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Dto das Obrigações- Garantias DAS ObrigaÇÕes

Direito (Universidade de Lisboa)

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Baixado por Cleto Cleto (cl3t1nho0@gmail.com)
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GARANTIAS DAS OBRIGAÇÕES

A relação obrigacional (o conceito de obrigação consta do art. 397° CC - é o vínculo jurídico


por virtude do qual uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação) é
constituída pelos seguintes elementos essenciais:

1 - Sujeitos - são as pessoas - singulares ou colectivas, pessoas jurídicas - não os


estabelecimentos, sem prejuízo de a lei processual (art. 6° CPC) - conceder personalidade judiciária a
entidades ou coisas (navios) que sem este pragmático regime excepcional não poderiam ser partes em
juízo.
2 - Objecto - mediato (a coisa ou facto a prestar, a coisa vendida, objecto da prestação) e
imediato (a prestação devida, a actividade a desenvolver para realização da prestação, a outorga do
contrato prometido) que tanto pode consistir num facto positivo (a emissão de uma vontade negocial)
como num facto negativo (abstenção de certa conduta).
3 - Facto jurídico - fonte da relação obrigacional. Lícitos ou ilícitos.
4 - Garantia - conjunto de providências coercivas que o direito predispõe para a tutela da
posição do credor.
Garantia Geral - 601° a 622°

É a garantia concedida a todos os credores pelo simples facto de serem sujeitos activos de
obrigações (credores). É constituída por todos os bens do devedor susceptíveis de penhora - 601°.
As garantias especiais consistem na afectação voluntária ou legal de outros patrimónios à
satisfação do crédito ou a afectação de certos bens do devedor à satisfação prioritária de certo crédito.
Sem prejuízo dos regimes especialmente estabelecidos em consequência da separação de
patrimónios, pelo cumprimento da obrigação respondem todos os bens do devedor susceptíveis de
penhora - 601° e 817° - e até os de terceiro - 818° CC e 821º CPC.

Conjugar esta norma com os art. 56°, n.° 2 e 821° CPC; os art. 822° e ss do CPC indicam os
casos de impenhorabilidade total ou absoluta (822°), relativa (823°), parcial (824°) e os especiais
de penhora de bens comuns do casal (825°), integrados em comunhão ou compropriedade
(826°), em execução contra o herdeiro (827°) e contra o devedor subsidiário (828°).

Os casos mais vulgares de separação de patrimónios são os da herança - 2070° - e


património conjugal - 1690° e ss.

Os art. 602° e 603° consagram casos de limitação de responsabilidade quer por convenção
das partes (nulidade da cláusula de renúncia antecipada - 809° - quer por determinação do doador ou
de cuius.
- 2292° a 2294° - os bens fideicomitidos, atenta a especialidade e fim do fideicomisso (2286°),
estão livres de responsabilidade por dívidas do fiduciário que tem de os conservar para os transmitir
para o fideicomissário.

Não havendo causas de preferência, segue-se a regra da par conditio creditorum: na


insuficiência dos bens do devedor para pagar a todos os seus credores, divide-se proporcionalmente,
consoante o valor dos créditos e por todos, o que houver - 604°, 1.
As causas de preferência serão estudadas a propósito da graduação de créditos e concurso de
credores.

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Meios de conservação da garantia patrimonial - Uma vez que o património do devedor é a


garantia comum do cumprimento das obrigações, a lei faculta ao credor os meios necessários para que
essa garantia se mantenha até à satisfação dos respectivos créditos. Esses meios são:

A) - Acção de declaração de nulidade - 605° - Reforça o disposto no art. 286°, pois a lei
prescinde da insolvência ou do agravamento desta, o crédito não precisa ser anterior ao acto anulando
e a declaração de nulidade produz efeitos em relação a todos os credores e não, como na pauliana, só
em relação ao credor impugnante.

B) - Acção Sub-rogatória - 606° a 609°


Não confundir com a sub-rogação directa, do art. 589°: sub-rogação do terceiro pelo credor
que dele recebe a prestação.
Na sub-rogação aqui tratada o credor age como substituto legal do devedor, pelo que lhe são
oponíveis as excepções pessoais do devedor. Também aproveita a todos os credores - 609°.

Caso especial do repúdio - 2067° CC e 1469° CPC.

Ac. STJ Col. 95-III-20: Os credores dos repudiantes podem fazer valer contra este, por meio de acção sub-
-rogatória em que se faz a aceitação da herança repudiada e cuja decisão se destina a servir de título executivo contra a
mesma herança, os direitos de conteúdo patrimonial, salvo se, por sua natureza ou por disposição legal, só puderem ser
exercidos pelo próprio titular.
A petição será, porém, inepta, se o credor pedir a declaração de ineficácia do repúdio ou não pedir
simultaneamente a condenação do Réu no pagamento da dívida, já que sem o repúdio a sub-rogação não tem justificação
legal e sem condenação do devedor a sentença não pode servir de título executivo contra a herança.

Com o novo CPC seria caso de convidar ao aperfeiçoamento da petição ou formulação


correcta do pedido - 508° do CPC.

Nos termos do art. 1469° do CPC, a acção é proposta pelo credor contra o devedor repudiante
e contra aqueles para quem os bens passaram por via do repúdio (2062° e 2039° CC).
O exercício judicial da sub-rogação impõe a intervenção, a citação do devedor ao lado da
pessoa contra quem o credor exerce este direito - 608°.
Esta acção supõe direitos de crédito já constituídos e insolvência ou agravamento da
situação do devedor ou impossibilidade de satisfação do direito do credor - 606°, 2.
Possibilidade de sub-rogação de segundo grau - os credores do credor exercem por este e
em vez deste, os direitos do devedor dele.
A sub-rogação exercida por um dos credores aproveita a todos os demais – art. 609.º.

C) - Impugnação Pauliana - 610° a 618° - A. Varela, Obr., II, 434 a 451.

Enquanto que na sub-rogação o credor reage contra a inacção do devedor, contra omissões,
na impugnação pauliana o credor intromete-se, pretende reagir contra acções, actos do devedor que,
diminuindo o seu activo ou aumentando o passivo, envolvem diminuição da garantia geral do credor
que é o património dele devedor.

Requisitos - 610° e 612°:

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I - Acto (não pessoal, como a perfilhação ou casamento, que podem implicar agravamento da
situação patrimonial do devedor) lesivo da garantia patrimonial - 610°, 1.ª parte e al. b) - de que
resulte a impossibilidade ou agravamento da impossibilidade de satisfação integral do crédito.
Alienações, assunção de dúvidas, renúncia a garantias, dar de arrendamento, partilha em vida,
são os exemplos mais correntes. Sobretudo doações a filhos, com reserva do direito de habitação que,
como se sabe, é impenhorável.
A data a que deve atender-se, para saber se do acto resultou ou não a impossibilidade, de
facto, de satisfação integral do crédito do impugnante, é a do acto impugnado.

II - Anterioridade do crédito - 610°, al. a) - em relação ao acto impugnado ou posterior, mas,


neste caso, o acto deve ser doloso, pré-ordenado, destinado a impedir a satisfação do direito do futuro
credor.

A anterioridade do crédito em relação ao acto afere-se pela data da sua constituição e não
pela data do seu vencimento - Rev. 3936/02, 7ª secção, Ac. de 12.12.2002.

Sendo o acto gratuito anterior ao crédito é necessário provar-se a má fé, contra a interpretação literal do art.
612°, 1, 2ª parte.
... se o acto gratuito é anterior ao crédito, como ocorre in casu, sem que se prove um nexo como o previsto na 2ª
parte da alínea b) do artigo 610°, sem que se prove a má fé da doadora-recorrida, afigura-se não haver lugar à impugnação
pauliana.
Não se pode tomar à letra a 2ª parte do artigo 612° sob pena de atribuir-se um campo de excessiva aplicação à
impugnação pauliana, não justificado por uma interpretação racional dos artigos 610º e 612°, mormente se o acto é anterior
ao crédito - BMJ 418-737 e 742.

III - Má fé - 612° - o acto oneroso exige má fé tanto do devedor como do terceiro; em caso de
acto gratuito - (doações, mesmo onerosas) prescinde a lei deste requisito: «se o acto for gratuito, a
impugnação procede, ainda que um e outro agissem de boa fé» - 612°, in fine.
Entende-se por má fé a consciência do prejuízo que o acto causa ao credor - 612°, n° 2.

Ainda que os actos sejam nulos - simulados, por exemplo - mantém-se a pauliana - 615°.
Quanto ao pagamento de dívidas ou outra formas de cumprimento (dação em cumprimento,
novação, datio pro solvendo) pelo devedor, exigíveis ou não exigíveis, razoáveis ou não aquelas outras
formas de cumprimento ou de facilitação de pagamento - 615° n° 2.

Efeitos:
a) - Para o credor – art. 616º
Porque se não trata de acção de nulidade, os bens continuam em poder e na propriedade do
terceiro, mas o impugnante pode, além de praticar os actos de conservação da sua garantia, executar
os bens alienados no património de terceiro onde se encontram, como se eles não tivessem saído do
património do devedor, na medida do necessário para satisfação do seu crédito, sem sofrer a
competição dos credores do adquirente ou do devedor, uma vez que a procedência da pauliana só ao
impugnante aproveita - 616°, n° 4.

Na impugnação pauliana, o adquirente de má fé (filho do doador), que tenha alienado os bens objecto da
impugnação, é responsável pelo valor real (não o constante da escritura de venda) desses bens, reportados ao momento
em que se põe ao credor a necessidade de execução para cobrança do seu crédito - Col. 91-I-250.

Se o subadquirente da coisa estiver também sujeito à impugnação pauliana - 613°, n° 1 - o


credor pode demandar o alienante pelo valor dos bens alienados - 616°, n° 2 - ou contra o

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subadquirente, nos termos do art. 613°. Adquirente e subadquirente devem responder solidariamente
nesse caso - Col. 91-III-80.

Com a pauliana não visa a lei atacar a validade do acto mas antes garantir o credor; por
isso deixa intacto o acto na medida excedente ao necessário à satisfação do credor requerente.
No domínio do Código de Seabra (1044°) é que os bens voltavam ao património do
devedor como se o acto fosse anulado.

b) - Para o devedor e terceiro - 617°, com remessa para o regime do art. 956°:

Sendo gratuito o acto, o devedor doador só deve responder perante o adquirente dos bens
(donatário) se se verificar alguma das circunstâncias previstas no n.° 2 desse artigo: ter ele devedor
assumido a obrigação de indemnizar, ter agido com dolo, ter a doação carácter remuneratório, ou ser a
doação onerosa ou modal.
Sendo oneroso o acto, é diferente o regime. Trata-se de um caso em que necessariamente
existe má fé por parte do devedor e por parte do adquirente (cfr. art. 612°) e por isso apenas se impõe
ao devedor a restituição (ao adquirente) daquilo com que (o alienante) se enriqueceu. Se, por exemplo,
recebeu e conserva o preço, é obrigado a restituí-lo, para que não beneficie da sua má fé, embora haja
também má fé por parte do adquirente - A. Varela, CC Anot., I, notas ao art. 617°.

A pauliana caduca em cinco anos a contar da data do acto impugnável - 618°. É também à
data do acto impugnado que deve atender-se para saber se dele resultou, ou não, a impossibilidade de
facto de satisfação do acto do credor.

Jurisprudência

RLJ 128 - 211 e 251: trata da natureza, efeitos e pedido a formular na pauliana, momento atendível para
averiguação da (in)suficiência do património do devedor. Comentário do Prof. H. Mesquita, com as seguintes conclusões:

I - Nos termos do artigo 610° do Código Civil, os actos que envolvam diminuição da garantia patrimonial de um
crédito podem ser impugnados pelo credor se, além do mais, «resultar do acto a impossibilidade (...) de obter a satisfação
integral do crédito, ou agravamento dessa impossibilidade.
II - Julgada procedente a acção, «o credor tem direito à restituição dos bens na medida do seu interesse, podendo
executá-los no património do obrigado à restituição» - (art. 616°, n° 1), e «os efeitos da impugnação aproveitam apenas ao
credor que a tenha requerido» (n° 4 do mesmo preceito).
III - Decorre deste regime que a impugnação pauliana é um meio de reacção contra actos positivos do devedor -
designadamente contra actos de alienação - que não enfermam de qualquer vício interno (são actos válidos), mas que
causam prejuízo aos credores.
A acção tem por finalidade a indemnização do credor impugnante à custa dos bens ou valores adquiridos pelos
terceiros, não podendo tais bens ou valores ser atingidos senão na medida do necessário ao ressarcimento do prejuízo
sofrido pelo credor.
Trata-se, portanto, de uma acção pessoal com escopo indemnizatório - e não de uma acção de declaração
de nulidade ou de anulação, ou de uma acção resolutória ou rescisória dos negócios realizados pelo devedor.
IV - Porque apenas se destina a fazer valer um direito de crédito do demandante contra o demandado a acção
pauliana não está, de iure constituto (veja-se o art. 3° do Cód. do Registo Predial), sujeita a registo.
V - Tendo a Autora, no caso decidido pelo Acórdão anotado, pedido que fosse declarado «nulo e de nenhum efeito
o contrato de compra e venda» através do qual o Réu Luís Manuel alienou a sua meação em vários imóveis, deduziu uma
pretensão totalmente carecida de fundamento e o tribunal devia mesmo, porque não pode condenar «em objecto diverso do
que se pedir» (art. 661.°, n° 1, do Cód. de Proc. Civil), tê-la indeferido liminarmente (conforme preceitua a alínea c) do n.° 1
do art. 474° do mesmo diploma).
VI - Acresce que a impugnação pauliana só é permitida quando do acto impugnado resultar «a impossibilidade,
para o credor, de obter a satisfação integral do seu crédito, ou agravamento dessa impossibilidade».

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Segundo entendimento pacífico, o momento a que deve atender-se, para averiguar se se verifica este requisito da
insuficiência do património do devedor, é o da prática do acto de alienação que pretende impugnar-se.
Ora, provou-se nos autos que o credito da Autora era de 14 223 900$00, mas que o devedor e Réu Luís Manuel
Ferreira, à data em que vendeu a seu irmão José Ferreira, também Réu, a metade indivisa de vários prédios de que ambos
eram comproprietários, tinha outros bens (metade de cerca de 160000 litros de vinho generoso), que veio a transaccionar,
passados cerca de três anos, por 60 000 contos - e relativamente aos quais a Autora, se o julgasse necessário, podia ter
requerido, pois conhecia a existência de tais bens, uma providência cautelar de arresto.

Notar que, com o actual Código de Processo (art. 508º), o Juiz deve convidar o Autor a corrigir
o pedido de declaração de nulidade formulado. Antes da actual redacção já era possível decretar a
ineficácia quanto ao Autor, permitindo a este executar a coisa no património onde se encontra, nos
termos do art. 616°, n° 1, CC, quando o Autor, querendo isso mesmo, pedia a declaração de nulidade:

A errada qualificação jurídica do pedido que o autor pretende obter com a acção de
impugnação pauliana não impede o juiz de, observado o princípio dispositivo, qualificar diferentemente
o pedido, por permitida pelo artigo 664º e conforme ao artigo 661º, nº, ambos do Código de Processo
Civil, com base, já antes da redacção actual do CPC, nos ensinamentos de A. Varela, na RLJ 122-252
a 255, Manual de Processo Civil, 2ª ed., 676 e 677 e A. dos Reis, Anotado, V, 93. - BMJ 481-405 e
Col. STJ 96-1-159.

Em 23 de Janeiro de 2001, pelo AUJ nº 3/2001, no DR., IA, de 9.2.2001, o STJ firmou
jurisprudência neste último sentido, contra aquela opinião de H. Mesquita, nos termos seguintes:

«Tendo o autor, em acção de impugnação pauliana, pedido a declaração de nulidade ou


a anulação do acto jurídico impugnado, tratando-se de erro na qualificação jurídica do efeito
pretendido, que é a ineficácia do acto em relação ao autor (nº 1 do art. 616° do CC), o juiz deve
corrigir oficiosamente tal erro e declarar tal ineficácia, como permitido pelo art. 664° do CPC».

O STJ tirou AUJ no sentido de que a pauliana não está sujeita a registo - AUJ nº 6/2004, no DR IA de 14.7.2004.
O art. 3º, n.º 1, al. a) do CRP (redacção dada pelo Dec-lei n.º 116/2008, de 4 de Julho,
estabelece que a acção pauliana está sujeita a registo, embora, na al. b) do n.º 1 do art. 8º-A
excepcione esta acção da obrigatoriedade do registo.

Col. STJ 93-3-35 - Sobre ónus da prova (611°), efeito sobre bem comum ou só meação; má fé: O onus de prova
que recai sobre o devedor de que possui bens penhoráveis de igual ou maior valor só incide sobre ele (devedor) e não
sobre os demais responsáveis perante o credor.
Sendo o bem doado propriedade comum do casal e não se verificando a responsabilidade de ambos os cônjuges
pela dívida, não procede acção de impugnação sobre bens comuns enquanto não for dissolvido, declarado nulo ou anulado
o casamento ou enquanto não for decretada a separação judicial de bens: não pode haver Pauliana por conta de
cumprimentos que não possam ser exigidos. Isso, naturalmente com ressalva do regime especificamente comercial. A
impugnação só procedeu quanto à meação do marido.

Actualmente, em face da nova redacção do art. 1696°, n.º 1, do CC, resultante da revogação
operada pelo art. 4° do DL nº 329-A/95, de 12 de Dezembro, pode o credor de dívida da exclusiva
responsabilidade de um dos cônjuges impugnar o acto praticado pelos dois cônjuges que tenha por
objecto bem comum do casal - Ac. do ST J, de 10.1.2002, na Rev. 3865.01, da 7ª secção e Acórdão de
28 de Janeiro de 2003 da Relação de Coimbra, na Col. Jur. 2003-1-26:
I - Com a redacção que o DL 329-A/95 introduziu no artigo 1696º do C.C. não há já lugar a moratória na
execução dos bens comuns, pelo que a meação nos bens comuns não responde apenas e só depois de dissolvido,
declarado nulo ou anulado o casamento, ou depois de decretada separação judicial de bens.

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II - Por isso, deve entender-se que hoje está afastado qualquer obstáculo a que a acção pauliana possa
proceder de imediato contra ambos os cônjuges, relativamente a imóvel alienado que era bem comum, ainda que
apenas um deles tenha a exclusiva responsabilidade da dívida para com o impugnante.
III - Neste caso, contudo, deve entender-se que só a quota parte/meação do cônjuge devedor no bem
alienado é que é o objecto da impugnação.

Acórdão do STJ (Ex.ma Cons.ª MARIA DOS PRAZERES PIZARRO BELEZA) de 6.11208, no Pr. 07B4517:

1. Do nº 1 do artigo 612º do Código Civil resulta que só é exigida a má fé nos intervenientes no acto que se
pretende impugnar.
2. Não é assim condição de procedência da impugnação pauliana a má fé do cônjuge do comprador de má fé, que
não interveio no acto de compra do prédio alienado.
3. Da consideração conjunta da finalidade da impugnação pauliana e do regime das consequências patrimoniais
do casamento resulta que a solução contrária tornaria facilmente inconsistente a garantia dos interesses do credor.
4. A impugnação pauliana é um meio de conservação da garantia patrimonial; tem portanto em vista a protecção
do interesse do credor.
5. Seria contraditório colocar exclusivamente nas mãos de quem pratica o acto lesivo, em prejuízo consciente do
credor, os meios de impedir o funcionamento da garantia contra tais actos que a lei a este quis conferir, como sucederia se
fosse exigida a má fé do cônjuge (que adquire sem intervir no acto) do terceiro (que pode adquirir sem a intervenção ou o
consentimento do cônjuge).
6. Desta solução não resulta qualquer contradição com a necessidade de intervenção, na acção de impugnação,
do cônjuge que não interveio na compra, porque da acção pode resultar a “perda” de um bem, entretanto entrado para a
comunhão conjugal, que só por ambos pode ser alienado.
7. Na constância do casamento, vigorando um regime de comunhão de bens, os cônjuges não são titulares de
nenhuma “meação”sobre os bens determinados que integram essa comunhão.
8. Não pode assim proceder a pretensão de que a impugnação apenas afecte a “meação” do cônjuge que
interveio na compra.
9. A procedência da impugnação conduz a que os bens alienados podem ser executados como se não tivessem
saído do património do devedor; não conflitua, nem com o regime aplicável à determinação da comunicabilidade da dívida
exequenda, nem com a eventual aplicabilidade do disposto no artigo 825º do Código de Processo Civil.

Acordam, no Supremo Tribunal de Justiça:

1. Em 22 de Janeiro de 2003, AA e outros, alegando a qualidade de herdeiros de BB, instauraram no Tribunal


Judicial da Comarca de Amarante contra CC e mulher, DD, e EE e mulher, FF, uma acção destinada a impugnar a venda
que os primeiros réus fizeram, em 18 de Maio de 1999, pelo preço de 2.300.000$00, ao segundo réu marido, do prédio
rústico denominado Quinta ..., inscrito na matriz rústica de Gatão - Amarante sob o artigo 582 e descrito na Conservatória
do Registo Predial de Amarante sob o nº ..., por ter sido vendido para impedir a satisfação integral de um crédito dos
autores (em cuja titularidade sucederam por morte de BB). Pediram ainda, invocando o disposto no artigo 616º do Código
Civil, que lhes fosse reconhecido o direito de executarem o prédio no património dos segundos réus.
Conforme explicaram, a acção foi proposta na sequência de, nos termos do disposto no nº 4 do artigo 119º do
Código do Registo Predial, terem sido remetidos para os meios comuns na execução movida pelo falecido BB contra o
agora primeiro réu marido, com base num cheque por este subscrito à sua ordem, no valor de 25.000.000$00, na qual fora
penhorado o referido prédio.
Contestaram os segundos réus e DD.
Por sentença de 28 de Setembro de 2005, de fls. 642, a acção foi julgada procedente, sendo ordenada “a
restituição do prédio rústico (…) na medida do interesse dos autores, podendo o mesmo ser executado no património dos
2ºs réus, na mesma medida daquele interesse, para satisfação do seu crédito”.
Por acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 6 de Março de 2007, de fls. 758, foi negado provimento ao
recurso interposto pelos segundos réus e confirmada a sentença.

2. Vem agora DD recorrer para o Supremo Tribunal de Justiça.


O recurso foi admitido como revista com efeito meramente devolutivo.
Nas alegações que apresentou, formulou as seguintes conclusões:
“(…)
2) Para que proceda impugnação pauliana é mister, nomeadamente, que se verifique a má fé dos adquirentes,
consubstanciada no intuito de prejudicar o credor do transmitente, o que, in casu, não sucede.
3) A segunda ré mulher não interveio na escritura de compra e venda.

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4) Os segundos réus são casados sob o regime da comunhão geral de bens e o prédio dos autos pertence-lhes
em comunhão.
5) A má fé exige-se não só ao adquirente que interveio no acto mas também ao respectivo cônjuge.
6) Não se provaram nos autos quaisquer factos que consubstanciassem a má fé da segunda ré mulher.
7) Pelo que a impugnação pauliana deve improceder.
8) Sem prescindir,
9) A segunda ré mulher é titular do direito e acção a metade do prédio dos autos que adquiriu em inerência ao
regime de bens do casamento, por força do acto impugnado, no qual não foi interveniente.
10) Emergindo dos autos a ausência de prova de factos que demonstrem a verificação dos requisitos da
inpugnação pauliana relativamente à segunda ré mulher, não pode esta ser condenada na restituição do prédio ao
património dos primeiros réus para satisfação do crédito dos autores.
11) Deve, outrossim, ser a segunda mulher absolvida do pedido e proceder a acção apenas sobre a meação do
segundo réu marido no prédio dos autos.
12) Ainda sem prescindir,
13) Está provado nos autos que, sob o nº 205/99, corre termos, pelo 1º Juízo do Tribunal Judicial da Comarca de
Amarante, acção executiva em que os ora recorridos figuram como exequentes, movida contra o primeiro réu marido, CC,
com base num cheque por este subscrito.
14) Nessa execução, sem que haja sido requerida a citação do ora recorrente nos termos e para os efeitos do
artigo 825º na versão então aplicável do Código de Processo Civil (…), foi nomeado à penhora o prédio cuja transmissão é
impugnada nos autos, que veio a ser ordenada e concretizada nos termos legais.
15) Casados sob o regime da comunhão de adquiridos, os primeiros réus adquiriram o prédio dos autos, a título
oneroso, na constância do matrimónio.
16) A recorrente não foi vista nem achada no cheque dado à execução, nem no negócio que lhe subjaz.
17) Da matéria julgada provada nos presentes autos não resulta qualquer facto que opere a comunicabilidade da
dívida à recorrente.
18) O crédito dos recorridos é tão só sobre o primeiro réu marido.
19) Não pode ser colocado em crise o acto de alienação do prédio realizado pela recorrente, dado que sobre si
não impende obrigação pelo pagamento da dívida.
20) Por isso, apenas na meação do primeiro réu marido poderá a acção proceder.
21) A douta decisão recorrida violou o disposto nos artigos 601º, 610º, 612º, 616º, nº 1, 1692º e 1696º do Código
Civil;
22) Termos em que deve ser revogada e substituída por outra que absolva os Réus do pedido, ou, se assim não
se entender, substituída por decisão que ordene a restituição da meação do 2º Réu Marido no prédio rústico (…) e na
medida do interesse soa Autores, podendo o mesmo ser executado no património do 1º Réu Marido, na mesma medida
daquele interesse, para satisfação do seu crédito”.

Contra-alegaram os autores, defendendo a manutenção do decidido.

3. Transcreve-se do acórdão recorrido a matéria de facto que vem definitivamente provada das instâncias:

4. Estão assim em causa, neste recurso, as seguintes questões:


– Saber se é condição de procedência da impugnação a má fé do cônjuge do comprador de má fé, que não
interveio no acto de compra do prédio alienado;
– Subsidiariamente, saber se, não estando provada tal má fé, a impugnação deve proceder apenas em relação à
“meação do segundo réu marido no prédio dos autos”;
– Ainda subsidiariamente, saber se pode ser impugnado o acto de alienação do prédio por parte da recorrente, por
não ser responsável pela dívida exequenda.

5. A recorrente sustenta, em primeiro lugar, que, não tendo sido provada a má fé por parte de FF, mulher do
terceiro comprador do prédio, EE , não pode proceder a impugnação pauliana. Em síntese, porque, sendo estes casados
em regime de comunhão geral de bens, “o prédio dos autos pertence-lhes em comunhão”.
Não tem razão a recorrente. É certo que, por virtude do regime de bens do casamento, o prédio comprado pelo
cônjuge marido passou a integrar o património comum dos cônjuges, nos termos do artigo 1732º do Código Civil; é porém
igualmente certo que se deve interpretar o disposto no nº 1 do artigo 612º do Código Civil como exigindo a ocorrência de má
fé apenas nos intervenientes no acto que se pretende impugnar (assim, acs. deste Supremo Tribunal de 25 de Março de
2004 ou de 12 de Julho de 2007, disponíveis em www.dgsi.pt como procs. nºs 04B2989 e 07A1851, respectivamente).

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É a essa solução que conduz a directiva, traçada pelo nº 3 do artigo 9º do Código Civil, de que o intérprete deve
presumir que o legislador consagrou “as soluções mais acertadas”, ao procurar reconstituir o “pensamento legislativo”.
Com efeito, da consideração conjunta da finalidade com que a lei confere ao credor a possibilidade de impugnar
determinados actos praticados pelo devedor em prejuízo da sua garantia patrimonial, por um lado, e do regime definido para
as consequências patrimoniais do casamento, por outro, resulta que a solução contrária tornaria facilmente inconsistente a
garantia dos interesses do credor.
É incontestável que a impugnação pauliana é um meio de conservação da garantia patrimonial; e que é portanto a
protecção do interesse do credor que justifica a respectiva previsão legal.
Para além disso, é também incontestável que, no caso de actos onerosos, a impugnação só pode proceder se o
“acto” que provoca a “diminuição da garantia patrimonial” (nº 1 do artigo 610º do Código Civil) relevante no âmbito da
impugnação pauliana tiver sido praticado com “a consciência do prejuízo que (…) causa ao credor” (nº 2 do artigo 612º).
Assim sendo, seria realmente contraditório colocar – exclusivamente – nas mãos de quem pratica o acto lesivo,
em prejuízo consciente do credor, os meios de impedir o funcionamento da garantia que a lei a este quer conferir contra tais
actos.
É o que sucederia se fosse exigida a má fé do cônjuge (que adquire sem intervir no acto) do terceiro (que pode
adquirir sem a intervenção ou o consentimento do cônjuge).
Acrescente-se que a conclusão a que se chegou não é contraditória com a necessidade de intervenção do
cônjuge, que não interveio na compra, na acção proposta pelo credor para a impugnar. Com efeito, dela pode resultar a
“perda” de um bem, entretanto entrado na comunhão conjugal, que só por ambos pode ser alienado (artigos 28º-A do
Código de Processo Civil, nºs 1 e 3 e 1682º-A, nº 1, a), do Código Civil).
E note-se, ainda, que esta solução não implica investigar se, para a lei portuguesa, quando um dos cônjuges
adquire um bem que, por força do regime de bens do casamento, vai integrar tal comunhão, há “uma aquisição directa para
a massa ou uma aquisição individual e uma comunicação subsequente” (Francisco Pereira Coelho e Guilherme de Oliveira
(Curso de Direito da Família, I, 4ªed., Coimbra, 2008, pág. 508), porque é compatível com qualquer das soluções.

6. Em segundo lugar, a recorrente afirma que a mesma falta de prova deve, pelo menos, implicar a absolvição do
pedido da mesma segunda ré, procedendo a impugnação “apenas sobre a meação do segundo réu marido” no prédio.
Também não procede esta afirmação. Na constância do casamento, vigorando um regime de comunhão de bens
(geral ou de adquiridos), os cônjuges não são titulares de nenhuma “meação” sobre os bens determinados que integram
essa comunhão.
Como escrevem Francisco Pereira Coelho e Guilherme de Oliveira (Curso de Direito da Família cit., págs.367 e
507), “os bens do casal não são necessariamente de um ou de outro cônjuge, nem pertencem a ambos em compropriedade
– são antes «bens comuns»” que “constituem uma massa patrimonial (…) que pertence aos dois cônjuges, mas em bloco,
podendo dizer-se que os cônjuges são, os dois, titulares de um único direito sobre ela”. Esta última afirmação, feita a
propósito do regime da comunhão de adquiridos, vale naturalmente (e como expressamente observam a fls.549) para a
hipótese de comunhão geral.

7. Finalmente, e em terceiro lugar, a recorrente sustenta que, sendo casada com o executado em regime de
comunhão de adquiridos, não resultando dos autos a comunicabilidade da dívida em causa na acção executiva e não tendo
sido requerida a sua citação, nessa acção, “nos termos e para os efeitos do artigo 825º na versão então aplicável do Código
de Processo Civil”, não pode “ser colocado em crise o acto de alienação do prédio realizado pela recorrente”; assim, “a
meação da recorrente no prédio, que é bem comum, não poderá ser objecto de impugnação (…) apenas na meação do
primeiro réu marido poderá a acção proceder”.
O que se disse no ponto anterior afasta a pretensão de que a impugnação possa valer apenas quanto à “meação”
do primeiro réu marido no prédio alienado.
E igualmente afasta a impossibilidade de afectação da alienação em que a ré participou, porque a procedência da
impugnação tem como efeito, de acordo com o disposto no nº 1 do artigo 616º do Código Civil, que “o impugnante pode
executar os bens alienados como se eles não tivessem saído do património do devedor (...)” (Antunes Varela, Das
Obrigações em geral, II, 7ª ed., Coimbra, 1999, pág. 457).
Essa possibilidade de execução, moldada sobre a “medida” do interesse do credor, não altera o regime
eventualmente aplicável, nem a questão de saber se a dívida (a que respeita a acção executiva) é comunicável ou não, nem
aos termos em que a execução se deve desenrolar (nomeadamente quanto à aplicabilidade do regime previsto no artigo
825º do Código de Processo Civil, “na versão então aplicável”, como afirma a recorrente).

8. Nestes termos, nega-se provimento à revista.


Custas pela recorrente.

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Lisboa, 06 de Novembro de 2008

Maria dos Prazeres Pizarro Beleza (relatora)


Salvador da Costa
Lázaro Faria

BMJ 412-406 - a acção terá que ser sempre proposta contra o terceiro adquirente, já que é este que detém o
objecto do contrato e terá que o ver executado, apesar de inserido no seu património. Como poderia averiguar-se da má fé
ou dar cumprimento ao art. 611º - onus da prova - sem a presença do devedor na acção?

BMJ 447- 508 - Não basta, para se excluir a impugnação pauliana, que outros devedores solidários ainda
mantenham bens suficientes para garantir o pagamento da dívida; pelo contrário, a suficiência de bens tem de dizer respeito
ao próprio réu (avalista de livrança); É, portanto, perfeitamente irrelevante a eventual suficiência dos patrimónios dos outros
devedores solidários.

BMJ 440-422 - Pauliana por renúncia ao usufruto.

IMPUGNAÇÃO PAULlANA. REQUISITOS GERAIS.


ÓNUS DA PROVA. REQUISITO DA MÁ FÉ; CONCEITO DE MÁ FÉ

I - O recurso à impugnação pauliana pressupõe, qualquer que seja a natureza do acto a atacar - onerosa ou
gratuita - a verificação cumulativa dos seguintes requisitos:
a) - A existência de determinado crédito;
b) - Que esse crédito seja anterior ao acto a impugnar ou, sendo posterior, que o acto tenha sido realizado
dolosamente com o fim de impedir a satisfação do direito do futuro credor;
c) - Que resulte do acto a impossibilidade ou o agravamento da impossibilidade da satisfação integral do crédito.
II - Na acção de impugnação pauliana incumbe ao autor o onus da prova da existência e da anterioridade do seu
crédito, bem como do montante das dívidas desde que se problematize a existência de outras dívidas -, cabendo, todavia,
ao devedor ou ao terceiro interessado na manutenção do acto a prova de que o obrigado possui bens penhoráveis de
igualou maior valor
III - Tal repartição do ónus da prova, neste tipo de acções, justifica-se pela grande dificuldade ou mesmo
impossibilidade que o autor tem de fazer a prova de que o devedor não possui bens.
IV - Ao lado dos referidos requisitos gerais, a lei, através do artigo 612º do Código Civil, exige ainda um outro - o
da má fé -, sempre que o acto impugnado - in casu dação em cumprimento - revista a natureza de acto oneroso.
V - Essencial e determinante para se poder considerar preenchido o requisito da má fé é que o devedor e o
terceiro tenham consciência do prejuízo que a operação causa ao credor sendo bastante «a mera representação da
possibilidade da produção de resultado danoso em consequência da conduta do agente» - Ac. ST J de
10.11.98 (Silva Paixão) BMJ 481-449.

IMPUGNAÇÃO PAULlANA
Ac. de 17 de Junho de 1998, na Col. ST J 98-11-127
Natureza jurídica Oponibilidade, ineficácia e impugnabilidade

I - Na acção pauliana:
a) - O acto sujeito à impugnação pauliana não tem nenhum vício genético
b) - É totalmente válido
c) - Eficaz: não há perda de disponibilidade
d) - Respondendo os bens transmitidos pelas dívidas do alienante, na medida do interesse do credor, após a
procedência da impugnação
e) - Mantendo-se o acto na sua pujança jurídica em tudo quanto exceda a
medida daquele interesse.
II - É uma acção pessoal onde se faz valer um direito de crédito.
III - Aquele enfraquecimento alienatório desenrolado no seu seio tipifica-se numa impugnabilidade e não numa
inoponibilidade, nem uma verdadeira ineficácia.
IV - A Impugnabilidade é uma causa de ineficácia.
V - Fundamenta-se na existência de um facto que faz nascer um outro direito inconciliável com os direitos
originados naquele acto jurídico a impugnar. Tendo em consideração um prejuízo emergente da prática do acto que se quer
impugnar, prejuízo esse que fere interesses tutelados pelo direito.

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ACÇÃO PAULlANA
Sociedade devedora em estado de falência
Legitimidade passiva
Acção pauliana em benefício da massa falida

I - Na acção pauliana, proposta pelo liquidatário judicial para declaração de ineficácia do trespasse do
estabelecimento comercial da sociedade - que veio a ser declarada em estado de falência - e a sua reversão para a massa
falida, têm legitimidade passiva os sócios que em nome da sociedade contrataram.
II - Na impugnação pauliana em benefício da massa falida não é exigível o requisito da anterioridade do crédito e
presumem-se de má fé os actos onerosos realizados pelo falido nos dois anos anteriores à data da abertura do processo
conducente à falência, em favor do cônjuge ou certos parentes. (arts. 157º a 160º do CPEREF) - Col. 99-IV-44.

Ac. STJ, de 18.5.99, BMJ 487-287:


...estamos em presença de uma acção pauliana, que, como é sabido, consiste na faculdade que a lei confere aos
credores de rescindirem judicialmente os actos celebrados pelos devedores em seu prejuízo.
Converteu o Código Civil de 1966 a antiga anulação em verdadeira ineficácia do acto em relação ao credor
impugnante.
Com efeito, julgada procedente a impugnação, resulta do disposto no art. 616º do novo diploma que o credor nem
necessita de promover o retorno dos bens ao património do alienante, porque pode executá-los no património do próprio
adquirente, sem sequer sofrer a concorrência dos credores deste. Tudo se passa, assim, como se o acto de alienação
realizado entre o devedor e o terceiro adquirente não exista (seja pura e simplesmente irrelevante) em face do credor
impugnante.

Dispõe o artigo 610º do Código Civil que:


«Os actos que envolvam diminuição da garantia patrimonial do crédito e não sejam de natureza pessoal podem
ser impugnados pelo credor, se concorrerem as circunstâncias seguintes:
a) - Ser o crédito anterior ao acto ou, sendo posterior, ter sido o acto realizado dolosamente com o fim de impedir
a satisfação do direito do futuro credor;
b) - Resultar do acto a impossibilidade, para o credor, de obter a satisfação
integral do seu crédito, ou agravamento dessa impossibilidade.»
Determina, por seu turno, o artigo 611º do Código Civil que incumbe ao credor a prova do montante das dívidas, e
ao devedor ou a terceiro interessado na manutenção do acto a prova de que o obrigado possui bens penhoráveis de igualou
maior valor.
E o artigo 612º do Código Civil que:
«1 - O acto oneroso só está sujeito à impugnação pauliana se o devedor e o
terceiro tiverem agido de má fé, se o acto for gratuito, a impugnação procede ainda que um e outro agissem de boa fé.
2 - Entende-se por má fé a consciência do prejuízo que o acto causa ao
credor.»
São, pois, requisitos desta acção a anterioridade do crédito, isto é, o crédito deve ser anterior ao acto impugnado,
ou, sendo posterior, ter sido o acto dolosamente realizado com o fim de impedir a satisfação do direito do futuro credor, e a
impossibilidade de satisfação integral do crédito por virtude do mesmo acto.
Tratando-se de acto oneroso é ainda necessária a má fé do devedor como do terceiro, entendendo-se por má fé
a consciência do prejuízo que o acto causa no credor.
Conduz, assim, o citado nº 2 do artigo 612° do Código Civil à má fé subjectiva ou em sentido subjectivo, também
designada em sentido psicológico, que consiste na convicção do agente de que não tem um comportamento conforme ao
direito.
Tal norma aponta, com expressiva clareza, para o estado ou situação de má fé em que se analisa a actuação
dolosa. Nela existe sempre «a consciência do prejuízo», como diz M. J. Almeida Costa, Revista de Legislação e de
Jurisprudência, ano 127, pág. 275, em comentário ao acórdão deste Supremo Tribunal de Justiça de 23 de Janeiro de
1992, Boletim do Ministério da Justiça, nº 413, pág. 548.
Considera-se desnecessária a «concertação das partes para atentar contra o património do credor»,
esgotando-se o conteúdo do mencionado preceito na simples consciência do prejuízo. Requisito muito diverso da
exigência de um conluio ou concertação do devedor e do terceiro para causar dano ao credor.
Para terminar estas considerações se dirá que o acto que cai na previsão pauliana é um acto finalisticamente
destinado a prejudicar o credor, como salienta Menezes Cordeiro, Direito das Obrigações, vol. 2°, pág. 491, sendo
essencialmente caracterizador da má fé que o devedor e o terceiro tenham consciência do prejuízo que a operação causa
aos credores (ver A. Varela, Das Obrigações em Geral, vol. II 4.ª ed., pág. 440) - anote-se que quando no acto oneroso

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impugnado a prestação e a contraprestação forem de igual valor (igualdade que, como se sabe, não é essencial à
onerosidade do acto) a consciência do prejuízo significará normalmente o conhecimento de que o devedor pretende
subtrair a contraprestação recebida à acção dos credores.
No mesmo sentido, o Ac. de 15.2.2000, na Col. Jur. (ST J) 2000-1-91 e ss.

EMBARGOS DE TERCEIRO
Seu âmbito
Recurso à impugnação pauliana
(Ac. de 1 de Fevereiro de 2001, na Col. ST J 01-1-95)

I - Na actual versão do CPC (95/96) com os embargos de terceiro visa-se obter não só a defesa da posse - único
objectivo prosseguido na versão anterior de tal diploma - mas também ainda de qualquer outro direito que se mostre
incompatível com a realização ou âmbito da diligência de que seja titular quem não é parte na causa.
II - A eliminação do regime constante no art. 1041º da versão anterior do CPC ficou a dever-se à circunstância de
se considerar que a definição dos casos em que os embargos de terceiro devem ou não ser rejeitados constitui matéria
estritamente de direito civil, pondo-se, assim, termo à contradição entre o que constava de tal preceito e o regime
substantivo da impugnação pauliana.
III - Qualquer acto jurídico pode ser impugnado pela acção pauliana admissível também em embargos de terceiro,
desde que se mostrem preenchidos os respectivos requisitos legais da mesma.

EMBARGOS DE TERCEIRO
- Penhora de bens de terceiro
- Legitimidade superveniente de terceiro para intervir na execução
- Meio processual adequado
(Ac. de 23 de Abril de 2001, R.ão do Porto, Col. 2001-11-205)

I - Os bens de terceiro (pessoa diversa do devedor) podem ser objecto de execução e penhora em dois casos:
a) - quando sobre eles recair direito real constituído para garantia do crédito exequendo;
b) - quando tenha sido julgada procedente acção de impugnação pauliana de que resulte a obrigação de
restituição dos bens ao devedor.
II - Em ambos os casos, importa que a execução seja movida obrigatoriamente contra ele (art. 821°, nº 2, do
CPC).
III - No caso de impugnação pauliana procedente, os interesses a defender pelo terceiro deixam de ser a posse e
a propriedade do imóvel, passando a ser apenas a sua boa liquidação, pelo que não são admissíveis os embargos de
terceiro.
IV - Se já estiver pendente a execução, então o meio processual adequado para o terceiro assegurar a sua
legitimidade superveniente, é o incidente de intervenção espontânea.

Revista nº 49/04 - 2ª Secção


Ac. de 19.10.2004
Acção pauliana Anterioridade do crédito
Onus da prova Má fé
Simulação absoluta
Pedidos subsidiários
Documento autêntico
Força probatória
Matéria de facto e matéria de direito

I - A anterioridade do crédito para efeitos de acção pauliana [artigo 610.°, alínea a), primeira parte, do Código
Civil] deve reportar-se ao momento da constituição da relação obrigacional respectiva e não, v. g., à data da respectiva
forma de tutela jurisdicional;
II - A repartição do ónus da prova na acção pauliana é regulada especificamente pelo artigo 611°, que se afasta
em alguma medida do regime definido nos artigos 342° e segs., segundo o qual devia caber inteiramente ao credor a prova
dos requisitos necessários à procedência do pedido, inclusive a prova da diminuição da garantia patrimonial nos termos da
alínea b) do artigo 610°;
III - Todavia, por razões compreensíveis, relacionadas com a dificuldade ou mesmo impossibilidade da prova de
que o devedor não tem bens, o artigo 611° atribui a este o encargo de provar que possui bens penhoráveis de valor igualou
superior ao das dívidas, fazendo impender sobre o autor o ónus da prova do montante destas;

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IV - A motivação aduzida conduz à conclusão de que a alínea b) do artigo 610° não tipifica propriamente factos
no plano considerado implicando que um semelhante ónus probatório impenda sobre o credor, antes configurando um tipo
legal que deve relacionar-se em termos hábeis com o artigo 611°, numa síntese normativa susceptível de reflectir os
resultados do funcionamento dos ónus da prova de ambas as partes entretecidos neste último preceito;
V - A exigência postulada na alínea b) do artigo 610° reduz-se à «simples impossibilidade prática», «de facto»,
«real, efectiva», de satisfação integral do crédito, pelo que, sendo o dinheiro um bem facilmente mobilizável e sonegável à
acção dos credores, não é o mero facto do ingresso, no património do devedor, do preço da coisa por este alienada mercê
da compra e venda objecto da pauliana que pode excluir a verificação do requisito;
VI - Incumbindo, aliás, ao devedor nos termos do artigo 611° a prova da existência desse valor penhorável, não
se considera cumprido o respectivo ónus pela mera circunstância de haver sido declarado na escritura o recebimento do
preço da alienação, posto que a força probatória plena do documento se limita ao facto da emissão da declaração,
qualquer que seja a sua veracidade (artigo 371°);
VII - Provando-se que as compras e vendas impugnadas resultaram de acordo entre a ré alienante e as rés
adquirentes, com o intuito de enganar os credores da primeira, vai necessariamente pressuposta nesses factos a
consciência do prejuízo causado ao credor demandante em que se traduz o requisito da má fé segundo o nº 2 do artigo
612°;
VIII - A cumulação de pedidos incompatíveis deduzidos em relação de subsidiariedade, nos termos do artigo 469°
do Código de Processo Civil, não integra o fundamento de ineptidão previsto na alínea c) do nº 2 do artigo 193° do mesmo
Código;
IX - A dedução de pedido principal de impugnação pauliana de compra e venda, e de nulidade por simulação
absoluta do mesmo negócio a título subsidiário (cfr. o artigo 615°, nº 1, do Código Civil), configura-se como cumulação de
pedidos conforme aos requisitos do citado artigo 469° e suas conexões normativas, justificando-se por razões lógicas e
revestindo real conteúdo jurídico-económico, por isso que a pauliana aproveita apenas ao credor requerente (artigo 616°,
n.º 1 e 4, do Código Civil), podendo representar um prius relativamente à declaração de nulidade em beneficio de todos os
credores (artigos 289°, nº 1, e 605°, nº 2);
X - Os tipos legais são normalmente constituídos por segmentos, quer normativos, quer de natureza factual-
descritiva, recortando-se, entre estes, elementos da realidade material e concreta - seres vivos ou inanimados, coisas,
objectos da mais variada espécie, mas também do mundo ideal ou imaterial, tais como acções, qualidades, estados,
sentimentos, ideias e criações intelectuais ou artísticas, factores anímicos e volitivos, etc., que não deixam de reconduzir-
se ao domínio dos factos pela mera circunstância da sua abstracta natureza;
XI - As locuções e expressões quis vender, quiseram comprar, e acordo (entre as rés no) intuito de enganar (os
credores), constantes do questionário em conexão com elementos típicos do artigo 240° do Código Civil, por um lado
incluem os conceitos jurídicos vender e comprar, habitualmente usados na vida comum em acepção correspondente ao
seu significado jurídico, podendo por isso figurar acessoriamente no questionário e ser objecto de prova; por outro lado,
integram conteúdos de vontade acordo, intuito de enganar, querer comprar ou vender -, de natureza factual, conquanto
abstracta, que lhes confere idêntica aptidão para serem inscritos no tema da prova.
A circunstância de tais conteúdos se oferecerem como elementos constitutivos do tipo legal não veda por si só a
inclusão no questionário.
Tão-pouco contêm semelhantes elementos matéria de direito ou matéria imbuída de um grau tal de abstracção
conclusiva que torne inadmissível submetê-los a prova directa, tratando-se, em suma, de matéria de facto susceptível de
ser provada directamente através de qualquer meio de prova;
XII - Nos termos do artigo 371° do Código Civil, a escritura pública de compra e venda prova plenamente que
foram emitidas as respectivas declarações negociais de compra e venda de dois prédios, mas não já que a essas
declarações tenha presidido uma vontade congruente, podendo o tribunal concluir através de outros meios de prova que as
mesmas declarações não correspondiam à vontade real dos contraentes, situação consequentemente não subsumível às
hipóteses delineadas no nº 2 do artigo 722° do Código de Processo Civil;
XIII - A competência de sindicabilidade do Supremo Tribunal de Justiça no tocante ao uso que a Relação tenha
feito ou não dos poderes conferidos pelo artigo 712° do mesmo compêndio legislativo restringe-se à verificação do respeito
pelos pressupostos de exercício desses poderes definidos no mesmo normativo.

Ac. do STJ (Ex.mo Cons.º Salvador da Costa), de 8.11.2007, Pr.º 07B3586

IMPUGNAÇÃO PAULIANA
PARTILHA EM VIDA DOAÇÃO
RESERVA DE USUFRUTO TORNAS
NEGÓCIO GRATUITO


3. São actos gratuitos para efeitos de impugnação pauliana os relativos à partilha em vida por via de

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doação dos bens a todos os seus herdeiros pelos doadores com reserva de usufruto e recebimento de tornas.
4. Tendo o crédito em causa sido constituído antes da doação do prédio pelo devedor e não afirmando na
contestação ser titular de bens ou rendimentos susceptíveis de garantir a realização daquele direito pelo credor
impõe-se a decisão, na fase da condensação, da verificação dos pressupostos da impugnação pauliana.

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça

"AA" intentou, no dia 5 de Maio de 2005, contra BB e CC, DD e EE, FF e GG, HH e II, JJ e KK, a presente acção
declarativa, com processo ordinário, pedindo a declaração de ineficácia em relação a si do contrato de doação e partilha
em vida do prédio sito na freguesia de Lever, descrito sob o nº 01271 na 2ª Conservatória do Registo Predial de Vila Nova
de Gaia, e, subsidiariamente, a declaração da sua nulidade, e, em qualquer caso, o cancelamento do seu registo.
Alegou ser credora do primeiro réu pela quantia de € 77 653,77 e juros, por força de sentença condenatória e que
ele, antes da execução, doou aos seus filhos, os outros réus, o referido prédio, impossibilitando-a de satisfazer o seu
crédito.
Os réus, em contestação, alegaram ser oneroso o negócio impugnado, que o celebraram para possibilitar a
obtenção de um empréstimo bancário por parte dos filhos do primeiro destinado a satisfazer o crédito da autora e ser o
valor da dívida substancialmente inferior ao valor do prédio.

Na fase da condensação, dispensada a audiência preliminar, foi proferida sentença no dia 18 de Outubro de
2006, por via da qual se declarou a ineficácia em relação autora do contrato de doação e partilha em vida celebrado entre
os réus e o reconhecimento do seu direito de executar o mencionado imóvel no seu património na medida do seu direito de
crédito.
Apelaram os réus, e a Relação, por acórdão proferido no dia 16 de Maio de 2007, negou provimento ao recurso.

Os apelantes interpuseram recurso de revista, formulando, em síntese, as seguintes conclusões de alegação:


….
II
É a seguinte a factualidade considerada assente no acórdão recorrido:
1. Por sentença transitada em julgado no dia 29 de Maio de 2003, o réu BB foi condenado a pagar à autora a
quantia de € 77.653,77 e juros, a título de indemnização.
2. No dia 3 de Outubro de 2003, a autora intentou contra o réu BB acção executiva para pagamento da quantia
mencionada sob 1, na qual indicou à penhora o único bem conhecido ao executado - o prédio urbano de rés-do-chão, ...
andar e terreno de logradouro, situado na Rua Central, nº ..., freguesia de Lever, Vila Nova de Gaia, inscrito na matriz em
nome do executado sob o artigo 769.
3. Por escritura pública outorgada entre os réus no dia 12 de Setembro de 2003, BB e CC declararam:
- serem legítimos possuidores de um prédio de dois pavimentos, com logradouro, destinado à habitação, sito na
Rua Central, nº ..., freguesia de Lever, Vila Nova de Gaia, omisso nas Conservatórias do Registo Predial de Vila Nova de
Gaia, inscrito na matriz a favor do ré BB, sob o artigo 769;
- doarem-no em comum aos seus quatro filhos, DD, FF, HH e JJ, com reserva de usufruto simultâneo e sucessivo
a seu favor;
- serem os donatários seus únicos filhos e que procediam à partilha em vida do imóvel da seguinte forma: o valor
da meação de cada um dos cônjuges doadores era de € 10 000, e que, pelo falecimento de um deles cabia ao cônjuge
sobrevivo uma quarta parte dessa meação, no valor de € 2 500, e o remanescente dessa meação, no valor de € 7 500,
adicionada à outra meação, perfazia € 17 500, divididos em quatro partes iguais, correspondentes às quotas de cada um
dos filhos, no valor unitário de € 4 375, e que procediam ao preenchimento das referidas quotas, adjudicando a cada um
dos filhos ¼ em raiz do prédio no valor de € 5.000,00 e que os referidos filhos haviam reposto aos referidos declarantes,
seus pais, o valor, individual de € 625.
4. Os réus, DD, FF, HH e JJ declararam, na referida escritura, aceitar tal doação, e obtiveram a descrição predial
do referido prédio sob o nº 01271 na 2ª Conservatória do Registo Predial de Vila Nova de Gaia e o registo da sua aquisição
por doação.

III

A questão essencial decidenda é a de saber se ocorrem ou não na espécie os pressupostos da declaração de


ineficácia em relação à recorrida do contrato mencionado sob II 3.

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4.
Caracterizemos, de seguida, em tanto quanto releva no caso vertente, em sintéticos termos, o contrato
mencionados sob II 3.
Os factos provados revelam, por um lado, que BB e CC declararam doar em comum aos seus quatro filhos - BB,
JJ, FF e HH -, com reserva de usufruto simultâneo e sucessivo a seu favor, o referido prédio urbano, e que os últimos
declararam aceitar tal doação.

E, por outro, que procediam à partilha em vida, adjudicando um quarto da raiz do prédio a cada um dos filhos, no
valor de € 5 000 e que cada um deles lhe havia reposto o valor de € 625.
A doação é o contrato pelo qual uma pessoa, por espírito de liberalidade e à custa do seu património, dispõe
gratuitamente de uma coisa ou de um direito, ou assume uma obrigação, em benefício do outro contraente, podendo a
primeira reservar para si o usufruto dos bens doados (artigos 940º, nº 1 e 958º, nº 1, do Código Civil).
O usufruto é o direito de gozar temporária e plenamente uma coisa ou direito alheio, sem alterar a sua forma ou
substância, susceptível de ser constituído por contrato a favor de uma pluralidade de pessoas simultânea ou
sucessivamente (artigos 1439º a 1441º do Código Civil).
Em regra, o usufruto constituído por contrato a favor de uma pluralidade de pessoas conjuntamente só se
consolida com a propriedade por morte da última que sobreviver (artigo 1442º do Código Civil).
Não é havido como sucessório o contrato por via do qual alguém faz doação entre vivos, com ou sem reserva de
usufruto, de todos ou parte dos seus bens a algum ou alguns dos presumidos herdeiros legitimários, com o consentimento
dos outros, e os donatários pagam ou se obrigam a pagar a estes o valor das partes que proporcionalmente lhes caberiam
nos bens doados (artigo 2029º, nº 1, do Código Civil).
Resulta, pois, deste artigo, à margem da figura do contrato sucessório, a previsão de uma doação entre vivos,
com a intervenção de todos os herdeiros legitimários dos doadores.
Trata-se, pois, da partilha dos bens doados por via do próprio contrato de doação, em que as tornas funcionam
como meio de composição dos respectivos quinhões.

No caso vertente, BB e CC procederam à partilha do prédio em causa por via de contrato de doação, com a
particularidade de todos os herdeiros legitimários dos primeiros terem intervindo naquele contrato na posição de
donatários.
Grosso modo, os actos gratuitos visam conceder a uma das partes um benefício pecuniário ou de outra espécie,
e os actos onerosos a obtenção de vantagem para ambas as partes.
Face ao mencionado conceito de actos gratuitos e onerosos, tendo em conta a estrutura do referido contrato, não
obstante a reserva de usufruto e as tornas recebidas pelos recorrentes BB e CC, a conclusão é no sentido de que se trata
de actos gratuitos.

5.
Analisemos, ora, os pressupostos legais objectivos e subjectivos do instituto designado por impugnação
pauliana, meio de conservação da garantia geral do cumprimento de obrigações.
A procedência deste meio de conservação da garantia patrimonial a que se reporta o artigo 601º do Código Civil,
ou seja, os bens do devedor susceptíveis de penhora, implica a atribuição ao impugnante do direito à restituição na medida
do seu interesse, a prática de actos de conservação da garantia e à execução no património do obrigado à restituição
(artigo 616º, nº 1, do Código Civil).
São seus requisitos os actos envolventes de natureza não pessoal que envolvam a diminuição da garantia
patrimonial do crédito, a anterioridade deste em relação àqueles, o nexo de causalidade entre o acto e a impossibilidade de
satisfação integral do direito de crédito verificada na altura da sua prática e a má fé dos respectivos sujeitos no caso de se
tratar de actos onerosos (artigos 610º e 612º do Código Civil).
No que concerne ao ónus de prova, ocorre a especialidade de o credor dever provar o seu direito de crédito,
incluindo a sua quantificação, e o devedor ou o terceiro interessado na manutenção do acto a existência no património do
obrigado de bens penhoráveis de igual ou maior valor no confronto com o valor do referido acto (artigo 611º do Código
Civil).
Isso significa, em termos práticos, que, provada pelo impugnante a existência e a quantidade do direito de crédito
e a sua anterioridade em relação ao acto impugnado, se presume a impossibilidade de realização do direito de crédito em
causa ou o seu agravamento.
Mas nesta matéria distingue a lei conforme os actos em causa sejam onerosos ou gratuitos e, quanto aos
primeiros, exige que o devedor e o terceiro tenham agido de má fé, que caracteriza como consciência do prejuízo que eles
causem ao credor (artigo 612º do Código Civil).
A exigência da má fé de ambas as partes deriva da ideia de que à prestação do devedor corresponde a
prestação equivalente de terceiro e este ficar em situação de grave afectação da sua esfera patrimonial.
A má fé a que a lei se reporta envolve a representação pelos respectivos outorgantes de que o acto praticado

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afectará negativamente a realização do direito de crédito do credor no confronto do devedor; não exigindo, porém, que os
contratantes actuem com intenção de lhe causar prejuízo.
Como o contrato de doação impugnado é de natureza gratuita, não se coloca na espécie o requisito da má fé em
relação ao devedor e aos terceiros, ou seja, no que concerne aos recorrentes doadores e donatários.
Portanto, o êxito da pretensão da recorrida no confronto dos recorrentes apenas depende da verificação dos
pressupostos de facto a que se reporta o proémio, a primeira parte da alínea a) e a alínea b) do Código Civil, ou seja, dos
elementos objectivos da impugnação pauliana.

6.
Prossigamos com a análise da sub questão de saber se ocorrem ou não na espécie os pressupostos objectivos
da impugnação pauliana.
Tendo em conta os factos provados, verifica-se que a recorrida é titular de um direito de crédito no confronto do
recorrente BB e que o mesmo se constituiu antes da celebração do contrato de doação impugnado.
Ignora-se qual é património da titularidade BB, bem como se ele integra ou não bens suficientes para que a
recorrida realize, no seu confronto, o direito de crédito de que é titular.
Mas como sobre ele incumbia o ónus de prova dessa suficiência, e não a produziram, nem articularam factos
susceptíveis de a revelar, a conclusão é no sentido da sua insuficiência patrimonial no confronto do direito de crédito da
titularidade da recorrida e que esta pretende fazer valer contra eles na acção executiva (artigo 611º do Código Civil).
Na realidade, os recorrentes BB e CC desafectaram do seu património um relevante elemento patrimonial, com o
que impossibilitaram a recorrida de satisfazer o seu direito de crédito, ou seja, está verificado o pressuposto a que alude a
alínea b) do artigo 610º do Código Civil.
Assim, importa concluir verificar-se a impossibilidade para a recorrida de satisfazer o seu direito de crédito no
confronto dos recorrentes por via da execução de bens existentes no património dos recorrentes BB e CC.
Acresce ser o contrato de doação impugnado pela recorrida posterior à constituição do direito de crédito por
aquela pretendido realizar na acção executiva que instaurou contra o recorrente BB, pelo que verificado está também o
pressuposto da impugnação pauliana previsto na alínea a) do artigo 610º do Código Civil.
Ocorrem, por isso, na espécie, os pressupostos objectivos da impugnação pauliana a que se reporta o artigo
610º, nº 1, alíneas a), 1ª parte, e b), do Código Civil.

IV

Pelo exposto, nega-se provimento ao recurso e condenam-se os recorrentes, salvo DD de Azevedo e HH, no
pagamento das custas respectivas.

Lisboa, 8 de Novembro de 2007

Salvador da Costa( relator) Ferreira de Sousa Armindo Luís


«A antecessora da recorrente era uma sociedade que operava no mercado financeiro como instituição de crédito
(artigos 3º, nº 1, do Decreto-Lei nº 298/92, de 3 de Dezembro, e Decreto-Lei nº 206/95, de 14 de Agosto).
Os factos que encabeçam o elenco constante de II sugerem o contrato de mútuo em geral, ou seja, aquele pelo
qual uma das partes empresta a outra dinheiro ou outra coisa fungível, ficando a última obrigada a restituir outro tanto do
mesmo género e qualidade (artigo 1142º do Código Civil).
No regime geral, o referido contrato só se completa com a entrega pelo mutuante do respectivo objecto ao
mutuário, o qual implica a transferência do respectivo direito de propriedade para o último (artigo 1144º do Código Civil).
O mútuo mercantil é sempre retribuído, e a retribuição é calculada, na falta de convenção em contrário, à taxa
legal de juro incidente sobre o valor do capital mutuado (artigo 395º do Código Comercial).
Entre os contratos de mútuo comercial contam-se os de mútuo bancário, atípicos (artigo 362º do Código
Comercial).
Entre as suas várias espécies temos as que consistem em abertura de crédito, não raro em conta corrente, em
que os clientes podem operar uma pluralidade de levantamentos e depositar parcelas do crédito em determinada conta
corrente.
É uma modalidade de contrato de mútuo comercial bancário regido pelas declarações negociais envolventes,
pelos usos do comércio bancário e, subsidiariamente, pelas regras relativas ao contrato de contra-corrente a que se
reportam os artigos 344º a 349º do Código Comercial.
Tendo em conta os factos mencionados sob II 1, estamos perante um contrato de mútuo bancário na espécie de
abertura de crédito, por via do qual a antecessora da recorrente se vinculou a colocar à disposição de CC, Ldª a quantia de

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35 000 000$, naturalmente mediante a correspondente vertente remuneratória.


Resulta ademais da factualidade mencionada sob II 1 que a antecessora da recorrente, como mutuante, e CC,
Ldª, na posição de mutuária, celebraram um contrato de hipoteca conexo com o de mútuo, para garantia de cumprimento
deste, cujo objecto foi o prédio urbano em causa (artigos 686º, nº 1, 688º, nº 1, alínea a), do Código Civil, e 712º, todos do
Código Civil).
Por virtude do mencionado contrato de hipoteca, que foi levado ao registo predial, ficou a antecessora da
recorrente com o direito de ser paga pelo valor do prédio, com preferência em relação aos credores comuns, como é o
caso da recorrida (artigo 686º, nº 1, do Código Civil).
A factualidade mencionada sob II 6 revela, por seu turno, uma situação de dação em cumprimento, ou seja a
alienação por parte da mutuária CC, Ldª à antecessora da recorrente de um prédio urbano em vez do capital do mútuo por
ela devido (artigo 837º do Código Civil).
Tratou-se da realização do direito de crédito da titularidade da antecessora da recorrente, por via da dação em
cumprimento, ou seja, de extinção da obrigação pecuniária decorrente do contrato de mútuo por uma causa diversa do
cumprimento propriamente dito (artigo 523º do Código Civil).

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Analisemos, ora, os pressupostos objectivos e subjectivos do instituto designado por da impugnação pauliana.
É um meio de conservação da garantia geral do cumprimento de obrigações, tendo em conta o contrato
celebrado entre a antecessora da recorrente e CC, Ldª.
A procedência deste meio de conservação da garantia patrimonial a que se reporta o artigo 601º do Código Civil,
ou seja, os bens do devedor susceptíveis de penhora, implica a atribuição ao impugnante do direito à restituição na medida
do seu interesse, a prática de actos de conservação da garantia e à execução no património do obrigado à restituição
(artigo 616º, nº 1, do Código Civil).
São seus requisitos os actos de natureza não pessoal que envolvam a diminuição da garantia patrimonial do
crédito, a anterioridade deste em relação àqueles, o nexo de causalidade entre o acto e a impossibilidade de satisfação
integral do direito de crédito verificada na altura da sua prática e a má fé dos respectivos sujeitos no caso de se tratar de
actos onerosos (artigos 610º e 612º do Código Civil).
No que concerne ao ónus de prova, ocorre a especialidade de o credor dever provar o seu direito de crédito,
incluindo a respectiva quantificação, e o devedor ou o terceiro interessado na manutenção do acto a existência no
património do obrigado de bens penhoráveis de igual ou maior valor no confronto com o valor do referido acto (artigo 611º
do Código Civil).
Isso significa, em termos práticos, que, provada pelo impugnante a existência e a quantidade do direito de crédito
e a sua anterioridade em relação ao acto impugnado, se presume a impossibilidade da sua realização ou o seu
agravamento.
Mas nesta matéria distingue a lei conforme os actos em causa sejam onerosos ou gratuitos e, quanto aos
primeiros, exige que o devedor e o terceiro tenham agido de má fé, que caracteriza como consciência do prejuízo que eles
causem ao credor (artigo 612º do Código Civil).
O referido conceito de prejuízo tem a ver com diminuição da garantia patrimonial e a impossibilidade de obtenção
da satisfação do seu crédito.
No caso, o prejuízo ilegítimo resulta de um credor hipotecário e o seu devedor acordarem na dação de imóvel de
valor muito superior à dívida a solver, assim retirando expectativas dos outros credores sobre o valor excedente.
A exigência da má fé de ambas as partes deriva da ideia de que à prestação do devedor corresponde a
prestação equivalente de terceiro e este ficar em situação de grave afectação da sua esfera patrimonial.
A má fé a que a lei se reporta envolve a representação pelos respectivos outorgantes de que o acto praticado
afectará negativamente a realização do direito de crédito do credor no confronto do devedor; mas não exige, porém, que os
contratantes actuem com intenção de lhe causar prejuízo.
Portanto, o êxito da pretensão da recorrida no confronto da recorrente depende da verificação dos pressupostos
de facto a que se reporta o proémio, a primeira parte da alínea a) e a alínea b) do artigo 610º e do previsto na primeira
parte do nº 1 e nº 2 do artigo 612º, todos do Código Civil, ou seja, os elementos objectivos e subjectivos do instituto da
impugnação pauliana.

Atentemos, ora, na questão de saber se ocorrem ou não na espécie os referidos pressupostos.


Os factos provados revelam, por um lado, que a recorrida era, em Julho de 1995, no confronto de CC, Ldª, titular
de um direito de crédito pecuniário derivado de vários contratos de compra e venda enquadrados em contado quadro
geralmente designado por contrato de fornecimento.
E, por outro, que o contrato de dação em cumprimento celebrado entre a antecessora da recorrente e CC, Ldª,
de natureza onerosa, foi celebrado depois da constituição do referido direito de crédito da titularidade da recorrida, e cerca
de dois anos antes da declaração da falência da última.
A recorrente entende não resultar do acto impugnado a impossibilidade de a recorrida obter a integral satisfação

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do seu crédito, com fundamento na prática bancária a que acima já nos referimos, na falta da intenção da sonegação de
bens e no não acautelamento pela recorrida do seu direito de crédito.
A recorrida acautelou a realização do seu direito de crédito, além do mais, por virtude da obtenção de sentença
condenatória, no dia 4 de Junho de 1996, treze dias antes da outorga do acto impugnado, de CC, Ldª no seu pagamento.
Estamos, neste ponto, perante matéria a aferir em termos objectivos. A sonegação de bens, ou seja, a outorga do
acto impugnado com intenção de causar prejuízo a algum credor, irreleva na determinação da impossibilidade a que a lei
se refere, tal como irreleva a natureza daquele acto, isto é, a circunstância de se tratar de dação em cumprimento em
conformidade ou não com alguma prática bancária.
O que releva é que, em virtude do acto impugnado, o património da devedora da recorrida deixou de integrar o
único imóvel que, embora hipotecado a favor da antecessora da recorrente, dele fazia parte, e, consequentemente, deixou
a recorrida de poder exercitar a garantia geral das obrigações a que se reporta o artigo 601ºdo Código Civil.
Não obstante a garantia especial do cumprimento do contrato de mútuo derivada do contrato de hipoteca, que a
posicionava em situação de realizar prioritariamente o seu direito de crédito pelo produto do prédio objecto do último dos
mencionados contratos, certa é a existência de considerável diferencial de valor do prédio e do direito de crédito da
recorrente.
A referida diferença de valor, na altura de cerca de 21 000 000$, revela que a recorrida poderia obter, no
confronto da recorrente, por via do produto do aludido prédio a satisfação total ou parcial do seu direito de credito, que se
cifra em 10 941 427$ e juros.
Daí decorre, tal como foi inferido pelas instâncias, o prejuízo para a recorrida, por virtude de ter ficado
impossibilitada, em virtude da outorga do acto impugnado com a desproporção de sinalagma acima referido, de realizar o
seu direito de crédito.
Conforme foi inferido pela Relação, a recorrente e CC, Ldª, sabendo que desviavam do património da última o
único imóvel que ele integrava, tiveram consciência do prejuízo que com isso causavam aos outros credores da segunda,
incluindo a recorrida.
Ocorrem, por isso, no caso em análise, os pressupostos objectivos e subjectivos do instituto designado de
impugnação pauliana – Ac. do STJ (Ex.mo Cons.º Salvador da Costa) de 2.10.2008, P.º 08B2621.

D) - Arresto - 619° a 622° e 406° a 411° CPC.

Com a reforma processual de 1996 chegou ao fim a proibição do arresto contra comerciantes.
O arresto não garante a execução específica - STJ 95-11-92; para evitar a venda a terceiro do
bem prometido vender, com o que se tornaria inviável a execução específica, deve requerer-se
procedimento cautelar comum - BMJ 471-304.
Do disposto no art. 622° resulta a equiparação do arresto à penhora: ineficácia dos actos
de disposição ou oneração dos bens penhorados, sem prejuízo das regras do registo, em relação ao
arrestante ou penhorante - 819°;

Preferência no pagamento - 822°: direito de ser pago com preferência a qualquer outro
credor que não tenha garantia real anterior. Significa isto que o penhorante ou arrestante é o último
credor na graduação, pois qualquer credor com garantia real anterior será graduado à sua frente no
concurso de credores.

Já se decidiu - Col. 02-V-163 - que o arresto não convertido em penhora não confere
preferência na graduação de créditos:

A questão não é pacífica.


Opinam pela preferência resultante do arresto, não convertido, entre outros, Pires de Lima e A. Varela ("Código
Civil Anotado", anotação ao art. 622° do Código Civil); Salvador da Costa, "O Concurso de Credores", 15 e 298; e Carvalho
Martins, "Reclamação, Verificação e Graduação de Créditos", 150. Em sentido contrário, pronunciaram-se Teixeira de
Sousa, "Acção Executiva Singular", 333 e Penha Gonçalves, "Curso de Direitos Reais", ano 1992, 203.
Vejamos o que, em nosso entender, está na lei.
A primeira das posições vai buscar, segundo cremos, as suas raízes ao artigo de Vaz Serra, no BMJ n° 73, págs.
31 e segs., onde este Professor afirma que de jure condito o arresto não dá preferência senão quando convertido em
penhora (pág. 41), mas de jure condendo sustenta que «no caso do arresto, o direito de preferência deve existir em termos
análogos aos propostos a respeito da preferência no caso da penhora» (folhas 139).

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Nessa sequência, na redacção da lei que propõe (folhas 388, sempre do mesmo Boletim) fez incluir o n° 3 do art.
22°, assim redigido:
«O arresto atribui ao arrestante direito de preferência em termos análogos aos declarados no art. 6°» (o artigo
referente à preferência resultante da penhora).
Mas este texto legal não foi o que veio a lume.
A lume vieram os arts. 622°, n° 2 («ao arresto são extensíveis, na parte aplicável, os demais efeitos da penhora")
e 822°, n° 2, do CC («Tendo os bens do executado sido previamente arrestados, a anterioridade da penhora reporta-se à
data do arresto»).
A referência à "parte aplicável'' deixa-nos campo aberto para, se for caso disso, não considerarmos extensível ao
arresto a preferência resultante da penhora (consignada no nº 1, do dito art. 822°).
Dentro desse campo de liberdade, temos a interpretação do falado nº 2 deste mesmo artigo.
A existência dele compreende-se mal se se considerar que o arresto atribui preferência do pagamento - se assim
fosse, sempre valeria a data dele (ou, no caso dos imóveis, do seu registo). Não precisava a lei de estabelecer qualquer
retroactividade.
Mas, mais decisiva para a nossa posição, é a expressão "anterioridade da penhora". É que, se o arresto valesse
por si, não haveria qualquer anterioridade da penhora. Não era a penhora que precisava de ser "distendida"
cronologicamente, ficcionando, para estes efeitos, uma data. Era a data do arresto que valeria, sem necessidade de ficção.
Mesmo relativamente ao arresto convertido o que resulta da lei não é que conceda direito de preferência. O que a
lei diz - em sentido contrário a essa ideia - é que se reporta à data dele a anterioridade da penhora.
Se - como no caso dos autos - o arresto não chega a ser convertido, então não temos penhora cuja data se possa
ficcionar para estes efeitos.
A preferência inexiste.

Ac. do STJ (Cons.º João Bernardo) de 3.5.2007, P.º 07B747:

1. O arresto não constitui garantia real para efeitos de reclamação de crédito em processo executivo.
2. Se convertido em penhora, surge a preferência derivada desta, não sendo rigorosa, para estes efeitos, a
expressão “arresto convertido em penhora”.
3. A preferência derivada da penhora alcança, por retroactividade, a data do arresto.
4. Não obstante, não implica a admissão duma reclamação de créditos levada a cabo em processo
executivo em que se invoca apenas o arresto, o qual só veio a ser convertido em penhora posteriormente.

Fundamentos (619°, nº 1, CC) e processo do arresto - art. 406° a 411° do CPC:

O arresto pode ser requerido pelo credor "que tenha justificado receio de perder a garantia
patrimonial do seu crédito" (art. 406°, nº 1; ver, também, o art. 619°, nº 1 do Cód. Civil).
O requerente do arresto terá de deduzir os factos «que tornam provável a existência do
crédito e justificam o receio invocado», identificando, ainda, os bens que devem ser apreendidos.

Examinadas as provas produzidas e mostrando-se «preenchidos os requisitos legais», o arresto é decretado,


sem audiência da parte contrária (arts. 407°, nº 1 e 408°, nº 1).
O arresto depende, pois, da verificação cumulativa destes requisitos:
- possibilidade da existência do crédito do Requerente;
- receio justificado da perda de garantia patrimonial.
Precisamente porque os procedimentos cautelares se destinam a prevenir o periculum in mora, o juiz, na prova
dos requisitos do arresto, não pode exigir o mesmo grau de averiguação, de convicção e de certeza que se lhe impõe
relativamente aos fundamentos da acção principal.
Na medida em que a decisão do arresto aparece sempre com feição provisória, o juiz tem de se limitar a uma
averiguação perfunctória dos seus requisitos, sendo com base nesse conhecimento que decretará a providência.
A apreciação da relação controvertida há-de fazer-se no processo principal, onde será proferida uma decisão
definitiva, alicerçada no conhecimento profundo do objecto do litígio.
A lei não faz depender, por conseguinte, a decretação do arresto de uma prova cabal do direito que se pretende
acautelar, contentando-se, antes, com a probabilidade séria da existência do crédito do requerente, o que se reconduz à

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mera aparência do respectivo direito.


Basta-se, assim, com um fumus boni iuris, obtido através de uma summaria cognitio.
Por outro lado, não é preciso que a perda de garantia patrimonial seja certa ou venha a tornar-se efectiva.
Exige-se, tão-só, que haja um receio justificado dessa perda.
E "também não é necessário, contra o que se dizia no Código de Processo Civil de 1961, que haja receio de
insolvência do devedor ou de ocultação de bens por parte deste; todo o receio de perda da garantia patrimonial, fora
daqueles dois casos, é relevante" (cfr. Pires de Lima e Antunes Varela, "Código Civil Anotado", vol. I, 4ª edição, págs.
636/637).
Importa realçar, no entanto, que não basta o receio subjectivo, porventura exagerado do credor, de ver
insatisfeita a pretensão a que tem direito.
O que é decisivo é que o credor fique ameaçado de lesão por acto do devedor e seja razoável e compreensível o
seu receio de ver frustrado o pagamento do seu crédito.
Numa palavra, o receio, para ser considerado justificado - por exigência da lei - «há-de assentar em factos
concretos, que o revelem à luz de uma prudente apreciação» - (cfr. Jacinto Bastos, "Notas", vol. II, pág. 268) - Col. STJ
98-1-117, 3.3.98 (Ex.mo Cons.º Silva Paixão).

O arresto é oficiosamente convertido em penhora por simples despacho, mandando-se


averbar ao registo do arresto a penhora assim efectuada - 846° CPC mesmo havendo embargos ao
arresto - Col. 99-11-191.

Pode requerer-se arresto na pendência da acção executiva, até à efectivação da penhora,


porque até aí pode verificar-se o justo receio da perda da garantia patrimonial. Hoje a lei - 383°, nº 1
CPC - é expressa no sentido de admitir instauração de procedimento cautelar como preliminar ou
como incidente de acção declarativa ou executiva.

Garantias Aparentes

Trata-se de garantias frequentes na prática bancária mas que de garantias têm pouco - por isso se dizem
aparentes - pois têm mera eficácia obrigacional, só produzindo efeitos entre o devedor e o credor, são ineficazes em
relação aos restantes credores. São elas

a) - Carta de conforto - ou de patrocínio, de recomendação


É emitida por uma sociedade comercial numa relação de domínio a favor de uma
sociedade comercial dominada.
Tem, por destinatária, uma instituição financeira.
Visa facilitar um financiamento a favor da aludida sociedade dominada.
Segundo Menezes Cordeiro - Das Cartas de Conforto - a evolução geral das cartas de conforto, tal como resulta
da análise do direito comparado, revela uma marcha inequívoca no sentido da jurisdicidade e correspectiva
responsabilização do emitente, situação que entre nós se não verifica em geral, salvo se da interpretação da carta e do
contexto em que foi emitida 236°, 1 - resultar a vontade de vinculação do emitente da declaração.
No mesmo sentido da crescente jurisdicidade das cartas de conforto ensina o Prof. Calvão da Silva, em Estudos
de Direito Comercial, (Pareceres), 369 e ss.

O STJ decidiu, por seu acórdão de 19.12.2001, na Col. 01-III-157, que Cartas de Conforto constituem garantias
atípicas, subscritas por uma sociedade, tendo por destinatário um banco e visando facilitar determinado financiamento a
conceder por este a uma outra sociedade que a primeira controla.
O valor e eficácia jurídica das Cartas de Conforto dependem do sentido das declarações concretamente feitas
por quem as subscreve, pelo que a sua determinação reconduz-se a um problema de interpretação.

b) - Negative Pledge - Por força desta figura o devedor vincula-se a não constituir quaisquer outras garantias
reais sobre os seus bens ou rendimentos.

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Não impede o devedor de no dia seguinte onerar os seus bens, ficando este novo crédito em situação igual ao
anterior. Não acrescenta nada à garantia geral. Porém, é frequente estabelecer-se nos contratos que o desrespeito da
obrigação decorrente da cláusula em análise confere ao mutuante a faculdade de exigir o cumprimento antecipado da
totalidade do crédito.

c) - Cláusula «pari passu» - Nos termos desta cláusula o devedor assegura que aquele crédito se manteria
privilegiado em relação a outros créditos que viesse a constituir. Também aqui nada impede que o devedor viole esta
promessa. Tal violação implicará um incumprimento do contrato, mas em termos de garantias e de oponibilidade perante
terceiros o credor fica na mesma situação; isto é, concorre ao rateio em igualdade com os restantes credores; Em
Portugal, o estabelecimento, por negócio jurídico, de preferências entre créditos só é possível mediante a constituição de
direitos reais de garantia.

Ver Acordos de Honra, Prestações de Cortesia e Contratos, dos Prof. Júlio M. Vieira Gomes e António Frada de
Sousa, em Estudos de Homenagem ao Professor Almeida Costa, 861 e ss e Contributo para o Estudo dos Actuais
Paradigmas das Cláusulas de Garantia e/ou Segurança: a Pari Passu, a Negative Pledge e a Corss Default, da Mestre
Joana F. Pereira Dias, em Estudos de Homenagem ao Professor Galvão Telles, Novos Estudos de Direito Privado,
879 e ss.

GARANTIAS ESPECIAIS

Consistem na afectação voluntária ou legal de outros patrimónios, além da garantia comum


que é o património do devedor, à satisfação do crédito ou a afectação de certos bens do devedor à
satisfação prioritária de certo crédito.

São pessoais - se têm por objecto a responsabilização de outros patrimónios pelo


cumprimento da obrigação.
Exemplos - fiança, sub-fiança, mandato de crédito e aval - (no direito comercial).

Nas garantias reais - o credor adquire o direito de se fazer pagar, de preferência a quaisquer
outros credores, pelo valor ou pelo rendimentos de certos e determinados bens do próprio devedor
(privilégios creditórios, direito de retenção) ou de terceiro, ainda que esses bens venham a ser
posteriormente transferidos.
Possuem as características dos direitos reais, como a sequela: Penhor, hipoteca,
consignação de rendimentos.

Várias espécies de GARANTIAS ESPECIAIS - ART. 623° a 761°

CAUÇÃO - 623° a 626°

I - Casos de prestação de caução exigida por lei - CPC:

- 47°, 4 - suspensão de execução de sentença em recurso com efeito meramente devolutivo;


- 818°, 1: para que os embargos suspendam a execução;
- 818°, nº 4: para se obter pagamento na execução a que foram deduzidos embargos ainda
pendentes.

CAUÇÃO
EXECUÇÃO DA CAUÇÃO
ARTIGO 818.° DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

I - A caução a que se reporta o artigo 818° do Código de Processo Civil destina-se a viabilizar a suspensão de
uma execução, perante embargos de executado.

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II - Mas isto é assim porque o credor poderá vir a pagar-se por força da caução, se os embargos improcederem.
III - Contudo, se o caucionante for um terceiro e a situação for abrangível pelo n.º 1 do artigo 623° do Código Civil,
poderá ressalvar o beneficio da excussão.
IV - Neste caso, o exequente não poderá fazer-se pagar pelo valor da caução, sem prévio respeito por esse
benefício - S. T. J., Ac. de 9 de Maio de 1995, no BMJ 447-448

Por Ac. do ST J de 20.11.2003, na Col. (ST J) 2003-11I-159, decidiu-se que

- A caução prestada por terceiro para a suspensão da execução embargada não garante a obrigação exequenda,
mas sim e apenas os prejuízos sofridos pelo exequente em resultado da suspensão da execução até à decisão dos
embargos.
- Não tendo sido alegados quaisquer destes prejuízos, nem deles tendo sido convencido o terceiro prestador de
caução, não pode ordenar-se o seu depósito e subsequente penhora para satisfação da quantia exequenda.

II - Prestação de caução autorizada por lei - CC:

- O credor sob condição suspensiva, na pauliana, pode exigir a prestação de caução durante a
pendência da condição - 614°,2;
- fiador nas hipóteses do art. 648°, para garantir o seu eventual direito contra o devedor;

III - Prestação de caução determinada pelo Tribunal - curadores definitivos dos bens do
ausente (107°) requerente do arresto (620°) herdeiro ou legatário cuja vocação esteja sujeita a
condição resolutiva (2236°) e instituição de herdeiro ou nomeação de legatário feitas com encargos
(2246°).

Processo de prestação de caução - art. 981 ° e ss CPC

A caução por seguro não pode ser prestada pela seguradora-executada - Col. 96-1-268, tal como a caução para
suspender a execução não pode ser prestada pelo próprio Banco executado.
O seguro-caução e o seguro de crédito são regulados pelo Dec-Iei nº 183/88, de 24 de Maio, ao lado dos
seguros de crédito em geral.
O seguro-caução é celebrado com o devedor da obrigação a garantir ou com o contragarante a favor do
respectivo credor (art. 9º, nº 2, do Decreto-Lei nº 183/88), podendo o segurado ceder o direito à indemnização ou transmitir
a sua posição contratual a terceiro, nos termos gerais de direito e nas condições previstas na apólice (art. 9.°, n.° 3, do
Decreto-Lei n.° 183/88).
O seguro de crédito é celebrado pela seguradora com o credor da obrigação segura (art. 9.°, n.° 1, do Decreto-Lei
n.° 183/88) - Calvão da Silva, RLJ 132-381.
Este seguro é rigorosamente formal (art. 8°) e não cobre lucros cessantes ou danos não patrimoniais (art. 12°).
É um seguro por conta de outrem, inserindo-se no esquema formal do contrato de seguro a favor de terceiro.

Nele se distingue:
- o segurador;
- o tomador do seguro que é o devedor ou garante da obrigação; pode ser pessoa diferente do segurado;
- beneficiário - pessoa a favor de quem reverte o direito de ser indemnizado pela seguradora quando incumprido o
contrato pelo tomador.

I - O seguro-caução é um seguro por conta de outrem, inserindo-se assim no esquema formal do contrato de
seguro a favor de terceiro e tal seguro cobre, directa ou indirectamente, o risco de incumprimento de obrigação que, por lei
ou convenção, sejam susceptíveis de caução, fiança ou aval, existindo nesta modalidade de seguro, como pessoas
distintas, o segurador, o tomador do seguro, que é o devedor ou garante da obrigação, e o segurado que é o credor da
obrigação a garantir.
II - No esquema do seguro-caução integra-se o sistema de caução global para desalfandegamento no qual o
despachante oficial (devedor, tomador do seguro) age perante o credor (alfândega, credora, segurada) em nome próprio,
sem poderes de representação da pessoa em nome de quem actua, sendo, por um lado, o despachante e essa pessoa

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(importador) solidariamente responsáveis perante a alfândega e ficando, por outro, o segurador (garante), quando paga à
alfândega as quantias respeitantes aos direitos e demais imposições e eventuais juros de mora pelos quais seja
responsável o despachante oficial, sub-rogado nos direitos da alfândega - Col. STJ, 96-I-143, Ac. de 12.3.96 (Cons.º Sousa
Inês).

Garantia bancária autónoma, à 1ª solicitação, «on first demand»

Além de G. Teles, O Direito, Ano XX (1988), 111-IV, 288, ler o Parecer de A. Costa e P.
Monteiro, na Col. 86-V-15 e o BMJ 453-428, de que se transcreve a parte interessante:

Na cláusula de pagamento à primeira interpelação: ao primeiro pedido do beneficiário da


garantia, o garante é obrigado a pagar imediatamente sem contestação, sem poder exigir a
prova da inadimplência e não obstante a eventual oposição do garantido.
Nesta garantia apenas se admite recusa de pagamento em caso de prova qualificada,
segura e inequívoca da conduta fraudulenta ou abusiva do credor, que a doutrina majoritária
requer documental.
O Prof. Galvão Telles define assim a first demand: é «a garantia pela qual o banco que a presta
se obriga a pagar ao beneficiário certa quantia em dinheiro, no caso de alegada inexecução ou má
execução de determinado contrato (o contrato base), sem poder invocar em seu benefício qualquer
meio de defesa relacionado com esse mesmo contrato» («Garantia bancária autónoma», O Direito, ano
120°, 1988, pág. 281).
Uma outra formulação, mais genérica: «No contrato de garantia, uma parte assegura à outra a
obtenção de determinado resultado ou assume a responsabilidade por um risco ligado a um
empreendimento, respondendo pelos danos causados pela não verificação do resultado ou pela
actuação do risco - sendo autónoma, pois, essa obrigação do garante.»
Comumente concebida com estrutura triangular, ela decompõe-se em três relações distintas:
um contrato-base (de compra e venda, empreitada, fornecimento, etc.) celebrado entre A e B, que
constitui a relação principal; um contrato de mandato, celebrado entre A e C, pelo qual aquele
incumbe este, em geral um banco, de prestar a garantia exigida por B; finalmente, um contrato de
garantia, entre C e B, obrigando-se o garante a pagar a soma convencionada logo que solicitada pelo
beneficiário (B) - (Profs. Almeida Costa e Pinto Monteiro, ob. cit., pág. 19; Fátima Gomes, «Garantia
bancária autónoma à primeira solicitação», Direito e Justiça, vol. VIII, tomo II, 1994, págs. 130 -131;
António Sequeira Ribeiro, em Estudos em Homenagem ao Prof. Galvão Telles, II, 289).
«Diferentemente da fiança, trata-se de uma garantia autónoma, isto é, não acessória, visto não
ser afectada pelas vicissitudes da relação principal, e automática, porque a garantia à primeira
solicitação (modalidade mais generalizada) opera imediatamente, logo que o seu pagamento seja
pedido pelo beneficiário.»
É devida, portanto, «mesmo que a relação principal se mostre inválida e sem que o garante
possa opor ao beneficiário os meios de defesa do devedor, visto que o garante assume uma obrigação
própria, independente (desligada) do contrato base. Nem o devedor pode, por isso, impedir o garante
de prestar a soma acordada logo que o beneficiário a solicite.» (Cfr. Prof. Almeida Costa e Pinto
Monteiro, ob. cit., págs. 19-20; Fátima Gomes, ob. cit.).
«Tudo se passa, tratando-se de uma garantia autónoma à primeira solicitação ... como se o
banco, no momento em que se obrigou perante o beneficiário tivesse depositado à ordem deste o
montante estipulado na garantia. Esta funciona assim como substituto de um depósito de dinheiro ou
de valores à ordem do credor-beneficiário, sem os inconvenientes que a imobilização do dinheiro
acarretaria, não podendo, porém, essa substituição prejudicar o credor».

Proc. 2883/04, 7ª - Col. Jur. STJ 2004-III-55 a 58

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Relator: Cons.º Araújo Barros

1. A garantia bancária autónoma, à primeira solicitação ou on first demand cria uma situação jurídica por força da
qual o garante, ao ser interpelado pelo credor (com ou sem justificação documental conforme acordado), terá de pagar a
quantia garantida, sem discussão, isto é, sem poder contestar o pagamento do que lhe é exigido.
2. O seu significado é o de que o garante (o banco) fica constituído na obrigação de pagar imediatamente, a
simples pedido do beneficiário, sem poder discutir os fundamentos e pressupostos que legitimam o pedido de pagamento,
designadamente, sem poder discutir o incumprimento do devedor nem invocar em seu benefício qualquer meio de defesa
relacionado com o contrato base, celebrado entre o ordenador e o beneficiário.
3. Configura-se, assim, como uma garantia automática, exequível mediante simples, imotivada, ou potestativa
comunicação pelo beneficiário do incumprimento da obrigação principal do mandante.
4. A automaticidade da garantia on first demand não é, porém, absoluta, e a sua actuação ou execução
automática, a possibilidade da sua exigência pelo beneficiário não pode ter-se como ilimitada: há, com efeito, no direito
português, que estabelecer alguns limites à exigência da garantia, sempre que o imponham as regras da boa fé (art. 762°,
nº 2, do C. Civil) ou o procedimento abusivo do beneficiário (art. 334° do mesmo diploma).

«Ou, por outras palavras, "no processo genético de emissão de uma garantia bancária autónoma existe, em
primeiro lugar, um contrato-base, entre o mandante da garantia e o beneficiário, a que se segue um contrato, qualificável
como de mandato, mediante o qual o mandante incumbe o banco de prestar garantia ao beneficiário, e, por último, o
contrato de garantia, celebrado entre o banco e o beneficiário, em que o banco se obriga a pagar a soma convencionada
logo que o beneficiário o informe de que a obrigação garantida se venceu e não foi paga e solicite o pagamento, sem
possibilidade de invocar a prévia excussão dos bens do beneficiário ou a invalidade ou impossibilidade da obrigação por
este contraída",
Não obstante a natureza autónoma da garantia on first demand e a sua actuação ou execução automática, a
possibilidade da sua exigência pelo beneficiário não pode ter-se como ilimitada: há, com efeito, no direito português, que
estabelecer alguns limites à exigência da garantia, sempre que o imponham as regras da boa fé (art. 762º, nº 2, do Cód.
Civil) ou o abuso do direito (art. 334º do mesmo diploma), como, por exemplo, nos casos extremos de manobras tendentes
a enganar o garante ou de procedimento abusivo do beneficiário, designadamente exigindo a garantia em caso de
cumprimento pontual da obrigação do devedor.
É que "o princípio de que o banco deve prestar de imediato a garantia, logo que solicitado pelo beneficiário, sofre,
no entanto, uma excepção: o banco pode, e deve mesmo, recusar-se a pagar a garantia, em caso de fraude manifesta, de
abuso evidente por parte do beneficiário. Compreende-se a razão: há princípios cogentes de todo e qualquer
ordenamento jurídico que devem ser respeitados, não podendo as garantias automáticas violar grosseiramente os aludidos
princípios".
E, indubitavelmente, há que admitir que nas relações bilaterais entre os vários intervenientes no processo de
constituição da garantia, se possam desencadear reacções que visem postergar as actuações abusivas ou ilegítimas de
qualquer dos contraentes.
Deste modo, é inequívoco que, honrada a garantia pelo garante, este pode exigir do ordenador - em nome de
quem, ou por ordem de quem, a garantia é emitida - que lhe restitua o montante da garantia que por ele prestou nos casos
em que da parte daquele tenha havido culpa na eclosão do pressuposto da exigência da garantia pelo beneficiário.
Sendo ainda que, "perante uma garantia de pagamento à primeira solicitação, o garante está obrigado a satisfazê-
Ia de imediato, bastando para tal que o beneficiário o tenha solicitado nos termos previamente acordados. E o devedor que,
depois de reembolsar o garante da importância por este paga ao beneficiário tem o ónus de intentar procedimento judicial
para reaver a referida importância, caso o credor/beneficiário haja procedido sem fundamento".

"O garante paga ao credor sem discutir; depois o devedor tem de reembolsar o garante, também sem
discutir. E será, por último, entre o devedor e o credor que se estabelecerá controvérsia, se a ela houver lugar,
cabendo ao devedor o ónus de demandar judicialmente o credor para reaver o que houver desembolsado, caso a
dívida não existisse e ele portanto não fosse, afinal, verdadeiro devedor".

Ademais, e apesar da natureza automática da garantia on first demand, a sua automaticidade não é absoluta,
assistindo-se, actualmente a um movimento da sua relatividade, através da "admissibilidade do dever (sob pena de perder o
direito de regresso contra o mandante) de oposição pelo garante ao beneficiário da excepção de fraude manifesta ou abuso
evidente deste na execução da garantia, desde que o garante tenha em seu poder prova líquida e inequívoca dessa fraude
ou abuso, ou sejam estes um facto notório", assim como da "admissibilidade da instauração pelo mandante de providências
cautelares, urgentes e provisórias, em sede judicial, destinadas a impedir o garante de entregar a quantia pecuniária ao
beneficiário ou este de a receber, desde que o mandante apresente prova líquida e inequívoca de fraude manifesta ou do
abuso evidente do beneficiário".

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Ora, é isto exactamente que os autores pretendem com a presente acção que se desenrola apenas entre eles,
ordenadores da garantia, e os recorridos, beneficiários. O que intentam - aliás na sequência da providência cautelar que
requereram - é que a beneficiária se não aproveite da garantia, recebendo a soma pecuniária correspondente (ou que a
devolva caso já a haja recebido) porquanto, segundo alegam, não ocorre qualquer situação (como se propõem demonstrar)
que justifique que aquela garantia seja accionada.
Em última análise, a sua intenção é evitar que a beneficiária da garantia a exija quando nenhuma razão válida
existe para tal, em consequência, fazendo-o abusivamente.
É, assim, perfeitamente claro e possível o objecto da acção, não havendo, neste aspecto das relações entre os
ordenadores da garantia e a beneficiária, qualquer motivo para tomar em consideração (salvo se os autores não provarem
os fundamentos que invocam) a natureza automática da garantia bancária on first demand.
Têm pois razão os recorrentes, não podendo manter-se o acórdão recorrido, antes se justificando, como
adequada ao direito, a decisão proferida na 1ª instância que julgou improcedente a excepção peremptória deduzida pela ré.
Sobre a mesma matéria, pode ver-se, ainda, o BMJ 445-497 e o BMJ 499-343; estudo do
Professor Januário Gomes, “A chamada Fiança ao primeiro pedido”, em Estudos em Homenagem
do Prof. Galvão Telles, IV, 833.

Para se saber se em determinado caso estamos perante fiança (bancária) ou garantia autónoma, on first demand,
pode ser necessário interpretar o contrato de garantia bancária, o que se fará com obediência às regras gerais de
interpretação dos negócios jurídicos - art. 236.º a 238.º - que, como se sabe, consagra a teoria da impressão do
destinatário. Analisar-se-ão os termos do negócio, a finalidade prosseguida pelo declarante, as negociações prévias e as
precedentes relações negociais entre as Partes - Col. STJ 00-II-86/87.

Por Ac. de 2.11.2000, na Col. 2000-V-177, a Relação do Porto decidiu que o documento particular que constitui a
garantia bancária, ainda que não automática, constitui título executivo - art. 46°, c), CPC - não podendo o Banco garante
opor ao beneficiário as excepções resultantes do contrato-base.

Por seu Ac. de 27.9.2001, na Col. STJ 2001-III-44, o STJ decidiu, também, que o documento de que consta a
garantia bancária autónoma ou à primeira solicitação deve ser considerado título executivo.

O regime de empreitadas de obras públicas consta hoje do Dec.- Lei n° 18/2008, de 29 de


Janeiro - o Código dos Contratos Públicos – que revogou, além de outros, o Dec.-lei n.º 59/99, de 2 de
Março de 1999.
FIANÇA - 627° a 655°

Fiança - é o vínculo jurídico pelo qual um terceiro (fiador) se obriga pessoalmente perante o
credor, garantindo com o seu património a satisfação do direito de crédito deste sobre o devedor -
627,° 1.
Tem a vantagem de juntar à garantia geral do património do devedor a garantia (especial) do
património de terceiro; mas porque não se trata de garantia real, porque não é dotada de sequela,
característica e força dos direitos reais, absolutos, fica ao sabor das vicissitudes desse património: o
fiador pode ficar na ruína no dia seguinte, de nada valendo a fiança.
A lei não é expressa, mas a doutrina e a jurisprudência há muito se pronunciaram no sentido
de a fiança poder ser constituída não só por contrato, mas também por negócio jurídico unilateral -
628°, 2, 767° e 457° - BMJ 374-457; Contra: H. Mesquita, Col. 86-4-25.

Para quem insista na nulidade por unilateralidade da fiança prestada em termo só subscrito
pelo fiador que não interveio no título donde resulta a obrigação principal, há-de entender-se, com o
STJ - Col. 93-III-122 que

I - A exigência de declaração de vontade expressa e sujeita à forma exigida para a obrigação principal respeita
apenas ao fiador e não também à declaração do outro contraente.
II - O termo de fiança emitido a favor de outrem constitui proposta de contrato; e a recepção pelo destinatário, que
o guarda, integra a aceitação, formando-se por este modo o contrato de fiança.

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III - A lei exige que a vontade de prestar fiança seja expressamente declarada pela forma exigida para a obrigação
principal mas não que o dador de fiança tenha intervenção no título donde resulta a obrigação principal.

Características:

Acessoriedade - 627°, 2 - a fiança apresenta-se como acessória da dívida principal: acessória


no sentido de que a fiança fica subordinada e acompanha a obrigação afiançada.
Daí que
- a fiança não possa ser constituída de forma mais onerosa do que a dívida garantida (artigos
628° e 631°),
- a obrigação do fiador acompanhe a invalidade - a fiança de arrendatário comercial em
documento particular (quando antes se exigia escritura pública para tal arrendamento) é nula - Col. 96-
II-10 - e a extinção da obrigação principal (artigos 632° e 651 ° do Código Civil);
- o fiador pode invocar perante o credor os meios de defesa do afiançado (artigo 637° do
Código Civil).

Esta característica não pode ser afastada por vontade das partes, ao contrário da
Subsidiariedade - 638° e 640° - benefício da excussão.

Declaração expressa de prestar fiança, por escrito ou verbalmente, se a obrigação afiançada


não carecer de forma - 628° 1 - mas a aceitação da fiança pode ser tácita - Col. 89-I-69 e STJ 93-III-
122 acima visto - não se exigindo a intervenção do fiador no título donde resulte a obrigação afiançada.

Fiança genérica ou omnibus - é uma garantia pessoal mediante a qual o fiador garante o
pagamento de todas as dívidas (sem as especificar) de um determinado devedor.
Esta fiança genérica tanto pode garantir o pagamento de obrigações presentes como futuras e
importa, por isso, apreciá-Ias em separado, no que respeita ao problema da sua determinabilidade, à
luz do disposto no artigo 280° do Código Civil, segundo o qual é nulo o negócio cujo objecto seja
indeterminável; Nada obsta a que o objecto do negócio seja indeterminado; o que não pode ser é
indeterminável - 539° e 400°.

Em relação a obrigações já constituídas, a fiança omnibus será válida pois, apesar de


indeterminado o montante afiançado, sempre ele poderá concretizar-se por simples operação
aritmética ou com base num universo determinado (as dívidas existentes à data da fiança ou
contraídas entre certas datas).
Já em relação a obrigações futuras, válida que é a fiança, nos termos dos art. 628°, 2 e 654°,
a maior incerteza tem de ser compensada com uma interpretação mais exigente da determinabilidade
do objecto. Por isso exige-se que, no momento da sua constituição, «seja determinado o título de que a
obrigação futura poderá ou deverá resultar, ou, ao menos, como há-de ele ser determinado».
É nula a fiança de responsabilidades futuras do devedor se estas não estiverem determinadas
ou fixado o critério para a sua concretização no momento da celebração do negócio.
E não é sanável (esta nulidade) mesmo que os fiadores tenham, expressa e antecipadamente,
aceitado aquela responsabilização.
Neste mesmo sentido, vejam-se os Acs. do Supremo, de 21/1/93 - Col. Jur. do S.T.J. 93-I-71, e
de 11.5.93, Col. Jur., S.T.J., Ano 1993, Tomo II, pág. 98 e Col. STJ 94-III-171.

Ac. do STJ (Cons.º Ferreira de Almeida) de 29-04-99, P.º 99B131:

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I - A "fiança geral", ou "fiança omnibus", criada pela prática bancária, surgiu com a finalidade de garantir através
de um terceiro, o fiador, o reembolso dos financiamentos e outros movimentos de capital feitos pelas instituições bancárias
em benefício dos seus clientes.
II - Tal modalidade de fiança possui assim por objecto os direitos de crédito que visa garantir - nos termos do
artigo 628º do CCIV -, tanto se podendo referir a obrigações já constituídas como a obrigações futuras, e caracteriza-se por
apresentar um conteúdo genérico, muito amplo, com um grau de determinabilidade variável.
III - Quando tal fiança, mesmo a prestada no âmbito de financiamentos ou outras operações bancárias, é posterior
ou contemporânea do negócio jurídico que se pretende garantir, normalmente estará afastado o problema da determinação
do objecto, salvas eventuais excepções, na medida em que o crédito a que se reporta é imediatamente referenciado, com
relativa precisão, designadamente quanto á sua origem, prazo, valores máximos, relações intersubjectivas etc.
IV - Nesta última hipótese não é de se considerar nula tal fiança por indeterminabilidade do respectivo objecto nos
termos e para os efeitos do artigo 280º nº 1 do CCIV.
V - No domínio das obrigações futuras é que se questiona com particular acuidade a validade desse tipo de fiança,
mormente quando, face ao grau de abstracção da garantia, se torne impossível ao fiador (mesmo com recurso aos critérios
do artigo 400º do CCIV) conhecer "ab-initio" os contornos e limites máximos da sua obrigação ("tecto" ou "plafond"), ou pelo
menos os critérios objectivos que lhe facultem tal conhecimento, em ordem a proteger o obrigado contra a sua própria
leviandade ou excesso de voluntarismo na assunção de responsabilidades.
VI - Pertencendo o fiador e o afiançado a um mesmo grupo económico, cujos capitais societários são detidos a
100% pela empresa mãe (holding), a admitir-se a genericamente a possibilidade de invocação de nulidade total do negócio
por pretensa indeterminabilidade do seu objecto (para as obrigações pretéritas e futuras) seria abrir a porta ao fácil
torpedeamento dos direitos das entidades credores, mediante conluios sobre "esquemas garantísticos" em nítido abuso do
direito.

Pelo AUJ n° 4/2001, de 23.1.2001, no DR. IA, de 8.3.2001, o STJ fixou jurisprudência no
sentido de que «é nula, por indeterminabilidade do seu objecto, a fiança de obrigações futuras,
quando o fiador se constitua garante de todas as responsabilidades provenientes de qualquer
operação em direito consentida, sem menção expressa da sua origem ou natureza e
independentemente da qualidade em que o afiançado intervenha».

Em importante declaração de voto, o Cons.° Sousa Inês chama a atenção para o facto de o
AUJ pouco ou nada resolver. Diz ele:

«A fiança de obrigações futuras, quando o fiador se constitua garante de todos os débitos que o devedor
afiançado venha a dever ao credor beneficiário, qualquer que seja a sua origem, designadamente os provenientes do
desconto de letras, extractos de factura, livranças ou aceites bancários, não tem, forçosamente, objecto indeterminável, vale
dizer que nem sempre é nula à luz do disposto no artigo 280°, n° 1, do Código Civil.
O objecto de tal fiança é indeterminado, mas determinável, se, no momento em que é prestada, se encontrar
estabelecido um concreto programa negocial entre o credor beneficiário e o devedor afiançado, programa esse conhecido e
querido pelo fiador concedente1, e a obrigação que o credor vier a invocar como garantida pela fiança fizer parte desse
programa, desta sorte servindo o dito programa como critério de determinação do objecto da fiança.
Por isto, só em função de cada obrigação e interpretação do negócio é que será possível alcançar se
determinada fiança geral é nula, por indeterminabilidade do seu objecto.
Acontecerá, até, muitas vezes, que uma concreta fiança geral seja válida como garantia de uma determinada
obrigação e não de outra.
A fiança geral apenas é nula como garantia de obrigação cujo conteúdo seja impossível concretizar de harmonia
com o critério estabelecido pelas partes ao tempo da concessão daquela, ou pela lei, não o sendo em absoluto.
A nulidade não decorre do carácter geral da fiança, mas sim da indeterminabilidade do seu objecto, e é restrita às
obrigações em relação às quais esta indeterminabilidade se verifique.»

1
- É o caso, tão comum nestas situações, do fiador interessado por ser sócio de sociedade comercial
que virá a ser a devedora afiançada, porventura, até, o sócio maioritário, a pessoa que domina a
sociedade como coisa sua, as mais das vezes gerente ou administrador da sociedade afiançada e
que em sua representação irá assumir a obrigação garantida.

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Quando teve em vista a garantia de obrigações futuras, pode o fiador liberar-se da fiança em consequência do
risco proveniente de a situação económica do devedor piorar ou decorrido certo prazo após a sua prestação (artigo 654° do
Código Civil).
Verificado, porém, o condicionalismo do dito artigo 654° a liberação não se dá ipso jure, só podendo o fiador
considerar-se desobrigado desde que comunique o seu propósito à contraparte - BMJ 374-459.

Aval e fiança - O aval, sendo uma garantia, não é uma fiança, não podendo aquele esgotar-se
nesta. A acessoriedade não esgota a sua natureza jurídica. A responsabilidade do avalista não é
subsidiária da do avalizado. O avalista não goza do benefício de excussão prévia, antes responde
solidariamente (47° LULL) com o avalizado e, eventualmente, com outros subscritores da letra. O
fiador goza do beneficio de excussão - art. 638°. F. Correia, Lições, 3°, 201 e 207, RLJ 113-186, BMJ
353-482, Col. 92-4-146.

Por isso se ensina e decide que no art. 53º da LULL, onde se lê «à excepção do aceitante»
deve ler-se «à excepção do aceitante e seu avalista» - BMJ 457-387, 480-482 e Col. Jur. (STJ) 96-III-
125.
«4. 2. - A responsabilidade do fiador.
A questão é, tal como colocada perante a Relação, de saber se é necessária a interpelação do fiador para que lhe
seja exigível cumprimento das obrigações assumidas e garantidas no contrato de fiança.

A Ré afiançada deixou de pagar as prestações, o que era fundamento convencionado de resolução do contrato e
de exigibilidade da indemnização pactuada como cláusula penal que a Autora peticiona do Réu fiador, sem que, antes da
citação para a acção, lhe tenha efectuado qualquer comunicação.

Assim, importa deixar notado, desde já, não estar em causa o vencimento antecipado das prestações contratuais
e perda de benefício do prazo, com a inerente subsunção à previsão dos arts. 781º e 782 C. Civil.
Efectivamente, a A. apenas pediu a indemnização decorrente do incumprimento contratual, embora fundado na
falta de pagamento das prestações, cujo valor, porém, não pediu.

Nenhuma dúvida se coloca quanto à validade e âmbito da fiança do Recorrido – solidária, incluindo a assunção
das obrigações de principal pagador, abrangendo todas as obrigações do afiançado, com renúncia ao benefício de
excussão - sem que se tivesse pactuado qualquer comunicação ou interpelação ao fiador sobre incumprimentos da
devedora principal.

A fiança é uma garantia especial que obriga pessoalmente um terceiro, que é o fiador, perante o credor,
assumindo aquele uma obrigação da mesma natureza da obrigação principal (art. 627º C. Civil).

Assim, como expressamente se estipula no art. 634º do mesmo Diploma, a fiança tem o conteúdo da obrigação
principal e cobre as consequências legais e contratuais da mora ou da culpa do devedor.
Colhe-se do preceito que para que se tenha por incumprida a obrigação e verificada a responsabilidade do fiador
pelo incumprimento, seja pela mora seja por indemnização fundada no incumprimento culposo do devedor principal, não é
necessária a sua interpelação, bastando que esta seja efectuada na pessoa do devedor, salvo se se tiver estipulado
diversamente.

Como se escreveu no acórdão deste Supremo de 12/12/2002, citado pela Recorrente, “a fiança destina-se a
garantir o credor de que obterá o resultado do cumprimento da obrigação principal, pelo que o fiador, tenha ou não atentado
devidamente na responsabilidade que contrai, se obriga, se não estipulou coisa diferente, por aquilo a que o devedor está
obrigado”.

No mesmo sentido da desnecessidade de interpelação do fiador, tutelar do cumprimento da obrigação principal, se


pronunciou também o acórdão de 4/12/2003 (03B3909 – ITIJ).

Conclui-se, assim, pela desnecessidade de interpelação e, em consequência, pela procedência da acção contra o
Réu Recorrido, como fiador, nos mesmos termos em que procedeu contra a co-Ré principal devedora» - Ac. do STJ
(Ex.mo Cons.º Alves Velho) de 1.7.2008, P.º 08A1583.

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Fiança do locatário - 655° revogado pela lei n.º 6/2006, de 27 de Fev.º

GARANTIAS REAIS

Conferem ao credor o direito de se fazer pagar, de preferência a outros credores, pelo valor ou
pelo rendimento de certos e determinados bens do próprio devedor ou de terceiro. São elas a

Consignação de rendimentos - 656° a 665°

É a estipulação pela qual o cumprimento da obrigação é assegurado mediante a atribuição ao


credor dos rendimentos de certos imóveis ou de certos móveis sujeitos a registo, pertencentes ao
devedor ou a terceiro - 656°.
É uma verdadeira garantia, não novação ou dação em cumprimento porque com este contrato
não se substitui nem se extingue a obrigação. Apenas se garante, extinguindo-se a obrigação tão só
quando ocorrer a satisfação total do crédito, quando os rendimentos colhidos pelo credor atingirem o
montante em dívida.
Pouco interesse por rara, sendo forma de pagamento em execução - 879° a 881 CPC.

PENHOR - 666° A 685°

Conceito - 666°, 1
Incide sobre certas coisas móveis ou direitos não inerentes aos imóveis (204°, d) e 205°,
1), como os direitos de crédito, não susceptíveis de hipoteca: direitos de autor, direito ao arrendamento
e créditos hipotecários.
Ao contrário da consignação de rendimentos que apenas abrange os frutos da coisa, o penhor
abrange toda a coisa, é um direito real de garantia numa dupla vertente:
- direito de exigir a venda da coisa empenhada e de
- preferência no pagamento, de prioridade em relação aos demais credores.

A coisa ou direito empenhado tanto pode pertencer ao devedor como a terceiro - 666°, n.° 1 - e
o penhor pode garantir obrigação futura ou condicional - art. 666°, n.° 3.

Penhor de coisas - 669° a 678°

Não depende de forma, mas só produz efeitos pela entrega da coisa ou documento que confira
a exclusiva disponibilidade dela ao credor ou a terceiro - 669°, 1 e 2.
Pode, assim, dizer-se que a publicidade dada aos direitos reais sobre imóveis pelo registo é
aqui substituída pela entrega e posse do credor ou de terceiro.

Penhor de estabelecimento? - entende-se, em geral, que não, atento o constante dos art.
666°, 1 - coisa móvel - e 680° - direito sobre coisas móveis e susceptíveis de transmissão.
Para quem entenda o estabelecimento como objecto de negócios, penhorável (862°A CPC), é
possível o penhor de estabelecimento como universalidade - Parecer da PGR no BMJ 348-116 e voto
de vencido, 427-231 e Col. Jur. 91-III-219.

Por Ac. do S.T.J. de 6-5-1993 (P. 43 114), no BMJ 427-231 decidiu-se que

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I - Um contrato de penhor mercantil que tem por objecto o direito ao trespasse e arrendamento comercial abrange
o próprio estabelecimento comercial.
II - O penhor sobre estabelecimento comercial é permitido porque este não é um bem imaterial.

E por Ac. do S.T.J. de 22-11-1995, no BMJ 451-460:

I - A oneração, por constituição de penhor mercantil, do estabelecimento comercial de uma sociedade por quotas
depende de deliberação dos sócios.
II - O Código das Sociedades Comerciais admite, como forma de deliberação dos sócios, a declaração tácita.
III - Configura deliberação tácita dos sócios a decisão tomada pelos gerentes de uma sociedade por quotas que
são os seus únicos sócios.
IV - É válida a constituição de penhor do estabelecimento comercial de uma sociedade por quotas, por deliberação
dos respectivos gerentes, se o contrato social lhes houver conferido tal poder, ou se eles forem os únicos sócios daquela.
V - Num contrato de constituição de penhor de estabelecimento comercial pode convencionar-se que o credor
poderá pagar-se pela venda judicial de algum ou alguns dos respectivos componentes - com a única limitação consistente
na necessidade de autorização do locador, se estiverem causa o direito ao arrendamento de imóvel.

Legislação especial sobre penhor - mormente dispensando a entrega da coisa - nota ao art.
668°, CC Anotado, dos Prof. P. Lima e A. Varela.

Penhor mercantil e a favor de estabelecimentos bancários - 397° e 398° C. Comercial e Dec.-


Lei n° 29833, de 17.8.39 - dispensa de entrega dos bens, termo de penhor e data da sua autenticação
em caso de concorrência de penhores sobre os mesmos bens - BMJ 352-254.
O penhor não confere ao credor pignoratício o direito à exclusiva execução da coisa
empenhada. Nada impede que outros credores do dono dela promovam execução sobre a coisa, visto
que esta continua a ser propriedade do autor do penhor e responde pelas suas dívidas, embora com a
preferência do credor pignoratício que pode intervir na execução, tal como os demais credores com
garantia real, e pagar-se pelo produto da execução, com a preferência derivada do seu direito de
penhor - STJ Col. 93-I-56.

Por isso, a coisa empenhada pode ser penhorada por outro credor sem que o credor
pignoratício possa deduzir embargos de terceiro contra tal penhora.

De entre os direitos do credor pignoratício - 670° CC - ressalta o de uso das acções


possessórias -1276° e ss CC e 393° a 395° do CPC - restituição provisória de posse.

Porque não é sócio e não tem, portanto, direitos sociais, o credor pignoratício de quotas de sociedade não tem
que consentir na venda de imóveis por essa sociedade - Col. 95-V-292.
Contra: Parecer de Nogueira Serens, na Col. 96-IV-5, entendendo que o direito de voto inerente à quota
empenhada se transferiu para o credor pignoratício.

Nos termos do nº 4 do art. 23º do CSC, os direitos inerentes à participação, em especial os


direitos aos lucros, só podem ser exercidos pelo credor pignoratício quando assim for convencionado
pelas partes.
E como dito no n.º 1 do art. 239º do CSC, a penhora de uma quota abrange os direitos
patrimoniais a ela inerentes, com ressalva do direito a lucros já atribuídos por deliberação dos sócios à
data da penhora e sem prejuízo da penhora deste crédito; o direito de voto continua a ser exercido
pelo titular da quota penhorada.

Revogados pelo Dec-lei n.° 329-A/95, de 12.12, os art. 1033° a 1043° CPC, as acções possessórias regem-se
agora pelo processo comum, com a especialidade dos art. 510°, n.° 5 (o R. invoca a propriedade sem contestar a posse),
art. 661°, 3 (manutenção/restituição) e 351° para os embargos de terceiro.

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Justamente porque o legislador se viu forçado a conceder-lhe a defesa possessória, entende-


se (P. Lima e A. Varela, anotação ao 670°) que o credor pignoratício não é possuidor. Contra: Menezes
Cordeiro e Autores que consideram o arrendatário verdadeiro possuidor.
Com o alargamento aos documentos - título do penhor - da força executiva conferida pelo art.
46°, c), do CPC, desapareceu o processo especial da venda de penhor - 1008° a 1012°CPC, podendo
entrar-se logo na fase executiva com base naquele título de penhor que constituirá título executivo.

Manteve-se o processo da venda antecipada do penhor - 1013°.

Deveres do credor pignoratício - 671° - a violação do dever de diligente guarda da coisa dada
em penhor pode gerar obrigação de indemnizar - Col. 85-II-21.

Penhor de direitos - 679° a 685°

Só é admitido o penhor de direitos quando estes tenham por objecto coisas móveis e
susceptíveis de transmissão - 680°.
Foi admitido o penhor de acções representativas do capital de sociedades - BMJ 299-215 - e
de quotas de sociedades, de acções de S.A. e participações sociais nas sociedades em nome
colectivo e comandita simples, de acordo com o art. 23°, 3, do CSC e conforme Parecer na Col. 96-IV-
5, de Nogueira Serens, com concordância de O. Carvalho.

681° - forma
O penhor de créditos é, em princípio, consensual; mas porque à transmissão dos direitos de
crédito são aplicáveis as regras da cessão de créditos, e há sempre potencial alienação do empenhado
- 577° e ss - o penhor de quotas há-de fazer-se por escritura pública (ou documento particular
autenticado) - tal como o de crédito hipotecário - 578°, 2, CC e al. h) do art. 80º do Cód. do Notariado.
O penhor de créditos só é eficaz pela notificação ou aceitação do devedor, ainda em vista da
publicidade que aqui falta por não haver entrega da coisa.
Estando o penhor sujeito a registo, não há que nos preocuparmos com a publicidade porque
esta resulta do próprio registo. Daí que o penhor produza efeitos desde o registo - 681°, 2 e 2°, 1, i) e
o) do CRP.
HIPOTECA - 686° a 732°

Conceito - 686° 1 - é a garantia real e especial que confere ao credor o direito de se pagar do
seu crédito, com preferência sobre os demais credores, pelo valor de certas coisas imóveis ou
equiparadas, pertencentes ao devedor ou a terceiros.

Depende de registo, mesmo inter partes - 687° e 2°, 1, h) CRP;


se incidir sobre imóveis deve constar de escritura pública (ou documento particular
autenticado) ou testamento - 714°;

- a prioridade temporal afere-se pelo registo - art. 6° CRP - mas as inscrições hipotecárias da
mesma data concorrem entre si, não pelo número de ordem das apresentações correspondentes, mas
sim na proporção dos respectivos créditos – nº 2 do art. 6.º;

- garante o crédito, os acessórios do mesmo, bem como os juros dos últimos três anos, desde
que no registo se tenha feito menção a todos estes aspectos - art. 693°, podendo executar-se juros de
mais de três anos mas sem garantia hipotecária - Col. 79-V-1618.

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- Enquanto não registada, a hipoteca não produz qualquer efeito.

- Se a hipoteca foi constituída antes da venda efectuada pelo devedor, mas o adquirente
registou a aquisição antes de o credor registar a hipoteca, prevalece o direito do adquirente.

- A venda feita com reserva de propriedade é uma venda sujeita a condição suspensiva: a
propriedade só se transfere se verificada a condição.
Se a condição da reserva de propriedade vem a verificar-se antes de instaurada execução
baseada na hipoteca, a hipoteca registada deixou de ser título executivo oponível ao adquirente da
propriedade - art. 274° CC - Col. 93-IV-231 e BMJ 444-609, a propósito dos actos pendente
conditione.

- Se os juros contratuais são diferentes dos levados ao registo prevalece a taxa de juros
registada - BMJ 360-605.

Visto o art. 60° do Dec-lei n° 48953, e 694/70, de 31 de Dezembro, entendeu-se que a Caixa Geral de Depósitos
tinha garantia hipotecária por juros de três anos, à taxa legal, mesmo sem registo dos juros - BMJ 395-551.
Estas prerrogativas referentes a juros da Caixa Geral de Depósitos e instituições anexas desapareceram com os
novos estatutos, aprovados pelo Decreto-lei n° 287/93, de 20 de Agosto, que revogou os diplomas antes mencionados.

Sobre o conceito de acessórios - RLJ 113°-190: entre outros, os juros, despesas de


constituição e registo, cláusula penal; tudo o que é preciso para que terceiros possam ter
conhecimento, pelo registo, do valor do encargo que onera a coisa hipotecada.
Porque não tem que figurar na inscrição hipotecária não tem que ser levada ao registo a
cláusula de vencimento imediato do capital no caso de venda da coisa hipotecada. Por isso tal cláusula
(695°) é oponível ao adquirente mesmo que não conste do registo.

Acessoriedade da hipoteca: 730°, a) - extinção da obrigação garantida;

Proibição do pacto comissório - 694°, aplicável ao penhor: o credor há-de executar, não
pode fazer sua a coisa hipotecada, salvo por adjudicação em execução e de acordo com as regras dos
art. 875° e ss CPC, ou se lhe for dada em pagamento - 837°.

Legitimidade passiva em execução - 56°, 2, CPC: a execução deve ser instaurada sempre
contra o terceiro que deu o bem de hipoteca, podendo também demandar-se o devedor, atento o
disposto no art. 835° CPC: Tratando-se de dívida com garantia real que onere bens pertencentes ao
devedor, a penhora começa, independentemente de nomeação, pelos bens sobre que incida a garantia
e só pode recair noutros quando se reconheça a insuficiência deles para conseguir o fim da execução.

O mesmo resulta dos n.ºs 2 e 3 do art. 56º CPC:

2 – A execução por dívida provida de garantia real sobre bens de terceiro seguirá
directamente contra este, se o exequente pretender fazer valer a garantia, sem prejuízo de
poder desde logo ser também demandado o devedor.
3 – Quando a execução tenha sido movida apenas contra o terceiro e se reconheça a
insuficiência dos bens onerados com a garantia real, pode o exequente requerer, no mesmo
processo, o prosseguimento da acção executiva contra o devedor, que será demandado para
completa satisfação do crédito exequendo.

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Já antes da nova redacção do n.° 2 do art. 56° entendia-se haver litisconsórcio necessário do
devedor e do terceiro hipotecante - BMJ 335-259.

Objecto - 688° a 691 - Exclusão da meação dos bens comuns do casal e de quota de herança
indivisa - 690°.

Extensão (691°) e Indivisibilidade - 696°

I - Por força da indivisibilidade da hipoteca o credor hipotecário pode, quando ela tenha sido
constituída sobre várias coisas ou partes autónomas de coisas, ou quando ela se tenha formado sobre
uma coisa posteriormente dividida em várias coisas novas ou partes autonomizadas de coisa, executá-
la, por inteiro, sobre qualquer delas, à sua escolha.
II - Ainda por força da indivisibilidade, havendo créditos hipotecários divididos, qualquer dos
credores pode executar a hipoteca, na totalidade, para satisfação do remanescente.
III - Por estar em causa um interesse privado disponível a indivisibilidade pode ser afastada por
cláusula em contrário.
IV - A hipoteca sobre um terreno alarga-se ao edifício, quando haja, depois, uma construção;
ocorrendo uma posterior constituição do regime de propriedade horizontal a hipoteca onera cada um
dos direitos daí resultantes, pela totalidade do débito garantido.
V - Quando a hipoteca tenha sido constituída sobre o prédio global antes de ter sido colocado
em propriedade horizontal, a expurgação só pode ser levada a cabo por algum ou alguns dos
condóminos quando - ressalvada a hipótese de acordo prévio ou superveniente, em contrário - seja
satisfeita a totalidade do crédito hipotecário ou quando eles ofereçam o próprio valor dos seus direitos -
Parecer de O. Ascensão e M. Cordeiro, na Col. 86-V-35, aplicado nas decisões publicadas na Col. 93-
I-31, no BMJ 436-349 e Col. 97-I-14, que decidiu:

constituído em propriedade horizontal um prédio previamente hipotecado não pode cada


condómino expurgar a sua fracção pagando a percentagem correspondente à sua fracção no titulo
constitutivo.
Por forca da regra da indivisibilidade, mesmo após a constituição da proprie dade horizontal,
continua cada fracção a responder pela totalidade dá hipoteca.

No mesmo sentido decidiu o STJ, em Acórdãos de 14.10.97, no BMJ 470-506 e de 22.4.97,


assim sumariado no BMJ 466-460:

EXPURGAÇÃO DE HIPOTECA
PRÉDIO RÚSTICO
CONSTRUÇÃO DE IMÓVEL PROPRIEDADE HORIZONTAL

I - Quando a hipoteca tenha sido constituída sobre o prédio global, antes de ele ter sido colocado em propriedade
horizontal, a expurgação só pode ser levada a cabo por algum - ou alguns - dos condóminos quando seja satisfeita a
totalidade do crédito hipotecário ou quando eles ofereçam o próprio valor dos seus direitos; fica ressalvada a hipótese de
acordo prévio ou superveniente em contrário.
II - Para além do seu apoio directo na lei e na ratio legis, esta solução deriva da prevalência dos direitos reais,
entre si, por antiguidade, e da inoponibilidade do título constitutivo da propriedade horizontal aos titulares de direitos reais
anteriormente formados sobre a coisa.
III - Por fim, o título constitutivo da propriedade horizontal determina o valor relativo das fracções autónomas, o
credor hipotecário não intervém nesse titulo; assim, a não ser a indivisibilidade, o credor hipotecário, numa eventual

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expurgação, ficaria sujeito a indicações de valor a ele estranhas, que podem não corresponder ao valor real relativo das
fracções e que podem mesmo em teoria ter sido congeminados com o fito de defraudar o seu direito.

Conforme Parecer da P.G.R., de 23.11.67, no BMJ 177-97,

I - Quer em face do artigo 891 ° do Código Civil de 1867, quer perante o artigo 691.° do Código vigente, a
hipoteca, constituída sobre um terreno, estende-se ipso jure aos edifícios nele posteriormente incorporados;
II - Por identidade ou maioria de razão, a hipoteca abrange igualmente as construções urbanas em terreno obtido
por demolição de outras e os novos andares assentes nos que já existiam à data da constituição da garantia.

EXECUÇÃO HIPOTECÁRIA
Terreno para construção
Prédio construído em propriedade horizontal
Indivisibilidade da hipoteca
Ac. do STJ de 12.2. 2004, na Col. Jur. STJ 04-I-67

I - Se há, para garantia de uma determinada dívida, uma hipoteca incidindo sobre um terreno para construção e
se, sobre esse terreno, é construído um prédio em propriedade horizontal, há uma nova realidade predial que surge.
II - Em tal caso, a hipoteca transfere-se para a nova realidade predial, e transfere-se por forma em que cada uma
das fracções garante a totalidade do crédito.
III - Naturalmente, do crédito em dívida - aquela parte do crédito que já está satisfeita é uma parte que já não
existe, extinguiu-se pelo pagamento.
IV - O art. 696° do Cód. Civil, que estabelece a regra da indivisibilidade da hipoteca, começa exactamente pela
expressão "salvo convenção em contrário" - é essa "convenção" que se verifica quando o credor aceita o distrate da
hipoteca sobre uma determinada fracção, normalmente contra o pagamento da parte proporcional do crédito (ainda) em
dívida.
V - Essa parte proporcional é estabelecida, na transição daquilo que era o terreno para construção para o prédio
em propriedade horizontal, através da fixação das permilagens do novo prédio.
Comentário desfavorável ao assim decidido (Isabel Meneres Campos) em CDP, nº 9, pág.15.

Espécies de hipotecas – 703:

legais - 704° a 709º CC; 887°, n.ºs 2 e 3, do CPC, (dispensa de depósito a credores na venda
em execução) - apesar de resultarem directamente da lei, continuam sujeitas a registo que nestas
hipotecas é o berço da garantia, enquanto que nas demais é condição de eficácia.
Judiciais - 710° e 711° - a hipoteca judicial não é mais que uma penhora antecipada - RLJ
114-349.
Voluntárias - 712° a 717° - nascem de contrato ou de declaração unilateral, integrada depois
pelo requerimento do seu registo pelo credor.

A constituição ou modificação de hipoteca voluntária sobre imóveis deve constar de escritura


(ou documento particular autenticado) ou testamento - 714°.

«4. 2. - O regime jurídico relativo à legitimidade substantiva para outorga no contrato de hipoteca na posição de
garante encontra-se consagrado no art. 715º do C. Civil, onde se estatui que só tem legitimidade para hipotecar quem puder
alienar os respectivos bens (artigo 715º do Código Civil).
Fica, pois, bem claro que só pode constituir hipoteca o sujeito de direito que goze de poderes de disposição sobre
o bem o direito que, pelo contrato, se onera.
A lei não declara directamente qual a consequência jurídica da outorga em contrato de hipoteca, na posição de
garante, de quem não tenha legitimidade substantiva para a respectiva alienação, mas decorre dos princípios e normas
jurídicas que, em relação à pessoa efectivamente detentora dessa legitimidade se há-de ter como ineficaz o contrato de
hipoteca.
Com efeito, prescreve ela que as normas concernentes aos contratos de compra e venda se aplicam aos
contratos onerosos pelos quais se alienem bens ou estabeleçam encargos sobre eles, na medida em que sejam conformes
com a sua natureza e não estejam em contradição com as respectivas disposições legais - artigo 939º do Código Civil.

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Por de contrato oneroso se tratar, ao contrato de hipoteca serão então aplicáveis, por via deste art. 939º, as
normas reguladoras dos efeitos do contrato de compra e venda de coisa alheia como própria que se não revelem
incompatíveis com a sua natureza (art. 904º).
A constituição de hipoteca surge, assim, equiparada à alienação da coisa, aplicando-se-lhe, consequentemente,
as mesmas regras.
Ora, o art. 892º C. Civil fulmina de nulidade o contrato de compra e venda de bens alheios sempre que o vendedor
careça de legitimidade para a realizar, acrescentando que o vendedor não pode opor a nulidade ao comprador de boa fé,
assim como o comprador doloso a não pode opor ao vendedor de boa fé» - Ac. do STJ (Ex.mo Cons.º Alves Velho) de
6.5.2008, no Pr.º 08A1056.

Redução, em especial judicial, da hipoteca - 718° a 720° - É admitida, em geral, a redução


nas hipotecas legais e judiciais porque nestas verifica-se a indeterminação dos bens sobre que incidem
e nenhuma intervenção teve o devedor na sua constituição.

Nas hipotecas voluntárias, a redução só é admitida nos casos do n° 2 do art. 720°:


- redução da dívida a menos de dois terços ou
- aumento do valor da coisa em mais de um terço, à data da constituição da hipoteca - BMJ
436-349.

Expurgação - 721°, Parecer e Col. 97-I-14, atrás referidos.


Atenção à redacção do n.° 4 do art. 830°, dada pelo Dec-Lei n° 379/86 de 11.11.

Transmissão - 727° a 729°.

Extinção - 730° a 732° - Além das previstas no art. 730°, é causa de extinção da hipoteca a
transmissão em processo executivo - 824°, 2, e BMJ 383-545.

No perecimento da coisa hipotecada não se inclui o desmoronamento do edifício sobre cujas fracções autónomas
haviam sido constituídas hipotecas porque se mantém o solo que continua a responder pelas dívidas hipotecárias - Col.
STJ 94-III134.

PRIVILÉGIOS CREDITÓRIOS - 733° a 753°

Conceito - 733° - faculdade que a lei, em atenção à causa, à natureza, à origem do crédito,
concede a certos credores, independentemente do registo, de serem pagos com preferência a outros.

Acessórios - 734° - juros dos dois últimos anos.

Porque valem independentemente do registo e, se imobiliários, são oponíveis a terceiros e


preferem à consignação de rendimentos, à hipoteca ou ao direito de retenção, ainda que estas
garantias sejam anteriores ao privilégio (art. 751°), constituem um perigo grave para a navegação
comum do comércio jurídico, podendo atingir seriamente os terceiros que contratam com o devedor, na
ignorância da sua existência e dos seus reflexos sobre a garantia patrimonial por ele oferecida.
Daí que a lei de introdução - art. 8° do Dec-lei nº 47344, de 25 de Novembro - do CC tenha
acabado com os privilégios não conferidos pelo Código.

Foi sol de pouca dura porque rapidamente leis extravagantes criaram novos privilégios,
nomeadamente privilégio mobiliário geral – art. 10º - imobiliário geral a favor dos créditos da
Segurança Social - 11° do Dec.- Lei n° 103/80, de 9 de Maio, - e do IRS - art. 104° do respectivo
Código, aprovado pelo Dec-lei n.° 442A/88, de 30 de Novembro, 111° na redacção dada pela Lei n.°

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198/2001, de 2 de Julho, quando era da natureza do privilégio imobiliário ser sempre especial - 735°, nº
3.

Espécies: 735° - mobiliários e imobiliários, conforme incidem sobre móveis ou imóveis,


sendo aqueles gerais ou especiais consoante abrangem todas ou só determinados bens do devedor -
n° 2 - sendo, na pureza dos princípios, os imobiliários sempre especiais - n° 3.
Em caso de concorrência de privilégios entre si, regem os art. 745° a 748°, mas deve
atender-se aos créditos da Segurança Social e aos regulados em outras leis avulsas que são pagos
logo a seguir aos créditos do Estado e das autarquias ou nos termos regulados em tais leis avulsas.
As coisas complicam-se quando há várias garantias a concorrer aos mesmos bens. Em tal
caso e no apenso de concurso de credores o Juiz graduá-los-á, tendo em conta a preferência conferida
por cada garantia – art. 864º a 871º do CPC.

Deve ver-se o “Concurso de Credores” do Cons.º Salvador da Costa.

Quanto aos créditos de trabalhadores é (era, antes da entrada e vigor do C. Trabalho) de


atender ao dito na Lei 17/86, de 14 de Junho (Lei dos salários em atraso), reforçado pela Lei nº
96/2001, de 20 de Agosto.

É do seguinte teor o artigo 12.° desta Lei 17/86:

(Privilégios creditórios)
1 - Os créditos emergentes de contrato individual de trabalho regulados pela presente lei gozam dos seguintes
privilégios:
a) - Privilégio mobiliário geral;
b) - Privilégio imobiliário geral.
2 - Os privilégios dos créditos referidos no n.° 1, ainda que resultantes de retribuições em falta antes da entrada
em vigor da presente lei, gozam de preferência nos termos do número seguinte, incluindo os créditos respeitantes a
despesas de justiça, sem prejuízo, contudo, das privilégios anteriormente constituídos, com direito a ser graduados antes da
entrada em vigor da presente lei.
3 - A graduação dos créditos far-se-á pela ordem seguinte
a) - Quanto ao privilégio mobiliário geral, antes dos créditos referidos no n.° 1 do artigo 747.° do Código Civil, mas
pela ordem dos créditos enunciados no artigo 737.° do mesmo Código;
b) - Quanto ao privilégio imobiliário geral, antes dos créditos referidos no artigo 748.° do Código Civil e ainda dos
créditos de contribuições devidas á Segurança Social.
4 - Ao crédito de juros de mora é aplicável o regime previsto no número anterior.

A Lei nº 96/2001, de 20 de Agosto, reforçou os créditos dos trabalhadores, dando nova


redacção ao art. 12º da Lei nº 17/86 e acrescentando o regime criado pelo art. 4º:

«O artigo 12º da Lei Nº 17/1986, de 14 de Junho, passa a ter a seguinte redacção:

«Artigo 12º [...]

1 - ..........................................
2 - Os privilégios dos créditos referidos no Nº 1, ainda que resultantes de retribuições em falta antes da entrada
em vigor da presente lei, gozam de preferência nos termos do número seguinte, incluindo os créditos respeitantes a
despesas de justiça.
3 - ..........................................
4 - .........................................»

Artigo 3º - Aplicação imediata

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A alteração constante do artigo anterior tem aplicação imediata às acções pendentes em que não tenha havido
sentença de verificação e graduação de créditos.

Artigo 4º - Créditos dos trabalhadores exceptuados da Lei nº 17/86, de 14 de Junho

1 - Os créditos emergentes de contrato de trabalho ou da sua violação não abrangidos pela Lei Nº 17/1986, de 14
de Junho, gozam dos seguintes privilégios:

a) Privilégio mobiliário geral;


b) Privilégio imobiliário geral.

2 - Exceptuam-se do disposto no número anterior os créditos de carácter excepcional, nomeadamente as


gratificações extraordinárias e a participação nos lucros das empresas.
3 - Os privilégios dos créditos referidos no Nº 1, ainda que sejam preexistentes à entrada em vigor da presente lei,
gozam de preferência nos termos do número seguinte, sem prejuízo, contudo, dos créditos emergentes da Lei Nº 17/1986,
de 14 de Junho, e dos privilégios anteriormente constituídos com direito a ser graduados antes da entrada em vigor da
presente lei.
4 - A graduação dos créditos far-se-á pela ordem seguinte:

a) Quanto ao privilégio mobiliário geral, antes dos créditos referidos no Nº 1 do artigo 747º do Código Civil, mas
pela ordem dos créditos enunciados no artigo 737º do mesmo Código;
b) Quanto ao privilégio imobiliário geral, antes dos créditos referidos no artigo 748º do Código Civil e ainda dos
créditos devidos à segurança social.

5 - Ao crédito de juros de mora é aplicável o regime previsto no artigo anterior.

Ver Ac. do STJ de 25.10.2005, na Col. Jur. 2005-III-86:

Sumário :
I - O art.º 751º do Cód. Civil contém um princípio geral insusceptível de aplicação ao privilégio imobiliário
geral, por este não incidir sobre bens determinados, pelo que não está envolvido de sequela.
II - Assim, os direitos de crédito garantidos por tais privilégios cedem perante direitos de crédito
garantidos por hipoteca.

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça:

Por sentença proferida em 22/6/98, foi declarada a falência de A - Companhia Internacional de Electrónica, S.A.
Aberto concurso de credores, foram reclamados os créditos seguintes:

Proferida a sentença, foram julgados reconhecidos os créditos reclamados, acima enumerados, tendo-se
procedido à sua graduação nos seguintes termos:

1º - As custas, aí se incluindo as despesas de administração, saem precípuas do produto da liquidação da massa


falida;
2º - Do remanescente, pelo produto da venda de todos os bens móveis e imóveis da falida, pagar-se-ão pela
seguinte ordem:
em primeiro lugar, os créditos reclamados pelos ex-trabalhadores da falida P, Q, T, V, X, AG, Z, AH e AA (créditos
n.ºs 19, 21, 24, 28, 30, 31, 33, 34 e 39);
em seguida, pelo produto dos bens móveis e dos créditos recuperados, todos os restantes créditos, já que não
beneficiam de quaisquer privilégios;
pelo produto da liquidação dos bens imóveis garantidos pelas respectivas hipotecas, o crédito do Banco C
(actualmente B.C.P.), o do B.E.S.C.L., o do B.I.C., e o do B.C.P.;
pelo remanescente e pelos demais bens, os restantes créditos não privilegiados.

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Apelou o Banco Comercial Português, que além do mais invocou inconstitucionalidade do art.º 12º da Lei n.º
17/86, de 14/6, quando interpretado no sentido de que o privilégio imobiliário geral nele conferido aos créditos emergentes
do contrato individual de trabalho prefere à hipoteca, nos termos do art.º 751º do Cód. Civil.
A Relação concedeu provimento a esse recurso e graduou os créditos, na parte objecto da apelação,
relativamente ao produto da venda dos bens hipotecados a favor do B.C.P., colocando em primeiro lugar os créditos
garantidos por hipoteca reclamados pelo B.C.P., seguindo-se-lhe os créditos dos trabalhadores, e finalmente os demais
créditos não privilegiados.
Tendo o M.º P.º recorrido para o Tribunal Constitucional sobre a dita questão da inconstitucionalidade, que a
Relação entendera existir, aquele Tribunal, concedendo provimento a esse recurso, decidiu não julgar inconstitucional a dita
norma do art.º 12º, mencionado, n.º 1, na interpretação apontada, revogando nessa parte a decisão ali recorrida, que
deveria em consequência ser reformulada de acordo com o juízo então feito de não inconstitucionalidade.
Por isso foi proferido na Relação novo acórdão, nele se tendo julgado então, face ao decidido pelo Tribunal
Constitucional nos termos acima referidos, improcedente a apelação, confirmando-se a sentença da 1ª instância.
É desse novo acórdão da Relação que vem interposta a presente revista, pelo B.C.P., que, em alegações,
formulou as seguintes conclusões:

Em contra alegações, quer o M.º P.º, quer o credor P, pugnaram pela confirmação do acórdão recorrido.

Colhidos os vistos legais, cabe decidir, tendo em conta que os factos assentes com interesse para decidir a
questão suscitada pelo recorrente nas suas alegações do presente recurso são os seguintes:

1º - Os créditos reclamados pelos ex-trabalhadores da falida, P, Q, T, V, X, AG, Z, AH, e AA (créditos n.ºs 19, 21,
24, 28, 30, 31, 33, 34 e 39), respeitam a remunerações laborais não pagas pela falida e a indemnizações;

2º - Os créditos reclamados, e reconhecidos, pelo Banco Comercial Português, encontram-se garantidos por
hipotecas voluntárias constituídas em data anterior aos créditos dos trabalhadores sobre os imóveis apreendidos até aos
montantes máximos de 23.400.000$00 (fracções A e B de Santiago do Cacém - verba n.º 3), de 34.542.720$00 (fracção A
de Casais de Cambra constante do auto de apreensão e que corresponde à verba n.º 2), de 552.720.000$00 (fracção G
(Lisboa) constante do auto de apreensão e que corresponde à verba n.º 4), e de 474.000.000$00 (fracção H (Lisboa)
constante do auto de apreensão e que corresponde à verba n.º 4).

Decidido definitivamente neste processo, pela entidade com a última palavra a este respeito - Tribunal
Constitucional -, não haver inconstitucionalidade do disposto no art.º 12º, n.º 1, da Lei n.º 17/86, de 14/6, quando
interpretado no sentido de o privilégio imobiliário geral nele conferido aos créditos emergentes do contrato individual de
trabalho prevalecer sobre a hipoteca, mesmo que anteriormente registada, há que decidir se, à luz da lei ordinária, tal
privilégio prefere efectivamente à hipoteca, como o entenderam a sentença da 1ª instância e o acórdão recorrido, ou se, ao
invés, cede perante esta.
Tal é a questão suscitada pelo recorrente.
Encontra-se reconhecido que os aludidos créditos dos trabalhadores gozam de privilégio imobiliário geral, ao
abrigo do disposto no art.º 12º, n.º 1, al. b), da Lei n.º 17/86, de 14/6, ao passo que os créditos do ora recorrente se
encontram garantidos por hipoteca registada anteriormente à declaração de falência.
Nos termos do art.º 686º, n.º 1, do Cód. Civil, a hipoteca confere ao credor o direito de ser pago pelo valor de
certas coisas imóveis ou equiparadas pertencentes ao devedor ou a terceiro, com preferência sobre os demais credores
que não gozem de privilégio especial ou de prioridade de registo.
Por sua vez, o privilégio creditório é a faculdade que a lei, em atenção à causa do crédito, concede a certos
credores, independentemente do registo, de serem pagos com preferência a outros (art.º 733º do mesmo Código). Trata-se
de uma garantia que visa assegurar dívidas que, pela sua natureza, se encontram especialmente relacionadas com
determinados bens do devedor, justificando-se por isso que sejam pagas de preferência a quaisquer outras, até ao valor
dos mesmos bens.
Os privilégios creditórios podem ser, como se vê do disposto no art.º 735º, n.º 1, do Cód. Civil, de duas espécies:
mobiliários ou imobiliários. Os mobiliários são gerais, se abrangem o valor de todos os bens móveis existentes no
património do devedor à data da penhora ou acto equivalente, ou especiais, quando compreendem só o valor de
determinados bens móveis (n.º 2 do citado art.º 735º). Já os privilégios imobiliários, segundo o n.º 3 do mesmo artigo, eram
sempre especiais.
Apesar do disposto neste n.º 3, alguns diplomas avulsos posteriores à publicação do Cód. Civil vieram criar
privilégios imobiliários gerais.
É precisamente o caso da Lei n.º 17/86, de 14/6, que no seu art.º 12º dispõe que os créditos emergentes de
contrato individual de trabalho, regulados por essa Lei, gozam de privilégio imobiliário geral (n.º 1, al. b), graduando-se

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antes dos créditos referidos no art.º 748º do Cód. Civil e ainda antes dos créditos por contribuições devidas à Segurança
Social (n.º 3, al. b).
Mais recentemente, também a Lei n.º 96/2001, de 20/8, estabeleceu no seu art.º 4º que os créditos emergentes de
contrato de trabalho ou da sua violação não abrangidos pela Lei n.º 17/86 gozam de privilégio imobiliário geral (n.º 1, al. b),
graduando-se antes dos créditos referidos naquele art.º 748º e ainda dos créditos da Segurança Social (n.º 4, al. b).
Ora, quanto à eficácia dos privilégios creditórios em relação a terceiros, ou seja, ao conflito entre direitos dos
credores e direitos de terceiro estabelecidos sobre os bens que constituem objecto do privilégio, há que distinguir entre
privilégios mobiliários e imobiliários.
Sobre tal questão, ensina o Prof. Almeida Costa, in "Direito das Obrigações", 8ª edição, pág. 897, que, quanto aos
privilégios mobiliários, os art.ºs 749º e 750º do Cód. Civil fixam as seguintes soluções:
"Tratando-se de privilégio geral, este não vale contra terceiros que sejam titulares de direitos oponíveis ao credor
exequente, quer dizer, que não possam abranger-se na penhora; mas, tratando-se de privilégio especial, como a garantia
incide sobre determinados bens, o legislador adoptou o critério da prioridade da constituição".
"Apura-se, deste modo, que os privilégios mobiliários gerais não conferem ao respectivo titular o direito de sequela
sobre os bens em que recaiam (art.º 749º). Daí que se devam excluir da categoria das verdadeiras garantias reais das
obrigações. Apenas existe algo de parecido com a eficácia própria dos direitos reais, enquanto o titular do privilégio goza de
preferência, na execução, relativamente aos credores comuns do devedor".
"Pelo que toca aos privilégios imobiliários, determina o art.º 751º que "são oponíveis a terceiros que adquiram o
prédio ou um direito real sobre ele; e, em confronto com as outras garantias reais (consignação de rendimentos, hipoteca ou
direito de retenção), o privilégio prevalece, ainda mesmo que estas, sendo caso disso, se encontrem registadas e tenham
data anterior".
Acrescenta, porém, logo de seguida, na pág. 898, o mesmo ilustre Professor: "Claro que a referida disciplina só
abrange os privilégios imobiliários especiais. Foram estes que o legislador do Código Civil teve em conta".(Isto, claro,
acrescentamos nós, porque só admitia privilégios imobiliários especiais). Assim, "às hipóteses que possam verificar-se de
privilégios imobiliários gerais, criadas posteriormente, aplica-se o regime, há pouco indicado, dos correspondentes
privilégios mobiliários (art.º 749º). Também não se qualificando, pois, como garantias reais das obrigações. Constituem
meros direitos de prioridade que prevalecem, contra os credores comuns, na execução do património debitório".
No mesmo sentido se pronuncia o Prof. Menezes Cordeiro ("Direito das Obrigações", 2º Vol., págs. 500/501),
quando escreve:
"A figura do privilégio imobiliário geral foi introduzida na nossa ordem jurídica pelo Dec. - Lei n.º 512/76, de 16 de
Junho, em favor de instituições de previdência.
Este diploma não indica o regime concreto dos privilégios imobiliários gerais que veio criar.
Pensamos, no entanto, que o seu regime se deve aproximar do dos privilégios gerais (mobiliários) que consta do
Código Civil.
Isto porque, dada a sua generalidade, não são direitos reais de garantia - não incidem sobre coisas corpóreas,
certas e determinadas - nem, sequer, verdadeiros direitos subjectivos, mas tão só preferências gerais anómalas.
Assim sendo, deve ser-lhes aplicado o regime constante do art.º 749 do Cód. Civil: nomeadamente, eles não são
oponíveis a quaisquer direitos reais anteriores ou posteriores aos débitos garantidos".
Ainda no mesmo sentido se pronuncia A. Luís Gonçalves ("Privilégios Creditórios, Evolução Histórica, Regime e
sua Inserção no Tráfico Creditício", in Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Vol. LXVII, pág. 7).
Entende-se, assim, que o referido art.º 751º do Cód. Civil contém um princípio geral insusceptível de aplicação ao
privilégio imobiliário geral, por este não incidir sobre bens determinados e pelo facto de os privilégios imobiliários gerais não
serem conhecidos aquando do início da vigência do actual Código Civil, o que implicava que, dizendo o n.º 3 do art.º 735º
que os privilégios imobiliários eram sempre especiais, só a privilégios imobiliários especiais o art.º 751º se podia referir, só
estes, portanto, preferindo à hipoteca, aliás de harmonia com a referência aos privilégios especiais feita no dito art.º 686º,
n.º 1. Não se compreenderia sequer que o legislador, perante a delicadeza da questão, se pretendesse integrar os
privilégios imobiliários gerais no regime do art.º 751º, não procedesse à alteração radical de regime que tal determinaria no
que respeita àqueles n.º 3 do art.º 735º e n.º 1 do art.º 686º, deixando subsistir enormes dúvidas susceptíveis de provocar
grave insegurança no comércio jurídico e concorrendo para defraudar legítimas expectativas dos credores hipotecários, por
ele próprio criadas. Logo, se não produziu tal alteração, só pode ser porque não quis integrar os privilégios imobiliários
gerais no regime do citado art.º 751º.
E tanto é assim que, entretanto, o Dec-Lei n.º 38/03, de 8/3, veio dar nova redacção ao dito art.º 751º, que passou
a referir apenas, de forma expressa, os privilégios imobiliários especiais: ou seja, apenas estes, e não os gerais, é que
preferem à consignação de rendimentos, à hipoteca ou ao direito de retenção.
Tal diploma veio, pois, decidir a questão já então controvertida de saber quais dos créditos ora em causa devem
ser graduados em primeiro lugar, questão essa forçosamente conhecida do legislador e que este quis resolver excluindo
explicitamente do art.º 751º os privilégios imobiliários gerais. Assim, constitui esta nova formulação uma norma de natureza

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interpretativa, que, nos termos do art.º 13º, n.º 1, do Cód. Civil, se integra naquele dispositivo e, consequentemente, nas leis
que atribuíram aos créditos laborais privilégio imobiliário geral.
Conclui-se, pois, que os privilégios imobiliários gerais se traduzem em meras preferências de pagamento, só
sendo susceptíveis de prevalecer em relação a titulares de créditos comuns, pois, não incidindo eles sobre bens
determinados, - pelo que não estão envolvidos de sequela -, o regime aplicável tem de ser o dos privilégios mobiliários
gerais a que se reporta o art.º 749º do Código Civil, cedendo os direitos de crédito por eles garantidos perante os direitos de
crédito garantidos por hipoteca.
Daí que os créditos do recorrente, encontrando-se garantidos por hipoteca, anteriormente registada, hão-de gozar
de prioridade, na sua graduação, sobre os créditos dos trabalhadores, que beneficiam de privilégio imobiliário apenas geral
conferido pelo mencionado art.º 12º, n.º 1, al. b), tal como foi decidido, entre outros, nos acórdãos deste Supremo Tribunal
de 3/4/2001, 19/3/02, 25/6/02, 3/4/03, 13/5/04, 22/6/04, 26/10/04 e13/1/05, os cinco últimos, pelo menos, susceptíveis de
fácil consulta na Internet.

Entende-se, por isso, assistir razão ao recorrente.

Pelo exposto, acorda-se em conceder a revista, revogando-se o acórdão recorrido e graduando-se os créditos
reclamados e reconhecidos, no que respeita ao produto dos bens objecto da hipoteca constituída a favor do recorrente, nos
mesmos termos, embora com diferente fundamentação, em que foram graduados pelo primeiro acórdão da Relação.
Custas pela massa falida.

Lisboa, 25 de Outubro de 2005


Silva Salazar,
Ponce de Leão,
Afonso Correia (vencido)

Declaração de vencido:

É do seguinte teor o artigo 12.° da Lei 17/86:

(Privilégios creditórios)

1 - Os créditos emergentes de contrato individual de trabalho regulados pela presente lei gozam dos seguintes
privilégios:
a) - Privilégio mobiliário geral;
b) - Privilégio imobiliário geral.
2 - Os privilégios dos créditos referidos no n.° 1, ainda que resultantes de retribuições em falta antes da entrada
em vigor da presente lei, gozam de preferência nos termos do número seguinte, incluindo os créditos respeitantes a
despesas de justiça, sem prejuízo, contudo, das privilégios anteriormente constituídos, com direito a ser graduados antes da
entrada em vigor da presente lei.
3 - A graduação dos créditos far-se-á pela ordem seguinte
a) - Quanto ao privilégio mobiliário geral, antes dos créditos referidos no n.° 1 do artigo 747.° do Código Civil, mas
pela ordem dos créditos enunciados no artigo 737.° do mesmo Código;
b) - Quanto ao privilégio imobiliário geral, antes dos créditos referidos no artigo 748.° do Código Civil e ainda dos
créditos de contribuições devidas à Segurança Social.
4 - Ao crédito de juros de mora é aplicável o regime previsto no número anterior.

A Lei nº 96/2001, de 20 de Agosto, reforçou os créditos dos trabalhadores, dando nova redacção ao art. 12º da Lei
nº 17/86 e acrescentando o regime criado pelo art. 4º:

«O artigo 12º da Lei nº 17/1986, de 14 de Junho, passa a ter a seguinte redacção:

«Artigo 12º [...]

1 - ..........................................
2 - Os privilégios dos créditos referidos no Nº 1, ainda que resultantes de retribuições em falta antes da entrada
em vigor da presente lei, gozam de preferência nos termos do número seguinte, incluindo os créditos respeitantes a
despesas de justiça.
3 - ..........................................

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4 - .........................................»

...

Artigo 4º - Créditos dos trabalhadores exceptuados da Lei nº 17/86, de 14 de Junho

1 - Os créditos emergentes de contrato de trabalho ou da sua violação não abrangidos pela Lei nº 17/1986, de 14
de Junho, gozam dos seguintes privilégios:
a) Privilégio mobiliário geral;
b) Privilégio imobiliário geral.
2 - Exceptuam-se do disposto no número anterior os créditos de carácter excepcional, nomeadamente as
gratificações extraordinárias e a participação nos lucros das empresas.
3 - Os privilégios dos créditos referidos no nº 1, ainda que sejam preexistentes à entrada em vigor da presente lei,
gozam de preferência nos termos do número seguinte, sem prejuízo, contudo, dos créditos emergentes da Lei nº 17/1986,
de 14 de Junho, e dos privilégios anteriormente constituídos com direito a ser graduados antes da entrada em vigor da
presente lei.
4 - A graduação dos créditos far-se-á pela ordem seguinte:
a) Quanto ao privilégio mobiliário geral, antes dos créditos referidos no nº 1 do artigo 747º do Código Civil, mas
pela ordem dos créditos enunciados no artigo 737º do mesmo Código;
b) Quanto ao privilégio imobiliário geral, antes dos créditos referidos no artigo 748º do Código Civil e ainda dos
créditos devidos à segurança social.
5 - Ao crédito de juros de mora é aplicável o regime previsto no artigo anterior.

- Artigo 3° Entrada em vigor

1 - O Código do Trabalho entra em vigor no dia 1 de Dezembro de 2003.


2 - Os artigo 33° a artigo 70°, artigo 79° a artigo 90° , a alínea e) do n° 2 do artigo 225° e o artigo 281° a artigo
312°, artigo 364° e artigo 624° só se aplicam depois da entrada em vigor da legislação especial para a qual remetem.
3 - O disposto no n° 2 do artigo 139° só se aplica depois da entrada em vigor da legislação especial prevista no
artigo 138°.

Nos termos do artigo 377° do Código do Trabalho,

Privilégios creditórios
1 - Os créditos emergentes do contrato de trabalho e da sua violação cessação, pertencentes ao
trabalhador, gozam dos seguintes privilégios creditórios:
a) - Privilégio mobiliário geral;
b) - Privilégio imobiliário especial sobre os bens imóveis do empregador nos quais o trabalhador preste a
sua actividade.
2 - A graduação dos créditos faz-se pela ordem seguinte:
a) - O crédito com privilégio mobiliário geral é graduado antes dos créditos referidos no n° 1 do artigo
747° do Código Civil;
b) - O crédito com privilégio imobiliário especial é graduado antes dos créditos referidos no artigo 748° do
Código Civil e ainda dos créditos de contribuições devidas à segurança social.

No Código do Trabalho Anotado, 3ª edição, de Pedro Romano Martinez, Luís Miguel Monteiro, Joana
Vasconcelos, Pedro Madeira de Brito Guilherme Dray E Luís Gonçalves da Silva, na pág. 613 consta:

"São três as novidades relativamente ao direito anterior. A primeira consiste no alargamento do âmbito de
aplicação dos privilégios creditórios a todos os "créditos emergentes do contrato de trabalho e da sua violação ou cessação,
pertencentes ao trabalhador". Surge-nos, depois, a graduação do privilégio mobiliário geral "antes dos créditos referidos no
nº 1 do artigo 747º do Código Civil claramente diferente da que constava dos artigos 12.°, n.° 3, alínea a), da LSA e 4.°,
n.°4, alínea a), da Lei n.° 96/2001. Refira-se, finalmente, a substituição do privilégio imobiliário geral, criado pelo artigo 12.°,
n.° 1, alínea b), da LSA, e alargado a todos os créditos emergentes do contrato de trabalho pela alínea b) do mesmo
preceito, por um privilégio imobiliário especial sobre os "bens imóveis do empregador nos quais o trabalhador preste a sua
actividade, graduado nos mesmos termos em que o era aquele".

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Destes três conjuntos de normas resulta evidente a contínua e crescente preocupação do Legislador em dotar os
créditos laborais de garantias que os colocavam, na fila dos credores, à frente do Estado e da Segurança Social.

..."o disposto no nº 3, al. b) do art. 12° da Lei nº 17/86, de 14/6 e nº 4, al. b) do art. 4º da Lei nº 96/2001, de 20/8,
determina a aplicabilidade do regime previsto no art. 751° do Código Civil ao privilégio imobiliário por eles criado, na medida
em que determina que a graduação dos créditos por ele garantidos - os créditos laborais - haverá de efectuar-se à frente
dos créditos mencionados no art. 748º do Código Civil, créditos estes (do art. 748º) que beneficiam de privilégio imobiliário
(especial).
A entender-se inaplicável o regime do art. 751° do C. Civil, criar-se-ia uma dificuldade de conjugação de tais
normativos sempre que houvesse que proceder à graduação de créditos privilegiados referidos no art. 748° do C. Civil,
créditos garantidos por hipoteca e créditos por salários em atraso, na medida em que estes cederiam, então, perante a
hipoteca e aqueles (os do art. 748° do C. Civil) teriam de ficar à frente da hipoteca por força do art. 751º do C. Civil que não
podia deixar de se lhes aplicar, tornando-se plenamente ineficaz (letra morta) a norma contida naqueles art. 12º, nº 3, al. b)
da Lei nº 17/86 e 4º, n° 4, al. b) da Lei nº 96/2001, relegados que ficariam os créditos por salários em atraso para depois da
hipoteca e, por consequência, para depois dos créditos referidos no art. 748º do C. Civil, prejudicando ou impedindo a
aplicabilidade de tais preceitos legais - São palavras do Acórdão da Relação do Porto abaixo identificado.".
...
Em suma: ao mandar (Leis 12/86, 96/2001 e Código do Trabalho) graduar os créditos laborais antes dos créditos
do Estado (art. 748º) que preferem à hipoteca (art. 751º) o Legislador quis, sem sombra de dúvida, colocar os créditos do
trabalho à frente da hipoteca.

Nem se veja neste comando legal assim interpretado sombra de inconstitucionalidade.


São do Acórdão da Relação do Porto (Ex.mo Desembargador Fonseca Ramos) de 08-11-2004, na base de dados
do ITIJ, Processo nº 0455436, Documento nº RP200411080455436, estas palavras:

«Poderíamos, citar a doutrina social da Igreja e as encíclicas papais "Rerum Novarum (1891), Quadragésimo
Anno (1931), Mater et Magistra (1961) e Populorum Progressio (1967) ... para sustentar que o direito ao trabalho e ao
salário são dos valores mais caros à dignidade humana e que constitui "pecado social" não pagar a quem trabalha, mas
quedamo-nos pela Lei Fundamental que, a par da consagração do princípio da igualdade e da confiança, afirma no art. 59º,
nº 1, a):

"Todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, religião, convicções
políticas ou ideológicas, têm direito:
a) À retribuição do trabalho, segundo a quantidade, natureza e qualidade, observando-se o princípio de que para
trabalho igual salário igual, de forma a garantir uma existência condigna".
...
E no nº 3:
"os salários gozam de garantias especiais, nos termos da lei".

Considerar que a mora ou incumprimento da retribuição salarial, por não ser conhecida da generalidade dos
credores, pode "surpreendê-los" no momento em que exercem o seu direito de reclamação creditória e, por isso, constituir
um "ónus oculto" é, com o devido respeito, insustentável.

O empresário sabe que é um seu dever jurídico do maior relevo pagar a quem trabalha; as instituições
previdenciais têm o dever de fiscalizar a situação contributiva de empregadores e empregados; a inspecção do trabalho
deve assegurar o cumprimento da legislação laboral, e as entidades financiadoras, sejam elas bancos ou locadoras
financeiras, dispõem de meios para acautelarem os seus interesses quando financiam as empresas. Assim, os agentes
económicos sabem, ou podem saber, da real situação das empresas, não sendo razoável alegarem surpresa a menos que
a falência seja fraudulenta. Importa é que sejam diligentes e cautos.
O princípio constitucional da igualdade - art. 13º da C. R. P. - não desprotege os trabalhadores com salários em
atraso, sob pena de conceder um injustificado "privilégio", lá onde mais protecção se justifica, quando existe uma situação
socialmente dramática, intolerável num estado de direito, qual seja a de não se dotar de garantia sólida e exequível o direito
à retribuição salarial, tutelando-o com sólida armadura jurídica.
É certo que o princípio da segurança propiciado pelo registo desvanece a possibilidade de "surpresa", já que a sua
função publicística evidencia a situação dos prédios, mormente, em caso de existência de garantia hipotecária.

Com fundamento na violação do princípio da confiança ... o Tribunal Constitucional ... [concretamente no Acórdão
nº 363/2002, no DR IA, de 16.10.2002, declarou a inconstitucionalidade, com força obrigatória geral, das normas constantes

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do artigo 11° do Decreto-Lei n°103/80, de 9 de Maio, e do artigo 2° do Decreto-Lei nº 512/76, de 3 de Julho, na


interpretação, segundo a qual o privilégio imobiliário geral nelas conferido à segurança social prefere à hipoteca, nos termos
do artigo 751° do Código Civil.

Mas o mesmo Tribunal Constitucional, não podendo desconsiderar a protecção que a Lei Fundamental confere ao
salário, no seu aresto nº 498/2003, de 22.10, publicado no D.R. II Série de 3.1.2004, pronunciou-se pela não
inconstitucionalidade da norma constante da alínea b) do nº 1 do artigo 12º da LSA, "na interpretação segundo a qual o
privilégio imobiliário geral nela conferido aos créditos emergentes do contrato individual de trabalho prefere à hipoteca", nos
termos do artigo 751° do Código Civil, doutrinando:
...
«Com efeito, do lado do credor hipotecário está em causa a tutela da confiança e da certeza do direito,
constitucionalmente protegidas pelo artigo 2º da Constituição e particularmente prosseguidas através do registo, como se
observou, por exemplo, no Acórdão n.º 215/2000 (Diário da República, II série, de 13 de Outubro de 2000)...
Do outro lado, porém, encontra-se um direito constitucionalmente incluído entre os direitos fundamentais dos
trabalhadores, o direito à retribuição do trabalho, que visa "garantir uma existência condigna", conforme preceitua o artigo
59º, n.º 1, alínea a), da Constituição, e que o Tribunal Constitucional já expressamente considerou como direito de natureza
análoga aos direitos, liberdades e garantias (cfr. Acórdão n.º 373/91, in Acórdãos do Tribunal Constitucional, vol. 20, p. 111
e segs. e Jorge Miranda, Manual de Direito Constitucional, tomo IV, ed., Coimbra, p. 152, Gomes Canotilho e Vital Moreira,
Constituição da República Portuguesa Anotada, 3ª ed., Coimbra, 1993, p. 318, João Caupers, Os Direitos Fundamentais
dos Trabalhadores e a Constituição, Coimbra, 1985, p. 141, nota 215 e João Leal Amado, ob. cit., p. 32, nota 44).

O caso dos autos coloca-nos, assim, perante uma situação de conflito entre um direito de natureza análoga aos
direitos, liberdades e garantias, o direito dos trabalhadores à retribuição do trabalho, e o princípio geral da segurança
jurídica e da confiança no direito.
...
Muito embora a falência da entidade empregadora seja também a falência da entidade devedora, é precisamente
este último aspecto, ou seja, a retribuição como forma de assegurar a sobrevivência condigna dos trabalhadores, que
permitiria justificar em face da Constituição a solução da norma impugnada, na interpretação aludida.
...
Acresce ainda que a inclusão, repita-se, para o efeito agora em causa, do direito ao salário e do direito à
indemnização por despedimento no âmbito da tutela constitucional do direito à retribuição é a que mais se ajusta à
referência constitucional a uma "existência condigna", exprimindo o que João Leal Amado (ob. cit., p. 22) designa de
carácter alimentar e não meramente patrimonial do crédito salarial, neste sentido (ou seja, no confronto com os créditos dos
titulares de direitos reais de garantia levados ao registo).

Nesta conformidade, deve entender-se que a restrição do princípio da confiança operada pela norma
impugnada não encontra obstáculo constitucional».
...
«Discorrendo acerca do princípio da democracia social, que não consideramos alheio à complexa problemática do
recurso, cabem as considerações do Professor Gomes Canotilho, in "Direito Constitucional e Teoria da Constituição", 6ª
edição, pág. 348:

"Para além da dimensão subjectiva do princípio da democracia social, implícita no reconhecimento de numerosos
direitos sociais (direitos subjectivos públicos), o princípio da democracia social, como princípio objectivo, pode derivar-se
ainda de outras disposições constitucionais. Desde logo, a dignidade da pessoa humana (cfr. art. 1°) é considerada noutros
países como um princípio objectivo e uma "via de derivação" política de direitos sociais.
Do princípio da igualdade (dignidade social, art. 13°), deriva-se a imposição, sobretudo dirigida ao legislador, no
sentido de criar condições sociais (cfr., também, art. 9º/d) que assegurem uma igual dignidade social em todos os aspectos
(cfr. por ex., arts. 81.°/a, b e d e 93°/c).
Do conjunto de princípios referentes à organização económica (cfr. arts. citados) deduz-se que a transformação
das estruturas económicas visa também uma igualdade social.
Neste sentido, o princípio de democracia social não se reduz a um esquema de segurança, previdência e
assistência social, antes abrange um conjunto de tarefas conformadoras, tendentes a assegurar uma verdadeira "dignidade
social" ao cidadão e uma igualdade real entre os portugueses (art.9º/d».

... estando em causa direitos fundamentais aparentemente colidentes, como sejam o direito de confiança ínsito no
estado de direito e o direito ao salário, tendo este um valor mais relevante que aqueloutro, por contender com o indeclinável

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direito a uma vida digna e ter mais que natureza patrimonial, uma insofismável natureza alimentar, visando a subsistência
pessoal, é este que deve prevalecer, numa hierarquia de normas constitucionais».

Dizer que aos privilégios imobiliários gerais regulados em leis avulsas se aplica o regime do art. 749º do CC
porque no Código Civil os privilégios imobiliários eram sempre especiais (art. 735º, nº 3, do CC, na redacção originária) é
proibir ao Legislador a conformação de interesses que só a Ele em cada momento compete e esquecer que a nova
redacção dada ao referido nº 3 do art. 735º Os privilégios imobiliários estabelecidos neste Código – (as palavras
sublinhadas foram acrescentadas pelo Dec-lei nº 38/2003, de 8 de Março) são sempre especiais - pelo Dec.-lei nº
39/2003, de 8 de Março, deixa intocados os privilégios imobiliários gerais constantes de leis extravagantes, como as aqui
em causa.
Se os privilégios imobiliários gerais em causa não foram estabelecidos pelo CC, não há que lhes aplicar nenhuma
norma do CC, nem dos privilégios gerais (art. 749º) nem dos especiais (art. 751º). Antes se deve respeitar a preferência
estabelecida pela lei que os criou.

Tal preferência está claramente expressa no nº 4 do art. 4º da Lei nº 96/2001:

4 - A graduação dos créditos far-se-á pela ordem seguinte:


a) Quanto ao privilégio mobiliário geral, antes dos créditos referidos no nº 1 do artigo 747º do Código Civil, mas
pela ordem dos créditos enunciados no artigo 737º do mesmo Código;
b) Quanto ao privilégio imobiliário geral, antes dos créditos referidos no artigo 748º do Código Civil e ainda dos
créditos devidos à segurança social.

Mandando graduar os créditos laborais à frente dos créditos do Estado com privilégio imobiliário - os do art. 748º
CC - o Legislador quis, por razões bem ponderosas e já julgadas sem mancha de inconstitucionalidade, conceder àqueles
créditos preferência sobre créditos privados (e das autarquias e segurança social) como os do art. 751º do CC,
designadamente a hipoteca, ainda que anterior, créditos estes sempre graduados atrás daqueles do art. 748º.

Perde todo o sentido a referência à nova redacção dada aos art. 749º e 751º do CC quando o intérprete se
atenha, como deve - art. 8º, nº 2 e 9º, n.os 2 e 3 CC - à letra e sentido daquele art. 4º da Lei 96/2001, aceitando a
graduação ali determinada, ou seja, à frente dos créditos do Estado do art. 748º que preferem à hipoteca.
Respeitando esta graduação fixada nas leis 17/86 e 96/2001 nenhuma lacuna (como dito nos Acórdãos deste
Supremo Tribunal, de 22.6.2005, no Processo 05B1511 e de 5.5.2005, no Processo 05B835, da base de dados do ITIJ) ou
ineficácia (como escrito nos Acórdão deste Tribunal, de 7.6.2005, no Processo 05A1774 e de 13.1.2005, Processo
04B4398, da mesma base de dados) existe que permita a aplicação, por analogia, do art. 749º do CC.

Assim como não colhe doutrina certamente muito perfeita de jure condendo mas imprestável de jure condito.

O novo Código do Trabalho - aqui inaplicável - abandonou a figura do privilégio imobiliário geral mas criou o
privilégio imobiliário especial sobre os bens imóveis do empregador nos quais o trabalhador preste a sua actividade; e
manteve exactamente nos mesmos termos a graduação do privilégio imobiliário especial que estabeleceu:
...
b) - O crédito com privilégio imobiliário especial é graduado antes dos créditos referidos no artigo 748° do Código
Civil e ainda dos créditos de contribuições devidas à segurança social.

Por fim, não pode deixar de notar-se que ao revogar o Acórdão recorrido, elaborado em obediência a decisão do
Tribunal Constitucional que revogou o agora repristinado, este Supremo Tribunal está a desrespeitar a decisão de não
inconstitucionalidade da Lei que criou estes privilégio dos créditos laborais, embora decida, confessadamente, à luz da lei
ordinária.
Por tudo se impõe a graduação dos créditos salariais à frente da hipoteca.

Ribeiro de Almeida.
Nuno Cameira.

Note-se, porém, que por Ac. de 22.3.2000, o TC decidiu julgar inconstitucionais, por violação
do artigo 2° da Constituição da República, as normas constantes dos artigos 2° do Decreto-Lei n.°
512/76, de 3 de Julho, e 11° do Decreto-Lei n° 103/80, de 9 de Maio, interpretadas no sentido de que o

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privilégio imobiliário geral nelas conferido (à Segurança Social) prefere à hipoteca, nos termos do artigo
751° do Código Civil.

Apesar de o credor hipotecário ter registado a hipoteca - registo a que a Segurança Social não
procedeu, podendo fazê-lo por ter hipoteca legal para garantia do seu crédito às prestações e juros(art.
12° do Dec-lei n° 103/80) - podia o credor hipotecário ficar sem receber nada, apesar de credor mais
antigo e privilegiado com hipoteca registada.
Ter-se-ia violado o princípio da confiança, ínsito no princípio do Estado de direito democrático,
consagrado no artigo 2° da Constituição da República.

No seguimento do assim decidido, o TC, por Ac. 363/2002, de 17.9.2002, no DR, IA, de 16 de
Outubro de 2002, declarou a inconstitucionalidade, com forca obrigatória geral, por violação do
princípio da confiança, ínsito no princípio do Estado de direito democrático, consagrado no art.
2° da Constituição da República, das normas constantes do art. 11° do Dec-lei n.° 103/80, de 9
de Maio, e do art. 2° do Dec-lei n. ° 512/76, de 3 de Julho, na interpretação segundo a qual o
privilégio imobiliário geral nelas conferido à segurança social prefere à hipoteca, nos termos do
art. 751° do Código Civil.
O mesmo decidiu o TC quanto a idênticas normas do IRS (art. 104°, hoje 111°), Ac. n.°
362/02, no mesmo DR, IA, de 16.10.2002.

Pelo Assento de 15.10.96 (BMJ 460-164) decidiu o STJ que a salvaguarda legal consagrada
na ultima parte do n° 2 do artigo 12° da Lei n.° 17/86, de 14 de Junho, abrange os créditos
privilegiados constituídos antes da sua entrada em vigor, independentemente da data em que é
declarada a falência do devedor.

O Dec-lei n.° 38/2003, de 8 de Março, deu nova redacção aos art. 735°, n.° 3, do CC, por
forma a declarar-se que os privilégios imobiliários estabelecidos neste Código são sempre especiais.

Ao art. 749° foi acrescentado o n.° 2 com esta redacção: As leis de processo estabelecem os
limites ao objecto e à oponibilidade do privilégio geral ao exequente e à massa falida, bem como os
casos em que ele não é invocável ou se extingue na execução ou perante a declaração da falência.

Este novo regime processual é o constante do art. 865°, n.ºs 4 e 6, do CPC, com esta
redacção:
4 - Não é admitida a reclamação do credor com privilégio creditório geral, mobiliário ou imobiliário,
quando:
a) A penhora tenha incidido sobre bem só parcialmente penhorável, nos termos do artigo 824.°, renda, outro
rendimento periódico, ou veículo automóvel; ou
b) Sendo o crédito do exequente inferior a 190 UC, a penhora tenha incidido sobre moeda corrente, nacional ou
estrangeira, depósito bancário em dinheiro, ou
c) Sendo o crédito do exequente inferior a 190 UC, este requeira procedentemente a consignação de
rendimentos, ou a adjudicação, em dação em cumprimento, do direito de crédito no qual a penhora tenha incidido, antes de
convocados os credores.

6 - A ressalva constante do n.° 4 não se aplica aos privilégios creditórios dos trabalhadores.

Também ao art. 751 do CC foi dada nova redacção por forma a ficar assente que a preferência
aí atribuída refere-se, apenas, aos privilégios imobiliários especiais.

Por Ac. de 9.4.2003, no DR, II, de 2.7.2003, o TC decidiu

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a) - Não julgar inconstitucional a norma constante do artigo 11 ° do Decreto-Lei n.° 103/80, de


8 de Maio, interpretada em termos de o privilégio imobiliário geral nela conferido às instituições de
segurança social preferir à garantia emergente do registo da penhora sobre determinado imóvel.

O mesmo repetiu no Ac. nº 697/2004, no DR, II, de 11.2.2005:


«Do exposto resulta que a situação do credor comum que obteve a preferência resultante do registo da penhora
tem uma garantia fortemente limitada, pois todo e qualquer credor pode obter a suspensão da execução, a fim de impedir
pagamentos, mostrando que foi requerido processo especial de recuperação da empresa ou da falência do executado. E,
nos termos do artigo 200º, nº 3 do CPEREF, na graduação de créditos não é atendida a preferência proveniente da
penhora.
Por outro lado, também algumas das razões que justificaram, na jurisprudência citada, a conclusão pela
inconstitucionalidade do segmento normativo então apreciado não ocorrem no caso a que se reportam os autos. Na
verdade, verifica-se que:
- só excepcionalmente a penhora ocorrerá antes da existência do crédito da Segurança Social
- pela própria natureza da penhora, que não resulta de um específico negócio jurídico, não se verifica lesão
desproporcionada do comércio jurídico.

Não estamos, assim, perante um desproporcionado privilégio da segurança social, afectando um direito real de
garantia plena que incide ab origine sobre determinado imóvel e em que a dívida exequenda resulta de um negócio jurídico
celebrado no pressuposto da constituição desse mesmo direito real de garantia. Pelo contrário: a garantia dos credores
comuns é todo o património do devedor, mas não qualquer bem específico, sendo sobretudo função da penhora a
individualização desses bens que hão-de responder pela dívida.
Nesta conformidade, não parece assim ser arbitrária, irrazoável ou infundada a consagração do referido privilégio
a favor da Segurança Social. Não estamos, com efeito, perante uma afectação inadmissível, arbitrária ou excessivamente
onerosa da confiança, já que a preferência resultante da penhora é de, algum modo, temporariamente aleatória.”
Pelo que se manteve a graduação do crédito da Segurança Social, com privilégio imobiliário
geral, à frente dos créditos garantidos por penhora.
Ac. do STJ (Ex.mo Cons.º Nuno Cameira) de 28.2.2008, no P.º 07A4423:

1 – A norma do artº 377º do Código do Trabalho, que concede aos trabalhadores privilégio imobiliário especial
sobre os imóveis do empregador em que prestem a sua actividade, entrou em vigor no dia 28.8.04, trinta dia depois de
publicada a Lei 35/04, de 29.7.04, que regulamentou aquele Código.
2 – Porque o concurso de credores se abre com o trânsito em julgado da sentença que decreta a falência e
porque após esta os credores da falida são apenas os que, seus trabalhadores ou não, já o eram naquela data, a ela deverá
atender-se para em termos de graduação definir a situação jurídica de cada um deles no confronto com todos os outros.
3 – Assim, se a sentença que decretou a falência datar de 9.3.04 os trabalhadores da falida gozarão de privilégio
imobiliário geral (e não especial) sobre os imóveis apreendidos, nos termos dos artºs 12º, nº 1, b), da Lei 17/86, de 14/6, e
4º, nº 1, b), da Lei 96/01, de 20/8.
4 – Aplica-se aos créditos laborais a norma do artº 749º, e não a do artº 751º do Código Civil; daí que os créditos
garantidos por hipoteca devam ser graduados à sua frente.

DIREITO DE RETENÇÃO - 754° a 761°

Conceito - mais do que instrumento de coerção ao cumprimento, o direito de retenção é


verdadeiro direito real de garantia.
O art 758° equipara o titular do direito de retenção sobre móveis ao credor pignoratício e o art.
759° equipara-o ao credor hipotecário se o direito de retenção incide sobre imóveis, dando preferência
ao credor com direito de retenção face à hipoteca, ainda que esta tenha registo anterior - 759º, 2.
O direito de retenção é o direito conferido ao credor, que se encontra na posse de certa coisa
pertencente ao devedor de, não só recusar a entrega dela enquanto o devedor não cumprir, mas

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também, de executar a coisa e de se pagar à custa do valor dela, com preferência sobre os demais
credores. - A. Varela, Obr., II, 4ª ed., 562 e 754.º CC.

Requisitos - 754° e 756°


a) - detenção lícita duma coisa - art. 756°, n° 1, al. a);
b) - relação devedor-credor;
c) - relação de conexão entre os dois créditos (crédito do retentor e crédito à entrega da coisa
pela outra parte);
d) - resultar o crédito do retentor de despesas feitas, de boa fé, por causa da coisa, ou de
danos por ela causados - art. 756º, al. b);
e) - penhorabilidade da coisa – art. 756°, al. c), uma vez que o retentor apenas se pode fazer
pagar pelo produto da venda da coisa.

Algumas questões práticas:

1 - O empreiteiro tem direito de retenção?


Não - A. Varela, Obr., 563, para quem as despesas não foram feitas por causa da coisa mas
para que a coisa exista;
Sim - Parecer de Ferrer Correia e Sousa Ribeiro, in Col. Jur. 88-1-15.
O direito de retenção pelo empreiteiro foi pressuposto da decisão tomada pelo STJ no Ac. de
26.6.2001, na Col. STJ 01-II-135 (Cons° Silva Paixão).

Na revista 865/05 - 2ª, em 5 de Maio de 2005, decidiu-se:

Diga-se, a este respeito, que a doutrina e a jurisprudência (v.g a citada pela recorrida "C" ) vêm entendendo ser de
reconhecer ao empreiteiro o direito de retenção sobre a obra construída em caso de relapsidão do dono da obra - conf.,
neste sentido, o Parecer dos Profs Ferrer Correia e Sousa Ribeiro datado de 28-12-88, in CJ, ano XIII, Tomo I, pág 15 e ss
e Prof João Calvão da Silva, in "Cumprimento e Sanção Pecuniária Compulsória", 2ª ed, 1997, pág 342 e ss e, v.g, os Acs
das RP de 16-10-95, RE de 23-9-99, in BMJ nº 489, pág 416 e da RL de 6-4-00, in CJ 2000, Tomo II, pág 130.
Este Supremo Tribunal entendeu já, de resto, - no Ac de 19-11-71, in BMJ nº 211, pág 297 e ss -, que "enquanto o
dono da obra não pagar o preço da empreitada, goza o empreiteiro do direito de retenção das chaves do prédio, que àquele
devia entregar uma vez concluída a obra, visto tal crédito provir de despesas com aquela feitas e não ser justo que outrem
se locuplete à custa do empreiteiro que as realizar".
A circunstância de o caso do empreiteiro não se encontrar previsto no artº 755º, não significa que ao mesmo não
assista o direito de retenção, pois que tal direito deriva directamente da estatuição-previsão do artº 754º, já que se verifica o
requisito do "debitum cum re conjuntum".
Não se alcançam, por isso, e na realidade, razões decisivas para não ser reconhecido o direito de retenção ao
empreiteiro, enquanto o dono da obra não pagar o preço da empreitada, visto que o seu crédito resulta de despesas feitas
por causa dela (artº 754°) " - conf. Calvão da Silva, in ob cit, pág 342. E isto seja qual for a modalidade da empreitada (de
construção, reparação, demolição e conservação) podendo reter a coisa onde se realizou, total ou parcialmente, a obra, e
quer no caso de a obra ser totalmente concluída, quer na eventualidade de haverem surgido ocorrências conducentes à
resolução (precoce) do contrato.
Trata-se de um direito real de garantia, relativo, na circunstância, a coisa imóvel, prevalecendo mesmo sobre a
hipoteca ainda que previamente registada - artº 759º nºs 1 e 2 do C. Civil.
Assim, bem decidiram as instâncias ao considerarem não se deparar (a questionada transacção) um negócio
«contra legem» pois que as partes se limitaram a reconhecer um direito já resultante expressamente da lei (artº 754.° do C.
Civil).
***

«A segunda objecção colocada pela recorrente respeita à debatida questão de saber se no contrato de
empreitada, o empreiteiro face ao não pagamento do preço pela contraparte, goza do direito de retenção.

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Com efeito, autores há e também alguma jurisprudência que rejeitam tal direito por no fim de contas na
empreitada o crédito do preço não corresponder exactamente às despesas feitas com a coisa, justificativas da conexão
causal entre esta e o crédito sobre a pessoa que a deva receber
No entanto é amplamente maioritário o entendimento oposto, ou seja, o empreiteiro está sempre obrigado a
entregar uma coisa, resultado da obra realizada e o crédito do preço sempre resultará de despesas feitas por causa dessa
coisa, sejam despesas de construção, de modificação ou de reparação.
E como com pertinência observou em estudo feito sobre tal temática pelo Prof. Galvão Telles, O Direito de
Retenção, no Contrato de Empreitada, “O Direito” 106/119, 1974 /1987 mal seria que se admitisse o direito de retenção a
quem realizou benfeitorias e não se concedesse ao empreiteiro que constrói, modifica ou repara uma coisa, sendo que no
mesmo sentido se pronunciaram Ferrer Correia e outro, “ Direito de Retenção, Empreiteiro” in CJ (1988) Tº I, 17 e 18,
Calvão da Silva, Cumprimento e Sanção Pecuniária Compulsória, 1987, 339 e ss e Romano Martinez, Direito das
Obrigações ( Parte Especial, ) 2ª ed., 375 e ss e Menezes Leitão, Garantias das Obrigações, 243 e ss indicando este último
autor como argumento recente e suplementar o do DL nº 201/96 atribuir tal direito ao construtor de navios, o qual integra
também uma modalidade de empreitada e na jurisprudência, os acórdãos deste tribunal citados pela Relação.
Improcede por consequência e também e quanto a este ponto, a crítica tecida pela recorrente.

2ª Questão.
Por último e embora essa questão não haja sido suscitada tanto na 1ª instância, como na Relação vem a
recorrente arguir a inconstitucionalidade da norma do nº 2 do artº 759 do C. Civil apontada na 1ª instância como
determinando a prevalência do direito de retenção que se pretende ver reconhecida sobre a hipoteca de que a mesma é
titular e mau grado a anterioridade do respectivo registo.
Com efeito e de harmonia com o disposto na norma citada e quando recaia sobre coisa imóvel é o direito de
retenção equiparado à hipoteca, mas prevalece sobre esta, mesmo que registada anteriormente.
Esta solução legal tem efectivamente suscitado reparos, mas não julgamos que a preferência atribuída ao “jus
retentionis” seja equiparável ao regime dos privilégios imobiliários gerais que motivou a intervenção do Tribunal
Constitucional através dos Acórdãos nºs 362/2002 e 363/2002 declarando a inconstitucionalidade com força obrigatória
geral das normas que conferiam tais privilégios à Fazenda Nacional e à segurança social e na interpretação segundo a qual
elas preferiam à hipoteca.
Na verdade, o principal argumento acentuado pelo Tribunal Constitucional foi o facto de os créditos privilegiados
não terem conexão alguma com a coisa objecto da garantia e o próprio princípio da confidencialidade tributária impossibilitar
os particulares de previamente indagarem se as entidades com quem contratam são ou não devedores ou do Estado ou da
segurança social.
E neles se acrescentou que não estando tais créditos sujeitos a registo, o particular que exercesse a garantia
podia ser confrontado com a existência de um crédito privilegiado e que “ frustrando a fiabilidade que qualquer registo deve
merecer, tal implicará uma “ lesão desproporcionada do comércio jurídico”.
Situação diferente ocorre com o direito de retenção.
Com efeito a razão da preferência que lhe é atribuída reside no facto do retentor não poder invocar o seu direito
contra outros credores, para impedir a execução da coisa, por isso em contraponto reconhecendo a lei, , esse dito privilégio,
no âmbito do processo executivo como sustenta Vaz Serra no seu estudo sobre o tema no Anteprojecto do Cod . Civil
A atribuição ao direito de retenção da “oponibilidade erga omnes” decorre por seu turno do próprio facto da
retenção e da publicidade inerente pois mostrando a coisa em poder do retentor, logo fará suspeitar de que não está livre.
E o grau de preferência que lhe é atribuído tem fundamentos que amplamente o justificam face à natureza dos
actos que dão lugar aos créditos do retentor.
Com efeito c resultando normalmente o crédito de despesas com a fabricação, conservação ou melhoramento de
coisa alheia, será de concluir que se essas despesas não tivessem sido realizadas, a coisa poderia ter perecido e então
nem o seu proprietário, nem o credor hipotecário nem qualquer outro credor poderiam realizar o seu direito.
È essa no fim de contas a razão fundamental da preferência que a lei entendeu atribuir-lhe pois como já
sustentava Guilherme Moreira, citado por Mª Isabel Meneres Campos, Da Hipoteca, 224, ainda na vigência do direito
anterior, se não lhe fosse atribuída tal preferência, todos os demais credores se locupletariam à sua custa em função do
valor da coisa para que concorrera o retentor com as despesas com ela feitas.
No fundo, trata-se de garantia muito especial caracterizada por um nexo de ligação muito apertado entre a coisa e
a obrigação, exactamente uma situação inversa às dos mencionados privilégios para além de envolver um processo de
coacção sobre o devedor.
Para além disso, sempre importará referir que por via de regra os créditos que conferem o direito de retenção
sobre os imóveis representavam uma pequena quantia em relação ao valor da coisa, logo sem possibilidade da prevalência
a ele atribuída sobre a hipoteca esvaziar os créditos por esta garantidos
Outrossim e mesmo no caso muito especial e severamente criticado pela doutrina da atribuição dessa garantia ao
crédito resultante do incumprimento pelo promitente alienante do contrato promessa com tradição da coisa, nos termos da

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al. f) do artº 755ºdo C Civil ( introduzido pelo DL nº379/86, retirando-o, com a respectiva eliminação do anterior nº 3 do artº
442º, conforme a redacção do DL nº236/80) já decidiu o Tribunal Constitucional em não julgar inconstitucional tal normativo,
enquanto interpretado como concedendo ao promitente comprador de imóvel ou fracção autónoma com tradição do mesmo,
direito de retenção com preterição de hipoteca constituída ou registada antes da invocação do direito de retenção
( Acórdãos nº 356/2004 in DR II série de 28/06/2004 e o publicado no DR , II série, de 10/02/2005), tendo também este
mesmo Supremo já decidido não serem inconstitucionais as normas que prevêem a preferência do direito de retenção do
promitente adquirente de imóvel em contratos promessa tradiciários, sobre o titular da hipoteca.
Pelo que se não vê que a apontada prevalência do direito de retenção sobre a hipoteca enquanto garantia real
reconhecidamente das mais importantes e com um regime intimamente conexionado com o crédito imobiliário e
desempenhando um papel insubstituivel na dinamização da vida económica ofenda qualquer dos princípios e valores
constitucionais acima referidos quer o da proporcionalidade, quer o da igualdade, quer o da confiança, de resto já tendo
este Supremo por inúmeras vezes rejeitado essa pretensa inconstitucionalidade da norma do artº 759º (em que estão
definidos os casos especiais do direito de retenção conferido a titulares de créditos em que se dilui ou não existe a sua
conexão objectiva com a coisa) ainda que convocada a propósito do direito de retenção conferido ao promitente comprador
sendo a tal propósito elucidativo o recente acórdão deste Supremo de 12 /09/2007 procº nº 07ª 2235 in www.djsi.pt em que
de forma exaustiva se aborda tal temática com resenha dos acórdãos anteriores, incluindo do Tribunal Constitucional.
Deste modo julgamos que ao contrário do alegado que de nenhuma inconstitucionalidade material enferma o
dispositivo legal em questão» - Ac. do STJ (Ex.mo Cons.º Cardoso de Albuquerque), de 3.6.2008, no P.º 08A1470.

2 - Subempreiteiro - não - por falta de detenção - BMJ 307-266; é necessário que seja credor
daquele a quem deve a restituição - ib., 271.

3 - Transitário - não do conhecimento de embarque - Col. 95-III-31.

4 - Locatário - sim, se as benfeitorias foram autorizadas ou de boa fé (art. 756º, b) - Col. 87-4- -
219 e STJ Col. 94-III-118 (arrendatário rural).

5 - ex-cônjuge - não por benfeitorias realizadas após divórcio e antes da partilha. Natureza dos
bens após divórcio - Col. 94-5-31.

6 - Promitente-Comprador - Além da RLJ 124-339 e ss, estudando a questão de acordo com


o então (1037° CPC) vigente, fim dos embargos de terceiro - que eram, apenas, meio de defesa da
posse, tendo hoje (351° CPC) finalidade muito mais lata, desenham-se várias teses:

A)
Vá reclamar ao concurso de credores, sendo graduado de acordo com o direito de retenção; não
pode embargar de terceiro

I - O direito de retenção do promitente-comprador existe para lhe garantir o crédito de


indemnização por incumprimento do contrato promessa e não para lhe facultar o uso da coisa
prometida vender.
II - O interesse de terceiro de dar à execução a coisa retida não conflitua com a garantia do
titular do direito de retenção, uma vez que o direito de ser pago com preferência aos demais credores
se transfere para o produto da venda.
III - Os embargos de terceiro constituem o instrumento processual adequado para o titular do
direito de retenção reagir contra a penhora, havendo execução.
IV - Efectuada a venda judicial, o direito de retenção do promitente comprador não lhe confere
o direito de não entregar a coisa mas apenas o de ser pago com preferência sobre os demais credores
do devedor, mesmo que hipotecários com registo anterior - Col. STJ 94-II-118

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I - O direito de retenção do promitente-comprador que obteve a tradição da coisa, pode, em


princípio, ser defendido por meio de acções possessórias.
II - O credor com direito de retenção sobre o bem penhorado deve ser chamado ao concurso
de credores na execução, mas não pode embargar de terceiro - Col. STJ 93-II-44.

Parece ser este o entendimento do Ac. do STJ acima referido, na Col. STJ 01-II-135 quando
ensina:
Ao invés do preconizado pela Relação, a "Construdina, perante a penhora do prédio, não podia lançar mão "dos
meios legais destinados à defesa da sua posse".
É que, sendo ela titular de um direito real de garantia - direito de retenção -, só lhe era consentido reclamar o seu
crédito na falência, para ser pago pelo produto do bem.
Caminho que, efectivamente, trilhou.
Desde logo, estava vedado à "Construdina" socorrer-se dos embargos de terceiro para, pretendendo defender a
sua posse, reagir contra a penhora.
Na verdade, não podem embargar de terceiro todos aqueles a quem a lei confere a possibilidade de fazerem valer
os seus direitos por outra via - quer na execução singular quer na falência. Assim, ao credor titular do direito de retenção
sobre a coisa apreendida, o que assiste é a possibilidade de reclamar o seu crédito e de fazer valer a sua garantia
real, para ser pago preferencialmente pelo produto da respectiva venda (cfr., por todos, Miguel Teixeira de Sousa, "A
Penhora de Bens na Posse de Terceiros, in Rev. da Ordem dos Advogados, Ano 51°, Abril de 1991, pág. 83; F. Amâncio
Ferreira, "Curso de Processo de Execução, 2ª ed., Almedina, 2000, pág. 212; e J. P. Remédio Marques, "Curso de
Processo Executivo Comum à Face do Código Revisto, Almedina, 2000, pág. 322 e 331).
Os meios possessórios de que dispõe o credor garantido pelo direito de retenção só operam quando o acto lesivo
prejudicar a sua garantia e não quando se mantiver, apesar da penhora, a possibilidade do exercício do seu direito. Fará
valer o seu direito no concurso de credores - Col. STJ 93-III-6

Igualmente e citando a RLJ 124-343 a 352, o BMJ 435-558, Ac. de 23.3.94 e de 17.11.94, no
BMJ 441-267.

Do disposto no art. 442°, n° 2, do CC, resulta que o PComprador que tenha sinalizado a
promessa e haja obtido do PVendedor a traditio do imóvel prometido vender fica, em caso de
incumprimento pelo PV, com os seguintes direitos:

a) - à execução específica - 442°, n° 3; e, em alternativa, direito a uma


b) - dupla indemnização – 442.º, n.º 2:
- ou restituição do sinal em dobro
- ou pagamento do valor da coisa ou do direito objecto da promessa, à data do não
cumprimento, com dedução do preço convencionado, mas com aditamento do sinal e de parte
do preço entretanto pago.

Para garantia desta dupla indemnização dita em b) goza o promitente comprador do direito de
retenção sobre o imóvel, nos termos do art. 755°, n° 1, al. f).
Se o PC requer execução específica, poderá requerer a expurgação da hipoteca, nas
condições do n° 4 do art. 830°.
Se o não fizer, o imóvel continua onerado com a hipoteca e a responder pela dívida hipotecária
nos termos normais, com eventual execução a que o PC agora já proprietário nada pode opor. O direito
de retenção de que gozava desapareceu com a atribuição da propriedade pela execução específica:

Atribuído o direito de propriedade por via de execução específica, não pode existir direito de
retenção sobre a coisa atribuída ao promitente comprador. Onde existe direito de propriedade não
pode existir direito de retenção de que seja titular o próprio dono da coisa, como é evidente - Col. STJ
94-III-70 que acrescenta:

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O direito de retenção não assegura a prestação de facto, não garante a execução específica,
mas sim o direito à indemnização fixada no n° 2 do art. 442°.
A defesa da posse atribuída ao titular do direito de retenção apenas o foi para coisa móvel,
específica do penhor, como resulta de ter sido atribuída através do art. 758° - coisa móvel - e não do
art. 759° - coisa imóvel; este art. 759° não remete para o penhor (que tem expresso direito de defesa
da posse da coisa empenhada - art. 670°, a) e apenas dá o direito de executar a coisa nos mesmos
termos que o credor hipotecário e preferência no pagamento.
Se forem os credores do promitente vendedor a instaurar execução contra este PV, é
evidente que podem eles fazer penhorar o imóvel prometido vender e sobre que o PC goza de
direito de retenção.

Com efeito, o contrato-promessa não transferiu a propriedade da coisa da esfera jurídica


do PV para a do PC, e em parte alguma da lei se vê que por força da tradição da coisa esta
passe a ser impenhorável. Antes da lei resulta que são penhoráveis todos os bens do devedor - 601°
CC e 821° a 823° CPC - que não inclui entre os bens absoluta ou relativamente impenhoráveis os bens
prometidos vender.
Daí que não possa o PC deduzir embargos de terceiro contra esta penhora - Col. STJ 96-
I-70.
É que, por detrás do direito de retenção do promitente-comprador não há nenhum direito real
de gozo, que a penhora dos credores ofenda, mas um simples direito real de garantia (embora assente
sobre um direito pessoal concomitante de gozo), que a penhora pode e deve respeitar - A. Varela,
Obrigações, 8ª ed., I, 360.
Restará ao PC intervir no concurso de credores, aí obtendo pagamento do seu crédito no lugar
que, por força da garantia real que é o direito de retenção, lhe competir - 865° e 868° CPC.

Os poderes em que o promitente-comprador fica investido com a traditio da coisa objecto da


promessa integram, sem sombra de dúvida, um verdadeiro direito de uso, e quando, como no caso
presente acontece, os poderes atribuídos envolvem ainda a faculdade de ceder (onerosamente) a
outrem o gozo da coisa, o promitente comprador passa a deter mesmo um direito de uso e fruição,
como o acórdão acertadamente lhe chama.
Uso e fruição do imóvel que o não elevam, contudo, ao altar jurídico do possuidor da coisa.
É que não se esgotando a posse no corpus, e sabendo o PC com traditio, melhor que ninguém,
que a coisa pertence ainda ao promitente vendedor e só lhe pertencerá a ele depois de realizado o
contrato translativo prometido, não pode agir seriamente com a intenção (animus) de um titular da
propriedade ou de qualquer outro direito real sobre a coisa.
Ele é apenas ... o titular de um direito pessoal de gozo destinado a perdurar como tal, até à
celebração do contrato definitivo ou à adjudicação compulsória da coisa (resultante da execução
específica - 830° CC) ou até à resolução ou anulação do contrato-promessa - A. Varela, RLJ 128-104.

O PC com direito de retenção goza, contra quem quer que seja - e não só contra o PV seu
devedor - da faculdade de não abrir mão da coisa enquanto se não extinguir o seu crédito.
Por outro lado, porém, como se trata de um puro direito real de garantia (e não de um direito de
gozo), o direito de retenção do promitente-comprador não obsta à penhora da coisa (do imóvel,
se imóvel for o objecto da retenção), quer a penhora seja requerida por quem tiver direito real de
garantia sobre a coisa (v. g., o credor hipotecário), quer seja promovida por um dos credores comuns
do novo proprietário da coisa.

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Em nenhuma das execuções poderá o titular do direito de retenção deduzir embargos de


terceiro, a pretexto de que a penhora ofendeu a sua posse porquanto o seu direito de retenção não
envolve nenhum direito pessoal de gozo sobre o imóvel susceptível de ser ofendido pela apreensão
judicial dos bens à ordem do tribunal para satisfação dos credores.
Mais ainda: Se, nos casos referidos, a execução prosseguir até à venda judicial do imóvel, o
direito de crédito do promitente-comprador, traído pelo incumprimento do promitente -vendedor, é dos
que, nos termos do n° 2 do artigo 824° do Código Civil, caducam com a venda executiva e se
transmitem, por força da determinação do n° 3 da mesma disposição, para o produto da venda dos
respectivos bens.
Não há dúvida, porém que ao titular do direito de retenção foi atribuído o manto da tutela
possessória, podendo usar, em relação à coisa empenhada (objecto do direito de retenção), das
acções destinadas à defesa da posse, ainda que contra o próprio dono - 759°. n° 3 e 670°, a), CC - A.
Varela, RLJ 124-339 e ss, maxime 351.

O Prof. Calvão da Silva - Sinal e Contrato-Promessa, 11ª ed., 2006, pág. 164 e ss - dá-
-nos uma visão muito interessante da questão, na medida em que conjuga o direito substantivo com os
mecanismos processuais de aplicação do direito de retenção.
Depois de afirmar que o PC com direito de retenção pode recorrer às acções possessórias
para defesa da posse, mesmo contra o próprio dono (670°, al. a), ex vi dos art. 758° e 759°, n° 3),
pode executar a coisa retida (675°, ex vi dos art. 758° e 759°) e será pago com preferência sobre os
demais credores do devedor (666°, ex vi do art. 758° e 759°), aquele Professor ensina que o
beneficiário da promessa pode recorrer aos embargos de terceiro, nos termos definidos na lei de
processo (art. 351° e ss. do Código de Processo Civil), em caso de diligência ordenada judicialmente
(art. 1285°) que não acarrete a caducidade do seu direito, por exemplo, na execução para entrega
de coisa certa (art. 928.° e segs. do Cód. Proc. Civ.).

Na hipótese de diligência judicial (Penhora) de que resulte a caducidade do direito de


retenção do promitente-comprador há que distinguir consoante este se apresente ou não a reclamar o
seu crédito no processo executivo.

Assim:
1 - Se o promitente-comprador reclama o crédito e vê atendida a reclamação, tendo sido citado
para a execução nos termos do n.° 2 do art. 864.° do Cód. Proc. Civ., o direito de retenção caduca em
consequência da alienação (art. 824.°, n.° 2, do Cód. Civ.), transferindo-se o seu direito de crédito para
o produto da venda do respectivo bem (art. 824.°, n.° 3, do Cód. Civ.) com a mesma prioridade ou
preferência que o direito caducado lhe conferia.
Na falta de título executivo pode recorrer ao disposto no art. 869°.
É que o direito de retenção não subtrai o bem ao património do devedor, originando a sua
impenhorabilidade (art. 831° do Cód. Proc. Civ.), não constitui um direito incompatível com a realização
da penhora a defender por embargos de terceiro (art. 351° do Cód. Proc. Civ.), devendo ser reclamado
na execução pendente o respectivo crédito garantido (art. 864°, n.° 1, al. b), e art. 865° do Cód. Proc.
Civ.).

2 - Se o promitente-comprador não reclama o seu crédito no processo executivo apesar de


citado nos termos do n.° 2 do art. 864.° do Cód. Proc. Civ., o direito de retenção caduca (art. 824.°, n.°
2, do Cód. Civ.) sem transferência do direito de crédito para o produto da venda do bem, uma vez que
este direito não foi verificado e graduado. Naturalmente, o crédito subsiste, podendo o beneficiário da

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promessa, agora na qualidade de credor quirografário ou credor comum, fazê- -lo valer contra o
devedor.

3 - Se o promitente-comprador não reclama o crédito por não ter sido citado oportunamente,
pode ele arguir a nulidade da falta de citação (art. 864.°, n.° 3, e art. 194.° do Cód. Proc. Civ.),
seguindo-se ou não anulação das vendas, nos termos do art. 864°, n° 10.

Tem interesse o estudo do Cons. Eliseu Figueira na Col. STJ 97-II-5.

Naquele sentido ensinam Teixeira de Sousa (ROA 1991, 83): O penhor e o direito de retenção
atribuem ao credor pignoratício e ao retentor a posse sobre o bem onerado (arts. 699.°, n.° 2 e 754.°
CC). Assim, se a posse do terceiro se baseia num desses direitos reais de garantia, o terceiro deve
reclamar o respectivo crédito na execução pendente (art. 864.°, al. b), CPC).
Esse possuidor - conclui - não pode embargar de terceiro, dado que o seu direito real de
garantia, quando não devidamente reclamado, caduca com a venda executiva nos termos do art.
824.°, n.° 2, CC.

Lebre de Freitas, ambos citados em Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição


de Terceiro, de Miguel Mesquita, que em relação ao promitente comprador em CP com eficácia
meramente obrigacional conclui:

os embargos de terceiro deduzidos contra uma penhora pelo titular de um direito de retenção
(no caso, promitente-comprador) devem - por manifesta falta de fundamento - ser indeferidos
liminarmente, nos termos do artigo 354 °.
A detenção alegada, assente num direito pessoal de gozo, cede, juridicamente, perante a
penhora (garantia real) constituída em benefício do exequente. Como explica Lebre de Freitas, a
detenção do promitente-comprador, exercida em nome do promitente - alienante, cede "perante a
garantia constituída pela penhora (dum bem do executado)” pág. 169.
Acórdão do STJ (Cons.º Fernandes Magalhães), de 11/7/2006, P.º 06A1880:

I - O direito de retenção do promitente-comprador com tradição do prédio não é incompatível com a


penhora deste.
II - O promitente-comprador que goza do direito de retenção sobre o prédio que detém não pode deduzir
embargos à penhora deste, devendo antes reclamar o respectivo crédito no concurso de credores no processo
executivo, por forma a vê-lo graduado no competente lugar.

O TC, por Ac. de 3.12.2003, no DR II, de 10.2.2003, decidiu não julgar inconstitucional
(organicamente inconstitucionais) os Dec-lei n.ºs 236/80 e 379/86 que alteraram os art. 410.º, 442.º e
755.º, conferindo direito de retenção ao PC; o n.º 3 do art. 410.º que não permite ao credor com
hipoteca antes registada invocar a nulidade do CP decorrente de vícios formais; nem do direito de
retenção que, prevalecendo sobre hipoteca antes registada, não viola o princípio da confiança.

B
EMBARGOS de terceiro pelo PC para defesa do seu direito à execução específica?

I - Promitente comprador em contrato promessa com mera eficácia obrigacional mas que
registou acção de execução específica antes de registada penhora sobre a coisa prometida
vender:

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Se o promitente-comprador, estando já pendente a acção de execução específica, vier deduzir


embargos de terceiro contra uma penhora que tenha atingido, entretanto, o objecto do contrato
prometido, parece dever entender-se que os embargos têm fundamento legal. Só que o seu êxito está
dependente da decisão que vier a ser proferida na acção de execução específica. Os embargos devem
ser suspensos até decisão daquela acção.

II - No CP com eficácia real (art. 413°, n° 1) o promitente-comprador tem, desde o registo do


contrato-promessa, um direito que não pode ser inviabilizado por qualquer alienação ou oneração da
coisa. É, em poucas palavras, titular de um direito (creditório) oponível a terceiros e que poderá
efectivar-se pela via da execução específica.
O direito decorrente de um contrato-promessa dotado de eficácia real deve considerar-se, para
efeitos de dedução de embargos de terceiro, um direito incompatível com a efectivação sobre a coisa,
objecto do contrato prometido, de uma penhora.

Sobre a venda a terceiro e consequente incumprimento pelo PV para com PC anterior àquela venda, convém ver
o AUJ n° 4/98, de 5.11.98, no D.R. IA, de 18.12.98 e na RLJ 131-240, segundo o qual a execução específica de contrato-
promessa sem eficácia real, nos termos do art. 830° do CC, não é admitida no caso de impossibilidade de
cumprimento por o promitente-vendedor haver transmitido o seu direito real sobre a coisa objecto do contrato
prometido antes de registada a acção de execução específica, ainda que o terceiro adquirente não haja obtido o
registo da aquisição antes do registo da acção; o registo da acção não confere eficácia real à promessa.

Contra: Calvão da Silva, Contrato-promessa, 11.ª ed., 171 a 173:

«Pelo novo Código de Processo Civil, «se a penhora, ou qualquer acto judicialmente ordenado
de apreensão ou entrega de bens, ofender a posse ou qualquer direito incompatível com a realização
ou o âmbito da diligência, de que seja titular quem não é parte na causa, pode o lesado fazê-lo valer,
deduzindo embargos de terceiro (art. 351 °, n.º 1).
Corresponde a afirmar que os embargos de terceiro deixaram de estar necessariamente
ligados à defesa da posse do embargante, podendo este efectivar qualquer direito incompatível com o
acto de agressão patrimonial, judicialmente ordenado. Noutros termos: passou a permitir-se que os
direitos atingidos ilegalmente pela penhora (ou outro acto de apreensão judicial de bens) sejam
invocados pelo lesado no próprio processo em que a diligência ofensiva teve lugar, assim obstando à
venda dos bens e subsequente anulação desta, se procedente a acção de reivindicação para que
necessariamente aquele (o lesado) era encaminhado no regime anterior.
Destarte, a tutela do promitente-comprador com direito à execução específica revela-se agora
simples e eficaz, através de embargos de terceiro fundados no direito, mesmo que não tenha havido
traditio da coisa a que se refere o contrato prometido.
No caso de contrato promessa de eficácia meramente obrigacional (art. 410.°), o
promitente-comprador tem um direito de crédito (à celebração do contrato prometido) sem eficácia real.
Mas proposta e registada a acção de execução específica, se vier a ser julgada procedente, a
sentença registada será oponível a terceiros desde a data do registo provisório da acção. Nesta
hipótese o promitente-comprador fará valer a prioridade do registo da sentença, reportada ex lege à
data do registo da acção, sobre o sucessivo registo da aquisição de terceiro, independentemente da
data desta (cfr. supra, n.° 55).
Assim, os actos praticados pelo promitente-vendedor, com registo posterior ao registo da acção
de execução específica procedente, e a penhora da coisa (a que se reporta o contrato prometido), de
registo ulterior ao do registo da acção de execução específica igualmente procedente, devem
considerar-se ineficazes perante o promitente-comprador (autor na acção). Porque assim é, pode o
promitente-comprador reagir através de embargos contra a penhora posterior (ao registo da acção de
execução específica) da coisa a que se refere o contrato prometido.

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No caso de contrato-promessa com eficácia real (art. 413.°), o promitente-comprador faz


valer o próprio direito de crédito (ao cumprimento e execução específica), oponível erga omnes, por
efeito do registo. Logo, a penhora realizada após aquele registo é ineficaz perante o promitente-
comprador. Pode, por isso, o promitentecomprador reagir contra a penhora posterior da coisa,
mediante embargos de terceiro.

Neste sentido, cfr. ac. do S.T.J., de 26 de Fevereiro de 2004 (Processo n.° 03B4296):

« 1 - ......................................................................................................................
2 - Se a penhora sobre a fracção prometida vender, sem eficácia real, foi registada, e, antes dela, não houve
registo da acção de declaração de execução específica, ou, se tendo havido registo da acção, este ocorreu depois do
registo da penhora, o acto de disposição do imóvel penhorado, ainda que através de declaração judicialmente suprida, é
ineficaz em relação à penhora anteriormente registada".
Para a prevalência da sentença em acção de execução específica registada antes do registo da penhora do prédio
prometido vender, veja-se também o ac. do S.T.J., de 20 de Março de 2003 (Processo n.° 03B62).

Num como noutro dos casos assiste ao promitente-comprador um direito oponível a terceiros,
susceptível de defesa mediante embargos, cujo resultado final, todavia, depende da sentença a proferir
na acção de execução específica pendente. Impõe-se, por isso, a suspensão da instância (art. 279.°,
n.° 1, do Cód. Proc. Civ), ficando o julgamento da oposição à penhora mediante embargos do terceiro
promitente-comprador a aguardar. No fundo, suspende-se a realização da penhora para garantir a
eficácia de sentença favorável, proferida na acção de execução específica, por força da qual a coisa
que o exequente queria penhorar não era, afinal, do executado (promitente-vendedor), sendo seu
proprietário o promitente-comprador.
Repare-se no art. 819 ° do Código Civil: "Sem prejuízo das regras do registo, são ineficazes
em relação ao exequente os actos de disposição ou oneração dos bens penhorados" - logo, a sentença
proferida em acção de execução específica procedente registada antes da penhora é oponível ao
exequente da acção em que ela (a penhora) tenha lugar.
Naturalmente, recebidos os embargos de terceiro contra a penhora ou suspensa a execução, a
penhora pode ser reforçada ou substituída (art. 834.°, n.° 3, al. d), do Código de Processo Civil)».

Já de acordo com o actual conceito e fins dos embargos de terceiro e estudando toda esta
questão do Direito de Retenção do PC em execução movida contra o PV é fundamental ler o excelente
Ac. do STJ. de 20.1.99 no BMJ 483-195 (Ex.mo Cons.º Noronha Nascimento), já analisado aquando
do estudo do contrato-promessa, assim sumariado:

Contrato-promessa - Incumprimento
Embargos de terceiro - Direito de retenção
Execução específica – Indemnização

I - Nos contratos-promessa, o direito de retenção visa salvaguardar e garantir não só o cumprimento em espécie
(crédito à prestação de facto, à execução específica) como também o cumprimento em sucedâneo (crédito à
indemnização).
II - O promitente-comprador retentor do prédio, pode usar e retê-lo até que se decida se procede ou não a
eventual execução específica que ele possa ou queira exercitar.
III - Os embargos de terceiro - hoje desligados necessariamente da posse - são meio adequado para que se
viabilize o direito de retenção do promitente/comprador que tem a faculdade de peticionar a execução especifica da
promessa.

Em texto integral na base de dados do ITIJ:

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I - O direito de retenção conferido ao promitente-comprador de prédio urbano com "traditio", introduzido


pelo DL 236/80 de 18 de Julho, destina-se a garantir o crédito emergente do incumprimento por parte do promitente-
vendedor.
II - Tal crédito abrange, em primeira linha, o cumprimento do contrato em espécie (execução específica -
crédito à prestação de facto) e, em segunda linha, o cumprimento em sucedâneo, implicando este a substituição da
espécie combinada pelo valor indemnizatório correspondente, determinado este, em regra, pelo interesse
contratual positivo do contraente fiel (crédito à indemnização).
III - O retentor pode usar dos meios possessórios (v. g. os embargos de terceiro contra a penhora)
relativamente à coisa retida e traditada quando se esteja perante um caso em que possa exigir o cumprimento
contratual em espécie (execução específica) v.g. nos termos do n. 3 do artigo 830 do CCIV.
IV - Assim, os embargos de terceiro constituem meio processual adequado - mormente após a nova
redacção dada ao artigo 351 do CPC pela reforma de 95/96 - para que se viabilize o direito de retenção a quem
assistir a faculdade de peticionar a execução específica, sem pois necessidade de reclamar o seu crédito em
execução tendente à venda da coisa retida.

Por seu Ac. de 13.1.2000, no BMJ 493-362/366 - decidiu o STJ que

1 - O direito de retenção é atribuído ao promitente-comprador que obteve a tradição da coisa, pelo crédito,
resultante do não cumprimento imputável à outra parte, nos termos do art. 442° do Código Civil.
2 - O direito de retenção é um verdadeiro direito real (não de gozo, mas) de garantia, conferindo ao seu titular (ao
promitente-comprador) o chamado poder de sequela, bem como a faculdade, contra quem quer que seja, de não abrir mão
da coisa enquanto se não extinguir o seu crédito.
3 - O direito de sequela confere ao titular do direito de retenção (ao promitente- comprador) a faculdade de não
abrir mão da coisa enquanto se não extinguir o seu crédito; como direito real de garantia que é, o direito de retenção do
promitente-comprador tem eficácia erga omnes, é válido e oponível (vale) perante terceiro adquirente da coisa retida.

2. Antes de mais, necessário se torna precisar que na esfera jurídica patrimonial do promitente -comprador podem
surgir dois direitos de contornos distintos: direito pessoal de gozo e direito real de garantia (o direito de retenção).
O direito pessoal de gozo surge com a tradição da coisa do contrato prometido - artigo 442.°; o direito real de
garantia surge pelo crédito resultante do não cumprimento imputável à outra parte, nos termos do artigo 442.°, quando
tenha havido tradição da coisa objecto do contrato definitivo.
a) O contorno do direito pessoal de gozo conferido ao promitente-comprador quando haja tradição da coisa é-
nos dado por Antunes Varei a quando, em anotação ao acórdão deste Supremo Tribunal de 25 de Fevereiro de 1986,
escreveu:
«O que a entrega (tradição) do móvel ou imóvel atribui ao promitente-comprador é um direito pessoal de gozo
sobre a coisa, semelhante ao do locatário ou do comodatário, e mais forte, em certos aspectos, do que o conferido ao man -
datário […], ao credor pignoratício, ao depositário ou ao empreiteiro cuja obra se refira à coisa entregue, e muito diferente
do direito que compete ao mutuário.»

E acrescenta:
«Os direitos pessoais de gozo do promitente-comprador […] assentam sempre sobre a pura expectativa da
alienação prometida e não podem, por essa razão, exceder os limites impostos por tal situação» - cfr. Revista de Legislação
e de Jurisprudência, ano 124.°, págs. 347-349.

Henrique Mesquita, depois de apontar que os chamados direitos pessoais de gozo – que atribuem, como os
direitos reais, o poder de agir directamente sobre uma, possibilitando uma actuação jurídica em tudo idêntica à que ocorre
nos direitos reais - se distinguem dos direitos reais, reconhece que mesmos surgem (ocorrem) no caso da promessa de
compra e venda, com tradição da coisa, quando afirma que: «de modo idêntico (to mando como ponto de referência a
situação do comodatário) se passam as coisas nas demais relações jurídicas que já se referiram e também, por exemplo,
no direito que assiste ao promissário de uma promessa de alienação, sobre o objecto do contrato prometido, quando lhe
tenha sido entregue antes da celebração do contrato» cfr. Obrigações Reais e Ónus Reais, pág. 48, nota 17.

3. a) O contorno do direito real de garantia [que é o direito de retenção atribuído ao «beneficiário da promessa
de transmissão ou constituição de direito real que obteve a tradição da coisa a que se refere o contrato prometido, sobre
essa coisa, pelo crédito resultante do não cumprimento imputável à outra parte, nos termos do artigo 442.°» - artigo 755.°,
nº 1, alínea f)], é-nos dado por Henrique Mesquita quando diz:
«Pelo que respeita aos direitos reais de garantia, o poder que conferem ao titular não é, como na generalidade
dos direitos reais de gozo, o de praticar determinados actos de uso ou fruição, mediante um acto de disposição a realizar à

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custa desta sem que se torne necessária a cooperação do proprietário ou mesmo contra a sua vontade, determinado valor
(o valor do crédito garantido pelas rés), apenas para este efeito a coisa se encontra directamente subordinada ao titular da
garantia real.» Ob. cit., pág. 76.

4. … questão de saber se o direito de retenção do promitente-comprador vale erga omnes.

5. O direito de retenção é um verdadeiro direito real (não de gozo) de garantia.


a) Assim o afirma Henrique Mesquita quando escreve:
«A circunstância, porém, de o credor não poder proceder directa e autonomamente à alienação do objecto de
garantia não impede a conceituação do seu direito como um verdadeiro ius in re. A finalidade precípua de tal direito (a sobe-
rania que confere) é a realização, pelo titular, de certo valor pecuniário à custa da coisa sobre que incide.»

E acrescenta:
«Pelo facto de se constituir um direito real limitado, o proprietário da coisa não fica impedido de o alienar; mas o
titular daquele direito poderá fazê-lo valer contra o subadquirente. Ele tem sobre a coisa o chamado poder de sequela.
O poder de sequela (ou de seguimento) existe em todos os direitos reais.
O titular de qualquer ius in re, sempre que a coisa que constitui o respectivo objecto se encontra sob o domínio de
um terceiro, pode actuar sobre ela - pode segui-Ia - na medida necessária ao exercício do seu direito; como destinar-se a
possibilitar o exercício do direito em caso de transmissão, pela titular do ius disponendi, da coisa sobre que o direito incide
[...] o direito real do credor hipotecário ou do proprietário dominante segue a coisa, isto é, pode ser exercido em face do
novo proprietário.»

E conclui:
«Do que se trata, aqui, não é de defender o direito de hipoteca ou o de servidão contra uma agressão cometida
por terceiro (a alienação do prédio é lícita), mas de os fazer valer contra subadquirente.» Ob. cit., págs. 77-80.

b) No mesmo sentido Antunes Varela quando escreve:


«Basta recordar que o direito de retenção constitui hoje um verdadeiro direito real (não de gozo, mas) de
garantia, como resulta não apenas da sua implantação sistemática no Código Civil, paredes meias com o penhor, a
hipoteca e os privilégios creditórios, mas principalmente do regime traçado na lei, ao equiparar em princípio o titular da
retenção ao credor pignoratício (artigos 758.° e 759.°, n.º 3) e ao colocá-lo expressamente à frente do credor hipotecário,
ainda que a hipoteca tenha sido anteriormente registada, na graduação dos vários créditos sobre o mesmo devedor (artigo
759.°, n.os 1 e 2), independentemente do registo desse direito.
Quer isto significar que, em atenção à finalidade precípua da concessão do direito de retenção, o
promitente-comprador que seja credor da indemnização prevista no artigo 442.° do Código Civil, goza (contra quem
quer que seja) da faculdade de não abrir mão da coisa enquanto se não extinguir o seu crédito. » Cfr. Revista de
Legislação e de Jurisprudência, ano 124.°, pág. 351.

c) A demais doutrina que se conhece é no sentido do direito de retenção ter eficácia erga omnes (Vaz Serra,
Boletim do Ministério da Justiça, n.º 65, pág. 177; Menezes Cordeiro, Direitos Reais, vol. lI, 1979, pág. 1100; Carvalho
Fernandes, Lições de Direitos Reais, 1996, pág. 134; conselheiro Eliseu Feigueira, «Contrato-promessa de compra e
venda», Colectânea de Jurisprudência - Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça, ano V (1997), tomo lI, pág. 6.

d) A jurisprudência recente deste Supremo Tribunal de Justiça é no sentido do direito de retenção do promitente-
comprador ter eficácia erga omnes [acórdãos de 25 de Fevereiro de 1986, Boletim do Ministério da Justiça, n.º 354, pág.
549; e de 23 de Janeiro de 1996, Colectânea de Jurisprudência - Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça, ano IV (1996),
tomo I, pág. 70].

Conclui-se, assim, que o direito de retenção do promitente-comprador vale perante o terceiro adquirente
da coisa retida».

Acórdão do STJ (Ex.mo Cons.º Salvador da Costa) de 10.1.2008, no Pr.º 07B4660:

1. Reconhecido ao autor o direito de propriedade sobre a fracção predial, devem os réus ser condenados a
entregar-lha por virtude de ocuparem à margem de algum direito real ou pessoal de gozo.
2. Como o proprietário da fracção predial não outorgou no contrato-promessa que o promitente-vendedor
incumpriu, não obstante o primeiro haver entregue as respectivas chaves ao promitente-comprador, este não tem direito de
retenção contra ele com fundamento em direito de indemnização devida pelo segundo.

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3. Autorizada pelo autor a ocupação da fracção predial, excluída está a sua ilicitude com vista à indemnização no
quadro da responsabilidade civil extracontratual por violação do direito de propriedade e prejuízo dela decorrente.
4. A citação dos réus para a acção é insusceptível de relevar como interpelação para entrega da fracção predial e
transmutação da ocupação lícita em ilícita para efeitos de indemnização a arbitrar.
5. A mera entrega das chaves da fracção predial aos réus por parte do autor não justifica a conclusão de abuso do
direito no accionamento de reivindicação, designadamente na modalidade de venire contra factum proprium.

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça

I
AA intentou, no ida 7 de Junho de 2002, contra BB e CC, acção declarativa de condenação, com processo
ordinário, pedindo a declaração de ser proprietário de identificada fracção predial autónoma correspondente ao 5º andar
direito do prédio urbano sito na Praceta do ..., nº 0, Alfragide e a condenação deles a entregarem-lha livre e devoluta e a
pagar-lhe a indemnização de € 5 250, equivalente às retribuições mensais relativas aos meses de Dezembro de 2001 a
Junho de 2002 e € 750 por cada mês de atraso na entrega da fracção, contados desde Julho de 2002, inclusive, bem como
nos juros de mora vencidos e a quantia de € 50,00 por cada dia de ocupação da fracção autónoma, contados desde a data
da instauração acção até à sua entrega.
Fundamentou a sua pretensão na compra daquela fracção no dia 26 de Julho de 1991, na sua ocupação pelos
réus, na exigência da sua devolução em 1 de Dezembro de 2001 e na existência de interessados no arrendamento por
cinco anos e € 750 mensais desde aquela data.

Os réus, com apoio judiciário na modalidade de dispensa do pagamento da taxa de justiça e demais encargos
com o processo concedido por despacho de 23 de Dezembro de 2002, afirmaram em contestação ser o réu titular do direito
de retenção sobre a fracção predial que ocupam, com base em entrega decorrente de contrato-promessa celebrado no dia
1 de Julho de 1991 com TP-Construções, Ldª, resolvido sob o fundamento de esta última não ter celebrado o contrato
definitivo.

Realizado o julgamento, foi proferida sentença no dia 3 de Março de 2005, por via da qual o autor foi declarado
proprietário daquela fracção predial e condenados os réus a entregarem-lha.

Apelaram o autor e os réus, e a Relação, por acórdão proferido no dia 28 de Junho de 2007, negou provimento ao
recurso pelos últimos e deu parcial provimento ao recurso do primeiro, condenando os segundos a pagar ao primeiro € 750
mensais desde a data da citação e € 50 diários desde o trânsito em julgado da sentença até à entrega da fracção predial.

Interpuseram BB e CC recurso de revista, formulando, em síntese, as seguintes conclusões de alegação:


- exercem a posse sobre a fracção predial que lhe foi transmitida, há mais de dez anos, pelo recorrido, seu
proprietário, pelo que é de presumir ser legítima e titulada;
- não é requisito do direito de retenção por incumprimento do contrato-promessa que quem o alega seja credor
daquele que pede a restituição, designadamente o proprietário;
- adquiriram o direito de retenção sobre a fracção por serem titulares de um crédito sobre a promitente-vendedora
por incumprimento do contrato-promessa, declarado por sentença transitada em julgado;
- quer sejam possuidores ou detentores, têm direito de retenção sobre a fracção predial oponível ao recorrido;
- o direito de retenção é oponível ao proprietário do bem ainda que não seja contra este o crédito que o originou;
- ao considerar o incumprimento do contrato-promessa, o tribunal reconheceu a sua validade, por TP, Ldª o ter
celebrado na expectativa da aquisição da fracção predial;
- o recorrente actua com abuso do direito por ter sido ele quem entregou as chaves aos recorridos na sequência
da celebração do contrato-promessa;
- não praticaram qualquer ilícito ao ocuparem a fracção, não violaram o direito do recorrido de gozo e fruição da
fracção predial;
- não têm obrigação de indemnizar o recorrido, por não ter podido arrendar a fracção predial, devendo improceder
o pedido de indemnização formulado pelo recorrido;
- deve revogar-se o acórdão recorrido e absolverem-se os recorrentes do pedido.

Respondeu o recorrido em síntese de conclusão:


- é alheio aos contratos de promessa e de permuta e não houve tradição da fracção predial;
- a entrega das chaves não foi sequencial ao contrato-promessa;
- os recorrentes não têm direito de retenção sobre a fracção predial nem título para a sua ocupação;

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- não há abuso do direito da sua parte e a decidir-se não deverem os recorrentes entregar-lhe a casa, violar-se-á o
direito constitucional de propriedade privada;
- o facto gerador da responsabilidade civil foi é a ocupação da fracção predial pelos recorrentes;
- os recorridos ocupam ilegalmente a fracção predial, pelo menos desde a citação, violando o seu direito de
propriedade, causando-lhe prejuízos correspondentes ao valor locativo de € 750 mensais.

II
É a seguinte a factualidade considerada no acórdão recorrido:
1. A aquisição do direito de propriedade sobre o prédio urbano sito na Praceta ..., n.º 0, anterior lote n.º 52-A da
Célula C da Urbanização da Quinta Grande de Alfragide - em Alfragide, concelho da Amadora, descrito na 2.ª Conservatória
do Registo Predial da Amadora sob o n.º 210, freguesia de Alfragide, inscrito na respectiva matriz predial urbana sob o
artigo 448, foi inscrita na titularidade da Empresa de Construções Civis TV, Ldª no dia 21 de Fevereiro de 1989.
2. O referido prédio urbano foi acabado de construir em 1991, em cimento armado, com revestimento de estuque
pintado, azulejos e pedra mármore, servido por dois elevadores, e foi constituído no regime da propriedade horizontal,
objecto de registo predial no dia 1 de Abril 1991, integrando as fracções autónomas designadas pelas letras A a Q.
3. No dia 4 de Janeiro de 1991, representantes de TP - Construções, Ldª e de MM, Ldª, declararam, por escrito:
- a primeira ser dona do apartamento T2 que constitui a fracção autónoma designada pela letra “I” do prédio
urbano sito no Castelinho, lote 3, Montechoro, Albufeira, e a última ser dona do apartamento T 2 que constituia a fracção
autónoma designada pela letra “I”, a que corresponde o 5º andar direito do Lote 59-A, sito na Quinta Grande, Alfragide;
- permutarem entre si os referidos apartamentos, e que o remanescente do preço de 3 000 000$ a favor de TP,
Ldª seria pago através de fornecimento de mármore por parte de MM, Ldª;
- ser a escritura de permuta feita no prazo de quinze dias a contar da comunicação de qualquer outorgante à
outra, e, em vez da escritura de permuta, poderem as outorgantes transmitir directamente qualquer dos apartamentos para
outra pessoa ou entidade, mediante acordo prévio.
4. No dia 1 de Julho de 1991, representantes de TP-Construções, Ldª, por um lado, e o réu, por outro, declararam,
por escrito:
- ser a primeira promitente compradora do apartamento T 2 que constitui a fracção O, do prédio mencionado sob
1, cuja dona era MM, Ldª, e prometer vendê-la ao último por 12 500 000$;
- ser a escritura realizada na primeira hipótese logo que o total pagamento esteja satisfeito, ou, na segunda
hipótese, logo que se realize o empréstimo;
- pagar o último à primeira, com a assinatura do contrato, 4 000 000$, por via de uma letra de 1 500 000$ e de um
cheque de 2 500 000$, e ser o restante pago: a) primeira hipótese 200 000$ por mês até Dezembro de 1992, fazendo-se
em Agosto de 1992 reforço de 5 000 000$ e, por dilação do prazo, pagará juros à taxa de 20% pela importância em dívida a
partir de 1 de Outubro de 1991; b) segunda hipótese – procura entretanto de outra solução de empréstimo junto da banca
para um financiamento para a compra.
5. Na base do negócio celebrado entre o réu e TP-Construções, Ldª, mencionado sob 5, existia um outro cuja
concretização dependeria da celebração do contrato prometido, e o primeiro cumpriu tudo a que se havia comprometido.
6. No dia 26 de Julho de 1991, em escritura pública lavrada no 4º Cartório Notarial de Lisboa, AV e FV, em
representação de Construções Civis TV, Ldª, por um lado, e o autor, por outro, declararam, a primeira vender e o último
comprar, por 8 000 000$, a fracção autónoma designada pela letra "O", correspondente ao quinto andar direito, com
arrecadação ao nível da cave, do identificado prédio.
7. A última prestação do preço mencionado sob 4 foi entregue a TP-Construções, Ldª em Janeiro de 1993, e as
chaves da fracção foram entregues aos réus pelo autor e este ajudou o réu na celebração dos contratos da água, luz e gás
junto dos serviços competentes.
8. A aquisição da fracção predial mencionada sob 6 está definitivamente inscrita na Conservatória do Registo
Predial da Amadora desde 22 de Julho de 1997, e da inscrição matricial consta o valor patrimonial de € 34.589,14.
9. Por carta de 6 de Fevereiro de 2002, o réu dirigiu a FC, gerente de TP-Construções, Ldª uma carta,
expressando: “Venho por este meio declarar resolvido o contrato-promessa de compra e venda celebrado com TP-
Construções, Ldª em 1 de Julho de 1991 relativo ao 5º andar direito do Lote 52-A, Urbanização ...Alfragide, dado que,
encontrando-se pago, na íntegra, desde 5 de Janeiro de 1993, o preço acordado de 12 500 000$, nunca por parte dessa
sociedade e desde a data atrás referida foi providenciada qualquer diligência com vista a honrar o compromisso assumido,
sendo certo ainda que, não obstante a interpelação por mim feita – através do meu procurador, Dr. ..., para comparecer no
20º Cartório Notarial de Lisboa pelas 11 horas do dia 10 de Dezembro de 2001, a fim de celebrar o negócio prometido, TP,
Ldª não compareceu nem se fez representar. Em face do condicionalismo agora expresso, perdeu o signatário
definitivamente o interesse no negócio celebrado, razão porque irá recorrer às instâncias judiciais a fim de ser ressarcido
dos prejuízos sofridos.

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10. Os réus demandaram, no dia 23 de Abril de 2002, TP-Construções, Ldª, pedindo a sua condenação, por
incumprimento do contrato mencionado sob 4, no pagamento de 40 000 000$ correspondente ao valor de mercado da
fracção à data do incumprimento, em 10 de Dezembro de 2001.
11. Por sentença proferida no dia 7 de Novembro de 2003, na acção mencionada sob 8, foi TP-Construções, Ldª
condenada a pagar aos réus € 174 579,26, acrescidos de juros de mora desde a data da citação, à taxa de 7% ao ano até
30 de Abril de 2003 e de 4% depois dessa data.
12. Os réus gozam, ocupam e utilizam, em exclusivo, a identificada fracção autónoma, que se compõe de três
assoalhadas, cozinha, casa de banho, corredor e despensa, tendo uma área útil de 85 metros quadrados, e, ainda, de
arrecadação ao nível da cave com uma área útil de 8 metros quadrados, e até à data presente não procederam à sua
entrega ao autor.
13. O prédio está situado em zona muito procurada e valorizada com vistas largas e arejadas, servida por
transportes públicos, junto a vários estabelecimentos comerciais, dotada de todas as infra-estruturas.
14. O prédio e a fracção autónoma estão em bom estado de utilização, conservação e limpeza, e a última tem um
valor locativo mensal de, pelo menos, € 750,00.
15. O autor pretendeu dar de arrendamento a fracção autónoma pela renda mensal de € 750,00, pelo período de
cinco anos, com início em 1 de Dezembro de 2001, actualizável anualmente nos termos da lei, pagável antecipadamente no
1° dia útil do mês anterior ao que disser respeito, na sua morada, e tinha e tem interessados em a tomar de arrendamento
nessas condições.

III
A questão essencial decidenda é a de saber se o recorrido não tem direito a exigir dos recorrentes a entrega da
fracção predial, a indemnização arbitrada e a sanção pecuniária fixada.
Tendo em conta o conteúdo do acórdão recorrido e as conclusões de alegação formuladas pelos recorrentes, a
resposta à referida questão pressupõe a análise da seguinte problemática:
- natureza e efeitos dos contratos celebrados;
- têm ou não os recorrentes direito de retenção sobre a fracção predial em causa?
- pressupostos da procedência da acção de reivindicação;
- titularidade do direito de propriedade sobre a aludida fracção predial;
- têm ou não os recorridos algum título legítimo de ocupação da fracção predial em causa?
- tem ou não o recorrido direito a exigir dos recorrentes a indemnização em causa?
- agiu ou não o recorrido em abuso do direito?

Vejamos de per se cada uma das referidas subquestões.

1.
Comecemos pela análise da natureza e dos efeitos dos contratos celebrados.
A aquisição do prédio em causa, acabado de construir em 1991, cuja constituição da propriedade horizontal foi
levada ao registo predial no dia 1 de Abril de 1991, estava nele inscrita desde 21 de Fevereiro de 1989 na titularidade da
Empresa de Construções TV, Ldª.
No dia 4 de Janeiro de 1991, em documento escrito simples, representantes de TP-Construções, Ldª e de MM Ldª
declararam, por escrito, prometeram permutar duas fracções prediais, a primeira alienar à última uma fracção predial sita
em Montechoro, Albufeira, e a última, em contrapartida alienar à primeira a fracção predial em causa e mármore no valor de
3 000 000$.
Outrora seria um contrato-promessa de escambo ou troca, em que se dava uma coisa por outra, o que
corresponde actualmente a dois conexos contratos-promessa de compra e venda (artigo 410º, nºs 1 e 2 e 874º do Código
Civil).
Cerca de seis meses depois, em 1 de Julho de 1991, também em documento escrito simples, representantes TP-
Ldª, e os recorrentes declararam prometer, a primeira vender e os últimos comprar, por 12 500 000$, que estes foram
pagando àquela, pagamento que vieram a concluir dois anos depois.
Eles celebraram, pois, um contrato-promessa que teve por objecto mediato a celebração do contrato prometido de
compra e venda (artigos 410º, nºs 1 e 2 e 874º do Código Civil).
Vinte e cinco dias depois da celebração do mencionado contrato-promessa, no dia 26 de Julho de 1991, em
escritura pública, representantes de Construções Civis TV, Ldª, por um lado, e o recorrido, por outro, declararam, a primeira
vender, e o último comprar, por 8 000 000$, a mencionada fracção predial.
Celebraram, pois, um contrato de compra e venda cujo objecto foi a fracção predial em causa (artigo 874º do
Código Civil).

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Dele resultou a transmissão do direito de propriedade da titularidade da sociedade comercial TV, Ldª para a
titularidade do recorrido, e a obrigação para a primeira de entrega da fracção predial ao último e a deste de àquela pagar o
preço (artigos 408º, nº 1 e 879º do Código Civil).
Ressaltam, pois, desta dinâmica factual, duas particularidades, por um lado a circunstância de figurar como
vendedora da fracção predial em causa uma sociedade diversa daquela que celebrou o contrato-promessa de compra e
venda com os recorrentes.
E, por outro, também diferente daquela que celebrou o contrato-promessa de troca com a promitente vendedora
em relação ao recorrente como que tivesse poderes para dispor do direito de propriedade que se comprometeu a transmitir
para TP, Ldª.
Além disso, ocorre a particularidade de ter sido o recorrido quem entregou as chaves da mencionada fracção
predial aos recorrentes, sem que se saiba se foi antes ou depois de ter adquirido o direito de propriedade sobre ela.
Acresce, por um lado, que os recorrentes resolveram o contrato-promessa de compra e venda acima referido no
confronto da promitente vendedora, após o que demandaram esta última com base no incumprimento, que situaram no dia
10 de Dezembro de 2001.
E, por outro, que lhes foi reconhecido, por sentença proferida no dia 7 de Novembro de 1993, em virtude do
mencionado incumprimento, o direito de indemnização no montante de € 40 000, correspondente ao valor da fracção predial
à data do mesmo, e juros de mora desde a data da citação.

2.
Prossigamos com a subquestão de saber se os recorrentes têm ou não direito de retenção sobre a fracção predial
em causa no confronto do recorrido.
Expressa a lei, relativamente à figura geral do direito de retenção, que o devedor que disponha de um crédito
contra o seu credor goza do direito de retenção se, estando obrigado a entregar certa coisa, o seu crédito resultar de
despesas feitas por causa dela ou de danos por ela causados (artigo 754º do Código Civil).
O direito de retenção é excluído, além do mais que aqui não releva, a favor dos que tenham obtido por meios
ilícitos a coisa que devem entregar, desde que no momento da aquisição conhecessem a ilicitude desta (artigo 756º, alínea
a), do Código Civil).
Assim, os requisitos da constituição do direito de retenção em geral são a licitude da detenção da coisa, a
reciprocidade de créditos e a conexão substancial entre a coisa retida e o direito de crédito do retentor.
Dir-se-á que o direito de retenção confere ao credor, na posse de certa coisa pertencente ao devedor, o direito de
a não a entregar enquanto o último não cumprir a sua obrigação conexa, por causa dela.
Entre os casos especiais do direito de retenção, conta-se o do beneficiário da promessa de transmissão de direito
real que obteve a tradição da coisa pelo crédito resultante do não cumprimento imputável à outra parte, nos termos do artigo
442º do Código Civil (artigo 755º, nº 1, alínea f), do Código Civil).
Se o não cumprimento do contrato for devido ao que recebe o sinal, tem o outro contraente a faculdade de exigir o
dobro do que prestou, ou, se houver tradição da coisa a que se refere o contrato prometido, o seu valor, determinado
objectivamente à data do não cumprimento da promessa, com dedução do preço convencionado e restituição do sinal e da
parte do preço que tenha pago (artigo 442º, nº 2, do Código Civil).
No direito de retenção genérico a que se reporta o artigo 754º do Código Civil a lei liga o direito de crédito do
retentor da coisa a despesas feitas por causa dela ou de danos por ela causados; mas no direito de retenção especial a que
alude a alínea f) do nº 1 do artigo 755º do Código Civil a conexão é diversa.
Trata-se de um direito real de garantia cujos pressupostos são a existência de um contrato-promessa, a
convenção de tradição do objecto mediato do contrato prometido e o incumprimento definitivo daquele contrato pelo
promitente vendedor.
Dada a estrutura do referido direito de retenção, certo é que, ao invés do ocorre com o direito de penhor ou de
hipoteca, não pode ser constituído por contrato ou negócio jurídico unilateral.
Com efeito, como se trata de um direito de garantia real de origem legal, só pode ser constituído verificados que
estejam em sentença os pressupostos de facto legalmente previstos para o efeito.
Os recorrentes são titulares de um direito de crédito indemnizatório no confronto da promitente vendedora, TP,
Ldª, por esta ter incumprido o referido contrato-promessa de compra e venda da fracção em causa.
Embora o direito de retenção do promitente comprador tradiciário assuma a especialidade a que já se fez
referência, é seu pressuposto essencial que o retentor seja credor de quem tem o direito de exigir a entrega, em regra o
titular do respectivo direito de propriedade.
No despacho saneador, na decisão de indeferimento do pedido formulado pelos recorrentes de suspensão da
instância com fundamento na prejudicialidade da acção por eles intentada contra TP, Ldª, argumentou-se que o objecto da
acção em análise não podia ser abrangido pelo caso julgado da antecedente por virtude de, a proceder, o seu direito de
propriedade ficava afectado pelo direito real de retenção.

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A referida motivação, a propósito de decisão de uma questão meramente processual, não tem a virtualidade de
assumir relevo em termos de vinculação de caso julgado em relação à questão de saber se os recorrentes são ou não
titulares de direito de retenção sobre a fracção predial em causa no confronto do recorrido.
Assim, em conclusão, como os recorrentes não são titulares de algum direito de crédito no confronto do recorrido,
seja por despesas realizadas na fracção predial em causa, seja por incumprimento do contrato-promessa, a lei não lhes
confere o direito de retenção sobre ela.

3.
Vejamos agora os pressupostos da procedência da acção de reivindicação em análise.
Trata-se, no fundo, de uma acção declarativa de condenação na entrega de uma coisa, abrangente de dois
pedidos, o de declaração da titularidade do direito de propriedade e o de condenação na entrega de coisa certa.
A respectiva causa de pedir são os factos jurídicos concretos integrantes da aquisição do direito de propriedade,
ou seja, por exemplo, os relativos ao contrato, à sucessão por morte, à ocupação, à usucapião e à acessão industrial
imobiliária (artigo 1316º do Código Civil).
Nas três últimas hipóteses, a aquisição é originária, situação em que a causa de pedir é integrada pelos
concernentes factos constitutivos, e, nas duas primeiras, tem de envolver a sucessiva titularidade de aquisições até à
originária.
Todavia, nestas últimas hipóteses a prova de que o direito existia na titularidade de quem transmite é susceptível
de ser superada por via de inscrição da aquisição no registo predial.
Com efeito, a inscrição definitiva da aquisição do direito de propriedade sobre o prédio ou alguma sua fracção
autónoma gera a presunção legal de que tal direito existe e pertence ao titular da inscrição (artigo 7º do Código do Registo
Predial).
O proprietário pode exigir judicialmente de qualquer possuidor ou detentor da coisa o reconhecimento do seu
direito de propriedade e a consequente restituição do que lhe pertence (artigo 1311º, nº 1, do Código Civil).
Havendo reconhecimento do direito de propriedade, a restituição só pode ser recusada nos casos previstos na lei
(artigo 1311º, nº 2, do Código Civil).

4.
Atentemos, ora, na subquestão da titularidade do direito de propriedade sobre a fracção predial em causa.
O recorrido tem inscrita definitivamente no registo predial, na sua titularidade, a aquisição do direito de
propriedade sobre a fracção predial em causa por contrato de compra e venda celebrado no dia 26 de Julho de 1991.
Presume-se, por isso, legalmente, ser titular do direito de propriedade sobre a fracção predial em causa (artigo 7º
do Código do Registo Predial).
Os recorrentes tinham o ónus de prova dos factos reveladores do contrário do que resulta da mencionada
presunção (artigos 344º, nº 1, e 350º do Código Civil).
Como os recorrentes não lograram provar factos idóneos à ilisão da mencionada presunção, a conclusão é no
sentido de que o recorrido é o titular do mencionado direito de propriedade sobre a fracção predial em causa (artigos 7º do
Código do Registo Predial e 350º do Código Civil).

5.
Prossigamos com a subquestão de saber se os recorrentes têm ou não algum título que lhes legitime a ocupação
da fracção predial em causa.
Expressa a lei que, havendo reconhecimento do direito de propriedade, a restituição só pode ser recusada nos
casos previstos na lei (artigo 1311.º, nº 2, do Código Civil).
Está assente, por um lado, que os recorrentes ocupam e utilizam, em exclusivo, a identificada fracção autónoma,
e, por outro, que as chaves respectivas lhe foram entregues pelo recorrido e que este os ajudou na celebração dos
contratos de água, luz e gás.

Não se sabe, porém, o motivo pelo qual o recorrido entregou as chaves aos recorrentes.
A Relação expressou que de relevante apenas se sabe ocuparem os recorrentes a fracção ajuizada porque
obtiveram a sua tradição na sequência de um contrato-promessa outorgado com terceiro não seu proprietário, tendo sido o
autor a entregar-lhe as respectivas chaves.
No texto do contrato-promessa nada se refere quanto à entrega da fracção predial aos recorrentes, sendo certo
que a promitente vendedora não era titular do direito de propriedade sobre ela.
Não se sabe a data em que ocorreu a referida entrega da fracção predial; mas sabe-se que o recorrente adquiriu o
direito de propriedade sobre ela vinte e cinco dias depois de os recorrentes terem outorgado no mencionado contrato-
promessa.

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A expressão na sequência do contrato contrato-promessa não pode significar que tal ocorreu imediatamente a
seguir à sua celebração ou na sequência da sua assinatura, pois tal foi considerado não provado na resposta aos quesitos
primeiro e nono da base instrutória.
A posse é o poder que se manifesta quando alguém actua por forma correspondente ao exercício do direito de
propriedade ou de outro direito real (artigo 1251º do Código Civil).
Nela se diferenciam dois elementos, o corpus ou domínio de facto sobre a coisa, traduzido no exercício efectivo de
poderes materiais sobre ela ou na possibilidade física desse exercício, e o animus, consubstanciado na intenção de exercer
sobre a coisa, como seu titular, o direito real correspondente àquele domínio.
A aquisição originária da posse é susceptível de derivar, além do mais, do apossamento, ou seja, da aquisição
unilateral da posse por via do exercício de um poder de facto, isto é, pela prática reiterada, com publicidade, de actos
materiais correspondentes ao exercício do direito (artigo 1263º, alínea a), do Código Civil).
A posse também é susceptível de se obter por via da sua transferência, ou seja, por tradição ou sucessão por
morte ou entre vivos.
A tradição consubstancia-se na transferência voluntária da posse entre vivos, em regra quando a transmissão da
situação jurídica e da situação de facto coincidem, o que ocorre quando há entrega da coisa. Mas a entrega efectiva não é
essencial à referida transmissão, visto que a lei se basta, para o efeito, com a entrega simbólica (artigo 1263º, alínea b), do
Código Civil).
Os factos provados, designadamente o conteúdo do mencionado contrato-promessa, a entrega das chaves aos
recorrentes pelo recorrido, a ajuda destes na celebração dos contratos de prestação de serviços de água, energia eléctrica
e gás por aqueles e a ocupação dela não revelam que os primeiros sejam possuidores em nome próprio.
Aliás, na resposta ao quesito primeiro foi declarado não provado que ao recorrente, após a celebração do
contrato-promessa foi entregue a fracção predial e que ele a passou a usufruir com a família como se fosse seu proprietário.
Ainda que a entrega das chaves decorresse do próprio contrato-promessa de compra e venda – e não pode
decorrer porque a promitente vendedora não era titular do direito de propriedade sobre ela – a posição dos recorrentes seria
a de possuidores em nome alheio, ou seja, a de meros detentores (artigo 1253º, alíneas a) e c), do Código Civil).
Acresce que, resolvido o contrato-promessa em causa pelos recorrentes, deixaria o mesmo de justificar a traditio
da fracção predial que ocorrera.
Certo é que os recorrentes passaram a habitar a fracção predial em causa sob autorização do recorrido, visto que
este lhes entregou as respectivas chaves.
A Relação, a propósito da decisão questão da indemnização pretendida pelo recorrido no confronto dos
recorrentes por virtude da ocupação por estes da fracção predial em causa considerou tratar-se de um contrato de
comodato sem prazo nem destinado a um fim determinado.
A lei caracteriza o contrato de comodato como sendo o contrato gratuito pelo qual uma das partes entrega à outra
certa coisa, móvel ou imóvel, para que se sirva dela, com a obrigação de a restituir (artigo 1129º do Código Civil).
Se as partes não convencionarem prazo certo para a restituição da coisa que foi emprestada para uso
determinado, deve o comodatário restituí-la logo que o uso finde, independentemente de interpelação (artigo 1137º, nº 1, do
Código Civil).
Não sendo convencionado prazo para a restituição nem determinado o uso da coisa, o comodatário é obrigado a
restituí-la logo que lhe seja pedida (artigo 1137º, nº 2, do Código Civil).
Considerando, porém, o quadro de facto provado – mera entrega das chaves e auxílio na celebração de contratos
de prestação de serviços de fornecimento de água, gás e energia eléctrica – a conclusão é no sentido de que ele não
integra o contrato de comodato tal como está legalmente estruturado.
Decorre, assim, do exposto não revelarem os factos provados que a ocupação da fracção predial em causa pelos
recorrentes se baseia em algum título legítimo a que se reporta o artigo 1311º, nº 2, do Código Civil.
Fossem os recorrentes possuidores em nome próprio, designadamente por inversão do título de posse, ou meros
detentores, sempre teriam que demonstrar a sua titularidade de algum título legitimador da ocupação, fosse direito real ou
pessoal de gozo (artigo 342º, nº 2, do Código Civil).
Ora como os recorrentes não demonstraram serem titulares de algum título legitimador da ocupação da fracção
predial em causa, nos termos do artigo 1311º, nº 2, do Código Civil, a conclusão é no sentido de dever proceder a
pretensão do recorrido de condenação dos recorrentes na sua entrega, tal como foi decidido nas instâncias.

6.
Vejamos agora se o recorrido tem ou não direito a exigir dos recorrentes a indemnização que deles reclamam.
Os últimos discordam da sua condenação no pagamento da indemnização sob o argumento de que a citação para
a acção só vale como interpelação quando através dela se peça o cumprimento da obrigação assumida no contrato e se
pretenda obter através dela a indemnização pelo seu incumprimento

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Está assente que os réus vêm ocupando a mencionada fracção predial, que esta tem um valor locativo mensal de
€ 750, que o recorrido pretendeu dá-la de arrendamento por cinco anos, com início no dia 1 de Dezembro de 2001, por
aquela renda, e que tinha e tem interessados em a tomar de arrendamento nessas condições.
Mas não ficou provado que o recorrido tivesse exigido aos recorrentes a entrega da fracção predial no dia 1 de
Dezembro de 2001.
O proprietário goza de modo pleno e exclusivo dos direitos de uso, fruição e disposição das coisas que lhe
pertencem, dentro dos limites da lei e com observância das restrições por ela impostas (artigo 1305.º do Código Civil).
O direito de disposição do proprietário compreende, além do mais, em regra, a faculdade praticar actos jurídicos
de alienação ou de usufruição das coisas que lhe pertencem, neste último caso a de as arrendar tratando-se de imóveis.
A violação do direito de propriedade é, assim, susceptível de derivar da privação do uso ou fruição da coisa,
designadamente por via da disposição indevida dela.
A obrigação de indemnização no quadro da responsabilidade civil depende da violação ilícita, com dolo ou mera
culpa, do direito de outrem e de tal violação resultar, em termos de causalidade adequada, um dano ou prejuízo reparável
(artigos 483º, nº 1, 562º e 563º do Código Civil).
Os factos provados revelam que o recorrido, por virtude de os recorrentes habitarem a fracção predial em causa,
não pôde auferir a renda mensal de € 750 desde 1 de Dezembro de 2001 que lhe seria paga no mercado de arrendamento
por pessoas interessadas.
Isso significa que o recorrido foi afectado negativamente na sua esfera jurídico-patrimonial, experimentando uma
desvantagem económica por virtude da ocupação da casa pelos recorrentes.
Todavia, os recorrentes ocuparam a mencionada fracção predial com autorização do recorrido que não só lhes
entregou as chaves respectivas como também os auxiliou na celebração dos contratos de prestação de serviço de
fornecimento de água, gás e energia eléctrica.
Em consequência, tal como foi entendido nas instâncias, a ocupação pelos recorrentes da fracção predial é lícita,
ou seja, não constitui o primeiro pressuposto da obrigação de indemnização no quadro da responsabilidade civil
extracontratual a que se reporta o artigo 483º, nº 1, do Código Civil.
Conforme acima se referiu, os factos provados não revelam que o recorrido e os recorrentes celebraram um
contrato de comodato, pelo que se não pode concluir assumirem os últimos a obrigação de restituição da fracção predial
logo que o primeiro lha exigisse, designadamente por via de notificação.
Estamos perante uma acção real, baseada em ocupação de imóvel sem título legitimante, e de indemnização
baseada na ilicitude dessa ocupação no quadro da responsabilidade civil extracontratual.
A Relação considerou que os recorrentes, com a citação, conheceram a medida da sua lesão do direito de
propriedade do recorrido, e, por isso, em razão dessa ilícita ocupação subsequente, condenou os primeiros a indemnizar o
último na mencionada medida.
Baseou-se, para tal, nos artigos 805º, nº 1, alínea a), do Código Civil e 481º do Código de Processo Civil.
O primeiro dos mencionados normativos expressa que o devedor, em regra, fica constituído em mora depois de
ter sido judicial ou extrajudicialmente interpelado para cumprir.
O segundo estabelece, por seu turno, que a citação faz cessar a boa fé do possuidor, torna estáveis os elementos
essenciais da causa, nos termos do artigo 268º do Código de Processo Civil e inibe o réu de propor contra o autor acção
destinada à apreciação da mesma questão jurídica.
Não estamos no caso vertente perante uma acção destinada ao cumprimento de alguma obrigação contratual,
pelo que se não pode considerar que a citação dos recorrentes para a acção tem o efeito de interpelação para a entrega da
fracção predial.
Verificou-se que os recorrentes ocupavam licitamente a fracção predial em causa, porque autorizados por quem
de direito – o recorrido – e a restituição é determinada por virtude de falta de título de estrutura real ou obrigacional
justificativo da ocupação no confronto com o titular do direito de propriedade.
Perante este quadro de facto e de direito, não pode subsistir a decisão da Relação condenatória dos recorrentes a
indemnizar o recorrido com referência ao tempo decorrente a partir da citação dos últimos.

7.
Atentemos, ora, sobre se o recorrido abusou ou não do exercício do seu direito.
Expressa a lei ser ilegítimo o exercício de um direito quando o seu titular exceda manifestamente os limites
impostos pela boa fé, pelos bons costumes ou pelo seu fim social ou económico (artigo 334º do Código Civil).
Reporta-se, pois, este artigo à existência de um direito substantivo exercido com manifesto excesso em relação
aos limites decorrentes do seu fim social ou económico, em contrário da boa fé ou dos bons costumes, proibindo
essencialmente a utilização do poder contido na estrutura do direito para a prossecução de interesses exorbitantes do fim
que lhe inere.

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O fim económico e social de um direito traduz-se, essencialmente, na satisfação do interesse do respectivo titular
no âmbito dos limites legalmente previstos; e os bons costumes são, grosso modo, o conjunto de regras de comportamento
relacional, acolhidas pelo direito, variáveis no tempo e, por isso, mutáveis conforme as concepções ético-jurídicas
dominantes na colectividade de referência em determinada unidade de tempo.
O seu funcionamento, como excepção peremptória imprópria de direito adjectivo que é, não depende da sua
consciencialização por parte do respectivo sujeito.
O entendimento da jurisprudência, no seguimento da doutrina, tem sido no sentido de que este instituto funciona
como limite ao exercício de direitos quando a atitude do seu titular se manifeste em comportamento ofensivo do sentido
ético-jurídico da generalidade das pessoas em termos clamorosamente opostos aos ditames da lealdade e da correcção
imperantes na ordem jurídica.
Uma das vertentes do abuso do direito é o designado venire contra factum proprium, no confronto com o princípio
da tutela da confiança, como é o caso de ser exercido contra alguém que, com base em convincente conduta positiva ou
negativa de quem o podia exercer, confiou em que tal exercício não ocorresse e programou em conformidade a sua
actividade.
Dir-se-á, nessa hipótese, que o titular do direito opera o seu exercício no confronto de outrem depois de a este
fazer crer, por palavras ou actos, que o não exerceria, ou seja, depois de gerar uma situação objectiva de confiança em que
ele não seria exercido.
Aproximemos do caso concreto em análise as referidas considerações de ordem jurídica.
Os recorrentes fundam a invocação do abuso do direito pelo recorrido na circunstância de este lhes haver
entregue as chaves da fracção predial, nela terem instalado licitamente a casa de morada de família e de ele pretender
inverter a situação que criara.

Conforme acima se referiu, ignoram-se os motivos pelos quais, não obstante o recorrido seja alheio às obrigações
que para os recorrentes e TP, Ldª advieram do contrato-promessa, por nele não haver outorgado, o primeiro entregou aos
últimos as chaves da fracção predial em causa.
O recorrido é titular do direito de propriedade sobre a mencionada fracção predial, não outorgou no referido
contrato-promessa, limitou-se a permitir o seu uso pelos recorrentes.
Não decorre dos factos provados que o recorrido gerasse objectivamente nos recorrentes a convicção de que
jamais lhe exigisse a entrega da fracção predial em causa.
Em suma, os factos provados não revelam que o recorrido, ao exercer, por via da acção, o direito à restituição da
fracção predial, faculdade inerente ao respectivo direito de propriedade, tenha assumido alguma conduta contraditória em
termos de gerar nos recorrentes a fundada convicção de que não o exerceria.
Acresce que os factos provados não revelam que o recorrido tenha agido na acção de má fé, com ofensa dos
bons costumes ou à margem do fim económico do seu direito.
A conclusão é, por isso, no sentido de que inexiste fundamento legal para se concluir que o recorrido motivou por
via do accionamento que empreendeu a excepção peremptória imprópria de abuso do direito.

8.
Finalmente a síntese da solução para o caso espécie decorrente dos factos provados e da lei.
TP, Ldª, como promitente vendedora de uma fracção predial de que não proprietária, e o recorrente, como
promitente comprador, celebraram o contrato-promessa a que a acção se reporta.
Depois disso, o recorrido, como comprador, e a titular do direito de propriedade sobre a mencionada fracção
predial, na posição de vendedora, celebraram o contrato de compra e venda que a teve por objecto mediato.
Os recorrentes resolveram o mencionado contrato-promessa no confronto de TP, Ldª e foi-lhes reconhecido
judicialmente o direito de crédito equivalente ao valor da fracção predial por virtude de incumprimento contratual.
O recorrido entregou as chaves da fracção predial aos recorrentes, mas estes não têm contra aquele direito de
retenção sobre a fracção predial, porque é alheio à celebração do contrato-promessa.
Os recorrentes, porque ocupam a fracção predial à margem de qualquer direito real ou pessoal de gozo, devem
restituí-la ao recorrido por virtude de a este ter sido reconhecido o respectivo direito de propriedade.
Autorizada pelo recorrido a ocupação, excluída está a sua ilicitude com vista à indemnização no quadro da
responsabilidade civil extracontratual por violação do direito de propriedade.
A citação dos recorrentes para a acção é insusceptível de relevar em termos de interpelação para entrega da
fracção predial e determinar a ilicitude da ocupação desde então para efeitos de indemnização a arbitrar ao recorrido.
O accionamento dos recorrentes pelo recorrido para os fins concernentes não está envolvido de abuso do direito,
incluindo a vertente do venire contra factum proprium.

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Não há fundamento para a alteração do acórdão recorrido na parte em que fixou a sanção pecuniária compulsória
devida pelos recorrentes pelo atraso de entrega da fracção predial após o trânsito em julgado da decisão final, a que os
últimos não se referiram especificamente no recurso.

Procede, assim, parcialmente, o recurso, isto é, na parte relativa à condenação dos recorrentes no pagamento de
indemnização ao recorrido.
Vencidos, são o recorrido e os recorrentes responsáveis pelo pagamento das custas na proporção do vencimento
(artigo 446º, nºs 1 e 2, do Código de Processo Civil).
Todavia, como os recorrentes beneficiam do apoio judiciário na modalidade de dispensa de pagamento de custas,
tendo em conta o disposto nos artigos 15º, alínea a), 37º, nº 1 e 54º, nºs 1 a 3, da Lei nº 30-E/2000, de 20 de Dezembro, e
51º, nº 2, da Lei nº 34/2004, de 29 de Julho, inexiste fundamento legal para que sejam condenados no pagamento das
referidas custas.

IV
Pelo exposto, dando parcial provimento ao recurso, revoga-se o acórdão recorrido apenas no segmento relativo à
condenação dos recorrentes no pagamento de indemnização ao recorrido, mantendo-se no restante o decidido nas
instâncias, e condena-se o último no pagamento das custas respectivas, na proporção do vencimento.

Lisboa, 10 de Janeiro de 2008.

Salvador da Costa (relator)


Ferreira de Sousa
Armindo Luis

E a caducidade decretada pelo n.º 2 do art. 824.º CC?

Na 10ª edição (Outubro de 2007) do seu Curso de Processo de Execução, o Cons.º Amâncio
Ferreira ensina que

«… é incompatível com a adjudicação ou a venda executiva o direito à execução específica do terceiro promitente
comprador, quando à promessa de transmissão tenha sido atribuída eficácia real (art. 413° do CC) ou, quando tendo esta
promessa eficácia meramente obrigacional, a acção de execução específica tenha sido registada antes da penhora -
art. 3.°, n.° 1, alínea a) e 5°, n.° 1, do C. R. Predial.
Na segunda situação, e tendo em conta que a sentença que determina a execução específica é registável, por
implicar a aquisição dum direito de propriedade {art. 2º, nº 1, al. a), do C. R. Predial)}, também se encontra sujeita a registo
a acção que essa sentença ultima {art. 3º, nº 1, al. a), do CRP}. Justificável por se tratar duma acção constitutiva, que visa a
transmissão da propriedade sobre a coisa, em substituição do contrato de compra e venda que o promitente vendedor
estava obrigado a celebrar e não celebrou.
Ora, sendo o registo da acção provisório por natureza e convertendo-se em definitivo em face da certidão da
sentença, transitada em julgado, que julgue procedente o pedido, necessariamente o registo da sentença conserva a
prioridade do registo provisório da acção, consequentemente do acto de transmissão de propriedade que esta visa [arts. 6.°,
n.º 3, 92.°, n.os 1, alínea a), e 3 e 101.°, n.º 2, alínea b), do C. R. Predial]. Donde serem inoponíveis ao promitente-
comprador os actos a favor de terceiro que não se mostrem registados ou só o hajam sido após o registo da acção,
quer esses actos ocorram antes ou depois deste registo.
Não há razão para distinguir entre a transmissão ou oneração ocorrida antes ou depois do registo da acção, para
só na segunda hipótese se conferir ao promitente comprador o direito à execução específica. Isto porque o registo da
aquisição da propriedade ocorre na sequência do trânsito em julgado da sentença, recuperando esta a situação existente no
momento do registo da acção, como se neste momento tivesse sido proferida.
Assim, a penhora incidente sobre a coisa objecto do contrato-promessa, mesmo que ocorrida antes do registo da
acção, mas registada posteriormente a esse registo, é incompatível com o direito reconhecido ao promitente comprador
na sentença que puser termo à acção de execução específica, como se o registo da penhora tivesse sido efectuado após o
registo da sentença.

- Também o terceiro promitente comprador pode embargar de terceiro na execução para entrega de coisa certa,
desde que tenha registado a promessa dotada de eficácia real ou a acção de execução específica antes do registo de
aquisição da propriedade por parte do exequente.

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- Ainda o promitente comprador que goze do direito de retenção, nos termos da alínea f) do n.° 1 do art. 755° do
CC, pode embargar de terceiro, maxime se o direito de execução específica não puder ser afastado pelos contraentes, ou
seja, se se tratar de contratos-promessa relativos à transmissão ou constituição de direitos reais sobre edifícios, ou fracções
autónomas deles (arts. 410°, n.° 3, e 830°, n.° 3, do CC).
Isto por o direito de retenção, na situação analisada, garantir não só o pagamento da indemnização devida
por incumprimento, mas também o cumprimento contratual em espécie, ante o estatuído nos n.ºs 2 e 3 do art. 442.°
do CC. E o direito à execução específica é incompatível com a adjudicação ou a venda da coisa retida, na sequência
da penhora que sobre ela tenha incidido.
Como princípio geral, o direito em que se funda o embargante deve ser anterior à penhora, de forma a que, ao
realizar-se esta, aquele já fosse titular do direito em causa. Se, no momento da penhora, os bens pertenciam ao executado,
nenhum adquirente posterior pode ver coroado de êxito os embargos de terceiro que deduzir, por falta do pressuposto
básico daqueles que não é outro senão o erro na atribuição da titularidade dos bens aquando da penhora».

Naquele primeiro sentido, mas com importante voto de vencido, veja-se o Ac. do STJ de 12.2
2004, na Col. Jur. STJ 2004-I- 57, semelhante ao de 2005, estudado com o contrato promessa.
Por último, o STJ (Cons.º Mário Cruz) decidiu assim por Ac. de 18-09-2007, Pr.º 07A2627:
I. O promitente-comprador de imóvel não pode opor-se à execução instaurada por terceiro contra o
promitente vendedor porque não é possuidor em nome próprio. Como é ainda um mero detentor, não lhe assiste o
direito de se socorrer dos meios possessórios.
II. Só está reconhecido o direito de retenção ao beneficiário da promessa de transmissão ou constituição
de direito real que obteve a tradição da coisa, desde que relativo ao bem objecto de incumprimento definitivo
imputável à outra parte, mas não quando esteja apenas em causa a simples mora. - art. 442.º do CC.
III. O direito de retenção é um mero direito real de garantia das obrigações pelo que, mesmo verificando-se
os pressupostos para a sua verificação, não pode obstar à penhora ou conduzir implicitamente à suspensão da
execução.
IV. O titular do direito de retenção tem apenas a possibilidade de permanecer no imóvel até à conclusão da
fase da venda e, com o produto dela, obter o pagamento do seu crédito (ou parte dele), de acordo com a graduação
efectuada na fase concursal com a dos demais créditos

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça:

I. Relatório

AA e esposa, BB, residentes em ......... Massachussets, E.U.A. deduziram embargos de terceiro na execução
que a CAIXA DE CRÉDITO AGRÍCOLA MÚTUO DO ALTO MINHO, CRL move contra CC, alegando em síntese que são
promitentes compradores do imóvel penhorado, que o promitente vendedor lhes entregou as chaves do imóvel, que, vêm
praticando à vista de todos, diversos actos – que enunciou – que são demonstrativos dessa posse em nome próprio (1) tudo
isso à vista de todos, na convicção de que exercem tal direito em nome e por direito próprio e não já em nome do
promitente vendedor, e que gozam do direito de retenção sobre ele.
Mais referem que já deram como sinal e princípio de pagamento € 74.819,68 e que a restante parte do preço seria
paga no acto da escritura, a qual só ainda não foi feita, em virtude de o promitente vendedor não ter obtido da C. M. de
Arcos de Valdevez, a respectiva licença de utilização, mas que se adivinha para breve a emissão de tal documento.
Alega por fim que lhe assiste o direito de retenção e que a penhora ofende a posse e esse direito, não sendo ele
responsável pela dívida.

Contestou a exequente, dizendo que o contrato-promessa foi simulado, pois nunca os embargantes estiveram na
posse do imóvel penhorado, nem nunca praticaram sobre ele os actos que invocam, pugnando assim pela improcedência
da oposição com o consequente prosseguimento da execução no tocante ao imóvel em causa.

Findos os articulados foi proferido saneador-sentença, tendo a M.ª Juiz julgado os embargos improcedentes e
absolvido a requerida embargada do pertinente pedido.

Inconformados com a decisão, recorreram os embargantes pretendendo a sua revogação e a selecção dos factos
para ulterior julgamento.

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Em resposta a exequente defendeu a confirmação da decisão impugnada.

A Relação veio a julgar improcedente o recurso.

De novo recorreram os embargantes para este Tribunal … havendo apresentado alegações na revista, que
concluíram pela mesma forma que já haviam apresentado na Relação, mas a que acrescentaram o texto agora incluído sob
a alínea F), e que abaixo reproduziremos.

As conclusões das actuais alegações foram as seguintes:

“A - A tradição da coisa, por via de contrato promessa de compra e venda para os promitentes-compradores
confere-lhes o acesso à tutela do meios possessórios desde que aquela tradição seja seguida da prática por parte destes
de actos próprios de quem age em nome próprio.
B - Neste caso os promitentes-compradores gozam do direito de retenção.
C- Tal direito de retenção prevalece sobre hipoteca ainda que anteriormente registada.
D - A penhora sobre a coisa ofende a posse dos promitentes-compradores.
E - Os promitentes-compradores alegaram, em sede de petição de embargos, factos que a serem dados como
provados consubstanciam actos próprios e de quem age em nome próprio.
F - A Douta Sentença proferida na Primeira Instância não deu qualquer facto como provado.
G - Estes factos só poderão ser apreciados em sede de Audiência de Julgamento.
H - A Douta Sentença proferida na Primeira Instância e o Douto Acórdão proferido pelo Tribunal da Relação de
Guimarães violam, entre outras, as disposições contidas nos artigos 351.° 510.° n.º 1 ali. b) e 659.° n.º 2 todos do CPC.”

II. Âmbito do recurso

A questão que se coloca nesta sede continua a ser a mesma sobre a qual a Relação já se pronunciou, que é a de
saber se poderia o M.º Juiz conhecer desde logo da improcedência dos embargos de terceiro no despacho saneador, ou se
pelo contrário deveria ordenar que o Tribunal da 1.ª instância proferisse despacho onde fizesse prosseguir os autos em
direcção à audiência de julgamento.
Levantam agora os Apelantes uma outra questão, não suscitada anteriormente, que é a de a decisão da primeira
instância não enunciar qualquer facto como provado

III. Fundamentação

Comecemos por nos debruçar sobre a admissibilidade das questões suscitadas e sua eventual atendibilidade:

a) Da inexistência de factos provados na decisão da primeira instância:

O conhecimento do presente recurso incide sobre o Acórdão da Relação de Guimarães (e não já propriamente
sobre a Sentença proferida na primeira instância, a respeito da qual vêm agora os embargantes recorrentes levantar essa
nova questão).
Daí que, em bom rigor, não devesse ser aqui objecto de contemplação a questão suscitada, porque os recursos
não incidem sobre questões novas, mas apenas sobre questões já suscitadas anteriormente e com cuja solução se não
concorda.
Sempre se dirá, no entanto, para que se não diga que este Tribunal se refugia em questões meramente formais
para não apreciar questões de fundo, ainda que extemporaneamente suscitadas, que o facto de a Sentença proferida na
primeira instância não conter a enunciação de qualquer facto provado, mesmo que porventura pudesse vir – por mera
hipótese académica – a ser julgada matéria atendível, nem por isso seria relevante no caso em presença para efeitos da
decisão, uma vez que a improcedência dos embargos de terceiro assenta desde logo na inviabilidade da acção, porque os
factos alegados eram insusceptíveis de conferir aos embargantes a posse em nome próprio ou o direito de retenção do
imóvel, únicos elementos que poderiam servir de suporte ao meio processual utilizado.

b) Da extemporaneidade da decisão na primeira instância, por necessidade de instrução e julgamento a respeito


dos factos alegados

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Entendem os Apelantes que, se o processo, em vez de ser julgado de imediato no saneador, tivesse prosseguido
os seus normais termos em ordem à audiência de discussão e julgamento, teriam oportunidade de provar que a penhora
ofendia a sua posse e o direito de retenção.

Estes argumentos, salvo o devido respeito, não são válidos para o caso em presença, por duas ordens de razões:
Em primeiro lugar, porque só há posse propriamente dita, havendo simultaneamente “corpus” e “animus”.
No contrato promessa aqui em presença, mesmo podendo haver “corpus” com a traditio da coisa, -
consubstanciada na alegada entrega da chave -, faltar-lhe-ia o “animus” – porque o promitente comprador é o primeiro a
reconhecer que ainda só pagou o sinal e que a parte restante do preço só será paga no acto da escritura, dizendo,
inclusive, que a marcação desta se prevê para breve.
Sabe assim que a coisa ainda lhe não pertence e que o imóvel só supostamente passará a ser seu após o
cumprimento integral da prestação que sobre ele impende, com a realização da escritura, o que significa saber
perfeitamente que sobre o imóvel ainda não actua como se dono já fosse mas como tendo autorização dele para aí praticar
os actos materiais em causa.
Logo, no momento em que deduz os embargos de terceiro actua ainda em nome de outrem ou por ele autorizado,
e não em nome próprio. Trata-se portanto de posse precária. (2) será de equacionar a possibilidade de excepção a essa
regra.
Na qualidade de mero detentor, não lhe assiste o direito de se socorrer dos meios possessórios. - arts. 351.º-1 do
CC.

Em segundo lugar, só está reconhecido o direito de retenção ao beneficiário da promessa de transmissão ou


constituição de direito real que obteve a tradição da coisa a que se refere o contrato prometido pelo crédito resultante do
não cumprimento imputável à outra parte, nos termos do art. 442.º. – art. 755.º-f) do CC.
Ora o art. 442.º, reporta-se às sanções pelo incumprimento definitivo, por recurso às regras do sinal ou à
execução específica, estando delas excluída, designadamente, a ainda tempestividade no cumprimento do contrato
definitivo ou até a simples mora. (3)
Ac. do STJ de 2000.02.08, CJ/STJ, 2000, 1.º-72
No caso em presença, os embargantes não alegam qualquer incumprimento do contrato promessa, (limitando-se
a sustentar que a escritura definitiva ainda não foi outorgada em virtude de o promitente vendedor ainda não ter obtido a
licença de utilização).
Tais factos não são suficientes para que se possa vir a apurar o incumprimento.
E sem a alegação de factos que sejam susceptíveis de levar ao incumprimento não há direito de retenção, de
acordo com o disposto no art. 442.º já acima citado.

Mesmo admitindo que pudesse existir direito de retenção – o que decididamente rejeitamos, mas que só por
razões académicas aqui equacionamos – sempre seria de trazer á colação que o direito de retenção é um mero direito real
de garantia das obrigações, e não um direito real de gozo, pelo que a sua função é o de servir de garantia do crédito em
equação concursal com os direitos de demais credores sobre o bem retido, permitindo ao respectivo titular manter-se no
imóvel até à fase da venda (donde provirá a importância para pagamento aos credores), mas que terá sempre de ser
precedida da fase do concurso e graduação de créditos reclamados. (4)
Não pode aceitar-se que o titular do direito de retenção, só pelo facto de o ser, teria o direito de impedir, paralisar
e extinguir qualquer execução. Bastará pensar na circunstância de o crédito garantido ser inferior ao (valor) do imóvel retido,
para se constatar o escândalo que seria serem impedidos os demais credores de poderem executar os seus créditos,
mesmo quando o imóvel retido tem um valor consideravelmente superior ao crédito do titular do direito de retenção!
O meio processual adequado para o titular do direito de retenção defender o seu crédito faz-se através de
execução própria ou intervenção na fase processual do concurso e graduação de créditos.- arts. 865.º e ss do CPC. (5).
Assim posto, havia já, aquando do saneador, elementos suficientes que só por si levavam à inviabilidade da
acção, pelo que, fosse qual fosse a perspectiva da solução de direito, não havia efectivamente – face à matéria alegada
pelos embargantes - qualquer interesse em fazer prosseguir os embargos de terceiro para julgamento.
Não foram violadas quaisquer disposições substantivas ou processuais, designadamente as apontadas.

IV. Deliberação

Tendo em conta o acima referido, confirma-se o douto Acórdão da Relação, que manteve a também douta decisão
da primeira instância.
Custas pelos embargantes.
Lisboa, 19 de Setembro de 2007

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Mário Cruz (relator)


Faria Antunes
Moreira Alves

(1) Alegaram que habitam o imóvel penhorado quando vêm de férias, autorizam que nele permaneçam
permanentemente diversos familiares, fizeram nele diversas obras, contrataram água e electricidade, instalaram móveis,
plantaram árvores e semearam relva, fazendo tudo isso à vista de todos, na convicção de que exercem tal direito em nome
e por direito próprio e não já em nome do promitente vendedor.
(2) Só em casos limites, como na hipótese de o promitente vendedor ter já visto satisfeito material e integralmente
o cumprimento da prestação que incide sobre o promitente comprador (ou faltar apenas um valor praticamente sem
significado face ao estipulado) será de equacionar a possibilidade de excepção a essa regra.
(3) Ac. do STJ de 1998.05.26, CJ/STJ, 1998,2.º-100
Ac. do STJ de 2000.02.08, CJ/STJ, 2000, 1.º-72
(4) Ac. do STJ de 2004.02.12, CJ/STJ,2004, 1.º-57
(5) Cfr. Calvão da Silva in Sinal e Contrato-Promessa, 6.ª ed.-154;
Salvador da Costa, Concurso de Credores, 2.ª ed.-230;
Lebre de Freitas, a Acção Executiva –231, citações já feitas no Acórdão recorrido.

Rever a questão estudada aquando do contrato-promessa.

Para o caso especial de apreensão do bem prometido vender para o processo de falência,
dispunha o art. 164°A do CPEREF2:
1 - O contrato-promessa sem eficácia real que se encontre por cumprir à data da declaração de falência
extingue-se com esta, com perda do sinal entregue ou restituição em dobro do sinal recebido, como dívida da massa falida,
consoante os casos; ressalva-se a possibilidade de o liquidatário judicial, ouvida a comissão de credores, optar pela
conclusão do contrato prometido, ou requerer a execução específica da promessa, se o contrato a permitir.
2 - Tratando-se de promessa com eficácia real, o promitente adquirente poderá exigir à massa falida a celebração
do contrato prometido ou recorrer à execução específica que lhe seja facultada; sendo o falido promitente adquirente, ao
liquidatário judicial cabe decidir sobre a conveniência da execução do contrato, satisfazendo a contraprestação
convencionada.

«1. Este preceito, introduzido na revisão operada pelo Decreto-Lei n.º 315/98, aditou ao
Código, na matéria dos efeitos da falência sobre os actos anteriormente praticados pelo falido, um
regime particular para os contratos-promessa.
O legislador atendeu - e justificadamente - às duas modalidades que este contrato pode
revestir quanto à sua eficácia. No n.º 1, ocupa-se dos casos em que a promessa não tem eficácia
real; no n.º 2, da hipótese oposta.

2. Se o contrato-promessa tiver eficácia meramente obrigacional, e qualquer que seja a
posição de parte que o falido nele ocupe, a declaração de falência determina, ipso iure, a sua extinção,
no caso de não estar ainda cumprido.

2
- Título IV Efeitos da declaração de insolvência
Capítulo IV Efeitos sobre os negócios em curso Artigo 106° Promessa de contrato - CIRE - Dec-lei
n.° 53/2004, de 18 de Março
1 - No caso de insolvência do promitente-vendedor, o administrador da insolvência não pode
recusar o cumprimento de contrato-promessa com eficácia real, se já tiver havido tradição da coisa a
favor do promitente-comprador.
2 - À recusa de cumprimento de contrato-promessa de compra e venda pelo administrador da
insolvência é aplicável o disposto no n° 5 do artigo 104°, com as necessárias adaptações, quer a
insolvência respeite ao promitente-comprador quer ao promitente-vendedor.
3 - O disposto nos números anteriores é igualmente aplicável, com as necessárias
adaptações, aos contratos-promessa de transmissão de outros direitos reais de gozo.

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Sendo automática, no sentido acabado de expor, esta extinção do contrato-promessa


obrigacional não é, porém, inelutável. Com efeito, à semelhança do que se verifica em múltiplos outros
casos, o Código reserva ao liquidatário a possibilidade de dizer a palavra definitiva sobre o destino do
negócio.
A segunda parte do n.º 1 permite-lhe optar pela manutenção do contrato, no sentido de ser
obtido o seu cumprimento. Embora o poder de decidir caiba, nesta matéria, ao liquidatário, a lei manda
ouvir, previamente, a comissão de credores.
A intervenção da comissão tem claramente carácter consultivo, não estando, portanto, o
liquidatário obrigado a seguir o seu parecer. Contudo, para tal intervenção ter verdadeiro sentido - não
transformando a norma em letra morta -, o liquidatário só deve afastar-se do seu parecer se tiver, para
tanto, razões substanciais.

3. Se ocorrer a extinção do contrato, por o liquidatário não optar pela sua execução, releva a
posição que o falido nele ocupa, porquanto, sendo-lhe a extinção imputável, não pode deixar de ser ele
a suportar as consequências danosas daí emergentes.
A primeira parte do n.º 1 fixa o tratamento jurídico das duas hipóteses que aqui podem ocorrer.

Sendo o falido o promitente adquirente, e havendo sinal passado, este é considerado perdido a
favor do promitente alienante.
Se se der a situação inversa, e houver igualmente sinal, o falido tem de restituir, em dobro, o
valor recebido a esse título. O correspondente crédito do promitente adquirente deve ser satisfeito à
custa da massa falida. Embora o Código não o diga expressamente, atenta a sua natureza e o regime
nele estatuído para lugares paralelos, o tratamento aplicável ao seu pagamento é o dos créditos
comuns.

4. O Código deixa aberta a dúvida de saber se, ocorrendo a extinção do contrato-promessa obrigacional, por efeito
da declaração de falência de uma das partes, a outra tem direito a indemnização no caso de não haver sinal pago.
A resposta não pode ser dada sem atender à modalidade de extinção do contrato configurada no n.º 1 do art.º
164.º-A. Releva aqui o facto de a extinção operar ipso facto, sem necessidade de qualquer manifestação de vontade do
liquidatário a tanto dirigida. Estamos, pois, perante o regime próprio da caducidade.
Contudo, não poderia ser esquecida a circunstância de o facto extintivo ser, como acima já ficou dito, de algum
modo imputável ao falido. E, sobretudo, o n.º 1 do preceito em anotação mostra, na primeira parte, ter o legislador como
razoável um regime de compensação da contraparte, por ver frustrada a sua confiança na manutenção do contrato.
Temos, assim, como interpretação mais adequada do preceito a que sustenta o direito da contraparte a
indemnização dos danos sofridos.

5. Se o liquidatário optar pela manutenção do contrato-promessa e pela sua execução, cabe


fazer algumas distinções. Ao encontro delas vai a segunda parte do n.º 1.
Assim, não havendo incumprimento da outra parte, o liquidatário tem apenas de, por seu lado,
se dispor a celebrar o contrato prometido.
Se o outro promitente não se mostrar disposto a cumprir, como estaremos na presença, por
definição, de contrato-promessa obrigacional, a lei prevê o recurso à execução específica, "se o
contrato a permitir", como é evidente.
Também aqui há alguma margem para dúvidas. Cabe, na verdade, perguntar se, não sendo
viável a execução específica, o liquidatário, tendo optado pela manutenção do contrato, não pode (ou
não deve, mesmo) fazer valer os direitos do falido, como promitente alienante ou promitente
adquirente. Não vemos que a resposta possa deixar de ser afirmativa, uma vez que, qualquer que seja
a hipótese em jogo, se trata sempre de actuar um direito do falido, no interesse da massa falida.
6. O n.º 2 do art.º 164.º-A estabelece os efeitos da declaração de falência quando o contrato-
promessa tenha eficácia real.

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Nesta modalidade da promessa, a lei distingue em função da posição que o falido ocupa como
parte no negócio. Em qualquer caso, porém, a declaração de falência não opera, por si, a extinção do
contrato.
7. Se o falido for o promitente alienante, a lei mantém a sua vinculação à celebração do
contrato prometido, reconhecendo, correspondentemente, à outra parte, o direito de exigir (à massa
falida, diz a lei, com impropriedade) a sua celebração ou de recorrer à execução específica, quando tal
lhe seja facultado.
Se o promitente adquirente não obtiver satisfação do seu direito à celebração do contrato
prometido por qualquer das vias referidas, por acto imputável ao falido (rectius, ao liquidatário, como
seu representante), deve entender-se não lhe estar vedado obter, à custa da massa falida, como
crédito comum, a reparação dos danos daí emergentes.
Se o falido for o promitente adquirente, o n.º 2 do preceito em anotação deixa ao liquidatário a
decisão quanto à conveniência da execução da promessa. Daqui resulta que ele pode manter o
contrato ou resolvê-lo.
No primeiro caso, sendo o contrato cumprido, tem o liquidatário, como é natural, de satisfazer a
contraprestação a cargo do falido, se esta não estiver já cumprida.
Se o liquidatário resolver o contrato, a lei não regula, ao contrário do que acontece noutros
casos, as consequências daí emergentes. Parece, porém, justificado reconhecer à contraparte o direito
de indemnização que, como é norma, reveste, na falência, a natureza de crédito comum – L. A.
Carvalho Fernandes e João Labareda, CPEREF Anotado.

Artigo 106° Promessa de contrato - CIRE - Dec-lei n.° 53/2004, de 18 de Março:

1 - No caso de insolvência do promitente-vendedor, o administrador da insolvência não pode recusar o


cumprimento de contrato-promessa com eficácia real, se já tiver havido tradição da coisa a favor do promitente-
comprador.
2 - À recusa de cumprimento de contrato-promessa de compra e venda pelo administrador da insolvência
é aplicável o disposto no n° 5 do artigo 104°, com as necessárias adaptações, quer a insolvência respeite ao
promitente-comprador quer ao promitente-vendedor.
3 - O disposto nos números anteriores é igualmente aplicável, com as necessárias adaptações, aos
contratos-promessa de transmissão de outros direitos reais de gozo.

«A hipótese de falência ou insolvência


54.1 No anterior Código dos Processos Especiais de Recuperação da Empresa e da
Falência

O art. 164-A do Código dos Processos Especiais de Recuperação da Empresa e de Falência,


introduzido pelo Decreto-Lei n.° 315/98, de 20 de Outubro, veio estabelecer, no tocante aos efeitos da
falência sobre os actos anteriormente realizados pelo falido, um regime próprio para o contrato-
promessa não cumprido à data da declaração de falência.
Nos termos do n.° 1 do art. 164-A, o contrato-promessa de eficácia meramente obrigacional
extingue-se - por caducidade, automaticamente, com a declaração da falência -, se o liquidatário
judicial, ouvida a comissão de credores, não optar pela conclusão do contrato prometido ou execução
específica da promessa, se esta a permitir. Logo, teremos aqui uma impossibilidade legal de execução
específica para o outro contraente, no caso de o cumprimento ou a execução específica da promessa
não interessar à massa falida, o qual ficará confinado ao direito de indemnização nos termos gerais,
não existindo sinal, ou nos termos do regime do sinal, havendo-o. Trata-se de um crédito comum sobre
a massa falida, que entra na graduação geral dos bens (art. 200, n.° 2, do mesmo Código).

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Já nos termos do n.° 2 do citado art. 164-A, tratando-se de promessa com eficácia real, o
promitente-adquirente conserva o direito de exigir à massa falida (promitente-vendedor) a celebração
do contrato prometido ou a execução específica da promessa.
Mas se o falido for promitente-comprador, cabe ao liquidatário judicial decidir a execução do
contrato, pagando o preço convencionado, ou a sua resolução, com o dever de indemnizar o
promitente-alienante - neste caso, também o promitente-vendedor estará impossibilitado por lei de
recorrer à execução específica da promessa, apesar do seu carácter real, assim cingido a um crédito
comum indemnizatório.
Para os efeitos da falência sobre as compras e vendas anteriormente celebradas pelo falido
mas ainda não cumpridas dispunha o art. 161 do mesmo Código.

54.2 No novo Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas


O Código dos Processos Especiais de Recuperação da Empresa e de Falência foi revogado
pelo art. 10.° do Decreto-Lei n.° 53/2004, de 18 de Março (alterado pelo Decreto-Lei n.° 200/2004, de
18 de Agosto), que aprovou o Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas (GIRE).
São dois os artigos do CIRE relativos aos efeitos da insolvência - deixou de se falar de falência
- sobre contratos-promessa em curso à data da declaração daquela: o art 102.° e o art. 106.°.
Dispõe como segue o art. 106.°:

"1. No caso de insolvência do promitente-vendedor, o administrador da insolvência não pode recusar o


cumprimento de contrato-promessa com eficácia real, se já tiver havido tradição da coisa a favor do promitente-
comprador.
2. À recusa de cumprimento de contrato-promessa de compra e venda pelo administrador da insolvência é
aplicável o disposto no n.° 5 do artigo 104.°, com as necessárias adaptações, quer a insolvência respeite ao
promitente-comprador quer ao promitente-vendedor".

Seguem-se deste preceito - preceito específico do contrato-promessa de venda e de outros


contratos onerosos de que a compra e venda constitui arquétipo – duas coisas:
Primeira, só no contrato promessa com eficácia real (art. 413.º do Código Civil)
acompanhado de traditio rei o administrador da insolvência do promitente-vendedor não pode recusar
o cumprimento (art. 106.°, n.° 1); logo, o promitente-comprador conserva o direito de exigir à massa
insolvente (promitente-vendedor; administrador da insolvência) a celebração do contrato prometido ou
a execução específica da promessa;
Segunda, em todos os demais casos de contratos-promessa vale a regra geral do art. 102.°
que confere ao administrador da insolvência (do promitente-vendedor ou do promitente-comprador) a
opção entre celebrar o contrato prometido ou recusar o cumprimento da promessa (art.102.°, n.° 1)
com a aplicação do disposto no n.° 5 do art. 104. ° (art. 106.°, n.° 2), vale dizer, com o dever de
indemnizar nos termos do art. 102. °, n. ° 3; - nesta hipótese, a outra parte fica impossibilitada de pedir
o cumprimento ou a execução específica da promessa, mesmo de promessa com eficácia real sem
traditio rei, assim confinado a um crédito indemnizatório» - Prof. Calvão da Silva, Sinal e Contrato
Promessa, 11.ª ed., 157 a 159.

Ac. STJ (Cons.º Sebastião Povoas), de 19/09/2006, no P.º 06A2335:


1) - A primeira parte do nº 1 do artigo 164º A do CPEREF reporta-se à extinção dos contratos promessa
com eficácia meramente obrigacional ainda não cumpridos mas sem que, ao tempo da falência, se verifique uma
situação de incumprimento definitivo.
2) - Nele se incluem as situações de mora, ainda não convertida em incumprimento, por não ter havido
interpelação admonitória translativa e consequente decurso do novo prazo (fatal) fixado.

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3) - A falência gera uma situação de impossibilidade objectiva e superveniente de cumprimento por parte
do promitente vendedor falido, a quem essa impossibilidade é imputável por se ter colocado em situação que não
lhe permite satisfazer pontualmente as suas obrigações.
4) - Tendo o falido recebido o sinal a massa fica devedora do seu dobro.
5) - A alínea f) do nº 1 do artigo 755º do Código Civil garante o direito de retenção – direito de garantia
“erga omnes” e atendível no concurso de credores – ao promitente-comprador que obteve a tradição da coisa, pelo
crédito do dobro do sinal prestado, direito que prevalece sobre hipoteca ainda que anteriormente registada.

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça:

O “Banco...........”,SA com sede em Lisboa, requereu, no Tribunal de Comércio de Lisboa, a falência de AA.
A falência foi decretada em 20 de Fevereiro de 2002, sendo reclamados os créditos.
Em 15 de Março de 2004 foi proferida a sentença de verificação e graduação de créditos, e na parte que aqui
releva, sob a forma seguinte:

“A) Sobre o produto da venda da fracção designada pela letra ......correspondente ao apartamento ....., do.....
andar do prédio urbano situado no......., nº.... a......, freguesia do Campo Grande, concelho de Lisboa:
1º - AA e outro: € 798.076,63;
2º - Banco ..........SA: €5.007.28,45;
3º - Na mesma posição, rateadamente, todos os restantes credores.”

Por inconformado, apelou o “Banco............, SA”.

A Relação de Lisboa deu provimento ao recurso e graduou nos termos seguintes:


“1º- Banco............., SA: €500 728,45;
2º- Na mesma posição, rateadamente, todos os restantes credores.”
A data da falência foi fixada em 10 de Setembro de 2000.

AA e BB pedem revista.

As instâncias deram por assentes os seguintes factos, com relevo para a decisão:
1) O Banco........SA, reclamou o pagamento da quantia de €500.728,45 relativos a um empréstimo concedido à
falida e não reembolsado na sua totalidade e juros;
2) No dia 30 de Novembro de 1998 a falida e o Banco....., SA celebraram um contrato, por escritura pública, no
qual a primeira declarou confessar-se devedora à segunda da quantia de oitenta e um milhões de escudos, respeitante ao
mútuo referido na alínea anterior;
3) Mais declararam constituir a favor do banco uma hipoteca sobre a fracção designada pela letra “.....”,
correspondente ao apartamento..... , no ...... andar do prédio urbano sito no....., nº...... a..... da freguesia do Campo Grande –
concelho de Lisboa, pedida a sua inscrição na matriz em 4 de Junho de 1997 e descrito na 2ª Conservatória de Registo
Predial de Lisboa sob o nº ....., destinada a garantir o pagamento da quantia referida em 3), respectivos juros e despesas no
montante máximo de cento e oitenta milhões setecentos e dez mil e cem escudos;
4) A hipoteca referida no nº anterior encontra-se inscrita na 2ª Conservatória de Registo Predial de Lisboa sob a
inscrição..............;
5) No dia 30 de Junho de 1999 a falida, AA e BB , celebraram um acordo que denominaram de “Contrato de
Promessa de Compra e Venda” no qual a primeira prometeu vender aos segundos, livre de ónus ou encargos, a fracção
identificada no ponto nº 3 pelo preço de 120.000.000$00 e os segundos prometeram comprar a mesma;
6) Declararam ainda as partes que a escritura seria outorgada até 30 de Junho de 2001, em dia, hora e local a
fixar pelos promitentes-compradores;
7) Mais declarou a falida que sobre a fracção impendia a hipoteca referida e que se obrigava a expurgá-la
integralmente ou até ao valor em divida até um mês antes da celebração da escritura pública;
8) AA e BB entregaram à falida, a título de sinal, a quantia de 80.000.000$00;
9) E falida entregou-lhe a chave da fracção, que estes passaram a usar em data não apurada do ano de 1999;
10) AA e outro e outro (BB) reclamaram o pagamento da quantia de € 798.076,63 relativos ao dobro do sinal
entregue à falida e referido no ponto nº8;
11) AA e BB deduziram embargos de terceiros na acção executiva intentada pelo Banco......., SA contra a falida e
na qual foi penhorada a fracção referida no ponto nº3;
12) AA e BB intentaram em 9 de Julho de 2001, uma acção declarativa de condenação contra a falida e outros, na
qual pedem que seja declarado que são titulares de um direito de retenção sobre a fracção em causa;

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13) Na presente acção foi apreendida a fracção;


14) A declaração de falência de DD foi requerida em 10 de Setembro de 2000.
15) Por sentença de 20 de Fevereiro de 2002 e transitada em julgado foi declarada a falência da requerida DD.

1 - Incumprimento do contrato promessa.
2 - Direito de retenção.
3 - Contrato promessa e falência.
4 - Conclusões.

1- Incumprimento do contrato-promessa.
Reportando-nos, por ser o que aqui releva, ao incumprimento unilateral do contrato-promessa, perfilam-se, como
causais, a mora (mero incumprimento parcial mas convertível em incumprimento decorrido o prazo fixado em interpelação
admonitória), a recusa categórica de cumprir, a impossibilidade imputável de cumprimento, a perda de interesse na
prestação e o termo essencial.
A recusa do cumprimento (ou “rifuto di adimpiere”) traduz o incumprimento “ipso facto” desde que se contenha em
declaração “absoluta e inequívoca” de “repudiar o contrato” (cf. Prof. Brandão Proença in “Do Incumprimento do Contrato-
Promessa Bilateral”, Coimbra, 1996, 87 e o Acórdão do STJ de 7 de Março de 1991 – BMJ – 405-456).
Já o termo essencial pressupõe um acordo expresso, aquando da celebração do contrato, sendo, contudo, que a
essencialidade pode ainda resultar da natureza ou modalidade da prestação gerando as situações previstas no artigo 808º
do Código Civil (equiparadas a incumprimento definitivo; cf. o Acórdão do STJ de 2 de Maio de 1985 – BMJ 347-375).
Na cláusula resolutiva expressa as partes convencionaram “o direito de resolver o contrato quando certa e
determinada obrigação não seja cumprida conforme o estipulado contratualmente, incluindo o prazo (cf. Prof. Calvão da
Silva, apud “Sinal e Contrato-Promessa”, 95).

“In casu” foi fixado um prazo para a outorga do contrato prometido.


É o estabelecimento de condição temporal conducente ao vencimento da obrigação.
Mas não resulta da matéria de facto tratar-se de “termo essencial” ou “prazo fatal”.
Então, o simples retardamento não gera só por si uma situação de incumprimento, mas, e apenas, de mora.
O credor tem sempre o direito de impor o cumprimento da obrigação e a indemnização pelos danos causados
(então, nos termos do artigo 804º do Código Civil) mas só após interpelação, com fixação de prazo certo de natureza
peremptória e não acatado é que poderá apelar para o regime do nº2 do artigo 442º do Código Civil.
A interpelação admonitória é, na expressão do Prof. Antunes Varela (RLJ – 128-138) “uma ponte obrigatória de
passagem para o não cumprimento (definitivo) da obrigação. (cf. ainda, o Prof. Galvão Telles – “O Direito” 120, 587).
E esta situação não ocorreu no caso em apreço.
Ademais, o Prof. Baptista Machado considera nula a cláusula que confere o direito de resolução como efeito da
não realização da prestação dentro do novo prazo estabelecido.
Fundamenta esta asserção por tal cláusula assegurar “ao credor uma posição de privilégio pois, por força dela,
poderia ainda exigir o cumprimento depois do prazo, ao passo que o devedor, decorrido este, já não poderia purgar a mora”
(in “Pressupostos da resolução por incumprimento”, BFDC, 1979, 43).
Resta apurar se houve incumprimento por outra causa, perfilando-se uma situação de impossibilidade da
prestação.

Impossibilidade absoluta, superveniente e objectiva.


Até à declaração de falência ocorria apenas uma situação de mora ainda não travestida em incumprimento.
Com a declaração de falência da promitente vendedora a prestação tornou-se impossível.
A apreensão dos bens no processo de falência, a privação imediata do falido da sua administração e poder de
disposição dos bens que passam a integrar a massa falida, geram uma situação de indisponibilidade impossibilitando a
celebração do contrato prometido pelo promitente vendedor falido.
O artigo 164º A do Código dos Processos Especiais de Recuperação da Empresa e de Falência impõe a imediata
extinção dos contratos-promessa com eficácia meramente obrigacional, ainda não cumpridos.
Ora essa extinção é, sem qualquer dúvida imputável ao falido que se colocou em situação de não poder
satisfazer pontualmente as suas obrigações.
Mas ainda que assim não se entendesse, sempre a impossibilidade de cumprir procederia de sua culpa, “ex vi” do
disposto no artigo 799º nº 1 do Código Civil.
Adiante melhor se detalhará este ponto.

2 - Direito de retenção.

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Na busca de uma definição do conceito, e na linha do artigo 754º do Código Civil, o Prof. Antunes Varela dizia ser
de retenção o “direito conferido ao credor, que se encontra na posse de certa coisa pertencente ao devedor de, não só
recusar a entrega dela enquanto o devedor não cumprir, mas também de executar a coisa e se pagar à custa do valor dela,
com preferência sobre os demais credores.” (in “Das obrigações em Geral”, II, 7ª Ed., 579).
A recusa de entrega ao dono é legitimada se o crédito do recusante tiver resultado de despesas feitas por causa
(ou de danos causados pela) da coisa.
Trata-se de um direito real de garantia em consequência do qual o credor tem o direito de reter a coisa possuída
por o legislador, muitas vezes sem privilegiar a natureza da obrigação, conectar o crédito à coisa.
Como se julgou no Acórdão do STJ de 4 de Outubro de 2005 – 05 A2158 – “desde que o credor tenha um crédito
relacionado, nos termos legalmente previstos, com a coisa retida, reconhece-se-lhe o direito de garantia, válido erga omnes
e atendível no concurso de credores. Com efeito, o retentor não pode opor-se à execução, singular ou universal, movida por
outros credores, mas é-lhe assegurada a posição preferencial que legitima a recusa em abrir mão da coisa até ao
pagamento do seu crédito, faculdade que não desaparece pela acidental circunstância de o devedor se tornar insolvente
e/ou haver um processo de falência.”
E cita em abono deste entendimento os Profs. Calvão da Silva (“Cumprimento e Sanção Pecuniária Compulsória”,
339) e Vaz Serra (“Direito de Retenção”, BMJ 65-103).

A alínea f) do nº 1 do artigo 755º do Código Civil garante o direito de retenção ao beneficiário do contrato-
promessa que obteve a tradição da coisa prometida, retenção que sobre ela incide, pelo crédito resultante do não
cumprimento imputável ao outro promitente, nos termos do artigo 442º.
Pressupostos desta retenção são a tradição da coisa objecto do contrato-promessa e o incumprimento por parte
do promitente alienante dessa coisa, tendo sido passada qualquer quantia a título de sinal.
Trata-se de um direito “ope legis”, que não precisa de ser declarado ou reconhecido pelo tribunal para operar, o
que acontece automaticamente com oferta de protecção jurídica ao credor enquanto este não vir satisfeito o seu crédito.
(cf., vg, os Acórdãos do STJ de 10 de Fevereiro de 2000 – CJ. /STJ VIII-I-82 e de 24 de Abril de 2002 – 02B1136).

Concluímos, acima, que ocorreu incumprimento definitivo e que o mesmo é imputável à falida.
Outrossim, é certo ter havido tradição da fracção autónoma.
Para além do pagamento pelos recorrentes de substancial parte do preço imputável a título de sinal (preço
acordado de 120 000 000$00; entrega, aquando da celebração do contrato de 80.000 000$00) os promitentes vendedores
entregaram ainda uma garantia bancária de 40.000 000$00 para assegurar o pagamento da restante parte do preço
(cláusula 7ª do contrato-promessa).
Em consequência (ou na sequência) os recorrentes receberam a chave passando a ocupar a fracçã0o.
O preço achava-se quase totalmente pago e o remanescente não pago estava garantido por uma entidade
bancária, sendo estes factos de relevo bastante para, logicamente, concluir pela presença de “corpus” e “animus” na
“traditio”.
A propósito, reflecte o Prof. Vaz Serra: “o promitente-comprador, que toma conta do prédio e nele pratica actos
correspondentes ao exercício do direito de propriedade, sem que o faça por mera tolerância do promitente vendedor, não
procede com intenção de agir em nome do promitente vendedor, mas com a de agir em seu próprio nome; não existe entre
ele e o promitente vendedor um negócio jurídico (titulo) que revele a sua qualidade de mero detentor ou possuidor em nome
do promitente vendedor, a ponto de os actos que pratique na coisa deverem ser havidos como praticados por um simples
possuidor em nome de outrem (…) nesse caso deve gozar dos benefícios que a lei reconhece ao possuidor.” (RLJ – 109º,
347-348).
Do contrato-promessa com “traditio” resulta um “direito real aparente” e não apenas o direito de utilização da
coisa.
Aqui chegados, resta conjugar a alínea f) do nº1 do artigo 755º do Código Civil com o artigo 164º A do CPEREF,
em termos de apurar da existência deste último pressuposto do direito de retenção – pressuposto especifico, presentes que
estão, os pressupostos gerais acima elencados.

3 - Contrato-promessa e falência.
3.1 - O n.º 1 do artigo 164º-A do CPEREF dispõe que contrato promessa, com eficácia meramente obrigacional
“que se encontre por cumprir à data da declaração de falência extingue-se com esta, com perda do sinal entregue ou
restituição em dobro do sinal recebido, como divida da massa falida consoante os casos.”
A segunda parte deste preceito admite “a possibilidade de o liquidatário judicial, ouvida a comissão de credores,
optar pela conclusão do contrato prometido, ou requerer a execução específica da promessa, se o contrato o permitir.”

Antes do mais, dir-se-á que a referência ao contrato “por cumprir” significa o contrato a aguardar cumprimento
(incluindo em situação de mora não convertida) que não àquele já fulminado com incumprimento definitivo.

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Só assim se compreende a segunda parte citada (possibilidade de o liquidatário optar pela conclusão ou pela
execução especifica) uma vez que perante uma situação de incumprimento fatal não se pode falar em “conclusão do
contrato” ou na sua”execução específica”.
E mau grado dúvidas que possam surgir sobre este último ponto, continuamos a entender que o apelo à execução
específica pressupõe um atraso no cumprimento (mera mora ou recusa transitória de cumprir) e que o credor lança mão
desse meio para evitar o incumprimento definitivo, já que só naqueles casos é possível a execução retardada.
Sempre que haja incumprimento definitivo (demonstrada a perda de interesse do credor) não há lugar a execução
específica mas sim à resolução do contrato com a indemnização compen-satória a que se refere o artigo 442º CC (cfr., inter
alia, o Ac. STJ de 4/2/92 BMJ 414-448).

Assim, o legislador quis regular a situação dos contratos-promessa “pendentes” de cumprimento aquando da
sentença falimentar.
E determinou a sua extinção com ressalva do poder discricionário do liquidatário judicial, consultada a
comissão de credores, de concluir (ou executar) o contrato prometido.
A extinção “ope legis” tem como consequência o apelo ao regime do sinal e, tratando-se de contrato erecto, por
ainda não definitivamente incumprido, há que apurar quem vem a ser o responsável pelo não cumprimento futuro.
E este só pode ser o promitente falido pois, como atrás se disse, foi ele que colocando-se em situação de falência,
impossibilitou a outorga do contrato prometido criando a situação permissiva da extinção da promessa.
Daí, sendo o falido o promitente vendedor, que tenha recebido o sinal, a massa fica devedora do seu
dobro; sendo o falido o promitente-comprador, que tenha passado o sinal, o mesmo é perdido.
O regime do sinal a penalizar o promitente não falido só releva na situação em que o liquidatário optar pela
conclusão do contrato prometido e aquele se colocar em situação de incumprimento.
3.2 - Aqui chegados, e verificada a existência do crédito dos recorrentes equivalente ao dobro do sinal prestado e
tendo havido tradição da coisa prometida vender, o mesmo é privilegiado prevalecendo sobre o crédito hipotecário do
recorrido, “ex vi” do nº 2 do artigo 759º do Código Civil.
Procedem, em consequência, as conclusões dos recorrentes.

4 - Conclusões.
Pode concluir-se que:
a) A primeira parte do nº 1 do artigo 164º-A do CPEREF reporta-se à extinção dos contratos promessa com
eficácia meramente obrigacional ainda não cumpridos mas sem que, ao tempo da falência, se verifique uma situação de
incumprimento definitivo.
b) Nele se incluem as situações de mora, ainda não convertida em incumprimento, por não ter havido interpelação
admonitória translativa e consequente decurso do novo prazo (fatal) fixado.
c) A falência gera uma situação de impossibilidade objectiva e superveniente de cumprimento por parte do
promitente vendedor falido, a quem essa impossibilidade é imputável por se ter colocado em situação que não lhe permite
satisfazer pontualmente as suas obrigações.
d)Tendo o falido recebido o sinal a massa fica devedora do seu dobro.
e) A alínea f) do nº1 do artigo 755º do Código Civil garante o direito de retenção – direito de garantia “erga omnes”
e atendível no concurso de credores – ao promitente-comprador que obteve a tradição da coisa, pelo crédito do dobro do
sinal prestado, direito que prevalece sobre hipoteca ainda que anteriormente registada.
Nos termos expostos, acordam conceder a revista, revogando o Acórdão recorrido e prevalecendo a sentença da
1ª Instância.
Custas a cargo do recorrido.

Lisboa, 19 de Setembro de 2006

Sebastião Póvoas
Moreira Alves
Alves Velho

Acórdão do STJ (Cons.º Alves Velho), de 4.10.2005, P.º 05A2158:

I - O direito de retenção é um direito real de garantia que decorre directamente da lei, surgindo sem
necessidade de prévia declaração judicial nesse sentido, designadamente em acção especialmente intentada para o
efeito;

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II - Esse direito pode ser reconhecido no processo de falência por via da reclamação do crédito e, quando
não impugnados, o crédito e a invocação do direito de retenção podem, sem mais, ser aí reconhecidos para efeitos
de concurso e graduação;
III - O apenso de reclamação de créditos do processo de falência é não só o lugar próprio para o titular do
crédito proveniente do incumprimento de contrato-promessa celebrado com o falido reclamar esse crédito e
invocar o direito de retenção que a lei lhe reconheça, como será mesmo o único lugar próprio para o fazer e discutir
perante a massa falida e seus credores.

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça:

1. - Nos autos de reclamação de créditos apensos ao processo de falência de "A - Empreendimentos Turísticos,
L.da", B apresentou reclamação de créditos formulando um pedido principal, "na hipótese de execução específica do
contrato-promessa de compra e venda" - cujo objecto mediato é um apartamento que a falida lhe vendeu e entregou,
inacabado, e cuja escritura de venda se comprometera a realizar até 31/5/95 - e um pedido "subsidiário, no caso de não vir
a obter a execução específica do contrato-promessa", reclamação que, depois, confrontada com a venda da fracção pela
Liquidatária Judicial, complementou com requerimento em que pediu: "seja considerado apenas o seu pedido subsidiário,
uma vez que se tornou impossível a execução específica do contrato; seja considerado o direito de retenção da
Requerente na graduação do seu crédito (32.120.519$00, equivalente ao dobro do sinal passado), ordenando-se o seu
pagamento pelo produto da venda do bem sobre o qual incide a garantia".

No despacho saneador fez-se constar que a Sra. Liquidatária não impugnara, entre outros, o crédito 1.29 - " (...)
da quantia de 32.120.519$00, equivalente ao dobro da quantia entregue a título de sinal. Alega direito de retenção sobre o
prédio objecto do contrato-promessa" -, crédito que, atenta a inexistência de quaisquer outras impugnações, se julgou
reconhecido "desde já".
Na sentença, o mesmo crédito, "invocando direito de retenção sobre o prédio" (agora sob o n.º 23), foi relacionado
entre os já reconhecidos no " despacho saneador transitado em julgado" e graduado, em atenção ao direito de retenção,
imediatamente antes do crédito da C, garantido por hipoteca.

Mediante recurso da credora C, o seu crédito veio a ser colocado à frente do da referida B.

Agora, é esta última a pedir revista, visando a reposição da graduação de créditos efectuada na 1ª Instância, ao
abrigo das seguintes conclusões:

- O crédito da Recorrente não foi impugnado, nem mesmo pela C;


- Estão presentes - alegados e provados - nos autos todos os pressupostos do direito de retenção, previstos nos
arts. 754º e 755º C. Civil;
- O direito de retenção não tem de ser invocado em acção autónoma, pois não há preceito a exigi-lo e o processo
falimentar permite conhecer da questão com todas as garantias para os demais credores;
- A impugnação da sentença de graduação, pela C, dos factos qualificativos do crédito, quando não apresentou
qualquer oposição ao tempo da sua reclamação e reconhecimento, constitui abuso de direito.

A recorrida respondeu em defesa do julgado.

2. - Os elementos de facto a considerar são os que já constam do relatório desta peça.


Consideram-se, aqui, reproduzidos.

3. - Questionando-se sobre se "a credora reclamante, B, apenas com base no contrato- -promessa que fez
com a falida, pode gozar, em termos de reclamação de créditos, do direito de retenção, nos termos em que o foi na
sentença, sendo certo que tal direito não se mostra judicialmente declarado", decidiu a Relação que «não estando
judicialmente reconhecido, por decisão transitada em julgado, o direito de retenção, não pode a reclamante beneficiar da
preferência a que alude o n.º 2 do art. 759º do CC», isto porque «a reclamação de créditos, como é óbvio, não chega para
se aferir do alegado direito de retenção, já que através dela não se pode demonstrar os respectivos pressupostos com vista
ao seu reconhecimento».

A questão que se coloca consiste, pois, em saber se o direito de retenção invocado pelo promitente-comprador de
prédio do falido necessita de ser reconhecido fora do apenso de reclamação de créditos, em acção especialmente intentada
para o efeito, designadamente por não poderem naquele ser demonstrados os respectivos pressupostos.

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4. 1. - Como resulta já dos termos em que foi enunciada a questão a decidir, não está em causa o critério de
graduação entre os créditos da Recorrente e da Recorrida, nomeadamente no que respeita à preferência deste sobre
aquele, como previsto no art. art. 759º-2, nem propriamente saber se o crédito invocado goza da garantia do direito de
retenção, mas, precisando melhor, se o direito real de garantia pode ser reconhecido no processo de falência por via
da reclamação do crédito e se, quando não impugnados, o crédito e a invocação do direito de retenção podem, sem
mais, ser aí reconhecidos para efeitos de concurso e graduação.

4. 2. - O direito de retenção traduz-se no direito conferido ao credor, que se encontra na posse de coisa que deva
ser entregue a outra pessoa, de não a entregar enquanto esta não satisfizer o seu crédito, verificada alguma das relações
de conexidade entre o crédito do detentor e a coisa que deva ser restituída a que a lei confere tal tutela - arts. 754º e 755º
C. Civil.
Trata-se de um direito real de garantia - que não de gozo -, em virtude da qual o credor fica com um poder sobre a
coisa de que tem a posse, o direito de a reter, direito que, por resultar apenas de uma certa conexão eleita pela lei, e não,
por exemplo, da própria natureza da obrigação, representa uma garantia directa e especialmente concedida pela lei.
Assim, desde que o credor tenha um crédito relacionado, nos termos legalmente previstos, com a coisa retida,
reconhece-se-lhe o direito de garantia, válido erga omnes e atendível no concurso de credores. Com efeito, o retentor não
pode opor-se à execução, singular ou universal, movida por outros credores, mas é-lhe assegurada a posição preferencial
que legitima a recusa em abrir mão da coisa até ao pagamento do seu crédito, faculdade que não desaparece pela
acidental circunstância de o devedor se tornar insolvente e/ou haver um processo de falência (cfr. CALVÃO DA SILVA,
"Cumprimento e Sanção Pecuniária Compulsória", 339 e ss.; VAZ SERRA, "Direito de Retenção", in BMJ 65º- 103 e ss.).

4. 3. - No caso do contrato-promessa de compra e venda de imóvel, a lei (art. 755 1. f) C. Civil) concede o direito
real de garantia ao beneficiário da promessa de transmissão (promitente-comprador) que obteve a transmissão da coisa a
que se refere o contrato prometido, sobre essa coisa, pelo crédito do não cumprimento imputável à outra parte, nos termos
do art. 442.
Assim, o promitente-comprador credor de indemnização pelo incumprimento do contrato, nos termos previstos no
art. 442, desde que tenha obtido tradição da coisa, goza, contra quem quer que seja, da faculdade de não largar mão do
imóvel enquanto se não extinguir o seu crédito (A. VARELA, RLJ 124-351).

Destinado, embora, a garantir o promitente-comprador contra o incumprimento da outra parte, entende-se que o
direito real de garantia se constitui e está latente a partir do momento em que tem lugar a tradição que é seu pressuposto,
"manifestando a sua plena utilidade e força" quando o beneficiário dispõe do crédito por incumprimento da outra parte «sem
necessidade de declaração prévia do tribunal» (ac. STJ de 24/4/02, in ITIJ, proc. n.º 02B1136). Estar-se-á, qualificando,
perante uma constituição de garantia de obrigação futura determinável (Cons. SOUSA INÊS, ac. de 10/02/00, CJ/STJ VIII-I-
82).
Também no acórdão deste Supremo de 25/3/99 (BMJ 485-402) se considerou que o direito nasce quando o
promitente-comprador entra na posse da coisa prometida vender, no âmbito do contrato-promessa celebrado, gozando, a
partir daí, da protecção jurídica relativamente aos direitos emergentes do contrato, com uma posse legítima sobre a coisa,
enquanto não for pago o crédito.

4. 4. - Servem as considerações expendidas para se concluir, como no já referido acórdão de Abril de 2002, que o
direito de retenção decorre directamente da lei, surgindo sem necessidade de prévia declaração judicial nesse sentido (no
mesmo sentido já decidira o ac. RL de 22/3/90 - CJ XV- -II-140).
Reconhecido o crédito pelo incumprimento do contrato-promessa, o direito de garantia que existia "em potência a
partir da tradição da coisa", passa a existir "em acto", ope legis, ou seja, independentemente de reconhecimento em
sentença proferida em acção contra o promitente vendedor.
Em caso de falência do promitente-vendedor, apreensão dos bens prometidos vender e sua subsequente venda
no processo de falência - que o credor não pode impedir - a natureza e efeitos do direito de retenção mantêm-se, embora
com a sua função de garantia, que é o que aqui importa considerar, restrita à preferência concedida sobre outros credores.

5. - A declaração de falência priva imediatamente o falido da administração e do poder de disposição dos seus
bens, que passam a integrar a massa falida, sujeita à administração e poder de disposição do liquidatário judicial, que
assume a representação do falido para todos os efeitos de carácter patrimonial que interessem à falência, torna
imediatamente exigíveis todas as obrigações do falido, sendo que ao processo de falência devem ser apensas, a
requerimento do liquidatário, todas as acções em que se apreciem questões relativas a bens compreendidos na massa
falida, intentadas contra o falido e cujo resultado possa influenciar o valor da massa (arts. 147º, 151º e 154º do CPEREF).

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Declarada a falência, procede-se à apreensão de todos os bens susceptíveis de penhora e os credores do falido
devem reclamar a verificação dos seus créditos, quer comuns, quer preferenciais, por meio de requerimento no qual
indiquem a sua proveniência, natureza e montante, mesmo no caso de terem já o seu crédito reconhecido por decisão
definitiva noutro processo (arts. 175º e 188º-1 e 3 do mesmo diploma).

A sentença falimentar constitui, assim, um título executivo especial no tocante à massa dos créditos, concedendo-
lhes força executiva independentemente da sua origem e natureza.
Por ser "omnicompreensiva", a sentença declarativa de falência acarreta a apreensão de todo o património do
devedor, em relação ao activo, e a avocação e conhecimento de todas as questões de natureza patrimonial, quanto ao
passivo (princípio da plenitude da instância falimentar, consubstanciado nos citados preceitos). Aberta a execução universal
contra o falido, concentram-se no respectivo processo todas as pretensões patrimoniais sobre este, iniciando-se um
concurso que não se limita ao créditos comuns, mas se estende aos créditos preferenciais e ao direito de separação de
bens (cfr. P. SOUSA MACEDO, "Manual do Direito de Falências", II, 28 e 291 e ss.).

Deste regime decorre, ao menos a nosso ver, que, o apenso de reclamação de créditos do processo de falência é
não só lugar próprio para o titular de crédito proveniente de incumprimento de contrato-promessa celebrado com o falido
reclamar esse crédito e invocar, se for caso disso, o direito de retenção que a lei lhe reconheça, como será mesmo o único
lugar próprio para o fazer e discutir perante a massa falida e seus credores (cfr., pressupondo o afirmado, os acs. deste STJ
de 1/2/95 e 9/11/00, CJ III-I-55 e VIII-III-114, respectivamente).

6. - Resta acrescentar que nem a Recorrente nem a Liquidatária Judicial impugnaram o crédito reclamado pela
Recorrente, nem os pressupostos por esta alegados para o reconhecimento do direito de retenção que alegou: - a
celebração do contrato-promessa, o sinal e seu montante, a entrega do apartamento e a data em que ocorreu, o prazo e
cominações relativos à outorga da escritura, tudo, de resto, suportado por escritos, de autoria atribuída à falida, também não
impugnados, como lhes era facultado pelo art. 192º CPEREF.
Por isso, e bem, o crédito preferencial da Recorrente, com a garantia invocada, foi logo reconhecido no despacho
saneador, que ficou a valer como sentença, para ser, com os demais, graduado a final - art. 196º-4 e 6.
A Recorrida também não reagiu, de forma alguma, contra o despacho saneador que julgou verificado o crédito, a
coberto da constatada falta da respectiva impugnação e respectiva cominação legal.
O decidido transitou oportunamente em julgado e a possibilidade de suscitar a questão, em recurso da decisão
final, ficou também precludida.

Nesta conformidade, o acórdão recorrido e o nele decidido não podem subsistir.

7. - Termos em que, de harmonia com o que ficou exposto, se decide:

- Conceder a revista;
- Revogar o acórdão recorrido;
- Repor, quanto à graduação dos créditos a pagar pelo produto da venda da fracção autónoma prometida vender à
Recorrente, o decidido na 1ª Instância, sob o ponto 6º da sentença;
- Condenar a Recorrente nas custas dos recursos (apelação e revista).

Lisboa, 4 de Outubro de 2005


Alves Velho, Moreira Camilo, Lopes Pinto.

Contrato-promessa de compra e venda


Tradição da coisa Direito de retenção Hipoteca Graduação de créditos
Inconstitucionalidade

I - O promitente comprador de um prédio, que obteve a tradição da coisa a que se refere o contrato prometido,
goza do direito de retenção sobre essa coisa, pelo crédito resultante do não cumprimento imputável à outra parte, nos
termos do art.º 442 do CC.
II - Tal direito de retenção prevalece sobre a hipoteca, ainda que esta tenha sido anteriormente registada.
III - Esse regime decorrente dos art.ºs 755, n.º 1, al. f), e 759, n.º 2, do CC funciona perante as hipotecas
constituídas após 18 de Julho de 1980, data da publicação do DL 236/80.
IV - A solução legislativa decorrente do citado art.º 759, n.º 2, quando aplicado às hipotecas constituídas depois de
18-7-80, não pode considerar-se arbitrária, nem viola qualquer princípio constitucional, designadamente o princípio da
legítima confiança, ínsito no art.º 2 da CRP, pois não fere o cerne ou núcleo essencial dos direitos lá consagrados.

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V - Por isso, o art.º 759, n.º 2, do CC, não sofre de inconstitucionalidade, na sua aplicação ao presente caso
concreto de graduação de créditos, em que o direito de retenção dos promitentes compradores prevalece sobre uma
hipoteca, anteriormente registada e que foi constituída após 18-7-80.

No mesmo sentido se pronunciara o TC em seu Ac. nº 356/04, no DR II, de 15.05.04.

Ac. do STJ (Cons.º Fonseca Ramos) de 18.9.2007, no Pr.º 07A2235:

I) - A não registabilidade do direito de retenção de que beneficia o promitente-comprador de um imóvel,


por ter havido “traditio”, não exprime a existência de “ónus oculto”, em contraponto com o regime da hipoteca
voluntária que tem necessariamente de ser levada ao registo.
II) - Na justa ponderação de interesses, que demanda o regime urgente do processo de insolvência, a
estatuição do prazo de 10 dias - art. 130º, nº1, do CIRE - para impugnação da lista de credores, e a não notificação
pessoal dessas listas, a que alude o seu art. 129º, nº1, não se mostram desnecessários, desadequados, irrazoáveis
ou arbitrários, nem contendem com a extensão e o alcance do conteúdo do direito fundamental de acesso aos
tribunais que se encontra consagrado no artigo 20° da Constituição, pelo que não são inconstitucionais.
III) - O crédito garantido pelo direito de retenção de que beneficia o promitente-comprador de um imóvel de
que obteve a “traditio”, deve ser graduado prioritariamente, em relação ao crédito hipotecário sobre o mesmo bem
– art. 755º, nº 1, f) do Código Civil.
IV) - O normativo citado e o art. 442º, nº 2, do Código Civil não enfermam de inconstitucionalidade
orgânica.

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça

Por sentença proferida em 6 de Julho de 2005, do 2º Juízo do Tribunal Judicial da Comarca do Montijo, transitada
em julgado, foi declarada a insolvência de AA, BB e CC, tendo-se fixado em 30 dias o prazo para a reclamação de créditos.

Findo o prazo para a apresentação das reclamações, o Sr. Administrador da Insolvência juntou a lista de credores
reconhecidos e não reconhecidos, nos termos do disposto no artigo 129º, nº1, do CIRE.

Foram reclamados os seguintes créditos:

1 – DD – Materiais de Construção, Lda., no montante de 77.246,81 (setenta e sete mil duzentos e quarenta e seis
euros e oitenta e um cêntimos), invocando o direito de retenção sobre a fracção autónoma designada pela letra “Z”, descrita
sob o nº 01431 da Conservatória do Registo Predial de Alcochete.

2 – CAIXA DE CRÉDITO AGRÍCOLA MÚTUO DE ENTRE O TEJO E SADO, no montante de 413.101,56 €


(quatrocentos e treze mil cento e um euros e cinquenta e seis cêntimos) proveniente de financiamento e outras transacções
bancárias, garantido por hipoteca voluntária até ao montante de 309.878,19 €, sobre o prédio urbano sito na Lagoa da
Pedra, descrito sob o nº 00115/970618.

3 – CAIXA ECONÓMICA MONTEPIO GERAL, no montante de 200.345,26 € (duzentos mil, trezentos e quarenta e
cinco euros e vinte e seis cêntimos), proveniente de financiamento e outras transacções bancárias, garantido por hipoteca
voluntária até ao montante de 222.483,28, sobre o lote de terreno sito na Lagoa da Pedra, fls. 5 v do livro B 56/19347 e o
lote de terreno sito em S. Francisco, descrito sob o nº 1150.

4 – CAIXA ECONÓMICA MONTEPIO GERAL, no montante de 90.122,68 € (noventa mil, cento e vinte e dois
euros e sessenta e oito cêntimos), proveniente de financiamento e outras transacções bancárias, garantido por hipoteca
voluntária até ao montante de 957.691,96 €, sobre as fracções autónomas designadas pelas letras “B”, “F”, “G”, “Q”, “R”,
“Z”, “AA” e “AC”, descrito no 01431.

5 - CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS, S.A., no montante de 200.671,60 (duzentos mil, seiscentos e setenta e um
euros e sessenta cêntimos), proveniente de financiamento e outras transacções bancárias, garantido por hipotecas
voluntárias até ao montante global de 414.675,63 €, sobre as fracções autónomas designadas pelas letras “A”, “B” e “C”, do
prédio descrito sob o nº 339/19870807.

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6 – DAIMLERCHYSLER SERVICES PORTUGAL – ALUGUER DE AUTOMÓVEIS, LDA., no montante de


52.014,84 (cinquenta e dois mil catorze euros e oitenta e cinco cêntimos), proveniente de um contrato de aluguer de longa
duração, garantido por aval prestado pelos insolventes numa livrança, de € 42.446,38.

7 – INSTITUTO DE SEGURANÇA SOCIAL I.P. – CENTRO DISTRITAL DE SETÚBAL, no montante de 6.787,10


(seis mil setecentos e oitenta e sete euros e dez cêntimos), proveniente de contribuições não pagas.

8 – EE, no montante de 58.893,67 (cinquenta e oito mil, oitocentos e noventa e três euros e sessenta e sete
cêntimos), proveniente de um contrato de mútuo, garantido por penhora sobre as fracções autónomas designadas pelas
letras “A” e “B” do prédio descrito sob o nº 00115/970618.

Nenhum crédito reclamado foi impugnado.

Para a massa insolvente foram apreendidos os seguintes bens (cfr. apenso B):
[…]

3 – Bens Imóveis

- Fracção autónoma designada pela letra “Z”, correspondente ao rés-do-chão do prédio urbano em regime de
propriedade horizontal sito na Rua Constantino Rodrigues, em Alcochete, descrito na Conservatória do Registo Predial de
Alcochete sob o nº 01431.

[…].

Foi proferida sentença que graduou os créditos, pela seguinte ordem: .

Bens Imóveis:

I) Para serem pagos pelo produto da venda da fracção autónoma designada pela letra “Z” correspondente ao rés-
do-chão do prédio em regime de propriedade horizontal, sito na Rua Constantino Rodrigues, em Alcochete, descrito na
Conservatória do Registo Predial de Alcochete sob o nº 01431 (verba nº 4 do auto de fls. 3 do apenso B):

- Em 1º lugar o crédito reconhecido ao credor DD Materiais de Construção, Lda (até ao montante máximo
garantido de 77.246,81 € - cfr. fls. 11).

- Em 2º lugar o crédito reconhecido ao credor Caixa Económica Montepio Geral (até ao montante máximo
garantido de Esc. 257.225.000$00 – 1.283.032,89 € - cfr. certidão da CRP de Alcochete de fls. 434).

- Em 3º lugar os restantes créditos rateadamente.

[…].
***

De tal graduação apelou a Caixa económica do Montepio Geral para o Tribunal da Relação de Lisboa que, por
Acórdão de 639 a 646, julgou o recurso improcedente e confirmou a decisão recorrida.

***

De novo inconformado recorreu para este Supremo Tribunal e nas alegações apresentadas formulou as seguintes
conclusões:

….
14° O artigo 755.°, n.° 1, alínea f) do Código Civil confere ao promitente-comprador, que obteve a tradição da
coisa, um direito de retenção sobre o bem imóvel;

15° O direito de crédito do promitente-comprador, resultante do incumprimento pelo promitente vendedor, do


respectivo contrato-promessa, prevalece sobre o crédito hipotecário, ainda que a hipoteca apresente registo anterior.

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16° Tal direito de retenção não é objecto de registo, logo, é um direito que não é publicitado.

17° No caso dos autos, vê-se a recorrente confrontada com um direito real de garantia, não sujeito a registo, com
o qual não contava;

18° Esse direito de retenção sobrepõe-se à hipoteca constituída e registada em momento anterior, relegando-a
para um segundo plano;

19° O legislador ao querer proteger e defender os interesses de uma das partes na relação jurídica emergente do
contrato-promessa, não poderia ter criado normas que sacrificam, efectivamente, da forma injusta e ilegítima, os interesses
patrimoniais de terceiros não intervenientes e completamente alheios, por causa que não lhes é imputável, ao contrato-
promessa.

20º Proteger-se, por esta forma, um direito que não é publicitado é permitir que “ónus ocultos” afectem a posição
jurídica do sujeito que levou o seu acto a registo.

21° Está, assim, posto em causa o próprio princípio da segurança do comércio jurídico imobiliário.

22° O regime jurídico do direito de retenção concedido ao promitente-comprador por força das citadas normas,
tudo isto ignora, dado que frustra a legítima confiança que o credor hipotecário deposita no Estado enquanto garante dos
seus direitos fundamentais
23° Por força da sentença de graduação de créditos vai ser pago o crédito da promitente compradora com
preferência sobre o crédito da recorrente.

24° Na sentença dos presentes autos, graduando o crédito da promitente compradora com preferência sobre o
crédito da Recorrente, verifica-se a existência da violação do princípio da confiança do comércio jurídico, princípio
constitucional ínsito no artigo 2.° da CRP;
***

Colhidos os vistos legais cumpre decidir, tendo em conta que releva, factualmente, o que consta do Relatório.

Fundamentação:
Sendo pelo teor das conclusões das alegações do recorrente que, em regra, se delimita o objecto do recurso –
afora as questões de conhecimento oficioso, importa saber:

….
2. - se tal crédito goza do direito de retenção, sendo que o Tribunal não podia ter conhecido da pretensão do
reclamante por não terem sido invocados factos que permitissem concluir pela existência desse direito;

3. - indevida homologação da lista de credores reconhecidos sendo de considerar que houve “erro manifesto” –
art. 131º, nº3, do CIRE;

4. - inconstitucionalidade do art. 130º, nº1, do CIRE por o prazo de 10 dias para a impugnação dos créditos ser
escasso e a não previsão da notificação aos credores coarctar direito de defesa, afectando os princípios da
proporcionalidade e do acesso ao direito e aos tribunais.

5. - inconstitucionalidade dos arts. 442º, nº2, e 775º, nº1, f) do Código Civil – reconhecimento da prevalência do
direito de retenção sobre a hipoteca – por aquele direito se tratar de “ónus oculto”, quando em contraponto com a hipoteca
voluntária, facto registável;

6. - violação do princípio constitucional da protecção da confiança, sendo ainda organicamente inconstitucionais


os DL. 236/80, de 18.7 e 397/86, de 11.11. por violarem o princípio da competência exclusiva da Assembleia da República –
art. 165º, nº1, b) da CR.

Vejamos:

A recorrente não impugnou a lista apresentada pelo Administrador da insolvência que foi homologada pelo Juiz
que, assim, considerou existir direito de retenção da reclamante “DD”, graduando o crédito por esta reclamado

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preferentemente ao do recorrente, relativamente à fracção Z, sobre a qual este tinha garantia hipotecária para garantia do
crédito mutuado aos insolventes/recorridos.

Este é o nó górdio da questão. A recorrente, não aceita a graduação do seu crédito – [não tendo impugnado o da
“DD”] – em segundo lugar, sobre aquela fracção predial quando dispunha de hipoteca voluntária registada.

Assim, em 1º lugar, foi graduado o crédito reconhecido ao credor “DD-Materiais de Construção, Ldª” (até ao
montante máximo garantido de € 77.246,81); em 2º lugar foi graduado o crédito reconhecido ao credor Caixa Económica
Montepio Geral (até ao montante máximo garantido de 257.225.000$00 – € 1.283.032,89).
….
Das 4ª a 6ª questões – inconstitucionalidades.

Sustenta a recorrente a inconstitucionalidade material das normas constantes dos arts. 442º, nº 2, e 755º, nº 1, f)
do Código Civil e a inconstitucionalidade orgânica dos Decretos-Lei nº 236/80, de 18 de Julho e nº379/86, de 11 de
Novembro, que introduziram o quadro legal vigente.

Relacionam-se os normativos do Código Civil com o regime jurídico de que goza o promitente-comprador de
imóveis que obteve a traditio.

Essencialmente, o que o recorrente põe em causa é que, não sendo o direito de retenção sujeito a registo, logo
não advindo a esse direito pela via da publicidade registral o conhecimento da sua existência, possa prevalecer sobre a
hipoteca voluntária sendo que esta garantia só é válida e eficaz se constar do registo – art. 687º do Código Civil.

O direito de retenção, nos termos do art. 755º, nº 1, f) do Código Civil é atribuído ao:

- beneficiário da promessa de transmissão ou constituição de direito real que obteve a tradição da coisa a que se
refere o contrato prometido, sobre essa coisa, pelo crédito resultante do não cumprimento imputável à outra parte, nos
termos do artigo 442º.

A actual redacção deste artigo foi introduzida pelo artigo único do DL nº 379/86, de 11.11, o qual aditou à anterior
formulação do preceito a al.) f) do nº 1.

A questão da inconstitucionalidade das normas dos DL. 236/80, de 18.7 e do DL 397/86 que alteraram a redacção
do art. 442º do Código Civil já foi apreciada pelo Tribunal Constitucional que nos Acórdãos nºs. 374/2003, 594/2003,
22/2004 e 446/2004 entenderam que as intervenções legislativas das quais decorreu a norma da 2ª parte do nº2 deste art.
442.° “não podem ser consideradas como atingindo o núcleo essencial do direito de propriedade privada, na dimensão que
o torna análogo aos direitos, liberdades e garantias, em termos tais que justifique a extensão do regime orgânico típico
destes”, ferindo de inconstitucionalidade orgânica do DL nº 379/86, de 11-11, que a editou. No sentido da
constitucionalidade material da mesma norma, o Acórdão n.° 359/2005 daquele Tribunal.

O Acórdão nº 594/03 do Tribunal Constitucional de 3.12.2003 (Acs. TC, 51°-1039), não julgou organicamente
inconstitucionais as normas dos Decs.-Leis nºs 236/80, de 18.7, e 379/86, de 11.11, respeitantes ao direito de retenção e
não julgou materialmente inconstitucionais as normas constantes do art. 410°, nº3, e 755.°, nº 1, alínea f), do Código Civil
(na redacção que resulta daqueles diplomas).

O Acórdão nº 356/2004 do Tribunal Constitucional, de 19.5.2004 (DR, II, de 28.6.2004, pp. 9641 e ss.), não julgou
inconstitucional a norma do artigo 755°, nº 1, alínea f), do Código Civil (necessariamente articulada com o disposto no artigo
759°, nº 2, do mesmo diploma), nos termos da qual o direito de retenção do beneficiário da promessa de transmissão ou
constituição de direito real que obteve a tradição da coisa prevalece sobre a garantia hipotecária registada em data anterior
à referida tradição. – cfr. “Código Civil Anotado”, de Abílio Neto – 15ª edição – em nota aos citados normativos.

Também este Supremo Tribunal já, repetidamente, se pronunciou pela não inconstitucionalidade material das
normas do art. 442º, nº2, e al. f) do nº 1 do art. 755º do Código Civil, considerando que não violam os princípios da
proporcionalidade, da protecção da confiança e segurança do comércio jurídico imobiliário e do direito de propriedade
privada, ínsitos nos arts. 2º, 18º, nº 1 e 62º, da Lei Fundamental.

“Os acórdãos deste Supremo Tribunal de 30.03.2000 e de 29.01.2003, respectivamente, proferidos nas revistas nº
174/00 da 2ª secção e nº 4480/02 da 2ª secção, de que foi Relator o Conselheiro Ferreira de Almeida; de 30.01.2003,

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proferido na revista nº4471/02 da 7ª secção e relatado pelo Conselheiro Nascimento Costa; de 18.02.2003, proferido na
revista nº 4437/02 e relatado pelo Conselheiro Fernandes Magalhães; de 20.11.2003, proferido na revista nº 3455/03 da 2ª
secção e relatado pelo Conselheiro Moitinho de Almeida de 11.10.2005, proferido na revista nº 2379/05 da 6ª secção e de
que foi relator o Conselheiro Ponce de Leão foram unânimes em considerar não haver qualquer violação de preceito
constitucional naquelas disposições legais” – cfr. Ac. de 14.2.2006 deste Tribunal, in www.dgsi.pt.

Os falados normativos, não são organicamente inconstitucionais porque os Direitos, Liberdades e Garantias, cuja
competência para legislar pertence exclusivamente à Assembleia da República não têm a ver com garantias patrimoniais,
mas com garantias, liberdades e direitos pessoais.

O recorrente afirma que a não registabilidade do direito de retenção constitui um “ónus oculto”, isto em
contraponto com o regime da hipoteca voluntária.

Citamos a propósito do Acórdão deste Tribunal de 30.1.2003 – Proc. 02B4471 – número convencional JSTJ000,
de que foi relator o Ex.mo Conselheiro Nascimento Costa:

“ […] Como escreve Galvão Teles (…), os credores não podem queixar-se pelo facto de o direito de retenção não
estar sujeito a registo.
Em primeiro lugar porque o registo não é aplicável a todas as coisas.
Inclusive a todos os imóveis (pense-se nos privilégios creditórios).
Depois, e esta é uma ideia relevante: o direito de retenção envolve por si publicidade de facto.
Os credores hipotecários só têm que averiguar quem na realidade habita ou tem a posse do prédio.
Não se diga que estão em causa direitos fundamentais, que não é o caso.
Nem se pode falar de direitos análogos a direitos, liberdades e garantias.
Está em causa apenas a organização económica dos bens.
Não se vê que a concessão do direito de retenção ao promitente-comprador viole qualquer desses direitos dos
credores hipotecários.
Tão pouco os DL. em apreço fazem parte da competência exclusiva da Assembleia da República – art. 164º e
165º da CR (na época art. 168º, nº1, b).
Não necessitava o Governo de autorização legislativa para legislar sobre essa matéria.
Este Tribunal pronunciou-se noutras ocasiões pela conformidade à CR dos DL 236/80 (…) e DL 379/86 (…)”.

A Constituição da República, para lá de outros princípios de invocação não tão pertinente, consagra os aqui
convocáveis, da indispensabilidade, ou dos meios menos restritivos, o da proibição do excesso e da proporcionalidade.

Como ensina “Jorge Reis Novais, in “Os Princípios Estruturantes da República Portuguesa”, pág. 171:

“Ainda que, por vezes, venham confundidos, há que distinguir entre o princípio da proibição do excesso e o
princípio da necessidade ou da indispensabilidade.
Enquanto que o primeiro, mais lato, proíbe que a restrição vá mais além do que o estritamente necessário ou
adequado para atingir um fim constitucionalmente legítimo — o que envolve as diferentes exigências que estamos a
considerar — o princípio da necessidade, enquanto sub princípio ou elemento constitutivo daquele, impõe que se recorra,
para atingir esse fim, ao meio necessário, exigível ou indispensável, no sentido do meio mais suave ou menos restritivo que
precise de ser utilizado para atingir o fim em vista” – sublinhámos.

E acerca do princípio da proporcionalidade:

“…Por sua vez, a observância ou a violação do princípio da proporcionalidade dependerão da verificação da


medida em que essa relação é avaliada como sendo justa, adequada, razoável, proporcionada ou, noutra perspectiva, e
dependendo da intensidade e sentido atribuídos ao controlo, da medida em que ela não é excessiva, desproporcionada,
desrazoável.

Nesta aproximação de definição podem intuir-se, em primeiro lugar, a relativa imprecisão e fungibilidade dos
critérios de avaliação; em segundo lugar, o permanente apelo que eles fazem a uma referência axiológica que funcione
como terceiro termo na relação e onde está sempre presente um sentido de justa medida, de adequação material ou de
razoabilidade, por último, a importância que nesta avaliação assumem as questões competenciais, mormente o problema
da margem de livre decisão ou os limites funcionais que vinculam legislador, Administração e juiz.” (pág. 178)
[sublinhámos].

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Nenhum destes princípios é violado pela protecção legal prioritária dispensada ao direito de retenção conferido ao
promitente-comprador que obteve a traditio diante do credor hipotecário.

Finalmente, a questão da inconstitucionalidade do art. 130º, nº1, do CIRE – impugnação da lista de credores
reconhecidos.

Tal normativo consigna:

“Nos 10 dias seguintes ao termo do prazo fixado no nºl do artigo anterior, pode qualquer interessado impugnar a
lista de credores reconhecidos através de requerimento dirigido ao juiz, com fundamento na indevida inclusão ou exclusão
de créditos, ou na incorrecção do montante ou da qualificação dos créditos reconhecidos”. (o art. 129º refere-se aos
procedimentos que competem ao administrador no que respeita à apresentação na secretaria de listas de todos os credores
por si reconhecidos e não reconhecidos).

Como resulta das conclusões adrede formuladas, o recorrente sustenta que a norma contida no artigo 130°, nº1
do CIRE, interpretada e aplicada no sentido de que se esgota no prazo de 10 dias, a possibilidade de qualquer interessado
“atacar” o reconhecimento de eventual crédito reclamado em sede de processo de insolvência é materialmente
inconstitucional, por violadora dos princípios da proporcionalidade, da protecção jurídica e das garantias processuais, do
acesso ao direito e aos tribunais e ainda ao principio da precisão ou determinabilidade das normas jurídicas, ínsitos na
Constituição da República Portuguesa.
Ao restringir, a 10 dias, o prazo para impugnar créditos em sede de processo de insolvência, quando para isso
não se é notificado, a norma supra mencionada ofende o principio constitucional da proporcionalidade, atenta a justa
adequação da medida coactiva que visa alcançar o determinado fim, “in casu” o da impugnação de créditos
Além de violadora do principio da protecção jurídica e das garantias processuais, a norma transcrita no artigo
130º, nº1, do CIRE não traduz o principio do estado de direito que exige um procedimento justo e adequado de acesso à
justiça e de realização do direito.

Importa atentar na natureza urgente do processo de insolvência que, sem margem para dúvidas, se estende agora
a todos os seus incidentes, apensos e recursos – art. 9º, nº1, do CIRE.

O prazo de impugnação dos créditos é de 10 dias, não havendo notificação das listas apresentadas pelo
administrador que ficam patentes na secretaria.

Pode questionar-se a opção do legislador ao adoptar este regime mas entre a economia de tempo que advém de
assim se ter estatuído e a tradicional notificação de todos os trâmites processuais, o legislador, dado o carácter urgente do
processo, fixou em 10 dias o prazo de impugnação e dispensou a notificação pessoal.

Não nos parece que daí decorra infracção dos princípios da proporcionalidade (na definição citada) e do acesso
ao direito.

Recentemente o T.C. pronunciou-se – Ac. de 8.3.2007 – publicado no Diário da República, 2ª Série — n°84 — 2
de Maio de 2007, sobre a questão da não citação do credor hipotecário tabularmente inscrito, para a reclamação de créditos
em processo de falência.

Foi a seguinte a decisão do Tribunal:

“Não julgar inconstitucional a norma extraída por interpretação conjugada dos artigos 20°, nº3, 188º, nºl, e 205.°,
todos do CPEREF, na redacção vigente ao tempo do Decreto-Lei nº38/2003, de 8 de Março, segundo a qual “no caso
específico do credor hipotecário, tabularmente inscrito em relação a um imóvel constante do activo da massa falida, é
dispensada a sua citação pessoal, contando-se o prazo para a reclamação de créditos ou propositura da acção a partir dos
anúncios publicados, mesmo que o credor deles não tenha conhecimento”.

Aí lê-se:

“Sustenta ainda a recorrente que a norma constitucionalmente impugnada viola ainda os princípios da
proporcionalidade ou da proibição do excesso.

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Subjacente a esta argumentação está o seu entendimento de que a opção legislativa por tal modo de
comunicação da sentença declaratória de falência e de abertura do prazo de reclamação de créditos constitui uma
constrição intolerável ao direito de acesso aos tribunais para realização dos direitos patrimoniais do credor hipotecário.

Vejamos. O direito de acesso aos tribunais para defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos e obtenção
de uma sua tutela jurisdicional, plena e efectiva, constitui um direito ou garantia fundamental que se encontra consagrada
no art. 20.º da Constituição.

Mas daí não decorre que seja um direito absoluto, de uso incondicionado.

Desde logo, ele consente as restrições que caibam nos parâmetros estabelecidos nos n.ºs 2 e 3 do art. 18.º da
CRP.
Por outro lado, decorre da própria previsão constitucional que a tutela jurisdicional dos direitos e interesses
legalmente protegidos seja efectuada “mediante um processo equitativo” e cujos procedimentos possibilitem uma decisão
em prazo razoável e sejam “caracterizados pela celeridade e prioridade, de modo a obter tutela efectiva e em tempo útil
contra ameaças ou violações desses direitos” que esse direito, além do mais, está sujeito a regras ou condicionamentos
procedimentais e a prazos razoáveis de acção ou de recurso.

Ponto é que esses condicionamentos, pressupostos e prazos não se revelem desnecessários, desadequados,
irrazoáveis ou arbitrários, e que não diminuam a extensão e o alcance do conteúdo desse direito fundamental de acesso
aos tribunais.

Impõe-se, pois, que essas medidas respeitem o princípio da proporcionalidade.

Como diz o Acórdão n.º 40/07, disponível em http://www.tribunal constitucional.pt citando o Acórdão n.º 187/2001,
publicado no Diário da República II Série, de 26 de Junho de 2001, “o princípio da proporcionalidade, em sentido lato, pode
(...) desdobrar-se analiticamente em três exigências da relação entre as medidas e os fins prosseguidos: a adequação das
medidas aos fins; a necessidade ou exigibilidade das medidas e a proporcionalidade em sentido estrito, ou “justa medida”.

Como se escreveu no (...) Acórdão n.º 634/93, invocando a doutrina:


“o princípio da proporcionalidade desdobra-se em três subprincípios: princípio da adequação (as medidas
restritivas de direitos, liberdades e garantias devem revelar-se como um meio para a prossecução dos fins visados, com
salvaguarda de outros direitos ou bens constitucionalmente protegidos); princípio da exigibilidade (essas medidas restritivas
têm de ser exigidas para alcançar os fins em vista, por o legislador não dispor de outros meios menos restritivos para
alcançar o mesmo desiderato); princípio da justa medida, ou proporcionalidade em sentido estrito (não poderão adoptar-se
medidas excessivas, desproporcionadas para alcançar os fins pretendidos)”.

“ […] o controlo judicial baseado no princípio da proporcionalidade não tem extensão e intensidade semelhantes
consoante se trate de actos legislativos, de actos da administração ou de actos de jurisdição.
Ao legislador (e, eventualmente, a certas entidades com competência regulamentar) é reconhecido um
considerável espaço de conformação (liberdade de conformação) na ponderação dos bens quando edita uma nova
regulação.
Esta liberdade de conformação tem especial relevância ao discutir-se os requisitos da adequação dos meios e da
proporcionalidade em sentido restrito. Isto justifica que perante o espaço de conformação do legislador, os tribunais se
limitem a examinar se a regulação legislativa é manifestamente inadequada." (assim, Gomes Canotilho Direito
Constitucional e Teoria da Constituição, Coimbra, 1998, p. 264)».

A questão colocada no Acórdão do T.C. de que citamos excertos tem alguma afinidade com a questão sub judice
do ponto em que o que está em causa é a estatuição de um regime jurídico que em ordem à salvaguarda da celeridade se
afasta do tradicional regime de formalismo garantístico.

Na justa ponderação de interesses, que demanda o regime urgente do processo de insolvência, a estatuição do
prazo de 10 dias do art. 130º, nº1, do CIRE e a não notificação pessoal das listas a que alude o art. 129º, nº1, do CIRE (não
está em causa o seu nº4 que esse contempla a notificação nos casos aí definidos) não se mostram desnecessários,
desadequados, irrazoáveis ou arbitrários, nem contendem com a extensão e o alcance do conteúdo do direito fundamental
de acesso aos tribunais que se encontra consagrado no artigo 20° da Constituição, pelo que não são inconstitucionais.

Decisão.

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Nestes termos acorda-se em negar a revista.


Custas pelo recorrente.

Supremo Tribunal de Justiça, 18 de Setembro de 2007


Fonseca Ramos (relator) Azevedo Ramos Silva Salazar

No mesmo sentido de não inconstitucionalidade da al. f) do n.º 1 do art. 755º do CC decidiu o


STJ (Cons.º Cardoso de Albuquerque) atrás visto, em 3.6.2008, no P.º 08A1470:

III - A prevalência do direito de retenção sobre a hipoteca prevista no art. 759.º, n.º 2, do CC,
não é materialmente inconstitucional.

PENHORA

Mais que garantia real (822°), a penhora é um acto fundamental do processo executivo para
pagamento de quantia certa, acto judicial que consiste na apreensão judicial de bens do executado ou
de terceiro, neste caso quando vinculados à garantia (835° CPC) do crédito ou objecto de acto
prejudicial ao credor que este procedentemente impugnou (818° CC) e a execução tenha sido movida
contra ele (821°, n° 2, e 56°, n.° 2, CPC, actual redacção).

No ensinamento de Anselmo de Castro,


- a penhora prepara os actos executivos subsequentes, pois sem prévia apreensão (material ou
simbólica) não pode haver venda e consequente pagamento aos credores;
- assegura a viabilidade e eficácia dos actos executivos, pois pela penhora os bens são
retirados da disponibilidade material do devedor e subtraídos à sua disponibilidade jurídica: sem
prejuízo das regras do registo, são ineficazes em relação ao exequente os actos de disposição,
oneração ou arrendamento dos bens penhorados - 819° CC.
Aqui, onde se lia em relação ao exequente devia ler-se, como agora se diz expressamente no
art. 819°, em relação à execução porque não só o exequente mas também os demais credores
graduados e o comprador do bem na execução são protegidos por esta ineficácia.
- Por último, a penhora tem também a função de controlo da titularidade e penhorabilidade dos
bens a apreender, em defesa da regularidade da execução e dos interesses tanto do executado como
de terceiros.

Há bens absoluta ou totalmente impenhoráveis - 822° CPC e 601° CC - a que há que


acrescentar os bens que, segundo a lei substantiva e várias leis avulsas, são inalienáveis e, portanto,
impenhoráveis. Veja-se resenha no CPC de A. Neto, 13ª ed., 328; bens relativamente (823° CPC) e
parcialmente impenhoráveis (824°) e bens só subsidiariamente penhoráveis (828° e 827°).

Para além de especialidades resultantes da afectação (825°) ou natureza dos bens (826° e
829°), a lei, por razões de ordem prática, distingue três tipos de penhora: Penhora de imóveis (838° a
847°), de móveis (848° a 854°) a que são subsidiariamente aplicáveis as norma da penhora de
imóveis (855° e 963° para os direitos), nomeadamente a notificação ao executado do despacho que
ordena a penhora - e a penhora de direitos (856° e ss) de que se destaca, pela sua frequência e
importância prática, a penhora de créditos (856° a 860°), de estabelecimento comercial (862°A) e a
penhora de depósitos bancários (861°A).

Tem-se levantado a questão de saber se, na penhora de depósitos ou saldos bancários o exequente tem a
obrigação de identificar a conta e o banco respectivo, ou se basta uma indicação geral (os saldos existentes em qualquer

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banco...), com requerimento ao Tribunal para que, através do Banco de Portugal, se proceda à identificação das contas e
respectivos saldos. A questão complica-se com o sigilo bancário, cobertor de devedores relapsos.
O STJ tem decidido que o sigilo bancário terá de cessar perante justa causa, visando a salvaguarda de interesses
manifestamente superiores (Col. STJ 97-III-170) e que a nomeação de bens à penhora deve identificar tanto quanto
possível, os bens a penhorar. Porém, não havendo a possibilidade de identificação completa, nomeada mente por força do
regime do sigilo bancário, esse ónus, quando relativo a depósitos bancários basta-se com a indicação dos estabelecimentos
respectivos, das suas sedes ou sucursais e do titular da(s) contas) - Col. STJ 97-I-44.

A redacção introduzida no art. 861°A do CPC pelo Dec-lei n° 375A/99, de 20 de Setembro,


facilitou a penhora de saldos bancários, permitindo que o Tribunal peça ao Banco de Portugal
informação dos bancos onde o executado tem contas.

Na redacção deste art. 861°A CPC introduzida pelo Dec-Iei nº 38/2003, de 8 de Março, exige-
se despacho judicial para o solicitador de execução efectuar esta penhora – nº 1 do art. 861°A.
De notar que - BMJ 463-525
I - Penhorado o direito ao arrendamento e ao trespasse de estabelecimento comercial (hoje penhora de
estabelecimento), essa penhora não afecta o direito de propriedade do senhorio sobre o prédio onde está situado esse
estabelecimento, nem, consequentemente, a subsistência do contrato de arrendamento respectivo.
II - Daí decorre que o executado continua obrigado a pagar as rendas vencidas antes e depois dessa penhora e
que o senhorio mantém o direito de propor acção de despejo para resolução do contrato, com o fundamento na falta de
pagamento dessas rendas.
III - Tal acção deve ser proposta contra o arrendatário, mesmo depois de ordenada aquela penhora.
IV - O disposto no artigo 820° do Código Civil não se aplica a esta situação

A propósito de penhora de estabelecimento criado pela executada mas instalado em loja


integrada no Centro Comercial Carrefour, ao abrigo de Contrato de Licença de Utilização e de que
constava uma cláusula segundo a qual é necessária autorização escrita do Carrefour para trespasse
ou cessão da utilização, decidiu o STJ (Ac. de 20.1.98, na Col. Jur. STJ 98-1-15 e comentado por A.
Varela na RLJ 131-138 e ss:

I - Deve ser considerado como inominado o contrato celebrado com o clausulado normalmente utilizado
entre a entidade organizadora de um centro comercial e um lojista que lá pretenda instalar um estabelecimento
comercial.
II - Esta qualificação jurídica não obsta à transmissão definitiva, por acto entre vivos, da titularidade dos
estabelecimentos existentes em centros comerciais.
III - Não contraria os princípios da boa fé, é consentida pelo entendimento do que é juridicamente um
«Shopping Center», e é compatível com a natureza jurídica do contrato celebrado entre a entidade organizadora do
centro comercial e o lojista, a cláusula, inserta em tal contrato, em que o lojista se obriga a não ceder, no todo ou
em parte, os poderes que lhe foram concedidos nesse contrato sem prévia autorização escrita da entidade
organizadora do centro comercial.
IV - Assim, perante tal cláusula, não concedendo a entidade organizadora do centro comercial tal
autorização (isto é, não autorizando o trespasse), é inadmissível, em execução proposta contra o lojista, a penhora
do estabelecimento por este instalado no centro comercial.

Considerando que havia, de facto, um estabelecimento pertencente à executada, mas estando o seu trespasse
sujeito a autorização do Carrefour, no confronto entre os interesses dos credores daquela executada e os do Carrefour
(aqueles querendo fazer arrematar o estabelecimento e este pretendendo defender a organização do Shoping) o Prof.
Varela entende que a penhora abrangerá nesse caso os bens a que actualmente se refere, com as necessárias
adaptações, o artigo 862°-A do Código de Processo Civil, e ainda a própria firma ou denominação social da sociedade
penhorada, que o arrematante poderá aproveitar no local para onde transferir o estabelecimento arrematado.
...os credores da lojista, desde que ela seja, na verdade - como o Supremo aceitou que a executada o fosse
perante a CARREFOUR - verdadeiro titular do estabelecimento, terão o direito de penhorar este estabelecimento (nos
termos hoje previstos pelos n.os 1, 2, 5, 6 e 7 do art. 862º-A do Cód. Proc. Civil) e de promover o seu trespasse, mas
sempre com a obrigação subjacente de a executada transferir imediatamente para outro local os bens que integram o
estabelecimento penhorado.

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Sobre os efeitos da venda executiva e caducidade dos direitos reais que incidiam sobre o
bem vendido: ver as lições de processo executivo, p. e., L. de Freitas, C. Mendes e, muito
recentemente, Cons.º Amâncio Ferreira, Curso de Processo de Execução, 10ª ed., Outubro de 2007,
pág. 390 a 399.
VÁRIAS NOÇÕES DE TERCEIROS

TERCEIROS CIVIS:
Aqueles que, não sendo partes no negócio jurídico, podem ser afectados juridicamente por ele.
Exemplos:

- 243º, n.º 1 - Inoponibilidade da simulação a 3.os de boa fé


A vende X a B, simuladamente;
B vende X a C, que estava de boa fé;
A e (ou) B não podem opor a nulidade a C
(A menos que a venda de B a C seja posterior ao registo da acção de simulação, pois com o
registo cessa a boa fé de C – 243º, nº 3).

- 305º, nº 1- Oponibilidade da prescrição por 3.ºs «com legítimo interesse» (ex: fiador ou
seguradora que a invoca)

A, devedor de B, credor com garantia hipotecária, é demandado por este;


A dívida está prescrita;
A não invoca a prescrição;
C, credor de A, pode invocar a prescrição, para que o bem hipotecado continue no património
de A.

- 818 - Execução de bens de 3° (v. impugnação pauliana - 616º, nº 1).


A doa X a B, ficando sem património;
C tem sobre A crédito anterior;
C propõe contra A e B acção de impugnação pauliana;
C instaura execução contra A.
C pode fazer penhorar o bem doado – e por isso pertencente - a B; A doação não é nula, mas
apenas ineficaz na medida do interesse do credor.

TERCEIROS PROCESSUAIS:

Incidentes de intervenção de 3.os (320 e ss CPC);


Oposição de 3° (342 CPC).

Aqui, os 3.os podem ser partes no negócio, mas não são partes na relação processual, na
acção.
Chamamento de condevedores ou do principal devedor (329 CPC).
Caso julgado - extensão a 3.os
Acções de estado e decisão penal condenatória – 674 e 674-A CPC)

Acção de investigação de paternidade procedente, atingindo a quota disponível atribuída a


herdeiro testamentário ou uma deixa a legatário.

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Recursos - Iegitimidade (680º, nº 2) - pessoas prejudicadas com a decisão, que não sejam
partes na causa.

TERCEIROS CIVIS no Cód. Reg. Predial:

Art. 17º, nº 23 - nulidade do registo (16º - casos de nulidade do registo 4), não nulidade do
negócio jurídico
Contra, ao que se supõe isoladamente, no sentido de abranger também a nulidade do negócio
jurídico, Isabel Pereira Mendes, «O Registo Predial e a Segurança Jurídica nos Negócios
Imobiliários», pgs. 49 e ss.)

Protecção de 3.os de boa fé, que adquiram a título oneroso, com base em registo nulo por
invalidade formal (16º).

Ex:
A vende X a B (adquirente substantivo);
C consegue inscrever no registo o direito de propriedade sobre X (adquirente registral);
C aliena X a D, a título oneroso;
D estava de boa fé;
D vai adquirir, sem que o art. 17º, nº 2 exija o decurso do prazo de 3 anos para a consolidação
da sua situação
(Contradição valorativa com o art. 291º, nº 2, CC).
Acórdão do STJ (Cons.º Nuno Cameira) de 14.6.2005 P.º 05A1316:

1 - A declaração de nulidade e consequente cancelamento da inscrição de propriedade a favor do


transmitente de certo bem imóvel não afecta os direitos sobre ele adquiridos a título oneroso por terceiro de boa fé
se o registo desta aquisição for anterior ao registo da acção de nulidade.
2 - Só nos casos em que o terceiro de boa fé não agiu com base no registo, isto é, quando o negócio
inválido não foi registado, é que deve aplicar-se o regime previsto no art.º 291º do Código Civil em lugar do
estabelecido no art.º 17º, nº 2, do Código do Registo Predial.
3 - Age de boa fé, no âmbito do art.º 17º, nº 2, do Código do Registo Predial, aquele que no momento da
aquisição desconhecia, sem culpa, o vício de que o registo padecia.
4 - Se um registo provisório caducar por não ter sido convertido ou renovado dentro do prazo da
respectiva vigência a nova inscrição do mesmo facto posteriormente efectuada consubstancia um novo registo, e
não a renovação do registo provisório anterior.

3
A declaração de nulidade do registo não prejudica os direitos adquiridos a título oneroso por terceiro
de boa fé, se o registo dos correspondentes factos for anterior ao registo da acção de nulidade – n.º 2
do art. 17.º do CRP.

4
- O registo é nulo:
a) Quando for falso ou tiver sido lavrado com base em títulos falsos;
b) Quando tiver sido lavrado com base em títulos insuficientes para a prova legal do facto registado;
c) Quando enfermar de omissões ou inexactidões de que resulte incerteza acerca dos sujeitos ou do
objecto da relação jurídica a que o facto registado se refere;
d) Quando tiver sido assinado por pessoa sem competência funcional, salvo o disposto no nº 2 do
artigo 369º do Código Civil;
e) Quando tiver sido lavrado sem apresentação prévia ou com violação do princípio do trato
sucessivo.

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Acordam no Supremo Tribunal de Justiça:

I. Por sentença de 26.9.03 do Tribunal de Lagos foi julgada improcedente a acção ordinária movida pela autora A
contra a Caixa B (1ª Ré) e a Sociedade C Limited (2ª Ré), cujo pedido consistiu em "julgar-se que as RR não têm o direito
de propriedade privada sobre os prédios rústicos "Maranhão", descrito na Conservatória do Registo Predial de Lagos sob nº
00607 da freguesia de Odeáxere, e "Albardeira", descrito na mesma Conservatória sob o nº 01062, da freguesia de S.
Sebastião, impugnando-se os registos de propriedade dos referidos prédios a favor das RR, que devem ser declarados
nulos e cancelados".

Sob apelação da autora a Relação de Évora confirmou a sentença.

Daí o presente recurso de revista em que a autora pede a revogação do acórdão recorrido por terem sido violados
os art.ºs 291º, 334º e 892º do Código Civil.
Foram apresentadas contra alegações defendendo a confirmação do julgado.

Tudo visto, cumpre decidir.


II. São os seguintes, em resumo, os factos a considerar:
1) Por registos lavrados em 28.2.89 foram inscritos a favor de D e mulher E, casados sob o regime de comunhão
geral de bens, os dois identificados prédios rústicos, "Maranhão" e "Albardeira".
2) As inscrições foram feitas com base em duas escrituras de justificação notarial celebradas em 23.10.85, nas
quais D e sua mulher E declararam ser donos e legítimos possuidores daqueles prédios em nome próprio há mais de trinta
anos, com conhecimento de toda a gente, sem qualquer interrupção ou imposição de quem quer que seja.
3) A 1ª ré adquiriu os imóveis a D e sua mulher E por dação em pagamento; a aquisição foi provisoriamente
registada a favor da 1ª ré em 27.3.89 e convertida em 27.12.89.
4) Em 28.12.90 foi inscrita no registo (inscrição provisória por natureza) a acção movida por F (mãe da autora)
contra D e sua mulher, em que se formula o seguinte pedido: "Deve a presente acção ser julgada procedente e, em
consequência, reconhecer-se que os RR não têm direito de propriedade privada sobre os prédios rústicos "Maranhão" e
"Albardeira", sito na freguesia de São Sebastião, em Lagos e impugnando-se todos os registos de propriedade dos referidos
prédios a favor dos RR que devem ser declarados nulos e cancelados".
5) Tal registo caducou em 28.7.94.
6) Por registo datado de 10.10.94 a 2ª ré inscreveu a seu favor a aquisição por compra dos prédios referidos em
1).
7) Em 21.3.95 foi inscrita no registo (inscrição provisória por natureza) a acção movida por F contra D e sua
mulher em que se formula o pedido mencionado em 4).
8) A presente acção foi registada em 14.7.95.
9) Por sentença certificada a fls 290 e segs, confirmada por acórdão da Relação que transitou em julgado no dia
2.3.98, foi julgada procedente a acção intentada por F contra E e D mencionada em 4).

A 1ª instância baseou a decretada improcedência da acção na consideração de que a nulidade declarada


relativamente ao registo obtido por D e E não afectava as subsequentes transmissões a favor das rés, atento o disposto no
art.º 17º, nº 2, do Código do Registo Predial, e na de que a norma do art.º 291º, nº 2, do Código Civil, não vem ao caso.

A Relação confirmou este entendimento das coisas, acrescentando, sem explicações adicionais, que os regimes
previstos nestes dois preceitos não colidem entre si.
No presente recurso, as questões úteis postas pela autora centram-se no seguinte:

1º) Não existia registo do direito a favor do transmitente à data da aquisição dos prédios pela 2ª ré porquanto o
registo da sentença proferida na acção proposta contra D e E conserva a prioridade decorrente do registo da acção, nos
termos do art.º 6º, nº 3, do CRP;

2º) As transmissões operadas a favor das rés são ineficazes relativamente à autora, verdadeira proprietária,
operando a ineficácia ipso iure, por se tratar da venda de bens alheios;

3º) As rés não podem valer-se da presunção registral a que alude o art.º 7º do CRP porque o registo obtido por D
e sua mulher foi lavrado com base numa escritura de justificação notarial;

4º) As rés não podem ser consideradas terceiros de boa fé porque na data da aquisição dos prédios pela 2ª ré
constava do registo a inscrição, se bem que caducada, da acção de nulidade proposta contra D e sua mulher;

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5º) A invocação da aquisição tabular constitui, no caso presente, um abuso do direito, contrário ao art.º 334º do
CC, pois as rés tiveram a possibilidade de confirmar a existência da acção de anulação das inscrições registrais dos imóveis
e, além disso, a inscrição feita com base em escritura de justificação não constitui presunção de que o direito pertence ao
titular inscrito.

O Tribunal entende - adianta-se desde já - que nenhuma das questões enunciadas tem bom fundamento,
impondo-se a confirmação do decidido pelas instâncias.

Vejamos porquê.
Na tese da autora, a transmissão da propriedade dos imóveis ajuizados por parte de D e sua mulher sofre de
nulidade porquanto o título com base no qual inscreveram o seu direito - as escrituras de justificação notarial realizadas em
23.10.85 - é falso, conforme foi reconhecido na acção a que alude o facto nº 9; por outro lado, alegou-se ainda na petição
inicial, a 1ª ré agiu de má fé uma vez que, aproveitando-se da caducidade do registo da acção movida contra os titulares do
registo, transmitiu os imóveis para a 2ª ré. Aconteceu, no entanto, que este último facto, levado ao quesito 4º, obteve a
resposta de não provado.

Aliás, a Relação - e bem, quanto a nós - considerou estar-se perante um quesito conclusivo, que "no rigor da boa
técnica jurídica devia ter antes sido considerado como não escrito" (fls 796). Portanto, temos que nada se provou a respeito
da má fé das rés. Mais ainda: quanto à má fé da 2ª ré, bem vistas as coisas, nem sequer foi alegado nenhum facto concreto
da qual ela pudesse inferir-se.

Deste modo, estando demonstrado que a 1ª ré agiu confiada no que o registo predial publicitava -
aquisição, por usucapião, do direito de propriedade dos titulares inscritos, D e mulher - e de boa fé, por
desconhecer, sem culpa, o vício de que o registo padecia, segue-se que a invalidade substancial da inscrição que
posteriormente foi decretada é insusceptível de afectar os direitos por ela adquiridos a título oneroso sobre os dois
prédios em causa; e isto porque o registo da sua aquisição foi anterior ao registo da acção de nulidade (factos 3 e
4).

Tal a solução que resulta do art.º 17º, nº 2, do Código do Registo Predial, que dispõe:

"A declaração de nulidade do registo não prejudica os direitos adquiridos a título oneroso por terceiro de boa fé,
se o registo dos correspondentes factos for anterior ao registo da acção de nulidade".

No momento presente há uma acesa discussão na doutrina nacional acerca da delimitação entre as hipóteses que
caem sob a alçada desta norma e as que estão sujeitas ao regime previsto no art.º 291º do Código Civil (cfr, por último,
Isabel Pereira Mendes, O Registo Predial e a Segurança Jurídica nos Negócios Imobiliários, Livraria Almedina, pág. 43/56,
Rui Pinto Duarte, Curso de Direitos Reais, Editora Principia, pág. 139 e sgs, e o trabalho de Gabriel Gonçalves intitulado
Aquisição Tabular, editado pela AAFDL, Lisboa, 2004). Pela nossa parte, cremos que este último preceito só deve aplicar-
se quando o terceiro de boa fé não tenha actuado com base no registo, isto é, quando o negócio nulo ou anulável não tenha
sido registado.

No caso presente, porém, e como já se viu, sucedeu precisamente o contrário, pois ambas as rés são " terceiros
registrais": adquiriram o seu direito da pessoa que à data figurava no registo predial como sendo a respectiva titular e
preenchem todos os requisitos legais para beneficiar da protecção conferida pela fé pública inerente ao registo predial. Daí
que a norma do art.º 17º, nº 2, do CRP, se ajuste como uma luva à situação em análise, tornando-se desnecessário, por
isso, averiguar se o "prazo de quarentena" que seria condição de aplicabilidade do regime estabelecido no art.º 291º do CC
foi respeitado. Torna-se evidente, de resto, ante os factos provados, que tal não aconteceu, pois decorreram mais de três
anos entre a realização das escrituras de justificação notarial e a propositura e registo da acção que visou a respectiva
anulação.

À luz do exposto, as conclusões 1ª a 4ª mostram-se deslocadas: a aquisição tabular operada a favor da 1ª ré,
consolidando na sua esfera jurídica o direito de propriedade sobre os prédios, tornou-o por assim dizer imune, insensível
aos vícios que, a montante, se verificou afectarem a posição jurídica dos titulares anteriormente inscritos, D e E.
E relativamente à 2ª ré o problema, em boa verdade, até nem chega a colocar-se visto que, por um lado, adquiriu
de boa fé, sendo certo, por outro, que os dados com que se confrontou no registo lhe anunciavam, preto no branco, que o
direito pertencia à 1ª ré, que foi quem, por dação em pagamento, lhe transmitiu o domínio dos prédios; a sua posição

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jurídica, por conse-quência, tal como, em razão do exposto, a da sua antecessora, tornou-se inatacável a partir do momento
em que registou a aquisição feita.

Resta dizer o seguinte:


Primeiro: Não tem fundamento a pretensão da recorrente de fazer retroagir os efeitos da sentença mencionada no
facto nº 9 à data do registo, entretanto caducado, dessa acção. E isto porque, como resulta expressamente do art.º 11º, nº
2, do CRP, os registos provisórios caducam se não forem convertidos em definitivos ou renovados dentro do prazo da
respectiva vigência.
Ora a caducidade, que deve ser oficiosamente verificada, nos termos do art.º 333º do CC, importa a pura e
simples cessação dos efeitos do registo. No caso dos autos, o registo provisório efectuado em 27.12.90 caducou em
28.7.94 (factos 4 e 5); portanto, a inscrição levada a cabo em 21.3.95 (facto 7), consubstancia, verdadeiramente, um novo
registo, e não a renovação de um registo provisório anterior. Carece de apoio legal, por conseguinte, como bem observa a
2ª ré, a pretensão da autora de reportar os efeitos da conversão de um registo provisório em definitivo a uma data de um
registo que, por ter caducado, deixou de ter existência jurídica; tal seria, acrescentamos nós, ilógico e absurdo.

Segundo: É indiferente à solução do caso presente o facto de o título que baseou a inscrição do direito de
propriedade a favor de D e E ter sido uma escritura de justificação judicial. O que o registo passou a publicitar desde
28.2.89 foi a existência e a titularidade daquele direito, "dizendo" aos interessados - sem qualquer referência àquele
documento - que a aquisição se fundou na usucapião (facto 1 e certidão da inscrição a fls 350). E a lei não exige que do
extracto da inscrição conste mais do que isso - art.º 93º, nº 1, do CRP.

Ora, dentro dos limites assim assinalados qualquer terceiro (como é o caso das rés) poderia confiar na verdade
declarada pelos livros da conservatória: poderia, como decorre do art.º 7º daquele diploma, confiar em que o direito existia
tal como o registo o revelava e ainda em que ele pertencia a quem estava inscrito como seu titular. É certo que a presunção
estabelecida por este preceito é ilidível, cedendo perante a prova em contrário (art.ºs 344º, nº 1, e 350º, nº 2, do CC); o que
se pretendeu, porém, apurar nesta acção não foi a existência do direito inscrito, mas antes, e mais precisamente, se esse
mesmo direito, com a exacta configuração levada ao registo, por efeito deste se transferiu sucessivamente para a esfera
jurídica da 1ª e da 2ª ré.

Terceiro: afigura-se evidente que a situação registral de que as rés beneficiam não configura nenhuma situação de
abuso do direito, tal como o define o art.º 334º do CC. Ao adquirir os prédios nas condições que ficaram demonstradas, e ao
tirar proveito, licitamente, da fé pública do registo predial, ambas agiram sem exceder nenhum dos limites impostos por
aquela norma. Na situação ajuizada, aliás, o sacrifício do interesse da autora resulta apenas, ao fim e ao cabo, da justa
prevalência que a lei quer dar aos valores da segurança, da certeza e da previsibilidade, que são de fundamental
importância em tudo o que respeita ao comércio jurídico de bens imóveis.

III. Nestes termos, nega-se a revista.

Custas pela recorrente.

Lisboa, 14 de Junho de 2005


Nuno Cameira, Sousa Leite, Salreta Pereira.

A AQUISIÇÃO TABULAR - 5º, nº 1: Os factos sujeitos a registo só produzem efeitos contra


terceiros depois da data do respectivo registo.

ESTRUTURA TRIANGULAR:
A vende X a B (que não regista);
A vende X a C (que regista).

Art. 291.º5 - só nos negócios jurídicos a título oneroso


5
Artigo 291º
Inoponibilidade da nulidade e da anulação

1. A declaração de nulidade ou a anulação do negócio jurídico que respeite a bens imóveis, ou a


móveis sujeitos a registo, não prejudica os direitos adquiridos sobre os mesmos bens, a título

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RELAÇÃO LINEAR: um terceiro para efeitos do art. 291º não é um terceiro para efeitos de
registo. No caso do registo, há conflito entre dois adquirentes; no caso do art. 291º, há conflito entre o
primeiro transmitente e o último na cadeia de nulidades sequenciais.
Terceiro, para efeitos deste artigo (291º) é todo o subadquirente que apareça depois da
celebração do primeiro negócio nulo, cujo negócio enferme exclusivamente do vício de aquisição a non
domino e que seria prejudicado pela declaração de invalidade do primeiro negócio.

O conceito de terceiro para efeito de registo assenta numa relação triangular de terceiros entre
si em que o primeiro negócio é válido; só pode falar-se em terceiros para efeitos do art. 291º (na
hipótese de vício de nulidade) se o primeiro negócio for nulo; o art. 291º assenta numa relação
sequencial de negócios inválidos e de subadquirentes que não são terceiros entre si. A protecção do
do art. 291º representa uma excepção ao regime jurídico da declaração de invalidade dos negócios
jurídicos – Couto Gonçalves, CDP nº 9, 51 e 52, comentário desfavorável ao Ac. do STJ de 19.2.2004
– cópia (fs. 43 a 53).

Inoponibilidade da nulidade e da anulação do negócio, desvio ao princípio geral do art. 289º,


justificado pelo princípio da fé pública resultante do registo.

A vende X a B por negócio nulo ou anulável; B vende X a C que regista a aquisição antes do
registo da acção proposta por A).

Nos 3 anos seguintes - a contar da venda de A a B - o registo não defende o titular do direito
formalmente inscrito contra os efeitos da nulidade ou da anulação do negócio.

Mas defende depois: é o «triunfo limitado do registo»

Acção de anulação e registo da acção para além dos 3 anos (prevalece o direito de quem
regista primeiro):

1) - A propõe a acção e regista-a primeiro; C continua a não ser protegido.

2) - C regista primeiro a aquisição; C fica protegido.

O art. 291º não abrange a hipótese de o negócio ser ineficaz (Ac. da Relação de Évora, de
18/12/90, Col. Jur. 90-V-269; Ac. da Relação de Coimbra, de 22/5/02, Col. 2002-II-14; A. Varela, RLJ
103-479.

Ex:
A vende X a B por negócio válido;
B vende X a C;
A era obrigado a dar preferência a D;
A venda de A a B é ineficaz em relação a D, preferente; D pode preferir contra C, mesmo que
este tenha registado, pois a preferência é um direito real (de aquisição) e, como tal, dotado de sequela.
oneroso, por terceiro de boa fé, se o registo da aquisição for anterior ao registo da acção de nulidade
ou anulação ou ao registo do acordo entre as partes acerca da invalidade do negócio.
2. Os direitos de terceiro não são, todavia, reconhecidos, se a acção for proposta e registada dentro
dos três anos posteriores à conclusão do negócio.
3. É considerado de boa fé o terceiro adquirente que no momento da aquisição desconhecia, sem
culpa, o vício do negócio nulo ou anulável.

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Neste sentido: Ac. do STJ, de 21/1/92, BMJ 413-514.

Não há protecção registral para aquisição a título gratuito - Col. Jur. 1993-II-206.

Art. 5º do CRP e 291º do CC

Acórdão do STJ (Ex.ma Cons.ª M. dos Prazeres Beleza), de 5 de Julho de 2007, no Pr.º 07B1361

IV – O artigo 291º do Código Civil não se encontra revogado, tendo um âmbito de aplicação diverso daquele que
(actualmente) cabe ao artigo 5º do Código do Registo Predial;
V – Sendo aplicável o artigo 5º do Código do Registo Predial, não releva o prazo de três anos, previsto no nº 2 do
artigo 291º do Código Civil para a propositura e registo da acção de declaração de nulidade ou de anulação;
VI – É terceiro para os efeitos previstos no artigo 5º do Código do Registo Predial, quer na redacção decorrente do
Decreto-Lei nº 533/99, de 11 de Dezembro, que lhe aditou o nº 4, quer na sua anterior versão, aquele que compra um
prédio a quem figura no registo predial como seu proprietário, apesar de (este alienante) já ter anteriormente alienado a
outrem o mesmo prédio, por permuta não registada.
VII – Essa permuta não produz efeitos em relação ao comprador que registou a sua aquisição, prevalecendo o
direito de propriedade do mesmo comprador não obstante ter adquirido de quem já tinha alienado o direito;
VIII – Não pode, pois, ser julgada procedente a acção de declaração de nulidade da compra e venda instaurada
pelo primeiro adquirente, com fundamento em se tratar de venda de bens alheios, apesar de ter sido proposta e registada
nos três anos posteriores à celebração da compra e venda.

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça:

1. Em 7 de Abril de 1999, a Santa Casa da Misericórdia do Funchal, Associação de Solidariedade Social, propôs
no Tribunal de Círculo do Funchal uma acção ordinária contra AA, BB e CC e mulher, DD, pedindo que fosse declarada a
nulidade de um contrato de compra e venda, celebrado em 8 de Março de 1999, entre AA, por si e em representação de BB,
vendedores, e CC, comprador, de um prédio misto denominado “Vila S...”, no sítio do Livramento, concelho de Santa Cruz,
descrito na Conservatória do Registo Predial de Santa Cruz sob o nº 803 da freguesia do Caniço, e inscrito na matriz predial
da mesma freguesia sob o nº 10 da Secção “JJ” (parte rústica) e 190 (parte urbana).
Como fundamento, a autora alegou que o referido prédio, registado, à data da escritura, em nome de BB (a quem
a propriedade fora adjudicada na sequência da escritura de partilhas celebrada com a sua anterior mulher, em 29 de Julho
de 1988), que não interveio pessoalmente no contrato, era nulo pelas seguintes razões: em primeiro lugar, por falta de
legitimidade da procuradora, sendo venda de coisa alheia (artigo 892º do Código Civil), quer porque a procuração apenas
abrangia os prédios “na área do Funchal e não no Caniço, como é o caso da «Vila S...»”, quer porque a procuração,
passada por BB na constância do casamento dos dois, “não podia subsistir” por entretanto ter sido decretado o respectivo
divórcio (artigos 1688º e 1788º do mesmo Código Civil); em segundo lugar, por incidir sobre um “objecto (…) legalmente
impossível (…), nos termos do artigo 280º do Código Civil”, já que o prédio atrás descrito, “sem mais (…) não existe hoje”,
por dele ter sido desanexada por expropriação uma parcela com 1.215 m2, que é da propriedade da Região Autónoma da
Madeira.
Quanto à parte do prédio que se manteve na propriedade de BB, foi adquirida pela autora ao mesmo réu por um
contrato de permuta entre ambos celebrado, por escritura pública, em 1990, na sequência do qual o prédio lhe foi entregue,
tendo-se, desde então, mantido na sua posse.
Consequentemente, pediu ainda que fosse declarado nulo o pedido de registo da referida aquisição, apresentado
pelo comprador, que fosse cancelado qualquer registo eventualmente efectuado na sequência da compra e venda e que
fosse declarado ser ela autora a proprietária do prédio, bem como que os réus fossem condenados a não criar quaisquer
“obstáculos ou impedimentos à propriedade e posse do prédio referido e adquirido” por si.
Contestando, CC e mulher invocaram, em síntese, encontrar-se definitivamente registada a seu favor a aquisição
do prédio, por inscrição requerida a 9 de Março de 1999, beneficiando, assim, da presunção de titularidade do direito
prevista no artigo 7º do Código do Registo Predial; sobrepor-se a eficácia do registo “a qualquer venda anterior não
registada ou com registo posterior àquele”; não existir qualquer registo a favor da autora; não provar nada, quanto à
titularidade do direito alienado, a escritura de permuta; não ter existido qualquer venda de coisa alheia, já que, no máximo,

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teria havido “um acto de representação sem poderes, que, nos termos do artigo 268º do Código Civil, é ineficaz em relação
ao representado (e apenas em relação a este)”; por (tal como quem actuou como representante do vendedor) estarem
convencidos, quando compraram, da suficiência dos poderes invocados; por não ter qualquer consistência a afirmação de
que, com o divórcio, a procuração deixou de produzir efeitos; e porque, mesmo que isso tivesse acontecido, só o cônjuge
representado teria legitimidade para invocar a invalidade sustentada pela autora.
Contestou também a ré AA, sustentando a suficiência da procuração, aliás não afectada pelo divórcio, a não
alteração dos elementos de descrição do prédio no registo em consequência da expropriação referida pela autora, a
inexistência de qualquer registo em favor deste última, a situação de aparente abandono em que o prédio se encontraria,
não sendo, nem pública, nem notória, a posse alegada pela autora, e o registo definitivo da transmissão a favor dos réus
CC e mulher. Sendo estes terceiros relativamente à permuta alegada, tendo adquirido com base num direito de propriedade
concordante com o registo, e tendo registado tal aquisição a seu favor, não pode a compra e venda que realizaram ser
afectada por aquela permuta, devendo ser havidos como proprietários do prédio em litígio.
A autora replicou, mantendo as suas pretensões.

Por sentença de 7 de Fevereiro de 2006, a acção foi julgada improcedente. O tribunal entendeu, em resumo, não
ter ocorrido “qualquer causa de extinção da procuração” e decorrer do disposto no nº 1 do artigo 5º do Código do Registo
Predial que “a falta de legitimidade do transmitente, do Réu BB, não pode ser invocada pela Autora perante os Réus CC e
mulher, em virtude do registo de aquisição efectuado por estes – são, assim, os chamados terceiros para efeitos de registo”,
já que a autora não registou a sua aquisição e estão em conflito “aquisições derivadas incompatíveis por força da actuação
do antecessor comum”.
Para além disso, a sentença entendeu ainda que a alteração decorrente da expropriação parcial de que foi objecto
não afectou a identidade do prédio, razão pela qual não se verifica a alegada impossibilidade legal do objecto da compra e
venda.

2. A autora interpôs recurso de apelação.


Por acórdão de 30 de Novembro de 2006, o Tribunal da Relação de Lisboa negou provimento ao recurso,
confirmando a sentença recorrida. Ampliou a matéria de facto provada, mas manteve a decisão de direito. Sempre em
síntese, a Relação entendeu ser irrelevante ter eventualmente existido, quer abuso de representação, quer falta de poderes
da representante, porque a ineficácia daí decorrente só poderia ser invocada “pelo representado e pela parte que contrata
com o representante sem poderes (arts. 268º e 269º C.Civil)”. Como não foi, tudo se passa, para os compradores, como
tivesse sido BB, por si mesmo, a vender-lhes o prédio.
De qualquer forma, BB já não era proprietário do mesmo quando a venda se realizou, pois tinha alienado o prédio,
por permuta com a autora, em 1990. Tratou-se, pois, de uma venda nula, por ser venda de bens alheios (art. 892º do
mesmo Código). Não tendo, todavia, sido registada a aquisição a favor da autora, nem havendo ficado provado que os
compradores tinham conhecimento de que se tratava de venda de bens alheios, prevalece a aquisição registada a favor de
CC e mulher, nos termos do disposto no artigo 5º do Código do Registo Predial. A Relação considerou não aplicável ao
caso o regime previsto no nº 2 do artigo 291º do Código Civil, como pretendia a autora.
Finalmente, a Relação considerou irrelevante para a questão em causa na acção, quer o facto de o preço não
estar ainda totalmente pago, quer a discrepância entre “o imóvel descrito no contrato de 8 de Março de 1999 e aquele que
existia na realidade”, na sequência da expropriação ocorrida. E observou ainda que a posse invocada pela autora não
reunia as condições necessárias para conduzir à aquisição do prédio por usucapião.

3. Novamente inconformada, a Santa Casa da Misericórdia do Funchal interpôs recurso para o Supremo Tribunal
de Justiça… que foi admitido, como revista, com efeito meramente devolutivo.
Nas alegações então apresentadas, a recorrente formulou as seguintes conclusões:

«I - A Ré AA vendeu em 1999 um prédio misto que era propriedade da Recorrente.


II - Para tal utilizou uma procuração, outorgada em 1995 pelo Réu BB, que na altura era seu marido.
III - Na data da venda do prédio misto "Vila S...", em 1999, os dois Réus estavam já divorciados.
IV - As relações pessoais e patrimoniais entre cônjuges cessam com o divórcio.
V - Era a existência do casamento entre eles, essa relação jurídica, que servia de base a tal procuração, pelo que
cessando o casamento extingue-se a procuração (artigo 265º do CC.)
VI - Deste modo, estando os Réus divorciados, em 1999 a procuração estava extinta.
VII - A mesma procuração habilitava a Ré AA a vender imóveis especificamente no Funchal, e acrescentava a
expressão "designadamente" para enumerar alguns dos imóveis que poderiam ser objecto da procuração, sendo todos eles
no Funchal.
VIII - O prédio misto em causa está localizado na Comarca de Santa Cruz, não no Funchal, obviamente não fazia
parte dos imóveis descritos na procuração.

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IX - Deste modo, tendo sido a procuração utilizada para vender o prédio "Vila S...", localizado em Santa Cruz, os
poderes inseridos na procuração para esta venda são insuficientes.
X - Deverá assim entender-se que a Ré AA não tinha poderes para outorgar em nome do Réu BB o contrato em
causa.
XI - O Réu BB não ratificou o contrato de venda que a Ré AA outorgou em seu nome sem poderes de
representação.
XII - Os Réu BB, com o consentimento da Ré AA, através de contrato de permuta, entregaram à Autora em 1990 o
prédio misto denominado "Vila S...".
XIII - A partir dessa data, a Autora comportou-se como legítima proprietária e possuidora do imóvel, fazendo
obras, colhendo frutos e apresentando um projecto para um centro de dia para a terceira idade e uma creche/infantário na
respectiva Câmara Municipal de Santa Cruz.
XIV - Porém, em 1999, a Ré AA, já divorciada do Réu BB, e munida da procuração que atrás se deu como inválida
e insuficiente, voltou a vender em nome do Réu BB o imóvel em questão aos Réus CC e DD.
XV - Tratou-se da venda de um bem alheio, que consequentemente é nula (artigos 892° e 286° do CC), podendo
ser invocável a todo o tempo e declarada oficiosamente e ineficaz e relação ao representado (nos termos do artigo 268° do
CC).
XVI - Além de que não tendo poderes de representação, o negócio tinha de ser ratificado por quem de direito, o
que não o sendo, impede a produção de efeitos do negócio em causa (artigo 268° do CC).
XV - A Autora quando adquiriu o imóvel em 1990 não o registou, mas fizeram-no os segundos Réus CC e DD em
1999.
XVI - A lei, e nomeadamente o artigo 291° nº l do CC, protege os terceiros que estando de boa fé e tendo
registado a aquisição a título oneroso de bens imóveis, não são oponíveis numa acção de nulidade do negócio jurídico.
XVII - Porém o n.º 2 do artigo 291° do CC refere que, se a acção de nulidade ou anulação do negócio jurídico tiver
sido proposta e registada dentro do prazo de três anos a contar da data daquele negócio, os direitos de terceiros de boa fé
podem ser prejudicados.
XVIII - Foi exactamente isso que a Autora fez, ao intentar uma acção de declaração de nulidade do negócio
jurídico dentro dos referidos três anos, e a ter registado.
XIX - Não poderão ser assim reconhecidos os direitos do Réu CC, não lhe sendo também reconhecida a
propriedade do imóvel "Vila S...", em virtude da nulidade do negócio aquisitivo ter sido pedida antes de decorridos três anos.
XX - Deve em consequência ser alterada a decisão do Acórdão da Relação de Lisboa, declarando-se a nulidade
da venda operada em 1999 e os registos subsequentes cancelados, reconhecendo-se a posse da Autora, para efeitos de
consolidação do direito de propriedade adquirido pela via contratual em 1990.»

Contra-alegaram, quer CC e mulher, quer AA, sustentando o acórdão recorrido.

4. Para manter a decisão da 1ª instância, a Relação de Lisboa deu como provada a seguinte matéria de facto (os
nºs 21 e 22 foram aditados pela Relação à matéria havida como provada em 1ª instância):

«1. No dia 8 de Março de 1999, AA, por si e em representação de BB, declarou vender, através de escritura
pública celebrada no Cartório Notarial de Santa Cruz, um prédio misto denominado "Vila S...", localizado no sítio do
Livramento, Caniço, Santa Cruz, descrito na Conservatória do Registo Predial de Santa Cruz sob o n. ° 803, do Caniço, e
inscrito na matriz respectiva sob o n. 10°, da secção "JJ", a parte rústica, e 190°, a parte urbana, tendo CC declarado
comprar, mediante o preço de 100 000 000$00 (cem milhões de escudos) (al. A) dos factos assentes).
2. No acto da escritura foram entregues 30 000 000$00, prometendo fazer a entrega do restante quando o prédio
ficar livre de quaisquer ónus ou encargos (al. B) dos factos assentes).
3. A vendedora AA apresentou certidão de uma procuração feita a 21 de Março de 1995 em que BB, no estado de
casado, lhe confere poderes especiais para vender, prometer vender, permutar, ou de qualquer forma alienar, hipotecar ou
onerar os imóveis de que é proprietário ou co-proprietário (al. C) dos factos assentes).
4. À data da escritura o prédio em causa encontrava-se inscrito na Conservatória do Registo Predial de Santa
Cruz a favor de BB, no estado de casado, em regime de comunhão de adquiridos, com AA, pela inscrição G-um (al. D) dos
factos assentes).
5. O prédio veio à propriedade de BB por escritura de partilhas, celebrada com a sua anterior mulher, no dia 29 de
Julho de 1988, no 2° Cartório Notarial do Funchal (al. E) dos factos assentes).
6. Em 17 de Setembro de 1990, na Secretaria Notarial do Funchal, BB declarou entregar à Santa Casa da
Misericórdia do Funchal um prédio misto, denominado "Vila S...", no sítio do Livramento, Caniço, concelho de Santa Cruz,
na ocasião, com área de 13 655 m 2, sendo parte do descrito na Conservatória do Registo Predial de Santa Cruz, sob o n.º
803, e parte do inscrito na matriz respectiva sob o n. ° 10°, da secção " jj " a parte rústica, e 190° a parte urbana, da mesma
freguesia (al. F) dos factos assentes).

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7. Nessa mesma escritura, BB declarou receber, como contrapartida, dois prédios urbanos, sitos na Av. Arriaga,
freguesia da Sé, Funchal, descritos sob os n.º 35 549 e 35 550, a folhas 148 e 149, do livro B-100, na Conservatória do
Resisto Predial do Funchal, e inscritos na matriz predial sob os arte ° 75° e 1982°, respectivamente, e ainda a quantia de 28
000 000$00 e o valor das indemnizações resultantes das expropriações efectuadas no prédio até á data da escritura (al. H)
dos factos assentes).
8. AA prestou consentimento para o negócio (al. I) factos assentes).
9. O imóvel identificado em A) [1] encontra-se inscrito na Conservatória do Registo Predial de Santa Cruz a favor
de CC e DD, pela ap. 03/090399 (al. J) dos factos assentes).
10. Encontra-se registada uma penhora pela inscrição F-l, em 20/10/1998, para garantia da quantia de 48 624$00,
juros e custas, por dívidas de BB e AA à Fazenda Nacional (al. L) dos factos assentes).
11. Encontra-se registado um arresto pela inscrição F-2, em 27/03/1998, para garantia da quantia de
15.715.106500, ao Banco B... e V... S.A. (al. M) dos factos assentes).
12. Encontra-se registada uma penhora pela inscrição F-3, em 19/11/1998, para garantia da quantia de
1.647.391100, juros e custas, por dívidas de BB e AA, ao B... N... U..., S. A. (al. N dos factos assentes).
13. Encontra-se registado uma penhora pela inscrição F-4, em 28/12/1998, para garantia da quantia de 1 647
391$00, juros e custas, por dívidas de S... Electrodomésticos, Lda. e outros, ao B... N... U..., S. A. (al. O) dos factos
assentes).
14. A área do prédio referido em F) [6] resultou da separação de uma parcela de terreno com área de 1.215 m 2
que foi expropriada pela declaração de utilidade pública tomada pela Resolução do Governo Regional Madeira de 25-1-
1989 (resposta ao artigo 1 ° da base instrutória).
15. A Santa Casa da Misericórdia do Funchal, desde 17-9-1990, tomou posse do prédio supra identificado
(resposta ao artigo 2° da base instrutória).
16. Nele pretende instalar um Centro de Dia para a terceira idade, creche e infantário (resposta ao artigo 3° da
base instrutória).
17. A Santa Casa apresentou projecto nesse sentido na Câmara Municipal de Santa Cruz (resposta ao artigo 4°
da base instrutória).
18. O Réu CC estava convicto que a procuração apresentada tinha poderes necessários e suficientes para a
venda referida em A)[1] (resposta ao artigo 5° da base instrutória).
19. A vontade real do BB foi a de conferir poderes especiais à AA para praticar negócios jurídicos relativos a
imóveis de que seja proprietário e co-proprietário sitos no Funchal ou não (resposta ao artigo 6° da base instrutória).
20. O prédio identificado em A) [1] está desocupado de pessoas e bens e a construção lá existente ameaça ruína
(resposta ao artigo 7° da base instrutória).
21. O Réu BB divorciou-se da Ré AA, antes da outorga da escritura referida em A e depois da data da outorga da
procuração referida em C) [3].
22. A procuração que foi exibida na escritura referida em A)[1] refere expressamente o seguinte: "confere os
poderes especiais para, em seu nome e representação, vender prometer vender, permutar ou de qualquer forma alienar,
hipotecar ou onerar, os imóveis de que ele mandante é proprietário ou co-proprietário, designadamente em comunhão com
ela mandatária, sitos no Funchal e designadamente, o prédio urbano sito na Rua do Conselheiro José Silvestre Ribeiro,
números ...,...e..., no Funchal, descrito na CRP do Funchal sob o número .../221092 (antes sob o número 2L499 folhas 165
Livro R-57) e inscrito na matriz predial respectiva sob o artigo 76 da freguesia de São Pedro; o prédio urbano sito na Rua
dos Aranhas números 12 e 14, descrito na CRP do Funchal sob o número .../221092 (antes sob o número 2L500 folhas 175
Livro R-57) e inscrito na matriz predial respectiva sob o artigo 100 da freguesia de São Pedro; o prédio urbano sito na
Avenida Arriaga números ...,...e..., descrito na CRP do Funchal sob o número .../270990 (antes sob o número 35.550 folhas
149 Livro R-I00) e inscrito na matriz predial respectiva sob o artigo 1982 da freguesia da Sé, intervindo em quaisquer actos,
contratos e escrituras a que para tal efeito haja lugar, recebendo preços, dando quitação e intervindo e representando-o
ainda em quaisquer repartições públicas, nomeadamente Repartições de Finanças, Conservatórias do Registo Predial,
Câmara Municipal, requerendo a aprovação de projectos e suas alterações e o mais que para o exercício do mandato se
torne necessário "».

5. Resulta das conclusões das alegações apresentadas pela recorrente que se pretende que o Supremo Tribunal
de Justiça aprecie, em suma, duas questões:

- A da invalidade da compra e venda celebrada entre AA, por si e como representante de BB, e CC e
mulher, quer por falta de poderes de representação da primeira ré, quer porque o prédio vendido já tinha sido
alienado pelo seu proprietário por permuta com a autora, tratando-se portanto de venda de bens alheios;
- A da prevalência da aquisição a favor da autora sobre a aquisição por parte dos réus CC e mulher, não
beneficiando estes últimos do disposto no artigo 5º do Código do Registo Predial, apesar de terem registado a sua

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aquisição e de a autora o não ter feito, em virtude de ser aplicável o regime previsto no nº 2 do artigo 291º do
Código Civil, tendo a apresente acção sido proposta e registada dentro do prazo de 3 anos ali previsto.

6. A recorrente sustenta que a compra e venda, feita em seu nome e em nome de BB por AA, é nula por falta de
poderes de representação, quer porque o divórcio teria feito caducar a concessão de poderes de representação, nos termos
já indicados, quer porque se não podia considerar abrangido pelos termos da procuração o prédio que, em concreto, foi
vendido.
Ora a verdade, em primeiro lugar, é que a dissolução do casamento não produz quaisquer efeitos quanto à
subsistência da procuração, questão que nada tem a ver com a cessação das relações pessoais e familiares apontada pela
recorrente, com base no disposto nos artigos 1688º e 1788º do Código Civil.
Em segundo lugar, mesmo que se entendesse que se deveria interpretar a procuração como não abrangendo o
prédio objecto da venda impugnada, ainda assim sucederia que a consequência da representação sem poderes não seria a
da nulidade do negócio realizado, mas apenas a da ineficácia relativamente ao representado (artigo 168º, nº 1, do Código
Civil).
Note-se, aliás, que da circunstância de se tratar de um negócio formal (cfr. artigos 262º, nº 2 e 875º, do Código
Civil) e de a procuração em causa estar sujeita, portanto, às limitações impostas pelo artigo 238º do Código Civil para a sua
interpretação, não se pode dizer que não tenha “no texto do documento, ainda que imperfeitamente expresso” (nº 1) o
sentido, que lhe foi atribuído pela Relação e que não há motivo para alterar, de que os poderes conferidos por BB
abrangiam a possibilidade de venda de um prédio situado ou não no Funchal (cfr. ponto 19. da matéria de facto considerada
provada pela Relação), uma vez que a indicação dos prédios é expressamente feita a título meramente exemplificativo.

7. A recorrente sustenta ainda a nulidade da venda por se tratar de venda de bens alheios. Para
apreciarmos esta questão devidamente, interessa começar por recordar a sucessão temporal de alguns factos:
- Em 29/7/88, foi adjudicada a BB, por partilha feita por escritura dessa data, a propriedade do prédio em disputa
nesta acção; a correspondente aquisição foi inscrita no registo na sequência da apresentação nº 02/1205/89;
- Em 17/9/90, BB e a autora celebraram um contrato de permuta, por virtude do qual, para o que agora interessa,
a autora adquiriu a propriedade do mesmo prédio; tal aquisição não foi, todavia, inscrita no registo predial;
- Em 8/3/99, o prédio foi vendido ao réu CC, casado em comunhão de adquiridos com DD, intervindo na escritura
respectiva, por si e em representação de BB, a ré AA;
- Pela apresentação nº 03/090399, foi inscrita no registo a aquisição da propriedade a favor de CC, pela compra e
venda acabada de indicar;
- Em 7 de Abril de 1999, foi proposta a presente acção, na qual foi pedida, a título principal, a declaração de
nulidade da mesma venda;
- A propositura da acção foi registada na sequência da apresentação nº 4 de 12 de Abril de 1999.
Em síntese, a autora sustenta que a sua aquisição prevalece sobre a aquisição resultante da compra e venda, não
obstante esta, e não aquela, ter sido levada ao registo, porque o nº 2 do artigo 291º do Código Civil a protege mesmo contra
terceiros de boa fé – como ninguém põe em causa que deve ser considerado o comprador; este e a vendedora, por sua
vez, consideram que do disposto no artigo 5º do Código do Registo Predial, de onde consta o regime aplicável ao caso,
decorre a prevalência da aquisição decorrente da compra e venda.
E neste último sentido se pronunciaram as instâncias. Em resumo, a Relação de Lisboa entendeu que: “(…) a
transferência de direitos reais sobre determinada coisa dá-se por efeito do contrato (arts. 408º, nº 1 e 879ª, al. a) do CCivil)
(…). Porém, a aquisição do direito de propriedade sobre imóveis está sujeita a registo (art. 2º, nº 1, alínea a), do C. R.
Predial), prevalecendo o direito primeiramente inscrito. (…)”. No entanto, “os factos sujeitos a registo só produzem efeitos
em relação a terceiros depois de registados (art. 5º, nº 1, do C. R. Predial).”
Referindo que “o conceito de terceiro, para efeitos de registo predial, foi objecto de controvérsia jurisprudencial”,
que a seguir relata, “até que o legislador o consignou no nº 4 do artº 5º do C. R. Predial” pelo Decreto-Lei nº 533/99, de 11
de Dezembro, a Relação, considerando ter natureza interpretativa a norma constante do nº 4 que este diploma introduziu,
concluiu que a transferência de propriedade resultante da permuta não é eficaz relativamente ao posterior comprador,
prevalecendo, portanto, a sua propriedade (apesar de ter adquirido a quem já não era proprietário do prédio):
“(…) o facto de o art. 5º não ter revogado o art. 291º, não conduz, por si só, à solução preconizada pela Apelante,
qual seja a da aplicação do art. 291º do C. Civil a situações, como a dos autos, em que ocorre uma relação triangular
consubstanciada em dupla transmissão pelo mesmo alienante de um bem imóvel (…) a um primeiro transmissário, que não
inscreve no registo a aquisição, e depois a um segundo, que opera a respectiva inscrição registal.
Aqui estamos perante uma situação de conflito entre dois adquirentes, sendo válido o primeiro negócio de
transmissão e não o segundo. Porém, o primeiro adquirente não pode opor ao segundo a sua aquisição, porque ela não
constava no registo e o último não podia, dada a fé pública do registo, conhecer que o alienante já não era o titular do direito
em causa. Como é bom de ver, este conceito de terceiro para efeito do registo (…) não coincide com o conceito de terceiro
a que se reporta o artigo 291º do Código Civil, porque na relação triangular o conflito é entre dois adquirentes e, na situação

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prevista no art. 291º, esse conflito ocorre entre o primeiro transmitente e o último sub-adquirente”, como se decidiu no
acórdão deste Supremo Tribunal de 11 de Maio de 2006, que cita (disponível em www.dgsi.pt).
Tendo a autora adquirido validamente a propriedade por virtude da permuta, a venda posterior, diz ainda a
Relação, só pode ser havida como venda de bens alheios e é, portanto, nula “e afectada de ineficácia em relação à
Apelante (artigos 408º, nº 1, e 892º do Código Civil)”; mas tal nulidade, não sendo aplicável ao caso o nº 2 do artigo 291º do
Código Civil, não obsta a que valha relativamente ao comprador “a presunção derivada do registo”, por não lhe ser oponível
a primeira aquisição. “Só assim não seria se a A. tivesse alegado e provado que os RR adquirentes estavam de má fé, isto
é, tinham conhecimento que se tratava de venda de bem alheio”.

8. Nenhuma dúvida se levanta que, em direito português, a transferência da propriedade ocorre por mero efeito do
contrato, quer na compra e venda, quer na permuta (artigos 408º, nº 1, 879º, al. a) e 939º do Código Civil). Assim como se
não põe em causa que a aquisição de direitos reais sobre imóveis está sujeita a registo, resultando da falta de registo do
acto aquisitivo a sua ineficácia em relação a terceiros; o mesmo sucede relativamente às acções que tenham por fim “o
reconhecimento, a constituição, a modificação ou a extinção” do direito de propriedade sobre imóveis (artigos 2º, a), 5º, nº 1
e 3º, nº 1, al. a) do Código do Registo Predial).
Colocando-se na presente acção a questão de saber se a permuta realizada entre a autora e BB em 17 de
Setembro de 1990 é eficaz relativamente ao comprador CC, há que determinar se este é terceiro para efeitos do disposto
no artigo 5º do Código do Registo Predial ou do que consta do artigo 291º do Código Civil, uma vez que a presente acção
foi proposta dentro do prazo de três anos previsto no seu nº 2.
Em qualquer caso, repete-se, não se levanta qualquer controvérsia, nem quanto à boa fé do comprador à data da
celebração do contrato de compra e venda, nem do carácter oneroso deste contrato (não interessando, por isso, discutir se
estes requisitos, expressamente previstos no artigo 291º do Código Civil, são ou não exigíveis para os efeitos previstos no
artigo 5º do Código do Registo Predial).

Segundo o disposto no nº 4 do artigo 5º do Código do Registo Predial, “terceiros, para efeitos de registo, são
aqueles que tenham adquirido de um autor comum direitos incompatíveis entre si”. Não parece assim que se coloque
qualquer dúvida quanto a que uma situação como a dos autos se inclui, em abstracto, nesta norma, já que as transmissões
a favor da autora e do comprador são incompatíveis e provêm de um mesmo transmitente.
A verdade, todavia, é que, em primeiro lugar, este preceito – introduzido, como se sabe, pelo Decreto-Lei nº
533/99, de 11 de Dezembro, na sequência do Acórdão de Uniformização de Jurisprudência nº 3/99 (Diário da República, I
Série A, de 10 de Julho de 1999), que veio substituir o Acórdão de Uniformização de Jurisprudência nº 15/97 (Diário da
República, I Série A, de 4 de Julho de 1997) – é posterior à celebração do contrato de compra e venda; e que, em segundo
lugar, seja qual for a versão aplicável, tem de ser compatibilizado com o disposto no artigo 291º do Código Civil, em
particular com a noção de terceiro ali utilizada.
Quanto à primeira dificuldade, o acórdão recorrido resolve-a sustentando a natureza interpretativa do preceito
legal, e aplicando-o da forma prevista no nº 1 do artigo 13º do Código Civil (mais uma vez citando o acórdão de 11 de Maio
de 2006 deste Tribunal).
Note-se que o legislador não o afirma, antes diz expressamente no preâmbulo do referido Decreto-Lei nº 533/99
que “aproveita (…), tomando partido pela clássica definição de Manuel de Andrade, para inserir no artigo 5.º do Código do
Registo Predial o que deve entender-se por terceiros, para efeitos de registo, pondo-se cobro a divergências
jurisprudenciais geradoras de insegurança sobre a titularidade dos bens.”
Seja como for, sempre se consideraria CC como terceiro, para efeitos do disposto no artigo 5º do Código de
Registo Predial, na redacção vigente à data da celebração da compra e venda, interpretado à luz do Acórdão de
Uniformização de Jurisprudência anterior, consabidamente mais amplo.

9. Subsiste, em qualquer caso, a necessidade de delimitação do artigo 5º do Código do Registo Predial face
ao artigo 291º do Código Civil.
Como se sabe, o problema da delimitação de ambos os preceitos foi já longamente analisado pela jurisprudência
e pela doutrina, desde logo porque se punha a questão de saber se o artigo 291º não teria sido revogado pelo Código do
Registo Predial. Assim, por exemplo, os acórdãos de 14 de Novembro de 1996 deste Tribunal (cujo sumário se encontra em
www.dgsi.pt) e o já citado acórdão de 11 de Maio de 2006 afirmaram que não tinha ocorrido tal revogação, fazendo a
delimitação entre os campos de aplicação dos dois preceitos.
E neste mesmo sentido, também apenas a título de exemplo, podem citar-se Oliveira Ascensão (Direitos Reais, 5ª
ed., Coimbra, pág. 368 e segs.), Menezes Cordeiro (Direitos Reais, Lisboa, 1993, reimp. da 2ª ed., de 1979, pág.277 e
segs.) ou Carvalho Fernandes (Direitos Reais, 4ª ed., Lisboa, pág. 143 e segs.), embora não totalmente coincidentes quanto
à forma concreta da delimitação.

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Entende-se, na linha da jurisprudência deste Tribunal, que o artigo 291º do Código Civil não foi revogado pelo
Código do Registo Predial, porque são diferentes as previsões dos respectivos preceitos – hoje, daquele artigo 291º e do
artigo 5º do Código do Registo Predial; e que o mesmo artigo 291º se não aplica ao caso dos presentes autos,
contrariamente ao que defende a recorrente.
Não se trata, neste caso, de uma pretensão de declaração de nulidade ou de anulação dirigida por um titular que
pretende invalidar o negócio que celebrou com outrem, apesar de terem ocorrido sucessiva ou sucessivas transmissões do
seu adquirente, e que pretende ainda que essa invalidade afecte essas sucessivas transmissões, apesar de inscritas no
registo. Para essa hipótese, o artigo 291º do Código Civil desenhou uma solução que, verificados os demais requisitos (boa
fé do terceiro e carácter oneroso da sua aquisição), faz prevalecer até certo ponto (durante três anos, contados da
conclusão do negócio, nos termos previstos no seu nº 2) a “realidade substantiva” sobre a “realidade registal”.

O artigo 291º do Código Civil aplica-se, pois, às hipóteses em que o interveniente num negócio substantivamente
inválido pretende a respectiva invalidação, mas se vê confrontado com terceiros (não intervenientes nesse negócio) que
adquiriram, de boa fé e a título oneroso, direitos sobre os bens (imóveis ou móveis sujeitos a registo) cuja subsistência
depende do primeiro negócio. Se esses terceiros registaram o correspondente acto aquisitivo, a invalidade não lhes é
oponível, salvo se a acção de anulação ou de declaração de nulidade for instaurada e registada nos três anos posteriores à
celebração do primeiro negócio. Entre a tutela da validade substancial do negócio e da confiança depositada no registo, o
equilíbrio encontrado pela lei foi assim definido.

Não é este o caso de que nos ocupamos. Aqui, estão em causa duas aquisições sucessivas de um mesmo
transmitente, sendo que a segunda, mas não a primeira, foi registada; e é o primeiro adquirente (que, repete-se, não
registou a aquisição) que pretende invocar a invalidade do negócio de que resultou a segunda aquisição, porque, sendo
válido o primeiro, o direito transmitido se não encontrava já na esfera jurídica do transmitente, mas na sua. Invoca, portanto,
a nulidade da segunda alienação por ilegitimidade do alienante, sustentado ocorrer uma venda de coisa alheia.
Está, assim, verificada a previsão do nº 1 do artigo 5º do Código do Registo Predial: a aquisição do direito de
propriedade sobre o prédio “Vila S...” em virtude da permuta celebrada entre a recorrente e BB não produz efeitos contra
CC e mulher, que inscreveram no registo a sua aquisição, por compra do mesmo BB, já que não foi previamente registada
aquela outra aquisição.

Não releva aqui a circunstância de a presente acção ter sido proposta dentro do prazo previsto no nº 2 do artigo
291º do Código Civil, porque este preceito não lhes é aplicável.

A terminar este ponto, deixa-se a observação de que é justificada a diferença de regime acabada de apontar, e
que leva a que, nos casos abrangidos pelo artigo 5º, a referida “realidade registal” prevaleça independentemente de
qualquer prazo. Note-se que o artigo 291º do Código Civil não exige o registo da aquisição “intermédia” para que o último
adquirente, que procedeu ao registo, veja a sua aquisição consolidada, três anos volvidos sobre essa aquisição.

10. Aqui chegados, torna-se inútil analisar a questão da invalidade da compra e venda com o fundamento de ser
venda de bens alheios, uma vez que, ainda que se verifique, não impede que a permuta não produza efeitos contra o
comprador do prédio “Vila S...”.

Nestes termos, nega-se provimento à revista, confirmando-se o acórdão recorrido.


Sem custas, por delas estar isenta a recorrente, nos termos do disposto na al. h) do nº 1 do artigo 2º do Código
das Custas Judiciais, na redacção aplicável.

Supremo Tribunal de Justiça, 5 de Julho de 2007

Maria dos Prazeres Pizarro Beleza (Relator) Salvador da Costa Ferreira de Sousa

Acórdão STJ (Ex.mo Cons.º Salvador da Costa), de 21.6.2006, no Pr.º 07B1847:

1. O conceito de terceiro a que se refere o artigo 291º do Código Civil, motivado pela ideia de estabilidade das
situações jurídicas, pressupõe a sequência de nulidades e o conflito entre o primeiro transmitente e o último sub-adquirente,
e é diverso do conceito de terceiro para efeito de registo a que se reporta o artigo 5º, nº 1, do Código do Registo Predial.
2. Não tendo o primitivo adquirente da nua propriedade sobre a fracção predial inscrito a sua aquisição no registo
predial, e tendo outrem adquirido do mesmo vendedor o direito de propriedade plena sobre ela inscrito no registo a sua

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aquisição, não pode o primeiro opor ao último a nulidade do contrato de compra e venda com fundamento na venda de
coisa alheia.

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça

I
AA intentou, no dia 9 de Outubro de 1995, contra BB, CC, DD, EE, FF, GG, HH, II, JJ e KK, acção declarativa
constitutiva, com processo ordinário, pedindo a declaração da nulidade ou a revogação de identificada procuração, a
declaração da nulidade do subsequente contrato de compra e venda, ordenado o cancelamento do registo de aquisição a
favor dos réus e a sua condenação a indemnizá-lo por litigância de má fé.
Fundamentou a sua pretensão na circunstância de a ré BB lhe haver vendido a nua propriedade da fracção predial
“H” do prédio sito na Calçada da ......, nº ..., Lisboa e, depois, disso, a haver vendido aos réus, e de a vendedora, por virtude
de anomalia psíquica, não haver compreendido o sentido da procuração irrevogável que emitiu para o efeito.

Em contestação, BB impugnou os factos articulados pelo autor e, em reconvenção, pediu a anulação do contrato
de compra e venda celebrado com aquele, sob o fundamento da exploração do seu estado de necessidade e de
dependência por LL.
Os outros réus, por seu turno, impugnaram os factos articulados pelo autor, arguíram a ilegitimidade deste
relativamente ao pedido de declaração de nulidade da procuração e a ilegitimidade dos réus KK, MM, FF e de NN
O autor, na réplica, pronunciou-se no sentido da sua legitimidade ad causam e impugnou os factos articulados
pela ré BB na reconvenção.
No despacho saneador, foi a excepção de ilegitimidade do autor julgada improcedente e a excepção da
ilegitimidade de KK de MM, de FF e de NN julgada procedente, pelo que foram absolvidos da instância.
Falecida a ré BB, foram declarados habilitados para o prosseguimento dos termos da demanda, PP, QQ, RR e
SS.
Falecido o réu DD, foram declarados habilitados em sua substituição os réus CC, EE, GG, HH e JJ, e, na
sequência do falecimento de PP, foi habilitado em sua substituição TT.

Realizado o julgamento, foi proferida sentença no dia 31 de Março de 2006, por via da qual foi declarada a
nulidade do contrato de compra e venda celebrado entre a ré BB, representada por DD, e os réus DD, GG e II e
ordenado o cancelamento do respectivo registo predial de aquisição.
Apelaram os réus, e a Relação, por acórdão proferido no dia 13 de Fevereiro de 2007, por maioria, negou
provimento ao recurso, essencialmente com base na natureza declarativa do registo predial, na presunção ilidível dele
resultante e na circunstância de os recorrentes haverem fundado a sua pretensão no contrato de compra e venda e não na
referida presunção, acrescentando dever a questão dever ser decidida segundo as regras da nulidade dos negócios
jurídicos e da compra e venda.

Interpuseram os apelantes recurso de revista, formulando, em síntese, as seguintes conclusões de alegação:


- a questão a dirimir não depende apenas da apreciação e decisão em termos substanciais e civilísticos estritos,
mas também das regras e normas de registo predial aplicáveis;
- aquando do contrato que celebraram, os recorrentes, compradores, ignoravam a alienação a favor do recorrido;
- face ao disposto no artigo 5º, nº 1, do Código do Registo Predial, a venda da nua propriedade ao recorrido é
ineficaz em relação aos recorrentes por a sua aquisição ter sido levada ao registo antes do contrato de compra e venda que
celebraram e não implicar a nulidade deste;
- não há venda de bens alheios por a vendedora, titular da propriedade da fracção predial inscrita no registo estar
legitimada para realizar a segunda venda;
- o registo que efectuaram é aquisitivo ou tabular, pelo que beneficiam do seu efeito substantivo, que não pode ser
prejudicado;
- são terceiros registais e gozam da presunção do registo consagrada nos artigos 7º e 17º nº 2, do Código do
Registo Predial;
- é inaplicável o artigo 291º do Código Civil por este se restringir à hipótese de o terceiro de boa fé não ter agido
com base no registo anterior a favor do transmitente, ou seja, às aquisições nulas ou anuláveis em que o subadquirente não
é um verdadeiro terceiro registal;
- o acórdão recorrido violou os artigos 291º, nºs 1 e 2 e 892º do Código Civil e 5º a 7º, 17º, nº 2 e 122º do Código
de Registo Predial, pelo que deve ser revogado.

Respondeu o recorrido, em síntese de conclusão:


- extinto o usufruto por morte da vendedora, cessou a sua autonomização em relação ao direito de propriedade.

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- o recorrido não procedeu ao registo de aquisição da nua propriedade da fracção predial por mero descuido, mas
como a vendedora continuou a usufruir a casa na qualidade de usufrutuária, não relevava para si o registo no imediato;
- ao conhecer que os recorrentes adquiriram a fracção, apresentou a registo a sua aquisição com o usufruto, que
foi efectuado provisoriamente por dúvidas em razão da falta de legitimidade da vendedora;
- os recorrentes adquiriram coisa alheia, por falta de legitimidade da vendedora, sendo aplicável o disposto nos
nºs 1 e 2 do artigo 291º do Código Civil;
- o recorrido, ao invés dos recorrentes, é segundo de boa fé por virtude da sua aquisição, do pagamento da sisa,
da oferta à câmara do direito de preferência e da publicidade da venda, pelo que não releva a boa fé por eles alegada
quanto à outorga da escritura, ao pagamento do preço e à efectivação do registo.

II
É a seguinte a factualidade declarada provada no acórdão recorrido:
1. A ré BB era dona da fracção autónoma designada pela letra “H”, correspondente ao 3º andar do prédio urbano
sito na Calçada ....., nºs ......-B, ...... e ......-C, descrito na 5ª Conservatória do Registo Predial de Lisboa sob o nº ../...., da
freguesia da Graça (Santo André), Lisboa.
2. O autor e a ré BB, na escritura pública outorgada no dia 14 de Janeiro de 1993, no 2º Cartório Notarial de
Lisboa, declararam, a última vender e o primeiro comprar, por 6 000 000$, a raiz ou nua propriedade da fracção predial
mencionada sob 1.
3. O autor, para além do pagamento daquela escritura, procedeu previamente ao pagamento do imposto municipal
de sisa, tendo, para a efectivação de tal venda, apresentado requerimento à Câmara Municipal de Lisboa, edilidade
territorial com preferência na eventual aquisição da citada fracção.
4. A ré BB sempre manteve com os seus sobrinhos boas relações, estes sempre a estimaram, e ela afirmou a
elementos da família O.... S.... que pretendia doar aos sobrinhos, EE, GG, HH e JJ os prédios rústicos e urbanos de que era
proprietária nos concelhos de Banavente, Salvaterra de Magos e Guarda e os direitos de usufruto de duas fracções
autónomas sitas no concelho de Lisboa, bem como afirmou que pretendia vender aos mesmos sobrinhos a fracção onde
habitava mencionada sob 1.
5. Por isso, a fim de assegurar a execução do que pretendia, no dia 26 de Maio de 1995, no 17º Cartório Notarial
de Lisboa, onde se deslocou pelo seu próprio pé e outorgou a procuração inserta a folhas 48 a 57, onde se exprimiu-se com
clareza, compreendendo o teor do acto praticado, e assinou a procuração, embora com alguma dificuldade pois, dada a sua
idade, estava com as mãos pouco firmes.
6. O teor do documento mencionado sob 5 foi elaborado em momento anterior ao da sua outorga, e em tal
procuração, a ré BB declarou constituir seus bastantes procuradores os réus CC e DD, a quem conferiu poderes especiais,
que podiam ser exercidos conjunta ou separadamente, para em seu nome, entre outros, venderem quando, pelo preço e
condições que entenderem, aos seus filhos, EE, GG, JJ e II, em comum e parte iguais, a fracção autónoma descrita sob 1.
7. Após a outorga da referida procuração, os réus CC e DD averiguaram se os registos referentes às diversas
propriedades estavam em conformidade e constataram que sim.
8. Em escritura pública outorgada no dia 9 de Agosto de 1995, no Cartório Notarial de Benavente, o réu DD, na
qualidade de procurador, com poderes para o acto, da ré BB, por um lado, e os réus EE, GG, JJ e II, por outro, declararam,
o primeiro vender em nome da sua representada, e os últimos comprar, pelo preço de 10 000 000$, que declarou ter
recebido, a fracção descrita sob 1.
9. Dado que o registo se encontrava no nome da ré BB, nem o réu DD, nem os réus EE, GG, JJ e II tiveram
qualquer dúvida em realizar o contrato de compra e venda pelo estipulado preço de 10 000 000$, preço esse que pagaram
à primeira, e nem esta, nem qualquer outra pessoa alguma vez disse a qualquer dos réus, antes da realização da referida
escritura, que havia sido anteriormente alienada a nua propriedade da referida fracção H ao autor.
10. A ré BB manteve a sua residência na casa referida sob 1 até 30 de Agosto de 1995, data em que os restantes
réus a levaram para outra morada.
11. Os réus, salvo a ré BB, só em 30 de Agosto de 1995 tomaram conhecimento de que havia sido celebrada a
escritura mencionada sob 2.
12. A aquisição da fracção referida sob 1 foi inscrita no registo sucessivamente a favor da ré BB. pela inscrição G-
1, Apresentação 11/060789, e dos réus DD, GG de, JJ e EE pela inscrição G-2, Apresentação nº 25/100895.
13. A ré BB nasceu no dia 13 de Março de 1913, sempre revelou ser esperta, determinada e bem sabedora do
que queria, era viúva e não teve filhos, sempre esteve acostumada a uma vida activa, estimando a sua independência e a
sua autonomia, pelo que, ao enviuvar, preferiu manter-se em sua casa apenas acompanhada pelas suas empregadas
domésticas.
14. A ré BB era dona de um razoável património e nunca lhe faltaram meios materiais, e tinha como vizinha, no 1º
andar do prédio referido sob 1, LL, e, a partir de 1984/1985, começaram ambas a relacionar-se, passando esta a ser visita
de casa daquela e a acompanhá-la, por vezes, em viagens e passeios.

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15. A ré BB abriu, no Banco Bilbao e Viscaya, uma conta conjunta com o autor AA, com o nº ........., e transferiu
também para o nome de outro dos filhos de LL, de nome UU, o registo da sua viatura, que está novamente registada em
nome da ré BB.
16. A ré BB tinha, na casa referida sob 1, pelo menos, uma empregada doméstica, de nome VV e, ultimamente,
era sua companhia na vida quotidiana, incluindo nas deslocações aos médicos, por LL que inclusivamente a vestia.
17. Além disso, a ré BB tinha como empregadas XX, em regime diurno, e ZZ, em regime nocturno, três vezes por
semana, que, juntamente com LL, lhe prestavam assistência.
18. A ré BB era observada pelo seu médico de família, AAA, com consultório na Rua de ......., nº ....., ..... Esq., em
Lisboa, e posteriormente pela sua médica, BBB, com consultório na Travessa das ......, nº ...., em Lisboa.
19. Não obstante a observação periódica e contínua referida, a ré BB foi consultada por CCC, médico psiquiatra,
com consultório na Avenida ........., nº ......, ......., em Lisboa, que lhe prescreveu os medicamentos referidos na receita
médica de 7 de Fevereiro de 1995.
20. A idade da ré BB e as debilidades físicas e emocionais próprias dessa idade tornaram-na dependente do
auxílio de outras pessoas, e, no ano de 1995, o seu estado de saúde física e mental era o correspondente a uma pessoa da
sua idade, com a ansiedade própria das pessoas idosas e que necessitam de acompanhamento e tratamento.
21. A partir de Abril de 1995, LL passou a pernoitar na casa da ré BB duas vezes por semana.
22. No ano de 1994, a ré BB passou um período não concretamente apurado na Praça ......, nº ..., em Lisboa, em
casa dos réus CC e DD, seus cunhados, e, em data não concretamente apurada, revelou que havia emprestado dinheiro a
LL e que esta não estava a respeitar o prazo de restituição acordado, e revelou ainda que havia transferido o registo da sua
viatura para o referido UU, mas que a pretendia de volta.
23. Após o período referido, a ré BB regressou à sua casa na Calçada da Graça, e, em data não apurada, abriu
uma conta bancária na agência do Banco Comercial Português SA.
24. Em meados de Agosto de 1995, a empregada doméstica de BB, VV, informou os réus de que iria entrar de
férias no dia 31 daquele mês, e por isso, na véspera, o réu DD deslocou-se a casa de sua tia para lhe perguntar o que
pretendia fazer dada a necessidade de a VV ir de férias, a qual manifestou vontade de ir para a casa de Salvaterra de
Magos e, por isso, ele providenciou o transporte dela para aquela casa.
25. Após a ré BB ter saído, e preparando-se o réu DD para fechar a casa, LL opôs-se ao seu encerramento,
alegando que o seu filho, o ora autor, havia comprado a casa e respectivo recheio, e invocando o direito de propriedade do
filho, chamou a Polícia de Segurança Pública.
26. No dia 30 de Agosto de 1995, a ré BB foi transportada para Salvaterra de Magos por uma ambulância
especialmente requisitada para o efeito.
27. Estão no processo cópias dos assentos de casamento dos réus e das convenções antenupciais pelos mesmos
outorgadas.

III
A questão essencial decidenda é a de saber se deve ou não declarar-se a nulidade do contrato mencionado sob II
8.
Tendo em conta o conteúdo do acórdão recorrido e das conclusões de alegação formuladas pelos recorrentes e
pelo recorrido, a resposta à referida questão pressupõe a análise da seguinte problemática:
- lei processual aplicável na acção e nos recursos;
- delimitação negativa do objecto do recurso;
- natureza jurídica e efeitos do contrato mencionados sob II 2 ;
- natureza jurídica e efeitos dos contrato mencionado sob II 8;
- síntese do regime de venda de bens alheios, de excepção ao regime geral da nulidade e do efeito do registo
predial em relação a terceiros;
- consequência do referido regime em relação à problemática em litígio;
- síntese da solução para o caso decorrente dos factos provados e da lei.

Vejamos, de per se, cada uma das referidas sub-questões.

1.
Comecemos pela determinação lei processual aplicável na acção e no recurso.
Como a acção foi intentada no dia 9 de Outubro de 1995, à acção são aplicáveis as normas anteriores às do
Código de Processo Civil Revisto, que entrou em vigor no 1 de Janeiro de 1997 (artigo 16º do Decreto-Lei nº 329-A/95, de
12 de Dezembro).
Como a sentença do tribunal da 1ª instância foi proferida no dia 31 de Março de 2006, aos recursos são aplicáveis
as pertinentes normas do Código de Processo Civil Revisto na sua primitiva versão (artigo 26º nº 1, do Decreto-Lei nº 329-
A/95, de 12 de Dezembro).

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2.
Atentemos agora na delimitação negativa do objecto do recurso.
O objecto do recurso é essencialmente delimitado pelo conteúdo das alegações do recorrente (artigos 684º, nº 3 e
690º, nº 1, do Código de Processo Civil).
Considerando o conteúdo das alegações formuladas pelos recorrentes, o objecto do recurso cinge-se à
impugnação do acórdão da Relação por ter considerado que a instauração da acção de nulidade do contrato foi registada
menos de três anos antes da sua celebração e ordenou o cancelamento do registo predial da aquisição nele baseada.
Não está, por isso, em causa no recurso a questão subsidiária da redução do objecto do contrato de compra e
venda do direito de propriedade sobre a fracção em causa ao direito de usufruto.

3.
Vejamos agora a natureza jurídica e nos efeitos do contrato mencionado sob II 2.
Tendo em conta apenas os factos mencionados sob II 12, estamos perante um contrato de compra e venda do
direito de propriedade de raiz sobre a fracção predial em causa celebrado entre BB, como vendedora, por um lado, e o
recorrido, por outro, na posição de comprador (artigo 874º do Código Civil).
Decorre do referido contrato, face às declarações negociais que o envolvem, a transmissão do direito de nua
propriedade da titularidade da primeira para a titularidade do último e, desde logo, a obrigação deste de pagar àquela o
respectivo preço (artigo 879º do Código Civil).

4.
Atentemos agora na natureza jurídica e nos efeitos dos contratos mencionados sob II 5.
Tendo em conta apenas os factos mencionados sob II 5, estamos perante um contrato de compra e venda do
direito de propriedade plena sobre a fracção predial em causa celebrado entre BB, como vendedora, por um lado, e os
recorrentes DD, GG, JJ e II, por outro, na posição de compradores (artigo 874º do Código Civil).
Decorre do referido contrato, face às declarações negociais que o envolvem, a transmissão do direito de nua
propriedade da titularidade da primeira para a titularidade dos últimos.
Assim, os referidos contratos de compra e venda são similares na vertente da vendedora, mas divergentes em
relação aos compradores e, no que concerne ao respectivo objecto, o primeiro só diverge do segundo na medida em que
naquele se trata da nua propriedade e neste do direito de propriedade plena.

5.
Vejamos agora, em tanto quanto releva no caso vertente, o regime da venda de bens alheios, a excepção ao
regime geral da nulidade e o conceito de terceiros para efeitos de registo.
Suscita-se esta problemática porque BB, na posição de vendedora, celebrou dois contratos de compra e venda
relativamente ao mesmo prédio, o primeiro com o recorrido, tendo por objecto mediato a nua propriedade, e o segundo com
os recorrentes, tendo por objecto mediato o direito de propriedade plena.

Enquanto o recorrido entende que ao caso é aplicável o regime da venda de bens alheios, os recorrentes
entendem o contrário, estes contra o que foi decidido nas instâncias.
Expressa a lei ser nula a venda de bens alheios sempre que o vendedor careça de legitimidade para a realizar;
mas o vendedor não pode opor a nulidade ao comprador de boa fé, como não pode opô-la ao vendedor de boa fé o
comprador doloso (artigo 892º do Código Civil).
Assim, o comprador de má fé pode opor a nulidade ao vendedor de má-fé, tal como o vendedor de má fé a pode
opor ao comprador de má fé. Mas o vendedor não pode invocar o vício de nulidade no confronto do comprador de boa fé,
ou seja, daquele que ignorava ser alheia a coisa vendida, tal como o comprador doloso o não pode opor ao vendedor de
boa fé.
O dolo é, nesta sede, a sugestão ou artifício que alguém empregue com intenção ou consciência de induzir ou
manter em erro o autor da declaração, bem como a dissimulação, pelo declaratário ou por terceiro, do erro do declarante
(artigo 253º, nº 1, do Código Civil).
Assim, age com dolo o comprador que tenha induzido o vendedor em erro, ou que, apercebendo-se do erro
daquele, o tenha dissimulado com vista a que continuasse envolvido da sua falsa convicção da realidade.

Apesar de o contrato de compra e venda de coisa alheia ser ineficaz em relação ao respectivo proprietário, este
pode pedir a declaração da sua nulidade no confronto do vendedor e do comprador (artigo 286º do Código Civil).
A declaração de nulidade tem efeito retroactivo e implica, em regra, a restituição do que tiver sido prestado (artigo
289º, nº 1, do Código Civil).

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Assim, declarada a nulidade de um contrato de compra e venda de imóvel, por exemplo, em simultâneo deve o
comprador restituí-lo ao vendedor e este entregar àquele o respectivo preço (artigos 290º, 874º e 879º do Código Civil).

Todavia, excepcionalmente, por um lado, a declaração de nulidade do negócio jurídico respeitante a bens imóveis
não prejudica os direitos adquiridos sobre eles a título oneroso por terceiro de boa fé – desconhecedor do vício sem culpa
no momento da aquisição - no caso de o registo da aquisição ser anterior ao registo da acção (artigo 291º, nºs 1 e 3, do
Código Civil).
E, por outro, em quadro de limitação daquela excepção, os direitos de terceiro não são reconhecidos se a acção
for proposta e registada nos três anos posteriores à conclusão do negócio (artigo 291º, nº 2, do Código Civil).

Este último artigo reporta-se, por exemplo, aos casos em que uma pessoa, por contrato afectado de nulidade,
vendeu a outra um prédio, e esta última o vendeu invalidamente a outrem.

Visa o referido normativo, verificados os pressupostos a que alude, proteger, por exemplo, o referido comprador
do efeito da declaração da nulidade do primeiro contrato de compra e venda.
O terceiro a que este artigo se reporta é, pois, o sub-adquirente posterior à celebração do primeiro contrato
afectado de nulidade por ilegitimidade substantiva, portanto no quadro de aquisição a non domino.
É protegido na medida em que lhe não pode ser oposta a nulidade do primitivo contrato de compra e venda se
tiver adquirido o direito sobre imóveis a título oneroso, de boa fé, inscrito no registo predial a sua aquisição e haja decorrido
um triénio sobre a data do primeiro contrato sem haver sido instaurada a acção de nulidade.
O conceito de terceiro a que se refere este artigo, sob motivação de estabilidade de situações jurídicas,
pressupõe, pois, a sequência de nulidades e o conflito entre o primeiro transmitente e o último subadquirente, pelo que é
diverso do conceito de terceiros para efeito de registo predial.

A regra é no sentido de que a transferência de direitos reais sobre coisas determinadas se dá por mero
efeito do contrato, sem prejuízo do regime relativo ao registo predial no que concerne a imóveis e a móveis sujeitos
a registo (artigos 408º, nº 1 e 879º, alínea a), do Código Civil).
O registo predial tem essencialmente por fim dar publicidade aos direitos inerentes às coisas imóveis (artigo 1º do
Código do Registo Predial).
Tem, pois, essencialmente, uma função declarativa e não constitutiva, conserva direitos mas não os cria, e não
pode suprir a falta do direito nem sanar os vícios que envolvam os direitos transmitidos.
A aquisição do direito de propriedade sobre imóveis está sujeita a registo (artigo 2º, nº 1, alínea a), do Código do
Registo Predial).
Prevalece o direito primeiramente inscrito, dessa inscrição emerge a tutela da fé pública por via da presunção –
ilidível por via de prova do contrário - que consagra, designadamente a de que o direito existe tal como o registo o revela e
que pertence a quem estiver inscrito como seu titular (artigos 6º e 7º do Código do Registo Predial e 350º do Código Civil).

Acresce, com particular relevância no que concerne ao princípio da transferência dos direitos sobre coisas
determinadas por mero efeito do contrato, a que se reporta o artigo 408º, nº 1, do Código Civil, que os factos sujeitos a
registo só produzem efeitos em relação a terceiros depois de registados (artigo 5º, nº 1, do Código do Registo Predial).

O conceito de terceiro para efeito de registo predial tem sido objecto de controvérsia jurisprudencial, até que o
legislador o consignou no nº 4 do artigo 5º do Código do Registo Predial.
Numa primeira análise desta problemática, o plenário do Supremo Tribunal de Justiça expressou serem terceiros
para efeito de registo predial todos os que, tendo obtido registo de um direito sobre determinado prédio, vissem esse direito
arredado por facto jurídico anterior não registado ou registado posteriormente (Acórdão nº 15/97, de 20 de Maio, Diário da
República, I Série, de 4 de Julho de 1997).
Em subsequente análise da mesma problemática, o plenário do Supremo Tribunal de Justiça interpretou a lei no
sentido de que terceiros para efeitos do disposto no artigo 5º do Código do Registo Predial são os adquirentes de boa fé de
um mesmo transmitente comum de direitos incompatíveis sobre a mesma coisa (Acórdão nº 3/99, de 18 de Maio, Diário da
República, I Série, de 10 de Julho de 1999).
Mais tarde, por via do Decreto-Lei nº 533/99, de 11 de Dezembro, estabeleceu-se que terceiros para aquele efeito
são os adquirentes de direitos incompatíveis sobre a mesma coisa de um mesmo transmitente comum de (artigo 5º, nº 4, do
Código do Registo Predial).
Trata-se de um normativo de natureza interpretativa, que, por isso, rege para casos anteriores ao início da
vigência daquele diploma e que devam ser apreciadas posteriormente (artigo 13º, nº 1, do Código Civil).

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São situações em que ocorre uma relação triangular consubstanciada em dupla transmissão pelo mesmo
alienante de um bem imóvel ou de um bem móvel sujeito a registo a um primeiro transmissário, que não inscreve
no registo a aquisição, e depois a um segundo, que opera a respectiva inscrição registal.
São situações de conflito entre dois adquirentes, é válido o primeiro negócio de transmissão e não o segundo,
mas o primeiro adquirente não pode opor ao segundo a sua aquisição, porque ela não constava no registo, e o último não
podia, dada a fé pública derivada do registo, conhecer que o alienante já não era o titular do direito em causa.

Mas este conceito de terceiro para efeito do registo, tal como acima se referiu, não coincide com o conceito de
terceiro a que se reporta o artigo 291º do Código Civil, porque na primeira situação o conflito é entre dois adquirentes e,
na segunda, o conflito ocorre entre o primeiro transmitente e o último sub-adquirente.
Na primeira situação é pressuposta a validade do primeiro negócio de transmissão e na segunda a sua
invalidade, ali é protegida a confiança do adquirente nos dados constantes no registo, e aqui é protegida a
estabilidade dos negócios jurídicos em termos de excepção ao disposto no artigo 289º, nº 1, do Código Civil.

6.
Atentemos agora na consequência do regime legal enunciado sob 5 em relação à problemática em litígio.
O recorrido adquiriu validamente o direito de propriedade de raiz sobre o prédio em causa por virtude do contrato
de compra e venda que celebrou com BB (artigos 408º, nº 1 e 879º, alínea a), do Código Civil).
Como o recorrido passou a ser titular do direito de nua propriedade sobre a mencionada fracção predial por virtude
da celebração do referido contrato de compra e venda, a alienação do direito de propriedade sobre a mesma fracção predial
por BB a favor dos recorrentes por contrato de compra e venda celebrado no dia 9 de Agosto de 1995 configura-se como
venda de bens alheios.
É, por isso, um contrato de compra e venda nulo no confronto de BB e dos recorrentes e afectado de ineficácia em
relação ao recorrido (artigos 408º, nº 1, e 892º do Código Civil).
Mas a referida nulidade em relação a quem o celebrou e a concernente ineficácia face ao recorrido não pode,
porém, implicar o deferimento da sua pretensão do último consubstanciada nos pedidos que formulou, porque em relação
aos recorrentes é como não tivesse havido venda de bens alheios.
É que não é aplicável ao caso em análise – duplo contrato de compra e venda da mesma coisa celebrado pelo
mesmo vendedor com compradores diversos – o disposto no nº 2 do artigo 291º do Código Civil, certo que este normativo
só é aplicável às situações em que o comprador da coisa invalidamente alienada a alienar a outrem, a quem a lei concede a
protecção.
Por isso, como já se referiu, o disposto no nº 2 do artigo 291º do Código Civil, não pode sustentar a pretensão
formulada pelo recorrido no confronto dos recorrentes.
Com efeito, como o recorrido não fez inscrever no registo predial a sua aquisição do direito de nua propriedade
sobre o prédio em causa, e os recorrentes, que adquiriram depois o direito de propriedade sobre o mesmo prédio, da
mesma alienante, procederam à respectiva inscrição registal, subsiste a favor deles a presunção derivada do registo, por
virtude de o primeiro não lhe poder opor a sua aquisição.

Assim, por virtude das regras do registo predial, o contrato de compra e venda celebrado entre o recorrido, por um
lado, e BB, por outro, porque não foi levado ao registo predial, não produz efeitos em relação aos recorrentes.
Não releva no sentido pretendido pelo recorrido o motivo pelo qual ele só diligenciou pelo registo predial da sua
aquisição depois de os recorrentes haverem procedido ao registo predial da sua, designadamente a circunstância de a
vendedora, a usufrutuária, continuar a habitar a referida fracção predial, nem a circunstância de ele haver pago a sisa ou
diligenciado pela comunicação ao município da sua aquisição para efeitos de exercício do direito de preferência.
Com efeito, a prioridade a favor dos recorrentes do registo predial da aquisição do direito de propriedade sobre a
fracção predial em causa confere-lhe como que uma presunção juris et de jure da titularidade desse direito tal como o
registo o define.
Tem, por isso, que improceder a pretensão formulada pelo recorrido no confronto dos recorrentes.

7.
Vejamos, finalmente, a síntese da solução para o caso espécie decorrente dos factos provados e da lei.
O contrato de compra e venda celebrado entre BB e o recorrido, sem qualquer vício, produziu os efeitos que lhe
são próprios.
O contrato de compra celebrado entre BB e os recorrentes está afectado de nulidade por falta de legitimidade
substantiva da primeira como vendedora, mas tal vício cede perante as regras do registo predial.
É que decorre das referidas regras que a transmissão do direito de propriedade sobre imóveis não registada não
produz efeitos em relação a terceiros que tenham inscrito a aquisição subsequente do mesmo vendedor.

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Os conceitos de terceiro constantes dos artigos 5º, nº 4, do Código do Registo Predial e 291º do Código Civil não
assumem idêntico conteúdo, porque ali o conflito é entre dois adquirentes e aqui o conflito ocorre entre o primeiro
transmitente e o último subadquirente.
A aquisição do direito da nua propriedade relativa à fracção predial em causa e a reserva de usufruto a favor da
vendedora são inoponíveis aos recorrentes, que, em virtude das regras do registo, são tidos como os verdadeiros titulares
do direito de propriedade sobre aquela fracção.
O decesso de BB no plano da consolidação do direito de propriedade plena na esfera jurídica do recorrido não
implica o funcionamento na espécie do disposto no artigo 1476º, nº 1, alínea a), do Código Civil.

Procede, por isso, o recurso, com a consequência da revogação do acórdão recorrido e a absolvição dos
recorrentes do pedido.
Vencido no recurso, é o recorrido responsável pelo pagamento das custas respectivas (artigo 446º, nºs 1 e 2, do
Código de Processo Civil).

IV
Pelo exposto, dá-se provimento ao recurso, revogam-se o acórdão recorrido e a sentença proferida no tribunal da
primeira instância, absolvem-se os recorrentes do pedido e condena-se o recorrido no pagamento das custas respectivas.

Lisboa, 21 de Junho 2007

Relator : Salvador da Costa


Adjuntos : Ferreira de Sousa e Armindo Luís

CONCEITO (RESTRITO) DE TERCEIROS – 5º C. R. Predial

n.os 1 e 4 (este acrescentado pelo DL 533/99, de 11/12, em vigor desde 10/1/2000, de


natureza interpretativa.

Só este conceito de 3.ºs próximos interessa


Claro que B pode opor a compra, não registada, a toda a gente, podendo proteger o seu
direito das agressões de «terceiros» sem ligação juridicamente relevante com a coisa.

Ex:
A vende uma casa a B, que não regista a aquisição;
C, amigo de B, ocupa a casa para passar férias, como, por amizade, era habitual todos os
anos;
C não pode opor a B a falta de registo para recusar a restituição!

O art. 4º CRP6 deve ser lido habilmente.

A vende X a B, que não regista.


A morre e sucede-lhe o herdeiro C.
C regista a aquisição mortis causa de X. B pode opor o seu direito a C.

Segundo o ASSENTO do STJ de 20.V.97, no DR-IA, de 4.7.97:

6
- Artigo 4.º
Eficácia entre as partes
1 - Os factos sujeitos a registo, ainda que não registados, podem ser invocados entre as próprias partes ou seus herdeiros.
2 - Exceptuam-se os factos constitutivos de hipoteca cuja eficácia, entre as próprias partes, depende da realização do
registo.

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Terceiros, para efeitos de registo predial, são todos os que, tendo obtido registo de um
direito sobre determinado prédio, veriam esse direito ser arredado por um qualquer
facto jurídico anterior, não registado ou registado posteriormente.

Menos de dois anos decorridos, o mesmo Supremo Tribunal formulou o AUJ nº 3/99, de 18 de
Maio de 1999, no DR IA, de 10 de Julho de 1999, revogando aquele e substituindo o conceito de
terceiro pelo seguinte:

Terceiros, para efeitos do disposto no art. 5° do Código do Registo Predial, são os


adquirentes de boa fé, de um mesmo transmitente comum, de direitos incompatíveis,
sobre a mesma coisa.

Era esta a hipótese em recurso:


A comprou uma fracção autónoma em 22.6.87, por escritura pública, mas não registou a
aquisição;
B, credor do vendedor da fracção, penhorou-a e fez registar a penhora em 15 de Julho de
1996;
A compra de A só veio a ser registada depois da penhora, em 10 de Setembro de 1996.
Os embargos deduzidos por A foram, logo no saneador, julgados improcedentes com base
naquele anterior conceito de terceiro.
O Supremo revogou a decisão e mandou levantar a penhora com base no novo conceito que
formulou.

O AUJ mantém o anterior efeito e força do registo quando estejam em confronto direitos reais
da mesma natureza (duas vendas da mesma coisa, sendo a segunda registada antes da primeira, seja
a venda voluntária ou coerciva, por arrematação em execução, prevalecendo a que primeiro foi
registada). É o que resulta da passagem que se transcreve:

«Por força do condicionamento da eficácia em relação a terceiros, dos factos sujeitos a registo, é evidente que, se
alguém vende, sucessivamente, a duas pessoas diferentes a mesma coisa, e é o segundo adquirente quem,
desconhecendo a primeira alienação, procede ao registo respectivo, prevalece esta segunda aquisição, por ser esse o
efeito essencial do registo. Estão em causa direitos reais da mesma natureza. Aqui, a negligência, ignorância ou
ingenuidade do primeiro deve soçobrar perante a agilidade do segundo, cônscio, não só dos seus direitos como dos ónus
inerentes. É sob este prisma que a primeira venda leva à constituição de um direito resolúvel, no dizer de Oliveira
Ascensão, cuja resolução ocorre perante a verificação do facto complexo de aquisição posterior, de boa fé, seguida de
registo.

Isto, conforme já resulta do que acima ficou exarado em nota, quer a alienação seja voluntária, isto é,
livremente negociada, quer coerciva, ou seja, obtida por via executiva. Efectuada a compra, por via de arrematação
em hasta pública, ou por qualquer outro modo de venda judicial, este modo de alienação, na perspectiva em causa,
tem, pelo menos, a mesma eficácia daqueloutra. Também aqui a prioridade do registo ultrapassa a
incompatibilidade.

Situação diferente é a resultante do confronto do direito real de garantia resultante da penhora registada quando o
imóvel penhorado já havia sido alienado, mas sem o subsequente registo. Aqui, o direito real de propriedade, obtido por
efeito próprio da celebração da competente escritura pública, confronta-se com um direito de crédito, embora sob a
protecção de um direito real (somente de garantia). Nesta situação, mesmo que o credor esteja originariamente de boa fé,
isto é, ignorante de que o bem já tinha saído da esfera jurídica do devedor, manter a viabilidade executiva, quando, por via
de embargos de terceiro, se denuncia a veracidade da situação, seria colocar o Estado, por via do aparelho judicial, a,
deliberadamente, ratificar algo que vai necessariamente desembocar numa situação intrinsecamente ilícita, que se aproxima
de subsunção criminal, ao menos se for o próprio executado a indicar os bens à penhora. Assim, poderia servir-se a lex mas
não seguramente o jus».

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Se chegar a haver venda executiva, com transferência da propriedade nos termos do art. 824°
CC, já passam a confrontar-se dois direitos (de propriedade) reais, da mesma natureza e a compra
pelo adquirente na execução, se de boa fé e registada antes da do anterior comprador, prevalecerá
sobre esta, nos precisos termos dos art. 5°, n.º 1 e 6°, n.º 1, ambos do CRP!!!

A doutrina deste AUJ foi consagrada - ou caducou, no ensino de A. Ferreira - pelo Dec-Iei nº
533/99, de 11 de Dezº, que aditou ao art. 5° o nº 4 do seguinte teor:

Terceiros, para efeitos de registo, são aqueles que tenham adquirido de um autor
comum direitos incompatíveis entre si.

A questão mantém-se actual, mormente quando a segunda aquisição, registada antes da


primeira, ocorreu em acção executiva. Deu prevalência ao registo o Ac. do STJ de 14.01.2003, na Col.
Jur. STJ 2003-I-19 e o de 12-2-2004, em Col. Jur. (STJ) 04-I-63 e Cadernos de Direito Privado, nº 9,
Janº a Março de 2005, pág. 23 a 42:

VENDA JUDICIAL
Penhora de prédio registado em favor pessoa diferente do executado
Registo definitivo da penhora
Posição daquele que adquiriu do titular inscrito depois da penhora e que registou a sua aquisição
Prioridade do registo Trato sucessivo
Acórdão do STJ de 12 de Fevereiro de 2004 (Cons.° Quirino Soares)

I - Se o exequente penhorou prédio registado em favor de pessoa diferente do executado, mas o titular inscrito,
citado nos termos do art. 119°, n.° 1, do Código de Registo Predial, nada disse, o registo provisório da penhora será
convertido em definitivo e a venda que posteriormente se faça é regular e válida.
II - Se, posteriormente à penhora, o titular inscrito vende o prédio a terceira pessoa e esta regista tal aquisição,
verifica-se um conflito entre dois registos: o registo da penhora em favor exequente e o registo de aquisição em favor do
comprador.
III - Tal conflito deve ser resolvido tendo em conta a prioridade do registo e o trato sucessivo, e não a
oponibilidade do registo a terceiros, visto que o exequente e o terceiro adquirente não são terceiros entre si.
IV - A citação do titular inscrito visa assegurar o trato sucessivo, pelo que, se ele não se opõe ou nada diz, o
registo provisório da penhora pode ser convertido em definitivo e a venda judicial fazer-se com regularidade.
V - Se a penhora e a venda são oponíveis ao titular inscrito, também o são em relação àquele que posteriormente
à penhora adquiriu o prédio do titular inscrito .

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça:

1. No decorrer da acção executiva que moveu a Júlio Ribeiro e mulher, o Banco Comercial Português, S. A,
nomeou à penhora a fracção autónoma AAE, correspondente ao 12.° andar D, do prédio descrito na Conservatória do
Registo Predial de Odivelas sob o n. ° 366.
A penhora foi registada, provisoriamente, em 12/3/1997, e o registo passou, mais tarde, a definitivo pela
apresentação 34/970603.
À data do registo da penhora, a fracção estava registada em nome de Rui Martins, por compra a Cecília Martins e
marido, que, por sua vez, a tinham comprado aos referidos executados.
Este Rui Martins vendeu a fracção a Pedro Martins, que registou a aquisição em 21/10/1999, sendo ele o actual
titular inscrito do imóvel.
Tendo sido citado, nos termos do art.119.º do CRegp, para declarar se a fracção lhe pertencia, o então titular
inscrito, Rui Martins, nada declarou e, por isso, o registo foi convertido em definitivo e a execução prosseguiu sobre aquele
imóvel, que veio, no final, a ser adjudicado ao exequente Banco Comercial Português, S. A, por arrematação em venda
judicial.

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Na acção em que se insere o presente recurso de revista, Pedro Martins pediu, contra o Banco Comercial
Português, S. A (então, Banco Português do Atlântico, S. A), que se declare o seu direito de propriedade sobre a fracção e
a nulidade da aludida venda judicial.
A acção obteve êxito nas instâncias, embora por diferentes fundamentos.
A sentença (da 4.ª Vara Cível de Lisboa) disse que a venda judicial em causa configura venda de coisa alheia,
que é nula por força do art. 892. ° do Cc.
A Relação de Lisboa, em apelação, disse, por sua vez, que o direito do autor Pedro Martins deriva de um direito (o
daquele que lhe vendeu a fracção) com registo anterior ao da penhora e que, por isso, esta lhe não era oponível.
O pedido de revista tem como fundamento o seguinte:
- a compra e venda entre Rui Martins e Pedro Martins é inoponível ao recorrente, quer por força do art. 819.° do
Cc, quer do art. 119.° do CRegp, conjugado com os arts. 818.° e 616.° do CC;
- a acção está sujeita a registo, nos termos do art. 3. ° do CRegp, e, apesar disso, não foi registada, o que obsta a
que seja proferida qualquer decisão de mérito.

2. O imóvel disputado pertenceu aos devedores do recorrente Banco Comercial Português, S. A, e foi nessa
qualidade que este o nomeou à penhora no processo executivo que instaurara contra aqueles.
Porém, o prédio já tinha sido vendido, e duas vezes vendido, quando a penhora foi realizada e provisoriamente
registada (provisoriamente, porque não coincidia o executado com o titular inscrito).
O titular inscrito foi, então, citado, nos termos do art. 119.°, n.º 1, do CRegp, para dizer se o prédio lhe pertencia.
Nada tendo dito, o registo provisório foi convertido em definitivo, nos termos do n. ° 3 do citado art. 119.°.
Entretanto, já depois de citado nos termos indicados, o titular inscrito vendeu o prédio ao, aqui, autor/recorrido.
A invulgar velocidade de circulação do imóvel faz, inevitavelmente, pensar naquilo que o réu/recorrente também
pensou, isto é, na hipótese de terem acontecido actos praticados em prejuízo do credor, sujeitos, por isso, a impugnação,
tendo em conta o disposto nos arts. 818.° e 610.° e segs. do Cc.
Mas o facto é que nenhum daqueles actos foi impugnado, com o aludido fundamento.
Não está em causa, por outro lado, a validade da venda judicial, nos termos do art. 892.° do CC, já que, por um
lado, a legalidade daquele acto estava garantida pelo registo definitivo da penhora e que, por outro lado, o efeito de
nulidade só interessa nas relações entre os contraentes ou entre estes e qualquer interessado na declaração de nulidade.
Quanto ao verdadeiro dono, o efeito é o de ineficácia pura e simples, em harmonia com a eficácia relativa dos direitos de
crédito.
De modo que o problema tem que ser resolvido no confronto entre dois registos: o de aquisição da propriedade,
de que beneficia o recorrido/autor, e o anterior registo da penhora a favor do recorrente/réu, tendo em conta,
nomeadamente, a regra da prioridade proclamada no art. 6°, n.º 1, do CRP.
Já não a da oponibilidade a terceiros, definida no art. 5°, n.º 1, do mesmo Código, uma vez que, de acordo com o
conceito de terceiro proclamado no n.º 4, do mesmo artigo, o recorrido/autor e o réu/recorrente não são terceiros entre si,
desde logo porque o direito de propriedade e o direito inerente à penhora não são incompatíveis entre si, mas também
porque, acerca da penhora, não se pode dizer que seja um direito adquirido de alguém, no sentido implicado em idêntica
expressão utilizada pelo legislador no citado n.º 4.
Mas há duas outras regras que não podem ser esquecidas: a do suprimento em caso de arresto, penhora ou
apreensão (art. 119° do CRP) e a da eficácia extintiva da venda executiva (art. 824° do CC).
Elas imbricam com a primeira.
Por o titular inscrito não haver reagido contra a penhora, depois de citado, o registo daquele acto foi tornado
definitivo, nos termos do nº 3, do ad. 119° do CRP.
Este art. 119° visa assegurar o princípio fundamental do trato sucessivo, definido e regulamentado nos arts. 34° e
35° do CRP.
O princípio do trato sucessivo significa que nenhum registo definitivo de inscrição de transmissão de direitos ou
constituição de encargos sobre os bens pode ser efectuado sem que haja uma inscrição prévia em nome do transmitente ou
do sujeito passivo do encargo, de modo a formar-se uma cadeia ininterrupta de transmissões.
Assim, quando, como no caso dos autos, a penhora sobrecarrega um bem e o último registo predial de aquisição
desse bem não figura em nome do executado, torna-se necessário, para evitar a quebra ou interrupção da cadeia de
transmissões (pois a penhora é um preliminar da venda judicial), ouvir o titular inscrito.
Se este se não opõe, ou, o que é mesmo, nada diz, o registo da penhora, de meramente provisório, passa a
definitivo, a venda judicial pode ser feita, com legitimidade, e o seu posterior registo será um elo mais de uma cadeia regular
de inscrições.
A penhora passará a ser oponível àquele titular inscrito, precisamente porque, expressa ou tacitamente, a ela se
não opôs.

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A venda judicial não ficará sujeita a um eventual e futuro arrependimento ou tardio despertar daquele mesmo
titular inscrito, ao qual, nessas circunstâncias, estará vedado o direito de reivindicação a que se reporta o art. 909°, nº 2, al.
d), do CPC.
Esta é a natural, e legal, consequência de nada se ter passado à revelia do titular e à margem da situação tabular,
e de tudo ter sido realizado de acordo com a vontade real ou presumida daquele.
Pois bem.
Se, como dissemos, a penhora e a posterior venda judicial são, nas circunstâncias descritas, oponíveis ao titular
inscrito, também o serão, naturalmente, àquele que, posteriormente, adquiriu o bem das mãos do mesmo titular e inscreveu
o título de aquisição.
A penhora foi regularmente inscrita e tem prioridade sobre aquela posterior aquisição, nos termos do já citado art.
6°, n.º 1.
O novo adquirente teve oportunidade de conhecer a real situação registal do bem e, por isso, a venda forçada e os
seus efeitos não podem constituir, para ele, qualquer surpresa legalmente intolerável.
Numa situação algo semelhante, este Supremo Tribunal concluiu, também, pela inviabilidade da reivindicação do
titular inscrito e, portanto, pela definitiva eficácia da venda executiva, tendo-se apoiado na doutrina do Ilustre Conservador
do Registo Predial, Dr. Mouteira Guerreiro.

Acresce a tudo isto o princípio da eficácia extintiva da venda executiva, consagrada no já citado ad. 824° do CC.
Segundo o nº 2, os bens vendidos em execução são transmitidos livres dos direitos de garantia que os onerarem,
bem como dos demais direitos reais que não tenham registo anterior ao de qualquer arresto, penhora ou garantia, com
excepção dos que, constituídos em data anterior, produzam efeitos em relação a terceiros independentemente de registo".
Após a venda em execução, fica definitivamente vedada qualquer oposição à penhora e àquela mesma venda,
nomeadamente, a reivindicação do bem alienado, com base num direito que, no entretanto, se extinguiu por efeito daquela
mesma alienação forçada.
Como se viu, o direito do recorrido/autor, que é de aquisição, tem registo posterior ao da penhora, tendo sido,
portanto, inelutavelmente atingido pelo efeito extintivo da venda judicial.
E, também aqui, de nada vale a previsão do art. 909°, n.º 2, aI. d), do CPC.
É que, como diz Miguel Teixeira de Sousa "...O art. 909°, n. ° 1, aI. d), do CPC limita-se a permitir a reivindicação
do bem penhorado pelo seu proprietário, mas não define as condições em que essa reivindicação é admissível, já que estas
só podem ser determinadas pelo respectivo regime substantivo"', em que, acrescentamos nós, se inclui, naturalmente, o do
registo predial e seus aspectos substantivos».
E nada mais é preciso, nomeadamente, a apreciação da segunda questão do recurso, para proferir decisão.
Por todo o exposto, concedem a revista e, em consequência, absolvem o R. (aqui recorrente) do pedido.
Custas, aqui e nas instâncias, pelo recorrido/autor.

Lisboa, 12 de Fevereiro de 2004

Quirino Soares Neves Ribeiro Araújo Barros

Comentário desfavorável a esta decisão, preferindo a solução da 1ª instância (venda de bens


alheios e consequente nulidade), de Mónica Jardim, em CDP, nº 9, pág. 26 a 42.

Acórdão do STJ (Cons.º Fonseca Ramos), de 5 de Junho de 2006, no Pr.º 07A1473:

Porque na ordem jurídica portuguesa o usucapião prevalece sobre o registo, o comprador que não
registou a aquisição de um imóvel mas logrou fazer prova da aquisição originária (usucapião), não vê o seu direito
afectado por ulterior penhora daquele bem e subsequentemente venda executiva, mesmo tendo o adquirente
registado o bem a seu favor e, posteriormente, tendo-o alienado ao reivindicado, sabendo este que o imóvel fora
adquirido pelo reivindicante

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça

AA e mulher BB intentaram, em 24.2.2003, pelo Tribunal Judicial da Comarca de Fafe – com distribuição ao 1º
Juízo – acção declarativa de condenação com processo comum, sob forma ordinária, contra:

CC & C.ª, Ld.ª.

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Pretendendo a declaração de que são proprietários de um lote de terreno que identificam, que são nulos os
contratos de compra e venda efectuados após a sua aquisição, ordenando-se o cancelamento dos respectivos registos e a
condenação da Ré a restituir-lhes tal prédio.

Para tanto alegam, em suma, ter adquirido o prédio em apreço por compra titulada pela escritura pública de
10.01.1984.

Alegam, ainda os factos atinentes à aquisição originária da propriedade por usucapião.

Em Julho de 2003 a Ré entrou no seu prédio com máquinas, aí efectuando trabalhos de terraplanagem, vindo a
partir daí a depositar nele materiais diversos.

Contestando, a Ré alegou, em suma, ter adquirido por escritura pública de 4.02.2002 o prédio rústico onde
efectuou os referidos trabalhos de terraplanagem, estando a respectiva propriedade inscrita a seu favor.

Foi-lhe vendido o prédio por uma sociedade comercial que, por sua vez, o adquiriu por venda em hasta pública.

Replicaram os réus reafirmando a posição expressa na petição inicial.

Foi elaborado despacho saneador e organizados os factos assentes e a base instrutória, apresentando as partes
os seus requerimentos de prova.

Realizou-se a audiência de discussão e julgamento, com obediência das formalidades legais, finda a qual se
produziram as respostas que dirimiram a factualidade controvertida.

***
A final foi proferida sentença que:

Julgou a acção procedente e, consequentemente:

a) Declarou os AA. legítimos proprietários do prédio descrito no ponto 2) dos factos provados;

b) Declarou nulas as compras-e-vendas respeitantes ao referido prédio, realizadas posteriormente a 10.01.1994;

c) Ordenou o cancelamento do registo de penhora efectuado a 26.06.1995 e os das aquisições posteriores,


designadamente a inscrição G6 e o registo a favor da Ré;

d) Condenou a Ré a restituir imediatamente o dito prédio aos autores, livre de pessoas e de bens.
***

Inconformada a Ré apelou para o Tribunal da Relação de Guimarães que, por Acórdão de fls. 232 a 243, de
11.1.2007, negou provimento ao recurso confirmando a decisão recorrida.

***

De novo inconformada recorre a Ré para este Supremo Tribunal e nas alegações apresentadas formulou as
seguintes conclusões:

1° - Os Autores têm título — a escritura pública de compra e venda celebrada em 10 de Janeiro de 1984, mas não
têm o registo da compra.

2° - A usucapião, por efeito do disposto no artigo 1296°, só se verifica ao fim de 15 anos, na caso de boa-fé, e de
20 anos, se de má-fé.

Pelo que, no caso sub judice, os Autores, estando de boa-fé, só podem adquirir o prédio, por usucapião, ao fim de
15 anos.

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3° - A firma “DD - Imobiliária, Ldª” comprou o prédio através de venda judicial, tendo procedido ao seu registo no
dia 2 de Março de 1998 — matéria assente nos presentes autos.

4° - Após a firma “DD-Imobiliária, Ldª” ter adquirido o prédio através da venda judicial, os Recorridos não podiam
nele permanecer, tendo perdido a sua posse, por ter decorrido mais de um ano desde a entrega do prédio àquela firma até
à propositura da acção – alínea d) do artigo 1267°do Código Civil.

5° - Assim, também, não se encontram verificados os requisitos previstos no artigo 1287° do Código Civil — o
decurso do tempo para a verificação da usucapião.

6° - A sentença recorrida violou o disposto nos artigos 1251º, 1263°, 1267°, 1287° e 1296°, todos do Código Civil.

Termos em que deverá ser concedido provimento ao presente recurso, revogando-se o acórdão da Relação, por
assim ser de Inteira justiça.

Os AA. contra-alegaram, batendo-se pela confirmação do Acórdão recorrido.


***

Colhidos os vistos legais cumpre decidir, tendo em conta que nas instâncias foram considerados provados os
seguintes factos:

1) Os autores residem fora da área da comarca de Fafe.

2) Por escritura de 10.01.1984 os Autores compraram António de Moura e mulher Rosa Alves da Cunha o
seguinte prédio: lote de terreno destinado à construção com a área de 543 m2, já dividido e demarcado, desintegrado do
prédio rústico denominado “Sorte de Mato dos Campos Novos”, situado no lugar da Corujeira, da freguesia de Medelo,
descrito na Conservatória sob o nº 24.290 e inscrito na matriz sob o artigo 277º, confrontando do Nascente com José
Manuel Oliveira Rodrigues e Cª, Ld.ª, Sul com os vendedores, Poente com a estrada e Norte com herdeiros de Virgílio de
Oliveira, como melhor consta da certidão junta a fls. 10 a 12 cujo teor aqui se dá por reproduzido.

3) Os autores não registaram a sua aquisição na Conservatória do registo Predial.

4) No Tribunal Judicial de Vila Verde, pelo 1° Juízo, correu termos processo de execução n°9-A/93, contra a
Herança Ilíquida Indivisa de António de Moura.

5) No âmbito desse processo de execução foi registada a penhora do prédio rústico objecto da compra por parte
da Ré.

6) Esse processo de execução correu os seus termos normais tendo terminado com a venda judicial a favor da
firma “DD-Imobiliária, Ldª”, com sede na Rua José Ribeiro Vieira de Castro, n°195, na cidade de Fafe, o qual procedeu ao
registo respectivo em 2 de Março de 1998 – inscrição G6.

7) O registo da penhora foi, após a venda judicial, cancelado – Av. 4 – inscrição F1, em 7 de Outubro de 1998.

8) Os autores, por si e passados, há mais de vinte anos, procedem à limpeza, cortam matos e silvas, no lote de
terreno, destinado à construção com a área de 543 m2, já dividido e desintegrado do prédio rústico denominado “Sorte de
Mato de Campos Novos”, sito no lugar de Corujeira, freguesia de Medeio, descrito na Conservatória sob o n° 24.290 e
inscrito na matriz sob o artigo 277, confrontar de nascente com José Manuel Oliveira Rodrigues e Cª Ldª, sul com os
vendedores, poente com estrada e do norte com Herdeiros de Virgílio de Oliveira, lote este inscrito na matriz urbana sob o
art. 722º.

9) E tudo à vista e com o conhecimento de todos, de forma contínua, sem interrupção nem oposição de ninguém.

10) Na convicção em que estão e sempre estiveram os AA. de que tal prédio lhes pertence e de que sobre ele, de
modo exclusivo, exercem o seu direito de propriedade.

11) Tal prédio é o constante da escritura mencionada em 2).

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12) Desde a data da escritura referida em 2) os Autores mantêm o lote devoluto, sem nele terem procedido a
qualquer construção.

13) A Ré não ignorava, no momento da aquisição, que o prédio era propriedade dos Autores.

14) O representante legal da ré, João Freitas Sousa, nasceu, viveu e ainda vive no lugar da Corujeira, freguesia
de Medelo, local onde se situa o terreno em causa.

Fundamentação:

Sendo pelo teor das conclusões das alegações do recorrente que, em regra, se delimita o objecto do recurso,
afora as questões de conhecimento oficioso, importa saber se os AA. adquiriram o imóvel por usucapião, o que passa por
apreciar quais as consequências jurídicas de não terem registado tal aquisição, e o imóvel em causa ter sido penhorado e
posteriormente vendido judicialmente a uma sociedade que, por sua vez, o vendeu à Ré que registou tal aquisição.

É inquestionável que atento o pedido e causa de pedir a acção intentada pelos AA. é de reivindicação – art. 1311º
do Código Civil.

Os AA. alegaram terem adquirido o prédio por contrato de compra e venda por escritura pública notarial de
10.1.1984 – aquisição derivada – e ainda por usucapião – aquisição originária – fundada em actos de posse.

Se é incontroversa tal aquisição derivada, já se questiona a aquisição por usucapião porquanto os AA. não
registaram a aquisição do prédio; este, em execução intentada contra a Herança Ilíquida e Indivisa aberta por morte do
vendedor aos AA. – António Moura – foi objecto de penhora – Execução nº 9/93 que pendeu no Tribunal de Fafe –; o imóvel
foi vendido judicialmente a “DD Ldª”, que registou a aquisição em 2.3.1998; o registo da penhora foi cancelado em
7.10.1998; por sua vez a “DD, Ldª” por escritura pública notarial de 4.2.2002 vendeu o dito imóvel à Ré – doc. de fls. 30 a 33
– cujo direito de propriedade, desde 19.2.2002, se acha registada a seu favor – certidão da Conservatória do Registo
Predial de fls. 36 a 39.

Os factos sublinhados, que não foram objecto de impugnação, consideram-se provados por documentos
autênticos.

Nas instâncias considerou-se que os AA. sendo a sua posse titulada, mas não dispondo de registo, adquiririam
por usucapião já que no caso o prazo é de 15 anos – art. 1296º do Código Civil – “Não havendo registo do título nem da
mera posse, a usucapião só pode dar-se no termo de quinze anos, se a posse for de boa fé, e de vinte anos, se for de má
fé”.

Por sua vez a Ré entende que tal prazo de 15 anos, contado desde a data da aquisição pelos AA. – 10.1.1984 –
não decorreu, porquanto a “DD” adquiriu em venda judicial esse imóvel tendo registado tal aquisição em 2.3.1998, sendo
que a venda que fez à Ré, em 4.2.2002, foi por esta registada em 19.2.2002 – fls. 54.

Sustenta, assim, que, entre a data da compra pelos AA. e a da propositura da acção – 24.2.2003 – não
decorreram 15 anos.

Vejamos:

Os AA., como antes dissemos ancoraram a sua pretensão em duas vertentes.

Uma, a aquisição derivada do direito de propriedade através de contrato de compra e venda, celebrado por
escritura pública notarial, de 10.1.1984.

O contrato de compra e venda de imóveis celebrado através de escritura pública é válido e translativo do direito de
propriedade – arts. 874º, 875º e 879º a) do Código Civil.

Outra, alegando uma forma originária de aquisição daquele direito real – a usucapião arts. 1287º e 1316º do citado
diploma.

Por sua vez, a Ré afirma o seu direito de propriedade fundado na presunção registral – art. 7º do C. R. Predial.

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O art. 1251º do Código Civil define posse como – “O poder que se manifesta quando alguém actua por forma
correspondente ao exercício do direito de propriedade ou de doutro direito real”.

A posse, face à concepção adoptada na definição que do conceito dá o art. 1251º do Código Civil, tem de se
revestir de dois elementos: o “corpus”, ou seja a relação material com a coisa, e o “animus”, o elemento psicológico, a
intenção de actuar como se o agente fosse titular do direito real correspondente, seja ele o direito de propriedade ou outro.

“A doutrina dominante (Pires de Lima e A. Varela, Código Civil Anotado., III, 2.ª ed., pág.5; Mota Pinto Direitos
Reais, p. 189; Henrique Mesquita, Direitos Reais. 69 e ss; Orlando de Carvalho, RLJ, 122."-65 e ss; Penha Gonçalves,
Direitos Reais. 2ª ed., págs. 243 e ss.) entende que o conceito de posse, acolhido nos arts. 1251º e ss., deve ser entendido
de acordo com a concepção subjectivista, analisando-se por isso numa situação jurídica que tem como ingredientes
necessários o “corpus" e o “animus possidendi” (contra, Menezes Cordeiro, Direitos Reais, 1º-563 e ss; Oliveira Ascensão,
Direitos Reais, 4ªed., págs. 42 e ss.).

O “corpus” da posse traduz-se no “poder de facto” manifestado pela actividade exercida por forma correspondente
ao exercício do direito de propriedade ou de outro direito real (arts. 1251º e 1252.º nº 2).
Actividade que não carece, aliás, de ser sempre efectiva, pois uma vez adquirida a posse, o “corpus” permanece
como que espiritualizado, enquanto o possuidor tiver a possibilidade de o exercer (art. 1257º, n.º1).
Quanto ao “animus possidendi”, a sua presença e relevância não poderão ser recusadas quando a actividade em
que o “corpus” se traduz pela causa que a justifica, seja reveladora, por parte de quem a exerce, da vontade de criar em seu
benefício, uma aparência de titularidade correspondente ao direito de propriedade ou outro direito real.” – cfr. Abílio Neto, in
Código Civil Anotado, 12ª edição 1999, pág.971.

Estando registada, a favor da Ré, a aquisição do direito de propriedade, por via do contrato de compra e venda, de
harmonia com a regra do art. 7º do C.R. Predial, beneficia ela da presunção de que o direito de propriedade existe na sua
titularidade, nos exactos termos em que o registo o define.

Tal presunção, é ilidível pois que, como afirma, o Professor Oliveira Ascensão, in “Direitos Reais”, 5ª edição,
pág.382,

- “É preciso não esquecer que a base de toda a nossa ordem imobiliária não está no registo, mas na usucapião.
Esta em nada é prejudicada pelas vicissitudes registrais; vale por si.
Por isso, o que se fiou no registo passa à frente dos títulos substantivos existentes mas nada pode contra a
usucapião”.

Só a posse exercida em nome próprio e que revista as características de pacífica, titulada, de boa-fé e exercida
durante certo lapso de tempo conduz à usucapião.

O Código Civil perfilha, como é dominantemente entendido um conceito subjectivo de posse – art. 1251º do
Código Civil.

A posse pode ser exercida em nome próprio ou em nome alheio – art. 1252º do Código Civil.

Em caso de dúvida, presume-se a posse em quem exercer o poder de facto – nº 2 do citado artigo.

Sobre este normativo escreveu o Professor Mota Pinto, in “Direitos Reais”, 1970, 191:

“Como a prova do “animus” poderá ser muito difícil, para facilitar as coisas, ao possuidor a lei estabelece uma
presunção. Diz que, em caso de dúvida, se presume a posse naquele que exerce o poder de facto. Daqui decorre que,
sendo necessário o “corpus” e o “animus”, o exercício daquele faz presumir a existência deste”.

“A usucapião, que é uma forma de constituição de direitos reais e não de transmissão, baseia-se numa situação
de posse – corpus e animus – exercida em nome próprio, durante os períodos estabelecidos na lei e revestindo os
caracteres que a lei lhe fixa, pública, contínua, pacífica, titulada e de boa fé” – Ac. do STJ, de 14.12.1994, CJSTJ 1994, III,
183.

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O art. 1287º do citado diploma estatui – “A posse do direito de propriedade ou de outros direitos reais de gozo,
mantida por certo lapso de tempo faculta ao possuidor, salvo disposição em contrário, a aquisição do direito a cujo exercício
corresponde a sua actuação é o que se chama usucapião”.

As instâncias nenhuma abordagem fizeram ao facto de prédio ter sido penhorado e vendido judicialmente a quem
por sua vez vendeu à Ré, argumentando que se provaram os requisitos da posse conducente à usucapião.

Assim, no Acórdão recorrido, a fls. 242, pode ler-se “…Conforme se provou, a posse da parcela de terreno em
apreço, tem sido exercida continuamente (sem suspensão, nem interrupção), pelos autores e antepossuidores desde há
mais de 20 anos”.

Lebre de Freitas, in “A Acção Executiva à luz do Código Revisto”, 2ª ed., págs. 214 e segs. atribui à penhora um
triplo efeito:

- A transferência para o tribunal dos poderes de gozo que integram o direito do executado;
- A ineficácia relativa dos actos dispositivos do direito subsequentes;
- A constituição de preferência a favor do exequente.

O facto de a administração do imóvel penhorado estar confiada a outrem, normalmente um depositário, por
incumbência do Tribunal da execução, não retira ao seu proprietário o poder de disposição ou oneração do mesmo, apenas
contende com os seus poderes de gozo.
Os actos de oneração ou alienação não são inválidos, apenas são ineficazes em relação à execução.

Mas importa considerar que, quem vendeu à Ré – a “DD, Ldª” – adquiriu o imóvel em sede executiva – venda
judicial.

Nos termos do art. 824º do Código Civil.

1. A venda em execução transfere para o adquirente os direitos do executado sobre a coisa vendida.
2. Os bens são transmitidos livres dos direitos de garantia que os onerarem, bem como dos demais direitos reais
que não tenham registo anterior ao de qualquer arresto, penhora ou garantia, com excepção dos que, constituídos em data
anterior, produzam efeitos em relação a terceiros independentemente de registo.
3. Os direitos de terceiro que caducarem nos termos do número anterior transferem-se para o produto da venda
dos respectivos bens.

“Os princípios da prioridade e do trato sucessivo levam a que a aquisição na venda executiva seja consequência
da penhora anteriormente inscrita.
A alienação em acção executiva deve, pois, equiparar-se às alienações voluntárias.
A aquisição feita ao tribunal não é uma aquisição originária, mas antes uma aquisição derivada translativa” – vide
o estudo “Penhora de imóveis e registo predial na reforma da acção executiva”, publicado nos “Cadernos de Direito
Privado”, nº 4, de Mariana França Gouveia, citando Remédio Marques.

Na lógica decorrência do nº 1 do art.824º do Código Civil, o direito do adquirente, em processo de execução, filia-
se no direito do executado, dele dependendo, quer quanto à sua existência, quer quanto à sua extensão – “nemo plus juris
in aliud transferre potest quam ipse habet".

Em caso deveras semelhante ao que nos ocupa, este Supremo Tribunal em Acórdão de 4.12.2003, in www.dgsi.pt
– Proc.03B3639 – relator Conselheiro Moitinho de Almeida – ponderou:

“ […] A transmissão efectuada por hasta pública não tem origem no mesmo transmitente mas em acto judicial.
O tribunal não vende no exercício de poder originariamente pertencente ao credor ou a devedor, mas sim em
virtude de um poder autónomo que se reconhece à própria essência da função judiciária.
[…] De salientar que o mencionado Acórdão Uniformizador 3/99, na sua fundamentação, equipara a venda judicial
à alienação voluntária”.

Mesmo que se considere que a venda forçada, equiparada à venda voluntária, não pode deixar de ser aplicável o
princípio “nemo plus juris in aliud transferre potest quam ipse habet”, pelo que quando o imóvel foi penhorado e,

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subsequentemente vendido, não era já propriedade do executado porque esta já o tinha vendido aos ora AA. quando a
venda judicial se consumou.

Ademais, como se provou em 13), “A Ré não ignorava, no momento da aquisição, que o prédio era propriedade
dos AA.”.

Analisando a questão, na perspectiva da natureza do registo e consequências do não registo da aquisição por
parte dos AA. e do registo da penhora e da aquisição na sequência da venda judicial, sempre se dirá – acompanhando a
douta argumentação do Acórdão deste Tribunal de 30.4.2003, de que foi relator o Conselheiro Araújo de Barros – in
www.dgsi.pt Proc.03B996:
“O registo predial destina-se essencialmente a dar publicidade à situação jurídica dos prédios, tendo em vista a
segurança do comércio jurídico imobiliário” (art. 1º do C. Registo Predial) e que, atento também o preceituado no art. 4º do
mesmo diploma, tem valor meramente declarativo, não conferindo, salvo excepcionalmente, quaisquer direitos (…).

O conceito de terceiros, após larga divergência jurisprudencial veio a ser definido pelo Dec.Lei nº 533/99, de 11 de
Dezembro, que acrescentou ao art. 5º do C. Registo Predial um nº 4, onde se fez constar que “terceiros, para efeitos de
registo, são aqueles que tenham adquirido de um autor comum direitos incompatíveis entre si”.

Esclareceu, aliás, o legislador, no preâmbulo daquele Dec.Lei nº533/99 que:

“Se aproveita tomando partido pela clássica definição de Manuel de Andrade, para inserir no artigo 5º do Código
do Registo Predial o que deve entender-se por terceiros, para efeitos de registo, pondo-se cobro a divergências
jurisprudenciais geradoras de insegurança sobre a titularidade dos bens".

[…] Face à citada norma – e tendo também em consideração o caso concreto apreciado pelo Acórdão
Uniformizador nº 3/99 – passou a seguir-se o entendimento de que:

“O exequente que nomeia bens à penhora e o seu anterior adquirente não são terceiros; embora sujeita a registo,
no caso de imóveis, a penhora não se traduz na constituição de algum direito real sobre o prédio, sendo apenas um dos
actos em que se desenvolve o processo executivo ou, mais directamente, um ónus que passa a incidir sobre a coisa
penhorada para satisfação dos fins da execução.
A ineficácia apenas se reporta aos actos posteriores à penhora, pelo que os actos de disposição ou oneração de
bens, com data anterior ao registo da penhora, prevalecem sobre esta".

Isto é, em caso de conflito entre uma aquisição por compra e venda anterior não inscrita no registo e uma penhora
posterior registada, aquela obsta à eficácia da última, prevalecendo sobre ela”. – [Acs. STJ de 10.02.2000, no Proc. 1223/99
da 2ª secção (relator Ferreira de Almeida); de 17.02.2000, no Proc. 1061/99 da 2ª secção (relator Roger Lopes); e de
29.02.2000, no Proc. 1091/99 da 1ª secção (relator Ribeiro Coelho)] Citados no Acórdão de 30.4.2003..

No referido Acórdão, respondendo à questão da preponderância, entre o direito de propriedade derivado de uma
compra e venda anterior, não registado, e o direito de propriedade, também derivado, decorrente de uma venda executiva,
mas submetido ao registo escreveu-se:

“A este propósito entendeu-se já que “na venda executiva o executado é substituído no acto da venda pelo juiz
enquanto órgão do Estado, gerando-se uma aquisição derivada em que o executado é o transmitente.
Por isso, ao adquirente em venda judicial não pode ser oposta uma transmissão anteriormente feita pelo
executado a favor de uma outra pessoa que a não fez inscrever oportunamente no registo predial” – Ac. STJ de 7.07.1999,
in CJSTJ Ano VII, II, pág. 164 (relator Ribeiro Coelho).

Solução que assenta, desde logo, no facto de o anterior adquirente, que não registou a aquisição, e o comprador
na venda judicial, que registou, haverem, afinal, adquirido de alienante comum.
Como também se funda na redacção do nº 2 do art. 824º do Código Civil, da qual se infere a caducidade, pela
venda executiva, dos direitos reais de gozo que não tiverem um registo anterior ao de qualquer arresto, penhora ou
garantia, ou seja, anterior à mais antiga destas garantias".

Dir-se-á, em contrário, que, na execução, o tribunal não vende no exercício de poder originariamente pertencente
ao credor ou ao devedor, mas sim em virtude de um poder autónomo que se reconhece à própria essência da função
judiciária.

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Estaremos perante uma venda forçada, naturalmente alheia à vontade do executado – que, aliás, nem
legitimidade tem para proceder à venda, na medida em que estará a vender coisa alheia (art. 892º do Código Civil) – e para
a qual, em princípio, em nada contribui, sobretudo não emitindo qualquer declaração negocial nesse sentido.
Constitui, nesta medida, mero artifício a afirmação de que na venda judicial é o executado que deve ser visto
como vendedor.
Ademais, o direito de propriedade derivado da venda judicial (ao contrário do direito derivado da compra e venda,
que se transfere e consolida no património do comprador por mero efeito do contrato - arts. 879º, al. a) e 408º do Código
Civil) advém para o respectivo titular por força da lei e não por acto do executado, pelo que se não pode defender que
ocorra um conflito de dois direitos adquiridos do mesmo transmitente.

Tanto mais quanto é certo que, tendo ele já alienado a terceiro o bem imóvel (e a eficácia da transmissão do
direito de propriedade entre as partes não depende do registo - art. 4º, nº 1, do C. Registo Predial), quando a penhora foi
feita e se lhe seguiu a venda executiva, este de todo lhe não pertencia, não se encontrando, como tal, sujeito à execução
(arts. 601º do C.Civil e 821º, nº 1, do Código de Processo Civil).

Razão por que se impõe admitir que, "tratando-se de coisa imobiliária, o adquirente, mesmo de boa fé, não
adquire a propriedade de coisa não pertencente ao executado"... “e que, sendo o bem vendido em execução propriedade de
terceiro, estar-se-á perante uma execução de coisa alheia, e o proprietário, terceiro no processo executivo, pode, nos
termos gerais, recorrer, designadamente, à acção de reivindicação […]”

Donde, provado que, à data em que foi penhorado o imóvel (e registada a penhora) já se efectivara a venda pelo
executado à autora do mesmo, a penhora foi de bens alheios, sendo a venda judicial também de bens alheios”.

Sufragando este entendimento, concluímos que aos AA. não é oponível a alienação do prédio reivindicado.

Ao concluir sempre se dirá que tendo os AA. comprado o imóvel em 10.1.1984 e intentado a acção em 24.2.2003,
tendo-se provado que reportado a esta data:

“Os autores, por si e antepassados, há mais de vinte anos, procedem à limpeza, cortam matos e silvas, no lote de
terreno, destinado à construção com a área de 543 m2, já dividido e desintegrado do prédio rústico denominado “Sorte de
Mato de Campos Novos”, … tudo à vista e com o conhecimento de todos, de forma contínua, sem interrupção nem
oposição de ninguém, na convicção em que estão e sempre estiveram os AA. de que tal prédio lhes pertence e de que
sobre ele, de modo exclusivo, exercem o seu direito de propriedade”, sempre se teria que considerar que adquiriram o
imóvel por usucapião, independentemente das vicissitudes por que passou o imóvel.

Por outro lado, tendo-se provado – item 13) da matéria de facto – que a Ré não ignorava, no momento da
aquisição, que o prédio era propriedade dos AA., é manifesto que tem de ser considerada adquirente de má-fé.

Decisão:

Nestes termos, acorda-se em negar a revista.

Custas pela recorrente.

Lisboa, 05-06-2007

Fonseca Ramos (relator)


Azevedo Ramos
Silva Salazar

Em 16.10.2008, em Ac. proferido no P.º 07B4396, o STJ (Ex.mo Cons.º Pires da Rosa) decidiu:

1 – Recebem direitos (de propriedade) incompatíveis de um mesmo autor comum quem adquire esse
direito por compra e venda de uma determinada pessoa e quem o adquire em execução contra essa mesma pessoa,
como executada, dirigida.
2 – Estes dois adquirentes são, então, terceiros entre si para efeitos de registo.

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3 – Qualquer que seja a natureza da venda judicial é do titular executado que provém o direito que o
adquirente adquire.
4 – Coisa diferente se passa em relação a um simples arresto, penhora ou hipoteca judicial uma vez que,
em tais casos, não estamos perante direitos reais de aquisição mas simples direitos de garantia.

Acordam no Supremo Tribunal de Justiça:

AA e mulher BB intentaram, em 6 de Abril de 2005, no Tribunal Judicial do Seixal, contra CC e marido DD acção
ordinária, que recebeu o nº2899/05, do 2º Juízo de Competência Cível, pedindo que a eles, AA, seja reconhecido o direito
de propriedade sobre uma fracção predial que descrevem e que lhes seja ordenada a restituição dessa mesma fracção,
pelos RR, com a condenação destes a pagar-lhes, a título de indemnização, o montante de 150,00 euros mensais desde a
data em que eles, AA, adquiriram a fracção até à sua efectiva entrega pelos RR.
Em resumo alegaram:
por arrematação, realizada em 2/12/2003, no âmbito do processo nº2637/94, da 3ª Vara Cível da comarca de
Lisboa adquiriram o imóvel que naqueles autos se encontrava penhorado, correspondente à fracção “D”, descrito na
Conservatória do registo Predial do Seixal, sob o nº 004000000000 e inscrito na matriz sob o artigo 641, da freguesia de
Arrentela, o qual se destina a garagem;
o imóvel havia sido penhorado em 2/2/1998 e a penhora registada em 25/2/1999;
quando os Autores após a arrematação, ocorrida em 2/12/2003, foram para o registar verificaram que já havia um
registo, datado de 3/3/2003, efectuado a favor dos Réus, o qual conseguiram cancelar, mas apesar disso, estes recusam-se
a entregar o imóvel.
Contestaram os Réus ( fls.32 ) e, em reconvenção, pediram que lhes fosse reconhecido o direito de propriedade
sobre o imóvel e se ordenasse o cancelamento do registo a favor dos Autores.
Os AA replicaram a fls.65.
Após uma audiência preliminar com uma frustrada tentativa de conciliação, foi proferido o despacho saneador-
sentença de fls.121 a 129 que julgou totalmente improcedente o pedido formulado por AA e BB, absolvendo os réus CC e
DD;
julg|ou| totalmente procedente o pedido reconvencional formulado pelos RR, condenando os AA a reconhecerem
o direito de propriedade dos réus reconvintes sobre a fracção autónoma designada pela letra “D” correspondente ao rés-do-
chão nº4 destinado a garagem do prédio urbano em regime de propriedade horizontal sito na Quinta ....., freguesia da
Arrentela, descrito na Conservatória do Registo Predial do Seixal sob o nº0040000000-D e inscrito na matriz predial urbana
daquela freguesia sob o art.1066º, ordenando-se ainda o cancelamento da inscrição G-3 Ap.20/041020 a favor dos AA.
Inconformados, os AA interpuseram recurso de apelação, recebido por despacho de fls.135, para subir nos
próprios autos e com efeito meramente devolutivo.
Os RR interpuseram por sua vez recurso subordinado que todavia, em despacho proferido pela Exma
Desembargadora-Relatora, acabou por não ser admitido.
Em acórdão de fls.157 a 163, o Tribunal da Relação de Lisboa julgou a apelação improcedente e, em
consequência, confirmou a sentença recorrida.
De novo inconformados, os AA pedem agora revista para este Supremo Tribunal.

E alegando a fls.176, CONCLUEM:


A) De acordo com o acórdão proferido foi julgado totalmente improcedente a apelação apresentada e, em
consequência, confirmada a sentença recorrida.
B) Baseia o acórdão proferido a sua decisão no facto de, nos termos do Art.6°, n°1 do CRPredial, o direito inscrito
em primeiro lugar prevalecer sobre os que lhe seguirem e no facto do Art.7° do mesmo diploma consagrar a presunção do
registo, o qual diz ser ilidível.
C) Por sua vez o nº1 do Art.5° do CRPredial determina que os factos sujeitos a registo só produzem efeito contra
terceiros depois da data do respectivo registo.
D) Alegando que de acordo com o nº4 da mesma disposição legal, terceiro para efeito de registo é aquele que
tenha adquirido de um autor comum direitos incompatíveis entre si.
E) Conclui afirmando que não são considerados terceiros os credores exequentes, sujeitos activos dos actos que
consistam numa mera diligência judicial como, por exemplo, a penhora.
F) Não concordam os ora Recorrentes com tal posição.
G) O bem em causa foi adquirido pelos Recorrentes numa venda Judicial organizada por um representante do
Estado, o qual deverá ser entendido como pessoa de bem.
H) Não devendo assim sobre tais actos impender qualquer tipo de insegurança.

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I) Para além disso de acordo com o disposto no n°2 do Art.824° do CCivil os bens vendidos em execução são
transmitidos livres de direitos de garantia que os onerem, bem como dos demais direitos reais que não tenham registo
anterior ao de qualquer arresto, penhora ou garantia.
J) Acresce ainda que a questão de fundo que se discute na presente acção não tem sido pacifica.
L) Assim existem acórdãos proferidos cujo sentido é contrário ao defendido no acórdão ora recorrido.
M) Defendem que na venda executiva o Executado é substituído no acto da venda pelo Juiz, enquanto órgão do
Estado, gerando-se uma aquisição derivada em que o Executado é o transmitente.
N) Por isso, ao adquirente em venda Judicial não pode ser oposta uma transmissão anteriormente feita pelo
Executado a favor de uma outra pessoa que a não fez inscrever oportunamente no registo predial ( AC. STJ de 07/07/1999
in CJ-STJ,II, pag.l64).
O) Entende-se assim, face ao supra exposto, e aos demais argumentos expostos nas alegações, que o sentido do
acórdão ora recorrido deveria ser diferente.
P) Tanto mais que, ao assumir-se tal posição, se está a colocar em causa a transparência e a segurança das
vendas efectuadas no âmbito do processo de execução.
Q) Facto que beneficia, claramente, o infractor, neste caso o Executado.
Contra – alegaram os recorridos CC e marido DD a fls.189 pugnando pela improcedência do recurso e a
manutenção do decidido.

Estão corridos os vistos legais.


Cumpre decidir.

FACTOS:
1. A fracção autónoma designada pela letra “D” correspondente ao rés-do-chão nº4 destinado a garagem do
prédio urbano em regime de propriedade horizontal sito na Quinta ..... freguesia de Arrentela, descrito na Conservatória do
Registo Predial do Seixal sob o nº 004000000-D e inscrito na matriz predial urbana daquela freguesia sob o artigo 1066º,
encontra-se registada a favor dos autores desde 20/10/2004 por adjudicação em execução (inscrição G-3 Ap. 20/041020)
(documento de fls. 8 e 9).
2. No âmbito da acção executiva nº2637/94 que correu termos na 3ª Vara Cível da Comarca de Lisboa em que era
exequente o Banco Nacional Ultramarino S.A. e executadosLF, foi penhorada em 02/02/1998 a fracção identificada em 1.,
para garantia da quantia exequenda de € 4.009,94 (803.920$OO) e registada em 08/07/1998 (inscrição F-2 Ap. 01/980708)
(documentos de fls. 8 e 9 e 14).
3. No âmbito da carta precatória para venda nº5817/2003.1TBSXL (extraída do processo nº2637/94), foi realizada
em 02/12/2003 abertura de propostas em carta fechada, tendo sido aceite a proposta apresentada pelo autor AA no
montante de € 8.865,00 (documento de fls. 15 e 16).
4. No âmbito do processo referido em 2., foi proferido despacho em 16/04/2004 e transitado em julgado em
03/06/2004, adjudicando a fracção identificada em 1., ao autor AA e ordenando o cancelamento de todos os ónus e
encargos incidentes sobre a fracção, tendo sido lavrado título de transmissão em 09/06/2004 (documentos de fls. 14 e 1 7)
5. No âmbito da execução referida em 2., foi proferido despacho em 12/07/2004 e transitado em julgado em
24/09/2004, especificando que o cancelamento dos ónus e encargos registados sobre a fracção identificada em 1., se refere
à inscrição F-3 Ap. 01/990225 e G-2 Ap. 02/030303 (documentos de fls. 18 e 19).
6. No dia 19/01/1990, compareceram no Cartório Notarial do Seixa lLF e FC, na qualidade de primeiros
outorgantes, e CC casada com DD, na qualidade de segunda outorgante, declarando os primeiros que, pelo preço de
duzentos e cinquenta mil escudos, já recebido, vendiam à segunda a fracção autónoma designada pela letra “D”
correspondente ao rés-do-chão número quatro, destinada a garagem, do prédio urbano sito na Quinta ...., freguesia de
Arrentela, descrito na Conservatória do Registo Predial do Seixal sob o nº0040000, aceitando a segunda esta venda e tendo
esta procedido ao pagamento do imposto de sisa (documento de fls. 46 a 48).
7. Os réus registaram a seu favor a aquisição da fracção identificada em 1., em 03/03/2003 (inscrição G-2 Ap.
02/030303) (documento de fls. 9).
8. A titular da caderneta predial urbana da fracção referida em 1., é a ré CC (documento de fls. 49 e 50).
9. A ré CC procedeu ao pagamento do imposto municipal sobre imóveis relativo à fracção identificada em 1.,
relativo ao ano de 2003 (documento de fls. 51).
10. A fracção identificada em 1., encontra-se ocupada pelos réus.
11. Em consequência da ocupação da fracção identificada em 1., os autores encontram-se impedidos de utilizar a
garagem para guardar o seu veículo ou fazerem uso da mesma como arrecadação.
12. E encontram-se impedidos de dar a mesma de arrendamento e de retirar um rendimento mensal de cento e
cinquenta euros relativo ao uso da fracção identificada em 1.

É preciso começar pelo princípio.

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E o princípio é que a fracção autónoma designada pela letra “D” correspondente ao rés-do-chão número quatro,
destinada a garagem, do prédio urbano sito na Quinta ...., freguesia de Arrentela, descrito na Conservatória do Registo
Predial do Seixal sob o nº 00400000 foi originariamente propriedade de LF
E a partir daqui, a partir do originário património do LF, essa propriedade seguiu dois caminhos translativos
diferentes:
em 19 de Janeiro de 1990 este LF e a mulher FC declararam vendê-la à ora recorrida CC, casada em regime de
comunhão geral de bens com o recorrido DD ;
em 16 de Abril de 2004, em despacho proferido na execução nº2637/1994 ( também ) contra o LF, despacho
posteriormente transitado, foi esse mesmo bem adjudicado ao ora recorrente AA.
O que tudo isto quer dizer é que quer o autor AA quer a ré CC Maria receberam a fracção de um mesmo autor
comum: o LF. Por caminhos diferentes, mas de um mesmo autor comum.
De um mesmo autor comum eles receberam direitos entre eles incompatíveis: é incompatível o direito de
propriedade dos autores com o direito de propriedade dos réus, ou vice-versa – a fracção ou é propriedade de uns ou é
propriedade de outros; dos dois ao mesmo tempo é que não é, não pode ser.
Ora, o Dec.lei nº 533/99, de 11 de Dezembro introduziu no art.5º do CRPredial um nº4 com a seguinte redacção:
Terceiros, para efeitos de registo, são aqueles que tenham adquirido de um mesmo autor comum direitos
incompatíveis entre si.
Então autores e réus, recorrentes e recorridos, são terceiros entre si.
Repete-se: autores recorrentes e réus recorridos.
Entre estes há incompatibilidade de direitos, porque ambos são aquisidores de direitos do mesmo autor comum.
Não já entre os recorridos e o beneficiário da penhora, o exequente Banco Nacional Ultramarino, S.A., em favor de
quem foi registada em 8 de Julho de 1998 a penhora da fracção, efectuada em 25 de Fevereiro de 1999.
Pela razão simples de que, como se escreve no acórdão deste STJ de 7 de Julho de 1999, CJSTJ, T2, pág.164, «
numa penhora, ou arresto, ou hipoteca judicial, estamos apenas perante garantias de um direito de crédito ».
O que importa, então, é olhar para os registos de aquisição da fracção – repete-se, registos de aquisição – e ver
qual deles está efectuado em primeiro lugar.
Porque – art.6º, nº1 do CRPredial - o direito inscrito em primeiro lugar prevalece sobre os que se lhe seguirem
relativamente aos mesmos bens.
E vemos:
a CC, c.c. DD, registou a aquisição a seu favor por apresentação de 30 de Março de 2003;
o autor AA, registou a aquisição ( provisoriamente ) em 20 de Outubro de 2004 ( com a sua conversão em
definitiva em 30 de Novembro de 2004 ).
São estas – 30 de Março de 2003 e 20 de Outubro de 2004 – as datas que importam.
Por elas se define a anterioridade da inscrição registral e, assim, a prevalência de um direito – o dos réus
recorridos – sobre o outro – o dos autores recorrentes.
Nem se diga que a inscrição registral da aquisição por parte dos réus CC foi cancelada. Porque, se o foi, foi por
despacho proferido na acção executiva – ver fls.19 - na qual os réus não eram partes e em relação aos quais não faz, pois,
caso julgado.

Concluindo:
porque o registo de aquisição da propriedade por parte dos réus é anterior ao registo de aquisição dos autores e,
portanto, porque sendo terceiros em relação aos autores eles beneficiam da anterioridade registo, o recurso improcede.
É preciso que se diga que – como se escreveu em acórdão da RC de 19 de Junho de 2001, CJ, T3, pág.31 - « a
protecção de terceiros não fica limitada aos casos em que é o proprietário a celebrar dois negócios incompatíveis, sendo
extensiva a situações em que a segunda venda, registada, tem natureza judicial ».
Qualquer que seja a natureza da venda judicial, na verdade, o que é incontornável é que é do titular executado
que provem o direito que o adquirente adquire, passe o pleonasmo.
Não há entre um proprietário – o executado – e outro proprietário – o adquirente – um terceiro proprietário ( o
Estado? ) ou um vazio onde a propriedade não tenha aonde repousar e paire no universo jurídico sem um qualquer titular.
Por isso, mesmo no caso de venda judicial o adquirente é um terceiro para efeitos de registo.
Posto é que haja venda, que haja aquisição. E não apenas garantia.
Como se escreveu no acórdão da RC na apelação nº 3694-02, pela pena do agora aqui relator « ponto é que ...
tenha sido adquirido efectivamente qualquer direito e não apenas se tenha ainda salvaguardado um qualquer direito real de
garantia em ordem a essa aquisição».
Afinal o mesmo que já se dissera, como se viu, no acórdão deste STJ de 7 de Julho de 1999 já citado: «numa
penhora, ou arresto, ou hipoteca judicial, estamos apenas perante garantias de um direito de crédito».

DECISÃO

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Na improcedência do recurso, nega-se a revista.


Custas a cargo dos recorrentes.

LISBOA, 16 de Outubro de 2008


Pires da Rosa ( Relator ) Custódio Montes Mota Miranda

Deve estudar-se

- Ac. do STJ, de 7.7.99, na Col. Jur. (STJ) 99-II-164 (cópia)


- da Relação de Coimbra, de 19.1.2001, na Col. 2001-III-31 e
- do STJ, de 4.4.2002, na Col. Jur. STJ 2002-I-154, de que vai cópia da publicação em
Cadernos de Direito Privado, nº 2, Maio/Junho de 2003, pág. 53 a 63, com anotação do
Prof. Teixeira de Sousa.
- O conceito de terceiros para efeitos de registo predial”, estudo do Cons.º Quirino
Soares, em CDP, nº 9 (Janeiro a Março de 2005), pág. 3 a 11 e
- A Aplicação do art. 291º, nº 2, do CC, a terceiro para efeitos de registo, anotação do
Prof. Couto Gonçalves a ac. do STJ de 19.2.2004, em CDP, nº 9, pág. 43 a 53.

Porto, Novembro de 2008

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