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Motel Marques

de Casé Proença

livremente inspirado no universo “pliniomarqueano”


Peça protegida pela lei dos Direitos Autorais, registrada sob o número 1525/18
Janeiro, 2018
Estréia da primeira temporada em maio/2018 em SP
Dramatis Personae:

Gerente do “Bar do Pica” (Dono);


Marco Rômulo de Paula (O Pica);
Combusta;
Celinha

Logline:

O chefe de uma das maiores facções criminosas (fictícia) de SP vê seu acordo com a justiça
minar por conta de um juiz ganancioso, enquanto tem de administrar a disputa de força pela
superioridade na hierarquia do crime entre três de seus funcionários: um gerente de bar, um
pivete e sua irmã travesti.

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Em um bar de quebrada. O dono está ao telefone.

1. Dono do bar Tu me respeita. Eu sou um empresário de respeito! A carga


vem pro meu bar...quero conferir tudo direitinho, coisa por coisa. Vamos lá: (ouve)
1551, isso! (ouve) 327, são 327...(ouve)...quatro e quinhetas, tudo batendo! (ouve)
200, exato. E as tonelada? (ouve)...Como é que é, malandro? Assim não vai dar.
Não vai dar, não! Eu tenho um planejamento! (ouve)...Cês conseguiram todas as
outras merda, que era o mais difícil...(ouve um tempo)...Pau no cu, cê tá me tirando!
Cês tão trazendo 1551 pistola, 327 espingarda de pressão, 4500 munição de 380,
200 colete à prova de bala, e tão tendo treta com algumas tonelada de droga? Tão de
sacanagem?! Droga nunca deu treta pra entrar pra gente! Vai dar agora, só porque
dessa vez a gente tratou mais quantidade? Porque a gente vai quebrar a banca!?
(ouve) Mas por que não liberou? Pra quê a gente ta pagando o juiz Alcântara e os
comparsa dele da Polícia Rodoviária Federal? A gente tem que ter nossos privilégio.
Ele tem que fazer nossas encomenda entrar. Se não vem por terra, que venha pela
água ou pelo ar, não interessa! (ouve) O juiz quer falar com o patrão antes de fazer
a liberação das droga? Porra, vocês vão me ferrar, mano! (ouve) O patrão ta
chegando aqui. Vou dar os aviso pra ele. Mas cês sabem que Marco Rômulo de
Paula, o famoso “O Pica da Vila” gosta de palavra cumprida, não é verdade? (ouve
rapidamente) Então, que se fodam! Vai sobrar é pra vocês, mano. (desliga o
telefone. Muda o tom. assustado) Fudeu pra mim.

(A porta bate. Ele se assusta. Vai até a porta. Abre. Entra O Pica da Vila. O Dono do bar
que, antes, era o porta voz do todo poderoso ao telefone, portanto o todo poderoso, agora
muda de atitude e mostra uma certa tensão, um medo do Pica. O tom dele não deixa de ser
meio bajulador eventualmente )

2. O Pica Fala, tio, firmeza?

3. Dono do Bar Firmeza, firmeza...(vendo O Pica relaxado e tranqüilo, vai


pegar uma bebida pra eles. Enquanto acontece a fala, ele vai servindo) Ta com a
cara boa. Foram quantas hoje?

4. O Pica Uma só...muitas vezes...Firmeza...

5. Dono Que maravilha! De novo uma só?

6. O Pica De novo, tio.

7. Dono A mesma?

8. O Pica A mesma, mano.

9. Dono O Pica ta ficando fiel. Vai ter de mudar o apelido, hein. O


mulherio vai sentir falta...

10. O Pica Que nada, mano! Vai sempre ter Pica pra todo mundo...
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11. Dono Quer dizer que posso continuar anunciando que é só pedir que
tem?

12. O Pica Que papo é esse de anunciar? Tem nada pra tu aqui, não. Ta
me tirando, mano?

13. Dono Eu..? Não, eu não, claro que não! É que as menininhas aqui
perguntam, né. Tu é o dono dessa comunidade. Tu é o patrão. Comanda não sei
quantas biqueira na cidade. As garotinhas ficam loucas pra ser a mulher do patrão.
Tu é o herói dessas bandas aqui. Não foi preso nenhuma vez...

14. O Pica (vangloriando-se) Um dos mais procurado...

15. Dono Sabem que eu me dou contigo...

16. O Pica Quem se dá comigo?

17. Dono Ué, eu me dou contigo...

18. O Pica Se dá comigo?

19. Dono Me dou...

20. O Pica Que papo é esse?

21. Dono ...não me dou?

22. O Pica hehehe...Se tu dá ou deixa de dá o problema é teu! A gente só


trata de negócio.

23. Dono Então. A gente é amigo. Comparsa.

24. O Pica Amigo?

25. Dono (sem jeito) É...

26. O Pica Comparsa...?

27. Dono (mais sem jeito) É...

28. O Pica Qual foi...que que ta rolado, mano?

29. Dono Nada...só to dizendo...que somos amigos...de negócios. Que


sou leal...cumpro com as minhas palavra...Que nós nos interessamos pelos mesmos
negócio, os mesmos assunt...

30. O Pica Não me interesso em nada igual contigo, não, mano.


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31. Dono Quis dizer que temos interesses em comum. Somos ambos os
dois homens de negócio. Tu é tu...é o cara. Nem preciso dizer o que já é dito. E eu
sou um empresário, dono desse bar aqui e...

32. O Pica hehehe...tu tem esse bar aqui que eu deixo tu cuidar, que eu
dei pra tu cuidar e tu se chama de “empresário”?!

33. Dono Que é isso, Pica. Não esculacha!

34. O Pica Tu sabe, tu me conhece desde pequeno. Sempre gostei de


quem joga no meu time. O filha da puta antigo dono desse bar aqui, que tu
trabalhava de garçom, não era firmeza, não, tio. Não entendia isso. Tentei ser bom
pra ele, mas não teve jeito.

35. Dono Não teve. Tu apagou logo ele e a família toda dele.

36. O Pica Não gosto de ter dor de cabeça no futuro. Gosto quando to
assim: sussa no presente. E se algum filho dele quisesse se vingar depois, mano?

37. Dono É...não dá pra correr risco, não.

38. O Pica Porra, tio! Quando percebi que esse bar aqui ficava num lugar
estratégico – eu não sou burro não, mano! – já tentei logo já fazer um acordo com o
cara. Mas o cara era treta, mano. Não queria participar dos corre.

39. Dono Já eu nunca te decepcionei. Sempre dei força pros teus corre
aqui desde a época que tu era gerente. De boa.

40. O Pica Tu sempre foi firmeza. Ajudou meus pais. Não lembro muito
deles, porque eu era moleque quando eles morreram. Mas lembro que minha mãe
queria voltar a estudar e meu pai precisava de trabalho. Tu ajudou eles sempre que
eles precisaram. Mas minha mãe não levou os estudo adiante. Precisou parar pra
trabalhar e cuidar da gente. Ela achava que ia ser por causa dos estudo que os
caminhos ia se abrir pra mim, tio. Mas os estudo nunca me deu nada!

41. Dono Po, Pica. Você, quando menor, só soltava pipa. Só te via fugir
das aula e se meter com o povo da biqueira. Quase nunca te vi ir pra escola.

42. O Pica Mano! Meus oito irmão foram tudo pra escola. Estudaram
tudo mais que eu. Alguns até quase terminou os estudo básico, tio, igual tu quase
terminou. Só que meu único parente que se deu bem na vida foi meu primo que
largou os estudo moleque e entrou pra bandidagem. Ele chegou a gerente, mano!
Ganhava dinheiro e tinha tudo. Até respeito...que meus irmão que estudou não
tinha.

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43. Dono Mas ele morreu, não morreu, Pica? Com 23, 24 anos...Mais
novo que tu.

44. O Pica Foda-se. Morreu, mas morreu digno. Sem baixar cabeça pra
nenhum filha da puta que se achava melhor que ele. E ainda deixou dinheiro pra
família.Teve polícia que levou irmão meu em cana só porque meu irmão tinha cara
feia, mano. Tinha cor suspeita, mano. Meu sonho era ser igual meu primo. Meu
primo matava os cana que se achava melhor que ele só porque era cana. Hoje eu
passei na frente do meu primo. Hoje eu mando matar os cana.

45. Dono Teu primo morreu gerente e tu chegou a patrão! Valeu isso
tudo pra hoje não ver ninguém mais que restou da tua família?

46. O Pica Ah, irmão. Não quero saber. Quando comecei a ter dinheiro,
quis ajudar eles e eles virou as costa pra mim, mano. Eles disse tudo que iam me
denunciar. Larguei eles na merda mesmo pra não ter que fazer com eles o que eu fiz
com o antigo dono desse bar aqui.

47. Dono Tu não tem nenhum arrependimento dessas coisa?

48. O Pica Que papo é esse? Eu subi pro topo, mano. Não tenho que
arrepender de nada não, tá ligado!? Sou bom e tenho meu lugar guardado lá no céu.
Faço por muito mais gente hoje. Tu, por exemplo!? Não te dei uma oportunidade?
Depois que tomei esse bar aqui pra mim na marra, te subi de posto. Te botei na
gerência aqui desse bar e ainda te dou metade dos lucro do funcionamento. Todo
“empresário” tem que ter um patrocínio secreto, não é, não, mano? E tu foi de
garçom a gerente e sócio desse bar. Se tu é “empresário’ hoje, é graças ao Pica aqui,
mano. Meus irmão não tinha essa visão.

49. Dono Obrigado, Pica. Tu é realmente um cara bom.

50. O Pica Pode crer, irmão. Tu também faz por merecer. Nunca falhou
comigo Sempre cumpriu com os prometido. Trago comigo quem tem merecimento.
(o celular do Dono toca) Igual o Combusta.

51. Dono Mais um gesto bonito, o que tu fez pelo Combusta.

52. O Pica Pô, mano, o moleque tava aí, também não tava querendo
estudar. Precisando de trabalho. (o celular ainda toca) Porra, meu, tu vai deixar essa
merda tocando aí atrapalhando a minha fala? Desliga essa merda ou atende e vai
falar em outro lugar.

53. Dono (cancela a chamada) Não, não, Pica. Desculpa. Tu tava


falando do Combusta...

54. O Pica Pode crer. O moleque não tava nem aí pros estudo e tava
querendo mesmo é ganhar dinheiro. Vi no olho dele a mesma gana que eu tinha
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quando tinha a idade dele. O moleque ainda era enteado do meu primo, mano. Meu
primo criou ele dos seis aos doze ano.

55. Dono Por isso eu acho que “Combusta” é crueldade.

56. O Pica É nada!

57. Dono Po, esse apelido é cruel.

58. O Pica É uma lembrança!

59. Dono Pra mim é tortura, Pica. O assassinato do teu primo foi cruel.
Os cara alagaram ele com uma porrada de galão de combustível. Depois acenderam
um belo dum isqueiro zipo, e jogaram em cima do teu primo pra ele pegar. Ele tava
pingando combustível de tudo quanto é tipo até o cu, Pica! Pegou fogo na hora. O
fogo lambeu teu primo todinho na frente do moleque que ele criou até os doze anos
de idade! Muita sacanagem. Ninguém aqui esqueceu.

60. O Pica Nós já caçou e apagou os cara, mano. Vingar meu primo foi o
que começou a me dar mais moral aqui, tu sabe disso, mano.

61. Dono Isso. Tu vingou teu primo. Encerrou o assunto. Por isso que
quando deram pro Combusta esse apelido, achei cruel, achei pesado.

62. O Pica O moleque carrega uma “homenage”. Por isso merecia uma
consideração. Ofereci um trabalho pra ele. E o moleque ta se destacando. Fazendo
bonito. To pensando em passar a gerência daqui pro moleque.

63. Dono (num sobressalto desesperado) A gerência do meu bar aqui?

64. O Pica A gerência da biqueira aqui, mano! Qual foi!?

65. Dono Ah tá. Mas o garoto é um moleque, Pica!

66. O Pica E daí?

67. Dono Uma criança, Pica. Não tem nem dezessete anos.

68. O Pica É o caralho, mano. O brother carrega arma, atira, é cheio de


sangue nos olhos.

69. Dono É arriscado dar um cargo desse prum moleque que mal saiu
dos coeiro e não sabe nem fazer conta de “2 + 2”. Prá um trampo desse, tu precisa
de alguém que entenda de finança, acostumado a contar mercadoria e dinheiro.

70. O Pica Tá querendo tomar o lugar do moleque, mano? Prá esse


trampo eu preciso de alguém de confiança. Que eu ensine a fazer as conta que me
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interessa e que assine embaixo todas as minhas ordem. Além disso, o Combusta é
quase da família.

71. Dono Pô, Pica. Espero que eu também.

72. O Pica Tu é agregado da família, mano. É quase família também. Eu


só trabalho com família, irmão.

73. Dono Igualzinho como acontece com os político aqui no Brasil.

74. O Pica Por que?

75. Dono É aquela coisa que chamam de...de...como é que é...aquele


negócio de pote...potinho...potismo. (Pega o celular) “Ok, Google”: quando os
mano pega os brother da família pra trabalhar com eles. (vê o resultado) Isso.
Ne...po..tismo.

76. O Pica To ligado, mano! Não sou burro, não. Sou inteligente. É tipo
isso. Nós chama pra trampar com nós quem nós sabe que ta do nosso lado, e que vai
tramar com nós.

77. Dono Em família é mais ponta firme quando tem perrengue, porque
fica todo mundo de rabo preso junto, né? Se cair um, cai todo mundo.

78. O Pica Nesse caso, mano, os aliado vira família também, porque fica
tudo de rabo preso com o outro. Não tem essa, não, mano. Se um tombar e levar a
porra toda junto, o vespeiro abre e afunda um a um no brejo que a merda ia virar.
Então, fica todo mundo de boca calada, curtindo as regalia dos arrego. Nós arruma
uns bode expiatório; eles faz cara de culpado e vai pra prisão por nós. Aí, nós dá
pensão vitalícia prá eles a vida toda e todo mundo ganha nessa porra.

79. Dono Alguns bode até consegue arrumar uns trato com a polícia,
com os juízes, prá ficar menos tempo. Saem dizendo o nome de uma porrada de
gente aí pra despistas as investigação e ainda curtem uma prisão dentro de casa.

80. O Pica E nós continua pagando a pensão pra eles, mano, porque nós
tem palavra! Mas nós quer que eles cumpra com a palavra deles também. Falando
nisso, vamos ao que interessa..

(O celular do dono do bar toca de novo, cortando O Pica)

81. O Pica Porra, de novo, mano? Quem é, nessa porra?

82. Dono (olha o display) Falando em família...Minha mulher.

83. O Pica Foi ela que ligou antes?

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84. Dono Foi.

85. O Pica Atende logo, porra. Atende logo essa merda, que eu to de bom
humor hoje. To com paciência pra mulher. Bastante paciência...

86. Dono (atende meio constrangido) Oi, oi, amor. (ouve)...o quê? Nem
pergunta se ta tudo bem e já vai pedindo dinheiro! (ouve) Porra, Cacilda! Eu to
cansado de ouvir suas reclamações e de você ficar pedindo dinheiro...dinheiro pra
quê? (ouve e olha pro Pica).Imaginei...(ouve) O que. Ta aqui perto? Ta gastando
moeda, né, Cacilda! (ouve) Não, não vem aqui pegar dinheiro não que eu to
ocupado aqui, to trabalhando aqui (ouve) É!! To na reunião com o chefe. (ouve) Isso
aê, o patrão tá aqui. Sossega. Depois eu falo com você. Em casa a gente conversa!
(desliga)

87. O Pica Problema no casamento?

88. Dono Minha mulher, mano. Tá pedindo dinheiro pra caralho.

89. O Pica Tu não tem pra gastar agora?

90. Dono Mas ela ta me arrancando o couro. Cada vez pede mais
dinheiro.

91. O Pica Ta cheirando a galhada!

92. Dono Ai dela!

93. O Pica Mais fiel que Tia Cacilda, só a minha, né, não, mano?

94. Dono Essa mulher aí te pegou de jeito mesmo. Era com ela então
que tu tava antes de vir prá cá?

95. O Pica Era.

96. Dono Tava com ela aqui no “Marques”?

97. O Pica Tava, tava lá, sim.

98. Dono Grande “Motel Marques”. Famoso aqui na área!

99. O Pica Esse motelzinho tem história, ele.

100. Dono Motelzinho...? Agora, graças a você, o Motel Marques


virou outra verdadeira fonte de...

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101. O Pica Ô, tio, vamos parar de papo! Já falamo prá caralho, tua
mulher já te ligou...Muito papo já. Parece até que ta querendo desviar nosso trato.
Falou com os camarada?

102. Dono Os camarada?

103. O Pica É. Os camarada. Ta me tirando, mano?

104. Dono To não, to não...

105. O Pica Então?

106. Dono (engolindo seco) Falei.

107. O Pica Ta tudo certo com os nosso carregamento novo, já


entraram no Brasil? Isso que ta chegando aí, tio, vai desbancar os rival. Vamo
passar muito café pequeno, que ta com eles, pro nosso lado. Nós vai ser maior que
eles. Nós vai dominar tudo por aqui, tio. Nós vai ser o dono da porra toda! Nós vai
melhorar nossos armamento e ainda vai distribuir pros novo parceiro, mano. Ta tudo
de boa, não tá, tio?

108. Dono Sim, sim. Tudo de boa, tudo certo. A gente vai poder
manter o esquema de distribuição, sim.

109. O Pica Firmeza, tio. Assim que eu gosto. Nossos parça tá de


boa com nós. Falei que nós tinha que prensar o juíz, mano! Era só nós mostrar o que
nós tinha em mente praquele juiz bucha, que ele bandeava a corja dele todinha pro
nosso lado. E bandeou. Parou de trabalhar pros nossos inimigo na maciota. Nós
passamo a perna nos rival, mano, e eles nem sabe ainda. Já, já, nós entra rasgando
pra cima deles e toma tudo pra nós. Vai ser tudo nosso, tá ligado?! Eles só vai
perceber quando tiver tudo tomado.

110. Dono Golpe de mestre.

111. O Pica Com as droga eu nem me preocupo, porque é sempre


tudo na boa. Nós nunca teve problema. E dessa vez, nós vai quebrar a banca! O juiz
Alcântara garantiu que só ia entrar droga pra nós nessa merda. Tipo máfia, tio. Nós
controla tudo e quem quiser revender o produto, tem que comprar com nós. Até
quem tiver contra nós, que vai ter que se curvar. Ou entrar em guerra com nós e
morrer. Vai ficar tudo dependente de nós, mano. E com isso, nós vai tomar os pico
dos rival e virar os maior!

Silêncio. O Pica estranha a situação e o jeito do dono

112. O Pica Qual foi, tio? Ta estranho.

113. Dono To?


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114. O Pica É sobre a carga de droga, tio? Não me engana. Não
tenho estudo, mas sou inteligente! Sou O Pica, mano. Cheguei no topo. Eu sou “O
Topo”! E sem estudo. Com muito menos estudo que tu.

115. Dono É que....é que dessa vez teve um problema.

116. O Pica (começando a se exaltar) Que problema?

117. Dono Tão embarreirando a quantidade de droga que a gente


pediu...Tão querendo entregar menos droga.

118. O Pica (se exaltando) Não, mano! Menas droga, quanto?

119. Dono Tão vindo com a mesma quantidade da última vez. É bastante
ainda, mas pelo visto, não tão querendo fechar só contigo mais não, Pica.

120. O Pica Mas não foi isso que nós combinou com juiz Alcântara. Qual
foi a dos cara? Eles ta de putaria com nós! Eu vou acabar com todo mundo, mano!
Os cara falaram isso: não vai entregar e acabou? Quem eles pensa que é?

121. Dono Não, não, Pica. Eles falar..

122. O Pica (cortando) Isso com as droga compromete as arma também,


mano, porque tem quantidade fechada. Tem uns mano que já até fizeram pagamento
adiantado de parte da carga, mano. Tu esqueceu? Agora nós vai fazer pacote
também, igual tv a cabo, mano, igual telefone celular. Nós vai entubar os pacote! É
arma com droga, droga com arma. Nem todo mundo quer mais uma coisa só, não,
irmão. E esses mano que já pagaram pelo pacote deles, já tá fechado com nós,
quando nós tiver guerra com os rival, ta ligado, mano? Não dá pra deixar os cara na
mão, não, se não nós perde a confiança e os aliado novo. E a droga, mano? A droga
também é o nosso carro chefe do varejo também, porra. Os viciado não encontra a
droga com a gente, então vai achar em outro lugar.

123. Dono To sabendo, to sabendo...

124. O Pica Então, qual foi a treta?

125. Dono Os cara deram um recado pra tu, Pica. Disseram que..

(Começa um tiroteio. O Pica pega uma arma e se protege, o dono do bar também se
protege)

126. O Pica Que porra é essa, mano?

127. Dono não sei, é treta, é treta!!!

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128. O Pica Será que invadiram aqui?

129. Dono Polícia ou bandido?

130. O Pica Bandido nós é, mano, caralho!

131. Dono To falando dos rival, dos outro, os inimigo...

132. O Pica Não pode. Será que nosso plano de invadir eles vazou,
mano? Não pode!

(O tiroteio vai cessando. Começam a bater na porta do bar pelo lado de fora, pedindo
que abram.)

133. O Pica Conheço essa voz, tio!

134. Dono Eu também.

135. Pica Acho que é o Combusta.

136. Dono Ele parece estar com uma mulher!

137. O Pica Vamo abir!

138. Dono É arriscado. O pivete se vira, Pica!

139. O Pica (ameaçador) Vamo abrir agora!

(O Pica e o Dono abrem a porta. Entram Combusta e sua irmã, Celinha. Nessa
entrada, sem nenhum dos outros dois perceberem, Combusta passa para Celinha a
bolsa que está em suas mãos. Celinha a usa, como se fosse dela, a partir daí)

140. Combusta Caralho, mano! Que merda, Celinha! Tu viu a treta?


Chumbei o puto. (Para o dono do bar) Pega uma bebida ai pra mim, tio! To
nervoso, to nervoso!

141. Dono Que é isso, menor?

142. Combusta Sou menor, mas já sou bem crescidinho. Acabei de


tombar um filha da puta que quis trombar comigo.

143. Pica Quem?

144. Combusta Não sei, mano. Moleque nem era da área, nunca tinha
visto a cara do veadinho aqui. Devia ser dos mano rival e tava querendo provar
alguma coisa pra eles pra subir de posto. Se fudeu.

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145. Pica Boa, moleque. Como é que foi isso?

146. Combusta Esse moleque aí quis afanar a bolsa da dona que tava
comigo. Eu tava saindo daqui do Motel Marques com uma vagabunda ai que eu to
começando a comer e o mano passou querendo levar a bolsa que tava com ela.
Levou foi bala! (pro dono) E minha bebida, tio?

147. Dono Vai insistir em beber, Combusta? Tu é de menor


idade.

148. Pica Menor que mata moleque em disputa de força tem


colhão pra tomar uma biritinha.

149. Combusta É...já sou dono da minha vida já. Ninguém manda em
mim. E se tenta mexer comigo, come terra.

150. Pica Moleque valente! (pro dono) Pega uma bebida lá pra
nós.

151. Dono (indo pegar as bebidas) Moleque folgado, isso, sim.


Tá inventando essa história pra mostrar valentia, pivete?

152. Combusta Qual foi, mano?

153. Dono Tu se meteu em confusão e agora tá metendo essa que


tava pegando mulherzinha no motel e veio outro folgar contigo...

154. Combusta Só porque tu é um galo velho e não pega tanta mina


quanto eu, que to novinho, fica aí cheio de olho gordo prá cima de mim. É porque
sou carne fresca, que tenho disposição pra acabar com qualquer um que entra no
meu caminho, mano. Vai querer entrar?

155. Celinha Baixa a bola, Combusta. (para o Pica) Ele tava se


defendendo. Não folgou com ninguém. Eu sou testemunha disso que ele tá falando,
Pica.

156. Pica E como é que tu se meteu nessa história, Celinha?

157. Celinha Eu tava saindo do motel prá esperar o táxi que eu


chamei, quando vi a porra toda acontecendo e eu fui lá ajudar meu irmão. Não ia
deixar o Combusta na merda sozinho. Meu irmão, meu caçula, Pica!

158. Pica Pode crer.

159. Dono (trazendo as bebidas) Ah! Você que é a irmã mais


velha do pivete, que toma conta lá do Motel Marques?

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160. Combusta Pivete, não: Combusta.

161. Dono É ela, então, moleque Combusta?

162. Combusta É ela, sim. Minha irmã por parte de mãe. Do primeiro
casamento da minha mãe, antes de ela me ter e de conhecer o primo do Pica. Ela
veio pra cá cuidar de mim, depois que a nossa mãe morreu.

163. Dono Bonito isso que tu fez por ele, Celinha.

164. Combusta Minha irmã largou tudo pra trás pra cuidar de mim,
mano. Se eu vi alguma coisa boa nessa vida é por causa dela. Tu pode até mexer
comigo, mas ela tu vai ter que respeitar, irmão! Ela, todo mundo tem que respeitar,
ta ligado, mano?

165. Dono Claro! (para Celinha) Respeito e muito. Só tinha te


visto de longe, mas assim de perto nunca (intrigado, com interesse, se insinuando)
Que maravilha de irmã!

166. Celinha Que eu saiba, o senhor é um homem casado. Para de


graça!

167. Dono Não é graça. É que eu prefiro uma irmã a um irmão,


com certeza.

168. Pica Vamos parar com essa onda escrota aqui. O papo que
nós tava tendo aqui antes deles chegar é reto, irmão! Quero saber. Tu disse que os
cara mandaram um recado pra mim.

169. Dono Então, os parça vieram com um papo de que o juiz


Alcântara ta querendo trocar uma idéia com você antes de seguir com os
procedimento da droga.

170. Pica Caralho, tio...

171. Dono Ele disse que era pra você ligar pra ele de um dos teus
diretinhos pra um dos diretinhos dele. Sei não, Pica. Acho que o juiz não vai deixar
passar droga só pra gente, não.

172. Pica Ta de sacanagem!

173. Combusta Que que ta rolando aqui, mano? Dá o papo do juiz aí?

174. Dono Que é, Combusta! Se mete, não.

175. Combusta Qual foi, tio! Vai querer pagar pra ver?

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176. Dono Te manca, fedelho! Depois que tu aprender a tomar
leite fora da mamadeira, tu vem falar comigo!

177. Combusta Filha da puta!!

(Combusta parte pra cima dele, Celinha vai pra cima e impede o “mano a mano”)

178. Celinha Calma, Combusta. Que merda! Vamo embora daqui.


Não cai na pilha do frango velho, não. Ele deve ta querendo se mostrar pro patrão aí
e te pegou pra Cristo.

179. Combusta (ameaçando o frango velho) Vai ter volta, vai ter
volta...

180. Celinha To morta de cansada de tanto trabalhar naquele motel.


Não to com disposição de ficar ouvindo ladainha de empregado se desculpando pro
patrão, porque não é profissional o suficiente pra dar no couro direito.

181. Dono Do que tu sabe, sua vagabunda?

182. O Pica Cala a boca, frango velho! Senta nessa cadeira aí!

183. Dono (intimidado, senta em uma cadeira)

184. O Pica Não to engolindo essa merda. Eu dei muito dinheiro


praquele babaca daquele juiz me vir com essa agora.

185. Dono Mas foi o recado que os cara dele deu pra eu te dar.

186. Combusta É treta com dinheiro, mano? Esse porra aí deve tá te


roubando, então.

187. Celinha Combusta, não enche essa fogueira de lenha, não, meu
amor. Vamos embora daqui. Se tu queria que esse aí se fodesse, não precisou
esperar muito. E nem vai ser tu que vai precisar foder ele, olha que maravilha!

188. O Pica Espera! Eu quero que vocês fique. O moleque aí tem


muito o que aprender e tu é uma boa aliada.

189. Dono O que tu vai fazer, Pica? Eu não sei de na..

190. O Pica (agressivamente espreme o rosto do dono entre suas


mãos e fala em um tom baixo de raiva contida) Cala a boca, seu porra.
(agressivamente larga o rosto dele)

191. Dono Pica, a gente é família. Tava falando isso


agora...família...”nispostismo”..nespotismo!
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192. Combusta Esses são os pior, Pica. Essa “família” fica às custa de
nós, suga tudo de nós e depois se bandeia pra quem dá mais regalia.

193. Dono Qual foi, Pica! Não to acreditando que você vai cair
nas provocação dele. O moleque tá armando alguma! Esse tiroteio aí tá com a
história muito mal contada. Como é que ele entra aqui bem agora na hora do nosso
acerto? Moleque menor de idade com mulher no motel? Nem pode isso! Tem
alguma treta aí!

194. Celinha Querido, duas coisas: uma - tiroteio não escolhe a hora
de acontecer, não. Ele aparece, assim, do nada. Igual chuva quando resolve cair;
outra: a gerente do Motel Marques sou eu. Quem manda ali sou eu, meu amor.

195. Combusta Eu entro e saio dali a hora que eu quiser e com quem
eu quiser, mano. Ta ligado?

196. Dono Eu to nessa contigo desde a época que tu assumiu esse


pico aqui, Pica. Tu não vai acreditar que eu to falando que eu só sei que te pediram
pra tu ligar pro juiz?

197. Celinha Apela mesmo, velho dramático.

198. Dono (olha pra ela sempre com interesse, mas agora
também está embuído do medo que a situação provoca)

199. O Pica Calma aí, eu to puto! O cara aqui nunca falhou comigo
Celinha. Sempre foi firmeza. E o Combusta e tu são família pra mim. (para o dono)
Não precisa tu colocar eles contra mim, não, tio! Tiroteio é tiroteio. Não fica
fazendo leva e traz, não. Vamos resolver essa porra na sinceridade. Vamo ver qual é
o lance aí do juiz.

200. Dono Esse passo aí é importante pra nós dois. Eu não ia te


sabotar, não, irmão.

201. O Pica To ligado, firmeza. Vamos, então, ligar pra porra do


juiz Alcântara, então. Vamo tirar isso a limpo. Irmão, se ele quiser mais dinheiro,
irmão...caralho, irmão....Dei muito dinheiro pra muita gente já, e ele foi quem pediu
mais, parceiro. Não tem mais pra ele, não. Se ele der pra traz, eu mato ele pelo
telefone mesmo, mano. Só com a minha fúria só. Ele não vai ter tempo nem de
piscar!

202. Celinha Pica, tu precisa ter cabeça fria nessa hora. Se tu ligar
pra esse juiz assim, ele vai te ter na mão, querido. Ele vai te fazer de gato e sapato,
pintar a tua unha e bagunçar os teus cabelo. Se tu ligar pra ele nervoso assim, vai
ficar cada vez mais nervoso e ele vai tirar tudo que quiser de tu. Respira. Calma.

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203. Dono Ouve ela, Pica...Essa mulher é um perigo mesmo!
Bonita e esperta. (para o Pica) Vou pegar mais bebida pra tu. Pra tu se acalmar e
ligar pro juiz de boa.

204. Celinha Faz isso, meu filho, faz isso. Arrasou! Pica, olha. Você
precisa ter uma estratégia pra falar com esse filha da puta que quer te enrolar.

205. O Pica O que eu posso fazer, Celinha? Me ajuda aê. É sobre


aquele acordo das arma e das droga.

206. Celinha Então, é muita coisa que ta em jogo. Esse juiz ta


querendo te testar.

207. O Pica Caralho...

208. Celinha (o dono vem vindo com as bebidas. Olha intrigado pra
bolsa de Celinha, que percebe e a traz mais pra si, Tudo isso acontece, enquanto
ele entra e ela fala) Olha, meu querido, pelo negócio ser grande, a coisa fica sempre
mais arriscada. É muito mais barreira que tu tem que quebrar pra deixar mais gente
calada, deixando passar as coisa pra tu. E as pessoas valorizam muito esse tipo de
silêncio, sabe, Pica? Quando elas pode colocar isso em moeda, é muito dinheiro que
elas cobra.

209. Combusta Tu ta falando, então, que esse juiz aí gastou mais que
pensava pra comprar uns filha da puta aí e agora ta querendo passar as conta pro
Pica?

210. Celinha Pode ser isso, sim. Na verdade, é isso que eu acho o
mais provável. O juiz esperou a hora certa pra te acharcar mais dinheiro, Pica.

211. Combusta Trairagem, mano. Ele tá querendo te encurralar, mas


vamo nós encurralar ele, Pica. Vamo matar ele logo e meter outro da lei na jogada
com nós. Eu posso matar ele, Pica. Acabei de apagar um. To com o sangue fervendo
já, louco pra apagar outro.

212. Dono Querendo mostrar serviço pro patrão, pivete? Se liga,


que isso aqui é coisa de cachorro grande que lebrezinha não chega perto, não.

213. Celinha Por que essa implicância com o meu irmão, hein, o
velho?

214. Combusta Acabo com essa porra rapidinho. Antes de apagar o


juiz, eu mato você, seu velho puto, e tu não vai falar mais nada de ninguém. Meto
tanta bala nessa boca, que tu não vai conseguir falar mais nada, nem depois de
morto! Vai ser as bala da minha arma que vai impedir as mosca de entrar na tua
boca.

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215. Dono Que é isso! Se liga, pivete. Não vai ficar me
ameaçando aqui, não... (os três começam a discutir)

216. O Pica Chega dessa merda todo mundo! Cês tava falando pra
eu ficar sussa, mano. Tavam me dando um papo reto da hora e começam de
babaquice, irmão. Porra! O bagulho aqui é grande, e todo mundo tá ciente agora,
mano.

217. Celinha (num clique) É isso. Pica, tu tem que fazer com o juiz
o que fez agora com a gente: se impor. Se ele não continuar colaborando, ameaça
causar o caos na cidade. Diz que tu vai mandar fechar tudo, que tu vai acionar todos
os teus pico e vai parar a porra toda. Que vai ficar toda a cidade nas mãos dos
bandido, caralho!

218. Combusta Pode crer! Vamos incendiar uns ônibus. Vamo parar
umas avenida, vamo mandar tiro de metralhadora pro alto, mano. Vamo sair
matando as pessoa pelas rua pra mostrar que é nós que manda!

219. O Pica (para o dono) Mano, me dá um celular desses


descartável que tem aí. Vou ligar pra esse porra agora. (O Dono pega um telefone
qualquer. Dá pro Pica. O Pica olha no celular dele um número e disca no celular
descartável) Alou. Sou eu, mano. (desliga). Agora nós vai tirar isso a limpo. (o
celular toca. Ele atende) Qual foi, mano? Papo reto. Sem “mi mi mi”(ouve)
Renegociar? Agora. Na hora “h”? (ouve) Ah, vai ter que pagar mais gente do que
esperava? (ouve) Se vira, irmão! Te dei muito dinheiro já. Não quer cumprir com o
combinado? Tu é um...(Celinha toma o celular das mãos dele)

220. Celinha ...tu é um homem sem palavra! Juiz Alcântara, aqui é a


secretária do “seu Pica”. E ele mandou dizer isso. Que o senhor é um homem sem
palavra (ouve) Sim. Ele me passou o telefone assim naturalmente, porque teve que
resolver um babado aqui...Pois bem, o seu Pica disse que a partir de agora só fala
com o senhor depois que as carga chegarem no destino dela. (ouve) Novo acordo?
(Pica gesticula que não) Não tem novo acordo, não, senhor juiz (ouve e vai
reproduzindo o que o outro diz do outro lado da linha, imitando o juíz) Não tem
condições de prosseguir ganhando só isso? “É um risco muito grande pra um lucro
muito pequeno.”

221. O Pica Não quero saber!

222. Celinha Ele não quer saber. (ouve muito rapidamente)


“Aconteceu um imprevisto na hora da liberação e outras pessoas tiveram que entrar
na jogada”.

223. O Pica Não tem desculpa.

224. Celinha (respondendo pelo Pica, quase que ao mesmo tempo)


Olha, não tem desculpa. (ouve. reproduz como o juiz) “Então não vai ter carga”!
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225. O Pica Então vai rolar o caos...

226. Celinha (quase no mesmo estado que o Pica) Vai rolar o caos,
hein, seu juiz. (como o juiz) “Ta me ameaçando, seu Marco Rômulo?”

227. Pica (Celinha afasta o telefone do seu ouvido, erguendo-o


na direção do Pica, para que o juiz o ouça) Marco Rômulo é o caralho!

228. Celinha (ouve um pouco de início e depois vai reproduzindo a


fala do juiz) “Que história é essa de caos? Pensa, ‘Pica’. Tu não quer ser o maior?
Vamos fechar o cerco para os teus rivais, teus inimigos! Essa remessa de arma e
droga que estamos negociando vai desbancar teus concorrentes e te fazer ter o
controle sobre o tráfico de todo o estado. Daqui a pouco, você vai ser o número um
de todo o país! Todo mundo vai depender da sua provisão pra ter segurança e
negócio. Vai perder isso por causa de um capricho? Só para ter a palavra final?”

229. Pica (toma o telefone da mão de Celinha) Escuta aqui, seu


merda. Tu fala muito bonito, mas nós vai fazer do meu jeito. Se tu quiser que sua
família e toda a cidade fique na boa como ta, tu vai continuar com o plano. Se não
me ligarem em dez minuto dizendo que ta tudo ok, amanhã a cidade vai acordar
tomada, mano. Eu vou botar todos os meus mano na rua, irmão. E nós vai tacar o
terror. Nós vai mandar fechar tudo, nós vai incendiar ônibus, nós vai voltar a fazer
um seqüestro relâmpago atrás do outro, nós vai entrar nos condomínio chique sem
dó.

230. Combusta (se intrometendo, falando pro telefone) ...nós vai sair
atirando pra cima de metralhadora. Nós vai fechar todas as escola que nós puder, ta
ligado?! Nós vai caçar tua família e te torturar na frente dos teus filho, mano. Vamo
escaupelar você e jogar álcool na tua carne pra tu sentir arder. Nós vai tocar fogo
em você vivo, irmão. Com tua família olhando.

231. Pica Pensa, seu juiz. Pensa que nós aqui não ta de
brincadeira, não. O bagulho é sério, irmão. Ta tratando com gente grande e sujeito
homem. O único trato que vale aqui é o da palavra. Não cumpriu, ta fudido.
(desliga. Breve silêncio. O telefone toca).

232. Celinha (atendendo. Como o juiz) “Vamos continuar com o


combinado. Assim que tudo estiver liberado ainda hoje, te ligo avisando”. Desligou.

233. Combusta Tu meteu medo nele, Pica!

234. Pica Assim que tem que fazer.

235. Dono Que bela secretária tu arrumou, hein!

236. Pica hehehehe....pois é.


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237. Dono Cria estratégia, dá conselhos...é o poder por trás do
poder!

238. Pica Tem nada por trás de mim, não, mano. Quem manda
na porra toda sou eu.

239. Dono Você é realmente intrigante, Celinha. É inteligente,


simpática, firme. É enorme. Tu é diferente... (o dono se insinua, O Pica avança
para impedir, Celinha sinalize para que ele deixa com ela)

240. Celinha Diferente como?

241. Dono Não sei...nunca conheci uma mulher como você. É


como se eu tivesse fantasiado você na minha cabeça esse tempo todo e só agora tu
apareceu. Aqui. Tão perto...

242. Celinha (se divertindo) É, meu bem?

243. Dono É. Nunca conheci uma mulher como tu.

244. Celinha Realmente não é todo mundo que tem “bolas” pra ser
uma mulher como eu.

245. Dono Eu tenho quase certeza que não.

246. Celinha Quer ter certeza absoluta?

247. Dono Quero. (Celinha poe a mão do Dono em sua genitália.


Ele demora um tempo pra processar o que acontece e, depois, se espanta) Caralho,
que porra é essa, meu irmão!!? Tu tem bolas mesmo. Tu é homem!

248. Celinha Sou mulher.

249. Dono Tu tem pau.

250. Celinha Ué, qual o problema?

251. Dono Tu tem pau! Tu não é mulher.

252. Celinha Nessas horas, eu não me incomodo em repetir para os


assustadinhos: sou mulher! Me sinto mulher, sei dar prazer com uma mulher e ainda
tenho uma surpresinha pra quem gosta.

253. Dono Aberração. Tua irmã, Combusta! Irmão. É irmão que


se diz irmã! Não quer honrar o que tem entre as perna. Quer ser mulher...

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254. Combusta Qual foi, mano. Vai ficar tirando nós? Já te disse pra
tu não mexer com Celinha.

255. Dono Eu to com dor de cabeça. (vai pegar uma bebida)

256. Combusta Vamos apagar ele, Celinha!

257. Celinha Ninguém vai apagar ninguém aqui. Deixa que de mim
cuido eu. Aliás, pode deixar que cuido de nós dois, porque tu é muito nervosinho.

258. Combusta Não agüento sarro, mano. Esse merda sempre que
pode tira uma treta comigo. (para o Pica) Nunca fiz nada, porque tu tem essa
parceria aqui com ele de estocar as droga, as arma. Mas com Celinha não tem treta.
Se esse porra se criar, eu tombo ele, mano.

259. Pica Ouve tua irmã, moleque. Ela sabe das coisa. Dá uns
conselho bom.

260. Combusta Não sei porque ainda não matei esse merda.

261. Dono (voltando com uma garrafa cheia na mão e bebendo)


Não quero mais essa mulher aqui! Mulher é o caralho, não quero mais essa
aberração aqui!

262. Combusta Qual foi, mano. O que tu ta falando?

263. Dono Nada contra você, Combusta. Mas eu não gosto desse
tipo de gente contaminando os ambiente que eu tô. Não quero doença contagiosa no
meu bar!

264. Pica Teu, mano? Já te falei que se tu tá na gerência desse


bar aqui, foi porque eu dei pra tu. Se pra mim ela é bem vinda aqui, então ela fica,
então, irmão.

265. Dono Pica, tu não vê? Não descobriu? Ela é ele! Ela não é
ela. É ele, percebeu? Ele!

266. Pica Todo mundo aqui sabe dessa porra, irmão.

267. Combusta Só tu, que é um frango velho tapado da porra que não
percebe as coisa. E fica aí. Se achando esperto, ta ligado? Minha irmã não esconde
nada de ninguém, não, mano.

268. Celinha Ta vendo? Você nem tinha notado a diferença. Tava


todo interessado em mim e agora fica fazendo bafão só porque eu carrego um
detalhe aqui! Pelamor da deusa!

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269. Dono Ainda blasfema, dizendo que Deus é fêmea! Está
vendo, Pica!?

270. Pica Deixa ela com a religião dela, irmão.

271. Dono Ele, Pica. Ele! Tu sabia também!? Tu sabia...

272. Pica Claro, mano.

273. Dono Então quem não fica aqui sou eu! Eu vou embora.
Amanhã a gente se fala. Toma a chave.

274. Pica Irmão, tu não sai daqui enquanto nós não resolver essa
fita com o juiz, irmão!

275. Combusta Deixa ele ir. Deixa, mano! Demite logo esse merda.
Aproveita e me passa o bar também, Pica! Cuido do bar e continuo no movimento.
Eu dou conta de tudo, mano!

276. Dono Ah, não! Esse bar aqui é meu! Não basta o Pica ter
dado o Marques pra um travesti ser gerente e querer te passar a gerência desse pico
aqui? Vai querer, agora, me tirar o bar? Não, Pica. Faz isso não.

277. Combusta (de olhos cheios) Gerência? Caraca, Pica! Sério isso?
Eu também vou ser gerente, igual minha irmã, igual esse bode velho aí? Vou ser
gerente dessa biqueira aqui, igual tu um dia foi, mano? Tu é o cara mesmo!

278. Pica Uns plano que eu tenho aí pra tu, e tinha comentado
com ele. Depois nós conversa sobre isso.

279. Combusta Pode crer! (feliz, pega uma garrafa e começa a beber
seu conteúdo no gargalo).

280. Pica (para o dono) Se liga, mano! Qual teu problema?


Falou de mais pro moleque; ta aí todo impressionado...Tanto barulho por causa da
mina?

281. Dono Mina...? Mina é o caralho! Se essa porra for


presa, vai parar na cadeia masculina, Pica! E o banheiro? Banheiro tu tem que ir no
masculino também, seu viado!

282. Celinha (sarcástica) Jamais, meu amor! Eu mijo sentada! Ta se


sentindo enganado, é? Vem cá com mamãe, que ela te consola! (o dono se esquiva. O
Pica não gosta da brincadeira, mas contem o ciúme)

283. Dono Mas que falta de vergonha! Mas que...mas que, meu
deus! Mas que merda...
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284. Celinha ...que merda, que merda...que merda, o quê?

285. Dono Como os cara da biqueira deixam uma “sem-


vergonhice” dessa acontecer aqui na comunidade, meu Deus! Como não expulsaram?
Não deram uma surra!?

286. Combusta Ninguém desrespeita Celinha aqui na comunidade,


não, mano.

287. Dono (hipnotizado) Mas é impressionante! Parece mesmo


uma mulher! (confusão...desejo e nojo) Tem seios...e também tem... Ah, eu quase
acreditei que era mesmo mulher. Nunca tinha te visto de perto...só tinha te visto de
longe. Nunca tinha me dado conta.

288. Celinha E o que muda tanto com essa descoberta do outro


mundo?

289. Combusta Sei não....Tá com tesão na minha irmã, mano? Tá


muito incomodado. Tesão enrustido! Aí, Pica, o velho tá com tesão na Celinha, mas
ficou tonteado!

290. Dono Tesão, o quê? Tua irmã me causa é nojo, isso, sim.
(para Celinha) Tu me causa nojo. Me dá vontade de vomitar!

291. Combusta Tu não vai falar assim mais com a minha irmã, não! Já
deu!

292. Celinha Vai! Vai, porque eu quero ouvir o que esse babaca
velho de merda, esse dono emprestado de boteco, tem pra falar de mim.

293. Combusta Dono emprestado de boteco! (ri) Pode crer...Fala! Fala


aí, seu dono velho emprestado de boteco velho. Aproveita que Celinha quer ouvir.

294. Dono Você é uma prostitutazinha que não deu certo, porque
é um monstro. Esse bar é emprestado aqui pra mim porque O Pica é meu amigo. Eu
tenho amigos. E tu? Veio corrida foi? Te enxotaram de algum lugar? Te botaram pra
correr da casa que tu morava antes de vir pra cá, quando tu parou de se contentar em ser
só veado e começou a se vestir de mulherzinha, foi isso?

295. Pica Tá passando dos limite essa história. Quem não tá


gostando mais sou eu!

296. Dono Qual foi, Pica. Tu fica defendendo esse veadinho de


merda aí. O que os mano vão pensar de tu? O que o mulherio vai pensar de tu? Ah, já
sei! Tu é O Pica. Tu finge que suporta essas porra só pra ter mais ibope com as mulher.
Pra tirar uma de sensível! Tu é o cara mesmo! Tu é esperto!
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297. Combusta O Pica não ia usar minha irmã, não, mano. Ele deu a
gerência do Motel Marques pra ela. Ele confia nela. Nós é família.

298. Dono Mas só pode ser isso. O apelido dele é Pica porque ele
sempre pegou mulher pra caralho. Desde a época de vapor!

299. Pica Ainda sou assim, mano. Ainda sou assim.

300. Dono Isso ae! O Pica da Vila não é pra seu bico, não. Essa
Celinha aí deve estar cheia de vontade de te pegar, Pica!

301. Combusta (provoca o dono do bar) Ah, seu velho babão. Tu é


que tá querendo pegar minha irmã, mano. Aí, Celinha, ele deve estar com inveja,
porque tu ganhou o Motel Marques do patrão e ele um barzinho. E esse lance de inveja
é coisa de mulherzinha, mano! Qual foi, tio!?

302. Dono Se liga, moleque. Eu não tenho inveja de bichinha.

303. Celinha Bichinha é a puta que te pariu! Já to começando a ficar


nervosa com esse homem me tratando de veado, hein! Me trate como mulher, seu puto!
MU-LHER!

304. Dono É homem e quer ser mulher! Seu depravado! Tu é um


depravado! (para o Pica) Como tu dá o controle do Motel Marques - o motel Marques,
aquela preciosidade! – pra um veadinho depravado da porra? Um homem que quer ser
mulher. Eu seria muito melhor gerente de lá do que ela...ele! Do que ele!

305. Combusta Pensa, mano! Um depravado é que é bom de tocar um


motel pra frente, idiota.

306. Celinha Eu ganhei o motel, porque sou competente, meu amor.


Esse barzinho aqui só intercepta as carga. Recebe elas e despacha. Mas meu motel,
querido, é o maior ponto de lavagem de dinheiro que essa facção inteirinha já viu!

307. Dono Graças a cabeça de empresário do Pica.

308. Celinha (ri) Graças a mim!

309. Dono A tu?

310. Celinha Graças a minha cabeça de empresáriA!

311. Combusta Fala pra ele, Pica.

312. Pica Foi Celinha que deu os papo pra mim aproveitar
melhor o motel, mano. Ela é boa de pensamento. Por isso todo mundo aqui respeita ela.
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313. Dono Eu não acredito que uma merdinha dessas tenha tino
pra negócio...cabeça de homem tem. Mas é doente! Não quer ser mais homem. Quer ser
mulher, seu pervertido? Então não merece seus bago! Deixa que eu arranco ele pra
você! (parte pra cima dela. Combusta se mete na frente para ajudar, mas o Dono se
livra dele. Quando o Dono está quase chegando até Celinha, o Pica impede a agressão
e empurra o dono do bar).

314. Pica Chega de tu agredir a Celinha.

315. Dono Mas é só um travesti de merda, Pica!

316. Pica Cala a boca. Dá teu papo, mas não agride!

317. Celinha Ele tá com dor de cotovelo porque é dono emprestado


de um bar, enquanto eu tenho um motel todinho só pra mim.

318. Dono Deve estar de onda tu. O motel deve ser tão teu,
quanto esse bar aqui é meu. Tu tem aquele motel ali, porque O Pica te deu pra tu cuidar.
Igual ele fez por mim com o bar. O Pica é um cara bom, mano.

319. Celinha (ri de deboche) Ah, meu amor....você é um velho


babaca mesmo. Muito babaca! Você não ouviu que a ideia de transformar o Motel
Marques no babado que ele é hoje foi minha? Mi-nha! Há dois anos que as puta da
região não precisa mais de cafetão, porque a gente deu um jeito neles e deu liberdade
pras menina trabalhar do jeito que elas quiser. E as mana também! Aí, o motel começou
a lavar dinheiro pra caralho numa discrição maravilhosa. Por que? Porque consumo de
bebida em frigobar e pedido de comida com a quantidade de gente que passou a andar
por ali, começou a ficar incontável! É muito dinheiro que lucra, meu bem. E muito
dinheiro lavado. Esse bar aqui fica no chinelo. E, mais: tirando a grana que entra da
lavagem do dinheiro, toda a grana que o motel faz como o movimento dele é minha. Eu
não tenho que dividir nada com o Pica. Aqui tu divide o lucro do movimento do bar
com o patrão, não divide? (ele balança a cabeça afirmativamente desolado) Eu não. Eu
ganhei o Motel Marques todinho só pra mim. E não foi por pena, nem por falta de
opção do patrão. Foi por mérito! O patrão me fez patroa do Motel Marques, meu amor!

320. Dono (fica de boca aberta e não fala nada)

321. Celinha (vai até ele, fecha a boca dele. Ele afasta ela com um
espasmo de braços depois que ela se afasta) Eu não tenho dúvidas que o Pica é uma
pessoa boa, talvez a melhor pessoa que eu conheci. Faz tanta coisa boa pra gente que
mora nessa comunidade e nas outra que ele comanda. Faz mais que o governo faz por
essa gente. O Pica faz por gente como tu. Que tava aí. Na merda, endividado: acabado.
Trabalhando de garçom nesse boteco. O Pica podia botar qualquer um pra tocar esse
negócio aqui pra ele. Mas botou você. Porque o Pica tem pena das pessoas. Mas de
mim, ele não precisou ter pena. Ele viu um talento. Mais do que ajudar ele a tocar os
negócio, eu ajudei ele a querer ser grande, a querer ser O maior. O motel foi só o
25
começo. Vamos falar pra ele do juiz também, pra chocar logo? Vamos falar pra ele do
juiz, sim. Foi minha a idéia de trazer o juiz pro nosso lado e passar a perna na
concorrência pra tomar os outro pico e virar a maior facção desse estado aqui, meu
amor. Porque, eu não quero pouco pro meu homem, não, meu bem. Eu quero tudo!
(Celinha percebe que falou de mais e o Pica se constrange)

322. Dono Seu homem?

323. Celinha (sem jeito) Sim...meu homem...nosso homem...o


homem da comunidade.

324. Dono (refletindo) Espera aí.... Faz sentido.

325. Pica Qual foi mano, o que faz sentido?

326. Dono Tu ouve muito ela. Dá muita trela pra essa porra. Ta
protegendo muito essa Celinha.

327. Pica Mano, eu sou justo.

328. Celinha Eu ajudo ele, ele me ajuda.

329. Dono Sei que tipo de ajuda! Muita gente aqui ajuda ele.
Muita mulher daqui já ajudou ele e ele não deu nem um empreendimento pra nenhuma
delas. No máximo, um carro! (para o Pica) A última que pediu uma casa, porque tava
grávida, tu escorraçou!

330. Pica Ué...ué...ué...não sei...não sabia se o filho era


meu...ué...então...não sei...

331. Dono Tu sabia do filho, sim. Tu não me engana mais.


Ninguém aqui me engana mais!

332. Combusta (entendendo) Calma aí. A minha irmã pega o patrão?


(ligeiramente bêbado, bebe ainda mais)

333. Dono Tu também não sabia, não, pivete?

334. Combusta (terminando a talagada) Não! Caralho, mano! Isso


é...isso é...muito foda! Eu sou o moleque mais pica daqui.

335. Dono Pelo menos não era cúmplice desse absurdo...

336. Combusta Eu sou o herdeiro do Pica, mano!!

337. Dono Herança que vem de perversão.

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338. Pica (cortando, desafiador) Qual foi, mano? Manda o papo.

339. Dono Essa “mulher” que te pegou de jeito, então, foi a


Celinha?! Puta merda, mano. De pensar que teu apelido “O Pica” é porque tu pegava
mulher pra caralho. Agora, trocou de time. Resolveu pegar veadinho?

340. Pica (parte pra cima dele e o pega pela garganta) Tu vai
engolir o que tu ta falando de mim e da Celinha. Ela é mulher pra caralho. Igual ou até
mais que muitas que eu conheço. Eu to com ela, sim e foda-se. Agora tu vai começar a
lavar a boca pra falar dela. Se não, eu te mato.

341. Combusta Mata, não, Pica. Deixa ele aleijado.

342. Pica Tu quer dar o jeito nele pra mim, moleque?

343. Combusta Pode crer, ta ligado?!

344. Pica Então, se tu não começar a ficar pianinho com a


Celinha, te deixo nas mão do irmão dela. Por enquanto, se acalma, moleque.

345. Dono (se desvencilhando do Pica) Eu não vou lavar minha


boca, nem ficar piano pra nada, não, mano. Quer me aleijar, pivete de merda?

346. Combusta Pivete é o caralho! Combusta, porra.

347. Dono É melhor me matar logo. Porque de um jeito ou de


outro, vocês vão se fuder se qualquer coisa acontecer comigo. Mesmo se eu morrer.

348. Pica Ta maluco, irmão? Me ameaçando? Se tu não pode


nada comigo vivo, morto fica mais difícil ainda pra tu, irmão!

349. Dono Eu posso não ser seu caso, “Pica”, mas eu sei de muita
coisa dessa organização aqui. Muito do funcionamento e do balanço do caixa. Muito
das estratégia de ação da facção, muita coisa. Conheço teu pico de cabo a rabo! Eu botei
gente ciente aí de uma nuvem que eu criei na Internet. Tudo ta lá. Até a ação de hoje e
quais pico tu planeja tomar, quando atacar os rival. Então, se tu pensar em me matar ou
me deixar numa porra de uma cadeira de rodas, tu vai rodar, mano. Tu e toda essa
galera de merda que trabalha pra tu. Tipo a Celinha, que se for presa, vai pra ala
masculina. Tem coisa de homem entre as perna, vai pra ala masculina! E lá, os mano
não dá perdão pra gente como você. Vão te esculachar todinho. Tu nunca mais vai
querer saber de homem na tua vida.

350. Celinha Seu porco!

351. Combusta Ninguém faz mal pra minha irmã, não, mano. Eu entro
na cadeia e “ranco” o pau de todo mundo. Da minha irmã ninguém judia, não.
Mano...se ela for presa por tua causa, mano...eu corto teu pescoço até a metade, mano,
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com uma faquinha de serra de cozinha, irmão, só pra demorar e tu sofrer mais. Depois
te deixo sangrando na merda, mano! Pra tu morrer aos pouco.

352. Pica É o que tu merece para aprender a respeitar a mulher


que Celinha é, seu puto. Traíra de merda, mano! Eu confiei em tu.

353. Dono Eu trabalho com bandido, irmão. Se eu não ficar


esperto, rodo fácil. Pra alguma coisa o estudo me serviu, Pica. Me fez pensar. Eu não
preciso de ninguém por trás de mim pra me dizer o que fazer, nem pra nenhuma outra
coisa, porque eu penso, mano.

354. Combusta Ta vendo aí esse x-9, Pica? Te passando pra trás.


Pronto pra te levar pros verme. Eu disse. Deve tá de conchavo com aquele juiz lá!

355. Dono Isso não tem nada a ver com a história do juiz. Só fiz
os documento e botei na internet pra me proteger. Eles tão seguro, mas tem gente ciente
deles, Pica. Isso é minha garantia de vida. Em troca, eu garanto que nada vai vazar,
enquanto eu estiver de boa.

356. Pica Nem sempre nós acerta nas pessoas que nós bota pra
trabalhar com nós. E eu pensando que podia confiar em tu, mano.

357. Dono E eu pensando que tu nunca ia me ameaçar de morte


por causa de um veadinho. De um travesti de merda!

358. Celinha Uma! Uma travesti! Ta. Tudo bem. Você descobriu
essa porra. E agora? Nada muda. (o telefone clandestino de Pica toca. Todos estacam.
Celinha atende) Pois não. (ouve) Sim, aqui é a secretária do seu Pica (ouve) Eu aviso a
ele. Obrigada. (desliga) Uh! O juiz não morre tão cedo! Pica, ele disse que ta tudo certo.
Ele liberou tudo o que tu pediu. O carregamento vai chegar conforme prometido. E ele
disse que já tem homem de confiança dele vindo aqui pro ponto de encontro pegar outra
parte do pagamento.

359. Pica Ta certo. (para o dono) O dinheiro ta aí já separado,


não ta, mano?

360. Dono Ta, sim. Eu nunca falhei contigo, ta lembrado?

361. Pica Nunca falhou, menos agora, que tá cheio de papo aí


pra cima de mim.

362. Dono Pois é. Eu to pensando aqui. Nunca falhei...nunca tive


um aumento...To ganhando muito pouco e correndo muito risco. Vou querer mais lucro
nesse esquema aí....E mais: de hoje em diante, esse negócio aqui é todo meu. Igual ao
Motel Marques é dessa Celinha aí. A partir de agora, não divido mais os lucro do
movimento daqui do bar contigo.

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363. Pica Que tanta exigência é essa, hein, seu velho maldito?

364. Dono O negócio é o seguinte: se tu não cumprir minhas


exigência, Pica, eu conto pra todo mundo da comunidade que tu ta pegando um
veadinho. Um travesti de merda. Se essa porra se espalha pros rival - tanto os que tu
tem aqui dentro, quanto os que tu tem lá fora - tu não vai durar muito tempo, não. Os
cara vão te esculachar.

365. Pica Caralho, mano, eu vou te matar! (vai sacar a arma,


mas Celinha não deixa. A arma, sequer aparece).

366. Celinha Pica, fica sussa. Lembra dessa porra da nuvem que ele
tem na Internet com tudo que te compromete. Não vale a pena se arriscar.

367. Dono Ou tu vai assumir o veadinho na frente de geral pra


acabar com o segredo? Tem coragem? (ele ri) Tem coragem de assumir a boneca na
frente da comunidade toda? (O Pica e Celinha se olham. Ele baixa a cabeça) Eu sabia
que não. (Celinha fica um pouco desapontada)

368. Celinha Tu não me assumiria, Pica?

369. Pica Esse foi nosso acordo desde sempre, Celinha. Nós tem
que ficar em segredo. Tu aceitou.

370. Celinha Nunca gostei de viver escondida. Por isso, que eu sou
o que eu sou. Por isso que eu deixei de ser quem queriam que eu fosse, pra ser quem eu
queria ser. Mas por você eu to há uno ano na encolha, e às vezes, a gente cansa.

371. Dono Sem mais briguinha de casal aqui. Se depender de


mim, vocês podem continuar com a sem vergonhice de vocês, que eu não falo nada. Só
a gente reconsiderar minhas participação no movimento e meus lucro no bar.

372. Pica Ta certo. Ta certo. Nós vê de novo isso aí.

373. Combusta Tu vai ficar na mão desse aí, Pica? Não deixa, não.
Qual foi, mano? Assume logo minha irmã.

374. Celinha (decepcionada) É muito arriscado pra ele na posição


dele. Eu ia virar um ponto fraco pro Pica, entendeu, meu irmão?

375. Combusta (bêbado e com carinho) Nós apaga todo mundo,


Celinha. O Pica vai me passar pra gerente. Todo mundo vai ter medo de mim. Se um
merda te fizer alguma coisa, eu mato e mando matar logo todo mundo que quiser tirar
sarro de tu. Eu vou ser o braço direito do Pica, Celinha. Sou o herdeiro dele. A gente te
defende. Não defende, Pica?

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376. Pica Calma, Combusta, defende. Mas do jeito que nós
sempre fez. Agora é o momento de nós crescer. A melhor forma de proteger tua irmã é
deixar ela como ela ta. Todo mundo sabe que ela trabalha com nós e ela continua
segura, como qualquer um de nós. Se meus inimigo sabe que eu gosto dela, vão querer
usar ela contra mim, ta ligado, Combusta?

377. Combusta To ligado, mano. Pode crer. Agora é hora de nós


crescer.

378. Celinha É isso. O Pica tem razão, Combusta. As pessoas ainda


são todas nojenta nesse mundo. Elas não entendem o que é gostar de verdade. E ainda
querem ganhar em cima do gostar do outro. (referindo-se ao dono do bar) Sobretudo,
quando não respeita o gostar do outro.

379. Dono Quem aqui não respeita? Vocês conseguiram o que


queriam desde o início. Vou ficar em silêncio, como antes. Só que agora eu sei das
coisa. (para Combusta) Aprende uma coisa aí, ô pivete: saber também te dá poder! Não
é só as arma, não! Viu, como, no final das contas, eu é que saí por cima. Quem diria?
(referindo-se ao bar) Eu, o dono dessa porra toda! Ta tudo resolvido, então, né? O cara
lá do juiz ta vindo aí pra pegar a outra parte acertada do pagamento. O dinheiro tá todo
ali no depósito do bar. Eu vou até pegar uns maço pra levar comigo. Vou dar logo pra
minha mulher para ela parar de ficar pedindo dinheiro toda hora, enchendo meu saco.
Vou esfregar logo esse dinheiro vivo na cara da Cacilda. Vocês aí se virem com o
homem do juiz. Enrola ele igual o juiz tentou enrolar a gente no início.

380. Pica Porra, mano, tu vai fuder geral. O cara já ta chegando


aí.

381. Dono Tu tem muito dinheiro, mano. Só mandar pegar mais.


Deixa eu ligar pra Cacilda pra dar pra ela a boa notícia. Chega dessa mulher me
chateando e me cobrando sempre mais. Mulher, Pica, ta ligado? (ele pega o celular e
disca) Mulher de verdade, como deve ser! Não esse lixo humano aí, que tu...(dentro da
bolsa de Celinha, um celular toca. Celinha e Combusta se olham. O dono fica confuso
e assustado. Desliga o celular. O celular na bolsa de Celinha para de tocar. Em
seguida, o dono disca novamente e o celular na bolsa de Celinha toca novamente). Que
porra é essa, irmão?! O que significa isso?

382. Combusta (depois de entender a situação, começa a rir)

383. Dono Ta rindo de que, pivete? O que o celular da minha


mulher ta fazendo dentro dessa bolsa? Essa bolsa...eu conheço essa bolsa. Tava olhando
pra ela outra hora ali. Essa bolsa é da Cacilda. É da minha mulher!

384. Combusta (rindo) Sua mulher. Hahahahahaha! Sua mulher! Não


dá pra acreditar! (Celinha entende o que aconteceu e ri discretamente)

385. Pica O que tu sabe, moleque? Celinha, o que tu sabe?


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386. Combusta (numa sádica diversão de moleque bêbado) Sabe a
vagabunda que eu disse que tava começando a comer? Aquela que tava junto comigo
saindo do Motel Marques agora há pouco, na hora do tiroteio? Então, ela era a dona
dessa bolsa aí, mano...quando ela foi baleada no tiroteio, a gente pegou a bolsa dela e
saiu correndo, ta ligado? Diz por aí que defunto não precisa de nenhum bem material.
Nem de dinheiro, nem de celular, nem de jóia...

387. Celinha ...nem dessa bolsa maravilhosa, né, meu amor!

388. Dono Como é que é? Tu, pivete, saindo do motel com minha
mulher?

389. Pica E nós achando que tia Cacilda era fiel.

390. Dono Eu mato ela! Eu mato a Cacilda!

391. Combusta Não ouviu, não, tio?

392. Celinha Não dá pra matar quem já ta morta.

393. Dono Morta?

394. Combusta Ê, velho surdo! Eu não disse que nós pegou a bolsa da
vagabunda que tava comigo, depois que ela tomou bala no tiroteio? Ela morreu, mano,
por isso nós trouxe a bolsa dela com nós. (o dono, em choque, vai até Celinha e pega a
bolsa. Analisa o objeto. Abre a bolsa, olha dentro dela sem tirar nada de dentro)

395. Dono São as coisas da minha mulher...minha Cacilda tinha


um caso.

396. Combusta Tinha, tio.

397. Dono Minha Cacilda ta morta.

398. Celinha Ta, amor.

399. Dono (exaltado) Não me chama de amor, seu travesti veado


de merda!

400. Combusta Aí, seu velho brocha. A partir de agora, tu vai respeitar
minha irmã e nunca mais vai me chamar de pivete!

401. Pica Se ligou, velho corno? Aí, Combussta, tu é sagaz


mesmo. Dá um esculacho no velho. O que tu quer que ele faça?

402. Combusta Quero que ele comece beijando o pé da Celinha.


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403. Dono Como é que é?

404. Combusta Tu ficou surdo de repente? Deve ser coisa de velho


brocha mesmo. Vou repetir: tu agora vai respeitar nós.

405. Dono Não me chama de velho brocha, moleque!

406. Combusta Te chamo do que eu quiser, seu merda. Eu tava


comendo tua mulher.

407. Dono É mentira. Essa história é mentira.

408. Combusta Quer perguntar pra ela, mano? Ih, não dá. Esqueci...ela
acabou de morrer depois de dar pra mim.

409. Dono Não é verdade, Combusta.

410. Combusta É, sim.

411. `Dono Minha mulher tinha um caso...

412. Combusta Pode crer, tá ligado.

413. Dono ...e morreu.

414. Combusta Pelo menos ela passou feliz.

415. Dono Cacilda tinha um caso e morreu.

416. Combusta Gozou e morreu.

417. Dono Tu que é um pivete, que deve ter roubado a bols...

418. Combusta (dá na cara do dono) Fica quieto, mano. (da outro
tapa) Pivete nunca mais! Cala a boca. Tu fica falando do Pica, da minha irmã, mas tua
mulher me contou tuas depravação.

419. Dono O quê?

420. Combusta Sabe porque ela te ligou agora pouco pedindo


dinheiro? Pra dar pra mim, irmão, ta ligado? Eu tava ainda na cama com ela quando ela
te ligou agora há pouco. Ela não ligou? Eu só não tava ligado que o corno era tu. E eu
não era o único, não. Ela fazia questão de me contar. Ela gostava de bancar garotão.
Porque os garotão comia ela. Já tu...

421. Celinha Que bafo!


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422. Dono Fica quieto. Não precisa falar mais nada!

423. Combusta Cacilda procurava moleque fora, porque o marido dela


não dava no couro pra ela. Ele queria que ela desse no couro pra ele.

424. Dono Chega Combusta.

425. Combusta Esse aí pedia pra Cacilda botar uma cinta que tinha
pau.

426. Dono Para!

427. Combusta Mó cara que tu não comia tia Cacilda. Esse velho
brocha obrigava a mulher a comer ele com as cinta que eles tinha. Eles tinha coleção de
cinta, mano! (Combusta ri) Agora eu entendi. Tu ficou foi impressionado com a
Celinha, não foi? Fantasiou minha irmã te comendo desde o início. Mas não foi homem
pra guentar quando descobriu que o pau dela era de verdade, né?

428. Celinha Esse aí eu não comeria nem que ele quisesse.

429. Combusta Pode crer, mana. Tu gosta de homem de verdade te


pegando. Tu não gosta de veadinho, não, né?! Aí, Celinha. O Dono do Bar do Pica é
maior veadinho. Gosta de rola!!!

430. Dono Veadinho, não. Veadinho é a Celinha que quer tirar o


pau pra deixar de ser homem.

431. Combusta (fica sério de repente) Chega de falar da minha irmã!


Já mandei tu respeitar ela. Bora, mano. Ajoelha e beija o pé da Celinha.

432. Dono Combusta...?

433. Combusta Como é que é? (pega ele pela orelha e o joga de


joelhos no chão) Vamo, mano! Beija os pé da minha irmã.

434. Celinha (olha brevemente pra ele em silêncio) Ta esperando o


que?

435. Combusta Acho que ele ta esperando eu sair aí fora e contar pra
geral essa porra. Que o dono do “Bar do Pica” é um veadinho que gosta de dar a bunda
pra mulher dele, ta ligado!

436. Dono Se contar de mim, eu falo do Pica também. Ta todo


mundo de rabo preso nessa merda.

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437. Pica Minha palavra vale mais que a tua aqui dentro, mano.
Vai todo mundo achar que tu tá contando mentira pra se defender.

438. Combusta . Já to até vendo já o que os cara da biqueira vai fazer


com um dono de bar queima rosca, Celinha!

439. Celinha Mulher assumida, como eu, eles respeita.

440. Pica Já paca velha enrustida...sei não.

441. Dono Vamos...vamos...vamos ficar de boa de novo. Vamos


fingir que nada aconteceu.

442. Combusta Nós não vai fingir nada aqui nessa porra, não, tio.

443. Pica O moleque te encurralou, mano! Ainda vai ficar


fazendo pouco do menor? Eu tava certo mesmo de pensar em te passar a gerência
daqui. Tu leva jeito pros meus negócio mesmo, moleque. Se continuar assim, vai
sempre subir de posto.

444. Combusta Vai beijar os pé da minha irmã ou não vai, velho


dadeiro! Mas que vergonha, hein, coroa! Na tua idade, virando o rabo. To pensado aqui,
Pica. Se virava a bunda pra mulher, devia virar pra homem também.

445. Dono Homem, não. Homem, nunca! Deus me livre essas


perversões!

446. Celinha (mostra o pé pro dono do bar)

447. Dono (olha pro Pica)

448. Combusta Como é que é? Vai beijar ou não vai beijar o pé dela?

449. Pica Nós ta esperando, mano. (o dono, humilhado, beija os


pés de Celinha)

450. Dono (aos prantos) Minha Cacilda! Minha Cacilda morreu!


Como tu teve coragem de não prestar socorro pra ela? Você tinha um caso com ela. Ela
morreu na tua frente. Tu, ao invés de ajudar, passa a mão na bolsa dela e sai correndo?

451. Combusta Eu não tinha caso com ninguém, não mano. Só comia
ela de vez em quando, ta ligado? Como faz com qualquer vagabunda. E ela já era coroa,
sabia das coisa. Eu comia com gosto. Ela gritava de prazer.

452. Pica Mas ela morreu, não morreu, mano?

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453. Combusta Morreu! E já que ela não ia poder me dar mais nada,
nem mais dinheiro, eu resolvi ficar com o resto que ela podia me dar.

454. Celinha Tudo o que tava nessa bolsa!

455. Pica (debochando) Tipo uma lembrança dela, ta ligado?


Uma “homenage”. (eles riem. O telefone do bar toca. Estranham. O dono do bar se
recompõe e vai atender)

456. Dono Alou, pois não (ouve. Assustado) Da polícia? (ouve.


Respira) Morta? (ouve) Teve testemunha que afirmou que é a minha mulher e deram o
número do meu bar? (ouve) Tão mandando uma viatura aqui no bar? Não. Não precisa.
Não é só eu ir no IML? (ouve) Entendi. A viatura já está a caminho. Muito obrigado,
viu? (desliga. A sirene da viatura começa a tocar ao longe e, aos poucos, vai se
aproximando) A polícia ta chegando aqui, por causa da morte da minha mulher.

457. Pica Polícia, mano? Ta maluco?

458. Combusta Ta ouvindo a sirene? Os puto tá chegando, Pica!

459. Dono Tá vendo, Combusta? Tudo culpa tua! Foi querer


disputar força com um bandidinho de merda que tentou assaltar minha mulher. Coisa de
garoto sem experiência! Eu perdi Cacilda e, agora, todo mundo aqui vai se fuder. Ta
vendo, Pica, quem tu quer passar pra gerente?

460. Combusta Eu tava defendendo nós, seu guela cuzão! Tua mulher
caiu pela bala do outro. Não tive culpa de nada! (a sirene está cada vez mais perto. A
porta bate) Os verme, mano!

461. Pica A sirene tá longe ainda. Deu tempo dos verme chegar
aqui, não. Vai ver quem é, Combusta.

462. Combusta (olhando pela porta) É um sujeito todo engomadinho,


segurando uma mala, ta ligado?

463. Pica É o brother do juiz pra pegar o dinheiro. Deus ta nosso


lado, mano! Vamos fazer o seguinte: a gente pega o dinheiro ali atrás no depósito, aí
nós sai pelos fundo, pela passagem secreta que dá no Motel Marques, depois nós foge.
Vamo deixa o mano do juíz aí pra pagar o pato! (a sirene está alta, como se tivesse
chegado ao bar.) Bora sair daqui!

464. Dono (desesperado) Não vai dar tempo. (A sirene para de


tocar. Ouve-se o barulho da porta da viatura abrindo e fechando) Eu vou ser preso!
(provocando Combusta) E vão levar tua irmã, Combusta. Lembra do que eu falei. Os
mano vão esculachar tua irmã na cadeia! Isso se os porco de farda não esculachar ela
antes.

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465. Celinha Vem, Combusta. Bora!

466. Dono Salva tua irmã, Combusta.

467. Celinha Deixa esse velho aí!

468. Dono Dá tempo de tu matar os tira e depois fugir.

469. Celinha Não cai na provocação dele!

470. Dono Ta na hora de tu mostrar pro Pica que tu merece a


gerência e muito mais!

471. Combusta Pode crer, ta ligado!

472. Dono Tu é o herdeiro do Pica nessa porra ou não é?

473. Combusta Eu vou matar os porco, mano! Eu vou salvar minha


irmã e o Pica vai ter orgulho de mim. Eu vou salvar nós! (O dono sai correndo para a
porta dos fundos, enquanto Combusta, larga a garrafa, saca sua arma e vai em direção
a porta da frente. Começa um bangue bangue. A luz vai baixando, enquanto os tiros
soam e Celinha é puxada pelo Pica. Ambos gritam pra Combusta não ir e fugir com
eles, mas o moleque, bêbado de valentia, não dá ouvidos)

Fim

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