Você está na página 1de 6

Batismo Com O Espírito Santo 2/2

A doutrina do batismo do Espírito Santo, para ser devidamente compreendida, deve ser estudada,
como as demais doutrinas bíblicas, dando-se atenção à sua evolução histórica, às circunstâncias
que determinaram os acontecimentos relacionados com ela, e aos termos pelos quais a própria
Bíblia a define e aplica.

Vamos dividir o assunto em três partes.

1º O BATISMO DO ESPÍRITO SANTO PROFETIZADO E PROMETIDO.

A primeira alusão ao batismo do Espírito Santo é feita por João Batista em forma profética, e se
acha nos quatro Evangelhos.

Mateus 3: 11. “Eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem
após mim é mais poderoso do que eu... ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”.

Marcos 1: 8. “Eu, em verdade, vos batizo com água; ele, porem, vos batizará com o Espírito Santo”.

Lucas 3: 16. “Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso
do que eu ... esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”.

João 1: 33-34. “Eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse:
Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito
Santo. E eu vi, e tenho testificado que é o Filho de Deus”.

João foi e ficou sendo chamado Batista porque foi o profeta do batismo. Sua pregação foi
acompanhada e confirmada pelo simbólico batismo com água em sinal de arrependimento e em
preparação para o recebimento do Messias; foi ele quem aplicou esse mesmo batismo simbólico
ao próprio Jesus quando este quis identificar-se com os pecadores afim de poder cumprir por eles
toda a justiça, e foi ele quem profetizou que Jesus administraria um batismo superior ao seu,
batismo não simbólico, mas real, o batismo do Espírito Santo. É a primeira noção que aparece
dessa doutrina.

Quando mais tarde Jesus ensinava aos discípulos o valor da oração e a boa vontade do Pai em
lhes conceder todas as coisas boas que lhe pedissem, proferiu esta promessa, a que ainda mais
tarde alude como “a promessa do Pai que de mim ouvistes”: “E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-
vos-á: buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á... Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas
dádivas a vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho
pedirem?”. Lucas 11: 9-13. Aqui não se emprega a palavra batismo. Parece, porém, razoável crer
que Jesus se referisse ao batismo do Espírito Santo juntamente com todos os outros aspectos de
sua vinda especial como se realizou no Pentecostes, visto que o Espírito Santo como agente do
novo nascimento já tinha neles exercido sua renovadora influência. Foi a esses discípulos que
criam nele, a quem, por conseguinte, fora dado o poder de se tornarem filhos de Deus (João 1: 12-
13), e a quem Jesus ensinara a dirigir-se a Deus como filhos a um Pai, que ele fez essa
valiosíssima promessa. Debalde, porém, procuraremos encontrar esses discípulos a pedir ao Pai
celestial essa dádiva tão preciosa, e não menos debalde buscaremos vê-la cumprida durante o
ministério terrestre do Senhor.

Assim chegamos a uma terceira etapa nas predições concernentes ao batismo do Espírito Santo.
Não o tendo os discípulos pedido nem recebido, Jesus mesmo agora, na véspera de sua morte,
promete-lhes: “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador para que fique convosco para
sempre, o Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece;
mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós” (João 14: 16-17).
Notemos as verdades mais salientes deste texto antes de passarmos adiante. Primeiro que tudo, é
notável a substituição da recomendação — pedi — da passagem anteriormente citada, pela
declaração: “Eu rogarei”. Já não são mais os discípulos quem tem de pedir; porque Jesus mesmo
se encarrega de rogar e obter. Em segundo lugar, contrasta-se o mundo, que não pode receber o
Espírito Santo, com os crentes — “vós” — que o conhecem e em quem ele há de estar. Este
contraste é sempre mantido no Novo Testamento, e nunca um contraste entre crentes que tenham
recebido o Espírito Santo e crentes que o não tenham recebido. Segundo Jesus, ao passo que
nenhum descrente pode receber o seu Espírito, nenhum crente pode deixar de o receber e de o ter
permanentemente residindo em seu coração. Vemos, em terceiro lugar, as duas atitudes do
Espírito Santo em relação aos discípulos, antes e depois de sua prometida vinda como Paráclito.
Antes ele estava com eles, pois presidia a todo o ministério de Jesus; mas depois estaria neles,
residindo em seus corpos, que se tornariam em santuários de Deus.

Avancemos para outro marco. Depois de ressuscitado, Jesus se manifestou aos discípulos por
espaço de quarenta dias. “E, estando com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de
Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, que (disse ele) de mim ouvistes. Porque, na
verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois
destes dias” (Atos 1: 4-5). Esta ordem de Jesus confirma a promessa anterior, de que ele mesmo é
que ia rogar ao Pai que lhes enviasse o Paráclito; define a natureza dessa vinda como sendo o
batismo do Espírito Santo profetizado por João e simbolizado no seu batismo d’água; e determina
o lugar e o tempo em que esse batismo se havia de realizar, isto é, em Jerusalém e dentro de
poucos dias.

Lançando agora um olhar retrospectivo, vemos que a profecia de João Batista deu lugar a uma
promessa do Pai à disposição dos discípulos que orassem; esta cedeu lugar a uma incumbência
de Jesus, que promete pedir ele mesmo e obter do Pai a vinda do Paráclito divino; e, por fim, o
mesmo Jesus instrui aos discípulos quanto ao tempo e ao lugar em que iam receber essa benção
do céu. Suponhamos que algum desses discípulos, em vez de esperar em Jerusalém, se retirasse
para a Galiléia e reunisse outros crentes, alegando a promessa de Lucas 11: 13, e se pusessem a
orar e a pedir com instâncias, com rogos, com lágrimas, com jejuns, com êxtases, com todas as
desordens nervosas a que está sujeita a sensibilidade humana quando dominada por uma idéia
fixa. Que diríamos desse discípulo? Que era um insensato, e que estava se desencaminhando a si
mesmo e aos outros da única maneira legítima de receber a bênção.

Felizmente os discípulos do Senhor souberam seguir a natural evolução da doutrina, passando de


Lucas 11: 13 para João 14: 16-17 e daí para Atos 1: 4-5. O cumprimento da promessa que tinha
dependido de eles pedirem o Espírito Santo, agora não mais dependia deles, e sim de Jesus pedir
e o enviar da parte do Pai, e já agora estava tudo tão certo e definido que eles sabiam quando e
onde devia se realizar a promessa.

É como a vinda de Jesus ao mundo. A princípio ele foi prometido como a “semente da mulher”, de
maneira que qualquer mulher, em qualquer tempo e em qualquer lugar do mundo podia esperar ser
a mãe do Redentor. Mais tarde a promessa é restrita à “semente de Abraão”, depois ele tem de vir
da descendência de Isaque, depois é da linhagem de Jacó e não de Esaú, é da tribo de Judá, da
casa de Davi, tem de nascer de uma virgem, em Belém de Judá, quatrocentos e tantos anos depois
do cativeiro babilônico e nos dias em que ainda existisse o segundo templo de Jerusalém. Quando
chegou o tempo determinado, tudo se cumpriu como estava predito e já nenhuma mulher neste
mundo tem base para esperar dar à luz o Filho de Deus, porque isso já se efetuou como e quando
estava predito que se efetuaria. De igual modo, a vinda do Espírito Santo para habitar na terra, no
coração de cada crente, foi um acontecimento definido e único, marcado para um tempo e um
lugar e realizado quando e onde estava predito que se realizaria, e isto naquele memorável dia de
Pentecostes em Jerusalém; e ninguém tem mais base alguma para pedir a Deus e esperar um
novo Pentecostes. A denominação de Pentecostal dada a qualquer movimento de tal natureza é
falsa e antibíblica.
2º O BATISMO DO ESPIRITO SANTO DEFINIDO

No dia de Pentecostes se realizou a vinda do Espírito Santo. Essa vinda foi a mudança temporária
de sua residência do céu para a terra, onde ele veio habitar em cada coração crente, e significou,
como já vimos, um selo, um penhor, uma unção e um batismo, além do fato declarado de haver ele
naquele dia enchido a todos quantos se achavam sentados na casa. Daí se segue que procedem
precipitadamente os que concluem, sem mais estudos do assunto, que todos os fenômenos
daquele dia são inseparáveis do batismo do Espírito Santo. O que nos convém fazer é indagar nas
Escrituras, deixando que elas mesmas nos digam em que consiste o batismo do Espírito Santo,
assim como já nos mostraram em que consistem o selo, o penhor e a unção.

(1) A definição.

O apóstolo Paulo nos diz com suficiente clareza em que consiste o batismo do Espírito Santo,
tornando o assunto ainda mais claro por meio de uma ilustração. Abramos a Primeira Epístola aos
Coríntios no capítulo 12 e leiamos os vs. 12 e 13. “Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos
membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também. Pois
todos nós fomos batizados em[1] um Espírito, formando um corpo”.

De que se ocupa o apóstolo nestes dois versículos? Da unidade de Cristo com seu corpo místico
constituído de todos nós que nele cremos.

Como ilustra ele esse ponto? Comparando-o com um corpo humano, em que há muitos membros
ou muitas partes, mas todos constituem um só corpo.

Como é que ele explica a formação do corpo? “Todos nós fomos batizados com um Espírito,
formando um corpo”.

Daí se conclui, necessariamente, o seguinte:

a) Visto que Paulo não diz que precisamos ser batizados, nem que devemos ser batizados, nem
que o podemos ser, e sim que fomos batizados, claro está que esse batismo com o Espírito é um
fato já realizado em relação ao crente, e não alguma coisa que ele deva procurar ainda conseguir.
A confusão que fazem os propagandistas de um novo Pentecostes no uso dos tempos dos verbos
é uma indicação segura do erro em que laboram. Quando os apóstolos de Cristo escreviam aos
crentes sobre este assunto, diziam que eles já tinham sido batizados com o Espírito Santo, ao
passo que os apóstolos do erro vêm admoestando os crentes a que orem pedindo esse batismo.

b) Visto que Paulo diz que todos nós fomos batizados com o Espírito Santo, claro está que não
havia então nem há hoje crentes que estejam sem ser batizados com esse Espírito. E observe-se
cuidadosamente a quem é que o apóstolo escreve e de quem é que fala. Não é aos fiéis
tessalonicenses, nem aos bondosos filipenses, nem aos espirituais efésios, mas aos carnais
coríntios (3: 1). Quando ele diz: todos nós fomos batizados, inclui alguns que eram culpados de vil
imoralidade, de litígios contra irmãos perante os tribunais pagãos e de comer viandas sacrificadas
aos ídolos. Sem excluir estes, o apóstolo diz: “Todos nós fomos batizados com um Espírito,
formando um corpo” (w. Grahasn. Soroggie). Por conseguinte, o batismo do Espírito Santo não
indica haver o crente atingido a um alto grau de espiritualidade, mas apenas sua posição em
Cristo.

c) Dizendo Paulo que “fomos batizados com um Espírito, formando um corpo”, fica explicado em
que consiste o batismo do Espírito Santo. É o ato pelo qual o Espírito Santo nos une ao corpo
místico de Cristo, de modo que ficamos fazendo parte dele, como o pé ou a mão fazem parte do
corpo humano (v. 15). Não é geralmente reconhecido, mas é verdade que a idéia fundamental de
batizar, nas Escrituras, é unir, identificar, tornar um. Quando os israelitas atravessaram o Mar
Vermelho miraculosamente aberto e viram perecer afogados os seus perseguidores egípcios que
tinham saído para os destruir, tiveram pela primeira vez os seus corações verdadeiramente unidos
ao de Moisés em sua atitude para com o Egito e para com Deus, atitude que Moisés assumira
quarenta anos antes. O cap. 14 do Êxodo, que narra esse acontecimento, encerra-se com a
afirmação: “E creram no Senhor e em Moisés, seu servo”. Paulo, querendo indicar como o povo se
identificou com Moisés nessa transação, diz: “E todos foram batizados em Moisés na nuvem e no
mar” (1 Co. 10: 2).

(2) A confirmação

Vejamos agora outros textos nas epístolas que confirmam a definição acima, isto é, que o batismo
do Espírito Santo consiste em ele nos unir ao corpo místico de Cristo, que é sua Igreja Invisível.

Gl. 3: 27-28. “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto
não há judeu nem gentio, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea; porque todos vós sois
um em Cristo”. Embora não se diga aqui expressamente que este batismo é com o Espírito Santo,
claro fica que outro qualquer processo não batiza em Cristo, nem nos reveste de Cristo, nem
desfaz as nossas diferenças nacionais e sociais, tornando-nos um em Cristo. Isto posto, vemos
que este texto confirma o anterior.

1º Em dizer que os crentes já foram batizados em Cristo;

2º Em mostrar que esse batismo consiste em unir todos os crentes espiritualmente, de modo a
poder o apóstolo concluir: “Todos vós sois um em Cristo”.

Ef. 4: 3-5. Tendo exortado os crentes a andar de uma maneira digna da vocação com que foram
chamados (v.1), o apóstolo lhes indica um dos meios de o realizar: “Procurando guardar a unidade
do Espírito pelo vínculo da paz” (v. 3). Notemos logo aqui que o assunto é a unidade do Espírito,
isto é, aquela unidade em Cristo como um só corpo, efetuada,como já vimos, pelo batismo do
Espírito Santo. O que Paulo recomenda é que na prática ordinária da vida essa unidade seja
mantida entre os crentes pelo vínculo da paz. Em seguida ele dá a razão, mostrando a
possibilidade dessa harmonia cristã no fato de já existir essa unidade espiritual: “Há um só corpo
(a Igreja invisível e real é uma só e indivisível) e um só Espírito, como também fostes chamados
em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (o batismo do
Espírito Santo, que realiza a unidade espiritual, identificando-nos a todos como membros do corpo
único).

Fica, pois, iniludivelmente claro que o batismo do Espírito Santo de que nos falam as Santas
Escrituras é aquele ato da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade pelo qual, quando oremos em
Jesus Cristo como nosso Salvador, somos unidos ao seu corpo místico, tornando-nos
participantes da sua vida ressurreta, como o sarmento participa da seiva da videira.

Antes do dia de Pentecostes, os filhos de Deus estavam dispersos e não unidos em um corpo
(João 11: 52): naquele dia o Espírito veio e reuniu (batizou) em um corpo aqueles discípulos em
Jerusalém, que eram todos judeus; e, desde então, ele vem unindo ao corpo todos quantos se
convertem a Cristo, quer judeus quer gentios.

O batismo do Espírito Santo não é uma experiência emocional, nem é necessariamente


acompanhado de sinais visíveis ou audíveis, como supõe muita gente. É simplesmente o ato de
nos unir ao corpo de Jesus Cristo, ato que se efetua sem que nós tenhamos dele consciência
alguma, e só sabemos que ele se realizou em nós porque Deus o afirma em sua Palavra.

Visto que o batismo do Espírito Santo é que faz de nós membros ou partes do corpo de Cristo,
segue-se que, si somos membros do corpo de Cristo, é porque já fomos batizados com o Espírito
Santo. Por conseguinte, é grande erro pedir o batismo do Espírito Santo. Se não sois crentes, crede
no Senhor Jesus Cristo, e sereis salvos e batizados com o Espírito Santo para vos tornardes
membros do seu corpo, sem mais necessidade de pedi-la. Si, porém, já sois crentes, salvos por
Jesus Cristo, sois também membros do seu corpo, relação esta em que entrastes em virtude do
batismo do Espírito Santo, e, por isso mesmo, não tendes necessidade de pedir o que já tendes.

Como se vê, pedir o batismo do Espírito Santo é manifestar crassa ignorância do ensino das
Escrituras sobre o assunto. E, quando sucede que alguém, nessa ignorância, se entrega a
prolongados exercícios de concentração psíquica e vem a experimentar emoções estranhas,
sensações que dizem inexplicáveis e indescritíveis, acreditando haver nesse momento recebido o
batismo do Espírito Santo, nós não podemos deixar de protestar em nome das Santas Escrituras
que tais pessoas laboram em grave erro e se expõem a grandes perigos em sua vida espiritual.
Aqui podemos dogmatizar pela autoridade da Palavra de Deus: isso não é, nem pode ser o
batismo do Espírito Santo.

3º O BATISMO DO ESPIRITO SANTO REALIZADO

Até aqui temos visto, pelo ensino claro e insofismável da Palavra de Deus, que o batismo do
Espírito Santo é esse ato pelo qual ele une os crentes espiritualmente de modo a formarem o
corpo místico de Cristo, o qual é sua Igreja invisível e real, assim como pelo batismo ritual com
água somos unidos à Igreja visível. Vimos que houve em todos os tempos pessoas renascidas
pelo Espírito Santo, e que, com a vinda de Jesus ao mundo, os que nele creram foram tornados
filhos de Deus, mas esses filhos se achavam dispersos, não constituídos em um corpo, pois ainda
lhes faltava o vínculo, o batismo do Espírito Santo, que os havia de unir, ligar, formar esse
organismo místico, cuja cabeça é o Senhor Jesus Cristo glorificado.

A formação desse corpo começou no dia de Pentecostes com a vinda especial do Espírito de Deus
para residir nos crentes como selo, penhor, unção e batismo. Sendo o cumprimento de uma
promessa especial; importando na inauguração da nova residência da Terceira Pessoa da
Trindade na terra, e efetuando o início de uma nova entidade no mundo; que era a Igreja Universal,
— não podia esse acontecimento deixar de ser acompanhado de manifestações exteriores,
sensíveis, que o autenticassem perante crentes e descrentes.

Assim aconteceu, como narra S. Lucas nos Atos (2: 1-4). “E, cumprindo-se o dia de Pentecostes,
estavam todos reunidos no mesmo lugar; e de repente veio do céu um som, como de um vento
veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles
línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram
cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes
concedia que falassem”. Assim se cumpriu, se consumou, o dia de Pentecostes, e consummatum
est.

O Pentecostes, tal como se cumpriu naquele ano em Jerusalém, foi acontecimento único, singular,
e não há mais Pentecostes.

1. A situação foi única na história.

a) A festa de Pentecostes era uma das festividades anuais de Israel, as quais tinham sua exata
sucessão e sua significação típica. Naquele ano as outras duas festividades que precediam a de
pentecostes já tinham visto realizada sua tipologia. A páscoa, cujo simbolismo se concentrava na
imolação do cordeiro, cumprira-se na cruz, como o declara S. Paulo: “Cristo, nossa páscoa, já foi
sacrificado por nós” (1 Co. 5: 7), o que dava ao apóstolo ensejo de apelar aos seus leitores para
que realizassem a pureza de vida simbolizada nos asmos de que se fazia uso na páscoa e após
ela. A festa das primícias, que era celebrada no dia seguinte ao sábado da semana pascoal e
consistia principalmente no oferecimento de um molho das primícias do trigo, tinha igualmente
sido cumprida em sua significação típica no dia exato de sua celebração pela ressurreição de
Jesus Cristo dentre os mortos “feito as primícias dos que dormem” (1 Co. 15: 20 e 23). Agora,
cinquenta dias depois, era chegado o dia exato de se cumprir também o que significava
tipicamente o pentecostes. Cumpriu-se, de fato, com a descida do Espírito Santo.
Ora, se as outras duas festas de um só dia tiveram cada uma um só cumprimento, de modo que
ninguém tem direito de esperar que Jesus morra e ressuscite muitas vezes, é claro que a terceira
festividade, também de um só dia, teve cumprimento em um só acontecimento, não devendo
ninguém jamais esperar que o Espírito de Deus tenha de vir do céu muitas vezes, mormente
quando é sabido que ele veio para ficar, e continua conosco. Verdade é que Jesus há de vir ao
mundo segunda vez; mas não para cumprir de novo a páscoa. Assim também é certo que o
Espírito Santo há de ainda ser derramado sobre toda a carne; mas não para repetir o Pentecostes,
nem antes que ele volte para o céu levando consigo a Igreja ao encontro do Noivo celeste, e
portanto não nesta dispensação e não para a Igreja cristã.[2]

b) As pessoas que em Jerusalém estavam reunidas tinham uma promessa especial do batismo do
Espírito Santo, que devia se realizar naquele lugar determinado e dentro de poucos dias (Atos 1: 4-
5). Nunca mais, em tempo algum, houve um grupo de crentes que pudesse alegar tais
circunstâncias. É pura insensatez, ainda que muito bem intencionada, reunirem-se em tempo e
lugar que o Senhor não lhes determinou para reclamarem uma promessa que lhes não foi feita a
eles, promessa, porém, que o Senhor já cumpriu nos termos em que foi feita.

2. O conjunto de sinais exteriores só essa vez se efetuou.

a) Um som ou ruído como de um vento veemente e impetuoso, que encheu toda a casa, e foi
também ouvido fora na cidade (v. 6,V.B.).

b) Línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles.

c) O “fala em outras línguas” nos dialetos de catorze nacionalidades ali representadas, que os
ouviram exprimir-se nos provincianismos das terras donde vieram.

Verificado que a situação histórica do Pentecostes não se pode reproduzir em tempo algum, já
porque a significação típica da festa se realizou então de uma vez por todas, à semelhança do que
se deu com as festividades da páscoa e das primícias, já porque ninguém, senão aqueles
discípulos, recebeu do Senhor instruções e promessas tão definidas para lugar e tempo
determinados: verificado igualmente que os fenômenos exteriores da presença do Espírito de
Deus no Pentecostes jamais se reproduziram em seu conjunto, podemos ter a mais absoluta
certeza de que o Pentecostes nunca se repetiu, não se está repetindo, nem jamais se repetirá.

RESUMINDO

O Pentecostes foi a vinda do Espírito de Deus para residir na terra, habitando nos crentes, cujos
corpos se tornaram santuário de Deus.

Com essa vinda e essa residência, ele veio a ser para nós:

1º Um selo da propriedade que o Senhor tem em nós — nossa relação para com Deus.

2º Um penhor de nossa herança, até que estejamos de posse dela — nossa relação futura.

3º Uma unção pela qual somos separados e consagrados — nossas funções na casa de Deus.

4º Um batismo que nos une ao corpo místico de Cristo — nossa relação para com a Igreja Invisível.

Tudo isso se estabelece de uma vez para sempre no momento em que cremos no Senhor Jesus
Cristo como nosso Salvador e, nunca se repete