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Peter Sloterdijk

n o mesmo barco
ensaio sobre a hiperpolilica

tradução
Claudia Cavalcanti

2ª edição

Estação Liberdade
Títu lo original: fm selben Boot - Versuch iiber die Hyperpofitik Sumário
© Suhrkamp Verlag Frankfurt am M ain , 1993

Revisão dtt tradução Angel Bojadse n


Revisão Estação Liberdade
Composição Anita Co rcizas
Projeto gráfico Antonio Kehl e Edilberco Fernando Verza
Ilustração da capa Wassi ly Kandinsky, Kfeines Bifd mit Gefb (deta lh e) .
Ó leos/rela, 78 x 100 cm, 191 4.
Philadelphia Museum of Art /
The Louise and Walter Arensberg Co llection,
por aco rd o

Regaços e jangadas 17
traços de uma paleopolítica
Slote rdijk, Peter
No mesmo barco: ensa io so bre a hiperpolítica / Peter Sloterd ij k ;
2 Atletismo estatal 31
tradução de C laudia Caval canci . - São Paulo : Estação Liberdade, 1999
p. 96 sobre o espírito da megalopatia
Tradução de : lm selben Boot

ISBN: 978-85-7448-001-5 3 Ausência de reinado e hiperpolítica 58


1. C iência po lítica - Fil osofia. metamorfose dos corpos sociais na
I. Cavalcanti , C laudia, rrad .
II. Tírnlo. era geopolítica
coo 320 .01

Todos os direitos reservados à


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Cultura non fecit saltus A famosa sentença de Bismarck, segundo a
Dieter C laessens, l ual a política é a arte do possível, contém uma
O Concreto e o Abstrato adve rtência contra o ataque ao Estado por crianças
grandes. Aos olhos do estadista, teriam permane-
·ido crianças aqueles adultos que nunca estiveram
cm condições de aprender seriamente a diferença
· n tre o politicamente possível e o impossível.
A arte do possível é equivalente à capacidade de
proteger o espaço da política contra exigências
o riundas do impossível. Consequentemente,
o rno arte real a política estaria no cume de uma
pirâmide de racionalidade, que estabelece uma
relação hierárquica entre razão de Estado e razão
privada, entre sabedoria principesca e interesses de
grupos, entre adultos políticos e crianças políticas.
Se for levado suficientemente a sério o que foi dito
sobre a arte do possível, abrir-se-á nela um espaço 9
No M ESMO B ARt
11 1· 1 1· ll SLOTERD IJ K

de conotações que remonta às pesquisas de Platão d :1 construção da torre de Babel um significado

sobre as qualificações do estadista e às questões ·special. Na longa história de interpretação e efeito


aristotélicas sobre os fundamentos da capacidade 1·sse breve relato do Gênesis 11: 1-11, desde sempre
de convívio das pessoas na comunidade. s · expressa a sensação de que o mito da construção
Ocorre que não é exclusividade dos gregos ter la torre articula algo da conditio humana política
descoberto a dificuldade de manter as pessoas juntas no tempo dos impérios e grandes civilizações -algo
em cidades e Estados para uma vida comunitária ·omo uma repetição do mito da expulsão do paraíso
satisfatória. Nessa área, deve-se traçar um certo no plano político. 1 A catástrofe de Babel descreve a
paralelismo entre a história objetiva e a dos seus ·ena original da perda de consenso entre os homens
problemas, e por conseguinte conceder à consciên- · o início da má pluralidade:
cia uma profundidade histórica das possíveis crises [6] Ü S EN HO R D ISSE: "V t., ELES SÁO UM POVO, E TO DOS

l'f..M UMA SÓ LÍNGUA; MAS EST E É APENAS O COMEÇO D E SUA


e degenerações do político, uma profundidade
i\C,:ÃO . N ADA DAQU ILO QUE PRET END EM LH ES SERÁ IM POSSÍVEL.
histórica que fica bem pouco aquém da história real
de cidades, reinos e impérios. Podemos convencer- 17] P o is ENT ÁO, DESÇAMOS! LA QUEREMOS CONFUN DIR SUA

t.fNGUA , PARA QUE NI NG UÉM MAJS ENTEN DA O D ISCURSO DO


-nos por meio daqueles documentos antigos rela-
tivamente raros que possibilitam reconhecer como OUTRO !" [8] E O SEN HO R DI SPERSOU-OS A PART lR DE ENT ÁO

a negatividade política avançou nos textos escritos, l'OR TO DA A T ERRA; ELES PARARAM A CONSTRU ÇÁO . [9] P OR 1550

/\ IDADE SE CH AMA ' B ABEL'; POl S LÁ O SEN HO R CON FUN DlU A


como nas queixas do antigo Egito sobre a degrada-
t. fNGUA DO MUNDO TO DO, E A PARTI R D E ENTÁO A D ISPERSO U
ção da moralidade reinante e do discurso comum )

e também nas teorias de decadência dos primórdios l' l'. LA T ERRA INT EIRA."

do taoísmo, que inscrevem o surgimento dos ofí- Dispersão e pluralidade da espécie humana
cios urbanos e das artes nas cortes numa história aparecem à luz desse documento mítico como
universal do abandono, e no corpus de textos de resultado de uma intervenção divina contra o
antigos profetas hebraicos que tratam da dificuldade poder da humanidade unida. Aos intérpretes
de condicionar um povo em sua totalidade através
1. Cf. Arno Borsc , Der Titrmbau von Babel. Geschichte der Meinungen
das ideias de aliança e de eleição divina. Entre as über Urspriinge und Vielfalt der Sprachen und Volker, 3 vols., Scuttga rt ,
1957 er seq. 11
10 tradições do judaísmo antigo atribui-se ao mito
i' ETER SLOTERD IJK
No M ES MO BAR o

mais antigos do mito deve ter sido tão evidente o 1• um fim, o de quebrar a unidade do povo de
motivo dessa intervenção que quase não notaram lb bel em seu empreendimento coletivo. Nesse
a ausência de uma motivação explícita no texto po nto se pode ler a história da fracassada constru-
escrito : o mundo bíblico é um reino da ética da <;:ío da torre como um mito radicalmente antipolí-
diferenciação, que não tolera semelhanças des- l i -o ou anti-imperial - ele estabelece a ausência de
medidas - pelo menos não aquelas entre um deus 11ma obra comum a todas as pessoas como decreto
todo-poderoso e uma humanidade todo-poderosa. di vino. Talvez a moral da história se insira na tese
Por isso a dispersão de Babel é tão bem motivada: d que a cidade deve fracassar para que a sociedade
como uma medida antimimética, um ato de tornar- de castas possa viver. Isso se adequaria à suposição
-se dessemelhante, que equivale a uma castração dos estudiosos do Antigo Testamento, segundo
política da espécie. Sob essa luz, a humanidade a qual o texto sobre Babel, assim como todo o
aparece como a espécie metafisicamente virulenta, ' ênesis, não se origina da mais antiga tradição
que deve ser humilhada com a queda na plura- judaica, mas representa um texto tendencialmente
lidade. O Senhor bíblico, portanto, não é somente crítico a respeito do poder à época da deportação
um sadista difusionista que não quer permitir que babilônica, no século VI a.C. De resto, pode-se
se reúna o que se pertence; ele é também, e mais imaginar muito bem uma revisão gnóstica do mito
ainda, um Senhor da discrição, que dispersa e separa de Babel; talvez ainda haja nas areias egípcias um
o que estava aglomerado de forma nociva. O mito de papiro, redigido sob a perspectiva de uma crítica
Babel apresenta a expulsão da humanidade de um itadina ampliada a crítica do mundo, no qual está
paraíso unitário, cujo conteúdo político poderia se c.:scrito que Deus, o perverso mestre de obras do
caracterizar por um nome claro: consensus, a perfeita mundo, teria mudado sua opinião após a dispersão
concordância de mentalidades e missões - as gen- e convocado de volta a Babel os povos dispersos,
tes de Babel sabiam bem demais o que deviam e co m a ordem de continuarem a construção das
queriam; seu projeto de torre, de acordo com tudo cidades até a pós-modernidade. O conhecimento
o que sabemos a esse respeito, era uma campanha gnóstico da psique da humanidade derrotada vai
excessivamente unânime em busca das alturas. mais longe do que a doutrina católica do pecado -
12 A catástrofe linguística era apenas o meio a serviço pois é necessário um deus malvado para reconhecer 13
1'1, l'FH 5LOTERDIJ K
No M ESMO B ARCO

que a humilhação do homem pela pluralidade não sempre da repressão dos dramas que devem eclodir
pode ir tão longe quanto a humilhação por conta aso os horizontes de pertença de grupos e povos
do projeto de uma reunificação. se expandirem a dimensões imperiais e, para além
disso , do mundo e da espécie em geral.
Portanto - como já esclarece um lacônico À luz dessas reflexões, não espanta que a
exame de documentos antigos de caráter crítico e história das ideias políticas sempre tenha sido uma
político-, existem bons motivos para a tese de que, história dos fantasmas da pertença - no que a ex-
pelo menos desde a Idade Axial2, as pessoas estão pressão fantasma não poderia ser lida, no sentido
sentadas sobre uma bomba-relógio: a saber, sobre o crítico-imagético, como mera aparência ou ilusão,
conceito inclusivo de espécie, cuja força explosiva se mas sim entendida como teoria da imaginação
descarregou durante os últimos dois ou três mil anos ativa e concebida como loucura demiúrgica, ideia
de reações em cadeia, melhor conhecidas como história autorrealizável e ficção operacional. Seria oportuno
mundial, história das missões, imperialismo. O con- lembrar aqui o promissor conceito da autopoiesis,
ceito de humanidade oculta um paradoxo ativo que com o qual discípulos da ciência não cristã querem
pode ser levado à fórmula: pertencer-se com aqueles finalmente tornar imaginável, e de maneira precisa,
com os quais não se pertence. (Pode-se conceber essa uma criação sem criador; no entanto, em respeito
frase também temporalmente: quanto mais tempo à rigidez do conceito, renuncio a colocar ensaisti-
acumularmos experiências com quem pertencemos, camente em jogo a expressão. Em primeiro lugar,
tanto mais clara aparecerá a evidência de que não pode-se ainda dizê-lo de outro modo: assim como
temos qualquer capacidade de pertença.) De acordo desde Cocteau todo jovem sabe que Napoleão foi
com seus efeitos essa frase contém ao mesmo tempo um maluco que presumia ser Napoleão, politólogos
um evangelho e uma notícia aterradora. A história sabem, desde Castoriadis, Claessens e Luhmann, que
das ideias políticas pode ser lida como uma série sociedades serão sociedades enquanto presumirem
de tentativas para atenuar o paradoxo político da convictamente serem sociedades. A seguir, investiga-
espécie. Por isso, na politologia clássica trata-se rei três conjunções de ideias concretas constitutivas
da sociedade, que possibilitaram a algumas centenas,
14 2. C onceito emprestado de Karl Jaspers. [N .E.] senão milhares de gerações anteriores à nossa, a arte 15
l't· 1 lclt °L.OTERD IJ K
No M ESMO B ARC O

de pertencer ao coletivo. São três formações cuja ·miscadas e distantes metas por meio de uma visão de
sucessão pode ser apresentada como um progresso da grandeza psiquicamente ancorada na Santa Ordem
abstração real - como se o conceito de humanidade Masculina; e o terceiro, como era dos super-ferries
tivesse esperado centenas de milhares de anos, como que, quase inconduzíveis pela enormidade, trafegam
se um gênio esperasse dentro da garrafa empoeirada, por um mar de afogandos, com turbulências trágicas
até finalmente, na Idade Axial, aparecerem os pri- se abatendo no casco do navio e aflitas conferências
meiros universalistas, tão levianos a ponto de sacar a bordo sobre a arte do possível. Tudo isso mi-
a rolha - com consequências que desde então têm nuciosamente executado resultaria num afresco
dado trabalho a teólogos, filósofos-historiadores e di- histórico e mundial de formatos hegelianos - para
retores do Fundo Monetário Internacional. A partir Lo ta! irritação daqueles que acolheram aliviados
das três imagens quero mostrar como, da madeira a tese de que grandes narrativas não seriam mais
torta da pré-humanidade de hordas, foram inicial- possíveis. No que nos diz respeito, teremos de nos
mente talhadas as antigas populações de caçadores co ntentar em delimitar os estágios da paleopolítica,
e colhedoras; como então, na era agrocultural, os la política clássica e da hiperpolítica com traços
impérios e reinos locais foram dispostos em cama- ·x tremamente rudimentares. Resta acrescentar
das superpostas; e por último, no industrialismo, que esse esboço está ligado à reconstrução lógica
como uma sociedade de trânsito internacional que hegeliana da história do mundo e do espírito apenas
tende à desfronteirização começa a criar relações por dois finos fios - a preferência pelo número três
planetárias pós-imperiais. Um pintor teria de dar- · o intangível lema: "Tanto pior para os fatos."
-se tempo para apresentar uma espécie de teoria em
três etapas da história da humanidade, inspirada na
metáfora da navegação. Nada seria mais oportuno 1
do que apresentar o primeiro período sob o símbolo
de jangadas, nas quais pequenos grupos de pessoas
navegam através de gigantescos espaços de tempo; Falar de paleopolítica só é possível quando
o segundo, como era da navegação costeira, com s · ataca, desde o início, uma imagem de mundo
16 galeras nacionais e regatas de dominação, saindo para · hi stória que doutrina os membros de nosso 17
P ETER SLOTERDIJ K
N o M ES MO B AR O

hemisfério cultural com uma consciência de ca- apenas da história e das humanities, mas também
lendário falsificada. A ideologia oficial das grandes das ciências políticas e da psicologia. Ela destrói,
civilizações, em todas as suas variedades, quer nos pelo menos em última instância, a unidade da
fazer acreditar que a história real e digna de menção evolução humana e desliga a consciência atual da
não teria mais do que quatro a cinco mil anos, e cadeia das inúmeras gerações humanas que elabo-
que a espécie essencial, na qual tendemos a nos raram nossos "potenciais" genéticos e culturais. Ela
incluir, surgiu da névoa justamente àquela época ofusca a visão do acontecimento fundamental que
no Egito, Mesopotâmia, China e Índia. Naquele se antecipa a roda grande civilização e do qual to-
tempo apareceram escrevinhadores e escultores dos os chamados acontecimentos históricos só são
que pela primeira vez nos mostraram o que era derivações posteriores - o acontecimento global:
o homem. Ecce Pharao, ecce homo - o homem antropogênese. A apologia atual da grande civili-
não é mais antigo do que a grande civilização, a zação abrevia a história da humanidade em mais de
verdadeira humanidade começando no seu apo- 95%, talvez até em 98% de sua duração real, a fim
geu. Talvez essa tese nunca tenha sido defendida de ter liberdade para uma doutrinação ideológica e
expressis verbis de forma tão crua, mas em essência antropológica em alto grau- a doutrina, entendida
((
ela funciona toda vez que humanistas, teólogos, como clássica e moderna, do hornem como um ser
sociólogos e politólogos têm a palavra, a fim de político". Seu sentido é apresentar o homem a priori
modelar imagens coletivamente eficazes do ser como um animal burguês que, para sua realização
humano. Todos eles fazem com que "o homem" essencial, precisa de capitais, bibliotecas, catedrais,
já apareça a partir da cidade ou do Estado ou da academias e representações diplomáticas. Onde
nação, sem esquecer algo que seja conveniente quer que a ideologia da grande civilização se tenha
para fixar a aparência de grande civilização nas stabelecido, apaga-se em cada qual a pré-história
cabeças dos aprendizes culturais. Em contrapartida - como se cada novo indivíduo fosse um pobre
nunca é demais insistir como sempre foi falso esse selvagem que, tão rapidamente quanto possível,
doutrinamento e como é funesto, ainda hoje, o deve ser amadurecido para a vida em Estados.
seu efeito. A fixação pelas grandes civilizações é o 'e suspendermos a aniquilação da pré-história,
18 proton pseudos, mentira básica e engano capital, não ·ntão surgirão conhecimentos de uma condição 19
P ETER SLOTERDIJK No M ESMO 8 111\

de centenas de milhares de anos da humanidade, sincronia entre fuga e contra-ataque, religadas


da qual só recentemente apareceram preocupantes internamente por um efeito-estufa emocional
desvios - desvios cujos efeitos se somam ao que que solda os membros da horda através de ritmo,
Lévi-Strauss denominou história quente. música, rituais, ciúme, excessos de vigilância e
1inguagem, numa espécie de instituição psicossocial
Para a paleopolítica, cujo esboço deve-se total. Esses grupos podem ser chamados de ilhas
tentar fazer aqui, é essencial que ela não pressupo- sociais porque de fato foram tirados de seus am-
n h a "as pessoas" , mas pro d uza pessoas. Enquanto bientes como esferas animadas, rodeadas por um
grandes civilizaçõe já consideram o homem como invisível anel distanciador que mantém longe dos
existente, para poder utilizá-lo para trabalhos, orpos humanos a pressão da Velha Natureza; assim
funções e missões, o mundo da pré-história é per- protegido, o homo sapiens pôde tornar-se um ser
passado pela consciência de que a arte do possível que evita conflitos externos e vive com exuberância
consiste em chamar à vida, num mundo árido interna. Aqui já se deve tentar, no plano linguístico,
e arriscado, novas pessoas a partir das existentes e evitar uma aparência individualista reprojetada da
mais velhas. Paleopolítica é o milagre da repetição modernidade para a Antiguidade: "o homem" não
do homem pelo homem. Ela é adquirida e praticada é esse ser solitário que por acaso tende sempre a
num ambiente que parece querer de certa forma estar entre seus semelhantes, embora no fundo seja
dificultar às pessoas a arte de repetir-se nas crianças. um Robinson, que bem poderia precisar de toda
uma ilha para si; como seres pertencentes a uma
Para atualizar a essência da coletividade arcai- horda, as pessoas, a princípio e na maioria das vezes,
ca, será necessário esclarecer alguns traços decisivos são partícipes de uma horda essencial que, como
da vida primitiva em hordas . Imagina-se as antigas na visão platônica, é um grau "mais real" do que
hordas na melhor das hipóteses como espécies de os seus próprios membros. "O homem" não pode
ilhas à deriva que correm lenta e espontaneamente entrar na sua horda como num clube simpático -
nos rios da Velha Natureza - separadas do ambiente :i n tes, a horda é um clube totalitário que produz ele

externo através da revolucionária evolução de téc- mesmo seus novos membros , para "socializá-los"
20 nicas de distância, sobretudo através da moderna de acordo com as regras do clube, que significam 21
i' ETER SLOTERDIJ K No M ESMO BAR o

o mundo. A lei da horda é a repetição da horda em arriscadas. Nenhuma mão de primata pôde sonhar
seu próprio regaço. Nesse sentido, Dieter Claessens, um dia em tocar estudos de Chopin - nos dedos
com sua metáfora da horda como incubadeira, de Glenn Gould ou Vladimir Horowitz culmina
na qual surgiu o homem, criou uma imagem que uma evolução que transformou patas em mãos e
une exatamente conceito e representação.3 Para já mãos em instrumentos milagrosos para as mais
utilizar a clássica metáfora aristotélica do útero do complexas partituras. Fica evidente até onde che-
mamífero, incubadeiras são "fornos" para embriões; gam as consequências dessa cultura de incubadeira
são locais de metamorfose, de onde se coze "para quando se entende as características biológicas
fora" do fluido o rígido, do indeterminado o particulares do homo sapiens, em sua totalidade,
determinado. Mas o que então tem importância como resultado da evolução da incubadeira interna
sociológica é ver que aqui não se fala apenas do à horda. Aqui já começa, no homem, uma história
[não nascido] no útero ou do prematuro num natural da não naturalidade, cujos prolongamentos
útero mecânico substituto, mas de indivíduos modernos recaem sobre nós como crises ecológicas e
"inatos" primitivos que só então e apenas na hor- sociais de "alienação". Na história primitiva trata-se
da estão aptos a incubá-los, para transformá-los quase sempre do incubar revolucionário de anti-
em típicos membros da espécie. Denominar toto naturalidade na própria natureza - poder-se-ia
genere a horda como incubadeira implica a tese dizer também que o conteúdo da mais antiga
de que sociedades antigas deviam impor-se como história da humanidade é a secessão efetuada pelas
ponto principal a arte de incubar humanos, caso hordas e seus membros frente à Velha Natureza.
quisessem continuar com êxito sua missão básica, O que um tanto apressadamente denominamos
a repetição do homem pelo homem. Hordas são pré-história é um hiperdrama que se processa
grupos humanos incubando pessoas que transmi- no estilo de uma história de êxito de evoluções
tem aos seus descendentes, em gigantescos lapsos de luxo. Na incubadeira de hordas primitivas
de tempo, qualidades de exuberância cada vez mais logrou-se realizar os mais surpreendentes expe-
rimentos biológicos sobre a formação humana.
3. Diecer C laessens, Das Konkrete und das Abstrakte. Sozio!ogische Skizzen
Nela, e somente nela, o homo sapiens pôde tornar-
22 zur Anthropo!ogie, Fran kfurt, 1985, p. 145 e t seq. -se o marginal biológico, tal qual ele hoje mais do 23
P ETE R 5LOTERD IJ K
No M ES M B 11R C •

que nunca se nos mostra. Sobre as ilhas à deriva uma expressão do compositor canadense Murray
dos pequenos grupos primitivos as cabeças huma- Schafers, como o soundscape característico de um
nas tornaram-se notavelmente grandes, as peles grupo - uma paisagem sonora ou sonosfera que
notavelmente finas, as mulheres notavelmente atrai para si seus membros como para o interior de
belas, as pernas notavelmente longas , as vozes um globo terrestre psicoacústico. De certo ponto de
notavelmente articuladas, a sexualidade notavel- vista pode-se denominar o modo de existência dos
mente crônica, as crianças notavelmente infantis, grupos pré-históricos como um modo global- não
os próprios mortos notavelmente inesquecíveis. porque as pessoas teriam sabido que a Terra é um
globo físico sobre o qual poderiam existir por toda
As ilhas - ou jangadas sociais - à deriva são parte, mas porque existiram dentro de um globo
os locais de nascimento de características psico- psíquico, numa esfera sonora, e puderam sobreviver
culturais que um dia acarretarão consequências lá, e somente lá, onde essa sphaíra acústica se con-
mundiais. Aqui surge aquela empatia que torna servou intacta. As hordas primitivas, assim como
os membros da mesma horda como que emocio- seus sucessores culturais tribais, socializam seus
nalmente transparentes entre si; quando a empatia membros num continuum psicoesférico e sono-
se especializa e tem de ser transmitida ao desco- -esférico, no qual existência e pertença ainda são
nhecido, então, sobretudo nas grandes civilizações grandezas indiferenciáveis. A sociedade mais antiga
seguintes, se abre um espaço para os dramas que é uma pequena e tagarela esfera mágica - uma
chamamos de amor; aqui surge também aquela invisível tenda de circo estendida sobre a trupe e
atenção aos semelhantes e aos ambientes que na que caminha com ela. Através de cordões umbilicais
era das grandes civilizações se bifurca em curio- psicoacústicos todo indivíduo está continuamente
sidade teórica e estado político de alerta; aqui se ligado, em maior ou menor escala, ao corpo sonoro
reúnem aquelas experiências fundamentais com do grupo - e a perda desse continuum equivaleu a
gestos, seres vivos e coisas que mais tarde podem uma catástrofe: não foi em vão que algumas cultu-
ser reproduzidas na forma de técnica e sabedoria. ras mais antigas declararam o desterro como uma
A exuberante ilha humana está cheia de ruídos espécie de pena de morte psicossocial. Pertencer-se,
24 e sons que poderiam ser denominados tomando de fato, a princípio não significa outra coisa que
P ETER SLOTERDIJK
No M ES MO B A RCO

. . 4 .
ouvir Juntos - mas aqui repousa o laço social sociedades multiculturais de centenas de milhões
quintessencial até a invenção das culturas escritas de pessoas. Na floresta ou na planície, através da
e dos impérios. Encontramos aqui o peso daquilo diferença entre ruído de grupo e ruídos do mundo,
que a palavra alemã, deteriorada pelo romantismo, é fixada uma fronteira invisível entre o familiar e
poderia querer dizer com Muttersprache [língua- o estranho. Com a própria fala, tagarelice, canto,
-mãe]. Os espíritos de hordas são corpos sonoros, rufar de tambores e aplauso, o pequeno grupo
nos quais os membros estão encerrados como assegura seu continuum acústico e se convence ele
em cavernas de eco. O autoalimentado corpo mesmo de que essa horda é essa horda. Cantores
sonoro do grupo, vibrando em si mesmo, compõe o u oradores experientes com visão mais ampla
a forma mais primitiva daquelas configurações contribuem para que a sincronização psicoesférica
sociouterinas, que em todas as épocas da história da horda não se destrua em caso de crises, e que
da humanidade tinham de produzir o efeito do o efeito de mundo se reconstitua também depois
espaço interior comunitário. Viver em sociedade de interrupções; mundos são campos que se esta-
significa, por isso, repousar sempre também sobre bilizam em efeitos de auto-hipnoses coletivas; o
um regaço-fantasma em parte imaginário, em parte mundo é tudo o que é, para o ilhéu que vive em
psicoacústico - a ideia de algo que abriga e envolve, harmonia com os outros; verdade é aquilo a que
que nos permite ouvir e pertencer-se juntos, assim se pode conectar a partir da ilha; o que não pode
como uma mãe murmurante junto ao fogo, que no ser para o ilhéu, nunca terá sido.
arbusto próximo mantém a grande família dispersa
em sua esfera pacífica. A mais primitiva forma do A paleopolítica contém a mais antiga gramá-
pertencer-se coletivamente é transmitida pela arte tica da pertença. Ela define papéis opostos de velho e
de deslocar pessoas para um interior comum e novo, masculino e feminino, e determina regras para
ampliado. Para hordas primitivas da estepe, isto não o trânsito entre "pessoas" e "estranhos", assim como
parece ser tão difícil quanto para nações modernas entre vivos e mortos, até de vivos e não nascidos.
A invenção universal dos cultos dos antepassados abre
4. Aqu i um jogo de palavras do autor de di fíc il tradução: zusammen-
caminho para um pensamento protometaflsico -como
26 gehdren ("pertencer-se") e zusammen horen ("ouvir juntos"). [N .T ] se por toda a parte antepassados mortos fossem aqueles 27
No M ESM O 8 A 1tc
P ETER SLOTERD IJ K

rompimentos traumáticos no campo outrora mais


que a princípio chamam a pensar - pois como en-
bem protegido. Poder-se-ia dizer justamente que toda
sinou Heidegger, pensar significaria agradecer (aos
"história", estritamente falando, seria a história de
mortos, embora não o tenha expressado claramente). 5
manipulações no campo mãe-filho. Depois do que
Mas dão ainda mais a pensar, desde o início, as vidas
foi dito é óbvio que no espaço paleopolítico exista
humanas que estão por vir, nas quais perdura a horda
um matri-"arcado" que se impõe como poder sobre
essencial - o que acarreta que pensar "no fundo"
a escassa fonte "amor maternal". Que a descoberta
acaba sendo um mecenato em prol da vida futura.
do trágico não tenha sido um privilégio das grandes
Com o mais minucioso cuidado, a paleopolítica
civilizações - tampouco quanto a do além e a do
cerca o interior sensível da incubadeira, e como tal,
potencial extático -, fundando-se antes na admi-
até onde vão nossos conhecimentos, em toda parte
nistração paleopolítica da penúria, pode ter surgido
mães com filhos pequenos foram objeto de atenção
de uma lembrança da poeta japonesa Yoko Tawada
especial. Em certo sentido, "sociedade" é apenas um
de uma história que lhe contara sua avó.
"manto" psicofísico em torno da esfera na qual mães
"HA MU ITO TEMPO, QUANDO, EM SEU LU GAREJO , AS
e filhos repetem o mistério da animização humana.
PESSOAS AINDA SOF RIAM DE ESPANTOSA POBREZA, ÀS VEZES
Se quiséssemos falar tecnicamente, então dir-se-ia
ACONTECIA DE MULHERES MATAREM OS PRÓPRIOS FILHOS LOGO
que o campo mãe-criança, ao lado do visível fogo,
APÓS O SEU NASCIMENTO, POIS QUE SENÃO IRIAM PASSAR FOME.
foi o foco inspirador de todos os grupos humanos
PARA CADA FILHO MO RTO ERA PRODU ZIDO UM KOKESHI, QUER
primitivos - e favorecer a nova vida foi sua "ideia"
DIZER, UM FAZER- DESAPARECER- O-FILH O , PARA QUE AS PESSOAS
demiúrgica. O passado "foi" não deve sugerir que
NUNCA ESQUECESSEM QUE SOBREVIVERAM ÀS CUSTAS DESSAS
então, em época histórica ou pós-histórica, as
antigas incubadeiras humanas teriam sido extintas CRlANÇAS."6

e tomado, com sucesso, outros caminhos para a 5_ Onde cais manipulações estendem o arco do psicologicamente pos-
sível, lá as cond ições de incubação não são mais "sufi cientemente
procriação humana; "foi" pode somente lembrar boas"; aumentam as defo rmações anímicas e perdas de espiritualismo;
aqui que as grandes civilizações desviam sua atenção cf. do autor, Die gescheiterte Beseelung. Vorschldge zu einer Geschichtsphi-
losophie der Neurose, palestra no 40° anive rsário da Sociedade Alemã
da repetição do homem pelo homem, a fim de pre- de Psica nálise, Gõ ttin ge n, 23/5/93.
ferencialmente perguntar pela utilização do homem 6. Y. Tawada, Wo Europa anfangt, Tübingen, 1991 , p. 83 et seq. Agradeço
a indicação dessa passagem a T ho mas H. Macho. 29
28 pelo homem - o que inevitavelmente deve levar a
P ETE R SLOTERDIJ K No M ESMO B ,1R ,

Yoko Tawada conecta essa história à suposição


de que a famosa matriosca, a boneca dentro da 2
boneca, que no século XIX se tornou o brinquedo
preferido dos russos, seria uma réplica da japonesa
kokeshi. Se exigimos que uma sociedade deva Veremos como a política clássica surge da
apresentar um opus commune e uma atividade con- tentativa de repetir essa arte em escala maior.
dutora, antes de lhe conceder o predicado político, A política, no entendimento tradicional, nasceu da
então as antigas hordas humanas poderiam ser ca- urgência de responder à questão: como pode um
racterizadas, ao primeiro olhar, como radicalmente grupo - ou se deveria dizer um sistema social~ -
pré-políticas, porque não permitem reconhecer ro rnar-se grande ou muito grande e mesmo assim
qualquer obra além de sua autorrepetição e qual- não fracassar na tarefa de deixar passar o que é gran-
quer condução além do tranquilo levar-se pela de para as gerações seguintes? Como mil, dez mil,
corrente da evolução; mas se observada com maior em mil hordas - no formato de "grandes famílias"
proximidade, então também a arte de uma comu- entre 30 e 100 membros - podem reunir-se de tal
nidade humana de repetir-se nas gerações seguintes fo rma que se lhes possa exigir esforços em prol de
é um projeto essencialmente político, e a deriva da uma obra comum, algo como contribuições para
pequena jangada social na fluidez do tempo já tem as instalações de irrigação, cruzadas e impostos de
em si elementos de orientação: quando se entende reunificação? Como podem "falar" a tão grandes
o privilégio matriarca! do infanticídio como uma números de pessoas e convencê-las a se sentirem
forma de política de imigração intuitiva, as dispo- participantes daquilo que é "grande"- até chegar à
sições matrimoniais como uma espécie de política disposição de ir ao encontro da morte em exércitos
externa da horda, os costumes de caça como uma de milhões contra outras forças de igual ordem de
política ecológica primária. Paleopolítica é a arte grandeza, a fim de assegurar aos "propnos
, . "
suces-
do possível em pequena escala - a arte de manter- sores aquilo que os ideólogos chamam de futuro?
-se pequeno para o bem do maior, em prol da vida A arte do possível em larga escala gravita em torno
anímica. desse ato de força de apresentar o improvável
30 orno O inevitável. A figura política do império 31
No M ESMO i3 AI\ C O
P ETE R SLOTERDIJ K

opta pela intencionalidade divina e legitimidade De fato , o homo politicus e o homo metaphysicus se
existencial da dificuldade; ela faz valer o quase pertencem historicamente; prospectores do Estado
impossível como o natural. Os meios dessa arte e prospectores de Deus são gêmeos evolucionários.
são a cartografia e a escrita; seu gênio, a consciência Ao lado dos Grandes geográficos e demográficos,
pluri-popular. É a razão pela qual o motivo central o Grande cosmológico e metafísico também exige
da política clássica, em todas as suas explicações seus direitos. Mas tão logo o Grande começa a
.filosófico-teológicas, diz: pertencer-se no Grande. pensar, devem surgir interpretações políticas do
Isso leva ao holismo como autoafirmação dos mundo e doutrinas do ser que dizem como deve
habitantes do Grande Mundo. Política é a arte de ser a ordem do Todo, quais são as suas perturbações
organizar os laços ou forças de ligação que abran- e quais são as soluções à disposição das mesmas.
gem grandes grupos de até milhões de membros, e Nesse sentido, a filosofia grega é, entre todas as das
para além disso numa esfera de elementos comuns grandes civilizações, o "instituto" mais claramente
- seja o elemento comum nefasto do sofrimento motivado pelo espírito do Grande - seus coparti-
sob a tirania ou o elemento comum saudável de cipantes estão convencidos de que a melhor vida,
uma cooperação entre pessoas competentes na sobretudo para homens, consiste em trocar com
democracia. Os primeiros gestos desse holismo amigos todos os dias algumas palavras sobre as
instintivo são tentativas de descrever o cosmo grandes coisas - ta megala. Entre os homens gre-
como casa maior e os povos como famílias maiores. gos se expandiu, no tempo de Heráclito e Platão,
O homem se torna então o animal condenado a um jogo nobre, mais excitante do que a caça de
mudar-se para abrigos abstratos. Mas como não há animais selvagens e mais exigente do que o teatro
garantias de êxito para a política como moradia- mitológico: no diálogo político-filosófico entre os
-teste no Grande, vê-se já cedo, ao lado das pessoas ingênuos, os inteligentes e os céticos começa o
da cidade e do Estado, também habitantes outros belo sofrimento pelo mundo como problemática
se fazerem notar: aparecem eremitas, monges e do Grande. Para os que estão do lado de fora,
ascetas que apostam mais na correspondência de ·ssa ação pode parecer ridícula, e desde sempre
homem e mundo estelar, homem e deserto, homem ·1 acusaram os oradores das grandes coisas de
32 e Deus do que em compromissos na esfera política. s rem megalomaníacos que se atrevem a grandes 33
No M ESM O 13 A RC O
P ETER 5LOTERDIJK

então e por quase dois mil anos, ela se impõe como


afirmações inadequadas. Megalomaníaco é o ho-
teoria megalopata de uma prática megalopata
mem que se imiscui em questões maiores para ter
- como um culto ou uma terapia para pacientes
algo que correrá com os olhos e logo abandonará.
acometidos de grandeza, a saber cidadãos da
Mas como se deverão chamar aqueles que, uma
pólis, funcionários, teólogos e homens do Estado
vez apreendidas as grandes coisas, não mais as
que percebem o espaço político mundial em sua
abandonarão? Proponho: megalopatas. A filosofia
nova amplitude. Entre eles surge um novo laço
grega é, de fato, assim como seus equivalentes
psíquico - a amizade, que floresce para além das
chinês e hindu, uma disciplina megalômana;
antigas familiaridades 7 ; "amigos" são homens que,
sua preocupação é justamente eliminar o fator
em seus caminhos pelos altos e baixos do Grande,
maníaco próprio de práticas mais antigas de
se interpenetram. Camaradagens cósmicas podem
sabedoria, a fim de tornar-se sensata na escola do
até fazer inimigos parecerem parentes - a me-
Grande, o que permite a reflexão . Pode ser que
lancolia de Alexandre perante o rei persa Dario,
Alexandre da Macedônia perseguisse uma política
morto, é o monumento clássico para as novas
maníaca, estimulado pelo êxtase da quantidade
relações de interpenetração entre os pioneiros no
abstrata e seduzido pela ideia de poder correspon-
; rande. A tais "amigos" são indicados, por uma
der à enormidade do espaço geográfico oriental
nova classe de treinadores do ser, caminhos para
através de ações militares e obras políticas; como
a vida moderada; moderação é o que intermedeia
grande homem, quis preencher o Grande, como
·n tre a vida de animal doméstico falsamente
se estimulado por uma autoexpansão maníaca.
r ·duzido e a loucura divina no muito Grande.
O mestre de Alexandre, Aristóteles, ao contrário,
l lumanismo de Estado é desde então a busca por
foi um dos primeiros que, refletindo, chegaram
um centro justo - e desde a recepção romana dessa
para além, ou melhor, para aquém da mania, a fim
i 1 ·ia grega essa busca carrega o seu nome até
de integrarem as grandes coisas, como áreas espe-
cíficas, em rotinas frias e racionais. Por isso é que
somente depois dele se pode falar que a filosofia,
/. C f. H o rsr Hurrer, Politics as Friendship, Greek and Roman. T'l1eories
como exercício anímico assim como estilo do sa- o( hiendship in their Social Settings, Wilfried Laurier Universiry
ber, foi realmente estabelecida na pólis. A partir de l'rcss . 1978. 35
34
N o MEsMo U,,R .o
PETER SLOTERDIJK

hoje conhecido: humanidade. Mas se viver na e persas, assim como na filosofia grega da pólis, é
cidade para muitos também significa sofrer com elaborada uma nova forma psíquica que se poderia
a cidade, então a reflexão sobre a convivência de nominar atletismo de Estado. Atletas do Estado
nas cidades deve produzir eo ipso uma teoria são aqueles indivíduos em parte nominalmente
que interpreta e justifica o sofrimento produzido conhecidos desde as Antiguidades oriental e oci-
pelo Grande de forma ontológica, cosmológica, dental que praticam o convívio no Grande, a partir
escatológica. 8 Em seu plano pedagógico a filosofia da juventude, como um levantamento de peso
se torna portanto prática de iniciação para jovens mental, não nos ginásios e nos estádios, e sim nas
que saem do âmbito doméstico, o sucessor da academias filosóficas, em escolas de oradores, con-
horda, e ingressam na cidade ou Estado - daí selhos principescos, seminários religiosos, reuniões
a velha rivalidade e confusão com os retóricos populares e comunidades semelhantes. Existir no
e sofistas que oferecem fórmulas baratas para Estado - e "no Estado" significa, para ser exato,
carreiras no vasto mundo. nos postos de comando da coletividade - condi-
ciona uma forma existencial ascética e atlética
À vista dessas reflexões, parece-me plausí- que envolve os indivíduos em práticas do Grande
vel interpretar as imagens de mundo da Idade como gladiadores políticos. Entende-se melhor
Axial - finalmente, a grande civilização! - como o homo politicus como um decatleta a serviço do
avanços rumo às práticas do Grande, sem as quais Estado. É-lhe natural ceder ao destino no campo
não pode haver vida nas cidades e impérios. No das grandes missões através de um treinamento
antigo conceito de império de egípcios, babilônios psíquico apropriado. Como nos tornamos faraó,
co mo nos tornamos pontifex maximus, como nos
tornamos rajá, como nos tornamos César? Como
8. É daí que, ao lado da "a mizade", que co mo que apresenta o lado diur- ôns ul, senador, imperador? Como deve viver
no d as relações entre hom ens de sucesso no grand e mund o, aparece a
mise ricórdia ou o amor car id oso (caritas) - um novo regulador para a alguém para entrar nos livros de história como
simpatia por destinos de perdedores e para formações de ambi entes no
lado obscuro dos impérios; fez parte dos grandes mi stér ios do antigo
Metternich, lord Marlborough ou Bismarck? Que
cristianismo o faro de ter logrado produzir, como eccfesia oppressa, ascensões levam à função de governador, presi-
um a interpenetração nos perdedo res, e co mo eccfesia triumphans, a
36 mes ma nos ve ncedores.
dente, chanceler? Como nos tornamos cardeal, 37
/
/f ER SLOTERDIJ K

professor catedrático de filosofia? Não sei se teria


expressamente realizada de fato significa é ~e~un-
sentido considerar uma resposta conjunta a essas
iado na ideia construtivista de Platão de d1Z1mar
perguntas - se houver uma, então deveria ser: to-
as famílias dos guardas, a fim de incumbir à nova
dos esses postos-modelo só podem ser preenchidos
el ite filosófico-militar a criação de novas gerações
com condicionamentos megalo-adéticos. Quem
de excelência. O gênio de Platão de criar metáforas
alcança tais posições chegou lá através de diversas
sintomáticas se mostra com a maior expressividade
despedidas da infância, de morosos adestramentos
nesse detalhe de A República, pois toca certeiro
e treinamentos que arrancam o sujeito de sua
no mistério de funcionamento das grandes civi-
familiaridade e o endurecem, fortalecem, elevam
lizações - a saber a questão de como se poderia
até que funcione no plano superior. O que hoje se
adestrar o animal familiar e de horda, o homo
chama "escola" surgiu originalmente como campo
sapiens, transformando-o num zoon politicon.
de manobras para a metanoia política; a conversão
A inesquecível tese da zoologia platônico-aristoté-
do pensamento de pequenas para grandes relações
lica tem como objetivo fazer com que de antemão
está em qualquer programa didático a serviço do
surjam do Estado, em pequenos rebanhos, seres
Estado. Isso se estende desde formas antigas da
vivos, tais quais produtos de um único regaço
educação principesca em tribos e pequenos reinos até
político que produz reis e artesãos na mesma
estágios em repartições atenienses e romanas. "Não
ninhada. Portanto, será possível o homem como
se educa o homem que não sofre flagelos" - achou
politikós? Como o melhor homem no Estado en-
o então ministro weimarano Goethe conveniente
contra O seu lugar? Vamos dar primeiro a resposta
colocar esse princípio grego como epígrafe de suas
falsa - para que se faça sentir maior necessidade da
memórias.
certa. De uma perspectiva plebeia moderna, que
nada entende de atletismo de Estado, a réplica é
A educação, paideia, só se explicita de fato
lapidar- Beaumarchais colocou-lhes o seu Fígaro
como teoria do adestramento aristocrata na ci-
na boca: o que o Sr. Conde já fez de grande?
dade, no palco da história das ideias, e sobressai
"Ele se deu ao trabalho de nascer." Com isso está
imediatamente por meio de um grotesco acento
estabelecido o moderno igualitarismo - como
38 típico das grandes civilizações: o que a educação
princípio de igualdade do homem diante dos 39
P ETER SLOTERDIJK No M ES MO 8 111\ CO

úteros físicos. No entanto, a lucidez de Platão foi para o melhor Estado, ele imagina até programas
além do discurso vazio de Fígaro, pois ele estabelece el e reformas para a música, poesia e teologia; ele
que o fato de nascer no seio de uma família não tampouco recua diante de novos modelos de re-
basta para produzir o estadista. produção eugênica, radicalmente estatizada. Com
Naturalmente, toda criança se origina de um surpreendente grau de mobilidade lógica ele
uma mãe, mas nem toda mãe se chama Atenas. experimenta alternativas de reprodução humana
A política se inicia com o renascimento da mãe - até chegar ao ponto em que desiste do princípio
física para a metafórica - o próprio Estado é do nascimento do ser humano do ventre de mães
como um regaço superior; ele tece o invólucro naturais. Platão altera o funcionamento de mitos
imaginário e psicoacústico que se estende sobre matriarcais do nascimento do homem a partir da
toda a pólis como espírito comunitário. A esfera Terra em prol dos objetivos de mães artificiais,
mágica psicoacústica da pequena e antiga horda políticas; numa controvertida passagem- significa-
deve então ser reproduzida como círculo mundial tivamente no diálogo do estadista- ele faz aparecer
' o gênero a partir de um surgimento alternativo, de
como cosmo. O mundo político é tudo o que che-
ga ao interior do círculo maior. Nascer no Estado acordo com a doutrina de que, sob o domínio de
significa, portanto, entrar naquele círculo principal C ronos, se realizou a corrida no sentido contrário,
que poder-se-ia definir como grande regaço e, para de forma que antigamente o sol nascia no Ocidente
falar tecnicamente, como configuração política do e os homens teriam surgido prontos do seio da
útero social. Nele repousa a resposta à pergunta Terra como anciãos e sem necessitar de formação,
sobre como se pode deixar participar centenas de a fim de, no decorrer da vida, serem cada vez mais
milhares ou milhões de indivíduos numa coisa em jovens e por último morrerem como fetos num
comum. E fazer política não é outra coisa senão regaço feminino, como se numa cova. Isso resulta
salvaguardar essa figura-regaço. É daí que se na visão de uma sociedade de adultos sem proble-
explicaram a atenção de Platão pelo papel social mas de incubação- o mais antigo opus commune, a
da música e seu sentido vigilante para a união repetição do homem pelo homem, parece surgida
de todos os cidadãos num corpus comum de como que por milagre; então, a p riori, adultos
40 lendas de deuses e heróis. Em sua busca de regras podem se encontrar iguais e livres, logo em seguida 41
P ETER SLOT ERDIJK
No M ES M B AI\ .

ao seu surgimento da Terra política, na ágora, a fim classes, 0 devido amor recíproco. Por conseguinte,
de trocar entre si alguns logoi sobre ta megala. Nem está imposta a primazia da unidade, a partir de
sempre Platão vai direto ao ponto, sua sabedoria consanguinidade imaginária, diante da variedade
sempre saberá como ligar o livre jogo da análise da natureza metálica. O Estado permanece uma
às evidências práticas. Assim, por exemplo, na mãe metafórica superior, que coloca os cidadãos
esplendidamente cínica doutrina da nobre mentira sob O laço social da fantasiada comunidade-regaço.
de Estado, que permite a um criador político mo- Uma tal hiper-horda política seria uma variante
bilizar todos os membros de uma coletividade em em grande escala da configuração sociouterina, ~a
favor de uma doce e vantajosa ilusão compartilhada medida em que consiste num grupo total a parm
por todos. O terceiro livro da República contém de muitas hordas, casas, famílias e clãs dispersos.
um dos mais claros momentos na história de ideias Com isso, a política, segundo Platão, continua
políticas; aqui, com jovialidade verdadeiramente sendo, sempre até um certo grau, gerenciamento
olímpica - a palavra não poderia encontrar lugar de fusão ou um trabalho no hiperútero imaginário
melhor-, o problema de grupos humanos díspares para crianças políticas. Quem poderia contestar que
ao extremo mentirem-se coletivamente é promovido
0 conto frígio foi uma digna porta de entrada para
a tema numa unidade mais elevada; Sócrates aparece a problemática que hoje é discutida sob o nome de
com um ousado "conto frígio", do qual espera efeitos Corporate Jdentity-Policy?
especiais de união estatal. O mito que Sócrates
apresenta, quase sorrateiramente, afirma que todos A verdade sobre a forma de mundo imagina-
os membros dessa cidade, por mais que pareçam da por Platão e Aristóteles é certamente a de que
desiguais, são filhos da mesma terra-mãe estatal; cidade e império são figuras da era agrária. Se Platão
esta teria produzido de seu regaço filhos com uma definiu O saber do político como arte pastoril em
alma de ouro, outros com uma alma de prata e referência a bípedes sem penas, então fica claro
por fim também os com uma de bronze. Conse- ·o rno motivos agro-ontológicos avançaram até na
quentemente, diferentes quanto ao dote e valor, os d finição fundamental da essência do poder nas
cidadãos deveriam entender-se como filhos de uma ·idades _ agricultura e criação de animais são os
42 mesma mãe e comprovar, para além dos limites de r ·servatórios de contemplação, dos quais discursos 43
No M ESMO B AR o

i' Tli ll S LOTERDIJ K

e do refinamento, tão grandiosos quanto formações


politológicos devem extrair sua plausibilidade, amaldiçoadas de um outro mundo do lado de cá.
mesmo se o olhar passe do jardim da academia Também na era das antigas cidades as maiorias
para a ágora. Num determinado sentido, até Platão permanecem ligadas à aldeia, e através da aldeia
permanece o camponês de Atenas - e quando se à horda remanescente, ainda que deformada pela
gostaria de ver Heidegger como o último metafísico primeira. Ao longo de roda a era agrária sobrevi-
da velha Europa, então não deixa de ser porque seu veram formas primitivas da realidade de horda
pensamento permaneceu extremamente ligado aos com aquela resistência a que se atribui somente o
paradigmas de um mundo que cresceu a partir de fundamental, melhor dizendo, o fundamentador.
uma experiência camponesa. Motivos reais extra- É daí que persiste um continuum do mun~o
-agrários saem sobretudo das oficinas dos artesãos, antigo também através dos milênios das assim
a saber dos ferreiros, para avançar na consciência do chamadas grandes civilizações; em alguns aspectos
mundo político-filosófica, e dos portos, de onde 0 se poderia dizer que isso salvou a humanidade de
comandante, em grego kybernetes, pôde tornar-se "h
si mesma - caso a expressão umant a e eva
"d d" d
uma sugestiva figura de poder. O médico também caber aqui para o horizonte cultural das politien
contribuiu com algo de seu perfil para o tipo do e seus universalismos. Se seguissem o curso da
especialista estatal dominador - a ele cabe ordenar '' humanidade", as pessoas há muito teriam sido
amargos medicamentos na enfermaria política. ·xtintas pelo desgaste. Desde sempre constituiu um
Na imagem do estadista como cirurgião popular risco para a cidade o fato de ela usar mais do que
talvez apareça com maior clareza o traço abstrato e ·riar homem; mais do que isso, ela o impele aos
O
a_ntiemocional da nova arte política - sendo a polí- últimos florescimentos como reproduções simples
tica o que leva o neófito contra o seu sentimento. \ mais; tanto no sentido biológico quanto no
Em tais discursos de polis e politie claro que nunca ·u\cural, ela é mais estufa do que campo e jardim.
se deve esquecer que para a grande maioria das ( , o humanamente primitivo continuum pré-político
pessoas, na época da política clássica, de forte in- , paleopolítico da humanidade-horda que cui~o-~ de
fluência agrária, grandezas como cidades, impérios, qu , ontinuasse sendo possível para a grande e1v1hza-
Césares e galeras de alto-mar permaneceram mitos <;:ÍO, apesar dos perigosos jogos com a "educação", uma 45
distantes - rumores partidos dos centros do poder
N o M ESMO 13 AR o
P ET ER SLOTERDIJ K

taxa suficiente de crescimento demográfico, mesmo é trabalho; não é verdade que carregam sozinhos o
que fr_eq~entemente sob condições patogênicas e peso das grandes visões e dos longos dias de trabalho
com significativas consequências neuróticas. no Palatino, enquanto as massas populares, lá nos
arrabaldes, sonham, copulam e acariciam o cão. Os
poderosos, além de necessitarem de uma medida
, . N~s _grandes civilizações, os agentes da po-
lmca dassica são, portanto, os atletas do Estado mínima de forma física, são sobretudo atletas do
amadurecidos num training do Grande existencial- poder-ordenar. Eles levam sua vida num training
mente abrangente para a estada num mundo de permanente do mandar-trabalhar, ordenar, decidir,
perspectivas e preocupações grandes e abstratas. 9 deliberar sobre uma massa de problemas agudos,
Não se deve esquecer que o que aqui se discute sob ambivalentes, urgentes. O cerne psicopolítico da
o irônico, embora identificável e reconhecido título dominação poderia se chamar: transmitir rigor.
de atletas políticos, pelo menos desde o século XIX Dominadores, políticos e chefes são, segundo essa
tem um nome menos lisonjeiro, embora correto: lógica, sobretudo detonadores de uma crueldade
classe dominante. Sem fazer uso de necessárias funcional - que obviamente fazem bem em criar
matiz_ações, defino dominação como o poder ou a para si, sob nomes como razão de Estado, bem
autondade de utilizar pessoas como meios. Os atle- comum, justiça, planejamento, entre outros, um
tas do Estado, entendidos como classe dominante ros to aceitável, se possível sincero. A abstração
-
sao portanto não apenas mártires do império; e
' do Grande torna graves os traços do Estado; já os
t~mbém nã~ o são, mesmo se, no trato mais pró- gregos diziam que Péricles, depois de ter tomado
ximo com ncos e poderosos, muitas vezes se tem a o poder, nunca mais riu. Mas se a política sempre
impressão de qu~ a aut~opiedade seja o preço a pagar significou também um sistema de distribuição
pela elevada posição. E certo que os poderosos têm das crueldades a partir de um centro de abstração
um acesso privilegiado a esforços mais pesados, mas (governo), então devemos temer coisas graves para
seria lacrimejante afirmar que só eles sabem o que os compradores finais das cruéis distribuições. Não
falo aqui de pobreza, estreiteza local e humores
senhoris, de exploração, violação e semelhantes,
9. Cf. a respeito as refl exões aristo télicas so bre a grand e sensibilidade e
46 grandeza do c1dadâo no 41° livro d e A Éttºra ,,.
a. 1Ar·
vtcomacos.
,
mbora a literatura das grandes civilizações tenha 47
/
p ET ER SLOTERD IJ K
No M ESMO B AR C O

transmitido de todas as regiões do mundo ladainhas coisas ainda não pensado até as últimas consequên-
realistas sobre isso. O que no momento desejo cias. O paradoxo da inclusividade exclusiva cobra
ª?~~tar é a catástrofe antropológica da grande então O seu preço; pessoas começam a caçar pessoas,
c1vil1zação, que cinde a evolução do homo sapiens matam-nas em grandes números, exterminam hor-
numa linha de altas chances e noutra de empobreci- das e tribos inteiras, vendem-nas e compram-nas,
mento. A "humanidade" se rompe aqui em grupos utilizam-nas como brinquedos sexuais, adestram-
que se intensificam através de tensões, e grupos que -nas para a realização de trabalhos pesados e lhes
fi_c~~ estagnados no sofrimento; a dor, na grande dificultam em grau maior grau menor, quando não
C1vil1zação, adquire um terrível rosto duplo; ela age impossibilitam, a transmissão de sua língua, mitos
em alguns como estimuladora, em outros como e rituais à nova geração, prolem. O resultado dessa
obstruidora; para a minoria, a carência tem efeito importante tendência tem alcance antropológico:
educador; para a maioria, age como destruidora de enquanto na base sobrecarregada das chamadas
almas. Se em referência a Claessens dissemos que grandes civilizações surgem culturas de aflição que
os grupos de humanos primitivos foram tirados de tentam adaptar-se a uma sobrevivência na miséria
uma espécie de formação insular a partir da Velha crônica, no grupo mais garantido começa a existir
Natureza, agora, ao prosseguirmos essa reflexão, uma segunda formação insular; nesta continua a
deveríamos constatar que grupos humanos, desde crescer a corrente básica da evolução humana, a
que o fenômeno da soberania se tornou epidêmico, marcha rumo a qualidades mais arriscadas e lu-
começaram a explorar outros grupos humanos xuosas nos recém-incubados exemplares grupais,
como naturezas externas; assim, à secessão da Velha inchando dramaticamente e a olhos vistos. Por
Natureza segue também uma secessão do homem isso, dentro da perspectiva histórica, não estamos
pelo homem - caso se possa formulá-lo de forma errados quando temos a impressão de que nas gran-
tão contraditória; as pessoas se aproximam umas des civilizações antigas se permitia abrir um leque
das outras na medida em que se tornam cada vez fantasticamente amplo de plenitude humana em
mais estranhas umas às outras. Liga-as agora a estra- termos de caráter e originalidade. Na pré-história
nheza íntima de senhor e servo. Sociedade de classes aparecem-nos "coloridos" os pequenos grupos
48 é somente um outro nome para esse estado de e povos; nas grandes civilizações, os indivíduos. 49
No M ESMO BAR CO
P ETER SLOTERD IJ K

É onde a arte de repetir seres humanos prossegue paradoxal do irregular, como as rugas na testa do
sob a égide do incentivo civilizatório, que se abrem leão ou as fendas na casca de um pão redondo. ,o
fabulosas possibilidades de intensificação, florescem
talentos especiais, podem tornar-se dominantes Na sensação espacial de impérios e reinos
inclinações que no mundo antigo teriam permane- realiza-se uma notável modificação em relação à
cido encobertas, e novos requintes encontram seu antiga vida na esférica jangada grup~l. O mundo
nicho. No mais íntimo círculo de favorecimentos se "globaliza" de maneira nova: sep como for,
formam-se biotopos para individualidades que se ela deve convergir para o interior de uma esfera
elevam em prazeres jamais experimentados e em sagrada, o cosmo, em cujo centro rege um ~rincí-
viagens a espaços inexplorados da meditação e das pio dominante, um deus ou uma razão umversal.
artes. Agora surgem patrocinadores que investem Deus agora é uma outra pal~vra par~ re~ondeza
abertamente no raro, no singular, no altamente abarcadora. A sensação espacial monarqu1ca, por-
cultivado; um patrício romano deu o nome para tanto, de perspectiva central, panóptica, esférica.
o típico cultivo civilizatório do extraordinário: O mundo é compassado a partir de um centro;
o mecenato. Como instituição de fomento do em perspectiva ontológica ele é a esfera invisível
homem pelo homem, ele desde então faz parte das de essencialidades que se formam em torno de
relações básicas de individualizações privilegiadas Deus, o brotante Ser. Cosmologicamente, uma
na sociedade de classes . Toda vez que favoreci- esfera redonda de luz. Politicamente, o círculo do
mentos se encontram entre si, surgem climas para do em torno de um centro de dominação.
mu n b'
o desenvolvimento do que há de mais refinado. Ainda hoje se expressa na bênção papal urbi et or . z
Olhares joviais tornam-se livres para ficar com o a concepção de espaço que pertencia à o_ntolog1a
particular, o momentâneo; flores cortadas decoram política do imperialismo romano: a partu de' ~m
os nichos das casas de campo, pintores aprontam centro, tudo ver e abranger. Num espaço poht~co
retratos naturalistas das pessoas queridas, talento- desse tipo, a priori somente se sentirão em casam-
sos aprendizes brincam com a cromatização dos divíduos que se imaginam no centro dele ou perto
sentimentos. Marco Aurélio dá-se tempo, em suas
1O. C f. Pierre H adoc, La citadelle intérieure, Pari s, 1992, P· 185.
51
50 anotações noturnas, para pensar sobre a beleza
No M ESMO B 11 RC O
P ET ER SLOTERDIJK

dele, ou sejam, príncipes, sacerdotes, ministros, co-


pensadores do poder e membros da burguesia da A partir dos motivos expostos, a política
capital em tempos de paz. Desde sempre a política clássica tem de ser sempre psicagógica. Se estão
clássica, na medida em que é metro-política, co- à disposição pessoas aptas à utilização, então sua
nhece a tensão entre centro e periferia; quanto mais produção deve pelo menos ser praticada com
longe do ponto central, onde, sob a proteção de planejamento, de forma que cada escolha da nova
vantagens do poder, surgem efeitos-estufa sensíveis geração seja plástica e efetiva para os objetivos dos
e espirituais, tanto maior a chance de grandezas antecessores políticos. É por isso que a política, em
pequenas ou medianas emperrarem a engrenagem. sua época clássica, é inseparável de uma produção
Somente a partir da periferia o "não" dirigido ao humana dupla; numa, em virtude da "educação"
centro pode assumir a forma principal - não por dada em trainings filosóficos, são por assim dizer
acaso o cristianismo surgiu na Judeia, berço de produzidos rendimentos humanos altamente indi-
resistência nacional-religiosa, para a partir de lá vidualizados e feitos a mão; noutra são produzidas
expandir-se em todo o ecúmeno romano ao redor massas humanas para o trabalho pesado. Esta
do Mediterrâneo como fermento de crítica ao última variante liga-se à antiga tendência campo-
reino e ao mundo. O fato de que a metro-política nesa de abundância de filhos. Para a produção de
clássica encontra sua antítese partindo da margem funcionários para o Estado é necessária sobretudo
e que a igreja pôde evoluir para um anti-império no a implantação psíquica de um funcionário interno
império - isso faz parte das mais importantes peças que represente exemplarmente no indivíduo o
didáticas sobre a essência do político em sua era Estado e o rodo. Provavelmente aquilo que Freud
clássica. Devemos estudar o catolicismo quase mais disse ser o superego não é mais antigo do que o
como politólogos do que como teólogos, porque império, a pólis e seus deuses - um pouco mais
depois da dissolução dos impérios formais mais antigo do que o monoteísmo (ou uma formação
recentes ele é a única instituição na qual sobrevive equivalente de deuses-chefe ou altos-nadas do tipo
a clássica política de princípios monarquistas; o Nirvana), cuja interiorização da típica imagem de
império romano sobrevive por meio da igreja que, individualidade própria das grandes civilizações
se torna para nós praticamente inevitável. Onde 53
52 como princípio contrário a ele, se tornou sua cópia.
No M ES MO B AR
P ETF.R SLOTERD IJK

por tais indivíduos como prova para o poder-estar-


quer que surja o homo politicus, disponibilidade,
-satisfeito em roda comunidade, até mesmo no
mobilidade, separabilidade dos amores se tornam
mero convívio com "rodos" - evitando portanto
valores decisivos. Só quem praticou de perto 0
roda pessoa realmente próxima, roda relação de
separar-se pode representar o abstrato. O homo po-
amor e desamor. Em seu estudo sobre Sêneca, Paul
liticus é aquele que apresenta e representa O poder.
Veyne acertadamente caracterizou o sábio estoico
Ele é o que deve ter aprendido a falar em nome de
como um soldado do cosmo. 11 Fazem parte de
um poder. A linguagem do poder é essencialmente
seus traços de caráter um físico algo desumano que
representativa, enquanto o próprio funcionário é
pura e simplesmente dá a forma vazia do espírito
signo. Por isso ele precisa estar psíquicamente apto,
de sacrifício. Aqui a ideia do celibato tem uma de
conquanto não seja monarca, para representar in
suas origens - é a funcional ausência de família e
absentia uma figura (ele ou ela), da qual parte toda
casamento dos funcionários delegados; os apósto-
violência, como se "ela própria" estivesse presente.
los cristãos e seus seguidores partirão desse solícito
A autoridade se difunde em representações. Agra-
treinamento de exílio; até hoje, algo disso aparece
mática desse classicismo político e metafísico, por
em capitães, diplomatas, executivos, professores
conseguinte, ressalta que as palavras do poder e as
visitantes e outros representantes profissionais.
verdades "centrais" devem ser traduzíveis para todas
Ao olhar para tais pessoas torna-se clara a solidão
as "línguas estrangeiras". Além disso as periferias
de indivíduos compromissados com uma vida de
têm de aprender a "língua mundial" como língua
excelência; como tudo o que é grande, o Estado
do centro. Para isso são necessários professores 12
exige um especial sacrifício da alma. (Nas reser-
de línguas exemplares - professores prontos para
vas que Herbert Wehner tinha em relação a Willy
aparecer como exemplos vivos de princípios supra-
Brandt encontrava-se ainda algo do ressentimento
-étnicos. Também por isso o progresso da psicologia
do Estado se reflete na ascensão de sábios e santos 1 1. Cf. Paul Vey ne, Weisheit imd Altruisrnus. Eine Einführung in die
que - como monarquistas lógicos - apostam sua PhiLosophieSenecas, Frankfurt si o Meno, 1993, espec. p. 164 et seq .
12. C ultos do esporte também pod em se r interpretados a partir de um
vida numa coisa: no poder-estar-sozinho com O ab- q uase- po líti co clima de perfo rm ance; os campeões são va ri antes
soluto, que é apresentado como o tudo-abarcador apo líti cas de "governos"- po r exe mpl o, "ministros" com atributos
para o arremesso do disco ou a co rrida d e longa distância.
54 e universal. A capacidade de exilar-se é treinada
I
i'F 'l' F. I( S LOTERD IJ K No M ESMO B ,1R o

do político-funcionário contra a sede de vida seriam, pelo menos em parte, indivíduos midiá-
abertamente apolítica de seu carismático colega.) ticos (se poderia dizer: semicheios), que querem
Parte do espírito desse treinamento megalopata tornar-se úteis para um povo completamente
de solidão também a formulação do conhecido imaginário, como se "pertencessem" a ele. 13
gracejo do exilado Diógenes de Sinope - o de que Algo grande raramente vem sozinho. Se
sua pátria na verdade seria o cosmo. Esse habitan- já é difícil convencer as pessoas a pertencer-se
te do todo, que se sente em casa mais junto aos numa formação estatal, é ainda mais difícil, ou
planetas do que a Atenas, foi o primeiro atleta da impossível, estabelecer cidades e impérios como
vida solitária- ele é o homem do Estado à margem realidades-solo. Onde quer que surja algo politica-
de tudo o que significa Estado. "Cosmo-cidadão" mente Grande, certamente haverá um contrapeso
- hoje seu neologismo anda pelo mundo todo; o por perto. Da concorrência dos Grandes pelo
que para ele era uma piada, tornou-se sério para Grande surgiu a peste política das grandes civili-
os modernos . Quem se denomina kosmopolites já zações - a guerra imperial e interimperial. Com as
está além da cidade e conta com um mundo no guerras, que são os verdadeiros atos fundamentais
qual o pertencer-se em comunidades substanciais do Estado, ficou claro sobretudo para as pessoas,
poderia até chegar a um fim. Um engraçado à época das grandes civilizações, o que significa
vagabundo urbano na velha Atenas deu a deixa estar no mesmo barco com inúmeros membros do
para o individualismo pós-político da Europa; é mesmo povo. O barco é a comunidade imaginária
pura e simplesmente visível no presente o que isso que derrama sangue real.
significa, já que as cidades agora se enchem de in-
divíduos soltos que, querendo ou não, pertencem
a ninguém - ermitãos burgueses, tipos solitários
esquisitos, órfãos psíquicos, eremitas burocráticos
trabalhando furiosamente, solteiros cósmicos.
Dever-se-ia verificar a hipótese de que os políticos 13. Cf. a respeito o ensaio de T homas H. Macho, Containerder Aufinerle-
na modernidade muitas vezes se recrutam no re- samkeit. Rejl.exionen über die Aufrichtigkeit in der PoLitik, em: Opfer der
Macht. Müssen PoLitiker ehrLich sein?, org. de Pecer Kemper, Frankfurt
56 servatório desses desatrelados; consequentemente si o Meno , Leipzig, 1993, pp. 194-207. 57
No M ESMO B AR(
P ET ER SLOTERD IJ K

seu sentido político secundário. É suficiente saber


que epocalizações de sucesso são frases políticas
3 porque reinterpretam o status das coisas no tempo.
Numa cultura monoteisticamente condicionada,
declarar que Deus está morto implica um abalo em
Com o início da era industrial algo se põe em
todas as referências e o anúncio de uma nova forma
movimento no tri ou tetramilenar reino dos reinos.
de mundo. Com "Deus" apaga-se o princípio do
Começa uma onda literária que não fala de outra
pertencer-se de rodas as pessoas na unidade de um
coisa senão de Estado, vida em sociedade, formação
espaço criado. Depois disso os anos do calendário
humana. A velha palavra romana "república" co-
tomam até um novo sentido. Futuramente não
meça a circular novamente e serve à burguesia para
bastará mais situar-se depois de Cristo - um outro
parafrasear sua intenção de começar tudo de novo.
sentido para "depois" paira no ar, também para
Reflete-se- e estamos de novo mais frequentemen-
aqueles que antes já não levavam tão a sério a era
te na pista dos gregos que dos romanos - sobre a
do Senhor. Se o filho morreu, então o pai também
associação das pessoas em coletividades, e nisso
não duraria muito; tão logo o pai seguiu o filho
pensando tão minuciosamente quanto pedantes
na morte, as pessoas estavam lado a lado como
que ainda não sabem que se tornarão revolucio-
pluralidades órfãs numa monstruosa paisagem
nários. Dá-se início a um novo debate sobre como
mundial - atualmente ordenadas em mais de
educar os filhos; o maior poeta de língua alemã
190 nações, nas quais são faladas cerca de 5.100
pode alcançar a fama com um drama sobre uma
línguas (uma contagem mais restrita indica duas
infanticida - sintomas que deveriam bastar para
mil), e seis bilhões de habitantes - sem nome nem
sugerir o fim de uma ruptura de épocas, de transi-
denominador comum, sem saber se na ausência
ção de uma era. Em Jean Paul, Heinrich Heine e
de um criador coletivo uma obra coletiva ainda
por último em Nietzsche a nova consciência de era
poderá ser definida. Pós-modernidade é a época do
assume uma forma programática sob a frase "Deus
"depois de Deus", e do pós-impérios clássicos com
está morto" - cuja interpretação a princípio deveria
suas aberturas mundiais locais. Mesmo assim, o gê-
ser deixada para os teólogos e seus sucessores, os
nero órfão tentou formular um outro princípio do 59
58 psicoterapeutas. Aqui deve interessar-nos somente
No M ESMO BAR .
P ETER SLOT ERDIJK

classe de excelência dos atores da hiperesfera passa


pertencer-se coletivamente num horizonte moder-
a lidar com uma outra forma de transição para o
no de unidade - os direitos humanos, e não é um
Grande - uma forma que não pode ser aprendida
acaso terem sido ex-cristãos os que originalmente
em Atenas nem em Roma nem nos liceus e giná-
lançaram a cruzada dos direitos humanos. Código
sios neoeuropeus. A forma do Grande no mundo
teológico à parte, assim falou Nietzsche sobre aqui-
industrial insiste no conhecido estresse megalopata
lo que inspira nosso tempo com esperança e horror;
em dimensões ampliadas - mas então devem
alguma coisa está morta e só pode desmoronar
preocupar-se as pessoas na rua, que antes tenam
mais rápida ou lentamente, mas de alguma forma
apoiado um ministro das Relações Exteriores. Isso
avançam a vida e a civilização e se cristalizam em
deve começar cedo; alunos ingleses costumam trocar
novidades não compreendidas. Entre esse "alguma
correspondência com crianças da mesma idade no
coisa'' e esse "de alguma forma" reside aquilo que
Quênia, e quase nenhum indivíduo do Primeiro
dá o que pensar na terceira era mundial.
Mundo pode passar por cursos intermediários ou
superiores sem ser treinado para um poliglotismo
No que diz respeito ao "alguma coisa", pri-
mínimo. A economia cuida de que a nova situação
meiramente sugiro interpretá-lo como o espírito da
geral do mundo passe pelo estômago. Frutas da
era agrária. Enquanto a política, no entendimento
África do Sul e Israel, carne bovina da Argentina
clássico, significou a arte do pertencer-se em cidades
transitam pelos canais de distribuição de impérios
da era agrária e grandes impérios, para ela chegou
gastronômicos multinacionais e chegam às estantes
o momento crítico com a "morte de Deus". Os
de supermercados europeus. Bruxelas emprega um
conceitos espaciais da era intermediária, marcada por
grupo de terminólogos que trabalham na homolo-
preparações do solo, fracassam diante do novo espaço
gação da norma linguística europeia; nas bombas
mundial sincrônico, que a cada dia se reconhece mais
de gasolina das estradas alemãs corre combustível
claramente. Os participantes do novo jogo mundial
proveniente de petróleos dos Emirados Árabes ,
da era industrial não se definem através de "pátria" e
do México, da Noruega, da Pérsia ou da Nigéria.
solo, mas de acessos a estações ferroviárias, terminais
Distribuições, condicionamento, queimas, digestões
aéreos, possibilidades de conexões. O mundo para
reúnem enormes populações através de maiores 61
60 eles é uma hiperesfera conectada. Quem entra na
P ETER SLOTERDIJ K
No M ESMO B AR o

distâncias em comunidades híbridas de metabolis- estejam tão raramente preparados para os desafios
mo. Tudo isso passou a existir com a violência do da nova situação - intelectualmente quase nunca,
inevitável e abala as pessoas prontas para levar sua moralmente às vezes, pragmaticamente menos
vida realizando tarefas correspondentes. No estres- do que mais-, constitui uma parte do mal-estar
se da planetarização são discutidas novas formas maciço cada vez mais agudo em relação ~ cl~sse
anímicas que devem fazer oscilar sua formatação política. Mesmo que ainda não se soubesse mdicar
entre momentos maníacos e depressivos. As penosas detalhadamente o que este ou aquele político
sincronizações herdadas de formas anímicas e mun- deveria fazer de diferente, todo observador do
diais do classicismo político não são mais suficientes movimento nas capitais modernas sente que não
para a existência no mundo global. As megalo- pode ser suficiente os representantes do povo,
manias de antes se tornam holomanias de hoje; a com uma espécie de disponibilidade de trabalho
classe megalopata de ontem está diante da tarefa de cega e ofuscada pelo funcional, deliberarem em
reordenar-se em formas convincentes de holopatia. comissões durante longos dias de trabalho. Essa
O velho e bom cosmopolitismo se transforma num impressão já seria suficientemente crítica_, mesmo
nomadismo cosmopata - para os membros da se políticos em Buenos Aires e Roma, assim como
hipercivilização, a terra se torna um estágio no qual em Bonn, Munique e Kiel não fossem, cada vez
a reformatação da alma deve ser treinada no novo mais frequentemente, flagrados em meio a fraudes,
mundo sincrônico. Nesse contexto, o turismo mun- abusos de poder e irregularidades.
dial adquiriu grande significado porque, pelo menos
para uma classe holopática ainda difusa, ela se tornou Parece-me que a sociedade atual, sofrendo
matéria de autoestudo quando o assunto é globali- crises de náusea frente a sua classe política, no
zação. 14 Mas o fato de que políticos em exercício momento não pode fazer mais do que se conced~r
uma pausa de reflexão para questões fundamentais.
14. Documentos sobre a relação entre viage ns e trein amento para o Deve-se ganhar tempo para um debate ~obre .ª
grande mundo foram oferecidos recentemente, entre outros, por lan
Buruma, Der Staub Gottes. Asiatische Nachforschungen, Fran kfurt s/
. . ~ o qual se transforma numa mvest1-
const1tmçao,
o Meno, 1992; Gerhard Schweizer, Touristen und Traumtii.nzer. Ein
gação da forma mundial. Suposta~e~te_ ~cu_lta-se,
Reisebuch, Srurrgarr, 1992; V. S. Naipaul, lm alten Siiden; do mesmo,
nas lamentações gerais sobre as mc1pienc1as do 63
62 l ndien. Ein Land in Auftuhr, Colô nia, 1992.
No M ESMO BAR o
P ETER 5 LOTERDIJ K

elenco político, um mal-estar global que ainda seria necessário para preencher os espaços vazios,
não encontrou sua forma - gostaria justamente de e que treinamentos devem ser desenvolvidos para
apostar em estados crepusculares de uma ampla que seja reduzida a enorme lacuna entre a forma
conscientização das insuficiências antropológicas. mundial global e as psiques locais. O atletismo de
Pois o que salta aos olhos dos inquietos contem- Estado da globalidade ainda não foi escrito, e se real-
porâneos a respeito de tantos políticos - que eles mente há preparativos para o mesmo, então somente
ºd
na forma de treinamentos selvagens e auto d1 atas.
15
tão raramente estão à altura dos desafios globais-,
vale ainda mais para os não políticos. Dever-se-ia Aqui são exigidas consciências que se estabelecem
ponderar se a descompostura crônica contra a firmemente no abismo do paradoxo sobre a espécie.
classe política não é a projeção de um mal-estar na Profissão: político. Residência principal: opacidade.
cultura mundial que apenas se cristaliza na proe- Programa: pertencer-se com aqueles com os quais
minência política. Nesta se torna visível um novo é difícil pertencer-se. Moral: pequenos trabalhos de
tipo de obscenidade discreta que submerge todos desafios. Paixão: ter uma relação com a ausência de
os envolvidos, espectadores e atores, num melin- relação. Evolução: autorrecrutamento a partir de
dre conjunto: a super exigência em cena aberta, a conhecimento, que se transforma em iniciativa. Tais
perplexidade no serviço público, a desorientação "políticos" a princípio, e sobretudo, deveriam en-
nas posições de comando, a palidez na ribalta. Para tender-se como atletas de uma nova tipologia: como
nós, a ignorância senta-se na primeira fila. Vê-se atletas de um mundo sincrônico, como almas de
o elenco político desfilar com algazarra pela mídia
e somos lembrados da inapetência premeditada
15. É para ser levada mui to a sério a observação de Mikhail Go rbachev, em
dos torneios municipais. Claro que ainda existem seu discurso no Festival de Música de Câmara de Mu111que, em 1992,
de que el e, com sua mulher Raíssa, durante os sete anos de mandato
aqui e ali megalopatas convincentes da velha guarda,
reri a passado por mui to mais coisas do que em toda a sua vida; Bill
personalidades ressaltadas por fidedigna estatura C linton mandou protocolar, depois de cem dias co mo presidente, que
se senti a como se tivesse feito trabalhos pesados durante rnnta anos.
atlético-estatal, mas sua presença isolada pode Se se quisesse escrever a biografi a de trabalho do pacifista norueguês
somente relativizar, não remediar a desproporção Johan Galrun g, então se chegaria à situação de re_r de apresentar .ª
hi stória de uma pessoa física com o programa de viagens de li~ mi -
global entre as forças necessitadas e as fraquezas nistro das Rel ações Exterio res, a bagagem intelectual de um premio
64 existentes. De fato, não sabemos que tipo humano N obel e o acervo de discursos de um apóstolo. 65
P ETER 5 LOTERD IJ K No M ESMO B A R<

excelência quando o assunto é coexistência. Como Da mesma maneira, como desde há muito já se
coexisto com um bilhão e duzentos milhões de pode notar, partes consideráveis das populações
chineses? A essa pergunta toda resposta é permitida, virarão as costas, com indiferença hostil, a tudo
mas não mais a antiga máxima do pequeno mundo: o que é político. É bom prepararmo-nos para
"Esqueça os chineses, esqueça todos aqueles que combates seculares entre as regiões do mundo mo-
são demais." A frase grandiosa de Stephan George: derno-globalizadoras e as conservadoras-resistentes.
"O vosso número já é um delito" expressa a ten- O tema da "revolução conservadora", experimen-
tação, a partir de cuja superação surgem os pan- tado há duas ou três gerações nos movimentos
-adetas políticos de amanhã. catolicizantes de resistência na Europa central e
do sul, provavelmente tem pela frente uma grande
É evidente que numa época em que a forma carreira intercultural - sob estandarte religioso,
do Grande é mudada, patologias de filiação de culturalista, regionalista. No mundo sem forma
todo tipo tornam-se epidêmicas. Já o atletismo e na sociedade sem identidade são maciçamente
de Estado mais antigo muitas vezes teve de lidar tramados retomadas, renascimentos e reconscien-
com as fronteiras de seu poder de generalização tizações de valores antigos. Depurações étnicas
- o globo-atletismo mais recente repetirá a mesma com agravantes de extermínio tornarão tangível a
experiência em proporções mais elevadas . Não violência dos gritos por socorro contra a perda da
é de hoje que se revelam de forma inequívoca forma política em muitas regiões do mundo.
epidemias inteiras de resistências oriundas das pe-
riferias, dos pequenos espaços, das esferas privadas. Com a globalização em franco avanço, come-
Assim como não houve uma política clássica sem çam a rebentar as últimas totalidades do continuum
a resistência das tribos e hordas por meio de um da política do final do classicismo, as quais haviam
antimundo de anarquismos, privarismos e infanti- mantido unidas as pessoas no Grande moderno
lismos, também não haverá uma hiperpolítica sem - as identidades estado-nacionais quase religiosas
a vingança do local e do individual. Grandes regiões que desde o século XIX marcaram as formas po-
se protegerão com greves latentes e manifestas líticas de vida na Europa e mais tarde no mundo
66 do jugo universal do capitalismo globalizado. inteiro. Por mais artificiais e improváveis estas
P ETER SLOT ERDIJ K No M ESM l} Al(( ' \l

tenham sido mesmo em suas "melhores épocas", abrange o campo político. O Estado se torna um
a sua evacuação realmente despreparada leva de castelo de areia, o absenteísrno se infiltra em todas
alguma maneira a desregulações assassinas. Das as estruturas aparentemente sólidas, os ligamentos
construções sociouterinas devastadas e imaginárias sociais se estendem no vazio - a era "sem síntese",
precipitam-se multidões em pânicos pós-políticos 16 da qual um dia falou Robert Musil, começa a
e abandonos difusos, para os quais o nome genérico explicitar suas exigências . Se o sistema ocidental
de pós-modernidade ainda é a expressão civiliza- do bem-estar social não tivesse adquirido urna
da. O mesmo fenômeno pode aparecer no terço certa habilidade de funcionamento como útero de
inferior das nações ricas como em quase todas as assistência social, a ausência de urna obra comum
camadas dos países pobres. Na mudança de forma evidente faria desmoronarem rapidamente as
de mundo, numerosos indivíduos e famílias de grandes sociedades da era industrial. A luta atual
repente se veem abandonados por todas as boas pela Europa pós-Maastricht deixa entrever como a
almas políticas. A mobilização dos muitos por viagem à hiperpolítica moderna é vivenciada pelos
urna grande forma coerente acaba em perjúrio ou contemporâneos - como viagem super-rápida
hipnose fracassada. No caso mais grave nenhum num império de confusões no qual não mais se vê
membro de urna sociedade acredita seriamente que o Estado, tantos são os funcionários. Política apa-
essa sociedade é a sua. Um pressentimento dessas rece como o equivalente de um quase-acidente-
possibilidades mais nefastas paira atualmente no -coletivo crônico numa rodovia coberta pela
rico hemisfério ocidental. A síndrome de Krause 17 névoa. Não se pode falar de urna vontade de
também faz parte disso - selfservice como indício pertencer-se numa tal situação. O novo Grande
da anarquia. Pode-se interpretar isso sistemica- eleva-se atrás do horizonte tal qual a monstruosa
rnente, corno um efeito que surge necessariamente internacional dos consumidores. Ainda mais aguda
se o espírito pós-moderno da insondabilidade do que na era da política clássica se manifesta, frente
a essas grandes unidades hiperpolíticas, urna terrível
16. C f. Jean-Pierre Dupuy, La panique, Paris 1991 ; Hermann Broch, verdade: a de que o animal de pequenos grupos, o
Massenwahntheorie, hankfurt s/ o Meno , 1979.
homo sapiens, é superexigido pelas grandes civiliza-
17. Político alemão noto ri amente envo lvid o em escâ nd alos de co rrupção.
68 [N .T.] ções, caso não consiga produzir próteses simbólicas 69
P ETER SLOTERDIJK No M ESM 13 /\ RC O

e emoc1ona1s para a movimentação em grandes mundo poderia tornar-se assassino de todo mundo.
espaços. Se se interrompe a produção de próteses, Semelhante coisa mostra a invasão do que há de
as classes políticas de países inteiros perdem sua pior nas configurações sociais, que não podem ter
capacidade de negócio e trânsito. Sociedades que ou encontrar suas formas . Depois da perda de seu
já pareciam civilizações sofrivelmente integradas estado de até então os grupos de repente foram
podem regredir a tribos neuróticas após a perda submetidos a um brutal estresse do mundo externo,
de suas próteses políticas imaginárias. para o qual não estavam preparados psíquica nem
institucionalmente. Assim, pareceu a certos condu-
Na guerra entre sérvios, croatas e bósnios, por tores políticos da ex-Iugoslávia que a eles só restava
exemplo, reaparece uma característica que já havia a regressão para frente; o massacre apresenta para
chamado a atenção na política de Estados periféricos eles o lucro sempre imaginário e insustentável de
do império na Baixa Antiguidade - e que, segundo que a guerra provoca a fusão étnica dos indivíduos;
Franz Borkenau, representa um risco fundamental psicodinamicamente, a fusão étnica corresponde
da evolução social na etapa do surgimento dos a uma espécie de entusiasmo em conjunto para o
povos 18 : nos tornamos testemunhas inesperadas qual nesse ínterim já há exemplos neoalemães. O caso
de uma paranoia étnica e vizinha que só pode citado pelo etnólogo Hans Peter Duerr de soldados
ser caracterizada com o predicado "merovíngia". sérvios que rasgavam o corpo de grávidas bósnias e
Onde ela se impõe, rompe-se o laço social, mesmo pregavam os fetos em árvores, mostra o ápice delirante
entre velhos conhecidos, e parece que quase todo da tendência de fundir-se no eu étnico, o "nosso", como
a uma forma interior repentinamente vital e contro-
18. Borkenau achava que as grand es religiões e as image ns de mundo
ladora. No ato cruel, a quintessência do conflito
universa listas surgiram para represa r as epid emi as da parano ia d e
mo rte se manifestando durante tais transições: roda mo rte era co m- aparece como superexposta. Depois da destruição
pree ndida a princípio espo ntaneamente co mo obra de estra nh os
malignos, quer dize r, de espíritos exte rnos, aos quais se subo rdin a
da configuração sociouterina e estatal-socialista
uma anim osidade irreconcili ável; teria sido o mérito es piritual das chamada Iugoslávia, certos grupos remanescentes
im age ns d e mund o das grand es civilizações p rod uzir, através de
interpretações não paranoicas da morte, novas satisfações da alma procuram apoio em antigas e "puras" fronteiras; a
e respectivos artes rnoriendi. Cf. Franz Bo rkenau, Ende und Anfang. "serbitude"- por mais quimérica que seja ultima-
Von den Generationen der Hochkulturen und von der Entstehung des
70 Abendlandes, Srurrgarr, 1984. mente - vai tornar-se, enquanto perdurar a crise, 71
No M ESM 1! 1\1\
P ET ER SLOTERDIJK

a realidade inquestionável. De acordo com a sua ligação geral de cercas guerras ou tipos de guerra
interpretação, o grupo em maior desvantagem, a com as crises de mudanças de forma no mundo.
população de sérvios abandonados e expulsos, procu- A aparência histórica ensina a todo observador que
rou na guerra intencional a ruptura da amargura no grupos humanos nas regiões pioneiras, durante
êxtase. De tais comunidades histerizadas não raro os últimos crês ou quatro mil anos, devem ter
avançam indivíduos midiáticos que transformam o conseguido navegar sobre suas velhas jangadas de
fantasma coletivo em arquétipos. Não seria o feto cal forma que agrupamentos de jangadas puderam
dependurado a autorrepresentação de uma nação surgir em grande estilo. Com isso se alcançou o
tomada pelo pânico do aborto? nível tribal do desenvolvimento. Tribos e grupos
tribais, ou seja, povos, são hiper-hordas, ou melhor,
Interpretar as grandes desregulações nos Bálcãs integrais de hordas mantidas coesas através daquilo
(assim como aquelas nas repúblicas caucasianas, na que se descreve com o tão mentalmente pobre e
África e em muitas outras zonas de guerra) como mesmo assim significativo termo "cultura''. Por isso
consequências do estresse político do Grande culturas são per se grandezas políticas- mídia para a
Mundo, já significa, graças à própria interpretação, arte do improvável e, sim, possível, de erguer super-
perguntar por formas de desconstrução de estresse estruturas sobre os grupos de hordas das jangadas.
na perspectiva política. Com isso não quero sugerir É natural comparar culturas com impregnações de
um tratamento num spa para os estressados mem- material ou diapasões utilizados para afinar diversos
bros da classe política, mas provocar uma reflexão instrumentos na mesma nota. Poder-se-ia descrever
fundamental que se preocupa com os pressupostos mais facilmente a cultura como um conjunto de
para a terapia política de psicoses nacionais sobre a sons de câmara que sintonizam populações para
forma do mundo. 19 A história bélica da humanidade o pertencer-se e brincar juntos. Línguas estão no
se mostra sob uma luz modificada caso se faça a centro das culturas, contanto que introduzam seus

19. Aproveitando trabalh os e impulsos de M ahatm a Gandhi , Herm ann


Broch, Lloyd de M ause, Johan Galtung, Franz Borkenau, entre outros, uma psicopatologia elabo rad a teri a a missão d e dese nvo lve r a relação
seria conveniente perguntar pelo funcionam ento de sistemas co letivos entre crises psíquicas e mud anças de fo rmas no mund o co m base cm

72 de loucura no passado e no presente, latentes e em manifestação; escud os de casos histó ri cos. 73


P ETER SLOTERDIJ K N o M ESM l3 All :o

falantes em concertos mundiais comuns. Já que Essa é uma das lições tiradas da maior ca-
pertencer é sinônimo de conservação das chances tástrofe natural e social da Europa, a peste negra
de vida, os desacordes nos etnocorpos sonoros são na metade do século XIV Giovanni Boccaccio é o
de antemão repletos de perigos e violência. Cul- poeta que tornou inesquecível para os europeus o
tura, compreendida como tarefa, inclui esforços teorema da sobrevivência na pequena comunidade
para a conservação do continuum étnico - sobre- em meio ao desastre da grande. O Decamerão hoje
tudo através das línguas em seus componentes ainda pode ser lido como peça didática sobre a
prosódicos e performativos. A partir daqui pode relação entre alegria regenerativa e pequena po-
parecer que continuum popular e continuum lítica. Depois que a peste irrompeu em Florença,
linguístico sejam a mesma coisa (e não são) . em pouco tempo viu-se decaírem todos os laços
A repetição do homem pelo homem, que através burgueses e humanos entre os indivíduos, como
de todos os tempos deve permancer um assunto se uma peste psíquica tivesse sobreposto a física. 20
das hordas e suas formações sucessoras formais e A estada na cidade agonizante torna-se um pesadelo
informais em épocas de grandes civilizações, é cada para os sobreviventes. Como os florentinos já não
vez mais mal-entendida pelos povos modernos sabem se devem temer mais a contaminação ou
como um assunto do povo - a cultura popular se os saques ou a fome, eles caem numa desorien-
fixa nas fisionomias isoladas como a marca, o tipo tação equivalente a uma paralisia. Na cidade que
aparentemente mais forte; tipicamente alemão , perdeu sua obra conjunta, pois não protege mais o
tipicamente judeu, tipicamente russo: com tais
caracterizações os povos, e mais ainda as nações, 20 . Em seu romance Msza za miasto Arras [Ed . b ras.: Uma missa para a
cidade de Arm.s, rrad. Henri k Siewierski, São Paul o, Estação Liberd ade,
se dão o privilégio de dar e produzir vida. Em sua 2001 ], Andrzej Szczypiorski apresentou uma va riante no rte-europeia
decadência, porém, as superestruturas revelam da grande crise; para ele, a epi de mi a co ma dimensões canto psico ló-
gicas quanto políricas; o psicó logo suíço Franz Renggli, em seu li vro
que quase nada têm a dar aos indivíduos, nos seus SeLbstzerstomng aus Verlassenheit [Autodes truição po r aband o nol,
esforços de continuar a vida. Mais do que isso, dese nvo lveu em 1993 a hi pó tese de que a grand e peste, co m a qual
co meça a "nossa histó ri a", qu er dize r, o moderno e te rrível continuwn,
pode-se então reconhecer: tão logo decai o opus ta mbém era marcad a psicossocialmence; as devastações mod ern as d as
relações mãe- filh o, co nsequ entemente, reriam provocado uma espécie
commune, as pessoas podem regenerar-se somente
de fra qu eza imun ológica co letiva psicosso mática qu e teri a pod ido
74 como unidades menores. leva r a uma catastrófica sinergia co m o vírus da peste. 75
P ET ER SLOTERD IJ K No M ES MO II All! ' tl

bem-estar dos cidadãos, de repente tudo está perdido social do século XIV. Isso certamente acontece
e tudo é permitido. Sujeitos de medo atomizados em Boccaccio sob condições privilegiadas - pois
acocoram-se em suas casas ou rebentam na rua. sua salvação da humanidade no pequeno grupo
Nessa situação, uma jovem mulher toma a inicia- culto pressupõe: uma quinta na Toscana, grande e
tiva e convence seis de suas amigas e três rapazes a agradável, com quartos individuais para todos os
retirar-se juntos a uma quinta próxima aos portões participantes, liberdade de trabalho para os jovens
da cidade, para se conservarem e resistirem até o fim e serviçais solícitos, que com seu auxílio protegem
da praga com serenidade e humanidade. É assim o idílio, tudo entremeado pelos modos dos jovens
que se chega ao memorável arranjo que prepara o patrícios urbanos que se deleitam com música e
contexto do livro de Boccaccio. Nessa obra básica discursos galantes. Se a cena se passasse no século
do humanismo a frivolidade aparece a serviço das XVIII poderíamos imaginar para ela um salão; no
coisas mais sérias. 2 1 Sherazade narrou em prol da século XIX, um bairro de boêmios e reformistas; no
própria vida; os jovens florentinos que se reuniram século XX, uma comuna agrária ou um retiro para
ao redor da graciosa Pampinea, narram em prol meditação. Nela se pode reconhecer o renascimento
da possibilidade do pertencer-se de pessoas depois das pré-hordas possibilitadoras do homem a partir
da decadência da forma política. Eles encarnam dos respectivos mimos civilizatórios. São típicas
a decisiva lição de todas as ciências modernas da formações daquela segunda onda insular, na qual
humanidade: se as grandes ordens se partem, a a preferência dada ao homem pelo homem impul-
arte do pertencer-se só pode recomeçar a partir das sionou os mais notáveis florescimentos. Ainda hoje
pequenas ordens. A regeneração do homem pelo herdeiros de tradições humanistas leem em suas
homem pressupõe um espaço no qual um mundo pegadas as medidas do possivelmente humano: a
se abre com a convivência. Nas conversas eu tônicas palavra florescer significa os momentos históricos
dos dez refugiados está conservado todo o cosmo de felicidade nos quais sociabilidade e refinamento
se condicionavam.
2 1. Kurt Flasch, em seu belo co mentário à introdução e às pr imeiras
quatro histó ri as do Decamerão, ex pôs em qu e situação a sa lvação Poucas gerações antes de Boccaccio, em seu
poé tica da hum anid ade d e Boccacc io deve ser loca lizada: K. Flasch ,
76 Poesie nach der Pest. Der Anfàng des Decameron, M ainz, 1992. texto De monarchia, Dante havia desenvolvido a 77
'P ETER SLOTERD IJK N o M ESMO HA1t < o

ideia de que o império seria uma instituição neces- mundo. Entre esses dois polos se coloca, desde o
sária para a salvação da humanidade; o reino, para fim da Idade Média europeia, a questão da verdade
se manter em forma, precisa de uma síntese pan- na política. Como o Estado deve ser feito para que
tocratórica superior, encarnada numa figura única possibilite a vida humana em boa e pequena espa-
entronizada por Deus: o monarca. Talvez se deva cialidade; como as pessoas devem ser preparadas
supor que essa doutrina, em seu tempo, tenha leva- para suportar e desenvolver um maior estatismo?
do a termo o imperativo do politicamente racional; Pode-se afirmar que a política, mais ainda o pen-
ela seguia a lógica dos sistemas de etapas, que podia samento político da modernidade, especialmente
imaginar a ordem de grandes impérios somente desde o século XIX, se agravou num duelo entre
através de sua unificação piramidal num ponto os dois motivos de unificação. Ferdinand Tõnnies
altamente dominante; sua diretriz é a precedência transformou a antítese comunidade versus socieda-
sagrada, a hierarquia, sem a qual não era possível de num sucesso ideológico da passagem do século.
imaginar, até recentemente, qualquer estruturação A política alemã por volta de 1900, contanto que se
de grandes grupos políticos ou trabalhistas. Toda a realizasse em Berlim, sempre procurou sua salvação
coletividade aparece, nessa perspectiva, como um particularmente nos jogos do império e do impe-
enorme corpo humano governado pela sua cabeça. rador, enquanto indivíduos isolados confluíam de
Ao olhar para essa figura de si, teoria política se toda a Europa para Ascona, de modo a testar, na
torna titanologia ou doutrina dos monstros, ciência atmosfera meridional, o renascimento do homem
do in-humano, do super-humano, composto de dentro do pequeno grupo individualista.
humanos; a obra principal de Thomas Hobbes
torna esse traço perfeitamente explícito. Se a grande A política do industrialismo se destaca
política deve ser o próprio domínio do monstruoso, sobretudo por não ter ela mesma conseguido
então a educação política é, em última análise, inicialmente entender sua própria modernidade
um mundo de monstros. Boccaccio, ao contrário, - motivo por que por muito tempo fez perdurar
havia desenvolvido em sua política informal o as categorias políticas da era agrária nas épocas
motivo inverso - a salvação do homem a partir da pós-agrária, transclássica e hiperpolítica. Os dois
78 humanidade de pequenos grupos abertos para o monstros políticos de nosso século, o fascismo e o 79
No M ESMO l3 AR ()
P ET ER SLOTERDIJ K

leninismo-stalinismo, surgiram de tais atrasos ma- acometiam com o recurso a ideologias e sistemas
lignos. Ambos representam tentativas de produzir de loucuras; o que se pode constatar no imperador
coletividades modernas através de curto-circuitos G uilherme ou em Hitler, em Lenin ou em Stalin
entre monarquia e comunidade - no caso do é a reação da megalopatia à megalomania. Para
fascismo, através de uma política fusionária que indivíduos dessa espécie o anúncio de que Deus está
juntou o Führer (o imperador do destino) com a morto não parece realmente grave enquanto eles
comunidade popular, numa sufocante totalidade existirem e representarem seu posto. Na mudança
de hiper-hordas; no caso do leninismo-stalinismo, radical de era agrária para era industrial os psico-
através de uma associação direta entre a ditadura patas - como é típico em tempos intermediários
- o para-czarismo - e os elementos de conselhos - têm a chance de executar, como condutores do
(de hordas) imaginados como bases comunais. Estado, confusões coletivas. Ao olhar essas grandes
Ambas as políticas fracassaram na falsa projeção provas errôneas de uma política da era industria-
do pequeno no grande. Em ambos os casos se pôde lizada se poderia ousar a seguinte tese: a história
observar o que acontece quando o grande Estado da política moderna (pós-clássica) é até então a
consumidor de indivíduos aparece diretamente história de erros de formato . Pode-se aprender
como grupo íntimo gerador de indivíduos: a in- duas coisas com elas: uma, a de que tentativas de
cubadeira se transforma em campo de batalha, e produzir comunidades em grande escala acabam
o território estatal, em vala comum. Essa pérfida em totalitarismos; outra, a de que um descuido
troca pequeno-grande pode ser minuciosamente das pequenas unidades deve, a longo prazo, levar
comprovada no pensamento e na ação dos protago- a becos psicopatológicos. Se Michael Walzer pôde
nistas fascistas e leninistas-stalinistas. Já nas palavras dizer: "A esquerda nunca entendeu as tribos", então
básicas dos movimentos "comunismo" e "nacional- caberia acrescentar: a direita nacionalista nunca
-socialismo" pode-se perceber detalhadamente o entendeu a diferença entre Estado e horda. O que
embuste de formato no cerne das ideologias. No ambas não compreenderam é que com o começo
que diz respeito aos chefes dos movimentos, pode- da era pós-agrária a relação de grande e pequeno
-se observar que eles compensaram sua incapa- espera por novas configurações viáveis. O que falta
80 cidade de resolver os grandes problemas que os à "teoria e práticá' é a implantação de uma política 81
1' 1-·1 l• I( S1.0 TERD IJK No ME S MO U A lt( ' tl

para uma era sem impérios. Nós a chamamos hiper- que a separação dos pseudogêmeos democracia
política porque podem ser sinalizadas crescentes e capitalismo é algo completamente diferente
exigências à arte do pertencer-se; mas também da mera introdução de parlamentos e eleições
porque é preciso ironia para estimular um pouco a livres em certos Estados africanos, asiáticos e
política clássica em seu ponto sensível, a simulação sul-americanos. Constituem obstáculo para uma
estatal das hiper-hordas. democratização no sentido ocidental, em muitos
países não europeus em vias de industrialização ou
Para teóricos liberais da era industrial a re- industrializados, as maciças relíquias de "culturas"
velação de que a aliança entre sociedade industrial que, de acordo com sua característica básica, obe-
e democracia não é absolutamente tão indisso- decem a princípios da era agrária ou ainda mais
ciável quanto querem os ideólogos ocidentais, antigos . O fenômeno é bem conhecido das regiões
há algum tempo oferece motivo para irritação e católicas e campestres da Europa- que encontrou
preocupação. Irritante é a sociedade ruim, na qual nas "revoluções conservadoras" e integrismos dos
parece ter acabado o capitalismo honesto, quando anos 20 e 30 sua exacerbação ideológica e política.
se conserva tão primorosamente em sociedades Imagine-se: mesmo se após 1933 tivesse conti-
semifeudais e ditaduras, como é notoriamente o nuado a existir em Berlim um Parlamento livre e
caso 22 ; preocupante é a suposição de que poderia os cidadãos de Friburgo pudessem ter participado
haver limites da exportação de democracia e que de eleições livres, justas e secretas, então, para citar
a capacidade de democratização de sociedades um exemplo controvertido, ainda assim Martin
não europeias estaria pior do que alguém na Heidegger não teria se tornado um democrata no
situação dos bem-intencionados ousaria supor sentido do liberalismo triunfante, numa eventual
até agora. Gostaria de expressar a suposição de ida às urnas. No entanto, ao contrário de muitos
antimodernos viscerais no segundo e terceiro
mundos, ele teria estado em condições de prestar
22. Cf. Francis Fukuyama, Das Ende der Geschichte. Wo stehen wir?, Muni -
que, 1992, p. 14: "N ão há um mo tivo eco no mi cam ente co nclud ente contas a programáticos liberais, caso quisessem
que ex plique por que a industrialização ava nçada deve ria ter co mo ouvi-lo, sobre os motivos de sua a-democracia; em
co nseq uência a d emocrac ia libera l. " [Ed. bras. : O firn da História,
82 Ri o de Janeiro, Rocco , 1992.) um discurso claro, possivelmente algo sussurrante, 83
I ET E ll S 1.0 T ERD IJ K
No M ES MO 13 A ll( ' O

ele teria declarado que a democracia até significa que a palavra niilismo não deve ser utilizada como
soberania popular, mas que intrinsecamente cassetete contra resultados no mundo moderno,
seria um disfarce para uma fatalidade ainda não mas como nome de problema para uma situação
compreendida que procura pela destruição da- de um mundo "pós-substância". Democracia
quilo que supostamente seria o dominante, do possivelmente é de fato um pseudônimo para
povo no sentido tradicional, pré-moderno. Na uma grande tendência da modernidade, que está
visão de Todtnauberg, a democracia seria um profundamente enraizada na história europeia: o
nome codificado para o individualismo urbano, a individualismo moderno. Mas este talvez tenha
orientação vital, a má utilização de todas as coisas um sentido completamente diferente que o de
- em suma, para a máscara política do niilismo. uma revolta secretamente "diabólica" contra as
Compreendemos imediatamente que não pode ser ordens do ser.
moderno quem fala assim- alguns lutarão contra
o desrespeitoso impulso de dizer ao homem que Quando hoje os ocidentais se descrevem
ele deveria ficar em sua cabana. De todo modo, facilmente como democratas, na maioria das
se entendermos Heidegger como a última mente vezes o fazem não porque reivindicam carregar a
da era agrária, poder-se-iam tornar frutíferas suas coletividade em esforços diários, mas porque, com
reservas contra a modernidade industrialista como razão, consideram a democracia uma forma social
contraste para uma teoria positiva do novo . que lhes permite não pensar no Estado e na arte
do pertencer-se. Há fortes motivos para supor que
Para o "alguma coisa" que está morto ou com o individualismo moderno se deu início a
moribundo propusemos acima uma interpretação uma terceira onda de insularizações, que ultrapassa
histórico-filosófica; para o "de alguma forma", na o padrão de individualização de épocas europeias
medida em que perduram os processos de vida, antigas. Inúmeros indivíduos começam então a
fica faltando um termo. Talvez nossas reflexões ilhar-se contra a "sociedade em geral". Quando
cheguem a uma pista que leve a resultados, se Immanuel Kant, no início da era burguesa, falou
começarmos pela relação subordinada na Escola da insociável sociabilidade do "homem", duzentos
84 de Friburgo entre democratismo e niilismo - no anos de modernidade tinham dado espaço para 85
P ETER SLOTERD IJ K N o M EsM l3 Al(< 'o

iluminar por inteiro o momento negativo da ofensivas com chances de êxito e culturas defen-
fórmula. Visto assim, democracia seria o consenso sivas de pauperização. Partindo do nível das ilhas
político do insociável não político. Números "ricas" de boas chances, a terceira insularização
continuamente crescentes de indivíduos sozinhos produz um individualismo como que pós-social
navegam, em virtude da lógica de relações da que tanto produz quanto reivindica uma grande
sociedade industrial, para uma solidão secundária medida de privilégios sociais como pressuposto
entre os seus, e de cuja qualidade expressões mo- para a renúncia, por parte do indivíduo, do
ralmente carregadas como "apolítico" ou "associai" sistema de sua produção. Para a construção da
não dão a menor ideia. Poderíamos ter a impressão sociedade a terceira onda precisa de indivíduos
de que a quitinete seria o ponto de fuga da civi- que necessitem cada vez menos da sociedade.
lização e o morador apenas o coroamento de um O socialismo se concretizou como a-socialismo.
processo de refinamento antropológico de vários Não se emprega a palavra diferenciação, da teoria
milênios; queremos descrevê-lo assim, mesmo dos sistemas, como parece, somente para a tei-
que fortes indícios mostrem que refinamento e mosia de subsistemas como política, economia,
embrutecimento, conforto e desconforto cada ciência, medicina, religião, educação, esporte,
dia mais acabam na mesma coisa. Cada vez mais tráfego e direito, mas também para a autoesférica
indivíduos podem ser descritos, de acordo com constituição dos indivíduos na sociedade da era
o modo de vida e autoconsciência, como ilhas industrial. Cada indivíduo tende a se tornar,
nomadizantes. No individualismo-quitinete das inclusive para si mesmo, justamente um "siste-
metrópoles pós-modernas a capacidade de ilhar-se ma psíquico" que as mais avançadas descrições
se torna definição do próprio indivíduo. O termo retratam: em sua trilha de diferenciação iguala
insularização, é bom lembrar, foi definido como todo indivíduo a um míssil, a caminho em seu
secessão da humanidade-horda da Velha Natu- próprio cosmo. Nas modernas teorias de sistema
reza; entendemos como segunda insularização a já se anuncia hoje, como parece, a nova forma de
utilização, nas grandes civilizações, do homem pensamento como a lógica da terceira onda de
pelo homem, típica de sociedade de classes, ca- insularização e da racionalidade da era industrial;
86 racterizada pela bifurcação da evolução em zonas trata-se de uma lógica das funções, das relações, 87
P ETER SLOTERDIJK No M ESMO B ARCO

da fluidez ou, como diz Luhmann, de uma forma no processo das gerações, tanto Novos quanto
de pensamento para irrefreada complexidade. também Últimos. Eles vivem com o sentimento
O que no aspecto político é ausência de império, do não retorno; o indivíduo individualizado até
no da lógica aparece como gratuidade, no antro- o limite quer uma vivência que se autorrecom-
pológico como crise da paternidade e do princípio pensa; ele leva sua vida como consumidor final
genealógico. de si mesmo e suas chances. 23
De acordo com uma estatística de 1993,
A terceira onda de insularização, de acordo um em cada cinco alemães jovens se sente artista
com sua tendência, revoga a primazia da repeti- ou considera desejável a forma de vida do artista;
ção diante da renovação no processo de vida da deve-se supor que o artista não é mais compreen-
sociedade. Indivíduos vivendo no individualismo dido como aquele que trabalha criativamente, mas
surgem de histórias de formação que não mais o último homem transfigurado na permanente
se orientam por uma ideia-chave: a repetição do corrente de vivências. Para artistas e não artistas a
homem pelo homem. Nisso, o desenvolvimento perspectiva de descendentes não significa mais au-
do mundo moderno enriqueceu em sentido correpetição de formas de vida em novas gerações;
o teorema de Nietzsche a respeito do "último a reprodução, quando escapa, abre perspectivas
homem" a partir do prólogo de Assim falava Za- de imprevisibilidade na forma de filhos, que já
ratustra, ultrapassando em muito as intuições de existirão como neopessoas dessemelhantes em neo-
seu autor. O último homem no individualismo mundos dessemelhantes. 24 Para a autopercepção
da era industrial não é apenas o positivista sociá-
vel que inventou a felicidade, com seu pequeno 23 . Ge rhard Schulze aprese ntou uma tentativa de elevar o co nceito de
desejo diurno e seu pequeno desejo noturno. vivência na descrição de socied ades modernas para um a posição fun-
damentalm ente co nce ituai: Die ErLebnis-Gesellschaft. Zur Soziologie
Mais do que isso, o último homem é o homem der Gegenwart, Frankfurt s/ o Meno, 1992.
sem retorno. Ele está embutido num mundo que 24. Para esses desce ndentes "dessemelhantes", nas últimas décadas se
impôs a expressão biológica e/o u sistêmica de "vida" - algo co mo na
não mais reconhece a primazia da reprodução. locução "vida por vir". Ela corresponde à conscientização amp lamente
Indivíduos desse tipo são, de acordo com seu difundida de que a nova geração se tornou um assunto de admin istra-
ção médico-biopsíquica. Cf. Barbara Duden, Frauenleib als offentlicher
88 autoentendimento e mais ainda com sua posição Ort. \,óm Mij?brauch des Begriffi Leben, Frankfurt s/ o Meno, 1991 . 89
7
/ R SLOTERDIJ K No M EsMo BARCO

/ da sociedade isso produz consequências quase


imprevisíveis; uma sociedade do Novo e Último
nante revelou a mais arriscada característica fun-
damental do industrialismo: reconhece-se, ainda
se vê como uma forma sem substância - um que com prudente dosagem, que todo o sistema
campo com um número inquantificável de vetores está enraizado na ideologia de uma produtividade
múltiplos. Nele o futuro quase não pode ser de- não reprodutiva - o que equivale a uma variante
terminado pela valoração do existente. Por isso, as econômica do diagnóstico do niilismo.
novas gerações herdarão e legarão algo diferente do
mundo tradicional; do antigo se assumem menos O processo industrial no todo destrói mais
qualidades do que quantidades, mais chances de "reservas" naturais e humanas do que ele próprio
partida do que virtudes concretas; nos espólios, pode produzir ou regenerar. Nesse sentido, é
pergunta-se nove vezes quanto e somente uma vez tão autogerador quanto um câncer, tão criativo
o quê. Testamentos se tranformam em dar-com-os- quanto fogos de artifício, tão produtivo quanto o
-ombros - quem já acredita que no futuro viverão cultivo de drogas. O que durante mais de duzentos
aqueles que têm e fazem o melhor? Em toda parte, anos foi festejado como produtividade humana
nomes estão prestes a tornar-se ruído e fumaça- ou quase sem contestação, está cada vez mais sendo
marcas de produto. visto agora em seu caráter destrutivo e vicioso. Ao
longo de uma grande sequência de mudanças de
Mas enquanto os círculos culturais elaboram geração, as respectivas gerações mais jovens, mais
afirmativamente a nova instabilidade, saúdam vividas, mais consumidoras, mais desvalorizantes,
o caos e celebram a inconsequência, há poucos substituíram as gerações antigas relativamente
anos, partindo de círculos ecológicos, deu-se conservadoras, relativamente econômicas, relativa-
início a uma nova discussão sobre durabilidade mente menos vividas- uma sequência que deve ter
- sustainability. Aos poucos se compreende que começado com a juventude da Revolução Francesa,
o atual way oflife e a longa durabilidade são duas o mais tardar com a juventude da era guilhermínica
grandezas que rigorosamente se excluem. O debate e as insurreições vitalistas contra os mundos dos
deflagrado por "eco-economistas progressistas" pais-cidadãos. O que a princípio se nota no último
90 mostra como a inteligência do subsistema domi- homem - o indivíduo sem retorno -, aos poucos 91
P ETER SLOTERDIJK
No M ESMO i3 All< ' <I

aparece também nos produtos sem retorno, nas este maior do que o Grande não está escrito. Se
matérias-primas sem retorno, nas espécies sem um dia ele encontrar seu autor, seu título poderia
retorno e finalmente nos biotopos e atmosferas ser: A horda aberta e seus inimigos. Seu tema seria
sem retorno. Os últimos homens não podem deixar a preferência do homem pelo homem, e contaria
de tirar conclusões para si mesmos ao contemplar a história de nossa espécie como uma aventura
as últimas coisas e últimas naturezas. Razão pela de mecenato. Seria, como testamento do animal
qual a hiperpolítica - seja lá o que mais ela for - político, o romance de uma espécie muito antiga,
é a primeira política para os últimos homens. Na muito sábia, muito desnorteada.
medida em que organiza a capacidade de convívio
dos últimos, deve fazer um desafio de exigências
sem precedentes; ela está diante da missão de fazer
da massa dos últimos uma sociedade de indivíduos
que aceitam continuar desempenhando o papel de
intermediários entre ascendentes e descendentes.
A sociedade hiperpolítica é uma comunidade de
desafio que no futuro também apostará no aperfei-
çoamento do mundo; o que ela tem a aprender é
um meio de transformar seus ganhos de tal forma
que depois dela ainda poderá haver ganhadores.
Isso pressupõe que a hiperpolítica se torne a conti-
nuação da paleopolítica por outros meios. Mesmo
numa sociedade de "últimos" homens, não pode
ser desaprendida a mais antiga das artes, a de
repetir o homem pelo homem. 25 O livro sobre

25 . C f. Sara Ruddi ck, Miitterliches Denken. Für eine Politik der Gewalt-
92 losigkeit, Frankfu rt/Nova York, 1993.
93