Você está na página 1de 12

Fonte Digital

Documento da Autora
©2003 — Priscilla Silveira
priscilla@integrafonoaudiologia.com
PREFÁCIO

Não há alguém no mundo totalmente fluente. Todos nós, em determinados

momentos hesitamos, repetimos, bloqueamos, gaguejamos. A disfluência é o lugar de

subjetivação, o lugar onde a língua, enquanto outro, faz efeito na criança, que joga com

as regras e é levada a assemelhar-se à fala do adulto. Esta disfluência é constituinte

do sujeito e permanece presente no discurso do adulto, uma vez que o conceito de

fluência é ideal.

Priscilla Silveira escreve seu segundo livro infantil, desta vez estabelecendo uma

analogia entre o rio e o movimento da linguagem e entre os troncos e as restrições da

fala, a disfluência, desmistificando a dicotomia fluência x disfluência.

Além de ser uma deliciosa fonte de saber para as crianças de todas as idades,

este livro atinge, especificamente, a classe de profissionais e estudantes de

Fonoaudiologia e Letras, bem como o público em geral.

Nadia Pereira Gonçalves de Azevedo


Como costumam fazer todos os sábados, Pietra e seu avô foram
passear no bosque. Os dois adoram passar o tempo juntos porque
Pietra é muito curiosa e seu avô ─ bastante sábio ─ sempre responde
satisfeito as suas questões.
Depois de discutirem sobre as cores das borboletas que
sobrevoavam as plantas, Pietra correu para a beira do rio e admirou-
se:
─ Vovô, como esse rio é bonito! Parece que tem vida! Eu queria que
ele falasse...
─ Ele fala, Pietra. Só não utiliza palavras como a gente. ─ Respondeu
o avô a mais uma pergunta da curiosa menina.
Só que desta vez a garota não entendeu:
─ Como assim, vovô?
─ Você não esta ouvindo o barulho das águas? ─ Perguntou o sábio
velhinho.
─ Estou! Veja, vovô, a água bate naquelas pedras, naquele tronco,
desce formando uma pequena cachoeira... ─ Falou Pietra maravilhada.
─ É verdade ─ disse o avô ─ há partes do rio em que a água corre
fluente e em outras não.
─ Fluente? ─ Estranhou a garota. ─ O que é isso, vovô?
─ Fluente é algo que ocorre sem interrupções. Quando falei que há
partes do rio em que a água corre fluente é porque não há, nestas
partes, pedras, troncos... que atrapalhem seu percurso. Veja aquela
parte do rio! ─ Apontou o avô ─ é um exemplo.
Pietra ficou feliz por ter entendido e disse:
─ É mesmo, vovô! Mas ainda bem que a nossa fala é diferente da
“fala” do rio. Já pensou se tivéssemos pedras,
troncos...Interrompendo as nossas palavras?!
Os dois riram da comparação feita pela garota. Em seguida, o avô
aproveitou sua observação, para ensinar-lhe mais uma lição:
─ Mas se você acha que a nossa fala é totalmente fluente está
enganada, minha neta.
─ E não é, vovô? Mais uma vez ele conseguiu aguçar a curiosidade da
menina.
O avô começou a explicar:
─ Muitas vezes, nós tropeçamos nas palavras*, quer dizer,
repetimos, prolongamos ou fazemos pausas quando falamos. É como
se estes efeitos fossem as pedras e troncos... que não nos deixam
ser fluentes totalmente.
─ É mesmo, vovô! Muitas vezes, quando estou pensando no que falar,
eu faço: “éééé...”. ─ Disse Pietra.

*Somos disfluentes.
─ Muito bem, minha neta! A disfluência nos ajuda a construir a fala e,
além disso, há outros momentos em que não somos fluentes: quando
estamos nervosos e ansiosos, ao falarmos uma palavra difícil, quando a
criança está aprendendo a falar...
─ Poxa! Eu nem havia percebido isso! ─ Admirou-se a garota.
─ Pois é, Pietra, e assim como as pedras não impedem o rio de correr,
a disfluência não nos impede de falar. Ela faz parte de nossa fala,
assim como as pedras e troncos compõem este rio que você achou tão
belo. ─ Ensinou o avô.
O sorriso abriu-se no rosto de Pietra. Ela havia aprendido mais uma
lição naquele dia.

Interesses relacionados