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Vênus-Saturno, o afeto

sabotado
12/08/2018 por Alexey Dodsworth<https://constelar.com.br/author/alexey_autor/>

Aspectos tensos Vênus-Saturno costumam estar presentes em


mapas de pessoas com vida afetiva insatisfatória ou decididamente
dramática. Contudo, não se trata de uma contingência externa, mas
sim de um processo de autossabotagem, em que a pessoa não se
permite ser amada. Entenda por quê.

“A arte do amor é, em grande parte, a arte da paciência”


(Albert Ellis, psicólogo)

Ângulos entre os planetas Vênus e Saturno são alguns dos mais profundos e
difíceis que um tema astrológico pode apresentar. Quando em mapas de
pessoas que não se motivam para o autoconhecimento, as implicações
resultantes dos circuitos Vênus-Saturno podem ser grande fonte de
sofrimento cíclico, cuja base é a rima desagradável que a pessoa insiste em
fazer com as palavras amor e dor.

Os aspectos tensos Vênus-Saturno são especialmente a quadratura


(ângulo de 90 graus) e a oposição (180 graus). A conjunção (0 grau), no
caso destes dois planetas, também tende a operar de forma tensa.
Podem ainda ser considerados difíceis os aspectos do quincunce (150
graus), semiquadratura (45 graus) e sesquiquadratura (135 graus). Os
astrólogos divergem quanto à órbita para cada caso (a órbita é o grau
de afastamento do aspecto exato em que este ainda é considerando
operante), mas quase todos admitem pelo menos cinco graus em
aspectos maiores, como quadratura, oposição e conjunção, e um
pouco mais estreitas para quincunce, semiquadratura e
sesquiquadratura. (Nota do Editor)

Entretanto, sob outro ponto de vista, pessoas com estes aspectos são as mais
capazes de compreender o verdadeiro significado da palavra “amor”, com
todas as implicações de autodoação que esta curta e poderosa palavra
sintetiza. O que podemos inferir, em interações Vênus-Saturno, é que a
maturidade (Saturno) melhora em muito as vivências amorosas (Vênus) do
indivíduo, e por mais que o termo maturidade seja um tanto quanto
subjetivo, no que diz respeito a Saturno ele envolve – na prática – um certo
avançar da idade.

A primeira coisa que podemos notar num indivíduo Vênus-Saturno é uma


dificuldade em viver o amor saudavelmente uma vez que a pessoa
dificuldade em viver o amor saudavelmente, uma vez que a pessoa
acostumou-se a recolher-se por trás de poderosas defesas. E é bastante
comum encontrarmos, na história de vida deste indivíduo, um primeiro
fracasso ou rejeição amorosa que traumatiza mais do que o esperado,
marcando a psique de uma forma que matiza todas as suas relações futuras.
Esta “primeira rejeição” termina funcionando como um bode expiatório que
a pessoa usa como justificativa para todo o seu comportamento

maniacamente desconfiado, do estilo que “cata cabelo em ovo”, como se diz


no jargão popular.

A compulsão vênus-saturnina para ficar pensando a respeito da relação e


querer discuti-la infindavelmente é bem conhecida pelos pesquisadores
astrológicos, e termina sendo justamente este comportamento o que cansa
as pessoas, levando o indivíduo Vênus-Saturno a terminar atraindo para si
aquilo que ele mais teme e que tanto o fragiliza: ser rejeitado.

O profundo sentimento de rejeição que existe na


base estrutural da alma vênus-saturnina tem
supostamente como origem psicológica um ambiente
familiar algo “frio”, em que um ou ambos os pais não
deram à criança o amor necessário para que ela se
sentisse confiante de seu valor no mundo. É muito
comum que pessoas com este aspecto tenham sido
“amadas” por seus pais apenas porque eram filhas Vênus-Saturno
deles, ou seja, um amor condicionado ao sangue, e imagina o pior
mesmo quando está
não um amor genuíno pelas peculiaridades da tudo bem.
identidade da criança. Fica patente, de uma forma ou
de outra, que, se aquelas pessoas não fossem
parentes, provavelmente não seriam amigas.

Assim sendo, a espécie de “amor” que é vivenciada neste tipo de relação


parece mais um ato de resignação por parte do pai ou mãe que não vê
escolha a não ser amar seu filho, e isso é percebido pela criança de uma
maneira bastante clara. Desta forma, estabelece-se a base para um futuro
sentimento de desconfiança em relação ao amor, que deixa de ser entendido
como algo prazeroso, para ser visto como algo que gera dor, ou que está
submetido a algum “interesse” da parte do outro. Uma vez que a pessoa
continuamente espera que será abandonada, termina atraindo para si
situações que confirmam esta ideia fixa.
O outro lado da moeda, que poucos astrólogos salientam, é que é
interessante, e que sou mais inclinado a aceitar. Fala-se muito do fato da
criança Vênus-Saturno não ter recebido suficiente e genuíno amor por parte
de um dos pais, e com este discurso tende-se a enfatizar a questão da “culpa
parental” sobre os problemas afetivos do indivíduo. Mas pouco se fala a
respeito do fato do quanto é difícil amar uma pessoa Vênus-Saturno,
mesmo quando ela é criança, uma vez que ela mesma não se permite ser
amada. Não é apenas uma questão de não ter “recebido” afeto. É, acima de
tudo, uma questão do ser que cria couraças em torno de si, de modo que
provavelmente constrangia um ou ambos os pais, quando estes tentavam
dar-lhe afeto. Pois, de forma mais ou menos intensa, a depender de cada
caso, é muito difícil amar alguém que rechaça ou duvida do ser amor, seja a
pessoa criança ou adulta.

Por que não se permitir amar?


Particularmente, acredito que atribuir à vida familiar as razões para a
insegurança afetiva e o sentimento de rejeição que acomete o ser Vênus-
Saturno é um ato reducionista. Pois, por mais que de fato um dos pais não
tenha sido um primor de afeto, verifica-se na prática que é o próprio
indivíduo vênus-saturnino, com sua defensividade mórbida e suas
desconfianças constantes, que bloqueia mais ainda o afeto alheio.

Alguns astrólogos que seguem a linha kármica sugerem que o indivíduo


Vênus-Saturno sofreu alguma imensa decepção afetiva na vida
imediatamente anterior, e por isso reencarna com um trauma afetivo.
Segundo estes astrólogos, a pessoa pode ter morrido de desgosto, ou se
suicidado por motivos amorosos. Para esta corrente astrológica, a origem
dos problemas afetivos vênus-saturninos seria uma vida passada, e não
necessariamente os pais desta existência.

Contudo, procurar externamente as razões para a dilemática deste circuito


planetário é tão válido quanto perguntar se quem nasceu primeiro foi o ovo
ou a galinha. Foi o pai que não amou suficientemente seu filho que o fez
tornar-se tão afetivamente bloqueado, ou foi o filho, por sua natureza
encouraçada desde o nascimento, que não deixava o pai à vontade para
amá-lo? Teria tudo origem numa vida anterior que jamais conseguiremos
provar eficientemente? O que importa, no que diz respeito a aspectos Vênus-
Saturno, não é atribuir culpas e culpados, mas sim compreender o aspecto,
dissecando-o ao máximo, para que assim a pessoa possa libertar-se do que
os livros medievais e retrógrados de astrologia chamam de “destino para a
infelicidade amorosa”.

Portinari, que tinha Saturno muito enfatizado, parece ter captado em seus
impactantes quadros sobre o sofrimento dos retirantes da seca algo do clima que
pode acompanhar um aspecto tenso Vênus-Saturno.

No que concerne à possível questão reencarnatória, não deixa de ser


interessante observar as pesquisas feitas pela psicoterapeuta e também
astróloga Jeanne Avery que, após ter hipnotizado uma considerável
quantidade de indivíduos com este aspecto e ter aplicado neles a terapia
regressiva, teve como resultado um incontável número de “lembranças” por
parte dessas pessoas acerca de uma “existência anterior” onde elas se
recordavam de terem sido traídas, abandonadas, rejeitadas e humilhadas
por causa do amor. Jeanne atestou uma considerável melhora da qualidade
da vida afetiva destes indivíduos após terem trabalhado um processo de
cura através da hipnose e da terapia de vidas passadas.

Saindo então das especulações, entremos em questões de ordem mais


prática:

Primeiramente, cabe salientar que a pessoa portadora de circuitos Vênus-


Saturno progride mais quando se afasta da família, não num sentido de
“romper relações”, mas de sair do esteio dos pequenos dramas e novelas da
mãe e do pai, dramas estes que a própria pessoa tende a repetir,
inconscientemente, por ser peculiarmente sensível a dramalhões (por mais
fria que seja a máscara que criou para sua própria defesa).

É muito importante que a pessoa compreenda que seu sentimento de


incapacidade afetiva está, direta ou indiretamente, atrelado às vivências
que tem com o pai e/ou a mãe. Sair da posição de filho, elegendo os pais
como amigos, é uma forma interessante de estabelecer outro tipo de
vínculo, em que a pessoa não fica nem tão vulnerável, nem tão dependente.
O que ela não deve é ficar esperando que, do nada, seus pais se tornem a
imagem incondicionalmente amorosa que se vê em filmes.

Leia também os outros artigos da série de Alexey Dodsworth:

Vênus-Saturno e o mito de Orfeu e Eurídice


Vênus-Saturno e a sexualidade
O complicado dicionário amoroso Vênus-Saturno

Explore também:
O Discurso da Rainha A ereção eterna do tutor de O amor de Marte diante da
Marte morte

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Sobre Alexey Dodsworth


Astrólogo desde 1987. Formado em Filosofia, cursou
doutorado em Filosofia e graduação em Astronomia, ambos pela
Universidade de São Paulo. Foi pesquisador do Instituto de
Estudos Avançados da USP e assessor especial no Ministério do
Estado da Educação. Atualmente vive e estuda em Veneza, Itália.
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