Você está na página 1de 9

Arqueologia I – Pré-História geral

Júlia Dias

Resumo do capítulo 10 do livro “Manual da Arqueologia Pré-Histórica”, de Nuno


Ferreira Bicho.

No capítulo 10 da obra “Manual da arqueologia pré-histórica”, Bicho se


compromete a desenvolver reflexões sobre a importância dos estudos da fauna e
microfauna para se conhecer o paleoambiente pré-histórico. O autor faz isso, sobretudo,
pelo fato das interações entre o animal e espécie humana na pré-história. Portanto,
pensando no estudo da ecologia, ou seja, “o estudo do ambiente natural, particularmente
no que diz respeito à relação entre organismos e o que os rodeia” (Ricklefs, 1973:11 in
Bicho, 2006:333) como aspecto fundamental para a análise. Bicho se dedica,
consequentemente, a discutir sobre um dos objetivos principais para a reconstrução
paleoambiental: a zooarqueologia. Segundo Valente (2000:6), Cardoso (1996:78-79) e
Moreno-Garcia, 2003:192), a arqueozoologia fornece a zooarqueologia técnicas de
estudo das faunas, que permite a identificação e a composição taxonômica das coleções
aplicadas aos contextos arqueológicos. Portanto, sendo a primeira, utilizada para estudos
tradicionais das faunas e o último, estudos das faunas com enfoque na perspectiva
paleoecológica. A fauna pode se dividir em três grupos principais (segundo o seu tamanho
geral): microfauna e mesofauna (podendo ser subdividas em vertebrada e invertebrada) e
macrofauna (inclui-se apenas os vertebrados). Apenas alguns grupos ou classes são
importantes nos invertebrados, como os insetos, moluscos e crustáceos. Enquanto no caso
dos vertebrados as classes mais importantes são os peixes, aves, répteis, anfíbios e
mamíferos (Bicho, 2006:334).
10.1. Os insetos
A presença dos insetos pode indicar o tipo de paleoecologia regional existe num
momento específico. Eles podem ser encontrados em vários tipos de depósitos
sedimentares pré-históricos. Devido a decomposição rápida em ambientes anaeróbios, os
insetos são principalmente encontrados nas margens dos ambientes lacustres, ou em
ambientes fluviais e de turbeiras (Rapp e Hill, 1998:99).
Cada amostra da recolha desta fauna deve ter entre 1 e 10kg e deve estar separada
do local de outra amostra (entre 5 e 20cm). Exige, portanto, um trabalho cuidadoso por
parte do pesquisador, que deve fazer a separação dos sedimentos (utilizando crivos com
malhas de 0,2mm), e fazendo a sua identificação (podendo ser utilizado a lupa binocular)
(Robinson, 2001:124).
Fáceis de serem transportados, os insetos podem fornecer algumas problemáticas
relacionados ao contexto, dando possivelmente algumas indicações climáticas erradas e
para a obtenção de resultados mais precisos, começa a ser utilizado na década de 80, o
método da mutualidade na amplitude climática (Atkinson et al., 1986 e 1987, in
Robinson, 2001:127). Usando de duas variáveis de temperatura (temperatura máxima e
amplitude térmica), uma rede é construída com um número variado de espécies (quanto
mais, melhor) de um paleodepósito. O resultado fornece o ambiente que foi utilizado pelo
maior número de espécies, chegando-se a um tipo de ambiente padrão. Além de
indicadores de clima, o estudo dos insetos é também víavel para indicar alterações
antropogênicas do ambiente, uma vez que os insetos podem estar associados a um
conjunto de plantas ou animais.
10.2. Aves, peixes, répteis e anfíbios
Podendo demarcar um determinado tipo ecológico, pela sua facilidade
locomotiva que permite a migração sazonal a procura da ecologia correta e, o fato de
serem objeto da intervenção humana (pensando em sua domesticação), as aves indicam
aspectos ambientais e pistas importantes para o tipo de adaptação da comunidade humana
ao seu meio ambiente (Bicho, 2006:337), imprescindível para a reconstrução
paleoecológica.
Os peixes, portanto, apesar de não indicarem alterações climáticas, podem ser
estudados com o intuito de descobrir e analisar as transformações locais ao nível da
paisagem. Para adaptação, as espécies piscícolas dependem de dois fatores principais: a
salinidade e a temperatura. No contexto arqueológico, os peixes são divididos em três
grupos: os de água doce, água salgada e anádromos. Portanto, conhecer o gênero de
ambiente onde esses peixes podem ser apanhados permite uma importante linha para a
reconstrução paleoecológica da comunidade humana.
A morfologia esquelética dos répteis e anfíbios fornece, sobretudo, dados
importantes para a reconstrução ambiental. As diferenças climáticas (principalmente
aquelas relacionadas com a temperatura e a humidade) podem afetá-las; no caso dos
répteis, as diferenças de temperatura tendem a desenvolver o tamanho de alguns animais.
A presença de ambos, sejam eles espécies aquáticas ou terrestres, podem indicar um
contexto arqueológico diferente um do outro.
10.3. Os moluscos, crustáceos e equinodermes
Os moluscos podem ser divididos em três grupos: os marinhos, de água doce e
terrestres. As espécies de água doce são representadas pelas bivalves e gastrópodes,
enquanto no grupo terrestre só inclui os caracóis (gastrópodes). A sua importância para a
reconstrução paleoecológica se deve ao fato de que por algumas espécies de moluscos
possuírem grande sensibilidade climática (à temperatura, umidade e aspectos ecológicos
como o tipo de substrato, a presença de cálcio ou a cobertura vegetal) (Claassen,
1998:122; Preece, 2001:142), elas permitem o reconhecimento das condições local
ecológicas através do registro de alterações (como a modificação do curso fluvial ou a
introdução de um ambiente lacustre). Callapez (1992, 2002 e 2004), documentou
alterações importantes do ponto de vista ecológico regional através de estudos sobre
moluscos da Gruta do Caldeirão, que permitiu dados que contemplassem o final do
Plistocenino e o início do Holocenico do hinterland (gradientes de vegetação) da
Estremadura. As espécies de moluscos marinhos permitem o resgate de informações
importantes do ponto de vista de alterações climáticas gerais (Classen, 1998:130 in Bicho,
2006: 344), os gastrópodes (búzios e caracóis), bivalves (ameijoas e semelhantes),
escafópodes (dentálio), cefalópodes (lulas, chocos e polvos) e os crustáceos (caranguejos
e camarões) são espécies indicativas da ecologia humana dos sítios arqueológicos e
permitem o registro da presença de alguns ambientes deposicionais como os substrados
lodos, arenosos ou rochosos, que possibilitam o resgaste de informações como as
atividades econômicas, as explorações de recursos e padrões de ocupação.
10.4. Os mamíferos
As menores espécies de mamíferos são ótimos indicadores climáticos, uma vez
que são sensíveis a temperaturas mais altas, como o Verão. (Stines, 1995:74 in Bicho,
2006:345). Outros mamíferos indicadores de clima são algumas espécies de médio e
grande porte, como as renas, hipopótamos e mamutes. Assim como as outras espécies
discutidas anteriormente, os mamíferos também indicam variações climáticas que se
apresentam latitudinalmente, através de gradientes entre paisagens costeiras e
hinterlands. Portanto, as ecologias de latitudes altas parecem menos tolerantes às grandes
variações climáticas (como as glaciações).
Para o estudo dos mamíferos de médio e grande porte, o registro do conjunto de
espécies locais, assim como das florestas de tipo mediterrâneo ou atlântico, das zonas de
vegetação aberta e rasteira ou a espessura da cobertura de neve do solo, são importantes
para a análise. Isso se deve ao fato de que algumas espécies, apesar de possuírem
resistência as alterações climáticas, preferem outros ambientes, isso pode ser devido tanto
à caça quanto a sua defesa. Os cetáceos (baleias e golfinhos) e os pinípedes (focas e leões
marinhos) podem ser também interessantes para a reconstrução paleoecológica,
principalmente por algumas espécies contribuírem à reconstrução local e regional (uma
vez que são difíceis de serem caçados), e por serem bons indicadores climáticos. Os
lagomorfos (coelhos e lebres) também são ótimos delineadores de aspectos gerais
climáticos, principalmente pela sua sensibilidade às zonas frias. Através do estudo de sua
curva etária é possível, portanto, fornecer dados sobre a sazonalidade dessa ocupação. A
presença em abundância dessas espécies pode também indicar ocupações humanas.
O conjunto dos organismos presentes na microfauna são igualmente importantes
para a reconstrução paleoecológica (rincipalmente local, auxiliando a completar o cenário
geral de uma comunidade humana,) a partir da presença dos pequenos roedores,
insectívoros e quirópteros e sua sensibilidade que podem fornecer dados suficientes sobre
fatores climáticos e geográficos da região estudada. A origem das deposições pode estar
relacionada tanto com o transporte por predadores (que pode revelar o tipo de ambiente e
paisagem existente ao redor desse local) quanto a sua própria utilização do espaço.
10.5. A análise faunística
Após a perspectiva geral sobre o ambiente faunístico, Bicho se compromete neste
tópico, a esclarecer os processos que permitem a recolha, a análise e a interpretação dos
dados obtidos em campo.
O primeiro problema apresentado pelo autor está relacionado com a compreensão
do ciclo do conjunto faunístico. Ou seja, do momento da morte do animal até a recolha
desse material pelo zooarqueólogo. A tafonomia fornece técnicas para o estudo da caça,
do local de abate e desmancho do animal, transporte e a escolha dos membros a
transportar, o seu consumo, o respectivo abandono dos restos, os processos de diagênese
e conservação durante a deposição e o resgate dos depósitos. Esses estudos,
principalmente anatômicos, de identificação, permitem o esclarecimento das espécies
presentes no ambiente e, consequentemente, a partir das análises minuciosas dos
fenômenos, expor aspectos que relacionem o ambiente, o animal e o humano. Esse último,
pensando principalmente nas técnicas de caça, do grau de mobilidade e sedentarismo,
assim como as técnicas de armazenamento e arrecadamento e os processos de
domesticação (Bicho, 2006:351).
O processo tafonomico e o efeito tafonomico são conceitos importantes à
tafonomia, enquanto o primeiro é definido por Lyman, como “a ação dinâmica de uma
força ou evento físico que altera a carcaça ou o esqueleto do animal” (Bicho, 2006:359),
o último se é o resultado da ação do processo tafonomico sobre a carcaça do animal
(Lyman, 1994:35 in Bicho, 2006:359). Pode se organizar, portanto, em três vetores
principais: o dos objetos (que podem ser adicionados, removidos ou mantidos no lugar
desde a sua deposição); o do espaço (removidos ou não dentro de um certo contexto); e o
da modificação (pode ser modificado, seja por partição, mineralização ou queimação, por
processos externos). Os efeitos tafonomicos podem ser causados por vários sistemas,
como o da mortalidade (apresentado no último tópico do resumo), a desarticulação
(relacionados com o Efeito Schlepp, que estuda os processos que levam à desassociação
dos ossos da carcaça), a dispersão (processos que afastam os ossos da sua posição
original), a fossilização (alteração química dos ossos após a sua deposição) a fossilização
e a modificação química (que marca as alterações na estrutura física e morfológica dos
restos) e por último, o da equifinalidade (resultado de um ou mais processos tafonomicos
diferentes que produzem um mesmo efeito).
Com relação ao animal, a identificação da idade e do sexo podem ser importantes
para a reconstrução paleoecológica, assim como outros fatores fisionômicos, que podem
apresentar informações sobre a caça desses mesmos animais, como as hastes (no caso do
veado).
Para o estudo da sazonalidade da morte dessas espécies, a quantificação dos restos
faunísticos torna-se um elemento fundamental para a análise. O seu elemento básico é o
chamado número total de restos e pode ser dividido em outras duas variáveis: o número
de restos não determinados (ND) e número de restos determinados (NRD)
(correspondente aos ossos, dentes ou fragmentos do animal encontrado no sítio
arqueológico. Essas variáveis permitem o estudo da preservação dos ossos através do
rácio entre eles, além de permitir a base de uma outra variável, o número mínimo de
indivíduos (NMI) representando o número mínimo de animais de uma determinada
espécie presente no sítio, além de permitir, através de dados analíticos que permitem
estimar a quantidade de recursos alimentares trazidos para o sítio, a quantidade de pessoas
presentes ou do tempo que o sítio foi ocupado). A partir desse conceito, outros conceitos
foram consequentemente desenvolvidos devido a enunciação do chamo Efeito Schlepp
(Perkins e Daly, 1968) como é o caso do NME (número mínimo de elementos), em
resposta aos problemas de representação enfrentados pelo NMI, e o UAM (unidade
anual mínima).
O Efeito Schlepp “permite explicar a variação da presença relativa das várias
partes anatômicas de um animal nos sítios arqueológicos” (Bicho, 2006:254), e foi
desenvolvido a partir da observação de que os caçadores poderiam consumir parte da
carne no local de caça ou abate e transportando consigo tanto a carne quanto o osso.
Portanto, tal conceito, fornece um estudo baseado no fato de cada predatos ter o seu
próprio estilo de transporte e utilização de elementos anatômicos. Em 1978, outro
conceito é formulado por Binford, o de índices de utilidade, que na mesma linha de
raciocínio do Efeito Schlepp, se baseia na ideia de que partes diferentes do corpo do
animal tem utilidades e níveis de utilidade diferentes, delimitando o que determina o
transporte do caçador.
Outro fator importante para a quantificação faunística são os padrões de
mortalidade e podem ser determinados por um conjunto de variáveis das quais a mais
importante é o impacto dos predadores nos animais com menos capacidade de fuga (ou
seja, os mais novos e os mais velhos); não é do tipo seletivo, pode causar morte em massa
e tem origem natural através de eventos de tipo catastrófico e antrópico, que é
representado pela “Curva em U”. Outro padrão de mortalidade é aquele em que o agente
elimina um grupo num só momento, a curva de tipo catastrófico ou “Curva em L”, de
tipo seletivo e pode também estar ligada a outros fatos como acidentes, doenças e nutrição
deficiente. A terceira possibilidade é seletiva, onde a dominância de morte está focada
nas classes etárias dos adultos, muito comuns em contextos arqueológicos.

(Bicho, 2006: 357)

Outro tipo de análise e apresentação gráfica desenvolvido para o conjunto de


curvas de mortalidade foi criado por Stines, onde é possível observar os três tipos de
curvas apresentados anteriormente em relação aos sítios.
(Bicho, 2006:358)
Arqueologia I – Pré-História geral
Júlia Dias

Resumo do capítulo 11 do livro “Manual da Arqueologia Pré-Histórica”, de Nuno


Ferreira Bicho.

Este capítulo irá abordar, principalmente, perspectivas metodológicas biológicas.


Isso se dá em razão de que não há impactos da comunidade humana sobre a vegetação na
pré-história. Portanto, para o estudo da reconstrução paleológica, se privilegia a vertente
natural do desenvolvimento e evolução da cobertura vegetal.
Assim como determinadas espécies de animais, as plantas também podem
fornecer informações sobre as variações climáticas, e por se situarem na base da cadeia
alimentar, são um importante objeto de observação para se analisar o tipo de nichos
ecológicos que se desenvolveram ao seu redor.
Este capítulo se dedica, portanto, à abordagem de diversos conjuntos de dados
paleoambientais, divididos entre microbotânica (polens, fitólitos e diatomáceas) e
macrobotânica (carvões e madeiras – antracologia-, caroços, sementes e frutos –
carpologia).

11.1 Os restos microbotânicos


As diatomáceas, são algas unicelulares marinhas e de água doce e podem ser
divididas em dois grupos: um que apresenta gravuras radicais e são circulares e outra
marcada por um alongamento destas algas unicelulares. Sensíveis a alterações ambientais,
elas permitem de forma simples uma reconstrução ambiental. A sua composição e
frequência possibilita até a obtenção de dados sobre a variação do nível das águas
(lacustres ou marinhas), detalhando sequências de regressão e transgressão nesses
ambientes (Rapp e Hill, 1998:95 in Bicho, 2006:363). Alguns problemas encontrados,
portanto, envolvem o seu transporte. Por serem fáceis de serem carregadas pelo vento, as
diatomáceas podem fornecer dados errados para a interpretação do paleoambiente (Rapp
e Hill, 1998:95 in Bicho, 2006:363). Além de indicadores paleoclimáticos, as
diatomáceas também podem servir como indicadores de proveniência.

(Bicho, 2006:362)
Os fitólitos (plantas de pedra) começaram a ser reconhecidos desde muito cedo,
em 1908 (Renfrew e Bahn, 1991:211) e se trata de “pequenos corpos siliciosos que se
formam dentro das células de determinadas plantas e que se caracterizam por morfologias
variadas que [...] permitem sua identificação” (Bicho, 2006:363). Quando ocorre a morte
da planta, somente os seus restos minerais sobrevivem, ou seja, o fitólito, que é resistente
a oxidação, mas destruído em ambientes ácidos. É raro a identificação da espécie dessas
plantas, principalmente porque a formação de fitóilitos se dá somente em certas famílias,
como as Poáceas, as Aráceas, Ciperáceas, Pináceas ou as Musáceas, assim como todo
tipo de gramíneas.
A amostra de sedimento passa por um processo de tratamento e extração, que
envolvem a remoção (através de tratamento térmico denominado oxidação seca ou
tratamento químico, como a oxidação por via úmida) de materiais orgânicos. Apesar de
vantajosos, principalmente por frequentemente aparecerem bem preservados em solos e
paleosolos (o que fornece uma melhor perspectiva local) (Delhon et al., 2003:58), por
algumas formas serem semelhantes à outras famílias, os fitólitos podem fornecer algumas
desvantagens com relação a identificação do tipo de plantas que se encontra presente no
depósito.
Pensando nos métodos de reconstrução paleobotânica (micro ou macrobotânicos)
para a reconstrução paleoecológica, o método da palinologia é um dos métodos que
permitem a reconstrução do tipo de oscilações diacrônicas de uma paisagem vegetal. É
assentado, principalmente, “no facto de os grãos de pólen apresentarem uma proteccção
exterior muito dura e rígida [...] permitindo-lhe a preservação em determinados
sedimentos” (Bicho, 2006:366). Ela aparece no início do século XX, com os trabalhos
das turfeiras de Escandináveia por Axel Blutt, Johan Rutger Sernander e Lannard von
Post. A análise polínica é baseada num conjunto básico, onde se deve destacar: I) todas
as plantas produzem pólen, portanto, é possível estabelecer uma relação entre a produção
e a paisagem vegetal; II) cada espécie produz quantidade diferente de polén (assim como
a sua morfologia) e III); é importante considerar a abundância absoluta de cada espécie.
(Rapp e Hill, 1998:91 in Bicho, 2006:366). É importante, sobretudo, considerar a forma
de dispersão desses grãos de pólen, que podem ser tanto feitas pelo vento, como a água,
animais, gravidade ou o próprio homem (Mateus, 1996:101; Mateus et al., 2003). Assim
como é também importante para o estudo polínico, conhecer o tamanho e a morfologia
do pólen para se entender a deslocação e o local da sua deposição. No caso dos sítios
arqueológicos, é importante a sua localização, assim como a sua orientação em relação
ao vento ou às águas, enquanto no caso das grutas e abrigos, além da localização, é
também importante conhecer a morfologia e a orientação da entrada (sabendo-se que esta
pode impedir a deposição de certos polens e consequentemente parando de modo efetivo
a diversidade e frequência de certas espécies no exterior da cavidade).
“A reconstrução paleoecológica faz-se com o recurso a analogias de situações
actuais, isto é, conhecendo-se conjuntos polínicos actuais de uma determinada região que
espelhem um ecossistema vegetal determinado presume-se que uma paleoamostra com
frequências polínicas semelhantes reflicta uma paisagem idêntica.” (Bicho, 2006:368).
(Bicho, 2006:368)
11.2. Os restos macrobotânicos
Sementes, caroços ou grandes fragmentos de madeiras, os restos macrobotânicos
são diversos. No caso de Portugal, esses casos são raros na Pré-História portuguesa.
Assim como no caso dos vestígios microbotânicos, os restos macrobotânicos também
sofrem com os problemas de nível tafonomico e da formação do registro arqueológico
que devem ser ponderados. Portanto, problemas como dispersão e deposição não são
encontrados nestes estudos. Alguns desses componentes podem ser encontrados, como
no caso dos grãos de cereal, na composição de cerâmicas pré-históricas ou no interior dos
recipientes. A dendrocronologia constitui também um valioso elemento para a
reconstrução paleoecológica. Em Portugal, por se tratar de uma metodologia não usada
no local, o registro mais importante para a reconstrução da cobertura vegetal é conhecido
como antracologia, desenvolvida recentemente na França na década de 70 com os
trabalhos de Vernet (1973; in Figueiral 1994:428 in Bicho, 2006:372), que se assenta na
análise de carvões dispersos associados a um nível arqueológico determinado. O
conhecimento do contexto de onde foram retiradas as amostras é imprescindível para a
reconstrução paleoecológica. Essas amostras exigem, portanto, uma outra coleção
comparativa para a sua análise minuciosa. Nos sítios arqueológicos a presença de
estruturas de combustão é comum, o que revela os carvões concentrados que podem ter
origem tanto de um tronco quanto de um lenhas recolhidas de uma só arvore, refletindo
somente uma parcela da ecologia vegetal local. Através da análise dessas escolhas, é
possível, sobretudo, identificar questões comportamentais do grupo humano local, que
pode indicar preferências.