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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2011.0000289200

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de Instrumento


nº 0271593-28.2011.8.26.0000, da Comarca de São Paulo, em que é
agravante MARINA CALFAT CONRRADI sendo agravado FORPAL
FORNECEDORA DE PRODUTOS AGRICOLAS LTDA.

ACORDAM, em 36ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de


Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento ao
recurso. V. U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este
acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores


PALMA BISSON (Presidente) e DYRCEU CINTRA.

São Paulo, 24 de novembro de 2011.

Arantes Theodoro
RELATOR
Assinatura Eletrônica
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PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
36ª Câmara de Direito Privado

AGRAVO DE INSTRUMENTO 0271593-28.2011.8.26.0000


AGRAVANTE Marina Calfat Conrradi
AGRAVADO Forpal Fornecedora de Produtos Agrícolas Ltda.
COMARCA São Paulo 37ª Vara Cível Central

VOTO Nº 18.577

EMENTA Execução. Desconsideração da


personalidade jurídica. Cabimento na espécie.
Abuso de direito configurado. Recurso
provido.

Cuida-se de agravo de instrumento tirado


de despacho que, em autos de ação de execução por título
extrajudicial, indeferiu pedido de desconsideração da
personalidade jurídica da co-devedora.

A recorrente insiste no cabimento daquela


providência.

Para tanto ela diz que restaram negativas


as diversas tentativas de citação da co-ré no endereço declinado
à Junta Comercial e que, além disso, não foram encontrados
bens em nome dela, eis que já os havia alienado, inclusive para
um parente do seu próprio sócio proprietário.

Assim, a agravante salienta que, nos


termos do art. 50 da lei civil, tal quadro autorizava a

Agravo de Instrumento nº 0271593-28.2011.8.26.0000


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desconsideração da personalidade jurídica da co-executada,


medida, aliás, já adotada em outras demandas nas quais ela
figurava como ré.

Recurso regularmente processado.

É o relatório.

Segundo decorre do artigo 50 do Código


Civil, a desconsideração da autonomia do patrimônio do devedor
justifica-se sempre que ocorre o “abuso da personalidade jurídica,
caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial”.

Pois na espécie essa era a situação que


se apresentava.

Como mostram os documentos que


formam o instrumento, a execução se iniciou há cerca de cinco
anos e nesse expressivo tempo não se logrou localizar a co-
devedora Forpal, tampouco um só bem que pudesse responder
pela dívida.

Pois a exeqüente informou ao juízo que


no curso do processo a devedora alienou para um parente do
sócio um dos imóveis que no contrato ela indicara justamente
para garantir a dívida, o que evidenciava desvio patrimonial
destinado a lesar credor.

Ela revelou, ainda, que em outro processo


recentemente a agravada tivera desconsiderada a sua

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personalidade jurídica justamente em face daquele quadro (fls.


20 do agravo).

E a própria Juíza acabou por registrar que


a devedora encerrara irregularmente suas atividades (fls. 18 do
agravo).

Pois certo é que a irregular inativação


acompanhada da falta de bens para satisfazer o débito
autorizava a desconsideração da personalidade jurídica, com a
conseqüente chamada dos sócios para responder à execução.

Afinal, a presunção em casos tais é que a


autonomia jurídica da devedora está sendo utilizada com o fim
de evitar o cumprimento da obrigação e proteger o patrimônio
particular dos sócios, quadro que retrata, justamente, uma das
situações previstas no artigo 50 da lei civil.

Nessa linha, de fato, tem decidido esta


Corte:

“Execução. Desconsideração da personalidade


jurídica. Cabimento na espécie. Empresa que se inativa após se consumar a
condenação, sem dissolução arquivada na Junta Comercial e desprovida de
bens que satisfaçam à execução. Recurso improvido.” (AI nº 1.275.986-0/6,
mesmo relator).

"Já amplamente cristalizado na jurisprudência


atual o posicionamento de que, por desconsideração da personalidade
jurídica, mesmo sendo a sociedade de responsabilidade limitada e tendo
seus sócios integralizado o capital social, respondem os bens destes pelas
dívidas da empresa, se esta cessou suas atividades de forma irregular, sem
satisfazer, antes, o que devia ou exibir bens próprios bastantes a assegurar

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seu pagamento, frustrando o recebimento pelos credores de seus créditos."


(AI nº 716.551-00/7, rel. Vieira de Moraes).

"A empresa, ao encerrar irregularmente suas


atividades, e não possuindo bens que garantam o cumprimento de suas
obrigações, a ela aplica-se o princípio da desconsideração da personalidade
jurídica, recaindo a penhora sobre os bens particulares dos sócios." (AI nº
798.102-00/7, rel. Ribeiro Pinto).

No mesmo sentido, ainda, a posição do


Superior Tribunal de Justiça, a quem cabe ditar a inteligência da
lei federal:

“Havendo indícios de que a empresa encerrou


irregularmente suas atividades, é possível redirecionar a execução ao sócio,
a quem cabe provar o contrário em sede de embargos à execução.” (REsp.
nº 474.105-SP, rel. Min. Eliana Calmon).

Por isso, fica agora desconsiderada a


personalidade jurídica da co-executada Forpal, isso de modo a
permitir o direcionamento da execução contra os sócios.

Dá-se provimento ao recurso.

ARANTES THEODORO
Relator

Agravo de Instrumento nº 0271593-28.2011.8.26.0000