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A Condessa libertina

Wicked Deceptions 02

Joanna Shupe
Sinopse
A apresentação na sociedade de Lady Maggie Hawkins
era algo que ela preferia esquecer, juntamente com seu
primeiro casamento. Atualmente essa caricaturista política é
uma mulher diferente. Uma mulher totalmente moderna.
Tanto que seu público acredita que ela é um homem.

FATO: Maggie, que desenha sob um pseudônimo


masculino, é conhecida como Lemarc. Seu personagem
favorito a ridicularizar é Simon Barrett, Conde de Winchester,
uma estrela em ascensão no Parlamento e Ex confidente.
Além de ser seu objeto de desejo.

FICÇÃO: Maggie é uma meia irlandesa sem vergonha que


seduziu o marido de sua melhor amiga na véspera do
casamento. Ela é uma pessoa a ser temida e repudiada.

Destroçada pelo desprezo de Simon, Maggie não pode


permitir que toda a cidade a humilhe. É por isso que as
caricaturas de Simon o fizeram o riso de Londres... no
entanto, agora parece que Maggie pode estar errada sobre o
que aconteceu há anos.
Capítulo 1
Primavera de 1809, Londres

O silêncio se estendeu pelo salão de baile no instante em


que seus pés tocaram o degrau mais alto.
Antes que lady Margaret Neely tivesse oportunidade de
fazer algum comentário sobre a estranha reação dos
presentes, sua mãe a arrastou escada abaixo. E só então
compreendeu que o desastre era iminente: a forma que cada
pessoa evitava seu olhar, as vozes que se ouviam pela sala, o
modo que os que dançavam detinham seus passos a meio de
uma volta.
Sabiam.
De algum modo, apesar de seus esforços, naquela tarde
o rumor sobre o acontecido na noite anterior se estendeu
pelas ruas de Londres. Nas visitas matinais, nos passeios em
carruagem pelo Hyde Park, ou os passeios a pé pelo Rotten
Row…, de algum jeito a alta sociedade londrina tinha feito
correr o rumor por toda parte.
Nesse dia sua irmã mais nova estava doente, e por isso a
mãe não tinha querido sair para fazer visitas. Maggie havia se
sentido aliviada e tinha dedicado a manhã a desenhar, e
agradeceu que tampouco elas receberam visita. Agora
entendia por quê.
Dava-lhe vontade de gritar. Não tinha feito nada de mal.
De fato, estava fazendo um grande esforço por comportar-se
como uma jovem inglesa educada enquanto durava sua
apresentação em sociedade. E sabe Deus que, com os cabelos
negros de seu pai e seu temperamento irlandês, tinha sido
uma tortura. Maggie não se comportava como as outras nem
tinha seu aspecto, e a alta sociedade parecia desfrutar a
tachando de forasteira embora tivesse passado quase toda a
vida em Londres.
— Por que todo mundo se calou? — Sua mãe sussurrou-
lhe ao ouvido. — Margaret, o que fez?
Evidentemente sua mãe também tinha notado a
sensação de mal-estar no ambiente. E não era estranho que
seu primeiro impulso fosse atribuir aquele mal-estar à
Maggie. E mesmo assim, Maggie não pôde responder. Tinha-
se formado um nó na garganta, e inclusive respirar era uma
luta.
«Foge», ouviu em sua mente. Foge e finge que tudo isto
não aconteceu. Mas ela não tinha feito nada mal. Alguém
acreditaria, com certeza. O único que devia fazer era explicar
o que tinha acontecido nos jardins Lockheed.
Assim, elevou o queixo e seguiu descendo para a
luminosa sala. A obstinação sempre tinha sido um defeito de
seu caráter, isso diziam. Mamãe sempre se lamentava porque
ela discutia e discutia mesmo que já tivesse deixado clara sua
opinião. Não pensava dar meia volta e sair fugindo, por mais
que lhe encolhesse o estômago. Não, enfrentaria, embora só
fosse para demonstrar que podia fazê-lo.
Quando chegaram ao pé da escada, o silêncio era
ensurdecedor. Seus anfitriões não se aproximaram dispostos
para as receber. E nenhuma de suas escassas amizades
correu ao seu lado para compartilhar alguma intriga ou
elogiar seu vestido. Nenhum jovem bonito pediu que lhe
reservasse uma dança em sua caderneta.
Não, em lugar disso, a multidão retrocedeu, como se
uma besta selvagem tivesse entrado na sala e temessem que
pudesse atacar a qualquer momento.
— Vamos — Sua mãe ordenou tomando-a pelo braço. —
Voltemos para casa.
— Não — ela sussurrou com ênfase.
O que tinha acontecido não era culpa dela. Não
permitiria que ninguém a intimidasse. Alguém tinha que
acreditá-la…
Nesse instante, um borrão de seda azul se concretizou
nas feições avermelhadas de lady Amélia.
— Não posso acreditar que seja tão néscia para se
apresentar aqui — a jovem murmurou baixo.
Maggie encolheu os ombros e se concentrou em sua
amiga.
— Não sei o que terá ouvido, mas…
— Contou-me tudo. Acaso pensava que não o faria? Meu
prometido me confessou sua… sua perversidade, Margaret.
Tentou tirá-lo de mim e se saiu mal.
Naquele momento a sala toda as olhava e escutava com
avidez a conversação. Inclusive a orquestra tinha deixado de
tocar.
— Amélia, por que eu ia…?
— Sempre foi ciumenta. Eu tive outros três pedidos de
mão esta temporada e você nenhuma. Não me surpreende
absolutamente que tenha tratado de me roubar o senhor
Davenport.
Como herdeiro do visconde de Cranford, o senhor
Davenport era considerado pela maioria como o solteiro mais
desejado de Londres. Tinha pedido a mão de Amélia fazia
mais de um mês e Maggie havia se sentido muito feliz por ela.
De modo que não deu atenção ao pulo que sua mãe deu
e manteve seus olhos cravados nos de Amélia.
— Está equivocada.
— Amélia. — Era lady Rockland, que apareceu nesse
momento e tomou a sua filha pelo braço. — Vamos. Vai
arruinar sua reputação se falar com esta…
Deixou a frase sem acabar, não pronunciou a palavra
ofensiva, e se limitou a dar a volta com uma visível expressão
de repugnância. Entretanto, Maggie podia imaginar
perfeitamente o que tinha querido dizer.
Puta. Rameira. Meretriz.
Nisso se converteu aos olhos de todos? Aquilo era
absolutamente incompreensível. O senhor Davenport tinha
mentido. Maggie tinha aceitado reunir-se com ele para, como
ele disse, falar de Amélia. Mas assim que estiveram nos
limites dos jardins ficou muito claro que as intenções do
jovem eram outras. Puxou-a pelo braço e lhe pôs a boca em
sua boca. E lhe rasgou o vestido. Maggie o golpeou no lugar
que mais dói a um homem e ele a soltou. Ela correu então
para a casa e, sem dúvida, o casal que chegava naquele
momento e a viu com as roupas desarrumadas tinha tirado
suas próprias conclusões.
O senhor Davenport a tinha enganado. Tinha-a atacado.
E para acabar, tinha contado uma mentira a Amélia, uma das
poucas jovens com as quais Maggie tinha amizade. A
necessidade de que outros conhecessem a verdade a
carcomia. A ninguém importava a verdade?
Enquanto passeava o olhar pela habitação, o ódio com
que todos a observavam lhe deixou muito claro que não, a
verdade não importava a ninguém. A alta sociedade londrina
tinha ditado a sentença. Dava-lhe vontade de gritar pela
injustiça daquilo. Ninguém iria em sua ajuda? Alguma das
outras jovens solteiras, ou o homem a quem considerava…
Com algo mais que desespero, Maggie escrutinou a sala
procurando um homem alto e loiro. Ele tinha sido sua tábua
de salvação naquela temporada, era a única pessoa que de
verdade a conhecia e tinha que saber que ela jamais faria algo
tão desconsiderado. Sem dúvida Simon já teria ouvido o
acontecido. Por que não tinha se deslocado ao seu lado para
defendê-la?
Ali, ao fundo do salão. Seus olhos se encontraram com
aquele olhar azul e deslumbrante que tão bem conhecia, um
olhar que a tinha procurado com adoração mais noites das
que podia contar. Mas os olhos de Simon não brilhavam;
olhavam-na mortiços, desprovidos de toda emoção. O rubor
lhe cobriu as bochechas, quase como se se sentisse… furioso,
ou possivelmente envergonhado… e isso não tinha nenhum
sentido.
Maggie cruzou com força suas mãos enluvadas,
suplicando em silêncio que Simon fosse resgatá-la. Mas ele
não se moveu. Sem desviar o olhar, levantou sua taça de
champagne e a saudou.
Por um instante Maggie se encheu de esperança, porque
viu que Simon se movia, mas a esperança se desvaneceu com
rapidez, porque o que fez foi lhe dar as costas.
Simon lhe tinha dado as costas.
Ninguém se movia. Ninguém falava. Era como se todos
estivessem esperando para ver o que fazia. Maggie sentiu que
a histeria borbulhava em seu peito, golpeando com força seus
pulmões.
Senhor, senhor. O que ia ser dela?
Capítulo 2
Dezembro de 1819, Londres

O passado de um homem pode esquecer-se facilmente…


sempre e quando não estiver exposto na vitrine de uma loja
na zona mais concorrida de Saint James.
Simon Barrett, oitavo conde de Winchester, estava
plantado na rua, naquele gélido dia invernal, com a vista
cravada em outro brilhante lembrete de sua juventude ilustre
e sua afeição de então pela bebida. Apesar do frio, uma
desagradável sensação de calor lhe subiu pelo pescoço.
Demônios, não se ruborizava desde que era um pirralho.
E mesmo assim, não podia apartar os olhos do desenho
da vitrine da loja de quadros, a biografia de um homem muito
ébrio para se ter em pé enquanto ao seu lado alguém roubava
as joias de uma dama. Não havia confusão possível com
respeito à identidade do cavalheiro. Como se a altura, os
cabelos loiros e os olhos azuis não fossem detalhe suficiente,
o artista tinha dado um nome ao personagem: lorde
Vinochester.
«Maldição.»
— Quase tinha esquecido essa tua faceta de canalha que
teve em sua juventude.
Simon lançou um olhar ao seu bom amigo Damien
Beecham, visconde de Quint.
— Parece que é a única coisa que interessa ao artista.
Uma vez mais Simon teve que perguntar-se por que
aquele artista, Lemarc, parecia tão obcecado com ele. Seria
algum de seus adversários responsável pelas caricaturas?
Ninguém consegue chegar aos postos mais altos do
Parlamento sem pisar nos outros.
— Que número é este? Diria que é a quarta ou quinta
caricatura tua que sai este ano. Lorde Vinochester está
ficando muito popular. Pode ser que saia alguma colher ou
prato comemorativo em sua honra, como fizeram com o
doutor Syntax, de Rowlandson — Quint disse referindo-se ao
popular personagem do artista.
— Oh, que fantasioso — Simon disse com voz lenta.
Quint riu entredentes e deu uma palmada no ombro de
seu amigo.
— Vamos. Riu. Por que está tão sério agora?
Aquilo não era de todo verdade. Simon talvez risse
publicamente, mas no fundo aquelas caricaturas o
preocupavam. Tinha trabalhado muito duro para cultivar
uma reputação e o que menos lhe interessava era que algum
engraçadinho se dedicasse a ridicularizá-lo publicamente. Se
seguissem descrevendo-o como um palhaço, sua influência e
prestígio entre seus colegas acabariam por ressentir-se.
Talvez tivesse chegado o momento de sugerir a certo artista
que concentrasse suas habilidades em outro lugar.
E se a sugestão fosse percebia como uma ameaça, que
assim fosse.
— Entramos?
Quando Simon entrou seguido de Quint, uma
campainha soou sobre a porta. A loja era uma sala espaçosa
com uma fileira de janelas que chegavam até o teto e
permitiam que a luz banhasse cada superfície, inclusive em
um dia cinza de inverno como aquele. As paredes estavam
cobertas de obras de arte emolduradas: paisagens, retratos,
litografias que ilustravam a moda do momento e cenas
tradicionais, todos eles em diferentes formas e tamanhos. Em
um recanto havia prateleiras de tecidos sem emoldurar.
Simon se aproximou dando grandes pernadas até o comprido
mostrador, onde uma mulher mais velha aguardava
pacientemente. Seus olhos, que olhavam detrás de umas
lentes pequenas e redondas, abriram-se com excesso e se
desviaram por um instante à vitrine, antes de voltar a pousar-
se em seu rosto. «Bom, ao menos não terei que me apresentar.»
A mulher fez uma reverência.
— Boa tarde, cavalheiros.
Simon tirou o chapéu e o deixou sobre o mostrador.
— Boa tarde. Queria falar com o proprietário.
— Sou a senhora McGinnis, a proprietária. O senhor
está interessado em adquirir alguma gravura?
— Hoje não. Em realidade o que procuro é informação. —
E assinalou com o gesto à vitrine. — Pode me dizer como
localizar o artista, Lemarc? Sua obra me resulta…
interessante.
Quint soltou uma risadinha, mas Simon não deu
atenção.
— Temo que o artista deseja permanecer no anonimato,
milorde.
Aquela resposta tão previsível não o desanimou. Nas
semanas anteriores Simon fizera certas averiguações em
relação ao artista, e sabia que Lemarc só era um pseudônimo.
— E se lhe disser que pagarei pela informação? Digamos
umas dez libras.
Os lábios da mulher se crisparam e Simon teve a
poderosa sensação de que continha um sorriso.
— Milorde, chegaram a me oferecer até cinquenta libras.
— E se lhe der cem?
— O senhor terá que me desculpar, mas minha lealdade
é para com o artista. Não seria correto desatender seus
desejos.
Por dentro Simon amaldiçoou a obstinação daquela
mulher, embora sua devoção por Lemarc fosse elogiável.
— Então, queria comprar a caricatura da vitrine.
A senhora McGinnis meneou a cabeça.
— Desculpe-me outra vez. Esse desenho em particular
não está à venda.
Simon esteve a ponto de abrir a boca pela surpresa.
— Não está à venda? Seja qual for a oferta?
— Seja qual for. O artista prefere conservar a peça em
sua coleção privada.
«Maldição.» Simon tamborilou com os dedos sobre o
mostrador enquanto sua mente maquinava diferentes
possibilidades. Nem sequer podia comprar as ditosas
caricaturas para desfazer-se delas.
Quint se inclinou para frente.
— Há alguma outra peça do Lemarc que esteja à venda?
— Bom, sim — respondeu prontamente a proprietária. —
Tenho uma coleção de aquarelas do artista com biografias de
pássaros, se os cavalheiros desejam as ver.
— Leva todas — Quint disse assinalando com o polegar
ao Simon. — Todas as que tiver.
— Pássaros? — Simon o olhou com expressão furiosa. —
Pássaros?
— Compra, Winchester. Me dê atenção.
Simon se voltou para a proprietária.
— Quantas são?
— Quase vinte, milorde. São muito bonitas, e todas
foram pintadas estes últimos anos. Os senhores desejam as
ver?
Foi Quint quem respondeu.
— Não, não será neces…
Mas antes que pudesse terminar Simon o segurou pelo
ombro e o levou para a entrada.
— Desculpa-nos um momento, senhora McGinnis?
— É claro. Tomem todo o tempo que necessitem,
cavalheiros. Estarei na sala dos fundos.
E dito isto, desapareceu na parte de trás e os deixou
sozinhos.
Simon olhou ao seu amigo com expressão grave.
— Por que demônios vou comprar quase vinte aquarelas
de pássaros? Detesto pássaros.
— Porque alguns só se encontram em zonas muito
localizadas, imbecil. É possível que encontremos algum ponto
em comum entre os pássaros que retrata e isso nos permita
localizar o Lemarc em algum condado. Ao menos isso te daria
um ponto de partida para começar a procurar.
Simon pestanejou.
— Quint, isso…
— Sei. E agora compra as ditosas aquarelas para que
possamos ir de uma vez ao clube. Morro de fome.
Por um momento Simon tinha esquecido a afeição de
Quint pelos enigmas.
— Bem. O projeto é teu, então. Me dê um de seus
cartões.
Quint tirou um cartão e Simon chamou a senhora
McGinnis.
— Levarei todas as aquarelas de pássaros — disse à
proprietária quando retornou, e tirou um cartão do bolso do
peito. — Mande a mim a fatura, envie os desenhos a este
endereço, e entregou o cartão de Quint.
— É claro, milorde. O senhor deseja que os
emolduremos?
Muito bem, pensou. Logo lhes encontraria alguma
utilidade. Podia usá-los para fazer práticas de tiro, por
exemplo.
— Certamente. Confio em seu bom critério, senhora
McGinnis. Escolha as molduras que lhe pareçam mais
adequadas. Quando acredita que estarão preparadas?
— Porei o menino a trabalhar em seguida. O senhor terá
seus quadros depois de amanhã.
Nesse momento soou a campainha da porta e, ao voltar-
se, Simon viu uma figura miúda entrar apressadamente. Uma
dama, a julgar pelo chapéu na moda e casaco negro. Quando
a mulher os viu pareceu ficar gelada, mas inclinou em
seguida a cabeça. Havia nela algo que lhe resultava
estranhamente familiar…
— Lorde Quint — ouviu que dizia.
Quint inclinou a cabeça.
— Lady Hawkins. Que agradável voltar a vê-la.
Por um momento pareceu como se o ar tivesse
desaparecido da habitação. Ou possivelmente só era os
pulmões de Simon que se negavam a colaborar, porque uma
sensação de comichão se acendeu em seu peito como se o teto
lhe tivesse caído em cima. Santo Cristo, não esperava
encontrá-la ali. Na realidade não esperava encontrá-la em
nenhuma parte. Dez anos. Tinham passado dez anos desde
que se encararam pela última vez. Evidentemente, conhecia
todos os rumores sobre ela. Não podia ocultar-se que aquela
mulher desfrutava da notoriedade e do espetáculo…. o que
não deixava de o surpreender, porque ele a recordava como
uma pessoa reflexiva e, humm, tímida.
Mas claro, isso é porque na realidade nunca tinha
chegado a conhecê-la de verdade. O escândalo que se deu
quando ainda era lady Margaret, unido ao comportamento
que tinha mostrado desde que acabou o período de luto
depois da morte de seu marido o deixavam muito claro.
Simon estava tão surpreso que ficou sem fala, de modo
que se limitou a olhar. Certamente, a julgar por seu aspecto,
os anos tinham tratado bem lady Hawkins. De seu chapéu se
sobressaíam algumas mechas negras, e suas delicadas feições
quase reluziam pelo frio. Tinha a pele cremosa, sem a mais
leve imperfeição, e uns olhos verdes que falavam dos pastos
irlandeses de seus ancestrais. Enquanto a olhava sua boca
generosa esboçou um leve sorriso. Sim, Simon recordava
muito bem a beleza e a simplicidade daquele sorriso, e as
coisas que tinha chegado a fazer só para vê-lo.
Houve um tempo em que teria movido céu e terra para
fazer aquela mulher feliz. Tinha sido tão, tão idiota. A ira
revolveu suas vísceras quando recordou sua infidelidade…
mas a apartou em seguida, porque era uma ira absurda.
Depois de tudo, tinham passado dez anos.
— Lorde Winchester, quanto tempo-ouviu que ela dizia
em tom tranquilo e educado.
Ele inclinou a cabeça com rigidez.
— Lady Hawkins. É um prazer vê-la.
Mas inclusive ele mesmo se deu conta de quão falsas
soavam suas palavras.
Ela não respondeu, e se fez um incômodo silêncio.
Maldição, não sabia o que dizer. Sentia a língua e os pés
cravados ao chão.
— Você vai comprar alguma gravura? — Quint
perguntou finalmente.
A mulher se aproximou do mostrador, sua cabeça mal
chegava ao ombro de Simon.
— Já o fiz na semana passada. Deixei-o para que
emoldurassem e vim recolhê-lo. E você?
— Hoje é Winchester quem compra.
Lady Hawkins se voltou e seu olhar inquisitivo topou
com o dele. Resultava difícil não reparar na expressão de
inteligência daqueles olhos, tão familiar e ao mesmo tempo
misteriosa. Esclareceu-se garganta.
— Comprei uma coleção de aquarelas de pássaros.
— Seriamente?
— Certamente, milady — confirmou a proprietária. — As
dezenove gravuras do Lemarc. O senhor comprou todas.
— Oh. Você desenvolveu um novo interesse pela
1
ornitologia , milorde?
O som da voz de lady Hawkins, brincando com aquele
tom rouco e único, fez com que a pele arrepiasse. Não
pretendia responder de um modo tão visceral, mas não pôde
evitar. Durante os meses que passaram juntos ela sempre
brincava e o fez rir como nunca antes em sua vida. Por isso
quando a perdeu sua ausência lhe foi tão difícil.
Fazia o falecido lorde Hawkins rir também? E os outros
homens de seu passado?
— Quero dizer pássaros — ela disse atraindo de novo sua
atenção. — Perguntava se lhe interessam os pássaros.
— Mais as pássaras — Quint murmurou, e lady Hawkins
riu baixo.
— Sei bem o que é a ornitologia — Simon respondeu por
fim. — E embora não posso dizer que seja um perito, de
repente sinto uma grande fascinação pelos pássaros. E você,
milady?
Ela se voltou para olhar alguns objetos expostos na
vitrine.
— Oh, não, temo que não distinguiria um pato de um
ganso.
— Visitou alguma das outras exposições de arte
recentes? — Quint perguntou.
«Outras?», Simon pensou. Definitivamente Quint tinha
esquecido de mencionar que se encontrara com lady Hawkins.
O que era bem estranho, posto que estava ao corrente do que
tinha acontecido entre eles dois. Embora tampouco lhe
importasse muito. Não, certamente que não.
— Não tive tempo — ela replicava naquele momento. — E
você, comprou ao final o quadro que esteve admirando na
exposição do Waterfield?
— Não, não me interessava especialmente adquiri-lo —
Quint admitiu. — Só estava tentando deduzir como o artista
tinha conseguido aquele tom particular de amarelo. Nunca
tinha visto um amarelo tão brilhante.
— O pigmento se consegue a partir de um metal
chamado cádmio. Justamente tinha lido no que consiste essa
técnica antes da exposição.
— Extraordinário. Devem usar uma solução ácida… — e
sem deixar de murmurar o homem tirou do bolso um caderno
de notas e um lápis e se dirigiu para a porta escrevendo umas
notas furiosas.
— É bom ver que algumas coisas não mudam-lady
Hawkins disse. — Parece que lorde Quint segue sentindo-se
totalmente absorto pelo que seja que faça.
— Não sabia que você e Quint eram tão amigos.
Ela escrutinou seu rosto.
— Sim, bom. Suponho que nem todo mundo me deu as
costas.
Embora lady Hawkins só murmurou aquilo baixo, para
Simon pareceu um comentário um tanto estranho. Era ela
quem tinha escolhido, anos atrás, e sua eleição foi Davenport,
o atual lorde Cranford. Certamente, foi má sorte que não se
saísse bem; sua reputação sofreu um forte reverso com
aquilo. Mas sem dúvida era consciente das possíveis
consequências quando arriscou tudo para flertar com o
Davenport. Então como podia lhe surpreender qualquer coisa
do que tinha acontecido?
— O senhor deseja a fatura?
Simon se voltou sobressaltado para a senhora McGinnis,
de quem se esqueceu por completo. A anciã esperou com
paciência sua resposta, mas então lady Hawkins se moveu e
sem querer voltou a arrebatar a atenção do cavalheiro quando
se afastou para contemplar um quadro que havia na parede
do fundo. Simon sabia que não devia permanecer ali, que
devia aproveitar a ocasião para partir e pôr tanta distância
quanto pudesse entre os dois… mas não podia. Precisava ir
atrás dela, falar-lhe. «Com que fim?», pensou repreendendo-se.
Para conversar educadamente do tempo? Por Deus, era um
perfeito idiota.
— Sim, quero a fatura — ouviu-se responder à senhora
McGinnis.
A proprietária desapareceu na sala dos fundos e Simon
se aproximou de lady Hawkins.
— Parece que entende de arte.
— Um pouco. Estudei aqui e lá estes últimos anos. — A
mulher encolheu os ombros e o olhou de cima a baixo com
descaramento, passeando o pálido verde de seus olhos por
sua figura. — Você está muito bem, embora não esperava
outra coisa.
Algo em seu tom o fez franzir o cenho.
— O que significa?
— Significa que passou muito tempo e… não sei, tem um
ar mais aristocrático do que lembrava.
— Aristocrático? — Muito ao seu pesar, Simon sorriu. —
Sou um conde, lady Hawkins. E o era também quando…
Não pôde terminar a frase, as palavras entupiram a
garganta. Soube alguma vez? Chegou a ter sequer uma ideia
do que sentira por ela? Deus, houve uma época em que só em
ver a curva de seu pescoço o fazia sacudir-se.
Em seu momento nunca deixou de sonhar seduzindo-a,
mas decidiu esperar que estivessem casados. Foi um idiota
por pensar que ela sentia o mesmo.
— Como está sua mãe? Guardo uma agradável
lembrança dela-lady Hawkins perguntou.
Simon trocou o peso sobre seus pés visivelmente
incômodo. Desejava ao mesmo tempo pôr-se a correr e não
partir nunca dali.
— Está muito bem, obrigado. E a sua?
— Lamento dizer que sua saúde não é boa. Mas nos
arrumamos com isso.
— Sinto muito, Maggie. — O nome lhe escapou sem
querer.
Ela tragou, mas sua expressão não se alterou, seu olhar
seguia cravado nos quadros.
— Não há necessidade de desculpar-se, Simon — disse
correspondendo à familiaridade. — Se uma coisa aprendi
sobre mim mesma nestes anos é que me dou muito bem em ir
em frente.
— Sim, isso ouvi.
Ela voltou a cabeça para olhá-lo.
— Ah, sim?
— Você está sempre na boca de todos.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Pois eu não faço mais que ouvir falar de suas
façanhas no Parlamento, lorde Vinochester.
Ao ouvir aquele nome Simon ficou rígido. Lady Hawkins
tinha visto a caricatura da vitrine, sem dúvida. Fazendo um
esforço para controlar o impulso de aproximar-se e rasgar
aquele desenho, comentou entredentes:
— Temo que exageram.
— Sim, mas é o que melhor faz a alta sociedade.
Não podia discutir sobre aquilo.
— A estas alturas esperava ter podido contar com sua
presença em alguma de minhas festas — ela seguiu dizendo.
— Não recordo ter sido convidado — ele replicou.
— Hum. É isso o que o retém? Que não tem convite?
Simon compreendeu que estava rindo dele. Zombando
dele. Mas havia algo mais… a rigidez dos ombros e os lábios
franzidos sugeriam que estava furiosa. Deu-lhe um par de
voltas tentando encontrar um sentido.
— Desculpe-me, aqui tem sua fatura, milorde — a
senhora McGinnis exclamou do mostrador.
Maggie o deixou plantado e foi ao outro lado da loja, e
não lhe restou mais que aproximar-se do mostrador para
recolher sua fatura. Colocou o pequeno pedaço de papel no
bolso.
— Boa tarde, lady Hawkins — disse às costas de Maggie.
Ela não se voltou, limitou-se a agitar a mão.
— Tenha uma boa tarde lorde Winchester.
Uma vez fora, Simon encontrou Quint ainda rabiscando.
Enquanto esperava que seu amigo acabasse não pôde evitar
voltar-se para a loja, e tratou de convencer-se de que o fazia
para estudar uma vez mais a infame caricatura… embora na
realidade seus olhos se foram diretos à lady Hawkins.
— Viu-a e não me disse nada — comentou com tom tão
despreocupado quanto pôde.
Quint levantou a cabeça imediatamente.
— Não pensei que te importasse.
— E não me importa. Só estou surpreso.
— Claro-seu amigo disse com voz lenta, e em seguida
voltou com suas notas. — E dizem que eu minto mal.

***

— Já posso deixar de sorrir?


Maggie se sentia como uma idiota com aquele sorriso
falso diante do mostrador.
— Ainda não, milady. Os cavalheiros ainda estão aí fora,
olhando para cá.
— Alguma sugestão? Sinto-me como uma idiota plantada
aqui bancando a tola.
— Por que não passeia pela loja e eu vou lá atrás como
se fosse procurar seu quadro?
A senhora McGinnis lhe lançou um olhar de desculpa e
escapou à sala dos fundos. Seguindo a sugestão da mulher,
Maggie se aproximou do montão de tecidos que descansavam
apoiados contra a parede e tratou de passá-los com calma,
embora seu coração pulsasse mais depressa que as asas de
um pardal. Simon tinha estado ali contemplando sua gravura.
O que tinha sentido ao olhá-la? Humilhação? Ira?
Sentiu que a satisfação a dominava.
Ele não sabia nada, é claro. Como ia pensar que ela era a
responsável pelas caricaturas de lorde Vinochester? Só três
pessoas conheciam suas aptidões: sua irmã, seu mentor,
Lucien, e a senhora McGinnis. E nenhum jamais revelaria seu
segredo.
Senhor, quando Simon a tinha olhado com aquele
sorriso tão íntimo e juvenil, a sensação de calor a tinha
percorrido dos pés à cabeça. Com certeza tinha aos seus pés
todas as mulheres de Londres, como tinha tido a ela em outro
tempo.
Mas nunca mais.
Sim, tinha sido bastante inocente para confiar nele.
Inclusive amá-lo. Mas já não era idiota, nem ingênua. Agora
era mais preparada. Mais forte. Era uma pessoa distinta.
Mas mais que aquela paquera, o que mais lhe tinha
incomodado era que falasse como se não tivesse nada pelo
que desculpar-se. Como se não lhe tivesse dado as costas
quando mais o necessitava.
De tudo o que tinha acontecido desde aquele escândalo,
o que mais lhe tinha doído era a traição do Simon. Que era o
motivo pelo qual lhe agradava tanto humilhá-lo publicamente.
Agora conhecia sua reputação, era um líder respeitado e
poderoso do Parlamento. Nunca estava entre os que perdiam.
Dizia-se que era um homem justo e inteligente, e suas
travessuras da juventude tinham ficado esquecidas.
Mas ela não tinha esquecido. Como podia esquecer
quando as fofocas de sua queda a seguiam onde ia?
«A rameira meio irlandesa.»
Ao princípio não pôde evitar sentir-se irritada por aquele
apelido, sobretudo porque as damas jamais se incomodavam
em baixar a voz para dizê-lo. Mas com os anos se acostumou
e tinha aprendido a usar aquilo em seu favor. Quando se cai,
aprende a se levantar ou a ficar no chão… e Maggie não tinha
intenção de permitir que a alta sociedade a pisasse. Não
senhor, se fosse o caso seria ao reverso.
Bom, possivelmente não poderia os pisar… mas os faria
pagar pelo que lhe tinham feito, isso sim. Por sorte, a
popularidade do Lemarc lhe dava o foro que necessitava para
denunciar a hipocrisia da sociedade londrina. Lucien, seu
amigo, sempre dizia que os artistas deviam utilizar a arte para
canalizar a dor e o sofrimento, mas ela tinha se obstinado à
sua raiva durante muito tempo.
— Já se foram, milady.
Era a senhora McGinnis, que nesse momento voltava
com um pacote marrom nas mãos.
— Menos mal. — Maggie levou uma mão ao peito e por
pouco não cai de puro alívio. — Quase morro quando entrei e
o vi aqui. O que queria?
— A caricatura, é claro. Tentou me subornar para que
lhe desse o nome real do Lemarc. E como não o conseguiu
quis comprar a caricatura ao preço que fosse.
— Ao preço que fosse? Bom, lamento havê-la privado de
uma venda. Imagine o dinheiro que conseguiria se
pudéssemos revelar a verdadeira identidade do Lemarc.
A senhora McGinnis meneou a cabeça.
— Se o fizéssemos, sem dúvida sairia perdendo, milady.
É o mistério o que os atrai até aqui, se não lhe importar que o
diga, e o talento que você tem faz com que comprem tudo o
que desenha. As aquarelas de pássaros eram o último que
ficava. — Esticou o braço e lhe deu uns tapinhas na mão. —
E faria qualquer coisa por você. Certamente não há dinheiro
suficiente no mundo para me fazer trair nosso segredo.
Maggie apertou os dedos da mulher.
— Obrigada. Sua lealdade significa muito para mim.
— Sou eu quem deve lhe agradecer. Se não fosse por
você ainda estaria no Little Walsingham, sofrendo os golpes
do demônio com quem me casei. Devo-lhe tudo, porque você
me deu o dinheiro e as obras que necessitava para abrir esta
loja. E isso não esquecerei.
— Então nos salvamos uma à outra. Sem sua amizade
eu não teria sobrevivido.
No povoado as outras mulheres sempre olharam com
espanto à escandalosa jovem que se casou com o velho e rico
barão. Não lhe tinha sido fácil fazer amigas.
A senhora McGinnis riu baixo e se afastou para enxugar
umas lágrimas.
— Que belo par, não é? Bom, tudo aquilo passou. Olhe-
se agora… toda Londres fala de você!
As palavras de Simon voltaram para sua mente. «Você
está sempre na boca de todos.» E se perguntou o que teria
ouvido dizer dela. Fosse o que fosse, seguramente se alegrava
de ter tomado a decisão que tomou há dez anos.
— Bom, apesar de tudo estou muito orgulhosa do meu
trabalho. Falando de trabalho, por que acredita que lorde
Winchester quis comprar os pássaros?
A proprietária encolheu os ombros.
— Não saberia lhe dizer. Seu amigo, lorde Quint,
convenceu-o. Retiraram-se a um canto para falar em privado.
E então lorde Winchester aceitou comprá-los sem sequer
olhá-los, e pediu que fossem enviados o domicílio de lorde
Quint.
Maggie franziu o cenho. Tinha-os comprado sem vê-los?
Mandou-os à casa de lorde Quint? Todo aquele assunto era
muito estranho e detestava não saber por que faziam as
coisas. Uma qualidade muito irritante, mas que a convertia
em uma aguda observadora da natureza humana, o que à sua
vez resultava em desenhos mais perspicazes e provocadores.
Apesar de sua obstinação por encontrar sempre uma razão,
sua irmã sempre lhe dizia que não desse tantas voltas às
coisas. Mas não podia evitar.
— Poderia me dizer o que lhe fez o conde para que
apareça em tantos desenhos do Lemarc?
Maggie agitou uma mão.
— Não são tantos. Prinny, o príncipe regente, aparece em
muitos mais e jamais o vi em pessoa.
— Não me engana. Conheço-a muito bem. Converteu
lorde Winchester em um bobo e tem que haver uma boa razão
para isso.
Oh, sim. Certamente havia.
A senhora McGinnis a estudou com atenção.
— Recordo-o dos tempos da minha apresentação em
sociedade, — Maggie disse por fim — e é algo que prefiro
esquecer. Espero que lhe tenha cobrado um bom valor pelas
aquarelas.
— É claro. Você ganhará uma pequena fortuna à custa
de lorde Winchester. E então, a que devo a honra de sua
visita?
— Queria lhe dizer que já terminei os desenhos
arquitetônicos e também uma nova caricatura para a vitrine.
Utilizaremos o procedimento habitual para a entrega. O que
lhe parece depois de amanhã?
— Excelente! — A proprietária deu umas palmas. — Vão
encantar os turistas os desenhos de monumentos
arquitetônicos. Há outro assunto que devemos discutir.
Recebi uma carta do Ackermann. Está preparando um livro
de viagens sobre a Escócia e Gales e deseja contratar seus
serviços… os do Lemarc, para as ilustrações.
Rudolph Ackermann, proprietário do Museu de Artes,
publicava livros notavelmente famosos sobre viagens,
arquitetura e jardinagem. A senhora McGinnis levava meses
lhe mostrando os desenhos de Maggie e não tinha deixado de
lhe rogar que contratasse Lemarc para ilustrar algum de seus
próximos livros. Seria um trabalho tedioso, mas seria bem
pago e lhe daria muita publicidade. E, o mais importante, ter
a aprovação do Ackermann não era qualquer coisa; aquele
homem jamais trabalhava com artistas inexperientes ou
vanguardistas. Algo assim poria seu trabalho ao mesmo nível
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que o de artistas consolidados à altura de Rowlandson e
3
Gillray .
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— Pede quase cem aguatintas — a senhora McGinnis
seguiu dizendo ante o silêncio e a estupefação de Maggie. —
Posso lhe dizer que sim?
— Sim! Certamente que sim. Que maravilhosa notícia —
exclamou e esticou os braços para estreitar as mãos da
senhora McGinnis. — Agradeço-lhe que lute tanto por mim.
— Lembro-a que beneficiará a ambas, milady. Entre o
trabalho de Ackermann e seu amigo de Paris logo teremos
Londres aos nossos pés. E possivelmente para o verão
possamos nos permitir uma loja maior na Strand.
— Oh, excelente. Vejo que teve notícias do Lucien.
Lucien Barreau era um dos amigos mais apreciados de
Maggie. Tinha-o conhecido quando estava estudando em Paris
há uns anos, antes que Hawkins falecesse. Lucien tinha sido
seu mentor, tinha lhe ensinado a mover-se no mundo dos
artistas e a tinha ajudado a afinar suas capacidades. O
talento daquele homem era ilimitado, mas se negava a
mostrar sua obra em Paris por medo à rejeição. Entretanto,
depois de uma longa batalha, Maggie o tinha convencido para
que vendesse seus trabalhos em Londres, na loja da senhora
McGinnis.
— Pois sim. Esta mesma semana recebi uma carta dele
em que dizia que tem mais de duzentas gravuras para nos
mandar. A peça que enviou como mostra é destacável. Deseja
vê-la?
— Não é necessário. Conheço bem seu trabalho. O
público devorará seus elegantes desenhos como se fossem de
creme.
— Isso espero. Quer que pendure a nova gravura em
seguida ou prefere que deixe um pouco mais o que temos
exposto agora?
— Deixe-o uma semana mais. Não quereria que lorde
Winchester pense que sua visita a impulsionou a retirá-lo.
Não, deixemos que se corroa uns dias mais.
A campainha da porta soou de novo e três jovens damas
entraram na loja. Eram jovens inglesas de bochechas
gordinhas cujas vestimentas delatavam sua boa posição, e
cujas criadas pessoais ficaram fora as esperando
obedientemente. As jovens foram agarradas pelas mãos e riam
com alegria. Maggie se sentiu como se tivesse cem anos. Ela
tinha sido alguma vez tão inocente, inclusive antes do
escândalo?
— Desculpe-me — a senhora McGinnis se desculpou
antes de correr a atender as recém-chegadas.
Maggie se deslocou para estudar um grupo de pinturas
na parede mais próxima. Sempre animava a senhora
McGinnis a ter peças dos artistas mais au courant; depois de
tudo, não poderia manter a loja só com o Lemarc. Além de
aumentar as vendas, aquilo dava à Maggie a oportunidade de
valorizar o nível da concorrência. Ante ela tinha uma série de
5
novas e bonitas paisagens irlandesas de Mulready . Muito
bonitas, sim, senhor.
— Sabem quem é essa? — Maggie ouviu que sussurrava
uma das jovens às suas costas uns minutos depois, embora o
bastante alto para que chegasse aos seus ouvidos.
Maggie conteve um suspiro e seguiu de costas a elas.
— Chis! — Disse outra.
— Não, quem é? — Perguntou a terceira.
Maggie resistiu à tentação de dar a volta e as vaiar como
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uma górgona com a cabeça de serpentes. Embora seria
altamente satisfatório, a senhora McGinnis não gostaria que
afugentasse seus clientes, para não mencionar que podia
fazer com que perdesse uma venda muito necessária. Mesmo
assim, Maggie se manteve firme. Sob nenhuma circunstância
daria àquelas jovens o regozijo de fazê-la fugir. Que
fofocassem quanto quisessem. Não diriam nada que já não
tivesse ouvido.
— … rameira irlandesa.
Um pulo.
— Tem certeza?
— Muita certeza. Vi-a faz uns meses na exposição do
Reynolds. Mamãe nem sequer queria que a olhasse.
«Ou se converteria em pedra», pensou Maggie.
— Espera, não sei de quem está falando. Quem é?
Ouviram-se alguns murmúrios, e então:
— Lady Mary me contou isso tudo, e é amiga de lady
Cranford.
Amélia. Deveria ter imaginado.
A jovem seguiu falando com um tom mais pausado e
Maggie só pôde escutar alguns fragmentos soltos do que dizia.
— …apresentação em sociedade… a metade dos homens
da cidade. Lady Cranford a pegou… seu prometido naquele
tempo… naquele tempo… escândalo… casada com lorde
Hawkins.
Maggie podia imaginar as partes que faltavam e a
surpreendeu comprovar que, apesar dos anos, as palavras
seguiam doendo. Aquela maneira de contornar os fatos, a
terrível injustiça daquelas mentiras a revoltava. A única
verdade que havia em tudo aquilo era a última parte, a do
escândalo e seu matrimônio com Charles. Engoliu o nó de
ressentimento que lhe tinha formado na garganta.
— E está segura de que é…?
Maggie podia sentir seus olhares sobre suas costas.
— Sem dúvida.
— Mamãe me disse que não me dedicasse a perambular
sozinha nas festas, porque senão poderiam pensar que sou
como ela.
— Ninguém poderia pensar tal coisa, tola. Aposto que
isso se leva no sangue. O que se podia esperar de uma suja
irlandesa como…?
Maggie girou sobre seus calcanhares para as olhar. As
jovens recuaram, surpreendidas, e Maggie se assegurou de
olhar a cada uma aos olhos. Nenhuma disse uma palavra e,
como era de esperar, nenhuma lhe sustentou o olhar. Uma a
uma voltaram-se para o mostrador, caladas como pinturas.
Nesse momento a senhora McGinnis retornou da sala dos
fundos com um tecido nas mãos. Quando viu o rosto de
Maggie arqueou uma sobrancelha.
Maggie meneou a cabeça e se aproximou do mostrador.
— Senhora McGinnis, agradeço-lhe que me tenha
ajudado. Acredito que voltarei mais tarde, quando a loja não
estiver tão… lotada.
A mulher respondeu com uma expressão claramente
preocupada em seus olhos.
— Como quiser, milady. Foi um prazer. Sempre é um
prazer ajudá-la.
Maggie saiu da loja com a cabeça bem alta. O ar gélido
golpeou sua pele, embora mal notou, tal era a ira que corria
por suas veias. E como não estava disposta a escapar como
uma covarde, aproximou-se para olhar a vitrine. A senhora
McGinnis era um gênio dispondo os quadros e gravuras para
atrair o olhar dos clientes. Quando vivia em Little
Walsingham a mulher não sabia grande coisa de arte, mas
algumas pessoas têm um dom para a beleza. A senhora
McGinnis gostava do que gostava e resultava que os assíduos
estavam acostumados a gostar também.
Deu um suspiro. Na verdade, era absurdo que tivesse
permitido que aquelas três aspirantes a víboras a irritassem
daquela maneira. O objetivo das fofocas era precisamente
esse, provocar uma reação, e como forma de vingança, Maggie
tratava de não lhes dar nunca essa satisfação. Desta vez não
o tinha obtido, possivelmente pela inesperada visita de Simon.
Por Deus, jamais esperaria encontrá-lo ali. Talvez em alguma
de suas reuniões ou em uma exposição… em algum lugar
onde pudesse estar acautelada e tivesse tempo de preparar-
se.
A caricatura do Vinochester lhe chamou a atenção. Bem
na frente, em um lugar destacado da vitrine. A imagem a fez
sorrir, seu primeiro sorriso de verdade em todo o dia.
Possivelmente fosse hora de dar outra festa.
Capítulo 3
Simon chamou com rudeza à porta da enorme casa de
Charles Street.
— É muito provável que nos mandem embora.
O duque de Colton soprou.
— Nunca em toda minha vida me negaram a entrada a
uma festa dissoluta.
A animação do interior chegava até à rua na forma de
um zumbido contínuo. Além das vozes ouviam-se também as
notas de um quarteto de corda. Simon só podia imaginar o
que estariam pensando os vizinhos.
— Apesar de sua ilustre reputação,-a duquesa de Colton
assinalou com secura — nós recebemos um convite. Então me
atreveria a dizer que as probabilidades de que nos neguem a
entrada são bastante escassas.
— Um convite? — Simon lhe lançou um olhar. — Não
tinham mencionado.
Júlia encolheu os ombros.
— Nós recebemos convites para quase tudo, Simon,
trate-se do evento que for. Como estou segura de que
acontece também com você. É claro, até agora nunca tinha
tido motivo para ir a nenhuma das festas de lady Hawkins.
— Tampouco te deixaria ir a nenhuma sem mim — Colt
disse.
— Tampouco poderia impedir-me — ela replicou. — Além
disso, esta noite estamos aqui pelo Simon.
Simon engoliu um gemido. Ele não queria companhia
naquele mister, mas Júlia tinha insistido quando se inteirou
de seus planos. A visita podia muito bem resultar uma bonita
perda de tempo se Maggie se negasse a falar com ele. Durante
a semana passada lhe tinha enviado quatro notas em que lhe
pedia que o recebesse, e ela se negou. Por isso, quando se
inteirou de que dava uma festa, decidiu abordá-la. Ali
dificilmente poderia evitá-lo.
A única coisa que queria era lhe pedir um favor, embora
inclusive lhe custava aceitar uma desculpa tão débil. Desde
que se encontraram na loja de gravuras da senhora McGinnis
sentia a necessidade de vê-la, de falar com ela, como um
desagradável comichão na pele. Era curiosidade, dizia a si
mesmo, nada mais. Essa noite satisfaria essa necessidade e
não voltaria a pensar nela. Embora, claro está, existia a
remota possibilidade de que pudesse o ajudar, e isso seria um
estímulo acrescentado.
A porta de madeira se abriu e viram uma mulher mais
velha e gordinha. A mulher os avaliou com rapidez e abriu a
porta para que passassem. Depois de pegar seus objetos
pessoais guiou-os pela escada de mármore. Simon a seguiu.
O interior da casa estava muito além de ser ostentoso,
embora estava muito bem arrumado, conforme pôde ver.
Quadros de bom gosto nas paredes. Opulentos tapetes.
Castiçais de ouro. Nada que pudesse ofender os sentidos.
Simon não sabia muito bem o que esperar, mas tinha a
esperança de encontrar algum indício que lhe permitisse
reconciliar a jovem que ele conhecia com a mulher que era
agora. E embora não imaginasse sua casa como um bordel,
uma decoração tão correta tampouco encaixava com ela.
— A minha senhora não gosta dos formalismos — disse a
governanta por cima do ombro. — Não gosta que anunciem os
convidados. A festa é aí.
Abriu de par em par duas portas duplas e Simon passou
ao salão de baile… e parou em seco.
Em sua vida nunca tinha visto nada igual. A sala tinha
sido transformada em uma opulenta vitrine de temática
marinha e vegetação. Grinaldas rodeadas de corda dourada
penduravam do teto e das colunas, enquanto uns volumosos
barris de madeira descansavam agrupados nos cantos, alguns
com taças vazias em cima. Várias redes de pescar de
cânhamo cobriam uma parede, com réplicas de várias
criaturas marinhas presas ao vigamento. Entretanto, o local
destinado ao baile ocupava a maior parte do espaço, e Maggie
a tinha decorado a propósito para a ocasião. Intrincados
desenhos de sereias nuas e robustos marinheiros feitos com
gizes de brilhantes cores percorriam o chão em uma
representação decididamente arriscada.
Uns poucos convidados conversavam e davam sorvos ao
seu champagne aos lados da sala, mas a maioria estava
reunida ao fundo. Simon não saberia dizer o que estavam
olhando.
— Estou impressionado — Colt murmurou. — Recordo
ter estado em uma festa parecida em um carnevale dava
7
Venezia . E acabamos todos na lagoa a altas horas da
madrugada.
— Duvido que foi pior que a vez que nos pegaram na
fonte, em Cambridge — Simon assinalou.
— Éramos uns moleques — Seu amigo disse com
saudade, e então se afastou com Júlia pelo braço em direção
a uma mesa coberta de taças de champagne.

***

Quando Maggie terminou o período de luto, oito meses


atrás, começaram a circular histórias sobre suas festas pouco
convencionais. Eram pouco frequentes e modestas, mas
muito populares entre a parte masculina da nobreza.
Demônios, como no dia depois de uma dessas festas os
cavalheiros não deixavam de cruzar risadinhas no exclusivo
clube White’s. Evidentemente, as mulheres respeitáveis
jamais iam, como tampouco as damas solteiras, mas isso
seguia deixando via livre ao grupo menos afetado de viúvas e
esposas.
Quando Simon ouvia os homens falar da depravação das
festas às que iam ficava com os nervos à flor da pele.
Realmente aquela mulher estava decidida a converter-se em
um espetáculo? Depois do escândalo casou-se em seguida
com o Hawkins, com muita discrição, e virtualmente
desapareceu até à morte do marido, depois do qual aquele
demônio tinha retornado em seguida a Londres para
revolucionar tudo.
Simon reparou nos rostos dos homens que tinha mais
perto. Reconhecia quase todos. Eram homens com os quais
bebia e apostava. Homens com os quais debatia na Câmara
dos Lordes. Qual deles seria seu amante? Jogou às suas
costas a taça de champagne e pegou outra. Possivelmente
tinha sido um engano ir ali.
— O que crê que está acontecendo ali? — Colt perguntou
assinalando com o gesto a multidão aglomerada em um
canto.
— Nem ideia, mas eu gostaria de ver nossa anfitriã.
Com sua segunda taça de champagne na mão Simon se
dirigiu para o grupo de apertados corpos do fundo, mas não
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demorou para ser interceptado por uns jovens whigs .
Demorou vinte minutos em desfazer-se do grupo, depois de
conversar de diversos temas, da inquietação posterior à
batalha de Peterloo até as especulações sobre se o regente
cercaria um processo de divórcio com a princesa de Gales.
Simon viu Júlia e Colton entre as pessoas e se
aproximou para ver o que tinha cativado tanto a todo mundo.
Em um pequeno lago havia três jovens damas embelezadas
como sereias e sentadas sobre umas rochas. Cada uma usava
uma peruca de cor igual a de suas caudas, azul, vermelho ou
amarelo, e uns colares de pérolas no pescoço. Uma malha
transparente com brilho se atava aos seus braços, ombros e
ventres, e uma tira de tecido lhes cobria os seios. Simon
pensou é que deviam estar congelando-se.
Inclinou-se para perguntar.
— O que é isto?
— Dizem-me que é algum tipo de representação — Júlia
sussurrou. — Estamos esperando começar.
Uma mulher de cabelo negro com uma máscara azul com
plumas se aproximou e deu umas palmas. Simon notou uma
estranha sacudida e uma sensação de tensão na virilha. A
teria reconhecido em qualquer lugar. O vestido foi
confeccionado com várias capas de vaporosa seda azul, e a
saia caía em ondas até o chão. A malha se esticava em torno
de seus pequenos seios e levantava aquelas pequenas
elevações. O mais sedutor era o sorriso, tão radiante que mal
o deixava respirar.
Não tinha intenção de deixar-se arrastar outra vez
àquilo, não, mas tampouco podia evitar fixar-se.
À ordem de Maggie a orquestra começou a tocar uma
animada melodia. Três homens embelezados com toscas
roupas de marinheiro apareceram e entoaram uma popular
canção de marinheiro. Tinham trocado a letra para que fosse
mais irreverente e aludiam aos seios das sereias e sua moral
libertina.
A toada terminou quando os marinheiros morreram pela
rejeição das sereias, e os convidados gritaram a modo de
aprovação. Todos aplaudiam com entusiasmo enquanto os
atores se inclinavam… tanto como pode inclinar uma pessoa
embutida em uma cauda de tecido. Quando os aplausos
terminaram um dos marinheiros correu junto a lady Hawkins,
levantou-a nos braços e foi para o lago. Ela se agarrou em
seus ombros sem deixar de rir quando ele fingiu que ia atirá-
la à água. Todos na sala contiveram o fôlego… salvo Simon,
que estava muito ocupado apertando os dentes.
Finalmente o marinheiro a deixou no chão e ela se tirou
os sapatos e se meteu no lago pouco profundo. A multidão
começou a aclamá-la enquanto ela dava uns passos de
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danças, como uma ondina brincalhona atuando para seu
público. E nesse momento Simon viu com uma claridade
diáfana quão absurdo era que tivesse ido até ali. Aquela
certeza golpeou sua mente com a sutileza de um martelo. Que
demônios fazia naquela festa?
— Eu gosto dela — Júlia murmurou ao seu lado.
— Já vi.
— Você também gostou em outro tempo — ela seguiu
dizendo com os olhos cravados em Maggie. — Ou tenho que
lhe recordar isso?
Não. Recordava-o perfeitamente. Mas fazia muito tempo.
— Esqueci que vocês duas nunca se conheceram. Ela se
apresentou em sociedade no ano que você se casou com o
Colton.
Maggie subiu em uma rocha que uma das sereias
acabava de deixar e fez uma reverência. A sala toda ficou a
aplaudir estrondosamente. Simon também aplaudiu, embora
teria demonstrado mais entusiasmo durante o discurso de
um adversário político.
Entretanto, ninguém pareceu dar-se conta. Maggie tinha
enfeitiçado a todos. Era tão condenadamente formosa que
ninguém ousava desviar o olhar.
— São todos muito amáveis! — Exclamou levantando as
mãos para sossegá-los. — Agradeço às nossas sereias e
marinheiros. E agora vamos dançar!
A multidão dispersou e se dirigiu em sua maioria em
busca de uma taça de champagne enquanto a orquestra
começava a tocar uma valsa. Uns poucos convidados
rodearam Maggie, mas Simon não se afastou. Colton trouxe
mais champagne e esteve conversando com sua esposa
enquanto Simon esperava.
Depois do que pareceu uma eternidade Simon viu sua
oportunidade. O grupo que rodeava Maggie se reduziu, assim
aproveitou para aproximar-se. Ela levantou a vista, seus
olhos verdes se aguçaram atrás da máscara azul, ficou rígida.
Umas plumas azuis de pavão giraram quando se voltou para
desculpar-se.
— Lorde Winchester — disse quando seus amigos se
foram. — Isto sim que é uma surpresa.
— Boa noite, lady Hawkins.
Fez as obrigadas apresentações e, apesar de seu evidente
desagrado pela presença de Simon, Maggie se desfez em
cuidados com os legendários duques de Colton.
— Alegro-me tanto que tenham vindo — Maggie
comentou com cortesia. — Sempre quis conhecê-los.
— O mesmo digo eu — Júlia replicou. — A atuação foi
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inspiradora, e eu adoro seu vestido. É Anfítrite ?
11
— Não, sou a humilde náiade Dafne .
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— Oh, uma bonita caçada para o Apolo — Colton
comentou. — Uma mulher formidável onde estiver.
— Todas as mulheres são formidáveis, sua excelência…
ou ainda não sabe?
— Sabe muito bem. Tenho lhe dito que nunca deve
subestimar uma mulher — Júlia disse, e voltou o olhar ao seu
marido desafiando-o a contradizer suas palavras.
— Bem certo, duquesa — o duque disse com uma careta.
— Quem fez os desenhos em giz? — Júlia assinalou com
o gesto o local do baile. — São simplesmente extraordinários.
— Obrigada. Um artista conhecido meu realizou-os .
O grupo se voltou para estudar os desenhos que naquele
momento estavam sendo pisoteados pelos bailarinos.
— Magníficos — Júlia comentou. — É quase uma pena
arruiná-los.
Simon lançou ao Colton um olhar por cima da cabeça de
Júlia. A vantagem de que se conhecessem desde meninos era
que não necessitavam de palavras para comunicar-se. Colton
ofereceu o braço à sua mulher.
— Com desenhos ou sem eles, dançamos?
Os lábios de Maggie se contraíram quando os duques se
foram.
— Você orquestrou muito bem, lorde Winchester. Os
duques obedecem às suas ordens. Tem o Parlamento aos seus
pés. Estou impaciente por presenciar seu próximo triunfo.
Quer que reúna os presentes para que olhem?
— Não fui muito sutil, sei, mas desejava falar com você.
Se não houvesse se obstinado em não me ver esta semana…
— Sim, não tenho nenhuma dúvida de que este é o
último lugar onde quereria estar esta noite.
Totalmente certo, embora jamais admitiria.
— Equivoca-se. Na realidade estou passando muito bem.
— Então terei que considerar esta festa um êxito.
— Pelo que ouvi, todas as suas festas são um êxito. É
certo que uma vez trouxe tigres de verdade?
Os olhos verdes de Maggie cintilaram como esmeraldas.
— Um exagero. Foi só um, e era muito dócil. Acredito
que a maioria dos convidados ficaram decepcionados.
Como tantas outras vezes, a peculiar beleza daquela
mulher o deixou perplexo. Cabelo muito negro e brilhante.
Pele cremosa sem uma só mancha nem imperfeição. Lábios
rosados e carnudos. Não havia outra como Maggie na Terra.
Soube na primeira vez que pôs os olhos nela… como tinha
acontecido a muitos outros homens, se os rumores sobre
suas numerosas aventuras fossem verdade.
— A duquesa tinha razão. Esta noite você está realmente
formosa.
Seu tom era um pouco mais cortante do que deveria para
fazer uma adulação, e ele mesmo esteve a ponto de fazer uma
careta.
Ela o olhou com expressão meditativa.
— Obrigada, mas acredito que morrerei se não puder
trocar estas roupas molhadas.
E dito isto recolheu as saias do vestido e lhe mostrou o
tecido empapado. Simon ficou paralisado ante a visão da
esbelta perna de Maggie coberta de seda transparente e
molhada. Seu pulso se acelerou. Deu-lhe vontade de abraçá-
la, de senti-la, de lhe passar a língua pela ligeira elevação do
tornozelo. E isso definitivamente seria um engano
monumental, embora o desejo nunca respeitasse a razão.
Apesar de tudo, as palavras que brotaram de sua boca
lhe surpreenderam.
— Isto me recorda a vez que lhe ensinei a patinar sobre o
gelo. Recorda-o? No Serpentine. A barra de seu vestido se
molhou e quase morreu de frio.
Ela o olhou pestanejando.
— Não pensava nesse dia há muito tempo. Foi um dia…
agradável.
— Sim, foi. — A necessidade de tocá-la se fez mais
intensa, como uma estranha dor provocada pela agradável
lembrança. — Quer dançar comigo?
— Oh, eu nunca danço.
— Por quê? Gosta de dançar. Ou gostava.
Ela encolheu um ombro.
— Dançar me aborrece soberanamente. Além disso, é o
que todo mundo faz em uma festa respeitável.
— Oh, por Deus — Simon exclamou com voz lenta.
Ela apertou os lábios.
— Zombe se quiser, mas já não sou a jovem que
conheceu… e não tenho nenhuma vontade de voltar a sê-lo.
O momento se prolongou e Maggie compreendeu com
humilhante amargura que havia dito mais do que pretendia.
A nobre testa do Simon, oitava geração, enrugou-se enquanto
considerava suas palavras. Demônios. Bom, já não podia
retirar. Por desgraça, além da criatividade, também tinha o
mesmo temperamento que seu pai, e Simon tinha conseguido
zangá-la por causa de uma dança, nada menos.
Sinceramente, a quem importava se ela dançava ou não?
Tinha falado além da conta. A culpa era do Simon,
porque era tão bonito com aquele aspecto aristocrático e seus
cabelos loiros; bem podia ter sido esculpido a partir de uma
estátua de mármore de Roma. Sua figura alta e elegante
embelezada com aquele casaco azul escuro e calça
combinando atraía os olhos de todas as mulheres da sala. E
ver que o pulso lhe acelerava daquela maneira só olhando-o a
irritava sobremaneira, porque justamente ela não devia
permitir-se algo assim.
Por que tinha mencionado aquela vez que saíram para
patinar? Ela preferia não recordar o Simon de sua
apresentação em sociedade, aquele homem encantador que
parecia capaz de conseguir qualquer coisa. Aquele dia tinha
sido tão amável, tão solícito, tinha lhe dedicado toda sua
atenção. Tinham rido e em mais de uma ocasião lhe havia
dito quanto admirava sua coragem.
Mas muitas coisas tinham mudado entre eles. Muitas
para voltar atrás, certamente.
Simon abriu a boca… sem dúvida para fazer alguma
pergunta ou comentário que não tinha nenhuma vontade de
ouvir, de modo que disse:
— Queria falar comigo?
Ele fechou a boca de repente.
— Aqui não — respondeu ao cabo de um momento. —
Não, virei vê-la manhã.
— Virá.
— Sim. As respostas que procuro é melhor as discutir
em privado.
Seriamente? Então não havia dúvida de por onde iriam
as perguntas. Sabe Deus que as tinha ouvido centenas de
vezes nos últimos dez anos.
Um pequeno nó de decepção se formou em seu peito.
Não esperava aquilo, embora devesse fazê-lo. Simon não era
distinto aos outros. Já não tinha aprendido quando lhe deu
as costas depois que o senhor Davenport, agora visconde de
Cranford, difundisse aquelas sujas mentiras? Em outro tempo
tinha amado Simon com loucura, e lhe tinha demonstrado
que não era digno de um sentimento tão intenso e sincero.
Entretanto, ouvi-lo pronunciar as palavras abriria uma
ferida que tinha tratado com todas suas forças de fechar.
Tinha que encontrar a forma de dissuadi-lo. Não lhe dar
atenção não tinha surtido efeito. Nem o rejeitar. Mas havia
outra forma.
— Você supõe que estarei em casa para receber visitas.
Mas possivelmente tenha planos… ou possivelmente estarei
ocupada com outro convidado. Depois de tudo, a festa acabou
de começar.
A expressão de Simon mudou, endureceu, tal como
Maggie esperava. Mas sua satisfação durou pouco, porque
contra-atacou em seguida.
— Se for o caso, possivelmente o cavalheiro poderia lhe
conceder uns minutos para que possa receber um amigo.
Maggie esteve a ponto de rir.
— Amigo? Simon, não tenho nada que lhe oferecer nem
que lhe dizer. A ideia de que possa haver uma amizade entre
nós é ridícula por muitos motivos, e o menos importante deles
é sua laureada carreira política. O que pensarão do poderoso
conde de Winchester com aquela meio irlandesa…?
— Não o diga — ele disse para sua surpresa.
— Que não diga o quê? Rameira? — Uma risada seca e
quebradiça escapou de seus lábios. — Vamos, já sabe o que
todos dizem de mim. Temo que não tem solução. E se uma
coisa aprendi com os anos foi que é melhor aceitar seu
destino que tentar mudá-lo. E agora se me desculpar, tenho
que trocar de roupa.
Maggie abriu a porta de sua habitação com mais ímpeto
do que pretendia. Rebecca, sua irmã, levantou a vista de sua
cama, onde estava sentada lendo.
— Céus! O que te acontece?
Maggie foi até a campainha do serviço e puxou a corda.
Necessitaria da ajuda de Tilda para colocar um novo vestido.
— Coloquei-me no lago e molhei a barra do vestido.
— Seriamente? Oh, quanto eu gostaria de havê-lo visto.
Maggie sorriu à sua irmã. Aquela era uma velha
batalha… uma que sua Becca nunca, nunca ganharia.
— Sabe muito bem que minhas festas não são para
damas respeitáveis. Se descesse arruinaria sua reputação,
que devo dizer, já se ressente pelo fato de que seja minha
irmã. Já é bastante mau que insista em mandar seu marido.
Becca elevou o queixo.
— Alguém tem que te vigiar. Marcus jamais deixaria que
te acontecesse nada.
— Com o que se preocupa exatamente? Que fique sem
champagne e haja alguma briga?
Embora sempre ria abertamente do afã de amparo de
Becca, no fundo aliviava seu coração enfastiado.
— Ria se quiser, mas não permitirei que voltem a te
machucar. E agora me diga o que aconteceu para que se
altere assim.
A decepção que viu na careta dos lábios de Simon
quando pronunciou a palavra «rameira» apareceu clara em
sua mente. Becca ia se inteirar de todos os modos, seu
marido contaria, assim melhor acabar o quanto antes.
— Winchester está aqui.
A boca de Becca formou um círculo perfeito de
consternação.
— Céu santo. E por que veio depois de todo este tempo?
Maggie encolheu um ombro.
— Outro dia nos encontramos na loja da McGinnis.
— De… de verdade? E não me disse isso?
Ouviu-se um contundente golpe na porta e Tilda entrou.
A mulher riu com nervosismo ao ver o vestido de Maggie.
— Isso é o que acontece quando fica a nadar no lago.
Venha comigo, milady.
A maioria das damas jamais teriam tolerado uma
reprimenda de uma criada… mas Maggie não era como a
maioria. E definitivamente, Tilda não era como a maioria das
criadas. No Little Walsingham era a esposa de um açougueiro,
e sempre tinha levado a loja com mão de ferro e eficiência.
Mas seu marido era um bêbado esbanjador e ela acabava
fazendo todo o trabalho. O dia se fazia muito longo e o
trabalho a esgotava fisicamente, e a mulher acabava
extenuada. De modo que quando o marido morreu, como não
tinha filhos, Maggie lhe pediu que trabalhasse para ela.
E não se arrependia. Tilda era um presente do céu. Ela
fiscalizava tudo e isso permitia que Maggie se concentrasse no
que de verdade gostava: a arte.
Maggie seguiu Tilda ao vestiário e deixou a porta aberta
para continuar a conversação com sua irmã.
— Não havia nada que contar. Ele estava comprando uns
quadros, e apenas cruzarmos umas palavras.
— Comprar quadros? Quais? Não seria nenhum de…
— Comprou um punhado de aquarelas do Lemarc —
Maggie disse interrompendo sua irmã.
Tilda certamente conhecia o apelido de Maggie, mas
nunca se sabe quem podia estar escutando. Confiava em
Tilda, certamente, mas não em muitos outros membros de
seu serviço.
O vestido caiu ao chão.
— Venha, passe a este lado — Tilda ordenou.
Continuando, Maggie tirou as anáguas e logo as meias
molhadas.
— A única razão pela qual veio esta noite é porque queria
falar comigo e não respondi às suas notas.
Maggie ouviu que sua irmã chiava de indignação na
habitação do lado.
— E do que quer falar depois de todo este tempo?
Grande descaramento! Espero que lhe tenha dito para ir ao
inferno!
Maggie não pôde evitar rir.
— Com palavras mais educadas, mas sim. Foi mais ou
menos o que lhe disse.
— Já sabe que não me interessam as questões políticas,
mas Winchester se lavrou um nome no Parlamento. E não vai
se rebaixar nunca a lhe dar atenção… não depois do que te
fez. E todo mundo sabe que tem uma amante na Curzon
Street.
Maggie franziu o cenho. Ela sempre evitava as
conversações sobre a vida privada de Winchester, mas ter
uma amante era de rigor entre os pares e políticos. E claro
está, esperava-se que as esposas oficiais e as damas ficassem
em casa e tomassem o chá… sozinhas. Não era isso uma boa
receita para que uma mulher ficasse louca de raiva?
As restrições que se impunham às mulheres na
sociedade eram injustas e intoleráveis. Maggie agradecia por
ter a oportunidade de assinalar tais injustiças mediante seu
alter ego, Lemarc. Essa era a única razão de ser daquelas
13
fêtes , eram sua forma de relacionar-se com a alta sociedade
londrina. Para ela os convites se acabaram fazia muito tempo.
Nem sequer o matrimônio lhe tinha dado respeitabilidade
nem tinha conseguido que se apagassem suas supostas
transgressões, e por isso utilizava aquelas festas
extravagantes para que as pessoas de nível fossem a ela.
Depois de tudo, o que mais a sociedade adorava eram os
escândalos e o champagne. Maggie já lhes tinha dado o
primeiro, e não deixava de subministrar o segundo. Por isso
suas festas estavam tão na moda entre certos círculos.
E, a julgar pela popularidade das caricaturas de Lemarc,
resultavam muito proveitosas. Cada uma delas lhe
proporcionava ao menos um delicioso on-dit, às vezes mais.
De fato, naqueles momentos Maggie morria por pegar papel e
lápis, porque em sua cabeça começava a fervilhar uma nova
ideia para suas caricaturas.
— Ouviu-me, Maggie?
— Ouvi-te — exclamou enquanto Tilda aparecia com
umas meias e umas anáguas limpas.
Quando as pôs Tilda ajudou Maggie a colocar outro
vestido. Este não era tão bonito como o que se molhou, mas o
verde combinava com seus olhos.
Com os braços colocados já nas mangas, Tilda lhe
abotoou a parte de trás.
— Preparada. E nada de mergulhos de cabeça, milady.
— Tentarei, Tilda, mas não prometo nada. — Maggie
retornou à sua habitação. — Becca, devo voltar para o baile.
— Eu não gosto dele — Sua irmã asseverou com o rosto
desfigurado pela expressão tão séria.
— Do que, do vestido?
— Sabe muito bem que não estou falando disso. —
Cruzou os braços. — Eu não gosto que ele esteja aqui, te
pondo nervosa. Poderá se comportar como se não estivesse?
Maggie sorriu à sua irmã mais nova, tão doce e
superprotetora. Becca sempre tinha sido sua defensora
ferrenha, inclusive quando o resto do mundo pensava o pior.
— Certamente. Depois de tudo, durante dez anos tive
que me comportar assim. Que dificuldade pode ter que o faça
umas horas mais?
Capítulo 4
— Cuidado, não vá beber muito, Vinochester!
Os três jovens puseram-se a rir, e Simon se obrigou a
sorrir e elevou sua taça. Já tinha reconhecido aqueles três
idiotas.
— Obrigado pelo conselho, Pryce.
Colton lançou um sopro.
— Resulta-me de todo incompreensível que brinque com
esses estúpidos. É como se as bolas lhe tivessem encolhido e
lhe tivessem caído desde que está no Parlamento.
— O pai do Pryce é o conde de Stratham, um dos meus
melhores aliados. Amassar seu filho por uma brincadeira
quando está bêbado não é maneira de jogar este jogo, Colt.
— Que é justamente a razão pela qual jamais ocupei
meu banco na Câmara dos Lordes. Muitos favores e tapinhas
nas costas. Ninguém diz o que pensa de verdade. Não sei
como pode aguentar.
Simon suspirou. Colton o conhecia melhor que ninguém,
mas nem sequer seu amigo de infância podia entendê-lo. O
pai de Colton sempre foi um bastardo insensível, e ninguém o
apreciava especialmente, nem no Parlamento nem na
sociedade. Em troca, ele via o legado de sua família onde ia.
Havia homens que procediam de uma longa linha de
açougueiros ou ferreiros; os Barrett eram homens de Estado e
ajudavam a formar a política e o futuro do reino desde os
tempos de Henrique VI. O quinto conde de Winchester tinha
sido presidente do Conselho em uma ocasião. E lorde Fox
tinha sido assessorado pelo pai do Simon alguma vez.
Seu pai tinha morrido aos quarenta e cinco. Uma
estranha afecção do coração, conforme disseram. Simon não
sabia se sua saúde seguiria pelo mesmo caminho. Deus, se
tivesse que sofrer um desmaio e morrer, ao menos que fosse
de repente…, enquanto isso, estava decidido a fazer algo que
valesse a pena com o tempo que ficava.
Assim, seis anos antes tinha ocupado o banco que lhe
correspondia na Câmara dos Lordes. Resultou que tinha o
dom da família para a política, e não demorou para forjar
uma reputação por estar sempre ao lado dos que ganhavam.
Gostava da competitividade do Parlamento. A emoção do
êxito. A provocação de explorar as debilidades de seu
oponente para conseguir o que queria.
— Prefiro as caricaturas do Vinochester — Colt
continuou. — Ao menos sempre me recordarão nossas
bebedeiras da juventude.
Simon se voltou com brutalidade.
— Comprou alguma?
Os lábios do Colton se crisparam.
— Tentei. Em duas ocasiões. A proprietária não quis me
vender.
— Bom, eu gostaria que deixassem de aparecer.
Seguramente há temas mais interessantes que ridicularizar.
— Duvido. — Colton seguiu o olhar de Simon até o
círculo de homens que havia ao outro lado da habitação.
Ambos sabiam perfeitamente quem estava no centro daquela
matilha de chacais. — Pensa passar a noite olhando-a, meu
amigo? Parece inquieto como uma velha acompanhante
preparada para saltar à mínima oportunidade.
Simon tomou um saudável gole de champagne, embora
gostaria de poder tomar algo mais forte.
— Estou tentando reconciliar a jovem um pouco tímida e
doce que eu conhecia com esta descarada e segura…
— As pessoas mudam — Seu amigo murmurou. — Ou
possivelmente nunca a conheceu de verdade… só pensava
que a conhecia.
Sim, certamente Maggie o tinha enganado. Quantos
homens tinha levado ao seu leito antes que Davenport
revelasse ante todos sua verdadeira natureza? E pensar que
tinha chegado a pedir à sua mãe os rubis da família
Winchester como presente de compromisso.
Ver como flertava e dava conversação ao seu círculo de
admiradores o punha de muito mau humor. E devia notar-se,
porque Colton perguntou:
— E então? Pensando quem vai escolher esta noite?
— A algum afortunado — Simon grunhiu.
— E quem diz que só pode ser um? Houve noites que
eu…
— Por Deus, não diga. Já sabe quanto detesto quando
tenta se fazer o engraçadinho. — Simon atirou às suas costas
o resto de seu champagne. — Vou. Me desculpe ante Júlia. Te
verei amanhã se estiver por aqui.
— Deixa que o adivinhe. Curzon Street.
Não havia necessidade de responder. Colton tinha razão
e os dois sabiam. Pôs sua taça vazia na mão de seu amigo e
se dirigiu para a porta.
Uma vez fora, Simon se dirigiu a bom passo à pequena
casa onde residia sua atual amante, Adrianna. Curzon Street
não estava longe, assim informou ao seu cocheiro que iria a
pé. Necessitava do ar fresco para limpar a cabeça. A imagem
de Maggie rodeada por seus muitos admiradores lhe
provocava uma dor aguda bem atrás dos olhos.
Simon sabia o que viam aqueles homens porque ele
também o tinha visto em outro tempo. Maggie podia conseguir
a atenção de uma sala inteira só levantando um dedo. Era de
uma beleza ímpar, e seu aspecto e segurança únicos podiam
subjugar qualquer homem. Ele tinha demorado anos em
esquecê-la.
Assim, Adrianna era exatamente o que necessitava essa
noite. Um corpo suave, quente e voluntarioso que separasse
de sua mente tudo o resto. Tinha-a conhecido no Drury Lane,
onde a mulher tinha eclipsado Kean em uma produção do
Brutus. Custou-lhe afastá-la de seu antigo protetor, mas não
deixou de persegui-la até que ela cedeu… e ganhou na base
de elogios, além da promessa de um melhor alojamento e
mais dinheiro.
Davam-se bem, e era uma amante entusiasta e atrevida.
Não tinha previsto vê-la aquela noite, e não sabia se a
encontraria em casa. Ao aproximar-se do pequeno edifício de
tijolo viu que as luzes estavam acesas. Bom. Subiu os
degraus da entrada com rapidez e bateu na porta.
Lucy, a criada pessoal, abriu. A mulher confirmou que
Adrianna estava em casa, pegou suas coisas e lhe pediu que
aguardasse na pequena saleta da entrada. Pareceu-lhe
estranho, porque ele sempre ia direto à habitação de
Adrianna. Mas em lugar de tentar entender as intenções de
sua amante, aproveitou que estava sozinho para beber algo
forte. Colocou uma generosa quantidade de seu uísque
escocês favorito em um copo. Era um uísque importado de
uma destilaria ilegal das Hébridas Interiores e não era
precisamente barato. «Mas vale cada xelim», pensou enquanto
dava um gole e se instalava no sofá para esperar.
Por que Maggie não dançava? Antes adorava. No ano de
sua apresentação ele tinha sido seu par ao menos uma vez
em cada festa. E cada vez que chegava para reclamar sua
peça via os olhos dela cintilarem como uma brincadeira
privada ou um gesto de cumplicidade entre eles…
Ouviu-se a porta e Adrianna entrou a toda pressa. Seus
longos cabelos castanhos lhe caíam sobre as costas, e uma
bata negra de seda cobria seu corpo miúdo, mas
generosamente dotado. Pela forma em que seus seios se
moviam notava-se que não usava nada debaixo daquele fino
tecido. Excelente. Certamente aquilo aceleraria o processo.
— Querido! Não sabia que viria esta noite. — Aproximou-
se do sofá e se sentou ao mesmo tempo que se inclinava para
beijá-lo. — Aconteceu algo? Já sabe como me inquieto quando
sai de sua rotina.
Ele franziu o cenho. Ele era tão organizado assim? Tão
previsível e aborrecido?
— Tudo vai bem. É que estava por perto e pensei passar
para ver se estava em casa. Ia sair?
— Tenho um jantar com umas amigas, mas cancelarei
meus planos encantada.
— Não. Não é justo que me apresente sem avisar. É só
que gostaria…
Ela arqueou as sobrancelhas e o olhou com expressão
maliciosa.
— Seriamente? E o que gostaria de fazer? Que eu me
ponha em cima e…?
Simon riu.
— É incorrigível, mulherzinha descarada. Só ficarei
tomando algo. — Terminou o uísque e se inclinou para deixar
o copo sobre a mesa. — Te verei esta semana. Na terça-feira,
como sempre.
Adrianna lhe passou uma perna por cima e levantou as
saias para sentar-se escarranchada sobre ele.
— Então será melhor que te dê um motivo para voltar.
Rodeou-lhe o pescoço com os braços e o beijou com
força. Simon notava sobre o peito o suave e sedutor peso dos
seios de Adrianna, e sentiu que seu corpo respondia. Decidiu
pôr certa distância entre os dois.
— Na terça-feira — disse. — Na terça-feira seguiremos
com isto.
— Estou impaciente — ela comentou baixando o olhar à
ereção dele com um sorriso. — Tem certeza que não quer que
lhe chupe agora? Sei muito bem quanto você gosta. Será
rápido.
Ele pensou. Adrianna era muito hábil. Mas cada vez que
fechava os olhos Simon via cabelos negros e olhos verdes e
reluzentes. Imaginava que era Maggie quem estava de joelhos
tomando seu pênis com sua deliciosa…
— Vejo que você gosta da ideia — ela ronronou
deslizando seus destros dedos até os botões de sua braguilha.
Ele a segurou pela mão.
— Esta noite não. Não, se estava pensado em sair.
E definitivamente não podia deixar de pensar em Maggie.
Mas que demônios lhe acontecia? Jamais tinha se
distraído pensando em outra mulher quando estava
desfrutando dos encantos de Adrianna. Jamais. Entretanto,
Maggie não deixava de penetrar em sua mente nos momentos
mais inoportunos. Não queria Adrianna, queria a outra
mulher. Desejava-a com cada molécula de seu corpo.
E seguramente havia muitos outros em Londres que
sentiam o mesmo que ele.
— Bem. — Adrianna fez beicinho e recuperou com isso
sua atenção. — Então nos vemos na terça-feira.
Deu-lhe um beijo e se levantou. Tampouco esperava que
ficasse a chorar, mas Simon não gostou de ver que aceitava
tão alegremente. Tanta vontade tinha de que se fosse? Ao
princípio, quando a instalou naquela casa, passavam muitas
noites juntos, mas nos últimos seis meses tinha acabado por
vir só duas vezes por semana. E até esse momento não parara
para pensar o que ela faria nas outras cinco noites.
— Será melhor que me apresse — Adrianna disse
ajeitando bem a bata. — Ainda necessito de um momento
para terminar de me arrumar.
Alguém bateu na porta. Simon ouviu que Lucy, a criada
pessoal, corria a abrir. A voz de um homem chegou através
das paredes. Os olhos de Adrianna se voltaram
instantaneamente para ele e Simon viu sua expressão de
culpabilidade.
— Não ia sair, não é?
Os dedos da mulher se aferraram ao cinturão da bata e
tragou com dificuldade.
— Não — respondeu em voz baixa.
Ele suspirou.
— Merda.

***

O Sol apareceu atrás de uma nuvem enorme no instante


em que Maggie chegava ao parque. Tinha insistido muitas
vezes para que aqueles encontros tivessem lugar em sua casa,
mas seu acompanhante se obstinava em dizer que não. Como
se Maggie se preocupasse com o decoro. Além do mais,
importava a alguém com quem se associava a rameira
naquele momento?
Em seguida localizou a carruagem. Embora fosse simples
e não tivesse distintivos que permitissem identificá-la, era o
único veículo que tinha as cortinas fechadas naquele bonito
dia de inverno. Maggie refreou a sua égua, desmontou e jogou
as rédeas ao criado.
O cocheiro desembarcou de um salto ao ver que se
aproximava.
— Bom dia, milady.
— Bom dia, Biggins. Como está de ânimos esta manhã?
— Está muito irritável, milady — o homem respondeu
com um sorriso, e lhe abriu a porta. — Mas já estou
acostumado.
Maggie subiu envolta no som da seda púrpura de seu
vestido.
— Deixa de se queixar, cachorro. Tem o trabalho mais
singelo de toda Londres — a mulher retrucou, e em seguida
suavizou o tom. — Suba, minha amiga. Tome assento.
As luzes da carruagem davam um tom quente ao interior
e iluminavam o delicado rosto de Pearl Kelly, rainha entre as
cortesãs de Londres no momento. Se não conhecesse seu
passado, com aquele deslumbrante vestido e suas caras joias
poderia passar facilmente por um membro da nobreza.
Procedia dos subúrbios de Londres, mas tinha utilizado sua
audácia ímpar e sua mente esperta para prosperar e lavrar
um nome.
Ela e Maggie tinham travado uma espécie de amizade.
Quando Hawkins morreu, a Maggie que retornou a Londres
era uma mulher distinta. Já não era uma jovem inocente e
isolada… conhecia muito bem as dificuldades que
enfrentavam as mulheres em um mundo de homens…
sobretudo aquelas que não tinham dinheiro nem familiares
importantes. E por isso tinha decidido ajudar outras
mulheres que estivessem em dificuldades, inclusive se a
tinham procurado elas sozinhas. As mulheres tinham muito
poucas alternativas e ela sabia melhor que ninguém, de modo
que… por que não tentar ajudar aquelas menos afortunadas?
Através de Tilda, Maggie tinha conhecido a desventurada
infância de Pearl. De pequena tinha sofrido abusos e
abandonou sua casa à idade de onze anos. Ninguém sabia
com exatidão o que tinha acontecido com ela entre o momento
em que deixou sua casa e encontrou o seu primeiro protetor.
Ela nunca falava disso, mas o lógico era pensar que não teria
passado precisamente bem. Quando ouviu sua história
Maggie soube que a cortesã era perfeita para seus planos. De
modo que a abordou com uma proposta: se ela pusesse o
dinheiro, assegurar-se-ia Pearl de que se utilizava para ajudar
as mulheres e jovens que vendiam seu corpo por dinheiro em
Londres?
E Pearl não duvidou. A cortesã conhecia os bordéis e
sabia como ajudar as jovens que ganhavam a vida neles.
Conhecia os proprietários e sabia quem estaria aberto a novas
ideias e quem poderia utilizar aqueles recursos como elas
desejavam. E quando algum proprietário as enganava, coisa
que só tinha ocorrido uma vez, Pearl pagava a uns grandes
homens de peso para que lhe fizessem chegar uma
mensagem.
Maggie queria pensar que seus esforços ajudariam a
mudar as coisas. E embora não pudessem impedir que as
jovens fizessem o que pudessem para ganhar a vida, tanto ela
como Pearl tentavam que ao menos estivessem seguras e sãs.
— Boa tarde, Pearl. Está estupenda, como sempre.
Pearl agitou a mão como lhe tirando importância,
embora Maggie soubesse que gostava de suas adulações.
— Estou cansada, milady. Estou brincando com um
jovem e é muito mais… enérgico do que estou acostumada a
encontrar. Embora deva dizer que à minha idade se aprende a
apreciar a exuberância. Compensa com acréscimo a falta de
experiência.
Maggie soltou uma gargalhada.
— Considerando que Hawkins tinha quase trinta anos
mais que eu, entendo-a. Espero que minha próxima vida me
benza com um jovem amante.
Pearl proferiu um som de incredulidade.
— Sua próxima vida? Se me desculpar a rabugice, você é
jovem, formosa, rica… que demônios está esperando?
Para falar a verdade, nem ela mesma sabia. Tinha vinte e
oito anos e só tinha estado com dois homens: seu marido e
um francês que tinha conhecido quando estudava em Paris.
As duas experiências tinham sido um desastre.
— Rogo-lhe que me desculpe, acredito que lhe tenho feito
recordar coisas desagradáveis. E não solicitei este encontro
para que conversássemos de nossos amores… embora se
alguma vez necessitar de conselho, só tem que dizer. O que
eu não sei sobre os homens caberia na cabeça de uma
agulha.
— Obrigada, possivelmente um dia destes tome a
palavra.
— Isso espero. Os homens são meu tema de conversação
favorito. — Sorriu. — Bom, o segundo.
As duas riram.
— E então, — Maggie perguntou-se não vamos falar de
homens, do que se trata então?
Pearl alisou as dobras das saias.
— Várias coisas. A primeira é que falei com a
proprietária do The Goose and Gander. Aceitou nossas
condições em troca do dinheiro.
— Excelente. Enviarei o dinheiro hoje mesmo.
— É muito generoso de sua parte.
— Estou encantada de poder fazer isto, já sabe. Que
mais?
Pearl brincou com seu leque.
— Circula o rumor de que a senhora conhece o conde de
Winchester. Isso é verdade?
Maggie pestanejou.
— Sim, é. Quer dizer, nossas mães foram amigas e
estivemos bastante unidos no ano da minha apresentação em
sociedade. Por quê?
— Mas o viu? Recentemente, quero dizer…
Sim, por desgraça o tinha visto. «As respostas que
procuro é melhor as discutir em privado.» As palavras que lhe
havia dito na noite anterior ainda lhe doíam. De verdade
pensava lhe pedir que tivessem relações? Ainda não tinha
decidido se o deixaria entrar em sua casa se se apresentasse
para vê-la. Merecia que o deixasse esperando no alpendre.
Pearl permanecia atenta, de modo que respondeu.
— Pois sim, ontem à noite, por quê?
— Está a par do projeto de lei que está a ponto de
apresentar?
Maggie meneou a cabeça. Não estava a par dos assuntos
políticos. Em troca, Pearl estava melhor informada que a
maioria sobre tudo relacionado com a sociedade e a política.
Em uma ocasião havia dito à Maggie que a informação é uma
moeda de troca tão poderosa como o dinheiro.
— Sua proposta tem a ver com as violações. Desculpe-
me se falo tão abertamente sobre algo tão cru, mas…
— Não, por favor. Não há necessidade de rodeios comigo.
Por favor, fale.
— Como já sabe, a violação é algo que pode resultar
muito difícil de demonstrar ante um magistrado. Às vezes a
mulher diz que foi violação e o homem insiste em que foi
consentido. Nestes casos, a proposta de lei de Winchester
obrigaria o homem a compensar economicamente a mulher. A
lhe passar uma quantidade anual. Vitalícia.
Maggie estava boquiaberta.
— Uma remuneração anual? Nenhuma mulher desejaria
estar atada desse modo a um homem que a violou. Ter
sempre esse aviso do que lhe fez e que seu atacante soubesse
onde vive… é terrível.
— Precisamente.
— Como é possível que haja quem pode pensar que é
uma boa ideia?
— Não saberia lhe dizer, mas possivelmente poderia
dissuadir o senhor.
Maggie queria tudo menos entrar em uma discussão
política com Simon. Entretanto, possivelmente havia outra
forma. Muitos membros do Parlamento iam às suas festas, e
isso lhe daria oportunidade de minar por diferentes frentes os
esforços de Winchester.
— Verei o que posso fazer.
— Então deixo em suas mãos. Eu por minha parte
utilizarei minhas influências com os contatos que possa ter.
Maggie suspeitava que Pearl seguia tendo muitíssima
influência, embora naquele momento não tivesse nenhum
protetor.
— Excelente, eu farei outro tanto.
— Bom, tinha uma última petição. Uma de nossas casas,
no Long Acre, está tendo muito êxito com as aulas de
bordado, e algumas das garotas gostariam de poder trabalhar
como aprendizes com uma costureira. Possivelmente conhece
alguma que necessite da ajuda de um par de mãos.
— Quantas garotas?
— Três.
Maggie mordeu o lábio inferior pensativa. Talvez pudesse
convencer a sua costureira para que aceitasse uma das
jovens, mas ela não gastava muito em roupa nem em
adornos. E embora tivesse um título, sua posição não era tão
importante como a de uma dama que não tivesse um passado
escandaloso. Isso lhe deixava muito pouca margem.
— Temo que minha posição não é bastante importante
para fazer algo assim. Precisaria de uma dama com suficiente
prestígio para convencer uma costureira.
— Eu conheço uma dama como a que diz. E dá a
casualidade de que está em dívida comigo. Em uma ocasião
lhe fiz um favor e ficou enormemente agradecida.
— Estupendo. Pediremos a ela.
Pearl meneou a cabeça.
— Eu não posso. Por diferentes motivos não posso
abordá-la diretamente. Mas você sim…

***

Simon entregou seu cartão na porta sem saber muito


bem como o receberiam. Maggie negaria vê-lo? Na noite
anterior, depois de haver trocado de roupa, mostrou-se
educadamente fria, e além disso cabia a possibilidade de que
tivesse um convidado.
Sua mão se fechou com força sobre a cabeça de sua
bengala.
A criada deu uma olhada em seu cartão e o convidou a
entrar. Era a mesma mulher que os tinha recebido na noite
anterior. Maggie não tinha mordomo? Entregou-lhe suas
coisas e depois a seguiu à confortável saleta onde devia
esperar.
Deixando à parte suas festas opulentas, parecia que lady
Hawkins vivia de modo correto, inclusive simples. O
mobiliário parecia um pouco velho. Os tapetes eram práticas
peças de lã, não tapetes de Aubusson. Certo, havia uma
importante quantidade de carvão na lareira que gerava um
agradável calor, mas aquela sala era um lugar agradável sem
pretensão nem artifício. Mais próprio dela, sem dúvida. E
certamente uma mudança reconfortante em comparação com
as outras mulheres extravagantes com as que tinha alternado
nos últimos anos… embora para ser sincero, as amantes não
se caracterizavam precisamente por poupar na hora de
gastar.
Ao cabo de uns momentos um pequeno quadro de uma
paisagem situada na parede mais afastada chamou sua
atenção.
Aproximou-se para vê-lo com mais detalhe. Uma
aquarela de uma praia. Muito bem executada, por certo. As
ondas que rompiam na borda e a seleção de aves que
salpicavam a areia captavam à perfeição a atmosfera vibrante
e serena do lugar e o caos do oceano. O artista era bom. Que
estranho que não estivesse assinado. Em sua opinião parecia
14 15
obra do Gainsborough ou Sandby .
Normalmente a arte o aborrecia, mas aquilo… relaxava-
o. Poderia olhá-lo um dia atrás do outro e não acabar
odiando-o. Entretanto, havia algo familiar naquela imagem.
Não teria sabido dizer o que. O lugar não, certamente…
A porta se abriu e Simon se sobressaltou.
— Boa tarde.
Ali estava, lady Hawkins, tão vibrante e adorável como o
quadro que tinha estado admirando. A combinação de cabelo
negro, olhos verdes e luminosos e pele de porcelana lhe
deixava sem fôlego… igual a quando era jovem. Só que ela já
não era nenhuma jovenzinha, e sim uma mulher com curvas
mais redondas. Tê-lo-ia encantado poder ver a transição.
Maggie lhe fez uma fugaz reverência.
— Desculpe o fazer esperar.
Ele se inclinou também.
— Não faz muito que cheguei. Estava admirando este
quadro. — E assinalou a aquarela. — Estava tentando
adivinhar quem é o autor, mas não está assinado. Sabe quem
o pintou?
Ela arrumou as dobras de seu vestido azul escuro e se
aproximou com os olhos postos na aquarela.
— Gosta?
Pela vacilação que notou nela e a repentina atenção por
suas roupas Simon teve a sensação de que a pergunta a
punha nervosa. Seu primeiro pensamento foi que alguém
próximo a ela o tinha pintado. Um amante, talvez?
— Eu gosto muito. Não sou nenhum perito em arte, mas
está muito bem executado.
Uma careta de satisfação curvou seus lábios.
— Excelente.
«Definitivamente, um amante.» Uma sensação sombria e
irracional de ciúme se retorceu em seu estômago. Teria que
recordar a cada passo do caminho quantos homens tinham
passado por seu leito?
— Podemos nos sentar? — Disse com voz cortante.
— Eu o pintei.
— Você?
Simon não pôde dissimular a surpresa e uma estranha
expressão cruzou o rosto de Maggie.
— Resulta-lhe chocante que uma mulher possa pintar?
— Em nenhum momento pensei tal coisa. Tem muito
talento.
— Você é muito amável — ela murmurou, embora seu
tom parecia um tanto… ofendido?
— Podemos nos sentar? — Voltou a perguntar.
Ela inclinou a cabeça e o escrutinou com expressão
receosa.
— Prefiro ficar de pé. Suponho que devo lhe oferecer um
refresco. Quer que peça um chá?
Ele rejeitou o oferecimento e Maggie se afastou até a
poltrona que havia junto ao fogo. Em lugar de sentar-se,
acariciou o respaldo sem deixar de olhá-lo com ar pensativo.
— Veio comprovar se é o que dizem?
— Como? — Disse-lhe.
Não podia havê-lo dito a sério.
— Os dois sabemos muito bem como me chamam,
Simon. Durante dez anos não deixei de ouvir essa palavra
onde fui. Jamais esperaria que os habitantes de Little
Walsingham estariam ao corrente destas intrigas, mas… —
encolheu os ombros — aí o tem. Então, veio para ver como
ganhei esse apelido?
Uma imagem muito vívida apareceu na mente de Simon,
a imagem de Maggie estendida sobre as costas, com as saias
subidas até à cintura e as pernas abertas sedutoramente… e
ao ponto sua virilha respondeu. Teve que obrigar-se a apartar
aquela imagem de sua cabeça.
— Acredita que vim para me deitar com você.
Estava se mostrando deliberadamente direto.
Ela nem pestanejou.
— Sim, acredito. Por qual outro motivo poderia querer
me visitar? Ou talvez queria saber se decorei minha casa com
afrescos de nus. Ou se tenho um exército de homens
prisioneiros em minhas habitações para fazer com eles o que
eu deseje. Não seria o primeiro em perguntar se os rumores
são verdade.
Simon se sentia tão perplexo que cambaleou. Não
saberia dizer o que lhe resultava mais desagradável: que
houvesse dito aquilo ou que o tivesse em tão baixa estima.
— Entretanto, parece decidida a alimentar esses
rumores. Com suas festas extravagantes, dançando em
lagos… de verdade a surpreende que falem?
— Ao menos se lhes der algo do que falar não andarão
inventando coisas. Mas seriamente, tudo isto não vem ao caso
agora. Possivelmente deveria me dizer qual é o motivo de sua
visita.
A hostilidade e a amargura não combinavam com ela. E
se alguém tinha motivo para sentir aquilo era ele, não ela.
— O que lhe aconteceu, Maggie? O que te fez ter tanto
veneno?
— A vida, isso é o que me aconteceu, Simon. Tudo o que
certamente você esperava e mais.
— Eu? O que eu esperava? — Pestanejou. — Jamais lhe
desejei nenhum mal.
— Ah, não? — Perguntou muito tranquila.
— Maggie, você não raciocina. Quase parece que me
culpa pelo affair com Cranford. E os outros.
— Outros? — Ela riu baixo com amargura. — É claro. Os
outros. Como poderia esquecê-los? Homens, mulheres, gado…
há tantos que resulta difícil contar todos.
Simon apertou a mandíbula. Quase lhe tinha partido o
coração e agora ria?
— Pensa fazer graça disso?
— A realidade estranha é tão divertida como a ficção —
ela respondeu com a cabeça bem alta.
Aquela conversação lhe estava escapando das mãos.
Esfregou a nuca, porque notava que a tensão se estava
acumulando ali.
— Acredito que será melhor que se vá.
Levantou levemente as saias e se dirigiu para a
campainha que havia atrás dele.
Surpreendendo a si mesmo, Simon a segurou pelo pulso.
— Espere.
Olhou aquela mão miúda e enluvada. Durante um
momento de loucura desejou poder sentir a pele nua dela,
que seus delicados dedos o acariciassem também. Em uma
ocasião tirou as luvas para seguir com os dedos o relevo de
um quadro em uma exposição, e seu corpo de vinte e três
anos quase ficou louco de desejo.
Por que tinha ressuscitado aquela lembrança
insignificante?
Simon a soltou.
— Espere. Necessito da sua ajuda.
Ela deu um passo para trás e arqueou uma sobrancelha
negra.
— Estou segura de que já tem uma amante para isso.
Simon se sentiu irritado. Por que tinha que dar por certo
que tudo girava em torno da fornicação?
— Para sua informação, — disse com voz monótona —
venho com uma petição totalmente inocente.
Ela pôs mais distância entre ambos, mas não chamou à
campainha. Simon cruzou os braços sobre o peito para
assegurar-se de não voltar a tocá-la e foi direito ao ponto.
— Recorda a caricatura da vitrine da loja de gravuras, a
do Vinochester?
— Sim — ela respondeu depois de uma pancada no
coração.
— Esse tal Lemarc fez todas. Necessito que me ajude a
encontrá-lo.
Capítulo 5
Menos mal que não estavam tomando um chá, porque se
fosse assim Maggie teria se engasgado. De fato, quase não
podia nem respirar. Havia dito… encontrar o Lemarc?
Deus santo.
Simon esperava sua resposta, com aqueles olhos azuis
cravados nela, mas era tão absurdo que ela estava por
começar a rir. «Oh, senhor, que rede emaranhada tecemos…»,
como rezava o poema de Walter Scott.
Fazendo um grande esforço conseguiu ocultar a surpresa
atrás de uma máscara de indiferença.
— Você deseja encontrar o Lemarc? Com que objetivo?
Simon mudou o peso sobre os pés.
— Esses desenhos sobre o Vinochester me resultam
muito perturbadores. E por razões diversas queria que
deixassem de aparecer.
— E acredita que pode convencer o Lemarc a deixar de
fazê-los?
— Sim.
A arrogância contida naquela única palavra a deixou
perplexa. Acaso pensava que Lemarc se dobraria ante os
desejos de um conde só por sua posição? De todos é sabido
que os artistas são criaturas temperamentais, ela incluída. A
ideia de que Simon pudesse ordenar ao Lemarc o que podia
desenhar e o que não era ridícula. E irritante.
— E por que ia deixar de desenhar um personagem tão
popular? Vinochester é uma das razões pelas quais se falou
tanto do Lemarc no último ano.
— Penso convencê-lo.
Ela tragou uma risada zombeteira. Que Deus a
guardasse da vaidade dos homens.
— Não duvido, mas ninguém conhece a identidade do
Lemarc. É um segredo bem guardado. O que lhe faz pensar
que eu posso o ajudar a encontrá-lo?
Ele encolheu um de seus largos ombros.
— Só é uma intuição, na realidade. Os conhecimentos de
arte e das técnicas de pintura dele poderiam levar a algum
descobrimento. Tenho algumas pinturas do Lemarc à minha
disposição. Talvez poderia lhes dar uma olhada e ver se lhe
dizem algo. Algum comentário que tenha ouvido em alguma
conferência, algo que tenha visto em alguma exposição. É
provável que não tiremos nada em claro, mas lhe estaria
enormemente agradecido se me ajudar.
Uma perda de tempo, certamente. Ninguém poderia tirar
o Lemarc de seu esconderijo olhando umas aquarelas de
pássaros. E menos ainda daquela série. Tinha-as pintado
fazia quatro ou cinco anos perto da praia, e só se viam
pássaros e água… não havia pessoas nem edifícios. Se
houvesse algum detalhe importante em seus quadros, a
teriam encontrado fazia muito tempo.
E, na verdade, ajuda-lo era o último que queria. Já era
bastante mau que tivesse ido a sua festa e a tivesse
encurralado daquele modo.
— Temo que não posso.
— Posso perguntar por quê?
Não esperava que a pressionasse. Que desculpa podia
lhe dar? Que sabia que seus esforços seriam em vão? Que
merecia mil vezes qualquer inconveniente que pudessem lhe
causar as caricaturas do Lemarc? Ou que apesar de tudo o
que lhe tinha feito seguia fazendo com que lhe acelerasse o
coração?
— Uma tarde, — ele disse em meio de seu silêncio — é o
único que lhe peço. Se não vir nada relevante esqueceremos.
— Se não descobrir nada renunciará a encontrar o
Lemarc?
Simon meneou a cabeça.
— É claro que não. Tenho intenção de buscá-lo com
todos os métodos que tenha ao meu alcance.
Aquilo a deixou perplexa. Parecia bastante… decidido.
Hum. Tanta tenacidade não era boa. Embora estivesse
convencida de que seu segredo estava a salvo, por dentro
notou certa sensação de pânico ante a ideia de que pudesse
descobri-la. Simon tinha reputação de desgastar seus
oponentes de modo incansável até que se desse bem, de
utilizar os métodos que precisasse para ganhar. A ideia de
que sua carreira como Lemarc fosse descoberta… arruinada…
Um calafrio lhe percorreu a coluna.
É óbvio, se participasse da busca de Simon poderia
afastá-lo do rastro lhe dando informação falsa. Fazendo-lhe
acreditar o que não era. Quanto mais pensava, mais gostava
da ideia.
— Bem — concedeu. — Estarei encantada de ajudar em
sua busca. Tenho que dizer que há muitos mais qualificados
que eu para lhe ajudar nisto. Possivelmente teria que
considerar a possibilidade de pedir a outra pessoa…
— Isso é totalmente desnecessário — a interrompeu com
suavidade, com um sorriso triunfal no rosto. — Acredito que
você está mais que capacitada.
De um modo estranho aquela fé nela era aduladora.
Pouco sabia ele que sua intenção era minar seus esforços
para assegurar seu fracasso em seu empenho por encontrá-
la. Teve que morder o lábio para evitar que lhe escapasse uma
risada histérica.
— Muito amável de sua parte, milorde. Quando
iniciaremos nossa investigação?
— O antes possível. Enviarei uma nota se lhe parecer
bem.
— Sim.
Maggie tratou de não pensar no extremamente bonito
que era. Certamente, o casaco e as calças azul claro
compensavam a cor clara de sua pele, e davam ao azul de
seus olhos um tom mais intenso. Seus ombros…
Brrr. Maldita fosse sua natureza feminina. Ser mulher
era decididamente injusto.
Então concentrou-se no sorriso satisfeito de Simon. Sim,
esse dia tinha conseguido justo o que queria. Oh, quanto
gostaria de apagar aquela expressão de seu rosto.
— Alguma vez alguém disse não ao conde de
Winchester?
— Pouquíssimas. Posso ser muito persuasivo.
— Isso ouvi. Dizem que na Câmara dos Lordes sempre
consegue o que quer. Suspeito que poderia convencer uma
monja a pendurar o hábito e fugir com um bando de ciganos.
A comissura da boca de Simon se curvou.
— Sou tão encantador assim?
Não pôde morder a língua.
— Melhor dizer um presunçoso.
Simon jogou a cabeça para trás e deixou escapar uma
risada profunda e generosa. Maggie adorava sua risada. Era o
tipo de som que uma mulher sentia em seu ventre, enchendo-
a de calor. Agora sabia o que significavam aquelas sensações,
eram as chamas do desejo. Seu marido jamais lhe fez sentir
paixão; seus escassos momentos íntimos foram rápidos e
funcionais. E então Charles adoeceu e suas obrigações no
leito conjugal ficaram suspensas. Um alívio para as duas
partes implicadas, certamente.
Mas houve outro homem, quando Maggie foi estudar em
Paris. Ali tinha se sentido atraída pelo bonito e mundano
Jean Louis e, que Deus tivesse piedade de sua alma vaidosa,
gostava de suas atenções. Seu amigo Lucien a animou então
a que tomasse um amante, alguém mais próximo a ela em
idade, e gostava do Jean Louis, então que mal podia haver
naquilo? Mas resultou ser um completo desastre. A
respiração agitada, o suor, a sensação de constrangimento…
em conjunto aquilo só lhe serviu para convencer-se de algo
terrivelmente irônico:
A rameira meio irlandesa era frígida.
Maggie tinha acabado por aceitar aquilo como um fato,
sobretudo porque em suas festas escutava todo tipo de
insinuações e nunca sentia nada. Nenhum frenesi, nem o
pulso se acelerava, não havia nenhuma das coisas que os
poetas tanto gostam de descrever.
Sabia que devia sentir alguma coisa. Mas a realidade é
que S era a única pessoa que lhe tinha permitido intuir o que
uma mulher podia sentir por um homem. Naquela época,
através do cristal rosado da juventude, M reparava em certos
detalhes: a cor única de seus olhos, seu sorriso fácil, como o
cabelo lhe caía sobre a testa. E todas aquelas coisas a
deixavam sem fôlego.
Mas já não era nenhuma jovenzinha, e agora que via as
coisas como uma mulher tinha uma imagem muito clara do
que se ocultava sob as bonitas roupas. Ombros largos que
coroavam um peito esculpido, quadris esbeltos, e pernas
longas e musculosas, com um membro que lhe sobressaía
com orgulho…
Uma intensa sensação de calor lhe percorreu o corpo, o
sangue golpeava em suas veias e notou uma sensação de
umidade entre as pernas. Fechou os olhos e tragou com força.
Deus, queria-o. Desejava-o inclusive.
Algo de todo intolerável. Não o permitiria. Não podia
permitir.
A sala parecia estranhamente calada. E se deu conta de
que Simon a observava e tinha a vista cravada em suas mãos.
Maggie baixou a vista. Seus dedos se aferravam com tanta
força ao respaldo da poltrona que os nódulos lhe haviam
posto brancos. Não a teria surpreendido encontrar as marcas
de suas unhas no tecido. Obrigou-se a relaxar as mãos.
Simon arqueou uma sobrancelha com sobrançaria, com
uma careta arrogante nos lábios, e Maggie se sentiu
mortificada. Aquele canalha sabia, ou ao menos suspeitava, a
direção de seus pensamentos.
— É tudo? — Perguntou erguendo-se.
— Você parece um pouco sufocada — e assinalou seu
rosto e seu pescoço com o gesto. — Faz calor talvez? Eu não
gostaria que caísse vítima de um acesso de febre.
Tanta impertinência resultava imperdoável.
— Um cavalheiro jamais aludiria às cores de uma dama.
— Deseja que eu abra uma janela, Maggie? Trago um
pano úmido? Não gostaria que…
— A única coisa que quero — ela retrucou — é que
parta.
Ele sorriu, fez uma reverência.
— Como quiser, milady.

***

Então a atração era mútua. Interessante.


Simon sabia reconhecer os indícios do desejo em uma
mulher: rubor, pálpebras entreabertas, respiração agitada,
mamilos rígidos marcados sob o tecido do vestido… e Maggie
mostrava esses indícios e mais. A reação de seu próprio corpo
ao desejo dela quase o faz cair de joelhos. Deus, tinha lhe
dado vontade de tomá-la ali mesmo, no sofá. Como um
animal no cio.
Mas já o tinha enganado antes. Fazia dez anos, a bela
atriz, com aquele sorriso discreto e seus olhares maliciosos.
Ele não questionou em nenhum momento seus sentimentos,
até que viu as provas irrefutáveis de sua perfídia. Não, não
permitiria que voltasse a humilhá-lo… nem que prejudicasse
sua reputação no Parlamento com sua questionável posição.
Dificilmente podia defender a moral para as gerações futuras
se estivesse ligado à mulher mais escandalosa da sociedade
londrina. «Como conde,— seu pai acostumava lhe dizer —
sempre esperarão que tenha um comportamento honorável.» E
sem dúvida neste caso o mais honorável seria manter-se
afastado de lady Hawkins.
Assim, enquanto andava de retorno ao seu escritório em
Barrett House, afastou de sua mente a ideia de deitar-se com
Maggie. Esse dia tinha outros assuntos a atender.
Primeiro devia reunir-se com uns membros do círculo de
Liverpool para redigir um primeiro rascunho de sua proposta,
uma lei que obrigaria os acusados de violação a pagar uma
compensação econômica às suas vítimas. Logo ficou com seu
secretário a examinar a correspondência antes que chegasse o
procurador para revisar o contrato de um pedaço de terra na
Escócia. No meio da tarde estava desfalecido de fome.
A senhora Timmons, sua governanta, chegou com o
mordomo que lhe trazia as provisões.
— Milorde, um tal senhor Hollister deseja o ver. Mas,
antes que se reúna com sua visita, poderia falar um momento
com o senhor?
— É claro, senhora Timmons. Obrigado, Michael — disse
ao mordomo, e o despachou.
— Milorde, uma jovem se apresentou na casa ontem à
noite, a prima de uma de nossas criadas. Admiti-a na casa, e
isso significa que devo transladar alguma de nossas criadas
mais velhas a outro alojamento. Mandei uma nota à
governanta do visconde, mas acredito que é nova no posto e
não conhece nosso acordo referente ao pessoal.
Simon suspirou.
— Falarei com o Quint. As governantas não lhe duram
muito, como bem sabe.
— Obrigada, milorde. Isso seria de grande ajuda.
Entretanto, a governanta da duquesa se mostrou encantada
de aceitar Annie. A jovem está recolhendo suas coisas neste
momento. Posso enviá-la com as habituais referências e sua
demissão correspondente?
— Sim, por favor, senhora Timmons. E obrigado por sua
diligência.
— É um prazer, milorde. Sempre é triste ver uma
criaturinha de doze anos com hematomas por todo o rosto e
corpo.
— Refere-se à jovem que se apresentou ontem noite?
A senhora Timmons assentiu.
— Então, — Simon respondeu — avise ao pessoal que
possa recuperar-se devidamente antes que a ponham a
trabalhar.
— Assim o farei, milorde.
— Obrigado, senhora Timmons. Que passe Hollister, por
favor.
Uns minutos depois a mulher voltou seguida por um
homem forte e pouco destacável. O homem entrou e fez uma
reverência.
— Milorde, é uma honra.
Simon tinha decidido expor a busca do Lemarc de
diferentes perspectivas. Quint estudaria as aquarelas de
pássaros para ver se conseguia deduzir uma localização,
Maggie podia examinar o trabalho do artista procurando
pistas na técnica utilizada. Mas certamente o método que
melhores resultados dariam seria o do detetive.
Hollister tinha ótimas referências. Durante anos tinha
trabalhado duro para as forças policiais da Bow Street, e
recentemente tinha começado a realizar trabalhos mais
discretos para particulares. Por seu aspecto parecia
capacitado para o encargo; não custava imaginar aquele
homem passando inadvertido em qualquer lugar.
— Obrigado por vir, senhor Hollister. Tome assento, por
favor.
E lhe indicou com o gesto uma das cadeiras que havia
em frente à sua mesa.
Hollister se aproximou, coxeando levemente, e se
instalou em uma cadeira.
— Irei direto ao ponto — Simon começou a dizer. —
Necessito que encontre uma pessoa. Ouviu falar do artista
chamado Lemarc?

***
Maggie chegou apropriadamente tarde.
O monstruoso edifício de pedra que passava por
residência do duque de Colton se elevava como o cenário de
uma tenebrosa novela gótica. As luzes e tochas brilhavam na
escuridão e iluminavam os arcos apontados e os postes. Por
Deus, aquilo eram gárgulas? Maggie com frequência
desenhava edifícios e igrejas, e enquanto esperava no
alpendre desejou ter tido com ela seus lápis — carvão.
Quase não podia acreditar que a houvessem convidado.
Fazia muito tempo que não ia a um jantar daquele nível. É
claro, primeiro ela tinha pedido uma audiência à duquesa de
Colton, e a resposta da mulher foi convidá-la a um jantar.
Só esperava que fosse uma reunião íntima, ou quando
menos que tivesse advertido os outros convidados de sua
presença. Talvez assim os murmúrios e as risadinhas fossem
menos.
A porta se abriu e a fizeram passar. À primeira vista o
interior do edifício não se parecia em nada ao que se via por
fora. A casa era cálida e acolhedora, flores frescas, grande
quantidade de velas. Quando subia as escadas Maggie
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reparou em um quadro do Greuze que havia na parede.
Impressionante. Os duques tinham um gosto requintado.
Entrou no salão e a primeira pessoa que viu foi Simon.
Estava em pé, ao outro lado da sala, tão alto, bonito, ágil. A
surpresa lhe caiu como um chute na barriga e a perspectiva
lhe provocou idêntica sensação.
«Maldição.» Dada sua amizade com o duque era de
esperar que ele precisamente estivesse ali. Mas se soubesse
Maggie teria rejeitado o convite. A lembrança de seu último
intercâmbio ainda a atormentava. Por que ele, de todos os
homens possíveis, era o único que despertava nela aqueles
sentimentos tão pecaminosos?
Uma bela mulher, loira e com vestido rosado, aproximou-
se e a puxou pelas mãos, desviando sua atenção.
— Lady Hawkins — a duquesa exclamou. — Agradeço-
lhe que tenha decidido vir à nossa reunião heterogênea.
— É uma honra — ela replicou com um sorriso sincero e
uma reverência.
— Oh, nada de reverências. Estamos entre amigos. Ou
melhor, quase todos.
— Lady Hawkins. — O duque de Colton se aproximou de
sua mulher. Um homem moreno e atraente; não era difícil
imaginar como ganhou o apelido de «Duque Depravado». — É
um prazer voltar a vê-la. Minha esposa leva toda a semana
falando de você.
— Boa noite, excelência. Alegra-me que me tenham
convidado… — além de desconcertá-la.
— Venha comigo — a duquesa disse — e lhe apresentarei
ao grupo desta noite.
E dito isto puxou-a pelo braço e felizmente a levou na
direção contrária de onde estava Simon.
As apresentações tomaram vários minutos. Em sua
maioria se tratava de rostos conhecidos, ao menos os dos
homens. Quando a duquesa se desculpou para ir receber
outros convidados, Maggie ficou com lorde Quint. O visconde
lhe dedicou uma elegante reverência e se apartou seus
cabelos castanhos muito compridos do rosto.
— Lady Hawkins. Estou impaciente que possamos
conversar sobre quadros esta noite. Pensa ir à exposição de
Bathmore, daqui a duas semanas?
— Certamente, tenho curiosidade por saber se em seus
novos trabalhos resolveu o problema com a perspectiva da
exposição anterior.
Quint riu baixo.
— Você é uma crítica muito severa.
— Suponho que sim. Interessam-me muito mais a
técnica e as opções que toma o artista que o resultado final.
— Estou totalmente de acordo. Fascinam-me o que e
como das coisas.
Sob sua aparência descuidada Quint era um homem de
uma beleza sutil, tranquilo e de mente esperta. Inclusive seu
espantoso sentido da moda resultava encantador. Então, por
que não sentia os arrepios em sua presença em lugar da do
Simon? Quint era muito mais adequado para ela, com sua
perspicácia e sua natureza perceptiva, e parecia muito
razoável para dar importância à sua turva reputação.
Embora tampouco tivesse importância, porque a ideia
era evitar todos os homens.
Outro rosto conhecido se uniu ao grupo. A presença de
lorde Markham, um pouco mais velho que o resto, tampouco
foi uma surpresa agradável. O homem tinha ido a algumas
das festas mais recentes de Maggie, e em cada ocasião tinha
se insinuado de modo muito pouco discreto. Ela não o
animava, mas alguns homens podem ser muito obstinados.
— Lady Hawkins. — Markham fez uma reverência com
um sorriso muito amplo enquanto seus olhos a percorriam de
cima a baixo. — Permita que lhe diga que me faz muito feliz
encontrá-la aqui esta noite. Não sabia que estivesse em tão
bons términos com os Colton.
Pelo brilho de seu olhar Maggie soube exatamente a que
términos se referia. Pelo que ela sabia, os duques estavam
felizmente casados e não se ouviu nenhum rumor que
vinculasse o duque a nenhuma mulher desde que retornou do
Continente. Mas, inclusive se Colton tivesse alguma aventura,
seriamente pensava Markham que a duquesa toleraria a
presença das conquistas de seu marido em sua mesa?
— Sua excelência me enviou um convite depois de ir à
minha festa na semana passada.
— Claro — Markham respondeu e lhe piscou um olho
com tanto descaramento que Maggie notou o sabor da bílis na
boca.
Sim, por que mais alguém ia convidar a rameira meio
irlandesa? Sem dúvida os outros teriam pensado o mesmo,
todos menos Colton e sua esposa. Ficou bem reta. Que
pensassem o que quisessem, sempre o faziam.
— Se me desculpam — Quint murmurou e escapou.
Por um momento Maggie pensou em agarrá-lo pelo braço
para evitar que escapasse, mas Quint foi muito rápido.
Markham tomou aquilo como um convite. Desesperada,
Maggie olhou ao seu redor. Seu olhar se deslocou para onde
estava Simon e se deteve. Uns severos olhos azuis estavam
cravados nela, com a íris brilhante e furiosa. Mas que
demônios…?
— Lady Hawkins — Markham sussurrou tocando com
falta de vergonha sua mão.
Simon tampouco ignorou a audácia do Markham. Um
músculo se moveu em sua mandíbula apertada antes que se
desse a volta com ar ofendido. E à Maggie lhe ocorreu uma
coisa. Possivelmente se deixasse que Markham estivesse ao
seu lado durante a noite, Simon não se aproximaria. A ideia
lhe repelia e converteria a noite em algo tedioso… mas depois
de tudo, às vezes uma mulher tem que fazer certas coisas.
Dedicou ao Markham um sorriso deslumbrante.
— O que dizia, milorde?
O visconde pestanejou.
— Oh, sim. Bom, esperava poder acompanhá-la durante
o jantar. Nunca me há…
— Sim — ela disse. — Quero dizer que sim, seria uma
honra.
— Excelente. — Markham não cabia em si, e seu rosto
avermelhado se voltou mais intenso. — Desfrutei muito de
sua última festa. É curioso que Rowlandson pintasse aquela
caricatura sobre sereias.
— Lemarc — ela o corrigiu.
Markham enrugou a testa.
— Como?
— Quem desenhou as caricaturas foi Lemarc, não
Rowlandson.
— Oh, claro, Lemarc. São muito inteligentes estes
caricaturistas. Pergunto-me como se inteiram dos on-dits que
revelam em seus desenhos.
«Se forem um pouco espertos, dão muitas festas.»
— Quem sabe? Possivelmente têm mais recursos do que
pensamos.
Ele se inclinou para ela como se fosse lhe contar um
segredo.
— O único que se precisa é pôr uma moeda na mão
adequada, minha amante. A informação sempre tem um
preço.
Aquele comentário a fez pensar. Markham era um
membro ativo do Parlamento, falava por experiência? E o
melhor, possivelmente poderia aproveitar a ocasião para
escavar a proposta do Winchester. Sim, parece que a noite
começava a animar-se.
Naquele momento a duquesa anunciou que o jantar
estava servido. Markham lhe ofereceu o braço.
— Vamos?
Capítulo 6
—Sério, Simon, tem que deixar de olhá-la com essa cara
de cão — Júlia disse.
Simon e Júlia se dirigiam para a sala de jantar atrás do
resto dos convidados. Ele apertou a mandíbula e se obrigou a
apartar o olhar de Maggie e Markham. Mas a ira seguia lhe
corroendo. Markham tinha se colado à Maggie como um
marisco desde que chegou. Aquele homem não tinha
vergonha?
— E foi você quem insistiu em que convidasse o
Markham — Júlia seguiu dizendo.
— Obrigado por recordar-me — ele murmurou.
— Não recordo de ver-te ciumento. Isto é muito
interessante.
Simon proferiu um som de desdém justo quando
chegavam às escadas.
— Dificilmente poderia estar ciumento do Markham. Se
sua esposa estiver na Cornualha e nenhuma amante o
aguenta mais que umas poucas semanas é por algo. Esse
homem não saberia o que fazer com uma mulher embora lhe
caísse nua no regaço.
— Menos mal que somos amigos há tanto tempo, de
outro modo meu marido poderia ofender-se pela natureza
desta conversação.
— Colton não me dá medo. Depois de tudo, se se
reconciliaram foi graças a mim. Teria que estar agradecido
pela oportunidade que lhe dei.
— Oh, sim, então foi coisa tua.
Sorriu-lhe.
— Nunca teria chegado em Veneza sem minha ajuda.
— Certo, mas fui eu quem fez a parte mais dura.
— Por favor. — Simon levantou sua mão livre. — Não
falemos da virilidade do Colton com o estômago vazio. Far-
me-ia perder o apetite.
Júlia riu com dissimulação.
— É incorrigível. Não entendo como alguém pode levá-lo
a sério no Parlamento.
— Não me conhecem tão bem como você.
— Será isso, sim. De outro modo não se deixariam
intimidar tão facilmente pelo ilustre homem de Estado em que
se converteu.
Entraram na imensa sala de jantar. Colton já tinha
ocupado seu lugar à cabeceira da elaborada mesa, com a tia
de Júlia sentada à sua direita. E é claro, Simon viu que
Markham se assegurou uma cadeira junto à Maggie. Néscio.
— Relaxe, Simon — Júlia murmurou. — Está
destroçando a minha mão.
— Minhas desculpas.
— Sabe? Merece qualquer coisa que essa mulher te diga
e mais — a duquesa respondeu baixo enquanto ocupavam
seus assentos.
— Não penso esquecer suas palavras, sobretudo quando
Colton me perguntar se alguma vez visitou uma casa de
jogo…
Deu-lhe um tapa no braço.
— Simon! Não te ocorra mencionar nenhuma palavra
disso ao meu marido.
— Algum problema, duquesa? — Colton perguntou
lançando um olhar a um e outro.
Júlia lhe dedicou um olhar inocente.
— Nenhum, Colton. Morremos de fome — e fez um sinal
ao mordomo para que começasse a servir os pratos.
Durante o jantar Simon evitou deliberadamente olhar à
Maggie e ao Markham. Os sorrisos alentadores que Maggie
dedicava ao visconde lhe dava vontade de cravar alguém com
seu garfo. De modo que bebeu mais que comeu. E não foi até
o sexto prato que compreendeu que estava meio bêbado.
Que Maggie fosse tão condenadamente bonita não
ajudava, aquela bruxa. Oxalá pudesse deixar de fixar-se, mas
via cada detalhe, cada curva… inclusive com os olhos
fechados. Anos atrás estava acostumado a passar horas
pensando nos delicados ossos de seu pulso. A curva de sua
orelha. Imaginar seus seios nus lhe teria feito ficar duro como
uma pedra.
Essa noite os citados seios estavam subidos de um modo
absurdo. Aquelas elevações exuberantes e cremosas o
distraíam, como sem dúvida acontecia a todos os outros
homens capazes que havia na sala.
O que estava fazendo ali? Não esperava vê-la essa noite.
Quando menos, Júlia deveria ter lhe advertido que Maggie iria
ao jantar. E poderia ter enviado uma nota desculpando-se.
— Poderia sair e se deitar um momento? — Júlia
perguntou-lhe em voz baixa. — Está atraindo olhares.
Simon ficou reto e cravou com o garfo um bocado de
cordeiro assado.
— Não seja ridícula.
— Não pensa me explicar o que lhes aconteceu?
«Tudo o que certamente você esperava e mais.» O
comentário não tinha deixado de corroê-lo há dias. O que
Maggie tinha querido dizer com aquilo? Deu-se conta de que
Júlia o observava e tratou de recordar a pergunta. Maldito
vinho.
— Como?
— Dizia-te se poderia me contar o que aconteceu entre
vocês.
— Não.
Júlia considerou a resposta enquanto mastigava.
— Então possivelmente peça a lady Hawkins que me
conte.
— Pergunte-lhe se quiser, mas sabe o mesmo que sabem
todos. Não há muito mais.
Maggie tinha rido dele. E se acabou. Que mais
explicações necessitava?
— Oh, às vezes há muito mais coisas do que as que
dizem os rumores. Olhe Colton, antes que a verdade saísse à
luz, a alta sociedade o tinha catalogado de patife e assassino.
— Mas Colton é um patife — Simon assinalou.
Júlia sorriu.
— Sim, mas agora é meu patife. E de todos os modos,
não estou tão segura de que lady Hawkins queria te partir o
coração.
Simon pegou seu vinho e jogou fora o que ficava. E
indicou ao mordomo que lhe servisse mais.
— Não se parte o coração dos homens, Júlia. Isso é para
as jovenzinhas e os poetas que não têm outra coisa a fazer.
Júlia fez tamborilar os dedos sobre a mesa.
— Seriamente?
— Sim. Até acredito que me fez um favor.
— Então, antes que acabe o jantar, toma outro copo em
agradecimento.

***

Havia outras seis mulheres ali, de modo que conseguir


um assento junto à duquesa resultou uma tarefa difícil. Mas
Maggie não teve nenhum problema. As damas se instalaram
todas na saleta depois de deixar os cavalheiros na sala de
jantar, e naquele momento a duquesa começou a servir o chá.
Maggie pegou sua xícara e colocou dois torrões de
açúcar. Relaxou e deu um sorvo agradecida. O jantar tinha
sido um calvário. Não só tinha tido que fazer malabarismos
com as atenções de Markham, mas Simon passou toda a
noite olhando-a com má cara ou fingindo que não existia.
Teria sido difícil dizer o que tinha resultado mais irritante.
O certo é que a espontaneidade com que Simon
conversava com a duquesa lhe dava inveja. Era evidente que
eram bons amigos. Em outro tempo ela tinha compartilhado
essa mesma familiaridade com ele. Compartilhavam
brincadeiras e risadas, e ele era a primeira pessoa que
procurava quando entrava em uma habitação. E Maggie
supôs estupidamente que suas atenções significavam algo,
que sentia algo por ela. E se equivocou. Deu-lhe as costas
igual os outros.
— Vejo que gosta do chá muito doce — a duquesa
comentou enquanto se sentava. — Para mim também, embora
não posso resistir pôr um pouco de creme.
— Eu gosto dos doces com loucura — Maggie confessou.
— Até cheguei a comer um pedaço de bolo no café da manhã.
A duquesa arqueou as sobrancelhas.
— Oh, deliciosamente decadente. Parece-se muito a mim.
— Isso espero. — Maggie se inclinou para frente e baixou
a voz. — Possivelmente estaria disposta a ajudar uma amiga
minha.
— Oh?
— Sim. Pearl Kelly. — Os olhos da duquesa se abriram e
Maggie continuou. — Nós embarcamos em uma empresa e
nos encontramos com uma estranha petição.
E procedeu a lhe falar das três jovenzinhas que queriam
trabalhar como aprendizes de uma costureira.
— É todo um desafio — a duquesa admitiu. — Mas eu
adoro os desafios. E devido ao bebê tive que encomendar três
novos guarda-roupas em dois anos. Minhas costureiras
inclusive consideraram propor minha canonização. E, me
diga, o que pretendem obter você e Pearl?
— Em geral oferecemos às proprietárias recursos
adicionais para que cuidem melhor de suas garotas. Para
enfermidades e outros… problemas delicados. Também
tratamos de ajudar as jovens a aprender, seja a ler, escrever,
costurar ou tocar um instrumento.
— Uma causa elogiável. Sinto-me ciumenta que não
tenha vindo a mim em busca de apoio.
— Fui eu quem a abordou, na realidade. Entretanto, se
nos conhecêssemos naquela época também teria pedido sua
colaboração.
— Bom, pois temo que agora lhe vai custar me manter à
margem. Amanhã farei algumas visitas e lhe direi algo. Falou
ao Simon o que faz?
Maggie franziu o cenho.
— Não. Por que teria que fazê-lo?
Os lábios de Júlia pareceram crispar-se como se
estivesse contendo um sorriso.
— Por nada. É curioso o pouco que sabemos dos outros,
não lhe parece?
Maggie encolheu os ombros.
— Frequentemente não nos mostramos como somos
realmente.
— Certamente.
O olhar da duquesa parecia muito calculista para que
Maggie se sentisse tranquila. Outra convidada começou a
conversar com ela, e Maggie aproveitou a oportunidade para
desculpar-se. Precisava estar a sós um momento, ou tomar
um pouco de ar fresco.
Quando saiu da saleta o longo corredor lhe pareceu um
labirinto; havia portas por toda parte. Decidiu-se por uma
direção e tentou encontrar o mordomo. Se fizesse um mapa
possivelmente conseguiria encontrar o terraço.
Das sombras de uma entrada uma figura se interpôs em
seu caminho.
— Lady Hawkins.
«Simon.» Maggie se deteve e levou uma mão ao peito.
— Assustou-me. O que está fazendo aí?
Ele cruzou os braços e a fina lã de seu casaco se esticou
sobre seus ombros.
— Poderia lhe fazer a mesma pergunta… embora
suspeite qual será a resposta. Onde pensavam fazê-lo?
— Simon, acredito que é melhor que retorne à sala de
jantar…
— Na sala de música? Na estufa? — Seguiu dizendo
enquanto se aproximava dela com passo firme. — Conheço
esta casa e sei que há centenas de recantos onde uma pessoa,
ou possivelmente duas, poderiam desaparecer um bom
momento.
Ela tratou de dar um sentido àquelas palavras apesar do
som ensurdecedor de seu coração. Estava insinuando…? Oh,
pelo amor de Deus. Sempre tinha que presumir o pior dela?
Maggie plantou os pés no chão e elevou o queixo.
— Pretende insinuar que tenho uma espécie de encontro
amoroso? Em meio a um jantar?
Era tão absurdo que quase não podia nem pensar.
O sorriso de Simon confirmou suas suspeitas.
— É curioso que tanto você como Markham se
desculparam quase ao mesmo tempo, não lhe parece? Deixe
que lhe dê um conselho para outra vez: chamará menos a
atenção se escapar quando os cavalheiros se unirem a…
Ela se adiantou para lhe vaiar:
— Hipócrita desgraçado. Saí para tomar um pouco de ar.
Sozinha.
Ele teve o descaramento de soprar.
— Sim, com certeza Markham daria uma desculpa
parecida se lhe perguntasse.
Maggie sentiu que a ira corria por suas veias e se
inchava em seu peito como uma pesada massa de argila.
Simon se abatia sobre ela com uma careta furiosa e
arrogante, e se deu conta que a tinha encurralado contra a
parede. Nesse momento soube que ele jamais daria crédito às
suas explicações; formou uma opinião sobre ela há dez anos e
essa opinião não ia mudar.
Muito bem, comportar-se-ia como uma rameira para ele.
Possivelmente assim a deixaria em paz… embora em realidade
morria de vontade de lhe dar um bom murro em sua
mandíbula tão bem barbeada.
Então deixou escapar o ar, relaxou os braços e passou a
língua pelos lábios. Como era de esperar, os olhos de Simon
se cravaram em sua boca e Maggie mordeu o lábio. O peito
daquele homem seguia subindo e baixando, e o som
trabalhoso de sua respiração enchia o corredor; seus olhos
pareciam safiras negras. Oh, sim, a vingança podia ser algo
muito doce. Muito, muito devagar, Maggie se passou um dedo
pela linha da garganta.
— Encurralou-me com a esperança de ocupar seu lugar?
— Perguntou, desta vez com tom íntimo e sensual.
Simon se aproximou ainda mais, um homem até a
medula, enchendo seu nariz com seu aroma almiscarado.
Gostava de seu aroma, à laranja e sândalo com um pingo de
tabaco. A proximidade de seu corpo também a transtornava.
Suas roupas de noite não tinham enchimento, eram de corte
impecável e envolviam sua figura à perfeição. Maggie via
muito bem o contorno de…
— Se decidisse ocupar o lugar do Markham… —
começou a dizer apoiando as mãos na parede, uma a cada
lado de sua cabeça, para encurralá-la.
Inclinou-se sobre ela, e por um momento Maggie pensou
que ia beijá-la, mas Simon se moveu antes que seus lábios se
tocassem. A ponta de seu nariz lhe roçou a bochecha e pôde
notar a calidez de sua respiração na pele. Os seios de Maggie
se incharam e suas pálpebras se fecharam enquanto uma
quebra de onda de prazer lhe percorria todo o corpo.
— Se decidisse ocupar seu lugar, não seria aqui —
sussurrou-lhe quase ao ouvido. — A levaria ao meu leito na
Barrett House e lhe ensinaria coisas que Markham não
poderia nem sonhar. Mas essa não é a razão pela qual a
encurralei.
Perto. Estava muito perto. Apesar de seus esforços por
manter-se indiferente, Maggie tinha borboletas no estômago e
uma sensação de calor entre as pernas. Por que demônios
tinha que ser aquele homem odioso o único que despertava
aqueles sentimentos nela? Tragou.
— E qual é, então?
Roçou-lhe o lóbulo da orelha com a língua e puxou
levemente com os dentes. Ela aspirou com força.
— A que está jogando, Maggie?
— Eu… — a voz a traiu e brotou entrecortada, e teve que
pigarrear. — Não há nenhum jogo, Simon.
Estava perdendo o controle. Desejava fazer com ele todas
as coisas impróprias do mundo… e que ele fizesse outro tanto
com ela. Curioso, posto que jamais tinha desfrutado da
intimidade com um homem. Em realidade, odiava-a. Mas por
alguma razão aquilo era distinto.
Por que tinha dado pé àquela situação? Ah, sim, porque
queria lhe dar uma lição e ridicularizá-lo. Fazer com que lhe
caísse a baba com ela e deixá-lo plantado… mas as coisas
estavam saindo de um modo bem distinto.
— Eu gosto dos jogos — ele continuou enquanto seus
lábios roçavam sua garganta sedutoramente. — Mas,
sobretudo, eu gosto de ganhar. Está preparada para pagar o
preço quando perder?
Maggie estremeceu. Não havia suficiente ar naquele
condenado espaço.
— Eu nunca perco — disse com voz áspera. — E você
arrisca mais.
— Seriamente? — Seu nariz deslizou pela delicada linha
da mandíbula de Maggie e ao seu passo deixou um rastro de
pele arrepiada. — Acredito que poderia tomá-la contra esta
parede. Neste momento. Aqui mesmo.
Apertou os quadris contra ela com o membro ereto e
impenitente, e Maggie aspirou com força. E quando se deu
conta suas mãos o tinham segurado pela cintura para que
não se apartasse.
— Mas deve saber — ele seguiu dizendo com os lábios
quase em cima dos dela — que eu só jogo quando há poucos
jogadores. Eu não gosto de ser um entre tantos.
O comentário demorou uns segundos em surtir seu
efeito. E quando o fez, o ressentimento e a ira voltaram a
ressurgir e eclipsaram qualquer outro sentimento que Maggie
pudesse albergar.
Todos os seus músculos se esticaram e o empurrou pelos
ombros com todas as suas forças. Quando Simon se apartou
ela passou ao seu lado e se dirigiu para a porta. E embora a
necessidade de fugir fosse poderosa, não pôde resistir a
lançar um último golpe.
— Então estamos de acordo em que jamais saberemos se
você esteve à altura.

***

Simon demorou vários minutos em repor-se. O estado de


seu membro, que naquele momento estava duro como um
diamante, desaconselhava que se reunisse com os outros, de
modo que se dedicou a repassar o discurso que tinha estado
preparando para o Parlamento para distrair-se de sua refrega
com Maggie. Pelo que havia sentido tendo-a colada ao seu
corpo. Seu doce aroma. A suavidade de sua pele.
Com um gemido esticou o braço para acomodar o
conteúdo de suas calças. Jesus, nunca voltaria a reunir-se
com os outros se aquilo não baixasse. Mas em que demônios
estava pensando provocando-a daquele modo? Não tinha
intenção de atar-se a ela, por mais sedutor que fosse o pacote.
Senhor, por que bebeu tanto durante o jantar?
Ao menos tinha evitado que se reunisse com o Markham.
Aquilo lhe fez sentir uma certa satisfação por muitos
motivos. Markham tinha sido convidado unicamente porque
ele necessitava do apoio do visconde para sua proposta. Mas
o velho idiota passou a noite babando por Maggie… e
certamente ela não tinha feito nada para desalentá-lo.
Nunca entenderia o que Maggie via naqueles outros
homens. Podia aceitar que não o tivesse elegido, mas
certamente merecia algo melhor que Cranford…, ou
Markham. Aquela mulher não tinha critério?
Quando chegou ao vestíbulo principal viu Maggie na
entrada abotoando-se seu casaco enquanto falava em voz
baixa com Júlia. A duquesa assentiu, e logo as duas
mulheres se abraçaram. Então Maggie tinha decidido
abandonar a festa. Sentindo-se um pouco como um voyeur,
Simon retornou à sala e encontrou Markham no sofá
conversando com outro convidado. Tinha renunciado à
Maggie sem mais ou tinha planejado reunir-se com ela em
sua casa? A ideia o punha mal.
Colton e Quint estavam apoiados contra o aparador e
Simon se dirigiu para eles.
— Perguntar-te-ia onde esteve, — Colton disse com voz
arrastada — mas considerando a forma precipitada que lady
Hawkins entrou e levou a minha esposa, diria que a pergunta
é desnecessária.
Simon jogou mão ao decantador.
— Deixa-o, Colt.
— O que lhe disse? — Quint perguntou. — Parecia
realmente furiosa.
Simon não era capaz de ordenar suas emoções naquele
momento, e muitos menos falar delas.
— Não têm nada melhor que fazer que andar por aí
cochichando? São piores que as senhoras rondando a terrina
de ponche.
O duque arqueou as sobrancelhas.
— O que te fez para te pôr tão furioso?
— É Markham, não é? Pensa que atrai lady Hawkins.
Simon olhou ao Quint, que levantou sua xícara de chá e
bebeu. O visconde não bebia álcool. Nunca. Dizia que lhe
turvava a mente, e que não gostava da sensação de
entorpecimento que provocava.
Simon, por sua parte, necessitava daquele
entorpecimento. Deu um generoso gole no clarete que nesse
momento enchia seu copo e tragou.
— Duvido que alguém tenha ignorado — Colton
comentou. — Lady Hawkins esteve flertando com o Markham,
e o que, feriu seus sentimentos?
Simon suspirou.
— Por favor, me recorde por que te ajudei a se reconciliar
com sua esposa. Eu gostava muito mais quando só te via a
cada tantos anos.
— Foi porque a duquesa te enganou — Quint atravessou.
— Na realidade foram os dois.
— Quint, às vezes é incrivelmente útil. Mas esta não é
uma dessas vezes.
Simon via a entrada diante dele, e em seguida soube
quando Júlia retornou à habitação. A duquesa olhou ao seu
redor e seus olhares se encontraram. Dirigiu-se para ele com
os lábios apertados.
— Conheço essa cara — Colton murmurou. — E significa
que terá que pôr-se a correr, e digo correr, não andar, na
direção oposta. Pelo amor de Deus, Winchester, se faça um
favor…
— Muito tarde — Quint disse, porque Júlia já estava ali.
— Posso falar contigo? — Perguntou com brutalidade ao
Simon.
Seus olhos azuis o olharam entrecerrando-se, e Simon
soube que tinha que resolver aquilo em seguida.
Mas não pensava ir sem um reforço, e se tomou um
momento para voltar a encher seu copo.
— Você primeiro, duquesa.
A duquesa foi apressadamente até o extremo mais
afastado da habitação levantando as saias para não as pisar.
— O que aconteceu? Lady Hawkins e você desaparecem e
logo depois ela retorna em um forte estado de agitação. O que
fez?
Aquilo ofendeu Simon.
— Por que dá como certo que fui eu? E o que ela fez?
— O que é, um pirralho dedurando a malvada de sua
irmã? — Júlia se segurou a ponte do nariz entre os dedos. —
De verdade, nunca tinha te visto assim. Normalmente é um
homem tranquilo e previsível. É como se tivesse sido
substituído por um estranho com o mesmo aspecto que você.
— O que lady Hawkins te disse?
— Nada. Só que não se sentia bem e queria voltar para
casa para descansar. Mas é evidente que tinha algo a ver
contigo, porque retornou de seu tête-à-tête feita um molho de
nervos. Eu não gosto que meus convidados se desgostem
desse modo, e menos ainda uma amiga.
— Amiga?
— Sim, amiga. Eu gosto dela. E vou ajudá-la com um
pequeno projeto.
— Que projeto?
Não gostava da ideia de que Maggie e Júlia se fizessem
amigas. Pareciam-se muito, e Simon sabia muito bem as
confusões em que Júlia podia chegar a meter-se. Demônios,
ao longo dos anos a tinha tido que tirar de muitos apuros. E
agora também tinha que preocupar-se com Maggie?
— Não é assunto teu. Sinceramente, Simon, sei que está
ressentido pelo que aconteceu há anos…
— Ridículo. Eu não estou ressentido. Mas não viu como
flertou com o Markham durante toda a noite? É totalmente
revoltante.
— É viúva, e se lavrou uma reputação. E posto que a
maior parte da sociedade não a aceita, diria que se propôs
divertir-se sempre que puder. Não tem direito de julgar os
assuntos amorosos dos outros.
Ele apertou os lábios, pois não podia nem desejava fazer
nenhum comentário. Como podia explicar à Júlia se ele
mesmo não entendia?
— Esta noite quase me arrependi do pequeno papel que
joguei naquele desastre durante sua apresentação.
Possivelmente, depois de tudo, deveria ter desafiado
Davenport.
— Não, você tinha razão. O resultado teria sido o mesmo,
e certamente teria piorado as coisas. Cranford tem muitos
defeitos, mas certamente disparava muito bem.
— Não sei. Intuo um grande romance… — e deixou as
palavras no ar. — De todos os modos, o fato feito está. O que
não entendo é por que insiste em castigar a pobre mulher. Já
não sofreu o bastante?
— Sofrer? — Ele zombou. — Esteve em uma de suas
festas. Essa mulher vive como uma aristocrata francesa antes
17
que Robespierre começasse a cortar cabeças. Eu não
chamaria isso de sofrer.
— Está claro que é mais cínico e simplório do que eu
pensava. — Júlia deixou escapar um suspiro. — Viver nos
limites da sociedade é distinto para uma mulher. Não espero
que compreenda, Simon, mas sim que a deixe em paz.
— Bem — ele disse, e então suavizou o tom. — A deixarei
em paz.
Sua voz soava muito decidida, mas não estava muito
seguro de havê-lo dito a sério.
Capítulo 7
Na manhã seguinte, cedo, a porta do escritório de Maggie
se abriu e ouviu a voz de Rebecca.
— Não podia esperar nem um minuto mais. Quero que
me conte tudo o que aconteceu ontem à noite.
Maggie não levantou a vista. Seguiu desenhando,
sentada à larga mesa de madeira que utilizava para trabalhar,
decidida a plasmar aquela imagem com exatidão. Levava mais
de uma hora com aquilo.
— Tilda, traga o chá, por favor.
— Sim, milady.
Maggie ouviu fechar a porta e notou uma presença às
suas costas.
— Está trabalhando nos desenhos da Escócia e Gales
para o livro de viagens do Ackermann? — Rebecca perguntou
ficando nas pontas dos pés para olhar por cima do ombro de
sua irmã.
Maggie se encurvou e ocultou o papel com as mãos.
— Não. É outra caricatura para a loja, e a verá quando
estiver terminada, não antes.
— Bem. Caramba, que misteriosa com seu trabalho. —
Becca foi até o sofá perto da fileira de janelas altas. — Espero
que não tenha a ver com ontem à noite. — O silêncio se
prolongou, e de repente Rebecca exclamou: — Maggie! No que
está pensando? Todo mundo saberá que Lemarc foi ao jantar
da duquesa.
— Absolutamente. Ninguém assumirá tal coisa.
Simplesmente pensarão que Lemarc está bem informado.
— Mesmo assim, em minha opinião é um risco
desnecessário, embora já sei que não vai me dar atenção.
Bom, e o que aconteceu entre o Winchester e você?
A mão de Maggie escorregou. Maldição. Agora teria que
refazer toda a parte inferior direita.
— Temos que falar disso agora?
— Sim, eu acredito que sim. Estou segura de que ele
esteve lá porque Tilda diz que retornou muito breve e furiosa
como um gato molhado.
Maldita criada fofoqueira. Maggie deixou seu lápis e se
levantou para ir ocupar a cadeira que ficava mais próxima à
sua irmã.
— Sim, esteve ali. Me olhando furioso do outro lado da
habitação toda a noite. É um homem exasperante.
— Um homem exasperante por quem em outro tempo
esteve loucamente apaixonada. Temo que não poderá resistir
aos seus encantos.
A lembrança de quando seu corpo a tinha aprisionado
contra a parede na noite anterior retornou com vividez.
«Acredito que poderia tomá-la contra esta parede. Neste
momento. Aqui mesmo.» Possivelmente havia retomado seus
planos de tentar com ela, mas não cairia na mesma
armadilha uma segunda vez.
Agitou uma mão.
— É o último homem com quem procuraria uma relação.
— Sobretudo quando pode escolher entre todos os
homens da alta sociedade londrina. Não é justo; as viúvas
sempre passam bem.
Oh, sim, estupendamente. Com as fofocas, as risadinhas
às suas costas. As insinuações e as propostas indecentes que
lhe faziam sem cessar. Becca sem dúvida tinha uma imagem
muito romântica da vida de sua irmã, e ela a amava muito
para danificar-lhe com a realidade. Assim sorriu.
— Suponho que o que quer dizer é que os homens
passam bem.
— Bom, ninguém poderia discutir isso. Quem mais
havia?
Tilda retornou com o chá quando Maggie estava
iniciando seu relato da noite com uma descrição da casa de
Colton. Quando o chá esteve servido já tinha contado
virtualmente tudo e terminou explicando sua decisão de
voltar cedo para casa.
— Deixou o mais importante — Becca disse. — O que te
impulsionou a partir de modo tão prematuro? É evidente que
algo, ou alguém, transtornou-te.
Maggie encolheu um ombro e deu um sorvo ao seu chá.
— Um pequeno desacordo. Nada que valha a pena
mencionar.
— Mentirosa. O que te disse? Se mostrou cruel…?
— Agradeço-te que se preocupe por mim, irmãzinha, mas
não pode mudar a mentalidade das pessoas.
Becca deu uns toquezinhos com o pé no chão, um claro
sinal de que estava pensando. Maggie tomou seu chá e
guardou silêncio. Por fim os olhos de Becca se abriram
exageradamente e logo a olharam entrecerrando-se.
— Então Winchester crê em todos esses espantosos
rumores sobre ti? Ele teria que saber que não são certos. De
verdade, jamais lhe perdoarei que não saiu em sua defesa
quando…
— Oh, Becca. — Maggie suspirou. — O fato, feito está.
Com frequência esperamos de nossos amigos mais do que
podem dar. Ou querem dar. Agradeço por ter descoberto o
que havia quando o fiz. De outro modo, é possível que tivesse
passado muitos anos desventurados junto a um homem que
não me amava.
— E em vez disso passou muitos anos desgraçados junto
a um homem que podia ser seu pai.
— Não foram desgraçados. Solitários sim, mas não
desgraçados. Hawkins preferia a sua amante, e eu não tinha
interesse em que fosse de outro modo.
Becca se inclinou para tomar a sua irmã pela mão.
— E isso não é ser desgraçado?
Maggie sorriu e meneou a cabeça.
— Não, não acredito. Nem todos têm a sorte de encontrar
o amor como Marcus e você. Vocês são um dos estranhos
exemplos que tem de matrimônio feliz. E embora não pudesse
me alegrar mais por ti, nem todos temos a mesma sorte.
— E é a ti a quem devo agradecer por meu matrimônio.
Se você não tivesse casado com lorde Hawkins, nunca teria
conhecido o meu marido.
Maggie apertou a mão de sua irmã com afeto. Depois do
escândalo, Maggie tinha a opção de casar-se com o Hawkins
ou conduzir a vergonha sobre toda sua família, incluída sua
jovem e inocente irmã. E sob nenhuma circunstância a teria
privado da possibilidade de apresentar-se em sociedade e
encontrar um marido. Por isso se casou com o Hawkins,
suportou a dolorosa e embaraçosa noite de bodas, viveu em
uma pequena localidade onde a seguiram as insinuações e as
fofocas, e se inundou em sua arte. Mas o agradecimento e a
felicidade de Becca faziam com que aqueles dez anos
houvessem valido a pena.
— Eu gostaria que papai tivesse vivido o bastante para
ver o êxito que tem — Becca seguiu dizendo. — Estaria muito
orgulhoso de ti.
Maggie não pôde evitar, notou que as lágrimas lhe
ardiam nos olhos. Tinha saudades de seu pai, um homem
com a alma sensível de um artista, como ela. Doía-lhe pensar
que suas últimas lembranças dela eram de vergonha e
decepção. Maggie sempre tinha querido que estivesse
orgulhoso dela, e tinha fracassado miseravelmente.
Possivelmente agora, de seu lugar de descanso, pudesse ver
tudo o que tinha conseguido fazer em tão pouco tempo.
Suspirou, soltou a mão de sua irmã e se recostou em sua
cadeira.
— Ao menos te viu felizmente casada. Ele sabia o muito
que amava o Marcus.
Ver seu pai sorrir nas bodas de sua irmã tinha deixado
um sabor agridoce em Maggie. Aquela alegria pelo enlace de
sua irmã só contribuiu a ressaltar o contraste com a
amargura que demonstrou pelo apressado casamento dela.
— Sim, mas você foi sempre sua favorita. E inclusive
naquela época ele já sabia o talento que tinha. — Com sua
xícara na mão, Becca se relaxou no diminuto sofá. — Eu
adoro este lugar. É muito relaxante.
— Como já sabe, — explicou — passo a maior parte do
tempo aqui. Olhe quantas manchas tenho nas mãos.
Maggie tinha comprado a casa com uma parte da
propriedade que tinha herdado. A melhor sala da casa era, de
longe, a pequena saleta de cristal do piso de cima.
O proprietário anterior era escultor e tinha incorporado a
habitação de jogos a um pequeno dormitório para convertê-lo
em um enorme escritório acristalado. Aquele lugar era o
sonho de um artista. Tinha combinado duas janelas de água
— furtada para criar uma longa fileira de janelas que
permitissem entrar o máximo de luz possível, cada uma
formada por pequenos quadrados separados por finas barras.
Todas elas se abriam com dobradiças para que pudesse
entrar o ar quando pintava. Também havia claraboias no teto,
e podiam abrir-se mediante uma longa barra. Com aqueles
tetos altos e aquela intimidade, era uma habitação tranquila,
luminosa e espaçosa. Maggie a adorava.
Quão único precisava era daquele espaço e de suas
pinturas. Um lápis e uns tecidos. Coisas singelas que em
modo algum incluíam o conde de Winchester.
— Maggie — Becca disse atraindo de novo sua atenção.
— Já sabe do trabalho que estive fazendo para o Foundling
Hospital de Bloomsbury. O comitê decidiu organizar um ato
para arrecadar recursos, e esperava poder utilizar algumas de
suas obras, se te parecer bem. Têm algumas outras obras, do
Rowlandson, Pugin e outros, e estou segura de que as obras
do Lemarc também despertarão grande interesse.
— É claro. O que necessitar. Será uma honra.
— O que te pareceria doar alguma obra com seu
verdadeiro nome? Sei que sonha poder lavrar uma reputação
à margem do Lemarc. Esta poderia ser uma boa
oportunidade.
A ideia tinha seu atrativo. Permitir-lhe-ia reconhecer sua
paixão pela arte com uma maior liberdade. Já não precisaria
ocultar seu trabalho. Mas a sociedade a aceitaria? As
mulheres artistas não tinham tão boa aceitação como os
homens. Era difícil encontrar mecenas, e as comissões eram
mais escassas. Na França era mais fácil, e ali algumas
18 19
mulheres, como VigéeLebrun e Ducreux , tinham
triunfado. Entretanto, os ingleses não tinham demonstrado o
mesmo interesse por aceitar artistas femininas.
Ainda assim, podia criar suas próprias peças e seguir
criando outras como Lemarc… mas quem compraria uma
peça realizada pela rameira meio irlandesa? Era difícil saber
se sua reputação faria com que suas obras fossem mais
populares ou reforçariam seu caráter marginal.
— Pensarei. Quando será?
— Ainda faltam uns meses.
— Se começar a trabalhar utilizando meu verdadeiro
nome cabe a possibilidade de que haja rejeição, e isso afetaria
a ti e ao Marcus.
— Não me importa. Tem um dom, Maggie, e teria que ser
exibido, não oculto. Que fofoquem tanto como queiram. Sabe
muito bem que os rumores só servem para vender mais
peças.

***

— Boa tarde, Quint. Que detalhe que tenha ordenado


isto por mim.
Simon passou por cima dos habituais montões de papéis
e livros que havia no chão de caminho à mesa do visconde,
onde seu amigo parecia concentrado estudando algo. Quint se
incorporou e lhe deu com isso uma bonita panorâmica do
sacrilégio que tinha cometido esse dia com seu traje. Casaco
violeta sobre um colete verde listrado, coroado com um lenço
tão folgado que parecia mais um cachecol. Simon se
encolheu. Apreciava muito seu amigo, mas vestia-se de um
20
modo que faria cair morto o próprio Beau Brummell em
plena rua.
Na noite anterior Quint lhe tinha comentado que tinha
feito progressos em suas pesquisas sobre os pássaros e lhe
pediu que fosse à sua casa no dia seguinte. Mesmo assim, a
visita de Simon pareceu lhe pegar totalmente de surpresa.
— Winchester, que alegria te ver! Oferecer-te-ia um
assento, mas… — Quint indicou com o gesto as duas cadeiras
cobertas de livros que havia ante sua escrivaninha. — Se
esperar um momento, em seguida te busco… — Quint ficou a
revolver papéis e imediatamente desdobrou sete retratos
emoldurados ante ele. Quando terminou agitou uma mão. —
Suas aquarelas de pássaros.
— Não eram quase vinte?
— Sim, mas eliminei as dos pássaros mais comuns. Os
que se podem encontrar por toda a Inglaterra, como a perdiz,
a urraca, o pássaro carpinteiro e outros similares. Os que
temos aqui são os sete que nos interessam para reduzir a
busca da possível localização de nosso afamado artista.
— Ou o lugar que visita.
— Talvez — Quint concedeu. — Mas alguns destes
pássaros só estão presentes por temporadas. Quer dizer, que
se o artista só estava de visita, não é provável que visse os
pássaros que estão em hibernação e os que estão no verão.
Em minha opinião, o artista passou bastante tempo no local
estudando a vida selvagem.
— Sim, tem sentido.
— Bom, estudemos os retratos escolhidos. Na fila de
cima — e assinalou — temos a oropéndola, uma fêmea de
chorlito carambolo e um rouxinol, as três com sua plumagem
do verão, e que nos situariam no leste da Inglaterra. Na
segunda fila temos uma agulha colipinta, chorlitejo, astuto
alirrojo e correlimos, que aparecem com sua plumagem de
inverno. Os quatro podem ver-se no leste da Inglaterra
durante essa estação. — Quint empurrou dois dos quadros
para separá-los do resto. — O mais interessante é que tanto a
agulha colipinta como o correlimos são aves marinhas, e
ocupam zonas costeiras e estuários.
— Ou seja, procuramos uma zona costeira do leste da
Inglaterra ou um estuário?
— Bom, isso era o que eu pensava até que vi isto. —
Quint se inclinou e tirou um novo quadro da gaveta de sua
mesa. — À primeira vista parece uma espécie de urogallo, que
pode encontrar-se nas restingas do Norte. Mas não consegui
situá-lo.
— E o que é?
— Que me crucifiquem se sei. Não é nenhuma ave que
possa encontrar-se na Inglaterra.
Os dois ficaram olhando o quadro durante um longo
momento.
— E se Lemarc se equivocou? — Simon sugeriu.
— O que quer dizer? Que inventou o pássaro?
— Isso ou que o tenha pintado de memória… e não
recordasse bem os detalhes.
— Possivelmente tenha razão. Pega esse livro daí, pode
ser? O negro com letras amarelas.
Simon seguiu as indicações de Quint até que encontrou
o livro titulado Birds Throughout England. O passou.
Quint foi diretamente à seção dos urogallos. Passou as
páginas com rapidez.
— Ahá. Aqui está. Um lagópode escocês, um macho.
E colocou o livro aberto sobre a mesa, junto ao quadro
emoldurado. Os dois homens olharam a um e a outro,
estudando ambas as imagens.
— Olhe, o bico não está bem. — Simon assinalou o
quadro. — E segundo o livro, nas bordas das plumas das asas
teria que haver um toque de amarelo que falta na versão do
Lemarc.
— Mas se aproxima bastante para que assumamos que é
o que Lemarc queria plasmar. Não tinha nenhum diante e o
pintou de memória. — Quint deu uma palmada nas costas do
Simon. — Muito bem! Sabia que era mais esperto do que
aparenta…
— Não foi tão difícil. Poderia ganhar com uma mão atada
às costas.
Seu amigo riu e pegou o quadro do lagópode.
— Então diria que este podemos descartar.
— Estou de acordo. É provável que Lemarc tivesse visto
algum, mas não tivesse uma lembrança bastante fresca para
pintá-lo adequadamente.
Quint pôs o quadro virado para baixo.
— Bem, pois sem o lagópode, diria que seu artista está
em algum estuário no leste da Inglaterra. Minha opinião é que
poderia tratar-se de Suffolk ou Norfolk, perto do mar.
— O que não nos esclarece grande coisa. Os dois
condados contam com numerosos estuários.
Quint se levou uma mão ao ouvido como se não ouvisse
bem.
— Como? Isso que ouvi era um «Obrigado, Quint»?
Simon sorriu e deu ao seu amigo uma palmada no
ombro.
— Obrigado, Quint. É brilhante, mas gostaria que tivesse
demarcado mais a busca.
— Suponho que sabe que os pássaros voam não? O mais
que podíamos esperar era situá-lo em uma zona pequena. —
Quint empurrou um montão de livros ao chão e ocupou o
assento que acabava de deixar livre. — O reduzimos a dois
condados. Que mais quer?
— Minhas desculpas. Estou sendo negativo. — Sentou-se
na beira da escrivaninha, a única superfície meio limpa que
havia na habitação. — Com um pouco de sorte o detetive que
contratei demarcará a busca ainda mais. Posso levar isso?
— É claro. Poderia puxar a campainha, por favor? Não
comi nada em todo o dia e com certeza minha governanta está
à beira da histeria.
Simon se levantou e fez o que Quint lhe tinha pedido.
— Quanto faz que a tem? — Perguntou.
— Cinco semanas. Espero que dure.
«Duvido-o», pensou. Embora Quint pudesse permitir-se
pagar bem, trabalhar ao seu serviço dava mais problemas dos
que valia a pena aguentar. De vez em quando o visconde
embarcava em algum projeto, e toda rotina devia ficar
estacionada por seus caprichos. Às vezes não se lembrava de
comer até bem entrada a noite.
Simon pegou os quatro quadros da mesa e foi para a
porta.
— Então te deixo. Tenho uma missão. Ver-te-ei depois no
clube?
— Duvido-o. Tenho um relógio que vai uns minutos
atrasado e queria…
Simon levantou uma mão. Se Quint ficasse a lhe explicar
os detalhes não acabariam nunca, e tinha um pouco de
pressa.
— Não precisa me contar os pormenores. Obrigado pelo
que me explicou sobre os pássaros, Quint. Como sempre, foi
soberbo.
— Espero que ponha isso em minha lápide.
— Uma vez mais, obrigado. Vemo-nos amanhã.
Simon levantou o trinco e fugiu ao vestíbulo.
Normalmente teria ficado um momento, mas sua mãe lhe
tinha enviado uma nota em que solicitava sua presença para
o chá e, antes queria levar os quadros dos pássaros à lady
Hawkins para que os examinasse.
O trajeto até a casa de Maggie foi rápido. Não sabia se
receberia visitas, assim subiu os degraus com os quadros nas
mãos. Possivelmente podia deixar com algum servente.
Certamente não quereria vê-lo, não depois de seu
intercâmbio durante o jantar da noite anterior. Maggie estava
furiosa quando se foi; todos viram e estiveram comentando-o.
A sério, o que lhe tinha impulsionado a comportar-se daquele
modo? Se Maggie queria estar com o Markham por que tinha
ele que interpor-se?
A porta se abriu e Simon se encontrou olhando à mesma
criada que das outras vezes. Entregou-lhe seu cartão e
solicitou uma entrevista com lady Hawkins. A mulher o olhou
com cara de desaprovação, mas o deixou passar. E esticou os
braços esperando que lhe entregasse suas coisas, de modo
que Simon deixou os quadros sobre uma pequena mesa e
começou a tirar o casaco.
Um cartão que estava sobre a mesa chamou sua
atenção. O nome, que podia ler-se inclusive àquela distância,
fez-lhe apertar os dentes.
— Lorde Markham já foi?
— Não, milorde. A senhora ainda está com ele. Se desejar
esperar no salão.
— Não será necessário. — Entregou-lhe seu casaco e
pegou os quadros. — Conheço os dois. Lady Hawkins não se
importará se lhes interrompo.
Uma mentira descarada… embora tampouco lhe
importasse.
E posto que tinha estado ali fazia só uns dias, sabia
perfeitamente aonde tinha que ir. A criada foi atrás dele.
— Milorde — exclamou, mas ele caminhava depressa,
impulsionado em parte por uma desagradável pressão que
notava no peito.
Segundos depois abriu a porta da sala sem chamar e
entrou. Maggie levantou a cabeça surpreendida e Markham se
levantou e saudou o Simon com sua xícara de chá na mão.
— Bem-vindo, Winchester. Deseja nos acompanhar?
Não podia ter elegido um momento mais inoportuno.
Maggie observou com interesse e desalento como Simon
entrava na habitação com um montão de pequenas telas nas
mãos. Fazia apenas uns momentos que tinha começado a
desacreditar sua proposta ante lorde Markham quando o
próprio conde entrou. Não pensaria ficar, não é?
Observou-o com as pálpebras entreabertas. Pernas
longas embainhadas em umas calças rodeadas de camurça,
botas altas e negras, ombros largos emoldurados por um
sobretudo azul safira. Estava tão imponente e atraente como
sempre. E, assim como lhe acontecia quando tinha dezoito
anos, seu estúpido coração se desfez ante a visão daquele
homem. Obrigou-se a olhar para outro lado.
— Não queria interromper — Simon disse com
suavidade.
— Tolices — Markham replicou, e voltou a sentar-se. —
Estou seguro de que lhe interessará nossa conversação.
E Simon, o muito bruto, não pensou duas vezes. Depois
de deixar os quadros sobre a mesa, ficou cômodo.
— Seriamente? — Arqueou uma sobrancelha e dedicou à
Maggie um olhar cheio de sarcasmo. — Pois continuem. Estou
impaciente.
Acaso pensava que estava tratando de paquerar com o
Markham, ou que permitia que ele paquerasse com ela?
Certamente, posto que acreditava que seus aposentos eram
um desfile contínuo de amantes bem-dotados. Ficou reta e
não se incomodou em dissimular seu desgosto.
— Deseja tomar um chá, lorde Winchester? Já que
parece que tem intenção de ficar.
— Não, obrigado, lady Hawkins. Embora seu
oferecimento seja muito generoso.
Por seu tom se entendia que queria dizer justamente o
contrário, e à Maggie deu vontade de pegar um prato e atirar-
lhe à cabeça.
— Justamente, a dama estava dizendo… — Markham
começou a dizer.
— Milorde, — Maggie lhe interrompeu — estou segura de
que lorde Winchester tem temas mais interessantes que
comentar que o aborrecido assunto que nos ocupava.
— Certamente que não — interveio o aludido. — Por
favor, Markham, continuem.
Markham olhou a um e a outro e se esclareceu garganta.
— Sim, bem, a dama me estava falando de seu…
— Situação. Estávamos falando de sua propriedade —
ela disse balbuciando.
Markham pestanejou confuso, mas por sorte não
desmentiu suas palavras.
— Sim, bom. Era isso.
Maggie se relaxou ao ver que Markham não a delatava.
Simon ficaria furioso se se inteirasse que estava tratando
ativamente de prejudicar sua ridícula proposta.
— Minha… propriedade. — Simon se tirou as luvas e
ficou a tamborilar com os dedos no braço de seu assento, com
expressão fria e incrédula. — Pois estou impressionado. Para
que nos entendamos, de qual das quatro propriedades que
tenho ao meu cargo estavam falando?
«Quatro?» A mente de Maggie tratou de encontrar um
nome.
— Winchester Towers. Mas falemos de outros assuntos.
Desagrada-me tratar temas sérios em grupo.
— Pois isso sim que estranho, porque conforme tenho
entendido você gosta de fazer muitas coisas em grupo.
Maggie ficou sem fala. E então recordou o comentário
que Winchester fez na noite anterior e sentiu que a ira lhe
fervia nas veias e se inchava como uma maré. «Eu só jogo
quando há poucos jogadores. Eu não gosto de ser um entre
tantos.» Aqueles insultos eram injustificados e tediosos. Dava
vontade de lhe responder, de lhe ferir igual a ele a estava
ferindo-a. Um desejo mesquinho e infantil sem dúvida, mas
muito real. Só sua força de vontade, e a presença de um
estupefato Markham, impediu que insultasse Simon como
merecia.
Sua proposta fracassaria. Maggie se asseguraria disso.
Atar uma mulher ao homem que tinha abusado dela, mesmo
que fosse por dinheiro, não estava bem. Ela conhecia
mulheres que tinham sofrido cruelmente nas mãos de algum
homem e quão único queriam era esquecer-se de tudo. Ter
que receber uma mesada anual só serviria para reabrir as
feridas uma e outra vez. Possivelmente uma nova caricatura
do Vinochester tivesse que ser exposta, uma em que seu
personagem alcançasse novos topos de bufonara. Sim, talvez
pensava que a tivesse vencido… mas não seria ela quem
perderia ao final.
— Eu gosto dos grupos grandes — Markham comentou
para encher o silêncio.
— Eu também — Maggie disse, agradecida pela
distração.
Mais tamborilar de dedos que delatavam irritação.
— Tenho assuntos que discutir com a dama, Markham.
Já concluiu sua visita?
Markham abriu a boca surpreso. Simon tinha uma
posição mais elevada, e discutir com ele não serviria de nada.
Em troca, Maggie não gostava que ninguém se apresentasse
em sua casa e incomodasse seus convidados.
— Está se excedendo, milorde. Lorde Markham pode
ficar se desejar.
Simon pôs cara séria.
— Bem, pois então conversemos todos juntos. Não estou
acostumado a fazer visitas sociais. — E se acomodou mais na
cadeira. — Como está sua esposa, Markham? Imagino que
virá para o princípio da temporada. Possivelmente poderiam
vir os dois para jantar em minha casa na Barrett House.
Estou seguro de que adorará saber a que se dedicou em sua
ausência.
Capítulo 8
Markham escapou rapidamente, para satisfação de
Simon.
— Não acredito que isto fosse necessário — Maggie disse
ao mesmo tempo que deixava sua xícara e o pires na mesa.
— De verdade acreditava que ia ficar aqui sentado tão
tranquilo vendo como flertavam?
Ela abriu a boca perplexa.
— Não estava flertando. Estávamos falando de outros
assuntos.
— Markham quer deitar-se com você, Maggie. E ontem à
noite eu não diria precisamente que você não flertava.
— O ciúme não lhe assenta nada bem, Winchester.
Ele proferiu um som desdenhoso.
— Pouco ciumento posso estar. Não é da minha
incumbência se se deitar ou não com o Markham…, embora
lhe aconselharia a aumentar o nível. Esse homem não tem
fama de ser muito hábil no leito.
A pele cremosa de Maggie se voltou de um bonito rosado
e Simon se sentiu embevecido. Pelas bolas de São
Bartolomeu, como era bonita! Quando se ruborizava
desaparecia todo rastro de cinismo e desconfiança e voltava a
ver a jovem que ele recordava, uma combinação embriagadora
de juventude, inocência e fortaleza muito além de sua idade.
Uma pessoa forte, obstinada e valente. Tudo o que sempre
tinha admirado nela. O desejo lhe percorreu a coluna e se
abriu passo até suas vísceras. Deus, desejava-a, com toda
sua alma.
— Deixe que adivinhe — ela disse com tom cortante,
arrumando as saias e evitando seu olhar. — Devo me fixar em
alguém como você, talvez?
— Se for o que deseja. Sem dúvida desfrutaria muito de
suas artes de sedução. — E não pôde evitar que sua voz
baixasse a um tom rouco e suave. — E posso garantir que
você desfrutaria muito do resultado.
O olhar de Maggie o buscou e em seus olhos Simon viu
que se sentia confusa, embora ele mesmo não saberia explicar
o porquê daquele comentário. Um homem tinha estado
flertando com ela, e agora ele fazia o mesmo. Mas preferia
pensar que a semelhança acabava aí. É possível que outros
homens a desejassem por sua beleza exótica ou sua
reputação legendária, mas ele a conhecia. Conhecia a forma
em que se mordia o lábio quando se sentia confusa. Conhecia
o som profundo de sua risada quando achava algo engraçado.
A postura obstinada de seu queixo quando discutia.
— Eu acredito que não — ela replicou, embora o timbre
de sua voz parecia dizer o contrário. — Trouxe esses quadros
para me mostrar?
Ele se esclareceu garganta.
— Sim, trouxe-os . Estes são os quadros de pássaros do
Lemarc que comprei no outro dia.
E dito isto ficou em pé e levou a bandeja do chá a outra
mesa. Tirou os quadros e os colocou diante de Maggie.
— Só oito? Pensei que eram dezenove.
— Excelente memória. São dezenove, e Quint tem o
resto. Posso mandar que os tragam, se desejar. Mas pensei
que podíamos começar por estes.
E se sentou deliberadamente no sofá, junto a ela,
roçando suas saias com o joelho.
— O que pensa?
— Eu gosto deles — Maggie respondeu.
— Não me referia a isso, — Simon disse rindo
entredentes — mas me alegra que goste. Quint utilizou estes
oito para aventurar uma possível localização do autor.
Notou que ela ficava tensa.
— É… algo notável — comentou com um estranho tom
de voz.
— É, certamente. Há um que lhe causou não poucos
problemas. Pergunto-me se saberia me dizer qual.
— Oh. — Maggie levantou as mãos em alto. — Temo que
não saiba nada de pássaros. Por que não me diz o que é e
assim acabamos antes?
A tão curta distância Simon podia estudar cada traço.
Íris verdes, claras e cortantes estavam cravados em seu rosto.
Os lábios suaves e desgostados chamavam a gritos a boca e a
língua de um homem. O nariz reto e delicado e a mandíbula
graciosa. Era impossível não reparar no pulso que pulsava
com rapidez na base de sua garganta, ou no agitado subir e
descer de seu peito. Deus, estava louco por ela. E o fato de
saber que provocava esse efeito nela fez com que o desejo
embalasse sua virilha.
Maggie entreabriu os lábios, a ponta rosada de sua
língua apareceu para umedecer a carne roliça, e Simon notou
que o sangue lhe inchava o pênis com pulsações regulares e
doces. Teve que fazer um grande esforço para não saltar sobre
ela.
Uma mecha negra e sedosa lhe caía sobre a têmpora.
Sem pensar, ele esticou o braço para segurar aqueles cabelos
entre os dedos. Suaves como veludo. Daria tudo para ter
aquele espesso cabelo envolvendo-o enquanto ela o montava.
Como se Maggie soubesse por onde discorriam seus
pensamentos, a cor tingiu de novo sua pele clara de um rubor
irresistível. Sem dar-se conta, Simon se inclinou sobre ela.
— Maggie, em nome de tudo que considera sagrado, me
detenha agora mesmo.
Em lugar de fustigá-lo com sua língua afiada, Maggie
elevou o rosto, dando assim sua aprovação para que a
beijasse com toda sua alma.
Ele não desperdiçou a oportunidade e tomou sua boca
sem vacilar, com ferocidade. Queria ser doce, ir devagar, mas
não podia. Levava toda a vida esperando para prová-la. E era
inclusive melhor do que tinha imaginado. Seus lábios eram
suaves, seu fôlego doce e quente, e Simon a beijou mais
profundamente. Resultava difícil acreditar que aquela era
Maggie, rendendo-se ante ele. Devolvendo-lhe o beijo com um
ardor inesperado. Mas agora que a tinha, nem todo o fogo do
inferno poderia apartá-lo dela.
Notou que Maggie tremia e se deu conta de que suas
mãos tampouco pareciam muito firmes. E quando sua língua
tocou a dela sentiu uma sacudida de prazer por todo o corpo.
Era tão doce… com aquela boca suave e exuberante, e a
língua travessa e escorregadia. Seu pênis palpitava, como não
o tinha feito em muito tempo. Mas não podia deixar de beijá-
la. Voltava a fazê-lo uma e outra vez, com um desejo que a
resposta dela aplacava e exacerbava ao mesmo tempo.
A razão e o sentido comum lhe diziam que aquilo não era
boa ideia. Não tinha que ter iniciado aquele disparate.
Estavam no meio da tarde, pelo amor de Deus. Podiam
surpreendê-los a qualquer momento…, havia serventes
circulando acima e abaixo, escutando certamente atrás da
porta. Tinha perdido sua cabeça?
Mas que o céu o assistisse, não tinha o bastante. Notava
o desejo nas vísceras, como um animal vivo e feroz que
procurava satisfação. Empurrou-a contra o respaldo do sofá
para aproximar-se mais. Malditas roupas. Teria renunciado à
sua considerável fortuna para sentir a pele nua de Maggie
contra seu corpo. Para pô-la debaixo dele e deslizar-se ao
interior da zona molhada que tinha entre as coxas.
Pôs-lhe a mão sobre o seio e acariciou o mamilo por cima
do tecido. Maggie arqueou as costas e um som gutural brotou
de sua garganta. Com uma sensação de urgência Simon lhe
baixou a parte superior do vestido e se abriu passo através
das diferentes capas de tecido até que o pequeno seio
apareceu. Separou a boca de seus lábios e inclinou a cabeça
para olhá-la. Lindo. Um mamilo duro e com a ponta rosa
rodeado por uma auréola escura, em adorável contraste com
a pele branca e cremosa. Simon não perdeu tempo e passou a
língua por aquele botão, salivando e lambendo antes de
agarrá-lo inteiro com a boca. Ouviu que ela aspirava com
força e notou seus dedos enredando-se em seu cabelo para
que não apartasse a cabeça.
Como se tivesse alguma possibilidade de retirar-se.
Simon sabia que Maggie tinha tido muitos amantes, mas
naquele momento não lhe importava. Aquilo não mudava
nada, porque nenhum daqueles homens tinha esperado tanto
para tê-la como ele. Nenhum tinha sonhado com ela tantas
vezes. Nenhum a desejava de um modo tão intenso. De fato,
jamais tinha desejado nenhuma mulher com tanto delírio. E
agora que a tinha, agora que sentia seu corpo suave e
suplicante sob suas mãos, queria lhe dar prazer até que
gritasse seu nome. Só o seu.
Assim usou os dentes, arranhando ligeiramente,
mordiscando com suavidade, até que a teve choramingando.
Soltou os laços que pôde, puxando-os, e então lhe baixou a
roupa para conceder os mesmos cuidados ao outro seio.
Maggie gemeu, mas ele não se deteve até que não começou a
retorcer-se inquieta ao seu lado. Seus mamilos estavam
rígidos e ofegantes contra sua língua, e eram incrivelmente
doces.
Levantou-se de novo para reclamar sua boca, para beber
dela… envolver-se nela. Suas pequenas mãos se deslizaram
por seu corpo, pelo interior do casaco, para aferrar-se a ele
enquanto lhe devolvia o beijo. Deus, precisava tocá-la, e
queria que o tocasse.
Levantou-lhe as saias e deslizou os dedos pela coxa.
Maggie se estremeceu… não teria sabido dizer se era pelas
sensações ou porque tinha frio, embora isso tampouco o
deteve. Tinha intenção de descobrir todos os seus segredos,
de descobrir o que a fazia estremecer-se e sacudir-se.
Um calor líquido o recebeu à entrada de seu corpo. «Pelo
fogo do inferno.» Era melhor do que teria ousado esperar, e
aquela prova irrefutável de seu desejo fez com que seu
estômago revirasse. Mas, embora a necessidade de inundar-se
naquele paraíso úmido fosse premente, conteve-se. Não
queria deixar-se levar ainda.
— Simon — Maggie sussurrou, apartando-se de sua boca
quando ele deslizou um dedo ao interior daquele canal
apertado.
Ele se inclinou para lhe mordiscar o pescoço, e baixou a
beijos até o oco que havia entre as clavículas.
— Sim?
— Oh — ela proferiu com um ofego quando acrescentou
um segundo dedo.
Que sensação. Uma fina capa de suor cobriu a testa de
Simon enquanto imaginava aquela seda ardente oprimindo
seu membro. Tratou de não se desfocar.
Simon notou que Maggie segurava com força a almofada,
como se temesse soltá-la. Aquilo não lhe servia. Ele preferia
que suas amantes participassem ativamente do sexo, não que
ficassem tombadas e lhe deixassem fazer. Demônios, se
quisesse passividade em sua companheira de leito, casar-se-
ia.
Maggie tinha paixão. Tinha podido perceber em
numerosas ocasiões, desde pequenos indícios em sua
juventude até as escaramuças mais recentes. E queria tê-la.
Já.
— Levante os seios para mim — ordenou, sem deixar de
deslizar os dedos dentro e fora. — Que fiquem levantados.
Ela vacilou só um momento, e se moveu para levantar os
seios com as mãos segurando-os por baixo. A visão daquilo
quase lhe faz derramar-se nas calças como um pirralho. E a
recompensou lambendo o mamilo com a língua para depois
tomá-lo com os lábios. O apalpou, lambeu-o, adorou-o lhe
dedicando toda sua atenção; e então passou ao outro e voltou
a começar.
Ela não deixava de ofegar, com a cabeça jogada para trás
e os olhos fechados de prazer. Simon não tinha visto nada
mais adorável em sua vida. Quando notou que por dentro as
paredes se fechavam com força, deixou a mão muito quieta.
— Oh, Deus — ela gemeu, retorcendo-se. — Simon,
tem… oh, por favor, não pare.
Poderia acabar naquele momento, ter utilizado o polegar
sobre a pequena protuberância que coroava seu sexo para
levá-la ao limite. Mas necessitava de mais. Necessitava que se
rendesse de forma incondicional ante ele, possui-la em corpo
e alma.
— Vem aqui — disse recostando-se contra o respaldo do
sofá.
Segurou-a por sua estreita cintura, levantou-a e a
colocou sobre o regaço, escarranchada.
Os cabelos de ébano desordenados, os olhos esmeraldas
obscurecidos, os lábios inchados e rosados por efeito de sua
boca… tinha-lhe dado esse aspecto, pensou com satisfação.
— Me toque, Maggie. Ponha suas mãos sobre mim. Onde
quiser. Onde você quiser. Só me toque.
Maggie sabia exatamente a que se referia. Não tinha
muita experiência com os homens, mas havia um lugar onde
todos queriam que lhes tocassem e, por Deus, ela também
estava impaciente por lhe tocar ali.
Mas o que lhe estava acontecendo? No último quarto de
hora tinha passado de estar furiosa pela presença de Simon a
21
cair sob seu feitiço como Perséfone após as sementes de
romã. Embora a culpa não fosse de todo sua… era evidente
que Simon tinha certo talento. Nenhum outro homem tinha
conseguido acender aquele fogo escuro em seu ventre. Nem
tinha obtido que a pele lhe fizesse cócegas daquele modo pelo
desejo. Tinha sido algo inesperado, entretanto era como se
levasse toda a vida esperando aquilo. Sentia-se consumida,
excitada. E tinha intenção de aceitar tudo o que pudesse
acontecer naquele pequeno sofá.
Maggie deslizou a mão entre seus corpos e cobriu aquele
vulto que tanto ressaltava contra a frente da calça. Simon
aspirou com força enquanto ela percorria aquele membro com
os dedos em toda sua longitude.
— Maggie, por favor — suplicou entredentes. — Já não
estou para brincadeiras.
Humm. Embora seu corpo palpitasse e seu coração
pulsasse tão forte que o sangue rugia em seus ouvidos,
Maggie decidiu que merecia que o atormentasse um pouco.
Tornou-se um pouco para trás para sentar-se sobre suas
coxas. Desabotoou pouco a pouco os botões das calças e
deixou o pênis a descoberto. Comprido e rígido, com cachos
loiros na base, certamente muito mais impressionante que os
outros dois que tinha visto. Com a ponta dos dedos seguiu a
forma da glande.
Quanto teria gostado de ver tudo aquilo sob a luz
cinzenta do entardecer. Maggie havia visto muitos esboços de
nus, de homens e mulheres, e inclusive tinha desenhado
alguns modelos nus em Paris. Os ângulos marcados dos
homens eram tão distintos das formas arredondadas da
mulher. Os ossos marcados do quadril, as costelas, as ondas
dos músculos sob a pele…, tudo isso se combinava para criar
algo capaz de uma grande força e poderio. Gostaria de ver
como era Simon… da perspectiva da artista, é claro.
Mesmo assim, às vezes tem que conformar-se com o que
tem e Maggie passou a ponta do dedo pela ponta com
fascinação e o ouviu gemer.
— Quero te levar à cama, Maggie — grunhiu. — Te
estender na cama e te despir. Por favor. Me deixaria?
«Não», esteve a ponto de gritar ela de modo cortante e
definitivo. Aqueles momentos roubados em sua saleta eram
uma coisa. Levá-lo às suas habitações, despir-se, admiti-lo
em seu leito, e àquela hora, era algo muito distinto. E não
eram seus criados o que a preocupava, era sua prudência.
Naquela pequena sala podia fingir que a paixão tinha
superado a sua razão. Podia fingir que Simon não a tinha
ferido anos atrás. Que aquela febre que sentia por ele não era
mais que um mal físico passageiro que tinha que curar.
Sem responder, inclinou-se para frente e o beijou. Ele
devolveu o beijo, tomou sua boca como se a necessitasse para
viver. E lhe separou os lábios com sua língua ardilosa e
travessa. Exigindo. Impaciente. Maggie se fundiu contra ele
com docilidade, ansiosa por ter seus cuidados. Seus dedos se
enredaram em seus cabelos suaves, sob o glorioso rugido das
sensações.
A boca de Simon se apartou e foi lhe dando beijos pelo
pescoço.
— Mulher obstinada e enlouquecedora — disse contra
sua pele. — Quero a tomar como é devido, não aqui, como
uma mulher qualquer…
Maggie se esfregou sobre seu membro, meneando os
quadris, sossegando assim suas palavras. E o resultado foi
uma intensa sensação de prazer.
— Simon, por favor. Agora.
Simon gemeu, escrutinando seu rosto. Apartou-lhe as
saias para poder vê-la.
— Me deixe entrar, Maggie. Deixe tomar.
Ela vacilou enquanto as perguntas passavam
atropeladas em sua mente. Simon queria…? O procedimento
não lhe era desconhecido, certamente, mas ela nunca… bom,
ela nunca tinha estado em cima. Bastaria só…?
Sem prévio aviso, ele a segurou pelos ombros e deslocou
os dois corpos, o seu e o dela, até que ela esteve tombada
sobre as costas e ele em cima, entre suas pernas. Seus olhos
cintilavam, e Maggie notou a ponta de seu membro contra a
entrada do seu corpo quando se colocou em posição. Com um
golpe suave entrou nela e a encheu por completo.
Ela chiou e o aferrou pelos ombros. Embora não fosse
virgem, não tinha feito aquilo muitas vezes. Não era
exatamente que lhe tivesse doído, é só que a sensação a
pegou de surpresa.
Simon apoiou a testa na dela.
— Sou um canalha. Fui muito rápido. Mas não podia… o
sinto, Mags. Deixa que o arrume. — Saiu em parte e se
colocou em ângulo para voltar a entrar. — Os criados…?
Ela lançou um ofego, porque aquele pequeno movimento
lhe tinha resultado delicioso.
— Não — ofegou, pois conhecia Tilda o suficiente para
saber que a criada não deixaria que ninguém os incomodasse
sob nenhum conceito. — Outra vez, Simon.
Ele repetiu.
— Noto-te… — murmurou — tão apertada. — De novo
sacudiu os quadris, para entrar mais dentro. — Deus dos
céus.
Maggie não podia estar mais de acordo. Não sentia aquilo
como uma invasão, mas sim como uma fusão. Como se o
corpo de Simon estivesse levando o seu a um lugar ao qual só
podiam chegar juntos. Jamais poderia imaginar uma
felicidade tão grande. Como tinha podido viver tanto tempo
sem sentir aquilo?
O ritmo se acelerou, e suas respirações entrecortadas
ressoavam na pequena sala enquanto a luz fantasmal da
tarde se filtrava pelas janelas. Simon a enchia, a sensação de
prazer aumentava, até que já não pôde deixar de choramingar
e retorcer-se sob seu corpo. Simon brincava com seus
mamilos, tocava-os e mordiscava, engolia-os com o calor
exuberante de sua boca. E quando acreditava que ia morrer
de prazer, Simon colocou a mão sob seus corpos e procurou a
pequena protuberância que coroava seu sexo e acariciou.
Uma, duas, três vezes, e Maggie estalou em uma explosão de
cor e luz, apertando os músculos com euforia.
Quando voltou para a realidade e tratou de recuperar o
fôlego, notou que os movimentos de Simon se voltavam
erráticos. E então jogou a cabeça para trás e deixou escapar
um grunhido profundo e animal, estremecendo visivelmente.
Sentia-o palpitar dentro dela e se aferrou a ele, saboreando a
intensidade de seu orgasmo.
Maggie se sentiu cheia de alívio. Simon lhe tinha dado
prazer e ela o tinha dado a ele.
Não era frígida.
Abraçou-o, embriagada ante aquela certeza. Era
estranho estar totalmente vestida e sentir-se tão próxima a
um homem. Deu-lhe um beijo na pele áspera do pescoço, por
cima de seu lenço arruinado. Com o peito ainda subindo e
baixando, Simon empurrou uma última vez e o corpo dela,
molhado por sua semente e escorregadio, não ofereceu
resistência.
Sua… semente.
Oh.
Seu marido não tinha tratado de evitar a gravidez
durante seus primeiros atos íntimos, mas Jean-Louis sim.
Portanto, sabia o que devia fazer um homem quando não
pretendia ter um filho, e Simon não o tinha feito. Uma
buliçosa combinação de emoções a invadiu. Pânico, medo,
desejo.
E de novo medo.
Ela não queria um filho… nem sequer um com os olhos
22
azuis como um fiorde norueguês que tinha visto em uma
ocasião em um quadro. Não, definitivamente não. Ter um
filho ilegítimo não faria mais que confirmar o que a alta
sociedade dizia dela. Teria que ir embora, renunciar ao seu
meio de vida, renunciar ao Lemarc.
E todas aquelas detestáveis mulheres, as que riam às
suas costas, teriam ganho.
E como não podia ser de outro modo, surgiu a pergunta:
por que Simon não tinha tomado cuidado? Sem dúvida
tomava as precauções necessárias com sua amante. «Porque
não lhe importa. Não te considera melhor que uma vadia, como
todos os outros», por dentro sentiu que o frio a dominava.
Empurrou-o pelo ombro.
— Se levante, Simon.
Aquilo o tirou do atordoamento.
— Oh, perdoe. Peso muito, não é?
Retirou-se e se recostou contra o respaldo do sofá.
Maggie notou a sensação pegajosa e úmida entre as pernas
quando recompôs a roupa e ficou em pé. «Maldição.»
Voltou a colocar os seios no espartilho. Evidentemente
ela sozinha não podia atar os laços às costas, assim teve que
segurar o objeto sobre o seio. Pela extremidade do olho viu
que Simon estava tratando de abotoar as calças. Com certeza
tinha o cabelo feito um desastre, mas aquilo já não tinha
acerto. Pediria que lhe preparassem um banho assim que
Simon se fosse… e isso não aconteceria rápido o bastante
para seu agrado.
Simon ficou em pé e arrumou as roupas. Apesar dos
cabelos revoltos e a laçada maltratada, estava extremamente
bonito.
— Ora, — disse ao ver que ela não dizia nada — de modo
que nada de palavras ternas nem empurrões depois do ato?
Não lhe posso reprovar isso. Este sofá é do mais incômodo
para este tipo de coisas.
Embora o tom de Simon fosse engraçado, Maggie
controlou a resposta furiosa que ardia em seu peito.
— Por que não saiu?
Se tinha que guiar-se pelo calor que notava na pele,
ruborizou sem dúvida, mas não podia evitar aquela pergunta,
por mais constrangedor que fosse o tema.
Ele pestanejou.
— Na verdade, esqueci-me. Sentia-me… era tudo tão
perfeito que não me veio à cabeça. Mas não deve preocupar-
se. Eu…
— Sim, e embora esteja segura de que um filho bastardo
aqui e ali não significa nada para ti, para mim muda tudo.
Por que será que os homens se comportam sempre como
animais em…?
— Vigia o que diz — a advertiu com um olhar mais frio
que o mar do Norte em fevereiro. — Neste momento me sinto
particularmente indulgente, mas não se exceda, Maggie.
Mas o que se acreditava? Dar-lhe ordens como se fosse
seu pai. Ou pior, seu marido.
— Ou o quê, Simon? O que me fará?
Simon se levou as mãos aos quadris.
— Parece-me que já viveu o bastante para saber o que
aconteceu. E você desfrutou tanto quanto eu. Tenho que te
recordar como me suplicava?
Não, não tinha que fazê-lo. A lembrança a atormentaria
em seus pesadelos durante muito tempo. E suas palavras não
faziam mais que demonstrar que ele não era distinto dos
outros. Inclusive depois do que acabavam de fazer seguia
acreditando no que os outros diziam, todos aqueles rumores
perversos e aquelas mentiras.
E isso doía.
Aspirou entrecortadamente.
— Não sou uma de suas amantes às que pode jogar
umas moedas e despachar sem mais. Dá por certo que se me
chamam como me chamam devo ter montões de amantes.
Mas nada mais longe da realidade.
Simon cruzou os braços sobre o peito e franziu o cenho.
— Desculpo-me por minha desconsideração. Tenha por
seguro que não voltarei a cometer o mesmo engano.
— É óbvio que não, porque o que aconteceu hoje não
voltará a repetir-se.
— E por que não?
Porque tinha sido muito maravilhoso. Muito bonito.
Muito como tudo o que sempre tinha sonhado.
«Foi o que poderia ter tido se ele tivesse a pedido em
matrimônio há dez anos.»
Mas não o fez. Simon se foi, tinha lhe dado as costas
quando mais lhe necessitava. Nunca lhe perguntou. Em
nenhum momento a procurou para que lhe explicasse o que
tinha acontecido naquela noite nos jardins Lockheed. Tinha-a
deixado nas mãos das feras sem pensar duas vezes, e ela
passou anos chorando pelas noites, perguntando-se o que
tinha feito para merecer uma vida como a que tinha.
E então Hawkins morreu, e Maggie conseguiu a posse
mais apreciada que podia ter uma mulher: a liberdade.
Não permitiria que ninguém lhe arrebatasse isso… nem
sequer Simon.
— Foi um erro — disse encolhendo o ombro com uma
indiferença que não sentia.
A expressão de Simon mudou. As feições de seu rosto
aristocrático se endureceram. Adotaram um ar perigoso.
Inconscientemente Maggie deu um passo para trás quando
ele se adiantou, mas em seguida se plantou. Não permitiria
que a intimidasse, por Deus que não.
— Um erro? — Ele sussurrou sombrio, aproximando-se
com gesto ameaçador. — Os gemidos? Os suspiros? A forma
que agarrava com as pernas os meus quadris? Tudo isso foi
um erro, Maggie?
Ela abriu a boca para dizer que sim, mas não lhe deixou,
seguiu falando.
— A umidade que notava entre suas pernas não dizia
isso. Nem a forma em que me suplicava que a tomasse. —
Agora estava muito perto, tanto, que Maggie teve que inclinar
a cabeça para trás para poder lhe olhar. — Diz que não é uma
vadia; pois bem, eu não sou nenhum rapaz inexperiente ao
que possa mascar e cuspir como se qualquer coisa. Nem
tampouco um velho lascivo com olhos remelentos e o pau
enrugado. Se assim fica mais tranquila, pode acreditar no que
quiser, mas isto não foi nenhum erro.
Oh, aquilo era intolerável.
— Não voltará a acontecer, Simon.
Simon apertou a mandíbula.
— Então fica tranquila, não te obrigarei a gozar das
minhas atenções. Há muitas mulheres que estarão
encantadas ante a ideia de me ter em seu leito.
— Como sua amante.
Saiu-lhe sem querer. Viu um brilho nos olhos de Simon e
temeu que fosse de satisfação.
— Ora, quase parece ciumenta, lady Hawkins.
A ideia de que Simon fizesse com outra o que eles
acabavam de fazer a punha doente, mas antes morta que
deixar que soubesse.
— Absolutamente. Por mim todas essas mulheres podem
te ter inteiro.
Com os ombros rígidos, Simon retrocedeu um passo e fez
uma reverência.
— Não esquecerei das suas palavras, senhora.

***

— Boa tarde, mãe. Está esplêndida, como sempre.


Simon se inclinou para beijar sua mãe na bochecha.
— Só por esse comentário vou ignorar que chega tarde…,
e estou segura de que essa era sua intenção.
A condessa, que seguia sendo formosa, era uma mulher
alta com feições muito similares às de seu filho. Ia
embelezada, como quase sempre, com um vestido violeta de
gola alta. Deixou seu trabalho de bordado, que só pegava
quando estava nervosa.
Simon tinha ido à sua casa da residência de Maggie para
trocar-se, e essa era a razão pela qual tinha chegado tarde ao
seu encontro da tarde com a condessa. Sorriu-lhe.
— Nunca te escapa nada, mãe.
— Ainda não — ela replicou. — Por favor, sente-se. Não
quero ter que forçar o pescoço para te falar. — Simon se
sentou enquanto sua mãe pediu que lhes trouxessem um chá.
Quando ficaram a sós, disse: — esteve hoje no clube?
— Não. Por que?
— É aquele vagabundo de sir James! — Sua mãe
balbuciou com as bochechas avermelhadas. — Me inteirei
ontem à noite. Lady Keller soube por lady Peterson, diz que
sir James perdeu todo seu dinheiro. Tudo! Sybil está
totalmente arruinada.
«Oh, senhor.»
— Espera. — Simon se inclinou para frente. — Suponho
que o dinheiro que separei de seu fideicomisso segue aí, não é
certo?
— Confesso-te que não sei, mas suspeito que esse inútil
descobriu o do fundo e a convenceu que o entregasse. Lorde
Peterson viu o James bêbado na mesa de apostas, em um
local de jogo, dizendo coisas sem sentido sobre uns
investimentos falidos. Estava jogando o pouco que ficava.
— Incrível — Simon murmurou desabando-se sobre seu
assento. — Como pode ser tão estúpido? Embora
possivelmente Sybil não lhe deu seu dinheiro. Não pode ser
tão néscia.
Sua mãe meneou a cabeça.
— Quando uma mulher se apaixona pelo homem
equivocado fica cega à indolência, à estupidez ou à maldade.
Que é o motivo pelo qual as de nossa classe social não
deveriam escolher nunca por elas mesmas.
— Quando se casaram parecia um bom partido, embora
gostaria de tê-lo investigado um pouco mais a fundo antes de
permitir.
— Não teria servido de nada. Sybil estava decidida a
casar-se com ele. Teriam fugido à Escócia se tivéssemos
tentado lhes deter.
Isso era verdade. Sybil tinha se apaixonado loucamente
por sir James. Naquele tempo Simon só tinha dezesseis anos
e não entendia a importância de seu papel como líder da
família, nem tinha a suficiente experiência para saber como
eram os homens da índole de sir James. Só fazia dois anos
que tinha seu título, mas nem sequer tinha acabado a escola.
Mesmo assim, gostaria de ter pedido conselho ou ter
investigado James, porque aquele homem era um idiota.
E agora Simon teria que consertar a bagunça. Outra vez.
— Irei vê-lo esta tarde — disse à sua mãe. — Não
importa o que tenha acontecido. Não permitirei que Sybil
pague pela estupidez do James.
A viúva deixou cair os ombros pelo alívio.
— Obrigada, Simon. Quando vi que gastou o dote de
Sybil em menos de três anos soube que esse homem ia dar
problemas. — A bandeja com o chá chegou nesse momento e
a mulher esteve entretida servindo as xícaras. — Recorda
aquela mina grega de ouro em que investiu? Pois não tiraram
nenhuma pedra e todos os trabalhadores se foram.
Simon meneou a cabeça.
— E o que me diz da frota de mercantes tomada pelos
piratas? Ou a mina de carvão russa abandonada?
— Meu favorito é o projeto para criar macacos no qual
todos os exemplares resultaram ser machos. — Os dois riram,
e a viúva se cobriu a boca com a mão. — Oh, não está bem
rir, Simon. Esse homem não tem nem pingo de sentido
comum e está arruinando o futuro de Sybil.
— Farei o que puder, mãe. Sybil não acabará na rua.
Ela pegou sua xícara.
— Seu pai estaria muito orgulhoso de ti.
Simon gostava de pensar que era assim. Tinha
trabalhado muito duro nos últimos seis anos para levar o
legado da família Barrett ao Parlamento. As três propriedades
que possuía eram prósperas e bem dirigidas. Certo, não tinha
se casado e ainda não tinha descendência, mas algum dia o
faria. Só que de momento não o contemplava.
A ideia de ter filhos lhe fez pensar no acontecido naquela
tarde. Sim, comportou-se abominavelmente. Tinha que ter
saído e ter ejaculado onde fosse, menos onde o tinha feito,
dentro de Maggie. Nunca esquecia quando estava com
Adrianna ou com qualquer uma de suas outras amantes. A
amante de seu pai tinha dado ao sétimo conde dois filhos
bastardos e Simon ainda recordava o dia em que soube de
sua existência. E, embora não fosse incomum entre a
nobreza, naquele momento a ideia de ter dois meio irmãos lhe
tinha feito sentir-se confuso e doído. Simon tinha nove anos
quando se inteirou, e apesar de sua juventude se prometeu
que jamais teria filhos bastardos. Que ele soubesse, não os
tinha tido.
Portanto, não havia dúvida, esse dia tinha obrado mal.
Mas, demônios… estava tão envolvido que quão último tinha
na cabeça era sair. A sensação de estar dentro de Maggie era
como o céu. O prazer o sacudia do fundo de sua alma e
apagava todo o resto.
«Por mim, todas essas mulheres podem te ter inteiro.»
Era evidente que Maggie se envolveu muito menos que
ele.
Tinha todo o direito de sentir-se furiosa, certamente.
Tinha sido inconsciente. Seguramente seus outros amantes
eram mais considerados.
— Tem uma expressão muito estranha agora mesmo,
filho. No que pensa?
Simon olhou à sua mãe e meneou a cabeça.
— Em nada importante.
— Às vezes me preocupa que tenha te tornado muito
sério, Simon. — A mulher suspirou e Simon evitou fazer
comentários; em vez disso, esticou o braço para pegar outro
23
pedaço de plum cake . — Por acaso não topou com lady
Hawkins desde que retornou dessa localidade esquecida da
mão de Deus para onde Hawkins a arrastou?
O bolo se converteu em pó em sua boca. Impossível que
sua mãe fizesse aquela pergunta por acaso. Era evidente que
tinha ouvido algum rumor ou sobre sua ida à extravagante
soirée de Maggie ou o jantar na casa dos Colton.
Tragou, obrigando o pedaço de bolo descer por sua
garganta.
— Sim, em realidade sim.
A mulher deu um sorvo ao seu chá e observou seu filho
por cima da borda da xícara com uns olhos azuis idênticos
aos dele.
— E?
— E parece que está bem. Hawkins a deixou bastante
bem situada, e certamente gosta de chamar a atenção.
— Hawkins não a deixou bem situada — corrigiu sua
mãe. — Uma atribuição, mas bem modesta conforme ouvi. O
Estado ficou com o resto.
Interessante. Simon não tinha prestado atenção aos
rumores quando Hawkins morreu, e aquela mulher vivia com
uma libertinagem e uns excessos que rivalizariam com os de
24
um Bourbon . Como podia permitir-se?
— Foi amável com ela? — Sua mãe perguntou, e Simon
quase põe-se a rir.
Se tivesse sido mais amável teriam se fundido em um
atoleiro de luxúria. Sem dúvida, tinha sido o encontro mais
intenso e satisfatório que tinha tido com uma mulher.
Não gostava da forma em que sua mãe lhe estava
estudando.
— Por que ia ser descortês?
A condessa suspirou.
— Porque é como as pessoas estão acostumadas a
mostrar, sobretudo em nosso círculo. Não passou muito bem
durante sua apresentação em sociedade, e duvido que seu
matrimônio com o Hawkins tenha sido muito melhor. E sei
que você a pretendia.
Uma frase muito corriqueira para descrever os
sentimentos tão profundos que tinha guardado por Maggie.
Naquele tempo Simon a seguia como um mendigo, suplicando
uma palavra, um olhar dela. Deus, esteve a ponto de solicitar
a presença do padrinho do Cranford, disposto a morrer com
um tiro para defender sua honra.
«Que jovem e ingênuo era.»
Mas então Cranford lhe mostrou uma prova, as cartas de
Maggie nas quais sugeria lugares para seus encontros.
Quanto desejava as atenções do Cranford. Aquilo quase o
destroçou. E segundo Cranford havia outros, outros homens
a quem tinha concedido seus favores. Mas Simon tinha sido o
prêmio mais importante naquela temporada, pois ostentava
um título prestigioso e uma riqueza maior que a de nenhum
homem solteiro naquele ano.
Para ela tudo tinha sido um jogo. Um jogo encaminhado
a conseguir um marido muito apaixonado para dar-se conta
de alguma coisa.
De modo que Simon se lambeu as feridas, como teria
feito qualquer jovem respeitável de vinte e três anos: no dia
das apressadas bodas de Maggie ele se tinha embebedado
bastante em um dos bordéis mais exclusivos de Londres.
Ficou ali três dias, e pagou suficientes mulheres para que o
mantivessem entretido todas as horas do dia. Quando se foi,
madame Hartley, a proprietária, disse-lhe em brincadeira que
teria que esculpir seu pau em bronze como comemoração.
— Simon, está me escutando?
Ele levantou o olhar.
— É claro. Estávamos falando de lady Hawkins. E não a
evitei, se é o que a preocupa.
— Temo que a maioria das mulheres de mais idade o
fazem. Não é em todas as partes que é bem recebida, como
sem dúvida já sabe, e em outro tempo sua mãe foi uma boa
amiga. — Fez uma pausa. — Possivelmente teria que ter saído
em sua defesa. Resulta difícil acreditar que queria conformar-
se com o Cranford quando tinha a ti. De todos os modos, eu
gostaria de convidá-la para jantar. Poderia vir?
Simon conseguiu responder.
— Se é o que quer. Mas é possível que não aceite o
convite, mãe.
Não depois do que tinha acontecido essa tarde.
— Tolices. Por que não ia aceitar?
Simon encolheu os ombros.
— Já sabe quão temperamentais podem ser algumas
mulheres. Bom, tenho que ir ver sir James antes que isto vá
além. — Ficou em pé e se inclinou para beijar a bochecha de
sua mãe. — Te enviarei uma nota mais tarde, quando tiver
falado com ele.
— Excelente. Obrigada, Simon. Avisar-te-ei quando
souber algo de lady Hawkins.
Capítulo 9
Maggie nunca tinha entrado em um bordel.
Embora, para ser exata, não estava realmente no
bordel… ou ao menos não em uma parte onde pudesse vê-la
nenhum dos clientes. Tinha entrado por uma porta privada e
tinha sido conduzida em seguida ao pequeno escritório de
madame Hartley. E resultou que o escritório tinha um
conveniente buraco por onde se podia espiar a sala principal e
Maggie o utilizou sem duvidar.
A opulência do lugar a surpreendeu. Certo, aquele bordel
era melhor que a maioria, e servia a elite, aos homens
enriquecidos da alta sociedade londrina. Tinha a impressão
de que os serviços que oferecia aquele lugar não eram
baratos. Ali os homens não iam dar uma rapidinha por um
penique. Não, era evidente que os cavalheiros que iam
passavam uma quantidade de tempo importante desfrutando
das mulheres, do jogo e do álcool. De outro modo, madame
Hartley não se podia permitir as cadeiras de Hepplewhite, os
opulentos tapetes de Aubusson, os cortinados de seda. O
retrato que presidia a lareira parecia um Joshua Reynolds
25
original, pelo amor de Deus.
Também havia Lemarcs, uma série de esboços eróticos
que adornavam os dormitórios. Depois de retornar a Londres,
Maggie tinha pedido à senhora McGinnis que desse de
presente aqueles desenhos deliciosamente lascivos à madame
Hartley para dar publicidade ao Lemarc. E tinha funcionado;
quão último tinha sabido era que madame rejeitava quase
todo mês alguma oferta para comprá-los.
Na sala principal havia quatro homens que conversavam
relaxadamente, cada um com uma bebida na mão. Alguns
tinham jovens no regaço. Era fascinante, aquela depravação
tão civilizada. Onde estavam as jovens que dançavam nuas,
como as que se viam em Paris? Certamente no piso de cima
podiam dar-se a todo tipo de comportamentos escandalosos.
Uma vez mais Maggie se amaldiçoou por ter nascido mulher.
Se fosse um homem saberia com exatidão o que acontecia nos
aposentos privados.
«Sabe perfeitamente o que estão fazendo — Sussurrou
uma voz em sua cabeça. O mesmo que você fez ontem à tarde.»
— Por favor, me deixe ver — a duquesa de Colton pediu
lhe dando um beliscão no braço.
— Ai — ela se queixou, e se apartou.
Júlia não perdeu tempo e logo colocou o olho no pequeno
buraco.
— Olhe, é lorde Burke. E sir Henry. E o que tem a jovem
no regaço é lorde Andover. Oh, não posso acreditar nisso. É
fascinante, não é verdade? Senhor, está colocando a mão pelo
corpete!
— Onde? — Maggie exclamou e deu uma cotovelada em
Júlia. — Depressa. Me deixe ver.
— Espere. — Júlia riu ao mesmo tempo que se separava
do pequeno buraco. — O h, isto é tão divertido. Tinhamos que
vir mais frequentemente.
Agora que voltava a olhar, Maggie confirmou que,
certamente, a mão de Andover se colocou no corpete da
jovem. A ela não pareceu importar. De fato, baixou-se a alça
do vestido para que o homem não tivesse obstáculos. Andover
não perdeu o tempo e tirou o seio roliço e começou a
massagear, apalpando e beliscando o mamilo enquanto
conversava com os outros cavalheiros. A jovem se tornou para
trás contra ele, com a cabeça apoiada em seu ombro,
mordendo o lábio inferior entre os dentes como se tivesse que
fazer um esforço para não ficar a gemer. Maggie sentiu que
seus mamilos ficavam rígidos debaixo do corpete, que os seios
lhe inchavam. Era o mesmo que Simon lhe tinha feito no dia
anterior, e recordava muito bem a sensação extraordinária.
A jovem se retorceu sobre o regaço de Andover,
esfregando suas nádegas contra a virilha do homem, e isso
lhe valeu um beliscão bastante forte para que desse um pulo.
Suas pálpebras se fecharam, seu peito subia e baixava com
rapidez, pois estava desfrutando claramente daquela tortura.
Maggie, que não podia apartar o olhar, recordava a
sensação de ter estado sentada no regaço de um homem
enquanto a acariciava e mimava seus seios. Entretanto, em
sua lembrança o homem que estava debaixo não era lorde
Andover. Não, o homem era mais alto, mais magro, com o
cabelo de cor areia e uns olhos azuis e penetrantes. Maggie
começou a notar uma sensação de dor em seu interior, uma
sensação de vazio que nunca antes havia sentido. Era como
se seu corpo soubesse o que estava perdendo. Ou melhor, a
quem estava perdendo.
Que Deus a ajudasse.
Na sala, lorde Andover levou dois dedos à boca da jovem.
Ela a abriu com avidez e chupou. Maggie olhava enfeitiçada e
viu como os dedos saíam cobertos de saliva e desciam de novo
até o seio da jovem para deslizar-se sobre a ponta rosada e
enrugada. A jovem deve ter gemido ou possivelmente proferiu
algum outro som, porque ele riu e lhe sussurrou algo.
Madame Hartley apareceu então. Inclinou-se para dizer
algo a Andover. Ele assentiu, ajudou a jovem a descer do
regaço e a acompanhou às escadas. Tudo foi muito depressa.
Maggie se sentiu decepcionada, até que se deu conta de que
madame se dirigia para o escritório. Mal acabou de baixar a
tampa do buraquinho quando madame abriu a porta.
Os olhos de madame Hartley foram diretos ao buraco e
seus lábios esboçaram uma careta quando fez uma
reverência.
— Vejo que as senhoras estiveram desfrutando do
peculiar espetáculo da minha sala.
— Foi ideia de lady Hawkins — Júlia disse com os olhos
muito abertos e uma expressão de inocência que ninguém em
seu são julgamento teria tragado.
Maggie conteve uma risada envergonhada.
— Eu não… não teríamos que…
A proprietária agitou uma mão.
— Não se desculpem, miladies, mas o cavalheiro já
conhece as normas. Eu não gerencio esse tipo de
estabelecimento. Essas coisas devem fazer-se nas habitações
do piso de cima.
Maggie dedicou um momento a admirar o custoso
vestido de madame Hartley. Diferentes capas de renda
adornavam seu vestido de seda azul escuro e as safiras que
levava ao pescoço deviam custar uma fortuna. E aquele
cabelo lustroso, bem penteado e arrumado… quase podia
imaginá-la de caminho a um camarote no Drury Lane.
A madame olhou ao seu redor.
— Pearl veio também?
— Preferiu esperar na carruagem — Júlia explicou. —
Disse que entenderia.
A madame suspirou.
— É claro. Embora trato as minhas garotas com mais
cuidados que suas próprias mães, um lugar como este pode
ser um duro aviso de uma vida que algumas preferem
esquecer. E a vida de Pearl foi mais dura que a da maioria. O
que nos leva ao motivo pelo qual mandei chamá-la e, por
extensão, à dama. — E assinalou à Maggie com o gesto. —
Pearl me falou do trabalho que faz em outros
estabelecimentos, os recursos para médicos e padres. O
amparo adicional para as garotas. Aqui nunca necessitamos
disso, posto que eu sozinha me ocupo de prover o necessário
para minhas garotas e as proteger. Ao menos assim foi até
ontem à noite.
Maggie franziu o cenho enquanto um terrível
pressentimento perturbava seu peito.
— Então aconteceu algo?
Madame cruzou as mãos e deu um suspiro.
— Uma de minhas garotas foi ferida de forma brutal.
Hoje veio o médico e não só a possuiram com rudeza, como
também lhe destroçaram o rosto. Um braço quebrado,
hematomas por toda parte. É… — tragou. — É terrível.
Júlia deu um pulo.
— Quem foi? Quem fez algo tão covarde e ruim?
A proprietária assentiu.
— Tenho uma ideia aproximada. Eu estava fora, fui ao
Hampstead para ajudar a minha irmã a dar à luz. De outro
modo não o teria permitido. Mas não devem preocupar-se;
tenho homens ao meu serviço que se ocupam destas
situações. Cedo ou tarde esse homem terá seu castigo. O que
me preocupa é ela.
— É claro — Maggie disse. — Pobrezinha. Deve estar
sofrendo muitíssimo.
— Está-a madame confirmou. — Tivemos que sedá-la
para poder tratar suas feridas. E agora que o efeito passou
temo que está… bom, que se sente quebrada em outros
sentidos além de fisicamente. Mandei procurar Pearl por puro
desespero, pensando que possivelmente ela saiba como
podemos ajudar a jovem. Possivelmente conheça algum lugar
onde possamos mandá-la para que se recupere. Não vejo
como posso ajudá-la retendo-a aqui.
Antes que Maggie pudesse falar, Júlia respondeu.
— Conheço o lugar perfeito. Por favor, poderia me dar
um papel? Escreverei uma nota para avisar às cavalariças da
chegada de Pearl.
— A quem escreve? — Maggie perguntou.
— Já verá.

***

Depois de fracassar em seu intento por localizar Sir


James no dia anterior, Simon entrou no Brook’s e perguntou
pelo marido de sua irmã.
O mordomo lhe confirmou que sir James estava
comendo. De modo que Simon se tirou seu casaco e entrou.
Enquanto passava pela sala para sócios saudou com o
gesto vários conhecidos. Ali os membros estavam
acostumados a ser mais jovens e rápidos que no White’s,
porque sua mesa de jogos era legendária, mas Simon não
estava acostumado a visitá-lo. Ele preferia a comida e as
conversações políticas do White’S.
A iluminação era fraca no refeitório e demorou uns
momentos em localizar seu cunhado. Mas em seguida viu
aquele fanfarrão gordinho e meio calvo ao fundo, rodeado por
três homens mais jovens. James parecia animado e
gesticulava com entusiasmo enquanto os outros riam. Estaria
lhes falando de seu campo de laranjeiras de Londres, que
sucumbiu em sua primeira geada? Ou seria sobre a colônia
de abelhas destruída pelos ratos?
Que Deus salvasse aquele homem de sua estupidez.
— O senhor deseja uma mesa? — Perguntou um
servente ao seu lado.
Simon meneou a cabeça.
— Não, não ficarei muito.
Ao cabo de uns segundos estava ante a mesa de James.
Seu cunhado levantou a vista com cara de surpresa.
— Winchester, por que não nos…?
Simon olhou com gesto autoritário aos três
acompanhantes.
— Fora. — Eles o olharam boquiabertos, de modo que
Simon insistiu. — Agora.
E os homens se retiraram apressadamente, em um revoo
de talheres e guardanapos que caíam. Simon se instalou na
cadeira mais próxima a James. Recostou-se no respaldo e fez
um sinal a um garçom. O homem se aproximou a toda pressa
e Simon lhe indicou a mesa com o gesto.
— Retirem tudo isto — disse. — E tragam uma garrafa
de clarete.
— Sim, milorde.
— Espera, Winchester. Eu…
— Se faça um favor e não diga nada, James.
Quando a mesa esteve limpa e lhes serviram o clarete,
Simon deu um bom gole.
— Esperava que tivesse tido o sentido comum para
embarcar em um navio mercante com destino à Índia, James.
James levantou as mãos e soltou uma pequena risada.
— A situação não é para tanto. Só é um pequeno
tropeção no caminho. De fato, tenho uma ideia…
— Não — Simon o atalhou. — Claro que é para tanto. É
certo? De verdade perdeu tudo?
Umas gotas de suor apareceram na testa prodigiosa de
James quando se inclinou para ele.
— Tive má sorte em alguns investimentos. Nada do que
não possa me recuperar. Só necessito um pouco de efetivo
para me manter à flutuação enquanto volto a me pôr em pé.
— Definitivamente, não. Não haverá mais dinheiro,
James.
O rosto de James avermelhou.
— E o que acontece com Sybil? Vai permitir que sua
irmã acabe na rua?
— Não, minha irmã sempre terá uma casa. Com minha
mãe ou inclusive comigo. Em troca, você pode dormir em
qualquer sarjeta. — Os olhos de James cintilaram, mas
Simon seguiu falando. — Ela te cedeu o fundo? Perdeu o
dinheiro que eu separei para que estivesse protegida?
— Minha esposa e eu não temos segredos, Winchester.
Deu-me o dinheiro sem que eu o pedisse.
«Oh, sim, com certeza foi ideia de Sybil.»
— Alguma nota promissória?
Simon apartou umas penugens da toalha branca de
linho.
— Alguma.
Simon assentiu. Era o que esperava. Olhou ao James
com expressão severa.
— E a casa?
James tragou, fazendo trabalhar os músculos de seu
pescoço carnudo. Baixou a cabeça em sinal de assentimento.
Deus santo. Simon teve que fazer um grande esforço
para permanecer sentado e não se deixar levar pela
indignação. Como podia ser tão condenadamente
irresponsável? A pedido de sua mãe, Simon tinha comprado a
casa como presente de bodas para sua irmã e tinha cometido
a estupidez de entregar as escrituras a James. Mas como ia
ele, ou qualquer pessoa, saber da estupidez de seu cunhado?
Respirou fundo e terminou o vinho. Serviu-se outro copo.
Controlou o poderoso impulso de amassar James a golpes.
Aquela era a última vez. Andar sempre tirando o James
de seus apuros não era bom. Aquele homem tinha que
aprender, e possivelmente a única forma seria deixar que
perdesse tudo e tivesse que viver de um estipêndio. Não havia
outra saída. Não estava disposto a permitir que dispusesse ao
seu desejo da fortuna dos Winchester e a esbanjasse nos
investimentos mais desatinados e absurdos da Inglaterra.
— Não poderei salvar a casa — disse por fim. — Posso
cobrir as notas promissórias, mas não salvarei a casa. Te
atribuirei um pequeno valor para que cubra os gastos mais
básicos e nada mais.
— Sybil não tolerará.
— Não terá eleição. É isso ou a rua.
James lhe sorriu com satisfação.
— Não, não acredito. Não acredito que te interesse
manchar sua bonita carreira política com um escândalo
familiar, não é?
Simon baixou a voz e lhe falou com tom ameaçador.
— Está me ameaçando?
— Que palavra feia. Eu diria que estou te assinalando os
possíveis benefícios para ambos. De fato, poderia te ser muito
útil. Já circulam certos rumores sobre ti e lady Hawkins. E eu
poderia desmenti-los se me incentivar.
Ao ouvir o nome de Maggie, Simon ficou tenso. James se
deu conta e sorriu. Uma forte resolução despertou em seu
peito. Não teria chegado aonde estava se não tivesse
aprendido a ocultar suas emoções, e não permitiria que fosse
James quem as pusesse ao descoberto. Recostou-se contra a
cadeira com cara de aborrecimento.
— Das ameaças ao suborno em uma mesma frase. Estou
impressionado, James. Não, não haverá mais recursos.
Enviarei alguém para recolher as notas promissórias amanhã.
Será melhor que se apresse e diga à minha irmã que comece a
recolher suas coisas.
E agitou a mão indicando ao seu cunhado que se fosse.
James se levantou, jogou seu guardanapo sobre a mesa
e se foi indignado. Simon deu uns sorvos em seu clarete e
tratou de serenar-se. Aquilo não ia bem. Teria que fazer algo
com James. Possivelmente quando saldasse as dívidas
poderia…
— Winchester-ouviu que alguém dizia ao seu lado. —
Fazia tempo que não deleitava o clube com sua presença.
Esta noite somos afortunados.
Simon levantou a cabeça e Cranford tomou assento ao
seu lado. Maldição.
— Boa noite, Cranford.
Nos passados dez anos tinham mantido uma distância
saudável. Simon não queria remover suas lembranças de
Maggie, e Cranford se dedicava mais ao vício que à política. Se
seus caminhos se cruzavam em alguma noite ou algum baile,
liquidavam-no saudando-se educadamente com a cabeça. A
que vinha aquilo agora? Cranford devia ter algo em mente. Do
contrário não teria parado para conversar com ele.
O visconde não tinha mudado muito. Só tinha um ou
dois anos mais que ele, e não era um homem grande, mas se
conservava em uma forma física insuperável. Corria o rumor
de que praticava boxe em seu tempo livre. Então, teria se
reconciliado com lady Hawkins depois de sua volta a Londres?
O visconde não tinha ido à festa na casa de Maggie, mas isso
não significava nada. Cranford estava casado e deviam atuar
com discrição. Embora tivesse a mandíbula apertada, tratou
de convencer-se que não lhe importava. Maggie tinha deixado
tudo muito claro, não havia razão para estar ciumento.
«Por mim, todas essas mulheres podem te ter inteiro.»
Mesmo assim, a ideia de que Cranford ou Markham… ou
quem fosse… pudesse estar entre as pernas de Maggie, que
entrasse nela e a fizesse suspirar e gritar… sua mão se fechou
em um punho.
Obrigou-se a apartar aquela imagem de sua cabeça. Por
mais homens que tivesse em sua vida, ela e Simon não
tinham terminado. Nem muito menos. Assim podia fingir
tanta indiferença como quisesse, tinha visto seu desejo,
tinha-o sentido por todo seu corpo. Ela desejava o que
aconteceu com ele. E tinha intenção de voltar a possui-la, por
mais que demorasse para convencê-la.
Cranford indicou ao garçom que trouxesse outro copo e o
gesto chamou a atenção de Simon.
— Não se importa, não é, Winchester? — Perguntou, e se
serviu um pouco de clarete.
Simon esperava, observava. Tinha aprendido a deixar
que os silêncios se alargassem durante as negociações; assim
era mais provável que os oponentes tivessem algum deslize. E
embora não soubesse quais eram as intenções do Cranford,
certamente eram oponentes.
Cranford se relaxou, sustentando o copo na mão.
— Então é verdade?
— Do que estamos falando?
Tentou não manifestar nenhuma emoção.
— De Sir James. Ouvi que perdeu uma fortuna. Mas
tampouco é nenhuma surpresa. Nas mãos de quem quer que
seja, o dinheiro se vai como a água.
Cranford não podia ter parado para conversar com ele só
para cruzar umas intrigas sobre James.
— Não vejo em que isso seja de sua incumbência,
Cranford.
O visconde lhe dedicou um leve sorriso.
— Vamos, Winchester. Nunca houve segredos entre nós,
não é verdade? Sempre lhe dei a informação que tinha, se era
pertinente.
Simon, recordando as cartas de amor que Cranford lhe
tinha mostrado fazia anos, baixou a voz com sarcasmo.
— Ah, sim? Que generoso. Então imagino que terá
alguma informação pertinente que me dar esta noite.
— Pois sim. Inteirei-me de sua recente associação com
lady Hawkins. — Cranford estudou o clarete de seu copo. — E
me perguntava como isso afetará a proposta que está
preparando. Ou aos votos com os que conta.
Bom, bom, então era isso.
— Não vejo por que teria que me afetar em um sentido
ou em outro. A dama é uma conhecida minha, uma de tantas.
— Certamente, não me cabe dúvida. Mas possivelmente
lady Hawkins é mais que uma simples conhecida… se tiver
que dar crédito aos rumores.
— Rumores que sem dúvida você estará ajudando a
difundir.
Cranford elevou as mãos com gesto inocente.
— Só digo o que ouvi. Certos membros da Câmara dos
Lordes se perguntam como se verá essa sua relação de
conhecidos com uma mulher de uma moral tão desprezível.
Sobretudo tendo em conta a natureza de sua proposta.
Aquilo lhe pôs furioso.
— Não duvido que meus adversários estarão encantados
de aproveitar qualquer debilidade minha… real ou imaginária.
— Oh, mas não são seus adversários que estão
manifestando seu desagrado. São seus aliados.
Cranford o estudou com atenção, esperando uma reação
que Simon ocultou perversamente. Encolheu um ombro.
— Que acreditem no que quiserem. Daqui a uns meses
se verá.
— É claro. Mas pensei que devia lhe avisar antes que
cometa um terrível engano. Como esteve a ponto de fazer há
anos.
— Sua benevolência não deixa de me assombrar,
Cranford — Simon disse muito secamente.
O visconde riu.
— Faz-se o que se pode. Bom, então fechou por fim a
torneira do dinheiro dos Winchester para sir James?
— Winchester.
Simon apartou o olhar de Cranford e viu Quint junto à
mesa.
— Boa noite, Quint.
Cranford ficou em pé no momento.
— Olá, Quint, tome esta cadeira. Eu já terminei. Muito
obrigado pelo clarete, Winchester.
E se afastou ao mesmo tempo que Quint se instalava.
— O que queria? — Quint perguntou. — Quando entrei
parecia que estava a ponto de lhe saltar em cima e
estrangulá-lo com suas próprias mãos.
Simon terminou o vinho e se inclinou para frente para
servir-se outro.
— Cranford passou para me advertir que minha
associação com lady Hawkins poderia me prejudicar no
Parlamento.
— Ouvi os rumores. E é ridículo; em Londres, todos os
cavalheiros solteiros têm uma amante.
— Exceto você.
— Oh, eu não quero uma amante. Muito trabalho.
— Sim, mas esse trabalho é o melhor — Simon replicou.
O que lhe recordou que teria que buscar-se outra amante
agora que ele e Adrianna tinham terminado. Tinha dado por
finalizada sua associação com ela na noite que soube que se
via com outros homens às suas custas. Lástima que não
pudesse ter a mulher que realmente queria em seu leito. — E
lady Hawkins não é minha amante. Não é nada minha.
— Pois não duvido que não é porque não esteja tentando.
Simon fez tamborilar os dedos sobre a mesa. Não podia
negar. Ficaria entre as pernas de Maggie todas as noites se
lhe deixasse. Possivelmente com o tempo…
Simon ficou em pé.
— Vem jogar hazard comigo — disse.
Quint meneou a cabeça.
— Nunca ganha. Não sabe calcular as probabilidades.
Simon deu uma palmada no ombro de seu amigo.
— Para isso tenho a ti. Vem, preciso me distrair.
— Winchester!
Simon levantou a vista e viu Colton, ainda com o casaco
posto, avançando a grandes pernadas para eles com
expressão furiosa.
— Pega suas coisas — o duque exclamou quando chegou
à mesa. — Temos que chegar ao Covent Garden antes que as
coisas se descontrolem.
Capítulo 10
— Posso vê-la? — Maggie perguntou quando Júlia
terminou de rabiscar sua misteriosa nota.
— Não acredito que seja boa ideia, milady. Posso levá-la
acima sem que a vejam, mas não posso lhe garantir o
anonimato. Não é bom que uma dama ande passeando por
aqui em plena noite. Temos nossas capas e as máscaras —
Júlia sugeriu, e assinalou as roupas que ela e Maggie tinha
utilizado para entrar ali.
— É uma boa ideia, sua excelência, mas o disfarce não a
ajudará a ocultar sua identidade. E me atrevo a dizer que seu
marido não ficará muito contente se isto chegar a ele.
Certamente faria com que me prendessem.
— Eu jamais permitiria — Júlia insistiu. — Colton pode
ser um pouco impetuoso, mas sempre entra em razão quando
o amordaço e lhe explico as coisas.
Maggie queria ter a segurança de Júlia. Mas sabia que as
coisas não funcionavam assim. E quando seu olhar se cruzou
fugazmente com o de madame, compreendeu que ela também
sabia. Os homens podiam fazer o que quisessem, as mulheres
deviam ser discretas.
— Já recolheu suas coisas? — Maggie perguntou.
— O pouco que pude, sim.
— Quanto faz que trabalha aqui?
— Pouco mais de três anos, milady. Nunca tive nenhum
problema. Aqui as normas são muito estritas e minhas
garotas recebem um bom trato. Tenho uma reputação a
manter e eu não gostaria que soubessem disto. Sei que soa
horrível…
— Absolutamente — Maggie lhe assegurou. — Fez bem
em avisar Pearl. Encontraremos um lugar onde possa
recuperar-se. E lhe buscaremos trabalho em uma casa, se for
possível.
A madame assentiu.
— Estar-lhe-ei sempre em dívida. E a você também,
duquesa.
Um leve toque na porta as interrompeu. A madame foi
abrir envolta no elegante sussurro da seda. Abriu apenas
uma fresta e escutou, e depois murmurou umas palavras em
resposta.
— Duquesa, condessa, me desculpem um momento.
Devo atender certo assunto. — Fez uma reverência. — Por
favor, fiquem cômodas. Há xerez no armário que está junto à
parede.
Com a desagradável imagem de uma jovem machucada
na cabeça, Maggie se aproximou do armário para se servir
uma bebida.
— Quer um xerez? — Perguntou a Júlia.
— Não, obrigada.
Maggie ouviu um débil som metálico e ao voltar-se viu a
duquesa espiando pelo buraco.
— Oh, não vejo nada lascivo. Só uns poucos dândis
pálidos.
Júlia suspirou e se separou da parede.
Durante longos minutos conversaram de assuntos sem
importância, enquanto esperavam que madame Hartley
retornasse.
— Você me surpreendeu, Maggie — Júlia disse.
Maggie deu um sorvo ao seu xerez.
— Eu? E por que diz tal coisa?
— Não me negará que o que fazem você e Pearl não é
uma causa nada comum.
Maggie não gostou do olhar ardiloso e cúmplice que a
duquesa lhe dedicou. Tratou de lhe tirar importância.
— Não deveríamos todos tentar ajudar os menos
favorecidos?
— Sim, mas isso pode fazer-se de uma forma muito
mais… aceitável. A maioria das damas organizam jantares
beneficentes ou formam parte do comitê de alguma instituição
de caridade. Vão de porta em porta pedindo recursos para as
causas que defendem. Em troca você está totalmente
engajada resgatando diretamente estas mulheres,
assegurando-se de que ninguém se aproveite delas. O que me
leva a pensar se não será algo… — e agitou a mão enquanto
tratava de encontrar a palavra adequada — pessoal.
Maggie deu um sorvo ao seu xerez. Não tinha muitas
amigas, evitava deliberadamente a proximidade com outras
mulheres. As mulheres eram muito intuitivas. Enquanto os
homens só viam o que queriam, as festas acalmadas e o
champagne gratuito, as mulheres viam mais à frente e faziam
perguntas que ela não desejava responder.
Mas essa noite a duquesa a tinha acompanhado. Pearl,
consciente dos recursos que Júlia tinha ao seu dispor e do
lugar que ocupava na sociedade, tinha-o sugerido, e a mulher
não tinha duvidado nem um momento, tinha subido à
carruagem com elas sem pestanejar. Então, embora Maggie
não desejasse justificar-se, devia à sua nova amiga uma certa
sinceridade.
— Não é meu assunto, é claro…
— É pessoal — Maggie respondeu. — Sei o que é ficar
exposta à crueldade dos outros. Ter que conduzir algo que
nem imaginava nem merecia. Você não esteve durante minha
apresentação em sociedade, mas se não fosse pelo Hawkins, é
muito provável que teria que ganhar a vida como elas.
Possivelmente não em um lugar como este, mas teria sido o
mesmo. Por isso sinto tanta simpatia pelas mulheres que se
veem obrigadas a vender-se para viver.
— Oh, Maggie. Desculpe-me se a obriguei a reviver
lembranças tão desagradáveis. — O tom pausado de Júlia era
sincero. — Sempre tinha pensado que Cranford… que você…
Maggie fechou as mãos em punhos apertados.
— Não. Posso lhe assegurar que não. Cranford ia casar-
se com minha amiga, Amélia. Disse que queria me perguntar
algumas coisas sobre ela. E eu não desconfiei. Por que ia fazê-
lo? Sempre me tinha parecido muito amável, divertido e
simpático. Inclusive tínhamos dançado uma vez. Mas resultou
que não queria me perguntar nada sobre sua prometida. Deu
por certo que eu… — deu um gole muito pouco feminino no
xerez — que eu aceitaria de bom grado suas insinuações.
— E não o fez — Júlia disse.
Era uma afirmação, não uma pergunta.
— É claro que não. De fato, tive que fugir dele. Consegui
me soltar, mas acabei um pouco desarrumada na resistência.
E quando se tem o vestido rasgado e o cavalheiro em questão
tem um sorriso de orelha a orelha, ninguém acredita que não
o procurou. — Encolheu o ombro. — E o dano aconteceu,
nesse dia nasceu a rameira meio irlandesa.
— Oh, querida — Júlia sussurrou com expressão muito
grave. — E o muito imbecil nunca lhe perguntou, não é? —
Murmurou.
Maggie voltou para o aparador com a intenção de servir-
se outro xerez. Normalmente não bebia muito, mas por que
não? Pelo visto aquela era a semana das primeiras vezes.
— Quem não me perguntou, Cranford?
Ouviram que a porta se abria e Maggie se voltou
esperando ver madame Hartley.
Mas quem entrou foi um furioso duque de Colton.
Seguido por…
Oh, não.
Atrás estava um igualmente furioso conde de
Winchester.
Maggie se negou a deixar-se intimidar por aquele olhar
azul e gelado. Não era seu marido, nem seu pai. Ela não tinha
que prestar contas a ninguém, nem sequer a um homem que
no dia anterior lhe tinha dado mais prazer do que tinha
sentido em toda sua vida. Ergueu os ombros enquanto o
duque avançava direto para Júlia.
— Tinha que te dar umas palmadas, minha senhora! —
Disse com desdém à sua esposa.
Júlia soprou.
— Belo castigo. E se tranquilize, por favor, Colton.
Ninguém nos viu entrar e não saímos desta habitação. Não
faça com que me arrependa de te haver mandado chamar.
Simon entrou e se apoiou contra a parede, fazendo com
que sua envergadura deixasse a pequena habitação ainda
mais sufocante. Cruzou os braços sobre o peito e os pés pelos
tornozelos. E embora aos olhos de qualquer um que não lhe
conhecesse podia parecer relaxado, Maggie sabia que não
estava. A posição da mandíbula, os movimentos rápidos e
eficientes, a luz que saltava nas profundidades de seu olhar…
estava furioso.
Madame Hartley entrou discretamente atrás dos dois
homens e fechou a porta.
— Senhor duque, senhor conde posso lhes oferecer um
copo de porto ou de clarete?
— Ora, já que estamos por que não jogamos uma ou
duas mãos de whist? — Colton disse quase aos gritos. —
Todas perderam o juízo? — Aferrou Júlia pelo pulso. —
Vamos. Vamos.
— Espera!— a duquesa exclamou, soltando-se. — Não te
disse por que necessitava que você e Simon viessem.
Maggie voltou os olhos com surpresa para Simon, que à
sua vez tinha os frios olhos azuis cravados nela. Não podia
apartar o olhar. Notava uma comichão na pele, uma sensação
de calor que se estendia lentamente por suas veias, igual lhe
tinha passado no dia anterior. Mas manteve à raia aquela
lembrança, enterrou-a bem dentro do peito, no mesmo lugar
onde guardava todas as lembranças que preferia não
recuperar.
— Pois é claro — Colton disse com desprezo. — Estou
impaciente por te ouvir.
— Madame, por favor, explique ao meu marido e ao lorde
Winchester o que nos contou.
Madame Hartley explicou o acontecido aos dois homens,
atendo-se aos fatos. Enquanto madame falava, Maggie
observou o baile de emoções no rosto de Simon. Passaram da
ira à curiosidade, ao espanto, de novo à ira… embora por
sorte desta vez essa ira não ia dirigida contra ela.
A ira do duque também pareceu mudar de objeto.
Passou-se uma mão pelo cabelo.
— Por Deus. Quem foi? Quem foi o canalha que fez isto?
Madame meneou a cabeça.
— Preferiria não dizer, senhor duque.
— Sei. Mas eu preferiria que dissesse, e nós dois
sabemos que sempre consigo o que quero. Diga-me isso antes
que eu vá.
— Eu gostaria de ver a jovem — Simon disse em voz
baixa, as primeiras palavras que dizia desde que tinha
entrado.
Madame franziu o cenho.
— Com o devido respeito, milorde, não sei se é muito
prudente. Neste momento não está muito… bem. E temo que
a presença de um homem, inclusive do senhor conde, possa
alterá-la muito.
— Você me conhece, madame. Atrevo-me a dizer que não
é o primeiro caso que vejo, nem será o último. Se necessitar
de ajuda, a darei encantado, mas deve me dar a oportunidade
de tirá-la daqui. Serei cuidadoso, prometo.
Aquelas palavras confundiram Maggie um tanto, mas
devia atuar com rapidez se não quisesse perder a
oportunidade.
— Desejaria ir com você — acrescentou.
Simon voltou a cabeça e o gelo azul de seus olhos a
deixou cravada em seu lugar.
— Por cima do meu cadáver.
Maggie abriu a boca para discutir, mas Júlia a
interrompeu.
— É melhor que ele vá sozinho, Maggie. Simon será
cuidadoso. De verdade, não lhe teria mandado buscar se não
pensasse que podia nos ajudar.
Então, desde o começo o objetivo de Júlia tinha sido
procurar a presença do Simon. Não a do duque. O que ela não
sabia sobre Simon? Como podia ser ele a pessoa mais
adequada para tratar com uma prostituta assustada e
machucada?
Madame Hartley assentiu.
— Muito bem. Embora saiba que conhece o caminho,
acompanha-la-ei.
«Embora saiba que conhece o caminho.»
Não havia nenhuma razão para que aquelas palavras
incomodassem Maggie, mas as sentiu como se um arame de
espinheiro lhe rasgasse o peito. É claro, Simon já tinha estado
ali. Qualquer homem com umas poucas libras no bolso o
faria. Pensou na cena que tinha presenciado pouco antes.
Que classe de garota Simon escolheria?
Mas antes que pudesse levar sua fantasia mais à frente,
Simon seguiu madame Hartley até a porta.
— Fique aqui — disse dando a volta e olhando-a
diretamente.
Por que aquela necessidade de andar lhe dando ordens?
Maggie apertou os dentes, mas assentiu com o gesto e viu
suas costas largas desaparecerem pela porta.

***

Simon obrigou-se a tragar sua ira enquanto seguia


madame Hartley pelas escadas posteriores ao piso de cima.
Não deixava de pensar no inconsciente, absurdo,
descerebrado…
Àquela mulher não importava sua reputação?
Um bordel. Sua posição já roçava os limites da
respeitabilidade. Como podia…?
Decidiu encerrar aquela linha de pensamento, respirou
fundo. Devia manter a calma para a tarefa que tinha ante ele.
Maggie o tinha capturado. Nenhuma mulher tinha obtido
nunca algo assim, ao menos não com tanta intensidade e
rapidez.
Subiram outro lance de escadas até o lugar onde as
garotas se alojavam. Aquela era uma parte da casa que nunca
tinha visto, e desejou não ter tido que fazê-lo. Colton
encontraria o responsável por aquilo, não tinha nenhuma
dúvida. E enquanto o duque se encarregaria do castigo, ele se
ocuparia de que a jovem recebesse os cuidados adequados.
Talvez nunca se recuperasse de tudo, mas ao menos podia
melhorar.
Detiveram-se ao chegar ao final do corredor.
— Esta é a habitação de Cora, milorde. Acompanhe-me.
— Madame Hartley chamou batendo à porta — Sou eu, Cora.
Vou entrar.
Tirou-se um molho de chaves de um bolso que levava no
interior das saias e abriu.
A habitação estava escura como breu. Com a pouca luz
que entrava do corredor Simon distinguiu a silhueta de uma
cama diminuta e um armário. Uma figura miúda fugiu para
um rincão. Deus, Deus. Era a jovem.
Madame abriu mais a porta, permitindo que entrasse
mais luz. E o que Simon viu então quase lhe fez cair de
joelhos. Cora estava encolhida contra a parede, com a cara
torcida grotescamente, segurando uma faca com a mão boa.
O braço quebrado estava enfaixado com um lençol, e o levava
seguro ao peito para que não se movesse. Estava vestida com
uma bata que mal a cobria, e Simon via cortes e hematomas
sobre a pele clara.
Mas eram os olhos o que mais lhe preocupava. Frágeis e
brilhantes, movendo-se inquietos, como os de uma besta
selvagem encurralada.
— Não se aproxime — disse em um suspiro. — Não
penso voltar a fazer.
— Cora, viemos te ajudar — madame disse com
suavidade. — Este é… — e o olhou com expressão de
impotência, com uma pergunta muito clara em seus olhos.
Como devia apresentá-lo?
Sua fala e seu traje já diriam por si só qual era sua
posição, mas melhor suavizar um pouco. Era impossível saber
quem lhe tinha feito aquilo. Podia ser uma série de homens
com título. E não queria que a palavra «conde» a alterasse
ainda mais.
Simon se adiantou e se abaixou.
— Sou um amigo. Vim te ajudar. Mas não poderei fazê-lo
se se empenhar em utilizar…
Cora começou a choramingar com um som que lhe fez
estremecer-se, e por um momento pensou que a tinha
assustado. Ficou reto e retrocedeu, e então se deu conta de
que o olhar da jovem não se separava de madame. É possível
que fosse ela quem a assustava?
— Não farei mais — Cora repetiu meneando a cabeça. —
Não pode me obrigar.
Simon soube então que era a presença de sua patroa o
que a transtornava. Não se tratava de que a madame tivesse
intenção de retê-la; a jovem acreditava que a obrigariam a
suportar as atenções de outro homem.
— Madame, — Simon disse com calma-me permita um
momento a sós com ela.
Madame saiu e na habitação se fez um silêncio
tenebroso. Não havia cadeiras, de modo que Simon se sentou
na beira da cama. A respiração trabalhosa de Cora enchia
aquele espaço reduzido. Simon esperou. Necessitava que Cora
entendesse que não ia lhe fazer mal.
Ao cabo de uns momentos, quando a jovem se
tranquilizou, Simon disse:
— Tive uma babá. Eu tinha seis anos e estava
apaixonado por ela. E a seguia a todas as partes que podia,
como um cachorrinho. Bem, pois um dia, não conseguia
encontrá-la. Estive procurando-a por toda parte e ao final a
encontrei nos estábulos. Um cavalariço a tinha sujeitado e a
estava tratando de um modo muito brusco. Mostrei a cabeça
e vi que lhe dizia que não, mas ele era mais forte. E quando
corri para pedir ajuda disseram-me que não me preocupasse,
que quando eu fosse maior entenderia.
Simon franziu o cenho porque de repente se deu conta
de que nunca tinha contado aquilo a ninguém. A lembrança
era intensa e lhe surpreendeu ver que recordava tantos
detalhes, os grunhidos, os gritos dela, a cor de suas anáguas.
Deixou escapar o ar e continuou.
— Depois daquilo a mandaram embora, mas eu sempre
quis saber o que tinha acontecido com ela. E não soube até
anos depois. Quando terminei a universidade contratei uns
homens para que a procurassem. Depois de ser repudiada por
sua família tinha ido de um lado a outro até que ficou em
Southwark. Tinha cicatrizes no rosto e o corpo picado por
marcas. Seu futuro inteiro tinha mudado por algo que
aconteceu nos estábulos da minha casa, algo que poderia
evitar-se se tivesse obrigado o culpado a responsabilizar-se de
seus atos.
Cora continuou calada, com expressão grave, mas não
desconfiada. Ainda tinha a faca na mão, mas já não a
empunhava com força.
— Deixe que eu te ajude — Simon acrescentou. — Posso
me encarregar de que te ensinem o trabalho de criada
pessoal, ou se preferir pode trabalhar na cozinha. E não teria
que preocupar-se por sua segurança. Ninguém te tocará.
— Ninguém?-a jovem perguntou em voz baixa.
— Ninguém — ele repetiu.
— E por que o senhor ia ajudar alguém como eu?
— Porque posso. — Estendeu-lhe a mão. — Mas para
poder te ajudar primeiro tenho que te tirar daqui. Pode me
dar a faca, Cora?
A jovem se olhou a mão, surpreendida, como se não se
desse conta de que seguia segurando a faca. Deixou-a com
cuidado sobre o chão de madeira. Simon se levantou e se
aproximou, com as mãos no alto, para não a assustar.
— Agora te pegarei nos braços e desceremos. Subirei à
minha carruagem e te levarei à minha casa, Barrett House.
Ali minha governanta se ocupará de que receba a atenção
adequada. Quero que meu médico venha e te olhe o braço, e
possivelmente te dará algo para a dor. Parece-te bem?
Os olhos inchados de Cora se encheram de lágrimas
quando assentiu.
— Não quero fazer mais isto.
— Sei. Prometo-te que não terá que voltar a fazê-lo.

***

Quando Simon e madame Hartley saíram Colton se


aproximou até o armário.
— Espero que tenha algo mais forte que xerez aqui.
— Estou segura de que guarda sua reserva privada por
aqui. Depois de tudo, foi seu melhor cliente durante anos.
Não havia ressentimento na voz de Júlia. Era evidente
que estava brincando.
— Certamente. — E lhe sorriu. — Não vou discutir isso,
embora tenha acontecido há muito tempo.
— E isso não a aborrece? — Maggie perguntou, pois
sentia curiosidade pela atitude de sua amiga.
— Nem um pingo. Naquela época não estávamos
casados. Foi há anos, antes que Colton se fosse ao
Continente. Todos os homens jovens se divertem antes de
assentar a cabeça. Não significa nada.
— Passamos muitas noites de diversão neste lugar — o
duque disse com saudade, com o que parecia um copo de
uísque na mão. — Riu. — É claro, a estadia de três dias do
Winchester aqui é legendária, mas passou, deixa eu pensar,
faz oito ou nove anos. Oxalá tivesse podido vê-lo, mas eu
acabava de partir para a França. Assim suponho que deve ter
sido… em maio ou junho.
— Dez anos, meu marido. Partiu para França faz dez
anos. Mas o que importa quanto tempo faz?-a duquesa
comentou divertida.
Maggie franziu o cenho. Fazia dez anos. Em maio ou
junho. Deve ter sido na época de seu escândalo e posterior
casamento com Hawkins. Então, enquanto ela via sua vida
arruinada de modo irrevogável, ele… celebrava com uma orgia
que teria feito os romanos sentirem ciúmes? Durante três
dias? Fechou os olhos e respirou fundo.
— Mas Quint me escreveu. Disse-me que Winchester…
— Nick, anjo, fecha a boca — Maggie ouviu que a
duquesa dizia, e quando levantou a vista viu que tinha seus
ardilosos olhos cravados nela.
Colton dedicou a Maggie um sorriso de desculpa.
— Desculpe, senhora. Meus comentários foram de mau
gosto.
— Tudo o que faz é de mau gosto, diabinho — Júlia
brincou. — Maggie, por favor, o desculpe. Às vezes penso que
meu marido foi criado por lobos.
Isso a fez sorrir, apesar da dor aguda que sentia no peito.
— Não há por que desculpar-se. Passou faz muito tempo
e, na verdade, por que teria que me importar? — E com o
gesto assinalou o copo do Colton. — Tem mais disso?
O duque arqueou uma sobrancelha.
— Muito. Sirvo-lhe um pouco?
Deus, sim.
— Por favor.
Talvez o uísque apagasse a amargura e a ira de sua
boca.
— Eu também quero — Júlia atravessou. — Acredito que
neste momento a todos iria bem beber algo forte.
Uns segundos depois Colton colocou um copo de cristal
nas mãos de Maggie e logo estendeu outro à sua esposa.
Maggie viu que se inclinava e sussurrava algo à duquesa que
a fez ruborizar-se. Era evidente que estavam muito
apaixonados e Maggie sentiu uma forte pontada de inveja. Em
seu matrimônio nunca houve sentimento, não foi mais que
um acordo comercial sem outra coisa que responsabilidades e
deveres. «Como seria viver com alguém que adora o chão que
pisa?», pensou levando o copo aos lábios.
Como era de esperar, o primeiro gole queimou como o
fogo do inferno. Maggie ofegou e esperou que o ar voltasse a
encher seus pulmões. Tinha certa experiência com as bebidas
fortes, embora não pudesse dizer que tolerasse nada bem,
aquela em particular.
Vagamente ouviu que Júlia tossia e o duque riu, então
supôs que a experiência da duquesa com a bebida não era
muito distinta da sua.
— Senhor, como os homens podem beber esta coisa tão
espantosa?-a duquesa disse com voz áspera.
Quando conseguiu recuperar o fôlego, Maggie notou uma
agradável sensação de calor no estômago. Por dentro se
relaxou. Distendeu-se. Como a mola de um relógio muito
apertada, seu corpo inteiro se… desdobrou.
O segundo gole baixou mais fluido.
Colton também elevou seu copo com gesto apreciativo.
— Mal pestanejou com o primeiro gole. Tem toda minha
admiração, senhora.
— Deve ser meu sangue irlandês — Maggie disse com
um sorriso perverso. — Ao menos me serve para algo.
Ainda não tinha terminado seu meio copo de uísque
quando a madame retornou. A mulher explicou que Simon
pensava levar a jovem à Barrett House e necessitaria de
transporte, posto que tinha viajado até ali na carruagem do
duque. Maggie se ofereceu em seguida a lhes levar. E não
porque gostasse especialmente de passar um momento com
Simon. De fato, teria preferido não voltar a vê-lo em sua vida,
mas o bem-estar da jovem tinha prioridade sobre qualquer
sentimento ferido.
Além disso, tampouco era a primeira vez que feriam seus
sentimentos.
Logo as duas mulheres tornaram a pôr suas capas e
suas máscaras e se jogaram o capuz sobre a cabeça. O
vestíbulo posterior estava vazio, e o duque guiou o pequeno
grupo até as cavalariças.
As duas carruagens esperavam e os cavalos expulsavam
nuvens de fôlego impaciente ao ar gélido da noite. Colton
ajudou Maggie a subir à sua carruagem e cruzou umas
palavras com o cocheiro; ato seguido, ele e Júlia subiram em
seu veículo. Maggie se amassou contra a poltrona, notando o
quente tijolo sob os pés, e viu a carruagem do duque afastar-
se.
Finalmente Simon apareceu, sem chapéu, e rodeando
com seu casaco um vulto grande que levava nos braços.
Maggie ficou reta ao mesmo tempo que o cocheiro descia da
boleia e lhe abria a porta. Simon manobrou admiravelmente e
subiu sem sequer ter que deixar a jovem no chão. Instalou-se
em um assento com a jovem no regaço, e a porta se fechou.
Maggie deu dois golpes no teto e o veículo pôs-se a andar.
Não podia ver o rosto da jovem embaixo da pesada lã do
casaco de Simon.
— Está acordada? — Sussurrou.
— Desmaiou, suponho que pela dor.
— Quero ajudar.
— Não. Levá-la-ei à minha casa na Barrett House e
depois acompanhá-la-ei à sua casa.
A tênue luz perfilava a marcada linha de sua mandíbula.
Era evidente que naquele momento sua companhia lhe
resultava irritante, mas não importava. Não pensava ficar à
margem. Elevou o queixo sem evitar os penetrantes olhos
azuis de Simon.
Ao final, ele deixou escapar um suspiro.
— Sei bem que não tenho que te contrariar quando põe
essa cara. Vem à Barrett House se é o que deseja. Pode ajudar
uma vez que a jovem esteja instalada. Já mandei buscar meu
médico.
Um milhão de perguntas queriam sair de sua boca, mas
Simon se voltou para o guichê como se ela não estivesse ali.
Maggie calou suas palavras impaciente, obrigou-se a esperar.
Antes que amanhecesse teria suas respostas, tanto sobre a
jovem como sobre a razão de que ele se implicasse.

***

Não esperava encontrá-la adormecida.


Simon tinha mantido uma distância respeitosa durante
toda a noite enquanto Maggie, sua governanta e seu médico
se ocupavam das feridas de Cora. Quando terminaram Simon
falou extensamente com o médico sobre quão cuidados
necessitaria a jovem. Por sorte, o ajudante de madame
Hartley lhe tinha endireitado com habilidade o braço
deslocado, e o doutor Gilchrist acreditava que recuperaria seu
uso normal sem outra sequela que uma ligeira rigidez quando
fizesse mau tempo. Entretanto, preocupavam-lhe as
hemorragias internas. Tinha indicado à Maggie e à governanta
que estivessem atentas a determinados sintomas.
Quando o médico se foi Simon voltou para seu escritório
para tomar um brandy.
Precisava conservar a calma. Maggie estava ali em sua
casa. Só de pensar seu pau acordava. Deus, queria-a em seu
leito. Queria ver seu cabelo desdobrado sobre os almofadões,
seus membros pálidos e cremosos adornando seus lençóis. A
imagem lhe fez sentir-se inquieto e excitado, a pele lhe fazia
cócegas.
O que era de tudo inapropriado, tendo em conta o motivo
pelo qual estava na casa. Não seria bom pensar nela naqueles
termos, que imaginasse as diferentes formas que desejava lhe
dar prazer, apesar de tudo o que tinha acontecido naquela
noite. E teve que recordar-se que não estava ali por ele.
Então ficou em seu escritório bebendo. Como um
covarde, mas melhor evitá-la que fazer algo que pudesse
arrepender-se.
«Como me atirar aos seus pés e lhe suplicar que me deixe
me colocar entre suas pernas uma vez mais.»
O tempo passava, e Simon esperava que a qualquer
momento Maggie entraria como uma exalação no escritório e
dispararia flechas de perguntas, todas as que tinha querido
lhe fazer durante o trajeto do bordel de madame Hartley. Mas
não o fez. E pensou se não teria ido embora. Se se teria
escapado sem dizer nada. Não seria estranho nela. De fato,
havia poucas coisas que Maggie não pudesse fazer. Aquela
mulher era dura como o aço.
Por isso, quando a encontrou adormecida em uma
cadeira junto ao leito de Cora, passada a uma da madrugada,
foi uma surpresa.
Ficou olhando-a, sem mal atrever-se a respirar por medo
de despertá-la. Vista daquele modo resultava tão adorável. O
contraste dos cílios negros contra a pele clara. Os lábios
rosados e carnudos entreabertos. As mechas de cabelo que
emolduravam seu rosto como pinceladas de meia-noite, os
seios subindo e descendo pausadamente.
Com um sobressalto notou que havia alguém ao seu
lado.
— Desculpe lhe incomodar, milorde — sussurrou a
senhora Timmons, sua governanta. — Pedi que preparem a
habitação amarela para a senhora. — Inclinou a cabeça em
direção à Maggie. — Antes não quis deixar a jovem sozinha. E
dormiu pouco depois que ela.
Já imaginava, mas assentiu de todos os modos.
— Obrigado, senhora Timmons. Ocupar-me-ei de que
lady Hawkins vá à sua habitação.
— Muito bem, milorde. Pedi a uma das criadas que fique
para velar a jovem. Se seu estado mudar lhe informará
imediatamente.
— Obrigado, agradeço-lhe. Boa noite.
Simon lançou um olhar à Maggie, e em seu peito notou
uma sensação de calidez que nunca tinha experimentado.
Não tinha querido deixar Cora sozinha, quando a maioria das
damas nem sequer se teriam dignado a olhá-la, não digamos
nem a falar com ela. Fosse qual fosse sua impressão original
sobre o motivo pelo que ela e Júlia tinham ido essa noite ao
bordel de madame Hartley, estava claro que tinham ido
ajudar. Mas por que demônios a madame ia mandar buscar
duas damas de linhagem? Júlia era como um livro aberto
para ele; Simon a conhecia fazia tempo, conhecia todos os
seus segredos. E embora tivesse muitos, nenhum deles
incluía uma cruzada como aquela. Em troca, Maggie era um
mistério. Que interesse tinha ela naquele assunto?
Uma coisa estava clara: era muito distinta de todas as
mulheres que conhecia. E gostava disso. Sempre tinha
gostado. Desde o dia em que a conheceu tinha gostado de seu
caráter, de sua paixão. E sua negativa a acovardar-se ante a
alta sociedade era de admirar. Antes inclusive do escândalo,
quando outros riam de seu sangue irlandês, de seu pai poeta,
ou de seu aspecto, tão distinto ao das jovens inglesas, Maggie
estava sempre com a cabeça erguida.
Simon sabia porque ele esteve ali. Por causa da amizade
de sua mãe com a mãe de Maggie, indicou-lhe que tirasse a
jovem para dançar uma vez a cada noite durante aquela
temporada. Ao princípio tomou como brincadeira, mas Maggie
lhe pareceu tão atraente que não foi capaz de manter-se
afastado dela. Além de beleza, tinha inteligência. E essa era
uma qualidade que à sua idade poucas mulheres possuíam e
que Simon apreciava especialmente. Maggie o fazia rir. Melhor
ainda, o fazia pensar.
A questão era o que fazer com ela agora.
Inclinou-se, deslizou as mãos sob sua figura e a agarrou
nos braços com tanta delicadeza quanto pôde. Ela mal se
moveu, limitou-se a lhe jogar os braços ao pescoço e apoiou a
cabeça contra seu pescoço com um suspiro. Como se
tivessem feito aquilo mil vezes.
De repente desejou que fosse assim.
Mas não devia permitir-se aqueles pensamentos, não
quando a tinha tão perto que sentia suas curvas suaves e
femininas contra seu corpo. Foi com tato até as escadas e
subiu muito devagar. E embora pôde atribuir a lentidão de
seus movimentos ao temor a despertá-la, o certo é que não
desejava separar-se dela.
Simon entrou na habitação amarela. Era a antiga suíte
de sua mãe. Nunca tinha tido uma mulher alojada ali;
normalmente os convidados ficavam no outro lado da casa.
Não deixava de ser curioso que a senhora Timmons a tivesse
elegido, mas não lhe importou. Queria Maggie ali. Perto dele.
Deixou-a sobre a colcha. Ela rodou e se apoiou contra o
travesseiro, mas sua respiração seguia sendo regular. Simon
ficou ali tratando de decidir. Podia deixá-la vestida, mas as
roupas femininas não eram especialmente cômodas. E
necessitaria de ajuda para tirar.
«Uma ajuda que está mais que disposto a lhe oferecer.»
Podia olhar pelo lado prático. Não seria a primeira vez
que ajudava uma mulher a despir-se. «Você o faz e vai.»
A ideia quase o fez rir.
Morria por despi-la, mas seus motivos não eram de tudo
puros. Uma dor familiar despertou sua virilha quando
recordou seu encontro na sala da casa de Maggie na tarde
anterior. A calidez com que seu corpo se aferrava a ele. A
força com que o segurava, suas unhas cravando-se em sua
pele através da roupa. E quando ela chegou ao clímax… foi o
máximo, não esqueceria a expressão de seu rosto enquanto
vivesse. Como se fosse um presente estranho e precioso.
Sacudiu-se. Não era muito cavalheiresco que ficasse ali
olhando-a como um velho tarado. E certamente não
despertaria se lhe tirasse a roupa. Podia lhe tirar as
sapatilhas. Inclinou-se com eficiência, as tirou e as deixou no
chão.
Possivelmente teria que lhe afrouxar os laços que
seguravam o vestido. Dificilmente poderia tirar-lhe sem sua
cooperação, certamente, mas ao menos podia lhe ajudar a
estar um pouco mais cômoda. Sem movê-la, seus dedos
puxaram as fitas e, conforme o tecido dos dois lados se ia
separando, pôde ver os sedutores brilhos da roupa interior.
Suas mãos diminuíram o passo. E se…?
Mas que demônios lhe acontecia? Tinha trinta e quatro
anos, não quatorze. E era um cavalheiro. Tinha perdido a
cabeça? Obrigou-se a soltar as fitas e cobriu seu corpo ainda
vestido com as roupas de cama. Foi até a porta que
comunicava com a habitação do lado, e decidiu não pensar
mais em Maggie.
Capítulo 11
A porta da habitação do lado se fechou com suavidade e
Maggie respirou tranquila pela primeira vez no último quarto
de hora. Seu coração golpeava com força contra seu peito,
tanto que lhe surpreendia que Simon não tivesse notado. Mas
o instinto de sobrevivência a tinha impulsionado a guardar
silêncio.
Tinha-a tratado com tanta delicadeza, quase com…
ternura. Esmerou-se especialmente em não a despertar. Além
disso, o que poderia dizer se tivesse visto que estava
acordada? «Me toque, Simon. Me beije. Me demonstre que o que
aconteceu ontem não foi uma casualidade.»
Não tinha sido fácil. Aquele contato leve como uma
pluma tinha excitado seu corpo, cada roce, cada impressão de
seus dedos lhe doía. Quase ficou a ronronar, como um
gatinho procurando cuidados. E quando começou a soltar as
fitas do vestido pensou que ia se derreter.
Sentia os seios cheios de desejo, o sexo molhado, e quase
não podia respirar. O lugar onde se concentrava o prazer, o
pequeno botão que Simon tinha acariciado para levá-la ao
clímax no dia anterior, palpitava ao ritmo de seu coração.
Simon a tinha despertado em todos os sentidos, e ia lhe
custar dormir.
Tombou-se sobre as costas com a esperança de aliviar
aquele desejo, abriu os olhos e tratou de concentrar-se ao que
a rodeava. O bonito papel amarelo das paredes. O movimento
das chamas na lareira. Reconheceu o quadro que presidia a
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lareira, Village Politicians, do Wilkie . Muito apropriado para
Barrett House, pensou, considerando o legado político dos
condes de Winchester.
Entretanto, nem sequer o soberbo quadro de inspiração
holandesa pôde distrai-la. Seu corpo lhe pedia uma
satisfação.
Aquela porta seria da habitação do Simon? Tinha saído
por ela fazia não muito, assim só podia supor que seguia ali.
O que estaria fazendo? Estava relaxando? Despindo-se? Ou,
Deus a ajudasse, banhando-se?
Imaginar sua figura alta e esbelta molhada e nua, com a
água deslizando-se por suas extremidades, não aliviou seu
desejo. Colocou uma mão entre as pernas, por cima da roupa,
com a esperança de sossegar as chamas do desejo que ardiam
ali… e o contato a fez ofegar. «Decididamente, é pior», notou
com desespero, e apartou a mão em seguida.
Por que tinha que tomar aquele uísque na casa de
madame Hartley? Se não houvesse feito não teria adormecido
junto ao leito de Cora. Ela passava as noites em claro com
frequência. Ficava pintando até altas horas da madrugada,
para não falar das festas da rameira meio irlandesa, que
estavam acostumadas a prolongar-se até o amanhecer. E se
não adormecesse, certamente agora estaria em sua casa, e
não retorcendo-se sob a sedução daquela tentação
deliciosamente perversa.
Antes de dar-se conta seus pés estavam sobre o duro
chão. Seu vestido pendurava desajeitado, quase caindo de
seus ombros, porque Simon tinha afrouxado as fitas que o
seguravam. Possivelmente podia lhe pedir que acabasse o
trabalho. Não, não… que loucura. Uma loucura imperdoável.
Não podia… podia? O que ia dizer?
«Com sorte, nada.»
O que devia fazer, o que qualquer mulher em seu são
julgamento faria, pensou enquanto se aproximava da porta,
era pedir que voltasse a lhe atar as fitas e mandasse trazer
sua carruagem. Entretanto, quando seus dedos seguraram o
trinco da porta sabia muito bem que não era isso o que faria.
Maggie abriu a porta sem fazer ruído e colocou a cabeça
no que resultou ser um dormitório. O suave resplendor das
chamas chegava aos diferentes rincões da imensa habitação e
iluminava um mobiliário masculino e grande. Era exatamente
a classe de habitação que esperava…
Um suave grunhido chamou sua atenção e seus olhos se
desviaram imediatamente ao imenso leito com dossel.
Maggie ficou boquiaberta. Simon estava nu como quando
veio ao mundo, jogado sobre a colcha, e estava se… tocando.
Seu pênis, mais concretamente. Tinha-o pego, e subia e
baixava a mão enquanto os músculos de seu braço se
esticavam. Com os olhos fechados, as feições relaxadas pelo
prazer, enquanto a mão marcava um ritmo regular, subindo
da base à ponta.
Senhor dos céus, que formoso era.
Maggie observou fascinada, incapaz de apartar o olhar.
Não tinha nem um grama a mais no corpo. Ventre plano,
ombros largos, coxas fortes e musculosas que se esticavam e
sacudiam pela tensão. Um pelo dourado salpicava seu peito,
antebraços e pernas. Era incrível. Se tivesse seus lápis —
carvões à mão teria capturado a essência daquele ato
puramente egoísta e hipnótico sobre o papel.
O desejo que havia sentido sozinha na outra habitação
empalideceu em comparação com o inferno que naquele
momento desatou em seu interior. O peito de Simon começou
a subir e baixar com rápidas sacudidas, cada vez mais tenso,
enquanto sua mão seguia trabalhando. De cima a baixo, e
voltava a começar. Com mais força, agora, mais depressa.
Maggie se mordeu o lábio para conter um gemido. Cravou os
dedos dos pés no carpete para não correr para ele. Nunca em
toda sua vida tinha desejado tanto tocar alguém. Seus braços
e suas pernas quase se sacudiam pelo esforço de ficar quieta.
A mão que Simon tinha livre foi apoiar-se sobre o ventre,
e começou a descer. Não se deteve onde Maggie esperava.
Não, suas longas pernas se moveram, abriram-se e Simon
esticou o braço para segurar as duas bolsas debaixo. Um
gemido brotou de seus lábios. Maggie sentiu que os joelhos
lhe fraquejavam e teve que agarrar-se ao marco da porta para
sustentar-se.
Algum som deve ter chegado ao outro lado da habitação,
porque Simon abriu seus olhos azuis e brilhantes de repente
e a atravessou com eles. Suas mãos se detiveram. Maggie
seguiu segurando a madeira, sem saber muito bem o que
dizer. Como podia explicar um comportamento tão descarado
e pouco feminino?
O fogo vaiava e chispava na lareira enquanto Maggie
tratava de abrir passo no limo que entorpecia seus
pensamentos e de dizer algo coerente. Uma sobrancelha altiva
e loira se arqueou. Não havia ira nem vergonha na expressão
de Simon, só curiosidade. Entretanto, seus olhos a incitavam
perversamente, como se a estivesse desafiando a aproximar-
se.
— Por mim não pare — exalou com voz afogada. «Oh,
Deus.» De verdade ela havia dito isso?
As comissuras da boca de Simon se crisparam. Sua mão
abandonou os pesos que tinha sob o membro ereto e com o
dedo lhe indicou que se aproximasse. Ela meneou a cabeça
com ímpeto. Se se aproximasse, sabe Deus o que faria.
— Vem aqui, Maggie.
E como se Simon tivesse puxado uma corda, seus pés
começaram a mover-se em resposta às suas palavras roucas.
Quanto mais se aproximava, mais detalhe via. As elevações,
os ângulos naquele corpo deleitável. A fina capa de suor que
cobria a pele. A pequena cicatriz do abdômen musculoso.
Quando chegou aos pés da cama aferrou-se ao poste de
madeira que tinha mais perto.
— Não sabia que tinha público — ele disse. A mão
começou a mover-se outra vez, e os olhos de Maggie se
desviaram para a zona por debaixo do umbigo. Passou a
palma sobre a virilha, segurou o membro e voltou a meneá-lo
umas vezes. — Fica tão bonita quando está excitada. Já tinha
visto alguma vez um homem masturbar-se?
— Não — ela sussurrou.
— É evidente que gostou da atuação. Me diga o que lhe
deu vontade de fazer enquanto me via.
Não lhe ocorreu que podia mentir.
— Quero te lamber.
A mão se deteve e Simon aspirou.
— Onde? — Perguntou com voz rouca.
Seus olhos se encontraram.
— Por toda parte.
Ele soltou o membro, que caiu rígido e orgulhoso contra
seu ventre, e colocou os braços sob a cabeça, com o corpo
estendido ante ela em toda sua glória masculina, excitado,
tenso. Maggie tinha a boca seca. Simon esperou, sem pressa.
Desafiando-a claramente a que visse por si mesma o que
podia fazer. «Céu santo.»
Podia fazê-lo?
Podia não fazer?
Não que fosse ingênua. Tinha perdido a virgindade fazia
anos. Mas um prazer como o que Simon lhe tinha mostrado
no dia anterior era algo novo para ela. De fato, se não tivesse
experimentado por si mesma, jamais o teria acreditado
possível. E como um bolo de cerejas, queria mais.
Com o coração acelerado começou a subir à cama, mas
lhe disse:
— O vestido. Quero tirá-lo.
Apoiando os dois pés no chão Maggie se voltou para lhe
dar as costas. Ouviu que ele se incorporava, notou o calor que
emanava de seu corpo nu às suas costas e conteve o fôlego.
Os dedos do Simon voaram sobre as fitas.
— Pronto.
Maggie tirou os braços das mangas e deixou que o
vestido caísse em um atoleiro de seda sobre o chão. Antes que
tivesse tempo de apartar-se, soltou-lhe o espartilho e baixou
as tiras de seus ombros. Segurou-a pelos quadris e a fez girar,
e procurou o cordão de suas anáguas. Tirou-lhe esta roupa
tão depressa como as outras e voltou a tombar-se na cama,
deixando-a só com uma leve regata.
Simon voltou a apoiar os braços debaixo da cabeça,
quase como se estivesse tentando não a tocar.
— Você pode tirar isso? Assim eu posso olhar.
Maggie se mordeu o lábio. Nunca tinha tirado a roupa
diante de um homem. Sempre eram suas criadas que a
despiam, inclusive quando esteve casada. Mas não se
mostrou tímida com Simon. Possivelmente teria que fazê-lo,
mas de todos os modos já a tinha visto quase nua e o que
podiam significar para ele uns seios mais? Os artistas
masculinos os tinham representado desde os tempos em que
usavam uns simples palitos para desenhar sobre a terra. E
ela havia visto suficientes obras de arte para saber que os
tinha de diferentes forma e tamanhos. Os seus seguramente
não eram únicos.
Segurando a barra da regata, a passou por cima da
cabeça e jogou a roupa ao chão.
Os olhos de Simon, com as pálpebras meio entreabertas,
passearam-se por seu corpo nu. Por dentro Maggie sentiu que
se derretia embaixo daquele olhar apreciativo e ardente.
— Jesus, é ainda mais formosa do que eu imaginava —
disse em um sussurro.
— Poderia dizer o mesmo de ti.
— Me mostre — Soou mais como uma súplica que como
uma ordem.
Ela subiu à imensa cama e se inclinou para aplicar os
lábios contra a face interna do joelho. Os músculos da perna
de Simon se sacudiram. Animada, Maggie foi dando beijos
pela coxa. O calor salgado da pele, o leve roce do pelo…
Maggie se sentiu embriagada por seu aroma e seu sabor
enquanto assinalava seu caminho com os dentes e a língua e
os ofegos precipitados dele ressoavam pela silenciosa
habitação.
Deu-lhe uma mordiscada no quadril e ele aspirou com
força. Embora a experiência de Maggie fosse limitada, as
gravuras e as ilustrações que circulavam por Londres lhe
tinham proporcionado algo parecido a uma educação carnal.
Os esboços que Lemarc tinha criado para madame Hartley
mostravam casais envolvidos em todo tipo de atividades e
posturas com as quais Maggie jamais tinha sonhado. Em seu
momento tinha-as desdenhado como simples produto de sua
imaginação. Mas agora… agora ansiava explorar. Descobrir.
Agradar.
Passou a ponta da língua sobre a parte superior do pênis
grosso. Simon sacudiu os quadris.
— Oh, Deus — gemeu. — Outra vez.
Ela obedeceu, mas desta vez começou pela base e subiu
todo o comprimento. Quando chegou ao extremo colheu-o
com os lábios e chupou com força, levando o grosso membro
ao interior da boca. Simon levantou a cabeça e o torso do
colchão, e voltou a se deixar cair com um som surdo. Ainda
renegando, esticando os músculos.
Recordando o movimento da mão quando o estava
olhando, Maggie fez o mesmo com a boca o melhor que pôde.
— Deus — ele disse aspirando com força. — Se fizer isso
vou acabar muito rápido.
Maggie queria sorrir, mas não podia, claro, assim
colocou mais empenho naquele veludo duro e suave que se
deslizava entre seus lábios e contra sua língua. Saber que
podia lhe proporcionar esse prazer, que era ela quem tinha o
controle, dava-lhe certa sensação de poder. Jamais teria
imaginado nada igual pelas gravuras eróticas. Mas resultava
embriagador. Sua boca subia e baixava sobre o membro,
enquanto, a sensação aguda que notava entre as pernas era
cada vez mais intensa.
E então recordou outra coisa que lhe tinha visto fazer
pouco antes. Sua mão se deslizou entre suas pernas até as
duas bolas que tinha debaixo, e começou a apertar e a
massagear com suavidade.
— Oh, demônios. Não posso…-seus quadris começaram
a dar empurrões fortes e rápidos contra a boca de Maggie
enquanto suas mãos se aferravam à colcha. — Vou a… não
posso. Deus, Maggie!-o disse quase gritando, quando Maggie
notou a primeira descarga de líquido pastoso e espesso em
sua língua.
O corpo do Simon se sacudiu enquanto se despejava na
boca de Maggie, e ela aguentou como pôde, apertando com a
boca. Ele ofegava, sacudia-se, deixando sua semente em sua
garganta. Finalmente, quando deixou de estremecer-se, ela se
apartou e lhe deu um beijo no ventre. Tinha lhe dado prazer.
Inclusive lhe tinha feito perder o controle. Estava quase
enjoada de tão feliz que se sentia, ébria de poder.
—Vem aqui — Simon ofegou.
Suas grandes mãos a seguraram pelas axilas e a
levantou até colocá-la ao seu lado. Seus olhares se
encontraram. Os olhos azuis de Simon eram doces e estavam
cheios de uma ternura que Maggie sentiu até as pontas dos
dedos dos pés.
Apartou-lhe os cabelos do rosto e segurou aquele
espesso cabelo a um lado.
— Sabe — perguntou com voz suave — no que eu estava
pensando antes, enquanto me masturbava?
Ela meneou a cabeça.
— Estava te imaginando me fazendo justamente o que
fez. E a realidade, minha doce amiga, superou tudo o que eu
poderia imaginar. — Sujeitou-a pela nuca e lhe fez baixar a
cabeça até sua boca. — Me beije. Deixa que te prove.
Suas bocas se encontraram e lhe abriu em seguida os
lábios com a língua e penetrou dentro. Ela o beijou com
intensidade, com violência, alimentando a faísca que havia
entre eles.
Ao cabo de um momento, a fez estender-se sobre as
costas.
— Agora devo corresponder o favor.
Simon ficou entre as pernas de Maggie, consciente de
que jamais havia sentido uma necessidade tão urgente de
agradar uma mulher.
Deu uns pequenos beijos na pele cremosa da face
interna das coxas. Podia cheirar sua excitação, via o brilho do
desejo na vulva. Desejo por ele. Aquela imagem teria feito
qualquer homem cair de joelhos.
Deteve-se um instante só para olhá-la. Pele clara, com
veias azuis que se viam sob a superfície. Um punhado de pelo
negro lhe cobria o púbis. E as pernas se abriam ante ele,
chamando-o. Resultava incrivelmente erótico.
— É linda — Sussurrou.
Com a ponta da língua seguiu os lábios externos da
vulva que protegia a entrada.
— Simon! — Ela exclamou saltando levemente, e ele a
segurou pelas nádegas para que não se movesse.
Aquela reticência lhe surpreendia. Com certeza algum de
seus amantes já lhe teria feito aquilo antes.
— Relaxe, Maggie. Deixe que eu te dê prazer.
E então lambeu da base da abertura até o pequeno botão
do extremo, sem quase reparar no chiado assustado dela.
Como podia fixar-se em algo mais tendo-a nua ante ele, com
seu sexo tão molhado, inchado e inegavelmente delicioso? O
sabor adocicado de sua excitação explodiu em sua língua e
esteve a ponto de gemer. Nunca se cansaria daquilo. Se
pudesse escolher como queria morrer, morreria fazendo
aquilo.
Maggie proferiu um som inarticulado quando Simon se
concentrou no botão, o pequeno amontoado de nervos onde se
concentra o prazer de uma mulher. Simon brincou e a
atormentou, utilizando sua boca, sua língua, suas mãos e
inclusive seus dentes para fazê-la enlouquecer, atento aos
seus gemidos e seus gritos para saber o que ela mais gostava.
E enquanto fazia aquelas coisas, ela o aferrava pela
cabeça, enredando os dedos em seu cabelo. Em poucos
segundos suas coxas começaram a tremer e seu corpo ficou
tenso. Simon lhe colocou um dedo dentro e conseguiu o efeito
desejado. Maggie deixou escapar um grito rouco, sacudindo-
se toda enquanto por dentro seus músculos se fechavam.
Adorava que não se guardasse nada, que lhe mostrasse
aquela reação tão sincera e entusiasta, provavelmente a mais
sincera e entusiasta que jamais tinha visto. De fato, gostava
tanto que sua ereção se debatia contra a roupa de cama
reclamando sua atenção.
Quando Maggie deixou de estremecer-se Simon a cobriu
com seu corpo. Era deliciosa, com sua pele suada, o cabelo
negro e revolto, e a expressão sonolenta e satisfeita. Apartou-
lhe o cabelo do rosto.
—O que tem feito é perverso —disse ofegante.
— Minha querida, o que fiz não é nada comparado com o
que fica por te fazer. — Inclinou-se para beijar atrás de sua
orelha e moveu os quadris para levar seu pênis inchado
contra sua pele. — Na próxima vez me jogarei sobre as costas
e você se porá em cima, com os pés em minha cabeça. E
assim os dois poderemos nos dar prazer com a boca
simultaneamente.
Ela aspirou e arqueou as costas, claramente de acordo
com o plano. Ele sorriu e lhe passou a mão pelo seio.
— Você gosta da ideia, não é? Quer que te diga o que
mais quero te fazer?
Ele o massageou com força, com o mamilo suave entre os
dedos.
— Simon — ela suspirou, piscando até fechar os olhos.
— Ou melhor, mostro-lhe isso.
Desceu até seus seios e rodeou aquelas exuberantes
elevações com as mãos. Tão adoráveis e redondos. Mamilos
perfeitos que tinham sabor de veludo. Baixou a cabeça e
rodeou a ponta com a língua. Ela arqueou as costas,
empurrando contra sua boca, assim tomou a pérola e chupou
com força.
Simon seguiu lambendo as pontas rígidas de seus seios
enquanto Maggie se aferrava a ele. Quando a teve retorcendo-
se sob suas mãos, proferindo leves miados, ficou em cima e
entrou nela. O corpo de Maggie se fechou sobre ele, quente e
forte, e ele fechou os olhos de pura felicidade.
— Jesus — ouviu-se dizer com voz áspera enquanto
tratava de não perder o controle. Precisava prolongar um
pouco.
Rodeou-lhe a cintura com as pernas, apertando para
animá-lo, e o instinto se apropriou dele. O desejo e a
necessidade o dominaram, uma força que não pôde resistir…
igual à mulher que tinha sob seu corpo. Empurrou com
empenho, uma e outra vez, fazendo força com os quadris,
ouvindo o aplauso de seus corpos ao juntar-se. Maggie lhe
cravava as unhas nas costas, seus doces ofegos enchiam sua
mente. Não podia parar, não podia ir mais devagar.
De repente, Maggie ficou tensa, conteve a respiração. Ele
gemeu.
— Deus, sim. Sinta esse prazer, Mags.
Maggie deixou escapar um grito e os músculos sedosos
de seu interior o espremeram. Simon sentiu que a pressão ia
aumentando na base de suas costas, estendia-se por seus
testículos e conseguiu retirar-se a tempo para escorrer-se
sobre os lençóis. O sêmen seguiu saindo, em ondas
sucessivas de euforia que o deixaram seco. Quando por fim
terminou desabou-se sobre o leito, surpreso pela intensidade
e a rudeza com que a tinha tomado.
Fechou os olhos e a aproximou ao seu lado. E tratou de
recuperar o fôlego junto com a prudência. Tinha sido assim
alguma vez com alguma das outras mulheres? Porque ele não
recordava. Uns dedos femininos se deslizaram sobre seu
peito, curiosos e tranquilizadores, e por uma vez Simon
permaneceu em silêncio. Não estava seguro de que lhe saísse
a voz, e não queria que ela soubesse que se sentia tão tocado.
As emoções que o embargavam não tinham precedente.
Aquela mulher penetrou em seu interior e havia o virado do
avesso, e agora não estava muito seguro do que tinha que
fazer.
— Tenho que voltar para os meus aposentos — ela disse,
fazendo gesto de levantar-se.
— Não se atreva a levantar desta cama. — Fechou o
braço com força em torno de seu corpo e a aproximou mais a
si. — Ainda não terminei contigo.
— Ah, não? — E lhe passou seu pé suave sobre as
canelas.
— Não. Só necessito de um momento para recuperar as
forças. E o sentido.
— Humm. Então, se me levantar e ir estará muito fraco
para me seguir.
Ele mudou de posição para olhá-la.
— Seguir-te-ia ao fim do mundo, Maggie. Desta vez não
se afastará de mim.
E o dizia a sério. Já a tinha perdido uma vez; não a
deixaria escapar. Não importava o que tivesse acontecido no
passado, queria-a, e aquela noite era prova mais que
suficiente de quão satisfatórias podiam ser as coisas entre
eles.
Maggie se mordeu o lábio e suas bochechas se voltaram
de um rosado claro. Simon não teria sabido dizer se suas
palavras a agradavam ou embaraçavam.
— O que disse à Cora? Como ganhou sua confiança e
conseguiu que colaborasse?
Simon se relaxou ante aquela mudança de tema. Não
tinha por que despir sua alma ante ela em sua primeira noite
juntos. A primeira de muitas, esperava.
— Prometi-lhe que aqui estaria a salvo, que ninguém a
obrigaria a fazer nada contra sua vontade.
— E ela acreditou em ti?
Simon lhe acariciou as costas e baixou a mão para
segurar uma das nádegas.
— Posso ser muito persuasivo. Ainda não entendeu?
Dedicou-lhe um sorriso sarcástico, assinalou com o gesto
o outro dormitório.
— Tendo em conta onde estamos e o que acaba de
acontecer, tenho muito presente sua capacidade de
persuasão.
— Ora, como se não fosse você quem entrou em meus
aposentos, para começar — brincou. — Diria que foi você
quem me seduziu, minha senhora.
Desta vez a cor que tingiu as bochechas de Maggie foi
mais intenso.
— É muito pouco cavalheiresco que me recorde isso.
Simon fez rodar seus dois corpos para colocar-se em
cima dela.
— Querida, isso é algo que jamais te permitirei esquecer.
E a beijou com doçura antes que tivesse oportunidade de
responder. E seguiu beijando-a até que Maggie gemeu e lhe
suplicou que voltasse a tomá-la.
Quando os dois ficaram saciados, Maggie se aconchegou
ao seu lado, com o braço sobre seu peito, derramando seu
fôlego ritmicamente sobre sua pele. Simon jamais havia se
sentido tão satisfeito. Que importância podia ter o passado se
agora a tinha em seu leito? Os outros homens, os escândalos,
as mentiras… tudo estava esquecido. O que importava era o
agora. E essa noite tinha encontrado tudo o que sempre tinha
querido.
— Agora é minha — Sussurrou contra o espesso cabelo.
E enquanto adormecia com Maggie nos braços esteve
pensando em todas as travessuras que queria lhe fazer pela
manhã.
Entretanto, ao amanhecer já se tinha ido.

***

— Milorde, um tal senhor Hollister deseja lhe ver.


Simon suspirou e deixou os talheres com cuidado
apoiados no prato. Tinha descido cedo com a intenção de
comer algo rápido para poder fazer uma visita à Maggie na
primeira hora. Tinha montões de perguntas rondando pela
cabeça, começando com o motivo pelo qual escapou de sua
cama de madrugada. Pelo Stillman sabia que Maggie tinha
mandado chamar uma criada por volta das quatro e meia
para que a ajudasse a vestir-se e se foi em sua carruagem
depois de passar para ver Cora um momento.
O fato de que não ficara lhe tinha deixado um amargo
sabor na boca, uma amargura que não suavizou com o
delicioso café da manhã.
E agora se apresentava o detetive. Simon seguia decidido
a encontrar Lemarc, é claro, mas naquele momento tinha
muitas coisas na mente para entreter-se escutando o relatório
do Hollister.
— Diga-lhe que volte esta tarde, Stillman.
Seu mordomo fez uma reverência e se foi, e Simon pegou
sua xícara para dar um reconfortante gole. Os jornais se
amontoavam na mesa, sem ler. Tinha estado olhando as
páginas sem ver nada, tentando encontrar um sentido a tudo
aquilo. Na noite anterior Maggie tinha se colocado em sua
habitação às escondidas e se foi de igual modo no momento
em que adormeceu. Ela se arrependia do que tinham feito?
Não. Com certeza não. Possivelmente é que, por uma vez
em seus vinte e tantos anos de vida tinha demonstrado certa
preocupação por sua reputação. Os serventes sempre falam e
certamente Maggie não queria arriscar-se a que a
descobrissem em seu leito. Distendeu os ombros tentando
aliviar parte da tensão que se instalou nessa zona nas
passadas horas. Sim, seria isso.
O que Maggie não entendia é que queria casar-se com
ela. Os rubis dos Winchester seguiam esperando em seu
escritório, aquele conjunto requintado que tinha pertencido a
sua família durante cinco gerações. Todas as condessas de
Winchester os tinham usado no dia de suas bodas, e Maggie
não seria uma exceção, apesar de seu passado.
Stillman retornou com expressão desventurada.
—Milorde, desculpe, mas o senhor Hollister insiste em
lhe ver.
Simon passou a mão por sua mandíbula recém-
barbeada. O que podia haver de tão condenadamente
importante? Depois de tudo, tinha lido uma nota do Hollister
fazia apenas três dias. Tinha descoberto a identidade do
Lemarc nesse intervalo? Não parecia provável. Mesmo assim,
se despachasse aquele assunto com rapidez, poderia dedicar-
se a coisas mais importantes. Ficou em pé.
— Bem. Leve-o ao escritório.
Simon entrou em seu escritório quando Stillman e
Hollister se aproximavam pelo corredor. Foi até sua mesa e
não se incomodou em dissimular sua impaciência quando se
atirou com desinteresse em seu assento.
— E então, senhor Hollister. Aqui me tem, me diga, quais
são essas notícias tão importantes.
E fez tamborilar os dedos no braço do assento.
Hollister entrou e fez uma reverência. Sua expressão
habitualmente séria e reservada refletia um evidente orgulho.
— Encontrei-o, milorde. Ou melhor, encontrei-a.
Simon ficou gelado.
— A? — E com o gesto lhe indicou que tomasse assento.
— Sim, milorde — Hollister respondeu sentando-se na
cadeira que ficava em frente à mesa. — Estivemos seguindo o
menino de recados da McGinnis. Chama-se Henrik. Seus pais
chegaram faz três anos da Prússia e o menino começou a
trabalhar para McGinnis ao redor de um ano depois que
abriu. Sua tarefa habitual consiste em entregar pacotes,
quadros e demais pela cidade. E às vezes vai procurar
material. E então vimos que ia a uma abadia em Knightrider
Street. Chegou com as mãos vazias e saiu com uns pacotes
envoltos em papel marrom que pareciam telas e gravuras.
Então durante uns dias também estivemos vigiando a abadia.
Um dia vimos que entrava uma mulher com alguns pacotes
similares. E saía sem nada. Meu homem a seguiu até sua
casa na Charles Street.
Simon franziu o cenho porque os pensamentos
começavam a atropelar-se em sua cabeça dolorida. Charles
Street? Não. Não podia ser. Como? Por que? E de repente
tudo encaixava, as peças encaixaram em seu lugar e Simon
ficou atordoado. Deus. A paisagem. Como não tinha visto?
Não era necessário que Hollister seguisse com seu relatório,
mas a surpresa o tinha deixado sem fala e não pôde lhe dizer
que parasse.
— A partir daí conseguimos um nome e fizemos certas
indagações. Resulta que esta mulher e McGinnis se
conheceram em uma pequena localidade de Norfolk chamada
Little Walsingham. Estava casada com um homem rico que
morreu faz quase dois anos. — Hollister se esclareceu a
garganta e seguiu falando. — O homem lhe deixou um
pequeno valor e supomos que a viúva deu uma parte à
McGinnis para que abrisse o negócio. Tenho um amigo no
banco e me confirma que McGinnis esteve colocando dinheiro
nos últimos dois anos, presumivelmente por peças que se
vendem sob o nome do Lemarc. Um bom valor, se me permite
dizê-lo.
— Deixe que eu adivinhe — Simon comentou com a
mandíbula apertada. — Lady Hawkins.
Hollister pestanejou.
— Bom, pois sim, milorde. Excelente. O senhor pode ser
que inclusive a conheça…
Simon golpeou a mesa com a palma, e o tinteiro e a
pluma se sacudiram. Hollister empalideceu, mas não disse
nada, e se limitou a olhar como Simon se enfurecia em
silêncio. Oh, tinha sido tão monumentalmente estúpido.
Maggie tinha estado rindo dele. Notou um nó quente e furioso
na garganta. Lorde Vinochester. Maldita seja. Dava-lhe
vontade de golpear algo. A alguém. O que fosse.
Maggie o tinha estado humilhando enquanto ele beijava
os chãos por ela. Outra vez. Deus, nunca aprenderia?
A caixa de veludo onde guardava os rubis dos
Winchester descansava zombeteiramente em um canto de sua
mesa. Tinha trinta e quatro anos, mas não parecia muito
mais esperto que quando tinha vinte e três. Seu pai, uma
comparação de inteligência e fortaleza, estaria muito
decepcionado. «As pessoas sempre esperarão que tenha um
comportamento honorável.»
Os olhos de Simon se cravaram em Hollister, que seguia
em sua cadeira.
— Está seguro?
— Totalmente, milorde. Tenho provas, se o senhor
precisar as ver.
Hollister assinalou com o gesto uma carteira de couro
marrom que estava no chão.
Não, não necessitava de provas. No fundo sabia que o
que Hollister afirmava era verdade. Tinha visto o quadro na
sala da casa de Maggie, seu conhecimento da técnica… oh,
devia ter rido muito com tudo aquilo. Teve que fazer um
grande esforço para permanecer sentado e não sair em
correria da casa para ir exigir respostas.
— Não, não será necessário — obrigou-se a dizer. — Bom
trabalho, Hollister. Me envie uma fatura, e não esqueça de
incluir cem libras como recompensa.
O investigador sorriu feliz.
— Muito obrigado, milorde. E se alguma vez necessitar
de outra coisa, só tem que me mandar chamar.
— Farei-o. Obrigado, Hollister.
Simon esperou que o detetive se fosse e então ele mesmo
se dirigiu a toda pressa à porta.
— Stillman! — Chamou.
O mordomo chegou de onde seja que os mordomos se
metiam durante o dia.
— Milorde?
— O fáeton. Agora.
E voltou como uma exalação ao seu escritório. Tinha que
pegar uma coisa antes de conhecer o famoso Lemarc.

***

Até aquele momento tinha sido um dia extraordinário.


Em seu escritório, Maggie se tinha posto a trabalhar nas
paisagens para o Ackermann, e não tinha deixado de sorrir
como uma parva. Era difícil recordar um momento em que
tivesse sido mais produtiva. Sentia-se relaxada e descansada,
apesar do pouco que tinha dormido. As bochechas lhe
acenderam, por motivos evidentes. Bom, tinha estado na
cama, mas certamente não tinha descansado.
Simon tinha adormecido primeiro, com aquele rosto tão
belo e juvenil. Esteve observando-o muito tempo, contente de
poder admirá-lo. Os lábios entreabertos, o peito que subia e
baixava. As pestanas loiras roçando suas maçãs do rosto
angulosas. A fina capa de pelo que se estendia por sua
mandíbula. Que íntimo poder ver e tocar aqueles cabelos
afiados quando brotam no rosto de um homem.
Maggie desejava com todo seu ser permanecer na calidez
daquele leito, junto a ele, enquanto suas pernas nuas se
roçavam naquela sonolência pós-coital. Mas não era real.
Aquela sensação de satisfação era uma ilusão. Simon não
sabia nada dela. Em realidade, seguia acreditando em todas
as falsidades ofensivas que diziam. E por mais terno e doce
que tivesse sido essa noite, não podia apagar a dor do que
aconteceu no ano de sua apresentação em sociedade.
De modo que se obrigou a apartar-se dos braços de
Simon, levantou-se e voltou para casa. Melhor assim. Mais
seguro. Não podia permitir-se sentir ternura ou afeto por ele,
não agora. Nunca.
«Muito tarde», sussurrou uma voz em seu interior. E
sentia o coração tão cheio de emoções que temeu que fosse
certo.
Voltou para seu trabalho, a única distração que tinha em
sua vida tumultuosa, decidida a esquecer. Não importa quão
caótico fosse tudo ao seu redor, sempre ficava a arte. Era sua
forma de levar alegria e beleza a um mundo duro, violento e
as vezes cruel.
A luz da manhã mal tinha começado a iluminar o céu
quando bateram na porta.
— Sim?
Esticou os dedos para aliviar a rigidez.
Tilda apareceu.
— Milady, o conde retornou e deseja vê-la.
— Agora?
Oh, Senhor. Não esperava vê-lo tão cedo. Talvez viesse
para lhe contar as novidades sobre Cora? Ou queria falar do
acontecido entre eles? Teve um mau pressentimento.
— Por favor, faça-o entrar, Tilda. Eu desço em seguida.
A criada assentiu e se retirou. Maggie dedicou uns
minutos a ficar apresentável. Lavou-se as mãos. Tirou-se o
avental e o pendurou. Passou-se as mãos pelo rosto e se
beliscou as bochechas. E então tirou umas luvas brancas e
imaculadas de uma das gavetas da mesa e as pôs para
ocultar as manchas de pintura de seus dedos. Aquela rotina a
tranquilizou, permitiu-lhe concentrar-se em algo distinto à
inquietação que notava no estômago. Não se arrependia do
acontecido na noite anterior, absolutamente, mas não
desejava ver Simon tão cedo.
Encontrou-o na sala, junto à janela, com as mãos
sujeitas às costas. Só o feito de ver seus cabelos cor areia e os
ombros largos lhe fez vacilar.
— Bom dia.
Simon se voltou e Maggie viu em seguida que algo estava
muito mal. Seus olhos azuis e brilhantes sempre tinham um
brilho de inteligência ou malícia. Mas naquele momento
pareciam apagados. Simon parecia… perdido. Furioso.
Maggie franziu o cenho e se aproximou.
— Está doente? Tem…
— Tinha que ter imaginado. — Caminhou até a parede e
assinalou um quadro. — O quadro, a paisagem. Tinha que ter
me dado conta. Tinha que ter sido capaz de reconhecer sua
mão nele.
Maggie pestanejou.
— Não o entendo. A que se refere? O que acontece ao
quadro?
Pensava que queria falar do acontecido entre eles. E em
vez disso vinha para falar de seus quadros?
Indicou-lhe que se aproximasse com o dedo. Maggie
sentiu um medo terrível no peito, mas se obrigou a
aproximar-se. Seu coração ressoava com força em seus
ouvidos.
— Aqui. — E com um dedo longo e elegante tocou um
diminuto pássaro que andava por umas águas superficiais
junto ao mar. — Um chorlito com plumagem de inverno.
— Sim. Correto. Via-os com frequência em Little
Walsingham.
— É evidente.
Simon foi até uma mesa auxiliar. Pegou um pequeno
quadro e o mostrou. Um decalque exato daquele chorlito. Oh,
não. Os quadros de pássaros… tinha utilizado o mesmo
esboço a lápis nos dois…
As peças encaixaram. O ar abandonou seus pulmões e
sentiu que sua visão se obscurecia. Apoiou uma mão na
parede para sustentar-se. Senhor, ia desmaiar?
— Que honra lhe conhecer por fim, Lemarc.
Capítulo 12
Maggie não ignorou o tom depreciativo de sua voz.
— Como…? — Perguntou com voz notavelmente forte,
considerando o fraco que se sentia. — Como descobriu?
— Contratei um detetive. Esteve seguindo o menino de
recados da McGinnis.
— A abadia.
Fechou os olhos. Maldição. E ela que pensava que tinha
sido tão esperta.
— Sim, a abadia. De verdade, Maggie, esperava que fosse
mais cuidadosa. Mas claro, você não se preocupa muito com
a respeitabilidade, não é? — Tinha a mandíbula apertada e os
ombros rígidos, e parecia tremer de ira. — Não posso
acreditar que tenha voltado a me enganar. Como deve ter rido
estas semanas. Vinochester! Por Deus! — E jogou o quadro
sobre a mesa, onde aterrissou com um som seco. — Te pedi
que me ajudasse a encontrar a ti mesma!
Ela pestanejou, mas não se acovardou ante sua ira
manifesta. Não havia tempo para sentimentos feridos nem
para nós de remorso no peito. Não, tinha que solucionar
aquilo. Simon estava em posição de lhe fazer muito dano,
política e socialmente… tanto na forma de lady Hawkins como
em sua faceta de Lemarc. A parte pessoal não lhe preocupava
especialmente, já fazia anos que tinha perdido a esperança
nessa frente. Mas não estava disposta a permitir que nada
ameaçasse seu modo de vida ou, Deus não o quisesse,
destrui-lo-ia.
— O que pensa fazer? — Perguntou-lhe muito tranquila.
Ele se deu a volta e franziu o cenho.
— O que eu vou fazer? É isso o que tem a dizer? Nem
desculpas, nem explicações. — E de seus lábios brotou um
som áspero e seco. — É claro. Você nunca dá explicações.
— Pode acreditar no que quiser. É o que fazem todos. A
ninguém interessa a verdade. Mas preciso saber quais são
suas…
— A mim sim, Maggie. Interessa-me muito a verdade. E
eu gostaria muito de saber por que me converteu no bobo de
Londres. Não teve bastante me humilhando há dez anos?
Tinha que voltar a aparecer em minha vida e fazer o mesmo?
O humilhar… há dez anos? Maggie abriu a boca
surpreendida.
— Do que está falando? Faz dez anos que você me deu as
costas quando houve aquele escândalo. Em que sentido você
crê que isso é te humilhar?
— Oh, por favor, Cranford me disse tudo. Falou-me dele
e dos outros.
As palavras doeram em Maggie como um murro. Não era
nenhuma surpresa, mas ouvir aquilo em voz alta lhe doeu
mais do que esperava. Sobretudo porque era Simon quem o
dizia, a única pessoa que deveria saber que não era verdade.
Já não era só o fato de que quando aquilo aconteceu eles
eram amigos, acabava de lhe entregar uma parte de si
mesma, abrindo-se a ele como não tinha feito nunca com
ninguém. E ali estava, apenas umas horas depois, pensando
o pior dela. O que devia fazer para ganhá-lo? Como obter que
acreditasse?
A resposta era evidente: nunca acreditaria. Era igual aos
outros, a todas aquelas pessoas perversas e ávidas que se
faziam chamar cavalheiros e damas e a quem nada gostava
mais que uma boa intriga às custas de outro.
Maggie notou que os olhos lhe ardiam e apertou os
punhos. Nada de lágrimas. Não por ele. Por nenhum deles.
Endureceu seu coração e endireitou os ombros
levantando um muro de fria decisão ante ela. Quão mesmo
fazia cada vez que alguma dama a ofendia na rua. Cada vez
que algum néscio fazia proposições em alguma de suas festas.
Quando os convites aos eventos sociais mais importantes não
chegavam. Sua teimosia irlandesa, diria seu pai. Pois sim, e
por uma vez se alegrou de tê-la. Não lhes deixaria ganhar. Ela
riria por último, assinalaria o ridículo que era seu mundo
enquanto guardava seu dinheiro no bolso. Havia lhe dado
muitíssimo trabalho conseguir seu êxito e independência, e
não pensava renunciar a eles.
Simon seguia olhando-a furioso, com o corpo em atitude
ofensiva, a mandíbula rígida, como se estivesse preparado
para o combate. Era evidente que queria fazê-la zangar. Sim,
é o mesmo que queriam todos: insultar a rameira meio
irlandesa para que perdesse a compostura e se comportasse
como uma puta qualquer procurando clientes em pleno
Covent Garden. Nem pensar.
Então conteve sua ira, enterrou-a muito dentro e o olhou
com expressão serena. Uma parte de si lhe dizia inclusive que
guardasse silêncio. Depois de tudo, já fazia tempo que sabia
quão inútil era tentar fazer uma pessoa mudar de opinião
uma vez decidida. E a verdade tampouco mudaria algo. Só
Becca conhecia os fatos, sua irmã; ela era a única pessoa a
quem Maggie tinha contado o acontecido.
Mas, por outro lado, queria dizê-lo, precisava revelar a
verdade, embora só fosse para ver a cara que Simon punha.
Arqueou uma sobrancelha, interpretando o melhor que
pôde o papel de condessa viúva e soberba.
— Não sei o que lhe disseram, nem sei de que cartas
fala. Há dez anos não estive com nenhum homem.
— Vi as cartas que enviou ao Cranford com meus
próprios olhos. Vi a prova.
Lorde Cranford tinha cartas… dela? A ideia era absurda.
Jamais tinha escrito uma palavra àquele homem, muito
menos uma carta.
— Jamais escrevi cartas a um homem e certamente
nunca escrevi ao Cranford. Não sei o que lhe mostraram, mas
não era meu. Era virgem quando me casei com o Hawkins.
Simon pestanejou e Maggie viu as dúvidas aparecer em
seus penetrantes olhos azuis.
— Não entendo. Viram-na a sós com o Cranford. Com as
roupas desarrumadas. Cranford disse a todo mundo que…
— Que, graças ao meu sangue irlandês, ia levantar as
saias diante de qualquer um? — Maggie disse terminando a
frase por ele.
Um músculo se moveu na mandíbula de Simon, mas
assentiu.
— E em Londres todo mundo acreditou, inclusive você.
Foi para a janela. Na rua, duas meninas caminhavam
para o parque agarradas pelo braço, seguidas a uma distância
prudencial por suas criadas pessoais. As meninas riam,
desfrutando de um dia sem preocupações em sua existência
protegida. E Maggie sentiu uma pontada de inveja. Como
seria ter toda a vida por diante, sem o ônus do ódio e do
preconceito?
— Está me dizendo que Cranford mentiu? E por que ia
fazer tal coisa?
Maggie manteve a vista cravada na gélida e cinza manhã
londrina.
— Não sei. Resisti aos seus avanços, e muito
vigorosamente devo dizer, então imagino que feri seu orgulho
masculino.
— Espera. Cranford… inventou tudo? Para conseguir o
que, sua ruína? Não tem sentido. E que classe de avanços por
sua parte puderam fazer com que lhe vissem no estado em
que lhe viram?
Ela deu as costas à janela e o olhou. Ele a olhava com
intensidade, com o cenho franzido em seu bonito rosto.
— Estou segura de que pode imaginar, Simon.
Simon ficou rígido, suas narinas se incharam.
— Por Deus. Por que, Maggie? Por que não disse a todo
mundo?
— Ninguém teria acreditado. Nem sequer minha mãe
acreditou. Já sabe o que parece sempre que acontece algo
assim. Todos aceitam a palavra do cavalheiro.
— Eu teria acreditado em você, Maggie. Eu. Teria te
escutado e teria tentado te ajudar. Teria que ter ido a mim
com a verdade.
Ele não entendia? Não deveria ser necessário. Esse era o
problema. Ele deveria saber que ela não seria capaz de algo
tão ruim.
Naquela temporada Simon tinha sido seu apoio em meio
às fofocas e os sorrisos zombeteiros. Ela nunca se encaixou,
com seu aspecto irlandês e seu cabelo escuro tão distinto da
palidez superior das jovens inglesas. Mas quando estava junto
ao Simon, sua descendência menos que impecável não
importava. Um sorriso dele e podia suportar todo o resto. Era
uma jovem tola apaixonada pelo homem mais atraente da
cidade, e o sentimento parecia mútuo. Sim, Cranford tinha
mentido; mas Simon nem sequer lhe deu a oportunidade de
explicar-se.
— Entendi — ele disse com voz neutra. Quase parecia
doído. — Então Cranford arruína sua reputação, mas não
confia em mim o bastante para me confessar a verdade e em
vez disso prefere se casar com o Hawkins. Poderia me explicar
então por que me converteu em um bêbado em suas
caricaturas? O que fiz para merecê-lo?
Maggie não podia lhe explicar seus verdadeiros motivos,
não, não o faria. Não podia lhe falar de seu coração partido e
suas esperanças de um futuro juntos aniquiladas. Soava
terrível… melodramático. «Não há fúria como a de uma mulher
27
rejeitada», como na obra do Congreve . Não, ela preferia
reservar sua história para um momento em que pudesse
servir de algo.
— É pela proposta que vou apresentar? É um intento de
me desacreditar publicamente?
Maggie se sentiu surpreendida, aliviada. Céus, por que
não lhe ocorreu antes? Sim, que pensasse que suas
caricaturas tinham uma origem política e não pessoal. E se
agarrou àquilo.
— Eu não gosto da sua proposta. Prejudicará as
mulheres que quer proteger.
— Isso não é motivo para me converter no bobo de toda
Londres, Maggie.
— Talvez, mas tinha que me agradecer. A popularidade
das caricaturas te assegurará que todos recordem o nome de
Winchester durante muitos anos.
Ele a olhou com os olhos muito abertos.
— Sim, mas pelos motivos equivocados. Pegou o nome de
uma família venerável e o converteu em sinônimo de
embriaguez e irresponsabilidade. Em que sentido poderia ter
que te agradecer algo assim?
Ela encolheu um ombro.
— Possivelmente com o tempo verá de modo diferente.
— Duvido-o. E, na verdade, vejo-te surpreendentemente
tranquila. Considerando que agora conheço seu segredo,
esperaria que estivesse mais preocupada. Pergunto-me o que
dirão todos quando conhecerem a identidade do Lemarc.
«Quando conhecerem» havia dito, não «se conhecessem».
Maggie notou um nó no estômago, mas tratou de não o deixar
transparecer.
— É isso o que quer fazer? Desmascarar o Lemarc? Não
acredito que importe a ninguém, e duvido que sua posição no
Parlamento possa beneficiar-se vinculada a um personagem
tão escandaloso.
Simon cruzou os braços sobre o peito, e ao fazê-lo a lã de
seu casaco se esticou sobre seus ombros e seus bíceps
belamente torneados. Maggie recordava ter percorrido aqueles
músculos com os dedos na noite anterior, tratando de
memorizar seu torso proporcionado para poder desenhá-lo
mais tarde. Aquela lembrança agridoce lhe doeu agora no
coração.
— Acredito que estarão muito ocupados discutindo como
é possível que Lemarc seja uma mulher, — ele replicou — e
além disso uma dama! Está disposta a confrontar as
consequências que isso pode ter para sua reputação? Para
seu futuro?
— Como se lhe preocupasse muito meu futuro — ela
zombou.
Seus lábios esboçaram um leve sorriso e se voltou para a
parede, mostrando-lhe seu perfil. Durante um longo momento
não disse nada.
— Sempre me preocupou sua reputação — disse por fim.
— E se soubesse, se sequer tivesse suspeitado o que Cranford
fazia, teria intervindo. Teria evitado que se casasse com o
Hawkins. Teria desafiado o Cranford. Teria…
Deixou a frase sem acabar, e Maggie a terminou por ele.
— Ido em meu resgate? — E ao ver que não respondia,
acrescentou: — É muito tarde, Simon. Não podemos mudar o
que aconteceu. Já está feito. E ao final consegui algo
importante. Me custou anos, mas agora tenho minha
liberdade. E não renunciarei a ela. Nem por ti nem por
ninguém.
— Sim, já me ficou muito clara qual é sua opinião sobre
minha participação no assunto, então e agora.
O tic-tac regular do relógio do suporte ressoava no meio
do silêncio. A vista de Simon seguia cravada na parede.
Maggie não sabia o que dizer. Em parte, gostaria de confessar
até que ponto o necessitava quando aconteceu tudo dez anos
antes, mas que sentido tinha isso agora? Simon estava
furioso com ela por diferentes motivos, e talvez fosse o
melhor.
— O que vai fazer agora que sabe do Lemarc?
— É a única coisa que a preocupa, que descubram seu
segredo?
— Neste momento, sim.
— Quando resolver lhe farei saber.
E, com a mandíbula tão apertada que Maggie pensou
que lhe ia partir, abandonou a habitação.

***

O Black Queen era um local sujo, muito mais que os


outros três que tinham visitado essa noite. Simon entrou na
sala principal daquele antro de jogo e deixou que seus olhos
se acostumassem à escassa luz. A atmosfera estava carregada
de fumaça, e resultava tão difícil ver como respirar.
Entretanto, tendo em conta a classe de cliente que
frequentava aqueles tugúrios, possivelmente era melhor
assim.
Havia homens pelas mesas com o desespero pego a sua
pessoa como um perfume adocicado, enquanto as jovens que
ali trabalhavam, andavam acima e abaixo esperando que
alguém as convidasse. Aquele não era um dos locais meio
respeitáveis que serviam os aristocratas; não, naquele lugar
qualquer um se arriscava a que lhe cravassem uma adaga
nas costelas se os jogos de dados caíssem na posição
equivocada. E era justamente o tipo de casa de jogo
clandestino onde Simon esperava encontrar Cranford.
Embora claro, o mesmo podia dizer-se da dúzia de locais que
tinham visitado nas últimas duas noites.
Colton tinha estado seguindo a pista do Cranford desde
que resgataram Cora no bordel de madame Hartley, porque
madame suspeitava que ele era o atacante. Entretanto, o
duque não era conhecido por sua discrição, e certamente
Cranford soube o que pretendiam inclusive antes que
começassem a procurar. O visconde tinha desaparecido. Mas
Simon, que conhecia a afeição de Cranford pelo jogo, pensou
que podiam começar procurando pelas casas de jogo
clandestino mais desonrosos.
— Bom, por onde começamos? — Colton perguntou ao
seu lado.
— Por que eu não procuro o proprietário desta vez? Você
pode procurar entre os clientes.
— Está seguro? Fitz diz que este lugar é dirigido por
Ou’Shea e que é seu antro favorito.
— Sim, voltarei em uns minutos.
Antes que pudesse mover-se uma mão o agarrou pelo
ombro.
— Winchester. — Era Colton. — Já está há quanto,
trinta e quatro horas sem dormir? Sei que quer encontrá-lo,
mas…
Simon ficou tenso. Não, não queria encontrar Cranford.
Precisava encontrá-lo. Precisava lhe partir a cara. Ou o nariz.
Certamente as duas coisas. Nenhuma retribuição seria
suficiente. Tinha arruinado a vida de Maggie. Deus, e a sua
também. Sem aquelas cartas Simon teria pedido a mão de
Maggie. Teria…
— Muito bem. — Colton levantou as mãos em sinal de
rendição. — Já vejo que não vai mudar de opinião. Só queria
sugerir que descansasse um pouco. Está começando a me
assustar.
Simon não queria dormir. Cada vez que fechava os olhos
via a dor no rosto de Maggie, uma dor que dificilmente podia
fingir. «Ninguém teria acreditado. Todos aceitam a palavra do
cavalheiro.» E isso depois que Cranford a agrediu, aquele
porco. Quão assustada deve ter se sentido, quão desolada ao
saber que não tinha feito nada para merecer aquilo. A ira se
instalou em seu estômago, a mesma que lhe tinha
impulsionado a seguir adiante desde que saiu da casa de
Maggie fazia dois dias.
— Dormirei quando tiver disparado uma bala no coração
do Cranford.
Simon se aproximou do homem que vigiava a sala.
Quase todas as casas de jogo clandestino funcionavam igual:
os proprietários permaneciam à margem, longe da ação,
enquanto deixavam algum homem de confiança vigiando as
salas de jogo. Por isso Simon já sabia que aquele homem não
era o responsável, mas podia lhe ajudar a encontrá-lo.
— Preciso ver seu chefe.
Os olhos ardilosos e escuros do homem seguiram
escrutinando a sala.
— Está ocupado.
— Contando o dinheiro, imagino. — Simon se aproximou
mais, com atitude ameaçadora. — Necessito de informação, e
se não conseguir o que procuro voltarei a cada noite com as
forças da ordem para fechar a casa de jogo clandestino até
que o consiga.
O valentão suspirou e levantou a vista a uma passarela
no piso de cima. Suas mãos fizeram uns rápidos sinais e
esperou. Finalmente assentiu.
— Pela porta de trás. Lhes diga que Piper te disse que
pode subir.
Simon seguiu as indicações sem duvidar e pouco tempo
estava subindo uma estreita escada que levava ao piso de
cima. Um homem forte esperava no alto.
— Me siga — disse, e guiou Simon por uma série de
corredores. Deteve-se ante uma velha porta de madeira e a
abriu. — Por aí.
Simon cruzou a soleira e se deteve. Um grupo de homens
de aspecto rude estavam jogando cartas em torno de uma
mesa redonda e pequena coberta com um pano. Todos
levantaram a cabeça para lhe olhar.
— Ora, ora, ora. — O homem mais forte deixou suas
cartas sobre a mesa e pegou seu charuto. — Um conde e um
duque em meu local na mesma noite. — Deu uma palmada
no ombro de seu vizinho. — Parece que estou prosperando,
meninos.
Todos sorriram com gesto zombeteiro, mas olhavam ao
Simon com desconfiança.
— O senhor Ou’Shea, suponho.
A boca do homem se crispou e se ajeitou no assento.
— Ou’Shea, sem mais. Nesta parte de Londres nós não
gostamos dos títulos. Dizem-me que procura certa
informação. Embora seja difícil imaginar o que pode querer
um conde de um lugar como o Black Queen. Se não procura
algum negócio ilegal.
Simon meneou a cabeça.
— Estou procurando alguém. E me perguntava se você
saberia me dizer onde posso lhe encontrar.
Ou’Shea sorriu.
— E o que lhe faz pensar que eu posso ajudar a
encontrar um de seus amigos finos?
— Esse homem não é meu amigo. Tem um título, mas
seus gostos são… baixos. Correu-se a voz de que eu e meus
amigos lhe procuramos e suspeito que está se ocultando em
algum lugar de Londres. Possivelmente nesta parte.
— Quem é? — Ou’Shea perguntou e expulsou um anel
de fumaça.
— O visconde Cranford.
Simon notou o brilho de reconhecimento antes que
Ou’Shea pudesse dissimulá-lo.
— Não sei. Possivelmente eu saiba. — Arranhou-se com
gesto ocioso o pescoço. — Quanto vale a informação para o
senhor?
Terras, dinheiro, poder. Simon teria dado o que fosse,
tudo que estivesse em sua mão, para saber a resposta…
embora não pensava dizer-lhe isso a Ou’Shea, é óbvio.
— O que quer?
Ou’Shea sorriu.
— Primeiro tomemos uma taça. — Assinalou a um dos
homens que havia na mesa. — Traz a garrafa que tenho na
gaveta de baixo da minha mesa, ok? E um copo limpo para
sua “eminência”.
O homem ficou em pé e Ou’Shea assinalou o assento
livre.
— Sente-se, lorde Winchester.
Simon se aproximou e se sentou na cadeira. E nesse
momento os outros homens que havia à mesa se levantaram e
se dispersaram, e o deixaram sozinho com Ou’Shea.
James Ou’Shea era um valentão, mas também um hábil
homem de negócios. Era o dono da maioria dos locais de jogo,
bordéis e bares do leste de Londres. Diziam que tinha
golpeado um homem até matá-lo porque esqueceu de pagar
sua bebida. E apesar disso, Simon não estava preocupado.
Ele tinha negociado projetos de lei, tratados de paz, contratos
com amantes… podia dirigir Ou’Shea. A chave estava em
conservar a calma e deixar que a outra parte revelasse algum
ponto débil primeiro.
Puseram um copo ante cada um e deixaram a garrafa
ante Ou’Shea.
— Bem — o homem disse e destampou aquela garrafa
sem rótulos e serviu uma pequena quantidade de um líquido
marrom claro em cada copo. Simon supôs que se tratava de
uísque, embora exalava um aroma estranho e áspero que lhe
fez enrugar o nariz. — Direi o que sei. Quando tiver tomado
um gole comigo.
Simon pegou o copo. Sem mais preâmbulos o levou a
boca e bebeu aquilo de um gole. Assim que o álcool chegou ao
fundo de sua garganta, deu-se conta de seu engano. «Virgem
Santa…» Nunca tinha provado nada igual. Era como se se
acabasse de tragar uma brasa ardendo. Sentiu que o ar
abandonava seus pulmões e se queimava por dentro, e tratou
de respirar enquanto os olhos se enchiam de lágrimas. Ouviu
vagamente que Ou’Shea ria entredentes e apurava seu copo.
Depois do que lhe pareceram minutos, embora em
realidade só foram uns segundos, Simon conseguiu respirar.
Tratou de aparentar normalidade, embora as chamas o
estivessem queimando por dentro.
Ou’Shea sorriu, deixando ao descoberto sua boca de
dentes amarelados e irregulares.
— É para meu uso pessoal. Destilado por meu irmão em
Dublin.
— Imagino que seu propósito era lhe matar.
Ou’Shea riu com um som ensurdecedor e profundo.
— Assegurar-me-ei de lhe dizer isso. E agora, seu lorde
Cranford. Eu também tenho interesse por lhe encontrar. —
Esticou o braço e voltou a encher os copos, coisa que fez com
que o estômago de Simon rugisse como protesto. — Me deve
uma importante quantidade de dinheiro e não estou
acostumado a me esquecer dos homens que me devem tanto.
— E? — Simon perguntou quando viu que o homem não
seguia falando.
— Termine a bebida e lhe direi mais coisas.
Um jogo. Ou’Shea estava convertendo aquilo em um jogo
para ver até que ponto desejava a informação. Simon pegou
seu copo, irritado, decidido a conseguir respostas ao preço
que fosse. Ou’Shea também levantou seu copo e brindou.
28
— Sláinte .

***

À manhã seguinte Simon avançou pelo corredor da casa


do Colton com movimentos cuidadosos e medidos. OA dor era
tal que não podia mover a cabeça mais que o necessário. Um
martelo lhe teria doído menos que o que sentia naquele
momento dentro de sua cabeça. Ao menos esperava não
vomitar no chão de mármore.
Um mordomo lhe abriu a porta da sala de jantar
apartando a vista da indigna imagem de um conde com
ressaca. Simon encontrou Júlia sozinha, sentada a uma
pequena mesa, com uma xícara de porcelana na mão.
— Bom dia, Simon, por favor, sente-se. Quer comer algo?
O estômago de Simon se revoltou.
— Não, obrigado — conseguiu dizer, e então foi ao outro
extremo da habitação e se sentou.
— Agradeço que Colton me deixasse dormir aqui ontem à
noite, embora não entendo por que não me levou à minha
casa.
— Estava preocupado por ti, bodalhão. Nem sequer
ficava em pé. E agora eu também estou preocupada. Todos
estamos preocupados contigo. E penso averiguar o que está
acontecendo.
Simon passou uma mão pelo rosto.
— Não tenho tempo para bate — papo, Jules. Tenho que
ir em casa me trocar. Dormi com a roupa posta. Não fazia
algo assim desde a universidade.
— Deixando à parte seu aspecto espantoso, acredito que
poderia me dedicar uns minutos. E não acredito que tenha
tanta pressa por sua aparência. Não, acredito que se trata
mais de seu interesse por encontrar Cranford. Vejo que te
surpreendo. De verdade acreditava que não ia me inteirar do
que Colton e você estavam fazendo?
— Sim — ele confessou, muito enjoado para mentir. — O
que te disse?
— Contou-me tudo, incluindo a informação que
conseguiu ontem à noite à custa de se afogar virtualmente em
uísque barato.
Simon ficou rígido e rebuscou em sua mente turva. O
que havia Ou’Shea dito? Que Cranford lhe devia uma
importante quantidade de dinheiro. E que mantinha uma
casa da qual sua esposa não sabia nada. A casa estava em
Holborn? Bloomsbury? Maldição, não se lembrava.
— Como Colton sabe o que me disseram?
— Ou’Shea o disse. Colton e Fitzpatrick já estiveram no
apartamento do Cranford. Já não está ali. Deixou-o há
semanas. Mas não se preocupe, pensam revistar toda a
cidade até que o encontrem. E além disso, pouco mais se
pode fazer. Agora quero que falemos do que pensa fazer com
Maggie.
Simon ficou tenso.
— Com Maggie?
— Não se faça o parvo. Sabia que fugiu para Paris?
Não, não sabia. Esfregou-se a nuca, pensando. Por que
iria a Paris? Recordou sua última conversação e pestanejou.
Estava tão zangado e doído que tinha feito Maggie acreditar
erroneamente que revelaria sua identidade como Lemarc. De
verdade o tinha acreditado? A ideia fez com que se sentisse
pior.
— Quando resolvermos com o Cranford, procurarei
Maggie. — «E me desculparei.»
— Simon, nunca houve segredos entre nós.
Ele arqueou uma sobrancelha, e isso a fez rir
entredentes.
— Ok. Normalmente não há segredos entre nós. Melhor
assim?
— Não muito. E por que o diz?
— Quero saber o que aconteceu com Maggie. O que fez
com que fugisse a Paris e que você esteja disposto a se matar
para encontrar Cranford?
Simon conhecia bem aquele brilho decidido em seu
olhar. Júlia não retrocederia em seu empenho, e
possivelmente lhe iria bem poder falar com alguém.
— Imagino que Colton te contou como foi o escândalo
com Maggie, que Cranford mentiu e me mostrou umas cartas
falsas que me fizeram acreditar que o caso foi consensual.
— Sim, e Maggie me contou algo também. Ao menos sua
versão do que aconteceu.
Simon a olhou boquiaberto.
— Maggie lhe contou isso? Quando? Por que não me
disse?
Júlia lhe olhou com expressão de arrogância…, algo
digno de ver, posto que ele a superava com acréscimo em
altura, inclusive sentado.
— Quando estávamos na casa de madame Hartley. E eu
não trairia sua confiança desse modo. Se ela quisesse que
você soubesse, ela mesma lhe teria contado.
— Também te disse que ela é Lemarc? Que ela é a
responsável pelas caricaturas do Vinochester?
Júlia pestanejou. Abriu a boca, fechou-a.
— Não, não me disse isso. Eu… nunca me teria ocorrido.
Nem em um milhão de anos.
Simon lançou um sopro.
— A mim tampouco. Mas aí o tem.
— Quando lhe disse isso?
Ele meneou a cabeça.
— Não foi ela. Contratei um detetive. E o averiguou.
— Deus. Essa mulher é… bom, seu trabalho é
impressionante. Os desenhos com giz deviam ser dela. É um
gênio.
«Sim, um gênio inteligente, formoso e irritante.»
— E deixe-me adivinhar, — Júlia seguiu dizendo — ficou
furioso e ela não se desculpou.
— A princípio. Mas há mais.
E então Simon lhe contou a história, começando por
Maggie, que não confiou nele o suficiente para lhe contar o
que realmente aconteceu durante o escândalo, a criação do
Lemarc para desacreditá-lo politicamente e para terminar, a
ameaça dele de revelar sua verdadeira identidade.
— Oh, Simon. — Os olhos azuis de Júlia se encheram de
compaixão. — Você não o vê? Está tão cego que nem sequer
te ocorreu pensar?
— Não vejo o que?
— Quando era pequeno nunca fez algo para chamar a
atenção de alguma jovenzinha? Puxar-lhe o cabelo ou lhe pôr
um verme no sapato? — Ele deve ter ficado olhando-a com
cara de perplexidade, porque Júlia acrescentou: — Bom,
certamente nunca precisou. A questão é que Maggie queria
que se fixasse nela.
— Me convertendo em uma figura ridícula? Oh, vamos,
Jules.
— É evidente que lhe partiu o coração. Razão a mais
para te escolher como objetivo. Tinha que se sentir adulado.
Aquilo se parecia bastante ao que Maggie lhe havia dito
quando a obrigou a confrontar os fatos. Não havia dito nada
de corações partidos, claro, mas deu a entender que teria que
lhe estar agradecido por havê-lo imortalizado na forma de
caricatura. Simon esfregou o queixo, deu-lhe voltas à ideia.
— E não esqueçamos que esses desenhos multiplicaram
sua popularidade por dez. Vinochester não prejudicou a sua
reputação… ao contrário. O personagem te consolidou como
um dos políticos mais importantes do momento. Te fez um
grande favor.
— Pois não me parece isso.
— Porque é orgulhoso. E em parte também pelo que
sente por ela.
— Deveria ter acreditado em mim. Quando explodiu o
escândalo. Se naquele momento tivesse ido a mim…
Não pôde terminar a frase. Mas tampouco precisou. Se
havia uma pessoa capaz de saber o que sentia era Júlia.
— Sei — Sua amiga disse com suavidade. — E é evidente
que não tinha que te haver convencido para que não
desafiasse Cranford. Terei que lhe pedir perdão pelo papel que
eu mesma desempenhei em tudo isto… — fez uma pausa para
dar um suspiro. — O que aconteceu em sua apresentação em
sociedade me dá calafrios. Era tão jovem. E entendo que
acreditasse no Cranford e suas cartas falsas, mas deveria ter
falado com ela. Ao menos teria que lhe haver dado a
oportunidade de defender-se.
— Está me dizendo que mereço o Vinochester?
— Não. Sim. — Levantou as mãos. — Não sei. O que digo
é que está claro que lhe importa. E está claro que você a ama.
Então o que pensa fazer a respeito?
Amar. Ele amava Maggie? Como se pode amar uma
mulher que não entende nem conhece?
— Necessito de um café.
Levantou-se, foi até o aparador e se serviu uma xícara.
Depois de dar um gole reparador decidiu não lhe dar mais
voltas. As emoções que Maggie despertavam nele eram um
emaranhado muito intenso para lhe pôr nome. E não tinha
nem ideia do que ela sentia por ele. Voltou para seu assento.
— Não poderei voltar a olhá-la até que tenha me
encarregado do Cranford.
Júlia franziu o cenho.
— Está disposto a se separar dela uma segunda vez?
— Não — ele disse com uma brutalidade que
surpreendeu aos dois. — Só necessito…
— Tempo? Temo que não o tem. Agora mesmo, Maggie
está a caminho de Paris e não tem intenção de voltar. Me
disseram que deu instruções para que fechem a casa de
Londres. Quem sabe o tempo que ficará na França ou para
onde irá. Pode se permitir deixar que ela escape? Porque
quanto mais tempo pense que a deixou partir, mais doída
estará quando finalmente a encontrar.
Simon decidiu explicar sem disfarces para que Júlia
entendesse.
— Preciso fazer Cranford sofrer, Jules.
Ela soprou, um gesto que Simon reconhecia como de
uma irritação extrema.
— Está convertendo isto em algo pessoal, é você e sua
necessidade de se vingar, Simon. E aqui não se trata de ti,
trata-se de Maggie. Pelo pouco que sei diria que ela se
reconciliou com o passado. O que conseguiu é assombroso.
Retratou-te nesses desenhos porque lhe magoou. Magoou
muito. E agora volta a fazê-lo.
Finalmente Simon entendeu. Como se um raio de sol
tivesse penetrado num céu escuro, de repente soube que
Júlia tinha razão. Tinha que concentrar Maggie. O importante
era encontrá-la e deixar para trás o passado. Porque a ideia
de perdê-la para sempre o fazia sentir um nó de pânico no
peito.
— Vá procurá-la, Simon. Sente-se doída, e você é o único
que pode mudar isso.
Capítulo 13
Não muito depois, Paris

29
— Ma chère , relaxe. Está me pondo nervoso.
Maggie olhou do outro lado da pequena mesa ao seu
mentor e bom amigo Lucien Barreau, com seu cabelo
castanho artisticamente desordenado e suas feições
delicadas. Maggie estava acostumada a brincar e dizer que
parecia mais poeta que pintor. Tinham mais ou menos a
mesma idade, — Lucien era um ano mais velho — mas ele
pintava desde criança, praticamente toda a vida. Sem dúvida
era o artista mais dotado, generoso e entendido que tinha
conhecido.
E naquele momento a estava olhando com uma
expressão carrancuda em seu formoso rosto.
— Me perdoe — ela disse fracamente.
Levou-se uma delicada xícara aos lábios e deu um sorvo
ao cheiroso e quente chá parisiense.
— Maggie — Lucien disse com suavidade. Seus olhos
marrons eram compassivos, mas decididos. — Já basta, s’il
30
vous plâit . Está aqui quase há três semanas, e choraminga
tanto… não suporto. Não é próprio de ti.
Dedicou-lhe um olhar altivo, o que reservava para quem
a criticava.
— Eu não choramingo.
Lucien deixou escapar um suspiro pesado e um pouco
falso e seguiu com a leitura de seu periódico. Ela se recostou
na cadeira de metal, surpreendentemente cômoda, e observou
a escassa atividade da rua pela janela.
Lucien tinha se mudara há pouco para fora das
muralhas da cidade, à pequena aldeia da colina do
Montmartre. Maggie suspeitava que era para ter uma maior
privacidade, além de se distanciar do crescente
conservadorismo e inquietação que havia se apropriado da
população civil em Paris nos últimos anos. Alegrou-se de ver
que, com os anos, Lucien começava a valorar as coisas mais
singelas e alegres e deixava de lado as causas políticas. Com
seus moinhos de vento e seus vinhedos, Montmartre era uma
alternativa tranquila ao caos de sua vida anterior.
O café, situado no interior de uma casa de hóspedes a
uns quarteirões do edifício onde Lucien tinha sua residência,
tinha o mesmo estilo que os que se viam por toda parte na
França: uma fileira de mesas, alguns cômodos sofás e
espelhos com marco dourado decorando as paredes. Como
dizia Lucien frequentemente, os franceses eram como jovens
caprichosas… queriam estar sempre rodeados de coisas
bonitas.
Boa parte da multidão da manhã se dispersou e no local
só ficavam uns poucos clientes. Maggie seguia olhando
pensativa pela janela. Inclinou-se para frente e expulsou o ar,
e a diminuta nuvem de sopro formou um “O” perfeito no vidro
frio. Esticou o braço e riscou um intrincado desenho com o
polegar.
— Vi que ontem recebeu uma carta da senhora
McGinnis. Como estão as coisas em Londres? — Lucien
perguntou com indiferença por cima de seu exemplar do Le
Constitutionnel.
A proprietária da loja lhe tinha escrito para lhe informar
das vendas, ofertas e das fofocas que circulavam por Londres
nos círculos artísticos. Entretanto, naquele momento Maggie
não desejava pensar no Lemarc… nem em Londres.
— Igual a sempre. A senhora McGinnis começa a
impacientar-se por saber quando entregarei minhas próximas
peças.
— Não trabalhou grande coisa desde que chegou. Não
crê que já seria hora de começar?
Maggie lhe mostrou a língua e isso o fez rir. Mas tinha
razão, é claro. A vida não parava por um coração
destroçado… isso tinha aprendido fazia muitos anos. E por
isso fez algo que para ela era tão natural como respirar: tirou
seu caderno de esboços e seu lápis da bolsa e ficou a
desenhar. A senhora McGinnis não estava preocupada com
ela mesma. Quase tinha terminado o prazo para entregar os
desenhos ao Ackermann. Maggie não podia seguir permitindo
que os problemas a separassem de sua rotina.
Em pouco tempo Maggie estava imersa nos movimentos
de sua mão e nos traços que apareciam sobre o papel. A
manhã seguiu seu curso, a campainha da porta da entrada
soava de vez em quando. Ouviam-se vozes tagarelando, mas
Maggie não prestava atenção. Lucien a conhecia muito bem
para dizer algo, e ela seguiu esboçando uma ideia atrás da
outra sobre o papel.
Quando teve o esboço como o queria deixou seus
instrumentos.
— O que vamos fazer hoje? — Perguntou a Lucien
esticando os dedos para desentorpecê-los. — Outro museu?
Ele dobrou seu periódico.
— Eu tenho que ir à cidade. Esta tarde Henri tem ensaio
e deseja que lhe dê minha opinião sobre sua interpretação.
Quer me acompanhar?
— Poderia ser divertido. Disse que tenho que ver a nova
31
obra do Géricault .
— Oh, oui. A balsa da Medusa. Causará furor no Salão
de Paris deste ano. — O olhar de Lucien quase brilhava, como
acontecia com frequência quando falavam de arte de alto
nível. — Não deve abandonar Paris sem vê-la.
— E quem disse que vou deixar Paris?
Lucien pôs os olhos em branco.
— Os ingleses são tão impetuosos. Uma discussão com
seu amante e foge. Não me queixo, porque isso te trouxe para
o meu lado. Mas chegará um momento em que terá saudades
dele o bastante para voltar ou ele virá a Paris para te buscar.
— Equivoca-se — Maggie retrucou. — Não acontecerá
nenhuma das duas coisas. Tinha motivos perfeitamente
aceitáveis para abandonar Londres… e nem todos tinham a
ver com um homem.
— Não duvido, MA chère.
O jornal tremia ligeiramente, e Maggie suspeitava que
Lucien estava rindo.
Deu um sopro e cruzou os braços.
— E não é meu amante.
Um som divertido chegou de trás do papel. Maggie olhou
ao seu amigo com expressão furiosa, mas conteve a língua.
Sim, havia aquele encontro em sua sala — e não voltaria a
olhar aquele sofá com os mesmos olhos — e a noite em
Barrett House. Uma noite mágica em Barrett House que a
marcaria para sempre. O fogo que tinha visto nos olhos de
Simon quando a viu nua pela primeira vez. Seu fôlego quente
e acelerado contra sua orelha, o delicioso peso de seu corpo
quando entrou nela. O gemido baixo quando encontrou seu
prazer. Não, nunca, nunca esqueceria aquela noite.
Mas não haveria mais noites mágicas para ela e Simon.
Uma sensação de pesar bateu as asas em seu coração e
tratou de contê-la com vontade.
Fazia o correto ao abandonar Londres. Paris era como
um bálsamo para a alma ferida de um artista. Ali podia
distanciar-se das ataduras da alta sociedade inglesa, ocultar-
se na casa de Lucien e concentrar-se em sua arte. Na França
se sentia mais Lemarc que lady Hawkins.
Mas já era hora de que deixasse de compadecer-se, por
Lucien e por si mesma.
Mesmo assim, não tinha intenção de voltar para a
Inglaterra. Podia ficar em Paris tanto quanto quisesse. Simon
seguiria com sua laureada carreira política, sem a trava de
que o relacionassem com a rameira meio irlandesa e/ou
Lemarc. Marcus e Rebecca iriam ao campo e sua mãe seguiria
tendo sua atribuição. Os trabalhos do Lemarc seguiriam
sendo vendidos na loja da senhora McGinnis. De fato, não lhe
ocorria nenhuma boa razão para voltar para Londres em um
futuro próximo. Talvez dedicasse uns anos a viajar pelo
Continente, como sonhara fazer em outro tempo.
Seu olhar voltou para Lucien, que seguia
suspeitosamente calado atrás do jornal. As palavras que lhe
havia dito lhe doíam em seu orgulho. «Simon não é meu
amante», repetiu para si mesma. Embora podia havê-lo sido,
se fossem outras as circunstâncias. Gostaria muito de
aprender mais travessuras pela mão de Simon. Ou melhor, as
mãos.
A ideia lhe fez sorrir, mas sua alegria se desvaneceu
assim que recordou sua última conversação. Não tinha sido
uma discussão… ou ao menos não no sentido em que Lucien
insinuava. Simon pareceu… decepcionado. Para não falar da
dor que sentiu por sua falsidade. Não tinha querido ater-se às
razões, aceitar suas explicações, e isso não era culpa dela.
Era tão teimoso.
Verdade é que ela tampouco se esforçou especialmente
por lhe ajudar a entender. Maggie pegou o lápis da mesa e o
agitou entre os dedos. Para que? Ninguém a escutava nunca.
E Simon não ia ser uma exceção. Depois de tudo, tinha aceito
as mentiras do Cranford. Nem sequer tinha se incomodado
em tentar encontrar uma explicação àquele escândalo. Sim,
Cranford tinha contribuído com provas, mas eram falsas,
todas falsas. Não podia ao menos ter contido alguma pequena
dúvida?
Que o demônio os levasse a todos: Simon, Cranford e a
alta sociedade londrina. Estava cansada de tentar se encaixar
em um mundo onde ninguém acreditava nela nem tinha
nenhum interesse pela verdade. Por Deus, não era nenhuma
tola propensa a deixar-se levar pela histeria. Tinha suportado
o escândalo, um coração partido, um matrimônio forçado, a
morte de seu pai, o rápido declive de sua mãe, que a alta
sociedade toda cochichasse sobre ela…
Não pensava esconder-se nem ficar lambendo as feridas,
aflita por tudo o que tinha acontecido. Lucien tinha razão.
Aquilo não era próprio dela. O que significava uma coisa.
— Acompanho-te à cidade — disse ao Lucien. — Quero
saber se minha antiga casa em l’avenue Gabriel está
disponível.
— Refere-se ao domicílio que disse que era muito grande
para uma singela viúva inglesa?
— O próprio. E embora a casa seja muito grande para
uma singela viúva inglesa, é perfeita para a irreverente
rameira meio irlandesa. É hora de dar uma festa.
Lucien baixou o periódico muito devagar para lhe sorrir.
— Por fim. Bem-vinda, MA chère.

***

Nem sequer o fato de estar em outro país evitou as


fofocas. Em realidade foi o inverso. Viver entre estrangeiros
convertia os ingleses em um grupo muito fechado, e qualquer
notícia dos de casa se difundia com rapidez. Portanto, Simon
soube de Maggie assim que se mudou à buliçosa casa da
avenida Gabriel.
Quando se inteirou sentiu um alívio enorme. Já estava
há duas semanas na França, e apesar de seus esforços não
tinha conseguido localizá-la. E começou a considerar os
piores desenlaces possíveis: que tivesse caído pela amurada
durante a travessia de navio. Que um bando de ladrões a
tivesse sequestrado. Que a informação que tinha estivesse
equivocada e não tivesse ido a Paris.
Preocupava-lhe que os temores de Júlia se fizessem
realidade e tivesse perdido Maggie para sempre.
Portanto, quando soube onde estava, seu primeiro
impulso foi correr para ali, desculpar-se e beijá-la com
frenesi. Quint tinha demorado um quarto de hora em
convencê-lo de que não o fizesse.
— A senhora não recebe visitas, Winchester. Negaram-
me a entrada e duvido que vá mostrar-se mais hospitalar
contigo — foram as palavras do Quint quando retornou. —
Não depois de se comportar como o fez. O melhor plano de
ataque seria aparecer em algum momento em que não possa
escapar e obrigá-la a te escutar. Ouvi que vai dar um baile de
máscaras dentro de dez dias. Iremos, e então poderá se
explicar.
Assim, durante mais de uma semana, Simon se dedicou
a andar acima e abaixo em seus aposentos da planta superior
no Hôtel Meurice como um leão enjaulado, sem fazer outra
coisa que pensar em Maggie. Júlia tinha plantado a semente,
mas agora Simon sabia que aquilo era um fato. Não tinha se
casado por causa de Maggie. Durante todos aqueles anos
tinha tentado convencer-se de que era porque preferia estar
sozinho, mas a verdade é que não tinha encontrado ninguém
como ela. Ninguém que lhe fizesse sentir tão vivo quando
entrava na sala. Que o tivesse em suspense e não tivesse
medo de lhe enfrentar. Uma mulher que o tinha pego se
masturbando e não tinha fugido horrorizada.
Não pensava renunciar a ela. Sem mais mentiras, sem
mais desconfiança. Convenceria Maggie, utilizaria todo seu
encanto e capacidade de persuasão até que aceitasse o
inevitável.
E, naquele momento, estava junto com a metade de Paris
apertado na sala de baile da casa de Maggie. Hordas de
convidados pululavam por ali embelezados com atrevidos
disfarces. Havia sátiros e deusas, piratas e cortesãs. Um
exército de madames de Pompadour e de Enriques VIII. Quint
tinha decidido disfarçar-se de um de seus heróis, Francis
Bacon, embora certamente ninguém reconheceria o disfarce.
Uma eleição pouco prática, sobretudo olhando os saltos, a
peruca e a gola, mas quando Quint tomava uma decisão era
virtualmente impossível lhe fazer mudar de opinião.
Embora ainda não tivesse visto a anfitriã, sabia como
estaria disfarçada. Tinha pago generosamente pela
informação para assegurar-se de que seu traje
complementasse o dela. Esperava que Maggie apreciasse o
esforço, mais ainda tendo em conta que quase lhe congelam
as bolas quando ia de caminho para lá.
O lugar era espetacular. Certamente Maggie tinha se
superado. O interior do salão tinha sido transformado em um
exuberante oásis egípcio, com palmeiras e outras plantas
menores aqui e lá, acompanhadas por colunas douradas
revestidas com tecidos vermelhos. Uma tapeçaria com uma
paisagem desértica — dunas de areia sob um ardente sol
laranja — cobria a parede de um lado, e Simon se perguntou
se ela o teria pintado. Dispuseram-se pequenas zonas com
divãs, almofadões e tapetes para que os convidados pudessem
relaxar-se e observar os que dançavam.
Os criados também estavam disfarçados, com o torso nu
e uma máscara negra que lhes dava a aparência de chacais. A
máscara lhes cobria a parte superior do rosto e tinha orelhas
longas e bicudas que apontavam ao teto, mas deixavam
descobertos o nariz e a boca. Umas fitas douradas rodeavam
a parte superior de seus braços e de seus pescoços
penduravam colares de ouro e ônix que descansavam contra a
pele nua do peito. Umas saias de cor negra e dourada lhes
cobriam até a metade da coxa. Onde demônios Maggie tinha
contratado aqueles tipos?
Apesar da maré de disfarces e máscaras, não lhe custou
muito localizá-la. Estava no extremo mais afastado da sala,
rodeada de convidados. Em sua maioria homens. O qual
tampouco era tão estranho, vendo o traje débil e quase
transparente que usava. O tecido se cruzava apertado sobre
seus seios e os levantava, e sobre a cabeça levava uma fita de
ouro da qual penduravam pequenas cordas de pérolas de
ouro que caíam sobre seus cabelos negros. Uns sapatos
dourados adornavam seus pés, e as fitas que os seguravam se
cruzavam sobre seus tornozelos. Tinha uma taça de
champagne em uma mão e um cetro curvo na outra.
Cleópatra, exótica tentação dos tempos antigos. Simon
sentiu calor no ventre, e o desejo e o alívio que se
sobrepunham cada vez com mais força, até que não foi capaz
de pensar em outra coisa que não fosse chegar a ela.
Deu um passo naquela direção, mas a mão de Quint o
reteve.
— Paciência, Winchester. Deixa que receba seus
convidados. Não nos interessa que nos mandem embora antes
do jantar.
— Não nos mandará embora, mas tem razão. Esperarei
que tome uma ou duas taças de champagne.
Quint riu.
— Jamais pensei que chegaria um dia em que suas
habilidades para se dirigir a uma mulher dependeriam de que
estivesse bêbada.
Simon lhe lançou um olhar severo.
— Não quero que esteja bêbada. Quero que esteja
flexível.
— Oh, e não é o mesmo?
— Winchester.
Simon se voltou ao ouvir seu nome. Ante ele havia um
homem com uma máscara negra. Mas a Simon não custou
reconhecer aquela careta arrogante de sua boca.
— Markham. Não esperava vê-lo aqui.
Voltou-se para incluir seu amigo Quint na conversação e
viu que tinha desaparecido.
— Londres é mortalmente aborrecida nesta época do ano
— disse Markham. — E me ocorreu vir para ver o que faziam
nossos irmãos franceses. Imagine minha surpresa quando vi
isto.
Não tinha nenhuma dúvida de que Markham tinha
seguido Maggie até Paris. Em outro tempo ficaria ciumento,
mas já não lhe importavam os homens que pudessem ter tido
em seu passado. Ou que tivesse em seu presente. Simon
voltaria a tê-la. Teria seu sorriso. Teria sua esperteza e sua
língua afiada. E certamente, também teria seu corpo
exuberante movendo-se sob o seu.
Umas fortes palmadas interromperam sua conversação e
Maggie avançou até o centro da sala. Pediu a atenção dos
presentes e todos calaram.
32
— Mesdames et messieurs , — disse com voz forte —
damas e cavalheiros, bem-vindos. Em consonância com o
tema desta festa, seguidamente verão as maravilhas do Antigo
Egito.
Ouviu-se então o som baixo e rítmico de um tambor.
Dois criados vestidos de chacal apareceram no outro lado da
sala segurando as barras de uma liteira. Comodamente
instalada na liteira havia uma mulher embelezada de modo
muito similar à Cleópatra de Maggie. Cabelos escuros que
caíam sobre os ombros, um diadema dourado rodeando sua
cabeça. Quando chegaram ao centro da sala, os homens
colocaram a liteira no chão e a mulher desceu, deixando que
seu vaporoso vestido branco caísse sobre suas pernas até os
tornozelos. O decote era absurdamente baixo e Simon teria
jurado que lhe tinham pintado os mamilos de vermelho. A
mulher ficou totalmente imóvel depois de levantar seus
braços nus como uma estátua. Apareceu uma segunda liteira,
a mesma procissão lenta, e seu ocupante se uniu à mulher da
primeira e adotou uma postura ligeiramente distinta.
Chegaram depois uma terceira liteira, e uma quarta, e
logo uma quinta, até que somaram um total de cinco
mulheres, todas elas com idênticos vestidos e expressão
grave. Quando os criados se retiraram, o ritmo dos tambores
se fez mais rápido e a ele se somou o tinido de umas
campainhas. Os torsos das bailarinas começaram a ondular-
se enquanto suas mãos se moviam com sacudidas rápidas e
efetivas. Simon olhou de esguelha ao Markham, que parecia
embevecido pela representação. Pela cara que punha não lhe
teria surpreendido ver um fio de baba na comissura de sua
boca.
Não que ele não gostasse da representação. Certamente,
nunca tinha visto um baile tão desinibido. Tão… carnal. As
mulheres moviam os quadris e bamboleavam os seios em
uma descrição descarada do ato sexual. Simon recordou o
que tinha acontecido em Barrett House, quando Maggie
estava escarranchada sobre ele, nua, coberta de suor, fazendo
com que seu membro entrasse e saísse de seu corpo. Aquela
representação sim havia valido a pena.
As bailarinas iniciaram um frenesi de movimentos
coordenados das mãos, aos que em seguida somaram os pés.
Não usavam calçados, de modo que seus delicados dedos
sussurravam sobre a madeira gasta do chão enquanto
avançavam para frente e para trás. Ao cabo de uns minutos a
música seguiu in crescendo e as mulheres começaram a girar
e girar em círculo fazendo com que seus vestidos voassem em
torno de suas pernas nuas por cima dos joelhos, para regozijo
da multidão. E finalmente cada uma se deteve adotando uma
pose determinada, e o público explodiu em aplausos. Simon
riu e aplaudiu tão forte como os demais. Só à Maggie podia
ter ocorrido algo tão descarado.
O lento som do tambor começou a soar de novo e as
mulheres se dirigiram à saída lentamente, ao mesmo passo.
Quando desapareceram os convidados começaram a rir e
conversar entre eles, maravilhando-se sem dúvida pela
atuação.
— Nunca tinha visto nada igual — Markham lhe disse. —
Bom, sinto-me revigorado. Vou procurar alguma jovem.
Sempre é mais fácil em um baile de máscaras. O que você
pensa fazer?
— Prefiro esperar aqui.
Sua ideia era não tirar o olho de cima de Maggie.
— Oh, vejo que já tem o olho posto em alguém, equivoco-
me? Então será melhor que se apresse. Se me desculpar.
O homem se afastou a toda pressa, com a capa negra
ondeando às suas costas e Simon lançou um suspiro de
alívio.
Sim, já tinha o olho posto em alguém. Alguém
surpreendente, enlouquecedora e formosa.
— Cleópatra, — Lucien sussurrou ao ouvido de Maggie
— Marco Antonio não te tirou os olhos de cima em toda a
noite. Por acaso não conhecerá o cavalheiro, MA chère?
Era o primeiro momento que tinham para conversar
desde que tinham aberto as portas há mais de duas horas. A
julgar pelo entusiasmo dos presentes o baile estava sendo um
êxito. Maggie deu um sorvo em sua champagne e olhou para
Lucien.
— Marco Antonio? Onde?
— Ali, ao fundo, entre a palmeira e Joana D’Arc.
Maggie se voltou na direção que lhe indicava e seu olhar
se encontrou com uns penetrantes olhos azuis da cor do
Mediterrâneo. Aspirou com força. Simon. Usava uma máscara
dourada, mas o teria reconhecido em qualquer parte, e aquele
olhar intenso lhe fez cócegas em todo o corpo. Por Deus, o que
estava fazendo ali?
Deliberadamente voltou-se para outro lado.
— Não é ninguém importante — disse ao Lucien. — Só é
alguém a quem conheci. — «E amei. E adorei com minha boca.»
Aquele pensamento não desejado lhe provocou uma comichão
no ventre.
— Não sei por que se empenha em mentir para mim.
— Maggie está mentindo sobre algo? — Perguntou Henri,
o amante de muitos anos de Lucien, que nesse momento se
uniu ao grupo. — Tem a ver com o fato de que não está
disfarçado, Luc? Já te disse que ia se sentir decepcionada.
Henri, um dos atores teatrais mais populares de Paris, ia
disfarçado de Hamlet, seu personagem favorito, e em troca
Lucien se negou a vestir-se de ninguém que não fosse ele
mesmo. Dizia odiar os bailes de máscaras, que não eram mais
que uma simplicidade de aristocratas. Seriamente, às vezes
seu mentor podia ser tão arrogante.
— Não, tem a ver com a forma em que Marco Antonio
olhe a nossa bela Cleópatra.
Henri seguiu o olhar de Lucien e procedeu a dar a Simon
uma boa olhada. E quando terminou franziu os lábios e se
inclinou para sussurrar umas rápidas palavras em francês ao
seu amante. Maggie não pôde entender o que dizia, mas viu
que Lucien ria e dizia a Henri que parasse.
— O que te disse?
Os lábios de Lucien se crisparam.
— Que Marco Antonio tem umas pernas bonitas. —
Agitou a mão com gesto ausente. — E outras tolices similares.
Então é ele? É o seu amante inglês, que por fim entrou em
razão e veio para te levar na noite?
— Nem por indício — ela mentiu. — Meu amante inglês é
mais alto. E mais bonito.
33
— C’est impossible — Henri disse em um à parte ao
Lucien.
Mas Lucien não deu atenção ao comentário e não
apartou seu olhar perspicaz de Maggie.
— Non, estou seguro de que é ele. A pergunta é: o que vai
fazer a respeito?
— Estamos a ponto de saber — Henri anunciou. — Os
romanos nos atacam.
Pela extremidade do olho Maggie viu que Simon
avançava para eles entre a multidão. Uma túnica branca lhe
caía por cima dos joelhos com um cinturão que pendurava
algo solto sobre sua cintura e uma toga arremessada sobre os
ombros, presa pelos extremos com uma fivela de prata. A
roupa lhe assentava bem, lhe via alto e esbelto, tão atraente
como qualquer estátua romana que tivesse desenhado, com a
quantidade precisa de poderio e arrogância. Seu coração
pulsava com violência sob as costelas.
Para seu desgosto, Lucien e Henri desapareceram e a
deixaram sozinha na sala abarrotada. Pensou em fugir, mas
certamente Simon a apanharia. Melhor enfrentá-lo ali,
rodeada de centenas de pessoas.
— Cleópatra — Simon disse a modo de saudação, fez
uma reverência e colocou o punho sobre o peito como teria
feito um romano.
Ora, então iam interpretar seu papel.
— Antônio. E eu aqui sem minha serpente.
Ele se incorporou e a olhou com gesto pensativo.
— É muito obstinada para morrer por sua própria mão.
— Mas Marco Antônio se matou primeiro. Quer que o
comprovemos?
Os lábios do Simon se contraíram.
— Quanto tive saudades de ti, minha querida Cleópatra.
— Sério? Pois devo dizer que me surpreende. Juraria que
não queria voltar a ver-me.
— Equivoca-se. Quer dar um passeio comigo?
A ideia de ficar a sós com ele lhe fez sentir uma forte
pressão no peito. Pânico, decidiu.
— Por que? Se tem algo a me dizer, pode dizer aqui.
Uma sobrancelha loira se levantou desafiante.
— Tem medo?
— De tropeçar em sua túnica? Certamente. E as
piadinhas não são próprias de ti.
Começavam a atrair olhares e vários convidados tinham
chegado mais perto para escutar a conversação sem
incomodar-se em dissimular. Simon se deu conta; puxou-a
pela mão e a arrastou com ele.
— Vem comigo, rainha guerreira. Vamos explorar os
jardins.
Onde podiam muito bem congelar-se. Ela plantou os pés
com força.
— Não, me siga.
Maggie o levou para o salão da parte de trás e pelo
caminho pegou uma taça de champagne de uma bandeja e
bebeu de um gole o líquido doce e borbulhante. Não tinha
nem ideia do que ele podia querer, mas acaso não havia dito o
suficiente durante sua última conversação? Tinha tido
saudades. Quase riu. Inclusive se isso fosse verdade, isso não
era razão para segui-la até a França.
Se tinha ido até ali pensando que se desculparia pelo
Lemarc, ia ter uma boa decepção. Tinha tantas possibilidades
de que se desculpasse por sua arte como de que se
apresentasse no Clube Almack’s numa quarta-feira pela
tarde.
Lucien se interpôs em seu caminho com a preocupação
gravada em seu rosto infantilmente formoso.
— Está tudo bem? Necessita-me? — Perguntou-lhe em
francês.
— Estou bem. Será só um momento — ela respondeu em
inglês, e seguiu andando.
Às suas costas Simon e Lucien cruzaram umas palavras
que não conseguiu entender. Sem dúvida Lucien lhe estava
advertindo que não a incomodasse, algo muito típico dele.
Lucien tinha poucos amigos, mas os protegia com empenho.
Não tinha nada a fazer frente ao poderoso conde de
Winchester, que podia sair impune de qualquer coisa, salvo
do assassinato. Mas mesmo assim comoveu-lhe ver que
Lucien se importava o bastante para tentar.
Simon a alcançou quando estava a ponto de entrar na
sala de música.
— Viu a exposição? — Perguntou-lhe.
— Não, estive ocupado.
— Então vem. Tem que ver os objetos que aluguei para a
ocasião.
Entraram na sala que se tinha transformado em um
museu em miniatura de arte egípcia. As mesas formavam um
semicírculo e atrás se colocaram umas telas pintadas com
motivos e paisagens egípcias. Nas mesas se expunha as
esculturas que Lucien tinha conseguido através de sua rede
de colecionadores expressamente para aquele baile. Quando
desempacotaram aquilo Maggie tinha rido como uma louca:
impossível organizar uma exposição mais apropriada para
uma mulher com sua reputação.
Uma pequena quantidade de convidados, em sua maioria
homens, perambulavam pela sala. Algumas mulheres riam
baixo e assinalavam, visivelmente incômodas pela temática
das peças. Maggie notou que Simon as reconhecia quando se
aproximaram da primeira mesa.
— São… — começou a dizer. — Humm, estátuas da
fertilidade. Teria que ter imaginado.
— Muito bem. A maioria são variações do Min — disse
assinalando a estátua de pedra de um homem negro com um
pênis ereto em uma mão e um látego na outra. — O deus
egípcio da fertilidade.
Não muito longe tinham trinta entalhes de madeira e
pedra, cada um com um falo grande e orgulhoso que os
egípcios acreditavam que levavam a virilidade. Simon não
disse nada, limitou-se a passar lentamente de uma mesa a
outra, observando cada peça. Sentir-se-ia decepcionado, é
claro. E seguramente aproveitaria a oportunidade para
castigá-la por aquele manifesto desprezo pela propriedade e a
decência. O que Simon não parecia entender é que não tinha
intenção de ser como o resto da sociedade. Não podia fazê-lo.
Renunciar ao Lemarc e dedicar-se a costurar junto ao fogo
enquanto esperava que seu marido retornasse de alguma de
suas farras noturnas. Impensável.
Houve um tempo em que sonhava sendo a esposa de um
homem bem relacionado e com uma substanciosa fortuna;
mas agora sabia que no mundo havia muito mais. Não
renunciaria à liberdade de poder fazer o que quisesse.
— E esta? — Simon assinalou o entalhe de madeira de
uma figura que era metade crocodilo, metade hipopótamo,
com um ventre enorme e inchado que sobressaía sob os
peitos nus.
— Taweret. Deusa do nascimento e da fertilidade. —
Observou-o um momento procurando alguma reação, mas
não foi capaz de saber o que estava pensando. — O entalhe
está muito bem conservado. Ainda se pode ver o padrão das
escamas da cauda.
— Por que me trouxe aqui? — Perguntou sem apartar os
olhos das mesas em nenhum momento. — Queria me
violentar, lady Hawkins, ou talvez despertar meus instintos
mais baixos?
Capítulo 14
Maggie não pôde evitar e abriu a boca surpreendida.
— Seus… instintos mais baixos? — Balbuciou. — Não
seja ridículo. Só pensei que devia vê-los.
— Lástima.
Não parecia horrorizado. Nem irritado. E isso a
incomodou sobremaneira. Parecia… divertido.
Enquanto ela meditava sobre o pouco alterado que o via,
ele a puxou pela mão e a arrastou para trás das telas, à zona
mais recolhida e escura da sala.
— Simon, aonde vamos?
— Agora toca a ti me seguir — disse, e a levou a um
canto onde um pianoforte descansava juntando pó.
Não lhe via com claridade naquela semipenumbra, e
seus outros sentidos se aguçaram para compensar. O roce de
suas saias contra sua perna. Seu aroma tão familiar, cítrico
com um toque de tabaco. Estavam tão perto que quase se
tocavam, e Maggie se sentia totalmente imersa naquela
presença arrebatadora. Sentiu que a boca lhe secava.
Tinha revivido aquela noite em Barrett House tantas
vezes em sua cabeça que recordava quase cada detalhe. Cada
movimento de sua mão. Cada carícia de seus lábios. Como se
seu corpo fosse um tecido, e com pinceladas magistrais e
toque atrevidos, Simon tivesse criado algo que não existia
antes. Algo cujo potencial só ele tinha sabido captar com seu
olhar de professor. Tinha-a transformado.
Mas seria um erro permitir que o desejo lhe turvasse a
razão, por mais extraordinário que fosse o que tinha
acontecido entre eles. Havia muito em jogo.
Pensava seduzi-la naquele rincão? Porque, se era isso,
devia dissuadi-lo em seguida.
— Por que veio à Paris? — Perguntou-lhe soltando-se de
sua mão. — Para me informar em detalhe como planeja
arruinar o Lemarc?
Os dedos de Simon lhe colocaram uma mecha solta por
detrás da orelha e aquele leve contato a fez estremecer-se.
— Sem mais mentiras entre nós. Merece que eu seja
sincero contigo e espero que você faça comigo o mesmo.
Estava furioso quando me inteirei, mas em nenhum momento
considerei a possibilidade de revelar o Lemarc.
Maggie conhecia bem aquele sentimento. A ira seguia
ardendo em suas veias quando recordava aquele último
intercâmbio.
— Agora entendo por que criou o Vinochester e me
ridicularizou-seguiu dizendo. — E estou disposto a esquecer
tudo para que possamos avançar. Perdoei-te.
De verdade havia…? Um zumbido de incredulidade
ressoava em seus ouvidos.
— Você me perdoou? Você… presunçoso insuportável.
Ele tinha que estar de joelhos, suplicando-lhe perdão e
renegando suas palavras e seus atos cruéis. Certo, como
conde que era certamente nunca havia sentido a necessidade
desculpar-se ante ninguém, mas isso não significava que não
tivesse que fazê-lo. A decepção ardia em seu peito e lhe fez
pronunciar palavras cortantes enquanto lhe dava com o dedo
no peito.
— Pois não sei se importa muito que você tenha me
perdoado, Simon, porque eu não perdoei a ti. E duvido que o
faça um dia. Volta para a Inglaterra. Aqui está perdendo
tempo.
Segurou-lhe a mão contra o peito com as sobrancelhas
franzidas em sinal de confusão.
— Já te disse que Cranford me enganou com as cartas. E
acredite, assim que o encontrar penso lhe exigir uma
explicação. Mas você me tem feito pagar uma e outra vez
meus pecados com essas caricaturas. Não podemos superar
isto e seguir adiante?
Como podia lhe fazer entender o dano tão grande que lhe
tinha feito ao longo dos anos? No melhor dos casos seguia
pensando sempre o pior dela. Cranford era só uma gota no
mar de coisas que pesavam entre eles.
— Não sei nem por onde começar. Não posso esquecer
tudo o que aconteceu e duvido que algum dia possa te
perdoar.
Ele meneou a cabeça.
— Não acredito em ti. A mulher que esteve em minha
cama em Barrett House era tudo menos rancorosa e amarga.
Quero que seja sincera comigo, Maggie — disse com um tom
muito razoável. — E desde que nos conhecemos tive muito
pouco disso. Não crê que mereço conhecer a verdade?
— Sincera? — Ela sussurrou e soltou a mão com
violência. — Você não quer que eu seja sincera. Se quisesse
teria me procurado quando houve o escândalo para averiguar
o que tinha acontecido. E em troca, enclausurou-se no local
de madame Hartley durante quase uma semana para beber e
passar bem.
O rosto de Simon ficou flácido pela surpresa.
— Como demônios você sabe…?
— Maggie — disse uma voz afável interrompendo-os, e
uma mão se apoiou em seu ombro. Ao dar a volta viu Lucien
ao seu lado. — Vocês dois, — disse o amigo olhando a um e a
outro — estão chamando muito a atenção. Possivelmente
teriam que se retirar a algum lugar mais discreto da casa,
non?
Perto das telas vários rostos se voltaram de modo muito
pouco discreto para o fundo da habitação. Demônios. Bom, ao
menos os convidados não poderiam queixar-se de falta de
entretenimento.
— Não será necessário — Maggie disse. — Já
terminamos. Lorde Winchester já ia embora.

***

Não tinha ido nada bem.


Simon passou uma mão pela mandíbula e observou
como Lucien escoltava Maggie para as luzes e o alvoroço do
baile. Obrigou-se a tragar a frustração, deixou escapar um
suspiro. Essa noite se equivocou, certamente. Possivelmente
tinha que ter discutido com Quint o enfoque que devia dar ao
assunto antes de apresentar-se na festa. Bom, agora não
importava. Teria que reparar o dano… mas primeiro devia
averiguar o que a tinha feito ficar tão furiosa.
E como se inteirou de sua infame estadia no bordel de
madame Hartley há anos? Colton? Júlia?
Reincorporou-se à festa. Teria tempo de sobra para
pensar enquanto a vigiava. Não gostava da ideia de que
estivesse ali sozinha, desprotegida. Alguns dos convidados
masculinos se mostraram excessivamente solícitos e não
deixavam de rondá-la. Não, não gostava.
Encontrou Quint assim que entrou na sala. Nesse
momento soava uma valsa e os casais abarrotavam a região
da dança, e alguns aproveitavam a oportunidade para fazer
mais que dançar. Um Nero gordinho olhava com expressão
lasciva a Boadicéia, com a mão apoiada firmemente em suas
nádegas.
— De volta de sua derrota no Accio, Marco Antonio? —
Quint disse com voz arrastada antes de levar a xícara de chá
aos lábios.
— Absolutamente. Só foi um pequeno contratempo.
— Pois não é isso o que eu ouvi. A metade dos presentes
estão rindo baixo. — Quint voltou a deixar a xícara vazia no
pires e o entregou a um garçom chacal que passava nesse
momento. — Bom, e qual é o seu plano de ataque?
— Não estou seguro. Não esperava que se mostrasse
tão…
Não conseguia encontrar as palavras para descrever
tanta ira, tanta amargura, tanto ódio. Como enfrentar uma
montanha tão grande de ressentimento em uma mulher?
— Já imaginava. Deus sabe que pouca luz posso
contribuir eu sobre a maneira em que funciona a mente de
uma mulher. Todas querem que as cortejem. Que lhes falem.
É… desconcertante.
Cortejar. Humm.
— Pensa ficar? — Quint perguntou.
— Sim.
— Se preocupa que esteja sozinha em meio a este
folguedo — deduziu seu amigo. — Não posso te reprovar.
Bom, vou procurar a muito bela Margaret Cavendish, a quem
vi antes. Ver-te-ei pela manhã.
— Espera. Quem?
Quint suspirou, horrorizado, sem dúvida. E embora
Simon não fosse nenhum parvo, não havia muitos que
pudessem rivalizar com a rapidez e a acuidade mental do
Quint.
— Duquesa de Newcastle durante o reinado do Carlos II.
Poeta, autora teatral, etecetera. Vê se para ler algum livro de
vez em quando.
O visconde se afastou e desapareceu em muitas plumas
de avestruz e tricórnios.
Simon voltou sua atenção à Maggie. Estava no extremo
mais afastado da habitação, perto das portas abertas do
terraço, rodeada por um pequeno círculo de convidados.
Maggie os tinha assanhado com sua risada. Não podia culpá-
los. A energia que transmitia foi uma das primeiras coisas
que lhe atraíram nela.
Simon bebeu seu champagne e observou os homens que
a rodeavam. Não era exatamente que ela os incitasse, mas
participava o suficiente para que cada um deles tivesse um
pouco de esperança. Olhares sustentados, sorrisos de
cumplicidade, um leve contato da mão… Maggie se
assegurava de dedicar a devida atenção a cada homem do
grupo. Simon notou uma leve pressão no peito, mas não eram
só ciúmes. Não, era algo muito mais complexo. Sentia-se um
tanto possessivo, como se precisasse subir em uma cadeira e
anunciar a todo mundo que aquela mulher era dele.
Um homem vestido como dom Quixote segurou a porta
aberta do terraço e Maggie deu um passo para sair. Simon
ficou rígido. De verdade era tão descarada para permitir que
um homem a escoltasse ao exterior, sozinha, onde podiam
passar…?
— Desfrutando da festa, Winchester?
Por um momento sua atenção se desviou ao homem que
acabava de se dirigir a ele, e que se colocou a uma distância
de um braço.
— Certamente. E você, Markham?
— Oh, sim. Devo dizer que isto supera qualquer festa
que lady Hawkins tenha oferecido em Londres. Embora você
não possa saber, posto que não frequenta as festas da
rameira.
— Não a chame assim — Simon disse acidamente.
Markham o olhou abrindo muito os olhos.
— O que? E por que não? Ela mesma se pôs muitas
vezes esse qualificativo estando em minha presença. Não vejo
o que pode ter de ofensivo quando ela mesma o diz.
Simon apertou a mandíbula. Como podia explicar sem
parecer um idiota apaixonado? Observou as portas fechadas
do terraço. Tinha saído? Se fosse assim significava que aquilo
era o fim?
— E estamos bastante íntimos — o homem alardeou com
tom confidencial.
— Como?
Todos os músculos de seu corpo ficaram em tensão. Ela
e Markham haviam…?
— Bom, não ainda. Mas tenho grande esperança,
sobretudo desde que decidiu me animar para que me una à
oposição.
Simon quase abriu a boca pela impressão. Maggie,
animando Markham? À oposição? Que Simon soubesse,
Maggie utilizava Lemarc para minar a reputação dos políticos
e suas causas… basicamente a sua. Jamais teria pensado que
pudesse chegar ao extremo de fazer uma campanha aberta
para desbaratar a futura legislação.
— De todos os modos, — Markham seguiu dizendo —
possivelmente teríamos que nos reunir aqui em Paris para
discutir essa sua proposta em maior profundidade.
Umas semanas antes Simon teria aproveitado sem
duvidar a oportunidade de expor suas ideias ante Markham.
Necessitava de todo o apoio que pudesse conseguir, e todos
sabiam que Markham podia modificar seu voto depois de uma
noite de cartas e álcool. Mas naquele momento tinha coisas
mais importantes que a política na cabeça. Como, por
exemplo, descobrir o que Maggie estava fazendo no terraço.
Apesar disso, as normas do jogo não permitiam que
desse uma negativa direta. E poucos jogavam esse jogo
melhor que ele.
— Certamente o faremos, Markham. Estou no Hôtel
Meurice. Por que não me acompanha uma noite durante o
jantar?
O peito de Markham se inchou, feliz pelo convite.
— Muito bem. Possivelmente na semana que vem. Viu a
coleção? — Riu entredentes, e se deteve. — Oh, minhas
desculpas.
Simon conteve um suspiro. Ao que parecia Quint não
tinha mentido quando disse que a metade dos convidados
tinham escutado seu intercâmbio com Maggie na sala de
música. Seus olhos procuraram uma vez mais as portas do
terraço. O que pretendia? Nem ela nem dom Quixote tinham
retornado. Notava um arrepio na nuca. Seguramente estava
se preocupando desnecessariamente. Estaria tomando o ar
fresco, estaria envolvida na conversação. E apesar disso,
descansaria melhor se ao menos pudesse vê-la.
— Desculpe, Markham. Há um assunto que devo atender
ali fora.

***

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— Mon chaton , está mais adorável que há três anos.
Maggie sorriu ao Jean-Louis, um homem tão encantador
e bonito como o recordava. Jean-Louis, amigo do Lucien,
tinha sido seu único amante durante seu matrimônio. E,
embora não se orgulhasse de ter desonrado seus votos
matrimoniais, havia se sentido muito só durante aqueles
anos, e desejava qualquer tipo de afeto. Quando aconteceu já
fazia muito que Charles evitava os torpes intercâmbios físicos
que havia entre eles. E conforme sua saúde piorava, o homem
manifestou sua preferência pela companhia de sua amante de
sempre, coisa que Maggie agradeceu.
Entretanto, sua inépcia e sentimento de culpa
converteram sua breve aventura com Jean-Louis em um
desastre.
— Sua habilidade com as palavras rivaliza com a que
35
demonstra com o pincel, mon ami . Como foi? Lucien me
disse que agora se dedica aos retratos.
— É verdade. É mais lucrativo e confiável. Acabo de
retornar da Espanha, onde passei meses pintando a nova
rainha.
— E frequentando a companhia das belas damas da
corte, imagino.
Ele sorriu mostrando seus dentes regulares e brancos.
— Sim, claro. Que classe de francês seria se não
demonstrasse minhas habilidades naquele país pequeno e
atrasado?
Maggie riu.
— Que generoso.
— Tento. — Sua expressão se voltou mais grave quando
esticou o braço para pegá-la pela mão. — Lamento que
nosso… — fez uma pausa tratando de encontrar a palavra. —
Que nossa relação não tivesse continuidade. É realmente
formosa, lady Hawkins. Se alguma vez me necessitar, só tem
que dizer.
Quanto gostaria de sentir algo por aquele homem doce e
encantador. Quando se conheceram ela sonhava que
montariam um atelié com vistas a I’Íle de la Cité, onde
poderiam pintar todo o dia e fazer amor toda a noite. Mas
suas esperanças se esfumaram muito breve, quando se deu
conta de que algo falhava em seu interior… e até o momento
só um homem tinha sabido despertar esse algo, maldição.
Maggie se adiantou e lhe beijou a bochecha.
— É claro. Muito obrigada, Jean-Louis. Foi um bom
amigo em um momento em que necessitava
desesperadamente de companhia.
— Posso voltar a sê-lo. Não esqueça.
— Não o farei. E agora vá ou sua encantadora
acompanhante começará a perguntar-se o que te aconteceu.
Eu ficarei uns minutos tomando ar.
— Sozinha? Non, não posso permitir. Uma mulher
formosa não deve ficar só aqui fora.
Ela agitou a mão.
— Comovedor, mas desnecessário. Estou totalmente
segura aqui, de verdade. Para não mencionar o fato de que eu
não tenho nenhuma reputação com a qual me preocupar. Vá.
— Inclinou o queixo em direção à casa. — Entrarei em
seguida.
Jean-Louis voltou para dentro não muito convencido, e
Maggie deu um suspiro fundo e purificador. Distrair seus
convidados e ao mesmo tempo tentar não dar atenção ao
olhar penetrante de Simon lhe tinha provocado um intenso
mal-estar nas têmporas. Aquele homem não tinha outra coisa
para fazer que passar a noite olhando-a? Oxalá voltasse para
seu hotel, fizesse as malas e tomasse o primeiro barco a vapor
para Londres.
Porque, isso era o que ela desejava, não é?
Esfregou-se os braços nus para dar-se calor. As tochas
que ladeavam o terraço estavam mais como decoração que
para iluminar; e mesmo assim Maggie se aproximou delas.
Quanto tempo Simon pensava ficar em Paris? «Quero que seja
sincera comigo, Maggie.» Dava-lhe vontade de rir e também de
chorar. Em seu mundo ninguém queria sinceridade…, a alta
sociedade londrina estava construída sobre aparências e
enganos, por Deus.
Por mais que Simon quisesse a verdade, Maggie levava
tanto tempo fingindo ser alguém que não era que já não
recordava como era antes, não recordava a mulher que o
tinha deslumbrado durante sua apresentação em sociedade.
Aquela jovem já não existia. Para poder sobreviver se
converteu em outra pessoa, uma mulher mais forte e segura.
Simon sabia sobre o Lemarc e lhe havia dito que as acusações
do Cranford eram falsas. Que mais queria dela?
Nesse momento ouviu o som de uma bota sobre a pedra
e ficou muito quieta. Havia outra pessoa ali? De novo som de
passos, desta vez mais perto das escadas. Maggie se obrigou a
relaxar-se. Certamente seria um casal de amantes que
retornava à festa. Voltou as costas para lhes dar intimidade.
— Lady Hawkins — uma voz estranha e profunda disse
uns segundos depois. — Esta noite está absolutamente
deliciosa.
Parou-lhe o coração. Aquela voz. Soava ligeiramente
distorcida, mas uma lembrança lutava por sair do fundo de
sua mente. Maggie deu a volta e se encontrou olhando a um
homem com um pesado casaco e uma máscara da peste
negra. O bico alargado sobressaía do rosto, os olhos escuros e
inexpressivos a olhavam a escassa distância.
— Quem é você? — Perguntou sem dar atenção à
sensação de desagrado que lhe percorria as costas.
— Não me reconhece? Estou desolado.
Com o coração pulsando a toda velocidade Maggie
concentrou seu olho de artista nos detalhes. Era inglês,
notava-se pelo sotaque e pela roupa. Um pouco mais baixo
que Simon e em boa condição física. Bem vestido. Não tinha
visto aquele disfarce antes e estava segura de que, se tivesse
feito, recordá-lo-ia.
— Temo que não. Por que não tira o chapéu?
— Ao seu devido tempo, querida minha, ao seu devido
tempo. É difícil encontrá-la a sós.
Não gostou ideia de que aquele homem tivesse estado
esperando para abordá-la quando estivesse sozinha. Ficar só
naquele lugar, tão afastado da casa e do amparo dos
convidados parecia agora uma imprudência e uma arrogância
por sua parte. Mas não pensava acovardar-se.
— Se pretende me machucar, senhor, vai encontrar uma
bela briga.
— Oh, eu adoro as brigas, lady Hawkins. Creia-me, não
há nada que faça o sangue de um homem pulsar mais
depressa.
Maggie tragou a bílis que lhe subia à boca.
— O que pretende? Me assustar?
— Está assustada? E eu que pensava que nada podia
assustar o grande Lemarc.
Maggie sentiu que o ar abandonava seus pulmões.
Como…? Simon havia dito a alguém? Não, ela sabia que não;
dificilmente podia querer que se soubesse que uma mulher
zombou publicamente dele. O orgulho de um homem podia
ser muito poderoso. Obrigou-se a controlar o pânico e ficou
reta.
— Está me fazendo perder tempo com suas tolices. Tire o
chapéu e diga o que quer ou vá embora.
— Se as mãos não lhe tremessem tanto eu lhe
acreditaria.
Maggie se rodeou com os braços.
— É pelo frio. Não tenho medo dos covardes que se
escondem atrás de uma máscara e espreitam entre as
sombras.
— Sim, você prefere os que são como Winchester. O
próximo grande político, conforme dizem. Até poderia rivalizar
com o Fox.
Apesar da máscara grotesca, o tom zombeteiro de sua
voz era evidente.
— Esta conversação me cansa. Se me desculpar.
E fez gesto de ir para a porta, mais que desejosa de
resolver aquele estranho intercâmbio.
— Suponho que com sua reputação já teria ouvido de
tudo. Ele a usará, sabe, não é?
Maggie se deteve e girou em redondo.
— Como? — Perguntou quase sem dar-se conta.
— Winchester. Nunca mantém suas promessas, seja
quais sejam. É um mentiroso consumado. Tomará o que
quiser e irá embora.
— Como…?
A porta do terraço se abriu e apareceu Simon. Seu olhar
passou de Maggie ao homem com a máscara da morte, e
então se aproximou.
— Lady Hawkins, posso ajudá-la?
Antes que terminasse a frase seu misterioso
acompanhante fez uma reverência e se afastou a toda pressa
para a casa. Simon se desviou para deixar que passasse e foi
para Maggie.
— Maggie — disse com um profundo sulco entre as
sobrancelhas. — Tem os lábios azuis. O que faz aqui fora?
Quem era aquele homem?
E lhe esfregou os braços acima e abaixo com as mãos.
Tinha a pele tão fria que quase lhe doía.
Ela meneou a cabeça.
— Não sei. Não me disse.
— Não lhe disse, mas por que não ia lhe dizer? Não é um
de seus convidados?
— Não.
Simon ficou olhando à porta por onde o homem tinha
desaparecido com um músculo movendo-se em sua
mandíbula.
— Vamos para dentro e ficará aquecida. E logo me dirá o
que esse homem te disse para que tenha essa expressão tão
desventurada na cara.
Capítulo 15
Maggie aceitou um saudável copo de brandy das mãos de
Lucien. Tinham a biblioteca para eles sozinhos… depois de ter
animado uns entusiastas Hera e Dionísio a que escalassem o
monte Olimpo em outro lado.
— Obrigada.
Levou-se o copo aos lábios e deu um gole muito pouco
feminino.
— No que estava pensando Jean-Louis, te reter lá fora
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por tanto tempo? Mon Dieu , está gelada.
— Jean-Louis não me reteve. De fato, insistiu em que eu
voltasse para dentro, mas precisava estar a sós uns
momentos. Havia outro homem. Chegou do jardim.
Lucien se apartou seu cabelo desordenado do rosto e se
deixou cair em uma cadeira.
— Do jardim? Quem era?
Maggie encolheu os ombros.
— Não sei. Usava uma máscara e não quis me dizer seu
nome. Disse que tinha estado esperando para poder falar
comigo a sós.
— Agora entendo por que seu conde te deixou comigo e
desapareceu como uma exalação entre os convidados. Esse
homem te machucou?
— Não, acredito que só queria me assustar. — Deu outro
gole em seu brandy. — Lucien, ele sabia do Lemarc.
Seu amigo a olhou com os olhos muito abertos.
— Sabia que você e Lemarc são a mesma pessoa? — E
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quando Maggie assentiu, perguntou: — Comment ?
— Não sei. Muito poucas pessoas conhecem a identidade
real do Lemarc, e todas são de confiança. Jamais duvidaria de
ti ou da Rebecca. Ou da senhora McGinnis.
— E o seu conde? Disse que sabe. Crê que pode ter
difundido a informação?
— Deixa de lhe chamar «meu conde» — Maggie retrucou,
mas em seguida suavizou o tom. — E não foi ele. O fato de
que Lemarc seja mulher lhe faria parecer ainda mais ridículo,
e com a votação iminente de seu projeto de lei nesta
primavera estou segura de que quereria evitar isso a todo
custo.
— Não pode estar segura, MA chère. Possivelmente…
— Não, não foi ele.
As feições de Lucien se suavizaram, mas seu olhar
seguiu escrutinando-a. Maggie recordava bem aquele olhar, o
do professor que trata de ignorar um erro do tutelado. Não
queria ferir seus sentimentos.
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— Maggie, não deixe que seu tendré por ele te cegue e
não te permita ver o evidente. Manteve o segredo durante dois
anos. E então seu conde reaparece e descobre que é Lemarc e
agora resulta que alguém mais sabe. Parece mais que uma
coincidência, non?
A porta se abriu e lhes chegaram os sons da festa. Simon
entrou na habitação e foi até o aparador com uma expressão
carrancuda em seu belo rosto. Maggie se permitiu um
momento para apreciar a imagem de seu corpo esbelto vestido
de romano. Henri tinha razão: tinha umas pernas bonitas.
Seus sentimentos por Simon impediam-lhe de aceitar a
realidade, que era ele quem tinha revelado o segredo a outra
pessoa? Possivelmente o tinha dito ao Quint e ele à sua vez o
tinha dito a alguém. Se fosse assim, àquelas alturas era bem
possível que a metade de Londres já conhecesse seu segredo.
A dor que notava nas têmporas ia em aumento, e ficou a
massagear a zona com os dedos.
«Tomará o que quiser e irá embora.»
O que o desconhecido tinha querido dizer com aquilo?
— Foi embora — Simon anunciou. — Subiu em um
cabriolé que lhe esperava e desapareceu. O serviço não
recorda havê-lo visto entrar, só sair. — Voltou-se com um
copo de clarete na mão. — Então, pode me dizer o que disse
para te alterar tanto?
Maggie não tinha intenção de lhe dizer a verdade. A
única pessoa em que confiava plenamente era Lucien, e nem
sequer ele conhecia todos os detalhes. Há coisas que é melhor
não contar. Encolheu o ombro.
— Nada importante. Acredito que voltava de um encontro
amoroso no jardim e parou só por educação.
Simon tragou aquele vinho escuro e de sabor intenso
apoiado no aparador, observando-a por cima da borda de seu
copo.
— Está mentindo — disse enfim. — Se insinuou? É isso
o que oculta?
Lucien se engasgou audivelmente ao ouvir aquilo, mas
Maggie seguiu olhando ao Simon.
— Por que sempre tem que pensar o pior de mim?
Ele franziu o cenho.
— Não tem nada a ver contigo, e sim com a situação. Se
um homem encontra uma mulher formosa em um terraço,
não é tão estranho que se insinue.
— Fala a voz da experiência, imagino — Maggie disse.
Lucien ficou em pé.
— Acredito que seja a hora de que me desculpe e retorne
à festa.
— Lucien, espera. Dói-me a cabeça. Se me retirar poderá
se encarregar dos convidados?
— É claro, MA chère.
Fez uma reverência e se dirigiu para a porta.
Quando ficaram sozinhos Maggie suspirou. Tinha muitas
emoções em seu interior e se sentia muito cansada. Doía-lhe
a cabeça como se um escultor estivesse cinzelando as placas
de seu crânio, e isso era um claro sinal de que necessitava de
descanso. Ficou em pé.
— Está perdendo o tempo em vir a Paris, Simon. Estou
cansada de discutir e é evidente que nossa batalha não tem
solução.
Simon ficou reto e deixou seu copo de vinho.
— Tolices. A única batalha que eu vejo é sua negativa a
ser sincera comigo ou a confiar em mim. Como quando não
me disse que estava tratando de desacreditar meu projeto de
lei às minhas costas.
Deve ter feito cara de surpresa, porque Simon disse:
— Sim, minha senhora. Estou à corrente de seus
intentos por enrolar o Markham.
— Não o enrolei. Só lhe expressei minha preocupação por
sua proposta e lhe assinalei seus defeitos.
— E por que não discutir esses defeitos comigo?
— Já te disse que não me interessa.
Simon colocou as mãos nos quadris com gesto grave.
Aquele movimento deixou à vista os músculos de seus bíceps
e antebraços nus. Oh, Deus. Inclusive com dor de cabeça
estava se fixando nos detalhes que não devia. E lhe pareceu
preocupante que em um momento como aquele pudesse ser
tão consciente de seu físico.
— Vê o que te dizia, Maggie? Está decidida a me apartar
e me manter longe de ti. Se ao menos pudesse confiar em
mim…
— Confiar em ti? — Ela disse com voz áspera e
depreciativa. —E por que eu ia fazer algo tão estúpido? Não,
já me partiu o coração uma vez. Não penso deixar que volte a
fazê-lo.
As feições aristocráticas de seu rosto se distenderam, e
Maggie desejou ter mordido a língua. Maldito fosse aquele
temperamento irlandês que tinha. Simon não tinha que saber
aquilo. Maldição.
Simon parecia ter perdido a fala… uma sorte, porque
isso lhe daria tempo de retirar-se antes que pudesse organizar
seus pensamentos.
— Não me encontro bem. Me desculpe, mas devo me
retirar. Por favor, volta para Londres. Não temos nada mais a
falar.

***

Iluminado pela luz das lamparinas, o edifício da Salle


Feydeau se elevava sobre a rua. Aquele imponente teatro de
tijolo e pedra tinha grandes figuras esculpidas na fachada que
emulavam um templo do Antigo Egito. Os assistentes
tratavam de evitar a multidão de carruagens, cavalos e
serventes e se dirigiam a toda pressa para a entrada,
assinalada pelas palavras Opéra-Comique desdobradas sobre
uma série de portas abertas.
Lucien não tinha querido arriscar-se a chegar tarde.
Quando viu que o tráfico ia tão lento insistiu em que
desembarcassem da carruagem e percorressem o lance que
faltava a pé. Maggie segurava a bainha de sua capa para
protegê-la da lama parisiense, mas seus sapatos já não
tinham salvação.
Não podia reprovar a inquietação de Lucien, não essa
noite. Henri interpretava o papel principal naquela obra e
Lucien não queria perder a noite de estreia.
Uma vez dentro foram escoltados até um camarote
situado no piso superior com uma panorâmica insuperável do
cenário. Enquanto Lucien conversava com o porteiro, Maggie
se aproximou da beira do camarote e olhou por cima do
corrimão. Com suas superfícies douradas, cortinas de veludo
vermelho e detalhes de mármore, aquele teatro era o edifício
mais formoso que tinha visto. Umas marionetes de madeira
dançavam sujeitas às suas cordas no cenário, mas em sua
maioria os presentes não lhes prestavam atenção. Não,
naquele momento, o mar de sobretudos negros e plumas de
avestruz se movia nos diferentes camarotes e as pessoas
conversavam animadamente.
— Tomamos assento? — Lucien perguntou às suas
costas.
Maggie assentiu.
— Henri sempre te consegue um camarote?
— Insiste em que eu ocupe um camarote na noite da
estreia, embora eu preferiria estar lá embaixo. — Assinalou a
plateia. — Diz que lhe relaxa poder ver-me quando fica
nervoso.
Dado que deviam manter em segredo a verdadeira
natureza de sua relação, Lucien se fazia passar pelo instrutor
teatral do Henri. Maggie suspeitava que o esgotamento de ter
que manter as aparências era um dos motivos pelos quais se
mudaram ao Montmartre.
— São muito considerados entre vocês.
— Nem sempre — o homem confessou esboçando um
leve sorriso. — Os dois são artistas e podemos ser muito
obstinados. — Golpeou-se a cabeça com o punho. — Com
certeza você sabe muito bem, posto que é de nossa mesma
espécie.
Ela riu.
— Certo, mas se não fôssemos obstinados possivelmente
levaríamos muito a sério os críticos e não voltaríamos a
pintar.
— Ou possivelmente reconheceríamos nossos erros e não
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voltaríamos a repeti-los, n’estce pas ?
E lhe dedicou um olhar significativo que era impossível
interpretar mal.
— Está esbanjando saliva. Reserva-a para ovacionar o
Henri.
Maggie levantou seu binóculo e começou a escrutinar a
multidão.
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— Deve admitir que é très intéressant . Jamais teria
esperado que seu conde tentasse te cortejar. Primeiro com
flores e logo a pintura. O que te mandou hoje?
Maggie se moveu no assento. Não tinha visto Simon
desde o baile de máscaras, três noites atrás, mas a cada
manhã recebia um presente dele. Primeiro foi um buquê
enorme de rosas brancas. Seu aroma, dizia Simon em sua
nota, era como o de sua pele. Logo chegou um pigmento
verde, uma cor que Maggie sabia que muitos fornecedores não
tinham. Dizia que era a cor de seus olhos nos momentos de
paixão, e que pensasse nele entre suas pernas quando o
usasse.
O presente desse dia tinha sido mais descarado. Uma
estátua de bronze do Príapo, o deus grego dos genitais
masculinos, com seu enorme falo ereto, que a tinha
surpreendido e divertido ao mesmo tempo. A lembrança da
nota fez com que o rubor tingisse seu rosto.
Minha senhora:
Suas mãos tiveram exatamente o mesmo efeito em minha
pessoa. Se deseja voltar a me espiar, estarei mais que
encantado de te agradar.
Teu,
Simon

Tinha memorizado as palavras antes de jogar a nota no


fogo.
— E então? — Lucien a animou.
—Uma simples estátua.
Maggie fingiu estar olhando com seu binóculo, embora
só fosse para que Lucien não notasse como se sentia
incômoda.
— Se só foi uma estátua, por que se ruborizou?
Ela baixou o binóculo.
— Não sei o que tenho que fazer — confessou. — Pensa
me enviar algo novo cada dia até que… o que? Não conheço as
regras do jogo.
— Ah. — Lucien se recostou em seu assento e cruzou as
pernas. — Nunca lhe perseguiram e a ideia te incomoda. Não
pode se limitar a desfrutar, MA chère? Com um traje como o
que usa merece que todos os homens de Paris se rendam aos
seus pés.
Maggie alisou seu vestido prata e branco enquanto
considerava as palavras do Lucien. Nenhum homem nunca
tinha tentado conquistá-la. No ano de sua apresentação em
sociedade tinha recebido alguns buquês, mas não teve
nenhum pretendente sério… nem sequer Simon. E em seu
aniversário, seu marido se limitou sempre a lhe entregar um
presente de compromisso, eleito sem dúvida por seu
secretário. Nem sequer os recordava.
Tanta amabilidade por parte do Simon a punha nervosa.
Quando estavam zangados não tinha problemas. Entretanto,
resultava-lhe muito mais difícil dirigir-se com presentes e
palavras afetuosas. Se não desse atenção seria uma bruxa,
mas a sério, de verdade acreditava que uns poucos presentes
curariam suas antigas feridas? E o que esperava conseguir?
Oxalá tivesse podido apagar a conversação que tiveram
em sua festa noites atrás. Se não houvesse sentido aquela
terrível dor de cabeça jamais lhe teria confessado que lhe
tinha partido o coração. Um coração destroçado, uma ideia
absurda e feminina como poucas. Seguramente ao Simon
aquela revelação tinha parecido ridícula.
— Desfrutaria de suas atenções se soubesse o que ele
espera em troca — disse ao Lucien.
— É evidente, non? Seu conde pretende voltar a te levar
à cama.
O espetáculo começou, e Maggie ficou pensando nas
palavras de Lucien. Podia ser tão simples como isso? Tantos
esforços só para voltar a deitar-se com ela? Não era nenhuma
virgem. E não que isso tivesse importância. Não podia
permitir-se vacilar. Devia evitar qualquer associação entre
eles. Sua carreira política sem dúvida se ressentiria por sua
reputação. E ela não tinha intenção nem de moderar seu
comportamento nem de renunciar à sua carreira como
Lemarc. Ninguém lhe arrebataria a liberdade que tanto lhe
havia custado ganhar.

***

O primeiro ato tinha sido uma autêntica tortura. O


camarote de Maggie não estava longe, e Simon com muita
dificuldade lhe tinha tirado os olhos de cima, empapando-se
dela como um homem sedento. Estava devastadoramente
formosa. Seu vestido prata e branco deixava ao descoberto
uma parte de seus seios cremosos. Seus cabelos longos e
negros estavam penteados formando anéis de cachos presos
com uma fita prateada, e deixavam ver a longa coluna de seu
pescoço. Morria de vontade de mordiscar aquela pele suave.
Quando chegaram ao primeiro intervalo Simon se voltou
para suas acompanhantes.
— Lady Sophia, lady Ardington, se me desculparem.
Acabo de ver alguém com quem devo falar.
Lady Sophia ficou em pé com uma expressão ardilosa em
seus olhos marrons.
— Eu lhe acompanho.
Simon pestanejou. Sophia era a melhor amiga da
duquesa de Colton, o que significava que desfrutava das
intrigas quase tanto quanto Júlia… só que Sophia não tinha
um marido que a mantivesse à raia. Em circunstâncias
normais Simon a evitava, mas a jovem lhe tinha pedido que
as acompanhasse essa noite, a ela e sua madrasta, à Opéra-
Comique. E posto que já tinha pensado ir, não tinha visto
motivo em negar-se.
Entretanto, não esperava que Sophia o seguisse a todas
as partes. Precisava falar em privado com Maggie, e o tema
daquela conversação não era apto para damas não casadas.
Olhou à Sophia com o cenho franzido, impaciente por partir.
— Não.
Sophia agitou a mão lhe ignorando.
— Mãe, lorde Winchester e eu voltaremos em seguida. —
Tomou Simon pelo braço e o arrastou ao exterior do
camarote. — Vamos. Morro por conhecê-la.
Quando estiveram no vestíbulo Simon lhe colocou a mão
sobre seu braço e puseram-se a andar em direção ao
camarote de Maggie.
— Como sabe aonde vou?
— Por favor. Esteve olhando-a toda a noite e leio os
periódicos. Todo mundo fala dela. Morri de vontade de ir ao
baile de máscaras, mas minha madrasta não me permitiu.
Você foi?
— Sim. — Recordou a imagem do Nero tocando as
nádegas da Boadicea. — E a marquesa fez bem em não deixar
que você fosse.
41
— Et tu, Brute ?
Simon riu.
— Compadeço-me de seu futuro marido.
— Eu também. Papai se mostra mais irritado a cada
temporada que passa. Temo que este ano vá fazer alguma
coisa.
— Então escolha um homem e acabe com isto. O
matrimônio não tem por que ser tão mau como pensa.
— Oh, mas também pode ser muito, muito pior… e não
sei se devo me deixar aconselhar por você. Não parece que
tenha pressa por escolher condessa.
— Júlia e Colton são muito felizes-assinalou.
— Repugnantemente felizes — ela concedeu. — Mas está
atada a ele, então, por que não aproveitar ao máximo? Não,
acredito que esperarei um pouco mais. O que acontece com
você e lady Hawkins?
— De verdade espera que o diga? A marquesa mandaria
me decapitar.
— Equivoca-se. E papai gosta de você. Diz que
possivelmente algum dia substituirá Liverpool.
Simon apartou a cortina para passar ao camarote onde
estava Maggie e a segurou para que Sophia passasse.
— Acredito que é prematuro falar disso.
Sobretudo se alguém descobrisse a verdadeira identidade
do Lemarc.
Quando entraram encontraram Maggie falando com um
homem. Seus corpos estavam muito perto e a mão dela
descansava com familiaridade sobre o braço dele. Simon o
reconheceu como o dom Quixote do baile de máscaras, que a
tinha acompanhado ao terraço. E notou um nó de ciúmes e
raiva no estômago. Esperava encontrá-la com o Barreau, não
com um de seus admiradores. Obrigou-se a pôr um sorriso e
entrou.
— Lady Hawkins.
Maggie levantou a cabeça de repente e seus olhos verde
esmeralda se pousaram nele. A surpresa se desenhou em
suas feições, mas em seguida se recompôs e o saudou
educadamente com um gesto da cabeça.
— Lorde Winchester.
Seguiram as devidas apresentações, durante as quais
ficou claro que aquele artista, Jean-Louis, e Maggie eram
amantes. Ela se mostrava inusualmente nervosa e faladora, e
a cor tingia suas bochechas. O francês tinha sua mão apoiada
na mão que Maggie deixava descansar em seu braço. Simon
teve que fazer um grande esforço para não apartar Maggie e
colocá-la ao seu lado.
Lady Sophia tomou as rédeas da conversação.
— Lady Hawkins, a duquesa de Colton é uma das
minhas melhores amigas e insistiu em que devia conhecê-la.
Que sorte que você tenha vindo à estreia da obra.
O comentário resultou em um extenso intercâmbio sobre
Paris e as compras, justo o tipo de conversação da qual um
homem podia desentender-se sem ficar mal. E foi quando
Simon se deu conta de que Maggie fazia vários intentos
fracassados de retirar sua mão de debaixo da do francês e ele
a segurava com mais força. Simon tinha interpretado mal a
situação ou talvez só estivesse tentando ser discreta? A ideia
quase o fez rir. Maggie discreta?
Seja como for, quem era esse homem? Como tinham se
conhecido? Apesar de tudo o que tinha acontecido entre eles
seguia sem saber nada de Maggie. Pois bem, estava disposto a
mudar isso, e começaria naquela mesma noite.
Esperou que houvesse uma pausa na conversação:
— Lady Hawkins, poderíamos ter umas palavras em
privado?
A situação se voltou um tanto incômoda até que Sophia
disse:
— Tenho que voltar para o meu camarote. Minha
madrasta estará preocupada. Jean-Louis, você poderia me
acompanhar? Eu gostaria de saber mais coisas sobre seus
quadros.
Despediram-se e Sophia virtualmente levou a rastros o
francês, para alívio de Simon. Agora que ele e Maggie estavam
sozinhos cruzou as mãos às costas.
— Está desfrutando da obra?
— Muito. Henri é maravilhoso. E você?
— Sim, embora deva reconhecer que não vi muito.
— Chegou tarde?
— Uns segundos depois que se levantou o pano de
fundo. Nunca tinha visto em minha vida tanta gente
esperando diante de um teatro. Mas não me referia a isso, na
realidade.
— Oh, a adorável lady Sophia. Suponho que poderia
estar bem dis…
Simon não pôde evitar rir.
— Sabe muito bem que ela não é a razão de que eu
esteja aqui esta noite. Vim por ti.
Maggie mordeu o lábio, e a pele suave e roliça
desapareceu sob os dentes dianteiros. Simon recordou sua
boca e as extraordinárias sensações que experimentou
quando a utilizou sobre seu corpo. O fogo despertou em sua
virilha.
— Simon, as discussões são exaustivas, e não vejo razão
para continuar com isto. Agradeço-te muito os presentes, mas
não há necessidade de que me envie mais.
As palavras que lhe havia dito noites atrás revoaram por
sua mente. «Já me partiu o coração uma vez. Não penso deixar
que volte a fazê-lo.» Júlia já lhe havia dito algo parecido em
Londres, mas o fato de ouvir da boca da própria Maggie
mudava tudo. Não queria esperar mais. Tinha que derrubar
os muros que se elevavam entre eles como fosse. Se realmente
havia sentido algo por ele no passado, podia voltar a fazê-lo.
Bastar-lhe-ia pensar em uma campanha inteligente e
cuidadosa.
Então decidiu não a contrariar e guiar-se pela estratégia,
como fazia quando tratava de conseguir votos.
— Visitou Notre Dame?
Ela pestanejou.
— É claro. Muitas vezes. Por que?
— Acompanhar-me-ia? Amanhã.
Maggie enrugou a testa, confusa, e Simon reprimiu o
impulso de sorrir.
— Amanhã? É óbvio que não. Não posso me permitir
perder o tempo perambulando por Paris contigo. Estou muito
atrasada em meu trabalho.
Simon esticou o braço para pegar uma mecha negra e
sedosa e colocar-lhe com delicadeza atrás da orelha.
— Traga o trabalho. Prometo que procurarei um lugar
tranquilo e te deixarei trabalhar.
— Mas para que…?
Antes que pudesse terminar a frase os atores voltaram
para o cenário. Sem pedir permissão Simon a puxou pela mão
e a levou até seu assento. E quando se sentou roçou-lhe os
dedos enluvados com os lábios. Viu que o rubor tingia suas
bochechas.
— Até amanhã — murmurou, e saiu do pequeno
camarote desfrutando de sua pequena vitória.
Capítulo 16
Maggie fez uma careta quando a carruagem passou por
outro buraco. Simon estava sentado em frente a ela com suas
longas pernas tão esticadas como permitia o pouco espaço
que tinham. Tal como tinha prometido, nessa manhã se
apresentou cedo para recolhê-la e levá-la em sua misteriosa
viagem. Ela tinha tentado resistir e despachá-lo, mas
inclusive Tilda parecia estar ao seu lado, e a empurrou até a
rua como se empurrasse a carcaça de uma cabeça de gado
para tirá-la e pô-la à venda.
Levavam quase uma hora no caminho e já fazia tempo
que a cidade tinha ficado para trás. Era evidente que visitar
Notre Dame era mentira. Tinha que ter imaginado que aquilo
não era mais que um estratagema. Pelo menos gostaria de ter
escolhido melhor seus materiais de trabalho antes de aceitar
aquele sequestro. Sabe Deus onde pensava levá-la e quanto
tempo a reteria. Tinha que ter se preocupado e exigir a Simon
que confessasse suas intenções. Mas já era tarde para voltar
atrás, então, para que incomodar-se? Ao menos os tijolos
quentes faziam com que a temperatura fosse agradável apesar
do frio do exterior.
Olhou pelo pequeno guichê e admirou a paisagem
francesa com seus silenciosos campos de trigo esperando a
primavera. O céu estava desprovido de cor, não era mais que
um manto de distintos tons de cinza, e Maggie desfrutou do
ar revigorante que se respirava fora das muralhas da cidade.
Os grandes espaços abertos, com árvores e arbustos
tranquilizadores sempre a relaxavam, e fazia muito tempo que
não se permitia aquele pequeno capricho.
Mesmo assim, por que demônios tinha aceitado
acompanhar Simon?
— Como conheceu o Barreau?
A pergunta do Simon a sobressaltou, tanto pelo
inesperado como pelo tema. Mudou de posição para olhá-lo.
— Vim a Paris com minha irmã e seu marido. Toda
manhã eu estava acostumada a passar por certa zona da Rue
de Rivoli e vi que ali sempre havia um artista. Pintava as
pessoas, imerso em seu trabalho, mas de vez em quando fazia
algum retrato se alguém pedia. Comecei a observá-lo e vi que
nunca aceitava dinheiro por seus esboços. E seu trabalho…
oh, era extraordinário. Realmente extraordinário. Tão vívido e
realista. Um dia me aproximei e lhe perguntei por que nunca
aceitava dinheiro por seus trabalhos. — Sua boca se curvou
com gesto divertido. — E isso deu pé a um longo discurso
sobre o fato de que a arte pertence ao povo e que a obrigação
do artista é compartilhar seu dom grátis.
— Ah, um jacobino.
— Se tivesse nascido antes, o teria sido, sem dúvida. E
bem, o caso é que elogiei seu trabalho e falamos de arte. Ele
me entregou uns lápis-carvão e papel e me pediu que o
desenhasse. Estava me provando, claro. E quando lhe mostrei
o desenho quase cai da cadeira — Maggie riu. — Ele
perguntou quem era meu professor. Durante semanas tentei
convencê-lo que tinha aprendido sozinha. E quando meu
desconhecimento de certos aspectos do negócio ficou patente
também pensou que lhe estava enganando. Talvez Lucien
esteja farto de como funciona o mundo, mas não é nenhum
ignorante. E me ensinou muito ao longo dos anos.
— O que o artista fez com o esboço que fez dele?
O rubor tingiu seu rosto.
— Emoldurou-o. Tem-no pendurado em seus
alojamentos em Montmartre.
— E isso te envergonha? Não entendo que não se sinta
orgulhosa por lhe haver impressionado.
Ela agitou a mão.
— Ofereci-me muitas vezes para refazê-lo. Mas Lucien
não quer nem ouvir falar disso.
— Não posso dizer que lhe culpe. Às vezes a lembrança é
mais importante que a perfeição. Vai me desenhar algum dia?
Ela se mordeu o lábio tratando de não sorrir. E Simon
suspirou, porque entendeu perfeitamente.
— Falo de me desenhar de verdade. Não na forma do
Vinochester. Quando herdei meu título tive que fazer o retrato
obrigatório. Está pendurado em Winchester Towers, mas não
suporto olhá-lo. Eu gostaria de ver o que você vê.
O primeiro impulso de Maggie foi dizer que não. O fato de
desenhar podia ser algo muito pessoal, uma conexão íntima
entre artista e sujeito. Tinha que fazer um estudo prévio do
sujeito, cada cabelo, cada sombra, para criar uma
representação o mais verídica possível. Em troca, com aquilo
Simon seria de tudo desnecessário; recordava cada milímetro
de seu corpo.
— Talvez — respondeu por fim.
— Como começou a desenhar? Como descobriu que você
gostava?
Ela sorriu ante a lembrança.
— Rebecca. Deu-se conta de que sempre me punha a
desenhar quando estávamos tendo aula com nossa
preceptora. Em lugar de aprender os números ou melhorar
minha caligrafia, eu estava quase sempre desenhando. Ela e
meu pai me animaram.
— O poeta, não é assim?
— Sim. Meu pai me animou a me expressar com meus
quadros e meus desenhos. Inclusive tratou de convencer a
minha mãe para que me deixasse viajar ao estrangeiro em vez
de fazer minha apresentação em sociedade. Mas ela não quis.
Estava decidida a me converter em uma dama inglesa como
Deus manda. — «E olhe como acabou.»
— Nunca mencionou sua afeição por desenhar quando
nos conhecemos.
Ela encolheu os ombros.
— Mamãe me advertiu que não revelasse minhas afeições
peculiares. Queria que me mostrasse tão recatada e pacata
como as outras jovens que se apresentavam em sociedade
naquele ano.
Simon riu, e durante um longo momento se fez silêncio.
Mas já que se estavam fazendo perguntas, Maggie também
tinha algumas para ele.
— Por que a política? — Perguntou. — Naquela época
não te interessava nada o Parlamento.
— É o que se esperava de mim como conde de
Winchester. — Levantou um ombro largo. — E me dou bem.
— Isso ouvi dizer. Mas você gosta? Apaixona-te?
Simon franziu o cenho.
— Não precisa apaixonar-se por algo para fazê-lo bem.
— Mas, se não te fizer feliz para que fazê-lo?
— Porque eu gosto de ganhar. — E esboçou uma careta.
— Ainda não se deu conta?
A carruagem começou a diminuir a marcha. Simon se
inclinou para olhar pelo minúsculo guichê.
— Oh, devemos estar nos aproximando de nossa
primeira parada. Podemos esticar um pouco as pernas
enquanto se encarregam dos cavalos.
Minutos depois Simon a ajudou a descer da carruagem.
O pôster dizia L’ANNEAU D’OR, ou seja, O anel de ouro.
Tratava-se de uma estrutura modesta e provinciana feita de
pedra branca e madeira gasta. Salvo por sua carruagem o
pátio estava deserto. Os dois entraram.
Simon procurou uma mesa para os dois enquanto ela se
retirava para atender necessidades mais íntimas. Quando
voltou a sair encontrou-o no refeitório, sentado a uma mesa
perto de uma pequena janela, com a vista cravada no pátio. A
luz tênue e cinza jogava sombras sobre as conhecidas feições
de seu rosto criando um jogo de claros-escuros que a
fascinava. Era irritantemente bonito para ser um homem.
Não demoraram para chegar os reforços, chá e cerveja,
que beberam em silêncio e camaradagem. Maggie teve um
pensamento repentino, e teve que conter uma risadinha.
Uma sobrancelha dourada se levantou.
— Algo engraçado?
— Estava pensando que esta é a ocasião em que
passamos mais tempo juntos sem discutir.
— Não é verdade — ele murmurou inclinando-se para
frente. Seus olhos adotaram um aspecto perigoso e sedutor.
— Houve outra ocasião. Quando passou a noite…
— Simon!
Ele sorriu.
— Não me diga que te agredi. Não é possível em uma
mulher que desafia as convenções com cada fôlego.
Aquilo não tinha nada a ver com o decoro. Não
necessitava que lhe recordassem aquela noite; já sonhava
com ela com muita frequência.
— Como está Cora? — Perguntou em vez de responder.
— Quando saí já estava bastante recuperada. Minha
governanta a vigiará. A jovem manifestou certo interesse pela
cozinha, de modo que quando estiver preparada, lhe ensinará
o ofício. E se não puder ficar em nossa casa, há várias casas
perto onde poderiam empregá-la.
— Fala como se já tivesse feito isto antes.
— Muitas vezes — ele respondeu após dar um gole em
sua cerveja. — Barrett House está sempre repleta de criadas e
ajudantes de cozinha. E se não tivermos lugar para mais, a
senhora Timmons as manda para o Colton ou Quint.
— Ah.
— Como que «ah»?
— Por isso Júlia mandou te buscar, não é? E por isso
madame Hartley pôs a jovem aos seus cuidados.
—Sim.
Maggie sorveu seu chá e tratou de reconciliar o que
acabava de descobrir com a imagem que formara do Simon. E
por mais voltas que lhe dava, não conseguia entender o
motivo daquela generosidade. Por sua cabeça passaram um
milhão de perguntas… de verdade contratava qualquer jovem
que se apresentava em sua porta? Como seu pessoal
conseguia encaixá-las?… mas o que saiu de seus lábios foi:
— Por que o faz?
Simon fez a jarra girar em sua mão, formando pequenos
círculos na mesa riscada.
— Porque posso.
— Muitas pessoas enriquecidas, incluída eu, poderiam
dizer o mesmo. Entretanto nunca me ocorreu. Como
começou?
— Há anos, uma jovenzinha se apresentou na entrada de
serviço com o rosto coberto de hematomas, tentando fugir de
um lar pouco acolhedor. Minha governanta veio a mim e
decidimos contratá-la. A palavra se estendeu entre nosso
serviço e não demorou para começar a aparecer amigas e
familiares que pediam emprego. — Encolheu os ombros. —
Minha governanta é uma mulher compassiva.
Pelo visto não era só a governanta.
— Vamos, a carruagem está preparada. — Ficou em pé e
lhe ofereceu a mão. — Devemos seguir nossa viagem.

***

— Temos algum destino concreto? — Maggie perguntou


três quartos de hora depois. — Ou se trata só de parar
quando quiser?
Tinham estado conversando educadamente desde que
saíram da estalagem, mas Simon ainda não havia dito nada
sobre o lugar para onde a levava.
Ele cruzou os braços e sorriu.
— Temos um destino, mas não prefere que seja uma
surpresa?
— Não posso dizer que eu goste das surpresas.
— O que só demonstra que necessita de mais surpresas
em sua vida. A vida é insuportavelmente tediosa se sempre
souber o que há adiante.
— Quem diria que o conde de Winchester é um filósofo?
— Maggie brincou.
— Sou um homem de muitos talentos, lady Hawkins.
Como bem recordará — replicou com um brilho travesso em
seus olhos azuis.
Maggie não pôde evitar, riu. Aquele descarado era
absolutamente encantador, e ele sabia.
— Eu adoro sua risada, Mags. Sempre me encantou.
Pode iluminar uma sala inteira com ela.
Maggie notou uma certa pressão no peito. A felicidade e
a emoção se amontoavam em sua garganta. Era porque tinha
utilizado o apelido carinhoso que utilizava quando eram mais
jovens, ou pelo elogio? Não tinha nem ideia. E, como não
sabia muito bem o que responder, ficou a olhar pelo guichê.
— Minhas palavras te deixam nervosa?
— Sim — balbuciou. — Não posso pensar com claridade
quando diz essas coisas.
Ele meneou a cabeça.
— Disso se trata, minha querida dama. Não quero que
pense. Quero que sinta.
Inclinou-se para frente, agarrou-lhe a mão que tinha
sobre o regaço e puxou.
Antes que tivesse tempo de resistir encontrou-se sentada
ao seu lado. O coração começou a lhe pulsar com força contra
as costelas. O calor a envolveu, e a proximidade de Simon,
que deslizou sua mão nua para segurá-la pelo queixo,
pareceu absorver todo o ar que havia na carruagem. Maggie
notava uma intenso arrepio por todo o corpo, como se suas
terminações nervosas tivessem despertado para lhe recordar
as delícias que tinha vivido em Barrett House… umas delícias
perversamente embriagadoras pelas quais suspirava a cada
noite.
— Simon, basta.
Inclusive ela se deu conta de quão murcha soava aquela
súplica.
— Não posso evitar. Levo toda a manhã tentando resistir.
Mas é muito. — Puxou o laço de seu chapéu e o tirou. Maggie
o ouviu cair sobre o assento vazio. — É tão formosa —
murmurou enredando uma mecha solta entre os dedos.
Soltou-a e olhou como caía contra a bochecha de Maggie. E
então se inclinou sobre ela e Maggie conteve o fôlego. — Morro
por ti, Maggie.
Seus lábios cobriram sua boca, quentes e firmes,
enquanto suas mãos a aproximavam mais. Ela seguia
tratando de apartá-lo, mas o beijo era pausado e persuasivo,
uma doce combinação de fôlegos, enquanto suas bocas se
fundiam. Fechou os olhos e deixou que as sensações a
dominassem, separando de sua mente tudo que não fosse o
tato daqueles lábios sobre os seus. Deus, tinha sentido
saudades. E até esse momento não tinha sido consciente de
até que ponto.
Ele mordiscou e brincou, mantendo o beijo quase dentro
dos limites da castidade, até que ela se retorceu, tratando de
sentar-se em seu regaço para estar mais perto. Cada vez que
Maggie tratava de aprofundar o beijo, ele se apartava
ligeiramente. Maggie esticou os braços com decisão, rodeou-
lhe o pescoço e lhe colocou a língua na boca. O resultado foi
uma faísca instantânea, como se acabasse de jogar uma
brasa sobre um montão de aparas de madeira. Simon tomou
então as rédeas e lhe abriu a boca com sua língua, invadindo,
degustando-a com uma intensidade implacável. A cabeça de
Maggie dava voltas e enredou os dedos nas sedosas mechas
do cabelo de Simon.
Ele deixou sua boca para lhe comer a beijos o queixo, e
desceu seguidamente pela sensível coluna do pescoço para
mordiscar e chupar a pele sob a gola alta de seu casaco de
inverno. Com os dedos intumescidos manipulou os botões e a
pesada peça caiu. Seus lábios seguiram a linha da clavícula e
a expectativa fez com que os seios de Maggie se enchessem
sob a regata e o corpete. O fôlego de Simon caiu como uma
brisa sobre o lenço que cobria o decote de seu traje de viagem
de cor lilás.
— Toda esta estúpida roupa — murmurou deslizando a
mão por seu torso coberto. — Quero ver-te.
— Isso seria um tanto temerário tendo em conta onde
estamos — ela disse em um suspiro.
— Mas não impossível. E eu adoro as temeridades. — E
ato seguido lhe arrancou o lenço do decote. — Acredito que
irei baixando.
À Maggie ocorreram numerosas razões para apartá-lo,
incluindo as muitas formas em que a tinha ferido e ainda
podia feri-la. Mas quando a boca dele ficou a beijocar a parte
dos seios que sobressaía pelo decote, todo pensamento
racional desapareceu. Além disso quando ela tinha feito o que
devia?
Com uma admirável superioridade Simon jogou as
cortinas sobre os guichês e ficaram em uma semi-escuridão.
Os olhos de Maggie ainda estavam se adaptando àquela
escassa luz quando Simon deu um puxão em seu decote o
bastante forte para tirar um seio. E então Maggie lhe rodeou o
pescoço com os braços e compartilharam outro beijo intenso.
Os dedos de Simon procuraram o mamilo e apertaram.
Maggie ofegou em sua boca, e a sensação fez com que por
suas costas descesse uma chicotada de faíscas ardentes.
Deus. Simon apalpou o mamilo até que Maggie começou a
retorcer-se contra o assento, com uma ânsia tão grande que
quase não podia suportar. Queria que lhe suplicasse?
As lentas incursões de sua língua. A pressão
enlouquecedora sobre seu seio. De repente para Maggie não
havia nada que não fosse Simon. Enquanto Simon seguisse
beijando-a, não importava se uns bandoleiros lhes
assaltassem. E quando seus lábios desceram para seguir a
linha de seu pescoço, Maggie aspirou com força.
— Sabe — Simon sussurrou antes de chupar o lóbulo de
sua orelha com sua boca quente e úmida — quanto tempo
levo te desejando? Quantas noites sonhei com sua boca ou
seus seios? Quero que isto se prolongue. Quero…
Maggie voltou a cabeça e procurou seus lábios e lhe fez
calar com sua boca. Aquelas palavras despertavam muitas
lembranças nela, e não era momento de reviver o passado. De
modo que pressionou, tratando de aproximar-se mais. Ele
gemeu e a beijou mais profundamente.
Uns dedos destros abandonaram seu seio e notou o frio
do ambiente nas pernas quando suas saias começaram a
levantar-se. Maggie se sentia febril, ofegante. Simon acariciou
a pele da face interna de sua coxa enquanto sua língua seguia
brincando com a dela, e ela abriu bem as pernas para que
chegasse sem dificuldade. Por favor, queria gritar, e então
deixou escapar um gemido quando finalmente — Deus,
finalmente — Simon apalpou a entrada.
— Jesus, Maggie. — E se interrompeu para ofegar contra
seu pescoço. — Está muito molhada, já está preparada. Quer
que eu entre querida?
O dedo de Simon se moveu em seu interior com uma
deliciosa dureza que a fez estremecer-se. Jogou a cabeça para
trás, fechou os olhos e tragou ar.
— Ah — ele sussurrou. — Você gosta disto. Provarei com
mais um.
Tirou o dedo e retornou para distendê-la mais e as costas
dela se arqueou ante aquela doce invasão. Com lábios firmes
se levou o mamilo ao interior quente de sua boca. Chupou
com força e utilizou a língua para aplacar antes de arranhar
ligeiramente a ponta com os dentes. Cada vez que puxava e
lambia avivava as chamas que a queimavam por dentro. Seus
músculos se esticaram, enquanto Simon seguia trabalhando-
a com as mãos e a boca, levando-a a um prazer quase
insuportável. Maggie não poderia fazer nada a não ser reagir,
porque Simon era um hábil professor, e seu corpo era a tela
sobre a qual estava trabalhando.
—Simon, agora.
Cravou-lhe as unhas nos ombros.
— Chiii. — Levantou a cabeça. — Se não for com cuidado
faremos a carruagem cair. Isto é suficiente. Deixa que eu te dê
prazer, Mags.
— Não, não é verdade. Tomaremos cuidado. Por favor —
Suplicou.
Era o desejo que falava, Maggie sabia, mas naquele
momento não lhe importava. Deslizou a mão sobre as roupas
dele até que o encontrou, duro e quente sob a palma.
Ele vaiou entredentes e a segurou pelo pulso.
— Basta. Não precisa que eu te diga o que acontecerá se
insistir em ir por esse caminho.
Ela esticou os dedos tratando de chegar ao membro ereto
com eles.
— Não dizia que necessito de mais surpresas em minha
vida?
Simon lutava visivelmente para não perder o controle,
com a mandíbula apertada.
— A dureza do meu membro não teria que te
surpreender. De verdade, só tem que entrar na mesma
habitação que eu e me põe duro.
A mão com que lhe segurava o pulso se afrouxou e
Maggie não desperdiçou a oportunidade. Seguiu seu contorno
através das calças, pressionou com a base da mão sobre ela.
Simon se estremeceu.
— Maggie, eu…
— Deixa de falar, Simon — ela sussurrou. — Só sinta.
Simon apoiou os braços contra o assento para sustentar-
se. Seu peito se sacudiu quando Maggie roçou seu corpo,
observando atentamente seu rosto para ver sua reação.
Embora o tinha desenhado muitas vezes, jamais tinha visto a
expressão feroz que tinha naquele momento, de prazer e de
dor. Gostava de saber que produzia esse efeito nele quando o
tocava.
Maggie o tocava cada vez com maior audácia, e sua
respiração trabalhosa ressoava naquele reduzido espaço.
Quando tocou os testículos Simon aspirou com força.
Inclinou-se, agarrou-a pela cintura e a levantou para colocá-
la sobre ele. As saias rodearam sua cintura. Com mãos
furiosas Simon se desabotoou as calças enquanto Maggie se
inclinava e o beijava na testa, na têmpora, na bochecha, na
ponta do nariz. Simon lhe recolheu as saias com uma mão e
as levantou para vê-la, e utilizou a mão livre para colocar-se
em posição. Maggie não perdeu tempo e se instalou sobre ele,
ansiosa por ter tudo aquilo dentro de si.
— Espera. — Simon a deteve, segurando-a pela cintura.
— Quero olhar. Se jogue para trás. Apoia as mãos em meus
joelhos.
Ela jogou um braço para trás um pouco insegura para
apoiar a mão no joelho, mas seguiu segurando-se em seu
ombro com a outra mão.
— Adiante. Eu lhe seguro — ele disse com olhos escuros
e sérios. — Não te deixarei cair, minha vida, prometo-lhe isso.
Aquelas palavras chegaram ao coração de Maggie. Tinha
imaginado ou tinham outro significado mais profundo?
Soltou-lhe o ombro e se tornou para trás. Graças a Deus que
se pôs o espatilho curto para a viagem, porque inclusive
assim lhe custava respirar.
Simon iniciou uma invasão enlouquecedoramente
conscienciosa de seu corpo. Suas pálpebras batiam as asas.
Oh, sim. Deus, sim. A postura impossível, a ligeira pontada
daquilo tão comprido enchendo-a… era melhor inclusive do
que recordava. A carruagem se sacudia, mas Simon não
pensava correr além da conta. Baixou-a com cuidado até que
ficou totalmente embainhado.
— Maldição, é adorável. A sensação quando me tem
dentro…
As palavras ficaram no ar, e Simon fez girar os quadris
para empurrar com suavidade. Os dois gemeram. Outra vez,
mas agora mais dentro. Maggie ofegou, sentindo uma
explosão de faíscas que lhe subiam pela coluna. Atraiu-a para
diante para roubar um beijo comprido e desesperado de sua
boca. O movimento das rodas fez com que seus corpos
colidissem, mas não era suficiente. Como se atuassem por
vontade própria, os quadris de Maggie começaram a mover-se
criando a deliciosa fricção que ansiava. Simon apartou a boca
e jogou a cabeça para trás, contra o respaldo do assento.
— Deus, sim. Me monte, Mags.
Animada, ela apoiou os braços na parede da carruagem e
se ondulou sobre ele. Cada vez que saltava o casulo inchado
que coroava seu sexo roçava contra o corpo dele. E quando a
boca de Simon chupou o mamilo descoberto ela se moveu
mais rápido, correndo para aquela felicidade que só tinha
conseguido encontrar quando estava com ele. Já tinha
deixado de questionar o que Simon fazia com ela. Havia algo
neles que ao fundir-se criava uma reação incendiária, como
quando mesclava duas cores totalmente opostas e conseguia
um tom perfeito.
Um orgasmo ao mesmo tempo feroz e doce a recordou.
Ofegou e se sacudiu enquanto os músculos de seu corpo se
fechavam com força sobre o membro ereto e Simon seguia
empurrando de debaixo. Quando ela deixou de sacudir-se
Simon a segurou com força e a apartou de repente. Com os
músculos tensos agarrou-se o membro e o fez subir uma vez
mais antes de ejacular sobre seu ventre. Gemeu, com os olhos
fechados pelo prazer, enquanto se derramava.
Nesse momento o eixo posterior do veículo se partiu.

***

Simon cruzou os braços e contemplou os danos. Ele e


Maggie estavam ilesos, um pouco doloridos, mas pelo resto,
ilesos, mas a carruagem tinha ficado bastante maltratada.
Estava derrubada sobre um flanco, com um eixo quebrado, e
faltava uma roda. Não, esse dia já não haveria mais passeios
em carruagem.
Eles tinham ido muito pouco. Simon, com muita
dificuldade, começava a se recuperar depois de um orgasmo
espetacular quando ouviram um forte ruído. Pensando com
rapidez, segurou Maggie e se agarrou o melhor que pôde. É
desnecessário dizer que os cocheiros franceses são
conhecidos por seu talento na hora de manter a calma
durante um acidente, porque se perdessem o controle dos
cavalos alguém podia acabar morto.
Entretanto, os cocheiros se comportaram
admiravelmente. Quando o veículo perdeu a roda traseira e
começou a arrastar-se por um flanco, tinham conseguido
fazer os quatro cavalos diminuirem bastante. E ao final se
detiveram. Simon arrumou bem as roupas, ajudou Maggie
com as suas e logo a ajudou a sair pela parte de cima do
veículo.
Maggie, que agora tinha posto seu chapéu, casaco e
capa, estava junto a ele no caminho. Inclinou-se sobre ela.
— Disse-te que iríamos derrubar esse traste, libertina
insaciável.
Ela lançou uma gargalhada, com os olhos verdes
cintilando, e Simon sentiu que seu peito se enchia de emoção.
Adorava vê-la feliz.
Não, precisava vê-la feliz. Durante anos tinha pensado
que era enganosa e ardilosa, e que enquanto ele suspirava,
ela tinha se dedicado a dar asas ao Cranford e outros. Mas
Cranford tinha mentido. Maggie dizia que não houve nenhum
encontro amoroso durante o ano de sua apresentação em
sociedade, que era virgem quando se casou com o Hawkins. O
que significa que teria que haver acreditado então, que
deveria havê-la defendido. Mas não o fez e, em vez disso tinha
lhe dado as costas, igual a boa parte da alta sociedade. Algum
dia poderia compensar uma estupidez tão imperdoável?
Certamente não, mas morreria no intento.
— Bom — Maggie disse. — O que fazemos agora?
— Caminhar.
Ela voltou a cabeça e observou os campos devastados e
as colinas que os rodeavam. Por sorte, pensou Simon, não
havia neve.
— Para onde?
Ele encolheu o ombro.
— A aldeia mais próxima. Perguntarei ao nosso cocheiro.
Simon falou em francês com um dos cocheiros e
descobriu que seu destino original, Auvers, não estava longe.
Ele e Maggie podiam chegar em menos de uma hora. O
cocheiro insistiu em lhe mostrar a origem do problema, então
o acompanhou à parte de trás da carruagem, onde o homem
lhe assinalou o eixo retorcido e cortado. O corte era limpo. E
isso só podia significar uma coisa.
42
— C’était délibéré — Simon disse.
— Oui — concedeu o cocheiro.
Uma longa lista de insultos passou pela mente de Simon.
Alguém tinha planejado aquele acidente e certamente tinha
manipulado o veículo durante sua última parada. Mas quem?
Notou que um vento frio se levantava e fazia bater as asas de
seu casaco, e decidiu preocupar-se com isso mais tarde.
Maggie morreria de frio se não a levasse a algum lugar
resguardado.
Recolheu os objetos de Maggie e entregou dinheiro mais
que suficiente aos cocheiros para cobrir os inconvenientes. E,
com a promessa de enviar ajuda assim que ele e Maggie
chegassem ao povoado, puseram-se a andar pelo caminho.
Caminhavam depressa e diziam pouco. Nesse dia tinham
chegado a uma espécie de entendimento e Simon não queria
romper o feitiço. Precisavam passar tempo juntos, conhecer
um ao outro, e uma discussão podia facilmente romper esse
frágil vínculo. De modo que caminhou em silêncio, feliz por
poder concentrar-se no que tinha acontecido na carruagem
momentos antes do acidente. A imagem decadente de Maggie
em cima, arqueando-se para trás, de seu pênis deslizando-se
ao interior daquela deliciosa umidade… ora, certamente não
lhe teria importado ter em sua propriedade um quadro como
esse. Possivelmente encarregaria Lemarc para que o pintasse
para ele, pensou com um sorriso.
— No que pensa? — Maggie perguntou-lhe com seu
agudo olhar pousado em seu perfil.
Ele a olhou.
— Em ti.
— Em mim? Sobre o que?
— Em ti em cima. Me montando com as mãos às costas.
Os seios erguidos e rígidos…
— Simon! — Deu-lhe um empurrão no ombro. — Perdeu
o juízo?
Ele sorriu.
— Ninguém pode nos ouvir. E não te disse que queria
que fôssemos totalmente sinceros um com o outro? Jamais te
mentirei, Mags.
— Sem mais mentiras? Nenhuma?
— Nenhuma.
— Humm. — Esse som devia ter lhe alertado. — Por que
não se casou? A estas alturas o normal seria que quisesse
assegurar o legado familiar com uma família e que já tivesse
três ou quatro filhos guardados em algum lugar do campo.
Um som afogado de surpresa brotou dos lábios de
Simon. Como não, era muito ardilosa, e não ia se privar de
fazer a única pergunta que não podia responder com
sinceridade. Mas omitir detalhes não era o mesmo que
mentir, não é verdade?
— Estive a ponto de fazê-lo em uma ocasião. Inclusive
pedi a minha mãe, a condessa, os rubis dos Winchester. Mas
ao final não saiu bem.
— O que aconteceu? Ela te rejeitou?
— Não cheguei a pedir-lhe, casou-se com outro.
Maggie se mordeu o lábio, um gesto que lhe parecia
adorável.
— Não vai dizer-me quem era?
— Não. — Ela franziu o cenho, e Simon riu. — Vamos, o
que importa isso agora?
Maggie se recuperou um pouco depressa demais.
— Oh, não, claro. Não importa. Não me importa.
Interessante. E posto que ela tinha iniciado aquele tema,
obrigou-se a fazer a única pergunta cuja resposta temia
escutar.
— Hawkins lhe… tratou honoravelmente, como um bom
marido deve fazer?
Ela guardou silêncio um longo momento, e deu um chute
em uma pedrinha com o pé.
— Não foi cruel comigo, se é isso o que pergunta — disse
ao final.
Respondia-lhe com evasivas.
— Era amável? Ele… se preocupava com você?
Sentia uma forte pressão no peito, mas precisava
conhecer a resposta. Durante anos se perguntou como iria
com um marido tão mais velho, que podia ser seu pai.
— Em geral, evitava-me. Não acredito que soubesse como
tratar uma jovem arruinada por um escândalo e que,
entretanto, não se sentia envergonhada. Nunca entendeu meu
amor pelo desenho e a pintura, mas não me impediu. Se tiver
que ser sincera, passava a maioria das noites com sua
amante, e isso ia muito bem aos dois.
— Foi feliz?
— Não especialmente, mas tampouco era desgraçada.
— E diz que eu tenho habilidade para falar.
Maggie esboçou um leve sorriso.
— Mas é a verdade. Em geral, podia fazer o que eu
queria. Cerquei amizade com algumas mulheres do povoado.
Os artistas gostam de passar muito tempo sozinhos, e eu tive
tempo de sobra durante meu matrimônio. Utilizei-o para
estudar, ler e praticar. E não me arrependo.
O pequeno nó que Simon tinha sentido no ventre desde
que soube do engano do Cranford se suavizou. Entretanto,
não gostava da ideia de que Hawkins não amasse Maggie.
Qualquer homem agradeceria por poder tê-la em sua cama e
teria dedicado sua vida a agradá-la.
Para não falar do fato de que Hawkins tinha sido o
primeiro, não ele. Cranford o pagaria, embora só fosse por
isso.
— E o que me diz de sua amante?
Simon quase dá um tropeção quando ouviu a pergunta.
Poderia lhe assinalar o pouco apropriado do comentário, mas
com Maggie esse tipo de observações não servia muito. O
descaramento era algo que nunca lhe faltava.
— Refere-se à Adrianna. É atriz, conheci-a no Drury
Lane. Que mais quer saber?
— É verdade que a visita toda terça-feira e sexta-feira de
noite?
Desta vez sim tropeçou. Quando conseguiu recuperar o
equilíbrio voltou-se para olhá-la furioso.
— Como demônios sabe você isso?
— Então é verdade.
Ele voltou a lhe oferecer o braço.
— Era verdade. Já não. Adrianna e eu separamos nossos
caminhos.
— Humm.
— Cada vez que faz isso me ponho a tremer. Poderíamos
deixar de falar da minha antiga amante?
— Quem ia pensar que era tão dissimulado? — Maggie
brincou.
— Oh, acredita nisso? — Inclinou-se sobre ela. — Te
mostrarei quão dissimulado sou quando formos na carruagem
de volta, minha senhora. Já veremos quem ri então.
Ela franziu os lábios e entreabriu as pálpebras
sedutoramente. E Simon sentiu que seu pênis saltava quando
ouviu que dizia:
— Estou impaciente.
Capítulo 17
— Vê? — Simon assinalou uma pequena catedral de
pedra situada na colina. — Église de NotreDame d’Auvers.
Terminaram de subir a estreita escadaria e se detiveram
ante uma elegante igreja que, de fato, parecia-se muito à
grande obra mestra do gótico de Paris. Maggie tinha passado
muitas horas desenhando a Notre Dame original, de modo
que em seguida reparou nos pontos que tinha em comum
com esta versão em pedra. Os pilares, os estranhos animais,
43
as figuras humanas, para não falar da abside e a torre do
campanário… sim, a semelhança era notável.
Maggie teve que rir.
— E eu que pensava que tinha mentido para mim.
Ele meneou a cabeça.
— Já te disse que sem mais mentiras.
— Sim, mas me fez acreditar deliberadamente que íamos
ficar em Paris.
— Não, isso é o que você supôs.
Ela pôs os olhos em branco.
— Já devia ter entendido que não tem sentido discutir
com um homem que pode dobrar o Parlamento ao seu desejo.
Aproximou-lhe os lábios ao ouvido.
— Que, por isso pude comprovar, não é nem
remotamente tão divertido como dobrar a ti.
Pelo calor que notava, Maggie soube que se ruborizou. O
muito descarado. Aproximou-se do edifício e agradeceu pelo
refresco que tinham tomado antes em um pequeno café.
Quando chegaram ao Auvers-Sur-Oise tinha os dedos dos pés
quase congelados. Agora que se recuperara adequadamente
da caminhada, aquela estrutura majestosa pedia a gritos um
esboço.
— Toma. — Simon lhe empurrou a mala com seus
materiais contra a mão. — Pela cara que põe vejo que quer
fazer um estudo. — Deu-lhe um beijo no nariz e se voltou
para ir-se. — Passe bem.
— Espera — ela exclamou às suas costas. — Aonde vai?
Ele agitou a mão.
— Por aí. Não tema, virei te recolher antes que escureça.
Maggie viu desaparecer seus ombros largos escada
abaixo. De verdade pensava deixar a tarde para ela?
Animada, aproximou-se com seus materiais de um
banco. O sol aparecia agora no céu nublado e dava certa
sensação de calidez naquele frio dia invernal. Mas com aquele
clima não poderia ficar fora muito tempo. De modo que
decidiu fazer um esboço preliminar e acabá-lo dentro.
Tirou-se as luvas e escolheu um lápis-carvão. Logo
agarrou seu caderno. Era hora de ficar a trabalhar.
Tal como tinha prometido, Simon a foi recolher quando
começava a cair a tarde. Já fazia horas que se transladara ao
interior da igreja para não congelar. Enquanto estava ali
completou uns esboços do que via e logo ficou a trabalhar
com as peças de paisagens.
— Como foi a tarde, querida minha?
Instalou-se na fileira da frente com a pele rosada pelo
frio, escrutinando seu rosto com seus penetrantes olhos
azuis.
Maggie se esticou e fez rodar os ombros. Senhor, aqueles
bancos de madeira não foram feitos para resultar cômodos.
— Adorável. Produtiva. Mas já estou pronta para
retornar a Paris.
Ele apartou o olhar.
— Posso ver no que está trabalhando?
Ela colou os papéis contra o peito.
— É óbvio que não.
Uma sombra cruzou o rosto de Simon e pareceu que ia
ficar em pé.
— Vamos?
— Simon. — Levantou-se para lhe tocar o ombro. —
Nunca mostro meu trabalho a ninguém até que esteja
acabado… ou ao menos não até que não estou medianamente
satisfeita com ele. Não é nada pessoal.
— Não será outra vinheta do Vinochester, não é?
Provocando um acidente em uma estrada na campina
francesa?
— Certamente que não. Estou desenhando paisagens de
Gales.
Ele assentiu e assinalou com o gesto à porta.
— Então te esperarei lá fora.
Algo em sua atitude a inquietava. Quando se separaram
fazia umas horas se mostrou agradável e coquete. Agora
parecia irritado. De verdade lhe preocupava que fizesse novas
caricaturas do Vinochester? Não tinha feito nenhum novo
desenho desde o dia em que se encontrou com ele na loja da
senhora McGinnis. De fato, o que fez depois do jantar na casa
dos Colton tinha acabado no fogo. Ultimamente tinham
acontecido muitas coisas entre eles e já não se sentia cômoda
com aquele personagem. Teria sido uma falta de respeito, e
Simon…
Deixou-se cair de novo sobre o banco e pestanejou pela
dor que notava nas nádegas. Senhor. Prometeu-se que jamais
deixaria que nada nem ninguém interferisse em sua arte.
Quando tinha convertido aquele homem em alguém tão
importante para lhe fazer mudar seus planos? Certo, já não
tinha uma causa justificada para vingar-se; Cranford também
o tinha enganado. Mas a amargura, a ira, a dor por todas as
injustiças que se cometeram com ela… a ele não podia lhe
doer nem a metade.
Curioso. Possivelmente era pelos cuidados que Simon lhe
estava dedicando. Ou por sua frágil aproximação. A arte
sempre seria o mais importante em sua vida, mas pela
primeira vez sentia que talvez pudesse deixar um pouco de
lugar para outros… interesses. mordeu-se o lábio para conter
uma risadinha. Uma risadinha. Ela… o temível Lemarc, que
tinha feito os políticos e a alta sociedade londrina
cambalearem, quase deixou escapar uma risadinha. Algo
inaudito.
É claro, Maggie não era só Lemarc; também era uma
mulher. E essa mulher tinha descoberto que aquele homem
em particular gostava de sua risada. O muito louco, pelo visto
gostava de muitas coisas dela. E o mais surpreendente é que,
embora lhe tivesse mostrado seu pior lado, não tinha saído
fugindo.
Maggie recolheu suas coisas em seguida e se dirigiu à
saída. Empurrou as pesadas portas de madeira e o viu
apoiado contra a fachada com um dos pés contra a pedra.
Alto, atlético, bem proporcionado, com um rosto tão bonito
que lhe doía o coração de olhá-lo.
Pôs-se a andar para ele com um sorriso nos lábios.
Ele a olhou de cima a baixo.
— Vejo-te muito contente para ter passado três horas
dentro de uma igreja.
— Estava calmo, e tinha espaço e luz suficientes. Que
motivo podia ter para me queixar? — Ele esticou o braço e
pegou a maleta das suas mãos. — E você, o que fez esta
tarde?
— Isto e aquilo. Nada digno de menção. Cuidado — disse
quando começaram a descer o estreito lance de degraus.
O Sol, tingido agora de um laranja brilhante, estava se
pondo, e se viam luzes acesas nas janelas das casas do
povoado. As ruas estavam desertas, e naquele momento
certamente todo mundo estaria desfrutando de um pot-au-
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feu ou uma cassoulet com sua família. De repente, morria
de fome.
Chegaram ao pé da escadaria, mas Simon não dizia
nada. Maggie o aferrou pelo braço.
— Já devia saber que não haverá mais caricaturas do
Vinochester.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— De verdade?
Ela assentiu.
— Decidi renunciar ao personagem.
— Eu gostaria de poder dizer que terei saudades. Mas
sejam quais forem seus motivos, agradeço-lhe isso.
Maggie não tinha intenção de lhe dizer quais eram esses
motivos, então perguntou:
— Vamos comer antes de ir?
— Te direi… que não vamos. Ao menos não essa noite.
Maggie parou e o olhou.
— Como não?
— É muito tarde para viajar. Passaremos a noite em
Auvers. Procurei uma habitação.
— Mas logo estará escurecendo. Poderíamos estar em
Paris em umas poucas horas. Por que não partir já?
Ele meneou a cabeça.
— Não. Não quero viajar de noite. Não contigo. Não é
seguro. Voltaremos pela manhã.
Maggie cruzou os braços sobre o peito. Aquilo era um ato
espontâneo… ou tinha planejado desde o começo? Aquela
manhã virtualmente a tinha sequestrado e agora a tinha
presa na campina francesa.
— É isto o que procurava desde o começo?
— Não seja ridícula… e segue andando se não quiser que
nos congelemos. — Puxou-a pelo braço e a guiou para as
casas. — Eu não planejei o acidente.
— Quando diz que procurou uma habitação, se refere a
uma ou duas?
Simon suspirou e seu fôlego saiu em uma nuvem
branca.
— Se preferir habitações separadas posso conseguir
outra.
Maggie pensou.
— Não tenho nenhuma criada comigo.
Ele fez uma careta.
— Isso é verdade.
— Então, suponho que você terá que me ajudar.
Simon mostrou os dentes na quase total escuridão em
um sorriso predatório que quase a deixa sem sentido.
— Sim, suponho.

***

À manhã seguinte Simon despertou junto a um corpo


suave e feminino. Maggie. Teve que conter o sorriso. Rosas e
um toque de baunilha. Nunca se cansaria desse aroma.
Tinha-a tomado duas vezes na noite anterior, mas seu corpo
já lhe estava pedindo outro round. Claro que possivelmente
fosse porque notava o delicioso traseiro de Maggie contra seu
quadril. Como podia ser tão tentadora inclusive quando
dormia?
Notou que o invadia uma necessidade premente, a
necessidade de abraçá-la, de protegê-la de qualquer possível
mal. Ridículo, considerando que era a mulher mais forte que
tinha conhecido; não necessitava de nenhum herói que a
defendesse. Mas apesar disso, Simon descobriu que morria
por desempenhar esse papel.
Possivelmente eram as perturbadoras notícias do dia
anterior que despertavam nele aquelas emoções estranhas e
preocupantes. O acidente tinha sido provocado. Quando o
veículo foi transladado até Auvers Simon passou a maior
parte do dia com os cocheiros tratando de procurar indícios
que lhe permitissem saber quem era o responsável. Alguém
tinha prejudicado o eixo e não retrocederia até descobrir
quem tinha sido.
Mas naquele momento havia outros assuntos que
reclamavam sua atenção.
Nem todas as mulheres eram favoráveis aos encontros
amorosos matinais… mas isso não podia saber até que
tentasse. Alinhou seus dois corpos com cuidado, as costas de
Maggie contra seu peito, seu pênis ereto entre suas nádegas
redondas. Então seus dedos procuraram o seio e começou a
apalpar o mamilo. Levantou-se em seguida, quase suplicando
seus cuidados. Logo se deslocou ao outro e lhe dedicou os
mesmos cuidados. A respiração de Maggie mudou, já não era
profunda e longa, mas sim superficial. «Está acordada.»
Inclinou-se para beijar a pele sensível de detrás da
orelha, porque sabia que gostava especialmente. Sem pressa
brincou com seus seios, massageando e acariciando,
enchendo suas mãos com as formas suaves e femininas. Pele
cremosa. Curvas divinas. Uma boca que tentaria um santo.
Com ela nunca tinha o suficiente, e naquele momento ele
estava tão duro que lhe doía.
Não podia conter-se mais, de modo que seus dedos
procuraram o ponto molhado entre suas pernas. Ela ofegou, e
sua mão o segurou pela cintura para aproximá-lo mais. «Está
preparada.» O desejo se retorceu em seu ventre, e a
necessidade de possuí-la se converteu em algo tão essencial
como respirar. Levantou-lhe a perna ligeiramente, colocou-se
em posição e entrou nela com um único movimento.
Encaixava nele perfeitamente. Quente. Apertada. Simon
apertou os dentes, deteve-se um momento. Não tinha sentido
correr. Queria desfrutar daquilo. E então Maggie se retorceu e
empurrou seu corpo contra o dele, levando-o mais dentro, e
esteve perdido.
Aquilo não demorou para passar de um jogo a ser algo
mais sério. Os quadris de Simon se chocavam contra o
delicioso traseiro de Maggie com cada empurrão. Quando
notou que se aproximava do clímax ficou a trabalhar o
pequeno casulo do prazer de Maggie em pequenos círculos,
rítmicos e rápidos, até que lhe cravou as unhas no braço,
gemendo. Deus, como gostava da resposta que provocava
nela.
Por dentro as paredes do corpo de Maggie se fecharam
com força e lançou um grito enquanto se estremecia. Simon
tratou desesperadamente de conter-se até que ela deixasse de
estremecer-se, mas lhe resultou impossível. A pressão se
iniciou na base da coluna e aumentou com rapidez, e com
muita dificuldade lhe deu tempo de sair para ejacular sobre
os lençóis.
Tratando de respirar, aproximou Maggie do seu corpo. O
fogo se apagou durante a noite, então pegou a colcha e cobriu
os dois.
— Que forma adorável de dizer bom dia — Maggie disse
levantando os braços e espreguiçando-se contra ele.
— Humm, isso pensei. É a forma que eu mais gosto de
dar bom dia.
— Desperta com uma mulher ao lado com frequência,
não é? — Maggie perguntou depois de uns momentos.
Simon notou o receio de sua voz. Segurou-a por um
ombro e a obrigou a dar a volta para olhá-la.
— Não, Maggie, não o faço. Não houve tantas mulheres
estes últimos anos, e certamente nenhuma que significasse
algo para mim. — Isto deve tê-la satisfeito, porque fechou os
olhos e se aconchegou contra ele. — E você? Alguma vez teve
algum homem em sua cama ao chegar a manhã?
— Nunca.
— Ah. — Não gostava que seus amantes ficassem a
passar a noite com ela. Curiosamente gostou daquele detalhe.
Gostava de pensar que ele era o primeiro que podia abraçá-la
enquanto dormia. Sua mão acariciou o suave veludo de seu
quadril. — Pois então não sabem o que perderam.
Maggie tinha ficado tão quieta, tão calada, que temeu
havê-la ofendido. E então levantou as pálpebras.
— Só houve três homens. Um foi meu marido e você é
outro.
Simon notou uma forte pressão no peito que não o
deixava respirar. Os pensamentos passavam atropelados por
sua cabeça, coisas que havia dito, coisas que tinha dado por
certas. Mas a verdade estava ali, na expressão grave dos
verdes olhos de Maggie. Não, aquilo não podia ser verdade.
— Três? — Perguntou com voz áspera.
Maggie encolheu um ombro delicado.
— Tendo em conta como me chamam, qualquer um
pensaria que foram mais, mas só houve três.
— Eu e Hawkins. E quem é o terceiro?
Maggie franziu os lábios e Simon supôs que a pergunta a
agredia. Mas precisava saber a resposta.
— Me diga, Maggie — perguntou apressando-a com
suavidade.
— Um artista. Conheceu-o no teatro da ópera.
— Ah. — De modo que não se equivocou. O gesto
possessivo com que lhe pareceu que aquele homem a tocava
não tinha sido fruto de sua imaginação. Aquilo não o
tranquilizou, precisamente. Voltou-se para tombar-se sobre
as costas, apoiou as mãos atrás da cabeça e ficou olhando ao
teto. — Não estranho que se indignou tanto quando te disse
que te perdoava. Com certeza te deu vontade de me
esbofetear. Fiz umas hipóteses de tudo injustas sobre ti.
— Sim, o fez. E sim, me passou pela cabeça te
esbofetear. Muitas vezes. — O suave veludo de sua mão se
deslizou por seu ventre e suas costelas. — Mas me alegro de
não ter feito.
A unha de Maggie roçou o mamilo de Simon e ele aspirou
com força.
— Para-lhe disse. — Temos que discutir isto.
— Não. Certamente que não.
E se incorporou para aplicar a boca quente e exuberante
sobre os mamilos dele, acariciando com a língua e
arranhando brandamente com os dentes. Simon notou o
prazer lhe percorrer a coluna.
— Maggie — gemeu.
Estava tratando de distrai-lo. Quis tirar as mãos de
detrás da cabeça para segurá-la, mas não o deixou.
— Fique assim. Deixa que eu te faça coisas feias.
O pulso do Simon se acelerou.
— Eu estive te fazendo coisas feias até há pouco. Não
poderei voltar a me excitar tão rápido.
Maggie deslizou sua boca pelas costelas e o ventre de
Simon, aplicando suaves beijos que o fizeram estremecer-se.
— De verdade? — Perguntou, e então se colocou entre
suas pernas.
O pênis de Simon deu uma sacudida quando Maggie
jogou seu fôlego quente sobre aquela pele sensível. Em sua
mente despertou com vividez a lembrança do membro na boca
dela na noite anterior. A umidade, a determinação com que
chupava, decidida a manter um ritmo perfeito… que Maggie,
uma dama em toda regra, dignasse-se lhe dar prazer com sua
boca e inclusive parecesse desfrutar disso, quase lhe fez ficar
a chorar de agradecimento. Notou que seu membro se
inchava.
— Humm — Maggie disse lambendo os lábios enquanto
seus olhos passavam de sua ereção ao seu rosto. — E você
duvidava.
Simon fechou os olhos enquanto ela chupava e passava o
pênis semiereto pela língua. O paraíso. Aquilo era o paraíso.
— Um homem necessita de um momento para recuperar-
se — murmurou. As unhas de Maggie arranharam levemente
a pele de seu testículo e Simon se sacudiu. O sangue afluiu
ao seu pênis pela deliciosa tortura. — Mas vejo que não
deveria ter duvidado de ti.

***

Uns dias mais tarde Simon entrou no abarrotado


refeitório de seu hotel e não lhe surpreendeu comprovar que
quase todas as mesas estavam ocupadas. O Hotel Meurice
servia pratos tanto franceses como ingleses, e isso o fazia
especialmente popular entre os viajantes britânicos que
tinham saudades do sabor de casa. Conforme pôde ver, seus
convidados já estavam ali. Excelente. Quanto antes acabasse
aquela refeição, antes poderia escapulir-se para reunir-se com
Maggie.
O calor se estendeu por sua virilha. A semana passada
tinha sido uma das melhores de sua vida. Desde sua volta de
Auvers, cada noite ele e Maggie jantavam juntos e logo se
retiravam às habitações dela. Simon ia embora antes que o
serviço despertasse, embora ela dizia que não era necessário.
Entretanto, queria evitar as fofocas, por ela, ao menos até que
estivessem casados. Ainda não a tinha pedido, mas não era
mais que um mero formalismo. Maggie o queria, e sob
nenhuma circunstância a deixaria escapar agora que por fim
havia tornado a encontrá-la depois de tantos anos.
A expressão de Markham se iluminou quando o viu
aproximar-se.
— Winchester! Chegou bem a tempo. Acabamos de pedir
uma garrafa de clarete.
— Markham pediu clarete — Quint lhe corrigiu. — Eu
pedi chá.
— É claro. E obrigado pela elucidação. — Simon se
sentou na cadeira que estava vazia. — O brigado por nos
acompanhar, Quint.
— Suspeito que não terei mais oportunidades de ver-te.
— Como é isso? — Markham perguntou. — Pensei que os
dois se alojassem neste hotel.
— Pois só um dos dois — Quint disse baixo.
— Oh. Winchester encontrou algum entretenimento aqui
em Paris? — Markham se inclinou para aproximar-se. — As
francesas são tão atrevidas como ouvi dizer?
Simon pensou em Maggie, que virtualmente tinha
cunhado a palavra «atrevida», e mal pôde conter o sorriso.
Mas não ignorou um detalhe, que Markham tinha tentado
conquistá-la. Aquela ideia apagou qualquer sentimento de
alegria da conversação.
— Não seria muito cavalheiresco por minha parte se me
puser a falar depois do ato — disse enquanto um garçom lhes
servia o clarete.
Pediram a comida e falaram de temas sem importância
até que chegaram os pratos. Por experiência, Simon sabia que
os assuntos sérios se falam melhor com o estômago cheio e a
sede saciada. Portanto, esteve escutando uma ladainha de
detalhes sobre as coisas que Markham tinha estado fazendo
em Paris. Quint fazia perguntas educadas enquanto Simon
tratava de evitar que sua cabeça se perdesse em seus
pensamentos. O que não era fácil, posto que acabava de
ensinar à Maggie uma nova postura que ela dizia que era sua
favorita. A lembrança era tão vívida, tão sedutora, que
agradeceu por ter uma mesa que o cobrisse.
— Volta conosco, Winchester — Quint disse quando lhes
serviram a comida.
— Minhas desculpas.
Sim, tinha que deixar de pensar na imagem do delicioso
traseiro de Maggie enquanto ele empurrava…
— Deve estar pensando nesse affair francês — disse
Markham. — Embora deva dizer que me surpreende. A
metade de Paris especulava com a ideia de que você se
deitava com a rameira.
Simon deixou sua faca e garfo com cuidado contra a
borda de seu prato e se inclinou para frente.
— Markham, se voltar a falar da dama de uma forma tão
desrespeitosa nos veremos às caras em um campo ao
amanhecer.
Não deu atenção ao pesado suspiro de Quint e seguiu
concentrado em Markham.
O homem pestanejou e sua papada carnuda tremeu.
— Que me crucifiquem. É lady Hawkins, não é? Os
rumores são verdade.
Simon voltou para seu prato.
— Meus assuntos amorosos não são da incumbência de
ninguém.
Fez-se o silêncio, e a disposição de Markham mudou, seu
ânimo brincalhão se desvaneceu com a mesma rapidez com
que o pombo assado desapareceu de seu prato. Seus lábios
estavam apertados, e se via claramente que se sentia
desgostoso. O motivo não era nenhum segredo. O homem
tinha deixado muito claras suas intenções com respeito a
Maggie… esperava poder tê-la na cama. Mas Maggie não tinha
correspondido aos seus intentos. E isso não era culpa do
Simon.
Quint se esclareceu garganta.
— Pergunto-me se voltará a chover.
Markham, que seguia totalmente concentrado em sua
comida, grunhiu a modo de resposta. Simon e Quint
cruzaram um olhar. Maldição, aquilo não ia bem. Necessitava
do apoio de Markham; aquele homem tinha um pequeno
grupo de seguidores no Parlamento e podia influir
notavelmente neles.
Quando retiraram os pratos da mesa Markham estava
com um humor bastante azedo. E apesar de tudo, Simon
precisava ganhá-lo para sua causa.
— O que acha de conversarmos sobre meu projeto de lei,
Markham? — Sugeriu. — Se quiser pode me explicar os
aspectos que não lhe convencem e podemos discuti-los.
Markham terminou seu clarete e deixou o copo na mesa.
— Não é necessário. Já resolvi todas as minhas dúvidas.
— Apartou a cadeira da mesa e arrumou bem seu casaco. —
E não terá meu apoio, Winchester.
Simon apertou a mandíbula.
— Posso perguntar a razão?
— A razão pouco importa. Mas lhe garanto que farei o
possível para assegurar seu fracasso.
E dito isto se deu a volta e se afastou sem olhar para
trás. Simon o viu partir estupefato. É possível que o ciúme
tivesse provocado aquela mudança em sua atitude?
— Ora, parece que a rameira acabou de te custar seu
primeiro voto.
Simon atravessou Quint com um olhar severo. Seu
amigo levantou as mãos.
— Não pretendia ser desrespeitoso. Tenho a senhora em
muito alta estima. Mas está claro que Markham esperava
conseguir seu afeto e não gostou nada que o tenha derrotado
nesse mister.
— É absurdo, sobretudo porque a dama jamais lhe deu
nenhuma amostra de afeto.
— Eu não diria tanto. Não sei se recordará o jantar em
casa do Colton.
Simon fez tamborilar os dedos sobre a mesa recordando
com desagrado a forma em que Maggie tinha animado
Markham naquela ocasião. O fato de que o tivesse feito só
para incomodá-lo não mudava as coisas.
— Sei que não é o que quer ouvir, — Quint disse — mas
está disposto a assumir o que pode te custar sua relação com
ela? Trabalhou durante anos para chegar onde está. Pensa no
que poderia conseguir se tomar cuidado.
— Duvido que alguém vá dar importância além do
Markham.
Quint arqueou uma sobrancelha.
— Está seguro? Uma coisa é ter uma amante instalada
na Curzon Street. Que lhe relacionem com a mulher mais
escandalosa da alta sociedade, viúva ou não, é muito distinto.
— Vou casar-me com ela — Simon disse.
Quint pareceu ainda mais surpreso.
— E crê que uma aliança semelhante não te passará
fatura social e politicamente? Engana-se. De verdade está
disposto a lhe permitir que siga dando aquelas suas festas em
Barrett House?
Simon devia reconhecer que o que seu amigo dizia tinha
certa lógica. Não tinha parado para pensar no estilo de vida
de Maggie, nem sabia se quereria mantê-lo uma vez casada.
Mas se o aceitasse, se dormisse junto a ele a cada noite e lhe
desse filhos… deixaria que fizesse o que ela quisesse. Apoiá-
la-ia cheio de orgulho.
— Sim — respondeu sinceramente.
Quint brindou pelo Simon com sua xícara de chá.
— Então te desejo sorte.
Capítulo 18
Maggie deu a volta quando notou que algo se deslizava
sobre sua pele nua. Aspirou com força e sua cabeça se
encheu com um aroma de laranja, sândalo e um pingo de
tabaco. Simon. Tratou de dissipar as trevas do sono e
despertar de tudo, consciente de que havia uma boa razão
esperando. O colchão se afundou então por um lado e Simon
a envolveu com seu calor, rodeando-a com seus fortes braços.
— Está acordada? — Ele perguntou-lhe ao ouvido
enquanto o tato de sua barba incipiente de final do dia roçava
sua pele.
— Humm — ela respondeu amassando-se no delicioso
calor masculino e na força de Simon. — Quase.
Ele riu.
— Bom, vejamos se posso te ajudar um pouco.
Maggie sorriu, embora Simon não pudesse ver. Estivesse
onde estivesse, sua presença sempre a fazia sentir-se
deliciosamente enjoada. Alegrou-se de lhe haver dado as
chaves da casa. Simon a beijou no ombro, sussurrando com
delicados beijos sobre sua pele como as suaves cerdas de um
pincel.
— Como foi o jantar?
— Foi decepcionante.
Algo em seu tom lhe chamou a atenção. Maggie se deu a
volta e escrutinou seu olhar.
— Foi jantar com lorde Markham, não é certo?
— Sim. Quint foi também.
— E isso fez com que fosse decepcionante?
— Não. A noite não tem maior importância. Preferiria que
empregássemos o tempo que passamos juntos com ocupações
mais proveitosas. — Sua mão se deslizou sobre o quadril nu
de Maggie e subiu por suas costelas até pousar-se sobre o
seio. Apertou brandamente. — Me alegro que não tenha posto
roupa de dormir.
Por um momento, distraída, Maggie desfrutou da
sensação.
— Pôde fazer Markham mudar de opinião como
esperava? — Perguntou ao cabo de um momento.
Simon inclinou a cabeça para roçar o mamilo com a
ponta da língua. Ela gemeu e arqueou as costas. Embora
notou um arrepio por todo o corpo, tratou de centrar-se.
— Está tentando evitar minhas perguntas?
Simon fechou os lábios sobre a ponta rígida e o envolveu
com o calor exuberante de sua boca. Céus. Ela fechou os
olhos e deslizou os dedos entre seu cabelo sedoso. Em seu
interior tudo se movia com um zumbido constante de desejo
que só Simon era capaz de provocar. Mas não podia enganá-
la.
Depois de desfrutar de seus cuidados uns minutos,
Maggie aspirou com força e se apartou. Os brilhantes olhos
azuis de Simon se viam escuros e nevoados, como Maggie
gostava. Mordeu-se o lábio e tratou de não pensar no muito
que desejava que a tomasse. «Logo», prometeu-se. Mas antes
tinha que ocupar-se de um assunto.
— Simon, me conte. Sei que está me distraindo para não
ter que me responder.
— Markham não votará a favor do meu projeto. Não
pude convencê-lo.
E inclinou a cabeça para voltar com as atenções aos
seios de Maggie, mas ela o segurou mais forte para freá-lo.
— Por que tenho a sensação de que há algo mais?
— Podemos falar disto mais tarde? — Fez girar os
quadris, pressionando seu membro duro contra a coxa dela.
— Te desejo, Mags.
— Simon — ela o repreendeu.
— Ora. — Deixou-se cair de costas e cruzou os braços
atrás da cabeça, desdobrando belamente as linhas da parte
superior de seus braços. — Markham sentia um tendre por ti,
minha senhora, e parece lhe haver incomodado que seu afeto
esteja posto em outro lado.
— Refere-se a ti.
Ele assentiu.
— A mim.
Maggie pensou naquilo. Markham um tendre? Não
tinham coincidido muitas vezes, mas durante o jantar em
casa de Júlia o tinha incitado para incomodar Simon. E logo
estava a vez que se reuniram para falar da proposta do
Simon. Sentiu uma pontada de culpa no estômago. Muitas
mulheres flertavam e fingiam interesse pelos homens para
conseguir o que queriam; tinha visto em uma infinidade de
ocasiões ao longo dos anos. Mas ela nunca o tinha feito, não
antes do Markham, e não gostou do resultado.
Mas o mais importante, como Markham tinha averiguado
o que acontecia entre ela e Simon? Aquela… relação entre
ambos se iniciou fazia muito pouco. Quem mais sabia?
— No que pensa? — Simon perguntou-lhe.
— Como Markham soube sobre nós?
— Pelo visto a metade de Paris comenta.
Maggie o olhou boquiaberta.
— Está brincando?
— Não é tão estranho. Depois de tudo, é um dos temas
de conversação favoritos da alta sociedade. Embora “a metade
de Paris” seguramente é um exagero. Eu diria que um terço.
Empurrou-lhe o peito.
— Um pouco de seriedade.
— Querida. — Esticou a mão e a segurou com delicadeza
pelo queixo, e a força e amor daquele gesto tão simples a fez
sentir-se agasalhada da cabeça aos pés. — O que lhe importa
o que os outros pensem? Certamente nunca se preocupou,
não vamos começar agora. Cedo ou tarde tinha que saber-se,
e na verdade, me importam bem pouco as fofocas.
De algum modo sua sinceridade a tranquilizou, mas ele
não se dava conta? Markham não daria seu apoio ao Simon
por causa dela. Quantas de suas causas seriam rejeitadas por
esse mesmo motivo? Se seguisse relacionando-se com ela sua
influência política decairia. Uma amante era algo aceitável,
uma dama marcada pelo escândalo e o comportamento
impróprio era outra coisa. Os dois tinham sido uns
irresponsáveis ao não pensar o que podia custar ao Simon
aquela relação.
Se seguissem juntos algum dia Simon começaria a
ressentir-se. Estava segura. Olharia para trás, para tudo o
que podia ter conseguido se não estivesse com ela… e isso a
mataria. Que Simon se arrependesse de ter estado ao seu
lado, que desejasse que fosse outra pessoa, aquilo destroçaria
aquela parte de seu ser que tinha suspirado por ele durante
tantos anos.
Simon a segurou pelos cabelos e lhe fez baixar a cabeça,
e aqueles pensamentos sombrios se afastaram da mente de
Maggie. Com a outra mão a colocou sobre ele.
— Não se preocupe pelo Markham, Maggie. Há muitas
outras formas de conseguir o que eu quero. — Moveu-a em
cima dele, e as duras superfícies de seu corpo se fundiram
com a suavidade do dela nos lugares adequados. — E neste
momento o que quero é você.
Maggie escrutinou seu rosto, viu sua sinceridade e seu
desejo descarnado e seu coração se desfez. Sentiu que a
emoção a embargava e tratou de dissimular beijando-o.
Simon gemeu e a colocou escarranchada sobre ele e Maggie se
balançou sobre seu membro ereto.
— Além disso — Simon disse contra sua boca. — Você
detestava minha proposta. Pensei que se alegraria de seu
fracasso.
Não podia negar, não estava de acordo com sua ideia.
Mas isso não significa que quisesse que fracassasse, ao
menos não por culpa dela.
— Sei que pensa que sua proposta ajudará as mulheres
arruinadas que de outro modo ficariam marginalizadas, que
teriam que buscar o sustento por meios pouco
recomendáveis. Mas pensa no que isso significa, pensa no que
pede a essas mulheres: que fiquem para sempre ligadas ao
homem que as maltratou. Que durante toda sua vida a cada
ano tenham um aviso inescapável do que lhes aconteceu.
Pensa em mim. Se Cranford tivesse conseguido o que queria
de mim… — fez uma pausa porque viu que o rosto de Simon
se escurecia. — Espera, deixa eu acabar. Se Cranford me
tivesse tomado contra minha vontade, talvez me teria visto
obrigada a aceitar seu dinheiro. Mas inclusive um vínculo tão
fraco teria me resultado intolerável. Nenhuma mulher
quereria ter nada a ver com um homem que a tratou desse
modo, nem sequer por dinheiro.
Simon franziu os lábios com expressão desventurada,
sem deixar de olhá-la, e Maggie compreendeu que sua mente
estava tratando de rebater a emoção com a lógica. Estava
totalmente convencido de sua postura, mas com um pouco de
sorte ela poderia lhe fazer entender a outra versão.
— Poderia matar o Cranford pelo dano que te fez.
Maggie seguiu a covinha de seu queixo com o dedo.
— Eu também poderia. E antes morreria de fome que
aceitar um penique dele.
Simon lhe acariciou a base das costas e deslizou a mão
sobre suas nádegas.
— Morrer de fome?
— Meus sentimentos são intensos assim, Simon. Não
siga adiante com este projeto de lei. Há outras formas, muito
melhores, de ajudar as mulheres que necessitam.
A expressão de Simon se suavizou. Incorporou-se pela
metade para beijá-la, deslizando uma mão em seu cabelo.
— O que você quiser, querida. Pode me ajudar a redigir
outro projeto de lei. Um diferente.
— Deixar-me-ia te ajudar?
— É claro. — Colocou-lhe uma mão entre as pernas e
começou a brincar e a atormentá-la. Ela deu um pulo pela
avalanche de sensações:-sempre escutarei o que tenha a dizer
— disse. — Como agora, quero te ouvir dizer meu nome dessa
forma que o diz quando… — e girou os dedos para chegar ao
ponto exato que procurava.
— Simon — Maggie suspirou.
— Sim, assim.

***

Uns dias depois, numa tarde, Maggie e Lucien estavam


no atelié dela. Lucien havia trazido alguns quadros para
mostrar-lhe E tiveram uma conversação longa e acesa sobre
técnica.
— Lucien, são assombrosos. De verdade. — Maggie se
inclinou para examinar os detalhes com maior atenção. — Os
ângulos incomuns, a forma em que soube captar o
movimento… é incrível. As ligeiras pinceladas… deve ter
demorado uma eternidade. Eu adorei.
— Duvido que se vendam.
— E desde quando se preocupa se suas obras se vendem
ou não?
Ele encolheu os ombros, roçando com eles seus cabelos
castanhos excessivamente longos.
— Não me importa a fama, como a ti, mas inclusive eu
tenho que admitir que o dinheiro ajuda.
— Que empreendedor por sua parte — ela disse
brincando. — Devo estar te contagiando com isso.
— Se deu muito bem, MA chère. Não poderia estar mais
orgulhoso de ti.
Maggie lhe deu um abraço. Embora soubesse que ele
detestava aquelas manifestações, podia as tolerar se vinham
dela.
— É a coisa mais bonita que me disse — Sussurrou
contra o lenço que levava ao pescoço. — E não poderia havê-
lo feito sem sua ajuda e supervisão.
Deu-lhe uns torpes tapinhas nas costas e lhe tirou
importância.
— Eu não fiz nada. Seu talento é teu e só teu.
Maggie se apartou e enxugou as lágrimas que
começavam a formar-se em seus olhos.
— Quer me fazer chorar?
Nesse momento bateram na porta. Tilda apareceu com
um pacote quadrado e marrom nas mãos.
— Milady, um moço acaba de trazer isto para você.
— Obrigada, Tilda.
Pegou o pacote, apalpou as bordas com os dedos. Uma
tela. Levou-a até a mesa e começou a desembrulhá-la.
46
— Qu’estce que c’est?
— Um quadro.
O pesado papel se abriu e Maggie se encontrou olhando
uma cena da costa. Em realidade, era uma das suas…
embora não fosse exatamente igual. Sim, era um de seus
quadros, mas o tom não era o mesmo. Além disso, as
pinceladas foram feitas com um pincel mais grosso, e a
tonalidade das cores era um pouco mais escura. Aproximava-
se muito, mas não era exatamente igual ao quadro que ela
tinha pintado em seu momento… embora sem dúvida
ninguém salvo ela teria sabido ver a diferença. Era uma cópia
muito boa. E até levava sua assinatura, a do Lemarc, que
inclusive lhe parecia correta. É possível que alguém tivesse
tentado copiar um dos quadros do Lemarc? Mas quem?
— É uma cópia de um dos meus quadros.
Lucien o olhou com olho crítico.
— É bom. Acredito que se não te conhecesse tão bem
poderia acreditar que é teu.
— Por que alguém ia incomodar-se em me copiar?
Concentrou então sua atenção na carta que
acompanhava o quadro, e leu por cima o que lhe escrevia a
senhora McGinnis com sua clara caligrafia. Entretanto,
quanto mais lia, mais inquieta se sentia. Quando terminou de
ler as mãos lhe tremiam.
— Maggie, está branca como o papel. O que diz a carta?
Ela olhou o quadro, e obrigou o ar a entrar em seus
pulmões.
— Estão me fazendo chantagem.
— Mon dieu!
Lucien lhe arrebatou o papel das mãos e leu. Sem dúvida
sentir-se-ia igualmente horrorizado pelo conteúdo daquela
nota.
Alguém tinha descoberto sua identidade como Lemarc,
tinha contratado um imitador — e a julgar pelos resultados
era condenadamente bom — e agora estava fazendo circular
quadros por Londres. Mas não se tratava de peças correntes,
não, aquelas foram dirigidas especificamente contra o
príncipe regente e seu pai, o rei Jorge III, que diziam que
estava em seu leito de morte. Eram desenhos acalorados
pensados para incitar a controvérsia, com ideias como a de
que o regente levaria o país à bancarrota quando seu pai
morresse, ou que padecia dos mesmos transtornos mentais
que este. Segundo a senhora McGinnis, o mais dano mostrava
a carnificina cometida em Peterloo um ano antes, quando os
soldados esmagaram de modo contundente uma rebelião em
Manchester e mataram muitos dos manifestantes, e animava
à classe média a levantar-se uma vez mais pedindo uma
reforma política para que seus companheiros não tivessem
morrido em vão.
Alguém estava tratando de fazer com que prendessem o
Lemarc por rebelião.
Os oficiais da Coroa já tinham feito uma visita à senhora
McGinnis solicitando informação pessoal sobre o Lemarc. A
proprietária lhes deu evasivas, e disse não conhecer a
verdadeira identidade do artista, mas que trataria de arranjar
uma reunião quando retornasse do Continente. E embora isso
pareceu apaziguar momentaneamente os oficiais, a senhora
McGinnis estava assustada, e com razão. A única forma de
deter aquilo, segundo o imitador, era lhe passar uma
quantidade anual de duas mil libras… uma cifra de tudo
revoltante.
— Viu a outra carta? A que a senhora McGinnis diz que
está na parte posterior do quadro?
A voz de Lucien devolveu Maggie à realidade. Esqueceu-
se dessa outra carta. Deu a volta ao quadro e viu um pedaço
de papel dobrado com um nome escrito em cima. O nome real
de Maggie. Tragou com dificuldade, arrancou-o da tela e o
estendeu sobre a mesa.

Querida lady Hawkins:


Surpreendida? Quis lhe enviar este quadro para que
comprove por si mesma os dotes do meu pintor. É muito bom,
não lhe parece?
Se quiser que deixem de aparecer desenhos exijo que me
entregue duas mil libras em um prazo de duas semanas. De
outro modo, temo-me que Lemarc (você?) se encontrará em uma
posição muito comprometida ante as autoridades. A senhora
McGinnis receberá instruções para a entrega.

Não estava assinada. Lucien, que a tinha lido por cima


de seu ombro, exclamou:
— Duas mil libras! É ridículo. Quem pode estar atrás de
tudo isto?
Maggie meneou a cabeça.
— Não sei. Suponho que poderia ser qualquer um. Por
que escolher como objetivo o Lemarc? Há muitos artistas com
muito mais êxito que eu.
— Isto está pensado para lhe machucar, MA chère.
Alguém quer te desacreditar, arruinar sua carreira. Mas
quem? — E lhe dedicou um olhar perspicaz. — Talvez…
— Não. Winchester jamais faria algo assim.
— É óbvio que não. — Lucien a olhou com gesto severo.
— O conde te ama, com loucura. Jamais te prejudicaria deste
modo. Eu mesmo vi o muito que te quer.
— Quando? No teatro da ópera?
Ele assentiu.
— Não apartou os olhos de ti quase em toda a noite. E te
olhava como um jovem olharia seu primeiro amor.
Embora suas palavras a animaram, deu-lhe uma
cotovelada.
— Um pouco de seriedade. E não faça brincadeiras às
custas dele.
Lucien arqueou as sobrancelhas.
— Oh? Embora me alegro muito por ti, eu já perdi
bastante dinheiro por causa do Henri. Pensei que ao menos
resistiria até…
— Lucien, — Maggie disse — não está me ajudando.
Seu amigo ficou reto e voltou a examinar o quadro.
— Bom, então quem. Quem mais poderia havê-lo feito?
Embora a cabeça lhe dava voltas, Maggie tratou de
concentrar-se e pensar em um nome. A pessoa que tinha
mandado a nota queria algo mais que dinheiro, queria
manchar o nome do Lemarc. E pelo que tinha visto, seu plano
certamente tinha tido êxito em Londres. Entre os artistas, a
linha que separava o destacável do intolerável era muito fina.
O primeiro significava que qualquer um bastante rico e
aborrecido podia te contratar para querer acotovelar-se com
um artista de renome. O segundo significava que ninguém
que se preocupasse minimamente por sua reputação te
contrataria … quer dizer, ninguém que formasse parte da alta
sociedade londrina. Se não retornasse a Londres e reparasse o
dano que fizeram no nome do Lemarc, tudo estaria perdido.
Oh, e seguiria tendo que evadir às autoridades.
E não queria ter que acabar na prisão.
— De verdade, — disse segurando a ponte do nariz entre
os dedos — não tenho nem ideia. Tratei de não chamar muito
a atenção em Londres, e mal tive vida social, salvo em minhas
festas. Não conheço ninguém que possa querer vingar-se de
mim deste modo, salvo Winchester, porque zombo dele em
meus desenhos… e sei que não é ele. O que vou fazer?
O som de alguém que batia na porta lhes interrompeu.
Tilda apareceu de novo.
— Milady, o conde de Winchester deseja vê-la.
— Me desculpe por me apresentar deste modo. — Simon
rodeou a figura de Tilda e entrou. Umas calças azuis escuras
cobriam suas pernas longas e esbeltas, e um sobretudo
combinando e feito à medida rodeava seus ombros. Seu belo
rosto, rosado pelo frio, mostrava rugas de preocupação. — O
h, vejo que também recebeu um — disse assinalando à mesa
com o gesto. — Vim assim que vi o meu.
E dito isto se meteu uma mão no bolso e tirou um papel
dobrado.
— O teu? Quer dizer que também recebeu uma carta?
Mas isso não tem sentido…
Olhou ao Lucien procurando respostas, mas seu amigo
se limitou a encolher-se os ombros.
— Toma. Lê isto. — Simon lhe pôs o papel nas mãos.
Maggie se voltou e o estendeu sobre a mesa junto aos outros
dois, para que ela e Lucien pudessem examiná-lo juntos.
Assinalou suas duas cartas. — Enquanto isso você pode ler
as que eu recebi.
A missiva que Simon tinha recebido, breve e direta,
informava-lhe sobre as caricaturas subversivas que estavam
aparecendo sob o pseudônimo do Lemarc. Exigia dinheiro —
três mil libras anuais — para deixar Maggie/Lemarc em paz.
Quando deu a volta ao papel viu que a tinham enviado ao
hotel onde Simon se alojava em Paris.
— Quem sabe que está em Paris e se aloja no Hotel
Meurice?
Simon levantou a vista da nota da senhora McGinnis.
— Todo mundo, suponho. Não é nenhum segredo.
— Tenho que retornar a Londres — Maggie disse aos dois
homens.
— Irei contigo — Simon declarou com uma voz
contundente e decidida que Maggie conhecia bem.
— Não, isso…
— Não discuta comigo, Maggie. — E golpeou a mesa com
a palma da mão. — Me parece que não é consciente do que te
acontece. Tem ideia de quão graves são as acusações por
rebelião? É um delito penal. Poderiam te encarcerar
indefinidamente. Eu posso te proteger. Ao menos deixe que eu
utilize meu nome e minha influência para tratar de minimizar
o golpe.
Parecia muito alterado, e isso a comoveu. Mesmo assim,
não desejava que seus problemas o arrastassem também.
— E que preço terá para ti que se implique em tudo isto?
Mais votos? Sua posição política? Não posso permitir que se
posicione junto ao Lemarc frente à Coroa. E se acabar no
cárcere?
— Isso não acontecerá. Conheço esta gente desde
sempre, Maggie. E não me acreditarão capaz de conspirar
para minar um sistema que eu mesmo ajudei a construir. Me
escutarão e é possível que consiga manter em segredo sua
verdadeira identidade se atuar como agente do Lemarc.
Tudo perfeitamente razoável, certamente, mas isso não
fazia mais fácil aceitar sua ajuda. Nos últimos dez anos não
tinha podido confiar em ninguém que não fosse ela mesma.
Tinha tido que enfrentar os problemas sozinha. Permitir que
outra pessoa compartilhasse sua carga com ela, inclusive se
esse alguém era Simon, resultava estranho e inquietante.
— Preciso fazer algo. Não posso ficar de braços cruzados
enquanto você mata o dragão por mim. Irei contigo.
Simon meneou a cabeça.
— Tem que ficar aqui. Em Paris. Manter-te-ei a salvo
de…
— Dificilmente posso estar a salvo aqui, agora que o
imitador sabe onde estou. É impensável que eu fique. Não,
escuta — disse quando viu que ele não estava de acordo. —
Ficarei louca se tiver que ficar aqui esperando notícias. E
posso te ajudar a encontrar esse imitador. Ninguém conhece
meu trabalho melhor que eu. É possível que possa descobrir
sua identidade através de seus desenhos.
Simon franziu os lábios com expressão desventurada.
— Embora tanta preocupação seja comovedora, —
apontou Lucien no meio do silêncio — é melhor trabalharem
juntos com um objetivo comum, non?
— Se voltar, o que fará será facilitar à Coroa a tarefa de
te encontrar — Simon disse com a mandíbula apertada.
— Se eu voltar será mais fácil descobrir o imitador.
Quando viu que Simon não retrucou as palavras de
Maggie, Lucien ficou em pé.
— Direi à Tilda que prepare suas coisas — disse, e saiu
da habitação.

***

Simon suspirou quando Barreau fechou a porta. Deveria


imaginar que não poderia manter Maggie à margem. Mulher
teimosa e enlouquecedora. Ela não se dava conta do perigo?
Aquilo tinha que ser levado com tato e diplomacia… e não
eram precisamente o ponto forte de Maggie. Mas eram o dele,
e faria o quanto estivesse em sua mão para evitar que
perdesse o que tanto lhe havia custado conseguir.
Sem dar-se conta, avançou um passo para ela. Ela
levantou uma mão.
— Espera — disse. Desviou o olhar e Simon viu que suas
bochechas se tingiram de cor. — Há outra questão que
devemos resolver antes de voltar para Londres.
— O que é?
Cruzou os braços sobre o peito. Poderia convencê-la para
que se instalasse em Barrett House? Queria-a em sua cama
todas as noites. Embora se a cama fosse a dela também lhe
parecia bem…
— Você e eu. Nós. Temos que deixar de nos ver.
Simon pôs cara de desolação. Tinha-a ouvido bem?
— Temos… que deixar de nos ver? — Repetiu
estupidamente.
— Sim.
— E por que demônios teríamos que fazer isso?
— Tal como estão as coisas, não posso permitir que
minha reputação afete o seu status. Em Londres as fofocas
serão mil vezes maiores que em Paris.
— Que fofoquem, Mags. Não me importa o que digam de
nós.
Ela elevou o queixo.
— Diz isso agora, mas não tem nem ideia do dano que
poderia te fazer tudo isto, e é um dano que não se pode
desfazer. É melhor que resolvamos nossa relação agora. E se
quiser poderá atuar em nome do Lemarc em Londres.
A sinceridade e decisão de sua voz fizeram com que o
pânico baixasse como um calafrio pelas costas de Simon.
— Definitivamente não. E neste momento minha posição
não me preocupa.
— Possivelmente agora não, mas fará no futuro. Logo.
Quando o Parlamento retomar sua atividade em uns meses,
se preocupará. E então já será muito tarde.
Não, não, não. Aquilo não ia ser assim. Tinha ido ali
decidido a ter uma conversação muito distinta sobre seu
futuro em comum, uma que incluía tê-la nua dia sim e dia
também. Uma conversação sobre amor e risadas, sobre todas
as coisas que tinha sentido falta nos últimos anos. E de onde
lhe vinha agora aquela atitude? Maggie não se deixou
intimidar pela sociedade. Fazia sempre o quanto desejava sem
pensar nas consequências.
Por que tinha que ser diferente em sua relação com ele?
Acaso não acreditava que valesse a pena o risco?
— Do que tem medo? — Perguntou. — De que eu deixe
de receber convites? De que eu tenha que me esforçar um
pouco mais na Câmara dos Lordes? De que eu tenha que
ouvir algumas piadas às nossas custas?
— Diz como se fosse tão fácil. Sim, tenho medo de tudo o
que diz… e mais. E haverá mais, Simon. Isto te afetará em
aspectos que nem sequer imagina. Markham só foi o
princípio. E parou para pensar em como tudo isto afetará a
sua família?
— Minha mãe é a única que poderia me preocupar nesse
sentido, e ainda está por chegar o dia em que alguém a olhe
por cima do ombro. Além disso, ficará encantada quando vir
que por fim escolhi uma prometida.
— Prometida? — Maggie chiou olhando-o com os olhos
muito abertos.
— Sim, prometida. Do que se surpreende? É evidente
que quero me casar contigo.
Simon esperava que isto a tranquilizaria, mas pareceu
pô-la mais nervosa.
— Está louco? Olhe ao seu redor. — Agitou a mão
naquele espaço luminoso. Uma biblioteca convertida em
atelié, cheia de telas, telas, pincéis, cavaletes e vários
badulaques. — Quer se casar com isto? Se casar com o
Lemarc? Porque isto não vai desaparecer. Minha arte, meu
trabalho é o que sou. Não posso renunciar a isso.
— Jamais te pediria que o fizesse. — Deu um passo para
ela, mas ela se apartou e ficou fora de seu alcance. Simon
cruzou os braços. — Mesmo assim, quero que nos casemos.
Quero despertar ao seu lado a cada manhã. Quero viajar
contigo. Ver como pinta, que me dê filhos… — e teria podido
seguir e seguir, porque a lista das coisas que queria dela era
interminável.
— Filhos?-se isso era possível, empalideceu ainda mais.
Cobriu-se a boca com uma mão e meneou a cabeça. — Agora
sei que não pensa com claridade —sussurrou.
— O que esperava, que depois de todos estes anos me
contentaria te tendo umas semanas em meu leito? — Antes
que Maggie pudesse escapar aproximou-se e segurou seu
rosto entre as mãos. — Te necessito, Maggie, e não permitirei
que nada me impeça de estar ao seu lado. Nem o medo nem
as ameaças, nem sequer a desaprovação de todas as damas
de Londres. Nem que eu tenha que renunciar ao meu banco
na Câmara dos Lordes.
As lágrimas se amontoavam nas comissuras de seus
olhos, transbordando quase, até que duas lágrimas solitárias
rodaram por sua bochecha. Simon as enxugou com os
polegares.
— Não chore, querida. Tudo irá bem, já verá. Confia em
mim.
Maggie fez que não com a cabeça, de modo que Simon se
inclinou para beijá-la e notou sua reticência e sua
preocupação pela forma em que se continha. Fazendo uso de
sua boca, suas mãos e sua língua, Simon verteu toda sua
determinação e segurança nela. Possivelmente não a
convenceria com suas palavras, mas ao menos poderia fazer
com que sentisse fisicamente o muito que a amava. O muito
que a desejava. Que nunca, nunca deixaria que nada nem
ninguém lhe fizesse mal. Depois dos primeiros segundos ela
respondeu ao beijo, cravando os dedos dolorosamente em
seus braços com ânsia e desespero. Simon sentiu uma
descarga de satisfação correr por suas veias, seguida muito
de perto por um desejo tão intenso, tão agudo que quase lhe
fez cair de joelhos.
— A porta — Simon ofegou contra sua boca.
— Não tem problema. Não nos incomodarão — deu-lhe
uma pequena mordida no lábio inferior, e chupou aquela
carne roliça levando-a ao interior de sua boca. — Agora,
Simon.
Tinha que haver se negado. Depois de tudo, iam ver-se
de noite. O que tinha aquela mulher que o fazia perder a
razão desse modo? E então os dedos dela encontraram os
botões de suas calças… e qualquer propósito de esperar se
desvaneceu. Maggie lhe tirou a roupa e ficou a lhe acariciar
com ânsia. Tinha lhe ensinado bem, pensou, jogando a
cabeça para trás em um gesto feliz de rendição. Deus, se
seguisse assim outro minuto ejacularia em sua mão.
Incapaz de esperar mais guio-a até a mesa riscada de
madeira. Apartou as cartas e o quadro do imitador.
— Sobe — disse. — Levante as saias.
Maggie não apartou em nenhum momento seus olhos
entreabertos dele enquanto se sentava e se apoiava em um
cotovelo para levantar a bainha de seu desgastado vestido,
anáguas e regata. Seu púbis, coberto de um pêlo suave,
aparecia ao descoberto ante ele a plena luz do dia. Tão
formoso. Nunca se cansaria de olhá-la.
Maggie abriu os joelhos convidando-o com
descaramento. Tudo nele pedia a gritos que a tomasse em
seguida, mas não queria lhe machucar. Colocou-se entre suas
pernas e deslizou um dedo pela entrada do seu corpo.
Molhado. Preparado. Colocou-se em posição e com um
empurrão entrou tão dentro quanto pôde. Aquele movimento
delicioso arrancou um gemido da boca de ambos. Seu
interior, quente e apertado, aferrava seu pênis como um
punho. Maggie se tornou para trás sobre a mesa, sua formosa
e selvagem Maggie, desdobrada ante ele como o banquete
mais delicioso. E enquanto a olhava seus lábios desenharam
a palavra que sempre o arrastava a um ponto de
efervescência.
— Por favor — Sussurrou.
Oh, Deus. Simon se inclinou e a segurou por debaixo dos
joelhos. Tinha os quadris levantados da mesa, e isso dava ao
Simon uma maior mobilidade. Ficou a empurrar a um ritmo
furioso que os dois desejavam. Suas mãos a rodearam pelas
coxas para atraí-la melhor para seu corpo cada vez que
empurrava. Maggie ofegava, com as pálpebras entreabertas.
— Sim — Sussurrava.
Nunca em sua vida Simon se sentiu tão fora de controle,
nem sequer em sua juventude. Mas Maggie o sacudia,
colocava-o pelo avesso… e era algo que ela sabia
perfeitamente e que gostava. Muitas noites tinha brincado
com ele e o tinha torturado, até que a tomava como um
animal no cio, movido por um delírio selvagem. Entretanto,
nenhuma daquelas noites havia sentido o frenesi que sentia
naquele momento.
O prazer começou a aumentar na base de sua coluna.
Cada empurrão lhe levava mais perto do orgasmo e sabia que
já não demoraria.
— Utiliza os dedos — disse em um ofego. — Vamos, anjo,
deixa que eu te veja.
Sem nenhum pudor, esmagadoramente formosa, Maggie
deslizou a mão sobre seu ventre e sobre o pelo que cobria seu
púbis. Uns dedos destros encontraram o pequeno casulo que
coroava seu sexo, tocou-o. A imagem era tão erótica que
Simon teve que fechar os olhos. Se a olhasse se derramaria
em seguida. Maggie gemeu e Simon redobrou seus esforços,
empurrando com força com os quadris para chegar mais
dentro. Com os músculos tensos e apertados porque quase
tinha chegado ao clímax.
— Deus, sim. Venha comigo — disse abrindo os olhos
para ver como seu corpo se sacudia e se estremecia. A
sensação era tão deliciosa que sentiu como por dentro todo
seu ser se contraíra como uma mola para saltar livre no
momento seguinte. O orgasmo o sacudiu sem prévio aviso e
Simon se esvaziou dentro dela. Jogou a cabeça para trás e
deixou escapar um grito enquanto aquilo se prolongava em
uma quebra de onda interminável de êxtase incontrolável e
Maggie o segurava com força.
Quando os dois se recuperaram, Simon saiu dela.
— Desculpo-me — disse tirando um lenço de linho do
bolso e passando a ela. — Queria sair antes…
Ela aceitou o lenço.
— Sei. Nos deixamos nos levar, temo.
Simon se abotoou as calças, aliviado ao ver que Maggie
não se desgostou por seu descuido. Depois de tudo, talvez a
tivesse convencido para que se casasse com ele. E não
permitiria que nenhum filho dos dois nascesse como um
bastardo.
— Temos que sair para Londres amanhã pela manhã.
Conseguirei as passagens.
Maggie se incorporou e arrumou bem as roupas.
— Tenho muitas coisas a fazer antes de retornar.
Possivelmente será melhor que não nos vejamos esta noite
para não nos distrair.
Simon franziu o cenho contrariado, embora não pôde
encontrar nenhum argumento para discutir aquilo.
— Bem. Recolher-te-ei pela manhã. — Puxou-a pela mão
e a ajudou a descer da mesa. Tinha os cabelos desordenados
e a pele avermelhada, precisamente como uma mulher que
acaba de fornicar. Sua mulher. Deu-lhe um beijo fugaz. —
Então até amanhã.
Capítulo 19
Londres, uma semana depois

— Vim assim que pude — disse o duque de Colton ao


entrar na sala.
Simon se levantou e se aproximou do aparador.
— Agradeço-lhe, Colt. Sente-se, aceita um brandy?
Em Londres o tempo se tornara glacial nos primeiros
dias de fevereiro. E embora não fizesse nem uma hora que
Simon tinha chegado, o frio já lhe tinha metido nos ossos.
Voltou a encher seu copo e serviu ao Colton uma generosa
quantidade em um copo de conhaque.
Quando estava a ponto de sentar-se a senhora Timmons
bateu na porta.
— Senhores, sua excelência, trago chá recém feito. —
Simon lhe indicou que entrasse e deixou a bandeja com o
chá. Uma criada entrou atrás com uma bandeja com doces.
— Deseja que Sally lhes sirva o chá?
— Não, acredito que nos arrumaremos sozinhos.
Obrigado.
As duas mulheres inclinaram a cabeça e se retiraram.
— Por que disse que não? Eu gosto de suas criadas. —
Quint escolheu um pedaço de bolo e o meteu na boca. — São
mais bonitas que as minhas.
— Teria criadas mais belas se se comportasse como um
visconde e não como um demente — Colton apontou. — E
então, Winchester, a que vem tanta pressa? Quando retornou
de Paris?
— Faz quase uma hora. Antes de passar para outros
assuntos, me diga, como vai a busca do Cranford?
Colton meneou a cabeça.
— Temo que sigo sem localizá-lo. Fitz e eu pusemos a
cidade de pernas para o ar para encontrá-lo.
— Maldição — Simon exclamou e deu um golpe no braço
da cadeira.
— Justo o que eu penso. Vimos o que fez à garota do
bordel da Hartley. E não muito depois, outra jovem foi
golpeada, violada e assassinada no Saint Giles. O autor
encaixava vagamente com a descrição do Cranford e uma das
amigas da falecida disse haver se fixado em um anel com um
selo.
— Para não falar do que fez à Maggie — Simon
acrescentou. —Onde demônios se escondeu?
— Não saberia te dizer. Mas a perspectiva de cobrar a
recompensa fará com que os homens de Ou’Shea estejam bem
atentos. Cedo ou tarde aparecerá.
— A menos que embarcou em um vapor para a América
— Quint comentou para rematar a frase, de um modo muito
pouco positivo na opinião do Simon.
— Nem sequer uma visita a esse país esquecido da mão
de Deus impedirá que tenha minha compensação — Simon
lhes advertiu. — Não me importa aonde tenha que ir,
Cranford vai pagar por cada segundo de sofrimento que
Maggie teve que aguentar.
— Isso será se antes não a prenderem por rebelião — de
novo Quint.
— Rebelião? — Colton abriu os olhos surpreso. — O que
é tudo isto?
Então Simon pôs seu amigo à corrente dos
acontecimentos, começando pela identidade do Lemarc até
chegar às cartas de chantagem que tinham recebido ele e
Maggie em Paris.
O duque se recostou com desânimo na cadeira.
— Incrível. Todo este assunto é muito extraordinário.
Vamos ver se o entendo. Você cortejou lady Hawkins no ano
de sua apresentação até que explodiu o escândalo, que é
quando Cranford te mostrou um punhado de cartas nas quais
Maggie declara professar um amor imperecível por outro
homem. Ela se casa com o Hawkins em vez de contigo, e
quando ele morre retorna a Londres sob o pseudônimo do
Lemarc, abre a loja da senhora McGinnis e nasce Vinochester.
Simon deu um gole de brandy.
— Sim.
— Essa mulher é realmente inteligente. Certamente não
pode fazer menos que admirá-la.
— Certamente — Quint concedeu. — Lavrou um nome
por si mesma. Lemarc é muito respeitado entre os artistas.
Inclusive se falava de lhe convidar a expor sua obra na
Somerset House.
— Não me referia só aos seus quadros — Colton
esclareceu. — Embora sejam impressionantes. Referia-me ao
seu plano para fazer Winchester sofrer. Nem todas as
mulheres saberiam converter um antigo amor em uma
caricatura famosa. Crê que me venderia alguma dessas
caricaturas?
— Aceitarei quando Júlia me autorizar a te contar o que
fez com seu tempo durante os anos que passou fora.
O rosto do duque se escureceu e seus olhos se
entrecerraram até ficar reduzidos a duas frestas.
— O que quis dizer? Como assim o que fez com seu
tempo?
Simon não respondeu, limitou-se a olhá-lo com um
sorriso zombeteiro. Quando parecia que Colton estava a ponto
de ficar justificadamente furioso, Quint levantou uma mão.
— São uns pirralhos — disse. — Acredito que deveríamos
voltar para o tema que nos ocupa. Estive pensando no
chantagista desde que estive em Paris. Pelo tom das notas eu
diria que podemos assumir que se trata de alguém próximo a
ti, Winchester.
— A mim? E por que a mim?
— Parece muito satisfeito. Desfruta-se. É algo pessoal
para ele. Ou ela. Está rindo dos dois, tratando de lhes tirar
dinheiro. Mas te pediu mais. Isso me faz pensar que essa
pessoa deseja te ferir, e lady Hawkins seja só algo secundário.
Simon pensou naquilo enquanto pegava outro bolo.
Quem podia lhe odiar tanto? Certamente algum rival político.
— Entregará o chantagista à Coroa? — Colton
perguntou.
— É a única saída. Não penso entregar Maggie nem a
senhora McGinnis.
Quint pegou o bule para servir-se mais chá.
— Imagino que acordarão um pagamento e esperará para
ver quem se apresenta para recolher o dinheiro.
— Sim, e me atrevo a dizer que é o que Hollister
recomendaria — Simon disse aludindo ao detetive. — Seja
como for, terá que ser logo. Suspeito que assim que se corra a
voz de que Maggie e eu retornamos a Londres, o chantagista
quererá contatar conosco.
— Surpreende-me que lady Hawkins não nos acompanhe
hoje, posto que este assunto também lhe incumbe — Colton
assinalou.
Simon não respondeu, de modo que Quint interveio.
— Deixou-a sozinha em Paris. Escapou no meio da noite.
Colton riu.
— Extraordinário. Adoro essa mulher. Seriamente,
Winchester, merece tudo o que te faz.
Simon teve uma desejada pausa porque nesse momento
bateram na porta.
— Adiante.
Apareceu seu mordomo.
— Um tal senhor Hollister deseja lhe ver, milorde.
— Excelente. Que entre no escritório, Stillman. — Ficou
em pé. — Venham os dois, e procurem ser de ajuda.

***
Quatro dias depois a senhora McGinnis recebeu
instruções diretas:

Na quinta-feira às três da tarde deixe um livro que


contenha os bilhetes no primeiro banco de pedra do caminho
que vai do Stanhope Gate ao Serpentine.

A convocação jogava em seu favor. Hyde Park oferecia


vários lugares onde ocultar-se e de onde poderia vigiar o
pacote. Certamente o chantagista não recolheria o pacote em
pessoa, teria sido muito arriscado, mas alguém o faria por ele.
O que precisava fazer era esperar e seguir essa pessoa.
Simon não tinha permitido que Maggie se implicasse
naquilo. Mantinham-na informada, é óbvio, mas não queria
que tivesse nenhum contato com aquela gente. Podia
imaginar quão furiosa estaria com ele, sobretudo porque
tinha pedido ao Hollister que colocasse um homem ante sua
casa para vigiá-la, mas não podia arriscar-se a que seu nome
ficasse associado de nenhuma forma com aquela operação.
Tinha que mantê-la à margem.
Não a tinha visto desde Paris. Tinha saudades.
Muitíssima. Tinha saudades de sua teimosia e de sua risada.
Seu caráter combativo e seu espírito travesso. E pelas noites
tinha saudades de suas mãos suaves e fortes arrastando-o à
loucura. Mesmo assim, antes de voltar a vê-la tinha que
eliminar aquela ameaça. Assim que o imitador e o chantagista
estivessem nas mãos da Coroa iria vê-la e poderiam falar do
futuro, um futuro que incluía Maggie como condessa de
Winchester.
No dia da entrega Hollister colocou mais de vinte homens
no parque. Fosse quem fosse a pessoa que se apresentasse
para recolher o pacote não escaparia, embora a perspectiva
não aliviou de modo algum a inquietação de Simon. A pessoa
que tinha arranjado aquilo se interpunha entre ele e tudo o
que sempre tinha querido, e seu futuro dependia de que
pudesse eliminar esse obstáculo.
Tal como esperavam, não tinha passado nem um minuto
desde que Simon deixou o livro sobre o banco quando um
jovem se aproximou para recolhê-lo. Simon e os outros
homens o seguiram, procurando manter a suficiente distância
para não chamar sua atenção. Acabaram na Jermyn Street,
onde o moço chamou à uma porta, entregou o pacote e após
receber umas moedas pôs-se a correr e desapareceu. A porta
se fechou em seguida. A transação tinha durado apenas uns
segundos.
— É nosso homem — Hollister sussurrou ao Simon.
Estavam apostados no outro lado da rua. — Pegou o pacote.
— Entremos, então. — Simon deu uma olhada à porta.
— Tem suas ferramentas para abrir portas?
— É óbvio. Entraremos na casa e pegaremos o seu
chantagista despreparado. Postarei alguns homens aos lados
e na parte de trás da casa, se por acaso tenta fugir.
Hollister manipulou as fechaduras com a perícia de um
experiente ladrão e girou o pomo com muito cuidado para não
fazer ruído. Fez um gesto a Simon para que passasse adiante.
Simon subiu sigilosamente as escadas, pistola na mão,
com o Hollister justo atrás. Os degraus rangiam e grunhiam
sob o peso de seus corpos e deviam mover-se devagar.
Quando chegaram acima Simon comprovou a porta e viu que
não estava fechada. Abriu e entrou como o raio, com Hollister
lhe pisando os calcanhares.
A grande habitação estava desprovida de móveis, salvo
por uma mesa e umas poucas cadeiras aqui e lá. Viu
materiais gastos de pintura: telas, cavaletes, molduras,
pintura e pincéis… tudo o que explicava o intenso aroma de
terebintina que se respirava ali. Um homem miúdo e
desconhecido estava sentado à mesa, com papel e lápis
diante. O homem, com os olhos muito abertos, levantou as
mãos com cuidado em sinal de rendição.
Um movimento às suas costas chamou a atenção de
Simon e viu desaparecer uma cabeça coroada com cabelos
castanhos que passavam pela janela.
Simon correu, decidido a deter o fugitivo. Ao aproximar-
se viu uma corda presa a um gancho no batente. E quando se
inclinou para olhar viu um rosto familiar que soltava a corda
e saltava ao beco.
Sir James. Seu condenado cunhado. Um grunhido
furioso brotou de sua garganta.
— Detenha-o ! — Gritou ao homem que Hollister tinha
colocado na entrada do beco enquanto sir James corria para
lá.
O homem correu ao beco para interceptar sir James e
Simon deu a volta e correu às escadas.
— Espere aqui — indicou ao Hollister, que estava
apontando ao desconhecido da mesa com sua pistola.
Simon desceu atropeladamente as escadas e abriu a
porta da rua. Deus, agora tudo se encaixava. O dinheiro, as
notas. Que fosse um ataque pessoal.
O condenado idiota.
Já na rua, Simon soube que o homem do Hollister tinha
apanhado sir James no beco. James tratava de soltar-se, mas
o outro era grande e forte e o tinha imobilizado com seu
corpo.
Quando viu que Simon se aproximava, ficou rígido. O
medo cintilou em suas feições gordinhas, mas em seguida
elevou o queixo com gesto desafiante.
— Olá, Winchester, o que…?
— Não te ocorra dizer uma palavra, miserável.
A ira lhe ardia na garganta. Nunca tinha querido golpear
ninguém com tanta vontade. Aquele homem tinha sido como
um atraso de vida desde o dia em que se casou com Sybil. Um
chantagista. Por Deus santo.
— Deseja que mande buscar as autoridades, milorde?
O homem do Hollister apartou-se e tirou uma pistola do
casaco. Apontou com ela a sir James.
Simon esfregou o queixo. Detestava ter que ver-se
naquela situação. Seria muito mais singelo se deixasse o
assunto nas mãos da Coroa.
— Não, ainda não.
— Não pode fazer com que… me prendam! — Sir James
balbuciou indignado. — Pensa no escândalo. Sua mãe e sua
irmã. O que vai a…?
— Basta! Posso fazer o que eu quiser, James, até te
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mandar às galés se assim o disser.
Precisava falar com James a sós. Por mais que quisesse
que as coisas fossem de outro modo, aquilo era um assunto
familiar e ninguém devia lhes ouvir. Voltou-se para o homem
do Hollister.
— Vigia a entrada ao beco.
O homem assentiu, afastou-se uns passos em direção à
rua e lhes deu as costas.
Simon olhou ao James entrecerrando os olhos.
— Me dê uma boa razão para não te matar agora mesmo.
James se separou da parede de tijolo tratando de
arrumar bem a roupa.
— Sybil nunca te perdoará. E nem sequer os pares
podem sair impunes de um assassinato.
— Podem se forem o bastante preparados. Atrevo-me a
dizer que neste caso me aclamarão como a um herói. —
Simon cruzou os braços para não o estrangular. — Não posso
acreditar que pensasse que seu plano podia funcionar.
Deveria colocar uma bala nesse coração tão falso que tem.
— Pois faça!-o outro disse elevando as mãos. — Não fica
nada pelo que viver. Estamos acabados. Tirou-nos todo o
dinheiro, e agora me vejo obrigado a viver da caridade dos
parentes como se fosse um… uma maldita solteirona. Você…
— E a solução é me fazer chantagem? Por Deus, James,
o que queria que eu fizesse? Gasta cada penique que chega às
suas mãos. Está decidido a arrastar a minha irmã contigo, e
isso não posso consentir. Não vai levar-nos à bancarrota, ao
menos não enquanto eu seja o líder da família.
— Como se necessitássemos que recorde que é o
poderoso conde de Winchester — James disse com uma
careta depreciativa.
Simon apertou a mandíbula com força. Não deveria estar
lhe suplicando perdão? Respirou fundo para serenar-se.
— Quem te colocou nisto? Sei que não pode ter sido tua
ideia.
— Como sabe? Sou mais preparado do que crê.
— É exatamente tão pouco preparado como acredito,
imbecil pomposo. E agora me diga com quem esteve
trabalhando.
— Por que iria dizer-te alguma coisa?
Simon se aproximou, agarrou-o pelo lenço do pescoço e o
empurrou com força contra a parede de tijolo.
— Porque se não o fizer vou te cortar as bolas e as darei
aos porcos. Começa a falar, James.
James apertou os lábios; o despeito brilhava em seus
olhos.
— Bem — Simon disse muito tranquilo.
Soltou-o … e lhe deu um bom murro no estômago. O
homem se dobrou resfolegando. Simon se recompôs os
punhos da camisa e esperou.
— Que… bata — James disse ao fim com voz áspera.
Simon o agarrou pelo pescoço e o empurrou com força
contra a parede.
— Pois então nos divertiremos um pouco, certo?
James não disse nada, limitava-se a olhá-lo com
expressão hostil, então Simon se inclinou.
— Penso apertar até que me diga o que quero saber. E se
não me disser, não te deixarei respirar.
— Não se atreverá — James replicou, embora seus olhos
olhassem inquietos mais à frente, como se procurasse quem
lhe ajudasse.
— Está seguro? — Simon apertou o punho e James
chiou. — É um lugar perfeito para te matar. Encontrarão seu
corpo no beco e pensarão que foi algum ladrão ou um rufião.
Ninguém nunca suspeitará de mim.
James tratou de debater-se, mas Simon era mais
corpulento e mais forte. Seu cunhado ficou de um bonito tom
de vermelho.
— Está louco, me solte!
— Nem pensar. Não até que não me diga quem é. — E
para que não tivesse dúvidas, apertou mais.
Ao James parecia que os olhos lhe iam sair.
— Certo! Me solte e lhe direi! — Sussurrou.
— Agora, verme. Ou te estrangulo aqui mesmo.
— Cranford! — James gritou como pôde. — Foi Cranford.
Agora me solte!
Simon ficou gelado, não podia respirar. Cranford?
Fazendo chantagem a ele e à Maggie? Por todos os Santos,
por que? Seu punho se relaxou sobre o pescoço de James e o
homem se encostou contra o muro ofegando para respirar.
— Cranford? — Simon repetiu, e pensou em voz alta o
que sabia de ambos os homens. — Você e Cranford tinha
planejado tudo isto? Mas como aconteceu?
— Somos amigos. — James elevou o queixo. — Faz
tempo. De fato, ele geriu muitos dos meus assuntos nos
últimos anos. Tem boas ideias e sempre sabe onde podem
fazer-se investimentos de peso.
— James, você nunca fez um investimento de peso em
sua vida. Esteve… dando dinheiro ao Cranford?
— Só quando surge a oportunidade. Nem sempre posso
participar. E não é culpa dele se um negócio fracassa. É um
homem honesto.
Virgem Santa. Pelo visto Cranford estava há anos tirando
dinheiro do James. Não, do James não, dos Winchester.
— Não, não é. É um mentiroso, um violador e
possivelmente um assassino. E agora sabemos que também é
um estelionatário e chantagista. Por Deus, James.
Simon segurou a ponte do nariz entre os dedos.
— Um… violador? Assassino? Não, não pode ser.
— Me diga, como tinha que contatar com ele depois do
pagamento?
James meneou a cabeça.
— Não tinha que fazê-lo. Disse-me que ele me procuraria
quando retornasse de Paris.
— Cranford estava em Paris?
Simon notou que se fazia um nó no estômago, porque as
peças começavam a encaixar. O homem do terraço na festa de
Maggie. O acidente da carruagem. O fato de que o chantagista
soubesse como entrar em contato com eles. Apoiou uma mão
na parede para sustentar-se.
— Então, foi você quem mandou uma nota à senhora
McGinnis pedindo o dinheiro?
— Cranford me disse o que tinha que dizer. — Coçou a
cabeça. — Agora que penso, não é provável que esteja na
França. Porque se fosse assim como ia saber que vocês estão
aqui?
Simon pensou na perspicaz pergunta de James.
— O homem da habitação é o imitador que esteve
fazendo-se passar pelo Lemarc?
— Sim, eu o descobri. É bom, não é?
Simon esboçou uma careta e reprimiu o impulso de
voltar a agarrá-lo pelo pescoço.
— Pois não é algo do que possa estar muito orgulhoso,
James.
James ficou sério.
— Bom, agora que sabe o que pensa fazer?
Simon considerou as opções. Definitivamente queria
acabar o que tinha começado naquele beco, mas seria difícil
justificar a morte de James ante sua família. O que devia
fazer era desfazer-se dele sem assassiná-lo.
— Por sorte para ti, tenho uma casa em Edimburgo.
Prevejo uma longa estadia na Escócia em seu futuro, James.

***

Maggie andava acima e abaixo por seu ateliê, furiosa por


ter que permanecer em casa. A luz do entardecer começava a
apagar-se. Sem dúvida àquelas alturas o dinheiro já estaria
nas mãos do chantagista. Simon e o senhor Hollister tinham
pensado seguir a pessoa que recolhesse o pacote. O teriam
encontrado? O que estava acontecendo? Sentia-se tão
impotente que lhe dava vontade de começar a puxar os
cabelos.
Ela deveria estar lá. Estaria lá se não fosse pela teimosia
do Simon.
Tinha até colocado um homem na porta para assegurar-
se de que não saísse. Deixá-la encerrada como se fosse uma
prisioneira. A insolência desse homem…
Não tinha nenhum direito de resolver seus problemas
por ela nem de tomar decisões em seu nome. Nada tinha
mudado entre eles desde Paris. A ameaça da rebelião seguia
pesando sobre ela, para não mencionar o fato de que um
louco andava por aí tratando de afundá-la. Simon não se dava
conta do perigo que corria sua reputação se alguém
descobrisse sua identidade? Ou do que aconteceria à sua
posição política se vinculavam seu nome ao dela?
«Nem que eu tenha que renunciar ao meu banco na
Câmara dos Lordes.»
A ideia de que estivesse disposto a renunciar ao seu
legado familiar a comovia e a aterrava ao mesmo tempo. Mas
não permitiria que o fizesse, não, jamais o obrigaria a
escolher. Embora ele não tivesse dado importância às suas
preocupações, Maggie sabia o que aconteceria se casassem.
Com o tempo Simon acabaria ressentindo-se pelas
consequências de sua relação. Sentir-se-ia doído com ela.
Notava uma forte pressão no peito, custava-lhe respirar.
A tentação de jogar tudo pela amurada, de correr em busca
do Simon e não pensar nas consequências a afligia… mas
resistiu. Sabia bem o que era a alta sociedade te dar as
costas, quão feia podia chegar a ser a vida quando já não tem
o controle. Simon tinha sido reverenciado desde o berço, era o
precioso herdeiro de uma das famílias mais enriquecidas da
Inglaterra. E não tinha nem ideia do que lhe esperava se
renunciasse a tudo.
Então teria que ser ela quem atuasse com sentido
comum. Aprenderia a viver sem ele. Não tinha outro remédio,
porque, assim que se solucionasse o assunto do chantagista,
abandonaria a Inglaterra para sempre.
— A duquesa de Colton deseja vê-la, milady — Tilda
disse na porta.
Maggie sentiu a esperança renascer em seu peito. Não
tinha visto Júlia desde que retornou de Paris. Traria notícias
do chantagista? Maggie saiu correndo ao vestíbulo.
— Não precisa mandá-la subir, Tilda! Já estou descendo!
— Gritou enquanto corria.
Desceu as escadas de dois em dois degraus e chegou por
fim à sala onde Tilda sempre deixava as visitas. A duquesa
estava examinando um quadro da parede quando Maggie
entrou.
— Júlia, — Saudou ofegante — traz notícias?
Júlia se voltou e meneou a cabeça.
— Não. Esperava que você soubesse algo. A espera
estava se fazendo interminável em casa.
Maggie desanimou e tentou respirar.
— Bom, então ao menos poderemos esperar juntas.
Cruzou a habitação e chamou para que lhes trouxessem
um chá.
— Tem muito talento. — De novo Júlia ficou a examinar
o quadro da paisagem, o quadro com o chorlito que Simon
tinha utilizado para identificar o Lemarc. — E o Vinochester
foi uma pincelada de gênio.
— Obrigada, embora uma parte de mim desejaria não ter
inventado nunca esse nome. Todo este embrulho poderia ter
sido evitado.
— Não pode dizê-lo a sério — Júlia exclamou. — Me
disseram que você e Simon solucionaram suas diferenças em
Paris.
— Deixa que adivinhe. Simon disse-lhe isso.
Júlia enrugou a testa com preocupação.
— Sim, isso. Não é verdade?
Maggie se sentou e ficou a arrumar as saias enquanto
pensava no que devia dizer. Se se mostrasse sincera Júlia
guardaria o segredo ou o contaria tudo ao Simon? Quando a
duquesa viu que não respondia, instalou-se em uma cadeira
próxima.
— Maggie, devo te confessar uma coisa. Temo… — Júlia
falava com tom inusualmente grave, e seus olhos azuis
mostravam sinais de preocupação e culpabilidade. — Bom,
seja como for é hora de que saiba.
— Está me preocupando.
Júlia assentiu.
— Sim, tem razão. É algo que teria que te haver dito faz
tempo. Veja, quando se apresentou em sociedade, quando
explodiu o escândalo…-se esclareceu garganta e cruzou as
mãos sobre o regaço. — Simon queria desafiar o Cranford,
mas eu o convenci a não fazer.
Maggie pestanejou.
— Simon queria desafiar o Cranford?
— Sim. Estava furioso. Estava convencido de que
Cranford te tinha desonrado. Evidentemente, eu não conhecia
os detalhes, do contrário lhe teria deixado seguir com sua
ideia. Mas fui egoísta: tinha dezesseis anos, tinham-me
casado com um desconhecido que me abandonou em seguida.
Simon tinha sido meu amigo desde a infância. E naquele
tempo me aterrava pensar que pudessem matá-lo, que se
visse obrigado a abandonar a Inglaterra. Então o convenci
para que primeiro falasse com o Cranford em lugar de
enfrentá-lo com pistolas ao amanhecer.
Um duelo. Simon tinha querido defendê-la. De repente
Maggie se sentiu aturdida, cheia de assombro e gratidão.
Durante tanto tempo tinha dado por certo que todo mundo
lhe deu as costas quando explodiu o escândalo, entretanto
agora descobria que Simon se importara e tinha querido
defendê-la arriscando sua vida por ela. Graças a Deus que
Júlia o tinha convencido para que não o fizesse. Se o tivessem
matado… bom, não tinha sentido desfrutar-se no passado.
Bastava dizer que estava agradecida porque seguia vivo.
Enquanto Maggie tratava de assimilar esta nova
informação, Júlia mudou de posição em seu assento.
— Sinto-me espantosamente mal pelo que fiz, Maggie. Se
Simon tivesse desafiado o Cranford sua vida teria sido muito
distinta. E não só isso, teriam se unido muito antes.
— Talvez sim… ou não — ela concedeu. — Nunca
saberemos o que teria acontecido. Também cabe a
possibilidade de que Cranford lhe tivesse matado.
Pela expressão carrancuda de Júlia notava-se que aquilo
não a tranquilizava.
— Seriamente, — Maggie disse então — me alegro de que
o deteve. Desafiar o Cranford teria sido um erro monumental.
— Maggie,-as palavras de Júlia pareciam graves — Sua
reputação, seu apelido. As coisas tão terríveis que teve que
suportar… nada de tudo isso teria acontecido se lhe tivesse
deixado lançar o desafio. A estas alturas viveria felizmente
protegida em Winchester Towers com quatro ou cinco filhos.
— Deus me livre — ela retrucou com desdém.
Júlia a olhou surpreendida.
— Tão espantoso seria isso?
Maggie serenou e pensou na forma mais correta de
expressar seus pensamentos. Não havia muitas mulheres que
pudessem entender, mas talvez Júlia sim.
— Meu matrimônio com o Hawkins não foi trágico, e
tinha suficiente liberdade para estudar e praticar minhas
capacidades. Viajei a Paris. Conheci o Lucien. E descobri
coisas sobre mim mesma que jamais teria visto se não tivesse
sofrido aquele escândalo. Não me arrependo de nada do que
vivi. E embora não desejo a ninguém que se veja salpicado
por algo assim, minha reputação me permite certas
liberdades que de outro modo não teria. Tive uma vida que a
maioria das mulheres não se atreveriam nem a sonhar. Não
foi perfeita, mas ao menos posso dizer que vivi de verdade.
Nunca tinha expressado aquilo em voz alta, mas cada
palavra era verdade. A tensão que durante tantos anos a
tinha acompanhado se desvaneceu, e de repente se sentiu
mais leve, mais feliz. E daí se algumas pessoas riam às suas
custas? Maggie podia ser muito mais que a correta lady
Margaret Hawkins; também era Maggie, a rameira meio
irlandesa, e era Lemarc. Pobres delas, que só eram uma
pessoa.
— Alivia-me tanto te ouvir dizer isso — Júlia disse por
fim. — Não lhe reprovaria se me dissesse que eu fosse ao
inferno. Eu faria se estivesse em seu lugar.
— Não. Aprecio-te muito. Além disso, só estava
preocupada com o bem-estar do Simon, e com razão.
— Ama-o ? — Júlia inclinou sua cabeça loira com seu
bonito chapéu. — Devo dizer que jamais o vi tão apaixonado
por uma mulher. Se lhe partir o coração eu não gostaria de
ter que tomar partido por um dos dois.
Amá-lo? Em outro tempo pensou que o amava, quando
era jovem. Agora preferia não pensar nisso, preferia pensar
que a sua era uma relação passageira. Um capricho do qual
os dois se recuperariam quando terminasse… porque ia
terminar. Tendo em conta quem era cada um deles, não
tinham eleição.
Decidiu ser sincera.
— Decidi abandonar Londres assim que meus assuntos
aqui fiquem resolvidos, assim não terá que preocupar-se por
tomar partido.
— Abandonar Londres?-o rosto de Júlia pareceu
confuso. —Mas eu pensei que… ele sabe?
Maggie meneou a cabeça.
— Não, não contei a ninguém.
— Por que?
Não era evidente? Maggie assinalou com o gesto à
habitação, com a boca pastosa.
— Pelo Lemarc. Pela rameira meio irlandesa. Por tudo o
que sou. — Ou melhor, o que não era. Proferiu uma risada
seca. — Imagina-me como consorte de um político? Seria
absurdo.
— Sim, imagino — Júlia retrucou endireitando os
ombros. — Está me dizendo que não se considera o bastante
boa para ser a esposa do Simon? Que é indigna? — Levantou-
se de repente e ficou a andar acima e abaixo pela habitação,
furiosa. — Ele insinuou de algum modo que…?
— Não! É claro que não. Diz que quer casar-se comigo
embora eu esteja segura de que mudará de opinião assim que
tenha tempo de pensar com um pouco de calma nas
desafortunadas implicações de um ato tão temerário.
— Temerário? Levam quase dez anos esperando para
estar juntos. Em que sentido isso pode ser temerário?
Tilda entrou com o chá e ambas esperaram
pacientemente a que a criada se retirasse. Maggie se entreteve
servindo o chá e Júlia voltou para seu assento. Era evidente
que a duquesa tinha idealizado a relação do Simon e Maggie.
Ela, por sua parte, fazia muito que não idealizava nada, a
vida lhe tinha ensinado a ser prática, por necessidade,
inclusive se às vezes era duro.
— Deve saber — Júlia comentou aceitando sua xícara e o
pires — que embora todos os Winchester foram políticos
brilhantes, não há nenhum só que não tenha um escândalo
em seu passado. E por mais respeitável que te possa parecer
Simon neste momento…
— Os escândalos dos homens são perdoados — Maggie
lhe recordou amavelmente. — E você sabe. Para as mulheres
é distinto. E acabaria me odiando por isso.
— Não se subestime nem subestime o Simon. E eu e
Colton lhes apoiaríamos com todo nosso empenho. Os quatro
poderíamos formar uma força formidável.
«Não quando o mundo descobrir a verdadeira identidade
do Lemarc», pensou Maggie. Aquela notícia superaria com
acréscimo o alcance de qualquer escândalo. Se o chantagista
se desse bem, Lemarc seria desmascarado e passaria muito
tempo na prisão. E inclusive se esta ameaça desaparecesse,
sempre haveria outra, sempre haveria alguém tentando
arruinar o Lemarc. Como podia permitir que Simon e seus
amigos se vissem salpicados por seus trambiques? Melhor
partir agora que estava a tempo.
Ainda assim não queria discutir com a duquesa.
— Falemos de assuntos mais interessantes. Não me
havia dito que conheceu o Colton em Veneza. Me diga, como
conseguiu que o dissoluto duque se apaixonasse por ti?
Capítulo 20
— Não há nem rastro dele, milorde — Hollister disse
quando entrou no escritório do Simon depois de ser
anunciado.
Simon estava frustração.
— Tal como suspeitávamos — Colton assinalou. — Se
escondeu.
— Certamente nos viu seguindo o rapaz que foi recolher
o pacote à tarde e compreendeu que íamos apanhar sir James
— Quint apontou.
Depois de ocupar-se de sir James, os homens se
separaram para procurar o Cranford. Hollister e Colton
tinham visitado os lugares mais desonrosos que sabiam que
Cranford frequentava, enquanto Quint e Simon percorriam os
clubes e antros do West End. Entretanto, já era mais de meia-
noite e o fracasso pesava sobre eles como uma nuvem escura.
— A menos que esteja em Paris — Colton propôs. — Não
temos forma de saber. Levo semanas procurando-o. Se
estivesse aqui já teria encontrado algum indício.
— Não necessariamente — Quint disse, e deixou a xícara
com seu pires sobre a mesa. — Poderia muito bem estar em
algum local de fumantes de ópio.
— E mover dali as cordas com o assunto de sir James?
Não, não acredito. — Simon se levantou para esticar as
pernas, tratando de pensar numa solução. — Vamos ver, e
agora o que fazemos? — Perguntou sem dirigir-se a ninguém
em particular.
Todos guardaram silêncio, e então Quint falou:
— Volta a dizer o que Cranford disse à Maggie em Paris.
Simon esfregou as têmporas e tratou de recordar tudo o
que Maggie lhe tinha contado. Tinha tido que insistir muito
para que lhe desse os detalhes de tudo o que tinha
acontecido, e não o fez a não ser até uns dias depois.
— Maggie lhe pediu que se identificasse e ele se negou,
disse que o faria em seu devido tempo. Confessou que sabia
que ela era Lemarc e que eu a usaria.
— Sigo pensando que é algo pessoal contra ti,
Winchester — Quint disse. — E esses comentários não fazem
a não ser confirmar. O que Cranford tem contra ti?
Simon encolheu os ombros. Ele mesmo não conseguia
entender.
— Nada da escola ou da universidade, que eu recorde —
Colton disse. — Cranford era uns anos mais velho que nós e
eu mal o recordo.
— Aquele dia, no clube Brook’s, parecia a ponto de lhe
estrangular — Quint recordou. — O que te disse para que
ficasse tão furioso?
Simon quase tinha esquecido a conversação.
— Aconselhou-me que me afastasse de Maggie, tratando
de fazê-lo passar como preocupação de amigo, é claro, e
zombou de sir James.
Já junto ao aparador serviu-se outro copo de clarete.
— O que não encaixa é o ataque à jovem no bordel de
madame Hartley — Quint apontou. — Cranford é um ladrão e
um mentiroso. Um estelionatário. Mas não o vejo
assassinando ninguém.
— Agrediu Maggie no ano de sua apresentação — Simon
assinalou. — Tentou seduzi-la e ficou violento quando ela o
rejeitou.
— Quero falar com Maggie — Quint disse ficando em pé.
— Possivelmente ela recorde alguma outra coisa sobre sua
conversação com o Cranford no terraço.

***

Embora já fosse tarde, Maggie se sentia estranhamente


acordada quando a duquesa se foi. O guarda seguia ante sua
porta, e a ideia de estar prisioneira em sua própria casa a
fazia sentir-se irritável e inquieta. Decidiu voltar para seu
ateliê.
Depois de despedir-se Tilda subiu as escadas para
dirigir-se ao seu refúgio, com uma lamparina na mão. O local
estava às escuras e tomou um momento para acender várias
lamparinas. Quando terminou, uma sombra em um canto lhe
chamou a atenção. Maggie se voltou e tratou de ver se havia
algo ali.
Justo quando avançava um passo para ir investigar uma
figura emergiu das sombras. Ficou paralisada, porque o rosto
que saiu à luz era o de lorde Cranford.
Sua expressão era horripilante e seus olhos escuros a
olhavam muito brilhantes. Maggie deu um pulo.
— O que faz aqui? — Disse com voz entrecortada
enquanto recuava.
— Não estou convidado? Pensei que esta era outra de
suas infames festas.
— Você nunca foi um convidado aqui.
E lançou uma olhada à única porta. Por desgraça, ele
estava mais perto.
— Não estará pensando em fugir?-meneou a cabeça. —
Não chegaria a tempo. Embora não me importaria ter que te
restringir.
Um calafrio lhe percorreu a coluna. Pensou em Cora, a
jovem a que quase tinha matado no bordel de madame
Hartley. Cranford era capaz de semelhante brutalidade?
Aquela noite, nos jardins Lockheed, tinha sido brusco, mas
não a tinha golpeado e tampouco a tinha ferido. Mesmo
assim, a possibilidade de que empregasse a violência com ela
fez com que não tentasse chegar à porta.
Maggie elevou o queixo.
— Gritarei, e todo o serviço virá em minha ajuda.
Cranford moveu o braço, que até esse momento tinha
tido às costas. Estava apontando com uma pistola.
— Pode tentar, mas não acredito que esteja disposta a
pagar com a vida. Sobretudo porque certamente quererá
escutar o que tenho que te dizer. Sente-se, Maggie.
Maggie baixou o corpo lentamente para sentar-se em um
pequeno tamborete de madeira, sem deixar de olhar ao seu
redor com dissimulação, procurando algo que pudesse utilizar
como arma. Entretanto, seu ateliê estava ordenado, e não
havia nada ao seu alcance, salvo um lápis. Quando Cranford
se moveu para fechar a porta, Maggie agarrou rapidamente o
lápis e o escondeu entre as saias antes que ele desse a volta.
Cranford avançou para ela. Suas calças negras e o
casaco de cor cereja lhe davam um ar estranhamente
civilizado que contrastava com a careta zombeteira de seu
rosto. Maggie tratou de conservar a calma, não permitiria que
a assustasse. Respirava fundo e não apartava o olhar de seu
rosto.
— Não faça isto — advertiu. — Está se equivocando.
Cranford se deteve uns metros com um leve tic no olho
esquerdo.
— Levanta as saias cada vez que Winchester te indica
que se aproxime com aquele dedo privilegiado e mimado que
ele tem? Abre as pernas e deixa que te use com prazer, como
faria uma puta? É isso o que é para ele?
Deus, estava falando do Simon. Maggie tratou de conter
a repugnância que lhe provocavam aquelas palavras.
— Então tudo isto é pelo Winchester?
— Por que ele? Nunca entendi. Me rejeitou e em troca se
colocou em sua cama à primeira oportunidade.
— Estava prometido com minha amiga!
Para não falar que ela sempre tinha querido o Simon,
desde a primeira vez que pôs seus brilhantes olhos azuis
sobre ela.
— Não pode ter tudo! Por que sempre têm que ficar com
tudo?
O homem respirou fundo várias vezes, com as narinas
inchadas, como se estivesse tentando não perder o controle.
— Têm? Refere-se à família Winchester?
— A ele e a todos os privilegiados com um título. Não
fazem outra coisa que nadar em um dinheiro que não
ganharam. Apostas, lutas de boxe… o esbanjam como se não
fossem mais que migalhas.
— Mas você é visconde. Você tem…
— Tenho dívidas. Minhas propriedades valem menos que
o papel sobre o qual estão declaradas. Tive que perder e
sofrer, tive que me casar com uma mulher a quem detesto por
seu dote. Mas recuperarei o que é meu. — E a assinalou com
a pistola. — E aí é onde entra você, querida minha.
A cabeça de Maggie dava voltas e fechou os punhos com
força tratando de concentrar-se.
— O que pensa fazer?
— Meu erro foi confiar em sir James. Não é mais que um
palhaço. Em troca você…-seus lábios se curvaram em um
sorriso. —Tinha que ter te usado desde o começo. Ele fará o
que você quiser, não é verdade?
Sir James? Mas do que estava falando? Apertou com
força o lápis e rezou para que fosse suficiente quando
chegasse o momento.
— Já não... Já não estamos… relacionados.
Dedicou-lhe um olhar travesso.
— Ora, vamos. Não me faça perder o tempo com
mentiras. Vi-o contigo, vi como te olha. Deus, tinha que ter
visto a cara dele quando lhe mostrei aquelas cartas há anos.
Acreditou de verdade que as tinha escrito. Quase me mijei de
felicidade.
— Pensei que tudo isto era por dinheiro — Maggie
balbuciou. — Ou é porque desfruta arruinando a vida dos
outros?
— Sempre é por dinheiro… neste caso, um dinheiro que
trabalhei muito para conseguir. Tive que aguentar a
companhia de sir James durante anos só para diminuir a
fortuna de milhares de libras do Winchester. — Sorriu. —
Arruinar vidas só é um benefício a mais.
Maggie o olhou entrecerrando os olhos.
— Como arruinou a de Cora?
Ele a olhou confuso.
— Cora?
— A jovem do bordel de madame Hartley.
— Não conheço ninguém que se chame Cora — disse
perplexo, e Maggie soube que dizia a verdade. — E nunca
extorqui nenhuma das garotas da Hartley.
Então o responsável pelo ataque não era ele. Madame
Hartley se equivocara. Maggie decidiu guardar aquele detalhe.
— Não te ajudarei a roubar o Winchester.
— Oh, sim o fará, minha senhora. Ou te revelarei em
toda Londres como Lemarc.
Maggie ficou gelada, porque as peças começavam a
encaixar. Cranford era o chantagista. Deus, nunca se livraria
daquele homem?
— Como soube que sou Lemarc?
— Segui-te. E logo todo mundo saberá, se não me
ajudar.
— Não se atreveria. É a única coisa que tem contra mim.
— Equivoca-se — disse com uma careta depreciativa. —
Se não me ajudar te arruinarei. Outra vez. De modo que,
antes de dizer que não, pensa na reputação da sua irmã.
Pensa em como ganha a vida. Pensa na família do Winchester
e seu brilhante futuro político-terminou de dizer com um
dramatismo que Henri teria invejado.
Maggie jamais roubaria Simon nem abusaria de sua
confiança de um modo tão enganoso… inclusive se isso
significasse outra vez sua ruína. Além disso, sua irmã
precisamente a tinha animado a anunciar que ela era Lemarc;
a possibilidade de um escândalo não a inquietava
absolutamente. E posto que já tinha cortado relações com o
Simon, seus problemas não lhe afetariam.
— Pois então adiante, faça. Não penso te ajudar. —
Maggie ficou em pé, ocultando ainda o lápis entre as saias. —
É um covarde e um ladrão, Cranford, e logo todos em Londres
saberão.
O rosto do homem ficou mole, como se não conseguisse
acreditar que ela dissesse que não. A mão com a qual
segurava a arma se sacudiu.
— Não se atreverá. Te colocarão no cárcere por aqueles
desenhos.
À Maggie já não importava. Sem o Simon já nada lhe
importava.
— Parece que sim. Ao menos espero que me deixem ter
um lápis.
O homem pestanejou e apartou o olhar enquanto tratava
de refazer-se. Maggie, intuindo que era seu momento, saltou
para frente com o lápis em alto, e se dispôs a golpear no
ombro ou no pescoço… qualquer ponto vulnerável onde
pudesse lhe acertar para facilitar sua fuga.
Mas o sussurro de suas saias a delatou e Cranford
voltou a cabeça bem a tempo. Entretanto, com o impulso de
seu corpo Maggie fez a pistola cair de suas mãos antes que
pudesse voltar a apontá-la e a arma se chocou contra o chão
com grande estrépito. O lápis se cravou no ombro e Cranford
gritou. Com ambas as mãos a apartou e a empurrou contra a
mesa. O golpe a deixou sem fôlego e viu com impotência como
Cranford pegava uma lamparina e a jogava contra um montão
de quadros e telas vazias.
— Não! — Maggie gritou.
Horrorizada, viu que a lamparina se abria e o querosene
se derramava. O efeito foi instantâneo. As chamas saltaram e
engoliram as telas a uma velocidade alarmante. Seu coração
começou a pulsar acelerado. O fogo era o pior pesadelo de um
pintor, porque em todo ateliê sempre havia o tão necessário
solvente mineral e a terebentina.
Notou um movimento e ao voltar-se viu que Cranford
tinha recuperado sua pistola e estava apontando-a de novo.
As chamas eram cada vez mais altas, e a fumaça pungente da
combustão dos trapos manchados de azeite lhe ardia nos
olhos. Cranford apertou o gatilho, mas a arma se emperrou e
o calor lhe fez cair para trás. Voltou-se então para a porta e
Maggie soube que só tinha uns momentos antes que os
solventes sucumbissem sob o fogo e tudo se perdesse. A
explosão, sem dúvida, destroçaria a habitação e eliminaria
qualquer possibilidade de fuga. Maggie correu para a porta,
mas Cranford foi mais rápido. Fugiu ao corredor e fechou a
porta antes que Maggie pudesse alcançá-la.
Justo quando suas mãos tocavam a madeira ouviu que
Cranford jogava a chave por fora.
— Me deixe sair! — Gritou golpeando a superfície lisa. —
Me Deixe sair! Não direi a ninguém, prometo. Mas não me
deixe morrer aqui! — E seguiu esmurrando a porta, embora
os punhos lhe doessem, chamando-o aos gritos, chamando
Tilda ou qualquer um que pudesse ouvi-la. Jogou-se com
todas as suas forças contra aquela superfície de madeira… e
só encontrou resistência. — Maldição! — Renegou.
Maggie olhou ao seu redor e viu que mais da metade da
habitação já estava em chamas. O fogo estava a escassos
centímetros dos solventes e uma fumaça negra subia para o
teto fazendo com que cada fôlego lhe doesse nos pulmões.
Sabia que só tinha uns minutos ou segundos, para salvar a
vida.
Aproximou-se da fileira de janelas e tragou com força.
Saltar significava uma morte segura. Levantou a vista à
claraboia do teto, mas em seguida soube que não lhe servia.
Mesmo que conseguisse chegar a ela, a abertura não era
suficientemente larga para que pudesse passar. Tossiu
porque mal podia respirar e compreendeu que não tinha
eleição. Com rapidez, saiu à estreita murada que corria pela
fachada sob as janelas. Não teria mais largura que seu pé, de
modo que se pegou contra a parede como pôde, cravando as
unhas no gesso. «Não olhe para baixo… Não olhe para baixo.»
Preocupada ainda pela explosão iminente, tratou de
procurar uma saída e se afastou tão depressa como pôde pela
borda com movimentos comedidos. Nunca tinha se alegrado
tanto de que as casas fossem tão coladas em Londres.
Respirou fundo e saltou à borda do edifício adjacente
cobrindo a escassa distância que os separava.
Quando aterrissou, seus pés tropeçaram e se aferrou à
parede com o coração em um punho. Depois de uns segundos
conseguiu recuperar o equilíbrio e suspirou aliviada. Colou o
rosto à parede tão agradecida que esteve a ponto de beijá-la.
Entretanto, seus problemas ainda não tinham
terminado; se seu ateliê explodisse, podia ser que aquela casa
se incendiasse também. Tinha que chegar ao nível da rua em
seguida.
Capítulo 21
No momento em que desembarcou da carruagem Simon
soube que algo ia mau. A atmosfera parecia estranhamente
quieta e havia um aroma estranho…
— Não cheira a fumaça? — Quint perguntou farejando o
ar.
O coração de Simon quase para. Não podia saber que
casa era a que estava em chamas, mas com frequência os
pintores utilizavam substâncias inflamáveis. Se o fogo
estivesse perto do escritório de Maggie, o edifício inteiro podia
explodir.
— Olhem ali — Colton assinalou. — Há fumaça pela
parte de trás.
Sim, não cabia dúvida, nuvens de fumaça negra e cinza
saíam da parte posterior da casa de Maggie.
— Oh, Deus! — Simon exclamou, e correu para a
entrada. — Colton, avisa a brigada de bombeiros!
Abriu a porta de um golpe e correu ao interior, com o
Quint lhe pisando os calcanhares. A fumaça pungente, que
dentro era decididamente mais intensa, penetrou em seus
narizes. Estava o fogo em uma das habitações? Nas cozinhas?
Tinha que encontrar Maggie em seguida.
Com o sangue rugindo em seus ouvidos subiu as
escadas correndo de dois em dois degraus. Justo quando
chegou acima ouviu que Quint lhe gritava:
— Cuidado!
Simon se voltou e viu um despenteado lorde Cranford
saltar de um canto e ouviu a inconfundível detonação de uma
pistola. Abaixou-se cobrindo a cabeça. Um corpo caiu sobre o
chão e ao voltar-se Simon viu Quint sobre o carpete
segurando o pescoço com as mãos. O sangue empapava as
gemas de seus dedos.
Antes que tivesse tempo de ajudar Quint, Cranford
saltou por cima da balaustrada e aterrissou sobre o patamar.
Simon saltou por cima do corpo do Quint para correr às
escadas. Impulsionado pelo instinto, saltou do degrau mais
alto e caiu sobre as costas do Cranford. Os dois rodaram
escada abaixo, mas Simon aproveitou sua maior envergadura
para que fosse Cranford quem levasse a pior parte na queda.
Quando finalmente chegaram abaixo, Cranford não se
movia. Tinha os olhos abertos e respirava abrindo muito a
boca, como se lhe faltasse o ar. Simon o sacudiu com
brutalidade.
— Onde ela está?
Colton apareceu na entrada.
— As chamas saem da planta de cima, da parte de trás.
Fitz foi em busca da brigada. Eu me ocuparei deste bastardo.
Corre, Winchester!
— Disparou ao Quint! — Simon gritou à sua vez. — Está
no patamar. Ponha-o a salvo e logo manda um criado em
busca de um médico. Cranford já não está em condições de
fazer mal a ninguém.
Simon subiu correndo as escadas, com o único
pensamento de chegar à Maggie. No patamar viu a criada que
descia do piso de cima.
— Milorde, não posso entrar no ateliê!— a mulher
exclamou. — A porta está fechada com chave e se nota
muitíssimo calor.
— Há outra forma de entrar?
— O telhado!— a mulher respondeu com voz premente.
— Há uma claraboia.
Simon correu até a mulher.
— Como posso subir?
— Há uma porta ao final das escadas que levam às
habitações do serviço. Me siga, milorde.
Quando Simon se encontrou por fim no telhado, sobre o
ateliê, teve que conter a respiração e tratar de ver entre a
espessa fumaça. A sensação de pânico se incrementou
quando compreendeu que nenhum deles poderia passar por
aquela estreita abertura. Como demônios ia tirá-la dali? Deu
um chute à janela e gritou para fazer-se ouvir por cima do
rugido das chamas.
— Maggie! Pode me ouvir?
Não houve resposta, e Simon temeu o pior. Correu ao
extremo do telhado e olhou abaixo procurando outra forma de
entrar no escritório em chamas. Com um sobressalto viu uma
figura agarrada à fachada da casa do lado. Os joelhos quase
lhe dobram. Oh, obrigado, Senhor.
— Maggie!
Via-a mover os lábios, sabia que estava gritando, mas
não conseguiu ouvir nada por cima do rugido do fogo. Maggie
ficou a agitar as mãos tratando de lhe avisar para que saísse
dali. Para Simon a única coisa que lhe importava era chegar
até ela.
Retrocedeu uns passos e correu, e se impulsionou tão
forte como pôde para saltar ao teto do outro edifício. Assim
que aterrissou correu até a borda para olhar. Maggie inclinou
a cabeça para cima e o olhou. Tinha o cabelo desarrumado e
manchas de fuligem no rosto e as roupas, entretanto jamais
lhe tinha parecido mais formosa. Simon sentiu uma forte
pressão no peito.
— Está ferida?
Ela meneou a cabeça, com o pânico gravado em suas
delicadas feições.
— A janela está fechada. Não posso entrar! Se apresse,
Simon.
Simon ficou em pé e em seguida localizou a portinhola
para entrar na casa… e a golpeou com o pé com todas as suas
forças. A madeira se estilhaçou, e após dar mais uns chutes
conseguiu entrar. Desceu as escadas e percorreu a planta de
cima até que viu Maggie através de uma janela.
Segundos depois levantou a guilhotina e lhe estendeu os
braços. Assim que seus pés tocaram o chão da habitação
Simon a abraçou.
— Por Deus, mulher. Deste-me…
Ela o apartou com brutalidade.
— Não há tempo para isso. Fogo. Solventes. Explosão.
Corre! — E o empurrou para que se apressasse para o
corredor.
Simon a puxou pela mão e saíram rapidamente da
habitação. Enquanto se dirigiam à rua não deixaram de gritar
«Fogo!» para alertar as pessoas que pudessem estar na casa.
Iam pela metade das escadas quando ouviram um estampido
ensurdecedor que sacudiu o edifício, e Simon a arrastou com
maior firmeza para a rua.
Saíram correndo pela porta. Na rua encontraram-se com
o caos. Parecia que toda Mayfair estava na Charles Street,
para não mencionar a brigada de bombeiros, que também
tinha chegado. Havia homens que gritavam e davam ordens
enquanto outros tratavam de manter as pessoas distantes. A
bomba lançava água contra a casa de Maggie… com escassos
resultados. As chamas tinham engolido o interior e Simon se
encolhia cada vez que ouvia o som surdo de algum móvel ou
da madeira ao estalar. Se não tivesse reagido tão depressa,
Maggie poderia muito bem estar lá dentro ainda.
Maggie deu uns passos para a casa, mas Simon colocou
a mão no braço dela. E embora ela parecesse surpreendida,
ele a ignorou e a abraçou com força. Podia sentir como seu
corpo tremia.
— Quase me mata de susto, Mags — Sussurrou contra
seus cabelos cobertos de fuligem. — Não volte a fazê-lo nunca
mais.
Ela estalou a língua cansada e o abraçou com força.
— Tentarei, Simon. Agora deixa que eu vá ver como está
o serviço.
— E eu tenho que comprovar como segue Quint — ele
disse com gesto sombrio.
— Quint? Por que?
— Cranford lhe disparou.
Maggie deu um pulo, voltou-se e começou a avançar
entre a multidão com o Simon atrás. Quando encontraram
Tilda inteirou-se que tinham levado Quint a uma casa da
vizinhança e que o médico tinha chegado fazia escassos
momentos. Então Simon levou Maggie a um lado para falar
com ela antes de ir ver como estava seu amigo.
— Temo que sua casa não poderá salvar-se — e lhe
limpou um borrão negro da bochecha com o polegar.
— Temo que tem razão. — Maggie arqueou uma
sobrancelha. — Embora pareça que se alegra, não o entendo.
— Em primeiro lugar, tudo o que se perder, pode se
repor. O que importa é que você esteja a salvo. E em segundo
lugar,-se inclinou para lhe sussurrar ao ouvido — Sorrio
porque resulta que já sei onde vai dormir esta noite.

***

O calor lhe ardia nos olhos e o ar estava tão quente que


quase não podia respirar. O pânico e a fumaça saturavam
seus pulmões. Tratou de chegar ao piso de cima evitando as
chamas, mas avançavam muito rápido. Não podia fugir… era
como se tivesse as pernas afundadas em melaço.
Gritou pedindo ajuda.
— Maggie, acorda!
Maggie despertou com um sobressalto, com uma mão
que a sacudia brandamente pelo ombro. O suor lhe caía pela
testa e ofegava, com todos os músculos em tensão. Um sonho,
disse a si mesma. Só tinha sido um sonho. Estava longe do
fogo, a salvo.
— Maggie, está bem?
Maggie se voltou e viu a duquesa de Colton ao seu lado.
— Estou bem. Só era um pesadelo — disse com voz
rouca.
Ainda se notava a garganta ressecada pela fumaça e a
fuligem. Júlia pareceu dar-se conta e a ajudou a beber um
gole do copo de água que havia na mesa.
— Não queria te despertar, — Júlia lhe dizia nesse
momento — mas não deixava de se sacudir e gemer. Estava
começando a me preocupar.
Maggie tragou e se relaxou contra os almofadões. A
intensa luz do Sol penetrava por entre uns cortinados
desconhecidos. Simon não tinha faltado à sua palavra e tinha
insistido em levá-la à Barrett House. O fogo já se extinguira, e
pouco teria que ela pudesse fazer em sua casa. Pelo visto
Cranford tinha morrido pela queda nas escadas. De modo que
Simon tinha tido que ocupar-se dos policiais e do Quint, a
quem tinham disparado no pescoço. Graças a Deus, a ferida
resultou ser de pouca importância. A bala tinha esmigalhado
o tecido mole, mas não havia tocado nada vital.
— Onde está Simon? — Perguntou à Júlia.
— Foi ver alguém. Mandou me buscar para que não
ficasse sozinha.
— Como está Quint?
— Recuperando-se. Pelo visto, em umas semanas estará
como novo.
— É um alívio. Se alguém tivesse morrido…
— Sei, querida. — E lhe apartou os cabelos da testa. —
Todos estávamos muito preocupados contigo. Quer um
chocolate? Chá? Umas torradas? Pedirei que lhe subam o que
você quiser.
— Chocolate e torradas, por favor.
Júlia se levantou, se aproximou da porta e cruzou umas
palavras com alguém que estava no corredor.
— Simon te disse que Cranford não foi o responsável
pela agressão à Cora? — Disse à Júlia quando voltou a
entrar.
— Sim, o que significa que quem o fez poderia fazer mal
a alguém mais.
— Precisamente. — Maggie se espreguiçou enquanto os
efeitos do pesadelo acabavam de dissipar-se. — A quem
Simon tinha que ver tão cedo? Depois do que aconteceu
ontem à noite o normal teria sido que ele também ficasse na
cama até tarde.
Júlia baixou o olhar e ficou a arrumar as saias, evitando
os olhos de Maggie.
— Foi ver o Secretário de Estado.
— O Secretário de Estado? A esta hora?
— Queria esclarecer todo este assunto do Lemarc.
Embora não vejo como poderia fazê-lo sem falar da extorsão
nem delatar o artista… ambas as coisas que disse que não
faria.
Maggie se incorporou com um nó no estômago.
— E o que pensa dizer?
— Espera que com sua palavra baste. Acredita que se
prometer que não haverá mais vinhetas e que Lemarc não
incitará as massas à revolta, a investigação cessará.
— E como espera fazer isso sem atrair a atenção sobre
sua relação com o Lemarc?
Júlia apertou os lábios.
— Não pode, está claro. Sua ideia era admitir que
conhece a identidade do artista… sem te nomear, é óbvio.
— Como? Mas isso é… — Uma «estupidez» era a palavra
mais suave que lhe ocorria.
— Sim, já lhe disse que não era prudente — Júlia
comentou lendo o seu pensamento. — Mas disse que preferia
que as suspeitas recaíssem sobre ele e não sobre ti.
Maggie fechou os olhos. Oh, não. Posicionar-se com um
artista acusado de atividade subversiva destruiria sua posição
no Parlamento. Céus, e não só sua carreira política; teria
sorte se não apresentavam acusações contra ele também.
Tinha que fazer algo. Sua mente tratou de procurar uma
solução, uma forma de que Simon não tivesse que carregar a
culpa. Tudo aquilo era culpa do Cranford. Se seguisse com
vida o teria chutado. Respirou fundo, porque de repente lhe
ocorreu uma coisa.
Cranford… sim, tinha sentido. Depois de tudo,
possivelmente poderia utilizá-lo.
Incorporou-se de repente e apartou atropeladamente a
roupa de cama.
— Júlia, me ajude a me vestir. Tenho que ver a senhora
McGinnis em seguida.

***

— Estamos em uma posição um tanto delicada,


Winchester.
Henry Addington, visconde de Sidmouth, recostou-se
contra seu assento e uniu as pontas dos dedos com ar
pensativo. Sidmouth, que tinha pouco mais de sessenta anos,
ocupava naquele momento o cargo de Secretário de Estado do
Ministério de Interior, que era quem estava pedindo a cabeça
do Lemarc.
— Essas caricaturas são perigosas.
Simon tinha se deslocado até o White Lodge, a residência
do visconde em Richmond Park, onde tinha esperado mais de
uma hora para poder vê-lo. Preferiria estar em casa, na cama
com Maggie, mas o assunto da rebelião tinha chegado muito
longe e não podia pospô-lo.
Naquela mesma semana os representantes do Ministério
do Interior haviam tornado a visitar a senhora McGinnis e a
tinham ameaçado em um novo intento por descobrir a
identidade do Lemarc. Assim, devia convencer a Coroa de que
Lemarc não tinha feito aqueles desenhos e de que já se
encarregara do responsável. Possivelmente então conseguiria
que abandonassem a investigação.
— E, como bem sabe, tomamos as ameaças de rebelião
muito a sério, sobretudo depois do acontecido em Peterloo.
Essas caricaturas demonstram por que as Seis Leis são tão
importantes para preservar a paz no reino — comentou
Sidmouth, aludindo à lei que proibia algo que se percebesse
como um ato de traição ou rebelião para evitar distúrbios.
— O objetivo do artista não era incitar um
comportamento subversivo — Simon explicou com suavidade.
— Embora posso lhe assegurar com conhecimento de causa
que essas caricaturas se acabaram.
Simon não queria entrar em detalhes, embora seu
cunhado não merecesse que o protegesse. Mas se o plano de
extorsão saísse à luz sua mãe e sua irmã sofreriam muito,
para não falar que qualquer investigação poderia levar à
Maggie. De modo que imaginou que o melhor para todos seria
que se mostrasse um tanto ambíguo.
— Parece-me interessante o que diz, Winchester.
Possivelmente você conhece o artista?
Estavam em terreno escorregadio.
— Em certo modo. Conhecemo-nos mutuamente.
Sidmouth se acariciou o queixo.
— Não era o objetivo do artista, diz. E qual era seu
objetivo?
— O que deseja todo artista? Notoriedade. Aumentar
suas vendas.
— E estaria disposto a me dar seu nome?
— Não. Jurei manter a confidencialidade. Mas me
prometeu que no futuro se aterá a temas mais apropriados.
Sidmouth não gostou desta resposta. Seu rosto alargado
adotou uma expressão carrancuda e olhou pela janela.
— Apreciava muito o seu pai, Winchester — o homem
disse com inapetência. — Era um bom homem. Sei que você
teve uma grande responsabilidade desde muito jovem, e
admito que tem feito um bom trabalho, mas esta situação me
põe em um dilema. Prometi que faria Lemarc cair. Que lhe
daria um castigo exemplar. E dificilmente posso fazê-lo se
você não me diz quem é esse rufião. — E cravou seu duro
olhar em Simon. — Porque não é você, não é?
— Não, é óbvio que não. — Manteve-lhe o olhar. — Não
sou Lemarc.
— E não há nenhuma possibilidade de que o delate,
equivoco-me?
— Nenhuma, temo.
— Está disposto a arcar com as consequências que pode
conduzir ao me ocultar essa informação?
— Sim, senhor.
Sidmouth suspirou.
— Tinha grandes esperanças postas em você,
Winchester. Sua família ajudou a formar as leis…
O som de alguém que batia na porta os interrompeu. O
mordomo passou e entregou ao Sidmouth uma nota que
levava sobre uma bandeja.
— Milorde, acaba de chegar. Parece que é urgente.
— Desculpe-me, Winchester.
Sidmouth abriu o envelope e seus olhos olharam com
assombro quando leu o conteúdo. Olhou ao Simon.
— Bem, parece que esta conversação já não será
necessária. Encontraram o Lemarc.
Capítulo 22
A porta da sala se abriu de repente quando Maggie
estava colocando outra tela em uma caixa de madeira.
Levantou a vista e viu um furioso, mas pelo resto
incrivelmente bonito conde de Winchester, entrar na sala.
Calças de cor crua, botas altas e um casaco azul escuro
realçavam sua figura esbelta e poderosa. O coração de Maggie
bateu as asas, mas em seguida se encheu de angústia, dor e
pesar.
Simon se plantou com as pernas abertas e as mãos nos
quadris.
— Não sei se te beijo ou se ponho sobre meus joelhos e te
dou uns açoites, mulher maluca.
— Eu posso escolher? — Maggie balbuciou sem poder
evitar.
Ele meneou a cabeça.
— Não tem graça, Maggie. Quase me deu um ataque
quando Sidmouth anunciou que tinham o Lemarc. Juro, a
notícia me tirou dez anos de vida.
— Entendo-te muito bem, posto que é o mesmo senti eu
quando soube que tinha ido falar em nome do Lemarc ante a
Coroa. No que estava pensando?
— Pois eu pensava em salvar suas nádegas incrivelmente
atraentes, minha senhora.
— E estragar sua posição no Parlamento? Não podia
permitir. É melhor deste modo. Cranford perde e todos os
outros ganham. Não diz sempre o muito que você gosta de
ganhar?
Simon não respondeu, e em vez disso lhe fez uma
pergunta:
— Me diga como fez para converter o Cranford no
Lemarc?
— Recolhi alguns quadros do Lemarc da loja da senhora
McGinnis e os levei, junto com alguns materiais de pintura,
ao seu domicílio. E posto que sua esposa está no campo e
despediu os criados, a casa era uma tumba. Júlia e lady
Sophia me ajudaram. E se por acaso se está perguntando
isso, os dotes de lady Sophia para abrir fechaduras são
assombrosos.
Simon pôs os olhos em branco.
— Pois não, não estava me perguntando isso. De
verdade, vocês vão me matar.
Deixou escapar um suspiro e foi até onde estava Maggie.
Uma enorme mão se levantou para sustentar seu rosto, com
os olhos cheios de ternura.
— Renunciou ao Lemarc apesar de ter trabalhado tão
duro para conseguir o êxito. Cranford será elogiado como um
dos grandes artistas do momento.
— Não. — Maggie retrocedeu e pôs certa distância entre
eles. — O considerarão um radical. Certamente todos estes
trabalhos serão confiscados e queimados, seja qual for o
tema.
— Não posso ficar de lado vendo como destroem seu
trabalho. Como pode suportar?
«Porque te amo mais do que preciso seguir sendo Lemarc»,
pensou Maggie, mas se obrigou a encolher os ombros e seguiu
guardando suas novas telas.
— Não pode fazer nada, Simon. Deixa.
Simon, ao ver que não respondia a sua pergunta,
reparou por fim no que os rodeava.
— Todos estes quadros são para substituir o que perdeu
no fogo?
Maggie assentiu. Aquela tarde tinha mandado alguns
membros do serviço do Simon recolher algumas coisas
enquanto ela estava na casa do Cranford, o justo para poder
passar até que se instalasse em alguma parte.
Simon se arranhou o pescoço pensativo.
— Então, por que está recolhendo, inclusive os materiais
e telas em branco?
— Não posso ficar aqui. — Por fim, o momento que tinha
estado temendo. Fez das tripas coração e lhe enfrentou. —
Vou embora de Londres. Acredito que já é hora.
Simon ficou boquiaberto.
— Vai embora? Está… temo que não entendo. —
Aproximou-se mais, e ficou visivelmente pálido quando
começou a compreender. —Diga que não está pensando em
me deixar também.
Maggie se esclareceu garganta em um intento por aliviar
a tensão que sentia.
— Sempre haverá algum Cranford, alguém…
— Não — ele disse. — Definitivamente não.
— Simon, seja razoável. Utilize o pseudônimo que utilize,
sempre haverá alguém que trate de averiguar minha
identidade. A ameaça nunca desaparecerá.
— Então não utilize um pseudônimo. Utiliza seu
verdadeiro nome… ou o de condessa de Winchester, se
preferir. — Cruzou os braços sobre o peito com expressão
grave e desventurada. — Não fuja de mim, Maggie, não
deixarei que vá.
Condessa de Winchester? Não podia estar falando a
sério. Que um homem de sua posição estivesse casado com
uma artista sensacionalista não podia lhe conduzir mais que
vergonha e descrédito. Para não falar que ela já não teria a
liberdade de pintar e desenhar o que quisesse… ou sim?
Nenhum marido toleraria caricaturas políticas obscenas nem
desenhos ao carvão de sereias meio nuas.
— E se supõe que tenho que me conformar pintando
terrinas de fruta e flores?
Simon franziu o cenho e sua testa se encheu de rugas.
— É isso o que a preocupa, que tente te converter em
alguém mais respeitável? — E como viu que não respondia riu
com suavidade. — Querida, se quer pintar afrescos de nus no
teto da catedral de São Paulo, irei pessoalmente falar com o
arcebispo. Não poderia estar mais orgulhoso de seu talento.
Enquanto não nos use a mim ou a minha família em suas
vinhetas, nunca te direi o que tem que fazer.
Maggie mordiscou o lábio tratando de decidir se lhe
acreditava. Queria-a o suficiente para mentir? Certamente,
aquele hábil falador detestava perder.
— Se preferir, colocarei por escrito no contrato de
matrimônio. «A condessa poderá pintar e desenhar o que
quiser.»
— Faria isso?
— Se isso for o que me pede, sim.
Maggie sentiu uma enorme sensação de alívio e calidez,
até que se lembrou do outro.
— Minha arte é o menor dos seus problemas. Minha
reputação…
— As fofocas não me importam. Pode dar suas festas em
Barrett House. E se quiser que vamos de Londres, também
podemos fazer. Viveremos em Winchester Towers ou em Paris.
Não me importa, enquanto possamos estar juntos.
— Mas seu trabalho no Parlamento… não posso te pedir
que renuncie a isso.
— Maggie, se por acaso não recorda, estava disposto a
renunciar a ele faz umas horas quando fui ver Sidmouth. De
verdade, para mim não há nada mais importante que você.
A decisão e a sinceridade inquebráveis que via nele a
encheram com um esmagador sentimento de felicidade e
amor que fez com que seus olhos enchessem de lágrimas.
Deus, detestava chorar. Mas tudo nela transbordava, e sentia
uma alegria tão intensa que não podia contê-la. Antes de dar-
se conta Simon a tinha em seus braços.
— Quero-te, mulher deliciosa e enlouquecedora. Farei o
que precisar para que seja feliz. E farei encantado. —
Afundou o rosto em seus cabelos e aspirou. — Só te peço que
não me deixe nunca.
A calidez de Simon a envolvia, a segurança e aceitação
que tinha procurado em toda a sua vida concentradas
naquele único abraço. Sabia que jamais poderia renunciar
àquilo, não poderia renunciar a Simon. Relaxou-se em seus
braços, fundiu-se com sua alta figura. Rodeou-o com os
braços pela cintura e notou que também ele se relaxava.
— Serei uma esposa terrível.
— Não é verdade. Será exasperante, boa, amorosa e
forte. O que nunca será é aborrecida, e te asseguro que será
magnífico. Isso significa que aceita se casar comigo?
Maggie quase disse que sim, mas antes havia alguns
detalhes que tinham que esclarecer. Tornou-se ligeiramente
para trás e tratou de parecer séria.
— Construirá para mim um ateliê na planta de cima,
como o que eu tinha em minha casa?
— Sim. A única coisa que há lá agora é a sala para as
crianças, e podemos transladá-la a outro lugar. Que mais?
— Me deixará pintar seu retrato?
Conhecia a pose ideal, a da noite em que o viu
masturbando-se, e as bochechas começaram a lhe arder.
Simon a olhou entrecerrando os olhos com expressão
receosa e seus lábios sorriram.
— Está me falando de um retrato indecente, descarada?
— Se for te pintar, quero que seja como eu te vejo.
Ele sorriu e levantou os olhos ao teto como se aquela
mulher estivesse pondo à prova sua paciência.
— Só pode me pintar totalmente vestido, Maggie.
— Por que? Seria só para mim, juro. Ninguém o veria.
— Nunca sabe o que poderia acontecer com um quadro
assim. Poderia acabar em mãos equivocadas. Além disso,
poderá ver uma versão mais realista e íntima de mim em
nossas habitações sempre que quiser.
Maggie tratou de manifestar a quantidade adequada de
decepção.
— Já está rompendo a promessa que fez de fazer com
que eu seja sempre feliz e nem sequer nos casamos.
Simon a segurou pela mão e começou a arrastá-la para a
porta.
— Vem às minhas habitações e te mostrarei quão feliz
posso te fazer. E se me pedir com educação, mostrar-lhe-ei
isso duas vezes.
— Simon! — Ela exclamou rindo. — Lá fora ainda há luz.
Ele abriu a porta.
— Não é a única que pode ter um comportamento
escandaloso, milady.
Notas

[←1]
Ramo da biologia dedicado aos estudos das aves no que se refere à sua
distribuição nos continentes, e suas características peculiares.
[←2]
Caricaturista, pintor, ilustrador, artista e cartunista inglês nos períodos
Rococó e Neoclassicismo.
[←3]
Caricaturista britânico famoso pelas suas sátiras políticas e sociais feitas em
gravuras, publicadas principalmente entre 1792 e 1810.
[←4]
Técnica utilizada para se obter diversos tons na gravura em metal.
[←5]
Pintor de gênero irlandês mais reconhecido por suas representações
romantizadas das cenas rurais e por criar folhas de papel timbrado.
[←6]
Na mitologia grega é um ser do submundo em forma de mulher descrita com
uma aparência impressionante.
[←7]
Carnaval de Veneza.
[←8]
Partido político britânico entre os séculos XVII a XIX.
[←9]
Na mitologia germânica é um espírito da natureza que vive em lagos, rios e
mares.
[←10]
Na mitologia grega deusa rainha do mar, esposa do deus dos mares,
Poseidon.
[←11]
Na mitologia grega ninfa pela qual Apolo se apaixonou ao ser atingido por
uma flecha de Eros.
[←12]
Na mitologia greco-romana é considerado um dos maiores deuses do Olimpo.
[←13]
Festas.
[←14]
Um dos mais célebres artistas do Arcadismo.
[←15]
Cartógrafo inglês que transformar paisagens em aquarela. Junto com seu
irmão, Thomas, foi um dos fundadores da Royal Academy em 1768.
[←16]
Pintor francês dos períodos Rococó e Neoclassicismo.
[←17]
Advogado, político francês e uma das personalidades mais importantes da
Revolução Francesa.
[←18]
Pintora francesa reconhecida como a pintora mais famosa do século XVIII.
[←19]
Pintora e música francesa, filha mais velha do pintor Joseph Ducreux, com
quem ela também estudou.
[←20]
Figura icônica na Inglaterra Regente e por muitos anos o árbitro da moda
masculina.
[←21]
Na mitologia grega é a deusa do submundo.
[←22]
Grande entrada de mar entre altas montanhas rochosas.
[←23]
Bolo inglês de frutas secas ou frescas.
[←24]
Família europeia nobre e importante originária do centro da França.
[←25]
Pintor inglês, um dos principais retratistas do século XVIII.
[←26]
Pintor britânico especialmente conhecido por suas cenas de gênero.
[←27]
Poeta e dramaturgo neoclássico inglês.
[←28]
Saúde.
[←29]
Minha querida.
[←30]
Por favor.
[←31]
Pintor fancês do romantismo.
[←32]
Senhoras e senhores.
[←33]
É impossível.
[←34]
Minha gatinha.
[←35]
Meu amigo.
[←36]
Meu Deus.
[←37]
Como?
[←38]
Carinho.
[←39]
Não acha?
[←40]
Muito interessante.
[←41]
Até tu, Brutus?
[←42]
Foi deliberado.
[←43]
Nicho ou recinto semicircular ou poligonal, de teto abobadado, geralmente
situado nos fundos ou na extremidade de uma construção ou parte dela.
[←44]
Carne assada.
[←45]
Guisado.
[←46]
O que é isso?
[←47]
Penas consistentes em trabalhos forçados de remo nos navios de guerra da
Coroa com duração de dois a dez anos.

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