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DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Sãã o Pãulo: Ed. 34, 1997.

- “Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que


extravasa qualquer matéria vivível e vivida. É um processo, ou seja, uma passagem de
Vida que atravessa o vivível e o vivido.” p.11.

- “A escrita é inseparável do devir: ao escrever, estamos num devir-mulher, num devir-


animal ou vegetal, num devir-molécula, até num devir-imperceptível.” p.11.

- “Devir não é atingir uma forma (identificação, imitação, Mimese), mas encontrar a
zona de vizinhança, de indiscernibilidade ou de indiferenciação tal que já não seja
possível distinguir-se de uma mulher, de um animal ou de uma molécula: não
imprecisos nem gerais, mas imprevistos, não pre-existentes, tanto menos determinados
numa forma quanto se singularizam numa população”. p.11.

- “O devir está sempre “entre” ou “no meio”: mulher entre as mulheres, ou animal no
meio dos outros.” p.12.

- “A sintaxe é o conjunto dos desvios necessários criados a cada vez pra revelar a vida
das coisas.” p.12.

“ O que a literatura produz na língua já aparece melhor: como diz Proust, ela traça aí
precisamente uma espécie de língua estrangeira, que não é uma outra língua, nem um
dialeto regional redescoberto, mas um devir-outro da língua, uma minoração dessa
língua maior, um delírio que a arrasta, uma linha de feitiçaria que foge ao sistema
dominante.” p.13.

- “É nos fragmentos que aparece o pano de fundo oculto, celeste ou demoníaco.” p.69.

- “O fragmento é o “reflexo apartado” de uma realidade sangrenta ou pacífica”. p.69.

- “ Mas é preciso que os fragmentos, as partes notáveis, casos ou vistas, sejam extraídos
por um ato especial que consiste precisamente na escrita.” p.69.

Falando da escrita de Whitman:

- “ É como se a sintaxe que compõe a frase, e que dela faz uma totalidade capaz de
desdizer-se, tendesse a desaparecer liberando uma frase assintática infinita que se estira
ou lança travessões como intervalos espaço-temporais.” p.69.

-“É uma frase quase louca, com suas mudanças de direção, suas bifurcações, rupturas e
saltos, seus estiramentos, germinações, parênteses.” p.69.

- “A gagueira criadora é o que faz a língua crescer pelo meio, como a grama, o que faz
da língua um rizoma em vez de uma árvore, o que coloca a língua em perpétuo
desequilíbrio.” p.126.
- “Trata-se, pois, de uma variação ramificada da língua. Cada estado de variável é uma
posição sobre uma linha de crista que bifurca e se prolonga em outras. É uma linha
sintática, pois a sintaxe é constituída pelas curvaturas, os anéis, as viradas, os desvios
dessa linha dinâmica, na medida em que passa por algumas posições, do duplo ponto de
vista das disjunções e conexões”. p.127.

- “Já não é a sintaxe formal ou superficial que regula os equilíbrios da língua, porém
uma sintaxe em devir, uma criação de sintaxe que faz nascer a língua estrangeira na
língua, uma gramática do desequilíbrio”. p.127.

- “Nesse sentido porém, ela é inseparável de um fim, tende a um limite que não é ele
mesmo sintático ou gramatical, mesmo quando ainda parece sê-lo formalmente:” p.127.
-Aqui pensar o pixo contra as idéias que o identificam com uma gramática formal ou
um significado em função do fato de se identificar a imagem.

- “O específico nos desenhos e pinturas dos grandes escritores (Hugo, Michaux...) não é
que essas obras sejam literárias, pois não o são em absoluto; elas chegam a puras visões,
que não obstante referem-se ainda à linguagem na medida em que dela constituem a
finalidade última, um fora, um avesso, um reverso, mancha de tinta ou escrita ilegível.”
p.128.

-“ As palavras pintam e cantam, mas no limite do caminho que traçam dividem-se e


compõem-se. As palavras fazem silêncio.” p.128.

“Quando a língua está tão tensionada a ponto de gaguejar ou de murmurar, balbuciar...,


a linguagem inteira atinge o limite que desenha o seu fora e se confronta com o silêncio.
Quando a língua está assim tensionada, a linguagem sofre uma pressão que a devolve ao
silêncio.” p.128.

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