Você está na página 1de 11

SENTENÇA PENAL: VERDADE, CERTEZA, VEROSSIMILHANÇA E MOTIVAÇÃO.

SUMARIO: 1- A RACIONALIDADADE E A VERDADE ABSOLUTA; 2- O MITO DA


VERDADE REAL; 3- VERDADE FORMAL OU PROCESSUAL; 4- CERTEZA E
VEROSSIMILHANÇA; 5- MOTIVAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS; 6- REFERENCIAS
BIBLIOGRÁFICAS.

RESUMO:

O fim do processo penal é a sentença. Qual seria então o fim da sentença: a busca
pela verdade “real” ou simplesmente a busca pela verdade formal, ou pela verdade possível
no processo? Diante da possibilidade de algumas verdades possíveis no processo penal,
temos ainda a certeza e verossimilhança entre os fatos apurados e o fato real, que é história
e, portanto, tem que ser recontado. Frente à falta de certezas, devemos preservar as
garantias processuais do Estado Democrático de Direito, dentre elas a da motivação das
decisões judiciais.

Palavras-chave: racionalidade- verdade real- verdade formal- certeza-


verossimilhança- motivação- sentença.

1- A RACIONALIDADADE E A VERDADE ABSOLUTA

O pensamento "esclarecido" no século XVIII foi pautado pela racionalidade, a crença


no progresso do conhecimento e no controle do homem sobre a natureza, além de um
individualismo pretensamente secular. O Iluminismo tinha como meta Iibertar o indivíduo das
algemas que o agrilhoavam: do tradicionalismo ignorante da Idade Média, que ainda lançava
sua sombra sobre o mundo, da superstição das igrejas (distintas da religião "racional" ou
“natural"), da irracionalidade que dividia os homens em uma hierarquia de patentes mais
baixas e mais altas de acordo com o nascimento ou algum outro critério irrelevante. A
liberdade, a igualdade e, em seguida a fraternidade de todos os homens eram seus slogans.
No devido tempo se tomaram os slogans da Revolução Francesa1.

Nos primórdios do século XVIII o estudo das humanidades encontrava-se bastante


desprestigiado, muito em função do predomínio das concepções descartianas, que
relegavam aquela espécie de conhecimento ao status de miscelânea de informações
periféricas e de reduzida importância, que não deveriam ocupar mais do que alguns
minutos do tempo dos homens racionais. O conhecimento válido e proveitoso só poderia
ser obtido através da aplicação do método enunciado em seu "Discurso" (no qual, aliás,
Descartes destila falta de apreço pelas humanidades), reduzindo-se o problema à
1
BAUMER, Franklin Le Van. O Pensamento Europeu Moderno: séculos XIX e XX. Traduzido por
ALBERTY, Maria Manuela. Lisboa: Edições 70, 1977, p. 160-165
categorias estanques claras e distintas, e, a partir da resolução do simples, ascendendo-se
progressivamente até os problemas mais difíceis, a fim de assim alcançar a verdade. Esta
noção de conhecimento verdadeiro encontrava-se fortemente arraigada no modelo
matemático, tanto que as humanidades sofreram à época sucessivas tentativas de
imposição de métodos próprios às ciências naturais e exatas, que aos seus objetos eram
freqüentemente inadequados. Essa pretensão de “transporte” veio ditar a desilusão em
relação à técnica e a ciência2. O Direito, pó sua vê, não ficou alheio a essa tendência,
decorrente do conhecimento racional moderno desenvolveu-se concepção de um Judiciário
neutro, como se fosse um produtor de conhecimento científico e, como tal, imune a
influências externas. O papel do juiz, resumindo-se em poucas palavras, era o de reproduzir
a letra morta da lei, e sua função principal seria buscar a verdade real no processo.

Por outro lado, a renegação ao conhecimento subjetivo, sendo que somente o saber
científico seria apto a revelar a verdade na concepção moderna, sofreu um grande abalo
com as descobertas de Freud e a objetivação da subjetividade e sua compreensão de parte
do saber científico. Bem como, surgiram questionamentos aos determinismos impostos pela
ciência moderna e seu déficit de previsibilidade originados pela teoria da relatividade de
Einsten e a possível existência de uma pluralidade de verdades dada pela reversibilidade
das verdades cientificas no tempo3. Chega-se a um ponto onde a proposta epistemológica
da modernidade ou precisa de abandono ou se vê obrigada a se assumir enquanto ilusória
e não mais suficiente. Dessa forma, o conhecimento racional entra em crise trazendo
reflexos no papel do juiz e no problema da busca pela verdade.

2- O MITO DA VERDADE REAL

Segundo Aury Lopes Jr., o mito da verdade real está intimamente relacionado com
a estrutura, do sistema inquisitório; com o “interesse público” (clausula geral que serviu de
argumento para as maiores atrocidades); com os sistemas políticos autoritários; com a
busca de uma “verdade” a qualquer custo (chegando a legitimar a tortura em determinados
momentos históricos); e com a figura do juiz ator (inquisidor) 4.

2
GAUER, Ruth. Qualidade do tempo: Para além das aparências histórias. Org. Lúmen Iuris: Rio de
Janeiro, 2004, p. 03.
3
GAUER, Ruth. Qualidade do tempo: Para além das aparências histórias. Org. Lúmen Iuris: Rio de
Janeiro, 2004, p. 06-09.
4
LOPES JR., Aury. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2007, p. 537-8.
A partir da busca pela verdade real, muitas práticas probatórias estavam
autorizadas. A crença de que seu alcance era possível transformou a meta do processo
penal na busca pela verdade real, sendo o principio que fundava o Direito Processual Penal
antes da Constituição de 1988. Dessa forma, a busca pela verdade é usada para justificar os
abusos por parte do Estado, na lógica de que os fins justificam os meios5. Essa busca
possibilitava ao Estado julgar os supostos criminosos não em decorrência dos fatos, mas,
sobretudo em decorrência das convicções intimas do magistrado, o qual podia diligenciar a
produção das provas, visando conseguir a confissão do acusado, com o suplício.

Não há como se atingir a verdade real do fato criminoso, por mais riqueza de
detalhes que se consiga juntar na instrução do feito, não sendo permitido ao juiz, em nome
dessa verdade real, a outorga de poderes ilimitados, tais como de produzir provas no
processo penal, sob pena do cometimento de arbitrariedades pelo mesmo, bem como da
perda da imparcialidade da decisão.

Acerca do tema, discorre Carnelutti6:

As provas servem, exatamente, para voltar atrás, ou seja, para fazer, ou


melhor, para reconstruir a história. Como faz quem, tendo caminhado através
dos campos, tem que percorrer em retrocesso o mesmo caminho? Segue os
rastros de sua passagem [...] o risco é errar o caminho [...] é tanto mais
notório quando o passado se reconstrói para se decidir o destino de um
homem.

Diz Ferrrajoli que a verdade a que aspira o modelo substancialista do direito penal é
a chamada verdade substancial ou material, quer dizer uma verdade absoluta e
onicompreensiva em relação às pessoas investigadas, carente de limites e de confins legais,
alcançáveis por qualquer meio, para além das rígidas regras procedimentais. É evidente que
esta pretendida “verdade substancial”, ao ser perseguida fora de regras e controles, e,
sobretudo, de uma exata predeterminação empírica das hipóteses de indagação, degenera
em juízo de valor, amplamente arbitrário de fato, assim como o cognitivismo ético sobre o
qual se baseia o substancialismo penal resulta inevitavelmente solidário com uma
concepção autoritária e irracionalista do processo penal7.

Tudo isso para informar que essa verdade real perseguida e jamais atingível, não
passa de um juízo de probabilidade entre o fato e os elementos probatórios tidos como
suficientes para declarar a autoria e materialidade do crime.

5
LOPES JR., Aury. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2007, p. 537-8.
6
CARNELUTTI, Francesco. As Misérias do Processo Penal, Ed. Conan, São Paulo, 1995, pág. 44.
7
FERRAJOLI. Luigi. Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal. São Paulo:RT, 2006, p. 48.
Quanto à impossibilidade prática de desvelar a verdade absoluta, Michele Taruffo8
registra que:
[...] o juiz não dispõe de instrumentos cognoscitivos nem de tempo e da
liberdade de investigação que dispõe o cientista ou historiador.
Diferentemente da atividade desses dois últimos, o processo deve se
desenvolver em um tempo limitado, dado que tanto o interesse público
quanto privado pressionam para que o final do litígio seja alcançado
rapidamente, e este é um grande obstáculo para a busca da verdade.

Em um Estado Democrático de direito, não há como se chancelar a destruição das


garantias Constitucionais do acusado, na tentativa inútil da descoberta de uma suposta
verdade real, submetendo o réu a situações constrangedoras e ao autoritarismo do juiz.

A verdade real é atualmente conceito ultrapassado. A busca pela chamada verdade


real não tem utilidade alguma, relativamente à razão de ser do processo penal, de proteção
do indivíduo contra o arbítrio da autoridade, motivadora da desigualdade das partes na
relação processual9. O processo penal busca é julgamento justo ao acusado, por todos.
Igualmente, no campo da filosofia do direito, o mito da verdade real está superado: a
verdade é provisória, relativa, tida por aproximação. A verdade “certa”, “objetiva” ou
“absoluta” representa sempre a expressão de um ideal inalcançável. A dita verdade real é
inalcançável, uma ingenuidade epistemológica10.

3- VERDADE FORMAL OU PROCESSUAL

Entendo por superado o mito da verdade real, na nova dogmática do processo


penal moderno, só podemos falar, em verdade processual, ou seja, na verdade que foi
colhida nos autos, jamais em verdade real, pois esta é inatingível.

O crime é um fato histórico, e o que o processo busca fazer é sua mera


reconstrução, que como tal, nunca será fiel ao fato como ele realmente ocorreu. Neste
sentido, o processo é a reconstrução do fato típico, sendo que nessa atividade reconstrutiva
que não há a integral representação do fato. Há uma representação apenas parcial, na
medida em que é impossível reproduzir historicamente todas as condições físicas,
psicológicas, econômicas e, outras, que se verificavam no momento da ocorrência. As

8
TARUFFO, Michele. La prueba de los hechos. Trad. Jordi Ferri Beltrán. Madrid: Trotta, 2002. p. 45
9
BAPTISTA, Francisco das Neves. O mito da verdade real na dogmática do processo penal. Rio de
Janeiro: Renovar, 2001, p. 210.
10
FERRAJOLI. Luigi. Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal. São Paulo:RT, 2006, p. 52.
provas, por sua vez, não retratam o fato em si, mas apenas partes do fato, que chegam
dessa forma ao conhecimento do juiz.

Sendo o crime fato histórico, depende, como tal, da memória de quem narra 11,
dependendo, por sua vez, da percepção dos fatos por esta mesma pessoa e de sua
disponibilidade em influenciar no convencimento do juiz.

A verdade possível nos autos é a verdade formal ou processual, pois o juiz trabalha
com probabilidades, com representações de partes do fato que lhe chegam. A sentença
penal se assenta num juízo controvertível, que lhe extrai o cunho de definitividade em
relação ao conflito básico – entre os direitos individuais do cidadão e o interesse público
estatal12. Dessa forma, o juiz está adstrito à lei para julgar, pois uma vez alcançada pela
coisa julgada a verdade do processo esta será imutável, diferentemente da verdade
científica que tem prazo de validade restrito ao tempo de que uma nova verdade surja 13.
Dessa forma, a verdade processual deve ser produzida num processo repleto de garantias,
pois sua falta pode gerar sérios prejuízos ao acusado.

Se o juiz, por exemplo, se apegar ao disposto no art. 156, in fine, do CPP, que com
o intuito da busca pela “verdade real”, requer diligências, tenderá, com esta atitude, a
prolatar uma sentença condenatória. Outrossim, se o juiz frente à insuficiência de provas
aplicar o princípio da presunção de inocência do acusado (art 5º, LVII, da CF/88), não
haverá necessidade de requer diligências probatórias para saná-la.

Neste sentido:

Ao lado da presunção de inocência, como critério pragmático de solução de


incerteza (dúvida) judicial, o princípio in dubio pro reo corrobora a atribuição
de carga probatória ao acusador. A única certeza exigida pelo processo penal
refere-se à prova da autoria e da materialidade, necessárias para que se
prolate uma sentença condenatória. Do contrário, em não sendo alcançado
esse grau de convencimento (e liberação de cargas), a absolvição é
imperativa.” Bastante interessante é o posicionamento de Rômulo de Andrade
Moreira (2006, p. 223): “Admitimos esta iniciativa judicial probatória,
excepcionalmente, quando visa, verba gratia, a provar a inocência do acusado,
isto em respeito ao princípio do favor rei14.

11
LOPES JR. Aury. Introdução Crítica ao Processo Penal (Fundamentos da Instrumentalidade
Garantista). Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004, p.263.
12
BAPTISTA, Francisco das Neves. O mito da verdade real na dogmática do processo penal. Rio de
Janeiro: Renovar, 2001, p. 34.
13
LOPES JR. Aury. Introdução Crítica ao Processo Penal (Fundamentos da Instrumentalidade
Garantista). Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004, p. 265.
14
LOPES JR. Aury. Introdução Crítica ao Processo Penal (Fundamentos da Instrumentalidade
Garantista). Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004, p. 179.
A vigência dos princípios referidos acima demonstram a inexigibilidade de obter-se
a verdade no processo penal15, além disso, a busca pela verdade real e o livre
convencimento motivado são incompatíveis. “Se a decisão criminal está presa á verdade
real, o julgador não tem liberdade algum: incumbe-lhe decidir segundo essa verdade. Se o
julgador se pode convencer livremente, não está sujeito á verdade real, mas àquela de que
se convencer”16.

Segundo Aury Lopes Jr.17 é preciso distinguir, seguindo Ferrajoli, entre estrita
jurisdicionalidade e mera jurisdicionalidade, sendo que a primeira corresponde o modelo
processual garantista, cognoscitivo, orientado pela averiguação da verdade processual
empiricamente controlável e controlada. Quanto à segunda corresponde o modelo
decisionista, dirigido a busca pela verdade substancial, fundada em valorações éticas,
morais, que vão além das provas dos autos.

Neste ponto cave a sábia esta lição: “A verdade necessária à conclusão justa do
processo é a que se pode atingir sem arranhaduras na integridade humana do cidadão, não
uma verdade real arrancada a qualquer preço”18.

4- CERTEZA E VEROSSIMILHANÇA

Questionando a existência de possíveis verdades no processo, tanto real quanto


processual, Carnelutti apontou que a finalidade do processo não é a produção da verdade e
sim da certeza.

Em "Veritá, dubbio e certezza" afirmava que: "Portanto, a minha estrada, começada


por atribuir ao processo à busca da verdade, deveria ter substituído a investigação da
verdade, pela da certeza”19.

Assim, a finalidade da instrução probatória não seria a obtenção da verdade, mas


sim da certeza. Pois, segundo o referido autor, a verdade não é e nem pode ser senão uma
só: aquela que eu, como os outros, chamava de verdade formal não é verdade. Nem eu

15
BAPTISTA, Francisco das Neves. O mito da verdade real na dogmática do processo penal. Rio de
Janeiro: Renovar, 2001, p. 210.
16
BAPTISTA, Francisco das Neves. O mito da verdade real na dogmática do processo penal. Rio de
Janeiro: Renovar, 2001,p.212.
17
LOPES JR. Aury. Introdução Crítica ao Processo Penal (Fundamentos da Instrumentalidade
Garantista). Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004, p. 256.
18
BAPTISTA, Francisco das Neves. O mito da verdade real na dogmática do processo penal. Rio de
Janeiro: Renovar, 2001, p. 187.
19
CARNELUTTI, Francesco. Veritá, Dubbio, Certezza. Revista do Diritto Processuale, p. 05.
sabia, naquele tempo, que coisa fosse, e porque, sobretudo, nem com o processo, nem
através de algum outro modo, a verdade jamais pode ser alcançada pelo homem20.

Afirmava o autor, na esteira de Heidegger, que a verdade é tudo, não a parte, e


tudo é muito pra nós.

A certeza implica uma escolha, de forma que afasta a obrigação do juiz de buscar a
verdade, contentando-se com a certeza, remete o autor ao exemplo do por que a lei da
preferência à prova escrita sobre a testemunhal, pois esta não é passível de certeza. Em
contraponto a certeza tem-se a dúvida, que não pode ser eliminada apenas pelo pensar,
surge a pergunta, como então o juiz faz sua escolha? A solução, segundo o autor, está entre
o acreditar e o saber, ou seja, entre a ciência e a fé, pois todo ato de escolha é um ato de
fé21.

Atualmente, se questiona se é possível a certeza, pois como a verdade, também a


certeza é uma idéia absoluta. Como falar-se em absolutismos, verdades, certezas frente à
crise da razão e a epistemologia da incerteza que a modernidade nos trouxe? Além do que,
a certeza é construída por nós intelectualmente, e pelo juiz no processo, estando sujeita a
todas as limitações de nosso próprio raciocínio. Assim, a provisoriedade das evidências
científicas acaba por reduzir a verdade em mera verossimilhança, generalizando a incerteza
e o relativismo22.

Aury Lopes Jr. entende não ser possível falar em certeza como não é possível se
falar em verdade. O que temos são probabilidades, juízos de verossimilhança, no sentido de
semelhança do vero. O máximo que o processo pode alcançar, segundo o autor, é um alto
grau de aparência, de plausibilidade de que o fato ocorreu da forma que o processo
conseguiu apurar. Assim, a finalidade do processo é definir a probabilidade dos fatos, isto é,
o que provavelmente ocorreu no campo fático. O autor vai mais além, constando a presença
da incerteza no processo penal, assim como em outros aspectos da vida23.

Deste modo, a função da prova e a reconstrução do fato criminoso pelo processo


não é revelar a verdade dos fatos, nem tampouco a de produzir uma certeza no intelecto do
juiz, a finalidade da prova é demonstrar o que provavelmente ocorreu, isto é, qual a
20
CARNELUTTI, Francesco. Veritá, Dubbio, Certezza. Revista do Diritto Processuale, p. 04.
21
CARNELUTTI, Francesco. Veritá, Dubbio, Certezza. Revista do Diritto Processuale, p. 07-8
22
BAPTISTA, Francisco das Neves. O mito da verdade real na dogmática do processo penal. Rio de
Janeiro: Renovar, 2001, p. 30.
23
LOPES JR. Aury. Introdução Crítica ao Processo Penal (Fundamentos da Instrumentalidade
Garantista). Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004, p. 267.
verossimilhança do fato, a sua probabilidade. Esse fato nos remete ao princípio da
motivação das decisões judiciais, resultado de um processo onde sejam observadas todas
as garantias e o devido processo legal.

5- MOTIVAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS

Herança do conhecimento racional a pretensa neutralidade do juiz era requisito de


uma sentença justa. Após a descoberta de que o irracional e o inconsciente fazem parte do
conhecimento, surge a idéia de conhecimento como produto da solidariedade entre a razão
e a sensibilidade, o emocional, ou seja, uma racionalidade autocrítica, aberta e criativa,
como forma de se pensar com maior clareza sobre possibilidades viáveis de uma ciência
mais consciente de si.

Neste sentido, o papel que requer-se do juiz não pode mais ser o da neutralidade,
pois o ser humano é não-neutro por natureza, e sim o da imparcialidade, como forma de
evitar-se favorecimento de partes. A neutralidade impossibilita o juiz de julgar, um juiz neutro
é um juiz boca-da-lei, que simplesmente reproduz sua letra morta. O magistrado não está
infenso aos mecanismos de exclusão, marginalização, discriminação, bem como alheio às
condicionantes psicológicas, psicossociais e culturais24, ele traz consigo sempre uma carga
ideológica. Por isso, o que se espera de um juiz, após a crise da racionalidade e a
epistemologia da incerteza, é que não busque a verdade real, mas a verdade possível no
processo, amparada sempre pelas garantias de fundamentação das decisões judiciais e do
livre convencimento motivado.

Essa atribuição de maiores poderes ao juiz corresponde a uma maior exigência


quanto a justificação de suas decisões, com o uso de argumentações convincentes para
demonstrar que as decisões não constituem produto de arbítrio, mas de procedimentos
racionais e controláveis pela sociedade25.

A motivação das decisões judiciais está consagrada no artigo art. 93, IX da CF, o
que significa dizer, devem externar à sociedade as razões pelas quais o Estado, na figura do
juiz, decide desta ou daquela maneira a vida dos jurisdicionados. É como uma espécie de
prestação de contas do modo de atuar adquirindo uma conotação que transcende o âmbito
próprio do processo para situar-se no plano mais elevado da política, caracterizando-se

24
BAPTISTA, Francisco das Neves. O mito da verdade real na dogmática do processo penal. Rio de
Janeiro: Renovar, 2001.p. 35.
25
GOMES FILHO, Antonio Magalhães. A motivação das decisões penais. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2001. p. 13.
como o instrumento mais adequado ao controle sobre a forma pela qual se exerce a função
jurisdicional26. A publicidade das decisões judiciais é aliada da motivação e cumpre
juntamente com ele a função política referida.

Segundo Taruffo, a motivação representa uma forma especial de participação do


povo na administração da justiça, que se realiza pelo controle democrático a posteriori sobre
os fundamentos do ato do juiz27.

Trata-se de uma garantia fundamental e cuja eficácia e observância legitima o poder


contido no ato decisório, haja vista, no sistema constitucional-democrático, o poder não está
autolegitimado, sendo que sua legitimação se dá pela estrita observância das regras do
devido processo legal, entre elas o dever da fundamentação dos atos decisórios28.

Entende Ferrrajoli que a motivação das decisões judiciais tem valor fundamental.
“Ele exprime e ao mesmo tempo garante a natureza cognitiva em vez da natureza
potestativa do juízo, vinculando-o, em direito, à estrita legalidade, e, de fato, à prova das
hipóteses acusatórias”29. É com base neste principio que a validade das sentenças resulta
condicionada à “verdade”, ainda que relativa, de seus argumentos e que são legitimadas por
asserções verificáveis de forma aproximada, baseadas num saber, ainda que opinativo e
provável, mas por isso refutável e controlável tanto pelo imputado quanto pela sociedade30.

A motivação das decisões judiciais permite a controlabilidade e a certeza do direito


na medida em que é possível o exame da argumentação do conteúdo dessas decisões, de
forma que traduz um valor especifico do direito, viabilizando prever a solução de casos
idênticos e análogos31.

A motivação permite que o controle das decisões judiciais seja de direito, por
violação da lei ou defeito de interpretação e de fato, por defeito ou insuficiência de provas ou
por explicação inadequada do nexo entre convencimento e provas32.

Segundo Aury Lopes Jr.:


26
GOMES FILHO, Antonio Magalhães. A motivação das decisões penais. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2001. p. 80.
27
TARUFFO, Michele. La motivazione della sentenza civile. Padova; Cedam, 1975. p. 406.
28
LOPES JR., Aury. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2007, p. 205-6.
29
FERRAJOLI. Luigi. Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal. São Paulo:RT, 2006. p. 573.
30
FERRAJOLI. Luigi. Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal. São Paulo:RT, 2006. p. 573.
31
GOMES FILHO, Antonio Magalhães. A motivação das decisões penais. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2001. p. 88.
32
FERRAJOLI. Luigi. Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal. São Paulo:RT, 2006. p. 574.
a motivação serve para o controle da racionalidade da decisão judicial. Não
se trata de gastar folhas e folhas para demonstrar erudição jurídica (e
jurisprudencial) ou discutir obviedades. O mais importante é explicar o
porquê da decisão, o que levou a tal conclusão sobre a autoria e
materialidade. A motivação sobre a matéria fática demonstra o saber que
legitima o poder, pois a pena somente pode ser imposta a quem-
racionalmente- pode ser considerado autor do fato criminoso imputado33.

Questão tormentosa é a referente à necessidade ou não de fundamentação da


decisão que recebe a denuncia ou queixa. O ponto central da discussão refere-se a
classificação do ato decisório sendo que alguns classificam como despacho, sem carga
decisória34, e outros como decisão interlocutória, em que o juiz efetivamente resolve uma
questão processual. A Constituição Federal requer a fundamentação de todas as decisões,
e como tal a do despacho que recebe a denuncia ou queixa, dada as repercussões e danos
que podem causar na vida do réu.

Embora seja impossível negar o caráter decisório do ato de recebimento da


denúncia ou queixa, sendo cabível o remédio do Habeas Corpus para trancamento de ações
infundadas, influindo diretamente no status libertatis do denunciado, pois de mero
investigado ou indiciado, após o recebimento da peça exordial, o pretenso agente do fato
criminoso passa a ter sobre si o peso de um processo criminal que poderá até mesmo
restringir sua liberdade e retirar-lhe a condição de presumivelmente inocente, o Supremo
35
Tribunal Federal tem decidido de forma contrária entendendo-o como mero despacho,
sendo desnecessária fundamentação.

Aury Lopes Jr. ressalta a obrigatoriedade da fundamentação das decisões


interlocutórias principalmente a aquelas em que impliquem restrições de direitos e garantias
fundamentais como decretos de prisão preventiva, busca e apreensão, etc36. Não basta
nestes casos, a alegação de manutenção da ordem pública, da ordem econômica, a
fundamentação tem que ser especifica, mostrando o juiz a presença dos requisitos no caso
concreto.

A sentença de pronúncia é outro ponto que requer análise. Como decisão que é
dever ser motivada, porém dentro do limites da cognição realizada: “se o que se objetiva é
um simples juízo de probabilidade ou verossimilhança (...), os argumentos apresentados no
discurso justificativo devem corresponder a essa característica do tipo de decisão que se

33
LOPES JR., Aury. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2007, p. 206.
34
Dentre eles cita-se: José Frederico Marques e Julio Mirabete.
35
STF, HC 70.763-DF, Rel. Min. Celso de Mello, RTJ 165:877.
36
LOPES JR., Aury. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2007, p. 206.
realiza nessa fase processual”37. Assim, a pronúncia declara somente o direito de julgar do
Estado com base na cognição sumária dos fatos, onde o excesso de fundamentação causa
a nulidade da decisão, haja vista, o perigo de influenciar a decisão dos jurados.

6- REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAPTISTA, Francisco das Neves. O mito da verdade real na dogmática do processo


penal. Rio de Janeiro: Renovar, 2001.

BAUMER, Franklin Le Van. O Pensamento Europeu Moderno: séculos XIX e XX.


Traduzido por ALBERTY, Maria Manuela. Lisboa: Edições 70, 1977.

CARNELUTTI, Francesco. As Misérias do Processo Penal, Ed. Conan, São Paulo, 1995.

CARNELUTTI, Francesco. Veritá, Dubbio, Certezza. Revista do Diritto Processuale.

FERRAJOLI. Luigi. Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal. São Paulo: RT, 2006.

GAUER, Ruth. Qualidade do tempo: Para além das aparências histórias. Org. Lúmen
Iuris: Rio de Janeiro, 2004.

GOMES FILHO, Antonio Magalhães. A motivação das decisões penais. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2001.

LOPES JR., Aury. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2007.

LOPES JR. Aury. Introdução Crítica ao Processo Penal (Fundamentos da


Instrumentalidade Garantista). Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004.

TARUFFO, Michele. La prueba de los hechos. Trad. Jordi Ferri Beltrán. Madrid: Trotta,
2002.

TARUFFO, Michele. La motivazione della sentenza civile. Padova; Cedam, 1975.

37
GOMES FILHO, Antonio Magalhães. A motivação das decisões penais. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2001. p. 233.