Você está na página 1de 5

A PRACTICAL GUIDE TO “MUSICA FICTA”

Resenha comentada sobre texto de Nicholas Routley

INSTITUTO DE ARTES DA UNESP

TEORIA MUSICAL - POLIFONIA DOS SÉCULOS XV E XVI

Prof. Dr. Marcos Fernandes Pupo Nogueira

Aluno: José Luiz Ribeiro de Carvalho


O artigo de N. Routley tem o objetivo de esclarecer aspectos
da música escrita antes do século XVI, especialmente no que diz
respeito ao uso de modos e suas alterações cromáticas. Há
evidências de que a música da velha Renascença apresentava
cromatismo tão acentuado quanto à música tonal de nossos dias,
no entanto essas alterações eram raramente anotadas na
partitura uma vez que foram criadas a partir de convenções e
práticas da época. O cromatismo modal, como hoje definimos,
servia essencialmente para sublinhar e destacar palavras e afetos
contidos no texto.

As convenções que regulamentam o uso de inflexões


cromáticas na musica medieval e renascentista são conhecidas
pela expressão musica ficta, sendo um importante pré-requisito
para o estudo das obras daquele período. O autor salienta que
durante o século XVI os compositores passaram a usar cada vez
mais alterações não definidas pela armadura de clave e a maior
parte dessas inflexões não era sequer anotada na partitura devido
a um costume de época. A partir dessas premissas, Routley nos
apresenta uma espécie de roteiro para pesquisadores e
intérpretes compreenderem melhor aquelas convenções que há
muito tempo caíram em desuso.

Os conceitos teóricos abordados inicialmente neste trabalho


dizem respeito ao sistema que precedeu nosso sistema tonal
moderno como método de organização do espaço sonoro, vigente
no século XVI, o sistema hexacordal.
Hexacorde é uma organização escalar de seis graus
diatônicos, que serviu de base a solmização guidoniana, técnica
utilizada no ensino e prática da musica europeia por mais de seis
séculos, até o Renascimento no século XVI. Nesse sistema a leitura
das notas não possuía nomes fixos e sua característica principal é
a entonação do semitom com as notas mi – fá. Solmização é o
processo de assinalar nomes as notas, de acordo com sua posição
no hexacorde, que por sua vez apresentava três espécies.

Hexacorde natural – iniciando em Dó e sem alterações

Hexacorde mole – iniciando em Fá e usando si bemol

Hexacorde duro – iniciando em Sol e usando si natural

Os hexacordes são repetidos e sobrepostos numa certa


sequencia para cobrir uma tessitura entre Sol-1 e Mi-4, espaço
sonoro intervalar conhecido como Gamut. O sistema hexacordal é
o predecessor de nosso sistema de solfejo (Sol-Fa) possuindo
somente seis notas ao invés de sete, uma diferença importante
para compreensão e uso daquele sistema. Desse modo se uma
linha melódica exceder o intervalo de sexta é necessário mudar de
hexacorde, proceder a uma mutação, pois não havia uma silaba
para indicar nome da nota Si (entoado como Mi).
O Gamut ficou conhecido como o sistema da Musica Recta
enquanto todas as notas não presentes no Gamut ficaram
conhecidas como Musica Ficta. Era esperado que cantores e
instrumentistas permanecessem no sistema de musica recta a
menos que certas convenções indicassem para cantar musica ficta,
ou seja, aplicar inflexões cromáticas.

Na prática, permanecer no sistema de musica recta, significa


uma preferência pelo uso dos hexacordes do Gamut. É
interessante observar que o sistema de musica recta contém tanto
o Si bemol quanto o Si natural (presentes nos hexacordes molle e
durum) uma conveniência que o torna parecido com o sistema
diatônico moderno. Alterar os hexacordes do Gamut se justificava
de acordo com certos princípios que veremos a seguir.

Esses princípios pertencem a duas categorias, a saber..

 Os relacionados às consonâncias perfeitas


 Os relacionados às consonâncias imperfeitas

O primeiro caso se justifica pela necessidade (causa


necessitatis) de se evitar o trítono e preservar justos os intervalos
de quarta, quinta e oitava.
O segundo caso contempla uma série de aplicações feitas em
nome do embelezamento melódico (causa pulchritudinis) como,
por exemplo, fortalecer uma cadência, finalizar com terça maior
(picardia), alterar o sétimo grau do modo (sensível) e alterar nota
do motivo melódico para reservar uma relação intervalar de
imitação estrita nas passagens canônicas.

Eventualmente surgem situações de conflito entre essas


regras de aplicação da musica ficta. Nesses casos, o conhecimento
profundo do estilo, combinado à compreensão correta do contexto
musical devem decidir qual a melhor opção. Em outras palavras, a
experiência prática e o conhecimento das regras e convenções é
que modela e define o bom gosto do interprete.

Em geral, muito mais musica ficta foi aplicada na música


medieval e renascentista do que a que encontramos na maior
parte das edições. Na tentativa de aplicar as regras acima
descritas devemos lembrar que considerações de estilo (“bom
gosto”) também podem dificultar na escolha dentre boas
alternativas de inflexão cromática. Afinal, é razoável supor que as
regras devem ter mudado pouco, enquanto que a aplicação pratica
daquelas deve ter mudado bastante no decorrer da Idade Media e
Renascença.

São Paulo, 05 de novembro de 2019.