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Artigo
Imagine um jornalista assassinado
Alceu A. Sperança

Imagine um jornalista
assassinado a tiros e
pauladas. Isso aconteceu
há 180 anos, numa das
páginas mais tristes e
vergonhosas da história do
Brasil.

O jornalista Líbero Badaró, que fazia oposição ao imperador d.


Pedro I, em São Paulo, pode ser considerado um dos mártires da
imprensa brasileira e essa data jamais poderá passar em branco, em
nome da liberdade pela qual Líbero se batia, da informação e da
Justiça.
Hoje, querem matar nascentes, que vão dar em graves prejuízos
para quem sobreviver em uma megalópole poluída e concretada,
como no passado matavam as próprias pessoas que incomodavam
seus desmandos, interesses e ambições.
Giovanni Battista Líbero Badaró nasceu em Laigueglia, Itália, em
1798, vindo para o Brasil com 28 anos, em 1826, já formado em
Medicina e autor de textos jornalísticos científicos sobre sua área,
zoologia e botânica. Adquirindo a cidadania brasileira, foi clinicar
enquanto lecionava Matemática, em serviço comunitário.
Politicamente avançado, o que na época significava ser “liberal”,
não no sentido que hoje se tem, de conservadorismo econômico, mas
de adepto da luta pela liberdade, em 1829 ele criou o jornal
“Observador Constitucional”.
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Era um jornal moderado, mas os


absolutistas o detestavam com rancor,
mais ou menos como hoje um órgão de
imprensa é perseguido pelos “reis” no
poder, que não toleram críticas nem
aceitam debater.

Mas o que irritou ainda mais os monarquistas, a ponto de


planejarem linchar o jornalista, foi ter noticiado os acontecimentos
ocorridos em Paris, em 1830, onde se deu uma das mais importantes
revoluções da história.
O rei Carlos X foi destronado. Líbero Badaró convocou os
brasileiros a seguir o exemplo dos franceses. Os estudantes de
Direito – que saudade dos estudantes no combate às injustiças! –
abriram a luta, festejando nas ruas a derrubada do rei francês.
O ouvidor Cândido Ladislau Japiaçu considerou as manifestações
como “atos criminosos” e processou alguns jovens estudantes para
intimidar os demais e a população. Badaró iniciou então uma
campanha em favor dos acusados e atacou Japiaçu, chamando-o de
opressor – Caligulazinho.
Em 20 de novembro de 1830, às 22h, quando voltava para sua
casa, na rua de São José (hoje rua Líbero Badaró), sem perceber que
era uma cilada, o jornalista foi interpelado por quatro alemães, a
pretexto de lhe entregarem uma correspondência contra o ouvidor
Japiaçu. Foi quando recebeu deles, traiçoeiramente, uma carga de
bacamarte, caindo mortalmente ferido, sendo também espancado.

Bacamarte
Suspeitou-se que o imperador d. Pedro I tenha sido o mandante.
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O enterro teve a presença de cinco mil pessoas, cerca de 800


portando tochas acesas, simbolizando a liberdade. O principal
responsável pelo ataque fora Henrique (ou Simão) Stock, alemão
que se escondeu na casa do ouvidor Caligulazinho. O povo exigiu a
prisão de ambos, mas só o alemão foi preso.
O prestígio de d. Pedro I caiu ao rés do chão por conta desse
crime estúpido.

O imperador menino,
d. Pedro II, retratado
em 1832 pelo pintor
Francisco de Souza
Lobo (1800-1855)

No ano seguinte, 1831, Pedro I abandonava a coroa imperial


sobre a cama de seu filho Pedrinho e saía da história do Brasil de
maneira inglória e infeliz.
Não se mata a liberdade matando os libertários. A história é a lata
de lixo de todos os mandões autoritários. Todos. Não houve
nenhuma exceção em toda a história humana.
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Alceu A. Sperança - escritor

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