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Uma onda longa recessiva recém se inicia

Vivemos a maior crise econômica dos últimos 80 anos. No último trimestre de 2008 e
primeiro de 2009 ocorreu uma queda abrupta da economia internacional com índices
semelhantes aos da depressão de 1929. No segundo trimestre de 2009, existiu uma
recuperação parcial e conjuntural da economia, que foi apresentada por uma campanha
gigantesca da mídia de todo o mundo como o fim da crise.
Mas para poder apontar a dinâmica da crise é preciso analisá-la com horizontes mais
amplos. Trata-se de uma discussão cuja profundidade escapa aos economistas burgueses,
em geral preocupados em encontrar “brotos verdes” e quaisquer sinais que indiquem uma
recuperação rápida da economia. No fundo não apresentam análises e previsões reais, e
sim peças de propaganda, em geral muito bem pagas.
A primeira definição necessária sobre o tema é que estamos perante uma crise cíclica de
superprodução, das que ocorrem a cada período de 6-9 anos no capitalismo. Uma clara
expressão da gravidade da crise de superprodução foram os índices de queda da produção
industrial, entre 15 e 25% nos países imperialistas.
A situação da indústria automobilística, o carro chefe da produção industrial mundial,
confirma claramente a superprodução:
“A previsão é que em 2009 quase 10 milhões de veículos deixem de ser produzidos,
reflexo da mais aguda crise atravessada pela indústria nas ultimas décadas. A produção
de 2009 deve chegar a 51 milhões se aproximando da mesma marca de 1990 quando não
havia produção na China. Considerando as vendas de 2007 de 65 milhões de veículos,
haverá uma queda de 14 milhões de veículos o que significa que 140 fabricas com
produção media de 100000 veículos estarão paradas ou fechadas o equivalente a 5 anos
de paralisação de toda a produção de veículos no Brasil.” (Luís Carlos Prates, A crise do
setor automobilístico mundial e a agonia da GM)
Mas, logo após essa primeira definição, é preciso negá-la parcialmente: não se trata de
mais uma crise cíclica. Houve uma combinação com uma descomunal crise financeira - o
estouro de uma grande bolha internacional, deflagrada pela crise imobiliária
norteamericana que rapidamente se estendeu ao conjunto do sistema financeiro
imperialista- que agravou fortemente a crise cíclica, abrindo um período maior recessivo
na economia.
A recuperação atual, parcial e conjuntural, alardeada como o sinal do fim da crise, não
reverte este quadro recessivo.
Mesmo no longo período depressivo aberto em 1929 houve recuperações parciais. Houve
uma queda abrupta em 29, uma leve recuperação no meio de 1930, e logo depois uma
nova a mais violenta queda, que foi até 33. Veio uma recuperação maior entre 1933 e 37,
e depois uma outra queda. O final do longo período recessivo só terminaria com a
segunda guerra mundial.
Estamos perante uma recuperação parcial, parte de uma tendência global recessiva, que
pode levar a duas hipóteses bem diferentes: uma depressão como a de 1929 (ou ainda
mais grave) ou uma recessão seguida de recuperações frágeis e outras graves crises
posteriores. Ao contrário dos economistas burgueses, estamos apontando para uma onda
longa recessiva, que pode durar 15 ou 20 anos. Dentro dessa ótica podem ocorrer
recuperações parciais e mesmo novos ciclos de crescimento, frágeis e com maiores
crises.
Em qualquer uma dessas variantes está se abrindo uma nova situação mundial, e é
necessário encarar a discussão sobre as perspectivas da economia e suas relações com a
luta de classes.
É isso que nos exige revisitar a polêmica sobre as ondas longas, que necessáriamente nos
leva a uma discussão mais de fundo dentro dos critérios da economia marxista. A
hipótese teórica que está aqui desenhada é a seguinte: a globalização não seria em si uma
onda longa do capitalismo, que teve seu auge e agora seu declínio?

1-As crises do capital na ótica marxista

Existe um grande debate entre os marxistas sobre a origem das crises cíclicas do
capitalismo, em boa parte porque o próprio Marx não chegou a completar com clareza
uma teoria das crises.
Existe uma corrente marxista com peso razoável ( a sua mais notável defensora foi
Rosa Luxemburgo) que atribui as crises ao subconsumo das massas, ou uma “brecha de
demanda”. No capitalismo, o valor produzido pelos trabalhadores é sempre maior que os
seus salários, pela existência da mais valia, ou seja, da parte do valor embolsada pelos
capitalistas como lucros. Quanto maior for a participação dos lucros no valor total
produzido, maior seria a brecha da demanda. Ou seja, para os “subconsumistas”, as crises
seriam originadas pelo fato dos trabalhadores não poderem consumir todos os bens que
produzem. Isso ocasionaria a superprodução, queda nos lucros e a crise.
No entanto, essa teoria tem vários equívocos. Em primeiro lugar, sua conclusão
lógica é que os aumentos salariais ajudam o capitalismo a sair da crise. Apesar de
popular entre os defensores do “mercado interno” como saída para a crise, isso não tem
nada a ver com a realidade do capital. A crise em geral estoura nos momentos do auge,
quando muitas vezes os salários estão mais altos. E a saída para os capitalistas é sempre a
mesma: o aumento da mais valia pela redução dos salários.
Além disso, segundo Shaikh: “Dentro de um quadro assim, é evidente que
qualquer intervenção econômica que reforce e dirija os fatores expansionistas pode
superar, em princípio, a ameaça de estagnação. A economia keynesiana, por exemplo,
proclama que o estado, seja por conta de seus próprios gastos, seja estimulando o gasto
privado, pode alcançar os níveis socialmente desejados de produção e emprego e desse
modo determinar, em última instância, as leis de movimento da economia capitalista.”
(Valor, acumulação e crise, pg. 60)
Os subconsumistas não teriam como explicar a situação atual da crise capitalista.
Com a maior intervenção dos estados imperialistas de todos os tempos, uma espécie de
keynesianismo brutal, não haveria razão para não se superar a crise atual do capital.
Nunca houve na história nada semelhante à injeção de verbas públicas feita nesse
momento. E, pelo menos a nosso ver, a crise não foi resolvida.
Mas a interpretação marxista mais sólida para as crises capitalistas é a que as
relaciona com a tendência à queda das taxas de lucros. Essa interpretação inclui a questão
do consumo dos trabalhadores, mas dentro de outra ótica mais ampla, a lógica da taxa de
lucros.
Marx dizia: “o aumento gradual do capital constante em relação ao capital variável
tem como resultado uma diminuição gradual da taxa geral de lucros, sempre e quando a
taxa de mais-valia, ou seja, o grau de exploração do trabalho pelo capital, permanecer
invariável”.
Os capitalistas desenvolvem duas guerras ao mesmo tempo- contra os
trabalhadores e na concorrência contra outros capitalistas- para garantir o móvel central
de sua atividade que é a obtenção do maior lucro possível.
A batalha contra os trabalhadores é para reduzir o chamado capital variável,
composto pelos salários pagos. Uma parte fundamental da batalha da concorrência, para
aumentar a produtividade, é o investimento na mecanização e em matérias primas. Isso
aumenta a outra parte do capital, chamado capital constante. Assim a dupla guerra dos
capitalistas pode ser resumida na redução do capital variável (os salários dos
trabalhadores) e ampliação do capital constante (pela mecanização).
A taxa de lucro relaciona o lucro e o total do capital investido (capital variável
mais o capital constante). Essa taxa é multimplicada pela quantidade de mercadorias
vendidas resultando na massa de lucros.
Dentro dos ciclos, nas fases de expansão, as grandes empresas investem na
mecanização, aumentam a produtividade, para produzir com preços mais baixos que as
concorrentes. Isso possibilita a abertura de novas fábricas ou ampliação das existentes.
Mas as outras empresas reagem com o mesmo tipo de iniciativa, o que leva a uma forte
disputa pelo mercado.
A produção é cada vez maior e acaba superando a massa salarial disponível para
consumir os produtos a um preço que possa fornecer o lucro médio esperado. A taxa de
lucros começa a cair, e quando afeta a massa geral dos lucros, os capitalistas param de
investir. A queda da taxa de lucro não compensa novos investimentos, e vem a crise de
superprodução.
Aqui a massa salarial e sua capacidade de consumo têm importância, mas não
decidem a crise. Só quando a taxa e a massa de lucros caem é que ocorre a crise.
Nesse momento do ciclo, ocorre destruição do capital constante ( fechamento de
fábricas) e de capital variável (redução de salários e desemprego), como pré-condição
para se restabelecer o aumento da mais valia e da taxa de lucros.
Por isso, os capitalistas recorrem a reduções dos salários para escapar da crise, para
voltar a elevar seus lucros. E por isto, por mais que os governos injetem dinheiro na
economia, enquanto não se queimar o capital excedente (com a falência das empresas
mais fracas) e se reestabelecer a taxa de lucros das empresas, não se retomará o
crescimento.
Esse é o mecanismo básico das crises cíclicas, que tem uma determinação
endógena, dos próprios elementos da economia capitalista. Esses ciclos têm uma duração
determinada entre 5 e 10 anos. A polêmica é saber se, além desses ciclos curtos, existem
também ondas longas, de maior duração, que incoporariam os ciclos menores dentro de
uma dinâmica determinada.
A nosso ver, a crise atual tem um duplo caráter: é uma crise cíclica, mas por outro
lado, também faz uma inflexão entre uma onda longa ascendente e outra descendente. É
isso que veremos a seguir.

2- Os primeiros debates sobre as ondas longas


A discussão sobre a existência ou não das ondas longas é bastante antiga entre os
marxistas. Segundo Mandel, foi um marxista russo, Parvus, o primeiro a defender a
existência desses ciclos em 1896. Ainda sem dados estatísticos que comprovassem sua
tese e com uma periodização pouco clara, Parvus defendia a existência dessas ondas e
definia suas fases ascendentes pela expansão do mercado mundial. Um marxista
holandês, Van Gelderen, retomou essa tese em 1913, buscando comprová-la com
evidências empíricas.
Mas a principal referência na discussão das ondas longas é sem dúvida Nikolai
Dmyitriyevich Kondratiev. Em 1919, apontou para a existência dessas ondas, com
períodos de mais ou menos 50 anos, com uma parte ascendente e outra descendente,
dando a estas praticamente o mesmo caráter dos ciclos curtos do capitalismo.
Em um trabalho de 1921 - “Os grandes ciclos da vida econômica”- ele afirmava:
“Quando falamos de ciclos na economia, referimo-nos em geral aos ciclos da
atividade cuja duração é de sete a dez anos. Mas é evidente que estes não são o único
tipo de ciclos econômicos. Na realidade, a dinâmica da vida econômica é mais
complicada. Além dos ciclos antes mencionados (que chamaremos de intermediários),
demonstrou-se recentemente que é provável a existência de oscilações ainda mais
curtas, de uma duração de três anos e meio aproximadamente. Mas isso não é tudo.
Existem realmente motivos para pressupor a existência de oscilações de 50 anos, fato
que complica ainda mais o problema da dinâmica econômica”.
Kondratiev fez uma análise da evolução do capitalismo com dados de um século e
meio para chegar a essas conclusões. Deduz três grandes ciclos:
Primeiro: fase de ascensão, entre 1780-90 até 1810-17; fase de declínio, entre
1810-17 até 1844-51.
Segundo: fase de ascensão, entre 1844-51 até 1870-75; fase de declínio, entre
1870-75 até 1890-96.
Terceiro: fase de ascensão, entre 1890-96 até 1914-20, com a fase de declínio
começando entre 1914-21.
Mais adiante, assinala no mesmo texto: “Existem contestações de que as grandes
oscilações carecem da regularidade dos ciclos de negócios. Mas isso é falso. Se alguém
define “regularidade” como uma repartição em intervalos de tempos regulares, então os
grandes ciclos possuem essa característica da mesma forma que os ciclos
intermediários. Uma periodicidade estrita não existe nem nas flutuações grandes nem
nas intermediárias. A duração dessas últimas flutua entre 7 e 11 anos, ou seja, 57%. A
duração dos grandes ciclos flutua entre 48 e 60 anos, ou seja, só 25%”.
Diferentemente de Parvus, que determinava a evolução dos grandes ciclos pela
expansão do comércio mundial, Kondratiev explicava-os pelo tempo de maturação dos
grandes investimentos em maquinaria. Ele teve assim um papel muito importante, ao
destacar uma discussão estratégica para a avaliação de longos períodos da economia.
Como muitos outros intelectuais independentes, Kondratiev acabou preso e confinado na
Sibéria em 1930 pelo stalinismo e fuzilado em 1938.

3- A posição de Trotsky
Trotsky reconhecia a existência de períodos mais longos na economia capitalista:
"Observamos na história que os ciclos homogêneos agrupam-se em séries. Existem
épocas inteiras do desenvolvimento capitalista quando diversos ciclos são
caracterizados por fases de prosperidade nitidamente delineadas e por crises fracas de
curta duração. Como resultado, temos um movimento com elevação acentuada da curva
básica de desenvolvimento capitalista. Ocorrem períodos de estagnação nos quais essa
curva, mesmo que passando por oscilações cíclicas parciais, permanece
aproximadamente no mesmo nível durante décadas. Finalmente, durante certos períodos
históricos, a curva básica (ainda que passando como sempre por oscilações cíclicas),
precipita-se para baixo em seu conjunto, indicando o declínio das forças produtivas”.1
Com esta perspectiva, ele vai periodizar os ciclos de uma maneira praticamente
idêntica à de Kondratiev: "Portanto, a curva do desenvolvimento econômico é composta
de dois movimentos: um movimento primário que expressa a elevação geral do
capitalismo; e um movimento secundário que consiste nas oscilações periódicas
constantes correspondentes aos vários ciclos industriais. Se analisarmos a curva mais
detalhadamente, podemos verificar que ela se divide em cinco segmentos, cinco períodos
distintos e diferentes. De 1783 a 1851, o desenvolvimento é muito lento, raramente
ocorre um movimento observável; depois da revolução de 1848, que ampliou as bases do
mercado europeu, ocorre um ponto de inflexão. Entre 1851 e 1873, a curva sobe
abruptamente. Após 1873 segue-se uma época de depressão. De 1973 até
aproximadamente 1894 notamos uma estagnação no comércio inglês. Então vem outro
boom, que se estende até 1913. Finalmente, a partir de 1914 inicia-se o quinto período –
o período de destruição da economia capitalista."2
Mas a partir desse reconhecimento, Trotsky polemizou com Kondratiev: "É
possível refutar antecipadamente a tentativa do professor Kondratiev de identificar
épocas por ele rotuladas de ciclos maiores com o mesmíssimo “ritmo rigidamente legal”
que é verificável nos ciclos menores; trata-se de uma generalização evidentemente falsa
a partir de uma analogia formal. A repetição periódica de ciclos menores é
condicionada pela dinâmica interna das forças capitalistas e sempre se manifesta e por
todas as partes, desde que o mercado passou a existir. No que se refere aos segmentos
longos da curva de desenvolvimento capitalista (cinqüenta anos), que o professor
Kondratiev imprudentemente propõe designar também como ciclos, seu caráter e
duração são determinados não pela ação recíproca das forças internas do capitalismo,
mas por aquelas condições exteriores que servem de canal ao fluxo do desenvolvimento
capitalista. A aquisição pelo capitalismo de novos países e continentes, o descobrimento
de novos recursos naturais e, devido a tudo isso, alguns fatos importantes de ordem
‘superestrutural’ como guerras e revoluções, determinam o caráter e a sucessão de
épocas ascendentes, de estancamento ou declinantes do desenvolvimento capitalista".3
Ou seja, para Trotsky as “curvas do desenvolvimento capitalista” com períodos
longos de ascensão e declínio existiam, mas não eram determinados endogenamente
como os ciclos curtos. Não eram determinados por leis da própria evolução econômica do
capitalismo, mas por outros fatores exteriores, relacionados à luta de classes (revoluções,
guerras), expansão (obtenção de novos territórios), ou evolução tecnológica. Tratava-se,
portanto, de outro enfoque para explicar os períodos longos, bem distinto de Kondratiev,
com uma outra determinação de causa e sem uma fixação rígida dos prazos.
Nahuel Moreno também aceitava a existência das ondas longas, relacionando-as da
mesma forma que Trotsky, a fatores que transcendem o automatismo dos ciclos menores,
como a evolução de novos ramos na economia.
Para Trotsky, não se tratava de uma questão menor em relação às perspectivas da
luta revolucionária. No terceiro congresso da III Internacional ocorreu um debate com
setores que, a partir de uma visão catastrofista da evolução do capitalismo, não
percebiam os sinais claros de reativação econômica e reestabilização política da
burguesia na Europa. Da apreciação de Trotsky (e Lenin) veio a defesa da tática de frente
única para ganhar as massas e preparar uma futura ofensiva.
Mas, além desta apreciação conjuntural, Trotsky também apontava que as
perspectivas de longo prazo seriam de uma curva descendente do capitalismo:
“A revolução de 1848, parcial e indecisa, varreu, contudo, os últimos restos do
regime de servilismo e de corporações e alargou a base para o desenvolvimento
capitalista. Unicamente nestas condições a expansão de 1851 pôde marcar o princípio
de uma época inteira de prosperidade capitalista que durou até o ano de 1873.
Podemos esperar que os mesmos efeitos sigam a expansão econômica de 1919-
1920? De maneira nenhuma. O alargamento da base de desenvolvimento capitalista nem
está em jogo aqui. Isto quer dizer que uma nova expansão comercial-industrial está
excluída no futuro? Também não! Já disse que enquanto o capitalismo permanecer vivo
ele continuará a inalar e expirar. Mas no período em que ingressamos - época de
retribuição pela sangria e destruição da guerra, época de nivelamento por baixo - toda
expansão só pode ter um caráter superficial e primariamente especulativo, enquanto as
crises tornam-se mais longas e profundas.
Em tal caso, o restabelecimento do equilíbrio capitalista sobre novas bases é
possível? Se por um momento – e só por um momento - admitirmos a falha da classe
operária em lançar-se numa luta revolucionária, permitindo à burguesia a oportunidade
de dirigir os destinos do mundo por longos anos - digamos duas ou três décadas – então
certamente algum tipo de novo equilíbrio será estabelecido. A Europa sofrerá
retrocessos violentos. Milhões de operários europeus morrerão pelo desemprego e pela
fome. Os Estados Unidos serão forçados a orientar-se ao mercado mundial, reconverter
sua indústria, retroceder por um período considerável. Por fim, depois que uma nova
divisão mundial do trabalho for estabelecida dolorosamente por quinze, vinte, vinte e
cinco anos, uma nova época de expansão capitalista poderia ter lugar.”4
Trata-se de um prognóstico que se revelou preciso. O capitalismo viveu um ciclo
descendente, que incluiu a sua pior crise na história, a depressão de 1929. Só depois
disso, viria um novo ciclo de ascensão capitalista.

4- A posição de Mandel

Ernest Mandel foi um dos dirigentes do Secretariado Unificado da IV e um dos


economistas marxistas de maior peso de sua época. Mandel tomou como base a posição
de Trotsky sobre as ondas longas, e deu a essa discussão uma contribuição importante ao
estabelecer a relação entre essas ondas e a evolução da taxa de lucros do capitalismo.
Existiria uma fase ascendente em períodos relativamente extensos de crescimento da taxa
de lucros, e uma descendente em caso de baixa.
Além disso, integrava os avanços da tecnologia na produção como parte da
formação da onda, relacionados não às descobertas em si, mas à evolução da taxa de
lucros: “Só quando já existe um clima econômico de maiores expectativas de lucros e a
realização de aumentos na taxa de lucros, os avanços tecnológicos podem dar um salto
da condição de apenas experimentos à sua transformação generalizada em produção
massiva”.5
Mas Mandel incorporou uma parte da visão de Kondratiev à sua avaliação das
ondas longas. Lembremos que este último entendia essas ondas como tendo uma
determinação semelhante às curtas, pelo qual foi severamente criticado por Trotsky.
Mandel, por sua vez, também associava a passagem de uma fase ascendente para a fase
descendente das ondas longas a mecanismos semelhantes aos dos ciclos curtos:
“Uma assimetria básica deve ser notada aqui entre a transformação de uma
“onda longa expansiva” para uma “onda longa depressiva” por um lado, e a inversa
entre “onda longa depressiva” para uma “onda longa expansiva”. A primeira é mais ou
menos automática; a segunda definitivamente não.
As razões para essa assimetria estão novamente ligadas à própria natureza do
modo capitalista de produção. Os efeitos cumulativos de expectativas de lucros
determinam decisões de investimentos das empresas individualmente, e a realização de
lucros pelas mesmas empresas determinam a taxa média de lucros, independente de
quaisquer outros planos, intenções ou previsões. Eles criam um movimento de longo
prazo em que o declínio cumulativo da taxa de lucros torna-se inevitável depois de uma
sucessão de ciclos econômicos. É secundário se para isso se necessita de dois, três ou
quatro ciclos, e isso pode variar de uma onda longa expansiva para outra. Em outras
palavras, as forças econômicas que operam a favor de uma expansão de longo prazo
devem se esgotar progressivamente por elas mesmas, mais ou menos da mesma maneira
que as forças que criam um boom capitalista devem esgotar os ciclos curtos normais.
Mas isso não é verdade para as condições de transformação de uma “onda longa
depressiva” em uma “onda longa expansiva”... Evidências históricas apontam
fortemente que choques sistêmicos exógenos foram necessários para ocorrer a reversão
de uma tendência histórica. Eles levaram em cada caso a uma expansão do mercado
mundial e a uma repentina mudança nas condições de acumulação do capital,
favorecendo esta acumulação. Os fatores que estimularam uma elevação de longo termo
da taxa de lucros foram a revolução burguesa de 1848 e a descoberta dos campos de
ouro da Califórnia mais ou menos na mesma época; um aumento radical de investimento
no mundo colonial e a descoberta dos campos de ouro da África do Sul depois de 1893;
os resultados cumulativos da contra-revolução fascista e da guerra ao redor de 1940”.6
Em outros textos posteriores, Mandel desenvolveu mais a evolução da luta de
classes na determinação da passagem da fase descendente para a ascendente. Só grandes
derrotas do proletariado poderiam impulsionar a burguesia a comandar processos de
crescimento a longo prazo, como a vitória do nazismo na Alemanha, o macartismo nos
EUA e o freio da revolução na Europa, que explicam o boom do pós-guerra.
Ou seja, Mandel busca fazer uma síntese entre Trotsky e Kondratiev. Um deles
(Trotsky) teria razão na passagem de uma fase descendente da onda longa para uma
ascendente (por fatores extra-econômicos), enquanto o outro (Kondratiev) teria razão na
passagem de uma ascendente para uma descendente (por fatores puramente econômicos).
Em nossa opinião, essa avaliação eclética (aliás, muito comum em Mandel) é uma
fonte de erros. Trotsky tinha razão em sua apreciação global das ondas longas, tanto em
suas fases ascendentes como nas descendentes. A evolução a longo prazo da taxa de
lucros é a resultante de uma combinação de processos puramente econômicos com outros
relacionados à luta de classes, evolução tecnológica e incorporação de novos mercados à
produção capitalista. Veremos a importância disso mais tarde.

5- A polêmica sobre a quinta onda longa


Entre os economistas que concordam com as ondas longas existe um acordo sobre
a existência de quatro grandes ciclos:
a) Fim do século XVIII até a crise de 1847, com uma primeira parte ascendente até
1823 e outra descendente de 1823 a 1847.
b) Da crise de 1847 à de 1893 com expansão de 1847 a 1873 e declínio de 1873 a
1893.
c) Desde 1893 até a Segunda Guerra Mundial na qual surge o imperialismo e se
aplica generalizadamente os motores elétricos na produção industrial. Essa fase inclui um
período ascendente entre 1894 e 1913, e decrescente de 1914 a 1939. Nesse período
ocorreu a grande depressão de 1929.
d) Desde 1940 (em alguns países desde 45) até 1966, o chamado boom de pós-
guerra, que seria a primeira parte ascendente de uma nova onda longa.
A partir do fim do boom do pós-guerra, Mandel e a maioria dos economistas
marxistas caracterizam a existência de uma onda longa descendente.
Realmente houve uma queda no ritmo de acumulação no final dos anos sessenta,
levando a uma redução do crescimento dos EUA de uma taxa de 5% entre 1947-66 para
1,9% entre 1966-75. Os países imperialistas europeus caíram de 8,9% para 4,6% e o
Japão de 9,6% para 7,9%.
Além disso, a crise de 1974-75 foi a primeira recessão generalizada dos países
imperialistas. Foi seguida por uma recuperação frágil, sem que o ritmo de acumulação
retomasse o nível da fase anterior. A taxa de crescimento dos EUA foi de 2,3% entre
1973 e 1981, enquanto a da Alemanha chegou a 2%, Inglaterra 0,5% e Japão 3,6%. Em
79, uma nova recessão, que se estendeu até 82. Isso fortaleceu a impressão de uma nova
onda longa recessiva se abrindo.
Mandel seguiu defendendo essa posição até sua morte em 1995. Muitos dos
economistas marxistas e historiadores estenderam essa definição até os dias de hoje. É
assim com Anwar Shaikh, um dos mais brilhantes economistas do último período, que
dedicou-se a demonstrar por evidências empíricas a lei de Marx da queda tendencial da
taxa de lucros. É assim com Immanuel Wallerstein: “O período de 1945 até hoje é um
típico ciclo de Kondratiev da economia-mundo, onde se pode distinguir, como sempre,
duas partes: uma fase A, flutuação para o alto ou expansão econômica, que se estende
de 45 a 67-73 e uma fase B, flutuação para baixo ou contração econômica que se
estende de 1967-73 até os dias de hoje, e que, provavelmente, continuará ainda alguns
anos”.7
O argumento básico de todos eles é de que mesmo nos períodos de auge
econômico recentes não se recompuseram as elevadas taxas de lucros do último período
da fase ascendente anterior, o boom do pós-guerra.
Mas esse tipo de avaliação choca-se com a realidade dos últimos trinta anos. A
globalização e a restauração do capitalismo nos antigos estados operários levaram a
importantes modificações na acumulação capitalista. Houve uma combinação particular
de elementos a favor da burguesia mundial que possibilitaram um aumento expressivo da
taxa de mais valia. Esses fatos se chocam com a caracterização de uma “onda longa
descendente”. É isso que vamos ver em seguida

8- A globalização como uma nova onda ascendente do capitalismo


A combinação entre a “globalização” da economia e a restauração do capitalismo
no Leste foram duas grandes vitórias do capital. Possibilitaram a extensão da dominação
direta do capitalismo a novos mercados e um grande aumento na taxa de exploração dos
trabalhadores.
Na verdade, a globalização é a manifestação de uma nova fase expansiva longa do
capitalismo, e não a continuidade de uma onda descendente, como dizia Mandel. Se
tomarmos como correta a avaliação de Trotsky sobre a evolução das ondas longas como
um resultado de fatores extra-econômicos, é possível identificar na globalização uma
onda ascendente. O capitalismo conseguiu impor derrotas importantes ao movimento
operário; uma expansão considerável com a restauração do capitalismo nos antigos
estados operários; dois avanços na produção com uma evolução tecnológica de grande
impacto com a informatização e a restruturação produtiva.
Tendo também em conta a posição de Trotsky ao polemizar com Kondratiev-
contra o “ ritmo rigidamente legal”- é possível entender que a fase descendente que
sucedeu ao boom tenha sido curta (final dos anos sessenta até a recessão de 79-82).
Quando se deram as condições extraeconômicas para um nova fase ascendente, ela se
impôs.
A evolução da luta de classes não teve uma importância secundária. O capitalismo
conseguiu superar os enfrentamentos que caracterizaram o fim do boom, com exceção de
sua grande derrota de 1975 no Vietnam. Mas o grande levante francês de maio de 68
terminou derrotado, assim como a revolução portuguesa de 75, e outros tantos
enfrentamentos na América Latina. Basta imaginar as consequencias de uma vitória
revolucionária na Europa significaria em termos de fortalecimento do poder de luta do
proletariado de todo o mundo, com seus reflexos na taxa de mais valia.
A mesma importância tem as derrotas das tentativas de revolução política na
Polônia e Tchecoslováquia, esmagadas pelas tropas russas, com sérias conseqüências
para todo o restante da história dos Estados operários. Essas eram revoluções políticas
bem semelhantes às descritas por Trotsky, que questionavam a burocracia e defendiam o
socialismo. Essas derrotas possibilitaram a posterior restauração do capitalismo.
Em termos políticos, a ofensiva imperialista impôs a democracia burguesa como
uma referência mundial, como “alternativa” às ditaduras stalinistas. Em termos militares,
os EUA (com a OTAN) transformaram-se em potência militar única, praticamente sem
concorrentes.
Uma nova ordem mundial foi estruturada, sucedendo Yalta e Potsdan (a ordem
vigente desde a segunda guerra mundial de “coexistência pacífica” entre o imperialismo e
a burocracia soviética). Os EUA já eram o imperialismo hegemônico, e com esta nova
ordem passam a ser os amos do mundo sem concorrentes. A isso foi associada a
gigantesca campanha de propaganda ideológica de “morte do socialismo”, apoiada nas
burocracias reformistas do movimento.
A situação reacionária da década de 90 teve assim uma forte base material com o
auge do neoliberalismo e a restauração capitalismo, assim como uma base política e
ideológica muito importante. Os planos neoliberais tinham apoio de massas (inclusive
nas privatizações) e a confusão ideológica reinava na vanguarda.
O capitalismo conseguiu então encontrar uma saída pela via de uma nova
combinação de planos econômicos e tecnológicos, com a globalização e a restauração do
capitalismo no Leste. E isso possibilitou a abertura de uma nova onda longa de
crescimento, que reverteu a queda da taxa de lucros que predominou na década de 70.
Essa é a prova da realidade que derrota a teoria de Mandel, da onda descendente
desde o fim do boom. A característica dos ciclos durante a globalização não tem nada a
ver com a descrita por Trotsky “ toda expansão só pode ter um caráter superficial e
primariamente especulativo, enquanto as crises tornam-se mais longas e profundas”. Ao
contrário, os periodos de auge foram maiores e se reestabeleceu a taxa de lucros.
O ciclo de crescimento de 1982 até 99 foi um dos mais longos do pós-guerra.
Segundo os dados de Michael Roberts, a taxa de lucros nos EUA, na década de 60, era de
15-20% das vendas antes dos impostos. A crise que se seguiu ao boom do pós-guerra
baixou essa taxa para 8-9% na década de 70.
Com os planos neoliberais, a taxa voltou a se ampliar, chegando a 10% em 89, e a
13% em 97. A taxa elevou-se 1,2% ao ano durante a década de 80 recuperando 7% de
sua queda anterior (dados de Shaikh para os EEUU). Perry Anderson aponta dados
semelhantes, afirmando que a taxa de lucro caiu 4,7% na década de 70 e voltou a
aumentar 4,4% nos anos 80.
Entre 1982 e 1991 houve um crescimento da economia mundial com uma taxa
média de 3,3% ao ano, o que se elevou na década de 90 a 3,4%. O comércio mundial
cresceu 5% ao ano entre 1982 e 1991 e 7,2% anuais entre 1992 e 2000.
Não houve uma recomposição das taxas de lucro do período do boom, mas o nível da
década de 70 foi claramente superado. É um erro mecanicista ter neste fato a justificativa
para caracterizar este período como uma onda “descendente”, como dizia Mandel e
afirmam até hoje seus seguidores.
Na verdade, se concordamos com a tendência histórica para a diminuição da taxa de
lucros definida por Marx, não poderíamos deixar de questionar este argumento de
Mandel. Essa queda teria de ser verificada entre duas ondas longas ascendentes ou não
ser confirmaria como tendência histórica.

9- A abertura de uma onda descendente


Podemos comprovar, então, a abertura de uma fase ascendente da onda longa
desde o início dos anos 80, coincidindo com a globalização, que se estendeu até a década
de 90. Já em meados dos anos 90 os limites dessa fase começaram a se expressar,
iniciando-se a transição para outra fase, descendente.
Começou com crises no México em 1994, depois nos “tigres asiáticos” e Rússia
(1997), no Brasil (fim de 1998), até chegar à crise cíclica generalizada de 2000-2001. A
taxa de lucros das empresas nos EUA caiu para 6% nessa crise.
As mobilizações antiglobalização, a eclosão de insurreições como no Equador
(2000) e a segunda Intifada na Palestina (2000) marcaram o fim da situação reacionária
da década de 90.
O imperialismo norte-americano deu uma resposta global para a crise econômica,
com um forte componente político-militar. Aproveitando-se do atentado terrorista contra
as Torres Gêmeas em 2001, Bush lançou sua estratégia claramente bonapartista de
“guerra ao terrorismo”.
A face militar veio com as invasões ao Afeganistão (2001) e ao Iraque (2003),
assim como a tentativa de golpe militar na Venezuela (2002). O plano militar original
incluía o Iran e outros países. Essas invasões e golpes garantiriam o domínio político e a
usurpação direta do petróleo.
O plano econômico de Bush para combater a queda da taxa de lucros apoiou-se no
estímulo à indústria armamentista e na redução dos impostos para as grandes empresas
nos EUA. Junto a isso veio a ofensiva para impor a ALCA na América Latina.
Ou seja, o plano político-militar do imperialismo implicava em impor derrotas ao
movimento de massas e retomar a relação de forças da década de 90, para garantir uma
saída duradoura para a crise, mantendo a fase ascendente da globalização. A contra
ofensiva de Bush conseguiu vitórias momentâneas, mas acabou seriamente derrotada.
O governo Bush conseguiu uma saída para a crise econômica dos EUA de 2000-
2001 com relativa rapidez. A recessão durou menos de um ano. A economia mundial
iniciou novo ciclo de crescimento, com a taxa de lucros nos EUA chegando a 12% anuais
de 2002 até 2006.
Mas as contradições agravaram-se rapidamente. Os gastos militares e o déficit
fiscal do país foram ampliados. Com isso, os EUA aumentaram sua dependência do
financiamento mundial ao necessitar de um fluxo de capitais de cerca de três bilhões de
dólares por dia para pagar o duplo déficit (comercial e fiscal).
Por outro lado, a crise econômica de 2000-2001 teve conseqüências muito mais
violentas nos outros países. Levou à explosão da economia argentina e à revolução de
2001, assim como às insurreições na Bolívia em 2003 e 2005. A crise do imperialismo e
as mobilizações acabaram por impedir a implementação da ALCA na América Latina,
como queria Bush, embora a pressão recolonizadora fosse mantida. Mesmo nos países
imperialistas europeus a classe operária começou a entrar em cena, com mobilizações de
resistência e greves gerais pela primeira vez em vários países.
Por outro lado, as invasões e golpes militares se voltaram contra o imperialismo. A
invasão do Iraque levou ao atoleiro atual, em que não pode estabilizar a situação e nem
sair de imediato, reconhecendo a derrota e entregando o petróleo. Isso desgastou Bush e
facilitou a vitória de Obama. O golpe na Venezuela foi derrotado por uma insurreição das
massas.
No último trimestre de 2007, a taxa de lucros da economia dos EUA novamente
caiu, demonstrando a chegada de uma nova crise cíclica de superprodução. A
especulação imobiliária foi a face mais visível da crise que rapidamente se estendeu ao
setor automobilístico. No primeiro semestre de 2008, a crise ampliou-se aos países
europeus. Em setembro, ocorreu o crack financeiro global.
A crise cíclica iniciada no final de 2007- começo de 2008 marca o início de uma
onda longa descendente. Se aceitássemos o que dizia Mandel, seria impossível interpretar
a situação atual, porque já estaríamos em uma fase descendente há mais de trinta anos.
Não existiria diferença de qualidade entre a situação mundial atual e a década de 90 com
o auge da globalização, o que se choca brutalmente com a realidade.
Agora se verifica também outro erro de Mandel. A passagem de uma fase
ascendente para outra descendente não se dá por fatores exclusivamente econômicos,
como ele afirmava. Caso a ofensiva militar e política de Bush tivesse sido vitoriosa, hoje
teríamos outra situação econômica, muito mais favorável ao imperialismo, que
possivelmente garantiria a continuidade da fase ascendente. O empantanamento crescente
no Iraque, a não implementação da ALCA, a resistência do proletariado europeu tiveram
sua participação na queda da taxa de lucros do imperialismo.
A caracterização dessa onda longa também nos possibilita polemizar com mais
clareza com os economistas burgueses sobre os limites da recuperação atual, como
veremos.

10- A polêmica atual sobre a dinâmica da crise


A recuperação parcial da economia imperialista no segundo trimestre de 2009 é um
fato. No entanto, isso não define o final da crise e nem muito menos. Caso estejamos
certos no diagnóstico de uma fase longa descendente que se abre, duas possibilidades
maiores surgem como perspectiva, todas eleas bem diferentes das avaliações
predominantes nos dias de hoje.
Uma delas é a de uma depressão igual ou pior que a de 1929. A outra hipótese é a
de uma crise recessiva forte que seja seguida por uma recuperação que não alcance o
patamar anterior, seguida de novas crises. Ou seja, a confirmação da característica de
Trotsky para este tipo de crise, com auges mais fracos e crises mais fortes, que podemos
chamar, usando um termo usado por Mandel e Moreno de “crise crônica”.
Para isso serve ter uma perspectiva mais ampla da crise, sem se perder na
conjuntura. Uma reativação parcial, conjuntural, não altera a linha base recessiva do
periodo. A nosso ver as duas hipóteses que apontamos ara a crise, desde sua abertura
(depressão ou crise crônica) seguem presentes.
A crise atual incluiu uma queda abrupta no quarto trimestre de 2008 e primeiro de
2009. Isso levou os professores Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em
Berkeley, e Kevin O’Rourke, do Trinity College, em Dublin a comparar essa queda com

de 29.
Segundo José Martins, os professores dizem que: “Entre as grandes potências, as
quedas atuais da produção na Itália, França e Japão, pela ordem, são nitidamente mais
catastróficas do que no mesmo ponto da Grande Depressão. Na Itália, por exemplo, a
velocidade atual da queda tem sido cinco vezes mais rápida que nos anos 1930 – onze
meses depois de iniciada a queda, em 1930 a produção industrial tinha caído cerca de 5
pontos percentuais. Agora, no mesmo intervalo de meses, já caiu cerca de 25 pontos. Na
Alemanha e nos Estados Unidos, as respectivas taxas de desabamento da produção
industrial acompanham bem de perto aquelas ocorridas no mesmo intervalo de tempo de
1929/1930. Isto também pode ser tomado como a demonstração que estas duas indústrias
nacionais (maior ênfase para a estadunidense) são verdadeiramente as indústrias
reguladoras mundiais.”
“Mas o volume do comércio mundial já caiu cerca de 15 pontos percentuais na fase
atual, frente a cerca de 4 pontos no mesmo estágio depressivo de 1930. Os anos 1930
estão marcados por inúmeras “recuperações” deste tipo. E tanto lá, como agora, os
capitalistas se apressam a decretar bombasticamente que “o pior já passou”, “a recessão
está terminando” e outras ilusões rapidamente desmentidas pela realidade do ciclo
depressivo.”

Podemos afirmar categóricamente que a evolução da economia mundial nesses 6 meses


foi semelhante (com elementos melhores e outros piores) a da crise 1929.
No entanto, uma das grandes diferenças entre a situação atual e a de 29 é a ação dos
governos imperialistas. Naquela época, o governo dos EUA deixou a crise correr, sem
nenhuma ação de peso anticíclica. Na situação atual os governos imperialistas de
conjunto injetaram uma soma recorde de dólares, que ninguém pode dizer contabilizar
com muita certeza. Existem cálculos que chegam a 13 trilhões de dólares, outros a 23,7
trilhões, ou seja, quase o dobro.
Isso evitou em primeiro lugar a extensão da quebradeira dos bancos incianada com o
Lehman Brothers. Posteriormente se conseguiu restabelecer o crédito interbancário, mas
não se retomou o crédito normal para os clientes, que continua extremanente restrito. Os
grandes bancos usaram também este afluxo de capitais para retomar o processo
especulativo, usando os fundos públicos para novas aplicações em todo o mundo.
Os reflexos na produção puderam ser sentidos no segundo trimestre de 2009. Existe uma
recuperação parcial e conjuntural na produção em alguns países imperialistas (Alemanha,
França e Japão) e outros como os BRICS incluindo China, Brasil, India e Rússia),
acompanhada da desaceleração da crise em outros (EUA -1º zona do euro -0,1%) . É
provável que a economia dos EUA já apresente crescimento no terceiro trimestre deste
ano. Estamos portanto, perante uma recuperação parcial da crise no segundo trimestre de
2009, depois de uma queda livre nos dois trimestres anteriores.
A recuperação na produção se deveu em primeiro lugar pelas encomendas
governamentais. Segundo a FSP “Mais de um quinto da atividade econômica entre abril e
junho teve como causa direta o gasto público, como o vinculado ao pacote de US$ 787
bilhões aprovado no início do ano pelo Congresso. A despesa estatal subiu 10,9% no
trimestre.” “Os investimentos empresariais, maiores fontes para a criação de empregos
em qualquer economia, também voltaram a cair, mas em ritmo bem menor. A queda foi
de 8,9%, ante 39,2% no trimestre anterior.”
Ou seja, existe uma ação direta, com a mão pesada do imperialismo, buscando articular
uma saída para a crise. A recuperação se dá essencialmente por dois motivos:
-investimentos do estado, enquanto os privados seguem caindo.
- um ataque brutal aos empregos e salários dos trabalhadores, simbolizado pelos acordos
automobilísticos.
Sobre este último ítem, é importante notar que o objetivo do imperialismo é utilizar a
globalização para atacar os salários e direitos dos trabalhadores dos países imperialistas,
rebaixando-os a escalas salariais cada vez menores de países semicoloniais. Os
trabalhadores dos EUA passariam a receber como os do Brasil, os daqui como da China,
etc.
É preciso reconhecer que o capital conseguiu uma enorme vitória com o acordo nas
montadoras dos EUA, como GM e Chrysler. Na GM, 21 mil trabalhadores foram
demitidos, foi permitida uma nova grade salarial que permite à empresa contratar novos
funcionários com um terço dos salários atuais, e se entregou o direito de aposentadoria e
o seguro médico dos operários. Houve uma primeira aproximação com os “índices latino
americanos”. Tudo isso, patrocinado por Obama e sem lutas.
Os reflexos do ataque do capital sobre os trabalhadores começam a se fazem sentir na
produção: nos EUA, demitiram 6,7 milhões de trabalhadores (desde dezembro de 2007) e
aumentaram a produtividade (6,4% no segundo trimestre), voltando a elevar
conjunturalmente a taxa de lucros.
Essa vitória parcial do imperialismo sintetiza a força e a orientação do capital para sair da
crise: apoio direito dos governos com credibilidade junto às massas, ataque brutal aos
direitos e salários dos trabalhadores. Mas não foi ainda suficiente para retomar os
investimentos privados, que seguiram caindo. Isso explica a recuperação parcial nesse
segundo trimestre , e por outro lado mostra seus limites.
A evolução da luta de classes terá uma importância na evolução concreta da crise. Até
agora, como fenômeno geral, o grau de ataque do capital sobre os trabalhadores foi
dramáticamente maior que o da resposta. A retomada da produtividade (um índice que
expõe o grau de exploração) seria golpeada por um auge na luta de classes.
A derrota sem luta dos metalúrgcos da GM e Chrysler constitui um crime de dimensões
históricas, cometido por uma burocracia sindical corrupta que agora passa a ser parceira
direta da exploração dos trabalhadores, com os sindicatos assumindo parcela das ações da
empresa. Em vários países do mundo, ocorreram lutas parciais, que chegaram até
paralisações gerais de um ou dois dias. Mas até agora, é bom que se diga, os ataques
seguem sendo bem maiores que as lutas. O proletariado dos países imperialistas vai se
levantar contra a perda de direitos históricos? Ou o papel das burocracias sindicais e
partidos reformistas vai se impor, entregando as lutas?
Essa recuperação parcial que acontece nesse momento torna a segunda hipótese (crise
crônica) mais provável que a primeira. Mas não exclui sequer a depressão como uma
evolução ainda possível.
Como vimos, a evolução da depressão de 1929 não foi linear, mas com o formato de
serra, e a linha base descendente. Depois da queda livre desde a “Quinta feira Negra” em
outubro, houve uma leve recuperação em meados de 1930, para logo em seguida retornar
a queda livre até 33. Aconteceu então uma recuperação importante, uma nova queda
abrupta entre 1937 e 38, e uma estagnação que seguiu até a entrada dos EUA na guerra
em 1940.
A recuperação atual poderia ser algo semelhante ao que ocorreu em meados de 1930, ou
uma recuperação anêmica dentro de uma crise crônica.

11- A evolução dos BRICs


Uma das estrelas da recuperação atual inclui o conjunto de países denominados BRICs
(Brasil, Russia, India e China), que são partes dessa recuperação em ritmos diferentes.
Será impossível tomar a discussão sobre esse grupo de países (ou sobre o Brasil em
particular) neste texto. Apenas é necessário localizá-los como parte desse processo
global. Esses países já demonstraram que não podem ser um “motor alternativo” da
economia mundial aos países imperialistas, como diziam esperançosos economistas,
incluindo algunas da esquerda. Todos os movimentos fundamentais da economia dessa
crise foram decididos nos principais centros financeiros imperialistas. Os BRICs, na
verdade, são as novas formas de submetrópoles do imperialismo. Países controlados
diretamente pelas grandes empresas multinacionais aí instaladas, que usam estes países
como plataforma de produção e exportação (utilizando sua mão de obra barata e matérias
primas) para os países da região. Com papéis diferenciados – Brasil com a produção de
commodities; China de produtos industriais; Rússia com petróleo, gás, matérias primas-
eles não têm nenhuma possibilidade de transformação em grande potência imperialista,
nem nada pelo estilo. Seu crescimento está estreitamente ligado à tôda a dinâmica da
economia imperialista.
A China tem neste grupo uma característica ainda mais especial, uma espécie particular
de submetrópole. Existem vários motivos para isto, como ter encarado a restauração do
capitalismo e também seu tamanho gigantesco. Mas existe uma razão especial, que é a
relação simbiótica com a economia norteamericana. As empresas multinacionais
ocuparam o país, exportando para todo o mundo, mas especialmente para o mercado dos
EUA. Extraem uma gigantesca quantidade de mais valia pagando salários miseráveis ao
proletariado chinês e reenviam uma parte considerável dessa mais valia sob a forma de
exportação de lucros para suas matrizes. Outra parte importante da mais valia é enviada
para os EUA através da compra pelo tesouro chinês de títulos do governo dos EUA.
Em junho deste ano, o governo chinês detinha a fantástica soma de 776,4 bilhões de
dólares em letras do tesouro nortemericano. Hoje a China depende do mercado dos EUA,
e o governo dos EUA depende do capital vindo da China para financiar seus débitos.
Não existe nenhuma perspectiva dos BRICs, ou da China em particular, ser uma
alternativa ao imperialismo norteamericano. Só acredita nisto quem não observa que a
determinação da economia chinesa é feita pelas multinacionais aí instaladas. Basta ver
que o governo chinês perde milhões de dólares todos os dias deixando quase um trilhão
dólares investido em letras que têm um rendimento negativo (com a depreciação do
dólar) só para manter a estabilidade da economia dos EUA.

12- As contradições não resolvidas da crise


Por sua dimensão histórica, a crise está aprofundando as contradições do estágio atual do
imperialismo. Vejamos algumas das mais importantes.

a- A crise de 29 se deu em pleno processo de afirmação da hegemonia do ascendente


imperialismo norte americano, sucendendo o decadente império inglês. Os EUA
detinham a maior produção industrial e eram os credores de todo o mundo. Depois da
comoção da segunda guerra mundial, o acordo de Brettom Woods legitmou essa
hegemonia oficializando o dólar como moeda universal, e a criação de um sistema
monetária afiançado por novas instituições como o Banco Mundial e o FMI.
A crise atual se dá no marco da decadência do imperialismo norteamericano, sem que
haja nenhuma outra alternativa hegemônica ascendente. Os EUA seguem sendo a única
superpotência militar e o maior centro financeiro do mundo. Não existe perspectiva de
um “novo Bretton Woods” no final da crise, mas o agravamento das características atuais
do imperialismo, com maior predominância do capital financeiro, redução salarial e de
direitos para os trabalhadores, maiores ataques aos países semicoloniais.

b- A gigantesca operação de salvamento dos bancos feito pelos governos imperialistas,


como vimos na minuta passada, serviu para frear a quebradeira do sistema financeiro e
dar o estímulo direto para a atual recuperação parcial.
Uma parte desse capital injetado é na realidade redistribuição de mais valia extraida de
várias partes do mundo e entregues aos banqueiros. Outra parte é diretamente ampliação
de capital fictício promovida pelos governos.
O déficit público dos países imperialistas está explodindo. Nos EUA, a Oficina de
Orçamento do Congresso, avalia que os juros na dívida nacional vão crescer de 172
bilhões de dólares neste ano a mais de 800 dólares bilhões anualmente em dez anos. O
déficit público dos países da zona do euro ultrapassará 1 trilhão de euros entre 2009 e
2010. De acordo com a OCDE, o déficit passará de 7,5% para 11,7% em 2010, e para
10,3% nos EUA. A dívida pública chegará perto de 85% do PIB europeu em 2010, deve
alcançar 140% do PIB das economias imperialistas em apenas cinco anos, esgundo o
FMI.
Essa festa um dia vai ter de ser paga com cortes nos serviços sociais e do funcionalismo
público. Mas, por suas dimensões inéditas, trouxe também para o horizonte, a
possibilidade de uma quebra no sistema financeiro internacional, ao ampliar brutalmente
o déficit público nos EUA e fragilizar ainda mais o dólar como moeda universal.
A decadência do imperialismo como um todo e dos EUA em particular, se aprofunda e
adquire contornos cada vez mais explosivos. O governo Bush, para escapara da crise de
2000-2001 ampliou os gastos estatais com armamentismo e reduziu os impostos para as
grandes empresas, transformando o superavit nas contas públicas em um gigantesco
déficit. Junto com o crescente déficit comercial, os EUA passaram a depender do
financiamento de todo o mundo para manter sua economia funcionando, aspirando uma
parcela crescente da mais valia de todo o mundo. O montante díario atinge a fantástica
soma de 3 bilhões de dólares por dia.
Agora, para tentar sair dessa nova crise, Obama (e junto com ele todos os governos
imperialistas), deram um novo salto nesse parasitismo. Com o déficit dos EUA dando um
salto vai ser necessário para manter a economia dos EUA funcionando uma quantia bem
maior da mais valia de todo o mundo. Entrou em ação uma espiral que pode ameaçar o
conjunto do sistema financeiro e o dólar como moeda de reserva internacional.

c- A globalização, como dissemos antes, significou um salto na internacionalização


do capital. As multinacionais ampliaram em muito a produção em plantas localizadas em
países semicoloniais, modificando a divisão mundial de trabalho. Antes eram grupos
empresariais com uma base nacional e implantação de filiais nos países cujos mercados
queriam ocupar. Com a queda das barreiras alfandegárias ocorrida na globalização, as
multinacionais passaram a eleger alguns países onde estabelecer suas plantas industriais e
a partir daí exportar para o mercado mundial ou regional. As indústrias automobilísticas,
por exemplo, fabricam motores num país, caixas de câmbio em outro, as carrocerias num
terceiro e vendem para o mundo inteiro.
Isso tem consequencias importantes na dinâmica da atual crise. Em 1929, por
exemplo, os governos imperialistas reagiram ao início da crise com fortes medidas
protecionistas. Em maio de 1930, o presidente dos EUA Herbert Hoover aprovou uma
lei, o Ato Tarifário Smoot-Hawley, que aumentou as tarifas alfandegárias em 20 mil itens
de artigos estrangeiros, para proteger a indústria norte americana. A reação foi imediata
nos outros países imperialistas com medidas semelhantes. O resultado foi uma queda
abrupta do comércio mundial e o aprofundamento da depressão.
Nessa crise, existiram algumas medidas protecionistas dos governos imperialistas,
como o “buy american” do governo Obama, seguida por outras semelhantes de governos
europeus. Mas nada semelhante ao que ocorreu em 29. E isso tem a ver com a
globalização. Não tem sentido para os EUA impedir a importação de produtos fabricados
por plantas de grandes empresas norteamericanas instaladas em outros países, como a
China, por exemplo. Isso se aplica também dentro do próprio EUA: entre as recentes
medidas para incentivar a compra de carros novos, foi dado pelo governo um bonus de
cinco mil dólares para trocar carros velhos por novos, e as empresas japonesas instaladas
em território norte americano foram as que mais venderam.
Outra consequencia dessa internacionalização da produção é o bloqueio a uma
alternativa do tipo “desenvolvimento pelo mercado interno” para os países semicoloniais.
Em 1929 isso realmente ocorreu. Naquela época, ao se enfraquecer o imperialismo pela
crise, se abriram espaços para o crescimento industrial em países semicoloniais. Foi o
momento em que economias como a brasileira e argentina, que tinham um grande peso
na produção agrícola, dessem saltos em sua industrialização. Agora, com a economia
mundial muito mais globalizada e ocupada pelas multinacionais, o espaço para este tipo
de desenvolvimento é muito mais reduzido. O crescimento poderá ocorrer, mas a taxas
limitadas e anêmicas, tanto pela restrição nas exportações como pela ocupação desses
países pelas multinacionais.
13- A evolução da crise e a luta de classes
Como já vimos existe uma estreita relação entre a dinâmica da crise e a luta de classes.
As fases descendentes anteriores foram muito diferentes. Uma delas (1914-1939) foi
muito profunda e incluiu a depressão de 1929. Outra foi muito mais rápida (fim dos anos
sessenta até 1982). Ambas, no entanto, produziram violentas comoções sociais e políticas
antes de passarem a novas fases de ascensão.
Os anos 30 foram marcados pelas revoluções francesa e espanhola, assim como pelo
último grande ascenso operário nos EUA. A derrota dessas revoluções pela traição do
stalinismo abriu o caminho para a contra-revolução nazi-fascista.
Os anos que seguiram ao final do boom econômico do pós-guerra foram marcados pelo
grande ascenso revolucionário de 1968, que incluiu grandes levantes derrotados como o
Maio de 68 francês e a revolução portuguesa de 1974, mais uma vez contando com a
colaboração fundamental do stalinismo. Ocorreram tentativas de revolução política na
Tchecoslováquia e na Polônia, esmagadas pelos tanques russos do stalinismo. Inclui
também a primeira derrota militar do imperialismo norte-americano no Vietnã, que gerou
a última revolução socialista vitoriosa.
O que a história nos ensina não levaria a uma visão mecânica: “crise é igual a revolução”.
Nem sempre as crises são parteiras de revoluções e muito menos de revoluções
vitoriosas. Mas, por outro lado, não há revoluções sem crises. O que se abre agora é um
período marcado por uma crescente polarização social e política, com viradas bruscas e
muita instabilidade.
O imperialismo, para sair dessa crise, terá, como em todas as outras, que descarregá-la
sobre os ombros do proletariado e dos países semicoloniais. Isso terá sérias
conseqüências sociais e políticas em todo o mundo. Pode ser que isso signifique grandes
lutas nos países imperialistas (inclusive nos EUA). Pode ser que existam explosões nos
países em que ocorreu a restauração (como a Rússia e a China). Os governos de frentes
populares e nacionalistas que se aproveitaram do crescimento econômico, agora terão que
administrar uma forte crise econômica, o que vai lhes trazer um enorme desgaste e crises
políticas.
A força da campanha de propaganda imperialista do “fim do socialismo” estava
apoiada numa importante base material pela fase ascendente e o crescimento econômico
da globalização. Já existiu uma reversão parcial deste processo com a crise de 2000-2001
e as insurreições da América Latina. Mas agora se abre toda uma crise ideológica brutal
no campo imperialista, que recorre a estatizações parciais para socorrer empresas
financeiras em falência, e vê a crença no “livre mercado” derreter com o crack. É hora de
associar as lutas concretas dos trabalhadores para enfrentar a crise com a retomada das
bandeiras do socialismo.
Não está definido que essa crise seja a parteira de revoluções vitoriosas. Pode ser
que isso ocorra, assim como também podem acontecer vitórias da contra-revolução,
como o triunfo do nazifascismo acompanhou a crise de 1929. Mas estará colocado o
desafio de enfrentar grandes comoções sociais e políticas como oportunidades
revolucionárias.
1
- Leon Trotsky, La curva del desarrollo capitalista, em: Criticas de la Economia Política, Ed. Latinoamerica, 1977
2
- Leon Trotsky, Os cinco primeiros anos da Internacional Comunista, Informe sobre a crise econômica mundial e as
tarefas da Internacional Comunista, 1921, www.marxists.org
3
- Leon Trotsky, La curva del desarrollo capitalista, em: Criticas de la Economia Política, Ed. Latinoamerica, 1977
4
- Leon Trotsky, Os cinco primeiros anos da Internacional Comunista, Informe sobre a crise econômica mundial e as tarefas
da Internacional Comunista, 1921, www.marxists.org
5
- Ernest Mandel, The international debate on long waves of capitalist development: an intermediary balance sheet, em:
Alfred Kleinknecht, Ernest Mandel & Immanuel Wallerstein (eds), New Findings in Long-Wave Research, St. Martin’s
Press, 1992
6
- Idem
7
- Immanuel Vallerstein, Mundialização ou época de transição?, 2001

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