federação dos povos na qual cada Estado seria tutelado por uma
organização maior. Dosse (2003) descreve que quando Kant trata de uma História
cosmopolita, refere-se a um sistema de ordenamento semelhante aos dos corpos
celestes. Para assegurar uma sociedade reguladora, o homem encontraria no
direito formas de conter as alterações e distorções do uso da liberdade.

Raulet (apud Dosse, 2003) apresenta que Kant é contrário à ideia


cosmopolita que negligencia o que é oriundo das peculiaridades antropológicas
dos povos e das culturas, ou dos impactos da absorção de um Estado por outro e
contra toda fusão orgânica dos Estados-nações que, enquanto realidade jurídicas
e territoriais, possuem e impõem uma identidade própria.

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UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Dosse (2003) apresenta que a concepção de história de Kant é teleológica,


que atribui à espécie humana a primordialidade diante dos outros seres da natureza,
pois estes são dotados de liberdade e razão. O ser humano em Kant seria o cidadão
responsável e principal protagonista da História. Bodei (2001) descreve que, para
Kant, a Historiografia constitui um conhecimento que fornece elementos à decifração
de nós mesmos, e em especial que dá significado e inteireza à nós mesmos.

4.2 O PENSMENTO HEGELIANO: ESPÍRITO E RAZÃO NA


HISTÓRIA
Georg W. Friedrich Hegel (1770-1831) foi influenciado pelas obras
de Heráclito (353 a.C-475 a.C), Espinoza (1632-1677), Kant (1724-1804) e Rousseau
(1712-1778), assim como pela Revolução Francesa e Napoleão Bonaparte. Dedicou-
se aos estudos do Idealismo Absoluto, procurou investigar a relação entre mente
e natureza, sujeito e objeto do conhecimento, para tanto, empreendeu estudos em
história, arte, religião e filosofia.

Com a obra “Fenomenologia do espírito” pretendeu mostrar que a


ideia não é seguir o acumular do desenvolvimento histórico da humanidade na
dimensão do tempo, mas de colher os momentos estratégicos, de vicissitudes e
ideais que são responsáveis por conferir desenvolvimento ao espírito. Para Hegel
o desenvolvimento da realidade passa por três momentos fundamentais: o da
ideia, o da natureza e o do espírito.

O espírito é o absoluto, o complemento de todas as coisas, o ponto extremo


de síntese para a qual tende toda filosofia, ciência, religião e cultura. O espírito não
é transcendente em relação ao mundo, mas constitui seu complemento interno e
sua essência que é a liberdade. Para Hegel o espírito subjetivo e o espírito objetivo
são a via pela qual se vai elaborando o espírito absoluto, cujas formas são a arte,
religião e filosofia.

Hegel apresenta também a unidade dos opostos, como princípio fundador


de uma nova lógica, no sentido de que esta é imanente, de modo que aquilo que
é real deve ser caracterizado pela unidade dos opostos. Nesse momento, Hegel
se aproxima do que defendia anteriormente Vico quando apresentava as fases/
eras humanas como um tecer espiralado. Para Hegel o espírito absoluto e o fio
formam a espiral, e que cada anel do espiral é uma determinação do espírito
absoluto, que segue, avançando de um anel a outro, configurando assim uma
espécie de progresso, e destes ao todo.

Bodei (2001) apresenta que para Hegel a História deveria ser olhada na
perspectiva de buscar a razão, a finalidade, o objetivo “eu” se encontrava por traz
das ações humanas, pois defendia que a História não se explicava pelas intenções
conscientes dos homens, mas sim pelas suas paixões e pelos interesses individuais.

20
TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

Para Hegel as paixões são o verdadeiro motor da História, elas realizam


a si mesmas e os seus fins segundo as suas finalidades naturais e fazem surgir o
edifício da sociedade humana. Hegel não foi tão idealista em defender que somente
a consciência/razão é a condutora da História. Segundo Hegel, o ordenamento do
mundo é constituído pelo ‘ingrediente’, o das paixões e o outro pelo ‘momento
racional’, mas para Hegel o elemento ativo é dado pelas paixões.

Para Hegel o ‘Espírito’ é nós mesmos, ou os indivíduos, ou os povos;


e ‘Razão’ é o sentido.

Para Hegel o homem se apresenta como um animal que não tem uma natureza
determinada, mas que se forma incessantemente. Seguindo este raciocínio, a História
do passado não é capaz de ensinar alguma coisa de útil ao momento presente; o que
coloca Hegel distante da doutrina historia magistra vitae que foi proposta desde os
historiadores da época antiga como Heródoto, Tucídides e Cícero.

A história apresenta uma racionalidade própria, mas não deve apresentar


uma tendência na direção de um telos (fim, alvo) específico. Para Hegel os ‘meios’
são mais importantes que os ‘fins’; ou seja, o navio, o automóvel e o trem são
mais importantes do que alcançar e chegar do outro lado do oceano, na cidade, e
qualquer destino traçado. Uma vez que se conta com tais recursos, pode-se trilhar
novos caminhos, percorrer outras distâncias, chegar a diferentes lugares.

Bodei (2001) aborda que os instrumentos inventados pelo homem


(conceitos, ideias, máquinas, tecnologias) e que são transmitidos de geração a
geração são indispensáveis e primordiais. Segundo ele, nós usamos as nossas
energias, nossas paixões, para dominar outras energias, na direção dos objetivos
por nós mesmos almejados. O homem se apropria dos meios e os submete à
sua finalidade, que são diferentes em cada homem e fornecem diferenciação e
contraste diante dos demais homens.

A grande tese de Hegel reside na defesa de que o finalismo ad usum hominis


(para uso humano) não existe na natureza e, que quando existe na história, não
é por virtude da divina providência, mas unicamente pelos feitos das ações
humanas. E o fato de propor a relação de prioridade dos meios diante dos fins
distanciava-se do pensamento que havia sido proposto desde Maquiavel (1469-
1527), Voltaire (1694-1778) até Herder (1744-1803).

Para Hegel a racionalidade está por trás de tudo no mundo e a filosofia


tem o poder de compreender a racionalidade da história. O pensamento capta
a racionalidade da história. Mas Hegel substitui a história linear do progresso
por uma filosofia da contradição, da dialética. O percurso dialético que resulta
disso pressupõe uma visão unitária e uma síntese do espírito por meio de suas
múltiplas concretizações.

21
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

No pensamento de Hegel, o espírito do mundo está na preparação de


um desenvolvimento cuja efetividade escapa aos atores, conforme Dosse (2003,
p. 236) procura explicar que “todo momento histórico é atravessado por uma
contradição interna que lhe dá seu caráter singular, ao mesmo tempo que o
prepara para ultrapassar para um novo momento”. Pode-se pensar que se trata
de um momento ideal e revolucionário que fornece as condições de superação
das condições anteriores.

Hegel nos adverte que cada ator acredita realizar unicamente as suas paixões,
quando que na verdade, só está cumprindo um destino que está inserido em um
vasto contexto. Por conseguinte, os indivíduos não conseguem evitar que aconteça
o que deve, tende a acontecer; seja o mal, seja uma guerra, pois impera a razão que é
almejada e desejada por um todo, pelo conjunto, por uma nação, um Estado.

Nesse raciocínio, o autor explana a ideia de Hegel (1995) de particularidade


nos termos de que o Espírito particular de um povo pode declinar, desaparecer,
mas ele forma e registra uma etapa na marcha geral do Espírito do Mundo e isso
não pode desaparecer. Em Hegel (1995), a partir da ideia de que cada ator acredita
realizar suas paixões quando, na verdade, ele só cumpre, apesar dele, um destino
mais vasto que o engloba, procura explicar que os indivíduos desaparecem diante da
substância do conjunto e este conjunto forma os indivíduos dos quais ele necessita.
Os indivíduos não conseguem impedir que aconteça o que deve acontecer.

Veja o teor de importância que Hegel (1995, p. 31) atribui à razão no curso
da história:

O único pensamento que consigo traz a filosofia é o simples pensamento


da razão, de que governa o mundo, de que, portanto, também a história
universal transcorreu de modo racional. Esta convicção e discernimento
é um pressuposto relativamente à história como tal. Na filosofia,
porém, isto não é pressuposto algum; demostra-se nela, mediante o
conhecimento especulativo, que a razão [...], a substância, como poder
infinito, é para si mesma a matéria infinita de toda a vida natural e
espiritual e, como forma infinita, a atuação deste seu conteúdo.

Dosse (2003) discute que o horizonte de percepção de Hegel sobre a realização


do Espírito não foi o de uma história linear do progresso, mas que se dava pelos
caminhos da contradição. Para Hegel todo momento histórico é atravessado por
uma ‘contradição interna’ que lhe fornece as condições para ultrapassar e adentrar
em um novo momento, o que ele denominou como ‘motor da história’.

ATENCAO

A noção de Espírito explicada por Hegel no século XVIII pode ser verificada no
século XX por meio da ideologia nazista, que surgiu após a Primeira Guerra Mundial. Acabou
por fazer com que os indivíduos, cidadãos alemães, fossem unânimes em apoiar as razões
do governo de Hitler em submeter a população judaica ao holocausto.

22
TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

LEITURA COMPLEMENTAR

O OLHAR DE HEGEL SOBRE A HISTÓRIA E SEUS HERÓIS

Agemir Bavaresco

Entrevista concedida à Márcia Junges e Ricardo Machado, do Instituto


Humanistas da Unissinos On Line (IHU On Line).

IHU On-Line - Quem eram os heróis na História segundo Hegel?

Agemir Bavaresco - A figura do herói aparece ao longo de toda a trajetória


intelectual de Hegel. Ele apresenta muitas figuras de heróis que atravessam a
história, desde a antiga Grécia (heróis na cultura) até a modernidade (heróis na
moral e na política). Para compreender quem são os heróis, é preciso levar em
conta a teoria da ação que justifica o agir do herói na história. Na Fenomenologia
do Espírito (Petrópolis: Editora Vozes, 1992), Hegel usa, ao menos 12 vezes,
explicitamente, a palavra herói vinculada às figuras da consciência, agindo na
cultura e na política. Aqui, nós encontramos uma das chaves da teoria da ação,
pois se trata de um silogismo formado pelo fim, meio e objeto, expressando-
se como interesse, meio e circunstâncias. Ele descreve a consciência ativa, por
exemplo, na figura do herói moderno, que se especializa em atividades como
comércio, artesanato etc., constituindo a esfera da sociedade civil em formação.
Os indivíduos como heróis modernos tendem a se fixar em sua tarefa privada,
trabalhando de forma isolada. Porém, o conceito de individualidade contém a
reflexividade relacional, tornando a ação universal. Ou seja, o indivíduo descobre
o público no seu agir privado, isto é, ele, pouco a pouco, universaliza-se na ação
pública. O sujeito burguês é reconhecido como singular na esfera da sociedade
e na intimidade familiar e, ao mesmo tempo, é reconhecido como universal na
esfera pública. Este duplo reconhecimento é a identidade entre o Eu e o Nós que
é realizado no sujeito burguês. Então, os heróis, para Hegel, são aquelas figuras
históricas, tanto individuais como coletivas, que são capazes de articular a
dimensão privada com a pública, ou seja, a ação que realiza os interesses privados
conduz a ampliar a participação nos interesses sociais e públicos.

IHU On-Line - Qual é a fundamentação filosófica e quais as influências da


ideia de herói nesse autor?

Agemir Bavaresco - Na Filosofia do Direito, Hegel usa sete vezes,


explicitamente, o termo herói, que está vinculado à figura dos grandes homens ou
indivíduos. O herói e o grande homem, em sentido amplo, têm sua fundamentação
no agir inserido em mediações históricas constituídas pelas estruturas da liberdade,
ou seja, a pessoa de direito, o sujeito moral e o cidadão membro da sociedade civil e
do Estado. Os direitos do indivíduo são afirmados no interior de uma comunidade
ética em que a liberdade pessoal e pública é garantida num sentido político-
pedagógico: “Faze-o cidadão de um Estado no qual as leis são boas”, afirma Hegel

23
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

em Princípios da Filosofia do Direito (HEGEL, G. W. F. Filosofia do Direito. Trad.


Paulo Meneses e outros. São Paulo: UNISINOS/UNICAP/LOYOLA, 2010). Esta é a
resposta de um pitagórico a um pai que lhe pergunta qual é a melhor maneira de
educar seu filho. Esta resposta mostra que o indivíduo é mediatizado pelo Estado,
num processo pedagógico em que ele se torna um cidadão.

Para que ocorra uma mudança essencial na história não é suficiente apenas
a boa vontade ou as boas ideias, mas a ação. “O que o sujeito é, é a série de suas
ações”, afirma Hegel na Filosofia do Direito. A essência do homem não está apenas
no seu interior, mas se exterioriza. A história não é um processo anônimo que
sucede sem os indivíduos acima deles ou reduzindo-os a meros instrumentos da
astúcia da razão. O processo da história existe apenas através da mediação das
ações dos indivíduos. São esses os fundadores do Estado, isto é, os heróis que
fundam os Estados na história. Ora, são os indivíduos ou os heróis que podem
instituir, mediante seu agir, um Estado ou mudar a Constituição de um Estado em
direção à liberdade. Por isso, Hegel coloca a fundamentação da ideia de herói na
ação, tanto no começo do Estado como nas permanentes mediações dos grandes
homens individuais ou coletivos em nível do direito, da moralidade e da eticidade.

IHU On-Line - Como pode ser compreendida a ideia de herói em Hegel a


partir do autodesenvolvimento do Espírito e a situação histórica?

Agemir Bavaresco - Cabe afirmar, inicialmente, que, para Hegel, o


critério determinante para avaliar o progresso ou a evolução da história é o grau
de consciência da liberdade que os povos alcançam em seu desenvolvimento.
Trata-se de uma concepção teleológica da história que encontramos também em
Kant, isto é, há um fio condutor nas ações humanas que conduz a um progresso
contínuo da humanidade a fim de realizar suas disposições naturais racionais,
como se a espécie seguisse um propósito da natureza.

Para Hegel, esse propósito da natureza implica a ideia da astúcia da razão,


pois é a razão que governa a história. Os indivíduos realizam seus interesses
movidos por paixões particulares, porém, eles são aliados do universal, pois
o resultado da atividade particular efetiva o universal. Ou seja, na ação de um
indivíduo, o interesse particular e universal é inseparável do histórico universal.
O indivíduo que se expõe aos perigos gerados por sua ação e se desgasta nos
conflitos de oposição, enquanto agente privado, nele, a astúcia da razão está
realizando a ideia universal de liberdade. Então, a astúcia da razão permite que
as paixões individuais atuem por si mesmas, experimentando perdas e danos,
avanços e recuos; porém, nessa luta e nessas perdas, tem-se como resultado algo
positivo, isto é, a razão afirmativa. Este é o fenômeno da progressiva consciência
da liberdade e que justifica as ações dos grandes homens não só de imediato,
mas em toda a história da humanidade. Por isso, o progresso na consciência da
liberdade torna-se o critério e o tribunal da história para avaliar quem é, ou não
é, um “grande homem”. Pois um herói permite o progresso na consciência da
liberdade, enquanto o anti-herói permite a recaída na barbárie. Então, o herói é
aquele que, em seu tempo, participa do desenvolvimento do Espírito, ou seja, da
consciência histórica como realização da liberdade.

24
TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

IHU On-Line - De que forma pode-se compreender o Espírito do mundo


como a moral do herói, e a situação privada como a moral da vítima?

Agemir Bavaresco - A famosa frase “ninguém é herói para seu criado-de-


quarto”, que, segundo os intérpretes, é atribuída a Napoleão, mostra o homem
privado na sua singularidade da necessidade imediata – representada pelo criado-
de-quarto — ainda amarrado ao domínio privado da subjetividade familiar ou
da sociedade civil, enquanto domínio da troca de mercadorias e do trabalho. No
domínio da família e da sociedade civil, o indivíduo permanece preso pelo imediato
do homem privado e de suas necessidades – o comer, o beber, o vestir. Enquanto
o herói, que já representa a esfera pública ou o lado universal do sujeito burguês,
é o sujeito que se opõe à singularidade da individualidade e, pela ação pública,
afirma sua universalidade. O herói é a encarnação reconciliada da ação privada e
pública. O agir moral da sociedade burguesa do século XVIII vive esta contradição:
o domínio privado do criado-de-quarto ou o espaço público da sociedade civil
emergente. Hegel encontra a reconciliação no herói, que se pode, aqui, interpretar
como sendo o sujeito burguês e, ao mesmo tempo, o cidadão, enquanto ele é
membro do Estado. O “burguês-cidadão” age ao mesmo tempo como criado-de-
quarto no domínio privado da intimidade de sua família ou da sociedade civil e
como cidadão na esfera pública cultural e política. O sujeito burguês sabe que ele
realiza, através de sua ação moral, a reconciliação de sua essência universal e de sua
essência singular. Por isso, o agir moral do herói moderno efetiva a reconciliação
da ação privada e pública para além de dualismos excludentes que não encontram
justificação lógica nem sustentação filosófica no pensamento hegeliano.

IHU On-Line - Quais são as implicações de que o herói hegeliano é


completamente orientado pelo Espírito do mundo e o Espírito do mundo o utiliza
para seus próprios fins?

Agemir Bavaresco - No Prefácio da Fenomenologia do Espírito (Petrópolis:


Editora Vozes, 1992), Hegel entende o conceito de Espírito como a consciência
capaz de expressar a verdade não apenas como uma substância estática, mas como
sujeito, isto é, como movimento dialético em permanente mediação na história.
Assim, o Espírito do mundo se exterioriza na objetividade das culturas, da arte,
da religião e da filosofia dos povos, na objetividade das ações dos indivíduos. O
Espírito do mundo ocupa-se dos Estados, dos povos e dos indivíduos, enquanto
estes desenvolvem seu princípio particular em suas constituições políticas,
conscientes e imersos em seus interesses; ao mesmo tempo, são meios e figuras
que passam para um grau superior da humanidade. A história do espírito é
um apreender de sua exteriorização e passagem, isto é, um apreender de novo
esse apreender, indo dentro de si a partir da exteriorização. Nesse processo de
aprendizagem, o herói é capaz de apreender a contradição do fim sempre aberto
no finito, ou seja, reinventando novos conteúdos para a liberdade ao infinito.

25
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

A filosofia da história positivista afirma que há uma linearidade na


evolução da humanidade em três estágios: o teológico, o metafísico e o positivo.
Essa evolução está vinculada à figura do herói, do grande homem que conduz
a sociedade e a própria história de um modo absoluto. Não é assim que Hegel
pensa a história, pois, para ele, há o princípio da liberdade que funciona como
critério evolutivo da humanidade, ou seja, os povos que concebem a liberdade
em grau mais elevado é que evoluem na história. O herói ou o grande homem
estão inseridos dentro deste princípio da liberdade, agindo para implementar o
espírito de seu tempo e o Espírito do mundo.

IHU On-Line - Que implicações éticas surgem da compreensão de que o


herói histórico, através de sua percepção e energia, é o sujeito da história e que o
indivíduo humano sem tal percepção e energia é o objeto da história, sua vítima?

Agemir Bavaresco - Hegel usou, inicialmente, a figura do herói para


designar o fundador do Estado. Nesse caso, o herói aparece apenas na fundação dos
Estados, isto é, antes do início da história? A rigor, o herói tem a função de fundar
o Estado, depois, uma vez que continua a marcha da história, cabe, daí em diante,
aos grandes homens levar o estandarte do Espírito para desenvolver os princípios
éticos dos povos. O grande homem é, portanto, aquele que explicita o que seu
tempo quer e realiza-o. Ele é grande, porque ele realiza o que é, objetivamente,
segundo o conceito racional da liberdade. O grande homem torna efetivos os
princípios substanciais e desenvolve as exigências do espírito do tempo. Hegel
afirma, no parágrafo 348 da Filosofia do Direito, que “no ápice de todas as ações,
portanto também das ações histórico-mundiais, situam-se indivíduos, enquanto
subjetividades que efetivam o substancial”.

Basta olhar a história mundial para constatar que ela tem sido sempre
atravessada por mudanças mais ou menos profundas. Hegel é muito atento às
transformações que têm permitido a fundação dos Estados nos diferentes momentos
de sua evolução. Ele exprime isso pelo direito do herói a fundar ou a transformar os
Estados. Hegel reserva esse direito a um momento histórico, em que não se alcançou
ainda a maturidade do conceito. Mas isso é apenas uma das possibilidades, pois,
se o conceito tende à reforma, ele não é, necessariamente, submetido a ela. Aqui,
intervém de novo o conceito de insurgência, ou melhor ainda, o direito do herói a
transformar uma situação dada. As causas que podem levar a uma insurreição são
múltiplas, como a reificação de uma sociedade ou a passividade de seus cidadãos
que torna necessária a transformação social. O conceito de seu lado pode encontrar-
se no máximo de sua paciência. É neste cenário que se justifica a intervenção dos
heróis. O direito dos heróis torna-se, então, essencialmente um direito de revolta.
Ele é um recurso constante dos indivíduos, dos grupos sociais, que se revoltam
contra uma situação de injustiça insuportável e buscam por lá fazer valer seus
direitos. O conceito tem o direito de impacientar-se. Reforma sim, se for possível.
Direito dos heróis ou insurgência se isso for necessário.

26
TÓPICO 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

O grande homem é capaz de descobrir a parte de verdade que contém


a opinião pública. Hegel, na Filosofia do Direito, quando aborda a questão da
opinião pública, afirma, no adendo ao parágrafo 319, que o grande homem de
sua época é aquele que expressa o que quer seu tempo e realiza-o. Aquele que
não é capaz de desprezar a opinião pública, tal qual se ouve aqui e acolá, não
realizará jamais nada de grande. Ele afirma que, em política, é preciso não se
deixar, imediatamente, influenciar pela opinião pública, caso contrário não se
criaria nada de verdadeiramente grande, permanecendo cativo de prejuízos ou
de proposições gerais, o que não atende à condição formal do racional. A opinião
pública imediata caracteriza-se pela impaciência, pois quer a realização do
próprio direito. A este nível do direito abstrato, cabe lembrar que a impaciência da
opinião busca realizar seu direito privado e defender seus interesses particulares.
Porém, em nível da liberdade pública, a impaciência do opinar torna-se também
portadora dos interesses universais. A opinião não suporta a lentidão da paciência
do conceito e o longo processo de efetivação de suas determinações históricas.
Isso porque a opinião tem um papel importante no cenário sociopolítico, pois
ela contém em si a força da contradição e a reserva da indignação moral e
ética, que faz mudar toda situação que não corresponde à ideia de liberdade.
Então, as implicações éticas do herói e de todo o indivíduo humano precisam
ser compreendidas que, em todas as ações, quer sejam em nível privado ou
público, quer sejam as ações histórico-mundiais, situam-se indivíduos, enquanto
subjetividades que efetivam o substancial, isto é, a mediação da opinião pública
em suas diversas esferas culturais e políticas.

IHU On-Line - Por que Hegel tinha Napoleão em mente quando falava
sobre o “grande homem”?

Agemir Bavaresco - Hegel elaborou dois conceitos para compreender os


movimentos da história: Zeitgeist (espírito do tempo) e Volksgeist (espírito do
povo). Ele pensa o seu tempo conforme a estrutura lógico-conceitual, cuja expressão
resulta na auto-organização e na autodiferenciação da realidade histórico-cultural
de seu contexto histórico. Hegel valoriza a história, o espírito do povo e o espírito
do tempo. Aquilo que corresponde ao espírito do povo pode não coincidir com
o espírito do tempo e vice-versa, pois, em determinados períodos históricos,
sobretudo em épocas de crise, em que ocorrem as grandes transformações, as
acelerações da história, a adequação ao espírito do tempo precede e faz avançar
o espírito do povo. Ou seja, na filosofia da história hegeliana, o espírito do povo
representa o princípio da continuidade, e o espírito do tempo encarna o princípio
da mudança. A razão hegeliana não se sobrepõe à história, mas também não se
limita a justificá-la, daí a dialética entre o espírito do povo e o espírito do tempo.
Segundo Hegel, essa dialética foi realizada pelo grande homem Napoleão, porque
foi capaz de reconciliar tanto o espírito do tempo como o espírito do povo.

FONTE: Texto adaptado da entrevista ‘O olhar de Hegel sobre a história e seus heróis’
proferida por Agemir Bavaresco ao Instituto Humanistas da Unisinos On Line nº 430, Ano XIII,
de 21.10.2013. Disponível em: <http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_
content&view=article&id=5234&secao=430>. Acesso em: 30 jan. 2016.

27
RESUMO DO TÓPICO 1
Nesse tópico, você viu que:

• Historiografia consiste no estudo de como se deu o processo de redação da


História, de que forma os historiadores pesquisam, organizam e narram o
conhecimento, os métodos que utilizam para alcançar e apresentar os resultados,
as categorias de análise e interpretação, o repertório conceitual, o sentido e o
valor moral/ético que foi atribuído aos fatos e ações humanas no tempo.

• O Iluminismo versava contra as narrativas mitológicas, o pensamento


dogmático, as crenças teológicas da Idade Média e advogava a favor do
pensamento racional, do progresso, da autonomia dos indivíduos e liberdade
de pensamento.

• Os critérios investigativos do método cartesiano consistem nas operações de


‘verificar’ as evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada;
‘analisar’ que significava dividir ao máximo as coisas, em suas unidades mais
simples e estudar essas coisas mais simples; ‘sintetizar’: agrupar novamente
as unidades estudadas em um todo verdadeiro; ‘enumerar’: as conclusões e
princípios utilizados, a fim de estabelecer coerência e ordem do pensamento.

• O Pensamento de Vico defendia que o desenvolvimento humano não se dava


de forma linear e que não se encontrava em marcha constante, mas que ocorria
em uma relação de integração progressiva, cíclica, espiralada, helicoidal, da
emoção à razão, da fantasia ao pensamento racional, da fase dos deuses, fase
dos heróis e a fase dos homens.

• Kant contribuiu ao pensamento histórico no sentido de que refletia que o


ser humano almeja se desenvolver, se aprimorar, e que isto se dá em meio a
contradições, competições e antagonismos de um com os outros, dinâmica que
fornece o cenário necessário de realização a todos os indivíduos.

• Hegel defendeu que as paixões constituem o motor primordial da história;


que existe uma razão/sentido por trás das ações humanas e que o pensamento
humano é capaz de captar a racionalidade na história; substitui a história linear
e progressista pela noção da relação de contradição e dialética que compõem a
natureza de todas as coisas.

28
AUTOATIVIDADE

1 René Descartes (1596-1650) foi responsável pela difusão do método cartesiano


que nortearia a prática científica moderna. Entre suas teses está a de Ego
cogito ergo sum: “eu que penso, logo existo”, que outras teses também são
referentes às teorias de Descartes?

Analise as sentenças a seguir atribuindo V para as verdadeiras e F para


as falsas:

( ) Entre os princípios de investigação encontrava-se o pressuposto da


dúvida que em contrapartida exigia que se provasse, por procedimentos e
métodos, a existência de algo.
( ) No interior do processo de investigação do funcionamento ou da
composição de um ser ou objeto o autor defendeu que fazia necessário
dividir, isolar, reduzir e reunir/recombinar novamente o que estivesse
sendo estudado.
( ) Em meio aos exercícios de investigação deviam ocorrer as operações
de verificar, analisar, enumerar e sintetizar, e deveriam ser as partes
primordiais para que se garantisse a verdade no interior do processo
científico de produção do conhecimento.
( ) O autor defendeu que a ciência e os métodos de investigação deveriam
buscar a verdade como finalidade, e como método deveria resguardar a
integridade dos seres e não intervir nos fenômenos e ao em meio/sociedade
em que eles ocorrem.

Agora, assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) V- F- F- V.
b) ( ) F- F- V- F.
c) ( ) V- V- V- V.
d) ( ) V- V- V- F.

2 Na tabela a seguir procure preencher variáveis que fazem parte do


pensamento de cada autor:

VARIÁVEIS VICO KANT HEGEL


PRINCIPAIS CONCEITOS
DINÂMICA/FASES DE
DESENVOLVIMENTO
FATORES RESPONSÁVEIS
POR MUDANÇAS/
DESENVOLVIMENTO
FINALIDADE/
TENDÊNCIAS A
LONGO PRAZO
IMPORTÂNCIA DA
HISTÓRIA

29
30
UNIDADE 1
TÓPICO 2

O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX

1 INTRODUÇÃO
O contexto histórico no qual se instaura a filosofia positivista foi o das
revoluções e o dos grandes impérios, em que ocorria paulatinamente a desagregação
das estruturas remanescentes da sociedade feudal, e em contrapartida, a consolidação
da civilização capitalista; nas relações internacionais à política imperialista e uma
espécie de eclosão em grande escala dos acontecimentos políticos, econômicos,
religiosos e artísticos, que se acumulavam e avolumavam desde o século XVIII.

A produção capitalista, que introduziu a máquina a vapor, a modernização


dos métodos de produção, acabou por desintegrar costumes e introduzir novas
formas de organização da vida social. A transição da produção artesanal para a
manufatureira e desta para a produção fabril, foi o fator principal para o surgimento
de novos sujeitos, novas realidades e acordos sociais, que se caracterizaram pela
migração do campo para a cidade; pelo fim da servidão; pelo desmantelamento
da família patriarcal; pela introdução do trabalho feminino e infantil.

No campo da produção científica ocorreu a tendência da universalização


do conhecimento ocidental, no qual a sociedade industrial sinalizava ao alcance da
condição de prosperidade e de poder; no sentido de que a cada indivíduo, conforme
a sua capacidade e aptidão, seria capaz de obter. Assim, a indústria passa a se
alinhar à organização científica do trabalho, que produziria crescimento constante
das riquezas e a concentração dos operários no interior das fábricas.

Em meio ao curso destes fatores, duas ideologias se destacavam, a do


positivismo, que ia ao encontro aos interesses das mudanças de pensamento e as
revoluções tecnológicas, e o marxismo, que procurava refletir sobre os impactos
destas mudanças e denunciar os impactos e as perdas sociais e culturais que a
primeira era responsável por fomentar.

Caro acadêmico! Prossiga na leitura, pois cada uma delas, positivismo e


marxismo, será estudada e aprofundada nas próximas páginas desta unidade.

31
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

2 O POSITIVISMO COMTEANO: A FÍSICA SOCIAL E A HISTÓRIA


ENQUANTO CIÊNCIA DO PASSADO
Não se conhece completamente uma ciência
enquanto não se souber da sua história.

Auguste Comte

Auguste Comte (1798-1857) foi politécnico organizador, bem como hostil


ao pensamento socialista/marxista e quem fosse inimigo da propriedade privada.
Possuía como objetivo fundar uma ciência social, que deveria ser chamada de
física social ou sociologia, que no pensamento de Comte somente a síntese das
ciências e com a criação de uma política positiva daria conta de analisar conflitos
e as contradições sociais e propor reformas e soluções.

O principal ponto de partida residia no próprio século XIX, que almejava


superar a tradição teológica e favorecer a transição a uma sociedade científica
e industrial. Os principais temas que interessaram a Comte foram a filosofia da
História, a classificação das ciências e física social ou sociológica. Para tanto escreveu
as obras Curso de Filosofia Positiva – 6 volumes (1830-1842), Discurso Preliminar
sobre o Espírito Positivo (1844) e Sistema de Política Positiva – 4 volumes (1851-1854).

Comte defendeu a lei dos três estados pelos quais o espírito humano percorre
em seus estágios de desenvolvimento: estado teológico ou fictício (fenômenos
sobrenaturais); estado metafísico ou abstrato (fenômenos da natureza); e o estado
científico ou positivo (fatos e leis que determinavam a realidade): maneira de pensar
positiva. Vamos analisar com mais detalhes como funcionava a filosofia histórica
das ‘leis dos três estados’ que Comte formulou e procurou explicar.

QUADRO 3 - OS TRÊS ESTADOS DE COMTE


Os fenômenos e fatos sociais são explicados a partir de causas sobrenaturais
ou vontades divinas/transcendentais.
ESTADO TEOLÓGICO
O mundo e as relações humanas tornam-se compreensíveis a partir do ponto
de vista da divina providência.
É o estado de transição, no qual o homem procura explicar os fenômenos
que o rodeiam através da abstração e da argumentação, fazendo com que
a metafísica deslegitime a influência da ideia teológica, em que prevalece a
ESTADO METAFÍSICO
subordinação da natureza e do homem ao sobrenatural.
Neste momento, predomina o uso da razão e da especulação. É a fase em que
o espírito se prepara para a chegada da ciência.
Se caracteriza pela subordinação da imaginação e da argumentação, diante
da observação. Neste momento, ocorre o abandono da busca das causas dos
fenômenos (como fazia o teológico e metafísico).
ESTADO POSITIVO
O homem procura compreender as ideias reais dos fenômenos, através da
observação direta e da pesquisa das leis que regem os fenômenos, que já são
independentes da vontade de Deus e dos homens.

FONTE: Os autores

32
TÓPICO 2 | O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX

Aron (1999) descreve que os três estados formulados por Comte precisam
ser compreendidos ao longo da História francesa, no sentido de reconhecer a
dependência que existe de um momento histórico com o outro. Neste raciocínio
que deve ser entendida as sucessões políticas do governo francês, a ‘Restauração’
só pode ser compreendida pela ‘Revolução’, e ‘Revolução pelos séculos de ‘regime
monárquico’. Com base nestas três variáveis e processos de desenvolvimento,
encontrava-se estruturada a nova ciência, a filosofia positiva, agora nomeada de
sociologia, que reconhecia a prioridade do todo sobre o elemento e da síntese
sobre a análise, e por sua vez possuía o objeto a história da espécie humana.

O conhecimento positivo se caracterizou pela previsibilidade; o “ver para


prever” que funcionou como lema da ciência positiva. A previsibilidade científica
permitiria o desenvolvimento da técnica e, assim, o Estado corresponderia ao pleno
desenvolvimento industrial, no sentido de exploração da matéria-prima (recursos
naturais) e do trabalho do homem. Neste estado, Comte determinou que o poder do
conhecimento passaria para os sábios e cientistas e o poder material para as indústrias
e os industriais, configurando assim o desenvolvimento científico e tecnológico.

No pensamento positivista de Comte a civilização material só poderia


se desenvolver se cada geração produzisse mais do que o necessário para sua
sobrevivência, transmitindo assim à geração seguinte um estoque de riqueza
maior do que o recebido da geração anterior. Comte foi um organizador que
desejava manter a propriedade privada e transformar seu sentido, para que
embora exercida por alguns indivíduos, tivesse também uma função social
(catolicismo social).

Para Comte, as ciências libertavam o espírito humano da tutela exercida


sobre ele pela teologia e pela metafísica, e que a partir de então tendia a se
prolongar indefinidamente. Consideradas no presente, elas deveriam servir,
seja pelos seus métodos, seja por seus resultados gerais, para determinar a
reorganização das teorias sociais. Consideradas no futuro, constituiriam a base
espiritual permanente da ordem social, enquanto durar a atividade da nossa
espécie no planeta.

DICAS

Os principais adeptos do positivismo no Brasil: Benjamin Constant, Nísia Floresta


Augusta Brasileira (Dionísia Gonçalves Pinto, a primeira feminista brasileira e discípula direta
de Auguste Comte), Miguel Lemos, Euclides da Cunha, Luís Pereira Barreto, Marechal Cândido
Rondon, Júlio de Castilhos, Demétrio Ribeiro, Carlos Torres Gonçalves, Ivan Monteiro de
Barros Lins, Lindolfo Collor, João Pernetta, Luís Hildebrando Horta Barbosa, Júlio Caetano
Horta Barbosa, entre outros.

33
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

3 O MATERIALISMO HISTÓRICO
A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco.
Karl Marx

O centro do pensamento de Karl Marx (1818-1883) reside em compreender


e denunciar as contradições do regime capitalista. As principais influências
teóricas de Marx são as do idealismo alemão de Hegel e seus seguidores, os
estudos de economia política inglesa feita por Adam Smith (1723-1790), Jean-
Baptiste Say (1767-1832) e David Ricardo (1772-1823), o socialismo utópico
francês representado por Saint Simon (1760-1825), Jean-Baptiste Fourier (1768-
1823) e Robert Owen (1771-1858).

Quando Marx entra na Universidade, o universo acadêmico e científico


da época era dominando pelas ideias de Hegel. Foi da tese de Hegel de que “a
consciência é que determina a existência”, que Marx retirou a sua principal chave
de entendimento e explicação do seu momento histórico, mas agora com Marx na
perspectiva inversa, a de que é “a existência que determina a consciência”.

Para Hegel a racionalidade está por trás de tudo no mundo e a filosofia


tem o poder de compreender a racionalidade da história, ou seja, o pensamento
capta a racionalidade da história. Para Marx, Hegel e todos os filósofos estavam
alienados e poderiam ser chamados de a-históricos, e, segundo suas teses,
as características da história seriam sempre as mesmas em todas as épocas, a
natureza humana era somente crítica; procuravam mudar, transformar o mundo
com filosofias e teorias. Marx, em contrapartida, defendia que o mundo não se
transforma com o pensamento, com críticas, o mundo se transforma pela ação
politicamente orientada, que ele preferiu chamar de práxis, e que se faziam
necessárias tanto a explosão como a revolução das antigas estruturas.

Marx, ao longo da vida intelectual e financeira, contou com a ajuda


de Friedrich Engels (1820-1895). No livro ‘A Ideologia alemã’, de 1846, ambos
abordam as bases do materialismo histórico, e procuram ao longo da obra
defender que o homem é fruto do seu trabalho e das relações de produção, e não
da vida espiritual e intelectual que levam. Para Marx o trabalho é o que diferencia
e distingue os seres humanos de outras espécies.

A concepção de História defendida por Marx e Engels residia no fato de que


está na vida material, no modo de produção e na estruturação da sociedade civil,
as chaves de entendimento de todo o processo histórico, e que ao invés de resultar
em ‘emancipação e autonomia’ do homem, como foi defendido pelos iluministas e
idealistas, o que ocorre é a exploração e a ‘alienação’ dos indivíduos. Com a defesa
destes termos, Marx e Engels foram responsáveis por tecer as críticas mais expressivas
às teorizações defendidas anteriormente tanto por Kant e como por Hegel.

34
TÓPICO 2 | O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX

Dosse (2003) explica que no paradigma marxista a História resulta de uma


dinâmica dialética de transformação das relações sociais de produção e das forças
produtivas; e que as contradições resultantes em meio a este processo é que são
responsáveis pelo processo de mudança/revolução na história. Em meio a isso
o autor sugere que se faz necessária a práxis, ou seja, a prática política orientada
(por meio de sindicatos e partidos políticos) para favorecer a conscientização dos
indivíduos dos processos de exploração, alienação e organização da revolução
que estão submetidos.

Para Marx e Engels o processo histórico obedece aos critérios econômicos,


que se encontram permeados pelos modos de produção, pela divisão do trabalho
e pelas diferentes formas de propriedade. Os modos de produção tratam como
uma sociedade em uma determinada época e região se organizou para obter,
produzir, distribuir e usufruir os itens de necessidade material.

O modo de produção é composto pelas forças de produção e pelas relações


de produção. As forças de produção são compostas por materiais, tecnologias,
instrumentos, equipamentos; as relações de produção compostas pela dimensão
política, pelos aspectos jurídicos, pelas tradições religiosas, expressões artísticas,
correntes filosóficas, entre os homens.

Segundo Marx e Engels, as fases do processo histórico seguiriam as


seguintes fases e estágios:

QUADRO 4 - SÍNTESE DO MODOS DE PRODUÇÃO

MODO DE PRODUÇÃO FORMAS DE ORGANIZAÇÃO


Trabalho em conjunto, os frutos do trabalho eram propriedade
coletiva, relações de trabalho baseadas na cooperação, os meios
COMUNISMO
de produção eram coletivos; não existia Estado, não havia classes
PRIMITIVO
sociais.
Corresponde às primeiras organizações humanas na história.
Camponeses são os responsáveis pela produção, a organização
do trabalho era compulsória, cujo excedente deveria ser entregue
ao Estado. Os integrantes do Estado compunham o grupo de
aristocratas.
O florescimento das atividades comerciais, o crescimento da
SOCIEDADE TRIBAL
escravidão seguida de rebeliões, a ambição pela propriedade
(ASIÁTICA)
privada foram os fatores responsáveis pela decadência deste modo
de produção.
São exemplos desta forma de organização as civilizações da
Mesopotâmia e do Egito, as primeiras sociedades da China, África,
Índia e os povos americanos.
A sociedade basicamente se resumia em proprietários de terras e
escravos; e de outros, os próprios escravos que eram as únicas forças
SOCIEDADE ANTIGA de produção, entendidos e tratados como animais e ferramentas, ou
seja, também como meios de produção.
Os exemplos mais expressivos são Grécia e Roma Antiga.

35
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Senhores e servos/camponeses formavam os principais grupos


sociais.
Os servos encontravam-se vinculados aos senhores por laços de
dependência para com moradia e terra para produzir os itens de
subsistência, em contrapartida deviam trabalhar, realizar serviços
(trabalho servil) no interior da propriedade do senhor feudal, assim
SOCIEDADE FEUDAL
como entregar parte da produção obtida e se submeter às leis políticas
e religiosas.
O enfraquecimento da tutela religiosa, as crises nas colheitas as
contradições entre dominantes e dominados e o florescimento do
comércio e da vida nas cidades.
Predominou na Europa Ocidental ao longo da Idade Média.
A propriedade privada e os meios de produção se tornaram um
privilégio de uma minoria de capitalistas. O trabalhador vende sua
força de trabalho em troca de um salário (trabalho assalariado).
Divisão e especialização do trabalho.
A produção é organizada conforme as necessidades da burguesia.
Capitalistas e burgueses almejam a maior obtenção de lucro possível.
A produção passou a ocorrer no interior de fábricas e indústrias.
CAPITALISMO
Foi um modo de produção que passou a se fortalecer a partir do
século XV, XVI e se desenvolveu amplamente na sociedade ocidental
nos séculos XIX e XX.
De maneira resumida o capitalismo passou pelas fases de
acumulação primitiva de capital, predomínio do capital mercantil
na organização da produção, capitalismo industrial e do capitalismo
financeiro.
Modos de produção que suplantariam de forma revolucionária o
capitalismo. O último estágio de desenvolvimento da produção.
SOCIALISMO/ Inexistência de classes, igualdade social, ausência de divisão do
COMUNISMO trabalho, seja intelectual ou manual. Propriedade e riqueza coletiva
e a distribuição seria regido pela máxima de “de cada um de acordo
com a sua habilidade, para cada um de acordo com o seu trabalho”.

FONTE: Os autores

Segundo Marx e Engels, o modo de produção capitalista engendrava as


próprias contradições e crises, e estas seriam as oportunidades de derrubar o
próprio sistema. A contradição entre as forças e as relações de produção eram as
mais expressivas sendo que, os meios de produção crescem e ficam sofisticados,
enquanto as relações de produção e a distribuição de renda não se transformam no
mesmo ritmo e promoviam o aumento da riqueza de uma minoria (capitalistas e
burgueses) e a pobreza crescente da maioria (trabalhadores e proletários).

A luta de classes seria o motor da história, responsável por promover as


condições necessárias à transformação, cujo fim era o de alcançar uma sociedade
mais justa e não antagônica. Neste contexto recaía ao proletariado o papel de
ator protagonista em fazer a revolução e transformar a sociedade. Conforme
defendiam estes estudiosos, quando a classe proletária tomasse o poder, seria
abolida, por violência, a antiga relação de produção (capitalista). A antiga
sociedade seria substituída por uma associação em que o livre desenvolvimento
de cada um desencadearia a condição do livre desenvolvimento de todos.

36
TÓPICO 2 | O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX

Observe a imagem a seguir, na qual o Partido Bolchevique, liderado por


Lenin, toma o palácio de Zimmy, na Rússia em outubro de 1917.

FIGURA 2 - TOMADA DO PALÁCIO ZIMNY EM 25/10/1917

FONTE: <http://www.educacional.com.br/recursos/conteudomultimidia/poref2/p010/01/02/
principal.htm>. Acesso em: 30 jan. 2016.

De forma resumida, o paradigma marxista apresenta a seguinte


perspectiva de história:

 a realidade social é mutável;


 a mudança está submetida à leis que se encaixam em outras leis históricas;
 as mudanças tendem a momentos de equilíbrio relativo.

Entre os exemplos de sociedades que implantaram revoluções de cunho


socialista/comunista, existem os exemplos da Rússia (1917), China (1911), Cuba
(1959), Vietnã do Norte (1950), Alemanha Oriental (1949), Coreia do Norte (1948).

Marx e Engels também formularam e explicaram os conceitos de alienação,


que resulta da divisão do trabalho e que é responsável perda da totalidade e da
dignidade humana; classe social, que consiste em um grupo que ocupa um lugar
determinado no processo de produção. Para que uma classe exista é preciso que
haja a tomada de consciência da unidade e sentimento de separação, até mesmo
de hostilidade, de uma em relação à outra; superestrutura e infraestrutura, em
que a superestrutura abarca as instituições jurídicas e políticas, bem como os
modos de pensar, as ideologias e as filosofias; e a infraestrutura, a base econômica
e produtiva da sociedade.

37
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

DICAS

A recepção das teorias marxistas na intelectualidade brasileira pode ser


identificada nos estudos de: Astrogildo Pereira (1890-1985), Otávio Brandão (1896-1980), Caio
Prado Júnior (1907-1990), Oswald de Andrade (1893-1945), Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987), Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Otto Maria Carpeaux (1900-1978),
Nelson Werneck Sodré (1911-1999), Antônio Cândido (1918), Roberto Schwarz (1938), José
Guilherme Merquior (1941-1991) e Ciro Flamarion Cardoso (1942).

4 O MATERIALISMO DIALÉTICO
Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes;
a questão, porém, é transformá-lo.
Karl Marx

Platão (428-347 a.C) e Aristóteles (384-322 a.C) já discutiam a noção de


dialética, sob a nomenclatura de a ‘arte da conversação’, mas restringia-se ao universo
especulativo e idealista que trata do movimento universal e de transformação
constante das coisas, que já havia sido contemplado nos estudos de Hegel.

A concepção de ‘materialismo dialético’ que Marx e Engels desenvolveram


é oriunda dos estudos de Ludwig Feuerbach (1804-1872) presentes nas obras
“Essência do cristianismo” e “Pensamentos sobre a filosofia do futuro” escritos
entre 1841-1843; que somada à tradição de antagonismo social latente desde
a Revolução Francesa, ao contexto de industrialização, da formação dos
movimentos operários (cartismo e ludismo) forneceu a base de referências para
que Marx e Engels desenvolvessem a questão com propriedade.

Marx e Engels aproveitam os elementos racionais da dialética de


Hegel, negam a dimensão idealista e a adaptam à práxis social, reconhecem a
vida cotidiana e ao modo de produção como responsáveis pela transformação
da consciência e da subjetividade dos indivíduos. Os fenômenos materiais e
mecanicistas passam a ser entendidos como os verdadeiros responsáveis pelo
desenvolvimento das atividades humanas; tendo em conta estes pressupostos
acabavam por refutar tanto a tradição idealista como a tradição moral religiosa
que visava meramente observar e constatar os fenômenos sociais.

A pauta da discussão do materialismo dialético residiu na proposta de


que o método utilizado para compreender os fenômenos da natureza e gerar
conhecimento deveria ser o dialético, e a interpretação, a base conceitual de
verificação deste conhecimento, de natureza materialista. A noção central residia
no fato de que o desenvolvimento de qualquer atividade humana se dava
a partir de contradições, no caso dos estudos do marxismo, os elementos que
protagonizavam esta contradição foram o proletariado e o capitalista/burguês.

38
TÓPICO 2 | O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX

Para ilustrar esta abordagem da realidade, Marx e Engels partiam


do raciocínio de que o homem tem necessidade de comer e beber, ou seja, de
sobreviver antes de filosofar ou expressar-se artisticamente; o restante (Estado,
instituições civis, religiões, cultura...), se desenvolveria no prolongamento.
Primeiro os homens almejavam satisfazer suas necessidades básicas: a vida
material determina a vida intelectual; o ser social, determina a consciência social;
o material determina o espiritual e os assuntos sociais.

A sociedade, os fatos e os acontecimentos sociais deveriam ser tomados


na sua totalidade; a economia entendida como a responsável por organizar as
estruturas básicas da sociedade; a política e a cultura estabeleciam as formas
históricas de gestão econômica. Em meio a este contexto de determinações o
materialismo dialético serviria como referência tanto como categoria de análise
como de orientação teórica à ação prática da política revolucionária.

Como já foi estudado anteriormente, os modos de produção: comunismo


primitivo, escravismo antigo, asiático, o feudalismo e o capitalismo se sucederiam
ciclicamente um a um, até entrarem em colapso e atingirem definitivamente o
estágio do socialismo/comunismo. A concepção materialista da história previa o
cumprimento de um futuro histórico em suas linhas gerais, que supunha arquitetar,
exercer influência e até mesmo dirigir o desenvolvimento das atividades humanas.

UNI

Caro acadêmico!

Quando Marx e Engels propuseram o materialismo dialético, viviam em uma época em que
ocorria o desenvolvimento e ascensão do capitalismo nos sistemas de produção. Porém a
exploração, a acumulação da riqueza e aumento da pobreza sugeria que em pouco tempo
os trabalhadores tornar-se-iam conscientes e empreenderiam a revolução, derrotariam o
capitalismo e instaurariam socialismo/comunismo.
As previsões dos autores somente se concretizaram em casos específicos de países em que
ocorreu a mudança de sistema econômico e regime político de forma revolucionária (Rússia,
China, Cuba, entre outros). De maneira geral, aos demais países ocidentais, o que se sucedeu foi
que o capitalismo passou por sucessivas crises, mas que foram gradualmente superadas com
ajustes econômicos e políticos que salvaguardavam os interesses de mercado, e que conferiam
espaço privilegiado aos grupos financeiros em meio aos governos/Estados ao ponto de estes
não conseguirem mais garantir os direitos mínimos e o bem-estar de suas populações.

39
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

UNI

SUGESTÃO DE FILME:

Para aprofundar a reflexão que foi sugerida anteriormente, procure assistir ao filme:
‘Capitalismo: uma história de amor’
O filme/documentário procura remontar os momentos e situações políticas que foram
responsáveis por desencadear a crise econômica do início dos anos 2000 no país. Denuncia
a ação dos bancos em deixar a crise se agravar, bem como a preferência do governo
norte-americano em injetar dinheiro nos bancos para evitar a falência ao invés de atender
à população que se encontrava desempregada e perdendo suas propriedades imobiliárias
pelas hipotecas assumidas com os bancos. Por outro lado, o documentário se preocupa em
demonstrar as respostas da população ao governo e aos bancos, em termos de manifestações
e reocupação das casas. Capitalismo: uma história de amor. Michael Moore, EUA, 2009. 120
min. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=FaMRSjiL4IE>.

40
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• O positivismo comteano almejava fundar uma nova ciência e a partir desta,


analisar os problemas e conflitos e fornecer soluções para eles.

• Conforme a filosofia positivista, para que o espírito humano se desenvolva é


necessário que o espírito humano passe pelos estágios teológico, metafísico e
positivo.

• O pensamento positivista caracterizava-se pela previsibilidade,


desenvolvimento da técnica e da ciência, valorização da indústria, do trabalho
industrial, do poder material.

• O materialismo histórico deve-se ao embate feito por Karl Marx às ideias de


Hegel, nos termos de que, segundo Hegel, “a consciência é que determina a
existência”, para Marx “a existência determina a consciência”.

• Marx e Engels defendiam que o mundo não se transforma com o pensamento,


com críticas ou leis abstratas, mas ação politicamente orientada, a práxis, e
que se faziam necessárias tanto a explosão como a revolução para superar as
antigas estruturas.

• O centro do pensamento marxista residia nas ideias de que a realidade social


é mutável, a mudança está submetida às leis que se encaixam em outras leis
históricas e as mudanças tendem a momentos de equilíbrio relativo.

• O materialismo dialético reconhece a vida cotidiana e ao modo de produção


como responsáveis pela transformação da consciência e da subjetividade dos
indivíduos. Os fenômenos materiais e mecanicistas passam a ser entendidos
como os responsáveis pelo desenvolvimento das atividades humanas.

• A noção central do materialismo dialético residia no fato de que o desenvolvimento


de qualquer atividade humana se dava a partir de contradições, no caso dos
estudos do marxismo, os elementos que protagonizavam esta contradição
eram o proletariado e o capitalista/burguês.

41
AUTOATIVIDADE

1 Os pensadores alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-


1895) dedicaram a trajetória política e intelectual em entender como
funcionava a sociedade industrial e revelar as contradições que o sistema
capitalista estava gerando no interior da sociedade europeia que acabava
de se modernizar; as preocupações e militância de ambos fez com que eles
encontrassem inúmeros adversários por onde passassem, ou seja, nos meios
acadêmicos ou econômicos/financeiros. Com relação às principais teorias
defendidas por Marx e Engels, analise as sentenças a seguir:

I- Os indivíduos determinam sua vida a partir das condições materiais, ou


seja, das circunstâncias estruturais com as quais se deparam e mobilizam
para sobreviver.
II- Para romper com as condições estruturais da sociedade capitalista se faz
necessária a luta de classes e a revolução, que deve ser conduzida pelo
proletariado.
III- No interior da sociedade capitalista, o que determina e rege a política são
os interesses econômicos dos grupos proprietários do capital.
IV- A existência de um indivíduo é determinada pela sua consciência,
pelas ideologias, pelas estruturas políticas e intelectuais que toda a
sociedade possui.

Agora, assinale a alternativa CORRETA:


a) As sentenças I, II e III estão corretas.
b) As alternativas II, III e IV estão corretas.
c) Somente as sentenças II e III estão corretas.
d) Somente as sentenças I e II estão corretas.

2 Na tabela a seguir, procure preencher variáveis que fazem parte do


pensamento de cada autor:

VARIÁVEIS POSITIVISMO MARXISMO

PRINCIPAIS CONCEITOS

DINÂMICA/FASES DE
DESENVOLVIMENTO

42
FATORES RESPONSÁVEIS POR
MUDANÇAS/DESENVOLVIMENTO

FINALIDADE/TENDÊNCIAS A
LONGO PRAZO

IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA

3 Construa um texto explicando o ponto central e a justificativa da tese de


Marx e Engels contra o pensamento de Hegel e dos idealistas de sua época.

43
44
UNIDADE 1
TÓPICO 3

O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

1 INTRODUÇÃO
O historicismo deu o passo primordial no reconhecimento da História
como ciência ao defender pela primeira vez que a interpretação histórica consiste
na operação essencial do pesquisador em história, distinguindo e diferenciando o
fazer das demais ciências humanas e sociais. A interpretação historicista transformou
os fatos, os resultados das fontes, em fatos históricos, vinculando-os uniformemente
e linearmente à noção temporal de passado, presente e futuro, agora dotados de
coerência e sentido; ou seja, transformando os resultados empíricos em “história”.

O historiador do historicismo defendia que a história se constituía pelas


forças espirituais da ação humana, o que implicava uma espécie de autoafirmação de
que a classe média culta seria a classe dotada de competência e criatividade cultural
e que deveria dominar e conduzir as transformações que se encontravam em curso.

A separação entre passado e presente representava um dos principais


fazeres historicistas. A competência de vasta erudição bastava para trabalhar com os
períodos recuados, e foi responsável por garantir praticamente o monopólio do saber
histórico aos especialistas. Assim os historiadores recrutados pelas universidades do
final do século XIX se especializaram em Antiguidade e Idade Média, períodos que
exigiam o domínio de um conjunto de procedimentos eruditos, como por exemplo
o conhecimento de línguas como o grego e o latim. Com isso pretendiam impor
critérios rígidos que permitissem separar os verdadeiros historiadores dos amadores.

2 A HISTÓRIA, AS FONTES E A ESCRITA


Dosse (2003) discute que o ‘bom historiador’ metódico e historicista poderia
ser reconhecido pelo amor que dedicava ao trabalho, pela modéstia e pelos critérios
incontestáveis de julgamento científico, ou seja, a grandeza do historiador estava na
capacidade de controlar a sua subjetividade. Os estudiosos que se destacaram neste
período foram Jules Michelet (1798-1874), Johann Gustav Droysen (1808-1884) e
Leopold von Ranke (1795-1886), Faustel de Coulanges (1830-1889).

Os documentos, as principais fontes/testemunhos de pesquisa do historicismo


ganhavam relevância ainda no século XVII, quando na linguagem jurídica francesa
surgiu a expressão titres et documents (filtro dos documentos), porém o sentido
moderno de ‘testemunho histórico’, data apenas do início do século XIX.

45
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

O documento que, para a escola historicista do fim do século XIX e do


início do século XX, foi o fundamento do ‘fato histórico’, mesmo que resultasse da
escolha, da decisão do historiador, para aqueles historiadores apresentava-se por si
mesmo como a verdadeira ‘prova histórica’.

Desde as teorias da escola positivista, o documento passou a ser


monumentalizado. A partir de então, todo o historiador que se dedicava a
escrever a história era indispensável o recurso do documento. E o melhor dos
historiadores deveria proceder a uma forma que se mantivesse o mais próximo
possível dos textos. A habilidade primordial solicitada aos historiadores deste
período consistia em tirar dos documentos tudo o que eles continham e em não
lhes acrescentar nada do que eles não continham.

O ponto de partida do ofício de historiador envolvia pesquisar


documentos, reuni-los, classificá-los e, com o amparo das chamadas
‘ciências auxiliares’ da história, proceder à crítica externa,
especialmente sobre a origem das fontes; em seguida passar à crítica
interna visando à determinação dos fatos para, finalmente, coroar
com a construção narrativa, agrupando e ordenando os fatos numa
sequência de causalidades. (SILVA, 2001, p. 196).

Observe o quadro a seguir, no qual procuramos sistematizar a perspectiva


de história que foi defendida pelos historicistas:

QUADRO 5 - SÍNTESE DO PENSAMENTO HISTORICISTA

VARIÁVEIS HISTORICISMO: definições


O passado escrito, registrado em textos e
OBJETO DE ESTUDO
documentos.
Tempo curto (èvènementelle), acontecimentos e fatos
NOÇÃO DE TEMPO instantâneos, localizados; com a ideia do progresso
simples (linear) e cumulativo.
Documentos escritos e oriundos de instituições
FONTES HISTÓRICAS
oficiais (Estado, exército, marinha, diplomacia).
Crítica interna e externa do documento, através das
TÉCNICAS DE APOIO “ciências auxiliares”: diplomática, numismática e
paleografia.
O QUE É HISTÓRIA? Uma ciência do passado.
História essencialmente descritiva, narrativa,
RESULTADOS
imparcial e objetiva.
FONTE: Os autores

Os historiadores se preocupavam no sentido de promover uma acumulação


volumosa de trabalhos científicos; os temas ganhavam uma abordagem linear
e eram enriquecidos pelos conhecimentos advindos das áreas vizinhas como a
antropologia, numismática, paleografia, epigrafia, diplomacia, entre outras.

46
TÓPICO 3 | O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

3 O EXEMPLO DE LEOPOLD VON RANKE (1795-1888)


A história foi atribuída a função de julgar o passado, de instruir os
homens a tirar o melhor proveito dos anos por vir. A tentativa atual não
tem tamanha pretensão. Ela aspira, meramente, mostrar como as coisas
efetivamente aconteceram (RANKE apud RÜSEN, 1996, p. 76-77).

Ranke (1795-1888) estudioso alemão, foi responsável por defender o uso


de método científico na pesquisa histórica que privilegiava as fontes primárias
e a erudição em meio à narrativa. Ranke discursava que os profissionais da
história deviam estar comprometidos em apresentar o passado, transformado em
conhecimento histórico tal como o passado realmente foi, em um todo coerente
e inteligível, ou seja, que a narrativa fosse isenta dos excessos do observador, em
especial de julgamentos morais e políticos.

Ranke foi responsável por fornecer as diretrizes da pesquisa histórica


do século XIX. As principais referências em que se inspirou foi Tucídides (460
a.C-400 a. C), Tito Lívio (59 a.C – 16 d.C.), J. V. Goethe (1749-1832) e Immanuel
Kant (1724-1804). Pesquisava os ‘‘grandes momentos da história’’, centrava seus
estudos na história das grandes nações da Europa, na origem dos povos alemães,
franceses e ingleses. Foi um apaixonado por arquivos, suas principais fontes
eram os documentos de governos, relatórios secretos que estavam em posse do
governo prussiano, ex. Relazioni dos embaixadores venezianos; estudou ‘‘grandes
personagens’’ como Carlos V da Burgúndia.

Negou as teorizações de Hegel e de toda a filosofia histórica do século XVII,


no ponto em que aquela não reconhecia o ser humano como agente transformador
da história; criticou também as tendências de narrar o passado como uma espécie
de ‘romance histórico’ que haviam sido difundidas por Walter Scott (1771-1832),
que segundo Ranke pecavam com relação à veracidade dos fatos. Observe como
Jaspers (2010) explica o sentido da história que Ranke propôs:

A História, como ciência, tem propósito diferente [da história que


recorre ao mito]. Desejamos saber o que efetivamente se passou. Em
consequência, apenas apegamo-nos às realidades ainda presentes
ou a suas fontes: documentos, relatos, testemunhas, monumentos,
realizações técnicas, produções artísticas e literárias. Percebemo-
las através dos sentidos, mas isso não há de fazer-se de forma que
patenteie o sentido intencional nelas contido. A ciência estende-se até
o ponto em que sejamos capazes de corretamente compreender os
tangíveis registros do passado e até o ponto em que possamos verificar
a correção dos testemunhos que nos oferece. (JASPERS, 2010, p. 28).

Ranke, assim como os demais historicistas de seu tempo, influenciados


pelas ciências sociais, estavam imbuído de que a história se caracterizava por
generalizações ou leis universais. Ranke apresentava suas teorizações na tentativa
de fazer contraponto à tradição da filosofia especulativa e do moralismo religioso
que perduravam até então. Porém, suas teses acabaram por ser indefensáveis;
na perspectiva rankeana. Bastava reunir um número significativo de fatos bem
documentados e que já havia cumprido a função do historiador e da história. E
neste ponto, a reflexão teórica ou filosofia trariam complicações ao conhecimento
histórico, pois levantavam dúvidas e especulações.

47
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Por outro lado, foi criticado pelos estudiosos das gerações sucessoras
por contribuir para uma história de antiquários e sem finalidades/justificativas
ou relevância social do conhecimento que estava sendo produzido. Ao longo
do século XX, a Escola dos Annales das duas primeiras gerações dedicou-se a
fazer as principais críticas a Ranke e que serão temas de estudos nas próximas
unidades deste livro.

Para compreender melhor o contexto social, científico e intelectual do


final do século XVIII e meados do século XIX, aproprie-se da sugestão de leitura
e filme apresentada a seguir:

DICAS

Sugestão de leitura e cinema: FAUSTO, DE GOETHE

O enredo:
A obra foi publicada em 1808 e apresenta Dr. Fausto, um cientista estudioso que, desiludido
com a ciência e o conhecimento de seu tempo, faz um pacto com o demônio, apresentado
com o nome de Mefistófeles, que o entusiasma e deslumbra com as possibilidades da
técnica e do progresso moderno. O personagem de Mefistófeles se apresenta como
oportunista, exaltado, egoísta e sem escrúpulos morais, ajustava-se e poderia ser associado
com perfeição ao perfil de um empresário capitalista ávido por recompensas materiais e
financeiras.
Mefisto induzia Fausto com a ideia de que seus empreendimentos não eram somente em
benefício próprio e imediato, mas, antes, estariam contribuindo com o futuro da humanidade
e, a longo prazo, o que promoveria benefícios, alegria e liberdade de todos.
Os personagens de Mefistófeles e Fausto criaram uma espécie de síntese histórica, que
combinava poder privado e poder público: Mefistófeles, o pirata e predador privado, que
executa a maior parte do trabalho sujo, e Fausto, o administrador público, que concebe
e dirige o trabalho como um todo. A obra termina em meio às conturbações espirituais e
materiais de uma revolução industrial.
Fausto apresenta-se como um dos grandes problemas éticos e morais de sua época: vendia
sua alma, valores morais e dignidade em troca de determinados bens materiais, que por sua
vez representavam itens universalmente desejados, como dinheiro, sexo, poder sobre os
outros, fama e glória; e tudo o mais ao mesmo tempo, uma espécie de processo dinâmico
que incluiria toda sorte de experiências humanas, alegria e desgraça juntas, assimilando-as
todas ao seu interminável crescimento interior; até mesmo a destruição do próprio eu que
seria parte integrante do seu desenvolvimento.

LIVRO: GOETHE, Johann H. Fausto: uma tragédia. São Paulo: Editora 34, 2004. 552 p.
FILME: Fausto. Alexander Sokurov. Rússia, 2011. 2 h 20 min, Cor.

48
TÓPICO 3 | O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

4 O PROBLEMA DA OBJETIVIDADE NA CIÊNCIA E NA HISTÓRIA


O passado é uma espécie de écran sobre o qual cada geração projeta a
sua visão do futuro, e, por tanto tempo quando a esperança viva nos corações
dos homens, as ‘histórias novas’ suceder-se-ão.
C. Becker

O tema da objetividade nas ciências, e em especial na História, representa o


calcanhar de Aquiles, um ponto sobre os quais transcorrem grandes debates e até
dividem os estudiosos. Para algumas áreas como as das ciências naturais, físicas
e matemáticas tais questões são resolvidas de forma mais técnica, metodológica,
pragmática e em outras como nas ciências humanas, é responsável por fomentar a
separação entre os pesquisadores e até a criação de correntes de pensamento distintas.

Ainda nos modelos do cartesianismo e do positivismo foi defendida a ideia


de uma ciência neutra e imparcial, os idealistas destas tradições de pensamento
acreditavam que a garantia de uma história e conhecimento verdadeiro residiria
no fato de o pesquisador/investigador manter-se distante e com a supressão da
subjetividade e das emoções na relação com objeto ou fenômeno em estudo.

Na historiografia desta época não foi diferente, ainda mais por que
a História, assim como as demais ciências sociais, estavam ainda por galgar
reconhecimento científico, tanto quanto uma ciência como uma disciplina
do conhecimento. O que pautou os trabalhos dos historiadores na busca pelo
reconhecimento científico da História foi a crença na objetividade dos métodos e
a utilização de uma narrativa erudita.

Emile Durkheim (1858-1917), sociólogo francês, foi um dos principais


idealizadores da concepção e método de neutralidade em meio às ciências sociais;
defendendo que havia a necessidade de objetividade nas análises e de que o fato social
deveria ser abordado como uma coisa propriamente dita. Entre as principais obras
do autor, que contemplavam e defendiam este pensamento, se deu a publicação, em
1895, de ‘As regras do método sociológico’ e em 1897, de ‘O Suicídio’.

As teses de Durkheim advogavam que se fazia necessária a experiência


seguida da observação prática, ou seja, a necessidade de sair do ‘nós
especulativo’ para acender à escola das coisas, dos fatos, para melhor conhecer
e compreender. Assim, os fatos e os acontecimentos deveriam ser encarrados
como coisas, e deviam ser reconhecidos como fenômenos que possuíssem
vida própria e capacidade de exercer influência sobre os demais indivíduos (o
exemplo mais célebre desta teoria de não divulgação de casos de suicídio, pois
tornados públicos, poderiam exercer influência no sentido de estimular outras
pessoas agirem por estímulo à praticarem o mesmo).

49
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Outra sugestão deste sociólogo aos historiadores foi o de que a História


somente conseguiria se tornar uma ciência se ela fosse capaz de se distanciar
da esfera individual e particular dos fatos e dos fenômenos, ou seja, capaz de
estabelecer uma separação entre os fatos psicológicos/individuais e os fatos
sociais/coletivos. Observa-se aqui uma espécie de apelo à ‘generalização’, que foi
um dos principais campos de análise empreendidos pela Sociologia.

Ranke apresentava a convicção de que o historiador somente alcançaria


objetividade quando se afastasse do turbilhão dos acontecimentos recentes, ou da
História do tempo presente. Segundo ele, a diferença da história contemporânea
para a história de outros tempos históricos, constituía uma questão de grau, de
escala; e defendia que se fazia necessário estabelecer um ponto de vista acima
da perspectiva individual. O historiador deveria conquistar um ponto de vista
independente, preferir uma visão geral, e que do ponto de vista objetivo e
científico se tornaria cada vez mais confiável.

Para Coulanges, o olhar do historiador sobre o presente sempre seria


tendencioso por causa dos interesses pessoais, os preconceitos e das paixões; para o
autor compreende-se melhor os acontecimentos e revoluções quando nada mais se
pode esperar deles, por isso a ideia de pesquisar épocas mais distantes do presente,
o deslocamento no tempo remoto garantiria a rejeição do subjetivismo em favor de
uma pretensa neutralidade e imparcialidade, isenta de injunções políticas e morais.

Rüsen (1996) reflete que a objetividade pretendida pelos historiadores do


século XIX, especialmente, por Ranke, acaba por limitar a capacidade interpretativa
na história, pois demanda distanciamento passional do historiador diante dos
fatos e acontecimentos, bem como economias e recuos discursivos na composição
das narrativas. Porém, foi um dos caminhos necessários para se inserir a História
como uma ciência e aproximação da pretensão de verdade, especialmente quando
se almejava o reconhecimento e circulação nos meios acadêmicos.

Observe os termos em que Rüsen (1996, p. 82) analisa e faz a crítica do


porquê as teses de Ranke são destituídas de sentido:

O aforisma de Ranke, que exprime essa pretensão de objetividade,


pressupõe uma determinada filosofia da história: história é a
realidade temporal do mundo humano, é a conexão interna das
mudanças temporais, previamente dadas no modo de experiência dos
historiadores. O historiador, em sua historiografia, tem de representar
essa estrutura histórica do mundo humano, previamente dada. Ele
conta "como tudo efetivamente aconteceu". Essa realidade é mais do
que a sequência de acontecimentos e mudanças no passado tal como
relatados nas fontes; ela é, em si mesma, uma corporificação de sentido.

Rüsen (1996) chama a atenção de que nem todos os historiadores do


século XIX se entorpeceram pela ideia de objetividade científica. Droysen foi um
exemplo que polemizou contra o que ficou conhecido como a 'objetividade de
eunucos' nos estudos históricos, objetividade que almejava neutralizar a história
diante do conflito político e diante de questões da identidade coletiva (sobretudo
a nacional), na qual o argumento historiográfico desempenhava um papel
importante e decisivo.

50
TÓPICO 3 | O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

Karl Popper (1902-1994) também se dedicou a criticar o pensamento científico


do século XIX, pois refletia que as explicações de leis gerais somente conduziam a
determinismos, à generalização de fatos e fenômenos e às compreensões de que o
que existe é um todo homogêneo.

Popper em contrapartida defendeu que se faz necessário desfatalizar a história,


fazer análises situacionais (individuais e particulares) e reconhecer a singularidade
das ações humanas. Observe as pontuações que Popper (1980, p. 81) faz:

É de algum interesse notar que a usualmente denominada “objetividade


científica” se fundamenta, até certo ponto, em instituições sociais. A
ingênua concepção de que a objetividade científica se apoia na atitude
mental ou psicológica do cientista individual, no treinamento que
recebe, na cautela com que age, em sua imparcialidade científica, é
uma concepção que gera, como reação, a concepção cética segundo a
qual o cientista jamais é objetivo. De acordo com essa maneira de ver,
a falta de objetividade do cientista pode não ter maior importância no
campo das Ciências Naturais, onde suas paixões não se excitam, mas
será fatal no campo das Ciências Sociais, onde as tendenciosidades, os
preconceitos de classe e os interesses pessoais estão presentes.

O que Popper defendeu foi a ideia de que uma mesma obra de arte, uma
mesma paisagem, um mesmo templo é percebido de forma diferente, que se
encontra relativo ao ponto de vista do observador, uma paisagem é descrita de
forma completamente diferente pelo turista, pelo curador, pelo morador nativo,
pelo minerador, pelo ciclista, pelo militar, pelo padre, pela criança, pelo adulto,
pelo ocidental, pelo oriental, pelo cientista. Popper (1980, p. 83) argumenta que:

O evolucionista que exige controle “científico” da natureza humana


ignora o quão suicida é essa exigência. A mola da evolução e do progresso
é a variedade do material que venha a ser sujeito à seleção; é, no que
interessa à evolução do homem, a “liberdade de ser ímpar e diferente dos
outros”, “de discordar da maioria” e seguir o próprio caminho.

Para Popper quanto mais a sociedade for aberta, percebida na sua


diversidade, mais as disposições individuais podem desdobrar-se e realizar-
se; a indeterminação se torna essencial para pensar e ampliar o horizonte de
possibilidades que está latente na História. A crítica de Popper abrange desde o
idealismo especulativo de Hegel, aos modelos restritos e fechados dos modos de
produção de Marx e Engels até a pretensão de distanciamento temporal que os
historicistas defendiam. Leia nas palavras de Popper (1980, p. 79):

51
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

O historicismo confunde essas interpretações com teorias. É um de


seus erros fundamentais. Cabe, por certo, interpretar a “História”
como a história da luta de classes ou como luta de raças em busca da
supremacia, ou como história de ideias religiosas, ou como história
da luta entre a sociedade “aberta” e a sociedade “fechada”, ou como
história do progresso científico e industrial. Todos esses são pontos
de vista mais ou menos interessantes e, como tais, perfeitamente
aceitáveis. O historicista, entretanto, não os apresenta como tais,
não reconhece que haja, necessariamente, uma pluralidade de
interpretações que se situam, basicamente, no mesmo nível de
sugestividade e de arbitrariedade (ainda que alguns daqueles pontos
de vista possam merecer realce por sua fertilidade – que é de alguma
importância). O historicista apresenta aqueles pontos de vista como
doutrinas ou teorias, asseverando que “toda História é história da luta
de classes”, e assim por diante.

A ideia de que a objetividade é constituída pela parcialidade obedece a


uma filosofia idealista da história, que identifica as forças mentais em ação no
interesse histórico dos historiadores com as forças mentais da atividade humana,
que constituem a história como realidade temporal da vida humana.

Rüsen (1996) discute que a concepção marxista agrega o fator de


objetividade pela parcialidade, ou seja, a escolha pelo operariado na luta de classes,
que na interpretação marxista é a condição necessária do conhecimento objetivo
da sociedade humana, em geral, e de sua evolução histórica, em particular.

Para Rüsen (1996) a questão está em que, nem toda parcialidade leva à
objetividade, mas apenas aquela que for refletida, na qual o historiador emprega
a aptidão cognitiva da inteligência humana de forma específica, em que o
historiador generaliza o seu ponto de vista de tal modo que consegue integrar
também os interesses conflitantes que residem em seu próprio contexto político.
No caso do historicismo, a garantia do objetivismo parecia residir na crítica das
fontes, e a do subjetivismo (marxista) no engajamento do historiador na luta
política por uma identidade coletiva, no caso o proletariado.

Ambas as concepções antes colaboraram para que a abordagem objetivista


perdesse a credibilidade. O impacto ideológico não poderia ser negligenciado:
o interesse subjetivo e a luta política pelo poder facilmente poderiam ser
encontrados nas diversas ideias da história. O último recuo da objetividade como
ideia constitutiva dos estudos históricos ficou evidente com a emergência das
análises das narrativas históricas a partir dos anos de 1990. Rüsen (1996) relaciona
os principais problemas que esta historiografia apresenta:

52
TÓPICO 3 | O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

A pretensão de objetividade efetivada no procedimento acadêmico


da cognição histórica é pensada, amiúde, como exalando um certo
odor de mofo. Muitos historiadores profissionais consideram que seu
serviço à verdade só pode ser prestado se isolarem sua representação
do passado com relação aos embates de suas épocas. Essa neutralidade
é uma esperança vã. Nenhuma narrativa histórica é possível sem uma
perspectiva e os critérios de sentido histórico com ela relacionados.
Esses critérios são derivados da orientação cultural da vida prática. Eles
têm de estar expressos numa forma conceitual tal que mantenham sua
relevância para a vida atual, mesmo se versam sobre coisas passadas.
Assim, a objetividade histórica não exorciza, da representação histórica,
a variegada multiplicidade da vida prática, pelo contrário: ela é um
princípio que organiza essa variedade. Emoção, imaginação, poder e
vontade são elementos necessários da produção histórica de sentido. A
pretensão de objetividade não lhes subtrai o vigor da vida. Objetividade
pode ser reconhecida como uma forma de sua vivacidade, na qual as
narrativas históricas reforçam a experiência e a intersubjetividade na
orientação cultural. E assim fazendo, tornam o peso da vida – quem
sabe? – um pouco mais suportável. (RÜSEN, 1996, p. 101).

Rüsen (1996) analisa que a situação atual dos estudos históricos se


caracteriza por uma relação pouco clara com relação às questões de objetividade
e cientificidade do conhecimento produzido. Para o autor existe, de um lado
a limitação dos recuos de narrativas como princípio do pensamento histórico,
que dificulta, logicamente, qualquer objetividade científica na representação
do passado como história; de outro, existem as atitudes e os procedimentos
acadêmicos dos historiadores profissionais que os habilitam a realizar o trabalho
de pesquisa e historiográfico em obediência imediata à racionalidade metódica.

5 A PROBLEMÁTICA DA VERDADE NA HISTÓRIA


... é e continua verdade que uma demonstração científica
metodicamente correta, no campo das ciências sociais, se quiser alcançar
seu objetivo, tem de ser reconhecida como correta também por um chinês.
Max Weber

Dosse (2003) analise que a história resulta de uma lenta e gradual ruptura
com o gênero literário. Isso se deu por volta do século V a. C. e Heródoto de
Halicarnasso foi um dos grandes responsáveis por esta tarefa, que passou a
empregar o ‘ele’, o homem e não mais os deuses e os mitos nas narrativas. Tucídides
deu o passo além, pois reclamou que fossem estabelecidas e seguidas regras e
métodos para alcançar a verdade, uma espécie de contrato, no caso a ‘testemunha
ocular e crítica atenta e quanto mais completa possível das informações’, ou seja,
privilegiou-se o olhar, o olho, o ver como fonte de verdade. Em ambos existe
também a ideia e ocultamento do sujeito que narra a história e a pretensão de que
os fatos falam por si mesmos.

53
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Na Idade Média ocorria a distinção entre textos autênticos e textos


apócrifos (sem autenticidade confirmada), porém os historiadores daquele
período não criticavam os testemunhos, somente consideravam as pessoas
que testemunhavam, ou seja, os historiadores deveriam submeter seus textos à
aprovação dos poderes das cortes (reis) e da Igreja. Uma vez aprovado, o texto
ganhava além dos status de verdade, o de um monumento; para conseguir tal
feito, deveriam antes de mais nada agradar ao rei e ao clero.

Dosse (2003) apresenta que a congregação beneditina de Saint-Maur


de Paris, na França, antecipou a eclosão de história erudita entra na pauta dos
historiadores a partir do século XVII. O superior da ordem Jean-Gregoire Tarrisse,
fixou na ordem dos trabalhos as seguintes demandas:

encontrar os atos, fundações e bens de mosteiros, ocupar-se da


administração das abadias, de suas regras e costumes com base nos
documentos originas, revelar os altos feitos e curiosidades naturais,
enumerar a lista de santos, das relíquias e santuários, mencionar
os castigos, prodígios, milagres, fatos edificantes, e, enfim, reunir
todas essas informações na história da ordem e da igreja. (BARRET-
KRIEGEL apud DOSSE, 2003, p. 33).

A partir dos séculos XV e XVI os pensadores reforçam a ideia de verdade


na história que poderia conciliar história e literatura, agora comportando um
projeto de história total com a utilização de novas fontes e novos métodos de
investigação feitos com auxílio da arqueologia e da numismática.

A ideia de verdade que constou em meio a tradição cartesiana, positivista


e historicista do século XVII, XVIII e XIX consistia em que não se poderia trabalhar
com a perspectiva de dúvida e incertezas; pelo contrário, o conhecimento somente
teria validade científica se não restassem suspeitas entre o corpo documental e
as descrições dele extraídas. Estes pressupostos foram responsáveis tanto por
conferir objetividade como verdade, uma vez cumpridas as regras, a objetividade
ao conhecimento histórico estaria garantida.

Nos tempos atuais vivemos em uma sociedade que caminha "ao compasso
da verdade", no sentido de que se produz e circulam discursos que funcionam como
verdade, e que por isso carregam e representam poderes específicos. Neste campo
de forças, Foucault (1984) apresenta uma visão de história da verdade que deve ser
entendida como "política da verdade", que almeja mostrar o caráter eminentemente
político da produção da verdade ou seja, que leva em conta as condições políticas
pelas quais o conhecimento foi construído; para Foucault tratam-se de elementos
fundamentais da história dos saberes, dos quais não podemos nos dar o privilégio
de desconsiderar, ou interpretar como sendo um véu ou um obstáculo.

Para Foucault (1984) o conhecimento é uma relação estratégica em que


o homem se situa para se constituir enquanto sujeito cognitivo. Daí o caráter
perspectivo do conhecimento, isto é, de sua constituição como estratégia de
dominação e de luta, segundo a qual só há conhecimento na medida em que se
estabelece um confronto, um duelo entre o homem e o objeto.

54
TÓPICO 3 | O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

À luz das análises de Foucault, fica explícita a impossibilidade de


neutralidade do conhecimento. O conhecimento é sempre uma certa relação
estratégica que remete ao local onde o homem se encontra situado. Nas palavras
de Foucault (1984, p. 19), “é essa relação estratégica que vai definir o efeito de
conhecimento e por isso seria totalmente contraditório imaginar um conhecimento
que não fosse em sua natureza obrigatoriamente parcial, oblíquo, perspectivo”.

De acordo com este ponto de vista, mesmo na ciência, existem modelos de


verdade formulados numa relação uso do saber às estruturas políticas. Contudo,
tais estruturas não podem ser compreendidas como impostas do exterior ao
sujeito do conhecimento, que o poder lhe é imanente. Quando se investigam os
mecanismos das regras que delimitam formalmente o poder e os efeitos específicos
de verdade que ele produz e transmite, a noção de "política da verdade" se opõe
às teorias generalizadoras do poder e da verdade.

Foucault sugere uma espécie de análise do poder, com base em uma


concepção que descreve o poder como um conjunto de realidades abertas, mais
ou menos coordenadas, para além da noção de coisa dada. Ao contrário, para
compreendermos o poder, precisamos estabelecer estrategicamente uma rede
que possibilite a análise das relações de poder e sua relação com a verdade.

Caro acadêmico! Prossiga aprofundando a questão de objetividade e


verdade na História fazendo a leitura da entrevista como professor Fernando
Tula Molina sobre a ‘falsa neutralidade’, que circula nos meios acadêmicos e em
meio à sociedade de maneira geral.

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UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

LEITURA COMPLEMENTAR

A FALSA NEUTRALIDADE

Fernando Tula Molina

Entrevista de Fernando Tula Molina, da Universidade de Quilmes, na


Argentina concedida à Fábio de Castro, da Agência FAPESP em 16/01/2009,
durante o 15º Seminário Internacional de Filosofia e História da Ciência, realizado
pelo Grupo de Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do
Instituto de Estudos Avançados (IEA), da Universidade de São Paulo (USP).

Agência FAPESP – Uma das ideias centrais desenvolvidas pelo senhor


durante o seminário realizado no mês passado em São Paulo é a de que a ciência
não pode ser dissociada da política. Como essa questão foi tratada nos debates?

Fernando Tula Molina – As discussões tiveram origem em um Projeto


Temático apoiado pela FAPESP dirigido pelo professor Pablo Mariconda, do Grupo
de Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do IEA, responsável
pelo seminário. Esse projeto discute a gênese e os significados da tecnociência.
Isso envolve questões históricas, filosóficas e sociológicas, mas no fundo tudo
está virando uma área importante ligada à política. Tentamos problematizar duas
ideias que hoje são muito fortes em nossa cultura: a neutralidade da ciência e o
determinismo tecnológico. Essas duas noções estabelecem no imaginário popular
uma ideia de que a ciência é neutra, desprovida de política, quando, na verdade,
a ciência – e sobretudo a tecnologia – tem muita política.

Agência FAPESP – Como esse aspecto político se manifesta?

Molina – Uma das linhas que está sendo desenvolvida é que essa política
pode ser vista com clareza, por exemplo, no chamado código técnico. Esse gravador
digital que você está utilizando, por exemplo, possui um design, que encerra em
si todo o contexto de sua concepção e está ligado a determinadas estratégias. Essas
estratégias representam interesses – que, no caso de uma sociedade capitalista,
correspondem aos interesses das corporações. São interesses que têm a ver com
o consumismo tecnológico. O projeto do gravador já prevê quando ele sairá
de linha, isto é, carrega consigo uma estratégia de obsolescência programada.
Para que você consuma mais, é preciso que na sua cabeça a aquisição de novos
produtos tecnológicos seja entendida como um progresso. Você acredita que está
progredindo e tem um aparelho melhor, de última tecnologia. Mas eventualmente
os aparelhos mais antigos tinham mais qualidade. Isso é pura política.

Agência FAPESP – Essa é a ideia do determinismo tecnológico? Uma


crença de que o produto que acaba de ser lançado é necessariamente melhor,
mais eficiente e mais desejável?

56
TÓPICO 3 | O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

Molina – Sim. É uma estratégia de consumo que se baseia na novidade.


O produto é um bem cultural que se vale do valor simbólico que tem a “eficácia”
na nossa cultura, levando a pessoa a pensar que os produtos desenvolvidos mais
recentemente são melhores. Mas isso é uma falácia. Outra falácia está no discurso
político oficial dos nossos países: a ideia de que o cientista pode dizer o que é melhor
para a sociedade. O cientista não sabe o que é melhor para a sociedade. Não existem
nem mesmo elementos conceituais para abordar essa questão. O seminário teve,
portanto, a tarefa central de instalar uma discussão e conscientizar sobre alguns
erros. Muitos desses erros, como o individualismo, têm origem filosófica.

Agência FAPESP – Como o individualismo é tratado nessa discussão?

Molina – Quando a lógica predominante é a de que alguém só consegue


ganhar quando os demais perdem, o resultado é que as pessoas passam a achar que
podem ser livres apenas de portas fechadas. O que gostaríamos de opor à essa ideia
individualista é a possibilidade de pensar que, ainda hoje, apesar das assimetrias
e desigualdades do capitalismo, podemos aprender a nos organizar de um jeito
diferente e reaprender a conviver. A convivência é o ponto central da política em
um sentido muito antigo, do qual já falava Sócrates. Como todos os atores, tão
diferentes, podem conseguir a felicidade e a plenitude no meio de todos, no espaço
restrito da polis? A ideia de democracia que está por trás do seminário é mais
profunda que uma noção de igualdade: é a ideia de que somos todos diferentes.

Agência FAPESP – Qual o efeito desse contexto dominado pelo


individualismo sobre o desenvolvimento tecnológico e científico?

Molina – Vamos tentar falar do conjunto ciência e tecnologia: a


tecnociência. Se as pessoas acreditam que o investimento em ciência e tecnologia
leva o país a crescer automaticamente, melhorando a vida da população, temos o
determinismo tecnológico. Nesse caso, já que o resultado seria necessariamente
bom para todos, o investimento poderia ser feito sem preocupação com a
participação da coletividade – esse determinismo tecnológico é favorecido em
um contexto individualista.

Agência FAPESP – Então, sem a participação da coletividade nas


decisões científicas e tecnológicas, os avanços do conhecimento não chegam a
beneficiar a sociedade?

Molina – Acho que é por isso que temos que combater o determinismo
tecnológico. Com essa lógica, o investimento não volta diretamente para a
população, mas para as corporações. Os investimentos públicos formam técnicos,
especialistas e recursos humanos para a universidade e para o sistema tecnológico.
Mas essas pessoas poderão desenvolver tecnologias que melhorem as corporações,
não necessariamente o país. Se nossa sociedade tem base tecnológica e capitalista,
mesmo que se possa desenvolver a melhor tecnologia, ela irá se limitar a
desenvolver a tecnologia com melhor custo-benefício. Tudo o que está envolvido
com essas tecnologias será avaliado do ponto de vista quantitativo, porque estará
orientado pela produtividade. Incluindo as relações com trabalhadores.

57
UNIDADE 1 | TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Agência FAPESP – Esse tipo de modelo tecnológico tenderia a agravar o


quadro de exclusão social?

Molina – Acredito que sim. A tecnologia orientada pela produtividade


só é acessível a quem tem determinado poder de consumo. As distâncias sociais
que deveriam ser diminuídas por conta da tecnologia começam a aumentar. O
crescimento das diferenças sociais agrava a violência. No fim, a tecnologia, que
poderia ter um papel de inclusão, acaba fazendo o contrário.

Agência FAPESP – As tecnologias sociais seriam um possível caminho


para contornar esses problemas?

Molina – O Brasil tem uma rede muito boa de tecnologia social. Ela tem
700 organizações – a maioria organizações não-governamentais –, sendo 400
muito ativas. Todas pensam em confrontar essa ideia da tecnologia capitalista
associada à corporação. Nesse modelo fundamentado na produtividade, não se
pode acessar o conhecimento – que deve ser patenteado. O usuário não é dono do
meio onde essa tecnologia vai se produzir e não se pode decidir para onde vai o
benefício do desenvolvimento.

Agência FAPESP – Essas tecnologias teriam, então, mais legitimidade?

Molina – As tecnologias sociais têm um papel importante na


democratização do conhecimento, mas elas não chegam a garantir a legitimidade
da forma como a entendemos. É preciso distingui-la da eficácia. A tecnociência
tem eficácia, mas não tem legitimidade social. Esses dois conceitos muitas vezes
são confundidos no próprio discurso do desenvolvimento tecnológico, que está
baseado na ideia de controle. O que é o controle? Uma coisa é poder controlar
a matéria ou a partícula – como pode a nanotecnologia – no espaço e no tempo.
Esse é o controle científico, que é necessário e desejável. Mas não suficiente. Outra
coisa é poder dar legitimidade a esse controle.

Agência FAPESP – E como dar mais legitimidade ao controle das práticas


científicas?

Molina – Para mim, a legitimidade não está no conteúdo das decisões


sobre os rumos tecnológicos, mas no jeito como essas decisões são tomadas. Se
a decisão foi tomada de maneira coletiva e democrática e daí gerou os rumos e
decisões, isso a legitima, não pelo conteúdo, mas pela forma coletiva. O que
temos que pensar é quais são os atores em cada âmbito que deveriam participar
democraticamente, sendo reconhecidos como diferentes e igualmente importantes,
do rumo mais democrático da enorme capacidade tecnológica que já temos. Mas se
não conseguimos dar a isso um caráter democrático, então o rumo será tecnocrático
e corporativo. A responsabilidade é nossa. A palavra-chave é participação.

58
TÓPICO 3 | O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

Agência FAPESP – Há propostas para melhorar essa participação?

Molina – O controle tecnológico, voltado para o controle da matéria


no espaço e no tempo, não tem, em si, nenhuma legitimidade. Propomos dois
novos eixos para pensar essa legitimidade: o tempo da educação e o espaço
da participação política. Para melhorar essa participação, temos que gerar um
espaço de protagonismo social em que os outros atores possam interagir com os
cientistas. O especialista tem uma função consultiva importante, um compromisso
de indicar as possibilidades, mas não a prerrogativa de ditar os rumos. Com a
ajuda dele, o leigo poderia ter a possibilidade democrática de decidir o futuro.
Mas isso não acontece. Na nossa organização estamos excluídos de todas as
decisões tecnológicas. Não temos o espaço da participação política.

Agência FAPESP – E quanto ao tempo da educação?

Molina – Levamos tempo para educar alguém a ser crítico com a tecnologia
e a conhecer sua própria capacidade de decisão e sua autonomia de criatividade.
Essa é a dimensão do tempo da educação. Temos que introduzir essa discussão
na escola inicial, porque ali as crianças já têm celular, videogames e muitas
possibilidades tecnológicas. Seria importante começar a combater cedo a ideia
introjetada de que a ciência é apolítica. Ao superar as ideias de neutralidade e
determinismo do desenvolvimento tecnocientífico, só nos restará a possibilidade
de um desenvolvimento político, democrático, com participação cidadã. Mas esse
cidadão crítico ainda não existe, daí a importância dessa dimensão da educação.

Agência FAPESP – Ainda estamos muito distantes da formação desse


cidadão crítico?

Molina – Talvez nem tanto. Podemos pensar no que aconteceu com


a cultura ecológica. As crianças e as novas gerações já colocam o problema
ecológico de forma mais prioritária. Isso ocorreu, entre outros fatores, porque
a ecologia começou a ser apresentada às crianças de forma muito forte, desde a
escola inicial. Acho que poderia acontecer o mesmo com o problema tecnológico.
Para isso temos que começar a refletir com mais clareza sobre lixo tecnológico,
obsolescência planejada, qualidade tecnológica, durabilidade, tecnologias para
o futuro, tecnologias sustentáveis, tecnologias adequadas aos problemas – e não
apenas ao consumo em massa – e tecnologias customizadas, que não impõem
uma única solução, como se fôssemos todos iguais.

FONTE: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/falsa-neutralidade>. Acesso em: 30


jan. 2016.

59
RESUMO DO TÓPICO 3
Nesse tópico, você aprendeu que:

• O historicismo defendia que o historiador deveria suprimir a imaginação


e a subjetividade; se dedicar exclusivamente a pesquisar, reunir e classificar
documentos; a partir disso identificar a origem das fontes, determinar a
natureza dos fatos em questão e suceder uma narrativa ordenada e coerente.

• O pensamento historicista privilegiava as fontes documentais escritas oriundas


de instituições oficiais do Estado, relatórios de diplomacia, militares, estatísticas
econômicas e os historiadores deveriam somente descrever os conteúdos que
comportavam.

• Para o historicismo a história representava uma ciência do passado, os


estudos concentravam-se em temas da antiguidade e Idade Média, e no
fazer metodológico deveria estar amparado em ciências como a paleografia,
numismática e a paleografia.

• Leopold von Ranke defendeu o uso de método científico na história e


identificava-se com as ciências sociais que indicavam a abordagem generalista
para fatos e fenômenos históricos e, ao mesmo tempo rejeitava o idealismo
filosófico proposto por Hegel.

• Para os estudiosos do historicismo a objetividade na história seria alcançada


com a estratégia do recuo temporal, ou seja, debruçar-se em temos de épocas
remotas, distantes do tempo presente (estudiosos da época moderna estudando
antiguidade e Idade Média).

• Rüsen defende que a objetividade e/ou a parcialidade só pode ser alcançada


se o conhecimento for refletido especificamente ao ponto de vista que integra
tanto o seu ponto de vista do historiador como os interesses que se encontram
no contexto político.

60
AUTOATIVIDADE

1 Leopold Von Ranke (1795-1886) foi um dos historiadores fundamentes do


movimento do historicismo que prevaleceu na segunda metade do longo
do século XIX. Com relação às principais teorias defendidas em meio ao
historicismo e por Ranke é correto afirmar que:

I- O empirismo prevaleceu em meio aos pressupostos teórico-metodológicos


do historicismo, que por sua vez, consideravam que os fenômenos e os
fatos históricos deveriam ser deduzidos os conhecimentos históricos.
II- Ranke defendeu que o historiador possuía autonomia e liberdade no
sentido de optar ou pela história erudita ou pelo romance histórico, pois
ambos possuíam elementos de cientificidade e verdade histórica.
III- Ranke e os demais empiristas dedicaram-se aos estudos de inventários,
organização e arquivamento de documentos, história dos feitos políticos e
diplomáticos e da origem histórica das nações europeias.
IV- Os historicistas censuravam a ideia de subjetividade na historiografia, bem
como julgamentos morais e políticos, com isso acreditavam conferir teor
de neutralidade e imparcialidade ao conhecimento histórico.

Agora assinale a alternativa CORRETA:


a) As alternativas I, II e III estão corretas.
b) As alternativas I, II e IV estão corretas.
c) Apenas as alternativas II e III estão corretas.
d) Apenas as alternativas I, III e IV estão corretas.

2 Na tabela a seguir responda aos principais elementos que compunham a


tradição de pensamento do historicismo:

VARIÁVEIS HISTORICISOMO:

NOÇÃO DO TEMPO

FONTES HISTÓRICAS

PEPEL/POSTURA DO HISTORIADOR

O QUE É HISTÓRIA?

61
62
UNIDADE 2

O PENSAMENTO HISTÓRICO A
PARTIR DO SÉCULO XIX

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Esta unidade tem por objetivos:

• apresentar as principais tendências historiográficas que prevaleceram


em meio à produção do conhecimento histórico ocidental ao longo dos
séculos XIX e XX;

• discutir elementos do contexto histórico, político, social e cultural dos


séculos XIX e XX no sentido de identificar como estes influenciaram e
impactaram toda a historiografia;

• situar autores, as respectivas obras e as contribuições destes à historiografia


de cada momento histórico;

• relacionar as principais concepções metodológicas, as tipologias de


fontes, os conceitos de História, as noções de tempo histórico, o sentido e
função que foi atribuído ao conhecimento histórico;

• identificar as heranças teóricas e metodológicas, as continuidades,


ampliações, rupturas e mudanças que determinados autores apresentaram
e alcançaram com suas produções.

PLANO DE ESTUDOS
Ao longo da discussão dos temas no interior de cada tópico de estudos serão
relacionadas sugestões de materiais e referências no sentido de ampliar e
potencializar os conteúdos estudados. No final de cada tópico encontra-
se o resumo e estão relacionadas autoatividades que visam à fixação e
compreensão dos conteúdos estudados.

TÓPICO 1 – A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO SÉCULO XIX:


ALGUNS EXEMPLOS

TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

TÓPICO 3 – AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

63
64
UNIDADE 2
TÓPICO 1

A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO SÉCULO XIX:


ALGUNS EXEMPLOS

1 INTRODUÇÃO
A História como ciência foi reconhecida no final do século XIX, no
ano de 1880, em meio a um contexto em que predominou a força de trabalho
livre e assalariado, da organização racional do trabalho, da legitimação do
Estado Moderno, da profissionalização da atividade política e burocrática, da
autonomização e emancipação da ciência e da arte, da secularização da sociedade,
da concorrência por hegemonia de nações/países sobre outras, do crescimento
das forças produtivas, entre outros aspectos.

O ímpeto do homem moderno foi o de ser capaz de decidir sobre a


sociedade, de projetar e garantir sua plena realização e alcançar a imortalidade
na terra. Na tentativa de alcançar tal façanha, estabelece profundas discussões
no campo da cultura procurando desfazer a legitimidade do senso comum e das
tradições, em favor do progresso da ciência, da liberdade e da revolução. (DIEHL,
TEDESCO, 2001).

Em termos teóricos e epistemológicos, a ciência moderna instaurou o


regime dúvida, de suspeita, de dicotomias, de contrastes e de aperfeiçoamentos
evolutivos, tecendo interpretações e relações de oposição entre comunidade e
sociedade, objetividade e subjetividade, moralidade e contratualidade, economia
e natureza, indivíduo e institucionalização, racionalidade e encantamento,
normatização e liberdade, público e privado, macro e micro.

Caro acadêmico! Ciente disto, o(a) convidamos a refletir diante da seguinte


afirmação de Michel de Certeau: “A prática histórica é totalmente relativa à estrutura
da sociedade”.

Partindo de que a afirmação possui coerência e teor de verificação


significativo, indaga-se: Como o perfil da sociedade, da ciência, da política, da
economia do século XIX influenciou a produção do conhecimento histórico?

Agora, de outra forma, pensando no sentido de que a História pode


manifestar-se de forma autônoma e até apresentar-se de forma rebelde/
revolta, pergunta-se: Como o conhecimento histórico se comportou diante das
necessidades e expectativas da sociedade do século XIX?

65
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Prossiga na leitura do texto, que ao longo deste procurou-se apresentar,


de forma resumida e introdutória, alguns dos principais autores que foram
responsáveis pela produção do conhecimento histórico no contexto social do
século XIX, o que tornará possível reunir elementos e aspectos que lhe ajudarão
na resolução das questões colocadas anteriormente.

2 SÉCULO XIX: QUAL HISTÓRIA?


Prevaleceu um fazer histórico que se preocupava com os temas da
diplomacia, relações entre países e nações; em criar normas e sistemas de
organização de arquivamento e organização de documentos oriundos das
instituições oficiais do Estado; prescrever cuidados que deveriam ser tomados
no transporte, no armazenamento e na exposição de relíquias, itens e objetos que
possuíam valor histórico excepcional ou que ilustravam de eventos, fatos e feitos
de personalidades políticas, de governos e da oficialidade.

Os historiadores voltavam-se para revisitar e estudar épocas de grandes


impérios e reinos feitas em meio a gabinetes, arquivos públicos e oficiais
com documentos chancelados pelos mesmos. Uma história e um historiador
comprometidos em dar conta de procedimentos metodológicos, tais como
a eurística e crítica documental e das fontes de pesquisa. Interrogavam-se
basicamente sobre a veracidade, a autenticidade, a procedência do material que
tinham em mãos e diante dos olhos.

A historiografia acabava por colaborar com o pensamento chauvinista,


uma espécie de nacionalismo exagerado, que foi fomentado em meio à população
no sentido de consolidar os processos de unificação política de nações, como por
exemplo, da Alemanha e da Itália. Entre os estudiosos que estiveram escrevendo
suas obras e escrevendo a História neste período, podem-se destacar: Leopold
Ranke, Jacob Burckhardt, Jules Michelet, Fustel de Coulanges, Edward Gibbon,
Max Weber, Johann Droysen, entre outros. A seguir procuramos ilustrar as
contribuições desses autores à teoria da História e à historiografia daquela época
e aos tempos que se sucederam.

3 JULES MICHELET
O verdadeiro historiador é um homem simples que busca a verdade.

Jules Michelet

Jules Michelet (1789-1874) era filósofo e historiador francês, filho de uma


família de tradição huguenote que atuava com impressão. Foi um estudioso que
além de estudar temas como questões nacionais e de identidade, dedicou-se à
história de bruxas, do irracional, da heresia, se solidarizava com os negligenciados
e pela cultura popular.

66
TÓPICO 1 | A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO SÉCULO XIX: ALGUNS EXEMPLOS

Michelet nasceu no ano em que estourou a Revolução Francesa e mais tarde


quando já se encontrava atuando como historiador, ele afirmava que a França não
possuía História, e assumiu para si esta tarefa. Michelet procurou dar conta dela
numa espécie de dedicação sacerdotal, que buscava ressuscitar as vozes dos ancestrais
que já se encontravam sepultados, numa tentativa de reacender as cinzas apagadas,
observe: “Há!, minha grande França, se fosse preciso, para reencontrar tua vida, que
um homem se doasse, passasse e repassasse muitas vezes o reino dos mortos, ele se
consolaria com isso, ele ainda te agradeceria”. (MICHELET, 1962, p. 62).

A narrativa de Michelet também se apresenta carregada pelos emblemas do


cristianismo, expressões tais como a ‘encarnação’ e ‘paixão’ são transferidas à nação
e ao povo; em especial ao povo, em torno do qual reside toda a centralidade de sua
narrativa, que o coloca como protagonista primordial em meio à Revolução Francesa.

UNI

Cara acadêmica! Observe o tom narrativo, chauvinista e nacionalista que


Michelet apregoava a seus escritos na seguinte passagem: “O que há de mais simples, de
mais natural, de mais artificial, quer dizer de menos fatal, de mais humano e de mais livre no
mundo, é a Europa; de mais europeia, é minha pátria, é a França”. (MICHELET, 1962, p. 62).

Michelet defendia que a História deveria surgir e emergir de um lugar


imaginário e fantasmático por excelência, isto é, o corpo humano; numa espécie de
edificação e ressurreição lírica dos corpos passados, de fantasmas, cuja narrativa
deveria expressar a interminável luta que se dava “do homem contra a natureza,
do espírito contra a matéria”. (MICHELET, 1962).

[...] o método histórico é frequentemente o oposto da arte propriamente


literária. O escritor ocupado em aumentar os efeitos, em colocar as
coisas em destaque, quase sempre gosta de surpreender, agarrar o leitor,
fazê-lo gritar: ‘Ah!’ Ele fica feliz se o acontecimento natural parece um
milagre. Ao contrário, o historiador tem por missão especial explicar
o que parece milagre, cercar seus precedentes, as circunstâncias que o
conduzem, trazê-lo de volta à natureza. Aqui, devo lhe dizer, eu tive o
mérito. Admirando, amando esta personalidade sublime, mostrei em
que ponto ela era natural. (MICHELET, 1974, p. 23).

Dosse (2003) avalia que Michelet sugeria uma narrativa histórica tecida
como uma invocação e sopro épico, com fortes matizes de paixão dramática e
literária, enriquecida com a utilização frequente de métodos quantitativos, bem
como pretendia criar uma história total, reunindo todos os aspectos da realidade
em um mesmo movimento.

67
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Entre outras obras encontram-se: Origens do direito francês  (1837);


História romana: república (1839); O Processo dos Templiers (1841); Do padre, da
mulher e da família (1844), O povo (1845), Joana D´Arc.

4 FUSTEL DE COULANGES
Outro exemplo é o francês Numa Denis Fustel de Coulanges (1830-1889), que
estudou a história do antigo Império Romano na tentativa de reconhecer as raízes da
França. Sua principal obra é A cidade antiga (1864) e os historiadores sucessores, da
geração dos Annales, a reconhecem como sendo uma obra da História Social.

Fustel de Coulanges recomenda ao historiador interessado em


ressuscitar uma época que esqueça tudo o que sabe sobre fases
posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método
com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o da
empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera
de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar
fugaz. (BENJAMIN, Tese VII, 1987).

Coulanges foi um estudioso que reclamou para que o historiador se


debruce numa operação delicada sobre os documentos e ao tratamento que estes
carecem, mas apontava que o levantamento, a leitura e a interpretação da história
devia conter-se a simples restituição dos documentos.

A contingência e toda a bagagem subjetiva do historiador deveria ser


banida, que se dedicando ao método indutivo, totalmente entregue e dedicado
ao texto, segundo ele, o melhor historiador seria aquele que se fixa nos textos, que
os interpreta com mais justeza, exatidão; e que era preciso que ele só escrevesse e
pensasse segundo os textos.

5 JOHANN GUSTAV DROYSEN


Droysen (1808-1884) natural da Pomerânia, foi estudante de Hegel,
escreveu a História da política prussiana (1855-1856), História do Helenismo
(1877-1878), mas a principal obra de Droysen é o Manual de teoria da história.

Em seus estudos apresentava que a arte e a cultura podem desenvolver-


se num caminho comum e defendia que o saber histórico deve conter uma
fundamentação metodológica rigorosa e autônoma das demais ciências.

Apresentava que o historiador e a História deveriam dedicar-se ao


conhecimento e ‘compreensão’ das ‘individualidades’, e que diante isto fazia com
o conhecimento histórico deveria ser pensado de forma separada do conhecimento
científico, pois este almejava as ‘generalidades’ e que é de caráter ‘explicativo’.
Observe a ilustração da citação a seguir:

68
TÓPICO 1 | A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO SÉCULO XIX: ALGUNS EXEMPLOS

O propósito da história não pode ser nem oferecer modelos para a


imitação, nem fornecer regras a serem repetidamente aplicadas. [...] O
que a história conduz à alma, formando-a, é um modelo do essencial,
do decisivo, do poderoso; é essa força dos grandes pontos de vista.
Com isso, a alma se eleva sobre as pequeninas particularidades,
aprende a se sentir grande e a pensar a partir do eu da humanidade.
(DROYSEN apud ASSIS, 2014).

Segundo Droysen, a operação historiográfica deve começar com uma


pergunta, e seguir o percurso do reconhecimento dos traços do passado no
presente, nas lembranças, nos esquecimentos, nos vestígios. Por conseguinte,
dever-se-ia avançar no sentido da compreensão da historicidade, pensar histórica
e teleologicamente, na intenção de captar o passado no presente e a partir destes
recursos ousar vislumbrar o futuro. Droysen (apud ASSIS) já alertava que o olhar
do presente nunca é estático, encontra-se em constante avaliação e reflexão e que
se fazia necessário buscar e elaborar os sentidos do passado.

Identifica-se aqui já uma forte crítica ao positivismo historiográfico que


vigorava na época. Para Droysen a partir da compreensão do passado, a pesquisa
histórica poderia fornecer uma interpretação da realidade presente. O autor
apresentou elementos que também são recorrentes nos escritos de Weber e mais
recentemente reforçados nas teorizações Rusen, autores que serão abordados ao
longo desta unidade.

6 JACOB BUCKHARDT
Buckhardt (1818-1897) foi um estudioso francês que se dedicou a estudar
a História da alta cultura no Renascimento e do Iluminismo. ‘Civilização da
renascença na Itália’, inspirando em meio aos seus leitores o amor e a paixão pelas
obras e pelos gênios artísticos da época do Renascimento, literatura que favorecia
a legitimação dos mais novos grupos sociais, agora os burgueses industriais e não
mais os burgueses comerciantes de outrora. “As fontes da abundância criadora
dos gênios nada mais são do que a grandiosa energia sobre-humana neles, ativa,
que após cada progresso obtido, documenta o poderio e a vontade expressiva de
seu espírito inquieto e poliédrico”. (BURCKHARDT, 1961, p. 233).

Para Burckhardt, quando da hegemonia do movimento cultural é que se


dá o momento pleno do desenvolvimento do ser humano, caminho pelo qual
o ser humano alcançaria realizar os maiores desejos, tais como a igualdade
e a liberdade. Nesse sentido o autor defende que o Estado deve ser a grande
referência e o responsável por propiciar tais recursos aos indivíduos, como é
possível identificar na passagem abaixo:

A missão do Estado grande é a de realizar grandes feitos históricos, a fim


de manter e assegurar a sobrevivência de certas culturas que sucumbiram
de outro modo, de fazer avançar certos componentes passivos de sua
população, que se atrofiaram se entregues a si mesmos, formando
Estados minúsculos e, finalmente, de estruturar e desenvolver grandes
energias coletivas. O estado pequeno existe a fim de que haja um pequeno
espaço sobre a face da Terra no qual a maior parcela possível de pessoas
pertencentes à mesma nacionalidade sejam cidadãos desse Estado no
sentido mais pleno do termo. (BURCKHARDT, 1961, p. 39-40).

69
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Conforme Burke (1995), o fazer histórico de Burckhardt centrou-se na


atividade de descrever as tendências em meio a um contexto histórico e social ou
artístico, ultrapassando a narrativa pura e simples de fatos políticos e do Estado,
conferindo à interpretação da história uma mobilidade, dinâmica e mutabilidade
que rompe com a mera cronologia e sequenciamento coerente dos fatos; ou seja,
descredencia a noção de linearidade e progresso, que era tão reclamada pelos
historiadores contemporâneos a ele; potencial que foi reconhecido e identificado
pelos historiadores que o sucederam e o revisitaram a partir Escola dos Annales
no final dos anos de 1920. Observe a citação a seguir:

Salientamos ainda que renunciamos a qualquer sistematicidade, não é


nossa ambição formular ideias sobre a História mundial, satisfazemo-nos com
observações genéricas da História, em tantas direções quanto possíveis. Fique
bem claro que não nos propomos absolutamente a fazer uma Filosofia da História
(BURCKHARDT, 1961, p. 10).

Outra obra importante de Buckhardt é a ‘História da civilização grega’,


que perpassa as leituras que a influência do filósofo Schopenhauer (1788-1860)
exerciam sobre o autor, em que se dedica a revelar aspectos de uma cultura
helênica grega que se caracterizam em contraponto às concepções de harmonia,
serenidade, equilíbrio, racionalidade, tais como o pessimismo nas peças de teatro
de Sófocles, o desespero na história de Tucídides e a angústia filosófica de Platão.

Buckhardt queixa-se nesta obra também das transformações que a


vida na cidade, polis, impunha aos indivíduos, tais como a demagogia política
e social, ao invés de uma democracia real e universal, agravada pelo processo
de racionalização do pensamento e pelo distanciamento dos fundamentos e
regulações religiosas e das tradições.

7 MAX WEBER
Weber (1864-1920), natural da cidade de Erfurt, Alemanha, foi considerado
um dos fundadores da sociologia moderna, se dedicou a estudos em filosofia,
economia, direito, história, ciência política e administração.

O contexto que perpassou em sua obra foi o da burocratização, a


rotinização, administração racional-legal, que conduziria a uma euforia otimista
em relação ao futuro da humanidade. O avanço da racionalidade das relações
sociais e econômicas acaba enclausurando o homem na ‘jaula de submissão do
futuro’ ou ‘conferindo ao homem uma experiência de mundo semelhante a uma
noite gélida em que se percebia em plena ‘morte térmica’, que segundo Weber, só
poderia ser superada pelo ‘carisma’.

Weber contribuiu juntamente com os estudos de Karl Marx quando se


propunha discutir o processo de secularização da sociedade via racionalização do
pensamento, da industrialização da produção e das relações de trabalho, que por
sua vez levaria à substituição da tradição das referências religiosas e comunitárias
pela autoridade do Estado moderno, do positivismo e noção de progresso linear.
70
TÓPICO 1 | A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO SÉCULO XIX: ALGUNS EXEMPLOS

Weber defendeu que a pesquisa histórica era essencial para a compreensão


das sociedades, combinava as perspectivas de que cabia à pesquisa histórica
tratar do que é particular, daquilo que permitiria identificar na sua peculiaridade
uma configuração cultural e buscar explicações causais para a particularidade e
sugeria o método compreensivo como um esforço interpretativo do passado e de
sua repercussão nas sociedades contemporâneas.

A Sociologia constrói – o que já foi pressuposto várias vezes como óbvio


– conceitos de tipos e procura regras gerais dos acontecimentos. Nisso
contrapõe-se à História, que busca a análise e interpretação causal
das ações, formações e personalidades individuais culturalmente
importantes. (WEBER, 1991, p. 12).

A defesa de Weber estava em um método comparativo que permitisse


trazer à tona o que é ‘peculiar’ e ‘singular’ a cada época histórica. Outra contribuição
seria a de que cada interpretação histórica para um interesse contemporâneo,
ultrapassando a noção de simples descrição de fatos preestabelecidos, e numa
abordagem que contemplasse as ligações lógicas dos fenômenos históricos sobre
os valores culturais.

Diehl (1996) aponta que as proposições de Weber à História estão no


sentido de romper com os métodos históricos historicistas, que versavam de que
o historiador apenas podia compreender épocas passadas por meio do arsenal
informativo que estaria registrado nas próprias fontes.

Foi um intelectual com forte influência nos meios políticos de sua época,
participou como delegado quando da reunião do tratado de Versalhes após o
término da 1ª Guerra Mundial e foi um dos principais redatores da constituição
da República de Weimar. As principais obras de Max Weber são: Ética protestante
e o espírito do capitalismo, A política como vocação e Economia e Sociedade.

8 FRIEDRICH NIETZSCHE
Nietzsche (1844-1900), nascido em família em que o pai foi pastor
protestante alemão, estudou filosofia clássica, leitor de Arthur Schopenhauer (1788-
1860) e dedicou-se aos estudos à compreensão do mundo grego, em especial em
problematizar a imagem tradicional da serenidade clássica, e propondo que se
tratava de uma síntese do conflito entre a sobriedade apolínea (Apolo) e a ebriedade
dionisíaca (Dionísio). Nietzsche defendeu que o espírito da tragédia era oriundo da
falta de capacidade de conciliação entre ambas as forças (sobriedade e ebriedade).

Nietzsche preocupou-se em discutir ‘a morte de Deus’ pelo viés da


racionalização e do niilismo, e em debater o aparecimento do super-homem, um
indivíduo além do homem que se apresentava em sua época, que precisa deixar para
trás o peso do passado e os vínculos doentes da moral comum e conseguir viver a
realidade de modo ‘afirmativo’, que aprendeu a ‘querer’, a dizer sim, e que encontrou
no caráter terrestre de seu ser homem, que reconhecia que na raiz de todas as coisas
residia a ‘vontade’ e que este deveria ‘tornar-se aquilo o que realmente era’.

71
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Outro ponto de discussão de Nietzsche foi o das intenções da moral


(religiosa, política, social e científica) em voga que foi o de reclamar e buscar
pelos mitos de origem que a legitimassem, reconhecendo que residia na História
a possibilidade de superar estes estigmas.

Observe na passagem que se apresenta a seguir:

A história ensina a rir das solenidades da origem. A alta origem é o


exagero metafísico que reaparece na concepção de que no começo
de todas se encontra o que há de mais precioso e de mais essencial.
Gosta-se de acreditar que as coisas em seu início se encontravam em
estado de perfeição; que elas saíram brilhantes das mãos do criador,
ou na luz sem sombra da primeira manhã. [...] Fazer a genealogia dos
valores, da moral, do ascetismo, do conhecimento não será, portanto,
partir em busca de sua ‘origem’ negligenciando como inacessíveis
todos os episódios da história; será ao contrário, se demorar nas
meticulosidades e nos acasos dos começos; prestar uma atenção
escrupulosa à sua derrisória maldade; esperar vê-los surgir, máscaras
enfim retiradas, com o rosto do outro; não ter pudor de ir procurá-las lá
onde elas estão. [...]. É preciso saber reconhecer os acontecimentos da
história, seus abalos, suas surpresas, as vacilantes vitórias, as derrotas
mal digeridas, que dão conta dos ativismos e das hereditariedades.
(NIETZSCHE apud FOUCAULT, 1979, p. 18-19).

Neste momento, Nietzsche em seus estudos, já prestava seu senso crítico à


História quando abordava o ‘mito da origem’ questão que se encontrava em voga
no final do século XIX e que acabava por justificar as buscas desesperadas pelas
genealogias familiares, as campanhas nacionalistas, e as práticas de chauvinismo e
imperialismo, assim como é possível atualizar a discussão no momento presente em
meio aos contextos em que se desenrolaram conflitos étnico-sociais e até religiosos.

As principais obras do pensador são: ‘O nascimento da tragédia’ (1872),


‘Assim falou Zaratustra’, ‘Humano Demasiado Humano’, ‘Aurora’, ‘A gaia ciência’,
‘A genealogia da moral’, ‘O Anticristo’, ‘Ecce homo’, ‘Além do bem e do mal’.

9 CHARLES-VICTOR LANGLOIS (1863- 1929) E CHARLES


SEIGNOBOS (1854- 1942)
A História nada mais é do que o trabalho dos documentos.
Langlois e Seignobos

A obra primordial destes autores foi ‘A introdução aos estudos históricos’


(1898), que foi considerado texto manifesto da escola metódica. Nele, encontra-se
a militância por uma História que fosse dotada de rigor científico, que deveria
primar por acontecimentos políticos, conhecimentos cívicos e oficiais. Estes
estudiosos priorizam o uso dos documentos escritos, e deixaram em segundo
plano os fenômenos singulares, individuais e únicos. Procuravam reconstruir
tramas políticas e militares acidentais, sem relação de causalidade alguma.

72
TÓPICO 1 | A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO SÉCULO XIX: ALGUNS EXEMPLOS

A produção do conhecimento histórico deveria observar quatro


procedimentos metodológicos básicos: o de reunir e classificar documentos e
fontes; proceder a crítica interna dos mesmos; proceder ao encadeamento dos
fatos, e por fim organizá-los através de uma construção lógica.

Conforme sugerem Souza & Klanovikz (2012), os documentos oficiais


oriundos de arquivos seriam a máxima expressão da objetividade dos interesses
de estado, e das realizações político-administrativo-burocráticas, reafirmando,
também, sua importância na vida pública de nações ou de grupos sociais, dos
cidadãos e indivíduos modernos.

O historiador deveria atribuir a estes documentos um tratamento


semelhante a um inquérito, que se daria em nível e ordem interna e externa, no
sentido de verificar a autenticidade e a validade deles. Para tanto, na heurística
interna, o historiador deveria buscar analisar pormenorizadamente a constituição
do documento por si, sua forma, sua estética, seu discurso, sua construção em
sentido restrito. Na heurística externa, a sua validade levando-se em conta a
relação existente com outros documentos, com as instituições originárias, com a
época e local de formulação.

Dosse (2003a) apresenta que Langlois e Seignobos recusaram-se a prestar


o trabalho de reflexão teórica no ofício de historiadores, e reduziram o papel da
História à coleta de fatos, atitudes e posturas que colaboram à passividade do
historiador no fazer histórico.

73
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• No final do século XIX, a História se tornou uma disciplina da ciência, das


políticas imperialistas de governo, consolidação da economia capitalista, da
produção industrial, da secularização da sociedade e do cientificismo.

• A história que foi produzida ao longo do século XIX caracterizou-se por prezar
questões de verificação da veracidade e origem, formas de transporte, técnicas
de arquivamento de documentos, relíquias que pertenciam a personalidades
políticas e ou à história das nações.

• Os historiadores que se destacaram na produção da História do século


XX foram: Leopold von Ranke, Jules Michelet, Fustel de Coulanges, Jacob
Burckhardt, Edward Gibbon, Max Weber e Johann Droysen.

• Jules Michelet se dedicou ao estudo da cultura popular, procurando saber


das histórias de hereges, bruxas, do povo francês e com a História da França.
A narrativa de Michelet se caracterizava por narrativas que evocavam o
imaginário cristão, possuíam lirismo dramático e poético e com forte tom épico.

• Fustel de Coulanges militou por uma história mais sóbria, completamente


dedicada ao texto, cuja interpretação nada acrescentou aos fatos e documentos,
ou seja, que o historiador controla sua subjetividade.

• Johann G. Droysen defendeu que o saber histórico deve conter fundamentação


metodológica rigorosa e autônoma das demais ciências. Uma pergunta deveria
motivar o reconhecimento dos traços do passado no presente, nas lembranças, nos
esquecimentos, nos vestígios; e a partir destes recursos ousar vislumbrar o futuro.

• Jacob Buckhardt dedicou-se ao estudo das artes da renascença italiana, no


sentido de descrever as tendências que perpassavam a produção artística e
filiação que as mesmas possuíam em meio aos contextos socioculturais.

• Max Weber se dedicou aos estudos da sociedade em processo de racionalização


e secularização do estado moderno, da relação que a economia capitalista
estabeleceu com as comunidades religiosas protestantes.

• Friedrich Nietzsche foi estudioso crítico da antiguidade clássica para os


conceitos de ‘serenidade’ e ‘tragédia’; reclamava que o homem deixasse para
traz as concepções de um passado heroico e as lições morais e assumisse de
frente os impasses e os desafios de sua época.

• Langlois e Seignobos defendiam uma ciência histórica que primasse por temas
políticos, militares e cívicos; por documentos escritos e que fossem oriundos de
instâncias oficiais, sem estabelecer relações de causalidade e dependência entre eles.

74
AUTOATIVIDADE

1 Michel de Certeau defende que a prática histórica, ou seja, o conhecimento


histórico é totalmente relativo à estrutura da sociedade. Partindo da concepção
de que esta premissa é verdadeira, com relação à tradição da produção do
conhecimento histórico do final século do XIX é possível afirmar que:

I- Foi um momento em que a História buscou aproximação com as demais


áreas do conhecimento, tais como a filosofia de Hegel e Kant, e a sociologia
positivista de Weber e Marx.
II- A historiografia preocupava-se com os temas de história política,
diplomacia, pois as nações europeias empreendiam políticas de
imperialismo nas relações internacionais, o que favoreceu a formação de
um pensamento de forte cunho nacionalista/chauvinista.
III- Os historiadores centravam seus trabalhos em procedimentos metodológicos,
tais como a eurística e crítica documental e das fontes de pesquisa, em que
procuravam verificar a autenticidade e a procedência das mesmas.
IV- Os historiadores eram solicitados sobre orientações que deveriam ser
tomados no transporte, no armazenamento e na exposição de itens e objetos
que possuíam valor histórico excepcional ou que ilustravam eventos, fatos
e feitos de personalidades políticas, de governos e da oficialidade.

Agora assinale a alternativa CORRETA:


a) As afirmativas I e II estão corretas.
b) As afirmativas II, III e IV estão corretas.
c) As afirmativas I, III e IV estão corretas.
d) A afirmativas III e IV estão corretas.

2 Com relação aos principais pensadores e a sua contribuição à produção do


conhecimento histórico do final do século XIX, procure reconhecer o pensamento
de cada um e relacionar corretamente a primeira coluna com a segunda.

(1) Jules Michelet.


(2) Fustel de Coulages.
(3) Johann G. Droysen.
(4) Jacob Buckhardt.

( ) Dedicou-se aos estudos da história e da cultura helênica, da arte e o


movimento cultural da época renascentista, e fazia ampla defesa que o
Estado deveria fomentar a pesquisa histórica.
( ) Defendeu que o historiador deveria manter-se imparcial e objetivo diante
do conhecimento que estava narrando, e somente restringir-se à restituição
dos documentos.
( ) Defendeu que a história deveria apresentar um caminho metodológico
próprio e rigoroso, autônomo das demais ciências, e prezar pelas
individualidades e evitar as generalidades.
( ) Foi um estudioso apaixonado pela História da França; defendia que o
historiador deveria esforçar-se no sentido de narrar a história de forma
épica e dramática, no sentido de conferir vida honrosa aos ancestrais.
75
76
UNIDADE 2 TÓPICO 2

A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico do nosso Livro Didático vamos estudar Walter Benjamin;
Theodor Adorno; a Escola de Frankfurt; a nova esquerda inglesa; a historiografia
latino-americana; a tradição dos Annales e o caso de Michel Foucault. Bons estudos!

2 A ESCOLA DE FRANKFURT
Foi um grupo de estudiosos que na primeira metade do século XX
encontrava-se congregado junto ao Instituto de Pesquisa Social da Universidade
de Frankfurt. Possuem forte influência marxista, mas não se resumiam aos
dogmatismos e ao marxismo tradicional do século XIX, atuaram como críticos
tanto das ideologias do capitalismo e liberalismo internacional como do
socialismo soviético, e o que os identificava com mais coerência era lançar mão
de alternativas que promovessem o desenvolvimento e o bem-estar social. Para
tanto inspiravam-se em um quadro teórico e metodológico amplo que combinava
ao legado de estudiosos como Emanuel Kant, Hegel, Karl Marx, S. Freud, Max
Weber e George Lukács.

Na primeira leva de integrantes da Escola estavam Max Horkheimer,


Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Friedrich Pollock e Erich Fromm. Na segunda
geração participaram Jürgen Habermas, Franz Neumann, Albrecht Wellmer,
outros estudiosos como Walter Benjamin, Siegfried Kracauer, Karl A. Wittfogel
participaram associando-se temporariamente ao Instituto.

Cara acadêmica! A seguir procura-se apresentar o caso de Theodor


Adorno e Walter Benjamin. Prossiga na leitura!

77
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

3 THEODOR ADORNO (1903-1969)


Theodor Adorno foi um sociólogo e compositor alemão. Entre as suas
principais obras está a ‘Minima Moralia’ (1945), ‘Dialética do esclarecimento’
(1947) e ‘Filosofia da nova música’ (1948), que escreveu em parceria com
Horkheimer. Os temas centrais debatidos foram a indústria cultural e a cultura
de massa, quando esta nascia e articulava-se em meio aos sistemas políticos e
econômicos e às sociedades.

Para Adorno a razão se instrumentaliza e o que não se ajusta às medidas


da calculabilidade e da utilidade é suspeito para ela. Foi a lógica formal da
grande escola de uniformização, que ofereceu aos iluministas o esquema da
calculabilidade. O pensar se coisifica no processo automático, no fazer o homem
compete com a máquina, que por sua vez ele próprio produz para que esta possa
finalmente substituí-lo. O Iluminismo deixou de lado a experiência clássica de
pensar o pensamento, a reflexão, a razão e se tornou uma ferramenta, um mero
instrumento auxiliar do aparato econômico. 

Quando Adorno discute as implicações da indústria cultural, o faz com certo


entusiasmo, de que em meio aos processos de violência e dominação, se criam as
condições de galgar por democracia e liberdade. Observe na passagem que segue:

O efeito do conjunto da indústria cultural é o de uma antidesmistificação,


a de um anti-iluminismo [anti-Aufklärung]; nela, como Horkheimer
e eu dissemos, a desmistificação, a Aufklärung, a saber a dominação
técnica progressiva, se transforma em engodo das massas, isto é,
em meios de tolher a sua consciência. Ela impede a formação de
indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir
conscientemente. Mas estes constituem, contudo, a condição prévia
de uma sociedade democrática, que não se poderia salvaguardar e
desabrochar senão através de homens não tutelados. Se as massas
são injustamente difamadas do alto como tais, é também a própria
indústria cultural que as transforma nas massas que ela depois
despreza, e impede de atingir a emancipação, para qual os próprios
homens estariam tão maduros quanto as forças produtivas da época o
permitiriam. (COHN apud ADORNO, 1971, p. 295).

O Iluminismo ao mesmo tempo em que pretendia livrar os homens da


dominação dos mitos para fazer deles senhores e livrar o mundo do feitiço,
acabou por lhes aprisionar, pois no Iluminismo a razão se instrumentaliza, o
pensar se coisifica, o homem deixou de lado a experiência clássica de pensar o
pensamento, a reflexão, a razão se torna uma ferramenta, um mero instrumento
auxiliar do aparato econômico.

Outro tema a que Adorno se dedicou foi aos estudos das condições da
música em sua época, reflexões que são sintetizadas no ensaio “O fetichismo
na música e a regressão da audição”, em que almeja apontar as modificações
que a percepção musical sofria a partir da produção comercial padronizada
(estandardizada) de cultura que se consolidava naquela época, mudanças que
por sua vez não repercutiam somente às questões de gosto, mas que abalava a
própria faculdade e capacidade de audição dos ouvintes.
78
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

4 WALTER BENJAMIN (1892-1940)


Precisamos da história, mas não como precisam dela os ociosos que
passeiam no jardim da ciência.
NIETZSCHE

O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio


exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em
segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
BENJAMIN

Esta passagem de Nietzsche encontra-se citada na tese de nº 12, que


Benjamin publica intitulada “Sobre o conceito de História”. Benjamin é um
homem do século XX, mas que acabou de se despedir do século XIX, o século por
excelência da modernidade. Walter Benjamin recuperou na obra de Klee alguns
pontos que podem servir à reflexão sobre o conceito de história, de historiador,
de indivíduo e cidadão em termos de consciência e agir diante de seu momento
histórico no qual nos encontramos e que foi gestado ao longo da modernidade.

Benjamin (1987, p. 226) propõe a interpretação da obra de Klee nos


seguintes aspectos:

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um


anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente.
Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.
O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o
passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma
catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as
dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos
e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-
se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa
tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira
as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa
tempestade é o que chamamos de progresso.

79
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

FIGURA 3 - ANGELUS NOVUS. PAUL KLEE, 1920

FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Angelus_Novus#/media/File:Klee,_paul,_angelus_
novus,_1920.jpg>. Acesso em: 16 dez. 2015.

Tanto a obra de Paul Klee como o texto de Walter Benjamin expressam um


anjo que comporta a atribuição e o sentido de um anjo salvador/redentor diante
da tragédia provocada pela maré do progresso.

No Angelus Novus percebe-se certo descaso em relação ao futuro, ao devir,


pois seu olhar encontra-se fixo no passado. Quem sabe o que mais interessa ao
Angelus Novus esteja realmente no passado. Pois existem inúmeras possibilidades
que se encontram encobertas pelas ruínas e destroços do progresso, e esperam
pelo agir e atuar dos indivíduos, no sentido de revirar o passado, desentulhar
projetos, sonhos e expectativas que foram esquecidas e que estes podem trazer
orientação e caminhos ao presente.

Todo acontecimento para Benjamin significava um choque, um trauma,


em sua irreversibilidade. A tradição, incorporando os acontecimentos numa
lógica contínua, tem tendência a apagar as asperezas e a torná-las naturais. Uma
data, em si mesma, é apenas um dado vazio que é preciso preencher, ou melhor
animá-lo com o auxílio de um saber que não é conhecimento, mas reconhecimento
e rememoração e que está depositado na memória.

Benjamim contribui com a história quando aponta na superação do


pensamento de que o passado e o presente se sucedem, segundo ele o passado é
contemporâneo, simultâneo do presente, ambos se sobrepõem. Com isto benjamim
pretende responder às expectativas não verificadas de um passado de sofrimento no
interior do presente, vigilante para tornar possível uma atualização do esquecido.

80
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

Dosse (2003a) reconhece em Benjamim uma espécie de aporte criacionista, ou


melhor recriacionista, plasmado por meio de uma espécie de redenção messiânica,
que promove a reconciliação da humanidade com seu passado, que tanto desespera
e angustia o momento presente, conforme é possível identificar quando tece que: o
dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do
historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o
inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

As teses de Benjamin dirigiam-se à escola metódica, ao historicismo,


à secularização, à racionalização, ao progresso, ao materialismo histórico e
procuravam alertar que processos históricos poderiam sobrepor-se de forma fatal
e resignadora aos sujeitos históricos e à tradição das populações.

O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista


histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se
esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor
das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da
história. (BENJAMIN, 1987, Tese XVI).

As críticas de Benjamin atestavam que o historicismo se contentava


em estabelecer meramente um nexo causal entre vários momentos da história.
Benjamim insistia que nenhum fato, meramente por ser causa, é somente um
fato histórico. Segundo Benjamin (1987), ele se transforma em um fato histórico
postumamente, graças a acontecimentos que podem ser dele separados e
desdobrados, e isto pode implicar, ocorrer e repercutir por milênios.

O historiador consciente disso renunciaria a desfiar entre os dedos os


acontecimentos, como as contas de um rosário, ao invés disso se preocuparia em
captar a configuração do todo, e como sua própria época entrou em contato com
uma época anterior, perfeitamente determinada e encadeada. Com isso, ele funda
um conceito do presente como um “agora” no qual se infiltraram estilhaços do
passado, que clamam por justiça, pelo juízo final, e por sua vez seria conduzido
por forças messiânicas.

Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele


ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo.
Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma ideia de como o tempo
passado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-
se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece
se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o
futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o
futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio, pois nele cada
segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias e cumprir com seu
dever heroico e justiceiro. (BENJAMIN, 1987, Apêndice 2).

81
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

O materialismo histórico e dialético de Marx se fez presente na obra de


Benjamin quando este sugere que a História deve se constituir, de um fazer e
interpelar ‘a contra pelo’, ou seja uma operação e abordagem capaz de ultrapassar
os grandes feitos e dos heróis da História oficial, que seja capaz de revelar e fazer
justiça para com os projetos, os indivíduos e os sujeitos que foram negligenciados,
excluídos e jogados para baixo da capa primeira que se apresenta como lustrosa,
bem penteada e acomodada da História.

Os estudos de Benjamin contidos em “A obra de arte na era da


reprodutibilidade técnica”, em que a arte passou a ser reproduzida mecanicamente
combinam-se com os estudos de Adorno, no sentido de que os meios de
comunicação comandados pela indústria cultural e consumo de massa fornecia e
favorecia a perda de autonomia e integridade dos indivíduos. Conforme sugere
Benjamin, a autenticidade e a dignidade de uma coisa reside em seu conteúdo
que se estende desde a sua transmissão e duração material até a capacidade que
comporta de testemunho histórico.

5 A NOVA ESQUERDA INGLESA


Este grupo foi receptor das obras de Karl Marx, porém a continuidade se
deu numa dedicação e atenção a aspectos tais como as percepções e experiências
de vida de camponeses, trabalhadores e artesãos, nas relações de violência
experimentadas pela via econômica, religiosa e simbólica, e processada tanto na
esfera local, regional, nacional e global. Os estudiosos deste nicho da historiografia
atribuem à cultura o papel decisivo e força motivadora da transformação histórica.

Uma espécie de análise sutil e sensível de interação dialética entre economia,


valores e moral, uma clivagem de elemento materiais e culturais. Para tanto lançam
mão de categorias de análise e métodos oriundos da antropologia, no sentido de
perceber contradições, conflitos, interações de indivíduos e o mundo exterior em
meio às estruturas sociais, que podem ser identificados insights, tumultos, ativismos,
insurreições e distúrbios, individuais, grupais ou comunitários de enfrentamento
diante de sistemas de autoridade, controle e hegemonia.

No fazer e tecer do conhecimento histórico contestavam o conjunto de


leis universais ou de paradigmas generalizantes que a tudo englobam, incluir o
comportamento histórico, recriado numa espécie de textura ou descrição densa,
em que se revela a dialética trilhada entre experiência e consciência social.

Um tumulto, um ritual, um sacrifício, uma sublevação, por exemplo, pode


conter o potencial e a significância de transformar e reconfigurar, expurgar ameaças e
conferir coesão a um conjunto de funções religiosas, morais, sociais e políticas em uma
dada localidade ou comunidade. Dançar ilegalmente num dia santo não era apenas
uma celebração religiosa e comunitária, constituía um desafio com forte conotação
política. A violência contribuiu não só para a definição de comunidade e significado,
mas também para a transformação de sistemas simbólicos e o realinhamento de
poder, status e papéis dentro da comunidade (DESAN apud HUNT, 2001).

82
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

5.1 A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA DOS MARXISTAS


INGLESES NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX
O marxismo no ocidente se fez presente com diferentes contribuições no
campo da historiografia. Mais do que a União Soviética, foi da Inglaterra que
surgiram novas e interessantes análises com base no materialismo histórico e
dialético durante a segunda metade do século. Estas novas abordagens surgiram no
interior de uma grande crise nos partidos comunistas em vários lugares do mundo.

A crise ocorreu com o fim do culto a figura de Stalin. Em grande parte,


o stalinismo era um padrão para a conduta comunista no mundo. Porém,
Nikita Kruschev expôs ao mundo os crimes cometidos por Stalin, que fora
extremamente cruel com seus adversários políticos. Deste modo, muitos
militantes e intelectuais largaram as fileiras do partido comunista. Na Inglaterra,
os comunistas ficaram divididos. Porém, mais que uma questão interna entre
os comunistas ingleses, esta crise motivou uma criativa reinterpretação do
marxismo, não ligado à ortodoxia soviética.

Uma das principais questões que envolvem a historiografia foi o


surgimento de uma interessante geração de intelectuais ligados a esta perspectiva
analítica na Inglaterra. Em grande parte, estes historiadores publicavam artigos
em uma revista da esquerda inglesa, de nome New Left Review.

Exemplos de estudiosos que se dedicaram são Perry Anderson (1938),


Cristropher Hill (1902-2003), Eric Hobsbawm (1917-2012), George Rudé (1910-
1993), Charles Tilly (1929-2008), Eduard Palmer Thompson (1924-1993) e Maurice
Dobb (1900-1976).

Eric Hobsbawm foi o historiador de maior destaque neste grupo de


intelectuais. Seus estudos em geral versavam sobre aspectos da vida social,
política e econômica na Idade Moderna. Porém, seu maior sucesso editorial foi
um ensaio sobre o século XX (A Era dos Extremos). Seus livros de maior sucesso
tinham como título a palavra “era”, pensando as temporalidades para além da
dimensão cronológica. São eles: A Era das Revoluções, Era do Capital, A Era dos
Impérios e Era dos Extremos.

A ideia básica da forma diferenciada de como Hobsbawm lidava com a


ideia de temporalidade está explícita no livro a Era dos Extremos, no qual relata
o “breve século XX”. Pois, para o autor, o século XX se iniciou em 1914, com
a Primeira Guerra Mundial, e terminou em 1991, com o fim do Comunismo
Soviético. Assim, Hobsbawm considerava o tempo vivenciado pelos indivíduos,
e não apenas as convenções cronológicas para refletir sobre os séculos.

83
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Uma das principais contribuições de Eric Hobsbawm para a compreensão


da História do Ocidente foi o de pensar de forma crítica a presença ocidental
no mundo. Outra importante colaboração dos seus estudos é um alargamento
do entendimento de processos históricos de longa duração. Por exemplo, o
desenvolvimento do capitalismo e das grandes revoluções do século XVIII,
como a Revolução Industrial, a Revolução Francesa e a Independência dos
Estados Unidos. Outra importante consequência dos estudos de Hobsbawm foi a
compreensão do sistema capitalista.

Um dos seus mais famosos livros foi A Invenção das Tradições, escrito em
parceria com Terence Ranger. O livro apresenta estudos sobre a cultura popular
inglesa. Os autores conseguem com argúcia compreender a relação entre produção
popular (folclórica) de “tradições culturais” e os aspectos de dominação social aos
quais certos ritos socioculturais expunham. Além de Hobsbawm, outros autores
ingleses possuem destaque na produção historiográfica do século XX.

Perry Anderson possuiu uma grande importância em seus estudos sobre a


sociedade feudal e do absolutismo europeu. Em relação ao feudalismo, Anderson
escreveu o clássico ‘Passagens da Antiguidade Clássica ao Feudalismo’, no qual
apontou a construção do sistema feudal como uma continuação de convenções
sociais romanas (a servidão) e germânicas (o cumitatus, forma de organização
guerreira). No livro ‘Linhagens do Estado Absolutista’, Anderson mostra de
forma eloquente a construção dos principais Estados nacionais europeus, na
transição da Idade Média para a Idade Moderna.

Thompson se destacou nos estudos que foram reunidos no livro ‘A


Formação da Classe Operária Inglesa’. Nele, apresentou diversas pesquisas, com
base antropológica, na qual apontou as transformações cotidianas vivenciadas
pelas populações que migraram do campo para a cidade ao longo do século
XVIII, e que lutaram por manter seu estilo de vida e seus valores. Assim, uma das
grandes contribuições de Thompson foi compreender os motins realizados pelos
plebeus não como uma expressão da fome pela qual passavam, mas sim, uma
revolta motivada pelos valores profundos que estavam sendo desrespeitados
pela nova ética do trabalho, ligada à produção industrial.

Christopher Hill se destacou na produção historiográfica relativa ao


século XVII inglês. Uma interessante época, na qual foram realizadas a Revolução
Puritana, a República de Cromwell e a Revolução Gloriosa. Os livros “O Mundo
em Ponta Cabeça” e “A Bíblia Inglesa e as Revoluções do Século XVII” são
exemplos máximos dos estudos realizados por Hill.

Maurice Dobb também está incluído entre os destaques da historiografia


marxista inglesa do século XX. Economista de formação, sua contribuição à
historiografia esteve relacionada ao campo da história econômica. Em especial,
seus estudos possibilitaram um melhor entendimento sobre o importante
tema da transição da sociedade feudal para a capitalista. O capitalismo sendo

84
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

compreendido como um modo de produção no qual as relações sociais, entre o


proletariado e a burguesia, são marcadas pelo antagonismo social, produtor da
luta de classes. A sua principal obra tinha por título A Evolução do Capitalismo,
no qual analisou a secular formação da moderna economia mundial, entre os
séculos finais da Idade Média e o início do século XX.

Em grande parte, os estudiosos marxistas ingleses possibilitaram uma


melhor compreensão da sociedade ocidental, com especial destaque para a
denominada Idade Moderna, no qual tivemos a formação dos estados nacionais e a
constituição do sistema capitalista de produção. Uma das novidades apresentadas
no interior dos estudos marxistas foi a de uma recusa ao determinismo econômico,
não mais compreendendo a história humana apenas como um esquema de
sucessões de modos de produção econômicos. Para estes marxistas, aspectos
ligados ao cotidiano, assim como as crenças dos indivíduos, foram considerados
fundamentais para a compreensão da história humana.

6 A HISTORIOGRAFIA LATINO-AMERICANA
A historiografia latino-americana no século XX pode ser medida na grande
influência que a produção intelectual mexicana teve sobre o continente em dois
aspectos. Um primeiro, as instituições; a Universidade Autônoma da Cidade do
México, além do Colégio do México, que formaram muitos historiadores que
atuaram em universidades nos vários países de língua espanhola. Um segundo
e importante aspecto de influência do panorama cultural mexicano sobre o
continente foi a editora “Fundo de Cultura Econômica”, responsável por traduzir
grande parte da produção intelectual europeia para o espanhol. Podemos lembrar
que foi no México, a primeira tradução de Economia e Sociedade, de Max Weber,
para outro idioma que não o alemão. Também Karl Marx e Fernand Braudel
foram traduzidos por esta importante e influente editora mexicana.

Entre as coleções coletivas editadas no México, podemos destacar a História


Mínima de México, produzidas pelo Colégio de México. Entre os importantes
historiadores mexicanos, podemos citar Luiz Weckmann e Edmundo O’Gorman.
Luiz Weckmann defendia a tese de que existiam continuidades entre a Península
Ibérica da Reconquista e a Colonização Americana. Ideia exposta em textos como
A Idade Média na Conquista da América e As Raízes Medievais do Brasil. Outro
importante historiador, Edmundo O’Gorman, defendeu a interessante tese A
Invenção da América, na qual apresentava a América como uma “invenção da Europa
Renascentista”. Assim, podemos compreender que grande parte das compreensões
sobre a América, enquanto continente, surgiram das utopias europeias quinhentistas.

No que tange às influências do marxismo, o principal historiador marxista


latino-americano foi José Carlos Mariátegui. Um intelectual autodidata, teve
como principal livro os Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, na
qual analisou a história econômica, a questão indígena, e responsabilizando os
grandes latifundiários para grave situação de pobreza pela qual amplos setores
da população sofriam. O tipo de história produzida por Mariátegui pode ser
classificada como politicamente engajada. Foi ele membro fundador do Partido
Comunista Peruano, sendo personagem de grande influência continental.
85
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Dentre os estudiosos dos países andinos, também é destaque a produção


do historiador chileno Mário Góngora, autor do livro “Ensayo histórico sobre
la noción de Estado en Chile en los siglos XIX y XX”. Também estudou o jesuíta
Manual Lacunza, personagem da transição do século XVIII ao XIX. No que
confere à produção historiográfica platina, foi destaque durante os anos 1970
o ensaio histórico produzido por Eduardo Galeano, jornalista uruguaio que
escreveu o afamado clássico As Veias Abertas da América Latina. Livro que fez
uma análise da História do continente em uma época no qual o mesmo sofria a
falta de liberdade individual marcada pelas ditaduras de segurança nacional.

A historiografia latino-americana não se restringe apenas aos autores


nativos do continente latino-americano. Podemos citar autores de língua inglesa e
francesa que produziram sobre a América Latina. Entre os autores de língua inglesa
é destaque Leslie Bethell, o coordenador de uma importante coleção sobre a História
da América Latina, que contou com a colaboração de importantes pesquisadores
sobre o continente. Bethell também produziu diversas pesquisas sobre o continente.

Entre os autores de língua francesa, alguns autores se destacaram: Pierre


Chunu e Serge Gruzinski. Pierre Chuanu, pesquisador de temas ligados à História
Moderna e da Expansão Ultramarina Ibérica nos Séculos XV e XVI, produziu uma
História da América Latina. Entre os pesquisadores franceses, temos a produção
de Serge Gruzinski. Autor de livros como O Pensamento Mestiço e a Colonização
do Imaginário, abordou os aspectos culturais da história americana colonial.

No que se refere à história da América, um dos mais revolucionários livros


editados foi escrito não por um historiador, mas por um crítico literário polonês
radicado na França: Svetan Todorov. Este foi o autor do livro “A Descoberta da
América: a questão do outro”. Nesta importante análise, Todorov apresenta uma
interessante interpretação da dominação espanhola sobre a América, apresentando
a importância da questão da comunicação. Para o autor, a dominação ocorreu,
em grande parte, porque os dominadores espanhóis conseguiram desarticular o
sistema de símbolos dos nativos.

A historiografia da América Latina e sobre a América latina é de grande


importância para o acadêmico de história, pois, ela revela a multiplicidade, as
vivências e os valores do continente a qual pertencemos.

Malerba (2009) aponta que a historiografia latino-americana ao passo


da historiografia brasileira conta com um forte impulso nos anos de 1960, cujo
caráter se expressa pela presença de influências oriundas da produção intelectual
dos países da França, Estados Unidos e Inglaterra, para com as vertentes pós-
estruturalistas e pós-moderna, e mais recentemente, uma espécie de mistura
entre a tradição marxista e do movimento dos Annales.

86
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

Nos anos de 1970 e 1980 a Comissão Econômica para América Latina e


Caribe (CEPAL), que se dedica a analisar de forma macroestrutural questões do
desenvolvimento da região como sendo diretamente relacionadas ao passado,
cujos estudos se centram em questões de escravidão, trabalho e movimentos sociais,
que vão sendo ampliados e renovados dando espaço a estudos sobre questões de
gênero, etnias, cultura popular, identidades e história do cotidiano.

Diversos países (Chile, Argentina, Uruguai) conheceram as experiências


de ditaduras militares e conforme estes regimes foram desfeitos a preocupação
dos estudiosos centrou-se em como a sociedade civil e os movimentos sociais se
articularam e contestavam o regime militar e como este respondia à população.
Ultrapassado este momento, a partir dos anos de 1990 ocorre forte fragmentação
temática como trajetória de sindicatos, gays, ambientalistas, movimentos feministas,
ao mesmo tempo em que ocorria a revitalização por temas da política, da formação
do Estado, da legitimação do poder, processos político-partidários, como os
processos de independência (colônia e metrópole), a formação das elites nacionais,
movimentos federalistas, experiências populistas, movimentos camponeses.

Estudiosos que têm se dedicado a pensar a produção do conhecimento


histórico em Cuba são Sergio Guerra Vilaboy (1949), com a obra “Os fundadores
da historiografia marxista na América Latina” e “História e Nação: trajetória
da historiografia cubana do século 20”, de Oscar Zanetti Lecuona (1946), “A
Historiografia Latino-americana da Questão Nacional: nações inacabadas; inimigos
da nação e a ontologia da nacionalidade”, da brasileira Cláudia Wasserman.

Centros como a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM),


Universidade Federal da integração Latino-Americana (UNILA), Universidade do
Chile, Universidade de São Paulo (USP) a existência Asociación de Historiadores
Latinoamericanos y del Caribe (ADHILAC).

7 A TRADIÇÃO DOS ANNALES


Quanto mais sociológica a história se tornar, e quanto mais histórica a
sociologia se torna, tanto melhor para ambas.
E. H. Carr

Os Annales surgiram de encontros aos sábados entre filósofos, sociólogos,


historiadores, geógrafos, juristas e matemáticos docentes da Universidade de
Estrasburgo, cidade a nordeste da França, região da Alsácia, que buscavam refletir
sobre temas de filosofia e orientalismo, história das religiões e história social.

Os colaboradores dos Annales assumiam o esforço de ampliar as fontes


e os métodos, ir além dos textos; incluir estatísticas, referências da linguística, da
psicologia da numismática, da arqueologia, demonstrar interesse pela natureza,
pela paisagem, pela população, demografia, pelas relações de troca, pelos costumes;
rejeitar o factual em benefício da abordagem e compreensão da longa duração.

87
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

O historiador desta tradição historiográfica tendeu a privilegiar aquilo que


dura, aquilo que se repete para poder estabelecer os ciclos longos, as tendências
seculares, na tentativa de romper com a história historicizante e factual do século
XIX e que ainda se faz presente no século XX.

Tem-se a impressão que ao longo do século XX foram exorcizadas


experiências que foram mantidas em tensão, abafamento e reclusão pelos projetos
de modernidade transcorridos do século XIX. De maneira ampla o paradigma no
interior dos Annales debruçava-se em indagar como funcionavam os sistemas
de toda uma sociedade ou coletividade, procurando levar em consideração as
múltiplas dimensões tais como a percepção temporal, espacial, humana, social,
econômica, cultural, o contingente, as circunstâncias, engendrando uma espécie
de história total (HUNT, 2001).

Cara acadêmica! Ao longo do texto situaremos e aprofundaremos melhor


estes aspectos, esteja atenta!

Segundo Burke (1997), a criação dos Annales ocorreu logo depois do final
da Primeira Guerra Mundial. Lucien Febvre idealizou uma revista internacional
dedicada à história econômica e transferiu a direção ao historiador belga Henri
Pirenne, porém o projeto encontrou grandes dificuldades e foi abandonado.

Em 1928, March Bloch retomou os planos da revista (uma revista francesa,


agora) e obtendo sucesso em seu projeto, e novamente, foi solicitado que Pirenne
dirigisse a revista; o que não pôde fazer, cabendo a Febvre e Bloch se tornarem
os editores-chefes. O historiador Henri Pirenne (1862-1935) foi reconhecido pelos
fundadores como um grande padrinho e motivador do projeto dos Annales.

Originalmente chamada Annales d’histoire économique et sociale, teve por


modelo os Annales de Gégraphie, de Vidal de la Blache, editada ainda em 1891. A
revista foi planejada, desde o seu início, para ser algo mais do que outra revista
histórica em circulação nos meios acadêmicos. Pretendia exercer uma liderança
intelectual nos campos da história social e econômica. Seria a porta-voz, melhor
dizendo, o alto-falante de difusão dos apelos dos editores em favor de uma
abordagem nova e interdisciplinar do conhecimento histórico.

O primeiro número surgiu em 15 de janeiro de 1929. No editorial


apresentava uma mensagem que procurava explicar que a revista havia sido
planejada muito tempo antes, e lamentavam as barreiras existentes entre
historiadores e cientistas sociais, enfatizando a necessidade de intercâmbio
intelectual. Para dar conta da intensão interdisciplinar, o comitê editorial incluía
não somente historiadores, antigos e modernos, mas também um geógrafo,
Albert Demangeon; um sociólogo, Maurice Halbwachs; um economista, Charles
Rist, um cientista político; André Siegried, antigo discípulo de Vidal de La Blache.

88
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

7.1 PRIMEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1929-1945)


Somos devedores da palavra social. Destaco (o estudo da organização da
sociedade, das classes etc.) ao lado da palavra econômico.
Marc Bloch

Os estudiosos que se destacam na primeira fase da Escola dos Annales


foram Marc Bloch (1866-1944), Lucien Febvre (1878- 1956), Georges Lefebvre
(1874-1959), André Piganiol (1883-1968), Henri Pirenne (1862-1935), François
Simiand (1873-1935) e Ernest Labrouse (1985-1988).

A historiografia defendida pelo grupo dos Annales nascia em meio à morte


da Belle Époque, em meio ao cemitério da Primeira Guerra Mundial, dos descaminhos
da Revolução Russa e Chinesa, da crise de 1929, da formação e fortalecimento de
regimes como do nazismo e do fascismo; expansão da hegemonia norte-americana
e japonesa em termos econômicos, tecnológicos e bélicos.

Os estudiosos dos Annales se preocupam em tornar evidentes os


aspectos econômicos e sociais, abandonando o campo político em suas pesquisas,
pesquisam momentos pré-industriais, um discurso que versava contra a tradição
do século XIX do historicismo, do evolucionismo, da ideia de progresso e a
realização triunfante da ‘civilização’.

Essa guinada é resultante também da percepção de falência de esquemas


ideológicos que se centravam basicamente na personalidade e na singularidade dos
indivíduos, introjetados no centro da economia capitalista e no interior dos regimes
políticos totalitários. Os Annales reclamavam por alternativas e revoluções coletivas,
e de um indivíduo liberto da dominação e tutela do Estado, que vislumbra um novo
tempo, ou a alternativa “de uma terceira via”. (DOSSE, 2003b, p. 39).

Os historiadores da primeira fase dos Annales identificam-se com as


preocupações de Émile Durkheim (1858-1917), em especial Bloch (2001, p. 48),
quando escreve que “ele nos ensinou a analisar mais profundamente, a cerrar
mais de perto os problemas, a pensar, ousaria dizer, menos barato”; o que por
sua vez requer que os historiadores estejam dispostos a se aproximar das áreas de
conhecimento das ciências sociais, como a linguística, a psicanálise, a antropologia,
entre outras ciências e disciplinas, de lá obtendo conceitos, métodos e hipóteses, que
possibilitavam alargamento das interpretações e reconhecimento das contingências.

Os historiadores dos Annales passam a questionar os grandes trunfos até


então sustentados pelos historiadores do século XIX, trunfos como o da preocupação
e zelo perpétuo pela história política, a história como fruto e resultado de indivíduos
singulares e a obsessão por estudos sobre de retorno às origens.

Os combates dos Annales, referiam-se à esfera do compreender e do


agir e diante de uma realidade que se apresentava em franca crise. A crise se
abatia tanto na América (Nova York) como na Europa (Londres e Paris) e em sua
essência suspeitava diante da ideia de progresso contínuo e a crescente euforia
pelo consumo e acúmulo de bens materiais.
89
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

A exemplo disto o primeiro exemplar da Revista dos Annales, lançado


em 15 de janeiro de 1929, levou o título de Annales d´historie economique et
sociale (Annais de História econômica e social). A História assumia o desafio de
apresentar respostas diante da crise que se encontrava instaurada nos setores
financeiros e se debruçava em quantificar as variáveis econômicas e as evoluções
de preços de outras épocas históricas.

Por outro lado criticam a neutralidade e a impessoalidade do historiador


diante dos fatos, o fazer e ofício como um mero datilógrafo; reclamavam que
se fazia necessária a intervenção ativa do historiador como um pesquisador
científico, que em meio aos arquivos e aos documentos; nos termos de que fosse
quebrada a ingenuidade da erudição pela erudição e se desperta no sentido de
que nada caminha por si mesmo, nada é dado e neutro, tudo é construído; o
próprio historiador deveria construir seu material; os documentos, em séries
inteligíveis e com formulações problemáticas, confrontando-as aos documentos;
ou seja o historiador engendraria, quem faria nascer, quem invocaria a história.

Marc Bloch (1866-1944) foi um estudioso cheio de resguardos e


inconclusões, apresentava-se com uma postura reflexiva e complexa. Marc Bloch,
na primavera de 1944 foi preso pela Gestapo nazista, encarcerado, torturado e
executado em Montluc.

Defendia que “uma história ampla, profunda, longa, aberta, comparativa


não pode ser feita por um historiador isolado, só pode ser feita com ajuda mútua”.
(BLOCH, 2001, p. 25). Com esta proposição reforçava a necessidade de a História
carecer de parcerias e projetos de cunho interdisciplinar.

O fazer metodológico do historiador Bloch (2001) sugeria que o primeiro


trabalho a ser feito é o da ‘observação histórica’, sem jamais ignorar a imensa
massa dos testemunhos não escritos e utilização de um procedimento de
reconstrução e estruturação narrativa que levava em consideração através de
pistas; e enfatiza que a história só é feita por meio de uma multiplicidade de
documentos e simultaneamente, ferramentas dessemelhantes. Ou seja, o arsenal
teórico e metodológico de que o historiador deveria apropriar-se no fazer histórico
deveria portar o mesmo teor que deve ser reconhecido aos fatos humanos, que
possuem relação um com os outros e permeados por emaranhados complexos.

Bloch (2001) aconselha que o historiador não deve se contentar em


identificar mentiras, erros, falsificações na realização de seu ofício de crítica,
precisa descobrir seus motivos. Em certos seres humanos, a mentira, embora
em geral associada, aí também, a um complexo de vaidade ou do recalcamento,
torna-se quase, um ato gratuito e que “o gosto pela mentira às vezes assume o
aspecto de uma verdadeira epidemia coletiva”. (BLOCH, 2001, p. 98).

90
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

Lucien Febvre (1878-1956), socialista fervoroso, não fazia ressalvas ou


rodeios para alçar seu discurso. Questionava francamente que a História, os
acontecimentos, os fatos, o passado está dado, afrontava ele que tudo é criado pelo
historiador, ou melhor, o historiador que faz nascer a história; deveria confrontar
suas hipóteses com os documentos assim como não poderia se contentar em
escrever sob o ditado dos documentos, deveria questioná-los, inseri-los em uma
problemática; por outro lado também enfrentava as noções de impessoalidade,
neutralidade e imparcialidade que era defendida pela historiografia do século XIX.

Como possibilidades de pesquisa sugeria exercícios e estudos de história


comparada; a comparação a partir dos aspectos originais, similitudes e diferenças
entre épocas e sociedades, levando em consideração as longas durações; a
etnografia; a etnologia, a psicologia; o estruturalismo; as práticas simbólicas; os
sentimentos (o amor, a morte, a piedade, o medo, a crueldade,...), as mentalidades,
as expressões da iconografia, da literatura, semeava os germes das novas fontes,
dos novos objetos e novos problemas.

7.2 SEGUNDA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1945-1968)


A revista, a partir da segunda geração do Annales, sofre mudanças de
nomenclatura e é intitulada de Annales: Économies, Societés, Civilisations (Anais:
Economia, Sociedade e Civilização); que ficou sob a direção de Fernand Braudel
(1902-1985), que se esforçou em levar adiante os projetos da geração anterior
dos Annales e contou com a colaboração dos estudiosos Ernest Labrousse (1895-
1988); Pierre Goubert (1915-2012); Georges Duby (1919-1996);  Pierre Chaunu
(1923- 2009) e Robert Mandrou (1921-1984).

Foi o momento em que os estudiosos lançam mão de conceitos, abordagens


e métodos oriundos da demografia, etnologia, história regional, geografia,
relações sociais, ciência política; visavam recuperar a globalidade dos fenômenos
humanos, numa perspectiva de movimento rumo à totalidade do social.

Compreendiam que existia uma relação de reciprocidade e de


pertencimento entre as esferas da economia, da política, da cultura e da
sociedade (a cultura é economia, política, sociedade); se utilizavam de tabulações
e programas de computadores, consolidava-se assim o método comparativo,
que versou sobre o tempo mais longo e maiores extensões de espaço, ou seja,
preconizavam a longa duração.

Braudel era filho de pai matemático, entre os anos de 1923 e 1932,


lecionou  em uma escola secundária na  Argélia. Em  1934, o filho do fundador
do jornal O Estado de São Paulo, o jornalista Júlio de Mesquita Filho (1892-
1969),  convidou o antropólogo Fernand Braudel e  Claude Lévi-Strauss (1908-
2009) para ajudarem a criar a Universidade de São Paulo, onde Braudel lecionou
entre os anos de 1935 e 1937.

91
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Na Segunda Guerra Mundial em 1939, ele foi convocado para o serviço


militar, e posteriormente foi feito prisioneiro em  1940  pelas tropas alemãs.
Enquanto ficou prisioneiro de guerra em um campo na Alemanha, Braudel
elaborou o seu trabalho La Méditerranée et le Monde Méditerranéen à l'époque de
Philippe II, mesmo sem acesso a seus livros ou notas, baseando-se apenas no seu
repertório de lembranças e memórias, reforçadas a partir de breves consultas a
uma biblioteca local.

Braudel propôs teorizações fundamentais quanto à percepção temporal e


cronológica da história, propondo uma tripartição que estabelecia o factual, como
sendo o que possui curta duração, e que ocorre a experiências de indivíduos,
insurreições, levantes; conjuntural-cíclico, fatos e fenômenos que transcorrem
em média duração; tais como ciclos econômicos, ditaduras, regimes políticos;
longa duração: o que praticamente não se percebe mudar, que é imóvel, que é
marcado por permanências e continuidades, o tempo da natureza.

Braudel contribuiu muito quando propôs a percepção de três


temporalidades históricas, a curta, a média e a longa duração. A percepção de
curta duração, o evento, efêmero que se circunscrevia no campo da política do
indivíduo; a média duração, a conjuntura, que diz respeito à temporalidade das
relações e instituições sociais; longa duração, ou a noção de estrutura, que se
refere ao ambiente geográfico, aos ciclos da natureza, e a lentidão dos processos
geológicos, pela qual o autor reclamava prioridade.

UNI

A síntese braudeliana pode ser compreendida e percebida também na seguinte


máxima: OS HOMENS (curta duração) E AS ORGANIZAÇÕES (média duração) PASSAM, O
MEDITERRÂNEO (longa duração) PERMANECE.

Braudel em especial, aponta para a fragilidade da História enquanto


ciência e faz uma provocação aos historiadores no sentido de que estes deveriam
estar dispostos a transpor fronteiras e disponibilizar-se a reagrupamentos, ou
seja, dialogar com outras ciências e áreas do conhecimento; neste movimento a
economia descobriria a sociologia; e a história – talvez a menos estruturada das
ciências do homem – aceitaria as lições que lhe oferece a sua múltipla vizinhança
e esforça-se para repercuti-las.

92
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

Braudel debatia que a História deveria esforçar-se para sintetizar a soma


de todas as histórias possíveis, uma espécie de coleção de ofícios e de pontos de
vista, de ontem, de hoje e de amanhã; evitar escolher e centrar-se somente em
uma dessas histórias, ou em um acontecimento. Não pensar apenas no tempo
breve, não acreditar que só os setores, maquinarias que fazem ruído e alarde
são os mais autênticos e legítimos, mas também que existem os silenciosos e que
são capazes de rombos e desestruturas irreversíveis. Fazendo estas ressalvas, o
estudioso combatia por uma história de análises conjunturais.

Dosse (2003b) analisa que observar, classificar, comparar, isolar são as


grandes operações cirúrgicas praticadas por Fernand Braudel, isso encorpado
com o método comparativo que leva em consideração o tempo de longa duração e
dimensões espaciais mais estendidas possíveis, apontando para uma história global,
quase fora do tempo; contemplando a multiplicidade de pontos de vista conferida
pela cooperação entre as disciplinas que iam desde a antropologia à psicologia.

Entre as principais obras de Braudel encontra-se ‘Civilização e impérios


do Mediterrâneo na época de Felipe II’ (1949), ‘O mundo atual’ (1963), ‘Escritos
sobre a história’ (1969), ‘O Mediterrâneo’ (1985).

A segunda geração dos Annales dedicou-se a criticar a percepção de


tempo histórico que privilegiava o indivíduo e o acontecimento (protestos,
nascimento, morte, ato de casamento, formatura), que por sua vez foi entendido
como explosivo, ruidoso, nada mais que fogo de palha, e que se caracterizaria por
promover uma narração dramática, precipitada e de pouco fôlego.

Dosse (2003b) tece críticas à moral histórica braudeliana, no sentido de


que a apelação ao meio geográfico, em especial pelo determinismo, acabava
por diminuir a velocidade da história. Por outro lado, a espacialização e a
temporalidade, pelo viés da economia, favoreciam a dissolução das forças
contraditórias internas e das forças de cisão e possibilidades de revolução que
aparecem em meio à mudança; por outro lado, também, diminuía a influência e o
poder do homem como ator e transformador da História.

7.3 TERCEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (PÓS


1968...): NOVOS MÉTODOS, OBJETOS E ABORDAGENS
Dosse (2003a, p. 249) discute que a crise da ideia de progresso acentuou
o renascimento das culturas anteriores à industrialização e em especial que “a
Nova História se esconde, então, na busca das tradições, ao valorizar o tempo que
se repete, as voltas e reviravoltas dos indivíduos”.

93
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Trata-se do contexto em que ocorrem a tentativa de descolonização dos


países e povos da África, Ásia, América e os demais povos que compunham o
terceiro mundo. O eurocentrismo é relativizado. Os projetos das duas gerações
anteriores dos Annales acabaram por produzir uma consciência etnológica,
em especial que confere força às estratégias de resistências ao colonialismo, as
estruturas e os valores que não foram afetadas pelas investidas ocidentais.

Abandonam-se os tempos fortes e os movimentos voluntaristas de


mudança em direção à memória do cotidiano das pessoas simples. Dosse (2003a,
p. 249). Uma nova topografia estética se instala, segundo a qual se fala de uma
aldeia, das mulheres, dos imigrados e dos marginais, uma espécie de antropologia
histórica, uma história sociocultural.

A revista passa por uma estruturação interna na composição de sua


direção; agora um colegiado que foi composto por André Burguière (1938), Marc
Ferro (1924), Jacques Revel (1942), Jacques Le Goff (1924-2014), Emmanuel Le Roy
Ladurie (1929); vai reger e decidir sobre os caminhos dos Annales e não mais a
estrutura centralizada em uma liderança.

Ao lado dos estudiosos que compunham o colegiado da revista, outros


estudiosos se destacaram neste período como Pierre Nora (1931), Michel Foucault
(1926-1984), Hayden White (1928), Dominick LaCapra (1939), Clifford Geertz
(1926-2006), Peter Burke (1937), Carlos Ginzburg (1939), Joan Scott (1941), Robert
Darnton (1939), Michel Vovelle (1933) Pierre Chaunu (1923-2009).

Pode-se falar de uma espécie de radicalização dos projetos das duas fases
anteriores e conforme os anos se sucedem os estudiosos passaram a se preocupar
cada vez menos com a histórica econômica e social. Dosse (2003) qualifica a terceira
geração dos Annales como ‘História em migalhas’, matizada por interesses e buscas
por exotismos, preciosismos, memórias, lembranças, ritos, tradições, experiências
que se caracterizavam por ser pré-modernos (medieval, artesanal, modernos), não
industrializadas ou que foram inseridas na lógica capitalista; por irracionalismos,
sensibilidades, emoções, o corpo, a infância, o imaterial, o intangível, a paisagem,
os cheiros e odores, entre outros, que evocam cada vez mais o tempo estático,
congelamento do tempo, a antropologia, a etnografia, a psicanálise.

Dosse (2003b) uma espécie de renúncia à história global e total, sugerida


pelas gerações anteriores da Escola dos Annales (Bloch-Febvre-Braudel). Para
os historiadores da terceira geração dos Annales, a história total teria validade
somente no plano programático restrito, mas ao passar para a experimentação,
a totalidade se fragmenta em uma miríade de objetos singulares a serem
especificados e construídos.

Diehl (1993) apresenta que tendência da “Nova História”, herdou a


estrutura organizacional e a própria Revista Annales, a qual, a grosso modo,
parece ter mantido suas características anteriores na nova fase; a preocupação
interdisciplinar, a atenção às técnicas de pesquisa, a concentração dos estudos
medievais e modernos.

94
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

Dosse (2003b) discute que os historiadores dos Annales se tornaram


especialistas do tempo imóvel em um presente congelado, petrificado de pavor
diante de um futuro incerto. Ele é a vestal de uma sociedade angustiada em busca
de certezas que reflui em direção ao passado como nova religião.

Uma vez lançadas estas possibilidades, temas da história econômica, história


social, história e poder; história das ideias, história das mentalidades, história
cultural; história agrária, urbana, empresarial, colonização, industrialização;
história familiar, genealogias, biografias, história da demografia, etnia, história
do cotidiano e da vida privada; história das mulheres, da sexualidade, história
do corpo, subjetividade, história da infância; literatura, discursos, narrativas,
linguística, semiótica, imagens, hermenêutica; história oral, memória e identidade,
patrimônio histórico e cultural (tangível e intangível).

Fala-se em mentalidades e representações sociais, que são explicadas


como os componentes próprios da realidade social. As relações econômicas e
sociais não são anteriores a relações culturais, nem as determinam; elas próprias
são campos ao mesmo tempo de prática e produção cultural.

Os estudiosos da escola dos Annales trilharam uma história que se


adaptou às mutações e turbulências da sociedade do século XX e da legitimação
da História em meio às demais disciplinas do conhecimento científico. Colocando
as três fases dos Annales, Marck Bloch/Lucien Febvre a Jacques Le Goff/Pierre
Nora em perspectiva, é possível identificar continuidades e descontinuidades,
mas que esteve no centro da preocupação de todos a noção de longa duração e a
negação do aspecto político e do acontecimento na História.

Os historiadores da escola do Annales atacaram os mitos herdados do


século XX que foram o gênero biográfico, político e factual. Trataram de tecer uma
espécie de terceira via, entre historicismo e marxismo, mas que se reverteu não em
ideologia, mas em mentalidades, não ao materialismo, mas à materialidade, não à
dialética, mas às estruturas sociais, mais descritivas do que explicativas; isso tudo
numa tentativa de unificar as ciências sociais, colocá-las em um mercado comum,
em que a História exerceria uma espécie de liderança federativa.

As descontinuidades podem ser identificadas quando a 1ª geração dos


Annales propôs a ideia de que fosse elaborada uma história total, uma história de
tudo e de todos ao mesmo tempo; a 2ª geração, quando defendia o projeto de que
deveriam ser contempladas a pluralidade de objetos, métodos e temporalidades,
com o intuito de discerni-los e diferenciá-los; e a 3ª geração dos Annales, quando
se torna evidente o esmigalhar, o esfacelar das perspectivas históricas, em que
as singularidades e peculiaridades de fatos e fenômenos históricos se tornam
os objetos e temas de estudo dos pesquisadores, uma espécie de ‘história em
migalhas’ como explicou Dosse (2003) explicou como; diante deste contexto
de mudanças, Pierre Vilar (1906-2003) defende que já não existe um projeto de
História, como tanto queriam os representantes fundadores da escola do Annales.

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UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Dosse (2001) faz a crítica de que no interior do discurso dos Annales


encontra-se a predominância dos meios de comunicação de massa, pois se
apresenta um conhecimento essencialmente cultural e etnográfico, descrito de
modo espetacular e neorromântica, permeada por uma áurea mitológica, em que
os loucos são colocados ao lado das feiticeiras, em que as margens e a periferia
sobrepõem ao centro, precedendo uma espécie de apaziguamento e anulação das
contradições entre eleitos e excluídos dos projetos de modernidade.

No campo institucional da História como ciência foi quando ocorreu


a reforma universitária, a criação dos cursos de mestrado e doutorado; a
departamentalização das ciências humanas. Pairava no ar o espectro do mal-estar
da ciência, da história, da política, da humanidade; atestava-se além da morte
de Deus (ainda por Nietzche no século XIX) agora a morte da ciência, que se
apresentava como amoral diante das questões do presente; bem como diante do
peso do passado (inquisição, ditaduras, escravidão; nacionalismos, identidades,
racismos, homossexualismo, feminismo), ou seja, a desreferencialização do real, o
discurso intertextual, a dessubstancialização e dessacralização do sujeito, retorno
ao estudo do microcosmo, a fragmentação da ciência.

Dosse (2003b) atesta que na falta de um projeto coletivo essa pesquisa faz-
se mais pessoal e mais local. Diehl (1993) discute que vivemos numa época em
que o fantasma da intransparência teórico-metodológica ronda a ciência histórica,
o que torna urgente a tarefa de discutir os parâmetros, os e as possibilidades dos
fundamentos da própria História.

8 O CASO DE MICHEL FOUCAULT


Michel Foucault (1926-1984) aproxima-se e encontra-se inserido no
quadro teórico plasmado anteriormente por Karl Marx e Friedrich Nietzsche.
A proposta de Foucault é a de um olhar antropológico da História, que vai ser
levado ao cabo pelas pesquisas em História do cotidiano, das mentalidades, crítica
e problematização de instituições do Estado, táticas de dominação, dominação,
disciplina e controle social, com forte tendência em buscar a contingência e a
subjetividade em História.

Foucault esteve no Brasil atuando junto à Universidade de São Paulo (1965


e 1975) e proferiu conferências no Rio de Janeiro. Entre suas principais obras estão
A História da loucura, Vigiar e Punir, O nascimento da clínica, A arqueologia do
saber, As palavras e as coisas.

Foucault propõe um método arqueológico, como forma de negação


dos modelos racionalistas tanto de História como de sociedade. Vayne (1998)
apresenta que Foucault provoca o historiador para que dê mais atenção, e assim
encontrará algo nas "entrelinhas", algo que até então não haviam percebido, que
coloca o sujeito no centro do protagonismo histórico:

96
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

Faz dois ou três séculos que a filosofia ocidental postulava, implícita


ou explicitamente, o sujeito como fundamento, como núcleo central
de todo conhecimento, como aquele em que não apenas se revelava
a liberdade, mas que podia fazer emergir a verdade. [...] Atualmente,
quando se faz história – história das ideias, do conhecimento ou
simplesmente história – atemo-nos a esse sujeito de conhecimento e
da representação, como ponto de origem a partir do qual é possível o
conhecimento e a verdade aparece. Seria interessante que tentássemos
ver como se produz, através da história, a constituição de um sujeito
que não está dado de antemão, que não é aquilo a partir do que a
verdade se dá na história, mas de um sujeito que se constituiu no
interior mesmo desta e que, a cada instante, é fundado e refundado
por ela. [...] Isto é, em minha opinião, o que deve ser levado a cabo: a
constituição histórica de um sujeito de conhecimento através de um
discurso tomado como um conjunto de estratégias que formam parte
das práticas sociais. (FOUCAULT, 1986, p. 16).

Por outro lado, chamava atenção de que a constituição histórica do sujeito


exigia que se operasse uma espécie de arqueologia fragmentadora do saber, ao
ponto de “A história será ‘efetiva’ na medida em que ela reintroduzir o descontínuo
em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos sentimentos; dramatizará nossos
instintos; multiplicará nosso corpo e o oporá a si mesmo. É que o saber não é feito
para compreender, ele é feito para cortar”. (FOUCAULT, 1979, p. 27).

Nestes termos, Foucault (1979) propôs uma história que fornecesse


elementos para além da compreensão de instituições políticas e estruturas
sociais. Ele propôs que os historiadores, em suas pesquisas, abordassem questões
subjetivas e psíquicas que compõem os indivíduos. Assim, as pessoas teriam
elementos para libertar-se de determinismos sociais, heranças morais e dos
próprios esquemas mentais que os aprisionam.

Diehl (1993) apresenta que Foucault propõe uma espécie de positivismo,


que se pretende eliminar os últimos objetos não historicizados e os últimos traços
da metafísica, e ao mesmo tempo propõe um materialismo que seja capaz de tecer
uma explicação que envolva um objeto a outro, de tudo a tudo, uma espécie de
genealogia histórica.

Segundo Reis (2006), em Foucault, as esferas do saber e do poder não são


incomunicáveis, pelo contrário, eles são duas faces de um mesmo processo. A
relação entre ambos fica clara através do conceito de regime de verdade. Nesta
compreensão a verdade não é uma essência atemporal que paira acima dos
interesses particulares, ela não existe fora do poder. Cada sociedade estabelece
quais tipos de discurso ela “faz funcionar como verdadeiros”, quais instâncias
irão distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos. Por verdade Foucault
entende um conjunto de regimes através dos quais se distingue o verdadeiro do
falso, e se atribui aos verdadeiros efeitos específicos de poder.

97
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Encerra-se este tópico apresentando uma leitura complementar que traz


a entrevista com o ensaísta, historiador e filósofo Tzvetan Todorov, que é muito
solicitado na historiografia contemporânea através de suas obras ‘Conquista da
América: a questão do outro’, ‘Estruturalismo e poética’, ‘Teorias do símbolo’,
‘Simbolismo e Interpretação’.

No conjunto da obra do autor encontram-se os temas da relação com o


outro, no sentido hermenêutico interpretativo, no reconhecimento da alteridade,
e para tanto se utilizou no exemplo da época das grandes navegações e da
experiência transcorrida entre navegadores europeus e as populações nativas da
América Latina.

Atualmente, o estudioso se dedica à discussão e reflexão de temas como


o ressurgimento do totalitarismo, as experiências de intolerância, as implicações
da ‘guerra pelos direitos humanos e universais’ e as demais crises de civilização
e sentido de mundo que se abate ao ser humano contemporâneo. O autor ainda
se revela um apaixonado pela ficção literária, em especial pela literatura, que por
sua vez advoga que a literatura é a responsável por nos humanizar, e a ficção por
salvar o homem do desencantamento e desilusão do mundo exterior.

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TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

LEITURA COMPLEMENTAR

SÓ A FICÇÃO NOS SALVA

TZVETAN TODOROV
Entrevista concedida a Bruno Garcia em 1 de janeiro de 2012.

Revista de História – O que o levou a trabalhar com uma variedade tão


grande de temas?

Tzvetan Todorov – Nem acho que sejam tão variados assim. Meu horizonte
de interesses é muito largo, mas em contrapartida não posso estudar tudo. Não
sou um especialista sobre Brasil, por exemplo. Embora tenha vindo diversas
vezes, nunca tive a chance de me aprofundar verdadeiramente. Na América,
acabei por estudar o México, os Maias e outros povos da América Central. Mas
não conheço bem Brasil, Peru, Argentina. É necessário fazer escolhas.

RH – E que critérios usa para isso?

TT – Bom, não é fácil, mas sempre senti a necessidade de falar do que diz
respeito à minha experiência pessoal. Eu não gostaria, no entanto, de escrever
minha autobiografia, ou algo do gênero, mas sim fazer o trabalho de historiador
com uma motivação pessoal forte. Percebi muito cedo que, no domínio das ciências
humanas, era importante, essencial, uma relação entre o objeto de trabalho e o
sujeito que o faz. Escolher os temas arbitrariamente, porque o acaso assim quer,
põe em xeque a consistência do trabalho, que corre o risco de se tornar apenas
uma reprodução daquilo que já existe.

RH – Qual foi o seu primeiro interesse?

TT – O primeiro tema com o qual fui confrontado foi o da alteridade cultural.


Obviamente, minha motivação era ser um búlgaro vivendo na França. Isso causava
uma dupla exterioridade, uma dupla diferença. A primeira, linguística, já que
cresci em contato com a língua búlgara, que faz parte das línguas eslavas. A grande
literatura próxima a mim era a Literatura Russa. É verdade que eu me interessava
pelas tradições literárias inglesa, francesa e alemã, mas não tinha conhecimento
profundo sobre elas. Portanto, eu era um estrangeiro de outra cultura. A segunda
era uma diferença política: os regimes na Bulgária e na França não tinham nada a
ver. O primeiro era um regime comunista muito severo na época, anos 1950 e 1960,
enquanto, na França, era uma democracia liberal, o contrário de uma ditadura.
Então, eu tinha a motivação, mas me faltava a matéria, o objeto.

99
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

RH – E o encontrou na Conquista da América?

TT – Sim, porque não achava interessante escrever sobre um búlgaro em


Paris. Foi nessa época que, por acaso, fui convidado para lecionar um ou dois meses
no México a respeito de questões relativas à crítica literária. Estar no México me
impressionou bastante, sobretudo o contato com a forte cultura local e nacional.
Fiquei encantado por um livro que contava relatos do encontro entre europeus e
indígenas, e bastante interessado pela natureza desse encontro. Não pelo fato em
si, pois foi extremamente violento. Mas, confesso, fui arrebatado pela história e
me senti muito motivado a falar sobre o encontro de culturas, no caso o encontro
das culturas europeia e indígena no século XV-XVI no Golfo do México. Eu
aprendi espanhol, li muitos relatos dos conquistadores, de monges franciscanos e
dominicanos que contavam a respeito do que haviam testemunhado. Também tive
acesso aos preciosos relatos dos indígenas, redigidos tanto na língua deles quanto
em espanhol. Diante disso, escrevi esse livro [A Conquista da América, 1982] sobre
a relação entre populações que até então se ignoravam. Percebi uma série de coisas
que mostram ter sido esse contato muito mais complexo do que imaginava.

RH – Quais?

TT – Percebi que Hernan Cortez não era apenas um peão, mas um sujeito
dotado de estratégias de como se infiltrar no outro. Surpreendeu-me a atitude de
um universalismo moral, encarnado por Bartolomeu de las Casas, religioso que
tentou tratar o espírito de ambos os lados da mesma maneira. Outros testemunhos
procuravam preservar as diferenças, reforçar não o que havia de universal, mas
o que cada cultura tinha de específico. Bernardino de Sahagún e Diego Duran
deixaram documentos de grande riqueza e originalidade. Mitos e lendas se
misturam ali, e tudo isso produz um material realmente magnífico. Enfim, escrevi
esse livro pensando em minha experiência na França, na condição de estrangeiro
imigrado, mas também como um ensaio para reconstituir esse encontro. Minha
maneira de escrever a história é sempre dessa natureza: o que me interessa é o
caráter exemplar de um movimento, o evento. Poder refletir sobre o presente a
partir desses episódios do passado; tirar lições do passado para viver melhor.

RH – Como a Literatura ajuda a entender a História?

TT – Quando se pergunta o porquê da Literatura, só resta responder:


porque somos seres humanos. A Literatura é uma necessidade humana, vem
da própria existência. Somos animais que consomem voluntariamente grande
quantidade de relatos e poesias. Todas as populações do globo, de todas as épocas,
contam suas histórias e cantam seus poemas. Somos obrigados, por exemplo, a
nos recontar histórias para saber sempre o que fizemos, por isso constituímos
essa quantidade enorme de impressões. Vivemos o dia a dia, escutamos tudo o
que nos acontece, observamos tudo o que está à nossa volta, e o que resta disso é
sempre uma história. Eu encontrei um amigo, tomamos café, falávamos disso ou
daquilo etc. Essa é a função narrativa, mas ela se encontra condensada, sublimada
e magnificada na Literatura. A ficção conta melhor nossas próprias experiências.

100
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

As palavras me permitem expressar meus sentimentos, mas também enxergam


a pluralidade humana. A Literatura é a forma pela qual percebemos que os seres
humanos não vivem cada um no seu mundo, mas numa pluralidade infinita.
Apesar dos muitos interesses que tenho, ela continua especial.

RH – A opção pela multidisciplinaridade é uma tendência?

TT – Não saberia dizer se é uma tendência. Eu não tenho exatamente uma


carreira acadêmica. Não trabalho muito na universidade, mas em um centro de
pesquisa [Centro de Pesquisa de Artes e Linguagens, da Escola de Altos Estudos
em Ciências Sociais de Paris] onde cada um decide por si mesmo a orientação
temática do seu trabalho. Lá, ninguém me obrigou a me adaptar a um modelo
dado; fui guiado por meus interesses. Sei que não é assim sempre, nem em
todas as profissões. Na universidade, por exemplo, o professor é obrigado a
repetir seu curso porque não tem tempo de preparar um novo. E a divisão das
diferentes disciplinas humanísticas, das ciências humanas e sociais, é um tanto
artificial, feita ao acaso. Às vezes, um bom professor de uma cadeira de História
Econômica se destaca, e a instituição cria a disciplina História Econômica, o que
é um pouco arbitrário. Eu não ensinei muito, quase nada, na universidade. Tive a
possibilidade de sempre fazer algo diferente dos meus trabalhos anteriores. Mas,
é claro, há aqueles que estudam a mesma coisa a vida toda.

RH – Como é a vida acadêmica na França?

TT – Hoje, a vida acadêmica considerada ideal, pelo menos na França,


é aquela em que um intelectual escolhe um autor e com ele passa um longo
tempo pesquisando, até que, por fim, escreve sua grande tese, confirmando sua
especialidade. Esses intelectuais sabem absolutamente tudo sobre seu escritor, o
que já escreveram a seu respeito, sua biografia, suas amantes, seus professores,
discípulos, tudo sem exceção. Não surpreende que a grande maioria dos
professores de Literatura publique um só livro, que é justamente sua tese, além
de alguns pequenos artigos em torno do mesmo escritor.

RH – Qual é a sua opinião a respeito?

TT – Penso que essa é uma concepção muito escolástica. Por mais que
escrevam a vida toda sobre alguém, nada disso substitui a experiência da leitura
direta. Os estudos literários podem nos ajudar a compreender melhor os escritores,
podem desempenhar um útil papel auxiliar, até porque há textos que são realmente
difíceis. Um bom comentador e suas reflexões auxiliam muito, uma vez que
facilitam o acesso a esse livro, mas nunca substituem o escritor e sua própria prosa.

101
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

RH – Há uma valorização excessiva da teoria?

TT – Isso está em evidência. Aliás, uma evidência obrigatória para a qual


procurei chamar a atenção. A importância da Literatura não é o método ou teoria
com a qual a estudamos, mas é a própria Literatura. Porque ela fala de nós mesmos,
da condição humana, da nossa sociedade. Ela nos permite compreender melhor
o mundo. Quando lemos um livro, está lá o que é mais importante. Quando eu
leio a Flor do Mal, de Baudelaire, a importância não é a metáfora nem as figuras
retóricas, e sim o motivo pelo qual continuamos a ler esse poema. É a imagem
que nos dá do mundo e de nós mesmos. A Literatura nos ajuda a viver por um
enriquecimento de nosso mundo interior.

RH – Foi essa reflexão que o motivou a escrever Literatura em perigo


[Difel, 2009]?

TT – Escrevi esse livro, um pouco polêmico, para mostrar que esse tipo
de estudo não é mau em si mesmo, mas que se torna sufocante se é a única coisa
que fazemos. Podemos estudar a imagem em um poema com a intenção de
compreendê-lo melhor, e não pelo prazer de fazer um inventário de suas imagens
e de suas figuras retóricas.

RH – Se a Literatura é tão reveladora por si só, por que se aventurar por


ouras áreas?

TT – A Literatura é suficientemente rica, séria e interessante para ocupar


toda a sua vida. Mas, quando eu comecei, fui privado da possibilidade de tratar
de outros temas por conta da minha educação na Bulgária e da forte restrição dos
temas que podíamos abordar. Senti-me inclinado, depois, a falar um pouco do
mundo que nos rodeia. Tornei-me alguém que pretende incluir a Literatura numa
mescla mais vasta, que contém a Filosofia, a Política, a Sociologia, em diferentes
tipos de discursos da sociedade, como a Pintura, que é também algo que me
interessa muito. Mas nunca abandonei a Literatura. Continuo me servindo dos
escritores e me referindo a eles.

RH – O senhor identifica a emergência de um messianismo contemporâneo.


Qual a importância desse fenômeno?

TT – O mundo todo, da América do Sul ao Vietnã, se manteve politicamente


organizado em torno, até o fim, do conflito da Guerra Fria [Período que se estendeu
do final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, ao fim da União Soviética, em 1991,
marcado pela oposição e pela tensão militar entre os blocos capitalista, liderado
pelos Estados Unidos, e socialista, liderado pela União Soviética]. Quando isso
terminou, quando deixamos de estar presos à divisão do mundo em dois polos,
entramos em nova fase com diferentes características. Uma delas diz respeito às
relações internacionais: é a invenção de uma guerra dita humanitária, justificada
por um objetivo nobre e generoso. Em geral, esse objetivo consiste em defender
os direitos humanos, ajudar as vítimas de violências etc. Mas isso é feito por meio

102
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

de intervenções militares, o que acaba por produzir muito mais vítimas do que
a causa que se pretendia combater. Esse tipo de guerra, a meu ver, é uma das
grandes características do nosso tempo. E hoje não há apenas a guerra civil de um
lado e as guerras humanitárias do outro. Há muitas outras guerras. No lugar das
guerras de conquista ou mesmo ideológicas, há, por exemplo, a guerra punitiva,
como a Al Qaeda atacando os Estados Unidos, e, claro, sua resposta imediata, que
ainda permanece em curso. Essa é uma guerra tipicamente justificada por nobres
razões, o que eu chamo de messianismo.

RH – Qual é a diferença desse messianismo daqueles produzidos nos


séculos XVIII e XIX?

TT – A ideia de messianismo carrega um processo levado a cabo pelo


Iluminismo e pela Revolução Francesa, mas hoje tem um caráter bastante diferente.
Não podemos dizer que nossas guerras se assemelham às guerras coloniais, por
exemplo: não se trata de submeter ou integrar um país e sua população ao seu
território. Mudaram os ideais, mudaram os meios técnicos, que evoluem muito.
Hoje, as guerras também influenciam a condução dos negócios. Mesmo a ideia
de direitos humanos daquele período é completamente diferente da nossa. Antes,
eles diziam respeito à emancipação do indivíduo.

RH – E hoje?

TT – Enquanto princípio universal, os direitos humanos defendem algumas


coisas importantes, como a liberdade do indivíduo, a igualdade perante a lei, a
dignidade da pessoa humana, enfim, elementos que podem ser reivindicados por
todos. No entanto, o que acontece nos nossos dias é a utilização dessa ideologia
como justificativa para uma política agressiva. Podem dizer que em tal país
acontecem violações dos direitos humanos, e, portanto, temos o direito de intervir
e corrigir. Mas está claro que não podemos impor esses direitos. Isso não nos deve
impedir evidentemente de socorrer prisões injustas e torturas, mas é necessário
lidar com essas categorias com precaução, sem a ousadia de pensar que nós somos
proprietários e juízes desses direitos, e cabe a nós então o papel de agir sobre os
outros povos “selvagens”. Somos filhos do Iluminismo, mas nossa relação com
algumas de suas ideias é muito diferente. Os direitos humanos não só foram
construídos numa época específica, como correspondem a um tipo específico de
sociedade ocidental. Há outras sociedades que não reservam um lugar especial
ao indivíduo, mas à coletividade, ao grupo. Neste sentido, os direitos humanos
não são verdadeiramente universais.

RH – É o fim da crença no progresso?

TT – Sim, mas acho que não nos livraremos dela com facilidade. Mesmo se
não acreditarmos mais na teoria do progresso, há, na própria ideia de humanidade,
a convicção de que sempre devemos melhorar nossa condição. Houve o momento
em que a crença em movimentos políticos, como o comunismo, era muito forte.

103
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Certamente uma tentativa de melhorar as condições da massa pobre sofrida. Mais


tarde se deram conta de que o remédio era pior que a doença, o resultado não era
melhor que o motivo com o qual se revoltaram. Mas está sempre ligado à ideia do
progresso, de melhorar o mundo.

RH – E qual seria o “remédio” de hoje?

TT – Em nossos dias, essa crença do progresso está muito ligada à


Tecnologia. Ora, é um produto novo, um computador, um telefone, mais tarde
também a Biologia, pois queremos filhos lindos, inteligentes, geniais se possível.
É a obrigação de procurar o melhor, mesmo se na Filosofia e na teoria política não
compartilhamos mais do mesmo otimismo dos iluministas, que acreditavam que
o futuro sempre seria algo melhor que o presente. A ciência traz melhorias para a
nossa vida. Entretanto, há o risco também. O átomo, por exemplo, pode significar
a energia que acende a luz das casas, mas também riscos inimagináveis e grandes
catástrofes como Chernobil [Acidente na Usina Nuclear Vladimir Lenin, localizada
na cidade de Chernobyl, na Ucrânia, parte da União Soviética, em 1986. A explosão
de um dos reatores provocou uma das maiores tragédias da história da energia
nuclear, contaminando grandes áreas de toda a Europa Central]

A clonagem talvez seja necessária para produzir órgãos humanos para


aqueles que sofrem de certa doença, mas também podemos imaginar a produção
de uma subespécie humana, robôs ou até zumbis. Tudo isso é incerto. O sociólogo
alemão Ulrich Beck desenvolveu a ideia de que, durante o século XIX, a ciência era
uma fonte de esperança. Depois da segunda metade do século XX, se tornou fonte
de desespero, quer dizer, de risco e inquietude. Ficou muito difícil ser otimista.

RH – O Humanismo está em crise?

TT – Não tenho certeza. O Humanismo é uma concepção ideal e moral que


não sei ao certo se está em crise. Ao menos, não sozinha. Tenho a impressão de
que nós achamos que o Humanismo não é muito forte, que é frágil. Ele certamente
recebe muitas agressões. Mas talvez não esteja em crise se nós não encontrarmos
nada para colocar no seu lugar. Talvez por não sabermos, hoje em dia, o que
ainda não está em crise.

FONTE: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/tzvetan-todorov>. Acesso em: 16


dez. 2015.

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RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• E escola de Frankfurt formou-se na primeira metade do século XX, apresentava


influência marxista e os estudiosos dedicaram-se a questionar questões
ideológicas do capitalismo e do liberalismo internacional e pensar alternativas
que promovessem o bem-estar social.

• Theodor Adorno dedicou-se a fazer crítica à indústria cultural que engendrava


a padronização e massificação dos padrões culturais e por outro lado a perda
de espaços e momentos de reflexão e consciência crítica dos indivíduos, que
acarretam em última instância a perda de autonomia e o exercício da liberdade.

• Walter Benjamin foi um crítico dos projetos de modernidade, como o progresso


e a racionalização, diante disto defendeu um conceito de história, na figura
de um anjo redentor, que vasculha em meio aos escombros do passado e visa
recuperar e trazer à vida experiências que foram negligenciadas.

• O movimento da ‘nova esquerda inglesa’ consiste em uma vertente do


pensamento que se dedicou à crítica da sociedade moderna ocidental,
pesquisando temas como a exploração econômica de trabalhadores, as
contradições entre os grupos sociais, a dominação religiosa e violência simbólica
dos indivíduos, ressaltando processos de luta e revoluções populares.

• A historiografia latino-americana mesmo em meio a regimes ditatoriais,


ganhou forte impulso a partir dos anos de 1970 quando foi criada a Cepal-
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, que se dedicou aos
estudos de temas como trabalho e escravidão, movimentos sociais, cultura
popular, identidades.

• Os Annales da primeira fase deixaram de lado os temas da história política, e se


dedicaram aos estudos de temas econômicos e sociais, pesquisaram momentos
pré-industriais, e questionaram a tradição do século XIX do historicismo, do
evolucionismo e da ideia de progresso cumulativo; por outro lado, reclamavam
por alternativas e revoluções coletivas, e de um indivíduo liberto da dominação
e tutela do Estado.

• A segunda geração dos Annales se utilizou de conceitos, abordagens e métodos


oriundos de outras ciências como a demografia, etnologia, geografia e da
ciência política; visavam recuperar a globalidade dos fenômenos humanos,
numa perspectiva de movimento rumo à totalidade do social.

105
• A segunda geração dos Annales reforçou o argumento de que existia reciprocidade
e pertencimento entre as esferas da economia, da política, da cultura e da sociedade
(a cultura é economia, política, sociedade); bem como o uso de tabulações e
programas de computadores e do método comparativo; procuravam perceber a
ocorrência de fenômenos na dinâmica temporal da longa duração.

• A terceira geração dos Annales dissolve-se em grande parte em nova história


cultural e os temas que até então se encontravam mais globalizantes (economia,
sociedade e cultura) fragmentam-se em história do cotidiano e da vida privada;
história das mulheres, da sexualidade, história do corpo, subjetividade, história
da infância; literatura, discursos, narrativas, linguística, semiótica, imagens,
hermenêutica; história oral, memória e identidade, patrimônio histórico e
cultural (tangível e intangível).

• Michel Foucault dedicou-se aos estudos do cotidiano, das mentalidades, da


subjetividade e em fazer crítica às instituições repressivas do Estado moderno.
Como método histórico propôs o modelo arqueológico que previa a negação
dos modelos racionalistas e que buscasse as origens e a genealogia das formas
de dominação e poder.

106
AUTOATIVIDADE

1 A Historiografia do século XX, em especial a “Escola dos Annales” procurou


renovar e problematizar toda a produção do conhecimento histórico do
século XIX. Os historiadores assim o fizeram, pois atestavam que a História,
assim como todo o espírito humano que chegava ao século XX, encontrava-
se em crise. Com relação às questões postuladas pelo grupo dos Annales é
possível afirmar que: analise as sentenças a seguir:

I- Questionavam o evolucionismo, o historicismo, a ideia de progresso; e


sugeriam que se recriasse a singularidade do homem e da civilização humana.
II- Sugeriam que se reforçasse a dimensão diplomática e política dos eventos
e fatos e que se quantifica cada vez mais as expressões sociais e culturais.
III- O historiador não poderia mais se contentar em escrever sob o ditado dos
documentos, deveria questioná-los, inseri-los em uma problemática.
IV- Introduziram as abordagens da História comparada, a longa duração, a
etnografia, a psicologia; estruturalismo, as práticas simbólicas; iconografia
e a literatura.

Agora, assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) As sentenças I, II e IV estão corretas.
b) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
c) ( ) As sentenças II e IV estão corretas.
d) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas.

2 Fernand Braudel (1902-1985), estudioso francês, que pertenceu à segunda


geração do grupo dos Annales, propôs a categorização de tempo tripartida
em “acontecimento”, “conjuntura” e “estrutura” como meio de classificar
fatos e fenômenos que ocorrem na experiência/trajetória das mais diferentes
sociedades e indivíduos. Levando em consideração as concepções e
formulações de Braudel é possível afirmar que: analise as sentenças a seguir:

I- Ocorrências acidentais tais como mortes, nascimentos, assaltos,


greves, ataques, disparos, invasões, desembarques, entre outros foram
identificados como acontecimentos.
II- Como fenômenos estruturais pode-se identificar desequilíbrios, oscilações,
turbulências e flutuações em meio a regimes, tais como revoluções, crises,
guerras.
III- Como acontecimentos é possível relacionar as comemorações que constam
nos calendários de países e nações, tanto cívicas como religiosas.
IV- Pertence à dimensão das estruturas os comportamentos e costumes de uma
dada coletividade, assim como ideologias que permeiam as mentalidades
e que se estendem por várias gerações.

107
Agora, assinale a alternativa que apresenta a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças II, III e IV estão corretas.
b) ( ) As sentenças I e IV estão corretas.
c) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas.
d) ( ) As sentenças III e IV estão corretas.

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UNIDADE 2 TÓPICO 3

AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

1 INTRODUÇÃO
Vive-se em um momento em que as relações humanas e o universo mental
haviam sido modificados, desengajados socialmente, haviam recuado para o
campo doméstico, do cotidiano, do individual e do particular.

Esta interpretação de recuo das manifestações do sujeito enquanto corpo


coletivo não quer dizer que os indivíduos, numa esfera social mais ampla, passam
a agir apenas com base em condições históricas criadas por outros, utilizando
os recursos materiais e de cultura que lhes foram fornecidas pelas gerações
anteriores e que não poderiam de nenhuma forma ser os “autores” ou os agentes
de sua própria história.

As saídas deste labirinto de enclausuramento intimista e particular


demoraram para surgir, mas estiveram plasmadas ao longo do século XX, em
especial a partir dos anos de 1960, através de movimentos como do feminismo,
dos panteras negras e movimentos ecológicos, os chamados “novos movimentos
sociais”, juntamente com as revoltas estudantis, de contracultura e antibelicistas,
que reclamavam pelo retorno às lutas pelos direitos civis, os movimentos
revolucionários do terceiro mundo, as questões pela paz, entre outros.

Percebeu-se assim o nascimento histórico do que veio a ser conhecido como


a política das identidades, e, em especial, uma identidade para cada movimento:
sexuais: gays e lésbicas; raciais: negros; gênero: mulheres; antibelicistas: paz.
Criaram-se nichos, partículas ou mônadas sociais circunscritas, fracionadas,
segmentadas em guetos e redutos específicos, distantes do todo que forma o
coletivo e a sociedade.

109
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

2 A NOVA HISTÓRIA CULTURAL


Os estudos regionais possibilitam um trabalho de pesquisa artesanal pelo
historiador que se valeria de praticamente toda a documentação disponível. Permite
seguir uma evolução de um grupo social a longo prazo, analisando-o em diferentes
níveis estruturais: geográficos, demográficos, econômicos, sociais, ideológicos
e mentais. A história regional é melhor entendida como um fenômeno que se
circunscreve e que abarca uma determinada região e dimensão espacial e temporal.

Os estudiosos da história cultural defendem que a cultura não se situa


acima ou abaixo das relações econômicas e sociais, nem pode ser alinhada com elas.
Todas as práticas, sejam econômicas ou culturais, dependem das representações
utilizadas pelos indivíduos para darem sentido a seu mundo.

Jacob Burckhardt e Johan Huizinga representam as grandes referências


aos estudiosos desta corrente historiográfica. Ambos se centram na história dos
clássicos, das obras-primas da arte, da literatura, da filosofia, da ciência, que os
preenchem com o ‘contexto histórico’ ou o ‘espírito da época’ na qual elaboram e
teceram seu legado, ampliando e aprimorando o campo hermenêutico e o leque
interpretativo da História.

Debates teóricos e categóricos entre cultura, barbárie, civilização, níveis de


consciência e sofisticação, erudito, popular, são estabelecidos. Os estudos da História
Cultural buscam pelas expressões como os modos, formas, artefatos e recursos
materiais, no corpo, nas emoções, nos sentimentos, na percepção, nos sons, nos
cheiros, nas formas, nos detalhes, nos rituais, nas paisagens, nos acabamentos, nas
particularidades, nas especificidades, nos nuances, nas sutilezas.

No interior da História cultural também ocorre a tendência que é pela


redescoberta do povo, a Volkskultur como era nominada na Alemanha do final de
século XVIII. Apreciadores de antiguidades, folcloristas e antropólogos elegem
em seus estudos elementos como canções, contos populares, danças, rituais,
tradições, costumes, artes e ofícios que se encontravam ofuscados pelo contexto
industrial e moderno.

Áreas como a psicologia, a filosofia, a antropologia, são acionadas pelos


historiadores da cultura e estão empenhados em empreender uma espécie de
hermenêutica visual, que desvela a visão de mundo de uma cultura ou grupo
social, sintetizada em uma obra.

O quadro teórico que forneceu referência aos estudos da História Cultural


pode ser encontrado nos estudos de Norbert Elias em O processo civilizador (1939);
Mikhail Bakhtin, Cultura popular na Idade Média e no Renascimento (1965); Michel
Foucault, nas obras A ordem do discurso (1971), A ordem das coisas (1966) e Vigiar
e Punir (1975); Pierre Bordieu, na obra O poder simbólico (1989).

110
TÓPICO 3 | AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

3 A MICRO-HISTÓRIA
Deus está no particular.
A. Warburg

Trata-se de um fazer que está no campo da etno-história, que se pretende


como uma ciência do vivido, estabelecendo um entrecruzamento entre história
econômica, social e cultural. Para os estudiosos deste período a hegemonia será
reconhecida ao nível cultural das sociedades, que por sua vez é responsável
por engendrar o nível social, em seus conflitos, contradições e inteligibilidades,
ou seja a capacidade e potencialidade de mudança não está mais na dimensão
política, econômica, ou social, antes no mundo cultural.

O debate, a clivagem, o conflito existente erudito/civilizado/urbano/


industrial/alfabetizado/laico versus popular/rural/religioso/artesanal/bárbaro
é reconhecido em vantagem. Os componentes da sociedade ganham o palco,
seja como vilões (bandidos, vagabundos, soldados, feiticeiras, judeus, ciganos,
assassinos), povo das cidades (operários, comerciantes, intelectuais, jornalistas,
profissionais liberais), o povo do campo (artesãos, camponeses, ferreiros,
açougueiros), e os nobres.

O que por sua vez evidencia uma história em migalhas, a fragmentação


de todo um corpo social, ou seja, uma espécie de exaltação de personalidades,
individualidades, o espírito dos tempos, “cada um por si e o mercado para
todos”, em que o campo político e do engajamento coletivo se encontra
enfraquecido e em desencanto.

A micro-história apresenta-se como alternativa à macro-história, que vai


se munir de pequenas histórias, que possuem sentido e significado por si mesma.
As estruturas globalizantes e generalizadoras como da economia de mercado,
sociedade de consumo política internacional são preteridas; no seu lugar
enfatiza-se os indivíduos, suas expectativas, frustrações, alegrias, sofrimentos e
os meandros de seu cotidiano.

A micro-história encontra-se despojada de textos e manifestos teóricos


sólidos e fundantes, por outro lado, requer uma prática historiográfica com
variadas ecléticas. A micro-história consiste em um trabalho experimental, que não
possui um campo teórico e metodológico circunscrito e fechado. Os historiadores
que aderiram à micro-história possuem raízes e fortes influências do marxismo,
com orientação política à esquerda e que se desviam do neoidealismo, ou para
filosofias de irracionalismo. (LEVI apud BURKE, 1992).

A ação social é vista como o resultado de uma constante negociação,


manipulação, escolhas e decisões do indivíduo, diante de uma realidade
normativa que, embora difusa, não obstante oferece muitas possibilidades de
interpretações e liberdades pessoais.

111
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

A micro-história, ou seja, a redução da escala é um procedimento analítico,


que pode ser aplicado em qualquer lugar, independentemente das dimensões do
objeto analisado. Deveríamos discutir o problema da escala, não só como aquele
da escala da realidade observada, mas também como uma questão de uma escala
variável de observação para os propósitos experimentais.

Um dos principais estudiosos em micro-história é o italiano Carlo


Ginsburg (1939), que em suas obras aborda a magia, bruxaria e as mentalidades
da época renascentista.

Mas as maiores contribuições se dão em termos de metodologia histórica


que acaba por reunir elementos à análise das formas de investigação de tipo
histórico-cronológico, morfologia e história, do qual resultou o método indiciário,
conforme se procura apresentar, de forma condensada, a seguir:

3.1 O MÉTODO INDICIÁRIO DE GINZBURG


O autor propôs a retomada do “método morelliano” proposto pelo
historiador da arte Giovanni Morelli (1816-1891). O método morelliano
preocupava-se em corrigir os equívocos de autoria que é atribuída a inúmeras
obras de arte, em especial, distinguir as obras originais das cópias, o que não
representa uma tarefa fácil, pois muitas obras não se encontram assinadas, ou
foram repintadas, restauradas ou em mau estado de conservação.

O percurso metodológico sugerido por Morelli é o de procurar, farejar


as particularidades, os pormenores mais negligenciáveis, que vez apresentam
menor influência das tendências, escolas, movimentos artísticos e culturais a
que são identificados.

Existe uma atenção muito grande às asas de anjos, aos narizes e olhos
que Leonardo da Vinci pintou, todavia, a proposta de Morelli é a de se voltar
a atenção aos lóbulos das orelhas, as unhas, as formas dos dedos dos pés e das
mãos, os detalhes secundários, as particularidades insignificantes, os lapsos do
ofício do artista.

Estes aspectos acabam por revelar a propriedade de cada artista, pois


existe uma forma de dedos que é de Botticelli, outra de Dürer, outra ainda de
Giotto, e em especial pormenores e cuidados que somente são encontrados nos
exemplares originais, detalhes que escapam à capacidade das cópias.

É possível encontrar correspondência do método de Morelli na literatura


de romance policial do escritor inglês Arthur Conan Doyle, através de seu
personagem Sherlock Holmes, quando que o pesquisador e conhecedor de arte é
associado a um detetive em busca de indícios e provas de um crime.

112
TÓPICO 3 | AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

O personagem Sherlock Holmes considerava em seu percurso investigativo


as pegadas na lama, a cinzas de cigarro esquecidas, as marcas digitais, os indícios,
os detritos, os refugos, resíduos triviais, dados baixos, marginais, as centelhas
que se perderam em meio à realização do crime.

Wind (apud GINZBURG, 1989) afirma que a personalidade deve


ser procurada onde o esforço pessoal é menos intenso. Os pequenos gestos,
inconscientes, que carregam o nosso caráter, mais do que qualquer atitude formal,
é mecânica e conscientemente controlada.

A psicanálise e a medicina moderna também se interessaram pelos


pressupostos de Morelli, especialmente no que diz respeito em se levar em
consideração os sintomas dos indivíduos, uma espécie de semiótica médica, que
atentam pela observação indireta e sutil.

O historiador é comparável ao médico ao analisar o mal específico de cada


paciente. Por sua vez o conhecimento histórico é indireto, indiciário e conjetural.
Por outro lado, o método de Morelli quer dizer que a parte oculta, invisível/
imaterial/inconsciente/intangível da realidade não é menos importante do que a
visível/material/consciente/tangível.

Ginzburg (1989) defende que o saber contido nos elementos negligenciáveis


possui a capacidade de remontar uma realidade complexa e não acessível
diretamente. O ato de “ler” ou “decifrar” pistas e indícios de eventos não vivenciados
e ou experimentados diretamente pelo observador, pode ser atribuído aos tempos
da invenção da escrita. Esterco, pegadas, pelos, plumas, entranhas de animais,
gotas de sangue, de óleo na água, as fezes, os odores, os sabores, entre outros,
compunham os aspectos que as populações antigas levavam em consideração.

Porém este método foi bastante julgado e condenado como positivista,


mecânico e até arrogante e logo caiu em descrédito. Entre as críticas que são
feitas ao método indiciário, diz respeito à fragilidade do estatuto científico-
metodológico que este percorre e encerra, porém como contrapartida existe o fato
de conseguir alcançar resultados relevantes.

Ginzburg (1989), em defesa do paradigma indiciário, discute que


ninguém aprende o ofício de conhecedor ou de diagnosticador limitando-se a pôr
em prática regras preexistentes e frisa que o percurso metodológico do método
indiciário considera elementos como o faro e os demais sentidos, golpe de vista,
intuição, sensibilidade, e aproxima o animal homem às outras espécies animais.

113
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

4 HISTÓRIA E SABER LOCAL


O homem é um animal suspenso nas teias
de significado que ele próprio teceu.
Clifford Geertz

Clifford Geertz (1926-2006) e Roger Keesing (1935-1993), que buscaram


referências nos estudos culturais de Max Weber (1864-1920) e métodos interpretativos
de Wilhelm Dilthey (1833-1911) e os antropológicos de Claude Lévi-Strauss (1908-
2009), Victor Turner (1920-1983) e Mary Douglas (1921-2007) com a intenção de
compor uma espécie de antropologia histórica que se preocupa com a interpretação
das culturas, ou melhor de uma outra consciência cultural e de uma forma que
possibilite captar o centro e a periferia dentro de uma única estrutura.

A decodificação disso e transformação em conhecimento histórico deve


ser plasmada com a preocupação de descrição densa, que é capaz de registrar e
diferenciar um reflexo insignificante, um soslaio e um piscar. A descrição densa
examina o comportamento público em termos do que ele ‘diz’, não do que ‘faz’, ou
seja, ‘lê’ e interpreta o conteúdo simbólico da ação. (BIERSACK apud HUNT, 2001).

Geertz (1973) adota a compreensão e o particularismo, em vias de superar


a explicação causal, evita comparações no sentido comum, procura estabelecer
semelhanças e dessemelhanças numa tentativa de criar uma tipologia, fazer junções
e não agrupações. O homem é um animal suspenso nas teias de significado que ele
próprio teceu. As teias, não o ato de tecer; a cultura, não a história; o texto, não o
processo de textualização interessava a Geertz.

As culturas são teias de mistificação, bem como de significação.


Precisamos perguntar quem cria e quem define os significados culturais, e com
quais finalidades. E alerta que o exame da natureza ideológica e política do saber
local exige que nos atenhamos ao contexto histórico em que esse saber opera.

5 LINGUÍSTICA E NARRATIVA
Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia.
Mas também eram generosos, ofereciam-nos o que não nos acontecia.
Valter Hugo Mãe

O conhecimento histórico que se envereda por estas temáticas, categorias


de análise e abordagens de certa forma procuram vingar o que foi rechaçado
pelas três fases de hegemonia dos Annales, ou seja, trata-se de uma espécie de
reinvenção do acontecimento. Algumas teorias enfatizam a recepção ou leitura
dos textos, outras são produções ou escritas, outras a unidade e coerência do
significado, outras ainda enfatizam o papel da diferença e as maneiras pelas quais
os textos funcionam no sentido de subverter suas aparentes finalidades.

114
TÓPICO 3 | AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

Chartier (CHARTIER apud HUNT, 2001) ler é uma prática criativa que
inventa significados e conteúdos singulares, não redutíveis às intenções dos
autores dos textos ou dos produtores dos livros. Ler é uma resposta, um trabalho,
ou, como dizia Michel de Certeau (1982), um ato de caçar em propriedade
alheia. Ler é entendido como uma ‘apropriação’ do texto, tanto por concretizar
o potencial semântico quanto criar uma mediação para o conhecimento do eu
através da compreensão do texto.

Paul Ricouer (1923-2005), em seu livro “A escrita da história”, postula


que o fazer histórico reside fundamentalmente na sua escritura, tecida entre as
performances do fazer e o contar histórias, o que reacende a discussão em torno
da problemática de História ‘ciência’ e ‘ficção’. Por outro lado, Certeau (1982)
defende que o corpo social deve ser o objeto primordial da História, enquanto
discurso científico.

Para o autor antes de saber o que a história diz de uma sociedade, importa
analisar como a história funciona nessa sociedade. A prática histórica é correlativa
à estrutura da sociedade que desenha as condições de um dizer que não seja nem
legendário, nem utópico, nem desprovido de pertinência.

Certeau (1982) recorre ao método de crítica interna e externa das fontes,


semelhante ao que Langlois e Seignobos já se utilizavam no século XIX, que
consiste na pesquisa e no estudo de documentos e fontes originais, de forma
muito erudita e rigorosa com o intuito de avaliar a veracidade contida na base
documental, uma espécie de ‘arte de ler’.

Na tentativa de encontrar novas formas de abordar o passado os


historiadores inclinaram-se às áreas e disciplinas como da antropologia, economia,
psicologia e sociologia e as aproximações mais recentes estão se dando ao campo
da crítica literária, filosofia da história e da história intelectual que procuram
através da linguagem, dos textos e das estruturas narrativas expandir a erudição
histórica, proceder à criação e à descrição de realidades históricas, que compõem
um pano de fundo composto por elementos oriundos da filosofia, da literatura e
escritos teóricos das culturas do passado.

Os estudiosos que ganharam forte projeção nesta proposta de História são


Hayden White (1928) e Dominick LaCapra (1939). Ambos defendem que a atenção
às perspectivas crítico-literárias pode tornar os historiadores mais inovadores
e mais conscientes de seus próprios postulados e repressões (KRAMER apud
HUNT, 2001). White relaciona-se e aproxima-se mais das perspectivas estudadas
pelo estudioso Michel Foucault (1926-1984), La Capra, identifica-se com a obra do
filósofo Jacques Derrida (1930-2004), que apresenta influências teóricas de Martin
Heidegger (1889-1976) e Mikhail Bakhtin (1895-1975), que possuem como modelo
teórico-crítico os escritos do filósofo alemão do século XIX, F. Nietzsche (1844-1900).

115
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Os estudos, que estes pesquisadores realizaram, permitiram identificar


que a tendência da história tem sido a de manter-se situada dentro de paradigmas
literários e científicos que vigoraram ao longo do século XIX, que não conseguem
ultrapassar a tarefa de encontrar o simples no complexo e o familiar no estranho,
negligenciando insights que a literatura, a arte, a teoria crítica, a imaginação
histórica e a ciência podem percepcionar.

White (1994) discute que a principal diferença entre história e filosofia da


história consiste no fato de que a última traz para a superfície do texto o aparato
conceitual através do qual os fatos são ordenados no discurso, enquanto a história
propriamente dita (como é chamada) esconde-o no interior da narrativa, onde
atua como um dispositivo oculto ou implícito de configuração.

Bodei (2001) aponta que os estudos de White sustentam que a explicação


histórica consiste em um ato poético, porque as estratégias interpretativas do
historiador constituem a formalização de instituições poéticas e que se baseiam em
razões estéticas e morais. ‘Meta-história: a imaginação histórica do século XIX’ e
‘Trópicos do discurso’ são as principais obras do autor.

Os historiadores que repensam as categorias da compreensão histórica


têm, de fato, maiores probabilidades de encontrar um grande número de vozes
submersas que contestam seu desejo histórico (e metafísico) de um significado
unificado e sem ambiguidade (KRAMER apud HUNT, 2001).

La Capra (1983) defende que um texto é uma rede de resistências, e um


diálogo é uma relação bilateral; um bom leitor é também um ouvinte atento e
paciente. Ainda sugere que se deve ler os textos e contextos históricos de um
modo que se reconheça sua complexidade e que possa levar também a novos
tipos de escrita, que o estilo que se adota, ao escrever, está sempre associado ao
estilo que se adota para ler. Ler e escrever constituem dois aspectos imbricantes
da inevitável relação entre o historiador e a linguagem.

La Capra (1983) motiva os historiadores a terem os textos e contextos históricos


de um modo que reconheçam sua complexidade e que possam levar também a novos
tipos de escrita, visto que o estilo que se adota, ao escrever, está sempre associado
ao estilo que se adota para ler. Alerta que os historiadores devem ler o contexto com
sensibilidade para o processo literário de ‘intertextualidade’, não com a noção causal
de reflexão. A leitura e a interpretação do contexto levantam problemas tão difíceis
quanto aqueles suscitados pelo mais intrincados dos textos escritos.

As questões são agora mais sutis, não são menos importantes. Os historiadores
estão se conscientizando cada vez mais de que suas escolhas supostamente objetivas
de técnicas de análise também têm implicações sociais e políticas.

116
TÓPICO 3 | AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

6 A HISTÓRIA AMBIENTAL
A temática começou a ganhar atenção pelos estudiosos desde os anos de
1970, quando passaram a ocorrer manifestações de movimentos ambientalistas,
bem como conferências e encontros de estudiosos e autoridades mundiais para
discutir questões. A segunda geração dos Annales, através dos estudos de
Fernand Braudel, já intuía para esta tendência da historiografia.

Centra-se na percepção das forças da Terra e da natureza, agora como um


agente e uma presença que se impõem ao tempo, ao homem, às sociedades, às
civilizações, aos impérios e à História. O universo de trabalho do estudioso da
História Ambiental são os campos, as florestas, os rios, as marés, vulcões, abalos
sísmicos, tornados, tsunamis, nevascas, estiagens, enchentes, propriedades do
solo, as eras geológicas, as fronteiras, as tecnologias, as paisagens, as planícies, os
planaltos, as geleiras, os desertos, as intempéries, as catástrofes, as migrações, a
cidade, o campo, as especulações imobiliárias, as epidemias, fomes, as colheitas/
safras, as infestações, os desiquilíbrios, os ciclos reprodutivos, as ocorrências de
espécies, os exotismos, o ecossistema, a biosfera, os aspectos ecológicos e humanos,
ou seja, um universo amplo e complexo.

O pesquisador em História ambiental precisa estar atento a outras áreas


do conhecimento, tais como a geografia, a antropologia, bem como as ciências
naturais, e empreender uma espécie de aliança interdisciplinar, que são compostas
por números, leis, conceitos, terminologias e experiências. As fontes mais
utilizadas são dados estatísticos, índices de PH (potencial de hidrogênio) e IDH
(Índice de Desenvolvimento Humano), medidas de níveis, cartografias, mapas,
globos, condições meteorológicas, dados geológicos e hidrológicos. E o tempo
histórico é da longa duração, a tentativa de empreender uma história ‘total’, de
‘quase tudo’, e extrair sentido do todo e complexo funcionamento conjunto.

Temas ambientais, a crise energética, doenças e epidemias, situação das


matérias-primas, a poluição da água e do ar, as contaminações, as degradações, a
produção de alimentos, o crescimento populacional, a urbanização, sempre com
uma preocupação moral e ética de discutir e reorientar os modos/estilos de vida
e consumo dos indivíduos e obter compromissos e responsabilidades por parte
dos sistemas econômicos, de produção e dos governos.

Worster (1991) discute que é provável que os historiadores se dediquem


mais a temas como o de povos organizados em sociedades avançadas e
complexas, e que se relacionam com a natureza através de rituais e religiões
modernos; mas aponta que a história ambiental deve incluir em seu programa
o estudo de aspectos de ética e estética, mito e folclore, literatura e paisagismo,
ciência e religião, deve ir a toda parte onde a mente humana esteve às voltas
com o significado da natureza, no sentido de revelar como uma cultura inteira
percebeu, interferiu e avaliou a natureza.

117
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

O autor ainda chama atenção para o fato de que não se pode presumir
que algumas culturas foram mais respeitosas com a natureza que outras, nos
alerta que as sociedades e as épocas são muitas e que existe um leque complexo
de experiências e valores (materiais e espirituais) em meio a elas e que jamais
ocorreu que uma cultura conseguiu viver de forma harmônica integral e total
com a natureza.

Aldo Leopold (1887-1948), James Malin (1893-1979), Julian Steward (1902-


1972), Emanuel Le Roy Ladurie (1929), Simon Schama (1945) representam os
principais estudiosos da História Ambiental. A temática ganhou grande ênfase
ainda nos anos de 1960 quando ocorre a publicação e os debates sobre explicação/
metáfora ‘A tragédia dos comuns’ que foi popularizada por Garrett James Hardin
(1915-2003) que visa elucidar questões sobre ecologia, ciência política, econômica,
imigração e densidade populacional ao mesmo tempo.

O texto procura abordar a metáfora que consiste numa espécie de


armadilha social, que é deflagrada diante da exploração e do acesso a recursos
finitos em que acabam prevalecendo os interesses individuais diante do uso
comum. Que se revela como a condenação de um determinado recurso, mediante
o livre acesso, a superexploração e a demanda irrestrita.

UNI

Assista ao filme: Rapa Nui (umbigo do universo): uma aventura no paraíso. Kevin
Reynolds. Estados Unidos: 1994. 107 min.
O filme apresenta a população da Ilha de Páscoa, no Oceano Pacífico Sul no período anterior
ao contato de exploração e colonização europeia, por volta do ano de 1680. Duas tribos
centralizam a trama: os orelhas grandes e os orelhas pequenas. A população da ilha encontra-
se extinta, mas estima-se que a população nativa existiu por volta do ano de 900 d.C. A Ilha
conta com mais de 800 estátuas gigantes, os moais, que se especula serem em homenagem
a ancestrais, chefes de família e lideranças religiosas das populações que ali viviam.
No pano de fundo, o filme procura explorar estes aspectos todos, despertando interesse
investigativo para com as discussões e teorias ainda não são suficientes e intrigam estudiosos
e a admiradores do local, que se perguntam sobre as explicações de da origem, da edificação
e da finalidade das estátuas, bem como dos motivos e causas prováveis ao desaparecimento
da população nativa.

7 A HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE


A era da globalização, o movimento, a aceleração das informações abate-
se sobre a História, fazendo com que esta centre-se no acontecimento e dilate-se
no sentido de abarcar a cadeia e a multiplicidade de relações que o acompanham.

118
TÓPICO 3 | AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

O atentado às torres gêmeas dos Estados Unidos da América, ocorrido


em 11 de setembro de 2001 e a Invasão do Iraque, e as sempre surpreendentes
descobertas de fraudes e práticas de corrupção em meio aos governos
democráticos, representam um exemplo recente que colocou em xeque até as
mais tolerantes e flexíveis categorizações da História foram abaladas, entre os
grupos de intelectuais murmurava-se a possibilidade de se inaugurar um novo
momento histórico.

Para Dosse (2003a) a leitura histórica do acontecimento não é mais


redutível a um fato estudado, mas visto em seu vestígio, situado numa sequência
de acontecimentos. Todo discurso sobre um acontecimento veicula e conota uma
série de acontecimentos anteriores, o que confere grande importância à trama
discursiva que os reata numa colocação em intriga.

A temática do tempo presente solicita que o profissional da história esteja


consciente e alerta com o seu tempo e momento histórico. Não mais imerso em
tempos e momentos históricos longínquos do passado. Esta temática possibilita que
o historiador se aproxime de outras áreas do conhecimento, tais como a Sociologia,
Economia e Geografia, Geopolítica, entre outras.

Quando ocorrem as coberturas de fatos ou fenômenos, os meios de


comunicação (canais de televisão, jornais, blogs e demais mídias sociais) solicitam
os conhecimentos dos profissionais da História, que munidos de seu olhar
articulador para com os fatos, fenômenos e categorias de análise, estabeleçam
relações, faça comparações, profira sua interpretação, decodifique e torne
inteligível num todo coerente aquilo que aparentemente é apenas um acaso, uma
fatalidade ou um fato despretensioso. Os telespectadores encontram-se ávidos
para que esta explicação lhe confira sentido, orientação e para que a vida possa
seguir em frente e que a roda continue.

Diante deste cenário observa-se que recaem sob a temática da História do


tempo presente muitas expectativas; ela solicita que se formule uma base teórica
cujas referências proporcionem a acomodação e explicação dos fatos e fenômenos
que já tenham ocorrido em algum momento do passado, por outro lado, que permita
destrinchá-los e discerni-los das forças que o compõem e tencionam no momento
presente; uma espécie de profissional que conferirá objetividade e inteligibilidade
a um todo caso/acontecimento aleatório e subjetivo; por fim, existe outro desejo e
expectativa que o analista da História do tempo presente seja capaz de revelar nuances
de futuro, o que deve ser evitado a todo custo, que se alcance as expectativas.

Este campo da historiografia requer que o historiador tenha em mente


a proporção e a contextualização que sua fala e informações prestadas podem
adquirir, que seja capaz de resistir ao assédio e ao sensacionalismo midiático.

Na História do tempo presente, o principal objeto de estudo do historiador


são os fatos, os acontecimentos que podem até ocorrer e se concentrar num
determinado espaço geográfico, mas que possuem a capacidade de repercutir e
ganhar amplitude no sentido de afetar e tocar um amplo público.

119
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

A história do tempo presente se utiliza de fontes da imprensa, digitais ou


impressas, documentários, fotografias, reportagens ou coberturas jornalísticas.

Os temas podem ser oriundos a contextos políticos, econômicos,


dos movimentos sociais, do meio ambiente. Podem ser acidentes, protestos,
manifestações, catástrofes, quebras, prisões, desastres, fatalidades, invasões, greves,
visitas, aparições, tomadas, atentados, entre outros. E contar com as fontes da
História oral, tais como relatos de vivências, entrevistas e registros de testemunhos
e depoimentos diante de algum momento, fato acontecimento relevante.

O historiador é convidado a agir, proferir julgamentos e reclamar


por justiça. Precisa recusar as noções de acaso, acidente, aleatório, efêmero; a
estabelecer unidades, sequências, prolongamentos, reinvenções e repetições.
Dosse (2003) apresenta que o acontecimento é criador de atores que falam em
seu nome, que estão interessados em realizar e propagar ideias ou inovações,
empreender outras possibilidades de futuro.

O historiador desta corrente historiográfica possui grande acesso e


controle para com os testemunhos dos acontecimentos. Isto requer cuidados
metodológicos, prudência crítica e procedimentos éticos.

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
É preciso mudar o mundo, não o passado.
Moses Finley

Vive-se um tempo de profundas crises. Bodei (2001, p. 71) analisa que:

Não existe mais nem um império unificador, como em Políbio; nem


uma credível civitas peregrinans, como em Agostinho; a ‘procissão
do espírito santo’ na história, como em da Fiore; os Volksgeiter, como
em Herder; a ‘educação do gênero humano’, como em Lessing; os
saltos de época, como em Condorcert; o proletariado na qualidade
de protagonista da revolução que deveria terminar com todas as
revoluções, como em Marx. Em segundo lugar, esvaziou-se a confiança
no progresso e no futuro, garantia pelo avançar para uma meta única
e satisfatória, e com ela a crença de que o negativo e o mal na história
possam tornar-se o ‘fermento’ do bem e que as fases de extremo
sofrimento dos povos sejam simples parênteses do desenvolvimento.

Deus, a providência, o Estado-nação, o povo e a classe, todos perderam


o monopólio da condução sensata dos fatos, encontram-se numa trama em que
desempenham papéis de coadjuvantes e não mais protagonistas solenes.

A historiografia atual encontra-se matizada por fortes traços de


anacronismos, que podem ser identificados pelo revisitamento e atualização dos
mais diversos ‘usos’ e ‘costumes’ que pertencem a outras épocas e sociedades.
Por outro lado, observa-se a transposição dos modelos e angústias do presente
ao passado acaba por revelar experiências que se caracterizam por extremismos,
feminismos, racismos, totalitarismos, machismos e outros tantos ‘ismos’.
120
TÓPICO 3 | AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

Dosse (2001) reflete que a trajetória da História ao longo do século XX,


trilhada e permeada pelas ciências sociais, acabou por fazer com que se fragilizasse
a identidade da História enquanto conhecimento e disciplina do saber. A
aproximação com outros objetos, temas, métodos e abordagens pode, em grande
potencial, fazer com que a história se perca em meio a uma teia de possibilidades
desconexas e sem sentido, e por meio desse esfacelamento desaparecer ou ser
conduzida à marginalização diante de outras ciências e conhecimentos mais
concentrados e concisos.

Diehl (1993) atesta que o conhecimento histórico a desreferencialização


do real, o discurso intertextual, a dessubstancialização do sujeito e o retorno ao
estudo dos microcosmos, o que significa no conjunto, a fragmentação da história
como ciência; e vive-se em uma época em que a ciência histórica é assombrada
pelo espectro da intransparência teórico-metodológica, e que se faz necessário e
urgente assumir a tarefa de discutir os parâmetros, os limites e as possibilidades
de se tecer fundamentos, justificativas e sustentação à própria História.

Rüsen (2007b) aponta que no quadro de superação da tradição da História


moderna tecida no século XIX instaura-se uma espécie de post-historie, que se
centra nas questões culturais, um retorno ao não moderno, que é matizado pela
desreferencialização do real, o discurso intertextual, a dessubstancialização do
sujeito e o retorno ao estudo dos microcosmos, que busca fazer uma espécie
de compensação diante dos custos e das perdas culturais e sociais dos projetos
de modernidade, dando espaço às possibilidades, às temáticas da memória,
da identidade e do patrimônio, em que ocorre uma fuga circunstancial, de que
quando o presente frustra o passado reconforta.

Pode-se perceber que a grande preocupação da historiografia sistematizada


ao longo do século XX dedicou-se em fazer todo um percurso de complementação
e compensações dialéticas para com as negligências que os projetos modernos
foram responsáveis por produzir. E mais recentemente tem-se uma tentativa
compensação do que a historiografia do século XX acabou por negligenciar, que
segundo Dosse (2001) pode ser identificado com o renascimento da narrativa e do
discurso histórico nos dias atuais está numa tentativa de recuperar aquilo que foi
rejeitado desde o começo da escola do Annales, que foi o acontecimento.

Para Dosse (2001) reside exatamente no ‘acontecimento’ o que confere à


História sua especificidade e função, uma vez deslegitimado tal fundamento dilui-
se e coloca-se em risco a própria História. Para o autor não se trata de recorrer
aos fatos pelo mero divertimento ou evasão, mas de reabilitar o acontecimento
agora de forma significativa, ligado às estruturas que o tornaram possível e como
fonte de inovação e genuinidade. Numa abordagem presente-passado numa
relação orgânica entre os dois, para que o conhecimento do passado sirva à
inteligibilidade de nossa sociedade.

121
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

Rüsen (1997) e Diehl e Machado (2001) apresentam-se como autores


preocupados com o que se refere ao teor da História enquanto ciência, didática
e conhecimento histórico com funções racionais e reflexivas na sociedade atual,
que se encontram em momentos de forte crise de expectativas, seja pela ausência
de critérios orientadores ou de soluções e alternativas que realmente gerem
mudanças e superações.

Os autores chamam a atenção para o fato de que em meio aos profissionais


da história ocorre uma espécie de silêncio e indiferença para com as questões
que dizem respeito à didática da História, o que é nefasto e prejudicial a ela
enquanto conhecimento e ciência, e em especial à sociedade, a qual demanda por
orientações diante das problemáticas que a envolve.

De maneira ampla, os autores estão propondo que a história enquanto


conhecimento tenha plausibilidade científica e que a didática da história não seja
compreendida somente como um mero ornamento externo do conhecimento
científico, e, em especial, que o profissional da História se questione sobre a origem,
a estrutura, as funções, as perspectivas orientadoras do conhecimento histórico.

Para aprofundar estas questões encerra-se este tópico sugerindo a leitura


da entrevista em que Rüsen aprofunda estas questões que se impõem à teoria e à
historiografia contemporânea.

122
TÓPICO 3 | AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

LEITURA COMPLEMENTAR

Entrevista com o Prof. Dr. Jörn Rüsen, realizada no Kulturwissenschaftlisches


Institut-nrw, Essen, na Alemanha, em 20 de fevereiro de 2008, conduzida pelo
Prof. Dr. Luiz Sérgio Duarte da Silva/ UFG.

DUARTE: O senhor poderia, por favor, fazer um balanço do trabalho do


Centro de Investigação Interdisciplinar de Bielefeld, no final dos anos 80 e início
dos anos 90?

RÜSEN: Eu só posso falar sobre o tempo durante o qual eu estava ainda


na Comissão Executiva do Centro de Investigação Interdisciplinar (ZfIF). Não
pode haver uma síntese do conteúdo, porque as questões no tema de recurso ZfIF
estão constantemente mudando e são muitas as diferentes áreas da ciência com
as quais ele se ocupa. Quando se fala de um balanço, então podemos realmente
dizer: tratava-se de encontrar um foco temático para tornar interessantes e
inovadoras as constelações de disciplinas. Devem ser temas de fácil sobreposição.
Essa é a natureza do ZfIF, que é totalmente aberta a todas as disciplinas. E no
momento em que eu estava lá na Comissão Executiva, estivemos envolvidos com
diferentes grupos de pesquisa. Eu mesmo por um ano dirigi um grupo de pesquisa
sobre o tema: “o sentido histórico da educação”, com psicólogos, historiadores,
historiadores da arte, filósofos, etnólogos, estudiosos do islamismo e sinólogos.
Este é um exemplo de uma pesquisa sofisticada na ZIF. Lá você também pode
organizar de alguma forma, pequenas reuniões ou grupos de conferência. Assim,
tivemos no momento em que eu estive lá, fizemos uma sequência de reuniões
menores, que no seu conjunto produziu uma “história do pensamento histórico
moderno”, que depois foi publicada em cinco volumes.

DUARTE: O que é pesquisa interdisciplinar?

RÜSEN: O trabalho interdisciplinar vem depois que certas questões


são tratadas por várias disciplinas. O que se quer é evitar uma visão unilateral.
Tomemos, por exemplo, “a teoria da narrativa” ou o tema de “a narração”. Se
alguém quiser estudá-los seriamente, então você precisa de linguistas, literatos,
historiadores, psicólogos, sociólogos, antropólogos e filósofos. Somente quando
essas diferentes disciplinas em conjunto produzirem uma leitura do problema a
partir de um diálogo produtivo surgirá o trabalho interdisciplinar.

DUARTE: A respeito da pesquisa sobre narrativa, o Sr. trabalhou durante


um bom tempo com Baumgartner e com ele produziu uma teoria da narrativa
articulada à teoria da história. Ele morreu muito jovem, certo?

123
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

RÜSEN: Não, não muito jovem. Michael Baumgartner é na verdade um


filósofo, um discípulo de Hermann Krings. Ele escreveu sua habilitação sobre
“Continuidade e História”. Nesse texto, ele mostra que o pensamento histórico
é sempre determinado por representações sobre um contexto transtemporal, que
pode ser chamado de continuidade. Ele deixou claro que a ideia de continuidade
cria uma estrutura narrativa. Sem recorrer à estrutura narrativa, não se pode
compreender o que é história. É o que eu aprendi com ele. Isso era novo para
mim. Eu fiz um doutorado sobre Droysen e eu era muito tradicional na teoria da
história, ou seja, trabalhei com os clássicos, com Hegel, com os neokantianos, me
ocupei com Max Weber e a teoria da historicidade. O pensamento histórico tem
uma estrutura narrativa, e só pode ser realizado através desta estrutura, disso eu
não sabia e isso aprendi com Hans Michael Baumgartner.

DUARTE: A narrativa é um tipo de explicação?

RÜSEN: Sim.

DUARTE: O Sr. poderia ser mais específico sobre isso?

RÜSEN: Esta tese é defendida por Arthur Danto, em “Filosofia Analítica


da História”. Lá ele demonstrou brilhantemente que narrar uma história é um
processo de explicação e que esse modo de explicação possui uma lógica diferente
daquelas que se referem às intenções ou às leis gerais.

DUARTE: Danto ampliou o conceito de ciência. Então, o senhor acha que


devemos integrar o conceito de interpretação na teoria da ciência. O que o senhor
pensa sobre isso?

RÜSEN: A filosofia da história de Danto foi um passo crucial para


pensar a particularidade do pensamento histórico. As tentativas de explicar o
pensamento histórico segundo modelos de racionalidade de outras ciências
falha. Se você enxerga narrativa como explicação, como um ato racional e não
reduz explicação e produção da verdade aos procedimentos nomotéticos, então,
o conceito de ciência tem que incorporar as “ciências do espírito”. Em inglês,
o termo “ciência” tem um significado muito mais estreito. Infelizmente, porém,
essa descoberta da estrutura narrativa por Danto na teoria da história levou a um
mal-entendido sobre a questão de racionalidade e da cientificidade da história. A
produção historiográfica considerada a partir de sua estrutura narrativa passou a
ser entendida exclusivamente como objeto literário, poético no sentido de doação
de sentido e não como ato de explicação, com sua racionalidade própria. Esse é o
caminho que liga Arthur Danto e Hayden White. Nesse percurso, a racionalidade
própria, o caráter retórico da história, foi perdida.

DUARTE: Então esse é o significado da matriz do pensamento histórico


moderno, precisamos olhar para ele sistematicamente. Não só a partir de uma
estética ou de uma epistemologia, de uma metodologia ou uma ética, mas levando
em consideração todos os seus ângulos.

124
TÓPICO 3 | AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

RÜSEN: Sim. Você tem que enxergar a complexidade do tema e abordá-


lo analítica e estruturalmente. A teoria da história nos últimos cinquenta anos
passou de uma situação cuja ênfase estava em tentar comprovar sua racionalidade
e objetividade para uma outra situação que lhe nega qualquer uma dessas
características. A virada para a narrativa fez com que perguntas sobre método,
validade, autenticidade, funcionalidade e objetividade fossem esquecidas. E isso
é lamentável.

DUARTE: A partir das Ciências da cultura, como encarar a diferença entre


explicação e compreensão?

RÜSEN: A diferença entre explicação e compreensão se fez no século


XIX e tem sido desenvolvida para diferenciar a singularidade do pensamento
histórico do pensamento da ciência. Quem se tornou famoso com essa diferença
foi Wilhelm Dilthey, mas o primeiro que formulou essa questão epistemológica
foi Johann Gustav Droysen. O problema com esta distinção é que ela entende
explicação e compreensão como opostos, e isso é um erro. A compreensão é uma
forma de explicação. Não há compreensão que não explique. Assim, o termo mais
geral é explicação. Explicar é a resposta a uma pergunta sobre o porquê. Primeiro
vem uma pergunta sobre por que algo foi feito e depois vem a resposta, uma
explicação. E se a minha pergunta se dirige para sujeitos e suas ações, para pessoas
e suas vidas, só contextualmente posso entender consentimentos e sofrimentos.
Eu só posso explicar compreendendo esses contextos. Se eu não proceder
assim perderei o que é decisivo e constituinte da vida humana: explicamos
compreendendo. Em outras palavras, no campo dos estudos culturais, então,
as perguntas são respondidas por recurso sistemático aos contextos em que as
pessoas vivem, sofrem e agem.

DUARTE: O que é didática da história?

RÜSEN: Didática da história é a ciência do ensino da história.

DUARTE: Quando o senhor escreveu sobre ensino de história, não tinha


apenas a ver com a técnica de ensino, mas também colocou a questão da função
do pensamento histórico na modernidade...

RÜSEN: Nossa didática da história é o campo do ensino acadêmico ou a


instituição acadêmica que se dedica aos problemas nascidos das necessidades,
experiências e competências daqueles que estão dispostos a dar aulas de história.
Portanto, há uma didática da história porque há ensino de história. O decisivo
é a formação da consciência histórica na sociedade contemporânea. A didática
da história trata de todas as formas da consciência histórica e, em especial,
daquelas formas que se desenvolvem através de processos formais de ensino-
aprendizagem. Mas isso é completamente diferente do comum entendimento
de didática da história como a disciplina da intermediação ou transmissão da

125
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

história. O erro está em pensar que exista algo chamado história e outra coisa
que seria a sua transmissão ou comunicação. O aprendizado da história acontece
em todo lugar, na mídia, nos museus, na cultura popular. A categoria central
é consciência histórica e não transmissão histórica. A consciência histórica não
pode ser transmitida ela só pode ser formada, cultivada.

DUARTE: Há então um problema de comunicação intercultural, porque


há muitos tipos de consciência histórica...

RÜSEN: Isso nos leva ao problema da experiência e da aprendizagem. Um


exemplo: na década de 70, chegou à Alemanha a história das mulheres. Ela chega
cheia de eurocentrismo. Não se sabia nada sobre mulheres chinesas, indianas
muçulmanas. Mas a pesquisa tinha um caráter intercultural no sentido de que
uma cultura masculina, patriarcal, machista, uma forma do pensamento histórico
foi confrontada. Isso é interculturalidade. Há outras: católicos e protestantes,
cristãos e muçulmanos. Na década de 50, quando eu estava na escola me sentia
um peixe fora d’água sendo um aluno protestante em uma região católica. Era
uma cultura diferente. A magnitude da experiência dessas diferenças se amplia
no mundo globalizado. Estão em contato cada vez mais lógicas distintas de
aprendizagem histórica. A consciência histórica é o lugar onde os indivíduos
e os grupos são formados em torno de coisas como as ideias de pertencimento
ou o que chamamos de identidade. E isso significa que, a adesão a uma posição
implica uma maior diferenciação diante das demais. As opções são limitadas.
Sem esses limites as pessoas não podem viver culturalmente. Diferenças é o que
produzimos. Mas não é só o que produzimos. A aprendizagem intercultural se
dá quando essas diferenças se constroem de modo que a alteridade do outro
não é naturalizada e é reconhecida enquanto tal. Sobre isso mais um exemplo:
na Europa, tem sido a forma dominante de aprendizagem histórica a noção de
pertencimento nacional. Com o processo de integração europeia os currículos
do ensino de história e os livros de história estão sendo europeizados. Mais que
isso, devemos superar também o eurocentrismo e caminhar em direção a um
universalismo humanista. E isso não se faz sem teoria da história.

DUARTE: Por quê?

RÜSEN: Bem, por que precisamos de uma clara concepção teórica de


humanidade como categoria histórica. E nós não temos. Na origem do pensamento
histórico moderno, no final do século XVIII e início do XIX havia uma categoria
histórica da humanidade formulada por Herder, Kant, Humboldt, e certamente
no Iluminismo francês e inglês. Isso foi perdido ao longo da racionalização do
pensamento histórico, no século XIX. E agora temos de trabalhar duro novamente.
Nós não podemos simplesmente voltar para a ideia clássica da história universal
assim como exposta por Kant no texto “Ideia de uma História Universal de
um Ponto de Vista Cosmopolita”. Temos de pensar em termos comunicativos,
relacionais e discursivos. Deverá ser um ato comunicativo entre representantes
de diferentes tradições. Assim, por exemplo, entre Brasil e Alemanha, entre os
chineses e indianos, entre japoneses e africanos etc. etc. O trabalho principal
ainda não está feito.

126
TÓPICO 3 | AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

DUARTE: Qual seria um bom relacionamento entre a sociedade civil e


a religião? Entre filosofia e religião? O que significa preservar um espaço para o
impensável?

RÜSEN: Essas são três questões muito diferentes. O impensável é um


problema filosófico de extrema dificuldade. De novo um exemplo para ajudar.
Em “Ciência como vocação”, Max Weber levantou a questão sobre de onde
provém o progresso científico. A sua resposta é: ele não vem das regulamentações
metodológicas dos processos de investigação, mas dependem de intuição,
imaginação, iluminações, ideias repentinas. Esses verdadeiros acidentes ocorrem
em um domínio que está além do pensamento e do conhecimento. Esse é o sentido
do impensável. Se pode elaborar melhor essa ideia com a ajuda da filosofia
da história e da teoria do conhecimento. Mas isso demoraria muito e é muito
complicado. Em qualquer que seja a história o sentido se mostra dependente de
domínios não acessíveis a ele, sentido. Essa intensividade, essa realidade última
tão próxima e tão distante, ao mesmo tempo, é impensável e isso é um problema
fundamental da filosofia da história. Sobre o tema da relação entre sociedade civil
e a religião, vou apenas dizer que a vida de uma sociedade secular moderna civil
é uma conquista histórica mundial de importância única. É a única forma de vida
social que permite a convivência pacífica de diferentes religiões. O secularismo é
a condição para a liberdade religiosa. A questão é se a sociedade civil necessita de
elementos religiosos para sua manutenção. A maioria da intelectualidade expressa
a opinião de que o secularismo pode viver por si mesmo. Quanto a isso sou cético.
O certo é que após séculos de sangrentas guerras religiosas descobrimos o valor
da tolerância e do espaço público não religiosamente controlado. Construir
identidades e comunidades inclusivas, eis a tarefa. Infelizmente o que assistimos
hoje é exatamente o contrário. Por todos os lados o que temos são as variadas
formas do fundamentalismo.

DUARTE: Rüsen, o senhor descreveria os últimos 20 anos de história


alemã a partir da categoria de perda de paradigmas?

RÜSEN: Acho uma boa categoria. Será que assistimos a uma mudança
de paradigma? Fala-se de uma virada cultural e antropológica. Mas isso é um
paradigma? Acho que não. Paradigmas são a história social ou historicismo
clássico do XIX. Mas poderíamos pensar no significado paradigmático da
pluralidade e da diversidade. Mas podemos avançar ainda mais e pensar sobre
onde estariam as questões realmente relevantes para o nosso tempo. É aí que
aparece a relevância da história global de Jürgen Osterhammel.

DUARTE: Depois de seus estudos sobre a Historik de Droysen e da


montagem da sua própria teoria da história, o Sr. passou a estudar as diferentes
ideias de tempo de desenvolvidas pelas diferentes culturas.

RÜSEN: Falaremos sobre o projeto do humanismo?

DUARTE: sim.

127
UNIDADE 2 | O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

RÜSEN: O projeto do humanismo não é um projeto histórico. Tem


uma perspectiva histórica, mas é também filosófico, político, psicológico. É
decididamente interdisciplinar. A componente histórica é, certamente, forte.
Eu diria que é uma tentativa de seguir este caminho sugerido de uma nova
perspectivização do pensamento histórico a promover novos conceitos de
história universal. Queremos submeter a uma revisão a tradição do humanismo
ocidental. A partir de uma perspectiva comunicativa desejamos colocar em
contato as diversas tradições humanistas. Cruzamentos proporcionados,
semelhanças localizadas: esse trabalho é uma resposta aos problemas produzidos
pela globalização. De uma perspectiva ocidental a ideia de tempo axial de Jaspers
é uma referência de pluralismo que se apega também à proposta de uma história
universal, única, global. Devemos resgatar a consciência da nossa igualdade
original que se esconde atrás das línguas, das tradições. As diferenças nascem de
qualidades que são comuns a todos os seres humanos. E isso pode ser mobilizado
para produzir uma nona consciência de nossa comunidade.

FONTE: Revista de Teoria da História Ano 2, Número 4, dezembro/ 2010 Universidade Federal de
Goiás. p. 179-185

Tradução: Daniele Maia Tiago Revisão: Luiz Sérgio Duarte da Silva

128
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• A Nova História Cultural se torna uma tendência do pensamento histórico a


partir dos anos de 1970, e de maneira geral pode-se dizer que os temas da
história local e regional, da cultura, os modos de fazer e viver dos indivíduos e
das comunidades ganham espaço nas pesquisas.

• Foi o momento em que a história se aproximou e se apropriou de métodos de


pesquisa e categorias de análise das áreas do conhecimento e disciplinas tais como
a antropologia, a psicologia, a filosofia, literatura, linguística, economia e geografia.

• A micro-história reconhece o microcosmo cultural dos indivíduos, os elementos


que evidenciam as contradições e os conflitos que ocorrem nas relações sociais
e públicas mais amplas. Como método de pesquisa é utilizado a investigação
de pormenores como rastros e vestígios como provas e elementos reveladores
de responsáveis e culpados.

• A história e o saber local se preocupam com a interpretação das culturas,


nas suas redes de imbricações, em especial, busca saber quem e como foram
definidas as estruturas culturais que acompanham os indivíduos.

• A história ambiental ganhou ênfase a partir dos anos de 1970 por meio dos atos e
discussões dos movimentos ambientalistas; centra-se nos estudos do planeta terra
e da natureza tendo como agente o homem, as sociedades e as civilizações; apoiam-
se nas áreas da antropologia, geografia, da geologia e demais ciências naturais.

• A história do tempo presente se dedica à pesquisa temas oriundos do cenário


político e econômico, dos movimentos sociais, questões climáticas e ambientais:
acidentes, protestos, manifestações, catástrofes, quebras, prisões, desastres,
fatalidades, invasões, greves, visitas, aparições, tomadas, atentados, entre outros.

129
AUTOATIVIDADE

1 A história do tempo presente ganhou amplitude e representatividade em


meio à historiografia a partir dos anos de 1980, mas já vinha sendo cogitada
quando dos estudos e análises da primeira e segunda guerra mundial. Entre
as questões conceituais e metodológicas da história do tempo presente, é
correto afirmar que:

I- As principais fontes consistem na tomada de depoimentos e testemunhos


da história oral, notícias de jornal e os documentos estatais.
II- Possibilita o confronto entre o conhecimento histórico/narrado, o noticiado,
o testemunho vivo, a vivência do fato/acontecimento.
III- Representa um tema de pesquisa que não requer maiores cuidados
metodológicos e éticos ao historiador e permite ampla liberdade de estudos.
IV- Acontecimentos e fatos que causaram repercussão em ampla escala e
impactaram de forma expressiva toda uma população/sociedade são
tomados à pesquisa.

Agora assinale a alternativa CORRETA:


a) As afirmativas I, III e IV estão corretas.
b) As afirmativas I, II e IV estão corretas.
c) As afirmativas II e IV estão corretas.
d) As afirmativas I e II estão corretas.

2 A micro-história é uma das tendências historiográficas que compõe o


grupo da Nova História Cultural, possui como principal referência teórica
e metodológica o pesquisador italiano Carlo Guinzburb e a obra Queijos e
Vermes, que foi publicada em 1976. Com relação à micro-história, analise as
sentenças a seguir atribuindo V para as verdadeiras F para as falsas:

( ) Entre os principais temas de debate está o conflito que se instaurou entre


erudito/popular, religioso/laico, bárbaro/civilizado, artesanal/industrial,
cidade/campo, vilões/nobres.
( ) rocura defender as abordagens da macro-história, estruturas globalizantes
e generalizadoras que se encontram-se fundamentadas pela sociologia.
( ) Os historiadores que aderiram à micro-história possuem fortes influências
do positivismo, racionalismo e historicismo do século XIX, com orientação
política à direita e apoiam amplamente o neoidealismo.
( ) Entre os princípios metodológicos encontram-se os de ler e decifrar pistas
e indícios. Para tanto podem ser considerados estercos, pegadas, plumas,
pelos, pegadas, inscrições digitais, entre outros.

Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) V- V- F- V.
b) F- V- V- V.
c) V- F- F- V.
d) V- V- V- F.

130
UNIDADE 3

A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade você será capaz de:

• compreender a presença da História no quadro das Ciências Humanas


no Brasil;

• analisar as influências políticas e sociais nas reflexões historiográficas;

• avaliar os diferentes momentos da produção historiográfica brasileira.

PLANO DE ESTUDOS
Esta Unidade está dividida em três tópicos, sendo que, ao final de cada
um deles, você encontrará atividades que o(a) ajudarão a refletir e fixar os
conhecimentos adquiridos.

TÓPICO 1 – HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB À GERAÇÃO DE


1930

TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA-


FRIA

TÓPICO 3 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

131
132
UNIDADE 3
TÓPICO 1

HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB


À GERAÇÃO DE 1930

1 INTRODUÇÃO
Neste primeiro tópico, iremos analisar a historiografia brasileira, em um
período anterior à formação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, até as
principais obras intelectuais produzidas e fundamentais para a compreensão da
realidade histórica nacional, formuladas pelos eminentes pensadores Gilberto Freire,
Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda, que publicaram seus estudos nos
anos 1930, representando uma importante geração de intelectuais brasileiros.

2 O PERÍODO ANTERIOR AO INSTITUTO HISTÓRICO E


GEOGRÁFICO BRASILEIRO (IHGB)
A historiografia brasileira no período Pré-IHGB pode ser descrita como
um tempo no qual a história do Brasil foi incluída dentre a história do império
ultramarino português. Durante a denominada Idade Média, existiu um tipo de
literatura histórica denominada crônica. Pela mesma, se contavam os feitos dos reinos.
Duas crônicas medievais portuguesas são de grande relevância para a compreensão
do início da expansão ultramarina. A Crônica da Tomada de Ceuta e a Crônica dos
Feitos da Guiné. Ambas escritas por Eanes Gomez Zurara. Tais obras são relatos que
se destinavam a louvar os feitos da nobreza portuguesa, em especial, a liderança do
infante D. Henrique. Tais escritos devem ser criticados como fonte histórica sobre o
período, pois não buscam relatar as ações militares da expansão portuguesa no norte
africano, mas sim fazer uma apologia da monarquia portuguesa.

No século XVI, tanto na Espanha como em Portugal, tivemos uma


alteração na nomenclatura das obras que se destinavam a relatar a expansão
ultramarina. Ao invés de se utilizar o termo crônica, se passou a utilizar o termo
História. Na Espanha, uma das obras principais foi a História General e Natural
de las Índias, publicada em 1519 por Gonzalo Fernández de Oviedo. Por sua vez,
no que tange ao Império Português, tivemos a primeira história brasileira escrita
em 1576, de nome História da Província de Santa Cruz. Da autoria de Pero de
Magalhães Gandavo, o livro advogava a ideia de que a função primordial dos
portugueses na Costa do Pau-Brasil deveria ser a expansão da fé cristã, e não
o comércio de madeira (GANDAVO, 2008). Todavia, como podemos observar,
o nome que prevaleceu não foi a madeira da cruz cristã, mas aquela que servia

133
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

para o comércio ultramarino atlântico. Mesmo com o toponímico da nova terra


sendo comercial (o Brasil), muitos dos primeiros relatos da vida brasileira dos
primeiros séculos foram escritas por padres, como os jesuítas José de Anchieta,
em Informação da Terra do Brasil e suas Capitanias, como também o texto Tratado
da Terra e das Gentes do Brasil, do também jesuíta Fernão Cardim.

No século XVII, o livro História do Brasil, escrito pelo Frei Vicente do


Salvador, apontava os eventos da vida nacional dos dois primeiros séculos
(VICENTE DO SALVADOR, 2008). O livro de Vicente do Salvador é a obra
mais importante sobre a história brasileira do século XVII, pois foi por muitos
intelectuais, apresentado como o primeiro historiador brasileiro. Salvador, para
escrever sua história, contava com diversos relatos. Por sua vez, outro importante
relato sobre a vida brasileira do século XVII foi realizado por André João Antonil,
um jesuíta que escreveu Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas.
De Antonil, é a máxima que afirma: “Brasil: purgatório para os brancos, inferno
para os negros e paraíso dos mulatos”.

No século XVIII, fundou-se, na Bahia, a Academia Brasílica dos


Esquecidos, posteriormente substituída pela Academia Brasílica dos Renascidos,
uma sociedade literária, que existiu em Salvador, a então capital do Brasil, e que
buscava descrever a história pátria dos primeiros séculos (KANTOR, p. 2004).
Todavia, o principal livro escrito no século XVIII sobre o Brasil foi História da
América Portuguesa, de Sebastião da Rocha Pitta, um dos primeiros historiadores
nacionais (PITA, 1976). Livro que buscava realizar um relato pormenorizado da
presença portuguesa no Atlântico Sul, visando legitimar a presença lusitana, em
vista das rivalidades com a Espanha.

UNI

Um interessante site para a consulta de obras da época do Brasil Colonial


é o da Biblioteca Nacional de Portugal, no setor Biblioteca Digital. Nele, existem cópias
fotografadas dos originais de livros como o de Pero Magalhães Gandavo sobre o Brasil.
Site: <http://www.bnportugal.pt/>.

Grande parte dos autores brasileiros dos três primeiros séculos que
escreviam sobre o passado nacional, possuíam algumas características comuns.
Em geral eram clérigos jesuítas ou bacharéis em direito da faculdade de Coimbra.
A origem social, em geral, vinculadas ao sacerdócio católico, eram presentes
não apenas nas biografias dos sujeitos, como também na ideologia subjacente,
buscando demonstrar a “vantagem da presença cristã católica no continente
americano”. Neste sentido pode-se apontar uma primeira crítica, pois, mesmo a
Igreja Católica hoje reconhece as falhas da catequese na América Latina Colonial.

134
TÓPICO 1 | HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB

Outra questão é a metodologia apresentada pelos autores porque mesmo


se tratando de títulos cuja palavra História era presente, tais livros podem ser
considerados um ramo da literatura. Isto porque mantinham a tradição medieval
das “mirabilias”. Isto é, o mágico e o real faziam parte do mesmo texto. Por
exemplo, tanto os escritos de Frei Vicente do Salvador e Pero de Magalhães
Gandavo apresentavam histórias fantasiosas como fatos reais. Por exemplo,
ambos afirmam que um monstro saiu do mar para atacar e assustar a população
de São Vicente no século XVI, dedicando um capítulo inteiro de suas obras a tal
evento. Podemos afirmar que é óbvio que tal monstro não existiu. Porém, sua
existência ser considerada real, apresenta o imaginário, a mentalidade da época.

Deste modo, estas obras são consideradas fontes úteis para a compreensão
do Brasil colonial. Mas os textos passam por uma severa crítica, pois não se trata
de textos históricos que seguem a uma metodologia científica rígida, com vistas
a apresentar uma interpretação coerente da realidade social a ser analisada.
Mas sim, textos que buscam realizar uma apologia da presença portuguesa no
atlântico sul. Todavia, era um tipo de história coerente com o tempo social dos
autores que a escreveram.

O mundo ocidental, após o Iluminismo do século XVIII, com a busca


da utilização da razão e não mais da fé para o encontro de verdades, alterou
profundamente a forma como o homem ocidental pensa sobre a realidade. Deste
modo, a História passou a ser concebida de forma diferente, pois os historiadores
passaram a ser reconhecidos como autores de obras importantes a explicar a origem
a e dinâmica política das populações que viviam em um Estado Nacional. Podemos
pensar que durante o século XIX, surgiram no globo, vários novos países, como
as antigas colônias americanas, além da Itália e da Alemanha, que passaram pelo
denominado “processo de unificação”. Assim, a figura social do historiador era
relacionada a um intelectual que teria a capacidade de explicar a origem das nações
e seu desenvolvimento até o tempo presente.

Esta ambição de uma história científica que explicasse o desenvolvimento


nacional, no Brasil, está relacionada à construção de uma instituição que
pesquisasse o passado nacional, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

3 O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO


A história enquanto disciplina, assim como também a geografia, são
fundamentais para a constituição de um Estado Nacional, pois as nações possuem
soberania em relação aos demais países do mundo ao possuírem um passado
comum, além de um território, que delimita as fronteiras com os demais Estados
Nacionais. Ao mesmo tempo, a forma com a qual o passado fosse retratado, iria
implicar uma ampliação de direitos para as camadas então subalternas, como os
escravos negros e os indígenas. Deste modo, em 1838, ainda durante o período
regencial, foi fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Instituto
que teria a função de escrever a história nacional, conforme os interesses dos
mandatários políticos do Brasil Império (GUIMARÃES, 1988).

135
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Para que se pudesse escrever uma história nacional, o Governo Imperial


promoveu um concurso internacional, buscando profissionais que tivessem
esta capacidade, de ofertar uma diretriz aos demais intelectuais, ensinando-
os a escrever uma história pátria. O referido concurso teve como vitoriosos os
historiadores alemães Von Marcius, autor do texto: “Como se deve escrever a
história do Brasil”. A presença desta diretriz apresentava uma nova abordagem
na história nacional, pois, o IHGB buscava relacionar a História do Brasil como
uma continuidade das ações da monarquia portuguesa, não mais vinculado aos
ideais católicos coloniais.

FIGURA 4 - ATUAL SEDE DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO


BRASILEIRO, NO RIO DE JANEIRO

FONTE: <http://www.ihgb.org.br/>. Acesso em: 17 dez. 2015.

O principal nome da Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro no século


XIX foi o de Francisco Adolfo de Varnhagen. Historiador que escreveu diversos
textos, organizados em vários tomos sobre a história brasileira, a apresentando
como uma continuidade das ações da monarquia portuguesa (VARNHAGEN,
1981). Como exemplo típico de sua época, a forma como Varnhagen escreve a
História é deveras descritiva. Ao invés de buscar empreender análises sobre os
eventos estudados, utilizando-os para melhor compreender a realidade presente,
a narrativa empreendida por Varnhagen buscava ser excessivamente descritiva.

136
TÓPICO 1 | HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB

FIGURA 5 - VARNHAGEN

FONTE: <http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp>. Acesso em: 17 dez. 2015.

Varnhagen buscava em seus textos legitimar, com suas descrições, as ações


sociais do Império do Brasil, mesmo quando estas eram condenáveis. Em relação aos
indígenas, os apresentava como úteis à colonização. Porém, em seus relatos, mesmo
quando (raramente) elogiosos, os apresentava como inferiores e subordinados aos
colonizadores lusitanos. O mesmo se refere às descrições em relação à presença
dos escravos no Brasil Imperial. Varnhagen apontava a importância da escravidão,
apresentando os negros escravizados como inferiores, e afirmando (de forma falsa)
que até mesmo os evangelhos apoiavam as práticas escravistas. Autor que compôs uma
das principais obras históricas no Brasil no século XIX, as suas pesquisas em relação
à História Nacional são por muitas vezes criticadas, devido ao conservadorismo
presente em seus relatos sobre o passado brasileiro.

Uma das primeiras renovações no interior do Instituto Histórico e


Geográfico Brasileiro ocorreu na virada do século XIX para o XX, com a figura
do historiador João Capistrano de Abreu. Cearense nascido em Maranguape,
Capistrano de Abreu foi um dos principais pesquisadores do passado brasileiro.
Um dos seus primeiros e inovadores livros foi A Viagem do Descobrimento, tese
apresentada para o magistério no Colégio Pedro II, no qual Capistrano apontou
que o primeiro navegador a apontar na costa do Pau-Brasil foi o italiano Vicente
Pinzón, que a mando dos reis espanhóis, aportou em Cabo de Santo Agostinho
(litoral pernambucano) no ano de 1499. Com isto, se desmentiu a visão portuguesa,
que o Brasil foi “descoberto” por Pedro Álvares Cabral em 1500 (ABREU, 1999).

137
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

FIGURA 6 - CAPISTRANO DE ABREU

FONTE: <http://www.buscatematica.net/imagens/capistrano-abreu.jpg>. Acesso em: 17 dez. 2015.

Outros importantes livros de Capistrano de Abreu foram Caminhos


Antigos e o Povoamento do Brasil e Capítulos de História Colonial (ABREU, 1963).
Em Caminhos Antigos Capistrano possibilitou compreender a relação existente
entre o povoamento do território brasileiro com a existência de antigos caminhos
utilizados pelos indígenas. Porém, o principal livro escrito por Capistrano de
Abreu foi Capítulos de História Colonial, no qual o autor apontou novidades para
a compreensão do passado brasileiro. Uma primeira novidade é que Capistrano
não incluiu em sua história pátria a Inconfidência Mineira e seu “herói” Tiradentes,
pois para Capistrano, não foi o retrato do povo, mas sim um pequeno movimento
de intelectuais ligado às elites. Também foi um marco o fato de ter iniciado a sua
história brasileira com os indígenas, e não com a chegada europeia. Com isto,
subverteu a ideia do Brasil como uma continuidade dos portugueses, pois já existia
presença humana antes da chegada europeia à América.

Em relação aos indígenas, Capistrano travou um debate pela imprensa


com Sílvio Romero. Capistrano defendia que os indígenas teriam uma maior
relevância na constituição do povo brasileiro, enquanto Romero apontava a maior
importância dos escravos negros. Quando observamos tal debate, com a distância
de mais de um século, podemos apontar que tanto indígenas quanto africanos
foram importantes para a construção do Brasil enquanto nação.

Além de Varnhagen e Capistrano, que são sem dúvidas os principais


nomes dentre os historiadores que pertenceram ao Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro, podemos lembrar outros nomes, nos quais três são de
grande importância. Pedro Calmon, Rocha Pombo e Afonso Taunay.

138
TÓPICO 1 | HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB

Rocha Pombo foi um dos principais historiadores brasileiros da primeira


metade do século XX. A sua principal contribuição ao debate historiográfico
foi a escrita de uma História do Brasil em Cinco Volumes, no qual apresentou
a história nacional. Tinha uma escrita próxima aos historiadores metódicos do
século XIX europeu, como o alemão Hanke e o Francês Charles Segnobois. Isto é,
sua principal preocupação era a de descrever os eventos ao invés de analisá-los.
Porém, em sua descrição, apesar de ter por vezes o reconhecimento das ações dos
africanos, como no caso do Quilombo de Palmares, sua escrita em geral tinha o
indígena e o negro como figuras subalternas aos brancos portugueses.

A diferença entre a produção historiográfica de Varnhagen e Capistrano


para a de Rocha Pombo era a de amplitude e área de influência, pois as obras
dos dois primeiros estavam vinculadas ao ensino universitário. O trabalho de
Rocha Pombo está vinculado ao ensino primário. Isto porque foi o principal
recurso didático utilizado pelos professores brasileiros, durante décadas, para
ensinar a história do Brasil.

Além de Rocha Pombo, outro importante nome do Instituto Histórico e


Geográfico Brasileiro foi o de Afonso de Taunay. Filho de Visconde de Taunay,
foi professor na Universidade de São Paulo. A sua produção intelectual como
historiador se destacou na pesquisa sobre os bandeirantes paulistas, em sua ação
de expansão das terras, apresentando os atos de aprisionamento dos indígenas e da
“caça ao ouro”. Porém, ao invés destes serem apresentados como assassinos, eles
foram tidos por Taunay como os heróis paulistas, que possibilitaram a expansão
do território da América Portuguesa. A história Geral das Bandeiras Paulistas, de
Taunay, é um exemplo de um tipo de história que caracterizou o Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro.

Pedro Calmon foi um dos principais destaques do IHGB ao longo do


século XX. Natural da Bahia, sua produção historiográfica se caracterizou por
uma narrativa mais positivista, ligada em grande parte às questões políticas e
da história do Estado. Publicou vários livros sobre a História do Brasil, sendo
o primeiro A História das Bandeiras Baianas, de 1926. Assim como Rocha
Pombo, escreveu volumes da “História Pátria”, da formação no século XVI até o
desenvolvimento no século XX.

Outro nome do IHGB que pode ser lembrado é o de Américo Jacobina


Lacombe, historiador ligado ao pensamento católico conservador, escreveu
importantes textos sobre a história da igreja no Brasil, além de livros sobre
questões culturais em geral. Católico militante, ele foi o professor de História do
Brasil da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro por várias décadas.

139
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

A principal crítica que podemos realizar em relação à historiografia


produzida pelo instituto histórico e geográfico brasileiro é a de sua postura
laudatória em relação ao Estado Brasileiro (GOMES, 2012), pois, nem sempre,
as ações do Estado foram o reflexo dos anseios da população. Outra questão é a
do conservadorismo presente na historiografia produzida pela instituição. Hoje,
porém, o instituto não mais se comporta como um local de produção historiográfica,
mas sim como uma academia de notáveis, assim como a Academia Brasileira
de Letras. Na atualidade, a instituição tem como presidente o historiador Arno
Welling, que possui o título de Doutor em História pela Universidade de São
Paulo e que foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Também
mantém a sua centenária Revista do IHGB, que mantém a qualidade de relevante
periódico historiográfico.

UNI

Visite o site do IHGB. Em especial, a sua revista de História, que possui um rico
acervo de textos, sendo que todos os números, desde o século XIX, estão disponíveis on-line.

Outra importante contribuição dos membros do IHGB, ao longo do século


XX, foi a construção da Coleção Brasiliana. Tratou-se de um empreendimento
ambicioso, coordenado pela Companhia Editora Nacional, que visava publicar
obras que auxiliassem na compreensão da vida brasileira através dos séculos.
Assim, tivemos entre 1931 até 1993, a publicação de 415 volumes que informam
aspectos variados do país, tanto nos aspectos geográficos, como clima, relevo,
fauna e flora, quanto nos aspectos históricos e sociais, como as questões ligadas a
história das instituições (exército, marinha, diplomacia) quanto dos personagens
da vida nacional (migrantes, negros, indígenas).

UNI

A Coleção Brasiliana da Companhia Editora Nacional está disponível on-line


para a consulta pública, no site <http://www.brasiliana.com.br/>. Um trabalho realizado pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vale a pena ser conferido!

140
TÓPICO 1 | HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB

4 A GERAÇÃO DOS ANOS 1930 E SEUS DESDOBRAMENTOS


O pensamento social brasileiro apresentou nas primeiras décadas do
século XX um fecundo e importante debate sobre os problemas nacionais e as
possibilidades de serem resolvidos. Todavia, tanto o diagnóstico quanto as
medidas que foram consideradas necessárias para a resolução dos problemas são
altamente criticáveis. Neste sentido, dois autores se destacaram: Alberto Torres
e Oliveira Vianna. Alberto Torres, autor da virada do século XIX para o XX,
escreveu dois livros que influenciaram gerações: O Problema Nacional Brasileiro
e A Organização Nacional. Em grande parte, Alberto Torres é classificado como
pertencente a uma linha intelectual conservadora, pois, alguns analistas vinculam
suas ideias a uma perspectiva autoritária da sociedade brasileira.

Oliveira Vianna se afirmou um seguidor dos ideais propostos por Alberto


Torres, e também foi um dos mais importantes intelectuais do denominado
conservadorismo brasileiro. Seus livros principais foram: As Populações do
Brasil Meridional, Instituições Políticas Brasileiras e Ocaso do Segundo Império.
Em grande parte, o pensamento de Oliveira Vianna era marcado por um forte
e lastimável racismo. Para ele, o Brasil Meridional era mais desenvolvido por
contar com maior carga de “elementos brancos”.

Tais pressupostos foram criticados por três grandes nomes da intelectualidade


brasileira. Gilberto Freire, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda.

Gilberto Freire foi um dos principais intelectuais brasileiros do século


XX. E, que se opôs de forma radical ao racismo de Oliveira Vianna. Sua obra
primeira a criticar o pensamento conservador brasileiro foi Casa-Grande e
Senzala (FREYRE, 2000), na qual apontava a miscigenação racial como uma das
principais contribuições da cultura brasileira aos demais países do mundo, e
aponta a cultura de tolerância e convivência inter-racial no Brasil como uma das
características do povo brasileiro. Para sustentar suas teses, Gilberto Freyre em
grande parte se baseou em um antropólogo alemão radicado nos Estados Unidos,
denominado Franz Boas, que desenvolveu o conceito de relativismo cultural, no
qual não se considerava a cultura branca superior das demais, mas valorizava as
diferenças existentes entre as etnias humanas.

Casa-Grande e Senzala foi um marco na cultura brasileira, não apenas


para a sociologia, antropologia e história como também teve reflexo na literatura e
demais artes, pois, o autor revolucionou ao apresentar uma valorização dos hábitos
cotidianos advindo tanto dos locais de moradias das elites (as casas-grandes)
quanto das classes subalternas (as senzalas). A principal questão de Gilberto Freire
foi desmistificar a ideia de uma sociedade na qual existiria uma oposição rígida
entre senhores e escravos no nordeste colonial. Assim, Gilberto Freyre aponta
existirem relacionamentos entre os negros escravos e seus senhores. Uma alteração
radical na concepção de escravidão e colonização na América Portuguesa ocorre
ao Freyre reportar o negro como um cocolonizador, ao lado do português, de um

141
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

continente americano anteriormente habitado pelos indígenas. A radicalidade do


discurso de Gilberto Freyre estava exposta ao descrever com minúcias os hábitos
sexuais das famílias patriarcais nordestinas, em especial as relações sexuais entre
os filhos das famílias patriarcais com as escravas das senzalas, com quem iniciavam
sua vida sexual. No dizer de Freyre, antes da civilização, veio a “sifilização”. Assim,
os filhos destes relacionamentos ilegítimos, os mulatos, formaram um contingente
importante dentro da estrutura social.

Gilberto Freyre também escreveu outros importantes livros, tais como


Sobrados e Mocambos (FREYRE, 2003), Ordem e Progresso (FREYRE, 1990) e o
Luso e o Trópico (FREYRE, 1961). Em Sobrados e Mocambos, Gilberto Freyre
continua a cronologia de seus estudos, agora apontando as transformações que
advieram ao Brasil com o século XIX. Em especial, o centro de poder, que estava
nas casas-grandes rurais até o século XIX, se transmigraram para as grandes
cidades portuárias novecentistas, como o Recife e o Rio de Janeiro. Somada a
esta alteração espacial, temos uma profunda mudança nos hábitos cotidianos das
elites, que não mais habitam as casas-grandes das fazendas, mas nos sobrados
das cidades. A população pobre, também não mais habita as senzalas rurais, mas
sim os casebres, os mocambos. Somam-se a isto, outros gostos culinários, como a
cerveja, e demais hábitos que foram trazidos ao Brasil pelos capitalistas ingleses.
Por sua vez, em Ordem e Progresso, Gilberto Freire aponta os mecanismos
sociais e políticos que possibilitaram a proclamação da república. Porém, nela
não localiza profundas alterações no quadro social. Pois, para o pensamento
gilbertiano, a República ainda manteve determinados preceitos sociais antigos,
em especial o paternalismo.

O Luso e o Trópico é um livro que amplia a visão que Gilberto Freyre


teve sobre a presença do Império Marítimo Português no globo. Quando esteve
em exílio político em Portugal, Gilberto Freire teve contato com a política fascista
de Antônio de Oliveira Salazar, ditador ao qual Freire nutriu simpatias políticas.
Assim, Gilberto Freyre desenvolveu o conceito de luso-tropicalidade. Para
Freyre, a presença portuguesa no trópico era marcada pela escravidão. Porém, a
escravidão nos trópicos teria traços de brandura, seria doce, assim como o açúcar
produzido nos engenhos. Tal perspectiva foi utilizada para legitimar a presença
portuguesa na África, assim como a guerra de descolonização, a qual Portugal
foi um dos últimos países europeus a reconhecer a independência das antigas
colônias africanas e asiáticas.

Assim, Freyre, que nos anos 1930 foi considerado um inovador, ao final de
sua vida foi classificado como um pensador conservador. O principal crítico do
pensamento de Gilberto Freire foi o sociólogo Florestan Fernandes, que pontuava
o livro Casa-Grande e Senzala como uma visão elitista sobre a sociedade colonial
brasileira. Não apenas Florestan, como vários outros pensadores marxistas
desconsideravam o pensamento de Gilberto Freyre.

142
TÓPICO 1 | HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB

Também em oposição ao ideário conservador de Oliveira Vianna e Alberto


Torres, tivemos as publicações do pioneiro pensador marxista brasileiro, Caio Prado
Júnior. Caio Prado publicou em 1933, Evolução Política do Brasil-Colônia e Império
(PRADO JÚNIOR, 2006), no qual inaugurou a utilização do materialismo histórico
e dialético na historiografia nacional. Teve uma importância destacada como um
ativo militante do PCB – o Partido Comunista Brasileiro. Oriundo de uma das mais
tradicionais famílias da plutocracia paulistana, cursou a Faculdade de Direito do
Largo do São Francisco, na capital paulista, e foi o proprietário de uma das mais
importantes e inovadoras casas de edição de livros no Brasil, a Editora Brasiliense.

O livro Evolução Política do Brasil foi inovador ao propor uma nova


metodologia ao refletir sobre a história brasileira (o materialismo histórico e
dialético). Outros livros importantes foram História Econômica do Brasil (PRADO
JÚNIOR, 1970), Formação do Brasil Contemporâneo (PRADO JÚNIOR, 2004) e A
Revolução Brasileira (PRADO JÚNIOR, 1966).

O livro História Econômica do Brasil teve como principal mérito o de


conseguir ampliar a compreensão do passado brasileiro para além das questões
meramente políticas. Em especial, uma melhor compreensão sobre o significado
da independência nacional, pois Caio Prado Júnior apontou, de forma brilhante,
que a independência política do Brasil em 1822 não foi acompanhada de uma
independência econômica. Pois, a nação continuou agrário-exportadora, e
vinculada aos interesses do capitalismo inglês. Também, o sete de setembro de
1822 não era o principal marco das alterações sociais vividas no Brasil na primeira
metade do século XIX, mas sim o ano de 1808, no qual a capital do Império
Marítimo Português foi transferida de Lisboa para o Rio de Janeiro.

Em 1808, D. João VI liderou a fuga da nobreza lusitana das tropas de


Napoleão, que ameaçavam invadir Portugal. O mesmo que abriu os Portos às
Nações Amigas (leia-se, ao Império Marítimo Inglês). Assim, o Brasil deixou de ser
uma colônia em 1808, e não em 1822, pois em 1808 já possuía liberdade comercial.
Caio Prado Júnior, ao analisar a história econômica Brasileira, teve uma postura
crítica, ao não confundir o crescimento de exportações e a industrialização como
sinônimos de desenvolvimento social.

Do ponto de vista teórico, a sua principal contribuição ao debate foi pensar


a história brasileira através das diferenças sociais, utilizando a categoria de análise
classe. Pois, são as diferenças entre as classes que possibilitam compreender as
dinâmicas excludentes do capitalismo. Em seu outro importante e polêmico livro, A
Revolução Brasileira, Caio Prado Júnior apontou que o Brasil foi uma nação que tem
o nome de um produto do mercado internacional (o pau-brasil). Assim, na visão de
Caio Prado Júnior, o Brasil não passou por nenhum outro modo de produção que
não o capitalismo. Deste modo, Caio Prado afirma que o Brasil “nasceu capitalista”.

143
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Um de seus mais polêmicos textos se chama A Formação do Brasil


Contemporâneo – Parte 1- Colônia. Neste livro, o capítulo O Sentido da Colonização,
é até hoje discutido pelos historiadores que pesquisam as temáticas ligadas ao
Brasil dos primeiros séculos. Pois nele, apresenta a função da colônia como um
local que tinha a função de prover a metrópole. Assim, neste texto, fica patente uma
diferenciação que Caio Prado Júnior oferta sobre a colonização nos Estados Unidos
daquela realizada no Brasil. Enquanto os colonos na América do Norte migraram
com motivações religiosas, devido a perseguições sofridas pelas minorias cristãs
como os batistas e alguns puritanos calvinistas, no Brasil, a colonização foi marcada
pelos interesses mercantis. Aqui, ao invés de se buscar construir uma nova
sociedade, como nos Estados Unidos, a colonização tinha como principal interesse
o lucro dos empreendimentos comerciais.

Para além das temáticas de pesquisa e dos debates historiográficos ao qual


estava envolto, são as questões políticas também importantes para a compreensão
da carreira de Caio Prado como intelectual. Como filiado ao Partido Comunista
Brasileiro, foi eleito membro da Câmara dos Deputados em 1946, porém, foi
cassado com os demais membros do Partido Comunista durante o governo Dutra.
Outro momento de sua biografia no qual sofreu perseguições política foi durante a
Ditadura Militar, na qual, após conceder uma entrevista numa revista comandada
por alunos de História da USP, foi preso. A coragem de seu posicionamento
político, e a ousadia de sua interpretação marxista, o fez ser reconhecido como um
importante intelectual brasileiro. Hoje, porém, grande parte de suas análises são
severamente criticados por uma nova geração de historiadores, que discordam
das categorias de análise ofertadas pelo materialismo-histórico e dialético na
análise dos processos históricos.

Dentre os três autores citados como pertencentes a um pensamento social


inovador na compreensão da realidade nacional, temos o de Sérgio Buarque
de Holanda. Filho de uma família de classe média, formado em direito. Sérgio
Buarque de Holanda estudou na Alemanha no final dos anos 1920 e início da
década de 1930, onde teve contato com o pensamento de importantes intelectuais
germânicos. Em 1936, publicou um importante livro para a compreensão
da realidade nacional: Raízes do Brasil (HOLANDA, 1995). Trata-se de uma
obra pioneira ao propor uma interpretação da realidade nacional pautada em
categorias de análise do sociólogo alemão Max Weber, como o patrimonialismo,
que consiste na falta de distinção entre a esfera pública e privada, porém o mais
debatido capítulo de Raízes do Brasil é “O Homem Cordial”. Este capítulo afirma
ser o brasileiro extremamente passional, ligado às relações pessoais de família e
parentesco, e não a racionalidade e impessoalidade. Assim, o brasileiro não seria
um homem pautado pela racionalidade analisada por Max Weber na sociedade
europeia, mas sim pela cordialidade ibérica.

Neste sentido, cordial deve ser compreendido como um homem que pauta
suas ações pela emoção, que age pelo coração e não pela mente, pela razão. Uma
das confusões feita com o conceito é pensar cordial como sinônimo de cortês, de
bem-educado, e por isso, pouco afeito a luta pelos seus direitos, um indivíduo
passivo. Ao contrário, é importante reafirmar que cordial, para Sérgio Buarque
de Holanda, é sinônimo de passional.
144
TÓPICO 1 | HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB

FIGURA 7 - SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/2/29/Sergio_Buarque.jpg>.
Acesso em: 17 dez. 2015.

UNI

Em relação à obra e vida de Sérgio Buarque de Holanda, vale a pena conferir o


documentário realizado por Nelson Pereira dos Santos, de título Raízes do Brasil. Documentário
ao qual a vida do intelectual é retratada, ao mesmo tempo em que se expõem aspectos da
história brasileira do século XX.

Em Visão do Paraíso (HOLANDA, 1995b), Sérgio Buarque de Holanda


pesquisou a mentalidade dos navegadores ibéricos no século XVI. O livro surgiu
de uma tese, apresentada no concurso público realizada pelo historiador para
o seu ingresso como professor do curso de História, na faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Ao pesquisar os vários relatos
referentes às grandes viagens empreendidas nos séculos XV e XVI, observou
a presença de várias lendas da Europa Medieval, como o Mito da Ilha Brasil,
pertencente às tradições da Irlanda. Também observou algumas histórias como a
de Ponce de Leon, que fora o primeiro europeu a pisar na Flórida, cuja motivação
principal era a descoberta da fonte da juventude. Também Cristóvão Colombo,
ao estar presente em “Cipango”, relacionou esta façanha ao cumprimento da
escritura bíblica, presente no livro profético de Esdras. Assim, para além das
motivações econômicas, apontadas por Caio Prado Júnior, existia uma motivação
utópica para as navegações oceânicas empreendidas pelos reinos ibéricos: a busca
pelo paraíso terrestre, do qual a humanidade foi expulsa após o pecado de Adão,
como apontava o relato bíblico do Gênesis.

145
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Além deste período da História Colonial Brasileira, Sérgio Buarque de


Holanda buscou compreender a expansão das fronteiras do território brasileiro
realizada pelos bandeirantes paulistas, retratado em dois livros principais: Monções
(HOLANDA: 1976), no qual aponta a expansão bandeirante para o Matogrosso,
com destaque para a navegação fluvial, e Caminhos e Fronteiras (HOLANDA:
1957), versando também sobre a temática da expansão colonial paulista. Porém,
ao contrário de Afonso Taunay, que fazia um elogio à presença bandeirante, Sérgio
Buarque buscou realizar uma análise crítica. A base teórica para as suas reflexões
foi a historiografia norte-americana, em especial o historiador Frederick Jacson
Turner, autor do clássico A Fronteira na História Americana.

Sérgio Buarque de Holanda é um dos principais autores da historiografia


nacional, que coordenou uma importante coleção de História do Brasil, com o
título, História Geral da Civilização Brasileira (HOLANDA: 1960). Tratou-se de
uma iniciativa de diversos professores universitários, como Eurípedes Simões de
Paula e Antônio Cândido, da USP, Américo Jacobina Lacombe, da PUC-Rio, entre
tantos outros colaboradores, que contaram com a liderança de Sérgio Buarque
de Holanda neste esforço coletivo de compreensão da realidade social brasileira,
tendo como lume a formação histórica nacional.

A biografia de Sérgio Buarque de Holanda também se relaciona, assim


como Caio Prado Júnior, a Ditadura Militar. Porém, por não ser ligado ao partido
comunista brasileiro, Sérgio Buarque de Holanda não foi perseguido diretamente
pelos militares, tendo inclusive proferido palestras antes do AI-5 na Escola Superior
de Guerra. Porém, não apoiou ao regime, se aposentando da USP em 1968, após a
cassação de vários de seus colegas professores da universidade. Não era ligado ao
marxismo, mas sempre defendeu posições políticas avançadas, sendo no contexto
do início dos anos 1980, ao lado de outros intelectuais, um dos membros fundadores
do Partido dos Trabalhadores. Vindo a falecer em 1982, Sérgio Buarque de Holanda
foi um dos principais intelectuais brasileiros de todo o século XX.

UNI

Sérgio Buarque de Holanda não é o personagem mais conhecido de sua família.


Seu filho, o cantor Chico Buarque, em sua condição de artista, acabou por suplantar o pai
em popularidade. Por vezes, Sérgio Buarque de Holanda brincava com a situação, e antes das
palestras que ministrava na última década de sua vida não se apresentava como professor,
mas sim como “O pai do Chico Buarque”.

146
TÓPICO 1 | HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB

FIGURA 8 - SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA E SEU FILHO FAMOSO

FONTE: <http://www.chicobuarque.com.br>. Acesso em: 17 dez. 2015.

UNI

Em relação à obra e vida de Sérgio Buarque de Holanda, vale a pena conferir o


documentário realizado por Nelson Pereira dos Santos, de título Raízes do Brasil. Documentário
no qual a vida do intelectual é retratada, ao mesmo tempo em que se expõe aspectos da
história brasileira do século XX.

Os três autores apresentados como representantes de um pensamento


social mais crítico Freire, Prado e Holanda, assim como os autores apresentados
como pertencentes a um pensamento autoritário e conservador Torres e
Vianna, foram assim classificados pelo eminente crítico literário e professor da
Universidade de São Paulo Antônio Cândido, em seu prefácio ao livro Raízes do
Brasil, na edição de 1969. Tal classificação, usualmente utilizada, porém, é aberto
a críticas. Alguns intelectuais brasileiros das últimas décadas buscaram resgatar
determinados aspectos do pensamento de Oliveira Vianna, não o necessariamente
classificando como racista. Todavia, no presente Livro Didático, mantivemos a
classificação tradicional levantada por Antônio Cândido. Pois, qualquer leitor,
ao passar os olhos em livros como Populações do Brasil Meridional, observa
o conservadorismo de Oliveira Vianna. Ao mesmo tempo, notamos a ousadia
interpretativa dos três principais intelectuais das ciências humanas brasileiras,
que publicaram suas primeiras obras na década de 1930: Sérgio Buarque de
Holanda, Caio Prado Júnior e Gilberto Freire.

147
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico, você pôde observar que:

• Durante o Período colonial foram escritos livros sobre a História do Brasil,


como os de Gandavo, Frei Vicente do Salvador e Sebastião da Rocha Pita.
Obras que foram criticadas por abrir grande espaço para a narração de eventos
mágicos, como um monstro que saiu do mar, na vila de São Vicente.

• No século XVIII existiu em Salvador a Academia Brasílica dos Renascidos,


sociedade literária a qual pertenceu Sebastião da Rocha Pita.

• Após a Independência de Portugal, o Estado Brasileiro criou o Instituto


Histórico e Geográfico Brasileiro, que teve como seus principais nomes os
historiadores Varnhagen, autor de História Geral do Brasil, e Capistrano de
Abreu, autor de Capítulos de História Colonial.

• Nos anos 1930, como uma reação ao pensamento conservador de Alberto Torres
e Oliveira Vianna, surgiram três grandes interpretes da realidade nacional:
Gilberto Freire, Caio Prado Júnior e Sérgio Borque de Holanda.

• Gilberto Freire é o autor de Casa-Grande e Senzala.

• Caio Prado júnior é o autor do livro Formação do Brasil Contemporâneo.

• Sérgio Buarque de Holanda é o autor do livro Raízes do Brasil.

148
AUTOATIVIDADE

Podemos estabelecer que diferentes momentos históricos produzem


diferentes formas e interesses na escrita da história. Assim compreendendo,
estabeleça as diferenças entre a História produzida pelo Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro, o IHGB, da produzida pelos ensaístas brasileiros
dos anos 1930.

149
150
UNIDADE 3
TÓPICO 2

A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA

1 INTRODUÇÃO
Durante a chamada Guerra Fria, o mundo viveu lances históricos de
disputas entre os países capitalistas e as nações comunistas. Estas disputas tiveram
profunda influência na produção historiográfica do Brasil entre as décadas de
1940 e 1980. Um dos vetores para a compreensão da produção historiográfica,
naquela época, foram os desdobramentos da denominada geração que publicou
seus primeiros e relevantes ensaios na década de 1930. Podemos compreender
que Gilberto Freire, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda não foram
os gênios solitários a compor obras ímpares. Devemos compreender que eles
tiveram uma profunda interlocução com outros intelectuais, que também tiveram
grande relevância na contribuição da compreensão do passado brasileiro. Assim,
tivemos vários outros pensadores, autores de importantes ensaios interpretativos.

Concomitantemente a existência de eruditos e ensaístas, também podemos


lembrar que em 1934, tivemos a fundação da Universidade de São Paulo, simbolizando
ao país uma melhor formação dos professores de história que lecionaram tanto
para os colegiais quanto para o ensino superior. Além da USP, podemos citar o
surgimento de outras instituições, que de forma direta ou indireta contribuíram com
a formação de profissionais que militaram na escrita de História do Brasil, como a
CEPAL (Comissão para a América Latina, da Organização das Nações Unidas), o
ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros, já extinto), além da FGV – Fundação
Getúlio Vargas. Outras importantes instituições formadas foram as universidades
federais e estaduais dos vários estados, além do ensino superior privado.

Outro grupo importante para a compreensão da História Nacional foram


os historiadores norte-americanos, que se descolaram para o Brasil, no contexto
da Guerra Fria. Estes, denominados brasilianistas, escreveram obras sobre a
história brasileira, em sintonia com demais estudos sobre os demais países latino-
americanos. Apesar das severas críticas que sofreram, estes estudiosos também
contribuíram para a compreensão da história brasileira.

A historiografia brasileira durante a guerra-fria retratava as disputas


políticas e sociais daquele período. Assim, tivemos uma grande gama de estudiosos
ligados às duas esferas do pensamento social: os marxistas, favoráveis à União
Soviética, outros liberais, vinculados aos ideais das democracias ocidentais. Ao
mesmo tempo, podemos lembrar que o Golpe Militar de 31 de março de 1964
foi um dos principais eventos da Guerra-Fria no Brasil. E, infelizmente, muitos
historiadores foram perseguidos pelo governo ditatorial.

151
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

2 OS ENSAÍSTAS DA REALIDADE HISTÓRICA BRASILEIRA


O sucesso das abordagens historiográficas inovadoras de Gilberto Freyre
e Sérgio Buarque de Holanda motivara a construção de outros livros, que podem
ser considerados como ensaísticos. Isto é, ao invés das análises se pautarem
em uma análise exaustiva de fontes, os ensaístas se baseiam em outros estudos
empíricos, tendo como principal contribuição ao debate uma construção de um
novo olhar sobre a temática a qual escrevem. O ensaísmo foi muito presente no
Brasil entre os anos 1940 até meados dos anos 1980. Podemos classificar em dois
grandes blocos os ensaios e textos de síntese sobre a história brasileira. Num
primeiro bloco os autores ligados ao materialismo histórico e dialético. Num
segundo, autores que eram ligados ao pensamento liberal.

Seguindo a linha marxista, inaugurada por Caio Prado Júnior, tivemos


outros autores que trabalham com perspectivas marxistas nas análises sobre a
realidade nacional, tanto realizando ensaios interpretativos, como pesquisas
acadêmicas. Em relação a ensaístas, podemos citar alguns importantes marxistas,
como Nelson Werneck Sodré (SODRÉ, 1982), Leôncio Bausbaun (BASBAUN, 1986),
Alberto Passos Guimarães (GUIMARÃES, 1968), Jacob Gorender (GORENDER,
1976) e Darcy Ribeiro (RIBEIRO, 1995).

Nelson Werneck Sodré foi um importante intelectual marxista, autor


de livros como Formação Histórica do Brasil, História da Imprensa no Brasil,
História Militar do Brasil, além de dois livros memorialísticos: Memórias de um
soldado e Memórias de um escritor, e esteve relacionado a vários dos debates
historiográficos e políticos do Brasil ao longo do século XX. Leôncio Bausbaun,
membro do Partido Comunista Brasileiro, teve como o seu principal livro A
História sincera da república. Alberto Passos Guimarães escreveu Quatros
Séculos de Latifúndio, texto no qual criticava a estrutura fundiária brasileira.
Estes autores estavam ligados a uma visão majoritária do Partido Comunista
Brasileiro, sobre a existência de um “feudalismo colonial no Brasil”. Tese hoje
refutada (isto é, desmentida), como veremos a seguir. Entre estes, Sodré foi o
autor de maior destaque, que conseguiu influenciar grande parte dos acadêmicos
de História dos anos 1950/1960. E, justamente por isso, também foi o intelectual
que sofreu as maiores e virulentas críticas. Entre os críticos de Sodré, esteve o
militante e intelectual comunista Jacob Gorender.

152
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA

FIGURA 9 - NELSON WERNECK SODRÉ

FONTE: <https://revistaparametro.files.wordpress.com/2011/08/imagesca23yets.jpg>.
Acesso em: 17 dez. 2015.

Jacob Gorender foi um ativo militante do Partido Comunista Brasileiro.


Suas principais obras historiográficas foram: O escravismo colonial e Combate nas
trevas. Em seus escritos está presente uma crítica ao Partido Comunista Brasileiro,
do qual se retirou, sendo posteriormente membro do Partido Comunista do Brasil.
O livro Combate nas trevas apresenta uma revelação polêmica. Os justiçamentos,
isto é, os assassinatos cometidos por membros dos grupos guerrilheiros, cuja
motivação era eliminar os que desejavam sair da luta armada contra a ditadura.

Entre os interpretes marxistas da história nacional, temos o nome de Darcy


Ribeiro. Antropólogo de formação, que possuiu alguns importantes ensaios com
os quais influenciou a historiografia. Em o Processo civilizador apontou uma
interpretação, com base no materialismo histórico e dialético, sobre a história
humana. Os Índios e a civilização é uma obra fundamental para os estudiosos da
História Indígena, porém a maior contribuição de Darcy Ribeiro à historiografia
brasileira foi o livro O povo brasileiro. Escrito no final da vida do autor, no início
dos anos 1990, nele apresenta uma bela visão do passado e do futuro nacional. Na
visão de Darcy Ribeiro, o Brasil sempre foi, até o presente, um “moinho de gastar
gente”. Porém, neste “moinho de gastar gente”, estaria em gestação uma nova
Roma. Assim como todos os caminhos do mundo levavam à antiga Roma, os
caminhos do mundo passavam pelo Brasil, ao ter, em nosso país, representantes
de quase todas as etnias que existem ao redor do globo.

153
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

FIGURA 10 - DARCY RIBEIRO

FONTE: <http://www.pdt.org.br/uploads/noticias/darcy_155-1g_1.jpg>. Acesso em: 17 dez. 2015.

UNI

Para obter um conhecimento mais aprofundado sobre a trajetória de Darcy


Ribeiro, que além de intelectual foi um destacado militante político no Brasil da segunda
metade do século XX, é interessante visitar o site da Fundação Darcy Ribeiro. Disponível em:
<http://www.fundar.org.br/>.

Além de intelectuais marxistas, ligados ou não ao Partido Comunista


Brasileiro, temos vários outros intelectuais, que não foram classificados como
ligados à compreensão teórica do materialismo histórico e dialético, mas que
contribuíram para uma aprofundada compreensão da realidade nacional.
Podemos citar vários intelectuais, como Raymundo Faoro (FAORO, 2001), Victor
Nunes Leal (LEAL, 1976) e Vianna Moong (MOONG, 1969).

Raymundo Faoro foi um destacado advogado brasileiro, com importante


presença no processo de redemocratização ao final da ditadura militar. Além de
sua destacada atuação como jurista, teve grande importância na publicação de
livros que auxiliam a compreensão do passado nacional. Entre suas publicações,
uma teve grande destaque: Os donos do poder: a formação do patronato político
brasileiro. Neste livro, Faoro apresenta como uma categoria social, que ele
denominou (com inspiração no sociólogo alemão Max Weber) como “estamento
patrimonial”, que acabou por se transformar nos “donos do poder”. Pois, uma
camada de burocratas e demais funcionários ligados ao Estado, possuem, na
visão de Faoro, um maior poder que as burguesias industriais brasileiras.

154
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA

FIGURA 11 - RAYMUNDO FAORO

FONTE: <http://perspectivaonline.com.br/2015/04/27/90-anos-de-raymundo-faoro/>.
Acesso em: 17 dez. 2015.

Victor Nunes Leal foi um outro importante intelectual brasileiro. Jurista,


assim como Raymundo Faoro, escreveu um importante texto para a compreensão
da dinâmica eleitoral do período republicano: Coronelismo Enxada e Voto. Em
grande parte, Leal apresentou uma visão crítica sobre as relações de poder e a
corrupção que permeava as eleições brasileiras. Viana Moong, na obra Bandeirantes
e pioneiros, apresentou uma comparação entre as formas de colonização no Brasil
e os Estados Unidos da América. Enquanto nas colônias inglesas da América do
Norte, os pioneiros buscaram construir uma nova nação, na América portuguesa,
a ética da colonização era a do enriquecimento a qualquer custo.

3 A PRODUÇÃO UNIVERSITÁRIA DE HISTÓRIA DO BRASIL, A


FORMAÇÃO DE CENTROS DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA
HISTÓRICA
Grande parte dos intelectuais anteriormente citados não tinha realizado
uma graduação (bacharelado ou licenciatura) em História, pois, no Brasil, o
curso de História demorou a ser formado. Assim, grande parte dos historiadores
brasileiros tiveram formação em Direito, uma área que, à época, era próxima as

155
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Ciências Humanas. Esta perspectiva se alterou a partir da década de 1930, pois,


em 1934, foi fundada a Universidade de São Paulo. O contexto de fundação da
USP foi o de uma dupla crise da elite paulista. Política, com a Revolução de 1930,
que retirou os oligarcas de São Paulo do poder político nacional. Econômica,
com a crise de 1929, que retirou da elite paulistana as benesses financeiras que
possuíam. Uma das motivações para a construção desta universidade foi a visita
do Rei Alberto, da Bélgica, que ao perguntar onde ficava a universidade do Brasil,
teve a resposta que o Brasil (até aquele momento) não possuía universidade.

Em São Paulo, a USP contou com a presença de uma missão de professores


universitários franceses, que contribuíram para a formação de uma importante
geração de historiadores brasileiros. Entre os professores franceses que estiveram
trabalhando em São Paulo, eram destaque Jean Gagé, Emille Leonard, e,
especialmente Fernand Braudel, que obteve mérito internacional ao voltar para a
França, e publicar a sua tese de grande repercussão: O mediterrâneo e o mundo
mediterrânico na época de Felipe II. Com o retorno dos professores universitários
para a França, antigos alunos brasileiros os substituíram, como Eurípedes Simões
de Paula, Eduardo de Oliveira França, e posteriormente, Sérgio Buarque de
Holanda, que ingressou na USP em meados dos anos 1950, com a tese Visão do
paraíso. A presença feminina também era constante, com as professoras Alice Piffer
Canabrava e Olga Pantaleão.

UNI

O Curso de História da Universidade de São Paulo possui uma prestigiada Revista


de História, que é publicada desde 1950, sendo ao lado da Revista do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro, uma das mais prestigiadas publicações do país. Todos os números estão
disponíveis on-line, no site <http://revhistoria.usp.br/index.php/br/>. Vale a pena conferir.

O curso de graduação em História também foi formado no Rio de Janeiro,


na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, que posteriormente
teve o nome alterado para Universidade Federal do Rio de Janeiro. No Rio de
Janeiro foram destaques a professora Maria Ieda Linhares e o Professor Francisco
Calazans Falcon. No restante do país, a ampliação do curso de história teve
grande impulso com a formação de universidades federais nas capitais de todos
os estados, como previa o plano de metas do governo Juscelino Kubistchek.

156
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA

A pesquisa em História, até os anos 1960, era pequena no Brasil.


Alguns marcos foram importantes para a criação de uma grande quantidade
de pesquisadores das questões históricas. Em 1950, o curso de História da USP
fundou sua revista acadêmica, até hoje importante e editada semestralmente. Em
1962, em um encontro de professores sediado em Marília, no interior paulista,
foi fundada a ANPUH – Associação Nacional dos Professores Universitários
de História, instituição que incentivou a formação de professores de História
com maior capacitação profissional. Nos anos 1970, existiu um incremento da
pós-graduação em História, com a abertura de cursos de mestrado em várias
instituições, em especial, nas universidades federais. A ampliação do doutorado
ocorreu a partir dos anos 1980.

Não apenas as universidades foram instituições importantes para a


formação do conhecimento científico sobre o passado brasileiro. Também foram
formadas diversas instituições, como o ISEB, a CEPAL, o CEBRAP e a FGV.

O ISEB foi o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, órgão ligado ao


Ministério da Educação, fundado no governo Juscelino Kubistchek. Tratava-se de um
centro de estudos que tinha como principal motivação a produção de conhecimento
histórico e sociológico, que visava contribuir com o desenvolvimento do Brasil
(TOLEDO, 1982). Alguns importantes nomes da intelectualidade brasileira dele
participaram, como Cândido Mendes de Almeida, Hélio Jaguaribe, Alberto Guerreiro
Ramos, Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré. Por ter se ligado às Reformas de
Base do governo João Goulart, o ISEB foi fechado pelo Golpe Militar de 1964.

A CEPAL é a sigla pelo qual é conhecida a Comissão Para o Desenvolvimento


Econômico da América Latina, um órgão pertencente à Organização das Nações
Unidas, e que teve importante contribuição para o conhecimento da história
econômica brasileira. Em especial, pela atuação de Celso Furtado (FURTADO,
1998), autor, nos anos 1950, do clássico Formação Econômica do Brasil. Na
CEPAL trabalharam alguns dos intelectuais perseguidos pela ditadura militar,
como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, e os economistas Carlos Lessa e
José Serra. Órgão existente até os dias atuais, porém, sem a mesma relação com a
produção historiográfica entre os anos 1950 e 1970.

Alguns dos intelectuais que fizeram parte da CEPAL, ao retornar ao Brasil


nos anos 1970, fundaram, ao lado de outros intelectuais, que não foram exilados,
o CEBRAP – Centro Brasileiro de Planejamento. Entre os intelectuais que a ele
pertenceram estava o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o historiador Fernando
Novais. Estes dois eminentes pensadores da realidade nacional participaram de um
famoso grupo de estudos do livro “O Capital”, de Karl Marx. Outros professores da
USP eram também ligados ao grupo fundador do CEBRAP, como o filósofo Arthur
Gianetti, além do sociólogo das religiões Cândido Procópio Ferreira de Camargo.

157
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Outra importante instituição que trabalhou (e ainda trabalha) com questões


ligadas à História Brasileira é a FGV – Fundação Getúlio Vargas. A mesma tem uma
importante tradição no que concerne à História Oral, um tipo de produção de fonte
histórica, na qual personagens da vida pública, independentemente de sua posição
na hierarquia social, são entrevistados, prestando depoimento sobre os fatos que
vivenciaram (MEIHY, 2000). Algumas entrevistas realizadas pela FGV foram
muito importantes para o esclarecimento de fatos da história política brasileira do
século XX, como as concedidas pelos generais Cordeiro de Farias e Ernesto Geisel.
O CPDoc – Centro de Pesquisa e Documentação em História Contemporânea do
Brasil, contou com a colaboração de grandes pesquisadores, como Maria Celina de
Araújo, Ângela de Castro Gomes, Celso Castro, entre outros pesquisadores.

UNI

A Fundação Getúlio Vargas possuiu o seu Centro de Pesquisa e Documentação


em História Contemporânea Brasileira, o CPDOC, que realizou muitas entrevistas com vários
personagens da história política nacional. Este material pode ser conferido no site: <http://
cpdoc.fgv.br/>.

Podemos observar que, até os anos 1980, a produção de conhecimento


histórico estava mais vinculada às instituições não universitárias, como a FGV
e o CEBRAP. Atualmente, este quadro se alterou, sendo as universidades os
principais locais de produção historiográfica. Um movimento interessante na
segunda metade do século XX foi a construção de instituições ligadas à memória
brasileira. Já em 1936 fundou-se o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional). Com isto, podemos compreender que muitos espaços de
memória foram criados no Brasil entre meados dos anos 1940 e 1980. Podemos
citar o Museu da República, além de outros vários museus pelo país, tanto em
cidades pequenas como em capitais, simbolizando um aumento do interesse do
poder público em relação à construção da memória nacional, além da importância
social da História ter sido ampliada.

4 OS PRINCIPAIS DEBATES ACADÊMICOS


Durante os anos em análise, meados 1940 até meados dos anos 1980, se
pode observar que a historiografia, isto é, a escrita da história, estava vinculada às
disputas políticas e da ampliação de cidadania em relação a uma possibilidade de
melhora das condições de vida da população brasileira. Em um período no qual
o país se transformou, deixando de ser uma nação rural agrário-exportadora,
para se tornar uma nação urbana e industrializada, podemos compreender que
dois grandes debates foram considerados relevantes: a exploração econômica do
Brasil Colonial e a Revolução de 1930.

158
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA

Os debates relativos ao Brasil Colonial tiveram como principal tema a


História Econômica, pois grande parte da intelectualidade brasileira interpretava
os principais dilemas da economia brasileira tendo como causa mais relevante
o legado colonial. Uma das principais questões levantadas pelos historiadores
marxistas era relativo à procedência ou improcedência de relações capitalistas
no Brasil durante os três primeiros séculos. O que possibilitaria compreender o
retardo do desenvolvimento capitalista nacional.

Para uma linha de pesquisadores, ao qual estava incluído Nelson Werneck


Sodré e Leôncio Basbaum, existiu um feudalismo na sociedade colonial brasileira.
A ideia deste tipo de análise, é que o Brasil teria seus senhores feudais durante
a colônia, simbolizados pelos grandes proprietários rurais, donos de sesmarias,
uma doação da Coroa Portuguesa, criando no campo tanto relações escravistas
quanto servis. Este tipo de relação de trabalho teria se mantido até o século XX,
em especial até a Revolução de 1930, que permitiu a ascensão das classes médias
e da burguesia nacional ao poder. Para os marxistas citados, a burguesia nacional
era uma força revolucionária, que unida ao proletariado urbano, tiraria do poder
os dois principais inimigos no povo brasileiro: os grandes latifundiários rurais e
o imperialismo industrial internacional. Tal visão foi criticada tanto no interior
do Partido Comunista Brasileiro, assim como entre intelectuais não ligados
diretamente ao marxismo-leninista.

Entre os críticos marxistas da tese de “feudalismo colonial”, podemos


citar Caio Prado Júnior e Jacob Gorender. Caio Prado Júnior, no livro A revolução
brasileira, afirmou que o Brasil nasceu capitalista, não tendo conhecido o feudalismo.
Deste modo, o país teria “nascido” sobre o signo deste tipo de relação comercial,
sendo a função do Brasil, de ser um fornecedor de produtos agrícolas e matérias-
primas para o mercado internacional. Jacob Gorender criou o conceito escravismo
colonial, no qual o escravismo era a principal forma de relação trabalhista no país
dos três primeiros séculos, não havendo na colônia relações servis.

O principal crítico não marxista da tese de feudalismo colonial foi o jurista


Raymundo Faoro. No livro Os donos do poder, ele apresentou uma interessante
análise sobre a vida colonial brasileira, utilizando categorias de análise oriundas
da sociologia de Max Weber. Assim, ao invés de considerar o Brasil feudal,
apresentou-o como patrimonialista. Isto é, uma sociedade na qual a presença
de uma separação entre o que concerne ao direito público e ao direito privado
é pouco clara, pois temos uma forma de “privatização” das relações públicas,
ao ter a estrutura fundiária pautada em doações régias, como as capitanias e
sesmarias (glebas de terras doadas pelo rei português). Assim, ao invés de termos
uma dominação de classe, entre a burguesia nascente e o proletariado, o que
teríamos na história brasileira, segundo Raimundo Faoro, é uma dominação
estamental. Por estamento, se compreendem grupos sociais garantidos por
convenções e leis, mantidos através da honra e de um estilo de vida diferenciado.
Assim compreendendo, Faoro afirma ter existido no Brasil uma dominação do
estamento patrimonial, que se burocratizou, sendo os membros do estamento
burocrático os donos do poder no Brasil do século XX.

159
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Estes debates relativos ao Brasil Colonial tinham uma relação direta com as
lides políticas, como já fora afirmado. Porém, outro importante debate em relação
à historiografia brasileira do século XX foram as questões relativas à Revolução
de 1930. Debate este também extremamente polêmico, pois o significado das
transformações ao qual o Brasil passou ao longo do século XX se referem à
presença de Getúlio como chefe do poder executivo federal. Assim, existiram
os admiradores e detratores da figura política de Getúlio Dorneles Vargas.
Admiradores e detratores que elaboraram os principais debates acadêmicos
sobre a Revolução de 1930.

Uma visão mais positiva da Revolução de 1930 foi ofertada pelos


historiadores ligados ao marxismo ortodoxo, como Leôncio Basbaum e Nelson
Werneck Sodré. Ambos acreditavam no aspecto revolucionário da Revolução
de 1930, como uma espécie de continuação do tenentismo. Uma das principais
críticas a estes autores foi o de seguir as ideias de Virgínio Santa Rosa (SANTA
ROSA, 1976), intelectual que escreveu um dos primeiros livros sobre a temática,
de título O Sentido do tenentismo. Nele, apontou o tenentismo como um típico
movimento social de classe média, cuja Revolução de 1930 seria uma espécie
de coroamento. Para Leôncio Bausbaun e Werneck Sodré, a Revolução de 1930
marcaria o fim de ranços feudais ainda existentes no campo.

Todavia, tal percepção foi duramente criticada por outros especialistas.


Ao mesmo tempo, que outras visões também foram agregadas à compreensão da
Revolução de 1930. Um dos primeiros autores universitários que trabalhara com
a temática foi Edgard Carone (CARONE, 1978), que apontava o tenentismo como
um movimento da jovem oficialidade do exército, ligados a ideais nacionalistas,
se portando como defensores da moralidade pública. Porém, o primeiro grande
crítico do modelo marxista de Nelson Werneck Sodré para a Revolução de 1930 foi o
historiador Boris Fausto (FAUSTO, 1979). Fausto, em seu livro a Revolução de 1930:
história e historiografia, criticou duramente a ideia que o tenentismo e a Revolução
de 1930 eram movimentos que expressavam os anseios das classes médias urbanas.
Fausto apontou que 1930 representa, apenas, uma troca de elite agrária, que antes era
ligada aos latifundiários paulistas, e que após a Revolução de 1930, passou para as
mãos das elites agrárias gaúchas, simbolizadas por Getúlio Vargas.

Mesmo contando com grande parte dos tenentes dos anos 1920, a
Revolução de 1930 e o tenentismo, como movimento anterior, não significariam,
na visão de Boris Fausto, um avanço das classes médias urbanas. Para Fausto, o
tenentismo deveria ser compreendido como um movimento de origens internas
nas próprias forças armadas, ligadas ao ideal de salvacionismo militar.

160
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA

FIGURA 12 - BORIS FAUSTO

FONTE: <http://investgpi.com.br/wp-content/uploads/2013/03/BORISFAUSTO.jpg>.
Acesso em: 17 dez. 2015.

Outra visão importante sobre a Revolução de 1930 foi ofertada pelo


historiador José Murilo de Carvalho (CARVALHO, 2005), no capítulo da coleção
História Geral da Civilização Brasileira, As Forças Armadas na Primeira República:
o poder desestabilizador, no qual apontou o exército como uma instituição total, e
os anseios dos militares, tendo como causas aspectos internos a própria corporação,
não considerando os tenentes como os porta-vozes de uma classe social, mas sim os
elaboradores de uma projeto autônomo e autoritário para o Brasil. Edgar Salvadore
de Deca (DECA, 1981) também apresentou uma nova forma de compreender a
Revolução de 1930, em seu importante livro 1930: o silêncio dos vencidos. Sua
perspectiva o levou a recusar a utilização do termo revolução para o movimento
militar de 1930, o considerando, muito mais, um Golpe de Estado.

5 OS BRASILIANISTAS
Pelo termo brasilianistas, ficaram conhecidos os intelectuais estrangeiros,
mais notadamente os de língua inglesa, que pesquisaram sobre a História do
Brasil. Desde o século XIX, o conhecimento sobre o passado nacional contou
com a colaboração de pesquisadores “vindos de fora”. No início do século XIX, o
inglês, Robert Southey, escreveu uma História do Brasil, publicada em Londres
no ano de 1810. Trata-se de um pioneiro livro, no qual apontava uma visão sobre
a história nacional. Além deste pioneiro, muitos outros autores de língua inglesa,
tanto ingleses quanto estadunidenses, contribuíram com o conhecimento que
possuímos sobre o passado nacional.

161
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

A presença de intelectuais ingleses não se restringiu ao século XIX. Um dos


principais estudiosos do Brasil colonial, assim como de todo o Império Marítimo
Português, foi Charles Boxer (BOXER, 2002), que produziu livros importantes
como O Império Marítimo Português, além de Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e
Angola 1602-1686, entre outros importantes estudos.

FIGURA 13 - CHARLES BOXER

FONTE: <http://www.companhiadasletras.com.br/images/autores/01817_gg.jpg>.
Acesso em: 17 dez. 2015.

Ainda no que se refere aos estudos relacionados ao Brasil Colonial, também


são destaque os estudos de outro historiador inglês, nosso contemporâneo,
Kenneth Maxwell, autor de um clássico sobre a Inconfidência Mineira, de título
A Devassa da Devassa (MAXWELL, 1995). Ainda dentro da tradição inglesa
podemos citar Russel-Wood, britânico que lecionava na Universidade John
Hopkins, nos Estados Unidos da América. Tinha como área de especialização
em pesquisa a sociedade mineira colonial. Um de seus mais importantes livros
foi Um Mundo em Movimento (RUSSEL-WOOD, 1998), no qual apresentou uma
história do império colonial português durante a Idade Moderna.

Apesar da relevância dos estudos dos historiadores ingleses em relação


à história brasileira, a maior quantidade de estudos fora realizada pelos
brasilianistas norte-americanos. O termo, inclusive, é mais utilizado a eles que
aos historiadores britânicos, que em geral escrevem de modo amplo sobre o
império ultramarino português, ao qual o Brasil era parte integrante. Entre os
estudiosos norte-americanos, muitos mitos foram criados. Pois, nos anos 1970 e
1980, podemos afirmar que existiu uma “Colônia Brasilianista”, como sugere o
historiador da USP José Carlos Sebe Bom Meihy (MEIHY, 1990).

162
TÓPICO 2 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA

Estas Colônias Brasilianistas nas Universidades Brasileiras podem ser


compreendidas pelo interesse norte-americano de obter um maior conhecimento
sobre o maior país da América do Sul. Ao mesmo tempo, se relacionava ao desejo
da Ditadura Militar em ampliar o sistema universitário brasileiro, que estava com
uma defasagem de mão de obra, porque muitos dos antigos professores haviam
sido cassados pelo AI-5. Ao mesmo tempo em que o governo militar almejava,
nos anos 1970, ampliar a Pós-graduação no Brasil.

Assim, com a ampliação da pós-graduação em História nas Universidades


Federais, muitos historiadores norte-americanos foram contratados para instituir
os cursos de pós-graduação, sendo na maioria formados em Universidades
Norte-americanas. Como se tratava da época da Ditadura Militar, que contou
com apoio direto do governo americano, os historiadores que vieram ao Brasil
foram acusados de serem simpatizantes, e até mesmo colaboradores do regime
militar. Este tipo de acusação também era realizado para menosprezar, diminuir
as pesquisas que realizavam.

O mais destacado brasilianista norte-americano foi Thomas Skidmore


(SKIDMORE, 2010), autor de um importante texto sobre a historiografia do Brasil
Republicano, de título Brasil: De Getúlio a Castelo. Richard Morse também pode
ser citado como importante pesquisador da história nacional. Kenneth Serbin, autor
do livro Diálogos na sombra, pesquisou sobre a relação entre a Igreja Católica e a
ditadura militar. A historiadora June E. Hahner pesquisou a história do florianismo
da primeira república, além da história das mulheres, no mesmo período. Em
relação às questões concernentes à História Atlântica e ao Brasil Colonial, é destaque
o historiador, Stuart B. Schwartz, autor de grande relevância nos estudos coloniais.

UNI

Para os falantes da língua inglesa, é interessante visitar alguns sites de revistas


norte-americanas especializadas nos estudos sobre a realidade latino-americana. Para todos,
é interessante a visita ao site Latin American Studies Association, também disponível em
português no seguinte site: <https://lasa.international.pitt.edu/por/>.

163
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

FIGURA 14 - THOMAS SKIDMORE

FONTE: <www1.folha.uol.com.br>. Acesso em: 17 dez. 2015.

Além dos estudos até aqui citados, é importante lembrar de um importante


livro que refletiu a posição de um brasilianista sobre a participação do exército na
política brasileira, da autoria de Alfred Stepan (STEPAN, 1975), cujo título é Os
militares na política, em que analisa a participação do exército nas disputas políticas
do Brasil Republicano. Para o aprofundamento de sua análise, desenvolveu o conceito
de Poder Moderador. Assim, segundo Alfred Stepan, no Brasil, o exército agiu, ao
longo do século XX, como um poder responsável por dirimir as disputas políticas
existentes entre as diferentes facções que disputavam o comando do Estado.

A atuação dos historiadores brasilianistas é de grande relevância, pois ao


lermos estes autores, podemos observar algumas características que poderiam ser
naturais aos “nativos”. Isto é, certos hábitos cotidianos, como o hábito do consumo
de arroz com feijão, a caipirinha ou o futebol aos domingos, são por eles estranhas,
e por eles também descritas com curiosidade. Além deste aspecto positivo,
outro que podemos destacar é a internacionalização das pesquisas, e um maior
intercâmbio entre os historiadores brasileiros e norte-americanos. Tal intercâmbio é
revolucionário, ao pensarmos que grande parte da intelectualidade nacional tinha
como principais influências pensadores europeus. Deste modo, apesar da Guerra-
fria, a ação de historiadores norte-americanos apresentou uma relevante inovação.

164
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você pôde observar que:

• Além de Gilberto Freire, Caio Prado Júnior, o Brasil possuiu outros ensaístas da
realidade nacional, que podem ser divididos entre marxistas e não marxistas.

• Os principais ensaístas marxistas foram: Nelson Werneck Sodré, Leôncio


Basbaum, Alberto Passos Guimarães, Jacob Gorender e Darcy Ribeiro.

• Os principais ensaístas não marxistas foram: Victor Nunes Leal, Raymundo


Faoro, Vianna Moong e José Honório Rodrigues.

• As principais instituições a pesquisar a história brasileira durante a segunda


metade do século XX foram a USP (Universidade de São Paulo), a CEPAL
(Comissão Econômica Para a América Latina), o ISEB (Instituto Superior
de Estudos Brasileiros, entidade extinta com o Golpe de 1964) e a FGV
(Fundação Getúlio Vargas).

• Os principais debates acadêmicos foram sobre a estrutura econômica do Brasil


Colonial (feudalismo, patrimonialismo, escravismo, capitalismo) e sobre a
Revolução de 1930 (Golpe ou Revolução? Rearranjo entre as elites ou avanço
das classes médias?)

• Os brasilianistas, isto é, norte-americanos que estudam a história brasileira,


estiveram presentes no Brasil em grande número, durante a Guerra-fria. Entre
os principais nomes, se podem citar Thomas Skidmore, autor do livro De
Getúlio a Castelo.

165
AUTOATIVIDADE

1 Alguns eventos políticos interferem na visão de mundo dos intelectuais.


Um dos principais eventos da história do mundo, na segunda metade do
século XX, foi a Guerra-fria. Assim, relacione a produção historiográfica
brasileira da segunda metade do século XX com a Guerra-fria.

166
UNIDADE 3
TÓPICO 3

A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

1 INTRODUÇÃO
A denominada história tradicional, que em grande parte ainda está
presente no contexto escolar, e que tem sua importância ao ser uma das
principais fontes de conhecimentos básicos sobre a história do Brasil e do mundo
ocidental, não é hoje o principal objeto de estudo dos historiadores profissionais.
Em grande parte, dados biográficos de grandes personagens, além da relevada
importância que era ofertada aos eventos políticos e econômicos do Brasil nas
pesquisas realizadas por eminentes historiadores até décadas passadas, cederam
espaço a uma nova forma de se pensar a História, não mais ligada às grandes
transformações econômicas e sociais. Na atualidade, muitos novos eventos são
temas de estudo dos historiadores.

Ao partirmos da premissa do historiador francês Marc Bloch que a história


é filha do seu tempo, os debates contemporâneos, em seu âmbito cultural, social,
político, econômico e religioso, possuem grande espaço na academia. Porém,
não de forma instrumentalizada, como nos partidos políticos ou sindicatos, mas
sim, como objeto de estudo dos historiadores. Assim, podemos compreender que
novos temas adentraram no campo da história, como a análise de grupos até
então não contemplados pelos historiadores em sua escrita, como as mulheres, os
negros, os indígenas, os operários e o meio ambiente.

Assim, começaremos nossa narrativa sobre a historiografia brasileira


buscando compreender o contexto destas alterações. Tanto o externo a universidade
(fim da Guerra-Fria), quanto o interno, marcado pela profissionalização da carreira
docente do magistério superior. O que significou uma formação acadêmica com
melhora na qualidade dos historiadores formados pelas universidades brasileiras.

167
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

2 NOVOS ESTUDOS, NOVAS INSTITUIÇÕES, NOVOS TEMAS:


O CONTEXTO DAS TRANSFORMAÇÕES HISTORIOGRÁFICAS
DAS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS
Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, a historiografia mundial
passou por uma grande reavaliação de seus pressupostos, pois, uma
predominância existente do marxismo (ortodoxo) como modelo explicativo para
as transformações e processos históricos passou a ser severamente criticada. A
queda do muro de Berlim colocou em xeque a ideia do socialismo soviético como
um paradigma, um modelo a ser seguido por todos os povos do mundo. Com
isto, observamos o declínio do materialismo histórico e dialético como método
de análise dos eventos históricos. E, a busca dos historiadores por novos métodos
e teorias que pudessem auxiliar na compreensão das transformações históricas.

Como no panorama externo ao Brasil, tivemos a queda da hegemonia


do marxismo e no interno, a redemocratização, que também alterou o modo de
se compreender a história nacional, pois, o governo militar possuía uma visão
positivista da história, pautada na ideia de cultos a grandes heróis. Todavia, este
tipo de produção historiográfica caiu em desuso desde os anos 1930, no exterior
com a Escola dos Annales, e no Brasil com os ensaios de Sérgio Buarque, Gilberto
Freire e Caio Prado Júnior, porém a ditadura possibilitou uma espécie de retorno,
em especial nas escolas, de um tipo de produção historiográfica considerada
pelos especialistas como ultrapassada. Neste contexto, uma grande alteração no
campo historiográfico foi um fim da predominância de historiadores marxistas e
das pesquisas em História econômica, assim como um declínio dos pesquisadores
positivistas, ligados ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

A maior parcela dos historiadores começou a se interessar por outras


temáticas, relacionadas à denominada Escola dos Annales, como a Nova História
Cultural (PESAVENTO, 2003). Também podemos relacionar uma revisão das
teses marxistas, em especial a recusa aos determinismos econômicos dos modos
de produção, buscando inspiração não mais no marxismo soviético, mas sim no
marxismo inglês de Eric Hobsbawm e Edward Thompson (FENELON, 2014). Outros
temas também passaram a fazer parte da pauta de pesquisa dos historiadores, como
a história das relações de gênero, a história das religiosidades (tema anteriormente
pesquisado por antropólogos e sociólogos), além da história ambiental. Outros
temas relevantes de pesquisa são a história da escravidão e a História Atlântica.

Estas pesquisas são realizadas, em geral, por professores doutores e seus


orientados de teses e dissertações, defendidas nas universidades brasileiras nos
últimos anos. Assim, podemos concluir que são as universidades os principais
locais da pesquisa histórica no Brasil atual.

168
TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Uma das principais características da historiografia brasileira nas últimas


décadas foi um amplo processo de profissionalização da ocupação de historiador,
ao mesmo tempo em que jornalistas ganharam notoriedade publicando livros
de história que foram sucessos editoriais. Os jornalistas Eduardo Bueno, com
seu livro A viagem do descobrimento, e Laurentino Gomes, com seu livro 1808,
que retrata a vinda da família real, são os principais exemplos. Ambos os livros,
não escritos por historiadores, mas por jornalistas, foram úteis na divulgação
de dados históricos. Porém, ao mesmo tempo, estão distantes da pesquisa
histórica realizadas nas universidades, que possuem preocupações teóricas e
metodológicas maiores, e que não são destinadas, necessariamente, ao grande
público, mas sim aos pares historiadores, visando aprofundar o conhecimento
sobre o passado nacional. Assim, podemos afirmar que os livros de história mais
vendidos não são o retrato da produção historiográfica de melhor qualidade.

A profissionalização da pesquisa foi possível devido à ampliação dos cursos


de pós-graduação em nível de mestrado e doutorado nas universidades brasileiras,
sendo as universidades públicas as principais pontas de lança deste processo.
Assim, temos uma grande gama de temas pesquisados por jovens em busca de
graus acadêmicos (os títulos de mestre ou doutor). Deste modo, existe uma grande
gama de temas e pesquisas sendo realizadas. Todavia, como apontou o historiador
João Fragoso da UFRJ (FRAGOSO & GOUVÊA, 2014, p. 7), “a maior parcela dos
estudos históricos realizadas nas universidades brasileiras versam sobre a história
do Brasil dos séculos XIX e XX”. Com isto, temos ainda vários campos a serem
explorados em história do Brasil Colonial, como também em novas temáticas antes
não exploradas pelos historiadores, como a História Ambiental.

Entre as instituições importantes para a compreensão da dinâmica do


aumento da profissionalização da função de historiador, temos a presença da
ANPUH, a Associação Nacional dos professores Universitários de História, que,
atualmente, tem como nome Associação Nacional de História. Com encontros
anuais, nos anos ímpares um encontro nacional, nos anos pares encontros
estaduais, a ANPUH permite algo fundamental para o desenvolvimento da
pesquisa histórica no Brasil. O contato entre diferentes pesquisadores, das mais
variadas regiões do Brasil, que pesquisam temáticas semelhantes. Este intercâmbio
entre historiadores permitiu uma melhora na produção historiográfica recente,
nos mais variados temas e tendências teóricas. Ao mesmo tempo, um debate
que surgiu no interior da ANPUH foi uma luta institucional e política para a
regulamentação da profissão de historiador. Isto é, uma tentativa de se buscar
criar conselhos que promovam uma qualidade mínima e que incluam a discussão
sobre a ética profissional de um pesquisador em História. Desde 2013, a profissão
de historiador foi regulamentada. Porém, ainda se trata de um debate em aberto.

Como se poderá observar nas linhas subsequentes, muitas foram as


análises empreendidas pelos historiadores brasileiros nos últimos trinta anos.
Um pouco destas análises e do debate acadêmico é o que veremos.

169
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

3 HISTÓRIA ATLÂNTICA/ HISTÓRIA DA ESCRAVIDÃO/ BRASIL


COLONIAL E IMPERIAL
Por História Atlântica se pode compreender uma abordagem analítica na qual
se privilegia abordar a formação territorial, cultural, política e econômica do Brasil o
relacionando as dinâmicas comerciais do Atlântico Sul nos séculos da Idade Moderna
(séculos XV-XVIII). O Oceano Atlântico foi um palco privilegiado das principais
disputas entre os impérios marítimos da era moderna. Assim, ao pensarmos a História
do Brasil Colonial, observamos que muitos dos episódios da história brasileira, como
a França Antártica, a França Equinocial, a presença Holandesa no Nordeste, além da
Abertura dos Portos às Nações Amigas estão relacionadas às disputas comerciais por
correntes marítimas que possibilitassem ampliação do comércio.

Deste modo, podemos inferir que uma das mais importantes contribuições
da história atlântica é a possibilidade de compreender as relações econômicas,
militares, sociais e culturais entre o continente europeu, o americano e o africano.
Assim, os historiadores que lidam com tal temática pensam as relações espaciais
para além das fronteiras do estado nacional. No Brasil, o principal pesquisador
a lidar com a temática da história atlântica foi Luis Filipe de Alencastro
(ALENCASTRO, 2000), autor de O trato dos viventes: a formação do Brasil no
Atlântico Sul. Nesta obra, Alencastro aborda a importância do tráfico negreiro
para a compreensão da formação do Brasil. Porém, ao invés de apontar os
interesses metropolitanos no tráfico, Alencastro abordou os interesses coloniais,
em especial, a participação de alguns agentes, que pode ser simbolizado na
figura de Vidal de Negreiros, que após liderar a expulsão dos holandeses de
Pernambuco, comanda a expedição que visava libertar Angola do jugo holandês.
A libertação de Angola era fundamental para a economia açucareira, porque era
do continente africano de onde se retirava a mão de obra utilizada nas lavouras
açucareiras, que alimentavam o mercado europeu desta especiaria.

FIGURA 15 - LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO

FONTE: <http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/luiz_felipe_alencastro.jpg>.
Acesso em: 17 dez. 2015.

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TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Além de uma melhor análise das relações intercontinentais da Idade


Moderna, a perspectiva atlântica possibilita aos estudiosos uma melhor
compreensão da escravidão, pois a mesma se desenrolava no tráfego humano
entre a África e a América. Entre os principais estudiosos da história da escravidão
no Brasil das últimas décadas, nós podemos citar os professores Bivar Marquese
(USP) e Silvia Lara (UNICAMP). A pesquisa sobre a questão da escravidão está
hoje envolta aos debates relativos às formas de legitimação do poder metropolitano
português sobre a sua colônia americana. Duas correntes teóricas são utilizadas
pelos pesquisadores. Os que utilizam o conceito Antigo Regime nos Trópicos e os
que utilizam o conceito Antigo Sistema Colonial.

A produção dos historiadores que utilizam o conceito de Antigo Regime


nos Trópicos em geral utiliza da perspectiva analítica protagonizada pelo
professor de História do Direito da Universidade de Lisboa António Manuel
Hespanha, autor de um livro clássico denominado As vésperas do Leviatã. Os
historiadores ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro, como Maria
Fernanda Bicalho, Fátima Gouvêa e João Fragoso (FRAGOSO; BICALHO;
GOUVÊA, 2001), organizaram um livro de título Antigo Regime nos Trópicos,
no qual esta perspectiva analítica é demonstrada. Em especial, defendem uma
descentralização das relações de poder na época do Brasil Colonial.

Esta perspectiva teórica foi duramente criticada pela historiografia ligada


à Universidade de São Paulo. Laura de Mello e Souza, em O sol e a sombra
(SOUZA, 2006), apresenta uma forma de compreensão da administração do
Império Português, apontando a centralidade do poder na Metrópole, que ditava
as resoluções do Império Colonial Português. Esta perspectiva analítica tem como
principal formulador o historiador Fernando Antônio Novais, autor do livro:
Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (NOVAES, 1979). Outro
historiador que trabalha com o mesmo conceito é Pedro Luis Puntoni (PUNTONI,
2000), autor de Guerra dos bárbaros, que apresentou uma nova abordagem da
história indígena no Brasil Colonial, apresentando o protagonismo indígena, ao
buscar se opor, de forma armada, ao colonizador português.

As análises sobre o Brasil imperial sofreram influências díspares e autores


com temáticas igualmente variadas. Uma das primeiras e mais importantes obras
sobre o período foi composta por Manolo Florentino e João Fragoso, de título
o Arcaísmo Como Projeto (FRAGOSO; FLORENTINO, 2001). Neste livro, os
autores apontam como se formaram as fortunas no Rio de Janeiro, que tinham
como principal base o comércio de escravos.

Em relação ao Brasil Império, temos uma grande gama de importantes


estudos sendo realizados nas universidades brasileiras. Algumas questões são
próximas à história atlântica, como os estudos que tratam da questão da proibição
do tráfico negreiro, assim como a Lei Eusébio de Queiróz e o decorrente tráfico
interprovincial. Todavia, para além das questões econômicas, as relações políticas
também são analisadas pelos pesquisadores do Brasil no século XIX. Entre os
vários autores que trabalharam com o período, podemos destacar José Murilo de
Carvalho e Sidney Chalhoub.

171
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

José Murilo de Carvalho, Imortal da Academia Brasileira de Letras e


professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é um dos principais
historiadores brasileiros da contemporaneidade. Sua principal contribuição se
refere à compreensão das elites imperiais e a construção da sociedade brasileira
nas primeiras décadas republicanas, marcadas pelo fim da escravidão. Seus
principais livros são A construção da ordem, O teatro das sombras (CARVALHO
1996), A formação das almas (CARVALHO, 1990), Os bestializados (CARVALHO,
1887). A construção da ordem e o Teatro das sombras se referem à estrutura
política do Brasil Imperial. A formação das almas e Os bestializados se referem às
primeiras décadas da república, na qual um imaginário criado pelos positivistas
não se transformou em realidade para a população brasileira, que deixou de ser
súdito, passando a ser cidadão portador de direitos, que não eram efetivados no
cotidiano das populações empobrecidas dos cortiços e favelas.

Este período, da transição monárquica para a república foi estudado por


um outro destacado historiador: Sidney Chalhoub. Professor da Universidade
Estadual de Campinas, no interior do estado de São Paulo, sua contribuição
para a historiografia foi explicitada em dois livros: Trabalho, lar e botequim
(CHALHOUB, 2001) e Visões da liberdade (CHALHOUB, 1990). Em Visões da
liberdade, o historiador pesquisou, com base em vasta documentação, a visão
de escravos sobre o processo de emancipação do negro em face da escravidão.
Em Trabalho, lar e botequim, aponta o cotidiano das classes populares do Rio de
Janeiro da última década do século XIX e das primeiras décadas do século XX.

O principal debate acadêmico que envolve o Brasil Império se relaciona aos


significados da Guerra do Paraguai. Em relação a esta polêmica historiográfica,
dois posicionamentos foram presentes: um primeiro, representado por Júlio José
Chiavenato, e uma revisão, apresentada por Francisco Doratioto.

A primeira grande interpretação não militar sobre a Guerra do Paraguai foi


representado pelo jornalista e historiador autodidata Júlio José Chiavenato, autor do
livro Genocídio Americano (CHIAVENATO, 1979). Nele, Chiavenato apresenta uma
visão economicista radical sobre a guerra, relacionando-a aos interesses econômicos
do Imperialismo Inglês na América do Sul, que precisava arrasar o Paraguai. O país
vizinho estaria, segundo Chiavenato, aumentando sua produção industrial, e assim,
seria um concorrente direto aos interesses bretões no Cone-sul. Como os paraguaios
visavam invadir o território do Brasil, Uruguai e Argentina, não foi difícil para os
representantes ingleses convencerem aos líderes políticos brasileiros, uruguaios e
argentinos a guerrear contra o país liderado por Solano Lopes.

Francisco Doratioto, professor do Instituto Rio Branco, apresenta outra


visão da Guerra do Paraguai. Doratioto relativiza a visão apresentada pela qual o
conflito é explicado pelas ações do imperialismo inglês na América do Sul. No livro
Maldita Guerra (DORATIOTO, 2012), o autor apresentou sua principal visão, que
aponta as próprias rivalidades entre os países do Cone-Sul pela navegação no Rio
da Prata, com uma das principais causas a explicar as constantes tenções na região
platina, a qual a Guerra do Paraguai é apenas mais um sangrento e triste episódio.

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TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Os debates acadêmicos sobre o Brasil Colonial e Imperial revelam grande


profundidade teórica e múltiplas abordagens. Abordagens estas vinculadas às
novas formas de compreensão do passado, e novos olhares demonstrados pelos
historiadores, ligados a movimentos historiográficos que analisaremos a seguir.

FIGURA 16 - JOSÉ MURILO DE CARVALHO

FONTE: <https://www.ufmg.br/online/arquivos/anexos/jose-murilo.jpg>.
Acesso em: 17 dez. 2015.

4 NOVA HISTÓRIA CULTURAL, GÊNERO, NOVA HISTÓRIA


SOCIAL E HISTÓRIA AMBIENTAL: OS NOVOS TEMAS DA
HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
Uma das principais transformações na historiografia brasileira, no final
do século XX e início do século XXI, foi o advento de uma grande quantidade
de estudos ligados a uma tendência historiográfica denominada Nova História
Cultural. Esta, identificada com a História dos Annales Francesa, buscou
pesquisar temas que anteriormente não eram objeto de estudo dos historiadores,
como as sensibilidades, as mentalidades, o imaginário, a sexualidade, entre outras
temáticas ligadas às subjetividades humanas. Este tipo de história se mostrou
como grande novidade, pois, até então, a maior parte do debate acadêmico era
pautado em estudos de história política e econômica.

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UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

A recepção de novas ideias e tendências historiográficas, ligados a uma


abordagem mais antropológica que econômica ou sociológica, teve no Brasil, como
nomes principais alguns historiadores, como Laura de Mello e Souza e Ronaldo
Vainfas. Laura de Mello e Souza foi autora de um dos principais livros de história
do Brasil Colonial, de título, O diabo na Terra de Santa Cruz (SOUZA, 1986), no
qual buscou analisar a ideia de diabo presente nos relatos do Brasil no século XVI,
realizando uma etnografia das tribos conforme os relatos dos padres jesuítas e
demais clérigos e escritores quinhentistas. A produção de Laura de Mello e Souza
no tocante às questões da Nova História Cultural foram complementadas com
a produção de um contemporâneo, o historiador Ronaldo Vainfas. Professor da
UFF – Universidade Federal Fluminense, foi autor de trabalhos importantes sobre
a temática do Brasil Colonial, no qual se destacou o artigo Moralidades brasílicas
(VAINFAS, 1997), onde foram analisadas as práticas sexuais do Brasil Colonial.

Outro autor ligado à Nova História Cultural no Brasil e que merece especial
destaque é Mary Del Priori, que trabalhou com questões ligadas às sensibilidades
e mitos sociais. Alguns de seus livros ganharam grande destaque na imprensa, ao
relatar aspectos da vida cotidiana e da intimidade de personagens famosos, como
D. Pedro II. Seus principais livros são História das mulheres no Brasil (PRIORI,
1997), História da criança no Brasil (1991), além de Histórias íntimas: sexualidade e
erotismo na História do Brasil (2011).

Outro nome entre os pioneiros na constituição de uma História Cultural


no Brasil foi o historiador Nicolau Svcenko. Autor de um clássico da historiografia
brasileira, tese defendida na universidade de São Paulo e publicada com o nome
de A literatura como missão, no qual foi analisada a produção dos escritores
durante a primeira república (1889-1930). Também se destacou como arguto
analista do tempo presente ao publicar o livro No Looping da montanha russa,
em que analisa o início do século XXI.

A Nova História Cultural também se mostrou eficiente recurso


metodológico para a análise de eventos que anteriormente não eram contemplados
a contento pelos historiadores, como a História da vida privada e a História do
cotidiano. A História da vida privada no Brasil foi uma das principais novidades
da historiografia brasileira dos anos 1990. Livro escrito por vários autores e
organizado por Fernando Antônio Novais e Laura de Mello e Souza (NOVAIS;
SOUZA, 1997), tinha como principal objetivo relatar as práticas sociais cotidianas
das famílias e dos indivíduos no Brasil desde a época colonial até o presente.
Hábitos novos dados pela modernidade urbana, como o rádio e a televisão, que
alteraram a vida familiar brasileira no século XX, foram relatadas e analisadas,
por vários historiadores. Em relação à história do cotidiano, ela está presente em
diversas análises de diversos eventos históricos.

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TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

A micro-história italiana (ESPADA LIMA, 2006), cujos principais teóricos são


Geonavi Levvi e Carlo Gizburg, também influenciaram os historiadores culturais. A
micro-história teve como livro paradigmático O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg,
que relata a história de Menóquio, um moleiro do interior italiano perseguido pela
inquisição no século XVI. A metodologia desenvolvida pelos italianos para analisar
as fontes advindas da Santa Inquisição, fonte principal da análise de Ginzburg sobre
Menóquio foi amplamente utilizada pelos historiadores brasileiros que trabalham
com a legislação sobre os processos que envolveram cristãos-novos (judeus forçados
a se converter ao cristianismo) além de demais perseguidos pela inquisição no Brasil
Colonial, cujos processos se encontram arquivados na Torre do Tombo, em Portugal.
O principal autor a influenciar a reflexão historiográfica brasileira contemporânea foi
o pensador francês Michel Foucault.

Apesar dos posicionamentos contrários dos críticos, Michel Foucault foi


uma grande influência para a historiografia cultural realizada no Brasil. Foucault
foi um importante intelectual francês, oriundo do campo da filosofia, e que teve
destacada participação intelectual nos debates acadêmicos franceses. Possuiu
dois grandes momentos intelectuais, a fase arqueológica, quando trabalhou com
a história das ciências e uma fase genealógica, quando trabalhou com a gênese
da formação das relações de poder. Muitos historiadores brasileiros utilizaram
suas categorias de análise desenvolvidas nos seus estudos (RAGO, 1995), como
o que Foucault denominou de corpos-dóceis e instituições de sequestro. Por
corpos-dóceis, se compreende a relação de dominação entre os portadores de um
conhecimento científico, como os médicos, e os seus pacientes, que não reagem às
investidas violentas (como as cirurgias), que os profissionais da saúde realizam
nos seus corpos. Por instituições de sequestro, Foucault compreende as prisões,
os conventos, os quartéis e os presídios, nos quais grande quantidade de pessoas
era confinada em um regime disciplinar diferenciado.

A influência de Foucault pode ser medida em grande número de citações


das suas obras nas teses e dissertações defendidas nas universidades brasileiras
no campo de história e das demais ciências humanas, pois o autor trabalhou com
temas caros aos historiadores culturais, como a história da loucura, a formação de
espaços de reclusão, como quartéis, e também a história da sexualidade, caro aos
pesquisadores e pesquisadoras da história das mulheres e das relações de gênero.

Em relação à História das mulheres e das relações de gênero, temos um


grande número de pesquisas na área de História (PEDRO, 2011). Em geral, os
pesquisadores e as pesquisadoras desta área do conhecimento histórico se utilizam
do artigo da historiadora norte-americana Joan Scott, de título Gênero: categoria
útil de análise histórica, como referencial teórico. Também textos clássicos sobre
a condição feminina, como O Segundo sexo, de Simone de Beavoir, e a Mística
feminina, da norte-americana Betty Friedan,  são amplamente citados, assim
como a História da sexualidade, de Michel Foucault. Entre as historiadoras que se
destacaram nas pesquisas relativas à história das mulheres e relações de gênero
no Brasil, temos a presença de Margareth Rago, da Unicamp, Mary Del Priori,
da USP, além de Cristina Scheibe Wolf e Joana Maria Pedro, da Universidade
Federal de Santa Catarina.

175
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Uma das principais novidades da utilização da categoria de análise


gênero é pensar que a condição social das mulheres está intimamente
relacionada a masculina. Portanto, os estudos de gênero não envolvem apenas
as questões relativas às feminilidades, como também, com a construção social
das masculinidades. Neste sentido, alguns trabalhos de pesquisa também
pensam a construção de masculinidades. Outra e polêmica temática relacionada
às pesquisas de gênero versam sobre as relações sexuais não convencionais ao
mundo judaico cristão ocidental, como os homossexuais masculinos e femininos,
além de outras figuras sociais também vítimas de preconceito, como os travestis.

As pesquisas sistemáticas nos estudos de gênero também abordam


temas relacionados às questões clássicas da história das mulheres, em sua luta
por emancipação à dominação masculina. Com isto, temas como o direito das
mulheres ao voto, a conquista de espaço em profissões anteriormente consideradas
masculinas, como o oficialato das forças armadas, o direito e a medicina, que
hoje já contam com uma expressiva participação feminina, são pesquisados em
seus mais diferentes aspectos. Também, o triste problema da sistemática violência
contra a mulher, que aflige a uma grande parte da população feminina brasileira,
é constantemente pesquisado.

UNI

Uma das principais revistas sobre a temática de gênero no Brasil é a Cadernos


Pagu, da Unicamp, e a Revista Estudos Feministas, da Universidade Federal de Santa Catarina.
Ambas possuem artigos disponíveis no sítio Scielo. Vale a pena conferir!

As temáticas pesquisadas utilizando como chave conceitual e teórica a Nova


História Cultural, que em grande parte é influenciada pela Escola dos Annales
Francesa, tem como principal contribuição à historiografia brasileira a inovação
temática de se trabalhar com temas pouco analisados pela historiografia tradicional,
dando voz a grupos de excluídos sociais, como os perseguidos pela Santa Inquisição
Portuguesa, como os cristãos-novos, até a grupos marginalizados contemporâneos.
Todavia, a Nova História Cultural sofreu duras críticas, em especial dos antigos
historiadores marxistas, com destaque para o falecido historiador Ciro Flamarion
Cardoso (CARDOSO, 1999), que criticava duramente o abandono da história
econômica. Outras críticas, porém, veladas, eram realizadas por simpatizantes
do materialismo histórico e dialético, que pontuavam a Nova História Cultural
como uma “perfumaria”, e não como uma área de estudos séria e comprometida
academicamente, porém, após o decorrer dos anos, se observa que os estudos em
Nova História Cultural ganharam grande representatividade acadêmica.

176
TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

FIGURA 17 - MARY DEL PRIORI

FONTE: <http://www.objetiva.com.br/arquivos/fotosAutores/Mary%20Del%20Priore.jpg>.
Acesso em: 17 dez. 2015.

Além da Nova História Cultural, de orientação francesa, também estão


presentes, na universidade brasileira, pesquisas relacionadas à Nova História
Social Inglesa. Em especial, o livro A formação da classe operária inglesa, do
historiador social E. P. Thompson, foi uma influência para estes historiadores, que
pesquisam temas relacionados à história dos trabalhadores brasileiros. Alguns
temas como o dos trabalhadores das cidades, novas visões sobre as greves e motins
urbanos, assim como também uma nova visão da realidade social dos operários
fabris. Um conceito importante utilizado pelos marxistas thompsonianos é o
conceito de experiência operária. Neste sentido, uma das principais contribuições
desta nova perspectiva analítica é a de tentar abordar a história nos movimentos
de trabalhadores a partir das suas vivências.

Entre os principais pesquisadores que atuam nesta temática histórica


podemos citar Cláudio Batalha, da UNICAMP, Marcelo Badaró Mattos, da
Universidade Federal Fluminense, e Edgar de Deca, da UNICAMP. A importância
de Deca para os estudos relativos às questões da História do Trabalho se deve ao
fato dele ter sido o intelectual responsável por trazer as obras de E. P. Thompson
para o Brasil. Cláudio Batalha, autor do livro O movimento operário na primeira
república (BATALHA, 2000) e Marcelo Badaró Mattos, autor de O sindicalismo
brasileiro após 1930 (MATTOS, 2003), se caracterizaram por estudos relativos à
história dos trabalhadores urbanos da República Velha e do período populista.
As principais questões levantadas por estes pesquisadores são a da possibilidade
mais ampla da compreensão do papel de protagonismo dos operários na conquista
de direitos sociais e políticos, algo tratado pela historiografia oficial como uma
benesse de governos populistas, como o de Getúlio Vargas.

177
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

A história dos sindicatos também foi revista pela nova historiografia social.
Isto porque tivemos uma grande gama de pesquisas que reavaliaram alguns “mitos
historiográficos”. Um primeiro é a da existência de uma legislação trabalhista anterior
à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), pois, anteriormente, a historiografia que
se dedicou em pesquisar a temática, desconsiderava a presença de leis existentes e que
regulamentavam a relação capital/trabalho antes do período getulista. Outro estudo
importante realizado pela Nova História Social foi a da presença dos brasileiros na
formação dos principais sindicatos da República Velha. Anteriormente, a historiografia
apontava apenas os imigrantes italianos, inspirados pelo anarquismo, como os
principais articuladores das organizações sindicais. Os italianos tiveram participação,
porém, a parcela majoritária de muitos sindicatos, eram formados por brasileiros,
como no caso da Estiva, o primeiro sindicato regulamentado no Brasil, em 1932.

A nova história social, que em geral, se ocupou da vida de trabalhadores e


seus dilemas na difícil relação entre o capital e o trabalho no Brasil dos séculos XIX
e XX se apresentou como uma das principais correntes da historiografia brasileira
contemporânea. Em especial, pela ousadia das análises históricas, que possuem
um cuidado especial em relação às fontes, buscando com elas reconstituir as lutas
dos brasileiros, que através do suor do trabalho cotidiano, lutam por melhores
condições de vida e auxiliam a construir um melhor país.

Um outro tema importante da nova historiografia brasileira é a incorporação


dos estudos de História Indígena. Em geral, os estudos da história dos primeiros
habitantes do Brasil não eram realizados por historiadores. Varnhagen teve uma
infeliz frase, a de que “não existe história indígena, apenas etnografia”. Tal perspectiva
conservadora e retrógrada atrasou em muito o desenvolvimento de uma “historiografia
indígena brasileira”. Tal processo está em formação, com um importante diálogo
interdisciplinar entre antropólogos e historiadores, que realizam uma antropologia
histórica. Um marco dos estudos relativos aos indígenas foi o livro organizado por
Manuela Carneiro da Cunha, de título História dos índios do Brasil (CUNHA, 1992).
Obra composta por vários autores e que analisa a presença indígena e sua relação com
o Estado desde o período colonial até o século XX, abordando questões clássicas como
a catequização do período colonial, as políticas em relação aos indígenas no Império,
assim como a afamada Missão Rondon, no período republicano.

Como já afirmado, tanto antropólogos quanto historiadores realizam


pesquisas sobre a temática indígena no Brasil. Entre os antropólogos em diálogo
com a História Indígena, podemos citar João Pacheco de Oliveira, do Museu
Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que pesquisa temas
relativos à história dos indígenas brasileiros em múltiplas temporalidades e
espacialidades (OLIVEIRA FILHO, 1999). Entre os historiadores, foi grande
destaque o (recentemente falecido) professor da Universidade de Campinas
John Manuel Monteiro, autor de duas importantes obras historiográficas. A
primeira foi Negros da terra (MONTEIRO, 1994), que analisa a presença indígena
na construção do estado de São Paulo, na época colonial. Outra importante
contribuição de John Manuel Monteiro para a História dos Indígenas Brasileiros
foi Tupis tapuias e historiadores, que apresenta uma análise sobre a historiografia
produzida sobre os indígenas brasileiros.

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TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

O Brasil ainda não possuiu um grande livro de história indígena escrita


pelos próprios índios. Tal lacuna pode ser compreendida pela secular ausência
de descendentes dos primeiros habitantes do Brasil nos bancos universitários.
Tal lacuna na historiografia brasileira deverá ser preenchida em breve futuro, em
grande parte pela existência, em algumas universidades, como nas federais de
Goiás e Santa Catarina, de uma licenciatura em História específica para indígenas.

Uma das novidades referentes à história nacional é a preocupação com


o meio ambiente, que também está presente na historiografia, com a criação
de um novo campo de estudos, a História Ambiental. Este tipo de produção
historiográfica surgiu nos Estados Unidos nos anos 1970, no contexto do despertar
do movimento ecologista, pois, em grande parte, a história humana é pautada
pela relação do homem com o meio ambiente, nas mais variadas formas as quais
as diferentes sociedades culturalmente se relacionam com a natureza.

No Brasil, esta área teve como seus pioneiros dois historiadores, que
publicaram trabalhos entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2000. Trata-se
de Varrem Dean e José Augusto Pádua, que escreveram verdadeiros clássicos da
temática ambiental no âmbito da história, sendo as principais referências para os
novos estudiosos desta importante temática contemporânea.

Waren Dean foi um historiador brasilianista, isto é, um norte-americano


que visitou o Brasil em missão de estudos. Suas primeiras investidas em relação à
história brasileira foram em temáticas ligadas à história econômico-social, porém
se destacou ao escrever um importante e pioneiro livro, de título A Ferro e Fogo
(DEAN, 1998), que demonstra a presença humana na mata atlântica, e o processo de
degradação constante deste importante ecossistema do bioma da floresta tropical.

José Augusto Pádua, autor do livro Um sopro de destruição (PÁDUA, 2004),


elaborou uma história das legislações ambientais brasileiras ao longo do século XIX.
Uma das importantes contribuições de Pádua é dar historicidade às legislações
ambientais, que não advieram ao país com a Constituição de 1988, mas são existentes
no Brasil desde o final do século XVIII, quando ainda era uma colônia portuguesa.

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UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

FIGURA 18 - JOSÉ AUGUSTO PÁDUA

FONTE: <www.historiaambiental.org>. Acesso em: 17 dez. 2015.

A importância dos estudos em história ambiental é clara. Basta observar


o atual estágio de poluição da maior parte das cidades em que vivem os seres
humanos na maior parte dos países do mundo. Outra questão importante para
a compreensão da relevância da história ambiental é seu caráter interdisciplinar.
Isto é, a amplitude interdisciplinar da história ambiental é mais ampla que os
diálogos interdisciplinares tradicionais dos historiadores com as demais ciências
humanas e sociais, como a sociologia, a economia e a antropologia, pois, para
uma melhor compreensão da relação entre os homens e as suas relações com
a natureza, existe uma necessidade do conhecimento de aspectos das ciências
naturais e exatas, como os ofertados pela biologia e química. Assim, muitos dos
antigos temas, antes abordados apenas por pesquisadores das ciências exatas,
passaram a ser temas das pesquisas de historiadores.

UNI

A História Ambiental se apresenta como uma das importantes novidades para a


pesquisa histórica neste início de século XXI. Uma importante fonte de informação sobre esta
área do conhecimento histórico é disponibilizada na página mantida na internet pela Rede
Brasileira de História Ambiental, que pode ser conferida no seguinte sítio eletrônico: <http://
www.historiaambiental.org/>. Acesso em: 17 dez. 2015.

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TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

5 OS DEBATES SOBRE O GOLPE MILITAR DE 1964


Os principais debates acadêmicos, que extrapolaram os muros das
universidades, se referem às questões relativas aos debates sobre a compreensão
dos acontecimentos que levaram a tomada de poder pelas forças militares em 1964,
e que se mantiveram no executivo federal até 1985. Tal questão é tema constante
de acalorados e polêmicos debates acadêmicos nas universidades brasileiras.

Um primeiro debate foi considerar o movimento militar de 1964 um golpe


militar ou uma revolução? Em grande parte, no contexto da guerra-fria, a palavra
Revolução era vinculada a grupos sociais de esquerda. Porém, os grupos militares
de esquerda, ligados as correntes nacionalistas do Clube Militar, foram expulsos
das forças armadas brasileiras nos anos iniciais do golpe. Ao mesmo tempo, para
a população, os generais ditadores apresentaram o movimento militar como uma
revolução. Em grande parte, por considerar as ações do grupo de militares que
assumiu o poder como de Direita (expressão que fazia grande sentido durante a
guerra-fria), a maior parte da historiografia brasileira considerou o 31 de março
de 1964 como um golpe.

Entre os principais formuladores deste primeiro debate sobre a ditadura


militar estão os historiadores Hélio Silva (SILVA, 1975), Renê Armand Dreiffus
(DREIFFUS, 1981), Alberto Moniz Bandeira (MONIZ BANDEIRA, 2010), além do
jornalista Élio Gáspari.

Hélio Silva foi autor do livro 1964 Golpe ou contragolpe? Em grande


parte, utilizando como fonte as notícias jornalísticas veiculadas em jornais do eixo
Rio-São Paulo, Hélio possibilitou uma melhor compreensão dos eventos. Porém,
os trabalhos mais revolucionários para o entendimento do golpe militar de 1964
foram os produzidos por Alberto Moniz Bandeira e Rene Armand Draiffus.
Alberto Moniz Bandeira escreveu o livro, O governo João Goulart e as lutas
sociais no Brasil, que apresentou uma análise das reformas de base do governo
João Goulart. E, em especial, como determinados grupos nacionais e estrangeiros
tiveram seus interesses econômicos prejudicados. Um dos exemplos máximos foi
a lei de remessa de lucros. O lucro das companhias multinacionais não poderia
ser remetido às matrizes nos países do primeiro mundo. Renê Armand Dreiffus,
em a Conquista do Estado (1964), apresentou a existência de grupos, muitos deles
financiados pelo grande capital internacional, e que buscou influenciar na política
brasileira. Eram eles a CAMDE- Campanha das Mulheres pela Democracia, o IPES
– Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, assim como também o IBAD, Instituto
Brasileiro de Ação Democrática. Estes grupos, eram ligados ao exército através da
Escola Superior de Guerra e seu líder Golbery do Couto e Silva. Grupos estes que
representavam interesses capitalistas, e que tiveram acesso ao Estado através da
tomada do poder político federal pelos militares do exército.

181
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Entre os estudiosos do Regime Militar Brasileiro, a obra do jornalista


político Élio Gáspari teve grande destaque. Contendo fontes primárias documentais
produzidas pelos generais Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, Gáspari
escreveu quatro importantes livros aos estudiosos da temática: A ditadura
envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura derrotada e A ditadura
encurralada. Seus livros apresentam uma análise da ditadura pelos olhos de um
grupo político de militares liberais, denominados como os da linha moderada.

Os estudos sobre a ditadura formam um importante debate acadêmico


contemporâneo. Alguns estudiosos, baseados nos estudos precedentes, realizaram
novas abordagens sobre a temática. Rodrigo de Pato Sá Motta, escreveu um
importante livro Em guarda contra o perigo vermelho (MOTTA, 2002), no qual
aborda a construção do imaginário anticomunista, fundamental para compreender
o golpe. Outros autores que se destacaram são aqueles que estão travando um
debate sobre o caráter do golpe: um golpe militar ou um golpe civil militar?

Para autores como Daniel Araão Reis (REIS, 2000), tratou-se de um golpe
civil militar. Isto porque grande parte dos políticos civis e dos empresários
nele se envolveram, tanto na conspiração, quanto na legitimação do golpe.
Também podemos incluir o fato do presidente da Câmara Federal, deputado
Ranieri Mazilli, afirmar a vacância da Presidência da República, o que legitimou
a ação militar realizada no Rio de Janeiro por Olímpio Mourão Filho. Por sua
vez, outros historiadores, como o já citado Rodrigo Patto Sá Motta, discordam,
apresentando o golpe como um movimento tipicamente militar. Por fim, outros
historiadores apresentam novas proposições analíticas, como o professor da UFRJ
Renato Lemos, que apresenta o golpe como um golpe empresarial militar. Pois,
a principal camada da população civil a apoiar o golpe foram as organizações
empresariais. Ainda sobre o tema da ditadura, temos o importante estudo do
também historiador da UFRJ Carlos Fico (FICO, 2008) sobre a Operação Brother
San, da Marinha Americana, que ofertaria apoio militar caso o presidente João
Goulart buscasse reagir ao golpe impetrado por setores do exército.

FIGURA 19 - RODRIGO PATTO SÁ MOTTA

FONTE: <www.ufmg.br>. Acesso em: 17 dez. 2015.

182
TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

FIGURA 20 - DANIEL ARAÃO REIS

FONTE: <http://www.zahar.com.br/>. Acesso em: 17 dez. 2015.

Os debates sobre a ditadura militar ainda estão acalorados, pois as


repercussões políticas dos eventos que ocorreram há cinquenta anos ainda
reverberam nas disputas políticas contemporâneas. Uma questão a que todo
o estudante de História deve estar em perene contato, pois diz muito sobre a
nossa área de atuação. Ao mesmo tempo, é importante o professor de História
compreender que não é tarefa do professor de história proselitismos políticos, ao
mesmo tempo em que se deve defender valores importantes, como a necessidade
da ampliação da ainda abstrata noção de democracia no Brasil.

Obter uma noção sobre os debates acadêmicos, de historiadores sérios,


sobre a Ditadura Militar permite ao professor de história um aprofundamento no
conhecimento sobre a questão, ao mesmo tempo em que se evita posicionamentos
radicais. Um ponto importante de ser lembrado é que muitos dos principais
historiadores brasileiros foram perseguidos politicamente durante a ditadura
militar. Nelson Werneck Sodré, mesmo sendo general de brigada, foi preso,
tendo de responder a inquérito policial militar. O mesmo aconteceu com Caio
Prado Júnior, preso por motivos políticos. Algumas das principais universidades
brasileiras foram invadidas por tropas militares, como ocorreu na Universidade
de Brasília em 1968. Devido à ação violenta da Ditadura Militar para com as
universidades, muitos dos historiadores possuem uma visão extremamente
negativa do período. Todavia, os revisionistas aqui citados possibilitam pensar
a ditadura para além das visões coorporativas da universidade, e tendo uma
visão positiva das instituições militares. O que pode significar um auxílio da
historiografia para o estabelecimento da democracia no Brasil contemporâneo.

183
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

LEITURA COMPLEMENTAR

Como leitura complementar, indicamos a entrevista concedida pelo


historiador Francisco José Calazans Falcon à Revista de História da Biblioteca
Nacional. 17/9/2007.

A trajetória de Francisco José Calazans Falcon confunde-se com o


estabelecimento do ofício de historiador nas universidades do país. Presente nos
cursos mais importantes, parecia ter a capacidade de estar em todos os lugares ao
mesmo tempo, dando muita aula e integrando-se àqueles que criaram as linhas de
pesquisa. Seu livro A época pombalina é leitura obrigatória para quem se propõe
a estudar o governo do marquês de Pombal (1750-77), tornando-se referência
central não só pela qualidade da análise, mas também pela abrangência das fontes
utilizadas. O tempo afinou seu senso crítico. Nada passa despercebido ao mestre,
nem mesmo sua própria tese: “Quando fui começar a estudar, Pombal era para
mim um momento único excepcional da história portuguesa; um momento de visão
modernizadora, secularizante. Depois que continuei a estudar, comecei a relativizar
esse caráter excepcional, porque percebi que existem muitas coisas já antes de
Pombal”. O professor Falcon recebeu a Revista de História em sua casa para um
bate-papo descontraído cheio de revelações: os primeiros anos de carreira, “uma
correria danada, atravessando a baía e subindo a serra”; a difícil missão de lecionar
história driblando os agentes da ditadura militar e o processo do qual foi réu nos
anos de chumbo, acusado “de espalhar comunistas pelas faculdades do Rio”. Sobre
o papel da crítica para o trabalho do historiador, é contundente: “Acredito que o
trabalho intelectual, o trabalho do historiador, avança justamente pelo confronto das
divergências, das oposições. Uma unanimidade acaba sendo ilusória”.

Revista de História – Como nasceu sua paixão pela história?

Francisco Falcon – Isso remonta aos meus tempos de ginásio, no internato


do Colégio Pedro II. O que mais me incentivou foi na quarta série, quando meu
professor era o Álvaro Lins, grande crítico de literatura, mas excelente professor
de história. Ele me estimulou muito. Um dia eu fui fazer uma exposição sobre a
conquista da Guiana Francesa, na época do d. João. Ele achou uma maravilha! Aí
comecei a me interessar... terminado o quarto ano, fui para o Colégio de Aplicação
da Nacional de Filosofia, recém-fundado. Minha turma foi a segunda, em 1949.
E lá tive como professora de história, por três anos seguidos, a Marina São Paulo
Vasconcellos, que realmente me incentivou muito, despertou meu interesse. Acho
que aí eu comecei a gostar mesmo de estudar história... eu e vários da mesma
turma fomos fazer curso de história na Nacional de Filosofia.

RH – Era uma época muito marcada por essas opções quase obrigatórias
– direito, engenharia... Era um gesto corajoso fazer história?

184
TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

FF – Ah, era. Meu pai achou que eu ia morrer de fome e era preferível
eu fazer jornalismo. Mas eu teimei, com apoio de minha mãe. Mas a gente vivia
realmente muito preocupado. Lembro que, no final do curso, ainda tivemos um
movimento grande justamente contra uma portaria ministerial que facultava
a médicos, advogados, juízes, engenheiros (cada qual na sua área) a lecionar
sem cursar a faculdade de filosofia: direito podia lecionar história, português,
latim; médico podia lecionar história natural, ciências; engenheiro podia lecionar
matemática, física. Foi uma greve fantástica, se não me engano em 55.

RH – E sua trajetória como professor?

FF – Comecei a lecionar quando ainda fazia o último ano da faculdade, em


1955, dando aulas na Faculdade Fluminense de Filosofia – Universidade Federal
Fluminense (UFF) nem sonhava existir. Em 1956, fui convidado pela professora
Maria Yedda Linhares a dar aulas na Faculdade Nacional de Filosofia. Eu era o
que se chamava “auxiliar de ensino não-remunerado”. Mas eu não era exceção,
aquilo era uma praxe: os que começavam a trabalhar tinham que ficar algum
tempo – alguns anos, às vezes – trabalhando sem remuneração, à espera de que
viesse um contrato, uma nomeação, um concurso – que eram coisa rara. Em
seguida, comecei a lecionar também na Católica de Petrópolis, no Instituto Rio
Branco, no Itamaraty e na Escola de Sociologia e Política da PUC. Uma correria
danada, atravessando a baía e subindo a serra.

RH – E como era o ensino de história nessa época?

FF – É um meio século em que as coisas mudaram radicalmente. O


doutorado, por exemplo, não existia. Não era mais que uma inscrição que você
podia fazer na secretaria. Eu tenho guardado um canhotozinho, “inscrito do
curso de doutorado”. Que curso? Não tinha curso, nada.

RH – Quando isso mudou?

FF – A discussão sobre pós-graduação é dos anos 60, ligada à Reforma


Universitária, aos movimentos estudantis. O envolvimento dos docentes tinha
um sentido, mas sofreu uma inflexão após 64, quando se transformou em uma
forma de contestar o regime militar e por isso se tornou alvo da repressão. Então,
misturou-se a luta política mais geral com a luta pelas reformas na universidade.
Nisso, o governo militar solicitou ao Conselho Federal de Educação um parecer
do Newton Sucupira, o qual ainda hoje, em grande parte, rege essa estrutura.
Veio o AI-5 e o governo aproveitou isso e fez a nova lei do ensino superior, que
consagrou a Reforma Universitária.

RH – Havia espaço para pesquisa?

185
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

FF – A gente nem pensava em pesquisa. O que eu acho graça é que


as pessoas pensam que as coisas sempre existiram tal como existem hoje. A
gente começou, realmente, a pensar em pesquisa talvez em 1959 ou 1960 – eu,
a professora Yedda –, a partir dos nossos primeiros contatos, em 1958, com o
pessoal da Universidade de São Paulo, onde a preocupação com a pesquisa estava
sedimentada. E os alunos de história começaram a se movimentar, criaram seus
núcleos de estudantes.

RH – Mas havia, nessa época, contato entre as universidades, entre os


departamentos?

FF – Os contatos eram muito escassos. Até que em 1960 apareceu um


grupo – José Roberto do Amaral Lapa, Maria da Conceição Vicente de Carvalho e
Olga Pantaleão. Vieram nos convidar – eu, a Yedda, o Hugo Weiss e, por sugestão
nossa, o professor Fernando Lima, da UERJ – para participar de um seminário
previsto para 1961, em Marília, onde iriam participar os professores Fernando
Novais, Eduardo de Oliveira França, Sérgio Buarque e ainda muitos outros. Esse
seminário tinha um objetivo: produzir um currículo de história.

RH – E qual foi a direção tomada a partir de então?

FF – Começamos a ficar convencidos de que tínhamos que fazer duas


coisas: pesquisar e redirecionar o nosso curso para alguma coisa mais atual.

RH – E como isso foi feito na prática?

FF – Bem, ao contrário das outras cadeiras, a gente já trabalhava com


documentos – embora limitados à história, vamos chamar assim, diplomática. Nossa
primeira ideia era fazer uma pesquisa sobre o que chamamos o Atlântico Luso-
Afro-Brasileiro. Era um estudo sobre relações comerciais entre esses três pontos, e
cada um de nós pegaria um porto brasileiro. Existia um Conselho de Pesquisa para
distribuir recursos para projetos de pesquisa. Um dia eu encontrei a professora
Yedda furiosa da vida, porque ela tinha sido informada de que, quando o nosso
projeto foi apreciado nesse conselho da universidade, um professor se levantou e
disse: “Bem, mas onde está a embarcação, possivelmente um submarino, para eles
fazerem essa pesquisa do Atlântico?” [Risos] Para você ver o nível!

RH – E como ficou o ambiente das universidades com o Golpe de 1964?

FF – No 1º de abril houve uma invasão na Faculdade Nacional de Filosofia.


Nós tínhamos uma pequena biblioteca de história moderna e contemporânea que
foi toda saqueada, depredada. Era um momento pesado. Nesse mesmo ano a Yedda
sumiu, porque foi perseguida por ser diretora da Rádio Ministério da Educação.
Ficamos eu e o Hugo Weiss com a responsabilidade de levar adiante a cadeira de
história moderna e contemporânea. Foi tenso o dia em que tivemos que entrar na
faculdade: “Será que eles estão à nossa espera? Será que vão acabar conosco? ”. Mas
depois a gente foi levando, reorganizando as coisas, tocando para a frente.

186
TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

RH – O clima piora muito com o AI-5?

FF – Foi um período difícil, os chamados anos de chumbo. O Eremildo


Viana vigiava todo mundo, tinha auxiliares – faxineiros, varredores, todo mundo
prestava serviço a ele. Eu dava as aulas do modo que sempre dera, com os mesmos
autores. Usava muito o Maurice Dobb para dar Revolução Industrial; o Albert
Soboul nas aulas sobre a Revolução Francesa. Nunca mudei nada em função do
clima existente, mas tinha um indivíduo estranho, encostado em uma vassoura,
que diziam ser um agente do Eremildo para saber o que eu estava dando. Não
sei se um pobre-diabo daqueles podia entender alguma coisa. Nesse período – de
70 até 78, quando finalmente o Eremildo saiu –, o que eu fiz foi, na medida do
possível, reduzir ao mínimo a minha presença lá. Tirei tudo que podia de licença-
prêmio e dois anos de licença sem vencimentos. Tratava de driblar o que eu podia,
entrar lá, botar as aulas em horário em que eu tivesse chance de não encontrar
com ele, e assistir o mínimo possível de reunião de departamento. E ficar mudo.

RH – Que grupo o apoiava?

FF – Ele se dizia muito bem apoiado pelos militares. Mas o José Linhares, que
tinha bons contatos na área militar, dizia que eles detestavam o Eremildo. Aturavam,
mas o consideravam um sacripanta, um indivíduo realmente inqualificável. A
Yedda conta que num belo dia, na entrada da faculdade, o Elio Gaspari deu umas
boas bolachas no Eremildo. Chamou ele e, bum!, arrebentou. Me lembro de um dia,
a única vez em que eu tremi. Subi no elevador, a Yedda estava possessa porque o
Eremildo tinha arquitetado um processo contra ela. Ela abriu a bolsa e puxou uma
pistola. “Eu vou acabar com aquele crápula!” E eu: “Yedda, não faça isso. Não vale
a pena. Guarda esse negócio. ” E ela com aquele trabuco.

RH – E o senhor nunca sofreu diretamente com a repressão?

FF – Chegaram a abrir um processo no meu nome, do qual só fui saber


depois, e que fazia parte de uma pilha imensa de processos de professores que
deveriam ser cassados – no mínimo, aposentados. Meu processo foi arquivado,
mas em 1973 eles receberam ordem de rever aqueles processos para poder saber
se iam ter sequência ou seriam definitivamente arquivados. Foi aí que eu entrei na
brincadeira e fui me defender na justiça. O processo dizia que eu, sob a orientação
da Yedda, estava espalhando comunistas pelas faculdades do Rio.

RH – E como nasceu o interesse pelo tema da ilustração portuguesa?

FF – Comecei a pesquisar companhias de comércio, e daí o mercantilismo.


Em seguida, passei para o absolutismo ilustrado, em Portugal e Espanha, me
dedicando especialmente ao período pombalino. Porque, na verdade, meu
ambicioso projeto de doutorado era fazer um imenso estudo comparativo entre o
reinado de d. José e o reinado de Carlos III na Espanha, mas vi que não dava, por
causa do prazo para a entrega da tese.

187
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

RH – E o que é específico dessa história portuguesa que produz um


Marquês de Pombal?

FF – Eu já tive, em épocas diferentes, visões também diferentes sobre isso.


Quando comecei a estudar, Pombal era para mim um momento excepcional da
história portuguesa; um momento de visão modernizadora. Depois, vi que devia
relativizar esse caráter excepcional, pois percebi que já existiam muitas coisas
antes de Pombal. Eu já tinha estudado muito sobre o início do século XVIII, a
época do padre Rafael Bluteau, dos Ericeiras. Mas o que é interessante perceber
são as ideias iluministas depois de Pombal, assumindo outras características. Eu
tentei mostrar como o mercantilismo era incongruente e, no entanto, era lógica
a associação entre mercantilismo e práticas ilustradas. Porque, na verdade,
o mercantilismo – em termos de ideias econômicas – era anti-ilustrado por
excelência. Mas é interessante ver como isso se articula, em Portugal, de modo a
adquirir uma certa logicidade na prática pombalina.

RH – E qual a importância das reformas pombalinas para a história de


Portugal e do Brasil?

FF – Acho que as práticas reformistas foram decisivas em alguns setores


e praticamente inexistentes em outros. Do ponto de vista educacional, houve
muita coisa importante que se realizou. Na parte econômica não há grandes
mudanças. No caso do Brasil, havia grande preocupação com a extração de ouro
e diamantes do Distrito Diamantino. Esse foi um problema sério: uma minúcia
dos regulamentos que não condizia com a precariedade dos recursos postos à
disposição de quem devia aplicá-los. Então, para mim, as reformas pombalinas
não podem ser analisadas a partir dos textos emanados da metrópole. Você
tem que ver como esses documentos foram lidos, entendidos e, eventualmente,
postos em prática. Procurei mostrar que uma coisa são as belas declarações dos
textos pombalinos, cheias de referências às Luzes, e outra a realidade dessas
providências no âmbito colonial, ou, como chamamos agora, na América
portuguesa. Recentemente, escrevi um artigo desmistificando o Tratado de
Methuen [“O Império luso-brasileiro e a questão da dependência inglesa”, Nova
Economia 15 (2), p. 11-34, maio-agosto de 2005].

RH – Por quê? O Tratado de Methuen não teve tanto peso?

FF – Acho que não tem. Na própria visão do Pombal, o Tratado de Methuen


é quase irrelevante. Ele está muito mais preocupado com os tratados do século
XVII, aqueles, sim, fatais para Portugal, durante as Guerras da Restauração.
Aqueles tratados – acho que de 1654 e 1660 – é que, segundo ele, deram a
vantagem decisiva aos ingleses. Na verdade, colocar o Tratado de Methuen na
origem de todos os males é uma afirmação que aprendi com o Nelson Werneck
Sodré. Tudo bem, depois a gente vai revendo essas coisas. Há um excesso de
valoração atribuído ao Tratado de Methuen.

188
TÓPICO 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

RH – O Brasil herdou o peso da palavra escrita, da legislação?

FF – Acho que sim. Embora também tenha se tornado um tabu, as pessoas


falam em iberismo, mas a gente não sabe bem que diabo é isso. Explicação das
nossas culpas, das nossas falhas ou reconhecimento de uma tradição? De fato,
o Brasil herdou essa tradição pesada – que você vê também em Portugal – da
valorização das funções burocráticas. Acredito que, quando você fala hoje em
iberismo, é preciso saber em que sentido está tratando. Para alguns iberismo tem
uma conotação negativa – síntese de todos os males, de todo arcaísmo –, para outros
é apenas o reconhecimento de uma tradição cultural, que não é necessariamente
má ou boa, mas tem aspectos variáveis. É apenas o reconhecimento de uma
diferença em relação, por exemplo, ao anglo-saxônico e a outras tradições.

RH – E esse iberismo encontra continuidade no Brasil?

FF – Acho que de um lado há uma herança autoritária, ora no primeiro


plano, ora semissubmersa. Basta ver a época do reinado do d. Pedro I para
perceber como essa coisa está presente. Já na época do d. Pedro II... Eu não me
considero tão em condições de discutir essa questão, mas acho que ela sobrevive
de outras maneiras. Não de forma tão ostensiva. De fato, essa visão iluminista das
coisas, de ser detentor de um conhecimento, de uma racionalidade que não pode
ser contestada, isso é mais ou menos constante. É cíclico na história brasileira.
Mas, dizer se isso aí é devido ao Pombal, às vezes é exagerado também. Mas acho
que está dentro da estrutura.

RH – A figura do Pombal ficaria mais diluída?

FF – Ah, sim. Ele, de fato, não é aquele deus que surge, que faz e acontece.
Ele tem uma trajetória, não surge assim de repente empolgando, determinando.
É preciso considerar a importância, por exemplo, que teve para a posição dele o
terremoto de Lisboa. Seria uma especulação: como seria Pombal sem o terremoto?
Isso é uma das tais histórias hipotéticas. Mas acho que é preciso ver sob vários
ângulos, e não atribuir tudo a essa figura, a esse Pombal que só existe na imaginação.

RH - O que interessa ao senhor atualmente?

FF – Estou mais preocupado com a historiografia contemporânea. Eu


gosto de ler as coisas do Capistrano de Abreu, considerando, sobretudo, os
endeusamentos, as louvações do José Honório Rodrigues – tentando trazer a
importância do Capistrano para um terreno mais real, mais concreto.

RH – A história hoje vai bem?

189
UNIDADE 3 | A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

FF – O historiador espanhol Carlos Barros, que organiza os encontros da


História Debate, na Espanha, diz que a história andou para trás. Eu morro de rir.
A história deu retrocesso e hoje está mais para Ranke, para Langlois e Seignobos
do que para os Annales ou para o marxismo. Eu acho interessantíssimo. Ele diz
que o processo da história foi o inverso: ela foi buscar cada vez mais o empirismo,
a neutralidade do historiador, o medo de o historiador tomar posição. Apenas
dizer: “Os textos nos dizem isso, assim”.

RH – E a postura crítica na universidade?

FF – A crítica seria importante, se existisse. O problema é que a crítica


sofreu um eclipse. As pessoas, ou dizem apenas banalidades, obviedades sobre os
trabalhos apresentados, ou elogios. Ninguém quer mais se comprometer, ou poucos
querem. Você assiste às defesas de tese e raramente vê uma crítica contundente
ou mesmo construtiva ao trabalho que está sendo examinado. E eu acredito que o
trabalho intelectual, o trabalho do historiador, avança justamente pelo confronto
das divergências, das oposições. A unanimidade acaba sendo ilusória.

RH – Que personagem histórico gostaria de ter sido?

FF – Nas minhas fases mais radicais, eu adorava Robespierre. Depois, fui


me contentando com Tocqueville ou, quem sabe – eu gostava muito de história
inglesa –, o Gladstone. Mas, na verdade, nunca me fixei em um personagem. Em
épocas diferentes, foram diferentes modelos. Gostava muito de Trótski. De todos
da Revolução, o que eu achava o mais genial, o mais sofrido também, era Trótski.
Mas, em história do Brasil, não sei qual seria a figura ideal. Durante muito tempo
quiseram me convencer de que era o Rui Barbosa. Mas isso era o meu ramo de
origem baiana – minha mãe era baiana, e eu tinha um tio que, quando eu chegava
lá, dizia: “Homem era o Rui!”

FONTE: Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/francisco-jose-


calazans-falcon>. Acesso em: 11 dez. 2015.

190
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico podemos observar que:

• As transformações sociais globais com o fim da guerra-fria estabeleceram


novos paradigmas teóricos aos historiadores brasileiros, não mais vinculados
ao marxismo ortodoxo.

• Os principais debates em História do Brasil Colonial se referem à História


Atlântica, no qual se destacaram os estudos de Luis Felipe de Alencastro.

• Os principais debates em relação ao Brasil Império se relacionam aos estudos


de dois importantes historiadores: José Murilo de Carvalho e Sidney Chalhoub.

• Os principais debates sobre a Guerra do Paraguai expuseram dois historiadores


com posições distintas. Júlio José Chiavenato, que apontava a presença do
Imperialismo Inglês como principal motivador para a guerra, e Francisco
Doratioto, que apresenta as disputas políticas dos países platinos como
principal motivador para a Guerra do Paraguai ter ocorrido.

• Entre as novas tendências historiográficas, podemos citar: a nova história


cultural, a história das mulheres e relações de gênero, a nova história social, a
história indígena e a nova história ambiental.

• Um dos mais polêmicos debates acadêmicos atuais versa sobre os significados


da ditadura militar brasileira. Muitos intelectuais foram perseguidos pela
ditadura militar, porém os historiadores buscam realizar uma reflexão não
coorporativa do golpe de Estado, intentando compreender o mecanismo social
e político que o possibilitaram.

191
AUTOATIVIDADE

As características da historiografia brasileira variaram conforme os


séculos. De uma história que no século XIX enaltecia as posturas políticas e
sociais do Estado Nacional, passando pelos anos 1930, com o surgimento de
ensaístas da realidade social do Brasil, chegando até a atualidade. Neste sentido,
responda à seguinte indagação: por que podemos afirmar que a historiografia
brasileira nas últimas três décadas se caracteriza pela multiplicidade?

192
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