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A Administração Pública, em concurso público, pode desclassificar candidato

com deficiência por inaptidão declarada por perícia médica?

Can the Administration, in a public tendering, disqualify a medically attested


disabled applicant?

ISADORA PONTES TINÉ

RESUMO
A temática que discute a classificação de concorrente deficiente a cargo público averiguado pela
Administração Pública gera uma série de controvérsias, contudo, a reserva de vagas para portadores
de necessidades especiais em concursos dessa espécie é constitucional, e está prevista na no art. 37,
VIII, da Constituição Federal. Isto posto, é necessário averiguar os casos em que realmente há o
impedimento justo do individuo, que pode reclamar laudo médico se sentir-se prejudicado. A lei
possui uma série de especificidades, que devem ser analisadas, e por conseguinte adequadas a cada
caso.

Palavras-chave: Constituição, aptidão, concurso, deficiência, cargo público, vagas, candidatos.

ABSTRACT
A theme that discusses a classification of deficient competitor in average public load by the Public
Administration generates a series of controversies, however, a reservation of places for holders of
special promotions in contests whose nature is constitutional, and is prohibited in the art. 37, VIII, of
the Federal Constitution. In this post, it is necessary to evaluate the cases in which there is really fair
impediment for the individual who can recover the medical report if he feels harmed. The law has a
number of specificities, which must be analyzed and why they should be applied to each case.

Keywords: Constitution, aptitude, competition, disability, public office, vacancies, candidates.


1. INTRODUÇÃO

Este artigo tem como tema as relações entre o mercado de trabalho, com relação as pessoas
necessitadas de atendimento especial (seja física, auditiva, visual, mental ou mista). Tratando-se de
uma análise do posicionamento não apenas social mas também da própria Administração Pública
frente a estes indivíduos. É necessário avaliar se há uma oportunidade inclusiva no mercado de
trabalho, pontuando as Políticas Públicas no amparo aos Direitos das Pessoas com Deficiência. Assim
é possível investigar objetivamente: pessoas com deficiência e o direito ao trabalho (no serviço
público), tendo como base o Decreto Federal nº 3.298/99, que determina as cotas a serem cumpridas
nos setores público e privado. O segmento adotado pelos concursos públicos teve início
principalmente pelo fator isonomia e impessoalidade da seleção pública. A lei de cotas prevê a reserva
de vagas em todos os cargos. No setor privado cada empresa pode eleger sua forma de contratação e,
cumprindo sua cota, estipular quais cargos/funções serão ocupados por pessoas com deficiência. A
pesquisa em questão justifica-se pela importância em se discutir o que podemos observar, passados
14 anos dos anseios de uma “Educação para Todos”. ]

2. O SEGMENTO ADOTADO PELAS POLÍTICAS PÚBLICAS

No âmbito do debate sobre a desclassificação através de laudo médico afirmando inaptidão de


determinado concorrente deficiente a cargo público averiguado pela Administração Pública gera uma
série de controvérsias, contudo, a reserva de vagas para portadores de necessidades especiais em
concursos dessa espécie é constitucional, e está prevista na no art. 37, VIII, da Constituição Federal:

Art. 37. Fica assegurado à pessoa portadora de deficiência o direito de se inscrever em


concurso público, em igualdade de condições com os demais candidatos, para provimento de cargo
cujas atribuições sejam compatíveis com a deficiência de que é portador.

Podemos citar como exemplo o próprio Poder Executivo Federal, que possui uma determinação
legal que reserva de 5% a 20% das vagas em disposição para portadores de necessidades especiais.
Isto posto, se faz necessário elencar pontualmente os tipos de deficiência previstas pela legislação
com relação ao exercício de cargo público, sendo elas: a deficiência física, é uma limitação do
funcionamento físico motor do indivíduo, os problemas ocorrem no cérebro ou sistema locomotor,
levando a um mau funcionamento ou paralisia dos membros inferiores e/ou superiores; a deficiência
auditiva, essa condição pode ser aferida por audiograma e refere-se a perda parcial ou total da
audição; deficiência visual, é a limitação ou perda das funções básicas do olho e do sistema visual;
deficiência mental e a deficiência múltipla, que é o conjunto de duas ou mais deficiências. A partir da
avaliação médica e da observação dos exames laboratoriais e complementares entregues, o candidato
será considerado adequado ou não. Portanto, o conselho médico tem o dever de emitir uma opinião
conclusiva (motivada) sobre a adequação ou inadequação de cada um. Ainda assim, na hipótese de
desacordo no exame médico, ou se, porventura, o indivíduo concorrente sentir-se danado, o fato
poderá ser estendido à justiça e necessitará do juiz para ponderar se as limitações podem entrar na lei
de cotas para os candidatos com deficiência ou se deve haver revisão de tal avaliação essa medida
busca dar igualdade de condições na competição entre os candidatos a um cargo. Quando um caso
vai parar na Justiça, porém, mesmo que a deficiência em questão não esteja listada nos decretos, a
decisão vai depender da interpretação de quem julga o caso, o que é analisado é se a deficiência gerou
alguma desvantagem de fato para a pessoa durante seus estudos. Há casos em que as deficiências não
geram impedimentos para a pessoa, não se reconhecendo a condição de deficiência para a reserva de
vagas nessas situações. Ainda sim, o candidato tem o direito de não ser eliminado na fase de exame
de saúde por decorrência de erro médico ou de laboratório, de acordo com os princípios da
razoabilidade e proporcionalidade. Portanto, não é razoável eliminar candidato aprovado em concurso
público pelo fato de apresentar exames laboratoriais exigidos em data posterior à estipulada,
sobretudo se o fato ocorreu por falha do laboratório ou erro médico, devidamente comprovado, nesta
situação torna-se evidente a culpa de terceiro. Pois decorre da vontade alheia a do candidato, sendo
que sua reprovação é consequência de uma conduta sem relação com as suas intenções ou ações.
Podemos elencar algumas posições do ordenamento a respeito desse tema: Mandado de
Segurança. Concurso Público. Inspeção de Saúde. Ausência de Laudos. Falha do Hospital. Culpa
exclusiva de terceiro. Impossibilidade de imputação da responsabilidade ao candidato. Caso Fortuito.
1. Tendo restado demonstrado que o impetrante realizou todos os exames exigidos e os entregou à
banca examinadora no prazo correto, desarrazoada se torna sua eliminação por ato decorrente de culpa
exclusiva de terceiro, qual seja do hospital no qual realizou os testes, que, por mero erro material,
deixou de anotar no laudo os resultados de dois dos vários exames oftalmológicos realizados. 2.
Segurança concedida. (TJ-DF – MS: 20060020045254 DF, Relator: J.J. COSTA CARVALHO, Data
de Julgamento: 26/09/2006, Conselho Especial, Data de Publicação: DJU 05/12/2006 Pág. 72). A
eliminação de candidato em concurso público em virtude de uma avaliação médica apenas pode
ocorrer quando não houver dúvida, para um número mínimo de especialistas, quanto à absoluta
ausência de condições psicológicas/patológicas do sujeito para exercitar as competências próprias do
cargo. Sendo assim, é direito do candidato de apresentar exames complementares quando houver
dúvidas na análise dos exames inicialmente pedidos, e dever do próprio providenciar todos exames,
sob pena de eliminação, exceto se provar que houve culpa de terceiros, como erro médico ou do
laboratório. Por fim, os candidatos possuem o direito de não ser eliminados na fase de exames
médicos por motivos transitórios ou desarrazoados. Não é possível que qualquer motivo meramente
alegado gere a eliminação do candidato no exame de saúde. O motivo deve estar previsto em lei e
tem que ser demonstrada as relações entre a enfermidade e como esta será prejudicial ao cargo
pleiteado. Isto é, a exigência deve ser razoável, sob pena de inconstitucionalidade. O cerne da
discussão é justamente a fragilidade das decisões de juízes, Tribunais e Supremo Tribunal Federal,
quanto ao conceito de “aptidão plena” do candidato para determinar funções compatíveis.
Foi publicado, em outubro de 2018, no Diário Oficial da União um decreto do então presidente
Michel Temer que alterou o decreto nº 9.508, de 24 de setembro do mesmo ano, para excluir a previsão
de adaptação das provas físicas para candidatos com deficiência. Com isso, os critérios de aprovação
dessas provas poderão seguir os mesmos aplicados aos candidatos sem deficiência. O decreto nº 9.508
em sua primeira versão assegurava a adequação no Artigo 4º:
Art. 4º Fica assegurada a adequação de critérios para a realização e a avaliação das provas de que
trata o inciso III do art. 3º à deficiência do candidato, a ser efetivada por meio do acesso a
tecnologias assistivas e a adaptações razoáveis, observado o disposto no Anexo.

No entanto, a mudança prevê apenas a possibilidade de uso de tecnologias assistivas que o


candidato com deficiência já utilize, sem que seja necessário realizar adaptações adicionais, inclusive
durante o curso de formação ou estágio. Determinar também que os critérios de aprovação nas provas
físicas seja o mesmo para candidatos com deficiência e sem. Em provas escritas e práticas, inclusive
em curso de formação, estágio ou período de experiência, nada foi alterado.
Abaixo a íntegra das alterações do decreto:

II – a previsão de adaptação das provas escritas e práticas, inclusive durante o curso de formação,
se houver, e do estágio probatório ou do período de experiência, estipuladas as condições de
realização de cada evento e respeitados os impedimentos ou as limitações do candidato com
deficiência;
IV – a exigência de apresentação pelo candidato com deficiência, no ato da inscrição, de
comprovação da condição de deficiência nos termos do disposto no § 1º do art. 2º da Lei nº 13.146,
de 6 de julho de 2015, sem prejuízo da adoção de critérios adicionais previstos em edital;
V – a sistemática de convocação dos candidatos classificados, respeitado o disposto nos § 1º e § 2º
do art. 1º;
VI – a previsão da possibilidade de uso, nas provas físicas, de tecnologias assistivas que o candidato
com deficiência já utilize, sem a necessidade de adaptações adicionais, inclusive durante o curso de
formação, se houver, e no estágio probatório ou no período de experiência.”
 4º Os critérios de aprovação nas provas físicas para os candidatos com deficiência, inclusive
durante o curso de formação, se houver, e no estágio probatório ou no período de experiência,
poderão ser os mesmos critérios aplicados aos demais candidatos, conforme previsto no edital.”

Em uma sociedade ainda distante do ideal de igualdade entre seus cidadãos, é constante o debate
sobre meios de inclusão daqueles que se encontram à margem das chances profissionais e da vida
social. Mas diante de todo esse acervo normativo, pode-se concluir que é perfeitamente possível a
disputa de cargos públicos no percentual destinado aos candidatos portadores de deficiência por
aqueles que são cometidos por deficiência mental, desde que se enquadrem no conceito do art. 4º do
Decreto 3.298/99 e haja compatibilidade entre a deficiência existente e as atribuições do cargo
almejado. Apesar disso, muitos candidatos portadores de deficiência acabam barrados na etapa da
avaliação médica que antecede a efetivação da nomeação no cargo, prática esta que vem sendo
rechaçada pelo STJ[3]e Tribunais Regionais Federais, na medida em que a eventual incompatibilidade
entre as atribuições do cargo e a deficiência apresentada somente pode ser avaliada de forma legítima
por equipe multiprofissional, a ser realizada durante o estágio probatório

3. POLÍTICA ABRANGENTE

Observando que, entre todas as atividades, o trabalho é que está diretamente ligado à dignidade
humana, por propiciar recursos necessários à subsistência, à realização pessoal e até a aceitação no
meio social, abordaremos a inclusão como uma das formas de aproximar a relação escola/educação
na perspectiva de que a escola deve assumir sua responsabilidade ao receber o aluno e prepará-lo para
a vida em sociedade. De acordo com Bueno (2008), dentre as políticas educacionais no mundo, a
inclusão pode ser considerada o tema mais candente; basta acompanhar as políticas internacionais, os
discursos políticos, as ações do governo e de muitas escolas. Enfim, segundo o autor, a inclusão
escolar, que deve conduzir à inclusão no trabalho e na sociedade, está “na ordem do dia” e surge como
a “nova missão da escola”. Nessa mesma perspectiva, Patto (2008) chama a atenção para o uso
epidêmico da palavra “inclusão”, principalmente em um momento em que o capitalismo “exclui um
enorme contingente da população economicamente ativa e produz excedente de mão de obra,
avançando em estereótipos e preconceitos”, quais sejam: cor da pele, nível de escolaridade ou pessoa
com deficiência. Num momento de dispensa em massa do trabalho, fala-se o tempo todo em incluir.
Resta saber em que termo. Este é o cerne da questão.
Para chegar a uma conclusão é preciso entender o processo de exclusão sob o modo capitalista
de produção ontem e hoje. (Patto, 2008, p.26) No VII Seminário de Cegos, Batista (2007), em sua
explanação sobre os direitos universais de igualdade e análise sobre educação e trabalho, definiu que
o trabalho para o capital se resume em “transformar um ato criativo em potencialidades”, e que o
ensino “adestra” para dar conta da tecnicidade do trabalho. Daí a diferença entre a divisão técnica e a
divisão social do trabalho. Afirmou, ainda, que, para o capital, a pessoa com deficiência é significada
como “força não produtiva”, ou “produtiva em menor escala”, que não interessa ao capital. Logo, sua
inserção no mercado de trabalho. é dificultada, tendo ressaltado a responsabilidade da escola em
incluir o aluno e prepará-lo para esta sociedade.
Está implícito que a sociedade jamais incorporará a todos, e terá, assim, que ser
permanentemente inclusiva, o que vai de encontro à construção de uma sociedade democrática, que
gradativamente incorporasse a “massa de deserdados produzidos por políticas injustas e de
privilegiação das elites sociais” (Bueno, 2008 p.57). Se a inclusão não é, de fato, responsabilidade
exclusiva da escola, e as perspectivas para o futuro apontam para uma sociedade excludente, sempre
haverá a quem incluir na escola, e, do mesmo modo, na sociedade, pois a inclusão social se dá por
meio do trabalho, e este também não será para todos (Bueno, 2008). De acordo com o autor, suas
críticas não são no sentido de apontar as impossibilidades de se construir ou se investir em políticas
de inclusão, mas de contribuir para que a história possa tomar um rumo diferente, para que o futuro
seja no mínimo melhor que o presente. À luz de tais considerações e para responder as inquietações
que originaram esta pesquisa, faremos as análises, possíveis, dos resultados obtidos pelos candidatos
inscritos e amparados pela lei de reserva de vagas às pessoas especiais.

4. DESEMPENHO

Considerando como tem sido a “concorrência” no universo que compreende o desempenho


aferido por avaliação escrita (objetiva e/ou discursiva), valendo-se de conteúdos escolares gerais e
específicos de carreira, verificaremos a relação de aprovados para comparar os resultados e tentar
responder à problematização deste trabalho, ou seja, se as pessoas com deficiência dependem
exclusivamente de cotas e permanecem concorrendo entre si, nos concursos públicos. O volume de
dados detalhados por cargo é de tal monta que sorteamos três concursos para fazer a análise sobre os
habilitados e não habilitados, cada qual em um dos anos considerados. Esses concursos foram: 2005
– Estado do Rio Grande do Norte, vários cargos, com exigências de Nível Médio (regular e técnico)
e diversas áreas de formação em Nível Superior; 2006 – Estado do Amapá, com exigências de Nível
Médio, qualquer formação em Nível Superior e formação em Direito; 2007 – Distrito Federal, com
cargos que exigiam formação em Nível Médio e Superior. A tabela 2 mostra os cargos que receberam
inscrições de candidatos com deficiência. Vale destacar que, neste concurso, também foram abertas
inscrições para cadastro reserva para os cargos de nível superior em Engenharia, Medicina,
Odontologia e uma vaga reservada aos portadores de deficiência para o cargo de Taquígrafo, porém
nenhum deles recebeu inscrição de pessoas com deficiência. Para o nível médio, apesar de haver uma
vaga reservada para portadores de deficiência nos cargos com exigência de formação técnica em
Enfermagem, Higiene Dental, Operador de Computador e Programador e formação de cadastro
reserva para o cargo de Técnico de Enfermagem, nenhum candidato portador de deficiência se
inscreveu.
Diversos documentos internacionais foram assinados no sentido de proteger os direitos das
pessoas com deficiência. Faremos breve relato do caminho que o Brasil tem percorrido para garantir
tais direitos, em especial daqueles que privilegiam educação e trabalho. É sabido que, historicamente,
as pessoas com deficiência estiveram à margem da sociedade, lançadas a toda sorte de preconceitos.
A luta pela garantia dos direitos básicos de cidadania tem aumentado gradativamente, e os termos
utilizados, como inválido, defeituoso, desvalido, incapaz, que já denotavam preconceito, como se
fossem pessoas dispensáveis ao cotidiano social produtivo ou pessoas sem valor, foram alterados
(continuam sendo) em razão de pressões dos movimentos sociais (Gugel, 2006). Ressalte-se que os
direitos das pessoas com deficiência são garantidos, como a qualquer cidadão brasileiro, pela
Constituição Federal de 1988 que, por sua vez, em seu artigo 208, determina, como dever do Estado,
garantir “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência”. Tratando-se da
inclusão no mercado de trabalho, o Decreto Federal nº 914, de 6 de setembro de 1993, no Capítulo
III, artigo 5º, aponta as Diretrizes da Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de
Deficiência (Brasil, 1993). Na Conferência Mundial de Educação Especial, realizada em Salamanca,
Espanha, representantes de 88 governos e 25 organizações internacionais já discutiam sobre a
educação inclusiva, reafirmando o compromisso da “Educação para Todos”.
Esse documento, denominado Declaração de Salamanca (1994), reconhece a necessidade e
urgência de providências em relação ao sistema regular de ensino e recomenda a preservação do
direito fundamental da educação a todos, resguardadas as características de cada indivíduo. No Brasil,
dois anos depois, foi instituída a Década da Educação, com a promulgação da LDB – Lei de Diretrizes
e Bases nº 9.394, de 1996, determinando metas que deveriam ser cumpridas no prazo de dez anos, a
partir de um ano da publicação da referida lei. O artigo 3º apresenta os princípios sob os quais o
ensino deve ser ministrado e, em seu inciso XI, expõe vínculo entre a educação escolar, o trabalho e
as práticas sociais. Destarte, a LDB vincula a educação especial a educandos com necessidades
especiais, que inclui, mas não se refere exclusivamente às pessoas com deficiência, pois o aluno pode
ter necessidade educativa especial e não ser portador de deficiência, dada a amplitude do conceito de
necessidades educacionais especiais, que abrange diversos segmentos da população, sendo o aluno
com deficiência um desses segmentos.
Com relação à Política Nacional para Integração das Pessoas Portadoras de Deficiência, o já citado
Decreto Federal nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, que regulamenta a Lei nº 7.853/89, estabelece
normas que objetivam assegurar o pleno exercício dos direitos individuais e sociais das pessoas
portadoras de deficiência. Esse Decreto traz a definição de deficiência (artigo 3º e 4º), as
competências do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Conade) e da
Coordenadoria para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde). É este decreto, também,
que trata pormenorizadamente da atuação de empresas em relação à contratação, ou seja, estabelece
cotas a serem cumpridas, para definitivamente garantir o direito – dentre outros – ao trabalho (Brasil,
1999). A retomada dos fatos que apresentam a influência do mercado de trabalho na educação, bem
como o desenvolvimento de políticas públicas, fez-se necessária para que, no decorrer desta pesquisa,
possamos traçar o perfi l das pessoas com deficiência que têm concorrido a cargos públicos e analisar,
de forma crítica, como a escola está “entregando” os alunos vindos do processo de inclusão para a
sociedade e, em especial, para o competitivo mercado de trabalho.

5. FORMAÇÃO SOCIAL DO INDIVIDUO COM NECESSIDADES ESPECIAIS


Na Constituição Federal, assim como na legislação infraconstitucional mais recente, emprega-
se a expressão pessoa portadora de deficiência. Em relação às palavras anteriormente utilizadas,
representou um avanço, haja vista, por exemplo, o emprego de palavras como surdo-mudo (expressão
adotada desde o Código Civil de 1916), totalmente inadequada, pois são raríssimas as pessoas que,
além de surdas, não têm capacidade para emitir os sons da fala. Ocorre que, não ouvindo tais sons, e
não sendo treinadas adequadamente para tanto, elas não aprendem a emiti-los, acabando
espontaneamente por usar a linguagem gestual-visual. Também eram empregadas nos textos legais
algumas outras palavras ou expressões ainda menos precisas. Exemplifica-se: na Lei nº 4.613/65,
emprega-se a expressão pessoa portadora de defeitos físicos para delimitar as pessoas beneficiárias
da isenção de impostos de importação de veículos especiais.
Na Lei nº 5.869/73, art. 151, III, que institui o Código de Processo Civil, emprega-se o termo
incapaz para se referir, entre outros, aos “...surdos-mudos, que não puderem transmitir a sua vontade
por escrito”; ou seja, um termo inadequado a retratar, inadequadamente, determinado grupo de
pessoas com deficiência, que são os surdos; emprega também o termo “pródigo” (art. 1.185), que
carece de precisão, mesmo que a referência bíblica da conhecida parábola pertença ao senso comum.
Neste aspecto, alerta TABORDA para a constituição de categoria jurídica já que “O conceito de
prodigalidade é jurídico, embora transtornos mentais possam ser responsáveis pelo comportamento
pródigo, o qual será, então, um sintoma”. Na lei nº 7.210/84, que institui a Lei de Execução Penal,
encontra-se as expressões deficientes físicos (art. 32, § 3º) e mental (art. 117, III).8 Outro termo
bastante encontrado na doutrina é incapacidade. A incapacidade pode advir como consequência ou
não de uma deficiência. O paraplégico tem incapacidade para andar.
O surdo tem incapacidade para ouvir sons da fala. O cego tem incapacidade para ver objetos.
Entretanto, o indivíduo que está numa cama, todo engessado, também é incapaz, enquanto perdurar
tal situação, de andar, de se locomover, de praticar os atos da vida diária com autonomia. Assim, o
termo incapacidade exige explicações, até em matéria de transitoriedade ou definitividade, sem as
quais funciona como elemento que aniquila com o futuro de qualquer pessoa. Todavia, o nosso
ordenamento jurídico não é o único a empregar palavras e expressões inadequadas na área de
abrangência das pessoas com deficiência. No próprio meio das entidades organizadas por e voltadas
às pessoas com deficiência, a circunstância ainda acontece. A palavra excepcional é uma delas. Ela
começou a ser empregada nos anos cinqüenta, de modo eufemístico, para se referir àquelas crianças
cujo desenvolvimento se desviava do padrão tido normal para o seu grupo, mas ainda hoje está em
uso. Sustentando essa persistência estão, principalmente, as Associações de Pais e Amigos de
Excepcionais (APAEs). A primeira APAE foi fundada no Rio de Janeiro em 11 de novembro de 1954,
sendo que, em 1962, era criada a Federação Nacional das APAEs. Atualmente, as APAEs estão
presentes em quase 2.000 municípios.9 Nos dicionários, o adjetivo excepcional é empregado para
qualificar aquilo que é ou que envolve exceção. Nessa linha de raciocínio, dizer que uma criança é
excepcional, necessariamente, deve vir seguido de um complemento explicitando em que ela é
excepcional. Então, só esta argumentação é suficiente para autorizar a dizer que se trata de um termo
completamente inadequado para qualificar uma pessoa com deficiência. Como a sigla APAE se
transformou praticamente em uma marca, retirar-lhe a palavra excepcional ou trocá-la por outra
significaria alterar algo reconhecido nacionalmente. Ressentem-se bem disso as entidades que não
carregam essa sigla. Por exemplo, quando o presidente de uma entidade que atua na área da pessoa
com deficiência visual necessita estabelecer diálogo com um representante do Poder Público, não
importa aqui individualizar motivos, de regra, esta é a primeira pergunta que lhe é formulada: qual é
mesmo a sua APAE? E como não é representante de APAE, terá que tecer bons esclarecimentos ao
seu interlocutor, quanto à origem, propósitos e atuação da entidade assistencial representada.
A expressão pessoa portadora de deficiência começou a ser usada na legislação a partir de 1985,
com a Lei nº 7.405/85, que tornou obrigatória a colocação do Símbolo Internacional de Acesso. A Lei
7.853/89 inaugura de fato a tutela jurisdicional de interesse coletivo ou difuso10 desse
importantíssimo segmento da sociedade, adota a expressão pessoa portadora de deficiência e
disciplina a atuação do Ministério Público.11 Ao introduzir a expressão pessoa portadora de
deficiência, pretendeu o legislador mudar o foco de atenção da deficiência para a pessoa, intento esse
não efetivado, porque o foco acabou recaindo mesmo é no termo portador, como se a pessoa pudesse
portar ou não uma deficiência, como ocorre no campo da medicina com determinadas patologias,
quando é comum se dizer que o indivíduo porta determinado vírus, por exemplo.12 Ao utilizar a
expressão pessoa com deficiência, tem-se a intenção de desviar o foco de atenção para o indivíduo;
ou seja, a ênfase recai, com acerto, sobre a pessoa, que tem uma deficiência, sem dúvida, mas também
tem suas potencialidades, que são passíveis de ser evidenciadas, ou, no mínimo, que merecem ser
admitidas. Entretanto, mesmo esta expressão encontra resistências na sociedade e até mesmo em meio
às próprias pessoas com deficiência. As pessoas com deficiência auditiva severa e profunda, qual seja,
aquelas que, mesmo com o emprego de aparelhos de amplificação sonora individual, vulgarmente
denominados próteses auditivas, não têm capacidade para ouvir os sons da fala, consideram-se surdas,
e não pessoas com deficiência auditiva. É que a palavra deficiência parece vincular a incapacidade
biológica para ouvir os sons da fala com a falta de capacidade para outros discernimentos, ou até para
o exercício pleno da cidadania e, por uma extensão, a um possível rebaixamento mental.

10Segundo lições de Rodolfo Mancuso, caracterizam-se os interesses difusos pela indeterminação dos sujeitos, cuja satisfação ou lesão
concerne a toda a coletividade, pela indivisibilidade do objeto, indisponibilidade, por sua intensa litigiosidade interna por sua tendência
à transição ou mutação no tempo e espaço. A fruição de tais direitos jamais ocorre a título exclusivamente individual, pois sua violação
ofende direito de todos dispersos em amplos agrupamentos. Aqui ingressam a tutela coletiva por parte do Ministério Público do
Trabalho, zelando para que não constem em editais de contratação elementos de discriminação negativa ou exclusão aos potenciais
candidatos, porque portadores de deficiência; ou mesmo na celebração dos Termos de Compromisso para que as empresas, públicas e
privadas, atentem para o sistema de cotas proveniente da legislação (ações positivas discriminatórias). MANCUSO, Rodolfo de
Camargo. Interesses difusos: conceito e legitimação para agir. São Paulo: RT, 2000, p. 137. 11BEVERVANÇO, Rosana Beraldi. Direitos
da pessoa portadora de deficiência. Curitiba: Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Defesa dos Direitos do Idoso e das
Pessoas Portadoras de Deficiência, 2000. p.87. 12 FÁVERO, Eugênia Augusta Gonzaga. Direito das pessoas com deficiência: garantia
de igualdade na diversidade. Rio de Janeiro: WVA, 2004. p.22.

De maneira semelhante, são várias as pessoas com cegueira total que têm manifestado pública e
claramente que preferem ser chamadas de cegas, vale enfatizar, sem eufemismos, e não de pessoas
com deficiência visual. O motivo por elas empregado segue a mesma linha de raciocínio empregado
pelas pessoas surdas. Excluindo-se uma e outra exceção, que são raríssimas, tal já não se percebe
facilmente entre as pessoas com deficiência física, talvez porque, de certa forma, a expressão utilizada
direcione o foco para a parte física, para a parte estrutural e perceptível do organismo, aquela que está
relacionada à locomoção, uma função extremamente essencial para o exercício da autonomia plena,
mas que não tem a mesma nobreza da inteligência, por exemplo, deixando de forma subliminar os
aspectos neurossensoriais que possam estar relacionados com essa deficiência. Neste trabalho, opta-
se pela expressão pessoa com deficiência, pelas razões já comentadas e também em função das
recomendações dos Conselhos Nacional, Estadual e Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de
Deficiência, apesar da própria denominação deles. No contexto educacional, emprega-se a expressão
pessoa com necessidades educativas especiais, ou a mais resumida, necessidades especiais, bem
aceita, pois que engloba as pessoas com deficiência e aquelas que, por um outro motivo qualquer,
necessitam de atendimento especializado em determinado período. É o caso de uma criança que
necessita ficar internada em hospital para tratamento prolongado de um processo patológico. Ela tem
o pleno direito de receber, no local em que se encontra acamada, atendimento educacional, que acaba
sendo especializado. Com o Decreto nº 914/93, art. 3º, surge, na legislação, o primeiro conceito,
apesar de genérico, de pessoa com deficiência: Considera-se pessoa portadora de deficiência aquela
que apresenta, em caráter permanente, perdas ou anormalidades de sua estrutura ou função
psicológica, fisiológica ou anatômica, que gerem incapacidade para o desempenho de atividade,
dentro do padrão considerado normal para o ser humano. Neste trabalho, adota-se o conceito de
pessoa com deficiência que está contido no Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004, qual seja,
in verbis:

...a (pessoa) que possui limitação ou incapacidade para o desempenho de atividade e se


enquadra nas seguintes categorias: a) deficiência física: alteração completa ou parcial de um ou
mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-
se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia,
triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, amputação ou ausência de membro, paralisia
cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades
estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções;b) deficiência auditiva:
perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma
nas freqüências de 500Hz, 1.000Hz. 2.000Hz e 3.000Hz;c) deficiência visual: cegueira, na qual a
acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa
visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica;
os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor
que 60º; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores;d) deficiência mental:
funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito
anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas, tais como: 1.
comunicação; 2. cuidado pessoal; 3. habilidades sociais; 4. utilização dos recursos da comunidade;
5. saúde e segurança; 6. habilidades acadêmicas; 7. lazer; e 8. trabalho; e) deficiência múltipla –
associação de duas ou mais deficiências. Apesar de o referido conceito ser bastante árido,
principalmente no tocante à deficiência física e à visual, com o emprego de vários termos técnicos
capazes de causar apatia nas pessoas que não trabalham com pessoas com deficiência e naquelas
que não estão acostumadas com o assunto, comparado com as definições e termos empregados
anteriormente na literatura jurídica e nos textos legais, sua precisão e correção são
incontestavelmente superiores, razão pela qual incorporamos a este trabalho.

6. O PRINCÍPIO DA IGUALDADE

Em sendo uma norma jurídica, a igualdade deve permear toda a lógica jurídica exercendo as
funções interpretativas do sistema, seletiva e normativa concorrente. Isto acaba lhe conferindo aspecto
amplo e que entra em tensão permanente com o conceito de liberdade. No tocante às pessoas com
deficiência, a igualdade enquanto norma constitucional,... deve ser lida como a obrigatoriedade de
tratamento isonômico a todos os cidadãos e a possibilidade de tratamentos diferenciados a pessoas ou
grupos que, por sua qualidade diferencial ou desequilíbrio fático em relação ao resto da sociedade,
necessitam de um tratamento diferenciado, justamente porque igualdade pressupõe o respeito e a
preservação das diferenças individuais e grupais ou da diversidade que é inerente à natureza humana.
Pelos ensinamentos de Sandro Nahmias MELO,21 a igualdade jurídica deve ser analisada sob duplo
enfoque: igualdade formal e igualdade material. À regra isonômica vista sob o enfoque da não
admissão de qualquer privilégio ou qualquer ato discriminatório dá-se a denominação de igualdade
formal ou igualdade perante a lei. Ao lado desta, tem-se a igualdade material ou igualdade na lei. A
Constituição proíbe a discriminação desarrazoada, ao mesmo tempo em que realça direitos de pessoas
ou grupos que necessitam de proteção especial. Ainda, de acordo com esse mesmo autor, “...para que
o princípio da igualdade seja efetivado, seja eficaz, há que existir discriminação, positivamente
considerada, em proveito de determinadas pessoas ou grupos sociais.” Portanto, infere-se que o
legislador Constituinte, ao incluir na Constituição Federal a possibilidade de tratamento diferenciado
a certos grupos, como é exemplo o artigo 37, inciso VIII (sobre a reserva de cargos e empregos
públicos), quis afastar deles a discriminação a que potencialmente estão sujeitos.
A igualdade formal (perante a lei), que se refere à aplicação do direito a todos os cidadãos, sem
qualquer tipo de distinção, com relação à pessoa com deficiência, está presente no art. 5º da
Constituição Federal; e, no que diz respeito ao trabalho, está no art. 7º, XXXI. Já a igualdade na lei
tem como escopo o legislador, que no processo de formação legal, não pode incluir fatores de
discriminação, sob pena inclusive de praticar ato inconstitucional. Ao analisar o tratamento legal ao
princípio da igualdade quase que invariavelmente depara-se, aqui e acolá, correndo em paralelo, com
o tema discriminação, aspecto que sempre motiva inúmeros conflitos e controvérsias. A Declaração
dos Direitos do Deficiente Mental, adotada pela Assembléia Geral da ONU, em 1971, e que teve o
mérito de ser o primeiro instrumento internacional sobre pessoas com deficiência, aborda a questão
explicitando que a discriminação contra pessoas com deficiência significa toda diferenciação,
exclusão ou restrição baseada em deficiência, que tenha finalidade de impedir ou anular o gozo ou
exercício, por elas, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. A discriminação, grosso
modo e todavia, existe sim em nosso meio. Muitas vezes se manifesta de forma velada.
É comum serem encontrados contadores de piadas que se orgulham de suas habilidades
narrando situações fictícias envolvendo, de forma invariavelmente pejorativa, “mudinhos”,
“gaguinhos” e “ceguinhos”. Pior do que constatar a existência desses piadistas é reconhecer que existe
público disposto a rir e numeroso, infelizmente. Entre nós brasileiros, a análise do que vem
acontecendo em relação ao acesso ao mercado de trabalho por pessoas com deficiência,
principalmente nas questões inerentes à igualdade material, demonstra que isso ocorre de forma
bastante limitada, deixando claro que a política de inclusão social das pessoas com deficiência, pelo
trabalho, restrinja-se à fixação de cotas. Cumpre ressaltar que não basta dispor de arcabouço legal
avançado, se de um lado há políticas públicas direcionadas ao atendimento das necessidades das
pessoas com deficiência que se concentram na concessão de benefícios insuficientes para mantê-los
em condições de respeito e dignidade, de dar-lhes autonomia e, por outro lado, na imposição de cotas
de contratação. Tudo isso autoriza a afirmar, categoricamente, que toda e qualquer problemática
envolvendo as pessoas com deficiência não pode nem deve se restringir apenas à proteção
constitucional e infraconstitucional. Igualmente, afirma-se não se deve relegar os programas de
prevenção das deficiências a plano secundário; a educação, a assistência social, a saúde, a alimentação,
o saneamento básico, o esporte, o lazer e o transporte devem melhorar acentuadamente. Igualmente
é pertinente afirmar que essa problemática não se limita, nem deve se limitar, à proteção do Estado.
Muito pelo contrário, do seu contexto devem se apropriar a família e a sociedade, caso contrário,
jamais se obterão os avanços necessários.
Não se pode auferir que a educação seja o único caminho capaz de conduzir e orientar as pessoas
para uma tomada de consciência ampla, geral e irrestrita. Entretanto, ela é de extrema essencialidade
para o desenvolvimento educacional e cultural do indivíduo, da família e, por conseguinte, da
sociedade. Outras ações, como o saneamento básico, os atendimentos de saúde e de assistência social
também passam pela educação. Não se cogita falar em desenvolvimento sustentável, duradouro de
um país sem falar em educação de qualidade, que garanta o ingresso de todos e a permanência de
todos em sistema de qualificação. Um grande problema brasileiro continua sendo a evasão escolar. O
outro aspecto diz respeito à própria formação dos educadores. No Brasil, o atendimento educacional
oferecido à população em idade, escolar deixa a desejar. No contexto das pessoas com deficiência,
infelizmente, é reconhecidamente bem mais precário. O MEC estima que há cerca de seis milhões de
crianças e jovens com deficiência no país, das quais algo em torno de 5% receberiam atendimento
especializado, restando um contingente considerável fora do contexto escolar.
Por fim, a evolução social da humanidade, em termos de direitos humanos, do respeito mútuo
entre os cidadãos, vem se processando, mesmo que não de maneira uniforme, nem com a constância
que as pessoas de bem tanto desejariam ver consumadas. Em linhas gerais, caminha-se na direção da
igualdade entre as pessoas. Mas não se pode deixar de estar atento, pois a desigualdade de nascimento,
de recursos materiais e de meios tende a induzir à desigualdade entre as pessoas, que se agrava com
o tratamento formalmente igualitário da lei.

7. AS PROBLEMÁTICAS EXISTENTES

O maior problema relacionado ao Decreto nº 3.298/99 é a sua omissão quanto à regra de


convocação dos candidatos com deficiência aprovados em concurso, dando margem a que nos editais
sejam inseridas algumas condições de livre arbítrio para a convocação deles. Já houve edital de
concurso público condicionando a convocação de uma pessoa com deficiência para cada vinte dos
demais candidatos considerados aptos à admissão, quando o objetivo pretendido pela norma do artigo
37, VIII, da Constituição Federal é incluir a pessoa com deficiência na sociedade. Outro grande
problema que reina no território dos editais de concursos públicos diz respeito ao subjetivismo que
neles impera quanto às chamadas condições plenas dos candidatos para as funções a serem
desempenhadas. Em síntese, para conseguir um emprego público, exceção feita aos cargos em
comissão, que são de livre nomeação do Chefe do Poder Executivo, e as funções de confiança, que
são atribuídas a servidores de carreira para responder pela direção de um departamento ou
determinado tipo de assessoramento, a pessoa com deficiência deverá participar de concurso público
de provas ou de provas e títulos, regido por um edital, desde que esteja apta para exercer a função
pretendida, na perspectiva de quem construiu o edital. O princípio da igualdade tem por fundamento
a afirmação da dignidade do homem, uma ideia dinâmica que se adapta constantemente às exigências
da evolução da sociedade. A igualdade admite tratamento desigual ao que é desigual, na exata
proporção da diferença. A igualdade de acesso aos cargos, empregos e funções públicas, conforme o
artigo 37, I, da Constituição Federal, é assegurada “...aos brasileiros que preencham os requisitos
estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei:”
Esse acesso, ainda conforme o artigo 37, II, depende da participação em concurso público de
provas ou de provas e títulos. Como o direito ao trabalho, ao emprego, está inserido no rol dos direitos
ditos sociais, para assegurar esse direito, o Estado Democrático deve lastrear a sua ação social em
diversos valores, dentre os quais o da igualdade, que merece especial destaque, mesmo porque, com
base na Constituição Federal, deve servir de critério orientador na aplicação dos direitos fundamentais.
O acesso aos cargos, empregos e funções públicas, feito por meio de concursos, pelo menos a
princípio, é a forma considerada mais justa e igualitária de a administração pública selecionar os
profissionais capacitados que deseja ter em seus quadros de funcionários. Esta é, incontestavelmente,
uma sólida razão. Todavia, há algumas outras, tais como impedir a prática de nepotismo e de
protecionismo, tão danosas ao interesse público e, infelizmente, tão presentes no cotidiano brasileiro.
Tais práticas, entretanto, continuam a fazer parte da administração pública, apenas que o caminho
utilizado é outro: os cargos em comissão.
Um outro aspecto interessante, em relação a esse tema, diz respeito à contratação para atender
necessidade temporária de excepcional interesse público. Desde que comprovada a premência e sendo
por tempo determinado, a Lei nº 8.745/93 desobriga a Administração Pública de realizar concurso
público, podendo fazer contratações a partir de processo seletivo simplificado, ou simplesmente pela
análise de currículos. A contratação temporária não pode envolver cargos de carreira, nem os
contratos podem ser renovados, conforme artigo 9º, III, da citada lei. De qualquer forma, nesse tipo
de cenário, é pouco provável que os gestores públicos, quando buscam contratar pessoas para o
preenchimento de cargos temporários, o mais das vezes, nem se lembram de que poderia haver
algumas pessoas com deficiência interessadas em ocupá-los.
Muito pelo contrário, é mais provável e fácil constatar o desinteresse desses gestores pelas
ações afirmativas; ou seja, por todas as ações especiais que visam a eliminar desigualdades entre
grupos minoritários da sociedade que, em função da discriminação sofrida, acham-se em situação
desvantajosa em relação à distribuição de oportunidades. O problema maior, segundo se percebe dos
concursos realizados após a edição da Lei, não tem sido quanto à admissibilidade ao concurso em si,
mas sim, à nomeação das pessoas com deficiência aprovadas em concursos públicos.
Como nos editais o percentual mínimo utilizado para a reserva, normalmente, é de 5%, o
entendimento generalizado é que o chamamento deve obedecer à proporção de vinte candidatos sem
deficiência para um com deficiência, necessariamente, nesta ordem. Como os concursos públicos, de
regra, costumam ter validade por dois anos, se forem poucas as vagas oferecidas, é provável que
nenhum candidato com deficiência aprovado será nomeado. Então, no entendimento das pessoas com
deficiência, a reserva foi uma falácia. Às pessoas com deficiência que se sentirem prejudicadas resta
ingressar na Justiça com mandado de segurança. Entretanto, eles têm sido sistematicamente negados
aos impetrantes, tanto na questão inerente ao arredondamento para o primeiro número inteiro
subseqüente, principalmente quando o concurso é para provimento de poucas vagas (uma a cinco),
invocando-se o princípio da igualdade, pois não se pode prejudicar os que não têm deficiência, quanto
à ordem de chamada dos aprovados, que invariavelmente inicia-se a partir dos nomes que compõem
a lista dos candidatos sem deficiência aprovados.
O argumento que tem sido empregado para sedimentar este tipo de comportamento é forte: é
preciso harmonizar a norma geral, aquela que assegura a acessibilidade a cargos públicos a todos os
cidadãos, indistintamente, e a norma específica, a que destina o percentual de vagas a pessoas com
deficiência, a fim de evitar prejuízos a todos os que participaram do processo seletivo, tenham ou não
deficiência. Enquanto isso, o Estado brasileiro, que, pela sua estrutura burocrática possui um número
elevado de funcionários públicos, desde há muito é considerado pelos especialistas no assunto como
um dos mais desejados empregadores, seja pela estabilidade, seja pelos benefícios que oferece aos
funcionários, como é o caso da tão almejada aposentadoria com proventos integrais, continua sendo
o ente que, apesar dos ditames da Constituição e das invejáveis normas infraconstitucionais que
disciplinam a matéria, concede poucas oportunidades de emprego às pessoas com deficiência.
8. CONCLUSÃO

É visivel a constatação de mudança nos tratamentos dispensados às pessoas com deficiência


atuais. O reconhecimento como sujeitos de direito, entretanto, só ocorreu recentemente. O principal
marco dessa mudança de comportamento guarda relação estrita com as duas Grandes Guerras
Mundiais, pois foram responsáveis pelo significativo aumento de representantes nesse segmento;
porém, na atualidade, os acidentes de trânsito assumiram esta função, aumentando, indiretamente, o
poder político, de atuação e de persuasão desse segmento. No que respeita à inclusão da pessoa com
deficiência no mercado de trabalho, o substrato para a criação de normas internacionais para a garantia
desse direito foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos, reforçado que foi pelas
Recomendações e Convenções da Organização Internacional do Trabalho e da ONU. Já no plano
nacional, o substrato é a Constituição Federal e, abaixo dela, as Leis nº 7.853/89, 8.112/90 , 8.213/91,
10.098/00, e os Decretos nº 3.298/99 e 5.296/04. Cabe-se ressaltar a importância do aperfeiçoamento
frente a estas questões que ultrapassam a ordem pública, atingindo também, diretamente, a questão
pessoal do indivíduo e de sua dignidade frente a sociedade.
9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AZEVEDO
J. Entre a escola e o mercado de trabalho: um olhar crítico sobre as transições. In: GIL, Hernandes
Carlos; MARCHESI, Álvaro. (Org.).;

Presidência da República. Constituição da República Federativa: 1988.;

Decreto n.º 914. Institui a política nacional para a integração da pessoa portadora de deficiência, e dá
outras providências. Brasília, 1993.;

Decreto n.º 3.298. Regulamenta a Lei n.º 7.853, Dispõe sobre a política nacional para a integração da
pessoa portadora de de3 ciência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências. BRASIL.
Lei n.º 9.394. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. DOU, 20 dez. 1996;

Pessoas com deficiência e o direito ao concurso público: reserva de cargos e empregos públicos,
administração pública direta e indireta. Goiânia: UCG, 2006. PATTO, M. H. S. LUNARDI, M.