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SERIE MUNICÍPIOS

fBiblioteca^ 'de ESTUD(JS]

7Flu m in en ses f

HERVÉ

SALGADO

RODRIGUES

— CAMPOS —

Na Taba dos Goytacazes

Com “ Na Taba dos Goytacazes' a Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro dã início à “ Série

Municípios ” da Biblioteca de Estudos Fluminenses, um projeto destinado à divulgação da História do Estado do Rio de Janeiro e à preservação de sua memória. Seu autor, o jornalista Hervé Salgado Rodrigues, presença significativa e atuante na Imprensa campista na última metade do século, oferece uma visão abrangente do desenvolvimento do município de Campos, desde suas origens até nossos dias, aqui e ali interrompendo a narrativa para uma análise dos fatos sob o ângulo de sua própria

formação humanística.

não poderia deixar de ser, o autor se transforma em personagem, a partir de certo período, interpretando e explicando muitos episódios que testemunhou. O que certamente enriquece o presente trabalho, registrando o dia-a-dia de uma Campos

Como

contemporânea, ainda não abordada pelos historiadores convencionais.

Na Taba dos Goytacazes

Rodrigues, Hervé Salgado

Na Taba dos Goytacazes. Imprensa Oficial, 1988.

Niterói:

340 p.

(Biblioteca de Estudos

Fluminenses, Série Municípios)

1. Campos (MUN) — História. I. Tí­ tulo.

CDU 93 (815.3)

HERVÉ SALGADO RODRIGUES

Biblioteca de ESTUDOS

Fl u m in e n se s

Série Municípios

Na Taba dos Goytacazes

Niterói

Imprensa Oficial

1988

Sumário

A Biblioteca de Estudos Fluminenses

Na Taba dos Goytacazes Prefácio em tom de Mana Chica

Pórtico

Goyatacamopi -

Campos das Delícias

0 índio goitacaz

Pero de Góis Gil de Góis e os "Sete Capitães"

7

9

11

13

15

17

19

22

0

começo da opressão

25

Surge a Vila de Campos

29

Os padres, os índios, os colonos

31

A

saga de Benta Pereira

34

0

brejo, o

lavrador e a vila

39

0

ciclo do açúcar

43

Figuras de destaque do século XVIII

46

0

século

XIX

49

Enchente

de 1833 quase destrói a vila

54

Campos — Cidade

55

Visita do Imperador

58

Agitação em Campos

62

0

caso Motta Coqueiro

66

Os grandes naufrágios

70

Correios e Telégrafos

73

O

drama da cana

74

0

sonho

emancipacionista

75

A

epidemia de 1855

78

Campistas na Guerra do Paraguai

80

0

bonde de burro

84

"Ponte Municipal": a lenda e a verdade

86

O suicídio do Barão da Lagoa Dourada.

88

Bancos e sociedades

89

A

luz de gás

91

A

estrada de ferro e a navegação

92

0

canal de Campos —Macaé

97

0

esplendor campista

98

Pedro II em Campos

103

Campos, pioneira na luz elétrica

104

 

campanha abolicionista

108

O

Liceu de Humanidades

116

O

campista, esse desconhecido

123

0

carnaval campista

128

Santa Casa de Campos

133

Conseqüências

da Abolição

137

A

República

140

0 drama da água e esgotos

143

A

virada do século

146

Lacerda Sobrinho, o panfletário 1904: mudança na política

A luta pelo porto de mar

A grande enchente

A peste bubônica

Sedição popular Tecidos e goiabada Briga no teatro Feydit sai da prefeitura

1911-1912: dois anos de novidades 1913-14: consolida-se o futebol Tempos de guerra Bondes elétricos Padre Achilles: fanatismo e sangue

152

156

162

165

168

171

173

176

178

181

184

187

190

194

A "hespanhola"

 

197

Erradicação da malária

200

A

estrada líquida do Paraíba

203

0 grande feito do futebol

 

207

Um campista na primeira copa do mundo

211

Década de 20

213

Duas figuras

219

Final dos anos 20

221

A

revolução de 30

224

São Paulo em armas contra a ditadura

 

227

Década de 30

229

Entra em cena o integralismo

231

0

centenário

234

Da platéia para o palco

 

235

Sangue na Praça São Salvador

239

0

golpe "integralista"

244

Os

prefeitos do Estado Novo

247

A

Segunda Guerra

249

Cai o Estado Novo

 

252

Presença do teatro

255

0 "teatricidismo", uma contradição

263

A música

266

Natação e remo

271

Bola ao cesto

274

Ciclismo

277

0

turfe

278

0

açúcar

285

A

igreja,

"casa dividida"

294

Os

cursos superiores

297

"Capital brasileira do petróleo", um título incômodo

 

299

Tênue luz no final do túnel

302

Esquisitas posturas dos campistas

305

Instituições culturais, artísticas e literárias

309

Personalidades

316

A Biblioteca de Estudos Fluminenses

Resgatar a memória histórica do Estado do Rio de Janeiro é o objetivo desta Biblioteca de Estudos Fluminenses, projeto que o Dr. José Augusto Guimarães idea­ lizou, quando de sua passagem pela Presidência da Imprensa Oficial, e que mereceu imediato apoio do Governador Moreira Franco. Cabe-nos a honra de dar-lhe conti­ nuidade, inaugurando uma nova série, especificamente dedicada á história dos mu­

nicípios fluminenses. Não é uma idéia nova. Lançou-a, quando Interventor Federal no Estado, o en­ tão Comandante Ernani do Amaral Peixoto, a quem devemos a edição de obras mo­ numentais, como "A Terra Goytacá", de Alberto Lamego, e outras que hoje consti­ tuem autênticas raridades bibliográficas. Nelas se baseia ainda agora a maioria dos historiadores, pesquisadores ou simplesmente estudiosos de nossa história, o que diz, por si só, de sua importância. Não foge aos objetivos do atual projeto a reedição dessas obras. Todavia, en­ tendemos ainda mais necessária a divulgação de trabalhos mais atuais, direta ou in­ diretamente vinculados a um caráter didático, dada a beneditina pobreza bibliográfi­ ca acerca de nossa história regional. Especialmente no que toca aos municípios, te­ ma de currículos escolares desde o primeiro grau, caso em que as informações dis­ poníveis a professores e alunos são de excessiva e perniciosa generalização. A Biblioteca de Estudos Fluminenses é, por isso mesmo, um projeto aberto a historiadores, professores, universitários, autores didáticos e pesquisadores em ge­ ral, identificados com seu propósito primeiro: o de reunir e divulgar o maior volume possível de informações sobre a história fluminense, deste modo preservando — e valorizando — a memória e a grandeza do passado e das tradições do Estado do

Rio de Janeiro.

HEfíVAL BAZlLIO

Diretor-Presidente da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro

Prefácio em tom de Mana Chica*

JOSÉ CÂNDIDO DE CARVALHO

Quer Hervé Salgado Rodrigues que seja eu o mestre-sala de Na Taba dos Goy­ tacazes, as MiI e Uma Noites de Uma Cidade, de um povo e de um temperamento. Cá entre nós, nunca invenção me tocou tanto como esses esplêndidos escreveres que Hervé fez com açúcar e com afeto. Em verdade vos digo que montado no Na Taba dos Goytacazes voltei aos meus verdes anos. Foi como se pegasse o telefone e ligasse para a minha infância, para os dias das melindrosas, do charleston, do tan­ go argentino, do gramofone e do aeroplano: os anos loucos de 20 abriram as asas sobre nós.

Mas foi nas dobradiças de 1930, já com charuto de Vargas no Catete, que co­ nheci Hervé Salgado Rodrigues de óculos grossos, morando na Rua do Gás, en­ quanto eu habitava uma rua famosa: a Rua do Aquidabam. A metade era de moças de casas abertas e outra metade ocupada por famílias de respeito, gente de bigode de pontas viradas como o do meu padrinho João Fonseca, honrado corretor de açú­ car na praça de Campos dos Goitacazes. Tenho, por tudo isso, uma admiração de cabresto por esses outroras de Hervé Salgado Rodrigues, um moço magro que usa­ va óculos e jogava um futebol de cintura fina e de fintas à Ia Garrincha. Nesses dias os mestres da bola eram muitos, desde Amaro Silveira a Mário Seixas. Amaro Sil­ veira passava em minha rua com a sua mala de carapina e aos domingos usava po- lainas. E foi de polainas que participou de vários selecionados. Daria uma obra-prima ao futebol brasileiro, o atacante Amarildo, campeão do mundo, como campeão do mundo foi o campista Didi, que parecia um rei africano. De manto e coroa.

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Mas tudo isso é conversa fiada para falar do grande, do belíssimo livro que Her­ vé de 1988 escreveu sobre sua terra e sua gente: Na Taba dos Goytacazes. É uma bela aventura através dos anos, desde o primeiro bugre que saiu dos pântanos ao campista de hoje, poderoso em cima de suas usinas e orgulhoso do petróleo dos seus mares. Nunca, nem mesmo Alberto Lamego, que foi o mestre de todos nós, descreveu o campista, da serra ou da baixada, como Hervé descreveu — às vezes Sancho Pança, às vezes D. Quixote, felizmente para nós mais D. Quixote que San- cho Pança. E de suas páginas, todas maravilhosamente bem escritas, saem casas, gentes, bichos, terras e águas. Mas principalmente homens, como, por exemplo, Joaquim Silvério dos Reis, dono de milhares de escravos e senhor de sesmarias sem fim, mas tudo — terras e escravos — tratado a pão-de-ló. Joaquim Silvério dos Reis

*

Mana Chica è uma espécie de minueto do negro campista.

Biblioteca de ESTUDOS FLUMINENSES

foi um latifundiário, não do tempo dos bugres, mas do século XX. Não sei se era um campista grrtão, ao jeito do povo da baixada. Agora, gritão para ninguém botar defeito foi outro campista histórico, José Bernardino Batista Pereira, ministro impe­ rial duas vezes, da Fazenda e da Justiça. Não levava desaforos para casa. Certa tar­ de, em reunião ministerial, Pedro I, com todo o seu mando e esplendor, quis que seu ministro da Fazenda pagasse umas contas que não estavam no orçamento. Jo­ sé Bernardino rebateu dizendo que eram contas irregulares. Mas Pedro, do alto de seu bigode, ordenou que fossem pagas. José pagou. Tempos depois, em novo despacho ministerial, Pedro, batendo no ombro do seu ministro, disse rindo:

Então, afinal de contas, pagamos as dívidas, não?

E José Bernardino:

— Paguei do meu bolso para não deixar que meu príncipe fosse chamado de caloteiro.

Mais tarde, subindo a Quinta da Boa Vista para novo despacho, soube que a audiência havia sido transferida por estar Pedro / tirando os melhores proveitos das partes alta e baixa da Marquesa de Santos. Jogando a pasta em cima da mesa impe­ rial, o campista de pavio curto pediu demissão do cargo:

— Não volto amanhã nem depois. Não volto nunca! Tempos mais para diante, numa das crises imperiais, Pedro mandou chamar, em suas terras de Itaboraí, onde havia plantado o primeiro engenho a vapor da Amé­ rica do Sul, o campista ilustre para ocupar importante cargo nos conselhos do Impé­ rio. E José Bernardino para o portador:

— Diga a D. Pedro que agradeço. Mas honra de ministro é como honra de don­

zela. Uma vez perdida, perdida está para sempre. Mais alto do que a vontade do Imperador, subia a fumaça do engenho de José Bernardino Batista Pereira. 0 mesmo digo deste excelente Na Taba dos Goytaca­ zes. Muito mais alto do que as torres do petróleo e muito mais do que as chaminés das usinas do massapê campista, sobe este livro de Hervé Salgado Rodrigues. Per­ manente e imortal.

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Na Taba dos Goytacazes

Cabe-me, por dever de ofício, na qualidade de Presidente da Imprensa Oficial, apresentar este primeiro volume da Biblioteca de Estudos Fluminenses, Série "M u­ nicípios". Mas, em se tratando desta obra e deste autor, falam-me mais alto os de­ veres do coração. Li o livro, com a emoção do campista que sou, repassando nos arquivos da me­ mória a lembrança daquelas tradições heróicas dos Campos dos Goitacazes, das lu­ tas e bravura de sua gente, defendendo, em pleno medievalismo do período colo­ nial, a autonomia da velha Vila de São Salvador. E reacendendo nas pupilas a ima­ gem de fatos que testemunhei e pessoas que conheci, pessoas e fatos que o rolar dos anos tornaram integrantes da história de minha terra. 0 autor, ele próprio, é personagem dessa história, que aqui vai descrevendo não com os rigores técnicos do historiógrafo, mas com a acuidade e paixão do jor­ nalista, que jornalista foi e continua sendo. Integra-se à escola dos memorialistas ou cronistas, na acepção mais antiga deste termo, mas foge à frieza típica dos me­ ros registros, especialmente quando, como ele mesmo diz, passa de autor a ator das cenas que retrata. "Na Taba dos Goytacazes" é assim, um livro que caminha pela história de Cam­ pos, desde seus primórdios até, praticamente, nossos dias, permitindo, pela conti­ nuidade cronológica, uma visão global do desenvolvimento urbanístico, social, eco­ nômico e político da "Pérola do Paraíba” . Tem, entre outros méritos, este de apa­ nhar uma Campos contemporânea, que o clássico Alberto Lamego não alcançou nos alentados volumes da "Terra Goitacá". E, sem ser didático, é uma obra que abre as portas para elaboração de outras especificamente destinadas ao ensino da histó­ ria campista, item tão importante quanto mal tratado de nossos currículos escola­ res, desde o primeiro grau.

HERVAL BAZlLIO Diretor-Presidente da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro

11

Pórtico

Este não é exatamente, segundo os condicionamentos da historiografia, um li­ vro de História. Palavras são seres vivos, já repetia o imortal Hugo, poeta de "Lé- gende des Siécles". E, como seres vivos, umas são simpáticas, outras não o são, dependendo do gosto pessoal. Por exemplo, implico com a palavra achegas. Admi- to que seria a mais adequada para este "relatório", mas não a emprego em função dessa gratuita antipatia. Esclarecimento se torna necessário para definir como "reportagem à moda an­

tiga" este trabalho, como que o desclassificando como História legítima. Acontece que é opinante demais, talvez exagerando o dever de interpretar o fato, o episódio,

o sucedido de maior realce, é certo que não chegando a aceitar totalmente o exage­

ro da definição caricatural, gerada pela malícia dos políticos: "O importante não é propriamente o fato em si mesmo, mas a sua versão". Mas é o mestre José Honório Rodrigues quem sentencia: "Nenhum historiador pode deixar de pronunciar seu julgamento. Quem não julga exerce uma função me­ nor: reúne documentos, compila, faz crônicas. Nenhuma objetividade implica uma neutralidade de eunuco". E menciona o historiador alemão Gerhard Ritter: — "Quem quiser fazer história será obrigado a julgar". (O grifo é nosso) Talvez, é verdade, tenhamos exagerado no exercício da prerrogativa de opinar, de julgar. Nos últimos 55 anos focalizados da História de Campos neste trabalho, de fato se estabelece certa confusão, porque aí o estilo, já chegado ao memorialísti- co, como que tumultua e desequilibra os cânones da historiografia. A explicação/jus­ tificativa seria a de que nesses dez lustros os principais episódios ocorridos na terra campista encontram o autor não na platéia, mas no palco. A começar pela sua atua­ ção político-ideológica de 1934 a 1937, e depois pelo fato inarredável de 45 anos de jornalismo, dos quais 40 como diretor-proprietário de jornal, dispondo, assim, de ab­ soluto arbítrio no dizer, no contestar.

Outros historiadores, cujas obras reduzem as dimensões desta a uma simples e desataviada digressão, evitaram a interpretação dos eventos e de exarar sentenças que pudessem ser reformadas em posteriores instâncias. O mais desprovido de re­ cursos é justamente o que enverga a toga do juiz e parte temerariamente para o me­ lindroso ofício de julgar.

O subtítulo deste trabalho procura uma defesa prévia ao defini-lo não como li­ vro de história mas como um trabalho jornalístico. Fala em reportagem à antiga, ou seja, do jornalismo dos anos 39/40, quando o repórter não era proibido de ingres­ sar no clima da reportagem, numa interação vedada pelo tecnicismo da posterior

e presente Comunicação Social. Em dado momento o autor investe pelos territórios arriscados das especulações, cedendo ao envolvimento de seus dramas de consciência, em sua dorida adesão a movimento ideológico. A desculpa é a de que esse drama pessoal não foi apenas seu, mas de toda aquela geração em disponibilidade espiritual/ideológica, aturdida

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de dúvidas e perplexidades. 0 pecado permanece, foi conservado, mas será apenas venial, com direito a um trânsito pelo purgatório tolerante do juiz/leitor. 0 clima de pessimismo talvez desagrade, mas o autor recusa o uso de óculos cor-de-rosa, em condenável e inútil escapismo: não se julga com direito de desfocar imagens, retocando-as com pinceladas azul-firmamento, quando cá por baixo a pai­ sagem é desolada, tanto a humana como a ecológica. Mas o pessimismo não é irre- corrível: descortina-se um pingo de luz no fim do sombrio túnel. Eça de Queiroz,

o nosso "pobre homem de Póvoa de Varzim", também castigava a Portugal, reuni­

do com aqueles que a si mesmos se nomeavam os "Vencidos da Vida", mas essa postura mal escondia um grande amor ao Velho "jardim à beira- mar plantado", des­ botada canastra recheada de glórias imperecíveis, marcando a presença de rudes

e gloriosos navegadores na História Universal. Momentos há, ao longo desta simples reportagem, em que se ascendeu acima de surradas chinelas. Escusas são necessárias, com vista aos antropólogos, pelo atrevimento leigo. Nada além de ênfase jovem de jornalista setentão, imprudência que carrega em si mesma esperança de simpática absolvição. Mais de uma vez o autor extrapolou do objetivo em si mesmo para abordar con­ trovertidos episódios de nível nacional, cedendo a impulsos quase levianos de resga­ tar erros históricos, segundo sua ótica pessoal. Outro pecado que comete, refletin­ do, entretanto, natural e até certo ponto respeitável inconformismo com distorções acionadas por eventuais interesses políticos daqueles períodos. Não há coerência cronológica em relação ao ponto final desta reportagem coli- madora de dimensões um tanto mais altas. Alguns assuntos chegam até estes dias, outros são freados bem antes: cacoetes do autor Este, repetimos, é um trabalho jornalístico, que outra coisa não foi o autor em toda a sua vida senão um profissional da Imprensa. Veso facilmente identificável na preponderância da interpretação sobre a pesquisa mais acurada. Trocando em miú­ dos: escrito redigido "em cima da perna", a modo de pressão do relógio. Se chegar a ser julgado como contribuição válida, muito bem. De qualquer forma, um dever cumprido.

Campos, agosto de 1988

HERVÉ SALGADO RODRIGUES

Goyatacamopi- Campos dasDelícias

O homem branco, vencidas as restingas e as "línguas de areia", destroçando tabuas a facão e derrubando bambuzais, "destampa" a paisagem e queda-se exta­ siado. É uma visão paradisíaca. Simão de Vasconcellos descreve: - "Sam umas Campinas Fermosíssimas, dalgumas vinte ou mais léguas d'espaço, quase toda tam raza como o Mar; tam verde, enfeitada e retalhada da Natureza, que parecem outros Campos Elysios e sam chamados de Campos dos Goytacazes, há neles formosas Alagoas e huma de tanta grandeza que no meio delia mal se encherga a Terra d iu ­ rna parte d'outra" (Lagoa Feia). Imensa planície a qual os naturais deram o nome de Goyatacamopi e que o branco invasor traduziu como Campos das Delícias, ver­ são nova e passada a limpo dos "Campos Elysios".

Muita água, brejais e alagadiços. 0 homem branco sentiu o desafio e decidiu enfrentá-lo. Era o pioneiro campista, gente impetuosa e forte, membruda e da caran- tonha temível, os mais ousados navegantes do mundo. As "Fermosas Campinas" quase que eram o Belo Horrível. Três quartas partes d'água e uma de terra. Só a Lagoa Feia tinha 32 quilômetros de comprimento e 24 de largura. Outras 13 lagoas eram enormes e ciclópicas poças d'água interrompendo o verde vivo das planícies sem fim. — "Centenas de lagoas, de brejais e alagadiços; charcos intermináveis,

chupados pelo sol e que se alagam depois sob chuvaradas"

mego, "O Homem e o Brejo"). Obstáculos naturais: a Lagoa Feia, o Oceano, os brejais, a mataria. Era muita água, tanta que Frei Vicente do Salvador disse que os índios da região, os "Aitaca- zes" (Goytacazes), eram "gentios que vivem mais à maneira de homens marinhos que terrestres". A Leste e a Oeste, o Oceano. A barra de Atafona, arenosa e bravia. E os rios. O Parayba ("rio das águas claras" do idioma nativo), caudaloso, "trans- bordante e devastador". O Muriaé, segundo curso d'água caudaloso, que os índios tinham como "Buieé"; o Imbé, o Itabapoana, o Ururaí, o rio Preto, o Urubu, o Opi­

nião, o Macabu. O homem branco sentiu o desafio e decidiu enfrentá-lo. Diante da Lagoa Feia, um mar de água doce e escura, reflexo do seu fundo de massapê, encrespada pelos ventos sudestes, ele sentiu a grandeza. Suas águas escuras foram responsáveis pelo seu nome, ainda ameaçadoras por suas "marolas" que eram verdadeiras ondas. Mas os peixes tingiam de prata aquelas águas escuras e pingavam pontas de beleza na­ quelas águas medonhas. 0 "Goyatacamopi", "Campos das Delícias", era defendido bravamente pelos próprios instrumentos da Natureza. Eram o brejo, os alagadiços infestados de jaca­ rés, mas também de uma infinidade de aves aquáticas e coloridas. Mas essas planí­ cies "quasi tam razas como o mar"eram defendidas ao Norte e ao Oeste pela flores­ ta espessa e emaranhada, onde pontificavam os bichos grandes, comandados pela feroz onça pintada. A Leste ou para o Sul, esbarravam-se na Lagoa Feia ou no de­ serto das restingas, no rumo do mar.

(Alberto Ribeiro La-

— "Uma pequena Finlândia tropical" — diz Alberto Ribeiro Lamego. Região

paradisíaca, mas inconquistável, segundo Frei Vicente do Salvador, porque, além

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da natureza agreste e selvagem, os índios "Aitacazes" defendiam o seu paraíso con­ tra qualquer estranho invasor. Como se fosse de ontem a Criação, os seres que ali viviam, homens e animais, pareciam feitos de argila e de barro. Eram assim, os primeiros tempos, o "Goyatacamopi", osJ'Campos das Delí­ cias", que o branco português encontrou por aqui. 0 meio era ao mesmo tempo hostil e benfazejo. O natural, o seu habitante, o que ocupava (porque o índio não se considerava proprietário de terras), vivia em comunhão com a Natureza. Era feito de argila, como se tivesse saído, naquele instante, das mãos do Criador. O Brejo não lhe causava danos, nem lesava a sua saúde. As "alagoas" eram tantas que por desfastio ele podia fazer rodízios — a sua faina meio brincalhona e onde supria a sua boca. A capivara, a paca, o tatu, o veado, a carne saborosa. De vez em quando e para se divertir, enfrentava uma onça preta, armado apenas com um forcado. Vi­ viam nus, misturados ao barro, à argila, à tabatinga. Eram gigantescos deuses pa­ gãos, feitos de barro, vivendo num paraíso selvagem, feito de rios caudalosos, ala­ goas,' brejos e matarias espessas.

0 pioneiro campista enfrentou o desafio. Dominou o Brejo, o bravo índio Goita- caz e enfrentou a Malária. E plantou uma Civilização em cima do Brejo.

O índio goitacaz

Uma nação índia ocupava os "Campos das Delícias". 0 qualificativo de "Na­ ção" é adequado porque não se tratava de uma simples tribo secundária. Os goita- cazes ou goitacaz (Alberto Lamego afirma que goitacazes é uma redundância por­ que goitacaz já é plural) estão relacionados por Martins Von Den Steiben e Rodolfo Garcia, segundo Alberto Ribeiro Lamego, entre as oito ou nove nações-troncos dos indígenas do Brasil, juntamente com os tupi-guaranis, Jês, Aruaques, Caraíbas e outros. Dominavam o litoral do Cabo de São Tomé ao Cabo Frio e toda a planície dos Campos dos Goitacazes.

(Nenhuma nação índia era mais fascinante, porque nenhuma mais discutida e misteriosa. Cada historiador ou viajante descreve o índio goitacaz de maneira dife­ rente. Para uns praticavam a antropofagia, para outros não. Tinham um idioma dife­ rente do tupi-guarani, ou falavam língua comum dos dominadores dos fracos Tapuias. Mas todos estão de acordo com o seu tipo físico e com o seu modo de vida. Eram mais altos e um pouco mais claros que os outros indígenas. Raspavam os ca­ belos na fronte e os deixavam crescidos até à cintura. Viviam em estreito convívio com os pântanos e brejais e segundo frei Vicente do Salvador eram "gentios que viviam mais à maneira de homens marinhos que terrestres Dominavam 100 léguas marinhas e todo o vale do rio Paraíba até Minas Gerais. "Eram os mais terríveis ín­

dios dos

de carne humana, de cujos ossos fazem grandes montes em seus terreiros". Gabriel Soares, entretanto, que os localizou um século antes, afirma o contrário: — "Este

gentio tem a cor mais branca do que os que dissemos atrás

e tem diferente lingua­

gem". Confirma que eles "nam curavam de roças e criações", vivendo da caça e da pesca, que matam a flechadas "porque são grandes flecheiros". E continua: — "Nem são muito amigos de comer carne humana". Andavam completamente nus homens e mulheres. Habitavam choças de pa­ lha, meio ao feitio de palafitas, fundadas cada qual sobre um esteio de pau metido na areia, "por mor segurança de seus contrários, cercados sobretudo de matas es­ pessas, rios e charcos inacessíveis". Dormiam no chão sobre folhas. E para entrar em suas choças tinham que se curvar. — "Não tinham redes nem camas, nem enxoval porque toda a sua riqueza consistia em seu arco". Estes, seus arcos, eram de maiores dimensões do que o co­ mum dos outros indígenas só tendo iguais nos dos índios da Amazônia. Viviam no meio das águas das lagoas, córregos e do rio Paraíba. Mas, só bebiam água de ca­ cimbas, guiados naturalmente pelo instinto de evitar a malária. E enterravam seus mortos em "igaçabas", urnas funerárias feitas de barro. E de onde vem o seu nome? Martius afirma que goitacá significa "corredores da mata". Batista Caetano diverge, citando o verbo tupi "aquanatar, ligeiro marcha- dor". Varnhagem, fincando pé no verbo "guaté" (andar), traduzia como corredo­ res. E de fato todos são unânimes em classificá-los como velocíssimos. A ponto de caçar animais velozes "a cosso", que significa correr mais do que eles e tombá-los, agarrando-os pelo pescoço, e nisso se incluem até os veados.

Brasis" — informa Simão de Vasconcelos. E acrescenta: — "Tragadores

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Mas José Geraldo Bezerra de Menezes, profundo conhecedor do idioma tupi,

— homem, índio, gente;

dá-nos outra etimologia. A palavra seria oriunda de "gua"

"ytá", nadar; e "quaa", saber, dando ''guaytaquaa''. Portanto, índios que sabem nadar, nadadores.

Vale levar em conta, entretanto, os resultados das pesquisas de um médico cam­

pista, radicado em Nç>va Iguaçu, contemporâneo, e que levou anos a fio pesquisan­

Manhães, afirmando que os goitacazes não eram

da raça tupi, falavam um idioma diferente e o seu nome lhes foi posto pelos seus inimigos, os Aimorés, que os temiam. "Goya", prefixo de goiamum, caranguejo gran­ de, do brejo; tacá, lembrando tacapé (Taca pé, tupi), portanto matar. "Goyatacá, caranguejo grande que come ou mata gente", é o resultado das pesquisas desse médico contemporâneo, radicado em Nova Iguaçu. No brejo, como enormes caran­ guejos, os goitacazes eram imbatíveis. E os Aimorés sabiam disso, e eram por eles derrotados.

do o índio goitacaz. É o dr. J.

C.

b índio goitacaz não admitia o cativeiro e por isso foi exterminado. Reis de Por­ tugal ordenavam verdadeiras caçadas usando até canhões. Era uma luta inglória,

o

índio nu e armado apenas de arco e flecha, contra o português, de gibão de couro

e

armado de arcabuzes e de canhões inclusive. 0 índio goitacaz, não aceitando a

escravidão, foi se embarafustando pelas florestas, fugindo da crueldade do branco.

De vez em quando iam à forra, destruindo currais e engenhocas e enfrentando pali­ çadas. Usavam flechas envenenadas e acometiam de surpresa, atacando sonolen­ tos sentinelas nas paliçadas dos currais e dos pequenos engenhos, movidos a água ou por animais.

Mas foram vencidos e exterminados. E o português foi importando escravos africanos. O negro era necessário porque o goitacaz não se rendia nem diante da extrema crueldade do branco. No entanto eram os índios que tinham a fama de cruéis como os descreveu Knivet: — "Seu porte sujo e asqueroso, o olhar feroz e a physio- nomia brutal fazem delle o povo mais odioso do Universo". Ora, isto não combina com a maneira cordial com que os "Sete Capitães" foram recebidos por eles. De­ sembarcaram na praia do Farol e foram adentrando até que se encontraram com os índios e entre eles estavam "quatro homens de nossa massa", ou seja, brancos. Foram recebidos fidalgamente e alimentados. Os brancos contaram que eram 11, vítimas de um naufrágio e que estavam ali há dois anos, tratados caridosamente pe­ los goitacazes.

Assim era a fascinante nação goitacaz. Mas não temos nada que lembre a sua presença altiva nas planícies dos "Campos Elísios". Nenhum vestígio. Um museu que o monsenhor Severino começou a organizar no antigo Orfanato São José, e onde nós, meninos, vimos um enorme arco, bordunas e flechas, tudo desapareceu.

Pero de Góis

Pero de Góis, o primeiro branco que tentou colonizar esta região Campos —S. João da Barra, foi uma das figuras mais destacadas do século 16, no início da colo­ nização do Brasil. Grande chefe militar, guerreiro nato, era "um dos moços capi­ tães" que faziam parte da frota Martim Afonso de Souza. Com o irmão de Martim Afonso, Pedro Lopes de Souza, percorreu todo o litoral sul, enfrentando piratas fran­ ceses e holandeses, colocando marcas do reino português em terras do Prata, para além do estabelecido pelo Tratado de Tordesilhas. Como prêmio aos serviços prestados, El-Rei João III doou a ele a Capitania de São Thomé do Cabo, "50 légoas de costa", desde as terras da Capitania do Espírito Santo de Vasco Fernandes Coutinho até a Capitania de São Vicente, de Martim Afon­ so de Souza. Pero de Góis armou em Lisboa uma frota bem aparelhada e fez viagem para tomar conta de sua Capitania, trazendo o seu irmão Luís de Góis. Aqui chegando, em 1539, fundou uma povoação ao sul da barra do Itabapoana (rio "Managé"). Levanta uma capela, a que dá o nome de Santa Catarina, em homenagem à Rainha e ao povoado deu o nome de "Villa da Rainha". Da Capitania de São Vicente trouxe cabeças de gado, sementes, mudas de cana. Cuidou de viver pacificamente com os goitacazes e o conseguiu. Com escaramuças, vez em quando, porque os índios não eram muito amistosos. E os seus homens também não eram gente de tão boa índole. O costume era mandar para o Brasil a escória de criminosos e degredados, toda a espécie de aventureiros que não temiam nada nem a ninguém. Em quatro anos ele construiu uma vila próspera, com a casa da Câmara e case­ bres de taipa. Era a Vila da Rainha, que já produzia seu açúcar e lavouras "para que quando vier gente ache o que comer". Resolveu, então, voltar a Portugal para anga­ riar mais recursos, entusiasmado com a fertilidade da terra. A sua competência de administrador e de agricultor surpreende em quem era um soldado, um homem de armas. — "Depois de me vir a largar no rio Paraíba a nossa fazenda que fazíamos, determinei ver as águas que nesta terra onde fico havia e Luiz de Góis ao presente estava, as quais em andar andei perto de dois meses, por ser a terra cheia de arvore­

dos"

Em Lisboa, 1545, consegue a adesão a seus projetos do judeu "cristão novo" Martim Ferreira, que entra de sócio no negócio. Ele havia deixado tomando conta de tudo a Jorge Martins. Mas na volta, já apetrechado com muitos recursos, tem uma dolorosa surpresa. Encontra tudo arrasado. Jorge Martins não fora muito feliz no relacionamento com o índio goitacaz e a Vila da Rainha fora destruída totalmen­ te. Tudo arrasado quando já havia uma produção regular de açúcar e gado. A au­ sência do chefe desencadeara uma série de atritos entre os brancos e os índios: Jor­ ge Martins não tinha pulso forte. Mas Pero de Góis era de ânimo forte e teimoso. Decidiu voltar à luta e recons­ truir tudo. — "Sou de ânimo forte" — disse ele — "E vou reconstruir tudo". E cum­ priu sua palavra. Construiu casas, penetrou 10 léguas para o interior, fez nova po­ voação, não abandonando a primeira que voltava a prosperar. — "Faço eu cá no

O índio goitacaz, porém, vigia desconfiado, diz Alberto Ribeiro Lamego.

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mar dois engenhos de cavallos, que moi um delles para os moradores, e outro para nós somente" — relata ele em carta a seu sócio, Martim Ferreira. E conta, dentro de um ano e meio "mandar um par de mil arrobas de açúcar nosso, destes enge­ nhos, e daí para diante mais". Pede ao sócio 60 negros da Guiné como escravos e reclama contra a má qualidade do ferro que o judeu lhe envia.

E quando tudo ia bem, o futuro se desenha radioso, sobrevêm a desgraça. A costa era infestada de piratas e existe até lenda ou história verdadeira, que a ilha da Convivência (Atafona) era refúgio e reduto de piratas holandeses. Um desses corsários, mas ao que parece português, seqüestra um cacique goitacaz e apesar

de receber o resgate exigido dos índios entrega-o a seus piores e implacáveis inimi­ gos, os Aimorés, que o devoram. Então os índios, possuídos de grande fúria, se le­

"toda quanta artilha­

vantam. E atacam o povoado, queimam os canaviais e tomam ria havia".

Pero de Góis tenta resistir e investe com sua gente. Mas eram milhares de ín­ dios que "assim no mar como eu estava, se via tudo alevantado para me matarem e toda minha gente". Diante da luta desigual, faz-se ao mar com quantas pequenas embarcações dispunha.

Os guerreiros goitacazes vencem a guerra. — "Fiquei com um olho perdido, (foi atingido por uma flechada) de que não vejo, e bem assim perdidos quinze anos nesta terra; porém mais sinto ainda a perda que dei a homens que em mim confia­ ram". E assim foi destruída a "Villa da Rainha" e os engenhos dágua de Itabapoana, "onde fiz muito boa povoação, com muitos moradores, muita fazenda, a qual, a el- les e a mim, custou muito trabalho por ser pela terra a dentro". Ele escreve a D. João III: — "Eu, Senhor, tenho mãe e três irmãs, que lá deixei, e como não tenho nada de meu, nem meus avós deixaram mais do que aquillo que Deus e V. Alteza me fez mercê, mantenho-as com muito trabalho de minha vida e pessoa".

Na última luta com os índios perdeu nada menos de 25 homens, mas consegue fugir para a Capitania do Espírito Santo, onde o Donatário, Vasco Coutinho, lhe em­ presta embarcações para voltar a Portugal.

Fracassara a instituição das "Capitanias Hereditárias". O Reino resolve, então, estabelecer um governo central para o Brasil-Colônia. Escolhe Tomé de Souza, um fidalgo de estirpe, de 45 anos. E tem que andar depressa porque já os franceses do­ minam o litoral brasileiro, contrabandeando pau-brasil e fazendo relacionamento amis­ toso com os índios.

Tomé de Souza forma enorme frota. São seis embarcações: três naus, uma ca­ ravela e um bergantim. Mais de mil pessoas, 320 nomeados e recebendo salários. 600 militares, fidalgos e degredados. O equivalente a "Ministro da Justiça" era o Ouvidor-Mor, seu irmão, Pedro Borges. Pero de Góis vem com ele como coman­ dante de toda a esquadra para o Brasil, no comando da caravela "Leoa".

Não se sabe ao certo do paradeiro de Pero de Góis, depois de que, junto com Tomé de Souza, regressou a Portugal. Teria sido encarregado de mais duas missões no Oriente, possivelmente na índia.

Afirmam uns que morreu em São Paulo, em São Vicente. Outros em terras de sua família, em Portugal. Mas segundo Alberto Lamego (Terra Goytacá), Diogo do Couto fala da "morte heróica do valente capitão de um dos navios da Armada de

Na Taba dos Goytacazes

André Furtado de Mendonça chamado Pero de Góis, ocorrida em princípios de 1600, por ocasião do ataque à fortaleza de Cunhale, defendida pelos mouros". Se foi mes­ mo Pero de Góis devia estar muito velho para combater em guerras.

21

Gil de Góis e os “Sete Capitães”

Abandonada por Pero de Góis, a Capitania de São Thomé ficou à mercê de es­ cravos fugidos e criminosos que tinham a proteção dos índios. E só no início do sé­ culo XVII, mil e seiscentos e pouco, fazia sua entrada em cena — querendo também ser nome de rua na futura cidade de Campos — um filho do "Soldado-Lavrador", de nome Gil de Góis da Silveira, que residia então em Madri e era casado com a espanhola D. Francisca dei Aguilar Manique. Obtendo a confirmação de que era her­ deiro da Capitania, ele a reclamou. E associando-se a João Gomes Leitão, tomou posse das terras, fundando outra povoação, a Vila de Santa Catarina das Mós. Um detalhe: uma dessas "mós" (moendas de pedra), a mais valiosa relíquia his­ tórica de toda a região, foi emprestada pelo prefeito de São João da Barra em 1955, ao Museu do Açúcar de Recife, e até hoje não foi devolvida. Gil de Góis tentou viver bem com os índios e prosseguir a obra do pai. Mas já era um tanto velho e sem a energia do grande chefe militar. Além disso, para agra­ dar mais os índios, adotou uma menina que batizou e a quem deu o nome de Catari­ na. Quando atingiu a idade de 13 anos, a índia já exibia formosura de mulher feita, no clima tropical a adolescente com saúde se torna mulher cedo. Catarina não esta­ va muito acostumada a roupas e sempre uma nesga de seu corpo moreno e sensual aparecia, despertando desejos nos homens que acompanhavam Gil de Góis. E ele próprio começou a sentir-se tentado pelos dotes plásticos da índia. Deu-se, então, o inevitável.

E o velho português cedeu aos encantos da morena, tornando-a sua amante. Não conseguiu, entretanto, esconder a ligação dos olhos ciumentos da espanhola D. Francisca, sua esposa. E esta, aproveitando uma viagem do marido, amarra a morena num tronco e a chicoteia. Abandonada desfalecida, a índia consegue fugir e chega junto aos seus, toda ensangüentada. Os índios se levantam em fúria. E arra­ sam novamente o núcleo implantado, seus canaviais e engenhos. Gil de Góis foge, espavorido, contente de estar vivo. Não tendo recursos nem a fibra do seu antecessor, decidiu renunciar à Capitania em favor da Coroa e junta­ mente com sua mulher passou procuração a Antônio Diniz, residente em Lisboa, sendo a escritura passada em março de 1619, recebendo ele 2005000 (duzentos mil réis). Diz Alberto Lamego ("Terra Goytacá" pág. 34 do volume 1,°) que em "língoa de negro", como está na mesma escritura, a Capitania já era denominada de "Pa- rahyba do Sul".

Enquanto isso, várias tentativas partidas de Cabo Frio (Cabo Frio é muito mais antiga do que Campos) de contato com os índios goitacazes eram repelidas. Falham os trabucos e os arcabuzes, e então os colonos de Cabo Frio, onde a maior autorida­ de era o Capitão-Mor Estevão Gomes, apelam para o processo desumano de deixar nas clareiras das matas roupas usadas por doentes que haviam morrido de varíola. Então surgem os jesuítas em ação. Em 24 de setembro de 1619, os padres João de Almeida e João Lobato, de Cabo Frio, partem corajosamente ao encontro dos índios indomáveis. João Lobato, com 80 anos, cometera a proeza de viajar do Rio a Vitória, pela cordilheira dos Aimorés, acompanhado apenas por dois índios man­

Na Taba dos Goytacazes

sos de São Vicente, incrível proeza, atravessando matas, acossados por onças e ou­ tros bichos bravios. Agora os padres conseguem ser bem recebidos pelos índios. Estão abertos os portais do Paraíso. Outros pescadores a ele se juntaram em 1622. Lourenço Maria do Espírito Santo partia de Cabo Frio, com mulher e pequeno gru­ po, velejando até a praia de Atafona. E, então, segundo Alberto Ribeiro Lamego

("Ó Homem e o Brejo", pág. 94 da 2.8 edição), "a atual vila de Atafona seria assim

a mais antiga povoação da planície". Não tinha esse nome e acontece que "Atafo­

na" não pertence ao idioma índio, mas é árabe, significando moinho ou moenda de

mandioca. Mas a fatalidade atingiria a família de Lourenço do Espírito Santo, tendo sua

esposa morrido afogada no Pontal, "lugar junto à barra, no qual as águas do rio misturam-se com as do mar". Acabrunhado, ele abandona a foz e dirige-se mais para o interior, três quilômetros e perto de uma elevação edificou uma capela de

barro e madeira, sob a invocação de São João Batista. Corria o ano de 1630. Nascia

a povoação de São João do Paraíba do Sul, e mais tarde — a partir de fins do século

XVIII — denominada São João da Barra (João Oscar, "Apontamentos para a Histó­

ria de São João da Barra"). Abandonada a Capitania de Paraíba do Sul, sete homens que vinham de prestar

grandes serviços à Coroa, nas lutas contra os franceses e seus aliados Tupinambás

e Tamoios, ao saberem que o governador Martim de Sá havia recebido ordem do

Reino para dar por sesmarias as terras das capitanias abandonadas, requereram as compreendidas entre o Rio Macaé e o Cabo de São Tomé, sendo-lhes concedidas em 19 de agosto de 1627, "segundo a nossa necessidade de gado" (sesmarias eram terras incultas, abandonadas. Légua de sesmaria tinha 3.000 braças ou 6.000 me­ tros). Os "Sete Capitães que vão assim dar a partida para a futura Vila de São Sal­ vador dos Campos dos Goitacazes são Miguel Arias Maldonado, Gonçalo Correia, Duarte Correia, Antônio Pinto, João de Castilho, Manoel Correia e Miguel Risca­ do". Alguns eram senhores de engenho na cidade do Rio de Janeiro e ganharam

o título de "Capitão" nas lutas contra os franceses. Maldonado é o repórter dos sete. O que faz o relato dos episódios. "A conces­

são era-lhes feita pra a criação do gado e sob a condição de si levantassem enge­ nhos, pagarem ao donatário o foro que competia e o dízimo ao Mestrado da Ordem de Cristo". ("Campos dos Goitacazes em 1881", José Alexandre Teixeira de Mello.)

A colonização de Campos dos Goitacazes se deveu, portanto, à "necessidade de

gado" do Rio de Janeiro. Os capitães se reuniram em Cabo Frio, em 2 de dezembro de 1632, e acompanhados de dois índios domesticados, vaqueiros, que trouxeram de São Vicente, partiram em sua primeira expedição exploratória. O "Roteiro dos Capitães", relato histórico de Maldonado, é citado por Augusto de Carvalho, em seus "Apontamentos para a História da Capitania de São Tomé". É um documento longo, firmado pelo próprio punho de Miguel A. Maldonado, em 21 de fevereiro de 1661. Julio Feydit, em seus subsídios para a História dos Campos dos Goitacazes, transcreve a sua maior parte. Eles haviam adquirido alguns touros novos e poucos escravos e partiram, passando por Macaé e deste povoado prosseguem com um in­

térprete para o rumo nordeste. Mas a saga dos "Sete Capitães" é muito barulho por pouca coisa. Eles não tive­ ram a energia necessária para explorar seus domínios. Em breve abandonariam tudo e as terras iriam cair nas mãos do General Salvador Correia de Sá e Benevides, o primeiro dos Asseca.

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Mas a viagem prossegue. E eles se defrontam com a Lagoa Feia, o "grande mar de água doce" como os índios chamavam em seu idioma. No Farol de São To­ mé têm o seu primeiro encontro com um grupo maior de índios goitacazes. E a sur­ presa: com eles já havia 11 brancos, vítimas de naufrágio e que já viviam há dois anos com os índios, sendo quatro marinheiros e sete degredados, portugueses to­ dos (Southey diz que eram ingleses, mas se o fossem o Maldonado teria feito refe­ rência). E Maldonado descreve assim o primeiro encontro: — "Nisto chegaram to­ dos de arcos e flechas, o seu maioral na frente, acompanhado de quatro homens de nossa massa (brancos) estes nos saudaram junto com o maioral pelo seu bello

"Nisto o maioral dirigiu ordem para todos recolherem os arcos debaixo

do braço, e todos bateram palmas e abaixaram as cabeças, o maioral se dirigiu ao intérprete, que nos fizesse saber que não reparássemos virem de arcos, pois não sabiam e viriam outros que os viessem atacar". Desmente-se aqui, pois, a fama de ferocidade e canibalismo dos índios goitacazes. Dois currais são erguidos e nasce assim a pecuária em Campos, que para isso, para abastecer o Rio de Janeiro de gado, as sesmarias foram concedidas. O primeiro curral, em 8 de dezembro de 1633, em Campo Limpo. Levantam uma choupana de palha para o índio vaqueiro Valério Corsunga, vindo com eles de São Vicente, efa seu cuidado ficam três novilhas, uma vaca e um touro. A 10 de dezembro fundam um outro curral na ponta de São Tomé, com cinco novilhas e um touro, aos cuida­ dos do escravo Antônio Dias, como curraleiro. E o terceiro, de São Miguel, aos cui­ dados do índio Miguel.

modo"

É o ciclo do gado, como começa a História de Campos. A notícia das vastas planícies com pastos nativos se espalha pelo Rio de Janeiro. E desperta a cobiça de capitalistas, que adquirem quinhões. Em breve começaria a gadeia a fazer longas viagens no rumo do Rio de Janeiro, e ainda não se fala em açúcar. E iam começar grandes lutas na planície, entre os descendentes dos "Sete Capitães", chamados de "Heréus", e demais pioneiros, colonos-vaqueiros e vaquejadores das boiadas pri­ mitivas. E depois iria começar o odioso domínio dos Asseca.

O começo da opressão

O gado se multiplica pela pradaria que parecia predestinada, até então, para a pecuária. Mais para o norte, à margem esquerda do grande rio, era a floresta quase impenetrável, onde a onça pintada exerce o seu poder e os índios que ainda não aceitaram o convívio com os brancos e não se tornaram vaqueiros se refugiam. O branco, na sua maior parte maltas de aventureiros e ex-criminosos, gente rude e de têmpera, ainda não tem meios de derrubar florestas, o que só vai acontecer à época dos engenhos, do advento do açúcar e do canavial. É a criação do gado a grande e única atividade do pioneiro campista. Porque tudo facilita a pecuária. Água é que não falta e campinas nativas. Só o ecossistema, a formação da Natureza, desde as nascentes da colonização dos "Campos das Delí­ cias", não enseja a formação de latifúndios, de grandes propriedades. Aliás, não exis­ tem praticamente "propriedades", porque também não existem cercas. O gado vive solto, reproduzindo-se de maneira espantosa, dando trabalho enorme para ser controlado. O criador não é um "barão do gado". Trabalha com família e não tem recursos para adquirir escravos. Consegue interessar alguns índios pela atividade de vaquei­ ro, a única que aceitam, e a proliferação do cavalo segue a do gado. Em breve gran­ des gadeias seguem para abastecer o Rio, não raro quatro mil cabeças, caminhando pelas trilhas, em viagens penosas até o grande centro. Eram um número grande de pequenos criadores, "gente que não tem terras ou muito poucas". Apenas quatro fazendas maiores "criadeiras": em trinta e tantas boiadas a caminho do Rio, apenas 10 procediam das quatro grandes fazendas. Os primeiros criadores não tomam cui­ dado senão de erguer uma palhoça, sem precisarem adquirir terras, pois as campi­ nas eram abertas, sem cercas e o gado se reproduzia livre (José Carneiro da Silva, "Memória Topográfica e Histórica sobre os Campos dos Goitacazes", edição de 1819, citado por Ribeiro Lamego). A multiplicação do gado nas imersas pradarias é assombrosa. Surge o "gado do vento", denominação pitoresca do gado sem dono, meio selvagem, passando à propriedade do primeiro que lhe põe a sua marca. Tanta facilidade desperta a cobiça do capitalista do Rio, já senhor de engenhos por lá. Dos "Sete Capitães", só dois de interessam pelo negócio do gado, assim mesmo meio a distância. Os outros permanecem no Rio, à frente dos seus enge­ nhos e arrendam quinhões a interessados. Surge, então, a grande figura do General Salvador Correia de Sá e Benevides, governador do Rio de Janeiro, fundador da dinastia dos Asseca. Figura extraordi­ nária de líder, sem escrúpulos de nenhuma espécie, dotado de uma ambição sem medidas, sua vida é uma sucessão de atos de rapina e de violências. Achava que seus feitos militares, "Aqui e Além-mar", lhe concediam mais imunidades para avançar no erário público e na propriedade alheia sem o menor constrangimento. Vários in­ quéritos e devassas foram requeridos em sua administração no governo do Rio de Janeiro, os quais conseguia abafar e os denunciadores é que iam para o degredo. Um deles é João Pinto, um dos Sete Capitães, o que parece explicar muita coisa.

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Como governador, instalou uma balança no porto e tudo que entrava de mercadoria tinha que pagar tributos a ele e não ao governo, assim como uma varanda para ven­ da de escravos, percebendo ele (e não o governo) uma taxa para cada escravo negociado.

Saindo airosamente de uma devassa ordenada por El-Rei, volta ao governo do Rio de Janeiro. É Membro do Conselho, General da Frota do Brasil, Administrador de Minas e São Paulo, o grande Restaurador de Angola. Possui privilégio para o embarque do açúcar, todos tendo que lhe pagar tributos. Pretende de El-Rei a doa­ ção de 100 léguas de Santa Catarina ao Rio da Prata. A sua ambição não tem limi­ tes. Chega a formar uma excursão para ir a encontro da lendária Serra das Esmeral­ das, que se reduziu a uma porção de pedrinhas verdes sem valor, nas mãos crispa- das de Fernão Dias Paes Leme, agonizando de malária no sertão adentro. É um dos homens poderosos do Brasil, senão de todos o maior. E é esse ho­ mem que o "heréu", o verdadeiro e o autêntico pioneiro campista, pobre miserável, com sua palhoça, sua descarnada mulher e seus filhos barrigudos pelos vermes e pelo paludismo, terá que enfrentar, tentando resistir à prepotência de seus descen­ dentes, na faina que lhe é herança atávica. Salvador Correia de Sá e Benevides é o precursor, aqui no Brasil, do político corrupto, sem escrúpulos e de uma audácia terrível, adquirindo tudo com fortunas ganhas nas negociatas e que tem a prepotên­ cia que o dinheiro fácil lhe concede, atuando sempre nos negócios ou na política com uma absoluta falta de ética e de honestidade. Voltando as suas vistas para o Campos dos Goitacazes, assessorados por pa­ dres da Companhia de Jesus (jesuítas), que no fundo misturavam religião com ativi­ dades de uma grande empresa comercial, armou um golpe para se apossar das ses­ marias dos Sete Capitães. Alberto Lamego e Julio Feydit transcrevem, na íntrega, a longa escritura de "composição” , firmada pelo General Salvador e oito padres da Companhia de Jesus, de um lado, e do outro só dois dos Sete Capitães, Miguel A. Maldonado e Antônio Pinto, sendo que o primeiro através de Procuração passada ao Prior do Mosteiro de São Bento. Escritura longa, propositadamente redigida para confundir, carregada de fraudes e de ilícitos, tendo sido Maldonado coagido a assiná- la. Essa escritura de "composição" é o começo do grande drama de Campos, a gê­ nese do domínio dos Viscondes de Asseca, família de que o General Salvador Cor­ reia de Sá e Benevides foi o fundador, e dos padres. A escritura traz a data de 9 de março de 1648 e por ela todos os terrenos dos campos foram divididos em 12 quinhões: 4,1/2 para os capitães e seus herdeiros, denominados de "heréus"; três para o General Salvador; três para os padres da Companhia de Jesus; uma para o capitão Pedro de Souza Pereira; e meio para os frades de São Bento. Nada menos de oito sacerdotes subscreveram a "escritura de composição", uma autêntica e legí­ tima fraude e vigarice. E começa assim a tirania sobre os "heréus", exercida pelos Asseca e pelos padres jesuítas, beneditinos e carmelitas. Em 1650 o General Salvador funda o primeiro engenho. Vai começar o "ciclo do açúcar", depois das tímidas e malogradas tentativas de Pero e de Gil de Góis. Também Minas tinha entrado no negócio do gado, fazendo concorrência no abaste­ cimento do Rio de Janeiro, e o campista, afinal, descobriu o "massapê", o solo his­ tórico e ecologicamente predestinado para a cana-de-açúcar. Em 1652, a primeira tentativa da fundação da Vila. Antes, em 1649, os pioneiros haviam erguido a primeira igreja, coberta de palha, no local onde hoje é a Igreja de São Francisco. Mas em 1652, já a povoação com 70 moradores e estes, represen­ tando ao Ouvidor de Cabo Frio, João Velho de Azevedo, e com a anuência do go­

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vernador do Rio, lograram ver deferida a sua petição de fundar a "Vila de Sam Sal­ vador dos Campos". Foram, então, eleitos os oficiais da Câmara e empossados. Mas os grandes proprietários de terras, residentes no Rio, representaram ao Ouvidor, di­ zendo que as terras de Campos lhes pertenciam e pedindo que os seus moradores fossem expulsos. João Velho de Souza obedeceu, ordenando logo aos oficiais da Câmara que mais não se reunissem e não usassem suas insígnias, e que no prazo çle oito dias despejassem as terras. Estava travada a luta entre os "heréus", os que, mercê de muitas lutas e sofrimentos, desbravaram as terras e enfrentaram os índios e o brejo, e os que se arvoraram em donos de todos os Campos dos Goitacazes. E aí surgia a figura do primeiro líder do povo campista, o capitão André Martins de Palma, primeiro procurador dos campistas, levantando-se já contra o começo da tirania. Ele redigiu uma longa representação a El-Rei, publicada na íntegra pela Li­ vraria J. Leite com o título de "Povoação e Desenvolvimento dos Campos dos Goi­ tacazes em 1657". Nessa representação o Capitão Palma adverte a El-Rei que ele está sendo ludibriado por mentiras. Ressalta a importância dos Campos dos Goita­ cazes para o erário do Reino, fala nas potencialidades da região, denuncia mesmo que ele está sendo roubado pelos poderosos que dominam, do Rio de Janeiro, os Campos dos Goitacazes. Pede que Sua Majestade mande construir um forte na bar­ ra do rio Paraíba (São João da Barra) distante "oito légoas" da povoação, ali "se construa uma fortaleza real com artilharia, que resguarde do inimigo ollandez que inficiona esta costa". Mas, consultado o Procurador da Coroa, a criação da Vila é anulada, por ser esta "regalia de Príncipes". E o Capitão André Martins da Palma foi covardemente assassinado, sendo a primeira vítima dos Asseca na defesa dos interesses dos cam­

pistas. A povoação foi aumentando, e, em 1672, os moradores fizeram nova tentativa

para a criação da vila. E pagaram muito caro por isso. Os magnatas do Rio, os Asse­ ca à frente, vetaram a criação da vila sob o fundamento de que as terras "estavam ocupadas por facínoras e soldados fugidos que se sustentavam de suas fazendas

e roçarias". E requereram que fossem despejados os intrusos e "vagamundos", pa­ gando cada um 300 cruzados para pagamento da Justiça e que fossem os chefes degredados para Angola, por cinco e seis anos. O próprio Ouvidor de Cabo Frio se dirige a Campos com soldados. E o implacá­

vel despejo tem início. O padre Luiz Correia, feitor das fazendas de Salvador de Sá,

e o beneditino frei Bernardo de Monserrate, à frente de grande número de seus es­

cravos, vão cumprir o mandado de despejo e a golpes de machado derrubam as ca­ sas de palhas. Os habitantes da malograda vila se infiltram pelos brejais apavorados, outros conseguem enveredar pela perigosa trilha de Macaé, mulheres e crianças fa­ mintas e doentes. E oito, considerados protagonistas principais, pelo crime de terem tentado fundar a vila, são enviados algemados para o Rio. Os campistas tinham per­ dido a primeira batalha contra os Viscondes de Asseca, cujo domínio odioso iria du­

rar quase 100 anos. Em 1674 Salvador Correia de Sá e Benevides obtém para seus filhos, Martim

Correia de Sá, 1.° Visconde de Asseca, e João Correia de Sá, doação da Capitania de São Tomé, sob a condição de erigir nas terras "doadas" "duas vilas, igrejas de­ centes, casa para reunião dos vereadores e para 60 pessoas, e tudo o mais que para

a garantia dos habitantes das novas povoações, com a cominação de perderem para

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a Coroa o que tivessem feito, caso não fossem estritamente observadas todas as cláusulas da referida carta". Os "heréus" reclamam mais uma vez e inutilmente, por­ que a força é que manda. Nessa altura morre o1.° Visconde de Asseca, sucedendo- lhe o seu filho Salvador Correia de Sá, e ficando como tutor o General Salvador.

Surge a Vila de Campos

A 15 de setembro de 1674, quando Martim Correia de Sá e Benevides, 1.° Vis­ conde de Asseca, obteve, por sucessão, a doação da Capitania de São Tomé, co­ meçaram as grandes disputas que durante quase 100 anos (1674-1753) ensangüen­ taram a Vila de São Salvador dos Campos dos Goitacazes. A doação a Martim Cor­ reia passava uma borracha na tal "escritura de composição", pela qual 4,1/2 de qui­ nhão ficavam para os "heréus" (uns historiadores grafam "heréos"), os duscenden- tes dos "Sete Capitães", enquanto três quinhões eram para o General Salvador, três para os padres da Companhia de Jesus, para os frades de São Bento, etc. Passou tudo para o 1.° Visconde de Asseca e os padres. E estes, dominando o ambiente, viviam criando dificuldades para os habitantes da vila, sempre se apossando de mais áreas de terras, jogando os moradores contra o donatário, este contra a Câmara, enfim sempre armando confusão, e ampliando seu domínio sobre as terras da mes­ ma Vila. Os moradores protestaram contra a doação da Capitania ao 1.° Visconde de Asseca e tentaram embargar a doação, mas pura perda. Nisso morre o1.° Visconde de Asseca, Martim Correia, sucedendo-lhe o seu filho, Salvador Correia de Sá, ten­ do como tutor o avô, General Salvador. Mas, na carta da doação, ficara determina­ do que os donatários teriam que fundar duas vilas, igrejas decentes, casas para reu­ niões de vereadores, casas para 60 moradores e outras exigências. Acontece que tudo isso já existia e há muito tempo. Quando da primeira tentativa para a criação da vila já havia 70 moradores na povoação e duas igrejas. Na segunda tentativa, já existiam mais de 100 moradores e muitas casas de palha na margem do rio Paraíba. Foi quando os padres, inclusive o padre Luiz Correia, feitor dos Asseca, e mais frei Bernardo de Monserrate, à frente de uma malta de escravos, destruíram a povoa­ ção, derrubando as casas a golpes de machado, afugentando os moradores para Macaé e mandando os oito a ferros para a prisão no Rio.

Com a fundação da vila, os oito que mofavam nos cárceres no Rio foram soltos

e puderam voltar. A El-Rei comunicava Martim Correia a Vasqueanes, Procurador

dos Asseca: — "Senhor, já levantei pelourinho, acha-se feita a igreja e formada

a Câmara na Villa de Sam Salvador dos Campos em 29 de maio do corrente anno

e nella já existem 150 moradores em três companhias da ordenança, a outra villa da invocação de São João da Praia da Parahyba do Sul em 18 de junho, na qual

já tem 24 moradores e actualmente estou fazendo a igreja, e também tenho levanta­

do pelourinho e eleito oficiais da Câmara, etc. etc.".

São João da Praia da Paraíba do Sul é São João da Barra. João Oscar ("Apon­ tamentos para a História de São João da Barra") cita Fernando José Martins, que dá apenas oito dias de diferença entre a fundação da Vila de São Salvador e a de São João da Praia, a primeira em 29 de maio e a segunda em 8 de junho de 1677. Mas não é de se crer que existissem apenas 24 moradores em São João da Barra, pois ali já aportara em 1622 Lourenço do Espírito Santo, pescador vindo de Cabo Frio e que depois da morte, por afogamento, de sua mulher, deixou Atafona e aden­ trou três léguas para o interior, junto com seus companheiros.

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Em 29 de maio de 1677 foi afinal fundada a "Villa de Sam Salvador dos Cam­ pos". De Cabo Frio veio, com todo o seu aparato, o Juiz Ordinário da Cidade de Assumpção de Cabo Frio, Geraldo Figuera da Guarda, trazendo uma carta de diligên­ cia ao Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca da repartição do Sul, capitão Fran­ cisco Barreto de Faria, estanto presente o Procurador do Visconde de Asseca, ca­ pitão Francisco Gomes Ribeiro, e todos os moradores da povoação. A cena foi re­ produzida com rara beleza plástica pelo "Auto de Posse da Villa de Sam Salvador dos Campos", escrito pelo talento do teatrólogo Winston Churchill Rangel, em 1977, e encenada no auditório da Escola Técnica. Ela se passou no local onde é hoje a Igreja de São Francisco. E 300 anos passados, a cena se reproduziu nas comemo­ rações.

Num ritual belíssimo o Juiz de Cabo Frio faz as clássicas perguntas acerca de alguma oposição que fosse feita. E abaixa-se, apanha punhados de terra, ervas, ra­ mos, jogando-os no ar e formulando perguntas a quem pertencia terra, plantas, ár­ vores, capins e ervas. Vale a pena reproduzir o final do Auto da Posse, do teatrólogo Winston Churchill Rangel. — "Juiz — Saibam todos que aqui estou / por ordem de D. Pedro, Príncipe / que é por graça de Deus / Regente de Portugal e Algarve / para doar essas terras / ao Visconde de Asseca, / aqui representado / por seu Procurador. / Solicito aos presentes / que se existe alguém / que possa causar em­ bargo / fale agora, ou nunca mais. / A quem pertence esta terra? / De quem é este

capim? / Quem é dono desta água? /

— Juiz (prosseguin­

do) — "Já que não há por aqui / quem possa causar embargo / dou posse de todas estas terras / ao Visconde de Asseca. / Neste anno de graça de mil seiscentos e setenta e sete / declaro que está formada a Villa de Sam Salvador". A cerimônia, como disse acima, foi de grande beleza plástica. Porque o Juiz arranca punhados de ervas, capim e galhos, atirando-os para o alto e formulando as perguntas do ritual. A volta, os heréus, os pioneiros autênticos, descendentes dos "Sete Capitães", sentem que são os verdadeiros donos das terras, das árvores, do capim, das aves, das águas, dos animais. Mas nenhum ousa opor embargos. No entanto a rebeldia estava acesa nos corações diante da usurpação. O General Salva­ dor fez doações de apenas meia légua quadrada à vila. E uma luta de quase 100 anos começava ali. Jesuítas, beneditinos e carmelitas não continham a sua ambição, sem­ pre querendo e se apossando de mais terras, sob ameaças de excomunhão, intri­ gando, jogando o povo, o campista pobre, das engenhocas, dos "engenhos de so­ vaco" contra os Asseca.

Deste galho de aroeira?

Mas ao lado das lutas o ciclo do açúcar se afirma ao lado do gado.

Os padres, os índios, os colonos

Júlio Feydit, em seus "Subsídios para a História dos Campos dos Goytacazes", é implacável contra os jesuítas e beneditinos, denunciando toda a sorte de violên­ cias e tropelias feitas com os habitantes da povoação e depois Vila de São Salvador dos Campos. Eis um trecho (pág. 41, reedição de llze Peixoto Junqueira, sua neta):

— "A notícia daqueles Campos das Delícias e principalmente a nudez das índias os tornavam impacientes de chamarem essas ovelhas ao redil. Como não estaria incen- dida a luxúria desses frades com as narrações que lhes fizeram os primeiros explora­ dores desses Campos deliciosos, onde a caça, o peixe e as mulheres eram tão abun­ dantes? Enquanto eles apontariam aos outros o paraíso, além do túmulo, o goza­ riam desde logo!" Mais outro trecho (pág. 51, mesma edição): — "A 15 de setem­ bro de 1674, obteve a doação por sucessão Martim Correa de Sá e Benevides; desde então nasceram as grandes comoções que perturbaram o progresso da vila e o bem estar dos moradores, já tão acabrunhados pelas imposições dos jesuítas e benediti­ nos, que pouco a pouco se haviam apoderado da maior parte das terras de Campos, compradas a troco de capelas de-missas perpétuas, que eram a moeda com a qual extorquiam aos agonizantes timoratos as suas propriedades em prejuízo dos legíti­ mos herdeiros. Não podendo os jesuítas e beneditinos se oporem francamente à posse do donatário, ora estimulavam o povo contra ele, outras vezes a este contra a Câ­ mara, e assim vivia o povo perturbado e sendo obrigado a pagar dízimos, vintenas, coimas, fintas, foros, laudêmios, etc". Como se vê, Júlio Feydit é implacável contra os jesuítas e os beneditinos do Mosteiro de São Bento, grandes proprietários de terras. Pode-se alegar a condição de espírita e de anticlerical do ilustre historiador campista, mas Alberto Frederico de Moraes Lamego ("Terra Goitacá") também responsabiliza os padres por incríveis violências. Eram os maiores proprietários de terras de Campos dos Goitacazes. Não esquecer que na "escritura de composição", trapaça engendrada pelos Asseca e os jesuítas, a partilha das terras, divididas em 12 quinhões, foi assim: — "4, 'A para os capitães e seus herdeiros; três para o General Salvador; três para os padres da Com­ panhia de Jesus; uma para o capitão Pedro de Souza Pereira; e meio para os frades de São Bento. Acontece que os 4, % quinhões atribuídos aos "heréus" (descendentes dos "Sete Capitães") foram sendo tomados pelos jesuítas e beneditinos dos seus legítimos pro­ prietários, apavorados pelas armas das excomunhões e ameaças com os fogos eter­ nos do inferno, e chantagens de confessionários. Mas como conciliar os horrores praticados pelo jesuíta Luiz Correia, feitor de escravos dos Asseca, e frei Bernardo de Monserrate, com a santidade de Anchieta, a força moral de um padre Vieira, a mansidão de Aspicuelta Navarro? E aqui mesmo, a coragem mansa do padre João de Almeida, a atuação notável do frei Cambiasca, fundador de São Fidélis? Lamego ("Terra Goytacá") conta as violências inauditas desses sacerdotes, sendo que os habitantes da povoação conseguiram a expulsão de Luiz Correia, mas o Aba­ de de São Bento, frei Francisco do Rosário, ousadamente resistiu às ordens das au­ toridades maiores e o frei Monserrate permanecia em Campos, fazendo e desfazendo.

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Era uma sucessão de ataques a currais, de parte a parte. Os jesuítas atacavam os currais de José Machado Barcelos, armados de clavinas e catanas, à frente de seus escravos, e arrasaram tudo, matando os escravos de Barcelos. Por sua vez os "hereos" de vez em quando iam à forra, atacando currais de jesuítas.

0 frade Luiz Correia certa vez pôs fogo na casa de um tabelião por não lhe que­ rer dar um livro de notas. Eles assaltavam nas estradas, obrigavam mulatas livres

a casar com negros escravos, apossavam-se das terras alheias. E as maiores proprie­ dades de Campos lhes pertenciam, como as terras do Mosteiro de São Bento, e o Solar do Colégio. A situação chegou a um ponto que o próprio Visconde de Asseca e o seu tio João Correia de Sá foram obrigados a representar contra os padres, o que não ha­ viam feito até então porque nem mesmo as mais altas autoridades deixavam de te­ mer as ameaças veladas de excomunhão e as iras do Santo Ofício.

Surgiu então um homem de coragem. E este foi o vigário de São Salvador, Fran­ cisco Gomes Sardinha, que requereu a convocação do Senado da Câmara e repre­ sentou contra os jesuítas e beneditinos. Lamego publica o libelo acusatório, tam­ bém encampado pelo capitão-mor Antonio Rodrigues Moreira, e ouvidor Manuel de Castro. Os monges e jesuítas foram acusados de faltas às obrigações religiosas, de

roubar escravos e fazendas dos moradores e principalmente à força de armas, justi­ ça em suas mãos, etc. As graves acusações, aprovadas corajosamente pela Câma­ ra, foram enviadas ao Procurador da Coroa (1682). Em 15 de março de 1683 foi dado

o despacho régio, ordenando ao ouvidor do Rio de Janeiro que quando fosse em

correição a Capitania da Paraíba do Sul tirasse uma ampla devassa das fazendas que haviam sido usurpadas, restituindo-as a seus donos. Mas os beneditinos e jesuítas tinham muita força e "abroquelados pelo poderio proveniente das grandes proprie­ dades que tinham na capitania, onde procuravam trabalho muitos dos seus morado­ res, não lhes foi difícil preparar o ânimo dos seus serviçaes d'onde sahiam muitos officiaes da Camara, para se manifestarem ruidosamente contra o vigário, por occa- sião da visita do Bispo do Rio de Janeiro, D. José de Barros Alarcão" ("Terra Goyta- cá", pág. 163, volume 1?).

Mais uma vez os jesuítas e beneditinos venciam a luta contra os moradores da vila, contra os padres seculares e até contra os Asseca. E o vigário Sardinha teve que ir embora.

Em 27 de janeiro de 1693, o capitão Agostinho de Carvalho deu entrada no Se­ nado da Câmara de uma queixa contra os frades e jesuítas. Administrador que era das propriedades da Viscondessa de Asseca, denunciava ele que os sacerdotes eram ladrões de gado, "usurpando a Jurisdição Real e juntamente fazerem-se apóstatas, marcando quanto gado vai de vários criadores, com marca e sem marca; assim gado vacum como cavalgaduras, sem nenhum temor de Deus, nem as justiças de Sua Majestade e conforme me é de direito". Mas afora os índios cativos das fazendas de São Bento não havia mais goitaca­ zes para proteger da crueldade dos pioneiros. Haviam eles, fustigados e abatidos, se internado pelo sertão. E os poucos que ficaram, aceitando funções de vaqueiro, foram os que aderiram ao Cristianismo. Por isso, jesuítas e beneditinos, liberados de sua missão de proteger os índios, deram vazão a sua vocação de grandes fazen­ deiros e homens de negócios. Tornaram-se mesmo os maiores proprietários de ter­ ras da região, competindo com os Asseca, com quem se harmonizavam, a despeito

Na Taba dos Goytacazes

de escaramuças também com os donatários, ambas as facções oprimindo os "he­ réus" e coagindo os camaristas. Quando o Marquês de Pombal dissolveu a Companhia de Jesus, em Portugal, a grande fazenda de Campos era a Fazenda do Colégio, de propriedade dos jesuítas, que criavam em grande escala gado e cavalos, além de lavouras de toda espécie. Para isso, possuíam muitos escravos africanos. Com o decreto de Pombal, a Fazen­ da (Solar) do Colégio foi levada à hasta pública e, no leilão, arrematada pelo fidalgo português Joaquim Vicente dos Reis, cidadão progressista. Mas basta dizer que a fazenda chegou a ter 1.482 escravos, 24 mil cabeças de gado, 4 mil cavalos e grande produção de lavouras. Por toda a baixada campista existiam até bem pouco tempo marcos de pedra, com que os jesuítas demarcavam suas propriedades. Esses marcos, com o emblema da Companhia de Jesus, encontravam-se espalhados por toda a parte da Baixada. Há uns seis anos (1982) o prof. Paulo Francisco Gomes recolheu dois deles e os en­ tregou à Prefeitura. Na ocasião, a Vila Maria estava sendo preparada para ser a sede do Executivo Municipal. Os marcos foram colocados em seus jardins e sumiram. 0 "Lions Club" conseguiu um que foi colocado pelo dr. Wilson Paes na entrada do Palácio da Cultura, mas neste não exibe mais a cruz da Companhia de Jesus, des­ gastada pelo tempo. Na cerca, nas proximidades da entrada principal do Solar do Colégio, existia até bem pouco tempo outro. No Caboio ainda existe um, pelo que fomos informados. No Assu havia um onde os moradores amolavam suas facas, pe­ lo que também neste o emblema da Companhia de Jesus foi raspado. Esse emble­ ma era um círculo com uma cruz em seu interior. Claro que a Companhia de Jesus teve muito mais acertos do que erros. Mas na colonização dos Campos dos Goitacazes sua conduta foi altamente reprovável.

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A saga de Benta Pereira

Os 79 anos de domínio da fidalga dinastia dos Viscondes de Asseca sobre a po­ pulação campista são uma longa colagem de aflições, de conflitos, de desencon­ tros, de algumas contraditórias mudanças de posição, mas tendo como vítima per­ manente os "heréus", descendentes dos "Sete Capitães", e outros entradiços que vieram depois.

Depois de, em 1709, o Terceiro Visconde de Asseca ter vendido a capitania por 10 mil cruzados ao Prior Duarte Teixeira Chaves, em 1713 a Capitania, seqüestrada, fica ao abandono. Ninguém sabe a quem pertence a terra, nem a quem pagar foro.

A confusão é geral, com a volta do Prior Duarte Teixeira Chaves a Portugal, ele cujo

governo não foi menos cruel, só que curto. Em 1725, a Capitania é novamente doa­ da ao Visconde de Asseca. Continua sem cadeia e sem Casa de Câmara. Nem os Asseca, nem o Prior, cumpriram as cláusulas da doação; e nem mesmo a igreja fora construída por eles.

Em 1727, um período negro de seca, o gado morria e os que viviam da terra se entregam às mãos ávidas dos agiotas do Rio de Janeiro, que cobram juros até de 20 por cento e penhoram propriedades e fazendas. Muitos fogem para Minas. Nessa altura chegam os dois filhos do Visconde, Martim e Luís Correia de Sá. Eles chegam dispostos a aplicar mão de ferro, já que armados pelo pai de poderes ditato­ riais, podendo "prover os cargos de justiça e da milícia, arrecadar a redízima de to­ dos os direitos reais, os dízimos do pescado, os impostos dos engenhos do açúcar e de aguardente, nomear alcaides-mores, dar sentenças/passar cartas de sesmaria, etc".

Instalam um posto fiscal em Macaé. Cada boiada com destino ao Rio de Janei­

ro tem que pagar a absurda importância de 4$800 e ninguém passa que não tenha

passaporte assinado por um dos filhos do Visconde. Os dois agem como que aluci­

nados. Perseguem, prendem por motivos fúteis, atuam como juizes cujas sentenças são inapeláveis. Chegam a aplicar penas de degredo. Mas o novo governador do Rio de Janeiro é inimigo dos Asseca, por ser sobri­

o "Onça". O governador começa a

invalidar os atos dos Asseca e manda a Campos o padre Manuel Raposo, advogado do Prior de Chaves, que é festivamente recebido. Nessa altura Benta Pereira faz sua entrada em cena. Em sua casa já se conspira contra os donatários. O gado se reproduzira de tal forma que estouram lutas e con­ flitos em torno dos "contratos do vento". Benta Pereira, ativa mulher de negócios, viúva de Pedro Manhães Barreto, era das que mais apelavam para a manobra de se apoderar do gado sem dono, o chamado "gado do vento". Ela e seu filho Manuel Manhães Barreto, oficial da Câmara e, como sua mãe, de grandes qualidades de liderança.

Eis que em Lisboa o maioral dos Asseca consegue de El-Rei a nomeação de Martim Correa de Sá para o posto de Capitão-Mor de Paraíba do Sul. Mas o gover­ nador do Rio de Janeiro, o "Onça", exige dele que, de joelhos, lhe venha prestar homenagem antes da posse. Martim Correia de Sá submete-se à humilhação, mas

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nho do Prior Duarte. É o Luiz Vahia Monteiro,

Na Taba dos Goytacazes

não consegue sair do Rio, por artes do governador, que manda a Campos o capitão Leal, para fazer cumprir o "contrato do vento". Leal vem e começa o que se chama­ va de "mangueaduras" ou campeio do gado. Criadores procuram esconder o seu gado e o que incorporaram a seu patrimônio, o "gado do vento". Jesuítas e benedi­ tinos resistem e são ameaçados de prisão. André de Aguiar, o mais rico fazendeiro de Campos, é preso. Finalmente Martim Correia de Sá consegue livrar-se das manobras dilatórias do governador Luiz Vahia e vem para Campos. Estávamos em maio de 1730 e Martim Correia chega para assumir o cargo para o qual havia sido nomeado por El-Rei. A Câmara recusa dar-lhe posse. Estoura um grande tumulto. O padre Raposo, procu­ rador do Prior de Chaves, açula os camaristas, que firmes continuam resistindo e recusam dar posse ao Asseca. Recebendo ordem de prisão, os membros da Câmara protestam e exigem a ordem régia de prisão, sem o que, na qualidade de vereado­ res, não podiam ser presos. Mas são metidos na cadeia e à força despojados de suas iijsígnias. E até o juiz é preso. Benta Pereira quer mandar aviso ao governador Vahia. E apela para o estrata­ gema de enviar extenso memorial dentro de um saco de farinha, único jeito de pas­ sar pela rigorosa revista no posto fiscal da estrada de Macaé. A entrada de Martim Correia na vila, diante dos habitantes revoltados, havia sido triunfal. A cavalo, e pre­ cedido por tambores e cornetas, os Asseca, acompanhados de seus eventuais alia­ dos, jesuítas e beneditinos, penetram na vila. E o terror se instala mais uma vez. In­ críveis atos de violência são praticados. Sempre dentro de um saco de farinha vão as mensagens: — "Piedade, Senhor, compadecei dos míseros vassallos que há mais de 70 annos penam sob a mais rigososa escravidão. Como pay não nos desampare, tirai do poder os donatários e dai-nos um seguro real contra os filhos do Visconde, fidalgos mal-inclinados, violentos e absolutos, com seus 200 escravos." Os oficiais da Câmara, presos, permaneceram na casa da Câmara por dois dias e depois foram transferidos para a cadeia pública ainda com suas varas. Em seguida intimados para o auto de desobediência, "por não quererem aceitar nem reconhecer as reaes ordens que lhes foram apresentadas, bem como a provisão do Donatário". Martim Correia mandou apregoar por toda a vila, ao som de cornetas e tambo­ res, um "bando", proibindo a venda de chumbo e pólvora a qualquer morador da

rufados caixas e tambores do anoitecer até o amanhe­

cer e os sentinelas da cadeia que fizessem fogo aos que se aproximassem. Por ser surdo, o alferes Antonio de Souza Motta não ouviu o alerta da guarda e foi visado três vezes, salvando-se por ter a espingarda falhado fogo. O clima é de terror. Sem nenhum motivo ou provocação os habitantes da vila são agredidos. Um pontapé gratuito em quem estava sentado numa soleira, "es­ quentando sol". Um empurrão sob o pretexto de que tivesse atravancando o cami­ nho. Deboches e arruaças dos escravos do donatário. No dia 19 de maio foram inquiridas "testemunhas", todas elas da parcialidade do donatário, que proferiu a seguinte sentença: — "Obriga este auto que estejam presos Domingos Rodrigues Pereira, Hyeronimo Ferreira de Azevedo, João Coelho, João Soares e Francisco da Terra Pereira pela desobediência que fizeram, como cons­ ta do mesmo auto e por estarem presos, sejam remetidos à Relação do Estado, onde lhes deferirá a culpa. Villa de Sam Salvador, 20 de maio de 1730".

terra. E ordenou que fossem

Os réus requereram que lhes dessem prazo para se comporem com seus credo-

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Biblioteca de ESTUDOS FLUMINENSES

res e outras providências e ainda se lhes dessem embarcação mais segura, pois a canoa que os levaria a São João da Barra era "velha e incapaz". 0 requerimento foi indeferido por Martim Correia de Sá, que exarou o despacho humilhante:

— "Manda-los-ha algemar e tirar as varas para não terem jurisdição, depois de estarem presos". 0 Sargento-Mor imediatamente cumpriu as ordens. Dirigiu-se à cadeia, onde já se encontravam muitos capitães e soldados, ordenando a todos que largassem as varas. 0 juiz Domingos Rodrigues Pereira respondeu, com arrogância: — "Não largo a vara d'EI-Rei Nosso Senhor, na qual estou confirmado pelo Desembargador Ouvidor Geral e Corregedor desta comarca". E se preparou para ler a carta de con­ firmação, quando o capitão Antônio Teixeira Nunes interrompeu-o: — "Eu bem sei como se passam essas cartas" arrebatando-a das mãos do juiz. Despojados de suas insígnias, foram os membros da Câmara e o juiz algemados dois a dois, atravessan­ do as ruas da vila sob o olhar revoltado mas impotente dos seus moradores, ruman­ do ao porto onde embarcaram em frágeis canoas com destino a São João da Barra. Conseguiram, entretanto, os oficiais da Câmara, antes da partida, escrever ao go­ vernador e ouvidor, relatando todas as violências, seus sofrimentos e humilhações. Enquanto isso novos vereadores foram eleitos numa farsa e colocados no lugar dos que haviam sido presos. E o governador Luiz Vahia só teve conhecimento quando os vereadores já estavam na Bahia. Mas mandou a Campos o desembargador Ma­ nuel da Costa Mimoso, a fim de fazer uma devassa.

O desembargador é recebido triunfalmente pelos jesuítas e beneditinos. Habilís- simos, os jesuítas, sempre visando ao mando e à riqueza, mudam de posição e pres­ tam homenagem aos que estão eventualmente de cima, embora sempre conspiran­ do. Grandes festas eles preparam na Fazenda do Colégio para homenagear o desembargador. E o terrorismo recrudesce. Cercam estradas, mudam marcos de propriedades, prendem, espancam. Martim Correia teme uma reviravolta. E explode: — "Se os juizes e oficiais voltarem a seus cargos, ponho fogo nas minhas fazendas, nos enge­ nhos e partidos de cana, reduzindo toda a capitania a um montão de ruínas, porque um fidalgo como eu não fica sevandijado pela ralé" (Lamego, "Terra Goytacá").

Os bens de Benta Pereira e seu filho Manhães Barreto são seqüestrados. Redu­ zidos à impotência e impedidos até de fugirem para Macaé e ali fundarem outra vila, os moradores enviam a Lisboa Francisco Manhães Barreto, a fim de relatar tudo ao Rei. — "Prostrados, pois, aos reais pés de V.M., humildemente suplicamos, pelas chagas do Nosso Redentor, se sirva mandar-nos encorporar na Coroa, e que ordene

o despejo de Martim Correia, seu irmão e criados, porque, pelo respeito de suas pes­ soas e negros insolentes e vadios que protegem, padecemos a última destruição".

E propõe a compra da capitania, para doá-la à Coroa.

El-Rei se comove e ordena o embarque dos filhos do Visconde, enquanto no Rio o Governador Vahia, o "Onça", enlouquece. Assume o governo Gomes Freire

e ordena a devassa na Capitania, que é seqüestrada pela segunda vez. Francisco

Mendes Galvão toma posse como capitão-mor e de 1733 a 1740 a paz reina na vila pela primeira vez desde começado o domínio dos Asseca. Não total, porque estoura

a luta entre jesuítas e beneditinos, estes sempre tentando usurpar terrenos que per­ tencem à municipalidade.

Mas o Visconde não se conforma. E faz o cerco em torno do Rei, alegando sempre terem se voltado contra seus filhos "mulatos, índios e criminosos, e os de maior graduação não passavam de alfaiates e sapateiros", El-Rei vai na onda. E a

vila volta

Na Taba dos Goytacazes

melancolicamente ao domínio dos Asseca. O povo está de luto, sofrendo.

Muitos fogem, varando matas para fugir ao controlado caminho de Macaé.

A nomeação do sargento-mor Pedro Velho Barreto para governar a capitania

é mal recebida pelos camaristas. São presos e remetidos para o Rio Manuel Manhães Barreto, filho de Benta Pereira, e vários vereadores. Mas os novos oficiais da Câma­

ra são gente decidida.

A desordem é geral. Aproveitando-se disso, aventureiros recém-chegados vão

se apossando de terras e gado alheio, sendo diárias as brigas a catana entre os es­

cravos que cuidavam do gado. Em 1747, a Câmara, num ato de coragem temerária (o campista, mesmo por Daixo, é rústico e valente, não deixando de lutar nunca), incorpora por conta própria a Capitania à Coroa. Mas o ouvidor-geral da capitania do Espírito Santo, à qual fora incorporada a de Paraíba do Sul, vem de Vitória até Campos e prende os oficiais da Câmara, algema-os e os condena a cinco anos de degredo na Angola, remetendo- os escoltados para o Rio onde penam na cadeia por 17 meses. Ele, Mateus Macedo, partidário dos Asseca, já desobedecera ousadamente ordem régia para tomar posse da capitania em nome da Coroa. Substitui, num simulacro de eleição, os vereadores presos por partidários dos Asseca. Estava esgotada a reserva de paciência da brava gente da planície. A casa de Benta Pereira é o quartel-general da conspiração. Manuel Manhães Barreto é esco­ lhido advogado dos campistas e se dirige ousadamente para a casa da Câmara, para embargar a posse do procurador do Visconde. É recebido com insultos e posto para fora. As mulheres entram em ação. — "E logo, ao mesmo tempo, entra pela porta da Câmara um borbotão de mulheres, requerendo-nos que não querião ao donatá­ rio o Exmo. Sr. Visconde de Asseca, o que lhe mandassemos logo despejar fora da terra ao seu dito procurador". (Julio Feydit, "Subsídios para a História de Campos dos Goytacazes"). Mas, orientado pelo padre Leandro da Rocha, o capitão-mor Antonio Teixeira Nunes planeja dar posse à força. A 20 de maio, cerca a vila com 100 homens arma­ dos e a cavalaria escondida na mata próxima. Mas a conjura é descoberta e o povo se levanta. Mais de 500 pessoas invadem a vila. Manuel Manhães Barreto vai à casa do capitão-mor. É recebido com intensa fuzilaria. Há mortos e feridos entre os quais

o próprio Manhães Barreto. — "E o levante explodiu" (Ribeiro Lamego, "O Homem

e o Brejo"). A vila é um campo de batalha. — "Em todos os pontos da vila se entrechoca- vam e cruzavam facas e catanas" ("Terra Goytacá", Lamego). Então a liderança se define. O comando é de uma mulher de 73 anos, Benta Pereira. A cavalo, com pis­ tolas nos coldres, espada na mão, bradando ordens e estimulando à luta. Os parti­ dários dos Asseca, tomados de surpresa diante daquela mulher que parecia um ente sobrenatural, se dispersam, pondo-se em fuga. Francisco Manhães Barreto investe contra a casa do capitão-mor, que capitula. São presos os sobreviventes, entre os quais o juiz e o próprio Teixeira Nunes, que perde um filho. Um grande arsenal, com­ posto de 23 bacamartes, muitas outras armas de fogo, barris de pólvora, de chum­ bo, balas e catanas é apreendido. Mas a casa da Câmara ainda resiste. Antônio de Oliveira Furão comanda o as­ salto e encontra resistência. Foi quando irrompeu um vozear feminino, um esvoaçar de saias. Surge Mariana Barreto, filha de Benta Pereira, que comanda o exército

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feminino. A Câmara se rende e ela própria entra e algema com suas próprias mãos os camaristas. No dia seguinte Pedro Velho Barreto, campista ilustre, assume o go­ verno e são reempossados os juizes e oficiais da Câmara do ano anterior. Caíra a Bastilha dos Asseca, diante da bravura da mulher campista, pelo que século mais tarde é criada a legenda "Ipsae matrona hic pro jure pugnant" (Aqui até as matronas pugnam pelo direito).

Benta Pereira em pessoa arrebata das mãos dos sicários seu filho Francisco Ma­ nhães Barreto, ferido. Os juizes abrem devassa e prendem as autoridades dos Asse­ ca remetendo-os a ferros para a Bahia. Mas dura pouco a liberdade, saudada na vila em noites de festas populares, en­ quanto o povo se abraçava e se beijava nas ruas. O governador Gomes Freire, to­ mando conhecimento dos fatos, manda para Campos o general João de Almeida e Souza com 200 soldados "artilharia grossa e munições, 18 caixões de granadas, 12 barris de pólvora e chumbo". Em Macaé esse verdadeiro exército se reúne à gen­ te do Visconde. Em Campos, na casa de Benta Pereira, Manuel Manhães Barreto tenta, mesmo ferido, organizar a resistência. Mas não há munição. E os campistas resolvem abandonar a vila. Benta Pereira se refugia no alto do morro do Itaoca onde tem propriedade e se entrincheira. É a sua "Massada", inexpugnável. Mariana Bar­ reto, entretanto, num gesto heróico, se recusa a fugir. Ela declara ser "desdouro de seu sangue e de seus feitos fugir de medo, e que em casa aguardaria a cólera ensandecida dos partidários do Visconde" (Lamego, "Terra Goytacá"). O general entra na vila, aboleta-se na casa de Benta Pereira e saqueia tudo. Ma­ riana Barreto é presa com alguns companheiros. A soldadesca invade as casas. O ouvidor do Espírito Santo reaparece e impõe uma finta de 14.000 cruzados. Obrigam fazendeiros a pagar de multa até 500S000, uma fortuna para a época. Benta Pereira e sua família, gente de grandes posses, vão morrer pobres. Mariana Barreto é condenada. Com "baraço e pregão, vá degredada por toda a vida para o presídio de Benguela" (África). Á vila fica entregue à soldadesca. A miséria passou a reinar pelos confiscos de propriedades. Muitos proprietários fugi­ ram para o mato com suas famílias. Durante três anos a soldadesca praticou desati­ nos e os moradores se dirigiram a El-Rei: — "Por piedade, Senhor, ordenai que re­ gressem aos quartéis".

Em Lisboa, o advogado dos campistas, Sebastião da Cunha Coutinho Rangel, vinha expondo a El-Rei toda a calamidade, com respeitosa mas firme insistência. En­ frenta a malícia dos Asseca, mas finalmente vence. No entanto o campista tinha ain­ da que "comprar" Campos, sua terra. O Rei decide finalmente a compra da capita­ nia e o povo campista rateia 20.000 cruzados para pagá-la. Para alguns, ainda no

presídio da Bahia, a carta de alforria chega tarde, porque já estavam mortos. Maria­

na Barreto no entanto

regressa e morre em sua terra. Seus ossos estão em Sebas­

tião, em cuja igreja foi enterrada.

Benta Pereira morreu em 1760, em Campo Limpo, e seus restos mortais estão na capela do Solar do Colégio.

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O brejo, o lavrador e a vila

O século XVIII vai expirando ao encontro do século XIX. E a lavoura da cana avan­ çando rapidamente. É uma invasão, as engenhocas se multiplicando na planície. Lá fora, explode em ouro o século da mineração, atraindo aventureiros para as Minas Gerais e para Goiás. Mas o pioneiro campista, até ele, não chega à "febre do ouro". Ele é um fascinado pela terra, pelo barro que o transforma como que assim num deus pagão, gerado pela própria terra. No Espírito Santo existem lavras em plena exploração e aqui mesmo, nas cabeceiras do rio Muriaé, instalou-se um arraial para a exploração do ouro, presente um padre nas lavras. Mas o campista não é afetado pela febre do ouro, embora em 1797 os oficiais da Câmara tivessem enviado carta a D. Maria I, falando sobre a existência de ouro no Imbé, tendo o vice-rei Luiz de Vasconcellos proibido que as terras da região fossem cultivadas. (Vem daí a peque­ na reserva florestal que agora vai sendo destruída.)

O campista se mantém alheio a esses chamamentos, a ponto de serem acusa­

dos de "pusilânimes", pois "tendo à porta„estes haveres, os não abala, podendo ter certeza de que restabelecidas as ditas minas" haveria muito lucro pela proximida­

de e facilidade de acesso à Vila de São Salvador. Mas o campista já estava siderado, magnetizado, fascinado pela cana e pelo massapê. O vaqueiro desce do cavalo ena\ transformar-se em lavrador. E este é um instante histórico na vida da Planície. Porque é quando começa verdadeiramente a gloriosa luta contra o Brejo. O pastoreio do gado é cômodo. 12 horas em cima de um cavalo é fácil ao campista do ciclo do gado, remover rebanhos rapidamente para livrá-lo eventualmente de águas agressivas que se engrossam de repente, sob o pe­ so de chuvaradas e as repentinas elevações de níveis dos riachos, isto sem falar no flagelo das grandes enchentes do Paraíba. É uma guerra individual, o homem comüm, enrijecido pelo desafio das águas, transforma-se em gigante. Alberto Ribeiro Lamego ("O Homem e o Brejo"), chama- os de "plebe rural", que amassa com suas próprias mãos o barro e trança o cipó das paredes de suas numerosas engenhocas.

A facilidade de aquisição da terra é um incentivo. A tirania dos Asseca vai lon­

ge, as pesadas taxas dos donatários não mais existem. Comprado ou aforado o pe­ daço de terra, tudo vai tranqüilo. Não mais o risco de despejos sumários, nem o abuso de tributos escorchantes, diz Alberto Ribeiro Lamego. Á pequena propriedade é co­ mo que uma imposição geológico-geográfica. Só quatro grandes propriedades mar­ cam grandes núcleos sociais e de trabalho na planície. A Fazenda do Colégio que, com a dissolução da Companhia de Jesus pelo Marquês de Pombal, fora à praça e adquirida em leilão pelo português Joaquim Vicente dos Reis; as amplas terras do Mosteiro de São Bento; Quiçamã e os remanescentes das propriedades dos As­ seca, a enorme Fazenda do Visconde. Os Asseca, entretanto, ainda teimam em do­ minar pelo menos uma faixa mais modesta. E em 1797 o seu novo administrador, Luiz Alvares de Freitas Bello, tenta oprimir e esbulhar pequenos colonos. E com ele vem nada menos do que o seu genro, Joaquim Silvério dos Reis, o traidor da.Incon­ fidência e o delator de Tiradentes. Intenta cobrar da Coroa o preçô de sua traição,

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que acha devia ser paga em terras em Campos. Mas foram expulsos da planície, que o campista não mais tolera opressões.

E as engenhocas se multiplicam. Já são 245, em 1785. Em 1798 já são cerca de 300. Neste ano, a 5 de dezembro, um fato importante: seguem os primeiros esta­ fetas para o Rio levando correspondência. Andariam muitos dias, mais de uma se­ mana, a cavalo, enfrentando eventuais hostilidades de índios e sendo obrigados a vadear correntes que surgiam e desapareciam nos aguaçais. São os Cataia, pai e filho. Os moradores da Vila não excediam a cinco mil e moravam em casas de taipa.

O campista custou a utilizar a pedra, que existia, mas em locais inacessíveis para

a época. A primeira olaria havia sido implantada pelo Visconde de Asseca em 1692.

O morro do Itaoca está lá perto, à vista, mas a extração e o transporte da pedra

ainda não estavam no domínio do campista. Há muito "arrecife" nos tabuleiros, mas a travessia do Paraíba em frágeis canoas dificultava tudo. Em compensação há mui­

to barro bom para tijolos e tabatinga. Moravam mal os campistas. Os maiores fazen­

deiros ainda moram em casas de "adobe". O alemão Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwled, grande botânico, esteve em Campos já em 1817 e encontrou aqui fazendeiros ricos, donos de mais de 1.500 cabeças de gado, morando em "casas térreas de barro, nem ao menos caiadas, verdadeiros mocambos. Casebres inferio­ res aos dos matutos alemães mais pobres".

Já na segunda metade do século XIX, surgia o sobrado. E se instalou aqui na planície a "civilização do sobrado". Porque o homem determina a arquitetura e de­ pois é dominado por ela. O "sobrado" passou a dirigir o comportamento social do campista e a vida familiar. A mulher reclusa e o fazendeiro não deixando a filha apren­ der a ler para não mandar bilhetes para o namorado pelo pagem escravo. O açúcar produzido e embalado em "caixas" era exportado para o Rio através do porto de São João da Barra, em barcos de fundo raso e de 50 toneladas, fabrica­ dos nos estaleiros daquela vila. Segundo Alberto Lamego ("Terra Goytacá"), o po­ vo chamava essas embarcações pelos curiosos e pitorescos nomes de "lanchas de orelha de mula" e "samanguinhas de cu-de-galinha". Eram mais de 70 que cruza­ vam o Paraíba. Já em 1801, por conta dos piratas que infestavam as costas (piratas holandeses tinham como núcleo a ilha de Convivência), essas embarcações passa­ ram a ser comboiadas por duas barcas chamadas de "artilheiras", navegando assim os brigues "Bolão" e "Real João". Como a entrada e a saída da barra ofereciam perigo à navegação foi criado o lugar de "patrão-mor", a quem era permitido cobrar 55000 pela entrada e saída de embarcações.

Em 1797 concorreram os habitantes de Campos com 130 mil cruzados ou ses­ senta e dois contos de réis para socorrer o Reino de Portugal, quantia avultadíssima, e ainda muita madeira de lei, como jacarandá, diz Teixeira de Melo ("Campos dos Goytacazes em 1881").

No começo do século a população excedia um pouco os cinco mil habitantes (uns 1.500 "fogos", é de presumir-se), o desenvolvimento era considerável, pelo que os seus moradores decidiram requerer do Reino a criação de um lugar de "juiz de fora". Por decreto de 5 de março de 1800 a pretensão foi deferida, sendo nomeado Sebastião Luiz Tinoco da Silva.

A população rural era obrigada a comparecer à sede da vila de oito em oito dias para fazer o serviço militar. De vez em quando eram requisitados para servirem nas

fortalezas do Rio, o que causava grandes danos à lavoura. (Até a década de 50 deste

Na Taba dos Goytacazes

século se pleiteava insistentemente a volta dos "tiros de guerra", pelo desfalque que o serviço militar fazia à lavoura em Campos.) No ciclo do açúcar, a vila cresce em importância. Já tem o seu Regimento de Milícias, com dois mil homens, sendo seu primeiro coronel o Mestre de Campo José Caetano Barcellos Coutinho, grande figura de campista. Depois da "Matriz de Palha" dos meados do século XVII (onde é hoje a Igreja de São Francisco) a nova Matriz tinha três altares e sob sua jurisdição seis ou sete igrejas filiadas: a do Rosário, a São Benedito, a da Boa Morte, a da Mãe dos Ho­ mens, a do Carmo, a do Terço, o seminário da Lapa. A segunda Matriz, após a pri­ mitiva "Matriz de Palha", foi construída em 1745, na Praça Principal (Praça São Sal­ vador). A igreja e seminário da Lapa tiveram suas obras iniciadas em 1740 e foram inaugurados em 1748. Com a igreja do Carmo são as duas grandes relíquias históri­ cas de Campos.

Santa Casa de Misericórdia de Campos começou pela construção da. Igreja

Mãe dos Homens em 1786. Em 25 de julho de 1790 os membros da Irmandade se reuniram e criaram a Santa Casa de Misericórdia, a qual teve provisão da: Rainha D. Maria I em 5 de julho de 1791. O Asilo da Lapa passou a ser mantido pela'Santa Casa, que mantinha uma "roda dos expostos". Tratava-se de meia-esfera de madei­ ra, aberta para fora. De madrugada a mãe solteira colocava o recém-nascido de quem queria livrar-se na meia-esfera, e ia embora, depressinha. A criança chorava e al­ guém de dentro do hospital, ouvindo-a, rodava a meia-esfera para dentro, pegava

A

a criança, que depoié era dada em adoção a quem quisesse.

A vila, adquirindo maior importância com a nova era, a da cana-de-açúcar subs­

tituindo o gado, progredia um pouco. Mas ainda era um povoado desprovido de qual­ quer conforto, com suas ruazinhas, que não chegavam a 20, e suas travessas, todas sem pavimentação, transformadas em atoleiros a qualquer chuvada. O povo, entre­ tanto, é alegre, e festeja os dias "santos de guarda" na Praça Principal (Praça São Salvador) parcamente iluminada, por fumarentos lampiões de azeite de peixe e que enegreciam rapidamente. A Lagoa do Furtado dividia a vila, ocupando uma enorme

área, com limites na Rua Formosa e Rua da Constituição (Alberto Torres). A única rua que tinha um simulacro de pavimentação com pedras irregulares, a que se cha­ mavam de "pés-de-moleque" (não esquecer qufe as dificuldades eram muitas para

a

aquisição de pedras), era a Direita. O toque de recolher soava às 10h da noite,

as ruas desertas, só percorridas por vultos embuçados em busca de amores, ãlgu-

ma mulata liberta que recebia furtivamente amantes de ocasião

se recolhia logo às tristes badaladas da Ave-Maria. A Praça Principal (Praça São Salvador) sediava as casas dos mais abastados,

a Cadeia (também Paço Municipal), a Santa Casa de Misericórdia e a Igreja Mãe

dos Homens. As fezes dos habitantes da vila eram recolhidas e despejadas no rio por escra­ vos fugidos e recolhidos à Cadeia. Até que os seus senhores fossem identificados, eles, com golilhas no pescoço, carregavam os barris cheios de matérias fecais, as­ sim como água para o quartel e a cadeia. Até que a Câmara mandou fazer um cano

para esgotar fezes. As ruas tinham nomes pitorescos, tais como a das Flores (Sete de Setembro); Detrás da Matriz (Vigário João Carlos); Rua do Alecrim (Barão do Amazonas); Rua Direita (13 de Maio); esta foi a primeira que foi calçada em 1795, desde o Porto Grande

A~"gente de bem"

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até a Rua do Conselho (João Pessoa); Rua das Cabeças (Aquidaban); Rua Cercado

Porto da Lancha, fronteiro

à Rua do Cercado do Furtado e que era preferido pelas lavadeiras; Porto das Pedras, fronteiro à Rua do Alecrim (Barão do Amazonas); Porto do Ingá, fronteiro à Santa Casa (o nome era porque havia junto à margem do rio dois grandes pés de ingá); Porto da Cadeia, fronteiro à Praça Principal; Porto Grande (fronteiro à Rua Direita,

hoje Santos Dumont); Porto do Pelourinho, fronteiro à Rua da Quitanda; Porto da Banca, fronteiro à Rua do Rosário; Porto da Escada, fronteiro à Rua dos Andradas; Porto da Fragata, fronteiro à Rua da Lapa. Eles tinham grande importância, porque

do Furtado (24 de Fevereiro). E os portos do Paraíba

o rio Paraíba era a grande estrada líquida de penetração, mas haviam de ser subme­

tidos a constantes limpezas por conta das matérias fecais despejadas no rio. Entre

o mércio porto do da pescado. Rua do Rosário e o Largo do Capim se localizavam as bancas para o co­

A população divertia-se com festas religiosas, de mascarados, procissões. A po­ pulação negra aumentava vertiginosamente e Campos iria ser conhecida, na segun­ da metade do século XIX, como uma das maiores concentrações negras do país. E

na sua formação racial, só o português e o negro, já que nunca vingaram aqui tenta­ tivas de atrair colonos estrangeiros.

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O ciclo do açúcar

Dois fatores determinaram o reatamento das relações do pioneiro com a cana- de-açúcar. Pero de Góis e Gil de Góis já haviam iniciado a cultura da cana, trazida da Capitania de São Vicente. Em primeiro lugar Minas entrou no negócio do gado, passando a suprir também o Rio de Janeiro. O gado se multiplicara na pradaria cam­ pista de tal maneira, nos lençóis de terra sem cerca e entre brejais, que surgia o cha­ mado "gado do vento", sem dono e no qual quem o pegasse gravava nele a sua marca, através do "contrato do vento". Mas boiadas enormes que seguiam viagem para o Rio tiveram o seu fluxo a pouco e pouco diminuído. E um decreto régio deter­ minou que se recolhesse todo esse gado solto, o "gado do vento", para a Real Fa­ zenda. A população, já em luta contra os Asseca, tinha agora o próprio Reino a expropriá-la. Eos novos caminhos para o gado de Minas, mais rápidos e menos peri­ gosos, esvaziaram a condição de Campos como exportador de gado. Um novo "pacto", entretanto, este com o massapê, atraía o campista e novas levas de desbravadores, desta feita de agricultores natos. As terras não dependem de estrume, sempre renovada a sua fertilidade pelas camadas aluviônicas. Os pe­ quenos e rudimentares engenhos se multiplicam, numa época em que o Brasil-Colônia estava obcecado pela busca do ouro, não apenas em Minas, mas aqui mesmo nas vizinhanças capixabas.

0 ciclo do açúcar significa um "capitis deminutio" para a mulher campista. Quan­ do predominava o do gado, a mulher tinha uma vida livre e desenvolta. Montava

no cavalo e tocava as boiadas ao lado do marido. E a vida era rural, a vila não tinha

a menor importância. Quando o campista desceu do cavalo e fez o pacto com o massapê e a cana,

a mulher campista, cujo símbolo era Benta Pereira, passou a ter vida reclusa, a tornar- se quase que apenas mãe de família.

0 "pacto" com a terra e com a cana foi firmado e de modo definitivo. De tal

modo empolgou o campista, um "contrato psicossocial" absorvente, que a fertilida­

de da terra assinava de cruz, como testemunha.

0 General Salvador instalara o primeiro engenho em 1650. Mas perduraria por

muito tempo ainda o ciclo do gado. Comprometido este, a cana fez seu retorno e desta vez veio para ficar. O pioneiro se voltou para a cana. Gente pobre, sem posses

para possuir escravos trabalhando com a família tão-somente. Mas o "Ciclo do Açú­ car" se inicia e é absorvente, relegando todo o resto a plano secundário. Não come­ ça, entretanto, como em outras regiões do país, Pernambuco, por exemplo, onde se instalam os chamados "engenhos reais", supridos pelos canaviais latifundiários. Aqui é gente pobre que logo arranja um pedaço de terra aforada ou não, planta nele uma engenhoca, que na maior parte das vezes nem teto tem. Couto Reis conta:

"Para a casa da fábrica que comumente é a mesma da vivenda, tudo serve. 0 fim principal é moer a cana e fazer açúcar. Há engenhocas que não têm cobertura senão

o espaço que ocupam as moendas, cuja cobertura anda à roda por estar armada

por cima das almanjarras e só mói $ím tempo de sol; outro há, senhor de tais enge­ nhocas, que não possui escravo algum e se serve com sua família — filhos, irmãos, mulher e alugados. Faz-se incrível o que se conta de algumas destas fábricas, que

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assim mesmo fazem muito açúcar, com que se remedeiam seus donos, e vão dei­ xando de cultivar outras culturas a que antes se aplicavam. Nesse andar, passam

a adquirir melhores utensílios e alguns escravos já com o crédito que lhes facilitam os mercadores, e alguns chegam a montar engenho". Mas no início mesmo tudo são engenhocas de quatro a seis formas diárias de açúcar, muito diferente de Per­ nambuco onde os engenhos já começavam com produção de três mil arrobas anuais, logo passando para 10 mil arrobas. A iniciativa é individual e esse feitio excessivamente individualista ficou como traço predominante do psiquismo campista, que não divide nada com ninguém. — "O desejo da terra acirrado na luta contra os Asseca é que leva o pequeno foreiro

a construir moendas próprias em suas fazendas penosamente adquiridas" — diz Al­

berto Ribeiro Lamego ("O Homem eo Brejo"). E continua: —"Dessa maneira é que, de 1769 a 1783, no espaço apenas de 14 anos se levantam na planície 223 novos

engenhos e engenhocas"r)

Predomina, entretanto, ainda a pequena propriedade. A fama, inacreditavelmente persistente, do usineiro como o grande representante do poder econômico veio do

no regime feudalista do grande latifúndio. E con­

tinua hoje, quando o industrial do açúcar é uma ilha rodeada de títulos vencidos e safras deficitárias numa crescente descapitalização. Era a primeira indústria do Brasil- Colônia. Daí ter o Senhor de Engenho adquirido a condição de maior capitalista, que

indevidamente ostenta até hoje o usineiro, quando centenas de indústrias existem muito mais rentáveis. Com a cana e o açúcar a fisionomia das planícies se modifica. A vila começa

a crescer, pelo intercâmbio dos que se transferiram, no trabalho, do lombo do cava­

lo, na perseguição de touros e novilhas, para a morosa rotação da moenda do enge­ nho de sovaco ou dos engenhos d'água, fixando-se mais em lugares. Mas o gover­ no do Rio de Janeiro não vê com bons olhos a gente campista. O Marquês do Lavra- dio diz em carta a D. Luiz de Vasconcellos que não se deve confiar, "porque aquel- las gentes ainda estão com as idéias muito frescas da má criação que tiveram". O campista continua trabalhando a terra, lutando sempre contra os tributos que os Asseca, que vão se sucedendo, lhes cobram, em dízimos, foros, fintas e laudê- mios. A vila vai crescendo e aquele povo rude e rústico, que se vestia mal ou mal se vestia, já conhece o cetim, sedas e veludos. Os arreios dos cavalos já são de prata.

Eles mesmos são os mestres das fábricas, trabalhando com um a dois carros, oito e doze bois; uma caldeira pequena, com dois tachos, a quem chamam de ta­ chas, de cobre e algumas vezes até de barro. Mas os engenhos de fato, ou seja, dotados de métodos mais sofisticados de fabricação, vão surgindo. E assim que lo­ go nas primeiras décadas do século 19, Muniz de Souza (Viagens e Observações de um Brasileiro) afirma já existirem, em 1828, 700 engenhos. Mas o que causa es­ pécie ao mesmo observador é a obsessão pela cana, levada a uma situação quase patológica. O campista não quer saber de outro tipo de lavoura, nem aquela de sub­ sistência. Ecomo a geografia isolou Campos e o único caminho é o de Macaé, onde pagam tributos aos Asseca quaisquer mercadorias e a rota é ainda perigosa, sempre povoada por maltas de bandidos e fugitivos da Justiça, resulta que o povo da Vila tem dificuldades de importar alimentos, que deixou de produzir em função da ob­ sessão pela cana. —"Os lavradores de Campos prestam cega attenção e têm verdadeiro aferro

Nordeste, do Senhor de Engenho,

Na Taba dos Goytacazes

à plantação de cana que, com effeito, é digna disso; olham com indiferença a cultu­ ra de outro qualquer ramo, como mandioca, milho, feijão, arroz, etc., por cujo moti­ vo padece o povo da mesma villa não pequena falta de víveres" (Muniz de Souza, "Viagens e Observações de um Brasileiro", 1828). Essa indiferença perdura até hoje, quando pequenos proprietários insistem com o cultivo da cana, quando suas áreas de terra não permitem rentabilidade para essa lavoura. Mas o campista tem outro elemento hostil e adverso, além do índio goytacaz no início, dos Asseca e dos seus desentendimentos com os jesuítas e beneditinos.

O grande inimigo é a malária, o impaludismo. No ciclo do gado, o cuidado era cons­

tante para conservar limpos os rios que esgotam a Lagoa Feia. Com o advento da agricultura já se relaxaram esses cuidados. E o Brejo voltou ao ataque. E com ele

a malária, o paludismo, a sezão. Mas o campista enfrentou a Malária. E em 1827 surge o primeiro engenho a vapor. Em 1834 já fumegam mais três. Começava a "Idade da Máquina".

Figuras de destaque do século XVIII

Uma das figuras mais destacadas da vila de São Salvador dos Campos no sé­ culo XVIII foi o Alferes Joaquim Vicente dos Reis, nascido em Lisboa em 1739. Surgiu no Brasil-Colônia na região de Sacramento, onde logo se tornou abastado comer­ ciante e homem de negócios. Declarada a guerra contra a Espanha ele serviu a prin­ cípio como soldado raso, mas depois por merecimentos galgou o posto de Alferes.

A sua custa organizou um serviço de espionagem, quando o inimigo pretendeu in­

vadir o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e a própria Colônia de Sacramento.

Vindo morar no Rio de Janeiro estabeleceu-se com casa de comércio na Rua das Violas. Tendo o Marquês de Pombal dissolvido a Companhia de Jesus, a Fazen­

da do Colégio, de que eram proprietários os jesuítas, foi a leilão. Joaquim Vicente

dos Reis então arrematou a dita fazenda, junto com os seus sócios, seu tio João Francisco Vianna e Manuel José de Carvalho. O lance foi de 187.9535130, mais 20.000S000 sobre o lance anterior, que foi assim coberto. A fazenda era muito gran­ de, com suas 4.030 braças de testada, 3.548 de fundos, com grande produção de

cana, 1.482 escravos, mais de nove mil cabeças de gado, mais de quatro mil cava­ los, algodão, milho, feijão, mandioca e outros produtos. No Colégio foram encontrados apenas dois jesuítas, os que ficaram e foram pre­ sos: padres Miguel Lopes e Belchior Gomes. O tabelião da Vila de São Salvador, Antonio Feliciano Serpa, certificou que pelo procurador do alferes Joaquim Vicente dos Reis lhe fora apresentada carta de arrematação da fazenda seqüestrada dos je­ suítas, "onde consta se acharem nella descriptos 1.453 escravos, entre machos e fê­ meas, pardos e pretos", etc. etc. Joaquim Vicente dos Reis, já coronel, era um cidadão de rara visão, acima de sua época e de grande argúcia para negócios. Em pouco tempo multiplicou seu pa­ trimônio na planície, adquirindo outras grandes propriedades, tornando-se dono de imensos latifúndios. De 1793 a 1798 saíram dos seus engenhos, exportados para a Europa, 1786 caixas e 80 feixes de açúcar, com o peso de 100.378 arrobas, e 1246 pipas de aguardente, afora gêneros mandados para Bahia e Pernambuco. O tratamento dado a seus 2.000 escravos constituiu uma exceção, porque eram muito bem tratados. O primeiro hospital instalado em Campos foi de sua iniciativa e propriedade. Destinava-se prioritariamente ao tratamento dos seus escravos, mas abrigava todos os necessitados e até pessoas abastadas se utilizavam dele, por se­ rem muito bem tratadas.

Mas uma prova eloqüente da visão extraordinária desse homem foi a sua inicia­ tiva de trazer a vacina contra a varíola da Europa diretamente para Campos. O inglês Jenner havia observado que as pessoas que contraíam a doença pustulosa da vaca não pegavam a varíola. Então experimentou inocular a matéria virulenta da "cow- pox" nas pessoas. Estas eram inoculadas, internavam-se em hospitais, havia a for­ mação de pústulas, febre, mas tudo benigno. E a vacina era assim passada de uns para outros. O segundo presidente dos Estados Unidos, John Adams, foi assim va­ cinado, mas o médico dr. Zabdiel Boyeston teve que, num gesto heróico, para con­ vencer os habitantes de Massachusetts, vacinar seus próprios filhos, de 6 e 13 anos.

Na Taba dos Goytacazes

Joaquim Vicente dos Reis levou para a Europa um certo número de escravos (a viagem durava três meses) e foi passando a vacina de um para outro até chegar aqui. Grande feito. Outro destaque de sua vida foi enfrentar e expulsar o administra­ dor do Visconde de Asseca que teimava em se apropriar de propriedades que não eram suas, mesmo depois da Capitania ter-lhe saído das mãos e ter passado ao Do­ mínio da Coroa. Era Luiz Alvares de Freitas Bello, que trouxe para cá nada mais na­ da menos do que o delator de Tiradentes, o traidor da Inconfidência Mineira, Joa­ quim Silvério dos Reis, que havia acrescentado "Montenegro" a seu sobrenome e que tentava cobrar o preço de sua traição em terras de Campos. A dupla sinistra tentou tudo aqui e foi enfrentada por Joaquim Vicente dos Reis, sendo afinal expulsos ambos, não sem antes levantar uma calúnia contra o dono do Colégio, segundo a qual ele teria violado correspondência do Reino. Joaquim Vicente do Reis foi o quarto Provedor da Santa Casa de Misericórdia, sucedendo em 1796 a José Francisco Cruz. Seu retrato de corpo inteiro, pintado por pintor desconhecido, está na galeria daquela casa. Foi um grande provedor. Vi­ sitava sempre os doentes levando-lhes medicamentos. Ele se casou com d. Josepha Bernadino do Nascimento e com ela teve oito filhos, mas quando ele faleceu em 1809 deixou apenas três filhas, a terceira casada com Marquês de Palma. Deixou testamento e uma fortuna incalculável em terras, gado, cana e escravaria, e em moe­ das de ouro 21 contos de réis, quantia avultada para a época.

Sebastião Coutinho Rangel

Sebastião da Cunha Coutinho Rangel foi o campista que às suas próprias cus­ tas resolveu partir para Portugal a fim de promover a defesa dos condenados pela repressão contra o levante de Benta Pereira, Mariana Barreto e os Manhães Barreto, filhos da heroína. Quando chegou a Lisboa teve que enfrentar a malícia dos Asseca que o haviam incluído entre os que participaram da revolta, pelo que não podia fun­ cionar como advogado na causa. Conseguindo provar sua inocência, obteve de de­ sembargadores da Corte uma "carta de seguro" (espécie de "habeas corpus" pre­ ventivo), a fim de não ser preso enquanto andasse diligenciando soltar os presos que mofavam nas masmorras da Bahia, à espera de serem transportados para a Áfri­ ca, entre eles Mariana Barreto. Fez uma longa e brilhante defesa dos campistas, que "viviam mergulhados na opressão e consternação". Historiou longamente todos os sofrimentos da gente cam­ pista, suplicando ao Rei que livrasse os míseros vassalos da tirania. Conseguiu con­ vencer pela sua eloqüência e o Conselho se reuniu, e com o parecer do dr. Rafael Pardinho foi decidido adquirir a Capitania. Os Asseca entretanto não se davam por vencidos, e alegavam que os argumentos de Sebastião Coutinho só continham falsi­ dades, por ser ele próprio um dos amotinados. A luta continuou, acesa e carregada de golpes baixos dos Asseca. Coutinho subestabeleceu sua Procuração ao dr. Domingos de Faria Pinheiro Gusmão, que pe­ diu vista dos autos para impugnar as alegações do Visconde. Todos os argumentos dos Asseca foram destruídos um por um, provando-se que durante o domínio da Coroa suas propriedades e direitos jamais foram prejudicados, nem seus administra­ dores coagidos de qualquer forma. Todos os documentos foram novamente subme­ tidos ao Conselho Ultramarino e o Relator, dr. Rafael Pardinho, se pronunciou

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contra os Asseca, tendo o Marquês de Penalva opinado pela compra imediata da

Donatária. E El-Rei assim se pronunciou: — "Os Procuradores da Fazenda e Coroa ajustem com o donatário a compra dessa Capitania e me deem parte pelo Conselho. 0 mesmo Conselho ordene ao Chanceler da Relação da Bahia que faça suspender

o procedimento contra todos os réus que não se acham ainda sentenciados, ou en­

quanto não se tem executado ainda as sentenças, porque pela minha Real Clemên­ cia hei por bem perdoar-lhes". E assim foram postos em liberdade todos os que es­ tavam presos na Bahia, à espera de serem enviados para o degredo na África, entre eles a heroína Mariana Barreto.

Sebastião Rangel regressou de Portugal tendo chegado a Campos em agosto de 1753. Foi recebido como herói, com grandes festas.

0 Bispo Azeredo Coutinho

Ele não teve atuação em Campos, mas aqui nasceu e foi o campista que teve

o seu nome projetado internacionalmente no século XVIII. Era filho do advogado dos

campistas Sebastião da Cunha Coutinho Rangel. Nasceu em Campos a 8 de setem­ bro de 1742 e indo estudar no Rio abraçou primeiro a carreira militar chegando a ser Alferes de granadeiros, mas desistiu para seguir a carreira eclesiástica. Formado em Cânone pela Universidade de Coimbra, voltou ao Brasil, tendo sido Arcebispo da Catedral do Rio de Janeiro; em 1785, deputado ao Santo Ofício, depois Bispo de Pernambuco, de onde voltou a Portugal, tornando-se Bispo de Elvas em 1806 e de Beja em 1821. No primeiro, publicou famosa pastoral contra os invasores franceses.

Foi o primeiro deputado ás Cortes Portuguesas pelo Rio de Janeiro. Voltando ao Brasil, foi Bispo e governador de Pernambuco, onde teve atuação destacada. Es­ cravocrata e reacionário, membro do odiado Santo Ofício, nem por isso se pode ocul­

tar o seu extraordinário valor. Cultor apaixonado das letras, publicou muitos livros

e teses, destacando-se como economista, tendo sido o mais destacado membro da Academia de Ciências de Lisboa.

Publicou, entre muitas, as seguintes obras: "Ensaio econômico sobre o comér­ cio de Portugal e suas colônias"; Memória sobre o preço do açúcar"; "Analise en

Ia justiça du Commerce des Escraves de Ia coté d'Afrique"; "Discurso sobre as mi­

nas do Brasil", e muitas outras obras de valor e uma conferência pronunciada na Bélgica. No seu livro "Analise sobre a justiça do commercio do resgate dos escravos da costa da Africa", defendeu a escravatura que existia desde o início do mundo,

o que não torna simpática a sua figura. Engendrou uma máquina volante com forma de um pássaro, sendo precursor do padre Gusmão, de José do Patrocínio e de Santos Dumont, a mostrar a tendên­ cia dos brasileiros para a conquista dos espaços. E queria que se escrevesse no peito do "pássaro volante" a seguinte quadra: — "O pássaro do Brasil/voando em giro rotundo/levará riquezas mil/às gentes de todo o mundo". Filho de um campista ilustre, e ele próprio campista de nascimento, o Bispo Aze­ redo Coutinho elevou mais, pelas letras e como administrador, o nome do pai. E em relação a Campos publicou livros sobre os problemas do açúcar.

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O século XIX

O século XIX terminava, com seu cortejo de lutas, em que se misturavam vários contendores, não só os "heréus" contra os Asseca, mas entrando nas brigas os je­ suítas e beneditinos, ora ao lado dos donatários dominadores, ora lutando contr%

a população da vila, ora brigando entre si. A figura de Benta Pereira e seus filhos,

entre os quais avulta essa mulher de fibra que foi Mariana Barreto, marcou o século

que expirava. Mas o século XIX desembocava e encontrava a planície com mais de 300 enge­

nhocas, e a vila adquirindo certa fisionomia resultante do predomínio, agora definiti­ vo, do ciclo do açúcar. A fase do vaqueiro não permitira que a vila se desenvolvesse

e se tornasse realmente o pólo aglutinador das atividades da população, só rural, morando em casas de pau-a-pique e que "nem caiadas eram".

Agora já se vêem cetins, galões, seda e veludos, substituindo o algodão e a baeta, e os celins de pêlo de carneiro, agora substituídos por arreios de prata, e o primeiro ousado que usou uma cabeleira foi olhado com assombro mas logo imita­

do. É o que nos conta Couto dos Reis. A

o seu "juiz de fora", nomeado que foi para o cargo Sebastião Tinoco da Silva, que

detinha também jurisdição em São João da Barra. Ambas as vilas, Campos e São João da Barra, haviam sido anexadas à Capitania do Espírito Santo.

Villa de Sam Salvador progredia. Já tinha

Miguel Cataia

O Correio estava funcionando desde 1798, quando saíram daqui para o Rio de Janeiro os dois primeiros estafetas a cavalo, pai e filho de sobrenome Cataia. Em 28 de março de 1879 caía do cavalo e fraturava uma perna Miguel Fernandes Cataia, com 100 anos de idade. É o que nos conta Julio Feydit, com o detalhe notável de que Miguel com seu pai foram os dois primeiros estafetas em 1798 e que portanto faziam 81 anos e três meses que ele fizera aquela primeira viagem. Era uma figura muito popular e querida o velho Cataia, com seus longos cabelos e seu bom humor, sua espetacular saúde. Quando da instalação dos Correios eles ganhavam 640 réis de diária, ida e volta, viajando de 15 em 15 dias, sempre às quartas-feiras. Mas essa diária, só quando estavam viajando. Em 1840 passaram a ganhar 1S000 (hum mil réis) quando não viajavam e 1$600 (hum mil e seiscentos réis) quando em serviço. Logo depois da ligação Campos—Rio, foi estabelecido mesmo serviço para o Espíri­ to Santo. Pode-se imaginar o alvoroço que envolvia a população excitada com a che­ gada dos Cataia, que vinham trazendo cartas do Rio de Janeiro. Quem pagava o "selo" era quem recebia a correspondência. E se pode avaliar a popularidade do ve­ lho Cataia, cuja morte em 1879 comoveu toda a população, que chorava no seu en­ terro de primeira classe, o mais luxuoso que a Santa Casa tinha reservado para os barões dos canaviais e senhores de engenho. Mas esses fatos são ignorados, porque o nosso povo conhece mais a História dos Estados Unidos, pela força comunicadora do cinema, do que a nossa própria História. Sabe que o famoso Buffallo Bill começou como estafeta de Correios (o "po-

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Biblioteca de ESTUDOS FLUMINENSES

ney expresso") atravessando a cavalo regiões dominadas pelos índios, mas a epo­ péia dos Cataia e outros por este Brasil lhe é desconhecida. Sabe tudo na vida dos chefes índios "Sitting Buli" (Touro Sentado), Cochise, Jeronimo e outros, e não sabe nada da vida do grande chefe índio Araribóia, que saiu de Cabo Frio chefiando os seus temiminós numa frota de pirogas para ajudar na luta pela expulsão dos fran­ ceses. E quando o vice-rei lhe foi conceder uma comenda, chegando à igreja, depois de atravessar de canoa a Baía de Guanabara, soube que tinha de ajoelhar-se para receber a láurea, deu as costas, pegou novamente sua canoa e voltou para a sua Praia Grande (Niterói), aos altos brados gritando que um chefe como ele não se ajoe­ lhava aos pés de homem nenhum. Mas as engenhocas se multiplicavam e a cana ampliava conquistas de territó­ rios. Afora os quatro grandes latifúndios — a Fazenda do Colégio e as outras de Joaquim Vicente dos Reis — o do Mosteiro de São Bento; o dos Asseca (Fazenda do Visconde); e á do sul da Lagoa Feia (Fazenda do Morgado), o que predomina

é a pequena propriedade, ao contrário de Pernambuco. A luta é individual e rude. Cada um cuida de si, de produzir o que pode, cada

vez mais caixas de açúcar. Mais ao fim da "safra" ele está de mãos quase vazias, porque tinha que vender toda ela aos negociantes da vila e em virtude da falta de transportes e ainda pelo seu feitio excessivamente particularista, tinha que se sub­ meter aos traficantes. E ainda tinha o inimigo maior a enfrentar. Mais forte do que

a onça, as cobras e outros animais, era a malária, o paludismo. Produto do Brejo,

eram os dois que esse "peão" pobre, com sua família e seus escravos, tinha que enfrentar. A luta cruenta tornava-os maus para com os escravos, cuja população no início do século era igual à dos brancos livres. Mesmo assim eles incomodavam, e os latifundiários, os senhores de engenho do Rio de Janeiro protestavam contra "esses míseros e apoucados lavradores, su­ postos possuidores de fracas e tributárias engenhocas". É Antonio Muniz de Souza quem fala. Ele foi um dos mais lúcidos viajantes-escritores que visitaram Campos no começo do século.

E a luta contra a malária e as febres podres continua. — "A luta é individual

e áspera" — diz Ribeiro Lamego. A produção é subdividida em pequenas porções,

mas que somadas já vai alta. Ainda em 1783, as 128.580 arrobas divididas pelo nú­ mero de engenhos da época dão média de menos 500 arrobas por engenho, é ainda Lamego quem informa.

— "O fim principal é moer cana e fazer açúcar" — diz Couto do Reis. Na primei­

ra década do século XIX já chegam a mais de 600 os engenhos primitivos.

Voltemos à vila de São Salvador. Era iluminada a lampiões de azeite de peixe, de má qualidade. O sino da Cadeia (mais tarde o da Matriz) dava o toque de recolher às 10 horas da noite. Só havia uma rua calçada precariamente, a dos Mercadores (depois Rua Direita e hoje 13 de Maio). Em 1805 ocorreu o crime da Rua das Cabe­ ças (Aquidabã) que Gastão Machado conta com detalhes em "Os Crimes Célebres de Campos". Em janeiro de 1808 a vila recebeu com grandes festas a notícia da che­ gada de D. João VI e sua Corte ao Brasil. Antes, em 1805, era inaugurada a "Casa da Ópera", teatrinho que existiu na rua "Detraz da Matriz" (Vigário João Carlos). Em 1811, o Visconde de Ara rua ma foi designado por D. João VI para proceder à limpeza dos rios da Lagoa Feia. Em 1812, a viúva de Braz Carneiro Leão, Ana Fran-

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Na Taba dos Goytacazes

cisca, proprietária da fazenda "Barra Seca", recebia a mercê do titulo de Baronesa de São Salvador dos Campos Goytacazes. Em 1827 estabelece-se o primeiro engenho a vapor. Era o começo da "Era da

Machina"

E a vila de São Salvador continuava em sua vidinha pacata, limitada a leste pela Rua do Ouvidor, que já era "subúrbio". Depois da Rua dos Mercadores (13 de Maio), haviam calçado, a pedras irregulares — "pés-de-moleque" — os becos do Dionísio; (Rua Rotary), beco Francisco Manoel Duarte (Travessa Carlos Gomes); e do Cam- pello (Rua 21 de Abril), trecho da Praça Principal à Rua da Alagoa (Rua Quitanda, atual governador Teotonio Ferreira de Araújo). Até o toque da Ave-Maria ou poüco depois, ainda havia movimento, conversas e jogo de gamão na Botica de Francisco Rodrigues da Cruz (Chico da Botica, a única existente na vila), localizada na Rua

dos Mercadores. Depois do toque de recolher, às 10 horas da noite, já não se via mais quase ninguém, a não ser vultos embuçados em busca de leitos clandestinos. Os escravos que eram apanhados na Rua pela ronda depois do toque de recolher eram surrados no dia seguinte no Pelourinho, depois de uma noite na Cadeia. Mas a vila já era importante, pois até um teatrinho havia inaugurado em 1804,

a

"Casa da Opera", na Rua Detrás da Matriz (Vigário João Carlos). Foi nesse mesmo ano que ocorreu um crime que abalou a população da vila,

e

que ficou conhecido como o crime da "Rua das Cabeças", nome antigo da Rua

do Aquidabã. Esse crime que envolveu um sacerdote é relatado por Gastão Macha­ do em seu livro "Os Crimes Célebres de Campos". O padre Lacerda vivia com sua "sobrinha" (na verdade era sua filha), moça de 17 anos de rara beleza. Por ela se apaixonou o cirurgião Pedroso, português, mas a moça, Umbelina, não correspon­ deu a esse amor. Inconformado, o cirurgião insinuou ao namorado da moça que ela estava grávida, pelo que seu pai, o padre Lacerda, contratou um bandido para matá- lo. Julio Feydit e Gastão Machado contam essa história e a rua passou a ser conhe­ cida por "Rua das Cabeças", por nela serem espetadas as cabeças do criminoso e

de um seu pseudocúmplice, na verdade inocente. O mandante do crime, padre La­ cerda, fugiu para a Bahia onde trocou de nome e de profissão.

O povo da vila era muito dado a festas e folguedos, muita procissão e cavalha­ das, estilização das Cruzadas, guerra entre cristãos e mouros, exibição em que os campistas adquiriram realce. A notícia da chegada de D. João VI e sua corte ao Rio de Janeiro foi recebida com Te-Deum, foguetórios e galas pela vila. Em visita pasto­ ral esteve em Campos, em 1812 e 1819, o Bispo do Rio de Janeiro D. José Caetano da Silva Coutinho, sendo que nesta última visita ocorreu sério incidente entre ele

e o provedor da Santa Casa, Custódio José Nunes. Em 1820, houve, em Portugal, a "Revolução do Porto", que implantava o regi­ me constitucionalista, obrigando os soberanos a jurar obediência a uma Constitui­ ção. Os habitantes das vilas de São Salvador de Campos e São João da Barra

dividiram-se entre os partidários dos revoltosos do Porto e os da monarquia absolu­

ta.

E houve conflitos, facadas e tiros de garrucha. Em 1821, já tendo deixado o Brasil

D.

João VI, o Príncipe D. Pedro enviou a Campos o Brigadeiro José Manuel de Mo­

raes, que prendeu os cabeças dos motins. Major Rolão e um tal de Manuel Alves de Jesus, que entrara na vila a galope espalhando o boato que uma forte coluna de escravos das fazendas do "Visconde" e do "Colégio" vinha atacar a vila.

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Biblioteca de ESTUDOS FLUMINENSES

Nessa altura a Câmara recebeu do Rio apelo no sentido de mandar uma repre­ sentação com muitas assinaturas, reforçando o pedido ao Príncipe Pedro para ficar no Brasil. O Ouvidor José Libanio de Souza mandou formar um "Bando" e depois de rufar os tambores na Praça Principal falou ao povo e logo a representação se co­ briu de assinaturas. Veio o Sete de Setembro e a notícia chegou a vila oito dias depois, trazida por um mensageiro especial a cavalo, não tendo sido, portanto, o estafeta Miguel Ca­ taia o portador da boa nova. Novas festas, procissões (a de São Jorge se destacava, com o santo, de madeira, atarrachado a um cavalo), foguetórios e danças na praça pública, onde se destacava um minueto caboclo, a "Mana Chica" Mas os portugueses, que dominavam o comércio da vila e exploravam os lavra­ dores e donos dos engenhos, não estavam conformados. E enviavam mercadorias secretamente para a Bahia, a fim de auxiliar o General Madeira, que resistia ainda

à Independência lutando com suas tropas. A ele, os negociantes portugueses envia­

vam em sumacas embarcadas na calada da noite, muito depois do toque de reco­ lher, seu auxílio em mercadorias. 0 Ministro do Reino, José Bonifácio de Andrada

e Silva, enviou enérgico ofício à Câmara da vila de São Salvador dos Campos no

sentido de que embargasse a saída de embarcações carregadas de mantimentos pa­ ra a Bahia.

A abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril, provocou tremendos conflitos na Pra­ ça Principal entre brasileiros campistas, e os "papeletas", como eram conhecidos os portugueses. Em 1827 fez sua chegada a Campos um arguto e inteligente observador dos cos­ tumes das gentes brasileiras. Foi o baiano Antonio Muniz de Souza, que percorreu demoradamente a vila de São Salvador dos Campos e São João da Barra, viagens cujas impressões ele reuniu no livro "Viagens e Observações de um Brasileiro", livro precioso publicado em 1834. Muniz de Souza andou percorrendo o Brasil durante 28 anos. Chegou a São João da Barra em 1827. E a antiga São João da Praia já contava com cinco mil habitantes e um estaleiro que construía embarcações que fa­ ziam a ligação da própria vila e a de São Salvador dos Campos com o Rio. Eram barcas de 60 a 80 palmos e muito rasas. Carregavam até 20 caixas de açúcar e po­ diam navegar com três palmos dágua. Muniz de Souza encontrou aqui já 700 engenhos, mas um único movido a va­ por, o de dona Francisca Rosa Maciel da Costa, Baronesa de Goitacazes, a mesma que fez aquela desfeita a Pedro I, retirando-se acintosamente da Capela Imperial, quando o Imperador fez entrar nela a Marquesa de Santos, sua amante, quando da realização de um Te-Deum. Muniz de Souza se apavorou com o tratamento desumano dado aos escravos, fazendo exceção à fazenda do Barão de Muriaé, onde os escravos eram tratados como gente. Outros que trataram bem dos escravos eram Antônio José de Siqueira,

o Visconde de Itabapoana, e o Barão de Santa Rita. Introduzida a cana "caiana",

a produção aumentou consideravelmente, ela que fora, em 1823, de cerca de 12 mil

caixas de açúcar exportadas. Muniz de Souza foi o que ficou impressionado com

a obsessão do campista pela cana, a ponto dos habitantes da vila passarem até mal

de alimentação, por não plantarem nenhuma outra lavoura de subsistência. Em 1828, um outro campista mostrou sua rebeldia, sua altivez e mesmo arro­ gância, tal qual a Baronesa de Goitacazes. Foi ele José Bernadino Batista Pereira

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Na Taba dos Goytacazes

de Almeida Sodré. Nascido em Campos em 20 de maio de 1783, formou-se em Coim­ bra, e ocupou todos os cargos públicos da mais alta administração. Seguiu a magis­

tratura, foi juiz de fora, deputado às constituintes em Lisboa, Ministro do Império, da Fazenda e da Justiça. Tendo deixado o Ministério meio agastado com o Impera­ dor, deu a seguinte resposta quando convidado novamente por Pedro I a ocupar

o

Ministério: — "Honra de donzela e confiança de Ministro só se perde uma vez

e

por isso não posso tornar a ser Ministro de Vossa Majestade". Em 1874 hospedou

por dois dias D. Pedro II em sua fazenda e o Imperador admirou a máquina a vapor do seu engenho de açúcar. Publicou quatro livros, um deles sobre Campos. Em 1826 surgiu o primeiro jornal em Campos. Mas ainda não era a Imprensa porque o jornal era manuscrito. Foi o "Espelho Campista", de Prudêncio Joaquim Bessa. (Daí por diante tivemos sempre um Bessa ligado a jornal em Campos, o últi­ mo foi dr. Alcindor Bessa com sua "A Tribuna"). O "Espelho Campista" conta epi­ sódio em que o indivíduo Manoel Alves de Jesus, "a horas noturnas", feito tocar

a rebate os sinos da cadeia e das igrejas, os tambores e as cornetas dos dois bata­ lhões de milicianos, sob o falso pretexto de que os índios iam atacar a vila.

O Brasil foi o último das Américas a ter jornal. Portanto um dos últimos do mun­ do. Enquanto todas as repúblicas espanholas já tinham tipografia e jornal, da Guate­ mala ao Paraguai, as tipografias clandestinas que por aqui apareciam eram confisca­ das e seus proprietários presos e condenados ao degredo na África. — "Não é con­ veniente que se imprimam palavras no Reyno do Brasil" — dizia uma ordem régia.

O primeiro jornal brasileiro foi lançado e impresso em Londres. Foi o "Correio Brasi-

liense", de Hipólito Furtado de Mendonça, cidadão de vida aventuresca, perseguido

e preso pela Inquisição. Fugiu para a Inglaterra e de lá mandava 500 exemplares de

seu jornal para o Brasil. Se o Brasil não foi descoberto por acaso, a imprensa chegou aqui por acaso. E nós a devemos a Napoleão Bonaparte, cujas tropas puseram em fuga D. João VI e sua corte. No embarque às pressas o Conde da Barca enfiou no porão do navio "Medusa" dois prelos e 24 caixas de tipos. Só aqui D. João VI soube

disso e foi fundada a "Impressão Regia" e depois a "Gazeta do Rio de Janeiro", mas ambos com jeito de "Diário Oficial" e submetidos a férrea censura.

Em 1.° de janeiro de 1831 é que saiu o primeiro jornal impresso em Campos. Antonio José da Silva Arcos fundou uma tipografia, a primeira lançada em Campos, e em 4 de novembro de 1830 se dirigiu à Câmara participando "ter estabelecido na Vila huma tipografia, na qual se tem proposto a publicar um Periódico, cujo pros- pecto remeteo, offerecendo-se à publicação das ordens e actas desta Câmara no dito Periódico, logo que saia o primeiro número". Daí por diante foi uma avalanche de jornais. Surgiu o "Pharol Campista", do mesmo Prudêncio Joaquim Bessa. Em seguida "O Goytacaz", dirigido pelo dr. Francisco Alípio, que já fora redator do jor­ nal de Silva Arcos. Em 1834 apareceu "O Campista", semente de "Monitor Campis­ ta", dirigido pelo mesmo dr. Francisco Aluisio, que foi assassinado por motivos pas­ sionais, já que se envolvera com uma viúva perigosa. Também este crime é relatado por Gastão Machado em seu "Os Crimes Célebres de Campos". Em 4 de julho de 1838 surgiu "O Monitor", assim com o artigo "O " e ponto final. Da fusão dos dois é que surgiu o "Monitor Campista", em 1840 - o terceiro jornal do Brasil em longe­ vidade. O aparecimento de "O Campista" foi saudado pelo grande jornalista Evaris- to da Veiga, em seu jornal, no Rio.

t

Enchente de 1833 quase destrói a vila

A multiplicação dos engenhos é algo de fantástico. Em 1828 eles já são 700, como informa Muniz de Souza em seu livro de impressões de viagem. Mas apenas quatro são a vapor, dois de moinho e outros de água, os demais de quadrúpedes, é o mesmo viajante que informa. Mas os donos desses engenhos não auferem gran­ des lucros porque são obrigados a vender suas caixas de açúcar aos portugueses, comerciantes da vila, os quais os financiam. Só em 1837 as moendas de pau e as

caldeiras de cobre são substituídas por moendas de ferro. Mas a produção já atinge

a

10.000.000 de quilos.

Nesse mesmo ano de 1837 o inglês Alexandre Davidson começou a tornear fer­

ro

e bronze e segundo

informa Julio Feydit (pág. 440 da 1.8 edição) fundou

impor­

tante fundição de metais. Esse inglês teve uma participação muito expressiva na his­ tória de Campos, tendo em 1851 requerido à Câmara concessão para colocar um guindaste e fazer uma ponte de embarque para barca a vapor. E em 1852, o vapor "Goytacaz" fez a sua primeira viagem a São João da Barra, gastando três horas de ida e seis horas de volta.

Mas em 1833, a vila quase foi destruída pela catastrófica enchente que repercu­ tiu em todo o Império — 198 casas foram destruídas, quando a vila tinha uma popu­ lação de apenas sete mil almas. Foi no dia 2 de fevereiro que o Paraíba bufou, rugin- do ameaçadoramente. Diz Feydit que o rio encheu com tal força que das 2 às 5 ho­ ras da tarde subiu um metro e 10 centímetros. Já havia muralhas de proteção, em­ bora muito precárias, nos portos da Fragata (atual Rua do Ouvidor ou Marechal Flo- riano) e o que ficava onde hoje é a ponte da Leopoldina. Nunca mais o Paraíba teve enchente de tais proporções. Na parte alta da cidade, o "Alto do Liceu", a Praça Principal e outros raros pontos foi para onde se refugiaram os habitantes da vila e os animais, com o gado mugindo tristemente. O famoso Córrego do Cuia (passava ao lado da Igreja de São Francisco e rumava para a Baixada) foi engrossado pelas águas do rio. Na Rua dos Mercadores, 96 casas ruíram, na Rua da Quitanda ou da Alagoa, muito pouco edificada, então, sete casas; Rua do Rosário, 48; Rua do Con­ selho, 10; Rua das Flores (Sete de Setembro), 4; Rua do Sacramento, 13; Beira-Rio, 23, e mais outras. O governo mandou o vapor "Correio Brasileiro" socorrer a popu­ lação. Trouxe 900 sacos de farinha, 100 de milho; pela sumaca "Amor da Pátria", carne-seca e outros gêneros alimentícios.

Verdadeiras ilhas flutuantes passavam velozmente, carregando animais de ca­ ça, cobras; cadáveres de bois desfilavam na correnteza, e outros ainda lutavam na­ dando para depois sucumbirem. A Câmara ficou reunida em sessão permanente, dirigindo os esforços de salvamento da população. De várias cidades vinham contri­ buições em dinheiro e gêneros. Uma subscrição na Corte rendeu 11:4345000, mas o curioso e incrível é que o governo descontou importância que achou relativa aos mantimentos que enviara, pelo que chegou à Câmara da vila apenas a importância de 3:6575360 réis (Teixeira de Mello, "Campos dos Goytacazes, 1881"). As câmaras municipais de diversas vilas mandaram donativos.

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Campos Cidade

O Ato Adicional de 1834, baseado na Constituição de 1824, criou o "Município

Neutro" (Distrito Federal), desincorporando-o da Província do Rio de Janeiro. E pe­

la Carta de Lei datada de 28 março de 1835 elevou à condição de cidade as vilas

Praia Grande, com o nome de cidade de Nictheroy; Sam Salvador dos Campos com

o nome de "Cidade de Campos dos Goytacazes"; e "Ilha Grande", com o nome

de cidade de Angra dos Reis. A Carta de Lei é assinada pelo presidente da Província do Rio de Janeiro Joaquim José Rodrigues Torres.

O Ato Adicional ao mesmo tempo que criava o município Neutro e o desincor- porava da "Velha Província" decretava que "Nictheroy" passaria a ser a capital da Província do Rio de Janeiro. E este foi o irreparável erro histórico a afetar a Provín­ cia, depois Estado do Rio de Janeiro, estiolando o seu desenvolvimento. 21 anos depois já o campista havia percebido tal erro e prejuízo, tentou corrigi-lo, mas isto

é tema para depois.

A cidade de "Campos dos Goytacazes”

Feydit afirma que a notícia da elevação da vila de São Salvador dos Campos à condição de cidade chegou aqui no dia 4 de abril, mas Horácio de Souza discorda, mostrando, documentadamente, que atos oficiais da Câmara ainda continham, jun­ to à data, a expressão "Villa de Sam Salvador dos Campos" em 24 de abril e até em maio. O autor dos "Subsídios para a História de Campos dos Goytacazes" infor­

ma que a notícia aqui chegou, trazida pelo estafeta Miguel Cataia, no dia 4 de abril.

O autor de "Ciclo Àureo" diz que uma notícia particular podia chegar a Campos na­

quela época, trazida pelo estafeta do Correio montado, em sete ou oito dias, mas

não uma notícia oficial. Mas o certo é que quando chegou houve três noites de festas. Vamos dar nos­ sa conclusão baseada no que se pode admitir. A notícia oficial pode ter chegado aqui a 24 de abril mas antes disso o Miguel Cataia que viajava de 15 em 15 dias já devia ter trazido a mesma notícia por correspondência particular muito antes. E aí

a população não ia esperar pela notícia oficial para comemorar. Isto seria para o se­ nado da Câmara, que não podia se adiantar em documentos oficiais. Então, no dia em que o povo da vila soube que já éramos cidade, houve de tudo. Cavalhada, baile de mascarados, procissões, Te-Deum, etc. Um ilhéu baixo e retaco, de apelido "Bento Moleque" (a vila tinha que ter o seu gaiato, um sujeito metido a engraçado), fez o papel de rei mouro na cavalhada.

A Câmara Municipal que funcionava em 1835 e que recebeu a feliz notícia era

presidida pelo Padre José Manuel Pereira Brados e constituída dos seguintes verea­ dores: Bento Benedicto de Almeida Batista, José Martins Pinheiro (que seria depois Barão da Lagoa Dourada), dr. Custódio Francisco de Castro Norberto, sargento-mor Cândido Narciso Bittencourt, cônego Agostinho dos Santos Collares. E mais os su­

plentes, naturalmente, chamados de "substitutos".

A novel "Cidade de Campos dos Goytacazes" encontrava uma vila de cerca de

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Biblioteca de ESTUDOS FLUMINENSES

sete mil e poucos habitantes, com "dúzia e meia de ruazinhas estreitas e tortuosas, seis travessas quase todas sem pavimentação, crivadas de atoleiros, à mfngua de iluminação pública sendo esta feita de 74 lampiões de azeite de peixe", etc. ("Ciclo Áureo", Horácio de Souza). As ruazinhas com rótulas e postigos. Somente uma praça

e quatro largos. Mas a propósito de iluminação, o pioneirismo dos campistas não

se evidenciou apenas no fato de ter sido Campos a primeira cidade da América do Sul a ter a luz elétrica. Em 1848 os fumarentos lampiões de azeite de peixe eram substituídos por gás de hidrogênio líquido, tratados a cal de pedra de Muriaé e a aguardente produzida no município. Enquanto isso a Corte, o Rio de Janeiro, capital do Império, continuava com os lampiões de azeite até 1853.

Mas no restante a vila era muito pobre. Em quase todas as ruas grandes atolei­ ros dividindo os portos. Nas Ruas do Rosário, do Mafra, do Alecrim, desde a Casa da Ópera até Mariano Machado; na Rua São Francisco (em frente à igreja), na Rua Constituição (Alberto Torres), na Travessa do Caderno e na Rua Nova, dificilmente se podia passar por causa dos pântanos. 0 Matadouro funcionava num pardieiro em ruínas e só depois da condição de cidade seria mudado para a Beira-Rio, abaixo do Mosteiro da Lapa.

0 Paraíba começou a receber muralhas entre 1835 e 1837. A enchente de 1833

tinha produzido muitos estragos e atrasado o progresso da vila. Foram adquiridas pedras, transportadas em 250 barcaças, e mais 40 toneladas vindas da Corte. As obras tiveram a direção do engenheiro Major Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde

e do Brigadeiro Antonio Eliziario de Miranda e Britto. Bellegarde foi figura de desta­ que em nossa História.

Entre o porto da Rua do Rosário e o Largo do Capim localizavam-se as bancas para venda de pescado. E a arborização da cidade começaria em 1839, plantando-se

50 mudas de nogueira-da-índia na Beira-Rio. A Praça Principal (São Salvador) vivia coberta de capim e em 1839 o vereador José Fernandes Pereira, em face do lamaçal em que se transformava nos dias chuvosos, propunha o seu calçamento "em faixas de seis palmos, desde a Rua Nova do Ouvidor (21 de Abril) e Travessa do Barroso,

e desde o "Beco da Busca" até a Rua da Constituição, e em igual largura desde

o Porto da Cadeia até a porta principal da Matriz". Em 1832 foi fundada a primeira loja Maçônica, a "Firme União". Em 1844, a Câmara dá autorização a Bento José de Araújo para colocar uma bomba na margem do Paraíba, para com maior presteza encher as pipas que abasteciam a cidade. Co­

mo o caminho de Campos à Corte, por terra, seguindo a linha do litoral, não oferecia pousos para os viajantes, em 1836 a Câmara aprovava novo roteiro. Mas em breve

a ligação Rio — Campos passaria a ser feita via fluvial-marítima, usando-se o porto

de São João da Barra. Ainda em 1844 dá-se outro fato histórico em Campos, que já lançara, em 1834, o jornal que seria o terceiro em longevidade do Brasil, o "Monitor Campista". É que seria fundada a que hoje é a mais velha livraria do Brasil, a "Livro Verde". A primeira fora instalada em 1810, no Rio. Mas todas as pioneiras desapareceram, só a Livro Verde se manteve até nossos dias. No começo do século 19 surgiu em Campos, nas­ cido em Coimbra, Portugal, José Vaz Correa Coimbra, que foi o pioneiro que fun­ dou a livraria, em 13 de junho de 1844, inauguração que contou com a participação da "Banda de Música dos Barbeiros". Era na Rua da Quitanda, ex-Alagoa, número 22. A rua era toda ela um lamaçal em dias de chuvas e um grupo de comerciantes

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com Vaz Coimbra à frente se dirigiu à Câmara pedindo providências. Mas o seu cal­ çamento só foi concluído em 1852. O "Mercador de Livros" Vaz Coimbra era um cidadão inteligente e de certa cul­ tura não se sabe como adquirida, pois os meios eram apoucados. Basta dizer que tinha nas suas estantes muitos livros em francês. Para quem ler? - pergunta-se. Mas as colônias francesas e inglesas na cidade eram numerosas. Frisamos o detalhe

de localização apenas urbana de estrangeiros, porque em Campos nunca vingou a colonização que não fosse a portuguesa. Para aqui vieram muitos ingleses e france­ ses como engenheiros mecânicos e toda a parafernália das oficinas dos engenhos

e depois usinas de açúcar. Não houve miscigenação em Campos. Apenas o português e o preto formaram

a nossa etnia. Houve tentativas, inclusive instalou-se uma colônia de belgas em Pe­

dra Lisa mas em pouco eles a abandonaram, não se sabe por conta do clima ou de outro fator. Mas o comércio campista, já naquela época, estava cheio de franceses, que do­ minavam o comércio do Rio. Casas de moda, cabeleireiros, pedras preciosas e cal­ çados, onde pontificavam nomes que depois ouviríamos muito, como Rebel,Cha- tel, Berenger Panchaud, Hotel Francês, e mais tarde Confeitaria Francesa e Tintura- ria Francesa. Vaz Coimbra, o "Mercador de Livros", mas que também anunciava "chá, papel e outras miudezas", foi um grande homem campista da Beneficência Portuguesa e na segunda incursão do "cholera morbus", em 1867, prestou assinala­ dos serviços à população. Mais tarde a firma passou a ser Miranda & Salgado, depois Miranda, Salgado & Cia. e Lopes, Salgado & Cia. Eram dois irmãos Salgado, Manuel Joaquim e João Luiz Domingues Salgado. O primeiro, avô de Benedito Salgado Machado e do en­ genheiro Francisco de Paula Salgado. O outro, avô do jornalista Hervé Salgado Ro­ drigues e irmãos. O novo edifício da "Livro Verde" já na firma Miranda & Salgado foi inaugurado em 1906. Em 1911, quando regressava de uma viagem a Portugal, ao chegar ao Rio de Janeiro, avistando já no cais seu irmão João Luiz e seu filho Rossine, ele faleceu subitamente. Rossine Salgado, apontado por um concurso realizado por "A Notícia" como "o rapaz mais bonito de Campos", assumiu a firma com apenas 23 anos. Mas mor­ reu prematuramente de uma septicemia em 1921, aos 33 anos. Em 1923 a firma pas­ sou a ser Max Zulckner & Cia. (Max Zulckner, Cícero Ornelas Sobral e José Ferreira Tardin). Hoje, desfrutando do mesmo prestígio, a "Livro Verde" é uma limitada da qual fazem parte João Ornelas Sobral, figura de prestígio e espírito público em nossa co­ munidade, e seus filhos Renato e Ronaldo Motta Sobral.

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Visita do Imperador

Até 2 de julho de 1846, o campista fazia a travessia do rio Paraíba para Guaru- Ihos (Guarus) em frágeis canoas, correndo riscos. Naquela data era inaugurada a barca-pêndula, então denominada de ponte-volante. Foi iniciativa do vice-cônsul fran­ cês, Jules Lambert, que em 1866 perderia uma neta, Lídia Lambert, violentada e es­ trangulada, o corpo atirado no Paraíba. O crime figura no livro de Gastão Machado "Os Crimes Célebres de Campos" e ficou impune, sendo provável o motivo porque um dos principais suspeitos era um velhote, rico capitalista. O negócio foi tão bem abafado que nem o Gastão Machado registrou, porque não pôde, o nome do capita­ lista que perseguia a moça nas ruas com galanteios e fora por ela repelido. Sempre

o dinheiro garantindo impunidades. Era a ponte-volante composta de duas barcas de 80 palmos de comprimento, ligadas por vigas de 40 palmos, e assoalhadas. Havia lugar separado para carros e animais, e o compartimento dos passageiros de pé. A barca era ligada a um cabo, que se prendia a uma lancha, ancorada em frente à Rua Voluntários da Pátria, então de Jaca. Os preços das passagens eram 60 réis por cada animal; com carga 120 réis; carros, 200; carregados 400 réis; escravos, 40 réis. Essa barca prestou grandes serviços à população de Campos até ser inaugura­ da a ponte que é a atual "Barcelos Martins", em 1873. Em 15 de novembro de 1838, a Câmara enviou ofício ao Sargento-Mor enge­ nheiro Henrique Luiz Niemeyer Bellegarde, lembrando a necessidade, "desde que assim permitam as rendas provinciais", de se abrir um canal ligando o rio Paraíba ao rio Ururaí. Era o início do canal Campos-Macaé, que foi aberto pela mão do escravo, numa extensão de 105 quilômetros. O objetivo era o transporte de passa­

geiros mas principalmente de produtos hortigranjeiros, da lavoura e da lenha. Só em 1872, depois de muitas peripécias e portanto 38 anos depois, é que o vapor "Vis­ conde" fez a sua primeira viagem, levando 11 passageiros. Em 4 de março trouxe de Macaé 14 passageiros. Mas o canal não vingou, porque três anos depois, em 1875,

já se inaugurava a Estrada de Ferro Campos —Macaé. Muito trabalho, interrupções

muitas, dois mil contos gastos para quase nada. Hoje o canal foi destruído e coberto

por estrutura de cimento armado. Merece citação o fato de que a comissão nomeada pelo presidente da Província para estudar a possibilidade da construção do canal teve também a incumbência de

verificar a possibilidade de aproveitar um porto em São João da Barra, explorando

a

navegação fluvial desde o Fundão até a barra, mas os estudos comprovaram que

o

leito do rio em sua foz era muito instável, pelo movimento constante de areia. O

que impediu que pouco mais tarde a ligação entre a Corte e Campos fosse feita pela via fluvial-marítima, usando-se o porto de São João da Barra. Mas antes, em 1834, era fundada a Caixa Econômica, instituição particular, com apenas 57 acionistas, e o modesto capital de três contos novecentos e cinqüenta mil réis, em fins de 1881 possuía um fundo social de mais de três mil contos. O povo confiava nessas instituições particulares, certo de que suas economias não seriam

malbaratadas e deixados impunes os ladrões-barões, como é o caso de tantas nes­ tes dias

Na Taba dos Goytacazes

Em 1844 foi criado o Liceu Provincial que era para funcionar no Mosteiro da Lapa, mas em virtude de impedimentos eventuais começaria a funcionar no Consis- tório da Igreja de N.S. do Terço, com as seguintes cadeiras: Gramática Latina, Fran­ cês, Geografia, Retórica e Poética, Filosofia Racional e Moral, Geometria e Agricul­ tura Teórica e Prática. Mas o estabelecimento só seria instalado pelo Imperador Pe­ dro II em sua primeira visita a Campos, como veremos mais adiante. Em 1845 "Mo­ nitor Campista" passava a circular três vezes por semana, ao invés de duas vezes. Em 1847 o Imperador Pedro II, então com 22 anos, realizou a sua primeira visita

a Campos. Com grande antecedência, em outubro de 1846, a Câmara Municipal re­ cebia portaria do Presidente da Província, Visconde de Sepetiba, comunicando a visita imperial e solicitando que as providências necessárias fossem tomadas. Houve

a convocação extraordinária e se começou a tomar as medidas, não obstante a "es-

treitesa do tempo e falta de recurso do país". A estrada do Queimado começou a ser consertada e a Rua Direita. Os moradores da mesma Rua Direita, das Flores e Praça Principal foram convidados "para aceiarem as frentes de suas casas e as ador­ narem no dia em que por elas passarem S. Maj., e a todos em geral para que duran­ te a estadia de S. Maj. iluminassem suas casas todas as noites".

Em 15 de outubro o extenso programa já estava concluído. D. Pedro II só che­ gou a Campos em 24 de março de 1847. Era uma figura bonita, de estatura alta, "símbolo romântico por sua personificação de jovem louro e belo numa terra de mes­ tiços", o jovem imperador na intimidade e fora da posição oficial do mando era ale­ gre e expansivo. Chegou tarde da noite em 24 de março de 1847 e por isso p«rnoitou na fazenda do Queimado, dando entrada na cidade na manhã do dia seguinte. Ao lado da igreja de São Francisco achava-se postada a Guarda Nacional, "imen­ so povo e os membros da Câmara Municipal". Recebeu a chave da cidade, de ouro,

e oferecida por José Martins Pinheiro que depois seria Barão da Lagoa Dourada.

.Assistiu ao "Te-Deum" e ouviu o sermão do vigário João Carlos (pai de José do Patrocínio), seguindo depois para o palacete do Barão Muriaé (onde hoje é o quartel do Corpo de Bombeiros). No dia 27, uma visita à Santa Casa, onde fez o donativo de cinco contos de réis, em moedas de ouro e prata, e mandou dar a cada enfermo 4$000 (quatro mil réis). Pedro II gostava de dançar e aquela sua figura austera demais, imagem vendida ao povo, não combinava com a sua real personalidade, pelo menos nos tempos de moço. A propósito vale relembrar cena de uma das revistas de Gastão Machado, onde aparecem as figuras moça de Pedro I (morreu com 33 anos) e Pedro II, sua austeridade e suas longas barbas brancas. Este espinafrava Pedro I pela sua vida dissoluta, sempre dentro da noite caçando aventuras escandalosas e bebendo nas tavernas com o "Chalaça". A coisa foi num crescendo até que Pedro I deu um ber­ ro: — "Espere aí. Afinal de contas quem é o pai aqui?" Diz Alberto Lamego: — "O ardor com que se dava Pedro II à dança e que lhe causou pequeno acidente". E conta que num baile que lhe oferecia José Saldanha da Gama, na mansão de sua sogra, d. Ana Bernardina Barroso, Pedro II escorregou

e caiu. A sociedade campista se excedeu em recepções de alto gabarito e Alberto La­ mego transcreve Vanderlei de Pinho, espécie de colunista social do século passado, em seu livro "Salões e Damas do Segundo Império", onde os "magnatas rurais e os barões ricos" de Campos são citados pelos jantares requintados, as louças e bai­

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xelas de preço que surpreenderam o visitante e deram enorme gabarito a Campos

e sua sociedade. O Imperador-rapaz dançou em vários bailes. No dia 20 de março

atravessou o rio na barca-pêndulo e foi assistir à pitoresca cerimônia da "botada" num engenho de açúcar. Era o início da moagem e o Imperador atirou a primeira cana, enfeitada de flores, à moenda. Depois dançou a polca com a Viscondessa de Santa Rita no armazém de açúcar. Assistiu à procissão de enterro na residência de d. Ana Bernardina Barroso, de outra procissão do palacete de José Martins Pinheiro (Liceu). No baile da Câmara Municipal o Imperador dançou 11 quadrilhas. No dia 7 de abril foi ao Teatro São Salvador onde assistiu ao drama: — "O Marinheiro de

Saint Tropez". O Teatro São Salvador, jóia arquitetônica e relíquia histórica, crimi­ nosamente demolido para alargar a Rua Formosa, fora inaugurado em 7 de setem­ bro de 1845, estando ele iluminado com o gás de hidrogênio líquido, introduzido em Campos por Carlos Perret Gentil, cônsul geral da Suíça que o expôs à venda por 400 réis a garrafa e mais tarde montou fábrica. No dia 11 instalou o Liceu Provincial no Consistório da Igreja do Terço. Foi a Atafona, onde se hospedou na casa de An­ dré Gonçalves Graça e descansou em Airizes. Foi a São Fidélis e depois regressou

a Campos, após o que retornou à Corte. Mas e a cana e o açúcar? Não vão bem. Em 3 de abril, pelo decreto provincial

n.° 310, foi o presidente da Província autorizado a contratar com o engenheiro civil Feliciano Nepomuceno Prates melhoramentos para o fabrico e manipulação do açú­ car. Devia mandar vir da Europa aparelhos que produzissem em 16 horas de duas

e meia a três caixas de açúcar, de 120, 160 arrobas. Por isso receberia 40:0005000.

A cana, entretanto, andava mal. A degenerescência havia atingido as espéci­

mes e a Câmara se dirigia ao presidente da Província reclamando mais toletes de cana "caiana". Dizia que em 1843 das poucas que vieram a maioria já chegou estra­ gada. E os lavradores estavam obrigados a fazer uso da cana chamada de "crioula", de baixa categoria. (A verdade é que a "caiana" só era apontada como a melhor localizada na época, já que se tratava de espécime melhor de chupar, sumarenta

e de muito caldo, mas de baixo rendimento. Mas para época era a melhor.)

A verdade é que o campista lutava, desde aquela época, com a reduzida preci­

pitação pluviométrica. Campos precisa de no mínimo 1.200 milímetros de precipita­ ção e aqui o que o ano dá raramente passa de 600 a 800 milímetros, assim mesmo muitas vezes chovendo na época errada.

A observação feita por Muniz de Souza em 1828, de que o campista, com sua

obsessão pela cana, não plantava mais nada, exige uma ressalva. Esse "aferro" pela cana como fala Muniz de Souza se explica pelo fato de que ela é, de forma ou de outra, ainda a lavoura mais resistente às estiagens, o que não acontece com a cha­ mada "lavoura branca". Mas produtos hortigranjeiros não dependem de irrigação em escala, apenas de uma mangueira. E o campista nem horta planta. E assim chegamos aos meados do século XIX. Nesse 1850 só houve dois fatos de importância em Campos. O primeiro é que Carlos Keller se dirigiu à Câmara co­ municando que havia inventado aparelho para fabricação do açúcar e queria apoio da mesma Câmara. E o outro foi o assassinato do sapateiro francês de nome Pierre Dalmas, pelo seu escravo de nome Nicolau. (Devia ter sido uma peste de mau esse sapateiro francês). A arrecadação dos seus bens foi feita pelo seu compatriota J. Lamy. (Este deve ser ancestral do ilustre jurista prof. Alfredo Lamy Filho, autor da nova lei das Sociedades Anônimas e nosso conterrâneo). Nesse mesmo 1850 a San­

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ta Casa se recusava a atender o pedido da Câmara para fazer soar o seu possante sino às 10 horas da noite, dando o "toque de recolher", sob a justa alegação de que perturbava o sono dos doentes.

Agitação em Campos

Em Campos ocorreram sempre muitas brigas provocadas por rivalidades. As mais absurdas e ao mesmo tempo pitorescas aconteceram entre irmandades religiosas, que não raro saíram até ao destorço físico e conflitos por conta da precedência ou colocação nos lugares das procissões. Em 1790 foi quando ocorreu o conflito mais sério. Mas, no decorrer dos anos e até dos séculos, outros desentendimentos sérios aconteceram, e sempre pelo mesmo motivo: cada irmandade religiosa queria priori­ dade na ordem dos cortejos.

Em 20 de janeiro de 1790, quando era formada a procissão em honra ao mártir São Sebastião, a Irmandade de N. S. Mãe dos Homens, liderada pelo capitão Ma­ nuel Fonseca de Azevedo Castelão, seu protetor, entendeu que a mesma tinha de preceder na procissão as irmandades mais antigas como as de São Benedito, de N. S. do Terço, da Boa Morte do Rosário, alegando que estas eram integradas por pre­ tos e pardos e a sua, a de N. S. Mãe dos Homens, de brancos. Portanto, racismo dentro da religião. Referido capitão, "sem respeito e acatamento ao SS. Sacramen­ to, nem pejo ao escândalo que causava ao Senado da Câmara, capitão-mor, sacer­ dotes, muitas pessoas distinctas e mais povo", começou a incitar o povo e a proferir impropérios, entrou a usar a força física, a dar empurrões, impedindo que a procis­ são continuasse. Conta Alberto Lamego que o vigário Bartholomeu Martins da Motta, desejando pôr termo a "embaraço tão indecente", usou de todos os meios pacíficos mas não conseguiu vencer a obstinação do provocador, que ordenou a seus capangas que entrassem em ação. Então, para evitar o pior, o vigário recolheu o SS. Sacramento

e a procissão foi debandada. Relato fiel do conflito é a certidão passada pelo capitão Bento José Rabello, que segurava uma das varas do pálio. Ele conta que Manuel Fonseca de Azevedo Castelão havia armado tremenda confusão, chamando de "bo­ des e negros" os Irmãos das Irmandades de São Benedito, Rosário, Boa Morte e

Terço, "não ligando importância aos recados do juiz ordinário Manuel Pereira da Costa

e do vigário". Tudo isso aconteceu no dia 20 de janeiro de 1790. Mas em 8 de junho do mes­

mo ano, por ocasião da procissão de "Corpus Christi", repetiram-se os mesmos dis­ túrbios. Não era para acontecer a repetição, já que a Câmara afixara um edital deter­ minando que as Irmandades "usassem das suas precedências, conforme o costume

e posse em que estavam". Esses "costume e posse" se referiam à antiguidade, por

ordem, das mesmas Irmandades. Assim ficou determinado que fizessem "seguir as cruzes das Irmandades com os seus respectivos corpos, pondo-se em seus lugares na rua". Mas a ordem não foi obedecida, estabelecendo-se novos tumultos. O alfaiate Manuel Francisco dos Santos, que se achava na frente com a cruz da Irmandade da Boa Morte, teimou "que só caminharia quando visse adiante a cruz da Irmanda­ de de N. S. Mãe dos Homens". Preso o desobediente, por ordem do juiz ordinário Alferes João Manhães Barreto, levantou-se um grande tumulto. Nomes feios, pala­ vrões, xingamentos em total desrespeito ao SS. Sacramento fizeram-se ouvir e a

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procissão foi também dissolvida. Esses desentendimentos estavam tornando proibi­ tivas as procissões na vila de São Salvador dos Campos. A pendenga chegou até a alçada do Vice-Rei que mandou restituir a liberdade, a Manuel Francisco dos San­ tos e tomou providências sobre a precedência das Irmandades, com a seguinte reso­ lução: — "Primeiramente tem preferência a tudo a Irmandade do SS. Sacramento e depois as irmandades de N. S.ea estas se devem seguir todas as outras, confor­ me suas antiguidades e privilégios, e quando me venha a constar ser alterada esta regularidade, castigarei severamente aqueles que influam em semelhante desordem". Esta decisão já foi datada de 2 de setembro de 1790, o que significa que de 20 de janeiro a setembro não pôde haver procissões na vila. E naqueles tempos as procis­ sões tinham uma importância enorme na vida das comunidades. Mas no decorrer dos anos as procissões foram sempre perturbadas na vila por conta das infantis vaidades dos dirigentes das Irmandades. É o que relata Alberto Lamego na página 368, do volume IV de "Terra Goytacá". Senão vejamos: —"No século XVIII as Ordens Terceiras e Irmandades da Villa de Sam Salvador, sempre estiveram em lucta com os vigários da freguezia, ora pugnando pelos privilégios es­ tatuídos em seus compromissos e não consentindo que elles assistissem às solemni- daddes religiosas em suas igrejas, ora armando conflictos nas procissões a que con­ corriam, querendo todas ter precedência em acompanhar o SS. Sacramento".

Vistos assim, dois séculos passados, essas brigas e conflitos por conta da or­ dem do pálio sob o qual era levado o SS. Sacramento parecem ridículos, tratando- se todos de irmãos em Cristo. Hoje se briga por coisas mais sérias, pontos de vista doutrinários, mas os conflitos continuam. Na Irlanda jogam-se bombas e enfrentam- se com armas, católicos e protestantes, guerreando-se "em nome de Cristo". Aqui em Campos, duas igrejas se contestam, uma medieval e reacionária, outra mais pró­ xima de Cristo. Mesmo porque os padres da vila de São Salvador dos Campos pos­ suíam escravos. A fazenda do Colégio, de propriedade dos jesuítas, possuía maist de 1.300 escravos. Mais tarde, quando os sacerdotes de Cristo não mais tinham co­ ragem de ser donos de escravos, pregavam aos pobres cativos resignação em Cristo porque eles haviam nascido para serem escravos. No entanto, ninguém pode citar nenhuma palavra de Jesus Cristo em favor da escravidão.

Outra rivalidade que provocou alguns conflitos em Campos foi a que punham em posição de combate os partidários das sociedades carnavalescas Club Tenentes do Plutão e o Club'Macarroni. Eram três os chamados "grandes clubes": os dois citados, e o terceiro, mais modesto, o Club Indiano Goytacaz. Até a década de 40, deste século, eles ainda desfilaram. E sempre havia ameaças de reencontros violen­ tos entre as "comissões de frente", a guapa cavalaria onde repontavam figuras da sociedade. E os boatos e lendas corriam. Os dois clubes haviam se defrontado numa rua deserta, mas na hora aparecia a cavalaria dos Indiano Goytacaz e interferia entre os dois, evitando o conflito. O Indiano Goytacaz, cujas cores eram o verde e amare­ lo, abrigava os abolicionistas Carlos de Lacerda, Adolpho Porto, Julio Armond, que eram os seus "caciques". O Tenentes do Plutão era vermelho e preto; e o Macarro­ ni, amarelo e preto. Em 1887 tivemos um Carnaval sangrento, por conta da rivalidade entre os dois maiores. O Macarroni fizera o desfile de domingo com um carro de crítica em que um Plutão aparecia enforcado. E na segunda-feira decidiu fazer o enterro do "enfor­ cado". A sede do Club Tenentes do Plutão era na Rua do Sacramento (Lacerda So­

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brinho) esquina da Rua do Mafra. No domingo já várias violências haviam sido co­ metidas. Um tiro disparado no "centro" ferira um jovem e na esquina da Rua do Ouvidor com a Rua Formosa um cidadão que se dirigia para sua residência fora agre­ dido a pau e a tiros, salvando-se por um milagre. Mas o Club Macarroni para provocar o adversário cometeu a imprudência de afrontá-lo desfilando pela sua sede à Rua do Sacramento. O episódio ficou conheci­ do como a "noite das garrafadas" e Gastão Machado dele faz registro em "Os Cri­ mes Célebres de Campos". A sede do Plutão estava com janelas e portas cerradas, luzes apagadas. 0 enterro parou e o "padre" começou a encomendar o "corpo". Súbito, abriram-se janelas e sobre o préstito do Macarroni choveram garrafas atira­

das com violência. Um "macarroni" lançou um lampião da passeata na sede do Plu­ tão para provocar incêndio. E das garrafadas passaram a tiros. A polícia, que já esta­ va esperando o desforço, interveio prontamente. Havia mais de 10 pessoas feridas

a bala e por garrafadas. A polícia cercou a sede do Plutão até às quatros horas da

madrugada, quando se entregaram e foram levados presos 16 deles, ficando detidos até o meio-dia de terça-feira. O povo, entretanto, estava intranqüilo. Temia-se pelo desfile da "terça-feira gor­ da" (os clubes naquele tempo desfilavam duas vezes, no domingo e na terça-feira). Mas não houve mais nada porque os "Plutões" resolveram não desfilar mais.

No entanto, o carnaval iria terminar ainda de forma pior. Na esquina da Praça São Salvador com a Rua da Constituição (Alberto Torres) havia o Hotel Francez, onde se reuniam os boêmios da época. Antonio Eurico Cassalho, um moço de me­ nos de 30 anos, "tipo másculo e alto" (assim o descreve Gastão Machado), estava sentado à mesa com João de Oliveira, seu amigo. Cassalho era "macarroni" e o seu amigo "plutão". Mas queriam dar uma demonstração de cordialidade e cavalheiris­ mo. Cálice de cognac nas mãos ergueram-se e deram vivas aos dois clubes, na maior harmonia, querendo contribuir para o desarmamento dos espíritos. Nisso ouviu-se um brado: "Não beba!" O indivíduo gritou, dirigindo-se a Oliveira. Era um "plutão" fanático. Estabeleceu-se um conflito, e ouviu-se um tiro. Cassalho morreu logo, não sem antes gritar: — "Matem esse plutão que me matou". João "Paulista", acusado de ter disparado o tiro, foi preso ao saltar o muro pa­

ra ganhar a Rua da Constituição. Mas por aí se pode avaliar como era a rivalidade

fanática entre os partidários dos dois clubes.

Outro caso aconteceu em 1891, quando o delegado Affonso Osório proibiu a saída de um carro do Plutão, o qual continha críticas consideradas muito pesadas ao Presidente da Província, Francisco Portela, o homem que, na presidência da Câ­ mara Municipal em 1883, liderara a campanha pela luz elétrica em Campos. Entre as instituições de Campos as mais valiosas, pela tradição e pelos serviços prestados à comunidade, são as nossas bandas de música. Herança das filarmôni­ cas das aldeias portuguesas, algumas perto do centenário, outras tendo ultrapassa­ do os 100 anos. A Lira de Apoio foi fundada em 1879. A Lira Guarani fundada em 1893. A Lira Conspiradora, em 1882. A "Operários Campistas", em 1892. Admiráveis núcleos de formação de instrumentistas, antigamente tinham o apoio do poder público. Hoje estão alijadas do auxílio oficial mas assim mesmo resistem. A Guarani, presidida pelo idealismo de Willis Bolckau, construiu um belo edifício na Rua 13 de Maio onde já se localizava a sua velha sede. E a Apoio ainda mantém o seu belo prédio no centro da Praça São Salvador, construído em 1915.

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Operários e Conspiradora também têm sedes próprias. Falar nelas é lembrar as figuras de seus regentes como Leopoldo Muylaert, Juca Chagas, Olimpio Chagas, Prisco de Almeida, Alvaro Reis (Loquinha), Etienne Samary e tantos outros. Mas as "brigas" das bandas eram na órbita artística, a ver qual delas interpreta­ va melhor os trechos de óperas, operetas. Quando perfilamos a figura do nosso poe­ ta Azevedo Cruz que, como Chefe de Polícia do Estado do Rio, e estando nesta ci­ dade e o delegado de polícia ausente, prendeu a banda de São Fidélis, a "Euterpe Fidelense", o início de toda a confusão foi uma briga entre a Apoio e a Guarani.

Já neste século, aí por 1929, se não nos enganamos, entraram em duelo as duas bandas na Praça São Salvador.

0 caso Motta Coqueiro

Em setembro de 1852 notícia nos jornais de Campos dava conta de uma terrível chacina ocorrida em Macabu, município de Macaé, onde toda uma família de sete pessoas, inclusive uma criancinha de dois anos, fora exterminada impiedosamente. 0 episódio foi enfocado por vários autores, entre eles José do Patrocínio, em ro­ mance intitulado "Motta Coqueiro ou a Pena de Morte", publicado em folhetim na "Gazeta de Notícias", pelo jovem jornalista então com apenas 24 anos. Motta Coqueiro era um rico fazendeiro que morava em Campos, na Avenida Pelinca, numa chácara que Gastão Machado no seu "Os Crimes Célebres de Cam­ pos" descreve como mostrando uma residência de alto luxo, com lanternas de pra­ ta, repuchos nos jardins, beirais de louça pintada e móveis de jacarandá. Alberto Lamego ("Terra Goytacá" volume V) não concorda com essa mansão e afirma que os tapetes de Damasco e preciosos vasos de Sévres não passavam de romance, fru­ to da imaginação de escritores, que foram muitos a abordar o tema. Mas de qual­ quer maneira Motta Coqueiro era um fazendeiro abastado, que se apaixonou pela filha de um seu colono, Francisco Benedito da Silva. Homem de 50 anos, mas ma­ gro e bem apessoado, de alguma cultura, Motta Coqueiro seduziu a filha mais velha do colono, uma bela morena de 17 anos. Mas um dia, setembro de 1852, o pai sur­ preendeu a filha mais velha em colóquio amoroso com o fazendeiro. Homem violen­ to, deu uma sova de gurugumba no sedutor, inclusive cortando o rosto com violen­ ta chicotada (uns autores falam em chicote, outros em gurugumba). Motta Coqueiro cego de humilhação e dor jurou matar o seu colono. Dias de­ pois sua casinha de palha foi atacada por escravos do fazendeiro, mas ele repeliu o ataque a tiros. E depois comunicou o fato à autoridade do distrito, a qual não deu a devida atenção à queixa por partir, segundo ele, de um indivíduo violento e dado ao consumo de bebidas. (Depois essa autoridade se mostrava arrependida de não ter levado em conta a queixa.) Dias depois, alta noite, a casa de Francisco Benedito da Silva era atacada. Es­ cravos de Motta Coqueiro, um liberto, Florentino da Silva (Flor), fugido das galés, indivíduo perigoso, e que odiava o colono, porque também dele levara uma sova, e Faustino Pereira da Silva, tentaram primeiro que a porta fosse aberta, alegando que eram de paz e que apenas queriam pousada por uma noite. Francisco Benedito, entretanto, percebeu a situação e preparou a família para a resistência. Todos se dispuseram a lutar, menos o menino de oito anos que ficou encarregado de fugir com a irmãzinha de dois anos, caso o resultado da luta fosse desfavorável. E luta­ ram. Dois negros escravos foram abatidos pela garrucha de Francisco. Mas o com­ bate era desigual e todos foram mortos, inclusive os dois menores: o garoto de oito anos ia fugindo com a menininha de dois anos montada em suas costas quando foi descoberto por um escravo e morto a sovelão (grande agulha de sapateiro).

Incendiaram depois a casa para que não fossem deixados vestígios. Mas sobre­ veio uma chuva forte e o fogo não prosperou. Os corpos foram encontrados horri­ velmente mutilados, segundo conta Antão Vasconcellos ("Os Crimes Célebres de Macaé"). O delegado de polícia de Campos foi á chácara da Avenida Pelinca, mas

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Motta Coqueiro havia chegado à noite e partido pela manhã. Então, expediu ordem para todos os subdelegados dos distritos para prender Manuel da Motta Coqueiro, "alto, magro, corado, de sobrancelhas muito salientes e espessas, com uma grande mancha no rosto, casado e maior de 50 anos". Ele e os escravos que o acom­ panhavam. Contra o fazendeiro não havia propriamente provas no sentido jurídico. Mas in­ dícios os mais veementes, agravados pela sua fuga. Também era suspeita a sua es­ posa, que desconfiara da sua ligação com a mocinha e comprovara a mesma por intermédio de um escravo de confiança que mandara espionar o marido. Mas ficou muita coisa obscura nessa estória toda. Historiadores dão versões diferentes não no contexto central do episódio, mas em certos detalhes. Houve quem afirmasse, por exemplo, que a ligação entre o fazendeiro e a jovem já durava quatro anos, o que parece pouco provável, a não ser que ela se tornasse sua amante com apenas 13 anos, além do que era tempo demais para o pai não descobrir. Escravos denunciaram Motta Coqueiro como mandante. Ele foi preso em Gua- rulhos (Guarus) por um inspetor de quarteirão, Francisco José Diniz, a quem pedira pousada. Diniz desconfiou do tipo, só faltando analisar direito o rosto, coberto por um lençol para tapar a cicatriz. Identificado, Motta Coqueiro foi preso e a população campista quis linchá-lo. Na estória toda só se tem certeza da inocência de um escravo, o africano "pai" Domingos, que no entanto foi enforcado com os outros. Motta Coqueiro alegou ino­ cência até o fim, mas tendo o Imperador negado o pedido de graça foi enforcado. Mais de uma vez amigos ofereceram veneno para ele fugir da morte vergonhosa, mas ele recusou. Na véspera da execução cortou os pulsos com cacos de garrafa mas foi socorrido a tempo. Existe uma versão de que o padre Freitas que ouviu o réu em confissão convenceu-se de sua inocência e de que ele teria revelado coisas que provavam não ter mandado matar o colono e sua família, mas estava impedido pelo sigilo da con­ fissão. A confissão teria incriminado a sua mulher? Em agosto de 1855 foram os réus executados. "Pai" Domingos gritava para o povo que a corda iria rebentar, provan­ do a sua inocência. Vinte e dois anos depois o jornal "Aurora Macaense" dava notícia de que em Itabapoana um moribundo confessara que fora ele quem assassinara Francisco Be­ nedito e família e não Motta Coqueiro. Não revelava o nome do moribundo, mas a notícia saíra transcrita na "Gazeta de Notícias", onde trabalhava José do Patrocí-. nio. Em 1877, ainda não era o "Tigre da Abolição", mas um redator quase anôn^rAo, um jovem de 24 anos, apaixonado pela sua aluna Mariã Henriquieta (Bibi) e queren­ do afirmar-se. Patrocínio desde os 16 anos quando partiu de Campos para o Rio, visando a estudar Medicina, lutou muito. Acabou indo estudar farmácia, ao mesmo tempo em que passou a trabalhar na Santa Casa de Misericórdia do Rio como servente, ga­ nhando dois mil réis por mês, quantia que reforçava ganhando para fazer plantões para colegas. Seu pai, o Vigário João Carlos (Monteiro), logo suspendia a mesada de 16$000 (dezesseis mil réis) que começou mandando. Passou então a dar aulas particulares e foi morar de favor na casa de um amigo. E começou a dar aulas aos irmãos do seu amigo, entre elas a uma menina de apenas 12 anos, Maria Henriquieta (Bibi) com quem iria casar. Patrocínio queria afirmar-se, vencer. Sendo preto e gostando de uma branca, precisava crescer para vencer preconceitos, que na família do capitão Sena, pai da

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moça, realmente nunca houve ou eram muito discretos. Conseguiu encartar-se na redação da "Gazeta de Notícias", a princípio como conferente de revisão (espécie do "copy desk" de hoje) e depois, no início de 1877, como redator. Era a época dos folhetins. Jornal que se prezava publicava romances em folhe­ tins, que eram precursores das novelas de hoje, de rádio e televisão. Romances de José de Alencar eram assim publicados, mas a "Gazeta de Notícias" só publicava romances franceses. Voltando ao noticiário o episódio de Motta Coqueiro, o jovem Patrocínio decidiu fazer dele um romance. Nessa época estava sendo publicado em folhetim, em outro jornal, o romance de Machado de Assis "laiá Garcia". 0 jovem de 24 anos quis crescer até a altura do já consagradíssimo Machado de Assis, com seus 40 anos e já muitos livros publicados. Reuniram-se ele e mais três companheiros de redação para escrever o romance intitulado "Motta Coqueiro ou a Pena de Morte". Mas logo saído o primeiro capítu­ lo, escrito por Patrocínio, os outros desistiram, diante da beleza do estilo e a força da imaginação do campista. José Carlos Patrocínio nascera em 1853 e os assassinos (ou indigitados assassinos) foram executados em'1855, o crime praticado em 1852. Crime que levou repercutindo durante muito tempo,-de modo que a infância de Pa­ trocínio fora povoada de comentários sobre ele. 0 romance juntava fatos com os confeitos da imaginação criadora além de ser um tremendo libelo contra a pena de morte. Nos primeiros meses de 1878 já o ro­ mance tinha virado livro e vendido na redação da "Gazeta de Notícias" a 1S500, e para as províncias a 2$000, remetido pelo Correio. O livro teve grande repercussão e começou a projetar o nome de José do Patro­ cínio ainda nas vésperas de completar 25 anos. Ele só voltaria a Campos, sua terra natal, em màrço de 1885, já com o nome de grande abolicionista. Em Macaé recebia grande manifestação, como em Campos, onde se hospedou na residência de Carlos de Lacerda e foi homenageado com um banquete, presidido no lugar de honra pela sua mãe a negra quitandeira Justina Maria do Espírito Santo. O pai, Cônego João Carlos Monteiro (a Rua Vigário João Carlos o homenageia), de quem não gostava, já havia morrido. Patrocínio levou dias em Campos, ouviu muitos discursos, fez muitos, e confe­ rências abolicionistas. E os livros dos nossos historiadores não registram outra visita dele a Campos, a não ser essa. Mas José do Patrocínio esteve em Campos antes, como simples redator da "Gazeta de Notícias", integrando a comitiva do Imperador Pedro II em sua penúltima viagem a Campos e oportunidade em que inaugurou a Usina Barcelos. A ata da inauguração da usina, a 22 de novembro de 1878, foi assi­ nada por ele como redator da "Gazeta de Notícias". E a presença de Patrocínio só mereceu uma referência distraída de Alberto Lamego (Terra Goytacá). Essa visita não teve, entretanto, a menor repercussão. Afinal, ele ainda não se fizera conhecido como o grande tribuno abolicionista, proprietário de jornal, grande e temível polemista. Mas também não era um anônimo pois já publicara "Motta Co­ queiro ou a Pena de Morte", em que focalizava um campista e seu drama, tendo como tema que tratava de um crime que adquirira tônus passional entre a população campista. No entanto essa visita do jornalista José do Patrocínio não teve a menor repercussão em Campos. "Monitor Campista", em sua edição de 23 de novembro de 1874, publica ape­ nas isto: — "A imprensa também se faz representar na excursão imperial pelos nos­ sos dignos e ilustrados collegas: J. Tinoco, pelo "Jornal do Commercio"; José do Patrocínio, pela "Gazeta de Notícias"; Francisco Manuel Alvares de Araújo, pelo "Cru­

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zeiro"; e C. Ascoli, pela "Reforma". Nada mais do que isto. Nenhum registro espe­ cial sobre a presença do conterrâneo que já publicara um livro de grande repercus­ são e de conotações diretas em Campos. Seria manifestação racista tal frieza? Não é de se acreditar. Mas não entendemos a ausência de uma nota especial sobre o conterrâneo, filho de um padre e uma humilde quitandeira e que já vencera no jorna­ lismo e na literatura do país. Em suma, o crime de Macabu permanece até hoje sem definição exata. No seu romance Patrocínio substituiu o padre e a versão da confissão do moribundo, por um filho desse mesmo moribundo, a quem ele "nos paroxismos da agonia" teria chamado para fazer a terrível confissão. 0 então criminoso "confesso", a quem de­ ram o nome de Herculano, não revelou ao filho os motivos da cruel carnificina, pare­ cendo não ter nem conhecido a vítima, além de não explicar como sozinho tinha matado uma família inteira.

O Conselho de Justiça do Império se pronunciara contra a graça pedida por Motta Coqueiro, enviando ao Imperador o seu parecer, ao que Pedro II exarou um despa­ cho seco e lacônico: — "Comó parece". A extrema crueldade do crime impediu que, no pedido de graça, a falta de provas jurídicas fosse levada em conta. Os líderes da chacina, Florentino (Flor), terrível criminoso, e Faustino Pereira da Silva jamais incriminaram Motta Coqueiro em repetidos depoimentos, mas sendo certo que qua­ tro escravos o acusaram. Antão de Vasconcellos ("Os Crimes Célebres de Macaé") foi acérrimo defensor dele. Julio Feydit o condena. José do Patrocínio defende-o calorosamente. Gastão Machado apenas expõe os fatos, ficando na coluna do meio. Alberto Lamego ("Terra Goytacá") não toma partido abertamente mas percebe-se que ele não acreditou na inocência de Motta Coqueiro. Na análise total do episódio, não há como afirmar nada. Teria Mótta Coqueiro, nobremente encoberto crime de sua ciumenta mulher, Ursula Maria das Virgens Ca­ bral, "respeitável senhora de Campos"? Nada pode ser provado. A não ser impres­ são da inocência do "Pai" Domingos, o africano que sempre protestou a sua ino­ cência e que já diante do patíbulo gritava para o povo: — "Gente, não sou culpado!

Vou morrer inocente

E segundo Antão de Vasconcellos foi necessário que o carrasco enchesse as narinas do preto de terra para ele morrer. Conta Gastão Machado ("Os Crimes Célebres de Campos"): — "O carrasco, depois de atirá-lo ao váculo, subiu-lhe aos ombros para acabar de matá-lo. A seguir cortou a corda e o desgraçado caiu inerme, braços aber­

Mecês

vão vê como a corda rebenta!". Acorda não rebentou.

tos, no chão do Rocio". Mas logo depois o povo, emocionado, percebeu que o pceto- velho ainda arquejava e estava milagrosamente vivo. Foi então que o carrasco, sal­ tando para o chão, encheu as narinas do "Pai" Domingos de terra e capim, gritan­ do: — "Oh, negro duro. Eu já te curo". E ele finalmente morreu. Nosso intuito foi, a princípio, passar de raspão por este episódio, exaustivamente tratado por tantos escritores. Mas é que ele, 130 anos depois, continua excitar a imaginação e fomos, involuntariamente, ampliando a sua narração, a ponto de preen­ cher todo este capítulo. Também todas as obras que o enfocam estão esgotadas a não ser, temos a impressão, o livro de Raimundo Magalhães Júnior "A Vida turbu­ lenta de José do Patrocínio". Mas é claro que, apesar disto, este capítulo é apenas um resumo do caso, que .tem muitos detalhes e indícios importantes que não pudemos registrar para não en- compridar mais a narração resumida.

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Os grandes naufrágios

' Desde 20 de junho de 1852, em que o vapor "Goytacaz" realizava a primeira

viagem ida e volta Campos — São João da Barra (três de ida e seis de volta), que houve muitos naufrágios nas rotas Campos — São João da Barra — Rio, e Campos

o pioneiro da navegação a va­

por em Campos. Ele implantou primeiro, em 1837, uma grande e moderna fundição (arrojada mesmo para a época). Até aquele ano as moendas dos engenhos de açú­ car eram de pau, e as tachas ou caldeiras para a concentração do caldo de cana eram de cobre. A fundição de Davidson começou a tornear ferro e h nze e a indús­

tria de fabricação de açúcar tomou extraordinário impulso. Em 1851, o inglês David­ son requereu à Câmara concessão para colocar um guindaste e fazer uma ponte de embarque no Paraíba para o serviço de uma barca a vapor. E pedia o privilégio para

o sistema de navegação a vapor, ainda inexistente em Campos. O pitoresco é que um vereador votou contra a concessão, sob a ridícula alega­ ção de que a navegação a vapor iria prejudicar a das canoas e além do que — razão mais importante no seu modo de ver - "o vapor iria afugentar os peixes, e estes se tornariam escassos, com grande prejuízo para a alimentação do público". Mas esse "camboatá" foi uma exceção ridícula porque o campista da época era um dos povos mais progressistas do Império e nunca esperou por governos para suas inicia­ tivas no rumo do progresso. Quando chegarmos às três últimas décadas do século XIX — de 70 a 90 —, veremos como foi grande dentro do Império o campista, como agente autônomo do progresso. Também há uns 30 anos, um dos nossos vereadores propôs em meio

a uma discussão derrogar, extinguir a "lei da oferta e da procura", por obsoleta Sempre existem retrógrados em todas as épocas. Mas houve vários naufrágios na rota marítima Rio — Campos, tanto no porto de chegada à planície a foz do Paraíba, como Macaé. Naufrágios de embarcações que faziam a viagem Rio (Corte) — Campos, como até de navios que vinham de viagens mais longas, da Europa para cá, do Brasil para a Europa. Em 1826 naufragou, em frente à Ilha dos Franceses, ao largo de Macaé, a gran­

de fragata brasileira "Paula Mariana". Em 1828, a fragatalnglesa "Thetis” ; em 1851,

a fragata "Affonso". Em 1846 ocorreu naufrágio de maiores proporções, o do gran­

de navio francês "L'Oriental", que vinha do Havre para o Rio de Janeiro, com gran­ de carregamento e 19 passageiros. O navio naufragou ao largo da barra do Assu.

O primeiro bote arriado virou, morrendo o conde Grillenzoni de Modena. O segundo

bote levava quatro mulheres e uma criança, mas batia no casco do navio na arriada,

o que produziu um furo no dito bote, mas uma das mulheres, com grande presença

de espírito, fez um "chumaço" com seu xale, expediente que salvou a vida de to­ dos. Esse naufrágio teve repercussões desagradáveis, até 10 anos depois. O capitão do navio vendeu o que restava dele e a mercadoria estocada em São João da Barra foi a leilão. Daqui de Campos seguiram vários comerciantes de renome e honorabili- dade notórios para licitar e arrematar. 10 anos depois foram intimados pelo Juiz mu­ nicipal de São João da Barra três comerciantes de nome em Campos, M. J. P Vian-

— Imbetiba — Rio. Foi o inglês Alexandre Davidson

Na Taba dos Goytacazes

na, J. P. BurguiereJ. F. Berenger, como suspeitos do asôassinato de Manuel Ribei­ ro de Menezes durante os dias do leilão. A denúncia fora feita por vingança de um inimigo de M. J. P. Vianna, o que ficou comprovado e todos os acusados despro- nunciados. Inclusive os fazendeiros Francisco Dumas, com propriedade em São Se­ bastião, e João Carlos Dubois, fazendeiro em Guarulhos (Guarus). Estes dois últimos apontados como suspeitos decidiram apresentar-se esponta­ neamente. A respeito desse Francisco Dumas afirma Alberto Frederico de Moraes Lamego ("Terra Goytacá", volume V, pág. 401), que era irmão do grande romancis­ ta francês Alexandre Dumas, pai, e com ele mantinha correspondência assídua. Mas é uma referência vaga e sem uma atenção maior para o fato, feita na "vala comum" de um capítulo intitulado "Os franceses em Campos". Afinal se ter radicado em Cam­ pos um irmão do autor de "Os Três Mosqueteiros" e "O Conde de Montecristo" não é um fato comum. Tornou-se grande a família Dumas em Campos, e seus descendentes vivem até hoje. Tendo Lamego afirmado que era irmão do grande romancista não há motivos para duvidar, só que era fato que merecia maior destaque. Mas o naufrágio que suscitou mais repercussão foi o do vapor "Hermes", por ter incluído entre suas vítimas fatais o primeiro romancista brasileiro na ordem cro­ nológica, o Manuel Antônio de Almeida, autor das "Memórias de um Sargento de Milícias", o primeiro romance publicado no Brasil. Ele se dirigia para Campos a con­ vite do Barão de Araruama para conhecer e fazer uma descrição do canal Campos — Macaé, encarregado que estava de escrever a "História Financeira do Brasil des­ de os tempos coloniais". Trabalhava como redator do "Correio Mercantil", onde pu­ blicara em folhetim as "Memórias de um Sargento de Milícias". Aproveitaria a via­ gem para uma finalidade também eleitoreira, já que visava a candidatar-se a deputa­ do provincial. O vapor "Hermes" trazia a bordo 94 pessoas, entre as quais muitos estudantes, acadêmicos de Medicina, que vinham em férias. No dia 28 de novembro de 1861, às quatro horas da madrugada bateu nos recifes denominados "Lages da Tábua",, com meia milha de extensão, ao largo de Macaé. Teria sido falha do piloto, já que os recifes com tal extensão eram conhecidos. Das 94 pessoas morreram 40 e entre elas o romancista Manoel Antônio de Almeida e sete escravos. Houve mais o incêndio do "Juparanã", no Furado, às cinco horas da manhã. Morreram apenas cinco passageiros graças ao ato heróico do imediato do ^apor, Joaquim Calixto Ferreira, que deu ordem ao primeiro maquinista para dar toda a for­ ça aos motores em direção à praia, encalhando a 30 braças. Nessa altura o coman­ dante do navio e 10 marinheiros já haviam se safado da única chalupa existente, le­ vando o comandante todo o dinheiro que havia a bordo. 0 imediato amarrou uma corda à cintura e lançou-se ao mar nadando até a praia, lá amarrando o cabo a um penhasco. E nadando da praia para o navio ida e volta salvou 16 passageiros. Naquele tempo tudo terminava em poesia e o poeta Eleotério da Silva Lima fez um belo poema exaltando o heroísmo do imediato Joaquim Calixto Ferreira. Mas o maior vapor que naufragou foi o do outro "Goytacaz", que fazia a linha Rio — Imbetiba (Macaé). A estrada de Ferro Campos — Macaé já havia sido inaugu­ rada há dois anos, de maneira que havia a opção no que concerne às viagens aoi Rio, do passageiro ao invés de seguir até o porto de São João da Barra para apanhar

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o

vapor para o Rio, fazer a viagem Campos — Macaé de trem e em Imbetiba pegar

o

vapor, e vice-versa, do Rio para cá. O "Goytacaz” era um navio grande, medindo 180 pés de comprimento e 140

de "pontal", 23 de "boca moldada", calando 13 pés a ré e 10 avante. A sua máquina

à baixa pressão tinha uma força de 650 cavalos. Além de dois salões, tinha camaro­

tes para 40 passageiros a ré e acomodações para 300 passageiros à proa. Saíra pron­ to dos estaleiros da Inglaterra em 1884. E sua última e fatídica viagem foi em 22 de novembro de 1887. Partiu do Rio às quatro horas da tarde desse dia sob o comando do capitão Nelson Rodrigues da Cunha, tendo como Mestre Joaquim Soares e ma­ quinistas Agostinho Gervásio de Souza e Martim Caetano, sendo a equipagem de 21 marinheiros. Ao passar pela "Ilha dos Franceses", local fatídico, às 11 horas da noite, naufragou. Morreram 14 pessoas, entre elas o dr. Domingos Barroso, resi­ dente em Vitória, mas com grande círculo de amizades em Campos. Mal de saúde, fora ao Rio com a família em busca de socorros médicos no centro mais adiantado. Agarrou-se ele a um salva-vidas, o mesmo tendo feito duas filhas e o filho Rodol- pho, acadêmico de Medicina. Mas as forças lhes faltaram e morreram todos à exce­ ção da mãe, d. Maria Barroso, que foi salva por Luiz Dufournel, que ouvindo gritos de socorro aproximou-se com um bote e salvou-a.

Entre os que se salvaram estava o poeta e professor Mario Fontoura, irmão mais velho do jornalista Sílvio Fontoura, fundador do jornal "A Notícia". Já na década de 40, na sede atual da Associação de Imprensa Campista, o venerando professor, com cerca de 80 anos, contava a este escrevinhador a angústia sofrida, agarrado ao mastro do navio, ouvindo dentro da noite escura gritos de socorro e estertores de morte por todos os lados, até o clarear da madrugada. O sr. João Nunes de Carvalho, proprietário da Usina de Limão, que se encon­ trava em Imbetiba, deu ordem para suprir os náufragos de tudo que precisassem. No entanto aquele usineiro teve um enorme prejuízo. Ele se encontrava no porto de Imbetiba à espera de novo maquinário para sua usina, máquinas modernas que foram todas para o fundo do mar.

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Correios e Telégrafos

O serviço de correios por intermédio de estafetas montados foi inaugurado, co­ mo já se disse, em 1798 quando os Cataia, pai e filho, levaram a primeira mala para o Rio. Miguel Cataia morreria em 1879, de uma queda de cavalo, com 100 anos de idade, tendo montado por mais de 80 anos. O Brasil foi o primeiro país do mundo que passou a usar o selo adesivo lançado pela Inglaterra. Antes quem pagava pela correspondência ou encomenda era o destinatário. Em Campos começou a venda do selo "olho de boi", em 1843, mas até a construção da linha férrea o estafeta, êmu- lo do "poney express" dos Estados Unidos, ainda funcionava. Mas a agência dos Correios foi realmente inaugurada já na Praça São Salvador, em 1875. Foi José Saldanha da Gama, um dos campistas mais ilustres de nossa história, quem primeiro pugnou pela ligação telegráfica entre Campos e Rio. Ainda teremos oportunidade de traçar o perfil desse grande engenheiro, cientista, diplomata, me­ nos conhecido do que o irmão, o Almirante Luís Felipe Saldanha da Gama, mas tal­ vez mais ilustre. Diz Alberto Lamego que seu nome devia ser inscrito com letras de ouro nos anais de Campos.

Em 30 de dezembro de 1864 o dr. José Saldanha da Gama expôs à Câmara ne­ cessidade de ligação de Campos à Corte por linha telegráfica, oferecendo-se como intérprete junto ao Congresso. A Câmara Municipal aprovou a idéia mas a postula- ção de Campos ficou dormindo nas gavetas ministeriais apesar dos esforços e do prestígio do dr. Saldanha da Gama. Mais tarde, entretanto, outro engenheiro, este y j de São João da Barra, João Martins da Silva Coutinho, filho do historiador Fernan- do José Martins, primeiro historiador da região ("História do DescobrimentÕirPü- voação da Cidade de São João da Barra e de Campos dos Goytacazes"), pegou a causa pela unha e tocou-a para a frente. Econseguiu. O campista tinha que dar uma ajuda de dois contos anuais, o que foi rapidamente subscrito na residência do sr. Manuel José de Castro e genro. A linha telegráfica foi inaugurada em 2 de dezembro de 1869, aniversário do Imperador. O Presidente da Câmara Municipal, dr. Thomaz Coelho, enviou a primeira mensagem a S. M. o Imperador e à S. A. a Princesa Impe­ rial. A resposta demorou porque Pedro II e família não estavam no Paço da (Quinta da Boa Vista, mas na Capela Imperial assistindo a uma missa. O segundo telegrama foi enviado ao presidente da Província, dr. Diogo Teixeira de Macedo, e o terceiro ao Chefe de Polícia, pelo Delegado Municipal. O dr. Capanema, diretor do Telégra­ fo, foi homenageado com um banquete onde discursaram dr. Thomaz Coelho, dr. Costa Pereira, dr. José Sampaio, dr. Miguel Herédia de Sá, dr. Francisco Portela e o Barão da Lagoa Dourada.

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O drama da cana

E a agroindústria do açúcar? 0 número de engenhocas diminuiu mais de meta­ de, de aproximadamente 700 em 1827 (para um engenho só a vapor) para mais ou menos 270 na década de 60, só que os engenhos a vapor subiram a 68, 70, com

a produção mais do que duplicada, para mais de 20 milhões de quilos. Mas ainda

sobrepujava a produção do café por pouco. Não esquecer que o município de Cam­ pos tinha de área mais mil quilômetros quadrados do que hoje. Na época, seu terri­ tório era de 5.415,10 quilômetros quadrados e hoje temos 4.469 quilômetros quadra­ dos. Incluíam-se em nosso território os hoje municípios de Bom Jesus do Itabapoa- na, Natividade de Carangola e São Sebastião do Varre-Sai, grandes produtores de café, afora o norte do próprio município, de hoje, a zona do tabuleiro, também pro­ dutora de café. Talvez se explique por isso a lamentável omissão de não ter sido incluída a produção do açúcar nas potencialidades de Campos, na representação da Câmara Municipal visando à criação da "Província de Campos dos Goytacazes", na qual só se falou na produção do café, isto em 1855.

No início da década de 60, caiu um pouco a produção de açúcar. As enchentes,

a epidemia do "cholera morbus" de 1855 talvez tivessem contribuído para uma que­

da de produção: 1859, 10.439,400 quilos; 1860 , 8.499,540 quilos; 1861, 7.757,220 quilos. Já em 1862, subia para 11.918,160 quilos e não mais pararia de crescer. Em 1860, monta-se a primeira caldeira multitubular no engenho de Cupim e o primeiro "bangüê americano" para evaporação. Mas a pequena queda de produção no início da década de 60 não se deve a enchentes nem a epidemias. Deve-se à péssima qualidade da cana. A Câmara Muni­ cipal não se cansa de dirigir apelos ao governo provincial no sentido de enviar mu­ das de "caiana", porque as enviadas em sua maior parte estavam deterioradas, pelo que os lavradores estavam plantando a cana "creoula", de muito baixo rendimento. (Deixe estar que a cana caiana era muito sumarenta, com muito caldo, mas também de baixo rendimento industrial. Faltavam ainda uns 80 anos para surgir o cientista Frederico Veiga, com suas CBs.) Em 1860, Ignacio Pereira da Silva Mota comunicava à Câmara Municipal que

o governo imperial tinha mandado vir canas das ilhas Reunion e Mauricia, devendo

os lavradores serem avisados para se organizar a distribuição das mudas. Já era uma

promessa.

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O sonho emancipacionista

O Ato Adicional à Constituição de 1824 que, em 1834, transformou o município

do Rio de Janeiro em "Município Neutro", desmembrando-o da Província do Rio de Janeiro e tornando-o Capital do Império, cometeu um erro histórico de irrepará­ veis prejuízos à Velha Província. Talvez tivesse sido mesmo a causa de ter ela perdi­ do o duelo com a Província de São Paulo, que deu um passo à frente, firmando-se em primeiro lugar, quando havia um certo equilíbrio entre as duas.

Esse erro foi dar a "Nictheroy" (antiga Praia Grande) a condição de capital da nova Província do Rio de Janeiro. A proximidade da capital do Império e posterior­ mente da República comprometeu seriamente o progresso da Província e prejudicou irreparavelmente o progresso do Norte Fluminense e outros municípios do interior, do Sul também.

A princípio Niterói existiu. Mas pouco a pouco foi sendo dissolvida na água

régia do cosmopolitismo carioca e passou a não existir como comunidade. Existem o campista, o paduano, o fidelense, o macaense, o são-joanense. Mas o niteroiense não existe. A propósito, já que citamos o são-joanense, este é um belo exemplo de individualidade marcante, de personalidade própria e indestrutível. Embaralhado no município de Campos, numa divisão geográfico-territorial "sui generis" e discutível, tinha tudo para ser "fagocitado" pela terra campista, pelos hábitos campistas, pelo modo de ser campista. Suas praias são como que extensão territorial de Campos. Mas nem assim o são-joanense se deixou descaracterizar, não permitiu sua desper- sonalização. E quando Campos dependia quase que exclusivamente de seu porto para ligar-se à Capital do Império, manteve até uma rivalidade meio hostil com esta terra.

Prejuízos sérios causou a capital em Niterói ao Estado do Rio. Faculdades, Uni­ versidade, instituições esportivas e sociais que deviam prioritariamente ser instala­ das ou implantadas no Norte Fluminense ou no extremo sul pros lados da divisa pau­ lista, eram promoções para Niterói. Eo niteroiense tinha todas elas no Rio, bastando para isso atravessar a baía na barca. E o niteroiense foi cada vez se transformando mais e mais num carioba que mo­ ra num bairro chamado Niterói. No final da República velha, Niterói ainda existia, nos governos Feliciano Sodré e Manuel Duarte. Tinha até futebol, com o Ipiranga mostrando bons jogadores co­ mo Bibi e Congo, Manuelzinho e Calau, e Oscarino que chegou a integrar o "scrath" brasileiro na primeira Copa do Mundo, embora como reserva. Possuía o jornal "O, Estado", de Mário Alves, que não tinha veleidades de disputar mercado e leitores com os jornais do outro lado da baía. Tinha o "Rink" e seus comícios agitados. Ti­ nha famílias tradicionais, marcantemente fluminenses. Com o Estado Novo, tendo Amaral Peixoto como Interventor, esboçou-se uma reação. O Interventor fez muito por Niterói. Mas quando decidiu construir o "Caio Martins" teve a oposição decidi­ da e enérgica do jornal "A Notícia" de Campos. Não se justifica aquele estádio, por­ que Niterói não tinha futebol para isso. E lá está ele, servindo ao futebol carioca. Enquanto isso, em Campos nada foi feito no setor dos desportos. Estádio do

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Goytacaz, Hipódromo, Ginásio do Automóvel Clube, nada levou um centavo de go­ vernos. 0 estádio do Americano ainda pegou pequena ajuda do governo federal (do

dos desportos, a coisa pio­

ra. Nada. Mas em 1855, 21 anos depois do Ato Adicional, o campista farejou o perigo. Teve uma antevisão, num salto de perspectiva, de 50 a 100 anos. Percebeu que, em se mantendo a capital em Niterói, o Norte Fluminense seria "fundo de quintal". Apesar de Campos nas três últimas décadas do século 19 ter explodido em progres­ so a ponto de se tornar num dos municípios mais importantes do Brasil. Mas isso graças ao espírito empreendedor e de iniciativa própria do campista, nunca partindo de governos.

Na sessão de 11 de abril de 1855, o vereador José Fernandes da Costa Pereira requereu à Câmara Municipal de Campos a nomeação de uma comissão especial que, colhendo os dados estatísticos e topográficos do município, e números de pro­ dução, formulasse projeto de uma representação aos poderes da Província e do Im­ pério no sentido de que estudos fossem feitos para a criação da Província de Cam­ pos dos Goitacazes. A configuração territorial da projetada nova Província incluía a vila de Itapemirim, Espirito Santo, e vilas de Minas Gerais, que deram apoio entu­ siástico à iniciativa. No requerimento, o vereador Costa Pereira solicitava que essas adesões fossem concretizadas em memoriais dirigidos às autoridades da Província e do Império, documentos que deviam ser enviados pelas localidades que haviam manifestado desejo de serem incorporadas à futura Província de Campos dos Goitacazes.

A Comissão nomeada para redigir a representação era integrada pelo barão de

Carapebus, Cônego Angelo José da Fonseca e Costa Pereira.

estadual, nada) para a construção do seu ginásio. E fora

A mesma representação foi apresentada à Câmara no dia 14 de julho de 1855,

assinada por todos os vereadores e enviada aos "Augustíssimos e Digníssimos Re­ presentantes da Nação" (Senado). Diz que Campos dista de Niterói 60 léguas, tem uma população de cerca de.100 mil habitantes e um território de 500 léguas qua­ dradas. Fala na fertilidade do seu solo, nas suas riquezas e potencialidades. A oito léguas somente do mar, é servida por navegação fluvial-marítima com 60 embarca­ ções a vela e dois vapores. Serve-se do porto de São João da Barra, "posto que não seja muito franco por causa dos cabeços de areia, e só admitia embarcações que calem até 12 palmos, tem capacidade para melhorar ou seja aprofundando-a mais, ou fazendo-se um ancoradouro fora delia, na enseada de Manguinhos, colocando-se a Alfândega no Sacco do Gargahu".

Descreve o majestoso rio Paraíba, fala nas exportações de mais de dois mil con­ tos de réis, um belo teatro, um hospital de caridade muito espaçoso, Liceu Provin­ cial, 10 templos e edificações elegantes. As rendas provinciais "devem ser de 100 contos anuais, se não exceder". E se a estas rendas se juntar "os dízimos do café que se exporta da comarca, que é cobrado no Consulado da Corte, teremos mais 80 contos". Ressalta a necessidade de acrescentar à Nova Província as vilas de Ita- pemirim, Espírito Santo, e os municípios da comarca de Pomba, Minas Gerais.

"Se a comarca de Campos tem prosperado longe do seu centro, faltando-

lhe para isso muitos melhoramentos, que a necessidade reclama, o que não será ella

tendo um centro próximo, que de prompto acuda as suas palpitantes precisões?" (O grifo é nosso)

76

Na Taba dos Goytacazes

A representação, publicada na íntegra por Alberto Lamego (Terra Goytacá, 5.°

volume), é assinada por todos os vereadores. Nela, nem uma palavra sobre o açú­ car. Espantosa, a"rata" Admitamos, por hipótese absurda, quenaquela altura, 1855,

o café sobrepujasse o açúcar na produção, o que na verdade jamais aconteceu. Mas

não a ponto de ser admitida a omissão da atividade maior dos campistas. No entan­ to, percorremos toda a coleção de 1855 de "Monitor Campista", até a última edição de 31 de dezembro e não encontramos nem uma linha de retificação, de acréscimo ou de reparo. 0 Marquês de Paraná, presidente do Conselho de Ministros, tornou- se entusiasta da idéia. E disse, em discurso no Congresso — "Penso que no norte da Província do Rio de Janeiro a cidade de Campos podia ser a capital da Província

de Goitacazes".

O "choro" em torno do abandono de Campos e da região da parte dos gover­

nos é velho. Leiam este trecho de editorial de "Monitor Campista", de 24 de abril

de 1855: — "Se há município desviado da acção presidencial, e até mesmo esqueci­ do, é Campos um delles".

A idéia está em marcha. O presidente da Câmara dos Deputados, dr. Antônio

Francisco de Almeida Barbosa, a adota. E lá, o defensor oficial da pretensão é o deputado Joaquim Francisco Vianna, neto de Joaquim Vicente dos Reis, o homem do Solar do Colégio, nascido em Campos em 1803, bacharel em Ciências Matemáti­ cas pela Universidade de Coimbra, deputado e Senador do Império. Ele oficiou à Câmara Municipal dando conta da incumbência recebida, lamentando apenas o fato de o Congresso entrar em recesso.

O jornal "A Pátria” , do Rio de Janeiro, dá o seu decisivo apoio: — "A cidade de Campos está senão mais adiantada em commercio, ao menos a par da cidade de Nictheroy. O commercio alli é feito em grande escala e crescidissimo, e a indústria mais do que em Nictheroy se tem desenvolvido; ella tem ainda a vantagem de não se achar a um tiro de distancia da capital do Império (o grifo é nosso), o que a collo- ca um pouco mais na independência das exigências da Corte. Collocada como está, na dependência da cidade de Nictheroy, capital da Província do Rio de Janeiro seu desenvolvimento será peiado pela influência da capital, a acção de que carecer em todas as suas necessidades será morosa e tardia” . Mais adiante diz o editorial de "A Pátria" que está "no firme propósito de advogar a causa dos campistas". Da vila de Itapemirim vem um abaixo-assinado com 84 assinaturas af»oiando a idéia. Tudo vai bem. Mas o imponderável surge, além do recesso do Congresso. Surge

a mais catastrófica epidemia de "Cholera-morbus"que jamais assolou Campos.

77

A epidemia de 1855

Existe em Campos uma lenda a respeito de uma tal de "praga dos frades". Reli­ giosos de ordem não definida teriam sido mal recebidos aqui e por isso teriam "roga­ do uma praga" de que Campos encontraria sempre dificuldades em progredir. Len­

da difícil senão impossível de ser levada a sério, eis que esta terra sempre foi domi­ nada pelos padres, tutela de que só se livraria no século 19. Só se tivesse ocorrido

o episódio com sacerdotes de uma ordem qualquer a quem os jesuítas e os benediti­

nos votassem sentimentos hostis. Mas há ou houve momentos na vida de Campos em que a gente deixa até que

o racional seja superado por superstições tolas, tal é o azar ou os tropeços que atra­ palham Campos nas horas decisivas. Um exemplo é a tentativa da criação da "Pro­ víncia de Campos dos Goitacazes", que mudaria o curso da História. Já vínhamos de uma epidemia de febre amarela em 1850. Mas catastrófica foi a do"Cholera- morbus", doença mortal que dizimou grande parte aa população local.

Mil e duzentos mortos foi o balanço de dois meses, outubro e novembro, sendo que a epidemia não se limitou a esses dois meses. Não havia tempo nem para enter­ rar os cadáveres que eram empilhados em carroças. O governo da Província tentou medidas preventivas, nomeando uma comissão de médicos daqui para adotar medi­ das, além do delegado de polícia, José Manuel da Costa Barbosa. Os quatro médi­ cos foram Antônio Francisco de Almeida Barbosa, Joaquim Manhães Barreto, João Batista de Lacerda e Caetano Thomaz Pinheiro. Foram tomadas medidas junto ao porto de São João da Barra para prevenir o ingresso da peste através dos passagei­ ros vindos de fora, já que no Rio a doença já estava presente. Tudo foi inútil. A pes­ te fintou a tudo e a todos e começou a ceifar vidas em Campos.

A cidade vivia numa sujeira permanente. As fezes eram atiradas nas ruas, em

certos pontos, e atacadas por urubus e porcos. Não havia a menor condição de hi­ giene. Improvisaram-se enfermarias. Uma no Liceu da Lapa. Outra em São João da Barra, na foz do Paraíba. O delegado de polícia sugeriu que não mais se fizesse inu- mação de cadáveres nas igrejas nem no Cemitério da Misericórdia (local hoje da Fa­ culdade de Medicina), por se achar este dentro do perímetro urbano. A ausência da limpeza da cidade, especialmente nas adjacências da bacia do canal e lagoa do Cortume, locais preferidos para o depósito de fezes, exibindo "miasmas pútridos e nocivos à salubridade".

A Santa Casa não dava conta, sendo incansável a atuação do seu provedor,

barão de Itabapoana. Outros barões e figuras de destaque puseram chácaras à dis­ posição das autoridades para que nelas fossem improvisadas enfermarias. "Monitor Campista" publicava diariamente as mais variadas e diferentes receitas para evitar o mal. Muita gente se oferecendo como enfermeiro. Mas o mal crescia. Os aprovei­ tadores de sempre iam para as estradas para adquirir ovos, frangos e verduras que revendiam na cidade por preços absurdos. Foi providenciada às pressas a limpeza dos portos do Paraíba e recomendou-se que fossem feitas fogueiras à sua margem.

Armazéns foram transformados em enfermarias e o cônego João Carlos Monteiro (pai de José do Patrocínio) pôs à disposição o salão contíguo à Capela de N.S. do

Na Taba dos Goytacazes

Rosário. A Beneficência Portuguesa também foi incansável. Procissões e "Te-Deuns"

se sucediam. Descobriu-se que no monte de corpos de uma carroça havia alguém que ainda vivia. Retirado, ficou louco. Depois se transformaria em tipo popular, correndo pe­ las ruas, os olhos sinistramente arregalados, o "pico" armado, perseguido pela mo­ lecada implacável. Era o "Sobejo da Morte", apelido que lhe deram. Do Rio vieram cinco acadêmicos de Medicina, campistas, dos quinto e sexto anos. Para São Fidé- lis foi o sextanista Miguel Heredia de Sá. Em Guarulhos morreram 500. De 9 de ou­ tubro a 31 de dezembro, só na cidade, o balanço trágico foi de 1.239 mortos. E assim se sepultou o sonho da "Província de Campos dos Goitacazes", na vo- ragem trágica do "Cholera-morbos". A fusão de 1975 foi outro erro. Mas não é de se acreditar na exeqüibilidade da desfusão. Também se a medida fosse po,ssível, a volta da capital a Niterói seria uma burrice imperdoável.

Campistas na Guerra do Paraguai

A primeira leva de voluntários que Campos mandou para a Guerra do Paraguai embarcou no dia 28 de janeiro de 1865. Eram 12 homens que acorreram logo ao cha­ mamento da Pátria. Campos nos tempos antigos estava sempre em primeiro lugar nas grandes causas da nacionalidade. Fora apenas em 12 de novembro que Solano Lopez apresara, sem ato algum anterior de declaração de guerra, o paquete brasilei­ ro "Marquês de Olinda", onde viajava o presidente da Província de Mato Grosso, coronel Francisco Carneiro de Campos, que foi feito prisioneiro. E apenas três me­ ses depois os campistas demonstravam a sua presença na indignação que sacudiu todo o Império, enraivecido e revoltado, enviando o seu primeiro contingente de vo­ luntários para a guerra, declarada depois do ato gratuito de hostilidade do ditador Solano Lopez.

Naquela época o povo campista era respeitado e admirado por todo o Império mercê de seu ardor cívico. O "Livro da Pátria", benzido depois de um "Te-Deum" na Matriz de São Salvador e missa mandada rezar por d. Maria Carlota de Almeida Batista na Igreja Mãe dos Homens, começou a receber inscrições dos primeiros vo­ luntários. Entre eles, Manuel Theodoro de Almeida Batista (filho da d. Carlota) que iria destacar-se e tomar-se herói (seu pai era o comendador Bento Benedito de Al­ meida Batista), e Francisco Antonio Sanson, filho do cidadão francês Victor San- son. Mais outras viagens fizeram o vapor "Ceres", o vapor "Galgo" e o "Agente" conduzindo campistas para o Rio, de onde seguiam para o "front". Esses embar­ ques transformavam-se sempre em grandes concentrações cívico-patrióticas, com discursos recitativos de poemas alusivos e hinos. O comendador José Martins Pinheiro (futuro Barão da Lagoa Dourada) fez a doação de 10 contos de réis, quantia avultada para a época, em favor dos voluntá­ rios, 100 mil réis para cada um num total de 100 conscritos. Por esse gesto é que foi ele agraciado com o título de Barão da Lagoa Dourada.

Julio Feydit, sempre implacável em seu realismo cético, elogiou lances patrióti­ cos da gyerra, mas não deixou de insinuar que a mesma não acrescentou glórias ao Brasil, pois foi necessário juntar três (Brasil, Argentina e Uruguai) para enfrentar um país que tinha somente 800 mil habitantes e cujos soldados combatiam descal­

ços, pois o Exército paraguaio não tinha botinas

para a guerra para substituir os jovens filhos dos seus amos. Cita um dos anúncios de "Monitor Campista": — "Voluntários — Quem precisar de um homem para subs­ tituir algum designado, dirigir-se à Rua Direita n.° 158, que se informará qual a pes­ soa que se propõe a seguir, por preço razoavel".

E fala nos escravos que seguiam

Mas o comum era substituir os "sinhosinhos" por escravos. E na época um "car- toon" do desenhista italiano Angelo Agostini provocava enorme repercussão e pro­ duzia mais efeito do que qualquer discurso de abolicionista. O desenho mostrava um escravo de volta da Guerra do Paraguai, onde se portara com heroísmo, vendo sua mãe atada ao Pelourinho e sendo chicoteada. Inclusive barões como o de Itabapoana libertava escravos para seguirem para a guerra, liberdade paga com preço alto, sem dúvida. Mas estas análises são feitas

Na Taba dos Goytacazes

agora. Na época o povo andava galvanizado, odiando com fervor patriótico o tirano Solano Lopez. No dia 17 de fevereiro o batalhão da Força Policial (Polícia Militar) sediado em Campos seguia para a guerra, onde teria atuação de destaque. No dia 25 seguiram no vapor "Presidente" mais 160 voluntários de Campos, com discursos dos drs. Fran­ cisco Portela, Heredia de Sá e Thomé José Ferreira Tinoco. E os donativos conti­ nuavam a aparecer, todos os barões e pessoas de maiores recursos de Campos con­ tribuindo com quantias em dinheiro para os voluntários. E os embarques se suce­ diam. Num ofício da Câmara Municipal ao presidente da Província, com referência à fundação de "Associação Promotora dos Voluntários da Pátria", há este registro "E o município de Campos o que mais se tem avantajado na remessa de voluntá­ rios," etc., etc. Com efeito cerca de três mil voluntários foi a cota de Campos e des­ tes, segundo Lamego, nove décimas partes de moços cheios de esperanças fica­ ram lá sepultadas. Entre os heróis o que ficou em maior destaque foi o Manuel Theo­ doro de Almeida Batista, ferido na Batalha de Tuiuti em 24 de maio de 1866 e morto em Buenos Aires, seu corpo foi transladado para Campos onde foi sepultado no ce­ mitério de São Francisco, e na sua lousa estão inscritos versos muito eloqüentes.

Outro grande destaque entre os heróis campistas na guerra foi o guarda-marinha Luiz Felipe Saldanha da Gama. Ele estava entre os que o Barão de Tamandaré fez desembarcar para auxiliar as forças terrestres que assediavam a praça-forte de Pais- sandu, que mereceu elogios pela sua bravura. Outro ainda foi o capitão-tenente da Armada, o campista Dionisio Manhães Barreto, ferido duas vezes a bordo do "Bar­ roso" e na passagem de Humaitá. Quando, afinal, chegou a notícia da rendição e da morte de Lopez regozijo e festas. Foram três dias de festejos, 18, 19 e 20 de março de 1870, o povo nas ruas os três dias. Bandas de música (quatro delas), foguetes, discursos patrióticos, de-

poesias, coretos foram armados na Av. Pedro II (Beira-Rio). E no cen­

tro da Praça São Salvador ergueu-se uma coluna com 50 pés de altura em honra dos defensores da Pátria. No cume dessa coluna, numa antecipação de 13 anos de inauguração da luz elétrica em Campos, aparecia uma estrela iluminada a eletricidade pelo sr. Francisco de Paula Bellido. Foi um deslumbramento. O povo nem queria

clamação de

acreditar naquilo, que mais parecia uma mágica. v

Era a antevisão (um "flash" como se diz hoje em nosso idioma tão desnaciona- lizado) da luz elétrica inaugurada 13 anos depois. Da própria luz de gás, iniciada em Campos em 1872, apenas 11 anos antes da luz elétrica. Curioso, este detalhe do curto interregno entre a luz de gás e o absoluto pioneirismo da luz elétrica.

No Palácio da Cultura se encontra a famosa tela do pintor francês Clóvis Ar- rault, reproduzindo a partida dos Voluntários da Pátria (nessa altura a Rua da Jaca teve o seu nome mudado para "Voluntários da Pátria"). Clóvis Arrault deu os costa­ dos em Campos e aqui se radicou. Com 22 anos casou-se com uma campista Maria da Conceição Lambert (pelo sobrenome devia ser filha ou neta de Jules Lambert, vice-cônsul da França e quem implantou em Campos a Barca-Pêndulo). Clóvis Ar­ rault teve grande e destacada atuação em Campos. Quadros seus figuram na Pina­ coteca dos Airizes, de Alberto Lamego, hoje fazendo parte do Museu "Antonio Par­ reiras" em Niterói. Foi graças a uma campanha do jornal "A Notícia" que o governo do Interventor Amaral Peixoto decidiu adquirir a pinacoteca, quando o governo do

Biblioteca de ESTUDOS FLUMINENSES

Estado de São Paulo, já tendo adquirido a biblioteca do historiador, queria também

a mesma pinacoteca. Clóvis Arrault pintou a tela "à clef” , ou seja, a maioria das personagens que aparecem com destaque são figuras da época. Podem ser vistos como o Barão da Lagoa Dourada, Barão de Itabapoana, comendador Cláudio de Couto e Souza; drs. Ribeiro Sampaio, Francisco Portela e Thoma2 Coelho, capitão Joaquim Peixoto e

a menina Olimpia Lacerda, de uns 11 anos, segurando na mão da mãe, ela que casa­

ria em 1870 com o abolicionista Carlos de Lacerda. Essa tela levou anos e anos no antigo gabinete do prefeito e posteriormente do presidente da Câmara Municipal, na Praça São Salvador, quando a sede do Executivo foi transferida para o Palácio de Mármore. Depois, foi levada para o atual gabinete do Prefeito, na Vila Maria, quan­ do para ali se transferiu a sede do Executivo, que, como o anterior, não permite o aces­ so do povo que assim fica privado de admirá-la. Adhemar de Barros, em visita a Cam­ pos, quando ingressou no gabinete do prefeito Barcelos Martins, teve sua atenção atraída — perfeito "connaisseur" — pela beleza da tela.

Clóvis Arrault fez alguns esboços de personagens aqui em Campos e voltou a Paris, sua terra natal, onde foi residir no Boulevard Saint Miguel n? 145. De lá man­ dou anúncio para "Monitor Campista" pedindo a determinados cidadãos de desta­ que na comunidade que enviassem fotos para o endereço acima, a fim de figurarem na tela. Claro que os solicitados procuraram logo a "Photographia Allemã", de Gui­ lherme Bolckau, na Rua Formosa n? 14, para tirar a sua foto, se é que não tinham uma à mão. Mas o francês começou a pintar o quadro na França e logo parou. Arrependeu-

se e decidiu pintá-lo aqui mesmo em Campos. Pegou a esposinha campista a Libera-

ta Lambert, com quem casara quando tinha apenas 22 anos (ela devia ter uns 15 ou 16 anos), e voltou a Campos. Em 1876 o quadro estava pronto e ele oficiou à Câmara Municipal, com quem tratara o preço em dois contos de réis. Então o Barão de Miranda alvitrou que se lançasse mão do saldo da extinta "Sociedade Auxiliadora dos Voluntários da Pátria", o qual era de 1:700$000, pelo que a Câmara Municipal

só entrou com 300$00Q para compra

O "Matinha" (Antonio da Mata Machado) apontava todas as restantes perso­

nagens do quadro. Infelizmente deixamos que ele morresse e já hoje não há nin­ guém que identifique todas as figuras. Clóvis Arrault perdeu a mulher mas com ela teve uma filha e resolveu fixar residência definitiva em Campos. Em 5 de maio de

1885 ele, com Antonio Ferreira Martins, abriu, na Rua da Quitanda n? 6, um curso gratuito de desenho. Esse curso foi crescendo, muitas pessoas contribuindo com 200 réis por mês para mantê-lo. Até que se transformou no Liceu de Artes e Ofícios.

A Assembléia Provincial concorreu

com subvenção de 6:000$000. E em 1887 o go­

verno provincial adquiriu um terreno na Rua do Sacramento (Lacerda Sobrinho) para nele ser construída a sede do Liceu. O Presidente da Província dr. Francisco Portela deu um auxílio de 25:000$000 e o resto resultou de uma subscrição popular.

As plantas e projetos foram do mesmo Clóvis Arrault e a inauguração se deu em maio de 1895 e em julho o artista morria, deixando uma filha, Maria Luiza Ar­ rault, casada com o dr. José da Cunha Souto Mayor, gente de São Gonçalo (Goytacazes).

do quadro

O "Liceu de Artes e Ofícios Bittencourt Silva" prestou grandes e assinalados

serviços a Campos até 1919, quando foi fechado por falta de verba e foi doado ao

Na Taba dos Goytacazes

Estado que o deixou fechar. Doação condicionada a se implantar na sua sede uma escola feminina e foi daí que surgiu a Escola Profissional Nilo Peçanha. Quem se lembrava do Liceu de Artes e Ofícios com saudades, proclamando a sua valia e os serviços prestados, e inclusive nunca se conformando com o seu de­ saparecimento foram dois artistas plásticos conterrâneos: Claudinier Martins e o es­ cultor Modestino Kanto, autor do Monumento ao Expedicionário da Praça São Sal­ vador e outros bustos e monumentos no Rio. E já que começamos a falar em artistas plásticos, justo é lembrar o nome do primeiro campista que se formou na Academia de Belas-Artes no Rio. Foi ele Leo- poldino de Faria, mais precisamente Leopoldino Joaquim Teixeira de Faria, nascido em Campos em 1836 e falecido no Rio aos 75 anos, em 1911. Ele também instalou um curso de desenho na "Beneficência Brasileira", instituição utilíssima, com uma biblioteca de mais de 5.000 volumes, e que foi dissolvida mediante um ato.de força. Leopoldino Faria dava aulas de desenho gratuitamente. Ele se destacou como pintor histórico. Mas, em residências e mansões em Campos, havia muitos quadros dele, inclusive na mansão do falecido José Antônio Domingues Tinoco e dr. Cruz Alves. Na Câmara Municipal de Ouro Preto está o quadro "A Resposta de Tiradentes ao desembargador Rocha no ato de comutação da pena aos companheiros da Inconfi­ dência Mineira, depois da missa", encomendado pelo governo de Minas. Foi discí­ pulo de Cheviel, com quem se aperfeiçoou no desenho, e de Victor Meyrelles, na pintura. Em julho de 1869 fez uma exposição na Rua do Sacramento n.° 43. Outros quadros seus que marcaram foram "A Batalha de Itororó", "Mucio Soevola", "Um Peregrino", um retrato de Pedro II encomendado pela Câmara Municipal, um do dr. João Batista de Lacerda, e do padre Mariano Escobar, que se conserva na sacristia da Igreja São Francisco. Outro foi Antonio Araújo de Souza Lôbo, nascido em Campos em 1840. Dedicou- se à pintura histórica e a retratos. Uma de suas telas de maior destaque é "O Bom­ bardeio do Forte de Itapiru", que fazia parte do acervo do Barão de Jaceguay. Outro é a "Vista da Bahia do Rio de Janeiro" e retratos mostrados em exposições. Seu mérito maior foi ter como seu aluno o famoso Rodolfo Amoedo.

%

O bonde de burro

Até 1854 era a "cadeirinha" que conduzia a "sinhá-moça" e a "sinhá-dona"

para as festas e para as compras. Dois escravos de maior confiança é que agüenta­ vam o peso, que era moderado. Num baile no palacete do Barão de Muriaé (atual Corpo de Bombeiros) o número de cadeirinhas postadas na frente da mansão, na

Pode-se fazer idéia do burburinho dos escravos enquanto

esperavam as "sinhazinhas" em suas danças cada qual querendo a honra de ser par do jovem Pedro II.

Em 1854 é que surgiram os "tílburis" e as "sociáveis", que eram carros mais amplos, confortáveis. O "tílburi" era quase de uso individual. Domingos Gomes Lei­ te e Bernardino Antonio de Oliveira cada um montou a sua cocheira e fazia "recla­ me" (publicidade) das excelências de seus serviços no "Monitor Campista". O con­ forto para os passageiros não era lá essas coisas, muito pelo contrário, já que a bu- raqueira das ruas fazia com que os percursos fossem aos solavancos. Em 1856, a Câmara votou decreto dando numeração aos "tílburis" e "sociáveis", já que o seu número era grande. Em 1858, existiam já 49 seges, 66 "sociáveis" e 74 tílburis. Em 1865 já eram as caleças, berlindas e cabriolés, luxuosos carros para casa­ mentos e enterros, para estes os cavalos exibindo espécies de coroas de luto. Os bondes só apareceriam depois das estradas de ferro, em 1875. Eram os "bondes de burro", mas alguns envidraçados existindo até o requinte de bondes só para fuman­ tes. Desde 1871 que várias foram as propostas apresentadas à Câmara para a con­ cessão do serviço de bondes para Campos. Nesse ano Felipe Hermes Fernandes e Trigo de Loureiro solicitaram do governo Provincial a autorização-para estabelecer, em Campos, cargas. Outros fizeram propostas para explorarem os mesmos servi­ ços. A proposta considerada melhor foi a de Antonio Victor de Assis Silveira, porque fixava o preço das passagens em 200 réis, enquanto a do Loureiro fixava em 400 réis. Mas a verdade é que todas essas propostas não chegaram a ser concretizadas.

E só em 1873 foi fundada a "Companhia Ferro Carril de Campos". E só em 19 de

setembro de 1875 os campistas se regozijaram com a inauguração da primeira seção da linha de bondes, cujo percurso era da Coroa à Praça São Salvador. Eram empre­ sários Eduardo Guimarães (Gerente); Barão da Lagoa Dourada e João Pinheiro. Re­ parem como José Martins Pinheiro (Barão da Lagoa Dourada) estava metido em tu­ do quanto era iniciativa visando ao progresso de Campos. A primeira linha prosse­

guiria depois até a Lapa, e Ruas Direita (13 de Maio),Rosário e Quitanda. Em 1876

é que foram inaugurados os bondes envidraçados e reservados aos fumantes. Uma

linha indo pela Rua do Rosário e a Pedro II (Beira-Rio) era mais que necessária. Pois

nessa Rua do Rosário, entre a esquina da Rua das Flores (Sete de Setembro) e a Beira-Rio, é que se localizava todo o comércio francês grã:fino.

E as novas linhas foram surgindo. Surgiu a do Matadouro (não durou muito por­ que a curva da Lapa oferecia muito perigo). E em 1882 foi construído em Campos

o primeiro bonde na oficina do dr. Eugênio Magarinos Torres. A linha até o Liceu

só foi inaugurada em 1891. E nesse mesmo ano se projetou uma linha que fosse até Guarulhos mas que nunca se implantou.

Beira-Rio, era mais de 150

Na Taba dos Goytacazes

Os bondinhos de burro aue serviram ao campista de 1875 a 1916

Um tílburi: circulando até 1927/28

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“Ponte Municipal” :

a lenda e a verdade

Entre as lendas criadas em Campos, a que talvez mais arraigou e se obstina em teimosamente prevalecer até hoje é a de que a "Ponte Municipal" (Barcelos Mar­ tins) fora construída pelo Barão da Lagoa Dourada, sendo que ele depois se suicida­ ria, atirando-se dela ao rio Paraíba. Só esta última parte é verdadeira — o suicídio. 0 Barão da Lagoa Dourada, como presidente da Câmara, muito lutou pela constru­ ção da ponte, sonho antigo do campista. Desde 1837, quando foi fundada a "Com­ panhia da Ponte da Cidade de Campos", reunindo um grupo de campistas dispostos a realizar o importante melhoramento por iniciativa própria, sem esperar por gover­ nos. O capital da Companhia era constituído de 460 ações de 100$000 (cem mil réis) cada uma. Mas a idéia não vingou. Armazenaram um estoque de pedras na margem de Guarulhos, mas a obra não prosperou. Desde 1864 começou a firma inglesa de engenharia Dutton & Chandler da qual fazia parte Thomas Dutton Junior a fazer propostas e apresentar estudos e planos ao governo provincial para a construção da ponte. Mas as propostas não eram apro­ vadas. Em 1866 um projeto do engenheiro oficial da Província foi apresentado, or­ çando a ponte em 291.109$476, mas também não logrou aprovação. Em 1867, outra proposta da firma Dutton & Chandler também não prosperou. E foram assim se­ guindo as propostas e tentativas, e os líderes da comunidade campista e os compo­ nentes da Câmara irritados. O Conde Rozwadowski, agente das pontes Shilkorn, do Rio, também se habilitou, inutilmente. O Conde reuniu as principais figuras da comunidade no salão da Beneficência Portuguesa e expôs seus planos, orçando a construção da ponte em 500 contos. Quando a comunidade ameaçava construir a ponte à sua própria expensas e a situação moral do governo era péssima, o sr.Dio- go Teixeira de Macedo, presidente da Província, decidiu em 1869 contratar com o engenheiro inglês Thomaz Dutton Junior a construção da ponte, que no entanto só teve suas ooras começadas no ano seguinte em 1870. Antes Thomas Dutton pu­ blicou a sua tabela de pedágio que era a seguinte: "Pessoa calçada, 600 réis; pessoa descalça: 400 réis; cavalo ou boi, 80 réis; carrinho ou tílburi de duas rodas, 200 réis; carro de quatro rodas, 400 réis; e por aí vai, uma extensa e detalhada lista, acompa­ nhada da advertência que os usuários deviam levar a quantia certa pois não se dava troco. A ponte foi inaugurada em 5 de abril de 1873, com a presença de autoridades e povo, sendo a Câmara representada pelo Barão de Miranda e dr. Francisco Penal- va. O Cônego João Carlos Monteiro ("vigário João Carlos", pai de José do Patrocí­ nio) fez o benzimento, a banda musical PhilTEuterpe tocou o Hino Nacional, tendo discursado o presidente da Câmara, dr. Miguel Heredia de Sá, e o historiador Au­ gusto de Carvalho. A ponte tinha quatro metros e cinqüenta e sete centímetros li­ vres para o trânsito de carros, carroças e cavaleiros; 1,06m de cada lado para os transeuntes a pé e 253 metros de comprimento. Cinco dias depois da inauguração o escravo Malaquias cometeu o primeiro sui­ cídio, atirando-se dela ao Paraíba. O piso da ponte era de barrotes que, depois com

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Na Taba dos Goytacazes

o uso, se soltaram. E quando um veículo trafegava por ela os barrotes se levanta­ vam. Então o povo ironizava, dizendo que éramos uma cidade sem luz e com uma ponte que tocava piano. Foi o prefeito Barcelos Martins que mandou pavimentar

o leito da ponte, isto já na década de 50, depois de uma acirrada polêmica, sendo

que os adversários da idéia alegavam que as bases da ponte não suportariam o ex­

cesso de peso. Mas os cilindros de ferro que fazem o embasamento dos pilares pe­ netraram 41 palmos de profundidade.

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O suicídio do Barão da Lagoa Dourada

José Martins Pinheiro, uma das figuras mais notáveis de Campos — em tudo quanto foi iniciativa a prol do nosso progresso ele esteve presente —, era um fidalgo muito orgulhoso. Aos 74 anos, ele, Barão da Lagoa Dourada, não estava em boa situação financeira. Muitos avais dados a amigos que falharam e a impossibilidade de estar à frente de todas as suas propriedades fê-lo entrar em profunda depressão.

A crise não era de insolvabilidade. Dizem que a ele bastaria vender uma só de suas

fazendas e o resultado daria para pagar tudo e ainda continuar rico, morando naque­

le soberbo palácio que é o Liceu de Humanidades de hoje. Mas o que se falava na época é que o Barão jamais havia vendido nada do seu

patrimônio. Considerava mesmo uma humilhação ter que vender algo de seu. A car­

ta que deixou ao Alferes Antonio Lopes Rangel, depois de uma noite em claro, é co­

movente. Diz que foi vítima da irresponsabilidade de amigos e estar muito velho e doente, motivo por que suas propriedades estavam praticamente abandonadas; rei­ nando enorme indisciplina entre seus escravos. Estava decidido, portanto, a levar a efeito idéia que alimentava há muito tempo que era a de se atirar da ponte pela qual tanto lutara (mas não construiu à suas custas, isto é lenda), ao rio Paraíba. Dá as últimas instruções ao Alferes. E depois de sua assinatura — José Martins Pi­ nheiro — Barão da Lagoa Dourada — deixou o seguinte "Post Scriptum: — É quase meia-noite, estou muito cansado e em horrível estado a minha imaginação, como bem compreenderá, vou deitar-me não para dormir mas para accomodar o corpo e melhor esperar o momento fatal. Este estado é crudelíssimo, paciência: Deus se com­ padeça de minha alma". O Barão da Lagoa Dourada chegou no meio da ponte, atirou o chapéu onde depositou dois cartões de visita. Despiu o sobretudo e se atirou. Era 29 de julho de 1876, uma manhã fria, e o rio estava um espelho sem uma marola, coberto pela bru­ ma do inverno. O comendador José Cardoso Moreira numa canoa procurou socorrê-lo e quando o alcançou ele ainda arquejava. Naquele tempo não se conhecia a técnica da respiração boca a boca (pelo menos é o que pensamos), senão poderia ter sido salvo. Ele foi levado à casa de Luiz Antonio Tavares, onde compareceu o médico Lourenço Maria de Almeida Batista (Barão de Miracema), mas já era tarde.

Bancos e sociedades

Antes de entrarmos na década de 70, com seu cortejo de realizações — estra­ das de ferro, iluminação a gás, bondes, serviços de águas e esgotos, desenvolvi­ mento extraordinário da instrução, hipódromo — devemos focalizar os esforços que aquela comunidade operosa desenvolveu no setor da captação de recursos de in­ vestimentos. É um retrospecto necessário. Em 1834, por exemplo, foi fundada a Caixa Econômica (nada tem a ver com

a atual, instituição federal e governamental). Funcionou até 1897, fundada por um

grupo liderado pelo cônego Mariano Leite da Silva Escobar, presidente, e o Barão de Guarulhos como tesoureiro. O Banco de Campos foi fundado em 1863 e funcio­

nou até 1899. Mas o mais importante foi o Banco Comercial e Hipotecário de Campos, mais

conhecido como "Banco Vovô", de sólido conceito na comunidade. Idealizado no ano trágico da "Cholera morbus" de 1855, no entanto só seria inaugurado e instala­ do em 1873, na Beira Rio, onde depois seria o Clube de Regatas Saldanha da Gama. Depois se mudaria para o prédio próprio, na Rua da Quitanda, onde hoje funciona

o Bamerindus. Esse banco durou mais de 80 anos, sempre com largo prestígio. Na

década de 50, deste século, um grupo mais jovem quis assumir a direção do estabe­ lecimento para ampliá-lo e modernizar seus métodos de trabalho. O banco oferecia muita confiança mas abusava dos processos rotineiros e tímidos. Mas a reação dos conservadores e apegados a processos, superados com o apoio do então deputado Simão Mansur, impediu a modernização do estabelecimento que continuou com sua rotina necrosada até desfazer-se. Pontificaram também várias "casas bancárias" como o "Banco Caldeira", a "Ca­ sa Abelardo Queiroz", esta já nesse século. Nenhum destes estabelecimentos pôde, entretanto, dar apoio realmente efetivo à lavoura e à indústria do açúcar. O "Banco Vovô" sempre foi um esteio na credibilidade e confiança da comunidade, dirigido por pessoal de absoluta imputabilidade moral, mas limitado em seus negócios, sem­ pre sem ousadias e mais largos cometimentos.

Tivemos e ainda temos uma: as "beneficências". A "Sociedade Portuguesa de Beneficência" foi fundada em 1852 e admitia brasileiros como sócios, mas estes não podiam ser diretores, apenas votarem mas não serem votados. Os sócios podiam pagar mensalidades ou remir-se pagando quantia maior. E não mais pagavam nada durante vivessem. Em 1872 é que foi o hospital inaugurado onde ainda se encontra* no majestoso prédio, cujos jardins representam a carta geográfica de Portugal. A cerimônia de inauguração teve um incidente cuja versão é dada pelo feroz anticleri- cal que foi o historiador Julio Feydit. Conta ele que o vigário João Carlos Monteiro, pai do abolicionista José do Patrocínio, foi convidado para fazer o benzimento do hospital, e não compareceu. Alegou que a Igreja Católica não havia sido convidada para a solenidade, mas o historiador dá a versão maliciosa de que o cônego João Carlos possuía uma olaria, havia pleiteado vender os tijolos na construção do hospi­ tal e lhe fora negada essa transação. O Hospital da Beneficência Portuguesa sempre foi uma eloqüente expressão do

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espírito filantrópico da colônia portuguesa em Campos, outrora tão numerosa e hoje tão diminuta, diluída, é claro, na multiplicação dos seus de6cendentes campistas. Possui uma magnífica biblioteca, com obras raras. Até alguns anos atrás dava monumentais festas na capela, no dia de Santo An­ tônio, seguidas de banquetes e mesas de doces. Em 1852 foi fundada a Sociedade Brasileira de Beneficência, réplica nativa da outra. A epidemia do "Cholera morbus" de 1855 surpreendeu-a sem hospital ainda, mas montou um hospital provisório e prestou grandes serviços. Em 1870 inaugurou aulas noturnas e depois aulas de desenho e pintura ministradas pelo grande pintor campista Leopoldino de Faria. Foi visitada pelo Imperador Pedro II que fez um pre­ sente de 500$000 à instituição. Possuía também uma grande biblioteca com mais de 5.000 volumes, muito freqüentada. Mas essa utilíssima instituição foi destruída em 1876 por um golpe de violência, produto de maquinações políticas, sendo sua assembléia de prestação de contas dis­ solvida por capangas armados contra os quais os pacatos diretores nada puderam fazer, embora figurasse em sua diretoria gente ilustre, inclusive o dr. Manuel Rodri­ gues Peixoto, que seria o primeiro prefeito de Campos (avô do recém-falecido (1986) historiador Izimbardo Peixoto, morto em Niterói, com avançada idade).

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A luz de gãs

A iluminação a gás, que precedeu a de luz elétrica apenas 11 anos, foi idealiza­

da em 1865, mas a proposta foi dada como inexeqüível pelo relator da Câmara, dr. Manuel José Lacerda. Mas em 1867 o dr. Gregório Pereira de Miranda Pinto voltou

à carga, formulando novo projeto de iluminação a gás para a parte central e comer­ cial da cidade: Beira-Rio, desde a Rua São Bento (Barão de Miracema) até porta do Mosteiro da Lapa, e na Praça São Salvador, no espaço limitado pela Rua Detrás da Matriz, Rua do Sacramento (Lacerda Sobrinho), Rua Formosa, Rua do Conselho (João Pessoa), Rua dos Andradas e novamente Beira-Rio. Eram 100 lampiões e o

resto da cidade permaneceria iluminado a querosene.

A Campos veio o eterno inglês Thomas Dutton Junior, o mesmo que construiu

a ponte "Barcelos Martins" e que havia instalado, por iniciativa desse grande brasi­ leiro que foi o Barão de Mauá (Irineu Evangelista de Souza), a iluminação a gás na Corte desde 1854. Dutton chegou a Campos, chamado pela Câmara em 1869 e op­ tou pela instalação do "gazometro" (usina de gás) na Beira-Rio, entrada da Rua dos Goitacazes (hoje cabeça da ponte da Lapa), rua que passou a ser conhecida por isso mesmo como a rua "do Gás". Em 7 de setembro de 1872 a "Campos Gaz Com- pany" era inaugurada. Era gerente da fábrica Thomaz E. Greenhalgh. Mais tarde Tho­ mas Dutton e o sempre presente José Martins Pinheiro (Barão da Lagoa Dourada) assumiram a direção da "Campos Gaz Company". Em 1877 a Câmara liquidou o con­ trato com Thomas Dutton e contratou a iluminação pública com Guilherme Scully que em 1881 importou material novo para a fábrica. Mas o campista já estava de olho na iluminação elétrica, que já no ano seguinte, 1882, começava a ser cogitada pelo dr. Francisco Portela. Lutavam ainda a luz de gás com a luz de querosene (que nunca desapareceu totalmente) quando entrou no cenário a vitoriosa e pioneiríssima iluminação elétrica, legenda de orgulho e de glória do campista, primeira a ser im­ plantada na América do Sul, e que aconteceria logo no ano seguinte, 1883.

Mas a Rua dos Goitacazes continuou teimosamente até hoje "rua do Gás"

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A estrada de ferro e a navegação

Apenas 14 anos depois de que o Barão de Mauá fizesse inaugurar o primeiro trecho ferroviário do país, ligando a atual Praça Mauá, à Raiz da Serra, o campista inaugurava a Estrada de Ferro SãoSebastião, isto em 1873. Desde 1857 que o cam­ pista, na época ousado e visionário (no bom sentido), lutava para conseguir ligar Campos a Niterói por via férrea. Não se conformava nunca com o erro da capital em Niterói. A Câmara oficiou ao governo da Província nesse sentido e pedia autori­ zação da Assembléia para lançar ações em Campos para tal fim. Ousado, o campis­ ta da época. Ousado e participativo. Lançava âncoras para o futuro e acreditava no progresso. Tinha mais estatura moral e espiritual do que o campista de hoje. Surgiu, então, em Niterói (Nictheroy) uma empresa para fazer ferrovia ligando

a capital apenas a Itaboraí. 0 campista protestou. 0 governo cedeu às pressões cam­ pistas (Campos tinha peso e prestígio político na época) e foi aprovado que se con­ tratassem engenheiros em Londres para fazer o traçado da estrada de ferro Niterói- Campos. E que fossem lançadas ações para serem subscritas em Campos. Uma lista foi aberta nos Correios para a subscrição de ações (até 100 por pessoa). Mas

a idéia morria em 1859, por rescisão do contrato que a Província tinha celebrado. Não por culpa do campista, é claro, mas pela omissão do governo da Província.

A comunidade de Campos se revoltou contra o fracasso da iniciativa, sendo rude­

mente atacado o governo da Província. Os jornais locais não poupavam diatribes contra incompetência governamental.

Durante nove anos o campista amargou sua frustração, mas nunca se confor­ mou. O espírito do Barão de Mauá havia se apossado da gente de Campos, que que­ ria estrada de ferro de qualquer maneira. Foi quando o Conselheiro Thomaz Coelho na Assembléia Provincial entrou com um pedido de autorização para o campista cons­ truir uma ligação ferroviária entre sua cidade e a freguesia de São Sebastião, isto em 1869. Aproveitando a grande festa de Nossa Senhora das Dores em São Gonça­ lo (Goitacazes), onde havia grande concentração de fazendeiros, barões dos cana­ viais, e senhores de engenhos, foi lançada aJdâia rifi SR implantar uma sociedade anônima-Para construir a Estrada de Ferro São Sebastião. Foi instalada a empfesa, com presidência do Comendador José Dias Delgado de Carvalho, engenheiro Wil- lian Elison e Jorge Wilon, e solicitado à Câmara licença para assentamento dos tri­ lhos nas Ruas do Príncipe, Direita, Ouvidor, Estrada do Becco, com as ações sendo rapidamente adquiridas pela comunidade. E a estação começou a ser construída no Largo do Rocio (hoje é a Faculdade de Direito).

Em 15 de janeiro de 1873 a cidade em festa para o assentamento dos primeiros trilhos na Rua do Ouvidor. Todas as autoridades, bandas de música, povo em mas­ sa. O dr. Lourenço Maria de Almeida Batista (Barão de Miracema) apanhou o marte­ lo para bater a primeira cavilha, sob os aplausos da multidão. E em 21 de junho de 1873, o primeiro trem saiu da estação do Rocio, pela Rua do Príncipe até a redação do "Monitor Campista". A locomotiva tinha o nome de "Campos" e o maquinista era Charl F. Rondalk. E em 5 de julho corria o primeiro trem até São Gonçalo (Goita­ cazes). Um harmonioso discurso do dr. Francisco Portela exaltou a audácia e o espí­

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Na Taba dos Goytacazes

rito de iniciativa dos campistas. O vigário João Carlos Monteiro fez o benzimento

da locomotiva. E o trem apitou pela

dido, antes dos outros, o espírito progressista de Irineu Evangelista de Souza, o Ba­ rão de Mauá, que 100 anos na frente de seus contemporâneos forçara o ingresso no Brasil da Revolução Industrial processada na Inglaterra sob o olhar espantado

primeira vez na Planície. O campista havia apren­

e medroso de Pedro II, tradutor de clássicos gregos

Infelizmente o Brasil abandonou leviana e rapidamente o transporte ferroviário.

O infeliz "slogan" do Presidente Washington Luiz "Governar é abrir estradas" (em primeiro lugar não há nada, instituição ou pessoa que caiba numa definição só) se referia apenas à estrada de rodagem. E entramos a semear asfalto e a usar cami­ nhões num país onde o petróleo, com submissão de Vargas a pressões estrangeiras, tinha negado a sua existência, quando pela ordem de custos os transportes mais baratos são: fluvial, nunca também decididamente explorado no Brasil como nos EUA e China; depois o marítimo e só finalmente o ferroviário. Já logo depois o Ba­ rão da Lagoa Dourada quis prolongar a via férrea São Sebastião até os campos de Santo Amaro, onde tinha fazenda de criação de gado. Alguém com o pseudônimo de "Um Campista" (em quem o historiador Horácio de Souza identificou o dr. Fran­ cisco Portela) exaltava, no "Monitor Campista", a desenvoltura, a ousadia e o pio- neirismo da gente da terra, falando que havíamos calado vozes de ministros que afir­

mavam levar o trem até o sertão um

Aproveitando a Estrada de Ferro São Sebastião o campista decidiu por outra iniciativa arrojada: a implantação de um hipódromo. E em 19 de janeiro de 1873 foi fundado o Jockey Club, sob a presidência de Francisco 0. de Oliveira Bastos e a presença na diretoria dos ilustres da época, entre eles Manuel Rodrigues Peixoto e Gregório Pereira de Miranda Pinto. O prado foi construído em São Gonçalo (Goita­ cazes) e inaugurado em 8 de março de 1874. As famílias embarcavam no trem de São Sebastião e faziam verdadeiros "picnics" no Hipódromo, regressando à noiti- nha. O primeiro páreo foi vencido pelos cavalos "Velocidade", em primeiro, e "Pisa Cravo", em segundo. Num quadro, na sede de campo do atual hipódromo, existia afixado na parede o programa inaugural da corrida, em admirável estado de conservação, doação do historiador Barbosa Guerra. Já fizemos uma pesquisa procurando localizar a mesma relíquia mas não a encontramos. Deve ter sido furtada por algum irresponsável cole­ cionador e levada para uma residência, como tudo em Campos. Mas na gestão de Arthur Cardoso Filho ela sempre esteve no seu lugar. 0 segundo hipódromo foi inau­ gurado em 1880, na Lapa, e do primeiro, de São Gonçalo, até este atual, tivemos

"m al" (quanto atraso).

oito hipódromos em Campos. A propósito da implantação da Estrada de Ferro Macaé —Campos, cuja cons­ trução fora autorizada em 1870, concedido o privilégio a Andrew Taylor, José Anto­ nio dos Santos Cortiço e Antonio Joaquim Coelho, por lei provincial de 3 de feve­ reiro daquele ano, devemos destacar que, como idéia e projeto, ela era antiga de uns dois ou três anos atrás. Tanto assim que na coleção que possuímos de "O Pa- rahybano", jornal são-joanense, na edição de terça-feira 27 de abril de 1867 (portan­ to um ano antes), artigo assinado por um cidadão que adotou o pseudônimo de "O amigo do progresso bem entendido". É um escrito longo e ele aborda a idéia da cons­ trução da ferrovia Macaé —Campos com ironia e hostilidade. — "Estas idéias me surgiram à mente quando um nosso amigo nos contou que havia um projeto de lei

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Biblioteca de ESTUDOS FLUMINENSES

ou companhia incorporada para fazer uma estrada de ferro de Campos a Macaé"

— diz ele, depois de coluna e meia de considerações mais ou menos doutrinárias sobre pessoas que visam ao bem público em comparação com outros grupos que só visam a prejudicar a terceiros ou comunidades. - "Estrada de ferro de Campos

a Macaé é na verdade lembrança que parece mais regresso do que progresso, disse

ao meu amigo". E "0 amigo do progresso bem entendido" cita os países mais adian­ tados onde as estradas de ferro se direcionam ao interior e nunca ao litoral (?). Passa

a citar, então, uma série de desvantagens para Campos, as quais não convencem.

— "Talvez me chamem de utopista ou mesmo pessimista mas o futuro provará se hoje digo ou não uma verdade e bem dura para o comércio de Campos". E o articu­ lista promete voltar ao assunto.

Mas em 11 de maio do mesmo ano de 1869, "0 amigo do progresso bem enten­ dido" volta ao assunto em três colunas e meia do mesmo "0 Parahybano" já com outro estado de espírito. Depois de estudar melhor o assunto, chega à conclusão de que a idéia da estrada de ferro Macaé—Campos não afetará de modo algum a

navegação pelo porto de São João da Barra. Diz que São João da Barra não chega­

rá ao estado de "ir-se esmolar a Campos" e que a "navegação deste porto" não

se acabará nunca. Fala muito nos Estados Unidos, onde não se construíam ligações

ferroviárias curtas, citando a de Nova York ao Pacífico com mais de "1.000 legoas".

E sobretudo nos transportes fluviais muito usados no país do Norte, não podendo

comparar-se o frete fluvial com o ferroviário em custo. E foi aí que o nosso articulista acordou de seu pesadelo. Jamais, naquela época, a estrada líquida do Paraíba, con­ duzindo o café de São Fidélis, Cambucy, Santo Antonio de Pádua, produtos de Mi­ nas Gerais, seria substituído, em Campos, com "baldeação" onerosa para o trans­ porte ferroviário rumo a Macaé, ao porto de Imbetiba. Pelo contrário, entre 1870 e 1890, é que o movimento do porto de São João da Barra se intensificou. Basta ler João Oscar em seu precioso "Apontamentos para a História de São João da Bar­ ra". Ainda em 1860, cinco navios aportavam e cinco zarpavam por dia do porto são-

joanense, com 2.000 toneladas de carga por dia. Em 1876 seria fundada a "Compa­ nhia de Navegação São João da Barra e Campos", e, em 1887, a "Companhia de Cabotagem de São João da Barra". No setor de passageiros, o vapor "Gerente" proporcionava, para a época, um certo luxo, "dois salões amplos e decorados, 13 camarins espaçosos e cômodos, 31 beliches à ré, e cinco à proa. O camarim destina­ do às senhoras é preparado com muito bom gosto" (Monitor Campista, 25/7/1872, citado por João Oscar). Os hotéis pululavam em São João da Barra, que inclusive tinha consulado da Suécia. Seis estaleiros de construção naval construíam os na­ vios e até algumas antigas barcas da Cantareira, responsáveis pela travessia Rio — Niterói, foram construídas nesses estaleiros.

O fim do Paraíba como estrada líquida reflete mais uma faceta da incúria dos

governos e dos políticos, principalmente os da região. A obstrução da barra do rio,_ em Atafona, com material de aluvião e movimento espontâneo do fundo do rio com

a

mobilidade da areia era coisa que a técnica até rudimentar evitaria. Assim como

o

brutal e irracional (João Oscar) desmatamento das suas cabeceiras, e os brutais

sangramentos para a produção de energia elétrica a serviço não de Campos ou São João da Barra, mas do Rio de Janeiro, além do despejo de milhões de toneladas de detritos químicos de fábricas e fezes ao longo do curso, "assassinaram" o rio Paraíba.

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Na Taba dos Goytacazes

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Assim mesmo a "Companhia de Navegação São João da Barra — Campos" so­ breviveu até 1910, tendo como mais importante dos seus navios o "Campista", cons­ truído em Liverpool. Em 1919 foi o fim. Houve uma assembléia acalorada, mas o sr. Manuel Ferreira Machado, que tinha o controle acionário da empresa, .induzido pelo engenheiro Paulo Frontim, vendeu a empresa ao armador Henrique Lage, que a transferiu para o Rio de Janeiro, causando o fato grande revolta em São João da Barra e Campos. Mas quem se dispuser a conhecer toda a história da navegação fluvial do Paraí­ ba e o movimento do porto e estaleiros de São João da Barra deve ler "Apontamen­ tos para a História de São João da Barra", onde o historiador João Oscar esgota

o assunto.

No fim de tudo, restam a frustração e o desencanto, e uma revolta irremissível contra os governos e representantes políticos da região (os da era republicana por­ que os do Império eram outro tipo de gente), quando deixaram o Paraíba, transfor­ mado em lata de lixo, morrer, quando a navegação poderia ter continuado até hoje sem a necessidade de prodígios de técnica e de fabulosos gastos. Houve inclusive

quem começasse fortuna jogando pedras na barra do rio em Atafona

frete fluvial é o mais barato de todos, e a História dos Estados Unidos está ligada

à navegação do Mississippi, Missouri, e dos lagos. A Estrada de Ferro Campos—São Fidélis foi um sonho longamente sonhado. Desde 1872 que os engenheiros Antonio José Fausto Garrida e Augusto Barandon obtiveram concessão para construir um "caminho de ferro" que ligasse Campos a São Fidélis e a São João da Barra. Não prosperou o projeto e em 1885 a Companhia Estrada de Ferro Macaé —Campos requereu permissão para construir um ramal para São Fidélis, margeando o Paraíba, como pretendia também construir outro ramal para Lagoa de Cima passando por Dores de Macabu. Significa que o campista de mais de 100 anos atrás havia descoberto a Lagoa de Cima, com sua extraordinária beleza de lago suíço, mas até hoje, mais de um século depois, os políticos da terra não conseguiram fossem asfaltados seis a oito quilômetros da estradinha que dá aces­ so à lagoa, onde já existe um clube e uma estrutura turística montada mas não usa­ da pelo campista. Em 1942 levamos o ator Raul Roulien para conhecer a Lagoa de Cima tendo ele ficado extasiado com a sua beleza. Queria por força fazer um filme ali.

Já a ligação com São João da Barra e Atafona só chegou em 1895. A estação foi construída na Rua dos Goitacazes em frente à Fábrica de Gás, esquina da Rua Saturnino Braga. Em 30 de novembro o primeiro trem chegava a São João da Barra por entre aclamações dos são-joanenses. Em 1889 é que houve a ligação dos diversos ramais ou das estradas construídas pela iniciativa do campista. Foram adquiridas pela Macaé —Campos (já Leopoldina) as estradas de ferro São Sebastião, a Carangola. Depois foi construída a Estação da Avenida no Passeio Municipal, e a antiga estação do Rocio, da Estrada de Ferro São Sebastião, foi desativada e doada à municipalidade que depois a cederia à União, quando Nilo Peçanha, no lançamento do seu ideal de ensino profissionalizante, im­ plantaria em Campos a "Escola de Aprendizes Artífices", onde hoje funciona a Fa­ culdade de Direito, e que foi a semente do hoje modelar estabelecimento técnico que é a Escola Técnica Federal de Campos. Mas a sra. Ilze Peixoto Junqueira, neta de Julio Feydit, tem uma ótima separata sobre a História das estradas de ferro em Campos, ela também historiadora.

Repito: o

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Em 1889, em agosto, um sindicato inglês comprou a Leopoldina por sete mi­ lhões e 100 mil libras e o velho projeto da ligação entre Niterói e Campos foi enfim realizado com a construção do ramal Rio Bonito —Macaé. A primeira viagem, o trem partiu de Niterói às 6h da manhã, chegando às 11h20m em Macaé. De Macaé partiu para Campos às 15h e 20 e aqui chegando às 18.15, trazendo o presidente da Provín­ cia, dr. José Bento de Araújo. Foi em agosto de 1906 que a Leopoldina teve licença para construir uma porite sobre o Paraíba, a qual passou a ser chamada de "ponte de ferro". Não se sabe por que motivo a Associação Comercial se reuniu em assem­ bléia e votou contra a concessão. Mas a ponte foi construída e depois a ligação fer­ roviária atingia a Vitória, Espírito Santo. Foi o ciclo das estradas de ferro, setor onde o campista mostrou igualmente

o seu pioneirismo e não apenas no caso da iluminação elétrica. A grande falha foi

a não preservação do Paraíba como estrada líquida. Se bem que o rio continuou como via de escoamento de produtos hortigranjei- ros, farinha de mandioca, frutas, goiabas, lenhas e outras mercadorias que movi­ mentavam as "pranchas", canoas largas, de fundo chato e velas triangulares. Até

a década de 40, mais ou menos, elas ainda abasteciam Campos, ultimamente quase

só de lenha: não havendo ainda o gás de botijão, o desmatamento continuou feroz

e implacável. Era um espetáculo bonito, três ou quatro "pranchas" subindo o Paraí­

ba no final da tarde, velas abertas como grandes aves, enquanto as andorinhas — ainda não expulsas por esse antipático predador que é o pardal, em má hora introdu­

zido em Campos -

da Beira-Rio. Depois surgiu uma invenção chamada de "ramais deficitários" e extinguiram várias ligações ferroviárias. Começou pelo trenzinho de Atafona, tão poético e de tanta tradição. Depois foram acabando com o "m isto", com o "expresso", com o "rápido", com a ligação para Vitória, e por fim com o tradicional trem "noturno". Derrogaram o espírito do Barão de Mauá apressadamente num país que na época não produzia petróleo.

regressavam, chilreando, para os beirais dos velhos sobrados

A antiga estação da A venida onde se embarcava no trem para A tafona/Sâo João da Barra

O Canal Campos—Macaé

Em 1882, o governo provincial julgou desnecessária a navegação fluvial, dei­ xando Campos "entregue ao polvo que suga toda a energia do campista pelo seu monopólio do transporte" — é Horácio d^. Souza quem informa ("Ciclo Aureo"). (jb Canal Campos - Macaé tivera vida curta. Esse canal foi "pensado" desde dos tem­ pos ainda do Bispo Azeredo Coutinho em seu livro "Ensaio Econômico sobre o com­ mercio de Portugal e suas colônias", edição de Lisboa em 1794. Longamente pensa­ do, e anos para ser construído. Basta dizer que suas obras começaram em outubro de 1844. Antes em 1836, José Carneiro da Silva, 1.° Visconde de Araruama, publi­ cava a sua "Memória sobre a abertura de um novo canal para facilitar a comunica­ ção entre a cidade de Campos e a vila de Macaé", impressa em 1836. E foi o Viscon­ de de Araruama que arremataria, muitos anos depois, as obras do canal. Em agosto de 1845, o presidente da Província, Caldas Viana, criou uma comissão composta do engenheiro Carlos Reviere, capitão Edgard José Lorena, Amelio Pralon, dr. João Campos Belas e o Visconde de Araruama. Essa comissão foi também incumbida de explorar a barra do rio Paraíba em Atafona, para saber se seria preferível a navega­ ção no mesmo rio, desde o Fundão até a barra, e evitar os desmoronamentos em suas margensj Como se vê, a preocupação com a barra do rio em Atafona era anti­ ga, mas nada que a tecnologia pelo menos do fim do século passado não pudesse solucionar. A construção do canal foi uma longa epopéia. Aberto à força muscular, pelo braço escravo, tinha 105 quilômetros e só foi inaugurado em fevereiro de 1872. Mar­ chas e contramarchas, construção ou não de eclusas, uma porção de questiúnculas e discussões técnicas delongaram a obrà7)A idéia era boa mas como diria Shakes- peare, "Muito barulho por nada". O canal Campos —Macaé faz lembrar o blefe da Hidrelétrica de Macabu, que levou anos para ser construída, custo muitas vezes mais do que o orçamento previsto e no fim deu no que deu.(p canal serviu por muito pouco tempo. Logo era inaugurada a Estrada de Ferro Macaé —Campos e sua utili­ dade desaparecia^

O esplendor campista

Campos avança nos caminhos do progresso. 0 campista é um tipo diferente, meio arrogante, que não acredita e nem espera por governos. Se acha que tem de fazer, faz. Já não pede mais. E se acostumou, para todos os tempos, a não exigir de governos o que tinha direito. Só que para frente, lá para o interior do século 20, as condições seriam outras. Para a industrialização a energia elétrica era absoluta­ mente necessária e não se poderia exigir que o campista construísse, por conta pró­ pria, usinas hidrelétricas. Afinal, 1883 marcou a inauguração da "iluminação" de ruas apenas, não de força, luz elétrica, tãò-somente.

A Era da Máquina começava. As moendas de ferro substituem os rolos de ma­

deira. As engenhocas vão sendo substituídas pelos engenhos a vapor. Em 1872, pa­ ra 207 engenhocas, já são 113 engenhos a vapor. Nesse mesmo ano, 1872, inaugura-se

a

defecação a vapor com caldeiras e serpentinas ou a fundo duplo. Em 1877, passa

a

ser empregado o gás sulfuroso. Em 1882, o número de engenhocas fica em 120

e

o de engenhos, 252.

Em 1877 surgia o primeiro Engenho Central construído no Brasil, e este foi o de Quiçamã. Em 1878, o Imperador Pedro II veio inaugurar o segundo Engenho Cen­ tral, o de Barcelos. De sua comitiva faz parte um repórter, José do Patrocínio, que assina a ata de instalação do engenho na qualidade de "redator da Gazeta da Tar­ de". Em agosto de 1880 já se inaugura a Usina Queimado.

A produção do açúcar, é claro, aumenta muito. Mas tal como se repetiu atual­

mente à capacidade industrial de fabricação não correspondem processos agrícolas

do mesmo nível. Em 1865, o lavrador campista não usava o arado por força da su­ perstição de que o mesmo arado enfraquecia a terra. Foi necessário que em 1866

sulistas derrotados na "Guerra de Secessão" tivessem fretado navios e vindo para

o Brasil para ensinar ao brasileiro o uso do arado. Por aqui apareceu um lavrador

de cana na Louisiania. E os processos agrícolas obsoletos continuam. É que a terra,

o massapê, é uma autêntica vocação histórico-ecológica para a cultura da canaTNão

é um conúbio, é um autêntico casamento, apadrinhado pelas cheias do Paraíba, as

quais davam grandes prejuízos imediatos e permanentes lucros mediatos, pela reno­ vação do "humus". Durante mais de dois séculos o solo campista não necessitou de irrigação. E como as extremas dificuldades enrijecem o homem mas as grandes facilidades o amolentam, o campista deixou a posição de sentido e adotou a de "des­ cansar". Cana planta, soca, ressoca, catrassoca, e a produtividade agrícola dimi­ nuindo a chamada "lavoura do preguiçoso"

Em 13 de janeiro de 1943, os jornais noticiavam que o prefeito Saio Brand rece­

bera grande sortimento de enxadas para vender barato aos lavradores. 110 caixas com 2.640 enxadas de 2 2/1, e 37 caixas com 887 enxadas de três libras para serem

cedidas aos lavradores pelo custo. Máo-Tsé-Tung.

O curioso é a antecipação de cerca de meio século, feita em 1898, por Júlio Feydit, das inteligentes e aprofundadas pesquisas de Viana Moog sobre o absoluto desagrado do branco português pelo trabalho manual, qualquer que fosse ele.

Enxadas em 1943. Só na China antes de

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Na Taba dos Goytacazes

Considerava-o mesmo uma espécie de "capitis deminutio", uma perda vexatória de

"status". Logo ensinava aos escravos mais inteligentes e de mais habilidade manual ym "ofício". Assim surgiam os "mestres carapinas", os bons ferreiros, barbeiros

e até escravos cirurgiões. E ele, o branco, não "sujava" mais suas mãos com traba­ lhos para "gentinha"

- "Só os homens de cor e os escravos é que aprendiam as artes mecânicas

e aquele que aconselhasse a um chefe de família para ensinar a um filho qualquer

ofício para o qual ele mostrasse tendência natural tinha o desprazer de ver esse con­ selho recebido como uma falta de consideração" - observa Julio Feydit ("Subsí­ dios para a História dos Campos dos Goitacazes"). E prossegue: - "Por causa des­ ses vaidosos preconceitos arraigados na maioria dos campistas foi que a nossa lavoura- indústria não teve maior incremento. O fazendeiro que tinha quatro filhos varões geralmente destinava para eles os seguintes meios de vida: o que era julgado mais inteligente ia estudar para advogado; o segundo para médico ou engenheiro; o ter­ ceiro para padre, e aquele que era mais destituído de inteligência era o futuro fazen­ deiro!" Pedimos licença para discordar: nem este também era escalado para tomar conta da propriedade; candidatava-se a deputado provincial, depois para as

"Gerais" "Bandeirantes & Pioneiros - Confronto entre duas Civilizações", de Viana Moog, um dos grandes livros escritos sobre o modo de ser do brasileiro, aprofunda

e generaliza o tema, aflorado por Feydit sobre o campista. Mas antes o Eça de Quei­

roz nos ridicularizava, observando agudamente que um povo agrícola mandasse os filhos a Coimbra estudar as Leis, apelidando-nos de "País dos Bacharéis", e dizendo que o Brasil tinha nas mãos argila para esculpir um deus ou um vaso de barro, mas

estava preferindo o vaso Mas a despeito de tudo, esmagado pelo isolacionismo, o campista cavava de­

graus no barro, subia e crescia de estatura. Estatura moral e espiritual. Não física, que a ausência de miscigenação impedia. A produção do açúcar e do café crescia

e aumentava a exportação dos produtos. Viria a segunda estrada de Ferro: a Estrada

de Ferro Macaé—Campos. Em 1870 já havia sido concedido privilégio a Andrew Tay- lor, José Antonio dos Santos Cortiço e Antonio Joaquim Coelho, pela lei provincial n.° 1464, de 3 de fevereiro, capital de 5.000 contos, 25.000 ações de 200$000. Era

a ameaça ao porto de São João da Barra, porque já aí a produção e passageiros

demandariam de trem até Macaé, para lá pegar navios para a Corte (Rio de Janeiro). Mas reparem que apenas a lei provincial autorizou a empresa a funcionar, o governo da Província não entrou na estória. Tudo era capital campista, subscrição de ações pela comunidade.

Em fevereiro de 1871 começou a subscrição de ações. Tentaram traçar o leito da ferrovia pela Rua São Bento, com estação junto à ponte, então em construção. Mas a Câmara vetou o traçado e depois foi ele substituído por outro com a estação onde depois se localizaria s "Campos-Carga". E dia 14 de janeiro, às cinco horas da tarde, chegava a primeira locomotiva procedente de Macaé, saudada por girân- dolas e rojões, e trazendo 200 pessoas, e a banda de música N.S. da Conceição, de Macaé.

Mas o movimento do porto de São João da Barra não diminuiu tanto com o advento da estrada de ferro para Macaé. A antiga "São João da Praia" continuou como um porto movimentado, os seus estaleiros, seus hotéis e o seu jornal ("O Pa-

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Biblioteca de ESTUDOS FLUMINENSES

rahybano", jornal Commercial, Agrícola, Artístico e Scientífico"), de propriedade de Francisco José Soares da Costa, com oficina na Rua dos Passos n.° 75 e se edifando às terças e sextas-feiras, não sendo feriado ou dia santo. A produção de açúcar de 1870 foi de 17.077.200 quilos, a de 1871 atingia a 18.413.580. Maior parte escoando-se ainda pelo porto de São João da Barra, mas

já começava a funcionar, embora ainda em pequena escala, o porto de Imbetiba.

A produção de café teve, como média do decênio 1862-1871, 812.000 quilos, do tipo

mais refinado, 1.500.000 do tipo mais popular. Nessa época a província do Rio de

Janeiro era responsável por 81 por cento da produção de café e São Paulo ainda

não enfrentava os fluminenses na cafeicultura. E municípios como Itaperuna e San­

to Antônio de Pádua eram os maiores produtores do Brasil.

No município de Campos, embora predominante de modo absorvente a lavoura de cana e a produção do açúcar, não havia monocultura. Na região do tabuleiro, margem esquerda do Paraíba, no extremo norte do município, o que predominava era o café. O algodão não era produzido em escala, mas plantado nos aceiros e dava para vestir os escravos, porque cada fazenda possuía os seus teares próprios. Em 1868

o presidente da Província, solicitado pelo Ministro da Agricultura, oficiou à Câmara de Campos querendo informações sobre os processos usados pelos fazendeiros da­ qui no cultivo do algodão. A resposta foi a da cultura consorciada, produção do­ méstica, feita para vestir os escravos.

Mas Campos explodia em linhagem e a aristocracia rural sustentava elevado pa­ drão de vida. Mais de 30 barões e muitos comendadores formavam a nata da nobre­ za dos solares e das mansões. Já se fora o tempo em que o autoritário e atrasadão chefe de família não queria que a filha aprendesse a ler para não mandar bilhetes para o namorado pelo pagem escravo ou pela mucama. O sobrado vai sendo substi­ tuído pelas mansões dos fidalgos. Os estabelecimentos escolares se multiplicam. Mais de 30, incluindo-se externatos, internatos e semi-internatos. O "Collégio Cornelio Bastos" é o mais afamado, mas existem muitos outros onde o grau de ensino é de nível muito bom, alguns dirigidos por professores franceses e muitos dirigidos por sacerdotes, católicos. Ensina-se do Latim à Dança, não omitindo o Francês, a Philo- sofia, a Matemática, a Lógica, etc.

Alberto Lamego tem um capítulo em "Terra Goytacá" (Livro VI pág. 313), inti­ tulado "O Esplendor e a Decadência do Campista", onde descreve o fausto e o re­ quinte da vida de Campos, especialmente nas décadas de 70 e 80. Os fidalgos com

o

peito coberto de condecorações, cabeleiras empoadas; fidalgas com "toucados

à

alemôa", vestidas de veludo, faces mosqueadas, conduzidas por "cadeirinhas"

às

festas e saraus. O número de seges, de "sociáveis", de carruagens de luxo, es­

cravos cocheiros embonecados e com pose orgulhosa, olhando o "negro do ganho" com superioridades.

Em breve já são 17 as usinas produzindo. É introduzida a moenda de cinco cilin­ dros. A Usina São José foi a primeira a adotar a inovação de consumir o bagaço verde, passo importantíssimo no sentido da economia de combustível. E os primei­ ros trilhos particulares foram lançados pelo Engenho Central de Quissamã, ligando- os aos da Estrada de Ferro Macaé - Campos, percurso de 35 quilômetros, receben­ do canas de 40 fornecedores.

Na Taba dos Goytacazes

É uma explosão de progresso e o empresário campista, barão ou comendador,

é um fidalgo voluntarioso e mandão. Não tinha paciência de esperar que pleitos diri­

gidos aos governos provinciais fossem atendidos. Não pedia, fazia por conta pró­ pria. E mais e mais marcou a sua condição de campista, não chegando nunca a se considerar fluminense. E os solares se multiplicam, não só na zona rural, como o do Colégio e o da Baronesa, como os da cidade, onde se destaca o do Barão da Lagoa Dourada, pelo seu luxo e esplendor. Sua decoração era luxuosíssima e de um requinte extraordiná­

rio. O seu salão principal tinha as paredes todas marchetadas de ouro. O lustre prin­ cipal desse salão foi "requisitado" pelo governo do Estado para o Palácio de Petró-

polis, quando a capital fluminense foi transferida para lá. Nunca mais voltou

1864^ foi feita a primeira experiência com a iluminação a gás do palacete, produzido

por um gasômetro que alimentava 200 lâmpadas. Era um espetáculo deslumbrante aquele palácio todo iluminado, situado no "alto do Liceu". Adquirido depois para sede do Liceu de Humanidades de Campos, vem sendo impiedosamente depenado e a cada reforma que se faz se furta dele alguma coisa, como o teto de pinho de riga. E as ampliações modificaram e modificam todo o seu estilo original. Onde é hoje o Quartel dos Bombeiros foi o palácio do Barão de Muriaé, onde Pedro II se hospedou por duas vezes. O atual Asilo do Carmo era o solar do Barão de Carapebus e ali também se hospedou Pedro II. O solar que inspirou ao escritor campista Thiers Moreira o livro "O Menino e o Palacete" (morou nele) era do Barão do Amazonas. O do Barão de Santa Rita era onde hoje se situa o edifício "Engenhei­ ro Joffre Maia" (Unibanco). O solar dos Airizes, também tombado pelo Serviço de Patrimônio Histórico, veio de Joaquim Vicente dos Reis (Collegio), passou ao Co­ mendador Cláudio de Couto e Souza, depois passando ao domínio da família do his­ toriador Alberto Lamego (hoje pertence a Nelson Lamego). Mas dentre as relíquias históricas mais valiosas que Campos possuía (vai assim

o verbo no passado) era o Solar do Colégio. Os móveis e as alfaias antigas, as pra­

Em

tas, os cristais, a Capela, a Senzala tudo era conservado pelo fidalgo de estirpe que foi João Batista Viana Barroso. O solar era dos Jesuítas e quando o Marquês de Pombal dissolveu a Companhia de Jesus foi à praça e arrematado por Joaquim Vi­ cente dos Reis, grande figura de Campos. Os seus descendentes eram os Saldanha da Gama eos Barroso. Tombado pelo Patrimônio Histórico, nele continuou residin­ do o velho fidalgo João Batista Viana Barroso, o "Sinhô Barroso", que morreu há pou­

cos anos com a idade de 104 anos. Ele o conservava intacto em seu requinte e valor histórico. Mas um plano de má fé obteve que o solar fosse desapropriado, além de

já tombado não se sabe com que finalidade. E o

venerando Sinhô Barroso foi muito

magoado por pessoas estranhas, investidas de autoridade que desviaram objetos que não faziam parte do tombamento e pertenciam a ele e seus herdeiros. Essas mágoas

abreviaram a morte de João Batista Barroso, talvez o último herdeiro da legítima aristocracia rural campista, com origem no século 18.

O Solar dos Airizes é objeto de uma lenda arraigada no espírito do campista.

E até hoje muitos acreditam que ali, naquele solar de mais de 30 janelas, entre a ci­

dade de Martins Lage, morou a "Escrava Isaura", e ali se desenrolou todo o drama da bela morena, perseguida implacavelmente pelo Leôncio, que cobiçava possuí-la. Pura lenda, ficção do romancista Bernardo Guimarães, lenda aprofundada pelos fil­ mes e a novela de televisão. Outros solares, que foram residências de barões: o hoje

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Palace Hotel Gaspar, o do Barão de Pirapitinga, o do Barão de Goitacaz, o do Barão de São Fidélis, o solar de Sapucaia (Baronesa de Muriaé), doado pelo usineiro João Cleofas à Academia Brasileira de Letras que o restaurou e vai sediar uma grande biblioteca internacional, iniciativa do presidente Austregésilo de Athayde. Mas outra estrada de ferro surgiria, esta a de Carangola, vinda com o advento da construção da ponte. Dr. Francisco Portela, Rodrigues Peixoto, Barão da Lagoa Dourada e Crisanto de Sá Miranda formaram a empresa que colocou na comunida­ de 3.562 ações. Õ primeiro telefone foi instalado na Estrada de Ferro Carangola em 1882. Em 1932 Campos era a primeira cidade do antigo Estado do Rio a inaugurar telefones automáticos.

Pedro II em Campos

Quatro foram as visitas de Pedro II a Campos. A primeira foi em 1847 e os cam­ pistas preparam para o jovem Imperador, então com 22 anos incompletos, grandes festas e manifestações de estima e amor. Houve muitos bailes e foguetes em demasia, a ponto dos repórteres dos jornais cariocas que acompanharam a comitiva reprovarem o exagero, conta Thalita de Oli­ veira Casadei, que publicou opúsculo intitulado "D. Pedro na Planície Goytacá". Faz lembrar esse foguetório a frase de Nilo Peçanha que disse, certa vez, que Campos era terra de "foguete, moleque e padre". Num dos bailes, Pedro, "jovem louro e belo numa terra de mestiços", casado, mas com mulher feia e coxa, dançou só nu­ ma noite, na residência da sogra de José Saldanha da Gama, 11 quadrilhas. Mas torceu o pé ao dançar uma valsa e teve que parar.

O cronista Wanderley de Pinho em seu livro "Salões e Damas do Segundo Im­

pério" ressalta o luxo das mulheres campistas e requinte dos jantares. Mas outro cronista, Reginaldo Moniz Freire, acha as campistas bonitas e elegantes mas muito "palidinhas" e "se lhes desse mais uma oitava cor-de-rosa nas faces, então Campos seria uma autêntica Geórgia Americana". (Thalita de Oliveira Casadei, obra citada). Por que Geórgia? Será que esse Moniz Freire havia já visitado a terra de Scarlet O'

Hara?

Mas a grande curiosidade dessa primeira viagem era o Canal Campos —Macaé.

É de se aceitar mesmo que conhecer esse canal, aberto pelo braço escravo, tivesse

sido o objetivo maior dessa viagem a Campos.

O Imperador fez mais três viagens a Campos, afora a que fez a São João da

Barra, para inaugurar a Usina de Barcelos, em 1878. Interessante é o roteiro que ele traçou para a visita de sua filha Isabel, com o marido Conde D'Eu a Campos. Ei-lo do próprio punho: — (Depois de falar de São Fidélis e sua igreja, erguida pelo frei Cambiasca) — "Campos — "Casa de Misericór­ dia". — diz Pedro II — "Construía-se uma de bonito aspecto e bastante vasta quan­ do lá estivesse. A cadeia ainda mascarará a praça principal? A Matriz ainda estará sem reboco? Seminário da Lapa. Aí se abriu o internato do Liceu assistindo eu à

solenidade. Ainda viverá o padre Escobar, bom latinista e bem conceituado, seu di- rector?" ("D. Pedro na Planície Goitacá" — Thalita de Oliveira Casadei). E por aí vai Pedro II descrevendo Campos e orientando a Princesa Isabel e o Conde D'Eu, falando de instituições de Campos. Elogia a barca-pêndulo com a qual atravessou

o rio Paraíba e pergunta o que se tem feito para impedir as inundações do mesmo

rio. Elogia a fazenda do Beco e seu bilhar. Fala na casa de um cirurgião cujo nome não cita e que tinha o roslo defeituoso por lhe terem serrado parte de uma das man- díbulas. — "Como vão os estabelecimentos de instrução pública em Campos? A vi­ sita de vocês a alguns seria muito conveniente". Fala de São João da Barra, onde ficou na casa do negociante André Alves da Graça. E como contou que visitou a barra é claro que esteve em Atafona. ("D. Pedro II na Planície Goytacá" — Thalita de Oliveira Casadei).

O Imperador visitou mais Campos em 1875, 1878 e 1883, esta última para inau­

gurar a luz elétrica.

Campos, pioneira na luz elétrica

Começou com o óleo de baleia, ou seja, a concessão dada pela Câmara Munici­ pal a Justino de Sá Vianna para a iluminação da cidade, com 74 lampiões, alimenta­ dos pelo mesmo óleo. Mas viria depois a iluminação a querosene. Só que desde a iluminação a óleo de baleia que os lampiões se embaçavam e produziam uma luz mortiça e davam à cidade um ar triste e depressivo. Decidiu-se, então, usar banhos de cal para evitar emitissem os lampiões aquela luz baça e triste. Em 1840, os 74 lampiões foram aumentados para 100 e a iluminação foi arrematada por José Gesteira Passos por 5:300$000 (cinco contos e trezentos anualmente). O primeiro e vitorioso contato que o campista teve com a iluminação a gás foi o ensaio feito no Palacete do Barão da Lagoa Dourada em 1864. Ainda não estavam terminadas as obras de construção do palacete mas a experiência foi feita com gran­ de assistência. O gás era produzido por um gasômetro que iluminou 200 lâmpadas O Palacete, localizado numa espécie de outeiro (a cidade era tão plana que o local passou a chamar-se "Alto do Liceu"), explodia de luz, compondo um espetáculo de grande beleza que entusiasmou os campistas. Mas a iluminação a gás chegaria em 1872 e seu advento e instalação estão des­ critos minuciosamente no capítulo anterior destes escritos. Foi em 1872 que foi inau­ gurada a "Campos Gaz Company", com o sempre presente Thomas Dutton à fren­ te. A usina de gás sediava-se na entrada da Rua dos Goitacazes que passou a ser chamada de "Rua do Gás" até hoje. Mas em 1882, Guilherme Scully (tudo isto está descrito no mesmo capítulo), que a essa altura já era o concessionário da iluminação a gás, suspende o serviço por não ter a Câmara pago o fornecimento da luz a gás á cidade.

Aliás, há outras versões sobre a implantação da iluminação de gás de hidrogê­ nio líquido. Alberto Lamego (efemérides, pág. 125) diz o seguinte: — "Foi substituí­ da a iluminação de azeite pelo gaz hidrogenico líquido, sendo arrematantes do servi­ ço Manuel Francisco Dias e José Brito Ribeiro, que se obrigaram a iluminar a cidade com 751 lampeões, por 3.0005000 (três contos anuais). "O gás foi invenção do fran­ cês Samuel Henssler. Já em 1850, Carlos Perret Gentil conseguira que particulares usassem em suas casas o gás hidrogênio líquido. Se bem que não há conflitos nessas informações. O gás de 1854 era de hidrogê­ nio líquido e o inaugurado em 1872 era produzido por usina (gasômetro), gás de pe­ tróleo. Mas a verdade é que com Dutton, Barão da Lagoa Dourada ou Scully a cida­ de nunca foi totalmente iluminada a gás; o querosene subsistiu a tudo, até o adven­ to da luz elétrica, pois um número grande de ruas continuou usando o lampião de querosene.

Mas a obsessão campista era a luz elétrica que seria inaugurada 11 anos apenas depois da inauguração da iluminação a gás. E outro fato extraordinário: em 1860 fora feita uma experiência com uma lâmpada, no alto de um longo poste, a qual foi acendida, no Largo do Capim, sob o olhar embasbacado da multidão. Isto 23 anos antes da inauguração da luz elétrica pioneira na América do Sul, em 23 de ju­ nho de 1883.

Na Taba dos Goytacazes

A história começou em julho de 1881, dia 15, quando a Câmara Municipal, pelo

seu presidente dr. Francisco Portela, propôs a substituição do misto de iluminação da cidade (gás e querosene) pela luz elétrica. Posteriormente o mesmo dr. Portela, nascido no Piauí, mas campista dos mais ilustres, propôs que a própria Câmara to­ masse a iniciativa de implantar a luz elétrica e inclusive mostrou que até ficava mais barata. — "A cota que me foi apresentada na iluminação pública desta cidade na importância de 1:9755500, só no mês de janeiro torna necessária uma resolução da Câmara, etc. etc.". E mais adiante: — "Com efeito se continuar baixo o câmbio do ouro a Câmara terá de dispender só com a iluminação a gás corrente neste anno

23:7005000!"

O dr. Francisco Portela faz o confronto em cifras da iluminação a gás com a

elétrica, provando que esta ainda fica mais barata. E uma série de acidentes graves

e fatais com o uso do gás em Londres e Nova Iorque foi relacionada. Num parênteses, o curioso é-o número de acidentes fatais com simples lampari­ nas de querosene. O "Almanak de Campos" para 1885, de João Alvarenga, editado pelas oficinas do "Monitor Campista", publica efemérides de 1881, 1882 e 1883. Pois bem, o número de mortes causadas por explosões de lamparinas de querosene é enorme. Geralmente de escravas, que lidavam com as lamparinas.

Foi nomeada uma comissão para estudar o assunto a qual deu parecer favorá­

vel. Ficou decidido contratar a iluminação da cidade o sistema de Brush, contando

os serviços com "Brush Eletric Company" e constituída a empresa Alves, Carvalho

& Oliveira, integrada por Joaquim Jorge Alves, Francisco José Rodrigues de Carva­

lho e dr. Manuel Francisco de Oliveira. Mas a iniciativa o campista deve mesmo à visão pioneira, à ousadia e ao espírito progressista do dr. Francisco Portela, já a essa altura deputado provincial. Como gerente veio o sr. Pedro Kurezyne. A primeira de­ monstração foi a 26 de abril. Um posto na esquina da Rua do Ouvidor com Pedro II, com uma lâmpada de 2.000 velas, que funcionou plenamente. Depois, a 2 de ju­ nho, foi feita demonstração numa residência domiciliar com uma lâmpada de 50 velas.

Enfim, a 24 de junho de 1883, dava-se a inauguração da primeira iluminação elétrica na América do Sul (a do Rio de Janeiro, capital do Império, só se daria em janeiro de 1884, portanto sete meses depois). Ao meio-dia, chegava a São Fidélis o vapor "Agente", trazendo a bordo S.M. Imperial o presidente da Província Gavião Peixoto, o Ministro da Agricultura Af- fonso Penna, representantes da imprensa da Corte e outras personalidades ilustres.

A cidade estava toda enfeitada, toda tapetada de flores, os campistas enver-

gando os seus melhores trajes. A ovação ao Imperador foi estrondosa (era a quarta vez que ele visitava Campos, distinção não feita a outra cidade do interior). Também

a projeção de Campos no Império era algo de impressionante.

S.M. se dirigira para o palacete do Barão de Santa Rita, após o desembar­ que no porto. A cidade exibia arcos de flores com dizeres alusivos ao grande feito.

A

tarde S.M. fora as corridas no Jockey Club de Campos, inaugurado em 1881,

o

mais moderno, inclusive com arquibancadas. Foram disputados cinco páreos, três

com distância de 875 (um rodo); um com distância de 1.702 metros (dois rodos),

e o mais importante o "Imperial", com distância de 2.530 metros (três rodos), no

qual tomaram parte os parelheiros "Tempestade", ruço, oito anos, do capitão José

Manoel da Costa; Pery, castanho, sete anos, de Joaquim Manoel Pereira; e Nilo,

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cardão, três anos, do Coronel Malaquias. Para evitar aglomerações, ingressos à venda na redação do "Monitor Campista". Às 19 horas as ilustres autoridades dirigem-se à usina elétrica, localizada na Ave­ nida Pedro II (Beira-Rio), pouco acima da Rua do Ouvidor. 0 Imperador aciona a chave ligando a luz, e 20 mil pessoas aplaudem, em delírio. A empresa escolheu o melhor ponto possível para a Estação ou o estabeleci­ mento dos aparelhos motores e dinamoelétricos que constituem a planta para ilumi­ nação da cidade.

"Nesse edifício de que fez aquisição e que mede 13,9 metros de frente a 22,2 de fundo, e foi convenientemente preparado, achão-se montadas as machinas sen­ do uma motora e três dynamo-elétricas, das quais duas do systema de Brush para

a luz de arco para 40 e mais 16 luzes de 2.000 velas cada foco, e uma do systema

de Weston para 50 lampadas incandescentes do systema de Maxim." "A machina de vapor é da força nominal de 50 cavallos, podendo subir até 70 sem damno ou perigo. Tem uma caldeira de aço de 16 pés de comprimento e 4 !4 pés de diâmetro, guarnecida de 52 tubos de 4 polegadas de diâmetro. A caldeira

é supprida por um aquecedor d'água que fornece-lhe água na temperatura de 210° F". "O Cylindro é de 16 pollegadas de diâmetro sobre 20 de comprimento, munida de um Weston Governor aperfeiçoado, do systema moderno, e perfeitamente ajus­ tado."

"Os volantes tem oito pés de diâmetro e 18 pollegadas de largura sobre eixo de 4 Zi polegadas de diâmetro." "A bomba n.4 Knowles pode fornecer 400 litros de agua por minuto." "A pequena machina electro-dynamica montada na mesma estação para 16 lu­ zes é do mesmo autor, com todos os aperfeiçoamentos que o systema Brush tem

tido, e as luzes que alimenta são também da força de 2.000 velas, e tanto esta como

a grande machina são movidas pelo mesmo motor." "A machina dynamo-electrica do systema Brush para 40 lampeões é do maior porte ou força que até hoje se tem podido fazer. Cada luz é de 2.000 velas e todas podem ser alimentadas em um círculo de 50 kilometros ou mais, com a condição porém de augmentar-se a grossura do arame em relação à maior extensão do circuito." "Descreve 750 rotações por minuto, e tão bem montada está a planta que estas rotações se fazem com movimento regular, uniforme." "É guarnecida de um regulador automático, destinado, como se sabe, graduar a distribuição da electricidade no caso de interrupção de um lampeão ou mais ou todos, a fim de não prejudicar a machina geradora." "São tão conhecidas as machinas dynamo-electricas de Brush que não precisa­ mos fazer delas uma descrição technica." "Diremos entretanto que nas experiências até aqui feitas na Estação tem cor­ respondido à reputação de que gozão." "A machina electro-dynamica de Weston que está montada na estação e movi­ da também pelo mesmo motor reune todos os aperfeiçoamentos mais recentes de M. Weston." A iluminação tem a intensidade de 78.000 velas, distribuídas por 39 focos de 2.000 velas cada um. Em 1884, 15 de maio, esse número foi aumentado com mais

Na Taba dos Goytacazes

13 focos, totalizando 104.000 velas. Os logradouros que receberam a iluminação no dia da inauguração: entrada da Rua dos Goytacazes, ilha dos Lázaros (Turfe-Clube), Becco, Covas da Areia (Avenida Pelinca), Beneficência Portuguesa, Beneficência Brasileira e Coroa. Os proprietários do jornal "Clarim" dirigem-se à residência do dr Francisco Portela, acompanhados por uma banda de música e por muitas pes­ soas para homenageá-lo, ofertando-lhe uma caneta de ouro e dçis exemplares do mesmo jornal com a fotografia do dr. Portela "nitidamente impressa" Eis o que disse o "Jornal do Commercio" sobre o feito: — "Campos marcará época na história do emprego da eletricidade". E o Clube da Engenharia que mandou uma comissão ao ato inaugural: - "Fe­ lizmente entre nós para que o Brasil esta vez não deixasse ficar no rol das nações semi-barbara, como por vezes soe acontecer, a intrépida cidade de Campos, sempre das primeiras no caminho do progresso (o grifo é nosso), acaba de contractar a sua iluminação por eletricidade pelo systema Brusch. É de se esperar que esta grande capital, que ora goza da vantagem de não achar-se presa por contracto algum de iluminação, siga o exemplo de Campos, estabelecendo leal e franca concorrência para a iluminação pública por eletricidade". A primeira empresa particular que usou a eletricidade foi "Monitor Campista", que imprimiu sua edição em 1885 à força elétrica.

A campanha abolicionista

A campanha abolicionista em Campos caracterizou-se pelo exacerbado reen­ contro das duaS forças antagônicas: - os senhores de engenhos, de um lado, e os abolicionistas de outro. Por isso mesmo Campos recebeu o título de "Quartel- General da Abolição", dado no ardor de debates parlamentares, quando na Câmara os escravocratas denunciavam que neste município estava ocorrendo uma "verda­ deira sedição", e o deputado Andrade Figueira, num arroubo oratório, conferiu o título que pegou.

Campos era, em 1880, uma das maiores populações escravas do país. 0 censo daquele ano revelava que para uma população de 99 mil habitantes havia 35 mil es­

cravos! A proporção era espantosa. E se houve muitos confrontos, não raro físicos

e armados, a verdade é que admitimos que a reação dos senhores de engenho e

dos barões dos canaviais podia ter sido muito mais violenta. Éque a fisionomia sócio- econômica de Campos era em tudo semelhante à do Sul dos Estados Unidos: toda

a estrutura econômica local, lastreada na cana-de-açúcar e do Engenho, dependia

100 por cento do braço escravo, do trabalho servil, como a do algodão nos Estados Confederados dos EUA. Lá a emancipação custou uma cruenta guerra de quatro anos e pondo em perigo a União, quase separou o grande país do Norte em dois. Foi a Guerra da Secessão. Era natural, pois, que a luta abolicionista aqui não ficasse apenas no terreno das idéias e confronto platônico e pacífico. A Abolição era a ruína, a debacle econô­ mica para toda a estrutura em que repousava a riqueza campista. E a Província do Rio de Janeiro foi realmente a que mais sofreu com a emancipação dos escravos. Houve, entretanto, em Campos, muito menos sangue derramado do que seria lícito esperar.

A verdade é que existe um contraste merecedor de um estudo e uma pesquisa mais aprofundados, a serem feitos por sociólogos e cientistas políticos. 0 senhor de escravos campista — o "am o"— nunca foi aquele "bonzinho" como pintou a autora de "E o Vento Levou", sulista apaixonada, o cruel senhor de escravos dos

Estados do Sul, repetindo o que o Stefan Zweig fez com a Revolução Francesa, na ânsia de desenhar a fútil boneca Maria Antonieta, sua patrícia, austríaca como ele.

t

í( Em Campos só não ocorreu nenhuma rebelião de escravos — tal o percentual deles

no total da população — (em 1558 igualavam-se populações branca e escrava), por­

que os africanos que para aqui eram trazidos procediam das tribos mais atrasadas da África. Houve muitos gestos de desespero individuais — assassinatos de feitores

e senhores cruéis por escravos, mas no âmbito coletivo não se tem notícia de rebe­ liões que pudessem ser levadas a sério. E o senhor campista de escravos não era bonzinho. Não há um anúncio de escravo fugido em "Monitor Campista" em que

o fujão fosse "inteiro". Sempre estropiado de uma perna, com grandes cicatrizes

no rosto, braços aleijados, marcas profundas de golilhas no pescoço, dentes e de­ dos quebrados (usavam até torqueses).

No entanto, não só a reação não foi tão violenta como era de se esperar, mas

o campista fundou, em 1881, a "Sociedade Campista de Agricultura", nome meio

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vago, para uma instituição que surgia com um objetivo específico: o de trazer colo­ nos europeus para aqui, substituir o braço escravo. Ficou o Barão de Santa Rita, presidente da fundada instituição, autorizado a promover meios para trazer para aqui 50 famílias, da Europa, com pelo menos quatro membros cada uma, aptas para o trabalho. Ecomenta a notícia: - "depois dessa salutar medida, que foi logo aprova­ da, e reconhecida a superioridade do braço livre ao do escravo, muitos dos nossos fazendeiros começaram a colonizar suas fazendas, etc. etc." Não chegou a aconte­ cer tal coisa. Em Campos nunca prbsperou o colonato estrangeiro. Teria sido por conta do clima? Não é de se crer, pois em outras regiões do país de clima ainda mais quente vingaram colônias de europeus, embora preferência sempre tivesse sido da­ da aos estados do Sul do país. E por isso não houve por aqui a rigor miscigenação. A civilização campista se formou através apenas do cruzamento branco com o ne­ gro escravo. Acontece que nenhum europeu concordaria em vir para o Brasil para ser escravo ou colono rural, e o exclusivismo campista não aceitava dividir nada com ninguém. Por conta disso, desse choque de interesses econômicos, Campos tinha que dar como deu, uma grande figura de abolicionista, como deu Carlos de Lacerda, um dos maiores lutadores pela emancipação dos escravos de todo o Brasil. Porque a coragem de ser abolicionista variava com a latitude. Era muito cômodo e fácil, por exemplo, lutar pela Abolição na Corte do Rio de Janeiro e na capital de São Paulo. Duro era em Campos, tendo que enfrentar os interesses vitais do poder econômico dos senhores de engenhos e dos barões dos canaviais. E os abolicionistas não fica­ ram no terreno apenas platônico das idéias mas partiram para corajosa e até temerá­ ria ação física, libertando à força escravos, incendiando canaviais e tomando outras iniciativas até violentas. Por isso é que admitimos que a reação do sistema econômi­ co da época pudesse ter sido mais radical e violenta, na defesa do seu patrimônio. Quanto valeriam 35 mil escravos, "peças" de grande valia para o trabalho de sol a sol nos campos e nos canaviais?

Carlos de Lacerda, menino ainda, era companheiro inseparável do outro cam­

pista, este de projeção nacional, o José do Patrocínio, o "Tigre da Abolição", gran­ de tribuno e jornalista, a maior figura da campanha popular pela Abolição. Patrocí­ nio era filho do Cônego João Carlos Monteiro (''Vigário" João Carlos), que era um grande "gourmet" — apreciava muito um leitão assado, uma mesa farta, regada ao

bom vinho português — e uma noitada de jogo de cartas e

por negras. Ele gerou o José do Patrocínio com a negra forra, quitandeira, Justina Maria do Espírito Santo. Nunca foi um bom pai e o filho até que não manifestava nenhum maior afeto por ele. Quando Patrocínio foi para a Corte destinado estudar Medicina, com apenas 16 anos, mandava-lhe mesada de apenas 15 mil réis, que lo­ go suspendeu, obrigando o jovem a se empregar como servente na farmácia da Santa Casa (havia desistido do curso de Medicina e passara para o de Farmácia). Mas a Santa Casa contratou uma ordem de freiras para gerir ò hospital e José do Patrocí­ nio foi dispensado porque não cabia mais homens no hospital. Então quem prote­ geu o jovem campista foi outro conterrâneo, o Visconde de Alvarenga, diretor da Faculdade de Medicina e dono de uma clínica particular, nome da rua atual da Fa­ culdade de Filosofia.

Meninos e da mesma idade (ambos nasceram em 1853), Carlos de Lacerda e José do Patrocínio viviam juntos, companheiros inseparáveis. Estavam sempre a ca­

preferência sexual

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valo na fazenda que o Cônego João Carlos Monteiro possuía perto da Lagoa de Ci­ ma. E foi num desses passeios que ocorreu um episódio que modificaria toda a vida de José do Patrocínio. Iam os dois a cavalo, pairando, quando Patrocínio chamou um preto velho escravo para abrir uma cancela. Como o velho, já meio lerdo pela idade, tivesse demorado um pouco, Patrocínio, com mentalidade de "Sinhosinho" de escravos, embora preto, irritou-se e com o cabo de prata do chicote golpeou a fronte do preto velho, e por onde correu logo um fio de sangue. À noite, quando

o Vigário chegou à fazenda soube do ocorrido. E trancando-se com o adolescente

ministrou-lhe longa lição de moral na presença do outro garoto, Carlos de Lacerda.

Deve ter alertado ao filho bastardo que ele era também filho de uma ex-escrava e preto. O sermão foi eloqüente. 0 Cônego era formado em Teologia em Coimbra e grande orador sacro, glutão e depravado sexualmente, mas de grande saber.

0 episódio marcou a vida de José do Patrocínio, fazendo-o mais tarde transformar-se na maior figura das lutas abolicionistas do Brasil, o grande tribuno popular, o jornalista ardoroso e ousado, o "Tigre da Abolição". Carlos de Lacerda era de família ilustre. Filho do médico dr. João Baptista de Lacerda, todos os seus irmãos se destacaram na vida, especialmente o sr. João Bap­ tista de Lacerda Filho, médico e que foi diretor do Museu Nacional. E mais o advo­ gado Cândido de Lacerda, um dos fundadores e primeiro diretor do Liceu de Huma­ nidades, e Antonio de Lacerda, jornalista. O curioso na vida desse grande Carlos de Lacerda é que ele não aderiu logo de pronto à causa abolicionista. Em 17 de junho de 1881 foi fundada em Campos

a "Sociedade Campista Libertadora", eleito presidente João Barreto e orador o Co­

mendador (já ganhara o título) Carlos de Lacerda. Mas ele excusou-se de aceitar o cargo e explicou os motivos pelas colunas do "Monitor Campista". Dizia que deixa­ va de aceitar porque tratar-se da extinção momentânea do elemento servil é amesquinhar-se a idéia e ridicularizar-se a liberdade a quem não sabe compreendê-la nem defini-la. (Monitor Campista, 29 de junho de 1881).

Mas de 1881 a 1884 Lacerda evoluiu, dando uma guinada de 180 graus. Influência da amizade com José do Patrocínio, que nunca esfriara? Talvez. Lacerda era assi­ nante da "Gazeta da Tarde", onde José do Patrocínio pontificava já defendendo a Abolição. E a reviravolta foi tão grande que em 1? de maio de 1884 Lacerda fundava

o

"Vinte e Cinco de Março", lançado com o objetivo único de defender a Abolição.

O

título do jornal era uma homenagem ao Estado do Ceará, que naquela data, ainda

em 1884, se adiantara ao resto do Brasil, abolindo por sua conta e risco a escravidão

em seu território. José do Patrocínio nessa altura se encontrava em Paris e com sua mania de grandeza e seus gestos largos e teatrais promoveu um banquete come­ morando a iniciativa generosa do Ceará. E, audacioso, convidou o grande poeta e escritor Vitor Hugo para ser o orador oficial do banquete. Doente, o autor de "Le- gend des Siécles" não compareceu mas mandou um pequeno discurso para ser lido

e que começava assim: — "Une province du Brasil vient de declarer Tesclavage abo­ li. C'est une grande nouvelle!"

Como dissemos acima o "Vinte e Cinco de Março" foi lançado com desígnio específico e único de lutar pela Abolição. "Monitor Campista" não aderiu de frente

à campanha, estava mais ligado ao Sistema, e havia necessidade de um jornal em

Campos para sustentar a campanha e que não fosse preso aos senhores de enge­ nhos e outros proprietários de escravos. O objetivo único do jornal fundado se evi-

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denciou porque ele deixou de circular quando a Princesa Isabel assinou a "Lei Áu­ rea". A Biblioteca Municipal de Campos não tem a coleção do jornal de Lacerda. (!) E pelo que pudemos apurar só existem três coleções completas do Vinte e Cinco de Março: uma na Biblioteca Nacional, e outras duas em bibliotecas particulares. Uma doada pelo campista Thiers Martins Moreira (autor de "O Menino e o Palace­ te" e de "Os Seres") ao sr. Plinio Doyle de Oliveira. E outra doada por Antonio de Lacerda, irmão do diretor do jornal, a Evaristo de Moraes e que deve ainda existir na biblioteca do seu filho, o criminalista Evaristo de Moraes Filho. O jornal era de formato pequeno e seguia muito a linha da "Gazeta da Tarde", onde era redator José do Patrocínio e cujos candentes editoriais abolicionistas por vezes transcrevia. Mas Lacerda arregaçou as mangas e entrou na campanha de corpo inteiro. A ele se reuniu um pugilo de decididos campistas em favor da causa: Adolpho Porto, Bento Alves, Adolpho Magalhães, Feliciano José da Silva, Julio Armond, dr. Mi­ guel Herédia de Sá, Bento Baptista, Fernandes Lima, Alvarenga Pinto, Francisco Maria Teixeira de Queiroz e o grande Francisco Portela. Tentaram corromper e subornar Carlos de Lacerda por todos os meios. O de­ sespero dos usineiros e fazendeiros atingira o auge e mandavam oferecer um conto de réis, quatro contos de réis, importâncias muito maiores.

Um parêntesis para observação que não pode deixar de ser feita. Não é de se compreender que um infeliz vereador tivesse proposto colocar numa das ruas cen­ trais o nome de um escravocrata, o Barão de Cotegipe, que tudo fez para combater a Abolição e que chegou a alimentar a nojenta idéia de enviar uma canhoneira a São Paulo, já dominado pela onda abolicionista, para recolher os escravos ali açoitados e trazer presos para o Rio os principais abolicionistas. E o Barão escravocrata só não cumpriu o seu intento porque o presidente da Província de São Paulo foi avisado em tempo e solicitou a ajuda do Exército que a essa altura já tornara público que. sua oficialidade se recusava a desempenhar o nojento papel de "capitães do mato", aqueles que procuravam escravos fugidos para prendê-los e devolvê-los a seus do­ nos. Há uns 30 anos (década de 50) o jornal "A Notícia" empreendeu uma campa­ nha para trocar o nome do Barão de Cotegipe por Castro Alves, pelo absurdo que significava na cidade intitulada "Quartel-General da Abolição" uma rua central com

o nome de um escravocrata que tudo fez para a Princesa não assinar a Lei Áurea.

Infelizmente o comércio da antiga Rua da Quitanda reagiu contra a campanha cívica. E hoje, apesar de ter sido mudado o nome para "Governador Teotonio Ferrei­

ra de Araújo", continua a ser conhecida por Barão de Cotegipe. Antes, então, voltar

ao nome antigo: Rua da Quitanda.

Carlos de Lacerda não era homem de grande cultura, mas tinha grande inteli­ gência e idealismo, além de ser incorruptível. Não podia comparar-se ao grande tri­ buno e jornalista José do Patrocínio, a não ser que, atuando num meio hostil como

o nosso, tornava-se da mesma estatura do "Tigre da Abolição", que atuava num

meio menos adverso. Carlos de Lacerda atraiu para a sua pessoa todo o ódio dos

proprietários de escravos de Campos. Na verdade o precursor verdadeiro da campanha abolicionista em Campos foi

o dr. Miguel Herédia de Sá, que já havia fundado a "Sociedade Emancipadora", em

1871, através do seu jornal, "Gazeta de Campos". Mas não pregavã abertamente

a Abolição. Era uma instituição que se destinava a arranjar fundos para alforriar es­ cravos, comprando-os de seus senhores e alforriando-os. Mas depois o dr. Miguel

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Herédia aderia de corpo inteiro ao movimento desencadeado por Carlos de Lacerda, tornando-se um dos seus companheiros. A luta foi acesa e por vezes o sangue foi derramado nos últimos quatro anos, de 1884 a 1888. Sob o comando de Carlos de Lacerda, os abolicionistas de Campos foram extremamente ousados e atrevidos, enfrentando fisicamente embates e par­ tindo para seqüestrar e roubar escravos. A redação do "Vinte e Cinco de Março" possuía um amplo porão, onde eram provisoriamente homiziados os escravos retira­ dos, na calada da noite, do "tronco" e das correntes. Da parte dos proprietários de escravos o comando era de Raimundo Alves Mo­ reira, conhecido como "Barbaças". Era um indivíduo de compleição forte, dotado de uma barba ruiva e cabeça leonina, atrevido e valente. Não era um grande fazen­ deiro, possuía apenas uma fazendola, quase apenas um sítio em Guarulhos (Gua- rus). Seu cavalo era o "Escravocrata", animal bravo e ensinado, tendo ódio de pre­ to. Nenhum homem de cor podia aproximar-se dele, pois era logo agredido com coi­ ces e dentadas. Dizem que no dia em que foi assassinado por dois pretos foi porque não estava montando o "Escravocrata", mas um cavalo ruço queimado. Muitas vezes o "Barbaças", provando a sua valentia, enfrentou a tiros abolicio­ nistas, que também eram de briga e não se limitavam a campanhas platônicas. Inva­ diam fazendas libertando escravos. Por exemplo, no dia 21 de dezembro de 1884, ele trocou tiros na Rua do Conselho (João Pessoa) com abolicionistas a quem ofen­ dera pelo "Monitor Campista", que publicava seus insultos contra os partidários da Abolição. A 17 de julho de 1885, o abolicionista Adolpho Porto, que seguia pelo Be­ co do Barroso, foi alvejado a tiros por dois cavaleiros. Porto tombou gravemente ferido e João Bento Alves, que estava em sua companhia, ficou levemente ferido. Raimundo Alves Moreira — o "Barbaças" — foi acusado de mandante do crime e preso, assim como seus autores materiais Antonio Fernandes de Miranda e Hermó- genes Ribeiro dos Santos. Foram, entretanto, absolvidos pelo júri. Em 30 de janeiro de 1887, o "Barbaças" aparteou violentamente o Carlos de Lacerda, numa noite de conferência abolicionista no Theatro Empyreo, à Rua Direi­ ta (13 de Maio). Apupado pela multidão, deixou o teatro, mas voltou com dois ca­ pangas. Enfrentado à porta pelo valente Adolpho Porto, começou o tiroteio e neste, além de feridos, foi morto o comerciário Luiz Antônio Fernandes da Silva, cujo azar era ser perfeito sósia de Carlos de Lacerda.

Durante mais de quatro anos o Barbaças enfrentou e provocou pessoalmente, nas ruas, nas casas de comércio, o Carlos de Lacerda, ofendendo-o e desrespeitando- o. Lacerda, homem franzino, não podia enfrentá-lo fisicamente motivo porque não reagia. Como dissemos, os abolicionistas de Campos não se limitavam a campanhas platônicas, mas partiam para a ação física. Em maio de 1885, invadiram a fazenda do tenente Orbilio da Costa Bastos, na Freguesia de São Gonçalo (Goytacazes), e do coronel Antonio Pereira Lima, libertando escravos do tronco e acoitando-os na cidade, provavelmente no porão do "Vinte e Cinco de Março". O "Jornal do Com­ mercio" publicava o telegrama e a repercussão do episódio chegava ao Congresso, que focalizou, em debates cerrados, o que os escravocratas chamavam de sedição

e

insurreição em Campos, com atentados ao direito de propriedade. José Bonifácio,

o

Moço, era o mais inflamado a condenar a anarquia em Campos e estranhou que

Carlos de Lacerda tivesse libertado o escravo e depois o "açoitado". Aí o senador

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Cruz Machado aparteou, corrigindo: — "Açoitou, não; açoitou". Fora um erro de revisão do "Jornal do Commercio", que pôs uma cedilha onde não existia. Orbilio Bastos requereu corpo de delito do arrombamento na casa do "tronco" de sua fazenda, quando foram retirados do mesmo tronco três escravos. Os aboli­ cionistas haviam arrendado um trem especial e trouxeram nele os escravos e o tron­ co. Adolpho Porto, Feliciano José da Silva e Adolpho Magalhães foram presos mas depois absolvidos. Mas enquanto isso os canaviais ardiam por toda a parte. Os abolicionistas eram acusados. 0 Barão de Cotegipe (é nome de rua de Campos!), que nas charges do desenhista italiano, o abolicionista Angelo Agostini, aparecia sempre na figura de um macaco, mandou para Campos uma unidade do Exército comandada pelo coro­ nel Moreira Cesar (também esse epiíético e facínora é nome de rua em Niterói) para manter a ordem escravocrata. Esse Moreira Cesar foi um do grupo de oficiais que acuaram na parede e mataram a punhaladas o jornalista perneta Apulchro de Cas­ tro, diretor de "O Corsário", Rio de Janeiro. 0 Exército ainda não havia aderido pu­ blicamente à causa da Abolição, fazendo-o quando se recusou a servir de capitão de mato, para recapturar escravos fugidos. Em 8 de maio de 1886, o advogado Cândido de Lacerda mandou ao Ministro da Justiça o seguinte telegrama: — "Esta madrugada o alferes Corte Real aqui des­ tacado e sicários penetraram na residência do comendador Carlos de Lacerda, ten­ tando assassiná-lo, evitado pela fuga. Providências". Carlos de Lacerda foi ao Rio para se defender do caso da libertação dos escravos de Orbilio Bastos, enquanto os companheiros ficavam aqui presos. Agitam-se, na Corte, os abolicionistas, José do Patrocínio à frente. Na Câmara, Bezerra de Meneses provoca a discussão, en­ quanto no Tribunal da Relação Sizenando Nabuco defende o habeas corpus impe­ trado por Lacerda. Os debates da Câmara são calorosos e o Ministro Affonso Penna manda explicações. No meio dos debates o deputado Andrade Figueira qualifica Cam­ pos como "Quartel-General da Abolição" e o título pegou, porque José do Patrocí­ nio, na imprensa carioca, agitou-o como uma bandeira. Ainda em 1886 Carlos de Lacerda voltaria ao Rio para se queixar de persegui­ ções a seu jornal "Vinte e Cinco de Março". 0 comandante da Força Policial em Campos era o capitão Fernando Pinto de Almeida Junior, perseguidor dos abolicionistas. Certo dia ele foi com uma escolta a Mombaça, na residência do abolicionista Manuel Bernardino Ferreira Tinoco, em busca de escravos que supunha estarem ali açoitados. Não encontrou nenhum mas uma mesa recheada de apetitosas postas de peixe frito. 0 capitão se atirou ao peixe como que esfomeado, pelo que os abolicionistas puseram-lhe o apelido de Capitão, Peixe Frito. Ecomeçaram os abolicionistas a abrir pelas paredes letras com o dístico Capitão Peixe Frito. Na madrugada de outubro de 1887 soldados raspavam com a ponta dos rifles as paredes onde estavam tais dísticos. E puseram-se a fazê-lo nas paredes do "Vinte e Cinco de Março", onde os letreiros mais apareciam. A turma do jornal não era tácil, gente muito valente. Intimaram os soldados a se retirar e eles responderam com tiros. Os abolicionistas também abriram fogo. Na redação, além de armas, ha- V|a até dinamite. Os soldados bateram em retirada e até bombas de dinamite foram usadas pela turma do jornal. Mas a polícia voltou com reforços, os abolicionistas se retiraram para a residên­

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cia de Adolpho Porto. Havia escravos homiziados no porão do jornal, mas a eles foi dada liberdade por subterrâneo que fora construído justamente parg^essast eventualidades. Foram todos presos à exceção de Carlos de Lacerda, que escapuliu para Macaé

e apanhou um navio. Do Rio enviou um telegrama: - "Aqui estou. Passei sem novidade".

Mas a polícia estourou o jornal empastelando tipos e destruindo máquinas. E

aí a sedição mesma explodiu nas ruas. Tiros eram trocados, a polícia atacava e es-

paldeirava. 0 povo respondia com pedradas e também tiros. Muita gente ficou feri­ da e a insurreição tomou conta das ruas. Quem no fim de alguns dias pôs fim à si­ tuação de ordem foi o juiz municipal Godofredo Xavier da Cunha, que enfrentou o

Capitão Fernando Pinto de Almeida Junior, Peixe Frito, quando a cavalaria espaldei- rava populares. Corajosamente intimou o capitão, que deu ordens para os soldados se recolherem ao quartel. Mas somente em 1? de dezembro a ordem era totalmente restabelecida na cidade com a chegada do Capitão Sampaio à frente de 50 praças

e que substituiu no comando o Peixe Frito, ficando assim, com um efetivo de 150

praças sob seu comando. Foram dias de violência mas também de bravura. Dominada a situação, o Barão de Cotegipe se rejubilava de ter dominado a rebelião em Campos. Em maio de 1887, Lacerda descobriu uma irregularidade na matrícula dos escra­ vos. Pelo Decreto 4.835, exigia-se que a relação em duplicata dos escravos adquiri-1 dos fosse assinada por pessoas autorizadas (geralmente pelos próprios senhores) sen­ do que os analfabetos deviam usar o a rogo, com duas testemunhas. Isto não vinha sendo respeitado e o Lacerda entrou com um feito, pelo qual nada menos de 13.000 escravos seriam libertados de uma só vez. Foi um pânico, porque o coletor federal confessou que a irregularidade vinha sendo observada desde 1872. A causa era ga­ nha, líquida e certa. Mas o Conselheiro Thomaz Coelho (também é nome de rua) correu de sua fazenda aqui em Campos para o Rio, e conseguiu do Ministro Rodri­ go Silva que fosse expedido um Aviso, dando validade a todas as transações.

A propósito de transações envolvendo escravos, vale lembrar a decisão de man­ dar incinerar e destruir tudo quanto se relacionasse na compra, venda e arrenda­ mento de escravos. Com isto se perdeu quase toda a documentação. Mas muitos não obedeceram e em Campos, no Cartório do 2? Ofício, existe o Arquivo Negro, organizado pelo saudoso homem de letras Alcides Carlos Maciel. Como o Ceará, o Município de Campos praticamente se adiantou na emancipa­ ção dos escraVos. No dia 10 de março foi publicada uma convocação dos fazendei­ ros de Campos para a emancipação dos escravos. No dia 18 se realizou a reunião, de que depois Nilo Peçanha lavrou a competente ata. Foram eleitos o dr. Francisco Portela, presidente; e Nilo Peçanha e Cândido Lacerda, secretários, com a prerroga­ tiva de nomear comissões para promover a libertação, ao mesmo tempo em que um, ofício era enviado ao Imperador solicitando a Abolição. De 11 de março a 5 de abril de 1888 houve em Campos 8.727 libertações. Mas a existência de Carlos de Lacerda não iria terminar bem. Raimundo Alves M