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DOUTRINA DE INTELIGÊNCIA I

autor
MARCELO MÜLLER

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2017
Conselho editorial  roberto paes e gisele lima

Autor do original  marcelo müller

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  gisele lima , paula r. de a. machado e aline karina


rabello

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  bfs media

Revisão de conteúdo  etiene coelho martins

Imagem de capa  elnur | shutterstock.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2018.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

M685d Müller, Marcelo


Doutrina de inteligência I / Marcelo Müller.
Rio de Janeiro : SESES, 2018.
128 p: il.

isbn: 978-85-5548-539-8.

1. Inteligência. 2. Atividade de Inteligência. 3. História. 4. SISBIN.


I. SESES. II. Estácio.
cdd 342.0418

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário
Prefácio 7

1. Os primórdios da atividade de inteligência


humana e da inteligência técnica 9
Origem histórica da Atividade de Inteligência 10
Registros bíblicos que apontam o emprego da atividade de inteligência 11
Registros históricos que indicam o emprego da atividade de inteligência
a.C. 12
Emprego da atividade de inteligência durante as Guerras Mundiais 14

2. Evolução histórica da atividade de inteligência


no Brasil 31
A atividade de inteligência no Brasil: surgimento e evolução 33
Criação do Sistema Nacional de Informações (SISNI) e do Serviço
Nacional de Informações (SNI) 36
Criação do Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) e da Agência
Brasileira de Inteligência (ABIN) 41

O Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) 44


Sistema de Inteligência Clássico 46

3. Inteligência Clássica e de Segurança Pública:


os dois lados da atividade de inteligência 51
Sistema de Inteligência de Segurança Pública (SISP) 53
Inteligência de Segurança Pública versus Inteligência Clássica? 55
Inteligência de Segurança Pública e Inteligência Clássica como
atividades que se complementam 68
4. A inteligência de Segurança Pública no âmbito
dos estados 75
Subsistemas estaduais de Inteligência de Segurança Pública 76
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Acre 77
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Amazonas 78
Sistema de Inteligência de Segurança Pública e Defesa Social
do Estado do Ceará 79
Sistema de Inteligência da Segurança Pública do Estado
do Espírito Santo 80
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado
de Goiás 80
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado
de Mato Grosso 82
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado
de Mato Grosso do Sul 83
Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública
de Minas Gerais 84
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Pará 85
Sistema Estadual de Inteligência de Segurança e Defesa Social
do Estado da Paraíba 86
Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública do Estado
de Pernambuco 87
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado
do Rio de Janeiro 88
Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública
do Estado do Rio Grande do Norte 89
Sistema Estadual de Segurança Pública do Estado
de Rondônia 89
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado
de Roraima 90
Centro Integrado de Inteligência de Segurança Pública do Estado
de São Paulo 91
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado
de Sergipe 91
Estados da Federação que não teriam ainda um Sistema Estadual
de Inteligência de Segurança Pública 92
5. As modalidades da atividade de inteligência 99
As diferentes categorias da Atividade de Inteligência 101
Inteligência Militar e de Defesa 102
Inteligência Fiscal 103
Inteligência do Ministério Público 104
Inteligência Financeira 106
Inteligência Competitiva 107
Inteligência estratégica 109
Inteligência penitenciária 110
Inteligência Policial 113
Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

É com grande satisfação que essa obra é entregue a você. Produzida com muita
dedicação, ela tem por objetivo tratar de temas fundamentais sobre a atividade de
inteligência. De maneira didática, buscou-se, inicialmente, um resgate histórico
da atividade, possibilitando assim uma melhor compreensão do assunto.
A cada capítulo você será apresentado às pesquisas realizadas, aos conceitos
importantes e necessários para o seu aprendizado, bem como levado a constantes
reflexões sobre os diversos assuntos tratados ao longo do livro.
Este livro é organizado em cinco capítulos, e em cada um deles, por conta do
seu conteúdo, há um recorte espacial e temporal diferente.
No primeiro capítulo, há uma espécie de linha do tempo, estruturada para lhe
apresentar o que seria a gênese da atividade de inteligência. Para tanto, você aces-
sará diversos registros históricos que remontam à inteligência, desde as passagens
bíblicas ao período da Guerra Fria.
As pesquisas realizadas e constantes do segundo capítulo dão conta do surgi-
mento da inteligência no Brasil e as mudanças ocorridas em sua estrutura, percor-
rendo até a criação do Sistema Brasileiro de Inteligência, assim como tratando de
suas características.
O terceiro capítulo do livro trata do Sistema de Inteligência de Segurança
Pública, da distinção entre a inteligência clássica e a de segurança pública e de
como ambas se complementam. A Lei de Acesso à Informação também foi trazida
à baila, abordando os pontos dessa lei que tratam da classificação dos documentos
sigilosos e dos prazos que esses documentos permanecem com restrição de acesso,
e quais são os agentes que podem manipulá-los.
Já no quarto capítulo serão apresentados os subsistemas estaduais de inteligên-
cia de segurança pública existentes no Brasil e como a inteligência de segurança
pública é empregada nos estados onde não existem sistemas de inteligência.
Por fim, o quinto capítulo trata das diferentes categorias da atividade de in-
teligência e todas as suas características, por exemplo, a inteligência penitenciária
– tema de grande relevância no contexto da segurança pública e administração
penitenciária – mostrando o quanto essa categoria da inteligência deve estar inte-
grada com a inteligência de segurança pública.

7
A distinção entre inteligência de segurança pública e inteligência policial tam-
bém é muito debatida, com reflexões importantes sobre essas atividades e quem
pode e quem não deve realizá-la.

Bons estudos!
1
Os primórdios
da atividade de
inteligência humana
e da inteligência
técnica
Os primórdios da atividade de inteligência
humana e da inteligência técnica

O presente capítulo representa uma oportunidade muito especial de mostrar


para o leitor o quanto a atividade de inteligência é antiga, talvez uma das mais
antigas do mundo e o quanto ela permanece atual;
Esse trabalho foi preparado de forma a possibilitar um transporte “de volta
ao passado”, mas, um passado muito longínquo, no qual importantes decisões
que foram tomadas dependeram consideravelmente dos trabalhos realizados pelos
agentes de inteligência;
Será apresentado ao longo desse capítulo um resgate histórico com base em
diferentes períodos, trazendo à tona passagens bíblicas, lições estratégicas escri-
tas a.C., fatos ocorridos durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais e na
Guerra Fria, sendo esses recortes históricos focados nas diversas ações de inteli-
gência realizadas.

OBJETIVOS
•  Reconhecer a importância da atividade de inteligência como atividade de assessoramento
ao processo decisório;
•  Identificar o emprego da inteligência nos diferentes momentos da história mundial;
•  Reconhecer a importância da inteligência como atividade estratégica nos cenários das
Grandes Guerras Mundiais;
•  Refletir sobre a atividade de inteligência como ferramenta imprescindível para a tomada
de decisões.

Origem histórica da Atividade de Inteligência

Existem diversas teorias que versam sobre a origem da atividade de inteligên-


cia. Entre elas, há inclusive, aquelas que remontam a diversos registros bíblicos
como gênese dessa atividade. Sendo assim, serão apresentados alguns desses regis-
tros de fonte bíblica, como também registros históricos de grande importância no
cenário das Grandes Guerras Mundiais.

capítulo 1 • 10
Veja como é fundamental esse resgate histórico para a compreensão sobre a
importância que a inteligência tem, e o porquê de ela ter sido largamente utilizada
por diversos países, principalmente nos momentos de belicosidade e em períodos
que precederam e sucederam os grandes conflitos mundiais e ainda o motivo de
ela ser amplamente utilizada nos dias atuais.
Perceba que o viés militar, notoriamente utilizado no passado, e que ainda
continua sendo amplamente praticado, deu origem a outras formas de emprego,
as quais serão apresentadas ao longo deste trabalho, bem como o porquê de uma
“prática” tão antiga estar cada vez mais em voga nos dias atuais, até mesmo nos
setores privados.

Registros bíblicos que apontam o emprego da atividade de inteligência

Vários registros no Antigo Testamento da Bíblia indicam os primeiros passos


no sentido do exercício da Atividade de Inteligência, eis algumas dessas passagens,
a saber:
Na missão que ficou conhecida como “Os exploradores de Canaã”, o Senhor
fala com Moisés e lhe ordena o envio de homens até Canaã para que eles possam
explorar aquela região, a qual será entregue aos filhos de Israel. Esse trabalho,
a de explorar um ambiente desconhecido, é realizado até hoje e dá-se o nome
de reconhecimento.
Números 13, da Bíblia, relata o seguinte: “Envia homens para explorar a terra
de Canaã, que hei de dar aos filhos de Israel. Enviarás um homem de cada tribo
patriarcal, tomados todos entre os príncipes”.
Cumprindo a ordem de Deus, Moisés determina aos seus espias que partam
com destino a Canaã:

Ide pelo deserto de Neguev e subi a montanha. Examinai que terra é essa e o povo que
nela habita, se é forte ou fraco, pequeno ou numeroso. Vêde como é a terra onde habita,
se é boa ou má, e como são as suas cidades, se muradas ou se sem muros; examinai
igualmente se o terreno é fértil ou estéril, e se há árvores ou não. Coragem! E trazei-nos
dos frutos da terra. (Números 13, 17-20, Bíblia. Notas de Aula, Curso Básico de Inteli-
gência, Esimex, 2004).

Uma vez que os espias cumprem a ordem dada, eles retornam à sua cidade e
contam a Moisés tudo que foi observado em Canaã.
Nesse sentido, Números 13, 27-29, Bíblia (Notas de aula, Esimex, 2004):
“Fomos a terra aonde nos enviaste. É verdadeiramente uma terra onde jorra leite

capítulo 1 • 11
e mel, como se pode ver desses frutos que trouxemos. Mas seus habitantes são
robustos e suas cidades são grandes e bem muradas”.
Observe esses relatos e veja como eles indicam que a atividade de inteligência
foi exercida com êxito no período classificado como Antigo Testamento da Bíblia,
no qual Deus dá a Moisés a ordem de explorar Canaã e ele, temeroso ao poder
divino, ordena aos seus espias que sigam até Canaã e façam um levantamento
daquela cidade.
Há quem diga que essa missão de Moisés aos seus fiéis soldados seria a pri-
meira Ordem de Busca – documento de cunho operacional – produzida, e que
a resposta de seus espias, ao retornarem, corresponderia ao primeiro Relatório de
Missão que se tem notícias.
Outro registro também importante, na Bíblia, mas, precisamente em Josué
(2:1-7), trata da missão desempenhada por dois espiões que seguiram até a cidade
de Jericó, com o objetivo de examinar a terra e a cidade de Jericó, a mando de
Josué. Na ocasião, o rei de Jericó tomou conhecimento de que os dois estrangeiros
haviam entrado na cidade e permanecido na casa da prostituta de nome Raabe.
De acordo com essa passagem bíblica, Raabe deu guarida aos espias de Josué,
escondendo-os do rei de Jericó e de seus homens que estavam a procurá-los. Raabe
não somente os protegeu do rei, como também os auxiliou na fuga daquele terri-
tório inimigo.
Os dois guerreiros de Josué retornaram ao seu povo e relataram tudo que vi-
ram e que foram ajudados pela citada prostituta. Posteriormente, com a tomada
da cidade pelos hebreus, Raabe e sua família não foram mortos, tiveram suas vidas
poupadas, e passaram a viver em Israel, conforme o narrado em Josué, 6.25-25,
Bíblia (Notas de Aula, Curso Básico de Inteligência, Esimex, 2004).

Registros históricos que indicam o emprego da atividade de inteligência a.C.

Perceba que conhecer os pontos fortes e pontos fracos do inimigo ou do ad-


versário não é tarefa dos dias atuais. Em períodos muito longínquos, essas infor-
mações já eram privilegiadas no sentido de poder decidir sobre aquilo que incidi-
ria diretamente no poder inimigo, minimizando sobremaneira quaisquer perdas,
seja nos recursos materiais ou recursos humanos.
Sun Tzu, general estrategista chinês, escreveu em 500 a.C,. a obra A Arte da
Guerra, em que entre muitas lições, já tratava da tomada de decisões com base na
atividade de assessoramento, sendo esta uma forma eficaz de conhecer os planos e
as decisões de exércitos inimigos.

capítulo 1 • 12
Tzu, (2002, p. 46) ensina a sua lição que mais ganhou grande notoriedade e
que até hoje seus versos ecoam senão em todos, na maioria dos cursos de inteli-
gência. A saber: “Conhece-te a ti e ao teu inimigo e, em cem batalhas que sejam,
nunca correrás perigo”.
Nesse mesmo sentido, Tzu (p. 46, 2002) ensina: “Quando te conheces, mas
desconheces o teu inimigo, as tuas hipóteses de perder ou ganhar são iguais”.
Em mais um ensinamento, Tzu (2002, p. 46) diz que “Se te desconheces e ao
teu inimigo também, é certo que, em qualquer batalha, correrás perigo”.
Outra parte dessa mesma obra, mas, precisamente no capítulo 13, já tratava
especificamente sobre o emprego de espiões.
Sendo assim, leia e descubra o pensamento desse estrategista chinês, segundo
Tzu (2002, p. 111): “no Exército, dentre todos os que estão próximos do coman-
dante, nenhum lhe será mais íntimo do que os espiões. Ninguém terá melhores
prêmios do que eles. De todos os assuntos, nenhum será mais confidencial do que
os relacionados com as operações secretas”.
Para Sun Tzu, não há ninguém mais íntimo ao comandante do que o espião.
O espião, além de ser o mais íntimo, deve possuir também maior remuneração.
Isso se dá, em sua concepção, devido à sensibilidade dos assuntos que são tratados
com esse tipo de agente.
Sun Tzu, grande estrategista militar que era, fala da recompensa dos espiões,
que deve ser, segundo ele, bem generosa. Essa é mais uma lição do general chinês
para manter o espião sempre ao lado de seu comandante. Um espião que não
esteja sendo bem recompensado pode levar tudo a perder, por conta do que sabe,
caso ele venha a mudar de lado e atuar como agente duplo.
Tratar com espiões requer expertise daquele que se relaciona com eles, neste
sentido, a lição de Tzu (2002, p. 110): “Quem não for sábio e esperto, humano e
justo, não pode servir-se de espiões. Também quem não for delicado e sutil nunca
conseguirá deles toda a verdade.”.
A obra de Sun Tzu é bastante clara ao demonstrar o valor que a atividade de
inteligência, e principalmente os espiões tinham para ele. Expressões como “infor-
mações úteis” e “espiões” já faziam parte de seu vocabulário e de suas estratégias.
Fazendo uma comparação com os dias atuais, informação útil e espião, se tratam
de “dado negado” e agente de operações de inteligência, respectivamente, termi-
nologias específicas da doutrina de inteligência.
O site http://livrousado.com/, em 25 de abril de 2015, publicou um artigo
bem interessante sobre os sete livros mais vendidos no mundo. A obra A Arte da
Guerra foi o terceiro livro mais vendido no mundo. Perceba como mesmo sendo

capítulo 1 • 13
este livro do século VI a.C., ele é lido em todo o mundo. Ainda que seja antigo, é
completo e muito atual.
É um dos livros sempre mencionados nos cursos de inteligência, devido às
suas lições estratégicas serem aplicáveis até os dias de hoje. Entretanto, A Arte da
Guerra vem ganhado espaço também, não só nas estantes e nas cabeceiras dos
agentes de inteligência, mas também entre economistas e administradores.
Profissionais de todas as áreas e todos os negócios que querem ser bem-suce-
didos têm procurado conhecer as lições de Sun Tzu e aplicá-las no seu ambiente
profissional.

Emprego da atividade de inteligência durante as Guerras Mundiais

Agentes de inteligência percorreram o mundo com as missões mais secretas. A


inteligência militar, mais precisamente a espionagem, era o trunfo que as grandes
potências tinham nas mãos como forma de obter os segredos das forças inimigas.
Assim o foi, por exemplo, na Guerra dos Bálcãs, em que grandes nações impe-
rialistas formaram alianças a fim de atuar naquele conflito de interesses políticos,
vindo tais alianças a marcarem o desenvolvimento da Primeira Guerra Mundial,
de acordo com o texto disponível no site http://mundoeducacao.bol.uol.com.br.
Agentes de inteligência (de espionagem) foram lançados nos mais diversos países a
fim de realizarem levantamentos de planos e fortalezas inimigas em prol dos países
para os quais trabalhavam.

Emprego da inteligência em conflitos bélicos que antecederam a Primeira


Guerra Mundial

Registros disponíveis no site https://seuhistory.com mostram que Robert


Baden Powell, que ficou conhecido como o pai do Movimento Escoteiro, foi um
excelente espião inglês nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial.
Perceba que, se fazendo passar por um botânico, Baden Powell, habilidoso ca-
ricaturista e aquarelista, disfarçava esboços de fortificações inimigas em desenhos
de asas de borboletas. Os trabalhos do “botânico” compunham um acervo muito
engenhoso para aquela época.
Uma matéria bem interessante sobre o pai do movimento escoteiro está dispo-
nível no site www.mundodesbravador.com.br, o qual mostra que Baden Powell foi
um talentoso espião, nascido em Londres em 1857. Quando militar, participou
de diversas campanhas na África e também na Guerra dos Bálcãs, ocasião em que

capítulo 1 • 14
utilizou todo o seu repertório de técnicas de memorização e de disfarces para “le-
vantar” as fortalezas inimigas da Inglaterra.
De volta ao Reino Unido, escreveu inúmeros livros que fizeram por aumentar
a sua popularidade entre os leitores ingleses. Sua obra Escotismo para Rapazes in-
fluenciou muitos jovens daquela época a entrarem no movimento dos escoteiros.
De acordo com esse site, o pai do movimento escoteiro, que em 1915 já era
uma celebridade, lançou a obra intitulada Minhas Aventuras como Espião, um
guia destinado àqueles que desejavam se tornar espiões. Na referida obra, ele narra
uma de suas missões, ocorrida no final do século XIX, nos Balcãs.
Baden Powell, antes de iniciar sua carreira militar, tinha grande apreço pelo
teatro e por esportes, o que ajudou em muito nos seus trabalhos de espionagem.
No livro Minhas Aventuras como Espião, ele revela várias técnicas que utilizava
para não ser descoberto pelas autoridades inimigas, bem como sobre o uso de
vestimentas compatíveis com as diversas regiões do mundo em que ele operava.
Muito interessante também são os desenhos feitos por ele, e que podem ser en-
contrados naquela obra literária, por exemplo de insetos, nos quais ele escondia
mapas secretos.
Versatilidade e criatividade, dois grandes atributos que auxiliaram e muito o
pai do movimento dos escoteiros no seu ofício de espião. Lições básicas como rou-
pa compatível com o ambiente e que se encontra e “algo a se fazer naquele local,
que justifique a sua permanência ali”, pode se dizer que “permitiram” a sua ida
e permanência a vários locais de interesse da inteligência naquela época, fazendo
com que tivesse contato com informações privilegiadas de bases inimigas.
Veja a seguir alguns dos trabalhos realizados por Baden Powell:

Figura 1.1  –  Disponível em: <http://escoteirochico.blogspot.com.br/2016 /07/os-mapas-


secretos-de-robert-baden-powell.html>.

capítulo 1 • 15
Figura 1.2  –  Disponível em: <http://escoteirochico.blogspot.com.br/2016/07/os-mapas-
secretos-de-robert-baden-powell.html>.

Disponível em: <http://escoteirochico.blogspot.com.br/2016/07/os-mapas-secretos-de


-robert- baden-powell.html>

Figura 1.3  –  Disponível em: <http://escoteirochico.blogspot.com.br/2016/07/os-mapas-


secretos-de-robert-baden-powell.html>

Perceba como Robert Baden Powell, além de talentoso, era também muito
criativo. Como desconfiariam de um botânico, vestido a caráter, com seu bloco de
anotações que circulava inocentemente pelos mais diversos lugares? Na verdade,

capítulo 1 • 16
de inocente ele não tinha nada, agia de forma dissimulada, para que não notassem
suas verdadeiras intenções.
Grosso modo, se pode dizer que os trabalhos de Baden Powell, de dissimular
figuras dentro de outras figuras, teriam sido um dos grandes contribuintes da cria-
ção do que se conhece hoje por “esteganografia”.
Sobre a esteganografia, sabe-se o seguinte:

Esteganografia é uma palavra que vem do grego e significa “escrita oculta”. Trata-se
do estudo de técnicas que permitam esconder informações dentro de outros arquivos,
sejam imagens, músicas, vídeos ou mesmo textos. É possível, por exemplo, esconder
mensagens dentro de imagens sem que os usuários, ou qualquer outra pessoa que
intercepte essa figura, sequer desconfie que exista alguma coisa escrita ali. Disponível
em: <www.tecmundo.com.br>.

Não havia por parte do espião inglês qualquer recurso tecnológico dos quais se
dispõem nos dias atuais, havia sim, somente a habilidade de observar, memorizar
e “desenhar” o que foi observado, logicamente que, dissimulando o verdadeiro
desenho em desenhos de insetos ou de plantas. Contudo, essa forma de ocultar
informações dentro de outras aparentemente inocentes ou ingênuas, ainda que
embrionária, influenciou de alguma forma para que a esteganografia surgisse.

A inteligência na Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial foi palco de grande utilização de espiões, muitos


deles femininos, e de maior desenvolvimento dos serviços de inteligência, que já
existiam antes da Grande Guerra. Nesse momento histórico houve também gran-
de exploração dos meios técnicos de inteligência, ainda que rudimentares repre-
sentaram um grande feito naquela época, considerando a elaboração intelectual
dos inventores, bem como os resultados obtidos.
Alguns espiões ficaram famosos durante a Grande Guerra, vindo a serem pos-
teriormente, objetos de obras cinematográficas e também literárias, nas quais seus
feitos foram publicados e conhecidos internacionalmente.
Num período de grande experimentação de armas químicas, a Primeira Guerra
Mundial mostrou ao mundo os efeitos devastadores do contato entre essas armas
e os seres vivos. Considerando ainda que enfrentar tropas entrincheiradas em ter-
ritório inimigo não era boa estratégia, o site http://historiasylvio.blogspot.com.br
traz uma matéria interessante sobre aquele momento histórico, apresentando as

capítulo 1 • 17
principais armas químicas utilizadas naquela época e que tinham um efeito além
das reações químicas em contato com os militares, o de desentrincheirá-los.
Nesse contexto de guerra, destacavam-se também outros tipos de operações,
que não eram aquelas ocorridas em campos de batalhas, com grande desprendi-
mento de força física, e sim operações intelectuais, em que espiões utilizavam toda
a sua destreza e inteligência para descobrir “segredos” da parte inimiga.
Em se tratando de espiões, amplamente empregados na Primeira Guerra
Mundial, destaca-se a atuação de Margarita Zelle, que utilizava o nome fictício de
Mata Hari, de acordo com o site https://seuhistory.com, foi uma bailaria holande-
sa que fez parte de uma enorme estrutura europeia de espionagem. Agindo como
bailarina sensual em Paris, Mata Hari se relacionou em seu quarto com políticos e
autoridades militares muito influentes do continente.
Ainda de acordo com esse site, em 1914, quando a Primeira Guerra começou,
Mata Hari se encontrava em Berlim e ofereceu seus serviços à Eugen Kraemer,
chefe da espionagem alemã. Entretanto, ela passou a ser alvo de espiões franceses.
Quando ela voltou a Paris, ofereceu também seus serviços para a França, e como
ela ainda trabalhava para a Alemanha, ela passou a atuar como agente duplo, pois
trabalhava para Alemanha e França concomitantemente.
Ao retornar à França em 1917, descoberta, foi presa e condenada à morte por
se aproveitar de suas relações íntimas para fazer trabalhos de espionagem para a
Alemanha, vindo a ser morta por fuzilamento.
Outra espiã que se destacou nesse mesmo período, o da Grande Guerra, foi
Anne Marie Lesser, que ficou conhecida como Fräulein Doktor, pelos alemães, e
Mademoiselle Docteur, pelos franceses, tendo essa última realizado uma missão
coroada de grande êxito, o roubo da fórmula do gás mostarda na França, em prol
da Alemanha. (Notas de aula, Curso Básico de Inteligência, Esimex, 2004).
De acordo com o site https://sites.google.com, Fraulein Doktor, conhecida
também como a Senhora Doutora é um ícone de sucesso do serviço de espiona-
gem alemã.
Note como os espiões atuavam sempre em busca de informações devidamente
protegidas que eram de grande interesse para planos e decisões estratégicas de
países rivais.
Não só as batalhas entre os militares, inclusive com armas químicas e o uso de
pessoas como espiões fizeram a Primeira Guerra Mundial. Muitos equipamentos
de vigilância foram desenvolvidos com o intuito de acompanhar os passos das tro-
pas inimigas. Desde aquela época, o conhecimento já era significado de poder. A
possibilidade de se antecipar e neutralizar as ações do inimigo revestia-se de grande

capítulo 1 • 18
importância num cenário de guerra, que nada mais é do que uma competição, em
que teoricamente se ganha o melhor.
O site http://www.museudeimagens.com.br traz um registro histórico bem
interessante sobre os pombos – já eram reconhecidos como mensageiros –, que
tiveram outra utilidade durante a Primeira Guerra Mundial; passaram a ser utiliza-
dos como meio de realizar fotografias aéreas. Uma microcâmera feita em alumínio,
acionada por corda era adaptada para ser presa no corpo do pombo e o dispositivo
funcionava disparando uma sequência de cliques enquanto o animal alçava voo.
A citada técnica foi inventada pelo alemão Julius Neubronner, que no início
sofreu rejeição ao seu invento, mas, que ao divulgar as fotos retiradas pelas má-
quinas presas ao corpo dos pombos, teve seu valor reconhecido e a técnica cha-
mada de “pombo-fotografia” foi amplamente utilizada durante a Primeira Guerra
Mundial.
A seguir, fotografias dos pombos já com as máquinas alocadas em seus corpos,
o que ficou conhecido como a técnica de pombo-fotografia:
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 1.4  –  Julius Neubronner with pigeon and camera 1914.


©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 1.5  – 

capítulo 1 • 19
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 1.6  – 

Outras engenhosidades foram construídas e também utilizadas na Primeira


Guerra Mundial, por exemplo câmeras fotográficas para reconhecimento aéreo
eram afixadas nos aviões e acionadas pelos militares durante o voo, ou até mesmo
equipamentos que aumentavam a capacidade auditiva do homem para ouvir a
distância a movimentação inimiga (Notas de aula, Curso Básico de Inteligência,
Esimex, 2004).
Na fotografia a seguir, no ano de 1916, um observador da Força Aérea
Britânica em uma aeronave de reconhecimento da Royal Aircraft Factory, com
uma câmera de reconhecimento aéreo fixada à fuselagem.
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 1.7  – 

capítulo 1 • 20
Diante do que vem sendo apresentado neste livro, pode-se perceber que a
atividade de inteligência sempre busca antever as ações que lhe são adversas, de
modo que o responsável pelo processo decisório seja assessorado da melhor forma
possível, na sua tomada de decisão. Porém, antever as ações adversas não é tarefa
das mais simples, eis que o detentor de tais “ações adversas” procura tomar certos
cuidados para protegê-las dos “olhares inimigos”.

A inteligência na Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial, ocorrida entre os anos de 1939 e 1945, foi o


maior conflito bélico que se tem notícias. Essa guerra ocorreu entre blocos de
países da seguinte forma:

A Segunda Guerra Mundial teve início em 1939, todavia desta vez os conflitos armados
extrapolariam o continente europeu. O adjetivo “mundial” se fez valer, no sentido de que
conflitos armados aconteceram em vários continentes, ocasionando a participação na
guerra de países de todos os continentes. O novo conflito colocou em choque os países
chamados do Eixo com os Aliados. Disponível em: <www.infoescola.com>.

De acordo com o site www.infoescola.com, os países do Eixo eram Alemanha,


Itália e Japão. Enquanto os países Aliados ou comando aliado, como também
eram conhecidos, eram os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Soviética.
A revista Superinteressante, da Editora Abril, do ano de 2007, traz um con-
teúdo incrível sobre os arquivos secretos da espionagem, revelando vários casos dos
bastidores dos grandes conflitos mundiais.
Perceba, de acordo com essa matéria, que as repercussões das guerras daquela
época ainda ecoam nos dias de hoje. Grande parte das vitórias alcançadas nessas
batalhas aconteceu em razão de outra batalha, meio que ocorrida às sombras, de
maneira subterrânea, velada.
Veja como essa matéria da revista Superinteressante apresenta essa questão.
Esses conflitos se tratavam de verdadeiros embates clandestinos, que o que estava
em jogo era a guerra psicológica, travada pelas mentes humanas em que o grande
poder não estava no poderio bélico de determinada nação, e sim na capacidade de
desinformar e enganar os inimigos. Mais uma vez privilegiava-se o uso de espiões.
Durante a Segunda Guerra, uma nova realidade surgiu para as agências de
inteligência, mas que realidade seria essa? Pois bem, a construção de um novo
tipo de inteligência era extremamente necessária, uma vez que aquele tipo de es-
pionagem que ocorrera durante a Primeira Guerra Mundial, e que os órgãos de

capítulo 1 • 21
inteligência estavam habituados a utilizar, já não era suficiente o bastante para
obter as vantagens necessárias das tropas inimigas.
Como seria possível realizar a infiltração de espiões no território inimigo,
onde as características físicas, a cultura e a língua de cada país eram tão diferentes?
Sem contar que o tempo era muito escasso para se aprender a falar e conhecer a
cultura do país inimigo.
Inicialmente, as tentativas de infiltração de agentes pela Alemanha em territó-
rio inglês não foram bem-sucedidas, devido às diferenças relatadas anteriormente,
e todos aqueles que tentaram a infiltração foram aprisionados. E com a Inglaterra
não era diferente, não havia agentes infiltrados entre os nazistas, devido às mesmas
dificuldades encontradas pelos alemães.
Poderiam até usar os agentes duplos, ou seja, aqueles alemães ou ingleses que
colaborassem com o inimigo, mas esses não eram confiáveis, porém, era a hipótese
com maior probabilidade de sucesso nas missões, mas, devido à evolução na segu-
rança interna daqueles países, esse tipo de ação era insuficiente.
Diante daquela situação, os países envolvidos na guerra iniciaram uma “cor-
rida” para inventar aparelhos de inteligência capazes de criptografar as comuni-
cações entre os aliados, de modo a preservá-las, bem como ouvir as transmis-
sões inimigas.
Mas, o que significa criptografia? Segundo o site https://www.oficinadanet.
com.br é: “Um conjunto de regras que visa codificar a informação de forma que
só o emissor e o receptor consigam decifrá-la. Para isso varias técnicas são usadas,
e ao passar do tempo modificadas, aperfeiçoadas e o surgimento de novas outras
de maneira que fiquem mais seguras.”
Ainda sobre o termo criptografia, segue abaixo um outro conceito, tão escla-
recedor quanto o primeiro, veja:

Criptografia é o nome que se dá a técnicas que transformam informação inteli-


gível em algo que um agente externo seja incapaz de compreender. De forma mais
simples, a criptografia funciona como códigos: sem ela, um criminoso poderia in-
terceptar a sua senha de e-mail durante o login. Com a criptografia, caso ele inter-
cepte seu acesso, mas não tenha a chave correta, verá apenas uma lista desor-
denada e aparentemente confusa de caracteres, que não leva a lugar nenhum.
Disponível em: <http://www.techtudo.com.br>.

capítulo 1 • 22
Verifique a complexidade de tal tecnologia, utilizada nos dias de hoje e como
ela foi utilizada ainda que embrionariamente durante a Segunda Guerra Mundial.
Um dos equipamentos desenvolvidos com sistema de criptografia mais cobi-
çado pelo comando aliado, durante a Segunda Guerra foi a máquina ENIGMA,
utilizada pela Alemanha.
Esse não foi o único equipamento a ser utilizado pelos países do Eixo, a
Marinha japonesa criou outro sistema criptográfico que ficou conhecido como
JN-25 que também foi utilizado contra os países aliados, conforme diz o texto
“máquinas de ferro e homens de aço”, da revista Superinteressante, da Editora
Abril, do ano de 2004.
A ENIGMA foi produzida na Polônia pelo engenheiro alemão Arthur
Sccherbius, e passou a ser um dos principais alvos da inteligência dos países alia-
dos. Sendo um dos segredos mais bem protegidos da Segunda Guerra Mundial,
o acesso a este equipamento pelas forças britânicas possibilitou que o comando
aliado vencesse a Segunda Guerra (Notas de aula, Curso Básico, Esimex, 2004).
A revista Superinteressante, da Editora Abril, acaba por brindar seus leitores
com esse desdobramento da “inteligência aliada” na obtenção da ENIGMA, a
qual diz que durante uma batalha, no ano de 1941, de uma forma inesperada ela
chegou às mãos do governo britânico. Um submarino alemão muito avariado,
após ser atingido por um destróier inglês, foi obrigado a emergir, tendo sua tri-
pulação abandonado àquela embarcação. Os militares alemães, acreditando que
o submarino afundaria rápido, de forma negligente, não cumpriram o protocolo
de destruição de documentos e deixaram em seu interior os manuais de funciona-
mento da ENIGMA junto com um exemplar daquela máquina.
Os militares britânicos abordaram a embarcação antes que ela afundasse e en-
contraram tanto a ENIGMA quanto os seus manuais. Dessa forma, a “inteligência
aliada” “quebrou” o código de comunicações utilizado pela Alemanha e passaram a
interceptar as informações enviadas pela Marinha Nazista. Com esse trunfo, o co-
mando aliado afastou a ameaça dos submarinos alemães na Batalha do Atlântico.
A ENIGMA que foi apreendida pelos britânicos, foi reconstruída tendo suas
peças avariadas substituídas. Por meio de uma operação de sucesso realizada por
funcionários poloneses da fábrica em que ela era montada, peça a peça foi subtraí-
da, possibilitando a reconstituição da máquina, que de posse de seu manual foi
possível aos britânicos aprenderem o seu funcionamento. (Notas de aula, Curso
Básico, Esimex, 2004)

capítulo 1 • 23
Veja a seguir, uma fotografia da máquina ENIGMA, amplamente utilizada
pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial:

©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 1.8  – 

A inteligência na Guerra Fria

A “Guerra Fria” iniciou logo após o fim da Segunda Guerra Mundial e perma-
neceu até o início dos anos 1990.
Diferentemente do que se conhece pelo termo “guerra” e do que aconteceu
durante a Primeira e Segunda Mundial, a chamada “Guerra fria” não ocorreu
fisicamente, com o travamento de batalhas, com armas e militares entre países.
Na verdade essa guerra foi uma busca pela hegemonia política e militar entre
o capitalismo e o socialismo, representados pelos Estados Unidos e a União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas, respectivamente.
Veja esse texto, bem explicativo extraído do site http://guerra-fria.info:

A Guerra Fria foi um evento mundial que aconteceu no período pós-Guerra e perdurou
até o início dos anos 1990. Nela, não havia batalhas entre as forças bélicas, nem ata-
ques diretos; entretanto, o que aconteciam eram as famosas corridas, buscas pela he-
gemonia mundial e se deu entre os Estados Unidos e União Soviética, respectivamente,
capitalismo e socialismo.

Os EUA e os países aliados criaram, em 1949, em resposta ao bloqueio de


Berlim, imposto pelos soviéticos, uma aliança militar denominada Organização do
Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Bruxelas. E em resposta, a União Soviética

capítulo 1 • 24
criou o Pacto de Varsóvia, em razão da militarização da Alemanha Ocidental.
(Notas de aula, Curso Básico de Inteligência, Esimex, 2004)
Durante esse período, o mundo sendo dividido em blocos, havia uma ameaça
de uma guerra nuclear, e que quase foi deflagrada em alguns momentos, em ou-
tros, arrefecida por conta do papel que a inteligência desempenhou.
Com os devidos investimentos e a consequente reestruturação e moderniza-
ção das agências de inteligência, dois protagonistas despontam nesse cenário, de
um lado a CIA e de outro, o KGB, agências de inteligência dos Estados Unidos e
União Soviética, respectivamente.
Veja que a página http://oyamaemayana.blogspot.com.br traz uma explicação
bem interessante sobre o KGB e a CIA, a saber:

O KGB era a principal agência secreta de informações e segurança da antiga União


Soviética. Este desempenhava as funções de polícia secreta do governo soviético, entre
13 de março de 1954 a 6 de novembro de 1991. KGB eram as iniciais, em russo, do
Comitê de Segurança do Estado, a antiga agência de espionagem da União Soviética.
Além dos serviços de espionagem, a KGB também fazia o papel de polícia política, ou
seja, reprimia qualquer tentativa de oposição ao governo soviético (o mesmo papel que
a Gestapo, a polícia política de Hitler fazia na Alemanha nazista), e impedia a saída de
informações secretas do país ou interceptar missões e agentes não autorizados no ter-
ritório nacional. Durante a Guerra Fria desempenhou o importante papel de preservar
União Soviética politicamente, e na corrida armamentista da época. Antes de consolidar-
se com este nome, a KGB (Komitet Gosudarstvenno Bezopasnosti) teve outros nomes,
como por exemplo, Tcheka, GPU, NKVD e assim foi mudando de nome até chegar
ao atual KGB. Além da espionagem internacional, ela também era responsável pela
investigação de crimes internos cometidos contra o governo. Disponível em: <http://
oyamaemayana.blogspot.com.br>.

Sobre a Central Intelligence Agency, a CIA, verifique que:

CIA é a sigla de Central Intelligence Agency (Agência Central de Inteligência), a agência


de espionagem do governo dos Estados Unidos. A agência foi criada em 1947, pelo
Presidente Harry S. Truman, por necessidade estratégica devido ao início da Guerra Fria
e ao avanço do comunismo, além do roubo de projetos tecnológicos durante a corrida
armamentista que estava ocorrendo na época.
Cabe à CIA contribuir efetivamente com a comunidade de todo o mundo de formações
e inteligência, administrando serviços de interesse comum, análise de imagens, recolha
e processamento de dados de forma participativa com outras agências de inteligência
e nas áreas de pesquisa e desenvolvimento e tecnologia. A CIA pode fornecer apoio
aos usuários de inteligência, e, quando necessário, e intervir as condições sociais das
nações envolvidas de maneira a aumentar a proteção à Segurança Nacional dos Esta-
dos Unidos e seus interesses. Disponível em: <http://oyamaemayana.blogspot.com.br>.

capítulo 1 • 25
O texto apresentado relata que o KGB atuou na corrida armamentista em
favor da União Soviética. Ocorre que essa corrida armamentista não foi unilateral,
ela aconteceu de ambos os lados, polarizado de um lado pela União das Repúblicas
Soviéticas e de outro polo, pelos Estados Unidos da América. Na verdade, ativi-
dade de inteligência foi fundamental não somente para os soviéticos, mas também
para os norte-americanos.
Com uma ameaça cada vez maior de uma guerra nuclear, as grandes potências
envolvidas nessa disputa hegemônica lançavam mão de suas agências de inteligên-
cia, no que diz respeito ao largo emprego de espiões, que de um lado e do outro,
utilizavam toda as suas redes de relacionamento para obter o que era mais “precio-
so” para um e para o outro lado.
Houve muito empenho dos dois lados para recrutar militares e cientistas para
trabalharem como espiões em seus próprios países.
Segundo as Notas de Aula do Curso Básico de Inteligência da Esimex (2004),
a primeira baixa ocorre do lado dos soviéticos. O oficial de códigos da embaixada
soviética no Canadá, Igor Gouzenko, deserta para o Ocidente em 1945, e informa
aos norte-americanos que uma importante rede de espiões da União Soviética
atuava nos Estados Unidos e no Canadá com o objetivo de obter segredos sobre
bomba atômica.
Do lado dos norte-americanos, há um caso que é considerado como sendo
um dos mais emblemáticos envolvendo espiões foi protagonizado pelo “casal
Rosenberg”. Segundo a matéria da revista Superinteressante, “o casal Rosenberg
comandou uma rede de espionagem que roubou os planos da bomba atômica dos
americanos, mas, acabou na cadeira elétrica”.
O FBI somente chegou ao casal Rosenberg após prender o cientista nuclear
alemão Klaus Fuchs, em 1950. Fuchs repassou segredo de Estado dos ingleses aos
soviéticos, possibilitando que a União Soviética “economizasse” mais ou menos
um ano na construção de sua bomba de hidrogênio, a bomba “H”. (Notas de
Aula, Curso Básico de Inteligência, Esimex, 2004)
Fuchs delatou vários agentes que serviam aos soviéticos, entre eles, David
Greenglass que ao ser interrogado, confessou que trabalhou no Projeto Manhattan
e que passou a trabalhar para os russos depois que seu cunhado Julius Rosenberg
e sua irmã Ethel lhe convidaram a trabalhar como espião em desfavor dos Estados
Unidos. (Superinteressante, p. 42, 2007).
Veja o que foi o Projeto Manhattan, no qual David Greenglass trabalhou:

capítulo 1 • 26
Projeto Manhattan foi o nome dado à grande mobilização de esforços militares e cientí-
ficos com vistas à construção das primeiras bombas atômicas da história. O projeto foi
uma iniciativa dos Estados Unidos da América e durou de 13 de agosto de 1942 até 15
de agosto de 1947. O primeiro teste de explosão de uma bomba atômica foi realizado
na base secreta do Projeto Manhattan, situada no deserto de Los Alamos, Novo Méxi-
co, no dia 16 de julho de 1945. Nos dias 6 e 9 do mês seguinte, duas outras bombas
construídas pelo projeto foram lançadas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e
Nagasaki, provocando a morte de mais de 240 mil pessoas. Disponível em: <http://
historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/projeto-manhattan.htm>.

David Greenglass disse que recebeu a descrição da bomba atômica usada em


Nagasaki, que foi roubada do laboratório de Los Alamos, de seu cunhado e de sua
irmã, Julius e Ethel. Por ter ajudado na prisão do casal Rosenberg, David recebeu
uma pena branda, 15 anos de prisão, enquanto seu cunhado e sua irmã foram
condenados à morte na cadeira elétrica. (Superinteressante, p. 42, 2007)
Por fim, esse emaranhado jogo de espionagem e conspirações, traições, recru-
tamento de “pessoas do governo” e descobertas do que cada uma das grandes po-
tências envolvidas na Guerra Fria, polarizada pelo capitalismo e pelo socialismo,
tinha de devastador em seu poderio bélico contribuiu para que tudo permanecesse
nas ameaças e provocações, não ocorrendo uma guerra real.

ATIVIDADE
As questões abaixo foram elaboradas para melhor assimilação do conteúdo estudado:

01. Sobre a missão que ficou conhecida como “Os exploradores de Canaã”, sabe-se que
a) ( ) os espias de Josué foram até Canaã e retornaram com a missão cumprida.
b) ( ) o Senhor fala com Moisés e lhe ordena o envio de homens até Canaã para que eles
possam explorar aquela região, a qual será entregue aos filhos de Israel.
c) ( ) os espias de Moisés regressam de Jericó e confirmam que essa é uma terra que
jorra leite e mel.
d) ( ) Raabe deu guarita aos espias de Josué, escondendo-os do rei de Canaã.

02. Explique com base nos ensinamentos de Sun Tzu, como o comandante deve remunerar
o espião pelo seu trabalho. Explique também o motivo pelo qual se deve recompensar o es-
pião dessa determinada maneira.

capítulo 1 • 27
03. De que forma os pombos foram amplamente utilizados durante a Primeira Guer-
ra Mundial?

04. Um dos equipamentos desenvolvidos com sistema de criptografia mais cobiçado pelo
comando aliado, durante a Segunda Guerra foi a máquina ENIGMA, utilizada pela Alemanha.
Explique como os militares britânicos obtiveram uma máquina ENIGMA.

05. Aponte qual é o caso de espionagem que é considerado como sendo um dos mais em-
blemáticos durante a Guerra Fria.

REFLEXÃO
O que pensar de uma atividade que foi amplamente utilizada durante vários períodos
da História mundial e determinante para o acontecimento ou não de determinados eventos,
como a vitória pelos países Aliados na Segunda Guerra Mundial e o impedimento de uma
guerra, de fato, na chamada Guerra Fria?
Na verdade, foi constatado desde os 500 anos a.C., aproximadamente, que a inteligência
já era uma ferramenta fundamental na tomada de decisão de qualquer governante. Num pe-
ríodo em que os conflitos e batalhas por hegemonia política ou a preponderância de um país
sobre outro, a “fraqueza” ou vulnerabilidade de qualquer nação não estaria “disponível”, como
nos dias de hoje também não está.
Viveu-se e ainda se vive num mundo em que conhecimento é poder. E isso não foi des-
coberto hoje. As grandes guerras bélicas deram espaço à guerra mercadológica, em que
fórmulas secretas garantem o sucesso de vendas entre a concorrência.
Ainda que haja conflito bélico entre alguns países, muitos deles são motivados pelo mer-
cado, seja do barril de petróleo ou da descoberta de alguma tecnologia de ponta, não importa,
o fundamental é que a inteligência está presente, trabalhando de forma incansável para
esses países, seja para descobrir ou proteger algo de muito importante.

capítulo 1 • 28
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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historiasylvio.blogspot.com.br/2014/08/guerra-quimica.html>. Acesso em: 7 abr. 2017.
BEZERRA, Eudes. Julio Neubronner e seus pombos fotógrafos. Disponível em: <http://www.
museudeimagens.com.br/neubronner-pombos-fotografos/>. Acesso em: 7 abr. 2017.
CAVALCANTI, Mayra. Como funcionava a Enigma, a máquina nazista que quase venceu a
Segunda Guerra. Disponível em: <http://blogs.ne10.uol.com.br/mundobit/2015/01/21/como-
funcionava-enigma-maquina-nazista-que-quase-venceu-segunda-guerra/>. Acesso em: 9 abr. 2017.
Curiosidades e dicas, os mapas secretos de Baden Powell. Disponível em: <http://www.
mundodesbravador.com.br/curiosidades-dicas/os-mapas-secretos-de-bp/>. Acesso em: 8 abr. 2017.
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Esteganografia – A arte de ocultar informações. Disponível em: <http://zeldani.blogspot.com.
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FERNANDES, Cláudio. Projeto Manhattan. Disponível em: <http://historiadomundo.uol.com.br/idade-
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GARRETT, Filipe. O que é criptografia? Disponível em: <http://www.techtudo.com.br/artigos/
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capítulo 1 • 29
O que foi a Guerra Fria. Disponível em: <http://guerra-fria.info/o-que-foi-a-guerra-fria.html>.
Acesso em: 12 de abr. 2017.
Oyama e Mayana. CIA e KGB na Guerra Fria. Disponível em: <http://oyamaemayana.blogspot.com.
br/2007/09/cia-e-kgb-na-guerra-fria.html>. Acesso em: 12 abr. 2017.
TZU, Su. A Arte da Guerra. Tradução feita por Pietro Nasseti. Editora Martin Claret, 2002.
URPIA, Luciano J. A. Pombo-Fotógrafo da Primeira Guerra Mundial. Disponível em: <http://
fotonahistoria.blogspot.com.br/2012/04/pombo-fotografo-da-primeira-guerra.html>. Acesso em: 7
abr. 2017.
7 livros mais vendidos no mundo. Disponível em: <http://livrousado.com/7-livros-mais-vendidos-
no-mundo/>. Acesso em: 7 abr. 2016.

capítulo 1 • 30
2
Evolução histórica
da atividade de
inteligência no
Brasil
Evolução histórica da atividade de inteligência
no Brasil

No presente capítulo, serão apresentados os primeiros registros da atividade de


inteligência no Brasil, sua atuação ainda que embrionária e a sua evolução, com
a criação de um sistema integrando outros subsistemas compostos por diversos
órgãos.
Você terá contato com os conceitos relacionados à atividade e ao amparo legal
que dá o suporte necessário à criação e atuação das agências de inteligência. Verá
também que essas agências são voltadas para a produção e difusão de conhecimen-
tos de forma integrada nos sistemas e subsistemas de inteligência.
Esse livro didático demonstra a atuação da atividade de inteligência em dife-
rentes níveis produzindo conhecimentos, que variam da salvaguarda do Estado às
ações de Segurança Pública.

OBJETIVOS
•  Conhecer as primeiras ações de inteligência no Brasil;
•  Identificar o emprego da inteligência nos diferentes momentos da história brasileira;
•  Reconhecer a importância da inteligência como atividade estratégica nos cenários políticos
do Brasil;
•  Conhecer o Sistema Brasileiro de Inteligência;
•  Identificar a agência central de Inteligência do Sistema Brasileiro de Inteligência;
•  Identificar a Inteligência Clássica ou de Estado;
•  Perceber a evolução da atividade de inteligência e sua divisão em inteligência de Estado e
de Segurança Pública;
•  Distinguir a diferença entre os sistemas de Inteligência que foram instituídos no Brasil;
•  Refletir sobre a atividade de inteligência como ferramenta imprescindível para a tomada
de decisões.

capítulo 2 • 32
A atividade de inteligência no Brasil: surgimento e evolução

Os primeiros registros da atividade de inteligência no Brasil são muito antigos.


Tais registros remontam a época do Brasil colônia, onde se sabe que os trabalhos
que privilegiavam o “sigilo”, bem como o emprego de espiões, já eram realizados
quando do estabelecimento do Tratado de Tordesilhas.
Antes mesmo do período do Brasil colonial já se sabia que conhecimento é
poder. Perceba nas palavras de Moraes como na época do Brasil colônia, a inteli-
gência já era exercitada:

No Brasil, existem registros sobre o emprego de atividades secretas e emprego de


espiões desde o tempo do Brasil colônia, quando Alexandre Gusmão tomou parte na
negociação da questão das fronteiras estabelecidas pelo Tratado de Tordesilhas, ofi-
cialmente demarcador das fronteiras entre Espanha e Portugal e que nunca conseguiu
ser totalmente respeitado tendo sido substituído pelo Tratado de Madrid. (MORAES,
[200-?])

Em momento mais recente, no período compreendido entre 1838 e 1841, du-


rante a revolta popular no Maranhão, conhecida como Balaiada, o então Coronel
Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, infiltrou espiões entre os
revoltosos, os quais lhes forneciam informações confiáveis e necessárias ao plane-
jamento das ações eficazes contra o “movimento”.
Veja que em carta enviada a sua esposa, Duque de Caxias relata o emprego de
espiões entre os Balaios: “... Tenho tido notícia pelos meus espias que a intriga que
havia feito espalhar entre os rebeldes tinha feito o que eu desejava, isto é, que eles
desconfiassem uns dos outros e se principiassem a bater mutuamente...” (Notas de
Aula, Curso Básico de Inteligência, Esimex, 2004).
Note pelos dizeres de Caxias, que ele não se limitou a infiltrar espiões na
Balaiada, mas, também, utilizou ações de desinformação entre os revoltosos, a fim
de que realizassem o que ele pretendia.
Perceba que ações de busca postas em prática pelo então Coronel Luís Alves
de Lima e Silva já eram ensinadas por Sun Tzu:

Quando estiver unido, desagregue-o! Em alguns casos, provoque discórdias entre o so-
berano e os seus ministros; noutros, separai-o dos seus aliados. Force-os a suspeitar uns
dos outros e se a desunirem para que possais conspirar contra eles. (TZU, 2002, p. 30)

capítulo 2 • 33
Veja no mapa a seguir, o estado brasileiro em que ocorria a revolta popular
conhecida como Balaiada:
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 2.1  – 

Perceba que nesse recorte histórico em que Duque de Caxias enfrentou a


Balaiada e saiu vitorioso contra esse movimento popular é uma das origens da
Inteligência Militar no Brasil. Perceba que ações de busca conhecidas como infil-
tração e desinformação já eram utilizadas antes mesmo da formulação de doutri-
nas de inteligência no país.
Já em 1927, na gestão do presidente Washington Luis, é criado o Conselho de
Defesa Nacional (CDN), data que marca formalmente o início das atividades de
Inteligência (informações) no Brasil. Subordinado ao presidente da República, o
CDN foi o primeiro órgão de Inteligência em nível nacional, conforme o descrito
no site da ABIN.
Perceba nas palavras de Moraes, com a instituição do Conselho de Defesa
Nacional, o surgimento da expressão “produção de conhecimentos” que é a

capítulo 2 • 34
finalidade da atividade de inteligência. Entretanto naquele período, a atividade de
inteligência tinha outro nome, atividade de informações:

A concepção formal para o emprego integrado da Atividade de Inteligência só teve


início na República, durante o governo do presidente Washington Luis com a criação do
Conselho de Defesa Nacional. Esse Conselho conduzia o estudo e a coordenação da
produção de conhecimentos nas áreas econômica, militar e moral, relativas à defesa da
Pátria, assuntos esses voltados para o Campo Interno. (MORAES, 200-?)

Criado em 1927, o CDN foi reestruturado pela primeira vez em 1934, sendo
criadas a Comissão de Estudos da Defesa Nacional, a Secretaria-Geral da Defesa
Nacional, e uma Seção de Defesa Nacional em cada um dos ministérios, e o seu
nome passou a ser Conselho Superior de Segurança Nacional. (MORAES, [200-?])
Já em 1937, quando a atividade de inteligência (informação) tinha por objeto
fundamentalmente os assuntos de segurança e defesa interna, o seu nome foi alte-
rando novamente, passando a se chamar Conselho de Segurança Nacional.
Moraes preleciona que, após o fim da Segunda Guerra Mundial, houve
uma reformulação do Conselho de Segurança Nacional, quando foi instituído o
Serviço Federal de Informações e Contrainformações (SFICI), órgão responsável
pela coordenação da atividade de inteligência no Brasil. Entretanto, a implantação
desse órgão só ocorreu em 1958, quando se criou também a Junta Coordenadora
de Informações (JCI).
Note que atividade de inteligência (informações) é e sempre foi uma atividade
sistemática, permanente e especializada, não havendo espaço para os improvisos e
amadorismos. Imagine uma atividade técnica sem pessoal capacitado para operá
-la. Pois bem, foi isso que aconteceu em 1958, uma carência de agentes especiali-
zados para trabalhar no SFICI.
Em pesquisas ao site da Escola Superior de Guerra (ESG), foi possível verificar
que esse óbice foi contornado. Por meio do Decreto no 43.810, de 29 de maio de
1958, criou-se o primeiro Curso de Informações (CI), na ESG. Para uma melhor
compreensão, veja o artigo 1o do decreto no 43.810, de 29 de maio de 1958:

O Presidente Dda República, usando da atribuição que lhe confere o artigo 87, item
I da Constituição e tendo em vista os arts. 2o e 4o da Lei no 785, de 20 de agosto de
1949,

capítulo 2 • 35
Decreta:
Art. 1o Fica criado na Escola Superior de Guerra o Curso de Informações (CI) com
a finalidade de cooperar no estabelecimento da doutrina de Segurança Nacio-
nal e preparar civis e militares para as funções relacionadas com as Informações.
Disponível em: <http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?i-
d=154027&norma=174760>

Veja que até o ano de 1958, o Brasil não tinha nenhum curso de formação de
agentes de inteligência, e não havia também doutrina de inteligência. Ainda que
houvesse os registros de ações de busca realizadas no passado, tudo isso representa-
va fragmentos de uma futura doutrina que seria formulada já no ano mencionado.
A Escola Superior de Guerra foi o primeiro estabelecimento de ensino no
Brasil a formar agentes de inteligência e formular doutrina de inteligência.
Veja que em todos os esforços empreendidos nas questões de segurança e de-
fesa interna, em 1961, o Brasil foi alvo de uma ação de espionagem. Interessado
em buscar dados referentes aos aspectos econômicos e políticos do Brasil, em espe-
cial sobre a evolução do movimento comunista no país, o alemão Joseph Werner
Leben, vinha realizando espionagem em solo brasileiro.
Leben foi preso em 11 de julho de 1961, julgado e condenado pelo crime de
espionagem contra o Brasil. Cumpriu pena privativa de liberdade até 20 de outu-
bro de 1971. Ainda que tenha sido expulso do Brasil em 9 de novembro de 1969,
Joseph Werner Leben permaneceu preso até a data em questão.

Criação do Sistema Nacional de Informações (SISNI) e do Serviço Nacional de


Informações (SNI)

A criação do Serviço Nacional de Informações em 1964 veio como uma evo-


lução ao SFICI, havendo no novo órgão uma estrutura bem maior do que havia
no órgão antigo, com a instituição de um grande sistema, que não existia antes,
capaz de agregar os dados e conhecimentos que tramitavam em subsistemas pree-
xistentes e na comunidade de informações.
Moraes postula que em 1964, mais precisamente no governo de Humberto de
Alencar Castello Branco, ocorreu a criação do Serviço Nacional de Informações
(SNI) em substituição ao Serviço Federal de Informações e Contrainformações
(SFICI). A partir de então, o SNI passou a ser o órgão central de um sistema de
informações, que era constituído por outros (sub) sistemas.

capítulo 2 • 36
A seguir, o logotipo do SNI:

©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 2.2  – 

Com o advento da criação do SNI, houve ampliação dos poderes de seu chefe,
que segundo Da Costa (2010, p. 10), possuía status de ministro ou até mesmo
poder institucional comparado ao de um chefe de Estado, em algumas ocasiões.
Em se tratando da sua estrutura organizacional, todas as informações que estavam
de posse das agências regionais eram difundidas para a agência central, que catalo-
gava e processava antes de devolvê-las para as agências que tinham a competência
de desenvolver operações ou somente arquivá-las.
A criação do SNI se deu por meio da lei no 4.341, de 13 de junho de 1964,
a qual prevê em seu art. 2o o seguinte: “O Serviço Nacional de Informações tem
por finalidade superintender e coordenar, em todo o território nacional, as ati-
vidades de informação e contrainformação, em particular as que interessem à
Segurança Nacional”.
O SISNI veio para congregar os subsistemas já existentes, como por exem-
plo, o Subsistema Setorial de Informações dos Ministérios Militares (SSIMM) e o
Subsistema Setorial de Informações dos Ministérios Civis (SSIMC).
O SSIMM era composto pelo Centro de Informações da Marinha (CIN),
Centro de Informações do Exército (CIE) e Centro de Informações e Segurança
da Aeronáutica (CISA). Já o SSIMC era formado pelas Divisões de Segurança
e Informações (DSI) dos ministérios civis e pelas Assessorias de Segurança e
Informações (ASI), de órgãos de 2o escalão da administração pública federal.
Havia também o Subsistema Setorial de Informações Estratégico-Militares
(SUSIEM), sob a coordenação do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA).
Além dos subsistemas, havia ainda as Comunidades de Informações, com-
postas por todos os órgãos de informações que atuavam numa área geográfica
comum. Compunham essa comunidade de informações as seções de informações
dos comandos regionais das Forças Armadas, das Polícias (Federal, Militar e Civil)
e do Corpo de Bombeiros.

capítulo 2 • 37
Veja a lição de Castro (2012, p. 88) sobre a composição dos órgãos que com-
punham o sistema de informações do SNI:

O sistema mais bem montado no Brasil foi o SNI (Sistema Nacional de Informações),
porque envolvia vários órgãos militares (superiores e inferiores), bem como a estrutura
civil de vários órgãos e ministérios; além das instituições policiais dos vários estados.
Através de Decreto do ano de 1967 as seções de Segurança Nacional existentes em
cada ministério civil foram transformadas em Divisões de Segurança e Informações –
DSIs, o que significava que tais divisões de Segurança estariam sob o controle e fiscali-
zação do SNI. (CASTRO, p. 88, 2012).

Perceba que, a partir da criação do SISNI, os assuntos de interesse (dados e


conhecimentos) da área de inteligência (informações) começam a tramitar dentro
de um sistema no qual os assuntos eram compartilhados entre as agências.
De acordo com o site da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), todo o
acervo documental, bem como o efetivo de funcionários, civil e militar, do anti-
go SFICI foi incorporado pelo SNI, órgão máximo do sistema, que tinha uma
Agência Central e doze agências regionais espalhadas pelo território brasileiro.
O SNI tinha sua Agência Central em Brasília/DF e as Agências Regionais em
Rio de Janeiro, São Paulo, Belém, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza,
Goiânia, Manaus, Curitiba, Campo Grande e Porto Alegre. (Notas de aula, Curso
Básico de Inteligência, Esimex, 2004).
A agência central apresentava em sua estrutura interna área de informações
(externa e interna), de contrainformações e de operações de informações. Pelo
decreto no 60.417, de 11 de março de 1967, que criava essas agências de informa-
ções, além do Regulamento de Salvaguarda de Assuntos Sigilosos (RSAS).
A criação do SNI trouxe diversas inovações para a área de inteligência. Uma
delas foi o manual de informações, elaborado no ano de 1976, adotado pelos in-
tegrantes do Sistema Nacional de Informações.
Veja que o SNI também se destacou na segurança da informação, de modo a
adotar medidas de salvaguarda (proteção) da informação que tramitava no SISNI.
Em consulta ao site da ABIN, foi possível constatar que o Ministério das
Relações Exteriores e o SNI celebraram o chamado convênio Projeto Prólogo,
o qual previa a realização de pesquisas e desenvolvimento de equipamen-
tos criptográficos.
Esse projeto deu origem à criação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento
para a Segurança das Comunicações (CEPESC), que passou a fabricar os primeiros

capítulo 2 • 38
produtos na década de 1970, tendo como clientes prioritários, a presidência da
República, o MRE, os organismos de informações inseridos no SISNI, bem como
os ministérios militares e o Banco Central.
Essa criação e produção nacional representaram um grande avanço para a
área de inteligência (informações) e para o Brasil, já que na década de 1970, o
país utilizava equipamentos criptográficos estrangeiros, comprometendo assim a
preservação da confidencialidade das informações.

Criação da Escola Nacional de Informações (EsNI)

Considerando que a inteligência (informação) já era uma atividade especia-


lizada, havia a necessidade de capacitação dos recursos humanos para realização
dos trabalhos que exigiam muita técnica de seus agentes. E não era somente isso,
havia a necessidade de que as agências do SISNI “falassem a mesma língua”, ou
seja, não bastava a especialização dos agentes de informações, mas também o esta-
belecimento de uma doutrina única de informações.
Preleciona Moraes que em 1971 houve a criação da Escola Nacional de
Informações (EsNI), com cursos na área de análise e de operações, cursos esses
que eram ministrados na Escola Superior de Guerra (ESG).
Com o decreto no 68.448, de 31 de março de 1971, é criada a Escola Nacional
de Informações (EsNI), subordinada ao chefe do SNI e com sede em Brasília/DF.
De acordo com o art. 2o do referido decreto, a EsNI tinha por finalidade:

a) Preparar civis e militares para o atendimento das necessidades de informações e


contrainformações do Sistema Nacional de informações;
b) Cooperar no desenvolvimento da doutrina nacional de informações;
c) Realizar pesquisas em proveito do melhor rendimento das atividades do Sistema
Nacional de Informações.

Todos os outros cursos e/ou estágios de informações que funcionavam em


outras escolas ou unidades de ensino foram absorvidos pela EsNI. O efetivo de
pessoal necessário para atuar na Escola poderia ser requisitado dos quadros da ad-
ministração federal, podendo também os militares das Forças Armadas, servidores
estaduais, municipais, inclusive de entidades privadas, dependendo de entendi-
mento prévio entre os órgãos interessados. Todos aqueles que atuavam na EsNI
eram considerados como em exercício na presidência da República.

capítulo 2 • 39
Desarticulação do Serviço Nacional de Informações

Em 1985, durante o governo de José Sarney, inicia-se o processo de transição


dos governos militares para um governo civil. O SNI era visto como um “resquício
da ditadura”. A imagem do SNI vinha sofrendo sérios desgastes com constantes
vazamentos de documentos.
Em 1990, Fernando Collor de Mello é eleito presidente do Brasil. No próprio
dia em que tomou posse, Collor extinguiu o SNI, como um de seus primeiros atos
administrativos, cumprindo o que prometeu em sua campanha presidencial. Além
de extinguir o SNI, Collor também alterou o nome da atividade que era conheci-
da como informações para inteligência.
Sobre a extinção do SNI, Collor disse que: “a segurança do Estado não pode
se transformar em insegurança do cidadão”. (Notas de Aula, Curso Básico de
Inteligência, Esimex, 2004).
O novo presidente então criou uma Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE)
e subordinada a ela, uma Subsecretaria de Inteligência (SSI). Todos os militares
que serviam no SNI foram desligados do órgão que havia sido extinto, não poden-
do atuar no novo órgão, a SSI.
As funções de chefia foram assumidas por civis, alguns deles com ressenti-
mentos contra os militares. Muitos servidores do SNI foram postos “em disponi-
bilidade” sem poder exercer “as novas funções”. (Notas de Aula, Curso Básico de
Inteligência, Esimex, 2004).
A EsNI é transformada no Centro de Aperfeiçoamento de Recursos Humanos
(CeFARH), havendo grande esvaziamento de uma de suas principais atribuições,
a de produzir doutrina. Nesse período, houve uma “desorientação” da Inteligência
no território nacional.
Veja as lições de Castro (2012, p. 63) sobre a extinção do SNI e a mudança do
vocábulo informações para inteligência:

O Presidente Fernando Collor de Melo, na data de 4/7/1990, extinguiu o Serviço


Nacional de Informações (SNI), tendo como marco histórico a substituição do termo
informação pelo vocábulo inteligência, e resumiu o Serviço Nacional de Informações
a um Departamento, tendo subordinado o Departamento de Inteligência à Secretaria
de Assuntos Estratégicos (SAE). Foi estabelecido que a nova estrutura do Departa-
mento de Inteligência seria composta pelo Centro de Formação e Aperfeiçoamento de
Recursos Humanos – CeFARH, antiga EsNI e as Agências Regionais de Inteligência.
(CASTRO, 2012, p. 63)

capítulo 2 • 40
Segundo Castro (2012, p. 64), com o fim do SNI no ano de 1990, no go-
verno de Fernando Collor de Melo, até a criação da ABIN em 1999, no governo
de Fernando Henrique Cardoso, a atividade inteligência viveu o pior momento
de toda a sua existência. Houve perda de status, de posição, desmobilização de
profissionais, enquanto uns servidores foram demitidos, outros foram enviados
para diferentes órgãos do Executivo e os que permaneceram perderam totalmente
o referencial. Foi um período muito ruim para a atividade de inteligência que não
tinha mais nenhuma linha de ação.
Matéria veiculada no jornal Estadão, com data de 28 de julho de 2009, diz
que a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) trata da readmissão de 127 ex-a-
gentes do extinto SNI, que foram demitidos na gestão de Collor e anistiados. Os
empregados públicos integram um “quadro especial em extinção” da ABIN. O
Ministério do Planejamento, em 3 de junho de 2009 autorizou a reintegração dos
ex-agentes.
Os agentes ocupavam cargos que foram extintos, sendo assim, eles passaram
a fazer parte de um quadro que será extinto de acordo com a aposentadoria ou
desligamento a pedido do empregado público.

Criação do Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) e da Agência Brasileira de


Inteligência (ABIN)

Veja que no ano de 1999 finalmente, por meio da lei 9.883 de 7 de dezembro
de 1999, são criados o Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) e a Agência
Brasileira de Inteligência (ABIN), os quais vigem até os dias de hoje. A ABIN é
subordinada ao Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República
(GSI).
A lei 9.883/99 prevê em seu art. 1o a instituição do SISBIN, que visa à in-
tegração das ações de planejamento e de execução das atividades de inteligência
no Brasil, a fim de assessorar o presidente da República nos assuntos de interes-
se nacional.
Nesse sentido, veja a lição de Castro (2012, p. 89):

No ano de 1999, através da lei 9.883, foi criada a Agência Brasileira de Inteligência
(ABIN), esse dispositivo legal tem uma importância fundamental para a atividade de in-
teligência no Brasil, não só por criar a ABIN, mas, principalmente, por instituir o Sistema
Brasileiro de Inteligência (SISBIN), no qual tem na ABIN seu órgão central encarregado

capítulo 2 • 41
da produção de conhecimento necessário ao assessoramento estratégico do Executivo.
Além disto, possibilita que as Unidades da Federação, integrem o SISBIN (Sistema bra-
sileiro de Inteligência) mediante convênio. (CASTRO, p. 89. 2012)

Há a necessidade de se comentar que sendo o presidente da República o usuário


principal dos trabalhos da ABIN, para que este seja assessorado da melhor maneira
nas suas tomadas de decisões, correto seria se a ABIN estivesse subordinada direta-
mente ao chefe do Poder Executivo e não ao Gabinete de Segurança Institucional.
O ideal seria se o diretor-geral da ABIN pudesse tratar diretamente com o
presidente da República sobre os assuntos que lhe são pertinentes ao invés de sê-lo
por intermédio do chefe do GSI.
Sobre o que foi apresentado, perceba que Moraes sugere que o diretor-geral
tenha seu status modificado, objetivando que ele passe a ter acesso direto ao usuá-
rio principal da atividade de inteligência, o chefe do Poder Executivo, o presidente
da República. Alerta o ilustre professor que “atualmente, todos os contatos do
Diretor da ABIN são feitos por intermédio do chefe do Gabinete de Segurança
Institucional (GSI) o que é doutrinariamente incorreto”.
A lei 9.883 traz em seu bojo alguns conceitos bem interessantes, por exemplo,
o de Inteligência e de contrainteligência. Perceba que a terminologia “informa-
ções” deu lugar definitivamente à terminologia “inteligência”.
Veja o conceito de inteligência esculpido no § 2o da referida lei:

Entende-se como inteligência a atividade que objetiva a obtenção, análise e dissemi-


nação de conhecimentos dentro e fora do território nacional sobre fatos e situações
de imediata ou potencial influência sobre o processo decisório e a ação governa-
mental e sobre a salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado. (Art. 1o, § 2o,
lei 9.883/1999)

Já o § 3o do art. 1o dessa mesma lei, traz o conceito de contrainteligência,


veja: “entende-se como contrainteligência a atividade que objetiva neutralizar a
inteligência adversa”.
Veja o que diz o site da ABIN, sobre as finalidades do ramo contrainteligência:

A Contrainteligência tem como atribuições a produção de conhecimentos e a realização


de ações voltadas para a proteção de dados, conhecimentos, infraestruturas críticas –
comunicações, transportes, tecnologias de informação – e outros ativos sensíveis e sigi-
losos de interesse do Estado e da sociedade.

capítulo 2 • 42
Há necessidade de explicar para você, aluno, que “inteligência” e “contrainte-
ligência” são ramos, divisões, da atividade de inteligência. O ramo “inteligência”,
que também é chamado de análise, produz conhecimento para assessorar o seu
usuário no processo decisório, enquanto o ramo contrainteligência além de pro-
duzir conhecimentos, tem suas ações voltadas para a salvaguarda, a proteção dos
interesses do Estado e da sociedade.
Nesse sentido, veja a explicação no site da ABIN sobre inteligência e con-
trainteligência: “A atividade de inteligência é o exercício de ações especializadas
para obtenção e análise de dados, produção de conhecimentos e proteção de co-
nhecimentos para o país. Inteligência e contrainteligência são os dois ramos da
atividade”.
Agora você já sabe que atividade de inteligência é gênero e ramo inteligência
é espécie desse gênero, e que apesar das palavras serem iguais, ambas não têm
o mesmo significado. Então, não confunda ramo inteligência com atividade
de inteligência!
Uma vez criado o SISBIN, o § 1o do art. 2o da lei 9.883 define sua respon-
sabilidade: “responsável pelo processo de obtenção, análise e disseminação da in-
formação necessária ao processo decisório do Poder Executivo, bem como pela
salvaguarda da informação contra o acesso de pessoas ou órgãos não autorizados”.
Perceba que ao mesmo tempo em que as agências de inteligência dos órgãos
que compõem o SISBIN ao mesmo tempo produzem conhecimentos e protegem
esse conhecimento contra o acesso de pessoas ou órgãos que não têm autorização
para acessá-los.
A criação da ABIN e sua posição de órgão central do SISBIN estão previstas
no Art. 3o, o qual prevê como atribuições da ABIN “planejar, executar, coordenar,
supervisionar e controlar as atividades de inteligência do país, obedecidas à políti-
ca e às diretrizes superiormente traçadas nos termos desta lei.”
É importante também destacar a previsão do § único do art. 3o, que prevê
o uso de técnicas e meios sigilosos, devendo haver observância irrestrita dos di-
reitos e garantias individuais previstos no art. 5o da Constituição da República
Federativa do Brasil.
A unidade de ensino da ABIN é a Escola de Inteligência (ESINT), a qual
incumbe formar, capacitar e aperfeiçoar os profissionais de inteligência da ABIN,
bem como qualificar e aprimorar os agentes de inteligência dos órgãos que com-
põem o SISBIN.

capítulo 2 • 43
A ESINT sucede o CeFARH, que por sua vez, sucedeu a EsNI. Porta de en-
trada de todos aqueles que passam a ingressar as carreiras da ABIN. A ESINT é
responsável por elaborar e revisar a doutrina de inteligência.
A seguir, a fachada do prédio da Agência Brasileira de Inteligência:
©© ANTONIO CRUZ/ABR | WIKIMEDIA.ORG

Figura 2.3  – 

O Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN)

Até aqui, muito se falou em sistemas, de informações e de inteligência e já se


sabe que são a mesma coisa. Todavia, o que é um sistema? E um sistema de inteli-
gência, o que é e qual a sua finalidade?
Verifique nas lições de Melo (2002, p. 13) apud Castro (2012, p. 88), o que
significa sistema.

Sistema é um conjunto de elementos, ou de componentes que mantém relação entre si.


Componentes e relações formam as características específicas de um sistema. Todo sis-
tema faz parte de um sistema maior, com o qual mantém relações, numa contribuição para
seu funcionamento assim como dele recebendo elementos para a execução de suas pró-
prias funções. Pode-se denominá-lo sistema ou subsistema, pois o que devemos conside-
rar são seus objetivos e suas funções. (MELO, 2002, p. 13 apud CASTRO, 2012, p. 88).

Veja como foi esclarecedora a explicação para a pergunta sobre o que é um


sistema.
Visto isso, será esmiuçado agora o que é um sistema de inteligência e qual a
sua finalidade. Sistema de inteligência é a forma criada para que todos os dados

capítulo 2 • 44
e conhecimentos produzidos pelas agências de inteligência que integram deter-
minado “grupo” – o termo “sistema” foi didaticamente substituído por “grupo”
para melhor compreensão do assunto – sejam compartilhados de forma que essa
divisão seja alcançada pelo usuário principal desse “grupo”.
Assim sendo, agências de inteligência de diferentes órgãos mantendo relações
entre si colaboram umas com as outras, de modo que o que é produzido naquele
grupo seja “socializado” (difundido) entre aqueles que tenham a necessidade de
conhecer, na medida de suas reais necessidades.
Nesse sentido, órgãos de inteligência de forma constante realizam coleta (in-
teligência = análise) e busca (operações de inteligência), por meio de ações espe-
cializadas a fim de produzir e salvaguardar conhecimentos que tramitarão entre
aqueles órgãos que têm necessidade de acesso àqueles assuntos (conhecimentos)
que foram produzidos.
Esse fluxo de dados e conhecimentos segue uma rotina documental sigilosa pre-
vista na doutrina de inteligência, com documentos previstos especificamente para que
as agências integrantes desse sistema possam “pedir” algo que necessitem e aquelas que
possuem o que seja de interesse daquelas, possam “atender” o que foi “pedido”.
Talvez você que esteja lendo esse texto, possa estar se perguntando como seria
essa rotina documental sigilosa. Pois bem, os documentos de inteligência são clas-
sificados quanto ao seu grau de sigilo, podendo receber grau ultrassecreto, secreto
ou reservado e tramitam entre as agências de inteligência pelo canal técnico.
Os documentos de inteligência são informações sigilosas. Mas, o que vem a
ser uma informação sigilosa? De acordo com a lei 12.527, de 18 de novembro de
2011, que regula o acesso a informações, considera-se informação sigilosa “aquela
submetida temporariamente à restrição de acesso público em razão de sua impres-
cindibilidade para a segurança da sociedade e do Estado”.
No entanto, se a informação é sigilosa, quem pode ter acesso a ela? No que
diz respeito às informações, aquelas que receberam grau de sigilo e que ainda estão
em vigor, somente as pessoas que possuem credencial de segurança, de acordo
com o decreto no 7.845, de 14 de novembro de 2012, no inciso VI, do art. 2o, é
o “certificado que autoriza pessoa para o tratamento de informação classificada.”
Ocorre que o servidor público antes de integrar um sistema de inteligência, ele
passa por um processo administrativo que o habilitará ou não a fazer parte desse
sistema. Caso o agente seja aprovado nesse processo, diz-se que ele é credenciado
para atuar naquele sistema de inteligência, e por consequência, poderá manusear
documentos de inteligência, seja em sua produção ou no recebimento de alguma
outra agência de inteligência.

capítulo 2 • 45
Veja que uma vez credenciado num sistema de inteligência, o agente pode ter
acesso às informações sigilosas, mesmo que oriunda de outro sistema de inteligên-
cia, para o qual ele não foi credenciado. Porém, caso ele seja cogitado a ingressar
em outro sistema, ele deverá passar por novo processo administrativo para ao final
ser considerado habilitado ou não a fazer parte desse novo sistema.
É importante destacar que, em se tratando do citado processo administrativo,
cada agência de inteligência tem seus procedimentos próprios e específicos.
Entretanto, quando se fala de sistemas de inteligências, no plural, percebe-se
que existe mais de um. Pois bem, no Brasil, o SISBIN é um sistema clássico de
inteligência, único sistema de inteligência em âmbito nacional que não está inse-
rido em nenhum outro. Ele é quem agrega os outros sistemas existentes, fazendo
os outros sistemas serem parte dele, isto é, tornam-se subsistemas, quando levados
em consideração com o próprio SISBIN.

Sistema de Inteligência Clássico

A partir do ano de 1927, o Brasil inaugurou as atividades de inteligência,


então chamadas de informações, com a criação do Conselho de Defesa Nacional,
o CDN, quando o conhecimento produzido era essencialmente referente às áreas
(economia, militar e moral) que diziam respeito à defesa da pátria.
A inteligência, sendo ela voltada para a defesa da pátria, era e é uma inteli-
gência clássica, em que suas ações são direcionadas no sentido de obter e produzir
conhecimento de interesse nacional. Inteligência clássica e inteligência de Estado
se equivalem.
A lei 9.883, que instituiu o SISBIN e a ABIN, traz no § 2º do art. 1o o que se
entende por inteligência (Clássica ou de Estado), a saber:

Entende-se como inteligência a atividade que objetiva a obtenção, análise e dissemina-


ção de conhecimentos dentro e fora do território nacional sobre fatos e situações de
imediata e potencial influência sobre o processo decisório e a ação governamental e
sobre a salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado. (Lei no 9.883, art. 1º, § 2º,
de 7/12/1999)

Note no conceito apresentado, que é o de Inteligência Clássica, que todo o


trabalho realizado por ela objetiva a proteção da sociedade e do Estado.
Nesse mesmo sentido, a visão de Castro (2012, p. 93) diz que a lei 9.883/99
demonstra que a atividade de inteligência clássica, também conhecida como
inteligência de Estado é aquela que “busca prover o Estado com informações

capítulo 2 • 46
estratégicas, assegurando-lhe o conhecimento antecipado de fatos e situações re-
lacionadas ao bem-estar da sociedade, ao desenvolvimento e à segurança do país”.
E esse tipo de sistema, o clássico ou de Estado, que é o sistema de inteligência
da ABIN e o sistema de inteligência de cada uma das forças armadas, permaneceu
solitário, único, até o ano de 2000, quando com o advento do decreto 3.695,
de 21 de dezembro de 2000, é criado o Subsistema de Inteligência de Segurança
Pública (SISP).
Sobre o sistema de inteligência das forças armadas, veja a lição de Castro
(2012, p. 94):

Na esfera militar a inteligência utilizada também é a inteligência clássica, pois a missão


das forças armadas é garantir a soberania nacional. Segundo o Manual de Atividade de
Inteligência do Exército Brasileiro, a inteligência empregada nas operações militares
pode ser compreendida como atividade técnico-militar especializada, exercida no pla-
nejamento e no curso de operações militares que, empregando a metodologia para a
produção do conhecimento, disponibiliza informações, apreciações, informes e estimati-
vas sobre o inimigo e sobre o ambiente operacional para servirem de apoio ao processo
decisório. (CASTRO, 2012, p. 94)

Cabe destacar também que determinado órgão ou instituição não “escolhe”


que tipo de inteligência vai exercer, muito pelo contrário, na verdade, o desen-
volvimento de atividade se dá em acordo com o seu dever legal. Então, aquelas
que realizam atividades de inteligência clássica, assim o fazem em razão de suas
atribuições. E os que realizam qualquer atividade diversa da clássica, certamente o
fazem por conta das atividades que exercem.
Preleciona Castro (2012, p. 94), tomando por base o Manual de Fundamentos
Doutrinários da ESG (2000, p. 186), que a inteligência clássica ou de Estado, é a
inteligência estratégica, a qual pode ser definida como aquela em que seu exercício
se dá por meio de ações permanentes e especializadas no sentido de se obter dados
e avaliar situações e circunstâncias que impeçam ou possam dificultar conquistas,
bem como preservação dos objetivos nacionais.
Além do SISBIN, existem outros sistemas de inteligência clássica ou de Estado
como também são conhecidos, como os das próprias Forças Armadas, por exem-
plo, no qual cada Força tem o seu sistema de inteligência próprio, com doutrinas
e metodologias próprias de produção do conhecimento em que podem ser citados
o Sistema do Exército (SIEX), o Sistema de Inteligência da Marinha (SIMAR) e o
Sistema de Inteligência da Aeronáutica (SINTAER).

capítulo 2 • 47
Tema do próximo capítulo, um novo tipo de inteligência surge no Brasil,
a Inteligência de Segurança Pública, a partir do seu decreto de criação, o de
nº 3.665, de 21 de dezembro de 2000, o Brasil inaugura a atividade Inteligência
de Segurança Pública (ISP).
Faz-se necessário introduzir o tema do próximo capítulo ao final desse para
melhor compreensão da finalidade da inteligência clássica e o surgimento da
Inteligência de Segurança Pública.
Esculpida no § 2º do art. 1o da Lei 9.883/1999, a finalidade da Inteligência
Clássica tem como objeto obter, analisar e disseminar conhecimentos tanto em
âmbito interno quanto externo do território nacional, onde fatos e situações pos-
sam influenciar o processo decisório, a ação governamental, bem como a proteção
da sociedade e do Estado.
Repare que na Inteligência de Segurança Pública de Segurança Pública a sua
finalidade, trazida à tona pelo § 3º do art. 2o do referido decreto, difere da inteli-
gência clássica. Os integrantes desse novo tipo de inteligência são incumbidos de
“identificar, acompanhar e avaliar ameaças reais ou potenciais de segurança públi-
ca e produzir conhecimentos e informações que subsidiem ações para neutralizar,
coibir e reprimir atos criminosos de qualquer natureza”.
Perceba que as áreas de atuação são diferentes, embora, as duas produzam
conhecimentos. Enquanto uma se atém ao Estado, numa perspectiva de Estado
Nacional, a outra se ocupa com a segurança pública.

ATIVIDADES
As questões abaixo foram elaboradas para melhor compreensão do conteúdo estudado:

01. Em 1961, o Brasil sofreu ações de espionagem em seu território. Comente sobre o caso
ocorrido, informando as consequências para o agente espião do caso em tela.

02. A criação do Serviço Nacional de Informações em 1964 veio como uma evolução ao
SFICI. Comente essa afirmativa.

03. Por que houve necessidade de se criar a Escola Nacional de Informações? Os cursos
e estágios de informações que eram realizados em outras unidades de ensino continuaram
acontecendo nas escolas que já existiam?

04. Explique o que é Inteligência e Contrainteligência.

capítulo 2 • 48
05. O que se entende por Inteligência Clássica? Existiria outro sistema de Inteligência Clás-
sica, além do Sistema Brasileiro de Inteligência?

REFLEXÃO
Interessante poder mostrar de forma sucinta uma “linha do tempo” da atividade de in-
teligência no Brasil. Na verdade, foi demonstrado que antes mesmo da criação do primeiro
órgão e o primeiro sistema de inteligência, ações de busca conhecidas como infiltração e
desinformação já eram realizadas em território brasileiro.
Passo a passo foi apresentada a criação do Serviço Federal de Informações e Contrain-
formações (SFICI), e após o seu sucessor, o Serviço Nacional de Informações (SNI), com o
sistema que lhe era próprio, o SISNI. Viu-se também a ascensão e a queda do SNI, ao final
dos governos militares.
Foi mostrado também o protagonismo da Escola Superior de Guerra como a primeira
escola a formar agentes de inteligência no Brasil.
Extingue-se o SNI, muda-se a terminologia da atividade, informações passam a se cha-
mar inteligência. Com extinções e perdas, a inteligência já “nasce” fadada a não dar certo.
Na gestão de Fernando Collor, a inteligência, subordinada a uma Secretaria de Assuntos
Estratégicos, vive o seu pior momento desde a sua criação. Demissões e esvaziamento das
funções marcam esse momento.
Em 1999, na gestão de FHC, a inteligência “renasce”. Cria-se a Agência Brasileira de
Inteligência e também o Sistema Brasileiro de Inteligência, no qual há uma integração entre
os sistemas já existentes. Mais adiante, a inteligência clássica deixa de “andar sozinha”, pois
ocorre o surgimento de outro tipo de inteligência, a de Segurança Pública.
Os trabalhos de coleta e busca são sistemáticos, permanentes e especializados, desti-
nados a se produzir conhecimentos de interesse do Estado que passa também se ocupar
de uma área tão sensível quanto a da Segurança Pública. Isso demonstra que a atividade de
inteligência acompanha a evolução da sociedade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Fabiana de Oliveira. A Escola Nacional de Informações: a formação dos agentes para
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capítulo 2 • 50
3
Inteligência
Clássica e de
Segurança Pública:
os dois lados
da atividade de
inteligência
Inteligência Clássica e de Segurança Pública:
os dois lados da atividade de inteligência

No presente capítulo, será apresentada a criação do Sistema de Inteligência de


Segurança Pública, e sua posição de subsistema integrante do Sistema Brasileiro de
Inteligência. Será mostrada também a previsão dessa criação no Plano Nacional de
Segurança Pública, bem como a integração dos estados da federação nesse sistema.
Nesse capítulo você verá reflexões importantes sobre o tema e também sobre
a criação da inteligência de segurança pública, uma vez que já havia sido criada a
inteligência clássica. Indagações e posicionamentos doutrinários interessantes no
sentido de que haveria duas “inteligências” serão apresentados de modo a estimu-
lar o raciocínio e próprio posicionamento do aluno.
Tema muito importante também apresentado, diz respeito à Lei de Acesso à
Informação, abordando seus pontos que tratam da classificação dos documentos
sigilosos e dos prazos que esses documentos permanecem com restrição de acesso,
podendo somente manipulá-los aquelas pessoas habilitadas com credencial de se-
gurança e que tenham a necessidade de conhecê-los.
Será apresentada também inteligência de segurança pública, propriamente
dita, mostrando sua importância, contextualizando como ela pode e deve ser uti-
lizada no cenário social da realidade brasileira.

OBJETIVOS
•  Conhecer a criação da Inteligência de Segurança Pública reconhecer a sua importância
dentro de um sistema de inteligência em nível nacional;
•  Identificar a posição do Sistema de Inteligência de Segurança Pública como subsistema do
Sistema de Brasileiro de Inteligência;
•  Reconhecer a importância da inteligência de segurança pública, não somente como uma
atividade consultiva, no assessoramento ao processo decisório, como também atividade exe-
cutiva, empregada também no planejamento e na execução de ações preventivas e repressi-
vas de condutas ilícitas de qualquer natureza;
•  Identificar o trabalho do analista de inteligência no ciclo da produção de conhecimento;

capítulo 3 • 52
•  Conhecer a lei que trata do Acesso à Informação, que versa sobre classificação das infor-
mações classificadas com grau de sigilo;
•  Identificar a inteligência clássica e a de segurança pública como sendo uma única atividade
com objetos parcialmente distintos.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública (SISP)

Como foi visto no capítulo 2, com o advento do decreto no 3.695, de 21 de


dezembro de 2000, um novo conceito de Inteligência desponta no cenário brasi-
leiro, a Inteligência de Segurança Pública (ISP).
A implantação do Subsistema de Inteligência de Segurança Pública era um
dos compromissos previstos – o de número 4 – no Plano Nacional de Segurança
Pública (PNSP), de 20 de junho de 2000. Previa o PNSP o seguinte:

O Subsistema de Inteligência de Segurança Pública será parte de um sistema maior,


uma vez que integrará, quando formalizado, o Sistema Brasileiro de Inteligência – SIS-
BIN. O Subsistema de Inteligência é integrado por órgãos da esfera federal e esta-
dual, tendo por objetivo identificar ameaças à Segurança Pública e subsidiar, com
oportunidade, os órgãos governamentais com conhecimentos necessários à adoção
de providências para a manutenção da Segurança Pública. A integração de esforços
permitirá sistematizar um fluxo de informações, propiciando cenários para atuação das
instituições envolvidas, favorecendo as ações de prevenção e repressão. (Compromisso
nº 4 – implementação do Subsistema de Inteligência de Segurança Pública – Plano
Nacional de Segurança de Pública, de 20 de junho de 2000)

Entre as ações do PNSP estavam previstas a implantação do Subsistema de


Inteligência de Segurança Pública e a integração dos estados a esse sistema. Veja o
que diz o referido plano sobre a implantação do SISP:

Colocar em pleno funcionamento, o Subsistema de Inteligência de Segurança Pública,


criado pelo Decreto no 3.695, de 21/12/2000, que funcionará sob a coordenação da
Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça. A integração dar-se
-á nas condições previstas no art. 2º da lei 9.883, de 7 de dezembro de 1999. O sistema
priorizará sua atuação nas cidades de São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ, Brasília/DF e
entorno do Distrito Federal. (Implementação do Subsistema de Inteligência de Seguran-
ça Pública – Plano Nacional de Segurança de Pública, de 20 de junho de 2000)

capítulo 3 • 53
Perceba o que diz o PNSP sobre a Integração dos Estados ao Subsistema de
Inteligência de Segurança Pública: “Iniciar o processo de consulta e sensibilização
junto aos governadores dos estados e do Distrito Federal, com vistas à adesão de suas
instituições ao Subsistema de Inteligência de Segurança Pública.”
Note que as metas de criação do SISP e a integração dos estados federados a
ele já estavam previstas em momento anterior à criação do Decreto 3.695, bem
como a coordenação desse subsistema pela Secretaria Nacional de Segurança
Pública (SENASP).
Castro (2012, p. 98) mostra que até 22 de outubro de 2001, dezeoito Unidades
da Federação já haviam aderido ao Sistema de Inteligência de Segurança Pública,
a saber: Alagoas, Amazonas, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Pará,
Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do
Sul, Roraima, Santa Catarina, Sergipe, Tocantins e Distrito Federal.
Essas unidades federativas que haviam formalizado tal adesão se compromete-
ram a criar os chamados NEG, que eram os Núcleos Estaduais de Gerenciamento,
os quais tinham como missão principal a centralização e a coordenação das ativi-
dades de Inteligência de Segurança Pública nos seus estados.
Castro (2012, p. 98) explica que a Secretaria Nacional de Segurança Pública
realizou o primeiro Seminário Nacional sobre a Atividade de Inteligência de
Segurança Pública nos dias 5 e 7 de dezembro de 2001. Tal evento visava à divul-
gação dos trabalhos realizados pela SENASP, integrar os órgãos de Inteligência de
Segurança Pública do Brasil e aprimorar suas atividades de Inteligência por meio
de palestras e discussões entre os participantes.
Durante o seminário supracitado, foi constatado que na maioria dos estados
que aderiram ao SISP, não havia sistemas de inteligência estaduais, ficando o NEG
de cada estado incumbido de viabilizar a estruturação de sistemas que mais tarde
comporiam o SISP. Na ocasião foram propostos pelos estados que se criassem
sistemas de inteligência de segurança pública em âmbito estadual que passariam
integrar o SISP.
Castro (2012, p. 99) relata que durante o seminário foi constatada outra defi-
ciência, qual seja, a precariedade na formação profissional e falta de equipamentos
necessários à realização da atividade e a ausência de uma doutrina específica de
Inteligência de Segurança Pública.

capítulo 3 • 54
Inteligência de Segurança Pública versus Inteligência Clássica?

Inicialmente havia uma atividade de inteligência, criada em 1927, que evoluiu


e se estruturou com o tempo e sofreu alguns reveses também, mas se solidificou
com a criação do Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN), no qual foi criada
uma Agência Brasileira de Inteligência com uma Escola de Inteligência com uma
doutrina de Inteligência.
No ano de 2000 é criada a Inteligência de Segurança Pública que passa a coe-
xistir com a clássica. Um questionamento paira no ar, havia necessidade de se criar
outro tipo de inteligência?
Valendo-se do princípio da oportunidade, que é um dos princípios da ativi-
dade de inteligência, serão apresentados a partir de agora alguns pontos de vista e
questionamentos acerca da criação da Inteligência de Segurança Pública, a fim de
estimular a reflexão sobre o tema.
Para tanto, serão trazidos ao debate argumentos e posicionamentos do ilustre
autor Rodrigo Kraemer, que escreveu um artigo com o tema “Incompreensão
do conceito de Inteligência na Segurança Pública”, bem como de outros auto-
res que corroboram com o seu posicionamento. O referido artigo está disponí-
vel na Revista Brasileira de Inteligência (RBI), no 10, da Agência Brasileira de
Inteligência, do ano de 2015.
Pois bem, Kraemer ao longo de seu trabalho trata da criação da Inteligência de
Segurança Pública como um equívoco, por já existir uma Inteligência que é una, não
devendo assim, ter ocorrido a divisão da inteligência em clássica e de Segurança Pública.
Essa afirmativa do autor parece bem acertada no sentido de que não existiriam
“duas inteligências” e sim uma inteligência ramificada em dois segmentos, cada
um produzindo conhecimentos a partir de objetivos distintos e definidos, mas que
no fim, ambas alcançam a sua finalidade precípua, qual seja, o assessoramento no
processo decisório, seja ele em que nível for.
Num outro momento, acerca dessa “possível” dicotomia, Kraemer (2015, p. 73
e 74) sustenta que:

A inteligência apresentada por autores clássicos é descrita enquanto produtora de co-


nhecimentos para assessoramento ao escalão superior, e está inserida no processo de-
cisório do mais alto nível. Mas, o processo de construção e maturação da atividade de
inteligência nos órgãos de justiça criminal brasileiros, após a criação do SISBIN, deu-se
de forma confusa, privilegiando o aspecto investigativo, de produção de provas, em de-
trimento do aspecto de produção de conhecimento, para auxiliar o processo decisório.
(KRAEMER, 2015, p. 73 e 74)

capítulo 3 • 55
De acordo com o exposto, os órgãos de Segurança Pública ao realizar a ISP
teriam relegado a finalidade principal da inteligência, que é produzir conhecimen-
tos a fim de influenciar na tomada de decisão, passando a se ocupar de atividades
de cunho investigativo.
Entretanto, de acordo com o art. 144, § 1º, I e IV e § 4º, da Constituição da
República Federativa do Brasil (CRFB/88), somente a polícia federal e as polícias
civis têm a atribuição de polícia judiciária. A polícia rodoviária federal e as polícias
militares são polícias ostensivas e de preservação da ordem pública. As polícias
militares somente têm a atribuição de investigar crimes se estes forem militares.
Dessa forma, uma polícia militar que realiza ações de coleta e de busca a fim
de levantar dados negados de facções criminosas atuantes em determinado Estado
da Federação, e que após a submissão desses dados a uma metodologia de traba-
lho, dará origem a um Relatório de Inteligência (RELINT) que por sua vez será
utilizado como ferramenta de assessoramento no processo decisório, não está de
forma alguma realizando investigação.
Até mesmo porque não houve nessa atividade nenhuma produção de pro-
vas, tampouco o usuário do RELINT será o Ministério Público e sim o coman-
dante do Batalhão de Polícia Militar, em nível operacional, ou o comandante do
Comando de Área, em nível tático ou o comandante geral, em nível estratégico.
Imagine uma situação em que a agência de inteligência de um Batalhão da
Polícia Militar obtém um dado “negado”, por meio de um informante, que trafi-
cantes armados estão planejando uma tentativa de tomada de ponto de vendas de
drogas em uma localidade influenciada por uma facção rival. Sendo levantado o
dia e o período em que a ação está por ocorrer.
O processamento desse dado resulta na produção de um conhecimento o qual
indica que, para que a ação tenha êxito, os marginais contarão com apoio de ho-
mens da mesma facção, mas de localidades diferentes.
O comandante daquele batalhão planeja uma operação preventiva nos acessos
daquelas comunidades de onde os traficantes partiriam e impede assim a realiza-
ção de uma ação ilícita.
Veja como a inteligência auxiliou o trabalho da Polícia Militar, que tem como
atividade fim a preservação da ordem pública, por meio de sua ostensividade.
Diante desse caso hipotético, pergunta-se: houve investigação pela Polícia Militar,
em detrimento do aspecto da produção de conhecimento? É evidente que não
houve. Até mesmo se tivesse ocorrido, configuraria usurpação de função de outra
instituição que tenha por atribuição a apuração de infrações penais.

capítulo 3 • 56
Imagine ainda se nesse caso hipotético, além de levantar dia e momento da
ação dos marginais, fosse obtida também a identificação dos criminosos envol-
vidos e que um dos identificados, se encontrava cumprindo pena privativa de
liberdade em regime semiaberto. Ao tomar conhecimento desses fatos, a agência
daquele batalhão produz um relatório de inteligência e difunde para a agência de
inteligência da delegacia com circunscrição naquela área e para a inteligência do
sistema penitenciário.
E a partir desse conhecimento, a delegacia da área verifica que alguns dos
criminosos estão sendo investigados por outras ações delituosas e passam a inves-
tigá-los buscando materialidade em suas ações. Da mesma forma, a inteligência
penitenciária informa à vara de execuções penais quanto à probabilidade de de-
terminado apenado estar praticando crimes nos momentos em que se encontra
foram da unidade penitenciária.
Diante desses fatos, pergunta-se: esse conhecimento produzido não poderia
ter sido difundido para a delegacia que passou a investigar alguns dos marginais
identificados? Por outro lado, a inteligência do sistema penitenciário falhou em
cientificar ao juiz da vara de execuções penais sobre a conduta do condenado ex-
tramuros da penitenciária?
A resposta é não! Foi demonstrado no caso exposto que a finalidade de inte-
ligência foi alcançada, sendo produzido o conhecimento que influenciou na to-
mada de decisão daquele comandante. Além disso, o conhecimento continuava
oportuno para outras instituições e sendo assim, porque não difundi-lo para que
as mesmas pudessem se utilizar dele. Nesse sentido, a visão de Cardoso e Müller
(2010, p. 12):

Em determinadas ocasiões, a Inteligência se utiliza de técnicas denominadas ações


de busca, imprescindíveis para a obtenção de dados de interesse para a tomada de
decisão, mas que são protegidos por quem os detém. Estas ações (de busca), que são
técnicas operacionais de Inteligência, podem ser empregadas como suporte para a in-
vestigação, não se exigindo autorização judicial para sua utilização, bastando apenas
a observância do que prevê a Constituição Federal, no que diz respeito à garantia dos
Direitos Fundamentais, bem como da previsão da lei processual penal. (CARDOSO e
MÜLLER, 2010, p.12)

Patrício (2006, p. 56) apud Kraemer (2015, p. 74) afirma que “o conceito de
inteligência foi interpretado de modo conturbado, ocorrendo uma equivocada
ideia de que inteligência é sinônimo de investigação policial”.

capítulo 3 • 57
Não se pode concordar com essa afirmativa uma vez que o caso citado acima
não foi retirado de nenhuma obra de ficção apenas foi preservada a identificação
do batalhão e de seus policiais. Erros porventura podem ocorrer, em qualquer seg-
mento profissional, entretanto, não se pode entender um erro “individual” como
sendo o erro de uma coletividade.
Em outro momento de sua obra, Kraemer (2015, p. 76) fala da evolução da
inteligência clássica, sendo essa originada a partir de ações de espionagem. Ele
aborda também sobre a metodologia de produção de conhecimento, dizendo o
referido autor que:

A inteligência foi moldada historicamente pela academia e pelos métodos de pesquisa,


transformando o que antes era espionagem em algo novo que começou a se chamar
inteligência. Mas, o meio policial brasileiro, em geral, não está acostumado a se utilizar
de teoria ou de pesquisa. (KRAEMER, 2015, p. 76)

Sobre a criação da inteligência de segurança pública, Kraemer (2015, 77), que


a vê como um equívoco, uma confusão, afirma que:

Se a experiência cotidiana é que define a prática policial sem se utilizar da produção


científica, não é de se estranhar a aparente confusão apresentada entre inteligência
e investigação. Então, como primeiro fator explicativo sobre a confusão, temos uma
cultura policial de valorização da prática em detrimento da teoria. Essa característica
propiciou uma aversão à análise de inteligência – muito mais relacionada à pesquisa e
às universidades – e uma valorização da busca, da área de operações.
A análise de Inteligência seleciona dados, avalia, interpreta e integra, e também se utiliza
de dados negados, provenientes da atividade de operações de inteligência, que com-
pletam a formação da imagem necessária à tomada de decisão. Já a investigação tem
características bem distintas da inteligência, pois, enquanto a primeira trabalha com o
passado, com o que já aconteceu, buscando produzir provas e identificar autorias de
crimes, tendo como cliente final o Judiciário, a inteligência trabalha principalmente com
o presente e o futuro, buscando produzir conhecimentos para assessorar o processo
decisório e tendo como destinatário final o executivo. (KRAEMER, 2015, p. 77)

Em relação a essa questão, em alguns Estados da Federação ocorrem regular-


mente os cursos de inteligência de segurança pública.
Como exemplo do que foi relatado, a Subsecretaria de Inteligência da
Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro realiza cursos de inteligência

capítulo 3 • 58
de segurança pública regularmente desde o ano de 2004, sendo ministrados cursos
de introdução à atividade de inteligência, de análise e de operações, entre outros.
Kent (1967, p. 148) apud Kraemer (2015, p. 76) diz que “a análise de inteli-
gência se parece com o trabalho de pesquisadores de uma universidade, e como tal,
necessita de pessoas treinadas para tal fim e de um método próprio.”
Em se tratando da análise de inteligência, Gonçalves (2013, p. 64), ensina que
essa atividade é composta por procedimentos técnicos e por uma metodologia de
produção de conhecimento que trata dos dados ainda em seu estado bruto.
Dessa forma, por meio do trabalho do analista, o dado coletado é revisado,
de onde se extrai fatos significativos, que serão avaliados, comparados e confron-
tados com outros dados e com o conhecimento resultante da experiência que o
analista possui, alcançando-se, por fim, conclusões que irão compor um produto
final chamado inteligência. Esse produto, formalizado num relatório, é o que será
difundido ao tomador de decisões.
Veja o que a Doutrina Nacional de Segurança Pública (2009, p. 24) diz sobre
a análise de inteligência:

A etapa na qual o analista decompõe os dados e/ou conhecimentos reunidos e perti-


nentes, em suas partes constitutivas, já devidamente avaliadas, relacionadas aos aspec-
tos essenciais levantados, e examina cada uma delas, a fim de estabelecer sua impor-
tância em relação ao assunto que está sendo estudado. (DNISP, 2009, p. 24)

Especificamente no curso de análise de Inteligência de Segurança Pública,


o aluno aprende a produzir conhecimento utilizando o ciclo de produção
do conhecimento.
Consta na Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública (DNISP)
sobre o ciclo da produção de conhecimento o seguinte:

O CPC é definido sinteticamente como um processo formal e regular, separado em duas


etapas principais (uma vinculada à reunião de dados e outra ao processo de análise), no
qual o conhecimento produzido é disponibilizado aos usuários, agregando-se medidas
de proteção e negação do conhecimento. (DNISP, 2009, p. 18)

Da mesma forma, prevê a Doutrina de Inteligência de Segurança Pública do


estado do Rio de Janeiro (DISPERJ, 2005, p. 14), sobre o ciclo da produção do
conhecimento, o seguinte:

capítulo 3 • 59
Visando tornar o trabalho de produção de conhecimentos o mais científico possível,
utiliza-se uma metodologia, denominada Ciclo da Produção do Conhecimento (CPC),
conduzida pelo profissional de ISP, comumente denominado de analista.
A metodologia apresentada é aplicável, no todo ou em parte, aos quatro tipos de conhe-
cimento, de acordo com as peculiaridades de cada um.
O CPC não despreza a importância de outros fatores que concorrem para o êxito do
analista na produção do conhecimento, dentre eles, particularmente, seus atributos pes-
soais, sua experiência profissional e seu embasamento cultural.
O CPC compreende as seguintes quatro fases, não necessariamente cronológicas: Pla-
nejamento, Reunião de Dados, Processamento e Utilização. (DISPERJ, 2005)

Sobre o ciclo da produção de conhecimento, Veja que Kraemer (2015, p. 76)


retrata de forma brilhante o trabalho do analista de inteligência:

A inteligência trabalha com uma específica forma de incerteza, com fragmentos de


acontecimentos e intenções muitas vezes ocultas e não declaradas, e necessita trans-
formar esses dados dispersos em um conhecimento preciso, verdadeiro e confiável.
(AGRELL, 2002, p. 5) E esse elemento intelectual básico, capaz de manipular e tratar
incertezas, é normalmente chamado de análise de inteligência, uma atividade semelhan-
te à pesquisa social, pois ela implica verificar a precisão das fontes, comparar relatos
diferentes e obter perspectiva ampliando o campo de pesquisa (KENT, 1967, p. 148).
(KENT, 148 apud KRAEMER, 2015, p. 76)

Veja que esse é o grande desafio da Atividade de Inteligência, reunir o maior nú-
mero de dados e conhecimentos (já produzidos) sobre determinado assunto. Submeter
os dados ainda brutos a uma metodologia própria e produzir algo inédito a respeito,
agregando valor ao mesmo, na busca da verdade, tornando-o uma confiável ferramen-
ta de assessoramento daquele que dela se utilizará em seu processo decisório.
Durante esse “processo”, o analista realiza algumas operações intelectuais, tais
como ideias, juízos e raciocínios o que o leva a se deparar com diferentes estados
da mente perante a verdade, quais sejam, dúvida, ignorância, opinião e certeza.
O resultado disso tudo será um conhecimento materializado em um relatório que
expressará com maior ou menor probabilidade se um fato poderá acontecer.
Nesse sentido, veja o que preconiza a Doutrina de Inteligência de Segurança
Pública do estado do Rio de Janeiro, do ano de 2005, p. 8:

Verdade com significado é a característica da ISP que a torna uma produtora de conhe-
cimentos precisos, claros e imparciais, de tal modo que consiga expressar as intenções,
óbvias ou subentendidas, das pessoas envolvidas ou, mesmo, as possíveis ou prováveis
consequências dos fatos relatados. (DISPERJ, 2005, p. 8)

capítulo 3 • 60
A operação intelectual ideia é a simples visualização de uma determinada ima-
gem na mente do sujeito, sem adjetivá-la.
©© PIXABAY.COM

Sobre as operações intelectuais, tanto a DNISP de 2009, quanto a DISPERJ de


2005 se referem como sendo trabalhos intelectuais. Perceba o que diz a DISPERJ,
de 2009, na p. 17, sobre os referidos trabalhos intelectuais:

O ser humano, para conhecer determinados fatos ou situações, pode realizar três traba-
lhos intelectuais: conceber ideias, formular juízos e elaborar raciocínios.

1. Ideia: é a simples concepção, na mente, da imagem de determinado objeto, sem


adjetivá-lo.
2. Juízo: é a operação pela qual a mente estabelece uma relação entre ideias.
3. Raciocínio: é a operação pela qual a mente, a partir de dois ou mais juízos conheci-
dos, alcança outro que deles decorre logicamente. (DISPERJ, 2005, p. 17)

capítulo 3 • 61
Representação da mente humana durante a realização das operações intelec-
tuais citadas:
©© PIXABAY.COM

Figura 3.1  – 

Durante os trabalhos dos agentes de inteligência, tanto aqueles que atuam


no ramo análise ou no elemento de operações, alguns princípios iluminam e nor-
teiam as suas ações. A DNISP, de 2009, em sua p. 12, traz os seguintes princípios
“amplitude, interação, objetividade e oportunidade, permanência, precisão e sim-
plicidade, imparcialidade, compartimentação, controle e sigilo”.
Já a DISPERJ de 2005, em sua p. 9, traz os mesmos princípios, exceto o da
amplitude. Perceba que embora as duas doutrinas sejam de inteligência de segu-
rança pública, ambas são diferentes e semelhantes em alguns aspectos, entretan-
to, os pontos que são diferentes, não prejudicam a produção do conhecimento
de inteligência.
Sobre os princípios que norteiam as ações dos agentes de inteligência,
Gonçalves (2013, p. 104 e 105) ensina que:

Qualquer que seja a categoria da inteligência – militar, estratégica, policial etc. – a pro-
dução de conhecimento determinados princípios, que constituem síntese de pontos
importantes e orientadores das características de um produto e do procedimento para
obtê-lo. Entre os vários conjuntos de princípios norteadores da atividade de inteligência,
quatro são percebidos como fundamentais: objetividade, oportunidade, segurança e im-
parcialidade. (GONÇALVES, 2013, p. 104 e 105)

capítulo 3 • 62
Para Gonçalves (2013, p. 105), sobre o princípio da objetividade, “todo co-
nhecimento produzido e toda operação desencadeada devem ter caráter objetivo”.
Sobre o princípio da oportunidade, o renomado autor ensina, na p. 105, que
“esse princípio preconiza que as informações devem ser produzidas e difundidas
dentro de um prazo que possibilite sua completa e adequada utilização.”
Gonçalves (2013, p. 106) aduz que “a inteligência como produto deve con-
ter conhecimentos essenciais e imprescindíveis, referentes aos atos e fatos que a
originaram, e ser isenta de posição pessoal do analista e de outras influências que
possam prejudicar sua exatidão.” Desse modo, o autor de forma bastante clara
trouxe o que se entende por princípio da imparcialidade.

Em relação ao princípio da segurança, Gonçalves (2013, p. 105) ensina que:

O planejamento, a produção e a difusão de inteligência devem ocorrer sob a égide do


sigilo, de modo a limitar o acesso a essa inteligência apenas às pessoas que devam
realmente tomar conhecimento delas, ou seja, apenas àqueles que tenham necessidade
de conhecer. Assim, em virtude de suas características intrínsecas, a atividade de inteli-
gência deve revestir-se de profundo grau de sigilo, o que de forma alguma significa que
seja atividade ilegal e sem qualquer controle. (GONÇALVES, 2013, p. 105)

Ao tratar do princípio da segurança, Gonçalves (2013, p. 105), faz uma abor-


dagem muito importante sobre dois princípios, previstos tanto na DNISP de
2009, na p. 12, quanto na DISPERJ de 2005, em sua p. 9, quais sejam, o da
compartimentação e do sigilo.
O princípio da segurança representado na imagem a seguir:
© PIXABAY.COM

Figura 3.2 –

capítulo 3 • 63
Veja o que a DISPERJ (2005, p. 10) preconiza sobre o princípio
da compartimentação:

O princípio da compartimentação determina que a atividade de ISP, a fim de evitar riscos


e comprometimentos, restrinja o acesso ao conhecimento sigiloso produzido somente
para aqueles que tenham a real necessidade de conhecê-lo, em vista da função desem-
penhada e da credencial de segurança adequada, independentemente da hierarquia.
(DISPERJ, 2005, p. 10)

Sobre o princípio do sigilo, prevê a DISPERJ (2005, p. 10):

O princípio do sigilo proporciona, à atividade de ISP, o espaço e os caminhos necessá-


rios para atuar no universo antagônico e obter os dados protegidos, com a imprescindí-
vel preservação (salvaguarda) do órgão e de seus integrantes contra pressões e amea-
ças. Além disso, o sigilo é condição básica para evitar a divulgação de conhecimentos,
informações e dados que possam colocar em risco a segurança da sociedade e/ou do
Estado, bem como afetar a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem de pessoas e/
ou instituições. (DISPERJ, 2005, p. 10)

Quando Gonçalves (2013, p. 105) fala que “a atividade de inteligência deve


revestir-se de profundo grau de sigilo” ele quer reforçar a necessidade de que real-
mente as ações de inteligência sejam pautadas pelo sigilo. Da mesma forma, os
relatórios de inteligência apresentam grau de sigilo e qualquer divulgação ou aces-
so indevido dos mesmos durante o prazo de vigência da restrição da informação
constitui-se em violação da lei no 12.527, de 18 de novembro de 2011.
A lei 12.527, em seu art. 32 trata das responsabilidades do agente público civil
ou militar, a saber:

Art 32.. Constituem condutas ilícitas que ensejam responsabilidade do agente público
ou militar:
I. Recusar-se a fornecer informação requerida nos termos desta lei, retardar deli-
beradamente o seu fornecimento ou fornecê-la intencionalmente de forma incorreta,
incompleta ou imprecisa;
II. Utilizar indevidamente, bem como subtrair, destruir, inutilizar, desfigurar, alterar ou
ocultar, total ou parcialmente, informação que se encontre sob sua guarda ou a que te-
nha acesso ou conhecimento em razão do exercício das atribuições de cargo, emprego
ou função pública;
III. Agir com dolo ou má-fé na análise das solicitações de acesso à informação;
IV. Divulgar ou permitir a divulgação ou acessar ou permitir acesso indevido à informa-
ção sigilosa ou informação pessoal;

capítulo 3 • 64
V. Impor sigilo à informação para obter proveito pessoal ou de terceiro, ou para fins de
ocultação de ato ilegal cometido por si ou por outrem;
VI. Ocultar da revisão de autoridade superior competente informação sigilosa para be-
neficiar a si ou a outrem, ou em prejuízo de terceiros;
VII. Destruir ou subtrair, por qualquer meio, documentos concernentes a possíveis vio-
lações de direitos humanos por parte de agentes do Estado.
§ 1o Atendido o princípio do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal,
as condutas descritas no caput serão consideradas:
I. para fins dos regulamentos disciplinares das Forças Armadas, transgressões mili-
tares médias ou graves, segundo os critérios neles estabelecidos, desde que não tipifi-
cadas em lei como crime ou contravenção penal;
II. para fins do disposto na Lei no 8.112, de 11 de dezembro de 1990, e suas altera-
ções, infrações administrativas, que deverão ser apenadas, no mínimo, com suspensão,
segundo os critérios nela estabelecidos.
§ 2o Pelas condutas descritas no caput, poderá o militar ou agente público respon-
der, também, por improbidade administrativa, conforme o disposto nas leis nos 1.079, de
10 de abril de 1950, e 8.429, de 2 de junho de 1992.

Já os art. 33 e 34 da mesma lei tratam das responsabilidades referentes às pessoas


naturais ou entidades privadas, veja:
Art. 33. A pessoa física ou entidade privada que detiver informações em virtude de vín-
culo de qualquer natureza com o poder público e deixar de observar o disposto nesta lei
estará sujeita às seguintes sanções:

I. Advertência;
II. Multa;
III. Rescisão do vínculo com o poder público;
IV. Suspensão temporária de participar em licitação e impedimento de contratar com a
administração pública por prazo não superior a 2 (dois) anos;
V. Declaração de inidoneidade para licitar ou contratar com a administração pública,
até que seja promovida a reabilitação perante a própria autoridade que aplicou a penali-
dade.
§ 1o As sanções previstas nos incisos I, III e IV poderão ser aplicadas juntamente com a
do inciso II, assegurado o direito de defesa do interessado, no respectivo processo, no
prazo de 10 (dez) dias.

capítulo 3 • 65
§ 2o A reabilitação referida no inciso V será autorizada somente quando o interessado
efetivar o ressarcimento ao órgão ou entidade dos prejuízos resultantes e após decor-
rido o prazo da sanção aplicada com base no inciso IV. § 3o A aplicação da sanção
prevista no inciso V é de competência exclusiva da autoridade máxima do órgão ou
entidade pública, facultada a defesa do interessado, no respectivo processo, no prazo
de 10 (dez) dias da abertura de vista.
Art. 34. Os órgãos e as entidades públicas respondem diretamente pelos danos causa-
dos em decorrência da divulgação não autorizada ou utilização indevida de informações
sigilosas ou informações pessoais, cabendo a apuração de responsabilidade funcional
nos casos de dolo ou culpa, assegurado o respectivo direito de regresso.
Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se à pessoa física ou entidade privada
que, em virtude de vínculo de qualquer natureza com órgãos ou entidades, tenha acesso
à informação sigilosa ou pessoal e a submeta a tratamento indevido.

Sobre a classificação da informação quanto ao grau e aos prazos de sigilo, a Lei


no 12.527 estabelece que:

Art. 24. A informação em poder dos órgãos e entidades públicas, observado o seu teor
e em razão de sua imprescindibilidade à segurança da sociedade ou do Estado, poderá
ser classificada como ultrassecreta, secreta ou reservada.
§ 1o Os prazos máximos de restrição de acesso à informação, conforme a classificação
prevista no caput, vigoram a partir da data de sua produção e são os seguintes:

I. Ultrassecreta: 25 (vinte e cinco) anos;


II. Secreta: 15 (quinze) anos;
III. Reservada: 5 (cinco) anos.

Kraemer (2015, p. 74) faz um comentário bem pertinente sobre o sigilo, a


saber: “essa equivocada ideia de inteligência no meio policial está sendo embasada
teoricamente, existindo autores que já defendem a inclusão de relatórios de inte-
ligência, mesmo os produzidos pela ABIN, em processos judiciais, que são típicos
da esfera criminal.”
É muito importante levantar essa questão, pois realmente já se observaram
casos em que relatórios de inteligência foram apensados em autos de inquéritos
policiais e inquéritos policiais militares. E uma vez que esses relatórios sejam jun-
tados aos autos, esses passam também a receber o grau de sigilo daqueles.
Sendo assim, configura uma opinião demasiadamente equivocada, defender
a inclusão de RELINT em processos criminais ou em qualquer procedimento
administrativo, seja ele inquisitorial ou não.

capítulo 3 • 66
A lei no 12.527 trata dessa questão, mas, precisamente em seu art. 7o, § 2o,
o qual diz que “quando não for autorizado acesso integral à informação por ser
ela parcialmente sigilosa, é assegurado o acesso à parte não sigilosa por meio de
certidão, extrato ou cópia com ocultação da parte sob sigilo”.
Perceba pelo que foi apresentado das doutrinas de inteligência de segurança
pública o quanto as mesmas são centradas na finalidade principal da atividade,
que é a produção do conhecimento. Existe uma metodologia a ser seguida na
lapidação do dado, ainda em estado bruto, que ao final comporá o conhecimento
de inteligência.
Não há como concordar com os posicionamentos doutrinários que afirmam
que a atividade de inteligência de segurança pública objetiva a produção de provas
em detrimento da produção de conhecimentos.
Da mesma forma, que também não se pode concordar que o “meio policial”
não está acostumado a valer-se de teoria ou de pesquisa, pois, as doutrinas de
inteligência de segurança pública são periodicamente atualizadas, as quais são mi-
nistradas aos agentes públicos que se matriculam nos cursos de inteligência.
Por fim, depreende-se que não existem dois tipos de inteligências, pode-se
dizer que há uma classificação doutrinária para distinguir as formas em que essas
“inteligências” atuam. A inteligência praticada pela ABIN tem seu fim em si mes-
mo, ela foi criada exclusivamente para isso. Já a polícia militar tem sua finalidade
principal na polícia ostensiva e na preservação da ordem pública, enquanto a polí-
cia civil tem suas atribuições de polícia judiciária e a apuração de infrações penais,
entretanto, as duas polícias além de suas atribuições constitucionais realizam tam-
bém a atividade de inteligência.
Utilizar um conhecimento de inteligência, produzido para influenciar o pro-
cesso decisório, resguardando devidamente as normas constitucionais e proces-
suais, no planejamento e na execução de políticas de segurança pública, bem como
em ações de prevenção e repressão a condutas ilícitas não significa privilegiar ações
policiais ou ações investigativas em detrimento das atividades de produção de
conhecimento.
Na verdade, independente da natureza do órgão ou da instituição, a inteligên-
cia praticada por estes sempre será adaptada às suas atribuições a fim de que com
esse assessoramento, o tomador de decisões possa melhor decidir, refletindo assim
nas ações operacionais daquele órgão, e como consequência, melhor qualidade na
prestação do serviço público à comunidade.

capítulo 3 • 67
Inteligência de Segurança Pública e Inteligência Clássica como atividades que se
complementam

Para que haja melhor compreensão sobre o tema, veja que no Brasil, a ativida-
de de Inteligência, que surgiu em 1927 e que sofreu algumas mudanças ao longo
dos anos sempre foi voltada para o assessoramento do presidente da República
bem como a defesa interna do país.
E nesse sentido, somente as Forças Armadas tinham um sistema de Inteligência
em condições de produzir conhecimentos de assessorar o chefe do Poder Executivo.
Entretanto, ainda que a atividade realizada por elas fosse somente a Inteligência
de Estado também conhecida como Inteligência Clássica ou de Estado, especifi-
camente, as forças armadas realizam a chamada Inteligência Militar ou de Defesa.
Sobre a Inteligência Militar, Gonçalves (2013, p. 26) preleciona que é aquela
atividade que tem por objeto o agrupamento de informações, as quais foram obti-
das e que serão utilizadas para subsidiar a tomada de decisão, isto é, um processo
que pode ocorrer em qualquer dos vários escalões das forças armadas.
Ou ainda, pode-se definir também a Inteligência Militar como sendo a ativi-
dade que resulta da obtenção de dados sensíveis e protegidos que serão utilizados
na instrução do planejamento militar.
Gonçalves (2013, p. 26) traz ainda o conceito de Inteligência Militar com-
preendido pelo Ministério da Defesa, a saber:

Inteligência Militar: Atividade técnico-militar especializada permanentemente exerci-


da, com o objetivo de produzir conhecimentos de interesse do Comandante de qualquer
nível hierárquico e proteger conhecimentos sensíveis, instalações e pessoas das Forças
Armadas contra ações realizadas ou patrocinadas pelos serviços de inteligência opo-
nentes e/ou adversas (IP30-01). (GONÇALVES, 2013)

Perceba nos conceitos apresentados que a inteligência realizada pelas Forças


Armadas é ferramenta de assessoramento do processo decisório em nível opera-
cional, tático ou estratégico, ou seja, o conhecimento produzido pode ter como
usuário desde o comandante de uma unidade militar ao comandante da própria
instituição.
Como você pode perceber, o SISBIN surge como um modelo de sistema de
“inteligência civil”, ainda que agregando os sistemas de inteligência militares. Por
outro lado, ainda que se pensasse numa “inteligência civil”, despida das atribuições

capítulo 3 • 68
afetas aos militares, a ABIN, agência central de seu sistema, desde a sua gênese
também é voltada para a Inteligência Clássica, uma tipo de atividade assessorial, e
que por não haver poder de polícia, não poderia ser diferente disso.
Mas, o que vem a ser poder de polícia? Tal previsão se encontra na Lei no
5.172, de 25 de outubro de 1966, conhecida também como Código Tributário
Nacional, em seu art. 78, veja:

Art. 78. Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando
ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de
fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos
costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômi-
cas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública
ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. (Redação dada pelo
Ato Complementar no 31, de 1966)

Parágrafo único. Considera-se regular o exercício do poder de polícia quando desempe-


nhado pelo órgão competente nos limites da lei aplicável, com observância do processo
legal e, tratando-se de atividade que a lei tenha como discricionária, sem abuso ou
desvio de poder.

Voltando a falar sobre ISP, o art. 1o do decreto 3.695 aduz sobre a criação
de um Subsistema de Inteligência, dentro do próprio SISBIN, que tem como
finalidade a coordenação e integração das atividades de Inteligência de Segurança
Pública no país, suprindo o governo federal e o governo estadual de informações
capazes de subsidiar as tomadas de decisões nesta seara.
Mas, por que se criou um sistema dentro de outro, sendo este subsistema
daquele? A resposta é simples, porque o SISBIN é o Sistema de Inteligência que
abarca todos os outros sistemas existentes e os que ainda estão por vir. Está pre-
visto no art. 3o da lei 9.883/1999, entre outras atribuições da ABIN, coordenar,
supervisionar e controlar a atividade de inteligência no país.
Superando esse ponto, segue-se ao seguinte, considerando que o Brasil é for-
mado por 26 estados-membros e um Distrito Federal, e que por força de previsão
constitucional, art. 144 da CRFB/88, em cada estado federado, bem como no DF,
haja uma Polícia Militar e uma Polícia Civil, conclui-se que existam no Brasil, 27
polícias militares e 27 polícias civis, além de uma Polícia Federal e uma Polícia
Rodoviária Federal.

capítulo 3 • 69
Imagine o “universo” de dados e conhecimentos de interesse da inteligência
que tramitam no âmbito de cada uma dessas instituições policiais. Veja que ainda
não foi citada a Inteligência dos Corpos de Bombeiros, do Sistema Penitenciário,
das Guardas Municipais, da Receita Federal, do Ministério Público etc.
Antes da criação do Sistema de Inteligência de Segurança Pública, em geral, as
agências de inteligência de cada instituição produziam apenas os conhecimentos
necessários ao processo decisório de seu usuário principal, ou seja, o comandante
geral ou o chefe de polícia de cada uma dessas instituições. Não havia fluxo siste-
mático e permanente de dados e conhecimentos tramitando entre as agências de
inteligência de níveis federais e estaduais.
Mas, em que difere a Inteligência Clássica da Inteligência de Segurança
Pública? Incialmente, antes de qualquer consideração a ser feita, deve-se recordar
o conceito de Inteligência Clássica e compará-lo com o conceito de Inteligência
de Segurança Pública.
Nesse sentido, veja o conceito de Inteligência (Clássica), disposto no § 2o do
art. 1o da lei 9.883/1999, a saber:

Entende-se como inteligência a atividade que objetiva a obtenção, análise e dissemina-


ção de conhecimentos dentro e fora do território nacional sobre fatos e situações de
imediata ou potencial influência sobre o processo decisório e a ação governamental e
sobre a salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado. (Art. 1o, § 2o da lei no
9.883/1999)

Em pesquisas ao site da ABIN foi possível encontrar outro conceito de inteli-


gência que complementa o exposto anteriormente:

A atividade de Inteligência é o exercício de ações especializadas para obtenção e aná-


lise de dados, produção de conhecimentos e proteção de conhecimentos para o país.
Inteligência e contrainteligência são os dois ramos da atividade.
A atividade de inteligência é fundamental e indispensável à segurança dos estados, da
sociedade e das instituições nacionais. Sua atuação assegura ao poder decisório o co-
nhecimento antecipado e confiável de assuntos relacionados aos interesses nacionais.

Veja o que diz a Doutrina Nacional de Segurança Pública (DNISP, p. 10), do


ano de 2009 sobre o conceito de Inteligência de Segurança Pública:

capítulo 3 • 70
A atividade de ISP é o exercício permanente e sistemático de ações especializadas
para identificação, acompanhamento e avaliação de ameaças reais ou potenciais na
esfera de Segurança Pública, basicamente orientadas para produção e salvaguarda de
conhecimentos necessários para subsidiar os governos federais e estaduais a tomada
de decisões, para o planejamento e à execução de uma política de Segurança Pública
e das ações para prever, prevenir, neutralizar e reprimir atos criminosos de qualquer
natureza ou atentatórios à ordem pública. (DNISP, 2009, p. 10)

Ainda sobre o conceito de Inteligência de Segurança Pública, veja o que prevê


a Doutrina do Estado do Rio de Janeiro (2005, p. 8):

A atividade de Inteligência de Segurança Pública é o exercício permanente e sistemá-


tico de ações especializadas para a identificação, o acompanhamento e a avaliação de
ameaças reais ou potenciais na esfera de segurança pública, orientadas, basicamente,
para a produção e para a salvaguarda de conhecimentos necessários à decisão, ao
planejamento e à execução de uma política de segurança pública e das ações para
neutralizar, coibir e reprimir atos criminosos de qualquer natureza. (DISPERJ, 2005, p. 8)

Note que nos conceitos apresentados, todos sem exceção, visam em primeiro
momento, tanto à produção do conhecimento quanto à salvaguarda (proteção)
desse conhecimento que foi produzido. Ocorre que os conceitos de ISP vão um
pouco além do assessoramento do tomador de decisões em seu processo decisório.
O “aproveitamento” do conhecimento de inteligência da forma exposta en-
contra esteio não só no princípio da oportunidade, que é um dos princípios da
inteligência, mas também no princípio da eficiência, que é um dos princípios da
administração pública, previstos na Constituição Federal de 1988.
Morais ([20-], p. 03) leciona que o princípio constitucional ora tratado diz
respeito a toda Administração Pública, havendo para ele duas interpretações. A
primeira interpretação liga-se intrinsecamente ao modo de atuar do agente públi-
co. Já a segunda interpretação, relaciona-se diretamente com a forma de estrutu-
rar, organizar e disciplinar a Administração Pública, com a finalidade de atingir os
melhores resultados na gestão pública, contribuindo assim para o alcance do bem
comum de forma mais eficiente.
Todo o atuar da inteligência, seja ela de Estado e/ou de Inteligência de
Segurança Pública se complementam no sentido de que as decisões do Poder
Executivo, independente da esfera que ele se encontre, seja ela federal ou estadual
sempre buscam satisfazer o bem comum.

capítulo 3 • 71
Sendo assim, alcançar os melhores resultados na prestação dos serviços públi-
cos à coletividade é dever da administração pública, logo, lançar mão da atividade
de inteligência visando a essa melhoria na qualidade de suas políticas e ações é
uma conduta positiva que deve ser sim privilegiada, devido à versatilidade que a
inteligência tem.
Por fim, as instituições que têm órgãos de inteligência devem sim adaptar essa
atividade de modo a aumentar a eficiência das suas ações na busca do atendimento
às demandas constitucionais e sociais.

ATIVIDADES
01. O que previa o Plano Nacional de Segurança Pública, referente à Inteligência de Segu-
rança Pública?

02. O que previa o Plano Nacional de Segurança Pública sobre a integração dos Estados ao
Subsistema de Inteligência de Segurança Pública?

03. Explique qual é o trabalho do analista de inteligência.

04. Poderia se afirmar com base no que foi exposto neste capítulo, se existem duas “inteli-
gências”? E que uma delas faz estritamente investigação policial?

REFLEXÃO
O presente capítulo tratou da criação do Sistema de Inteligência de Segurança Pública
e como não poderia deixar de acontecer, o mesmo trouxe alguns pontos polêmicos, porém
fundamentais para possibilitar a reflexão sobre o tema.
Foi abordado sobre o Plano Nacional de Segurança Pública, com a previsão da inte-
gração dos estados da federação no SISP, bem como a estruturação e o suporte àqueles
estados que não haviam aderido ao referido sistema.
Tema muito importante que foi trazido à discussão referia-se à divisão da atividade de
inteligência em duas “inteligências”, entretanto foi demonstrado que tal divisão é doutrinária
e que a inteligência é uma atividade única. E que a conhecida por clássica e a de segurança
pública, se tratam da mesma atividade com objetos distintos.

capítulo 3 • 72
Ponto alto do capítulo também versou sobre produção de conhecimento e trabalhos
de investigação. Foram apresentados posicionamentos doutrinários no sentido de que os
órgãos policiais não realizariam o ciclo de produção de conhecimento, valendo-se da ativi-
dade de inteligência para fins de investigação. Porém foi demonstrado ao longo do capítulo
que tais posicionamentos não coadunam com a realidade das agências de inteligência dos
órgãos policiais.
Outro tema bastante polêmico e que causa certa “confusão” em algumas pessoas que
estudam o tema, diz respeito ao grau de sigilo dos documentos de inteligência, havendo até
mesmo, em alguns casos, defesas equivocadas no sentido de ser viável juntar os relatórios
de inteligência a processos criminais.
Por ocasião desse debate, foi trazida à tona a lei no 12.527, de 2011, que trata do Acesso
a Informações, a qual versa sobre o grau de sigilo e os prazos de restrição das informações
classificadas. E isso é muito importante para aqueles que atuarão em órgãos de inteligência,
uma vez que a lei traz diversas previsões no sentido de trato de documentos sigilosos, que
vai de do simples “protocolo” de recebimento de um documento sigiloso a difusão do mesmo.
Por fim, foi demonstrado que a inteligência de segurança pública foi criada como forma
de se privilegiar dois princípios, o da oportunidade e o da eficiência. O primeiro de inteligên-
cia, já que um conhecimento oportuno e capaz de influenciar no processo decisório, podendo
ser também oportuno no estabelecimento de políticas públicas, bem como na prevenção
e repressão de atos ilícitos de qualquer natureza. E o segundo, princípio da administração
pública, o qual norteia as ações da administração pública que busca incessantemente a sa-
tisfação do interesse público de forma mais eficiente e eficaz.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Senado Federal, 1988.
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prática no controle da criminalidade. Niterói, RJ: Impetus, 2013.
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Disponível em: <http://ws.mpmg.mp.br/biblio/informa/071218042.htm>. Acesso em: 3 abr. 2017.
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Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D3695.htm>. Acesso em: 3 abr. 2017.

capítulo 3 • 73
BRASIL. Lei no 9.883, de 7 de dezembro de 1999.
Institui o Sistema Brasileiro de Inteligência, cria a Agência Brasileira de Inteligência – ABIN,
e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9883.htm>.
Acesso em: 4 abr. 2017.
BRASIL. Lei no 12.527, de 18 de novembro de 2011. Dispõe sobre o acesso a informações
previsto no inciso XXXIII do caput do art. 5o, no inciso II do § 3o do art. 37 e no § 2o do art.
216 da Constituição. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/
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CARDOSO, Fabio Batista e MÜLLER, Marcelo. Interceptação das comunicações telefônicas nos
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CASTRO, Clarindo Alves de (coord.). Inteligência de Segurança Pública./Clarindo Alves de Castro,
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RIO DE JANEIRO. Doutrina de Inteligência de Segurança Pública (2015). Rio de Janeiro, RJ,
Assembleia Legislativa (2015).

capítulo 3 • 74
4
A inteligência de
Segurança Pública
no âmbito dos
estados
A inteligência de Segurança Pública no
âmbito dos estados

No presente capítulo, será apresentado o Sistema de Inteligência de Segurança


Pública no âmbito dos estados da federação, mostrando que a maioria deles aderiu
ao Subsistema de Inteligência federal, um dos compromissos previstos no Plano
Nacional de Segurança pública.
Você perceberá como a ISP tem integrado os estados, tendo em vista que a
integração é uma das finalidades da inteligência de segurança pública, facilitando
a prevenção e repressão de ações criminosas que ocorrem em mais de um estado.
Será apresentada a primeira Doutrina de Inteligência de Segurança Pública
instituída no Brasil, a DISPERJ, criada em 2005, no estado do Rio de Janeiro, an-
tes mesmo da Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública ser criada
em 2009.

OBJETIVOS
•  Conhecer a criação da Inteligência de Segurança Pública e reconhecer a sua importância
dentro de um sistema de inteligência em nível nacional;
•  Identificar os estados da federação que já aderiram ao Subsistema de Inteligência de Se-
gurança Pública;
•  Identificar os estados da federação que ainda não criaram sistemas estaduais de Inteligên-
cia de Segurança Pública;
•  Reconhecer a importância dos sistemas estaduais de inteligência de segurança pública
não somente como atividade de assessoria, mas também como atividade preventiva e repres-
siva a ações criminosas de qualquer natureza.

Subsistemas estaduais de Inteligência de Segurança Pública

Como foi visto no capítulo anterior, a criação do Subsistema de Inteligência


de Segurança Pública (SISP), tendo como órgão central do sistema a Secretaria
Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça estava prevista no Plano
de Segurança Pública.

capítulo 4 • 76
Veja que estava prevista também a adesão dos estados da federação nesse sub-
sistema de inteligência. Ocorre, porém que a SENASP não conseguiu a adesão
plena de todos os estados-membros da federação. E essa adesão ainda não aconte-
ceu porque ainda há estado que não apresenta um sistema de inteligência.
Ainda que existam estados que não têm um sistema de inteligência de segu-
rança pública, os mesmos realizam a ISP por meio de suas instituições.
Nesses estados, as ações de inteligência são coordenadas pelas suas secreta-
rias de segurança e ocorrem integradas entre as instituições policiais do estado
ou até mesmo integradas com secretarias de segurança e órgãos policiais de ou-
tros estados.
Ainda que não exista nesses estados um sistema estadual de inteligência de
segurança pública, não significa dizer que não haja investimento do governo do
estado nessa área.
Por outro lado, há estados que têm seu sistema de inteligência integrando suas
polícias estaduais com outros órgãos do serviço público estadual, que por sua vez,
agregam os subsistemas de inteligência existentes no âmbito do estado.
Nas páginas seguintes serão apresentados os sistemas de inteligência de segu-
rança pública daqueles estados que a têm, bem como a estrutura daqueles que não
apresentam um sistema, mas que ainda assim realizam a atividade de ISP.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Acre

De acordo com o art. 1o do referido decreto, foi instituído o Sistema de


Inteligência de Segurança Pública do estado do Acre (SISPAC), o qual passa a
integrar o Subsistema de Inteligência de Segurança Pública (SISP).
O SISPAC é subordinado à Secretaria de Estado de Segurança Pública (SESP),
a quem cabe executar as ações de planejamento, bem como as ações de execução
da Atividade de Inteligência nos assuntos que forem de interesse da área de segu-
rança pública. Para tanto, integra as informações e os conhecimentos produzidos
pelos membros do sistema.
O sistema estadual de inteligência do Acre foi criado com a finalidade de
subsidiar o chefe do Poder Executivo estadual, bem como o secretário de estado
de segurança pública no processo decisório nas esferas de suas atribuições e tem
entre seus fundamentos previstos no § único desse artigo, a observância ao Plano
Estadual de Segurança Pública.

capítulo 4 • 77
De acordo com o art. 2º do decreto, o SISPAC é chefiado pelo secretário de
estado de segurança pública, e tem em sua composição órgãos de Inteligência
da SESP, do gabinete militar, da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Corpo de
Bombeiros Militar, do Instituto de Administração Penitenciária, Instituto
Socioeducativo, do Departamento Estadual de Trânsito do estado do Acre.
A agência central desse sistema é o órgão de Inteligência da SESP, na forma do
§ 1º do artigo 2º do decreto estadual no 2.823. Veja que esse órgão, em entre suas
atribuições, integra as atividades de Inteligência de Segurança Pública desenvolvi-
das no estado do Acre e exerce a coordenação técnica e doutrinária sobre os órgãos
que fazem parte do sistema.
Compete ainda à agência central do SISPAC, ligar-se tecnicamente com a
Coordenação do SISP/SENASP/MJ, e com os seus núcleos, bem como com os
órgãos que compõem o Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) e representar
o SISPAC junto ao SISBIN e à SENASP, entre outros órgãos, na forma do art. 3º
do decreto.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Amazonas

O Sistema Integrado de Inteligência do Amazonas (SISPEAM) foi criado pela


lei delegada no 79, de 18 de maio de 2007, e tem como órgão central do sistema a
Secretaria-Executiva-Adjunta de Inteligência (SEAI) que tem como área de atua-
ção todo o estado do Amazonas.
De acordo com o inciso IX do art. 4º desse decreto, compete a SEAI coorde-
nar e controlar as atividades realizadas pelo Departamento de Inteligência e pelo
Departamento de Contrainteligência e de Logística. Compete ainda, exclusiva-
mente, a coleta de dados e informações, a pesquisa, a análise, o processamento,
a produção e difusão de conhecimentos de Inteligência ao Sistema de Segurança
Pública do Amazonas.
Veja que de acordo com esse inciso, cabe ainda à Polícia Militar, à Polícia
Civil, ao Corpo de Bombeiros Militar, ao Departamento Estadual de Trânsito e
ao Sistema Prisional contribuir por iniciativa própria ou por quando solicitados,
com dados e informações de interesse do estado do Amazonas.
De acordo com o inciso X do art. 4o daquele decreto, a SEAI tem dois depar-
tamentos, o primeiro é o Departamento de Inteligência, que coordena o levanta-
mento de informações relacionadas às incidências criminais no Amazonas, bem
como realiza investigações em assuntos afetos à segurança pública. O segundo

capítulo 4 • 78
departamento é o de Contrainteligência, previsto no inciso XI, que identifica
e neutraliza ações adversas, produz conhecimentos para salvaguarda da ativida-
de de inteligência e da instituição à que pertence e protege os conhecimentos
classificados com grau de sigilo que tramitam pelo canal técnico da Inteligência
da Secretaria.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública e Defesa Social do Estado do


Ceará

Instituído pelo decreto no 27.874, de 16 de agosto de 2005, prevê o art. 1o


que o Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública e Defesa Social do
Ceará, que também faz parte do SISP/SENASP, tem como atribuição, fazer a
integração das ações de planejamento e de execução das atividades de inteligência
no estado do Ceará, e assessorar o chefe do Poder Executivo estadual na tomada
de decisões.
É responsabilidade do sistema estadual de inteligência do estado obter, ana-
lisar, disseminar informações necessárias à preservação da ordem pública e ainda,
salvaguardar os conhecimentos sigilosos de interesse do estado, devendo sempre
observar os fundamentos da defesa do Estado Democrático de Direito, da pre-
servação dos direitos e das garantias individuais dos cidadãos e da dignidade da
pessoa humana.
De acordo com o art. 2º, o Centro Integrado de Inteligência de Segurança
Pública – CIISP – é o órgão central do sistema, a quem compete o planejamento,
a coordenação, a direção e a execução das atividades de inteligência e contrainteli-
gência, por meio de ações especializadas objetivando a produção e salvaguarda de
conhecimentos hábeis a prevenir e reprimir ações criminosas.
Ao CIISP cabe ainda a coleta, análise e produção de informações aptas à neu-
tralização do crime organizado. Além de ligar-se por meio das atividades de inte-
ligência de segurança pública aos demais órgãos que compõem o SISP. Ao CIISP
compete o tratamento via canal técnico com a Coordenação do SISP/SENAS
e com os núcleos de gerenciamento de inteligência dos demais estados da fede-
ração que façam parte do Subsistema de Inteligência de Segurança Pública do
Ministério da Justiça.
Veja que de acordo com o art. 2º desse decreto que o Sistema Estadual de
Inteligência de Segurança Pública e Defesa Social é composto pelo CIISP, pelos
órgãos de inteligência da Polícia Militar e da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros

capítulo 4 • 79
Militar e dos órgãos da administração pública estadual que possam de alguma for-
ma contribuir com informações para a conservação da segurança pública.

Sistema de Inteligência da Segurança Pública do Estado do Espírito Santo

Pela Lei complementar no 690, de 8 de maio de 2013, em seu art. 6º, foi
criado o Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Espírito Santo (SISPES).
Compõem o referido sistema de inteligência a Secretaria de Estado de Inteligência
e Integração Correicional (SEI), agência central do sistema e os órgãos de inteli-
gência da Polícia Militar do Espírito Santo, da Polícia Civil do Espírito Santo e
do Corpo de Bombeiros do Espírito Santo, os quais são classificados como agên-
cias executivas.
Ao Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Espírito Santo compe-
te sistematizar e integrar as atividades de inteligência realizadas pelas agências
dos órgãos de segurança pública estadual e ainda realizar a integração com o
SISP/SENASP.
De acordo com o § 2º do art. 6º da referida lei, aos integrantes do SISPES
cabe, na esfera de suas atribuições, a identificação, o acompanhamento e a avalia-
ção de ameaças reais e/ou potenciais à segurança pública, assim como a produção
de conhecimentos hábeis a subsidiar ações de neutralização, prevenção e repressão
à atos criminosos de qualquer natureza.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Goiás

O Decreto no 8.869, de 12 de janeiro de 2017, em seu art. 1º, criou, no âm-


bito da Secretaria de Estado de Segurança Pública e Administração Penitenciária,
o Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Goiás (SISP/GO)
que passa a integrar o SISP/SENASP e o SISBIN.
O SISP/GO, de acordo com o § 2º do art. 1o, tem a finalidade de coorde-
nação e integração das atividades de inteligência no estado de Goiás e é direcio-
nado ao “exercício permanente e sistemático de ações especializadas na produção
e salvaguarda de conhecimentos necessários para prever, prevenir, neutralizar e
reprimir atos criminosos de qualquer natureza”, na forma do § 1º do art. 1 do
referido decreto.
De acordo com o art. 3º do decreto 8.869, compõem o SISP/GO, os subsis-
temas de inteligência dos órgãos, a saber:

capítulo 4 • 80
I. Secretaria de Estado de Segurança Pública e Administração Penitenciária, por
meio da Superintendência de Inteligência Integrada;
II. Polícia Militar do estado de Goiás, por meio da Gerência de Operações de Inteligên-
cia da Polícia Militar;
III. Polícia Civil do estado de Goiás, por meio da Gerência de Operações de Inteligência
da Polícia Civil;
IV. Corpo de Bombeiros Militar do estado de Goiás, por meio da Gerência de Opera-
ções de Inteligência do Corpo de Bombeiros Militar;
V. Superintendência Executiva de Administração Penitenciária, por meio da Gerência
de Operações de Inteligência;
VI. Superintendência de Polícia Técnico-Científica;
VII. Secretaria de Estado da Casa Militar, por meio da Gerência de Operações de Inte-
ligência;
VIII. Departamento de Trânsito – DETRAN;
IX. Superintendência de Proteção aos Direitos do Consumidor – PROCON/GOIÁS;
X. demais subsistemas de inteligência que vierem a ser criados no âmbito da Secreta-
ria de Segurança Pública e Administração Penitenciária do estado de Goiás. (Art. 3o do
decreto no 8.869 de 12 de janeiro de 2017)

Veja que interessante, o art. 2º, incisos IV e V, do decreto que instituiu o siste-
ma de inteligência de segurança pública de Goiás traz uma definição específica do
tipo de inteligência de segurança pública realizada pela Polícia Militar e pela Polícia
Civil. Na verdade, é uma atividade que foi alinhada às atribuições de cada uma das
instituições na busca de melhor poder assessorar seus usuários no processo decisório:

IV. atividade de inteligência policial militar é o exercício permanente e sistemático de


ações especializadas para identificar, avaliar e acompanhar ameaças reais ou potenciais
na esfera de segurança pública, orientadas para produção e salvaguarda de conheci-
mentos necessários para assessorar o processo decisório; para o planejamento, a exe-
cução e o acompanhamento de assuntos de segurança pública e da polícia ostensiva,
subsidiando ações para prever, prevenir e neutralizar ilícitos e ameaças de qualquer
natureza, que possam afetar a ordem pública e a incolumidade das pessoas e do patri-
mônio, sendo coordenada pela Gerência de Operações de Inteligência da Polícia Militar
e exercida pela Agência Central de Inteligência da Polícia Militar (PM/2) e pelas demais
agências regionais e locais de inteligência;

capítulo 4 • 81
V. atividade de inteligência policial judiciária é o exercício permanente e sistemático
de ações especializadas para identificar, avaliar e acompanhar ameaças reais ou poten-
ciais na esfera de segurança pública, orientadas para produção e salvaguarda de conhe-
cimentos necessários para assessorar o processo decisório no planejamento, execução
e acompanhamento de uma política de segurança pública; nas investigações policiais
e nas ações para prever, prevenir, neutralizar e reprimir atos criminosos de qualquer
natureza que atentem à ordem pública e à incolumidade das pessoas e do patrimônio,
sendo exercida pelas agências de inteligência no âmbito da Polícia Civil. (Art. 2o, IV e V
do Decreto 8869, de 12 de janeiro de 2017)

O SISP/GO é um sistema estadual que reúne outros subsistemas de inteligên-


cia e agências de inteligência, no âmbito do estado de Goiás, atuando de forma
ordenada e integrada, criando um compromisso entre seus integrantes, tais como
a colaboração entre as agências e o estabelecimento do fluxo de dados e conheci-
mentos tramitando no canal técnico.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Mato Grosso

O Sistema de Inteligência de Segurança Pública do estado de Mato Grosso


(SISP/MT) criado pelo Decreto no 2.033, de 9 de dezembro de 2013, é também
subsistema do SISP/SENASP. Esse sistema tem a responsabilidade de coordenar
e integrar as atividades de inteligência na esfera estadual, fornecendo subsídios ao
processo decisório no âmbito da segurança pública.
De acordo com o § 2º do art. 1o do decreto, a Secretaria Adjunta de Inteligência
(SAI) da Secretaria de Estado de Segurança Pública de Mato Grosso (SESP/MT)
é a agência central do Sistema, tendo entre suas atribuições, a obtenção dos dados
e conhecimentos de inteligência de segurança pública.
Compõem o SISP/MT, os subsistemas de inteligência da Polícia Civil do es-
tado de Mato Grosso, da Polícia Militar do Estado de Mato Grosso, do Corpo
de Bombeiros Militar do estado de Mato Grosso, além de outros subsistemas que
possam a vir a ser criados na área de segurança pública.
Segundo o § 4º do art. 1o do decreto, considera-se inteligência a atividade
que visa obter, analisar e disseminar conhecimentos dentro do território nacional
ou fora dele, referente a fatos e situações de imediata ou potencial influência sobre
a tomada de decisões e a ação governamental, e sobre a proteção da sociedade e
do estado.

capítulo 4 • 82
Por contrainteligência, considera-se aquela atividade de salvaguarda de dados
e conhecimentos sigilosos, de identificação e neutralização de ações adversas que
ameacem a proteção de dados, informações e conhecimentos que sejam de inte-
resse da segurança da sociedade e também do estado.
Os subsistemas de inteligência que compõem o SISP/MT atuarão captando,
dando tratamento e difundindo dados, conhecimentos e informações por meio
do canal técnico de inteligência, sob orientação, coordenação e supervisão da
Secretaria Adjunta de Inteligência, tendo esta a atribuição de viabilizar a integra-
ção entre os subsistemas que fazem parte do SISP/MT.
Os subsistemas, por sua vez são subordinados ao gestor das suas respectivas
instituições, na forma do art. 6o do decreto anterior, obedecendo sempre às dire-
trizes previstas na DNISP, podendo os mesmos constituir ou integrar redes (locais
ou regionais) de inteligência de segurança pública.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Mato Grosso do Sul

Pelo Decreto no 12.126, de 20 de julho de 2006, foi criado o Sistema de


Inteligência de Segurança Pública do estado de Mato Grosso do Sul (SISP/MS),
subordinado ao Secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública. Esse sistema
apresenta três tipos de agências, quais sejam, as efetivas, as especiais e as afins.
Classificam-se como agências efetivas a Coordenadoria de Inteligência de
Segurança Pública da Secretaria de Estado de Justiça e da Segurança Pública
(COIN/SEJUSP), a Segunda Seção do Estado-Maior do Comando Geral da
Polícia Militar (PM2/PMMS) e a Diretoria de Inteligência e Planejamento da
Diretoria-Geral de Polícia Civil (DIP/PCMS).
As agências especiais são: a Segunda Seção do Estado-Maior do Comando-
Geral do Corpo de Bombeiros Militar (2a Seção/CBMMS), a Gerência de
Inteligência do Sistema Penitenciário da Agência Estadual do Sistema Penitenciário
de Mato Grosso do Sul (GISP/AGEPEN) e os Setores de Inteligência da
Corregedoria interna da Polícia Civil (CORREG/PC/SSP), da Polícia Militar
(CORREG/PMMS), do Corpo de Bombeiros Militar (CORREG/CBM/MS) e
da Corregedoria do Departamento de Trânsito (CORREG/DETRAN/MS).
Já as agências afins são aquelas compostas por agências de órgãos do poder
público ou da iniciativa privada, por exemplo, agência de inteligência do Ministério
Público ou dos outros poderes estaduais, de prefeituras municipais e da iniciativa
privada, que porventura venham a ser criadas e celebrem termo de cooperação com

capítulo 4 • 83
observância das prerrogativas constitucionais, bem como o interesse da seguran-
ça pública.
A agência central do SISPMS é a COIN/SEJUSP/MS, cabendo a mesma re-
presentar o SISPMS perante o SISP/SENASP. Não há hierarquia entre as agências
que compõem o sistema, sendo responsabilidade das agências efetivas, a criação
dos seus subsistemas de inteligência, objetivando o constante fluxo de conheci-
mentos pelo canal técnico.

Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública de Minas Gerais

Pela Lei delegada no 180, em seu art. 136, de 20 de janeiro de 2011 foi criado
o Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública de Minas Gerais (SEISP/
MG), ao qual cabe a coordenação e integração das atividades de inteligência de
segurança pública no estado de Minas Gerais, subsidiando ainda o Sistema de
Defesa Social no processo decisório nessa esfera, produzindo, analisando e difun-
dindo dados, bem como pela proteção e pelo sigilo da informação, impedindo
possíveis vazamentos.
Com previsão no art. 137 da referida lei, o SEISP/MG integra o subsistema
do SISP/SENASP, de acordo com a previsão do decreto no 3.695 de 21 de de-
zembro de 2000, e é composto pelas instituições, a saber: Secretaria de Estado de
Defesa Social de Minas Gerais, Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Polícia
Civil de Minas Gerais (PCMG) e Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais
(CBMG).
Veja que ao contrário do que foi visto nos sistemas estaduais anteriores, o
SEISP/MG é coordenado por um Conselho Gestor e não por um órgão central.
Esse Conselho é formado por representantes das seguintes instituições: Secretaria
de Estado de Defesa Social de Minas Gerais, PMMG, PCMG e CBMG, entretan-
to ele é presidido pelo secretário de estado de Defesa Social.
Compete à Secretaria de Estado de Defesa Social, como integrante do Conselho
Gestor, coordenar o SEISP/MG e propor a edição de normas regulamentadoras da
atividade de inteligência e do Sistema Estadual de Inteligência.
O SEISP/MG apresenta as seguintes atribuições, a saber: planejamento,
execução e coordenação, de forma integrada, das atividades de inteligência de
segurança pública no estado; assessorar as autoridades competentes, com a produ-
ção de conhecimentos, no processo decisório no que tange ao Sistema de Defesa

capítulo 4 • 84
Social, e ainda, editar norma complementar que garanta a salvaguarda de conhe-
cimentos de interesse da segurança da sociedade e do estado.
Das atividades realizadas no Sistema Estadual de Inteligência de Segurança
Pública de Minas Gerais, de acordo com o § 2º do art. 140 dessa lei, não decorre
vínculo hierárquico nem orgânico entre as agências que dele participam.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Pará

O Subsistema de Inteligência de Segurança do Estado do Pará (SISEP/PA)


foi criado pelo parágrafo único do art. 40 da lei no 7.584, de 28 de dezembro
de 2011, o mesmo faz parte da Secretaria de Estado de Segurança Pública e
Defesa Social e tem como seu órgão central a Secretaria Adjunta de Inteligência e
Análise Criminal.
O SISESP/PA tem como finalidade planejar, normatizar, orientar, coordenar,
supervisionar, controlar e executar as atividades de inteligência de segurança em
âmbito estadual.
De acordo com o art. 22 dessa lei, a Secretaria de Estado de Segurança Pública
e Defesa Social, por meio da Secretaria Adjunta de Inteligência e Análise Criminal
realiza a coordenação, a articulação, a supervisão, o monitoramento e a avalia-
ção das ações de inteligência desenvolvidas pelos órgãos que compõem o Sistema
Estadual de Segurança Pública e Defesa Social.
É função da Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social a for-
mulação, elaboração e implementação no estado do Pará de uma política de inte-
ligência que subsidie as autoridades a planejar, executar e acompanhar a redução
da criminalidade e proteger os dados e as informações, na forma do inciso VIII
do art. 22 da lei.
Cabe ainda à Secretaria de Estado de Segurança Pública a integração da ati-
vidade de inteligência com a estatística objetivando modernizar a atividade de
inteligência e aprimorar o controle dos órgãos que integram o Sistema Estadual de
Segurança Pública e Defesa Social (SIEDS).
Na agência central do sistema estadual de inteligência do Pará, duas diretorias
produzem conhecimentos, uma em nível estratégico – a Diretoria de Inteligência
Estratégica (DINE) e a outra em nível tático – a Diretoria de Análise Criminal
(DAC).

capítulo 4 • 85
Enquanto a DINE produz conhecimento visando ao assessoramento do pla-
nejamento e da execução das políticas governamentais, referentes a ameaças à se-
gurança da sociedade, a DAC produz conhecimentos que objetivam identificar os
parâmetros de autoria, materialidade, modalidades criminosas, geografia e tempo
do crime.
Veja que no sistema estadual de inteligência do Pará, está prevista a associação
de duas ferramentas importantes capazes de influenciar o processo de decisório,
bem como atuarem também na prevenção e redução dos índices criminais, a inte-
ligência e a análise criminal.
Castro (2012, p. 140 e p. 144) tratam deste tema da forma, a saber:

Na inteligência temos a presença da análise, podendo ser criminal, que é a responsável


pela produção de conhecimento.
Os primeiros a darem subsídio à segurança pública em relação à informação estrutu-
rada, válida e confiável, foram os britânicos, tendo como iniciador deste novo método
Henry Fielding. Posteriormente países de matriz cultural britânica, caso da Austrália, do
Canadá e dos Estados Unidos da América (EUA), assumiram a nova tendência.
Assim é que a análise criminal (AC) surgiu nos Estados Unidos no ano de 1920, quando,
por meio de catalogação de registros de ocorrências, começaram a perceber incidên-
cias de crimes em determinadas localidades e pela análise detectaram que poderiam
direcionar policiamento para a prevenção e diminuição da criminalidade. (ANDRADE,
JÚNIOR e FILHO, 2012 p. 140).
A análise criminal conta com a união de importantes bases para atingir resultado satis-
fatório, como a sociologia, a estatística, a gestão de informação e tecnologia da informa-
ção. De acordo com Santos (2002, p.19), essas quatro temáticas indicam quais bases
do conhecimento os profissionais empenhados nesse sistema necessitam saber para a
caracterização de um sistema de análise criminal. (CASTRO, 2012, p. 144)

Sistema Estadual de Inteligência de Segurança e Defesa Social do Estado da


Paraíba

Em 2 de julho de 2014, com base na lei 10.338, art. 1º, foi instituído o
Sistema Estadual de Inteligência de Segurança e Defesa Social do Estado da Paraíba
(SEINSDS), subordinado ao Secretário de Estado da Segurança e da Defesa Social
(SEDS), tendo como agência central, a Coordenação Integrada de Inteligência de
Segurança e Defesa Social (CIISDS), cabendo-lhe coordenar, planejar e executar
o sistema.
Os órgãos ou as entidades da Administração, direta ou indireta, suas conces-
sionárias e permissionárias, ficam obrigados a garantir o acesso e o fornecimento

capítulo 4 • 86
de toda informação ou documentação necessários à CIISDS, assegurando o seu
caráter reservado, com a finalidade de assessoramento do processo decisório, seja
ele no nível estratégico ou operacional, no que diz respeito à persecução criminal,
de responsabilidade da Polícia Judiciária, na forma do § 2º do art. 1º dessa lei.
O Sistema Estadual de Inteligência de Segurança e Defesa Social do Estado da
Paraíba será integrado pelos subsistemas de inteligência da Polícia Civil da Paraíba
(SIPOC) da Polícia Militar (SIPOM), do Sistema Prisional (SISPRI), do Corpo
de Bombeiros Militar (SICOB) e da Casa Militar (SICAMIL).
De acordo com o art. 4o da lei 10.338, foram instituídos o Conselho Estadual
de Inteligência (CEI) e o Gabinete de Gestão Integrado de Inteligência (GGII).
O primeiro, sob a presidência do secretário de estado da segurança pública, é inte-
grado pelo corregedor geral da SEDS, pelo coordenador do CIISDS, pelos chefes
das Agências dos Subsistemas que integram o SEINSDS e por um membro do
Ministério Público do estado da Paraíba.
Já o segundo, o GGII, compõe-se pelo Coordenador Geral da Coordenação
Integrada de Inteligência de Segurança e Defesa Social (CIISDS), bem como pelos
Coordenadores dos Subsistemas de Inteligência.
A critério do secretário da secretaria de estado da segurança e defesa social po-
dem ser convidados a fazer parte do gabinete de gestão integrado de inteligência,
os órgãos dos poderes do estado, bem como, os órgãos dos entes federados.

Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Pernambuco

Pela lei no 13.241, de 29 de maio de 2007, foi criado o Sistema Estadual de


Inteligência de Segurança Pública do Estado de Pernambuco (SEINSP), estando o
mesmo subordinado ao secretário de defesa social e tendo como agência central do
sistema, o Centro Integrado de Inteligência de Defesa Social (CIIDS).
Ao CIIDS compete coordenar, planejar e executar as ações de inteligência em
âmbito estadual.
De acordo com o art. 4o dessa lei, compõem o SEINSP: Subsistema de
Inteligência da Polícia Militar (SIPOM), Subsistema de Inteligência de Segurança
Pública da Polícia Civil (SISPPOC), Subsistema de Inteligência do Corpo de
Bombeiros (SICOB), Subsistema de Inteligência da Casa Militar (SICAMIL),
Subsistema de Inteligência do Sistema Prisional (SISPRI) e outras agências criadas
no âmbito da Secretaria de Defesa Social.

capítulo 4 • 87
Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro

Pelo Decreto no 31.519, de 12 de julho de 2002, na forma do art. 1º, foi insti-
tuído o Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro
(SISPERJ), no âmbito da Secretaria de Estado de Segurança Pública.
O SISPERJ integra o Subsistema Nacional de Inteligência de Segurança
Pública (SISP), da SENASP, e tem a finalidade principal desenvolver a atividade
de inteligência de segurança pública no estado do Rio de Janeiro.
O Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro
é subordinado ao Secretário de Estado de Segurança Pública e é composto pelos
órgãos, a saber: Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Estado de Segurança
Pública (SSINTE/SESEG), Coordenadoria de Inteligência da Polícia Militar do
Estado do Rio de Janeiro (CI/PMERJ), Assessoria de Inteligência Policial da Polícia
Civil do Estado do Rio de Janeiro (ASSINPOL/PCERJ), Superintendência de
Inteligência Penitenciária da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária
(SISPEN/SEAP), Segunda Seção do Estado Maior Geral do Corpo de Bombeiros
(BM2/CBMERJ/SEDEC) e Departamento de Trânsito (DETRAN/SESEG).
Pelo Decreto no 37.272, de 1º de abril de 2005, o estado do Rio de Janeiro
cria a sua doutrina de Inteligência de Segurança Pública, enquanto a primeira
Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública (DNISP) foi criada so-
mente em 2009, 9 anos depois da instituição do Subsistema de Inteligência de
Segurança Pública pela SENASP/Ministério da Justiça.
Veja o que diz a portaria de aprovação da DNISP:

O SECRETÁRIO NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA, no uso das atribuições que


lhe são conferidas pelo art. 45 do Decreto no 6.061, de 15 de março de 2007, combi-
nado com os incisos III e VIII da Portaria N 1.821, de 13 de outubro 2006, e tendo em
vista o contido na Portaria SENASP no 4, de 26 de março de 2009, resolve:
Art. 1o Aprovar a Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública – DNISP, em
conformidade com o disposto no art. 3o do Decreto no 3.695, de 21 de dezembro de
2000, que dispõe sobre os atos do Conselho Especial do Subsistema de Inteligência de
Segurança Pública – SISP.
Art. 2o Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação. (Portaria no 22, de 22 de
julho de 2009. Aprovação da Doutrina Nacional de Segurança Pública – DNISP)

Veja que o SISPERJ foi o primeiro Sistema Estadual de Inteligência no Brasil


a criar uma doutrina de inteligência de segurança pública, antes mesmo do pró-
prio SISP/SENASP e serviu de base para a criação das outras doutrinas que foram
criadas posteriormente.

capítulo 4 • 88
Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Rio Grande
do Norte

A Lei Complementar no 582, de 29 de setembro de 2016, criou o Sistema


Estadual de Inteligência de Segurança Pública (SEIS/RN), o qual faz parte da
Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social (SESED) do Estado
do Rio Grande do Norte.
O SEIS/RN foi criado especificamente com a finalidade de desenvolver a ati-
vidade de Inteligência de Segurança Pública, observando as diretrizes e técnicas
previstas no SISP/SENASP.
A agência central do Sistema é o Centro de Inteligência (CI), o qual tem
a função de planejamento, coordenação e integração das atividades ISP no Rio
Grande do Norte, bem como gerenciamento do SEIS/RN. O mesmo é subordi-
nado ao secretário de estado da segurança pública e da defesa social, tendo na sua
chefia, o coordenador do CI, que é um servidor da Polícia Militar ou da Polícia
Civil, nomeado em comissão, na forma do art. 3o dessa lei.
Compõem o SEIS/RN as agências centrais da inteligência da Polícia Civil, da
Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros, do Sistema Penitenciário, dos Gabinetes
Militares e do Instituto Técnico e Científico da Polícia, os quais atuam sob a égide
de seus chefes imediatos e coordenados tecnicamente pelo Centro de Inteligência.
O SEIS/RN está ligado pelo canal técnico ao SISP/SENASP e se relaciona
também com os demais sistemas e/ou agências de inteligência em todo o país. O
CI representa o SEIS/RN também perante o SISBIN.

Sistema Estadual de Segurança Pública do Estado de Rondônia

Com o advento da lei no 2.112, de 7 de julho de 2009, foi instituído o Sistema


Estadual de Inteligência de Segurança Pública. Defesa e Cidadania (SEISP), com
subordinação à Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania (SESDEC).
A coordenação do sistema e a integração das atividades de inteligência de
segurança pública no estado de Rondônia estão a cargo da Gerência de Estratégia
e Inteligência (GEI).
O referido sistema estadual de inteligência é composto pelas agências cen-
trais da Inteligência da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros Militar e da
Polícia Civil.

capítulo 4 • 89
Os órgãos do Poder Executivo do estado podem contribuir com a produção
de conhecimento afetos à área de Segurança Pública.
Termo de cooperação técnica ou convênio poderá ser firmado entre a SESDEC
e os outros poderes estaduais, da União, ou ainda dos municípios, visando à reali-
zação de ações de inteligência.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Roraima

O Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Roraima (SISP/


RR) foi criado pelo Decreto no 22.782-E, de 27 de março de 2017, passando o
mesmo a integrar o Subsistema Nacional de Segurança Pública (SISP/SENASP).
Segundo o art. 3º desse decreto, o SISP/RR tem como função principal exe-
cutar as atividades de inteligência de segurança pública no estado de Roraima,
facilitar a cooperação técnica e de troca de informações relevantes à preservação
da ordem pública. O SISP-RR atua com subordinação ao secretário de estado da
segurança pública, o qual gerencia esse sistema.
O art. 4 do referido decreto trata da atribuição do Sistema de Inteligência de
Segurança Pública de Roraima, a saber:

Para o alcance da sua finalidade, atribui-se ao Sistema de Inteligência de Segurança


Pública do Estado de Roraima – SISP/RR, o exercício das atividades de identificar,
acompanhar e avaliar ameaças reais ou potenciais à segurança pública, produzir conhe-
cimentos e informações que subsidiem a adoção sistemática de ações especializadas
para neutralizar, coibir e reprimir atos criminosos de qualquer natureza, prestando auxílio
inclusive nas atividades de planejamento e execução da política estadual de segurança
pública, bem como na consecução das competências da Secretaria de Estado da Se-
gurança Pública – SESP/RR, devendo ainda, prever e permitir a avaliação periódica dos
resultados. (Art. 4º, Decreto no 22.782-E, do Estado de Roraima)

A agência central do sistema é o Departamento de Inteligência da Secretaria


de Estado de Segurança Pública (DEINT/SESP-RR), cabendo ao mesmo a coor-
denação e integração das atividades de ISP no âmbito estadual.
O SISP/RR é composto pelo Departamento de Inteligência da Secretaria de
Estado de Segurança Pública (DEINT/SESP-RR), pelo Núcleo de Inteligência
(NI/ PC-RR) da Polícia Civil, pelo Departamento de Informação e Inteligência
(DII/PM-RR) da Polícia Militar, pelo Setor de Inteligência do Corpo de

capítulo 4 • 90
Bombeiros Militar e pelo Setor de Inteligência da Secretaria de Estado da Justiça
e da Cidadania, na forma do art. 6º desse decreto.

Centro Integrado de Inteligência de Segurança Pública do Estado de São Paulo

Pelo Decreto no 58.913, de 26 de fevereiro de 2013, foi criado o Centro


Integrado de Inteligência de Segurança Pública do Estado de São Paulo (CIISP-
SP), na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, o qual passa a
fazer parte do Subsistema de Inteligência de Segurança Pública (SISP/SENASP).
O CIISP-SP atua também como gabinete de gerenciamento de crise, em si-
tuações de grave perturbação da ordem pública, em que recebe informações dos
centro de comunicações e dos sistemas de inteligência das polícias do estado.
O CIISP-SP tem função de órgão central, o qual articula e integra as ativida-
des de inteligência desenvolvidas pelos seguintes órgãos estaduais: Polícia Militar,
Polícia Civil e Secretaria da Administração Penitenciária.

Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Sergipe

O Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Sergipe (SISP/


SE) foi criado por meio da lei 5.654, de 16 de maio de 2005, com a atribuição
de executar as atividades de inteligência de segurança pública no estado e fomen-
tar a cooperação técnica e de fluxo de informações relevantes à preservação da
ordem pública com o Subsistema Nacional de Inteligência de Segurança Pública
(SISP/SENASP).
O SISP/SE tem como agência central e coordenadora do sistema a
Corregedoria Geral do Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de
Sergipe (COGESISP/SE).
Compõem o SISP/SE, a Corregedoria Geral do Sistema de Inteligência
de Segurança Pública do Estado de Sergipe (COGESISP/SE), da Secretaria de
Estado da Segurança Pública, a Segunda Seção (PM/2) do Estado Maior da Polícia
Militar, a Divisão de Inteligência e Planejamento Policial (DIPOL), do Centro
de Operações Policiais Especiais, da Superintendência da Polícia Civil, o Setor de
Inteligência do Departamento do Sistema Penitenciário (DESIPE), da Secretaria
de Estado da Justiça e da Cidadania, e o Setor de Inteligência do Departamento
Estadual de Trânsito de Sergipe (DETRAN/SE).

capítulo 4 • 91
Sobre a coordenação da COGESISP/SE, Souza (2016, p. 57) demonstra o
seguinte:

A COGESISP/SE, diretamente subordinada ao secretário de estado da segurança pú-


blica, é chefiada pelo coordenador geral do SISP/SE, devendo atender aos seguintes
requisitos:
Ter reputação moral e conceito profissional reconhecidamente ilibados;
Ter dedicação organizacional e conhecimento de gerenciamento de órgãos da Admi-
nistração Pública;
Ser graduado em Direito, por Instituição de Ensino Superior devidamente reconhecida;
Ter formação profissional na área de Inteligência Policial. (SOUZA, 2016, p. 57)

Ainda de acordo com Souza (2016, p. 58), a lei 5.654, de 16 de maio de 2005
possibilitou ainda o ingresso no SISP/SE, dos órgãos de inteligência dos outros
poderes do estado e do Ministério Público Estadual, que já existem ou que venham
a ser criados como agências colaboradoras por meio de instrumento próprio.

Estados da Federação que não teriam ainda um Sistema Estadual de Inteligência


de Segurança Pública

Neste item serão apresentadas as estruturas dos órgãos de inteligência dos es-
tados que ainda não teriam criado um sistema estadual de inteligência. Ainda
que determinados estados não tenham um sistema estadual de inteligência, não
significa dizer que não haja investimentos nessa área.
No estado do Amapá as duas polícias estaduais têm setores de inteligência, a
Polícia Militar tem a Diretoria de Inteligência (DI) e a Polícia Civil, o Núcleo de
Operações de Inteligência (NOI).
Souza (2016, p. 14) explica que o estado da Bahia não criou um Sistema
de Inteligência de Segurança Pública Estadual, e sim uma Superintendência de
Inteligência, na estrutura da Secretaria da Segurança Pública.
A Superintendência de Inteligência da Bahia tem a atribuição de execução,
coordenação, direção, orientação, normatização e integração das atividades de in-
teligência de segurança pública no estado.
Santa Catarina apresenta uma Diretoria de Informação e Inteligência (DINI),
que segundo o site da Secretaria de Estado da Segurança Pública, tal diretoria
objetiva a antecipação de cenários na área criminal e estratégica, visando ao asses-
soramento do processo decisório da Secretaria de Estado da Segurança Pública e
das polícias estaduais.

capítulo 4 • 92
À DINI, com atuação desde 2002, compete obter, analisar dados e informa-
ções e produzir conhecimentos. A Diretoria atua em conjunto com as instituições
de segurança pública estaduais, nacionais e internacionais, com o objetivo de com-
bater as ações criminosas.
De acordo com Souza (2016, p. 37), o estado do Paraná não criou um sis-
tema estadual de Inteligência na Secretaria de Segurança Pública ou nas esta-
duais. Entretanto haveria um anteprojeto de lei prevendo a instituição do Sistema
Estadual de Inteligência em Segurança Pública (SEINT), bem como os subsiste-
mas de inteligência da Polícia Civil e da Polícia Militar.
Atualmente o Paraná tem um Departamento de Inteligência, o DIEP, subor-
dinado à Secretaria da Segurança Publica e da Administração Penitenciária, o qual
tem a atribuição de planejar, executar, coordenar, supervisionar e controlar as ati-
vidades de inteligência de segurança pública no âmbito do estado, conforme diz
o próprio site do DIEP.
O Decreto no 28.828, de 21 de janeiro de 2013, criou o Centro de Inteligência
de Segurança Pública (CISP) do Maranhão e de acordo com o art. 13 desse de-
creto, é de competência do CISP, o planejamento, a execução, a coordenação, a
supervisão e o controle das atividades de inteligência de segurança pública no
âmbito do estado do Maranhão.
Compete ainda ao CIISP, entre outras atribuições, a captação e difusão de
informações de interesse da Inteligência de Segurança Pública, desenvolver a fun-
ção de multiplicador da Atividade de ISP e atuar em consonância com o Plano
Nacional de Inteligência de Segurança Pública.
De acordo com o site da Secretaria de Estado da Segurança Pública do Rio
Grande do Sul, compete ao Departamento de Inteligência de Segurança Pública
do estado, a coordenação e a supervisão da implantação da política e da gestão de
inteligência na Secretaria de Estado da Segurança, a partir da coleta e da busca,
bem como da análise de dados e informações, produzindo conhecimento que
subsidiem a prevenção e repressão das ações criminosas.
Sobre a estrutura de ISP existente no estado de Tocantins, Souza (2016) re-
lata que na Secretaria da Segurança Pública há o Departamento de Inteligência
e Estratégia, na Casa Militar, uma Diretoria de Inteligência e Segurança e no
Sistema Penitenciário e Prisional, uma Diretoria de Inteligência.
De acordo com o site da Secretaria de Segurança Pública do Piauí, existem nú-
cleos de inteligência nas delegacias especializadas da Polícia Civil e uma Diretoria
de Inteligência Policial Militar.

capítulo 4 • 93
Em matéria no próprio site, de 21 de março de 2017, consta que nessa data es-
tava sendo realizado o Primeiro Curso de Atualização em Atividade de Inteligência,
destinado a policiais civis e militares que exercem a atividade.
No Distrito Federal, a Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa
Social tem em sua estrutura a Subsecretaria de Inteligência, conforme o art. 20 do
Decreto no 28.691, de 17 de janeiro de 2008, não tendo sido criado ainda um
Sistema de Inteligência de Segurança Pública.
Ainda que não haja um sistema de inteligência no DF, à Subsecretaria de
Inteligência, órgão de assessoramento do Secretário de Segurança, compete o pla-
nejamento, a orientação, a integração, a supervisão e a coordenação das atividades
de inteligência do Sistema de Segurança Pública.
Em se tratando de produção de conhecimento, a Subsecretaria de Inteligência
interage com as agências de outros estados ou da União e subsidia a elaboração
das diretrizes e planos operacionais da Subsecretaria de Operações de Segurança
Pública, na forma do inciso VII do art. 20 do referido decreto.
A Subsecretaria de Inteligência do DF, por meio do canal técnico, está ligada
ao Centro de Inteligência da Polícia Militar, à Segunda Seção do Estado-Maior
Geral do Corpo de Bombeiros Militar e à Divisão de Inteligência da Polícia Civil.
Perceba que ainda que não haja um sistema de inteligência no DF, a
Subsecretaria de Inteligência faz o papel de uma agência central de um sistema
desse, realizando as atividades de coordenação, controle dos órgãos de inteligência
das instituições afetas a segurança pública.
Em se tratando do estado de Alagoas, ambas as polícias estaduais têm seus
serviços de inteligência, a Polícia Civil teve seu subsistema de inteligência criado
por meio da Portaria no 13/Consupoc/2016. A Polícia Militar também tem seu
serviço de inteligência, no qual ocorrem cursos de especialização nessa área.

ATIVIDADES
01. Qual a finalidade do Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Goiás
(SISP/GO)?

02. Qual foi o primeiro estado da federação a criar uma doutrina de inteligência de segu-
rança pública?

capítulo 4 • 94
03. Quais são as finalidades do Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública do
Rio Grande do Norte?

04. A Secretaria de Estado da Segurança Pública do Distrito Federal tem um Sistema de


Inteligência de Segurança Pública?

REFLEXÃO
O presente capítulo tratou dos estados da federação que instituíram seus Sistemas de
Inteligência de Segurança Pública, bem como daqueles que não instituíram seus sistemas,
mas que ainda assim realizam a atividade de inteligência, coordenado e supervisionando os
trabalhos dos órgãos de inteligência das instituições ligadas à secretaria de segurança.
Foi muito importante a abordagem realizada sobre a primeira doutrina de inteligência de
segurança pública criada no Brasil, desfazendo a ideia de muitos, de que a primeira doutrina
a ser elaborada teria sido a da SENASP, e foi mostrado ao longo do capítulo que o Rio de Ja-
neiro se encontra como vanguardista nessa seara, tendo sido a DISPERJ a primeira doutrina
de inteligência construída no país.
Tema também importante diz respeito ao emprego da atividade de inteligência de segu-
rança pública na prevenção e repressão da criminalidade, podendo ser percebido que essa
função é citada na maioria dos sistemas estaduais de inteligência.
Foi fundamental ainda, mostrar que a maioria dos estados da federação aderiu ao SISP/
SENASP, em atendimento ao Plano Nacional de Segurança Pública e que dentre os estados
que ainda não criaram seus sistemas de inteligência, há aqueles que estão caminhando
nesse sentido.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Acesso em: 17 maio 2017.

capítulo 4 • 96
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Acesso em: 17 maio 2017.

capítulo 4 • 97
RORAIMA. Decreto no 22.782-E, de 27 de março de 2017. Dispõe sobre a integração do estado
de Roraima ao Subsistema Nacional de Inteligência de Segurança Pública, institui os órgãos
componentes do Sistema de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Roraima.
Disponível em: <http://imprensaoficial.hospedagemdesites.ws/diarios/doe-20170327.pdf>. Acesso
em: 21 maio 2017.
SÃO PAULO. Decreto no 58.913, de 26 de fevereiro de 2013. Cria, junto à Secretaria da
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SERGIPE. Lei no 5.654, de 16 de maio de 2005. Institui o Sistema de Inteligência de Segurança
Pública do Estado de Sergipe. Disponível em: <http://assipes.blogspot.com.br/p/legislacoes.html>.
Acesso em: 21 maio 2017.
SOUZA, Paulo Antonio de. Proposta de uma legislação para as agências de inteligência de
Segurança Pública, contendo as normativas/estruturas para as agências/núcleos centrais,
locais, regionais, dentre outros. 2016.

capítulo 4 • 98
5
As modalidades
da atividade de
inteligência
As modalidades da atividade de inteligência
No presente capítulo, e último do livro, será apresentado um conteúdo mui-
to especial, alertando desde já que todos os capítulos foram escritos com muita
dedicação, mas que a missão de produzi-lo requer toda atenção, pois é uma opor-
tunidade de tratar de questões polêmicas, de refletir sobre elas, até mesmo de
desconstruir preconceitos.
E o conteúdo dessa parte do livro didático possibilita que seja tratado sobre
temas importantes, mostrando a você aluno, a diferença entre inteligência de se-
gurança pública e inteligência policial e de refletir sobre esses assuntos.
Temas muito importantes também que serão apresentados, dizem respei-
to a diversos tipos de categorias de inteligência, as quais são realizadas por di-
versos órgãos, tais como a inteligência fiscal, financeira, do Ministério Público,
Penitenciária entre outras.
Será apresentado também como essas categorias da inteligência de segurança
pública são aplicadas, contextualizando como elas podem e devem ser utilizadas
no cenário social da realidade brasileira.

OBJETIVOS
•  Conhecer as diversas categorias da atividade de inteligência no país;
•  Identificar a atuação de cada uma dessas categorias da inteligência;
•  Reconhecer a importância da atividade de inteligência não somente como uma ativida-
de consultiva, no assessoramento ao processo decisório, como também atividade executiva,
empregada também no planejamento e na execução de ações preventivas e repressivas de
condutas ilícitas de qualquer natureza;
•  Reconhecer o trabalho da inteligência policial, que diferente da inteligência de segurança
pública, atua dando suporte à investigação, na produção de provas;
•  Refletir sobre cada uma das categorias apresentadas, reconhecendo a importância de
cada uma delas.

capítulo 5 • 100
As diferentes categorias da Atividade de Inteligência

O presente capítulo se inicia com um tema revestido de certa polêmica que


em vez de não se “tocar no assunto”, estimula ainda mais a ser explorado, a revelar
o que não está por vezes tão claro, ou que poderia gerar dúvidas ou raciocínios
equivocados na mente de quem lê.
Veja que por ser a inteligência uma atividade de assessoramento, que influen-
cia no processo decisório de seu usuário, ela se torna uma atividade com aplica-
bilidade nos mais diversos segmentos do serviço público como também no se-
tor privado.
Perceba que utilizar a inteligência em órgãos que tenham suas atribuições le-
gais diversas da atividade ora em discussão não significa desvirtuamento da mes-
ma, tampouco que esteja sendo realizada investigação com alcunha de inteligência.
Muito pelo contrário, todo e qualquer tomador de decisão, seja em que segmento
for, público ou privado, deseja que suas decisões sejam as mais acertadas. Uma
decisão bem assessorada tende a gerar bons resultados naquilo que se pretende.
Diante disso, a inteligência tem sido utilizada por diferentes órgãos públicos
e empresas privadas como será apresentado nas páginas seguintes. Ocorre, porém
que alguns autores defendem que há um equívoco no emprego da atividade em
setores que não foram criados com essa finalidade principal.
Lima (2004, p. 30-32) apud Brandão e Cepik (2013, p. 227) relatam que
alguns autores apresentam posicionamento contrário ao que foi dito até agora,
reforçando a idéia que a inteligência é atividade exclusivamente de assessoria. Veja:

Alguns autores (conforme LIMA, 2004) são bastante radicais na definição do termo
inteligência como tão somente aquele que designa a atividade como assessoramento
superior e de defesa do presidente da República, sugerindo, inclusive, que para qualquer
outra atividade desenvolvida pelos demais integrantes do Sistema Brasileiro de Inteli-
gência, seja atribuída a denominação investigação. (BRANDÃO e CEPIK, 2013, p. 227)

Observe que Kraemer (2015, p. 79) também tem uma concepção diversa so-
bre a utilização da inteligência por órgãos que não foram criados especificamente
para esse fim, veja:

capítulo 5 • 101
Esse novo sistema de inteligência deu mais liberdade aos Ministérios para efetivar sua
própria assessoria de inteligência, e cada órgão implantou, à sua maneira, seções, nú-
cleos, divisões, coordenações ou diretorias de inteligência. Mas essa liberdade de im-
plantação acarretou uma maior descentralização do sistema, com cada órgão desenvol-
vendo também sua própria doutrina e seu método. O que notamos de imediato é que o
único órgão de inteligência desse sistema é a própria ABIN, pois os demais são órgãos
destinados a vários fins e têm apenas uma pequena estrutura de inteligência. Para ser
mais claro, enquanto a finalidade da ABIN é produzir inteligência, a finalidade da Receita
Federal é arrecadar, da Polícia Federal é investigar crimes etc. (KRAEMER, 2015, p. 79)

Brandão e Cepik (2013, p. 227) afirmam que apesar das diferentes classifi-
cações dadas à inteligência e aos órgãos que dela se utilizam, todas são realizadas
objetivando à proteção estatal, ao cidadão e ao Estado Democrático de Direito.
Perceba que, embora defendam que a inteligência deve ser utilizada somente
por aqueles órgãos que foram criados para esse fim, não se pode concordar com
esse posicionamento sob pena de se abrir mão de uma atividade que é simples-
mente uma ferramenta de otimização de qualquer atividade que dependa de um
processo decisório.
Deve-se ter em mente que a natureza do órgão ou da instituição em que se
realiza a atividade de inteligência, se foi criado ou não para esse fim, nesse sentido
é irrelevante, uma vez que a prática dessa atividade será sempre moldada às atri-
buições legais de cada órgão, objetivando melhor assessorar o gestor desses órgãos
ou instituições, assessorando-o no processo decisório, que certamente refletirá nas
ações operacionais daqueles órgãos, e tendo por consequência, a melhoria na qua-
lidade da prestação do serviço público à sociedade.
Nas páginas que se seguem, serão apresentadas as diferentes categorias da ati-
vidade de inteligência. A atividade de inteligência de segurança pública (ISP) não
será abordada nas páginas seguintes, tendo em vista que esse assunto já foi esgota-
do no capítulo anterior.

Inteligência Militar e de Defesa

Segundo Gonçalves (2013, p. 26), a inteligência militar é aquela que reúne


atividades específicas, conhecimentos e organizações direcionadas aos interesses
das forças armadas e/ou da defesa nacional, sejam eles em tempos de guerra ou em
tempo de paz.
Na visão de Gonçalves, a inteligência militar tem a finalidade de assessora-
mento dos diferentes escalões das forças armadas em seus processos decisórios.

capítulo 5 • 102
Também se define a inteligência militar como sendo aquela atividade em que se
obtêm dados de caráter sigilosos a fim de instruir os planejamentos militares.
O autor traz também o conceito de Inteligência Militar compreendido pelo
Ministério da Defesa do Brasil, a saber:

Inteligência Militar: Atividade técnico-militar especializada permanentemente exercida,


com o objetivo de produzir conhecimentos de interesse do Comandante de qualquer nível
hierárquico e proteger conhecimentos sensíveis, instalações e pessoas das Forças Arma-
das contra ações realizadas ou patrocinadas pelos serviços de inteligência oponentes e/
ou adversas (IP30-01). (GONÇALVES, 2013, p. 26)

A atividade de inteligência militar apresenta grande importância no cenário


de combate travado contra o terrorismo cibernético, uma vez que a gênese dos
serviços de inteligência contemporâneos está certamente na inteligência militar, e
as ações de espionagem e de inteligência em duas Guerras Mundiais já confirmam
o relevo dessa atividade.
Por outro lado, a defesa da pátria, a garantia da plenitude dos poderes consti-
tucionais e a garantia da lei e a ordem são papéis fundamentais inerentes às forças
armadas (NOVAIS, 2015).

Inteligência Fiscal

Para Brandão e Cepik (2013, p. 231), as medidas de controle contra a prática


sonegatória não têm apresentado resultados positivos, devido às muitas formas
de sonegação. O emprego de “laranjas” é uma das maneiras mais utilizadas de se
evitar que se chegue ao real proprietário, impedindo-o de ser responsabilizado, e
como o “laranja” não tem bens em seu nome, o Estado por sua vez tem dificulda-
des de reaver os tributos que foram sonegados.
As iniciativas de evasão fiscal estão tão sofisticadas que os métodos e as técni-
cas tradicionais de fiscalização são insuficientes para contê-las e impedi-las.
Quem é o “laranja” no contexto da sonegação fiscal? Veja o que Ferreira (1986,
p. 820) diz sobre a expressão “laranja”:

“Laranja” é definido como “pessoa ingênua, simples ou sem importância”. Na prática da


atividade tributária, são conhecidos como “sócios laranjas” as pessoas que constam como
sócios nos contratos constitutivos da empresa, mas não têm participação real nas empre-
sas, figurando apenas formalmente, com o fim de auxiliar o autor de ilícitos (real proprie-
tário) a subtrair-se à ação de autoridade pública. Também são denominadas interpostas
pessoas ou “testa-de-ferro”. (FERREIRA, 1986, p. 820)

capítulo 5 • 103
Considerando que a finalidade da atividade de inteligência é a produção de
conhecimentos, no que diz respeito à inteligência fiscal, essa produz conhecimen-
tos voltados às práticas de irregularidades cometidas pelos contribuintes.
Campos (1997, p. 8) apud Brandão e Cepik (2013, p. 232 e p. 233) prele-
cionam que são de interesse da inteligência fiscal somente as práticas realizadas
que se classificam como fraudes fiscais, aquelas que são praticadas com o fim de
causar prejuízos ao erário. Logo, não são todas as irregularidades fiscais que são de
interesse da inteligência fiscal.
Gonçalves (2013, p. 41) ensina que a inteligência fiscal é frequentemente
confundida com a inteligência financeira e que as suas ações são direcionadas no
sentido de identificar e investigar os crimes contra a ordem tributária e produzir
conhecimentos voltados ao presente assunto.
A inteligência fiscal trabalha na busca do dado negado, que em se tratando
desse tema, o dado negado aqui tratado é tudo aquilo que não foi declarado pelo
contribuinte, envolvendo grandes quantias de dinheiro.
Nesse sentido, Gonçalves (2013, p. 41) afirma que “o fisco pode recorrer à
atividade de inteligência tanto para prevenir contra fraudes quanto para identificar
e neutralizar essas fraudes e recuperar recursos evadidos por meios fraudulentos.”
E que essa é a importante função desempenhada pela inteligência fiscal em defesa
do Estado e do cidadão.

Inteligência do Ministério Público

A inteligência no Ministério Público tem sua origem no Grupo Nacional de


Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), criado em 22 de fevereiro de
2002. Conforme prelecionam Brandão e Cepik (2013, p. 256-261), o referido gru-
po foi criado por conta do homicídio do Promotor de Justiça Francisco José Lins do
Rego Santos “Chico Lins”, em Belo Horizonte, no dia 25 de janeiro de 2002.
O GNCOC é integrado por 30 ministérios públicos de todo o país que traba-
lha com o intercâmbio de informações e a realização de operações, sejam elas em
nível local, regional, interestadual ou nacional de combate.
Os autores anteriores informam que o GNCOC procura trabalhar de forma
integrada com as polícias civis e militares, com a Polícia Rodoviária Federal, com
a Polícia Federal, com a Receita Federal e com as Receitas Estaduais, bem como
com as prefeituras municipais etc.

capítulo 5 • 104
Desde 2002, o GNCOC estreitou laços com o Sistema Brasileiro de
Inteligência (SISBIN), quando ocorreu nos dias 23 e 24 de maio de 2002, na
Escola de Inteligência da ABIN, o Primeiro Seminário para Promotores e
Procuradores de Justiça Estaduais, sendo estabelecido ao final do evento um ter-
mo de cooperação ou um convênio entre o Conselho Nacional dos Procuradores
Gerais do Ministério Público (CNPG) e a ABIN.
Em 2003 o GNCOC buscou fazer parte dos projetos da SENASP, inserin-
do os Ministérios Públicos e submetendo-os à coordenação daquela Secretaria
Nacional, a fim de colaborar com o Sistema de Inteligência de Segurança Pública
(SISP). Até houve na ocasião alguns avanços nesse sentido, o então promotor de
justiça Denilson Feitoza Pacheco, representando o GNCOC, fez parte da criação
do Curso de Aperfeiçoamento de Inteligência de Segurança Pública (CAISP).
Brandão e Cepik (2013, p. 265) contam que dois promotores de justiça foram
indicados a fazerem parte do CAISP, Denilson Feitoza Pacheco de Minas Gerais
e Gerson Luis Kirsch Daiello Moreira do Rio Grande do Sul, para que estabele-
cessem parcerias com gestores, analistas e agentes de inteligência de todo o Brasil,
apresentando um novo perfil do perfil estadual, aberto à integração com as polícias
e com condições de integrar o SISP.
O curso foi realizado entre os dias 13 de outubro a 12 de dezembro de 2002,
e antes mesmo do encerramento do mesmo, o delegado de Polícia Federal Luiz
Fernando Correa assumiu a chefia da SENASP, interrompendo a colaboração do
GNCOC e dos Ministérios Públicos com aquela Secretaria Nacional.
De acordo com os autores mencionados, o CNPG e GNCOC fizeram os
ministérios públicos serem inseridos no SISBIN e posteriormente no SISP, mas
não obtiveram sucesso, motivo pelo qual o GNCOC criou seu próprio sistema
de inteligência.
Brandão e Cepik (2013, p. 277) comentam que “talvez por um equívoco es-
tratégico, o Poder Executivo Federal tenha perdido a oportunidade de coordenar a
imensa atividade de inteligência que surgiu no âmbito dos Ministérios Públicos”.
Sobre a atuação da inteligência ministerial, prelecionam os autores anteriores,
a saber:

De um modo geral, em um primeiro momento, as atividades de inteligência do Ministério


Público têm sido especialmente voltadas para o combate ao “crime organizado”, em uma
vertente mais pragmática de inteligência tática destinada à produção de provas. Com isso,
a utilidade e eficiência da atividade de inteligência têm sido demonstradas para os procu-
radores-gerais e demais órgãos das Administrações Superiores dos Ministérios Públicos.

capítulo 5 • 105
Com a crescente consolidação das atividades de inteligência ministerial, uma visão mais
abrangente tem sido disseminada, por um lado para incluir-se a atuação cível de defesa
dos interesses difusos e coletivos, e, por outro, para se desenvolver inteligência estra-
tégica, destinada aos processos decisórios estratégicos do Ministério Público, como
elaboração de Plano Geral de Atuação (planejamento estratégico), estabelecimento de
políticas de atuação, definição de relacionamento com instituições diversas do Ministé-
rio Público etc. (BRANDÃO e CEPIK, 2013, p. 277)

Inteligência Financeira

Uma das bases do crime organizado transnacional é a lavagem de dinheiro.


Veja a lição de Gonçalves (2013, p. 38) sobre a lavagem de dinheiro:

O crime de lavagem de dinheiro é caracterizado por um conjunto de operações co-


merciais ou financeiras que buscam a incorporação na economia de um país, de modo
transitório ou permanente, de recursos, bens e valores de origem ilícita. Com o desenvol-
vimento do sistema financeiro internacional, tem sido significativo o número de crimino-
sos a movimentar importantes somas de capital pelo globo, capital este proveniente de
narcotráfico, corrupção, evasão de divisas e outras atividades ilícitas. Para fazer frente
a essa nova realidade, os Estados têm buscado aprimorar o que ficou conhecido como
“inteligência financeira”, ou seja, o conjunto de ações de inteligência voltadas à identifi-
cação de delitos financeiros, pessoas, organizações e informações a eles relacionados
e produção de conhecimento com vistas ao combate a esses ilícitos e neutralização das
atividades de pessoas e organizações. (GONÇALVES, 2013, p. 38)

Em pesquisa ao site do Banco Central do Brasil, foi possível constatar que as


denúncias de ocorrência de crime de lavagem de dinheiro ou financiamento do
terrorismo são encaminhadas à Unidade de Inteligência Financeira (UIF) do país,
que as recebe e as analisa. Veja:

Agência central nacional responsável por receber (e, se permitido, requisitar), analisar
e encaminhar às autoridades competentes, denúncias sobre informações financeiras
referentes a recursos oriundos de crime e potencial financiamento do terrorismo ou
requisitados pela legislação nacional ou regulamentação, com o objetivo de combater a
lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo.

Sobre a Unidade de Inteligência Financeira (UIF), Rodrigues (2008, p. 14)


assevera que a mesma “é uma entidade nacional centralizada responsável por re-
cebimento, análise e transmissão às autoridades competentes de informação estra-
tégica sobre operações econômico-financeiras suspeitas de lavagem de capitais”.

capítulo 5 • 106
Gonçalves (2013, p. 39) relata que após os atentados de 11 de setembro de
2001, constatou-se que os procedimentos utilizados pelas organizações criminosas
eram também utilizados para financiar o terrorismo, com isso houve uma maior
“atenção” a inteligência financeira. Dessa forma, entre os países desenvolvidos,
tem sido significativo o investimento em inteligência financeira.
O combate ao financiamento do terrorismo está totalmente ligado à guerra
travada com a lavagem de dinheiro. E que os atentados praticados por terroristas
na década passada fizeram as grandes nações intensificarem a cooperação mútua
contra o terror e o seu financiamento (AMARAL, 2015).
Sendo assim, em 28 de setembro de 2001, o Conselho de Segurança das
Organizações do Sistema das Nações Unidas adotou uma resolução, de no 1373,
a qual tem por objetivo impedir que haja financiamento ao terrorismo, à crimina-
lização da coleta de fundos destinada a esta finalidade e ao congelamento imediato
dos bens financeiros dos terroristas.
O Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento
do Terrorismo (GAFI/FATF), posteriormente aos atentados de setembro de 2001,
ampliou seu mandato, passando a tratar do financiamento do terrorismo, bem
como da propagação de armas de destruição em massa. Com tudo isso, a troca
de informações entre as Unidades de Inteligência Financeira de diversos países e a
cooperação internacional foram expandidas.
No Brasil, a coordenação da atuação brasileira nas mais variadas organizações
de prevenção e combate ao financiamento de grupos terroristas está a cargo do
Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o COAF.
Gonçalves (2013, p. 40) ensina que “a inteligência financeira mostra-se, por-
tanto, como importante instrumento no combate a delitos transnacionais e a cha-
madas “novas ameaças. E não pode haver inteligência financeira sem cooperação
internacional”.

Inteligência Competitiva

Brandão e Cepik (2013, p. 1) relatam que é muito comum se ouvir ou se ler


sobre inteligência competitiva e sua aplicação para aumentar a competitividade
entre empresas. Aliado à habilidade de monitorar o ambiente em que as empresas
se encontram e concorrem uma contra as outras, a inteligência está ligada aos
trabalhos de busca de informações para o bom uso de benefícios do mercado e a
proteção contra ameaças oriundas dos concorrentes.

capítulo 5 • 107
A inteligência sob a óptica de Gonçalves (2013, p. 41) é uma atividade que
não tem sido utilizada somente pelos governos, mas também por empresas priva-
das que se encontram em ambientes de exacerbada competitividade. Sendo assim,
não há como menosprezar que as grandes corporações do setor privado façam uso
da inteligência para aumentar seus lucros e, por vezes, anular ou causar prejuízos
à concorrência.
Pode-se dizer que, espionar os negócios dos outros não é prática das mais
recentes, até mesmo recorrendo a ações de sabotagem ou obtendo segredos in-
dustriais ou realizando ações de contrainformação podem prejudicar tanto uma
determinada empresa quanto um setor inteiro da economia.
Essa forma de emprego da inteligência voltada para o setor privado já foi
conhecida como espionagem industrial, hoje em dia ela é denominada de inteli-
gência competitiva.
Brandão e Cepik (2013, p. 1) ensinam que a inteligência competitiva tem
sua gênese nos serviços secretos governamentais, criados entre o final do século
XIX e o início do século XX. Esses serviços secretos ganharam espaço no âmbito
do Estado no final da Segunda Guerra Mundial, a partir do momento em que a
espionagem deixou de ser eficaz na busca de dados.
Devido a essa limitação na ação dos espiões, os países aliados não teriam outra
alternativa senão criarem outras formas para a busca de dados negados. Isso forçou
com que outros meios fossem criados, daí surgiram os reconhecimentos aéreos
feitos por aviões etc.
Durante a Guerra Fria, obter informações privilegiadas do oponente signifi-
cou muito mais do ponto de vista estratégico do que com as tradicionais ações de
espionagem. A expansão das tecnologias de informação e de comunicação possibi-
litou que diversas técnicas de coleta e de análise de informações surgissem.
No início da década de 1990, os serviços de inteligência perdem importância
o que faz vários agentes de inteligência migrarem para a iniciativa privada, buscan-
do melhorias salariais. E assim, todas aquelas técnicas e conceitos de inteligência,
até então, utilizados pelos órgãos dos governos passam a ser empregadas também
pelo setor privado, logicamente que havendo uma adequação de todos os funda-
mentos e conceitos para a realidade das empresas.

capítulo 5 • 108
Nesse sentido, as palavras de Júnior (2005, p. 49) apud Gonçalves (2013, p.
42), veja:

Muitos autores de planejamento estratégico defendem que o mercado nada mais é do


que um mero campo de batalhas. Vivendo as empresas em uma permanente guerra
de competição, é conveniente que os empresários pensem como estrategistas, como
é comum nas organizações militares. (...) Os comandantes militares, assim como os di-
rigentes das organizações empresariais, devem determinar, então, que suas equipes
de inteligência trabalhem para obter informações qualificadas a respeito do inimigo (o
concorrente) e do terreno (o ambiente externo, o mercado) em que deverão combater.
O esforço de reunir, processar e disseminar informações do campo de batalhas carac-
teriza a essência da atividade de inteligência militar, gênese do moderno tratamento de
informações com objetivos corporativos, constituindo a Inteligência Competitiva. (GON-
ÇALVES, 2013 apud JÚNIOR, 2005, p. 42)

Em consulta ao site http://fiveacts.com.br/afinal-o-que-e-inteligencia-com-


petitiva-entenda/, foi possível constatar que a inteligência competitiva, também
conhecida como inteligência de mercado, é realizada por meio de processo de
captação e análise de informações referentes à concorrência.
Geralmente as empresas de grande porte analisam o comportamento de clien-
tes e as prováveis tendências do mercado, sempre se antecipando ao que vem pela
frente, sejam as demandas ou as novidades, de modo a aumentar a competitivida-
de da empresa frente aos seus concorrentes.
Na inteligência competitiva, busca-se também o dado negado, que nesse caso,
trata-se daquelas informações que ainda não estão “ostensivas” no mercado e que
ainda não foram utilizadas pelos concorrentes. Em outras palavras, é a obtenção
de informações privilegiadas.
Hoje em dia é bem mais fácil para o profissional de inteligência obter as in-
formações de interesse para sua empresa, da mesma forma que as fontes abertas, o
que importa para esse profissional está disponível em todos os lugares, fornecedo-
res, concorrentes, representantes e clientes.

Inteligência estratégica

Essa categoria da inteligência é aquela voltada para análise de cenários futuros,


em que a mesma faz prospecções em longo prazo. Esse tipo de atividade está liga-
do à parte estratégica, o qual está vinculado às informações referentes ao poder e

capítulo 5 • 109
às vulnerabilidades e às possibilidades também, sempre projetando tudo isso para
o futuro, segundo Gonçalves (2013).
Muniz define a inteligência estratégica como sendo a atividade que possibi-
lita que os integrantes de uma empresa percebam o quanto antes as ameaças e as
oportunidades, ou ainda as inovações, isto é, as novas tendências referentes aos
serviços ou produtos da empresa, de modo que essa empresa tenha tempo hábil de
se transformar, se adaptar ou até mesmo de aplicá-las.
A inteligência, de Estado ou não, produz conhecimentos estratégicos, por
meio da coleta, análise e difusão desses conhecimentos hábeis a assessorar o pro-
cesso decisório de seu usuário (COELHO, 2011).
Enquanto a inteligência de Estado concentra seu foco sobre o tráfico de drogas,
tráfico de armas e o terrorismo, por exemplo, a inteligência empresarial se ocupa
dos cenários corporativos, identificando as oportunidades ou ameaças, minimi-
zando seus riscos e dando suporte no aumento da competitividade (COELHO,
2011).
Um sistema de inteligência estrategicamente eficiente deve, com seu assesso-
ramento na tomada de decisão de seu usuário, contribuir para a garantia da segu-
rança do Estado ou das Corporações envolvidas, salvaguardando-os de ameaças
reais ou potenciais.
Considera-se como grande desafio enfrentado pela inteligência estratégica a
comprovação de que a ela assiste razão, demonstrando que realmente existem os
perigos alertados por ela.

Inteligência penitenciária

Em pesquisa ao site da Justiça e da Segurança Pública do governo federal,


verificou-se que no dia 20 de fevereiro de 217, foi realizado um curso sobre os
Desafios do Sistema Prisional na sede do Ministério Público de Goiás.
Na ocasião o Coordenador de Inteligência Penitenciária do Departamento
Penitenciário Nacional (CGIN/DEPEN), Sandro Abel Sousa, falou da relevância
que existe em monitorar as ações das facções criminosas no interior dos presídios,
a fim de prevenir confrontos armados realizados por essas facções, bem como a
prevenção de ações criminosas perpetradas por elas. Daí a importância da ativida-
de de inteligência penitenciária.

capítulo 5 • 110
Sousa cita o conceito de atividade de Inteligência Penitenciária (IPEN), o qual
ele extraiu da Doutrina Nacional de Inteligência Penitenciária, qual seja:

A atividade de Inteligência Penitenciária (IPEN) é o exercício permanente e sistemático


de ações especializadas para a identificação, acompanhamento e avaliação de ameaças
reais ou potenciais na esfera do Sistema Penitenciário. Estas são basicamente orientadas
para a produção e salvaguarda de conhecimentos necessários à decisão, ao planejamento
e à execução de uma política penitenciária e, também, para prevenir, obstruir, detectar e
neutralizar ações adversas de qualquer natureza dentro do Sistema Penitenciário e aten-
tatórias à ordem pública. (Doutrina Nacional de inteligência Penitenciária, 2013)

Brandão e Cepik (2013, p. 308) fazem grandes considerações acerca do tema,


abordando com muita propriedade o assunto. Eles relatam que essa categoria da
atividade de inteligência, a inteligência penitenciária, a qual eles referem-se como
a “prima pobre” da inteligência, pois, raramente é lembrada ou citada nos artigos
e obras literárias que são produzidos ou ainda pelos próprios profissionais da área
que estão combatendo a criminalidade.
Aqueles profissionais da inteligência que atuam nesse ramo, o penitenciário,
ou aqueles que já trabalharam ou trabalham em conjunto com os mesmos, certa-
mente sabem da importância da qual está sendo tratada neste capítulo.
Veja que, em regra, as ações desencadeadas pelas facções criminosas, sejam
elas de qualquer tipo ou prática delituosa, por exemplo, tentativa de tomada ou
retomada de pontos de venda de drogas de facções rivais, aquisição de armamen-
to, roubo de carros para o deslocamento de grupos armados ou ainda o ataque a
policiais que estão nas ruas atuando, seriam decididas intramuros dos presídios.
É de conhecimento público que os grandes traficantes e líderes de facções
criminosas de todo o Brasil se encontram encarcerados, e que os marginais que co-
mandam os grupos criminosos extramuros prisionais seriam apenas cumpridores
de ordens daqueles que estão presos.
Das rebeliões nos interiores das penitenciárias aos ataques de criminosos, se-
jam eles em face de policiais ou aqueles que visam à destruição dos meios de
transporte coletivos, são reflexos da administração das unidades prisionais onde se
encontram acauteladas aquelas lideranças ou situações que tenham relação com a
política de segurança pública adotada por determinado estado da federação.
Valendo-se da oportunidade de se tratar desse assunto, é de grande conveniên-
cia trazer à reflexão uma matéria publicada no jornal Folha de São Paulo sobre fato
ocorrido no estado do Rio de Janeiro, no dia 28 de dezembro de 2006.

capítulo 5 • 111
Na ocasião, integrantes de facções criminosas realizaram ações criminosas si-
multâneas em vários pontos do Rio de Janeiro, vindo a atacar 6 (seis) cabinas da
Polícia Militar, 6 (seis) delegacias de polícia e 9 (nove) ônibus foram incendiados,
sendo 1 (um deles), interestadual, que seguia para o estado de São Paulo, tendo 7
(sete) pessoas morrido carbonizadas em seu interior.
Como resultado dessas ações orquestradas pelas facções criminosas, 18 (de-
zoito) pessoas morreram e 23 (vinte e três) ficaram feridas, dos feridos, 8 (oito)
policiais militares, 1 (um) policial civil e 14 (quatorze) civis.
De acordo com a matéria jornalística, teriam ocorrido 32 (trinta e dois)
ataques de marginais na Zona Sul, Zona Norte, Zona Oeste, Centro e Baixada
Fluminense do Rio de Janeiro.
Segundo a Folha de São Paulo, o Secretário de Segurança Pública, à época,
Roberto Precioso Júnior teria dito que os atentados foram articulados por internos
do sistema prisional que desejariam manter a distribuição carcerária por facções
criminosas da forma que estava.
Ainda de acordo com a Folha de São Paulo, o Secretário da Administração
Penitenciária, Astério Pereira dos Santos, teria dito que aquela onda de ataques
teria ocorrido em represália à atuação de milícias formadas por policiais e ex-po-
liciais que atuavam em comunidades do estado, as quais estariam prejudicando a
atuação das facções criminosas.
Independentemente de qualquer versão apresentada para a ocorrência dos
atentados, o que importa nessa discussão é o motivo dos ataques dos criminosos,
veja que tanto em uma quanto na outra versão, as ações criminosas teriam ocorri-
do por consequência de decisões tomadas no âmbito da segurança pública ou da
administração penitenciária.
Nesse sentido, as palavras de Brandão e Cepik (2013, p. 309), veja:

A atividade de inteligência voltada à obtenção e análise de dados e informações colhidas


no interior das unidades prisionais e destinada a subsidiar a própria gestão dos esta-
belecimentos penais com a detecção de eventos críticos é denominada de Inteligência
Penitenciária. Trata-se de importante instrumento para a garantia da ordem e segurança
do sistema penitenciário. É por meio dela que se pode, por exemplo, identificar, entre
os presos, aqueles que têm situação de liderança sobre os demais, colher informações
sobre deflagração de motins e rebeliões (nesse caso, não apenas na unidade prisional,
mas também as rebeliões desencadeadas de forma orquestrada em diversos estabele-
cimentos prisionais, como já aconteceu em alguns sistemas penitenciários estaduais),

capítulo 5 • 112
monitorar visitas, correspondências, relacionamentos entre presos, bem como prover
assessoramento à gestão funcional dos servidores penitenciários, entre outras funções.
(BRANDÃO e CEPIK, 2013, p. 309)

Inteligência Policial

Pode se dizer que inteligência policial e inteligência de segurança pública são


termos que se equivalem? Quais são os órgãos que podem exercer a inteligência
policial? Pois bem, veja que você passará a estudar a partir de agora um tema tão
instigante quanto polêmico.
Respondendo à primeira indagação, inteligência policial e inteligência de se-
gurança pública não são a mesma atividade. Dentro do Subsistema de Inteligência
de Segurança pública (SISP), a inteligência policial é ramo da inteligência de segu-
rança pública. O que isso quer dizer?
Inicialmente, é oportuno trazer à tona, a finalidade da inteligência de segu-
rança pública, finalidade essa que o próprio decreto a distingue como finalidade
estratégica e finalidade tática. Essa distinção, porém, não está explícita, carecendo
assim de um olhar um tanto apurado. Veja o que diz o art. 1º do Decreto 3.695,
de 21 dezembro de 2000:

Fica criado, no âmbito do Sistema Brasileiro de Inteligência, instituído pela lei no 9.883,
de 7 de dezembro de 1999, o Subsistema de Inteligência de Segurança Pública, com
a finalidade de coordenar e integrar as atividades de inteligência de segurança pública
em todo o país, bem como suprir os governos federal e estaduais de informações que
subsidiem a tomada de decisões neste campo. (Decreto no 3.695, art.1o, de 21 de
dezembro de 2000)

Veja que além da coordenação das atividades de inteligência em todo o país,


outra função é atribuída ao SISP, qual seja, subsidiar os governos federal e esta-
duais em seus processos decisórios.
Quando a inteligência atua de forma a assessorar o usuário, que está em nível
de governo, diz-se que esta é uma atividade de inteligência em nível estratégico,
ao passo que quando essa atividade refere-se à atuação de um órgão, sob a óptica
operacional, havendo a elaboração de diretrizes e normas nesse sentido, diz-se que
a mesma é inteligência com aplicação tática.

capítulo 5 • 113
Veja o que diz o § 3º do art. 2º do Decreto 3.695, de 21 de dezembro de
2000, sobre o que cabe aos órgãos integrantes do SISP:

Cabe aos integrantes do Subsistema, no âmbito de suas competências, identificar, acom-


panhar e avaliar ameaças reais ou potenciais de segurança pública e produzir conheci-
mentos e informações que subsidiem ações para neutralizar, coibir e reprimir atos crimi-
nosos de qualquer natureza. (Decreto no 3.695, art. 2o, § 3o, de 21 de dezembro de 2000)

Perceba que na citação anterior, em nenhum momento se fala em assessora-


mento do processo decisório do usuário. Em relação ao art. 1o do referido decre-
to, trata-se de uma atividade de inteligência consultiva, em que a mesma é uma
ferramenta de assessoria. No caso do § 3º do art. 2º, a inteligência não está sendo
utilizada como atividade consultiva e sim como uma atividade executiva.
A atividade de inteligência executiva: esse é o ponto no qual se pretende che-
gar. Rumo à reflexão!
Pois bem, ainda sobre o que foi indagado se a ISP e a inteligência policial são
atividades equivalentes, já se sabe que não são, pois foi exposto anteriormente que
a policial é ramo da inteligência de segurança pública. Até aqui, ponto pacífico.
Ocorre que as duas atividades atuam no plano tático, com aplicabilidades exe-
cutivas, porém, seus usuários são distintos e os órgãos de atuação também.
Enquanto a ISP atua neutralizando, prevenindo e reprimindo os atos crimino-
sos de qualquer natureza, a inteligência policial é utilizada como suporte na inves-
tigação, ela auxilia na produção de provas de um procedimento investigativo em
que se apura autoria e materialidade de uma infração penal, visando dar o suporte
necessário ao Ministério Público na propositura da ação penal.
Sobre a inteligência policial ser um ramo da inteligência de segurança pública,
Filho (2015, p. 83) assevera que:

Quando as agências de inteligência das polícias militares e civis produzem conheci-


mentos, por exemplo, para orientar políticas, decisões, planejamentos ou ações com o
objetivo de “prever, prevenir e reprimir atos delituosos de qualquer natureza ou relativos
a outros temas de interesse da Segurança Pública e da Defesa Social” (DNISP, 2009),
estes são produtos de ISP. Entretanto, quando uma unidade de inteligência apoia in-
vestigações de polícia judiciária – ou judiciária militar – por intermédio do emprego de
ações de busca e técnicas operacionais de inteligência, visando à produção de conhe-
cimentos e à sua posterior transformação em provas para a instrução de um processo

capítulo 5 • 114
judicial, então estes são produtos típicos da inteligência policial. Comprova-se assim,
que a inteligência policial é uma das vertentes da ISP com características bem especí-
ficas. (FILHO, 2015, p. 83)

Filho (2015, p. 78) traz uma definição bem interessante sobre a inteligência
policial, veja:

A atividade de inteligência policial é um ramo da ISP e tem por objetivo a produção de


conhecimentos e sua transformação em provas que, no momento próprio, instruirão
processos judiciais. Seu principal escopo é subsidiar a investigação policial, apoiando-a
com recursos e tecnologias próprias da atividade de inteligência, visando à obtenção de
provas, indícios e outros elementos de convicção relacionados à materialidade e autoria
de uma infração penal. (Filho, 2015, p. 78).

O referido autor diz que são sigilosas as ações da inteligência policial, da mes-
ma forma que as ações da inteligência de segurança pública também são. Diz
ainda que na obtenção de indícios ou provas de infrações penais, são utilizadas
técnicas especiais, que podem ser realizadas durante operação de inteligência po-
licial ou até mesmo de forma isolada. Essas técnicas especiais são chamadas de
operações de inteligência.
Sobre o uso da inteligência como suporte à investigação, veja a opinião de
Cardoso e Müller (2010, p. 12):

Em determinadas ocasiões, a Inteligência se utiliza de técnicas denominadas ações


de busca, imprescindíveis para a obtenção de dados de interesse para a tomada de
decisão, mas que são protegidos por quem os detém. Estas ações (de busca), que são
técnicas operacionais de Inteligência, podem ser empregadas como suporte para a in-
vestigação, não se exigindo autorização judicial para sua utilização, bastando apenas
a observância do que prevê a Constituição Federal, no que diz respeito à garantia dos
Direitos Fundamentais, bem como da previsão da lei processual penal.
A Atividade de Inteligência, na visão de Gorrilhas (2009), pode ser utilizada para pro-
duzir provas, como atividade técnica que tem como objetivo na esfera investigativa ou
processual, obter provas sem violar a moral, a saúde a segurança individual ou coletiva,
bem como a hierarquia ou disciplina militar.
Da mesma forma entende Feitoza Pacheco (2005, p. 625-653), que as provas colhidas
pela Atividade de Inteligência não encontram obstáculos à sua utilização na investiga-
ção criminal, desde que sejam observadas as restrições estabelecidas pela lei proces-
sual penal. (CARDOSO e MÜLLER, 2010, p. 12)

capítulo 5 • 115
Quais são os órgãos que podem exercer a inteligência policial? É nessa questão
que reside toda a polêmica do tema. Castro (2012, p. 130) ensina que inteligên-
cia policial:

É o ramo da inteligência que se aplica à atividade repressiva de polícia, mais especifica-


mente à parte investigativa de competência das polícias judiciárias (federal e civil), em
razão da cadeia evolutiva criminal cuja complexidade exige um aperfeiçoamento e capa-
cidade cada vez mais aprimorados pelo profissional que milita nessa área. A inteligência
policial foi por nós considerada repressiva por estar jungida à competência de atuação
legalmente prevista às polícias judiciárias, englobando-se nestas atividades pertinentes,
inclusive, as ações de polícia judiciária militar. (CASTRO, 2012, p. 130)

Veja que Castro em sua lição aponta quais são os órgãos que podem realizar a
inteligência policial, quais sejam, a polícia federal, as polícias civis e a polícia mili-
tar, nesse caso, quando houver suporte da inteligência da PM nas investigações de
crimes militares, atribuição exclusiva das polícias militares.
Filho (2015, p. 81) também assinala quais são os órgãos competentes para
realizar a atividade inteligência policial. Segundo ele, os policiais federais e os po-
liciais civis são os exclusivos operadores da inteligência policial quando estiverem
realizando a apuração de infrações penais comuns (exercício típico da polícia judi-
ciária). Além dos que foram citados, os policiais militares também são legitimados
para operar a atividade de inteligência policial quando estiverem realizando a apu-
ração de infrações penais militares (funções próprias da polícia judiciária militar).
Perceba que nem todos os órgãos que realizam a inteligência de segurança
pública podem realizar a atividade de inteligência policial. Órgãos que não sejam
de natureza policial comumente integram os sistemas de inteligência de segurança
pública tanto no âmbito dos estados quanto no âmbito nacional, como por exem-
plo, Corpos de Bombeiros Militares, Guardas Municipais, Ministérios Públicos,
Receita Federal, Receitas Estaduais, Secretarias de Administrações Penitenciárias
etc. Entretanto, quando se trata de dar suporte à atividade de investigação nos
inquéritos policiais ou nos inquéritos policiais militares, como atividade de inteli-
gência policial, somente àquelas anteriormente mencionadas.
É notório que algumas polícias civis e militares, no Brasil, estejam envolvidas
em conflitos por conta de questões relativas à atividade de inteligência de seguran-
ça pública. Há quem entenda que o serviço de inteligência dos policiais militares
deveria atuar apenas na inteligência clássica ou sobre seu público interno.

capítulo 5 • 116
Por outro lado, a quem também desconheça o trabalho realizado pela inte-
ligência das polícias militares, desconhecendo também a sua importância para o
planejamento das operações preventivas, possibilitando otimização dos recursos
humanos e materiais.
Pense numa situação em que a P2 de um batalhão, por meio de uma ação de
inteligência, descubra que em determinado dia haverá a comemoração do aniver-
sário do chefe do tráfico de drogas de uma comunidade, e que neste dia haveria o
deslocamento de marginais fortemente armados de outras áreas para comemora-
rem o aniversário do marginal citado.
Saibam que para que esses deslocamentos ocorram, os chamados “bondes de
traficantes”, vários carros são roubados para serem utilizados. Além disso, nesses
deslocamentos, o risco de esses marginais entrarem em confronto armado com a
polícia militar, que está patrulhando as ruas, é grande.
Reflita como esse dado ou conhecimento produzido é importante para a
Polícia Militar planejar e executar suas ações com o máximo de segurança e com o
mínimo de riscos possível para os policiais envolvidos no trabalho e para o cidadão
que está circulando nas ruas.
Veja que no exemplo exposto, não há investigação visando à produção de
provas e também não há a realização da inteligência policial e sim inteligência de
segurança pública, por parte da polícia militar.
Não é porque a missão constitucional da polícia militar é polícia ostensiva e
preservação da ordem pública que ela não poderá ter policiais sem farda, atuando
no serviço velado. O que se tem que ter em mente é o limite de atuação das ins-
tituições policiais. Da mesma forma que operações ostensivas em vias públicas,
abordando e revistando pessoas com atitudes suspeitas em veículos e motocicletas
não é atribuição das polícias civis, e sim da das polícias militares.
Essa questão é bastante sensível, muitas vezes colabora inclusive para o rela-
cionamento ruim entre polícias estaduais de determinado estado da federação.
Brandão e Cepik (2013, p. 193) tratam dessa questão que é considerada demasia-
damente delicada, veja:

No contexto atual da democracia brasileira, encontramos de um lado, o crescente clamor


por políticas eficazes de segurança, de outro, a luta velada – às vezes explícita – entre ór-
gãos e poderes institucionais, por parcelas de atribuições e competências relacionadas ao
seu planejamento e à sua execução. É o que acontece, por exemplo, com o poder-dever
de investigação criminal (Ministério Público x Polícia), e a execução de interceptações

capítulo 5 • 117
telefônicas e mandados de busca e apreensão (Polícia Militar x Polícia Civil) etc. Enquanto
os índices de criminalidade se agravam (ou no mínimo a sensação de insegurança se dis-
semina), a conjunção de tais fatores impulsiona a atividade de inteligência, cuja essência
é servir de apoio ao poder público na tomada de decisões em áreas relevantes da política
pública, emergindo como promessa para a superação das dificuldades de enfrentamento
à crescente criminalidade. (BRANDÃO e CEPIK, 2013, p. 193)

O que se quer e o que se espera das instituições policiais e que elas busquem
o equilíbrio nas relações institucionais e passem a trabalhar de forma integrada,
atuando com parceria. Uma vez acontecendo essa integração, todos saem vitorio-
sos, as polícias e principalmente a população.
Na verdade, a criação das diversas categorias de inteligência e do próprio
Sistema Brasileiro de Inteligência, bem como do Subsistema de Inteligência
de Segurança Pública busca exatamente a integração dos órgãos, a produção e
o compartilhamento de conhecimentos produzidos, por meio da atividade de
inteligência.
Cada instituição, independentemente da natureza das suas atribuições, certa-
mente tem um campo muito vasto de dados, que são de interesse da inteligência,
razão pela qual todo o conhecimento produzido não deve ter fim no próprio ór-
gão, devendo haver compartilhamento pelo canal técnico, resguardado o prin-
cípio do sigilo, a compartimentação e a necessidade de se conhecer o que está
sendo produzido.

ATIVIDADES
01. Qual a finalidade da inteligência fiscal?

02. Comente sobre a inteligência financeira.

03. Comente sobre a importância da inteligência penitenciária.

04. Quais são os órgãos competentes pra realizar a inteligência policial?

capítulo 5 • 118
REFLEXÃO
O presente capítulo tratou das diversas categorias da atividade de inteligência, tais como
a inteligência militar e de defesa, inteligência fiscal, financeira, do Ministério Público, estraté-
gica, competitiva, penitenciária e policial. Todas elas específicas na área de atuação de cada
um dos órgãos envolvidos.
O conteúdo abordado nessa parte do livro didático possibilitou que fosse tratado de
temas importantes, mostrando a você aluno, a diferença entre inteligência de segurança
pública e inteligência policial e elencar os órgãos que podem atuar na inteligência policial e
em que circunstâncias.
Mais uma vez foram trazidos à tona, temas polêmicos e muito interessantes, indispensá-
veis à reflexão sobre tudo o que foi tratado, possibilitando a partir desse estudo, a descons-
trução de possíveis preconceitos.
Tema muito importante que também foi trazido à discussão refere-se à inteligência peni-
tenciária, sendo demonstrado ao longo do capítulo, o quanto ela é importante na prevenção
e neutralização de ações criminosas fora dos presídios, rebeliões intramuros prisionais entre
outras situações. Mostrou-se também o quanto é importante integrar suas ações com a inte-
ligência de segurança pública, de modo a garantir a preservação da ordem pública.
Questão importante também levantada diz respeito se a polícia militar pode ou não reali-
zar a inteligência policial, e se pode em quais circunstâncias.

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que-e-inteligencia-competitiva-entenda/>. Acesso em: 5 jun. 2017.
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<http://www.coaf.fazenda.gov.br/menu/pld-ft/financiamento-ao-terrorismo>. Acesso em: 4 jun. 2017.
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prática no controle da criminalidade. Niterói, RJ: Impetus, 2013.
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Segurança Pública, no âmbito do Sistema Brasileiro de Inteligência, e dá outras providências.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D3695.htm>. Acesso em: 10 jun. 2017.
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capítulo 5 • 119
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de 200, do Jornal a Folha de São Paulo. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/
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asp?Definicao=1447&idioma=P&idpai=GLOSSARIO>. Acesso em: 4 jun. 2017.

capítulo 5 • 120
GABARITO
Capítulo 1

01. B

02. Para Sun Tzu, não há ninguém mais íntimo ao comandante do que o espião. O espião,
além de ser o mais íntimo, deve possuir também maior remuneração. Isso se dá, em sua
concepção, devido à sensibilidade dos assuntos que são tratados com esse tipo de agentes.
Sun Tzu, grande estrategista militar que era, fala da recompensa dos espiões, que deve ser,
segundo ele, bem generosa. Essa é mais uma lição do general chinês para manter o espião
sempre ao lado de seu comandante. Um espião que não esteja sendo bem recompensado
pode levar tudo a perder, por conta do que sabe, caso ele venha a mudar de lado e atuar
como agente duplo.

03. Os pombos, durante a Primeira Guerra Mundial, passaram a ser utilizados como meio
de realizar fotografias aéreas. Uma microcâmera feita em alumínio, acionada por corda era
adaptada para ser presa no corpo do pombo e o dispositivo funcionava disparando uma se-
quência de cliques enquanto o animal alçava voo.
A citada técnica foi inventada pelo alemão Julius Neubronner, que no início sofreu rejei-
ção ao seu invento, mas que ao divulgar as fotos retiradas pelas máquinas presas ao corpo
dos pombos, teve seu valor reconhecido e a técnica chamada de “pombo-fotografia” foi am-
plamente utilizada durante a Primeira Guerra Mundial.

04. Os militares britânicos abordaram a embarcação antes que ela afundasse e encontraram
tanto a ENIGMA quanto os seus manuais. Dessa forma, a “inteligência aliada” “quebrou” o
código de comunicações utilizado pela Alemanha e passaram a interceptar as informações
enviadas pela Marinha Nazista. Com esse trunfo, o comando aliado afastou a ameaça dos
submarinos alemães na Batalha do Atlântico.
A ENIGMA que foi apreendida pelos britânicos foi reconstruída, tendo suas peças avaria-
das substituídas. Por meio de uma operação de sucesso realizada por funcionários poloneses
da fábrica em que ela era montada, peça a peça foi subtraída, possibilitando a reconsti-
tuição da máquina, que de posse de seu manual foi possível aos britânicos aprenderem o
seu funcionamento.

capítulo 5 • 121
05. Há um caso que é considerado como sendo um dos mais emblemáticos envolvendo
espiões foi protagonizado pelo “casal Rosenberg”, que comandou uma rede de espionagem
que roubou os planos da bomba atômica dos americanos, mas acabou preso e condenado à
pena de morte na cadeira elétrica.

Capítulo 2

01. Veja que todos os esforços empreendidos nas questões de segurança e defesa inter-
na, em 1961, o Brasil foi alvo de uma ação de espionagem. Interessado em buscar dados
referentes aos aspectos econômicos e políticos do Brasil, em especial sobre a evolução do
movimento comunista no país, o alemão Joseph Werner Leben, vinha realizando espionagem
em solo brasileiro.
Leben foi preso em 11 de julho de 1961, julgado e condenado pelo crime de espiona-
gem contra o Brasil. Cumpriu pena privativa de liberdade até 20 de outubro de 1971. Ainda
que tenha sido expulso do Brasil em 9 de novembro de 1969, Joseph Werner Leben perma-
neceu preso até a data referida.

02. Em 1964, mais precisamente no governo de Humberto de Alencar Castello Branco,


ocorreu a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI) em substituição ao Serviço
Federal de Informações e Contrainformações (SFICI). A partir de então, o SNI passou a ser o
órgão central de um sistema de informações, que era constituído por outros (sub) sistemas.
Com o advento da criação do SNI, houve ampliação dos poderes de seu chefe, que se-
gundo Da Costa (2010), possuía status de ministro ou até mesmo poder institucional com-
parado ao de um chefe de Estado, em algumas ocasiões. Em se tratando da sua estrutura
organizacional, todas as informações que estavam de posse das agências regionais eram
difundidas para a agência central, que catalogava e processava antes de devolvê-las para
as agências que tinham a competência de desenvolver operações ou somente arquivá-las.

03. Considerando que a inteligência (informação) já era uma atividade especializada, ha-
via a necessidade de capacitação dos recursos humanos para realização dos trabalhos que
exigiam muita técnica de seus agentes. E não era somente isso, havia a necessidade de
que as agências do SISNI “falassem a mesma língua”, ou seja, não bastava a especialização
dos agentes de informações, mas também o estabelecimento de uma doutrina única de
informações.
Todos os outros cursos e/ou estágios de informações que funcionavam em outras es-
colas ou unidades de ensino foram absorvidos pela EsNI. O efetivo de pessoal necessário
para atuar na escola poderia ser requisitado dos quadros da administração federal, poden-

capítulo 5 • 122
do também os militares das Forças Armadas, servidores estaduais, municipais, inclusive de
entidades privadas, dependendo de entendimento prévio entre os órgãos interessados. To-
dos aqueles que atuavam na EsNI eram considerados como em exercício na Presidência
da República.

04. Inteligência e contrainteligência são ramos, divisões da atividade de inteligência. O ramo


“inteligência” que também é chamado de análise produz conhecimento para assessorar o seu
usuário no processo decisório, enquanto o ramo contrainteligência além de produzir conhe-
cimentos, tem suas ações voltadas para a salvaguarda, a proteção dos interesses do Estado
e da sociedade.
De acordo com o site da ABIN sobre inteligência e contrainteligência: “A atividade de in-
teligência é o exercício de ações especializadas para obtenção e análise de dados, produção
de conhecimentos e proteção de conhecimentos para o país. Inteligência e contrainteligência
são os dois ramos da atividade”.

05. Entende-se como inteligência clássica, a atividade que objetiva a obtenção, análise e
disseminação de conhecimentos dentro e fora do território nacional sobre fatos e situações
de imediata e potencial influência sobre o processo decisório e a ação governamental e so-
bre a salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado.
Além do Sistema Brasileiro de Inteligência, no qual a ABIN é seu órgão central, os siste-
mas de inteligência de cada uma das forças armadas são exemplos de outros sistemas de
inteligência de Estado.

Capítulo 3

01. O Subsistema de Inteligência de Segurança Pública será parte de um sistema maior,


uma vez que integrará, quando formalizado, o Sistema Brasileiro de Inteligência – SISBIN.
O Subsistema de Inteligência é integrado por órgãos da esfera federal estadual, tendo por
objetivo identificar ameaças à Segurança Pública e subsidiar, com oportunidade, os órgãos
governamentais com conhecimentos necessários à adoção de providências para a manu-
tenção da Segurança Pública. A integração de esforços permitirá sistematizar um fluxo de
informações, propiciando cenários para atuação das instituições envolvidas, favorecendo as
ações de prevenção e repressão. (Compromisso no 4 – Implementação do Subsistema de
Inteligência de Segurança Pública – Plano Nacional de Segurança de Pública, de 20 de
junho de 2000).

capítulo 5 • 123
02. Previa o PNSP sobre a Integração dos estados ao Subsistema de Inteligência de Segu-
rança Pública: “Iniciar o processo de consulta e sensibilização junto aos governadores dos
estados e do Distrito Federal, com vistas à adesão de suas instituições ao Subsistema de
Inteligência de Segurança Pública.”
Note que as metas de criação do SISP e a integração dos Estados federados a ele já es-
tavam previstas em momento anterior à criação do Decreto 3.695, bem como a coordenação
desse subsistema pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP).

03. O trabalho do analista de inteligência é reunir o maior número de dados e conheci-


mentos (já produzidos) sobre determinado assunto. Submeter os dados ainda brutos a uma
metodologia própria e produzir algo inédito a respeito, agregando valor ao mesmo, na busca
da verdade, tornando-o uma confiável ferramenta de assessoramento daquele que dela se
utilizará em seu processo decisório.
Durante esse “processo”, o analista realiza algumas operações intelectuais, tais como
ideias, juízos e raciocínios o que o leva a se deparar com diferentes estados da mente pe-
rante a verdade, quais sejam, dúvida, ignorância, opinião e certeza. O resultado disso tudo
será um conhecimento materializado em um relatório que expressará com maior ou menor
probabilidade se um fato poderá acontecer.

04. Pode-se dizer que não existem dois tipos de inteligências, e sim uma classificação dou-
trinária para distinguir as formas em que essas “inteligências” atuam. A inteligência praticada
pela ABIN tem seu fim em si mesmo, ela foi criada exclusivamente para isso. Já a polícia
militar tem sua finalidade principal na polícia ostensiva e na preservação da ordem pública,
enquanto a polícia civil tem suas atribuições de polícia judiciária e a apuração de infrações
penais, entretanto, as duas polícias além de suas atribuições constitucionais realizam tam-
bém a atividade de inteligência.
Utilizar um conhecimento de inteligência, produzido para influenciar o processo decisório,
resguardando devidamente as normas constitucionais e processuais, no planejamento e na
execução de políticas de segurança pública, bem como em ações de prevenção e repressão
a condutas ilícitas não significa privilegiar ações policiais ou ações investigativas em detri-
mento das atividades de produção de conhecimento.
Na verdade, independente da natureza do órgão ou da instituição, a inteligência praticada
por estes sempre será adaptada às suas atribuições a fim de que com esse assessoramen-
to, o tomador de decisões possa melhor decidir, refletindo assim nas ações operacionais
daquele órgão, e como consequência, melhor qualidade na prestação do serviço público
à comunidade.

capítulo 5 • 124
Capítulo 4

01. O Subsistema de Inteligência de Segurança Pública será parte de um sistema maior,


uma vez que integrará, quando formalizado, o Sistema Brasileiro de Inteligência – SISBIN.
O Subsistema de Inteligência é integrado por órgãos da esfera federal estadual, tendo por
objetivo identificar ameaças à Segurança Pública e subsidiar, com oportunidade, os órgãos
governamentais com conhecimentos necessários à adoção de providências para a manu-
tenção da Segurança Pública. A integração de esforços permitirá sistematizar um fluxo de
informações, propiciando cenários para atuação das instituições envolvidas, favorecendo as
ações de prevenção e repressão. (Compromisso no 4 – Implementação do Subsistema de
Inteligência de Segurança Pública – Plano Nacional de Segurança de Pública, de 20 de
junho de 2000).

02. Previa o PNSP sobre a Integração dos estados ao Subsistema de Inteligência de Segu-
rança Pública: “Iniciar o processo de consulta e sensibilização junto aos governadores dos
estados e do Distrito Federal, com vistas à adesão de suas instituições ao Subsistema de
Inteligência de Segurança Pública.”
Note que as metas de criação do SISP e a integração dos Estados federados a ele já es-
tavam previstas em momento anterior à criação do Decreto 3.695, bem como a coordenação
desse subsistema pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP).

03. O trabalho do analista de inteligência é reunir o maior número de dados e conheci-


mentos (já produzidos) sobre determinado assunto. Submeter os dados ainda brutos a uma
metodologia própria e produzir algo inédito a respeito, agregando valor ao mesmo, na busca
da verdade, tornando-o uma confiável ferramenta de assessoramento daquele que dela se
utilizará em seu processo decisório.
Durante esse “processo”, o analista realiza algumas operações intelectuais, tais como
ideias, juízos e raciocínios o que o leva a se deparar com diferentes estados da mente pe-
rante a verdade, quais sejam, dúvida, ignorância, opinião e certeza. O resultado disso tudo
será um conhecimento materializado em um relatório que expressará com maior ou menor
probabilidade se um fato poderá acontecer.

04. Pode-se dizer que não existem dois tipos de inteligências, e sim uma classificação dou-
trinária para distinguir as formas em que essas “inteligências” atuam. A inteligência praticada
pela ABIN tem seu fim em si mesmo, ela foi criada exclusivamente para isso. Já a polícia
militar tem sua finalidade principal na polícia ostensiva e na preservação da ordem pública,
enquanto a polícia civil tem suas atribuições de polícia judiciária e a apuração de infrações

capítulo 5 • 125
penais, entretanto, as duas polícias além de suas atribuições constitucionais realizam tam-
bém a atividade de inteligência.
Utilizar um conhecimento de inteligência, produzido para influenciar o processo decisório,
resguardando devidamente as normas constitucionais e processuais, no planejamento e na
execução de políticas de segurança pública, bem como em ações de prevenção e repressão
a condutas ilícitas não significa privilegiar ações policiais ou ações investigativas em detri-
mento das atividades de produção de conhecimento.
Na verdade, independente da natureza do órgão ou da instituição, a inteligência praticada
por estes sempre será adaptada às suas atribuições a fim de que com esse assessoramen-
to, o tomador de decisões possa melhor decidir, refletindo assim nas ações operacionais
daquele órgão, e como consequência, melhor qualidade na prestação do serviço público
à comunidade.

Capítulo 5

01. Considerando que a finalidade da atividade de inteligência é a produção de conhecimen-


tos, no que diz respeito à inteligência fiscal, essa produz conhecimentos voltados às práticas
de irregularidades cometidas pelos contribuintes.
São de interesse da inteligência fiscal, somente as práticas realizadas que se classificam
como fraudes fiscais, aquelas que são praticadas com o fim de causar prejuízos ao erário.
Logo, não são todas as irregularidades fiscais que são de interesse da inteligência fiscal.
A inteligência fiscal é frequentemente confundida com a inteligência financeira e que as
suas ações são direcionadas no sentido de identificar e investigar os crimes contra a ordem
tributária e produzir conhecimentos voltados ao presente assunto.
A inteligência fiscal trabalha na busca do dado negado, que em se tratando desse tema,
o dado negado aqui tratado é tudo aquilo que não foi declarado pelo contribuinte, envolvendo
grandes quantias de dinheiro.
Nesse sentido, Gonçalves (2013) afirma que “o fisco pode recorrer à atividade de inteli-
gência tanto para prevenir contra fraudes quanto para identificar e neutralizar essas fraudes
e recuperar recursos evadidos por meios fraudulentos.”

02. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, constatou-se que os procedimentos


utilizados pelas organizações criminosas eram também utilizados para financiar o terrorismo,
com isso houve uma maior “atenção” a inteligência financeira. Dessa forma, entre os países
desenvolvidos, tem sido significativo o investimento em inteligência financeira.

capítulo 5 • 126
O combate ao financiamento do terrorismo está totalmente ligado à guerra travada
com a lavagem de dinheiro. E que os atentados praticados por terroristas na década pas-
sada fizeram as grandes nações intensificarem a cooperação mútua contra o terror e ao
seu financiamento.
Em 28 de setembro de 2001, o Conselho de Segurança das Organizações do Sistema
das Nações Unidas adotou uma resolução, de no 1373, a qual tem por objetivo impedir que
haja financiamento ao terrorismo, à criminalização da coleta de fundos destinada a esta fina-
lidade e ao congelamento imediato dos bens financeiros dos terroristas.
O Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Ter-
rorismo (GAFI/FATF), posteriormente aos atentados de setembro de 2001, ampliou seu
mandato, passando a tratar do financiamento do terrorismo e da propagação de armas de
destruição em massa.
Com tudo isso, a troca de informações entre as Unidades de Inteligência Financeira de
diversos países, bem como a cooperação internacional foi expandida.

03. As ações desencadeadas pelas facções criminosas, sejam elas de qualquer tipo ou prá-
tica delituosa, por exemplo, tentativa de tomada ou retomada de pontos de venda de drogas
de facções rivais, aquisição de armamento, roubo de carros para o deslocamento de grupos
armados ou ainda o ataque a policiais que estão nas ruas atuando, seriam decididas intra-
muros dos presídios.
É de conhecimento público que os grandes traficantes e líderes de facções criminosas
de todo o Brasil se encontram encarcerados, e que os marginais que comandam os grupos
criminosos extramuros prisionais seriam apenas cumpridores de ordens daqueles que estão
presos.
Das rebeliões nos interiores das penitenciárias aos ataques de criminosos, sejam eles
em face de policiais ou aqueles que visam à destruição dos meios de transporte coletivos, são
reflexos da administração das unidades prisionais onde se encontram acauteladas aquelas
lideranças ou situações que tenham relação com a política de segurança pública adotada por
determinado estado da federação.

04. Os policiais federais e os policiais civis são os exclusivos operadores da inteligência poli-
cial quando estiverem realizando a apuração de infrações penais comuns (exercício típico da
polícia judiciária). Além dos que foram citados, os policiais militares também são legitimados
para operar a atividade de inteligência policial quando estiverem realizando a apuração de
infrações penais militares (funções próprias da polícia judiciária militar).

capítulo 5 • 127
Perceba que nem todos os órgãos que realizam a inteligência de segurança pública
podem realizar a atividade de inteligência policial. Órgãos que não sejam de natureza poli-
cial comumente integram os sistemas de inteligência de segurança pública tanto no âmbito
dos estados quanto no âmbito nacional, como por exemplo, Corpos de Bombeiros Militares,
Guardas Municipais, Ministérios Públicos, Receita Federal, Receitas Estaduais, Secretarias
de Administrações Penitenciárias etc. Entretanto, quando se trata de dar suporte à atividade
de investigação nos inquéritos policiais ou nos inquéritos policiais militares, somente àquelas
anteriormente mencionadas.

capítulo 5 • 128