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Derek Prince

A Redescoberta
da Igreja de Deus

DP PORTUGAL
Derek Prince Portugal
A Redescoberta
da Igreja de Deus
Ficha Técnica

Copyright©2016 tradução portuguesa, Derek Prince Portugal


Originalmente publicado com o título: Rediscovering God´s Church
Copyright© 2006 Derek Prince Ministries International

Autor: Derek Prince


Tradução: José Fernando Faria
Correção: Conceição Cabral
Redação: Christina van Hamersveld
Desenho da capa: Carolina Ferreira (Nova Gráfica, Lda.)

Publicado em Português pela:


Editora Um Êxodo Unipessoal Lda.
Caminho Novo Lote X,
9700-360 Feteira AGH
E-mail: umexodo@gmail.com

ISBN: 978-989-8501-11-0

Endereço para contato:


Derek Prince Portugal
Caminho Novo Lote X,
9700-360 Feteira AGH
Telf.: (00351)295 663738/ 927992157
E-mail: derekprinceportugal@gmail.com
Blog: www.derekprinceportugal.blogspot.pt

A versão bíblica usada neste livro: Almeida Corrigida e Revisada Fiel


Outras versões com indicação como: (ARIB)Almeida Revisada Imprensa Bíblica
(NVI) Nova Versão Internacional
(SBB) Sociedade Bíblica Británica
Índice

Introdução .................................................................................. 7

1ª. Parte: A Visão de Deus para a Igreja........................................ 9


1. Deus está a preparar um povo para Si................................. 11
2. O Programa de Deus para a Igreja: Transformação............. 15

2ª. Parte: A natureza da Igreja - Sete imagens da igreja em Efésios. 19


3. 1ª. Imagem: A Assembleia.................................................. 21
4. 2ª. Imagem: O Corpo de Cristo......................................... 31
5. 3ª. Imagem: A Obra Prima (A Manufactura)..................... 39
6. 4ª. Imagem: A Família....................................................... 45
7. 5ª. Imagem: O Templo...................................................... 53
8. 6ª. Imagem: A Noiva......................................................... 61
9. 7ª. Imagem: O Exército..................................................... 75
10. As Sete imagens e a Sua aplicação....................................... 85

3ª. Parte: A Estrutura da Igreja................................................... 91


11. A Igreja Universal............................................................... 93
12. A Igreja Local................................................................... 107
13. Equipas Apostólicas e Anciãos: As duas pernas do corpo.... 133
14. Apóstolos e Anciãos, Não Burocracia............................... 145
15. Reprodução, Não Sucessão............................................... 157

4ª. Parte: A Liderança da Igreja................................................ 165


16. Ministério Móvel: Apóstolos............................................ 167
17. Características de um Verdadeiro Apóstolo....................... 187
18. Ministério Móvel: Profetas............................................... 199
19. Ministério Móvel: Evangelistas......................................... 219
20. Ministério Móvel: Doutores (Professores)......................... 231

5
21. Ministério Residente: Pastores.......................................... 241
22. Pastores: Governar, Ensinar, Apascentar........................... 257
23. Ministério Residente: Diáconos....................................... 277

5ª. Parte: O Estilo de vida da Igreja.......................................... 283


24. A Vida Diária da Igreja Local........................................... 285
25. A Reunião Coletiva.......................................................... 303

6ª. Parte: O Futuro da Igreja.................................................... 311


26. Venha o Teu Reino........................................................... 313
27. Uma Igreja Gloriosa......................................................... 331

Sobre Derek Prince 1915-2003................................................ 340


Derek Prince Ministries............................................................ 341
Outros livros por Derek Prince (em Português)........................ 342

6
Introdução
por Derek Prince Ministries

Conta-se que na década de 1930, o telefone tocou no escri-


tório do vigário da igreja de Washington, D.C., ocasionalmente
frequentada pelo Presidente Franklin Roosevelt. A voz, no telefo-
ne, perguntava ofegantemente: “Por favor diga-me: Estão a contar
com a presença do presidente na vossa igreja neste Domingo?”
“Isso”, explicou o vigário pacientemente, “eu não posso prome-
ter; mas contamos com a presença de Deus lá, logo suspeitamos
que isso seja um incentivo suficiente para uma audiência razoavel-
mente grande.”
Não sabemos se Derek Prince conhecia esta anedota, mas aque-
les de nós que o conheceram intimamente têm a certeza, que ele
se teria divertido bastante e teria concordado com o sentimento
que ela manifesta, com todo o seu coração. Derek amava a igreja;
e como qualquer professor dos tempos modernos, compreendeu a
grandeza para a qual o corpo de Cristo é chamado e está destinado.
Numa das suas muitas transmissões de rádio ao longo dos anos,
Derek resumiu a forma como concebia a igreja: “Eu creio que Deus
está preocupado com a restauração de dois povos a quem Ele está li-
gado por uma aliança, a qual Ele próprio declarou que nunca quebra-
ria. O primeiro povo, historicamente, é Israel; o segundo é a igreja.”
Se você ainda não conhece nada acerca de Derek Prince, então
terá de saber que ele foi uma das mentes Cristãs mais brilhantes
do século vinte. Ele nasceu cidadão britânico, mas viveu grande
parte da sua vida em Israel e nos Estados Unidos (tornando-se,
mais tarde, um cidadão Americano). Estudou na prestigiada Uni-
versidade de Cambridge, onde foi um contemporâneo de C. S.
Lewis. E, por algum tempo, ele manteve uma tertúlia de filosofia
antiga e moderna.

7
Não se deixe contudo, impressionar por estas extraordinárias
credenciais intelectuais. Milhões de pessoas por todo o mundo,
em centenas de nações, têm encontrado inspiração, elevação e ilu-
minação, no ensino sempre acessível de Derek Prince.
Por isso, o livro que tem nas suas mãos agora, é um tesouro.
Nas suas páginas encontrará uma profundidade impressionante na
revelação acerca da natureza, do papel, da estrutura e do destino
da igreja – local e universal. Ao ler, você também ganhará um novo
discernimento do seu lugar e do seu papel no plano de Deus para
a história.

Derek Prince Ministries

8
I
1ª. Parte

A Visão de Deus para a Igreja


-1-

Deus está a preparar


um povo para Si

Um dos temas mais sublimes das Escrituras é a igreja – o objeto


do afeto de Deus, a futura noiva para o Seu Filho amado.
A missão redentora de Cristo na terra é uma história de amor,
encenada nos palcos do tempo e da eternidade, repleta de drama,
sofrimento, amor, luta e triunfo. A intenção de Deus é providenciar
uma companheira perfeita para o Seu Filho, para toda a eternidade.
A igreja é também o agente redentor de Deus no mundo, mas o Seu
desafio está nas pessoas que compõem a igreja. Deus precisa de nos levar,
da nossa condição rebelde, para a da noiva perfeita do Seu único Filho.

O Espelho da Palavra de Deus


As Escrituras comparam a Palavra de Deus a um espelho, que
revela a nossa condição espiritual interior, de forma a que possamos
ver-nos como Deus nos vê: continuamente até o resultado final – não
só como deveríamos ser, mas também como seremos.
…o SENHOR não vê como vê o homem. Pois o homem vê o
que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração.
(1 Samuel 16:7b)
Se olharmos para este espelho, antes de termos sido reconciliados
com Deus através de Jesus Cristo, ele mostra-nos a nossa condição
impura e pecaminosa. Uma vez reconciliados com Deus e limpos dos
nossos pecados, ele mostra-nos o que nos tornámos enquanto nova
criação de Deus em Cristo. Experimentamos de uma forma pessoal
estas verdades das Escrituras:
Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas
velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. (2 Coríntios 5:17)
Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras,
as quais Deus preparou para que andássemos nelas. (Efésios 2:10)

11
Neste livro, olharemos para o espelho da Palavra de Deus para que
possamos aprender como somos aos olhos de Deus, como Seu povo
coletivo. Iremos analisar as sete imagens do povo de Deus, conforme
reveladas pelo apóstolo Paulo no livro de Efésios. Daí, exploraremos
a estrutura, a liderança, o estilo de vida e o futuro da igreja.

Os Propósitos Redentores de Deus


Os propósitos de Deus ao redimir o Seu povo para Si, encontra-
mos em Êxodo, 19:3-5:
E subiu Moisés a Deus, e o SENHOR o chamou do monte, di-
zendo: Assim falarás à casa de Jacó, e anunciarás aos filhos de Israel:
Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de
águias, e vos trouxe a mim; Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a
minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha pro-
priedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha.
Existem dois objetivos principais de redenção, segundo nos é re-
velado nestas palavras de Deus a Israel.

Uma Relação Direta e Pessoal com Deus


Primeiro, repare no que Deus disse acerca do atual ato de reden-
ção: “Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de
águias, e vos trouxe a mim” (v. 4). A Escritura revela que Deus traz os
redimidos até Si. O Seu primeiro propósito de redenção é trazer o
Seu povo redimido a uma relação direta e pessoal com Ele. É surpre-
endente, como poucas pessoas no período do Antigo Testamento pa-
reciam compreender este conceito. Elas estavam interessadas na Lei,
nas bênçãos materiais e na Terra Prometida. Olhavam para as coisas,
razão pela qual, a maioria delas não experimentou um relacionamen-
to maravilhoso, direto e pessoal com Deus. Mesmo hoje, muitas pes-
soas parecem não compreender totalmente que o principal propósito
de Deus é trazer-nos até Si, tudo o resto é secundário.

A Sua Propriedade
O segundo propósito da redenção é para Deus tornar o povo re-
dimido na Sua própria possessão. A frase traduzida por “a minha
propriedade peculiar” em Êxodo 19:5, vem de uma palavra Hebraica
cujo exato significado se desconhece. Outras traduções usam as fra-

12
ses “a minha possessão peculiar”, “o meu tesouro pessoal” e“o meu povo
particular”.
A indicação é que Deus quer tornar-nos em algo pessoal, peculiar,
especial. É, de certa forma, excitante não conhecermos o significado
exato do termo Hebraico original porque deixa em aberto tantas pos-
sibilidades; mas sabemos que é algo maravilhoso, muito superior ao
que possamos imaginar ou pensar por nós mesmos. É por isso que
Ele nos redimiu.

O propósito de Deus não é somente a remissão do individuo –


o propósito Dele é um povo especial

Um Povo Novo
Deus investe nas pessoas. Ele está muito mais preocupado com as
pessoas do que com coisas. Esta verdade é ilustrada de forma simples
e bela em Deuteronómio, 32:9: “Porque a porção do SENHOR é o seu
povo.” O propósito de Deus centra-se no Seu povo redimido – a Sua
porção em tudo o que já aconteceu e acontece no mundo. Contudo,
devemos compreender claramente que o Seu objetivo final não é so-
mente redimir indivíduos; é também a criação de um povo especial,
um todo novo, único, orgânico. Algo completamente diferente do
que existia entre os povos antes de Deus intervir através da redenção.
O Cristianismo contemporâneo enfatiza a importância do indiví-
duo e do seu relacionamento com Deus. No entanto, apesar de isto
ser muito importante, o objetivo final de Deus não passa apenas por
indivíduos redimidos; o Seu objetivo é um povo especial.
Na Sua oração ao Seu Pai, Jesus revelou-nos um tremendo dis-
cernimento da etapa particular dos propósitos de Deus em que vive-
mos hoje:
Eu não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela
sua palavra, hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu,
ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós,
para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória
que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu
neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para
que o mundo conheça que tu me enviaste a mim e que os tens amado
a eles como me tens amado a mim.(João 17:20-23)

13
A derradeira visão de Jesus é misturar indivíduos de todas as raças
e origens numa união visível. O mundo vê coisas no tempo e no
espaço; ele não vê realidades místicas de um reino espiritual. Se que-
remos alcançar o mundo com a mensagem redentora de Deus, temos
de ser visíveis – algo que o mundo pode ver e apreciar. Portanto, não
podemos esconder ou abafar o nosso Cristianismo, porque o propó-
sito de Deus é fazer com que o Seu povo se torne visivelmente unido.
Esta união será um testemunho incontestável para o mundo inteiro
de que Deus efetivamente enviou Jesus. Ao nos tornarmos num ver-
dadeiro reflexo do povo de Deus redimido, outras pessoas também
serão atraídas para um relacionamento pessoal com Ele e juntar-se-
-nos-ão ao Seu tesouro especial por toda a eternidade.

14
-2-

O Programa de Deus para a Igreja:


Transformação

Para Deus nos moldar até ao tipo de pessoas, nas quais Ele ten-
ciona que nos tornemos, necessitamos de passar por um processo de
transformação. Quando Deus nos redime, estamos apenas a iniciar a
nossa viagem em direção a tudo o que devemos ser e que Deus quer
que sejamos. Eu fico maravilhado na fé que Deus tem, para levar
avante este projeto de transformar pessoas como eu!

O Processo de Transformação
Vejamos um exemplo da forma como funciona o processo de
transformação: o chamamento de Jesus aos Seus primeiros discípulos:
E Jesus, andando junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos,
Simão, chamado Pedro, e André, os quais lançavam as redes ao mar,
porque eram pescadores. E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei
pescadores de homens. Então, eles, deixando logo as redes, seguiram-
-no. (Mateus 4:18-20)
Este simples cenário não contém uma psicologia muito complexa,
mas apenas a essência do que deve acontecer. Existem duas compo-
nentes principais nas palavras de Jesus, “Vinde após mim, e eu vos farei
pescadores de homens.”

Compromisso Total
Primeiro, Jesus requer um compromisso total. “Deixem tudo e
sigam-Me. Não vos digo para onde vamos, apenas têm de Me seguir
em fé. Coloquem a vossa vida nas Minhas mãos e deixem-Me lidar
com as consequências.” Isso é essencial; Deus não pode realizar os
Seus propósitos até que o Seu povo esteja totalmente comprometido.
Então, Jesus diz: “Não vos digo onde vamos, mas digo-vos o que
vou fazer de vós. Far-vos-ei pescadores de homens.” O mais impor-

15
tante, para cada redimido de Deus não é o que somos agora, mas o
que Deus quer fazer de nós. Se nos rendermos ao Senhor, Ele garante
o produto final. Porém, primeiro temos de nos comprometer com o
propósito de Deus e depois Ele começa a trabalhar em nós, para nos
transformar naquilo que Ele deseja que sejamos.

O mais importante para cada redimido de Deus não é o que somos


agora, mas o que Deus quer fazer de nós.

O mesmo princípio está inerente no ensino de Paulo:


Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis
o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é
o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo, mas
transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que ex-
perimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
(Romanos 12:1-2)
Como vimos em Mateus 4:18-20, o primeiro passo para o pro-
cesso transformador de Deus em nós é um compromisso total para
com Deus. Paulo expressa esta verdade quando diz, “que apresenteis o
vosso corpo em sacrifício vivo”. Ele estava a pensar em termos dos sa-
crifícios de animais do Antigo Testamento, tais como ovelhas e bois,
que eram mortos e ofertados a Deus no altar. Uma vez colocados no
altar de Deus, eles já não pertenciam à pessoa que os havia oferecido;
pertenciam somente a Deus. Paulo estava a dizer-nos, a nós, Cristãos,
que temos de oferecer os nossos corpos a Deus exatamente da mesma
maneira. Uma vez que coloque o seu corpo sobre o altar, ele deixa
de lhe pertencer, sendo unicamente pertença de Deus. Mas, há uma
grande diferença: o seu corpo não estará morto; ele será colocado vivo
sobre o altar! Isso é o compromisso total.

Transformação de Dentro
O compromisso para com Deus leva-nos a pensar de forma mais
sublime. Quando as nossas mentes são renovadas, os nossos valores
mudam e as nossas prioridades são alteradas. As coisas adquirem sig-
nificados diferentes. No entanto, isto é algo que Deus faz apenas com
os comprometidos. Quando somos transformados pela renovação da
nossa mente, somos capazes de discernir e aprovar a vontade de Deus.

16
Podemos descobrir o que Ele realmente quer. Ele tem um plano mara-
vilhoso para cada um de nós em particular e para o Seu povo coletiva-
mente, mas Ele revela o Seu plano somente a quem está comprometido.

Deus revela o Seu plano somente a quem está comprometido.

Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a


glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma
imagem, como pelo Espírito do Senhor. (2 Coríntios 3:18)
Lembre-se, a Palavra de Deus é um espelho que nos mostra o
que somos interiormente. O espelho é um instrumento essencial no
processo de transformação. Repare que o texto acima está escrito no
plural. Não é apenas para indivíduos; é para todos nós. Ele mostra-nos
o que Deus tem destinado para todo o Seu povo crente, coletiva-
mente. Sem esta visão do povo de Deus como um todo, tendemos a
perder-nos nas nossas necessidades, problemas e bênçãos, e perdemos
o plano maior e os propósitos de Deus. “Não conseguimos ver a flo-
resta por causa das árvores”, como diz o ditado.
Transformados de Glória em Glória
Ao refletirmo-nos no espelho da Palavra de Deus, contemplamos a
glória que Deus irá realizar em nós. Ao observarmos esta glória pela fé e
continuarmos a olhar para o espelho da Palavra de Deus, o Espírito de
Deus transforma-nos à semelhança do que vemos – mas só se olharmos
para o espelho pela fé. Se assim não fizermos, o Espírito de Deus não
pode trabalhar em nós. Não se trata de uma transformação simples, mas
“de glória em glória”! Cada vez que chegamos a um determinado nível,
Deus mostra-nos que existe um nível superior e incita-nos a ir mais além.
Esta transformação depende de duas coisas. Primeiro, de olhar-
mos para o espelho da Palavra de Deus com fé. Segundo, do trabalho
do Espírito Santo quando olhamos para o espelho.
Se não olharmos para o espelho, o Espírito de Deus não pode
trabalhar em nós.

Cada um de nós deve olhar regularmente para o espelho da Pala-


vra de Deus, para verificar a sua própria condição espiritual e o seu
relacionamento com Deus.

17
A transformação obedece à seguinte ordem: primeiro o compro-
misso, depois a transformação a partir do interior, que leva à revela-
ção do propósito de Deus:
Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós
um peso eterno de glória mui excelente, não atentando nós nas coisas
que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são
temporais, e as que se não vêem são eternas. (2 Coríntios 4:17-18)
Paulo disse que passamos por aflições como parte integrante do
processo de transformação. Todavia, as aflições beneficiar-nos-ão e
executarão os propósitos de Deus para nós - se nos continuarmos a
focar nas coisas que não se veem, e não nas circunstâncias e situações
visíveis que nos rodeiam.
Paulo disse que as coisas que se veem são temporárias, e as que
não se veem são eternas. A forma como vemos as realidades eternas
invisíveis dos propósitos de Deus, é olhando com fé para o espelho
da Palavra de Deus. Quando o fazemos, o Espírito Santo revela o
destino que Deus tem para nós – onde nos está a levar e o que Ele
deseja produzir em nós e através de nós. Ao insistirmos em olhar
pela fé, sem tirarmos os nossos olhos do espelho, o Espírito Santo
continuará a mudar-nos naquilo que apreendemos pela fé. Cada vez
que apreendemos uma nova verdade pela fé, experimentamos uma
nova transformação. Este é o processo que verdadeiramente nos leva
de glória em glória!

18
II
2ª. Parte

A natureza da Igreja:
Sete imagens da igreja em Efésios
-3-

1ª. Imagem:
A Assembleia

“E [Deus] sujeitou todas as coisas a seus [Jesus] pés e, sobre todas


as coisas, o constituiu como cabeça da igreja.” (Efésios 1:22)
Nos próximos capítulos examinaremos as sete imagens do povo
de Deus que encontramos na epístola de Paulo aos Efésios. Comece-
mos então pela primeira imagem: a assembleia.
A palavra Grega traduzida por “igreja” em Efésios 1:22 é
“ecclesia”, da qual obtemos, por exemplo, a palavra eclesiástico. O
substantivo ecclesia deriva de um verbo que significa “chamar de” ou
“chamar para fora”. O conceito é um grupo de pessoas que é formado
ao ser chamado para fora de um grupo maior de pessoas. É também
um grupo chamado para um propósito especial, que se aplica à igreja.
Somos chamados para fora do mundo através da fé em Jesus Cristo,
para um propósito especial de Deus.
No Grego contemporâneo e secular do Novo Testamento, a pa-
lavra ecclesia tinha um significado muito específico. Significava uma
“assembleia governativa”. É usada desta forma três vezes no capítulo
dezanove de Atos, onde lemos acerca do tumulto que se instalou na
cidade de Éfeso por causa do ministério de Paulo.
Repare no uso da palavra “assembleia” em Atos 19:
Uns, pois, gritavam de uma forma; outros, de outra; porque a
assembleia [ecclesia] caíra em confusão. E, na sua maior parte, nem
sabiam por que motivo estavam reunidos. (v. 32 JFA ra)
As pessoas estavam a ter uma reunião não organizada e não au-
torizada. O escrivão da cidade repreendeu-as, e disse-lhes que não
tinham qualquer direito de se reunir daquela forma. Então o escrivão
acrescentou:
Mas, se alguma outra coisa pleiteais, será decidida em assembleia
regular. [ecclesia]. (v. 39, JFA ra)

21
A palavra é novamente usada no versículo 41:
E, havendo dito isto, dissolveu a assembleia. [ecclesia]. (JFA ra)
Portanto, o significado original da palavra que habitualmente
traduzimos por igreja, na realidade quer dizer “assembleia legal ou
governamental”.
Neste capítulo, vou usar a palavra assembleia ao traduzir a palavra
para igreja. Este significado tem sido obliterado por muitas traduções
modernas, mas a assembleia governamental é a primeira imagem do
povo de Deus ao espelho da Palavra de Deus.

Qualificações para Entrar na Assembleia


Na assembleia Grega em Éfeso, muitas pessoas foram excluídas:
escravos (que representavam quase metade da população), mulheres
e todos os visitantes e residentes temporários. A assembleia era reser-
vada somente para os cidadãos livres residentes em Éfeso.
Quais são as qualificações para se estar na assembleia do Senhor
Jesus Cristo? O próprio Jesus nos disse:
Disse-lhes ele [Jesus]: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão
Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Je-
sus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas,
porque não foi carne e sangue quem te revelou, mas meu Pai, que
está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pe-
dra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela. (Mateus 16:15-18)
Pedro proclamou ousadamente a Jesus: “Tu és o Cristo [Messias], o
Filho do Deus vivo.” Esta revelação não veio pelo raciocínio ou lógica
natural de Pedro. Ela veio de Deus, o Pai, através do Espírito Santo.
Ela não revelou Jesus de Nazaré como o filho do carpinteiro, a quem
ele já conhecia, mas revelou Jesus na Sua natureza divina e eterna,
como o Filho de Deus, o Messias.
Acredito que tem sido dada a possibilidade de adesão em igrejas a mi-
lhões de pessoas que ainda não receberam esta revelação básica. Assim,
a igreja não pode funcionar na sua completa autoridade porque os seus
membros nem sequer têm as qualificações para entrar na assembleia!
A linguagem de Jesus na passagem anterior é muito enfática: “Tu
és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.” Toda a ênfase está

22
na palavra “minha”. A minha igreja, a minha assembleia. Jesus estava
a dizer que existem muitas assembleias. Cada cidade e estado têm a
sua assembleia. As nações têm as suas assembleias. Mas Jesus disse:
“Estou agora a construir a minha assembleia.” Há uma relação entre
construir e minha. Se Jesus não a construir, Ele não a possuirá. Ele
apenas possui o que Ele constrói.
Se Jesus não construir a assembleia, Ele não a possuirá.
Ele apenas possui o que Ele constrói.

Certa vez um pregador falava sobre os dons do Espírito Santo.


No final da sua mensagem, uma senhora aproximou-se dele e disse:
“Irmão, nós não temos esses dons na nossa igreja.” Ele respondeu:
“Bem, eles têm-nos na igreja de Jesus Cristo. Qual é a sua igreja?”
Esta é uma questão importante e com algum alcance. Qual é a sua
igreja? É a igreja Dele?
Há quatro elementos que constituem o procedimento para ad-
missão na assembleia de Jesus Cristo: Confrontação, Revelação, Re-
conhecimento e Confissão. Nunca podemos entrar na assembleia
para governar até que tenhamos um encontro avassalador e pessoal
com Jesus, tal como Pedro teve antes da sua proclamação de quem
Jesus realmente é. Nós não podemos conhecer a verdade acerca de
Jesus, a menos que nos seja revelada.
Uma vez que Jesus fez de Pedro o exemplo, vamos recorrer ao que
aconteceu entre eles para ilustrar o procedimento:
Há uma confrontação direta: Pedro encontrou-se com Jesus cara-a-
-cara. Não havia ninguém entre os dois, nenhum mediador, nenhum
intermediário.
Há uma revelação concedida: A revelação foi concedida por Deus,
o Pai, através do Espírito Santo. Sem essa revelação, Pedro não pode-
ria saber quem Jesus realmente é.
Há um reconhecimento da revelação: Pedro reconheceu a revelação
quando respondeu à pergunta de Cristo.
Há uma confissão da revelação: Pedro confessou, em voz alta, “Tu
és o Cristo, o Filho do Deus vivo.”

A Igreja como Sião


Nas Escrituras, o título que é usado regularmente para a assem-
bleia do povo de Deus quando ele se reúne em ordem divina é Sião.

23
Examinemos o que as Escrituras dizem acerca de Sião e a nossa rela-
ção com Sião, enquanto crentes:
Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusa-
lém celestial, e aos muitos milhares de anjos, à universal assembleia e
igreja dos primogénitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o Juiz
de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados; e a Jesus, o Mediador
de uma nova aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do
que o de Abel. (Hebreus 12:22-24)
Repare que isto não é um acontecimento futuro. O escritor não
disse: “Em breve chegarão.” Ele disse que já chegastes! Não fisicamen-
te, como é óbvio, mas espiritualmente, nós já somos parte da total
assembleia governativa de Deus. Apesar de parte dela ser no céu e ou-
tra parte ser na terra, somos todos uma assembleia. Incluídos nessa as-
sembleia estão “milhares de milhares de anjos em alegre reunião”(NVI),
é uma assembleia gloriosa e altamente dignificada.
Lembro-me de um incidente que ocorreu na desfile oficial do co-
mandando durante os meus anos no serviço militar. Todos tinham de
polir todas as suas peças de bronze e as suas botas, e ficar em sentido.
Havia uma banda militar e tudo era notável, oficial e dignificado.
Pairava um ar de autoridade. Esta é a imagem aqui usada para Sião e
nós fazemos parte dela!
Através da nossa fé em Jesus Cristo, nós somos parte da grande
assembleia governamental que governa todo o universo. A Cabeça
dessa assembleia, sob Deus o Pai, é Jesus Cristo. Nós, como a igreja (o
povo de Deus, a assembleia), somos os representantes da autoridade
de Deus na terra.

Nós, como a igreja (o povo de Deus, a assembleia), somos os


representantes da autoridade de Deus na terra.

A Nossa Autoridade Terrena


Um dos versículos mais citados do Antigo Testamento apresenta a
tremenda autoridade da assembleia do Senhor:
Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão di-
reita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés.(Sal-
mos 110:1)

24
Em Marco 12:35-37, Jesus aplicou a Si próprio a referência aci-
ma. O “Senhor” é Deus o Pai. O “Meu Senhor” é o Grande Filho de
David, o Senhor Jesus Cristo. Este versículo refere-se a um depoi-
mento que o Pai faz ao Filho depois da morte e ressurreição de Jesus,
quando Ele ascendeu e tomou o Seu lugar à mão direita do Pai. Deus
o Pai diz a Jesus Cristo o Filho, “Senta-Te à minha direita”. Toda a
autoridade no céu e na terra foi dada a Jesus até que Deus fizesse de
todos os Seus inimigos, o Seu escabelo (banquinho para os pés).
O Novo Testamento claramente revela que agora Jesus está sentado
à direita de Deus. (Ver, por exemplo, Romanos 8:34; Efésios 1:20;
Colossenses 3:1; Hebreus 1:3; 1 Pedro 3:22). Jesus Cristo está neste
momento sentado no Seu trono. E no Salmo 110:2 está escrito como
a sua autoridade deve ser executada na terra:
O SENHOR enviará o cetro da tua fortaleza desde Sião, dizen-
do: Domina no meio dos teus inimigos.(Salmos 110:2)
Creio que todas as três Pessoas da Divindade são representadas
nos primeiros dois versículos do Salmo 110. No primeiro versícu-
lo lemos que Deus, o Pai, diz a Jesus, o Filho: “Assenta-te à minha
mão direita…” Depois, no segundo versículo, vemos que Deus, o
Espírito Santo, estende o cetro da autoridade de Cristo desde Sião,
a assembleia do Seu povo, e diz: “Domina no meio dos teus inimigos.”
Por vezes estamos tão conscientes dos inimigos que nos esquecemos
que Cristo já está a governar. Nem todos os Seus inimigos foram
já subjugados sob os Seus pés, mas Ele reina de forma suprema no
meio dos Seus inimigos – agora mesmo, através de nós! O Espírito
Santo estende o cetro da autoridade de Cristo sobre as nações, reis e
governadores desta terra. E Ele fá-lo a partir da assembleia do povo
de Deus que está reunida sob ordem divina em oração, no ministério
da Palavra e no dos dons do Espírito.
Jesus governa “desde Sião”, que é a imagem do povo de Deus reu-
nido em assembleia, em ordem e em autoridade divinas. Deus o Pai
diz a Deus o Filho: “Toda a autoridade é Tua. De agora em diante
Tu governas.” Mas a Sua governação é exercida pelo Espírito “desde
Sião”, a assembleia do povo de Deus. Nós somos aquela vara esten-
dida na mão do Senhor, representando a Sua autoridade onde quer
que operemos! Se nós ao menos compreendêssemos a solenidade e o
poder desta verdade.

25
A maioria dos Cristãos aceita o facto de que Jesus irá governar um
dia. Mas é vital saber que Ele está a governar agora mesmo.

É vital saber que Jesus está a governar agora mesmo.

Quando você compreender totalmente este facto, ele mudará


drasticamente a forma como vive. Através das nossas orações, inter-
cessões e jejuns, através da nossa proclamação do evangelho e o nosso
estilo de vida comprometido, estamos a ser utilizados por Cristo para
“dominar no meio dos Seus inimigos.”
Os Cristãos são como a vara de Moisés na história da libertação de
Israel do Egipto. A vara é um símbolo de autoridade. A libertação fi-
nal do povo de Deus não podia ter lugar sem que Moisés aprendesse a
usar a sua vara. Do mesmo modo, a realização do destino do povo de
Deus não terá lugar até que aprendamos a “usar a vara”, ou a funcio-
nar de uma forma unificada e governamental, como a assembleia, o
corpo governante de Deus – não em tempos vindouros, mas agora.
Após uma forte exortação sobre relacionamentos corretos na igre-
ja, Jesus disse:
Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será liga-
do no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de
qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu pai, que está
nos céus. Porque onde estiver dois ou três reunidos em meu nome, aí
estou eu no meio deles. (Mateus 18:18-20)
Repare que, nesta passagem, a iniciativa não está no céu, mas na
terra. Quando concordamos na terra, o céu faz o trabalho. Quan-
do ligamos ou desligamos na terra, fica ligado ou desligado no céu.
O nosso concordar e o nosso ligar e desligar tornam-se eficazes ao
juntarmo-nos numa assembleia unificada. O céu considera os nossos
pedidos e as nossas petições e torna-os eficazes. Nós temos uma auto-
ridade incrível como assembleia governadora de Deus!
Conheci um jovem pastor na Dinamarca, que enfrentava o pro-
blema de pessoas divorciadas que queriam voltar a casar. Ele tinha-se
recusado casar um casal, mas tinha consentido o casamento de outro e
estava a ser criticado por isso. Não tinha a certeza de estar a fazer a coisa
certa, por isso tirou tempo para consultar o Senhor sobre esse assunto.

26
Ele orou: “Senhor, por que não deixaste claro no Novo Testamento os
Teus padrões para o casamento, o divórcio e o voltar a casar?” O Se-
nhor respondeu-lhe: “Se Eu te tivesse dado um conjunto de regras, tê-
-lo-ias usado de forma legalista para trazer as pessoas à união e não
terias demonstrado qualquer misericórdia.” Então o pastor disse: “Se-
nhor, se me mostrares o que farias nesta situação, eu fá-lo-ei.” O Se-
nhor respondeu: “Pelo contrário, se tu decidires o que farás, Eu o farei.”
É precisamente isto o que diz em Mateus 18: O que vocês ligarem,
Eu ligo; o que vocês desligarem, Eu desligo; se vocês concordarem,
Eu o farei. Deus colocou a responsabilidade em nós, a assembleia. Ele
diz: “Vocês fazem os decretos e eu faço-os cumprir. Vocês tomam as
decisões, e Eu certifico-me de que elas se cumprem.”

Os Seus Dons
Outra observação muito importante sobre a assembleia é que ela
funciona somente quando reconhecemos os dons uns dos outros.

A assembleia funciona somente quando reconhecemos


os dons uns dos outros.

Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como


bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém falar,
fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre
segundo o poder que Deus dá, para que em tudo Deus seja glorifica-
do por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o poder para todo o
sempre. Amém! (1 Pedro 4:10-11)
Em que é que Deus o tornou? Qual é o seu ofício, a sua função?
Cada pessoa tem um dom (Charisma, no Grego). Devemos ser sen-
síveis ao - e ministrar uns aos outros - nosso charisma, quer os nossos
dons sejam falar, servir, ensinar ou outra coisa qualquer.
Na minha opinião, a liderança também é um charisma. O dom de li-
derança é bastante reconhecível. A habilidade de liderar é algo, que Deus
através do Espírito Santo coloca na pessoa com um determinado propó-
sito. Ou então o seu charisma, pode ser um serviço particular. Um dos
principais ingredientes que falta na vida Cristã de hoje, é servir os outros.
Precisamos de ser muito mais sensíveis ao charisma dos nossos
irmãos e irmãs na igreja. Deveríamos reconhecer os seus cargos, as
suas funções e os seus lugares na assembleia.

27
E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre
vós, e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam [ou cor-
rigem]; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua
obra. (1 Tessalonicenses 5:12-13)
A autoridade espiritual só pode operar por reconhecimento vo-
luntário. Não pode ser imposta; temos de nos submeter a ela. Sem
submissão não há qualquer autoridade espiritual.
O trabalho dos que têm autoridade espiritual é admoestar os cren-
tes, orientá-los, corrigi-los e dizer-lhes quando estão errados. É neces-
sário ser um verdadeiro amigo para fazer isso. Não há nada que nos
traga mais sobriedade ou modéstia do que ouvir alguém dizer: “Acei-
to a tua autoridade.” As pessoas que olham para mim como líder,
colocam sobre mim uma tremenda e mui solene responsabilidade.

Quero desafiá-lo a ter um compromisso mais sério com a igreja.


Ninguém agiria de forma casual e sem disciplina num contexto
legal, tal como um tribunal e, contudo, muitos Cristãos fazem-no na
assembleia da igreja, que é um tribunal mais elevado do que qual-
quer assembleia terrestre. Frequente a igreja de forma consistente e
pontual, vista-se apropriadamente, sirva de alguma forma e aprecie
o facto de que você é parte de uma importante instituição. Dê à
assembleia o seu melhor em atitude e serviço.

A Característica Essencial da Assembleia e o Requi-


sito de Deus
Com cada uma das sete imagens da igreja, dar-vos-ei uma dupla
aplicação: mostrarei a característica essencial de cada imagem e o que
é requerido de nós como povo de Deus.
A característica essencial da assembleia é a autoridade governa-
mental. Deus tem depositado muita autoridade governamental na
Sua assembleia. O que nos é requerido de forma a exercitarmos a
autoridade de Deus é respeito pela ordem de Deus. Não podemos go-
vernar outros se não somos capazes de nos governar.
Você já assistiu a uma conferência ou reunião onde o líder estava
a tentar impor ordem, mas toda a gente continuava a falar, sem lhe
prestar qualquer atenção? Os membros mantêm as suas conversas in-
dependentes e estão ocupados com as suas agendas – sem mencionar

28
a falta de respeito pela autoridade do líder – de forma que nada pode
ser feito. Quem colocaria alguma coisa à responsabilidade de um gru-
po como este? No entanto, questiono-me se esta não será a imagem
da igreja que muitos dos nossos críticos têm.
Não estaremos em condições de governar o mundo até que tenha-
mos aprendido a governar-nos a nós.

Não estaremos em condições de governar o mundo até que tenha-


mos aprendido a governar-nos a nós.

Contudo, Deus tem-nos destinado para nos governarmos e tam-


bém para sermos o instrumento do Seu governo na terra. Que ima-
gem desafiadora a que vemos no espelho e que ascensão temos pela
frente para chegarmos a essa posição!
Uma vez estabelecido um coração de dedicação à assembleia, você
deve perseguir o próximo aspecto de relacionamento à igreja: mem-
bresia no corpo de Cristo.

29
-4-

2ª. Imagem:
O Corpo de Cristo

“E [Deus] sujeitou todas as coisas a seus pés e, sobre todas as


coisas, o [Jesus] constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo,
a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.” Efésios 1:22-23
Construindo a imagem da igreja como a assembleia governamen-
tal de crentes de Deus, a segunda imagem é a do Seu corpo, o corpo
de Cristo.
Relacionamo-nos com o mundo em que vivemos através dos nos-
sos corpos. É no corpo que fazemos as coisas, num mundo de tempo
e espaço. Do mesmo modo, Cristo relaciona-se com o mundo através
de nós, o Seu corpo. Nós somos os instrumentos através dos quais Ele
elabora os Seus propósitos redentores no mundo.

Cristo relaciona-se com o mundo através de nós, o Seu corpo.

Pelo que, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste,


mas corpo me preparaste; holocaustos e oblações pelo pecado não te
agradaram. Então, disse: Eis aqui venho (no princípio do livro está
escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade. (Hebreus 10:5-7)

Esta passagem representa a vinda de Jesus à terra, não para intro-


duzir a Lei (que já havia sido introduzida por Moisés), mas para nos
salvar, sendo o sacrifício pelos nossos pecados. De forma a fazê-lo, Ele
tinha de ter um corpo com o qual providenciar o sacrifício. Quando
se coloca as duas frases juntas, “corpo me preparaste” e “para fazer, ó
Deus, a tua vontade”, isto diz-nos que a função do corpo é a de ser o
instrumento usado para cumprir a vontade de Deus. Isto demonstra
o duplo aspecto do corpo de Cristo: primeiro, o corpo físico de Jesus
tornou-se no sacrifício pelos nossos pecados na cruz; e segundo, o

31
corpo coletivo do povo de Deus que continua e completa o Seu mi-
nistério na terra.
O Novo Testamento apresenta várias imagens de crentes como o
corpo de Cristo. Em Romanos, Paulo escreveu:
Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem
todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos mui-
tos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos mem-
bros uns dos outros. (Romanos 12:4-5)
Este corpo não é um grupo de indivíduos separados ou isolados,
pertencemos uns aos outros.
Em 1 Coríntios, Paulo amplificou esta imagem do corpo de Cristo:
Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos
os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também.
Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo,
quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebi-
do de um Espírito. (1 Coríntios 12:12-13)
A palavra enfatizada na passagem anterior é um: “…são um só cor-
po… todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo…
todos temos bebido de um Espírito.” A ênfase, de uma extremidade à
outra, é a unidade do corpo. Paulo continuou:
Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se o
pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do
corpo? E, se a orelha disser: Porque não sou olho, não sou do corpo;
não será por isso do corpo? Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o
ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfacto? Mas, agora, Deus
colocou os membros no corpo, cada um deles como quis. E, se todos
fossem um só membro, onde estaria o corpo? Agora, pois, há muitos
membros, mas um corpo. E o olho não pode dizer à mão: Não tenho
necessidade de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não tenho necessida-
de de vós. (1 Coríntios 12:14-21)
Nos nossos relacionamentos uns com os outros, a palavra que,
creio, melhor se aplica é interdependente. A essência do ensino de
Paulo é que cada membro necessita de todos os outros membros. Ne-
nhum de nós é independente; não podemos viver uns sem os outros.
Assim sendo, não podemos dizer a outros crentes, “Posso viver sem

32
ti. Não importa o que te possa acontecer; eu estou bem.” Essa atitude
não é permissível nem correta, porque Deus tem o controlo soberano
sobre o corpo. O olho, apesar de ser um instrumento maravilhoso,
refinado e delicado, com mais de três milhões de partes movendo-se
e trabalhando, não pode dizer à mão, esse membro algo vulgar, “Eu
não preciso de ti.” A cabeça está no topo, os pés estão em baixo e todo
o comprimento do corpo separa-os. No entanto, eles claramente ne-
cessitam um do outro para que o corpo opere com máxima eficiência.
O que é significativo é que, num certo sentido, a cabeça simboliza Je-
sus. Por conseguinte, Jesus não diria à parte mais inferior do Seu corpo,
“Não preciso de ti.” Em vez disso, Ele precisa de nós porque nós somos
o Seu corpo, os instrumentos que usa para fazer coisas neste mundo.
Os membros mais fracos são, na realidade, os mais importantes.
Nenhuma parte exterior do corpo é mais frágil e sensível do que o
olho. Contudo, talvez nenhuma parte seja mais importante. Repare
o quão cuidadosamente a natureza protegeu o olho. Ele recebe toda a
proteção e honra, não porque ele é forte, mas porque é fraco. Esta é a
forma como o corpo foi unido: o forte tem que proteger o fraco. Não
podemos ignorar ou desprezar qualquer membro do corpo de Cristo,
esta é uma lição vital.
Quando era missionário na África de Leste, as pessoas vinham ba-
ter à minha porta desde as seis da manhã até às dez da noite. Cansei-
-me de lhes dizer que não podia fazer as muitas coisas que me pediam,
até mesmo da minha área de estudo. Por vezes, quando chegava ao
ponto de verdadeira irritação, era como se o Senhor me estivesse a
dizer: “Toma cuidado, porque vais falar com um dos Meus filhos.” Eu
tinha de parar e lembrar-me que não tinha qualquer direito de estar
irritado, impaciente ou ser insolente com qualquer filho de Deus. Isto
também é verdade em relação aos membros do corpo. Precisamos uns
dos outros, dependemos uns dos outros e somos obrigados a honrar
uns aos outros. Quando um membro sofre, os outros sofrem com
ele; Quando um membro é honrado, os outros são honrados com
ele. Assim, também é com o corpo universal de Jesus Cristo, a igreja.
O Corpo Completo
Do qual [Cristo] todo o corpo, bem ajustado e ligado pelo auxílio
de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o au-
mento do corpo, para sua edificação em amor. (Efésios 4:16)

33
Este versículo apresenta o produto final. Apesar de haver muitas
juntas e ligaduras que firmemente nos mantêm intactos, todos nós que
estamos unidos em Cristo somos um corpo. Ao sermos mantidos juntos
nesta unidade orgânica e singular, o corpo edifica-se. Mas, para que se
edifique, o corpo depende do cumprimento da função de cada parte.
Uma parte doente afeta a saúde do resto do corpo.
O que é requerido para manter todas as partes saudáveis no nosso
relacionamento com Cristo? As palavras obediência, submissão e pron-
tidão vêm à mente, mas a palavra que eu escolho é disponibilidade.
Os membros têm de estar disponíveis para a Cabeça. Não importa
o quão forte e útil o meu braço possa ser, ele não serve de nada à ca-
beça a menos que esteja disponível para fazer o que a cabeça quer. O
mesmo se aplica a qualquer outra parte do meu corpo. Alguém disse,
que o único tipo de habilidade que Deus procura numa pessoa é a
disponibilidade.
…e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e orga-
nizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus.
(Colossenses 2:19)
As “juntas” são os relacionamentos internos entre os vários mem-
bros do corpo, através dos quais vem a provisão de Deus. O meu
relacionamento consigo é a minha “junta” ou ligação a si. É crucial
compreendermos que as nossas necessidades são supridas através das
juntas ou relacionamentos dentro do corpo.
As “ligaduras” são necessárias para manter as juntas unidas. Uma liga-
dura é um amor comprometido, pactuado – amor que é comprometido
a outra pessoa, como um homem à sua esposa (“na alegria e na tristeza”,
“na saúde e na doença”). Se eu discordar com a doutrina da minha espo-
sa, vou procurar outra esposa? Claro que não. Quando um homem está
comprometido a uma mulher pelo casamento, é um compromisso apesar
de desacordos, tensões e problemas. Qualquer casamento que seja um
compromisso apenas, enquanto não existem tensões ou problemas, não
durará. O que é necessário é algo que una as pessoas apesar das tensões e
problemas. Qual é a reposta? Contrato de compromisso: um compromisso
profundo, permanente e individual.
As nossas necessidades não são satisfeitas somente através da Ca-
beça, mas através da rede de juntas e ligamentos por todo o corpo,
que se encontram unidos de várias formas à Cabeça. A Cabeça pode

34
ter feito uma completa provisão para cada necessidade de cada mem-
bro, mas os membros não terão as suas necessidades supridas a menos
que estejam corretamente relacionados aos outros membros através
da Cabeça.

A Cabeça pode ter feito uma completa provisão para cada necessi-
dade de cada membro, mas os membros não terão as suas neces-
sidades supridas a menos que estejam corretamente relacionados
aos outros membros através da Cabeça.

Uma vez que a “nutrição” espiritual é fornecida através das juntas


e ligaduras, não podemos dizer: “Eu terei tudo o que necessito so-
mente do Senhor.” O Senhor não organizou o corpo dessa forma. Ele
preparou o corpo de forma a termos muitas das nossas necessidades
supridas pelos nossos companheiros membros.
É notável que Jesus não tenha sofrido quebra de um único osso na
cruz, contudo, a Bíblia diz que todos os Seus ossos estavam descon-
juntados (ver Salmos 22:14). O mesmo acontece com a igreja, mas,
pela graça de Deus, os ossos mantêm-se unidos mesmo se os relacio-
namentos dentro do corpo precisarem de muito trabalho!

Descobrindo o Seu Lugar


É importante descobrir o seu verdadeiro lugar no corpo. Como es-
crevi anteriormente, tenho percebido que o padrão mais prático para
descobrirmos o nosso lugar pode ser encontrado em Romanos 12:
Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis
o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é
o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo, mas
transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que ex-
perimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
(versos 1-2)
Vamos examinar os quatro passos expostos nestes versículos.

1. Apresente o Seu Corpo


De novo, esta passagem fala de um “sacrifício vivo”, em contraste
com os sacrifícios do Antigo Testamento, onde a oferta sacrificial era
morta e colocada no altar. A chamada para ser um sacrifício vivo le-

35
vanta uma questão profunda e de grande alcance, que cada um de nós
tem de resolver: Quem possui o teu corpo? Resolva a questão da pos-
sessão do seu corpo. Se você o possui, então ele não é do Senhor. Se
o Senhor o possui, então ele não é seu. Você realmente já apresentou
o seu corpo ao Senhor e renunciou a sua reivindicação de possessão
sobre ele? Se não, chegou o momento.

2. Renove a Sua Mente


Uma vez que apresente o seu corpo, ocorre o segundo passo na
descoberta do seu lugar no corpo de Cristo: Você começa a pensar de
forma diferente. O homem natural, não regenerado, é egoísta. Ele per-
gunta sempre: “O que isto me trará? O que ganho eu com isto? Terei
prazer com isto? Isto dar-me-á uma promoção?” Não conseguimos
encontrar a vontade de Deus até que toda a nossa forma de pensar
tenha sido alterada.

Não conseguimos encontrar a vontade de Deus até que toda a


nossa forma de pensar tenha sido alterada.

As Escrituras dizem que uma mente carnal é inimiga de Deus e


que Ele não revela a Sua vontade aos Seus inimigos, mas sim aos Seus
amigos. (Veja Romanos 8:7)

3. Descubra a Vontade de Deus


Enquanto a sua mente é renovada, você começa a descobrir a von-
tade de Deus e a entrar na Sua vontade para a sua vida. Na verdade,
quanto mais entrar na vontade de Deus, melhor ficará! Como o ver-
sículo afirma, primeiro é “boa” – algo que você pode aceitar intelec-
tualmente como positivo. A próxima etapa é “aceitável”, na qual você
realmente se estabelece e abraça a vontade de Deus. Finalmente, ela
torna-se “perfeita” no sentido de que você não consegue imaginar
algo mais adequado ou agradável!
Somente a mente renovada encontra a vontade de Deus. Muitos
Cristãos guiam-se pelo tacto e tropeçam pela vida, nunca encontrando a
vontade de Deus, porque nunca foram renovados nas suas mentes.

4. Coloque de Parte a Independência


Acredito que a ênfase principal do Espírito Santo ao povo de Deus
hoje em dia é, que devemos desistir do nosso individualismo agressivo

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e negativo, das nossas atitudes incorretas para com os nossos com-
panheiros crentes. Mais uma vez digo, nenhum de nós pode dizer a
qualquer um dos outros: “Não preciso de ti.” Os propósitos de Deus
não estarão completos até que o corpo esteja completo – até que todos
os membros estejam unidos, com cada parte a cumprir a sua função e
o corpo esteja a crescer saudavelmente, em conjunto, glorificando-O.
Sou uma pessoa independente, mas não sou um Cristão solitário.
Estive sempre associado a uma igreja local onde quer que tenha vi-
vido. Na realidade, estremeço ao pensar o que teria sido de mim se
não tivesse sido parte verdadeira do corpo. Fiz parte de um grupo do-
miciliário nos anos 70, quando um membro do nosso grupo perdeu
um filho num afogamento acidental. Quando uma pessoa está em
choque, ela nem é capaz de expressar as suas necessidades mais pro-
fundas. Tive a oportunidade de ver como o corpo de Cristo se reuniu
à volta daquela família, providenciando todas as suas necessidades
sem lhes ser pedido.
É claro, para que este tipo de ministério do corpo seja realmen-
te eficaz, o corpo tem de conhecer a pessoa, como o nosso grupo
conhecia, para que possa avançar de forma corporativa numa ação
apropriada.
Entreguei, por morte, duas esposas amadas ao Senhor: a Lydia em
1975 e a Ruth em 1998. A dor por que passei seria difícil de expres-
sar, mas o amor dos meus irmãos e irmãs ajudaram-me a atravessar
esses tempos. Qualquer pessoa presente no serviço fúnebre da minha
esposa Ruth lembrar-se-á das minhas primeiras palavras, saídas no
meio das lágrimas e que se tornaram parte da minha vida: “Não estou
a chorar por estar triste, mas porque nunca soube que havia tanto
amor no mundo!” As mensagens de conforto e amor recebidas de
todo o mundo, de pessoas que eu nunca tinha conhecido, foram uma
bênção esmagadora para mim. Aqueles com quem eu caminhava to-
dos os dias simplesmente se levantaram, tomaram conta de mim e
acompanharam-me através daqueles meses dolorosos. Eu nunca tê-
-lo-ia conseguido sozinho e, felizmente, não tive de o fazer.
Sinto-me triste por aqueles que se privam da “vida do corpo” atra-
vés da rebelião ou da independência. Eles estão a perder o amor que
Deus expressa organicamente através do corpo de Cristo. Eu nunca
teria conhecido de forma completa o amor de Deus se não tivesse
passado pela dor nos braços do corpo de Cristo. Não cometa o erro

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que muitos têm cometido de se encontrarem sozinhos e sem os recur-
sos do corpo quando mais deles necessitam. Não diga: “Se a tragédia
me atingir, eu safo-me sozinho!” Quando os problemas aparecem, é
muito tarde para se começar a construir relacionamentos dentro do
corpo. Encontre agora o seu lugar e nutra amizades íntimas com os
seus companheiros Cristãos. Não só você precisa deles, como tam-
bém eles precisam de si!

38
-5-

3ª. Imagem:
A Obra Prima (A Manufactura)

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas


obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.” Efésios 2:10
Já vimos as primeiras duas imagens, do que Deus tenciona que o
Seu povo se torne: a assembleia de Deus e o corpo de Cristo. Temos
um papel importante a desempenhar na assembleia governamental,
que exerce julgamento e autoridade espiritual na terra; fluímos juntos
em unidade, ligados aos nossos irmãos e irmãs como membros do
mesmo corpo. Uma função é governamental, a outra é relacional.

A Obra-Prima Criativa de Deus


A terceira imagem é a manufatura. A tradução Inglesa de Efésios
2:10, não revela na totalidade o significado real desta imagem. A pa-
lavra Grega traduzida por “feitura” é poiema. A versão Latina é poema,
da qual origina a palavra Inglesa poem (poema). A Bíblia de Jerusalém
usa a expressão “obra-prima”. Por outras palavras, esta expressão é ex-
traída do campo da arte e criatividade. Gosto de traduzi-la da seguin-
te forma: “Nós somos a obra-prima criativa de Deus”, que melhor
transmite o que Paulo queria expressar.
Quando ponderamos tudo o que Deus criou, é maravilhoso e ao
mesmo tempo torna-nos humildes, percebermos que Deus escolheu
pessoas como nós para serem os materiais da sua obra-prima criativa.
Pense por momentos em tudo o que envolve um trabalho de arte
criativo. Por exemplo, considere a arte da escultura. Existem muitos
exemplos de belas esculturas na antiguidade Grega. Quando as ferra-
mentas certas são usadas com grande perícia e paciência, o trabalho
prático segue a visão interior. O escultor olha para um bloco de már-
more e visiona de forma criativa algo que será revelado. Ele mune-se
de um escopro e com a sua visão mental do que quer produzir, come-

39
ça a lascar a pedra. Gradualmente emerge a forma, que é a expressão
da visão interna do artista.
Quando trabalhei com a Elizabeth Sherrill no livro da minha es-
posa Lydia, Appointment in Jerusalem, produzi o manuscrito depois
de dois anos de trabalho. A Elizabeth disse: “Agora revê-o e retira
cerca de vinte por cento.” Se você alguma vez trabalhou num livro
durante dois anos, sabe o que isso significa!
Ela citou-me o que Miguel Ângelo disse acerca das suas estátuas:
“Cada golpe do escopro revela um pouco mais do plano.” Quanto
mais se cortar, melhor a nossa visão é revelada. Do mesmo modo,
à medida que Deus vai cortando, você poderá questionar: “Senhor,
sobrará alguma coisa em mim?” Mas cada rasgo do Seu escopro revela
de forma mais perfeita o plano do Artista Mestre.
Poderíamos também considerar a arte de pintar. A essência da
pintura inclui a combinação da forma com a cor nas proporções cor-
retas, para produzir um cenário ou um objeto. A combinação das
formas e das cores por parte do artista pode ajudar-nos a ver aspectos,
que nos passaram despercebidos quando olhámos para o cenário ou
para o objeto. O mesmo se passa também connosco: Deus traba-
lha em nós, misturando, moldando, posicionando-nos e depois ele
desvenda-nos ao mundo, que é então capaz de ver algo em nós que
não era perceptível antes.
Considere outro exemplo de trabalho criativo, a poesia. Eu sem-
pre estive particularmente interessado em poesia, cheguei mesmo a
escrever alguns poemas. Na sua essência, a poesia é arte com palavras.
É a combinação de palavras para evocar uma imagem, causar uma
impressão ou criar um impacto. Cada palavra tem de ser a palavra
certa, colocada no sítio certo e perfeitamente relacionada com as
palavras à sua volta. Da mesma forma, Deus quer transformar-nos
coletivamente num poema, com cada um de nós cuidadosamente se-
leccionado e colocado na posição correta em relação a todos os outros
à nossa volta.
Nós somos o poema de Deus, a Sua obra-prima criativa, “para
que, agora, pela igreja [o povo de Deus], a multiforme sabedoria de
Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus.” (Efésios 3:10)
A declaração de Paulo é espantosa. É fantástico saber que Deus
nos escolheu, o Seu povo redimido, para demonstrar a Sua multifor-
me sabedoria a todo o universo – no tempo e na eternidade – e aos

40
reinos celestiais invisíveis! A palavra multiforme é uma palavra vívida
que eu traduzo como “multi-facetada”. Cada um de nós demonstra
uma fração única da total e multifacetada sabedoria de Deus, e todos
nós somos misturados em um todo harmonioso!
Aonde foi Deus buscar a matéria-prima para produzir esta obra
de arte criativa, que é a Sua igreja? Foi procurá-la numa sucata! Ele
usou os pedaços das vidas que tinham sido corrompidas pelo peca-
do, Ele foi à pilha de famílias destroçadas, corpos doentes e mentes
corruptas.
Em Efésios 2:10, de uma forma bela e, no entanto, prática, Paulo
disse-nos que fomos criados para fazer as boas obras, que Deus ante-
cipadamente preparou para fazermos. Este versículo diz-nos que não
devemos ser meros ornamentos; devemos ser úteis.

Não devemos ser meros ornamentos; devemos ser úteis.

Temos que cumprir uma função. Não devemos apenas andar por
aí e sermos interessantes e espirituais. Deus tem uma boa obra para
cada crente realizar; o nosso dever é encontrar essas boas obras e em-
penharmo-nos na sua realização.
Não há lugar para a improvisação. Nenhum de nós é livre para es-
crever o resultado da sua vida; Deus já o escreveu. Nós encontramos o
nosso lugar nessa obra-prima criativa, quando nos rendermos a Deus.

Nós encontramos o nosso lugar quando nos rendermos a Deus.

Então encontramos alguma coisa pronta para nós fazermos, e com


a qual talvez nunca tínhamos sonhado. Se alguém me tivesse dito há
alguns anos atrás que um dia, eu me tornaria um professor de Bíblia,
eu teria rido. Os meus amigos teriam rido mais alto ainda, porque
nessa altura não havia nada em mim, que desse a mais pequena indi-
cação do que Deus tinha planeado para fazer de mim.

A Característica Essencial da Manufatura


e o Requisito de Deus
A característica essencial da imagem da obra-prima – o poema – é
a demonstração do génio criativo de Deus. Deus tem sido um criador
desde o princípio, e Ele continua a criar hoje. Ele criou os corpos

41
celestes, as estrelas, os mares, as montanhas, os animais, e as flores.
E quando acabou tudo isso, Ele disse, “A Minha grande obra-prima
ainda está para vir.” Nós somos essa obra-prima – a última revelação
do génio criativo de Deus!

Rendição
O que é requerido de nós, como membros do Seu poema está
resumido numa palavra: rendição (submissão). Se nós formos uma
palavra num poema, apenas tomamos o nosso lugar. Se formos um
pedaço de barro nas mãos do Oleiro, apenas deixamos que Ele nos
molde. Se formos parte de um bloco de mármore, apenas deixamos
que Ele vá lascando em nós. Não discutimos com Ele ou Lhe di-
zemos como fazer o Seu trabalho. Não perguntamos, “Deus, Sabes
realmente o que Estás a fazer comigo?” A chave é submissão (rendi-
ção). Ao entregarmo-nos total e voluntariamente nas Suas mãos, Ele
transformar-nos-á na Sua obra maravilhosa.
Mas agora, ó SENHOR, tu és o nosso Pai; nós, o barro, e tu, o
nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos. (Isaías 64:8)
Uma vez que nos colocamos nas mãos de Deus, é com Ele, fazer
de nós o que Ele desejar.

Capacidade de Incorporar-se
Para completar esta imagem da obra-prima criativa de Deus, o
que é que isto requer de cada um de nós perante cada um? Tive que
inventar uma palavra para descrever a nossa responsabilidade: capa-
cidade de incorporar-se, a capacidade de fundir-se com outros. Outras
palavras apropriadas podem ser capacidade de se misturar com ou
coesividade. O que nós somos individualmente não é o mais impor-
tante; o que nós nos tornamos juntos é que é o objetivo final.

O que nós somos individualmente não é o mais importante; o que


nós nos tornamos juntos é que é o objetivo final.

Para isso, temos que demonstrar um desejo de perder as nossas


identidades individuais para atingir um todo maior.
Quando Deus nos quer formar, mudar, e moldar, Ele pressiona.
Quando nós sentimos pressão, queremos dizer: “Deus, já não posso

42
aguentar mais isto!” Mas Ele diz, “Eu faço isto para te tornar não no
que queres ser, mas sim no que Eu quero que tu sejas. Todos nós que
amamos o Senhor experimentaremos a pressão das Suas mãos nos
dias que virão. A roda da vida irá girar cada vez mais rápido. A pres-
são pode se tornar mais intensa, mas desde que nos mantenhamos
flexíveis e na Sua presença, surgiremos como o vaso que Ele quer que
nós sejamos.
Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura, a
coisa formada dirá ao que a formou: Porque me fizeste assim? (Ro-
manos 9:20)
Romanos 9 é um dos capítulos teológicos mais difíceis da Bíblia,
porque trata da soberana predestinação de Deus. Paulo fala acerca do
oleiro fazer um vaso para a “desonra” – algo que é impuro – e um vaso
para a “honra” (versículo 21). A predestinação diz, essencialmente,
que Deus determina o que Ele fará de cada pedaço de material. Ele
determina se fará uma lata de lixo ou um vaso de flores. Nós não
temos escolha; a decisão é de Deus. É claro que isto não é o quadro
completo, deve ser contrabalançado por outras verdades. Nós somos
livres na nossa vontade, porém enquanto não sabemos exatamente
como é que a nossa liberdade de escolha e a predestinação funcionam
entre si, Deus sabe que escolhas nós iremos fazer.
Numa reunião sobre “Conflitos Básicos da Juventude”, Bill Go-
thard deu o exemplo de uma jovem com um problema interior pro-
fundo. Ela não conseguia encontrar verdadeira paz, libertação, ou
satisfação, porque estava muito zangada com Deus por tê-la feito
muito alta. Não é estranho, as pessoas pensarem desse modo acerca
das coisas, sobre as quais elas não têm controlo. Nós não temos a
palavra final nesses assuntos, tal como nos recorda o apóstolo Paulo:
Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa
fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus,
querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou
com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição;
Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos
de misericórdia, que para glória já dantes preparou, Os quais somos
nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também
dentre os gentios? (Romanos 9:21-24)

43
Deus usa alguns vasos para manifestar a Sua indignação. O exem-
plo que Paulo usou em Romanos 9 foi o Faraó. Deus disse ao Faraó,
“Para isto mesmo te levantei, para em ti mostrar o meu poder e para que
o meu nome seja anunciado em toda a terra. (versículo 17).
Se descobrir que é um vaso de glória, pode dizer, “Louvado seja
o Senhor; não sou eu que o faço: é a Sua escolha.” Por isso, “Assim,
pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que
se compadece.” (versículo 16). Nós precisamos de voltar para essa parte
negligenciada da verdade de Deus, por mais difícil que possa ser para
alguns a aceitarem.
A essência desta imagem particular do povo de Deus como a Sua
obra-prima é que, em alguns aspectos, nós somos passivos. O barro
não pode dar ordens ou tomar decisões. Se esta fosse a única imagem
do povo de Deus, seria incompleta, mas a nossa compreensão do que
é ser o povo de Deus também seria incompleta sem esta imagem.
Provavelmente, a cultura moderna Ocidental precisa de uma visão
muito mais clara do que significa ser barro voluntário nas mãos de
um Oleiro amoroso.
Tenho encontrado muitas pessoas que nunca se aceitaram a si pró-
prias como manufactura ou obra-prima de Deus. Deus não te pode
usar plenamente, até te aceitares a ti próprio como Deus te fez. Basta
simplesmente ter fé de que o melhor ainda está para vir! Os desen-
volvimentos mais excitantes do meu ministério, começaram quando
eu estava já perto dos meus sessenta anos, após várias décadas de tra-
balho frequentemente exigente e no anonimato. Mantive-me sempre
fiel à chamada que Deus me fez há muito tempo, através de uma
mensagem em línguas e da sua interpretação, para ser “um professor
das Escrituras em verdade, fé e amor, que estão em Cristo Jesus, para
muitos.” Os “muitos” não apareceram senão mais tarde na minha
vida, mas o ministério concretizou-se.
Nós somos a Sua manufactura, criados para uma tarefa significati-
va. Somos importantes para o Seu plano, e devemos estar confiantes
no que Ele vai fazer das nossas vidas!

44
-6-

4ª. Imagem:
A Família

Porque por ele, ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.


Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos
dos Santos e da família de Deus. (Efésios 2:18-19)
Ao continuarmos, em fé, a olhar para o espelho da Palavra de
Deus, para descobrirmos que género de pessoas somos a Seus olhos,
Deus quer verdadeiramente, que entendamos quão importantes nós
somos para a concretização dos Seus propósitos na terra.
Analisemos agora a quarta imagem encontrada na epístola de
Paulo aos Efésios: a família. Nesta lista de sete imagens do povo
de Deus, a quarta está no centro. Creio que é bastante apropria-
do porque a família é fundamental para a nossa compreensão do
povo de Deus. Raramente no Novo Testamento o Seu povo, é refe-
rido pelo nome de Cristãos ou mesmo de crentes. O nome comum
mais usado é de irmãos, enfatizando a membresia numa família
espiritual.
“…porque, por ele, ambos [Judeus e Gentios] temos acesso ao
Pai em um mesmo Espírito.” (Efésios 2:18)
Repare de novo que todas as três pessoas da Divindade estão aqui
representadas: através de Jesus o Filho, temos acesso ao Pai, num só
Espírito. O versículo seguinte revela o resultado maravilhoso:
“Assim que [porque nós temos acesso ao Pai] já não sois estran-
geiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos Santos e da família de
Deus.” (Efésios 2:19)
Contemporaneamente, a melhor tradução da palavra inglesa
“household”, será “família”. Porque Cristo conquistou para nós o
acesso ao Pai; nós tornámo-nos membros da família de Deus.

45
Relação com o Pai
A família de Deus é determinada pela relação com o Pai. No Novo
Testamento Grego, existe uma semelhança muito próxima entre as
palavras pai e família. A palavra para pai é pater; a palavra para famí-
lia é patria, a qual deriva de pater. Esta relação é apresentada muito
claramente na oração de Paulo:
“Por causa disso, me ponho de joelhos perante o Pai de Nosso
Senhor Jesus Cristo, do qual toda a família nos céus e na terra toma
nome…” (Efésios 3:14-15).
Existe aqui um jogo direto entre as palavras “Pai” e “família”. A
partir de Deus o Pai (pater), toda a família (patria) no céu e na terra
tem uma identidade bem definida. A família vem da paternidade,
por isso tendo Deus como nosso Pai, logo faz de nós membros da
Sua família.
Esta verdade é melhor elaborada pelo autor de Hebreus:
“Porque convinha que aquele [Deus o Pai], para quem são todas
as coisas e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória,
consagrasse, pelas aflições, o Príncipe da salvação deles. Porque, assim
o que santifica como os que são santificados, são todos de um; por cuja
causa não se envergonha de lhes chamar irmãos, dizendo: Anunciarei o
teu nome a meus irmãos, cantar-te-ei louvores no meio da congregação.”
(Hebreus 2:10-12)
Há uma revelação bonita nesta passagem: Deus fez-nos Seus filhos
através de Jesus, sendo o Próprio Jesus o Filho unigénito gerado de
Deus Pai; por isso, Jesus reconhece-nos como Seus irmãos por causa
da nossa relação com o Pai. Jesus nunca fez nada sem que Deus o Pai
indicasse o caminho. Jesus nunca nos chamou “irmãos” até o Pai nos
chamar “filhos”. Uma vez que o Pai nos chamou filhos, então Ele
reconheceu-nos como Seus irmãos.
Existem dois aspectos importantes desta revelação particular que
enfatizam a ideia de paternidade: O primeiro e decisivo aspecto é
uma fonte de vida comum. Quando todos nós partilhamos a mesma
fonte de vida, somos todos membros da mesma família. O Pai é a
fonte de cada família, celestial ou terrena. Uma família não é uma
denominação ou um rótulo, nem é uma organização ou uma ins-
tituição. Uma família é uma família porque tem uma fonte de vida
comum.

46
Segundo, a paternidade de Deus tem implicações relacionais em
duas direções: vertical e horizontal. A vertical é a relação que cada
um de nós tem com Deus como Pai. A horizontal é o relacionamento
que todos nós temos uns com os outros como membros da mesma
família. A relação vertical com Deus é primária, mas isso dá-nos uma
responsabilidade horizontal de uns para com os outros. Não pode-
mos reivindicar ser filhos de Deus se não reconhecemos os outros
Seus filhos como nossos irmãos!
Estas duas relações, a vertical e a horizontal, dentro da família de
Deus estão maravilhosamente exemplificadas pelas primeiras palavras
da Oração do Senhor:
“Portanto, vós orareis assim: Pai-nosso, que estás nos céus, santi-
ficado seja o teu nome.” (Mateus 6:9)
Exactamente no início desta oração, surgem duas palavras muito
importantes: “Nosso Pai ”. Na realidade, no original Grego é “Pai-
-nosso”. Portanto a primeira palavra é Pai, que é a palavra decisiva.
Jesus está dizendo, “Tenham isso em mente, através de Mim, vós sois
filhos de Deus”. “Aproxima-te sempre de Deus como teu Pai. Não
te dirijas a Ele apenas como Deus, porque Ele é Deus sobre todos.
Dirige-te a Ele como o teu querido Pai celestial, com o qual estás
agora na relação certa.”
A segunda palavra é nosso – não “meu” Pai, mas “nosso” Pai. O
que é que isto significa? Dirigindo-nos a Deus como “nosso” Pai, re-
conhecemos que Ele tem muitos outros filhos; não és um filho único.
Todos os outros filhos de Deus são teus irmãos e irmãs. Este reconhe-
cimento exclui o nosso egocentrismo.
Há tanto significado nestas duas palavras simples e introdutórias
à oração do Senhor.
Em João 14, quando Jesus estava a falar com os discípulos acerca
do Pai, um deles disse, “Senhor, mostra-nos o Pai” (versículo 8); isto
contristou Jesus e Ele disse:
Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Fili-
pe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?
(João 14:9)
Precisamente antes disso, em João 14:6, Jesus disse, “Eu sou o ca-
minho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” As

47
pessoas citam esta Escritura com frequência, mas muito raramente a
completam. Jesus disse, “Eu sou o caminho”; mas um caminho e não
um fim em si mesmo. Um caminho não tem sentido a não ser que
nos conduza a algum lugar. Onde é que Jesus, o Caminho, nos con-
duz? Ao Pai! Nós não cumprimos o propósito de Deus se meramente
encontrámos o caminho. O que nós temos de encontrar é o fim do
caminho. A missão primária de Jesus não é trazer-nos até Ele mesmo,
mas trazer-nos até ao Pai.
“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos
injustos, para levar-nos a Deus.” (1 Pedro 3:18).

A missão primária de Jesus não é trazer-nos até Ele mesmo, mas


trazer-nos até ao Pai.

O propósito de Deus é reunir numa grande família os filhos mol-


dados, segundo o exemplo do Filho, Jesus. Tudo está a funcionar em
conjunto para, no seguimento da linha desse propósito, fazer de nós
filhos conformes à imagem de Jesus Cristo.
E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o
bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por
seu decreto. Porque os que dantes conheceu, também os predestinou
para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o
primogénito entre muitos irmãos. (Romanos 8:28-29).

O Conceito Central de Família é a Obediência


O conceito central que estas passagens evocam, relativamente à
nossa relação com Deus como nosso Pai, é a obediência.
Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas e me-
diante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse,
pelas aflições, o Príncipe da salvação deles. (Hebreus 2:10).
O “Aquele” que se fala nesta passagem é Deus o Pai; o “Príncipe”
da nossa salvação é Jesus; e os “muito filhos” somos nós os crentes.
O autor de Hebreus conta-nos que o príncipe da nossa salvação
foi feito perfeito através de sofrimentos. Jesus era moralmente perfei-
to, mas no desenvolvimento pessoal Ele não estava perfeito até Deus
o ter levado à maturidade. Ele cresceu como o Filho modelo sob a
disciplina e o discipulado do Pai, o qual o conduziu ao desenvolvi-

48
mento pessoal completo. Ele tornou-se então, o modelo para todos os
filhos no seu caminho para a maturidade. De novo, o processo pelo
qual Ele foi aperfeiçoado foi o sofrimento.
Porque, assim o que santifica como os que são santificados, são to-
dos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos.
(versículo 11)
Jesus é “Ele, aquele que santifica”, e nós somos “os que somos san-
tificados”. O “um” do qual Jesus e nós procedemos é o Pai, pelo qual
nós recebemos a nossa santificação. Como cada um de nós passa pelo
processo de santificação e de maturidade, é-nos dado o direito ao
nosso lugar na família de Deus.
…por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos, di-
zendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos, cantar-te-ei louvores
no meio da congregação. (Hebreus 2:11-12)
É excitante notar que Jesus vai cantar no meio da igreja!
Tem que haver uma revelação crescente do Deus Pai, nos seus
filhos na igreja, através do Seu filho Jesus. A revelação da paternidade
de Deus é o que conduzirá os filhos à maturidade, mesmo que sejam
aperfeiçoados através do sofrimento.
Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que pa-
deceu. (Hebreus 5:8)
A relação entre o Pai e o Filho é uma imagem da relação de um
pai orientando um filho para a maturidade. Portanto, Jesus tornou-
se o modelo e o caminho para nós. Jesus nunca foi desobediente.
Ainda assim Ele teve que aprender a obedecer. Tu e eu temos que
aprender do mesmo modo que Ele fez: obedecendo! Simplesmente
não há outra forma. Não descobrimos o que é a obediência sentando-
nos e ouvindo sermões acerca da obediência. Isso pode ajudar-nos ou
motivar-nos, mas a obediência aprende-se fazendo.
A frase chave na obediência de Jesus foi, “…não se faça a mi-
nha vontade, mas a tua.” (Lucas 22:42). Cada passo de obediência na
vida Cristã é um passo de auto-negação. Jesus disse se alguém desejar
segui-Lo, tem que renunciar a si próprio. (Ver Mateus 16:24.) Isto é
sempre doloroso porque o nosso ego não gosta de ser negado. O ego
quer coisas, e seguir o Senhor é uma contínua negação do ego.

49
A Nossa Responsabilidade com os Crentes Nossos
Companheiros é Amar
Enquanto a nossa relação vertical com Deus pode ser caracteri-
zada neste contexto como obediência, a nossa responsabilidade ho-
rizontal com os nossos irmãos e irmãs é um modo especial de amor.
Existem várias palavras em Grego que tendem a ser todas traduzidas
por “amor”. Quatro delas são eros (paixão sexual), storgé (natural
afecto familiar), philadelphia (amor fraterno), e ágape (amor divino).
Amar não é um dom espiritual, mas o desenvolvimento do carác-
ter. Em 2 Pedro vemos sete passos progressivos que nos conduzem a
este modo especial de amor, ágape:
…e vós também, ponde nisto mesmo toda a diligência, acres-
centai à vossa fé a virtude, e à virtude, a ciência, e à ciência, a
temperança, e à temperança, a paciência, e à paciência, a piedade, e
à piedade, o amor fraternal, e ao amor fraternal, a caridade [ágape]
(2 Pedro 1:5-7)
A Escritura diz, “Acrescentai à vossa fé…” Por isso, nós começamos
com as bases da fé, e depois acrescentamos as sete coisas a isso em
sucessão:
1. Virtude (excelência)
2. Conhecimento (conhecer a vontade de Deus)
3. Auto-controlo (temperança)
4. Perseverança (paciência, resistência)
5. Piedade (santidade)
Avançamos muito na lista, mas ainda não chegámos ao amor. A
atitude de que o amor significa simplesmente dar um abraço a al-
guém num encontro de oração não está de acordo com a Escritura.
Amor é algo que deve ser cultivado e conquistado, e está realmente
no topo da lista. A seguir;
6. Amor fraterno (boa vontade para com os homens)
7. Amor (ágape)

A palavra ágape significa, em particular, “Eu amo os meus inimi-


gos.” Quando conseguires amar os teus inimigos, conseguiste chegar
ao topo.

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Muitas religiões e ideologias têm mártires que morrerão pela sua
fé – Judaísmo, Comunismo e Islamismo, para nomear apenas algu-
mas. Mas há uma diferença acerca do mártir Cristão genuíno; ele
ama os seus inimigos. Se não amar, então não é melhor do que um
mártir Comunista ou Muçulmano.
A maioria de nós não está qualificada para ser mártir; Deus pode
não nos dar esse privilégio. Estou convencido de que se vais ser um
verdadeiro mártir, tens que te preparar para isso entregando a tua
vida diariamente.
Ninguém se torna um mártir através de um súbito acidente dra-
mático mas sim como resultado de um processo.
Tenho aprendido que todas as vezes que eu ministro frutuosa-
mente, é devido à auto-negação. Enquanto estiver a agradar a mim
próprio, não estou a ministrar a vida de Cristo; as duas ocorrências
são opostas. A vida de Cristo apenas flui quando o egoísmo tiver sido
negado. Jesus disse que temos que tomar a nossa cruz todos os dias. A
tua cruz é o lugar onde a tua vontade e a vontade de Deus se cruzam
– e tens que te aproximar desse lugar de rendição todos os dias.

A vida de Cristo apenas flui quando o egoísmo tiver sido negado.

Uma pessoa pode ser muito religiosa, no entanto nunca morrer


para a sua própria vontade.
Muitos Cristãos ainda não conseguiram atingir sequer o “amor
fraternal”. Nem sempre é fácil amar cada um dos Cristãos nossos
companheiros. Por vezes é mais fácil amar os não crentes do que os
Cristãos, porque não importa para eles se tu és batizado por imersão
ou por aspersão, ou se tu levantas as mãos durante a oração ou não.
Recordo um incidente na minha vida quando estava envolvido
numa série de reuniões com cerca de outros trinta líderes. Nós tí-
nhamos que formar pares com um líder diferente, numa reunião di-
ferente em cada noite. Havia lá um irmão com quem eu discordava
totalmente acerca do batismo. Disse para comigo, eu só espero que
não me ponham junto com ele! E já adivinharam? – Puseram-me
junto dele durante três noites. Ele e eu somos agora amigos íntimos.
Para concluir, deixe-me relatar um pequeno incidente que ocorreu
na época em que, alguns Cristãos da Escócia foram severamente per-
seguidos pelo Exército Inglês. Quando uma senhora escocesa, estava

51
caminhando para um encontro secreto de crentes, foi presa por um
polícia inglês que lhe perguntou para onde ia. Ela não queria mentir,
mas também não queria trair os seus companheiros crentes, por isso
ela elevou o seu coração ao Senhor em oração e pediu uma resposta.
Foi isto que ela disse ao polícia, “O Meu Irmão Mais Velho morreu,
e eu estou a caminho para a casa de meu Pai para ouvir a leitura do
testamento”. Mas que boa resposta! Jesus é o Irmão Mais Velho, Deus
é o nosso Pai, e é a casa do nosso Pai. Nós somos uma família!
De novo, a caraterística essencial desta imagem da família é a nos-
sa fonte de vida comum. Deus nosso Pai no céu é a fonte de vida da
Sua família inteira. Todos nós partilhamos uma vida comum; e é isto
o que nos liga em conjunto – não são denominações, doutrinas ou
rótulos.
Precisamos de nos aceitar uns aos outros como irmãos e irmãs
porque Deus nos aceitou como Sua família. Uma coisa é, saber, que
nós somos aceites por Deus, mas outra bem diferente, é sentir a acei-
tação dos nossos irmãos. Alguns de nós nunca conheceram o abraço
quente e amoroso de um pai ou irmão terreno. Podem estes estar
destinados a encontrá-lo pela primeira vez na família de Deus.

52
-7-

5ª. Imagem:
O Templo

Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que


Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício, bem
ajustado, cresce para templo santo no Senhor. (Efésios 2:20-21)
Chegamos agora à quinta imagem, que é a construção ou o tem-
plo. Vamos começar por rever a afirmação de Paulo em Efésios rela-
cionada com a família.
Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concida-
dãos dos santos, e da família de Deus; (Efésios 2:19)
Paulo passou então da imagem da família para a imagem do templo:
Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que
Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício,
bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual tam-
bém vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito
(versículos 20-22)
Os Cristãos – os verdadeiros crentes – são pessoas em quem Deus
habita e se move. Por causa desta relação, Ele é o seu Deus e eles são
o Seu povo.
… No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo san-
to no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para
morada de Deus em Espírito. (versículos 21-22)
Repare que são as três pessoas da Divindade que estão mais uma
vez envolvidas: o Pai habita dentro daqueles que estão no Filho pelo
Espírito. O propósito final da Igreja aqui é ser uma moradia, um
lugar de habitação de Deus.
Em Hebraico, a palavra para casa (beit), que inclui o conceito
de uma casa ou família, está diretamente relacionada com a pala-

53
vra “construir”. Por isso existe uma ligação próxima, no pensamento
hebraico, entre uma família e uma construção. De facto, a palavra
casa era usada em Hebraico não para descrever um espaço físico de
moradia, mas sim uma família de pessoas; estes dois pensamentos
andam sempre juntos. Repare na ênfase da construção nesta passa-
gem: “construído”, “construção”, “templo”, “construído”, “lugar de
habitação”. Por cinco vezes, o pensamento é realçado nestes versos.
O princípio é este: Desde sempre, Deus tem requerido ao Seu
povo que Lhe providencie um lugar para habitação. Quando Deus
libertou os Israelitas do Egipto, trouxe-os para o Monte Sinai, e deu-
-lhes a Sua primeira aliança, uma das primeiras coisas que Ele lhes
requereu foi que Lhe construíssem um tabernáculo. Esta tenda era o
lugar de habitação da Sua manifesta presença – a Sua glória Shekinah
– e viajou com Israel por todo o caminho através do deserto.

Deus tem sempre requerido ao Seu povo para Lhe providenciar um


lugar de habitação.

Depois de Deus trazer os Israelitas para a Terra Prometida deu-


lhes instruções, para construírem um templo para Ele numa cidade à
Sua escolha – Jerusalém. Salomão construiu o edifício mais glorioso,
mais caro e mais elaborado que jamais alguma vez foi construído
pela humanidade. No entanto, através da idolatria e desobediência de
Israel, este templo foi eventualmente destruído pelos Babilónios sob
as ordens de Nabucodonosor. Mas uma vez mais, após Deus na Sua
infinita misericórdia ter concedido a Israel a restauração da Babilónia,
um dos seus primeiros deveres era construir para Ele outro templo.
É muito interessante notar que Deus não deixou o Seu povo to-
mar a decisão acerca do lugar para construção da habitação. Ele pró-
prio determinou – a localização, os tipos de materiais e a forma da
estrutura. Contudo, a Bíblia também deixa claro que esses edifícios
(o tabernáculo e os dois templos) eram apenas modelos de algo infi-
nitamente mais valioso e importante. Esta ideia é apresentada muito
claramente pelas palavras de Estêvão ao conselho dos Judeus:
Mas o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens,
como diz o profeta. O céu é o trono, e a terra, o estrado dos meus pés.
Que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repou-
so? Porventura, não fez a minha mão todas estas coisas? (Atos 7:48-50)

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O Material do Templo
Qualquer edifício material construído pelo homem, não importa
quão maravilhoso possa ser, não é o lugar final da habitação de Deus.
É apenas um lugar temporário que Ele honra com a Sua presença,
desde que o Seu povo reúna as Suas condições. O templo final e eter-
no de Deus, aquele de que todos os outros são apenas uma previsão
e um modelo, é composto (construído) por pessoas. As pessoas são
as criaturas mais valiosas no universo. O templo de Deus tem que
ser construído com o material mais valioso – não é ouro, prata ou
mármore, mas pessoas. Esta verdade é claramente revelada em várias
passagens do Novo Testamento:
Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio
arquitecto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um
como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento,
além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre
este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas,
feno, palha… (1 Coríntios 3:10-12)
Existem duas espécies de edifícios que podes levantar: aqueles que
resistirão ao teste e aqueles que não resistirão. Podes construir em
grandes quantidades com madeira, feno e restolho; não há dificul-
dade em obter esses materiais em grandes quantidades, mas eles não
resistirão ao teste. Ou podes construir com materiais mais preciosos,
em quantidades bem menores e eles resistirão ao teste.
…a obra de cada um se manifestará; na verdade o Dia a declarará,
porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de
cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse
receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento;
mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo. (versículos 13-15)
Esta Escritura fala sobre a nossa contribuição no serviço da casa de
Deus; ela vai ter que resistir ao teste do fogo.
Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para
que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou
bem ou mal. (2 Coríntios 5:10)
Cada Cristão vai comparecer perante o trono do julgamento de
Cristo para ser julgado por todo o serviço que ele ou ela ofereceu a

55
Deus na Sua casa. Isto não é um julgamento de salvação ou de con-
denação, pois não há condenação para os que estão em Cristo Jesus.
(ver Romanos 8:1). Não será em relação ao destino das nossas almas,
mas será relacionado com o trabalho que tivermos feito na casa de
Deus. O trabalho de cada homem será julgado pelo fogo. Se resistir
ao teste, ele receberá uma recompensa; mas se queimar, ele perderá a
recompensa, mas a sua alma continuará a ser salva.
A atribuição do prémio ainda não chegou; virá mais tarde. É obri-
gação de cada um de nós perguntar que tipo de material está a utilizar
na construção; será que irá resistir ao teste do fogo? Paulo disse aos
líderes em Corinto:
Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus ha-
bita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá;
porque o templo de Deus, que sois vós, é santo. (1 Coríntios 3:16-17).
Parece que os crentes Coríntios eram algo ignorantes acerca, do
que supostamente deveriam ser. Novamente, nos deparamos com
uma das razões importantes para olharmos para o espelho da Palavra
de Deus: para vermos o que realmente somos! Paulo repreende-os,
“Não sabeis que sois templo de Deus? É melhor terdes cuidado como
viveis.”

Manter o Templo Puro


Em relação ao templo há sempre uma advertência contra a sua
profanação, e é relativo a ambos: o templo coletivo e o templo indi-
vidual.
Estivemos a ver o templo coletivo, que são todos os crentes reuni-
dos em conjunto. Olhemos para o templo individual:
Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo,
que habita em vós, proveniente de Deus, e que já não sois de vós
mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a
Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.
(1 Coríntios 6:19-20)
Cada crente tem o privilégio de providenciar o seu corpo físico ao
Espírito Santo, como um templo para habitar. Deus, através de Jesus
Cristo, redimiu o teu corpo para que ele possa ser um templo para o
Seu Espírito. Repare que, de novo somos avisados para ter cuidado

56
para não profanar ou destruir o templo. Seja o templo coletivo ou
o templo individual, é-nos pedido para termos cuidado com ele e
preservá-lo em pureza, saúde e santidade porque ele é o templo do
Espírito Santo. Nós somos obrigados a providenciar-Lhe um templo
que O honra e serve os Seus propósitos. Pessoalmente creio que o cui-
dado com os nossos corpos físicos é muito mais importante aos olhos
de Deus do que aquilo que muitos de nós queremos reconhecer.
Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que
sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz
com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial [Satan]? Ou
que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de
Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como
Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus
e eles serão o meu povo. (2 Coríntios 6:14-16)
Repare novamente que é acerca do templo coletivo que estamos
a falar aqui. Esta é a convicção sobre a qual Deus se torna o nosso
Deus, que Ele está autorizado a habitar em nós e a andar em nós. Eu
gosto da expressão “andar neles” da versão King James. Isto indica
que Deus tem um templo móvel que não está confinado a um lugar.
Onde quer que estejamos, Deus está: Ele vai onde nós vamos. Como
Seu corpo, nós providenciamos-Lhe um instrumento; mas como
templo, nós providenciamos-Lhe um lugar de habitação. Neste senti-
do, não é realmente correto falar acerca de ir à igreja como se existisse
um lugar certo onde nós encontramos Deus. Em vez disso, onde nós
nos reunimos, é aí que a igreja está. E onde a igreja está, Deus está lá.
Se formos à praia, a igreja vai à praia; se a igreja vai à praia, Deus vai
à praia. Ele habita em nós e anda connosco, e nessa condição Ele é o
nosso Deus e nós somos o Seu povo.

Pedras Vivas
E, chegando-vos para ele [Jesus], a pedra viva, reprovada, na
verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós tam-
bém como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio
santo… (1 Pedro 2:4-5)
Nesta casa espiritual que Deus está a construir para ser o Seu
lugar de habitação eterna, tu, eu e todos os crentes nossos compa-

57
nheiros, juntos somos “pedras vivas”! Nós começámos a ser edifi-
cados em conjunto para constituir a casa final e eterna que Deus
destinou desde a eternidade, da qual todos os Seus prévios lugares
de habitação no Antigo Testamento não eram mais do que previsões
e modelos.
Passei alguns anos da minha vida em Jerusalém, onde o úni-
co material permitido para a construção é a pedra. Isto tem aju-
dado muito a preservar o caráter único e a beleza de Jerusalém.
Todos os edifícios permitidos em Jerusalém são construídos de
pedra, de uma pedreira algures no norte. Na década de 40, vivi
numa cidade a norte de Jerusalém, e costumava passar pelo lugar
onde se fazia a extração das pedras e a seguir as transportavam para
Jerusalém.
Lembro-me de ver uma pedra que caíra do camião no percurso
para a cidade e ali ficou na beira da estrada. Ninguém a apanhou;
simplesmente deixaram-na ali. Pensei para comigo: aquela pedra está
ali isolada, entregue à sua egoística vontade própria. Nunca haverá
um cinzel a ser aplicado àquela pedra, ficará apenas da maneira que
ela está; nunca irá entrar na construção. Crentes assim foram extra-
ídos, mas nunca entraram na construção. Não encontram os seus
lugares nos propósitos de Deus.
Repare no que o livro 1 Reis tem a dizer sobre o templo de Salomão:
E edificava-se a casa com pedras preparadas; como as traziam,
se edificava, de maneira que nem martelo, nem machado, nem ne-
nhum outro instrumento de ferro se ouviu na casa quando a edifica-
vam. (1 Reis 6:7)
Isto é extraordinário! As dimensões para cada pedra foram prede-
terminadas, e cada pedra foi formada e cortada nas suas predetermi-
nadas dimensões na pedreira. Não havia marteladas ou cinzeladas de
última hora na atual estrutura do templo.
Deus está a fazer o mesmo para si e para mim. Ele extrai-nos des-
te mundo pelo evangelho, e depois Ele continua a formar-nos, para
que quando o edifício final se erguer, não haver mais marteladas ou
cinzeladas. Temos que estar prontos para sermos formados agora, um
processo pelo qual todos nós temos que passar se vamos fazer parte
deste templo.

58
A Característica Essencial do Templo e o Requisito
de Deus
Olhemos agora para a dupla aplicação do templo. A principal ca-
racterística desta imagem da igreja é que o templo é o lugar da habita-
ção de Deus (morada de Deus). É onde Deus vai residir para sempre.
Temos sempre a tendência de pensar em ir para o céu, mas o último
propósito de Deus é trazer o céu para a terra! A última imagem na
Bíblia do povo de Deus, encontrada em Apocalipse 21:1-4, é a de
um lindo lugar de habitação descendo do céu para a terra. Estude
essa passagem acerca da Nova Jerusalém; é uma imagem gloriosa da
morada de Deus descendo à terra.
O que é que nos é exigido? Temos que desejar ser extraídos, for-
mados e cinzelados; temos que ter os nossos cantos cortados, para
encaixarmos com uma predeterminada dimensão, e temos que estar
preparados antes da estrutura final surgir. Isto é um enorme compro-
misso da nossa parte, mas o que traz uma recompensa eterna!
Depois de recordar aos crentes que eles são “o templo do Deus
vivo” (2 Coríntios 6:16), Paulo fez referência a várias passagens do
Antigo Testamento, dizendo:
Pelo que saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não
toqueis nada imundo, e eu vos receberei; e eu serei para vós Pai, e
vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-poderoso. (2
Coríntios 6:17-18, ênfase adicionada).
Repare como estão próximas a imagem da família e a imagem do
templo, que vimos previamente em Efésios 2:19-22. O templo e a
família estão unidos. Deus é o Pai da Sua família, e Ele é o Deus que
habita no Seu templo.
Uma vez mais, a lição é reforçada atendendo às exigências de Deus
sobre a santidade, pois o próximo capítulo começa com estas palavras:
Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de
toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação
no temor de Deus. (2 Coríntios 7:1)
Isto é algo que temos que fazer: purificarmo-nos de toda a imun-
dície da carne e do espírito. Eu creio que “imundície da carne” é,
imoralidade, bebedeiras, e por aí adiante, e “imundície do…espírito”
é essencialmente envolvimento com o oculto. Temos que aperfeiçoar

59
a santidade no temor de Deus. A mensagem é a que enfatiza a neces-
sidade da pureza e o cuidado na nossa atitude perante o templo.
A minha atitude pessoal nesta matéria é que eu desejo nunca ser
causa de ofensa para uma família ou para uma igreja. É meu desejo e
oro para que nunca ofenda uma ou outra. Se tocares na obra de Deus,
lembra-te, de que irás ter que responder a Ele.

Se tocares na obra de Deus, lembra-te, de que irás ter que respon-


der a Ele.

60
-8-

6ª. Imagem
A Noiva

…Como Cristo também amou a igreja e a si mesmo se entregou por


ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela pala-
vra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga,
nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. (Efésios 5:25-27)
Examinemos agora a sexta imagem: a noiva. Embora a palavra
“noiva” não seja realmente usada em Efésios, o conceito é especifi-
camente mencionado em outras passagens da Bíblia, e está implícito
nesta passagem:
Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou
a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purifi-
cando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a
si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa seme-
lhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar as
suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a
sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua
própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor
à igreja; Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos
seus ossos. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a
sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o,
porém, a respeito de Cristo e da igreja. (Efésios 5:25-32)

Paulo começa por falar para maridos crentes acerca da sua rela-
ção com as suas esposas. Ele disse que a relação tem que ser de amor,
devoção e cuidado – tudo conselhos práticos e simples, e muito ne-
cessários nos nossos dias. No entanto, este não é o sentido completo
da passagem porque Paulo continuou, dizendo que a relação entre
marido e esposa é o modelo da relação de Cristo com a Sua igreja, e
acrescentou: “Isto é um grande [ou profundo] mistério.” E é, verda-

61
deiramente. Tenho a certeza de que não há mente humana que alguma
vez possa compreender plenamente esse mistério. Mas ele disse muito
claramente: “Eu falo em relação a Cristo e à igreja.” Deste modo, nós
vemos com absoluta clareza as duas pessoas que compõem esta união:
Cristo, o Noivo e a igreja a Sua Noiva.
Esta relação foi prefigurada com muita beleza na criação original
de Adão e Eva, como está descrito nos capítulos iniciais do livro dos
Génesis.

A história humana começou com um casamento e terminará com


um casamento.

Uma das características notáveis da criação de Adão foi o facto de


Deus ter tudo preparado para a sua vinda. O seu meio ambiente es-
tava lá completo: a vegetação, os animais, o tempo, e os seres celestes
– tudo o que precisaria.
É uma imagem maravilhosa da provisão de Deus para nós na nova
criação. Tudo o que nós precisamos já lá está quando chegarmos.
Estava faltando apenas uma coisa ao Adão: uma companheira. No
entanto, não foi um erro da parte de Deus. Deus tinha um propósito
em não providenciar imediatamente uma companheira para Adão.
Ele queria que Adão entendesse algo do desejo que Ele tem para a co-
munhão pessoal com seres humanos. Por isso Ele permitiu que Adão
experimentasse a falta desse relacionamento, a falta de uma compa-
nheira. E só depois lhe providenciou uma companheira, tal como
está escrito em Génesis:
E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-
-lhe-ei uma ajudadora idónea para ele. ...Então o SENHOR Deus
fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma
das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; E da costela que o
SENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a
a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da
minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi
tomada. (Génesis 2:18, 21-23)
A Bíblia coloca uma ênfase enorme no casamento. Precisamos de
apreciar o quão fundamental é o casamento nas Escrituras. A história
humana começou com um casamento – e o primeiro casamenteiro
foi Deus. Deus ainda continua nesta actividade de casamenteiro! Um

62
dia, tal como Deus apresentou Eva a Adão, Ele vai apresentar a igre-
ja a Jesus no banquete de casamento do Cordeiro. (Ver Apocalipse
21:2-3, 9-11.) Vamos analisar mais detalhadamente as circunstâncias
deste casamento espiritual.

Preparando a Nós Próprios


A história humana chegará a um clímax glorioso com o casamen-
to da igreja, a noiva, com Jesus Cristo, o Noivo:
E ouvi como que a voz de uma grande multidão, e como que a
voz de muitas águas, e como que a voz de grandes trovões, que dizia:
Aleluia! pois já o Senhor Deus Todo-Poderoso reina. Regozijemo-nos,
e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do
Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse
de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justi-
ças dos santos. (Apocalipse 19:6-8)
O casamento da igreja com Jesus Cristo será uma causa de alegria
por todo o universo.
É interessante notar que se espera que a noiva providencie ou pre-
pare as suas próprias vestes. Na Bíblia “linho fino” é sempre um tipo
de pureza. Numa passagem em Ezequiel, os sacerdotes que estavam
vestidos com roupas de lã, não estavam autorizados a aceder à presen-
ça do Senhor. (Ver Ezequiel 44:15-18.) Tinha que haver pureza abso-
luta no sacerdócio. Em Deuteronómio 22:11; os Israelitas foram ins-
truídos para não usarem vestimentas de material misturado, tal como
lã e linho. Então aqui, “linho fino” fala de pureza absoluta. E diz-se
que o linho fino é “os actos justos dos santos” ou “a justiça dos santos”.
Existem duas palavras Gregas para justiça (ou retidão): uma é
dikaiosune e a outra é dikaioma. Dikaiosune é justiça em abstrato;
dikaioma é justiça em ação. Quanto tu e eu acreditamos em Jesus
Cristo, a Sua justiça, dikaiosune, é-nos imputada – somos feitos jus-
tos com a Sua justiça. Quando vivemos de verdade a nossa fé, expres-
samos essa justiça imputada em dikaioma, que é justiça na prática ou
os nossos atos de justiça.
É interessante que a palavra usada aqui é dikaioma, ou o plural,
dikaiomata. O linho fino é os atos justos dos santos. Esta é uma
afirmação muito profunda. “A Sua noiva preparou-se a si própria.”
Como? Pelos seus atos justos (retos).

63
Em todas as culturas que conheço, existe uma regra sobre o casa-
mento: o noivo nunca prepara a noiva; a noiva prepara-se sempre a si
mesma. A responsabilidade é colocada nela. A Escritura diz que a Sua
noiva se preparou a si mesma pelos seus justos atos concretizados. A
justiça imputada de Cristo não servirá para a festa das núpcias. Tem
que ser a justiça praticada.
Há alguns anos atrás, em Jerusalém, a minha esposa e eu tínhamos
uma amiga missionária que conhecíamos bem e que ficou doente. Ela
esteve doente durante um longo período de tempo, e pensou que ia
morrer. Uma noite o Senhor deu-lhe um sonho vívido. Nesse sonho
ela estava a trabalhar num lindo vestido branco. Quando ela olhou
para o vestido, viu que ainda faltava muito para acabar; havia ainda
muito trabalho para fazer nele. De manhã quando acordou, ela aper-
cebeu-se que o Senhor lhe mostrara que ela ainda não estava prepara-
da para ir para casa, porque o seu trabalho ainda não tinha terminado.
Penso sempre neste incidente quando ouço este versículo, “Chegaram
as bodas do Cordeiro, e a Sua esposa está preparada.” Cada um de
nós tem o traje de casamento para completar, e nós completamos isso
através dos nossos atos de obediência. Isto é muito importante.

Nós completamos o traje de casamento, através dos nossos


atos de obediência.

Existe uma passagem paralela sobre a justiça, em Filipenses:


De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não
só na minha presença, mas muito mais na minha ausência, assim
também operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é
o que opera em vós tanto o querer como o efectuar, segundo a sua boa
vontade. (Filipenses 2:12-13)
Existe aqui um equilíbrio: Deus atua em ti, primeiro “para que-
rer”, e depois “para fazer”, a vontade de Deus. A vida Cristã não é
sobre a luta em fazer algo contra as nossas vontades que nós não
queremos fazer. Em vez disso, Deus introduz em nós a vontade para
fazermos o que Ele deseja. Depois Ele instala em nós a capacidade
para o fazermos.
Deus trabalha em nós na medida em que nós usarmos no exterior
(na pratica) o que Ele preparou no nosso interior. A medida do que

64
Deus pode fazer em nós é determinada pela medida em que nós usar-
mos o que Ele deu. Então existe um processo de duas vias: Deus está a
atuar em nós; mas, pelo modo de vivermos (os nossos atos de justiça),
nós estamos a pôr em prática o que Deus esteve a operar dentro de nós.
Esta é a preparação da noiva. O linho fino é os atos justos dos santos,
por isso certifica-te se tens o traje apropriado.

A Relação entre o Noivo e a Noiva


Eu vejo três elementos nesta imagem de Cristo como Noivo e a
Igreja como noiva.

Compromisso Mútuo Sem Reservas


Primeiro do que tudo, existe: “compromisso mútuo sem reser-
vas” em ambos os lados. Jesus entregou-Se pela igreja, não retendo
nada. Ele derramou inteiramente todo o Seu sangue. É isto que é o
casamento também. Mesmo no nível humano, Deus pretende que
isso seja uma auto-entrega total de duas pessoas, de um ao outro.
Nenhum deles está autorizado a reter nada. É requerido da igreja que
ela se entregue a Jesus, o Noivo, tão completa e totalmente, tal como
Ele se entregou para a redimir na Cruz.

É requerido da igreja que ela se entregue a Jesus, o Noivo, tão com-


pleta e totalmente, tal como Ele se entregou para a redimir na Cruz.

Preparação Cuidadosa
O segundo passo é: “preparação cuidadosa”. Vimos que a noiva, a
igreja, se preparou a si própria. Ela preparou o seu traje, consistindo
de atos justos. Uma simples provisão não foi suficiente para tudo,
mas o seu traje tem sido preparado continuamente. Gosto de pensar
na vida do mesmo modo. Ao caminharmos em fé e obediência tu e
eu, cumprindo a vontade de Deus e guardando os Seus mandamen-
tos, estamos a preparar o nosso traje – esse linho fino que é brilhante
e limpo.
União que Gera Fruto
A terceira característica que eu vejo nesta imagem é: “união que
gera fruto”. O propósito e a consumação do casamento é a união de
duas pessoas. “E serão dois numa só carne”, diz Mateus 19:5. Dessa
união surgirá fruto – nova vida. Creio que é esse o propósito de Deus

65
na relação de Cristo, o Noivo, com a igreja, a noiva. Eu acredito que
dessa gloriosa união, ainda não consumada, surgirá fruto eterno. Os
propósitos eternos de Deus para todas as épocas subsequentes, serão
manifestados pela união de Cristo com a Sua igreja.

A Característica essencial da Noiva


Olhemos para dois versículos em 1 Coríntios, que nos dizem que
a característica essencial da noiva é revelar a glória de Cristo.
Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o varão, e o va-
rão, a cabeça da mulher; e Deus, a cabeça de Cristo. (1 Coríntios 11:3)
Em ordem descendente, Deus o Pai é a cabeça de Cristo, Cristo é
a cabeça do homem ou do marido e o marido é a cabeça da mulher
ou da esposa. Existe uma ordem divina na chefia que começa no céu e
desce até cada casa. Isto envolve responsabilidades de ambas as partes.
O varão, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e a
glória de Deus, mas a mulher é a glória do varão. (versículo 7)
Foi o varão que foi criado primeiro à imagem e semelhança de Deus,
para manifestar a semelhança e a glória de Deus ao resto da criação. A
esposa foi também feita à imagem de Deus, mas a sua responsabilidade
é refletir a glória do seu marido. Do mesmo modo, como noiva de
Cristo, é a nossa responsabilidade refletir a Sua glória.

Como noiva de Cristo, é a nossa responsabilidade refletir


a Sua glória.

Isto é um ensinamento muito profundo e prático. Quero com-


parar isto ao relacionamento num casamento, porque isso está tão
próximo da relação entre Cristo e a Sua noiva. Algumas mulheres têm
a ideia de que, porque a Bíblia ensina a mulher a ser submissa ao seu
marido, isso implica inferioridade; mas isso não está certo. Submissão
não é inferioridade, porque Cristo está em submissão ao Pai, mas Ele
não é inferior ao Pai. De facto, Ele diz, “Eu e o Meu Pai somos um.”
(João 10:30) Submissão não é inferioridade mas colocação; é estar
onde deves estar.
Existem responsabilidades entre marido e esposa. Quando digo
que a minha esposa é a minha glória, na verdade não estou a colocar
a responsabilidade na minha esposa como em mim próprio. É uma

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responsabilidade muito desafiante. Uma vez alguém perguntou a um
pregador bem conhecido: “Que género de Cristão é o senhor Smith?”
O pregador respondeu: “Não lhe posso dizer; ainda não conheci a sua
esposa!” Isso é uma resposta muito inteligente. Se queres saber que
qualidade de Cristão é o senhor Smith, olha para a senhora Smith: ela
é a sua glória. Como tal, ela revela o que ele realmente é. Isto desafia
muito mais o marido do que a esposa. Se quiseres saber que género de
Cristão sou, tens de olhar para a minha esposa. Se é tranquila, segura,
alegre, frutuosa e descontraída, ela é a minha glória. Mas se é inse-
gura, frustrada e desagradável, isso diz muito acerca de mim: ela não
é a minha glória. É minha responsabilidade protegê-la. Efésios 5:23,
diz: “[Cristo] é o Salvador do corpo”, que é a igreja. Os problemas que
vemos hoje em casamentos começaram quando o primeiro homem
falhou na proteção da sua esposa. Tens que desvendar um pouco mais
o relato em Génesis, mas está lá. Deus colocou Adão no jardim “para
o lavrar e o guardar”. (Génesis 2:15). Em Hebraico a palavra “guar-
dar” significa proteger. Ele falhou deixando a serpente entrar, nunca
devia ter deixado a serpente entrar, porque ela era uma das feras do
campo; o seu lugar não era no jardim. Depois Eva falhou porque es-
tava longe do seu marido e enfrentou a serpente na sua própria força e
sabedoria, sendo que isso não lhe cabia fazer. Ou seja, ambos estavam
fora da ordem divina. Certamente, isto ensina-nos que a solução para
os nossos problemas é a ordem divina.

A solução para os nossos problemas é a ordem divina.

A esposa reflete o que o seu marido é, e os filhos refletem o que


os seus pais são. Enquanto pregador visitante, descobri que um ca-
sal pode dissimular as suas atitudes reais perante mim, mas os seus
filhos raramente o fazem. Quando vou a uma casa onde os filhos me
mostram amor e respeito, eu sei que é o que os seus pais sentem. Mas
quando filhos são indisciplinados e desrespeitadores, os pais podem
falar bem comigo, mas eu questiono se será essa a sua atitude verda-
deira. Nós estamos sempre a revelar-nos naqueles com quem estamos
relacionados.
Deus está presente em todo o lado, mas a Sua glória está onde a
Sua presença é manifestada – onde pode ser vista e provada. Muitos
de nós sabem o que é sentir a glória de Deus nos nossos corpos ou na

67
atmosfera, ou vê-la na face de outros Cristãos. E o propósito de Deus
na igreja é manifestar a glória de Cristo, o Noivo, na igreja, a noiva.
O propósito de Deus na igreja é manifestar a glória de Cristo,
o Noivo, na igreja, a noiva.

Jesus não vem para uma noiva espiritualmente curvada, desfigu-


rada, usada, velha e enrugada. Por favor não me interprete mal, não
estou de modo algum a falar desrespeitosamente da velhice. Estou
apenas a indicar que a noiva para a qual Jesus vem, irá glorificá-Lo.
…com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que
primeiro esperamos em Cristo. (Efésios 1:12)
Nós estamos a ser a demonstração da Sua glória, assim todo o
universo louvará a Sua glória quando a virem em nós.
Voltemos à Escritura principal neste capítulo:
Vós, maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a
igreja e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-
-a com a lavagem da água, pela palavra… (Efésios 5:25-26)
Creio que este santificar e purificar é o que Cristo está a fazer
exatamente agora. O termo grego para “palavra” nesta Escritura é
“rhema”, que significa a palavra falada. Uma das coisas que Deus faz
com um ensino falado é purificar e santificar os crentes através da pa-
lavra que sai. Cristo redimiu a igreja pelo Seu sangue, para que daí em
diante Ele a possa santificar pela Sua palavra. Cristo veio pelo sangue
e pela agua. (Ver 1 João 6) Como Redentor, Ele veio pelo sangue, e
como Santificador, Ele veio pela água. Ele redime a igreja pelo Seu
sangue; Ele santifica-a pela água da Sua palavra falada. É somente
após a igreja ter sido santificada, que ela será aquilo que Ele pretende
que seja, o qual está descrito no versículo seguinte:
…para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem
ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. (versículo 27)
Isto significa que a igreja será permeada com a presença manifesta
de Deus.
Quando vês uma jovem que está realmente apaixonada pelo seu
marido, a sua face expressa o amor radiante por ele. É assim que Deus
quer que igreja seja – uma igreja radiante, sem mácula nem ruga, in-
crivelmente bela. Não é bom que Deus pode fazer isso? E Ele vai fazer.

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A Nossa Exigência como a Noiva
O que é requerido na nossa relação com Cristo, o Noivo, como
Sua noiva? Podemos aprender isso lendo o que Paulo escreveu à igreja
de Corinto, que era produto do seu ministério:
Porque, se eu vos entristeço, quem é que me alegrará, senão aque-
le que por mim foi contristado? E escrevi-vos isso mesmo para que,
quando lá for, não tenha tristeza da parte dos que deveriam alegrar-
-me, confiando em vós todos de que a minha alegria é a de todos vós.
Porque, em muita tribulação e angústia do coração, vos escrevi, com
muitas lágrimas, não para que vos entristecêsseis, mas para que conhe-
cêsseis o amor que abundantemente vos tenho. (2 Coríntios 11:2-4)

Fidelidade a Jesus
Para entender esta imagem, ajuda estar familiarizado com os prin-
cípios básicos do casamento entre o povo Judaico, no qual, havia duas
cerimónias principais. A primeira era algo como um noivado. A se-
gunda, que era normalmente um ano depois, era a própria cerimónia
de casamento, seguida pela união física entre o homem e a sua noiva.
Na tradição Hebraica, o noivado era uma aliança de compromisso
muito sagrada e obrigatória entre um homem e uma mulher. Apesar
de eles continuarem a viver separados e de não se juntarem, a mulher
estava comprometida com o homem por essa aliança. Se, durante esse
tempo, ela quebrasse o seu compromisso para casar com outra pessoa,
ou tivesse relações sexuais com outro homem, ela era tratada como
uma adúltera e a aliança era oficialmente anulada, por algo que era
conhecido por divórcio. Isto mostra-nos quão solene era o noivado.
Esta prática está exemplificada na história de José e Maria. Eles
tinham o compromisso de casamento, mas ainda não tinham casado,
quando José descobriu que Maria se encontrava grávida. Ele ainda não
sabia que esta concepção tinha sido pelo Espírito Santo, no plano de
Deus para trazer o Seu Filho ao mundo, e as Escrituras dizem-nos que
José “intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19), ou divorciar-se.
De um modo semelhante, quando nos tornamos Cristãos, estamos
comprometidos com Cristo, mas o casamento ainda não teve lugar –
isso permanece no futuro. Neste período entre o noivado e o casamen-
to, está a ser testada a nossa lealdade a Cristo. Paulo está a dizer, “Que-
ro que sejas uma virgem pura (casta) quando desposares o Noivo.”

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Existem alguns pensamentos muito bonitos nesta afirmação, por-
que se algum grupo de pessoas, pelos modelos naturais, não estava
qualificado para ser uma virgem pura, eram os Cristãos de Corinto.
Eles eram prostitutos, homossexuais e ébrios. Ainda assim a graça e
o sangue de Jesus deu-lhes o privilégio de serem redimidos e purifi-
cados, e por isso mesmo, aos olhos de Deus, de serem uma virgem
pura. Foi como se nunca tivessem pecado. (Ver Isaías 1:18; Romanos
4:3-8.)
Todavia, Paulo disse para teres cuidado, não perderes a tua virgin-
dade. Teres cuidado para não seres apanhado numa relação errada,
que te tornará incapaz de ser a noiva. Isto é altamente relevante para
a nossa situação contemporânea.
Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astú-
cia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos senti-
dos e se apartem da simplicidade que há em Cristo. (2 Coríntios 11:3)

Paulo receava por estes Cristãos que o demónio influenciasse as


suas mentes e os corrompesse da pura simplicidade da fé em Jesus
Cristo e do compromisso total com Ele. No versículo seguinte, ele
descreveu a maneira em que isso podia acontecer. Na verdade não ve-
mos isto acontecer à nossa volta e por todo o lado nas igrejas de hoje?
Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos
pregado…(versículo 4)

A que género de “outro Jesus” estava ele a referir-se? Talvez Jesus


como um grande mestre ou o maior guru, apenas um pouco mais
elevado do que Buda, ou Sócrates, ou Platão, ou Martin Luther King,
mas não como um Salvador que redime. Ou talvez um Jesus que não
nasceu de uma virgem? Ou o que não é verdadeiramente divino? Es-
ses seriam exemplos de um “outro Jesus” e exatamente acerca do qual
Paulo estava a falar.
Depois Paulo disse, “… se recebeis um outro espírito…” (versículo
4). Estes eram Cristãos batizados no Espírito a quem Paulo se estava a
dirigir. Seria possível para eles receberem um espírito diferente? Apa-
rentemente. Como? Através de receberem uma imagem/ideia errada
de Jesus. Por outras palavras, eles podem abrir as suas mentes para um
erro que podia, sucessivamente, abrir os seus espíritos para o espírito
do erro.

70
Paulo continuou, “… se recebeis… um outro evangelho…” (ver-
sículo 4). Pode ser um evangelho que fala apenas do amor de Deus
e nunca sobre o julgamento de Deus. Ou um evangelho que recla-
ma a Paternidade de Deus mesmo sobre os não convertidos. Mas a
Bíblia não diz que os não convertidos são filhos de Deus; diz que
são filhos do demónio. Todas estas coisas estão a acontecer hoje,
porque o demónio procura corromper a noiva da sua fidelidade a
Jesus Cristo.
Tenho uma firme convicção, que no final desta era, haverá apenas
dois grupos no cristianismo – não duas denominações, mas dois gru-
pos. Um será a noiva e outro será a prostituta. Qual será a diferença?
Batismo na água? Falar em línguas? Eu não penso assim. Acredito que
a distinção será a fidelidade a Jesus Cristo. A noiva permanecerá na
verdade; a prostituta será seduzida da sua fidelidade a Jesus. Vemos
ambas presentes no livro do Apocalipse:
E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças e falou comigo,
dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta
que está assentada sobre muitas águas, com a qual se prostituíram os
reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho
da sua prostituição. (Apocalipse 17:1-2)
E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças cheias das últi-
mas sete pragas e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a esposa,
a mulher do Cordeiro. (Apocalipse 21:9)
Nestes versículos, a prostituta e a noiva estão sentadas em oposi-
ção uma à outra. Não por uma denominação ou doutrina, mas por
uma relação com Jesus Cristo. Ambas estão bem desenvolvidas na
igreja de hoje. A noiva aproxima-se da perfeição, e a prostituta está
claramente a revelar-se.
Temos que guardar e vigiar de perto a nossa relação com Cristo. Al-
gumas pessoas dizem que te deves manter sempre na tua presente igreja.
Eu não aconselho uma maneira ou outra. Os pregadores, na verdade,
não têm autoridade para dizerem isso aos crentes individuais. Apenas
assegura-te que não acabas na igreja da prostituta – porque muitas igrejas
têm muito mais de prostituta do que de noiva nelas.

Assegura-te que não acabas na igreja da prostituta

71
…assim também Cristo, oferecendo-se uma vez, para tirar os
pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o
esperam para a salvação. (Hebreus 9:28)
A qualificação para ver Jesus aparecer para a salvação é “aqueles
que ansiosamente esperam.” A palavra-chave é expectativa. Ele virá
para aqueles que O esperam como Salvador. Para os restantes, Ele
virá como Juiz.

Conservar Firmemente a Nossa Confissão


O que é então, requerido na nossa relação uns com os outros?
“Exortação” e “exemplo”.
…retenhamos firmes a confissão da nossa esperança [ou fé], por-
que fiel é o que prometeu. (Hebreus 10:23)
Um dos temas do livro de Hebreus é a exortação contínua para se
manterem firmes na fé, e não voltar para trás para a Lei. Os Cristãos
Hebreus corriam grande perigo neste sentido – de quase desistirem
da sua profissão de fé em Jesus o Messias, e tornarem-se novamente
enamorados dos louvores e sacrifícios do Antigo Testamento. O escri-
tor de Hebreus salientou continuamente a superioridade de Cristo e
da nova aliança acima da Lei e da antiga aliança. O livro está dirigido
a pessoas que tinham feito uma profissão de fé em Cristo, mas esta-
vam em perigo de recuarem.
De facto, existem cinco exortações distintas em Hebreus em rela-
ção aos perigos de recuarem. Aqui a mensagem é para nós nos conser-
varmos firmes e não desistirmos daquilo que professámos.
E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos à cari-
dade e às boas obras… (versículo 24)
Parte da nossa responsabilidade não é meramente conservarmo-
-nos firmes a nós próprios, mas também encorajar-nos uns aos outros
e considerar como nos podemos incitar uns aos outros para o amor
e as boas obras. A palavra incitar (provocar) é deliberadamente para-
doxal. Normalmente tendemos a incitar pessoas para maus atos, tais
como raiva e ciúme. Mas temos de considerar como nos podemos
incitar uns aos outros para atos bons, para as praticas de justiça ou
de obediência.

72
… não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns;
antes, admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais quando vedes
que se vai aproximando aquele Dia. (versículo 25)
“O Dia” é o dia da vinda de Cristo. Quanto mais próximo esta-
mos do dia, maior é a nossa responsabilidade para nos encontrarmos,
desafiarmo-nos uns aos outros, incitarmo-nos uns aos outros para fazer
o que é bom, exortarmo-nos, e olharmos uns pelos outros.
Creio que é aqui, que o pequeno grupo tem uma função única.
É onde melhor podemos encorajar e exortar uns aos outros. Numa
grande assembleia ou reunião, a pessoa que está realmente preocupada
ou à beira da apostasia, pode permanecer escondida ou oculta. Mas
num pequeno grupo de dez ou doze pessoas, muito pouco passa des-
percebido por muito tempo. A pessoa que tem um problema profun-
do, íntimo e pessoal, num grupo grande, provavelmente nunca o irá
revelar. Porém num pequeno grupo, assim que descobrimos as nossas
vidas uns aos outros e nos encontramos para encorajar e orar uns pelos
outros, emergem assuntos mais profundos.
Na minha experiencia com pequenos grupos, Cristãos religiosos
muitas vezes chegam a um ponto onde estão extremamente tentados
a voltar para trás. Os novos crentes parecem ter poucos problemas,
mas os que estão habituados a serem religiosos podem ter muitos. Na
minha maneira de pensar, o grupo célula não é para um encontro de
oração ou para um grupo de estudo da Bíblia. Num grupo de estudo
da Bíblia, alguém pode permanecer escondido. Num encontro de
oração, as pessoas podem fazer bonitas orações. Mas quando chega o
momento de nos abrirmos uns aos outros, cada um de nós tem que
decidir se realmente isso vale a pena. Quero mesmo que as pessoas me
conheçam tão bem ou preferirei manter a minha máscara?
Isto está relacionado com o que estamos a ver, porque a palavra que
é usado em Hebreus 10:25, “a tua sinagoga”, significa o lugar onde vo-
cês se reúnem. Não é a palavra “ecclesia” a assembleia da igreja. Acredito
que se esteja realmente a falar de reuniões de pequenos grupos, onde as
pessoas podem ser honestas umas com as outras.
Preocupa-me que pessoas possam sentar-se numa igreja durante
anos e terem problemas pessoais profundos que nunca revelam a nin-
guém. Por exemplo, no meu ministério de libertação, como pregador
visitante, descobri que há homossexuais em muitas igrejas. Ficará sur-

73
preendido como muitas igrejas evangélicas Pentecostais têm pessoas
com o problema da homossexualidade. Mas isso nunca é revelado,
porque eles têm vergonha e não se atrevem a manifestar isso aberta-
mente. Uma vez recebi uma carta com quatro páginas de um jovem.
As primeiras três páginas eram dedicadas a preparar-me para o que
ele me queria dizer. A quarta página revelava que ele era um homos-
sexual. Eu escrevi-lhe e disse-lhe que havia esperança, que havia uma
saída. Ele escreveu de novo e disse, “Tu foste a primeira pessoa que fez
alguma coisa, sem ser desencoraja-me ou rejeitar-me.”
Precisamos de nos relacionar com os crentes, de maneira a que
os nossos problemas possam ser manifestados e serem tratados com
justiça e misericórdia. Devemos encorajar uns aos outros, corrigir uns
aos outros, mas não nos rejeitarmos. Alguém disse uma vez, “Corri-
ge-me, mas não me rejeites.” É por esta atitude que as pessoas estão
clamando. Acredito realmente, que esta passagem em Hebreus é par-
ticularmente relevante para os tempos e situações nas quais nós nos
encontramos.
Para concluir, vamos olhar para um versículo do primeiro capítulo
do livro Cânticos de Salomão. Isto é a jovem a falar: “Leva-me tu, cor-
reremos após ti…” (Cânticos 1:4) Repararás que ela passa do singular
para o plural: “leva-me”, e “(Nós) correremos” Isto é uma imagem
de exortação e exemplo. Quando Deus te pode levar (arrastar), as
pessoas que te virem correr quererão correr contigo. Por isso existe a
responsabilidade do exemplo na nossa relação com o noivo. Através
do livro Cânticos de Salomão, nós somos lembrados deste exemplo. É
perguntado à noiva, “Que é o teu amado mais do que outro amado?”
(Cânticos 5:9) “Eu dir-te-ei!” é a resposta da noiva. É assim que pre-
cisamos de incitar pessoas para o amor e para as boas obras.

74
-9-

7ª. Imagem:
O Exército

Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais re-


sistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes. (Efésios 6:13)
Até agora, vimos seis imagens específicas do povo de Deus em
Efésios: a assembleia, o corpo, a manufatura de Deus, a família, o
templo e a noiva. Agora vamos analisar a sétima imagem: o exército.
Esta última imagem é um contraste tão grande como possivelmente
possa ter sido com a imagem anterior. Que duas representações po-
diam ser menos parecidas uma com a outra do que uma noiva e um
exército?
Para esta última imagem, voltaremos ao último capítulo de Efé-
sios. Tal como no caso da imagem da noiva (na qual a palavra noiva
não está realmente mencionada), a palavra exército não é especifica-
mente usada aqui, mas a implicação está fora de qualquer dúvida.
No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do
seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais
estar firmes contra as astutas ciladas do diabo; porque não temos de
lutar contra carne e sangue, mas, sim, contra os principados, contra
as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as
hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai
toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e,
havendo feito tudo, ficar firmes. (Efésios 6:13)

Aqui está um aviso claro de que os crentes certamente enfrentarão


guerra. Virá aí o que Paulo chama “o dia do diabo” – o dia da aflição,
do teste, e das pressões satânicas. Por isso, Paulo disse, “Revesti-vos de
toda a armadura.”
Que espécie de pessoas vestem armadura? Obviamente que a res-
posta é os soldados. De facto, a imagem toda está em grande parte

75
baseada no equipamento de batalha do legionário Romano no tempo
de Paulo. A igreja é comparada a uma legião Romana, a unidade
militar mais efetiva do mundo antigo – a que realmente conquistou
a maior parte do mundo conhecido daquela altura, para o Império
romano.
Como exército de Deus, os crentes estão envolvidos numa guerra
espiritual. Tem havido uma guerra entre as forças de Deus e as for-
ças de Satanás ao longo da história humana, mas a vinda de Jesus
como Messias, Salvador e Libertador, trouxe o conflito para o campo
aberto. A certa altura os Fariseus criticavam Jesus por causa do Seu
ministério de expulsar os espíritos maus. Eles acusaram-No de estar
em aliança com Belzebu, que era um dos títulos de Satanás.
Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: Todo o
reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade ou casa
dividida contra si mesma não subsistirá. E, se Satanás expulsa Sata-
nás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá, pois, o seu reino?
E, se eu expulso os demónios por Belzebu, por quem os expulsam, en-
tão, os vossos filhos? Portanto, eles mesmos serão os vossos juízes. Mas,
se eu expulso os demónios pelo Espírito de Deus, é conseguintemente
chegado a vós o reino de Deus. (Mateus 22:25-28)
Jesus disse que o reino de Satanás não está dividido, e está em
oposição total ao reino de Deus. Na última frase, Ele falou acerca do
Seu ministério de expulsar espíritos impuros como demonstração de
que o reino de Deus já está em ação. Então, aqui está o que chamo
“a colisão de reinos”: o visível, choque manifestado entre o reino de
Deus – representado por Jesus e a Igreja – e o reino de Satanás e seus
demónios.

Armas Espirituais e Campo de Batalha


Precisamos de entender as armas e o campo de batalha deste con-
flito espiritual:
Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Por-
que as armas da nossa milícia não são carnais, mas, sim, poderosas
em Deus, para destruição das fortalezas; e destruindo os conselhos
e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e
levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo… (2 Co-
ríntios 10:3-5)

76
Paulo disse que estamos numa guerra no domínio espiritual, e por
isso mesmo temos que utilizar armas espirituais e não combatemos
com bombas, balas ou tanques. Essas armas espirituais são capazes
- através do poder de Deus – de destruir as fortalezas de Satanás. O
versículo 5 revela claramente o campo de batalha: “…destruindo os
conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus,
e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo…” Três
palavras-chave, “conselhos”, “conhecimento”, e “entendimento”, todas
relacionadas com um domínio particular: a mente.
A mente da humanidade é o campo de batalha desta guerra es-
piritual. Satanás enganou os seres humanos através das suas mentes,
levando-os cativos através da construção de fortalezas de incredulida-
de e preconceito. A nossa missão como exército de Deus é fazer guer-
ra com as armas espirituais que Deus nos entregou. A nossa missão é
libertar pessoas da escravidão de Satanás quebrando as suas amarras
nas suas mentes e capacitando-os a levar os seus pensamentos cativos
à obediência de Cristo.

De Noiva a Exército
Vamos considerar o processo pelo qual a noiva se torna o exército,
o que é realmente excitante. Encontramos o processo ou transforma-
ção descrito no livro Cantares de Salomão. Aqui o noivo está a falar à
sua noiva – uma imagem de Cristo a falar à Sua igreja:
Formosa és, meu amor, como Tirza, aprazível como Jerusalém,
terrível como um exército com bandeiras. (Cânticos de Salomão 6:4)
Isto é sem duvida uma combinação inesperada – as palavras “for-
mosa”, “meu amor”, e “aprazível” são seguidas pela imagem de “um
exército com bandeiras”. Uma descrição feminina ou nupcial transfor-
ma-se numa descrição militar. E depois, no versículo 10 do mesmo
capítulo, o coro (ou espectadores) oferece esta descrição da noiva (a
igreja):
Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como
a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com
bandeiras? (versículo 10)
O coro (o mundo) está fascinado ao ver a igreja aparecer como
um exército. Repare na beleza da imagem:

77
• “[Aparece] como a alva do dia” – ascendente depois de uma noite
de escuridão.
• “Tão formosa como a lua cheia” – a lua na sua função de refletir o
sol, tal como a igreja reflete ou manifesta Cristo.
• “Tão pura como o sol” – com a própria pureza e justiça de Cristo.
• “Formidável como um exército com bandeiras” – de novo a noiva
torna-se o exército surpreendendo ambos, Satanás e o mundo.
A ordem é a seguinte: Primeiro, Cristo vê a Sua noiva como um
exército; depois, ela também aparece ao mundo deste modo. É por
isso que é importante para nós, vermo-nos a nós próprios tal como
Cristo nos vê, olhando no espelho da Palavra de Deus. Quando co-
meçamos a olhar para nós desta maneira pela fé, então o Espírito
Santo transforma-nos naquilo que nós vemos.

A Característica Essencial do Exército de Deus


O propósito de Deus em apresentar esta imagem da igreja, ou
a característica essencial do exército de Deus, é manifestar a vitória
de Deus.

A característica essencial do exército de Deus, é manifestar a


vitória de Deus.

Ao lidar com este tema extraordinário, precisamos de ver, primei-


ro que tudo, que o Senhor é um comandante militar e um homem
de guerra.
O SENHOR é varão de guerra; SENHOR é o seu nome. (Êxodo 15:3)
Quem é este Rei da Glória? O SENHOR forte e poderoso, o SE-
NHOR poderoso na guerra. Levantai, ó portas, as vossas cabeças;
levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória. Quem é
este Rei da Glória? O SENHOR dos exércitos; ele é o Rei da Glória.
(Selá) (Salmos 24:8-10)
Deus é o Senhor dos exércitos. Ele é também um Deus da batalha
e um “varão de guerra”. Ele é digno e capaz de ser o nosso Coman-
dante. É bom saber isso. Ter confiança no seu comandante militar, é
um fator muito importante na vida militar. A moral cai sempre entre
as tropas quando elas perdem a confiança no seu comandante. Mas

78
nós podemos ter a nossa moral fortalecida pelo conhecimento de que
o Senhor sabe o Seu trabalho; Ele é um Deus da batalha, um varão da
guerra, o Senhor dos exércitos.
Depois precisamos de saber que Cristo já alcançou a vitória.
Paulo disse que Deus em Cristo “despojou os principados e po-
testades” (Colossenses 2:15) – o reino inteiro de Satanás com to-
das as suas autoridades e os seus governantes. Cristo despiu-os das
suas armaduras e os expôs publicamente, triunfando sobre eles na
Cruz. A Cruz foi o lugar onde Cristo selou de uma vez por to-
das a derrota de Satanás. O inimigo conseguiu a sua própria der-
rota enviando Cristo para a Cruz. Desde o momento, em que se
apercebeu do que tinha feito, ele tem estado ocupado, tentan-
do manter os Cristãos ignorantes acerca do que a cruz alcançou,
porque alcançou a sua derrota total. (Ver, por exemplo, Hebreus
2:14-15).
Contudo, Cristo não quer derrotar Satanás sozinho; Ele quer que
nós partilhemos na Sua vitória e nos seus frutos. Aqui temos uma
gloriosa afirmação:
E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo e, por
meio de nós, manifesta em todo o lugar o cheiro do seu conhecimento.
(2 Corintios 2:14)
Tenha em conta os dois advérbios na frase acima citada: “sempre”
(advérbio de tempo) e “em todo o lugar” (advérbio de lugar). Pense
apenas nisto: isto não deixa de fora nem tempo nem lugar. Deus
conduz-nos sempre em triunfo em Cristo em todo o lugar.
A palavra “triunfo” é um termo distinto e oficial no contexto do
Império Romano. Se um general Romano tinha sido bem sucedido
em guerras, particularmente no estrangeiro, e tinha juntado territó-
rios ao Império Romano, ou derrotados inimigos poderosos, o sena-
do atribuía-lhe um triunfo quando ele regressava a Roma. Esta era
a honra mais alta que podia ser atribuída a um general Romano. O
triunfo consistia basicamente nisto: o general era colocado num car-
ro de guerra puxado por dois cavalos brancos. Era conduzido pelas
estradas de Roma, enquanto o povo estava em ambos os lados da
estrada e o aplaudia.
Atrás do carro de guerra, desfilavam todos os atributos das con-
quistas do general. Por exemplo, se ele tivesse estado numa terra onde

79
havia animais selvagens que não eram familiares em Roma, traziam
algumas espécies desses animais – talvez tigres ou elefantes – e faziam-
-nos desfilar atrás do carro de guerra. Depois dos animais vinham
todos os reis e generais a quem o general tinha derrotado e feito ca-
tivos. Eles eram levados acorrentados em humilhação. Finalmente,
seguiam-se todas as categorias de prisioneiros, umas após outras, que
tinham sido capturadas na guerra. E estes eram os atributos e a de-
monstração ao povo de Roma daquilo que o general tinha conquis-
tado pela sua vitória.
Quando Paulo falou acerca de Cristo a triunfar, era essa a imagem
que ele tinha em mente. Cristo está dentro do carro de guerra, e atrás
d’Ele, em exibição, estão todas as forças do mal que Ele derrotou. Os
principados e potestades de Satanás e todas as coisas que se opõem a
Deus e a nós estão a ser levados em cativeiro atrás do carro de guerra.
Paulo disse, “Graças a Deus que sempre nos faz triunfar em Cristo.”
Onde é que nos situamos neste cenário? Alguns Cristãos imaginam-se
a si próprios a serem conduzidos em cadeias atrás do carro de guerra,
mas isso é o lugar para os inimigos. Não, nós estamos dentro do carro
de guerra. Sabes como entrar lá? Posso dizer-te este grande segredo
numa simples palavra: pela fé – tens apenas que acreditar. Não po-
des trabalhar para isso; não podes orar por isso; tens somente que
acreditar nisso. Graças a Deus, que sempre faz com que partilhemos
no triunfo de Cristo. Onde quer que vamos nós fazemos parte do
espetáculo, e todo o universo se alinha e aplaude o que Ele tem feito.

Pela fé partilhemos no triunfo de Cristo.

Requisitos de Deus para o Seu Exército


Agora vamos ver o que é requerido na nossa relação com o Co-
mandante-Chefe. Lemos este versículo no início do capítulo, mas
vamos continuar a partir daí.
No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do
seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus…
…tomai toda a armadura de Deus… (Efésios 6:10-11, 13)

Revestindo a Armadura Completa


É nossa responsabilidade, como soldados no exército de Cristo
revestir a nossa armadura. Paulo avisou-nos claramente, que nós esta-

80
mos num conflito. Deus providenciou a armadura, e Paulo registou
seis itens da armadura nos seguintes versículos:
Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade,
e vestida a couraça da justiça, e calçados os pés na preparação do
evangelho da paz; tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual po-
deis apagar todos os dardos inflamados do inimigo. Tomai também o
capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus,
orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito e
vigiando nisso com toda a perseverança e súplica por todos os santos.
(Efésios 6 14-18)
Num dos seus grandes hinos, Charles Wesley falou acerca da arma
de “toda a oração”. Então nós temos seis peças da armadura, mais a
arma de “toda a oração”. De todos estes sete itens, apenas dois são
armas de ataque; todos os restantes são armas de defesa. Mas a espada
do Espírito, que é a Palavra de Deus, e a arma de toda a oração são
armas de ataque.
Se olhares atentamente para esta imagem, descobrirás que estás
completamente protegido, desde o topo da tua cabeça até às solas dos
teus pés, exceto num lugar: as tuas costas. Não há nada que proteja
as costas exceto os teus companheiros soldados. Isto mostra que não
nos podemos dar ao luxo de virar as nossas costas, e que seria melhor
termos alguém atrás de nós que nos possa proteger.

Ensinar e levar uma Vida Disciplinada


Então temos que tratar o nosso carácter como soldados, tal como
Paulo enfatiza em 2 Timóteo:
E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a
homens fiéis, que sejam idóneos para também ensinarem os outros.
(2 Timóteo 2:2)
O princípio básico do discipulado é ensinar a outros o que te foi
ensinado. A organização missionária “Os Navegadores” indicar-lhe-á
que existem quatro gerações espirituais mencionadas neste versículo:
Paulo, que ensinou Timóteo; que estava a ensinar homens crentes;
que estiveram a ensinar outros homens crentes. Esta é a maneira de
perpetuar a verdade no ministério: ensinar homens, que ensinarão
homens, que ensinarão homens…

81
Matematicamente, as implicações são quase incríveis. Não sou
matemático, e terás que usar uma calculadora, mas considera isto: Se
um homem ganha um homem e o ensina durante um ano, no final
desse ano tens dois homens capazes de ensinar. Supõe que cada um
deles ganha outro homem para ensinar durante outro ano. Agora
tens quatro homens capazes de ensinar. Ao fim de cinco anos terás
dezasseis homens. Mas no final de cerca de trinta anos, já não há mais
ninguém para ganhar! O mundo todo foi incluído.
Isso é progressão geométrica. Por outro lado, se tivesses que ga-
nhar mil pessoas para Cristo todos os dias, isso seriam 365.000 pes-
soas por ano. Este número parece desconcertante. No entanto, depois
de vinte anos, o outro processo (de um homem ganhar e ensinar
outro homem durante um ano) teria deixado para trás por completo
este processo de simplesmente ganhar pessoas e deixá-las lá. Matema-
ticamente, funciona. O problema que se passa com a maioria de nós
é que isso significa ter que começar com muito pouco. Certamente
nós gostaríamos de nos lançar para algo maior e mais extraordinário.
Este método é mais pequeno, mas mais eficaz.
Em ligação com isto, em seguida, Paulo continuou dizendo algo
muito importante para Timóteo:
Sofre, pois, comigo, as aflições, como bom soldado de Jesus Cristo.
Ninguém que milita se embaraça com negócio desta vida, a fim de
agradar àquele que o alistou para a guerra. (2 Timóteo 2:3-4)
A disciplina militar exige que estejas preparado para sofrer afli-
ções. Conforto e luxo não são considerações primárias. O que iden-
tifica um soldado apto, é que ele irá sentir-se sempre tão confortável
quanto possível em qualquer lado, seja numa casa confiscada ou no
fundo de uma trincheira. Um bom soldado não depende das circuns-
tâncias e consegue adaptar-se, esteja onde estiver. Ele está separado do
modo de vida normal das pessoas à sua volta.
Portanto isto é uma imagem completa do discipulado no exército
do Senhor – ensinar outros e levar uma vida disciplinada.

Lealdade para com os Soldados


nossos Companheiros
O que é que está envolvido ou requerido nas nossas relações uns
com os outros? O livro 1 Crónicas 12 regista representantes de todas

82
as tribos de Israel que vieram até Hebrom guiados pelos seus líderes,
em ordem militar para fazer David rei
Ora, este é o número dos chefes armados para a peleja, que vie-
ram a Davi em Hebrom, para transferir a ele o reino de Saul, con-
forme a palavra do SENHOR. (1 Crónicas 12:23)
Creio que isto é uma imagem do modo como Deus vai unir
o Seu povo. As tribos reunir-se-ão sob a autoridade dos seus líde-
res, sendo as tribos as várias partes do corpo de Cristo, que irão ser
representadas sob a sua liderança com apenas um propósito: fazer
Jesus Rei.
Depois existe uma lista de quantos Israelitas vieram de cada tribo,
com o seu respectivo capitão.
De Zebulom, dos que podiam sair no exército, cinqüenta mil
ordenados para a peleja com todas as armas de guerra; como também
destros para ordenarem uma batalha, e não eram de coração dobre.
(1 Crônicas 12:33)
Estes eram homens que podiam manter os seus lugares nas fileiras,
lado a lado, com um coração inteiro. Eles eram leais e dedicados uns
aos outros. Numa batalha, precisas saber que o homem que está ao
teu lado direito estará lá independentemente das condições do tem-
po e independentemente do perigo. Deves poder contar com aquele
homem.
Esta imagem é o que Deus está a incutir em nós, considerando a
nossa necessidade de uma comprometida lealdade de uns aos outros.
Os verdadeiros soldados de Deus são aqueles que sabem manter a
posição com um coração inteiro.

Os verdadeiros soldados de Deus são aqueles que sabem manter


a posição com um coração inteiro.

O Hebraico diz “um coração e um coração”. Este género de pes-


soa não é aquele que é amável à tua frente, mas que te critica pelas
costas! Não podes ir para a batalha com um homem assim; ele é mais
perigoso para ti do que o inimigo.
Deus está a dizer que precisamos ser leais uns aos outros. Isto não
significa que tenhas de concordar com tudo o que alguém faz. Isso

83
significa que não o trairás ou lhe darás uma facada nas costas, mas
antes pelo contrário, estarás a seu lado e o protegerás do perigo.
Todos estes homens de guerra, que sabiam ordenar a batalha, vie-
ram a Hebrom com inteireza de coração… (versículo 38, Almeida
Revisada Imprensa Bíblica)
Manter a formação de batalha e ter um coração unificado, andam
sempre juntos. Se o teu coração está dividido, não te manterás em
posição. Tens que ser uma pessoa em quem o Comandante e os teus
companheiros soldados possam confiar que estejas no teu lugar. Tens
que ser um membro leal do exército de Deus.

84
- 10 -

As Sete imagens
e a Sua aplicação

Mas que fantástica revelação teve o apóstolo Paulo da igreja! Já re-


feri anteriormente que a igreja é a manifestação multiforme ou mul-
tifacetada da sabedoria de Deus:
…para que, agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus
seja conhecida dos principados e potestades nos céus… (Efésios 3:10)
Cada um destes sete aspetos do povo de Deus que temos estado
a estudar apresenta um aspeto diferente da sabedoria de Deus. Te-
mos que estar prevenidos para não nos focarmos em nenhum deles
excluindo os outros. É perigoso traçar uma única trajetória na nossa
perspetiva, e ver apenas uma faceta do povo de Deus. Temos que
crescer para um entendimento e uma prática completo de todas es-
tas imagens, ou então deixaremos escapar muito do que Deus tem
para nós.
Vamos rever as sete imagens da igreja e as suas referências em
Efésios:
1. 1:22 A assembleia
2. 1:23 O corpo
3. 2:10 A obra-prima de Deus
4. 2:18-19 A família
5. 2:20-22 O templo
6. 5:25-32 A noiva
7. 6:10-13 O exército
Agora, vamos reexaminar as imagens, cada uma por sua vez, e
realçar as duas lições principais que aprendemos de cada: a natu-
reza essencial e distintiva e a responsabilidade particular que nos é
exigida, como representantes de cada imagem individual e coleti-
vamente.

85
A Assembleia
• “A característica essencial” é ser a autoridade governamental de
Deus. A igreja é o corpo representativo de Deus na terra através
do qual, pelo poder espiritual e autoridade, Ele governa as nações
e leva a efeito os Seus propósitos.
• “O que é exigido de nós?” A nível pessoal, respeito pela ordem.
Não estamos preparados para governar se não tivermos respeito
pela devida ordem. Não podemos governar o universo até nos
governarmos a nós próprios. Isto significa ordem na nossa con-
duta e na nossa relação uns com os outros. Aqui está uma área
onde temos muito trabalho para fazer. Coletivamente, temos de
reconhecer a função (dom) que cada pessoa tem na assembleia.
Deus deu várias funções (dons) na assembleia: apóstolos, profe-
tas, pastores, professores, milagres, dons de cura, línguas, e por aí
adiante. Temos de reconhecer a dádiva ou o carisma com o qual
cada pessoa funciona.

O Corpo
• “A característica essencial” é ser o agente da vontade de Cristo. A
função do corpo é fazer a vontade Àquele para quem o corpo foi
preparado. Como corpo de Cristo, a nossa função é fazer a vontade
de Cristo; Ele é a Cabeça e nós as partes do corpo. Jesus depende de
nós como membros do Seu corpo, para realizar os seus propósitos
redentores na terra, já não pregará mais o Evangelho; mas nós
iremos fazê-lo. Ele não é a personificação do ministério ativo; nós
somos. Nós somos as Suas mãos e os Seus pés.
• “O que é exigido de nós?” Individualmente, temos que reconhecer
e apreciar as nossas diferenças, e coletivamente, temos de admitir
a nossa interdependência como partes do corpo. Não podemos
dizer uns aos outros, “não preciso de ti”. Temos que ser diferen-
tes e diversos, mas dependentes uns dos outros. Somente quando
reconhecermos esta verdade, o corpo se torna efetivo. Lembra-te,
um “cavaleiro solitário” Cristão, efetivo e frutífero, não existe!

A obra-prima de Deus
• “A característica essencial” é a de que temos que ser a revelação,
para o universo, do génio criador de Deus! Somos a Sua obra-
-prima criativa. Para os principados e potestades nos céus, a igreja

86
é estabelecida como uma imagem da multiforme (múltipla) sa-
bedoria de Deus. Isto representa o génio criador de Deus no seu
ponto mais alto.
• “O que é exigido de nós para fazer parte desta obra-prima?” Para
cada um de nós isto requer uma entrega incondicional ou flexibi-
lidade; e coletivamente, requer a “capacidade para incorporar-se”.
Se formos uma palavra num poema, temos que ser a palavra certa
no lugar certo, e estar relacionada corretamente com as outras pa-
lavras. Se formos um membro de uma orquestra, temos que tocar
de acordo com a partitura. Temos que nos encaixar no desígnio
de Deus, permitindo-Lhe fazer-nos o que, e colocar-nos onde, Ele
quiser.

A Família
• “A característica essencial” é que Deus o Pai é a fonte de vida
de todos nós, e de que estamos juntos, não numa instituição ou
numa organização, mas numa família. Jesus é o nosso Irmão Mais
Velho, e nós somos todos membros da mesma família, mostrando
a natureza de Deus como Pai.
• O que é exigido de nós? Individualmente, requer-se obediência aos
mandamentos do nosso Pai. Jesus aprendeu a obediência através
do sofrimento e Ele é o “Filho modelo” para todos os Cristãos. Co-
letivamente, somos mandados a amar uns aos outros. Jesus chama-
nos Seus irmãos porque Deus nos chama Seus filhos; e se Deus
chama os nossos companheiros crentes Seus filhos, temos que lhes
chamar nossos irmãos. Isto nem sempre é fácil. Como diz o dita-
do, podes escolher os teus amigos, mas não podes escolher a tua
família. Como uma família, temos de nos aceitar uns aos outros.
Em Romanos 15:7, está escrito:
Portanto, recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos
recebeu para glória de Deus.
Como podemos glorificar a Deus senão sendo uma verdadeira
família espiritual?

O Templo
• “A característica essencial” é ser um lugar de habitação para Deus.
Paulo disse: Nós somos o templo do Deus vivo. (2 Coríntios 6:16)

87
Em vez do tabernáculo de Moisés ou do templo de Salomão, nós
tornámo-nos lugar de habitação de Deus – ambos coletivamente,
como um corpo de crentes, e individualmente; cada um de nós é
uma “pedra viva” num templo vivo.
• “O que é exigido de nós?” Como pedras vivas temos que ser for-
mados e ajustados, submetendo-nos à disciplina de Deus e aos
ministérios que Deus colocou na igreja. Quando tivermos per-
mitido a nós próprios sermos talhados e martelados até ficarmos
na forma certa, então, coletivamente, devemos desejar tomar os
nossos lugares no templo onde pertencemos, com uma pedra de
cada lado, duas pedras abaixo de nós, e na maioria dos casos, duas
pedras acima de nós, também! Isto é exigido de nós se pretender-
-mos realmente ser parte do templo

A Noiva
• “A característica essencial” é mostrar a glória de Cristo. A história
humana começa e acaba com um casamento. Jesus demonstrou
o Seu compromisso para connosco sem reservas, entregando-Se
totalmente. A igreja é para ser a noiva de Cristo, com quem Ele
vai estar unido eternamente no casamento das bodas do Cordeiro.
Assim como Jesus se entregou sem reservas à igreja, agora Ele pede
à igreja para se entregar a si mesma, sem reservas, a Ele.
• “O que é exigido de nós?” Individualmente, como a noiva, cada
um de nós tem que fazer uma preparação cuidada para pôr as nos-
sas vestes de casamento em ordem. …Os atos de justiça dos santos.
(Apocalipse 19:8) são as vestes de linho fino com as quais vamos
aparecer. Queres ter um vestido de casamento incompleto nas bo-
das do casamento? Coletivamente, nós devemos exortar-nos uns
aos outros pelo exemplo. Isto faz parte da nossa responsabilidade
em “segurar firmemente” e encorajar uns aos outros para o amor
e boas obras.

O Exército
• “A característica essencial” é ser uma demonstração do poder in-
vencível de Deus para manifestar a Sua vitória! Estamos envolvi-
dos numa guerra incessante contra o reino espiritual de Satanás,
e equipados com armas espirituais que nos tornam capazes de
derrubar as fortalezas de Satanás no principal campo de batalha:

88
a mente. Nós libertamos os cativos do inimigo e ganhamos este
mundo para o Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo.
• “O que é exigido de nós?” Primeiro, a nível pessoal, é exigida
disciplina militar. Deus está à nossa espera para nos governarmos
a nós próprios, particularmente na nossa conduta e relacionamen-
tos. Como está isso hoje contigo? Como está a tua conduta pesso-
al? A tua família? A tua situação financeira? A tua mente? Depois,
coletivamente, temos que ser leais uns aos outros. Como soldados
em batalha, é-nos exigido estar preparados para defender os nos-
sos companheiros soldados, independentemente do perigo.

Um Reflexo Verdadeiro da Sua Igreja Verdadeira


Ainda que possas desejar intensamente refletir a imagem comple-
ta do que pode ser a igreja, todos os aplicativos podem parecer esma-
gadores. Lembra-te da chave: Enquanto olhamos para o espelho da
Palavra de Deus, nós vemos a nossa condição real. Mais, ao olharmos,
o Espírito Santo transforma-nos naquilo que Deus quer fazer de nós.
Ao apaixonarmo-nos por Ele, Ele transformar-nos-á num reflexo da
Sua Igreja verdadeira.

Ao apaixonarmo-nos por Ele, Ele transformar-nos-á num reflexo da


Sua Igreja verdadeira.

Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a


glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma
imagem, como pelo Espírito do Senhor. (2 Coríntios 3:18)

89
III
3ª. Parte

A Estrutura da Igreja
- 11 -

A Igreja Universal

Na primeira parte do livro, considerámos a visão de Deus para a


igreja. Na segunda parte, abordámos a natureza séptupla da igreja,
as aplicações e implicações para nós como crentes. Analisemos agora
a estrutura da igreja. A estrutura é importante por que é o resultado
prático da identidade da igreja que temos vindo a descobrir.
Ao definir a palavra “igreja”, mencionei que a palavra “ecclesia”
não foi inventada pelos escritores do Novo Testamento, foi simples-
mente dado um significado especial relacionado com a palavra origi-
nal. A igreja é uma assembleia, um grupo de pessoas chamadas para
uma tarefa especial. Devemos notar que, na Bíblia, a palavra “igreja”
nunca se refere a um local de reunião; refere-se sempre às “pessoas”
que se reúnem lá. Nunca é aplicada a um edifício real, material feito
de pedra, cimento, ou madeira. A igreja no Novo Testamento é uma
assembleia formada por pessoas chamadas do mundo, com base na
sua relação pessoal com Jesus Cristo.
A igreja universal é formada por todos os verdadeiros Cristãos em
todo o mundo. É a totalidade de todos os que acreditam em Jesus
Cristo. Outra palavra que é muitas vezes usada para descrever a igreja
global ou coletiva é “católica”. Muitas pessoas – particularmente os
Católicos Romanos – não estão alertadas para o facto de que a pala-
vra “católico” é derivada da palavra Grega que significa “universal”.
Por isso, quer digas “universal” quer digas “católico”, estás a dizer a
mesma coisa.
É interessante que a palavra “igreja” é usada apenas em duas
passagens nos Evangelhos, sempre pelo próprio Jesus. Em Mateus
16:18, Jesus falou da igreja universal, e em Mateus 18:17, Jesus
falou da igreja local. Neste capítulo, começaremos por examinar
as diferenças importantes entre as duas ao considerarmos a igreja
universal.

93
A Revelação da Identidade de Jesus
E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus
discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E
eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou
um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão
Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Je-
sus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas,
porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos
céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edifica-
rei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;
(Mateus 16:13-18)
De novo, este é o primeiro uso da palavra “igreja” no Novo Testa-
mento, e a situação em que é apresentada é significante e definitiva.
Pela primeira vez, Jesus desafiou os Seus discípulos (que estavam com
Ele há já algum tempo) para reconhecerem a Sua verdadeira identida-
de, perguntando-lhes, “Que dizem as outras pessoas acerca de Mim?
Que diz o mundo em geral?” Eles deram-Lhe várias respostas: “João o
Baptista ressuscitado dos mortos, Elias, Jeremias, ou um dos profetas.”
Então Jesus veio diretamente ao assunto e perguntou, “Mas quem
dizeis vós que Eu Sou?” O impetuoso Simão Pedro deu uma resposta
corajosa e definitiva: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Jesus respon-
deu com uma bênção especial a Simão Pedro: “Bem-aventurado és tu,
Simão Barjonas, porque não foi a carne e o sangue quem to revelou, mas
Meu Pai, que está nos céus.” A identidade de Jesus não é revelada aos
sentidos naturais, compreensão ou razão. As pessoas com quem Jesus
viveu em Nazaré durante trinta anos, continuaram sem saber quem
Ele era. Eles viram-No sempre como o filho do carpinteiro. Do mesmo
modo, as pessoas que o encontraram na sinagoga não sabiam quem Ele
era. A verdadeira revelação da Sua identidade apenas podia vir sobrena-
turalmente, através de uma revelação garantida por Deus Pai.
Depois Jesus continuou a fazer uma declaração em relação a Pe-
dro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei
a minha igreja…” Algumas pessoas afirmam que Pedro é a rocha so-
bre a qual a igreja é construída, mas esta crença não está em confor-
midade com a língua original. O nome para Pedro em Grego é “pe-
tros”, significando uma pedra ou um seixo. A palavra traduzida nesta
passagem por “rocha” é “petra”, significando um rochedo íngreme

94
muito alto. É o nome dado a um lugar a oriente do Rio Jordão devido
à sua tremenda formação de rocha – um lugar que muitos turistas
continuam a visitar. Isto é prova do significado da palavra. “Petros” e
“petra” não é o mesmo, contudo elas estão obviamente relacionadas
em som e significado.
Então, o que Jesus realmente disse a Pedro foi, “Tu és Pedro [pe-
tros, uma pequena pedra], e nesta rocha [petra, um massivo rochedo]
Eu edificarei a Minha igreja.” Pedro obviamente, não era a rocha! O
que era a rocha? Era a revelação e a confissão que Pedro fez, guiado
pelo Espírito Santo. Através deste intercâmbio, Pedro entrou numa
nova relação com Jesus. Repare aqui que o Pai – pelo Espírito – re-
velou o Filho. Isto é muito excitante para mim. Não podes entrar na
igreja de Jesus Cristo e ignorar um único membro da Divindade. A
entrada na igreja envolve relação com cada membro da Trindade, Eles
estão todos intimamente preocupados com quem entra na igreja. É
somente com base nesta revelação que alguém tem acesso à igreja.

A entrada na igreja de Jesus Cristo envolve relação com cada


membro da Trindade.

Receber a Revelação
Pedro passou por quatro etapas diferentes ao receber a revelação
da identidade de Jesus.
1. “Confrontação”: Houve uma confrontação direta, pessoa a pes-
soa, entre Jesus e Pedro. Não havia ninguém entre eles: nem me-
diador ou sacerdote.
2. “Revelação”: Pedro recebeu uma revelação que não era produto da
sua própria razão, entendimento, ou sentidos. O Espírito Santo
concedeu-lhe isso sobrenaturalmente
3. “Reconhecimento”: Pedro reconheceu a revelação, o que é impor-
tante. Uma coisa é receber a revelação; outra coisa é reconhecê-la.
4. “Confissão Pública”: Pedro fez uma confissão pública do que
ele reconheceu. Ele disse em voz alta e em público, “Tu és Cristo
[Messias], o Filho de Deus vivo.” Jesus disse, “Sobre esta rocha [este
reconhecimento ou confissão] construirei a Minha igreja”.
Ninguém pode entrar na verdadeira igreja de Jesus Cristo por
nenhum outro caminho. Tem que haver um encontro direto com

95
Jesus e uma revelação de quem Ele é, pelo Pai, através do Espírito
Santo. Tem que haver um reconhecimento interior dessa revelação
no coração e, uma confissão pública, exterior, desse reconhecimen-
to. Esta entrada individual na verdadeira igreja de Jesus Cristo está
guardada ciosamente pelo Pai, Filho, e Espírito Santo. Não podes
desonrar, ignorar, ou desrespeitar um único membro da Divindade
e entrar na igreja.
Novamente, a entrada deve concluir com uma confissão pública,
um Cristão secreto não existe; é impossível. Jesus disse:
Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o
confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que
me negar diante dos homens, eu o negarei diante de meu Pai, que
está nos céus. (Mateus 10:32-33)
Quando Deus lida contigo através do Espírito Santo, das duas
uma, tens que confessar ou negar. A recusa em confessar é, de facto,
uma negação; não existe neutralidade. Jesus disse em Mateus 12:30:
Quem não é comigo é contra mim.
Em Mateus 11, podemos ver quão zelosamente é guardada esta
revelação do Pai e do Filho:
Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai,
Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e en-
tendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te
aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém
conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho,
e aquele a quem o Filho o quiser revelar. (versículos: 25-27)
O Filho revela o Pai e o Pai revela o Filho, em ambos os casos
através do Espírito Santo.
Por conseguinte, a entrada na verdadeira igreja de Jesus Cristo
depende desta revelação da identidade de Jesus. Aqueles que já têm
esta relação com Cristo são necessariamente membros da Sua igreja.
Na realidade, nós não temos a opção de não sermos membros da
igreja. A única opção que existe é a nossa relação com Jesus Cristo. Se
desejamos estar relacionados com Jesus Cristo, como nosso Senhor e
Salvador pessoal, temos que ser membros da Sua igreja. É impossível
estar verdadeiramente relacionado com Ele pelo Espírito Santo, sem
pertencer à Sua igreja universal. Se decidires que não queres ser um

96
membro da Sua igreja, tens que renunciar à tua relação com Ele; não
podes ter as duas coisas.
Deixe-me indicar-lhe algo também importante em Mateus 16:18,
onde Jesus (no original Grego) coloca tremenda ênfase sobre duas
palavras:
…edificarei a Minha igreja…
A igreja de que estamos a falar é a igreja que Jesus chama “a Minha
igreja”. É a Sua igreja. Ele tem o direito único e soberano de fazer
nela, com ela, e através dela o que Ele desejar. Ele não precisa pedir
permissão a ninguém. Esta é a igreja com a qual estamos a lidar.

Entrada pela Porta


Vejamos uma passagem da Escritura que sublinha claramente,
o modo específico de entrar na verdadeira igreja de Jesus Cristo, a
igreja universal. A igreja é simbolicamente apresentada na parábola
como o curral das ovelhas. Jesus é apresentado como o pastor e a
igreja como o curral (tal como muitas vezes no Novo Testamento), o
lugar de reunir/recolher as ovelhas, que são os verdadeiros discípulos
de Jesus Cristo.
Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela
porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e sal-
teador. Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A
este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome
às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas
ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem
a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão
dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. Jesus disse-lhes esta
parábola; mas eles não entenderam o que era que lhes dizia. Tornou,
pois, Jesus a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo que eu sou
a porta das ovelhas. Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e
salteadores; mas as ovelhas não os ouviram. Eu sou a porta; se alguém
entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens.
(João 10:1-9)
O último versículo é particularmente enfático: “Eu sou a porta.” A
palavra “a” é específica, definitiva, e exclusiva. Isto significa, “Eu sou a
porta e não há outra.” Depois Jesus disse que se alguém vem ao curral

97
de outra maneira diferente, sem ser pela Porta, esse é um ladrão e sal-
teador. Ele está a falar acerca da assembleia do povo de Deus na terra,
com certeza, porque nem ladrões nem salteadores são admitidos no
céu. Jesus não disse que seria impossível entrar de outra maneira, mas
disse que alguém que entrasse de outra maneira anunciaria a sua na-
tureza real. Esse não seria mais do que um ladrão e salteador.
Consideremos o cenário desta parábola e como todas as três pes-
soas da Divindade estão novamente envolvidas. O Pai é o Dono do
todo da propriedade, incluindo o curral, as ovelhas, e tudo o restante.
O Espírito Santo é o Porteiro ou o Carregador. Jesus é duas coisas:
primeiro, a Porta e segundo, o Pastor. Ele disse claramente estas duas
coisas sobre Ele mesmo. Como pode Jesus ser ambos, uma porta e
um pastor? A minha resposta é a de que Jesus crucificado é a Porta,
e Jesus ressuscitado da morte é o Pastor. Por outras palavras, não há
outro modo de entrar no curral das ovelhas senão por “Jesus Cristo
e este, Crucificado” (1 Coríntios 2:2), na cruz pelos nossos pecados.
Jesus ressuscitou da morte para ser o Pastor de todos os que viriam a
Ele através da Cruz.
O livro de Hebreus salienta o facto de que através da Sua ressur-
reição, Jesus é o Pastor:
Ora, o Deus da paz, que pelo sangue da aliança eterno tornou
a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande Pastor das
ovelhas, vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua von-
tade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus,
ao qual seja glória por todo o sempre. Amém! (Hebreus 13:20-21)
O Grande Pastor é aquele que foi ressuscitado da morte pelo Pai.
Pelo sangue da aliança derramado na Cruz, podemos ser feitos per-
feitos para fazer a Sua vontade. De novo “Jesus crucificado” é a Porta,
o único caminho de acesso a Deus, enquanto “Jesus ressuscitado da
morte” é o Pastor que toma conta das almas daqueles que confiam na
Sua obra na Cruz.
Se o Espírito Santo não te reconhece a ti, os teus motivos, e a tua
fé interior, Ele não abrirá a porta. Se o Espírito Santo não te abre a
porta porque falhaste em cumprir as condições de Deus, tens apenas
uma outra alternativa, e essa é subir de outra maneira. Se fizeres isso,
és um ladrão e um salteador. Em relação a isto, Jesus fez uma declara-
ção tremendamente significativa:

98
Todos quantos vieram antes de mim, são ladrões e salteadores,
mas as ovelhas não os ouviram. (João 10:8)
Esta declaração refere-se a todos os que, alguma vez tiveram a
pretensão, em alguma época passada da história humana, de mostrar
ao homem o caminho de Deus. Isso inclui todos os cultos e filosofias
Orientais, tais como o Budismo e o Hinduísmo, as filosofias Gregas,
tais como o Platonismo e muitas outras.

O Novo Testamento é uma mensagem intransigente: qualquer


pessoa, antes ou depois de Cristo, que reivindica conduzir qualquer
alma humana para Deus, por outro modo que não o da Cruz é um
enganador, um mentiroso, e um salteador. Se reivindicar participar
nas bênçãos do Cristianismo, ele está reclamando algo que não é
legalmente seu. Existem hoje cultos e grupos que falam sobre paz,
alegria e amor, mas não vêm pelo modo de Jesus Cristo e Ele cruci-
ficado. A paz, alegria, e amor de que eles falam não é legitimamente
deles; são ladrões e salteadores.
Um ladrão não anuncia as suas intenções ou identidade; ele opera
em segredo. Esta é a verdade acerca dos que professam ser capazes
de te darem alegria, paz e salvação, mas não enfatizam a necessidade
de Jesus Cristo crucificado na cruz pelos nossos pecados. Jesus disse
d’Ele mesmo:
Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai
senão por mim. (João 14:6)
Se estas palavras não são verdadeiras, ou Jesus foi enganado ou foi
um enganador. Mas eu acredito que são verdadeiras, e elas retratam
que o único caminho de acesso para entrar na companhia do povo
de Deus na terra é por Jesus Cristo. Pai, Filho e Espírito Santo darão
testemunho disto e recusarão reconhecer qualquer pessoa que venha
por qualquer outro caminho.
O mundo moderno não gosta do facto de ser forçado entrar
num lugar de compromisso total. Até alguns membros da igreja não
gostam disto. Eles não aceitam este pedido intransigente pelo Deus
todo-poderoso – Pai, Filho e Espírito Santo – que têm de fazer um
compromisso definitivo, pessoal e público na base da revelação.
O homem intelectual moderno não gosta de reconhecer que é in-
capaz de desvendar verdades eternas com a sua própria razão, que não

99
pode entender realidades espirituais pelos seus próprios sentidos, mas
que as tem de receber como revelação de Deus. O intelectual médio
não quer ter que depender de Deus para o conhecimento da verdade.

Cristo É o Fundamento
Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está
posto, o qual é Jesus Cristo. (1 Coríntios 3:11)
O edifício inteiro, a igreja universal, tem um fundamento único,
supremo, e este já está colocado. Nós não somos convidados para pôr
o fundamento; aceitamos o facto de este já ter sido posto. Cristo é o
único fundamento. Falando de Jesus como único fundamento, Pedro
imaginou a igreja construída como pedras vivas sobre Ele:
…vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual
e sacerdócio santo, para oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis
a Deus por Jesus Cristo. Pelo que também na Escritura se contém: Eis
que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e
quem nela crer não será confundido. (1 Pedro 2:5-6)
Na verdade, Pedro estava a citar Isaías 28:16:
Portanto, assim diz o Senhor Deus: “Eis que eu assentei em Sião
uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que
está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse.”
Pedro mostrou-nos claramente, que este fundamento seguro não é
outro senão Jesus Cristo. No salmo 62:1-2 e ainda nos versículos 6-7,
David também estabeleceu esta verdade com uma clareza indiscutível:
A minha alma espera somente em Deus; dele vem a minha sal-
vação. Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defesa;
não serei grandemente abalado. (Salmos 62:1-2)
Não há salvação em nenhum outro a não ser em Deus, e somente
Deus é a Rocha na qual a salvação é construída. David repetiu estas
palavras em alguns versículos mais adiante:
Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defesa;
não serei abalado. Em Deus está a minha salvação e a minha glória;
a rocha da minha fortaleza e o meu refúgio estão em Deus. (versí-
culos 6-7)

100
David uniu as duas coisas, uma à outra muito clara e definitiva-
mente – a rocha (o fundamento) e a salvação. Ele afirmou nitidamen-
te que cada uma está semelhantemente fundada apenas em Deus. Se
construirmos noutra rocha, reclamamos que existe salvação noutro
além de Jesus Cristo; isto é contra as Escrituras. Somente Ele é a
minha rocha e a minha salvação. Ele é o único fundamento da igreja
universal, e não há nenhum homem que possa substitui-Lo!
Note como os aspetos universais da igreja se aplicam à imagem da
igreja como templo, que estudámos na 2ª parte do livro:
Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concida-
dãos dos santos e da família de Deus; edificados sobre o fundamento
dos apóstolos e profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra de
esquina; no qual todo o edifício bem ajustado, cresce para templo
santo no Senhor. (Efésios 2:19-21)
A igreja é como um edifício que está a ser construído, com cada
crente em particular sendo uma pedra nesse edifício. O fundamento
da igreja é Jesus Cristo, sobre quem os crentes são edificados num
templo santo. Portanto, o propósito final da igreja é ser uma habita-
ção ou um lugar de moradia para Deus.

Cristo, a Cabeça
Também podemos ver muitas aplicações na igreja universal para
o corpo de Cristo:
E sujeitou todas as coisas a seus pés e, sobre todas as coisas, o cons-
titui como cabeça da igreja. (Efésios 1:22)
Esta afirmação é bem definida, Cristo não é a cabeça sobre al-
gumas coisas; Ele é a cabeça sobre todas as coisas. Tudo, em toda a
igreja, está à Sua disposição e sob o Seu controlo. Mais ninguém pode
contestar a Sua autoridade; é-lhe dada unicamente a Ele.
Se olharmos para as profecias dos últimos tempos, dadas em Da-
niel 7 e em Apocalipse 12-13 sobre os sistemas políticos dos últimos
dias, emergem vários tipos de bestas. Uma caraterística interessante
acerca de todas elas, é a de que todas têm muitas cabeças. Num certo
sentido, elas são monstros. Uma coisa que nunca terá muitas cabeças
é a igreja de Jesus Cristo, nunca se tornará um monstro. Eu arrisco-me
a dizer que o tema espiritual decisivo que ainda temos que confrontar
é: quem é a cabeça da igreja? Como veremos nos próximos capítulos,

101
a luta no final da história humana andará à volta deste mesmo tema.
A igreja universal tem precisamente uma cabeça e essa cabeça é Jesus
Cristo. Tem um fundamento e esse fundamento é Jesus Cristo. Não
lhe podemos dar nem outra cabeça nem outro fundamento! Então a
igreja como um todo é o corpo, do qual Jesus Cristo é a cabeça.

A Sede da Igreja
Além do facto de que, a igreja é a representante pessoal de Deus
sob a chefia de Jesus, Hebreus revela outro facto importante acerca
da igreja universal:
Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusa-
lém celestial, e aos muitos milhares de anjos, à universal assembleia
e igreja dos primogénitos, que estão inscritos nos céus… (Hebreus
12:22-23)
A igreja está inscrita ou registada no céu. A condição para estar
inscrito no céu é, ser nascido de novo pela fé em Jesus. Assim, a igreja
tem uma cabeça, Jesus, e uma sede, o céu.
Tenho assistido a problemas e frustrações tremendas, que se origi-
nam no tentar fazer a igreja funcionar a partir de algum centro terre-
no. Fui missionário na África Oriental numa missão que funcionava
a partir de Toronto no Canadá. O processo para nós procurarmos
atuar numa situação parecia não ter fim: telefonar para um comité,
tomar uma decisão, escrever para Toronto, esperar para que o qua-
dro da missão se reúna, e depois esperar para que eles escrevessem
de volta com as suas decisões! Na altura em que o processo ficava
finalmente concluído, a oportunidade já tinha passado; a ação tinha
sido efetivamente posta de parte. A igreja nunca conseguirá enfrentar
o demónio até nos apercebermos que temos uma sede no céu. Cada
crente, servidor, ministro, ou missionário tem direito ao acesso dire-
to à sede. Somente a igreja a funcionar diretamente a partir da sede,
derrotará o inimigo. Estive a pregar por um curto espaço de tempo
numa igreja de um pregador do evangelho pleno (full-gospel). Uma
vez por dia, ele dizia-me, “tenho que ir e ligar para a sede.” Cada vez
que ele telefonava para a sede, voltava mais frustrado e confuso do
que estava antes. Esta experiência fez com que eu parasse e perguntas-
se a mim próprio: “Onde está a minha sede?” Lembro-me de, nessa
altura chegar a uma decisão firme: a minha sede encontra-se no céu e

102
é para lá que tenho de recorrer. Quando vou lá, não venho frustrado
nem confuso.
Existe aqui um contraste entre a ordem da igreja Judaica, com o
seu centro na Jerusalém terrena, e a igreja do Novo Testamento, com
o seu centro na Jerusalém celeste. Vejamos este contraste:
Ora, esta Agar [a concubina de Abraão por quem Ismael nas-
ceu] é Sinai, um monte da Arábia [o lugar onde foi dada a lei],
que corresponde à Jerusalém que agora existe, pois é escrava com seus
filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre, a qual é mãe de todos
nós. (Gálatas 4:25-26)
Cada igreja verdadeira de Jesus Cristo tem uma igreja mãe: a Je-
rusalém celeste, que é livre. A sua sede não é no Monte Sinai, onde
foi dada a lei. A igreja universal está sediada no céu. Uma igreja livre
produz igrejas livres, libertas do legalismo, das regras humanas, dos
títulos, ou das tradições. As implicações disto são atordoadoras!
Mais ainda, vemos um outro facto chave em Efésios 4:4:
Há um só corpo e um só Espírito…
A igreja de Jesus Cristo é um corpo, e um Espírito controla-a. Esse
Espírito é o Espírito Santo. Se existissem muitos espíritos diferentes em
controlo, o resultado seria o caos. Por exemplo, se eu decidisse ir por
uma entrada, mas houvesse outros espíritos em mim que recusassem
aceitar esta decisão, eu seria incapaz de uma ação efetiva. Esta é com
certeza, a condição de uma pessoa que está verdadeiramente possuída
pelo demónio. Ela perde a capacidade de fazer o que quer fazer, porque
existem outros espíritos em ação ao lado do seu próprio espírito. Mas
na igreja de Jesus Cristo, existe apenas um Espírito em controlo, e o
Espírito Santo tem um corpo através do qual opera – a igreja.

A Igreja de Jesus é um corpo governado por um Espírito.

Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem


todos os membros têm a mesma operação, assim nós que somos mui-
tos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos mem-
bros uns dos outros. (Romanos 12:4-5)
Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, sendo
muitos, são um só corpo, assim é Cristo também…Mas agora Deus

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colocou os membros no corpo, cada um deles como quis. (1 Coríntios
12:12, 18)
Nestas Escrituras vemos ambas, unidade e pluralidade sob o con-
trolo divino. Existe um corpo, mas nesse corpo existem muitos mem-
bros. Cada crente é um membro, algures neste vasto corpo.
A escolha sobre que membro serei e onde atuarei não é minha, mas
de Deus. Em 1 Coríntios 12:28 lemos: E a uns pôs Deus na Igreja…
Ser posto como membro no corpo corresponde a ser colocado no seu
lugar na igreja. Paulo mencionou que cada membro depende do ou-
tro; na igreja universal, nenhum membro é independente dos outros.

Representantes de Jesus
Vamos agora considerar o papel da igreja universal como repre-
sentante pessoal e agente de Jesus. Ao enviar o Seu primeiro grupo
de discípulos, Jesus disse: Quem vos recebe, a mim me recebe. (Mateus
10:40) Por outras palavras, “Sois os meus representantes. Não há ou-
tra maneira de Eu chegar às pessoas exceto por vós. Se ides, então Eu
irei convosco e se elas vos receberem, então receber-Me-ão.”
No final do evangelho de Mateus, Jesus apresentou o mesmo pen-
samento de outro modo:
…É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, ide, en-
sinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e
do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos
tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à con-
sumação dos séculos. Amém! (Mateus 28:18-20)
Jesus estava a dizer, “A autoridade foi-Me dada, mas para a tornar
efetiva, vocês têm que ir!” Enquanto nós não usarmos a autoridade
que nos é dada por Jesus Cristo, o mundo não saberá que Ele tem
essa autoridade! A única maneira em que o mundo pode entender a
autoridade agora adquirida em Jesus, é quando a igreja vai em obe-
diência à Sua ordem, exercitando e demonstrando essa autoridade.
Esta é a única maneira que Jesus tem de tornar eficaz a Sua vontade:
é através de nós.

A única maneira que Jesus tem de tornar eficaz a Sua vontade: é


através de nós.

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Em João 20-21, vemos outra das surpreendentes afirmações de
Jesus aos Seus discípulos:
Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos
envio a vós.
Por outras palavras, “Eu vos envio exatamente do mesmo modo
em que o Pai me enviou.” Jesus veio como o representante pessoal,
autorizado e visível do Pai. Ele disse:
…Quem me vê a mim, vê o Pai…
Se nós fomos enviados do mesmo modo, temos uma obrigação de
dizer ao mundo, “Se nos vistes a nós, vistes a Cristo.”
Jesus disse que o Pai Lhe deu as palavras para Ele falar. (Ver João
17:8) Do mesmo modo, a obrigação da igreja é dizer ao mundo, “Je-
sus deu-nos as palavras para nós falarmos.” Jesus disse:
…mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras.(João 14:10)
O que é que devemos dizer ao mundo? “É Cristo em nós quem faz
as obras que nós fazemos.”
É isto que está implícito nesta afirmação de João 20:21: Como o
Pai me enviou, também eu vos envio a vós. A igreja universal é a única,
visível, autorizada e pessoal representante de Jesus Cristo. Se a igreja
falhar em fazer o trabalho, não existem outras maneiras pelas quais
esse possa ser feito!

Confirmações de Membros
Existem duas confirmações públicas e oficiais de membros na
igreja universal, dois batismos que significam que uma pessoa foi
aceite como membro de um corpo. O primeiro é o batismo na água,
o segundo é o batismo no Espírito Santo. O batismo na água é um
reconhecimento por um líder humano e por companheiros crentes,
mas o batismo no Espírito Santo é um selo sobrenatural colocado
sobre a pessoa, pela cabeça do corpo, Jesus Cristo, atestando que ela
é membro do corpo.
Cada batismo tem um propósito supremo, que é tornar eficaz a
unidade do corpo. Vamos ler em Gálatas 3 em relação ao batismo
na água, e depois em 1 Coríntios 12 em relação ao batismo no
Espírito.

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Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus; porque
todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo.
Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há ma-
cho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. (Gálatas
3:26-28)
Este é o significado do batismo na água: nós perdemos as nossas
identidades distintas nacionais, raciais e sociais. Tornamo-nos um no
corpo. O batismo no Espírito Santo tem o mesmo propósito:
Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um
corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos
bebido de um Espírito.(1 Coríntios 12:13)

O batismo na água e o batismo no Espírito Santo têm semelhan-


temente o mesmo propósito – ajudar-nos a entender e tornar viva e
eficaz a nossa qualidade de membros num corpo e a nossa relação
com os outros. Já não pensamos sobre os outros em termos de raça,
classe ou estrato social.
…onde não há grego nem judeu, circuncisão ou incircuncisão,
bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos. (Colos-
senses 3:11)
Em Jesus Cristo, nós experimentamos uma nova unidade no
Seu corpo.
Esta é a igreja universal.

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- 12 -

A Igreja Local

Centremo-nos agora na igreja tal como ela funciona numa deter-


minada localidade: a igreja local. Durante muitos anos fui fanático
sobre o ser membro na igreja local, mas eu realmente não sabia o que
isso era! Veio até mim, através de uma espécie de revelação, como a
igreja local é tão clara, bem definida e simples. Não foi uma revelação
que veio até mim através de uma visão, mas mais exatamente uma
compreensão repentina de simples afirmações feitas na Escritura, que
eu conhecia e pregava durante anos, mas que nunca fui capaz de apli-
car convenientemente.

A Autoridade da Igreja Local


Mencionei no último capítulo que a palavra “igreja” é usada apenas
duas vezes nos Evangelhos. De cada vez é usada por Jesus, e de cada vez
ocorre no Evangelho de Mateus. Vimos em Mateus 16:18 que Jesus
disse: Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, referindo-Se à igreja
universal. Em Mateus 18, Ele usa de novo a palavra “igreja”, mas o
contexto torna claro que Ele estava a falar acerca de uma igreja local, ou
uma igreja numa determinada localidade. Ele estava a falar das circuns-
tâncias, nas quais um crente tem a obrigação de apresentar a sua denún-
cia à igreja. É compreensível que tu e eu nunca possamos trazer a nossa
denúncia ou problema à igreja universal, porque ela está dispersa por
todos os continentes e temos membros que já passaram para a eternida-
de (a estes membros não se pode fazer a denúncia). A primeira reunião
completa da totalidade da igreja universal, pelo que vejo isto, terá lugar
quando o Senhor Jesus Cristo descer dos céus e todos encontrarmos o
Senhor no ar. (Ver 1 Tessalonicenses 4:13-18). O primeiro verdadeiro
encontro da igreja universal será sob a direção do próprio Jesus.
Entretanto, encontramos a igreja a funcionar na sua capacidade
local. Jesus disse:

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Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele
só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; Mas, se não te ouvir, leva ainda
contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas
toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja;
e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e
publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será
ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca
de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que
está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu
nome, aí estou eu no meio deles. (Mateus 18:15-20)

Jesus disse que o primeiro passo para a resolução de uma disputa


entre ti e outro crente é enfrentar a pessoa sozinho. (Na minha experi-
ência, muito poucos Cristãos têm seguido este procedimento. Muitas
vezes falam primeiro com uma outra pessoa sobre o assunto...). Se
não obtiveste satisfação quando te dirigiste a ela sozinho, leva uma ou
duas pessoas como testemunhas da vossa conversa. Se ela continua a
não te querer ouvir, a única alternativa que resta é levá-la à igreja local.
A disputa deve ser apresentada à igreja local, e a sua decisão é final.
Repara na extraordinária autoridade de que a igreja local está reves-
tida – é absolutamente deslumbrante! As pessoas muitas vezes veem a
igreja local como uma boa opção ou como uma fonte de ajuda, mas
aos olhos de Deus é como o Supremo Tribunal dos Estados Unidos! A
igreja local é o tribunal de apelação final em todos os assuntos vitais:
disputas entre crentes, assuntos de doutrina e assuntos de conduta
moral. Aos olhos de Deus, a igreja local é de extrema importância.
É por isso que é essencial que entendamos a igreja, que tomemos o
nosso lugar correto nela, e que nós próprios nos submetamos a ela.
A Escritura diz que, quando a igreja local se reúne e chega a uma
conclusão sobre um caso, qualquer pessoa que não escutar a decisão
e não agir de acordo com ela, deverá ser tratado como um pagão
(Gentio) e um cobrador de impostos, os quais eram evitados pela co-
munidade Judaica no tempo de Jesus. A ideia aqui é de que a pessoa
perdeu o direito de ser considerado e tratado como um Cristão até
se arrepender e se submeter a essa autoridade. Como é que ela perde
esse direito? Na recusa de aceitar a decisão e submeter-se à disciplina
da igreja local.

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Para mim, isto é aterrorizador porque eu não conheço nenhuma
igreja local que esteja qualificada para exercer essa medida de autori-
dade. Ainda assim, se eu alguma vez fosse colocado em tal posição,
faria tudo o que estivesse ao meu alcance para evitar resistir e recusar a
decisão da igreja local. Nós estamos a lidar com coisas que são muito
sérias e muito importantes!
A igreja local não só resolve disputas entre crentes, mas também
julga assuntos de doutrina. Em Atos 15, encontramos uma tremen-
da discussão entre os crentes Judeus acerca do que devia ser exigido
aos Gentios que professavam a fé em Jesus Cristo. Paulo e Barnabé
tinham ganho muitos Gentios para o Senhor e tinham-nos batizado,
mas não lhes tinham exigido que aderissem à lei de Moisés. Em Jeru-
salém, os Judeus ortodoxos crentes em Cristo objetaram arduamente.
Foi uma grande disputa cujas consequências afetam todos nós que
somos Cristãos Gentios.
Paulo e Barnabé subiram a Jerusalém, para resolverem este assun-
to com todos os apóstolos e os anciãos. A sua conclusão foi apresenta-
da a toda a igreja em Jerusalém e teve a comprovação de toda a igreja,
que deve ter juntado alguns trinta mil crentes Judeus nessa altura.
Uma vez um amigo Judeu disse-me: “Se tiveres dois Judeus, tens um
argumento, se tiveres três, tens uma revolução!” Eu admiro-me com
a graça de Deus, que trinta mil Judeus pudessem chegar a uma una-
nimidade absoluta, neste ponto vital de doutrina:
Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igre-
ja… (Atos 15:22)
Repara que a liderança neste ponto não atuou independentemen-
te de toda a igreja. Eles prepararam o caminho, mas a decisão final
não foi deles, nem foi deles a autoridade final. A narrativa continua:
Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja,
eleger homens dentre eles e enviá-los com Paulo e Barnabé a Antio-
quia, a saber: Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens distintos
entre os irmãos. E por intermédio deles escreveram o seguinte: Os
apóstolos, e os anciãos e os irmãos, aos irmãos dentre os gentios que
estão em Antioquia, e Síria e Cilícia, saúde. Porquanto ouvimos que
alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e trans-
tornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guar-

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dar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento, Pareceu-nos bem,
reunidos concordemente, eleger alguns homens e enviá-los com os nos-
sos amados Barnabé e Paulo, Homens que já expuseram as suas vidas
pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, portanto, Judas e
Silas, os quais por palavra vos anunciarão também as mesmas coisas.
Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor
mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: (Atos 15:22-28)
A decisão final foi a do Espírito Santo tornada manifesta no corpo
de Cristo. É ao corpo de Cristo que é dada a mente de Cristo! Em 1
Coríntios 2:16, Paulo disse:
…Mas nós, temos a mente de Cristo.
Nunca mudes isso e diz: “Eu tenho a mente de Cristo.” Novamen-
te, é o corpo coletivo que tem a mente de Cristo através do Espírito
Santo. Esta decisão doutrinal de importância tão vital e de longo
alcance, chegou em total unidade do corpo inteiro, a igreja local.
Repara mais uma vez para nas palavras bonitas de Atos 15:28:
Na verdade, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós [estando reu-
nidos com um acordo], não vos impor mais encargo algum, senão
estas coisas necessárias.
Aos olhos de Deus, a igreja local não é apenas o lugar de harmonia
e o tribunal da apelação final, mas é também o juiz da conduta moral.
Vamos ver um exemplo disto:
Paulo (chamado apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus)
e o irmão Sóstenes, à igreja de Deus que está em Corinto… (1 Co-
ríntios 1:1-2)
Repara que Paulo estava a escrever para toda a assembleia de cren-
tes em Corinto. Agora vê o que ele diz:
Geralmente se ouve que há entre vós fornicação, e fornicação tal,
que nem ainda entre os gentios se nomeia, como é haver quem abuse
da mulher de seu pai. Estais ensoberbecidos, e nem ao menos vos
entristecestes por não ter sido dentre vós tirado quem cometeu tal
ação. Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no
espírito, já determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato
praticou, Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu

110
espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, Seja entregue a Sa-
tanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia
do Senhor Jesus. (1 Coríntios 5:1-5)
Nesta assembleia, existia um caso de extrema imoralidade – incesto.
Um homem estava a coabitar com a mulher de seu pai. Paulo disse que
os Gentios nem sequer têm um nome para esse género de coisa. Ele
disse mais: “Aqui estais a orgulhar-vos sobre os vossos dons espirituais,
o vosso falar em línguas e profetizar, enquanto existe esta imoralidade
horrível entre vós, com a qual ainda nem sequer lidastes. Que vergonha!
É a vossa responsabilidade como igreja lidar com esta imoralidade.”
A igreja toda assume a responsabilidade e a autoridade pelos pa-
drões morais e éticos. Estas coisas não se podem passar a um comité
ou presbitério, ou a algum grupo que se reúne num canto. Não de-
vem ser abafadas ou escondidas debaixo do tapete. O Novo Testa-
mento é um livro muito franco que transmite o que se pretende sem
rodeios: chama as coisas pelo seu nome.
Paulo estava a dizer: “Eu não estou impressionado pela vossa es-
piritualidade. Vós estais a tolerar imoralidade, até mesmo o incesto.
Lidem com isso como igreja. Reuni-vos, e na autoridade da minha
presença e do Senhor Jesus Cristo, mandai esta pessoa embora da
vossa assembleia. Ele já não tem direito a confraternidade no corpo
de Cristo. Entregai-o a Satanás – não para a destruição da sua alma,
mas para a destruição da sua carne, para que através do julgamento
de Deus, no tempo, ele seja poupado do julgamento de Deus na eter-
nidade.” Isto era uma coisa terrível.
Porque que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não
julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora.
Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo. (1 Coríntios 5:12-13)
Aqui Paulo diz que nós não temos nada a ver com o julgamento
dos não crentes. Eles estão fora da nossa jurisdição, contudo, os cren-
tes devem julgar os crentes. É responsabilidade coletiva da igreja exer-
cer julgamento sobre a conduta dos seus companheiros crentes. Algu-
mas pessoas apenas conhecem uma Escritura acerca do julgamento:
Não julgueis para não serdes julgados. (Mateus 7:1)
Mas existem muitas outras Escrituras no Novo Testamento acerca
do julgamento. A igreja tem que manter a pureza ética e moral, exer-

111
cendo julgamento e disciplina sobre os seus membros. Repara no que
Paulo disse em 1 Coríntios 6, e que está exatamente em linha com
o que Jesus disse em Mateus 18, acerca da igreja como o tribunal de
apelação final.
Ousa algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo
perante os injustos e não perante os santos? (1 Coríntios 6:1)
Paulo disse que é errado para um crente ir a tribunal contra um
companheiro crente. Seja como for, os crentes não têm o direito de
resolver este tipo de disputa num tribunal de lei secular. A questão
tem que ser resolvida na igreja. (E também não diz que é errado para
um crente ir a tribunal contra um não crente). Paulo continuou:
Não sabeis vós que os santos [os crentes] hão-de julgar o mundo?
Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois, porventura, indignos
de julgar as coisas mínimas? (versículo 2)
A igreja hoje está a dormir, totalmente inconsciente das suas res-
ponsabilidades, dos seus privilégios e da sua autoridade. Deve ser des-
pertada para eles.

A igreja tem que despertar para as suas responsabilidades e os


seus privilégios.

Desperta, desperta, veste-te da tua fortaleza, ó Sião; veste-te das


tuas vestes formosas, ó Jerusalém, cidade santa; porque nunca mais
entrará em ti nem incircunciso nem imundo. Sacode o pó, levanta-te
e assenta-te, ó Jerusalém; solta-te das ataduras de teu pescoço, ó cati-
va filha de Sião. (Isaías 52:1-2)
Já é tempo da igreja de Jesus Cristo se levantar e se sacudir! Pre-
cisa de ser sacudida! É melhor sacudires-te a ti mesmo do que deixar
Deus sacudir-te, porque quando Deus o faz, não podes parar onde ou
quando queres. A igreja toda de Jesus Cristo precisa de um bulldozer;
de um terramoto; de uma revolução divina, e quero-te dizer que já
está a caminho! Chegou o momento de termos a visão de Deus da
igreja, não a visão do homem. Eu gostava os jovens do Movimento de
Jesus nos anos 60 e 70, cujo lema era: “Diz as coisas como são!” Oh,
quanto eu quero ver isso, e dizer as coisas como são!

112
O Núcleo da Igreja Local
O surgimento e crescimento de uma igreja local faz-se por fases; e
a primeira fase é a célula base. Tal como o corpo humano cresce fisio-
logicamente a partir de uma célula, assim também o corpo de Cristo
numa localidade particular, cresce a partir de uma célula. Sugiro que,
em ordem a formarmos uma imagem de núcleos ou célula inicial de
uma igreja local, foquemo-nos de novo em Mateus 18:20:
Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí
estou eu no meio deles.

Na verdade, prefiro a tradução mais literal: “Onde dois ou três


tiverem sido guiados para se juntarem dentro do/no Meu nome, aí
estou Eu no meio deles.”

A expressão “tiverem sido guiados”, coloca imediatamente uma


questão prática muito importante: Por quem somos guiados? A res-
posta é clara; podes encontrá-la em Romanos 8:14:
Porque todos os que são guiados [regularmente] pelo Espírito de
Deus, esses são filhos [os filhos] de Deus.

Para poder viver como um filho de Deus, tenho que ser guiado
regularmente pelo Espírito de Deus em tudo o que faço. É isto que
identifica o filho de Deus na sua vida diária. Por isso, quando a Es-
critura fala sobre os filhos de Deus serem guiados para se juntarem, é
claro que Aquele que os guia e que os junta é o Espírito Santo. Vamos
lembrar que o Espírito Santo é a força diretiva, em tudo o que conside-
ramos ligado à igreja local. Jesus é a cabeça sobre a igreja, mas Ele exer-
ce a Sua autoridade na igreja por meio do Espírito Santo. Temos que
confessar que Jesus Cristo é Senhor, mas em 2 Coríntios 3:17, diz-se:
Ora, o Senhor é Espírito [o Espírito Santo]; e onde está o Espí-
rito do Senhor [o Espírito Santo], aí há liberdade.
O senhorio de Jesus Cristo sobre a igreja é eficaz, apenas e somen-
te, se deixarmos o Espírito Santo ser o Senhor na igreja.

O senhorio de Jesus Cristo sobre a igreja é eficaz, apenas e so-


mente, se deixarmos o Espírito Santo ser o Senhor na igreja.

113
Por conseguinte, quando chegamos à formação do núcleo da igre-
ja local, é o Espírito Santo quem deve reunir as pessoas, Se não, elas
não estão a viver como Cristãos. Este é o requisito básico: dois ou três
que foram guiados para se juntarem dentro do/no nome de Jesus,
não em nome de Jesus. A expressão “dentro do/no Meu nome” suge-
re um ponto focal, um centro, à volta do qual as pessoas se juntam.
Qual é? O nome de Jesus. O Espírito Santo nunca juntará os crentes
em nenhuma outra base. Por outras palavras, Ele nunca juntará as
pessoas com base numa doutrina ou na membresia duma igreja. Exis-
te apenas um foco autorizado para a verdadeira igreja local, e esse é o
nome de Jesus Cristo.
Quando somos guiados e reunidos juntos dentro do/no nome de
Jesus Cristo, estamos de facto reunindo-nos à volta da pessoa invisível
de Jesus Cristo! Ele é o centro e o lugar de encontro de cada igreja
verdadeira local. Ela reúne-se à volta d’Ele – não à volta de um líder
humano ou de uma doutrina, não à volta de uma experiência, mas à
volta de uma Pessoa.
Existe uma nítida passagem paralela, sobre esta verdade em Deu-
teronómio. Antes de ter sido permitido a Israel entrar na Terra Pro-
metida, Deus deixou bem claro que Ele aceitaria os seus louvores e os
seus sacrifícios somente num lugar. Ele escolheria esse lugar e poria o
Seu nome nele. Deus disse:
Porém, conforme a todo o desejo da tua alma, matarás e comerás
carne, dentro das tuas portas, segundo a bênção do SENHOR teu
Deus, que te dá em todas as tuas portas; o imundo e o limpo dela co-
merá, como do corço e do veado; Tão-somente o sangue não comereis;
sobre a terra o derramareis como água. Dentro das tuas portas não
poderás comer o dízimo do teu grão, nem do teu mosto, nem do teu
azeite, nem os primogénitos das tuas vacas, nem das tuas ovelhas; nem
nenhum dos teus votos, que houveres prometido, nem as tuas ofertas
voluntárias, nem a oferta alçada da tua mão. Mas os comerás perante
o SENHOR teu Deus, no lugar que escolher o SENHOR teu Deus,
tu, e teu filho, e a tua filha, e o teu servo, e a tua serva, e o levita que
está dentro das tuas portas; e perante o SENHOR teu Deus te alegra-
rás em tudo em que puseres a tua mão. (Deuteronómio 12:15-18)
Houve apenas um lugar que Deus escolheu e autorizou para se
reunirem com Ele. Qualquer coisa que fosse oferecida a Deus em lou-

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vor e sacrifício podia ser consumida somente naquele lugar. Vemos
mais detalhes no capítulo 16. Deves lembrar-te que estava assumido
que, cada varão Judeu subia a Jerusalém ao templo, todos os anos pela
Páscoa, sem exceção.
Então, sacrificarás como oferta de Páscoa ao SENHOR, teu
Deus, ovelhas e vacas, no lugar que o SENHOR escolher para ali
fazer habitar o seu nome. (Deuteronómio 16:2)
Não poderás sacrificar a páscoa em nenhuma das tuas portas que
te dá o SENHOR teu Deus; Senão no lugar que escolher o SENHOR
teu Deus, para fazer habitar o seu nome, ali sacrificarás a páscoa à
tarde, ao pôr do sol, ao tempo determinado da tua saída do Egito.
E te alegrarás perante o SENHOR teu Deus, tu, e teu filho, e tua
filha, e o teu servo, e a tua serva, e o levita que está dentro das tuas
portas, e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão no meio de ti,
no lugar que o SENHOR teu Deus escolher para ali fazer habitar o
seu nome. (Deuteronómio 16:5-6, 11)
A revelação histórica dos propósitos de Deus mostra claramente,
que o lugar que Ele escolheu foi Jerusalém, e o edifício foi o templo
construído por Salomão. Deus disse que Ele poria o Seu nome lá.
Era o único lugar autorizado em que cada Israelita, cada pessoa em
relacionamento de aliança com Deus sob a antiga aliança, estava au-
torizada a oferecer o seu louvor e os seus sacrifícios.
Esse templo foi destruído, e hoje uma mesquita Muçulmana está
construída no ou perto do lugar do templo original. É por isso que
os Judeus estão tão preocupados acerca desta área particular de Jeru-
salém. Não existe outro lugar onde estejam autorizados a oferecer os
seus sacrifícios, de acordo com a antiga aliança.
Para os crentes em Jesus Cristo, o templo do Antigo Testamento
foi substituído pelo corpo de Jesus Cristo. Jesus deixou isto claro no
Evangelho de João, onde Ele contrasta o templo do Seu tempo, cons-
truído no mesmo lugar sagrado, com a Sua própria pessoa.
Responderam, pois, os judeus, e disseram-lhe: Que sinal nos
mostras para fazeres isto? Jesus respondeu, e disse-lhes: Derribai este
templo, e em três dias o levantarei. Disseram, pois, os judeus: Em
quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em
três dias?

115
Mas ele falava do templo do seu corpo. (João 2:18-21)
Jesus falou da transação do templo construído no lugar sagrado,
para o templo que é o Seu corpo. O lugar de encontro autorizado
agora é o nome de Jesus Cristo. Creio que Deus é tão explícito e
específico sobre o Seu requisito na nova aliança, como Ele o foi sobre
o correspondente requisito na antiga aliança. Nós não temos autori-
dade para nos reunirmos com outra base senão a de sermos guiados
para estarmos juntos pelo Espírito Santo dentro do/no nome de Je-
sus. Creio que tais assembleias são os grupos célula base ou grupos de
louvor, a partir dos quais a igreja local é construída.

A Harmonia da Igreja Local


Jesus falou acerca de dois estarem de acordo ou de harmonia em
oração em Mateus 18:18:
Em verdade vos [aquele que harmoniza, concorda e tiver sido
reunido pelo Espírito Santo dentro do/no Meu nome] digo que
tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligar-
des na terra será desligado no céu.
Esta autoridade não está confiada a nenhum grupo de crentes in-
definido, que entra por acaso para uma noite de louvor. São dois
ou três (ou mais) provenientes daqueles que foram guiados para se
juntarem pelo Espírito de Deus, cujo foco de encontro está no nome
e na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Estes foram trazidos para dentro
de uma relação de harmonia espiritual. Onde dois ou três poderem
estar em harmonia e estar de acordo, seja o que for que eles decretem,
orem, liguem ou desliguem, é tão eficaz e autorizado como se tivesse
sido feito pelo próprio Deus Todo-poderoso. Este é o grande segredo
de serem guiados para se juntarem pelo Espírito Santo, para dentro
de uma relação de harmonia.
Por consequência, uma das palavras-chave para compreender o
Cristianismo é a palavra “harmonia”. O evangelho destina-se a pro-
duzir harmonia em casa, num grupo maior de crentes, na comunida-
de e, no fundo, onde quer que seja aceite. Em qualquer lugar onde
não há harmonia, o evangelho realmente falhou a sua missão.
A evidência básica de que o evangelho está a atuar é a harmonia
entre Deus e o homem, e a harmonia entre um crente e outro.

116
A evidência básica de que o evangelho está a atuar é a harmonia
entre Deus e o homem, e a harmonia entre um crente e outro.

Nestas pequenas células de harmonia, existem autoridade e poder


divinos sem limite. A partir destas células se revelará/desenvolverá
todo o corpo.
É extremamente importante entendermos que, para termos um
corpo saudável, temos que ter células saudáveis. Assim é com os gru-
pos célula de casa na igreja. Se os grupos pequenos, individuais e as
relações pessoais dentro desses grupos não estiverem bem, nós nunca
poderemos ter uma igreja local saudável, ou relações certas dentro do
corpo maior.
Este é um dos grandes problemas do Cristianismo moderno: Fre-
quentemente, nós não estamos bem nas pequenas relações pessoais
do dia-a-dia. Por exemplo, se marido e esposa – como crentes em
Jesus Cristo e batizados no Espírito Santo – não conseguem viver em
paz, que esperança existe para a unidade num grupo maior? Durante
muitos anos, temos estado ocupados tentando construir grandes con-
gregações, sem observarmos que elas não poderão ser saudáveis, até
que as relações individuais, íntimas e pessoais o sejam.
De novo, o requisito básico nestes grupos mais pequenos pode
ser resumido na palavra “harmonia” – harmonia pessoal, interior.
Muitos de nós nem sequer estamos em harmonia connosco próprios,
muito menos com alguém de fora. Precisamos de perguntar a nós
próprios: “Estarei em harmonia com a minha esposa, minha famí-
lia, meus parentes mais próximos, ou existe discórdia e frustração?”
Compara este conceito de harmonia relacional com o de harmonia
musical: Os músicos apenas têm que estar um pouco fora de tom
para estragarem o som todo!
Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca
de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que
está nos céus. (Mateus 18:19)

Um dia, Deus guiou-me para examinar a raiz da palavra Grega


“concordar” neste versículo: é a palavra “sumphonos”, a mesma pa-
lavra da qual temos a palavra “sinfonia”. O termo significa estar em
harmonia ou de acordo. Não é um mero entendimento intelectual;

117
é espiritual. Onde quer que duas pessoas se juntem em harmonia
espiritual, qualquer coisa que peçam acontecerá. Não é fácil estar e
viver em harmonia espiritual, mas é certamente poderosa quando o
conseguimos!
O mundo aprecia harmonia. É o produto básico, exportável do
evangelho, e começa com dois ou três que tenham sido guiados para
se juntarem dentro do/no nome de Jesus. Estou absolutamente con-
vencido que não existe solução permanente para os problemas da
igreja, a não ser que se resolvam os problemas nas nossas casas; isto é
absolutamente bíblico.

A Igreja Local Definida


Nós falhamos em avaliar que na realidade Jesus semeou o evan-
gelho nas casas durante o Seu ministério terreno. Ele normalmente
costumava ir à sinagoga, o lugar de encontro institucional reconhe-
cido, correspondente à “igreja”. Na sinagoga Ele ensinava às pessoas
tanto quanto elas podiam aceitar. Às vezes, elas expulsavam-No; ou-
tras vezes, ouviam até ao fim. Onde é que Ele ia a partir daí? Ia para
uma casa. Por exemplo, em Cafarnaum, Ele foi para a casa da sogra
de Pedro. Era para lá que Ele ia com as pessoas que desejavam ir mais
fundo com Ele. Lemos em Mateus 10:11 que, quando Ele enviou os
Seus primeiros doze discípulos, disse:
E, em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, procurai sa-
ber quem nela seja digno e hospedai-vos aí até que vos retireis.
Onde estava o evangelho a ser semeado? Não na sinagoga, mas
em alguma casa digna em cada cidade. O pequeno grupo, tal como a
família, é realmente o núcleo base a partir do qual a igreja local tem
que ser construída.

Uma cidade, uma igreja


Vou agora entrar num campo que reconheço que é muito idea-
lístico. Todavia, digo-te que contém o ponto de vista de Deus sobre
a igreja local numa cidade. Vou agora transmitir a minha definição
da igreja plena local, sob o meu modo de ver, reconhecidamente ra-
dical. Se aceitares esta definição, isso envolve uma revolução, porque
não é maneira nenhuma compatível com a prática Cristã atual. Sim-
plesmente é assim: “A igreja local é aquela parte da igreja universal
residente numa determinada localidade.” Não é exigida outra quali-

118
ficação. Nunca tens que te “juntar” à igreja local, porque não é uma
decisão que tenhas que tomar. Se estás na igreja universal, então au-
tomaticamente, sem mais qualificações, também és um membro da
igreja local na cidade onde moras. Novamente, não tens uma opção.
Em relação à igreja universal, a única opção que tens é a tua relação
pessoal com Jesus Cristo, e se estás numa relação com Jesus Cristo,
então és um membro da igreja universal e nada mais há a acrescentar.
Vimos dois exemplos da palavra “igreja” nos Evangelhos, os quais
se encontram em Mateus. À luz destas passagens, vamos analisar al-
gumas estatísticas interessantes acerca do uso da palavra “ecclesia”, ou
igreja, em todo o Novo Testamento. Aqui estão as diferentes maneiras
nas quais a palavra igreja é usada, em ambas as formas no singular e
no plural:
• Igreja (singular) numa cidade ......................................... 35 vezes
• Igreja (singular) numa casa ............................................... 4 vezes
• Igrejas (plural) numa província . ..................................... 36 vezes
• Igreja universal ............................................................... 20 vezes
• Igreja local, mas não exatamente definida ....................... 16 vezes
• Igrejas (plural) numa cidade ............................................. 0 vezes
• Igreja (singular) numa província . ..................................... 0 vezes
• Igreja no deserto no Antigo Testamento ..............................1 vez
• Assembleia (da cidade de Éfeso) ....................................... 3 vezes
TOTAL.............................................................................. 115 vezes
O que é significativo é o uso do singular e do plural. O Novo
Testamento nunca fala, nas cerca de quarenta ocorrências, de igrejas
(plural) numa cidade. Por outro lado o Novo Testamento nunca fala
de uma igreja singular numa província. A igreja nunca pode crescer
para uma espécie de vasta organização que englobe pessoas vivendo
em muitas áreas diferentes.
Por outras palavras, existem apenas duas áreas definidas de igreja
local: uma é uma casa e a outra é uma cidade. O mais importante é
que, tudo o que nós vejamos como uma unidade da igreja local den-
tro de uma área, existe apenas uma igreja. Nunca poderá haver duas
igrejas a sobreporem-se, muito menos a competirem, na mesma área.
Esta é a conclusão vital. É totalmente contra a Escritura falar de duas
igrejas que se sobrepõem ou ocupam a mesma área. Está completa-
mente excluída pelo uso do Novo Testamento, sem uma única exce-

119
ção. O modelo presente numa cidade é que existem muitas igrejas
locais, cada uma com um líder. Contudo, a ordem original de Deus
é diferente – uma igreja local numa cidade com muitos líderes. Esta
é a conclusão prática e revolucionária.

A Visão do Homem em contraste com a


Visão de Deus
O homem olha para a igreja numa cidade e vê os Batistas, os Ca-
tólicos, os Presbiterianos e os Pentecostais. Ele vê estas igrejas todas,
cada uma com o seu líder individual. Eu digo-lhe que Deus não vê,
de todo, a cena desse modo. Ele olha para baixo e vê as diferentes
denominações e fações não denominacionais: vê apenas o Seu povo
na cidade. Na realidade, Ele vê isso como diferentes rebanhos (ou
congregações) abrangendo a igreja na cidade.
Por conseguinte, nós promovemos unidade de formas que Deus
não aceita: tentamos unir todos os Batistas, ou todos os Presbiteria-
nos, ou todos os Metodistas numa cidade ou região. Deus não reco-
nhece esse esforço, tão excelente que é, como o Seu melhor. A Sua
igreja numa cidade é composta por homens e mulheres de todas essas
denominações, e nenhuma denominação é a igreja completa.
Como exemplo, vamos considerar a cidade de Charlotte em North
Carolina. A partir de um ponto de vista humano, existem mais de trinta
igrejas presbiterianas, numerosas igrejas Batistas, Católicas, Episcopais e
muitas outras. A única qualificação para se juntar à igreja é uma relação
específica com Jesus Cristo. Deste modo, cada pessoa dentro desta área,
que esteja em relação com Jesus Cristo, é automaticamente um membro
da igreja em Charlotte. Não te é oferecida a escolha; não é a tua decisão.
A única decisão que tens de tomar é a tua relação com Jesus Cristo.

Um Modelo Bíblico
Deixa-me dar-te agora um modelo elementar e idealista. Obvia-
mente, somente o Espírito Santo pode juntar a aplicação específica
numa região, consoante as necessidades e a cultura dessa área.
Imagina uma cidade dividida em quatro subáreas principais, e
cada uma subdividida em quatro áreas mais pequenas; ao todo temos
dezasseis subáreas.
Agora, o Espírito santo começa a mover-Se, e as pessoas estão a
nascer de novo por todo o lado. Digamos que há um verdadeiro rea-
vivamento na secção noroeste, que se espalha para a secção nordeste.

120
Isto continua até que toda a cidade esteja influenciada por este movi-
mento de Deus. Assim nós temos grupos de dois, de três, de quatro,
de cinco e depois grandes grupos de casa a crescerem em toda a área.
A partir desses novos crentes, que inicialmente são apenas discí-
pulos, o Espírito Santo começará a dar liderança natural local. Nunca
leva muito tempo. Em qualquer grupo, haverá sempre alguns que co-
meçarão a mostrar um enorme sentido de responsabilidade, daqueles
que amadurecerão mais rapidamente, e que surgirão como líderes. Por
exemplo, se a Irmã Jane tiver uma febre terrível a meio da noite, ela
telefona ao Irmão Bob quase automaticamente, o que indica que está
realmente a tratá-lo como um ancião. Rapidamente, em cada secção
dessa cidade, surgiram dois líderes locais. Em cada caso eles estão a
operar dentro dos seus grupos, mas têm a capacidade para a liderança.
Agora, vamos supor que todos estes grupos locais se encontram
para orar na mesma noite, digamos terça-feira à noite. As pessoas não
podem andar a saltar de grupo em grupo; elas têm que fazer um com-
promisso. Eles tornam-se firmemente unidos em comunhão e harmo-
nia para tratarem assuntos com Deus Todo-poderoso. Os grupos de
oração reúnem-se agora por toda a cidade à terça-feira à noite, e tem
surgido liderança. Mas a verdadeira chave para realizar este trabalho
é comunhão, entre os líderes locais. Sem isto, não poderá realmente
haver alguma comunhão eficaz entre os crentes locais. Quando os
líderes locais entrarem numa comunhão regular uns com os outros,
então é afastada a barreira existente para a comunhão entre os crentes.
Na nossa imagem sobre as quatro secções principais da cidade,
os líderes locais dizem agora: “Nós encontrar-nos-emos na segunda-
-feira à noite para termos uma reunião de líderes. Discutiremos os
nossos problemas, tentaremos seguir na mesma linha, e estaremos
abertos uns para os outros. Não será apenas uma sessão de conversa,
mas arcaremos verdadeiramente com os problemas pessoais e os pro-
blemas dos nossos rebanhos. Partilharemos as necessidades uns dos
outros em oração, trocaremos revelações, e conferiremos tudo o que
estivermos a fazer com a opinião dos nossos companheiros líderes.”
Agora, em cada uma das quatro secções dessa cidade, existem oito
homens que se encontram regularmente cada semana na segunda-
-feira à noite, como uma comunhão de líderes. Teremos oito líderes
reunindo-se cada segunda-feira, depois cada terça-feira, estarão pron-
tos para irem ao encontro das necessidades espirituais dos seus pró-

121
prios grupos. Novamente, eles trocam os seus próprios problemas, as
suas necessidades, as suas revelações e as suas ideias sobre doutrina.
Não existe homem nenhum que atue por si próprio. É a mente cole-
tiva do grupo que é o juiz final das decisões e doutrinas:
Mas nós temos a mente de Cristo. (2 Coríntios 2:16)
Podemos agora avançar mais um passo. Na primeira segunda-feira
de cada mês, estes quatro grupos de líderes locais reúnem-se num gran-
de grupo de líderes. Temos agora trinta e dois líderes que se reúnem, de
duas em duas semanas reúnem-se (oito de cada vez). Cada terça-feira
orientam os seus próprios grupos, mas não há divisão seja do que for
no corpo de Cristo. Todos eles estão em comunhão, todos se reco-
nhecem uns aos outros, e não existem barreiras entre este grupo que
se reúne e tem comunhão com aquele grupo. (Hoje, os membros de
uma igreja estão quase proibidos de terem amizade com membros de
outras igrejas. Deus não deu a nenhum homem autoridade para fazer
essa espécie de decreto. Creio que isso trás divisão ao corpo de Cristo).
Este grupo de trinta e dois está agora em posição de agir coleti-
vamente em nome de toda a cidade. Se a cidade necessita de um im-
pacto evangelista, eles podem corporativamente convidar um evan-
gelista. Se a cidade precisa de um seminário de ensino, eles podem
convidar professores para realizarem um seminário. Jesus disse ambas
estas coisas:
Eu sou o bom pastor (João 10:11) e, Eu sou a porta das ovelhas
(João 10:7)
Num sentido muito vital, os pastores são a porta da congrega-
ção. Quando a igreja está a funcionar como deve ser, os ministros
de ensino itinerantes, tal como o meu, não virão a uma área a não
ser que venham pela porta dos líderes pastores. Eu gosto mesmo de
entrar pela porta! Mas existem muitos “lobos vestidos de ovelhas”
(ver versículo 12) que realmente são ladrões e salteadores, e que estão
a criar problemas sem fim em muitas cidades. A única solução é ser
a liderança coletiva da cidade a fechar a porta a esses ministros. Os
trinta e dois homens respeitados podem juntar-se e dizer: “Agora não
ides a essas reuniões. Esse homem está a pregar falsa doutrina, e está
a viver com a esposa de outro homem, portanto isso não pode estar
certo.” Então haverá verdadeira autoridade.

122
Os lobos continuarão a vir e a destruir o rebanho até que os líderes
se reúnam. Em várias cidades na América e em outras nações, este mo-
delo concreto de irmandade e de liderança corporativa está a emergir.
Estive numa concentração na cidade de Seattle uma vez, com cerca
de outros trinta e cinco ministros itinerantes. Fomos convidados pelo
presbitério carismático da cidade. Todavia, era muito caro convidar
todas esses ministros para Seattle, por isso todas as noites foram reali-
zados reuniões em redor da cidade, para ajudar a compensar o custo
da conferência de liderança. De acordo com o testemunho dos minis-
tros locais, essas reuniões e a concentração coletiva desses ministros iti-
nerantes, teve um enorme impacto na cidade de Seattle, mais do que
qualquer campanha evangelista que alguma vez se tenha realizado lá.
Enquanto meditava no que se tinha passado nessa conferência, o
Senhor colocou-me esta questão: “Agora diz-me: com quem é que Eu
tenho tido mais problemas – com a cidade de Níneve ou com o pro-
feta Jonas?” E eu disse: “Senhor, quando Jonas foi posto em ordem,
não tiveste mais problemas com Níneve.” E Ele disse: “É exactamente
o mesmo hoje. Se Eu poder ter a liderança posta em ordem, não terei
problemas com as cidades.”
Creio que este é o modelo divino. A igreja local começa como um
lugar de harmonia. Torna-se o tribunal final de apelação. A ordem
de Deus é a unidade da igreja (uma única igreja) e a pluralidade da
liderança nela. Assim liderança cooperativa é estabelecida na cidade o
que une e protege a igreja. No entanto o homem aplicou esta ordem
exactamente ao contrário e introduziu uma pluralidade de igrejas
com uma liderança individual. Eu mantenho-me como testemunha
de que estamos a ser confrontados com uma escolha e uma decisão:
Irá a igreja adotar na sua vida e estrutura, a visão de Deus ou a visão
do homem? Vejo que algumas almas corajosas em incontáveis cidades
estão a aceitar o desafio. E tu aceitarias?
O livro de Joel retrata a restauração dos últimos dias, e o julga-
mento sobre aqueles que rejeitam a restauração. Vejamos esta imagem
do julgamento:
Multidões, multidões no vale da Decisão! Porque o dia do SE-
NHOR está perto, no vale da Decisão. (Joel 3:14)
O vale da decisão é o lugar para onde Deus trás as pessoas, de
onde elas não podem sair até terem tomado uma decisão. É o lugar

123
onde ou dizes sim ou dizes não – não existe terceira resposta. É para
aí que a igreja caminha neste assunto. A igreja tem que decidir se quer
seguir os seus próprios caminhos e práticas, ou se deseja submeter-se
ao modelo de Deus, claramente definido e declarado na Escritura.
Não pode ser de ambas as maneiras.

A igreja tem que decidir se quer seguir os seus próprios caminhos


e práticas, ou se deseja submeter-se ao modelo de Deus.

Eu sou testemunha de que está a chegar o tempo de fazer uma op-


ção. Apercebo-me de um certo sentido de aprovação divina sobre esta
afirmação. Estamos a ser confrontados com uma decisão. O tempo de
ir à igreja para se sentar num banco e passar por agradáveis exercícios
religiosos está a terminar; agora é tempo para a ação e realidade.

A Estabilidade e o Crescimento da Igreja Local


Como é que a igreja local permanecerá na linha da sua natureza e
propósito? Para responder a esta questão, iremos ver uma passagem
em Colossenses:
Ninguém vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humil-
dade e culto dos anjos, metendo-se em coisas que não viu; estando
debalde inchado na sua carnal compreensão. (Colossenses 2:18)

Agarrar-se à Relação com Cristo


A Escritura anterior fala de se afastar do foco da sua fé, prestando
atenção a revelações sem importância, tais como formas particula-
res de humildade (por exemplo, não cuidando do corpo ou vestin-
do roupas esfarrapadas). Este tipo de humildade é uma expressão da
vontade, não do espírito. Nem devemos envolvermo-nos no culto
dos anjos.
As traduções mais fidedignas usam palavras semelhantes a “as coi-
sas que ele viu”, que fala de alguém que faça passar uma visão espe-
cial, como se fosse do Senhor. Não sejas enganado por pessoas com as
suas “super revelações”, introduzindo algo de “novo” que realmente
não é importante e, te afastará da pessoa de Jesus Cristo. A Escritura
diz que tal pessoa está “inchada na sua carnal compreensão”. Este tipo
de pessoa aparenta ser super-espiritual, mas de facto é muito carnal.

124
Contudo, ela somente poderá ter sucesso em desviar-te dos teus ob-
jetivos, se não te agarrares à Cabeça.
Se perderes a relação vital e pessoal com a Cabeça, serás defrauda-
do e decepcionado. A verdadeira segurança contra ser induzido em
erro é manteres a tua relação direta com Jesus Cristo. Desde que faças
isso, as pessoas não serão capazes de te defraudar ou enganar. As pes-
soas que entram no erro e se desviam dos seus objetivos, são aquelas
que falharam em manter a sua relação primária com Jesus, que é a
condição de estar na igreja!

A verdadeira segurança contra ser induzido em erro é manteres a


tua relação direta com Jesus Cristo.

Continuando em Colossenses 2:19, lemos:


…e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e orga-
nizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus.
Repara que o crescimento do corpo vem do próprio corpo. O
mesmo conceito está expresso em Efésios 4:16:
…do qual todo o corpo, bem ajustado e ligado pelo auxílio de to-
das as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento
do corpo, para sua edificação em amor.
É o corpo que cresce por si mesmo, não por causa de algum su-
per pregador. Quando todos os membros funcionam corretamente,
o corpo cresce naturalmente. Muitas pessoas procuram um pregador
ou chamariz - algum método ou uma nova revelação - para fazer cres-
cer o corpo. Mas a Palavra ensina claramente que o corpo aumenta
com o seu crescimento natural quando está a funcionar bem.

Quando todos os membros funcionam corretamente, o corpo


cresce naturalmente.

Juntas e Ligamentos
Repara que em Colossenses 2:19, o corpo recebe duas coisas: Pri-
meiro, é alimentado pela relação correta com a Cabeça, e segundo é
entrelaçado em unidade e força pelas juntas e ligamentos. Então duas
coisas mantêm o corpo junto: as juntas e os ligamentos. Agora, o que

125
significam esses termos? Isto é anatomia básica e reflete o estado de
conhecimento na altura da igreja primitiva. Eu sugiro que as juntas
são relações pessoais, primeiro com Cristo, e segundo com os nossos
companheiros crentes. Ligamentos são atitudes universais que temos
perante outros crentes, mesmo se não estamos numa relação pessoal
e direta com eles.

As Juntas
Considera como as juntas são absolutamente vitais no corpo.
Quando era auxiliar médico no exército Britânico, o sargento en-
sinou-me algumas coisas de anatomia. Aprendi que no braço temos
três ossos principais: um que vai dos ombros ao cotovelo e, os outros
dois que vão do cotovelo ao punho. Agora, eu podia ter esses três
ossos em perfeita saúde e continuar a ter um braço sem uso. Porquê?
Se o cotovelo não funcionar, também os ossos não podem funcionar
como deve ser. Este cenário é verdadeiro e repete-se na igreja, vezes
sem conta. Cada membro individual pode estar perfeitamente inteiro
e saudável, mas o corpo não é capaz de funcionar, porque a relação
entre esses membros está errada. Muitos membros na igreja não estão
a funcionar, por que a junta que os liga com o membro próximo deles
está com defeito. Quando um membro está erradamente ligado ao
membro seguinte, pode paralisar o corpo todo.

Quando um membro está erradamente ligado ao outro membro,


pode paralisar o corpo todo.

Relembra a ordem de Colossenses 2:18-19: primeiro que tudo,


nós seguramo-nos firmemente à Cabeça, que é Cristo, segundo, nós
temos que estar “juntos”, ou corretamente relacionados com os cren-
tes nossos companheiros, sempre com especial atenção aos que estão
mais perto de nós. É fácil amar as pessoas à distância, mas quando
realmente as chegamos a conhecer é tudo, menos fácil!
Por exemplo, na nossa congregação em Londres, havia uma senho-
ra que orava como um anjo pelos pobres africanos. Mas um dia um
homem africano juntou-se a nós no nosso encontro de oração e ajoe-
lhou-se ao lado dessa senhora. Acredita-me, ela não gostou nada disso!
Existem muitos Cristãos que têm problemas semelhantes nas suas ver-
dadeiras relações. É com a pessoa que está ao meu lado, mais próxima
de mim, que primeiramente tenho que estar corretamente relacionado.

126
Os Ligamentos
Vejamos agora outra ligação mencionada, os ligamentos. A Escri-
tura diz-nos que existem dois vínculos que mantêm unido o corpo de
Cristo. Lemos em Colossenses 3:14:
E, sobre tudo isto, revesti-vos de caridade, que é o vínculo da
perfeição.

A palavra “vínculo” neste versículo, é a mesma que é traduzida


por “ligamentos” em Colossenses 2:19. A caridade é o vínculo que
mantém o corpo completo e maduro, unido. O outro vínculo é men-
cionado em Efésios. (Descobrirás que Efésios 4 está estreitamente
paralela a Colossenses 2 e 3).
…com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, su-
portando-vos uns aos outros em amor, procurando guardar a unida-
de do Espírito pelo vínculo da paz. (Efésios 4:2-3)

Os dois grandes vínculos, as atitudes globais, que mantém o cor-


po unido e a funcionar são o amor e a paz. Quantos Protestantes
realmente sentem realmente amor e paz, com respeito aos Católicos
Romanos? Existem muitos mais hoje do que costumava haver, mas
lembro-me de estar no Canto do Orador em Londres, há alguns anos
atrás, escutando os oradores ao ar livre, Católicos derrubando Protes-
tantes e Protestantes derrubando Católicos. Eles não tinham tempo
para condenar mais ninguém ou mais alguma coisa. As suas atitudes
refletiam a falta total de amor e de paz.
Devo salientar, que todas estas juntas e vínculos são invisíveis;
não as podes ver com os olhos. Isto é, um problema real para mui-
tos Cristãos. Existe um paralelo no Antigo Testamento, onde Israel
estava constantemente tentado a representar ou a substituir o Deus
invisível, por alguma espécie de imagem visível. Deus proibiu estrita-
mente a idolatria, contudo existe alguma coisa de carnal no homem
que insiste em fazer coisas visíveis. Ele quer alguma coisa onde possa
colocar o seu dedo e dizer: “Isto é o meu deus. Aqui é onde ele está, e
aqui está a identificação nele.”
Esta tendência não acabou com o Antigo Testamento. Na era do
Novo Testamento, Deus fez surgir (através de Jesus Cristo e do Es-
pírito Santo) um corpo que é mantido junto por vínculos e juntas
invisíveis. Mas através dos séculos, os Cristãos não foram capazes de

127
parar por um momento no invisível e dizer: “É isso mesmo.” Eles têm
procurado substituir sempre as relações invisíveis e a estrutura espiri-
tual invisível, por alguma espécie de organização e estrutura humana,
visível e identificada. Isto é muito óbvio na história da igreja.
Há alguns anos atrás, enquanto vivia em Londres, tive algum con-
tacto com uma certa denominação. Para fazer parte desse grupo, a
pessoa tinha que se inscrever numa determinada organização, assinar
o nome, fazer algumas promessas e depois assumir uma certa posição
que era designado por um posto militar e uniforme. Poderás pensar:
“Isso é fantástico! Isso faz deles um (serem unidos).” Mas não podias
estar mais errado. Dentro dessa organização – e isso não é mais ver-
dade sobre este grupo particular do que qualquer outro – havia toda
a espécie de discórdias, ciúmes, ressentimentos, e recusas em reco-
nhecer o ministério e a autoridade de alguém. Quando um ou outro
membro desse grupo se aproximava de mim para libertação, descobri
muitas vezes que a raiz do problema estava num ódio absoluto para
com outros líderes na organização. Toda a estrutura externa de assinar
o juramento, vestir o uniforme, e irem para um determinado lugar
a uma determinada hora, não produz o objetivo verdadeiro – unida-
de interna, amor e relacionamento correto. A verdadeira imagem da
igreja local ficou perdida em toda a actividade.
As pessoas ficam tão embrulhadas nas coisas externas, que falham
em ver que as coisas internas estão a faltar. É comum haver pessoas na
mesma igreja, todas acreditando na doutrina certa, pagando os seus
dízimos, e frequentando o mesmo edifício, no entanto, delicadamen-
te odiando-se uns aos outros. Poderás perguntar: Como pode isso
acontecer? Como podem eles como Cristãos, realmente odiarem-se
uns aos outros? A resposta é que eles têm sido enganados pelos seus
ídolos. A estrutura visível que substituiu a invisível ilude-os. Da mes-
ma maneira, como é que as pessoas sob a antiga aliança que tinham
visto toda a demonstração do poder de Deus, puderam esculpir coisas
dos troncos das árvores e colocá-las nos cantos das suas casas como
seus deuses? Mas elas fizeram-no.
Já li acerca de um homem cuja aldeia tinha sido invadida durante
a Guerra do Vietname: um soldado americano viu-o a transportar
um pedaço de madeira da cabana. Ele deixara para trás a sua mobília,
as suas roupas, e até mesmo alguns membros da sua família, mas uma
coisa ele tinha que trazer para a proteger, era esse pedaço de madeira.

128
Então o soldado perguntou-lhe: “o que é isso?” Ele respondeu: “é o
meu deus; estou a salvá-lo.” Isto não trágico? Imagina ter um deus
que precisa que tu o salves! No entanto, milhões de pessoas por todo
o mundo pensam assim. Uma garantia com Deus é que Ele não pre-
cisa de defesa ou de salvação, e uma coisa acerca da verdadeira igreja é
que ela não precisa de defesa, precisa apenas de caminhar na verdade!
Como é que as pessoas se deixaram enganar? Elas ainda não se
aperceberam que o que torna os Cristãos um – membros unificados
do mesmo corpo – é primariamente invisível. Estarei corretamente
relacionado com Jesus Cristo? Estarei corretamente relacionado com
os meus companheiros crentes? Estarei corretamente relacionado
com a minha esposa, filhos e pais? É aqui que tudo começa.
Novamente, estou a enfatizar esta verdade devido aos anos de
experiência em ministrar às pessoas. A razão mais comum porque
as pessoas precisam de libertação é o ressentimento, ou em muitos
casos, o ódio, seja pela esposa, marido ou pais. As pessoas que se con-
sideram a elas próprias bons Cristãos poderão realmente estar cheias
de ressentimento venenoso.
Elas deixam-se enganar substituindo o invisível pelo visível, segu-
rando-se a qualquer coisa que possam ver, em vez de, ao eterno. Elas
são como aquele pobre homem no Sudoeste da Ásia transportando o
seu deus nos seus braços, não se apercebendo que as coisas que eram
de verdadeiro valor estavam sendo deixadas para trás.

O Propósito Central da Igreja local


Ao encerrarmos este capítulo, vamos considerar o propósito
central da igreja local. Poderá surpreender-te saber que o objetivo
supremo da igreja local é a comunhão. A maioria das pessoas nem
sequer pensa nisto, todavia cheguei à conclusão de que o Novo Testa-
mento toma isso como primordial. A comunhão é o único propósito
da igreja local – não é pregar, construir igrejas, hospitais, ou enviar
missionários. Todas estas coisas são secundárias, são o resultado da
verdadeira comunhão. Se não tivermos a comunhão, nunca teremos
os resultados que Deus planeou.

Chamada à Comunhão
Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão com o
seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. (1 Coríntios 1:9)

129
Certamente te lembrarás que a igreja é um grupo de pessoas que
são chamadas para fora. Este é o aspecto “negativo” da nossa chama-
da: somos chamados para fora do mundo. Então, para “dentro” de
que é que nós somos chamados? Uma vez que a igreja é “guiada em
conjunto” no nome de Jesus, o que é que eles fazem? A resposta é que
eles juntos vivem em comunhão com Jesus Cristo. Paulo apresenta
isto desta maneira: “Fostes chamados para “dentro” da comunhão do
Filho [de Deus], Jesus Cristo nosso Senhor” – sendo a “comunhão” o
propósito final.
A palavra “comunhão” em Grego é outra palavra distinta no novo
Testamento tal como “ecclesia”. Também é tirada da linguagem secu-
lar, mas é-lhe dada uma aplicação especial.
A palavra vem de uma raiz que significa “ter coisas em comum” ou
“partilhar coisas em conjunto”. Podia ser traduzida por: “A partilha
de Cristo em conjunto.” Este é o propósito supremo e o objetivo da
igreja local.

“A partilha de Cristo em conjunto,” é o propósito supremo e o


objetivo da igreja local.

Vamos analisar uma afirmação semelhante feita pelo apóstolo João:


O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos,
o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da
vida (porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos
dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi
manifestada), o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que
também tenhais comunhão connosco; e a nossa comunhão é com o
Pai e com o seu Filho Jesus Cristo. (1 João 1:1-3)
Esta Escritura diz-nos porque é que nos foi dado o registo do
Novo Testamento acerca de Jesus. João, um dos escritores dos evange-
lhos e uma testemunha próxima do ministério e vida de Jesus, disse:
“Nós estamos a anunciar-vos o que vimos e ouvimos. Não recebemos
isso apenas à distância; não recebemos isso apenas em teoria. Nós
tocámos-Lhe; nós vimo-Lo em ação, - o Senhor Jesus Cristo, a Pala-
vra da Vida. Ele foi manifestado; Ele, foi feito carne e habitou entre
nós. Nós vimos, ouvimos, e observámos tudo e declaramos-vos tudo
em primeira mão.”

130
E porque é que este relato em primeira mão foi escrito? De facto,
porque é que nos foi dado o Novo Testamento registado? “O que vi-
mos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão
connosco.” (versículo 3) Foi-nos dado para nos levar para a comunhão
com os apóstolos! O que é essa comunhão? A segunda parte deste
versículo diz: “E verdadeiramente, a nossa comunhão é com o Pai e com
o Seu Filho Jesus Cristo.” O propósito de escrever o Novo Testamento,
foi para levar aqueles que ouvem e acreditam na Palavra, à comunhão
com a Divindade: uma comunhão entre o Pai, o Filho, e todos os que
acreditam, através do Espírito!

O propósito de escrever o Novo Testamento, foi para levar aqueles


que ouvem e acreditam na Palavra, à comunhão com a Divindade:
uma comunhão entre o Pai, o Filho, e todos os que acreditam,
através do Espírito!

Vamos ver mais duas Escrituras relacionadas:


Tenho muito que escrever-vos, não quis fazê-lo com papel e tinta;
mas espero ir ter convosco e falar de boca a boca, para que o nosso
gozo seja cumprido. (2 João: 12)
Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra.
(1 João 1:4)
O que mais nos traz alegria completa como a comunhão face a
face? Comunhão é encontrar-se um com o outro, encontrar-se com
Deus e encontrar-se com Jesus Cristo. Este é o propósito para o qual
Deus nos chamou para fora do mundo e para dentro da igreja. Veja-
mos um último versículo como um princípio:
O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito e
espírito. (João 3:6)
A carne dá à luz, carne, e o Espírito dá à luz, espírito: sempre!
Acredito que o segredo é este: “Somente num lugar de comunhão
acontece o nascimento espiritual.” É por isso que a comunhão é fun-
damental. Até nós chegarmos juntos ao ponto de termos comunhão
à volta de Jesus Cristo no Espírito, qualquer coisa que façamos, é
carne. A partir dessa comunhão nascem os propósitos espirituais de
Deus: o testemunho, a pregação, as visitas aos hospitais e as missões.

131
Eles são produtos da comunhão; nascem pelo Espírito através da
comunhão.
Onde não existir verdadeira comunhão, tudo o que temos são
programas e atividades que são carne nascida da carne. Qualquer coi-
sa que nasce da carne não pode ser outra coisa senão carne! De novo,
o nascimento espiritual somente acontece num lugar de comunhão.
Vemos esta verdade na vida da igreja primitiva em Atos:
Cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no
mesmo lugar. (Atos 2:1)
A igreja tal como a conhecemos, surgiu (ou nasceu) num lugar
de comunhão. “Eles estavam todos reunidos unanimemente num
lugar.” Notamos também que existiam cinco profetas e professores
na igreja de Antioquia, tendo comunhão em conjunto, servindo ao
Senhor e jejuando.
Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e dou-
tores, a saber: Barnabé e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e
Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servin-
do eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Bar-
nabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. (Atos 13:1-2)
A primeira jornada missionária descrita na Escritura, nasceu na
comunhão daqueles que estavam esperando e ministrando ao Senhor
em Antioquia. Voltaremos a esta Escritura mais tarde, ao explorarmos
aspectos diferentes do ministério da igreja.
A chave para lembrar agora é esta: Se não houver comunhão; não
haverá nascimento espiritual. Podes ser tão ativo quanto quiseres com
testemunhos, pregações e empenhos missionários, mas não existe Es-
pírito sem comunhão. Comunhão é o lugar do nascimento espiritual.
Ao termos comunhão à volta da pessoa de Jesus Cristo, os verdadeiros
propósitos de Deus são gerados pelo Espírito Santo.

Ao termos comunhão à volta da pessoa de Jesus Cristo, os verda-


deiros propósitos de Deus são gerados pelo Espírito Santo.

132
- 13 -

Equipas Apostólicas e Anciãos:


As duas pernas do corpo

Anteriormente, neste livro, mencionei este ditado: “Não podemos


ver a floresta pelas árvores!” Por outras palavras, podes perder a visão
do todo na tua preocupação com as suas partes individuais. Eu, por
vezes, senti-me dessa maneira nos meus muitos anos de estudo da
igreja. A certa altura, resolvi regressar à floresta e estudá-la, como uma
floresta mas não como um grupo de árvores. Preparei a minha mente
para olhar realmente para a igreja como um todo. Neste esforço, des-
cobri uma verdade acerca da igreja que revolucionou ambas, a minha
aproximação a ela e a minha compreensão dela.
Comecemos com estas palavras de Jesus:
Qualquer que vem a mim, e ouve as minhas palavras, e as ob-
serva, eu vos mostrarei a que é semelhante. É semelhante ao homem
que edificou uma casa, e cavou, e abriu bem fundo, e pôs os alicerces
sobre a rocha. (Lucas 6:47-48)
A única casa segura é aquela que é construída numa fundação
sólida. Para aqueles de nós, familiarizados com a terra de Israel, esta
imagem é muito vívida. A casa que eu construí em Jerusalém, foi re-
almente construída em cima de outra casa, que tinha sido construída
há mais de cem anos antes. Porque a primeira casa foi fundada sobre
alicerce rochoso, fui capaz de juntar mais três andares aos dois que já
existiam.
Portanto, em Lucas 6, Jesus estava a falar sobre algo que era muito
familiar aos Seus ouvintes: tens que descer até aos alicerces quando
constróis algo. É o mesmo connosco: se formos construir a verdadeira
igreja, teremos que trabalhar muito duro para chegar aos fundamen-
tos bíblicos. Temos que remover camadas de suposições, tradições e
ensinamentos erróneos, para lançarmos uma fundação pura. É isto
que espero que este livro ajude a concretizar.

133
Dois Elementos principais de liderança
Gostaria de sugerir que existem duas formas básicas de liderança
na igreja: a primeira é móvel – equipas apostólicas; a segunda é local
– presbíteros, ou grupos de anciãos, atuando em pluralidade. Gosto
da palavra “presbíteros” que é simplesmente uma transliteração da
palavra Grega “presbuteros”, que significa ancião. Os anciãos não são
muito conhecidos no Ocidente, mas eles são o suporte principal das
culturas no Médio Oriente e na África. Do mesmo modo, o governo
dos anciãos não era nada de novo no Novo Testamento. Era familiar
ao povo de Deus desde há muitos séculos. Como alias, penso que os
anciãos são realmente a forma permanente de governo, que começa
nos Génesis e vai até ao Apocalipse.
Só recentemente a expressão “equipa apostólica” é usada na igreja;
todavia as equipas apostólicas são tão fundacionais na igreja como o
são os presbíteros. De facto, as equipas apostólicas surgem primeiro
e os presbíteros em segundo lugar. É interessante ver que o Novo
Testamento dá mais atenção ao trabalho das equipas apostólicas do
que ao dos presbíteros. Nos quatro evangelhos, o foco central é uma
equipa apostólica chefiada por Jesus, mas a palavra “igreja” ocorre
somente duas vezes. (Ver Mateus 16:18; 18:17). O livro de Atos está
preocupado primariamente com o ministério de Pedro, Filipe e Pau-
lo, que eram ou evangelistas ou membros das equipas apostólicas.
Muito pouco é dito no livro de Atos sobre o que fazem os anciãos.
Existe bastante coisa dita sobre os anciãos nas epístolas do Novo Tes-
tamento, mas mesmo assim é dada muito mais ênfase nas equipas
apostólicas.
É na restauração destas duas unidades de liderança – uma móvel
e uma residencial – que a igreja encontrará ambos, poder verdadeiro
e ordem verdadeira. No entanto, estes dois principais elementos de
liderança são muito pouco entendidos.

É na restauração das duas unidades de liderança – uma móvel


(equipa apostólica) e uma residencial (os anciãos) – que a igreja
encontrará ambos, poder verdadeiro e ordem verdadeira.

Por isso, iniciamos esta secção da estrutura da igreja com um olhar


para a floresta – a grande imagem. Se captarmos bem a grande ima-
gem, também captaremos a ideia certa acerca dos detalhes.

134
Plural
A primeira característica de ambas, as equipas apostólicas e os
presbíteros, é que cada uma é geralmente “plural”. Terás de procu-
rar muito no Novo Testamento para encontrar um apóstolo atuan-
do sozinho. Os apóstolos habitualmente moviam-se em equipas,
e em equipas muito maiores do que nós estamos dispostos a acei-
tar. Creio que presbíteros são invariavelmente plural. De facto, a
própria palavra “presbitério” pede o plural, pois é um substantivo
coletivo.

Soberano
A segunda característica é que cada uma é “soberano” na sua esfe-
ra, mas não é independente. Na verdade, cada membro do corpo de
Cristo é soberano. Ele é responsável pela sua própria vida, e existem
áreas nas quais ninguém lhe pode dar ordens. Ao mesmo tempo, ne-
nhum de nós é independente de outros membros do corpo.

Interdependente
Isto conduz-nos à terceira afirmação: cada um é “interdependen-
te”. Como exemplo notemos, primeiro que tudo, que os apóstolos
designam anciãos. Atos 14:14, diz: Ouvindo, porém isto, os apóstolos
Barnabé e Paulo…
Barnabé e Paulo eram apóstolos, e o versículo 23 diz isto acerca
destes mesmos homens:
E, havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em
cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em
quem haviam crido.
Então, eram os apóstolos que designavam os anciãos. Não existe
registo no Novo Testamento de anciãos serem designados por mais
ninguém senão pelos apóstolos. Paulo escreveu a Tito:
Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa or-
dem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses
presbíteros, como já te mandei. (Tito 1:5)
Até os anciãos serem designados, algo está a faltar. Não acredito
que uma igreja seja uma igreja sem anciãos. De facto, a designação de
anciãos é a transição decisiva de meros discípulos a uma igreja, como

135
vimos em Atos 14. Tito estava a designar anciãos em Creta como
representante delegado de Paulo, por isso de novo, a designação de
anciãos era uma responsabilidade apostólica. O modelo de que os
apóstolos ordenam os anciãos é claro.
O outro lado desta relação, é que os anciãos enviam os apóstolos:
Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e dou-
tores, a saber: Barnabé e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu,
e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. E,
servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-
-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. En-
tão, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram.
(Atos 13:1-3)
Estes homens eram a liderança sénior daquela igreja particular e
pareciam estar a funcionar como anciãos. Como tal, era sua tarefa,
enviar Saulo (Paulo) e Barnabé, sob a direção do Espírito Santo. Des-
te momento em diante, Paulo e Barnabé eram chamados “apóstolos”.
É interessante que Paulo nunca foi um apóstolo até ter sido enviado
da igreja em Antioquia. Quando chegarmos à definição de um após-
tolo, retornaremos a este ponto.
A autoridade recíproca dos apóstolos e anciãos é o que eu chamo
“o ciclo reprodutivo”, que será abordado com mais detalhe no capí-
tulo 15: apóstolos designando anciãos, e anciãos enviando apóstolos,
com nenhum dos grupos independente um do outro. Acredito que
Deus ordenou isto deste modo, e que Deus ordena sempre relações
deste tipo no corpo. Ele nunca quer que alguém seja completamente
independente.

Dependente da Graça de Deus


As equipas apostólicas e os presbíteros são ambos “dependentes da
graça de Deus”. As pessoas estão continuamente à procura de um sis-
tema que as possa manter sem terem que depender da graça de Deus,
mas mesmo o melhor sistema falirá sem ela. Por conseguinte, quando
os problemas surgem, não critiques sempre o sistema; examina se as
pessoas estão na graça de Deus ou não. Até mesmo fazer com que os
nossos casamentos Cristãos funcionem, depende da graça de Deus.
Uma vez mais, Deus ordenou isto deste modo, porque Ele nunca
quer que sejamos independentes d’Ele.

136
Guiados pelo Espírito Santo
Cada um só pode funcionar eficazmente quando “guiado pelo
Espírito Santo”.

Só se pode funcionar eficazmente quando “guiado pelo


Espírito Santo.”

Não somente a graça, mas também o Espírito Santo, são necessá-


rios para os presbíteros e as equipas apostólicas trabalharem correta-
mente. Este ponto realmente está em ligação com a graça, porque é o
Espírito Santo que é o Espírito de graça.
Em Atos 13:2, lemos:
E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo:
Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chama-
do. (Atos 13:2)
Repare em algo muito significativo aqui: ministrando eles ao Senhor,
o Espírito Santo disse: “Apartai para Mim”. Nós raramente pensamos
no Espírito Santo como “o Senhor”. Jesus é Senhor sobre a igreja mas
o Espírito é Senhor na igreja; por isso tudo depende do Espírito Santo.
Em relação à segunda viagem missionária de Paulo, lemos:
E, passando pela Frígia e pela província da Galácia, foram impe-
didos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia. E, quando
chegaram a Mísia, intentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Je-
sus não lho permitiu. E, tendo passado por Mísia, desceram a Trôade.
E Paulo teve, de noite, uma visão em que se apresentava um varão
da Macedônia e lhe rogava, dizendo: Passa à Macedônia e ajuda-
-nos! E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedô-
nia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o
evangelho. (Atos 16:6-10)
A direção dos apóstolos veio sempre do Espírito Santo, mesmo
quando a direção era o que não fazer! Repara também, que foi dada a
Paulo uma visão, a qual obviamente vinha até ele pelo Espírito Santo.
Foi um momento histórico na história da igreja, quando o evangelho
passou da Ásia para a Europa pela primeira vez! O Espírito Santo
mostrou a Paulo onde o reino devia avançar a seguir, e finalmente foi
todo até pela Europa e para o Oriente.

137
O princípio de ser conduzido pelo Espírito Santo encontra-se
numa das Escrituras chave na minha vida, Romanos 8:14:
Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são
filhos de Deus.
A palavra Grega para “filhos” fala de um filho maturo, não de
uma criança. Tornas-te uma criança ao nascer de novo, mas tornas-
-te um filho maturo ao seres conduzido pelo Espírito Santo. Muitas
pessoas que são nascidas do Espírito Santo não são guiadas pelo Es-
pírito Santo, e nunca atingem a maturidade. No Grego, a palavra
“conduzir” está numa forma verbal que indica um presente de con-
tinuidade: “pois tantos quantos estão continuamente, regularmente
sendo conduzidos pelo Espírito Santo, esses são os filhos de Deus.”
Não é suficiente ter uma ligeira familiaridade com o Espírito Santo
no domingo de manhã na igreja. Temos que ter uma relação com
o Espírito Santo vinte e quatro horas por dia, para podermos atuar
como filhos de Deus.
A minha visão de leigo da história da igreja, é a de que passámos
dezanove séculos tentando encontrar um sistema seguro para não ter-
mos que depender do Espírito Santo. Seja como for, não estamos
para ser conduzidos por princípios ou conceitos. Estamos para ser
conduzidos pelo Espírito Santo. Poderás dizer: “Deus não tem princí-
pios e conceitos?” Certamente que tem. Mas quando nos deparamos
com uma situação, não somos suficientemente inteligentes para saber
que princípio e que conceito aplicar. Temos de depender do Espírito
Santo, o que é doloroso para a natureza velha. Uma lei ou sistema é
como um mapa indicando o caminho que vem a seguir. A natureza
velha diz: “Dá-me o mapa; eu consigo; eu sou inteligente.” Depois,
passado algum tempo, numa noite escura, chuvosa, quando não con-
segues ler o mapa, uma voz meiga diz no teu ouvido: “Posso ajudar-
te?” Esse é o espírito Santo, que vem para te levar mais longe do que,
somente, para onde o mapa te pode conduzir.

Interagir com os Profetas


Finalmente, as equipas apostólicas e os presbíteros interagem com
os profetas. Notámos previamente que o funcionamento do presbi-
tério em Atos 13:1 era composto de ambos, profetas e doutores. Em
Efésios lemos:

138
Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concida-
dãos dos santos e da família de Deus; edificados sobre o fundamento
dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da
esquina. (Efésios 2:19-20)
Estes não são profetas do Antigo Testamento, porque os apóstolos
estão mencionados primeiro. Paulo reconheceu que são necessários
ambos apóstolos e profetas, para que possa existir a igreja. Por sistema
desenvolvem os profetas o seu papel dentro da igreja, e por isso inte-
ragem com ambos, as equipas apostólicas e os presbíteros. Olharemos
para o dom do ministério de profeta num capítulo mais adiante.

As Principais Tarefas e Áreas de trabalho dos


Grupos de Liderança
Existem mais algumas distinções importantes nas tarefas e áreas
de trabalho nos ministérios das equipas apostólicas e dos presbíteros.
Primeiro que tudo, os presbíteros funcionam dentro de uma determi-
nada localidade. Se um homem é um ancião em Corinto e se muda
para Roma, ele não se torna automaticamente um ancião em Roma.
A igreja em Roma não tem que o reconhecer. Mas se um homem é
um apóstolo, ele é um apóstolo em todo o lado. O mesmo acontece
com os outros ministérios móveis – profetas, evangelistas e profes-
sores. As equipas apostólicas estão disponíveis para todo o corpo e
têm o mundo como sua paróquia. No fundo, a principal função dos
apóstolos é estender as fronteiras do reino de Deus.
A principal tarefa dos presbíteros é governando manter a ordem e
a preservação, como vemos em 1 Timóteo 5:17:
Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de
duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na
doutrina.

Os anciãos administram, governam e lideram. As equipas apostó-


licas dão impulso aos presbíteros, mas, de novo, o seu papel principal
é estender as fronteiras do reino de Deus. O ancião vive para levar
o seu povo à maturidade, paz e ordem. O apóstolo vive para lavrar
um novo campo para o evangelho. Existe em cada um, uma paixão
completamente diferente: O apóstolo pensa em extensão, o ancião
em preservação.

139
O apóstolo pensa em extensão, o ancião em preservação.

Na captura da imagem do coração apostólico, vamos colocar vá-


rias Escrituras lado a lado.
Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo o que Jesus co-
meçou, não só a fazer, mas a ensinar, até ao dia em que foi recebido
em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos
apóstolos que escolhera. (Atos 1:1-2)
Repara a quem Cristo deu os mandamentos. Ele não deu os man-
damentos a toda a igreja, Ele deu-os às pessoas apropriadas: os após-
tolos. Observemos agora os mandamentos e veremos a natureza do
ministério apostólico.
E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o po-
der no céu e na terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações, bati-
zando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. (Mateus
28:18-19, ênfase adicionada).
O ministério apostólico é um ministério de “ir”. “Ide por todas
as nações”. Jesus disse: “E eis que eu estou convosco todos os dias até à
consumação dos séculos.” (versículo 20) Em que condição Cristo está
connosco? Para nós irmos! Se nos sentarmos, Ele não assumiu ne-
nhum compromisso de estar connosco. Mais ainda, as palavras “até
à consumação dos séculos” significam que Ele não tem outro progra-
ma – não existe o Plano B! A passagem paralela em Marcos 16 traz a
mesma mensagem:
E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a
criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer
será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem… (Marcos
16:15-17)
Provavelmente já ouviste a reclamação: “Senhor, os sinais não se-
guem!” A resposta está no facto de que eles estão prometidos, so-
mente àqueles que vão! Talvez já tenhas ouvido também o ditado de
que é difícil seguir um carro estacionado. A maior parte do corpo
de Cristo é um carro estacionado, no parque da igreja sem visão para
além disso. O coração do apóstolo tem um desejo ardente por regiões
mais além!

140
E desta maneira me esforcei para anunciar o evangelho, não onde
Cristo houvera sido nomeado, para não edificar sobre fundamento
alheio. (Romanos 15:20)
Segundo a graça que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o
fundamento, e outro edifica sobre ele, mas veja cada um como edifica
sobre ele. (1 Coríntios 3:10)
Repara nas Escrituras acima; Paulo lança o fundamento onde
Cristo não tinha sido nomeado antes. Os anciãos lançam o funda-
mento nos que estão entregues ao seu cuidado, nas suas próprias ci-
dades e, nesse aspecto particular encontra-se a diferença.

A Ordem de Autoridade na Igreja Local


Em 1 Coríntios 12:28, é-nos dada uma ordem específica de auto-
ridade na igreja local:
E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente, apóstolos, em segundo
lugar, profetas, em terceiro, doutores, depois, milagres, depois, dons
de curar…
Existem muitas igrejas que nunca viram milagres ou dons de
curas, e uma razão é que elas não têm apóstolos. Apóstolos, profetas,
doutores – estes são dados em ordem de autoridade e, essa autoridade
está revestida nesses três primariamente, porque eles lidam com a Pa-
lavra de Deus. Os que estão envolvidos em milagres e curas, podem
não ter muito a ver com o ministério da Palavra. De facto, algumas
pessoas com o dom dos milagres, fariam melhor ficar fora do ensino.
Os apóstolos são os líderes seniores na igreja. Contudo, eles nor-
malmente não deviam passar por cima da soberania dos presbitérios
locais. Apesar de eles serem membros seniores, isso não significa que
podem entrar em qualquer igreja local e dar ordens às pessoas. Isso é
contrário ao espírito e à ética do Novo Testamento. De facto, os após-
tolos do Novo testamento suplicavam muito mais frequentemente do
que ordenavam.
Repara também, que quando os apóstolos eram enviados das
igrejas, eles regressavam depois de terem cumprido as suas tarefas e,
relatavam às igrejas que os tinham enviado. Eles estavam sujeitos à
autoridade dessas igrejas locais. Não eram senhores sobre essas igrejas,
mas eram os seus representantes enviados. Depois de Paulo e Bar-

141
nabé terem completado a sua primeira viagem missionária, que está
registada em Atos 13 e 14, nós lemos:
E dali navegaram para Antioquia, onde tinham sido reco-
mendados à graça de Deus para a obra que já haviam cumprido.
(Atos 14:26)
Como é que eles tinham sido recomendados à graça de Deus?
Pela imposição das mãos dos irmãos líderes da igreja de Antioquia.
Repara que os apóstolos foram recomendados a Deus para a obra ou
tarefa. Eles cumpriam a tarefa para a qual tinham sido recomendados
e, depois regressavam à igreja local para relatar o que tinham feito.
E, quando chegaram e reuniram a igreja, relataram quão gran-
des coisas Deus fizera por eles e como abrira aos gentios a porta da
fé. (versículo 27)
Isto é uma imagem muito diferente do ministério apostólico, do
que algumas pessoas nos querem fazer acreditar hoje. O apóstolo não
é um autocrata ou um ditador. Ele não põe as mãos nas pessoas e
lhes diz para fazerem isto e aquilo. Ele é o produto, o resultado do
movimento do Espírito numa igreja local. Ele é enviado a partir de
uma igreja local com a imposição das mãos dos líderes. Ele vai para
cumprir uma tarefa e, regressa à igreja que o enviou com um relatório
do que fez. Ele está sujeito à disciplina do corpo de Cristo represen-
tada pela igreja local que o enviou. Isto é um princípio de importân-
cia vital.

Um apóstolo está sujeito à disciplina do corpo de Cristo represen-


tada pela igreja local que o enviou.

É antibíblico as pessoas andarem por aí sozinhas sem serem en-


viadas por alguém – sem serem autorizadas por alguém, sem terem
alguém a quem têm de prestar contas – e declararem que são após-
tolos e têm autoridade. É totalmente contrário ao espírito e à letra
das Escritura. Está claro para mim que esta situação tem que ser
mudada e, vejo que existe um modelo no Novo Testamento para
fazer isso.
Repara no princípio da interdependência dentro do corpo de
Cristo, mesmo na autoridade apostólica. A igreja local envia um

142
apóstolo que exerce autoridade geral dentro da igreja, todavia o
apóstolo é responsável pelas suas ações perante aqueles que o co-
nhecem melhor. Ele viaja muito, contudo tem uma casa espiritu-
al base responsável por cuidar dele. Ele é um “dom em ascensão”
dado diretamente por Deus à Sua igreja, no entanto é exortado a
caminhar em humildade e em espírito de serviço. Ele funciona com
grande autoridade , mas sempre em pluralidade, para que seja mo-
dificado e modelado pelos seus irmãos. Num homem assim, pode-se
confiar!

O Equilíbrio Correto
Podemos resumir as diferenças entre presbíteros e equipas apos-
tólicas como: local versus móvel, preservação versus extensão e, go-
vernar versus ir.
A maioria dos processos de discipulado descritos no Novo Testa-
mento, na verdade aconteceu no contexto das equipas apostólicas,
tais como as de Jesus e Paulo. Isto é uma observação crítica, porque
ensinar e praticar separado deste contexto não produzirá necessaria-
mente os mesmos resultados, tal como a igreja do Novo Testamento
teve. A igreja foi primeiro manifestada numa forma móvel – só mais
tarde numa forma residencial. Isto é um conceito revolucionário, mas
de novo, penso que precisamos de uma revolução na igreja! Nós pen-
samos sempre na igreja como um grupo de pessoas que se reúnem
num edifício e vivem em casas. Mas a primeira manifestação pública
da igreja através de Jesus, foi a equipa apostólica móvel. Temos que
voltar atrás e pensar na igreja primeiramente como móvel e, secunda-
riamente residencial e, esta vai ser a maior revolução.
Na igreja contemporânea, a ênfase habitual é 95 por cento na
preservação e 5 por cento na extensão para além. Por isso, mesmo
que todas as atividades planeadas na igreja contemporânea pudessem
ser totalmente bem sucedidas, o resultado global seria certamente um
fracasso. Será que isto te choca? Espero que sim! Quanto a mim, não
gostaria de estar comprometido a um programa que vai falhar com
certeza. Devemos considerar 50 por cento de ênfase na divulgação e
50 por cento na preservação, procurando o equilíbrio entre a Grande
Comissão e o cuidar das nossas cidades e famílias.
Deixa-me partilhar uma imagem que acredito que Deus me deu:
as equipas apostólicas e os presbíteros são as duas pernas sobre as

143
quais o corpo de Cristo se move. Se uma perna é mais curta do que
a outra, o corpo não pode funcionar com sucesso. Existem muitas
outras partes do corpo, mas nenhuma pode tomar o lugar das pernas.
Estas duas pernas devem ser do mesmo tamanho, suportando o peso
por igual.

144
- 14 -

Apóstolos e Anciãos,
Não Burocracia

Estamos a visionar as duas pernas nas quais o corpo de Cristo


se move: equipas apostólicas e presbitérios. Cheguei à compreensão
desta verdade à custa de muito estudo e oração, mas obtive como
resultado uma imagem muito mais clara da “floresta” da igreja. Ver
a imagem no máximo da sua estrutura, tem sido uma bênção para
mim. Creio que a restauração destas duas pernas do corpo, tem pos-
sibilidades quase incalculáveis para a igreja.
Contudo, neste capítulo, tenho que procurar trazer algum equi-
líbrio em relação à autoridade na igreja. Algumas das coisas que digo
vêm da minha experiência – algumas das quais foram dolorosas – ao
tentar aplicar estes princípios. Todavia, ao olhar para trás para essas
experiências, a partir dos meus oitenta anos, agradeço a Deus porque
entrei no trilho certo depois de alguns passos em falso!
De facto, o que irás ler agora, foi o resultado da minha avalia-
ção de um movimento particular com o qual me envolvi. No fim
esse movimento perverteu-se e eu próprio me desassociei dele. Mas
aprendi algumas lições que partilharei aqui, na esperança de que nós
possamos, como igreja, aprender com os nossos erros.
A essência do que quero enfatizar é isto: temos que equilibrar o
verdadeiro ensinamento bíblico da autoridade com todas as salva-
guardas que a Bíblia coloca à volta da autoridade humana. A única
autoridade ilimitada é a do próprio Deus; todas as outras autoridades
têm limites impostos por Deus.
A única autoridade ilimitada é a do próprio Deus; todas as outras
autoridades têm limites impostos por Deus.

Salvaguardas na Autoridade
Génesis 1 manifesta claramente a verdade de que o homem foi
criado para governar:

145
E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a
nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos
céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se
move sobre a terra…E Deus os abençoou e Deus lhes disse: frutificai,
e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os
peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre todo o animal que se
move sobre a terra. (Génesis 1:26, 28)

As traduções modernas usam a palavra “governar” em vez de “do-


minar”. O homem tem um anseio natural de governar. O problema é
que esse homem caído, habitualmente não governa da maneira corre-
ta. A sua natureza faz com que ele governe ou por motivos errados, ou
por sentidos ilegítimos, ou ambos. O resultado expressa-se usualmen-
te em manipulação ou dominação. Onde quer que encontres estas coi-
sas, encontraste o demónio! Deus nunca manipula e nunca domina.

A Salvaguarda da Pluralidade
Provavelmente por causa desta tendência, na humanidade, para
abusar da autoridade, o Novo Testamento coloca algumas salvaguar-
das, incluindo as equipas apostólicas e os presbíteros. A primeira,
como já vimos, é pluralidade. Ninguém pode dizer: “Eu sou isto, tu
tens que me obedecer.” Isto não coloca de lado a posição de ser um
líder entre líderes, o que é obviamente demonstrado no Novo Testa-
mento. Todavia essa posição depende primeiramente do respeito e re-
conhecimento e não deve ser legislada ou institucionalizada, que é o
que tem acontecido na Cristianismo. A posição de liderança tem sido
tão institucionalizada, que mesmo onde não existe ninguém qualifi-
cado para preencher essa posição, continuamos a colocar alguém lá!
Num presbitério, a responsabilidade para decisões e regulamentos
deve ser coletiva. Tenho acreditado sempre neste princípio, mas por
vezes tenho deixado as pessoas avançar sem obedecerem a isso e, o
resultado foi um desastre. Esta é uma situação onde a manipulação
pode facilmente entrar: um homem que sabe como manipular os
seus iguais, pode também manipular os seus superiores e, o resultado
final, é confusão. Enfatizo a todos os presbíteros: “Vós sois respon-
sáveis coletivamente, por cada decisão e cada regulamento. Não vos
podeis esconder por detrás de outrem. Deveis assumir a vossa parte
de responsabilidade.” É perigoso minar este princípio.

146
Numa equipa apostólica, o líder reconhecido poderá ter que usar
uma medida maior de autoridade pessoal. Obviamente, Paulo liderou
a sua equipa apostólica, do mesmo modo que um capitão de futebol
lidera a sua equipa. Alguém tem que exercer liderança numa equipa;
todavia, continua a ser uma equipa. As equipas apostólicas também
não eram permanentes; elas funcionavam por algum tempo e, depois
alguns saíam e outros entravam. Um dos nossos grandes problemas
é tentar fazer tudo neste mundo permanente, quando muito pouca
coisa neste mundo é duradoura. Somente quando entrarmos no pró-
ximo mundo, tudo será permanente.

A Salvaguarda da Interdependência
A segunda salvaguarda é a “interdependência” entre as equipas
apostólicas e os presbitérios; cada um precisa do outro. Um apóstolo
não pode entrar com arrogância dentro de uma igreja e dizer: “Agora
escutem, eu sou um apóstolo, e vocês companheiros façam o que eu
vos digo.” Os anciãos têm o direito de se levantarem e dizerem: “Nós
somos responsáveis perante Deus e perante os homens pelo que acon-
tece neste lugar; se nos convenceres, nós faremos. Mas não vá até às
ovelhas ignorando-nos.” Em Apocalipse 2:2 Jesus elogiou a igreja que
testou aqueles que diziam que eram apóstolos e descobriu que eram
mentirosos. Essa é a responsabilidade dos anciãos locais.
No entanto, como afirmei antes, historicamente a igreja tentou
super enfatizar o preservar à custa da extensão, dando primazia ao mi-
nistério dos pastores que funcionavam no papel de pastor (também
chamado supervisor ou bispo). Essas tradições que enfatizam a co-
munhão ou a Eucaristia têm dominado as pessoas desde então; entre
certos grupos, a prática foi mesmo considerada necessária para a sal-
vação. As funções de apóstolo e profeta foram basicamente excluídas.
Tenho que dizer que a questão não é a sucessão apostólica, mas
sim o ministério apostólico. Uma autoridade apostólica que não pro-
duz um ministério apostólico, é suspeito. A tua história é importante,
mas quero saber o que é que podes produzir hoje! A mesma coisa
aconteceu com Israel no Antigo Testamento quando os sacerdotes
atribuíam demasiada autoridade a eles próprios. Como eram os úni-
cos que podiam oferecer sacrifícios, os sacerdotes afirmavam-se com
uma tremenda autoridade, e por vezes Deus tinha que suscitar profe-
tas para repreender e desafiar os sacerdotes. Por exemplo, lê Malaquias

147
1:6-10; 2:1-3. Não poderia ter sido dito mais claramente do que estes
versículos! Estou certo que houve gerações inteiras de sacerdotes na
história da igreja cristã que foram simplesmente igualmente culpados.
Uma coisa em que temos de estar alerta é que as pessoas que fa-
zem a organização são habitualmente as pessoas com os ministérios
pastorais. Agradeço a Deus por eles, mas penso que eles muitas vezes
inconscientemente, tendem a organizar em favor deles próprios. Por
isso a pessoa com um ministério evangelístico realmente fica com a
parte mais pequena do acordo.
Na minha longa história, tive a oportunidade de observar alguns
homens poderosos, tais como A. A. Allen, T. L. Osborn, Gorden
Lindsey, e outros. Quase todos sem exceção, foram forçados a sair
das suas denominações. Talvez, algumas vezes, as suas atitudes foram
erradas, mas a verdade da questão é que é difícil para o ministério
pastoral fazer um lugar para o ministério evangelístico ou apostóli-
co. Toda a gente fica conformada a um molde bastante estreito e é
considerado perigoso sair do molde. Mas no momento em que se faz
uma pequena caixa e se diz ao Espírito Santo onde operar, podes ter
certeza absoluta de uma coisa: Ele operará em outro lugar qualquer!
Ninguém diz ao Espírito onde operar.

O Governo Invisível de Deus


Ao considerarmos a estrutura da igreja e as salvaguardas na au-
toridade humana, tenho que lançar agora o mais significativo fun-
damento, que já antes tinha abordado. É o que eu chamo de “gover-
no invisível”. Jesus é a Cabeça sobre a igreja “nos lugares celestiais”,
como Paulo disse:
[Deus] que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dos mortos e
pondo-o à sua direita nos céus, acima de todo o principado, e poder,
e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas
também no vindouro. E sujeitou todas as coisas a seus pés e, sobre
todas as coisas, o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo,
a plenitude daquele que cumpre tudo em todos. (Efésios 1:20-23)
Está muito claro nesta passagem que Cristo é “a” cabeça sobre todas
as coisas da igreja. Se eu quisesse procurar onde se encontra a minha
própria sede, tudo o que tinha que fazer era localizar a minha cabeça!
Da mesma maneira, a sede da igreja está onde a sua cabeça (Cristo) está:

148
“nos lugares celestiais”. No fundo, Jesus governa a igreja a partir dos céus
através do Espírito Santo. Nós não temos uma sede terrestre de verdade!
Vemos este governo invisível no ministério apostólico de Paulo:
Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, segundo o mandato de Deus, nosso
Senhor, e do Senhor Jesus Cristo, esperança nossa… (1 Timóteo 1:1)
Repara onde é originado o apostolado de Paulo: com Deus o Pai
– e veio via Jesus Cristo o Filho. Toda a autoridade governamental
vem “do” pai e “pelo” filho, a quem Deus entregou toda a autoridade
no céu e na terra. Não existe outra fonte de autoridade no universo.
Para obter esta autoridade dentro da igreja, necessitamos uma outra
pessoa: o Espírito Santo.
E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo:
Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chama-
do. (Atos 13:2)
Quem era o administrador executivo da Divindade? O Espírito
Santo. Como já disse anteriormente, Jesus é Senhor “sobre” a igreja,
enquanto o Espírito Santo é Senhor “na” igreja. De novo, Paulo não foi
chamado apóstolo até a igreja reconhecer o seu chamado e o enviar. No
conselho eterno de Deus, ele era um apóstolo antes do tempo existir.
Deus o Pai assim decidiu e direcionou isso através de Jesus e, o Espírito
Santo administrou na terra. No entanto, foi somente quando a igreja
abraçou isso e atuou que o seu apostolado foi oficialmente reconhecido;
o que é um modelo para toda a administração da igreja. Tudo vem de
Deus o pai através de Jesus Cristo, que é a cabeça sobre todas as coisas
na igreja e, o Espírito Santo administra tudo isso. Para a direção de Deus
ser eficaz, os Seus líderes na terra têm que responder, aceitar e confirmar.
Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há
liberdade. (2 Coríntios 3:17)
Não existe nenhum sistema que possa tomar o lugar do Espíri-
to Santo.

Nenhum sistema terreno pode tomar o lugar do Espírito Santo.

A maioria dos grupos Cristãos precisa de dar muito mais priori-


dade a procurar o conselho e a direção do Espírito Santo. Observo
com frequência, em crentes, a atitude de que é muito “arriscado” ser

149
guiado pelo Espírito Santo. Em vez disso, eu digo que é muito mais
arriscado não ser guiado pelo Espírito Santo! O Espírito Santo, o
autor da Escritura, diz, na realidade, “Se queres ser um filho de Deus,
tens que ser guiado por Mim. Não há opção.” (Ver Romanos 8:14)

Sugerir que o Espírito Santo é arbitrário e irrazoável é pintar um


retrato muito desfavorável do Espírito de Deus. O problema é que
nós não demos tempo ou atenção suficiente ao procurar a verdadeira
orientação do Espírito Santo.
A questão do governo invisível de Cristo na terra pelo Espírito
Santo tem profundas implicações, para aqueles de nós que verda-
deiramente querem compreender a igreja. Será que nós realmente
percebemos que não temos uma verdadeira sede terrena, atribuições
permanentes e, um Comandante que vive nos lugares celestes? Quan-
tos em liderança vivem sob esta luz? É muito fácil substituir uma sede
confessional, ou líder humano, ou a tradição da igreja, mesmo sendo
bons, ao nosso ver.
Lembra-te, estou a falar numa revolução no nosso pensamento!
Somente o Espírito Santo pode produzir esta mentalidade.

Autoridade Celeste sobre Equipas


Apostólicas e Presbíteros
Ao nível terreno, não existe autoridade humana sobre as equipas
apostólicas e os presbíteros. Poderás procurar no Novo Testamento
por tal nível de autoridade, mas não o encontrarás. Jesus governa-os
diretamente a partir dos céus através do Espírito Santo. Historica-
mente, o homem colocou quase invariavelmente outros indivíduos
ou grupos sobre as equipas apostólicas e presbíteros e deste modo
frustrou o governo de Jesus. Não existe burocracia que possa satis-
fazer as necessidades desta terra. Estamos a viver num mundo em
mudança, cheio de crises, revoluções e guerras, onde as pessoas estão
abertas para o evangelho em momentos específicos, de uma forma
única e depois os seus corações fecham-se de novo. Somente o Espí-
rito de Deus tem o “computador” que nos diz onde e quando estar!
O género de homem que prospera na burocracia normalmen-
te não é o género de homem que deve estar a orientar uma equipa
apostólica. Inversamente, poderá haver um homem numa burocracia
fazendo um trabalho que é frustrante para ele que deveria estar a

150
orientar uma equipa apostólica. Poderá haver um homem que está a
viver numa burocracia numa posição de autoridade que ele não deve
ter. Será esta situação comum na igreja hoje? Creio que é.
De facto, aprendi ao estudar a vida de Abrão, qual o grande pe-
rigo de fazer mais do que Deus pede. Lembra-te que Deus ordenou
a Abrão para deixar a sua família, mas ele levou Ló consigo. (Ver
Génesis 12:1-5) Ló era o pai dos Moabitas e dos Amonitas, que são
parte do problema para Israel e o Médio Oriente de hoje. Lembra-te
também como Abrão esperou doze anos por um filho de Sarai, por
isso ele decidiu ter um filho de Agar. (Ver Génesis 16:16-17:1) O re-
sultado foi Ismael e os seus descendentes, um problema contínuo de
quatro mil anos para Israel. Se alguma vez houve um aviso nas Escri-
turas, esse é para não fazer mais do que aquilo que Deus pediu. Como
é o caso de não construir camadas extras de burocracia na igreja.
Ao olharmos para este tema, vemos um precedente no Antigo Tes-
tamento, quando Israel achou difícil viver sob um governo invisível
de Deus e pediu um rei humano:
Então todos os anciãos de Israel se congregaram, e vieram a Sa-
muel, a Ramá, E disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não
andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora um rei sobre
nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações. Porém esta
palavra pareceu mal aos olhos de Samuel, quando disseram: Dá-nos
um rei, para que nos julgue. E Samuel orou ao SENHOR. E disse o
SENHOR a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem,
pois não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu
não reinar sobre eles. (1 Samuel 8:4-7)
Como vês, quando nós não aceitamos o governo invisível de Deus
e pedimos um substituto humano, estamos a rejeitar o próprio Deus!

Quando nós não aceitamos o governo invisível de Deus e pedimos


um substituto humano, estamos a rejeitar o próprio Deus!

Conforme todas as obras que fez desde o dia em que o tirei do


Egipto até ao dia de hoje, pois a mim me deixou, e a outros deuses
serviu, assim também te fez a ti. Agora, pois, ouve a sua voz, porém
protesta-lhe solenemente e declara-lhe qual será o costume do rei que
houver de reinar sobre ele. (1 Samuel 8:8-9)

151
Se és um líder do povo de Deus, mais cedo ou mais tarde, des-
cobrirás que te tratarão do modo que tratam Deus. Mas Deus disse:
“Presta atenção à sua voz.” Isso é sabedoria. Não lutes com as pessoas
quando elas querem a coisa errada; deixa que a recebam. Geralmente
falando, essa é a única maneira que as fará aprender.
[Deus disse,]Agora, pois, ouve à sua voz, porém protesta-lhes so-
lenemente, e declara-lhes qual será o costume do rei que houver de
reinar sobre eles. E falou Samuel todas as palavras do SENHOR ao
povo, que lhe pedia um rei. E disse: Este será o costume do rei que
houver de reinar sobre vós; ele tomará os vossos filhos, e os empregará
nos seus carros, e como seus cavaleiros, para que corram adiante dos
seus carros. E os porá por chefes de mil, e de cinqüenta; e para que
lavrem a sua lavoura, e façam a sua sega, e fabriquem as suas armas
de guerra e os petrechos de seus carros. E tomará as vossas filhas para
perfumistas, cozinheiras e padeiras. E tomará o melhor das vossas ter-
ras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais, e os dará aos seus servos.
E as vossas sementes, e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus
oficiais, e aos seus servos. Também os vossos servos, e as vossas servas, e
os vossos melhores moços, e os vossos jumentos tomará, e os empregará
no seu trabalho. Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe servireis de
servos. Então naquele dia clamareis por causa do vosso rei, que vós
houverdes escolhido; mas o SENHOR não vos ouvirá naquele dia.
(1 Samuel 8:9-18)

Samuel estava a apresentar uma imagem exata do governo hu-


mano. Demasiada energia e finanças são gastas na complexidade e
burocracia deste tipo de governo. Existe um precedente da Escritura
no Novo Testamento para um concílio temporário na igreja, mas não
um corpo permanente. De igual modo, os concílios foram chamados
na história da igreja para fazerem face a situações críticas específicas,
mas foram dissolvidos quando as situações foram resolvidas. O nosso
modelo de comités, concílios e denominações existindo para se per-
petuarem a eles mesmos é um problema real.
Com certeza, existe lugar e necessidade para todos, comités, con-
cílios e coisas assim na obra de Deus, mas estes nunca devem usurpar
a mais clara representação do governo de Deus na terra, as equipas
apostólicas e presbitérios. Contudo, geralmente falando, é exatamen-
te o que acontece.

152
O Governo de Deus Trabalhando na Terra
Vamos considerar ainda mais, as relações entre apóstolos e presbi-
térios no concretizar do governo de Deus na terra, assim como as sal-
vaguardas de Deus incorporadas contra a autoridade excessiva. É ab-
solutamente crucial entender isto: “os apóstolos eram frequentemente
direcionados para partes específicas da humanidade, todavia eles nunca
reclamaram autoridade sobre igrejas individuais.” Conheci um homem
em África a quem eu considerava como um apóstolo para a África de
Leste, com base no seu fruto no ministério. Num exemplo histórico,
exatamente antes da Primeira Guerra Mundial, dois homens, James
Saltzer e Wiliam Burton, saíram de Inglaterra para o Congo Belga. Nos
quarenta anos seguintes, eles estabeleceram mais de mil igrejas locais au-
to-governadas. Todos os sinais mencionadas no Novo Testamento ocor-
riam no seu ministério. Eles eram os apóstolos do Congo Belga. Penso
que os apóstolos são mais enviados a uma parte da humanidade do que a
uma área geográfica, tal como vemos no confronto de Paulo com Pedro:
E, quanto àqueles que pareciam ser alguma coisa (quais tenham
sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do
homem), esses, digo, que pareciam ser alguma coisa, nada me co-
municaram; antes, pelo contrario, quando viram que o evangelho
da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão
(porque aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado
da circuncisão, esse operou também em mim com eficácia para com
os gentios)… (Gálatas 2:6-8)
Essencialmente, eles dividiram o mundo antigo de acordo com as
responsabilidades que Deus lhes deu. Contudo, os apóstolos não re-
clamaram autoridade exclusiva sobre igrejas específicas. Para ilustrar,
consideremos a relação de Paulo com as igrejas da Galácia e Corinto.
Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que
Cristo seja formado em vós. (Gálatas 4:19)
Não escrevo estas coisas para vos envergonhar; mas admoesto-vos
como meus filhos amados. Porque, ainda que tivésseis dez mil aios em
Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu, pelo evangelho,
vos gerei em Jesus Cristo. (1 Coríntios 4:14-15)
Paulo era o pai espiritual das igrejas da Galácia e Corinto; não há
dúvida a respeito disso. Como é que ele se relacionava com eles? Ele

153
foi provocado por ambos os grupos por permitir que os Judaizantes
espalhassem o falso ensinamento, que um Gentio tinha que tornar-
-se primeiro Judeu antes de poder ser salvo. Apesar disso, Paulo não
disse: “Porque é que vocês não pediram a minha permissão antes de
convidarem esses pregadores?” Não, ele disse: “Vocês deviam ter sabi-
do melhor do que acreditar neles.” Paulo não invocou a sua própria
autoridade. Aparentemente, ele nunca reclamou exclusivo direito so-
bre nenhuma igreja, mesmo se ele fosse o pai dessa igreja. Em vez
disso, ele apelou a eles.
Irmãos, rogo-vos que sejais como eu, porque também eu sou como
vós; nenhum mal me fizestes. E vós sabeis que primeiro vos anunciei
o evangelho estando em fraqueza da carne. E não rejeitastes, nem
desprezastes isso que era uma tentação na minha carne; antes, me
recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo. Qual é,
logo, a vossa bem-aventurança? Porque vos dou testemunho de que,
se possível fora, arrancaríeis os olhos, e mos daríeis. Fiz-me, acaso,
vosso inimigo, dizendo a verdade? Eles têm zelo por vós, não como
convém; mas querem excluir-vos, para que vós tenhais zelo por eles.
(Gálatas 4:12-17)
Como é que nós respondemos quando as pessoas sob a nossa au-
toridade se dispersarem? A minha reação pessoal é não impor os meus
pontos de vista a elas. Pode-se produzir conformidade por algum tem-
po impondo às pessoas, mas o resultado final é menos do que eficaz.
Algo em mim me diz para lhes dar conselho nessas situações, mas de-
pois deixá-las sozinhas e permitir-lhes que resolvam por elas próprias.
É bom ser zeloso, mas sempre do bem e não somente quando estou
presente convosco. Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores
de parto, até que Cristo seja formado em vós; eu bem quisera, agora,
estar presente convosco e mudar a minha voz; porque estou perplexo
a vosso respeito. Dizei-me vós, os que quereis estar debaixo da lei: não
ouvis vós a lei? (versículos 18-21)
Ele estava a dizer: “Não consegues ver por ti próprio o que é que a
Bíblia realmente diz?” O apelo final é para a Escritura e a sua própria
compreensão, maturidade e bom senso.
Vimos que a abordagem de Paulo aos mesmos problemas em Co-
rinto foi idêntica:

154
E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como
a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei e não com
manjar, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora po-
deis; porque ainda sois carnais, pois, havendo entre vós inveja, con-
tendas e dissensões, não sois, porventura, carnais e não andais segun-
do os homens? Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu, de
Apolo; porventura, não sois carnais? (1 Coríntios 3:1-4)

Quereria ele que todos dissessem: “Eu sou de Paulo”? Absoluta-


mente não. Paulo estava tão aborrecido com isso como com os que
diziam: “Eu sou de Apolo”!
Pois quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros pelos quais
crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo
regou; mas Deus deu o crescimento. Pelo que nem o que planta é
alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora,
o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galar-
dão, segundo o seu trabalho. Porque nós somos cooperadores de Deus;
vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. Segundo a graça de Deus
que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e ou-
tro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque
ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o
qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um
edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra
de cada um se manifestará; na verdade, o Dia a declarará, porque
pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada
um. (1 Coríntios 3:5-13)

Será que Paulo disse: “Mais ninguém deve construir sem a minha
autorização”? Não. Ele disse apenas para prestarem atenção como é
que construíam. Depois avisou que se eles construíssem com madei-
ra, feno e palha, tudo seria queimado. Ele não disse: “Vós não deveis
construir, mas simplesmente indicou o que aconteceria se eles cons-
truíssem desse modo.”
Na longa corrida, a verdade é o mais poderoso instrumento que
nós temos. Estou preso (agarrado) pela afirmação de Paulo em 2 Co-
ríntios 13:8:
Porque nada podemos fazer contra a verdade, senão pela verdade.

155
Estou totalmente convencido disso. Nem sequer lutes contra a
verdade, tenta não ser teimoso. Quando confrontado com a verdade,
renda-te à ela. Talvez nem sempre me agrada, mas eu rendo-me a
toda a gente que me diz a verdade. A abordagem de Paulo foi simples-
mente dizer a verdade e ignorar o resto
Porque a respeito de vós, irmãos meus, me foi comunicado pela fa-
mília de Cloé que há contendas entre vós. Quero dizer, com isso, que
cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas,
e eu, de Cristo. Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós?
Ou fostes vós batizados em nome de Paulo? (1 Coríntios 1: 11-13)
Paulo não queria que eles fossem o “seu povo”, isso é sensato.
Quanto mais pessoas se tem, mais dos seus problemas também. Por-
quê trazer problemas a ti próprio? Também noto que Pedro escreveu
independentemente aos Gálatas, tal como Paulo fez. (Ver 1 Pedro
1:1). Não existe registo que eles tivessem verificado um com o outro.
Assim como o Espírito Santo orientava, ambos os homens ministra-
vam aos Gálatas. Novamente, comprovado está: “Os apóstolos eram
dirigidos para partes específicas da humanidade sem assumirem auto-
ridade sobre igrejas específicas.” Eu reconheço quão controversa será
esta afirmação para alguns que operam com redes de apostolado ou
comunhão de igrejas. Não estou a criticar a filosofia ou abordagem
de ninguém. Todavia, posso enfatizar, que devemos aproximar-nos
como servos até àqueles a quem ministramos, não como senhores.

A Grande Imagem
A Bíblia retrata uma imagem simples do corpo de Cristo avançan-
do sobre duas pernas: ambas, as equipas apostólicas e os presbíteros.
Precisamos de um equilíbrio Bíblico entre estes dois ministérios, para
que o corpo possa funcionar, não como uma burocracia mas como
uma igreja viva. Em conjunto, eles estão sob o governo direto e in-
visível de Cristo nos lugares celestes e, dão fruto pelo Espírito Santo
na terra. A igreja devia considerar-se a si própria num processo de
desenvolvimento contínuo, até as equipas apostólicas se tornarem
funcionais.
Que Cristo possa realmente construir a Sua igreja!

156
- 15 -

Reprodução, Não Sucessão

O quadro da igreja local que tenho vindo a realçar é na verdade


muito orgânico. De facto, isso tem pouco a ver com a imagem artificial
de muitas igrejas que nos são apresentadas hoje. O elevado valor sobre
a lealdade e relações é muito mais típico no Médio Oriente do que no
Ocidente. Por ter vivido em ambas as partes, diria que é muito mais
difícil ver a vida orgânica e relacional do Novo Testamento nas nações
do Ocidente. Mesmo assim, o modelo está lá na Escritura. Depois de
oitenta anos de vida, cheguei à inevitável conclusão de que nós nunca
podemos aperfeiçoar os modelos (padrões) de Deus!

O “Ciclo Reprodutivo”: Apóstolos e Anciãos


Um dos modelos de Deus, que mencionei brevemente no capítu-
lo 13, é o que eu chamo “o ciclo reprodutivo”. Isto é extremamente
interessante, como Deus cria sempre coisas vivas com a capacidade
para se reproduzirem. O Seu mandamento a Adão e Eva em Génesis
1:28 foi claro: Frutificai, e multiplicai-vos.
Isto é verdade no mundo natural; é também verdade no mundo
espiritual. Deus ordenou um método de auto reprodução para os
dois ministérios chave de apóstolo e de ancião. Tal como no resto da
criação, estes ministérios na igreja reproduzem-se de uma maneira
mais “natural, sobrenaturalmente”.

Os ministérios na igreja reproduzem-se de uma maneira


naturalmente sobrenatural.

O ministério apostólico surge primeiro numa região, o que faz


sentido, porque é um ministério que estende o reino de Deus para
novas regiões. Os apóstolos ordenam os anciãos para conservarem o
fruto do seu trabalho e, no fim, desse grupo de anciãos surgem, no-

157
vos apóstolos. Isto é um ciclo que pode continuar sem fim. É muito
superior a seminários e escolas Bíblicas porque depende de três coisas:
associação íntima, interdependência e relação de longo termo. Não é
um estágio superficial; tudo é forjado no fogo do trabalho da missão
contínua e da vida da igreja. Não é algo não testado ou artificial.
Podemos ver este modelo estabelecido ao olharmos de novo para
Atos 13:1-4:
Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e dou-
tores, a saber: Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu,
e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, ser-
vindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me
a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então,
jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. E
assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali,
navegaram para Chipre.
Antes do Espírito Santo ter revelado a vontade de Deus, Paulo e Bar-
nabé eram profetas e professores. Depois do Espírito Santo ter falado,
os outros líderes na igreja puseram as mãos sobre eles e enviaram-nos
como representantes da igreja em Antioquia. Existem seis propósitos
importantes indicados no Novo Testamento para a imposição das mãos:
1. Ministrar a cura aos doentes
2. Ajudar os que procuram o batismo no Espírito Santo
3. Partilhar dons espirituais
4. Enviar apóstolos
5. Ordenar anciãos
6. Nomear diáconos
A imposição das mãos não é apenas uma formalidade. A autorida-
de e o poder espiritual são sempre libertados quando as pessoas certas
impõem as mãos sobre outras ao serem guiadas pelo Espírito Santo.
O capítulo seguinte revela-nos o que Paulo e Barnabé se tornaram
depois de terem sido comissionados deste modo.

E dividiu-se a multidão da cidade: uns eram pelos judeus, e ou-


tros, pelos apóstolos…Ouvindo, porém, isto, os apóstolos Barnabé e
Paulo, rasgaram as suas vestes e saltaram para o meio da multidão…
(Atos 14:4, 14)

158
Estes profetas e professores tornaram-se apóstolos ao serem envia-
dos pela liderança local. Vemos o conceito de equipas apostólicas em
outros lugares no Novo Testamento. Por exemplo em Gálatas, Paulo
escreveu:
Depois, passados catorze anos, subi outra vez a Jerusalém com
Barnabé, levando também comigo Tito. (Gálatas 2:1)
Aqui temos Paulo, Barnabé e Tito. Em Jerusalém, eles tiveram um
confronto com outra equipa apostólica mencionada em Gálatas 2:9:
Tiago, Pedro e João. As duas equipas encontraram-se, resolveram as
suas diferenças, cumprimentaram-se amigavelmente e depois partiram.
Repara que havia, uma estrutura global de comunhão que abraçou todo
o corpo de Cristo, no entanto a equipas específicas eram dadas tarefas
específicas. Pedro, Tiago e João eram os apóstolos dos Judeus, enquanto
Paulo, Barnabé e Tito eram os apóstolos dos Gentios. Existem certas
responsabilidades e ênfases dentro das equipas apostólicas. Elas podem
ter graças diferentes que as tornam adequadas para missões específicas.
Mais à frente em Atos, vemos a próxima equipa apostólica:
E Barnabé aconselhava que tomassem consigo a João, chamado
Marcos. Mas a Paulo parecia razoável que não tomassem consigo
aquele que desde a Panfília se tinha apartado deles e não os acompa-
nhou naquela obra. E tal contenda houve entre eles, que se aparta-
ram um do outro. Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para
Chipre. E Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu, encomendado pelos
irmãos à graça de Deus. E passou pela Síria e Cilícia, confirmando
as igrejas. (Atos 15:37-41)
Desde que João Marcos deixou a anterior viagem apostólica, Pau-
lo não quis que ele viesse na próxima. Como resultado, saiu um novo
par de apóstolos, Barnabé e João Marcos. Paulo partiu na segunda
viagem missionária com ainda um outro apóstolo, Silas. O mesmo
modelo ocorre por toda a Escritura: ministério em equipa. Nós nun-
ca vemos apóstolos a operar cada um por si.
E Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu, encomendado pelos ir-
mãos à graça de Deus. (Atos 15:40)
Creio que pudemos deduzir que Paulo e Silas foram comissiona-
dos através da imposição das mãos, tal como Paulo e Barnabé foram

159
a primeira vez, como representantes apostólicos oficiais da igreja em
Antioquia. Agora veremos como decorreu a viagem:
E chegou a Derbe e Listra. E eis que estava ali um certo discípulo
por nome Timóteo, filho de uma judia que era crente, mas de pai
grego, do qual davam bom testemunho os irmãos que estavam em
Listra e em Icônio. Paulo quis que este fosse com ele e, tomando-o,
o circuncidou, por causa dos judeus que estavam naqueles lugares;
porque todos sabiam que seu pai era grego. (Atos 16:1-3)

São mencionadas aqui três cidades: Derbe, Listra e Icónio. Uma


vez que Listra é mencionada por duas vezes, deve ser a cidade na qual
a mãe de Timóteo, um membro crente da igreja local, o criou. Timó-
teo formou-se na igreja local em Listra com o primeiro grau: o bom
parecer dos irmãos locais. Ninguém jamais tem o direito de entrar no
ministério sem começar com um bom parecer da sua assembleia lo-
cal. O primeiro requisito é que proves a ti próprio o teu valor, na tua
terra. Se não conseguires fazer isso lá, não consegues em mais parte
nenhuma, ponto final.
Uma vez que Timóteo tinha o seu primeiro grau, Paulo decidiu re-
crutá-lo para o serviço. Paulo nunca teria arriscado incluir um homem
na sua equipa sem ter sido testado. Mas Timóteo tinha sido testado
onde devia – na igreja local. Ele tinha sido conhecido e observado des-
de a infância, sob uma vigilância muito mais cerrada do que alguma
vez se faz numa universidade. Como antigo professor universitário,
conheço um pouco da vida académica. Quando enfrentares o desafio
e a incerteza de entrares no desconhecido, escolhe um homem prepa-
rado em relações próximas em casa e na igreja, preferencialmente a um
homem preparado numa sala de aula.
Então temos Paulo, Silvano e Timóteo nesta viagem. Em que é que
Timóteo se tornou ao juntar-se ao grupo de Paulo e Silvano? A resposta
encontra-se em 1 Tessalonicenses, que alude aos acontecimentos desta
mesma viagem. Repara primeiro quem escreveu a carta:
Paulo, e Silvano, e Timóteo, à igreja dos tessalonicenses…(versículo
1) Depois repara como eles se descrevem a si próprios:
E não buscamos glória dos homens, nem de vós, nem de outros,
ainda que podíamos, como apóstolos de Cristo, ser-vos pesados. (1
Tessalonicenses 2:6, ênfase adicionada)

160
Eles eram apóstolos. Como é que Timóteo se tornou um apóstolo?
Ele foi enviado, devidamente comissionado pelos anciãos da igreja em
Listra. Este mandato está descrito na epístola de Paulo a Timóteo:
Este mandamento te dou, meu filho Timóteo, que, segundo as
profecias que houve acerca de ti, milites por ela boa milícia. (1 Ti-
móteo 1:18)
Foram divulgadas profecias indicando a natureza geral do minis-
tério e a guerra para as quais Deus tinha ordenado Timóteo. Vemos
isto mais detalhadamente no capítulo 4:
Não desprezes o dom [charisma] que há em ti, o qual te foi dado por
profecia, com a imposição das mãos do presbítero. (1 Timóteo 4:14)
Compara Atos 16:1-3 com estes versículos de 1 Timóteo. Ofere-
ço-vos a minha explicação destas Escrituras. A minha interpretação
poderia facilmente ser desafiada, mas creio que o “charisma” referido
era o ministério apostólico transmitido pela profecia, com a imposi-
ção das mãos dos anciãos na sua igreja local. Timóteo tornou-se um
apóstolo quando foi enviado através da direção do Espírito Santo
pelos anciãos. Algumas pessoas pensam que o dom referido era o
batismo do Espírito Santo, mas isso é improvável. Isso é uma parte
do programa de Deus destinado para cada crente: arrepende-te, sê
batizado, recebe o Espírito Santo. Isto era algum outro “charisma” ou
dom espiritual. Todos os cinco principais dons ministeriais – após-
tolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores – são “carismáticos”,
e por isso acredito que o dom de que Paulo estava a falar aqui era o
ministério apostólico recebido por Timóteo através de profecia e da
imposição das mãos.
Deste modo vemos o modelo da Escritura: Paulo e Silas vieram
até Listra e comungaram com os irmãos. Um jovem de destacada per-
sonalidade Cristã e conhecimento da Escritura, Timóteo, foi apon-
tado através de profecia para juntar-se à equipa de Paulo. Os anciãos
reconheceram isso e, em conjunto com os apóstolos impuseram as
mãos em Timóteo, comissionando-o como seu representante apostó-
lico, juntamente com os apóstolos seniores Paulo e Silas. O exemplo
da Escritura é que o iniciante trabalha com aqueles que são mais ex-
perientes. Gradualmente, ele chegará a um momento em que poderá
trabalhar sozinho.

161
No devido tempo, Paulo e Timóteo vieram para a cidade de Éfeso.
Ali, Paulo deixou Timóteo atrás, como seu representante, para acabar
o que precisava de ser feito ali para a igreja. Vejamos o que Paulo disse
sobre isto:
Como te reguei, quando parti para a Macedónia, que ficas-
ses em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinem outra
doutrina… (1 Timóteo 1:3)
Paulo seguiu para Macedónia, deixando Timóteo em Éfeso para
continuar o ministério apostólico ali; ele era cooperador de Paulo.
Tendo dado provas de si próprio no seu ministério inicial com Paulo,
Timóteo foi agora considerado competente para ministrar sozinho,
sob a direção geral de Paulo. Agora o que é que ele tinha que fazer em
Éfeso? No capítulo 3, vemos uma das principais responsabilidades de
Timóteo. Paulo escreveu:
Esta é uma palavra fiel: Se alguém deseja o episcopado, excelente
obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja… (versículos 1-2)
Depois de lembrar a Timóteo as qualidades para um bispo, Paulo
deixou estes seguintes instruções:
Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dig-
nos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na pa-
lavra e na doutrina. Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca
ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário. Não
aceites acusação contra presbítero, senão com duas ou três teste-
munhas. Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos,
para que também os outros tenham temor. Conjuro-te, diante de
Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos, que, sem pre-
venção, guardes estas coisas, nada fazendo por parcialidade. A
ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos
pecados alheios; conserva-te a ti mesmo puro. (1 Timóteo 5:17-22)
A responsabilidade de Timóteo em Éfeso era impor as mãos e
ordenar os anciãos em Éfeso. “Temos agora um ciclo completo de re-
produção”: Profetas e professores dão à luz, por um nascimento espi-
ritual, o ministério apostólico. Os apóstolos saem e vem até à cidade
de Listra. Juntamente com os anciãos, eles produzem um ministério
apostólico, que vai à cidade de Éfeso. O ministério apostólico designa

162
anciãos, e desses anciãos, existe de novo a possibilidade de surgir um
ministério apostólico.
Como vês, os dois ministérios chave são realmente os apóstolos e
os anciãos. No Novo Testamento, muito mais é dito sobre apóstolos
e anciãos do que sobre todos os outros ministérios juntos. Mas como
é que eles surgem? A partir de profetas e professores(doutores). Existe
uma tal interdependência no corpo de Cristo!

Sucessão Apostólica?
Repara que a Bíblia de maneira nenhuma defende o princípio da
sucessão apostólica. Este princípio é que um apóstolo (ou bispo) tem
que ser ordenado por alguém, que foi ordenado por outra pessoa que
era um apóstolo. Paulo e Barnabé estavam em Antioquia, que não fi-
cava muito longe de Jerusalém. Não há dúvidas de que, naquela altura
em Jerusalém, existiam vários apóstolos que tinham sido ordenados
pessoalmente pelo Senhor enquanto Ele estava na terra. Se o Senhor
sentisse que era essencial, que um apóstolo tivesse que ordenar outro
apóstolo, Ele podia facilmente ter arranjado maneira para que um ou
mais desses apóstolos fossem de Jerusalém a Antioquia para imporem
as mãos em Paulo e Barnabé. Mas na realidade, Ele não o fez.
O princípio da sucessão apostólica é geralmente posto de parte
no Novo Testamento. No seu lugar está o princípio do nascimento
espiritual a partir da comunhão na igreja local. No fundo, os anciãos
enviam os apóstolos e os apóstolos ordenam os anciãos.

Os anciãos enviam os apóstolos e os apóstolos ordenam


os anciãos.

Os apóstolos responderão às igrejas e presbitérios que os enviaram,


contudo eles serão os que estabelecem mais grupos de anciãos!
Nós já vimos que Paulo foi ordenado apóstolo através da imposição
das mãos dos seus companheiros ministros na igreja de Antioquia. Re-
para ainda como Paulo descreveu o seu próprio ministério apostólico:
Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem al-
gum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mor-
tos). (Gálatas 1:1)
Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, segundo o mandato de Deus, nosso
Salvador, e do Senhor Jesus Cristo, esperança nossa. (1 Timóteo 1:1)

163
Novamente existe inter-relação entre o divino e o humano.
Estou a pintar o quadro ideal e perfeito tal como a Bíblia en-
sina. Estou totalmente ciente de que o ideal é difícil de conseguir.
Há alguns anos atrás, apercebi-me que mesmo quando tínhamos a
planta da igreja do Novo Testamento, muitas vezes não tínhamos os
materiais de construção disponíveis para a construir: os verdadeiros
crentes do Novo Testamento! Somente os materiais de construção do
Novo Testamento poderão alguma vez produzir igrejas como as do
Novo Testamento.

Somente os crentes como os do Novo Testamento poderão


produ zir igrejas como as do Novo Testamento.

Seja como for, continuo a acreditar em Deus para mover o corpo


de Cristo em direção à verdadeira imagem da igreja na Escritura.
Recuso-me a desistir! Agora nos meus oitenta anos, tenho visto a
igreja num processo de santificação e purificação por mais de sessenta
anos. Tenho visto uma mudança na estrutura do corpo de Cristo que
é verdadeiramente excitante. Tem havido sucessivas vagas de verdade
restaurada em décadas recentes: autoridade, fé, libertação, missões e
amor, entre muitas outras. Desejo ver a igreja a viver verdadeiramente
como a igreja, com um estilo de vida apropriado à sua natureza.

164
IV
4ª. Parte

A Liderança da Igreja
- 16 -

Ministério Móvel: Apóstolos

Na 1ª parte deste livro, considerámos a natureza da igreja como


povo especial e porção/quinhão de Deus. Na 2ª parte, examinámos
as sete imagens da igreja descritas por Paulo em Efésios. Depois, na
3ª parte, considerámos a estrutura global da igreja, ambas, universal
e local. Senti que era importante falar primeiro sobre quem é e o
que é a igreja. Antes de considerarmos métodos, modelos e prin-
cípios de liderança que compõem a igreja, temos que ter a certeza
do que exatamente é que estamos a construir. Temos que construir
sabiamente sobre o fundamento certo, tal como Paulo alertou em
1 Coríntios 3.
Avançamos para um estudo dos principais ministérios ou lideran-
ça da igreja. Haverá naturalmente, alguma sobreposição de funções
das equipas apostólicas e anciãos de que falámos anteriormente, mas
aqui serão abordadas principalmente, no contexto da natureza das
suas chamadas específicas e da vida do dia-a-dia da igreja.
Ao estudar os ministérios de liderança da igreja, achei convenien-
te dividi-los em dois grupos: primeiro os ministérios móveis e se-
gundo, os ministérios residentes. Começaremos com os ministérios
móveis.

Os Ministérios Móveis
Poderás ter ficado surpreendido ao descobrires, que a maioria dos
principais ministérios da igreja, é móvel. A igreja nunca foi destina-
da a estabelecer-se numa instituição sóbria na qual muitas vezes se
tornou. Os ministérios da igreja primitiva estavam constantemente
a levar o evangelho para dentro de zonas geograficamente novas e
espiritualmente vazias. Em certo ponto, era devido à ênfase e apoio
aos ministérios móveis. Existem certos ministros que nunca conhe-
cerão o modo de existência sossegada e residencial que a maioria de

167
nós desfruta, uma vez que Deus os fez móveis no coração. É preciso
compromisso e força para permanecer no mesmo lugar e, é necessária
outra espécie de compromisso e força para manter uma visão que se
estende para além do horizonte.
A igreja nunca se teria tornado uma influência mundial sem os
ministérios móveis, porque eles não estão presos a nenhuma locali-
dade particular mas podem funcionar em qualquer lado dentro da
igreja universal. Eles estão disponíveis para todas as partes da igreja
em todos os lugares.

A igreja nunca se teria tornado uma influência mundial sem os


ministérios móveis.

Novamente, a lista principal desses ministérios é dada em Efésios:


E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros
para evangelistas, e outros para pastores e doutores… (Efésios 4:11)
Dos cinco ministérios mencionados aqui, apenas os pastores são essen-
cialmente residenciais, por isso os restantes são os ministérios móveis mais
importantes: apóstolos, profetas, evangelistas e doutores(professores).
Neste capítulo consideraremos o tema dos apóstolos.
Na minha educação enquanto jovem numa escola privada, du-
rante dez anos, era obrigatório ir à igreja uma vez por dia na semana
e duas vezes ao domingo, o que fazia oito vezes por semana. Nunca
apagarei da minha memória as imagens nos vitrais das várias fi-
guras Bíblicas, entre as quais Jesus na loja do carpinteiro e os doze
apóstolos. Nem um deles aparentava ter menos de cinquenta anos
de idade. Eles tinham barbas descuidadas, longo cabelo branco e fa-
ces enrugadas. Ficamos com a impressão de que a liderança na igreja
é para pessoas que estão quase no fim da vida. Isto é uma comple-
ta deturpação. Um estudo atento do Novo Testamento, mostrará
que todos os apóstolos que Jesus chamou no Seu ministério terre-
no eram homens novos, nem sequer podiam ser considerados de
meia-idade.
A minha imagem de Deus era mais ou menos a mesma. Eu ima-
ginei-O preferencialmente como um homem velho mal-humorado,
com uma longa barba branca, sentado num escritório ao fundo de
um longo corredor. A última coisa que jamais desejarias fazer era

168
caminhar na ponta dos pés por esse corredor, bater à porta e entrar
no escritório, porque estarias à procura de problemas se o fizesses!
Demorou dez anos para me desfazer das impressões religiosas que
foram criadas na minha meninice. Creio que também tu terás que
fazer muitos ajustes para obteres uma imagem clara e Bíblica de um
apóstolo. Geralmente falando, a palavra “apóstolo” tem associações
tradicionais religiosas que nos fazem pensar em termos de uma velha
figura sombria e desagradável, num passado remoto que sería melhor
não encontrar. Certamente, diria que 90 por cento dos Cristãos pro-
fessos imaginam que os apóstolos pertencem somente a um período
de dezanove séculos atrás. Eles não consideram a possibilidade de
encontrarem um apóstolo nos tempos de hoje. Espero que esta im-
pressão seja corrigida pelo que tenho a dizer.

O Que é Um Apóstolo?
Vamos considerar o significado desta palavra “apóstolo”, come-
çando com a sua origem na língua original do Novo Testamento. A
palavra Grega é “apóstolos” que tem um significado muito especial:
“um enviado”. Muitas pessoas nunca se apercebem, que algumas pas-
sagens muito familiares da Bíblia contêm a palavra “apóstolo”. Por
exemplo, Jesus disse:
Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior que o
seu senhor, nem o enviado [apóstolos], maior do que aquele que o
enviou [apóstolos]. (João 13:16, ênfase adicionada).
“O enviado” é o apóstolo. A Bíblia sublinha esse facto de que o
significado da raiz da palavra “apostolos” é “aquele que é enviado”.
Em várias versões da Bíblia, “apostolos” por vezes é traduzida como
“mensageiro.” Indicarei no momento certo que o uso deste termo é
um pouco infeliz e ligeiramente enganador. O significado de “apósto-
los” corresponde rigorosamente a uma palavra mais familiar no Cris-
tianismo moderno, que é a palavra “missionário”. Missionário, deriva
de um verbo em latim e significa “aquele que é enviado”. Uma vez
que “apostolos” significa “aquele que é enviado”, os significados são
obviamente muito próximos. Ao considerar a natureza dos apóstolos,
seria melhor pensar em termos de missionários, embora nem todos
os apóstolos sejam missionários e nem todos os missionários sejam
apóstolos.

169
É interessante ver o número de lugares onde a palavra “apóstolo”
aparece no Novo Testamento. Não temos hesitação sobre usar a pala-
vra “evangelista”, ainda que essa palavra apareça somente três vezes no
Novo Testamento. Apenas um homem, Filipe, é realmente chamado
evangelista. No entanto, quando olhamos para a palavra “apóstolo”,
existem vinte e oito pessoas que estão especificadas como tendo esse
ministério. Muitos Cristãos nem sequer considerariam dar esse título
a nenhum ministro vivo.
Quando iniciei o meu ministério de pregador internacional, as
pessoas costumavam perguntar-me: “O que é que faz?” Eu respon-
dia: “Viajo e prego.” Então elas diziam: “Você é um evangelista.” Eu
dizia: “Não, definitivamente não!” “Bem, você deve ser. Você viaja
e prega.” A atitude era a de que, o único género de pessoa que viaja
e prega é um evangelista. Se não viajas e pregas, então deves ser um
pastor! Esses eram as únicas duas opções, e com certeza, isto não é
Bíblico.

Quem Eram os Apóstolos do Novo Testamento?


Existem cerca de catorze pessoas realmente nomeadas como após-
tolos antes do dia de Pentecostes e, outras catorze nomeadas depois
do dia de Pentecostes.

O Primeiro e Perfeito Apóstolo


A primeira pessoa a ser chamada apóstolo foi o próprio Senhor
Jesus Cristo, o que é apropriado. Eu entendo Jesus como sendo o mo-
delo perfeito de cada um dos principais ministérios. Ele é o Apóstolo
perfeito, o Profeta perfeito, o Evangelista perfeito, o Pastor perfeito, o
Professor perfeito. A carta aos Hebreus não só nomeia a Cristo como
um apóstolo, mas também irradia luz sobre o significado da palavra:
Pelo que, irmãos santos, participantes da vocação celestial, con-
siderai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo-sacerdote da nossa confissão…
(Hebreus 3:1)
Jesus é chamado o Apóstolo e o Sumo-Sacerdote da nossa confis-
são. Estes são lados opostos do Seu ministério total. Como o Apósto-
lo, Ele era Aquele que foi enviado por Deus para realizar uma tarefa
especial no mundo que mais ninguém podia fazer. Como Sumo-Sa-

170
cerdote, Ele regressou à presença de Deus para representar aqueles
que aceitaram o ministério que Ele teve na terra. Como o Apóstolo,
Ele foi enviado por Deus para nos redimir. Como Sumo-Sacerdote,
Ele voltou para Deus para interceder em nosso favor. Que belo qua-
dro da obra de Cristo!
Temos ainda mais declarações no evangelho de João sobre Jesus ter
sido enviado, começando em João 10:36. Aqui Jesus estava a falar com
o povo Judeu que desafiou a Sua reivindicação em representar Deus:
…àquele [Jesus] a quem o Pai santificou e enviou ao mundo…
(ênfase adicionada).
O Pai santificou Jesus e enviou-O ao mundo. O verbo “enviar”
em Grego é “apostello”, da qual deriva a palavra apóstolo. Tendo se-
parado Jesus, o Pai enviou-O ao mundo para ser o nosso Apóstolo
– Aquele Que Foi Enviado.

Os Discípulos como Apóstolos


Em João 20:21, é aplicado um pensamento semelhante aos pri-
meiros discípulos:
Disse-lhes [aos Seus discípulos], pois, Jesus outra vez: Paz seja
convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós.

A palavra “apostello” é usada na expressão “o Pai Me enviou”. Jesus


estava a dizer, “Meu pai enviou-Me como um Apóstolo: agora Eu
envio-vos do mesmo modo que o Pai Me enviou.” O apostolado foi
transferido.
Vamos considerar mais ainda estes primeiros doze discípulos, que
se tornaram apóstolos. Olharemos para os antecedentes da sua nome-
ação e os detalhes das suas palavras:
E, vendo a multidão, teve grande compaixão deles porque anda-
vam desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor. Então,
disse aos seus discípulos: A seara é realmente grande, mas poucos são
os ceifeiros. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande ceifeiros para
a sua seara. (Mateus 9:36-38)
Havia necessidade de pessoas para serem enviadas para a seara
como trabalhadores, e foi precisamente o que Jesus fez a seguir:

171
E, chamando os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os es-
píritos imundos, para os expulsarem e para curarem toda a enfer-
midade e todo o mal. Ora, os nomes dos doze apóstolos são estes…
(Mateus 10:1-2,5)
Novamente, vemos o nome “apostolos” traduzido como “após-
tolos”. Vemos também o verbo “apostello”, que é traduzido como
“enviado”. Repara que no versículo um, eles são chamados discípulos,
mas depois disso, eles são chamados apóstolos. Eles foram promovi-
dos de discípulos a apóstolos no ato de serem enviados.
Incidentalmente, a primeira equipa apostólica de Jesus poderia ser
numerada com pelo menos trinta pessoas, incluindo mulheres.
E aconteceu, depois disso, que [Jesus] andava de cidade em
cidade e de aldeia em aldeia, pregando [evangelizando] e anun-
ciando o evangelho do reino de Deus; e os doze [os discípulos] iam
com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de
espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena,
da qual saíram sete demónios; e Joana, mulher de Cuza, procura-
dor de Herodes, e Susana, e muitas outras [o grego aqui é femini-
no: “muitas outras mulheres”] que o serviam com suas fazendas.
(Lucas 8:1-3)
Quando as pessoas viram a equipa de Jesus entrar numa aldeia,
elas viram a igreja em microcosmo: pessoas de ambos os sexos, de
diferentes meios sócio económicos. Do mesmo modo, os grupos mis-
sionários e as organizações deverão ser tão diversas quanto possível
para que, quando as suas equipas chegarem a várias nações, as pessoas
lá possam ver a verdadeira igreja. Eu próprio fiz parte de uma equi-
pa apostólica que se estendia à Zâmbia com associados de diferentes
meios e raças, incluindo a minha filha africana, Joska. Que diferença
faz não vir a África com muitas caras brancas! Tem um impacto to-
talmente diferente nas pessoas. De outro modo, eles tendem a pensar
que o Cristianismo é uma religião do Ocidente ou do homem bran-
co. Mas quando elas veem a igreja neste microcosmo, respondem
verdadeiramente.
O número desses primeiros apóstolos era doze, contudo, todos
nós sabemos que Judas se tornou o traidor. A Escritura diz que ele
falhou no seu apostolado. (Ver Atos 1:25). Enquanto esperavam por

172
Deus no quarto superior antes do dia do Pentecostes, o apóstolo Pe-
dro declarou aos cento e vinte discípulos reunidos ali, que era neces-
sário que esse número dos doze fosse novamente completado.
É necessário, pois, que, dos varões que conviveram connosco todo
o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu entre nós, começando
desde o batismo de João até ao dia em que dentre de nós foi recebido
em cima, um deles se faça connosco testemunha da sua ressurreição.
(Atos1:21.22)

Repara que estes primeiros apóstolos tinham que ter testemunha-


do por completo o ministério terreno de Jesus desde o tempo do Seu
batismo por João até à Sua crucificação e ressurreição. Os discípulos
propuseram dois homens que reuniam as condições, José e Matias.
Depois oraram e tiraram sortes e pediram ao Senhor para lhes indicar
através das sortes qual deles era a Sua escolha.
E, lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre Matias. E, por voto
comum, foi contado com os onze apóstolos. (versículo 26)

Então Matias tornou-se o décimo segundo apóstolo. Muitas pes-


soas ficaram com a impressão de que esta não tinha sido uma es-
colha válida, mas não há uma única frase na Escritura que levante
quaisquer dúvidas sobre a sua validade. Pelo contrário, quando Pedro
começou o seu bem conhecido discurso no dia de Pentecostes, lemos:
Pedro, porém, pondo-se de pé com os onze, levantou a sua voz e
disse-lhes… (Atos 2:14)

Os outros onze estavam todos agrupados em conjunto e todos


identificados como sendo os apóstolos. Então, percebemos que a Es-
critura realmente apoia a nomeação de Matias. Portanto, temos Jesus,
os primeiros doze e Matias, que faz um total de catorze, que foram
apontados apóstolos antes do dia de Pentecostes.

Apóstolos Depois da Ascensão de Jesus


Todas as restantes nomeações que consideraremos foram feitas de-
pois do dia de Pentecostes e depois da Ascensão de Jesus. Este é um
ponto muito significativo. Paulo falou acerca deste mesmos aconteci-
mentos quando citou o Salmo 68:18:

173
Pelo que diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro e deu dons
aos homens. (Efésios 4:8)
Repara que foi depois de Jesus ter ascendido, que Ele deu es-
tes dons aos homens. Estes dons que Ele deu estão especificados
em mais alguns versículos a frente, como já vimos no início do
capítulo:
E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros
para evangelistas, e outros para pastores e doutores… (versículo 11)
Os primeiros doze apóstolos não estão referidos nesta lista. Estes
são mais exatamente, apóstolos, profetas e outros que foram nome-
ados depois da ascensão. A linguagem é absolutamente clara e sem
ambiguidades.
Vamos agora identificar os apóstolos que foram nomeados depois
do dia de Pentecostes.
Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e dou-
tores, a saber: Barnabé e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu,
e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, ser-
vindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: “Apartai-me
a Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.”… E assim
estes, enviados pelo Espírito Santo… (Atos 13:1-2, 4)
Esta procura de apóstolos, é algo parecido com o trabalho de um
detetive. É um processo fascinante de estudo, conclusão e dedução.
Repara que Paulo foi enviado por Deus. Depois, no capítulo seguinte
de Atos, eles são chamados apóstolos.
E dividiu-se a multidão da cidade: uns eram pelos Judeus, e ou-
tros, pelos apóstolos. (Atos 14:4)
Ouvindo, porém isto, os apóstolos Barnabé e Paulo… (versículo 14)
Como resultado de terem sido comissionados e enviados pela di-
reção do Espírito Santo para uma tarefa especial, Paulo e Barnabé
tornaram-se apóstolos. Uma vez imaginei que um apóstolo desce-
ria de algum modo do céu voando, completo em todos os detalhes.
Ele apareceria simplesmente em cena pronto para partir. Esta ideia
não tem fundamento na Escritura. Existe promoção nos ministérios:
muitos homens na Escritura não começaram como apóstolos, mas

174
depois de se terem posto à prova a eles próprios em outros ministé-
rios, foram promovidos ao apostolado. Esta é uma maneira muito
razoável e prática de fazer as coisas.
Então Paulo e Barnabé eram dois novos apóstolos, além de Jesus
e dos Doze. A seguir, temos outros dois apóstolos conforme Paulo
escreveu:
Saudai a Andrónico e a Júnia, meus parentes e meus companhei-
ros na prisão, os quais se distinguiram entre os apóstolos e que foram
antes de mim em Cristo. (Romanos 16:7)
Aqui estavam mais dois homens: Andrónico e Júnia, que eram
notáveis apóstolos. Creio que a expressão “de notar” contém o signifi-
cado do versículo acima, Eles não eram somente apóstolos, mas tam-
bém eram apóstolos ilustres e bem conhecidos. Aparentemente, pa-
rentes de Paulo que se converteram a Cristo antes do próprio Paulo.
Voltando para 1 Coríntios 9:5, encontramos referência a mais
apóstolos do Novo Testamento:
Não temos nós direito de levar conosco uma esposa crente, como
também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?
Cefas, como sabemos, é um dos nomes de Pedro. Mas repara que
Paulo incluiu entre os apóstolos “os irmãos do Senhor” – os próprios
irmãos de Jesus da Sua família terrena. Encontramos este facto con-
firmado em Gálatas 1:18-19:
Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para ver a Pe-
dro e fiquei com ele quinze dias. E não vi a nenhum outro dos
apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor.
A língua indica que Tiago, o irmão do Senhor, era reconhecido
como um apóstolo. Podemos voltar para Mateus para descobrirmos
quantos irmãos terrenos Jesus teve. Aqui, as pessoas de Nazaré, a
própria cidade natal de Jesus, comentavam sobre a Sua identidade
e família:
Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria,
e seus irmãos, Tiago, e José, e Simão, e Judas? (Mateus 13:55)
Tiago é mais conhecido como o autor da epístola de Tiago, e Judas
como o autor da epístola de Judas. Na verdade, Judas identifica-se a si

175
próprio como o irmão de Tiago na sua epístola, que começa, como
é usual nas epístolas antigas, com o nome da pessoa e as suas quali-
ficações:
Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago… (Judas 1)

É muito interessante verificar que, nenhum dos irmãos físicos


de Jesus reclamou esta relação depois da Ressurreição. Por isso, en-
quanto Judas se chama a si próprio o “irmão de Tiago”, que era o
irmão mais velho depois de Jesus, ele também se chama a si mesmo
o “servo de Jesus Cristo”. Tiago começou a sua própria epístola es-
crevendo:
Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo… (Tiago 1:1)

De facto, Paulo disse em 2 Coríntios 5:16:


…e ainda que também tenhamos conhecido a Cristo segundo a
carne, contudo, agora, já não o conhecemos desse modo.

As relações carnais não eram a coisa mais importante e não lhe era
dada proeminência depois da ressurreição e ascensão de Jesus. Mas
que lição para que as nossas relações com Cristo sejam tudo o que
importa!
Os outros dois irmãos de Jesus não são tão bem conhecidos, mas
creio que, pondo estas quatro passagens da Escritura juntas, é claro
que Tiago, José, Simão e Judas eram reconhecidos como apóstolos na
igreja primitiva. Isso dá-nos mais quatro apóstolos. Vamos ver agora
os casos de Tito e outros.
Quanto a Tito, ele é meu companheiro e cooperador para con-
vosco; quanto a nossos irmãos, são mensageiros das igrejas, glória de
Cristo. (2 Coríntios 8:23)(ARIB)

A palavra Grega para “mensageiros” aqui é “apóstolos”. Suponho


que os tradutores da “New King James” (e também os tradutores de
outras versões) tinham a ideia de que somente existiam doze após-
tolos originais, e talvez Paulo, e que isto era o fim. Alguma coisa os
impediu de usarem a palavra “apóstolos”, mas não existe uma razão
válida para fazerem isso. A passagem deve-se ler assim. “Eles são após-
tolos das igrejas.” Eles são chamados assim, porque cada um deles foi

176
enviado de alguma igreja particular. Estes homens não estão especifi-
camente nomeados, mas estão mencionados no plural. O mínimo do
plural são dois, por isso nós temos Tito, que estava nomeado, e pelo
menos mais dois.
Em relação a Tito, nós o vemos fazendo o trabalho de um após-
tolo na epístola que leva o seu nome. Paulo escreveu-lhe deste modo:
Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa or-
dem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade, estabelecesses
presbíteros, como já te mandei. (Tito 1:5)
Como já vimos antes, Tito estava a exercer o ministério apostó-
lico de ordenação de anciãos em cada cidade. Por isso, a Escritura
anterior, juntamente com 2 Coríntios 8:23, mostra que Tito foi re-
conhecido por Paulo e outros como um apóstolo. De novo, pondo
estes versículos juntos, temos Tito e pelo menos mais outros dois
apóstolos.
Voltamos para Filipenses para descobrirmos que ainda há mais
um apóstolo:
Julguei, contudo, necessário mandar-vos Epafrodito, meu irmão,
e cooperador, e companheiro nos combates e vosso enviado para pro-
ver às minhas necessidades. (Filipenses 2:25)
Esta expressão, “vosso enviado” deve ser substituída por “vosso
apóstolo”. Epafrodito foi enviado como sendo um apóstolo da igreja
em Filipos. A linguagem indica claramente que cada apóstolo seria
sempre enviado a partir de uma congregação local, e que a congrega-
ção local tinha várias responsabilidades em relação com esse apóstolo.
Por exemplo, Paulo e Barnabé foram enviados a partir de Antioquia,
Epafrodito foi enviado a partir de Filipos, e os “mensageiros” men-
cionados em 2 Coríntios 8:23 foram enviado a partir de igrejas cujas
localidades não foram especificadas.
Encontramos mais dois apóstolos em 1 Tessalonicenses 1. Era
bastante comum nos tempos antigos reunirem-se em conjunto duas,
três ou mais pessoas para escreverem uma epístola, com todos os seus
nomes como co-autores, tal como vemos aqui:
Paulo, e Silvano, e Timóteo, à igreja dos Tessalonicenses… (ver-
sículo 1)

177
Silvano é outra maneira de dizer Silas. Por isso os três escritores
desta epístola são Paulo, Silas e Timóteo. Repara uma vez mais o que
é que eles dizem sobre o seu ministério coletivo:
E não buscamos glória dos homens, nem de vós nem de outros,
ainda que podíamos como apóstolos de Cristo, ser-vos pesados. (1Tes-
salonicenses 2:6)

Com efeito, eles disseram: “Poderíamos ter sido senhores absolu-


tos e ter direitos sobre vós, porque somos apóstolos, mas não fizemos
isso.” Já contámos Paulo como um apóstolo, mas aqui temos mais
ainda Silas e Timóteo. Se juntarmos todos os mencionados depois
da ascensão, temos um mínimo de catorze. Existe a possibilidade de
mais, porque num caso não sabemos quantos apóstolos não nomea-
dos existiam.
Para a maioria das pessoas, é um facto surpreendente que catorze
pessoas tenham sido nomeadas como apóstolos a seguir ao dia de
Pentecostes! Podemos perceber quanto a interpretação tradicional
continua a dominar o nosso pensamento.

A Autoridade do Ministério Apostólico


Vamos examinar em detalhe a autoridade do ministério apostóli-
co voltando a Mateus:
E, chamando os seus doze discípulos, deu-lhes poder… Jesus en-
viou estes doze… (Mateus 10:1, 5)

É importante enfatizar que a autoridade apostólica vem do pró-


prio Deus. Jesus deu poder ou autoridade aos Seus discípulos, e de-
pois enviou-os como apóstolos. Semelhantemente, o Espírito Santo
disse aos cinco profetas e doutores na igreja de Antioquia:
…apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho
chamado. (Atos 13:2)
Depois dos líderes em Antioquia terem jejuado e orado, impuse-
ram as mãos sobre Paulo e Barnabé e “enviaram-nos” (versículo 3) e
eles também se tornaram “os enviados” ou apóstolos.
Penso que é correto dizer que Deus usou instrumentos para
impulsionar Paulo e Barnabé para os seus ministérios como após-

178
tolos. Contudo, eles já tinham recebido as suas chamadas indi-
viduais:
Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho
chamado.
Eles receberam chamadas individuais e pessoais antes de terem orado
por eles e serem enviados. O que o Espírito Santo fez naquele momento
foi tornar as suas chamadas públicas e colocar o selo da Sua autoridade
sobre eles. Apesar da igreja poder reconhecer e dar a sua aprovação ofi-
cial sobre um ministério, o ministério origina-se com Deus.

A igreja pode ordenar apóstolos, mas o ministério deles origina-se


com Deus.

Penso que esta verdade contém uma lição muito importante que
vai para além do apostolado. Por detrás dos instrumentos humanos
está a autoridade do Espírito de Deus, e por detrás do Espírito de
Deus, está a cabeça da igreja, o Senhor Jesus Cristo. Por isso a autori-
dade para cada colocação na igreja é do próprio Deus. Existe uma in-
terdependência entre Deus e os agentes humanos. Tal como alguém
disse acerca de falar em outras línguas, e isto é somente um exemplo:
“Tu não podes fazer isso sem Deus, e Deus não pode fazer isso sem
ti.” E isto é verdade em muitos ministérios: nós não os podemos fazer
sem Deus, e Deus não os fará sem nós. Deus fez-Se deliberadamente
dependente de instrumentos humanos para cumprir a Sua vontade.
Por isso olhamos para o instrumento humano e reconhecemos isso,
mas através do instrumento humano temos que ver também Deus
omnipotente, que é a autoridade final.
Por isso existe cooperação entre Deus e a igreja nesta matéria do
reconhecimento e libertação dos ministérios móveis. Penso que isto
é tornado claro no título do livro de Atos. Na Nova Versão King
James, é chamado “Os Atos dos Apóstolos.” Algumas pessoas defen-
dem que se deveria ser “Os Atos do Espírito Santo.” Sabemos que
o Espírito Santo foi quem esteve por detrás, mas se Ele não tivesse
encontrado homens que o desejassem fazer, nunca teria aconteci-
do nada.
Jesus tem um desejo tremendo de abençoar, curar, libertar e trazer
paz, mas Ele não pode fazer essas coisas a não ser que os membros do

179
Seu corpo, a igreja, se tornem eles próprios disponíveis para pôr isso
em prática. A igreja manteve Jesus à espera durante muitos séculos,
antes dela própria se tornar disponível para fazer o que Ele deseja
fazer. A minha oração e intenção é que, mesmo através deste livro,
nós possamos estar mais plenamente disponíveis como instrumentos
para Jesus Cristo, para concretizar a Sua vontade. De novo, temos
que olhar para além dos instrumentos, que são muitas vezes fracos e
falíveis, para o Deus cuja autoridade é conferida ao Seu povo. Mas
são os homens que são os instrumentos de Deus na terra.
É muito interessante notar, que Paulo foi sempre extremamente
enfático em acentuar que o seu apostolado não tinha origem no ho-
mem. Na realidade, o apostolado de Paulo foi frequentemente desa-
fiado pelos seus contemporâneos. A última pessoa que poderíamos
imaginar que fosse desafiado, seria o apóstolo Paulo! Mesmo assim,
em 2 Coríntios 10:10, os críticos de Paulo chamaram à sua presen-
ça de corpo “fraca” e ao seu discurso “desprezível”. Ele não era um
pregador. Imagino que Pedro foi um tremendo pregador, mas Paulo
absolutamente não o era. Muitos dos contemporâneos de Paulo na
igreja Cristã desprezavam-no e davam-lhe pouca importância e, de
tempos a tempos, ele tinha que tomar uma atitude muito forte de-
clarando que ele era um apóstolo – não dos homens, mas de Deus.
Vamos olhar apenas para dois exemplos disto. Em Gálatas 1:1, ele
descreveu-se a si próprio como:
Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem
algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dos
mortos)…
Repara que ele é absolutamente claro sobre este facto, dizendo,
com efeito: “Nenhum homem me fez apóstolo. O meu apostolado
vem de Jesus Cristo e de Deus Pai.” Do mesmo modo, ele escreveu:
Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, segundo o mandato de Deus, nosso
Salvador, e do Senhor Jesus Cristo, esperança nossa… (1 Timóteo 1:1).
Poderemos nunca encontrar um ministro que esteja acima do
criticismo e sem faltas, mas em última analise, nós no fim de con-
tas não lidamos com o servo, mas com o Deus a quem ele serve.
Lembro-me de ter saído de um presbitério em Seattle em 1964. A

180
congregação estava com muito pena de nos ver partir. No último
domingo, quase espontaneamente, um dos diáconos disse: “Sinto
que devemos chamar o irmão e a irmã Prince à frente e que deve-
mos impor as mãos sobre eles, enviando-os.” Eu não planeei isto;
ninguém planeou isto. Contudo sempre apreciei esta experiência,
porque a nossa congregação local nos deu a sua aprovação, impôs
as mãos sobre nós e enviou-nos. Senti que Deus queria isso feito
dessa maneira. Agora, estes não eram o que alguns considerariam ser
líderes “marcantes”; antes pelo contrário, para dizer a verdade, eles
eram um grupo de diáconos desgrenhados! Eles passaram por duras
experiências e provas durante dois anos, nos mais intensos proble-
mas que uma igreja pode enfrentar. Não obstante, eles foram os ins-
trumentos de Deus naquela situação particular, e nós respeitámo-los
como tal.
Pode-se dizer que a atitude da igreja para com Deus é indicada
pela atitude da igreja para com os ministros que Deus lhes dá. Na
realidade, os Cristãos não honram mais a Deus do que honram os
ministérios dados por Deus e colocados na igreja.

Os Cristãos não honram mais a Deus do que honram os ministérios


dados por Deus e colocados na igreja.

Vemos este princípio no livro de Juízes. Baraque foi chamado por


Deus através de Débora a profetisa, para libertar Israel de uma nação
invasora. Ele disse a Débora: “Eu não vou a não ser que tu vás co-
migo.” Esta não era uma atitude comum para um homem naqueles
dias. Débora disse: “Se eu for contigo, não será para tua glória porque
Deus usará outro”. E Deus usou uma mulher, Jael, esposa de Heber,
o Queneu, para matar o líder dos inimigos. (Ver Juízes 4:4-22). O
livro de juízes contém a bem conhecida canção de Débora depois da
vitória conquistada, incluindo este versículo:
Amaldiçoai a Meroz, diz o anjo de Jeová, Amaldiçoai amarga-
mente aos seus habitantes, Porque não vieram ao socorro de Jeová, Ao
socorro de Jeová, como homens de valor. (Juízes 5:23)(SBB)

Foi uma declaração muito forte: “Amaldiçoo-te amargamente,


Meroz.” Meroz era uma das aldeias de Israel. Ter uma maldição pro-

181
nunciada e registada na Escritura sobre uma certa comunidade, é
uma coisa horrível. Porque é que foi pronunciada a maldição? “Eles
não vieram em socorro de...” - não de Baraque, mas “do SENHOR”.
Por outras palavras, o Senhor identifica-se a Si próprio com aqueles
que O servem. Aqueles que falharam em responder à chamada de
Baraque e não vieram em seu auxílio não falharam a Baraque, mas
ao Senhor.

O Senhor identifica-se a Si próprio com aqueles que O servem.

Isto não é menos verdade na igreja de hoje. Um homem chamado


por Deus e atuando dentro do Seu ministério dado por Ele, é re-
presentante de Deus. A atitude dos crentes perante ele é na verdade
a melhor indicação da sua atitude perante Deus. Eles poderão usar
uma linguagem muito piedosa em relação a Deus, mas a sua verda-
deira atitude será vista em como eles lidam com os ministros que
Deus envia. Nós não conhecemos todos os planos do Senhor. Ain-
da que Paulo tivesse de estabelecer a sua autoridade dada por Deus
continuamente, Deus usou-o de uma maneira que não o fez com
nenhum dos outros apóstolos.

As Funções de um Apóstolo
Vejamos agora as duas principais funções dos apóstolos: (1) es-
tabelecer igrejas com a devida ordem e, (2) trazer ordem às igrejas
que já existem. Tito 1:5 exemplifica esta verdade em que é dito a
Tito para pôr em ordem as igrejas existentes na ilha de Creta no-
meando presbíteros. Eu diria que o ministério de apóstolo inclui
um ou mais dos outros quatro ministérios de profeta, evangelista,
pastor e professor. A amplitude de dons requeridos a um apóstolo
para pôr uma ilha em ordem, mostra quão vasto o manto apostólico
tem que se estender. Na verdade, ele terá que atuar em muitos papéis
diferentes!

Trazer igrejas à Existência


Como nós vimos, um mandato apostólico como “um enviado” é
estender as fronteiras do reino de Deus. Um apóstolo estático é uma
auto-contradição. A essência do ministério apostólico é mover-se
para fora (sair). Não quero com isso deduzir que um apóstolo nunca

182
se deve tornar residente em algum lugar, mas quando ele o faz, atua
como um presbítero. Paulo escreveu:
Aos presbíteros que estão entre vós, admoesto eu, que também sou
presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante
da glória que se há-de revelar. (1 Pedro 5:1)
A expressão traduzida por “presbítero com eles” é uma palavra
Grega composta, da qual a melhor tradução seria “co-presbítero”. No
governo de uma igreja local não existe ninguém mais alto do que os
presbíteros ou anciãos. Portanto, um apóstolo é simplesmente um
companheiro presbítero. Isto não significa que ele esteja sem autori-
dade. Se um apóstolo falar abertamente do seu ministério apostólico
e falhares em ouvi-lo, arrepender-te-ás. Seja como for, é um género
de autoridade que funciona sendo reconhecida, mas não sendo ins-
titucionalizada.
Os apóstolos do Novo testamento foram aonde o evangelho ainda
não tinha sido pregado, trazendo pessoas para o Senhor e estabelecen-
do igrejas funcionais. Em quase todos os lugares em que pregaram,
eles deixaram igrejas estabelecidas.
E, havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em
cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em
quem haviam crido. (Atos 14:23)
Eles não deixaram somente grupos de discípulos ou grupos de
oração, mas estabeleciam congregações locais com ordem.
Todavia, os apóstolos também dão direções a igrejas que não
tiveram a sua origem pelo seu ministério. Por exemplo, o apóstolo
Paulo escreveu aos Romanos, a quem ele nunca tinha encontrado
pessoalmente. (Ver Romanos 1:10-11). Nessa epístola, ele deu-lhes
muitas instruções e direção com autoridade. Vemos o mesmo na
carta de Paulo aos Colossenses, na qual ele deu instruções e di-
reção a um grupo de crentes que nunca visitou. (Ver Colossenses
2:1, 5).
Lembra-te que ambos, Pedro e Paulo escreveram às igrejas na
Galácia. Eles nunca trabalharam juntos para estabelecer essas igrejas,
mas como apóstolos, ambos exerceram autoridade sobre elas. O as-
pecto que desejo enfatizar novamente é que um apóstolo tem autori-
dade sobre as igrejas locais, primariamente sobre igrejas que nasceram

183
diretamente pelo seu ministério. Para além disso, ele tem autoridade
sobre todas as igrejas, tal como o Espírito designa.
Em Gálatas 2, lemos que Pedro e João se encontraram com Paulo
e Barnabé para discutirem a natureza da mensagem e ministério que
Deus lhes tinha dado e, para clarificarem certos pontos de desenten-
dimento:
…antes pelo contrário, quando viram que o evangelho da incir-
cuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão (por-
que aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da
circuncisão, esse operou também em mim com eficácia para com os
gentios)… (Gálatas 2:7-8)
No capítulo catorze deste livro, mencionei que acredito que os
apóstolos são enviados mais propriamente a uma determinada parte
da humanidade do que a uma área geográfica. Repara de novo que
Pedro tinha um apostolado geral com os da circuncisão (os Judeus),
enquanto Paulo tinha um apostolado geral com os Gentios, o que se
estende para além das igrejas nascidas através tanto do Pedro como
do Paulo. Por conseguinte, um verdadeiro apóstolo tem autoridade
geral dentro da igreja universal, quer tenha sido ele quer não, o ins-
trumento usado para fazer surgir uma certa congregação. Julgo que
isto é realmente de senso comum, mas é importante ver que isto é o
que a Escritura diz.
Em 1 Coríntios 12:28 é-nos dada uma lista de alguns dos princi-
pais ministérios dentro de uma congregação:
E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo
lugar, profetas, em terceiro, doutores, depois, milagres, depois, dons
de curar, socorros, governos, variedade de línguas.
É claro que Paulo não estava a falar acerca da igreja universal, por
que ele deixou de fora os evangelistas, cujo principal ministério é
fora da congregação local. Por isso, dentro da igreja local, existe uma
ordem específica de autoridade: primeiro apóstolos, segundo profe-
tas, terceiro doutores, quarto operação de milagres, quinto dons de
curas. Se um apóstolo está presente, o seu ministério é de posição
ou hierarquia mais elevada, seguido pelo profeta e doutor. Estes três
ministros de hierarquia mais elevada são todos ministros da Palavra.
O ponto principal aqui é que o ministério da palavra de Deus tem

184
proeminência sobre todas as formas de ministério. A autoridade final
está revestida na Palavra de Deus e naqueles que são os representantes
da Palavra.
Repara também, que existem vários níveis de apostolado; isto é
muito importante. Tal como Paulo disse:
Porque penso que em nada fui inferior aos mais excelentes após-
tolos. (2 Coríntios 11:5)

Ele usou o mesmo termo de novo, dizendo:


…visto que em nada fui inferior aos mais excelentes apóstolos…
(2 Coríntios 12:11)

Anteriormente, vimos que Andrónico e Júnia se distinguiram entre


os apóstolos.(Romanos 16:7) Então existem apóstolos “muito ilustres”
e “distintos” e existem aparentemente apóstolos que “não são tão ilus-
tres” ou “não distintos”. Temos a tendência a pensar que cada após-
tolo tem que ser um Pedro ou um Paulo, mas isto não é verdade. Por
exemplo, um homem pode ser um evangelista dado por Deus mas
não atuar na escala dos evangelistas famosos. Isto não invalida a sua
reclamação de ser um evangelista genuíno dado por Deus. A mesma
coisa é verdade em relação aos apóstolos.

Discernir Falsos Apóstolos


Consideremos um ponto final e crucial ao encerrarmos este ca-
pítulo. Paulo falou acerca de certos apóstolos que apareceram como
ministros na igreja de Corinto:
Porque tais falsos profetas são obreiros fraudulentos, transfi-
gurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o
próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois,
que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça;
o fim dos quais será conforme as suas obras. (2 Coríntios 11:13-15)
As pessoas podem reclamar serem apóstolos e no entanto, serem
realmente ministros de Satanás, não de Cristo! Isto é um facto muito
sério e importante. Eles não são pessoas somente enganadas e desen-
caminhadas, mas são de facto os ministros de Satanás. Temos que
aprender uma lição em discernimento – ou sofreremos grandemente

185
por isso. As reclamações dos apóstolos têm que ser testadas. Lembra-
te disso, em Apocalipse, Jesus elogiou a igreja de Éfeso por esta mes-
ma razão:
Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não
podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos e o
não são e tu os achaste mentirosos. (Apocalipse 2:2)
É responsabilidade de cada congregação local testar os apóstolos
e aceitar somente aqueles que estão em linha com a Escritura. O seu
ministério passa o teste? Que género de vidas estão a levar? Como
é crucial que nós discirnamos o verdadeiro ministério do apóstolo
nestes últimos dias!
No próximo capítulo sublinhei algumas das características de um
verdadeiro apóstolo, que nos ajudarão a testar e receber o que é ver-
dadeiro.

186
- 17 -

As Características
de um Verdadeiro Apóstolo

Existem sete características chave de um verdadeiro apóstolo:

1. Um coração para “as regiões longínquas”


2. A capacidade de cumprir todas as tarefas especiais de um apóstolo
3. O estabelecimento de igrejas que reflete o coração de apóstolo
4. Um desejo para o ministério em equipa
5. Prestação de contas perante a igreja que envia
6. Sinais e maravilhas
7. Perseverança

Um Coração para “as Regiões Longínquas”


Uma caraterística definida de um verdadeiro apóstolo é que ele
tem sempre em vista as regiões que estão para além do mundo das
igrejas estabelecidas. Ele deseja que a obra realizada na sua presente
esfera de ação o catapulte para dentro da próxima. Um apóstolo esta-
cionário é uma contradição de termos. Paulo escreveu:
Porém não nos gloriaremos além da medida, mas conforme a
medida da esfera que Deus nos proporcionou como medida para
chegarmos mesmo até vós. Não nos estendemos além dos nossos li-
mites, como se não chegássemos a vós, pois até vós chegamos antes de
qualquer outro no Evangelho de Cristo; não nos gloriando além da
medida em trabalhos alheios, mas tendo esperança, à proporção que
cresce a vossa fé, de sermos cada vez mais magnificados em vós con-
forme a nossa esfera, para pregarmos o Evangelho nas regiões além
de vós, e não nos gloriarmos em esfera alheia de coisas já feitas. (2
Coríntios 10:13-16, ênfase adicionada)(SBB)
Repara que a palavra “esfera” ocorre três vezes e a palavra “re-
giões” uma vez. Como isto encaixa perfeitamente na mente do

187
apóstolo! Primeiro, ele tem um sentido da sua esfera: as limitações
geográficas e espirituais da sua autoridade. Para alguém com auto-
ridade significativa por todo o corpo de Cristo, não ter (e saber) os
seus limites é bastante perigoso. Mas quando um apóstolo atuar
dentro das esferas geográficas corretas, Deus dar-lhe-á resultados
esplêndidos, tal como Ele fez com Paulo. O falso profeta agarra-se
a novos lugares para exercer autoridade e expandir a sua influência.
Todavia, o verdadeiro apóstolo, cuidadosamente e com muita con-
fiança cumpre os propósitos de Deus na sua esfera. Depois Deus
expande-o para a próxima esfera através das igrejas que ele estabe-
leceu no presente.
Esta abordagem proporciona um maravilhoso controlo de qua-
lidade da extensão. Somente um apóstolo de sucesso irá expandir-se
legitimamente para uma região maior. Hoje, nós poderemos ter um
falso ministro ou apóstolo que causa estrago na sua própria área e
simplesmente reaparece em outra cidade para trazer problemas aí.
Tal confusão seria eliminada, se uma pessoa somente pudesse seguir,
quando a sua presente igreja fosse suficientemente saudável para o
enviar.

A Capacidade para cumprir Todas as Tarefas


Especiais de um Apóstolo
Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós
[a igreja de Corinto]; porque vós sois o selo do meu apostolado no
Senhor. (1 Coríntios 9:2)
Os crentes em Corinto eram o selo ou a prova do ministério apos-
tólico de Paulo, porque eles eram a evidência de que ele podia fazer
o que um apóstolo tem que fazer. Paulo podia ir a Corinto onde o
evangelho não tinha sido pregado e trazer as pessoas à salvação, tê-los
batizados em água e no Espírito Santo, introduzi-los no exercício dos
dons do Espírito Santo e, estabelece-los numa congregação local com
os seus próprios presbíteros (anciãos). Por outras palavras, Paulo con-
seguiu fazer o trabalho na totalidade, de cima a baixo. A capacidade
de fazer isto coloca-o à parte, ou estabelece-o no ministério apostó-
lico. Se Paulo fosse apenas um evangelista, ele poderia ter trazido os
Coríntios ao Senhor mas teria sido necessário, outro ministério para
completar o trabalho. Se tivesse sido um professor, ele poderia não

188
os ter levado à salvação. A capacidade para fazer todas estas coisas é a
prova do apostolado.
A tarefa de um apóstolo pode ser resumida da seguinte maneira:
Ele é o “mestre de obras”que estabelece e mantém a ordem da igreja.
Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio
arquiteto, o fundamento... (1 Coríntios 3:10)
O apóstolo é o empreiteiro mestre que entende cada fase da cons-
trução – dos fundamentos ao teto. Tem em mente que antes de Paulo
ter ido a Corinto, o evangelho não tinha sido pregado lá. Não havia
crentes ali. Depois de ele ter pregado o evangelho, ajudou a desenvol-
ver uma congregação local completa, auto-suficiente e auto-governa-
da. Esta foi uma tarefa sobrenatural! Tenho trabalhado com crentes
durante muitas décadas em vários continentes e, posso testemunhar
que somente um apóstolo poderia fazer surgir uma igreja a funcionar
em território novo.
O selo do apostolado é a autenticação exterior que pode ser vista
por qualquer pessoa que se importe de olhar.
Hoje teríamos tido muito menos homens usando o título de após-
tolo, se as pessoas verificassem os seus selos antes de aceitarem a sua
autoridade. Nós deveríamos considerar ir visitar a igreja ou igrejas
plantadas pelos apóstolos para testarmos o fruto dos seus ministérios.
Paulo pôde convidar aqueles que questionavam a sua autoridade para
verificarem o seu trabalho – não o seu website!

Paulo pôde convidar aqueles que questionavam a sua autoridade


para verificarem o seu trabalho – não o seu website!

Os apóstolos têm um desejo ardente de terem fruto duradouro.


Eles podem ter igrejas pequenas para mostrar, mas estas serão cons-
truídas como por um artesão mestre.

O Estabelecimento de Igrejas Que Refletem


o Coração de Apóstolo
Os apóstolos amam a igreja local apaixonadamente. Depois de
tudo, é seu supremo desejo que as igrejas locais sejam estabelecidas e
cumpram a sua chamada. Tenho notado alguns sinais de uma igreja
plantada por um verdadeiro apóstolo:

189
• Elas têm o espírito das missões
• Elas colocam uma ênfase na oração
• Elas tendem a ser multiétnicas
• Elas preocupam-se com os pobres

Por outras palavras, elas refletem o coração do apóstolo fundador,


que sonha em estender o reino de Deus em todas as áreas da cidade
e do mundo.

O Desejo para o Ministério em Equipa


Um apóstolo que trabalha individualmente é antibíblico. Não
há exemplo disto em nenhum lugar no Novo Testamento. O ver-
dadeiro apóstolo não tem medo do “ministério em equipa”, para
usarmos uma expressão que se tornou bastante popular. É saudável
para aqueles que exercem autoridade significativa, entrarem em rela-
ções interpessoais fortes. Dos cinco ministérios principais descritos
em Efésios 4:11, três são sempre mencionados no plural – apóstolos,
profetas e pastores. Nunca é o apóstolo, o profeta ou “o” pastor. Exis-
tem apenas dois ministérios que poderão operar individualmente: o
evangelista e o doutor (professor). Qual é a diferença? O apóstolo,
profeta e pastor estão preocupados com a ordem da igreja, a qual é
tão importante que Deus não entregou isso a uma pessoa individual.
Esta pluralidade é um elemento-chave para procurar no ministério
apostólico.
Não posso evitar comparar aqui o evangelista e o apóstolo. Repara
na história de Filipe em Atos 8. Um único homem desceu a Samaria,
uma cidade muito importante na altura. Ele operou sozinho, sem um
comité. Não havia banda, presidente de câmara ou chefe de polícia
para lhe dar as boas vindas. Na verdade ele não tinha nada! Ele foi
simplesmente a Samaria e virou a cidade de cima para baixo. Mas este
primeiro evangelista não terminou a construção da igreja. Ele somen-
te trouxe as pessoas para duas experiências – salvação e batismo na
água. Ele nem sequer levou as pessoas ao batismo no Espírito Santo.
Encontramos a história no versículo 14:
Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Sa-
maria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João.
(Atos 8:14)

190
Havia lá apenas um evangelista, mas dois apóstolos. O evangelista
é o “pára-quedista” de Deus, aquele que aparece inesperadamente para
além das linhas do inimigo e causa grandes estragos, mesmo antes do
inimigo saber que ele está ali. O apóstolo é geralmente o composto de
todos os cinco ministérios principais. Ele pode revolver o chão como
evangelista, mas também acabar toda a construção. E porque apro-
funda assuntos de ordem, ele faz o seu trabalho em equipa.

Prestação de contas Perante a Igreja que Envia


Um apóstolo não é um apóstolo a não ser que ele seja enviado.
Em ordem a ser enviado, tem que haver alguém que o envie. Como
temos visto, a igreja local é responsável pelos apóstolos que ela envia
– pela sua ética, a sua moral e a sua doutrina. Se ele se desencaminhar,
a igreja local está autorizada a retirar o seu apoio do seu ministério
apostólico.
Se um apóstolo permanecer dentro da sua divisão geográfica e es-
fera espiritual, ele poderá fazer um bem extraordinário. Se ele perder
a cabeça em alguma situação para a qual não recebeu graça, teremos
uma catástrofe. Num verdadeiro apóstolo, um forte sentido de juste-
za, respeito e de temor de Deus, estão equilibrados com a confiança
e audácia apostólica. Por favor, lembra-te que existem apóstolos ge-
nuínos e apóstolos falsos; temos que os testar. A maioria de nós não
consegue imaginar alguém no ministério sendo um mentiroso, mas
isso acontece. Exageros, falta de ética financeira, pecado sexual e erro
doutrinal, são todos faltas comuns dentro dos ministérios móveis.

Sinais e Maravilhas
O apóstolo também demonstra o seu apostolado através da atesta-
ção de miraculosos sinais, maravilhas e milagres. Um apóstolo é mais
do que um pastor ou evangelista com sucesso. Isto é um conceito im-
portante para entender, porque o termo apóstolo por vezes é aplicado
a tais homens. Graças a Deus pelo ministério pastoral com sucesso,
mas isso, só por si, não faz de uma pessoa um apóstolo. O ministério
de um apóstolo tem que incluir o sobrenatural:
Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós, com
toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas. (2 Corín-
tios 12:12)

191
Vamos olhar para outras duas versões deste versículo em ordem a
obtermos o impacto total do que ensina:
Os sinais dum apóstolo foram, de fato, operados entre vós com
toda a paciência, por milagres, por prodígios e por virtudes sobrena-
turais. (2 Coríntios 12:12) (SBB)
As marcas de um apóstolo — sinais, maravilhas e milagres
— foram demonstradas entre vocês, com grande perseverança.
(2 Coríntios 12:12) (NVI)
Penso que estas três traduções tornam absolutamente claro, que
um apóstolo sem o milagroso é um apóstolo incompleto. Ele poderá
ser um apóstolo novato, ou poderá estar no caminho para ser um
apóstolo, mas ele não é um apóstolo do Novo Testamento.

Um apóstolo sem sinais sobrenaturais é um


apóstolo incompleto.

Em 1964, estava a ministrar num encontro com um irmão que é


conhecido por muitos Cristãos - Kenneth Hagin. Ele transmitiu uma
profecia que ficou na minha mente desde essa altura. Ao predizer o
que Deus iria fazer na igreja, ele disse algo com este sentido: “Deus
fará surgir apóstolos e profetas em plena estatura.” Esta afirmação
refere-se a um versículo na Versão King James, que diz:
...até que todos cheguemos... à medida da estatura completa de
Cristo. (Efésios 4:13)
Há algum tempo atrás, Deus disse-me muito claramente que Ele
iria em breve manifestar apóstolos e profetas no corpo de Cristo, de
tal maneira que não será necessário identificá-los, porque o seu mi-
nistério e os seus frutos atestarão suficientemente o que eles são.
Eu acho que muitas pessoas têm de algum modo uma atitude ne-
gativa perante o sobrenatural. Se alguém recebe uma visão, então ele
ou ela é considerado maluco. Bem, isso torna Paulo e Pedro malucos.
Também ouço pessoas dizerem que alguém pode ter um ministério
sobrenatural mas o seu carácter não está à altura. Por conseguinte,
por uma dedução muito ilógica, essas pessoas não querem ter nada a
ver com um ministério sobrenatural. É verdade que um crente pode-

192
rá operar milagres, enquanto outro exibe uma personalidade divina,
mas porque é que a pessoa com carácter não poderá também operar
milagres?
Consideremos aqueles cujo carácter mais admiramos no Novo
Testamento: Jesus, Pedro, João, Estêvão, Filipe e Paulo. Jesus e estes
restantes homens tiveram ministérios sobrenaturais tremendos. Cer-
tamente, os homens no Novo Testamento com personalidade tam-
bém operaram milagres.

Propósitos do Sobrenatural no
Ministério Apos-tólico
Existem dois propósitos principais do sobrenatural, os quais refor-
çam o ministério de apóstolo dado por Deus:

1. Para Produzir obediência


Falando sobre Jesus Cristo, Paulo disse:
…pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência
da fé entre todas as gentes pelo seu nome. (Romanos 1:5)
O ministério apostólico foi dado para causar a “obediência da fé”.
Mas como é que isto seria cumprido?
Porque não ousaria dizer coisa alguma, que Cristo por mim não
tenha feito, para obediência dos gentios, por palavras e por obras;
pelo poder dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus;...
(Romanos 15:18-19)
Vamos ver esta Escritura na Nova Versão Internacional:
Não me atrevo a falar de nada, exceto daquilo que Cristo rea-
lizou por meu intermédio em palavra e em ação, a fim de levar os
gentios a obedecerem a Deus: pelo poder de sinais e maravilhas e por
meio do poder do Espírito de Deus. ... (Romanos 15:18-19)
O sobrenatural tem um propósito prático muito importante, cau-
sando nas pessoas o chegarem à fé em Cristo ao testemunharem a
manifestação do Seu poder e Sua força. Esta verdade tornou-se muito
clara para mim quando estava na África Este ministrando a estudan-
tes num colégio onde servi como diretor. Basicamente, os estudantes
estavam cooperantes e com boa vontade. Fiz toda a pregação e en-

193
sino que podia. Enchi-os com a Escritura por todos os canais e eles
diziam: “sim, senhor; sim, senhor,” mas os resultados eram frustran-
tes. Havia qualquer coisa que estava a faltar. Eventualmente, disse ao
Senhor: “Vou parar de tentar torná-los naquilo que quero que eles
sejam e, vou começar a orar por eles.” Cerca de seis meses depois,
um homem africano, novo, com pouca cultura, apareceu – com uma
guitarra que ele mal podia tocar – e disse: “Gostaria de pregar aos
seus estudantes.”
Ora, se havia uma coisa em que os meus estudantes tinham orgu-
lho, era na sua educação. Pensei: “Como irá um homem que nunca
passou para além do nível cinco, alguma vez convencer estes estudan-
tes?” Minha esposa Lydia disse com a sabedoria que lhe era caracte-
rística: “Vamos orar com ele e ver como ele é.” Orar com ele foi como
estar à porta do céu, por isso dissemos: “Se ele consegue orar assim,
deixaremos ele pregar.”
O poder de Deus desceu, os milagres começaram e, aqueles es-
tudantes dentro de poucas semanas, eram um grupo de pessoas to-
talmente diferentes. Como vês, existe uma grande diferença entre a
alma e o espírito. Eu tinha estado a alcançar as suas almas com ensi-
namentos, conselhos e disciplina. Todas estas coisas são muito boas,
mas elas apenas vão até aqui. Os milagres atingem o espírito porque
é o poder sobrenatural do Espírito Santo que os realiza. Podes argu-
mentar com pessoas durante muito tempo, mas só os podes levar até
um certo ponto. Alguma coisa tem que acontecer, algo totalmente
sobrenatural.
Esta verdade tornou-se especialmente clara para mim, porque todo
o meu passado foi raciocinar. Antes de me tornar Cristão, conseguia
entender livros complexos, conseguia ler em Inglês, Grego, Latim,
ou mesmo Russo – mas não conseguia entender o evangelho! Isso
era a coisa mais frustrante. Nunca o entendi até ter uma experiência
miraculosa. Depois disso, não pude deixar de entender o evangelho.
Por isso quero dizer-te que o miraculoso não é coisa desnecessária.
Uma vez estava em Miami com um maravilhoso grupo de mi-
nistros onde um homem tinha sido convidado, para falar acerca do
que ele tinha descoberto em relação ao batismo na água. Ele era um
homem bom e respeitei a sua opinião. Ele disse que descobriu que,
se ensinares as pessoas acerca do batismo na água – que é o enterrar a
velha natureza e o passado – eles não terão problemas recorrentes de-

194
pois na sua personalidade e no seu comportamento. Podes lidar com
isso de uma vez por todas. E acrescentou que habitualmente põem os
crentes num curso durante seis semanas e depois batiza-os.
Não era minha intenção fazer troça desta linha de pensamento,
mas porque era altura para um período de perguntas e respostas,
levantei-me e perguntei: “Então como é que é isso, no Novo Testa-
mento, eles batizavam pessoas invariavelmente no mesmo dia?” De
facto, com o prisioneiro Filipense, eles nem sequer esperaram para
amanhecer. Qual é a diferença? Dir-te-ei qual era a diferença. Havia
um trabalho do Espírito Santo que deu revelações instantâneas. E
não existe substituto para isso. Isso poupa muito desencorajamento e
frustração. Ensinar a Palavra é essencial, mas uma revelação sobrena-
tural do Senhor é tudo o que é preciso para o batismo na água.
Alguns homens têm ministérios miraculosos e, por vezes temos
tendência a amesquinhar e a depreciá-los. Mas seria melhor que ve-
rificássemos quanto tempo estes homens passam em oração antes de
criticá-los.

2. Para Produzir Resultados Máximos


O segundo propósito do sobrenatural é produzir resultados má-
ximos no mínimo tempo. Se olharmos novamente para Atos 14, ve-
remos que os apóstolos passaram por um grupo de cidades e con-
quistaram convertidos para o Senhor. Depois continuaram e quando
regressaram, nomearam presbíteros – duvido que tenha sido mais
do que seis meses depois. Em quantos lugares poderíamos fazer isto
hoje? Frequentemente, sentimos que leva entre dois a cinco anos para
produzir presbíteros. Havia qualquer coisa em ação no Novo Testa-
mento que não vemos com frequência hoje. No Espírito, as coisas
podem acontecer quase instantaneamente – isso é o sobrenatural. É
como entrar na Nova Jerusalém onde a luz é tão clara como o cristal
– vês as coisas instantaneamente; não há necessidade de sentar-se e
pensar nelas.
Aconselhar-se, por exemplo. Não sou muito bom para acon-
selhamento e, isso é uma fraqueza minha. As pessoas precisam de
aconselhamento, mas fico cansado de ouvir os problemas das pessoas
durante duas horas! Não tenho assim tanta paciência. De preferência
teria as pessoas numa sessão de libertação e expulsaria os demónios.
Ora, libertação não é substituto para aconselhamento, quero que sai-

195
bas. Contudo em certas circunstâncias, pode abreviar grandemente
o aconselhamento. Uma outra coisa que ajuda no aconselhamento é
uma palavra de conhecimento. Um homem poderá estar ali sentado
contando-te a sua versão da história, mas tu sabes que ele está sim-
plesmente a mentir, Isso não aconteceu da maneira que ele te está a
contar. Isso é conhecimento sobrenatural.
Tenho a certeza que todos querem ser um apóstolo imediatamen-
te! Por isso quero dizer-te o que é que está envolvido antes de tomares
a decisão final a aplicar. Antes de assinares essa ficha de inscrição
apostólica, escuta apenas por um momento a descrição do trabalho.
A igreja dos Coríntios tornou-se tremendamente conhecedora – eles
acreditavam que sabiam tudo e que tinham tudo. Por isso Paulo
disse-lhes:
Já estais fartos! Já estais ricos! Sem nós reinais! E prouvera Deus
reinásseis para que também nós reinemos convosco! Porque tenho
para mim que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como con-
denados à morte; pois somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos e
aos homens. Nós somos loucos por amor de Cristo, e vós, sábios em
Cristo; nós, fracos, e vós, fortes; vós, ilustres, e nós, vis. Até esta pre-
sente hora, sofremos fome e sede, e estamos nus, e recebemos bofetadas,
e não temos pousada certa, e nos afadigamos, trabalhando com nossas
próprias mãos; somos injuriados e bendizemos; somos perseguidos e
sofremos; somos blasfemados e rogamos; até ao presente, temos che-
gado a ser como o lixo deste mundo e como a escória de todos. (1
Coríntios 4:8-13)
Agora podes assinar na linha tracejada!

Perseverança
Voltemos para 2 Coríntios 12:12, onde Paulo descreve alguns si-
nais do apostolado:
Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós, visto
que em nada fui inferior aos mais excelentes apóstolos, ainda que
nada sou.
Um apóstolo tem que ter paciência e resistência. Quando outros
ficam desencorajados, desistem e regressam, o apóstolo resiste. Por
exemplo, quando toda a gente abandonou Paulo, ele disse:

196
Porque Demas me desamparou, e ninguém está comigo, mas eu
mantenho-me fiel. (Ver 2 Timóteo 4:6-18).

Repara na expressão “entre vós” em 2 Coríntios 12:2, signifi-


cando que esses sinais têm sido manifestados na igreja em Corinto.
Um apóstolo tem a força de personalidade para continuar a mover-
-se numa área até que sinais e prodígios confirmem a Palavra numa
igreja local. Um apóstolo não anda apenas de região em região, mas
também pode manter-se numa determinada localidade até as coisas
funcionarem. Esta característica separa um verdadeiro apóstolo de
um falso apóstolo; um verdadeiro apóstolo tem um coração de pai
para cada igreja que ele planta. (Ver 1 Coríntios 4:14-15). Ele con-
segue manter-se lá até já não ser mais preciso e depois nomeia líderes
que continuarão como ele faria.

Um verdadeiro apóstolo tem um coração de pai para cada igreja


que ele planta.

Muitos ministros móveis têm resistência mas nunca produzem


sinais e prodígios, enquanto outros enfatizam o sobrenatural mas
mostram pouca paciência para os detalhes práticos de um constru-
tor mestre. O verdadeiro apóstolo mostra resistência devido às suas
relações pessoais, que no fim produzirá uma atmosfera para o sobre-
natural.

A Necessidade de Apóstolos, Hoje


Com todo o potencial para abuso, o ministério apostólico é ex-
tremamente preciso hoje mais do que nunca. Consideremos o cres-
cimento explosivo da igreja em nações como China, Índia e África.
Estou pessoalmente informado sobre apóstolos que estão plantando
e supervisionando centenas de igrejas em áreas primitivas que Deus
está a visitar. Como é que a igreja pode chegar à maturidade sem
todos estes cinco principais ministérios, incluindo o apóstolo? Como
já vimos, metade dos apóstolos mencionados na Escritura, vieram
depois da ascensão de Cristo, significando que o ofício de apóstolo
continua em força hoje! O facto de existirem falsos apóstolos não é
razão para não existirem apóstolos; como também o abuso das lín-
guas, não é razão nenhuma para não praticar ou falar verdadeiramen-

197
te em línguas. O remédio para o abuso nunca é deixar de usar, mas
sim usar adequadamente.
Em anos recentes tenho visto surgir vários ministérios apostólicos
e redes de trabalho; estou aberto para todos eles. Estou certo de que
estamos numa fase infantil com esta restauração do ministério apos-
tólico. Este é um tempo em que as motivações, as relações e as ma-
neiras de operar estão a ser refinadas. Acredito que veremos reemergir
o ministério apostólico puro e verdadeiro, especialmente nas nações
do Terceiro Mundo. Eu não olho para as nações do Ocidente para
liderarem o caminho nesta restauração; existe demasiado egoísmo e,
continua presente no Ocidente uma mentalidade colonial. Os meus
olhos estão postos nas igrejas que estão a emergir na Ásia e outras
áreas que estão a experimentar a colheita. Estou à procura de emergir
o verdadeiro apóstolo e, acredito que ele virá de uma direção que nós
não esperamos.
Nos finais dos anos 60 o Senhor mostrou-me que uma grande
colheita de gente nova estava a vir para a América. Vi que Deus tinha
chamado muitos deles diretamente da escola secundária para o mi-
nistério sem terem frequentado um colégio de Bíblia ou encontrado
emprego secular. E assim aconteceu. Estive intimamente associado (e
ainda estou) com alguns que se tornaram ministros quíntuplos num
modo orgânico como no Novo Testamento. Vejo o apóstolo emergir
simplesmente desta maneira e, oro para que haja olhos que o vejam e
o apoiem quando ele vier!

198
- 18 -

Ministério Móvel: Profetas

Consideraremos agora o ministério de profeta, um ministério que


percorre através de toda a Bíblia. Em Atos 3:21, lemos:
…dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas,
desde o principio.
Existem profetas na Escritura mesmo muito antes do tempo de
Abraão, tal como Enoque, que Judas menciona como profetizando.
(Ver Judas 14-15). Abraão também é descrito como um profeta. O
Senhor disse ao rei pagão Abimeleque:
Agora, pois, restitui a mulher ao seu marido [Abraão], porque
profeta é e rogará por ti, para que vivas... (Génesis 20:7)
Portanto, enquanto o ministério de apóstolo surge somente no
Novo Testamento, o ministério de profeta está nesta extensão através
de todas as dispensações de Deus lidando com o seu povo na terra.
Isto é de uma importância e interesse tremendo. Longe de ser algum
fenómeno estranho da Nova Era, o ministério de profeta é funda-
mental nas interações de Deus com o homem.
Vamos considerar por um momento o que é realmente um profeta.
No Novo Testamento, a palavra “profeta” vem da palavra Grega “prophe-
tes” e, o seu sentido literal é “aquele que fala publicamente”. O profeta
fala publicamente em nome de Deus, pela inspiração do Espírito Santo.
Essencialmente, podemos chamar o profeta o “porta-voz de Deus”.
Muitas pessoas pensam que a profecia contém sempre a predição
do futuro, mas isso não é correto. Toda a afirmação feita publicamen-
te, em nome de Deus pela inspiração do Espírito Santo, é classificada
como profecia. Algumas profecias estão relacionadas com o passado,
como por exemplo as que estão registadas nos primeiros capítulos dos
Génesis, onde Moisés descreve acontecimentos da história primitiva

199
que não se podiam saber por conhecimento natural. Eles só podiam
ser transmitidos por revelação divina e, por isso Moisés falou da cria-
ção como um profeta.
Essencialmente, creio que a descrição que a Escritura nos dá de
um profeta é: daquele que permanece no conselho do Senhor. Veja-
mos uma afirmação muito notável:
Certamente o Senhor JEOVÁ não fará coisa alguma, sem ter re-
velado o seu segredo aos seus servos, os profetas. (Amós 3:7)
A palavra “segredo” também poderia ser traduzida por “conselho”
ou “plano”. Esta é a natureza do ministério profético – uma pessoa
que entende o conselho interior de Deus.

A Bíblia descreve um profeta como: aquele que permanece no


conselho do Senhor.

Em todas as épocas existe um propósito específico de Deus e, para


poder receber as bênções de Deus, tens que te movimentar na linha
do Seu propósito para esse momento. O profeta revela o propósito e
o conselho específico de Deus para uma situação ou geração particu-
lar. Em toda a história, Deus não faz nada sem revelar o seu conselho
e propósito secreto aos seus servos, os profetas.

No Antigo Testamento
Antes de examinarmos o ministério do profeta no Novo Testa-
mento, vamos considerar a imagem do ministério profético no An-
tigo Testamento. Um dos grandes profetas do Antigo Testamento,
Elias, foi projetado no palco da história de Israel. A Bíblia não nos diz
nada sobre o seu passado, mas ele apareceu de repente duma maneira
muito dramática e poderosa:
Então, Elias, o tesbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe
[rei de Israel que tinha sido seduzido na idolatria e na maldade
pela sua esposa, Jezabel]: Vive o SENHOR Deus de Israel, perante
cuja face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá, se-
não segundo a minha palavra. (1 Reis 17:1)
A coragem de Elias tem sido sempre para mim de cortar a respira-
ção. Com efeito, ele estava a dizer: “A partir de agora, a queda de chuva

200
e de orvalho estão sob o meu controlo, Acabe, e eu vou decidir se eles
descerão ou não.” As palavras através das quais Elias se apresenta a Aca-
be, contém o pensamento central do profeta. Ele disse: “Assim como o
SENHOR Deus de Israel vive, perante cuja face estou…” A frase chave
é: “perante cuja face estou”. Um profeta é aquele que está perante Deus.
A outra frase que é frequentemente usada para descrever o que
o profeta faz, como já tínhamos vista antes, é “estar no conselho de
Deus.” Ele está perante Deus, atento, esperando para ouvir e trans-
mitir a mensagem de Deus. Este é o requisito essencial do verdadeiro
profeta bíblico: ele recebe a mensagem na presença de Deus e trans-
mite-a com plena autoridade. Não é a sua mensagem, mas sim de
Deus e a responsabilidade pelas suas consequências e impacto ficam
com Deus, não com o profeta.
A Escritura diz que não caiu chuva na terra durante três anos e
meio. (Ver 1 Reis 18:1; Lucas 4:25; Tiago 5:17). Elias provou a sua
afirmação de que controlaria a queda da chuva e do orvalho! Passado
este período, Elias recebeu uma nova comissão do Senhor:
E sucedeu que, depois de muitos dias, a palavra do SENHOR
veio a Elias no terceiro ano, dizendo: Vai e mostra-te a Acabe, porque
darei chuva sobre a terra. (1 Reis 18:1)
Estas palavras sempre captaram o meu interesse, porque vejo nelas
que o profeta não pode estar divorciado da sua mensagem. Não é
apenas uma mensagem, mas sim um “homem” com uma mensagem.
Deus disse: “Vai e mostra-te a Acabe, porque darei chuva sobre a
terra.” Este ponto é tremendamente significativo. Recordo-me de um
dia ter ouvido esta frase: “Deus usa homens, não métodos.” Os mé-
todos de Deus não servem para nada se Ele não tiver homens que os
possam pôr em prática! Não consigo imaginar mais ninguém toman-
do o lugar de Elias, uma vez que ele era absolutamente caraterístico
do seu Deus. Ele tipificava certas coisas sobre Deus pela sua coragem,
a sua relutância em querer, de modo algum, comprometer a vontade
de Deus, a sua recusa para mostrar qualquer espécie de respeito por
um rei mau. Ele recusou-se a curvar-se perante Acabe, tinha uma
mensagem de Deus e estava determinado a transmiti-la. Este é o ver-
dadeiro espírito do profeta bíblico.
Por outro lado, a maioria dos pregadores pensam sobre as reações
das pessoas, no que elas vão dizer: “O que pensarão as pessoas? Como

201
irão reagir? Irei ofender-lhes?” Os profetas bíblicos não podiam ter-se
importado menos em como é que as pessoas reagiam às suas mensa-
gens, porque eles estavam preocupados primeiramente em transmitir
a mensagem pura de Deus sem juntarem ou tirarem nada a ela. Eles
eram simultaneamente destemidos e confrontadores.

Verdadeiros e Falsos Profetas


Em ambos, no Antigo e no Novo Testamento houve muitos falsos
profetas. De facto, um dos temas interessantes e importantes do pro-
feta Jeremias era os falsos profetas do seu tempo. Os falsos profetas
excederam em muito os verdadeiros, tal como aconteceu no tem-
po de Acabe. Vamos considerar uma passagem em Jeremias 23 que
apresenta o contraste entre o verdadeiro e o falso profeta. Ao longo
do texto, notarás a repetição da frase: “permanece no conselho do
Senhor”, que corresponde à expressão de Elias: “manter-se perante
o Senhor.”
Portanto, assim diz o SENHOR dos exércitos acerca dos profetas:
Eis que lhes darei a comer losna, e lhes farei beber águas de fel, por-
que dos profetas de Jerusalém saiu a contaminação sobre toda a terra.
(Jeremias 23:15)
Aqui nós vemos a influência do ministério profético. Se é puro,
traz pureza, limpeza e cura; mas se é impuro e profano traz impureza
e profanação para dentro de toda a terra.

Profecia pura, traz pureza, limpeza e cura; profecia falsa traz impu-
reza e profanação.

Por detrás da profanação e impureza nos Estados Unidos hoje,


estão falsos profetas que deturpam a Deus e Seus padrões. Toda a na-
ção foi profanada e, à luz das Escrituras, os falsos profetas são a fonte.
Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Não deis ouvidos às pala-
vras dos profetas que entre vós profetizam; ensinam-vos vaidades e
falam da visão do seu coração, não da boca do SENHOR. Dizem
continuamente aos que me desprezam: O SENHOR disse: Paz tereis;
e a qualquer que anda segundo o propósito do seu coração, dizem:
Não virá mal sobre vós. (Jeremias 23:16-17)

202
Certamente, existe muito desta espécie de profecia hoje, compro-
metida com a maldade e sugerindo que Deus irá desculpar e tolerar o
pecado. Isto é falsa profecia. Repara no que Deus disse:
Porque quem esteve no conselho do SENHOR, e viu, e ouviu a
sua palavra? Quem esteve atento à sua palavra e a ouviu? Eis que
saiu com indignação a tempestade do SENHOR, e uma tempestade
penosa cairá cruelmente sobre a cabeça dos ímpios. Não se desviará
a ira do SENHOR até que execute e cumpra os pensamentos do
seu coração; no fim dos dias, entendereis isso claramente. (Jeremias
23: 18-20)
Esta mensagem refere-se aos tempos nos quais estamos a viver, os
últimos dias. Depois Deus voltou ao tema dos falsos profetas:
Não mandei os profetas; todavia, eles foram correndo; não lhes
falei a eles; todavia, eles profetizaram. Mas, se estivessem no meu
conselho, então, fariam ouvir as minhas palavras ao meu povo, e
o fariam voltar do seu mau caminho e da maldade das suas ações.
(versículos 21-22)
Não é suficiente estar bem intencionado. De facto, é extrema-
mente perigoso estar bem intencionado se falares sem teres uma pa-
lavra vinda de Deus.
Repara de novo que a marca do verdadeiro profeta, é que ele está
no conselho do Senhor. Se estes profetas tivessem estado no conselho
do Senhor, ouvido as Suas palavras, e tivessem feito com que o Seu
povo também as ouvisse, teria havido arrependimento e um regresso
a Deus. Por isso, num certo sentido, os profetas eram responsáveis
pela condição da nação.
Sou eu apenas Deus de perto, diz o SENHOR, e não também
Deus de longe? Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que
eu não o veja? -- diz o SENHOR. Porventura, não encho eu os céus
e a terra? -- diz o SENHOR. Tenho ouvido o que dizem aqueles pro-
fetas, profetizando mentiras em meu nome, dizendo: Sonhei! Sonhei!
(Jeremias 23:23-25)
Estes versículos referem-se às pessoas com revelações super-espi-
rituais, sonhos e visões que divertem os ouvidos dos outros, mas que
não têm nenhuma verdadeira mensagem de verdade e arrependimen-

203
to. Tenho encontrado muitas pessoas assim – seduzindo e fascinando
pessoas, mas não produzindo resultados bíblicos.
Até quando sucederá isso no coração dos profetas que profetizam
mentiras, e que só profetizam do engano do seu coração? Os quais
cuidam fazer com que o meu povo se esqueça do meu nome pelos
seus sonhos que cada um conta ao seu próximo, assim como seus pais
se esqueceram do meu nome por causa de Baal. O profeta que tem
um sonho conte o sonho; e aquele que tem a minha palavra, fale a
minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? diz o
SENHOR. Porventura a minha palavra não é como o fogo, diz o
SENHOR, e como um martelo que esmiuça a pedra? Portanto, eis
que eu sou contra os profetas, diz o SENHOR, que furtam as minhas
palavras, cada um ao seu próximo. Eis que eu sou contra os profetas,
diz o SENHOR, que usam de sua própria linguagem, e dizem: Ele
disse. Eis que eu sou contra os que profetizam sonhos mentirosos, diz
o SENHOR, e os contam, e fazem errar o meu povo com as suas
mentiras e com as suas leviandades; pois eu não os enviei, nem lhes
dei ordem; e não trouxeram proveito algum a este povo, diz o SE-
NHOR. (Jeremias 23:26-32)
A exigência do profeta é que fale a palavra de Deus com fideli-
dade. A “palha” que aqui se fala refere-se ao falso profeta, o “trigo”
refere-se ao verdadeiro profeta. Encontramos nesta passagem e nou-
tras, que muito mais responsabilidade é colocada à porta dos profe-
tas da nação pela condição dessa nação, do que a maioria de nós se
apercebe. O verdadeiro profeta que está no conselho do Senhor e
transmite a Sua palavra, levará as pessoas para Deus. Onde não existe
um profeta assim, a nação está enganada e desencaminhada pelos
falsos profetas.
Tudo aquilo que Deus faz entre os homens será revelado a esses
que estão no Seu conselho e partilham os Seus segredos. O verdadeiro
profeta é aquele que conhece as motivações e os propósitos interiores
dos procedimentos de Deus. Isto exige uma relação muito íntima e
pessoal com o Senhor.

“Digerir” a Mensagem de Deus


Jeremias falou da sua própria experiência do que significa ser um
porta-voz de Deus:

204
Tu, ó SENHOR, o sabes; lembra-te de mim, e visita-me, e vinga-
me dos meus perseguidores; não me arrebates, por tua longanimida-
de; sabe que, por amor de ti, tenho sofrido afronta. Achando-se as
tuas palavras, logo as comi, e a tua palavra foi para mim o gozo e ale-
gria do meu coração; porque pelo teu nome me chamo, ó SENHOR,
Deus dos Exércitos. (Jeremias 15:15-16)

Repara que o profeta “digere” a mensagem de Deus. Deus falou


algo semelhante a Ezequiel quando lhe entregou um rolo contendo
lamentações, tristeza e mágoa, escrito em ambos os lados e disse: …
come o que eu te dou. (Ezequiel 2:8) Quando Ezequiel comeu aquilo,
ele ficou capaz de transmitir a mensagem. (Ver Ezequiel 2-3)
De novo, o homem e a mensagem tornam-se identificados um
com o outro. A mensagem que o profeta trás, vai penetrando o seu
próprio espírito e torna-se uma parte dele antes de ele a transmitir.
Verificarás que isto é verdade para quase todos os grandes profe-
tas do Antigo Testamento. Num certo sentido ou noutro, eles ti-
veram que digerir ou assimilar a mensagem que tinham de trans-
mitir. Existe uma identificação única com o Senhor e com a Sua
Palavra.
Aqueles que não se alimentam e vivem da Palavra do Senhor não
podem ser qualificados para levarem a Sua mensagem. Algumas pes-
soas têm a impressão de que a profecia simplesmente desce do céu,
através de uma repentina e surpreendente revelação. Isto está total-
mente errado. Cada profeta na Escritura indicava pela sua linguagem
e as suas referências, que ele estava intimamente familiarizado com
a revelação da Palavra de Deus, tal como ela existia no seu tempo.
Qualquer pessoa que não esteja profundamente identificada com a
Palavra, não é elegível para o ministério profético.

Viver com Solidão


Uma pessoa que assume a sua posição perante Deus como um
profeta, terá que também por vezes se sentar sozinho. Não há duvida
a respeito disto, o profeta Jeremias disse:
Nunca me assentei no congresso dos zombadores, nem me regozi-
jei; por causa da tua mão, me assentei solitário, pois me encheste de
indignação. (Jeremias 15:17)

205
Durante os quatro anos e meio que passei no exército Britânico,
um dos testes mais difíceis pelo qual tive de passar foi “sentar-me so-
zinho”, porque simplesmente não podia identificar-me com as coisas
que os outros soldados diziam ou faziam. À vista do que eu conhecia
de Deus, eu próprio não me podia associar com má língua, formas
de prazer e, toda a atitude perante a vida dos meus companheiros
soldados. O lugar mais difícil para se sentar sozinho é um deserto,
porque não existe mais nenhum lugar para onde possas ir. Realmen-
te, não me recordo de um teste mais severo do que este. Lembro-me
de estar sentado sozinho durante muitas noites, porque pertencia a
Deus. Aqueles que não querem fazer isto não podem passar o teste.

A Palavra de Deus da Sua Boca


Agora, vamos ver o verdadeiro ponto crucial do ministério pro-
fético:
Portanto, assim diz o SENHOR: Se tu voltares, então, te trarei,
e estarás diante de mim; e, se apartares o precioso do vil, serás como
a minha boca; tornem-se eles para ti, mas não voltes tu para eles.
(Jeremias 15:19)
Repara que Deus manifestou a essência do ministério profético:
“Tu estarás diante da minha face.” Depois Ele disse, com efeito: “Es-
tou à procura de um porta-voz, mas aquele que quiser ser o Meu
porta-voz tem que reunir as condições. Aquele que receber uma men-
sagem ou uma revelação não se pode comprometer com o homem,
não pode descer os seus padrões ou ir para além das linhas que Eu
tracei. Ele tem que esperar que as pessoas voltem para ele.” Estes ver-
sículos expressam claramente as exigências e pressões envolvidas em
ser um porta-voz profético.
Repara no que acontece quando a palavra de Deus sai da
Sua boca:
Assim será a palavra que sair da minha boca; ela não voltará
para mim vazia; antes, fará o que me apraz e prosperará naquilo
para que a enviei. (Isaías 55:11)
Muitas pessoas citam mal este versículo, dizendo: “A Palavra de
Deus nunca voltará para Ele vazia.” Elas levantam-se e pregam uma
mensagem que não é inspirada nem ungida, para uma congregação

206
morta. Depois, quando a congregação não responde ou reage, en-
colhem os ombros e dizem: “A Palavra de Deus não voltará para Ele
vazia.” Mas a Escritura realmente diz, “A Palavra de Deus que sair da
boca de Deus não voltará para Ele vazia.” Mas tem que ser a Palavra
de Deus da boca de quem reúne as condições para ser um porta-voz
de Deus.
Quando a minha palavra sai da minha boca, a minha respiração
sai com ela, não consigo falar sem fazer uma forte respiração. Seme-
lhantemente, quando a Palavra de Deus sai da Sua boca, a Sua res-
piração (Espírito) sai com ela. A Palavra de Deus sem o Espírito não
traz vida, pois a letra mata, mas o Espírito dá vida. (2 Coríntios 3:6)
Mas quando a Palavra de Deus procede do Seu porta-voz escolhido
pelo Espírito, os resultados são dramáticos. Tal como Deus promete
a Jeremias:
Não é a minha palavra como fogo, diz o SENHOR, e como um
martelo que esmiúça a penha? (Jeremias 23:29)
A Palavra de Deus na boca do Seu porta-voz, destruirá todos os
obstáculos!

A Palavra de Deus na boca do Seu porta-voz, com o Seu


Espírito destruirá todos os obstáculos!

No Novo Testamento
Com este pano de fundo do ministério profético do Antigo Tes-
tamento, vamos agora voltar para o Novo Testamento. Vimos que
existem vinte e oito pessoas mencionadas no Novo Testamento como
apóstolos. Existem dez registados como profetas.
Naqueles dias, desceram profetas de Jerusalém para Antioquia.
E, levantando-se um deles, por nome Ágabo, dava a entender, pelo
Espírito, que haveria uma grande fome em todo o mundo, e isso
aconteceu no tempo de Cláudio César. E os discípulos determinaram
mandar, cada um conforme o que pudesse, socorro aos irmãos que
habitavam na Judeia. (Atos 11:27-29)
A igreja em Antioquia aceitou esta revelação profética como digna
de crédito e atuou de acordo com ela. Eles não disseram apenas: “Isto

207
não é maravilhoso? Nós tivemos uma revelação.” Eles fizeram alguma
coisa acerca disso.
Repara que são mencionados profetas (plural), um dos quais era
Ágabo. Está implícito que existiam pelo menos outros dois, para além
de Ágabo, o que nos dá um mínimo de três profetas do Novo Testa-
mento até agora.
Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e dou-
tores, a saber: Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cire-
neu, e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo.
(Atos 13:1)
Aqui, são nomeadas cinco pessoas que são reconhecidas na sua
igreja como tendo o ministério de profetas, e assim já temos oito
profetas.
Judas e Silas, eles próprios sendo também profetas, exortaram e
fortaleceram os irmãos com muitas palavras. (Atos 15:32)
Repara que, incluído no ministério profético, está o ministério
da exortação. E nota que Silas era chamado profeta. Como vimos
no nosso estudo dos apóstolos, ele também era designado como um
apóstolo. Aqui está outro exemplo de um homem que foi promovido
no ministério. Ele foi promovido do ministério de profeta para o mi-
nistério apostólico. Portanto, estes dois levam-nos a um total de pelo
menos dez profetas reconhecidos no Novo Testamento.

Distinções de um Profeta
Vamos agora considerar certas distinções entre o profeta e os
outros ministérios móveis. Vimos que o apóstolo tem uma “ta-
refa especial”. Quando o Espírito Santo separou Saulo e Barnabé,
Ele disse:
E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo:
Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chama-
do. (Atos 13:2)
Eles foram chamados para uma missão, e essa missão, tal como
aprendemos no estudo anterior, era essencialmente o estabelecer e
ordenar igrejas. Por outro lado, um profeta tem uma “mensagem
especial” recebida de Deus para entregar num determinado tempo e
lugar. É por isso que eu me ofendo com traduções que usam a pala-

208
vra “mensageiro” em vez de “apóstolo”. Se alguém deve ser chamado
“mensageiro”, é o profeta. De novo, o apóstolo tem a tarefa, enquan-
to o profeta tem a mensagem – não uma mensagem geral para toda a
gente, mas uma mensagem especial dada a ele diretamente por Deus
para ser transmitida num tempo e lugar específicos.

Um apóstolo tem uma tarefa específica enquanto o profeta tem


uma mensagem específica.

Em contraste com o profeta, o doutor (professor) pode não ter


uma mensagem especial recebida pessoalmente de Deus. Ele explica
a verdade de Deus de uma maneira generalizada. Vamos ilustrar estas
distinções com exemplos, ambos do Antigo e do Novo Testamento.
Olharemos primeiro para o ministério do profeta Jonas:
E começou Jonas a entrar pela cidade caminho de um dia, e
pregava, dizendo: Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida.
(Jonas 3:4)
Nínive tinha precisamente mais quarenta dias antes do julgamen-
to de Deus, esta foi uma revelação específica dada a uma pessoa,
Jonas, acerca de um lugar, Nínive, num tempo específico.
Se Jonas tivesse sido um evangelista, podia ter ido à cidade e pre-
gado em termos gerais sobre o pecado e as suas consequências, in-
cluindo o julgamento de Deus sobre o pecado. Tudo o que ele disse
teria sido verdade, mas não teria contido a revelação específica de que
o julgamento estava a uma distância de quarenta dias. Esta revelação
distinguiu Jonas como profeta. Se ele tivesse sido um doutor (profes-
sor) ele podia ter ensinado sobre vários aspectos dos procedimentos
e julgamentos de Deus, mas não podia ter transmitido a revelação
específica do seu tempo. A experiência mostra que as pessoas prestam
muito mais atenção quando, juntamente com a explicação geral da
verdade de Deus, existe revelação específica que as transporta exa-
tamente às suas situações particulares. A revelação dá um impacto
específico ao ministério profético e à mensagem.
Vamos agora ver o exemplo de João Baptista, no primeiro capítulo
do evangelho de Marcos:
E João andava vestido de pêlos de camelo, e com um cinto de
couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre. E

209
pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu,
do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas
alparcas. Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém,
vos batizará com o Espírito Santo. (versículos 6-8)
Repara que João era mais do que apenas um pregador. Ele podia
ter pregado sobre os pecados e as suas consequências, chamado as
pessoas ao arrependimento e batizá-las. Mas ele teve uma revelação
específica com um fator tempo: “Imediatamente depois de mim, vem
Aquele que é maior do que eu e, Ele será Aquele que batiza com o
Espírito Santo.” João não podia ter sabido isto sem uma revelação
específica e individual de Deus. Esta revelação elevou-o da posição
de pregador ou doutor (professor) e colocou-o na posição de profeta.
Já vimos a passagem sobre Ágabo em Atos 11, onde ele previu
uma fome num futuro próximo que de facto teve lugar nos dias do
Imperador Cláudio. Ágabo não podia ter sabido desta fome iminen-
te exceto por uma revelação de Deus específica e individual. Mais à
frente em Atos, encontramos outro exemplo de uma revelação sobre-
natural que foi dada a este homem fascinante, Ágabo:
E, demorando-nos ali por muitos dias, chegou da Judeia um pro-
feta, por nome Ágabo; E, vindo ter connosco, tomou a cinta de Pau-
lo, e ligando-se os seus próprios pés e mãos, disse: Isto diz o Espírito
Santo: Assim ligarão os judeus em Jerusalém o homem de quem é esta
cinta, e o entregarão nas mãos dos gentios.(Atos 21:10-11)
Novamente, Ágabo sabia mais do que apenas um pregador ou dou-
tor (professor) poderia saber. Ele teve uma revelação específica do que ia
acontecer a Paulo em Jerusalém e, uma comissão específica do Espírito
Santo para lhe dizer o que esperar. Ágabo transmitiu a sua mensagem de
uma maneira dramática, ligando as suas próprias mãos e pés com o cinto
de Paulo. Deus muitas vezes exigiu dos profetas fazer mais do que sim-
plesmente divulgar uma afirmação. De uma maneira ou de outra, eles
tinham que dar alguma ilustração ou demonstração das suas mensagens.

O Ministério Profético e o Dom Espiritual


de Profetizar
Temos que fazer aqui uma distinção entre o ministério de um pro-
feta e o dom espiritual de profetizar. Mostrarei isto pondo em contras-
te duas afirmações diferentes no Novo Testamento. Efésios 4:11, diz:

210
E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e ou-
tros para evangelistas, e outros para pastores e doutores.
Penso que é claro pela linguagem que nem todos recebem o mi-
nistério de profeta. Este ponto aparece de novo na seguinte passagem:
E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo
lugar profetas, em terceiro doutores, depois milagres, depois dons de
curar, socorros, governos, variedades de línguas. Porventura são todos
apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? São todos operado-
res de milagres? (1 Coríntios 12:28-29)
É claro que a resposta para ambas as questões é não. Por outras
palavras, nem toda a gente tem o ministério de apóstolo ou profeta.
Por outro lado, o dom de profetizar está aberto a todos os crentes:
Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que
todos aprendam, e todos sejam consolados. (1 Coríntios 14:31)
O ministério profético é muito mais do que exercer um dom es-
piritual – é o homem total e é todo um modo de vida. Como já disse
antes, o profeta é a sua mensagem. Um dom espiritual é exercido
num breve momento para uma manifestação sobrenatural que acaba.
Por isso, no Novo Testamento, o dom de profetizar é tornado dispo-
nível para todos os crentes que se interessam em alcançá-lo e recebê-
-lo, enquanto o ministério de profeta não é dado a todos.
Outro aspeto importante acerca da profecia e do ministério de
profeta no Novo Testamento, é que está normalmente destinado aos
crentes. No Antigo Testamento, Deus muitas vezes enviou profetas
a pessoas que não eram crentes. Por exemplo, muitas das mensagens
eram dirigidas às nações Gentias à volta de Israel, que não reconhe-
ciam o Deus de Israel ou Jeremias como um profeta. No Novo Testa-
mento, contudo, lemos:
De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para
os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis. (1
Coríntios 14:22)
Na primeira parte deste versículo, Paulo não se estava a referir ao
uso das línguas para auto edificação, mas como um sinal sobrenatural
dirigido a não crentes. Foi isto que aconteceu no dia de Pentecostes. As

211
pessoas sobre as quais o Espírito Santo desceu falaram em línguas, as
quais elas não entendiam, mas os não crentes entendiam essas línguas
e, isto tornou-se um sinal para eles! Este não foi o uso normal das lín-
guas; de novo, foi um sinal para alcançar os incrédulos. Quando um
crente, pela operação do Espírito Santo, fala uma língua que ele não
entende, mas é entendida por um incrédulo que está presente, isso traz
uma tremenda convicção ao não crente. Seja como for, na última parte
de 1 Coríntios 14:22, vemos que profetizar é destinado a crentes, o que
torna isso de algum modo diferente do profetizar sob a antiga aliança.

Julgar os profetas
Avançando para 1 Coríntios 14, encontramos outra caraterística
muito importante do profetizar e do ministério profético no Novo
Testamento:
E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. (versículo 19)
As palavras traduzidas “profetas” e “outros” são plural no Grego.
Um homem não se levantava para dizer: “Eu sou o profeta; vocês
todos escutem-me.” Este não seria o modelo normal. Numa igreja do
Novo Testamento, existiria um grupo de homens que eram profetas.
Quando um profetizava ou proclamava uma revelação, era obrigação
dos outros exercerem julgamento, ou discernimento espiritual, sobre
o que tinha sido profetizado. Deste modo, ninguém, pelo ministério
de um profeta ou do dom da profecia, teria hipótese de tornar-se um
ditador. Hoje vemos algumas congregações com um profeta fixo –
um homem – e toda a gente faz o que este homem diz. De facto, ele
poderá mesmo designar os apóstolos e determinar quem casará com
quem. Tenho visto pessoalmente estes abusos específicos.
Na igreja do Novo Testamento, não existe um homem que faça
tudo. Novamente, uma pessoa não deve ser vista como o único porta-
-voz de Deus. Os profetas devem ministrar num grupo; tal com vi-
mos, eles são normalmente mencionados no plural. Quando um está
realmente a ministrar, os outros estão a exercer julgamento sobre esse
ministério particular. Como membros de um corpo, os crentes fun-
cionam em conjunto e exercem controlo uns sobre os outros.

Os profetas devem ministrar num grupo: enquanto um profetiza os


outros julgam/discernem.

212
Ao longo dos anos cheguei à conclusão de que a profecia é um ins-
trumento tremendamente poderoso. É como um carro potente: antes
de partires, é melhor teres a certeza de que os travões, a direção e os
outros pontos de segurança estão em bom estado. Se não estiverem,
seria melhor não ir dar uma volta! Eu indico sempre que, se encorajas
pessoas para procurarem profetizar, tens a obrigação bíblica de asse-
gurar também que existe um processo conforme nas Escrituras para
julgar essa profecia. É completamente contra a Escritura ter ministé-
rio profético sem este ser submetido a julgamento. Eu preferia não ter
profecia ou ministério profético se ele não fosse julgado, é demasiado
perigoso permitir isso. Posso recordar numerosos incidentes onde o
povo de Deus tem sido colocado em situações, em que são feitos sen-
tir que estão a desafiar o próprio Deus se desafiarem ou discordarem
de um ministério particular.
Alguns anos atrás, em Jerusalem, havia um casal simpático Pente-
costal dos Estados Unidos, que estava a fazer um bom trabalho para
Deus. Então uma senhora da Suécia auto intitulando-se profetiza,
começou a profetizar sobre eles, dizendo que já não era para eles vi-
verem juntos como marido e mulher. Eles ficaram totalmente con-
fundidos e ambos acabaram numa instituição de saúde mental. Este
foi o resultado de ficar sob um espírito de servidão a esta mulher em
particular. Eles ficaram com a impressão de que, se fossem contra o
que ela declarava ser a vontade de Deus, eles estariam a resistir a Deus
Todo-Poderoso.
Portanto, quando vires pessoas com ministérios proféticos, ou
com o dom de profetizar, tem em mente que os seus ministérios e
profecias estão sujeitos a julgamento. Uma das nossas responsabilida-
des é aprender como julgar. Paulo disse:
Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai
tudo. Retende o bem. (1 Tessalonicenses 5:19-21)
Vemos aqui duas alternativas perigosas. Uma é extinguir o Es-
pírito Santo dizendo: “Nós não queremos nenhuma profecia; não
queremos nenhuns dons; não queremos nenhumas manifestações.”
A outra é aceitar tudo o que é sugerido sem examinar essas coisas.
Quando estava em África costumava dizer às pessoas: “Nem tudo o
que os missionários trouxeram para vós é bom: algumas coisas são
boas e outras não. Algumas coisas que vocês têm são melhores do

213
que aquilo que os missionários vos trouxeram.” Eles olhavam para
mim com alguma surpresa porque eu era missionário. Então eu dizia:
“Quando vocês comem peixe, sabem o que devem fazer; engolir o
peixe e deitar fora as espinhas. Façam o mesmo com o que os missio-
nários trouxeram; comam a carne mas deitem fora os ossos. Não se
engasguem ao engolir alguns ossos só porque o missionário vos deu.”
O mesmo é verdade hoje na igreja. Quando ouço profetizar ou
revelar, decido por mim mesmo se é carne ou ossos. Se for carne,
eu engulo e fico fortalecido; mas se forem ossos, eu não me engasgo
tentando engoli-los; deito-os fora. Isto é o que a Palavra de Deus nos
orienta a fazer.

A Relação do ministério profético


com Toda a Igreja
Ao encerrarmos este capítulo vamos formar uma imagem da re-
lação que o ministério profético tem com a igreja como um todo.
Como um membro do corpo, o profeta funciona em conjunto com
os outros membros e, ele está sujeito ao controlo e disciplina do cor-
po como um todo. Ele não é um autocrata ou um déspota e, não
está fora da estrutura da igreja local. Vamos olhar para uma imagem
bonita do verdadeiro ministério profético. O profeta Zaca-rias disse:
E o anjo que falava comigo voltou, e despertou-me, como a um
homem que é despertado do seu sono, E disse-me: Que vês? E eu disse:
Olho, e eis que vejo um castiçal todo de ouro, e um vaso de azeite no
seu topo, com as suas sete lâmpadas; e sete canudos, um para cada
uma das lâmpadas que estão no seu topo. E, por cima dele, duas
oliveiras, uma à direita do vaso de azeite, e outra à sua esquerda.
(Zacarias 4:1-3)
Repara que Zacarias estava intensamente interessado no significa-
do das oliveiras. Ele não recebeu uma resposta imediata à sua questão.
O anjo primeiro deu-lhe mais instruções, as quais creio que estão
resumidas no versículo 6:
Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o
SENHOR dos Exércitos.
Esse é um versículo familiar e é realmente o tema essencial da
revelação deste quarto capítulo de Zacarias – que Deus vai cumprir

214
os Seus propósitos no mundo, não pela força ou poder, mas pelo
tremendo poder do Espírito Santo.
Zacarias viu depois um lindo candelabro com sete braços e uma
taça no topo. Creio que, em toda a Escritura, um candelabro tipifica
a igreja e, o óleo que alimenta o candelabro tipifica sempre o Espíri-
to Santo. Nesta visão, Zacarias viu uma oliveira em ambos os lados
deste candelabro. Existia um canal pelo qual o óleo corria da oliveira
para dentro do candelabro. Assim, o óleo era mantido puro, limpo e
fresco; e por isso, a luz que ardia era pura, limpa e brilhante. Zacarias
voltou à sua questão sobre as oliveiras:
Respondi mais, dizendo-lhe: Que são as duas oliveiras à direita e
à esquerda do castiçal? E, respondendo-lhe outra vez, disse: Que são
aqueles dois ramos de oliveira, que estão junto aos dois tubos de ouro,
e que vertem de si azeite dourado? E ele me falou, dizendo: Não sabes
tu o que é isto? E eu disse: Não, senhor meu. (versículo 11-13)
Creio que existe uma certa ironia na resposta do anjo, porque o
próprio Zacarias era uma das oliveiras! Num certo sentido, o anjo
estava a gozar com ele, dizendo: “Não sabes o que estes são?”
Então, ele [o anjo] disse: Estes são os dois ungidos [literalmente,
os dois filhos do óleo], que estão diante do Senhor de toda a terra.
(versículo 14)
Estas oliveiras representam homens que estão perante o Senhor,
com o propósito expresso de receberem e transportarem o óleo para
o candelabro, a igreja. Esta é uma imagem do ministério profético.
Estas duas oliveiras estão novamente referidas em Apocalipse:
E darei poder às minhas duas testemunhas, e profetizarão por
mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco. Estas são as
duas oliveiras e os dois castiçais que estão diante do Deus da terra.
(Apocalipse 11:3-4)
Depois, no versículo 10 lemos:
…porquanto estes dois profetas tinham atormentado os que ha-
bitam sobre a terra.
Portanto, as oliveiras são profetas que profetizavam. Com certeza
existem duas pessoas específicas referidas em Apocalipse 11 que virão

215
no futuro. Mas para já, temos uma imagem da relação entre o ministé-
rio profético e a igreja. Os profetas são como as oliveiras, que estão de
cada lado do candelabro, que é a igreja e, dessas oliveiras é canalizado
para o candelabro óleo puro, fresco e limpo. Desta maneira, através do
óleo, o castiçal cumpre a sua função de dar luz clara e brilhante. Com
certeza, se a fonte do óleo é cortada, então a luz do castiçal morre.
A igreja de Jesus Cristo tem que ter um fornecimento contínuo de
óleo se é para ser portadora de luz para o mundo! Este fornecimento
de óleo vem da oliveira, que tipifica o ministério profético. Temos
aqui uma imagem muito clara da relação entre o ministério profético
e a igreja. A igreja precisa do ministério profético canalizado conti-
nuamente – não somente em casos de emergência. O corpo de Cristo
não pode funcionar sem óleo fresco – a inspiração e revelação limpa
e pura do Espírito Santo do ministério profético.

O corpo de Cristo não pode funcionar sem óleo fresco – a ins-


piração e revelação limpa e pura do Espírito Santo do ministério
profético.

Esta verdade está de acordo com Provérbios 29:18, este versículo


se tornou num dos meus favoritos.
Não havendo profecia, o povo perece; porem o que guarda a lei,
esse é bem-aventurado.
Uma leitura moderna de “perecer” é “fica sem freio”(SBB). Uma
versão diz: “é deixado nu”. Uma coisa é clara: onde não houver visão,
o povo de Deus está em más condições. O povo de Deus não pode
viver e funcionar do modo que Deus tenciona, sem visão. A palavra
“visão” significa “revelação direta, fresca”. Não é a leitura ou ensino da
Escritura, mas uma palavra imediata e nova de Deus. Quando Eli era
Sumo Sacerdote e Samuel foi conduzido para o ministério profético,
a Escritura diz:
Entretanto, o menino Samuel servia ao Senhor perante Eli. E a
palavra de Senhor era muito rara naqueles dias; as visões não eram
frequentes. (1 Samuel 3:1)(ARIB)
Israel tinha a Palavra de Deus escrita, mas faltava-lhes a ilumina-
ção profética fresca e a visão que eles precisavam. Eles tinham todo o

216
aparato da religião: o tabernáculo, a arca, o sacerdócio, os sacrifícios e
a lei de Moisés. Contudo, eles eram um povo morto, frio, reinciden-
te, porque a religião não mantém as pessoas vivas. É somente o óleo
fresco que faz com que a igreja queime continuamente com uma cha-
ma brilhante. Este óleo fresco vem da revelação profética apropriada
a uma situação e geração específica. Não podemos viver de revelações
do passado. De novo, o que Lutero disse foi relevante no tempo de
Lutero e, o que Wesley disse foi relevante no seu tempo. Mas não
podemos viver hoje no tempo de Lutero, Wesley, ou qualquer outra
pessoa do passado. Temos que ter o nosso próprio óleo direto, atuali-
zado, fresco, sendo derramado continuamente dentro da igreja.
Ter meramente doutrina correta, não é um substituto para ter
revelação em primeira mão da parte de Deus. Deus não tem somente
ensinamento geral para nós, o qual torna disponível na Escritura, mas
Ele também tem coisas específicas que quer que nós conheçamos em
momentos específicos. Como vimos, foi necessário para Nínive saber
que eles tinham apenas quarenta dias antes do julgamento. Foi ne-
cessário para Israel saber que o Messias estava quase a chegar. Foi ne-
cessário para Paulo saber o que esperava por ele em Jerusalém. Estas
palavras não podiam ter sido dadas na revelação geral das Escrituras,
elas requeriam a revelação específica de um ministério profético num
momento específico.
Nós vivemos em dias de crise tremenda, tumulto e perigo, onde
todas as coisas mudam com uma rapidez inacreditável. Não há mente
humana que possa formar uma opinião exata do que irá acontecer
daqui a cinco anos, sob o ponto de vista social, financeiro, econó-
mico, ou militar. Se alguma vez houve um tempo em que o povo de
Deus precisasse do óleo fresco, da direta revelação divina, é agora!
Não podemos escrever sobre este ministério profético, dizendo: “Isso
foi antigamente. Foi necessário no Antigo Testamento e no tempo
dos apóstolos, mas não hoje.” Pelo contrário, é necessário hoje talvez
mais do que em qualquer outro tempo na história da igreja! Preci-
samos de saber coisas que não vêm meramente do ensinamento da
doutrina, ou por fontes naturais de informação e Deus está desejando
revelá-las a nós.
Jesus disse, em relação ao fim dos tempos:
E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias
do Filho do Homem. (Lucas 17:26)

217
Pensa em toda a maldade que florescia nos dias de Noé. A terra
estava cheia de violência, toda a imaginação e pensamento do cora-
ção do homem era somente maldade, continuamente. Todos eram
corruptos. Também vemos todas estas coisas na nossa sociedade mo-
derna. Mas existe outro lado dos dias de Noé:
Pela fé, Noé, divinamente avisado das coisas que ainda não se
viam, temeu, e, para salvação da sua família, preparou a arca, pela
qual condenou o mundo, e foi feito herdeiro da justiça que é segundo
a fé. (Hebreus 11:7)
Noé precisou de revelação divina, instrução explícita para o avisar
sobre o que estava para acontecer na terra e, saber que passos deveria
dar para se preservar a si próprio e à sua família. Tal como Noé, nós
podemos receber direção e proteção específica de Deus, nestes últimos
dias, através do ministério profético. A igreja é para brilhar no final
desta época, quando as trevas cobrirem a terra e trevas profundas co-
brirem o povo. (Ver Isaías 60:2) A mensagem de Deus para a igreja é:
Levanta-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do SE-
NHOR vai nascendo sobre ti. (versículo 1)
Eu creio que uma parte essencial desta mensagem é a completa
restauração do ministério profético – tal como as oliveiras alimen-
tando o óleo no candelabro. Eu pessoalmente estou orando por e
antecipando essa restauração!

218
- 19 -

Ministério Móvel: Evangelistas

A palavra “evangelista” é muito familiar no Cristianismo contem-


porâneo, todavia existem muito poucas ocorrências disso no Novo
Testamento. Basicamente é derivada da palavra que significa “boas
novas”. Por isso poderíamos definir um evangelista como “um pro-
clamador de boas novas.”
Pensar sobre o evangelho como boas novas, faz-me sempre lembrar
de uma amiga, cujo marido era diácono na igreja que frequentavam
em Chicago. Esta senhora ficou incuravelmente doente com um pro-
blema de rim, por isso ela foi à livraria da sua igreja buscar um livro
sobre curas. Depois de procurar diligentemente, ela apareceu com ca-
torze livros com conteúdos sobre como, saber sofrer, mas, nem um so-
bre como ser curado! Bem, eu não chamo a isso o evangelho, porque o
evangelho é boas novas. Eventualmente, ela foi ter com um sacerdote
Episcopal que era batizado no Espírito Santo. Recebeu o batismo do
Espírito Santo, foi ungida com óleo e, foi curada miraculosamente.
Quando ela voltou ao seu médico Judeu, ele foi obrigado a reconhecer
que acontecera um milagre. Isso, são boas novas; isso é o evangelho!
O evangelista é aquele que conta as boas novas. Se alguém não
te contar boas novas, não o deixes enganar-te, fazendo-te acreditar
que ele está contando o evangelho. O evangelho é a boa nova que
Deus te ama e te quer perdoar, abençoar, fazer-te prosperar, curar-te
e preparar-te para viveres com vitória, alegria e paz interior. Se isto
não é boas novas, não sei o que é. Muito do que é transmitido como
evangelho, às pessoas que frequentam as igrejas, tem pouco ou nada a
ver com o que o Novo Testamento chama o evangelho.

O Substantivo Evangelista
O primeiro uso do substantivo evangelista no Novo Testamento
está em Efésios 4:11, na lista dos ministérios que estamos a considerar:

219
E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e ou-
tros para evangelistas, e outros para pastores e doutores.
Segundo, nós temos a seguinte afirmação feita acerca de Filipe:
No dia seguinte, partindo dali Paulo e nós que com ele estáva-
mos, chegamos a Cesaréia; e, entrando em casa de Filipe, o evangelis-
ta, que era um dos sete, ficamos com ele. (Atos 21:8)
Filipe era chamado “o” evangelista, e ele é o único homem que foi
especificado pelo nome como tendo este ministério. O versículo diz
que ele era um dos sete, isto é, os sete que foram apontados como diá-
conos, tal como está registado em Atos 6. Por isso, numa certa altura,
Filipe tinha dois títulos: diácono e evangelista. Estudaremos a relação
entre evangelista e diácono num capítulo posterior.

À letra, o evangelista é: o proclamador das boas novas.

Vejamos agora a terceira ocorrência da palavra evangelista, que


se encontra em 2 Timóteo 4. Paulo estava a escrever a Timóteo, que
é mencionado em outra passagem, como apóstolo. Algumas pessoas
imaginam que Timóteo tinha o ministério de pastor, mas não era
realmente um pastor, nem era aparentemente um evangelista. Como
vimos anteriormente, o ministério de apóstolo pode incluir todos os
outros ministérios. A esta luz, lemos:
Mas tu sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um
evangelista, cumpre o teu ministério. (2 Timóteo 4:5)
Timóteo não era especificamente um evangelista, mas Paulo disse-
-lhe que ele não poderia cumprir inteiramente o seu ministério apos-
tólico na sua presente missão, sem fazer também o trabalho de evan-
gelista, um proclamador de boas novas.

O Verbo Evangelizar
Acabamos de ver três ocorrências do substantivo evangelista no
Novo Testamento. Contudo, existe um verbo diretamente relacio-
nado com isto no Grego, que podemos traduzir por “evangelizar”.
Pode ser traduzido como “proclamar boas novas”, ou “proclamar as
boas novas”, ou “pregar o evangelho” Com certeza, transporta con-

220
sigo o pensamento do ministério de um evangelista e as atividades
relacionadas com ele. Isto ocorre cerca de cinquenta vezes no Novo
Testamento e por conseguinte, deve ter sido uma parte importante
do ministério da igreja primitiva.
Para começarmos a examinar o que significa ser um evangelista,
vamos olhar para o ministério de Jesus, que é novamente, o modelo
perfeito de todos os ministérios. No princípio do Seu ministério, Je-
sus estava na sinagoga em Nazaré. Esta era a sinagoga da Sua terra,
onde Ele tinha crescido. Ele levantou-se e leu a profecia de Isaías 61,
que depois aplicou a Si próprio:
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para
pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberda-
de aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimi-
dos. (Lucas 4:18)(NVI)
O que a Nova Versão King James traduz como “pregar o evange-
lho” é uma palavra única “euaggelizo” ou “evangelizar” no Grego. O
versículo podia ser traduzido, “O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque Ele Me ungiu para “evangelizar” os pobres”, ou “… Ele Me
ungiu para trazer boas novas aos pobres.”
As outras ações transcritas neste versículo 18 são o resultado de
trazer as boas novas: curar os quebrantados do coração, apregoar li-
berdade aos cativos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimi-
dos. As boas novas do evangelho trazem estes resultados maravilhosos
às vidas daqueles que o recebem.
Ele, porém, lhes disse: Também é necessário que eu anuncie a
outras cidades o evangelho do Reino de Deus, porque para isso fui
enviado. (Lucas 4:43)
Novamente, em grego, “pregar o reino de Deus” significa “trazer
as boas novas do reino de Deus”.
A Escritura diz isto dos doze primeiros discípulos, que foram en-
viados como apóstolos:
E, saindo eles, percorreram todas as aldeias, anunciando o evan-
gelho e fazendo curas por toda a parte. (Lucas 9:6)
Mais uma vez, a frase traduzida “anunciando o evangelho” refere--
se a evangelizar. Repara que curar, seguia-se à pregação do evangelho

221
como evidência de que aquilo era realmente boas novas! Mais à frente
em Lucas, temos outro exemplo do uso deste mesmo verbo:
E aconteceu, num daqueles dias, que, estando ele [Jesus] en-
sinando o povo no templo e anunciando o evangelho, sobrevie-
ram os principais dos sacerdotes e os escribas com os anciãos…
(Lucas 20:1)
O Grego para “anunciando o evangelho” significa “evangelizando”:
por isso, o versículo podia ser traduzido, “Ele ensinava o povo no
templo e evangelizava.”
Voltando para o livro de Atos, olhemos para três ocorrências da
palavra. A primeira fala de Pedro e João, que tinham descido a Sama-
ria para ajudarem a conservar os resultados do ministério evangelís-
tico de Filipe.
Tendo testemunhado e proclamado a palavra do Senhor, Pedro e
João voltaram a Jerusalém, pregando o evangelho em muitos povoa-
dos samaritanos. (Atos 8:25)(NVI)
Repara que neste versículo surgem duas formas da palavra “pre-
gar”, mas no Grego são usadas duas palavras completamente dife-
rentes: Tendo eles, pois, testificado e “falado” a palavra do Senhor,
voltaram para Jerusalém e, em muitas aldeias dos samaritanos, “evan-
gelizado”. A primeira ocorrência de “pregar” é a palavra comum para
“falar”, mas a segunda é a palavra específica para “evangelizar” ou
levar as boas novas. Eles levavam boas novas às aldeias no seu regresso
da Samaria para Jerusalém.
A próxima ocorrência é durante a primeira viagem missionária de
Paulo e Barnabé:
E ali pregavam o evangelho. (Atos 14:7)
O Grego para “eles pregavam” significa “eles evangelizavam”. Eles
estavam continuamente a pregar o evangelho. Repara que o próximo
incidente registado é a cura de um homem que era coxo. (Ver versí-
culos 8-10). Penso que, em quase todos os lugares em que esta palavra
“evangelizar” é usada, descobrirás que a cura e a libertação não estão
longe; porque elas são a evidência das boas novas.
Terceiro, temos a chamada de Paulo e seus companheiros para
irem para a Macedónia:

222
E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedô-
nia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o
evangelho. (Atos 16:10)
Onde diz no versículo “anunciar o evangelho”, novamente no
Grego está “evangelizar”. Eles foram chamados para levar as boas no-
vas ao povo da Macedónia, que nunca tinha ouvido o evangelho e
estava esperando por isso.
A palavra é usada muito frequentemente no livro de Romanos.
Vamos ver aqui três ocorrências, começando por estas duas:
E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos
anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma. (Romanos 1:15)
E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão
formosos os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas
boas! (Romanos 10:15)
“Pregar o evangelho” significa “evangelizar”, e “pregar o evangelho
da paz” significa “evangelizar paz”, ou “levar as boas novas da paz”.
Várias citações do Novo Testamento sobre evangelizar são tiradas do
Antigo Testamento, do profeta Isaías. Se houve um profeta com o
espírito evangelístico especificamente, foi Isaías. Ele foi um profeta
acima de todos os outros, cujas palavras continham as boas novas do
evangelho no Antigo Testamento.
Um pouco mais adiante, Paulo falou acerca do seu próprio minis-
tério e do seu desejo de chegar sempre aos não-alcançados.
E desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não onde
Cristo houvera sido nomeado, para não edificar sobre fundamento
alheio. (Romanos 15:20)
De novo, “anunciar o evangelho” é “evangelizar”. É típico do minis-
tério evangelístico, desejar alcançar os que estão não-alcançados, trazer
a mensagem àqueles que nunca a ouviram. A paixão consumidora do
evangelista é levar as boas novas a toda a gente. Ele é um homem em
movimento, não pode descansar até que todos tenham ouvido.
Depois, no capítulo um de 1 Coríntios, Paulo estava a falar sobre
pessoas que tinham sido batizadas em água e, disse que ele próprio
não tinha batizado muitos, porque isso não era verdadeiramente a
sua missão.

223
Porque Cristo enviou-me não para batizar, mas para evangeli-
zar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não
faça vã. (1 Coríntios 1:17)
Paulo deixou o batizar dos seus convertidos, para outros, contudo
ele viu-os batizados. A sua principal missão era evangelizar – levar as
boas novas.
Na sua segunda carta aos Coríntios, Paulo estava a falar sobre o
que tencionava fazer, depois de terminar o ministério que Deus lhe
tinha dado na região da Acaia, onde Corinto estava situada. O seu
objetivo era:
…anunciar o evangelho nos lugares que estão além de vós… (2
Coríntios 10:16)
Uma vez mais, a sede do evangelista é ir sempre mais longe, ir
aonde as pessoas ainda não ouviram a boa nova. Com certeza, como
já mencionei, Paulo estava a fazer o trabalho de um evangelista no
âmbito do seu ministério como apóstolo e, o ministério apostólico
inclui o de evangelista.

O Triplo Propósito do Evangelista


O objetivo supremo do evangelista é apresentar o pecador ao Sal-
vador. Depois de fazer a apresentação, ele não fica no aprofundamen-
to da familiaridade com Cristo, mas continua a procurar outros que
nunca foram apresentados a Ele. Por conseguinte, o seu ministério é
essencialmente introdutório.

O objetivo supremo do evangelista é apresentar o pecador ao


Salvador.

Contudo, de acordo com o modelo claro do Novo Testamento, o


evangelista não apresenta apenas as pessoas ao Salvador. Ele também as
traz à salvação e ao batismo na água. Podemos então resumir o triplo
propósito do evangelista deste modo: apresentar os pecadores ao Sal-
vador; trazê-los à salvação e fazer com que sejam batizados na água. A
minha convicção pessoal é de que, à medida que a igreja se aproxima
cada vez mais dos padrões do Novo Testamento, nós veremos aque-
les que são verdadeiramente chamados e enviados como evangelistas,
assegurarem-se de que os seus convertidos são batizados na água.

224
Afirmei anteriormente, que muitos Cristãos hoje se extraviaram
completamente do padrão do Novo Testamento, do batismo na água
após a conversão. Eles habitualmente realizam um serviço de batismo
na água talvez uma ou duas vezes por mês: “Se desejas ser batizado,
vem no domingo à noite, 25 de Janeiro e nós te batizaremos.” Mas
como vimos no livro de Atos, cada pessoa que era convertida era nor-
malmente batizada na água, após poucas horas da conversão. É difícil
encontrar alguém que esperasse até ao dia seguinte.
Havia uma urgência tremenda na mensagem do Novo Testamen-
to sobre o batismo na água. Na verdade, não há autoridade no Novo
Testamento para separar a salvação do batismo na água. Jesus disse:
Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será
condenado.(Marcos 16:16)
Ele não disse nada sobre a pessoa que acreditou, mas não foi batizada.
Em Mateus 28:19, quando Jesus enviou os Seus discípulos, disse:
Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do
Pai, e do Filho, e do Espírito Santo…
Quando Pedro pregou no dia de Pentecostes, as pessoas exclama-
ram: O que devemos fazer? (Atos 2:37), e ele respondeu: Arrependei-
vos, e cada um de vós seja batizado… (versículo 38). Depois das pesso-
as se tornarem discípulos, a primeira coisa que deviam fazer era serem
batizadas. É antibíblico separar a conversão e o batismo de que ma-
neira for. Filipe, o nosso modelo de evangelista no Novo Testamento,
no fundo pôs a mesma ênfase no seu ministério.

A Natureza do Ministério Evangelístico


A maior parte de Atos 8 contém a descrição do Novo Testamento
do ministério de um evangelista, o único guia que temos para isto.
Nessa altura na vida da igreja primitiva, havia uma grande persegui-
ção devido aos esforços de Saulo de Tarso. Com exceção dos apósto-
los, os crentes eram dispersos para salvarem a sua própria vida.
Mas os que andavam dispersos iam por toda parte anunciando a
palavra. (Atos 8:4)
Incidentalmente, a palavra Grega para “anunciar”, aqui, é “evan-
gelizar” – evangelizando a Palavra, levando as boas novas que estão

225
contidas na Palavra de Deus. No meio desta perseguição e evangeliza-
ção, temos o relato do ministério evangélístico de Filipe. Reparemos
nas principais caraterísticas de Filipe como evangelista, tal como são
retratadas neste capítulo.

A Sua Mensagem
Primeiro, repara na mensagem de Filipe, que é maravilhosamente
simples. Em cada versículo, está resumida numa palavra.
E, descendo Filipe à cidade de Samaria, lhes pregava a Cristo.
(Atos 8:5)
Então, Filipe, abrindo a boca e começando nesta Escritura, lhe
anunciou a Jesus. (versículo35)
Assim a sua mensagem era tremendamente simples: era Jesus
Cristo. Ele não estava a apresentar uma doutrina elaborada, ele apre-
sentava uma Pessoa – a Pessoa de Jesus. Ele estava a introduzir Cristo
a pessoas que não O conheciam.
A coisa maravilhosa acerca de um evangelista verdadeiro e ungido
de Deus, é que podes ouvi-lo pregar um sermão vinte vezes e conti-
nuas a gostar, porque a unção do Espírito Santo está sobre ele. Toda-
via, se um professor ensinar a mesma coisa vinte vezes, provavelmente
perderás o interesse. Por exemplo, tenho ouvido grandes evangelis-
tas pregar, e quase podia pregar alguns dos sermões deles. Contudo,
eu nunca poderia obter os mesmos resultados, por que isso não é o
meu dom. Mais ainda, continuo a gostar de ouvi-los pregar, porque
é aquilo que o Espírito Santo quer que façam. Eles proclamam Jesus
Cristo e, isto é a natureza essencial do ministério evangelístico. O seu
único objetivo e propósito é apresentar Jesus Cristo aos que nunca
ouviram.

O Seu Atestado
Agora, vamos olhar para o atestado de Filipe, que também é mui-
to simples. Aqui de novo, a maioria da igreja de hoje está longe do
modelo do Novo Testamento. Filipe, aparentemente, desceu a cida-
de da Samaria sozinho. Os apóstolos foram dois a dois, os profetas
foram em grupos, no entanto aqui está um homem só, Filipe, um
Judeu, andando sozinho para dentro de território hostil.

226
Porque os Judeus não se comunicam com os Samaritanos. (João 4:9)
Mas Filipe desceu a esta cidade bastante grande da Samaria e co-
meçou a pregar Cristo. Porque é que as pessoas escutaram? Porque
Deus deu testemunho sobrenatural à verdade da sua mensagem. As
pessoas sabiam que ele realmente tinha alguma coisa. Como é que
elas sabiam isso?
E as multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe
dizia, porque ouviam e viam os sinais que ele fazia, pois que os es-
píritos imundos saíam de muitos que os tinham, clamando em alta
voz; e muitos paralíticos e coxos eram curados. (Atos 8:6-7)
O que é que atraía a atenção das pessoas? Milagres de libertação
e milagres de curas. Quando as pessoas da Samaria viram a evidência
do poder que estava na mensagem de Filipe, ouviram cuidadosamen-
te o que ele tinha para dizer. Não foi por causa da notícia dada pri-
meiramente nos jornais e pela rádio acerca do grande pregador Filipe
que vinha à cidade. Não, ele não sabia que vinha, nem elas sabiam.
Mas quando ele veio, todos o ouviram devido ao testemunho divino.
Numa simples palavra, o atestado evangelista do Novo Testamento
são os milagres. Eles são a única autoridade e atestado que Deus pro-
videnciou – e funcionam!

O atestado evangelista do Novo Testamento são os milagres.

Agora, os milagres não convertem pessoas, nem produzem fé. O


que eles fazem é prender a atenção das pessoas e fazer com que escu-
tem a palavra de Deus e a fé vem por ouvir a Palavra. Se as pessoas
não escutarem, é inútil pregar-lhes. A primeira coisa que é preciso
fazer é obter a sua atenção e, isso é feito pelo miraculoso!
Eu estava a orientar um serviço de libertação com um bom amigo
meu, onde estas mesmas coisas aconteceram:
…os espíritos imundos saíam de muitos que os tinham, claman-
do em alta voz…
Estava lá um terceiro pregador, que era também um bom amigo
meu. Ele ficou bastante indignado e disse no final: “Onde é que al-
guma vez viste um serviço assim no Novo Testamento?” O primeiro

227
amigo e eu olhámos um para o outro e ele disse: “Encontras isto em
Atos 8:7.” Eventualmente, esclarecemos bastante satisfatoriamente o
mal entendido e esse homem continua a ser muito meu amigo.
Muito do que consideramos normal pelos padrões do Novo Testa-
mento é anormal pelos modelos atuais e, muito do que a maioria dos
Cristãos chama anormal, é normal pelos padrões do Novo Testamento.
O atestado do evangelho e as boas novas, são sobrenaturais. São a pro-
va de que existem boas novas. Os possessos são libertados e os doentes
são curados. Quando as pessoas veem estas coisas acontecer, elas sabem
que são boas novas. Elas não estão tão interessadas em teologia; querem
resultados. Esta é a forma pela qual Jesus ordenou o programa que Ele
estabeleceu:
E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda
criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer
será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: em meu nome,
expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes;
e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e
imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão. (Marcos 16:15-18)
Aqui são dados cinco sinais sobrenaturais: a evidência da liber-
tação, a evidência do batismo no Espírito Santo, a evidência de não
serem atingidos ao pegarem nas serpentes ou beberem alguma coisa
mortífera e, a evidência de curarem os doentes através da imposição
das mãos. Os ministérios dos primeiros apóstolos estão resumidos
nestas palavras:
Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e
assentou-se à direita de Deus. E eles, tendo partido, pregaram por to-
das as partes, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra
com os sinais que se seguiram. Amém! (versículos 19-20)
Este é o modelo do Novo Testamento. Deus confirma a Sua pa-
lavra com sinais que se seguem. Se fosse desafiado por Deus para ir
novamente como missionário, eu não desejaria deixar o próprio país
e pregar em qualquer lado se não tivesse a certeza de que Deus daria
testemunho sobrenatural à mensagem que Ele me deu. De preferên-
cia ficava em casa e enviava dinheiro; seria melhor. Mas eu acredito
e tenho provado na minha própria experiência que, se fores e apre-
sentares as boas novas e acreditares no Espírito Santo, Ele confirmará

228
a Sua Palavra. É desta maneira que deve ser. Como diz em Hebreus
2:3-4, quando os primeiros pregadores partiram, Deus deu testemu-
nho com sinais, prodígios, milagres e dons do Espírito Santo.
Lembras-te do jovem em África com pouca cultura que falou aos
meus estudantes? Depois do Senhor tê-lo salvo primeiro, ele esta-
va presente numa campanha liderada pelo Irmão T. L. Osborn em
Mombassa. Ele viu os milagres que Deus fez ali e acreditou que se
Deus fez isso pelo Irmão Osborn, Ele o faria por ele. Ele partiu deste
princípio e isso deu prodígios. Esta foi uma das razões pela qual ele
obteve uma tremenda resposta dos nossos estudantes.
Um dia, este jovem disse-me: “Irmão Prince, não é difícil evange-
lizar em África. Eu apenas entro numa aldeia e pergunto se há alguma
pessoa doente ali; há sempre alguém doente numa aldeia Africana.
Eu oro por essa pessoa, ela fica curada e tenho a minha congrega-
ção!” Esse é o modelo do Novo Testamento. Não precisas de comités,
bandas, coros, ou nenhuma destas coisas. Deus abençoa-as se elas
estiverem lá, mas provavelmente podemos fazer melhor sem elas, por-
que se as tivermos, temos a tendência para depender delas. A única
coisa que realmente importa é o testemunho da prova sobrenatural
do Espírito Santo.

A Sua Direção
Avançando no capítulo oito de Atos, a direção de Filipe foi tam-
bém sobrenatural, é o mínimo que se pode dizer! Ele sabia para onde
e quando ir por orientação sobrenatural:
E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te e vai para
a banda do Sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que
está deserto. E disse o Espírito a Filipe: Chega-te e ajunta-te a esse
carro. (Atos 8:26-29)
Repara na direção pela voz do Espírito. Depois, ainda melhor,
após o eunuco ter sido batizado, o Espírito do Senhor arrebatou Fili-
pe! (Ver versículos 30-40). Logo que o trabalho terminou, Filipe não
teve que decidir para onde ir; o Espírito Santo simplesmente levou-o.
Ele não teve que andar ou viajar de coche; ele teve transporte divino.
Eu chamo o evangelista “pára-quedista de Deus” porque ele apa-
receu de repente no meio das pessoas, fez o seu trabalho e foi levado
de novo. Isto não ocorre com frequência nos nossos dias, apesar de

229
algumas vezes acontecer. Em todos os eventos, o evangelista está em
movimento. Ele é imprevisível; mesmo o demónio não sabe onde
é que ele aparece a seguir. Deste modo, ele mantém o demónio na
defensiva. De um modo geral, a igreja hoje está na defensiva, enquan-
to o demónio está na ofensiva. Mas o verdadeiro evangelista está na
ofensiva, tal como estava Filipe.

O verdadeiro evangelista está espiritualmente na ofensiva, manten-


do o demónio na defensiva.

Uma vez ouvi Charles Simpson dizer que todos os demónios sa-
bem que têm de estar prontos às onze horas da manhã no domingo,
porque é quando o pastor prega o seu sermão. Todos os demónios
unem-se contra as pessoas que vão. Eles fizeram o seu trabalho an-
tecipadamente e não existe elemento de surpresa. Mas, acredita-me,
quando Filipe se movimentava, os demónios simplesmente não sa-
biam onde ir a seguir ou quando é que ele estaria lá. Eu desejo ver esta
iniciativa restaurada na igreja.

A Sua Divulgação – Não a Igreja Local.


Na lista dos dons de Deus na igreja, podemos deduzir um aspecto
final do evangelista, o qual já mencionei antes.
E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente, apóstolos, em segundo
lugar, profetas, em terceiro, doutores, depois, milagres, depois, dons de
curar, socorros, governos, variedades de línguas. (1 Coríntios 12:28)
O evangelista não é referido aqui, porque Paulo estava a falar so-
bre a igreja local e os ministérios que funcionam nela, enquanto que
o ministério do evangelista é para os não convertidos. Agora, um
evangelista poderia ter um ministério na igreja local se ele fosse um
operador de milagres que tivesse dons de curas. Nesta capacidade, ele
podia preparar outros na igreja local para serem evangelísticos. Além
disso, ele não teria essencialmente nada para fazer, porque todos na
congregação teriam já sido apresentados a Jesus como Salvador, o que
é o alcance básico do ministério evangelístico.

230
- 20 -

Ministério Móvel:
Doutores (Professores)

O doutor (professor) é essencialmente um intérprete da Escritura.


Na minha forma de ver, existem dois níveis de ensino: o primeiro é
o ministério do doutor (professor) para a igreja universal, aquele de
que se fala em Efésios 4:11:
E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e ou-
tros para evangelistas, e outros para pastores e doutores.
Este versículo refere-se ao oficio de doutor(professor), aquele
que interpreta a Escritura e estabelece a doutrina para um vasto
corpo. Por outro lado, o tipo de ensinamento que é especificamente
para a igreja local, é dado pelos presbíteros do grupo local. Profun-
daremos esta ideia de uma maneira mais completa quando abordar-
mos o tema dos presbíteros. No entanto, este ministério pode ser
visto em 1 Timóteo 5 onde, falando sobre a ordem da igreja local,
Paulo disse:
Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de
duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na
doutrina. (versículo 17)
“Doutrina” é simplesmente um substantivo que significa ensino.
Este ministério não é para a igreja universal, mas para um peque-
no grupo de crentes comprometido, ao cuidado dos presbíteros na
congregação local. Então temos o doutor(professor) que ministra a
todo o corpo num ministério público, semelhante ao de um apóstolo
ou evangelista. Depois temos o doutor(professor) que não tem um
ministério público no corpo universal, mas que continua responsável
pelo ensino a pessoas individualmente e a pequenos grupos. Neste
capítulo iremos focar-nos no doutor(professor) que ministra à igreja
universal.

231
Ministério do Ensino de Apolo
Procurando um exemplo de um doutor(professor) no Novo Tes-
tamento, parece que Apolo teve um ministério exclusivamente de
ensino. Existiram muitos outros homens que ensinaram, mas tiveram
outro ministério combinado com o do ensino. Aparentemente, Apo-
lo entregou-se por completo ao ensino da Palavra. No livro de Atos
encontramos a primeira descrição do ministério de ensino de Apolo,
que ocorreu em Éfeso (na atual Turquia):
E chegou a Éfeso um certo judeu chamado Apolo, natural de
Alexandria, varão eloquente e poderoso nas Escrituras. Este era
instruído no caminho do Senhor; e, fervoroso de espírito, falava e
ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente
o batismo de João. Ele começou a falar ousadamente na sinago-
ga. Quando o ouviram Priscila e Áquila, o levaram consigo e lhe
declararam mais pontualmente o caminho de Deus. Querendo ele
passar à Acaia, o animaram os irmãos e escreveram aos discípulos
que o recebessem; o qual, tendo chegado, aproveitou muito aos que
pela graça criam. Porque com grande veemência convencia publica-
mente os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo.
(Atos 18:24-28)
Vamos agora comparar a passagem acima com outra em 1 Corín-
tios 3:4-6. Apolo passou de Éfeso para Acaia (atual Grécia) atraves-
sando o Mar Egeu. Em Acaia ele veio até à cidade de Corinto, onde
ministrou às pessoas que tinham sido trazidas ao Senhor pelo minis-
tério de Paulo. Agora, na igreja de Corinto desenvolveu-se a mesma
espécie de rivalidade que nós vemos hoje: fações de crentes estavam a
promover pregadores particulares de quem eles gostavam mais. Paulo
repreendeu-os por isso, dizendo-lhes que isso demonstrava que eles
continuavam a ser carnais.
Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu, de Apolo;
porventura, não sois carnais? (1 Coríntios 3:4)
Divirto-me porque alguns teólogos e comentadores da Bíblia se
agarram a esta afirmação que a igreja de Corinto era carnal e depois
tentam dizer que as pessoas eram carnais porque elas falavam em lín-
guas. Elas não eram carnais porque falavam em línguas, mas porque
elas seguiam líderes humanos!

232
Novamente, esta tendência é precisamente o que encontramos na
igreja de hoje. Alguns dizem, “eu sou de Lutero”, outros dizem, “eu
sou de Wesley.” A Palavra de Deus diz: “Enquanto falares assim, mos-
tra que tens falta de maturidade.” A marca de imaturidade espiritual
é agarrar-se a líderes humanos e ministros que Deus abençoou e usou,
tal como Ele abençoou e usou Paulo, Apolo e Pedro. Quando as pes-
soas se identificam a si próprias no corpo de Cristo pelo nome de um
pregador particular que estejam a seguir, Paulo disse: “Por favor, já
chega disso; cresçam e parem de ser bebés!”
Pois quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros pelos quais
crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo
regou; mas Deus deu o crescimento. (Coríntios 3:5-6)
O Senhor deu um ministério a Paulo e outro ministério a Apolo.
O ministério de plantar de Paulo era a evangelização – o plantar ini-
cial da semente da Palavra de Deus, ou o evangelho. Mas a semente
nunca cresceria sem a subsequente rega e, por isso o próximo ministé-
rio a aparecer foi o ministério de rega de Apolo, o doutor(professor).
O evangelista planta a semente e o doutor a seguir rega-a. Que ima-
gem excelente do ministério de ensino!
Voltemos agora a Atos 18:24. Diz-se que Apolo “nasceu em Ale-
xandria”. Alexandria era uma das grandes cidades de aprendizagem
no mundo antigo. Tinha a biblioteca mais fabulosa e, a sugestão é
que Apolo era um homem com algum passado educativo. Ele era
também um “homem eloquente”, o que significa que era um orador
muito poderoso e “grandioso nas Escrituras” e que ele tinha um co-
nhecimento muito profundo da Palavra de Deus. Apolo foi a Éfeso e
o versículo 28 diz:
Porque com grande veemência convencia publicamente os judeus,
mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo. (Atos 18:28)
Aqui está um quadro muito claro do ministério de ensino público
de Apolo. Percebe-se uma vez mais que possuía um conhecimen-
to exaustivo das Escrituras. Ele também era eloquente, algo de uma
“personalidade de púlpito”. As suas apresentações eram poderosas e
ele conseguia provar aos oponentes do evangelho em público que eles
estavam errados. Desta maneira, ele era um homem com um ministé-
rio público convincente. Contrasta isto com o ministério dos pasto-

233
res e presbíteros, que poderão ensinar em pequenos grupos ou igrejas
e que podem não ter personalidade de púlpito ou grande quantidade
de seguidores, no entanto fazem um trabalho tremendamente valioso
no seu nível.
Algumas pessoas esperam que um presbítero ou um pastor da
igreja local, desde que seja capaz de ensinar, dê um tremendo sermão
sempre que esteja atrás de um púlpito. Todavia este não é o género
de ensino que acompanha sempre um homem que partilha a Palavra
numa situação local. É injusto e antibíblico esperar que o teu pastor
ou presbítero pregue como o teu pregador favorito na televisão ou
em grandes conferências. De facto, o ensinamento na tua igreja local
pode ser mais prático e de mudança de vida para ti, do que o de um
doutor(professor) num ministério móvel. Uma vez que ele está mais
no teu mundo, ele poderá na verdade falar ao coração da tua família
ou situação pessoal!
Repara numa afirmação impressionante em Atos 18:27:
Querendo ele [Apolo] passar à Acaia, o animaram os irmãos e
escreveram aos discípulos que o recebessem…
A igreja primitiva não recebia pregadores que não fossem reco-
mendados dos lugares onde eles tivessem previamente ministrado.

A igreja primitiva não recebia pregadores que não fossem reco-


mendados dos lugares onde eles tivessem previamente ministrado.

Isto é de uma importância vital. Aderir a esta prática hoje, cortaria


imediatamente aqueles que viajam pelo país e pelo mundo, sem apoio
e sem produzirem qualquer fruto, os que simplesmente negoceiam
com o povo de Deus. Este princípio atravessa todo o Novo Testamen-
to. Qualquer pregador que vinha da Ásia para a Acaia tinha que ter o
apoio público dos irmãos na Ásia, ou os irmãos na Acaia não o rece-
beriam. Por isso Apolo, vindo da Ásia para Acaia, tinha uma carta de
recomendação e, os irmãos na Acaia abriram as suas igrejas para ele.
…o qual, tendo chegado, aproveitou muito aos que pela gra-
ça criam. Porque com grande veemência convencia publicamente
os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo. (Atos
18:27-28)

234
“Aos que pela graça criam” é uma frase bastante notável. Refere-se
às pessoas que tiveram uma conversão maravilhosa e sobrenatural.
Talvez eram iletradas ou não tinham conhecimento de fundo das Es-
crituras do Antigo Testamento. Lembra-te que a maioria da igreja de
Corinto era de proveniência dos Gentios. Corinto, era um porto ma-
rítimo e, como tal, uma encruzilhada de pessoas de grande maldade e
imoralidade. Depois Paulo chegou e, no espaço de tempo de dezoito
meses, deixou uma congregação florescente de crentes.
Isto não aconteceu pelo método laborioso de ensinar sistematica-
mente algumas pessoas, mas sim pelo poderoso impacto do Espírito
Santo, dando testemunho sobrenatural de Jesus Cristo como Salva-
dor do mundo. Muitos destes novos crentes foram arrastados para
dentro do reino de Deus, através deste toque sobrenatural de Deus.
Vemos a mesma coisa acontecer hoje em muitas partes do mundo
onde as pessoas têm uma necessidade muito urgente. Elas não têm
conhecimento antecedente das Escrituras, não têm educação, nem
capacidade para ler ou escrever, todavia Deus intervém sobrenatu-
ralmente para as salvar. Vi casos destes em África. Um homem idoso
nunca tinha ido à igreja em toda a sua vida, e não sabia nada sobre
o evangelho. Uma noite sonhou que tinha que ir à igreja local com
telhado coberto de caniços (colmo) e paredes de barro e ficar salvo.
Quando ele acordou decidiu ir lá. No entanto, ele sentiu que não
tinha a roupa certa para ir à igreja; teve que pedir a alguém um so-
bretudo. Então foi até à igreja, onde foi salvo. Ora, isso foi realmente
a graça sobrenatural de Deus! Em algumas partes do mundo, muitos
estão literalmente “crendo pela graça”.
Um missionário da América Latina falou-me de uma mulher de
denominação Católica que nunca tinha aberto a Bíblia, mas que ti-
nha um sonho muito nítido. Ela via-se a si própria ir para uma certa
igreja e reparou que as paredes dentro da igreja eram verdes. No do-
mingo seguinte ela pensou: “Tenho que ir a esta igreja.” Ela saiu e
alugou um táxi, explicou ao condutor que tipo de edifício tinha visto
e disse: “Leve-me lá.” Infelizmente (ou assim pareceu), não conseguiu
ir porque o táxi avariou.
No domingo seguinte, ela fez a mesma coisa e o táxi conseguiu
chegar lá. Entrou na igreja e sobrenaturalmente Cristo revelou-se a
Si próprio a ela. A seguir ela falou ao ministro da congregação sobre o
seu sonho, dizendo: “Sabe, eu vi este edifício e tentei vir cá na semana
passada mas não consegui. Desta vez o táxi trouxe-me aqui, entrei e

235
vi estas paredes verdes.” O ministro olhou para ela e disse: “Tem a
certeza que as viu verdes no seu sonho?” Ela disse: “Sim.” Ele res-
pondeu: “Não me admiro que não tenha conseguido chegar até aqui.
Nós pintámos as paredes esta semana e na semana passada, elas não
estavam verdes!” Isto foi uma revelação sobrenatural garantida pelo
Espírito Santo a uma mulher que não sabia nada sobre o evangelho.
Durante a Segunda Guerra Mundial eu estava doente num hospital
militar. Na cama ao lado estava um Livre Marinheiro Francês. Eu era
a única pessoa no hospital que falava francês e ele não falava Inglês,
por isso ou ele falava comigo ou não falava com ninguém! Passado
algum tempo ele perguntou-me: “Que livro é esse que lês todos os
dias?” Disse-lhe: “é a Bíblia.” Ele não pareceu muito interessado, mas
falou comigo sobre a Bíblia. Um dia perguntei-lhe: “Gostarias que te
arranjasse um Novo Testamento em Francês?” Ele nunca tinha ouvi-
do falar do Novo Testamento, não sabia o que isso era, embora fosse
um bom Católico. Então, consegui um Novo Testamento da Socie-
dade Bíblica Britânica Estrangeira no Cairo e dei-lhe. Os resultados
foram drásticos, nunca tinha visto nada assim. Em menos de duas
semanas ele tinha lido todo o Novo Testamento à exceção do livro do
Apocalipse e converteu-se. Ele perguntou: “Porque é que eles nunca
me disseram isto?” Algum tempo depois, quando o vi pela última vez,
ele tinha comprado a maior Bíblia que tinha encontrado em Francês
e, armado com esta Bíblia, ele andava por aí falando com todos sobre
o Senhor.
Para alguns, deve ser uma intervenção sobrenatural de Deus, ou
eles nunca encontrarão o Senhor. Aqueles que Deus não pode al-
cançar por exposição sistemática, alcança por revelação sobrenatural!
Essas pessoas são exemplos dos que “acreditam pela graça”, tal como
vimos em relação aos Cristãos de Corinto em Atos 18.
Os crentes de Corinto conheciam Jesus, eles sabiam que Ele os
tinha salvado e batizado no Espírito Santo. No entanto, apesar de
conhecerem a Escritura, ou saberem o que era a graça, ou conhe-
cerem algumas das verdades básicas do evangelho, na prática eles
não sabiam nada! Por isso Deus enviou-lhes um doutor, na pessoa
de Apolo, que os ajudou poderosamente. Ele explicou o que tinha
acontecido com eles e completou as faltas que tinham no seu enten-
dimento. Talvez, lançou um fundamento doutrinal básico nas suas
vidas. Eles precisavam de uma exposição sistemática da Escritura,
ou nunca iriam permanecer na fé. Deus faz a mesma coisa hoje. Ele

236
envia às pessoas um “Apolo” para trazê-las a uma exposição pública e
sistemática da Escritura, podendo assim ficarem a saber o que acre-
ditam e porque acreditam nisso e como relacionar uma verdade da
Escritura com outra.
O ministério móvel de doutor é o ministério para o qual Deus me
chamou e, lembro-me nitidamente de ensinar aos jovens na América
nos finais dos anos 60 e princípios dos anos 70, os fundamentos bási-
cos da sua fé. Eles foram soberanamente salvos da rebelião, das drogas
e da anarquia, mas como precisavam ser ensinados! Sentavam-se du-
rante horas e pediam mais da Palavra de Deus. Em África, também,
tenho visto multidões de pé no calor do dia e recusarem ir embora
quando terminava a minha mensagem. Eles tinham viajado durante
vários dias a pé para virem e queriam mais da Palavra. Também me
recordo de um homem em Moscovo que viajou durante sete dias e
noites num comboio para vir a uma conferência de jovens líderes.
Consegues imaginar a intensidade da sua fome espiritual? Tenho visto
e experimentado o poder do ministério do ensino pela graça de Deus.
Quando estávamos no campo missionário, chegávamos à con-
clusão de que um ministério evangélístico muitas vezes apareceria
rapidamente na vida de alguém após a sua conversão. De facto, a
pessoa pode ser convertida numa semana e começar a atuar como um
evangelista na semana seguinte, mas o ministério de um doutor, nor-
malmente, leva mais tempo a desenvolver. Na maioria dos países que
podemos descrever como sendo de algum modo primitivos, uma das
grandes lacunas é o ministério do ensino. Não é difícil obter pessoas
como evangelistas, mas existem infelizmente poucos doutores e este
ministério é muito preciso hoje.

O Ensino e outros Ministérios Móveis


Vamos agora ver como é que o ensino frequentemente está ligado
com alguns dos outros principais ministérios móveis. No versículo
seguinte, Paulo juntou o ministério de apóstolo e doutor:
…para o que fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos
gentios. (2 Timóteo 1:11)
Apóstolo e doutor estão muito próximos pois são ministérios da
palavra. Assim poderá também haver uma ligação entre profetas e
doutores:

237
Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e dou-
tores… (Atos 13:1)
Mais à frente em Atos, lemos sobre Judas e Silas, os quais desce-
ram de Jerusalém até Antioquia:
Depois, Judas e Silas, que também eram profetas, exortaram e
confirmaram os irmãos com muitas palavras. (Atos 15:32)
Eles tinham uma mensagem de exortação e ensinamento que
acompanhava o seu ministério como profetas.
Em Lucas, vemos o ministério de doutor ligado com o de evan-
gelista:
E aconteceu, num daqueles dias, que, estando ele [Jesus] ensi-
nando o povo no templo e anunciando o evangelho… (Lucas 20:1)
Jesus tanto ensinava como evangelizava. Assim sendo o ministé-
rio do ensino está frequentemente ligado com outro ministério. Este
facto reforça o conceito de “ministério em equipa”, algo de que a
igreja hoje verdadeiramente se está apoderando. Os apóstolos, pro-
fetas, exortadores e outros, cujos ministérios são muito focados e
dinâmicos, faziam bem em trabalhar em parceria com os doutores
que podem equilibrar os seus dons e destaques. O doutor pode tra-
balhar com um apóstolo lavrando novo terreno em África, ou um
exortador enchendo arenas na América, interpretando, equilibrando
e aplicando as mensagens necessárias para essas audiências, que não
serão transmitidas pelo líder principal. O doutor pode preservar os
resultados de tais ministérios!

A Necessidade de Consagração e Crescimento


Como vimos previamente, contudo, Apolo aparentemente, en-
tregou-se na totalidade ao ministério de ensino. Isto coloca a questão
de que o ministério de doutor requer consagração. Tenho chocado
pessoas com uma afirmação que eu às vezes faço: “Os amigos que
tenho, os livros que leio, a comida que como – tudo está designado
para fazer de mim o melhor professor de Bíblia que eu posso ser. Não
melhor do que alguém, mas o melhor professor que eu posso ser.”
Nem pensas que podes ensinar devidamente as Escrituras sem teres
uma vida disciplinada, e isso custar-te-á alguma coisa. Mas que bên-
ção é perseguir aquilo que Deus criou para ti, e isto aplica-se a tudo

238
aquilo que te chamou para fazer. Quanto a mim, eu sou um profes-
sor. Se me puseres de pernas ao ar no canto, eu começarei a ensinar! É
isto que eu sou e o que Deus me fez ser. Mas eu tenho que “dar-me a
mim próprio” totalmente para o desenvolvimento deste dom de ensi-
namento, porque ensinar envolve toda a tua personalidade: espírito,
alma (mente, vontade e emoções), e corpo. Isto procede do homem
todo e da vida toda de uma pessoa.
Lembra-te que a minha definição de doutor (professor) é: aquele
que interpreta a Escritura. O dom de professor é interpretar e aplicar
a Escritura para outros. Ele torna a Escritura simples, real e aplicável.

O dom de professor é interpretar e tornar a Escritura simples, real e


aplicável.

É um verdadeiro dom tornar as coisas simples. Como filósofo


profissional, aprendi a tornar as coisas complicadas, mas Deus teve
que me dar o dom de tornar as coisas simples. Quanto a mim, se
não conseguir dizer alguma coisa duma maneira simples, é porque
eu ainda não a entendi. Oh, que enorme necessidade existe para que
os crentes verdadeiramente compreendam e apliquem as verdades
fundamentais da Escritura! Esta paixão consumiu-me por alguns ses-
senta anos, uma vez que me entreguei a mim próprio ao estudo e
exposição da Palavra de Deus.
Como já mencionei anteriormente, Deus chamou-me para este
ministério de ensino através de uma mensagem em línguas e interpre-
tação em 1941: “Chamei-te como professor das Escrituras em verda-
de, fé e amor, que são em Cristo Jesus, para muitos.” Quantas vezes
tenho ponderado a comissão do Senhor para mim, enquanto se tem
desenrolado ao longo dos anos. Tenho reparado que a progressão de
que Deus falou, aconteceu no meu ensinamento: primeiro verdade,
depois fé e finalmente amor.
No princípio, eu estava totalmente preocupado com a verdade, e
prossegui com toda a verdade para toda a igreja. Depois comecei a
ver que podia ter a verdade, mas não ter a vitória em áreas chave da
minha vida, tais como a saúde e as finanças. Agarrei-me à fé através
da Palavra, a todas as bênções incríveis que Deus prometeu na Sua
Palavra. A fase final da minha educação divina tem sido no domínio
do amor. Tal como diz 1 Timóteo 1:5:

239
Ora, o fim do mandamento é a caridade de um coração puro…
Quanto passou a significar para mim o amor, mesmo tendo que
devolver ao Senhor a minha querida esposa Rute! Nunca soube que
havia tanto amor no mundo, até o corpo de Cristo se reunir à minha
volta depois da sua morte. Até hoje, este amor no corpo de Cristo, faz
com que as lágrimas me venham aos olhos.
Que eu possa encorajar os professores (doutores) a continuarem a
crescer no seu dom e na sua expressão na igreja. Não fiquem apenas em
áreas em que se sintam confortáveis a ensinar, mas esperem que Deus
abra áreas novas da verdade a partir das quais podeis abençoar a igreja!
Lembro-me de Deus falar comigo em meados dos anos 70 en-
quanto estava deitado na minha cama num quarto de hotel em
Atlanta: “De Querite a Sarepta, de Sarepta ao Carmelo, do Carmelo
ao Horebe, do Horebe para dentro de muitas vidas.” Reconheci ins-
tantaneamente que estas eram as localizações dos principais eventos
no ministério de Elias: ele foi alimentado por corvos no ribeiro de
Querite e pela viúva de Sarepta e depois intimidou os falsos profetas
no Monte Carmelo. Mas no Monte Horebe, ele foi confrontado para
ungir os próximos reis da Síria e Israel e o profeta Eliseu, que o iria
suceder. Lembra-te que Eliseu terminou todos os trabalhos que Deus
tinha atribuído a Elias. Deus disse-me estas palavras: “para dentro de
muitas vidas”. Tem sido meu desejo ambas as coisas; ensinar outros e
ensinar outros a ensinar outros! Tal como Paulo afirmou:
E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a
homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros.
(2 Timóteo 2:2)
Paulo ensinou Timóteo, que tinha que ensinar os presbíteros lo-
cais, que tinham por sua vez de treinar outros presbíteros. O minis-
tério de doutor (professor) pode mudar a história ao transmitir en-
sinamento bíblico puro às gerações subsequentes de crentes. Espero
que eu tenha tido sucesso ao dar vida a algumas gerações de ensino
depois de mim.

O ministério de doutor (professor) pode mudar a história ao


transmitir ensinamento bíblico puro às gerações subsequentes de
crentes.

240
- 21 -

Ministério Residente: Pastores

Estivemos a analisar aquilo que consideramos ser os quatro prin-


cipais ministérios móveis da igreja – apóstolos, profetas, evangelistas
e doutores. Nos próximos três capítulos, consideraremos os ministé-
rios residentes da igreja local: o presbítero (pastor) e o diácono.
A distinção entre ministérios móveis e residenciais é mesmo im-
portante. Uma vez mais, um ministério móvel pode funcionar dentro
de qualquer esfera que seja designada por Deus. Se um homem é um
apóstolo por ministério, ele é um apóstolo quer esteja em Jerusalém,
Antioquia, ou Corinto. Todavia, se um homem é nomeado presbítero
ou pastor em Antioquia e se ele se mudar para Corinto, não será ne-
cessariamente um presbítero em Corinto. Ele tem que ser nomeado
de novo, porque os ministérios residenciais não são automaticamente
transferíveis para outros locais.
Creio que os problemas e desafios de cada cidade no Novo Tes-
tamento eram únicos, e que certos ministérios foram ordenados por
Deus para serem plantados nessas cidades. A sua unção foi para a ci-
dade e região em que Ele os colocava e não para “os confins da terra”.
Esta é a natureza dos ministérios residenciais.
Quão importante é para o povo de Deus ter entre ele esses mi-
nistérios cujo foco é a congregação local! Enquanto os ministérios
móveis estão construindo o corpo coletivo, os ministérios residenciais
estão se entregando às famílias, comunidades e na estrutura das cida-
des individuais. Isto é um equilíbrio necessário no corpo de Cristo.
Alguns ministérios devem estar lá para ficar. O povo de Deus ficará
inseguro se os líderes estiverem sempre a ir e a vir, sem ninguém para
guardar o rebanho. Tal como veremos, o pastor/presbítero entrega-se
às necessidades espirituais, enquanto o diácono está focado em ne-
cessidades materiais e práticas. Assim, no programa de Deus, quer os
confins da terra quer cada cidade e município são cuidados.

241
Existe muita confusão entre os crentes acerca da liderança da igre-
ja local, a qual vou abordar neste capítulo. De facto, existem mui-
tos estereótipos e tradições de que falarei aqui, que poderão mesmo
transtornar a tua teologia!
Em Filipenses 1:1, somos presenteados com todo o pessoal da
igreja local:
Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo
Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos.

Aqui estão os três grupos que formam a congregação local: os


crentes e as duas classes de líderes, bispos (também chamados super-
visores e anciãos), e diáconos; não há mais nada para além deles.

Nomes Diferentes para o Mesmo Líder


Vamos considerar primeiro os “bispos”. A palavra Grega que é
traduzida por “bispos” em Filipenses é “poimen”, e é normalmen-
te traduzida por “pastor”. Somente numa passagem, Efésios 4:11, é
traduzida por “pastores” isto é “ministro de igreja”. Temos que clari-
ficar aqui alguns problemas surgidos da linguagem e tradução. No
Novo Testamento Grego, são usadas três palavras diferentes para
descrever o mesmo ofício ou ministério. Além destas três palavras,
a Versão King James traduz duas dessas palavras Gregas em duas pa-
lavras diferentes em Inglês. Assim temos um total de cinco palavras
na tradução King James, todas descrevendo um e o mesmo ofício ou
ministério! Ao longo dos séculos, isto conduziu indubitavelmente a
uma confusão sem fim entre os Cristãos de língua Inglesa. Um dos
meus propósitos principais nestes capítulos é clarificar esta confusão
e por conseguinte, trazer uma verdadeira clareza a este importante
ministério residencial.
Devo confessar que, durante anos, trabalhei sob esta confusão.
Costumava falar regularmente sobre pastor “e” ancião (ou presbítero)
como se pastor e presbíteros fossem diferentes. Foi como um flash de
luz um dia, quando de repente me apercebi que pastor e presbítero
são apenas dois nomes diferentes para a mesma pessoa ou ofício! O
meu estudo da ordem da igreja do Novo Testamento foi como al-
guém tentando fazer um puzzle quebra-cabeças com uma peça extra.
Não importa o que eu fiz, havia sempre uma peça para a qual não

242
havia lugar. Esta peça extra era o pastor como um ministro ou como
uma pessoa distinta dos anciãos (presbíteros). No entanto, este en-
tendimento da liderança da igreja não tem base no Novo Testamen-
to. Pastor ou ministro de igreja são nomes para o mesmo ministério
como ancião (presbítero). Ao examinarmos as três palavras Gregas e
os cinco títulos em Inglês no Novo Testamento, tornar-se-á perfei-
tamente claro que estão todos a falar sobre uma e a mesma pessoa.
A primeira palavra Grega é “presbuteros”, significando um an-
cião, da qual nos veio palavras em Inglês como “presbitério”. Os
Presbiterianos são assim chamados porque acreditam no governo dos
presbíteros (ou anciãos). Esta palavra é sempre traduzida por ancião
(presbítero) na Versão King James, por isso não há problema sobre a
tradução aqui.
A próxima palavra Grega é “episkopos”. O seu significado literal
em Grego não está em questão: “epi” significa “sobre” e “skopos” sig-
nifica “aquele que vê” – um supervisor. No entanto, na Versão King
James, que usa palavras em Inglês mais antigo para alguns termos, a
palavra “episkopos” é por vezes traduzido por “bispo”. Muitas pessoas
não se apercebem que “bispo” e “supervisor” são duas maneiras dife-
rentes de traduzir a mesma palavra Grega.
De facto, se és interessado em linguística, “episkopos” foi simples-
mente transferida para as línguas Europeias. Em Dinamarquês, por
exemplo, a palavra original “biskof ” é apenas a palavra “episkopos”
com o primeiro “e” retirado e o “p” mudado em “b”. A partir do
Escandinavo “biskof ”, obtemos a palavra Inglesa “bispo” por transli-
teração. Todavia o sentido continua esse de um supervisor.
A terceira palavra “poimen”, que já mencionei, significa “pastor”
ou “ministro de igreja” e é traduzida muitas vezes desta maneira no
Novo Testamento. Uma vez mais, somente uma vez é traduzida por
“pastor” na Versão King James, mas temos que ter em mente que esta
era a palavra para pastor na altura da tradução. Hoje, as associações
destas duas palavras são completamente diferentes uma da outra.
No entanto permanece o facto de que o ofício que é referido atua
como um pastor. Desta maneira, temos três palavras Gregas diferen-
tes para um líder residente, traduzidas por cinco palavras diferentes
em Inglês. Não admira que haja grande confusão sobre a liderança
da igreja local!

243
Três Palavras Gregas Cinco Palavras Inglesas
presbítero
“presbuteros” pastor
“episkopos” bispo
“poimen” ministro de igreja (pastor)
supervisor

A minha conclusão, portanto, é que estas palavras diferentes,


todas denotam um e o mesmo ministério. Vamos agora ver algumas
passagens nas quais estes termos são usados de maneira alternada:
De Mileto [Paulo], mandou a Éfeso chamar os anciãos da igreja.
(Atos 20:17)
Aqui eles são chamados “anciãos”. A maior parte do resto de Atos
20 contém o discurso que Paulo dirigiu a estes anciãos. Ele continu-
ava a falar aos anciãos quando disse:
Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito
Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que
ele resgatou com seu próprio sangue. (versículo 28)
Eles são chamados anciãos no versículo 17, mas neste versícu-
lo, eles são referidos como supervisores(bispos) sobre um rebanho,
que está sempre relacionado com a atividade de um pastor. Depois
lemos, “para apascentardes a igreja de Deus”. Vimos que a palavra
Grega para “apascentar”, um substantivo, é “poimen”. Aqui, a pala-
vra Grega que é traduzida por “apascentar” ou “alimentar” é “poi-
maino”, um verbo. Para traduzir este verbo corretamente, devíamos
dizer que estes anciãos ou supervisores apascentam o rebanho, ou a
igreja.
Repara novamente que estes anciãos eram os líderes reconhecidos
da igreja local; não havia mais ninguém acima deles numa congrega-
ção local. Se tivesse havido algum pastor ou outro líder, a conduta de
Paulo teria sido extremamente pouco ética em intimar esses anciãos
ao dar-lhes as suas instruções, enquanto ignorava o pastor. Mas Paulo
não fez isso, porque não havia outro pastor para ignorar. Estes ho-
mens eram coletivamente a liderança daquela igreja.
A seguir, voltamos para a epístola a Tito, onde Paulo disse:

244
Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa or-
dem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses
presbíteros, como já te mandei… (Tito 1:5)
Como já vimos, uma das principais responsabilidades de Tito era
ordenar presbíteros (anciãos). Depois, nos versículos seguintes, Paulo
continuou a descrever o tipo de pessoa que um presbítero deve ser:
Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha
filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são deso-
bedientes. Porque convém que o bispo [ou supervisor] seja irrepre-
ensível… (versículo 6-7)
Paulo estava a falar sobre um presbítero (ancião), mas a palavra
usada aqui é bispo ou supervisor; as palavras são usadas de uma ma-
neira absolutamente intercambiável. Um ancião é um bispo, e um
bispo é um ancião. Isto não é apenas o uso de Paulo, mas também de
Pedro. Voltando para 1 Pedro, vemos que ele combinou da mesma
maneira estes dois ministérios:
Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas, agora, tendes voltado
ao Pastor e Bispo da vossa alma. (1 Pedro 2:25)
A tradução alternativa para supervisor é bispo, assim Jesus é o
Pastor e Supervisor (ou Bispo) das nossas almas; a mesma pessoa é
referida.
Em 1 Pedro 5, todos os três conceitos estão ligados em conjunto
e, todos são aplicados aos anciãos:
Aos anciãos, pois, que há entre vós, rogo eu, que sou ancião com
eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e participante da glória
que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós,
não por força, mas espontaneamente segundo a vontade de Deus; nem
por torpe ganância, mas de boa vontade; (versículos,1-2) (ARIB)
No versículo 1 eles são chamados “anciãos”, no versículo 2, é-lhes
pedido para “apascentarem [alimentarem] o rebanho de Deus…ser-
vindo como supervisores.” Temos anciãos (presbuteros) combinado
com alimentar ou apascentar (poimaino) e supervisionar (episkopao, a
forma verbal de episkopos). Por conseguinte, tanto Pedro como Paulo
assumem que os líderes da igreja local são anciãos, e que eles tam-

245
bém são chamados pastores e supervisores. Podemos resumir isto deste
modo: o requisito para a liderança é ser um ancião (presbítero); o mi-
nistério espiritual é o de um pastor; e o trabalho que tem que ser feito
é supervisionar. Temos uma pessoa vista de três perspetivas diferentes.

Pluralidade da Liderança
O próximo facto que nós precisamos estabelecer é de que estes
líderes residentes da igreja local são sempre mencionados no plural.
Não existe um único caso no Novo Testamento onde uma congre-
gação local é liderada por um homem que é o pastor. O conceito
não é encontrado. De facto, é totalmente estranho a toda a ordem e
imagem da igreja primitiva, absolutamente fora de linha com tudo
o que o Novo Testamento ensina sobre liderança da igreja local. Pelo
contrário, a imagem do Novo Testamento é a de “ministério em gru-
po (em equipa)”.
Vamos olhar para exemplos destes líderes locais que são mencio-
nados no plural:
E, havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em
cada igreja… (Atos 14:23)
Repara que “a igreja” está no singular, enquanto que “os anciãos”
estão no plural. Cada igreja tinha anciãos, não “um” ancião, “um”
pastor, ou “um” ministro, mas “anciãos” em cada igreja. Já vimos Atos
20:17, onde Paulo mandou a Éfeso chamar os anciãos da igreja. Não
“o” ancião, pastor, bispo, ou supervisor, mas “os anciãos” da igreja.
Também salientamos Tito 1:5, onde Paulo disse a Tito para que de
cidade em cidade, estabelecesses presbíteros…
É significativo que a igreja e a cidade sejam coexistentes. Por outras
palavras, elas têm as mesmas fronteiras ou arredores. Onde uma pas-
sagem fala em ordenar anciãos em cada igreja, outra fala sobre ordenar
anciãos em cada cidade. Voltaremos a este conceito brevemente.
Também olhamos para Filipenses 1:1, que fala de “bispos e diá-
conos”. Não há referencia ao pastor ou ministro. Novamente, em 1
Tessalonicenses, lemos:

E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre


vós, e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam. (1 Tessa-
lonicenses 5:12)

246
“Aqueles” os que trabalham entre os Tessalonicenses estão no plu-
ral. E eles fazem três coisas, que correspondem aos três títulos de
liderança: eles “trabalham” (como pastores), “presidem sobre” eles
(como bispos ou supervisores), e “admoestam-nos” (como anciãos
amadurecidos).
A carta aos Hebreus refere-se três vezes à liderança da igreja local
e sempre no plural:
Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de
Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver.
Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por
vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o
façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.
Saudai todos os vossos chefes e todos os santos. Os da Itália vos
saúdam. (Hebreus 13:7, 17, 24, ênfase adicionada)
Não existe a mais ligeira sombra de uma sugestão em lado ne-
nhum nestes versículos que vimos, de que haja um homem que é
o governante de uma igreja local. Está perfeitamente claro em cada
passagem, que existe uma pluralidade de liderança e ministério, ou
equipa de liderança. A experiência mostra certamente, que a notável
extensão de responsabilidades em pastorear o povo de Deus requer
uma equipa, e muito mais do que isso no ministério móvel. A razão
para isso é que o ministério móvel é, por natureza mais especiali-
zado do que o ministério residencial. Este, é como um médico que
tem uma clínica geral cobrindo um vasto âmbito de problemas, en-
quanto que os ministérios móveis são como as áreas especializadas
da prática médica. A simples extensão de problemas envolvidos em
levar um corpo local de pessoas à maturidade, requer uma aborda-
gem em equipa. É precisamente isto que está retratado no Novo
Testamento.
Voltando para Atos 15, temos a imagem da reunião dos líderes
chave para discutirem a conversão dos Gentios. Mais uma vez, vemos
uma linha consistente de liderança plural na cena local:
Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda
contra eles, resolveu-se que Paulo, Barnabé e alguns dentre eles su-
bissem a Jerusalém aos apóstolos e aos anciãos sobre aquela questão.
(Atos 15:2)

247
Quando chegaram a Jerusalém, foram recebidos pela igreja e pe-
los apóstolos e anciãos e lhes anunciaram quão grandes coisas Deus
tinha feito com eles. (versículo 4)
Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para considerar
este assunto. (versículo 6)
Então, pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igre-
ja, eleger varões dentre eles e enviá-los com Paulo e Barnabé a An-
tioquia, a saber: Judas, chamado Barsabás, e Silas, varões distintos
entre os irmãos. (versículo 22)
E, quando iam passando pelas cidades, lhes entregavam, para se-
rem observados, os decretos que haviam sido estabelecidos pelos após-
tolos e anciãos em Jerusalém, (Atos 16:4)

De novo, nem uma vez encontramos a sugestão de que um ho-


mem só é o líder de uma congregação. Por cinco vezes, apóstolos e
anciãos são mencionados como reunidos em conjunto na liderança
de uma congregação local.
Em Atos 15:23, temos um exemplo mais formal de suporte a esta
ideia, que é parte de uma carta:
E por intermédio deles escreveram o seguinte: Os apóstolos, e os
anciãos, e os irmãos, aos irmãos dentre os gentios que estão em Antio-
quia, Síria e Cilícia, saúde.
Isto é liderança local plural. Repara como o Novo Testamento é
consistente nos títulos e na natureza plural do ministério residencial.
Não existe espaço para suposições neste quadro claro de liderança!

O Novo Testamento deixa bem claro: a liderança na igreja local é


um trabalho em equipa.

O Modelo Original de Deus


Agora, a coisa revolucionária acerca desta imagem de liderança é
que, em qualquer localidade determinada, nunca precisa haver mais
do que uma igreja local, ainda que possa haver aí muitos milhares
de crentes. Como vimos anteriormente, nunca houve mais do que
uma igreja numa cidade. Nunca houve uma situação onde existissem

248
igrejas em Jerusalém, ou igrejas em Antioquia, ou igrejas em Corinto.
Nós vemos “a” igreja em Jerusalém, ou “a” igreja em Antioquia, ou
“a” igreja em Corinto. Todavia o número de crentes era muito grande
nessas cidades. Os historiadores calculam que havia pelo menos qua-
renta mil crentes em Antioquia e pelo menos vinte e cinco mil crentes
em Corinto, contudo somente uma igreja!
Um homem não pode servir eficazmente como um pastor a qui-
nhentas pessoas, pior ainda a cinco mil ou cinquenta mil! Seria im-
possível para um pastor fazer o trabalho como devia ser se ele tentasse
supervisionar tal numero de pessoas. A alternativa é haver pluralidade
de líderes, os tais anciãos/ supervisores/ pastores. Dessa maneira, não
importa quantos membros existem; nunca precisas de dividir a con-
gregação. Nomeias novos líderes cada vez que a comunidade crescer,
e manténs uma certa proporção entre o número de líderes e o número
na congregação.
Por exemplo, supõe que precisas de um ancião para cada cinquen-
ta pessoas: com uma congregação de quinhentas, precisarás de dez
anciãos; com uma congregação de cinco mil, precisarás de cem anci-
ãos; e com uma congregação de cinquenta mil, precisarás de mil an-
ciãos. Mas nunca precisas de dividir a congregação e fazer duas igrejas
numa localidade, simplesmente porque a igreja cresce.
Vejamos como se aplicou isto na igreja em Jerusalém. Atos 18:21-
22, diz-nos que Paulo desembarcou em Cesareia e depois subiu e
saudou a igreja. Ele deu o seu relatório à igreja – não às igrejas, mas
a uma igreja em Jerusalém. Em Atos 21:20, podemos apanhar uma
ideia do tamanho desta igreja:
E, ouvindo-o eles, glorificaram ao Senhor e disseram-lhe: Bem
vês, irmão, quantos milhares de judeus há que crêem, e todos são
zelosos da lei.
Onde algumas versões dizem “milhares”, o termo usado pela Nova
Versão King James (e o original Grego) é “miríades”, ou dez mil. A
linguagem indica que deve ter havido pelo menos dez mil, multipli-
cado por cinco, o que faz cinquenta mil na única congregação em
Jerusalém! O versículo 22 do mesmo capítulo diz:
Que faremos, pois? Em todo o caso é necessário que a multidão se
ajunte; porque terão ouvido que já és vindo.

249
Este versículo fala de uma grande afluência de pessoas – multi-
dões e, no entanto uma igreja. Como é que isso podia ser? Porque
eles tinham anciãos em proporção para o número de membros na
igreja.
Acredito que Deus faz as coisas certas à primeira. Este modelo
pode ser estranho para nós, mas é o Seu modelo. Neste contexto
penso sempre na arca de Noé. A arca foi desenhada por Deus e cons-
truída por Noé, exatamente de acordo com o desenho de Deus.
Nunca teve de ser revogada, nunca teve que ir para um estaleiro ou
ser modificada ou reparada. Foi construída corretamente à primeira
vez, e é desta maneira que Deus trabalha.
Considera o ministério de Jesus Cristo, o Apóstolo perfeito, o
Profeta perfeito, o Evangelista perfeito, o Doutor perfeito, e o Pastor
perfeito. Jesus estabeleceu este quíntuplo ministério desde o princí-
pio, e Deus nunca teve nenhum outro programa para o ministério
além daquele de Jesus Cristo. Tudo o que temos que fazer é fazer o
que Jesus fez – é tão simples. Jesus disse:
Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim
também fará as obras que eu faço e as fará maiores do que estas,
porque eu vou para meu Pai. (João 14:12)
Deus começou com o modelo certo, que deu aos apóstolos e a ou-
tros líderes da igreja primitiva através do Espírito Santo, e Ele nunca
aceitará outro. Temos visto muitas outras formas e métodos de mi-
nistério ao longo dos anos, mas eles nunca cumpriram o trabalho que
Deus queria feito. Porque é que nós não nos encaixamos no plano de
Deus em vez de tentarmos fazer com que Ele faça as coisas da manei-
ra que pensamos que Ele as deveria fazer?
Vou mencionar dois outros pontos sobre a importância e a neces-
sidade dos anciãos, que já discutimos previamente em outros con-
textos.

A Nomeação dos Anciãos Cria uma Igreja


O primeiro ponto é ilustrado pelo versículo seguinte:
E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos
discípulos, voltaram para Listra, e Icónio, e Antioquia, confirman-
do o ânimo dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois

250
que por muitas tribulações nos importa entrar no Reino de Deus.
(Atos 14:21-22)

Eles voltaram para as cidades de Listra, Icónio e Antioquia, onde


tinham ministrado no ano anterior. Quando deixaram essas cidades
depois da sua primeira visita, deixaram para trás pessoas que são
chamadas “discípulos”. Eles não deixaram igrejas; não há referência
a igrejas antes desta altura. Contudo, na sua viagem de regresso,
nós lemos:
E, havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em
cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em
quem haviam crido. (versículo 23)

Repara na transição de serem apenas discípulos para serem igre-


jas. Quando é que isto aconteceu? Quando os anciãos foram nome-
ados. Sem anciãos, temos grupos amorfos de discípulos. Assim que
os líderes adequados são nomeados, então cada um desses grupos
de crentes é reconhecido pela Escritura como uma igreja. Julgando
por este modelo, o que é que devemos pensar sobre as multidões de
denominações e congregações que não estão organizadas à volta deste
princípio?
Os anciãos que foram nomeados em Listra, Icónio e Antioquia
não podiam ter sido crentes há mais de um ano, provavelmente me-
nos. Eles não eram extraordinários estudantes de Bíblia que tivessem
passado um colégio de Bíblia ou que se tivessem sentado durante
quinze anos numa escola Dominical. Eles eram apenas homens que
usaram o seu tempo para obterem familiaridade com Deus e as ver-
dades básicas da Sua Palavra. Quando Paulo e Barnabé regressaram, o
Espírito Santo mostrou-lhes os homens que deviam ser líderes. Uma
vez mais, eles foram provavelmente escolhas claras, homens que cres-
ceram e assumiram responsabilidade naturalmente. Os líderes ascen-
dem sempre ao topo ao demonstrarem iniciativa, responsabilidade e
serviço. Desta maneira, os apóstolos reconheceram simplesmente a
escolha óbvia que Deus já tinha feito.

A Liderança Residencial É Fundamental


O segundo ponto pode ser visto neste versículo:

251
Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa or-
dem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses
presbíteros, como já te mandei. (Tito 1:5)

Alguma coisa estava definitivamente a faltar até os anciãos serem


ordenados. Esta questão da liderança residencial é absolutamente
fundamental. Não pode ser ultrapassada ou ignorada. Estaremos nós
em ordem, ou estaremos em falta? Não existe nada mais urgente do
que a nossa necessidade para abraçar este modelo bíblico de plural,
liderança “cultivo caseiro”(autóctone) nas igrejas locais. Eu uso o
termo “cultivo caseiro” para descrever o líder cujo “seminário” é a
própria igreja local. O facto notável é que os pastores/anciãos surgem
“a partir das” igrejas que eles terão que pastorear.

Os pastores/anciãos surgem “a partir das” igrejas que eles terão


que pastorear.

Como benefíciario de uma educação muito refinada, eu aprecio


grandemente o que é que o treino formal pode fazer. Todavia, os
conhecimentos que adquiri em educação formal, não foram os que
necessitei na vida da igreja local. E devo dizer que os homens treina-
dos no teste duro da igreja local têm sido aqueles com maior impacto
nas igrejas. Novamente, tentaremos melhorar os métodos de Deus,
ou entraremos em linha com eles?

As Relações Entre Móveis e Residenciais


Vamos agora rever as relações entre apóstolos e anciãos numa con-
gregação local, que já discutimos com alguma dimensão ao falarmos
da estrutura da igreja. Como é que estes dois ministérios se relacio-
nam um com o outro? Ainda que o apóstolo seja primariamente um
ministério móvel para todo o corpo de Cristo, mesmo assim ele tem
que ter uma casa em algum lado. Ele deve estar em comunhão com
uma congregação local onde quer que resida. Poderás dizer que ele é
um membro por residência. A relação do apóstolo com a sua igreja
local foi mencionada por Pedro:
Aos presbíteros que estão entre vós, admoesto eu, que sou também
presbítero com eles… (1 Pedro 5:1)

252
Como um residente da cidade de Jerusalém, o apóstolo Pedro
tomou lá o seu lugar dentro da congregação como um ancião jun-
tamente com os outros anciãos. Uma vez que o ministério apostó-
lico habitualmente inclui os ministérios de profeta, de evangelista,
de doutor e de ancião, o apóstolo exerce o ministério de um ancião
quando se encontra a funcionar dentro da igreja da sua residência.
Ele não está num nível mais alto do que os anciãos, porque não há
pessoa ou corpo acima dos anciãos. Isto é um dos grandes princípios
fundamentais que não podemos ignorar. Os anciãos são os líderes,
e não podes ir mais alto do que eles. No momento em que tive-
res alguém acima dos anciãos, então precisarás ter alguém sobre essa
pessoa, e depois necessitarás ter alguém acima dele, até que acabarás
inevitavelmente com alguma espécie de burocracia. Outro exemplo
de ministérios móveis que interagem com uma congregação local é a
igreja em Antioquia.
Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e dou-
tores… (Atos 13:1)
São mencionados aqui cinco homens como profetas e doutores.
Nesta altura, eles eram residentes em Antioquia, por isso Antioquia
era a sua congregação local. Dentro desta congregação, eles tinham
posições de liderança devido ao seu ministério como profetas e dou-
tores. Mas eles continuavam a ocupar os seus lugares dentro da con-
gregação juntamente com os outros líderes locais.
Como temos visto, aqui está um quadro dos principais ofícios ou
ministérios numa congregação local:
E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente, apóstolos, em se-
gundo lugar, profetas, em terceiro, doutores, depois, milagres, depois,
dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas. (1 Corín-
tios 12:28)
O ministério principal é o do apóstolo, seguido pelos profetas e
doutores, mas eles são todos co-anciãos. Em termos da sua autorida-
de, fora assuntos meramente locais, a sua autoridade é hierarquizada,
mas dentro da igreja local, eles são iguais.
Esta disposição é absolutamente lógica e prática; é necessário um
equilíbrio muito cuidadoso, especialmente na relação entre os após-
tolos e os anciãos locais. Os apóstolos não se podem tornar um grupo

253
acima dos anciãos. Não obstante, por causa do ministério apostólico
em certos assuntos, particularmente os de doutrina, é deles a mais
alta autoridade.
Em muitas coisas na Escritura, temos que encontrar um equilí-
brio. Usarei a relação entre marido e esposa como uma ilustração. A
Escritura diz que o marido é a cabeça da esposa, mas também diz que
o marido deve estimar a sua esposa. Existem responsabilidades em
ambos os lados. (Ver Efésios 5:22-31). Muitos casamentos vão mal
porque um ou ambos os parceiros não cumprem as suas obrigações.
Um cumprimento mútuo das obrigações é exigido para o casamento
ser bem sucedido. A esposa deve-se submeter, mas o marido deve
amar. Se o marido não amar, então a submissão da esposa torna-se
uma espécie de escravidão. Por outro lado, o marido deve liderar, mas
se a esposa não se submeter, então a liderança do marido torna-se
uma espécie de ditadura. Por isso para um casamento funcionar, am-
bas as partes têm que assumir os seus lugares e respeitar e reconhecer
a posição do outro.
Parece-me que é exatamente o mesmo com apóstolos e anciãos
numa congregação local. Os apóstolos não devem dizer, “Nós somos
um super grupo e vós tendes de fazer o que nós dizemos, porque
somos apóstolos.” Por outro lado, dentro de certas esferas que estão
sob o ministério apostólico, a sua opinião é a que tem mais autori-
dade. Portanto, os outros anciãos não podem dizer aos apóstolos,
“Vós sois apenas anciãos e, não precisamos de vos dar mais atenção
do que todos os outros.” Em vez disso, eles devem dizer, “Vós sois co-
anciãos, mas por causa do vosso ministério apostólico, somos obri-
gados a prestar atenção ao que dizeis.” Do mesmo modo, na falta de
um apóstolo local entre os anciãos, um ancião mais velho deve ser
ouvido, mas em ambos os casos não deve haver ditador.
A relação do apóstolo com a sua igreja local, foi abordada não
somente por Pedro, mas também por João:
O ancião à senhora eleita e a seus filhos… (2 João 1)
O presbítero ao amado Gaio… (3 João1)
João era um apóstolo, mas ele tomou a sua posição como um
ancião, tal como Pedro fez. Na terceira epístola de João, contudo,
torna-se claro que na situação da igreja na cidade onde vivia Gaio, ha-

254
via problemas entre os anciãos. O problema era devido a um homem
em particular, Diótrefes, que tinha uma doença muito comum entre
Cristãos: Ele queria ser “aquele” para quem todos devem olhar e obe-
decer, e ele queria ter a última palavra em tudo. João era um homem
muito gracioso e amoroso, mas a linguagem que ele usou acerca de
Diótrefes, foi bem forte:
Tenho escrito à igreja; mas Diótrefes, que procura ter entre eles
o primado, não nos recebe. Pelo que, se eu for, trarei à memória as
obras que ele faz, proferindo contra nós palavras maliciosas; e, não
contente com isto, não recebe os irmãos, e impede os que querem
recebê-los, e os lança fora da igreja. (3 João 9:10)
Aqui havia uma situação de igreja muito típica. Diótrefes tinha
decidido que ele ia ser “o” pastor e toda a gente tinha que fazer o que
ele dizia. Como apóstolo, João disse: “Se eu for aí, entender-me-ei
com Diótrefes.” Repara na interação de autoridade.
É um facto que, em todos os aspectos da vida Cristã e, em cada
aspecto da congregação local, existe este elemento de autoridade e
disciplina.

Em todos os aspectos da vida Cristã e, em cada aspecto da con-


gregação local, existe o elemento de autoridade e disciplina.

Onde os Cristãos recusam a disciplina da Escritura, o resultado é


um caos e um desastre. A maioria dos Cristãos não tem a menor ideia
do que significa estar sob disciplina. Muitas vezes, quando as pessoas
recebem o batismo do Espírito Santo, ficam com uma falsa ideia do
que é a liberdade. Elas dizem, “Agora, eu sou livre; posso fazer o que
quero.” Isso não é liberdade, mas criancice!
Durante o nosso ministério no Quénia, quando a nação estava
prestes a obter a independência, os Quenianos diziam entre eles,
“Quando uhuru (a independência) chegar, nós poderemos andar
com as nossas bicicletas em qualquer lado da estrada, andaremos nos
autocarros sem pagar bilhetes. Já não teremos que pagar mais impos-
tos”. Essa era a ideia que tinham de independência. Alguns Cristãos
são tão ingénuos no plano espiritual quanto estas pessoas eram a nível
político. Em cada área da vida Cristã e da vida da igreja, existe auto-
ridade e disciplina. Lembra-te de que as primeiras pessoas que foram

255
chamadas Cristãs eram “discípulos”, isto é, “aqueles que estão sob
disciplina”. (Ver Atos 11:26). Precisamos voltar para a compreensão
de uma pluralidade de liderança da igreja, na qual podemos ser con-
duzidos e instruídos por supervisores divinos.

256
- 22 -

Pastores: Governar,
Ensinar, Apascentar

Neste capítulo, iremos entrar mais profundamente no trabalho


de um ancião ou pastor. Duas das principais funções deste ministério
residente são governar e ensinar, tal como temos visto nestas e nou-
tras Escrituras:
Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de
duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na
doutrina. (1 Timóteo 5:17)
Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de
Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver.
(Hebreus 13:7)

A terceira função principal é a de pastor:


Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito
Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que
ele resgatou com seu próprio sangue. (Atos 20:28)
Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado
dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância,
mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança
de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando aparecer
o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória. (1 Pe-
dro 5:2-4)

Eu acredito verdadeiramente que o coração de um pastor é a mar-


ca distinta de um verdadeiro pastor/ ancião. É um homem que leva
as pessoas no seu coração e vive continuamente entre elas como um
protetor e guia.
Vamos analisar um pouco melhor estas três funções.

257
O Ancião como Governante
O verbo “governar” tem algumas aplicações interessantes no Novo
Testamento que indica um grau muito definido de autoridade e disci-
plina. De facto, um homem não pode funcionar como um verdadei-
ro pastor ou ministro da igreja sem possuir e exercer real autoridade
na sua função como líder e protetor. Vamos ver uma citação sobre o
Messias, de Miquéias 5:2, que encontramos no Novo Testamento:
E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre
as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel,
meu povo (Mateus 2:6)(versão Católica)
A palavra que é traduzida por “governar” é a palavra Grega para
pastor. A mesma palavra aparece três vezes no Apocalipse. Aqui está
o primeiro exemplo:
E ao que vencer e guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe
darei poder sobre as nações, e com vara de ferro as regerá; e serão
quebradas como vasos de oleiro; como também recebi de meu Pai.
(Apocalipse 2: 26-27)
O facto de que a referência é a um pastor, é enfatizada pelo uso da
palavra vara. Mas em vez de ser uma vara de madeira ou bastão, era
uma vara de ferro. Repara que a vara é transportada para quebrar as
nações como os vasos de barro são quebrados em pedaços. A imagem
da autoridade e disciplina é muito poderosa nesta palavra.
Do mesmo modo, lemos isto sobre a mulher descrita em Apoca-
lipse 12:1 como sendo “vestida do sol”:
E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com
vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu
trono. (versículo 5)
Novamente, temos o Messias governando e apascentando com
uma vara de ferro. Terceiro, lemos de Jesus Cristo:
E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações;
e ele as regerá com vara de ferro e ele mesmo é o que pisa o lagar do
vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso. (Apocalipse 19:15)
Não estou a sugerir que o pastor da igreja deva governar alguma
vez com uma vara de ferro, mas estou a indicar que existe uma grande

258
ilação de autoridade em cada um deste três casos em Apocalipse. A
ênfase total na Escritura não é tanto na ovelha estar sujeita ao pastor
– isso está assumido. A verdadeira ênfase está nos pastores não do-
minarem sobre as ovelhas ou exercerem a sua autoridade em excesso.
Isto é o reverso da situação da igreja moderna, onde a ideia de alguém
que governa sobre outros é quase considerada ultrapassada.
No entanto existe um equilíbrio maravilhoso tecido no plano ori-
ginal de liderança de Deus. Os homens incumbidos com a extraordi-
nária responsabilidade de equipar os santos para o trabalho do minis-
tério têm que ter a autoridade para fazê-lo, porque autoridade exige
autoridade. Mas, de acordo com o modelo bíblico, estes homens de-
vem surgir do próprio corpo de crentes que eles irão liderar. Deste
modo, eles já possuem uma historia e um historial com os membros
do corpo, e partilham cultura e visão semelhantes. Como é perfeito o
plano de Deus! A autoridade é equilibrada pela relação, como sempre
deveria ser. Um pastor que tem uma relação com os seus companhei-
ros, não abusará deles. O nosso sistema moderno importa para den-
tro das nossas igrejas, estranhos virtuais que, ou exercem autoridade
à parte de relacionamento, ou têm que lutar para obter a quantidade
mínima de autoridade para fazerem os seus trabalhos.

O Ancião como Doutor (Professor)


O segundo aspecto do trabalho de um ancião ou pastor é ensinar:
…retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para
que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como
para convencer os contradizentes. (Tito 1:9)
Um ancião é alguém que foi minuciosamente ensinado, por sua
vez, ele deve ser capaz de ensinar outros. Como vimos, esta imagem
está apresentada muito claramente em 2 Timóteo 2:2, onde Paulo
estava a dar instruções a Timóteo sobre como fazer surgir liderança
de ensino na congregação:
E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a
homens fiéis, que sejam idóneos para também ensinarem os outros.
Isto é o que a Escritura apresenta para um ancião em relação ao en-
sino: ele deve ter sido ensinado e depois deve ser capaz de transmitir o
ensinamento que recebeu a outros líderes potenciais. Deste modo, exis-

259
te sempre uma oferta de potencial de liderança de ensino; isto nunca se
extingue, mas é transmitido de geração em geração. De novo, para pro-
fessores num corpo local de crentes, temos que nos afastar da imagem
de uma “personalidade de púlpito”. No último capítulo, usei o exem-
plo de Apolo para indicar que, num certo sentido, o ministério de ensi-
no dentro do corpo global pede uma exposição pública da Escritura de
um modo bastante sistemático. Contudo, para o ancião local, o ensino
está numa escala muito menor. É aconselhamento pessoal e ensino de
pequenos grupos. Muitos homens que não se encontram plenamente à
vontade num ministério de púlpito poderão ser extremamente eficazes
e muito mais úteis na instrução pessoa a pessoa, que é desesperadamen-
te necessária na igreja de hoje. Como me encontro num ministério de
ensino, aprecio este facto continuamente. Quando estou pregando fora
e acabo um sermão, é possível que tenha uma fila de quinze ou mais
pessoas esperando para me fazerem perguntas. Outros que estejam no
mesmo tipo de ministério, experimentarão a mesma coisa. Todavia a
maioria destas questões deveria e poderia ser respondida por qualquer
ancião normalmente preparado. Não existe necessidade de fazer fila e
esperar para algum pregador visitante responder a essas questões. Mas
tenho chegado à conclusão que, na maioria dos casos, que essas pessoas
não têm ninguém a quem se dirigir localmente para obterem a resposta
às suas questões. Novamente, esta é uma das necessidades desesperantes
que devemos procurar resolver na igreja neste tempo.

O Ancião como Pastor


Gostaria agora de seguir para o papel do ancião como pastor,
olhando para o mesmo ofício, mas tratando-o essencialmente como
um ministro. Já indiquei que Jesus é o modelo de cada ministério.
Portanto, quando queremos um modelo do ministério de pastor, é
bom começar com ele. O capítulo décimo do evangelho de João fala
do Bom Pastor. A palavra “bom” aqui não significa em primeiro lugar
moralmente bom; mais do que isso, significa “eficiente, capaz, aquele
que sabe o seu trabalho”. Nas Suas próprias palavras, Jesus descreveu
(como o Pastor modelo) o que é que um pastor deve fazer. O que
torna isso merecedor de ser estudado:
Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas.
Mas o mercenário, que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê
vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa.

260
Ora, o mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado
das ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e
das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim,
também eu conheço o Pai e dou a minha vida pelas ovelhas. (João
10:11-15)
Aprendemos nesta passagem que a relação entre Jesus e o Pai é
paralela à relação entre a ovelha e o Pastor: “Assim como Eu conheço
o Pai e o Pai Me conhece, assim as Minhas ovelhas Me conhecem e
Eu conheço-as.” Creio que este é o verdadeiro sentido da passagem,
o que dá muito mais significado a isso. A ênfase está em conhecer as
ovelhas e ser conhecido por elas; é uma relação pessoal e íntima.
Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também
me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um
rebanho e um Pastor. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu
conheço-as, e elas me seguem. (João 10: 16, 27)

Quatro caraterísticas do Ministério de Pastor


Podemos ver quatro caraterísticas do ministério de pastor basea-
dos nestas palavras de Jesus.
A primeira é “dar a sua vida”. Essencialmente, a vida do pastor
não pertence a ele próprio, mas às ovelhas.

A vida do pastor não pertence a ele próprio, mas às ovelhas.

Qualquer pessoa que deseje levar uma vida de auto prazer, auto-
indulgência, não tem nenhum direito de estar neste ministério. A pri-
meira exigência é que ele ponha a sua vida no altar para Deus e para o
serviço do povo de Deus. Um homem que não deseje viver como um
servo para o povo de Deus não pode cumprir esta chamada.
Segundo, o pastor é obrigado a “conhecer as suas ovelhas indivi-
dualmente”, numa relação pessoal próxima.
Terceiro, ele é obrigado a “ser conhecido pessoalmente”, acessível
às ovelhas.
Quarto, ele é obrigado a “falar e a guiar”, por outras palavras,
guiá-las pela fala. Jesus disse: “As Minhas ovelhas ouvem a Minha
voz,… e elas seguem-Me.” Onde quer que existam Cristãos, exista a
necessidade de pastores com estas qualidades.

261
Quando pastoreei uma igreja pela última vez, o que já foi há al-
gum tempo, eu comprometi-me a pregar sobre o ministério de pas-
tor, e preguei essencialmente o que estou a apresentar agora. Quando
terminei, disse: “Quero dizer-vos que, oficialmente, sou o vosso mi-
nistro, sou o vosso pastor. Preguei-vos a partir das Escrituras aquilo
que um pastor deve ser.” Depois disse-vos: “Não quero ser um hipó-
crita. Quero reconhecer publicamente perante todos vós que eu sei,
que não estou a fazer o que um pastor deve fazer. Podeis criticar-me,
mas pelo menos não sou um hipócrita. Uma razão porque não estou
a fazê-lo é porque eu não consigo fazê-lo. Vós sois muitos e eu não
tenho tempo suficiente para ter esta espécie de relação e para oferecer
este tipo de ministério.”
Não era uma grande congregação; elas eram aproximadamen-
te cerca de duzentas pessoas. Todavia estava absolutamente fora de
questão para mim, oferecer-lhes o tipo de ministério apresentado na
Escritura. Existem muitos homens bons que são pastores e que es-
tão a fazer o que podem. No entanto muitos pastores que tentam
fazer este trabalho, acabam com uma crise de nervos ou um ataque
cardíaco, simplesmente porque não é possível para algumas pessoas
exercerem este tipo de ministério com um grande número de pessoas.
Esta verdade fez-me ver muito claramente, que o ministério de
pastor não pode ser exercido numa grande congregação, sozinho,
sem ajuda. As pessoas devem ser separadas em pequenos grupos, e
cada grupo deve ter um ou dois, ou talvez três homens que são os
seus líderes. Então os crentes podem aproximar-se de alguém que os
conheça – que conheça os seus problemas, as suas circunstâncias ma-
ritais e familiares, e as suas situações de negócios. Ele pode falar com
eles de coração a coração e ajudá-los. Creio que cada Cristão precisa
de alguém a quem se possa dirigir para este tipo de ministério. Esta
é a maior, a mais gritante necessidade do povo de Deus por toda a
nação hoje.

O Salmo do Pastor
Vejamos agora umas outras passagens que falam do ministério de
um pastor. O Salmo 23, que é um salmo familiar para a maioria dos
crentes, é chamado o Salmo do Pastor, e fala sobre o que um pastor
faz pelas suas ovelhas. Pondo-se ele próprio no lugar delas, David
disse:

262
O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Deitar-me faz em
verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a
minha alma; guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.
(versículos 1-3)
Estes versículos revelam duas responsabilidades de um pastor: (1)
providenciar água e pastagem, e (2) proteger, guiar e controlar. Além
disso, o cajado do pastor é o símbolo de governar. É da responsabi-
lidade do pastor ver se as ovelhas não vão para lugares errados ou
perigosos, e desviá-las do perigo e mantê-las em segurança.

As Expectativas de Deus para os Pastores


Existe uma passagem muito poderosa em Ezequiel, onde Deus
se pronunciou por causa dos pastores de Israel. Este foi um relato
muito solene e triste, e Ele censurou-os por não terem feito o que de-
viam fazer como pastores – o que indica o que Senhor espera que um
pastor faça. Existe um pensamento muito discreto em que, no final
da presente dispensação, haverá uma avaliação entre o Senhor e os
pastores. Para alguns pastores professos, irá ser uma avaliação muito
embaraçosa, considerando o que é esperado.
E veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Filho do ho-
mem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza e dize aos pas-
tores: Assim diz o Senhor JEOVÁ: Ai dos pastores de Israel que se
apascentam a si mesmos! Não apascentarão os pastores as ovelhas?
Comeis a gordura, e vos vestis da lã, e degolais o cevado; mas não
apascentais as ovelhas. À fraca não fortalecestes, e a doente não curas-
tes, e a quebrada não ligastes, e a desgarrada não tornastes a trazer, e
a perdida não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza.
(Ezequiel 34:1-4)
A partir desta passagem, podemos ver seis coisas que o Senhor
espera do ministério de pastor:
1. Alimentar o rebanho
2. Fortalecer o que está fraco
3. Curar o que está doente
4. Ligar o que está ferido
5. Trazer de volta o que se tinha extraviado
6. Procurar o que está perdido

263
Em relação ao ministrar aos doentes, comparemos esta passagem
com Tiago 5: 14-15:
Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e
orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor; e a oração
da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido
pecados, ser-lhe-ão perdoados.
Repara na receita do Novo Testamento para um crente que fica
doente: “Chame os presbíteros da igreja” – por outras palavras, os
pastores. É da responsabilidade dos crentes, chamar por eles, não é
responsabilidade do pastor procurar o que está doente. Depois, é res-
ponsabilidade do pastor, ministrar-lhe, ungi-lo, instruí-lo, aconselhá-
-lo, e orar sobre ele a oração da fé. Por isso vemos que, de acordo com
as Escrituras, curar faz parte do ministério de pastor.
Em Isaías 56:9-10, existe outra passagem, onde há uma contro-
vérsia entre o Senhor e os pastores de Israel. Os pastores são referidos
como “atalaias”, o que é um outro título frequentemente usado para
esses líderes.
Vós todos os animais do campo, todas as feras dos bosques, vin-
de comer. Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são
cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados
e amam o tosquenejar.
Existe ironia nestes versículos. A única responsabilidade de um
cão de guarda é ladrar ou dar sinal quando um lobo se aproxima do
rebanho. No tempo de Isaías, o Senhor disse: “Todos os Meus pas-
tores são como cães mudos; não conseguem ladrar. Tudo o que eles
fazem é deitarem-se e dormir.” No Novo Testamento, Jesus referiu-se
aos falsos profetas como “lobos”.
Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vesti-
dos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. (Ma-
teus 7:15)
Receio que, muitas vezes, seja esse o caso hoje em dia em que
falsos profetas e falsos ensinamentos chegam à igreja, mas os pastores
são cães de guarda mudos; eles não dão sinal. Eles deixam simples-
mente os inimigos do povo de Deus entrar no seu meio, enquanto
eles se encontram espiritualmente a dormir.

264
O Senhor também falou a Ezequiel em termos de ser uma atalaia:
A ti, pois, ó filho do homem, te constituí por atalaia sobre a casa
de Israel; tu, pois, ouvirás a palavra da minha boca e lha anunciarás
da minha parte. Se eu disser ao ímpio: Ó ímpio, certamente morre-
rás; e tu não falares, para desviar o ímpio do seu caminho, morrerá
esse ímpio na sua iniquidade, mas o seu sangue eu o demandarei
da tua mão. Mas, quando tu tiveres falado para desviar o ímpio do
seu caminho, para que se converta dele, e ele se não converter do seu
caminho, ele morrerá na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma.
(Ezequiel 33:7-9)
Esta passagem pode estar relacionada do mesmo modo com o
ministério de pastor. O Senhor disse que se um guarda é nomeado
pelo povo, e existe um perigo de guerra, é responsabilidade do guarda
tocar a trombeta. Se a guerra chegar, o guarda tocar a trombeta, e as
pessoas forem mortas, porque não prestaram ouvidos ao seu aviso,
então é responsabilidade das pessoas. Mas se a guerra e o perigo che-
garem e o guarda não tocar a trombeta, então ele assumirá a respon-
sabilidade pelas pessoas que forem mortas.
Podemos ver que existe aqui uma tremenda e solene responsabi-
lidade. Deus disse que se um guarda espiritual falhar em alertar uma
pessoa má, e ela morrer no seu pecado, a pessoa má morrerá, mas o
seu sangue será exigido às mãos do guarda. Tenho a certeza de que
Paulo tinha estas palavras em mente, quando falou com os anciãos na
igreja de Éfeso sobre o seu próprio ministério entre eles e desafiou-os
a andarem pelos mesmos princípios:
Como nada, que útil seja, deixei de vos anunciar e ensinar pu-
blicamente e pelas casas, testificando, tanto aos judeus como aos gre-
gos, a conversão a Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo. (Atos
20:20-21)
Paulo podia honestamente dizer que não tinha escondido nada
da verdade que os Efésios precisavam conhecer. Ele revelou-lhes por
completo toda a verdade.
Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue
de todos; porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de
Deus. (versículos 26-27)

265
Deus controlará a pessoa que não transmitir a Sua verdade plena
às almas dos que não foram alertados e não receberam os ensinamen-
tos que deveriam ter recebido. Para mim, é uma coisa muito solene,
para que sejamos capazes de dizer: “Eu não me esquivei de te revelar
o conselho total de Deus.”

O pastor tem a responsabilidade de anunciar o conselho


total de Deus.

É obvio a partir desta passagem, que Paulo deve ter experimen-


tado alguma pressão que ele não consentiu. De facto, na igreja hoje,
existem muitas pressões que poderão impedir uma pessoa de decla-
rar o conselho total de Deus. Conheço muitos homens que sabem
muito mais do que aquilo que pregam. As pressões que os impedem
de declarar o que eles sabem são várias – confessionais, sociais, ou
financeiras: “O que acontecerá se eu ofender os membros ricos? O
que acontecerá se eu for contra os ensinamentos da minha denomi-
nação?” Mas Paulo teve sempre em mente que tinha que responder
primeiramente a Deus e não aos homens pelo que ele pregava e en-
sinava. Ele era responsável por declarar o que sabia ser verdade da
Palavra de Deus e não guardar nada. Creio que a Escritura ensina que
isto está incluído na responsabilidade do pastor.

Um Ministério Exigente
Agora vamos ver o testemunho de Jacó como pastor. Eu ouvi esta
pregação na terra de Israel há alguns anos atrás, e causou um pro-
fundo impacto em mim. Jacó, que serviu durante vinte anos com o
seu tio Labão como pastor, descreveu o tipo de trabalho que fazia e a
espécie de vida que levava:
Estes vinte anos eu estive contigo, as tuas ovelhas e as tuas cabras
nunca abortaram, e não comi os carneiros do teu rebanho. Não te
trouxe eu o despedaçado; eu o pagava; o furtado de dia e o furtado
de noite da minha mão o requerias. Estava eu de sorte que de dia me
consumia o calor, e, de noite, a geada; e o meu sono foi-se dos meus
olhos. (Gênesis 31:38-40)
Na última parte desta passagem, Jacó estava a dizer: “Eu nem con-
seguia dormir de noite porque eu era responsável por qualquer coisa

266
que pudesse ser roubada enquanto estivesse sob o meu cuidado.” Esta
é uma imagem de uma chamada muito exigente, e é isto precisa-
mente o que é hoje o ministério de pastor. Penso que esta passagem
compara-se bem com Hebreus 13:17:
Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por
vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o
façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.
Os líderes da igreja têm que olhar diligentemente sobre as almas
daqueles que estão sob o seu cuidado.

As Qualificações de um Ancião (Presbítero)


Quais as qualificações de um ancião (presbítero) ou pastor? O que
é esperado dele de acordo com o modelo das Escrituras? Vamos antes
de tudo, para o evangelho de João onde Jesus falou com Pedro na
praia do Mar da Galileia. A história por detrás deste encontro, claro,
é que Pedro tinha sido um discípulo do Senhor e tinha prometido
que, mesmo que todos pudessem abandonar Jesus, ele nunca o aban-
donaria. E Jesus avisou Pedro:
Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que o galo cante
duas vezes, três vezes me negarás. (Marcos 14:30).
Pedro não podia acreditar que isso fosse verdade, mas aconteceu
exatamente desse modo. Por três vezes, ele disse publicamente que
não conhecia Jesus e que não tinha nenhuma ligação com Ele.
Este é um acontecimento muitíssimo solene porque, na cena da
ressurreição, quando o anjo se dirigiu às mulheres, a mensagem foi:
Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro… (Marcos 16:7).
A indicação foi a de que Pedro já não era um discípulo. Por quê?
Porque ele tinha negado que era um seguidor de Jesus; tinha feito a
confissão errada e como tal tinha perdido o seu direito ao título de
discípulo. Ao leres a entrevista de Pedro com Jesus, descobrirás que
Pedro não entendia o que o Senhor estava a fazer, mas o Senhor obte-
ve dele a verdadeira confissão três vezes para compensar as três vezes
que ele tinha feito a confissão errada.
Existe neste incidente uma tremenda verdade acerca da confissão
certa e errada. Muitas vezes, se dissemos ou fizemos a coisa errada,

267
isso tem que ser cancelado pela confissão certa. Por exemplo, se nós
não perdoamos às pessoas, cancelaremos essa falta de perdão, perdo-
ando-lhes. E isto é a verdade em relação a muitas outras coisas.
Assim Jesus lidou com Pedro com base no facto das três vezes que
ele O tinha negado, e Ele conduziu Pedro para fazer a confissão certa
três vezes. Na base de cada confissão, Ele incumbiu-o com o ministé-
rio de pastor para as suas ovelhas. Vamos rever as palavras que Jesus
usou. Vou providenciar amplificação nas palavras em ordem a realçar
o sentido exato a partir do original Grego.
E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão,
filho de Jonas, amas-me [a palavra mais forte em Grego para amor:
apaixonadamente, totalmente, devotadamente] mais do que estes
[mais do que os restantes discípulos, porque disseste que quando
eles Me abandonassem, tu irias ficar Comigo]? E ele [Pedro] res-
pondeu: Sim, Senhor; tu sabes que te amo [uma palavra mais fraca,
que de um amigo: “Eu gosto muito de Ti”]. [Jesus] Disse-lhe:
Apascenta os meus cordeiros [com base nessa confissão]. Tornou a
dizer-lhe segunda vez: Simão, filho de Jonas, amas-me [apaixona-
damente, devotadamente]? Disse-lhe: Sim, Senhor; tu sabes que te
amo [novamente, “Eu gosto muito de Ti”]. Disse-lhe: Apascenta as
minhas ovelhas [Esta é a mesma palavra com a qual temos vindo
a lidar: apascentar]. Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas,
amas-me [Desta vez, Jesus desceu ao nível de Pedro ao dizer, “Tu
gostas de Mim”]? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez:
Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo
[mas de novo, “Eu gosto muito de Ti”]. Jesus disse-lhe: Apascenta
as minhas ovelhas. (João 21:15-17)

Eu acho as respostas de Pedro de certo modo divertidas. Porque


Pedro foi sempre tão impetuoso, ele dizia habitualmente um pouco
mais do que devia dizer. Todavia, aqui ele foi muito cuidadoso ao
dizer um pouco menos.
Vemos aqui nesta passagem três comissões:
“Alimenta os meus cordeiros”; “Apascenta (guia) as minhas ove-
lhas”; e “Alimenta as minhas ovelhas”. A instrução não é a mesma
de cada vez. Repara que a exigência básica para tomar conta das
ovelhas do Senhor, não é a nossa atitude para com as ovelhas, mas a

268
nossa atitude para com o Senhor: “Amas-Me? Alimenta as Minhas
ovelhas.”

A exigência básica para tomar conta das ovelhas do Senhor, não


é a nossa atitude para com as ovelhas, mas a nossa atitude para
com o Senhor.

Tenho aprendido por experiência que, um amor sentimental pelo


povo de Deus nunca irá ver uma pessoa através deste trabalho. Se
os nossos olhos e as nossas mentes estiverem centrados nas pessoas,
chegará um momento em que, das duas uma, ou elas agirão de uma
maneira tão maldosa e indigna, que o nosso amor não será suficien-
temente forte, ou ao amá-las permitiremos que elas mandem em nós
e nos levem a fazer coisas que o Senhor não quereria que nós fizés-
semos.
Tenho visto muitas pessoas extraviarem-se neste tipo de minis-
tério através de uma espécie de afeição humana de segunda classe,
compaixão, ou emoção que simplesmente não resiste ao teste dos
tempos difíceis. Estes tempos são quando o povo de Deus é ingrato e
crítico; quando eles falam sobre ti nas tuas costas e não apreciam nada
do que faças por eles. Se não existir nada mais alto do que amor por
eles, não irá resistir ao teste.
Aquilo que resiste ao teste, aquilo que faz um homem avançar e
o mantém fiel, é a devoção ao Próprio Senhor. Por isso a primeira
exigência, que é básica em relação a todas as outras, é uma verda-
deira dedicação ao Senhor Jesus Cristo. Se nós tivermos isso, então
Ele dirá, “Vou comissionar-te para seres um pastor para as Minhas
ovelhas.”
Com esta base, a Escritura então enumera um número bastante
considerável de qualidades de personalidade que são exigidas num
ancião ou num pastor. Qualquer pessoa que apareça com cem por
cento nestas qualidades tem definitivamente um carácter extraordi-
nário. Estas listas foram tiradas de 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9,
as quais eu resumirei. Sugiro que leias a versão King James e outras
duas ou três versões, e compares as palavras desta passagem, para que
assim possas ter uma imagem muito clara das qualidades necessárias.
Dar-te-ei o meu resumo sob três títulos: integridade pessoal, situação
familiar, e capacidade espiritual. Este sumário tenciona ser apenas um

269
panorama geral. É bastante possível que, ao estudares por ti próprio
esta passagem, ainda faças melhor.

Integridade Pessoal
O que se segue são exigências positivas: Ele tem que ser irrepre-
ensível. Uma coisa boa (nada fácil/simples) com que começar, não
é? Por outras palavras, não pode existir nada na sua vida que seja
tão óbvio e persistente, para que as pessoas não o queiram como um
ancião devido a isso. Ele também tem que ser vigilante, paciente,
autocontrolado, justo, santo e um amante do bem.
Depois há as coisas que um ancião “não” pode ser – as negativas.
Ele não pode ser teimoso, ambicioso, invejoso, ganancioso, irritadi-
ço, violento, ou um bêbado.

Situação Familiar
A Escritura apresenta alguns pontos em relação à personalidade de
um ancião e à sua situação familiar:
1. Ele tem que ser marido de uma só esposa.
2. A casa e os filhos têm que estar sob disciplina.
3. Ele tem que ser capaz e desejar mostrar hospitalidade – não so-
mente desejar, mas também ser capaz. Como vês, se os filhos não
estiverem sob disciplina, um homem não pode realmente mostrar
hospitalidade. Tenho estado em casas em que não se conseguia ter
uma conversa inteligente e consecutiva, porque as crianças esta-
vam a fazer um barulho tal e brigando tão continuamente, que
ninguém podia dizer mais do que cinco palavras sem ser inter-
rompido. Um grande parte depende de toda a atmosfera da casa.
4. Ele tem que ser respeitado na comunidade: isto é essencial. O
líder de uma congregação local tem que ser um representante dig-
no dessa congregação, perante os que não são crentes ou Cristãos
comprometidos. Já vi acontecer, que um homem que tinha sido
um alcoólico, que batia na esposa, e por aí adiante, mas que se
converteu maravilhosamente, passado alguns dias ser colocado
em alguma posição na igreja. Isto é um erro. Graças a Deus pela
sua extraordinária conversão, mas não se pode esperar que o mun-
do acredite nisso. O homem terá que se pôr à prova a ele próprio e
a sua vida para que ele ganhe o respeito da comunidade antes que
seja posto em tal posição.

270
Capacidade Espiritual
Um ancião tem que estar muito bem fundamentado na doutrina
e capaz de ensinar outros. Esta qualidade reflete aquilo que já vimos
em detalhe em outros capítulos deste livro, acerca dos apóstolos e
anciãos estudando e compreendendo as Escrituras e sendo capazes de
transmitir este conhecimento a outros crentes.

A Nomeação dos Anciãos (Presbíteros)


Nomear anciãos, portanto, combina duas exigências: Primeira, re-
conhecer os homens que o Espírito Santo tem estado a preparar para
este ministério. Segunda, conhecer e aplicar os padrões da Escritura.

Nomear anciãos exige reconhecer aqueles a quem Deus tem esta-


do a preparar e aplicar os padrões da Escritura.

Isto não é feito por alguma revelação profética extraordinária. É


feito pela aplicação do senso comum santificado, mais uma sensibi-
lidade ao Espírito Santo – uma capacidade para reconhecer o que
o Espírito Santo está a fazer nas vidas de homens e mulheres. Não
é uma questão de obter uma afirmação profética que diga, “Você é
um ancião,” ou qualquer coisa assim. Isto é uma negação absoluta
deste método. Se parecer que estou a insistir neste ponto, é porque
eu já enfrentei situações em que esta mesma questão sucedeu. Um
homem esteve numa cidade três ou quatro dias, deu umas voltas por
lá, nomeou alguns anciãos, e prosseguiu o seu caminho. Isto é o con-
trário do que a Escritura apresenta. O homem que faz a nomeação
tem que conhecer os homens. Ele tem que conhecer as suas vidas e
ser capaz de julgar se chegaram a cumprir as exigências. Depois ele
também tem que entender a mente do Espírito Santo. Serão estes
homens aqueles que o Espírito Santo já começou a preparar para este
ministério?
Está claro a partir do Novo Testamento que, um ancião não fun-
ciona plenamente numa congregação local antes de ser reconhecido
especificamente como um ancião. Existem muitas Escrituras que su-
blinham este ponto. Por exemplo, em Tiago 5:14, lemos:
Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e
orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor.

271
É inegável que apesar de um homem ter todas as qualificações –
ele pode ter o coração e ser preparado pelo Espírito Santo – ele não
pode exercer plenamente esta função até ser oficialmente reconhecido
dentro do corpo. É o reconhecimento que lhe dá a autoridade final de
que ele precisa para funcionar deste modo.
A minha conclusão é a de que nós não veremos surgir um pres-
bitério válido do Novo Testamento até estarmos preparados para o
reconhecer, chamá-lo pelo nome certo, e abraçar todas as coisas que
estão relacionadas com isso. Nós estaremos a dar um passo vital e
revolucionário quando começarmos a fazer isto, tal como alguns de
nós descobrimos de uma maneira muito direta e pessoal. Quanto
mais estudo esta área de liderança da igreja, mais fico convencido que
não podemos evitar estas coisas. Nós deixaremos a igreja ficar mal, se
não levarmos a cabo aquilo que Deus nos mostrou que fizéssemos.

Remuneração dos Anciãos (Presbíteros)


Vamos agora considerar uma questão muito prática em relação à
liderança espiritual. Como é que estes anciãos se sustentam a eles pró-
prios? Algumas pessoas pensam que o dinheiro não é importante, mas
eu não sou um desses. Por acaso, as pessoas falam assim somente na
igreja, não em outro lugar. A Bíblia certamente não fala desse modo.
Vamos olhar para 1 Timóteo 5:17-18:
Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de
duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na
doutrina. Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que
debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário.
É perfeitamente claro que Paulo estava a falar em termos de remu-
neração financeira e material para aqueles que têm a responsabilidade
de serem anciãos. No Novo Testamento, a palavra “honra” não signi-
fica apenas inclinar-se, ou conceder uma medalha, mas significa algo
muito tangível e prático. Vamos ver alguns exemplos disto. Depois
de Paulo e seus companheiros terem naufragado na Ilha de Malta,
e ter irrompido um ministério de cura, as pessoas mostraram a sua
gratidão:
…os quais nos distinguiram também com muitas honras; e, ha-
vendo de navegar, nos proveram das coisas necessárias. (Atos 28:10)

272
É muito evidente que eles foram “honrados” com coisas que eles
podiam providenciar. Por outras palavras, eles trouxeram-lhes provi-
sões, tais como comida e roupas – tudo o que eles precisavam para
as suas necessidades materiais e físicas. Se já alguma vez ministraste
numa sociedade mais primitiva, tal como em alguns países de África,
muitas vezes, quando acabas de pregar, dar-te-ão uma galinha, espi-
gas de milho, alguns grãos de café e coisas assim. Isto são “honras”,
mas são honras muito práticas e necessárias. Neste tipo de sociedade,
elas são coisas que te mantêm vivo.
Encontramos o mesmo uso da palavra “honra” nos lábios de Jesus,
quando Ele estava a repreender o povo religioso do Seu tempo pela
sua hipocrisia:
Porque Deus ordenou, dizendo: Honra a teu pai e a tua mãe;
e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, certamente morrerá. Mas vós
dizeis: Qualquer que disser ao pai ou à mãe: É oferta ao Senhor o
que poderias aproveitar de mim; esse não precisa honrar nem a seu
pai nem a sua mãe, E assim invalidastes, pela vossa tradição, o man-
damento de Deus. (Mateus 15:4-6)
As pessoas eram obrigadas a sustentar os seus pais e a cuidar deles,
mas alguns diziam aos seus pais com completa hipocrisia religiosa:
“Eu dediquei ao Senhor aquilo que deverias obter de mim, por isso
não o podes ter.” Aquilo era o seu acobardar-se. Jesus disse: “Hipó-
critas!” Mas repara que Ele falava em sustentar os pais financeira e
materialmente em termos de lhes mostrarem honra. Por isso a palavra
“honra” tem esta conotação (não exclusivamente, mas está incluída
nela) de provisão financeira e material. É claro que isto era o que
Paulo pretendia quando disse: Os presbíteros que governam bem sejam
estimados por dignos de duplicada honra, porque diz a Escritura: Não
ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário.
Digo isto com algum realce, porque as obras de Deus serão cer-
tamente enfraquecidas se não forem feitas provisões financeiras para
aqueles que entram a tempo inteiro no ministério. Essa seria uma
maneira segura de conter a obra de Deus.

As obras de Deus serão certamente enfraquecidas se não forem


feitas provisões financeiras para aqueles que entram a tempo intei-
ro no ministério.

273
Paulo também lidou com esta situação em 1 Coríntios 9. Repara
nos princípios envolvidos nos dois versículos seguintes; poderás que-
rer ler o capítulo inteiro para ti próprio:
Quem jamais milita à sua própria custa? Quem planta a vinha
e não come do seu fruto? Ou quem apascenta o gado [Grego: aquele
que guia um rebanho] e não come do leite do gado?... Assim orde-
nou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do
evangelho. (versículos 7,14)
Não há soldado que vá para a guerra que tenha de providenciar
para o seu próprio ordenado. Ele é sempre pago por quem ele vai lu-
tar. Do mesmo modo, qualquer pessoa que tenha uma vinha e traba-
lha nela para cultivá-la, também come do seu fruto. Assim também,
um pastor não abaterá o seu rebanho, mas pelo menos ele tirará o
leite para seu sustento.
Se aqueles que ministram o evangelho ao povo de Deus dedicam
tanto tempo a ele que não possam ter um emprego, eles devem ser
sustentados por aqueles a quem eles ministram. Existem certos secto-
res da igreja que se vangloriam em que, eles não têm um ministério
pago. No entanto, tenho visto que esta prática em última análise pre-
judica a eficiência dos servidores de Deus.
Considerando que, se um homem não estiver a trabalhar a tempo
inteiro como um ancião, então provavelmente ele não precisará de
uma remuneração completa. Ou se um homem tem outra fonte de
receita e é independente, então talvez ele não precise de compensação
completa. Contudo, se ele passa muito tempo ensinando a Palavra,
então terás que compensá-lo através de remuneração. A remuneração
de um ancião deve ser de acordo com a necessidade e a quantidade de
tempo que ele gasta. O princípio é claro.

As Ovelhas Requerem um Pastor


Ao concluir este capítulo, deixa-me dar mais um aspecto tremen-
damente importante em relação aos anciãos. Existe um princípio que
as ovelhas têm que ter um pastor. De acordo com as palavras da Es-
critura, em ambos o Antigo e o Novo Testamento, as ovelhas sem um
pastor ficam dispersas, perdidas, exaustas, doentes, e uma presa para
os animais selvagens. Isto é um facto muito interessante: podes deixar
gado sem ninguém a tomar conta, mas não podes deixar ovelhas sem
que haja alguém a tomar conta delas.

274
Tanto quanto eu compreendo o Novo Testamento, isto aparece
na obrigação pessoal de cada crente. Das duas uma, ou tens que “ser”
um pastor ou tens que “ter” um. Um dos dois, ou tu estás a exercer o
ministério de pastor, ou tens que estar sob o ministério de um pastor.
A Escritura não faz provisão para nenhuma ovelha estar sem pastor.
No entanto, hoje, se olhares por este país, verás milhares e milhares
de pessoas que não têm pastor, não conhecem pastor, e elas próprias
não são pastores. O resultado é que andam dispersas, perdidas, fra-
cas, espiritualmente doentes, e uma presa para todos os mentirosos e
falsos profetas que se alimentam do povo de Deus quando não está
protegido.
Estar sob o ministério de um pastor é um compromisso para po-
der ser um discípulo. Ou seja, se quiseres ser discípulo tens que estar
sob o ministério de um pastor. Atos 16:26 diz, Os discípulos foram
chamados Cristãos pela primeira vez em Antioquia. Para mim, esta afir-
mação é definitiva. Um Cristão é um discípulo. Um Cristão que não
é um discípulo não tem direito ao título de Cristão. Um discípulo é
alguém que está sob disciplina: a palavra indica isso. Dentro da igreja
deve haver disciplina. É necessário haver aqueles que governam, e é
necessário haver aqueles que são governados. Para ambos é requeri-
da a graça divina. Eu aceito isto como um princípio em que, uma
pessoa que não deseja ser governada nunca pode ser qualificada para
governar.
Ao aproximarmo-nos do fim desta secção sobre a liderança da
igreja, fui inspirado a juntar este pensamento: Ninguém no seu intei-
ro juízo alguma vez “se chamaria a si próprio” para uma posição de
liderança se realmente temesse a Deus. É uma coisa natural desejar
posição e importância, mas é uma coisa perigosa entrar na liderança
sem a iniciativa de Deus.

É uma coisa natural desejar posição e importância, mas é uma


coisa perigosa entrar na liderança sem a iniciativa de Deus.

A restauração da liderança bíblica é essencial hoje, especialmente


em nações como a China, onde o evangelho está em expansão e os
líderes são urgentemente necessários. Por isso, se és um líder, deves
medir-te a ti próprio pelos padrões da Escritura. Coloca a ti mesmo as
seguintes questões: Estarei eu a andar na esfera e nas responsabilida-

275
des delineadas para o meu papel dado por Deus? Obedecerei a Deus?
Se és um membro, podes perguntar a ti próprio: Comprometer-me-
-ei a orar para que Deus faça surgir líderes segundo o Seu próprio
coração? Orarei para que os Seus líderes O representem fielmente?
Ao fazermos estas coisas, a liderança da igreja local será capaz de
cumprir a sua chamada para governar, ensinar e apascentar o rebanho
de Deus.

276
- 23 -

Ministério Residente: Diáconos

Em qualquer localidade, a igreja local desenrola-se no seu cres-


cimento e desenvolvimento, um pouco como o corpo humano a
partir duma célula biológica. As quatro fases que contribuem para
o desenvolvimento de uma igreja funcionando corretamente são:
(1) a célula; (2) a nomeação dos anciãos, para que a certa altura
um grupo de discípulos se torne uma igreja; (3) a nomeação dos
diáconos; e (4) o completar dos ministérios através dos membros
do corpo ou da igreja. Vejamos cada fase um pouco mais detalha-
damente:

1. A célula é um pequeno grupo que se reúne em casa. É frequente-


mente uma igreja em forma embrionária.
2. Durante o período de convivência, oração, estudo e evangelismo,
a liderança espiritual da célula torna-se evidente. Depois de um
tempo provando-se a si próprios, esses líderes são devidamente
nomeados e ordenados como anciãos pelos apóstolos. Esta é a pri-
meira vez que a palavra “igreja” pode ser usada oficialmente para
o corpo dos crentes.
3. Em ordem a completar a liderança, deve também haver diáconos.
Tal como vimos, os diáconos são responsáveis pela administração
material da igreja.
4. Cada membro na congregação está comissionado para ser fun-
cional. Os membros são para ministrar ou servir em alguma ca-
pacidade sob a direção dos anciãos e dos diáconos, e esse envol-
vimento continuará a crescer e a ser um trabalho em progresso.
Esta diversificação deverá eventualmente englobar todos os dons
e ministérios que Deus libertou para a igreja local. Nessa altura,
temos um corpo completo que se desenvolveu a partir de uma
célula.

277
A Nomeação dos Diáconos
A liderança administrativa da igreja local é extremamente simples:
os anciãos ministram ao espiritual e os diáconos ministram ao ma-
terial; o papel dos diáconos é servir. Para uma introdução à função
dos diáconos, vejamos de novo como foram nomeados os primeiros:
Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve
uma murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas
daqueles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. E os doze,
convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que
nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois,
irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito
Santo e de sabedoria, aos quais encarreguemos deste serviço. Mas nós
perseveraremos na oração e no ministério da palavra. (Atos 6:1-4)
(ARIB)
A igreja tinha entrado num problema muito real. Estava a crescer
rapidamente, e os apóstolos estavam a ficar tão ocupados que preci-
savam de ajudantes. Os crentes dirigiram-se aos apóstolos e disseram:
“As coisas não estão a correr bem. As nossas viúvas estão a ser esque-
cidas.” Os apóstolos disseram: “Tudo bem, nós tomaremos medidas
para corrigir o problema.”
Vou salientar algo sobre a igreja do Novo Testamento. Os crentes
aceitavam invariavelmente a responsabilidade pelas suas viúvas. Isto
era dado por certo. O problema hoje é que o governo assumiu muitas
funções, que a igreja não se apercebe das suas responsabilidades. Eu
creio de que a igreja é responsável pelas viúvas, pelos órfãos e pelos po-
bres, e de alguma maneira essa responsabilidade deve ser levada a cabo.
Os doze apóstolos convocaram a congregação e disseram-lhes para
procurarem sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo
e de sabedoria para os constituírem sobre este serviço. Isso permitiria
aos apóstolos entregarem-se à oração e ao ministério da palavra – o
ministério específico para o qual foram chamados. Eles requereram
outros ministros para se focarem na administração diária do dinhei-
ro, comida, vestuário, ou para qualquer coisa que pudesse ser neces-
sária para as pessoas.

Anciãos focam-se nas necessidades espirituais dos crentes en-


quanto diáconos focam-se nas necessidades materiais deles.

278
Enquanto é suposto os anciãos focarem-se na oração e no minis-
tério da Palavra, isto não significa que os diáconos não sejam pessoas
importantes. De facto, a Escritura diz que eles devem ser pessoas de
boa reputação, e que devem estar cheios do Espírito Santo e sabedo-
ria, em ordem a cumprirem o seu ministério.
E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estêvão,
homem cheio de fé e do Espírito Santo, e Filipe, e Prócoro, e Nicanor,
e Timão, e Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. (Atos 6:5)

Foram escolhidos sete homens como os primeiros diáconos. Uma


vez mais, vemos que a liderança numa congregação local é sempre
plural. Repara que a congregação escolheu os diáconos, com instru-
ções da liderança, para escolherem homens devotos. Isto era muito
prático. Se os apóstolos tivessem escolhidos os diáconos, a congrega-
ção poderia ter dito: “Vós pusestes homens ali que farão o que quereis
que eles façam.” Por isso os apóstolos disseram: “Vós os escolheis; nós
os aprovaremos e depois os instruiremos em relação às suas respon-
sabilidades.” Deste modo, não poderia haver murmuração sobre os
homens que tinham sido nomeados para realizarem esta tarefa par-
ticular.

Apontados por Deus versus Apontados pelo Homem


Muitas igrejas escolhem pastores, diáconos, e outras posições de
ministério através de um simples voto da congregação, o que na re-
alidade não está de acordo com as Escrituras. É Deus quem faz as
nomeações. Jesus disse aos seus discípulos:
Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos
nomeei… (João 15:16)

Creio que isto também é verdade acerca de cada função válida,


ministério e nomeação na igreja. Não é o homem que faz a escolha,
mas Deus, porque Jesus Cristo é Cabeça sobre “todas” as coisas na
igreja, que é o Seu corpo. As nomeações que não são feitas na autori-
dade de Jesus, na realidade não têm validade. Mais ainda, a nomeação
não faz nada a uma pessoa se Deus não lhe tiver já dado o ministério.
Nós devemos simplesmente reconhecer o que Deus escolheu para
uma pessoa ser e depois confirmar isto.

279
As nomeações que não são feitas na autoridade de Jesus, na
realidade não têm validade.

Aqui está um exemplo prático do que estou a dizer: se estiveres


numa reunião para discutir ou votar em possíveis diáconos, o teu
propósito não deve ser decidir quem gostarias de ter como diácono,
como se isso fosse um concurso de popularidade. O teu propósito
deve ser decidir quem é que Deus escolheu como diácono. Isto é
uma atitude muito diferente. A congregação deve sugerir os nomes
daqueles que eles acreditam que Deus chamou para este serviço e os
anciãos devem fazer a confirmação final e depois comissioná-los. Eles
devem fazer isto com a imposição pública das mãos para estabelecê-
los como diáconos da igreja.
…e os apresentaram ante os apóstolos, e estes, orando, lhes im-
puseram as mãos [como um selo da sua aprovação e como um
separar para o ministério do diaconato]. (Atos 6:6)
Como já vimos, a imposição das mãos não é apenas uma forma-
lidade. Alguma coisa aconteceu quando os apóstolos, guiados pelo
Espírito Santo, oraram e impuseram as mãos sobre os primeiros diá-
conos. Foi libertada autoridade espiritual e poder que floresceu num
ministério mais vasto. Este ato de imposição das mãos sobre os diáco-
nos serviu três propósitos principais:
1. Os apóstolos reconheceram publicamente que aceitaram estas
pessoas como qualificadas para receberem o oficio de diáconos.
2. Eles dedicaram estes crentes a Deus para a tarefa para a qual foram
escolhidos.
3. Eles transmitiram a estas pessoas uma medida da sua própria gra-
ça espiritual e sabedoria necessária para a tarefa que tinham sido
comissionados a cumprir.

O Serviço dos Diáconos


Quando a minha esposa Ruth e eu fomos para o Paquistão, fomos
interrogados no departamento de imigração. Um oficial Paquistanês
perguntou-me: “O que é que você é?” Era um país Muçulmano e
eu pensei, “Preciso ter cuidado.” Eventualmente, disse: “Eu sou mi-

280
nistro.” Pensei que era um termo bastante seguro que a maioria das
pessoas não percebe. Bem, a partir daí, eu tive tratamento vip para
todo o lugar que fosse. Fui encaminhado para o início da fila, e assim
por diante. Apercebi-me mais tarde que ele deve ter pensado que eu
era um ministro do governo dos Estados Unidos!
É frequente assim na igreja. Nós afastamo-nos muito do sentido
da palavra “ministro”, que é “servo”. Muitas vezes pergunto a mim
mesmo como é que muitas igrejas mudariam, se percebessem que a
palavra “diácono” em Grego também significa “servo”. Em algumas
igrejas, o quadro dos diáconos tem muita autoridade. Como seria se
eles fossem chamados o quadro dos “servos”?
Se és um diácono, és um servo do Senhor e um servo do povo do
Senhor. Os diáconos estão para servir sob as ordens dos pastores ou
anciãos.

Se és um diácono, és um servo do Senhor e um servo do povo


do Senhor.

Quando o quadro de diáconos controla a igreja, isso é antibíblico,


porque está a colocar o material acima do espiritual. Neste caso as
pessoas que controlam as finanças têm a última palavra. Podes ser
muito espiritual acerca disto, mas é isso que se trata. Por conseguinte,
em minha opinião os anciãos deveriam estar no controlo das finan-
ças, e os diáconos deveriam fazer aquilo que ao anciãos os instruírem
para fazerem.

As Qualificações dos Diáconos


Os diáconos sejam maridos de uma mulher e governem bem seus
filhos e suas próprias casas. Porque os que servirem bem como diáco-
nos adquirirão para si uma boa posição e muita confiança na fé que
há em Cristo Jesus. (1 Timóteo 3:12-13)
Assim como com os anciãos, os diáconos deverão também primei-
ro ser provados ou testados. Ninguém foi colocado numa posição de
responsabilidade na igreja do Novo Testamento sem ter sido primeiro
rigorosamente testado no domínio prático. Algumas pessoas que não
são bem sucedidas em ocupações civis vão para o ministério espiritual
e tornam-se fiascos.

281
Tenho estado no ministério a tempo inteiro durante mais de cin-
quenta anos, e tenho visto resultados de pessoas que foram chamadas
a tempo inteiro para o serviço do Senhor: missionários, ministros,
pastores, evangelistas, líderes de juventude, e por aí adiante. Em to-
dos estes anos, não me lembro de alguma vez ter visto Deus promover
no espiritual alguém que tenha sido um desastre em assuntos mate-
riais. Nunca na minha vida vi um homem que não se desenrascasse
no domínio secular ser chamado por Deus para o serviço espiritual.
Isso é contrário aos Seus princípios básicos. Tenho visto muitos desses
homens que tentaram ter sucesso, mas atrapalharam-se. Os candida-
tos a diáconos não precisam ter o seu próprio negócio, mas devem
ser capazes de fazer as coisas funcionarem no mundo material. Eles
devem ser capazes de administrarem as finanças e fazê-las funcionar
com os seus empregos seculares ou educação.

A Promoção dos Diáconos


Quando um homem se torna diácono, não é apenas para super-
visionar a prestação da caridade. É um lugar de responsabilidade de
partilha dos encargos com os anciãos, e é frequentemente uma prepa-
ração para a liderança espiritual, como vimos no caso de Filipe, que se
tornou um evangelista. Se uma pessoa faz o trabalho de diácono bem,
ela começa a qualificar-se para a promoção espiritual.
A maioria das pessoas não compreende o facto de que existe cres-
cimento e promoção no ministério. Portanto, se começares na po-
sição de diácono, tem em mente que isso pode ser um degrau para
mais alguma coisa. De facto, se não começares como um servo, pro-
vavelmente perderás a tua promoção, porque Deus apenas promove
as pessoas que começam no degrau mais baixo da escada.

Deus apenas promove as pessoas que começam no degrau mais


baixo da escada.

Os líderes espirituais não surgem apenas vindos do céu comple-


tamente formados, sem nenhum processo de prova e erro. Isto não
acontece com os dons do Espírito e não acontece com os ministérios
espirituais. Existe um processo de cometer erros e aprender a partir
desses erros. Era assim com o povo de Deus no Novo Testamento, e
é exatamente como é na igreja hoje.

282
V
5ª. Parte

O Estilo de vida da Igreja


- 24 -

A Vida Diária da Igreja Local

Há algum tempo atrás, apercebi-me de que estava a ensinar às


pessoas as experiências que as trazem para dentro da vida Cristã, mas
depois a deixá-las sem direção ou instrução de como viver esta vida
depois de estarem integradas nela. Por isso, neste capítulo, farei o
possível por pintar um quadro do estilo de vida da verdadeira igreja
local – não da sua estrutura, administração ou títulos, mas do seu
estilo de vida. Por outras palavras, consideraremos o que se pareceria
com “um dia na vida da verdadeira igreja”.

Três Experiências de Iniciação dentro da Igreja


Vejamos primeiro três experiências que são o caminho ou entrada
para a igreja local e a vida Cristã diária. Depois atentaremos para esta
própria vida.
Atos 2, contém o relato mais claro de ambos, das experiências
iniciadoras e do curso da vida diária da igreja:
Ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração e pergunta-
ram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos varões irmãos? E
disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em
nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e recebereis o dom do
Espírito Santo. (Atos 2:37-38)

Aquilo é uma resposta compreensiva. Isto apresenta uma expe-


riência unificada da salvação do Novo Testamento a que eu chamo
de “o pacote completo”: arrependei-vos, sede batizados em água e
recebei o Espírito Santo. Tal como entendo a Escritura, com estas três
coisas, elas têm tudo o que precisam. Eu creio que a vontade de Deus
e a Sua resposta a esta pergunta “O que é que devemos fazer ?” não
mudou nem um bocadinho desde o dia de Pentecostes.

285
1. Arrependei-vos
A Escritura é bastante explícita: temos que nos arrepender. A frase
Grega usada em Atos 2:38 significa “fazer uma coisa uma vez e nunca
mais a repetir.” Não há ensinamento no Novo testamento acerca de
arrepender-se continuamente. Uma pessoa que esteja a viver certa
não deve continuar a arrepender-se, e uma pessoa que se tenha ver-
dadeiramente arrependido não deve continuar a pecar! Esta palavra
é muito decisiva e incisiva no Grego: Arrependei-vos. Mudai a vossa
mente. Parai de fazer coisas erradas; começai a fazer as coisas certas.
Afastai-vos do demónio; voltai-vos para Deus. Tudo isto está incluído
no arrependimento. Isto não é emoção; isto é uma decisão.

2. Sede Batizados
A segunda coisa é ser batizado: E cada um de vós seja batizado em
nome de Jesus Cristo para [ou no] perdão dos pecados. Na igreja primi-
tiva, o batismo de uma pessoa na água era o reconhecimento oficial
de que ela tinha posto a sua fé em Jesus Cristo e recebido o perdão
dos pecados. Não era requisito para o perdão; mais do que isso, era
uma indicação de que o perdão dos pecados tinha sido clamado por
essa pessoa e que tinha sido reconhecida pelos líderes da igreja. Em
essência, o batismo na água é o reconhecimento humano de uma
pessoa ter reunido os requisitos para se poder tornar membro da
igreja de Jesus Cristo.
Como já mencionei anteriormente, cada convertido no livro de
Atos foi batizado após poucas horas da conversão. Em Atos 8, o eu-
nuco na estrada de Gaza viu um poço com água ao lado da estrada
e disse: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado [já]? (versículo
36). Em Atos 16:29-33, o carcereiro Filipense foi salvo à meia-noite
e foi batizado antes de amanhecer. Repara também, na resposta dos
novos convertidos em Atos 2:
De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam
a sua palavra; e, naquele dia, agregaram-se quase três mil almas
(versículo 41)

O meu comentário é de que as pessoas que não foram batizadas


poderão ter recebido a Palavra, mas talvez não a receberam com ale-
gria. Aqueles que com alegria recebem a Palavra serão batizados.

286
3. Recebei o Espírito Santo
O batismo no Espírito Santo é o reconhecimento divino de que
uma pessoa pertence a Deus. O batismo no Espírito Santo, neste sen-
tido, é um selo sobrenatural colocado sobre uma pessoa pela Cabeça
do corpo, Jesus Cristo, reconhecendo essa pessoa como um membro
do Seu corpo. Paulo disse:
…em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da
verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido,
fostes selados com o Espírito Santo da promessa. (Efésios 1:13)

Ambos estes reconhecimentos devem surgir no começo da vida


Cristã. Uma pessoa deve ser reconhecida pela igreja no ato do batis-
mo na água, e ela deve ser reconhecida pela Cabeça da igreja pelo selo
sobrenatural ou batismo no Espírito Santo.

Quatro Atividades Contínuas


Agora, a que é que esta tripla experiência iniciadora conduziu os
novos crentes? Em Atos 2, encontramos a declaração oficial do Novo
Testamento da vida diária Cristã. Repara que começa com a expres-
são “Eles perseveravam”. Os crentes passam de experiências inicia-
doras, individuais, que não têm que ser repetidas, para um modelo
regular de vida contínuo e diário:
E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no
partir do pão, e nas orações. (Atos 2:42)

O que se segue são descrições das quatro atividades básicas da vida


Cristã do Novo Testamento.

Atividade 1: Ensino
Primeiro temos, a doutrina, que remete para o processo de ensi-
nar e ser ensinado. A primeira necessidade básica para as pessoas que
receberam a Cristo e foram batizadas na água e no Espírito Santo é o
ensino regular e de autoridade nas Escrituras. Efésios 6: 17 diz: Tomai
também… a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.
Esta diretiva surge antes da de [orar] em todo tempo com toda ora-
ção e súplica no Espírito… (versículo 18). Antes de começares a viver
no Espírito, tens que te apoderar da Palavra de Deus. Esta é a ordem

287
divina, porque estás aberto a uma gama completamente nova de
problemas, tentações e dificuldades a partir do momento em que és
batizado no Espírito Santo. Esta foi precisamente a experiência de
Jesus, depois de o Espírito descer sobre Ele. Quando Ele foi tentado
pelo demónio, Jesus usou apenas uma arma contra o inimigo. Cada
tentação foi respondida com as palavras: Está escrito… Está escrito…
Está escrito… (ver Lucas 4:1-13). Ele utilizou a espada do Espírito,
que é a Palavra de Deus. Jesus é o modelo perfeito de uma pessoa
batizada no Espírito Santo, no entanto precisando desesperada-
mente de um conhecimento perfeito, profundo e prático da Palavra
de Deus.
Eram alguns quinhentos crentes a quem Jesus tinha aparecido
uma vez depois da Sua Ressurreição. (ver 1 Coríntios 15:6). Após
a Sua ascensão, todavia, havia apenas uns cento e vinte orando no
quarto superior. (ver Atos 1:15). Aparentemente, trezentos e oiten-
ta desses não ouviram o que Ele disse acerca de permanecerem em
Jerusalém até serem revestidos com o poder do alto. O número dos
discípulos de Jesus não era muito impressionante segundo os padrões
humanos, mas quando veio o Espírito Santo, eles aumentaram para
três mil pessoas num dia!
Qual foi a função dos discípulos no quarto superior? Eles pro-
videnciavam o ensino e a autoridade que seria necessária imediata-
mente pelas pessoas que entraram na igreja no dia de Pentecostes.
Se os apóstolos não estivessem ali prontos a ensinar, teria sido o caos
quando o Espírito Santo desceu naquele dia.
Isto não é uma teoria. Nós vimos isto acontecer em África quan-
do éramos missionários. Houve um derramamento poderoso do Es-
pírito de Deus, principalmente nos Quakers, com muitas centenas
recebendo o batismo no Espírito Santo. Alguns até foram postos na
prisão por falarem em línguas. Os missionários Americanos Quakers
convenceram de facto as autoridades Britânicas a prenderem esses
humildes Africanos por falarem em línguas! Sem um ensino perfei-
to, muitas destas pessoas infelizes partiram para os mais fantásticos
erros e facetas de fanatismo, porque elas não tinham uma influên-
cia restritiva, disciplinar e instrutiva a funcionar. O dia de Pente-
costes teria sido um desastre sem ensino sistemático e prático da
Bíblia!

288
O dia de Pentecostes teria sido um desastre sem ensino
sistemático e prático da Bíblia!

Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedeces-


tes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. (Roma-
nos 6:17)

A palavra “forma” vem duma palavra Grega que nos deu a palavra
Inglesa “tipo” e refere-se a um molde designado para produzir um
determinado modelo ou figura. Não sou um especialiste em moldes,
mas se estiveres a fundir metais ou a fazer gelatina em casa, o processo
é claro. Primeiro tem que haver uma condição (tal como um calor
extremo) que prepara o material para o tornar sujeito ao molde. Se-
gundo, tem que haver um molde que produza a figura certa. Espiritu-
almente falando, a salvação traz o “calor” que faz uma pessoa desejar
aceitar uma nova forma espiritual. A forma do molde determina a
figura final, e o molde é o ensino bíblico.
Hoje, temos pessoas que não têm molde e que acabam como uma
sujeira pegajosa numa mesa de cozinha, deixando apenas a marca
duma experiência indefinida. Temos também pessoas que entram no
molde errado e que acabam na figura errada. Esclarecer tais pesso-
as é praticamente impossível; elas têm tido as suas vidas formadas
incorretamente. Todavia é impressionante como o molde do ensino
trabalha tão rápido. Algumas semanas de ensino Bíblico sólido pode-
rão produzir a mais maravilhosa mudança e poderão apresentar uma
personalidade e estilo de vida que resistirá a qualquer teste.
Falando da trágica situação onde o povo de Deus foi deixado sem
ensinamento, Isaías disse:
Portanto, o meu povo será levado cativo, por falta de entendi-
mento; e os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede.
(Isaías 5:13)

Muitas pessoas do povo de Deus estão em cativeiro porque não


têm o tipo de conhecimento de Deus. Fico impressionado pelas pa-
lavras: “os seus nobres terão fome”. Mesmo os seus teólogos e os seus
homens de destaque não têm nada para dar, e por isso as multidões
ficaram com sede. Em Oseias, vemos uma imagem semelhante:

289
O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; por-
que tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que
não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do
teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. (Oseias 4:6)

Repara que a exigência de um sacerdote é de que ele deve conhe-


cer e, por consequência, ensinar a lei de Deus. De facto, Malaquias
definiu isto como a responsabilidade do sacerdote:
Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e
da sua boca devem os homens buscar a lei porque ele é o mensageiro
do SENHOR dos Exércitos. (Malaquias 2:7)

Deus rejeitou os sacerdotes do tempo de Oseias porque eles rejei-


taram o conhecimento da Palavra de Deus. Isto pode ser igualmente
verdade hoje. Uma pessoa pode entrar no sacerdócio Católico ou no
ministério Protestante enquanto rejeitando o conhecimento da Pa-
lavra de Deus, mas ela não tem o ministério sacerdotal aos olhos de
Deus.
A afirmação em Oseias é tão trágica quanto verdadeira: Visto que
te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.
Na América hoje, vemos filhos esquecidos de Deus porque os seus
pais esqueceram-se da lei de Deus e não os criaram sob o seu ensina-
mento. Isto é um exato cumprimento do julgamento de Deus.

Atividade 2: Comunhão
A próxima atividade básica é comunhão. Temos que entender que
a comunhão é na realidade o propósito final do evangelho, tal como
vimos antes quando olhamos para o propósito central da igreja local.
Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu
Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. (1 Coríntios 1:9)

“Chamados para” indica destino. A comunhão não é um meio


para um fim – é o fim. A comunhão com Deus e com o Seu povo é
para onde estamos indo! Esta precede mesmo a oração. Muitos de nós
não nos apercebemos o que é a igreja na realidade. Paulo disse:
Escrevo-te estas coisas [Timóteo], esperando ir ver-te bem depres-
sa, mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de

290
Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade. (1
Timóteo 3:14-15)
Porque que é que Paulo escreveu esta epistola a Timóteo? Para que
ele soubesse como se comportar na casa de Deus. Paulo continuou
dizendo que a igreja do Deus vivo é “a coluna e firmeza da verda-
de”. O que deveria estar a acontecer na igreja não devia ser mistério
para Timóteo. Todavia, em algumas igrejas hoje, não está exatamente
claro para que é que elas estão ali. Muitas vezes não existe de todo
comunhão. Não podes estar em comunhão com a parte de trás do
pescoço de alguém na igreja!
Recordo-me de pregar uma vez numa bela igreja e no final do
serviço, o pastor disse: “Agora não tenhas pressa de ir para casa: fica
e faz comunhão; dá um aperto de mão a pelo menos meia-dúzia de
pessoas.” Eu orei silenciosamente: “Deus, é esta a medida de comu-
nhão que o Teu povo está a viver? Dar um aperto de mão a meia dúzia
de pessoas antes de elas irem para casa?”
Novamente, a maioria dos Cristãos nem sequer se começou a
aperceber de que a comunhão é o propósito final do evangelho. Pas-
samos por procedimentos religiosos, rituais, cerimónias, programas e
projetos. Tudo isto são meios, eles conduzir-nos-ão ao fim desejado?
A igreja primitiva entrou imediatamente numa vida de comunhão
manifestada em duas áreas ou plataformas principais. A comunhão
precisa de uma plataforma e a igreja primitiva teve uma grande e
uma pequena. A plataforma de grande escala era o templo, o local
nacional e institucional de adoração para o povo Judeu. A plataforma
de pequena escala era a óbvia e prática que encontramos sendo usada
através do Novo Testamento: as casas dos crentes.
E, perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão
em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração. (Atos 2:46)
Repara que, todos os dias eles estavam no templo e comiam jun-
tos nas suas casas. Partir o pão aqui não significa necessariamente to-
mar a Ceia do Senhor, embora esta possa estar incluída. Isto significa
que eles partilhavam as refeições juntos todos os dias nas casas uns
dos outros, o que é notável.
E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e
de anunciar a Jesus Cristo. (Atos 5:42)

291
Uma vez mais, vemos que a medida diária de comunhão estava
centrada em encontros no templo e nas casas. Os primeiros Cristãos
continuaram a frequentar por algum tempo o lugar institucional de
adoração, mas com dois requisitos: Eles não comprometiam o seu
testemunho e não dependiam da instituição para as suas vidas espiri-
tuais pessoais. Penso que isto é extremamente relevante para nós hoje.
Muitos Cristãos sentem-se levados a frequentar igrejas que não
os alimentam ou suportam espiritualmente. Eles poderão fazer isso
se não puserem em risco o seu testemunho. Não podem depender
apenas do tipo de encontro institucional de grande escala para o seu
real alimento espiritual. Estes Cristãos primitivos com certeza não
dependiam disso; eles tinham uma vida e comunhão completamente
diferente que decorria nas suas casas.
Lembra-te de que a palavra “comunhão” em Grego na verdade
significa “partilhar em conjunto”. A comunhão destes primeiros Cris-
tãos em Jerusalém estava expressa numa espécie de partilha muita
íntima. A principal coisa que eles partilhavam era o Senhor Jesus
Cristo, mas estes primeiros Cristãos partilhavam praticamente tudo.
Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum.
Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segun-
do cada um tinha necessidade. (Atos 2: 44-45)
Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que
possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que
fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a
cada um, segundo a necessidade que cada um tinha. (Atos 4: 34-35)
Os primeiros Cristãos sentiam uma obrigação de ministrar não só
às necessidades espirituais dos seus companheiros crentes, mas tam-
bém às suas necessidades físicas, materiais e financeiras! A situação
em Jerusalém era única, visto que não há qualquer registo de nou-
tras cidades os cristãos venderem todos os seus bens, como fizeram
lá. Provavelmente, terá sido sabedoria e inspiração do Espírito Santo
porque, em menos duma geração, Jerusalém foi totalmente desolada
pelos exércitos Romanos e os Judeus não estavam autorizados a pos-
suírem terras em nenhum sítio naquela área.
Por isso existem tempos de urgência em que o Espírito de Deus
nos levará a vender e a partilhar com todos, mas isto não é neces-

292
sariamente um modelo universal para cada situação. Contudo, sem
dúvida, os verdadeiros Cristãos partilharão em conjunto com os seus
companheiros crentes em cada situação e necessidade. O testemunho
maravilhoso era o facto de que não havia ninguém entre eles com ne-
cessidades. Pergunto a mim mesmo se isto poderia ser dito de todos
os Cristãos hoje. Se partilhássemos como os crentes do Novo Testa-
mento partilhavam, acredito que isso seria possível.
Outro aspecto que eu descobri sobre a comunhão é que esta é o
lugar do nascimento espiritual. Tal como Jesus disse:
O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é
espírito. (João3:6)
Jesus estava a falar de duas espécies diferentes de nascimento: o
nascimento da carne, que produz a carne e o nascimento do Espírito
que produz o espírito. Mesmo assim, existe muito no Cristianismo
contemporâneo que é nascido da carne, e tudo o que a carne alguma
vez pode produzir é carne. Somente o que nasce do Espírito terá a
vida do Espírito em si.
Se não estivermos em comunhão, não pode haver nascimento es-
piritual.

Se não estivermos em comunhão, não pode haver nascimento


espiritual.

Demasiadas vezes evitamos a comunhão e falhamos em produzir


algo verdadeiramente espiritual. Nós começamos um projeto, faze-
mos um programa, ou designamos um comité, mas o que acontece
é carne produzindo carne! Um programa ou projeto é diferente de
um nascimento. Deus está a disciplinar e a lidar com muitos para re-
gressarem à verdadeira comunhão que produz nascimento espiritual.
Vamos ver um exemplo notável de comunhão produzindo vida
espiritual. Atos 1:14 descreve as vidas dos crentes que estavam no
quarto superior, durante o tempo entre a ascensão e o derramamento
do Espírito Santo no dia de Pentecostes:
Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súpli-
cas, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com seus irmãos.
(Atos 1:14)

293
Os crentes continuaram durante dez dias em comunhão íntima,
num lugar razoavelmente limitado, em oração e súplica. Esta foi
certamente uma experiência confrontante. A minha esposa Lydia
definiu a comunhão deste modo: “Vós sois todos companheiros no
mesmo barco e não podeis sair.” A comunhão não é comunhão se
puderes voltar atrás e te afastares todas as vezes que quiseres! A co-
munhão exige um compromisso para com as outras pessoas. É aí que
isto te põe à prova.
De facto, a comunhão é comparada com a luz:
Mas, se andarmos na luz, como Ele na luz está, temos comunhão
uns com os outros… (1 João 1:7)
Se o pecado ou as trevas entrarem na vida de uma pessoa, o
primeiro resultado óbvio é um afastamento da comunhão. Tenho
aprendido na prática de que viver na luz da comunhão é uma expe-
riência intensiva que te põe mesmo à prova. Há alguns anos atrás em
Jamaica, orientei um curso de ensino bíblico. Uma irmã permane-
ceu apenas três dias antes de se ir embora para casa, mesmo tendo
pago o seu bilhete e todas as despesas relacionadas com o curso.
Havia qualquer coisa naquelas quarenta e cinco pessoas batizadas
no Espírito, estando juntas que aquela alma preciosa não conseguiu
suportar. Depois de um culto de libertação, outra mulher disse: “Se
eu pudesse nadar, tinha saído a nado desta ilha! Eu simplesmente
não conseguia suportar a pressão com a qual tinha sido rodeada.” Era
a pressão da comunhão. Ninguém estava a pregar-lhe ou a discutir
com ela, mas a comunhão intensa gera tal pressão que tu ou resistes
ao fogo ou recuas! Tenho visto muitos Cristãos que não resistem ao
fogo e à luz de uma comunhão contínua. Seja como for, em verda-
deira comunhão, “Sois todos companheiros no mesmo barco e não
podeis sair”!
Pensa no que deve ter estado envolvido em dez dias de oração e
de súplica contínua no quarto superior. Deve ter testado cada fibra
dos seus seres, porque aqueles apóstolos nem sempre concordavam
em tudo com os seus companheiros apóstolos. Mas o clímax vem em
Atos 2:1:
Cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no
mesmo lugar.

294
O que aconteceu? Houve um nascimento espiritual. O que sur-
giu foi a igreja de Jesus Cristo, nascida (no plano humano), durante
dez dias de comunhão entre cento e vinte pessoas. Em Atos 13:1-2
vemos outro exemplo extraordinário de comunhão como “a sala de
nascimento” dos propósitos de Deus:
Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e dou-
tores, a saber: Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu,
e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, ser-
vindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a
Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.

A partir da comunhão destes cinco homens esperando por Deus


com orações e jejuns, nasceu o que nós chamamos de “missões no
estrangeiro”. Foi esta a primeira ocasião em que, uma igreja enviou
pessoas especificamente para levar o evangelho aos que não estavam
evangelizados. Em ocasiões anteriores, tinha acontecido através de
perseguições ou aparentemente por acaso. No fundo, a primeira via-
gem missionária de Paulo emergiu da comunhão e oração, não de
um comité. A comunhão é de suma importância. Se quisermos nas-
cimento espiritual, temos que estar no local onde isso ocorre. Oh,
quanto eu desejo ver o verdadeiro nascimento espiritual em vez de
um revestimento da carne! Todavia, tendo sido missionário em mais
de um campo, eu diria que é mais fácil para a carne sentar-se em
quinze reuniões de comité do que ter um dia de comunhão. Na rea-
lidade, eu nunca estive em tantas reuniões de comité como quando
fui missionário!
Eu costumava dizer aos meus companheiros missionários em
África: “Tudo o que fazemos é lutar para sair duma crise a tempo
de cair numa outra.” Um dia, tivemos uma reunião para resolver
vários problemas insolúveis que enfrentávamos. A reunião começou
de madrugada e continuou hora após hora. Entretanto, todos os fi-
lhos dos missionários estavam a causar distúrbios no recinto da mis-
são e a meterem-se em problemas. A meio da tarde, a minha esposa
Lydia disse aos restantes: “Vocês continuem na reunião; nós vamos
fazer uma reunião com as crianças.” E assim, fizemos uma reunião
para elas! Duas das muitas crianças com problemas receberam o ba-
tismo no Espírito Santo, e uma delas subsequentemente entrou no

295
ministério a tempo inteiro. Aquilo foi revolucionário. Nós estáva-
mos a imaginar-nos a nós próprios os salvadores de África quando,
na realidade, não conseguíamos controlar os nossos próprios filhos.
Estávamos-nos a esquecer do quadro básico: esperar por Deus juntos
em verdadeira comunhão. Os comités nunca poderão produzir o que
a comunhão pode.

Os comités nunca poderão produzir o que a comunhão pode.

Atividade 3: Comer em Conjunto


A forma básica de comunhão é muito simples: é comer em con-
junto. Isto é tão simples que as pessoas passam por cima disso. Vemos
uma imagem disto em Atos quando Paulo passou sete dias na cidade
de Tróade:
No primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para par-
tir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles;
e alargou a prática até à meia-noite. (Atos 20:7)
Uma vez mais, a linguagem indica que para eles era uma coisa
normal comerem juntos. Nas suas casas, à volta das suas mesas, eles
louvavam o Senhor, oravam e partilhavam a Palavra de Deus.
Quando Deus me abriu os olhos para o facto de que comer em
conjunto era uma atividade de comunhão, fiquei surpreendido ao
ver quanto existe no livro de Atos sobre o comer em conjunto. Como
Pentecostal, cheguei a pensar em comida como uma coisa muito
mundana, e o comer em conjunto como a marca da igreja carnal.
Uma vez ouvi um pregador dizer: “Eles passaram do quarto superior
para o quarto de jantar.” De facto, eles “passaram” do quarto superior
para o quarto de jantar e continuaram a comer em conjunto regular-
mente. Isto é uma coisa formidável.
É muito importante comer em conjunto regularmente. Descobri-
mos esta verdade em África onde, teoricamente não havia barreiras
entre negros e brancos. Mas na verdade, existia uma profunda divisão
que preocupava a minha esposa e eu. Eventualmente, decidimos con-
vidar os Africanos para se reunirem em nossa casa, o que era social-
mente uma atitude revolucionária.
Uma das razões porque era revolucionária, era porque nessa altu-
ra muitos dos Africanos não sabiam usar uma faca e um garfo. Ter

296
alguém na tua casa que se senta meio metro afastado da mesa e fica a
transpirar quando tenta usar uma faca e um garfo pode ser embaraço-
so. Mas eles eram tão queridos. Eles diziam: “Não se preocupem; nós
não entendemos, mas vocês irão ensinar-nos: nós queremos saber.”
Nós descobrimos que esta comunhão mudou toda a relação.
Mais tarde, nós íamos duas vezes por semana comer com os nos-
sos estudantes no seu refeitório. Não gostávamos da comida, mas
descobrimos que se criou uma relação completamente nova entre eles
e nós. Isto está tão de acordo com as Escrituras. E, de acordo com o
costume do Oriente, quando comes com uma pessoa, comprometes-
-te a ti próprio com ela, não deves depois ser desleal para com ela. Era
o equivalente a entrar numa espécie de aliança. Se aceitares a hospita-
lidade de um homem, colocas-te a ti próprio sob uma obrigação para
com ele, que somente o mais néscio e indigno poderia alguma vez
violar. Uma parte da culpa de Judas foi que ele primeiro comeu pão
com Jesus e depois traiu-O. Os Salmos dão esta profecia dramática
da traição de Jesus:
Até o meu próprio amigo íntimo, em quem eu tanto confiava,
que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar. (Sal-
mo 41:9)

O próprio Jesus referiu-Se a esta passagem em João 13:18, breve-


mente antes de Judas ter saído para O trair:
Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido; mas para
que se cumpra a Escritura: O que come o pão comigo levantou contra
mim o seu calcanhar.

Uma vez mais, isto é o peso da traição e da deslealdade – comer


com um homem e depois traí-lo. O propósito para o qual Deus trás
o Seu povo junto em comunhão à volta da mesa é para que sejamos
leais uns aos outros daí em diante. Nós não comemos em conjunto
com alguém e dizemos: “Deus te abençoe, irmão” e depois saímos e
começamos a falar acerca dele pela vizinhança. Se o fazemos, estamos
a agir como Judas, embora obviamente não no mesmo nível.
Consigo imaginar este ato de comer em conjunto incluindo a
Ceia do Senhor. De facto, as raízes da Ceia do Senhor estão na refei-
ção da Páscoa, que no fundo era uma refeição completa apreciada por

297
uma comunhão prolongada. Quando tomamos a Ceia do Senhor, es-
tamos a renovar a nossa aliança com Jesus e com todos os que tomam
parte connosco. Nós estamos a jurar a nossa lealdade para com Ele e
uns para com os outros. São pronunciados julgamentos severos sobre
aqueles que tomam a Ceia do Senhor indignamente, precisamente
porque isso é uma refeição de aliança. (Ver 1 Coríntios 11:27-32).
Trair um homem com quem comes “e” tomar a Ceia do Senhor é
extremamente perigoso. É como olhar um homem na cara, esperar
que ele se volte e esfaqueá-lo pelas costas. Isso é como é visto pelos
padrões bíblicos.
Vemos a preocupação de Paulo para que esta comunhão de comer
em conjunto seja usada corretamente:
De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a
Ceia do Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente
a sua própria ceia; e assim um tem fome, e outro embriaga-se. (1
Coríntios 11:20-21)
A igreja de Corinto era entusiástica, mas por vezes um pouco in-
sensível nas suas perceções. Lembra-te de que eles podiam estar fe-
lizes com a bênção de Deus sobre eles, mesmo quando existia uma
flagrante imoralidade sexual no meio deles. (Ver 1 Coríntios 5:1-2).
Aparentemente, eles também tinham uma pratica muito estranha na
qual toda a gente trazia a sua própria comida, e um começava a comer
enquanto que outro estava com fome. Um bebia demasiado vinho
enquanto que outro não tinha absolutamente nada para beber.
Estes mesmos versículos provam que a igreja em Corinto comia
regularmente em conjunto. Eles não faziam isso corretamente, mas
pelo menos reuniam-se em conjunto; era uma forma natural de co-
munhão. Paulo não criticou a comunhão, ainda que tenha condena-
do as bebedeiras. Ele estava a dizer: “Não imaginem que este tipo de
comunhão em si, é tomar a Ceia do Senhor.” Vamos fazer comunhão
à volta da mesa, e façamos isso como uma família de igreja, partilhan-
do enquanto comemos em conjunto.
Esta é uma imagem totalmente diferente de sentar-se em bancos
e chamar a isso comunhão. Não podes comer em conjunto com pes-
soas e ter a mesma atitude para com eles. Isso transforma-te, trans-
forma-as, transforma as relações e transforma a atmosfera. Considera
este quadro bonito que nos dá o “produto final” do capítulo:

298
E, perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o
pão em casa [ou comendo as suas refeições em casa], comiam jun-
tos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na
graça de todo o povo. (Atos 2:46-47)
Aqui está a imagem de uma igreja caminhando na vitória, vivendo
no Espírito e em perfeita comunhão. Onde é que isto era eficaz? Em
suas casas. Cada mesa de refeição tornava-se um lugar de comunhão,
um local de oração, e um espaço de louvor. Os não crentes não os
viam no templo porque os não crentes não iam ao templo. Eles viam-
-nos em suas casas, e o que eles viam fez com que eles quisessem o
que estes crentes tinham.
Não existe muita alegria hoje em casas de muitas pessoas. Uma
casa verdadeiramente feliz, onde os membros da família gostam uns
dos outros e louvam ao Senhor, destacar-se-á! As pessoas dirão: “O
que é se passa ali?” Se o único lugar que tens para mostrar os teus
produtos é no edifício da igreja, a maioria dos não crentes nunca irão
ver o que é que tens. Em Mateus 5:15-16, Jesus disse que nós não
devemos esconder a nossa luz debaixo de um cesto, e o maior cesto
debaixo do qual nos parecemos esconder é o teto do edifício da igreja!

Atividade 4: Oração
Quarto, enquanto a primeira necessidade da igreja local é o en-
sino, a primeira e o mais importante divulgação da igreja local é a
oração.

A primeira e o mais importante divulgação da igreja local


é a oração.

Depois de uma congregação ser devidamente ensinada, o ministé-


rio de oração deve emergir assim que os crentes se reúnem em nome
do Senhor Jesus Cristo. É uma divulgação que provém do ensino.
Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações,
intercessões e ações de graças por todos os homens. (1 Timóteo 2:1)
Paulo estava a dar instruções a Timóteo sobre a gerencia dos as-
suntos de uma igreja local, e disse:“O ministério primário de uma
congregação local é, oferecer súplicas, orações, intercessões e ações de

299
graças.” Deus espera que a igreja seja um centro de oração, uma casa
de poder a partir da qual saem orações de intercessão eficazes para
o mundo. Se a igreja estivesse a cumprir esta função, a sua relação
com o mundo seria muito diferente. Se orares bastante por pessoas,
elas sentirão alguma coisa em ti que as motivará a responder-te. Se as
servires sem oração, a atitude delas para contigo será completamente
diferente.
[O Senhor disse,] Também os levarei [estrangeiros e aqueles
que se sentem rejeitados] ao meu santo monte e os festejarei na
minha Casa de Oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão
aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada Casa de
Oração para todos os povos. (Isaías 56:7)

A casa de Deus é para ser chamada “a casa de oração para todos os


povos”. O Seu povo torna-se alegre na Sua casa de oração, com uma
alegria que resiste ao teste da tribulação. Existem outros tipos de ale-
gria em que os Cristãos entram que podem não resistir ao teste. Mas
quando deixarmos que Deus nos torne alegres na casa de oração, nós
seremos verdadeiramente firmes.
Quando fui convertido da completa ignorância para as coisas de
Deus (embora tivesse sido membro de uma igreja durante vinte e
cinco anos), a coisa que eu mais gostava e nunca queria perder era o
encontro de oração. Isto era totalmente estranho à minha persona-
lidade natural. Recordo-me uma vez, enquanto não crente, de ouvir
falar sobre algumas pessoas que iam a um encontro de oração. Eu
nunca tinha ido a um encontro desses na minha vida e não sabia o
que isso era. Todavia, quando percebi que elas iam passar uma hora
num encontro de oração, pensei, “Como é que as pessoas alguma vez
poderiam pensar em tanto, para orarem cerca de uma hora?” Quando
fui salvo e batizado no Espírito Santo, cedo entendi o quanto uma
pessoa pode orar durante longos períodos de tempo. Eu devo dizer,
Deus fez-me feliz na Sua casa de oração.
Vamos voltar para 1 Timóteo 2, onde vemos que o primeiro as-
sunto pelo qual devemos orar é pelos reis e todos os que exercem auto-
ridade (versículo 2). O primeiro tema de oração, prescrito na con-
gregação local é por aqueles que estão em autoridade civil, não pelos
pregadores ou missionários ou doentes. Tenho perguntado a algumas

300
congregações: “Quantos de vós oraram na semana passada ao menos
uma vez de forma inteligente pelo chefe do vosso governo e os seus
assuntos?” Muito raramente, vês 20 por cento das pessoas responde-
rem. Nós estamos a perder a primeira prioridade.
Meu querido amigo, o saudoso Don Basham, ouviu-me pela pri-
meira vez pregar sobre isto na Austrália, quando perguntei: “Quantos
de vós orais regularmente pela Rainha e por todos os governantes
desta comunidade?” Das cento e cinquenta pessoas presentes cerca
de cinco levantaram as mãos bastante timidamente, e Don foi um
deles! Quando ele me ouviu pregar cerca de ano depois, disse-me:
“Irmão, nunca mais me irás apanhar de novo! Fui apanhado uma
vez, mas nunca mais. Em nossa casa, nós oramos pelos governantes
todos os dias.”
Portanto, ele apanhou a mensagem. É aqui que a maioria dos
Cristãos professos está terrivelmente em falta. Eles criticam durante
uma hora, mas oram muito pouco pelos líderes que criticam. Digo
frequentemente às pessoas: “Se passassem o tempo orando em vez
de criticarem, teriam muito menos que criticar.” De facto, as pessoas
que vocês criticam poderão ser muito mais fiéis nos seus trabalhos
do que vocês nos vossos. Se os nossos governantes não fossem mais
fiéis na administração das nações do que os Cristãos são em orar por
eles, nós estaríamos a dirigir-nos para o caos. Romanos 13:1, afirma
simplesmente: …e as autoridades que há foram ordenadas por Deus. A
autoridade secular é ordenada por Deus, mas é da nossa responsabili-
dade ver se ela é dirigida do modo que Deus deseja através das nossas
orações. É por causa da misericórdia e provisão de Deus que temos
regras e autoridade secular, sem as quais haveria grande desordem e
confusão. A nossa responsabilidade é orar pelo nosso governo.
Deixa-me dizer aqui que, a oração não é um modo de conseguir
que Deus faça aquilo que queres que Ele faça. Pelo contrário, é a
maneira de chegar ao lugar onde sabes que Deus vai fazer aquilo que
Lhe pedes para fazer. Depois de chegar a este lugar de confidência,
dizer-Lhe o que desejas é uma pequena questão.
Vamos também salientar a relação entre comunhão e oração:
Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca
de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que
está nos céus. Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu
nome, aí estou eu no meio deles. (Mateus 18: 19-20)

301
Onde dois ou três estiverem reunidos pelo Espírito Santo para se
encontrarem à volta do próprio Cristo, Ele promete comparecer por
causa deles. O requisito básico da oração coletiva eficaz é a harmonia.
Uma vez mais, a palavra Grega para “concordar” é “sumphano”, da
qual obtemos a palavra inglesa “sinfonia”. Isto significa “combinar
juntos em harmonia”. Se duas pessoas estiverem em harmonia, as
suas orações são irresistíveis.

O requisito básico da oração coletiva eficaz é a harmonia.

O demónio não tem nem um pouco de medo dos encontros de


oração, porque a maior parte das orações que são oferecidas nunca
passa do teto! Deus nem sequer as ouve, porque Ele tem exigências
rigorosas sobre o tipo de orações que ouvirá. O que o demónio re-
almente teme é duas pessoas que estão em harmonia, mas lembra-te
de que estar quase em harmonia não é harmonia. Não existe nada
mais irritante do que dois instrumentos ou vozes que estão quase em
harmonia. Quando estamos em harmonia e preenchemos os outros
requisitos da oração, cumprimos uma componente necessária da vida
da igreja. Sem isto, não conseguimos o que Deus tem para a igreja.

302
- 25 -

A Reunião Coletiva

Embora o Novo Testamento reconhecer a comunhão regular dos


crentes nas suas casas, nunca permite que fiquemos satisfeitos só com
isso. Ele encoraja a igreja coletiva a reunir-se. Neste capitulo, descre-
verei oito propósitos diferentes pelos quais os crentes se reúnem numa
área. Os seguintes pontos sintetizam e põem dentro do contexto espe-
cífico, muitos dos princípios e verdades que temos vindo a aprender
sobre a igreja, e de como nós os podemos aplicar nas nossas vidas hoje.

Propósitos pelos Quais os Crentes se Reúnem

1. Para se edificarem uns aos outros


Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós
tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpreta-
ção. Faça-se tudo para edificação. (1 Coríntios 14:26)
O propósito da reunião, tal como apresentado por Paulo, é para
que todos os crentes se edifiquem uns aos outros através da oração,
do louvor e do exercício dos seus dons e ministérios particulares. Tem
tudo a ver com edificação mútua. Por conseguinte, todas as vezes que
te reúnes com os teus companheiros crentes, imagina-te a ti próprio
como “estando de serviço” para encorajá-los. Tens que fazer uso dos
teus dons espirituais e da tua vida devocional atual para ajudá-los a
fortalecerem-se espiritualmente.

Um dos propósitos dos crentes se reunirem é para que se


edifiquem uns aos outros.

2. Comer a Ceia do Senhor


O segundo propósito como vimos recentemente, é para os crentes
terem comunhão à volta da refeição e participarem em conjunto da

303
Ceia do Senhor. Este tem que ser um tempo de unidade coletiva e
não de egoísmo individual.
Não tendes, porventura, casas para comer e para beber? Ou des-
prezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos di-
rei? Louvar-vos-ei? Nisso não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o
que também vos ensinei… Portanto, meus irmãos, quando vos ajun-
tais para comer, esperai uns pelos outros. (1 Coríntios 11:22-23, 33)
Podemos ver aqui que todos são importantes. Todos nós conhe-
cemos o sentimento de chegar tarde para jantar e descobrirmos que
este já começou. Quão honrados nos sentiríamos se todos esperas-
sem para comer até nós chegarmos. Tal deveria ser o espírito de até
mesmo, grandes reuniões de alguns milhares de crentes. Paulo estava
a dizer: “Esperem, guardem a comida até que cada irmão ou irmã
tenha chegado. Como é que nós próprios poderemos desfrutar se eles
não estiverem todos ali?”
Esta era no fundo uma grande reunião, uma que nunca poderia
ser feita numa casa, pois Paulo disse: Não tendes, porventura, casas
para comer e para beber? Aqui temos uma reunião em conjunto à volta
de uma refeição e da Ceia do Senhor que está centrada na afirmação
e edificação mútua do corpo coletivo de Cristo.

3. Ser Ensinado pelos Ministérios Móveis


Em Atos 21, Paulo visitou Jerusalém depois de muitos anos
de ausência. Com efeito, Tiago e os outros irmãos disseram em
Jerusalém:“Nós agora temos que ter uma reunião e deixarmos que
vocês ministrem a toda a congregação.”
E, ouvindo-o eles, glorificaram ao Senhor e disseram-lhe: Bem
vês, irmão, quantos milhares de judeus há que crêem, e todos são
zelosos da lei. E já acerca de ti foram informados de que ensinas todos
os judeus que estão entre os gentios a apartarem-se de Moisés, dizendo
que não devem circuncidar os filhos, nem andar segundo o costume
da lei. Que faremos, pois? Em todo o caso é necessário que a multidão
se ajunte; porque terão ouvido que já és vindo. (versículos 20-22)
Tinha sido dirigido pelo Espírito Santo um ministério móvel para
a cidade de Jerusalém na pessoa de Paulo, e toda a igreja lá devia re-
ceber o benefício deste ministério apostólico.

304
É da responsabilidade dos líderes locais chamarem a igreja inteira
em conjunto e tornarem disponível para ela o ministério móvel. Os
ministérios móveis de apóstolo, profeta, evangelista e doutores têm
que tomar lugar em reuniões coletivas assim que a liderança da cida-
de os convidar. Obviamente, estes ministérios terão um impacto nas
reuniões da igreja de um modo poderoso, e nós precisamos da sua
instrução espiritual e encorajamento.

4. Ouvir os Relatórios em Primeira-Pessoa dos Ministérios


Móveis
Vemos um relatório semelhante dado por Paulo à igreja que o
enviara em Antioquia:
E dali navegaram para Antioquia, onde tinham sido recomenda-
dos à graça de Deus para a obra que já haviam cumprido. E, quando
chegaram e reuniram a igreja, relataram quão grandes coisas Deus fi-
zera por eles e como abrira aos gentios a porta da fé. (Atos 14:26-27)
Imagina uma reunião de pelo menos quinze mil pessoas que não
tinham visto Paulo durante dois a três anos!
Tal como vimos, quando uma igreja local envia um ministério,
este tem que prestar contas a essa congregação. Até mesmo Paulo
e Barnabé como apóstolos tiveram que prestar contas da gerência
do seu cargo. É uma parte excitante e crítica da vida da igreja, que
as pessoas locais estejam ligadas ao mundo das missões. A Grande
Comissão deve tornar-se parte da compreensão e do estilo de vida de
cada congregação.

5. Ler as Cartas dos Ministérios Móveis


Muitas vezes, Paulo e os outros apóstolos, não podiam ir a uma ci-
dade, mas eles escreviam uma carta com as direções e instruções, que
essa congregação particular na cidade precisava. Cinquenta por cento
ou mais dos primeiros Cristãos eram iletrados e não conseguiam ler
as cartas por eles próprios. Como é que estas lhes eram transmitidas?
A carta seria o ponto central de uma reunião de toda a congregação.
Os anciãos locais chamavam todos os crentes em conjunto e liam a
carta calmamente em voz alta. Não duvides que eles a liam duas ou
três vezes. As pessoas também tinham a oportunidade de dizerem:“Eu
não entendi isso; lê outra vez. O que é que ele quer dizer?”

305
Por vezes, as cartas eram partilhadas em diferentes cidades. Paulo
escreveu aos Colossenses:
E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que tam-
bém o seja na igreja dos laodicenses; e a que veio de Laodicéia, lede-a
vós também. (Colossenses 4:16)
Colossos e Laodiceia eram cidades vizinhas e tinham o mesmo
tipo de problemas. Paulo não queria dar a sua opinião e o seu con-
selho somente a uma igreja, por isso ele disse: “Quando esta carta
chegar a Colossos, será lida entre vós e quando tiverdes terminado,
enviai-a à igreja de Laodiceia e deixai que seja lida lá. Eu também en-
viei uma carta para a igreja de Laodiceia, por isso quando ela chegar,
leiam-na também.” Paulo confidencialmente antecipou que todo o
grupo de crentes seria chamado em conjunto em cada cidade para
ouvir as cartas que ele lhes escreveu.
Até agora, vimos uma imagem fascinante da reunião coletiva da
igreja do Novo Testamento. Temos uma reunião centrada na edifica-
ção mútua e na partilha de uma refeição que também pode incluir o
ministério, relatório, ou instrução (mesmo por carta) de um minis-
tério móvel. Agora, existem outros três propósitos para tais reuniões.

6. Resolver Assuntos de Doutrina e de Prática


Uma razão importante para eles se reunirem era para resolverem
assuntos de doutrina e de prática. Oh, quanto isto precisa ser feito
hoje para resolver assuntos de doutrina que estão por resolver!
O capítulo quinze de Atos está dedicado à discussão do que os
Gentios têm que fazer para serem reconhecidos como Cristãos. Al-
guns dos crentes Fariseus diziam: “Eles têm que tornar-se prosélitos.
Eles têm que estar sob a lei de Moisés e serem circuncidados. Se eles
observarem a Lei, então reconheceremos a sua fé no Messias.” Mas
Paulo e Barnabé disseram: “Não, isso não tem que ser dessa maneira.”
Por isso os apóstolos e os anciãos, e depois toda a igreja em Jerusalém,
reuniram-se para considerar e resolver a questão.
Então, pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja,
eleger varões dentre eles e enviá-los com Paulo e Barnabé a Antio-
quia… (Atos 15:22)
A congregação inteira reuniu-se. Quando eles chegaram a uma de-
cisão, enviaram Paulo e Barnabé para comunicarem isso aos crentes

306
em questão. Eles chegaram a um código de conduta quádruplo mui-
to básico, em vez da lei de Moisés incrivelmente complexa: tinham
que privar-se das coisas sacrificadas aos ídolos, da carne sufocada, do
sangue e da fornicação. Era tudo o que era requerido da observância
Mosaica para os crentes Gentios que recebiam o Senhor Jesus. Eu
creio que a verdadeira espiritualidade opta sempre por simplicidade
em vez de complexidade. Agora, vamos ler estes belos versículos:
Pareceu-nos bem, reunidos concordemente… …Na verdade, pa-
receu bem ao Espírito Santo e a nós… (versículos 25, 28)
Este grupo de crentes chegou a uma absoluta unanimidade sobre
o que Espírito Santo exigiu. O princípio é o de que, os assuntos que
afetam a doutrina e a prática em relação a cada crente, devem ser re-
solvidos por toda a congregação. Os apóstolos e anciãos fazem deba-
tes preliminarmente e chegam ao que eles consideram ser a mente do
Senhor, mas deixam que isso seja confirmado por toda a congregação:
Geralmente, se ouve que há entre vós fornicação e fornicação tal,
qual nem ainda entre os gentios, como é haver quem abuse da mu-
lher de seu pai. Estais inchados e nem ao menos vos entristecestes,
por não ter sido dentre vós tirado quem cometeu tal ação. Eu, na
verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já
determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato praticou,
em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito,
pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, seja entregue a Satanás para
destruição da carne, para que o espírito seja salvo no Dia do Senhor
Jesus. (1 Coríntios 5:1-5)
Sem dúvida, Paulo antecipou a reunião de toda a congregação,
ao ser lida a sua carta. Seria feito um julgamento para que o homem
fosse levado ao arrependimento e a sua alma fosse salva eternamente.
Quão diferente seria a situação hoje se reuníssemos a igreja e lidás-
semos coletiva e diretamente com o pecado extremo, especialmente
nas vidas dos líderes Cristãos. Isto faz parte do estilo de vida da ver-
dadeira igreja

7. Resolver disputas entre Crentes


Outra razão para a igreja se reunir foi apresentada pelo pró-
prio Jesus:

307
Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele
só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão. Mas, se não te ouvir, leva ainda
contigo um ou dois, para que, pela boca de duas ou três testemunhas,
toda palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e,
se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publi-
cano. (Mateus 18:15-17)
Vemos de novo a necessidade de uma reunião coletiva, quando
alguém recusa todos os passos para reconciliar uma contenda. Tal
como discutimos antes, qualquer pessoa que recuse aceitar a decisão
da igreja local em tais assuntos, não deve ser mais tratada como um
Cristão. É a única maneira de tornar isto eficaz e ter toda a igreja em
acordo, por isso todos eles precisam de se reunir e chegar a um tipo
de acordo retratado nos seguintes versículos:
Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será liga-
do no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de
qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está
nos céus. Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome,
aí estou eu no meio deles. (versículos 18-20)
Repare que passamos do ligar e desligar para concordar em reunir-
-se em nome de Jesus. É isto que acontece quando a igreja se reúne
em unidade! Temos o poder de ligar e desligar (ou proibir e permitir)
porque estamos em acordo (ou harmonia) assim que nos reunimos
no Seu nome. A nossa unidade reforça a disciplina. Não há rebelde
ou rebelião que possa resistir contra a igreja unida.
Vamos resumir as oito razões para as reuniões coletivas:
1. Edificar-nos uns aos outros através dos dons e ministérios.
2. Comer a Ceia do Senhor em conjunto
3. Ser edificados pela visita dos ministérios móveis.
4. Ouvir os relatórios dos ministros móveis ao regressarem à igreja
local que os enviou.
5. Ouvir ler as cartas dos ministros móveis.
6. Resolver assuntos de doutrina e prática que afetam todos os crentes.
7. Manter a disciplina e os padrões apropriados de comportamento
entre crentes.
8. Resolver discussões entre crentes.

308
Agora, onde é que se faziam estas reuniões? A Bíblia é deliciosa-
mente silenciosa acerca disto. Sabemos por Atos 2: 46 e 5:42, que os
crentes se reuniam no templo. Em Atos 19:9, Paulo pregou durante
um ano e meio numa escola de filósofos. Em Atos 20:8, os crentes
reuniam-se numa sala superior. A razão porque a Bíblia não nos diz é
porque isso não é importante, qualquer lugar que reúna as condições
é bom.
O primeiro edifício construído especificamente como uma igreja
foi construído em 222 d.C., quase duzentos anos depois do dia de
Pentecostes. Os Judeus construíam sinagogas e os pagãos construí-
am templos, mas os primeiros Cristãos que vinham quer de culturas
Judaicas quer de culturas pagãs, não construíam. Isto fala da flexibi-
lidade e mobilidade necessárias para uma verdadeira igreja do Novo
Testamento. Nós não podemos estar presos, quer dentro das igrejas
quer por elas. O trabalho do evangelho pode utilizar edifícios, mas
este não pode ser contido por eles. A vida diária da igreja tem de
transbordar, passar dos edifícios da igreja para dentro do mundo de
todos os dias.

O trabalho do evangelho pode utilizar edifícios, mas este não pode


ser contido por eles.

309
VI
6ª. Parte

O Futuro da Igreja
- 26 -

Venha o Teu Reino

Muitos Cristãos estão preocupados com questões do fim dos tem-


pos, tais como estas:“O que acontecerá à igreja nos últimos dias? Que
batalhas e confrontos estão para vir? Que papel irá desempenhar o
estado de Israel?” Tentarei abordar estas questões nesta secção final
sobre o futuro da igreja.
Primeiro, tenho que estabelecer o objetivo de Deus para a época
presente. Encontraremos a resposta em três palavras de Mateus 6:10.
Elas fazem parte do que nós chamamos a oração o Pai Nosso. A maio-
ria de nós que crescemos numa cultura Cristã, já dissemos esta oração
mais vezes do que nos possamos lembrar, todavia não nos aperce-
bendo muitas vezes o que estávamos a orar: “Venha o Teu reino.” A
oração continua, “A Tua vontade seja feita tanto na terra como no céu.”
Então, a oração está a dizer, “Venha o Teu reino à terra.” O últi-
mo objetivo de Deus para a presente época é a chegada do Seu reino
à terra sob o Seu Rei escolhido, o Senhor Jesus Cristo. Eu creio que
Ele verdadeiramente terá um reino terreno e que governará como um
rei. Acredito que esta é a única solução para os problemas do mun-
do. Muitas pessoas dizem que nós somos sonhadores, que estamos a
falar sobre balelas. No entanto, depois de todos estes anos da histó-
ria humana, penso que as pessoas que imaginam que o homem pode
resolver os seus próprios problemas são os sonhadores. Nós estamos
provavelmente mais longe de resolver os problemas do mundo neste
momento do que alguma vez estivemos. Então como é que alguém
nos pode persuadir que isto vai mudar através dos esforços do homem?
Existe apenas uma esperança: é a chegada do reino de Deus à
terra. Cada Cristão comprometido precisa de estar alinhado com esta
esperança.
E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a
vontade de Deus permanece para sempre. (1 João 2:17)

313
A vontade de Deus não vai mudar. Se tiver de existir alguma mu-
dança, é nas nossas vontades. Se cada um de nós alinharmos as nossas
vontades com a vontade de Deus, se fizermos do propósito de Deus
o nosso propósito na vida, nós seremos inabaláveis e invencíveis tal
como a vontade de Deus.
Aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.
O problema essencial para cada pessoa é este: Estarás alinhado
com a vontade de Deus? Será o propósito de Deus o teu propósito?
Para muitas pessoas que frequentam a igreja nesta nação, isto não
é assim. Elas estão envolvidas em toda espécie de atividades religiosas,
mas perderam de vista o objetivo, o propósito final, que é o estabele-
cimento do reino de Deus na terra.

Muitos membros da igreja estão envolvidos em atividades religiosas,


mas perderam de vista o objetivo:
o estabelecimento do reino de Deus na terra.

Existe uma grande quantidade de passagens da Escritura que falam


acerca deste reino, e eu quero apresentar duas delas. A primeira é de
Daniel 2:44. Não podemos entrar no ambiente deste versículo, mas é
a interpretação por Daniel da visão que o rei Nabucodonosor teve. O
rei não conseguia lembrar-se da visão, muito menos entende-la. Deus
mostrou a Daniel o que era a visão sobrenaturalmente e deu-lhe a inter-
pretação. Este versículo é verdadeiramente o clímax da interpretação:
Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não
será jamais destruído; e esse reino não passará a outro povo; esmiuçará e
consumirá todos esses reinos e será estabelecido para sempre. (Daniel 2:44)
A uma determinada altura da história humana (e eu acredito que
isto está muito próximo), Deus vai estabelecer um reino que perma-
necerá para sempre. Nunca passará o tempo e nunca será transmitido
a outros. Destruirá inteiramente, totalmente, finalmente e completa-
mente todos os reinos rivais.
O Salmo 72 é o que é chamado salmo messiânico. Por outras
palavras, o seu tema é o reino do Messias. Quero que repares em
dois aspectos principais do reino messiânico nesta imagem profética.
Primeiro que tudo, o requisito essencial para a paz é a justiça. Os po-
líticos e outros líderes que falam sobre a paz, mas passam por cima da

314
justiça estão a enganar-se a eles próprios e aos outros. Nunca poderá
haver verdadeira paz sem justiça.
Segundo, o salmo enfatiza algo que penso que muitos Cristãos
– sejam eles evangélicos ou do evangelho-pleno – nunca apreciaram
adequadamente: a preocupação intensa de Deus pelo pobre, pelo ne-
cessitado e pelo oprimido. Esta é uma imagem do reino e do rei:
Ó Deus, dá ao rei os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei. Ele
julgará o teu povo com justiça e os teus pobres com juízo. Os montes
trarão paz ao povo, e os outeiros, justiça. Julgará os aflitos do povo,
salvará os filhos do necessitado e quebrantará o opressor… Dominará
de mar a mar, e desde o rio [Eufrates] até às extremidades da terra.
Aqueles que habitam no deserto se inclinarão ante ele, e os seus ini-
migos lamberão o pó. Os reis de Társis e das ilhas trarão presentes; os
reis de Sabá e de Sebá oferecerão dons. E todos os reis se prostrarão
perante ele; todas as nações o servirão. Porque ele livrará ao necessita-
do quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o
ajude. Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará a alma dos ne-
cessitados. Libertará a sua alma do engano e da violência, e precioso
será o seu sangue aos olhos dele. (Salmo 72:1-4, 8-14)
Salvo algumas excecões, a humanidade não se importa com os
pobres. A maioria dos governos no mundo hoje não se importa com
os pobres. Em Ezequiel 16:49, Deus pinta um quadro dos pecados
de Sodoma, e é impressionante como a homossexualidade nunca é
mencionada. Os pecados de Sodoma eram: Soberba, fartura de pão,
e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu
a mão do pobre e do necessitado. A homossexualidade surge a partir
destas condições, que é precisamente o que aconteceu nos Estados
Unidos e outras nações do Ocidente. Mas repara que a principal con-
denação de Sodoma foi a de que eles não fortaleceram as mãos dos
pobres e necessitados. No mundo de hoje estão a acontecer basica-
mente duas coisas: os ricos estão a ficar cada vez mais ricos e os pobres
estão a ficar cada vez mais pobres. A maioria das negociações políticas
que acontecem, têm como objetivo proteger os ricos.
Vou apontar mais outro facto sobre este reino, antes de nos focar-
mos em três propósitos primários de Deus, que precisam ser cum-
pridos antes da chegada do reino. No salmo 92, o salmista lida com
um assunto que é muito atual: o surgimento/o aumento do mau. Já
tenho mais de oitenta anos, mas nunca tinha visto a maldade exibir-

315
-se tão abertamente. Porque é que Deus permite isto? Estará Deus a
importar-Se? Isto é o que o salmista diz:
Quão grandes são, SENHOR, as tuas obras! Mui profundos são os
teus pensamentos! O homem brutal nada sabe, e o louco não entende
isto. Brotam os ímpios como a erva, e florescem todos os que praticam a
iniqüidade, mas para serem destruídos para sempre. (Salmo 92:5-7)
Deus permite que a iniquidade floresça; Ele admite uma tremenda
colheita de iniquidade, e isto está a acontecer no mundo hoje. Mas o
Seu propósito é destruir o mau. Fico impressionado como se fala tão
pouco a partir do púlpito sobre o julgamento de Deus. Se nós nunca
falarmos sobre o “julgamento”, privamos o Espírito Santo da oportu-
nidade de convencer as pessoas. O julgamento é uma parte essencial da
revelação do evangelho. Jesus é o Salvador, mas Ele é também o Juiz.
Em Apocalipse 1:9-17, João encontrou Jesus como o Juiz. Agora,
ele conheceu-O como o Salvador. Ele descansou a sua cabeça no pei-
to de Jesus na Última Ceia. Mas quando ele O encontrou como Juiz,
ele caiu a Seus pés como alguém que estava morto! Penso que a igreja
precisa de ter uma visão de Jesus como o Juiz.
Vamos agora olhar para os três propósitos de Deus que precisam
ser cumpridos, antes da chegada do reino.

O Evangelho Será Pregado em Toda a Terra


Em Mateus 24, os Seus discípulos colocaram esta questão a Jesus:
… Dize-nos quando serão essas coisas e que sinal haverá da tua
vinda e do fim do mundo? (Mateus 24:3, ênfase adicionada)
Não “um” sinal ou “os sinais”, mas “o sinal”. Jesus deu uma res-
posta especifica. Mas antes de dá-la, Ele deu um número de sinais,
que eram indicações mas não “o sinal”. Vamos ver alguns deles:
Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e
haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares. Mas todas essas
coisas são o princípio das dores [dores de parto]. (Mateus 24:7-8)
O estabelecimento do reino físico de Cristo na terra no fim dos tem-
pos não pode ser organizado; pode vir somente através de um nascimen-
to. Isto é equivalente à experiência de cada pessoa que entra no reino de
Deus: ela tem que nascer de novo; não existe outra maneira. Um nasci-
mento é precedido por dores de parto e quanto mais intensas são as dores,

316
mais iminente está o nascimento. Eu acredito que nós estamos num pe-
ríodo de dores de parto do nascimento do reino físico de Cristo na terra.
Aqui estão as dores de parto que Jesus descreveu no versículo 7:
Nação se levantará contra nação e reino contra reino. A palavra “nação”
em Grego é “ethnos”, por isso Jesus estava a referir-se ao conflito
étnico, tal como vimos depois do colapso da antiga União Soviética.
Eu pessoalmente acredito que as dores de parto começaram com a
Primeira Guerra Mundial. Deste ponto em diante, temos assistido a
um conflito global de forma crescente originado em ódio étnico. Este
é no fundo um sinal do fim dos tempos!
Agora, continuando em Mateus 24, notamos a palavra “então”
que ocorre múltiplas vezes. Isto indica que se desenvolverão uma série
de situações, uma após outra. Depois de Jesus ter indicado que esses
eventos são o princípio das dores de parto, Ele disse:
Então, vos hão de entregar para serdes atormentados e matar-vos-ão;
e sereis odiados de todas as gentes por causa do meu nome. (Mateus 24:9)
Tenho perguntado muitas vezes a grupos Cristãos quem são estes
“vos”. Estas palavras são dirigidas aos seguidores de Jesus, por isso
“vos” somos nós!
Nesse tempo, muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos
outros, e uns aos outros se aborrecerão. (versículo 10)
Muitos Cristãos abandonarão a sua fé perante as perseguições
e trairão os seus companheiros crentes para poderem escapar. Isto
aconteceu na antiga União Soviética e tem estado a acontecer na
China, provavelmente durante as ultimas duas gerações, mas isto irá
generalizar-se muito mais.
E surgirão muitos falsos profetas e enganarão a muitos. (versículo 11)
O maior perigo individual no tempo presente não é a perseguição,
mas sim o engano. Jesus avisou-nos contra o engano mais do que qual-
quer outra coisa. Se a tua atitude for: “Eu não posso ser enganado”, então
és um candidato para o engano. Aprendi durante mais de sessenta anos
de experiência, que apenas uma coisa nos pode manter fiéis. Não é a
nossa inteligência, o nosso conhecimento da Escritura, os nossos dons de
ministério, ou a nossa categoria – é a misericórdia de Deus. Paulo disse:
… Dou, porém, o meu parecer, como quem tem alcançado mise-
ricórdia do Senhor para ser fiel. (1 Coríntios 7:25)

317
Eu regularmente reconheço perante Deus: “Deus, se eu tenho que
permanecer fiel, será pela Tua misericórdia e somente pela Tua mise-
ricórdia. Não é pela minha inteligência, não é pelas línguas que co-
nheço, não é pelas Escrituras que cito, não é pela minha experiência
passada do ministério, mas unicamente pela Tua misericórdia.”
E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos se esfriará.
(Mateus 24:12)
A palavra Grega para “amor” aqui é a famosa palavra ágape. Sig-
nifica primeiramente o amor dos Cristãos. Porque é que o amor de
muitos Cristãos se esfriará? Porque a iniquidade se multiplicará.
Olhando para trás para os últimos vinte ou trinta anos da história da
América, teremos que dizer que a iniquidade é abundante. Abundou
cada vez mais até que, de facto, não existe realmente força que a possa
conter. As pessoas culpam a polícia, mas a polícia apenas pode man-
ter a lei e a ordem se a maioria dos cidadãos forem cumpridores da lei.
Quando isso chega a um fim, não existe maneira de manter a lei. A
não ser que estejamos na nossa guarda nesta atmosfera de iniquidade,
o resultado será que o nosso amor se esfriará.
Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. (versículo 13)
Na verdade, o Grego é mais especifico; diz, “Aquele que tiver perse-
verado até ao fim será salvo.” Tu és salvo agora, mas para permaneceres
salvo, tens que perseverar até ao fim. De outro modo, não serás salvo.
Essa é um quadro bastante ameaçador. Mas o versículo seguinte
é surpreendente, é tão paradoxal. Esperarias que Jesus dissesse nesta
situação:“Esconde-te; mantêm-te fora de vista; faz tudo o que pude-
res para te protegeres a ti próprio e à tua família; não dês nas vistas;
pode ser que consigas passar.” Na verdade Ele disse exatamente o
contrário. À luz desta situação, aqui está “o sinal”:
E este evangelho do Reino será pregado [ou proclamado] em todo o
mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim. (versículo 14)
O sinal conclusivo e final é a proclamação do evangelho do reino
em todas as nações. A propósito, é o evangelho “do reino”. Acho que
muitos pregadores pregam o amor de Jesus, mas nunca pregam o reino.
Muitos pregam o amor de Jesus, mas esquecem-se de pregar o
evangelho do reino Dele.

318
Ouvi um Cristão da Roménia dizer: “Enquanto dizíamos às pessoas
“Jesus ama-vos”, nós estávamos todos bem. Quando dissemos “Jesus é
rei”, elas puseram-nos na prisão.” Essa não era uma mensagem popular.
Os inimigos dos apóstolos em Corinto criticaram-nos, e resumiram
a mensagem dos apóstolos deste modo: Primeiro, eles disseram… Estes
que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui. (Atos 17:6) Diriam
eles o mesmo acerca de ti e de mim? Teremos nós alvoroçado o mundo?
Depois, eles disseram: Todos estes procedem contra os decretos de Cé-
sar, dizendo que há outro rei, Jesus. (versículo 7) É assim que os não cren-
tes resumem a mensagem do evangelho que proclamamos hoje? Eu
penso que não. Na maior parte das vezes vamos com a abordagem de
que “Deus irá de encontro às tuas necessidades.” É verdade que Deus
proverá às tuas necessidades, mas o problema é que isso deixa as pes-
soas com a impressão de que Deus existe apenas para satisfazer as suas
necessidades. Esta é a atitude da maioria dos Cristãos Americanos hoje.
“Deus é um bom Deus e Ele irá prover às minhas necessidades.” A
verdade da questão é esta: Deus não existe para ti; tu existes para Deus.
A coisa mais importante é glorificar Deus, não ter as tuas necessidades
satisfeitas. Tem que haver uma apresentação diferente do evangelho.
Novamente, “o sinal” é:
E este evangelho do Reino será pregado [proclamado] em todo o mun-
do, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim. (Mateus 24:14)
Esta é uma resposta específica para uma questão específica. O
meu tema de estudo antes de me tornar pregador era lógica. Para
mim, isto é simplesmente pura lógica. Este é “o sinal”: O evangelho
do reino será pregado em todo o mundo como testemunho para to-
das as nações, e então virá o fim.
Vamos voltar para uma imagem da colheita em Apocalipse. Esta é
a revelação que João teve em relação ao resultado de cento e quarenta
e quatro mil jovens Judeus irem por todo o mundo com o evangelho.
Talvez queiras ler a primeira parte de Apocalipse 7, para que possas
ver o contexto disto, mas este é o fruto:
Depois destas coisas, olhei, e eis aqui uma multidão, a qual nin-
guém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas,
que estavam diante do trono e perante o Cordeiro, trajando vestes
brancas e com palmas nas suas mãos; e clamavam com grande voz,
dizendo: Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao
Cordeiro. (versículos 9-10)

319
Repara que há pessoas de todas as nações, tribos, povos e línguas.
Portanto, as pessoas de todas as línguas, culturas tribais e grupos étnicos
têm que ser alcançadas com o evangelho. Eu creio que Deus anseia ver
a glória do Seu Filho. Por fim, Jesus não terá morrido em vão. Haverá
pelo menos um representante de cada grupo étnico perante o trono.
No entanto, eles nunca ouvirão se ninguém lhes disser. De certo
modo, a prioridade número um para a igreja de Jesus Cristo é a pro-
clamação do evangelho do reino em todo o mundo, a todas as nações.
Terás que reconhecer isto, pois na maioria dos grupos religiosos desta
nação, isto tem tido uma prioridade muito pequena. De facto, mui-
tos Cristãos nem sequer se percebem de que isto está na lista. Nós
precisamos de um tremendo ajustamento. Nós precisamos do que se
costuma chamar de um “despertar.” Não é para as pessoas que andam
por aí na rua, não é para as pessoas de denominações tradicionais,
mas para pessoas como tu e eu. A Bíblia diz que um filho que dorme
na ceifa causa vergonha. (ver Provérbios 10:5). As nossas igrejas estão
cheias de filhos que dormem na ceifa.

Israel Será Restaurado


Outra coisa que tem que ser alcançada antes do reino poder che-
gar é a restauração de Israel. Não existe provavelmente maior fonte de
confusão na igreja hoje, do que o mal-entendido sobre a identidade
de Israel, em que as pessoas começaram a aplicar o nome “Israel” à
igreja. Existem mais de setenta lugares no Novo Testamento onde a
palavra “Israel” é usada. Eu investiguei cada uma delas e cheguei à
conclusão de que “Israel” nunca é usado como sinónimo de igreja. A
verdade é muito simples: Israel é Israel e a igreja é a igreja. Deus tem
um plano para cada um e tem o suficiente para dar a ambos. Ele não
precisa roubar um para abençoar outro.
Voltemos para Mateus 24, e indicar-te-ei uma mudança dramática
de foco. É como se tivéssemos uma tela de vídeo que basicamente envol-
vesse todo o mundo. Depois, inesperadamente, o foco muda para uma
área muito pequena da superfície da terra, Jerusalém e a terra de Israel.
Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou
o profeta Daniel, está no lugar santo (quem lê, que entenda), então, os
que estiverem na Judéia, que fujam para os montes. (versículos 15-16)
Tanto quanto sei, à luz da Escritura, existe apenas um lugar santo,
e esse é a área do templo. Repara que não diz para fugir para o West

320
Bank. Por isso, o nosso foco mudou subitamente de todas as nações e de
todo o mundo para a cidade de Jerusalém e para o povo Judeu na terra.
Isto corresponde a uma passagem em Romanos 11. Paulo escre-
veu isto para crentes de culturas Pagãs:
Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que
não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte
sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E, assim,
todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador,
e desviará de Jacó as impiedades. (versículos 25-26)
Poderá provar ser um desafio interessante em alguma ocasião, en-
contrar no Novo Testamento todos os lugares onde Paulo disse que
ele não queria que os crentes fossem ignorantes. Na maioria dos ca-
sos, os crentes são ignorantes precisamente sobre as coisas que Paulo
disse que eles “não deviam” ser ignorantes.
Aqui em Romanos, nós vemos que, primeiro que tudo, a totalida-
de dos Gentios tem que entrar. Um determinado número dos Gentios
escolhidos por Deus para a salvação têm que ser salvos. Então todo o
Israel será salvo. Israel é a única nação da qual a Bíblia promete que
uma nação inteira será salva. No entanto, tens que ter isto em mente:
Também Isaías clamava acerca de Israel: Ainda que o número
dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que
será salvo. (Romanos 9:27)
Não é um remanescente mas “o” remanescente conhecido de an-
temão por Deus. Quando se diz que todo o Israel será salvo, “todo
o Israel” será o remanescente. Será a nação inteira que sobrou. Israel
tem que passar por muito antes que isso aconteça, o que a Escritura
chama de “tempo de angústia para Jacó”. Jeremias 30:7
É muito importante para todos nós apercebermo-nos da posição
especial que os Judeus ocupam nos propósitos de Deus. Para muitos
Gentios, este é um facto muito difícil de aceitar. A maior parte de nós
que não somos de cultura Judaica, fomos criados, em vários graus, a
desprezar o povo Judeu, para fazermos comentários ordinários sobre
eles e assim por diante, e até mesmo para os menosprezarmos. Eu não
tenho raízes Judaicas e nunca fui um anti-Semita, mas recordo-me
que, até mesmo na minha família, que era uma família Britânica culta,
quando eles falavam sobre os Judeus, de algum modo havia um tom di-
ferente de voz, uma atmosfera diferente. O anti-Semitismo é cultivado

321
na maioria dos Gentios. Paulo disse que é melhor termos cuidado. Ele
disse que nós não somos as raízes, mas os ramos. (Ver Romanos 11:16-
24). Lembra-te de que os ramos não geram as raízes; as raízes geram
os ramos. A raiz é Israel. Tem que haver uma tremenda mudança no
pensamento de multidões de Cristãos a este respeito, porque Deus vai
julgar as nações com base na sua atitude para com os Judeus. Muitos de
vocês ao lerem isto, poderão começar a sentir objeção contra esta ideia.
Estava a falar com um jovem de cultura Muçulmana que tinha nas-
cido na Argélia e que se tinha tornado um crente em Jesus Cristo num
encontro extraordinário. Ele começou a discutir com o Senhor sobre a
posição dos Judeus. O Senhor disse-lhe:“Não é contra os Judeus que tu
estás. É contra Mim”. E isso mudou toda a sua atitude. Os Judeus não
se escolheram a si próprios; Deus escolheu os Judeus. Se isso tivesse sido
deixado aos Judeus, eles não se teriam escolhido a eles próprios. Não
fazes uma idéia do quanto eles gostariam de se afastarem da responsa-
bilidade de serem escolhidos. Um primeiro ministro de Israel disse no
seu primeiro dia no gabinete: “Nós somos uma nação como qualquer
outra nação.” Isso soa bem, mas simplesmente não é verdade. Eles não
escolheram isso e nós não escolhemos isso – Deus escolheu. Se tiveres
um problema com os Judeus, o teu verdadeiro problema é com Deus.
Eu acredito que Deus faz a escolha certa – nas nossas vidas, na
igreja e entre as nações. Se isso tivesse sido deixado a mim, eu não
teria feito essa escolha. Mas Deus não deixou isso a mim. De facto, há
muitas coisas que Deus não deixou para mim. Por exemplo, fui casa-
do duas vezes e de cada vez Deus escolheu a minha esposa para mim.
Ele fez escolhas maravilhosas e eu estou-Lhe agradecido. Talvez possas
ser mais inteligente do que eu, mas eu simplesmente não sou um juiz
da natureza humana suficientemente bom, para fazer a escolha certa.
A escolha dos Judeus é escolha de Deus e Ele sabe o que faz. Pesso-
almente, creio que Ele é a única Pessoa que pode lidar com os Judeus.
Não estou a dizer isto para ser esperto. Eu estou simplesmente a dizer que
eles não são um povo fácil de lidar. Com efeito, Deus diz: “Eu aceitei a
responsabilidade e, no final, Eu produzirei o que prometi.” Jesus disse: …
Mas a sabedoria é justificada por seus filhos. (Mateus 11:19). Por outras pa-
lavras, o que a sabedoria produz é a justificação para a escolha de sabedo-
ria. Deus ainda não terminou; não se julga o resultado até estar completo.
Quero salientar algo que é extremamente importante para os Esta-
dos Unidos da América. Sou de cultura inglesa e, uma vez a Inglaterra
teve o mandato para governar a terra chamada a Palestina. Quando as

322
Nações Unidas decidiram dar ao povo Judeu uma faixa muito pequena
de território, a reação official do governo inglês foi fazer tudo menos
guerra aberta para se opor a isso. Não sou apenas inglês, mas também
servi no exercito Britânico e estava a viver na Palestina nessa altura,
quer dizer estou a falar de algo de que fui testemunha ocular. Existiam
quarenta milhões de Árabes com exércitos modernos contra seiscentos
mil Judeus com muito poucas armas militares. E quem é que ganhou?
A Inglaterra tinha um grande império, mas desde o dia em que se
tornou contra os propósitos de Deus para Israel, o Império Britânico
caiu e entrou em declínio. Mostraram exteriormente que estavam a
favor dos Judeus, mas não foi assim que eles atuaram. Francamente!
O governo Americano tem que ter cuidado para não seguir as pega-
das da Inglaterra. Eles não se podem opor aos propósitos de Deus
para Israel nos processos de paz. Ah sim, eles sabem como falar com
os Cristãos; sabem com usar a linguagem certa. É isso que os polí-
ticos fazem – eles, falam com todos os grupos de tal maneira, para
fazerem com que aquele grupo pense que eles estão a favor deles. Mas
quando se chega aos factos, isso pode ser diferente.
Eu creio que não há político que marque uma posição contra Is-
rael, que possa em última análise prosperar, e não há nação que tome
uma posição contra Israel que possa prosperar. O Senhor diz:
Porquanto eis que, naqueles dias e naquele tempo, em que remo-
verei o cativeiro de Judá e de Jerusalém [este é o tempo do reajunta-
mento do povo Judeu no qual nós estamos agora a viver], congrega-
rei todas as nações [goyim, significa nações Gentias em Hebraico] e
as farei descer ao vale de Josafá [“Jeová julga”]; e ali com elas entrarei
em juízo, por causa do meu povo e da minha herança, Israel, a quem
eles espalharam entre as nações, repartindo a minha terra. (Joel 3:1-2)
Deus diz que vai julgar as nações com base na maneira como elas
lidaram com os Judeus. Quer gostes disto ou não, é isto que vai acon-
tecer. É no teu próprio interesse ter isso em conta.

Deus vai julgar as nações com base na maneira como elas lidaram
com o Povo Judeu.

Eles não somente os dispersaram, mas dividiram a sua terra. Pre-


cisamos ter isso em mente, acima de tudo, aquilo é terra de Deus:
repartindo a minha terra. (ênfase adicionada).

323
Vamos voltar agora à história atual do estado de Israel. Tenho que
dizer que a Inglaterra carrega com a responsabilidade principal pela
divisão da terra, porque em 1919 ou 1920, a Liga das Nações deu a
Inglaterra o mandato para esse território com o acordo especifico de
que eles criassem uma pátria nacional para o povo Judeu. Em 1922, o
governo Britânico, com uma simples assinatura, tomou 76 por cento da
área adjudicada e fez disso um estado Árabe – originalmente chamado
Transjordânia, agora chamado Jordânia – no qual não é permitido a ne-
nhum Judeu viver. Isso significa que apenas restou 24 por cento. Depois
as Nações Unidas ofereceram aos Judeus cerca de 10 por cento dos res-
tantes 24 por cento. Mas aqui Deus interveio. No presente, quem sabe?
Uma coisa que poderei dizer é que, uma vez mais, Deus julgará todas as
nações pelo modo como elas se tiverem relacionado com o povo Judeu.
Mateus 25:31-46, refere-se à vinda do rei e do reino. Precisamos
entender que isso é uma referência direta a Joel 3:1-2. É a mesma cena:
E, quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os santos
anjos, com ele, então, se assentará no trono da sua glória [o Seu trono
terreno – neste momento Ele está sentado no trono do Seu Pai]; e
todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros,
como o pastor aparta dos bodes as ovelhas. (Mateus 25: 31-32)
Então, todas as nações serão reunidas perante o Senhor Jesus Cris-
to quando Ele vier como Rei, e Ele irá separá-las em dois grupos: as
ovelhas para o lado direito e os cordeiros para o lado esquerdo. A base
desta divisão, se estudares cuidadosamente o capítulo, está em como
elas trataram os irmãos de Jesus. Em verdade vos digo que, quando o
fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes (Mateus
25:40; ver versículo 45). Deus escolheu fazer a base do Seu julgamen-
to o modo como as nações se têm relacionado com os irmãos de Jesus.
Os julgamentos serão terrivelmente severos. Em relação às ovelhas,
diz-se: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos
está preparado desde a fundação do mundo. (versículo 34). Esse é o rei-
no terreno de Jesus. Aos bodes, ele diz: Apartai-vos de mim, malditos,
para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. (versículo 41)
No contexto político, o propósito supremo de Deus no presente é o
reajuntamento do povo Judeu na sua própria terra, preliminar à sua res-
tauração para Ele mesmo. Penso que poucos de nós conseguem ter em
conta a imensidade do milagre que, apesar do povo Judeu ter sido dis-
perso durante dezanove séculos por mais de cem nações sobre todas as
pressões para desistirem da sua identidade, eles permaneceram um povo

324
separado e distinto. Nos últimos noventa anos, eles têm sido reunidos de
mais de cem nações diferentes. Não sei se podes entender que milagre é
este. É uma das maiores demonstrações do controle de Deus sobre os as-
suntos humanos, que já alguma vez teve lugar na história deste planeta.
A minha esposa Lydia era Dinamarquesa. Ela costumava dizer que,
se tivéssemos que pegar nos Dinamarqueses e separá-los entre todas as
nações, e depois de duzentos anos voltar, não encontraríamos um Dina-
marquês em lado nenhum; eles ter-se-iam integrados todos. Os Judeus
estiveram dispersos durante cerca de dois mil anos – e alguns deles mais
tempo do que isso. Os Judeus, de onde é hoje o Yemen, foram dispersos
durante dois mil e quinhentos anos, como também alguns dos Judeus
de onde hoje é o Iraque, mas eles mantiveram-se um povo separado e
invencível, e foram depois trazidos de volta para a terra de Israel. Em
minha opinião, isto foi um milagre tão grande como o êxodo do Egito.
Num período de dois anos, quatro mil Judeus Russos regressaram a
Israel. A população Judaica nessa altura era cerca de quatro milhões. Por
isso, 10 por cento da população de Israel eram novos emigrantes – sem
recursos, sem finanças e, muitas vezes em lastimável estado de saúde –
que precisavam ser integrados. Isto seria como se os Estados Unidos ti-
vessem que integrar vinte sete milhões de novos imigrantes em dois anos
– e os Estados Unidos têm de longe maiores recursos do que Israel. O
governo Americano nunca consideraria a hipótese de tal coisa e, no en-
tanto isto aconteceu em Israel. Porque é que isto aconteceu? Porque Deus
planeou que a restauração de Israel acontecesse antes do Seu reino chegar.

A Noiva Se Tornará Perfeita


Outro acontecimento que terá lugar é a preparação da igreja de Jesus
Cristo para se tornar a noiva de Cristo. Estes acontecimentos não estão
necessariamente por ordem cronológica, mas pela ordem em que eles
aparecem na Escritura e penso que há alguma lógica para esta ordem.
E ouvi como que a voz de uma grande multidão, e como que a
voz de muitas águas, e como que a voz de grandes trovões, que dizia:
Aleluia! Pois já o Senhor, Deus Todo-Poderoso, reina. Regozijemo-
-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória, porque vindas são as bodas
do Cordeiro, e já a sua esposa [a igreja] se aprontou. E foi-lhe dado
que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho
fino são as justiças dos santos. (Apocalipse 19:6-8)
Vimos no principio deste livro, na imagem da noiva em Efésios,
que quando chegar o tempo das bodas do casamento, a noiva não se

325
estará a preparar. Ela “já” estará preparada. Por outras palavras, agora
é o tempo da nossa preparação. Quando chegar o evento, será dema-
siado tarde para começar a preparar-se.
Num conjunto de circunstâncias bastante invulgar, eu tornei-me
pai responsável por onze meninas, as quais estão agora todas casadas.
Eu sei que elas estavam agitadas sobre os seus casamentos. A maioria
das mulheres está. Elas demoram muito tempo para se preparar. Con-
sideram o estilo de vestido que irão usar, planeiam a cerimónia, esco-
lhem as damas de honra e têm um ensaio. Estas coisas são familiares
a toda a gente; isto é apenas um pequeno vislumbre do que significa
para a noiva de Cristo se preparar.
Se não te preparares, eu não vejo como é que poderás estar pronto.
Se nem sequer estiveres alertado de que tens que te preparar, qual a
possibilidade de o estares preparado? Para a maioria das mulheres, o
seu dia de casamento é o dia mais importante das suas vidas. É assim
que será para a igreja, e isso exige muita preparação. “A Sua esposa
está preparada” – não é “está a preparar-se”, ou “está a fazer prepara-
ções frenéticas, de último minuto”, mas está preparada.
Quais são os requisitos para a noiva se preparar? Quero oferecer
três. Podes recordar alguns destes pontos do capítulo oito. Eles são de
uma importância vital.

1. Lealdade Total a Jesus


Isto não é meramente uma relação doutrinal ou intelectual, mas
uma relação de coração que dá a Jesus o primeiro lugar e não partilha-
rá isso com mais ninguém. Um marido e a esposa podem amar-se um
ao outro e terem um casamento maravilhoso, mas eles têm que estar
absolutamente esclarecidos que Jesus tem o primeiro lugar. Nunca
podes deixar que a relação de esposa tome precedente sobre a tua
relação com Jesus. Nunca! Quando Jesus está no Seu lugar de direito,
as outras coisas vão encaixar-se, e isso conduz a um bom casamento.
Ao escrever para a igreja de Corinto, Paulo disse:
Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho
preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido,
a saber, a Cristo. (2 Coríntios 11:2)
Lembra-te de que, na cultura bíblica, os esponsais (cerimónia das
escrituras ou convenções antenupciais) eram parecidos com o que se
chama hoje em dia o noivado, mas era totalmente vinculativo, tão
vinculativo como o casamento. Não era qualquer coisa que se pudes-

326
se quebrar, mas também não era a consumação do casamento. Paulo
falou de uma “virgem pura”.
A primeira carta de Coríntios 6, revela a cultura de algumas das
pessoas que pertenciam à igreja em Corinto:
Não sabeis que os injustos não hão de herdar o Reino de Deus?
Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem
os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos,
nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o
Reino de Deus. E é o que alguns têm sido, mas haveis sido lavados,
mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do
Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus. (versículos 9-11)
Precisamos ter estes versículos em mente. Podes chamar fornica-
ção “sexo pré-nupcial”, se quiseres, mas se o praticares, não poderás
entrar no reino dos céus. Isso exclui-te, a menos que te arrependas
e mudes o teu estilo de vida. Mas considera que, mesmo com os
antecedentes de alguns dos Coríntios, Paulo disse: porque vos tenho
preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a
saber, a Cristo. (2 Coríntios 11:2). Mas que testemunho ao poder do
sangue de Jesus! Através da sua fé em Jesus e do poder do Seu sangue,
Paulo podia referir-se a eles como uma virgem pura perante Cristo.
Por isso, ele estava preocupado em que nós permanecêssemos fiéis
ao nosso compromisso com o Noivo até à cerimónia de casamento:
Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua
astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos
sentidos e se apartem da simplicidade [e sinceridade] que há em
Cristo. (Versículo 3)
O perigo com que nos deparamos entre o tempo dos esponsais e
a celebração das bodas do casamento é que as nossas mentes podem
ser apartadas da simplicidade e sinceridade que há em Jesus Cristo.

Temos que ter cuidado em não perder a simplicidade e sinceridade


do nosso primeiro amor para Cristo e a fé Nele.

Devo dizer que vejo isto acontecer a multidões de crentes. Um


dos factores é o que eles chamam de ensino da Nova Era, que infil-
trou uma grande parte da igreja e corrompeu as nossas mentes da
pureza que há em Cristo Jesus.

327
Outro factor é ter uma grande quantidade de teologia. Pessoalmen-
te, não sou na verdade a favor da assim chamada teologia. Muitas pes-
soas vão para escolas teológicas como crentes e saem como não crentes.
Eu acredito no estudo sistemático da Bíblia, mas quando as pessoas
ficam muito preocupadas com a compreensão e o sucesso intelectual,
normalmente perdem a sua fé. Quando uma igreja se começa a preo-
cupar muito com sucesso educacional, este normalmente torna-se es-
piritualmente corrupto. Harvard e Yale são dois exemplos vivos disto,
por que começaram como universidades Cristãs. E existem centenas
mais onde aconteceu a mesma coisa. Por isso, nós somos alertados para
mantermos a simplicidade, sinceridade e pureza da nossa fé em Cristo.
O Senhor falou com a minha esposa Ruth e comigo uma vez e dis-
se: “Vocês perderam a simplicidade da vossa primeira fé. Quero que
vocês regressem.” Quando és salvo há pouco tempo, acreditas que
Deus responderá a todas as orações. Não é verdade? Oras por coisas
ridículas (simples) e elas acontecem. Depois tornas-te tão sofisticado
que começas a raciocinar, “bem, sim, mas…” Perdeste a simplicidade
e a pureza da tua primeira fé. Paulo estava a dizer: “Estou preocupa-
do contigo porque, só se permaneceres do modo como começaste tu
estarás preparado para seres a esposa de Cristo.”
Ruth e eu usávamos este versículo como uma das nossas procla-
mações:
E é o que alguns têm sido, mas haveis sido lavados, mas haveis
sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor
Jesus e pelo Espírito do nosso Deus. (1 Coríntios 6:11)
É assim que tens que ser para poderes fazer parte da esposa de Cristo.
Em Apocalipse 17 e outros lugares, a Bíblia fala muito franca e
abertamente sobre uma igreja chamada de meretriz ou de prostituta.
Qual é a diferença entre a noiva e a meretriz? Lembra-te de que existe
apenas uma diferença – a noiva tem mantido o seu compromisso
com Jesus e a meretriz desviou-se d’Ele. Eu diria que existe uma igreja
meretriz no mundo hoje e que está a crescer – uma igreja daqueles
que abandonaram o seu primeiro compromisso, com Jesus e se envol-
ve em toda a espécie de coisas que são antibíblicas.

2. Um Desejo Ardente, de Coração


A segunda exigência da noiva é um desejo ardente, de coração
pela chegada do Noivo.

328
… assim também Cristo, oferecendo-se uma vez, para tirar os
pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o
esperam para a salvação. (Hebreus 9:28)
A quem é que o Noivo aparecerá? Àqueles que ansiosamente es-
peram por Ele, àqueles que andam na ponta dos pés em expectativa.
Ele não aparecerá a mais ninguém para a salvação exceto à Sua igreja.
O meu grande amigo Jim Croft, costumava dizer: “Quando Jesus
regressar, não será suficiente dizer: ‘É um prazer ter-Te de volta”. Ele
esperará muito mais do que isso.
Então, deixa-me perguntar-te: Terás tu um desejo ardente, anseias
verdadeiramente pelo regresso do Noivo? Estarás tu esperando an-
siosamente – não somente esperando, mas esperando ansiosamente?

3. Roupas Apropriadas – Atos de Justiça


A terceira condição, como nós vimos anteriormente, é ter a roupa
apropriada. Todos nós sabemos que, para a noiva, o seu vestuário é
uma das caraterísticas mais importantes. Há muitos anos atrás, um
casal de uma proveniência totalmente não religiosa foi salvo. Nessa
altura, costumavam trazer pessoas para a nossa piscina para serem
batizadas. A esposa apareceu num biquíni feito de malha para o seu
batismo. Algumas pessoas podiam ter ficado chocadas, mas eu pensei:
“Que maravilhoso ter alguém que não sabe que não se deve fazer coi-
sas religiosas desse modo.” Então providenciamos-lhe um vestuário
alternativo. Mas o que nós temos que nos aperceber em termos da
nossa relação com Cristo é que, precisaremos usar mais do que um
“biquíni” para casar com o Noivo. Por outras palavras, para o nosso
vestuário nupcial temos que ter um registo de atos de justiça.
Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória, porque vin-
das são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe
dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o
linho fino são as justiças dos santos. (Apocalipse 19:7-8)
São as coisas que fizeste para o Senhor que se tornarão o teu ves-
tuário. Agora, sejam honestos, alguns de vocês neste momento têm
apenas uma pequena quantidade de material. Vocês precisam mudar!
Nas mensagens de Jesus às sete igrejas em Apocalipse 2-3, há uma
coisa que Ele disse a todas as igrejas: “Eu conheço as vossas obras.”
Ele não disse: “Conheço a vossa declaração doutrinal”, ou “Conheço
a posição das vossas confissões religiosas”, ou “Conheço os vossos an-

329
tecedentes teológicos.” Ele disse: “Eu sei o que vocês andam a fazer.”
E é isto que vai fornecer o vosso traje de casamento. Não vai ser a
doutrina, mas sim as coisas que vocês fizeram para Ele.
Nem sempre é fácil servir o Senhor; por vezes, as pressões são
grandes. Mas a próxima vez que estiveres realmente e honestamente
servindo o Senhor, e sentires todas estas pressões virem contra ti – e eu
quero que saibas que elas vêm contra mim como vêm contra qualquer
um – tem apenas em mente que tudo isto faz parte do fornecimento
do teu traje de casamento. Assim sentir-te-ás diferente acerca disto.
Vamos então resumir os três propósitos mais importantes de Deus
que têm de ser cumpridos antes do fim dos tempos e da chegado do
reino.
Primeiro, o evangelho tem que ser proclamado a todas as nações.
Eu creio que isto é responsabilidade de toda a igreja. Não há nenhum
Cristão isento nesta área. Não é o trabalho de alguns poucos profis-
sionais ou missionários. Existem muitas responsabilidades diferentes
na tarefa global, e cada Cristão comprometido tem a sua parte.
Segundo, Israel tem que ser restaurado, primeiro para a terra e
segundo para Deus.
E habitareis na terra que eu dei a vossos pais, e vós me sereis por
povo, e eu vos serei por Deus. (Ezequiel 36:28)
Tem em mente que o propósito da restauração do povo Judeu para
a sua terra é de restaurá-los para o seu Deus. Tudo o resto – as negocia-
ções políticas e militares e intercâmbios – é apenas parte do processo.
Existe uma razão pela qual Israel deve ser reunido. Deus vai lidar
com eles não meramente como pessoas, mas também como uma na-
ção, porque Ele fez uma aliança com eles como nação. Portanto, em or-
dem a lidar com eles como nação, Ele tem que os reunir num lugar. O
único lugar será o lugar que Ele lhes deu originalmente para viverem.
Terceiro, como acabamos de ver, a noiva tem que estar preparada
para o seu Noivo.
Convido-te a ponderar quanto é que estás realmente ligado com
os propósitos de Deus. A próxima vez que orares, “Venha o Teu rei-
no”, tem em mente que isso é um compromisso para estar alinhado
com tudo o que está envolvido na chegada do reino.

Orar, “Venha o Teu reino”, implica um compromisso para estar


alinhado com tudo o que está envolvido na chegada do reino.

330
- 27 -

Uma Igreja Gloriosa

A Escritura diz que a igreja para a qual Jesus virá, será uma igreja
gloriosa. Todavia, muitas pessoas associadas com a igreja de hoje, não
têm ideia do que é que isso significa. A palavra Grega para glória é
“doxo”, da qual deriva a palavra “doxologia”, significando “aquilo que
atribui a glória a Deus.”
Eu cheguei ao Novo Testamento Grego pela via do Grego clássico,
e fui estudante e professor da filosofia de Platão. Um dos conceitos
básicos da filosofia de Platão é resumido nesta palavra “doxo”. Nos
escritos de Platão, “doxo” significa “aquilo que parece ser, aquilo que
aparece, ou opinião.” Esta definição é muito diferente do modo que
a palavra é usada na Escritura. Enquanto estava a estudar filosofia, de-
cidi que iria ler o evangelho de João em Grego. O que realmente me
confundiu foi o uso de “doxo” em João. Pensei para comigo próprio:
Como é que isso podia ser assim, que enquanto Platão usava a palavra
para significar “aquilo que parece ser, aquilo que aparece”, enquanto
que João usava isso para “glória”?
Alguns anos mais tarde, quando maravilhosamente nasci de novo,
eu entendi rapidamente o uso da palavra “doxo” do Novo Testamen-
to. A razão para a diferença na tradução é que a glória de Deus é a Sua
presença manifestada aos sentidos humanos. É a presença visível e
tangível de Deus; é aquilo que aparece ou aquilo que é visto. Quando
eu vi isto, apercebi-me de como é que a palavra passou do significado
de “aquilo que aparece” para “glória.” A “glória de Deus” é o que
aparece ou é manifestado aos sentidos do homem.
Falando a assembleia dos Judeus em Atos 7:2, Estêvão disse: O
Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, estando na Mesopotâmia…
Abraão conhecia Deus pela Sua glória visível. Este encontro mudou
a vida, as motivações e ambições de Abraão de tal maneira que ele
abandonou tudo para ir para a terra que Deus lhe tinha prometido.
Quando a Escritura fala de uma igreja gloriosa, isso significa uma
igreja que está cheia com a glória de Deus. É uma igreja que tem
dentro dela a presença manifesta, visível, tangível e pessoal de Deus
Todo-Poderoso. Não se refere a uma igreja que está a viver uma fé
despida, sem nenhuma manifestação, mas uma igreja que entrou
numa relação com Deus, onde a Sua presença visível pessoal e tangí-
vel está com o Seu povo.

Uma igreja gloriosa tem dentro dela a presença manifesta, visível,


tangível e pessoal de Deus Todo-Poderoso.

Uma igreja que está impregnada com a presença de Deus atrai


pessoas. Quando as pessoas sentirem isto, dirão: “O que é que há
aqui? Eu nunca senti nada assim. É diferente. O que é que estas pes-
soas têm que eu não tenho?”
Isso é a glória de Deus, e é impressionante. Quando a glória de Deus
foi revelada a Israel, as pessoas inclinaram as suas faces até ao chão:
E, acabando Salomão de orar, desceu fogo do céu e consumiu o
holocausto e os sacrifícios; e a glória do SENHOR encheu a casa. E os
sacerdotes não podiam entrar na Casa do SENHOR, porque a glória
do SENHOR tinha enchido a Casa do SENHOR. E todos os filhos
de Israel, vendo descer o fogo e a glória do SENHOR sobre a casa,
encurvaram-se com o rosto em terra sobre o pavimento, e adoraram,
e louvaram o SENHOR, porque é bom, porque a sua benignidade
dura para sempre. (2 Crónicas 7:1-3)
A presença de Deus era tão poderosa que ninguém podia perma-
necer de pé. É este o tipo de igreja para a qual Jesus vem.
… Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para
a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra…
(Efésios 5:25-26)
Jesus redimiu a Igreja pelo Seu sangue para que Ele possa santi-
ficá-la pela água pura da Sua palavra. O sangue e a água da Palavra
são ambos necessários para preparar a igreja para a vinda do Senhor.
Eu honro sempre o sangue de Jesus. O Seu sangue pagou o preço re-
dentor pelo qual nós fomos comprados de volta da mão do demónio.
Então, depois de termos sido redimidos pelo sangue, é o propósito de

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Deus que nós sejamos santificados e purificados pela lavagem da água
pela Palavra. O Seu propósito é claro:
… para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem
ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. (versículo 27)

Portanto, existem três sinais que identificam a igreja para a qual


Jesus virá:
1. Ela deve ser gloriosa.
2. Ela deve ser marcada pela presença manifesta de Deus no seu meio.
3. Ela tem de ser sem mancha, santa e irrepreensível.
Eu estou profundamente preocupado acerca do estado atual do
assim chamado movimento carismático – apesar de pensar que, de
certo modo, está num impasse carismático. Se estiver em movimento,
não estou certo para que lado vai. Tenho observado que muitos ca-
rismáticos prestam muito pouca atenção à Escritura – a maioria deles
não leu a Bíblia completa do princípio ao fim. Existem verdades na
Bíblia que eles não sabem que estão lá. Enquanto que é excitante ter
os dons do Espírito Santo e experimentar as manifestações, não existe
substituto para o conhecimento da Palavra de Deus e para apreender
as promessas de Deus. As promessas são de cortar a respiração, tal
como esta:
… pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas pro-
messas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina,
havendo escapado da corrupção, que, pela concupiscência, há no
mundo. (2 Pedro 1:4)
Deixa-me pergunta-te isto: Quão avançado estás em seres um
participante da natureza divina? Quanto é que realmente escapaste
da corrupção que existe no mundo pela concupiscência? Jesus vai
elaborar estas coisas na Sua igreja, a Sua noiva.
Nós somente podemos ficar santificados através da lavagem da
água pela palavra. Eu recomendaria a vocês, que são líderes, que fa-
çam alguma coisa sobre isto. Consigo recordar-me quando, no movi-
mento Pentecostal neste país, se houvesse cinquenta pessoas reunidas
para um estudo da Bíblia, era um grande número de pessoas, mas
nós tirávamos tempo para a Palavra. Na maioria das congregações
Pentecostais, em cada quarta-feira à noite era a noite do estudo da

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Bíblia. O que é que aconteceu ao estudo da Bíblia? Na maior parte
dos lugares onde vou agora, não é dado tempo nenhum ao estudo
da Bíblia. Os líderes são responsáveis por ambos, ensinar a bíblia e
ainda mais importante, ensinar as pessoas como estudar a Bíblia por
elas próprias e por lhes transmitir um amor pela Bíblia. Sinto muita
pena pelos Cristãos que vivem no espiritual o equivalente ao tipo de
alimentação que é popular hoje: comida rápida e batata-frita. Não
existe comida rápida no reino de Deus!
Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não
só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica,
porque o Espírito é a verdade. (1 João 5:6)
O sangue é o sacrifício redentor de Jesus, mas a água é a lavagem
regular e santificadora da Palavra de Deus. Os dois têm que andar
juntos. Sem o sangue, nós não temos acesso, não temos a vida. Mas
sem a Palavra, nós não estamos limpos, não somos santificados; as
nossas impurezas não são lavadas.
Além de receber a vida e a purificação através do sangue e da água,
a igreja precisa ser construída. Em Efésios 4:11, vimos os meios pelos
quais a igreja será preparada para a vinda do Senhor – pelos cinco
principais ministérios da construção do corpo a que nos referimos
em capítulos anteriores: apóstolos profetas, evangelistas, pastores e
mestres. Nos próximos dois versículos, vemos o propósito para os
quais estes ministérios foram dados:
… querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do minis-
tério, para edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à
unidade da fé ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à
medida da estatura completa de Cristo ; (Efésios 4:13)
Estes ministérios de construção são dados até que todos nós che-
guemos à unidade da fé através do conhecimento de Jesus Cristo. A
unidade não vem através de sentar-se e discutir doutrina. Se existe
uma coisa como certa, que a discussão de doutrina não une os Cris-
tãos. O único modo no qual estaremos unidos é reunindo-nos à volta
da chefia do Senhor Jesus Cristo na Sua autoridade suprema sobre
cada aspecto da igreja. Como vês, a doutrina da salvação não tem
significado sem a pessoa do Salvador. A doutrina da cura não tem
sentido sem Aquele que cura. A doutrina da libertação não tem sen-

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tido sem o Libertador. O batismo no Espírito Santo não tem sentido
sem Aquele que batiza.
Quando reconhecemos o Salvador, acreditamos na salvação.
Quando reconhecemos Aquele que cura, acreditamos na cura. Quan-
do reconhecemos Aquele que batiza, acreditamos no batismo no Es-
pírito Santo. Quando reconhecemos o Libertador, acreditamos na
libertação dos espíritos maus. Em cada caso, a estrada para a unidade
não é a estrada da disputa doutrinal e discussão, mas o reconheci-
mento do Senhor Jesus Cristo na Sua glória.
Ao reconhecermos Cristo em tudo o que Ele é para a igreja, nós
seremos conduzidos para a unidade da fé, e do pleno conhecimento
do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da
plenitude de Cristo (Efésios 4:13). A palavra-chave aqui é “plenitude”.
Até que a igreja demonstre Cristo em toda a Sua plenitude – em cada
aspecto, cada graça, cada dom, cada ministério – a igreja não estará
a cumprir a sua chamada. No tempo presente, nós estamos a mani-
festar ao mundo uma parte pateticamente pequena da totalidade de
Jesus Cristo. Existe muito de Jesus que a igreja é incapaz de demons-
trar ao mundo, mas Deus vai-nos levar para esse lugar onde o corpo
coletivo de Cristo revelará plenamente a totalidade de Jesus.
Por esta razão dobro os meus joelhos perante o Pai, do qual toda
família nos céus e na terra toma o nome, para que, segundo as rique-
zas da sua glória, vos conceda que sejais robustecidos com poder pelo
seu Espírito no homem interior [o Espírito é aquele que ministra a
glória e a torna disponível]; que Cristo habite pela fé nos vossos co-
rações, a fim de que, estando arraigados e fundados em amor, possais
compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o compri-
mento, e a altura, e a profundidade… (Efésios 3:14-18)
Nenhum de nós pode compreender isto individualmente; é so-
mente quando nos reunimos com os nossos companheiros crentes
que somos capazes de compreender a totalidade de Jesus – a largura, o
comprimento, a profundidade e a altura. Paulo continuou, dizendo:
… e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento,
para que sejais cheios até a inteira plenitude de Deus. (versículo 19)
Isto é uma afirmação tremenda. A igreja de Jesus vai ser o lugar de
habitação de toda a plenitude de Deus!

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A igreja de Jesus vai ser o lugar de habitação de toda a plenitude
de Deus!

A totalidade de Deus, em toda a Sua natureza, em todo o Seu


poder, em todos os Seus aspectos, será manifestada na igreja. Existe
apenas um lugar na Escritura que eu conheço, onde a expressão “a
plenitude de Deus” é usada, e isso está em Colossenses 2, onde se diz
de Jesus: porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divin-
dade. (versículo 9).
Em Cristo, Deus foi totalmente manifestado, não parcialmente.
Quando o Espírito Santo tiver completado o trabalho da formação
do corpo de Cristo, a plenitude de Deus também será manifestada na
igreja. Nunca imagines que isso pode acontecer apenas a ti. Tu és uma
pequena unidade, sozinho. É somente quando te reúnes na unidade
da fé e no conhecimento de Cristo que serás capaz de compreender
com todos os crentes a largura, o comprimento, a profundidade e a
altura, e dessa maneira ficares cheio com toda a plenitude de Deus.
Este é o propósito de Deus para a igreja.
Deus vai manifestar-Se a Si próprio de uma tal maneira que toda
a terra irá temer perante Ele e verá a Sua glória:
Então temerão o nome do SENHOR desde o poente, e a sua gló-
ria desde o nascente do sol; vindo o inimigo como uma corrente de
águas, o Espírito do SENHOR arvorará contra ele a sua bandeira.
(Isaías 59:19)
A segunda metade deste versículo refere-se à nossa situação. A
verdade é, o nosso inimigo o demónio vem como uma torrente. Ele
infiltrou cada área da nossa vida nacional: politicamente, socialmente
e educacionalmente, incluindo as escolas, os colégios, as universida-
des e os seminários. Cada aspecto da vida nacional neste país tem sido
sistematicamente infiltrado pelas forças inimigas nas últimas décadas.
Ele não veio apenas como uma torrente ao mundo, mas também
veio para dentro da igreja. Isto é o cumprimento da profecia de Joel,
na qual o povo de Deus e a sua herança são devastados, tal como com
um exército invasor de insetos devastando a terra. (Ver Joel 1:4). A
igreja tem sido invadida através dos séculos pelos grandes exércitos do
julgamento de Deus: o gafanhoto cortador, o voador, o devorador, o
destruidor. Mas Deus diz que, nesta altura, o Seu Espírito se moverá

337
entre nós. ...vindo o inimigo como uma corrente de águas, o Espírito do
SENHOR arvorará contra ele a sua bandeira.
A bandeira que o Espírito do Senhor levantará é somente uma
Pessoa, e essa é Jesus Cristo. O Espírito Santo não levanta uma per-
sonalidade humana; Ele não exalta uma doutrina ou instituição. Ele
vem à igreja para fazer uma coisa primordial; levantar Jesus. Em João
16: 13-14, Jesus disse: Quando vier, porém, aquele, o Espírito da ver-
dade,… Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo anun-
ciará. O ministério do Espírito Santo dentro da igreja é revelar, elevar,
louvar e glorificar Jesus Cristo.
A igreja tem que reconhecer e adorar o Senhor Jesus Cristo. A
Escritura diz que pela fé em Jesus Cristo, nós somos filhos de Abraão.
(Ver Gálatas 3:7). Deus disse a Abraão:
… que deveras te abençoarei, e grandemente multiplicarei a tua
descendência, como as estrelas do céu e como a areia que está na praia
do mar; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos.
(Génesis 22:17)
Normalmente falando, quando o sol está a brilhar, ou mesmo à noi-
te, quando a lua está a brilhar, nós não prestamos muita atenção às estre-
las. Mas quando o sol se puser e a lua não estiver a cintilar brilhantemen-
te, e quando todas as fontes naturais de luz se extinguirem, as estrelas
cintilam com mais brilho na intensidade da escuridão. É precisamente
isto que vai acontecer no fim dos tempos, assim que as trevas cobrirem
a terra e as trevas profundas o povo (ver Isaías 60:2); assim que a noite
ficar cada vez mais escura, os filhos de Abraão, pela fé em Jesus Cristo,
irão brilhar como as estrelas na sua glória. (Ver Filipenses 2: 14-16).
Aqui está um vislumbre da noiva avançando na sua glória:
Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua,
brilhante como o sol, imponente como um exército com bandeiras?
(Cânticos 6:10)
Quando a igreja manifestar a glória de Cristo, o mundo recuará
de espanto; ele nunca terá visto uma igreja assim. Quem é esta que
aparece como a alva do dia? Depois de uma noite de trevas, a igreja
será como o nascer do sol. A noiva de Cristo será tão bela como a lua.
A responsabilidade da lua é refletir a luz do sol e a lua aparece
em fases – quarto crescente, lua nova, quarto minguante, lua cheia.

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Ela cresce e diminui, tal como a igreja de Jesus Cristo tem crescido
e diminuído. No entanto, quando a igreja regressar finalmente à lua
cheia, ela refletirá plenamente a glória do Sol. É isso que o mundo vai
ver – uma igreja completamente radiante, refletindo toda a glória e a
claridade do Sol.
E a igreja será tão clara como o sol. Mesmo que seja como a lua,
terá a justiça e a autoridade do Filho da Justiça, Jesus Cristo, aplicada
a ela, e será tão imponente como um exército com bandeiras. Quem
é que já viu uma igreja que é imponente para com as forças do mal
e das trevas, do pecado e de Satanás? Vai aparecer uma igreja que vai
fazer com que as forças de Satanás tremam e fujam.
Deus tem-me mostrado através da experiência que existe uma
mensagem que o demónio teme mais do que qualquer outra. É a
mensagem do que a igreja vai ser e do que ela lhe vai fazer. O demó-
nio luta contra esta verdade mais do que qualquer outra.
Esta é a imagem da igreja tal como Deus tenciona que ela seja.
Tira tempo para deixares que Deus te desafie com o Seu plano para
a igreja e o Seu plano para a tua vida individual. Ele regressará para
uma igreja gloriosa e uma igreja gloriosa Ele terá!

Tira tempo para deixares que Deus te desafie com o Seu plano
para a igreja e o Seu plano para a tua vida individual.

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Sobre Derek Prince 1915-2003

Derek Prince nasceu na Índia, filho de pais britânicos. Teve formação es-
colar em Grego e Latim no Colégio de Eton e na universidade de Cambridge,
na Inglaterra. Com 24 anos ele foi professor na Universidade Kings, em
Cambridge, onde ensinou filosofia moderna e clássica. Na segunda guerra
mundial foi obrigado a entrar no exército Britânico e foi colocado no norte
de África. Levou consigo a Bíblia como material de estudo filosófico, a qual
leu em alguns meses. Numa noite quando estava sozinho numa barraca foi
confrontado pela Palavra com a realidade de Jesus Cristo.
Com este encontro com Jesus Cristo ele chegou a duas conclusões:
• Primeiro: Jesus Cristo está vivo
• Segundo: a Bíblia é um livro que traz a verdade, que é relevante e sempre
atual.
Estas conclusões alteraram totalmente o curso da sua vida.

Desde esta data dedicou a sua vida a estudar e ensinar a Palavra de Deus.
Entretanto adquiriu reconhecimento internacional como um dos ensinado-
res da Bíblia mais importantes desta época. O que faz o seu ministério ser
único não é a sua educação de alto nível nem a sua inteligência mas o seu
ensino direto, atual e simples. O Programa de rádio “Hoje com Derek Prin-
ce” é transmitido diariamente em vários países (por exemplo em Chinês,
Espanhol, Russo, Mongoliano, Arábico e mais). Os estudos dele, mais de
40 livros em mais de 100 línguas, 400 CD´s e 150 DVD´s tiveram grande
influência nas vidas de muitos líderes cristãos sobre todo mundo.

Em Setembro de 2003 depois duma vida longa e frutífera, Derek Prin-


ce faleceu com a idade de 88 anos. Derek Prince Ministries, continuará a
distribuir por todo o mundo o ensino dele através dos diversos meios de
que dispõe, entre os quais: livros, cartas de ensino, cartões de proclamação,
áudio, vídeo, e conferências.
Existem no entanto, objetivos bem definidos no DPM:
• Fazer chegar estes meios a locais onde ainda não conhecem a Palavra de
Deus
• Contribuir para o fortalecimento da fé dos cristãos em geral mas espe-
cialmente da fé dos que vivem em comunidades cujo poder politico não
permite a liberdade de expressão e circulação da Palavra Divina.

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Derek Prince Ministries

“Se não conseguires explicar um princípio duma maneira simples e em


poucas palavras, então tu próprio ainda não o percebes suficientemente.”

Esta frase de Derek Prince caracteriza o seu ensino bíblico. Estudos sim-
ples e claros que pretendem direcionar o leitor para os princípios de Deus,
tornando assim possível uma maior abertura para reflexão e tomada de po-
sição perante a sua escolha.
Os estudos de Derek Prince têm ajudado milhões de cristãos em todo
mundo a conhecerem intimamente a Deus e a porem em prática os princí-
pios da Bíblia no dia-a-dia das suas vidas.
Derek Prince Portugal deseja cooperar nesta edificação do corpo de
Cristo:
... com o fim de preparar os santos para o serviço da comunidade, para
a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos a unidade da fé
e ao pleno conhecimento do Filho de Deus, ao homem adulto, à medida
completa da estatura de Cristo. (Efésios 4: 12 e 13)
O nosso alvo é fortalecer a fé dos cristãos no Senhor Jesus Cristo, através
do ensino bíblico de Derek Prince, com material (livros, cartas de ensino,
cartões de proclamação e mais tarde CD´s e DVD´s) na sua própria língua!
Em mais de 100 países o DPM está ativo, dando a conhecer o mara-
vilhoso e libertador evangelho de Jesus Cristo. Esperamos que também se
sinta envolvido e encorajado na sua fé através do material por nós forne-
cido.
A nossa principal atividade neste momento é traduzir e disponibilizar
trabalhos do Derek Prince em Português. Como por exemplo:
Cartas de ensino: Distribuição gratuita 4 vezes por ano de cartas de
ensino orientadoras e edificadores sobre temas diversos da Bíblia.
Deseja saber mais sobre os materiais disponíveis e/ou receber as cartas de
ensino gratuitas? Informe-nos! Ficamos à espera do seu contacto através de:

Prince Portugal: Caminho Novo lote X,


Derek
9700-360 Feteira AGH
Terceira, Açores, Portugal
Tel: (00351) 295 663738/ 927992157
Blog: www.derekprinceportugal.blogspot.pt
E-mail: derekprinceportugal@gmail.com

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A Cruz é Crucial

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