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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE PSICOLOGIA

MANUELA CAMPOS PÉRGOLA

O conceito de criatividade originária


na obra de D. W. Winnicott

São Paulo
2019
MANUELA CAMPOS PÉRGOLA

O conceito de criatividade originária


na obra de D. W. Winnicott

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu


em Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo – USP,
para obtenção do título de mestre em Psicologia.

Área de concentração: Psicologia Clínica

Orientadora: Prof.ª Dra.ª Ivonise Fernandes da Motta

São Paulo
2019
AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE
TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA
FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.

Catalogação na publicação
Biblioteca Dante Moreira Leite
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
Dados fornecidos pelo(a) autor(a)

Campos Pérgola, Manuela


O conceito de criatividade originária na obra de D. W. Winnicott / Manuela
Campos Pérgola; orientadora Ivonise Fernandes da Motta. -- São Paulo, 2019.
112 f.
Dissertação (Mestrado - Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica) --
Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 2019.

1. Criatividade. 2. Clínica. 3. Winnicott. I. Fernandes da Motta, Ivonise, orient. II.


Título.
Nome: PÉRGOLA, Manuela Campos.

Título: O conceito de criatividade originária na obra de D. W. Winnicott

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação


Stricto Sensu em Psicologia Clínica do Instituto
de Psicologia da Universidade de São Paulo – USP
para obtenção do título de mestre em Psicologia.

Aprovada em:

Banca Examinadora

Prof. Dr.: _______________________________________________


Instituição: ______________________________________________
Julgamento: _____________________________________________

Prof. Dr.: _______________________________________________


Instituição: ______________________________________________
Julgamento: _____________________________________________

Prof. Dr.: _______________________________________________


Instituição: ______________________________________________
Julgamento: _____________________________________________
AGRADECIMENTOS

Aos funcionários da Secretaria de Pós-Graduação e do Instituto de Psicologia da USP, em


especial à Claudia Rocha, pela simpatia e prontidão.

Ao CNPq, pelo apoio financeiro para o desenvolvimento desta pesquisa.

À minha orientadora, professora doutora Ivonise Fernandes da Motta, pela disponibilidade e


confiança depositada em mim para o desenvolvimento desta pesquisa.

Aos professores doutores que participaram da banca de qualificação e de defesa, Leopoldo


Fulgencio e João Paulo Barretta, pelos apontamentos teóricos valiosos que muito
contribuíram para o andamento e finalização do trabalho.

Ao Eduardo Luís Bon de Camargo, pelo trabalho de revisão do texto.

Ao meu companheiro de vida, João, pelo apoio, generosidade, paciência & afeto nosso de
cada dia. Sua presença confere à minha vida o aconchego e o amor que a fazem valer a pena.

À Mary Neide Damico Figueiró, que desde a graduação me acompanha em meus percursos
acadêmicos e me incentivou a prestar o mestrado; pelas leituras cuidadosas que fez dos meus
pré-projetos, pelos conselhos, ensinamentos, a parceria de trabalho e carinho.

À Marien Chahine, pela delicadeza da escuta.

À Carla Maria Lima Braga (in memorian), que me “iniciou” nos caminhos winnicottianos, em
2010.

Ao Saulo Durso Ferreira, pela solicitude e dicas pertinentes, me ajudando a repensar muitas
questões referentes a esta pesquisa.

Às amigas que, mesmo distantes de mim fisicamente, estiveram presentes desde muito antes
do início desta trajetória: Mariana Borges, Thalita Antonioli, Marília Querino, Vivian Karina,
Isabela Scolin, Edith Arca, Elizângela Freitas, Ândrea Abreu, Raquel Castro e Diene
Gimenes.

Às amizades que foram frutos do IPUSP e que agora levo para a vida: Camila Morais,
Nattasha Silva e Renan Rossini. Obrigada pelos cafés restauradores & cervejas revigorantes.

À minha família, que apoiou e incentivou minhas andanças e mudanças. À minha sobrinha,
Lua, que tanta alegria (e criatividade) trouxe para a minha vida.
À minha mãe, que se aqui estivesse certamente se interessaria pela teoria winnicottiana da
criatividade.
Felizes aqueles cujos pés
estão bem plantados na terra,
mas que, mesmo assim,
conservam a capacidade de desfrutar
intensas sensações,
nem que seja apenas em sonhos
que são sonhados e recordados.
(Winnicott, 1949)

Eu sempre sonho que uma coisa gera,


nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.
(Adélia Prado)
PÉRGOLA, Manuela Campos. O conceito de criatividade originária na obra de D. W.
Winnicott. 2019. 112f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019.

O CONCEITO DE CRIATIVIDADE ORIGINÁRIA NA OBRA DE D. W.


WINNICOTT

RESUMO

O fenômeno da criatividade é amplamente estudado por diversas áreas do conhecimento,


como Educação, Sociologia, Antropologia, Filosofia e Psicologia. Em cada uma delas é
possível distinguir diferentes tipos de criatividade, como a que se manifesta no artista, ou no
ser humano comum, e a criatividade espontânea, que pode ser observada na criança. Na
Psicanálise, área que considera as relações afetivas do indivíduo e a existência do
inconsciente, encontram-se especificidades que permitem outra compreensão do fenômeno. O
presente trabalho se referencia na teoria do desenvolvimento emocional de D. W. Winnicott.
Para ele, a criatividade originária diz respeito à capacidade do indivíduo de criar o mundo e
experiênciá-lo de maneira singular, conferindo sentido às atitudes, pensamentos, sensações e
sentimentos. De acordo com a sua Teoria do Desenvolvimento, a criatividade encontra suas
bases na vivência satisfatória da ilusão de onipotência, que resulta no sentimento de que a
vida vale a pena ser vivida. Pretende-se investigar e compreender a construção e
desenvolvimento desse conceito ao longo da obra de Winnicott, e, para isso, se faz necessário
apresentar o panorama no qual a teoria do autor está inserida – o que se dará através da
retomada do tema da criatividade nos principais interlocutores de Winnicott: Freud e Melanie
Klein. Além disso, serão diferenciados três níveis de análise do fenômeno, dos pontos de vista
ontológico, descritivo e clínico. Tal investigação será realizada por meio de revisão
bibliográfica da obra do autor e de comentadores de seu trabalho, que pensam o fenômeno, no
âmbito clínico ou não, com o intuito de auxiliar psicoterapeutas e pesquisadores a
compreendê-lo.

Palavras-chave: clínica; criatividade originária; Winnicott; saúde.


THE CONCEPT OF PRIMARY CREATIVITY IN D. W. WINNICOTT'S
COLLECTED WORKS

ABSTRACT

The creativity phenomenon is widely studied in different knowledge areas, such as Education,
Sociology, Anthropology, Philosophy and Psychology. In each one of them it's possible to
distinguish different types of creativity, like the one manifested in the artist, or in the ordinary
human being, and the spontaneous creativity, that can be observed in children. In
Psychoanalysis, an area that considers the individual's affective relationships and the
unconscious existence, there are specificities that allow a different comprehension of the
phenomenon. This work is referenced in D. W. Winnicott's theory of emotional development.
For him, the primary creativity refers to the individual's capacity of recreating the world and
experiencing it in a singular way, providing meaning to their attitudes, thoughts, sensations
and feelings. According to his theory of development, creativity finds its bases in the
satisfatory experience of the omnipotence illusion, which results in the feeling of life being
worth living. This study is intended to investigate and comprehend this concept's construction
and development through Winnicott's work and, because of that, it is necessary to present the
panorama where the author's theory is inserted – which will be done by revisiting the theme in
the work of Winnicott's main interlocuters: Freud and Melanie Klein. Furthermore, the
phenomenon analysis will be differentiated in three levels, the ontologic, descriptive and
clinical points of view. Such investigation will be done through the bibliographic review of
the author's collected works and commentators of his work who investigate the phenomenon,
in and out of the clinical sphere, on the purpose of helping psychoterapists and researches to
understand it.

Keywords: clinic; primary creativity; Winnicott; health.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 11
Metodologia .......................................................................................................................... 16
Desenvolvimento .................................................................................................................. 17
CAPÍTULO 1: A CRIATIVIDADE NA HISTÓRIA DA PSICANÁLISE ....................... 20
1.1 Freud e seus comentadores ............................................................................................. 20
1.2 Klein e seus comentadores .............................................................................................. 29
CAPÍTULO 2: ALGUMAS ESPECIFICIDADES DA TEORIA DO
DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL DE WINNICOTT PARA A COMPREENSÃO
DA CRIATIVIDADE ............................................................................................................. 34
2.1 Especificidades da teoria do desenvolvimento emocional de Winnicott ........................ 34
2.2 Críticas de Winnicott e seus comentadores a Freud e Klein no que se refere à Teoria da
Sublimação............................................................................................................................ 43
CAPÍTULO 3: O CONCEITO DE CRIATIVIDADE ORIGINÁRIA NA OBRA DE D.
W. WINNICOTT .................................................................................................................... 54
3.1 Categorização cronológica dos textos sobre criatividade ............................................... 54
3.2 Especificidades do conceito de criatividade em Winnicott e seus comentadores .......... 56
3.3 Aspectos ontológicos da criatividade.............................................................................. 62
3.4 Aspectos descritivos da criatividade ............................................................................... 70
3.5 Aspectos clínicos da criatividade .................................................................................... 85
CONCLUSÕES....................................................................................................................... 92
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 100
REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 103
11

INTRODUÇÃO

O tema da criatividade é amplo, e tem sido pesquisado em diversas áreas, como Artes,
Comunicação, Educação, Filosofia, Antropologia, Sociologia e Psicologia, dentre outras. Para
Alencar e Oliveira, “defini-la ou conceituá-la de forma precisa e concreta é tarefa difícil, visto
que ela se constitui em um fenômeno complexo, difuso, multifacetado e plurideterminado”
(2010, p. 249).
Por existirem diferentes concepções de criatividade, apontadas por diversos autores,
não se pode apreender apenas um significado em relação ao termo, conforme nos apontam as
pesquisas de Alencar e Fleith (2003):

Pode-se constatar que não há acordo quanto ao significado exato do termo nem
consenso acerca da extensão em que essa habilidade se diferencia da inteligência,
ou, pelo contrário, constitui uma faceta da inteligência que não tem sido avaliada
tradicionalmente pelos testes de inteligência (p. 13).

Entretanto, o que apontam as autoras é que existe, dentre as diferentes definições do


tema, um aspecto em comum no que diz respeito às suas características, que seria “a
emergência de um produto novo, seja uma ideia ou uma invenção original, seja a reelaboração
e o aperfeiçoamento de produtos ou ideias já existentes” (2003, p. 14).
Ao realizar a revisão de literatura sobre o tema, foi possível constatar que a
criatividade é bastante pesquisada no Brasil – apesar de seu estudo como área científica datar
da segunda metade do século XX1 –, sobretudo nas áreas de Psicologia e Educação.
Foram encontrados trabalhos que investigam a produção a respeito dessa temática, a
partir de pesquisas bibliográficas de trabalhos científicos e acadêmicos. Isso pode indicar que,
ao mesmo tempo em que o tema vem sendo cada vez mais pesquisado, ainda existem lacunas
importantes para a sua compreensão, o que justifica o interesse dos pesquisadores em saber o
que foi produzido nos últimos anos.
Zanella e Titon (2005) realizaram uma pesquisa com o intuito de investigar teses e
dissertações em Psicologia que discorrem a respeito da criatividade, no período de 1994 a
2001. Nessa pesquisa foi identificada uma dissertação de mestrado2 que “investiga parte da
produção científica da criatividade em programas de pós-graduação de Psicologia e Educação
entre 1970 e 1993” (2005, p. 306), cujos resultados apontaram que

1
Cf. Fleith (2007).
2
“Estudo da criatividade no Brasil: análise das teses/dissertações em Psicologia e Educação (1970/1993)”
(SANTOS, 1995).
12

(...) A maior parte dos trabalhos tratam de estudos empíricos. Além disso, as
abordagens mais utilizadas são a comportamental e a psicométrica, sendo que, dos
estudos empíricos, a maioria são pesquisas experimentais realizadas com maior
frequência em escolas, com alunos de 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental (2005, p.
306).

Nakano e Wechsler (2007) realizaram uma revisão de teses, dissertações e publicações


periódicas, a fim de “identificar as características da produção científica brasileira em
criatividade” (p. 261), no período de 1984 a 2006. As autoras concluíram que “existe grande
interesse dos pesquisadores brasileiros pelo tema da criatividade principalmente na área
educacional, existindo, entretanto, lacunas na área de saúde e nos contextos organizacionais”
(p.261), e que “há um consenso entre pesquisadores acerca da importância da criatividade na
realização pessoal do indivíduo, justificando a investigação das características da pessoa e do
processo criativo, realizada por meio da abordagem psicanalítica” (p. 268).
Sakamoto (1999) investiga, por meio de entrevistas com artistas de diferentes áreas e
da pesquisa bibliográfica, o fenômeno criativo. A autora encontra diversas definições que
descrevem o fenômeno a partir de sua manifestação, geralmente artística, e afirma que “a
maioria dos autores consagrados apresenta consenso sobre a existência de um potencial e de
aspectos de manifestação relacionados ao fenômeno criativo” (p. 20).
Dentre os autores pesquisados por ela estão Osborn (1953), Torrance (1962), Taylor
(1964), entre outros, pioneiros no estudo do tema e cujas publicações abordam a criatividade a
partir de diversas áreas de conhecimento. De acordo com os resultados obtidos pela pesquisa
realizada por Sakamoto (1999), percebe-se que o conceito de criatividade é, geralmente,
trazido na literatura no sentido de “criação” ou “expressão criativa”; na influência da obra de
artistas diversos (artistas plásticos, poetas, músicos, escritores, etc.) e descrevendo o
fenômeno a partir de uma de suas formas de expressão.
Wechsler apud Sakamoto (1999) apresenta as principais vicissitudes em relação ao
conceito de criatividade, e algumas delas dizem respeito à falta de encorajamento para se
realizar pesquisa básica sobre o processo criativo, avaliar os diferentes produtos criativos –
visíveis e não-visíveis –, além dos níveis dos processos criativos.
Outro ponto trazido por Sakamoto (1999) aborda as lacunas existentes na teoria a
respeito do tema, em relação à sua própria definição (apresentou-se como consenso a
definição de ‘fenômeno criativo’), além das definições que investiguem a criatividade de
maneira integral e multidisciplinar. A autora cita, ainda, outros autores, como Rogério Luz
(1989), Novaes (1975) e Alencar (1986), que trazem esse fenômeno a partir das referências do
13

processo criativo (NOVAES, 1975; ALENCAR, 1986) e as várias características das pessoas
criativas (ALENCAR, 1986).
Fleith e Alencar (2003)3 elaboraram um livro com uma série de artigos sobre a
criatividade, o processo criativo, passando pelas diferentes abordagens em relação ao
fenômeno, além da criatividade nos contextos educacional, organizacional e social; de
importância científica e acadêmica para os pesquisadores sobre o tema.
Na Psicologia, alguns autores4 se dedicaram ao tema da criatividade, tais como:

1. Pires (2010), que enfatiza de que maneira o conceito é encontrado ao longo das fases
de desenvolvimento do indivíduo, a partir do referencial winnicottiano;
2. Barros (2011), que utiliza e define o conceito de criatividade, a partir da perspectiva
winnicottiana, para explicitar a função da fantasia no brincar infantil;
3. Ivo (2012), que busca a relação entre jovens com altas habilidades e a criatividade, na
perspectiva de Winnicott;
4. Ciccone (2013), que descreve os diversos tipos de criatividade presentes na obra
winnicottiana, realizando uma retomada cronológica do tema;
5. Brentan (2014), em seu estudo sobre a expressão da criatividade, do ponto de vista de
Winnicott, em crianças asmáticas;
6. Padovan (2014), que menciona o conceito de criatividade (na Filosofia e na
Psicanálise, e nesta se utiliza do referencial winnicottiano) para construir relações
entre dança, corpo, a experiência de estar no mundo e a prática clínica;
7. Pereira (2014), que, entre outras questões, busca responder de que maneira a
criatividade (enquanto sublimação) se vincula à experiência estética;
8. Aoki (2016), que enfatiza o papel e a importância da criatividade, partindo do
referencial winnicottiano, na construção da parentalidade de crianças com Síndrome
de Down;
9. Durski (2016), que utiliza o conceito de criatividade para descrever o espaço entre
analista e paciente;
10. Silva (2016), que explicita o conceito a fim de vinculá-lo à produção de músicas de
rap na adolescência, se utilizando do referencial de Winnicott.

3
Essa publicação é uma versão modificada e ampliada do livro de Alencar (1986).
4
As teses e dissertações indicadas fazem parte de um levantamento realizado no banco de teses e dissertações da
USP (Universidade de São Paulo) e PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), a partir de 2010,
utilizando-se palavras-chave específicas em relação ao tema. Em seguida, foi realizada a leitura dos resumos dos
trabalhos encontrados e, de acordo com a proximidade com o tema (a perspectiva winnicottiana da criatividade),
foram selecionados os trabalhos aqui apontados.
14

Além desses, outros5 também se mostraram relevantes em relação ao tema:

1. Schecter (1983), que através do fenômeno da transicionalidade descrito por Winnicott,


explicita as condições necessárias às experiências que podem dar início à criatividade;
2. Fossi (1985), que constrói a partir das teorias psicanalíticas existentes e através de
críticas a estas, uma hipótese clínico-empírica para estabelecer a base de uma pesquisa
sobre a criatividade;
3. Schwaber (1998), na resenha de “The Origins and Psychodynamics of Creativity: A
Psychoanalytic Perspective”6, cujo trabalho traz definições sobre criatividade por meio
de exemplos clínicos de artistas, cientistas e empresários, tendo como ponto de partida
a Psicanálise.
4. Olson (2016), em sua resenha do trabalho “Creative Analysis: Art, Creativity and
Clinical Process”7, que traz uma pesquisa sobre o que os analistas disseram com
relação aos processos criativos.

Dentre os diversos tipos de criatividade descritos pelas diferentes áreas, na Psicanálise


– área que considera, de modo geral, a existência de determinantes inconscientes8, a
importância da sexualidade infantil e do Complexo de Édipo – o tema encontra algumas
especificidades.
Porém, não é o intuito deste trabalho propor um estudo sobre a concepção de
criatividade para a Psicanálise, no geral, mas fazê-lo especificamente em relação à obra de um
autor da área, D. W. Winnicott (1896-1971), médico pediatra e psicanalista inglês.
Uma vez que este trabalho se propõe a estudar a criatividade na obra de Winnicott, que
era também um psicanalista, as especificidades desse fenômeno para a Psicanálise serão
demonstradas através das teorias de Freud e Melanie Klein, pois estes são considerados
autores que estruturaram o pensamento de Winnicott.
Antes de desenvolver sua própria teoria do desenvolvimento emocional, Winnicott
teve contato com a teoria de Freud, e compartilhava as ideias centrais desta, considerando-se

5
Artigos encontrados na busca por meio da página eletrônica (<http://www.pep-web.org/>) do Psychoanalytic
Electronic Publishing (PEP), utilizando-se palavras-chave específicas em relação ao tema. Em seguida, foi
realizada a leitura dos resumos dos trabalhos encontrados e, de acordo com a proximidade com o tema, foram
selecionados os trabalhos aqui apontados.
6
Oremland (1997).
7
Hagman (2014).
8
Fulgencio (2016, p. 17).
15

“um produto da escola freudiana ou psicanalítica”. Porém, como ele mesmo afirmou, “isto
não significa que eu tome como correto tudo o que Freud disse ou escreveu” (1965t, p. 29).
Teoricamente, pode-se afirmar que Winnicott concordava com as ideias freudianas a
respeito do complexo de Édipo, por exemplo, mas, como médico pediatra, observou que
mesmo os bebês poderiam adoecer, caso o cuidado que recebessem não fosse suficientemente
adaptado às suas necessidades.
Portanto, conforme afirma Fulgencio (2016), “Winnicott está, por assim dizer,
realmente nas mãos de Freud e o tem, por assim dizer, nos seus ossos, mas não está sob o
polegar de Freud, não o trata como uma autoridade religiosa a quem se deve idolatria” (p.
18).
Em relação à Melanie Klein, Winnicott concordava com muitas das ideias a respeito
da primeira infância pré-edípica, e as formulações da autora “sobre o desenvolvimento
emocional primitivo e a importância da destrutividade da criança no processo seriam cruciais
para Winnicott”, segundo Phillips (2006, p. 31).
Além disso, Winnicott e Klein tiveram um envolvimento longo, uma vez que
“Winnicott faria a análise do filho de Melanie Klein, Erich, porém sem consentir frente à
exigência de que ela própria supervisionasse o caso. E Melanie Klein viria a analisar a
segunda esposa de Winnicott, Clare” (2006, p. 79).
Assim, a afirmação de Winnicott de que “em nenhum campo cultural é possível ser
original exceto numa base de tradição” (1967b, p. 138) confirma a relevância de retomar as
teorias em relação à criatividade de Freud e Klein antes de adentrar a sua teoria.
O fenômeno da criatividade em Winnicott possui aspectos clínicos e ontológicos9,
além de estar descrito em diversos momentos de sua teoria. O desenvolvimento da
criatividade depende da qualidade das experiências de ilusão vivenciadas no período
denominado dependência absoluta, que vai, aproximadamente, do nascimento aos quatro
meses de vida do bebê. Na saúde, nesse período mãe e bebê vivem uma relação dois-em-um,
ou seja, o bebê não existe sem a mãe, e é esta quem concede os cuidados básicos, físicos e
afetivos, que uma vez também recebeu de sua mãe, quando fora um bebê.

A criatividade é, portanto, a manutenção através da vida de algo que pertence à


experiência infantil: a capacidade de criar o mundo. Para o bebê, isso não é difícil;
se a mãe for capaz de se adaptar às necessidades do bebê, ele não vai perceber o fato
de que o mundo estava lá antes que ele tivesse sido concebido ou concebesse o
mundo (WINNICOTT, 1986h, p. 24).

9
O que significa dizer que é a criatividade, ela mesma, que funda a experiência de ser, e está ligada aos modos
de apreensão da realidade. Cf. Santos (2009), Safra (2009), Dias (2003).
16

Tendo em vista que essa definição do fenômeno da criatividade data de um dos


últimos textos de Winnicott10, fez-se importante perguntar como se deu sua construção. Foi
possível observar, a partir da revisão de literatura realizada, que a maioria dos trabalhos não
tem o objetivo de descrever o fenômeno ao longo da obra de Winnicott11. Além disso, não se
observa em nenhum dos trabalhos a proposta de categorizar o fenômeno, ao longo da obra do
autor, nos níveis de análise ontológico, descritivo e clínico.
Desse modo, torna-se importante realizar uma pesquisa teórica que descreva de que
maneira o conceito foi elaborado e construído, uma vez que necessita ser melhor
compreendido. Portanto, este trabalho teve como objetivos formular um estudo sistematizado
da construção do fenômeno da criatividade na obra winnicottiana, a fim de viabilizar
compreensões acerca dela e do pensamento do autor, além de auxiliar psicólogos e
psicanalistas a compreendê-lo em suas manifestações clínicas.

Metodologia

Antes da descrição do método utilizado, é necessário distinguir alguns aspectos para


esclarecer em que sentido, epistemológico e metodológico, essa pesquisa se insere. Em
primeiro lugar, faz-se importante explicitar e diferenciar as pesquisas clínica e acadêmica.
Segundo Fulgencio (2005), a pesquisa clínica e a científica, ainda que se
sobreponham, devem ser orientadas por uma teoria geral “que diz o que deve ser privilegiado
como variável, o que deve ser procurado e como essa procura deve ser feita” (p. 31). Nesse
sentido, o tipo de pesquisa interfere nos caminhos para alcançar os resultados.

No caso do psicanalista como cientista, este tem como objetivo um tipo de


psicossíntese, agrupando e ordenando seu material empírico tendo em vista a
formulação de conceitos e teorias tão universais quanto possível. Caso ele aplique o
método psicanalítico clínico (composto pela técnica da associação livre,
interpretação dos conteúdos latentes e atenção flutuante) para fazer ciência, estará
fadado ao fracasso, e vice-versa (FULGENCIO, 2005, p. 32).

A presente pesquisa se baseou em um estudo teórico através da leitura estrutural da


obra de Winnicott, para compreender a construção do conceito de criatividade originária12.
Tendo em vista a proposta de compreender de que maneira o referido conceito foi construído
10
“Vivendo de modo criativo” (1970).
11
Exceto os trabalhos de Ciccone (2013) e Pires (2010), citados na página 13, que se dedicaram a descrever o
fenômeno ao longo das fases, ou etapas do desenvolvimento e relacionando-o a outros conceitos importantes da
obra de Winnicott.
12
Optou-se pelo uso do termo “originária” com o respaldo de alguns autores, como por exemplo, Dias (2003),
Loparic (2000), Safra (2009) e Santos (2006), que afirmam que o termo se refere à origem, ou seja, a criatividade
seria a “condição fundante, originária, ontológica do ser humano” (SAFRA, 2009, itálico nosso). Cabe ressaltar
que essa escolha não implica em uma diferença em relação ao termo “criatividade primária”, descrito por
Winnicott (1958c e 1988).
17

e estruturado, ao longo da obra do autor, pode-se caracterizar essa pesquisa como teórica, uma
vez que esse tipo de pesquisa “tem como procedimento necessário a retomada daquilo que já
foi produzido diretamente por um autor central e, indiretamente, pelos autores secundários
que desenvolveram esse tema” (FULGENCIO, 2005, p. 49).
Desse modo, a literatura secundária auxiliará a compreender a obra winnicottiana. Os
autores que irão compor esse percurso são: Abram (2000), Caldwell (2007), Dias (2003;
2007), Fulgencio (2003; 2005; 2006; 2014; 2016), Khan (1993), Loparic (1995; 2000; 2005),
Newman (2003), Phillips (2006), Rodman (1990) e Spelman (2015).
Os textos em que o conceito de criatividade originária é trazido por Winnicott foram
selecionados com o respaldo do trabalho que reúne as obras completas do autor, Collected
Works of D. W. Winnicott (2016)13, através da consulta ao índice remissivo (volume 12 da
CW) no item “criatividade”. Posteriormente, os textos foram divididos em três categorias de
análise14: ontológica, descritiva e clínica. No item subsequente são descritas as etapas do
trabalho.

Desenvolvimento

No primeiro capítulo será investigado de que maneira Freud e Klein, com o auxílio de
comentadores de suas respectivas obras, trataram o fenômeno da criatividade em suas teorias.
No segundo capítulo pretende-se apresentar as especificidades da teoria do
desenvolvimento de Winnicott. Nesse momento, os comentadores da obra do autor – que
trataram acerca do conceito, no âmbito clínico ou não – irão auxiliar o entendimento a
respeito da teoria de Winnicott. Na segunda parte do segundo capítulo pretende-se elaborar as
possíveis críticas de Winnicott, bem como de seus comentadores, aos conceitos apresentados
por Freud e Klein no primeiro capítulo, no intuito de compreender quais são as aproximações
e divergências entre as formulações dos autores e de Winnicott.
O terceiro capítulo estará dedicado a demonstrar como o fenômeno da criatividade está
inserido ao longo da obra do autor, apresentando as especificidades deste e de seus
comentadores. Nesse quesito, serão diferenciados três aspectos: o primeiro diz respeito aos
aspectos ontológicos do fenômeno. O segundo se refere aos aspectos descritivos, isto é, como
a criatividade é trazida nas diferentes fases da teoria do desenvolvimento do autor, e o terceiro

13
Que, daqui para frente, será indicada como CW. Para referenciar os textos de Winnicott será indicada a
classificação feita por Knud Hjulmand (1999, 2007), cujo critério é o ano da primeira publicação do artigo ou do
livro do autor. No corpo da dissertação, após a referência do ano de publicação, está a página em que a citação
pode ser encontrada nas edições brasileiras utilizadas neste trabalho.
14
Sugestão apresentada pelo Prof. Dr. Leopoldo Fulgencio, em março de 2018 (exame de qualificação).
18

retoma os textos em que os aspectos clínicos da criatividade são trazidos. Será apresentado
ainda um quadro em que estarão listados os textos e as categorias em que estes se encaixam.
Em seguida, a obra do autor será revisitada cronologicamente, a fim de localizar e explicitar
os textos em que o conceito é trazido.
Abaixo estão os textos que foram utilizados no percurso desta pesquisa, rearranjados
em uma lista cronologicamente disposta, a fim de contemplar duas categorias: os textos
mencionados pela CW15 e os mencionados por outros autores16.

1. “Desenvolvimento emocional primitivo” (1945d);


2. “Necessidades ambientais; os estágios iniciais; dependência total e
independência essencial” (1996k);
3. “Marion Milner - Nota crítica de On Not Being Able to Paint” (1951d);
4. “Objetos Transicionais e Fenômenos Transicionais” (1953c);
5. “W. R. D. Fairbairn - Resenha de Psycho-Analytic of the Personality” (1953i);
6. “Dorothy Burlingham - Resenha de A study of three pairs of identical twins”
(1953e);
7. “A Tendência Antissocial” (1958c);
8. “Psicanálise do sentimento de culpa” (1958o);
9. “O primeiro ano de vida. Concepções modernas do desenvolvimento
emocional” (1958j);
10. “O destino do objeto transicional” (1989i);
11. “Da dependência à independência no desenvolvimento do indivíduo” (1965r);
12. “C. G. Jung - Resenha de Memories, Dreams, Reflections” (1964h);
13. “Uma nova luz sobre o pensar infantil” (1989s);
14. “Autismo” (1996c);
15. “A ausência de um sentimento de culpa” (1984b);
16. “A localização da experiência cultural” (1967b);
17. “O papel do espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil”
(1967c);

15
Cronologicamente, os textos extraídos do índice remissivo (como consta no volume 12 da CW) no item
“criatividade” são: 4º, 7º, 9º, 13º, 18º, 20º, 23º, 24º, 25º e 26º.
16
Os outros textos adicionados à lista foram encontrados nos trabalhos de Ciccone (2013); Pires (2010);
Newman (2003) e o 2º texto mencionado foi inserido pela autora do trabalho.
19

18. “Interrelacionar-se independentemente do impulso instintual e em função de


identificações cruzadas” (1968g);
19. “Ilustração clínica de O uso de um objeto” (1989vt);
20. “Sum: eu sou” (1984h);
21. “Sobre o uso de um objeto - O uso de um objeto e relacionamento através de
identificações” (1969i);
22. “Sobre os elementos masculinos e femininos ex-cindidos (split-off) - Resposta
a comentários)” (1972c);
23. “Vivendo de modo criativo” (1986h);
24. “O brincar: a atividade criativa e a busca do eu (self)” (1971r);
25. “A criatividade e suas origens” (1971g);
26. “Estabelecimento da relação com a realidade externa” (1988).
20

CAPÍTULO 1: A CRIATIVIDADE NA HISTÓRIA DA PSICANÁLISE

1.1 Freud e seus comentadores

Sigmund Freud (1856-1939) elaborou a primeira teoria do desenvolvimento


psicossexual da Psicanálise, que tem como foco a “administração da vida instintual ao longo
de todas as fases da existência, reconhecendo, inicialmente, que existem quatro tipos de
objeto com os quais o ser humano se relaciona (autoerótico, narcísico, homossexual e
heterossexual)” (FULGENCIO, 2016, p. 18).
Sua teoria descreve fases do desenvolvimento da libido (oral, anal, fálica ou genital
infantil e genital adulta), que designam de que maneira o indivíduo se relaciona com os
objetos. Além do caráter descritivo de sua teoria, Freud concebeu o ser humano dotado de um
aparelho psíquico (id, ego, superego), bem como uma energia (libido), que circula e se
manifesta através de forças psíquicas (pulsões17), a fim de que pudesse explicitar o
funcionamento do psiquismo. Esses outros conceitos, que “estão além ou ultrapassam os da
psicologia dos fatos clínicos” (FULGENCIO, 2003, p. 134), como “libido” e “pulsões”, por
exemplo, foram caracterizados como metapsicológicos. Isto significa dizer que representam

Um conjunto de modelos conceituais mais ou menos distantes da experiência, tais


como a ficção de um aparelho psíquico dividido em instâncias, a teoria das pulsões,
o processo do recalque, etc. (...) Leva em consideração três pontos de vista:
dinâmico, tópico e econômico (LAPLANCHE e PONTALIS, p. 285, 2011).

O ponto de vista tópico diz respeito a uma espécie de ficção teórica, que designa o
psiquismo como se fosse um aparelho e distingue as instâncias psíquicas que compõem as
partes desse aparelho (FULGENCIO, 2003), quais sejam: inconsciente, pré-consciente e
consciente; id, ego e superego. O ponto de vista econômico diz respeito às quantidades de
excitação e, portanto, à libido; e o dinâmico tem relação com as forças pulsionais18 que
operam no aparelho psíquico e, portanto, faz referência às pulsões19.

17
Na edição utilizada (“Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud”) a
tradução para o termo alemão trieb é “instinto”. No restante do texto será utilizado o termo “pulsão”, por dois
motivos: os comentadores de Freud aqui utilizados empregam o termo “pulsão” como tradução do termo alemão
trieb, e para evitar confusões com a palavra “instinto”, que para Winnicott tem o significado de “entidade
biológica integrada imaginativamente” e não tem relação com o trieb (pulsão) de Freud, “entidade
metapsicológica especulativa rejeitada por Winnicott” (LOPARIC, 2005, p. 340, nota de rodapé). Para maior
compreensão sobre as diferenças de tradução entre os termos “instinto” e “pulsão”, cf. Simanke (2014): “O Trieb
de Freud como instinto 1: sexualidade e reprodução” e Fulgencio (2006): “Notas sobre o abandono do conceito
de pulsão na obra de Winnicott”.
18
“Na metapsicologia freudiana, a teoria das pulsões se caracterizou, num primeiro momento, como um
dualismo entre pulsão de autoconservação e pulsão sexual. Mais tarde, Freud (1996c, p.161) realizou uma nova
divisão das pulsões: de um lado, pulsão de vida (sob a qual se encontram englobadas as antigas pulsões de
autoconservação e sexual) e, de outro, a pulsão destrutiva ou pulsão de morte. (...) Para Freud (1996c, p. 162),
essas duas forças fundamentais – pulsões de vida e de morte – determinam toda a variedade dos fenômenos da
21

Segundo FULGENCIO (2006), “as pulsões não são forças físicas, mas psíquicas. Não
são forças propriamente biológicas, mas uma representação psíquica de uma fonte
endossomática ou, ainda, um representante da fonte endossomática” (p. 85). Essa breve
descrição do conceito de pulsão é relevante aqui, pois dará início às discussões que são
pertinentes a esse capítulo. No texto “Os instintos e suas vicissitudes”, Freud descreve20:

Isto é tudo que pode ser dito à guisa de uma caracterização geral dos instintos
sexuais. São numerosos, emanam de grande variedade de fontes orgânicas, atuam
em princípio independentemente um do outro e só alcançam uma síntese mais ou
menos completa numa etapa posterior. A finalidade pela qual cada um deles luta é a
consecução do ‘prazer do órgão’. (...) Distinguem-se por possuírem em ampla
medida a capacidade de agir vicariamente uns pelos outros, e por serem capazes de
mudar prontamente de objetos. Em consequência dessas últimas propriedades, são
capazes de funções que se acham muito distantes de suas ações intencionais
originais – isto é, capazes de ‘sublimação’ (1915c, p. 131).

Dessa vista, nesse texto Freud afirma que as pulsões podem encontrar diversos
destinos: reverter-se em seu oposto; retornar em direção ao próprio eu; sofrer o mecanismo de
repressão21 e serem sublimadas. Em relação a este último destino, Laplanche e Pontalis (2011)
afirmam que se constitui em um processo que explica as atividades humanas que,
aparentemente, não têm relação com a sexualidade, mas encontram “o seu elemento propulsor
na força da pulsão sexual” (p. 495).
Freud define esse conceito como a capacidade do instinto sexual “de ser desviado dos
objetivos sexuais diretos e ser dirigido no sentido de metas mais elevadas, que não são mais
sexuais”, o que o torna “capacitado a efetuar contribuições muito importantes às realizações
sociais e artísticas da humanidade” (1913m, p. 227).
Para Birman (2008), o conceito de sublimação versa sobre a vinculação entre a pulsão
e a cultura, pois, segundo o autor, “Freud procurou, com a mediação propiciada por esse
conceito, interpretar não só a constituição de diferentes registros da cultura, entre os quais a
religião, a filosofia, a arte e a ciência, como também a criatividade psíquica” (p. 13, grifo
nosso).

vida, tal como o par de forças atração e repulsão determina toda a variedade dos fenômenos físicos”
(FERREIRA; RIBEIRO, 2017, pp. 124-125).
19
No texto “O inconsciente” (1915e), Freud aborda os principais aspectos desse conceito, bem como o
funcionamento dos pontos de vista tópico, dinâmico e econômico.
20
As referências bibliográficas referentes à obra de Freud seguirão o padrão estabelecido por Strachey, conforme
o volume XXIV (Índices, Bibliografias, etc.) da “Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud”, publicadas pela Ed. Imago, 2006.
21
Sobre este conceito, cf. Freud, 1915d. Ainda há outra observação importante: na edição utilizada (“Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud”), o termo alemão Verdrängung é
traduzido como “repressão”, conforme traduzido do inglês repression. Porém, os comentadores de Freud aqui
citados optam pela tradução do termo como “recalque”. Portanto, nas citações de seus textos esse será o termo
utilizado.
22

Dessa forma, é possível afirmar que para Freud a criatividade se insere no conceito de
sublimação, como um produto desta. Portanto, o objetivo desse tópico é demonstrar como a
Psicanálise freudiana abordou o tema. Faz-se importante esclarecer que não é o intuito desse
tópico discorrer de que maneira o conceito de sublimação foi construído por Freud ao longo
de sua obra, mas realizar uma breve retomada das diferentes explicações dadas ao conceito,
no decorrer dos principais textos do autor que o abordam.
Tal retomada se faz necessária para, posteriormente, distinguir as especificidades
trazidas por Winnicott ao descrever o fenômeno da criatividade. Portanto, a seguir serão
retomados, cronologicamente, os principais textos freudianos que abordam o conceito, a fim
de compreender suas diferentes facetas. Os textos selecionados decorrem, em sua maioria, das
pesquisas realizadas por Castiel (2006; 2007) e Torezan (2012)22.
É preciso ressaltar que a sublimação não se trata de um conceito completamente
elaborado, ainda que tenha sido conceituado em diferentes momentos da obra freudiana
(CASTIEL, 2006; 2007). Castiel (2007) delimita três momentos da obra do autor na
teorização desse conceito: um primeiro momento, encerrado em 1910, com o estudo sobre
Leonardo da Vinci; em 1914-1915, com “Introdução ao narcisismo” e “Pulsões e seus
destinos”; e em 1920, com “Mais além do princípio do prazer”. A autora afirma que

Há momentos distintos da teorização do processo sublimatório em Freud; um


primeiro momento no qual dizia que a sublimação se caracteriza pela
dessexualização pulsional, no qual haveria uma modificação da meta da pulsão, de
tal modo que os objetivos passariam de sexuais a não-sexuais. Em um segundo
momento, Freud define a sublimação como um dos quatro destinos pulsionais, sendo
este o mais evoluído e, mais tarde, afirma que paralelamente à mudança da meta na
sublimação haveria, também, uma mudança nos objetos (2007, p. 12).

O termo sublimação aparece pela primeira vez em 1897, na carta 61 a Fliess


(BIRMAN, 2008; TOREZAN, 2012). Nesse escrito, Freud compartilha a descoberta em
relação às fantasias na histeria, e diz que estas

Derivam de coisas que foram ouvidas, mas só compreendidas posteriormente, e todo


o seu material, naturalmente, é verídico. São estruturas protetoras, sublimações dos
fatos, embelezamentos deles e, ao mesmo tempo, servem como auto-absolvição
(1986, p. 240, itálico nosso).

Em 1905, no texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud conceitua a


sublimação, ou seja, desponta uma primeira teoria desse conceito, relacionada à sexualidade
(ROUDINESCO, 1998; CASTIEL, 2007; TOREZAN, 2012). Após isso, “em toda a sua obra,

22
Os trabalhos das autoras são frutos de suas pesquisas de doutorado “Implicaciones metapsicológicas y clínicas
de la conceptuación de la sublimación como proceso psíquico en la obra de Freud” (2003) e “Sublimação, ato
criativo e sujeito na Psicanálise” (2009), respectivamente.
23

e especialmente nos textos reunidos sob a categoria de psicanálise aplicada, a sublimação


serviu para compreender o fenômeno da criação intelectual” (1998, p. 734). É nessa passagem
que ocorre a menção ao termo “sublimação”:

A progressiva ocultação do corpo advinda com a civilização mantém desperta a


curiosidade sexual, que ambiciona completar o objeto sexual através da revelação
das partes ocultas, mas que pode ser desviada (“sublimada”) para a arte, caso se
consiga afastar o interesse dos genitais e voltá-lo para a forma do corpo como um
todo (FREUD, 1905d, p. 148).

Nesse texto, a sublimação consiste, como afirma Castiel (2007), em uma mudança na
meta da pulsão, o que altera também os objetivos sexuais para não-sexuais, como a Arte, por
exemplo. Sendo o conceito apenas citado, sem maiores desdobramentos, é um pouco mais
adiante no mesmo texto que se encontra uma definição que confere ao leitor um contorno em
relação ao tema:

Com que meios se erigem essas construções tão importantes para a cultura e a
normalidade posteriores da pessoa? Provavelmente, a expensas das próprias moções
sexuais infantis, cujo afluxo não cessa nem mesmo durante esse período de latência,
mas cuja energia – na totalidade ou em sua maior parte – é desviada do uso sexual e
voltada para outros fins. Os historiadores da cultura parecem unânimes em supor
que, mediante esse desvio das forças pulsionais sexuais das metas sexuais e por sua
orientação para novas metas, num processo que merece o nome de sublimação,
adquirem-se poderosos componentes para todas as realizações culturais.
Acrescentaríamos, portanto, que o mesmo processo entra em jogo no
desenvolvimento de cada indivíduo, e situaríamos seu início no período de latência
sexual da infância (1905d, p. 167).

Aqui, nota-se a presença de uma descrição metapsicológica da sublimação. Freud


retoma, posteriormente, a definição de sublimação como processo que ocorre, na saúde, de
“atração das forças pulsionais da sexualidade para outros alvos não-sexuais” (1905d, p. 195),
mas não se estende na teorização, pois argumenta que ainda muito pouco é conhecido sobre o
desvio das pulsões para vias que não sejam as sexuais.
Após 1905, no texto “Moral sexual e cultural e doença nervosa moderna” (1908), o
conceito de sublimação foi efetivamente estabelecido (BIRMAN, 2007). Freud se refere à
sublimação como a “capacidade de trocar seu objetivo sexual original por outro, não mais
sexual, mas psiquicamente relacionado com o primeiro” (1908d, p. 174).
Nesse texto, “há uma indicação de que o processo sublimatório promove uma saída
diferente daquela sintomática produzida pelo recalque, pois o direcionamento das forças
pulsionais para fins culturais se contrapõe ao adoecimento neurótico” (TOREZAN, 2012, p.
56), sendo apenas em 1914 que Freud irá separar a sublimação do recalque.
No texto de 1910, “Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância”, encontra-se,
dentre outros temas importantes, uma análise desse artista, o que traz ao leitor, além de temas
24

caros à Psicanálise, um conhecimento da personalidade de Leonardo da Vinci. Trata-se de um


escrito importante para a compreensão do conceito de sublimação.
O conceito é trazido por Freud como sendo uma das capacidades da pulsão sexual.
“A pulsão sexual presta-se bem a isso, já que é dotada de uma capacidade de sublimação: isto
é, tem a capacidade de substituir seu objetivo imediato por outros desprovidos de caráter
sexual e que possam ser mais altamente valorizados” (1910c, p. 86). O autor chega a essas
conclusões através da investigação a respeito dos interesses de Leonardo da Vinci, como Arte
e Ciência.
Freud afirma, nesse texto, que existe um período de “pesquisas sexuais”, caracterizado
por uma grande quantidade de perguntas que as crianças fazem. O autor sugere que todas as
perguntas, na verdade, substituem, exclusivamente, uma pergunta que nunca fazem (de onde
vêm os bebês?).
Com a intensa repressão sexual, esse período tende a se encerrar, levando o impulso de
pesquisa a três saídas possíveis. A primeira diz respeito à pesquisa como parte do destino da
sexualidade do indivíduo, caracterizado como uma inibição neurótica.
A segunda saída torna a pesquisa “uma atividade sexual, muitas vezes a única”, uma
vez que “as suprimidas atividades sexuais de pesquisa emergem do inconsciente, fazendo com
que haja uma preocupação pesquisadora compulsiva” (1910c, p. 88).
A terceira e última saída descrita por Freud tem Leonardo da Vinci como “um modelo
ideal”. Nessa, não restam vestígios ao inconsciente do desejo sexual, uma vez que “a libido
escapa da repressão sendo sublimada desde o início e ligando-se ao poderoso instinto de
pesquisa como forma de se fortalecer” (1910c, p. 88). Não há um retorno ao inconsciente, mas
sim a sublimação, o que faz com que “a qualidade neurótica” esteja ausente.

No caso de Leonardo, tivemos de sustentar o ponto de vista de que o acaso de sua


origem ilegítima e a ternura exagerada de sua mãe tiveram influência decisiva na
formação de seu caráter e na sorte de seu destino, pois a repressão sexual que se
estabeleceu depois dessa fase de sua infância levou-o a sublimar sua libido na ânsia
de saber e estabelecer sua inatividade sexual para o resto de sua vida (FREUD,
1910c, p. 139).

Freud reconhece que esta particular característica de Leonardo da Vinci – de livrar-se


da repressão e sublimar a libido em uma “sede de conhecimentos” – era improvável de se
realizar da mesma forma em outro indivíduo. Assim, afirma que a tendência para a repressão
da pulsão sexual e, por outro lado, a enorme capacidade para a sublimação dessa pulsão são
características do artista que não podem ser explicadas pela Psicanálise.
25

A teorização proposta por Freud neste estudo sobre as inibições na vida sexual e na
atividade artística de Leonardo da Vinci fundamenta-se na hipótese de que a
curiosidade infantil sobre a sexualidade é transformada em busca pelo
conhecimento, em pulsão de saber. Assim a pulsão sexual é sublimada em Leonardo
para suas pesquisas que inicialmente serviam para arte e que depois se tornaram
primazia em sua vida, chegando a afastá-lo da pintura. Leonardo foi eleito por Freud
como um modelo do processo sublimatório: assim é possível dizer que este texto
retrata a posição freudiana, ao menos até a data do artigo, quanto à essência deste
conceito (CASTIEL, 2007, pp. 57-58).

No texto “Cinco lições de Psicanálise”, publicado em 1910, Freud nos oferece um


panorama geral da Psicanálise, abordando sua história inicial e seu desenvolvimento. Na
“segunda lição” do texto ele descreve um mecanismo presente no tratamento das
psiconeuroses: a repressão, que consiste em afastar da consciência ideias com as quais o
indivíduo não pode conviver. Porém, o que motiva determinada ideia continuar a existir,
ainda que retirada da consciência, é o sintoma. Esse, por sua vez, funciona como um
substituto daquilo que foi reprimido, o que pode ser considerado como uma forma de
satisfação da pulsão. Ao descrever os processos pelos quais se torna possível encontrar saídas
“para rematar satisfatoriamente conflito e neurose” (1910a, p.42), ele diz:

Ou a personalidade do doente se convence de que repelira sem razão o desejo e


consente em aceitá-lo total ou parcialmente, ou este mesmo desejo é dirigido para
um alvo irrepreensível e mais elevado (o que se chama ‘sublimação’ do desejo), ou,
finalmente, reconhece como justa a repulsa (o controle consciente do desejo é
atingido) (1910a, p. 42).

A sublimação, portanto, é citada como uma das saídas para satisfazer a pulsão sexual.
Nesse sentido, Freud comenta sobre a força de uma pulsão sob repressão e quando trazida à
consciência, sendo que, no último caso, o poder do desejo se enfraquece, uma vez consciente
pelo indivíduo. “O tratamento psicanalítico coloca-se assim como o melhor substituto da
repressão fracassada, justamente em prol das aspirações mais altas e valiosas da civilização”
(1910a, p. 63).
Dessa forma, na “quinta lição” descrita no texto, Freud discorre sobre as diferentes
saídas que os desejos inconscientes podem encontrar com o tratamento psicanalítico. O
indivíduo se torna capaz de realizar um julgamento daquilo que antes era considerado
impróprio, uma vez que, com a Psicanálise, conseguiu recursos para realizar tal tarefa; ou
admitir que uma parte de seus desejos recalcados pode ser satisfeita, pois a energia da pulsão
sexual tem uma finalidade que não pode (nem conseguiria) ser extinta completamente.
Dentre as saídas está a sublimação, trazida pelo autor como uma solução “muito mais
conveniente” que a repressão, “pelo qual a energia dos desejos infantis não se anula mas ao
contrário permanece utilizável, substituindo-se o alvo de algumas tendências por outro mais
26

elevado, quiçá não mais de ordem sexual” (1910a, p. 63-64), e complementa: “ao reforço de
energia para nossas funções mentais, por essa maneira obtido, devemos provavelmente as
maiores conquistas da civilização” (p. 63). Nesse texto, portanto, a sublimação é trazida como
uma alternativa à repressão e, além disso, caracterizada como processo que resulta em algo de
valor social.
Seguindo cronologicamente, encontra-se o texto “Os instintos e suas vicissitudes”, em
que Freud apresenta uma definição geral das pulsões, importante para a posterior
compreensão da sublimação. No texto é realizada a separação entre sublimação e repressão. A
sublimação passa a ser compreendida como uma das satisfações da pulsão, e a repressão como
um caminho para a pulsão que não é satisfeita. Apesar de não descrever pormenorizadamente
os dois processos, segundo Castiel, nesse texto

Freud coloca a sublimação como um destino pulsional mais evoluído e posterior ao


recalcamento. É mais evoluído porque trata de uma realização pulsional e não de
uma impossibilidade de satisfação e de realização como o recalcamento. (...) É mais
evoluído porque não é o recalcamento da sexualidade que põe em marcha a
sublimação (2007, p. 71).

A sublimação é citada quando o autor afirma que as pulsões podem trocar de objetos,
o que rearranja o modo de entendimento do conceito. Ainda que a pulsão continue
sexualizada, seu objeto pode ser alterado, via sublimação, não sendo necessariamente
sexualizado. Para Castiel (2007) tal afirmação permitiria “retirar a sublimação da perspectiva
da dessexualização pulsional” (p. 55). De acordo com essa perspectiva, no texto de 1914
sobre as pulsões e sobre o narcisismo, que virá a seguir, comenta a autora

Nesse momento teórico, pode-se observar que a teorização da sublimação avança em


alguns pressupostos e Freud pode falar sobre a questão da modificação do objeto no
ato sublimado, além da modificação da meta. Isso possibilita retirar a sublimação da
perspectiva da dessexualização pulsional (2007, p. 55).

A sublimação está ligada a vários outros conceitos importantes da obra freudiana, o


que traz uma complexidade em compreender sua construção. No próximo texto que trata
sobre o tema, “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914), Freud realiza uma diferenciação
entre sublimação e idealização.

A sublimação é um processo que diz respeito à libido objetal e consiste no fato de o


instinto se dirigir no sentido de uma finalidade diferente e afastada da finalidade da
satisfação sexual; nesse processo, a tônica recai na deflexão da sexualidade. A
idealização é um processo que diz respeito ao objeto; por ela, esse objeto, sem
qualquer alteração em sua natureza, é engrandecido e exaltado na mente do
indivíduo. A idealização é possível tanto na esfera da libido do ego quanto na da
libido objetal. Por exemplo, a supervalorização sexual de um objeto é uma
idealização do mesmo. Na medida em que a sublimação descreve algo que tem que
27

ver com o instinto, e a idealização, algo que tem que ver com o objeto, os dois
conceitos devem ser distinguidos um do outro (1914c, p. 101).

Na sublimação ocorre o contrário da idealização, ou seja, o objeto não é idealizado,


mas a pulsão sofre uma transformação. O que é passível de ser idealizado é o objeto (como
ocorre no apaixonamento), não a pulsão. Esta, como descrito anteriormente, pode encontrar
diferentes destinos, sendo a sublimação um deles.
Mais adiante, em “Além do princípio do prazer” (1920), uma nova postulação das
pulsões é colocada, sendo inserido o conceito de pulsão de morte23. Com essa formulação, há
a inserção do ponto de vista “econômico” dos processos mentais, juntamente aos aspectos
topográficos e dinâmicos, o que é chamado por Freud de descrição metapsicológica24.
A pulsão visa sua satisfação completa, sempre baseada em uma primeira experiência
de satisfação. Freud cita as “formações reativas e substitutivas, bem como sublimações” como
meios para a descarga para a pulsão, que não eliminam a tensão persistente desta, uma vez
que ela não pode ser totalmente satisfeita, pois “a diferença de quantidade entre o prazer da
satisfação que é exigida e a que é realmente conseguida, é que fornece o fator impulsionador
que não permite qualquer parada em nenhuma das posições alcançadas” (1920g, pp. 52-53).
Castiel afirma que

À medida que se entende o princípio do prazer não como a descarga total da


excitação e sim como a tendência ao mais baixo nível de excitação, pode-se
compreender que a satisfação da pulsão a partir de outro contexto também
proporciona prazer. Além disso, sublinho a ideia de que isto é o que define o
processo sublimatório como uma forma de satisfação pulsional e não de insatisfação
(2007, p. 88).

Vemos formulado em Freud, conforme Castiel (2007), que o mecanismo de


sublimação tem relação com o espaço criativo e a criação artística, e que estes admitem a
existência da satisfação e do prazer. Ou seja, a sublimação não deve ser mais vista como um
subproduto da repressão, ou simplesmente pela dessexualização pulsional, mas como um
caminho válido para encontrar diferentes destinos para a pulsão. Assim, pode-se relacionar a
sublimação à alteridade, bem como novas formas de obter prazer.

23
Freud desenvolveu duas teorias das pulsões. A primeira foi proposta em Pulsões e destinos da pulsão (1915), e
a outra é desenvolvida em Além do Princípio do Prazer (1920). “A primeira teoria consistia em uma divisão das
pulsões entre pulsões do ego e pulsões sexuais, sendo estas, segundo o autor, voltadas para a manutenção da
espécie, e aquelas à conservação do indivíduo. Em sua segunda teoria, propôs a pulsão de morte, que seria
voltada à descatexização, à inanição, à diminuição da excitação; e a pulsão de vida, que buscava o investimento e
a unificação” (AZEVEDO; MELLO NETO, 2015, p. 68).
24
Cf. Freud (1915e, p. 186).
28

Após a formulação da segunda tópica freudiana25, no texto de 1923, “O ego e o id”, há


uma continuação das ideias formuladas em “Além do princípio do prazer”. Sobre aquele
texto, Torezan (2012) nos diz que a sublimação é compreendida da mesma maneira como foi
feita em 1914 pelo autor, ou seja, traz o ego como figura importante para o mecanismo de
sublimação e, além disso, envolve o processo de identificação.
Em outras palavras, o que é explanado é que, no início da vida, o ego é narcísico, uma
vez que a libido é voltada inteiramente a ele. Quando a libido é encaminhada e investida nos
objetos, o ego, ao esvaziar-se em seu narcisismo, procura recuperar a libido investida para si,
identificando-se com o objeto. As identificações criam um superego rigoroso e estas precisam
ser rompidas para que o indivíduo encontre outras maneiras de se satisfazer.
Dessa forma, o retorno narcísico da libido ao ego não ajuda na sublimação, mas na
formação de um ideal do eu rigoroso. Uma vez que o ego enfraquecido frente a um superego
tirânico não abre a possibilidade de sublimação, para que esta seja possível, o indivíduo deve
ser capaz de diminuir as exigências superegoicas e, além disso, fortalecer o ego.
Em “O Mal-estar na civilização” (1930), Freud cita a sublimação como um meio de
apaziguar, em parte, o sofrimento advindo de três fontes distintas: a fragilidade de nosso
corpo, fadado à morte; a força da natureza, da qual não temos controle e o relacionamento
com os outros. A sublimação seria uma das saídas para produzir outras fontes de prazer.

Uma satisfação desse tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar
corpo às suas fantasias, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir
verdades, possui uma qualidade especial que, sem dúvida, um dia poderemos
caracterizar em termos metapsicológicos (1930a, p. 87).

Segundo Torezan (2012), “Freud avalia seu pouco conhecimento a respeito do


funcionamento do processo sublimatório e considera a necessidade de caracterizá-lo em
termos metapsicológicos” (p. 65). Contudo, esse texto traz muito pouco a respeito do conceito
de sublimação, além de nenhuma contribuição nova a respeito do tema, o que, para a autora,
denota a fragilidade dessa elaboração conceitual.
A fim de realizar um possível fechamento dos textos freudianos que abarcam o tema,
pode-se retomar Torezan (2012), que elabora, cronologicamente, um breve resumo sobre a
teoria da sublimação.

Elaborado em 1905, sob a égide da teorização inicial sobre a sexualidade, o conceito


de sublimação se confunde com o recalque em virtude de sua associação a uma
espécie de recusa ao sexual, recusa que necessariamente implica a sua presença na

25
Elaborada em “O ego e o id”, sustenta que o aparelho psíquico é composto de três instâncias (id, ego e
superego) e as relações entre as mesmas, não mais a localização psíquica, é do interesse de Freud (CASTIEL,
2007).
29

fonte da criação advinda do processo sublimatório. Tal confusão, que começa a ser
desfeita em 1908, é dissipada dois anos mais tarde no estudo sobre Leonardo da
Vinci. A sublimação é um mecanismo distinto do recalque, é a possibilidade de
satisfação sexual por vias que se distanciam do adoecimento neurótico e, por isso,
Freud lhe atribui uma áurea de superioridade (p. 67).

Podemos, portanto, compreender a sublimação como uma saída, na saúde, para o


sofrimento psíquico que decorre do impasse entre civilização e pulsão. Ao traçar um paralelo
com a metapsicologia freudiana, vemos em Castiel (2007) a possibilidade de o processo
sublimatório elaborar um acordo entre a renúncia da satisfação da sexualidade e, sem excluir a
dinâmica desejante, criar novas possibilidades de satisfação ao indivíduo.
Corroborando essa ideia, Torezan (2012) afirma que “A sublimação em Freud adquire
importância nos âmbitos individual e social – afinal, ela é postulada como uma via de
satisfação que se contrapõe ao adoecimento neurótico e se apresenta como colaboradora do
desenvolvimento cultural” (p. 67).
Dessa forma, vemos que a sublimação foi reformulada em diferentes momentos da
obra freudiana, entrelaçando-se a outros conceitos. Percebe-se, após a perspectiva apresentada
que, para Freud, a criatividade coincidiria com o destino da pulsão na sublimação e, além
disso, a relação do tema com a metapsicologia, no intuito de fomentar sua compreensão.

1.2 Klein e seus comentadores

Melanie Klein (1882-1960) foi uma psicanalista austríaca, uma das precursoras da
Psicanálise de crianças. Segundo Phillips, ela foi a primeira psicanalista a elaborar o que seria
“a intensidade passional da vida emocional precoce” (2006, p. 31). Para Oliveira (2007), uma
das diferenças importantes entre a autora e Freud está na relevância concedida à sexualidade:
enquanto o autor tem o desenvolvimento psicossexual como central em sua teoria, Melanie
Klein enfatiza a agressividade inata do indivíduo.

Partindo do âmbito fisiológico da teoria freudiana, Klein aprofundou–se na


dimensão psicológica, com intuito de estudar a mente das crianças de tenra idade,
suas fantasias, medos, angústias, etc. Sua primeira tarefa foi desenvolver uma
técnica de análise que viabilizasse o acesso ao inconsciente da criança, já que não é
esperado que uma criança pequena colabore com a técnica da associação livre
(Money–Kyrle, 1980). Ela desenvolveu então a análise através da brincadeira. Por
meio da atividade lúdica, a autora interpretava as fantasias, as angústias e outras
manifestações do inconsciente da criança, as quais eram expressas de maneira
simbólica (OLIVEIRA, 2007, p. 81).
30

Segundo Spillius (2011), no início de seu trabalho Klein enfatizava que a base do
brincar seria a externalização da atividade da fantasia26, especialmente da fantasia
inconsciente. Esta, por sua vez, seria o elemento básico do funcionamento mental,
representando não apenas o desdobramento dos impulsos instintivos no campo mental, mas as
tentativas de superar os conflitos e o sofrimento psíquico que têm origens nesses impulsos.
Desse modo, a autora supõe que o brincar seja, além de resultado dos desdobramentos
dos impulsos instintivos, uma tentativa de superar conflitos que são consequência desses
impulsos. Assim, é possível para a criança – bem como para o adulto saudável – pesquisar
acerca dos sofrimentos próprios aos humanos e, ao mesmo tempo, buscar novas soluções para
esses sofrimentos. Para Klein, o brincar se constitui, por si só, como um processo criativo,
uma vez que parte desse processo se baseia na busca de novos objetos para os quais os
impulsos podem ser direcionados, diminuindo, assim, as tensões e os conflitos internos
(SPILLIUS, 2011).
Sua teoria – que dá ênfase ao desenvolvimento emocional primitivo e ao
relacionamento entre mãe e bebê – descreve duas posições que podem reger o funcionamento
psíquico dos indivíduos, bem como seus modos de relação com o mundo: esquizoparanoide e
depressiva. Para que se possa compreender de que maneira essas posições se conectam com o
que Klein denominou criatividade em sua teoria, será feita uma breve apresentação das duas
posições.
No início da vida, o bebê se encontra na posição esquizoparanoide, que diz respeito a
um funcionamento mais precário, em que o ego27 ainda não é suficientemente desenvolvido e
os afetos (amor e ódio, por exemplo) são vivenciados de maneira não integrada.
Além disso, nessa posição a mãe existe para o bebê como objeto parcial, sendo
representada, de modo mais específico, por um seio que se divide em dois, na fantasia do
bebê: um que nutre e alimenta – o seio bom – e outro que o bebê pode destruir e retaliar – o
seio mau. Portanto, a cisão, em bom e mau, por exemplo, é uma característica dessa fase.
Em um texto28 escrito na década de 1930, Klein afirma que nessa fase inicial da vida
da criança, as fantasias sádicas de ataques ao seio mau, por exemplo, começam a se
manifestar. Essas fantasias geram angústia e, no intuito de elaborá-la, mecanismos primitivos
do ego são acionados.

26
Para maior aprofundamento em relação ao conceito de fantasia na obra de Melanie Klein, cf. “Melanie Klein e
as fantasias inconscientes” (OLIVEIRA, 2007).
27
Para uma noção do que significa o conceito de ego para Klein, cf. “A noção de ego em Klein” (capítulo 1.3),
In: “A noção de ego na obra de D.W. Winnicott” (FERREIRA, 2011).
28
“A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego”.
31

Assim, à medida que a criança elabora os sentimentos gerados na posição


esquizoparanoide, a posição depressiva é despontada29. Essa posição indica a capacidade da
criança de enxergar a mãe como uma pessoa diferente dela e, com isso, reconhecer e suportar
os sentimentos que advêm da constatação de que a mãe foi prejudicada – quando foi alvo dos
ataques destrutivos, agressividade, etc. da criança – pela própria criança. Portanto, esta
posição indica o reconhecimento da destrutividade inerente ao indivíduo, em que os afetos
encontram-se integrados, coexistindo no indivíduo e nos objetos.
Segundo Phillips (2006) e Fulgencio (2016), os kleinianos consideram que o conceito
de posição depressiva equipara-se ao de Complexo de Édipo na obra freudiana, no que diz
respeito ao caráter organizativo desses processos para o funcionamento psíquico saudável do
indivíduo.
Tendo em vista a descrição das duas posições formuladas por Klein, é possível
observar agora como o desenvolvimento destas se relaciona com o tema da criatividade na
obra da autora.
Na saúde, no decorrer do desenvolvimento da criança, ou seja, na passagem da posição
esquizoparanoide para a posição depressiva, a fim de dominar a angústia advinda dos
impulsos sádicos, a criança é tomada por um sentimento de culpa. Desta forma,

A criança desenvolve então tendências restitutivas em forma de sublimações


dirigidas a todos os objetos danificados anteriormente através das fantasias sádicas,
principalmente à mãe. O predominante agora é o temor de ser deixada no
desamparo, devido à destruição anterior da genitora realizada por ela própria. Estas
fantasias reparadoras são extremamente importantes para o desenvolvimento bem
sucedido da próxima fase, a genital, a qual prevalecerá durante o resto da vida num
desenvolvimento saudável (OLIVEIRA, 2007, p. 89).

Klein afirma que os impulsos sádicos geram ansiedade, e uma maneira de a criança
lidar com as ansiedades decorrentes de seu sadismo é através da simbolização. A autora
descreve o simbolismo como “o fundamento de toda sublimação e de todo talento, uma vez
que é através da equação simbólica que as coisas, as atividades e os interesses se convertem
em tema de fantasias libidinosas” (1930, p. 297). Ela discorre sobre como alcançou essas
ideias:

Ferenczi afirma que a identificação, precursora do simbolismo, surge das tentativas


que faz a criança para reencontrar em todos os objetos seus próprios órgãos e
respectivas funções. Segundo Jones, o princípio de prazer torna possível a equação
entre duas coisas completamente diferentes, por uma semelhança de prazer ou
interesse. Faz alguns anos, escrevi um artigo baseado nestes conceitos (KLEIN,
1930, p. 297).

29
Melanie Klein expõe seu artigo sobre o conceito de posição depressiva em 1935: “Uma contribuição à
Psicogênese dos estados maníaco-depressivos”.
32

Assim, pode-se dizer que para Klein o conceito de simbolização, ou formação de


símbolos, é o precursor da sublimação – que, por sua vez, dará suporte para a vida de fantasia,
o talento e o contato com a realidade – e se insere em sua obra como uma saída para as
ansiedades e angústias geradas pelos impulsos sádicos. É possível afirmar, portanto, que na
obra de Melanie Klein a criatividade seja trazida como formação de símbolos e,
consequentemente, sublimação.
No início da vida (na posição esquizoparanoide), a realidade da criança é permeada
pela fantasia e, aos poucos, com o desenvolvimento do ego, uma relação com a realidade é
criada, tendo como base a realidade primeira. A autora considera que é necessária uma
quantidade “suficiente de ansiedade” para que ocorra a formação de símbolos e fantasias, ou
seja, para que a ansiedade possa ser elaborada. Dessa forma, para Klein, o simbolismo está na
base das relações do indivíduo com o mundo externo e, portanto, nas bases da consolidação
da posição depressiva.
Para descrever a ruptura no processo de formação de símbolos, Klein (1930) escreve
sobre um caso clínico de um menino de quatro anos que ela considerava estar “no nível de
uma criança de 15 ou 18 meses” (p. 298). Esse garoto se chamava Dick, e é descrito por Klein
como uma criança com pouca manifestação de ansiedade, que não brincava e não tinha trocas
efetivas com o meio em que se encontrava.

O ego tinha cessado de desenvolver sua vida de fantasia e sua relação com a
realidade. Depois de um débil começo, a formação de símbolos se detivera. As
primeiras tentativas haviam deixado sua marca num interesse que, isolado e sem
relação com a realidade, não podia servir de base a novas sublimações (p. 301).

Devido a uma intensa defesa contra o sadismo, Dick não pôde dar continuidade para a
sua formação de símbolos. Nesse caso, o que ocorre é a interrupção de uma cadeia de
acontecimentos que poderiam se dar na vida psíquica da criança: sem o sadismo não há
ansiedade, e sem esta não há desenvolvimento da capacidade de simbolizar. Sem o
desenvolvimento dessas capacidades, uma patologia do tipo psicótico pode se desenvolver.
Segundo a autora:

A defesa prematura e excessiva do ego contra o sadismo impede o estabelecimento


da relação com a realidade e o desenvolvimento da vida da fantasia. A subsequente
apropriação e exploração sádica do corpo materno e do mundo exterior ficam
detidas, o que produz a suspensão mais ou menos completa da relação simbólica
com as coisas e objetos que representam o corpo da mãe e, daí, do contato do sujeito
com seu ambiente e com a realidade em geral (1930, p. 313).

Klein descreve que conseguiu chegar até o inconsciente desse paciente por meio “dos
rudimentos da vida de fantasia e de formações simbólicas que apresentava” (p. 306), e
33

constata que isso levou à diminuição da ansiedade que ele apresentava no início, o que
indicava que a elaboração da angústia se dava através do uso do simbolismo.

[A sublimação] se realiza por meio da formação de símbolos, fixando-se as fantasias


libidinais de forma sexual-simbólica sobre determinados objetos, atividades e
interesses. (...) Nos casos que descrevi, de movimentos prazerosos, – ou seja,
atividades lúdicas e esportivas – podemos reconhecer a influência do significado
sexual-simbólico do campo de esporte, da estrada, etc. (simbolizando a mãe),
enquanto a marcha, a corrida e os movimentos atléticos de toda espécie significam a
penetração dentro do corpo materno (1923, p. 123).

De acordo com Spillius (2011), a psicanalista relaciona o processo criativo aos ataques
destrutivos que ocorrem na fantasia, descrevendo o esforço criativo como uma “tentativa
subsequente de restaurar o dano a objetos sentidos como externos ou internos” (p. 295)30.
Desta forma, para a autora, a criatividade passa a ser vista como uma manifestação do
movimento de reparação – conceito de grande importância na obra desta, que tem origem na
introdução do conceito de posição depressiva.
Portanto, na concepção kleiniana há, na criança, um predomínio do sadismo, anterior à
vivência do Complexo de Édipo, em que certas angústias e defesas são geradas e, em alguns
casos, certas patologias mais graves também. A criatividade se configura como um processo
decorrente da simbolização – e, consequentemente, da sublimação – isto é, daquilo que
funcionaria como uma tentativa da criança de se afastar das angústias oriundas do sadismo.
A seguir serão apresentadas as especificidades do pensamento de Winnicott em
relação à sua teoria do desenvolvimento que são relevantes para a compreensão do fenômeno
da criatividade.

30
Tradução minha.
34

CAPÍTULO 2: ALGUMAS ESPECIFICIDADES DA TEORIA DO


DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL DE WINNICOTT PARA A COMPREENSÃO
DA CRIATIVIDADE

2.1 Especificidades da teoria do desenvolvimento emocional de Winnicott

Donald Woods Winnicott nasceu em Plymouth, na Inglaterra. Rodman afirma que


“Foi uma das principais figuras da Psicanálise britânica da geração que se seguiu a Freud.
Seus textos abordam principalmente a natureza das relações, começando com aquela entre
mãe e bebê, que ele descreveu com grande sensibilidade” (1987, p. 13).
Segundo Phillips (2006), Winnicott iniciou sua carreira como médico infantil, em
1920. Um ano antes, teve contato com o livro “A interpretação dos sonhos”, de Freud, o que
ocasionou seu interesse pela Psicanálise. Dentre outros hospitais pelos quais passou,
permaneceu por mais de quarenta anos no Paddington Green Children’s Hospital, lugar em
que começou a trabalhar em 1923. Nesse mesmo ano inicia uma análise com aquele que seria
o tradutor das obras completas de Freud para o inglês, James Strachey.
No prefácio, escrito por Masud Khan, do livro “Da Pediatria à Psicanálise” é possível
visualizar aspectos importantes da pessoa e do profissional que foi Winnicott. Khan afirma
que Winnicott foi “antes de tudo um pediatra e – que eu saiba – o único analista que, no
decorrer de todo o seu trabalho clínico, manteve consultas terapêuticas com crianças
paralelamente ao seu trabalho analítico com pacientes adultos” (1993, p. 42). Para Dias
(2003),

Tendo se tornado psicanalista, Winnicott dedicou-se ao tratamento e ao estudo das


patologias psicóticas; nunca, entretanto, abandonou a pediatria. No exercício
paralelo de ambas as práticas clínicas, e na observação simultânea de psicóticos e de
bebês com suas mães, pôde constatar que o amadurecimento emocional nos estágios
iniciais da vida relaciona-se exatamente aos mesmos fenômenos que aparecem no
estudo das várias formas de esquizofrenia adulta (p. 14).

Foi, portanto, por seu contato intenso com bebês e crianças que estavam doentes, física
e emocionalmente, e com psicóticos, que Winnicott centrou sua teoria na importância da
dependência do cuidado ambiental no início da vida do indivíduo.
Conforme afirma Fulgencio, o pensamento de Winnicott postularia que “somente
depois de uma série de conquistas integrativas é que uma criança poderia ter condições de
viver as suas relações emocionais no quadro do cenário edípico” (2016, p. 20). Isto, por sua
vez, descentralizava a questão do Complexo de Édipo e da sexualidade, tidos como centrais
pela Psicanálise freudiana e kleiniana.
35

Winnicott foi o primeiro dos analistas a chamar a atenção para o fato evidente de
que uma mãe cuida carinhosamente do seu bebê, o frui e o cria: não só no interior
somático do seu útero mas também nos primeiros estádios da descoberta e da
percepção do que lhe foi dado de forma inata, e da pessoa em que ele, com o tempo,
se diferenciará e se efetivará (KHAN, 1993, p. 43).

É assim, inserido nesse contexto, que Winnicott formula sua Teoria do


Desenvolvimento Emocional, cujo foco está nas relações de dependência do indivíduo. Tal
teoria postula duas premissas básicas: o indivíduo nasce com um potencial herdado para um
desenvolvimento saudável, ou uma “tendência biológica em direção à integração”31. Contudo,
para que tal potência seja realizada, é necessário que o cuidado recebido pelo bebê seja
satisfatório, ou, suficientemente bom. O autor afirma que

A tendência a integrar é ajudada por dois conjuntos de experiência: a técnica de


cuidado infantil através da qual a temperatura do bebê é mantida, ele é manipulado,
banhado, embalado e nomeado e, também, as experiências pulsionais agudas que
tendem a tornar a personalidade una a partir do interior (1945d, p. 276).

Apesar de começar no início da vida, a integração não deve ser tida como algo que
ocorrerá automaticamente. Em relação à dependência, o autor descreve em seu texto “Da
dependência à independência no desenvolvimento do indivíduo”, de 1963, estágios do
desenvolvimento que, ao longo de sua jornada de vida, o indivíduo saudável irá percorrer:
dependência absoluta, dependência relativa e rumo à independência ou independência
relativa.
Pelo estágio denominado dependência absoluta entende-se uma série de processos que
caracterizam a quase total adaptação da mãe em relação ao bebê. Isso ocorre porque ela
mesma encontra-se em um estado dependente e frágil, mas que pode identificar-se com seu
bebê a partir de suas próprias experiências como tal32. Esse estágio dura, aproximadamente,
até os seis meses de vida do bebê33.
Nessa etapa, segundo Winnicott, “todos os processos de uma criatura viva constituem
um vir-a-ser, uma espécie de plano para a existência (...). Qualquer irritação, ou falha de
adaptação, causa uma reação no lactente, e essa reação quebra esse vir-a-ser” (1965r, p. 82).
Aqui, o autor se refere aos padrões que podem ser instaurados na vida de um pequeno
indivíduo, dependendo das condições adaptativas da mãe. Caso o bebê precise reagir mais do
que simplesmente ser, “então existe uma séria interferência com a tendência natural que existe
na criança de se tornar uma unidade integrada” (1965r, p. 82).

31
Cf. Winnicott (1988, p. 136).
32
Winnicott dá a esta condição da mãe o nome de “Preocupação Materna Primária”, que será pormenorizada
adiante.
33
A duração aproximada descrita por Winnicott (1965r, p. 84) é de, aproximadamente, seis meses. Em Dias
(2003, p. 165) tem-se a referência a esse estágio com duração de, aproximadamente, quatro meses.
36

A teoria winnicottiana parte do princípio de que o indivíduo começa da não-


integração, conforme aponta o autor: “pode-se supor que, no seu início teórico, a
personalidade não é integrada (...). Postulamos uma não-integração primária” (1945d, p. 275).
No início da vida as experiências vivenciadas não podem ser vinculadas ao corpo, uma vez
que este se encontra desvinculado da psique34. É nesse sentido que Winnicott afirma que nos
primeiros estágios de dependência “não há lugar para uma realidade não-eu” (1988, p. 153),
pois só é possível pensar em um bebê em relação à mãe, isto é, aos cuidados que recebe desta.
Além disso, não existe uma diferenciação, por parte do bebê, entre o que ele é e o que
é “não-eu”. O bebê não tem uma consciência de si mesmo, uma vez que ainda não está
integrado, ou seja, não pode reunir sensações e impulsos em seu self 35.
Dessa maneira, Winnicott irá dizer que “a vida psicológica do indivíduo não tem início
exatamente no momento em que ele nasce” (1987c, p. 46), visto que ele só pode começar a
ser se determinados cuidados forem cumpridos pelo ambiente suficientemente bom. Isso
significa dizer que “o bebê que conhecemos como uma unidade humana, seguro dentro do
útero, ainda não é uma unidade em termos de desenvolvimento emocional” (WINNICOTT,
1988, p. 136).
Na etapa do desenvolvimento em que a dependência do bebê é absoluta, esses
cuidados devem ser cumpridos através da realização de tarefas36 básicas. Winnicott as
apresenta em uma determinada ordem nos textos “A integração do ego no desenvolvimento da
criança” (1965n) e “Desenvolvimento emocional primitivo” (1945d).
Em primeiro lugar, descreve a “integração”, que se refere ao sentir-se integrado no
espaço-tempo. Em segundo, usa o termo “personalização” para descrever o modo como o ego
e o corpo se unem, sendo as sensações do primeiro integradas ao segundo. Em terceiro lugar,
discorre sobre o modo pelo qual o mundo é apresentado ao bebê, que dará suporte para a
experiência da ilusão de onipotência – fenômeno que será pormenorizado no próximo
capítulo.

O início das relações objetais é complexo. Não pode ocorrer se o meio não propiciar
a apresentação de um objeto, feito de um modo que seja o bebê quem crie o objeto.

34
A escolha de Winnicott pelo termo “psique”, segundo Loparic (2000), “se deve, pelo menos parcialmente, à
etimologia. Em grego antigo comum, “psyché” significa primeiramente vida, inclusive vida animal, e só
secundariamente alma imaterial ou imortal, si-mesmo consciente ou pessoa enquanto centro de emoções, desejos
e afetos. Seja como for, segundo Winnicott, a psique está no bebê, num certo sentido e grau, desde o início da
vida. Ela não é uma substância ou uma instância, e si um modo de operar da natureza humana” (pp. 361-362).
35
Fulgencio (2014), afirma que o self “corresponde a experiência da unidade empírica do indivíduo na sua
relação com o mundo” (p. 189). “O self central poderia ser considerado como o potencial herdado que está
experimentando a continuidade da existência, e adquirindo à sua maneira e em seu passo uma realidade psíquica
pessoal e o esquema corporal pessoal” (WINNICOTT, 1960c, p. 46).
36
Cf. Winnicott (1945d, p. 274) e Dias (2003), Cap. III e IV.
37

O padrão é o seguinte: o bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma


necessidade não-formulada. A mãe, em se adaptando, apresenta um objeto ou uma
manipulação que satisfaz as necessidades do bebê, de modo que o bebê começa a
necessitar exatamente do que a mãe apresenta. Deste modo o bebê começa a se
sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe
proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato da
experiência (1965n, p. 60).

Todas as tarefas só poderão ser realizadas através dos cuidados fornecidos pelo
ambiente, que no início se consiste na própria mãe suficientemente boa, que, nas palavras do
autor “é aquela que é capaz de satisfazer as necessidades do nenê no início, e satisfazê-las tão
bem que a criança, na sua saída da matriz do relacionamento mãe-filho, é capaz de ter uma
breve experiência de onipotência” (1965n, p. 56). Dias (2003) relaciona cada uma das tarefas
básicas aos cuidados concernentes ao ambiente da seguinte forma:

À integração no espaço e no tempo corresponde o segurar ou sustentar (holding); o


alojamento da psique no corpo é facilitado pelo manejo (handling), que é um
aspecto mais específico do segurar, relativo aos cuidados físicos; o contato com
objetos é propiciado pela apresentação de objetos (p. 167).

Para Winnicott, essas tarefas têm papel primordial no desenvolvimento do bebê, no


que se refere à realização da tendência à integração e ao sentimento de que o que se é consiste
em uma unidade. Conforme constata Winnicott, “o resultado do progresso normal no
desenvolvimento do lactente durante esta fase [de holding] é que ele chega ao que se poderia
chamar “estado unitário”. O lactente se torna uma pessoa, com individualidade própria”
(1960c, p. 44).
As tarefas básicas estão inter-relacionadas à elaboração imaginativa das funções
corporais, o que se refere à tarefa primeira da psique do bebê. “O soma é o corpo vivo, que
vai sendo personalizado à medida que é elaborado imaginativamente pela psique” (DIAS,
2003, p. 104). Esta, por sua vez, engloba o que não é soma, e significa, segundo Winnicott
“elaboração imaginária dos elementos, sentimentos e funções somáticos, ou seja, vitalidade
física” (1954a, p. 333). Desse modo, a psique tem a função de constituir, pouco a pouco, a
noção de temporalidade.
Para Winnicott, isso é o que diferencia o ser humano do animal: a capacidade – através
de uma presença viva que está incumbida da tarefa de cuidar – de elaborar imaginativamente37
os instintos38 e as funções corpóreas. Segundo Dias (2003), isso significa dizer que o bebê

37
Cf. “O ‘animal humano’” (LOPARIC, 2000) e Fulgencio (2016, pp. 36-38) para maiores esclarecimentos
sobre a elaboração imaginativa.
38
A tradução da palavra alemã Trieb pela palavra inglesa Instinct, segundo Fulgencio (2003) “borrou as
diferenças entre as concepções de Freud e as de Winnicott, pois, neste último, Instinct tem um sentido que não
corresponde ao Trieb de Freud” (p. 166). Winnicott define esse termo da seguinte maneira: “Instinto é o termo
pelo qual se denominam poderosas forças biológicas que vêm e voltam na vida do bebê ou da criança, e que
38

conhece o ambiente que o rodeia através da “crescente familiaridade com as sensações


corpóreas que são elaboradas imaginativamente e com o estado de coisas que o rodeia” (p.
199). Assim, a temporalização (integração no espaço e no tempo) e o alojamento da psique no
corpo, por exemplo, se dão por meio da previsibilidade do ambiente, concomitantemente à
elaboração imaginativa.
Portanto, a qualidade desse contato inicial com a mãe é o que irá fornecer ao indivíduo
as bases de sua personalidade. Mas o que torna possível à mãe cuidar satisfatoriamente de seu
bebê? Winnicott (1958n) afirma que a mãe não cuida de seu bebê apenas por se preocupar
com ele. Há um estado complexo, uma “condição psicológica”, de identificação com o bebê,
que permite a ela dispender todo o tempo e dedicação de sua vida, durante um período, para
atender às necessidades do bebê. Essa condição recebeu o nome de Preocupação Materna
Primária.
A integração ocorre a partir dos cuidados fornecidos pela mãe, identificada com seu
bebê – e este, por sua vez, identificado com sua mãe, pois é isto que a atitude da mãe
proporciona. Winnicott chama a atenção para esse processo que é o “começo de tudo” e que
seria o significado, por exemplo, que poderíamos atribuir à palavra “ser”: “onde o ambiente
de facilitação – que deve ser humano e pessoal – possuir características suficientemente boas,
as tendências hereditárias de crescimento que o bebê tem podem, então, alcançar seus
primeiros resultados favoráveis” (1987e, p. 8).
À medida que a dependência absoluta é vivenciada pelo bebê de modo satisfatório,
esta tende a diminuir. Concomitantemente, a mãe passa a falhar, voltar aos seus interesses
antigos, ao trabalho, etc. Assim sendo, no estágio posterior, de dependência relativa, há uma
gradual desadaptação por parte da mãe e, com isso, o início das funções intelectuais39 do bebê,
“que se desenvolve como uma vasta extensão de processos simples, como o reflexo
condicionado” (1965r, p. 83).
Nesse estágio, que tem duração aproximada dos seis meses aos dois anos, a criança já
faz uso das conquistas que obteve durante a fase da dependência absoluta, no caso de a mãe
ter se adaptado suficientemente às suas necessidades. Segundo Winnicott, uma dessas
conquistas é a consciência, por parte do indivíduo, de sua dependência da mãe.
Foi visto que, na etapa de dependência absoluta, a realidade é apresentada ao bebê
através da experiência de ilusão de onipotência, conforme esclarece Winnicott: “A adaptação

exigem ação. A excitação do instinto leva a criança, assim como qualquer animal, a preparar-se para a satisfação
quando o mesmo alcança seu estágio de máxima exigência. (...) Tampouco há muita diferença entre seres
humanos e animais” (1988, p. 57).
39
Sobre a função do pensar e da mente, cf. Winnicott (1989s; 1954a).
39

da mãe é suficientemente boa e como consequência o lactente começa a acreditar na realidade


externa que surge e se comporta como por mágica” (1965m, p. 133).
Na saúde, isto é, nos casos em que a dependência absoluta pode ser vivenciada, o bebê
foi capacitado para tolerar um período de ausência materna e, na etapa de dependência
relativa do desenvolvimento emocional, a relação com a realidade começa a se dar através dos
fenômenos transicionais40. No início,

A mãe reparte com o seu filho um fragmento especializado do mundo, conservando


esse fragmento suficientemente pequeno para que a criança não se confunda, mas
ampliando-o gradualmente, de maneira que a crescente capacidade da criança para
desfrutar o mundo seja alimentada (WINNICOTT, 1949m, p. 80).

Segundo Phillips (2006), o que abre a possibilidade para que o bebê se desenvolva no
sentido de uma independência relativa é o encontro com um primeiro objeto que esteja fora de
sua realidade subjetiva, um objeto que seja “não-eu”, isto é, transicional. Na transicionalidade,
Winnicott afirma que a criança não é mais a criadora do mundo, mas também aquela que pode
povoá-lo com suas próprias experiências internas.

O bebê começa nada sabendo acerca do mundo, e na época em que as mães


terminaram sua tarefa o bebê já se converteu em alguém que conhece o mundo, que
pode descobrir um caminho para viver nele e até para tomar parte na maneira como
ele se conduz (1949m, p. 76).

Se as tarefas básicas são cumpridas, isto é, se o ambiente cuida satisfatoriamente do


bebê, este passa de um estado de não-integração para um estado integrado, que inclui a
capacidade de sentir-se uma pessoa inteira, além de ser capaz de dotar a vida de sentido(s) e
se relacionar também com pessoas inteiras. Constituir-se como pessoa inteira significa dizer
que há a capacidade para diferenciar eu e não-eu, bem como mundo interno e mundo externo
e, além disso, administrar os instintos nas relações com outras pessoas.
Essa diferenciação – entre eu e não-eu – realizada pela criança, permite o sentimento
de estar integrada em uma unidade, separada do ambiente, etapa que Winnicott denominou de
“EU SOU”41. Segundo Dias, essa etapa confere as bases para a vivência da etapa do
concernimento42, “em que o bebê começa a sentir-se concernido pela sua impulsividade
instintual e preocupado com o resultado do impulso amoroso primitivo em si mesmo e no
outro” (2003, p. 258).

40
Nas páginas 70-73 há uma descrição pormenorizada destes fenômenos.
41
Cf. Winnicott (1984h; 1958b).
42
Esta etapa se refere a uma redescrição de Winnicott da “posição depressiva” de Melanie Klein (WINNICOTT,
1988, p. 140; DIAS, 2003, p. 258; PHILLIPS, 2006, p. 156).
40

Portanto, essa etapa traz à criança a capacidade de sentir culpa, mas ainda depende da
postura da mãe para que isso seja realizado. Winnicott denominou “círculo benigno” o que
ocorre nessa etapa do desenvolvimento. Ao liberar sua impulsividade instintual, o bebê é
capaz de sentir culpa e, portanto, oferecer um “gesto restitutivo verdadeiro” (WINNICOTT,
1958o, p. 27) à mãe. Dessa forma, o círculo benigno depende da capacidade da mãe de tolerar
o gesto agressivo do bebê (que pode ser uma mordida, um tapa, etc.) e, ao mesmo tempo, o
gesto que irá reparar o ataque anterior (uma carícia no rosto da mãe, por exemplo). Para o
autor

Quando a integração, em determinado caso, é proporcionada principalmente por um


bom cuidado infantil, a personalidade pode revelar-se bem estruturada. Se o acento
recai sobre a integração através de impulsos e experiências instintivas e de uma raiva
que mantém sua relação com o desejo, então a personalidade será provavelmente
interessante e até fascinante por suas características. Na saúde há quantidades
suficientes dessas duas coisas, e a sua combinação significa estabilidade (1988, p.
140).

Tendo percorrido suficientemente bem as conquistas das etapas anteriores, a criança já


é capaz de estabelecer contatos com o mundo e a sociedade, e também de se identificar com
esta, uma vez que representa parte de seu mundo pessoal. A esse processo complexo
Winnicott denominou “rumo à independência”, ou “independência relativa”, sobre a qual
afirma:

A maturidade individual implica movimento em direção à independência, mas não


existe essa coisa chamada “independência”. Seria nocivo para a saúde o fato de um
indivíduo ficar isolado a ponto de se sentir independente e invulnerável. Se essa
pessoa está viva, sem dúvida há dependência! (1971f, p. 3).

Winnicott compreendeu a importância das relações de dependência no


desenvolvimento emocional do ser humano a partir de dois grandes grupos de pessoas (bebês
e psicóticos), pois, conforme afirma: “a experiência me levou a verificar que pacientes
dependentes ou em regressão profunda podem ensinar ao analista mais sobre o início da
infância do que se pode aprender da observação direta dos lactentes” (1965m, p. 129).
Desse modo, pode-se afirmar que o autor “fará uma mudança radical no modelo
ontológico de homem para a Psicanálise, colocando a necessidade de ser e continuar sendo
como um fundamento da própria natureza humana” (FULGENCIO, 2016, p. 24), podendo ser
esta uma de suas maiores contribuições à Psicanálise. A ontologia referida por Winnicott é a
“experiência, necessária, de ser a partir de si mesmo” (2016, p. 24), e não o conceito descrito
pela Filosofia, propriamente dito, pois, para o autor,

A unidade não é o indivíduo, a unidade é uma organização meio ambiente-


indivíduo. Está na organização total. Através de um cuidado suficientemente bom da
41

criança, da técnica, do holding e do manejo geral, a casca é gradualmente


conquistada e o cerne (que o tempo todo nos pareceu ser um bebê humano) pode
começar a ser um indivíduo (1958d, p. 208).

No texto “A mãe dedicada comum”, Winnicott descreve um período, mais ou menos


um pouco antes do nascimento, em que mãe e bebê são uma coisa só, e se refere ao verbo
“segurar” (holding) para expressar tudo aquilo que a mãe dedicada comum “é e faz”43. “Estas
coisas dão ao bebê a oportunidade de ser, a partir da qual podem surgir as coisas seguintes,
que têm a ver com a ação, o fazer e o deixar que façam por ele” (1987e, p. 5).
Pautada nesses dois quesitos fundamentais – a tendência à integração e a necessidade
de um ambiente que forneça os cuidados necessários para que esta tendência se realize –
pode-se afirmar que sua teoria, ao fornecer papel essencial para a questão do ser

(...) Tentou explicar como o indivíduo cresce, para além da dependência, em direção
a um jeito de ser pessoal, como ele se torna a um só tempo comum e característico
de acordo com a percepção que tem de si mesmo e como o ambiente precoce faz
com que isso seja possível (PHILLIPS, 2006, p. 22).

Os cuidados da mãe permitem e protegem o bebê de ser invadido ou perturbado, ou


seja, a mãe possibilita a continuidade de ser do bebê. A saúde, então, significaria ter um
sentimento de ser e de continuidade de ser44, “adaptando-se sem perda em demasia da
espontaneidade” (FULGENCIO, 2016, p. 25), o que só pode acontecer caso a mãe esteja
imersa na condição supracitada de preocupação materna primária.

Inicialmente, a partir de uma interação primária do indivíduo com o ambiente, surge


um emergente, o indivíduo que procura fazer valer os seus direitos, tornando-se
capaz de existir num mundo não desejado; ocorre então o fortalecimento do self
como uma entidade, uma continuidade do ser onde, e de onde, o self pode [emergir]
como uma unidade, como algo ligado ao corpo e dependente de cuidados físicos
(WINNICOTT, 1988, p. 26).

À medida que a mãe garante a continuidade de ser do bebê, a integração ocorre e as


experiências – como a de ser alimentado, trocado, acariciado, etc. – vão sendo impressas no
corpo do bebê e, assim, um self verdadeiro se constitui.
As experiências do indivíduo podem ser integradas ao seu self se o movimento para o
mundo externo advém dele mesmo, e não causado por uma pressão ambiental. “Se tomarmos
como analogia uma bolha, podemos dizer que quando a pressão externa está adaptada à
pressão interna, a bolha pode seguir existindo. Se estivéssemos falando de um bebê humano,
diríamos ‘sendo’” (WINNICOTT, 1988, p. 148).

43
Cf. Winnicott (1987e, p. 4).
44
Cf. Winnicott (1954a; 1988).
42

O ambiente suficientemente adaptado proporciona ao indivíduo um movimento


espontâneo de descoberta deste entorno. Quando repetidamente o indivíduo tem essa
experiência, Winnicott afirma que o que se estabelece é um padrão de relacionamento.
Segundo Dias, “se o contato [com o ambiente] é feito a partir do gesto espontâneo do bebê, o
fato de ele estar vivo e a própria experiência são sentidos como reais, e o acúmulo dessas
experiências pessoais começa a integrar-se na personalidade” (2003, p. 160).
Uma vez que se admite a tendência inata ao desenvolvimento individual, o que é
chamado de perturbação pode ser resumido, segundo Dias, por aquilo “que falha no processo,
e não é integrado por meio da experiência” (2003, p. 94). Se a mãe não é capaz de adentrar o
estado de preocupação materna primária, e se não há outra pessoa que possa substituí-la nos
cuidados com o bebê, este não é capaz de reunir suas sensações em um self próprio, de
integrar-se, e, assim ergue-se um falso self. Para Fulgencio,

Na verdade, todo indivíduo tem experiências de quebra na continuidade de ser (ou


de falhas ambientais), constituindo, assim, um falso self, que se organiza em
diversos graus na vida de uma pessoa. O que diferencia o falso self operativo,
necessário à saúde, do falso self patológico é o grau de domínio do falso self ou do
verdadeiro self na condução ativa da existência e dos modos de ser no mundo (2016,
p. 46).

Quando o ambiente não se adapta às necessidades do bebê, as falhas, que seriam


comuns – uma vez que a mãe não é uma máquina que nunca comete erros – são vivenciadas
como invasões. Segundo Winnicott, “se a pressão no exterior da bolha for maior ou menor
que aquela em seu interior, a bolha passará a reagir à intrusão. Ela se modifica como reação a
uma mudança no ambiente, e não a partir de um impulso próprio” (1988, p. 148).
No texto “Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self”, Winnicott declara
que “somente o self verdadeiro pode ser criativo e se sentir real” (1965m, p. 135), e explica
como a adaptação do ambiente contribui para a formação de um self verdadeiro, ou, em caso
de não adaptação, de um falso self.
Newman (2003) diferencia o “ser” e o “fazer”, falando sobre os bebês que, por
exemplo, “são obrigados a gastar o seu tempo – e toda a sua energia – tentando chamar a
atenção da mãe. Eles são obrigados a fazer” (p. 117), indicando que isto significa reagir, e não
agir. E complementa: “para ser criativa, a pessoa deve existir e ter o sentimento de ser – “não
por estar conscientemente cônscia”, mas como um lugar básico desde o qual ela funciona” (p.
117).
Dessa forma, um padrão de relacionamento também é estabelecido, só que dessa vez
não permite “a sensação de um viver verdadeiro”, mas uma reação a um estímulo externo. Por
43

este motivo, Winnicott chamou a psicose de uma patologia de “deficiência ambiental”45.


Conforme afirma, “fracassos maternos produzem fases de reação à invasão e estas reações
interrompem o “continuar a ser” do bebê. Um reagir excessivo não produz frustração mas sim
uma ameaça de aniquilação” (1958n, p. 496). Segundo Fulgencio (2016),

Fica evidente, pois, na sua perspectiva, que é na sustentação ambiental inicial, ou


seja, no contato humano do ambiente adaptando-se às necessidades (instintuais e
relacionais) dos bebês, que as primeiras integrações psicoemocionais ocorrerão
(constituição de uma noção pessoal de tempo, de espaço, da experiência de si
mesmo, do desenvolvimento da esperança ou fé de que há no mundo algo que pode
ser interessante para si etc.) (p. 29).

A importância de um ambiente que não seja intrusivo ou insuficiente tem papel central
nas relações de dependência entre mãe-bebê que Winnicott observou. É necessário que haja
uma adaptação contínua, ao longo dos estágios do desenvolvimento, que forneça ao bebê a
capacidade de ser, de integrar experiências e de se relacionar com o mundo externo.
Tendo sido apresentado o panorama geral da Teoria do Desenvolvimento de
Winnicott, é possível averiguar como as noções de criatividade para Freud e Klein se
distinguem da concepção winnicottiana e, em seguida, apresentar de que maneira o autor
compreende esse fenômeno.

2.2 Críticas de Winnicott e seus comentadores a Freud e Klein no que se refere à Teoria
da Sublimação

No primeiro capítulo foi visto como as teorias freudiana e kleiniana abordam o tema
da criatividade. Neste capítulo, será apontado e discutido de que maneira Winnicott, bem
como seus comentadores, discordam das proposições dos autores citados46.
Para iniciar os contrapontos entre as teorias de Freud, Klein e Winnicott no que se
refere à criatividade, pode-se apontar como uma das diferenças o fato da terminologia
sublimação – ainda que utilizada por Winnicott em alguns de seus artigos – não ser
desenvolvida em sua obra, conforme apontou Ciccone (2013)47.
Outro ponto importante que marca a diferença entre as Teorias da Criatividade de
Freud e Winnicott tem a ver com o conceito de sublimação englobar, a fim de compreendê-lo,
termos como “libido” e “pulsão”, próprios da Teoria Metapsicológica (aspecto descrito por
Freud que envolve a dinâmica das pulsões de vida e morte), que não são utilizados por
Winnicott. Em uma carta a Anna Freud, escrita em 1954, Winnicott declara:
45
Cf. Winnicott (1954a, p. 413).
46
Em primeiro lugar será apresentado Freud e em seguida Klein.
47
Os textos em que Winnicott utiliza o termo “sublimação” estão dispostos em ordem cronológica no capítulo
1.2 do trabalho citado.
44

Tenho um modo irritante de dizer as coisas em minha própria linguagem, em vez de


aprender a usar os termos da metapsicologia analítica. Estou tentando descobrir por
que é que tenho uma suspeita tão profunda para com esses termos. Será que é por
que eles podem fornecer uma aparência de compreensão onde tal compreensão não
existe? Ou será que é por causa de algo dentro de mim? Pode ser, é claro, que sejam
as duas coisas (1987, p. 26).

De acordo com Fulgencio (2003), Winnicott não discorda apenas de um ou outro


conceito metapsicológico, mas do que podemos dizer que se trata a teoria em si. Nesse
sentido, a observação de Loparic se faz complementar:

No início da vida humana, os objetos reais não estão lá para serem representados e
amados ou odiados, isto é, acessados por relações cognitivas e apetitivas. Essas
relações pressupõem, diz Winnicott, mecanismos mentais de que um lactante não
dispõe. Tais mecanismos precisam primeiro ser amadurecidos e, para tanto, o
lactante deve desenvolver, anteriormente, uma outra capacidade: a de uso do objeto.
E tem mais: antes de ter a capacidade de usar objetos, o bebê precisa criar a
capacidade de brincar, a qual, por seu turno, pressupõe a experiência de contato e de
identificação primária com a realidade externa. De que experiência se trata? A de ter
criado a realidade que encontra. Na experiência de contato com a realidade
“encontrada criativamente” o sujeito é, imediatamente, o seu objeto (seio, braços),
no sentido de ter controle onipotente sobre o objeto, sem que isso tenha qualquer
conotação pulsional (1995, pp. 52-53).

A teoria winnicottiana irá se distinguir por postular que na relação do bebê com o
ambiente é que se desenvolve seu modo de relação com o mundo, o que levou o próprio
Winnicott a afirmar, sobre o ponto de vista tópico da metapsicologia freudiana:
“Simplesmente não acho válida sua ideia de instinto de morte” (1965va, p. 161). Ainda nesse
mesmo texto citado (“Enfoque pessoal da contribuição kleiniana”) Winnicott elabora as
principais contribuições de Klein à teoria psicanalítica. Porém, faz menção à “manutenção do
uso da teoria do instinto de vida e instinto de morte” como sendo uma “contribuição
duvidosa” (p. 162), ratificando sua posição contrária no que se refere aos termos
metapsicológicos.
Também não se observa na teoria do desenvolvimento de Winnicott a ideia de
“libido”, e nesse sentido pode-se dizer que o autor “critica a proposta de se tratar a natureza
humana em termos econômicos”, como Freud propôs (FULGENCIO, 2003, p. 167). Sobre
esse aspecto da metapsicologia, Winnicott (1958o) expõe sua discordância em relação a Freud
em um texto sobre o sentimento de culpa:

Freud aí lida com a natureza humana em termos de economia, simplificando o


problema deliberadamente com o propósito de estabelecer uma formulação teórica.
Existe um determinismo implícito em todo esse trabalho, a premissa de que a
natureza humana pode ser examinada objetivamente e que podem ser aplicadas a ela
as leis que são conhecidas em Física (p. 20).
45

Freud utilizou um modelo para explicar como a mente se organiza, determinando


instâncias psíquicas (id, ego, superego) com incumbências, por assim dizer, específicas.
Segundo Laplanche e Pontalis (2001), o aparelho psíquico “ressalta certas características que
a teoria freudiana atribui ao psiquismo: a sua capacidade de transmitir e de transformar uma
energia determinada e a sua diferenciação em sistemas ou instâncias” (p. 29). Em relação ao
aparelho psíquico freudiano, Winnicott faz uma observação relevante:

Nas suas formulações teóricas iniciais ele [Freud] estava interessado no id, nome
pelo qual ele se referia aos impulsos instintivos, e no ego, nome pelo qual ele
chamava aquela parte do eu total que se relaciona com o ambiente. O ego modifica o
ambiente para conseguir satisfações para o id, e freia impulsos do id para que o
ambiente possa oferecer o máximo de vantagens, do mesmo modo para a satisfação
do id. Mais tarde (1923) Freud usou o termo superego para denominar o que é aceito
pelo ego para uso no controle do id (1958o, p. 20).

Winnicott voltou sua atenção para a relação do indivíduo com o ambiente, não vendo
necessidade de utilizar terminologias próprias à linguagem de Freud, como é possível notar no
trecho adiante:

A Psicanálise chamou bastante atenção para o funcionamento do instinto e para a


sua sublimação. É importante lembrar que existem mecanismos significativos para a
relação de objeto que não são determinados pelo impulso. Dei ênfase aos elementos
do brincar que não o são. Forneci exemplos para ilustrar o inter-relacionamento que
é próprio da exploração dos fenômenos da dependência e adaptação que têm lugar
natural nas crianças e nos pais. Apontei também o quanto de nossas vidas passamos
a nos inter-relacionar em termos de identificações cruzadas (1968g, p. 186).

As identificações cruzadas dizem respeito à "capacidade de se pôr no lugar do outro ou


de se ver através do outro" (DIAS, 2007, p. 42). Nesse sentido, nota-se uma das diferenças
fundamentais da Teoria do Desenvolvimento Emocional de Winnicott em relação à
Psicanálise tradicional, pois a primeira leva em consideração o “uso de símbolos pela criança,
no brincar criativo e (...) na capacidade gradativa da criança de utilizar o potencial cultural”
(1968g, p. 178).
Tais fenômenos não dependem da dinâmica das pulsões, mas do relacionamento entre
indivíduo e ambiente que, entre outras realizações, habilita a criança a percorrer o caminho
entre a realidade interna e a realidade externa. Ao longo do desenvolvimento saudável, essa
capacidade se alia à possibilidade de utilização de símbolos e da extensão da vida criativa, no
que concerne à capacidade de dotar o mundo de sentidos próprios.
Nos casos em que o indivíduo não possui essa habilidade, Winnicott (1968g) afirma
que as interpretações clássicas não têm valia para o paciente, e, portanto, o analista deve se
relacionar com este através das identificações cruzadas.
46

Enquanto Freud se preocupava com as enredadas possibilidades de satisfação


pessoal de cada indivíduo, para Winnicott essa satisfação seria apenas parte do
panorama mais amplo das possibilidades para autenticidade pessoal do indivíduo, o
que ele chamará de “sentir-se real” (PHILLIPS, 2006, p. 29).

Winnicott (1971g) não descarta a contribuição de Freud em relação à análise de


determinadas características da obra e da personalidade de Leonardo da Vinci, por exemplo,
para explicar o tema da sublimação, mas frisa que “o tema principal, o do próprio impulso
criativo, continua sendo contornado. A criação se ergue entre o observador e a criatividade do
artista” (p. 100). De acordo com Phillips (2006),

A ideia de “criatividade psíquica primária” estava em radical desacordo com o


modelo freudiano. Na obra de Freud, a criatividade seria (acentuadamente adulta) a
sublimação da sexualidade infantil, apesar de ele nunca ter fornecido um relato
convincente da natureza verdadeira da própria atividade sublimatória (p. 150).

Freud elabora um modelo representativo do funcionamento psíquico e descreve como


este coordena as atitudes do ser humano, fazendo disso um método de tratamento para as
neuroses48. Winnicott se interessa pela relação do indivíduo recém-chegado ao mundo com o
ambiente, e em como essa interação pode criar um sentido de realidade ao indivíduo.

(...) Percebemos agora que não é a satisfação instintual que faz um bebê começar a
ser, sentir que a vida é real, achar a vida digna de ser vivida. Na verdade, as
gratificações instintuais começam como funções parciais e tornam-se seduções, a
menos que estejam baseadas numa capacidade bem estabelecida, na pessoa
individualmente, para a experiência total, e para a experiência na área dos
fenômenos transicionais. É o eu (self) que tem de preceder o uso do instinto pelo eu
(self) (1967b, pp. 136-137).

Vê-se que, para Winnicott, é preciso que o indivíduo adquira um eu antes de averiguar
de que forma os instintos exercem influência na vida do indivíduo. No artigo supracitado, “A
localização da experiência cultural”, Winnicott afirma que Freud fez uso do termo sublimação
“para apontar o caminho a um lugar em que a experiência cultural é significativa, mas talvez
não tenha chegado ao ponto de nos dizer em que lugar, na mente, se acha a experiência
cultural” (1967b, p. 133).

No artigo “O lugar em que vivemos”, ele coloca a questão: “O que estamos fazendo
enquanto ouvimos uma sinfonia de Beethoven, ao visitar uma galeria de pintura,
lendo Troilo e Cressida na cama, ou jogando tênis? Que está fazendo uma criança
quando fica sentada no chão e brinca sob a guarda da mãe? Que está fazendo um
grupo de adolescentes, quando participa de uma reunião de música popular?”
(1971q, p. 147). Ele ressalta, então, que há, nesse sentido, uma outra pergunta mais
fundamental a ser feita, que diz respeito a “onde estamos nesse momento (se é que
estamos em algum lugar)” (ibid.) Para ele, a distinção entre interno e externo, bem
como a noção de sublimação, não são suficientes para abordar esse problema
(FULGENCIO, 2006, p. 86).

48
Cf. Fulgencio (2016, p. 54).
47

Para Winnicott, “o lugar em que a experiência cultural se localiza está no espaço


potencial existente entre o indivíduo e o meio ambiente” (1967b, p. 139), ou seja, em uma
área que não é mais a realidade interna ou externa, mas intermediária. Conforme reitera
Fulgencio (2016), a vida cultural do indivíduo “corresponde a uma necessidade de expansão
dos fenômenos transicionais” (p. 30).
Phillips diz ainda que “o objeto transicional é sempre uma combinação, mas uma
combinação que oferece, em virtude de ser mais do que a soma de suas partes, uma nova,
terceira alternativa. E nunca é meramente um substituto para alguma coisa” (2006, p. 165).
Ou seja, o que proporciona ao bebê a passagem entre estar fundido com a mãe e se desprender
parcialmente dela é o objeto transicional.
Winnicott (1967b) descreve a existência de uma terceira área da experiência, na qual
seria possível a brincadeira, que por sua vez abarca o viver criativo e escoa para a vida
cultural. A terceira área é despertada com o advento dos objetos transicionais, mas antes dessa
etapa existem outras, pertencentes aos estágios iniciais de desenvolvimento, que necessitam
ser vivenciadas de maneira suficientemente boa para que as bases para a terceira área da
experiência sejam criadas.
Ou seja, para Winnicott tem-se a dependência – em seus variados graus – do ambiente
para o desenvolvimento satisfatório do indivíduo. Assim, há uma realidade própria que
pertence aos objetos transicionais – que, por sua vez, ocupam o lugar da mãe, auxiliando a
transição entre realidade interna e externa –, que não se enquadra no fenômeno da sublimação
tal qual foi descrito por Freud, conforme declara Abram (2000), ao dizer que, antes da
publicação de Winnicott sobre os fenômenos transicionais,

Não havia na literatura psicanalítica qualquer relato referente ao hiato existente entre
o interior e o exterior. O conceito freudiano de uma sequência do desenvolvimento
do princípio do prazer que se transforma em princípio da realidade ofereceu sua
contribuição para uma compreensão da transição que o bebê humano tem que
transpor, sem que jogasse luz sobre o processo transicional em si (p. 254).

De acordo com Spelman (2015), ao explicar a "terceira área da experiência” Winnicott


traça o que seria a realidade compartilhada como uma área em que os indivíduos colaboram
de forma criativa. “Para ele, o conceito freudiano de "sublimação" não explica a experiência
cultural com sua riqueza, prazer e criatividade, um espaço transicional saudável em
dependência relativa” (p. 10).
No tocante às teorizações de Freud e Winnicott acerca da inserção do indivíduo na
cultura, que têm ligação com os conceitos de sublimação e criatividade originária, Birman
(2008) nos diz que tanto para a teoria freudiana quanto para a winnicottiana, resguardando as
48

diferenças de seus estatutos ontológicos, a sublimação trataria de um mesmo problema, qual


seja, a relação do indivíduo com a cultura. Fulgencio (2016) afirma que Winnicott não acha
apropriada a Teoria da Cultura proposta por Freud, baseada na sublimação da sexualidade
reprimida, e complementa:

Ele [Winnicott] proporá outra teoria da cultura, não mais concebida como um
processo de sublimação de uma sexualidade reprimida, mas como uma atividade que
visa expandir um determinado modo de relação com a realidade no qual o indivíduo
afirma e encontra a si mesmo no mesmo momento em que encontra o outro (p. 110).

Como foi visto, Winnicott declara que a cultura seria uma expansão dos fenômenos
transicionais, e se constituiria como “fundo comum da humanidade, para o qual indivíduos e
grupos podem contribuir, e do qual todos nós podemos fruir se tivermos um lugar para
guardar o que encontramos” (1967b, p. 138).
Ab’Saber (2018) corrobora esta ideia, ao dizer que “a descoberta da lógica paradoxal
da existência nem dentro nem fora do campo da transicionalidade subjetivante do pequeno
humano”, relacionada às experiências de ilusão e, posteriormente, com o que se define por
cultura, “resolvia o problema teórico clássico psicanalítico do advento da sublimação cultural
das forças sexuais primárias, pensado por Freud por toda a vida” (p. 26).
De acordo com Phillipps (2006), a cultura para Winnicott tem o papel da mãe no
desenvolvimento do bebê, ou seja, facilita o seu crescimento, e na teoria freudiana a cultura
representaria o pai, que insere os limites, a proibição e, consequentemente, a decepção. “É
precisamente esta experiência de ‘retenção da mãe na mente’ que evolui até chegar às
lembranças, tornando-se o lugar por excelência da experiência cultural” (ABRAM, 2000, p.
89), ou seja, a experiência de cuidado proporcionada pela mãe permite ao indivíduo a
possibilidade de viver criativamente.
Winnicott se refere, em seu texto “Teoria do relacionamento paterno-infantil”, à
maneira como a infância e as relações de dependência foram abordadas por Freud e Melanie
Klein, e afirma que “Freud negligenciou a infância como um estado”. Ele se refere ao texto de
Freud chamado “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico” (1911),
no qual são abordadas questões sobre a passagem do princípio do prazer ao princípio da
realidade. Diz Winnicott:

Não é suficiente que se reconheça que o ambiente é importante. Se vai haver uma
discussão da teoria do relacionamento paterno-infantil, então nos dividimos em dois
grupos se há aqueles que não concordam que nos estágios iniciais do lactente este e
o cuidado materno pertencem um ao outro e não podem ser separados (1960c, p.
40).
49

Para Dias, “Winnicott não vê nenhum contrassenso em permanecer psicanalista ao


mesmo tempo em que, apoiado na sua experiência paralela com bebês e com psicóticos,
propõe um questionamento radical da supraestrutura metapsicológica freudiana” (2003, p.
76).
Ou seja, Freud e Melanie Klein não se respaldaram na questão da dependência
completa que o bebê tem de sua mãe no início da vida, e o quanto esta tem caráter essencial
para a integração do pequeno indivíduo que, sentindo seu corpo reunido nos braços da mãe e
recebendo os demais cuidados necessários que fazem parte desse estágio do desenvolvimento,
pode vir a realizar sua tendência à integração e se tornar uma pessoa inteira.
Passando agora às críticas de Winnicott à teoria kleiniana da criatividade, apesar desta
não discordar da ideia de dependência absoluta, para Winnicott “parece não haver nenhuma
referência específica ao estágio em que o lactente existe tão-somente por causa do cuidado
materno, junto com o qual ele forma uma unidade” (1960c, p. 42).
Winnicott reconhece que Klein, em seu trabalho de 1957, “Inveja e gratidão”,
contribui para o tema, uma vez que reconhece a existência de impulsos agressivos e fantasias
destrutivas que se originam muito precocemente no bebê, e que este, para lidar com a angústia
gerada por esses impulsos, recorre aos mecanismos de reparação e restituição49.
Winnicott (1989vh) considera válida a ideia de Klein sobre os mecanismos de
introjeção e projeção, caso o leitor seja capaz de pressupor a criatividade como base desses
conceitos. Se, para utilizar os termos kleinianos, o que a mãe devolve ao bebê são as suas
projeções, a criatividade estaria na capacidade da mãe receber e devolver tais projeções.
Porém, no texto em que elabora uma resenha do livro de Fairbairn50 (1970), o autor afirma:

Em sua teoria, a criatividade psíquica primária não constitui uma propriedade


humana; uma série infinita de introjeções e projeções forma a experiência psíquica
do bebê. A teoria de Fairbairn se alinha aqui com a que nos foi dada por Melanie
Klein, que também não permite que nenhum tributo seja prestado à ideia de
criatividade psíquica primária (1953i, p. 321).

Portanto, ele não está de acordo com as ideias da autora a respeito do tema, e isso se
comprova por sua afirmação: “Em minha opinião, contudo, o importante trabalho de Klein
não chega ao tema da criatividade em si e, portanto, poderia facilmente obscurecer ainda mais
o tema principal” (1971g, p. 101). Segundo Pires,

O conceito kleiniano de reparação também baseia uma construção individual no


campo cultural não como resultado de um impulso espontâneo e original, como é a
criatividade, mas como consequência de uma necessidade de compensar pelos

49
Cf. Winnicott (1971g, p. 101).
50
Psychoanalytic Studies of the Personality.
50

ataques destrutivos realizados, aplacando desta forma o sentimento de culpa (2010,


p. 20).

Winnicott discorda da ênfase dada pela autora à destrutividade (FULGENCIO, 2016),


pois não situa a origem da criatividade na destrutividade, apesar de considerá-la, conforme
descreve no texto em que elabora uma resenha da autobiografia de Jung51.
Nesse texto, ao analisar o significado das mandalas, Winnicott afirma que as
compreende como defesas contra a espontaneidade, e, diferente do buscado por Jung – o
centro de seu self –, Winnicott afirma que o “mais importante é chegar às forças básicas do
viver individual” (p. 371), que diz respeito à criatividade. Mas, para alcançá-la, é preciso
admitir a existência da destruição.

Winnicott (1971), ao seu modo, enfatiza a importância do brincar, de modo a


distinguir sua visão da teoria kleiniana sobre a destrutividade. Referindo-se ao
conceito kleiniano de reparação, Winnicott escreve: “Na minha opinião, o
importante trabalho de Klein não abarca o tema da criatividade em si”. O brincar, na
concepção de Winnicott, está incluído na categoria do objeto transicional, conceito
este que não foi utilizado por Klein (SPILLIUS, 2011, p. 296).

Em relação às concepções kleinianas da criatividade como capacidade do indivíduo


integrado, Dias (2003) afirma que Klein não deu importância à realidade externa, pois se
manteve centrada em caracterizar os conflitos como internos, enquanto Winnicott descrevia as
consequências da não-adaptação do ambiente às necessidades do bebê.
No tocante à teoria dos fenômenos transicionais, importante responsável pela inserção
do indivíduo na cultura, Abram afirma que “o enfoque apresentado por Melanie Klein do
mundo interno e das fantasias do bebê, na opinião de Winnicott, parece não dar conta do
impacto provocado pelo mundo exterior em sua percepção” (2000, p. 254).
A criatividade, diferente da sublimação – conceito proposto por Freud e com o qual
Klein concorda – não “abre um caminho para a descarga das excitações excessivas
provenientes das diversas fontes que compõem a sexualidade, possibilitando a sua aplicação a
outros objetivos”, conforme Klein (1923, p. 121), mas “deve incluir a ideia de que a vida vale
a pena – ou não – ser vivida, a ponto de a criatividade ser – ou não – uma parte da experiência
de vida de cada um” (WINNICOTT, 1986h, p. 23).

Para Melanie Klein a criatividade como essencialmente reparadora – para ela, arte
era compensação – seria secundária à destrutividade inerente à sexualidade infantil
como testemunhada pelo próprio bebê na posição depressiva. Na nova teoria de
Winnicott, a criatividade era primária, pré-sexual e caracterizava o relacionamento

51
“C. G. Jung - Resenha de Memories, Dreams, Reflections”. Winnicott também desenvolve o tema da
destrutividade no texto “Sobre o uso de um objeto - O uso de um objeto e o relacionamento através de
identificações”.
51

naturalmente recíproco entre um bebê e sua “mãe devotada comum” (PHILLIPS,


2006, p. 150).

Pode-se observar que Klein e Winnicott seguem caminhos distintos, no que se refere à
importância que cada um deles confere aos conceitos-chave em suas obras (a importância do
ambiente, o complexo de Édipo52, o brincar53, a destrutividade e a criatividade, etc.). De
acordo com as ideias de Phillips (2006), apesar de compartilhar com Klein a importância dada
aos estágios precoces do desenvolvimento, em sua teoria o bebê – ao invés de buscar a
gratificação instintual de um objeto, como teorizou Klein – busca o contato de uma pessoa,
um vínculo. Winnicott havia voltado seu olhar para o relacionamento mãe-bebê.

Sua atenção constante por mais de trinta anos, tanto como pediatra quanto como
psicanalista, ao que as mães e seus bebês realmente faziam juntos havia mudado
suas suposições sobre o que acontecia dentro do bebê. Ele acreditava que Klein e
seus cada vez mais devotados seguidores haviam descrito o bebê isolado do
relacionamento primário recíproco verdadeiro em que ele se desenvolveria e que,
tornando a mãe anônima, eles então haviam sobrecarregado o bebê com
características inatas (2006, p. 147).

A criatividade, nas teorias de Freud e Klein, está ligada à sublimação e à reparação da


destrutividade, respectivamente. Segundo Newman “A reparação, neste ponto, não é, a seu
ver, uma palavra suficientemente generosa para descrever como podemos consertar os danos
que causamos: ele [Winnicott] pensa mais na criação de algo novo” (2003, p. 112).
Para Winnicott (1953i), ambas as teorias não abrangem “toda a gama da experiência
humana”, mas estão interessadas “por toda gama de realidade e fantasia associada com os
relacionamentos interpessoais e o alcance gradual da maturidade nos elementos instintuais”
(p. 321).
Assim, Winnicott afirma que tais teorias fogem à questão principal, isto é, da
importância do aspecto ambiental e da dependência, pois “o teórico tem de levar em conta o
meio ambiente, e nenhuma afirmação que se refira ao indivíduo como ser isolado pode tocar o
problema central da fonte da criatividade” (1971g, p. 103).
Nas teorias freudiana e kleiniana não vemos formulada a ideia de que para o
desenvolvimento da capacidade criativa seja imprescindível um ambiente e cuidados
suficientemente bons, ainda que admitam a necessidade da presença de um cuidador (a mãe
ou substituto) para que determinadas dinâmicas psíquicas sejam instauradas.

Enquanto Freud pensou a vida da alma (vida psíquica) utilizando um modelo,


analógico, comparando-a com um sistema natural – a vida psíquica como se fosse
um aparelho movido por forças e energias –, Winnicott afirmou, sem recurso a um

52
Cf. Fulgencio e Marchiolli (2013).
53
Cf. Fulgencio (2008).
52

pensamento analógico, que o ser humano é uma amostra temporal da natureza


humana; que a necessidade de ser e continuar a ser, e a suposição de uma tendência
inata à integração constituem os motores básicos do desenvolvimento emocional.
Que a vida instintual, o corpo, corresponde a um aspecto da existência que será
integrado nessa linha mais essencial dada pela necessidade de ser (FULGENCIO,
2016, p. 24).

Quando não consideram a questão ontológica, própria à natureza humana, os autores


não compreendem a criatividade como um produto do relacionamento mãe-bebê. “Tanto
Freud quanto Klein desviaram-se do obstáculo nesse ponto e refugiaram-se na
hereditariedade”, diz Winnicott (1971g, p. 102). É assim, portanto, que ele afirma que

Nas tentativas empreendidas pela psicanálise para a abordagem do tema da


criatividade, perdeu-se de vista, em grande parte, o tema principal. O autor analítico
pode ter escolhido determinada personalidade notável nas artes, detendo-se em
observações secundárias e terciárias, e ignorando tudo o que se poderia chamar de
primário (WINNICOTT, 1971g, p. 100).

Na mesma direção estão as ideias de Safra (2009), ao afirmar que, para as teorias de
Freud e Melanie Klein, a criatividade “é um subproduto, é uma decorrência de algo (...),
decorrência do funcionamento psíquico”, ao passo que, em Winnicott, “falar que o ser
humano é originariamente criativo é explicar toda organização psíquica do ser humano como
decorrente da criatividade”.
De acordo com Winnicott, o ser humano não é mais compreendido “como se fosse um
aparelho, um aparelho psíquico, movido por forças (as pulsões) e uma energia (quantum de
afeto ou libido)” (FULGENCIO, 2016, p. 19). Desse modo, observa-se que, ao rejeitar a
experiência e considerar apenas fatores intrapsíquicos, as teorias de Freud e Klein não
abarcaram o tema da criatividade como Winnicott o fez – o que pode ser considerado uma
lacuna na apresentação do fenômeno –, isto é, considerando como um dos aspectos
primordiais as relações do bebê com o ambiente.

Segundo Freud, a criatividade do adulto está vinculada a sua teoria da sublimação.


Já para Melanie Klein, a criatividade associa-se a aspectos reparadores inerentes à
posição depressiva (que se estabelece algumas semanas ou meses após o
nascimento) (ABRAM, 2000, p. 84).

Desse modo, ainda que não concorde totalmente com as teorias, Winnicott aceita as
proposições de Freud e Klein acerca da criatividade. Porém, em sua teoria do
desenvolvimento há, por assim dizer, um incremento no que diz respeito ao fenômeno, ou
seja, uma criatividade que não mais tem a ver com sublimação ou reparação da destrutividade.
“Foi o Complexo de Édipo – o relacionamento entre três pessoas – e não a vulnerabilidade
dependente precoce do bebê o que Freud viu como o ponto crucial da Psicanálise”
(PHILLIPS, 2006, p. 28).
53

Assim sendo, as considerações feitas até aqui podem indicar a distinção de dois tipos
de criatividade: uma ligada à sublimação das pulsões, isto é, às teorias de Freud e Klein; e
outra, que não tem ligação com o fenômeno da sublimação, mas que depende da experiência
de onipotência no início da vida do indivíduo, que Winnicott denominou criatividade
originária.
Dito isso, em seguida será visto como as especificidades da teoria do desenvolvimento
emocional envolvem-se com o fenômeno da criatividade originária, para verificar de que
maneira Winnicott desenvolve algo que ainda não havia sido formulado na Psicanálise ao
elaborar o fenômeno da criatividade, e no que ele consiste.
54

CAPÍTULO 3: O CONCEITO DE CRIATIVIDADE ORIGINÁRIA NA OBRA DE D. W.


WINNICOTT

Foi visto como Freud e Klein trataram o tema da criatividade, bem como os principais
aspectos que caracterizam a teoria winnicottiana. Na primeira parte deste capítulo será visto,
de modo geral54, como tais aspectos se entrelaçam ao fenômeno da criatividade e,
posteriormente, serão realizadas sua descrição e categorização cronológica em três níveis de
análise: 1) Aspectos ontológicos; 2) Aspectos descritivos; 3) Aspectos clínicos.
Esse foi um caminho possível encontrado para compreender a construção do
fenômeno ao longo da obra de Winnicott, uma vez que ao realizar a leitura e investigar os
textos55 do autor que mencionam a criatividade, foi possível observar que o fenômeno está
relacionado a diferentes aspectos.
A fim de situar o leitor para a leitura deste capítulo e facilitar a compreensão de como
o tema foi construído, a seguir será apresentado um quadro, em que os textos estão dispostos,
cronologicamente, diferenciando os aspectos abordados.

3.1 Categorização cronológica dos textos sobre criatividade

No quadro a seguir serão apresentados os textos de Winnicott que se referem ao


fenômeno da criatividade, divididos nas categorias de análise – aspectos ontológicos,
descritivos e clínicos – e em ordem cronológica. A coluna intitulada “Ano W.” se refere ao
ano de publicação do texto de Winnicott, e a coluna “Ano K.H” ao ano de publicação, de
acordo com a classificação realizada por Knud Hjulmand (1999, 2007). Em seguida estarão os
aspectos analisados em três colunas. De acordo com a categoria de análise em que cada texto
se encaixa, um “X” é marcado na coluna correspondente.

54
O fenômeno da criatividade será examinado criteriosamente nos capítulos 3.3, 3.4 e 3.5.
55
Listados nas páginas 18 e 19.
55

Quadro 1 - Textos em ordem cronológica


Ano Ano
Título Ontológicos Descritivos Clínicos
W. K. H.
Desenvolvimento emocional primitivo 1945 1945d X
Necessidades ambientais; os estágios iniciais;
1948 1996k X
dependência total e independência essencial
Marion Milner- Nota crítica de On Not Being Able
1951 1951d X
to Paint
Objetos Transicionais e Fenômenos transicionais 1951 1953c X
W. R. D. Fairbairn - Resenha de Psycho-Analytic of
1953 1953i X
the Personality
Dorothy Burlingham - Resenha de A study of three
1953 1953e X
pairs of identical twins
A Tendência Antissocial 1956 1958c X
Psicanálise do sentimento de culpa 1956 1958o X
O primeiro ano de vida. Concepções modernas do
1958 1958j X
desenvolvimento emocional
O destino do objeto transicional 1959 1989i X
Da dependência à independência no
1963 1965r X
desenvolvimento do indivíduo
C. G. Jung - Resenha de Memories, Dreams,
1964 1964h X
Reflections
Uma nova luz sobre o pensar infantil 1965 1989s X
Autismo 1966 1996c X
A ausência de um sentimento de culpa 1966 1984b X
A localização da experiência cultural 1967 1967b X
O papel do espelho da mãe e da família no
1967 1967c X
desenvolvimento infantil
Interrelacionar-se independentemente do
impulso instintual e em função de identificações 1968 1968g X
cruzadas
Ilustração clínica de O uso de um objeto 1968 1989vt X
Sum: eu sou 1968 1984h X
Sobre o uso de um objeto - O uso de um objeto e
1968 1969i X
relacionamento através de identificações
Sobre os elementos masculinos e femininos ex-
1968-69 1972c X
cindidos (split-off) - Resposta a comentários)
Vivendo de modo criativo 1970 1986h X
O brincar: a atividade criativa e a busca do eu (self ) 1971 1971r X
A criatividade e suas origens 1971 1971g X
Estabelecimento da relação com a realidade
1988 1988 X
externa

Fonte: Elaborado pela autora, com base na bibliografia winnicottiana dos textos que abordam o tema da
Criatividade.
56

3.2 Especificidades do conceito de criatividade em Winnicott e seus comentadores

Em primeiro lugar, há uma distinção importante no que diz respeito à criatividade


artística – conforme se vê na definição de criatividade no senso comum – e à criatividade
como conquista do desenvolvimento emocional. Segundo Winnicott,

Ainda que aliadas ao viver criativo, as criações artísticas de cartas, escritores,


poetas, artistas, escultores, arquitetos, músicos, são diferentes. Vocês concordarão
que, se alguém está engajado numa criação artística, espera-se que tenha algum
talento especial. Mas para uma existência criativa não precisamos de nenhum talento
especial (1986h, p. 28).

A criatividade artística não pressupõe, necessariamente, cuidados suficientemente


bons nas etapas de dependência do indivíduo, enquanto a criatividade trazida por Winnicott se
refere às experiências satisfatórias de ilusão, na etapa de dependência absoluta que,
posteriormente, capacitam o bebê a vivenciar a desilusão e adentrar a área dos fenômenos
transicionais, que se desdobrará em outros modos de vivenciar o mundo. Abram confirma a
ideia de que “o ato criativo (como o pintar, o dançar, etc.) não é um sinônimo de viver
criativamente” (2000, p. 83). Segundo Dias,

A criatividade [originária] diz respeito não a algum fazer ou produção original ou


artística, mas ao modo como o indivíduo se relaciona com o sentido de realidade que
caracteriza um dado momento do amadurecimento; a isto se acresce, com o tempo, a
capacidade de transitar pelos vários sentidos de realidade sem perder o contato com
o seu mundo pessoal e imaginativo (2003, p. 169).

Essa capacidade do bebê, que depois pode ser vista por toda a vida do indivíduo, não
advém da sublimação, isto é, de um caminho possível para a pulsão sexual, mas da
experiência do contato com outro ser humano, que se predispõe a apresentar o mundo ao bebê
de modo que este passe a ser parte dele. Portanto, Dias (2003) irá afirmar que Winnicott funda
esse conceito na Psicanálise:

Alterando por completo a ideia de que o psiquismo é constituído, já de início, na


base de mecanismos mentais de projeção e introjeção, e, ainda, de que a criatividade
humana é tributária das pulsões sublimadas, Winnicott formula a ideia de uma
criatividade psíquica originária que é inerente à natureza humana e está presente
desde o início (p. 169).

Abram afirma que a criatividade originária “apresenta-se como um impulso inato que
se dirige à saúde e que está inevitavelmente vinculado a muitos dos temas que [Winnicott]
abordou” (2000, p. 84). Ou seja, se estabelece como um fenômeno que está ligado às fases de
dependência do bebê, e que, portanto, tem relação com a qualidade do cuidado e a
importância do ambiente (que no início é a própria mãe do bebê). O modo como o mundo é
apresentado ao bebê influenciará os modos deste de se relacionar com a realidade.
57

Newman afirma que a criatividade “mora no coração do vocabulário de Winnicott”


(2003, p. 112), pois o fenômeno, além de estar amalgamado a outros conceitos de sua teoria,
tem o intuito de explicar, teoricamente, como se dá a apresentação da realidade ao bebê, o que
irá construir a consciência de ser. Nesse sentido, a criatividade pode ser considerada a
abertura para a primeira relação do bebê com o exterior56, que confere a este a capacidade de
encontrar o mundo.
Como explicitado anteriormente57, no estágio da dependência absoluta ocorre uma
série de processos que caracterizam a adaptação total da mãe em relação ao bebê, o que
facilita a integração egoica deste. Suas sensações vão sendo impressas ao corpo e sua psique
pode habitá-lo de maneira a formar uma unidade psicossomática. A integração é atingida à
medida que o bebê começa a tomar contato com a realidade externa.
Winnicott descreve o momento em que o bebê vai em busca de algo, num impulso que
envolve a sua tensão instintiva e a sua vitalidade. Nesse ínterim, há a mãe que, identificada
com seu bebê, faz também um movimento, no sentido de entregar ao bebê aquilo que este
necessita – pode-se supor que seja o seio, por exemplo.
Enquanto o bebê tem impulsos instintivos (a fome, por exemplo), a mãe tem o que
pode prover o alimento (o seio), porém, é apenas quando os dois estão juntos que uma
experiência pode ocorrer. Tal experiência foi denominada por Winnicott “momento de
ilusão”58. Conforme afirma Dias, “a questão da ilusão – e, no início, da ilusão de onipotência
– é uma das contribuições básicas de Winnicott ao tema da constituição do si-mesmo e dos
sentidos de realidade” (2003, p. 173).
Winnicott afirma que a apresentação da realidade externa é papel inicialmente
exclusivo da mãe, e esta “tem como tarefa proteger seu bebê de complicações que ele não
pode entender ainda, e continuar a fornecer, de maneira uniforme, o pedacinho simplificado
de mundo que a criança, através dela, passa a conhecer” (1945d, p. 280).
Ou seja, o bebê sente que criou aquilo de que carecia – o seio, os objetos dos quais tem
necessidade, o mundo, enfim – quando, na realidade, já estavam lá antes de seu nascimento. A
capacidade da mãe (identificada com seu bebê, na condição de Preocupação Materna
Primária) de oferecer o alimento no momento em que o bebê tem a necessidade é justamente
o que fornece as bases para essa experiência de ilusão. Desse modo, Winnicott diz que a mãe

56
Do ponto de vista do observador, uma vez que no início não existe, para o bebê, uma realidade que seja “não-
eu”.
57
No capítulo 2.1.
58
Cf. Winnicott (1945d, p. 279).
58

“consegue dar ao bebê a ilusão de que aquilo que ele consegue e toma e encontra é aquilo que
ele criou a partir de seus próprios sentimentos, de seu poder de alucinar” (1996k, p. 52).
O autor ressalta que “é muito importante do ponto de vista teórico que o bebê crie esse
objeto, e o que a mãe faz é colocar o mamilo exatamente ali no momento certo para que seja o
seu mamilo que o bebê venha a criar” (1988, p. 123). Ao se adaptar prontamente às
necessidades de seu filho, a mãe fornece a ele as condições para a vivência da ilusão, isto é,
“de que esse seio real é exatamente a coisa que foi criada pela necessidade” (1947b, p. 101).
Ainda segundo ele,

A adaptação da mãe às necessidades do bebê, quando suficientemente boa, dá a este


a ilusão de que existe uma realidade externa correspondente à sua própria
capacidade de criar. Em outras palavras, ocorre a sobreposição entre o que a mãe
supre e o que a criança poderia conceber (1953c p. 27).

Assim, pode-se dizer que Winnicott presume a existência de uma criatividade


potencial59 que, à época da primeira mamada teórica60, pode ou não se manifestar, dependendo
da capacidade de adaptação da mãe do pequeno indivíduo. A ilusão de onipotência significa a
capacidade do bebê “alucinar”61 o objeto de que carecia – nesse caso, o seio – pois este se fez
presente justamente no momento da necessidade do bebê. Tal engrenagem, minuciosa e
complexa, define as bases do self do pequeno indivíduo e está relacionada aos sentidos que
ele pode dar à realidade, pois o que o bebê faz, no momento em que “alucina” o seio é
precisamente encontrar algo que ele mesmo criou.

O bebê vem ao seio quando excitado e pronto para alucinar algo apropriado para ser
atacado. Neste momento, o mamilo real aparece e ele é capaz de sentir que se trata
do mamilo que ele alucinou. Desta forma, suas ideias são enriquecidas por detalhes
reais de visão, sensação e cheiro e, da próxima vez, este material será usado na
alucinação. Deste modo, ele começa a construir uma capacidade de evocar o que é
realmente disponível (WINNICOTT, 1945d, p. 279).

Se o bebê está prestes a encontrar aquilo de que necessita, e está prestes a realizar um
movimento criativo, significa que a mãe – ou quem está realizando a função de cuidados com
este bebê – também está prestes a ser encontrada, pois sabe, ainda que intuitivamente, que sua

59
Winnicott (1988, p. 130).
60
O que ocorre nesse período pode ser caracterizado por um conjunto de minúcias que envolvem a adaptação
quase perfeita da mãe em relação ao seu bebê, e a capacidade deste de encontrar os objetos, no mundo externo,
que satisfazem sua necessidade no momento em que carece deles. “A primeira mamada teórica é representada na
vida real pela soma das experiências iniciais de muitas mamadas” (WINNICOTT, 1988, p. 126).
61
Ainda que Winnicott utilize o termo “alucinar”, para ele o bebê não dispõe de conteúdo mnemônico para tal
ação, uma vez que o que está sendo experienciado ocorre quando o bebê é imaturo emocionalmente. Dessa
forma, “as memórias são construídas a partir de inúmeras impressões sensoriais, associadas à atividade de
amamentação e ao encontro do objeto” (1988, p. 126). Posteriormente é que o bebê adquire a capacidade mental
de “alucinar” o seio no momento em que a mãe está prestes a apresentá-lo.
59

capacidade de identificação com o bebê é o que proporciona a satisfação da necessidade deste.


Por isso pode-se afirmar que “a capacidade para a experiência é, portanto, uma aquisição do
amadurecimento, que depende de um elemento imponderável: a facilitação ambiental” (DIAS,
2003, p. 124). Fulgencio fornece um panorama do que ocorre, do ponto de vista do bebê e do
observador, na experiência de ilusão:

Com a adaptação ambiental adequada, o bebê encontra o objeto que satisfaz suas
necessidades. Pode-se supor, para usar um exemplo didático, que o bebê necessite
mamar. Com a miríade de adaptações ambientais que uma mãe devota faz ao atender
seu bebê, este, pouco a pouco, tem a experiência de encontrar o objeto que satisfaz
sua necessidade ao mesmo tempo em que se integra num self que se relaciona com
esse objeto. Do ponto de vista do bebê, o objeto surgiu, como se fosse derivado de
sua necessidade, e poder-se-ia dizer que o bebê teria criado o objeto (seio) no qual
mama; do ponto de vista do observador, porém, o objeto foi fornecido ao bebê.
Nesse momento trata-se de, em um mesmo gesto (num mesmo conjunto de ações do
bebê e de ações adaptativas do ambiente) gerar tanto o objeto subjetivo (seio) quanto
o self que realiza a ação de mamar. É na ação criativa do bebê, sustentada pelo
ambiente, que surge, ao mesmo tempo, a experiência do self e o encontro com o
objeto (subjetivo, criado pelo bebê) (2014, pp. 189-190).

A mãe facilita o relacionamento do bebê com a realidade compartilhada. Na


experiência de ilusão, Winnicott afirma que “o que a mãe faz é colocar o mamilo exatamente
ali e no momento certo para que seja o seu mamilo que o bebê venha a criar. Não há dúvida
de que é muito importante para a mãe que o bebê descubra o mamilo desta forma criativa”
(1988, p. 123).
A partir dos cuidados que recebe da mãe – que atende às necessidades do bebê de
forma satisfatória –, este tem a ilusão de criar tudo o que percebe. Dessa forma, o indivíduo
consegue, mais tarde, se relacionar com a realidade externa sem perder o contato e o sentido
pessoal que dá à sua realidade interna, ou seja, seu “toque” singular à existência. A vivência
da ilusão de onipotência e, consequentemente, o desenvolvimento da criatividade originária,
se amplificam para os sentidos de realidade que o indivíduo dará ao mundo.
Apesar de requerer estar em contato com a realidade externa, a conquista da
criatividade leva o indivíduo a não negligenciar sua própria área de ilusão e, ao mesmo tempo,
a partir da desilusão, apreender os fenômenos da vida baseado em uma visão própria,
conferindo, assim, idiossincrasias à sua maneira de ser. Phillips comenta sobre a relação entre
a realidade externa e a capacidade para iludir-se.

Uma vez que a realidade externa exige submissão ou aquiescência, ela seria,
escreveu Winnicott, o “arqui-inimigo da espontaneidade, da criatividade e do
sentido de real”. O Princípio de Realidade, como “o fato de que o mundo existe se o
bebê criá-lo ou não”, podia ser experienciado apenas, ele escreveu, “como um
insulto”. Mas se a mãe deu a seu bebê a oportunidade para a ilusão e dosou sua
experiência de realidade, a realidade tem o potencial tanto de nutrir quanto de
60

confortar. Ela representa, para a criança em crescimento, um convite promissor


(2006, p. 128).

Nesse sentido, Newman afirma que “viver criativamente, para Winnicott, significava a
capacidade, paradoxalmente desenvolvida junto aos pais, no início, de não ser morto ou
aniquilado sistematicamente pela submissão” (2003, p. 113). Não ser aniquilado significa que
a continuidade de ser é preservada, pois o que ocorre na experiência de onipotência, “sendo
pautado pelo ritmo do bebê e derivando do gesto espontâneo” (DIAS, 2003, p. 124) é
agregado à experiência do bebê.
O que Winnicott irá diferenciar é que não é o fato de ter nascido que faz com que o
indivíduo saiba que existe, como uma “percepção consciente”. É por isso que afirma que
“para ser criativa, uma pessoa tem que ter um sentimento de existência (...), como uma
posição básica a partir da qual operar” (1986h, p. 23). Isto pode ser definido como um
sentimento de familiaridade com o mundo, ou seja, uma sensação, por parte do bebê, de que o
mundo funciona como uma espécie de extensão sua, porque faz sentido, uma vez que foi
criado (apresentado) por ele de modo a não interromper sua continuidade de ser.

O contato com a realidade depende fundamentalmente da criatividade, sem a qual


nenhuma realidade, nem mesmo a externa – e, talvez, sobretudo, não a externa –
pode ser alcançada ou ter significado. A realidade que aqui está concernida não é a
do princípio da realidade, tal como postulado por Freud, mas a do sentimento de real
que está fundado na ilusão (DIAS, 2003, p. 241).

Por outro lado, quando o ambiente não é capaz de se adaptar às necessidades do bebê
e, portanto, a ilusão de onipotência não pode ocorrer de maneira satisfatória, fornecendo ao
bebê a sensação de que ele encontrou no mundo o que carecia, “o sentimento de real”, ou o
modo como o indivíduo se relaciona com a realidade fica prejudicado. Winnicott irá dizer que
“a realidade permanece algo que nunca pode ser aceito de maneira completa” (1996k, p. 53).
Isto ocorre pois, segundo o autor,

Acontece uma cisão da personalidade num nível muito inicial, que é um dos
significados da palavra esquizofrenia. Aqui, a criança tem duas relações com a
realidade externa. Numa delas existe uma submissão, o tomar numa base submissa,
e na outra uma experiência puramente imaginária com uma realidade imaginada
(1996k, p. 52).

Dias (2003) reitera que, ao não vivenciar a ilusão de onipotência, alguns indivíduos,
sem “uma base para ser”, podem ter um sentimento de que o mundo e as experiências vividas
não fazem sentido. “Diz-se, em geral, que essas pessoas não aprendem com a experiência,
mas, talvez, seja ainda mais exato dizer que elas não são capazes de viver experiências” (p.
124).
61

Ou seja, na experiência de ilusão de onipotência o que é criado é um modo de ser dado


pelo bebê. É a partir dessa comunicação sutil entre mãe e bebê que surge o mundo e o si-
mesmo (o self). A criatividade pode ser vista como “o fazer que, gerado a partir do ser, indica
que aquele que é está vivo” (WINNICOTT, 1986h, p. 23), pois diz respeito ao gesto
espontâneo do bebê, que parte de um movimento do self, e não de uma reação ao ambiente
intrusivo. O bebê tem a capacidade de, não precisando se defender de intrusões, manifestar
uma busca que é própria. Dessa forma, o self surge a partir da experiência do bebê com um
mundo que o encontra, no exato momento em que ele procura pelo mundo.

A natureza profunda do processo de amadurecimento nessas fases iniciais é a de um


viajar, sem sair de si, de um transitar, dentro de si, de um acontecer, em si mesmo,
de um temporalizar-se, a partir de si mesmo. Viajar de onde para onde? Não de um
objeto a um outro objeto, mas de um sentido de realidade ao outro. A saber, da
experiência não representacional dos objetos subjetivos e da realidade subjetiva à
experiência, mediatizada representacionalmente, da realidade externa objetiva,
datada e cronometrada, passando, antes disso, pela experiência paradoxal da
mudança do sentido de realidade objetiva de subjetiva em externa, mudança que se
dá no espaço e tempo do brincar e que expõe o bebê a um tipo de realidade que
poderíamos chamar de transicional (LOPARIC, 1995, p. 55).

À medida que a criança cresce, o sentimento de que foi ela quem criou o mundo não
desaparece, simplesmente, mas se transforma. Tendo vivenciado a dependência absoluta de
forma satisfatória, a experiência de ilusão é substituída pela transicionalidade e,
posteriormente, pela cultura. O processo de viver no mundo passa a ser visto como familiar,
existindo espaço para a possibilidade de contribuir com este e se adaptar, sem que necessite
abrir mão de sua “essência”, por assim dizer.

Um milhar de vezes houve a sensação de que o que era querido era criado e
constatado que existia. Daí se desenvolve uma convicção de que o mundo pode
conter o que é querido e preciso, resultando na esperança do bebê em que existe uma
relação viva entre a realidade interior e a realidade exterior, entre a capacidade
criadora, inata e primária, e o mundo geral, que é compartilhado por todos
(WINNICOTT, 1947b, p. 101).

Vê-se, portanto, para o indivíduo, a possibilidade de formação de um núcleo criativo,


na saúde, como um modo de construir um self verdadeiro, por meio do qual poderá se
relacionar com os outros de forma verdadeira e, sobretudo, viver, adoecer e morrer de forma
verdadeira. Nos cadernos autobiográficos de Winnicott62 nota-se uma passagem que diz
respeito ao que, para ele, seria o intuito do indivíduo, “o ato definitivo de não submissão”
(PHILLIPS, 2006, p. 47), em que ele escreve: “Oh, Deus! Possa eu estar vivo quando morrer”
(1978, p. 3).

62
Intitulado Nada Menos que Tudo.
62

3.3 Aspectos ontológicos da criatividade

A criatividade está ligada à questão ontológica na medida em que expressa a


capacidade – concedida através dos cuidados da mãe-ambiente – do bebê (e, posteriormente,
da criança maior) de criar um sentido para o mundo. Tal conquista está diretamente ligada à
fundação do self unitário do indivíduo. Esse sentido do mundo é dado ao bebê pela mãe, ao
atender suas necessidades no momento em que estas se fazem presentes e, na fase de
dependência relativa, apresentar o mundo em pequenas doses63, de modo que os objetos
transicionais possam substituir a ilusão de onipotência que caracterizava o tipo de relação
entre mãe e bebê durante a dependência absoluta.

O estudo do desenvolvimento emocional em suas primeiríssimas fases demonstrou


que o bebê tem sua existência inicial pautada na total dependência naquele que o
gerou e acolheu, assim como verificou a existência de uma tendência inata que
possibilita o desenvolvimento em direção a um vir a ser independente. A fim de
criar bases para que esse desenvolvimento ocorra, torna-se necessário que condições
ótimas e naturais sejam a tônica de suas experiências, para que, dessa forma, o bebê
possa tornar atuante aquilo que trouxe em potência (CICCONE, 2013, p. 39).

A partir dos cuidados recebidos e na medida em que as experiências são vivenciadas e


agregadas ao self do bebê, um sentimento de unidade poderá emergir. Tendo em vista os dois
pressupostos básicos da teoria do autor, a tendência inata à integração e a existência de um
ambiente que facilite essa tendência, Winnicott declara que “no início, antes que cada
indivíduo crie o mundo novamente, existe um simples estado de ser, e uma consciência
(awareness) incipiente da continuidade do ser e da continuidade do existir no tempo” (1988,
p. 157).
Como foi apresentado anteriormente, o bebê não tem uma consciência de ser pelo
simples fato de ter nascido. Para Winnicott, o que existe é uma tendência para realizar essa
potência, de ser e continuar sendo. A consciência de ser se consolida através das contínuas e
repetidas experiências que o bebê tem junto à mãe: no início, o estabelecimento do contato
entre mãe e bebê é pautado na ilusão de onipotência, em que o bebê tem a ilusão de que criou
o mundo, pois sua necessidade é atendida (do ponto de vista do observador) no momento em
que surge. Em etapa posterior, na criança um pouco maior, tem-se a experiência da
transicionalidade, que religa o indivíduo ao mundo externo através de um fenômeno que
funciona como um paradoxo que não deve ser resolvido, mas aceito64.

63
Referência ao texto de Winnicott com esse título (1949m).
64
“Minha contribuição é solicitar que o paradoxo seja aceito, tolerado e respeitado, e não que seja resolvido”
(Winnicott, 1953c, p.10).
63

A criatividade está relacionada a esses fenômenos como experiência que irá fundar o
sentimento de ser, sendo, portanto, o que se pode chamar de estatuto ontológico. Dito isso, os
textos inseridos nessa categoria, em ordem cronológica, são aqueles que se referem à
criatividade como fundamento da questão do ser, tendo como base, principalmente, a
experiência de ilusão.
No primeiro texto, “Desenvolvimento emocional primitivo”, de 1945, Winnicott
define seu caminho teórico da seguinte forma: “interessado primariamente no paciente
infantil, decidi que deveria estudar a psicose na análise” (1945d, p. 269). Ele quer examinar
de que maneira os estágios primitivos podem se relacionar à psicopatologia da psicose, e
mescla suas proposições com alguns casos clínicos para ilustrar os efeitos de um
desenvolvimento emocional primitivo insatisfatório na vida adulta.
Apesar de descrever casos clínicos, o interesse principal do autor se volta para a
adaptação à realidade. Isso é observado quando apresenta a seguinte questão: “em que época
começam a ocorrer coisas importantes?” (p. 273). Winnicott se dedica a compreender como
um bebê é capaz de vivenciar algo que diz respeito apenas à sua realidade interna e, aos
poucos, estabelecer contato saudável com o mundo exterior. Trata-se de um processo bastante
complexo, e pode-se resumir que o trabalho realizado pelo autor é o de descrever o valor da
ilusão, como se vê no trecho a seguir:

Vejo o processo como se duas linhas viessem de direções opostas, com a


possibilidade de se aproximarem uma da outra. Se elas se sobrepõem, há um
momento de ilusão, uma experiência que o bebê pode tomar ou como alucinação
sua, ou como algo que pertence à realidade externa (1945d, p. 279).

É nesse paradoxo que se inicia a percepção objetiva: por meio da experiência de


ilusão. Ao afirmar que “o subjetivo tem um valor enorme mas é tão alarmante e mágico que
só pode ser fruído paralelamente à realidade objetiva” (1945d, p. 280), observa-se que o
“objetivo” referido pelo autor seria a mãe, que fornece parcelas inteligíveis do mundo exterior
ao bebê, e que por estar identificada com ele não o faz de acordo com as suas próprias
necessidades, ou guiada por sua ansiedade. Nesse texto, a criatividade ainda não é
mencionada, mas sim a experiência que a favorece, isto é, a ilusão de onipotência.
Portanto, é nesse sentido que se pode dizer que a descrição realizada nesse texto pelo
autor é trazida em termos ontológicos, pois diz respeito à experiência da ilusão, experiência
esta que favorece o surgimento do self, um sentimento de existência a partir de uma posição
subjetiva, um estar e, posteriormente, sentir-se parte do mundo, que é o que se observa na
conquista de um viver criativo.
64

Em 1951, Winnicott escreve uma nota crítica do livro de Marion Milner “On Not
Being Able to Paint”. Apesar do título65, o livro não se trata de saber ou não pintar, mas,
segundo Winnicott, sobre “a maneira subjetiva de experienciar” (1951d, p. 299).
Milner escreve: “conceitos nunca podem ser simplesmente apresentados a mim; eles
têm de ser entrelaçados na estrutura do meu ser, e isto só pode ser feito através de minha
própria atividade” (MILNER apud WINNICOTT, 1951d, p. 299). Percebe-se que a autora
está descrevendo, de modo poético, a experiência criativa, que consiste em o indivíduo
encontrar no mundo aquilo que foi criado, em primeiro lugar, subjetivamente. A autora
ressalta o uso da subjetividade como auxiliar à objetividade, pois afirma que a primeira pode
ser a base para a segunda.
Winnicott parece fascinado pela maneira como Milner concede lugar especial à
subjetividade humana e sua importância para a vida, e concorda com ela ao afirmar que “na
Pintura, na Escrita, na Música, etc., um indivíduo pode encontrar ilhas de paz e, dessa
maneira, obter um alívio momentâneo quanto ao transe primário dos seres humanos sadios”
(1951d, p. 300). As “ilhas de paz” mencionadas pelo autor podem ser os modos através dos
quais os indivíduos, singularmente, se relacionam com a realidade externa, o que se liga à
experiência criativa.
Percebe-se que esse texto não descreve o conceito de criatividade, mas o insere no
contexto da subjetividade, trazido pela autora, assim como faz menção a ele: “ela [Marion
Milner] deseja fazer uma declaração ainda mais fundamental a respeito da criatividade. Ela
quer dizer que esta resulta do que é, para ela, o transe humano primário” (1951d, p. 300).
Nessa passagem, Winnicott se refere ao momento em que mãe e bebê vivem juntos
uma experiência que concede ao mundo externo o que havia sido criado ilusoriamente, o
transe humano primário. O texto se enquadra no ponto de vista ontológico, uma vez que o
que parece chamar a atenção de Winnicott no texto de Milner é a capacidade da autora de
descrever o que está ligado à vivência gratificante da experiência de ilusão.
No texto “A ausência de um sentimento de culpa”, de 1966, Winnicott relaciona a
ausência desse sentimento às personalidades antissociais66. Nessas, houve um bom início para
a criança, em termos de cuidados ambientais, mas, por isso ter se perdido, uma defesa se
estruturou e deu origem aos atos antissociais, como o furto.

65
“Sobre não ser capaz de pintar”.
66
Para aprofundamento neste conceito recomenda-se a leitura do trabalho “A tendência antissocial em D. W.
Winnicott” (GARCIA, 2004).
65

Winnicott retoma a importância da ilusão de onipotência nos estágios iniciais do bebê


para o desenvolvimento da capacidade de sentir culpa – que, por sua vez, está ligada à
possibilidade da ambivalência, ou seja, amar e odiar o mesmo objeto.

Toda criança precisa tornar-se capaz de criar o mundo (a técnica adaptativa da mãe
faz com que isso seja sentido como um fato), caso contrário o mundo não terá
significado. Todo bebê precisa ter suficiente experiência de onipotência para tornar-
se capaz de ceder a onipotência à realidade externa ou a um princípio-Deus (1984b,
p. 125).

Com essa afirmação, Winnicott compreende que a capacidade de sentir culpa se


origina nos primórdios da vida do indivíduo, em que, na saúde, este tem a oportunidade –
juntamente aos fatores hereditários e à tendência inata à integração – de contar com um
ambiente facilitador, que favoreça o sentimento de que o mundo foi criado por ele.
“O bebê cria o objeto com que se relaciona, mas o objeto já existia, de modo que, num
outro sentido, o bebê descobriu o objeto e depois o criou” (1984b, p. 125). A isso Winnicott
denomina uma espécie de sentimento de que o bebê é um impostor, se se considera o fato de
que ele cria algo que já estava lá antes de ele nascer.
Aqui, o fenômeno da criatividade é trazido em relação à ontologia, uma vez que
Winnicott parte da negatividade para explicar como surge o sentimento de ser. Isso significa
que o bebê precisa ser suficientemente bem cuidado para que, a partir do não ser criativo,
surja o encontro com os objetos, que se dá através da criação destes. “É a partir de não ser
criativo, de estar isolado, que a criação de objetos e do mundo passa a ter um significado. O
prazer da companhia só existe como um desenvolvimento a partir do isolamento essencial”
(1984b, p. 125). Dias esclarece a questão da negatividade da seguinte forma:

Emergindo do não-ser, ele é lançado na vida e não há nenhum fundamento


discernível para o seu existir. A sua única determinação, estrutural e vazia de
conteúdos, é o estar vivo e a tendência ao amadurecimento, à integração numa
unidade. Mas essa tendência depende do que vier a acontecer, podendo, inclusive,
fracassar (2003, p. 151).

Desse modo, se há um ambiente que favoreça o desenvolvimento do bebê, há o espaço


para que este encontre no mundo objetivo os objetos que criou subjetivamente e, assim, tenha
uma existência criativa, o que envolve, dentre outras conquistas, a capacidade de sentir culpa.
Nesse texto, releva-se o valor da ilusão e de que modo isso se relaciona ao sentimento
de ser, pois, conforme afirma o autor “há pessoas que passam toda a vida não sendo, num
esforço desesperado para encontrar uma base para ser” (1984b, p. 125). Assim, o aspecto
ontológico do fenômeno da criatividade é o que se destaca.
66

Em 1968-69, Winnicott redige “Sobre os elementos masculinos e femininos ex-


cindidos (split-off) - Resposta a comentários)”, em que responde comentários sobre o texto
que leu no Encontro Científico da Sociedade Psicanalítica Britânica67. Uma certa ousadia e, ao
mesmo tempo reconhecimento ao trabalho de outros analistas, tem lugar em Winnicott, ao
afirmar: “Quero chegar de maneira nova a um conceito que, fora de dúvida, tem raízes nos
textos de outros analistas” (1972c, p. 150).
Todos os fenômenos descritos nesse texto, em relação ao caso clínico que apresentou,
têm como pano de fundo a experiência de onipotência do bebê e, posteriormente, o
relacionamento deste com a realidade externa. Como já é sabido, o segundo padrão dependerá
da qualidade das experiências do primeiro, ou seja, seguirá os moldes de seu primeiro
relacionamento com a mãe, ou com a realidade interna. Estas experiências iniciais serão as
bases para o desenvolvimento da capacidade de ser criativo.
No texto “A criatividade e suas origens”, de 1971, Winnicott pretende trazer a
referência geral do tema da criatividade, no intuito de que esta não seja reduzida à produção
artística. Nesse sentido, afirma que “É através da apercepção criativa, mais do que qualquer
outra coisa, que o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida” (1971g, p. 95).
A fim de explicitar de maneira mais profunda o que significa o viver criativo,
Winnicott traz a descrição do padrão de submissão que caracteriza o viver não-criativo. No
estado de saúde, a criatividade se manifestaria, e a submissão seria o padrão instaurado
quando há uma doença.
O fator ambiental é imprescindível para que se possa compreender de que modo um
padrão, saudável ou doente, foi estabelecido na vida do indivíduo. Clinicamente falando, o
psicanalista afirma que essas pessoas procuram ajuda psicoterápica por sentirem a
necessidade de alcançar um estatuto unitário, pois a criatividade à qual se refere está ligada ao
sentimento de ser.

O impulso criativo, portanto, é algo que pode ser considerado como uma coisa em
si, algo naturalmente necessário a um artista na produção de uma obra de arte, mas
também algo que se faz presente quando qualquer pessoa – bebê, criança,
adolescente, adulto ou velho – se inclina de maneira saudável para algo ou realiza
deliberadamente alguma coisa, desde uma sujeira com fezes ou o prolongar do ato
de chorar como fruição de um som musical (p. 100).

Portanto, a mãe suficientemente boa oferece um ambiente que se adapta ao bebê, no


sentido de conferir a este a ilusão de que a sua necessidade criou aquilo de que carecia, em um

67
Winnicott apresenta um material clínico que se encontra em “Sobre os elementos masculinos e femininos ex-
cindidos (split-off) - [II - Material clínico]” (WINNICOTT, 1989vp).
67

dado momento. É dessa forma que Winnicott confere à vivência da ilusão de onipotência, na
fase de dependência absoluta, caráter primordial para o desenvolvimento do viver criativo.
No viver submisso, em que não há criatividade, é possível comparar o funcionamento
desses indivíduos, indicados por Winnicott como esquizoides, ao dos bebês. “Trata-se de
descobrir aqui uma maneira de estudar a perda, pelos indivíduos, de um ingresso criativo na
vida ou da primeira abordagem criativa aos fenômenos externos. Estou interessado na
etiologia” (1971g, p. 99). A criatividade referida por Winnicott diz respeito à maneira como o
indivíduo se relaciona com a realidade externa, que se estabelece no início da vida. Pode-se
resumir o que é explicitado por Winnicott, nesse texto, em relação à criatividade, da seguinte
maneira:

Descobrimos que os indivíduos vivem criativamente e sentem que a vida merece ser
vivida ou, então, que não podem viver criativamente e têm dúvidas sobre o valor do
viver. Essa variável nos seres humanos está diretamente relacionada à qualidade e à
quantidade das provisões ambientais no começo ou nas fases primitivas da
experiência de vida de cada bebê (1971g, pp. 102-103).

Segue uma explanação sobre de que modo a criatividade se faz uma qualidade comum
em homens e mulheres, e a descrição de um caso clínico, no qual Winnicott se mostra
extremamente surpreendido com o resultado de uma atitude sua e a resposta positiva do
paciente em relação a ele. Dessa forma, intitula “elemento feminino puro” o que percebera, a
“dissociação entre o homem ou mulher e o aspecto da personalidade que tem o sexo oposto”
(p. 108), e como isto levava “à aceitação da bissexualidade como qualidade da unidade ou eu
(self) total” (p. 108).
No paciente citado, Winnicott percebe que o elemento feminino puro que havia sido
expelido pode encontrar, na análise, uma unidade, o que forneceu certo sentido à vida do
paciente. Assim, constrói uma teoria dos elementos masculinos e femininos, em homens e
mulheres, ressaltando a possibilidade de esses elementos estarem dissociados, em alguns
casos. Winnicott irá afirmar que o elemento chamado masculino tem relação com o fazer, e o
elemento feminino tem relação com o ser, e completa: “à medida que o bebê cresce, nenhum
sentimento do eu (self) surge, exceto na base desse relacionamento no sentimento de SER” (p.
114).

O viver criativo está associado à união dos elementos masculino e feminino à


capacidade de ser e fazer, sendo necessário que surjam nessa sequência. Winnicott
conclui que a dissociação dos elementos masculino e feminino impede o indivíduo
de viver criativamente, embora devamos estabelecer uma diferenciação entre isto e a
identidade de gênero (ABRAM, 2000, p. 94).
68

Portanto, observa-se que o autor pretende deixar claro ao leitor, mais uma vez, a
relevância dos estágios iniciais do desenvolvimento para o estabelecimento da capacidade
criativa. Em outra afirmação, diz “ou a mãe possui um seio que é, de maneira que o bebê
também pode ser (...) ou então a mãe é incapaz de efetuar essa contribuição, caso em que o
bebê tem de se desenvolver sem a capacidade de ser, ou com uma capacidade mutilada de ser”
(1971g, p. 116).
Ao desenvolver sua teoria dos elementos femininos e masculinos, chega à seguinte
conclusão: “o estudo do elemento feminino, puro, destilado e não-contaminado, nos conduz
ao SER, e constitui a única base para a autodescoberta e o sentimento de existir” (p. 117).
Winnicott está interessado, portanto, no ponto de partida do indivíduo, no sentimento de ser e
no valor da ilusão, o que auxilia na declaração de que esse texto se inclui no aspecto
ontológico para a compreensão do fenômeno da criatividade.
No texto “Estabelecimento da relação com a realidade externa”68 Winnicott retoma
elementos importantes de sua teoria – além dos principais aspectos do que denominou
“primeira mamada teórica” – de maneira didática e explicativa. Descreve os estados
tranquilos e excitados do bebê69, e destaca este último como o momento em que o bebê faz um
movimento para alcançar algo, momento em que se abre a possibilidade de ser criativo, caso
haja, através da identificação materna, a satisfação de suas necessidades. Segundo ele, quando
o bebê vai em busca de algo, num impulso que envolve a sua tensão instintiva e a sua
vitalidade, “está pronto para ser criativo” (1988, p. 122).
Antes de o bebê ser capacitado para tolerar a desilusão, primeiramente deve haver a
ilusão de que o mundo foi criado por ele. Da mesma forma, antes que o relacionamento com a
realidade externa se dê, um relacionamento entre mãe e bebê deve ser estabelecido.
Isso significa que o relacionamento se forma gradualmente, com a mãe adaptada às
necessidades e dedicada aos cuidados com bebê – processo que não ocorre sem falhas. Nesse
ponto, Winnicott elabora uma ressalva aos médicos e profissionais da saúde que auxiliam as
mães e seus bebês.

É muito comum encontrarmos enfermeiras que, com a melhor boa vontade do


mundo, pegam um bebê bem embrulhado num cobertor, a ponto de ficar com as
mãos presas, e empurram a sua boca para o seio declarando abertamente que elas
estão decididas a fazer o bebê mamar (1988, p. 124).

68
Este texto compõe o compilado das ideias da teoria winnicottiana, o livro “Natureza Humana” (1988),
publicado após o falecimento de Winnicott.
69
Para aprofundamento em relação aos estados tranquilos e excitados, cf. Dias (2003, pp. 174-196).
69

Nota-se, nessa afirmação, o posicionamento de Winnicott em relação à importância de


deixar que o bebê descubra o seio, no momento em que advém o impulso instintivo, pois é
justamente isso o que fará com que o seio tenha “existência real” (p. 124).
Na passagem da etapa de dependência absoluta para dependência relativa, no estado de
saúde, à medida que a mãe se desadapta gradualmente com relação às necessidades do bebê,
este sente que pode encontrar o objeto fruto de sua necessidade (que, a essa altura, foi
transformada em desejo) e, por isso, é capaz de suportar a ausência desse objeto.
Portanto, a mãe pode demorar um pouco mais do que no estágio anterior para
responder à solicitação do bebê, pois, conforme afirma Winnicott “o reconhecimento gradual
que o bebê faz da ausência de um controle mágico sobre a realidade externa tem como base a
onipotência inicial transformada em fato pela técnica adaptativa da mãe” (1988, p. 126).
Porém, quando o bebê não pode vivenciar os efeitos dos impulsos instintivos,

Em vez do relacionamento com a realidade exterior atenuado pela utilização


temporária da onipotência ilusória, desenvolvem-se dois tipos diferentes de relação
objetal, que podem existir desconectados um do outro a ponto de constituir uma
grave doença, que eventualmente se fará notar na forma clínica conhecida como
esquizofrenia (1988, p. 128).

A primeira maneira de se relacionar está ligada ao self verdadeiro, que constitui a base
da capacidade de criar, e a segunda diz respeito a um padrão de adaptação que se caracteriza
pela submissão, descrito como falso self. “No grau extremo de cisão, a criança não tem
qualquer razão para viver. Nos níveis menos elevados existe um certo sentimento de
futilidade relativo à vida falsa” (p. 128).
Winnicott se pergunta se há uma “criatividade primária”, e parece buscar uma relação
entre os fenômenos que são primitivamente vivenciados pelo bebê, que foram descritos até
agora, e aquilo que se encaminha para uma espécie de produto da criatividade originária.

Se existe um verdadeiro potencial criativo, podemos esperar encontrá-lo em


conjunto com a projeção de detalhes introjetados em todos os esforços produtivos, e
devemos reconhecer a criatividade potencial não tanto pela originalidade da sua
produção, mas pela sensação individual de realidade da experiência e do objeto
(1988, p. 130).

Portanto, a criatividade está relacionada ao que confere sentido às experiências e, ao


mesmo tempo, propicia a comunicação entre a singularidade do indivíduo e o mundo,
permitindo que haja conexão entre sua vivência de ilusão e a percepção da realidade objetiva.
Um resumo é apresentado no final desse escrito, em que o autor retoma a necessidade
da adaptação quase completa da mãe nos primeiros meses de vida do bebê, uma vez que será
essa adaptação a responsável por conferir ao bebê a capacidade de se iludir, ou seja, de
70

imaginar que foi ele quem criou o mundo. Quando essa capacidade for estabelecida, o bebê
terá recursos para seguir sem necessitar da mãe inteiramente adaptada e, assim, reconhecer a
existência da solidão essencial70.
Nesse sentido, Winnicott declara que é como se o bebê pudesse dizer, ao crescer: “eu
sei que não há nenhum contato direto entre a realidade externa e eu mesmo, há apenas uma
ilusão de contato, um fenômeno intermediário que funciona muito bem para mim quando não
estou muito cansado” (1988, p. 135). Da mesma maneira, os efeitos de um padrão de falhas
adaptativas por parte da mãe podem ser um sentimento de irrealidade e futilidade – causado
pela incapacidade de dotar o mundo de sentido pessoal –, e, nos casos extremos, uma doença
esquizoide.
Aqui, encontra-se uma explicação detalhada dos processos que envolvem os estágios
de dependências do bebê e, junto a isso, uma descrição da criatividade primária como um dos
resultados da vivência saudável desses processos. Vê-se que o fenômeno da criatividade faz
parte do estatuto ontológico do ser, e está amalgamado a diversos outros fenômenos da teoria
winnicottiana.

3.4 Aspectos descritivos da criatividade

Com a leitura dos textos, pode-se observar que Winnicott traz, por vezes, a criatividade na
etapa da dependência absoluta, na dependência relativa, na transicionalidade, na etapa do uso
do objeto, na adolescência, na idade adulta, etc. Portanto, constata-se que o fenômeno da
criatividade pode se manifestar em diversos momentos do desenvolvimento do indivíduo.
Nesse tópico, estão localizados os textos, em ordem cronológica, que trazem o fenômeno
da criatividade em relação às diferentes etapas do desenvolvimento emocional do indivíduo
da teoria de Winnicott.
Em 1951, Winnicott escreve sua primeira hipótese acerca dos objetos transicionais,
que viria a ser publicada em 1953 como “Objetos transicionais e fenômenos transicionais”,
primeiro capítulo de seu livro “O brincar e a realidade”. Nessa, ele sugere que há uma ligação
entre dois grupos de fenômenos que acontecem após o nascimento e após alguns meses de
vida do bebê.
Esses fenômenos, que segundo Caldwell (2007) “Winnicott atribui, de maneira
imprecisa, aos 4-12 meses” (p. 10), são descritos como o uso do punho, dedos ou polegar e,

70
A solidão essencial é procurada por todo ser humano como um estado de completude; situação passível de ser
experienciada na relação com o outro ou na realização de atividades nas quais o indivíduo está amalgamado (tal
como o bebê com a mãe); diz respeito à criação, seja esta de natureza artística ou não (FULGENCIO, 2016, pp.
48-49).
71

posteriormente, o objeto que é adotado pelo bebê, como um paninho, uma boneca, etc., que o
acompanha durante grande parte do tempo, especialmente quando o bebê encontra-se longe da
mãe. Winnicott intitulou “transicionais” esses objetos e fenômenos que caracterizam a área
intermediária, entre o bebê e a mãe.

Trata-se de uma área que não é disputada, porque nenhuma reivindicação é feita em
seu nome, exceto que ela exista como lugar de repouso para o indivíduo empenhado
na perpétua tarefa humana de manter as realidades interna e externa separadas, ainda
que inter-relacionadas (1953c, p. 15).

Os sentidos de realidade dizem respeito ao modo como o mundo foi apresentado, de


maneira que existem aquelas pessoas que não são capazes de distinguir seu mundo
imaginativo da realidade, ou aquelas que sentem que o mundo real é monótono e sem sentido.
Winnicott irá dizer que “a criança com sorte” é apresentada ao mundo de tal maneira que este
“se conjuga com sua imaginação e, assim, o mundo é entretecido na própria contextura da
imaginação, enriquecendo-se a vida íntima do bebê com o que é percebido no mundo externo”
(1949m, p. 81).
À medida que perdem o significado original, os objetos transicionais se ampliam
durante a vida, “entre a ‘realidade psíquica interna’ e o ‘mundo externo, tal como percebido
por duas pessoas em comum’, isto é, por todo o campo cultural” (1953c, p. 19). Assim, se
estendem para o brincar, a criatividade, a Arte, o sentimento religioso, o sonhar, etc. Ao
avaliar e diferenciar a natureza dos objetos dos quais o bebê se apossa, Winnicott faz, então,
referência à “atividade criativa primária”:

A área intermediária da experiência, entre o polegar e o ursinho, entre o erotismo


oral e a verdadeira relação de objeto, entre a atividade criativa primária e a projeção
do que já foi introjetado, entre o desconhecimento primário de dívida e o
reconhecimento desta (1953c, p. 14, itálico nosso).

A área intermediária, na qual se localizam os fenômenos transicionais, se forma a


partir da área de ilusão, isto é, da experiência do bebê de que foi ele quem criou o objeto.
Assim, quando a fase de desilusão se instaura, os fenômenos transicionais podem se instalar71.

A mãe sabe qual o primeiro objeto que o bebê ama – uma ponta do cobertor ou
brinquedo macio – pois para ele isso constitui quase uma parcela do seu eu e, se for
retirado ou lavado, as consequências serão desastrosas. Quando o bebê principia a
ser capaz de arredar essas e outras coisas (esperando que elas sejam apanhadas e
devolvidas, claro), a mãe já sabe que chegou o momento em que poderá começar a
afastar-se e a voltar com a anuência do filho (1949m, p. 81).

71
Winnicott sugere que os fenômenos transicionais se instauram por volta dos quatro a seis aos oito a doze
meses de idade.
72

Winnicott apresenta uma explicação acerca da experiência de ilusão, que forma a base
para os fenômenos transicionais, e o faz em duas figuras, apresentadas abaixo.

Na primeira figura é apresentada a experiência de ilusão. “A mãe, no começo, através


de uma adaptação quase completa, propicia ao bebê a oportunidade para a ilusão de que o seio
dela faz parte do bebê, de que está, por assim dizer, sob o controle mágico do bebê. (...) A
onipotência é quase um fato da experiência” (p. 26). Na segunda figura, “dá-se uma forma à
área da ilusão, para ilustrar o que considero a principal função do objeto transicional” (p. 27).
Para explicar a ideia contida na primeira figura, Winnicott afirma:

Em algum ponto teórico, no começo do desenvolvimento de todo indivíduo humano,


um bebê, em determinado ambiente proporcionado pela mãe, é capaz de conceber a
ideia de algo que atenderia à crescente necessidade que se origina da tensão
instintual. Não se pode dizer que o bebê saiba, de saída, o que deve ser criado
(1953c, p. 27).

Os fenômenos transicionais auxiliam na compreensão do ser humano como aquele que


é capaz de transitar entre a realidade subjetiva, quase incomunicável, e o mundo
compartilhado, para o qual não se pode comunicar ou reivindicar as coisas exatamente como
são sentidas no mundo interno. Além disso, ajudam na compreensão do papel das artes e da
religião, por exemplo, nesse processo de “vai e vem” entre realidade interna e externa.

Desde o nascimento, portanto, o ser humano está envolvido com o problema da


relação entre aquilo que é objetivamente percebido e aquilo que é subjetivamente
concebido e, na solução desse problema, não existe saúde para o ser humano que
não tenha sido iniciado suficientemente bem pela mãe. A área intermediária a que
me refiro é a área que é concedida ao bebê, entre a criatividade primária e a
percepção objetiva baseada no teste de realidade. Os fenômenos transicionais
representam os primeiros estádios do uso da ilusão, sem os quais não existe, para o
ser humano, significado na ideia de uma relação com um objeto que é por outros
percebido como externo a esse ser (1953c, p. 26).
73

Caldwell (2007) analisa as duas versões do texto “Objetos Transicionais e Fenômenos


transicionais”, de 1951 e 1953. Afirma que Winnicott permaneceu interessado na ideia de
“uma área intermediária entre o externo e o interno como fundamental para o
desenvolvimento humano” (p. 10), e o prolongamento dessa fase (transicional) do
desenvolvimento do bebê para as diversas formas de arte e a vida cultural, as religiões, etc.

O principal interesse do artigo é preparar o tema do desenvolvimento infantil, com


foco no bebê e seu desenvolvimento, sendo que as implicações disto para o setting
analítico foram sempre a maior preocupação de Winnicott. A expansão para um
terreno mais amplo é referida quase de passagem, mas foi, subsequentemente, tema
de discussões do trabalho artístico, do artista e da experiência cultural (pp.10-11).

Phillips irá dizer que nesse artigo, bem como em outros dois72, Winnicott aborda as
seguintes questões: “Como é que o bebê faz a transição entre estar amalgamado com a mãe e
estar dela separado?”, “(...) que sintomatologia a criança vai usar para restaurar a continuidade
de sua vida se o ambiente lhe falta?” (2006, p. 151). Ele se questiona de que modo o bebê dá
continuidade ao desenvolvimento, isto é, sai da área de ilusão para incluir objetos que sejam
não-eu (ou “não-bebê”, melhor dizendo).
Nesse caso, pode-se dizer que o bebê inclui objetos em sua vida a partir da experiência
de desilusão, também amparado pela adaptação e desadaptação gradual materna para realizar
esse contato com o mundo externo e o retorno ao mundo interno.
Portanto, nota-se a presença de um caráter descritivo nesse texto, no que se refere às
experiências iniciais do bebê, em que a criatividade deve ser mantida, tanto na fase em que a
dependência é absoluta, quanto no momento em que é relativa, por meio dos cuidados
maternos.
No texto “W.R.D Fairbairn”, de 1953, Winnicott realiza, juntamente com Masud
Khan, uma resenha do livro “Psychoanalytic Studies of the Personality”, de Fairbairn. Dentre
as críticas que realiza em torno da teoria de Fairbairn, Winnicott difere do autor em relação à
ideia da dependência infantil, do que seria a experiência de onipotência em uma fase
específica da vida do indivíduo.
Enquanto Fairbairn sugere que a identificação primária se trata de um “investimento
de um objeto que ainda não foi diferenciado”, Winnicott defende que se o objeto ainda é
indiferenciado, então não tem a função de um objeto, de tal modo que o que leva o bebê ao
objeto é uma “tensão instintual a procurar um retorno a um estado de repouso ou ausência de
excitação” (1953i, p. 320), juntamente à adaptação da mãe, que apresenta o objeto no
momento da necessidade do bebê.

72
Winnicott (1958n; 1958c).
74

Portanto, Winnicott irá dizer que na teoria de Fairbairn não há espaço para a
“criatividade psíquica”. Nota-se, pela primeira vez, o uso e a definição do termo “criatividade
psíquica primária”.

Pareceria que apenas comparativamente, de modo recente, os analistas começaram a


sentir a necessidade de uma hipótese que abrisse lugar para áreas de experiência de
primeira infância e de desenvolvimento do ego que não se achem basicamente
associadas ao conflito instintual e onde haja intrinsecamente um processo psíquico
tal como o que denominamos de “criatividade (psíquica) primária” (1953i, p. 321).

Assim, ao caracterizar a questão da criatividade primária como uma experiência que


ocorre na primeira infância, tem-se o fenômeno criativo apresentado descritivamente, isto é,
em um momento específico do desenvolvimento do indivíduo, qual seja, a etapa de
dependência absoluta.
Ainda em 1953 realiza outra resenha, do livro “A study of three pairs of identical
twins”, de Dorothy Burlingham. Winnicott tece uma crítica semelhante à que elaborou em
relação a Fairbairn (1953i), no que diz respeito à pouca ênfase que a autora cedeu às tarefas
básicas que ocorrem nos estágios iniciais de dependência do bebê. Inserida nas tarefas iniciais
(integração, realização, espacialização e apresentação de objetos73), Winnicott descreve
também a

Aceitação gradual da natureza ilusória de todo contato emocional entre pessoas, da


qual decorre ser a percepção objetiva apenas um termo relativo, que se refere a algo
que perde o significado assim que fica fora de passo com o processo correspondente
de apercepção subjetiva, ou de criatividade (1953e, p. 314).

O que baseia o relacionamento entre duas pessoas advém do relacionamento


primordial entre mãe-bebê e da criatividade, ou seja, é baseado na ilusão de que a percepção
objetiva pode se dar, ou adquirir um sentido. Desse modo, além de chamar a atenção para a
importância do estudo psicanalítico para a observação de bebês, tema do livro da autora,
observa-se que a criatividade é citada como um dos processos relevantes das etapas iniciais –
especificamente a dependência absoluta – do desenvolvimento infantil.
Em 1956, Winnicott profere uma conferência na Sociedade Inglesa de Psicanálise,
cujo título era “A tendência antissocial”. No texto, há a descrição breve de um caso de
delinquência e outro de tendência antissocial, para mostrar ao leitor a diferença entre as duas.
Em seguida, Winnicott explica a natureza da tendência antissocial, suas características e
tratamento. O termo “criatividade primária” é citado para integrar a compreensão acerca de
uma característica central da tendência antissocial: o furto. Diz Winnicott:

73
Citadas na página 36.
75

A criança que furta um objeto não está desejando o objeto roubado, mas a mãe,
sobre quem ela tem direitos. Esses direitos derivam do fato de que (do ponto de vista
da criança) a mãe foi criada pela criança. A mãe satisfaz a criatividade primária da
criança e, assim, converteu-se no objeto que a criança estava disposta a encontrar
(1958c, p. 141).

Apesar de citado, o fenômeno da criatividade não é explicado pelo autor, tampouco


mencionado novamente durante o texto. Dessa maneira, percebe-se como a criatividade está
implícita no que Winnicott descreve, pois, uma vez que a mãe se converte em objeto para a
satisfação da criança, indica que a experiência inicial mãe-bebê, em algum momento,
fracassou, uma vez que “na base da tendência antissocial está uma boa experiência inicial que
se perdeu” (1958c, p. 145).
Em “Psicanálise do sentimento de culpa”, Winnicott se propõe a analisar esse
sentimento “como um aspecto do desenvolvimento do indivíduo” (1958o, p. 19), dividindo
esse estudo da seguinte maneira: a análise do sentimento de culpa nos indivíduos capazes de
senti-la, a origem desse sentimento no desenvolvimento e a ausência do sentimento de culpa
em certos indivíduos. Segundo Newman (2003), esse é o texto74 no qual Winnicott abarca o
tema do "artista como aquele que nos ajuda a lidar com o novo" (p. 16). Para Winnicott,

O artista ou pensador criativo pode, na verdade, falhar em compreender, ou pode


mesmo desprezar, o sentimento de preocupação que motiva uma pessoa menos
criativa; e dos artistas se pode dizer que alguns não têm capacidade de sentir culpa e
ainda assim atingiram uma socialização através de seu talento excepcional (p. 29).

Não há menção explicativa acerca da criatividade, mas à relação entre o artista criativo
e o sentimento de culpa. Winnicott retoma, mais uma vez, a capacidade de adaptação da mãe,
que favorece ao bebê uma experiência instintiva satisfatória. Ressalta que a capacidade de
sentir culpa não deve ser encontrada nos estágios iniciais, pois nesse período, além da
dependência absoluta do bebê em relação ao ambiente, o ego ainda não é forte o bastante para
“aceitar as responsabilidades pelos impulsos do id” (1958o, p. 28). Desse modo, a categoria
na qual se encontra esse texto é a descritiva.
No texto “O primeiro ano de vida. Concepções modernas do desenvolvimento
emocional”, publicado em 1958, Winnicott nos apresenta diversas proposições acerca do
desenvolvimento de uma criança no primeiro ano de vida. Ele quer discutir quanto do
potencial herdado pode se realizar até a criança completar essa idade. Para isso, considera
uma criança fisicamente saudável e “potencialmente sadia na mente” (1958j, p.4).

74
Newman (2003) também cita outro texto com a mesma característica: “Ausência de sentimento de culpa"
(WINNICOTT, 1984b).
76

Além disso, Winnicott quer discutir quais bases para a saúde mental no indivíduo
adulto se constituem em seu primeiro ano de vida. Portanto, o texto se insere na categoria
descritiva, uma vez que se refere a uma etapa específica do desenvolvimento emocional.
O autor explicita o conceito de espontaneidade, e o denomina da mesma maneira como
o faz com a criatividade (Winnicott, 1986h), quando diz que esse sentimento é o que “faz a
vida valer a pena” (1958j, p. 16). A espontaneidade só pode se expressar quando a criança não
é levada à complacência, isto é, quando a mãe não é demasiadamente severa, fazendo com
que a criança se prenda a um extremo autocontrole; ou, quando no estabelecimento do
superego, a criança não sofre com o medo da retaliação.
Observa-se, pela primeira vez, o uso do termo “impulso criativo” para se referir ao
tema da criatividade, com a afirmação de que esse é o impulso que “dá à criança a prova de
que está viva” (1958j, p. 16). Apesar disso, esse impulso não pode ser dado como realizado
até que seja constantemente correspondido pela realidade externa.
Desse modo, o autor enfatiza a importância de o mundo ser apresentado à criança nos
momentos de “atividade criativa” desta, como cita no seguinte exemplo: “A criança procura
algo e encontra o seio, e criou-se o seio” (1958j, p. 16). É importante que a criança encontre
aquilo que procura exatamente no momento em que o faz, pois apenas dessa maneira é
possível o estabelecimento da ilusão.
Ele nos fala de uma “criatividade contínua”, que é altamente dependente da
capacidade da mãe de se identificar com seu bebê e, justamente por isso, “apresentar o
fragmento de realidade no momento mais ou menos exato” (1958j, p. 17). Winnicott deixa
claro ao leitor que cada conquista do desenvolvimento já realizada pode ser perdida, caso
ocorram rupturas dos requisitos de um ambiente adequado, ou, ainda, “pela ação de certas
ansiedades inerentes ao amadurecimento emocional” (1958j, p. 20).
No texto de 1959, “O destino do objeto transicional”, a criatividade está relacionada
ao período denominado por Winnicott de transicionalidade. O autor quer retomar algumas
ideias que dizem respeito ao objeto transicional antes de abordar o tema do artigo. O objeto
transicional tem relação com a criatividade, uma vez que, segundo ele, “a princípio, qualquer
objeto que conquiste um relacionamento com o bebê é criado por este, ou pelo menos, esta é
uma teoria sobre o assunto que tem a minha adesão. Assemelha-se a uma alucinação” (1989i,
p. 44).
Como foi visto, a alucinação tem a ver com a experiência de ilusão de onipotência, na
qual o bebê “fica com a ilusão de que o mundo pode ser criado e de que o que é criado é o
mundo” (1989i, p. 44). Por conseguinte, se há uma adaptação suficiente da mãe e se, portanto,
77

a experiência de “criação do mundo” pode ser realizada, à época da dependência relativa o


bebê pode começar a usar símbolos, sendo o objeto transicional o representante de um
“primeiro símbolo”, segundo Winnicott.
Assim, não há como desmembrar a vida emocional do bebê do ambiente, pois o
primeiro não se faz sem a adaptação do segundo. A vivência satisfatória da etapa de
dependência absoluta capacita o bebê a iludir-se quanto à criação dos objetos do mundo
externo. Para enfrentar a desilusão (o reconhecimento de que o objeto criado no mundo
interno já estava no mundo antes mesmo de sua “criação”) é preciso ter conquistado a
capacidade de se iludir e sentir que o mundo foi criado de acordo com suas necessidades de
satisfazer seus instintos. Assim, ao vivenciar a desilusão, o bebê passará a reconhecer que
“existem fenômenos que se acham fora de nosso próprio controle pessoal” (1989i, p. 45).
Winnicott denomina, então, três áreas nas quais o indivíduo pode transitar: a realidade
psíquica, que é criada pelo próprio indivíduo, que também pode ser chamada de inconsciente;
a realidade externa, ou seja, tudo aquilo que, gradativamente, vai sendo percebido pelo bebê
como NÃO-EU (a existência dessa área supõe um indivíduo integrado, que alcançou o status
de unidade); e a terceira área, entre realidade interna e externa, que Winnicott chama de área
intermediária (1953c), ou área da experiência, na qual a criatividade pode existir.
Nesse texto, é como se Winnicott fornecesse um aspecto “prático” da criatividade, em
relação ao lugar que ela encontra na vida dos indivíduos e como opera na etapa da
transicionalidade. O autor explica, de maneira “grosseira”, conforme ele mesmo diz, como se
daria a sobreposição dessas duas áreas (a realidade psíquica pessoal e a realidade externa):

Vamos a um concerto e ouvimos um dos últimos quartetos de corda de Beethoven


(estão notando que sou intelectual). Esse quarteto não é apenas um fato externo
produzido por Beethoven e tocado pelos músicos, e não é um sonho meu, que, em
realidade, não teria sido tão bom. A experiência, acoplada à preparação que eu
mesmo fiz para ela, capacita-me a criar um fato glorioso. Eu o desfruto porque digo
que o criei, alucinei-o, e é real e teria estado lá houvesse eu ou não sido concebido
(1989i, p. 47).

Nesse sentido, ele descreve a Arte, a Música, a Pintura e a Poesia como meios para
descansar ao longo deste caminho que vai da realidade interna para o mundo compartilhado.
Os indivíduos se identificam com palavras, canções, quadros, filmes ou discursos religiosos
de outras pessoas quando algo toca diretamente suas realidades internas. De uma maneira ou
de outra essas coisas os colocam em contato com o self primitivo, ou revelam uma parcela
daquilo que achavam que apenas eles mantivessem em segredo.
A contribuição winnicottiana está justamente na área que chamou de “intermediária”.
A conquista dessa etapa (a transicionalidade) capacita o indivíduo a se relacionar de maneira
78

saudável com a realidade externa, uma vez que não se trata de enxergar o mundo de acordo
apenas com a realidade interna e, ao mesmo tempo, enxergar sentido na realidade externa,
sendo que esse sentido é criado de acordo com o modo pelo qual o indivíduo foi apresentado
ao mundo.
Winnicott, ao final do texto, afirma algo surpreendente: “sinto que os fenômenos
transicionais não passam, pelo menos não na saúde” (p. 48). Isso quer dizer que estes
fenômenos se estendem em direção à cultura, à sociedade e/ou às tarefas cotidianas, ou seja,
se tornam parte do que é o indivíduo.
No texto “Da dependência à independência no desenvolvimento do indivíduo”, de
1963, encontra-se uma classificação de Winnicott dos estágios de dependências (absoluta e
relativa) e de independência relativa do bebê75. Tem-se, aqui, uma classificação descritiva das
conquistas e dos requisitos (do ambiente) para cada uma dessas etapas.
Conforme a criança se integra e passa da dependência absoluta para a relativa, ela
“começa a permitir que os acontecimentos ocorram fora de seu controle, e por ser capaz de se
identificar com a mãe ou com os pais o lactente pode pôr de lado parte da grande raiva que é
sentida, com o que desafia a onipotência dele” (1965r, p. 86). Isso implica na conquista de
uma unidade, ou seja, pressupõe que a criança seja uma pessoa inteira, que diferencia eu e
não-eu.
Isso significa que, na saúde, é possível ao indivíduo transitar entre as realidades
internas e externas, sentindo não apenas que criou o mundo, mas que pode adorná-lo com suas
próprias características internas e de acordo com a sua capacidade ilusória. Essa se constitui
como uma das maneiras através da qual a criança (e o adulto) pode começar a se identificar
com o mundo externo, sem perder demasiadamente suas qualidades essenciais e pessoais.
Percebe-se, portanto, a descrição da capacidade criativa na etapa da dependência relativa,
ainda que não tenha sido nomeada dessa forma pelo autor.
Em 1965, no texto “Uma nova luz sobre o pensar infantil”, Winnicott quer, a partir de
sua visão como psiquiatra infantil, analisar o “pensar como função”. Deliberadamente, ele
afirma que não irá se deter no tema de maneira a retomar os pesquisadores que tornaram essa
área uma especialidade, estando preocupado com o que denomina de “teoria geral do
desenvolvimento da personalidade humana” (1989s, p. 119). Verifica diversos tipos de pensar
e os relaciona às diferentes idades de uma criança, em sua maioria após a etapa de
dependência absoluta.

75
Páginas 35-39 deste trabalho.
79

Nesse ponto, subdivide em dois tópicos o pensar: catalogar e substituto da mãe. À


medida que o bebê passa da dependência absoluta para a dependência relativa, a adaptação da
mãe também começa a fracassar, porém, de maneira gradual, e de modo a permitir que a
inteligência do bebê se desenvolva (WINNICOTT, 1989s).
Na saúde, o desenvolvimento do pensar está ligado ao início, no bebê, da capacidade
de premeditar e planejar, o que está ligado à primeira ideia do autor, do pensar como
catalogar. Por exemplo, o bebê se torna capaz de pensar que os ruídos que vêm da cozinha são
devido à mãe estar preparando a sua comida, e por isso, ele se expressa, chorando. Nesse
caso, o bebê “pode gritar, mas não está aflito, porque manteve a esperança” (1989s, p. 122). A
“imaginação criativa” é descrita como consequência, ou resultado, da capacidade de pensar,
sendo esse último necessário “à sobrevivência da experiência de onipotência e é um
ingrediente da integração” (p. 121).
Se o ambiente se desadapta muito rápido, sem dar tempo ao bebê de processar o que
está ocorrendo, este pode aprender a lidar com o fracasso ambiental utilizando o pensar como
defesa. Winnicott diz que “o bebê ‘serve de mãe’ para si mesmo através da compreensão,
compreendendo demais. Trata-se de um caso de Cogito, ergo in mea potestate sum76” (1989s,
p. 122), exemplo do que seria o pensar como substituto materno. Nesse aspecto, Winnicott
alerta para o uso da lógica em detrimento da intuição, ou como é chamado por ele de “pensar
alucinatoriamente”.
Pode-se notar que são usados diferentes termos – “imaginação criativa” e “impulso
criativo” – para se remeter à criatividade, ainda que este texto não seja dedicado ao estudo do
fenômeno em si. Percebe-se, portanto, que se trata de um texto que descreve um dos
desdobramentos da criatividade, à época em que o bebê começa a fazer uso do pensar.
Em seu artigo “A localização da experiência cultural”, de 1967, Winnicott está
interessado em descobrir em que lugar se localiza a brincadeira, uma vez que não está apenas
na realidade interna e externa. Em um primeiro momento, do ponto de vista do bebê, os
objetos são subjetivos77. Se a experiência de ilusão é favorecida, o indivíduo pode sentir que
criou esses objetos.
Com a gradual desadaptação materna, o bebê começa a experienciar a desilusão,
característica da etapa de dependência relativa. Agora, com o início do funcionamento mental,
pode tolerar mais do que podia antes a ausência da mãe. Segundo Winnicott, “Para o bebê,
todo e qualquer pormenor de sua vida constitui exemplo do viver criativo. Todo objeto é um

76
Penso, logo, existo em meu controle.
77
O que equivale dizer que “o objeto ainda é um aspecto do bebê” (WINNICOTT, 1970b, p. 197).
80

objeto ‘descoberto’. Dada a oportunidade, o bebê começa a viver criativamente e a utilizar


objetos reais, para neles e com eles ser criativo” (1967b, p. 141).
Dessa forma, a área da experiência é criada e mantida para, posteriormente, se
transformar nos laços com a cultura. Pode-se dizer que esse texto abarca a importância da
criatividade para a criação de um espaço potencial. Sem o interjogo ilusão-desilusão, que
marca a passagem dos objetos subjetivos para os objetivamente percebidos, o indivíduo não
pode contribuir com o mundo externo ou com o que Winnicott nomeia de “fundo cultural”.
Diz o autor: “O lugar em que a experiência cultural se localiza está no espaço
potencial existente entre o indivíduo e o meio ambiente” (1967b, p. 139). Portanto, aqui, a
criatividade é descrita como uma expansão da brincadeira. Esse artigo apresenta o tema da
criatividade de maneira descritiva, pois Winnicott quer demonstrar a relevância da área de
experiência e do brincar, que se amplia para a vida cultural do indivíduo.
Em 1968, Winnicott realiza uma palestra para a Associação dos Professores de
Matemática, intitulada “Sum: Eu sou”, e pode-se observar a criatividade do próprio autor, ao
se questionar: “que pedaço de mim mesmo posso dar a vocês, e como posso lhes dar um
pedaço sem parecer que perco a totalidade?” (1984h, p. 42), demonstrando que a sua intenção
é referir-se ao estágio que indica integração da personalidade, ou seja, o “EU SOU” e, além
disso, referindo-se à capacidade de se relacionar com a realidade externa sem a perda de
capacidades internas, o que, na saúde, ocorre nessa etapa.
Winnicott enfatiza a importância dos professores se atentarem não apenas à
inteligência da criança, ou à capacidade de fazer operações matemáticas, mas ao seu
desenvolvimento como ser, uma vez que “a Matemática é uma versão descorporificada da
personalidade humana” (1984h, p. 42). Ou seja, o desenvolvimento humano se dá de modo
análogo ao aprendizado matemático, se for levado em consideração que ambos constituem
uma somatória de aprendizados, sendo a chegada e a sustentação da etapa do “EU SOU” um
ponto fundamental do desenvolvimento.
Winnicott retorna sua explicação ao desenvolvimento individual em uma situação
específica da espera pelo alimento, exemplificando como um bebê de QI elevado e outro
pouco dotado tolerariam a situação. Dessa forma, explica que o bebê de QI elevado pode
tolerar um pouco mais a frustração se comparado ao outro bebê, pois, por exemplo, seu
equipamento intelectual o ajuda a presumir que os ruídos que escuta são provenientes da
cozinha, e isso indica, por conseguinte, que a mãe está preparando o alimento. Assim, supõe-
se que este bebê pode esperar um pouco mais.
81

Porém, diz o autor, “A partir daí pode-se prosseguir até ver que uma mãe pode
explorar as funções intelectuais do bebê a fim de se libertar do vínculo proveniente da
dependência do bebê” (1984h, p. 45). Quando isso acontece, o intelecto se torna cindido do
restante da personalidade, e a psique não se apropria das experiências do próprio viver e da
existência psicossomática.
Winnicott desenvolve sua ideia expandindo a questão da cisão para as crianças com
dificuldades em realizar operações matemáticas como a divisão, e afirma que “Na verdade,
não há dificuldades nessa área, exceto em termos de computadores e programação. Isso não é
vida, isso é cisão de vida” (1984h, p. 47), e encerra com uma sugestão provocadora: “Não
vejo por que, em Aritmética, há tanta ênfase na resposta exata. Que acham do prazer de
adivinhar? Que acham de brincar com métodos engenhosos?” (p. 48). E continua:

Para o bebê, a primeira unidade que surge inclui a mãe. Se tudo corre bem, o bebê
chega a perceber a mãe e todos os outros objetos e os vê como não-eu, de tal modo
que agora há o eu e o não-eu. Esse estágio dos primórdios do EU SOU só se instala
realmente no self do bebê na medida em que o comportamento da figura materna é
suficientemente bom – no que diz respeito à adaptação e à desadaptação (1984h, p.
49).

O bebê desenvolve um ego forte ou fraco de acordo com o movimento de adaptação e


desadaptação da mãe, no decorrer dos estágios do desenvolvimento. Ainda que muitos
elementos estejam em jogo quando se trata da dificuldade da criança em aprender, Winnicott
chama a atenção para o fato de que “não há duas crianças idênticas, mesmo quando a
dificuldade das duas é Matemática” (p. 50). Ou seja, é necessário examinar particularmente
cada situação para compreender onde está a dificuldade da criança.
A criatividade é postulada pelo autor como inerente ao brincar, sendo esta, talvez, a
única atividade em que se possa encontrá-la manifesta. Ainda no ensino da Matemática é
possível conquistar o “impulso criativo”, bem como fazer do gesto lúdico da criança uma
oportunidade para que aprenda. Assim como a Matemática, o desenvolvimento humano não
pode prosseguir no caso de uma ruptura, e os estágios posteriores ao da dificuldade (ou da
falha ambiental) não adquirem sentido.
Nesse sentido, portanto, o texto traz de modo descritivo o fenômeno da criatividade
ligado ao ensino de Matemática, em relação à conquista da etapa do desenvolvimento
denominada “EU SOU”.
Em 1968, no texto “Sobre o uso de um objeto - O uso de um objeto e relacionamento
através de identificações”, Winnicott realiza uma espécie de desabafo sobre o trabalho
interpretativo em Psicanálise, ao afirmar: “só recentemente me tornei capaz de esperar; e
82

esperar, ainda, pela evolução natural da transferência que surge da confiança crescente do
paciente na técnica e no cenário psicanalítico, e evitar romper esse processo natural” (1969i,
p. 121).
Ou seja, o psicanalista faz um alerta sobre o trabalho analítico no sentido de produzir
interpretações argutas, sendo mais conveniente esperar que o próprio paciente alcance as
próprias conclusões, de modo criativo. Ao permitir que o paciente acesse as próprias
conclusões, o analista – tal qual a mãe suficientemente boa – oportuniza que o paciente
encontre o objeto sem a necessidade de saber que o objeto já estava lá antes mesmo de sua
criação, como ocorre de modo análogo na ilusão de onipotência.
Winnicott realiza uma descrição sucinta: “(1) O sujeito relaciona-se com o objeto. (2)
O objeto está em processo de ser encontrado, ao invés de ter sido colocado pelo sujeito no
mundo. (3) O sujeito destrói o objeto. (4) O objeto sobrevive à destruição. (5) O sujeito pode
usar o objeto” (1969i, p. 131).
A criatividade, nesse texto, é considerada como previamente conhecida pelo leitor.
Para Phillips, neste texto Winnicott afirma que “o objeto só se torna real sendo odiado; o bebê
só pode achar o mundo à sua volta substancial por meio de suas tentativas fundamentalmente
infrutíferas de destruí-lo” (2006, p. 41).
O uso do objeto implica na sua destruição, que, por sua vez, faz parte da capacidade de
sentir culpa. Porém, para adquirir a capacidade de usar objetos é necessário que a criatividade
tenha sido vivenciada. Nesse sentido, tem-se a criatividade trazida em seu aspecto descritivo,
ligada à etapa do uso do objeto que, para ser alcançada, necessita de conquistas anteriores.
Para Spelman (2015), esse texto “pode ser lido como o último desejo e como o
testamento de Winnicott” (p. 14), pois “ele está generosamente oferecendo seu pensamento
para ser brutalmente usado da mesma maneira que ele usou o pensamento de outros”.
Winnicott propõe que seu pensamento seja utilizado como um “ambiente facilitador” para
outros autores. Phillips (2006) irá dizer que esse texto, junto a outros dois artigos do autor78,
diz respeito a uma das últimas contribuições de Winnicott à sua Teoria do Desenvolvimento.
Em 1970, Winnicott elabora uma palestra e reúne dois rascunhos que se transformam
no texto “Vivendo de modo criativo”. Pela primeira vez tem-se enunciada uma definição de
criatividade. Da mesma forma como o faz em outro texto (Winnicott, 1958j), ao expor sobre o
conceito de espontaneidade, menciona que o ser criativo deve estar conectado à ideia de que
“a vida vale a pena” (1986h, p. 23).

78
“O papel do espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil” (1967c) e “A distorção do ego em
termos de falso e verdadeiro self” (1965m).
83

A criatividade pressupõe uma “posição básica a partir da qual operar” (p. 23), ou seja,
significa que antes do fazer há o ser, que indica um impulso verdadeiro e espontâneo do
indivíduo. Para demonstrar essa contraposição entre ser e fazer, Winnicott dá o exemplo de
uma pessoa que apenas reage aos estímulos, sem ter um sentimento de que está agindo
conforme seus impulsos, o que caracterizaria uma vida sem criatividade.
Nesse caso, a ausência do sentimento de ser deve encontrar explicações por meio de
um estudo dos padrões estabelecidos nas épocas iniciais da vida, isto é, de dependência.
Acerca desse último aspecto, Winnicott enfatiza a importância do cuidado materno para que a
criatividade se torne um fato na vida da criança. Ele diz:

Caso tenham sido fornecidas condições ambientais satisfatórias, a criancinha (que se


tornou eu e você) descobriu modos de absorver a afronta. A submissão, por um lado,
simplifica a relação com outra pessoa, que, é claro, tem suas próprias necessidades
para atender, sua própria onipotência para cuidar. No outro extremo, a criança
conserva a onipotência, sob o pretexto de ser criativa e de ter uma visão pessoal de
tudo (1986h, p. 24).

Winnicott parece estar em busca de uma definição para o viver criativo, e busca
exemplos em outras temáticas da vida do indivíduo para tanto, como a Arte e o casamento,
por exemplo. Segundo ele, o que a experiência de onipotência proporciona é, para além de
reagir aos estímulos, poder enxergar o mundo de maneira que este faça sentido, isto é, dar um
sentido pessoal para as experiências.

Por viver criativamente não estou querendo dizer que alguém tenha que ficar sendo
aniquilado ou morto o tempo todo, seja por submissão, seja por reagir àquilo que o
mundo impinge. Estou me referindo ao fato de alguém ver tudo como se fosse a
primeira vez (1986h, p. 25).

De acordo com Newman, essa última afirmação de Winnicott (ver tudo como se fosse
a primeira vez) “nada tem a ver com quantas viagens fazemos pelo mundo, e sim com
olharmos a mesma rua com novos olhos a cada vez. É uma questão de profundidade” (2003,
p. 113). Essa capacidade de criar o mundo pertence à criança, e é determinada pelas bases da
experiência infantil com relação aos cuidados recebidos.
Para Winnicott, nesse ponto estaria a origem da criatividade, na “tendência
geneticamente determinada do indivíduo para estar e permanecer vivo e para se relacionar
com os objetos que lhe surgem no caminho durante os momentos de obter algo” (1986h, p.
26), contanto que tenha sido tratado de modo a ter, disponível para o encontro, objetos
objetivamente percebidos, e que possa tê-los alcançado como se os tivesse criado. “O bebê
normal (...) precisa crescer em complexidade e tornar-se um “existente” estabelecido, para
84

que possa experimentar a procura e o encontro de um objeto como um ato criativo” (1986h, p.
26).
Winnicott diferencia o viver criativo da arte criativa, pois compreende que o tema
criatividade é bastante amplo e pode ser facilmente confundido com o termo no senso comum.
Ao fazer essa diferenciação, Winnicott diz que as criações artísticas, quaisquer que sejam,
necessitam de “algum talento especial” (1986h, p. 28), e uma vida criativa, no sentido do
termo que ele propõe, “trata-se de uma necessidade universal (...) e mesmo os esquizofrênicos
retraídos e aprisionados ao leito podem estar vivendo criativamente uma atividade mental
secreta, e, portanto, em certo sentido, feliz” (1986h, p. 28).
Winnicott explora, ainda, o fenômeno da criatividade em relação ao casamento,
separando dois polos: os casais que podem manter a criatividade e os que sentem sua
criatividade dissipada pela relação.

Somos suficientemente felizes e podemos ser criativos, mas percebemos que há


inerentemente um tipo de choque entre o impulso pessoal e os compromissos
concernentes a qualquer tipo de relação que tenha características confiáveis. Em
outras palavras: estamos falando, uma vez mais, do princípio da realidade, e,
eventualmente, conforme penetramos no assunto, poderíamos encontrar algum
aspecto da tentativa de o indivíduo aceitar a realidade externa sem perda excessiva
do impulso pessoal. Esse é um dos muitos problemas básicos peculiares à natureza
humana, e é nas etapas mais precoces do desenvolvimento emocional de cada um
que se estabelece a base de sua capacidade em relação a esse aspecto (1986h, pp. 30-
31).

O importante, nesse texto, é como Winnicott exemplifica o viver criativo em diversas


áreas da vida, nas relações com os outros e nas diferentes etapas do desenvolvimento
individual, e a relação da capacidade de ser criativo com os cuidados recebidos à época das
etapas iniciais.
Ocorre que, no início, a mãe, por estar adaptada ao seu bebê, apresenta a ele porções
do mundo. A experiência de onipotência vivenciada pelo bebê consiste em sentir que o mundo
foi criado por ele, e a mãe, peça central nesse processo, auxilia-o a “encontrar realmente
aquilo que ele cria, e a criar e vincular isso com o que é real” (1986h, p. 34). Desse modo, se
isso for realizado suficientemente bem, é possível para o bebê (e, posteriormente, para a
criança) aceitar o princípio da realidade e os entraves que a vida institui.
Se a vida é não-criativa, Winnicott afirma que o sintoma será o de que nada tem valor,
ou um sentimento de insignificância perante o mundo. Por outro lado, a criatividade “reside
no modo como conseguimos a percepção, através da concepção e da apercepção” (1986h, p.
37). O autor descreve as maneiras pelas quais o fenômeno da criatividade pode se manifestar,
trazendo, portanto, um aspecto descritivo do mesmo.
85

3.5 Aspectos clínicos da criatividade

Ao descrever o fenômeno da criatividade em diversos momentos de sua obra,


Winnicott o faz também através de casos clínicos. Assim, nessa categoria, enquadram-se os
textos, em ordem cronológica, em que a criatividade é mencionada em relação às suas
diferentes apresentações na saúde e na patologia, em exemplos que envolvem a prática da
clínica psicanalítica.
Em 1948, Winnicott faz uma palestra intitulada “Necessidades ambientais; os estágios
iniciais; dependência total e independência essencial”. Sua proposta é discorrer acerca da
maneira como se apresenta a realidade externa ao bebê. Então, ele descreve a experiência de
ilusão de onipotência: “Aqui está a capacidade do bebê de alucinar alguma coisa e aqui está a
mãe que tem algo que sabe ser bom, mas o bebê ainda não sabe, e a mãe precisa colocar-se
aqui para que aquilo que o bebê está querendo encontrar seja realmente ela” (1996k, p. 52).
Winnicott afirma que é a capacidade da mãe de se adaptar ao bebê que proporcionará a
base da saúde mental deste. Ele chama a atenção para o fato de que essa experiência entre
mãe e bebê não se trata de um conceito teórico. Com isto, pode-se dizer que a experiência
pode ser descrita sem a utilização de termos metapsicológicos, mas em consideração à
qualidade do ambiente facilitador.
Quando essa experiência não ocorre de modo satisfatório, quando “nunca houve
alguém, bem no início, que desse o suficiente para que essa criança tivesse uma ilusão sobre a
realidade” (1996k, p. 53), não pode haver uma aceitação da realidade e, nesse caso, há uma
cisão na personalidade do indivíduo que, caso ocorra prematuramente, Winnicott descreve
como esquizofrenia. Por outro lado, o que pode ocorrer é um padrão de submissão em relação
à realidade externa, como ocorre nas patologias do tipo falso self.
Desse modo, Winnicott relata, brevemente, dois casos clínicos nos quais a questão da
dependência e a experiência de onipotência não puderam ser realizadas de maneira suficiente
para que o indivíduo seguisse o curso do seu desenvolvimento. Seu relato diz respeito às
adaptações que ele, como psicanalista, necessitou fazer para que os pacientes pudessem
depender dele como nunca haviam podido depender de alguém até então. Portanto, ao trazer o
contraponto entre saúde e patologia, o texto se insere no aspecto clínico.
Em 1964, ao fazer uma resenha dos três primeiros capítulos da autobiografia de Jung –
“C. G. Jung - Resenha de Memories, Dreams, Reflections” – Winnicott realiza uma análise da
personalidade do autor e traz ao leitor considerações importantes, por exemplo, ao dizer que
Jung se trata de “um caso recuperado de psicose infantil” (1964h, p. 366).
86

Para Winnicott, Jung sofreu uma “distorção das tendências integrativas” devido à
depressão da mãe, o que fica evidente em suas descrições sempre positivas de sua infância,
passando a impressão de um mundo “bonito”. Tal distorção foi ocasionada por uma cisão de
sua personalidade, como uma resposta à sua dependência da união dos pais (que haviam se
separado quando ele tinha três anos) e ao humor deprimido da mãe.
Winnicott também irá afirmar que, no caso de Jung, ocorreu uma cura através da
autocura, que “não é o mesmo que a resolução pela análise” (1964h, p. 368), isto é, sua Teoria
da Personalidade pode ter sido uma grande tentativa de entender sua própria psicose.
A personalidade de Jung pode ser definida como “sem lugar para esconder coisa
alguma” (1964h, p. 368), pois devido à cisão sua vida psíquica passou a ficar “exposta”.
Desse modo, Jung passa a vida tentando encontrar um lugar para colocar sua realidade
psíquica, e sua teoria é um exemplo disso.
No caso de Jung, não havia condições para destruir a mãe, devido à depressão desta, o
que o incapacitou de conhecer aspectos criativos da destruição e da criação do objeto. Para
Newman, “Winnicott prefere também pensar que é ao vivermos criativamente que nos
tornamos também capazes de nos preocuparmos com nossa destrutividade e de fazer algo a
esse respeito” (2003, p. 112).
A criatividade é trazida juntamente ao conceito de destrutividade, e novamente é
apenas mencionada por Winnicott, sem descrições amplas a respeito do conceito. Apesar
disso, a análise da personalidade de Jung através de sua autobiografia caracteriza tal texto
como clínico, uma vez que aponta para a manifestação, na patologia, de parte do fracasso
ambiental.
Em 1966, no texto “Autismo”, Winnicott se pergunta o que pode conduzir, em termos
de relacionamento inicial entre mãe e bebê, ao distúrbio autístico. Nesse texto, Winnicott
especifica que não compreende o autismo como uma doença, mas como “uma perturbação do
desenvolvimento emocional e uma perturbação que avança tanto no passado que, em certos
aspectos pelo menos, a criança é intelectualmente deficiente” (1996c, p. 181). Ou seja, a
doença decorre do fracasso adaptativo do ambiente e do não cumprimento às necessidades do
indivíduo. Através de um exemplo clínico, esse texto é capaz de ilustrar um dos resultados do
fracasso ambiental quando na etapa de dependência absoluta do bebê.
Há um fragmento do que a mãe de uma criança autista, atendida por um colega de
Winnicott, diz. Ela ressalta que ficou mais atenta às próprias ansiedades do que às do bebê, e,
desse modo, não lidou com o bebê de uma maneira humana. Isto é, a criança não vivenciou
“os rudimentos do contato humano” (1996c, p. 192).
87

Como o fracasso ambiental ocorreu em uma época precoce da vida do bebê, “resultou
numa situação em que podemos dizer que os pais tinham de pensar o tempo todo no que fazer,
em vez de sentir isso intuitivamente” (1996c, p. 183). Dessa forma, Winnicott sugere, para o
tratamento desses casos, que provisões ambientais relativas ao “toque concreto” são mais
eficazes do que interpretações verbais.
Winnicott confere à questão do ser, antes do fazer79, uma grande importância. Em
outras palavras, o que o autor está nos dizendo é que nesse paradoxo se constitui a
criatividade: a capacidade para a criação da área em que ocorrerão as experiências e o contato
com a realidade externa só é possível a partir do estabelecimento de uma realidade interna
pautada na experiência de ilusão.
Nesse sentido, ao oferecer a presença “sem fazer nada”, os pais permitem ao bebê que
se integre e alcance uma ‘coexistência psicossomática’, e assim, uma sequência de etapas do
desenvolvimento são alcançadas, até a “capacidade de adotar objetos simbólicos e a existência
de uma área entre o bebê e as pessoas, na qual o brincar é significativo” (p. 192).
Em outras palavras, a capacidade para a criação da área em que ocorrerão as
experiências e o contato com a realidade externa, a partir do estabelecimento de uma realidade
interna pautada na ilusão, é o que inclui a capacidade de criar e ser criativo, o que se encontra
prejudicado no distúrbio autístico.
Em 1967, Winnicott publica o artigo “O papel do espelho da mãe e da família no
desenvolvimento infantil”. Aqui, como em grande parte dos escritos winnicottianos, o autor
nos apresenta uma retomada dos processos intrínsecos ao desenvolvimento individual, quando
este ocorre de maneira saudável.
Nas etapas iniciais do desenvolvimento é importante que a mãe apresente os objetos
ao bebê sem que sua experiência de onipotência seja rompida. Isso significa esperar que o
bebê faça o movimento em direção ao objeto, e apresentá-lo no momento em que a
necessidade do bebê também se apresente. Desse modo, o pequeno indivíduo pode sentir que
foi ele quem criou o objeto apresentado.
Conforme o desenvolvimento prossegue, o bebê passa a olhar não apenas para os
objetos, mas também o rosto da mãe, e esse é o ponto central nesse texto. O autor afirma que
existem consequências para a “capacidade criativa” do bebê quando este não pode ser visto
pela mãe, seja pela preocupação desta com seus próprios conteúdos, por uma depressão ou

79
Cf. Winnicott (1971g).
88

pela ‘rigidez de suas defesas’ (1967c, p. 154). O fenômeno da criatividade é trazido na


qualidade de “capacidade criativa”.
Winnicott apresenta ao leitor quatro ilustrações clínicas, que têm em comum a questão
do ver - ser visto. A primeira diz respeito a uma paciente, casada e mãe de três filhos, que não
podia sair do estado de desespero, todas as manhãs, enquanto não “arrumasse seu rosto” no
espelho. “A mulher tinha de ser sua própria mãe” (1967c, p. 156), diz Winnicott, ressaltando
o fato de que a depressão paralisadora da paciente se vinculava ao não ter sido vista e dotada
de sentido por sua mãe.
A segunda ilustração é sobre uma paciente que tinha a necessidade de ser vista pelo
que realmente era, bem como ser vista de forma sutil; mas como sua experiência inicial no
sentido de ser vista “de um modo que a fizesse sentir que existia” (1967c, p. 158) não havia
sido satisfatória, ela não era capaz de se valorizar (essa paciente é descrita por Winnicott
como alguém com uma aparência “fora do comum”).
O terceiro fragmento clínico é o da paciente que havia tido uma mãe e uma babá
deprimidas, o que a impediu de ter um interesse por seu próprio rosto, não tendo uma fase em
que o avaliou no espelho, por exemplo. Através de uma foto de Winnicott que a paciente
pediu para que ele a enviasse, foi possível encontrar um rosto que a refletisse e, ao mesmo
tempo, tivesse aspectos que reproduziam “algo da rigidez de sua mãe”.
No último fragmento clínico, Winnicott descreve o que uma paciente diz em uma
sessão, pois possui relação com as ideias expressas nesse artigo. A paciente apresenta “grande
preocupação a respeito do estádio do seu próprio estabelecimento como indivíduo” (1967c, p.
160) e, apesar de trazer suas questões em relação ao olhar da mãe e a constituição da criança,
não fez a relação desta com o rosto da mãe. Winnicott, por sua vez, não entrega essa
contribuição à paciente, pois diz que ela estava em um momento de “descobrir as coisas por si
mesma”, e fazer isso seria uma forma de destruir sua criatividade. Winnicott afirma:

O vislumbre do bebê e da criança vendo o eu no rosto da mãe e, posteriormente,


num espelho, proporcionam um modo de olhar a análise e a tarefa psicoterapêutica.
Psicoterapia não é fazer interpretações argutas e apropriadas; em geral, trata-se de
devolver ao paciente, em longo prazo, aquilo que o paciente traz. É um derivado
complexo do rosto que reflete o que há para ser visto (1967c, p. 161).

Quando olha para a mãe, o bebê não pode vê-la. Ele precisa ver o olhar da mãe
olhando para ele. Assim, ele se vê. A ilusão de onipotência está nesse sentido que é criado
justamente pela experiência de possibilidade para criar o mundo à sua própria maneira. O
analista, por sua vez, faz o papel da mãe suficientemente boa, que olha para o seu bebê e,
identificada com este, reconhece as suas necessidades.
89

Além disso, proporciona ao paciente a vivência de sua própria criatividade, pois,


afirma Winnicott, “trata-se de devolver ao paciente, em longo prazo, aquilo que o paciente
traz” (1967c, p. 161). E revela: “Essa é a forma pela qual me apraz pensar em meu trabalho,
tendo em mente que, se o fizer suficientemente bem, o paciente descobrirá seu próprio eu
(self) e será capaz de existir e sentir-se real” (p. 161).
Ao ser visto como é, o paciente pode mostrar-se como é, e essa vivência faz com que
ambos se sintam gratos, no fim do processo. A criatividade desponta no texto relacionada aos
processos descritos acima.
Em 1968 Winnicott escreve “Interrelacionar-se independentemente do impulso
instintual e em função de identificações cruzadas”, texto no qual explica – a partir de
fragmentos de dois casos clínicos – como o atendimento pode ser realizado sem a
interpretação clássica, baseando-se no fenômeno das identificações cruzadas80.
Segundo Winnicott, é através do estudo das fases primitivas do desenvolvimento que
podemos compreender o início do que ele chama de “personalidade humana individual”.
Nomeia como “fenômenos transicionais” todos os fenômenos que têm relação com o
funcionamento primitivo e que não podem ser tratados, clinicamente, sob o viés da
Psicanálise clássica, uma vez que a interpretação não tem a intenção de trazer o inconsciente
para a consciência, mas de descrever ao próprio paciente o que ele diz.

Os pacientes que manifestam capacidade limitada de identificação introjetiva ou


projetiva, apresentam sérias dificuldades para o psicoterapeuta, que necessita
sujeitar-se ao que é chamado de atuação (acting out) e de fenômenos transferenciais
que dispõem de apoio instintual. Em casos assim, a principal esperança do terapeuta
é ampliar o campo de ação do paciente com respeito a identificações cruzadas, e isso
surge não tanto pelo trabalho de interpretação quanto através de certas experiências
específicas que ocorrem nas sessões analíticas (1968g, p. 163).

Após isso, o autor retoma o processo de desenvolvimento humano salientando o


aspecto da natureza dos objetos do ponto de vista do bebê, para que possa esclarecer a
capacidade e a incapacidade do uso de mecanismos introjetivos e projetivos. No início, há
uma fusão entre bebê e mãe, o que caracteriza a natureza do objeto, do ponto de vista do bebê,
como subjetiva. Conforme prossegue, o desenvolvimento alcança o estágio em que o bebê se
torna uma unidade, o “EU SOU”. Após assumir a autonomia, a criança “é capaz de assumir
responsabilidades por si mesma, independentemente de um apoio de ego altamente
adaptativo” (1968g, p. 177).
Na etapa do “EU SOU”, com a realidade psíquica organizada por meio dos cuidados
suficientemente bons oferecidos pela mãe, a criança adquire agora a capacidade de transitar
80
Conceito explicitado na página 45.
90

entre a realidade externa e a realidade pessoal. Isso se dá a partir do “uso de símbolos pela
criança, no brincar criativo e, (...) na capacidade gradativa da criança de utilizar o potencial
cultural” (1968g, p. 178). Agora, a criança é capaz de se utilizar dos mecanismos de
introjeção e projeção81.
Do ponto de vista clínico, o analista deve se atentar, portanto, à capacidade de
utilização de símbolos pelo paciente para fornecer suas interpretações, o que está diretamente
ligado à vivência satisfatória da experiência de ilusão e, consequentemente, ao
estabelecimento da criatividade.
Também em 1968, no texto “Ilustração clínica de O uso de um objeto”, Winnicott
chega a conclusões a respeito do que pode causar um viver não-criativo. Descreve um
paciente do sexo masculino, de 50 anos, que por ter tido um pai fraco e uma mãe forte não
podia contar com o pai para que sua agressividade fosse contida, e tampouco podia utilizar a
mãe como refúgio, uma vez que esta tinha de suprir o controle da agressão que não vinha do
pai.
Dessa forma, ao ter “de adotar o autocontrole dos impulsos em uma etapa muito
inicial, antes de estar preparado para fazê-lo com base em uma figura paterna introjetada”
(1989vt, p. 184), tornou-se inibido e, consequentemente, baniu qualquer impulso e
espontaneidade, uma vez que sua inibição bloqueou qualquer impulso, inclusive o agressivo e
o criativo.
Como foi visto na resenha elaborada por Winnicott da autobiografia de Jung82, a
destrutividade é entrelaçada ao fenômeno da criatividade, pois este também se configura
como a capacidade para usar e destruir os objetos para, em seguida, o indivíduo ser capaz de
criá-los.
Em 1971, no texto “O brincar: a atividade criativa e a busca do eu (self)”, a
criatividade é trazida como resultado do brincar, pois, conforme afirma o autor, “O brincar é
essencial porque nele o paciente manifesta sua criatividade” (1971r, p. 80). Winnicott se volta
para a questão da busca do eu (self), e vincula isso às condições relativas à criatividade.
O produto de uma obra de arte, qualquer que seja, não precede o ato criativo, e para o
autor, não necessita estar vinculado a este, mas o ato criativo e a criatividade estão na base
para um viver dotado de sentido. Por vezes, o viver criativo pode se expressar por meio de
produções artísticas, mas essas não são condições para afirmar a existência de uma vida
criativa.

81
Este tema foi explorado por Dias (2007) em “Incorporação e introjeção em Winnicott”.
82
Páginas 85-86.
91

O eu (self) realmente não pode ser encontrado no que é construído com produtos do
corpo ou da mente, por valiosas que essas construções possam ser em termos de
beleza, perícia e impacto. Se o artista através de qualquer forma de expressão está
buscando o eu (self), então pode-se dizer que, com toda probabilidade, já existe um
certo fracasso para esse artista no campo do viver geral criativo. A criação acabada
nunca remedia a falta subjacente do sentimento do eu (self) (1971r, p. 81).

Nesse sentido, pode-se afirmar que a criatividade se manifesta a partir da conquista, no


processo de desenvolvimento, do estágio denominado “EU SOU”, pois “nesse
posicionamento [eu sou] tudo é criativo” (1971r, p. 83). No estado de saúde, ao alcançar o
estatuto unitário característico desse estágio, “o indivíduo pode reunir-se e existir como
unidade, não como defesa contra a ansiedade, mas como expressão do EU SOU, eu estou
vivo, eu sou eu mesmo” (p. 83).
Assim, Winnicott exemplifica o caso de uma paciente que, inicialmente, sinalizou que
precisaria de uma sessão “de duração indefinida” e, por isso, tinha sessões com duração de
três e, posteriormente, duas horas. A sessão tem início com a paciente distante de Winnicott –
como pessoa, percebido como objeto subjetivo. Ele passa a conceder-lhe o tempo e o silêncio
de que precisa, e não faz interpretações de nenhum tipo. Nesse sentido, indica como o
processo terapêutico pode atuar:

Propiciar oportunidade para a experiência amorfa e para os impulsos criativos,


motores e sensórios, que constituem a matéria-prima do brincar. É com base no
brincar, que se constrói a totalidade da existência experiencial do homem. Não
somos mais introvertidos ou extrovertidos. Experimentamos a vida na área dos
fenômenos transicionais, no excitante entrelaçamento da subjetividade e da
observação objetiva, e numa área intermediária entre a realidade interna do
indivíduo e a realidade compartilhada do mundo externo aos indivíduos (1971r, p.
93).

Para Ciccone (2013), nesse texto é possível relacionar a criatividade à relação


terapêutica, através da descrição da sessão do caso clínico, pois “pode-se ter um novo olhar
sobre o trabalho interpretativo, ou seja, a interpretação que vai ao encontro da necessidade de
certos pacientes ao se assemelhar ao movimento da primeira mamada teórica” (pp. 106-107).
Dessa forma, o analista seria um representante, por assim dizer, da mãe suficientemente boa,
que se adapta às necessidades do paciente, conforme o desenvolvimento emocional deste.
Assim, Winnicott diz que sua descrição do caso tem o intuito de realizar um pedido
aos terapeutas: permitir que os pacientes manifestem suas criatividades no trabalho analítico.
Essa capacidade pode ser abafada, caso o terapeuta não reconheça que deve deixar espaço
para que o paciente chegue às próprias conclusões.
92

CONCLUSÕES

Como já foi frisado, a criatividade é um tema amplo e não seria possível, pelo tempo
disponível para tal pesquisa, realizar um trabalho abarcando uma retrospectiva do tema que
incluísse todos os autores da Psicanálise. Por isso, foi realizado um recorte específico, que
considerou os autores tidos como os maiores interlocutores de Winnicott – Freud e Klein –
para realizar um paralelo em relação às suas teorias da criatividade.
O principal objetivo consistiu em explorar o fenômeno ao longo da obra de Winnicott,
para saber como o autor o desenvolveu e, para tanto, foram sugeridas três categorias de
análise: ontológica, descritiva e clínica.
Tendo em vista que seus primeiros textos que fazem referência à criatividade datam
da década de 40, e que o último foi escrito, provavelmente, em 1970 (pois o autor faleceu no
início de 1971), essa pesquisa se propôs a um resgate teórico de mais ou menos 30 anos, em
que foi possível acompanhar e compreender de que maneiras Winnicott abordou o fenômeno,
como é visto no resumo a seguir.
Em 1945, seu empenho se dirige à questão de como um bebê pode experimentar algo
que tem relação com a sua realidade interna e, aos poucos, instaurar seu contato com a
realidade externa. Ou seja, Winnicott (1945d) parece interessado em saber como ocorre essa
transição, ainda que não ocorra de forma completa, da realidade subjetiva para a realidade
objetiva do bebê. Já nessa época (Winnicott estava com 49 anos de idade e praticamente na
metade do desenvolvimento de sua teoria) ele voltava sua atenção para a experiência de
ilusão, ainda que não tenha mencionado o fenômeno da criatividade.
Três anos depois, em 1948, Winnicott (1996k) escreve sobre as necessidades
ambientais do bebê recém-nascido, e ressalta a relevância da ilusão de onipotência para o
estabelecimento da saúde mental deste. Sua ideia complementa a apresentada em 1945, pois
aqui retorna seu interesse para o início do contato com a realidade externa, através da
experiência de ilusão.
Três anos mais tarde, Winnicott (1951d), através de uma resenha de um livro de
Marion Milner, escreve acerca da qualidade da experiência de ilusão e sua relação com o
contato do indivíduo com a realidade externa e a experiência criativa, em última instância.
Pode-se observar que nesses três primeiros textos o autor não apresenta, ainda, uma definição
da criatividade em si, mas da experiência de ilusão enquanto fundamento ontológico do ser
humano, ou seja, aquilo que irá pautar o sentimento de ser e que está na base da experiência
criativa.
93

Em 1951 surge a primeira hipótese sobre os fenômenos transicionais (1953c), tema de


grande destaque na obra winnicottiana. Esse é o primeiro texto em que o autor menciona a
expressão “atividade criativa primária” para se referir ao que ocorre na experiência de ilusão.
Nesta, o bebê tem a sensação de que criou o objeto de sua necessidade, uma vez que a mãe o
atendeu por estar identificada com ele e, portanto, pode oferecer o seio no momento da fome,
por exemplo.
A área intermediária citada por Winnicott está entre “a criatividade primária e a
percepção objetiva baseada no teste da realidade” (1953c, p. 26), e para que exista, o bebê
necessita ter tido cuidados suficientemente bons no que se refere à experiência de ilusão.
Nessa hipótese de 1951, Winnicott sugere que o objeto transicional tem o papel de auxiliar o
bebê a transitar entre a realidade interna e a externa. A criatividade, por sua vez, seria uma
espécie de extensão dos fenômenos transicionais, juntamente à religião, a Arte e a Cultura.
É em 1953, no texto “W. R. D. Fairbairn - Resenha de Psycho-Analytic of the
Personality” que se identifica um termo novo, mas próximo dos apresentados em 1951:
“criatividade psíquica primária”. Apesar de não pormenorizar o termo, é interessante perceber
que não há outro texto em que o conceito é assim nomeado. Nesse texto, vê-se novamente a
importância dada pelo autor à experiência de ilusão.
Três anos depois, em 1956, Winnicott utiliza o termo “criatividade primária”, apesar
de não descrevê-lo, em um texto intitulado “A tendência Antissocial”.
Em 1958, Winnicott descreve o fenômeno da espontaneidade como aquele que “faz a
vida valer a pena” (1958j, p. 16). Em seu texto “Vivendo de modo criativo”, de 1970, ele
descreve a criatividade utilizando a mesma frase, o que nos leva a pensar que em 1958
Winnicott se refere à espontaneidade e à criatividade como sinônimos.
Em 1959, Winnicott associa a criatividade à transicionalidade, explicando como a
primeira se expande, de diversas formas, para outras áreas da vida do indivíduo, após a
capacidade para a ilusão ter sido conquistada na época da dependência absoluta. Uma vez que
o objeto transicional representa o “primeiro símbolo” utilizado pelo bebê, admite-se que foi
possível para este vivenciar a experiência de “criação” do mundo e, portanto, a área
intermediária, descrita por Winnicott, pode ser criada e usufruída. Nesta, justamente, é “onde”
a criatividade habita, podendo se estender para outras áreas como a Arte, a Cultura, a religião,
etc.
94

Poder desfrutar de um concerto de Beethoven83, por exemplo, tem relação com a


criação da área intermediária. Se trata, pois, de uma “experiência, acoplada à preparação que
eu mesmo fiz para ela”, o que faz daquilo “um fato glorioso”, porque houve uma experiência
de encontrar no mundo aquilo que antes havia sido criado ilusoriamente (1989i, p. 47).
Portanto, Winnicott afirma que a transicionalidade depende da experiência criativa do bebê.
Quatro anos mais tarde, em 1963, no texto “Da dependência à independência no
desenvolvimento do indivíduo”, o foco se desloca um pouco da importância da ilusão, e
Winnicott descreve a criatividade manifesta na etapa de dependência relativa. Isto é, quando
há a possibilidade de circular entre as realidades internas e externas, e de se identificar com o
mundo sem que isso implique em uma perda das capacidades internas do indivíduo, uma vez
que é parte dele, ou seja, foi “criado” por ele.
O mesmo ocorre no texto “Sum: Eu sou”, de 1968. Nele, a criatividade aparece
relacionada à etapa do “EU SOU”, em que é possível para a criança diferenciar eu e não-eu.
Tal conquista só pode acontecer caso o mundo tenha sido apresentado para a criança de tal
forma que tenha sido permitido o estabelecimento da criatividade.
Em 1964, a criatividade é trazida através do ponto de vista clínico, por meio da análise
do autor sobre a autobiografia de Jung. Winnicott relaciona o fenômeno da criatividade ao da
destrutividade, apontando que este é necessário para o desenvolvimento da capacidade de
criar o mundo.
Em 1965, ao descrever os diversos usos do pensar infantil no desenvolvimento84, na
saúde e na patologia, Winnicott utiliza os termos “imaginação criativa” e “impulso criativo”,
para explicar de que maneira a capacidade de pensar é derivada da experiência de ilusão de
onipotência, sendo uma extensão desta, uma vez que auxilia na integração do indivíduo.
No texto chamado “Autismo”, de 1966, o autor apresenta uma descrição rápida de um
caso clínico, e se pergunta o que pode levar ao desenvolvimento desse distúrbio. A
criatividade se apresenta no texto como uma capacidade que não é desenvolvida nesses casos,
em que o estabelecimento da realidade interna, com bases fundamentadas na ilusão, não
ocorreu. Ainda no mesmo ano, em um texto sobre a ausência do sentimento de culpa85,
Winnicott a relaciona às personalidades antissociais. A importância da experiência de ilusão é
novamente relatada pelo autor.

83
Exemplo citado por Winnicott no texto “O destino do objeto transicional”, na página 76 desse trabalho.
84
“Uma nova luz sobre o pensar infantil”.
85
“A ausência de um sentimento de culpa”.
95

No ano seguinte, no artigo “A localização da experiência cultural”, tem-se uma


construção mais elaborada do autor em relação à criatividade. Esta é descrita como uma
ampliação do brincar, sendo o campo cultural (Artes, religião, Poesia, etc.) mais uma
expressão do potencial criativo do indivíduo. Winnicott parece reformular a questão sobre a
área da experiência, na transicionalidade, ao afirmar que esta não é perdida, mas
transformada.
Nos quatro textos seguintes, escritos entre 1967 e 68, Winnicott descreve a
criatividade do ponto de vista clínico. Em “O papel do espelho da mãe e da família no
desenvolvimento infantil”, de 1967, o autor afirma que a capacidade de ver e ser visto está
intimamente ligada à “capacidade criativa”, podendo esta ser prejudicada no caso da mãe não
conseguir enxergar o bebê. Winnicott ressalta a importância do papel do analista que
reconhece as necessidades do paciente, tal como um protótipo da mãe suficientemente boa
com seu bebê.
No texto do ano seguinte, “Interrelacionar-se independentemente do impulso instintual
e em função de identificações cruzadas”, o autor traz o fenômeno da criatividade de forma
indireta, alertando para a capacidade do paciente de utilizar símbolos, e a relação disso com a
experiência de ilusão de onipotência, que dá origem à criatividade.
Ainda em 1968, Winnicott descreve o viver não-criativo no texto “Ilustração clínica de
O uso de um objeto”. Assim como no texto sobre a biografia de Jung, Winnicott relaciona o
desenvolvimento do fenômeno criativo à capacidade de destrutividade inerente ao indivíduo.
Em outro texto de 1968, “O uso de um objeto e relacionamento através de
identificações”, o autor pressupõe que o leitor esteja familiarizado com a criatividade, pois a
relaciona com o trabalho do analista – que deve deixar que o paciente chegue às suas próprias
“interpretações” criativamente – e, paralelamente, ao conceito de uso do objeto.
Finalmente, é em 1970 que surge uma definição do conceito de criatividade. No texto
“Vivendo de modo criativo”, Winnicott concebe diversas definições, tais como o sentimento
de que “a vida vale a pena” (1986h, p. 23), “uma posição básica a partir da qual operar” (p.
23) e “ver tudo como se fosse a primeira vez” (p. 25). Ainda que defina a criatividade, ele
parece se perguntar o que seria uma vida criativa, e nesse texto vê-se que está em busca
dessa(s) resposta(s). Portanto, é também nesse texto que se estabelece a diferença entre a vida
criativa e a arte criativa.
No ano do falecimento de Winnicott, 1971, o texto “O brincar: a atividade criativa e a
busca do eu (self)” traz a criatividade relacionada a outro conceito importante de sua obra – o
brincar – além de, novamente, diferenciar o viver criativo da criação do artista. Nota-se,
96

novamente, a presença da clínica psicanalítica do autor, pois a criatividade também é trazida


em relação ao par analista-paciente, em que o primeiro permite o gesto espontâneo do
segundo.
Em “A criatividade e suas origens”, de 1971, é interessante perceber como o autor
elabora sua tese em relação à diferença entre a criatividade psíquica e a criatividade artística:
o que acontece com o artista que vai pintar um quadro, ou com uma criança, que se inclina
para fazer algo intencionalmente, é fruto do impulso criativo. O que está em jogo na
criatividade é o fazer algo por espontaneidade, e não por submissão. Isso só é possível com a
apresentação do mundo externo baseado na experiência de ilusão, que representa os
primórdios da criatividade do bebê, dependente de sua mãe. Vê-se, ainda, o desenvolvimento
da teoria dos elementos femininos e masculinos, o que aponta para a importância dada pelo
autor ao aspecto ontológico do viver criativo.
Como pode ser visto nos três últimos textos citados (1971r, 1971g e 1986h), no final
de sua vida Winnicott parece se preocupar em diferenciar a criatividade, como uma conquista
do desenvolvimento humano, da criatividade artística, como muitas vezes o termo é utilizado
no senso comum.
No livro que é tido como uma síntese da obra winnicottiana, “Natureza Humana”
(1988), há um texto intitulado “Estabelecimento da relação com a realidade externa”. Neste,
percebe-se o fenômeno da criatividade amalgamado ao desenvolvimento inicial, como
conquista essencial para o relacionamento externo através de um verdadeiro self e da
tolerância da desilusão. As bases para o relacionamento saudável com a realidade externa
estão na qualidade do relacionamento inicial entre mãe e bebê. Winnicott nomeia o fenômeno
como “criatividade primária”, e está interessado na busca de sua manifestação, afirmando que
se dá “pela sensação individual de realidade da experiência e do objeto” (1988, p. 130).
Conforme o que foi descrito, pode-se concluir que o último texto em que o fenômeno
da criatividade é abordado complementa o que foi descrito no primeiro texto, de 1945, em que
o autor já se perguntava sobre como se daria a passagem entre a realidade subjetiva e a
realidade objetiva, mas ainda não havia definido o conceito. Os dois textos abordam a
criatividade sob o ponto de vista ontológico, e é possível observar o caminho percorrido pelo
autor para chegar à definição de “criatividade primária”, vista no livro “Natureza Humana”
(1988).
Analisando os textos de maneira quantitativa, dos 26 que se referem à criatividade,
seis se referem ao aspecto ontológico, ou seja, à importância que o autor confere à experiência
97

de ilusão para a constituição da personalidade do indivíduo; 13 trazem o tema sob o ponto de


vista descritivo, e sete se referem ao ponto de vista clínico.
Com a leitura dos textos de forma cronológica, constata-se que a ilusão de onipotência
ocupou lugar de destaque na obra winnicottiana. A importância dada pelo autor para o caráter
ontológico da criatividade como fundamento da natureza humana está em sua percepção de
que a adaptação ambiental nos primórdios da vida do bebê constrói o alicerce dos modos de
relação que o indivíduo estabelecerá com a realidade externa, o que se mostra,
principalmente, ao longo dos textos que enfatizam esse aspecto.
Além disso, cada uma das conquistas realizadas pelo indivíduo ao longo das etapas do
desenvolvimento emocional, com a facilitação do ambiente, confere a este um determinado
modo de se relacionar com a realidade externa sem a perda de seu sentido pessoal. Portanto,
vê-se também a importância dada pelo autor para a ilusão como base para a desilusão.
Pode-se perceber que o desenvolvimento do conceito se inicia com a descoberta da
ilusão de onipotência para, depois, passar à descrição do conceito ao longo de sua teoria e, por
último, relacioná-lo com a clínica psicanalítica, ou seja, observar a manifestação do fenômeno
na saúde e na patologia. Portanto, as categorias de análise do fenômeno parecem confirmar
alguns dos aspectos enfatizados pelo autor.
Nota-se que os textos em que o conceito é trazido diretamente, ou os que foram
dedicados à explicação da criatividade originária, pertencem ao período denominado “O uso
do objeto” (Abram, 2008) – exceto o “W. R. D. Fairbairn - Resenha de Psycho-Analytic of the
Personality” (WINNICOTT, 1953i) –, que compreende o período entre 1960 e 1971. Mas é
apenas em 1970, no texto “Vivendo de modo criativo” (1986h), que Winnicott define o
conceito.
Vemos que, ao longo de sua obra, o autor nomeia a criatividade de diferentes
maneiras, tais como: “atividade criativa primária” (1953c); “criatividade primária” (1958c;
1988); “impulso criativo” (1958j; 1971g; 1984h e 1989s); “capacidade criativa” e “atividade
criativa” (1989e). Apenas em um dos textos vemos o conceito nomeado como “criatividade
psíquica primária” (1953i).
Um dos motivos para isso pode ser o fato de que se tratava de um conceito inédito na
Psicanálise e, ao desenvolvê-lo, também foi possível ao próprio Winnicott fazer descobertas,
além de reestruturar o que teorizava a cada novo texto. Ademais, parece razoável afirmar que,
de alguma maneira, Winnicott permitia a si mesmo se reinventar, o que concedeu
característica pessoal e autônoma ao conceito de criatividade, como se pode observar no
trecho adiante:
98

Eu poderia procurar em The Oxford English Dictionary o significado da palavra


“criatividade”; poderia também pesquisar tudo o que já foi escrito a respeito do
assunto, em filosofia e psicologia; e então poderia oferecer tudo isso numa bandeja.
Mesmo isso poderia ser arranjado de tal modo que vocês diriam: “Como é original!”
Pessoalmente, sou incapaz de seguir tal plano. Sinto necessidade de falar como se
ninguém jamais tivesse examinado o assunto antes, e é natural que isso pode fazer
com que minhas palavras pareçam ridículas (1986h, p. 25).

Percebe-se, ainda, a criatividade descrita em diferentes textos de Winnicott em que


aborda assuntos como: a importância dos cuidados ambientais, a preocupação materna
primária, a mãe suficientemente boa, o brincar, verdadeiro e falso self, a destrutividade, o
pensar, a transicionalidade, o uso do objeto, etc., o que leva à constatação de que se trata de
um dos conceitos fundamentais de sua teoria, como afirmam Newman (2003) e Abram
(2000).
Foi visto86 de que modo alguns dos comentadores da obra de Winnicott definem o
fenômeno da criatividade. Dentre os que foram utilizados nessa pesquisa, alguns retomam a
importância do conceito de criatividade para a obra winnicottiana e para o entendimento de
vários outros conceitos da teoria, como Phillips (2006) e Loparic (1995; 2001; 2005). Dias
(2003) afirma que a experiência de ilusão descrita por Winnicott faz parte da compreensão
primordial em relação ao sentido de realidade que será dado pelo indivíduo. Spelman irá dizer
que

Para que se possa pensar criativamente, necessita-se: das características


winnicottianas de um ambiente suficientemente bom no início do desenvolvimento
humano; da identidade relaxada com o ambiente; da experiência (em vez da
fantasia) da onipotência; de uma ilusão de unidade com o não-eu; e da tolerância do
paradoxo de que objetos são criados de uma vez e não encontrados. Desse modo, é
necessário experimentar essa identificação não afetada com o ambiente ao longo do
tempo (2015, p. 9).

Nessa descrição há uma retomada descritiva das conquistas que precisam ser
realizadas, ao longo do desenvolvimento emocional, para que a criatividade seja um fato na
vida do indivíduo. Dias (2003) afirma que a criatividade está presente desde o início, porém,
sendo “finita”, é necessário que seja efetivada, através da identificação e adaptação maternas.
Rodman considera que a teoria dos objetos transicionais, bem como a extensão destes para a
cultura, levou Winnicott a evitar a “criação de categorias rígidas destituídas do sabor da
experiência vivida” (1987, p. 30).
Dito isso, há a possibilidade de afirmar que, apesar de discutirem a importância do
fenômeno para a obra winnicottiana, os comentadores aqui utilizados não o retomam
cronologicamente, perpassando os textos do autor sobre o tema para compreender como se

86
No capítulo 3.2.
99

deu sua construção. Ademais, ao compreender a criatividade como uma herdeira da vivência
satisfatória da ilusão de onipotência, Winnicott introduz uma novidade para o campo da
Psicanálise, que não havia sido apresentada anteriormente por Freud e Melanie Klein.
100

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao realizar um trabalho de cunho teórico como esse, em que se pretendeu resgatar a


construção de um conceito na obra de Winnicott, acompanhando cronologicamente os textos
que trazem o tema, tem-se, ao final, uma ideia da perspectiva teórica que baseou o trabalho do
autor.
Winnicott estava interessado na dupla mãe-bebê, e foi capaz de olhar atentamente para
as minúcias dessa relação, e estender os fenômenos que ali ocorrem para outras áreas da vida
do indivíduo adulto. Além disso, ele escreveu sobre as possíveis maneiras de relação dos
indivíduos com a realidade, e as incontáveis surpresas e catástrofes que podem acontecer ao
longo do caminho árduo que leva os indivíduos da realidade interna ao mundo compartilhado
com outros indivíduos.
Retomando brevemente o que foi tratado, tendo a criatividade, na obra de Winnicott, a
característica de “originária” (ou “primária”), no sentido de estar presente desde o início da
vida do bebê, sua compreensão abre caminhos para os modos de apreensão da realidade, pelo
indivíduo. Afinal, o que Winnicott postula ao descrever uma criatividade presente desde o
início, é que esta é a responsável pela criação do funcionamento psíquico, e não o contrário,
como postulado por Freud e Melanie Klein. A criatividade, para Winnicott, deixa de ser um
produto e passa a ser o elemento primordial para a criação dos sentidos de realidade.
As relações iniciais entre mãe e bebê estabelecem as bases para as relações com a
realidade externa, sendo que estas dependem, além do desenvolvimento da criatividade, do
movimento de desilusão, que ocorre naturalmente, conforme a amálgama mãe-bebê se dilui
no decorrer da desadaptação materna e do desenvolvimento do bebê.
A mãe suficientemente boa se adapta e se desadapta ao bebê da mesma forma, mas em
momentos distintos. Ela se adapta quando o bebê necessita dela para encontrar o mundo –
mas precisa sentir que o criou –, na experiência de ilusão; e se desadapta quando o bebê já é
capaz de encontrar e ser encontrado pelos objetos, sem perder a conquista inicial da ilusão de
que o mundo foi criado por ele, sendo justamente isso o que confere ao bebê o sentimento de
familiaridade com o mundo.
Posteriormente, todos esses processos se desdobrarão nos fenômenos transicionais e
nas posteriores contribuições culturais, que conferem sentido à vida do indivíduo, pois são
espécies de ‘amostras’ do mundo interno que podem ser encontradas no mundo externo, por
assim dizer.
101

A tarefa de viver e se manter vivo constitui-se em uma batalha que vai do início ao fim
da vida de todo indivíduo, uma vez que este enfrenta dificuldades que são intrínsecas ao
processo de desenvolvimento emocional e à própria condição de estar vivo. Frente a isso,
pode existir um modo singular de lidar com a vida, que depende das condições nas quais
foram construídas as primeiras relações objetais do indivíduo. A criatividade originária pode
ser definida como uma das maneiras de enxergar o mundo.
Na saúde, a mãe atende às necessidades do bebê por sua capacidade de identificar-se
com ele, o que, do ponto de vista do bebê, confere a sensação de que o mundo foi criado por
ele. Ao sentir que criou o mundo, o bebê dá a ele sua “marca” pessoal, por assim dizer. Desse
modo, a experiência de onipotência vivenciada pelo bebê fornece ao mundo um caráter de
familiaridade, uma vez que este possui algo de pessoal.
O bebê descobre o mundo e isso significa a criatividade: ao fazer movimentos em
direção aos objetos, etc., o bebê está, conforme afirmou Winnicott “pronto para ser criativo”,
e caso possa contar com um ambiente que facilite o encontro entre bebê e objeto – de modo a
não interromper a experiência do bebê, mas apenas facilitá-la –, então a criatividade se
manifestará no bebê, que sente que cria o que encontra. É neste sentido, filosófico e também
material, que a criatividade se relaciona à fundação do estatuto ontológico do ser.
Em um paralelo que parece ir ao encontro das descrições winnicottianas do viver
criativo, pode-se recorrer ao poeta brasileiro Manoel de Barros (1916-2014), quando afirma
que “tudo o que não invento é falso”87. O “falso” pode indicar que não está ligado à vivência
através do verdadeiro self, ou seja, que não partiu do gesto espontâneo do indivíduo, que não
foi apresentado aos objetos de modo a iludir-se com a sua capacidade de criar aquilo que
necessita.
“Inventar” o mundo pode dizer respeito a um modo de enxergá-lo, modo este que é
conferido ao bebê quando ainda encontra-se em contato direto e contínuo com a mãe. Assim,
o que “formata” o mundo é a criatividade originária. Tudo é de dentro pra fora, e o mundo só
faz sentido para o indivíduo se houver um sentido de ser, dado anteriormente à descoberta do
mundo, de modo que possa se lançar ao mundo sem ter que perder sua originalidade pessoal.
Tal compreensão pode auxiliar psicoterapeutas no atendimento clínico, principalmente
a pacientes graves, que necessitam regredir à dependência88. Ao entender a importância de

87
Trecho do poema “O livro sobre nada” (2016).
88
Para compreender essa questão recomendam-se as seguintes leituras: Galván (2012), Fulgencio (2011, 2016) e
Loparic (2015).
102

deixar o paciente chegar a suas conclusões por si mesmo, o analista pode rever sua postura
interpretativa.
Além disso, o entendimento do fenômeno pode contribuir para o trabalho de
educadores e professores, pois revela a importância do cuidado nas fases iniciais do
desenvolvimento emocional do indivíduo, e a necessidade de adaptação ambiental para a
realização da tendência inata à integração.
Compreender de que forma ocorrem as primeiras relações objetais do indivíduo, quais
as consequências de uma adaptação ambiental insuficiente e o que faz o mundo ter um sentido
pode auxiliar aqueles que estão em contato com pacientes que sentem que o mundo não faz
sentido, para que estes possam experienciar, ao menos em um curto período de tempo, ser
quem são, ainda que não faça sentido. Afinal, assim como a desilusão só é possível com a
vivência da ilusão, é do não-sentido que pode emergir o sentido em si.
103

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