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No País das Maravilhas: a Gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho

31 de maio de 2010

Orlando Fedeli

1
Conteúdo

Aviso aos Leitores ........................................................................................................................ 17


Dedicatória .................................................................................................................................. 21
APRESENTAÇÃO........................................................................................................................... 22
Introdução ................................................................................................................................... 37
Capítulo I ................................................................................................................................. 46
Capítulo II - A Inocência Primeva ............................................................................................ 50
1- Como Ter Felicidade neste Mundo ................................................................................. 51
2 – A Inocência Primeva, segundo PCO, escamoteia — nega - o pecado original .............. 55
3 - Conceituação de Inocência primeva segundo PCO ........................................................ 62
4 — A Inocência primeva nas crianças ................................................................................ 68
Capítulo V - Nova Doutrina da Salvação e do Juízo Final ........................................................ 99
Capítulo VI - A identificação dos "eus" .................................................................................. 105
Capítulo VII - Identificação de Plínio com o Profeta Elias ..................................................... 121
Capítulo VIII - Identificação de Plínio com a Igreja................................................................ 124
Segunda Parte A CONTEMPLAÇÃO SACRAL DO UNIVERSO ..................................................... 142
Capítulo I - Que é Contemplação e que é o “Sacral” para PCO? Jeitinhos de PCO para
enganar seus leitores e ouvintes........................................................................................... 143
Capítulo II - Contemplação ou Imaginação ........................................................................... 153
Capítulo III - Confusões Plinianas Sobre os Símbolos ............................................................ 158
Capítulo IV - Doutrina Católica sobre os Seres Possíveis em Deus ....................................... 166
Capítulo V - O homem e os seres possíveis em Deus ............................................................ 172
1 - Pode o homem conhecer os seres possíveis em Deus? ............................................... 172
2- Que podemos conhecer, cogitar, ou que podemos imaginar, a partir da realidade
criada, que conhecemos?.................................................................................................. 175
Capítulo VI - “Hûrqalyâ”- A Trans-Esfera da Gnose shiita ..................................................... 191
Capítulo VII - Os Inexistentes- Existentes Seres Possíveis de PCO ........................................ 197
Capítulo VIII - À Procura do Absoluto. ................................................................................... 206
Capítulo IX - Os seres criados seriam análogos aos seres possíveis que não existem .......... 222
Capítulo X - Mito ou História - Lenda ou Realidade - Os Possíveis de PCO na História........ 234
Capítulo XI - Dr. Plínio Erigiu a Mitificação em Sistema ........................................................ 242
Capítulo XII - Uma Visão Sublimada e Transcendente da Realidade: a Trans-Esfera Pliniana
............................................................................................................................................... 246
Capítulo XIII - Um sonho "metafísico" ................................................................................... 267

2
1 - Os seres ab-aeternos.................................................................................................... 267
2- Existência dos seres ab aeterno .................................................................................... 268
3 - Como Plínio descobriu os seres possíveis criados ab aeterno? ................................... 274
TERCEIRA PARTE: A MENTALIDADE ROMÂNTICA DE PLÍNIO .................................................... 284
QUARTA PARTE......................................................................................................................... 369
Capítulo I - A Teoria do Conhecimento de São Tomás e a de Plínio Corrêa de Oliveira ....... 369
1-- Teoria do Conhecimento de São Tomás de Aquino..................................................... 369
2- Se conhecemos a realidade ou as nossas impressões subjetivas ................................ 373
3 – Conhecimento por Conaturalidade, segundo Aristóteles e São Tomás. ..................... 374
Capítulo II Teoria do Conhecimento na Gnose de Bergson ................................................. 376
1-- O Conhecimento é Inefável ......................................................................................... 376
2 - A Inteligência seria enganadora .................................................................................. 377
3 - A Intuição não engana.................................................................................................. 380
4-- Intuição é flash iluminante, evanescente, inefável .................................................... 383
5-- A Intuição identifica sujeito e objeto causando a Imanência ...................................... 383
6 --Intuição, “Mergulho” e Simpatia. ................................................................................ 387
7-- Supervalorização da Imaginação ................................................................................. 389
8 -- Nova Moral “Aberta” contra a Moral “Fechada” ....................................................... 389
9-- Fanáticos Propagadores de Metáforas. ....................................................................... 390
10 - Resumindo. ................................................................................................................ 390
Capítulo III- Teoria do Conhecimento de Plínio Corrêa de Oliveira ..................................... 391
1 -- Conhecimento inato dos universais ............................................................................ 391
2 -- Doutrina do Seletivo: o conhecimento gnóstico de PCO. ........................................... 394
3 - O Seletivo e a Câmara Obscura .................................................................................... 399
4 - Exemplos concretos de atuação do seletivo dados por PCO: ..................................... 403
5- “O Inocente Abel passeando pelo Paraíso” .................................................................. 407
Capítulo IV - Impressões, Admiração, Símbolos, na Teoria do Conhecimento de PCO ....... 416
1 - As Primeiras Impressões e a aquisição de certezas ..................................................... 416
2- Método Pliniano para Alcançar a Verdade. .................................................................. 421
3 - Sentir – Experimentar – Ausência de Abstração .......................................................... 426
4 - O Maravilhoso e a Admiração ...................................................................................... 438
5. Brumas Evocam mais que a Claridade. ..................................................................... 439
6. Símbolos e conhecimento. ........................................................................................ 440
Capítulo V - Os Flashes: Intuições Divinas -- Graças atuais sensíveis.................................... 446

3
Capítulo VI - Intuição e Admiração Desvalorizam o Estudo ................................................. 449
Capítulo VII - Confusões plinianas sobre Cultura .................................................................. 453
Capítulo VIII - Dialética do Espírito e da Matéria. Os banheiros do paraíso ......................... 455
Capítulo IX Graça e Natureza ................................................................................................ 460
1. Erros de Plínio sobre a Graça .................................................................................... 460
2. Ainda Sobre a Maldade do Livre Arbítrio .................................................................. 462
3. Jansenismo de Dr.Plínio ............................................................................................ 464
Dr. Plínio afirmará explicitamente em um texto que o homem, muitas vezes cai por falta
de graças, porque não rezou, pedindo-as. O que é um posicionamento jansenista. ....... 464
4. Virtudes Ativas e Virtudes Passivas ............................................................................... 465
5. Desculpando jansenisticamente mamãe ...................................................................... 466
6. O “Flash” como Graça atuando na vontade .................................................................. 468
7. A Inocência sob um mar de pecados............................................................................. 471
Capítulo X - A Teoria do Conhecimento de PCO e o Modernismo ........................................ 473
1. Fé é um sentimento .................................................................................................. 473
O modernista crente ......................................................................................................... 474
2. O Modernismo e Plínio contra a apologética tradicional ......................................... 477
3. A fé para o modernista vem do interior do Homem ................................................. 479
4. A Consciência crescente que Cristo teve de sua Divindade ...................................... 482
5. A Igreja seria mais alma do que instituição............................................................... 485
QUINTA PARTE – A Descrição de um Delírio: o Culto de Plínio e de Dona Lucília .................... 488
1 – Introdução ....................................................................................................................... 488
2 – “Eu Escolhi o Credo” ........................................................................................................ 489
3 – A espiritualidade da TFP e dos Arautos ........................................................................... 490
4 – O que diz Dr. Plínio de si mesmo ..................................................................................... 492
a) Compreender o que ele é.............................................................................................. 498
b) Ser dele ......................................................................................................................... 499
c) Ser congênere e um com ele ......................................................................................... 499
5 – O que ele faz dizer dele através de Scognamiglio ........................................................... 502
a) “Cristo só se encarnou porque Dr. Plínio correspondeu à graça” ................................ 502
b) Dr. Plínio e o “Ego Sum” ................................................................................................ 502
c) O Espírito Santo, retirando-se da Igreja, refugiou-se em Dr. Plínio .............................. 503
d) Dr. Plínio é a Igreja ........................................................................................................ 503
e) A Sabedoria de Deus fala pela boca de Dr. Plínio ......................................................... 503

4
f) Nossa Senhora se encarnou, habita ou fala pela boca de Dr. Plínio, Medianeiro da
Medianeira ........................................................................................................................ 504
g) Dr. Plínio toma o lugar ou os atributos de Cristo .......................................................... 504
h) Dr. Plínio é um anjo ou mais do que um anjo ............................................................... 504
i) Dr. Plínio é a obra prima da Criação............................................................................... 505
j) Dr. Plínio não tem pecado original ................................................................................. 505
k) Dr. Plínio é infalível........................................................................................................ 505
l) Dr. Plínio é inerrante ...................................................................................................... 505
m) Dr. Plínio é imortal ....................................................................................................... 506
n) Dr. Plínio será glorificado ou transfigurado .................................................................. 506
o) Dr. Plínio é profeta ........................................................................................................ 506
p) Dr. Plínio é Elias? Dr. Plínio não é Elias? ....................................................................... 506
q) Dr. Plínio é santo, e dos maiores, senão o maior que já houve na História ................. 507
r) Dr. Plínio é possuidor de carismas extraordinários ....................................................... 507
s) Dr. Plínio, revelador dos segredos do Apocalipse ......................................................... 507
t) Dr. Plínio juiz no Juízo Final e o fundador do Reino de Maria ....................................... 507
6 – O Profeta da Grandeza Sofredora ................................................................................... 509
7 - Os eternos queixumes do Profeta.................................................................................... 515
8 – Os atos de culto a Dr. Plínio na TFP ................................................................................. 522
A) Altares secretos com fotografias de Dr. Plínio .......................................................... 525
B) Orações para Dr. Plínio.............................................................................................. 527
C) Cânticos ..................................................................................................................... 530
D) Consagração como escravo a Dr. Plínio .................................................................... 531
E) Cerimônias para Dr. Plínio ou para suas fotografias ................................................. 531
F) A Bênção do Profeta.................................................................................................. 534
G) "Relíquias" de Dr. Plínio ............................................................................................ 535
H) As peregrinações ....................................................................................................... 536
I) A glória de Dr. Plínio .................................................................................................. 536
9 – Culto e Orações para Dona Lucília................................................................................... 537
1) – O “Ave Lucília, cheia de graça...” ............................................................................... 537
2) – A Ladainha de Dona Lucília ........................................................................................ 541
CONCLUSÃO .......................................................................................................................... 546
Documento III- Carta de Plínio Xaver Vidigal da Silveira ao Núncio Apostólico, Dom Lorenzo
Baldissieri, acusando JoãoScognamiglio Clá Dias .................................................................. 546
Documento IV – Ladainha para João Scognamiglio Clá Dias ................................................. 552

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SEXTA PARTE – A SEMPRE VIVA ................................................................................................ 555
1- TFP, Arautos e Sociedade Secreta ..................................................................................... 555
2- Histórico e funcionamento da Sempre Viva ..................................................................... 560
3- Orações da Sempre Viva ................................................................................................... 563
a) Oração da Sagrada Escravidão .................................................................................. 563
b) Paródia da Ave Maria para Dr. Plínio. ....................................................................... 564
c) Confissão a Dr. Plínio e entre os escravos. ................................................................ 565
d) União “ontológica”(união dos eus) com Plínio. ........................................................ 565
4- A Cerimônia da Iniciação na Sempre Viva......................................................................... 565
5- Lista dos iniciados até 1983 .............................................................................................. 568
CONCLUSÃO .............................................................................................................................. 571
Montar uma visäo arquitetônica da Causa ........................................................................... 572
como um joalheiro monta uma jóia a - num plano antigo ele vai ajustando pedras
preciosas velhas e novas, o que resulta uma jóia inteiramente nova .............................. 572
B - Para o aprofundamento da vocaçäo e a consequente riqueza da açäo ...................... 573
C - Para combater a chacunnière ..................................................................................... 573
2 - O QUE É A CHACUNNI¶RE ............................................................................................... 574
A - Definiçäo e aplicaçäo ................................................................................................... 574
B - Formas de chacunnière : vidinha extra e intra Grupo ................................................ 576
C - Traços característicos do espírito de chacunnière ...................................................... 576
D - Chacunnière e Primeiro Mandamento ........................................................................ 579
3 - AP§NDICE : PARA ROMPER O "TENDÄO MALDITO" ........................................................ 580
A - A partir de 67 começaram a ser cada vez mais numerosos os que começaram a ...... 580
compreender que näo deviam viver uma vida particular, mas fazer uma doaçäo........... 580
integral à Causa ................................................................................................................. 580
B - Reverso da medalha: enquanto tem sido fácil obter doaçöes exteriores, .................. 581
quando se trata de dar o que os franceses chamam de le fin fond , algo ....................... 581
treme, algo hesita, algo cambaleia ................................................................................... 581
C - Há um tendäo qualquer que faltaria cortar. Esse, as pessoas näo cortam ................. 581
D - Qual é esse tendäo a ser cortado ................................................................................ 582
M¶TODO E CRITERIOLOGIA ...................................................................................................... 584
1 - SABERMOS O QUE REALMENTE SOMOS EM FUNÇÄO DA R-CR ...................................... 584
E DO PANORAMA HISTÕRICO EM QUE VIVEMOS ................................................................. 584
«FL» ....................................................................................................................................... 584

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A - Tendo como dados: senso católico, conhecimentos históricos, ................................. 584
estudo da Cristandade, situaçäo atual da Humanidade, .................................................. 584
raciocínio e conclusöes ..................................................................................................... 584
B - E os flashes, explicitados e reduzidos a raciocínio ....................................................... 584
C - E "considerando-os em nossos coraçöes ..................................................................... 585
2 - EM FUNÇÄO DE NOSSO FIM E DE NOSSA FIDELIDADE A ELE........................................... 585
PARTE I ...................................................................................................................................... 586
O QUE SOMOS ....................................................................................................................... 586
EM FUNÇÄO DE NOSSO FIM.................................................................................................. 586
OU ......................................................................................................................................... 586
TEORIA DOS AUGES ............................................................................................................... 586
«PT2»..................................................................................................................................... 586
ASPECTO NEGATIVO DO NOSSO FIM: ................................................................................... 586
DESTRUIÇÄO DA REVOLUÇÄO ............................................................................................... 586
SENDO A REVOLUÇÄO O AUGE DO MAL ............................................................................... 586
DEDICAR-SE ± SUA EXTINÇÄO É O MELHOR FIM DE NOSSA ÉPOCA, .................................... 586
E UM DOS MAIS ALTOS DA HISTÕRIA ................................................................................... 586
«FL» ....................................................................................................................................... 586
1 - INTRODUÇÄO: O FIM QUE VISAMOS ............................................................................... 586
A - Näo visamos apenas um fim, mas o melhor que se possa visar e um dos mais.......... 586
altos que se tem visado na História da Igreja ................................................................... 586
B - No aspecto negativo esse fim é a eliminaçäo täo radical quanto possível da ............. 587
Revoluçäo. ......................................................................................................................... 587
C - Algumas ponderaçöes preliminares............................................................................. 587
2 - A REVOLUÇÄO É O AUGE DO MAL, PORQUE ELA É A HERESIA TOTAL, ........................... 588
A - A Revoluçäo é o auge do mal: ..................................................................................... 588
B - A Revoluçäo é a heresia total....................................................................................... 588
D - A Revoluçäo é a negaçäo total da moral, a suma imoralidade.................................... 591
E - A Revoluçäo é a suma desordem ................................................................................. 592
3 - ESSE AUGE DE MAL ATINGIU UM AUGE DE UNIVERSALIDADE ........................................ 592
A - Porque, pelo caráter universal da Revoluçäo, ela atinge a Humanidade ................... 592
inteira. ............................................................................................................................... 592
B - Portanto, näo é só a ala má, mas a Humanidade inteira que está sendo ................... 592
arrastada ........................................................................................................................... 592

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C - E a Revoluçäo entrou até no Santuário. Vaticano II..................................................... 593
D - E está a ponto de criar uma situaçäo à qual ninguém resista. Chegou, ...................... 593
4 - SE A REVOLUÇÄO É UM AUGE DE NEGAÇÄO, .................................................................. 593
NÕS SOMOS UM AUGE DE TOTALIDADE .............................................................................. 593
A - Um auge de maldade, um auge de universalidade, um auge de iminência. ............... 593
B - O auge de bem, de grandeza, de importância, de santidade do apostolado e ........... 594
da luta que nós empreendemos. ...................................................................................... 594
5 - COMO A REVOLUÇÄO, ATRAVÉS DO CONHECIMENTO DA OPINIÄO PÚBLICA, ............... 594
EST LEVANDO O MUNDO, COMO UM TODO, PARA O MAL................................................. 594
A - A Revoluçäo considera a sociedade humana como uma sociedade de almas ............ 594
formando uma opiniäo coletiva, admitida como certa, e que, sobre elas ....................... 594
exerce efeitos tirânicos ..................................................................................................... 594
B - A Contra Revoluçäo, para conduzir a sociedade humana para o bem, tem que......... 595
usar também a "arte real"................................................................................................. 595
C - "Fazemos apostolado individual?" Só para obter elementos necessários para .......... 596
nossa açäo ......................................................................................................................... 596
D - Essa é uma sócio-psicologia cujas leis auxiliam a suspender e anular um .................. 596
processo e iniciar outro diferente ..................................................................................... 596
E - Desde que a Revoluçäo inventou esse processo diabólico, temos que utilizar ........... 597
o mesmo meio para conduzirmos nós a opinäo pública................................................... 597
F - Isso significa um auge no estilo de combate, de pontaria certeira, de ........................ 597
eficência, de velocidade, e incisäo na açäo....................................................................... 597
G - Que nos diferencia fundamentalmente dos que nos têm precedido... ..................... 597
H - A maioria dos que nos precederam concebiam o apostolado como o atuar nas ....... 598
I - E arquitetonicamente fazendo de nosso auge.............................................................. 599
J - Para o aprofundamento da vocaçäo e a consequente riqueza da açäo ....................... 600
ASPECTO POSITIVO................................................................................................................ 601
DO NOSSO FIM: ..................................................................................................................... 601
IMPLANTAR O REINO DE MARIA «PT2» ................................................................................ 601
1 - VISAMOS A ORGANIZAÇÄO DO MUNDO COM BASE NOS PRINCÔPIOS DA RCR LEVADOS
±S ........................................................................................................................................... 601
ÚLTIMAS CONSEQU§NCIAS. ISTO É, UMA SUPER IDADE MÉDIA .......................................... 601
A - Para isso, partir de uma base mais radicalmente ela própria, do que o auge ............ 602
B - Esta super Idade Média será o último auge possível do bem antes dos tempos ........ 602

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que precederäo o fim do mundo. Portanto, o Reino de Maria. ....................................... 602
2 - LOGO, NÕS SOMOS OS APÕSTOLOS DOS ÚLTIMOS TEMPOS.......................................... 606
A. Na linha do profeta Elias, o último fiel, para as últimas fidelidades ............................ 606
B - Crescendo a Igreja sempre em fidelidade, a dos últimos fiéis seria täo .................. 606
grande que eles seriam dispensados da morte ................................................................ 606
C - E aí aparecerá o Profeta Elias, täo grande em virtude quanto o Anti-Cristo ............... 606
o será no vício ................................................................................................................... 606
D - Que em certo sentido, é maior mesmo que S. José, S. Joäo Batista, S.Pedro ............. 607
etc., pois foi precursor deles na devoçäo a Nossa Senhora, e Seu predileto ................... 607
antes mesmo de Ela nascer ............................................................................................... 607
E - o fiel por excelência, para a hora das últimas fidelidades ........................................... 607
3 - PARA DAR GLÕRIA A DEUS (PRIMEIRO MANDAMENTO) ................................................. 608
A - Se o valor de uma só alma é um bem inapreciável, que se dirá do trabalho .............. 608
que vise orientar a Opiniäo Pública, que tem tanta influência na salvaçäo ..................... 608
das almas? ......................................................................................................................... 608
B - Porém, mais do que a salvaçäo das almas, queremos a maior glória de Deus. .......... 608
E näo entende a Contra-Revoluçäo quem pensa o contrário. .......................................... 608
C - "Glória de Deus" aqui é aquela forma de amor por onde é absolutamente ............... 609
preciso que tudo o que Ele criou se assemelhe a Ele ....................................................... 609
D - Há, portanto, um requinte de auge no levar, por amor à glória de Deus, a ............... 610
arquitetonia das criaturas a dar-Lhe glória ....................................................................... 610
4 - E COMANDAR OS SÉCULOS FUTUROS.............................................................................. 610
POIS O MUNDO SER NOS PRÕXIMOS SÉCULOS O QUE FOR NESTE ...................................... 610
5 - NUMA HORA EM QUE, NÄO PODENDO CRUCIFICAR NOVAMENTE NOSSO SENHOR,
ATENTAM .............................................................................................................................. 610
CONTRA A SANTA IGREJA PROCURANDO DAR A IDÉIA DE QUE ELA MORREU..................... 610
A - como a Igreja näo é mortal, procuram adotar uma linguagem e uma legislaçäo ....... 611
que dêem a impressäo de que Ela está ensinando o erro e recomendando o mal.......... 611
B - Crime hediondo como o de destronar uma rainha e maqueá-la como mulher perdida
........................................................................................................................................... 611
C - Com a agravante de que o pior está sendo praticado pela traiçäo ............................. 611
eclesiástica ........................................................................................................................ 611
D - Com a indiferença dos que näo participam do crime.................................................. 612
E - Enquanto que, na ordem temporal, a traiçäo é também cometida pelas cúpulas...... 612
podres................................................................................................................................ 612

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F - É uma renovaçäo da Paixäo diante da qual a vidinha de todos os dias perde............. 612
toda sua importância, pois o senso do trágico permanente devea se tornar .................. 612
uma característica permanente do nosso espírito ........................................................... 612
G - Isso supöe a vitória sobre nosso próprio egoismo ...................................................... 613
H - Pois minha vida foi confiscada por Ele ........................................................................ 613
I - O que se diria de um católico que estivesse assistindo a Paixäo e quisesse ................ 614
J - Por isso, até enquanto dormimos devemos ter este fundo de quadro presente ........ 614
III ................................................................................................................................................ 617
TRAÇOS E DEVOÇÖES ................................................................................................................ 618
CARACTERÔSTICAS DE NOSSO ESPÔRITO ................................................................................. 619
«FL» ........................................................................................................................................... 620
1 - OS NOSSOS TRAÇOS CARACTERÔSTICOS ......................................................................... 620
A - Tendo a Deus como base, uma noçäo do bem e do mal, da verdade e do ................. 620
erro levadas até seu ponto último .................................................................................... 620
B - Em tudo, desejo das últimas consequências ............................................................... 620
C - Com perspicácia, intransigência, iniciativa na luta e pugnacidade .............................. 620
C - Amor ao sublime .......................................................................................................... 621
C - Sacralidade ................................................................................................................... 623
D - Princípio de subsidiariedade ........................................................................................ 626
E - Simbolismo ................................................................................................................... 627
F - Caráter sapiencial negativista destes traços: o conhecer o bem ................................. 629
pelo seu contraste com o mal ........................................................................................... 629
G - Conclusäo prática: nesta terra, as coisas negativas säo .............................................. 630
indispensáveis para compreendermos a verdade e o bem .............................................. 630
2 - AS NOSSAS DEVOÇÖES ..................................................................................................... 631
A - Devoçäo a Nossa Senhora, à Paixäo de Nosso Senhor, e à Sabedoria ........................ 631
B - Devoçäo entranhada à Santa Igreja, e sem nome ao Santíssimo ................................ 631
Sacramento ....................................................................................................................... 631
3 - FLASH RESUMITIVO DO QUE FOI DITO: A FIGURA DA RAINHA DESTRONADA ................ 631
A - Se considerarmos Nossa Senhora como verdadeira Rainha do Universo, .................. 632
näo de modo simbólico, mas por disposiçäo de Deus... ................................................... 632
B - Que Seu reinado se realiza na medida em que as almas se ........................................ 632
conformarem com o que Ela quer... ................................................................................. 632
C - Podemos dizer que, na imensíssima maioria das pessoas, Ela só tem ........................ 632

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restos de influência, .......................................................................................................... 632
D - Isso justifica a metáfora da "Rainha Destronada". ...................................................... 632
E - Ainda agora, se o clero e o que resta da nobreza, fossem santos, a ........................... 632
Revoluçäo morreria neste minuto .................................................................................... 632
F - E nessa hora Nossa Senhora olha para nós a chorar. Que resposta ............................ 633
daremos a esse olhar?....................................................................................................... 633
G - Ficarei pensando na minha chacunnière ? ................................................................. 633
H - Eu, quem sou? "O homem a quem Nossa Senhora olhou". O resto näo .................... 634
interessa. Terá Ela olhado em väo? .................................................................................. 634
I - "Isso é uma pressäo tremenda!" Sim, mas cheia de benignidade, de .......................... 634
perdäo e de afago materno .............................................................................................. 634
J - Mas que recompensa no Céu: através dos olhos d'Ela, participar da .......................... 635
Visäo Beatífica que Ela mesma tem! ................................................................................. 635
K - "Este é o homem a quem Nossa Senhora olhou na hora do abandono que ............... 635
Lhe respondeu sim!" ......................................................................................................... 635
L - Esse olhar confisca totalmente. Mas é um confisco com justa .................................... 635
indenizaçäo ....................................................................................................................... 635
M - A chacunnière é um roubo, uma felonia, a traiçäo .................................................. 635
II ................................................................................................................................................. 638
ESTAMOS PROPORCIONADOS................................................................................................... 639
A ESSE FIM? ............................................................................................................................... 640
I - A DEBILIDADE DA REVOLUÇÄO ......................................................................................... 640
1 - DE SI, TANTO A REVOLUÇÄO QUANTO A CONTRA-REVOLUÇÄO SÄO FRACAS. ELAS ...... 640
DEPENDEM DE UM ATO DE VONTADE DO HOMEM ............................................................. 640
A - A debilidade intrínseca da Revoluçäo e da Contra-Revoluçäo .................................... 641
B - Em concreto, a Revoluçäo está hoje fracassada. Mostra-o o desastre do .................. 642
comunismo na conquista da opiniäo pública . .................................................................. 642
C - A Revoluçäo, ou näo corre e perde as cúpulas; ou corre e perde as bases ................. 645
D - Hoje a Revoluçäo, com cúpulas podres eclesiásticas, conta com ocasiäo ................. 646
2 -RESPOSTA A UMA OBJEÇÄO ............................................................................................. 646
II - PORQUE SOMOS FORTES ..................................................................................................... 649
1 - ALIANÇA ESPECIAL DE NOSSA SENHORA COM O GRUPO ................................................ 649
A - Essa aliança é tal, que a pessoa, para apostatar, tem que fazer força. Nossa Senhora a
segura pelos cabelos. A "Teologia do Sabugo" ................................................................. 649

11
B - E essa aliança é a nossa grande força, nossa grande arma.......................................... 651
2 - TÉCNICAS RCR + MAQUININHA + OCASIÄO + HORA DA PROVID§NCIA = VITÕRIA ......... 651
A - Técnicas RCR ............................................................................................................... 651
1 - desmascarar o jogo e fazer parar a marcha ................................................................. 652
2 - Revelar sempre apresentando uma questäo de consciência ...................................... 653
3 - Isso sempre com um pressuposto: dar um caráter religioso, nunca laico. ......... 653
4 - Porque a única coisa que tem vida é a Igreja Católica ................................................. 653
B - "Maquininha" ............................................................................................................... 653
C - Ocasiäo ......................................................................................................................... 655
D - Hora da Providência..................................................................................................... 655
E - Daí a fórmula: técnicas RCR + maquininha + ocasiäo + hora da Providência = Vitória 655
III ................................................................................................................................................ 657
O RESTO QUE VOLTAR............................................................................................................... 658
«FL» ........................................................................................................................................... 659
1 - Teoria Geral ...................................................................................................................... 659
A - Introduçäo : uma teoria que corrobora o que foi dito ................................................ 659
B - Essa teoria na Sagrada Escritura: ................................................................................. 659
2 - A Nossa Teoria ................................................................................................................. 660
A - Na luta entre os filhos da Virgem e os da Serpente, depois de um embate, um lado
sempre reduz o outro a um resto ..................................................................................... 660
B - Por isso a violência da Bagarre será maior que as anteriores:o Anti-Cristo mata Elias, e
o "resto", Nosso Senhor, destrói definitivamente o Mal .................................................. 661
C - Exemplos de "restos": o povo judeu ............................................................................ 661
D - No auge do ressurgir do poder deles, começamos a surgir nós. Nós somos o
"resto", a "continuidade" do quê? 661
3 - Nós somos uma continuidade de uma graça ................................................................... 662
A - Há uma continuidade que está nas intençöes de Deus. Consiste num certo gênero de
graças que Ele quer dar em épocas diversas, e que näo supöem necessariamente
continuidade histórica nem de pessoas ............................................................................ 662
B - Segunda continuidade: de pessoas e de açäo divina, em que a graça é dada, através de
longa sucessäo, a um para que a transmita a outro. Ex.: S. Luís G. Montfort e os
ultramontanos do século passado .................................................................................... 662
C - Terceira continuidade: a de instituiçöes que väo recebendo, ao longo dos séculos
missöes mais ricas, até chegar um momento culminante da História ............................. 663
D -Nós somos continuadores dessas três formas de continuidade. Demonstraçäo. ....... 663

12
4 - Se, do ponto de vista doutrinário, näo acrescemos nada ao movimento mariológico, do
ponto de vista Inimititias Ponam acrescemos muito .......................................................... 667
A - Papel da RCR e do MNF nessa batalha ........................................................................ 668
B - Que é uma continuidade histórica ............................................................................... 668
C - A aristocracia rural brasileira era continuidade histórica da nobreza portuguesa, como
o Império do Brasil o era do reino de Portugal ................................................................. 669
D - Somos restos reunidos por Nossa Senhora. Somos bem a raça da Virgem que luta
contra a Serpente .............................................................................................................. 670
E - Logo, nós somos este resto que voltará por uma impulsäo incontenível da graça para
atuar na Bagarre e Grand Retour ................................................................................... 670
F - E a praticabilidade da obra que temos diante de nós está no fato de que tudo será feito
pelo próprio Deus.............................................................................................................. 670
5. GRAND RETOUR E BAGARRE .......................................................................................... 671
A - O que entendemos por Bagarre ................................................................................. 671
B - Grand Retour : grande retorno dos que restarem às vias do ultamontanismo .......... 672
C - Últimos Tempos e Apóstolos dos Últimos Tempos ..................................................... 673
D - Se somos o resto que permanece em meio à Revoluçäo, somos o resto que voltará. Se
somos o resto que voltará, somos o começo dos Apóstolos dos Últimos Tempos. Se somos
Apóstolos dos Últimos Tempos, somos o principium vitae do Reino de Maria .............. 675
IV ............................................................................................................................................... 677
Parte biográfica, ilustrativa da teoria dada ............................................................................... 678
1 - O modo como as idéias do Fundador se formaram e depois se comunicaram aos
seguidores foi à maneira de continuidade. ........................................................................... 678
A - Nascido da conjunçäo de duas famílias semi-contra-revolucionárias, recebeu uma
herança religiosa e monárquico-liberal, näo comuns, mas näo ultramontana ................ 678
B - No colégio, primeiro contacto com a Revoluçäo através de meninos de famílias mais
avançadas no processo revolucionário ............................................................................. 678
C - de onde começar a perceber a traiçäo de sua família àqueles ideais e a nela perder,
com excessäo da mäe, a fé, restando-lhe só a verdadeira Cidade de Deus, a Santa Igreja
Católica .............................................................................................................................. 681
2 - Ao longo desse trabalho ideológico nasceu a RCR e a TFP, pois suas idéias se transferiram
aos discípulos. ....................................................................................................................... 682
A - Nossa ideologia näo é senäo o legado doutrinário da Civilizaçäo Cristä no qual foram
desencavadas as verdades esquecidas. ............................................................................ 682
B - Näo como doutrina nova, mas como alguém que toma um tecido já começado e
continua a tecê-lo.............................................................................................................. 682

13
C - Por isso, nosso apostolado é o de "eco", o de quem, como discípulos da Sagrada
Hierarquia, pega a doutrina do passado e a repete, ampliando-lhe o som. Na ordem
ideológica, é a suprema fidelidade ................................................................................... 682
«FC» ........................................................................................................................................... 683
PARTE TERCEIRA ........................................................................................................................ 684
QUEM SOMOS ........................................................................................................................... 685
NÕS ............................................................................................................................................ 686
ENQUANTO GRUPO................................................................................................................... 687
I - NÕS SOMOS UM GRUPO PROFÉTICO ............................................................................... 687
1 - NOSSO GRUPO É UM GRUPO PROFÉTICO........................................................................ 687
A - Conversa com D. Mayer . ............................................................................................. 687
B - Provam-nos as nossas obras... ..................................................................................... 689
C - ... E a nossa vida ........................................................................................................... 690
D - É o que o momento histórico exige ............................................................................. 691
E - É o que a harmonia da história pede ........................................................................... 694
F - E corroboram-no a nossa ortodoxia, nosso ................................................................. 695
2 - NOSSO PROFETISMO TEM A MISSÄO DE REPRESENTAR A GRANDEZA ........................... 697
A - Com a Revoluçäo gnóstica e igualitária, o que o demônio mais quer negar no mundo é
toda forma de grandeza espiritual temporal, implantando a vulgaridade ....................... 697
B - Grandeza impessoal, sacral .......................................................................................... 698
C - Grandeza militante....................................................................................................... 699
D. Grandeza sofredora ..................................................................................................... 700
E - Grandeza desinteressada ............................................................................................. 701
F - Grandeza protetora ...................................................................................................... 703
G - Grandeza incomprendida ............................................................................................ 704
3 - NOSSO PROFETISMO TEM TAMBÉM A MISSÄO DE SER UM SÔMBOLO VIVO DA
SABEDORIA, ........................................................................................................................... 705
DA SACRALIDADE E DA HIERARQUIA .................................................................................... 705
A - Símbolo vivo da Sabedoria, da sacralidade e da hierarquia ........................................ 705
B - Irradiaçäo, convívio e osmose...................................................................................... 705
C - Unicidade ..................................................................................................................... 706
D - Ver no profeta um profeta........................................................................................... 706
E - O momento histórico exige .......................................................................................... 707
F - O que é o profeta?........................................................................................................ 707

14
4 - NOSSO PROFESTIMSO É, DE ALGUM MODO, A PRESENÇA DE NOSSA SENHORA NA IGREJA
............................................................................................................................................... 708
5 - PROFETISMO E FÉ ............................................................................................................ 708
A - A Fé foi a virtude que eu mais amei............................................................................. 708
B - O nosso caso pessoal se reduz a um problema de fé .................................................. 709
II ................................................................................................................................................. 712
NOSSO PROFETISMO É A SINTESE DE TODO O PASSADO DA IGREJA ....................................... 713
COM ALGUMAS NOTAS ESPECIAIS ............................................................................................ 714
1 - O CRESCIMENTO DA IGREJA EM GRAÇA E SANTIDADE.................................................... 714
A - Esse crescimento apresenta aspectos e propriedades diversos segundo suas
etapas, como as belezas da alma humana em suas várias idades 714
B - Assim pode-se descrever a beleza da vida da Igreja em cada uma de suas ................ 714
2 - ± VISTA DISSO, O QUE SOMOS NÕS? ............................................................................... 715
A - antes de tudo, uma escola espiritual, com isso de próprio que é o admirar .............. 715
e amar cada fase e cada aspecto da Igreja com transportes de veneraçäo, .................... 715
tendo como ponto de vista nosso a síntese ...................................................................... 715
B - e como características especiais as devoçöes ao Santissimo Sacramento, a .............. 715
Nossa Senhora e ao Papa .................................................................................................. 715
3 - TODOS CATÕLICOS, TODO APOSTÕLICOS E TODOS FIÉIS, AINDA QUE NOS FAÇAM....... 716
INJUSTIÇA .............................................................................................................................. 716
A - A essência do Grupo é viver da seiva da Igreja .......................................................... 716
B - Eu näo quero ser outra coisa senäo um varäo católico ............................................... 717
C - O ponto de concentraçäo da fidelidade...................................................................... 717
D - Ainda quando odiados e desprezados ......................................................................... 720
4 - NOSSA SENHORA QUIS QUE, NUM DADO MOMENTO, TUDO DEPENDESSE DE UM SÕ 721
5 - ELE SE TORNOU, PORTANTO, UM MEDIADOR "NECESSRIO".......................................... 721
A - A teoria da mediaçäo ................................................................................................... 721
APÊNDICE II ............................................................................................................................... 763
DISCURSO DO CARDEAL FRANC RODÉ .................................................................................. 763
A - Essa aliança é tal, que a pessoa, para apostatar, tem que fazer força. Nossa Senhora a
segura pelos cabelos. A "Teologia do Sabugo" ................................................................... 75 771
RESUMO DO LIVRO” NO PAÍS DAS MARAVILHAS” .................................................................... 776

15
16
Aviso aos Leitores

Aos leitores do site Montfort,

Salve Maria.

Temos a alegria de publicar, hoje, dia 31 de Maio de 2010, nosso livro


denunciando a Gnose da TFP e dos Arautos do Evangelho, ensinada secretamente,
durante anos, por Plínio Corrêa de Oliveira.

Fizemos questão de publicar esse livro hoje, sem ter feito a revisão final dele de
modo acurado, por duas razões, cada uma delas suficiente por si mesma:

1a - Por uma razão de cronologia.Hoje, se completam 27 anos de nossa saída do


grupo de Plínio Corrêa de Oliveira.27 anos são 3 vezes 9. 3 ao cubo. E simbolicamente
o 3, e mais ainda o 33 são bem simbólicos. Aguardamos 27 anos até termos nas mãos os
documentos necessários para comprovar a Gnose de Plínio, da TFP e dos Arautos.

Valeu a pena.

2a razão: “C’est mon “secret”...”

Pedimos a Deus que permita, por meio deste livro, que alguns surdos ouçam e
que alguns cegos vejam.

Quanto aos que não quiserem ver, nem ouvir, e nem entender, que a misericórdia
de Deus não os puna por quererem ser cegos ao meio dia. Que pelo menos no umbral da
morte – onde nós também estamos - a Virgem Maria, refúgio dos
pecadores, obtenha para todos nós, de Nosso Senhor Jesus Cristo, a luz da
compreensão e o arrependimento que salva.

Pedimos perdão, então a nossos leitores por editar um texto contendo ainda erros
de digitação, de gramática e de estilo. Faremos essas revisões logo mais.

A cronologia, a simbologia e a estratégia nos obrigam a isso.

Damos graças a Deus por nos permitido publicar esta obra no final de nossa
vida.

Pois assim, sempre para ensinar e para converter, Ele nos possibilitou dizer,
muito simbolicamente, que...

17
“À la fin de la vie, je touche!”

São Paulo, na festa de Nossa Senhora Raínha, 31 de Maio de 2010

In Corde Jesu, semper, semper, semper,

Orlando Fedeli.

18
Epígrafes

“Não há nada de oculto que não venha a ser revelado” (São Lucas, VIII,
17)“Tudo o que existe é uma participação nisso que não existe” (PCO, A Inocência
Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, ed.
Artpress, São Paulo, 2008, p. 230).

Confissão de Plínio Corrêa de Oliveira:

“Eu tinha tendência a identificar minha pessoa com a tradição – não por minhas
próprias qualidades, mas porque em mim se refletia aquela tradição que eu amava. Ora,
nessa identificação, havia o convite para uma posição admirativa e lânguida a respeito
de mim mesmo”.

“Era a tentação para o romantismo: a ilusão de ótica por onde a pessoa se põe no
centro de tudo, põe-se como foco da tradição, põe-se como o modelo da Contra–
Revolução e já não tem interesse em olhar para a História, a não ser na medida em que
se sente encaixado ou relacionado ao menos pela fantasia, com a História”. (Plínio
Corrêa de Oliveira, artigo “O Menino e o Mar”, in Revista Doutor Plínio, Ano VI,
Setembro de 2.003, N0 66, p. 20. Destaques nossos).

“Quando a vocação, o thau, se explicita na alma de uma pessoa, esta é levada a


me ver como um todo. Por que me vê como um todo? Porque eu personifico a Contra
Revolução” (Plínio Corrêa de Oliveira, apud João Scognamiglio Clá Dias, em epígrafe à
sua 10a conferência do Retiro V aos Arautos do Evangelho sobre a Unidade do Súdito
com o Fundador, p. 1).

MANOBRA JUDIT - Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias planeja enganar a


Hierarquia da Igreja, que ele chama de “estrutura”: “O Sr. João [Scognamiglio Clá
Dias] lançou a idéia de que se as TFPs pudessem ter uma situação canônica reconhecida
na Igreja, o lance seria muitíssimo mais eficaz. Posteriormente, quando lançássemos a
grande denúncia profética, o Vaticano se daria conta de que nosso pedido de
reconhecimento tinha sido apenas uma “trampa” [uma cilada] para dar o lance,
mas aí já seria tarde demais.

“No mês de Fevereiro de 1996, o sr. João Clá chamou várias pessoas ao Êremo
de São Bento para fazer um trabalho.

19
“Ele fez duas reuniões com uma semana de diferença e nelas nos apresentou a
necessidade de fazer algo na linha de denunciar a 4a Revolução, pois o próprio Sr. Dr.
Plínio tinha em vida manifestado esse desejo, uma vez que as coisas iam-se
encaminhando para uma grande denúncia.

“Ele apresentou durante a reunião para umas 15 pessoas que seria necessário
fazer isto, e durante a mesma disse-nos que o Sr. Dr. Plínio tinha lhe manifestado em
vida durante um despacho que não tinha sido gravado a necessidade de arranjar um tal
ou qual reconhecimento por parte da estrutura [A Igreja Católica] pois seria a única
maneira a nos proteger contra futuros estrondos.

“Por isso ele dizia que concomitante com o lance se tivéssemos um status
canônico, poderíamos fazer a coberto de um subsequente estrondo e que no fundo seria
uma passada de perna na estrutura [na Hierarquia da Igreja], pois não poderiam nos
atacar dizendo que tínhamos um status dentro da Igreja e o lance seria uma imensa
denúncia da 4ª Revolução que poderia desencadear a Bagarre” (Documento JAU de
José Antonio Urreta de 13 de outubro de 1997, p. 14. Os destaques são nossos.)

20
Dedicatória

Aos alunos que Deus me deu, em cinquenta e cinco anos de apostolado, meu
livro, meu perdão, minha vida.

Professor

21
APRESENTAÇÃO

É bem conhecido pelo publico brasileiro, e mesmo internacionalmente nos


círculos católicos mais atuantes no combate em defesa da Igreja Católica que, durante
30 anos, fomos membros do chamado Grupo de Catolicismo, dirigido por Dr. Plínio
Corrêa de Oliveira, que editava o mensário Catolicismo sob a responsabilidade de Dom
Antônio de Castro Mayer, então Bispo de Campos. Como é bem conhecido também
que, ao romper com a TFP em 1983, por causa do culto delirante que lá se prestava a
Dr. Plínio e à mãe dele Dona Lucília, denunciamos tal culto, e, depois, a seita Secreta A
Sempre Viva, que Dr. Plínio havia fundado ocultamente “Por trás do estandarte da
TFP”.

No tempo em que estávamos no grupo do Catolicismo, dávamos aulas de


História em Colégios de São Paulo, e por nosso apostolado, centenas de jovens,
passando a viver catolicamente, foram levados por nós ao grupo de Catolicismo.Em
1960, Dr. Plínio fundou a TFP, entidade civil, visando o combate ao comunismo que,
desde a eleição de Jânio Quadros à Presidência da República, ameaçava o Brasil, e,
muito mais ainda, depois da ascensão de João Goulart à suprema direção do Brasil. O
curioso é que a fundação da TFP foi de início meramente cartorial, quase secreta, pois
que a maioria do grupo de Catolicismo não foi informada de sua fundação.Dr. Plínio era
discreto...

A partir de 1963, fomos afastados por Dr. Plínio da direção dos jovens que
havíamos levado ao grupo de Catolicismo. Nunca se nos disse claramente a razão desse
afastamento. Nos 20 anos seguintes, esse “exílio” que sofremos — na gíria do grupo se
dizia “colocação no gelo”— não impediu que continuássemos nosso apostolado.
Formamos uns sete novos grupos de jovens, que, um a um, iam sendo afastados de
nosso contato, convívio e influência. Como pretendíamos servir a Deus e à Igreja
aceitamos esse relegamento a um ostracismo cruel dentro do grupo de Dr. Plínio.
Poucos nos cumprimentavam, e os que mantinham contato conosco eram encarregados
disso por Dr. Plínio. E – soubémo- lo depois -- , faziam isso para obter informações
sobre o que pensávamos. [Contamos tudo isso num livro, que escrevemos em dez dias
ao sair da TFP, em 1983, livro intitulado “Por trás do Estandarte” e que por falta de
recursos não pudemos publicar].

22
Nesse ínterim, com a Revolução de 1964, a TFP cresceu.

Em 1965, Dr. Plínio organizou um simpósio interno, para o qual ainda fomos
convidados, sobre os Grupos proféticos e sua atuação na História. O tema fora sugerido
por um trabalho publicado na revista Approach, e serviu de trampolim para Dr. Plínio
lançar-se, só internamente e muito discretamente ainda, como Profeta.Na realidade, ele
já começara a organizar a sua nova seita secreta A Sempre Viva, da qual Caio Vidigal
Xavier da Silveira foi o primeiro membro, fazendo voto de escravidão pessoal a Dr.
Plínio, em 1961. Claro que ninguém ainda no Grupo de Catolicismo e na TFP sabia
disso. [Na sexta parte deste livro, damos pormenores do histórico dessa seita secreta, A
Sempre Viva].Como se desconheciam completamente as outras seitas secretas que Dr.
Plínio fundara, desde 1928, no interior de seus “grupos”.

Foi a partir de 1965 que a Sempre Viva se desenvolveu, recebendo um segundo


escravo de Dr. Plínio na pessoa de Eduardo de Barros Brotero, praticando-se nela um
culto ao “profeta Plínio”, que exigia, entre muitas outras coisas, que se beijasse o pé do
“profeta”.

Surpresa inesperada e assustadora: logo que começou essa prática, o profético pé


de Dr. Plínio apodreceu: teve uma gangrena provocada por diabetes, que obrigou a
amputar parte de seu pé direito.Consternação profética!...Curado, Plínio se declarou
agraciado de modo especial por Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, que
lhe teria garantido não morrer enquanto não realizasse sua missão de fundar o Reino de
Maria, predito por São Luis de Montfort..

Foi por ocasião dessa operação cirúrgica de Dr. Plínio que João Scognamiglio
Clá Dias teve a oportunidade de se tornar íntimo dele, pois lhe serviu de enfermeiro
amador.

A partir de 1967, Plínio de ‘Profeta” passou a se dizer “representante” do


Imaculado e Sapiencial Coração de Maria na terra, e único objeto concreto da
escravidão a Nossa Senhora, visto que, sem ele, a escravidão a Nossa Senhora ficaria
muito em abstrato.

Entre os jovens, que em 1956 havíamos aproximado do Grupo de Catolicismo,


estava também João Scognamiglio Clá Dias, então com uns 16 anos. Entre os moços
daquele grupo, ele era simplesmente mediano, isto é, medíocre, e bastante tímido. Ele

23
cantava bem uma cântico da Missa de mortos, o “Libera me, Domine”. Para enterrar
alguém, ninguém como ele...Enterrou a muitos. Libera me, Domine.

Dan é uma serpente no caminho, disse Jacó quando abençoou seus filhos. Não
propriamente a Dan.

Scognamiglio não era nem dos mais inteligentes, e nem, muito menos, dos mais
valentes desse grupo, formado por nós em 1956. Pelo contrário. Era bem fraco. Quando
teve que servir o exército, vinha à nossa casa quase todo o dia, chorando por causa das
agruras do quartel...E ele era bem pouco leal...

Entretanto, de todos os jovens daquele tempo, ele é que ia ter a “carreira” de


maior sucesso junto a Dr. Plínio. E o sucesso começou, quando ele se tornou
“enfermeiro” amador de Dr. Plínio em 1965, e muito mais, depois de 1975, quando Dr.
Plínio sofreu um grave acidente automobilístico. Soubemos depois, que antes de sair de
seu apartamento para a viagem em que sofreu esse acidente, Dr. Plínio teria comentado:
“Chegou a hora de Nossa Senhora pedir contas a quem não correspondeu às suas
graças”...

Foi então que João Scognamiglio se tornou enfermeiro e secretário de Dr.Plínio.


A TFP mudou definitivamente. Esse período de enfermagem permitiu a Scognamiglio
construir uma muito singular amizade com Dr. Plínio. Durante muito tempo, ficamos
em dúvida – a ingenuidade humana parece ser infinita - se fora a bajulação de João
Scognamiglio que, fascinara Dr. Plínio, ou se fora Dr. Plínio que vira nele o instrumento
cômodo para realizar seus desígnios. Hoje, já não há mais dúvida: desde o princípio, Dr.
Plínio planejou montar um culto para si, e João Scognamiglio foi julgado por ele como
o “fiel intérprete de seus desígnios”.

Ninguém como ele compreendeu tão bem os “desígnios” de Dr. Plínio...

Ele foi realmente o “fiel intérprete dos desígnios” do “profeta”.

Foi.

E por isso Dr. Plínio o queria intocável. E declarava sem rebuços que “se algo
vem do João, é bom”. E os textos do “Jour- le Jour” que possuímos indicam uma estima
muito grande de Dr. Plínio por ele:

“Nesse prazer, nesse gáudio e nessa satisfação: uma lacuna. Falta o nosso J.
(João). Como eu gostaria de ver os olhos redondos e andaluzes dele,
rebrilhando de satisfação com isso tudo. Olhando, olhando, a cara para ver

24
se... (exclamações)” Jour-le-Jour - Grafonema USA 22-VI-1983 - Santo do
dia de junho - 4a. feira).

O enfermeiro amador captou tanto a estima do “Profeta” que se tornou


inseparável dele. Scognamiglio—João Clá, como era chamado-- começou a controlar
tudo na TFP a ponto de se dizer que ele mantinha dentro do grupo uma KláGB,.

Para fomentar o culto a Dr. Plínio e à mãe dele, Dona Lucília, -- (que Dr. Plínio
no Quem somos nós reconhece que ela era liberal) -- Dr. Plínio contava nas reuniões da
Sempre Viva casinhos de sua vida, assim como elocubrava, nas reuniões do MNF (
Manifesto) PCO gostava de siglas, teorias que justificassem o culto a ele e à mãe dele.
Scognamiglio, depois, repetia os “casinhos” da vida de Dr. Plínio, e algo das doutrinas
do MNF aos mais jovens da TFP. E fazia isso de modo scognamigliesco. Foi assim que
o culto a Dr. Plínio cresceu, e foi entre os mais fanáticos discípulos de Scognamiglio
que se escolheram os membros para uma ordem religiosa clandestina de “eremitas e
camaldulenses”, que praticavam um Ordo bem estranho. Na TFP, durante muito tempo
essa ordem religiosa clandestina foi desconhecida da maioria dos membros da entidade.
Dr. Plínio era tão discreto... que muitos de seus grupos, reuniões, e doutrinas
eram......Secretos.

Mas, como diz o Evangelho “Não há nada de oculto que não venha ser
revelado” ( Luc., VIII, 17).

Toda sociedade secreta vive um dilema: para crescer, precisa convencer a outros,
e, portanto deve se abrir. Mas, se ela se abre, como manter completo segredo? Daí a
doutrina do véu maçônico de que fala Dante Alighieri:

“O voi ch’avette li ’ntelletti sani,

Mirate la dottrina che s’asconde

sotto ‘l velame de li versi strani”.(Dante Divina Commedia, Inferno, IX, 63 -65)

Dunque, mirate la dottrina de li versi strani...

Com a propaganda de Scognamiglio, visando fanatizar os jovens, e pela natural


imprudência dos fanatizados o “véu” naturalmente transparente da seita oculta, era
facilmente rasgado por atitudes e por argumentações esdrúxulas que nos chegaram aos
ouvidos. Outros, desgostosos com alguma atitude desleal de Scognamiglio, -- e as havia

25
muitas--, “abriam o bico”...Do “véu” da sociedade secreta, escapavam doutrinas
obscuras, palavras exóticas, atitudes escandalosamente idolátricas.

Em 1978, rasgou-se o véu.

Nesse ano, estourou o chamado “caso francês”.A TFP estabelecera na França


uma escola secundária para jovens filhos de famílias tradicionalistas. Eles foram
trazidos a São Paulo, onde passaram pelo curso de fanatização de Scognamiglio.

Voltando à França, já como devotos do Profeta e de sua mãe, a liberal Da.


Lucília, eles escandalizaram seus pais rezando e propagando uma paródia da Ave Maria,
composta em honra de Da. Lucília, oração que haviam aprendido no Brasil, ensinada a
eles por eremitas diretamente subordinados a Scognamiglio. Esses fatos vieram a
público através da denúncia de um relatório - chamado na TFP de Rapport Judas
(Relatório Judas) - ao qual Dr. Plínio tentou responder com uma publicação, assinada
pela TFP francesa, mas feita por ele mesmo, Dr. Plínio. Esse foi o livro Imbroglio,
Détraction, Delire (Imbróglio, Detração e Delírio).Le bien nomé...

Na realidade, o autor do Imbroglio foi Dr. Plínio.

O nome fora bem escolhido, pois a obra era um grande imbróglio de chicanas e
“restrições mentais”.

A leitura do Imbroglio veio nos confirmar que algo de muito grave se passava
nos círculos mais “internos” da TFP, nos êremos e nas camáldulas, a que não tínhamos
nenhum acesso. Aliás, os próprios membros do Conselho Nacional da TFP, só podiam
entrar nos êremos, se tivessem a licença de João Scognamiglio.

Começamos, então, uma investigação colhendo dificultosamente informações


esparsas, e os resultados foram de espantar. Depois que Dr. Plínio soube de algumas
descobertas que fizéramos, ele mesmo nos chamou e nos ordenou que elaborássemos
um relatório completo sobre o que havíamos descoberto da ação de Scognamiglio. Na
verdade, ele queria saber o que tínhamos sabido, e não, como então ingenuamente
julgávamos, para conhecer os abusos e erros, a fim de corrigi-los. Tendo ouvido nossas
denúncias contra Scognamiglio, especialmente a de uma escandalosa e estapafúrdia
ladainha a Dona Lucília, que ingenuamente julgávamos insuflada por Scognamiglio, e
não por Dr. Plínio, ele ordenou medidas de contenção, mas não de correção. Só de
contenção.

26
Constatando que o culto a Dr. Plínio e à mãe dele, que João Scognamiglio
difundia no Grupo, continuava e crescia, com a tendência a substituir Nossa Senhora
por Da. Lucília, culto com o qual não podíamos concordar, resolvemos lutar.A situação
era bem difícil, porque Scognamiglio era muito prestigiado por Dr. Plínio. Em 1982-
1983, em plena crise de nossa ruptura, quando estavam em jogo pontos de doutrina
católica assim como a salvação de tantas almas e o destino de tantas vidas, quando se
discutia o profetismo e o culto a Dr. Plínio e à liberal Da. Lucília, quando se discutia se
a TFP era ou não uma seita, Dr. Plínio afirmou: “Eu estou disposto a qualquer
compromisso, contanto que não se toque no João”.Frase estarrecedora probatória que,
para Dr. Plínio, João Scognamiglio estava acima das questões doutrinárias. Acima da
ortodoxia. Acima até do culto a ele mesmo e à mãe dele.

Iludidos, considerávamos que Scognamiglio era quem fanatizava os jovens da


TFP, sem a permissão do pretenso Profeta. Com o tempo, foi se tornando patente que o
culto delirante que se prestava a Dr. Plínio tinha por fundamento a tese tresloucada de
que PCO era profeta inerrante. E essa tese absurda provinha do próprio Dr.
Plínio.Naquele tempo, não conheciamos suas palestras em que ele explicava Quem
somos nós, em simpósiso discretos... ( Cfr Apêndice I no final deste livro)

Para quebrar o ídolo e seu altar, era preciso provar claramente, de modo a poder
convencer mesmo os mais fanáticos, que Dr. Plínio errava.

Buscamos, então, um caso doutrinário em que ele manifestamente tivesse


errado.Durante mais de quarenta anos, Dr. Plínio elogiara - sem reservas - as pseudo-
revelações de Ana Catarina Emmerick, freira alemã do século XIX, redigidas pelo poeta
romântico Clemens Brentano. Ora, nessas revelações pululavam os erros doutrinários,
pois as pseudo revelações dela eram de fundo esotérico, cabalístico e gnóstico.

Em conversações que tivemos com Dr. Plínio, provamos isso com facilidade, o
que lhe tornava impossível sustentar sua inerrância. Seu culto estava abalado, pois sua
inerrância fora estilhaçada.

Quando se tratou de continuar nossas conversações, para discutir o culto


prestado a ele, Dr. Plínio fugiu do debate, e nossa ruptura com ele e com a TFP tornou-
se um dever de consciência: não podíamos aceitar que se pusesse um homem qualquer
no lugar de Cristo ou do Papa, nem uma mulher, Da. Lucília, no lugar de Nossa
Senhora.

27
Após nossa ruptura, graças ao testemunho de um afilhado de Dr Plínio e ex
membro da Sempre Viva, Luís Filipe Ablas, acabamos tendo as provas daquilo que há
tempos desconfiáramos existir por trás do estandarte da TFP: uma seita secreta. Luis
Felipe Ablas nos revelou a existência, os rituais estranhos, algumas teses absurdas da
Sempre-Viva, a seita dos escravos de Dr. Plínio, onde ele se apresentava nada menos do
que como a encarnação do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.

Essa foi a denúncia que publicamos então para que a Igreja, as autoridades e a
opinião pública soubessem bem o que a TFP era, e é, na realidade. Para que se visse
que a bandeira católica em que ela se envolvia mascarava uma mentalidade sectária,
fanática e gnosticizante. O sectarismo, o fanatismo e o gnosticismo nós os denunciamos
e rejeitamos.A bandeira católica, nós a recolhemos e beijamos com veneração.

Em dez dias, redigimos, então, um livro -- Por Trás do Estandarte – contando, no


primeiro volume, nossa vida no grupo e na TFP, e no segundo, o que sabímos naquela
época das doutrinas e do culto absurdamente paranóide que Dr.Plínio montara para si
mesmo e para Dona Lucília.

Entretanto, nunca tivemos recursos para publicar o livro que escrevêramos. E


hoje damos graças a Deus por esse impecilho providencial. Sim, providencial, porque
agora temos publicadas pela TFP e pelos Arautos de Scognamiglio as teses e fatos mais
esdrúxulos dos quais tínhamos então um conhecimento bastante incompleto. Hoje,
temos as teses secretas de PCO publicadas por seus sequazes da TFP e dos Arautos do
Evangelho.

Quando de nossa ruptura com o grupo de Plínio, por poder publicar o livro que
escrevêramos, recorremos à imprensa, a entrevistas para revistas de grande publicidade,
e à TV, para denunciar Plínio e a TFP com seu culto secreto e suas doutrinas
românticas.

Dr. Plínio procurou anular nossas denúncias, publicando um livro em três


volumes, Refutação a Uma Investida Frustra, procurando justificar doutrinária e
canonicamente o culto a ele prestado na TFP, e que antes ele solenemente negara que
existisse.Respondemos a esse livro com artigos na imprensa e por meio de entrevistas.

A TFP ficou desmoralizada e a Sempre Viva, denunciada, como toda seita


secreta revelada, teve que entrar “em dormição”.

28
Ainda em vida de Dr. Plínio, em Setembro de 1995, a TFP publicou um grosso
“romance” em três imensos volumes. Luxuosíssimos. Ilustradíssimos. O “romance
“Dona Lucilia” foi assinado por Scognamiglio, como se ele tivesse sido o autor da obra.
Tudo leva a crer, porém, que esse livro foi ditado e gravado pelo próprio Dr. Plínio.
Scognamiglio apenas emprestou seu nome, para esconder o verdadeiro autor, pois
ficaria escandaloso um filho escrever tais páginas idílicas sobre sua ‘mamãe”... E esse
livro confessava muito do que havíamos denunciado.

O livro era uma hagiografia romanceada daquela que Dr. Plínio declarara ser
liberal, no “Quem somos nós”.

Mas claro que não faltaram ao livro Dona Lucília as aprovações eclesiásticas de
ilustres moralistas de Espanha. Scognamiglio era hábil na bajulação, e tinha recursos
abundantes para convencer eclesiásticos.

Tal obra era um primeiro vazamento oficial de certas doutrinas ocultas da TFP.

APÓS A MORTE DO PROFETA IMORTAL

Novas Fontes

Passaram-se os anos.

Um dia… o imortal morreu.

Foi em 1995.

A inesperada morte do imortal profeta Plínio desmoralizava uma das teses


centrais de seu culto: sua imortalidade. E, como era de esperar, com sua morte, veio a
decepção de muitos.

Pois o que ele, como profeta, não previra, aconteceu: foi enterrado.

Scognamiglio preparou-lhe um enterro triunfal. Com banda e


bumbo.Literalmente: com bumbo e banda.

Pois Plínio ia ressuscitar.Tinha que ressuscitar.

Pois como PCO dizia ser “o Inocente”, o homem que, como Adão, antes do
pecado, possuía por excelência a ‘Inocência Primeva”, PCO acreditava que não ia
morrer, visto que a morte fora conseqüência da perda da inocência original.

No simpósio “Quem somos nós”, Plínio garantira a seus fanatizados:

29
“Crescendo a Igreja sempre em fidelidade, a dos últimos fiéis seria tão
grande que eles seriam dispensados da morte .

(...)

“Se isto é verdade, ao cabo desse crescimento no Reino de Maria, pode-se


imaginar a fidelidade dos últimos fiéis, que serão dispensados da morte pelo
extremo de sua fidelidade, e assistirão vivos ao Juízo Final”(Cfr. Apêndice I,
no final deste livro, Plínio Corrêa de Oliveira, Quem Somos Nós).

Por isso, Scognamiglio difundiu na TFP a crença pliniana de que PCO, o


profeta, era imortal.

O próprio Dr. Plínio, certa feita, embora tendo sido já desenganado pelos
médicos por ter câncer disseminado por todo o corpo, publicamente admitiu
veladamente sua imortalidade ao dizer:

“Dizem por aí que eu não vou morrer. Eu não estou tão convencido
disso. Mas, se eu morrer , o que é que vai acontecer? Tudo, mas tudo, vai
girar em torno de um só ponto: manter a coesão do Grupo (..) De resto, não
se preocupem. Nossa Senhora resolve” (Plínio Corrêa de Oliveira, Despacho
em 9 de Fevereiro de 1995, ou em 5 de Junho de 1995, Jour le Jour de 15 de
Outubro de 1995).

Veja-se o que contava Plínio sobre seu futuro, tal como foi contado por um ex
auxiliar direto de João Scognamiglio, num forum de ex tefepistas na internet:

“O próprio [Dr.Plínio] havia dito, numa reunião, que ele faria milagres e que
até nós mesmos faríamos milagres portentosos em seu nome durante a
Bagarre, para provar ante às pessoas quem éramos e convertermos essas
pessoas.

“A seu primo, Fábio VXS [Fábio Vidigal Xavier da Silveira], que


estava presente nessa reunião, e surpreso, o DP [ Doutor Plínio] lhe disse:
sim, meu Fabinho, você mesmo fará milagres em meu nome, como o de
ressuscitar mortos na rua”! E na mesma reunião (Pará) afirmava: se
algum dia (durante a Bagarre) lhes disserem que morri, mesmo que
vejam a foto nos jornais, NÃO creiam nisso, farão isso para enganá-los.
E se virem um morto no caixão, não serei eu, será um sósia. Não
acreditem neles. Não morrerei sem fundar el RM [Reino de Maria]”

Extrato da carta de J. L. T. a João Luiz Vidigal – 23/10/2009,


http://extfp.mforos.com/1791911/9074334-para-joao-luiz-vidigal/)

Delírio completo.

Morreu.E sem fundar ao tal Reino de Maria.

30
Esperavam, pois, os fanáticos adeptos plinianos, dirigidos por Scognamiglio, que
PCO ia ressuscitar imediatamente depois de seu enterro.Foram esperar no cemitério, no
dia seguinte do enterro, logo de manhãzinha, a ressurreição prometida.

Não ressuscitou.Esperou-se sua ressurreição, ao terceiro dia.

Tertia die.Não aconteceu.PCO continuou defunto. Como o velho Malbrought, “il


était mort et enterré”.

Anunciou Scognamiglio — que ainda não era Monsenhor — que PCO ia


ressuscitar, logo mais.Em seis meses.Não reapareceu.

A ressurreição de PCO foi adiada.Houve vários adiamentos.Sucessivos, e


imprevistos.

A última data que se soube ter sido anunciada por Scognamiglio foi em
2007.Nada.

Começou-se a dizer que PCO estava “ausente”…Só fisicamente ausente.Mas


sempre presente.

Afinal, ele era o inocente.Imortal ausente.

Mas sempre agente.[Uma última noticia comprovante da atuação do “Ausente”


— termo com que os sebastianistas lusitanos designavam o Rei Dom Sebastião,
enquanto esperavam o seu Grand Retour para estabelecer o Quinto Império —, nós a
tivemos recentemente e foi a de que o “Ausente”, mas sempre presente, PCO, fez com
que um velho revisor dos artigos de PCO, tão incapaz como nós de digitar corretamente
um texto no computador, escrevesse rapidamente — sem erros de digitação — e numa
redação ótima, um artigo que estava difícil de ser gestado. E afirmou esse corretor de
textos de Dr. Plínio, que isso era o sinal da “presença” do “Ausente” que causara aquele
“milagre” de psico-digitação, ou de psicografia eletrônica. Vinda do além, como diziam
os espíritas seguidores de Chico Xavier].

Dr. Plínio não teria morrido.Está apenas ausente.

“Passando um período fora”, dizia eufemisticamente Scognamiglio.Onde?Talvez


num universo paralelo e idealisticamente superior que Plínio denominava de Trans-
esfera...

31
E que era essa Trans–Esfera da qual Dona Lucília teria sido a mãe? Pelo menos
era o que rezava na ladainha de Dona Lucília, ladaínha tão reveladora...

Veremos o que era a Trans-Esfera pliniana ao estudarmos logo mais adiante, o


livro Inocência Primeva. Lá se explica que essa Trans – Esfera seria um mundo
imaginário, idealizado, onde não haveria matéria, e que servira de modelo para o Deus
criador fazer este mundo material “sofrível” em que vivemos, o qual seria uma
caricatura inferior do mundo ideal.

Exatamente como dizia a Gnose.

Com a morte do “Profeta” imortal, a TFP entrou em crise. Pois Plínio dera toda
influência e todo o poder ao “João, de olhos redondos e andaluzes”. Mas, em seu
testamento deu o poder aos seus discípulos mais antigos, os que ele chamara de
“Provectos”. Os quais, reservadamente, ele desancava como sabugos.

Começou o duelo pela liderança tefepêica: o duelo entre os “olhos


andaluzes’ versus o testamento jurídico.Resultado, deu-se a cisão entre o grupo
liderado por Scognamiglio, de um lado, e os mais velhos membros da Sempre Viva, os
denominados Provectos, de outro.

A cisão foi dramática. Scognamiglio rebelou-se contra a Direção da TFP (Os


chamados Provectos da TFP) e da Sempre Viva, e cindiu a seita. Surpreendentemente,
a Justiça deu a ele a sigla da TFP, o seu leão de barriga cavada e língua bífida bem
comprida, e especialmente suas muitas propriedades. Scognamiglio ficou riquíssimo.
Levou consigo uns 80% da TFP. Assim surgiram os Arautos, que logo aderiram à
Missa Nova e ao Vaticano II, sendo reconhecidos depois pelo Vaticano como Instituto
Pontifício. Com a condição de não mais falarem de Plínio, de Dona Lucília e da TFP.

Scognamiglio aceitou.

Os retratos de Plínio e de Dona Lucília sumiram do peito dos Arautos, que


juravam, a quem lhes perguntasse, nem saber o que era a TFP.

Os Arautos do Evangelho de Scognamiglio diziam, nos páteos, ruas e praças


que não conheciam o que era a TFP. e nem quem fora o tal Plínio.Os galos cantavam
por toda a parte.

Mas os Arautos fingiam que não entendiam o canto do galo. Eles só conheciam
o úivo da raposa.

32
Para os íntimos , João Clá prometia passar a rasteira nos Cardeais. Começara a
Operação Judit...

Logo também surgiram as cladetes, fanáticas do ‘padrinho’, o sr. João.Um


santaço!

Scognamiglio publicou uma sua biografia na qual, ágil e sem qualquer


escrúpulo, saltava desembaraçadamente quarenta anos de sua vida: desde 1956 a 1996.
Exatamente os anos em que vivera na TFP, como difusor do culto fanático de PCO e da
mãe dele.

João Scognamiglio Clá Dias, -- que ainda não era nem Padre, e nem Monsenhor,
nem Doutor, era só Scognamiglio --, fez publicar, desde Abril de 1998, uma luxuosa
revista mensal, com um nome esdrúxulo para uma revista: “Dr. Plínio”. E, para
esconder como podia sua responsabilidadae pessoal, fez isso através de alguns de seus
colaboradores e amigos, não oficialmente pertencentes ao Instituto dos Arautos. Assim
nasceu a luxuosa revista intitulada “Dr. Plínio”.

Também a Editora dessa revista tinha um nome estranho e revelador: Editora


Retornarei, já que Scognamiglio e seus Arautos esperavam, como esperam até hoje, o
retorno de Dr. Plínio, a qualquer momento, advindo de além túmulo. Para vir de lá não é
preciso passaporte. Basta ser dotado de Inocência Primeva.Nessa revista, da qual temos
a grande maioria dos exemplares, o agora Monsenhor Scognamiglio, confiante nos
apoios eclesiásticos que misteriosa e estranhamente conseguiu, ousou publicar muitos
textos do secretíssimo MNF de PCO, fazendo vazar as doutrinas mais descabeladas do
profeta de Higienópolis. Uma fonte riquissima das heresias de Dr. Plínio, da TFP e dos
Arautos do Evangelho.

Fomos colecionando essa revista há doze anos... Com fotos dos Arautos em suas
páginas. E lá há coisas...“Meninos eu li”...

E anotamos tudo, tudinho.

A ala rival de Scognamiglio, na TFP — a dos Provectos —, para não ficar atrás,
por meio do eremita Leo Daniele (o escravo Plínio Tobias da Sempre Viva), publicou
alguns livrinhos com “Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira”, nos quais
se divulgaram curtos textos do MNF. De pensamento, nada havia nesses livrecos, e sim
apenas imaginações e sonhos delirantes. Mas bem significativos...

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Incríveis.Eles formaram a Coleção “Canticum Novum”.Eis alguns dos livros
editados:

1. O Universo é uma Catedral, Excertos do pensamento de Plínio Corrêa


de Oliveira, recolhidos por Leo Daniele. Edições Brasil de Amanhã, São Paulo, 1997.

2. A Cavalaria Não Morre, Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de


Oliveira, recolhidos por Leo Daniele. Edições Brasil de Amanhã, São Paulo 1.978.

3. À procura de Almas com Alma. Tipos humanos – A Música das


Personalidades.

Temos também esses livrecos, encantadores...

Em 2008, por ocasião do centenário do nascimento de Dr.Plínio, o Instituto


Plínio Corrêa de Oliveira, sob direção dos Provectos, publicou um livro com algumas
das doutrinas mais recônditas do “profeta”, tais como foram expostas por ele e
registradas, nas reuniões do MNF, livro intitulado A Inocência Primeva e a
Comtemplação Sacral do Universo, reproduzindo “fielmente” o pensamento do
pseudo Profeta de Higienópolis, como fazem questão de dizer seus apresentadores — o
pensamento “discreto” do fundador da TFP.

Conseguimos comprar esse livro, que é ... uma bomba.

Em boa hora veio à luz essa obra, que deixa clara a doutrina romântica e
gnóstica que seu autor expunha em conversas com seus adeptos — en petit comité — da
TFP e da seita secreta A Sempre Viva.Claro que esse livro, contendo as gravações das
reuniões —das conversas de Dr. Plínio no MNF [ há 43.000 paginas datilografadas do
MNF], — não conta tudo: conta só “as primícias” do “pensamento” pliniano...

E se pelo dedo se conhece o gigante...

“Não é nossa pretensão expor exaustivamente tais temas, mas oferecer ao


público uma primícia deles”, confessa singelamente Paulo Corrêa de Brito Filho, na
apresentação que faz desse livro “Ao Leitor”, na página 12, dessa obra .

Portanto, as conversas “discretas” de Dr. Plínio foram certamente “lapidadas”,


maquiadas, isto é, censuradas, para serem apresentadas ao público de modo palatável,
escoimadas das afirmações por demais “estranhas”. Mas, boa parte do que foi
censurado pode ser encontrado no que a imprudente segurança do agora Monsenhor
João Scoganamiglio Clá Dias, discípulo preferido de PCO, e dinamitador da

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TFP, publicou, quer no livro Dona Lucília, quer na revista “Dr. Plínio”, quer ainda no
Jour-le-jour do Profeta contado por Scognamiglio ns reuniões do Paesto Sum in illo
tempore. Tudo isso, e mais as centenas de depoimentos assinados, que possuímos de
testemunhas de ex tefepistas, são suficientes para comprovar como era heterodoxa a
doutrina de Plínio. Mais ainda. Monsenhor Scognamiglio nos forneceu uma nova
preciosa fonte de confirmação das doutrinas gnósticas de PCO. Não querendo ficar atrás
dos Provectos da TFP, ele também publicou um livro comemorativo do centenário de
nascimento de Dr. Plínio. Editou uma obra em três volumes: Notas Autobiográficas de
Plínio Corrêa de Oliveira, pela Editora Retornarei. La bien nomée...

Delas, por enquanto, saiu só o primeiro volume, no qual Plínio conta a sua vida
desde os seis meses de idade até os dez anos de vida.

Esse livro é um romance surrealista. Posto a “voar” à luz do dia pela editora
Retornarei. E qual morcego ao meio dia, saiu a lume o primeiro volume das Notas
Autobiográficas de Plínio Corrêa de Oliveira, luxuoso livro de 686 páginas, nas quais
PCO conta fatos reais e imaginários de seus dez primeiros anos de idade.

Um desvario só.

Esse romance realmente surrealista contém o que PCO ditara sobre sua vida.
Scognamiglio que nada entende de doutrina, publicou os fatos da vida de Plínio com
abundante “molho” de textos doutrinais ditados por PCO, mas esparramados, sem
qualquer ordem lógica, sobre a “macarronada” dos fatos narrados. Os fatos são incríveis
e os comentarios doutrinários são delirantes.A doutrina exposta –sem ter sido entendida
-- no livro editado pelo Monsenhor chefe dos Arautos é uma delícia para um
pesquisador de heresias. É como caçar cobras em viveiro do Instituto Butantã.

Se os Provectos da TFP publicaram uma bomba doutrinária, expondo a Gnose


do profeta de Higienópolis, Monsenhor Scognamiglio, muito pouco doutrinário, e ralo
entendedor de qualquer coisa, publicou os fatos que ilustram a doutrina de PCO: os
delírios imaginativamente “metafísicos” do Profeta de Higienópolis. Ele pensou que
publicava um livro retumbante.Vai ser literalmente re-tumbante. Pois vai enterrar de
novo Dr. Plínio. E, desta vez, em tumba doutrinal e sem consolação. Sem
consolamentum.

Baseados em todas essas publicações insuspeitas é que pudemos conhecer, bem


melhor, hoje, algumas das doutrinas secretas de Dr. Plínio expostas no MNF e na seita

35
secreta a Sempre Viva. Portanto, hoje é bem possível expor, com coerência e
documentadamente, a doutrina romântica e gnóstica do profeta de Higienópolis e de
Monsenhor Scognamiglio. Gnose seguida particularmente pelos membros da seita
secreta A Sempre Viva, encapsulada na TFP e também nos Arautos do Evangelho, e da
qual Monsenhor Scognamiglio é, hoje, o doutorado Grão Mestre.

Quem diria Scognamiglio Doutor!

Por isso, hoje sim, damos graças a Deus por poder publicar, fundamentados em
fontes da própria TFP e dos Arautos do Evangelho, a doutrina secreta gnóstica de
Plínio Corrêa de Oliveira.E que Deus seja louvado porque Ele confirmou que “Nada há
de oculto que não venha a ser revelado”(S. Lucas, VIII, 17).

36
Introdução

Deixamos claro que durante os trinta anos em que freqüentamos o grupo do


mensário Catolicismo, do qual nasceu a TFP, jamais tivemos acesso às doutrinas
“discretas” – na verdade, secretas, que lá se denominavam “parâmicas” -- que Dr. Plínio
Corrêa de Oliveira ministrava só para certos círculos de seus adeptos. Jamais gozamos
da confiança dele, graças a Deus, o que impediu que, em trinta anos, fôssemos alguma
vez convidados a participar das reuniões do círculo, praticamente secreto, do chamado
MNF.Como o atual Monsenhor -- e Doutor! -- João Scognamiglio Clá Dias bem
expressou, “o Professor Fedeli era o anti Plínio”.Graças a Deus.O que ele via em Plínio,
não havia em nós.E vice versa.

Graças a Deus.Que era o MNF?

A sigla MNF significava “Manifesto”, primeira pessoa do indicativo presente


do verbo “manifestar”, porque era nessas reuniões que PCO (iniciais do nome de Dr.
Plínio, que usaremos para economia de tempo e de espaço, e não por desprezo)
manifestava o que era, isto é, o que ele imaginava que era. E até agora, poucos
imaginam o que ele era.

Para os não iniciados nos grupos secretos de PCO, dizia-se que no MNF estava
se preparando o grande “Manifesto” (substantivo) doutrinário que PCO lançaria, um
dia, contra a Revolução, e contra as forças secretas que a dirigiam…

“Porque a RCR (que não é senão a espinha dorsal de um corpo que tem
cabeça, membros e costelas, que é o MNF) e sobretudo no MNF, se dá o fato
de que toda natureza, todo significado, todo o alcance, todos os métodos da
luta ficam postos muito mais claros” (Plínio Corrêa de Oliveira, Simpósio,
Quem somos nós, n0 4, p. 65. ORIGINAL DO site salvemaria.
http://salvemaria.info/images/fbfiles/files/QSN.doc).

O secretário do MNF — Átila Sinke Guimarães — , escreveu frases que


demonstram claramente o grau de fanatismo, verdadeiramente inacreditável, que
reinava no MNF, e, depois, na TFP, e agora entre os Arautos Evangelho, assim como
entre os membros da sociedade secreta A Sempre Viva. Ei-las:

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“O grande Moisés, com sua sarça ardente no alto do Sinai, não me faz
inveja. Pois se ele ali se relacionou com Deus durante quarenta dias, eu me
relacionei com Dr. Plínio há trinta e três anos. E, em tais relações, vejo
talvez mais a presença divina do que ele ante o sagrado arbusto. E guardo a
esperança de ainda vencer o Profeta nesta tertúlia, quando eu passar do atual
degredo para a Pátria”. (Átila Sinke Guimarães, secretário do MNF, in O
Ultimato – A Defesa, 1998, p. 28).

Essas palavras de Átila Sinke Guimarães patenteiam o orgulho fanático dos


sequazes de Plínio. A sarça ardente é figura da Encarnação do Verbo, da presença da luz
de Deus no seio de Nossa Senhora. É figura da união hipostática: o Verbo de Deus
encarnado em Jesus Cristo. É figura da Igreja, humanamente fraca como a sarça, que se
consome ardente de amor a Deus, na História, enquanto Deus fala por meio dela.Para os
fanáticos da TFP e dos Arautos, Deus estaria mais presente em Plínio que na sarça
ardente. Portanto, Deus estaria mais presente em Plínio do que em Cristo, Deus e
homem; do que me Maria Santíssima; do que na Igreja. Em Plínio, haveria uma
presença de Deus única.

E Átila, diante de Plínio seria mais do que Moisés diante da sarça ardente.

Moisés, diante da sarça ardente, confessa : “Quem sou eu?”

Enquanto que da sarça ardente Deus lhe responde: “Eu sou”.

E acrescenta: “Eu sou aquele que sou”. “Eu serei contigo”.

O Ser necessário estaria com o ser contingente. Porque Moisés, diante da sarça,
tirou as sandálias e tapou o rosto, pois não ousava olhar Deus na sarça. A humildade
alcança a união mística com a misericórdia Onipotente.

Comparar a presença de Deus, na sarça ardente, com a suposta presença divina


em Plínio Corrêa de Oliveira, e dizer que se acreditava ser mais agraciado do que
Moisés, por ver Dr. Plínio, no qual brilharia mais a presença divina do que na sarça
ardente, mostra o grau de delírio a que se chegou nos círculos mais internos da TFP, e
depois nos Arautos, cultuando o pseudo-profeta de Higienópolis quase como Deus.

Deus estaria presente em Plínio de um modo único. Haveria como que uma
identificação de Plínio com Deus. Pois, se Christianus alter Christus, e se ninguém era
tido mais idêntico a Cristo do que Plínio, então em ninguém, nem em Moisés, nem na
sarça ardente, Deus estaria mais presente do que em Plínio.

Plinius alter Christus.

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No encontro de Moisés com Deus que lhe fala desde a sarça ardente, se
contempla a humildade diante da Misericórdia onipotente. A criatura humildemente
prostada diante do Criador onipotente. Culto santo

Lendo as palavras de Átila, descrevendo a ele mesmo diante de Plínio, se vê a


pretensão tresloucada diante da soberba desvairada. Culto de um idólatra diante de um
ídolo.

Pior ainda: Plínio vai dizer que Cristo era seu arqui alter ego.

Se não tivéssemos um documento publicado pelo próprio Mons. Scognamiglio,


dizendo isso, julgar-se-ia que teríamos inventado tal texto:

“Era como se existisse um meu “arqui-alter ego” [arqui outro eu mesmo],


atraentíssimo, porque imensa e infinitamente distante, mas ”inviscerado’
dentro de mim e “brincando” com minha alma como um homem brinca com
uma pedra preciosa” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, Edit.
Retornarei, São Paulo, 2008, 10 Vol., p. 220. Destaques do original).

E esse arqui alter ego de Plínio seria o próprio Jesus Cristo, como Plínio
explicitará nesse livro, ora publicado pelos Provectos da TFP. E no livro publicado por
Monsenhor Scognamiglio se lê a seguinte meditação de Plínio sobre si mesmo, aos dois
a três anos de idade:

“Eu tinha a impressão de que esse alter ego se comprazia em intensificar em


minha alma ora tal atitude, ora tal outra. Ao mesmo tempo, ele me deixava
contemplar essa atitude e parecia dizer-me: “Vê como isso é lindo! E tu, meu
filho, como és pulcro, perfumado, irisado e magnífico, em tua alma! Que
esplendor há em ti! Também que alegrias inefáveis tu sentes! Que bem-estar
superior a qualquer satisfação da terra, sem nenhuma comparação! (Plínio
Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo,
2008, I vol. p. 220).

Portanto, Christus alter Plinius.

Nesse primeiro volume das Notas Autobiográficas de Plínio, no qual se contam


os anos infantis da vida dele, acham-se textos incríveis. E damos graças a Deus pela
imprudência de Monsenhor Scognamiglio, que se sentiu seguríssimo, não temendo
publicar textos que ninguém acreditaria serem autênticos. Se os tivéssemos de outra
fonte, dificilmente se nos creria.

Foi Monsenhor Doutor Scognamiglio que publicou isso, e adquirimos o livro na


livraria dos Arautos do Evangelho em São Paulo!

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Julguem os leitores pelo que publicou Monsenhor Scognamiglio das palavras até
agora secretas de Plínio Corrêa de Oliveira, contando o que ele dizia que pensava de si
mesmo aos três anos de idade.

E que Padre Royo Marin aprovou.

Claro que, já quando estávamos na TFP, nos chegavam alguns rumores do que
se tratava no MNF: chegavam – nos palavras soltas, alusões, uma terminologia
esdrúxula, siglas, termos esotericamente misteriosos...

Porém, foi só depois de romper com PCO, que tivemos acesso a alguns
documentos, nos quais o discípulo predileto de PCO, João Scognamiglio Clá Dias (hoje,
Cônego de Santa Maria Maior, em Roma, e Doutor pelo Angelicum), explicava e
publicava aquilo que na TFP se chamava o “Jour le Jour”, que era a transcrição das fitas
de áudio incessantemente gravadas, durante todo o tempo em que PCO estava acordado,
acrescentada das explicações necessárias para o entendimento dos jovens sobre algumas
circunstâncias.

Quereríamos então conhecer na íntegra os documentos do MNF, que eram


guardados a sete chaves, pelo outro discípulo predileto de PCO, Átila Sinke Guimarães,
pessoa que falsificou textos de nossas cartas a PCO, e que, a própria TFP admite que
Átila tinha o costume de falsificar e deturpar as citações que fazia, sendo por isso
qualificado de “intelectualmente desonesto”. (Cfr Declaração de Nelson Fragelli,
publicada pelo próprio Átila Sinke Guimarães, no documento O Ultimato / A Defesa,
1998, p. 257].

Era praticamente impossível ter acesso aos documentos nos quais PCO revelava
suas doutrinas secretas, expostas quer nas reuniões do MNF, quer nas reuniões da seita
secreta da TFP, A Sempre Viva.

Mas, como está dito no Evangelho, “Não há nada de oculto que não venha a ser
revelado”(São Lucas, VIII, 17)…E no livro de Jó se pode ler que “Deus revela o que
está oculto nas trevas” (Jo, XII, 22).

Dizíamos que quereríamos ver os documentos originais, porque a TFP tinha uma
doutrina esotérica – só para os iniciados— e outra exotérica, para ser publicada para
os... ingênuos.

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Com efeito, que havia duas doutrinas na TFP, ela o confessava num
documento que nos chegou às mãos, no qual, tratando do problema da Missa Nova, do
Vaticano II, e do sede-vacantismo, se afirma que uma é a doutrina da TFP ad intra e
outra a que pode ser exposta ad extra.

Nesse documento, datado do final dos anos noventa, a TFP pretendia contestar
uma Compilação de textos de Dr. Plínio, feita para justificar a adesão de Scognamiglio
à Missa nova e ao Vaticano II, e nele se lia o seguinte:

“Para interpretar devidamente o que os textos da Compilação dizem, é


preciso distinguir aqueles que são destinados ao uso interno do Grupo (que
refletem o que nosso Pai [Plínio Corrêa de Oliveira] achava em seu foro
íntimo – coisa de que podemos dar testemunho todos os que tivemos a graça
de com ele privar), daqueles textos destinados ao uso externo, ou seja, as
explicações a serem dadas a terceiros por razões estratégicas.

“A razão dessa distinção reside no fato de que, nessas explicações, o Senhor


Doutor Plínio sugere, obviamente, dizer a verdade, mas recomenda não dizer
toda a verdade do que nós pensamos a respeito da Missa Nova” (Documento
dos Provectos da TFP a João Scognamiglio sobre a ilicitude de se aceitar a
Missa Nova de Paulo VI, Documento V, de 19 de Março de 1996, p. 64).

Portanto, a TFP confessa que tinha uma doutrina interna que não convinha
revelar aos de fora da seita.

Exemplos: o problema da Missa Nova e a legitimidade ou não dos Papas


conciliares e pós conciliares...

O sedevacantismo? ...

Nesse mesmo documento V dos Provectos, pode-se ler o seguinte:

“Há, sim, uma matéria que é efetivamente opinável entre nós, porque nosso
Pai e Fundador nunca quis tomar posição a respeito dela: até que ponto os
membros da Hierarquia que adotaram os erros do Concílio e favoreceram o
processo de auto demolição da Igreja estão unidos a Ela; e muito
particularmente, o cruciante problema de saber se Papas pós conciliares
teriam perdido o pontificado por terem eventualmente incorrido em heresia e
estas terem se tornado públicas e notórias” (Documento dos Provectos da
TFP a João Scognamiglio sobre a ilicitude de se aceitar a Missa Nova de
Paulo VI, Documento V, de 19 de Março de 1996, p. 63).

Portanto, o tema do sede vacantismo era livre na TFP...

E, enquanto estivemos lá, nunca nos contaram que se debateu isso.

Um segundo documento interessante, já citado em epígrafe, sobre a dupla


linguagem da TFP, assim como a confissão de que havia nela uma sociedade secreta, se

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tem num depoimento publicado num fórum de ex tefepistas argentinos. Nesse fórum,
um extefepista que fora muito ligado a João Scognamiglio e seu auxiliar, J. L. de T.,
conta como o atual Monsenhor Scognamiglio, líder dos Arautos do Evangelho, defendia
a formação de grupos secretos, e o uso de linguagem dupla até nas reuniões da TFP:

“- Formação da Claque (’77)

“JC [O atual Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias], baseado no


princípio dos círculos concêntricos dado por Dom Chautard em seu
magnífico livro “A alma de todo apostolado”, congrega um grupo de
‘fervorosos’, ou como muito bem você classificou em um de seus post, um
grupo de ‘ditadores do bom espírito’. João Clá notificou essa iniciativa a
Zayas, a Kallás, ao Dr. Duca, aos irmãos Joao Carlos e Celso Luis, e a mim,
de que éramos os quidams [ dirigentes] dos grupos dos que tinham sido
selecionados os integrantes do grupinho.

Alguém fez alguma observação sobre essa questão, e JC [Scognamiglio]


respondeu:ol SDP [Senhor Doutor Plínio] está sabendo disso. Ele aprova. A
‘bucha’ [ A Burschenschaft, sociedade secreta brasileira fundada por Júlio
Frank] usa esse método desde os tempos de Moisés (ainda que nessa época
não se chamasse bucha). Ela o usou contra Nosso Senhor, ou os senhores
pensam que aqueles judeus fariseus que acusavam Nosso Senhor diante
de Pilatos nao faziam parte de um grupo organizado? O mesmo se fez na
Revolução Francesa, e daí para foóra. Se a revolução usa, porque nós não?
Sejamos astutos como a serpente…”

O grupinho foi assim oficializado. E começou a atuar. JC [Scognamiglio]


deu no PS [Praesto Sum, êremo da TFP] uma reunião — tipo treinamento —
para mostrar aos entrosados como se podia fazer uma leitura dupla do que se
dizia numa reunião qualquer e como se podia passar uma prancha num
plenário alheio do grupinho. Esclarecendo desse modo, inclusive para os
não entrosados, certas coisas. Que ele por falta de tempo, algumas vezes
devería passar as ‘pranchas’ assim, em plenário.

(http://extfp.mforos.com/1791911/9074334-para-joao-luiz-vidigal/

Palavras de J. L. T. dirigidas a João Luiz Vidigal (carteio via e-mail – fórum


de discussões).

Assim era oficializada a duplicidade de doutrina e de linguagem na TFP, assim


como a formação de grupos secretos, pelo atual Monsenhor João Scognamiglio Clá
Dias.

Da mesma forma, os textos agora publicados pelos “Provectos da TFP”, através


do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, evidentemente foram censurados, para que as
elucubrações mais delirantes de PCO escandalizassem menos. Mas, pelo que se lê no
livro agora publicado, adivinha-se o que está por baixo da ponta revelada do iceberg. O
iceberg se derreterá, revelando a Gnose submersa no mar do esoterismo tefepista.

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Por isso, agora que tivemos acesso a tais documentos, apressamo-nos a publicar
nossa crítica, e nossa denúncia, às exóticas doutrinas da “filosofia” e da “teologia”
“tomista-tropicalista” de PCO, da TFP e dos Arautos do Evangelho.

“Filosofia” delirantemente imaginativa, feita de sonhos e de “impressões”, nunca


de raciocínios.

Plínio enfaticamente se proclamava tomista. Ele era, quando muito, um


imaginativo escolático-romântico- tropicalista.

“Não era ele um filósofo abstrato”, como o definiu a Revista Dr. Plínio na
apresentação do artigo “Solidões em bonde”. (Plínio Corrêa de Oliveira,
artigo “Solidões em bonde...” in Revista Dr. Plínio, Ano VII, Fevereiro de
2004, N0 71, p. 14).

Por sua vez, Scognamiglio, ao se doutorar no Angelicum, modestamente ousou


se apresentar como senhor de uma “firmeza única” em São Tomás (Cfr. Palavras de
Monsenhor Doutor João Scognamiglio Clá Dias,no artigo “O Fundador dos Arautos
Doutor em Direito Canonico” in revista Arautos do Evangelho, Janeiro de 2009, p. 27).

Começaremos, então, pela análise do livro sobre a Inocência Primeva e a


Contemplação Sacral do Universo, que completaremos com outros textos de Plínio
Corrêa de Oliveira, publicados na revista Dr. Plínio, no “Jour le Jour”, isto é, no diário
de Dr. Plínio, que era reproduzido por João Scognamiglio para difundir o culto a Dr.
Plínio entre os fanáticos tefepistas, assim como com as Notas Autobiográficas de Plínio
Corrêa de Oliveira e com textos do romance Dona Lucília, publicado com a assinatura
de João Scognamiglio Clá Dias, quando ainda nem era Padre., mas cujo verdadeiro
autor é quase certo ter sido o próprio Plínio Corrêa de Oliveira, contando a vida de sua
mãe e o que ele imaginava sobre ela.Depois...Depois...

Depois, veremos mais.

Veremos o que Deus permitir.

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No Brasil, a ex TFP está completamente moribunda, vítima de doença
doutrinária terminal. Na Europa, ainda há alguns ingênuos teimosos que fazem força
para se manterem na “firmeza única” de sua ingenuidade, e que insistem em defender
Dr. Plínio e a sua TFP pública, a pretexto de tê-la realmente conhecido… citando suas
publicações oficiais ad extra......Talvez, alguns, sem conhecer suas doutrinas... ad intra.

Ingênuos autores — que tentamos esclarecer várias vezes, porque eram nossos
amigos — fizeram biografias fantasiosas de Dr. Plínio, como a publicada infelizmente
por um velho amigo nosso, o Profesor Roberto de Mattei (Il Crociato del Secolo XX,
Plínio Corrêa de Oliveira, Ed Piemme, Casale Monferrato, 1996), que provavelmene
desconhece ainda hoje, quase tudo da doutrina oculta da TFP.

Obras incrivelmente idílicas e românticas, que pretendem ser históricas, e mais


parecem romances para mocinhas ingênuas. Nessas obras, os dados históricos são
equivalentes aos que se utilizariam na biografia de um político, usando como fontes
seus discursos em comício, e os decretos ou leis que fez aprovar, publicados no Diário
Oficial. Nesse sentido, há obras e artigos sobre PCO que mais parecem folders de
propaganda do que trabalhos feitos com seriedade, pois nada dizem do que ficou
conhecido sobre o culto delirante de Doutor Plínio e da mãe dele, na TFP, e entre os
Arautos, e nada sabem sobre a doutrina “metafísico-imaginativa” do Profeta de
Higienópolis. Antes, negam --ou nem tratam -- que tivesse existido um culto a Dr.
Plínio, mesmo depois que Plínio reconheceu a existência desse culto e tentou até
justificá-lo, editando vários volumes contra nossas acusações (Cfr. Refutação da TFP a
uma Investida Frustra, livro assinado pelos Srs. Átila Sinke Guimarães, Gustavo
António Solimeo, Antonio Augusto Borelli Machado e João Scognamiglio Clá Dias).

Aliás, recomendamos vivamente a leitura desse livro que, pretendendo nos


refutar, confirmou tudo o que acusávamos, ao procurar legitimar o culto delirante que se
prestava secretamente a Dr. Plínio e a Dona Luíilia na TFP, e que antes fora negado até
com juramentos...

O que “não acontecera” passou a ser canônica e teologicamente justificado.

Logo, acontecera.

Os biógrafos de PCO contentam-se em redigir descrições romanticamente


idealizadas, ou fatos notórios e públicos, sem jamais citar as doutrinas ocultas ensinadas

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ad intra, por trás dos bastidores da ex TFP. Esperamos em Deus que, com esta nossa
publicação, Deus faça esses paladinos de PCO, reverem seu julgamento sobre ele.

Entre os Arautos do Evangelho, o agora Monsenhor Scognamiglio continuou a


difundir, no que continua vivo e secreto da seita A Sempre Viva, as doutrinas
românticamente descabeladas do MNF.

É, pois, também para abrir os olhos de muitos iludidos ad extra pelos Arautos
que publicamos nossas análise e denúncia, revelando a Gnose romântica que embebeu a
TFP e ainda embebe — “discretamente”, para o Vaticano não ficar sabendo —, os
atuais Arautos do Evangelho, ou Arautos da Sempre Viva.

Tão discretamente que Monsenhor Scogamiglio ganhou recentemente até uma


rica condecoração vaticana.

E até o título de Doutor pelo Angelicum! Ele que nos seus sermões diz que o
homem tem cinco e até sete naturezas, inclusive natureza angélica e divina!!!

Com louvores de sua Eminência o Cardeal Law.Mas não há nada de oculto que
não venha a ser revelado.

Deus o disse.

Direi o que sei.

Na hora oportuna...

Por fim, nosso livro serve também para desmentir –se ainda preciso fosse—
aqueles que acusam a Montfort de ser uma TFP disfarçada, esquecendo
que praticamente tudo o que se soube dos cultos e doutrinas secretas da TFP tornaram-
se sabidos por nossas denúncias e descobertas. Queira Deus que este nosso livro seja o
golpe final no desmascaramento da seita gnóstico- romântica da TFP e dos Arautos do
Evangelho.

Assim Deus nos ajude a servir a Santa Igreja Católica Apostólica Romana,
livrando-a dessa seita infiltrada, com Scognamiglio, até no Vaticano

São Paulo, no mais que chuvoso Janeiro de 2010, e depois do terremoto do Haiti.

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Orlando Fedeli

Capítulo I
Confissões na Apresentação ao Leitor “O relativista só tem impressões” (Plínio
Corrêa de Oliveira, A Inocência…, p. 137).

O livro A inocência primeva e a contemplação sacral do universo, é a


reprodução de reuniões gravadas de PCO, adaptadas para publicação em livro por uma
Comissão de Redação formada por Paulo Corrêa de Brito Filho (Coordenador), Leo
Daniele (Relator), Antônio Augusto Borelli Machado (Revisor) e José Antonio Ureta
(Pesquisador), todos — exceto A. A. Borelli Machado — membros da seita secreta A
Sempre Viva.

Na apresentação da obra “Ao Leitor”, Paulo Corrêa de Brito Filho, na Sempre


Viva, escravo Plínio Jeremias, faz algumas considerações e confissões que convém
destacar.

Uma, que nos parece das mais importantes é esta, que citamos em primeiro
lugar:

Este conjunto inédito (…) seria comparável a um cabochon, ou seja, uma


pedra preciosa polida, não facetada, não lapidada inteiramente porém com
forma regular. (…) É o que sucede precisamente com esses diálogos
plinianos, não inteiramente “lapidados” na forma — em razão de sua própria
natureza — mas densos de luz em sua substância. Os que agora são aqui
estampados, mesmo não tendo sido revistos por ele – e, portanto, não
carreando sua plena responsabilidade intelectual – certamente surpreenderão
a não poucos, por se tratar de um pensamento notavelmente claro, profundo,
e, em muitos pontos, novo e original. (...) Feitas essas ressalvas, estamos
convictos de que, embora não tenha sido escrita por ele, no sentido acima
explicado, esta obra exprime fielmente – tanto quanto nos é possível
captar—o pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira. (Paulo Corrêa de Brito
Filho, Ao leitor, apresentação do livro A inocência primeva e a
contemplação sacral do universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira,
Artpress, São Paulo, 2008, p. 18).

Portanto, admite-se que nesse livro está fielmente expresso o pensamento de Dr.
Plínio, embora se procure livrar “a sua plena responsabilidade intelectual”. Fielmente.

Mas não completamente.

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As fontes utilizadas na preparação desta obra não são constituídas por textos
escritos ou ditados pelo próprio autor, e sim transcrições das fitas gravadas
de conferências, discursos, conversas ou reuniões (op.cit. p.13).

Nessa mesma apresentação “Ao Leitor”, Paulo C. de Brito Filho faz importantes
afirmações para se aquilatar o valor de Plínio como “pensador”:

Afirma-se ai, que Plínio “era um homem de cultura vastíssima, porém não
livresca. Dotado de incomum capacidade de penetração psicológica e senso de
observação da vida” (p. 9).

“Não livresca”, é uma expressão jeitosa para escusar as poucas leituras sérias de
Plínio. E da objetividade desses elogios, veremos provas mais tarde.

Logo na segunda página de sua apresentação, Paulo Brito nos dá uma prova da
“seriedade” desse livro e da “seriedade” dos admiradores do pensamento de Plínio:

Se [ele, Plínio] chegou a ser grande batalhador, foi porque, antes de tudo, e
desde a infância, tornou-se um contemplativo. Não um místico voltado
sobretudo para os horizontes do estritamente sobrenatural ou da mística nem
um sonhador romântico mergulhado em si mesmo, mas um profundo
observador do mundo, analisado e saboreado em sua realidade concreta, e
depois utilizado como trampolim para subir até realidades superiores (p.
10. O destaque é nosso).

Portanto, um místico não voltado para o sobrenatural… Um místico não voltado


para… a mística…

Nem ele teria sido “um sonhador romântico mergulhado em si mesmo”. Ora,
no livro Inocência Primeva, e em suas Notas Autobiográficas, Plínio afirmará inúmeras
vezes que ele não aprendera em livros, e sim examinando a si mesmo, explicitando seu
saber inato, voltado sempre sobre si mesmo.

Portanto, ele, segundo a própria conceituação dos Provectos, era romântico


mesmo.

E ele foi um observador que não aceitava o mundo tal qual era, mas querendo
corrigir o mundo, e não sendo possível fazer isso, fugia da realidade através do sonho.

A partir disto, nasceu uma crítica ao mundo real em torno do qual eu


estava — uma crítica do mundo visto fora do fundo de garrafa, aquém
do fundo de garrafa — e esse mundo eu o via com algumas coisas muito
belas e que não eram indignas de estar postas em relação com o fundo de
garrafa e, por outro lado, com coisas muito reprováveis, despiciendas,
erradas e tortas. De onde uma idéia de e que ele deveria ser corrigido e de
que se todos os homens — sempre a idéia seguinte: eu sou igual a todos os

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homens, logo todos os homens são iguais a mim — em cujas cabeças há a
mesma coisa que há na minha, se eles tivessem a limpeza de alma de fazer
essa operação que eu faço, eles todos puxariam junto comigo as coisas para
uma linha onde elas não estão, e eles seriam de um modo como eles não são.

“Eu sentia que o impulso de minha vida era fazer isso” (Plínio Corrêa de
Oliveira, O Reino de Maria na alma do Senhor Doutor Plínio: “Minha Biografia
Íntima”, Sagrado Coração de Jesus –XXIX—Curso de Formação São Bento-Praesto
Sum—Saúde, p.11. Os destaques são nossos. Esse mesmo texto, com ligeiras
modificações, está também na obra Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,
Editora Retornarei, São Paulo, 2008, pp. 452-453).

Todo sonhador quer corrigir o mundo real.

Toda Gnose começa por desprezar o mundo real, tal como existe, desejando uma
super realidade idealizada. O que leva a condenar a criação e o Deus Criador.

O romântico Plínio não escapou desse processo.

A segunda citação, falando da Belle Époque, é a seguinte: “As riquezas do


espírito, as arquetipias, as maravilhas que nos dariam vontade de fugir da terra para
pensar só nelas, tudo começava a ser posto de lado [na Belle Époque]” (Plínio Corrêa de
Oliveira, artigo O Transatlântico e o Cais, in Revista “Dr. Plínio”, N0 65, p.28. O
destaque é nosso).

Por enquanto, notemos essas contradições flagrantes. Depois teremos as provas


da falsidade de cada uma das afirmações contidas nessa frase de Paulo Brito, o escravo
Plínio Jeremias da Sempre Viva.

E, para começar, a inverdade que colocamos em destaque, nessa citação. PCO


foi exatamente isso: “um sonhador romântico mergulhado em si mesmo”, detestando a
realidade concreta, vivendo num mundo imaginário, que ele fantasiou como se fosse
uma realidade superior: o mundo mítico da “Trans-esfera”, uma coisa inexistente, que
ele imaginou existir nos “possíveis de Deus. Um ens imaginationis… Uma supra
realidade inexistente, na qual Plínio pretendia viver habitualmente.

Veremos isso com textos dados pelo próprio Dr. Plínio.

Ainda na apresentação ao leitor, Paulo Brito previne que:

Há várias maneiras de refletir. Há quem pense pensando, e há quem pense


escrevendo: o que é inteiramente legítimo. Aristóteles pensava andando.

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Plínio Corrêa de Oliveira pensava conversando (Paulo Corrêa de Brito Filho,
Ao Leitor, ob cit. p, 14).

O que coloca Dr. Plínio, — sentado —, ao lado de Aristóteles, andando, em


torno de sua poltrona. “Ambos”, pensando. Um andando. Outro sentado.

Conversando.

Dr. Plínio se afirmava um “causeur” — um bom conversador — que “não diz


sempre o que deseja, mas escolhe como assunto de preferência o que seus interlocutores
gostariam de ouvir ou de perguntar naquela ocasião concreta. Assim especialmente em
temas teológicos e filosóficos, uma prosa não tem — nem poderia ter — a precisão
terminológica, a ordem lógica, a preocupação didática de uma aula, de uma conferência,
de um livro ou de um tratado. Essa particularidade deve ser levada em consideração”.
(Op. cit., p. 16).

Portanto, nesse livro de Dr. Plínio, não se espante o leitor se encontrar páginas
“sem precisão terminológica, sem ordem lógica”. Ele, o leitor, já foi prevenido dessas
“qualidades” do bom “conversador” que era Dr. Plínio.

Conversador...

Nessas conversas, Plínio participava “sem preparação prévia especial. Mesmo


suas conferências e reuniões raramente eram preparadas com antecedência”.(...) “As
conversas, muitas vezes à bâtons rompus (isto é, descontínuas, sem sequência, segundo
a apetência dos participantes) não obedecendo a nenhum tipo de planejamento”. ((Paulo
Corrêa de Brito Filho, Ao Leitor, op. cit p. 16).

Portanto, Plínio não estudava, não preparava o que ia expor. Só explicitava o que
já tinha implícito em sua mente, sem ter estudado o assunto. Tirava tudo o que dizia de
si mesmo. Por isso não citava autores. E se orgulhava de não ter jamais lido o que
afirmava.

Veja-se mais abaixo a conversa que ele diz ter tido, com um grande historiador
europeu sobre o feudalismo.

O próprio Dr. Plínio contava — julgando estar afirmado uma coisa decisiva e
admirável — que tirava de sua própria cabeça os fatos históricos que narrava, sem
jamais tê-los lido:

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Há alguns anos, fui almoçar com um grande medievalista francês, escritor de
vários livros e com obras laureadas. Eu não havia lido nem a terça parte do
que ele lera sobre a Idade Média. Contudo, no meio de nossa conversa, após
eu ter feito alguns comentários sobre coisas medievais, ele me disse: ”Caro
amigo! O senhor precisa indicar-me sua bibliografia. De onde o senhor tirou
essas observações? ”Quase respondi: li a minha própria cabeça (Plínio
Corrêa de Oliveira, in Revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Março de 2001, N° 36,
p. 28. O destaque é nosso).

Quer dizer, PCO inventava o que dizia ser história real. Porque para ele, a lenda
valia mais que os fatos (cfr. op. cit., p. 183). E lenda era o que ele imaginava ter
acontecido ou que ele queria que tivesse acontecido.

Portanto, ele foi um “pensador voltado sobre si mesmo”. Um romântico.

Na realidade, veremos com textos dele mesmo, Plínio julgava que o


conhecimento era inato no homem. Haveria, no homem, matrizes dos seres na perfeição
nas quais Deus os quisera. O conhecimento não viria do exterior ao homem, através dos
sentidos e por abstração intelectual. Plínio confrontava o que via com a matriz interior
que ele imaginava ter das coisas. Para ele, como para o gnóstico idealismo alemão, o
conhecimento era imanente ao homem. Por isso ele não estudava. Lia em si mesmo, e
não em livros. E ele se dizia tomista. Na verdade era um idealista romântico.

Ainda na sua apresentação “Ao Leitor”, Paulo Brito pontifica, citando Plínio: “A
seriedade não deve conduzir à fantasia sentimental: é preciso ver a realidade como ela
é” (Op. cit., p. 11).

Para Plínio, portanto, só seria sério querer ver a realidade tal qual ela é.

Ora, o livro de Plínio Corrêa de Oliveira que analisamos mostra que ele fazia, e
recomendava fazer, exatamente o oposto disso: imaginar uma supra realidade
inexistente, na qual Plínio convidava seus sectários a viver. Imaginativamente.

Tal era a seriedade histórica de Plínio.

Capítulo II - A Inocência Primeva


Esse livro de Dr. Plínio tem duas partes: na primeira, se apresenta o que seria a
“Inocência Primeva”, na qual todos os homens teriam sido criados; na segunda, trata-
se do que ele considerava a ordem “sacral” do universo, e especialmente o que chamava
de “trans-esfera”, uma espécie de “país das maravilhas”, ou de Neverland, à la Michael
Jackson, por onde Plínio “viajava” através de sonhos delirantes.

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Mesmo sem usar o espelho de Alice.

Veremos entretanto que, como no espelho de Alice, por trás do imaginário


ridículo, a Trans-esfera de Plínio era um mundo equivalente ao pléroma divino da
Gnose. O ridículo estapafúrdio e infantil esconde um sistema gnóstico teologicamente
muito mais sério. Vejamos, então, a primeira parte desse livro, onde se expõe por meio
de monólogos de Dr. Plínio, a surpreendente doutrina da “Inocência Primeva”, que ele
esposava e defendia.

1- Como Ter Felicidade neste Mundo


A primeira surpresa vem logo no título do primeiro capítulo: “As vias falsas e o
verdadeiro caminho para alcançar a felicidade - Quatro pistas para alcançar a
felicidade”.

Parece título de livro de auto-ajuda, feito para americanos mascadores de


chicletes.

Certamente, o autor, dizendo-se católico, pensar-se-ia que ele estaria aludindo à


conquista da felicidade eterna.

Qual nada!

O autor só trata de como ele julgava que se poderia ser feliz neste mundo
mesmo. Nesse capítulo, não há referência nenhuma ao sobrenatural.

Plínio quer mostrar que, nesta vida, a felicidade não se alcança com o ter
dinheiro, com o ter poder, nem no fazer, nem no saber. A felicidade, neste mundo, se
alcançaria “sendo”.

Sendo o quê?

“Sendo autêntico”.

“Cada um deve ser autêntico”.

“É preciso escolher entre a sua autenticidade, ou ser sua própria caricatura.


Assim quem tende para a verdadeira felicidade — para a felicidade possível nesta
terra— é ‘o homem que é”, e não o “que sabe”, o “que pode”, “que faz”, ou “que tem”
(Op. cit., p. 27. O destaque é nosso).

Note-se: felicidade “nesta terra”.

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Nosso Senhor nos ensinou que o homem que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á,
e que devemos negar-nos a nós mesmos, tomar a nossa cruz, e segui-Lo.

É bem interessante e sintomático que Dr. Plínio inicie sua exposição sobre a
Inocência Primeva como meio de alcançar a felicidade “nesta terra”. Isto porque essa
preocupação com a felicidade através do sonho, já nesta terra, e a tentativa de vencer o
mal do mundo, eram típicas do Romantismo:

Tendo presente que todo o Romantismo nasce de uma consciência de


infelicidade e do desejo de superá-la, compreende-se como seja romântica
também aquela atitude titânica, que tem os seus representantes máximos
entre os poetas ingleses (Byron e Shelley) e que, prosseguindo,
intensificando-se e transvalidando o ativismo humanístico e terrestre do
iluminismo, se rebela contra o mal do mundo, condena a inércia ou a
impotência divina diante dos sofrimentos do homem, e luta para constituir
um novo mundo de seres livres autônomos, felizes (Mario Puppo, Il
Romanticismo, ed. Studium, Roma, 1973, p. 21).

Dr. Plínio condenava o mundo concreto, e buscava fugir dele por meio da
recuperação de uma imaginária inocência primeva, que permitiria alcançar uma
felicidade edênica, através do sonho, numa super realidade “Trans-esférica”.Uma super
realidade que se atingiria através do imaginar um mundo inexistente-existente, que
Plínio chama de “os possíveis, em Deus”.

Sonho, desejo e pretensão eram típicos do Romantismo:

O mito da Idade de Ouro, da harmonia primitiva que seria preciso


reencontrar, de uma fratura que é preciso fechar, domina todo o romantismo
alemão (Mario Puppo, Il Romanticismo, ed. Studium, Roma1973, p. 27).

Como domina também todo o pensamento — perdão — toda a imaginação de


Dr. Plínio.

Vimos, então, que para ele a fórmula que resumiria a solução para se obter
felicidade nesta terra seria ”ser autêntico”.

Ora, alguém que é mau, assumindo abertamente sua maldade, também se pode
dizer autêntico. “Ser autêntico” foi uma fórmula posta em voga pelo existencialismo,
mas assumida por Plínio.

Porém, ser autêntico, no Romantismo, coexistia dialeticamente —


contraditoriamente — com o desejo de ser o “outro”. Ora, também em Dr. Plínio
sempre houve o sonho de ser autêntico, o comprazimento de ser Plínio, e, ao mesmo
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tempo, dialeticamente, o sonho e o desejo de ser o “outro”. Daí, seu gosto pelas
fantasias carnavalescas. Dai, seu desejo de ser “outro” que não ele mesmo. Ele sonhava
ser urubu, ser marquês de Versailles, ser uma safira, um rio, etc.

Veremos adiante os textos em que relata essas aspirações delirantes. Pois os


textos dele contando tudo isso existem. Garantimos, com os textos bem guardados dele,
que ele sonhou ser urubu.

Não acreditam?

Pois lerão.

Scognamiglio publicou isso.

Ser autêntico, para Plínio C. de Oliveira seria manter o que ele chamava de
“inocência primeva”, que ele descrevia romanticamente, dando como prova da
existência dela a poesia Meus oito anos, do romântico Casimiro de Abreu:

Oh! Que saudades que eu tenho

Da aurora de minha vida.

De minha infância querida,

que os anos não trazem mais

É incrível que um homem que se apresenta como “varão todo católico” (op.cit.,
p. 16), cite uma poesia rosicler como essa, uma poesia “água com açúcar”, como se
fosse o espelho imaculado da verdade, e não apenas edulcorado romantismo. Aliás,
Plínio usa e abusa de expressões e termos tipicamente românticos: “ter ideais”,
“sonhar”, “idealismo”, “imaginar”, ”ter nostalgia”, “ter saudades”, “ter impressão”, “ter
vivências”, etc. Fala de “uma espécie de nostalgia de nosso tempo de menino, um tanto
parecida com a de um paraíso perdido” (p. 30). Nem é preciso dizer como essa idéia de
retorno e saudade da infância é comum entre os românticos. Casimiro de Abreu, entre
nós, e Clemens Brentano, na Alemanha, com seu paraíso imaginário do Vadutz são
provas disso.

Dr. Plínio tinha como tema central a “inocência primeva”. Uma inocência, um
estado em que todos teriam sido concebidos, “perdido” (no sentido de “smarrito”, não
encontrado) por falta de adesão, pela maioria dos homens, mas que, de algum modo, e
contraditoriamente, existiria, ainda que perdido, na alma de cada um.

53
Ora, esse também foi tema típico dos românticos.

O grande sonho dos românticos é a inocência, a segunda inocência que


englobe ao mesmo tempo todo o caminho percorrido através da cultura, isto
é, uma inocência que não seria mais a primitiva, a do jardim do Éden, mas
uma inocência sábia. É a famosa criança irônica de Novalis, um dos grandes
símbolos do movimento romântico. (Anatol Rosenfeld, Romantismo e
classicismo, in J. Guinsburg, O Romantismo, Ed Perspectiva, São Paulo,
1978, p. 274).

Se o mundo foi uma criação do espírito, este deve se reencontrar no mundo.


De onde a busca e a descoberta de uma infinidade de analogias entre o
homem e a natureza, a matéria e o espírito. Também a natureza teria uma
alma e uma história: ela não é muda, mas fala a quem saiba compreender a
sua linguagem. Nos tempos antigos, animais e árvores, e as rochas falavam
com os homens e assim deveria ser de novo. Todo fenômeno e todo ser
natural é um símbolo que é preciso entender, uma palavra que é preciso
saber compreender: ‘as plantas são a linguagem mais imediatas do solo” e as
nuvens talvez sejam a expressão de uma infância perdida (Mario Puppo, Il
Romanticismo, Ed Studium, Roma, 1973, p. 35. O destaque é nosso).

Portanto, nesse livro que focalizamos hoje, Plínio trata exatamente de um tema
essencialmente romântico: a inocência primeva.
Essa relação essencial entre romantismo e inocência da criança é lugar comum
do romantismo, e é citada normalmente pelos melhores analistas da mentalidade
romântica.

Maxime Alexandre afirma que “a nostalgia do paraíso perdido, paraíso que


entrevemos na infância, é um dos temas dominantes” [do Romantismo] (Maxime
Alexandre, Romantiques Allemands, Gallimard, Aubier, Donoël, Stock, Éditeurs
français réunis, Paris, 1963, 2 volumes, Introduction, p. XXIV).

Também Marcel Brion liga a noção romântica da Idade de Ouro e do paraíso


perdido à infância:

A conseqüência a mais preciosa desse retorno ao centro é então a


reconquista da idade de ouro da qual tanto fala Novalis no Ofterdingen
[Heinrich Ofeterdingen, obra iniciática de Novalis]. Privilégio da infância (lá
onde há infância, há idade de ouro”) esse estado resulta também da tomada
de posse intuitiva da natureza por “homens pueris” (Marcel Brion,
L’Allemagne Romantique, ed. Cit. 10 volume, p.64).

E “homens pueris” significa homens que guardaram o estado de alma infantil, a


inocência primeva, da qual fala PCO.

54
2 – A Inocência Primeva, segundo PCO, escamoteia — nega - o pecado original
Plínio apresenta uma visão da criança completamente contrária ao que dizem a
doutrina católica e a evidência.

A doutrina católica afirma que a criança é concebida com o pecado original.

Adão foi criado por Deus em estado de inocência e santidade. Mas, quando
pecou, contaminou a natureza humana. Todos os homens, exceto a Virgem Maria, são
concebidos no pecado original. Todos somos concebidos com uma desordem em nosso
ser: a inteligência tende ao erro e não à verdade; a vontade tende ao mal e é rebelde ao
que a inteligência lhe aponta como certo; e a sensibilidade é desordenada. Por sua vez,
nosso corpo é rebelde à alma, à qual ele deveria obedecer. No ser humano, se constata
uma desordem misteriosa, que a Igreja mostra ser conseqüência do pecado de Adão: o
pecado original, no qual todos os homens, exceto a Virgem Maria, foram concebidos.

Por isso, São Paulo disse: “Efetivamente, a carne tem desejos contrários ao
espírito, e o espírito desejos contrários à carne” (Gal. V, 17). E ainda: “vejo nos meus
membros outra lei que se opõe à lei de meu espírito”(Rom. VII, 23).

Ensina ainda a Igreja, que pelo Batismo é redimida a culpa do pecado original,
cujas conseqüências, no entanto, permanecem no ser humano, que nasce sujeito à morte,
à doença e a muitas desordens em sua alma e em seu corpo. Por isso, diz o Salmo: “Eis
que fui concebido em iniquidades, e minha mãe me concebeu no pecado”(Sl. L, 7).

Dr. Plínio, na primeira parte do livro, ao tratar do que ele chama de “Inocência
primeva” de todos os homens, não fala do pecado original. Só uma vez é apenas citada,
e “en passant”, a expressão “pecado original”. Na segunda parte do livro, ele afirma –
só uma vez -- que o pecado original causou ruínas na alma humana (p. 69). Fica a
suspeita que nem tudo o que ele pensava sobre o pecado original foi publicado no livro
que agora focalizamos. Tanto mais que, noutro livro publicado pelos chamados
“Provectos” da ex TFP, se pode ler o seguinte:

Havendo inocência numa pessoa, e a fortiori se ela recebeu o Batismo, há


uma preservação, um desenvolvimento do senso do ser, que faz com que,
olhando para determinada coisa, ela imagine como seria essa coisa se fosse
ainda mais excelente. (PCO, Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de
Oliveira, in O Universo é uma Catedral, excertos do pensamento de Plínio
Corrêa de Oliveira, recolhidos por Leo Daniele, edições Brasil de Amanhã,
São Paulo, 1997, p. 229. O sublinhado é do autor. Os negritos são nossos.).

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Na frase acima citada, fala-se de modo indefinido e condicional: “Havendo
inocência numa pessoa”... O que significa que alguns poderiam não tê-la, ou que, a
tendo possuído, perderam-na. Mais adiante ver-se-á que, segundo PCO, todos os
homens a têm e que nem o pecado faz perdê-la. Segundo PCO, poder-se-ia perdê-la, no
sentido de ignorar onde ela está.

Está escrito também que o Batismo reforça o que já existiria no homem


inocente. Logo, a inocência existiria, (pelo menos em certos homens ?), mesmo sem o
Batismo. Portanto, a inocência já existiria num homem ainda que com o pecado
original. E supor isso seria herético.

É importante destacar que Plínio insinua, deixa vago, reforça uma idéia
insinuada, afirma depois claramente o que antes insinuou, torna a insinuar vagamente,
num vai e vem enganador, que foi método típico dos modernistas, que afirmam numa
página o que negarão na seguinte, e depois, voltarão a explicitar o que fora antes negado
ou só insinuado.

Note-se ainda que Plínio afirma que a inocência primeva, que existiria nos
homens, reforçaria neles “o senso do ser”, o que faria a pessoa inocente “imaginar”
esses mesmos seres de modo mais excelente. Ora, se houvesse um aumento do sentido
do ser a faculdade favorecida seria a inteligência e não a imaginação. Para PCO, a
inocência primeva desenvolveria um imaginativo senso do ser.

Que significa esse “senso do ser” dado com a inocência primeva?

Nasceria o homem já com um conhecimento inato? Seria por isso que Plínio
recusava os livros e queria “tirar tudo de sua própria cabeça”? Seria por isso que Plínio
dizia que não estudava, mas explicitava o que já sabia, o que já estava em seu intelecto?

Seria esse senso do ser que daria ao homem possuidor dele e com adesão à
Inocência Primeva conservar-se “aberto a todas as formas de retidão e de maravilhoso”
(Plínio Correa de Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo,
ed. cit., p. 35).

Plínio acreditava ser um desses homens inocentes mesmo antes do Batismo.

Ainda em O Universo é uma Catedral, na página seguinte àquela em que aparece


a frase heterodoxa acima analisada, há uma foto — evidentemente sugerindo-se que foi
o que aconteceu com Dr. Plínio quando era menino, — foto de um menino, tendo um

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balão de gás acima de sua cabeça, “imaginando” uma torre mais ao longe, e a legenda:
“E assim se encaminha para imaginar uma trans-esfera” (O Universo é uma Catedral,
excertos do pensamento de PCO, por Leo Daniele, Ed. Brasil de Amanhã, São Paulo,
1997, p. 230).

Imaginar uma Trans-esfera...?

E Dr. Plínio fala como se o homem fosse, ainda hoje, como Adão que “saiu
inocente das mãos de Deus”. Tanto que ele intitula o capítulo dois desse livro
“Inocência primeva, estado de harmonia com que a alma saiu das mãos de Deus” (p.
35).

E isso é uma doutrina com sabor de erro, pois não explicita que só Adão, Eva, e
a Virgem Maria “saíram” inocentes das mãos de Deus, sem o pecado original. Como
também não explicita que a inocência primeva foi perdida por Adão ao cometer o
pecado original. Dizendo que outros seres humanos “saíram” inocentes das mãos de
Deus, afirma algo que é avesso à doutrina católica.

Ao editarem esse livro, contendo alguns textos das reuniões “discretas” de Dr.
Plínio, os membros da ex TFP deram, agora, publicamente, pelo menos algumas provas
da doutrina heterodoxa que Plínio revelava, nas reuniões praticamente secretas, que ele
dava só para alguns de seus sequazes, no que ele chamava de MNF.

Nessas reuniões do MNF, era que Plínio manifestava realmente “ad intra” do
grupo da TFP,o que ele era: o homem que se acreditava o “Inocente”, como Adão ao ser
criado por Deus, sem o pecado original, ou, pelo menos, o homem que recuperara
plenamente a inocência primeva, a inocência de Adão no Éden.

Entretanto, embora Plínio se afirmasse “o” Inocente, dizia também que não se
considerava o único com essa qualidade. Para ele, era o homem que saía inocente das
mãos de Deus:

Inocente é o homem de todas as idades que adere àquele estado de espírito


primevo de equilíbrio e de temperança com que o homem foi criado, e por
isso conserva-se aberto a todas as formas de retidão e de maravilhoso (Plínio
Correa de Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do
Universo, p. 35).

Nessa conceituação do “homem inocente”, há vários pontos a destacar.

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Em primeiro lugar, afirma-se que a inocência primeva é um estado de equilíbrio
e de temperança existente inata no homem – “de todas as idades” -- atual. E isso é um
absurdo que contraria a evidência e a doutrina católica.

Em segundo lugar, diz-se vaga e indefinidamente, que o homem foi criado nesse
estado.

Em terceiro lugar, por fim, se afirma que todo homem, de todas as idades, pode
aderir a esse estado.

De todas as idades de sua vida, ou de todas as épocas?

De qualquer modo, que se entenda a palavra “idades” aí usada, tem que se


concluir que todos os homens saem das mãos de Deus em estado de inocência.

Mais, a posse desse estado de inocência, com o qual todos nasceriam, exigiria
porém uma adesão pessoal a ele. Seria também uma questão de escolha, de opção
individual, fruto de uma adesão voluntária.

Logo, para Plínio Corrêa de Oliveira, os homens todos estariam divididos em


dois grupos:

1. Os que possuem a inocência primeva e a ela aderem; são os que têm alma
harmoniosa. Nestas pessoas, sendo elas batizadas, o Batismo reforçaria a sua inocência.
Ora, o Batismo não devolve a inocência primeva de Adão ao batizado, como também
não elimina as conseqüências do pecado original, uma delas a perda do estado de
inocência em que Adão foi criado.

Portanto, essa doutrina de Plínio contraria a fé.

Estes inocentes – possuidores da Inocência Primeva, os possuidores do


misterioso thau de que falavam Plínio e a TFP – seriam aqueles que Plínio chamava de
contra-revolucionários.

2. Os que não aderem à inocência primeva, que não estão na posse ativa desse
estado de harmonia de alma. E porque não aderem a ela, têm as faculdades desregradas,
são egoístas, e têm uma alma cujas potências lutam entre si. Estes são os que PCO
chama de revolucionários. Somente tais pessoas seriam dominadas por paixões
desregradas. A essas pessoas, o Batismo não é capaz de lhes restituir, ou de reforçar, a
inocência.

58
O erro, ainda que vagamente insinuado a princípio, de que todos os homens,
ainda hoje, saem das mãos de Deus, isto é, são concebidos em estado de inocência, ou
pelo menos na sua primeira infância possuem esse estado de inocência, vai sendo
explicitado por Plínio.

Veja-se a prova disso nesta outra afirmação dele:

“A inocência é, portanto, uma forma de aliança com Deus que todas as almas
tiveram em sua primeira infância” (Op cit., p. 39. O destaque é nosso).

Note-se: “todas as almas” teriam tido uma aliança com Deus na primeira
infância.

Por outro lado, no subtítulo 2 da página 35 do mesmo livro define-se:

“Inocência é a harmonia de todas as potências da alma entre si” (Plínio


Corrêa de Oliveira, Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, ed.
Cit.sub título 2, p. 35. O destaque é nosso).

Também isso vai contra a fé católica, que nos ensina que, por causa do pecado
original, todas as potências de nossa alma estão desregradas: a inteligência tende para o
erro, a vontade tende para o pecado e é revoltada contra a inteligência, e a sensibilidade
é desgovernada e tende a não seguir o que lhe mostra a inteligência e o que lhe manda a
vontade. Na alma humana, depois do pecado original, reina a desarmonia. Isso é o que
ensina a Fé católica. E PCO diz o contrário. Logo, PCO deixou de ser católico pois
ensinava “discretamente” uma doutrina heterodoxa.

Plínio, como Rousseau, acaba por afirmar que o homem tem uma natureza boa,
sem inclinação ao mal; que na alma humana atualmente, na primeira infância pelo
menos, há harmonia entre as faculdades humanas; que essas faculdades não tendem
nem para o erro e nem para o mal; e que a alma domina naturalmente o corpo e seus
instintos.

Portanto, PCO negava os efeitos do pecado original no homem ou, pelo menos,
nos homens que tivessem aderido ao estado de inocência primeva de sua primeira
infância.

Se todas as almas têm essa aliança com Deus (p.39), se todas as almas possuem
essa “inocência primeva”, se “a alma saiu das mãos de Deus”, “em estado de harmonia”
(p. 35), não se compreende porque o Batismo seria absolutamente necessário para a

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salvação. Não se compreende porque a Igreja ensina que todo homem nasce no pecado
original, e com tendência ao erro e ao pecado. Mais necessária, ou mais importante que
o Batismo, seria a adesão da alma ao estado de harmonia característica da inocência
primeva.

Essa colocação, mudando a doutrina católica do pecado original e suas


conseqüências, acarreta também mudanças profundas nas condições necessárias para a
salvação, o que necessariamente afeta a doutrina da Redenção.

Se fosse verdade o que Plínio diz sobre a inocência primeva, seria preciso mudar
muito na doutrina católica do pecado original e da Redenção. E até ficaria a pergunta se
existe mesmo o pecado original como a Igreja sempre ensinou e se a redenção pela cruz
de Cristo, a adesão às verdades reveladas — a Fé — o batismo, e a obediência aos
mandamentos seriam mesmo necessárias. O que afirma Plínio Corrêa de Oliveira
contraria o que ensina a fé católica sobre o pecado original e suas conseqüências, assim
como toca de modo indireto a absoluta necessidade das condições necessárias de
salvação, tais como o Evangelho e a Igreja sempre ensinaram.

Para PCO, então, todos os homens seriam concebidos e nasceriam inocentes


imaculados? Ou lhes seria dada a inocência primeva na primeira infância? Os textos
dele agora publicados oscilam, ou por incompreensão e ilogicidade dele, ou por tática
que insinua sem dizer, ou explicita e recua, porque não quer dizer claramente. Ou
seriam contradições de quem tem duas doutrinas: uma exotérica, e outra esotérica?

Fizemos referência à ilogicidade de Dr. Plínio, porque, se todos os homens


nascem com inocência primeva e têm perfeita harmonia em sua alma, como poderiam
eles não aderir a essa harmonia? Seria como se os homens, nascendo com capacidade de
respirar, só respirassem de fato se dessem adesão ao respirar. Se todos nascessem
inocentes — incapazes de fazer algo nocivo — como esses inocentes se tornariam
nocivos a si mesmos, não aderindo à sua própria natural harmonia interior?

Plínio poderia argumentar que homem é constituído com livre arbítrio, o que lhe
daria a possibilidade de se prejudicar a si mesmo. Se for assim, fica explicado porque
Plínio falará — veremos isso adiante — em “maldade do livre arbítrio humano” (Cfr.
Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Vítima Expiatória, in revista “Dr. Plínio”, Ano II,
Outubro de 1999, N0 19, p. 26). Ora, uma suposta maldade do livre arbítrio tornaria
absurdo falar em inocência primeva, tal a contradição desses conceitos.

60
Por outro lado, se a inocência primeva é – como diz Plínio – um estado de
harmonia das potências da alma entre si, esse estado seria atuante por si mesmo. Como
então afirma Dr. Plínio que seria preciso dar uma adesão a esse estado para possuí-lo?

Então para manter-se na inocência primeva, o homem teria que ter


conhecimento dela, pois só se pode aderir ao que se conhece.

Essa adesão viria então de um conhecimento interior intuitivo, pessoal, salvífico.


Seria um conhecimento-experiência, salvador que daria o conhecimento superior
inerrante, exatamente como diz a Gnose.

O conceito de inocência primeva inata de Plínio aponta para uma Gnose


tefepista. Veremos se isto se explicita em outros pontos da doutrina “discreta” do
Manifesto.

A estrutura doutrinária montada por Dr. Plínio para defender sua concepção de
homem com inocência primeva é totalmente desengonçada, absurda e estapafúrdia.
Completamente avessa à doutrina católica, uma vez que nega ou a herança do pecado
original ou a permanência dos efeitos do pecado original na natureza humana.

De tudo isso, pode-se concluir que para PCO, se todos os homens nascem com a
inocência primeva, alguns homens, pelo menos, não só sairiam inocentes das mãos de
Deus, isto é, sem o pecado original, mas que estes manteriam essa inocência por adesão
explícita, enquanto em outros ela permanece, como latente, mas não atuante, e não
havendo adesão a ela, o homem seria um ser sem ordem interior. Um homem com
paixões desregradas. Um revolucionário. Daí, que para PCO existissem revolucionários
e contra revolucionários. Uns teriam o que ele chamava de thau. Os outros seriam a
“inimica vis”, os fumaças. Ou, pelo menos, os “sabugos”.

Acreditaria Plínio que ele mesmo não tinha pecado original?

Que, em reuniões mais íntimas, ele se dizia o inocente, e que pretendia ser
imortal, era conhecido e acreditado por muitos na TFP.

Que ele se dizia profeta era bem conhecido.

O atual Monsenhor Scognamiglio, quando era o propagador do culto a Dr. Plínio


e a Dona Lucília na TFP, chegou a dizer que a idéia de que Dr. Plínio não tinha pecado
original ”era uma hipótese muito interessante, mas que precisaria ser demonstrada”.

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Porém, num livro editado pela TFP para circulação interna, se escreveu algo
mais explícito. O livro é o do Professor José Martini, sob o pseudônimo de Frère Élie de
Sainte Marie, e foi intitulado Santo Elias , o Profeta da Aliança (edição mimeografada
pela Editora Vera Cruz, abril de 1972, 278 páginas).

Esse livro usa linguagem extremamente ambígua e quase esotérica. Nele se pode
ler a seguinte frase: “O profeta é como uma sobrevivência ou um ressurgimento na
humanidade decaída, da humanidade tal como Deus a quisera” (p. 101).

“O profeta é aquele em que o povo hebreu reencontra a familiaridade original


com Deus” (Frère Élie de Sainte Marie, Elias, o Profeta da Aliança, ed. Vera Cruz,
São Paulo, 1972, p. 101).

Plínio seria então profeta, inerrante e imortal por ter aderido à inocência primeva
e, desse modo, teria a missão de levar outros a aderirem a esse estado. Esse era o
profetismo de Plínio, mais de condutor ou mistagogo do que o de previsor de fatos
futuros contingentes, segundo ele mesmo dizia.

Note-se: o profeta tem a familiaridade original que Adão tinha com Deus antes
do pecado. E Plínio se dizia profeta inocente. Logo, era natural concluir que ele julgava
que não tinha pecado original. O profeta é o homem sem pecado original, inocente e
imortal. O profeta seria um ressurgimento do homem sem pecado original, tal como
Deus o fizera sair de suas mãos. E Dr. Plínio se julgava profeta e inocente.

Logo...

3 - Conceituação de Inocência primeva segundo PCO


Dessas citações, pode-se extrair a conceituação de Inocência Primeva de Plínio:

Inocência primeva seria o estado primevo, original, em que o homem teria sido
criado por Deus, estado em que todos os homens nasceriam, ou que receberiam em sua
primeira infância, mesmo sem o Batismo, estado que reforçaria no homem o sentido do
ser, e que possibilitaria ao homem estar aberto a tudo o que é reto e maravilhoso.

Mas deixemos o próprio Dr. Plínio conceituar o que ele entende por inocência
primeva:

[Inocência primeva é o estado] pelo qual uma pessoa, desde os primeiros


movimentos de sua existência, tem noção de que ela é. E, de modo
excelente, vai escolhendo as coisas que, por afinidade ou contraste
harmônico em relação a ela, lhe convém para realizar a sua unicidade. Em

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sua caminhada pela vida, nunca cometeu uma falta e sempre visa atingir a
própria perfeição. A inocência assim conceituada se refere à pessoa sem
pecado original (Plínio Corrêa de Oliveira, Seletivo e Harmonia na Alma
Inocente,artigo in Revista “Dr. Plínio”, AnoVIII, Junho de 2006, N0 87, p.
23. Os destaques são nossos).

Que significa, aí, que a inocência da pessoa, através do “senso do ser”, “vai
escolhendo as coisas que, por afinidade ou contraste harmônico em relação a ela, lhe
convém para realizar a sua unicidade”?

Qual o sentido da palavra “unicidade” nessa frase?

Por meio desse misterioso “senso do ser” o inocente iria fazendo uma seleção –
eliminando algo, aceitando o oposto desse algo—afim de atingir a “unicidade”. Seria aí
unicidade sinônimo de unidade?

Claro que não, pois o uno é um transcendental do ser. Ser uno é próprio de todo
ser. Cada coisa é una e jamais busca atingir a sua unidade, que ela já possui.

Portanto “unicidade”, aí, só pode significar que se busca atingir


uma identificação com o Ser num monismo ontológico.

Segundo a doutrina católica e a filosofia tomista, os seres feitos à imagem de


Deus buscam a união com Deus, jamais a unicidade com Deus. Só a Gnose afirma que
os homens, na vida peregrinante no exílio da matéria, devem buscar a unicidade com a
Divindade, rejeitando a matéria, e selecionando nela a partícula divina inviscerada nas
coisas criadas. O Panteísmo, que afirma que tudo é Deus, inclusive a matéria, nada
seleciona, e afirma , sem seleção, o monismo do ser. PCO, na citação acima, dá claro
indício de sua doutrina gnóstica.

Também deve-se ressaltar que nessa citação é afirmado explicitamente, que a


Inocência primeva, na conceituação de Dr. Plínio, implicava na ausência do pecado
original. E Plínio afirmava possuir a ‘inocência primeva”. Pretendia ser “O” inocente.
O que implica em afirmar que ele julgava não ter tido pecado original.

E o pior é que ele afirmou ainda que todos os homens possuem essa inocência
primeva na primeira infância, “quando saíram das mãos de Deus”: “A inocência é,
portanto, uma forma de aliança com Deus que todas as almas tiveram em sua primeira
infância” (Op cit., p. 39. O destaque é nosso).

Mas então, ninguém teria o pecado original?

63
Essa é a conseqüência lógica dessas afirmações de Plínio.

É isso é heresia completa.

Ele afirmou ainda que, quem tem a inocência primeva, tem perfeita harmonia na
alma, sem desordem alguma: “Inocência é a harmonia de todas as potências da alma
entre si” (Plínio Corrêa de Oliveira, Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do
Universo, ed. Cit. p. 35).

Ora, se a inocência primeva for isso, como a Igreja ensina que o pecado original
causou uma desordem na alma humana?

Se PCO está certo em suas divagações “metafísicas” e “teológicas”, dever-se-ia


concluir que a Igreja e a evidência estão erradas, já que essa harmonia não existe na
alma humana.

Depois do pecado original, no qual todos os homens são concebidos, -- exceto


Maria Santíssima – na alma humana reina a desarmonia.

Devemos observar que os textos de Plínio são muitas vezes contraditórios. Ora,
ele dizia uma coisa, depois, ou porque não era sistemático, ou por esquecimento do que
havia dito, ou por malícia para não ser pego em heresia explícita, ele dizia o oposto do
que afirmara.

Veja-se um exemplo concreto:

No livro Notas Autobiográficas, à página 391, Plínio afirma:

Não me lembro de uma só vez em que eu me olhasse no espelho para ver


como estava minha roupa. Nem me passava pela mente a idéia de fazê-lo
(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, p. 391).

Ora, nesse mesmo livro se lê:

Minha irmã e minha prima passaram o dia da Primeira Comunhão em traje


de noiva e eu, com o meu Eton [Uniforme do famoso Colégio inglês desse
nome]. Fui olhar-me no espelho, e fiquei contente por estar com uma roupa
muito tradicional e, ao meu ver, também muito católico (Plínio Corrêa de
Oliveira, Notas Autobiográficas, p. 628. O destaque da contradição de
Plínio é de nossa responsabilidade).

E nas páginas seguintes a essa se lê:

Pensei que as pessoas com quem morava e os parentes que freqüentavam a


minha casa haveriam de achar que eu ficava muito bem com esse Eton e o
elogiariam, tanto mais quanto, na minha ingenuidade, ouvia-os comentar os

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trajes de minha irmã. Eu ainda não compreendia que, normalmente, elogia-se
a roupa feminina e não a dos homens, por serem mais sisudos e sérios, e não
se preocuparem com os trajes como fazem as moças. Essa atitude pareceu-
me estranha e perguntei-me: Será que eu fico em algo estranho, com essa
roupa? Olhei-me no espelho mais uma vez e julguei nada ter de anormal
(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, p. 628 e 630. O destaque
é nosso).

Se numa pequena questão de vaidade—que ele diz própria mais de meninas—


Plínio cai em contradição flagrante, que dirá em coisas mais sérias, como a heresia!

Não fica de todo claro, nos textos publicados no livro em foco, se, para Dr.
Plínio, todo homem teria sido criado nesse estado de inocência, ou se todos teriam
recebido esse estado de harmonia da alma na primeira infância. Entretanto, o mais
lógico seria que todos os homens já nascessem nesse estado de inocência primeva. Não
só Adão teria sido criado assim.

É de se supor que no MNF haja textos que elucidem esse problema, textos que,
sendo diretamente contrários à doutrina católica, foram eliminados do livro publicado
agora pelos Provectos da TFP. Somente um exame completo do MNF permitiria
resolver plenamente essa questão. Mas, como vimos, no que já foi publicado, há provas
de que Plínio acreditava nessa doutrina herética.

Vimos ainda que Plínio dá uma definição de Inocência Primeva — e que ele
atribui a todos os homens — e que nega ora explicita, ora implicitamente, as
conseqüências do pecado original na alma humana.

Vejamos uma contradição doutrinaria de Plínio:

Vimos que ele afirmou que a inocência primeva que todos os homens possuem
ao sair das mãos de Deus, causa uma harmonia plena entre as potências da alma.

Ora, doutra feita Plínio diz o oposto:

Temos apetências desordenadas, desejamos mais do que nos é razoável,


nutrimos antipatias despropositadas, nos tornamos semelhantes à terra de
degredo na qual estamos (Plínio Corrêa de Oliveira, Seletivo e Harmonia
na Alma Inocente, artigo in Revista “Dr. Plínio”, AnoVIII, Junho de 2006,
N0 87, p. 24).

Mas, enquanto a Igreja ensina que essa desordem perdura em nós até a morte,
Plínio garante que podemos extirpá-la:

65
Entretanto, trata-se de uma contradição que precisamos extirpar de nosso
interior, para que em nós tudo seja lógica, coerência, harmonia.

Tal nos é possível, fazendo com que nosso seletivo funcione em ordem, não
procurando coisas que não nos convém, e tendo idéia exata de como
deveríamos ser, isto é, inocentes. E desejar essa meta, pois o homem,
quando fiel à sua inocência batismal, conhece , quase por instinto, aquilo que
lhe será ou não benéfico (Plínio Corrêa de Oliveira, Seletivo e Harmonia na
Alma Inocente,artigo in Revista “Dr. Plínio”, AnoVIII, Junho de 2006, N0
87, p. 25).

Ora, doutra feita, Plínio afirmara que o Batismo só reforçava a inocência


primeva já existente em todo homem, ao sair das mãos de Deus..

E Plínio acaba afirmando algo de incrível sobre o que seria o estado de inocência
primeva por ele imaginado:

“A inocência não é um estado de alma passivo, resignado, inerte. Mas, pelo


contrário, ativo, atuante, empreendedor”.

“A inocência está sempre à procura de algo, de algo que é cheio de luz, cheio
de paz, cheio de ordenação, concatenação e força, mas cheio de
tranqüilidade”.

“Este algo tem a capacidade de tudo mover sem mover-se a si próprio”.

“Tem algo de inefável, de divino, de interior e de secreto” (Plínio Corrêa de


Oliveira, Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, ed.
cit. p. 49. O destaque é nosso).

Que estranho!

A inocência primeva está sempre a procura de um algo que é motor imóvel, isto
é, de Deus. Mas “esse algo”, esse “motor imóvel” — Deus — teria algo de inefável, de
divino, de interior e de secreto’.

Como?

Se Deus é esse algo que a alma procura, como teria Ele algo de divino?

Deus teria algo de divino?

Que tolice é essa?

Ou seria o homem inocente que teria algo de divino?

Ou é o inocente que poderia adquirir algo de divino numa imaginária


identificação com Cristo?

66
Veremos, mais adiante, uma resposta afirmativa de Plínio a essa pergunta.

Noutra passagem, Plínio diz que esse estado de harmonia com que as almas seriam
criadas,”sairiam das mãos de Deus” teria graus diversos: “É possível que em todos esta
noção primeva tenha existido em alto grau. Em alguns em grau altíssimo” (p. 39. O
destaque é nosso).

Quais seriam as características desse estado de Inocência Primeva no qual todas


as almas seriam criadas numa aliança com Deus, aliança da qual a Igreja nunca falou,
tendo, aliás, sempre ensinado o contrário?

Para Plínio, a inocência primeva faria com que todas as crianças saíssem das
mãos de Deus em estado de plena harmonia na alma:

“[...] a harmonia da alma humana se manifesta na Inocência”(p. 12).

“Existindo no homem uma ordem fundamental, é-lhe impossível admitir a


desordem como condição normal e fundamental do universo, a não ser à maneira de um
desastre colateral e limitado” (Op. cit., p. 39).

Está aí explicitada a idéia errada que existe no homem uma ordem fundamental.

Que desastre “limitado” seria esse de que fala Plínio? Teria sido o pecado original de
Adão?Então o desastre do pecado original seria limitado? Limitado como? Limitado a
que? Limitado a quem?

Como, então, São Paulo escreveu que havia em seu ser uma lei da carne que
contrariava a lei de seu espírito? São Paulo certamente não teve a noção da inocência
primeva na qual teria sido criado. São Paulo deveria ter sido da TFP, para aprender isso.
Scognamiglio abriria novos horizontes para São Paulo, contando-lhe – secretamente—o
Jour le Jour de Plínio.

A frase acima citada contraria a doutrina da Igreja de que todos os homens são
concebidos no pecado, que colocou uma profunda desordem no ser humano, e não uma
ordem fundamental como assevera Plínio Corrêa de Oliveira. Em vez de “o Cruzado do
Século XX” dever-se-ia que Plínio foi um herege do século XX.

Ou o desastre a que se referiu Plínio tem algo em comum com a queda da


Divindade, tal como a descrevem os gnósticos?

A pergunta fica no ar.

67
Voltaremos tratar da Inocência Primeva, na quarta parte deste livro, analisando
os textos que os amigos de Monsenhor Scognamiglio, publicaram na Revista “Dr.
Plínio” (Cfr A Doutrina do Conhecimento de PCO - Quarta Parte, capítulo III, n0 2- O
Seletivo).

4 — A Inocência primeva nas crianças


Plínio garante que, na criança inocente, haveria uma ordem completa, quer na
alma, quer no corpo, a criança tendo controle dos seus instintos, pois o estado de
inocência seria ‘um estado de alma pelo qual todo o temperamento, todos os instintos,
toda a sensibilidade reagem de modo inteiramente proporcionado àquilo que têm diante
de si. Nesse sentido a calma faz parte da inocência” (p. 42. O destaque é nosso).

Repare-se que está dito que essas qualidades existiriam “na criança inocente”.
Não em todas?

Só na criança inocente, isto é, só naquela que deu adesão a essa ordem


harmoniosa da inocência primeva?

Não é preciso dizer que essas afirmações contrariam a evidência. Como


contrariam frontalmente o que a Igreja ensina sobre o estado em que todos os homens
são concebidos, exceto a Virgem Maria. Basta ir a uma sala de aula, ou mesmo a um
berçário, para constatar a mentira dessas afirmações de PCO. E é especialmente absurdo
o que se lê nesse livro de que a criança, nascida em estado de inocência, tem suas
reações instintivas inteiramente proporcionadas.

Ponha-se um doce ou um sorvete diante de crianças, e ver-se-á a reação


“controlada” que elas têm.

Para Plínio, a criança teria qualidades e virtudes inatas:

Tomemos uma criancinha de três ou quatro anos. Uma das coisas que melhor
caracteriza a inocência — mas a inocência no que tem de mais profundo,
mais elementar e mais, por assim dizer, virginal — é certa forma de calma
pela qual a criança dessa idade (dos tempos em que não havia TV,
evidentemente) tem uma calma por onde nada a agita, e de uma maneira
geral não se apega nervosamente a nada. A calma, aliás, é parte integrante da
inocência. Pode-se estar numa situação em que seja quase inevitável o
efervescer. Mas a efervescência, pelo império da vontade, deve ser reduzida
estritamente aos seus primeiros borbulhares (PCO, citação literal de PCO em
reunião de 25 de Setembro de 1986, A Inocência…, p. 40).

68
Veja-se o absurdo inimaginável imaginado: uma criança de três ou quatro anos,
que, pelo império de sua vontade, controla estritamente suas emoções efervescentes.

Isso é sonho romântico. Nunca foi coisa real. Nunca isso foi ensinado pela
Igreja, que a Santa Igreja não ensina loucuras.

Na verdade, ao dizer isso de uma criança de três anos, Plínio estava se referindo
a si mesmo.

Chegou a nossas mãos nestes dias o romance surrealista de Plínio Corrêa de


Oliveira intitulado Notas Autobiográficas, (Editora Retornarei) com apresentação
significativa de Monsenhor Scognamiglio, e aprovação surpreendente do Padre Royo
Marin.

Pois nesse romance se lêem coisas incrivelmente surrealistas e modestamente


hilariantes.

Veja-se como Plínio se descrevia aos três anos de idade: “Inocência crescente”,
e ainda:

Tenho a vaga impressão de que, no primeiro período da infância, minha


inocência cresceu com a idade, em vez de diminuir.

Como se manifestava essa inocência? Era um lumen (luz) --[Ou flash?]—


no ver a realidade pelo qual eu não considerava a vida propriamente linda,
mas, sem saber explicitar bem, parecia-me que ela simbolizava lindas coisas,
que davam acesso a um mundo superior, o qual também não sabia definir e
não relacionava com o Céu, mas me aproximava dele. Isso eu via reluzir
magnificamente, por analogia simbólica, em todas as ocasiões . Essa “trans-
esfera”, de certo modo, fundia-se com a tradição: quanto mais os objetos
representavam o passado cristão, tanto mais tinham valor simbólico para
mim (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, Editora
Retornarei,São Paulo, 2008, volume I, pp. 79 e 81. O destaque é do autor).

E Plínio teria apenas cerca de três anos, ao ter essas “impressões”...

Como se pode considerar com seriedade essa descrição?

Como se pode acreditar nessa auto descrição absurdamente atribuída a uma


criança de três anos?

É evidente que Plínio, aos três anos, não pensou nada disso. Imagine-se, uma
criança de três anos falando em trans-esfera, em valores simbólicos e em analogia. Crer
nisso é paranóia, ou esperteza. Plínio, adulto, inventou que pensara essas elucubrações
imaginativas, claramente românticas e gnosticamente surrealistas, dizendo que

69
excogitara isso quando menino. E o fanatismo – e a esperteza -- de Monsenhor
Scognamiglio fez os Arautos crerem nessas tolices. E crerem a ponto de publicarem
esse delírio em forma de livro.

Em edição de luxo.

Com aprovação de Padre Royo Marin!

E como explicar essa aprovação de Padre Royo Marin ao livro que conta isso?

Claro que esse livro depõe contra quem crê nele, e contra quem o aprovou.

E, prosseguindo, disse Plínio, e Monsenhor Scognamiglio publicou:

Embora as salas e os escritórios da Casa de vovó fossem totalmente laicas, --


[Só podiam ser laicas, pois ela não era freira e nem morava em igreja, e além
disso, como disse Dr. Plínio, o marido dela era maçon]—havia certo número
de imagens religiosas nos quartos de dormir. Olhando-as, eu sentia emoções
de natureza muito elevada e sacral, e era movido a pensar: Curioso! Isto é
uma gama, com uma vida diferente do resto do ambiente. Qual é relação
entre uma coisa e outra? Não existe uma contradição?

Mais ou menos, todos os ornatos da casa—quer no apartamento de papai e


mamãe, quer nas outras dependências – reluziam aos meus olhos de criança
e tocavam a minha sensibilidade de modo extraordinário, apesar de eu
perceber que não eram tão belos; mas remetiam para algo de diáfano,
superior e lindíssimo, que desde logo atraía a minha alma. Nascia a noção de
um universo ideal: ‘Isso é bom assim, mas como seria melhor se fosse de
tal outro modo! (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, Editora
Retornarei,São Paulo, 2008, volume I, p. 81. O destaque é nosso).

Como uma criança de três anos poderia falar em “universo ideal”?

Teria Plínio lido os idealistas alemães aos três anos de idade?

Ou essa mentalidade romântica foi inculcada nele desde a infância, recebendo,


depois, um “envernizamento” metafísico mais tarde?

Que o bom senso responda a essa pergunta.

Ainda que com um simples verniz metafísico, Plínio freqüentou certos


ambientes universitários e clericais nos quais pode ter sido iniciado no romântico
idealismo alemão, escola que uma criança de três anos não poderia captar. E o resto é
desculpa fanatizadora scognamigliesca.

E se veja a seqüência da prodigiosa meditação metafísica de um menino de três


anos:

70
Era no fundo, uma idéia do Céu e uma impressão de que, passando
sucessivamente por paraísos imaginários em várias tônicas diferentes, eu
acabaria dando uma volta na qual meu ser inteiro se sentiria saciado e
chegaria a uma síntese eterna e definitiva. – [Só faltava Hegel!] --- Não era
um mundo de sonhos ou de utopias, mas o conjunto da ordem universal que
vinha se apresentando cômoda e gradualmente a meu espírito. Nem era mera
fruição dos sentidos, mas o desejo de algo mais perfeito, dentro desse
mundo. Eu tendia a não me contentar com nada, indo de elevação em
elevação, até chegar ao Absoluto. (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas
Autobiográficas, Editora Retornarei, São Paulo, 2008, volume I, p. 81. O
destaque é nosso).

Sem dúvida, ou aos três anos Plínio já lera Schelling e Hegel, ou isso é pura
invencionice. Ao bom senso dos leitores, que não fizeram teologia em Salamanca, o
decidir.

E note-se como Plínio sonhava paraísos e desprezava de tal modo o mundo real,
confessando que tendia, como todo gnóstico, a não se “contentar com nada” do que
existia.

Plínio, aos três anos, só queria o Absoluto!!!

Ou Plínio nasceu adulto, ou o Plínio adulto se manteve sempre a inocente


criança de que falavam os românticos...

Sem dúvida, o livro Notas Autobiográficas de Plínio Corrêa de Oliveira, em


boa hora publicado pelo incrivelmente bem sucedido Monsenhor Doutor Scognamiglio
– Doutor!—é um romance surrealista.

Há outro texto resumido do MNF por Átila Sinke Guimarães, publicado na TFP,
em 1972, para uso dos membros da entidade que, por milagre, conseguimos adquirir.
Era um texto de terminologia esotérica, praticamente incompreensível. Entretanto,
lendo-o agora, com as informações que temos hoje, o texto pode ser decifrado com mais
facilidade.

Sobre o conhecimento inato do homem, esse resumo de parte do MNF intitulado


O Processo Humano contém pérolas esparsas bem elucidativas. Vejam-se algumas
sobre esse conhecimento inato do homem.

Dr. Plínio afirmava que há regras e conhecimentos “enviscerados” e “inatos” no


espírito humano.

No subconsciente humano, cabem tesouros de filosofia, de conhecimento


que, embora inexplicitamente, são condições para a sanidade mental”(...)
“Necessariamente tem que haver um conhecimento anterior e

71
subconscientemente nele [no homem] que é o conhecimento de algo por
onde todas as coisas são unas (Átila Sinke Guimarães, O Processo Humano,
resumo de parte do MNF, apostila mimeografada pela Editora Vera Cruz,
Dezembro de 1972 , p. 61).

Todas as coisas são unas?

Em que sentido? No sentido em que toda coisa é sempre “una”? Ou que todas as
coisas são no fundo um só ser?

Pregaria Plínio um monismo do ser?

Só por esse texto ambíguo não dá para tirar uma conclusão.

Mais adiante, porém, se lê o seguinte:

Vendo a coisa como ela é, a pessoa vê também o fundo comum e abstrato a


que as coisas se reduzem (Átila Sinke Guimarães, O Processo Humano,
resumo de parte do MNF, apostila mimeografada pela Editora Vera Cruz,
Dezembro de 1972 , p. 63).

Todas as coisas se reduzem a uma noção abstrata de ser...

Tal conhecimento seria uma profunda e sintética visão primeira do ser:

Há, portanto uma espécie de primeira noção, ou primeira visão do ser na sua
totalidade, e com todas as conseqüências que em todas as ordens pendem da
aceitação do ser com essa totalidade. É essa primeira visão que constitui o
objeto primeiro, simplicíssimo, inesgotável e riquíssimo de todo o conhecer
humano, como também de todo o querer humano, e também de todo o sentir
humano (Átila Sinke Guimarães, O Processo Humano, resumo de parte do
MNF, apostila mimeografada pela Editora Vera Cruz, Dezembro de 1972 ,
p. 62).

“O verdadeiro conhecimento e a verdadeira inteligência”

A visão-primeira corresponde à minha velha idéia de que o conhecimento é


algo que brota do fundo da cabeça do homem à maneira de algo impreciso,
que depois se torna desenho, depois relêvo, depois estátua e por fim fala.
Não é um caminhar de raciocínio em raciocínio como quem vai de uma ilha
para outra num arquipélago, mas é algo como quem tira uma caixa, onde já
está tudo contido (Átila Sinke Guimarães, O Processo Humano, resumo de
parte do MNF, apostila mimeografada pela Editora Vera Cruz, Dezembro de
1972 , p. 64).

O homem já nasceria com toda a bagagem de um tratado de metafísica, com um


conseqüente querer e sentir inatos.

72
Plínio afirma que, na inocência primeva em que todas as almas saem das mãos
de Deus, as crianças têm noção primeva da perfeição original em que tudo foi criado.
Teriam um senso perfeito do ser, tendente ao maravilhoso.

A posse da inocência importa em ter uma noção primeva (ou primeira)


cristalina, da perfeição originária de todas as coisas. Naturalmente, é mais
lúcida em uns, menos lúcida em outros, de acordo com a graça e com a
natureza. Numa criança, é geralmente uma noção não consciente (idem, p.
39).

Nasceria a criança com um conhecimento metafísico perfeito?

Que delírio é esse?

Como seria possível ter noção não consciente de algo? Porque ter noção é ter
um conhecimento, um conceito de algo. Ter noção ou conceito inconsciente é uma
proeza que só na dialética gnóstica é possível ter.

Diz ainda Plínio:

Todos os homens têm no fundo do espírito, o padrão, os modelos ideais de


todas as coisas. E — se não cometeram infidelidades revolucionárias, contra
a ordem estabelecida por Deus na Criação — são capazes de encontrar em si
esses modelos ideais. Feito isso, não é tão difícil alcançar a harmonia interna
da alma que caracteriza a inocência (PCO, A Inocência Primeva, p. 45).

Ela [a criança] procura ver no que as coisas concretas conferem com a matriz
que está na alma dela, a qual para ela é perfeita (Idem, p. 31).

De novo é reafirmado que todos os homens têm uma noção dos modelos ideais
de todas as coisas, isto é que todos temos no fundo da alma a noção de uma ordem ideal
perfeita de como as coisas deveriam ser.

Se todos os homens nascem já com o “padrão”, “com os modelos ideais de todas


as coisas”, isso implica na tese absurda que todos os homens nasceriam com o
conhecimento dos universais, isto é, dos arquétipos ideais de tudo o que foi criado. O
Inocente teria em sua inteligência os conceitos universais que Deus concebera, em seu
Verbo, desde toda a eternidade.

O homem inocente conheceria tudo tal como o Verbo de Deus.

Isso é completamente contra a doutrina católica.

73
Ora, essa é a tese da imanência do conhecimento no homem, típica da gnose do
idealismo alemão, tese que se prolongou de Kant, Fichte, Schelling e Hegel, até
Heidegger e até o jesuíta Rahner, a alma negra do Vaticano II.

Claro que não supomos que PCO tenha estudado as doutrinas desses filósofos.
Ele era por demais “conhecedor implícito” para se dar à fadiga de ler qualquer coisa
mais séria. Do que lucrava enormemente a sua preguiça.

Pois não disse ele: “O pecado deve ser semelhante ao grilo e à terra úmida,
enquanto a virtude é semelhante à minha cama”( PCO, Notas Autobiográficas, p. 325).

Portanto, não julgamos que Plínio conhecia a fundo essas doutrinas do idealismo
alemão, do existencialismo, e do neo modernismo. Mas Plínio era inteligente e
imaginativo. Um pormenor lhe permitia imaginar um castelo de conceitos estapafúrdios.
E PCO estudou com os jesuítas, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São
Francisco, disse que leu, e disse que gostou do que leu, na publicação Sept, dos
modernistas dominicanos, conforme ele mesmo contou (Plínio Corrêa de Oliveira,
artigo O “Legionário” Arma de Batalha pela Igreja, in Revista “Dr. Plínio”, Ano VI,
N0 61, Abril de 2.003, p. 27). E foi professor na cadeira dada a Júlio Frank, o fundador
da Burschenschaft, na Faculdade de Direito de São Francisco... Em algumas dessas
fontes de “murdy waters” ele ouviu algo que lhe ficou pela cabeça, ainda que de modo
vago. O orgulho intelectual fez o resto. Mas que a doutrina gnoseológica de PCO se
parece com a dos idealistas e existencialistas alemães, disso não há dúvida.

Vejam-se estas citações sobre Rahner:

Conforme Rahner, pois, a mente não parte do conceito singular para chegar
ao universal, mas parte do universal para colher, no seu interior, o singular e
o concreto (Fra Giovanni Cavalcoli,O.P., Karl Rahner, Il Concilio Tradito,
Fede e Cultura, Setembro de 2009, pp. 25-26).

Plínio dizia o mesmo. Pela posse da Inocência Primeva, o homem sairia das
mãos de Deus com as matrizes, com os padrões ideais dos seres já inatos, em si, e
conferiria as coisas singulares concretas com essas matrizes ideais e arquetípicas do ser,
com que o homem foi criado.

Plínio era idealista e modernista.

Nunca foi tomista.

Em que pese a seus românticos biógrafos e fãs italianos.

74
Continua Fra Cavalcoli, comentado a teoria do conhecimento de Rahner que é,
nesse ponto, também a de Plínio:

Temos claramente aí uma inversão do processo cognoscitivo humano, que


acaba assimilado à ciência divina, que é a única, na verdade, que parte do
universal - da sua auto consciência -- para determinar o particular, dado que
só ela é projetadora e criadora dos entes (Fra Giovanni Cavalcoli,O.P., Karl
Rahner, Il Concilio Tradito, Fede e Cultura, Setembro de 2009, p. 26).

Portanto, dizer como diz Plínio, que o conhecimento humano parte de padrões
inatos no homem — dos universais — para conhecer os entes singulares concretos, é
identificar o conhecimento humano ao conhecimento divino. E se Rahner foi então um
gnóstico, Plínio também o foi.

A mente de Plínio seria como Verbo.

Conforme Rahner, o objeto inicial do conhecimento humano não é o ente


sensível obtido através da experiência dos sentidos. Ele não recusa este
objeto, mas considera-o como o derivado de uma experiência precedente e
pré conceitual do ser, a qual dá à mente humana o horizonte cognoscitivo
ilimitado dentro do qual o homem coloca sucessivamente todos os seus
conhecimentos ulteriores

“Diz Rahner: O conhecimento colhe o seu objeto singular numa percepção


prévia do ser, que compreende em sua absoluta vastidão todos os objetos
possíveis e, em cada conhecimento particular, transcende sempre o objeto
singular, colhendo-o não apenas na sua particularidade opaca e irrelata, mas
também na sua limitação e na sua relação como complexo de todos os
objetos possíveis. Com a percepção prévia o objeto singular é conhecido a
priori sob o horizonte ideal absoluto do conhecimento, e por isso, inserido na
área consciente de todo cognoscível” (Fra Giovanni Cavalcoli,O.P., Karl
Rahner, Il Concilio Tradito, Fede e Cultura, Setembro de 2009, p. 25.).

Note-se: Rahner fala de “uma experiência precedente e pré conceitual”. E PCO


diz que “Numa criança, é geralmente uma noção não consciente” (p. 39).

É o dogma fundamental do idealismo alemão. A noção de conhecimento,


para ele, não significa relação ao ser extra animam, como se exprime São
Tomás, mas é o próprio ser em seu significado mais próprio: “O ponto de
partida fundamental para uma compreensão metafísica exata daquilo que é
conhecimento deve ser visto nisso, que o ser é a partir de si mesmo conhecer
e ser conhecido que o ser é ser-com-sigo” (Karl Rahner, Geist im Welt-1,
Insbruck-Leipzig, 1939, !a edição., p. 42, apud Fra Giovanni Cavalcoli,
O.P.,Karl Rahner, Il Concilio Tradito, Fede e Cultura, Setembro de 2009, p.
23 nota 19) “A essência do ser é conhecer e ser conhecido em uma unidade
originária que nós chamamos o ´ser-in(com)-sigo´ do ser: ou ainda, para
dizê-lo com um termo corrente da filosofia contemporânea, o ser é
transparente a si mesmo (idem, ibidem, nota 20).

75
E PCO afirmou que o “senso do ser” inato no homem dar-lhe-ia a noção de que
deveria buscar, por seleção, realizar a unicidade do ser...

Daí, para PCO, isso daria à criança uma noção implícita da existência de Deus,
que lhe seria como que evidente. Contra o que ensina São Tomas de Aquino, que afirma
explicitamente que a existência de Deus não é evidente.

“A criança tem, num desdobramento da inocência, noção implícita da existência


de Deus. ‘Uma noção escachoante, tremenda, luminosa’ ” (p. 31).

O que é uma afirmação tendente ao fideísmo condenado pelo Concílio Vaticano


I.

Contraditoriamente, porém, noutro livro, Plínio diz o oposto a isso:

O conceito de Deus não é inato no homem, mas o senso do ser é tão amplo, e
a luz que ele tem é tal, que o homem, pensando retamente, não precisa
caminhar muito para chegar ao conceito de Deus (PCO, O Universo é uma
Catedral, excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, por Leo
Daniele Edições Brasil de Amanhã, 1997, p. 236).

Frase, que mesmo negando que o conceito de Deus seja inato no homem, afirma
que o “senso do ser” é nele tão grande que ele pouco precisa das provas da existência de
Deus. O que, de novo, beira ao fideísmo tradicionalista.

E curioso que a nota 23 posta nessa frase lembra que Dr. Plínio disse isso, para
reafirmar a condenação do erro dos ontologistas In Denzinger 1659 e seguintes. (Cfr.
idem, ibidem, p. 276 nota 23).

Precauções para evitar uma condenação clara.

Plínio, como os modernistas, ora afirmava o certo, ora o errado. Desse modo,
poderia sempre alegar que não foi bem entendido, quando lhe escapasse alguma heresia
explícita. Essa é tática típica dos hereges, e especialmente dos modernistas.

A criança, segundo Plínio, na posse de sua inocência primeva teria certezas


absolutas:

A criança tem uma certeza e uma força de lógica que é uma das maiores
jóias do espírito e é o contrário do espírito pútrido do idoso desabusado

Essa força e essa energia da[a1] lógica produzem assim um borbotão de


certezas iniciais que podem fazer com que a alma, se for fiel a isso, seja a
vida inteira dotada de certeza e cheia de luz. E também com energia e com

76
capacidade para se sentir feliz, apesar das tribulações (PCO, A Inocência…,
p. 32).

Neste ponto, pela primeira vez em seu livro Plínio fala do Batismo dizendo: “Por
causa das graças do Batismo, a infância é um apogeu” (p. 32).

Mas então, a infância já possuidora da Inocência Primeva é levada ao apogeu


pelo Batismo. E como isso seria assim, se o Batismo não tira da criança batizada as
tendências más e nada harmônicas trazidas para a alma humana pelo pecado original?

E Plínio diz mais: “No fundo, a criança tem um senso virginal de distinção entre
a verdade e o erro, o bem e o mal, que depois pode ir-se embotando ao longo da vida”
(p. 30).

Não se compreende então como a Igreja ensina que até o uso da razão – por
volta dos sete anos, a criança normalmente não tem culpa mortal, pois que não sabe
distinguir plenamente o certo e o errado, o bem e o mal.

Plínio ensinava o oposto do que ensina a Igreja... Discretamente...

E a afirmação dele de que à medida que cresce, a criança vai perdendo essa
distinção clara entre verdade e erro, bem e mal, leva a supor que o desenvolvimento da
razão é prejudicial ao ser humano. Se fosse assim, não seria a criança, ainda sem o uso
da razão que não poderia pecar, mas o adulto é que deixaria de ser responsável pelo
embotamento nele da distinção entre o bem e o mal, que só a criança teria plenamente.

Isso parece com a tese de Rousseau, que é preciso “deixar de lado a razão e
permitir falar apenas o coração”. Ou ainda dizer com Rousseau que “O homem que
pensa é uma animal depravado”.

Essa noção da criança como sábia é típica do Romantismo.

Plínio Corrêa de Oliveira foi um romântico.

Para Plínio, a criança inocente tem certezas e lógica profundas.

O virginal do estado de alma da criança coloca no raciocínio dela uma


espécie de retidão e de certeza natural. (...) É uma naturalidade ainda não
reflexiva. Não se trata de uma falta de reflexão culpável; é que ela considera
supérflua a reflexão. É tal a clareza da posse dos primeiros dados da
realidade, que um exame ponderado não se torna necessário.

O raciocínio [da criança] é fluentíssimo, limpidíssimo, muito metódico, tão


fluente, tão límpido que a questão do método nem se põe. É uma espécie de
transparência (p. 30-31).

77
Nem é preciso comentar como essa visão da criança como limpidissimamente
raciocinante e lógica contraria a evidência. Isso é puro romantismo. É a defesa da
irreflexão.

Veja-se mais um delírio pliniano sobre a idéia dos seres possíveis na mente de
uma criança:

A criança pode passar por um processo pelo qual vai adquirindo duas
cognições ao mesmo tempo: a do mundo real e a do mundo dos possíveis.
São prodigiosamente ricas essas primeiras percepções que, assim, nela
detonam (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência…,p. 155).

Quer dizer que, desde a infância, a pessoa vai formando em sua mente duas
classes de conhecimentos: a do mundo real, e a do mundo dos possíveis. Como se uma
criança pudesse excogitar o que é um ente possível em Deus. Se nenhum homem pode
saber como seriam os possíveis em Deus, que dirá uma criança?

A noção de seres possíveis é das mais sutis em Metafísica. O texto acima citado
parece indicar que PCO chamava de possíveis as coisas imaginárias. Só que imaginário
e possível são coisas evidentemente distintas.

É erro grosseiro identificar imaginário com possível. Que uma criança


confundisse imaginário com o possível, ela seria logo corrigida. E caso acreditasse
nisso, a criança deveria passar por algum tratamento.

Mas que um adulto identifique imaginário com possível, e até escreva um livro
dizendo isso, e que tenha seguidores que acreditem nisso...Só em delírios mentais,
próprios de quem está em sanatórios, isso se dá. Ou em seitas delirantes, como foi a de
Jim Jones.

Mas isso aconteceu na TFP dos Provectos, graças a Plínio, e entre os Arautos,
graças a Monsenhor Scognamiglio.

Logo, lá não sendo ambiente de loucos, é ambiente de seita herética.

Prova de que o ambiente reinante entre os Arautos de Monsenhor Scognamiglio


é delirante é que ele publicou as Notas Autobiográficas de Plínio Corrêa de Oliveira.
Que isso tenha sido gravado e guardado é inacreditável. Mas que se tenha tido a
coragem de publicar essas Notas Autobiográficas passa de toda compreensão. Isso só
pode ter sido publicado por uma editora chamada Retornarei, nome que insinua a

78
esperança “sadia” de que Dr. Plínio só se “ausentou” tumularmente, mas que logo
retornará.

Nesse livro em que Dr. Plínio narra sua autobiografia—e que mais parece um
romance surrealista – ele conta como nele mesmo, quando criança de três anos, se deu
essa “idéia” de seres possíveis numa outra esfera da realidade...surrealista que ele
imaginou, e na qual Monsenhor Scognamiglio diz que crê.Comentando os passeios que
dava no Jardim da luz aos três anos de idade, e falando dos gramados que lá existiam,
Plínio garante que lhe passava pela cabeça infantil esta “metafísica”:

Isso me fazia pensar em parques de uma outra ordem, numa outra esfera,
em jardins etéreos, arquetípicos, que não existiam, mas eram possíveis...
Eu passava por ali vendo aquelas ondulações e quase fingia que brincava,
enquanto minha alma esvoaçava por outras paragens...

Imaginando esse píncaro de beleza, sentia que era possível a existência de


uma outra ordem universal, mais bonita do que esta e para a qual eu tendia.
Numa palavra só, eram saudades do paraíso numa alma inocente (Plínio
Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, editora Retornarei, São Paulo,
2008, p. 254. Os destaques são de nossa responsabilidade).

Esta última citação deixa claríssima a confusão de PCO entre pensar e imaginar.
Como deixa patente que, embora calvo, ele era um romântico descabelado. Se é verdade
que ele pensava assim desde os três anos, conclui-se que adulto ele pensava o mesmo. E
nunca deixou de ser romântico sonhador de um mundo irreal no qual sonhava viver. E
que ele sabia ser um mundo inexistente, mas que , mesmo assim , ele queria que
existisse em sua imaginação. Para ele, o imaginário era o real. E o real era condenável
se comparado com o ideal.

Conta ainda que, aos três anos, ele se encantou com um gota de orvalho e quis
sorvê-la imaginado ser ela uma bebida deliciosa...

Muitas vezes, quando eu estava sozinho – pois não queria passar por
extravagante--, aproximava uma folha dos meus lábios e sorvia a gota de
orvalho, pois não me podia convencer de que uma coisa tão linda não tivesse
um sabor muito gostoso. Ao perceber que não era assim, arranjava um
pretexto para conservar a minha ilusão e pensava: Essa gota não me faz
sentir o sabor do orvalho, mas se eu tivesse um copo cheio de orvalho, que
beleza e que delícia seria! Um dia, quando eu for homem feito, irei com um
copo numa mata e o encherei de orvalho... Deve ser mais saboroso que o
champagne!

E refletia: “Quem sabe se não há um universo assim, como essa gota? Será
que não existe algo que este orvalho representa? O mundo todo poderia ser
feito à maneira dessa gota de orvalho?”. (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas

79
Autobiográficas, editora Retornarei, São Paulo, 2008, p. 254. Os destaques
são de nossa responsabilidade).

E os destaques que fizemos mostram a preferência do imaginado sobre a


realidade tal qual Deus a fez. É assim que nasce a Gnose romântica. É assim que a
Gnose se mantém na cabeça dos Arautos do Evangelho preenchidas pelas pregações
gnóstico- românticas de Monsenhor Scognamiglio. A ilusão tem que ser mantida contra
o real.

Todas essas citações de textos de PCO são confirmadas por esta explanação de
João Scognamiglio Clá Dias sobre a Inocência Primeva e a inerrância:

Deus pôs a inteligência no homem, pôs a vontade no homem, e a


sensibilidade de forma inerrante. A inteligência do homem é inerrante no seu
nascedouro, a vontade do homem é inerrante no seu nascedouro. Tanto é
assim que se a pessoa se mantém fiel à sua inocência, ela vai mais tarde, se
transformar num inerrante. Então se se apresenta um assunto qualquer a um
santo, ele não erra. Por quê? Porque ele vai decidir de acordo com a sua
inocência que está de acordo com a sua inteligência inerrante. A tal ponto
que São Tomás diz isso de que a verdade é aristocrática.

“Por quê? Porque só tem conhecimento da verdade aquele que está em


estado de inocência, diz São Tomás. Ora, como os que mantém a sua
inocência íntegra são muito poucos, a verdade é possuída por poucos na face
da terra. E por isso, diz ele, ser a verdade aristocrática. Mas se a pessoa de
fato se mantém fiel àquele conhecimento primeiro, se a pessoa se mantém
fiel ao flash, inteiramente fiel ao flash, ela se torna inerrante” (João
Scognamiglio Clá Dias, Jour –le –jour, 19 de abril de 1992).

Dessa exposição “tomista” se deduz:

1. Que todo homem, ao nascer, possui inteligência, e vontade inerrantes. O que é


herético, pois nega as conseqüências do pecado original.

2. Que, mantendo-se fiel ao estado de inocência primeva, a pessoa se torna


inerrante.

3. Que só possui a verdade quem é inocente e inerrante.

4. A verdade então seria conhecida apenas por uma elite formada pelos
inocentes. E, nesse sentido, seria “aristocrática”.

E onde São Tomás diz isso?

Dr. Scognamiglio, afirmou em sua defesa de tese que tem “firmeza única” em
São Tomás. Ele que apresente, então, agora os textos onde o Aquinate defende essas
teses esdrúxulas e heréticas.

80
Monsenhor Scognamiglio, “tomista” se tornou Padre sem estudar em seminário,
Monsenhor sem ter feito nada fora da Sempre Viva, e Doutor em Direito Canônico com
nota máxima. Ao noticiar esse Doutoramento, se lê na revista dos Arautos que ele,
respondendo à banca examinadora de sua tese ousou declarar: “Posso dizer que tenho
uma firmeza única em São Tomás e na doutrina tradicional e verdadeira da Igreja”
(Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, “O Fundador dos Arautos Doutor em Direito
Canônico” artigo na revista Arautos do Evangelho em Janeiro de 2009, p. 27).

Isso é que é modéstia! Firmeza única em São Tomás? Única? Isso jamais tinha
ouvido uma banca examinadora de uma tese de doutoramento. Isso é fato único em
bancas de doutoramento. Mas não em outros ambientes... Pois isso é puro devaneio
trans-esférico.

Essas doutrinas absurdamente trans-esféricas mostram como o atual Monsenhor


Scognamiglio e os seus Arautos do Evangelho são hereges.

E tudo isso nos permitirá compreender melhor a ciência do Inocente — a ciência


de PCO — que analisaremos no próximo capítulo.

Capítulo III - A Ciência do Inocente em Plínio

1 - Impressões e conhecimento inato.

De modo muito semelhante a Heidegger e a Rahner, Plínio acreditava que a


criança teria, então, em si mesma, uma fonte de saber e de certezas inatas.

Ora, São Tomás nega que o homem tenha idéias inatas.

Na Suma Teológica, São Tomás trata desse problema ao discutir “Se a alma
conhece todas as coisas mediante espécies que lhe são inatas por natureza”.

Resumidamente, assim resolve São Tomas esse problema:

Devemos dizer que a alma intelectiva está em potência tanto com relação às
imagens que são o princípio da sensação, como para as representações que
são o princípio da intelecção. E por isso Aristóteles afirmou que o
entendimento mediante o qual a alma conhece, não possui espécies
inteligíveis infusas, mas que originariamente está em potência para todas
elas. (...)

Em segundo lugar,(...)quando falta algum sentido [físico], falta o


conhecimento das coisas que esse sentido percebe: assim, o cego de
nascimento não pode ter conhecimento das cores. Coisa que não aconteceria
se na alma tivessem sido infundidas naturalmente as razões de todas as
coisas inteligíveis. Por conseguinte, deve-se dizer que a alma não conhece as

81
coisas corporais mediante espécies naturalmente infusas (São Tomás, Suma
Teológica, I, Q. 84, a.3).

Portanto, errava Plínio ao acreditar que o homem tinha idéias inatas.

Por causa desse erro, Plínio pretendia que, o verdadeiro pensador não é quem
estuda e procure ler livros, mas pensador de verdade seria quem fosse fiel às suas
primeiras impressões infantis, aquele que explicitaria o que já tem em seu íntimo por
possuir as matrizes do ser inatas em si. É o que ele disse dele mesmo, quando entre
1933 e 1938, começou a dar aulas de Historia em Faculdades, por nomeação política,
sem jamais ter estudado História regularmente:

Eu tinha, talvez, uns 25 ou 30 anos-– quando compreendi que o melhor de


minha vida intelectual não consistia tanto em aprender coisas sobre o que
não sabia, quanto em encontrar os conceitos para exprimir o que por mim
mesmo tinha percebido. Aliás, como é bem sabido, essa é a característica de
todo verdadeiro pensador, como eu pretendia ser (Plínio Corrêa de Oliveira,
A Inocência Primeva e a Contemplação sacral do Universo, ed. Cit. p.
94).

E ele chegou a escrever “nada mais perigoso do que ler muito” (Plínio Corrêa de
Oliveira, Quais os fins de uma Universidade? Conferência na Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Jacarezinho, 2 de Abril de 1960, reproduzida in revista “Dr.
Plínio”, Ano V, Março de 2002, N0 48, p. 25).

Estava fundada assim a ciência pliniana por excelência:-- que se nos perdoe o
termo vulgar e de jargão, mas merecido para tal pretensão pliniana--, ele fundou
a “Chutologia”. Ciência cômoda que não exige nem estudo, nem esforço, nem leitura:
basta explicitar o que se acha ser certo, ou que se imagina ser a verdade. O subjetivismo
completo. A “verdade” pessoal interior, intuída através das “primeiras impressões”.

“Como se enriquece o conhecimento na escola de Dr. Plínio?

Privilegiando-se uma reflexão baseada no bom senso e na explicitação e


avaliação das próprias impressões” (Introdução da redação da Revista “Dr. Plínio” ao
artigo Como adquirir certezas, in Revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Março de 2001, N0
36, p. 25).

Essa mesma revista “Dr. Plínio”, órgão oficioso de Monsenhor Scognamiglio,


explica que “Para a escola de pensamento de Dr. Plínio, as impressões e observações
que povoam a mente de cada homem contém mais elementos preciosos para o
raciocínio e a formação das certezas do que uma biblioteca repleta de livros” (Revista

82
“Dr. Plínio”, Ano IV, Março de 2001, N0 36, epígrafe sob uma foto de uma estante de
livros, p. 24).

Noutro artigo, comentando uma peça de teatro em que aparecem um herói e um


sibarita, Plínio disse:

Notamos que, diante dessa peça teatral, fizemos muito mais que uma
formiga. Não tivemos simplesmente “notícia” [como ocorre com os animais]
mas impressões acerca de situações morais. Por exemplo, da condição do
homem que escolheu o gozo da vida como finalidade de sua existência, e
com isso se deformou. Como levamos no espírito uma idéia mais ou
menos explícita de como um homem deve ser, pudemos conferi-la com a
mentalidade do sibarita e percebemos o ridículo da atitude dele (Plínio
Corrêa de Oliveira, O Sibarita e o Herói, artigo in revista “Dr Plínio”,
Ano VI, Outubro de 2003, N0 67, p. 23. Os destaques em negrito são
nossos).

Note-se que Plínio recomenda conferir a impressão dada pelo sibarita com a
idéia já existente no espírito humano -- com a matriz que seria inata na mente humana--
de como deve ser um homem.

Mais adiante, nesse mesmo artigo, dizendo basear-se em São Tomás, Plínio
aponta outra forma de conhecimento -- a por conaturalidade -- que Plínio explica mal.

Como podemos conhecer tanta coisa, vendo uma peça? São Tomás fala de
um conhecimento por conaturalidade, pelo qual, sem ser preciso fazer uma
série de raciocínios expressos, pode-se chegar a entender muitas coisas. Por
algo que está ao mesmo tempo em nossa natureza e nas coisas que vimos—
por uma conaturalidade – olhando para aqueles abismos, sentimos o esforço
que representa galgá-los. Num primeiro olhar, a nossa natureza, em contacto
com aquela realidade, produziu o conhecimento.

Foi também por conaturalidade que os senhores sentiram o que havia de


gostoso e o que de mentiroso nos prazeres do sibarita.

Conaturalidade: a natureza de um posta em presença da de outro, produz um


reflexo; desse reflexo jorra uma cognição: o sibarita é um pústula; aquele
outro, não, é um campeão! (Plínio Corrêa de Oliveira, O Sibarita e o
Herói, artigo in revista “Dr Plínio”,Ano VI, Outubro de 2003, N0 67, p. 24.
Os destaques são do autor).

Dessa exposição tomisticamente aleijada de conaturalidade, se depreende:

1 - Que Plínio não entendeu o que é conhecimento por conaturalidade;

2 - Que ele julga que impressão significa conhecimento;

3 - Que o conhecimento seria uma certeza advinda de um modelo de ser inato no


homem;

83
4 - Que o sentir equivale a conhecer.

5 - Que o conhecimento por conaturalidade é sentido.

Entretanto, mais adiante, nesse mesmo livro que estamos analisando, Plínio vai
condenar as impressões:

O relativista só tem impressões. Ele chama essas impressões de convicção,


quando são muito velhas, quando vêm de algumas gerações e que ninguém
as pôs em dúvida diante dele (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência
Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, p. 137).

Contradição mais patente não poderia haver.

Se o relativista só tem impressões, como Plínio vivia falando de suas impressões


– “impressão” é uma das palavras que ele mais usa, em cada pagina de seu livro a
palavra “impressão” pode ser encontrada—conclui-se que ele foi um relativista.

Para PCO, a fonte de certeza de que se tem uma verdade é o bom senso inato
(“nativo”) que existiria no homem. Se a impressão causada por um ser qualquer
corresponder ao modelo interior inato do ser existente na alma humana, então se teria a
verdade. A realidade externa é apenas uma projeção dessa matriz interior inata, ou
nativa, no homem.

Veja-se como PCO confirma com suas palavras essa idéia totalmente
subjetivista:

Qual é, então, o teste da certeza? Sustento que a verificação da consonância


entre aquilo que se afirma e os dados do bom senso que todos possuem. É
uma certeza inicial que, de proche en proche,vai se desenvolvendo.
“Contudo, ela mesma não é, no fundo, senão uma projeção do senso do bem
e do mal e desse senso nativo da verdade e do erro que se apóiam e se vão
tornando mais vigorosos”(Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Como adquirir
certezas, in Revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Março de 2001, N0 36, p.28. O
negrito é nosso).

Sendo assim, os fatos externos, em si mesmos, não têm importância. Eles seriam
apenas despertadores do “senso do ser” inato no homem. Por isso, ele diz: “A convicção
da própria certeza científica se adquire por causa dessas certezas anteriores que se
desprendem do bom senso e iluminam o método científico” (Plínio Corrêa de Oliveira,
artigo O Senso Católico e o desabrochar das Certezas, in Revista “Dr. Plínio”, Ano
IV, Março de 2001, N0 37, p.28. O destaque é nosso).

84
E PCO vai dizer que esse “senso do ser” é que dá ao homem certezas absolutas e
torna o homem inerrante, quando ele segue o seu inato senso do ser que seria dado com
a inocência primeva.

Por isso, Plínio, menino ainda, ao considerar uma imagem do Sagrado Coração
de Jesus, dirá:

Essa imagem me compraz e está de acordo com minha retidão, da qual estou
certo, pois ela é uma evidência interna, nascida em mim, proveniente de algo
que não erra!:“Eu não sabia que isso era o senso do ser (Plínio Corrêa de
Oliveira, Notas Autobiográficas, vol. I, p. 307. O destaque é nosso).

Ele não sabia ainda que era o que ele chamaria de o “senso do ser”, mas já se
sabia inerrante.

E até mesmo a certeza de que a Igreja Católica é verdadeira—Plínio diz


“autêntica”...-- Plínio dizia tirá-la de seu senso inato interior:

Devo dizer que nunca me interessei em provar que a Religião Católica é


autêntica. Trata-se de uma preocupação que jamais me passou pela mente.
Não condeno que se façam pesquisas e estudos aprofundados sobre a
questão. Pelo contrário, louvo que assim procedam, mas considero que o
objetivo não deve ser provar a veracidade da Religião Católica, e sim
acrescentar novos testemunhos de que ela o é. Essa convicção parte de
minha certeza nativa, do meu bom senso calmo, planturoso, embrionário, do
meu gosto pelas coisas como elas devem ser, e também da minha rejeição a
tudo quanto seja atitude ou doutrina que não se coaduna com a natureza
humana, e assim faz pressão sobre meus nervos.

Com efeito, todas as verdades têm de ser coerentes com os nervos do


homem. Aquilo que os abala é errado, do mesmo modo que não pode ser
verdade o que é contrário à boa ordem da natureza humana (Plínio Corrêa de
Oliveira, artigo O Senso Católico e o desabrochar das Certezas, in Revista
“Dr. Plínio”, Ano IV, Março de 2001, N0 37, pp.27 e 28. O destaque é
nosso).

Para Plínio, verdade não é a adequação da idéia de um sujeito ao objeto


conhecido. A verdade não seria objetiva. Verdade seria a constatação pessoal do sujeito
de que algo exterior a ele corresponde a seu senso inato do ser. Por isso Plínio troca a
palavra verdadeira por “autêntica”. Autêntico é a manifestação exterior do que
corresponde ao modelo que há previamente no interior de alguém. Daí, para Plínio,
Religião “autêntica” seria aquela que não contrariasse os seus modelos inatos, e daí não
perturbassem os seus nervos...

Por isso, Plínio escreveu nesse mesmo artigo:

85
Ora, temos uma idéia ainda que sumária das várias religiões. Temos
também, um bom senso nutrido pelo Batismo com o qual a Religião Católica
se harmoniza inteiramente. A esse respeito, lembro-me de minhas
meditações enlevadas no meu tempo de menino. “Como a Religião Católica
satisfaz por completo a necessidade da alma humana! Que maravilha! Pode-
se dizer que, de algum modo, ela é a Religião do homem! Porque se a
Religião Católica não existisse, e quiséramos imaginar aquilo capaz de fazer
com quem o homem fosse o melhor possível, era preciso inventá-la (Plínio
Corrêa de Oliveira, artigo O Senso Católico e o desabrochar das Certezas, in
Revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Março de 2001, N0 37, pp.26-27. Os
destaques são nossos).

Então para a TFP e para os Arautos seguidores do pensamento de PCO, a


Religião Católica seria a Religião do homem... Explica-se como Monsenhor
Scognamiglio aderiu ao Vaticano II e à Missa Nova.

Explica-se porque Dr. Plínio insiste em designar Jesus Cristo como o Homem-
Deus, e só muito excepcionalmente o chama de Deus humanado ou Deus encarnado...

Portanto, a Religião Católica seria autêntica, porque corresponde à matriz de


religião inata no homem, e porque não irrita os nervos de Plínio. Por isso a religião seria
útil.

O sentido do ser que Plínio acreditava ser inato no homem, diante das coisas que
impressionam o homem, constataria se o objeto causador da impressão era
correspondente inteiramente à matriz inata do ser, segundo PCO, existente no homem,
ou se corresponderia apenas, em certo grau, a esse modelo interior inato.

Daí, surgiam duas atitudes na mente humana:

1 - A de rejeição do que era imperfeito no ser concreto;

2 - Uma busca através da imaginação do modelo ideal absoluto daquele ser.

Diante da realidade, as impressões fariam emergir, do fundo do espírito humano


a noção de um Absoluto existente numa outra ordem de ser, mas de algum modo
também imanente, de modo imperfeito, nas coisas concretas.E daí Plínio afirmar:

E basta concebermos uma ordem de realidade mais alta do que esta em que
vivemos, para se acender em nós um apetite por ela. Assim é que no homem
existe uma espécie de sede insaciável de algo mais perfeito, mais alto, mais
transcendente. Por sua inteligência, ele pode vislumbrar outros mundos,
outras realidades, outros firmamentos, que normalmente não tem diante de si
(Plínio Corrêa de Oliveira, O Sibarita e o Herói, artigo in revista “Dr
Plínio”, Ano III, Fevereiro de 2000, N0 23, p. 13.).

86
E lá vai Plínio, “viajando” em sua imaginação para outros mundos, e para outras
realidades imaginárias

Para o surrealismo.

Para o País das Maravilhas.

Onde haveria a super limonada. A ‘limonadérrima”.

E o pior é que ele tinha impressões sobre si mesmo que o levavam a imaginar,
paralelo à limonadérrima, o Pliníssimo tomando a limonadérrima do outro mundo.

Limonadérrima? Que seria isso?

1 - A Limonadérrima e o Super Plínio

Quando Plínio viajou à Europa aos três anos de idade, no navio, ele tomou uma
limonada que lhe causou—para usar um termo caríssimo a PCO-- uma forte impressão.
E repare-se, na citação a seguir, como Plínio já era capaz de se expressar
“metafisicamente“ aos três anos. (Acredite quem quiser. Mas os Arautos e tefepistas
acreditam que ele, aos três anos, já pensava tudo isso):

“Vejo neste navio um ’pedaço’ da Europa na qual vou entrar. E já estou


notando daqui que existe na Europa algo por onde todas as coisas são da
melhor qualidade do que aquelas que conheço. Portanto, esta bebida obedece
a um estilo e a uma escola de categoria superior. Limonada é isto! Ó
limonada!”.

“Entretanto, por trás dessa reflexão estava a idéia da limonadíssima, que


aquele limonada do navio não havia atingido... E, sem saber ainda dizer o
que estou explicando agora, minha idéia era a seguinte: “Existe, na ordem do
espírito, um deleite da limonada, e há, em outra esfera superior, uma
limonadérrima que já não é mais limonada, nem tem limão. Mas se eu for
afirmar isso para as pessoas adultas que me cercam, vão dizer que sou louco.
Percebo que não sei exprimir bem o que estou pensando, mas quando ficar
mais velho saberei fazê-lo” (Plínio Corrêa de Olivaira, Notas
Autobiográficas, ed. cit, p. 96).

Os parentes do pequeno Plínio se o ouvissem falar então de uma limonadérrima


de outra esfera do ser, --sem limão e sem ser limonada--certamente ficariam
preocupados com o juízo de Plínio, e poderiam pensar que ele estava “louco”, como ele
mesmo disse, porque os parentes dele não eram da TFP. Porém, hoje, na TFP e nos
Arautos, graças à propaganda organizada por Monsenhor Scognamiglio, todos eles
acreditam que existe de fato uma azedíssima Trans-esfera, onde se pode tomar a
limonadérrima concebida por Plínio. Sem limão.

87
Porque Plínio o disse, e Scognamiglio o confirmou.

Loucos são os que não crêem na limonadérrima da Trans-esfera. Pois que essa
doutrina foi aprovada por Padre Royo Marin.

Porque, Plínio é Plínio, e Monsenhor Scognamiglio é o “rasoul” de Plínio. Plínio


o disse.

Aos três anos.

Maktub!

Padre Royo Marin aprovou!

Está provado e aprovado.

Para PCO devia existir “aliunde” a limonadérrima, e também o Super chopp, que
ele dirá ser “a razão de sua vida”.

Que Plínio descobriu, muitos anos depois, porque aos dois anos ainda não
bebera chopp.

E se existe “aliunde” a limonadérrima e o Super Chopp, por que, então, não


deveria existir o Super Plínio?

Mais adiante, serviremos a nossos leitores esse super chopp trans esférico. Pois
bem antes do super chopp, o pequeno Plínio descobriu, desde os dois anos, algo bem
mais importante que o super-chopp: o super Plínio.

2 - Plínio Descobre o Super Plínio

Assim como pela limonada do navio alemão, Plínio descobriu a limonadérrima


de um outro mundo, onde ela existiria—sem limão—contemplando-se a si mesmo,
Plínio, modestamente, descobriu que tinha que existir, noutra esfera o super Plínio.

Isso não se deu de uma vez. Mas partiu das primeiras impressões que ele teve de
si mesmo. Desde os dois anos de idade, quando usava sainha e lacinho no cabelo, tal
qual ele aparece numa foto na página 64, do primeiro volume do livro Notas
Autobiográficas.“O primeiro modelo que segui – desde que me lembro de mim mesmo
– não era constituído por nenhuma dessas figuras do passado,- [alguns parentes dele que
foram famosos maçons, como o Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira e Gabriel
Ribeiro dos Santos, um dos membros da sociedade secreta ‘Os Patriarcas Invisíveis’]-
mas por uma visão de mim mesmo como eu deveria ser, na minha inocência. Notava –

88
[Aos dois anos de idade!]—que em mim se passavam coisas que não se davam nos
outros”(...)

“Um “paraíso interior”

“Devido à minha inocência, eu tinha um estado de espírito pelo qual, às vezes,


observava minha alma e percebia nela uma espécie de brilho “auri- prateado” e um
“aroma”, fazendo-me sentir tudo quanto eu tinha de “éclatant” (fulgurante), de
brilhante, de reto e de puro” (Plínio Corrêa de Oliveira, notas Autobiográficas, Editora
Retornarei, São Paulo, 2008, 10 volume, p. 220. O destaque é do original).

É cabível que uma criança de dois anos diga isso de si mesma? É cabível que,
Plínio, adulto, tenha dito e feito gravar isso, que teria pensado de si mesmo? É crível
que adultos tenham ouvido isso, e tenham acreditado? É normal que isso tenha sido
publicado pelos que acreditavam nisso? É possível que isso aconteça num Instituto de
Direito Pontifício?

E que nada aconteça?

Sem dúvida, aos dois anos de idade, Plínio já tinha uma modéstia
extraordinária!...

Como pode ousar dizer que pensava isso de si, já aos dois anos de idade?

E que grau de fanatismo patológico se atingiu, quando se ousa publicar tal coisa?

Leiamos ainda a seqüência desses ‘humildes” pensamentos de Plínio sobre si


mesmo, aos dois anos de idade, e com lacinho no cabelo:

Isso era seguido da idéia de que essas coisas, que eu admirava e me deliciava
em possuir, existiam aliunde [alhures]de um modo incompreensivelmente
mais intenso, como em sua potência mater [mãe]. Era como se existisse um
meu “arqui alter –ego” [arqui outro eu mesmo] atraentíssimo, porque
imensa e infinitamente distante, mas inviscerado dentro de mim e
“brincando” com minha alma como um homem poderia brincar com uma
pedra preciosa (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit
Retornarei, São Paulo, 2008, I vol. p. 220. Destaques do original).

Esse arqui outro Plínio, infinitamente distante, evidentemente era Deus, mas um
Deus que, ao mesmo tempo, era infinitamente distante, mas que permanecia
“inviscerado”, imanente no ser de Plínio.

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Claro que essa doutrina era a da Gnose. E é mais do que evidente que uma
criança de dois anos não poderia ter concebido esses pensamentos. Isso é o que Plínio
Corrêa de Oliveira inventou que tinha pensado aos dois anos de idade.

Tudo isso foi fruto de um orgulho absurdamente delirante, explicitado de modo


gnóstico. Gnose aprendida onde? Aprendida de quem? Pouco importa onde foi
aprendida. O que mais importa reconhecer é que isso é Gnose.

Prossegue Plínio, em sua modéstia inata:

Eu tinha a impressão de que esse alter ego se comprazia em intensificar em


minha alma ora tal atitude, ora tal outra. Ao mesmo tempo, ele me deixava
contemplar essa atitude e parecia dizer-me: “Vê como isso é lindo! E tu, meu
filho, como és pulcro, perfumado, irisado e magnífico, em tua alma! Que
esplendor há em ti! Também que alegrias inefáveis tu sentes! Que bem-estar
superior a qualquer satisfação da terra, sem nenhuma comparação! (Plínio
Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo,
2008, I vol., p. 220).

Jamais Deus fez tais elogios a nenhum santo.

Isso, ou é delírio a ser avaliado por um especialista em medicina psiquiátrica, ou


é a voz sedutora da serpente!

Deus nunca diria tais coisas para uma criança.

Às crianças de Fátima, Nossa Senhora disse que teriam muito que sofrer, e não
lhes fez nenhum elogio.

A Plínio...

Será que foi Deus mesmo quem disse isso tudo a Plínio, aos dois anos de
idade?...Ou será que foi...outro?...E prossegue Plínio contando o que sentiu,e o que
ouviu de uma misteriosa voz que internamente lhe falava, fazendo-o compreender o seu
altíssimo valor já ao ter dois aninhos:

Sendo fiel a “isso”, terás um grande papel. E quando o realizares então verás
como será a minha união contigo! Que grandeza sem nome! Anda, portanto,
pois no fim me encontrarás. E agora, trata de encontrar a tua alegria em ti
mesmo, pois eu ponho em ti o enlevo e a “leveza de alma” que são o teu Céu
desde já” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit
Retornarei, São Paulo, 2008, I vol. p. 220)

Impressionante.

Parecem promessas feitas no monte “Tibi dabo”

90
Parece a voz do enganador fazendo uma alma comprazer-se em si mesma,
admirar-se, auto adorar-se.

Prossigamos essa citação mefistofélica em hora certa publicada por Monsenhor


João Scognamiglio Clá Dias, Cônego de Santa Maria Maior em Roma, condecorado
pela Santa Sé, agora até Doutor em Direito Canônico. Aquele que já recebeu sua
recompensa...“Tudo isso me convidava a sacrais “sonhos de olhos abertos” e pensava:
“Como vai ser essa união?”. E imaginava episódios...Eu sonhava com essa união,
prometida para a hora da tarefa cumprida e do triunfo realizado, mas sem nunca pensar
assim: ”Eu estou caminhando e os outros não...” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas
Autobiográficas, Editora Retornarei, São Paulo, 2008, 10 volume, p. 220-221).

O que não é bem verdade, pois que páginas antes ele dissera: “O fato de eu
ser eu, dava-me muito contentamento” (Plínio Corrêa de Oliveira, notas
Autobiográficas, Editora Retornarei, São Paulo, 2008, 10 volume, p. 123).

“E como é bom eu ser eu!” (Plínio Corrêa de Oliveira, notas Autobiográficas,


Editora Retornarei, São Paulo, 2008, 10 volume, p. 124).

Prossigamos a citação decisiva que estamos focalizando:

Portanto, o verdadeiro triunfo não consistiria no aplauso dos outros, mas na


união consumada. Seria como um general de alma nobre, que deseja ganhar
uma guerra. Na hora do desfile da vitória, ele tem a sensação metafísica [sic]
de encarnar a pátria e o heroísmo, e encontra a plenitude e a realização de
sua alma nessa identificação com valores superiores, muito mais do que a
alegria de ser aplaudido”. (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas
Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008, I vol. p. 220-221).

Alguém pode acreditar que um menino de dois anos possa falar em “sensação
metafísica”?

Só um fanático, incapaz de pensar, pode crer nesse sonho megalomaníaco.

E prossegue Plínio, dizendo:

Assim eram os meus “sonhos”, mas de um modo incomparavelmente mais


alcandorado: eu desejava essa união, para sentir-me inteiramente penetrado
por “isso’, quando chegasse o fim da minha missão. Eu não sabia que “isso”
se chamava Deus, como vejo hoje. Eu tinha, portanto, um desejo de união
com Deus. E isso se exprimia dos modos mais variados. Eu não ouvia
nenhum som ou melodia tocada por anjos, mas de vez em quando, sentia
uma “harmonia” interna de minha alma, sobre a qual eu tinha vontade de
compor uma música... E, às vezes, em uma ou outra peça musical que ouvia

91
– executada pelas muitas orquestrinhas existentes por toda a parte—certos
trinados lembravam-me isso, de passagem.

Mas eu percebia que esse “paraíso interior” trazia como pressuposto uma
coerência muito grande; exigia que eu me desse a ele por inteiro! Aquele
deveria ser o lar de minha alma por toda a vida, e nele eu teria toda espécie
de felicidade e bem-estar. Se bem que eu ignorasse ainda os assuntos
relativos ao Sexto Mandamento – que conheci aos nove ou dez anos de
idade—sentia em mim uma pureza exímia, que parecia tocar música em meu
interior. A castidade era como uma concha na qual tudo isso estava contido
e, se eu a perdesse, romperia com esse mundo maravilhoso (Plínio Corrêa de
Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008, I vol. p.
221).

Seria esse um comportamento psicológico normal, ou uma ilusão diabólica?

Porque fruto de vida sobrenatural, essa auto admiração nunca poderia ser. Que a
virtude exige humildade e não coexiste com o auto elogio escancarado, chegando à auto
adoração.

Bastaria esse texto para provar quem foi Plínio Corrêa de Oliveira. E em suas
Notas Auto- biográficas, há inúmeras outras passagens de mesmo quilate,
descabeladamente soberbo.

Poupamos delas nossos leitores para não sermos repetitivos, porque basta esse
texto para compreender quem foi Plínio Corrêa de Oliveira.

Essa era a inocência primeva de PCO: sonho mais orgulho incomensurável.

Um orgulho trans-esférico.

E Plínio afirma que esse estado de inocência primeva é próprio de toda criança, e
que ele pode ser mantido mesmo na idade adulta. Por isso escreveu ele:

A inocência não é privilégio da infância e pode prolongar-se até o fim da


vida. Pois todos os homens têm, no fundo do espírito, os modelos ideais de
todas as coisas. E –se não cometerem infidelidades revolucionárias, contra a
ordem estabelecida por Deus na Criação — são capazes de encontrar, em
si, esses modelos ideais. Feito isso não é difícil alcançar a harmonia interna
da alma que caracteriza a inocência (Plínio Corrêa de Oliveira, A
Inocência…, p. 45. O destaque é nosso.).

Portanto, todos os homens teriam essa inocência primeva, e, segundo Plínio, ela
poderia ser perdida, -- mas não totalmente-- e, depois, poderia ser recuperada.

Seria perdida ao se cometerem “Infidelidades revolucionárias contra a ordem


estabelecida por Deus na criação”. Note-se que ele não fala que se perde a inocência
primeva por cometer pecados contra a lei de Deus. Ele usa um circunlóquio que poderia

92
significar isso: por cometer pecados a inocência primeva seria perdida. Mas ele usa um
circunlóquio um tanto vago.

Por quê?

Capítulo IV - Perda - (Ruína?) - e Restauração da Inocência

O problema da restauração da inocência – entendida no sentido literal do


termo, de ter o coração puro em relação a qualquer pecado (e não apenas em
questão de castidade), além de ter um enlevo por tudo o que seja
maravilhoso – era considerado fundamental por Dr. Plínio para qualquer
programa que vise estimular a santificação das almas (Apresentação da
redação da Revista “Dr. Plínio” ao artigo de PCO Alegrias da Inocência, in
revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2001, N0 44, p. 5. Os destaques
são nossos).

Restauração tem que ser de algo ou arruinado ou semi destruído.

Convém então notar, antes de tudo, que a Inocência primeva , segundo PCO,
nunca poderia ser totalmente perdida. PCO imaginava que a inocência primeva não se
perderia com o pecado mortal pessoal. Pois se nem o pecado original de Adão teria
impedido que todos os homens nascessem com a Inocência primeva, muito menos ela
seria perdida pelo pecado pessoal.

Dr. Plínio então, além de defender a tese herética de uma inocência primeva no
homem, após o pecado de Adão, dizia pior ainda ao afirmar que essa inocência primeva
não seria perdida por se cometer pecado mortal. Paradoxalmente, conservar-se-ia a
inocência primeva mesmo que houvesse um “mar de pecados”.

Para explicar como a inocência primeva podia continuar a existir numa alma
submersa num mar de pecados, Plínio narra a lenda da Catedral “engloutie”, a Catedral
submersa. Era uma lenda druida que fora difundida por um poema do romântico
simbolista Mallarmé, e musicada pelo compositor Claude Debussy, de moda na Belle
Époque. Nem é preciso dizer que a escola simbolista do século XIX era profundamente
esotérica e gnóstica. E PCO gostava do simbolismo romântico...

Segundo uma lenda bretã, portanto francesa –[no tempo dessa lenda, a
Bretanha não era francesa e nem os bretões eram francos] – em certo lugar
do mar da Bretanha, havia uma catedral—a catedral de Ys-- que fora
tragada (engloutie) pelas águas.(...) “De vez em quando, os anjos faziam
soar, no fundo do mar, os sinos da catedral. Aquelas lindas sonoridades
subiam, então, de camada em camada, até a superfície do mar”.(...) “Os
pescadores dizem que, um dia, a catedral voltará à terra firme ainda mais
bela, pois conserva-se íntegra sob as ondas do mar (Plínio Corrêa de
Oliveira, A Inocência…, p. 53).

93
A fundamentação da tese teológica da permanência da Inocência Primeva,
mesmo sob um mar de pecados era justificada por ele por uma lenda bretã. “Portanto,
francesa”, se apressa ele em notar. E erradamente.

É o que dá ter sido educado por sua mãe, Dona Lucília, com contos de fadas...
Para um romântico, como o líder da TFP, lenda vale mais que a revelação divina e do
que São Tomás.

E previne Plínio que:

A inocência primeva não é algo que o demônio possa arrancar inteiramente


de dentro de nossa alma, mas permanece como uma catedral engloutie, uma
catedral imersa nas águas do pecado, que ainda existe em nós (Plínio Corrêa
de Oliveira, A Inocência…, p. 53).

Qual a garantia disso?

A palavra de Plínio fundamentada na lenda bretã e no conhecimento inato de


PCO.

Portanto, a inocência primeva permaneceria no homem mesmo submersa num


mar de pecados. Se nem mesmo um mar de pecados poderia fazer perder a inocência
primeva, como poderia ela ser perdida?

Adão perdeu a inocência original que Deus lhe havia dado, mas a inocência
primeva, tal qual a concebe Plínio, não poderia ser perdida. Não seria algo acrescentado
à natureza humana.

Não seria algo acidental no homem, que poderia, ou não, existir no homem.
Portanto, seria uma coisa essencial a ele. O que é um absurdo.

Não só ela não poderia ser arrancada totalmente do homem, nem sequer pelo
pecado, como também poderia ser restaurada em sua integridade, mas não pela
conversão:

Desaparecida a inocência, estaria tudo perdido? Ela é algo de irrecuperável


ou pode ser restaurada?

Sem dúvida, pode haver uma restauração. Não se trata simplesmente da


conversão de um pecador arrependido – embora a conversão tenha muito a
ver com o tema – mas da volta ao estado primevo de harmonia interna que
constitui a inocência (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência…, p. 53).

Portanto, a inocência primeva não seria recuperada nem pelo arrependimento,


nem pela confissão e absolvição sacramentais.

94
Seria possível uma restauração por uma nova adesão à harmonia das potências
da alma.

Como?

São saudades que salvam. ‘Não é preciso fazer considerações flagelantes e


dilacerantes a respeito do paraíso perdido com o qual se rompeu e que
também teria rompido conosco. Em vez disso, deve-se pensar o contrário:
esse paraíso não rompeu conosco e a toda hora bate à nossa porta (Plínio
Corrêa de Oliveira, A Inocência…, p. 54).

A Inocência primeva não seria perdida nem por cometer pecado mortal.

E por que a inocência primeva não poderia ser perdida?

A graça de Deus pode ser perdida por nós, porque ela é dom gratuito e
sobrenatural. A graça santificante não é algo que pertence à nossa natureza, por isso
podemos perdê-la pois ela é um acidente em nossa natureza. Dizendo que nem o
pecado—nem uma mar de pecados -- pode nos arrancar a inocência primeva, PCO está
dizendo que a inocência primeva é algo que nos pertence naturalmente. Nem o pecado
pode mudar a nossa natureza, nem os sacramentos podem mudar o que é natural em nós.
Portanto, a inocência primeva faria parte de nosso ser, porque o Absoluto jazeria
inviscerado em nossa natureza. Plínio é um gnóstico.

Seria por isso que os tefepistas membros da Sempre Viva não se confessavam?

O Paraíso perdido não teria rompido com o homem. PCO garante isso. Contra a Sagrada
Escritura.

Pela Inocência Primeva, dada a todos os homens,através da saudade, manter-se-


ia um contato com o paraíso terrestre. Havendo Inocência primeva, não se perderia
propriamente o paraíso terrestre.

Pior ainda: a salvação seria obtida por uma adesão pessoal ao estado de
inocência primeva, e não por meio do Batismo ou de uma graça sacramental. Noutras
palavras, a salvação não se daria por meio de uma graça de Cristo, mas por um ato do
próprio homem, aderindo à sua inata inocência primeva. O homem seria então salvador
de si mesmo, como ensina a Gnose.

Essas teses são impossíveis de conciliar com a revelação e com a doutrina


católica.

95
E note-se ainda que PCO julga que não é preciso fazer penitências dilacerantes
para recuperar a inocência primeva. E ele acrescenta um escandaloso “deve-se pensar o
contrário”.

“Pensar o contrário” de fazer penitência?

Portanto, dever-se-ia até gozar a vida?

Se nem a penitência mais séria, nem a confissão sacramental nos dão de volta o
Éden, como as saudades nos restaurariam num paraíso interior?

Plínio não diz como se recupera a inocência. Pelo menos isso não está publicado
nesse livro. Fala vagamente em adesão à harmonia das potências da alma. Em
“saudades do paraíso”...

Nesse ponto de seu livro, os responsáveis por sua edição colocaram apenas
aquela que Plínio chamava de Oração da Restauração, que aparentemente era dirigida a
Nossa Senhora, mas que os entrosados nas doutrinas discretas da Sempre Viva sabiam
que era dirigida a Dona Lucília, mesmo. Não para Nossa Senhora.

Oração da Restauração

‘Há momentos, minha Mãe, --[É Nossa Senhora ou Dona Lucília essa mãe?]
– em que minha alma se sente no que tem de mais fundo, tocada por uma
saudade indizível. Tenho saudades da época em que eu Vos amava e Vos me
amáveis, na atmosfera primaveril de minha vida espiritual. Tenho saudades
de vós senhora e do paraíso que punha em mim a grande comunicação que
eu tinha convosco.

‘Não tendes também Vós, Senhora, saudades desse tempo? Não tendes
saudade da bondade que havia naquele filho que fui?

“Vinde, pois, ó melhor de todas as mães, e por amor do que


desabrochava em mim, restaurai-me: recomponde em mim o amor a Vós, e
fazei de mim a plena realização daquele filho sem mancha que eu teria sido
se não fosse tanta miséria.

‘Dai-me, ó Mãe, um coração arrependido e humilhado, e fazei luzir


novamente os meus olhos aquilo que, pelo esplendor de vossa graça, eu
começara a amar tanto e tanto!...

‘Lembrai-vos, Senhora, deste David e de toda a doçura que nele púnheis.


Assim seja! (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência…, p. 55).

Literariamente, oração bem escrita.

Pena que seja tão ambígua!

E teria sido tão fácil colocar nela o nome de Maria!


96
Que ele, propositalmente não quis por.

E é preciso lembrar que, na iniciação na Sempre Viva cada iniciado deveria


compor uma oração a Dr. Plínio parodiando uma oração católica a Nossa Senhora.

E é preciso lembrar que, na TFP, os iniciados rezavam uma paródia da Ave


Maria a Dr. Plínio: “Ave Luís Plínio Elias, o Senhor é convosco, etc. (Cfr. na Quinta
Parte deste livro, p.)?É preciso lembrar que Dr. Plínio disse que, quando rezava a Salve
Rainha, não sabia se estava se dirigindo a Maria Santíssima, ou a Dona Lucília...

E ele escreveu:

Quando Nossa Senhora me concedeu a graça de, pela primeira vez, prestar
atenção na Salve Regina, entendi mamãe por inteiro, pois abri os olhos para
aquela Mãe toda celeste e indizivelmente mais alta e mais perfeita do que
ela. Assim nasceu minha devoção a Nossa Senhora”(Plínio Corrêa de
Oliveira, in revista “Dr. Plínio”, Ano III, Fevereiro de 2009, p. 28.
Transcrito, com adaptações da obra “Dona Lucília” de João Scognamiglio
Clá Dias. Se alguém quiser crer...).

É preciso lembrar ainda que ele se perguntava: Quem é mais, Mamãe ou a Igreja
Católica?

“De tal modo que, quando fiquei mais velho e compreendi tudo o que
representa a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana,cheguei a fazer esta
comparação: “Em última análise, quem vale mais – a Igreja ou mamãe?”.

“A resposta me veio incontinenti ao espírito: as duas não se dissociam. Tudo


quanto há em mamãe, recebeu ela da Igreja. Cabe agora, porém, o crivo de
minha análise como católico: será mesmo tudo conforme a Igreja? Por que,
se algo nela não for conforme a Igreja, eu prefiro a Igreja a ela” (Plínio
Corrêa de Oliveira, Decisão e elevação de alma de Dona Lucília, in revista
“Dr. Plínio”, Ano I, Setembro de 1998, n0 6, p. 11).

Poderia se colocar dilema mais estapafúrdio?

Esse dilema e a resposta dada a ele comprovam a estranha relação praticamente


religiosa entre Plínio e sua mãe...

É preciso lembrar o que Plínio pensava e escreveu sobre ela, antes dos seus dez
anos (disse ele):

Então, eu permanecia junto a ela sem conversar e, olhando-a, notava uma


elevação de espírito que me deixava um tanto interloqué (desconcertado).
Sentia emanar dela tanta retidão, harmonia, suavidade e firmeza que ela me
parecia ser uma imaginação, quase uma utopia! Dava-me a impressão de
uma “trans-realidade” maravilhosa, como uma miragem no deserto ( Plínio
Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, Vol. I, p. 339).

97
É evidente que Plínio considerava que sua mãe era participante da inocência
primeva: “A inocência, por exemplo, que ela possuía em alto grau(...)” ( idem , p. 340).

Considerando que ele tinha Dona Lucília como quase uma utopia e uma trans-
realidade, e inocente em alto grau, é de surpreender que ele a chamasse de “Mãe da
Trans–esfera”?

Quem é então a Mãe a que Plínio se refere na sua oração da Restauração?

Ora, depois de ter ousado colocar sua mãe na balança de suas preferências
perguntado-se quem valia mais se a Igreja Católica ou dona Lucília; depois de dizer que
ela era uma trans-realidade e uma utopia; depois de mitificar Dona Lucília a um nível
idolátrico, Dr. Plínio disse:

Minha mãe - uma pessoa que venero profundamente mas que era liberal -
antes de nós aprendermos a falar papai e mamãe, ensinou-nos a mostrar onde
estava a imagem do Coração de Jesus. (Plínio Corrêa de Oliveira, Simpósio,
Quem somos nós, IV parte, 1- B- f, pp. 72-73 . ORIGINAL DO site
salvemaria. http://salvemaria.info/images/fbfiles/files/QSN.doc).

Ora, na TFP sempre se ensinou publicamente que “O Liberalismo é pecado”(D.


Félix Sardá Y Savani) e pecado contra a Fé, e que, portanto, ninguém podia ser católico
sendo liberal. Dr. Plínio, em reunião secreta, diz que Dona Lucília era liberal. Depois,
organizou um culto como santa para ela.

Contradições que indicam ou um desequilíbrio mental muito grande, ou uma


falsidade incrível.

Quando PCO era sincero?

Como se recupera e se mantém a inocência primeva é pouco explicitado por Dr.


Plínio. Pelo menos, os Provectos não publicaram nada completo sobre esse problema.
Entretanto, ele diz sobre isso alguma coisa bem estranha, no capítulo 6 da primeira parte
desse livro que estamos analisando.

Afirma ele que, ao longo de toda a vida, se deve sempre crescer na Inocência
Primeva, que jamais seria totalmente perdida (Op cit., p. 58). O homem deveria
“conservar até a velhice as qualidades da infância” (Op. , cit., p. 60).

Uma hipótese seria que a inocência primeva se recuperaria por uma adesão ao
“INOCENTE” por antonomásia, a PCO, tornando-se um outro Plínio, sendo um com
ele, tal como se fazia na iniciação da Sempre Viva.Seria preciso uma identificação do

98
próprio eu com o eu de Plínio.O qual – veremos isso logo mais - seria idêntico ao Eu de
Cristo.

É uma hipótese que levantamos.

Só isso.

Mas ela tem coerência com tudo o que ensinava PCO.

Capítulo V - Nova Doutrina da Salvação e do Juízo Final


Veja-se como essa hipótese é reforçada pela noção de Juízo final descrito por
PCO.

Nesse ponto, de seu livro, Plínio vai tratar do Juízo da alma por Deus. E ele
diz que sua concepção sobre o juízo da alma por Deus “difere da concepção comum
sobre o que são o existir de um homem, o Juízo Final e o julgamento de Deus” (Plínio
C. de Oliveira, A Inocência…, p. 61).

Ora, o próprio Jesus Cristo contou revelou como será o Juízo Final, e o que
PCO diz é totalmente diferente do que disse Cristo, no Evangelho, e do que ensina a
Igreja sobre esse julgamento divino universal, como também sobre o juízo particular de
cada alma.

Porque Jesus, quando foi interrogado pelo jovem rico, como ele poderia salvar
sua alma, Nosso Senhor lhe respondeu: “Se queres entrar na vida eterna, observa os
mandamentos” (Mt., XIX, 17).

Plínio vai dizer o oposto do que ensinou Nosso Senhor, ao afirmar que a
salvação eterna nada tem a ver com a prática de uma “tabela de dez mandamentos”.

Como ousa Dr. Plínio divergir do relato do Juízo Final feito pelo próprio Cristo Deus? E
como, dizendo esse absurdo, ele é apresentado ainda como pensador Católico?

Não acreditam que o homem que pretendia “vir totus catholicus” disse isso?

Leia-se então a surpreendente explanação pliniana do Juízo Final.

Por vezes vem-nos ao pensamento que a entrada no Céu será como se fosse
num país completamente estranho, onde não conhecemos ninguém. Ficamos,
no fundo, um tanto apavorados. E pode-se ter a impressão de que o
julgamento não tem relação com nossa biografia, mas com uma tabela de
Dez Mandamentos que se deveria ter praticada. Não nos parece que
vamos rever uma pessoa muito conhecida, mas ter contato com um

99
desconhecido que nunca esteve diante de nós” (Plínio Corrêa de Oliveira, A
Inocência…, p. 61. O destaque é nosso).

Incrível!!! Uma pessoa, que passava por ser católica e tradicionalista, “il crociato
del secolo XX”, caricaturando o Juízo Final do modo como costumam fazê-lo os
modernistas e os liberais, que condenam o Juízo, pela Lei de Deus. Plínio, como um
padre modernista, afirma com todas as letras, que, no Juízo Final, não seremos julgados
pelo que ele chama a “Tabela dos Dez Mandamentos”.

Por que isso?

Porque, se a inocência primeva não seria perdida nem por um mar de pecados
cometidos, a pessoa se salvaria, não porque ela seria julgada pela tabela dos
mandamentos, mas por sua adesão ao estado de harmonia das faculdades da alma, por
sua adesão à Inocência Primeva, que a uniria a Cristo a tal ponto, que a tornaria sósia
tão igual a Cristo, que seria “um” só com Ele.

A pessoa seria julgada por sua identificação com o Eu de Cristo. Daí, PCO dizer
que a Inocência Primeva tem algo de divino.

Na Hora da morte acaba o exílio, porque termina o lusco-fusco e se vai ter o


grande encontro: o grande encontro com Aquele com “A” maiúsculo no lar
paterno da alma. Com Aquele que é mais eu do que eu mesmo, e em cujo
convívio vou passar a viver e existir por toda a eternidade. É a sensação de
volta à casa paterna depois de uma longa peregrinação. “É a procura do
semelhantíssimo a mim, mais eu do que eu mesmo” (Plínio Corrêa de
Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo,
ed.Cit., p. 62. Os destaques são do original).

De novo, para quem conhece o gnóstico “Canto da Pérola”(Cfr. Hans Jonas, La


Religion Gnostique Flammarion, Paris,1978, p. 152 a 173) é patente a similitude entre
essas idéias de PCO, com a sua “procura do semelhantíssimo a mim, mais eu do que eu
mesmo”, e a Gnose antiga.

Que significa que após a morte a alma “retornaria ao lar paterno” ? Por acaso a
alma teria vindo do céu antes de se encarnar e nascer? Isso seria admitir a pré
existência das almas num mundo divino, e sua queda neste mundo material onde a alma
se torna peregrina em viagem de “retorno à casa paterna.” Mas essa é a lenda contada
pela Gnose. O “Canto da pérola” dos gnósticos antigos não diz coisa diversa.

E essa concepção do Juízo da alma também não é católica.

100
Nosso Senhor disse que para ser salvo é preciso crer, ser batizado e observar os
mandamentos (Mc., XVI, 16; Mat. XiX , 17).

Para a Gnose, a salvação vem do conhecimento intuitivo de algo divino inato no


homem. Tal conhecimento seria salvador. Gnosis é um conhecimento salvador.

E qual é o conteúdo do conhecimento que salva? Fundamentalmente, não é


senão a história da própria história transcendente, pelo fato de que é ela que
expõe ou que supõe toda a verdade iluminante do que o mundo esconde e o
que a salvação exige: “o conhecimento: quem nós éramos; o que nos
tornamos; onde estávamos; onde fomos jogados; em direção de que nós nos
apressamos a ir; do que somos resgatados; que é o nascimento e o que é o
renascimento ( Extratos de Teódoto, 78, 2, apud Hans Jonas, Op. cit., p.
455).

O homem, conhecendo o ser mais íntimo que reside no “tabernáculo de sua


alma”, - e Plínio vai usar essa fórmula--- o homem estaria salvo, sem penitência, sem
cruz, ainda que submerso num mar de pecados, pois esse conhecimento é de que o eu
mais profundo dele é uma partícula da própria Divindade. Na Gnose cristã, o Eu
profundo do homem é o Eu de Cristo, no homem.

É nesse princípio escondido da pessoa terrestre e seu original celeste que se


dá o último reconhecimento e reunião. Em nosso relato- [O Canto da Pérola]
– a veste, forma celeste desse eu que é invisível porque está temporariamente
ocultado, é uma das representações simbólicas de uma doutrina
extremamente espalhada e essencial para os gnósticos. Não é exagerado
dizer que a descoberta desse princípio transcendente e interior ao homem e a
mais elevada preocupação com seu destino, são o próprio coração da religião
gnóstica (Hans Jonas, La Religion Gnostique, Flammarion , Paris, 1978, p.
168).

Vimos que Plínio julgava que havia um arqui alter ego dele mesmo. E agora,
nessa concepção do Juízo de Deus, vemos que a salvação adviria não da fé e da prática
da moral, mas da identificação da pessoa com seu arqui alter ego: Cristo.

Cristo-Deus seria então o arqui alter ego de Plínio.

Portanto, Plínio, e todos os que desenvolvessem a sua inocência primeva, seriam


Deus. Por isso Scognamiglio dirá que o flash é graça divinizante...

Com d minúsculo... E o d minúsculo é para enganar ingênuos, enquanto ele tenta


passar uma rasteira nos Cardeais do Vaticano.

Ora, diz Hans Jonas da Gnose:

101
Precisemos alguns pontos importantes. Assim, há identidade ou
consubstancialidade, do eu mais íntimo do homem e do Deus supremo do
alem mundo --[da Trans-esfera, diria PCO]--, que, muitas vezes, é ele
mesmo chamado Homem [E PCO ambiguamente insiste em chamar Cristo
de o Homem-Deus, quase nunca de Deus-homem]--: a extrema elevação
metafísica coincide, na essência a-cósmica do homem com a extrema
alienação cósmica (Hans Jonas,La Religion Gnostique,Flammarion, Paris,
1978, p. 453),

E há outro texto em que Plínio afirma que o Sagrado Coração de Jesus era
semelhante a ele, Plínio.

Ele conta que, olhando uma imagem comum do Sagrado Coração de Jesus, Plínio...

Sentia que, se quisesse fazer uma idéia d’Ele, deveria ter a certeza de que
sua mentalidade era precisamente aquela, ali representada. Conhecê-Lo,
pois, para mim, era interpretar aquela figura. E eu refletia: “Essa imagem me
compraz e está de acordo com minha retidão, da qual estou certo, pois ela é
uma evidência interna nascida em mim, proveniente de algo que não erra! Eu
não sabia que isso era o senso do ser”. (Plínio Corrêa de Oliveira, notas
Autobiográficas, Editora Retornarei, São Paulo, 2008, 10 volume, p. 307).

Plínio, pelo seu infalível “senso do ser”, tinha certeza de que o Sagrado Coração
de Jesus era parecido com ele, Plínio: que Jesus era o seu arqui alter-ego...

Christus alter Plinius.

Que honra!...Para Cristo, pensaria Plínio.

Deixando de lado, o patente problema psicológico dessas meditações delirantes,


vejamos algo muito mais grave: a comprovação por alguns textos da Gnose mandeana,
o caráter gnóstico dessa concepção de união com um alter-ego divino. Vejamos, para
exemplo, alguns antigos textos da Gnose mandeana e maniquéia, para constatar como
eles coincidem com a doutrina exposta por PCO.

“A veste e a Imagem”

“Nas Liturgias mandeanas para os Mortos, lemos esta fórmula costumeira


(por exemplo, G. 559):

“Eu me vou ao encontro de minha imagem

E minha imagem vem a meu encontro;

Ela me acaricia e ela me abraça

Como se eu voltasse do cativeiro”.

Esta concepção provém de uma doutrina do Avesta em cujos termos, após a


morte de um crente, “sua própria consciência religiosa sob a forma de uma

102
bela jovem”, aparece à sua alma que lhe pergunta quem ela é e eis a sua
resposta:

“Jovem, de bons pensamentos, de boas palavras, de boas ações, de boa


consciência, eu sou sua consciência pessoal...Você me amou... nesta
sublimidade, nesta bondade... sob as quais eu te apareço hoje (Hadôxt Nask,
2, 9,s.)”.(...)“(...) Ela simboliza o eu celeste ou eterno da pessoa, a sua idéia
original, espécie de duplo ou de alter ego conservado no mundo do alto,
enquanto ele pena aqui em baixo: como diz um texto mandeano:

“Sua imagem é guardada em segurança em seu lugar”.

“Ela cresce na proporção dos trabalhos próprios que ela cumpre, e, na


medida em que sofre, ela tem forma acabada”.

“Quando ela está em suficiente grandeza, significa que ela cumpriu sua
missão, e é então que ela é chamada de seu exílio no mundo. Quando ela
encontra essa face dela mesma, da qual ela foi separada, quando ela a
reconhece como sua própria imagem, quando ela se reúne a ela, esse é o
verdadeiro instante de sua salvação. Aplicada ao mensageiro ou salvador,
como ela o é aqui e em outros textos, esta concepção leva à interessante idéia
teológica de um gêmeo ou de um original eterno do salvador, que
permaneceu no mundo do alto durante sua missão terrestre. A Especulação
gnóstica é freqüente nestes desdobramentos de pessoas divinas”(...) “Quando
o estrangeiro [o exilado no mundo inferior] se reúne com sua veste, parece
que a pessoa do irmão foi reabsorvida numa unidade” (Hans Jonas, La
Religion Gnostique, Flammarion, Paris, 1978, pp. 165 e 166. Destaques do
original).

A noção do duplo eu é comum nos sistemas gnósticos e vai ser repetida na


Gnose romântica que Plínio adotou.

“O Eu Transcendente”“O duplo do salvador, como vimos, não é senão a


representação teológica particular de um idéia reativa à doutrina do homem
em geral, e que exprime o conceito do Eu. Neste conceito, podemos
distinguir o que é talvez a contribuição mais profunda da religião persa ao
gnosticismo, tanto como à história da religião em geral. O termo do Avesta é
Daêna, e o orientalista Bartholomae dá o seguinte sentido: “1- religião; 2-
essência íntima, ego espiritual, individualidade; muitas vezes dificilmente
traduzível”.

“Nos fragmentos de Turfan, se utiliza um outro termo iraniano, griv, que se


pode traduzir por “eu” ou por “ego”. Ele designa a pessoa metafísica, o
sujeito transcendente e verdadeiro da salvação, que não é idêntico à alma
empírica” (Hans Jonas, La Religion Gnostique, Flammarion, Paris, 1978, pp.
166 e 167. Destaques são do original).

O texto da liturgia mandeana diz:

“Eu me vou ao encontro de minha imagem

E minha imagem vem a meu encontro”.

E Dr. Plínio disse:

103
Na Hora da morte acaba o exílio, porque termina o lusco-fusco e se vai ter o
grande encontro: o grande encontro com Aquele que com “A” maiúsculo no
lar paterno da alma. Com Aquele que é mais eu do que eu mesmo.

O paralelismo dos textos é evidente, e a doutrina da Gnose mandeana com a


doutrina de Plínio é coincidente. Dr. Plínio foi um gnóstico. E a TFP dos Provectos
assim como os Arautos, ambos movimentos-fachada da Sempre Viva, são gnósticos.

Claro que podem existir pequenas diferenças acidentais na estrutura de


pensamento da Gnose e da Sempre Viva, mas no fundo, trata-se da mesma heresia.

E como o Eu de Cristo seria sósia absoluto do eu de cada homem que adere à Inocência
Primeva, cada homem inocente, de certo modo, seria Cristo. Christianus alter Christus.

Especialmente, Plínio realizou essa identificação.

Plinius alter Christus...

O que se diz na Igreja de ser um com Cristo, o próprio PCO aplicava a ele
mesmo. Dr. Plínio ensinava que seus sequazes precisavam ser “um” com ele:

Vocês tem que fazer ascese para concordar comigo e para serem
inteiramente um comigo. Esta ascese eu fiz com a Igreja. Eu tomei a minha
natureza e a dobrei (e fez um gesto como de alguém que estivesse dobrando
uma barra de ferro) eu me tomei mim mesmo e dobrei a minha natureza e
transformei a minha natureza à semelhança da Igreja. É preciso tomar a
natureza de vocês com ascese e dobrá-la e serem um comigo (Jour le Jour
de PCO- Jornal falado de João Clá aos EUA em 23 de Janeiro de 1983).

Ser um com Plínio equivaleria a ser um com a Igreja. Porque, na TFP e entre os
Arautos, se acredita que Plínio é a Igreja.

Ser um com Plínio: essa era a ascese fundamental da Sempre Viva, dos Arautos
e da TFP, ascese ensinada por PCO e instilada por Scognamiglio.

Plínio confunde imitação, visando a perfeição, com identidade substancial,


ontológica. Imitar a Cristo, buscando a perfeição não torna o imitador idêntico ao
modelo, anulando a sua identidade, fazendo do modelo e do modelado um único ser.

São Francisco, imitador de Cristo, continuou Francisco, não se tornou Cristo. Ele
não perdeu sua natureza própria. Uniu-se a Cristo misticamente, moralmente,
aperfeiçoando seu ser, e não perdendo sua identidade.

Mas na Sempre Viva se vai além disso. Cada membro da Sempre Viva,
tornando-se outro Plínio, se identificava com o eu de PCO e com o Eu de Cristo.

104
Daí, o atual Monsenhor Scognamiglio dizer que

A união com o Fundador [PCO], através da Sempre Viva, é o auge da


Sabedoria e da sacralidade. Uma vocação angélica.

Ao tratar do caráter sacral da Sempre Viva – e, portanto, do que existe de


sagrado em cada um dos escravos de Maria--, meu Fundador --[PCO] –
assim se expressou:

[Palavras de PCO]: Com a graça da Sempre Viva, um escravo de Maria


recebe um dom maior do que qualquer outro dom, porque traz consigo uma
promessa do Céu, uma promessa de um amor particularíssimo de Nossa
Senhora, a promessa de uma missão, a promessa de uma contínua ação de
graças, através de Maria, baixando sobre os escravos de Maria.

Qual é o dom que se pode comparar a este? O que é ser Rei da Bélgica em
comparação com isto? O que é ser Rainha da Inglaterra em comparação com
isto? Com toda a veneração, com toda a ternura, pergunto: o que é ser Papa,
em comparação com isto? Quer dizer, isto é ser anjo, é um estado angélico
na terra, e mais não se pode dar (Plínio Corrêa de Oliveira, apud João
Scognamiglio Clá Dias, 10 a Conferência do Retiro V, A Unidade do Súdito
com o Fundador, p. 10 de 12).

Para Monsenhor Scognamiglio, ser da Sempre Viva, conforme lhe ensinou Dr.
Plínio, “é ser mais do que ser apóstolo de Cristo. É mais do que ser anjo”.

Claro: seria ser Cristo.

Ser da Sempre Viva, então, seria ser de algum modo divino, como escreveu
Plínio falando do que significa aderir à Inocência Primeva. E isso é Gnose mesmo.

Como um professor capaz, como meu antigo amigo Roberto de Mattei chamou
Plínio Corrêa de Oliveira de “O Cruzado do Século XX” ? Será que ele, de fato, jamais
recebeu informação sobre as doutrinas secretas da TFP?

Tomara Deus que não. E espero que, agora, conhecendo esses textos de Dr.
Plínio, ele volte atrás, porque o tenho como sincero católico.

E assim, em Deus espero...

Capítulo VI - A identificação dos "eus"


Sem dúvida, esse encontro com Jesus, “mais eu do que eu mesmo”, é
absolutamente diferente do que Jesus e a Igreja sempre ensinaram sobre o Juízo Final.
Desse Juízo Final de Plínio, desapareceu a “tabela dos Dez mandamentos”. O Juízo
Final seria o encontro do eu de cada homem com o Eu de Jesus Cristo. E Jesus seria
mais eu mesmo do que eu sou eu próprio.

105
Jesus é que seria semelhantíssimo a nós. Não seríamos nós que deveríamos nos
tornar semelhantes a Cristo, pois mesmo com um mar de pecados, guardaríamos a
Inocência Primeva, e Cristo seria assim nosso sósia. Tão sósia, que seria mais nós do
que nós somos nós. Um sósia gêmeo absoluto de nós mesmos. E isso dispensaria o
julgamento pela ”tabela dos dez mandamentos”. Para realizar a unidade com Cristo
bastaria aderir à inocência primeva existente em nós, e seguir o inerrante seletivo inato
no homem.

Tão semelhante Jesus seria a cada um, que se identificaria com cada eu.

Nada de tabela de Mandamentos. Acabou-se a lei. Trata-se de encontrar o nosso sósia-


gêmeo absoluto. O nosso arqui-alter-ego. Mais do que encontrar a Cristo, identificar o
próprio eu com o eu de Cristo de modo que sejamos um só eu.

Plínio se torna igual a Jesus. Cada um da Sempre Viva se identificava com


Plínio e, ao fazer isso, se identificava também com o Eu divino de Cristo, através da
adesão à inocência primeva, visto que o Eu de Cristo e o eu de Dr. Plínio eram um só
eu. Era o triunfo do igualitarismo: ter como sósia absoluto o próprio Cristo. Tornar-se o
eu de Cristo. É a essência da Gnose e o sumo do igualitarismo: uma fusão do eu
particular com a divindade.

É o que se confirma com o que diz Plínio no parágrafo [8] intitulado: “O


encontro com o símile absoluto de si mesmo”, onde se lê:

Se, em determinado momento de nossa vida, encontrássemos, andando pela


rua, um homem que fosse nós mesmos, mas na perfeição espiritual que
deveríamos ter; se esse homem parasse e nos cumprimentasse, e dissesse,
por exemplo: “X, como vai?”, teríamos, sem dúvida, uma sensação curiosa.
Talvez sequer soubéssemos dizer se já o conhecíamos ou não.

Ao mesmo tempo julgaríamos que se trata de um desconhecido e de um


conhecidíssimo: a pessoa mais conhecida que para nós existe. (A Inocência
Primeva e a Contemplação sacral do Universo,no pensamento de Plínio
Corrêa de Oliveira, ed cit. P. 62).

Estranha e curiosa imaginação dialética a de Plínio.

Nesse encontro imaginário com um Jesus, que seria idêntico ao mesmo Plínio,
nesse encontro com Deus, que seria nosso próprio eu, desconhecido-conhecidíssimo,
dar-se–ia um encontro com outro, que é o nosso próprio eu.

Como num espelho. Mais ainda do que num espelho: porque o outro existe
também, não como imagem, mas como sósia absoluto.O nosso eu perfeitíssimo.

106
Era como se se desse um encontro do eu-sujeito conhecedor-- com o outro eu,
objeto conhecido. Seria o encontro do sujeito com o objeto. Exatamente como os
românticos sonhavam poder alcançar a união entre sujeito e objeto, para alcançar uma
redenção romântica que acabasse com a desgraça do pecado original, que teria sido
exatamente a disjunção de sujeito e objeto.

Literalmente, o christianus—o que tivesse conservado a Inocência Primeva--


seria o alter Christus.

Por isso, Plínio, O Inocente por excelência, seria O Alter Christus por
antonomásia.

É uma constante de todos os sistemas gnósticos ver o mundo concreto como uma
queda da Divindade. O demiurgo criador é visto pela Gnose como aquele que montou
um universo material como caricatura desajeitada da esfera divina.E nesse mundo o
Absoluto ficou encarcerado—“inviscerado”, dirá Plínio—em cada criatura. Desse
modo, a redenção consistiria em conhecer que o Absoluta inviscerado em nós é o
mesmo Absoluto excelso, que nosso absoluto inviscerado em nós, libertando-se da
matéria pelo Conhecimento esotérico, se livra de sua materialidade e da contingência,
retornando ao mundo divino, onde se reencontra e se une a seu “duplo”, à sua alma
gêmea, a seu sósia espiritual. Esse é que é o Grand Retour de que falavam os esotéricos
e os gnósticos, e do qual falava também Plínio. O que diz PCO do reencontro do eu de
cada homem com seu sósia absoluto é uma reformulação tefepista de doutrina comum a
muitos sistemas gnósticos, dede o antigo Egito, que fala do Ka e do Ba, até Jung com
sua doutrina do Eu absoluto, no qual cada eu individual se fundiria. Ou como na Cabala
de Martin Buber, em que o Eu e o Tu se fundem para fazer surgir a Presença divina, a
Shechkinah cabalista.

Veja-se, por exemplo, o que diz Henry Corbin sobre a doutrina do “duplo” de
cada homem—do sósia absoluto de cada um—na doutrina shiita, e compare-se isso com
o que acabamos de ver ser ensinado por Dr. Plínio sobre a identidade do eu de cada um
com o Eu de Cristo, para os tefepistas, nas reuniões discretas do MNF e nas reuniões
secretas da Sempre Viva, doutrina que foi agora publicada parcialmente, no livro que
focalizamos sobre a Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo.

Na doutrina shiita, se fala do encontro do eu de cada um com seu “anjo”, um


“duplo” ou sósia absoluto do eu humano individual de cada um. Compare-se o que diz o

107
shiismo com o que contou PCO do encontro de cada um com Jesus Cristo, no Juízo
Final. A correspondência é tão impressionante que se tem a desconfiança (falsa) de que
PCO conheceu ou estudou o shiismo. O que julgamos muitíssimo improvável, se não
absurdo.

Os livros shiitas são enormes e abstrusos... E neles não há figuras... Plínio


certamente não os leu. Preferia folhear o álbum de Bécassine. Ou ler as fofocas cortesãs
de Versailles narradas por Saint Simon...

Puríssimas!...

Quando, pois, o eu terrestre “reencontra’ sua Natureza Perfeita, seu Anjo, ele
“vê” eo ipso seu ser total, seu pleroma. Ele vê pois o Anjo-Arquétipo desse
pleroma (Henry Corbin, En Islam Iranien, Gallimard , Paris, 1971, 4
volumes, vol., II, p. 306. Os destaques são do autor).

Pois veja-se como comenta Plínio a morte de Roland, entregando seu guante de
ferro a São Miguel:

A Chanson de Roland insinua e faz sentir essa concepção da morte.


Quando desce o Anjo para buscar a alma do guerreiro, é-lhe dada a alegria
incomparável de encontrar, em São Miguel, o símile absoluto de si mesmo.
Ele tem a alegria de se sentir pequeno diante de alguém, pois o arcanjo não é
um símile horizontal, igual, mas lhe é superior (A Inocência Primeva..., p.
63. Os destaques são do original)

Impressionante o paralelo entre o texto shiita e o que diz PCO!

Impressionante o paralelo perfeito com o que conta PCO do encontro da alma


com Jesus, seu sósia absoluto, no Juízo Final. É exatamente a mesma coisa, o mesmo
esquema. É exatamente a mesma doutrina.

Prossegue Henry Corbin:

O par que o eu terrestre forma com seu Duplo celeste ou seja, com sua
Natureza Perfeita, é eo ipso a individuação de sua relação com o Anjo; nessa
individuação, o Anjo é a sua Natureza Perfeita, e ele é o eu terrestre dessa
Natureza Perfeita. É pela Natureza Perfeita, que ele conhece, ao se conhecer
a si mesmo(...) (Henry Corbin, En Islam Iranien, Gallimard , Paris, 1971, 4
volumes, vol., II, p. 306. Os destaques são do autor).

Veja-se mais:

Recapitular-se-á constatando que todo esse conjunto postula que o ser real da
alma não é uma solidão, mas ser em dualidade: ser o segundo membro de
um todo dyádico cujo duplo ou “gêmeo” celeste – [sósia absoluto] –é o
primeiro. Isso implica, portanto, uma ontologia que explica a distância e a

108
distensão que constitui sua presença ao mundo terrestre, e que já a resolve.
Isso implica a “história do gnóstico” a saber que a alma tenha começado a
ser não ao vir ao mundo, mas tendo tido sua origem alhures e tenha
“descido” sobre a Terra. Mas não basta dizer que a alma se encarna neste
mundo em conseqüência de uma queda, ou de uma escolha pré-existencial. É
preciso sublinhar que em termos gnósticos essa descida resulta do
desdobramento, da dilaceração de um todo primordial, e a possibilidade
desta dilaceração deve ser fundada originalmente na estrutura permanente
desse todo. É essa estrutura permanente que, para diferenciá-la da dualidade
imposta por força pelo ”exílio ocidental” que nós propomos designar como
dualidade. A alma encarnada, desse modo, possui um “Par companheiro”,
um Duplo celeste, o Anjo, que lhe vem em ajuda e com quem ela deve
reunir-se, ou pelo contrário perder para sempre post mortem, conforme sua
vida terrestre tiver tornado possível, ou pelo contrário impossível, o retorno à
condição “celestial” de sua bi-unidade. Esta ontologia da alma é conhecida
bem além das fronteiras do Iran; uma mesma visão ‘sofiânica” se impôs aos
cátaros e aos maniqueus, assim como a um Novalis, ou a um Boehme. Ela é
talvez a idéia fundamental da religião gnóstica, ubique et semper. É a razão
pela qual os relatos sohrawardianos despertam múltiplas ressonâncias. Elas
são perceptíveis já nos evangelhos gnósticos como em todas as gnoses
trazendo uma marca iraniana (mandeísmo, mazdeísmo, maniqueísmo), e até
em tempos próximos dos nossos (Henry Corbin, En Islam Iranien,
Gallimard , Paris, 1971, 4 volumes, vol., II, pp. 306-307. Os destaques são
do autor).

Não podia ser mais marcada a coincidência do esquema da gnose shiita com a
doutrina de PCO do Juízo final com base na identificação do eu pessoal de cada um
com um Eu transcendente celestial, e não por uma “tabela de dez mandamentos”.

O que não significa, de modo algum, que consideremos que PCO tenha lido
Sohrawardi, ou qualquer coisa da gnose shiita. Plínio não lia. Explicitava o que
tinha inato em sua alma... Ou o que lhe tinha sido soprado em alguma palestra em
alguma sacristia, ou na Faculdade de Direito, em alguma “aula” “particular”.

Será que, quando Plínio freqüentou a Faculdade de Direito do Largo de São


Francisco, será que lá não teria havido algum MNF?...

Plínio ouviu algo desse esquema gnóstico provavelmente na Faculdade de


Direito do Largo de São Francisco onde – inexplicavelmente – ele, que se dizia católico,
foi nomeado professor sem concurso para a cátedra de Júlio Franck, o fundador da
Burschenschaft...

Seria crime perguntar isso? Ou será que ele poderia ter aprendido coisa parecida
em alguma loja de brinquedos que ele gostava de visitar?

Mas aprender a Gnose por meio de um mestre, não é obrigatoriamente


necessário.

109
Porque a Gnose—e provaremos, se Deus quiser, isso um dia—provém de uma
impostação errada do homem ante o ser, o que o faz cair necessariamente ou no
Panteísmo racionalista, ou na Gnose irracionalista. É o que explica que tantos
movimentos gnósticos, que jamais tiveram ligação histórica entre si, tenham o mesmo
esquema doutrinário.

Ou essa doutrina tão estranha e tão esquematicamente comum de PCO resultou


de uma sua impostação errada -romântica- dele ante o Ser?

Ou as duas coisas conjuntamente.

Essas coincidências não são fortuitas...

E duvidamos também que Plínio tenha lido alguma vez Novalis, e, muito menos,
Jacob Boehme. Ou então o gnóstico russo Soloviev cuja Gnose é tão próxima da de
Plínio. Especialmente com o seu profetismo.

Afinal Plínio não estudava. ...Só explicitava.

Mas o que ele conta desse encontro do eu com Jesus, num Juízo Final
estranhíssimo, diferente do que é narrado nos Evangelhos por Cristo, é bem parecido
com o que o shiismo diz do encontro com o anjo “duplo”—sósia absoluto de cada
homem--, assim como é parecido com o que Novalis conta no seu romance iniciático
Os Discípulos em Saïs. Que certamente Plínio não leu, pois em conversa conosco ele
deixou claro que nunca ouvira falar de Novalis. De Clemens Brentano, ele até nos disse:
“Esse fulano é importante. O nome dele está no Larousse”.

Imagine-se!...

Brentano era importante por estar no Larousse...

Plínio conhecera o Larousse!

Que cultura!

No citado romance de Novalis, Os Discípulos em Saïs-- se conta a história de


um rapaz, Hyacinto, enamorado e noivo de uma mocinha, numa aldeia alemã. Claro que
a mocinha tinha que se chamar Rosa. Mais precisamente, Botãozinho de Rosa
(Rosenblutchen).

Um dia, chega à aldeia um velho que se põe a contar histórias que fascinam o
rapaz. Hyacinto se torna cada vez mais preocupado. Afinal, ele anuncia à sua noiva que

110
tem de partir para encontrar a Mãe de Todas as Coisas, a Virgem velada, em um país
longínquo.

Imagine-se o desespero de Rosinha. Imagine-se: Hyacintho deixá-la, deixar de


casar porque tinha que ir procurar a Mãe de Todas as Coisas. A coitada da
Rosenblutchen devia pensar que seu noivo “endoidara de vez”. Só faltara Hyacintho
dizer que ia partir em busca da Mãe da Trans-Esfera. Por sorte de Rosinha, Hyacintho
não era da TFP, e não fora encantado pelo Profeta, nem engazopado por Scognamiglio.

Hyacinto partiu, então, para uma viagem sem rumo em busca de Isis, a Virgem
Velada, a tal “Mãe de Todas as Coisas”, que lhe daria a felicidade total. Viajou ele
durante anos pelos países do Oriente. Foi iniciado em mistérios estranhos. Afinal,
chegou ao Egito, onde ele é iniciado no templo da Virgem Celeste que, enfim, aparece
em sua presença.

Depois de muitos sofrimentos, ele é admitido à suprema iniciação na qual veria a


própria deusa. E quando posto diante da deusa Isis, ele recebe a permissão de levantar o
véu que cobria o rosto da deusa, para, enfim, conhecer a face da “Mãe de todas as
coisas” e seu segredo último. Então, ele, trêmulo, levantou o véu da deusa e... viu o
rosto dela.

Surpresa: Isis era Rosenblutchen.

Noutra versão, quando Hyacinto levanta o véu da deusa, ele vê sob o véu... a si
mesmo. Vê Hyacinto.

Isis, Rosenblutchen, Hyacinto são a mesma pessoa. Todos têm o mesmo eu.

Tudo é um só eu. Cada eu é todos os eus. É tudo. E é nada. É todos. E é


ninguém.

Era típica do Romantismo a idéia de que a queda da Divindade consistiu numa


perda da unidade. Portanto, a salvação viria de uma identificação de todos com tudo.
Daí, em Novalis, Isis é Rosenblutchen. Mas é também Hyacinto, que é o próprio
Novalis. Haveria um só eu. E o eu universal e a Natureza, o Mundo e Deus, tudo seria
um só Eu.(Cfr. Marcel Brion, L ‘Allemagne Romantique, Albin-Michel, Paris, 1963, 2
volumes, I Volume, pp.66 e 88).

Em Soloviev se acha o mesmo delírio gnóstico: todo sujeito se identifica com o


objeto. E nessa identificação se dá a fusão do eu no Absoluto divino. E cada eu passa

111
ser o próprio Tudo, o Absoluto a Divindade (Cfr. D. Strémookhoff, Vladimir Soloviev
et son Ouvrage Messianique, Les Belles Lettres, Paris, 1935, pp. 109 a 112).

Historicamente, esse idéia de identificar o próprio eu com o eu de outro, parece


que surgiu em Plínio, por causa da extrema ligação que sua mãe, Dona Lucília,
alimentou nele e à qual ele aderiu a ponto de que ele se julgava ela. E ela se julgava ele.

É o que lemos no Jour-le-Jour de Plínio contado por Scognamiglio.

Num telefonema aos USA em 6 de Março de 1983, Scognamiglio conta o


seguinte:

Ontem à noite houve uma reunião histórica, inteirinha sobre ela – [Ela =
Dona Lucília, a mãe de Dr. Plínio] –com fatos inéditos, aliás toda ela
passada por vídeo tape e foi no Primeiro Andar –[no apartamento de Dr.
Plínio]. Ele tratou numa primeira parte da identificação entre ele e ela, e
como se recorrendo a ela chega-se a ele, e vice-versa. Ele comentou muito
aquela fotografia dela em Águas da Prata em que ele está todo tomado por
ela, ele ali é todo ela, que não está pensando em outra coisa (Jour-le Jour 6
de Março de 1983, telefonema de João Scognamiglio Clá Dias aos Estados
Unidos).

E Monsenhor Scognamiglio, ele mesmo, publicou estas palavras de Plínio:

Em certos dias tudo começava mais tarde, pois eu permanecia conversando


com mamãe... Minha irmã e minha prima tinham afazeres de meninas,
naturalmente um tanto separados dos meus, e não participavam dessas
conversas. Nessas ocasiões, mamãe parecia existir apenas para mim! Eu
sentia que “ela penetrava em mim” e eu “penetrava nela” por assim dizer...
Então lhe pedia para contar alguma história. (Plínio Corrêa de Oliveira,
Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008,10 vol., pp 236-
237).

Sem dúvida, essa é uma doutrina completamente aberrante do bom senso e da


doutrina católica. E fundamentar a vida espiritual dos tefepistas—e agora a dos Arautos
– nesse pensamento da unidade hiostática universal é um absurdo inconciliável com a
doutrina católica. E essa identificação do filho com a própria mãe, e nessa linguagem –
ele é ela — é extremamente desagradável...

Pior que desagradável: é uma doutrina da Gnose romântica.

Veja-se este trecho de Tristão e Isolda:

Isolda tu,

E eu Tristão,não mais Tristão,

112
nem mais Isolda;

inominados,inseparados,

recomeçados,reconsumados;

infinita e única

consciência eterna.

(Tristão e Isolda, apud George Steiner, Antígonas, Antropos – Relógio


d’Água,Lisboa, 2a edição, 2008, p. 31).

O eu universal é apenas a consciência eterna...

Esse mesmo autor, George Steiner, faz, nessa obra citada, muito interessantes
perspectivas sobre a Gnose romântica citando a identidade sujeito-objeto dos
românticos, assim como a dialética da identificação dos eus numa unidade e, ao mesmo
tempo, a solidão de cada eu no mundo atual, fruto da queda da Divindade na
materialidade.

As grandes coordenadas do idealismo são o exílio e a tentativa de retorno –


[O “Grand Retour” ao lar paterno, à Divindade]. Assim, a epistemologia
kantiana é a epistemologia de uma renúncia estóica. O sujeito é separado do
objeto: a percepção do conhecimento.(...) A metafísica ocidental posterior a
Kant brota da negação desta distância ou da tentativa de a superar. Em
Fichte, a negação torna-se absoluta: o sujeito e o objeto tornam-se uma coisa
só. Em Schelling, (como em Schiller e em Hölderlin) a verdade e a beleza
identificam-se. Esta esplendorosa tautologia convida o homem, através da
imaginação conceitual, a aprender, a interiorizar, o princípio de uma unidade
perfeita. A pulverização do mundo em fragmentos estanques é uma ilusão.
Onde participa da verdade-beleza, o espírito do indivíduo regressa ao lar de
uma unidade primordial de há muito perdida”. (...) “A grande corrente
trágica do sentimento de exílio posterior a Kant condensa-se na imagem do
homem enquanto “estranho na casa do ser (George Steiner, Antígonas,
Antropos – Relógio d’Água,Lisboa, 2a edição, 2008, pp. 28-29).

Também na seita secreta de PCO –a A Sempre Viva—se dava uma identificação


do eu do iniciado com o eu de Plínio Corrêa de Oliveira, para que um se tornasse o
outro.

Na cerimônia de iniciação na Sempre Viva, o iniciado devia ficar deitado de


costas no chão, e Plínio colocava então seu pé sobre o pescoço do neófito da seita,
significando que poderia fazer dele o que quisesse. A seguir, o candidato deveria prestar
juramento de escravidão a ele, pois que ele, Plínio, era, em certo sentido, o
representante ou até a encarnação do Imaculado e Sapiencial Coração da Virgem Maria,
e ao iniciado era dado, então, o nome de Plínio, seguido de mais um nome de um santo

113
protetor. Monsenhor Scognamiglio, ainda hoje, na Sempre Viva é Plínio Fernando. E
ele dizia que ao pousar a cabeça sobre o cadáver de Plínio, no dia de seu enterro, sentiu
o espírito de Plínio passar para dentro dele.

O eu de Plínio teria passado a “inhabitar” em João Clá.

Após a morte do imortal Plínio, começou-se a dizer que o espírito dele passara a
inhabitar em João Scognamiglio a ponto de umas cladetes – as moçoilas fanáticas de
Scognamiglio fazerem uma canção na qual se cantava:

Em 3 de Outubro dia de luto e de dor

O glorioso varão do Céu subiu

E sua santa alma então passou

Pelo filho que ajoelhado no peito se inclinou

Deste inestimável Pai que um filho nos deixou

(Cfr. Cânticos em louvor aos nossos Santos Fundadores, e ao seu filho mui
querido, nosso padrinho João Clá Dias, Doc. N0 35, p. 8 apud Documento
Jau – José Antonio Ureta, de 13 de Outubro de 1997, p. 41).

Scognamiglio protestou – publicamente--- contra isso, afirmando que só a


Santíssima Trindade podia inhabitar num homem, e nunca alma de homem podia fazer
isso.

Mas...

E privadamente, ele protestou?

Continuando a exposição da cerimônia de iniciação na Sempre Viva, tal como


nos contaram alguns iniciados, depois de receber o nome de Plínio, o novo escravo de
Dr. Plínio devia se ajoelhar diante dele, que permanecia sentado num trono, e beijava os
pés e as mãos do Profeta de Higienópolis. Em seguida, Dr. Plínio deixava o seu trono, e
nele se assentava o iniciado.

Porque agora o iniciado era um novo Plínio, diante do qual Dr. Plínio se
ajoelhava, beijando seus pés e suas mãos, porque este novo membro da seita era ele
mesmo, Plínio. Um era o outro. Os dois eus se identificavam.

Havia, pois uma identificação do eu de Plínio com o eu do novo escravo dele.

Por isso se dizia na TFP: “Plinianus alter Plinius”.

114
Essa união de eus—mais essa identificação de eus – uma delirante união
hipostática dos escravos de PCO com ele, era levada ainda mais longe, pois que, na
TFP, baseando-se em um texto do Padre Francisco Juberías, C.M. F.(La Paternidad de
los Fundadores, In Vida Religiossa, Vol 32, enero—diciembre de 1972) sobre o papel
de um fundador de ordem religiosa, falava-se em “união incorporante” entre os
membros da Sempre Viva (a bem secreta “Familia de Almas de alguns membros da
TFP) e o Dr. Plínio:

Previamente , o Padre Juberías apresenta tentativas bíblicas de explicação da


paternidade do fundador, e que se resumem na aplicação analógica do
conceito da exegese moderna (sic) da “personalidade incorporante”
(indivíduos que reúnem em si todas as características da coletividade e por
meio dos quais esta é capaz de atuar de modo que o escritor sagrado utiliza o
mesmo nome ou expressão para referir-se ao indivíduo ou à coletividade:
Israel-Jacó e povo hebreu; “servo sofredor”= Messias e povo eleito; e
outros); e também da “geração espiritual”, pela força criadora da palavra de
Deus transmitida pelo Profeta ou pelo Apóstolo (Átila Sinke Guimarães,
Servitudo ex Caritate. Serviço datilográfico da TFP, editado e impresso por
Artpress, São Paulo, 1985, p. 201. Os destaques são nossos).

O que é uma simples figura de estilo, a metonímia, tomar a parte pelo todo, é
transformado pela mais do que suspeita “exegese moderna”, e analogicamente, em algo
que explica o que seria uma “personalidade incorporante”. Evidentemente, Átila
Sinke Guimarães se apressa em aplicar esse conceito a Dr. Plínio que passa a ter a
tal “personalidade incorporante” que faria de cada membro da Sempre Viva outro
Plínio.

Mais ainda. Os fanáticos membros da Sempre Viva vão afirmar, por escrito, citando,
claro, o Padre Juberías, que haveria até uma união ontológica dos escravos de Plínio
com ele, que formariam um só ser:

Por sua vez, o súdito une-se ao superior [religioso] de forma que constituam
ambos mais do que um só ser, franqueando-lhe sua consciência por
freqüentes comunicações e mútuas relações, pela doação completa de si
mesmo, de modo que o superior possa dispor do súdito como lhe aprouver
(Edelvives, El Superior Perfecto –Doutrina do bem aventurado
Marcelino Champagnat, Ed. Luis Vives, Zaragoza, 1952,p. 29, in Átila
Sinke Guimarães, Servitudo ex Caritate. Serviço datilográfico da TFP,
editado e impresso por Artpress, São Paulo, 1985, pp. 205-206. O destaque é
nosso).

E Átila, o escravo Plínio Márcio da Sempre Viva, cita ainda a seguinte frase do
autor em que se fundamenta:

115
Essas doações constituem a verdadeira união, podendo dizer-se então que o
superior e o inferior não fazem mais que um só (Edelvives, El Superior
Perfecto, según la doctrina del Venerable Servo de Diós, J.B. Marcelino
Champagnat, Zaragoza, 1.952, p. 29).

De modo que, entre PCO e os membros da Sempre Viva haveria uma união de
eus, uma união incorporante, que faria de Plínio e de seus escravos ontologicamente um
só ser. O que não é pouco.

E como Plínio era um só com Cristo, era um Alter Christus, cada escravo de
Plínio identificando o seu eu com o do Inocente Plínio, incorporando-se
ontologicamente a PCO, cada membro da Sempre Viva, como dizia João Scognamiglio
Clá Dias—agora Monsenhor—seria mais que os Apóstolos e mais que os anjos: seria
divino, por ser um Alter Christus. Plinianus Alter Plinius. Plinianus alter Christus. E só
por isso estaria salvo. Ainda que estivesse mergulhado num mar de pecados.

Por sua vez, também, Plínio se identificava com o Coração Imaculado de Maria.
Ele dizia ser a encarnação do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria, isto é, de sua
mentalidade. Daí, um de seus codi-nomes ser “Maria”.

Portanto, como Plínio se identificava com Nossa Senhora, quem se escravizava a


Plínio, se escravizava a Maria Santíssima. Daí, este diálogo estapafúrdio que se pode ler
num Jour –le – jour entre um Coronel de codi-nome “Espírito” e Dr Plínio: “É uma
felicidade ser do Sr.—[Ser escravo de Dr. Plínio na Sempre Viva] –E ele [ Plínio ] diz:
“Isto é verdade, porque é um modo de ser de Nossa Senhora” (Jour-le Jour, 26 de
Fevereiro de 1983, contado por João Clá).

Plínio se identificava também com “Abel”, outro de seus codinomes (“O justo
Abel”, como se reza na Liturgia da Missa, após a consagração).

Outros o tinham como Elias. Elias era outro que um dia se apresentaria a Dr.
Plínio em certo momento na Bagarre, e Elias era também o próprio Dr. Plínio por sua
identificação com o eu e a vocação de Elias. O livro Elias, O Profeta da Nova Aliança
do Professor Martini deixa entrever o mistério “eliático” de Plínio.

Essa era uma lenda comum em certas seitas esotéricas de direita, crentes no
mistério eliático. Daí, que em toda sede da TFP, como em toda sinagoga, era preciso ter
um trono de Elias. Costume esse que segundo o Zohar, livro principal da Cabala
judaica, deveria ser seguido em toda a Sinagoga ou em toda casa em fosse feita a

116
circuncisão; lá deveria ser posto um trono para Elias...(Moisés Shem Tov de Leon,
Sefer ha Zohar, I,13 e I, 93).

Na TFP, e entre os Arautos até hoje, Dr. Plínio era “O Moisés da Lei e da
Graça”.

Excusez du peu!

Plínio era Maria. O iniciado era Plínio. O iniciado se tornava de algum modo
Maria. Porque Plínio e Maria eram um. Ser escravo de Maria era ser escravo de Plínio.
E Plínio era Elias e Elias era Plínio. E assim por diante, numa confusão esquizofrênica e
paranóica, em que cada um era todos, e deixava de ser simplesmente o que era. E em
que todos eram um.

E não se pense que essa conclusão seja nossa. É do próprio Plínio. É a de


Scognamiglio dando retiros aos Arautos e membros da Sempre Viva, quando
Scognamiglio ainda era um simples leigo.

Quando todos sejamos um, esse um terá essa mesma sincronia com O
Coração Imaculado de Maria, e com o Coração de Jesus, de grau em grau
(Plínio Corrêa de Oliveira, apud João Scognamiglio Clá Dias, 10 a
Conferência do Retiro V, A Unidade do Súdito com o Fundador, p. 7 de
12).

Como se vê, toda essa cerimônia iniciática da Sempre Viva, da qual ignoramos
se havia mais coisas --(e há indício de que havia algo mais)-- era uma aplicação da
doutrina tipicamente romântica da identificação de todos os eus num só Eu total, que
seria ao mesmo tempo Cristo, Deus, Maria Santíssima, PCO e a Natureza.

Na TFP e nos Arautos, se ensina a mesma coisa: cada membro da Sempre Viva é
Plínio.

Ou, agora, é Scognamiglio.

E se for assim...

...a que nível scognamigliesco caiu o Eu universal.

Tanto se tinha como certa a identificação do eu de Plínio com o eu de Jesus


Cristo que Scognamiglio ensinou o seguinte:

“Nosso Senhor disse: “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida”; Ele não disse: “Eu sou a
verdade”. Ele disse: “Eu sou o caminho” e a primeira coisa que Ele colocou foi
“caminho”. Depois Ele não disse “verdade” só, Ele pôs mais ainda: “Eu sou a vida”.
117
O fundador [Plínio] participa desta capacidade de Nosso Senhor Jesus
Cristo, ele é para nós o caminho. Não queira pregar só as obras do fundador,
estudar as obras do fundador, decorar as obras do fundador, e julgar que ali
está tudo feito. Não está tudo feito coisa nenhuma, está feita uma parcela
muito pequena. Indispensável, porque eu não sou louco de estar aqui dizendo
que não é indispensável. É indispensável, e eu digo com toda a ênfase: é
indispensável! Mas não é só, é preciso a gente olhar para ele como caminho,
e é preciso a gente unir-se a ele porque ele nos dá a vida ( João
Scognamiglio, Jour-le Jour de 19 –IV de 1992, p. 11 de 42).

Como um homem que diz tal loucura idolátrica chegou a ser Cônego de Santa
Maria Maior?

Note-se como, por essa explicação absurda, Plínio passa a ser o caminho, a
verdade, e a vida, substituindo o próprio Cristo que só Ele é para os católicos Caminho,
Verdade, e Vida.

Assim também Plínio, em seu delírio da inocência primeva, ele se via, no Juízo
Final, identificado como o próprio Cristo. Sujeito e objeto deixavam de ser distintos. A
criatura seria o Criador, e o Criador seria a criatura.

Isso é que está no fundo do delírio da doutrina secreta de Plínio Corrêa de


Oliveira. O Juízo Final ensinado pela Igreja com um Cristo julgando as pessoas por
meio de uma tabela de mandamentos, seria uma balela. O pecado original seria outra
balela. As conseqüências que o pecado original deixou na alma humana seriam balelas.

Verdade é o que Plínio tirou – diz ele—de sua própria cabeça: a Inocência Primeva e a
Trans Esfera.

Tirou ?... E se tirou, já foi demais.

Tirou?

Ou recebeu?

Onde?

De quem?

Veja-se como o iniciado Fernando Pessoa explica o que acontece nos primeiros
graus da iniciação maçônica:

“Eros e Psique"

...E assim vede meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no grau de
Neófito, e aquelas que vos foram dadas no grau de adepto menor, são, ainda que

118
opostas, a mesma verdade. (Do Ritual de Mestre Do Átrio Na Ordem Templária De
Portugal).

Conta a lenda que dormia


Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,


Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,


Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino


Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro


Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

119
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Publicado pela primeira vez in Presença, n.os 41-42, Coimbra, maio de 1934.
Acerca da epígrafe que encabeça este poema diz o próprio autor a uma interrogação
levantada pelo crítico A. Casais Monteiro, em carta a este último:

A citação, epígrafe ao meu poema "Eros e Psique", de um trecho (traduzido,


pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de
Portugal, indica simplesmente - o que é fato - que me foi permitido folhear
os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência
desde cerca de 1888. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho
do Ritual, pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais
que estão em trabalho [In VO/II.]

E a nota acima é do próprio Fernando Pessoa

O Príncipe é a Bela adormecida. E ela é ele.

No Juízo Final de Plínio, Plínio se vê em Cristo.

Cristo se verá em Plínio.

Tal como se ensina na Maçonaria Templária.

E na Sempre Viva.

Plínio procura contestar antecipadamente a acusação de Romantismo contra sua


noção de inocência primeva:

Alguém insistirá: esse conceito peculiar de inocência; esse recurso contínuo


a imagens, comparações, a alegorias, a sondagens do imaginário, do mítico,
do imponderável, tudo isso não é uma fuga da realidade objetiva?“Se
considerarmos – muito equivocadamente—que o real é apenas o patente,
teremos dificuldade quanto ao gênero de contemplações aqui propostas.
Entretanto o latente também pode ser real (PCO, A Inocência... , p. 181).

Quer dizer que o real não seria apenas o que é patente... Incluiria também o
“latente”...

Em primeiro lugar, por que usar os adjetivos patente e latente? Não seria mais
correto usar os termos visível e invisível, como está no Credo?

120
“Credo in unum Deum, factorem coeli et terrae, visibilium omnium et
invisibilium”.

Não dizemos no Credo que Deus fez o patente e o latente.

Por que PCO usa esse termos estranhos ao Credo?

E mais ainda: os espíritos angélicos não são visíveis. São reais. Mas não se pode
dizer que os anjos são “latentes”.

O que é latente é real, mas escondido, e que pode ser visto se se tornar patente.
Latente não é o imaginário. Há completa diferença entre uma doença latente, e um
tumor imaginário. O imaginário não existe fora da imaginação. O que é latente é real e
existente, mas apenas ainda não manifestado exteriormente.

Os anjos não são latentes. A alma não é latente. Os anjos e as almas são
invisíveis, porém reais.

E o romantismo de Plínio não é latente.

É patente e explícito.

Capítulo VII - Identificação de Plínio com o Profeta Elias


O livro que já citamos-- Elias, o Profeta da Nova Aliança -- seria de Frère Élie
de Sainte Marie, pseudônimo do Professor José Martini, atualmente membro dos
Arautos do Evangelho. Professor Martini deu inúmeras palestras e simpósios sobre essa
sua obra nos êremos da TFP, na década de 70. Claro que nunca assistimos tais palestras.
Ouvimos repercussões dela.

E só obtivemos esse livro, quando estávamos saindo da TFP.

Nos simpósios do Professor Martini sobre seu livro, dizia-se, que fazia ele tal
aproximação entre Plínio e Santo Elias que todos os ouvintes saíam com a idéia que Dr.
Plínio era o próprio profeta Elias.

Elias passou a ser um dos codinomes de PCO, assim como Ordem do Carmo
passou a ser nome-código da TFP. Os entrosados nos segredos da seita começaram a
assinar “in Elia”, fórmula trocada logo para “In Domino”, pois Dominus era Dr. Plínio,
o Senhor dos escravos.

Essa obra do Professor Martini traz contribuições bem interessantes para se


compreender a doutrina pliniana de identificação dos eus.

121
Nesse livro se faz a defesa da tese de que haveria uma misteriosa identificação
de Plínio Corrêa de Oliveira com o Profeta Elias. Essa obra mereceria ser todo ela
comentada, mas, por ora, trataremos apenas do que ele afirma da identificação dos eus.
Da identificação de Plínio com Elias, profeta.

Na Introdução do livro, o autor procura explicar a noção de parábola, conforme a


concepção de PCO.

Ele começa dando um exemplo de “parábola”, e depois tenta explicar como Dr.
Plínio via essa questão, e, para comprovar a concepção pliniana, ele expunha um
exemplo concreto de “parábola”.

Professor Martini, reproduzindo o pensamento de PCO, dizia que nas parábolas


se faz um paralelo analógico entre um protótipo e um tipo. Todo tipo seria a reprodução,
em escala menor e ontologicamente inferior e material, de um protótipo totalmente
ideal.

Diz o livro do Professor Martini:

Os protótipos são os modelos ideais dos indivíduos e, enquanto tais, são


mais os próprios indivíduos que eles mesmos. Quer dizer, o meu modelo
ideal é mais eu do que eu mesmo. Pelo fato de ser meu modelo. Por isso, eu
serei tanto mais eu, quanto mais eu me abrir, me deixar influenciar pelo meu
protótipo, pelo meu modelo ideal (Frère Élie de Sainte Marie, Elias, o
Profeta da Aliança, Ed. Vera Cruz, São Paulo, 1972, p. 101).

Não é preciso dizer que Frère Élie (Prof. Martini) reproduz, quase que palavra
por palavra, o que foi dito por PCO no MNF, e agora publicado no livro Inocência
Primeva sobre a identificação de Plínio com Jesus. Um Jesus que seria mais Plínio do
que o próprio Plínio, “mais eu do que eu mesmo”, disse o Profeta de Higienópolis.

Para exemplificar essa estranha teoria, Frère Élie-Martini recorre ao livro de Eça
de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires. Nesse romance, o personagem central,
Gonçalo Mendes Ramires, um português rico e decadente,-- pior, covarde--, escreve a
história de um de seus avoengos, Tructesindo Mendes Ramires, “o façanhudo”, como
era apelidado por suas proezas de cruzado valente.

Pouco a pouco, à força de contar as façanhas de seu avoengo, a força de admirar


– e sublinhamos o termo admirar -- o português decadente, imita sua valentia e se
identifica com ele. Gonçalo se torna Tructesindo, por uma metanóia, por uma conversão

122
identificadora com seu antepassado. Tornando-se Tructesindo, ele se torna
autenticamente Gonçalo. Mais: acaba, de certo modo, sendo Portugal.

Eis as palavras do Professor Martini, em seu livro:

Como o Gonçalo Mendes Ramires se transformou, por exemplo, se tornou o


verdadeiro Gonçalo? À custa de contemplar, de admirar e de se deixar
influenciar pelos modelos ideais dos Ramires, sobretudo pelo velho
Tructesindo Mendes Ramires. Se ele se tivesse fechado à influência de
Tructesindo, ele nunca se teria transformado. Ele continuaria a ser o poltrão
como era, como tinha sido até então... (Frère Élie de Sainte Marie, Elias, o
Profeta da Aliança, Ed. Vera Cruz, São Paulo, 1972, p. 16).

Explicava Professor Martini que:

a desgraça das desgraças de um indivíduo é não ter um protótipo, ou tendo


um protótipo, um modelo ideal, não o contemplar, não o amar, não se voltar
para ele,, não se abrir a ele, não se deixar influenciar por ele” (...) “Pelas
mesmas razões, a relação de dependência de um indivíduo com relação a seu
modelo ideal deve ser tanto maior quanto maior for o protótipo, quanto
maior for o modelo ideal, e quanto mais próximo ou menor for o indivíduo”
(Frère Élie de Sainte Marie, Elias, o Profeta da Aliança, Ed. Vera Cruz,
São Paulo, 1972, p. 17).

Disso tudo, concluía Professor Martini, que a abertura e entrega do indivíduo a


seu protótipo deveria levar a admirá-lo até a entrega total a ele em forma de escravo:

A contemplação, o enlevo pelo superior, pelo modelo ideal, arrasta o


inferior, o menor, ao serviço, à obediência, à submissão até o holocausto
pelo superior, pelo modelo, porque o modelo é mais ele mesmo do que ele
mesmo (Frère Élie de Sainte Marie, Elias, o Profeta da Aliança, Ed. Vera
Cruz, São Paulo, 1972, p. 18).

A lição era transparente: Dr. Plínio era o modelo ideal de cada tefepista. Cada
verdadeiro membro da TFP deveria tomar Plínio como seu protótipo e identificar-se
com ele. Abrir-se a ele.

Dar-se a ele como escravo. Até o holocausto.

Holocausto?

Como?

Daí, a consagração dos tefepistas como escravos a Dr. Plínio.

Desse modo, fazia-se uma escala analógica:

Deus é o supremo protótipo de quem a Virgem Maria se fez escrava. Maria


Santíssima seria o protótipo humano perfeito dos demais homens. Logo, os homens

123
deveriam se escravizar a Ela. Mas o modelo, o protótipo do perfeito escravo de Maria
era PCO. Logo, ele era Ela. E os tefepistas escravizando-se a seu protótipo, Plínio, se
tornavam outros Plínios, pois que Plínio era mais cada um deles que eles mesmos o
eram de si mesmos. E assim de análogo em análogo, de modelo a modelo, de
identificação em identificação, o eu de cada tefepista se tornava o eu de Plínio, o eu de
Maria Santíssima, e até o Eu de Deus. Por essa razão os escravos do Profeta PCO, na
Sempre Viva, se tornarem todos Plínios. Numa identificação dos eus, passo para se
identificarem com Cristo e com Deus.

E por um processo semelhante Plínio se identificava com a Igreja Católica.

Capítulo VIII - Identificação de Plínio com a Igreja


Vimos como Plínio se dizia um com seu arqui alter ego absoluto, Jesus Cristo.
Da mesma forma, ele se dizia um com a Igreja, pois se a Igreja é o Corpo Místico de
Cristo, sendo PCO Cristo, ele seria uma também com a Igreja.

Plínio, como muitos gnósticos, considerava a Igreja mais como algo espiritual do
que como instituição estruturada. Para ele, como para os gnósticos haveria uma
“Ecclesia spiritalis”.

Veja- se o que ele pensou, menino ainda, assistindo uma Missa:

Eu estava assistindo à Missa, encantado com as figuras, as cores, os vitrais, a


liturgia, a atmosfera sobrenatural que pairava no ambiente, quando, de
repente, formou-se em mim a noção do conjunto daquilo e conclui: “Por
cima de tudo isso há Alguém, que é mais do que tudo! É uma coisa curiosa.
A Igreja não parece uma instituição, mas uma pessoa que se comunica
através de mil aspectos. Ela tem movimentos, grandezas, santidades e
perfeições como se fosse uma ‘alma’ imensa que se exprime em todas as
igrejas católicas do mundo, todas as imagens, toda a liturgia, todos os
acordes de órgão e todos os toques de sino. Essa ‘alma’ chorou com os
réquiens e alegrou-se com bimbalhares dos sábados de Aleluia e das noites
de Natal. Ela chora comigo e se alegra comigo. Como eu gosto dessa ‘alma’!
(PCO, Notas Autobiográficas, vol.I, pp. 529 -530).

Então, para Plínio, a Igreja era mais uma ‘alma’ do que uma instituição. E ele
gostava dessa ‘alma’...

Mais ainda, ele julgava que era um só com a Igreja Católica:

Como eu gosto dessa ‘alma’! Tenho a impressão de que, em relação a ela, a


minha alma é como uma pequena ressonância ou repetição; algo no qual essa
‘alma’ vive inteira, como se estivesse num templo material. Sinto-me nela
como uma gota d’água na qual o sol se espelha inteiro. À maneira de
miniatura e de reflexo, eu contenho essa ‘alma’!

124
Eu não sabia explicar o que era essa ‘alma’, mas tinha a impressão de que
toda a doutrina e todo o espírito da Igreja Católica me envolviam!
Identificando-me com esse unum da Santa Igreja, embebendo-me dele e
habituando-me a viver sem nenhuma discrepância com ele, encontrava uma
esplêndida plenitude, em que me sentia cada vez mais sendo eu mesmo
(PCO, Notas Autobiográficas, vol. I, p.530).

Portanto, Plínio, em certo sentido, se sentia, tinha a impressão de que ele e a


Igreja Católica eram um só.

Nele e nela, portanto, habitava o Espírito Santo. Claro que isso foi antes do
Vaticano II.

Na Belle Époque.

Depois do Vaticano II, a coisa mudou. A Igreja teria virado uma estrutura morta
e puramente material, da qual a ‘alma‘ se retirara. E essa ‘alma’ era o Espírito Santo.

E para onde foi a ‘alma’ da Igreja? Onde poderia ela viver ?

Claro que a ‘alma’ da Igreja, o Espírito Santo, fugindo da estrutura da Igreja se


refugiou em Plínio Corrêa de Oliveira.

É o que garantia Scognamiglio, desprezando aquela que ele chamava a


“Estrutura” e da qual, agora, se tornou Monsenhor.

Panta rei .

Tudo muda, já assegurava Heráclito.

Na TFP, J. Scognamiglio contava o seguinte diálogo entre ele e o Profeta de


Higienópolis: "Parece que o Espírito Santo, tendo-se retirado da Igreja, refugiou-se no
Senhor, Dr. Plínio".

Ao que, sempre modesto, retrucara o “Profeta: "Quer saber de uma coisa, meu
João? Acredito que sim".

Entretanto, outros negavam que esse diálogo fora entre Dr. Plínio e
Scognamiglio. O diálogo acontecera, sim, mas, fora entre Dr. Plínio e o Sr. Átila Sinke
Guimarães, por ocasião do Conclave que elegeu João Paulo l, ou João Paulo II. A tese,
porém, era a mesma: o Espírito Santo, fugindo da Igreja, se refugiara em Dr. Plínio.

Esse diálogo ligava o pretenso profetismo de Plínio ao problema do sede


vacantismo.

125
Ora, no simpósio “Quem Somos nós” cujo texto nunca conhecemos na TFP,
texto que foi agora publicado na internet, PCO confirma que ele se supôs Profeta depois
que viu a Igreja cair em “derelição”com os Papas do Vaticano II (1968).

“Quem somos nós enquanto Grupo.”

“I - Nós somos um Grupo Profético “Na primeira parte desta série nós
tratamos de nós em função de nosso fim. Na segunda, vimos se estávamos
proporcionados a ele. Vamos agora entrar noutra ordem de idéias, isto é, ver
quem somos nós enquanto Grupo.

“1 - Nosso Grupo é um Grupo Profético “A - Conversa com D. Mayer .

“Eu já contei a um ou outro uma conversa que tive com D. Mayer. Foi ainda
antes de mamãe morrer. Portanto, antes de 1968.

“Estávamos os dois tomando refeição em casa (mamãe estava de cama). E


ele - lembro-me ainda do jeito dele - estava mexendo uma xicarazinha de
café, na sobremesa. (Os Srs. sabem que mexer uma xícara de café é um gesto
altamente pensativo). E, de repente (estávamos numa conversa muito íntima)
ele escorregou o seguinte:“a - Objeção: "na atual situação anormal da Igreja,
compreende-se a existência da TFP. Mas, depois da Bagarre, com uma
Hierarquia que cumpra sua missão, ela não terá mais razões de ser";

"Eu compreendo bem a posição do Grupo na atual situação da Igreja. Mas eu


não vejo bem como ele, numa situação normalizada da Igreja, poderia
existir. Porque o Grupo tomou a si tais prerrogativas, tais interesses na
direção da Igreja, uma função tal, que, dentro de uma Hierarquia que cumpra
sua missão, o Grupo não tem razão de ser. Eu não sei qual será a posição
dele depois da Bagarre ...".

“b - Resposta, 1: O Grupo sempre pertencerá à Igreja discente como


discípulo e súdito, como também o será da classe social dirigente surgida no
Reino de Maria;“Eu respondi a ele: "D. Mayer, a posição do Grupo, eu a
entendo da maneira seguinte: depois da Bagarre, o Grupo nunca deverá
pertencer à Igreja docente; ele permanecerá sempre na Igreja discente. Ele é
discípulo, é súdito."O Grupo também nunca terá o governo de um Estado.
Seu papel é de ser súdito dos reis, dos imperadores, dos senhores que
nascerem da ordem histórica criada no Reino de Maria.“c - 2: Terá,
entretanto, a missão de enunciar, a título de opinião privada, a doutrina
verdadeira e a falsa em matéria de Revolução, e os rumos a serem seguidos
para se combater a doutrina falsa e modelar o espírito da Humanidade no
sentido contra-revolucionário"Mas eu entendo que o Grupo tem a missão de
enunciar, em matéria de Revolução e a título de opinião privada, qual é a
doutrina verdadeira e qual a falsa; quais os rumos que devem ser seguidos
para combater a doutrina falsa, para fazer triunfar a verdadeira, para modelar
todo o espírito da Humanidade de acordo com a posição contra-
revolucionária, e para atingir a luta contra a Revolução.“d - 3: Um Papa pode
não seguir isto, mas ái dele, porque suas mãos ficarão maculadas com o
crime da derrubada do Reino de Maria."Um Papa pode não seguir isto; é o
direito dele. Ai, entretanto, daquele que não seguir, porque derruba o Reino
de Maria e fica com as mãos maculadas com esse crime! "O que é que Vossa
Excelência acha deste modo de ver?".

126
“Ele, continuando a mexer interminavelmente a xícara mas me olhando
fixamente com uma posição de cabeça um pouco inclinada e os olhos
assim... - ainda lembro-me da cena como se fosse hoje - me respondeu:“e -
"Essa era a posição dos profetas no Antigo Testamento. Não eram
forçosamente reis nem sacerdotes, mas sua missão era a de, sem jurisdição,
guiar os reis e sacerdotes exprimindo-lhes a vontade divina"."Essa era a
posição dos profetas do Antigo Testamento. O profeta não era o rei nem era
o sacerdote, embora per accidens tenha acontecido que algum rei ou algum
sacerdote tenham tido uma missão profética. A missão do profeta era guiar o
rei e os sacerdotes, mas sem jurisdição. Ele é um guia, alguém que exprime a
vontade divina. Os reis e os sacerdotes que não seguiram foram punidos.
Mas ele não era rei, nem sacerdote. É isso que V. entende?".

f - "Prever o futuro é uma tarefa secundária do Profeta. Sua missão principal


é a de conhecer as vias de Deus e indicá-las ao povo eleito".“Depois
acrescentou: "Prever o futuro era uma tarefa secundária do profeta, não era a
tarefa principal. A principal missão do profeta era conhecer as vias de Deus
e indicá-las ao povo eleito".

“g - Isso está bem para o Antigo Testamento. Mas vale ainda para o
Novo?“Eu disse: "D. Mayer, esta conversa tomou uma gravidade que não
permite mais que ela seja uma mera conversa entre Plínio e D. Mayer. Ela é
agora uma conversa de um fiel com um bispo da Igreja Católica. Pelo amor
de Deus, eu lhe peço que me diga se a nossa posição, no Novo Testamento, é
heterodoxa".

h - "Isso é inteiramente ortodoxo, e pode existir assim no Novo


Testamento".“D. Mayer respondeu: "Não, ela é inteiramente ortodoxa. Isto
pode existir assim no Novo Testamento".

“i - Esta é a idéia do que é que o Grupo julga ser “Eu disse: "Bem, Vossa
Excelência tem aqui, então, a idéia do que é que o Grupo julga ser".

“Ele ficou quieto e mudou-se de assunto.

(Plínio Corrêa de Oliveira, Simpósio, Quem somos nós, -- Somos um grupo


profético,p. 75. ORIGINAL DO site salvemaria.
http://salvemaria.info/images/fbfiles/files/QSN.doc).

Não é de espantar então que, na TFP, muitos afirmavam com toda a convicção
que Dr. Plínio era a Igreja. Essa tese era corrente nas fileiras da TFP. E diziam os
tefepistas que essa seria uma tese fácil de "provar".

Veja-se lá a demonstração da tese herética: hoje a Igreja não passa de uma


"estrutura", pois todo clero apostatou. (Inclusive o "cônego José Luís Villac, dizia-se,
que não sendo fiel a Dr. Plínio", também teria apostatado). Não haveria sequer um bispo
fiel.

"Aponte-me um bispo bom". "Onde está a Igreja? A igreja é João Paulo II?
Faça-me o favor. Isso é Jezabel”.

127
Era o que Scognamiglio ensinava no êremo do Praesto Sum. Quantas vezes
ouvimos repetir isso!

E a fonte dessa tese herética era o que Dr. Plínio dizia de si mesmo aos seus
caros iniciados e como vai ser expresso por ele no simpósio “Quem somos nós”

“d - Só se compreende que a Providência possa ter abandonado a Igreja ao


ponto em que abandonou desde que tivesse instituído o profetismo. Do
contrário Ela teria desertado da Igreja “Por isto que, se todos os estudos
sobre o Papa herege são verdadeiros, só se compreende que a
Providência possa ter abandonado a Igreja ao ponto em que a
abandonou, desde que tivesse instituído o profetismo. Porque, do
contrário a Providência teria desertado da Igreja. E não haveria na
Igreja, hoje, lugar nenhum, nem grupo nenhum, nem pessoa alguma à
qual se pudesse apelar para encontrar o verdadeiro caminho.“Portanto
este profetismo brota do solo sagrado da Igreja, pelas leis da Igreja.

“Na derelictio da autoridade papal e das autoridades legítimas, na


derelictio geral, algo fica de pé. E o que é? O Profetismo” (Plínio Corrêa
de Oliveira, Simpósio, Quem somos nós, -- Somos um grupo profético,p. 80.
Os destaques são nossos. ORIGINAL DO site salvemaria.
http://salvemaria.info/images/fbfiles/files/QSN.doc).

A TFP e os Arautos são seitas sede vacantistas secretas que t6em Plínio como
profeta superior ao Papa.Então, sendo assim, hoje, a TFP é a Igreja. Mas acontece que a
TFP é Dr. Plínio. O resto não é nada. Logo, Dr. Plínio é a Igreja. Isso era dito assim.
Com toda a seriedade, com toda a veemência e com absoluta convicção.

O eremita Pedro Julião defendeu boquirrotamente essa tese. José Lopes Antunes
- sempre em cima do muro - mais cauteloso, dizia que "a Igreja mora em Dr. Plínio".
Depois, assustado com a sua própria moderação, e preocupado com o que a "KlaGB"
interna iria contar a João Scognamiglio Clá Dias, acrescentava pressurosamente: "Ele é
maior do que a Igreja".

Por sua vez, Euclides Alcaraz Torres - pessoa tão preocupada em fazer
distinções e matizes - nos declarou: "Hoje, a Igreja se resume no Grupo que é como
que, como que, como que, como que, imaculado".

E num Santo do Dia, quando Dr. Plínio disse uma vez: "O Papa é infalível",
ouviu-se uma voz (cismática ou herética?) dizer: "Ele é o Papa". E o “ele” designava
Dr. Plínio.

E o Sr. Acúrcio Torres foi mais longe ao berrar hereticamente que "a missão de
Dr. Plínio o coloca, hoje, acima da estrutura". Isto é, acima da Igreja.

128
Isso dito aos berros, e sem matizes.

E Scognamiglio declarou - tout court - que Dr. Plínio estava acima dos Serafins.
Isso é que é a ”firmeza única” scognamigliesca em São Tomás, como ele declarou ter
diante da banca de doutoramento, no Angelicum, em 2010.

Todas essas frases delirantes que ouvimos na TFP—e que denunciamos na


década de 80--, foram confirmadas, agora, por novos documentos que nos chegaram às
mãos.

Num retiro pregado por João Scognamiglio aos Arautos e à Sempre Viva,
quando ainda ele era um simples leigo, Scognamiglio disse, repetindo palavras de Plínio
Corrêa de Oliveira:

“Devo prestar ouvidos às próprias palavras de meu Fundador [Dr. Plínio].

Eis, então, as palavras do próprio Dr. Plínio sobre si mesmo, sobre a TFP, e a
Sempre Viva:

Nós devemos dizer que nosso movimento é como um cálice no qual se reúne
todo o bom espírito que houve no passado na Igreja Católica, no qual este
bom espírito está num estado acrescido e aumentado.

Quer dizer, a plenitude do espírito da Igreja se reuniu neste cálice, que é o


cálice precioso, o cálice adorável, de que fala a ladainha de Nossa
Senhora—cálice cheio de honra, cálice de insigne piedade, em que toda a
piedade está contida--, de maneira que há gotas desse líquido sagrado
espalhadas por outros lugares, mas o conjunto está reunido em nós, e nós
somos verdadeiramente esse cálice em que tudo o quanto houve na
Igreja Católica continua vivendo dentro da tempestade contemporânea,
mas continua vivendo acrescentado pela semente do Reino de Maria.

(Palavras de Plínio Corrêa de Oliveira, reportadas por João Scognamiglio Clá


Dias, agora Monsenhor, no Retiro V, 10a palestra: A Unidade do Súdito com o
Fundador, p. 4 de 12. Os destaques são nossos).

Nesse mesmo retiro, Scognamiglio, reportando palavras de PCO, aplicava a


figura da Arca de Noé—normalmente referida à Igreja Católica—à TFP, isto é, à
Sempre Viva e a Dr. Plínio:

Na hora do naufrágio foi feita uma Arca, nesta Arca foram recolhidos os
preciosos restos de tudo quanto havia do espírito católico, para sobreviver
depois do presente dilúvio; e quem não quiser morrer no dilúvio, recolha-se
nesta Arca. A unicidade do movimento fica bem enunciada desta maneira
(Palavras de PCO reportadas por João Scognamiglio, na 10a palestrado
Retiro V, A Unidade do Súdito com o Fundador, p. 4 de 12).

129
E quem seria o novo Noé, senão o próprio Dr. Plínio, encarnação da Igreja,
capitaneando a única Arca da Salvação, a TFP?

A Providência quis que houvesse um Noé, que ele fosse o homem, como no
tempo de Noé, que tivesse a revelação do estado miserável em que caiu o
mundo, e que tivesse idéia de que o mundo ia ser castigado, e que tivesse a
idéia de construir uma Arca para salvar o mundo, de maneira que fosse
debaixo das ordens dele que a Arca se construísse. Ele é que recebeu os
planos da Arca, ele é quem convocou todos para entrar na Arca, ele quem
dirigiu a Arca, e ele quem determinou a hora para sair da Arca. Quer dizer
ele foi um homem da dextra de Deus (Palavras de PCO reportadas por João
Scognamiglio, na 10a palestrado Retiro V, A Unidade do Súdito com o
Fundador, p. 4 de 12).

A Arca da TFP substituiu a Igreja, e Plínio seria o chefe dessa Arca, portanto , o
Papa dessa nova Igreja.

Como Scognamiglio – que ainda crê nessas loucuras chegou-- a ser Monsenhor?

Como Plínio Corrêa de Oliveira é tido, ainda hoje, na Itália, como “Il Crociato
del secolo XX”?

E disso tudo concluía Scognamiglio:

Esta missão única que foi dada a meu Fundador --[PCO]—fica tão provada
de todos os modos, tão evidente, que se pode dizer: ou nossa vocação é uma
demência, ou é uma inegável verdade (Palavras de PCO reportadas por João
Scognamiglio, na 10a palestrado Retiro V, A Unidade do Súdito com o
Fundador, p. 5 de 12).

Que se nos permita então escolher uma das pontas desse dilema: o que defende
Scognamiglio é uma demência.

Tu o disseste.

Ainda que ele conte com a aprovação de alguns eclesiásticos de prol.

E Scognamiglio reporta estas palavras de Dr. Plínio que não há como não
classificar como paranóicas:

É uma coisa evidente que eu tenho um discernimento dos espíritos da Igreja


pelo qual eu vejo com perfeita clareza, o que por desejo da Revolução foi
embaçado nela. E que é também por esse mesmo processo – quer dizer, em
parte pelo que os senhores vêem, mas em parte porque os senhores vêem não
com seus próprios olhos, mas em mim – que os senhores adquirem o
conhecimento inteiro da Igreja, de como ela é, no olhar da Contra-
Revolução. E é assim que podem amar a Igreja como um contra-
revolucionário pode amá-la (João Scognamiglio, na 10a palestrado
Retiro V, A Unidade do Súdito com o Fundador, p. 9 de 12).

130
Plínio chegava então ao delírio megalomaníaco ao dizer coisas incríveis sobre si
mesmo:

“b - De encontro à Revolução, o Profeta é o homem da grandeza em toda


linha “Tudo quanto Nossa Senhora obteve que fosse posto em mim na ordem
da natureza e na ordem da graça, é a simbolização da grandeza. Porque é
isto. Eu significo isto. De encontro à Revolução gnóstica e igualitária, eu sou
o homem da grandeza em toda linha. Desde aquela fotografia quando eu
tinha 22 anos - e que já tem grandeza para um moço daquela idade - é a
grandeza.

“A grandeza como que? Como envergadura de horizontes, como elevação de


onde vem o meu pensamento, como ritmo de lógica sapiencial, superior,
como qualquer coisa que desce sacralmente muito do alto . Toda a
doutrinação que eu apresento é uma doutrinação feita com simplicidade, mas
é majestosa . Isto eu sei bem!

“A linguagem, para aquilo que ela tem que servir, é única e tem grandeza,
tem distinção, tem porte, mesmo quando diz as coisas mais banais. E é um
modo de manusear as palavras, de maneira que as palavras mais comuns
produzem um efeito contínuo de grandeza, mesmo ao falar das coisas mais
insignificantes. O tipo de educação que eu recebi, de ancestralidade que eu
tenho, tudo, tudo na ordem natural, como na ordem sobrenatural, ruma para
a afirmação dessa grandeza sacral e dessa grandeza que está em choque com
o mundo inteiro .

“Se me perguntarem o que é que eu sou, assim como S. Francisco de


Assis foi a pobreza ou S. Bernardo o recolhimento, eu digo que eu sou a
grandeza” (Plínio Corrêa de Oliveira, Simpósio, Quem somos nós, -- Somos
um grupo profético,p. 85-86. Os destaques são nossos. ORIGINAL DO site
salvemaria. http://salvemaria.info/images/fbfiles/files/QSN.doc).

E Plínio continua seu delírio teratológico:

“C - Unicidade “Não me cabe a mim julgar o que a Providência faz. Ela


quis, em determinado momento, quis ter um único homem que fosse fiel.

“Ela quis dar a este homem a situação que tinha um profeta no Antigo
Testamento, em pleno Novo Testamento.

“D - Ver no profeta um profeta “Isto fica tão provado de todos os lados, tão
evidente, que a gente pode dizer: ou nossa posição é uma demência ou isto é
uma verdade. Ver no profeta um profeta, mas ver com esse discernimento
sobrenatural. E tomar em relação a ele não a posição que se toma em relação
a um líder, a um intelectual, a um bom político, a um bom amigo, a um
Senhor educado, sei lá o que. Mas saber exatamente passar por cima das
considerações de ordem pessoal, e ver o profeta. Isto é a graça nova. É pôr-
se diante disto: "eu conheci na minha vida um profeta. É um profeta em
carne e osso. Não é nem um pouco um profeta admirável como os do
Aleijadinho - aqueles homens com aquela personalidade possante, aquela
coisa magnífica - mas, enfim, é o que Nossa Senhora deu para o crepúsculo
d'Ela. Ela quis este profeta assim. Mas ele documenta a sua missão. Ela se
tornou para mim evidente. Na medida em que eu me aproximo dele me

131
santifico, na medida em que eu me distancio eu me perco. Ele, portanto, foi
posto para me guiar e para guiar muitos. E provavelmente para guiar a Igreja
nesta pasmosa defecção"(Plínio Corrêa de Oliveira, Simpósio, Quem somos
nós, -- Somos um grupo profético,pp. 91-92. Os destaques são nossos.
ORIGINAL DO site salvemaria.
http://salvemaria.info/images/fbfiles/files/QSN.doc).

Scognamiglio conclui então que a fidelidade à Igreja devia ser transferida


concretamente, não mais pela fidelidade a uma instituição, a Igreja Católica, mas na
fidelidade a um homem, o único que permaneceu fiel, o profeta por antonomásia: Plínio
Corrêa de Oliveira.

Eis as palavras de João Scognamiglio:

Não se trata de fidelidade a uma instituição, não se trata da fidelidade a uma


ordem religiosa. Trata-se da fidelidade a um homem que recebeu uma
missão, mas uma missão a título individual, que não foi dada a ele como, por
exemplo, a missão de governar uma diocese é dada a um Bispo, a qual outro
homem poderá ter recebido.

Não, esta missão é uma coisa pessoal, que não está ligada à investidura de
um cargo, mas uma graça recebida na hora do Batismo. É um desígnio
misericordioso de Nossa Senhora que determinou: “Tem de haver um único,
que seja aquele (João Scognamiglio, na 10a palestrado Retiro V, A Unidade
do Súdito com o Fundador, p. 9 de 12).

Entenda-se bem: Arautos e tefepistas não têm fidelidade a uma instituição, a


uma “estrutura”. Não têm fidelidade à Igreja como instituição. A fidelidade deles é a
uma alma’, a uma pessoa: Plínio Corrêa de Oliveira.

Arautos e tefepistas são sectários e não católicos. Ainda que amedalhados e


doutorados.

Recentemente, apareceu num fórum da internet em Buenos Aires, um


depoimento de um ex Arauto do Evangelho, tratando do que Scognamiglio ia fazer para
enganar a estrutura, isto é, a Igreja, e como se faria a instituição de uma Nova Igreja ,
depois da Bagarre. Eis esse depoimento incrível.

Scognamiglio chamava essa enganação de “Manobra Judit”, pois com ela se


eliminaria o grande Holofernes da Estrutura, o Papa conciliar.

Eis esse documento:

http://www.tfpheraldos.com/viewtopic.php?f=27&t=23&start=0&sid=3a19db733d
393b4ed1506927afab92ee#p315Una interpretacion sacerdotal

por fran » 09 Feb 2010 12:57


132
A algunos causa gran extrañeza la ordenación sacerdotal de JC [João Clá].

Para los que vivimos cerca de él, o asistimos durante años a sus reuniones,
llamadas Jour le Jour, era clara la postura de cualquier miembro del grupo
de buen espíritu: rechazar cualquier cosa proveniente del clero.

Al clero en general lo llamábamos “Estructura”, para no llamarlo


“Jerarquía” y así no darle el reconocimiento debido, una vez que después
del Concilio Vaticano II, habían caído en herejía, unos por complicidad,
otros por omisión, siendo desde ahí en adelante totalmente ilegítimos.
Recuerdo que JC en público y privado, alababa la hipótesis de alguien (uno
de los teologuillos internos, claro, detestados por JC y sin embargo citados
como autoridad cuando a él le favorecía, sobre todo al formular semejante
hipótesis tan arriesgada… si era aceptada se la reconocerían a él, sino él
siempre diría que eso fue idea de algún Solimeo, por ahí…) de que como no
habían mas obispos legítimos dentro de la Iglesia, vendría San Juan
Evangelista, Apóstol, quien estaría vivo en cuerpo y alma en el paraíso, a
ordenar personalmente nuevos sacerdotes y obispos para la nueva Iglesia
regenerada del Reino de María. Esto era moneda corriente en los éremos y
asumido con toda naturalidad y lógica por todos los mdg de buen espíritu.

Nunca jamás íbamos a misa, ya que esta se realizaba según el ordo


missae post conciliar, herético, protestantoso, de mal espíritu. Un mdg
no podía participar de ese rito, sería censurado. Sin embargo, una de
esas contradicciones atroces, comulgábamos en esas misas, esperando
fuera de la iglesia a que se armara la fila de comunión para entrar.

Creo que todos deben tener mil hechos que contar de los enormes líos
que en que nos metíamos muchas veces con ese procedimiento.
Enfrentamientos con párrocos, críticas, negativa de darnos la
comunión, y un largo etc.

Cuando había que asistir a una misa por compromiso, nos


recomendaban a seguirla con distancia y con rechazo interno,
comulgar y aislarnos del resto.

Todo eso era nuestra manera de vivir hasta 1995, cuando fallece el Dr.
Plinio.

JC inmediatamente comienza su acercamiento a la “Estructura”, ya no


tiene sentido vivir enfrentados, es necesario que nos adaptemos para
sobrevivir, hay que negociar o nos liquidan, fue su postura. Esa
postura empezó a irritar a los mas viejos, claro, y a dejar perplejos a
los de generaciones mas jóvenes. Sin embargo estos últimos se
dejaron convencer fácilmente de que JC, como sucesor del Dr Plinio,
también era inerrante y que el Espíritu Santo ahora residía en él, por lo
tanto su orientación debía ser acatada, entendiendo o no, aceptando o
no, su palabra era la última. Debo aclarar que el aggiornamento, causó
muchos descontentos y aún dentro de los heraldos hay muchos que no
se tragan del todo la tfp sacerdotal.

1. Si JC se ordenó sacerdote meramente como parte de una


maniobra (la llamada por él maniobra Judit), entonces su

133
ordenación es por lo menos, sacrílega. Puede ser que de hecho él
no crea que la estructura tiene poder para ordenarlo, en ese caso
él estaría solamente actuando como si tal, a fin de llevar adelante
su maniobra Judit. Si eso es así entonces cada misa, cada
confesión, cada sacramento administrado es una farsa, por lo
tanto un engaño a miles de personas. Es eso creíble? quien conoce
a JC sabe de su afamada "restricción mental", de sus "pasadas de
perna", de su mas que reconocida habilidad de justificar el medio
para alcanzar el fin.

2. Si JC se ordena sacerdote por que recibe una gracia, entonces


rompe con su pasado –por lo menos lo que dice a su histórico rechazo
al sacerdocio y la misa, etc. al dogma interno de la necesidad de
destruir la estructura maldita- en ese caso “quema lo que adoraste,
adora lo que quemaste”. Si se trata de una verdadera conversión al
sacerdocio, si recibe la vocación sacerdotal, entonces enhorabuena!
Habrá que ver como se conjuga todo eso y la postura pública crítica
del Dr. Plinio, si es que JC seguirá usando la figura del Dr. Plinio
como muleta para mantener a sus heraldos cohesos o si finalmente, él
prescindirá del Dr. Plinio una vez que el número de novatos,
entusiastas por él, haya ultrapasado al de viejos saudosos del Dr.
Plinio, atrapados en un pasado ya superado.

Hoy JC sustenta que el sacerdocio es el ápice de la vocación de


miembro de grupo (la vocación de ser los apóstoles de los últimos
tiempos).

Surge entonces un problema. No todos los heraldos están llamados a


ser sacerdotes. Según JC solamente un 10–20 % lo serán, dejando al
resto como laicos.

Entonces solo ese porcentaje alcanzará el ápice de la vocación,


poniendo al resto como ciudadanos de segunda categoría. Y es así
como muchos de los actuales heraldos se sienten.

Para pertenecer al círculo mas interno de confidencialidad de JC hay


que ser hoy en día sacerdote.

Saludos y hasta la próxima.

Fran

fran Registrado: 08 Feb 2010 11:53

Conclusão sobre a Inocência Primeva

A doutrina da Inocência Primeva, tal como está exposta -- ainda que


parcialmente e com textos selecionados para serem publicados -- no livro que os mais
velhos da TFP editaram, e que focalizamos, contraria profundamente a doutrina
católica.

134
O estado de Inocência Primeva que Plínio Corrêa de Oliveira apresenta como
sendo concedido a todos os homens, nega claramente não só os efeitos do pecado
original na natureza humana. Sobre o pecado original, PCO quase nada diz, nessa obra.
Ele afirma apenas que a todos os homens é concedida a Inocência Primeva que a Igreja
ensina em que só Adão e a Virgem Maria foram criados, e que Adão perdeu com o
pecado original. Esse estado de Inocência Primeva daria ao homem uma inteira
harmonia entre as faculdades da alma, assim como uma placidez derivada de um mais
profundo de um inato e inerrante senso do ser. Por esse senso do ser, cada homem
escolheria infalivelmente o que o ajudaria a completar o que falta ao seu eu, para
identificar-se plenamente com o eu de Cristo, o Eu Absoluto. Nessa identificação
absoluta, o eu profundo de cada um ficaria de tal modo unido a Cristo, que se daria uma
identificação com o ser de Cristo, acarretando forçosamente a salvação, mesmo com um
mar de pecados cometidos. Cada homem, no estado de Inocência Primeva, seria
literalmente, e de fato, um alter Christus.

E por isso mesmo estaria salvo. Mesmo com um mar de pecados.

E vimos que essa salvação pela identificação com o Eu de um ente superior


transcendente—e não pela “tabela dos dez mandamentos”—é um tema fundamental nos
sistemas gnósticos.

Como a Inocência Primeva não se perderia pelo pecado, os tefepistas, instruídos


nessa doutrina, julgavam-se salvos, ainda que violassem gravemente a lei de Deus e da
Igreja.

É o que explica a dupla moral dos tefepistas e dos Arautos do Evangelho. Pela
“causa católica”, leia-se, por Dr. Plínio, podia-se fazer qualquer coisa: mentir, jurar
falso diante do Santíssimo Sacramento, fazer restrições mentais, apropriar-se das coisas
alheias, pecar e viver sob um mar de pecados, etc. Tudo seria “coberto” pela Inocência
Primeva identificadora do sujeito com Plínio e, consequentemente, com Cristo

João Scognamiglio, mais do que qualquer outro na TFP, como discípulo perfeito de
Dr. Plínio, foi a pessoa que mais se distinguiu no desprezo da “tabela dos dez
mandamentos”. A ponto de se dizer que ele ficava vermelho se, por acaso, dissesse uma
verdade, de tal modo negava os fatos patentes. Veja-se, por exemplo, a biografia que
ele publica dele mesmo, da qual friamente surrupia quarenta anos de sua vida,-- de 1956
a 1996--, sem nem pestanejar, porque agora lhe convém esconder quem ele foi durante

135
quarenta anos: o maior propagador do culto a Dr. Plínio e a Dona Lucília. Leia-se o
livro Dona Lucília do qual ele se apresentou como “autor”, para se ter provas disso.

Não se perdendo a união com o “Senhor Doutor Plínio”, se estaria salvo.


Ninguém ia ser julgado por uma tabela dos dez mandamentos. Daí, que ninguém dos
que seguiam essa doutrina, na TFP, jamais se confessava. Os membros da Sempre Viva
se “confessavam” – dizia-se--uns com os outros. PCO só foi visto confessar-se uma ou
duas vezes apenas.

Em 1957, num retiro pregado para os membros do grupo de PCO por um


sacerdote uruguaio, no seminário redentorista de Tietê, o pregador exigiu que todos se
confessassem. Nessa ocasião, ouvimos PCO dizer: “E agora? Faz tanto tempo que eu
não me confesso que nem sei quando foi. Já sei. Vou dizer a ele que não me confesso há
mais de três meses”. E ria-se da saída que encontrara.

E quando, na década dos anos 80, denunciamos esse comportamento irregular e


ilícito dos membros da Sempre Viva não se confessarem com um sacerdote, alguns dos
atuais Provectos foram confessar-se na Igreja de São Francisco, no centro de São Paulo,
a fim de serem vistos na fila da confissão, e assim desmentirem nossa acusação. Depois,
desapareceram das filas dos confessionários...

A posse ou a perda da Inocência Primeva dividiria os homens em dois grupos


opostos: os Inocentes, identificados com Cristo, possuidores de uma alma harmoniosa; e
os precitos que, aderindo ao próprio eu, se recusavam aderir ao eu de Plínio, ou ao eu de
Cristo, que, no fundo, eram o mesmo e único eu.

Os Inocentes seriam os Contra Revolucionários.

Os outros eram os que haviam repudiado o estado de Inocência Primeva. Eles


eram os revolucionários, dominados pelas paixões desregradas.

Daí, PCO colocar como causa profunda e eficiente da Revolução as


paixões desregradas e não causas intelectuais. E nem Lúcifer. PCO se esqueceu de
dizer que a Revolução é satânica.

Ora, as paixões sendo cegas, jamais elas poderiam ter causado e organizado as
três revoluções destruidoras da Idade Média e da Cristandade. Ademais, em todas as
épocas houve homens dominados pelo desregramento das paixões. Mesmo na Idade
Média eles existiram. Como não causaram a Revolução, já na Idade Media?

136
Essa importância fundamental dada por Plínio ao desregramento das paixões, e
adesão à uma imaginária Inocência Primeva inata e inerrante, o levou a desprezar o
estudo e a ação intelectual, e ,como Descartes, a desprezar os livros. Por isso, ao tratar
da eclosão da Revolução, ele nem cita os problemas metafísicos do século XIV e XV.
Que aliás ele desconhecia.

Pois se ele fora Professor imaginário de História!...

Tal era o desprezo na TFP por questões doutrinárias e intelectuais que, um eremita
argentino foi punido porque se dizia dele que ele “estudava mais do que amava”.
Veremos mais adiante, noutra parte deste livro, como Dr. Plínio desprezava o estudo, e
como, na TFP, os que estudavam eram desprezados sendo apodados por nomes
ridículos que nada significavam: ploc-plocs, caneca amassada.

Como se vê, Dr. Plínio não tinha senso de humor.

Daí, o medo que ele tinha da ironia.

Veremos as conseqüências dessa super valorização do problema das paixões e o


desprezo do estudo e do intelecto, quando estudarmos a teoria do conhecimento de Dr.
Plínio.

A preponderância absoluta atribuída por Plínio às paixões, vai causar na TFP


sérios problemas morais. De uma lado, se exagerava o rigor moral até causar escrúpulos
doentios e desesperos, tratados a mandrix. De outro, se estimulava um cinismo anomista
pela abolição e desprezo da “tabela dos dez mandamentos”.

A TFP se dividia então em dois grupos: os desesperados e os cínicos. E os


cínicos eram os promovidos para os postos de direção e de privilégio, porque haviam
compreendido que o fundamental era identificar-se com o eu do pseudo Profeta de
Higienópolis. Às favas os dez mandamentos. Pois havia um só mandamento importante:
identificar o próprio eu com o eu de Plínio Corrêa de Oliveira.

É essa dupla moral—esse anomismo completo—que permite a Monsenhor


Scognamiglio passar do repúdio praticamente sede vacantista do Papa, chamando o
Papa Paulo VI de Ponto 6, e o Papa João Paulo II de JP 2, para Monsenhor de Santa
Maria Maggiore. Amigo de tantos Cardeais dos quais disse ele: “Vocês vão ver que
rasteira vou passar neles”. Scognamiglio sempre toma atitude respeitosa e submissa
antes de passar a rasteira. Como a serpente que desliza antes de dar o bote. Sem ficar

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sequer ruborizado. Ele, que com PCO, chamava a Igreja de “Estrutura” passa agora
para a bajulação dos que ele chamava antes de hereges.

É esse anomismo dos Arautos que lhes permite afrontar a contradição de


condenarem a Missa nova durante décadas, e de a rezarem e a assistirem imitando os
carismáticos. É esse anomismo que permite aos Arautos terem um Ordo em que se
condenava andar na mesma calçada que uma moça conhecida, e agora Monsenhor
Scognamiglio ser osculado por moças, e ir com elas à praia. “Porque com ele se pode
fazer isso, pois ele é santo...”

Sem uma doutrina negadora de toda a lei de Deus como “tabela dos dez
mandamentos” tais contradições levam rapidamente à loucura.

Com a negação da supremacia do intelecto na alma, a doutrina defendida por


PCO, fundamentando a vida religiosa numa adesão idílica à uma inexistente Inocência
Primeva tinha que concluir pela possibilidade de se retornar ao Paraíso Terrestre, onde
Adão vivia inocente. Inocência e Éden são correspondentes. Tanto quanto a Inocência
tinha que conferir a imortalidade.

Plínio se declarou imortal. E imortal porque ele não tinha o pecado original.

Certa vez, numa palestra dada por PCO na fazenda da TFP, em Amparo, um dos
eremitas do agora Monsenhor Scognamiglio, o sr H. Iw. perguntou no fim da palestra:

“Senhor Doutor Plínio, diga-nos: o Senhor tem pecado original?”

Estupefação no auditório. PCO, sempre muito controlado, respondeu, calma e


seguramente:

“Claro que tenho pecado original. Prova é que fico doente e tenho que me
tratar”.

Ira silente no auditório.

Pouco depois, no carro, onde estava com Dr. Plínio e com o chauffeur,
Scognamiglio explodiu sua raiva:

“Esse cretino de H. IW., perguntar isso em público... Claro que Dr. Plínio ficou
forçado a responder que tinha o pecado original”.

138
Portanto, a Inocência Primeva exigia a negação – falando exotericamente -- do
pecado original em PCO. Daí, o direito dele de viver no Éden. Pelo menos
imaginativamente. Daí, ele se acreditar imortal.

PCO vivia imaginando um mundo de sonhos, um mundo paradisíaco


proporcionado à sua Inocência Primeva original.

Em conseqüência, ele imaginou o mundo dos possíveis em Deus, seres


inexistentes, mas que, de fato, “de alguma forma, existiriam”.

Plínio Corrêa de Oliveira foi um sonhador romântico, que imaginou um mundo


de seres ab aeterno numa Trans-esfera muito acima do mundo angélico e onde ele vivia
imaginativamente.

Seria de surpreender que sonhando uma supra realidade ele desprezasse todo o
mundo real? PCO odiava a realidade tal qual ela existe hoje, depois do pecado original.
E chamava este mundo material de “cárcere”, o que é uma nota tipicamente romântica e
gnóstica.

“Não a natureza no Éden – onde passeava o hipotético inocente Abel – não


contém ciladas, não é revoltada contra o homem, e sim uma serva dele. Este mundo, ao
inverso, é como o um cárcere de exílio, onde moram os míopes, que somos nós; cumpre
ter cuidado, pois as coisas são enganadoras aos nossos olhos doentes”( Plínio Corrêa
de Oliveira, artigo Seletivo e Harmonia na Alma Inocente,in revista “Dr. Plínio”,
AnoVIII, Junho de 2005, n0 87, p. 24).

E não se deve esquecer que ele está falando de um hipotético Abel, concebido na
Inocência primeva tal qual ele se julgava Inocente, e tal como ele se apelidava de Abel.
O que ele imaginava do Éden, era na verdade a Trans-Esfera com a qual ele sonhava e
que ele pensava atingir com sua imaginação. Para PCO, devia-se buscar esse Éden, essa
Trans–esfera, fugindo pela imaginação deste mundo cárcere onde o absoluto que
haveria em qualquer ser humano estaria preso como num calabouço. Exatamente como
explicava a Gnose.

É de surpreender que ele preferisse o mito, e a lenda à realidade histórica,


inventando heróis e mitificando personagens? Surpreendente seria que não os
inventasse.

139
É de surpreender que ele mitificasse a si mesmo, apresentando-se como Profeta,
o homem da dextra de Deus, o filho de Maria por excelência, e que ele se identificasse
com Abel, com o Profeta Elias, com Maria Santíssima, --e por que não?--, com o
próprio Cristo, visto como sósia perfeito de Plínio?

É de surpreender que ele montasse por meio do atual Monsenhor Scognamiglio


um culto absurdamente delirante a ele mesmo e à mãe dele?

E não seria surpreendente que o atual e condecorado Monsenhor Scognamiglio –


que garante que o espírito de PCO passou diretamente para o seu peito, quando ele
pousou a cabeça sobre o cadáver de Plínio – não seria surpreendente que ele organizasse
para si mesmo o culto que antes montara para seu mestre, Plínio?

Quem pensa que entre os Arautos não exista um culto delirante a Monsenhor
Scognamiglio é bem ingênuo e está bem iludido.

Só não acredita nisso, segundo consta, um Cardeal que foi ao êremo de São
Bento, levando na mão uma Ladainha de João Clá, exigindo dele explicações. O atual
Monsenhor Scognamiglio, com toda sua seriedade e eremítica sinceridade, garantiu que
a tal ladainha era uma coisa isolada de algum jovem maluquinho, e imediatamente fez
trazer ladainhas e outras coisinhas mais, e as queimou todas diante do Cardeal...

É o que se contou.

É o que o tal Cardeal acreditou. Pensou que tudo acabara. Não havia mais culto
secreto entre os Arautos, nem para Dr. Plínio, nem para Dona Lucília, e nem para João
Clá. Monsenhor Scognamiglio garantia.

E quando Monsenhor Scognamiglio garante,... um Cardeal é enganado.

E o Cardeal acreditou...

Assim é que se dão rasteiras em Cardeais.

140
141
Segunda Parte A CONTEMPLAÇÃO SACRAL DO UNIVERSO

142
Capítulo I - Que é Contemplação e que é o “Sacral” para
PCO? Jeitinhos de PCO para enganar seus leitores e ouvintes.
Logo no primeiro capítulo da Segunda Parte do livro em foco, capítulo que trata
da contemplação “sacral” como antídoto do laicismo, Plínio faz uma exigência, à qual
ele é totalmente infiel:

A terminologia é elemento relevante em qualquer estudo.


(Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência Primeva e a
Contemplação Sacral do Universo, ed. cit., p. 67).

Sem dúvida. Essa é uma grande verdade. Que ele imediatamente viola, ao dar
sentidos particulares aos termos que ele vai empregar.

Essa era uma tática costumeira em Dr. Plínio: afirmava que ia usar um termo em
certo sentido especial ou impróprio. Depois, passava para o sentido próprio do termo, e,
a seguir, voltava para o impróprio, ou para o sentido “especial”, praticando uma
anfibologia terminológica bem cômoda para sofismar e, se fosse preciso, se defender,
caso alguém apontasse erro em suas demonstrações.

Com essas anfibologias, tinha ele sempre uma rota de fuga aberta contra
objeções possíveis.

Assim, nessa mesma página acima citada, logo depois de afirmar a importância
da terminologia precisa, ele diz que vai usar os termos contemplação e sacral em sentido
particular...

Razão tinha então Paulo Corrêa de Brito Filho, quando, preveniu o leitor desse
livro, dizendo que Dr. Plínio não tinha ordem lógica em suas conversas, e nem usava
terminologia precisa. (Cfr. Paulo Corrêa de Brito Filho, Ao Leitor, p. 16, na
apresentação da obra que estamos analisando).

Se “contemplação” e “sacral” são palavras tomadas em sentido particular,


importa, antes de tudo, compreender bem o que significam, então, para Dr. Plínio, essas
palavras , nessa segunda parte de seu livro.

Vejamos o que ele entendia por contemplação.

A palavra contemplação normalmente significa olhar longamente algo,


procurando compreender o seu sentido mais profundo.

143
É o que expõe, por exemplo Hugo de São Victor ao distinguir os vários modos e
graus de pensamento ou modos de conhecimento humano: por cogitatio, meditatio,
speculatio ou contemplatio.

Para esse pensador medieval do século XII, depois de nomear as coisas, em


conseqüência do conhecimento de algo através de sua forma substancial, o homem
deveria meditar mais profundamente o seu significado simbólico. Essa tarefa é árdua, e
Hugo de São Victor a compara com o cavar de um poço para encontrar água. O trabalho
de cavar é duro, e muitas vezes frustrante. Só depois de pensar arduamente no que uma
coisa é, o homem chegaria a compreender como essa coisa reflete algo de Deus, através
de vestígios, símbolos imagens e semelhanças com Deus.

Conforme explicará, já no século XIII São Boaventura, nas coisas irracionais há


apenas vestígios de Deus. Nos seres que pensam e conhecem – anjos e homens – há
imagens de Deus, visto que neles, como em Deus, há inteligência e vontade.
Finalmente, nos seres que conhecem, pode haver ainda semelhança com Deus pela
presença neles da graça santificante, da santidade, que é a vida de Deus na alma.

A meditação, então, com dificuldade procura ver os vestígios de Deus nas coisas
criadas, isto é, a unidade, a verdade, o bem e a ordem das coisas. Isso se faz com
esforço.

A seguir, o homem, pela especulação busca ver, como num espelho, como em
todas as criaturas se espelham simbólica e analogicamente as qualidades invisíveis de
Deus, segundo o que São Paulo ensinou na Epístola aos Romanos, que, depois da
criação, as qualidades invisíveis de Deus, tornaram-se visíveis, nas coisas criadas(Rom.
I, 20).

Depois, o homem deve reconhecer ainda como as imagens de Deus, e a


semelhança com Ele brilham nos anjos e santos.

Finalmente, o homem deve relacionar tudo o que conheceu com esforço pela
meditação, pela especulação simbólica, pelas imagens e semelhanças de Deus nas coisas
e nos seres conhecedores, e em suas ações, considerando, a seguir, o conjunto delas,
e como esse conjunto das coisas reflete a Deus. Isso é que seria a “contemplatio” uma
consideração intelectiva e amorosa de tudo o que se conheceu e compreendeu.

Hugo de São Victor compara a meditação penosa com a lenha verde ao fogo.
Esta com dificuldade pega fogo. Ela se aquece e sua seiva borbulha fervendo numa das

144
extremidades do ramo verde. Sua seiva ferve e exala mau cheiro. Nessa fase, há muita
fumaça e não há fogo.

Assim também é a meditação no coração do homem, fazendo as paixões


ferverem e emitirem mau cheiro e a fumaça das distrações. Mas sem a chama da
compreensão da verdade. Sem o calor do amor. Só fumaça. Sem luz da verdade e sem o
calor do amor.

Depois, quando a madeira se seca ao fogo, de repente, irrompe uma labareda que
se agita, e sempre sobe em direção ao céu. Ela tem mais brilho do que calor. Essa chama
representa a alegria da especulação que permite ver a Deus “in speculo” através dos
símbolos. Na especulação há luz brilhante e agitada, mas pouco calor ainda.

Pouco a pouco, a labareda envolve a madeira num abraço suave e constringente,


que vai penetrando nela, e reduzindo-a a brasa. E quando tudo estiver em brasa, já não
há mais madeira mas só fogo, de tal modo que a madeira poderia “dizer” já não sou eu
que vivo, mas o fogo é que vive em mim. E não há nem fumaça, e nem labareda. Mas as
brasas pulsam só com luz e calor, com verdade e amor. Essa é a contemplação.

Sem dúvida, essa explicação de Hugo de São Victor é magnífica, e de beleza


única pela verdade que tem, expressa com tanta poesia.

Nada de semelhante a isso aparece em Plínio Corrêa de Oliveira, que se limita a


falar apenas em contemplação sensível, reduzindo-a a um olhar admirativo e sensível,
isto é , com sensações ou impressões, produzindo nele apenas imaginações, que ele
confunde com pensamentos.

Por exemplo, ao “contemplar” um copo de chopp, ele deveria buscar apenas os


vestígios de Deus que poderiam existir nesse ser artificial, pois o chopp não é um ser
racional, e nem foi criado diretamente por Deus, mas feito pelo homem.

Ou poderia compreender os símbolos que no copo de chopp possam existir. Em


concreto, ao analisar um copo de chopp, Plínio se limita a imaginar um super chopp,
que fosse idealmente dourado. Um chopp onde habitasse a luz... (Ver mais adiante,
página 153, o texto de PCO sobre o degustar de um copo de chopp).

Esse método imaginativamente contemplativo, ao extremo, redunda na fórmula


romântica expressa por Novalis:

145
Enquanto dou ao que é vulgar um alto significado, ao que
é comum um aspecto enigmático, ao conhecido a
dignidade do desconhecido, ao finito uma aparência
infinita, eu o torno romântico. (In Mario Puppo, Il
Romanticismo, Ed Studium, Roma, 1973, p. 80).

Claro que nessa apresentação do romantizar, feita por Novalis, o essencial está
no atribuir imaginativamente valores dialeticamente contrários a alguma coisa. A
dialética gnóstica é um dos elementos essenciais do romantismo.

Romantizar é dar valor sublime ao prosaico, ou tratar vulgarmente o sublime.

O Romantismo imagina. Sonha. Delira.

A Sabedoria católica é virtude intelectual.

Ela medita e compreende.

Plínio só imagina.

Vejamos como Plínio utiliza um segundo método de iludir, mutilando


convenientemente suas citações.

Para fundamentar a sua noção de contemplação, Plínio cita o Padre Tanquerey:


“contemplar, em geral, é olhar um objeto com admiração” (Padre A. Tanquerey,
Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Livraria Apostolado da Boa Imprensa,
Porto, 6a edição, p. 145, in PCO. A Inocência…, p. 67).

Com essa simples citação, PCO coloca Tanquerey como dando apoio à sua tese
de contemplação “imaginativa-admirativa”.

A admiração vai desempenhar um papel importante nos desvarios plinianos. Daí,


ele procurar apoiá-la na autoridade de um autor considerado como Tanquerey.

Este é um autor bem conhecido e bem afamado. E, com razão, ele diz que o
contemplar exige o admirar. Mas admirar é principalmente olhar com os olhos do
intelecto, amando algo que se compreendeu. Admirar não é apenas ficar olhando
materialmente e... "imaginando”, sonhando, como dizia PCO.

O autor do livro em foco simplesmente omite o mais importante do que diz


Tanquerey. E o que ele mutila o restante da explicação de Tanquerey (Veremos isso,
logo mais), no que ela contraria a sua noção de contemplação somente sensível e
imaginativa, sem intelecção.

146
Tanquerey trata da Contemplação no Livro III de sua obra sobre ascética e
mística, quando discorre sobre a Via Unitiva. Distingue ele contemplação natural de
contemplação sobrenatural, uma distinção essencial, que Plínio omite.

1297. 1o Contemplação natural. “Contemplar, em geral,


é olhar um objeto com admiração. Há uma contemplação
natural, que pode ser sensível, imaginativa ou intelectual.

1 - É sensível, quando se fita longamente e com admiração


um belo espetáculo, por exemplo, a imensidade do mar ou
uma cadeia de montanhas.

2 - Chama-se imaginativa quando, pela imaginação,


alguém se representa longamente com admiração e afeto,
uma coisa ou uma pessoa amada.

3 - Denomina-se intelectual ou filosófica, toda a vez que


se detem o espírito com admiração, e por meio de uma
simples vista, sobre alguma grande síntese filosófica, por
exemplo, sobre o Ser absolutamente simples e imutável,
princípio e fim de todos os seres”.

1298 – 2o Contemplação sobrenatural. Há também uma


contemplação sobrenatural, e é dela que falamos. Vamos
expor a sua noção e as suas espécies.

A) Noção. O termo contemplação designa em sentido


próprio, um ato de simples vista intelectual, abstraindo
dos diversos elementos afetivos ou imaginativos que a
acompanham; mas quando o objeto contemplado é belo e
amável, é acompanhado de admiração e amor”. (AD.
Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética e Mística,
Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1940, Livro III,
nos 1297-1298, p. 810. Destaques nossos).

Tanquerey trata então da contemplação sobrenatural que exclui os aspectos


afetivos e imaginativos.

E a noção de contemplação de que Plínio trata, na obra que estamos focalizando,


é fundamentalmente sensível e imaginativa, e não intelectiva, e muito menos então
sobrenatural. Mais ainda, ela é o oposto do que diz Tanquerey da contemplação
sobrenatural,”simples vista intelectual”.

Como na doutrina pliniana a admiração terá papel bem importante, voltaremos, a


tratar dela mais a fundo.

147
Os organizadores da edição do livro em foco, -- não PCO-- enxertaram uma
definição mais exata de contemplação para dar mais ortodoxia ao que diz Plínio:

A contemplação sacral é, pois, a contemplação da


imagem, da semelhança, ou dos vestígios de Deus no
Universo – ou seja, no mundo que nos cerca, nas cidades,
nas famílias, nas instituições, na arte, nos animais, nas
plantas, nos pormenores de cada objeto. (PCO, A
Inocência… enxerto posto na p. 69).

Porém, nos textos de PCO não se fala disso seriamente. É só de admiração


sensível e imaginativa, sonhadora, que PCO trata.

Vimos então dois métodos – jeitinhos plinianos–para enganar seus leitores ou


ouvintes: a imprecisão terminológica e a mutilação das citações.

Imprecisão terminológica, pois Plínio usa um termo, ora num sentido próprio,
ora num sentido particular, e ainda em outros matizes secundários, num camaleontismo
terminológico que lhe permite passar de um sentido para outro, praticando uma
anfibologia que lhe garante o sofismar, tendo sempre aberta uma porta de fuga, para
quando for pego num erro, dizer que não usou o termo apontado no sentido condenável,
mas noutro.

Um terceiro jeitinho pliniano para ir enganando sutilmente o leitor são as suas


in-definições. Nada mais vago e impreciso que as definições de PCO, nas quais, muitas
vezes, ele usa comparações vagas e termos dúbios. Ele fala de “não sei quê”, de “um
como quê”, de “um imponderável”, de um “parece que” etc.

No final, não se tem nada claro o que, de fato, ele exprimiu. Suas definições
brumosas são sempre cortinas de fumaça que permitem a ele escapar de objeções
possíveis, ou insinuar erros sem dizê-los muito expressamente.

Quarto jeitinho escorregadiamente saponáceo pliniano para iludir o leitor são


suas distinções imprecisas e por vezes por neologismos.

Veja-se a distinção entre sacro e sacral, feita por Dr. Plínio, nesse livro. O termo
sacral não existe na língua portuguesa. Plínio usava a palavra sacro (sagrado) para
referir-se, como todo o mundo faz, à esfera religiosa. Sacral foi um neologismo que ele
tirou do francês, provavelmente de Maritain, pois que essa palavra aparece no Petit
Robert, dando como exemplo uma frase de Maritain, para se referir à esfera temporal

148
sacralizada na Idade Media. Contemplação sacral seria então o olhar com admiração os
seres do mundo não religioso (Cfr., A Inocência…p. 75).

São Paulo afirma taxativamente que as qualidades invisíveis de Deus, depois da


criação, se tornaram visíveis nas coisas criadas (Rom I, 20).

O universo foi feito semelhante a Deus. Tanto que Jacob chamou o local em que
viu a escada ligando o céu à terra de Bethel, Casa de Deus, pois o universo material é
semelhante ao Criador, e o Universo é como que sua casa (Bethel).

E no dicionário da língua portuguesa de Houaiss, a palavra sacral aparece apenas


como adjetivo referente ao osso sacro. Portanto, sem nenhuma relação com algo de
sagrado.

Essa distinção entre o mundo religioso (sagrado), e o mundo profano (sacral)


não existente nem na Teologia, vai ser levada por PCO a extremos, a ponto de separar
quase que totalmente – como se não tivessem relação – o que é essencialmente religioso
(sagrado) do que é profano ou laico (sacral); a separar a atividade dos santos, daquela
dos leigos, como se, ser santo, fosse o contrário do que é um leigo:

Embora devamos ser grandes admiradores dos santos que


restringiram sua ação à esfera religiosa, é natural que a
atividade dos leigos tenha em vista especialmente o
mundo temporal. (PCO, A Inocência…, p. 77).

Uai!

Os santos só atuaram na esfera religiosa?

Os leigos devem se limitar à esfera temporal?

Por que então o leigo Plínio tratava de doutrinas religiosas?

E a esfera religiosa é estanque face à esfera temporal?

Afirmar que os leigos devem cuidar só do “sacral” (temporal) e não do sagrado é


contrariado pelos santos que buscaram santificar a esfera religiosa e a civil também.

É o que fez Santa Joana d’Arc. Como conseguiu ela unir santidade e laicidade?
Sagrado e profano?

E o que fez Santa Francisca Romana, enquanto leiga?

149
A formulação imprecisa de PCO ao distinguir sagrado de sacral tende a separar
santidade e laicidade, sagrado e profano, a esfera religiosa da esfera temporal, a separar
a Igreja do Estado. Como se a santidade ficasse restrita à esfera religiosa ou
eclesiástica, não se preocupando com a esfera temporal. O que é puro liberalismo.

Isso parece comprovar que PCO se inspirou mesmo em Maritain, no usar essa
palavra.

É isso que explica porque Plínio Corrêa de Oliveira, que se apresentava como o
paladino da ortodoxia e do “sacral”, defendeu a separação entre a Igreja e o Estado,
quando foi Deputado da Constituinte, no Rio de Janeiro, na década de trinta, conforme
consta de seus discursos e debates publicados no Diário Oficial daquele tempo. Nessa
ocasião, como leigo, ele estava tratando da esfera temporal...

É bem conhecido que a tese liberal da separação entre Igreja e Estado foi
condenada por Pio IX no Syllabus.

Nenhum tradicionalista–mormente europeu–defenderia a separação entre Igreja


e Estado. Nenhum escritor tradicionalista se permitiria chamar de “Cruzado do Século
XX” quem defendesse a tese liberal da separação entre Igreja e Estado.

Entretanto, eis o que defendeu Plínio C. de Oliveira, como deputado "católico",


na Assembléia Constituinte de 1934, conforme o texto oficial, publicado no Diário da
Assembléia Nacional:

O Sr. Correia de Oliveira -- “Julgo representar bem o


pensamento católico. E posso afirmar a V. Excia. que o
episcopado brasileiro não deseja absolutamente a
restauração da união da Igreja ao Estado, pelo simples
motivo de que, sendo uma situação, em tese, ideal,
porquanto reconhece à Igreja verdadeira os direitos que
tem, em virtude de seu mandato divino, é, no entanto, uma
situação de fato que provou mal na experiência que
tivemos durante o império. (Plínio Corrêa de Oliveira,
Debate na Assembléia Nacional Constituinte, in Diário
da Assembléia Nacional, Quinta Feira, 14 de Dezembro
de 1933, p. 409, 1* coluna).

Eis aí Plínio, defendendo a tese liberal de Monsenhor Dupanloup sobre a


separação entre Igreja e Estado, adotando a famosa distinção liberal entre tese e
hipótese.

150
E não bastando, o ter defendido a tese liberal condenada pelo Syllabus, Plínio
Correa de Oliveira, que sabia adaptar-se aos ambientes, conhecendo a influência do
positivismo na Maçonaria Brasileira e Republicana, ele, oficialmente monarquista e
católico, fez pior.

Veja a quem ele citou, para firmar sua tese liberal :

O Sr. Corrêa de Oliveira -- "Peço permissão para


contraditar o conceito do orador, apresentando-lhe a
opinião de Augusto Comte, que disse que a distinção entre
os poderes espiritual e temporal foi feita exatamente pela
Igreja. (Plínio Corrêa de Oliveira, Debate na Assembléia
Nacional Constituinte, in Diário da Assembléia
Nacional, Quinta Feira, 14 de Dezembro de 1933, p.
409, 1* coluna).

Embora seja verdade que a Igreja distingue – e distinguir não é separar -- o


poder espiritual e o temporal, socorrer-se da autoridade do positivista Augusto Comte é
lamentável. Se ele quisesse citar Comte como argumento ad hominem, ele poderia tê-lo
feito, sim, mas tinha a obrigação de fazer alguma restrição ao fundador do positivismo.
Restrição que o Sr. Plínio Corrêa de Oliveira não fez.

Um quinto jeitinho ludibriador de PCO era a redundância circular, que faz o


leitor perder o rumo, pelas voltas e reviravoltas que Plínio dava às suas frases
torcicolosas, para o leitor perder o seu norte. Veja-se esta, por exemplo:

O homem deve ter um olhar habitualmente


contemplativo e meditativo a respeito das coisas que vê,
para ser um contemplativo da vida terrena. Quer dizer,
uma pessoa que olha a vida terrena e é capaz de
contemplá-la. (PCO, A Inocência… p. 69).

Precisão terminológica produz clareza. A redundância, torcicolosa e circular,


desnorteia e nada explica.

Finalmente, um sexto método de ilusionismo usado por PCO consistia em


simplesmente usar como sinônimos palavras que não eram equivalentes. Por exemplo:
imaginar em lugar de pensar, sentir como compreender, impressão como conhecimento.

A “contemplação sacral” de que fala PCO em seu livro tem sentido bem diverso
do que aparentemente significa.

151
É com esses métodos redacionais que Plínio de romântico se transvestiu de líder
católico. Tomista.

152
Capítulo II - Contemplação ou Imaginação
A compreensão dos vestígios de Deus, nos seres irracionais, da imagem de
Deus nas criaturas dotadas de inteligência e vontade, e da semelhança com Deus, nas
almas santas, que vivem em estado de graça, só é possível através de ato intelectual.
Nunca pela mera imaginação.

Quando Plínio faz o que ele chama de exercício de “transcendência sacral”, por
exemplo, “Degustando um copo de chopp...”, na realidade, ele faz o que
Novalis fazia e recomendava fazer para romantizar: dar ao vulgar um valor sacral, por
meio da imaginação.

Isso nada tem a ver com a contemplação mística católica que é essencialmente
intelectiva, e se fundamenta na realidade objetiva do ser. Nunca no imaginário.

É então um exercício de “contemplação” imaginativa romântica o que Plínio vai


fazer à página 302 desse seu livro, onde se reproduz a “contemplação sacral” de Plínio
sobre o chopp, intitulada Degustando um chopp...(PCO, A Inocência…, p. 302).

Veja-se na contemplação sacral do copo de chopp o que PCO imagina:

Não terei entendido um chopp se não conseguir imaginar


o chopp perfeito. Depois de o ter imaginado, esse chopp
imperfeito me faz compreender um ser possível que é a
alegria de minha vida.

(...) No chopp, eu via a possibilidade de ser muito mais do


que era, e esta possibilidade me falava de Deus. (PCO, A
Inocência…, p. 302).

Esse exercício de “contemplação sacral” mostra como Plínio passava do


“imaginar” para a “compreensão” de um ser possível que seria a alegria de sua vida, --
um super chopp-- algo “que lhe falava de Deus”.

Por isso mesmo, na “admiração” e na “contemplação” plinianas se repetem,


literalmente ad nauseam, termos típicos do romantismo como “sentir”, “ter a sensação”,
“ter a impressão”, “imaginar”, “sonhar”, “idealizar”, “ter o ideal” etc.

Exatamente o que Tanquerey exclui da contemplação sobrenatural.

Novalis resume a posição romântica, quando escreve: “O


pensamento é apenas o sonho do sentir, é um sentir
entorpecido”(Apud Gerd Bornheim, A Filosofia do

153
Romantismo, in J. Guinsburg, O Romantismo, ed.
Perspectiva, São Paulo, 1978, p. 96).

PCO também vai valorizar antes o sentir do que o compreender:

Por exemplo, no artigo “O Senso Comum e a Procura do Absoluto” (In


Revista “Dr. Plínio”, N0 71, Fevereiro de 2.004, p. 27 -30), Plínio afirma que o
primeiro passo para “saborear os bens espirituais “ consiste em sentir:

Não se trata apenas, ou sempre, de fazer a explicitação das


coisas percebidas pelos sentidos. O passo inicial
indispensável é uma espécie de sentir do qual nascerá
mais tarde a explicitação. Esta seria o segundo estágio,
menos imprescindível, enquanto o primeiro é o mais
precioso, porque dele depende o resto do processo. (Plínio
Corrêa de Oliveira, O Senso Comum e a Procura do
Absoluto, in Revista Dr. Plínio, ano VII, N0 71, Fevereiro
de 2.004, p. 27. Os destaques são nossos).

Portanto, para PCO, o fundamental e o mais precioso seria uma espécie de


sentir.

E ele insiste nesse ponto como fundamental:

Insisto na importância desse primeiro sentir: sem uma


espécie de vivência (palavra perigosa, mas adequada às
nossas reflexões) muito rica do objeto ou situação
apreendidos pelos sentidos as etapas posteriores serão
nulas. (Plínio Corrêa de Oliveira, O Senso Comum e a
Procura do Absoluto, in Revista Dr. Plínio, ano VII, N0
71, Fevereiro de 2.004, p. 27, O destaque é nosso).

Portanto, um primeiro sentir existencialisticamente “vivencial” seria o essencial


para a compreensão.

Só depois viria a explicitação do que havia já de conhecimento inato na alma.

É no capítulo II dessa segunda parte de seu livro, que


Plínio vai tratar especialmente da admiração como ponto
de partida –e de chegada- da contemplação sacral.
(PCO, A Inocência…, p. 85).

E logo ele dá o que julga ser o conceito da admiração:

“A admiração – etapa primeira da contemplação sacral–é a


capacidade de se maravilhar. E de se maravilhar humilde e
desinteressadamente. Podemos dizer que a admiração é

154
uma virtude `cristianíssima´” (PCO, A Inocência…, p.
86).

Estranha formulação.

O maravilhamento – o “émerveillement”, como diz PCO em francês é um modo


de se emocionar. É uma reação sensível. “Émerveillement” no dicionário francês
significa “maravilhamento, pasmo”.

Nem todo homem tem emotividade, ou sensibilidade em mesmo grau, que possa
levar ao pasmo. Alguns homens são pouco emotivos, e reagem com frieza diante de
fatos ou coisas que em outros causam entusiasmo, sensação ou pasmo. Nem por isso
não compreendem. São Tomás compreendia muito, e entretanto era pouco emotivo.

A admiração é comum a muitos homens. Ela é causada pela compreensão do


alto valor de algo, ou da manifestação muito clara de uma verdade. Ela pode produzir
uma emoção maior ou menor na sensibilidade das pessoas, pois que elas são
desigualmente emotivas. Daí, haver graus de maravilhamento e pasmo. Mas não é que
pessoas emocionalmente frias sejam incapazes de compreender e de admirar. E sendo a
admiração um ato natural, ela não pode ser dita uma virtude cristianíssima, portanto
virtude sobrenatural. Há maometanos capazes de admirar certos valores ou ações. E
neles essa admiração é apenas natural, posto que eles não têm vida sobrenatural, visto
que não são batizados.

Plínio diz então:

A admiração tem dois graus. Um grau é a admiração


daquilo que a pessoa tem diante de si. E outro grau é
reportar essa coisa a Deus Nosso Senhor, de maneira a
colocá-Lo no termo final dessa admiração. “Deus é o autor
do que estou admirando, e tem isso de modo infinito. Mais
do que ter isso, Ele é isso. (PCO, A Inocência…, p. 86. O
destaque, com cheiro de panteísmo, é do próprio Plínio).

Que imprecisão sublinhada!

"Deus é isso"?

Para ser benevolente, diga-se que foi uma imprecisão. Mas com cheiro e sabor
de panteísmo. Ou de Gnose.

Mas ainda bem que, desta vez, a coisa admirada foi referida a Deus e não a seres
possíveis como a um super-chopp da Trans-esfera...

155
Depois de dizer que aquilo que admiramos penetra em nós, Plínio vai voltar a
dizer mais uma coisa contraditória.

Infelizmente as pessoas são mais ensinadas a praticar a


virtude do que a admirá-la. Ora, em relação a toda virtude,
é preciso ter uma admiração profunda, uma admiração
razoável que proceda da razão (sic), da inteligência
iluminada pela fé. E é depois de prestar à virtude esse
preito de admiração que se tem a disposição de ânimo
necessária para praticá-la. Portanto, é só depois que se
admirou a virtude como se deve que se está em boas
condições de praticá-la. (PCO, A Inocência…, p. 69. O
destaque é nosso).

Seria bem difícil ter uma admiração razoável que não procedesse da razão...

Só Plínio poderia imaginar esse impossível.

Toda admiração razoável necessariamente tem que proceder da razão.

E como diz PCO que há pessoas mais ensinadas a praticar a virtude do que a
admirá-la, e logo depois diz que é só depois de admirar a virtude é que se tem a
disposição para praticá-la?

Afinal, é possível praticar alguma virtude sem tê-la antes admirado, ou não?

Imprecisão. Ambiguidade. Confusão.

Daí ele dizer:

Tudo aquilo que vemos, portanto, é para nós um exercício


de maravilhamento. Em francês se diz: émerveillement.

Cada coisa convida o homem a imaginar como ela seria


se fosse maravilhosa. (PCO, A Inocência…, p. 69. O
negrito é nosso).

Note-se como ele passa logo do maravilhar-se para o imaginar.

O autor que examinamos é, por vezes, astutamente ambíguo:

Vejam-se, estas duas frases:

Além do aspecto diretamente religioso da vida de piedade


católica, nosso espírito deve subir às mais altas
elucubrações, sem nunca perder o senso da realidade
na qual atuamos. Isso não significa deixar-se levar por
sonhos, devaneios inúteis e estéreis, e sim um empenho

156
em aprofundar-se continuamente nas coisas de Deus.
(PCO, A Inocência…, p. 77. Os destaques são nossos).

Note-se a contradição flagrante de PCO: claro que só tem o senso da realidade


quem não se deixa levar por sonhos e devaneios. Ora, PCO vai defender os sonhos.
Vai elogiar o sonhar! Vai viver sonhando.

Como então PCO fala até em “sonhar realidades”?

Como escreveu ele que:

A França, este sonho que põe o mundo a sonhar ou A


França que não sonha é um arrabalde de si mesma. (PCO,
A Cavalaria não morre, excertos do pensamento de Plínio
Correa de Oliveira, selecionados por Leo Daniele,
Edições Brasil de Amanhã, São Paulo,1998, pp. 16 e 37).

E como o primeiro sub título do capítulo II da segunda parte do livro sob nosso
exame afirma: “O verdadeiro pensador deve examinar acuradamente a realidade” (PCO,
A Inocência…, p. 93). E logo na página seguinte, Dr. Plínio diz que ao invés de
aprender nos livros, ele sabia tudo por uma intuição interior, que lhe bastava explicitar
para julgar de todas as coisas exteriores a ele.

Mas então ele não examinava acuradamente a realidade exterior, e sim o que ele
imaginava ser a sua realidade interior, as suas supostas matrizes inatas do ser.

Já tivemos ocasião de examinar esse texto que aqui repetimos:

Eu tinha, talvez, uns 25 ou 30 anos--- [Foi entre 1933 e


1938, quando ele começou a dar aulas de Historia em
Faculdades, por nomeação política, sem jamais ter
estudado História regularmente] – quando compreendi que
o melhor de minha vida intelectual não consistia tanto em
aprender coisas sobre o que não sabia, quanto em
encontrar os conceitos para exprimir o que por mim
mesmo tinha percebido. Aliás, como é bem sabido, essa é
a característica de todo verdadeiro pensador, como eu
pretendia ser. (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência
Primeva e a Contemplação sacral do Universo, ed. Cit. p.
94).

Intuição interior de si mesmo e explicitação do que há no interior do homem


essa é a fórmula da ciência pliniana. E isso é puro modernismo gnóstico.

157
Capítulo III - Confusões Plinianas Sobre os Símbolos
Outro ponto a criticar na doutrina de PCO é a sua noção errada dos símbolos.

É bem conhecida a definição do Pseudo Dionísio de símbolo. “Símbolo é o


inteligível no sensível”. Todo símbolo necessariamente é algo material que remete a
uma idéia ou valor espiritual.

Do concreto, o símbolo faz passar para o abstrato e para o espiritual. Para Dr.
Plínio dar-se-ia o inverso: passaríamos do conhecimento inato para a análise do
concreto. Daí, para Plínio, o símbolo material viria confirmar conhecimento anterior e
interior inato no homem. Analisaremos essa inversão feita por Dr. Plínio com relação
aos símbolos mais adiante, neste livro, quando tratarmos da teoria de Dr. Plínio sobre o
conhecimento inato do homem, e o que ele chamava de câmara obscura. (Cfr. Quarta
Parte, cap. V, sobre a Gnose da TFP).

O “doutor” da antiga TFP – e pusemos desta vez a palavra “doutor” entre aspas
porque ele foi doutor somente imaginativamente... na Trans-Esfera - aparentava seguir a
doutrina católica a respeito do conhecimento das qualidades invisíveis de Deus através
das qualidades visíveis das criaturas, conforme ensina São Paulo na Epistola aos
Romanos (I, 20).

Na realidade, ele fazia uma grande confusão entre símbolos, transcendentais,


imaginação, conhecimento conceitual, intuição e abstração, entre seres possíveis e entes
de razão, entre seres imaginários, como as quimeras e as fadas, e seres possíveis na
mente divina. Uma salada metafísica e epistemológica é o que havia na mente
imaginativa de Plínio, praticamente única fonte original de seu “saber” trans-esférico.

Veja-se a confusão que ele fazia a respeito do que é símbolo.

O universo material é um edifício simbólico imenso.

No sentido comum, o símbolo é algo convencional. Por


exemplo, um símbolo de trânsito: convenciona-se que tal
figura indica determinada coisa a fazer ou deixar de fazer.
(PCO, A Inocência…, p. 97).

Ora, sinal de trânsito não é um símbolo. É só um sinal.

Por isso, é convencional.

O sinal é gratuito.

158
As letras e os números que usamos são sinais convencionais. Não são símbolos.
Assim a letra P em nosso alfabeto indica um som consonantal diferente da mesma letra
no alfabeto grego. O sinal para designar três unidades – o sinal 3 – entre os romanos era
indicado pelo sinal III.

Sinais são convenções humanas.

O símbolo não é convencional.

O símbolo é natural.

É feito por Deus.

A serpente tem, em si, no seu ser e no seu modo de atuar, um significado posto
pelo Criador.

O símbolo é natural e objetivo.

Plínio não sabia a diferença entre símbolo e sinal.

Como já dissemos, a definição de símbolo normalmente usada é a que foi


elaborada pelo Pseudo Dionísio: “Símbolo é o inteligível no sensível”.

Símbolo é, pois, uma idéia compreensível pela inteligência humana, colocada


por Deus num ser material, para fazer conhecer analogicamente algo espiritual, sobre
natural ou preter natural.

O morcego é símbolo do demônio, porque é um "rato" que voa. Ele não enxerga
na luz. Só vê nas trevas. Vive de cabeça para baixo, e vive do sangue alheio. Todos
esses modos de ser, e todas essas imagens fazem pensar no demônio.

Isso é objetivo.

Embora objetivo, o símbolo natural é também ambíguo.

A pomba é, ao mesmo tempo, símbolo de mansidão e de insensatez. Cristo nos


disse que fôssemos mansos como as pombas. Mas Deus, no Antigo Testamento,
amaldiçoou a cidade que se torna insensata como as pombas (Sof. III, 1).

A serpente é símbolo de traição. Mas também o é de prudência. O fogo


representa o amor de Deus, o Espírito Santo. Mas ele representa também o inferno.

PCO parecia desconhecer a doutrina dos símbolos, muito usada pelos autores
patrísticos e medievais.

159
Na página 99 do livro em exame, Plínio dá uma certa concepção correta de
símbolo. Mas, a aplicação que imediatamente faz dela é errada.

Diz ele corretamente: “Existe símbolo quando há semelhança entre determinado


objeto concreto e alguma coisa de abstrato ou de espiritual. Aí se caracteriza
perfeitamente a definição de símbolo”. (PCO. A Inocência…, p. 99).

Mas o exemplo que ele dá é errado, pois nele confunde símbolo com
comparação, ao dizer que o trovão lembra o rugido do leão. (Cfr.PCO, A Inocência…,
p. 97). O exemplo contraria o que ele definiu. Entre o trovão e o rugido do leão não
colocou Plínio nada de abstrato.

Entre o rugido do leão e o trovão há apenas semelhança de som que permite uma
comparação. Um não é símbolo do outro.

E o segundo exemplo que ele dá, logo na frase seguinte, é infeliz e mostra, de
novo, que ele não entendeu o que definiu:

Tomemos, por exemplo, esta pena de ave. É um objeto


que, por um jogo de circunstâncias análogo ao da espada,
simboliza o escritor. Durante muitos séculos, as penas das
aves serviram como meio para o homem escrever. Mas
entre a atividade intelectual de compor e a
atividade manual de escrever há uma certa semelhança,
uma certa afinidade. A pena da ave – com aquela espécie
de cartilagem central em linha reta e aquela parte da pena
propriamente dita – tem uma flexibilidade, uma facilidade
em ser conduzida, que lembra a destreza com que o
escritor desenvolve o seu pensamento. O próprio fato de
aquele cabo ser meio compridão, de tal maneira parece a
longura, se assim se pode dizer do pensamento–de um
pensamento cheio de construções, de arrières pensées –
que se pode dizer que entre o métier de escritor e uma
pena há algo mais do que simplesmente a coincidência
histórica de aquilo ter servido durante muito tempo, como
instrumento de trabalho para o escritor. (PCO, A
Inocência…, p. 99).

Que confusão!

Como “entre a atividade intelectual de compor e a atividade manual de escrever


há uma certa semelhança, uma certa afinidade”?

160
Diz um ditado italiano que “a caligrafia é a ciência dos asnos”. Isso para dizer
que até alguém pouco inteligente pode ter habilidade em escrever com boa caligrafia,
que é apenas uma habilidade manual.

Quando se diz: “Machado de Assis foi uma das penas mais brilhantes da
literatura brasileira”, se faz uma metáfora. Não se fez um símbolo.

A metáfora une diretamente um sujeito a um predicativo dele: Machado de


Assis, pena ilustre (Machado = foi uma pena ilustre). Ricardo, o Leão da Cruzada
(Ricardo = foi um leão na cruzada). Essas são metáforas, que são uma forma de
comparação nas quais se elimina o comparativo “como”.

O leão é símbolo de valentia. Isso porque na forma física do leão, na maneira


como ele ataca, se vê, analogicamente, o valente que não teme o perigo.

O leão é símbolo de grandeza. Não só por sua juba majestosa. Mas também
porque ele é incapaz de ver coisas pequenas, e assim ele se torna símbolo da grandeza
que uma alma humana pode ter, ao desprezar o que é mesquinho. “Aquila non capit
muscas”, diz o ditado. “Leo non capit mures” (A águia não caça moscas, e o leão não
caça ratos).

O porco é símbolo de baixeza, porque ele tem uma dobra no pescoço que o
impede de olhar as estrelas. E assim ele se torna símbolo do homem materialista e
impuro, que só olha para as coisas baixas, e jamais para o céu. Isso não é
convencional.

No texto de Plínio sobre a pena e o escritor, ele só faz comparações. E algumas


delas ridículas como a que se refere ao “próprio fato de aquele cabo ser meio
compridão”, e se o compara com a “longura” do pensamento do escritor. Ele poderia ter
comparado a pena com colher de pau para remexer sopa num panelão.

Plínio não conhecia as diferenças entre símbolo, sinal, comparação, metáfora,


metonímia etc.

Daí, essas infantilidades meio “compridonas” e com uma longura”…

É o que dá pretender tirar tudo da própria cabeça, sem querer estudar…

E que dizer de sua admiração a um pensamento cheio de construções, de


arrières pensées”?

161
Só tem “arrières pensées” quem não é franco e nem leal...

Teria sido essa uma confissão involuntária? Quer-se mais uma prova do que a
intuição explicitadora de Plínio é capaz de descobrir, isto é, de fazer confusão?

Êi-la:

A via abstrativa é que chega à verdade por meio de


raciocínios; a via simbólica é aquela que, operando sobre
determinadas formas, cores e sons de objetos expressivos,
dá ao indivíduo a noção de que as exterioridades
daquelas coisas lhe revelam, através dos sentidos, uma
essência misteriosa, recôndita, de caráter simbólico,
existente dentro delas. (PCO. A Inocência…, p.100. Os
destaques são nossos).

E via abstrativa seria a do raciocínio...

A abstração não é um raciocínio. Este é sempre composto de uma premissa


maior, uma premissa menor e uma conclusão.

Pela abstração captamos a forma substancial de um ser como idéia, retirando-a


intelectivamente da matéria do ser.

Raciocinar não é abstrair.

Segundo PCO, a via simbólica permitiria chegar à noção de uma “essência


misteriosa”, de caráter simbólico, existente dentro das coisas…

Se a essência é existente, está em ato, e então não é uma coisa de “caráter


simbólico”, existindo dentro de outra coisa.

Que confusão genial!

Se fosse assim, a bravura simbolizada pelo leão estaria substancialmente no leão.


Plínio diria que ela estaria ”inviscerada” no leão...

O que dá o que pensar. E suspeitar.

Fica patente que Plínio não sabia o que é símbolo, nem o que é abstração, nem o
que é essência.

É o que dá confiar só na própria “intuição” interior. Isto é, sua “batatada”, como


dizia o próprio PCO, sem saber, fazendo uma metáfora.

162
É o que no Brasil se chama vulgarmente de “chutar”, para enganar, fingindo que
se sabe algo.

E continua Plínio a sua sabedoria simbólica chutológica:

O emprego das duas vias de conhecimento é,


portanto, necessário para o conhecimento da realidade.
Porque os conceitos abstratos só chegam a seu termo final
de elaboração quando convertidos novamente em imagens
ou figuras. (PCO, A Inocência…, p. 100).

Os conceitos abstratos só chegariam a seu termo final de abstração se forem


convertidos em símbolos concretos???

Não é uma maravilha dialética chutológica? O abstrato só é realmente abstrato


se, no final, voltar a ser reduzido ao concreto.

E PCO se dizia tomista. Um tomista que considera que os fantasmata são o


termo final do processo abstrativo, quando para São Tomás eles são meios para chegar
ao conceito abstrato. Às idéias abstratas. Idéias abstratas que PCO julga concretas.

É o que dá confiar na explicitação da intuição interior proveniente das primeiras


impressões.

Plínio diz ainda:

Os símbolos inferiores servem para compreender melhor


os superiores nos quais melhor se conhecerá a Deus. É
claro que Deus é sempre o termo último. (PCO., op.cit., p.
101).

Assim se iria de símbolo em símbolo. E não de símbolo a uma coisa ou


qualidade real, simbolizada num ser material inferior, até chegar à última realidade
espiritual absoluta, que é Deus.

Essa formulação de Plínio não explicita que os símbolos são coisas reais
materiais que nos falam analogicamente de Deus, realidade espiritual absoluta e última.
Se ela fosse uma formulação correta, como se poderiam incluir nela os possíveis da
Trans-Esfera, seres imaginários e não reais?

Para que, PCO os imagina, se a escala dos seres reais remete a Deus?

Valentemente Plínio continua intuindo e explicitando:

163
Por exemplo, uma natureza morta, digamos uma cesta de
laranjas atrás da qual há uma jarra. No quotidiano, trata-se
geralmente de algo banal, a que nem prestamos atenção.
Mas o verdadeiro artista capta o significado de cada
laranja e de cada maçã naquela cesta, e o da jarra, e o
coloca em evidência, de uma maneira sugestiva. (PCO, A
Inocência…, p. 101).

Que absurdo!

Poder-se-ia estudar que símbolo existe na laranja, ou na maçã. Mas cada laranja
concreta não tem um símbolo particular só daquela laranja singular. O símbolo existente
na laranja vale para todas as laranjas. Somente quem nada entende de símbolo, além do
que tira da própria cabeça, pode procurar um símbolo particular de cada laranja
singular.

De novo, PCO cai no que Novalis chamava de romantizar: dar ao banal - a cada
laranja - o significado simbólico do sublime.

Outra prova da confusão de Plínio sobre o que é símbolo se tem na sua


afirmação de que o belo é símbolo do bem:

O belo é símbolo do bem, a verdadeira beleza simboliza o


bem; conseqüentemente a verdadeira arte simboliza a
moral. (PCO, A Inocência…, p. 104).

Que confusão estudantil!

Todos esses conceitos pseudo filosóficos mal digeridos por PCO demonstram
uma ignorância completa de alguém que nada estudou seriamente, e que usa termos em
sentido impróprio, baralhando tudo.

O bem é um transcendental. Isto significa que todo ser, pelo fato de ser, é bom.
Todo ser foi criado por Deus, e enquanto criatura, todo ser é coisa, é algo, é um, é bom,
é verdadeiro, e é metafisicamente belo.

Ens, res, aliquid, unum, verum, bonum são transcendentais do ser. Cada um
deles explicita algo que está contido na noção de ser. Os transcendentais não são
símbolos uns dos outros. Eles explicitam algo que já existe na idéia de ser (ens).

Portanto é um absurdo dizer, como faz Plínio que o belo é símbolo do bem, e
que a arte simboliza a moral.

164
Os símbolos expressam analogicamente algo. Os transcendentais são conceitos
metafísicos, não são símbolos, pois tudo o que é metafísico é abstrato, e tudo o que é
símbolo exige algo de concreto, algo material.

São Tomás não julgava o belo um transcendental. Outros filósofos o tem como
tal. O verum é o transcendental relacionado com a inteligência, enquanto o bonum é
buscado pela vontade.

Ora, São Tomás define o belo como o bem claramente conhecido. Portanto, no
belo se tem a junção de dois transcendentais: o bem (bonum) com o conhecimento claro
dele: o verum. E o conhecimento claro do bem é a verdade- o verum – sobre aquele
bem. Portanto, o belo se relaciona com a alma toda. O bonum com a vontade, o verum
com a inteligência, e o belo (o pulchrum) com a sensibilidade e com a alma toda. O
bonum se relaciona com a vontade, o verum com a inteligência, e o belo (o pulchrum)
com a inteligência, com a vontade e com a sensibilidade, portanto, com a alma toda.

Logo, o belo não é um símbolo do bem. Como o verum não é um símbolo do


unum e do bonum. Como já dissemos, os transcendentais não são símbolos uns dos
outros, mas todos eles expressam algo inerente à idéia de ser.

PCO defende uma nova “metafísica”... imaginativamente simbólica:

É preciso haver na sociedade toda uma cultura voltada


para a metafísica, não para uma metafísica seca e
cartesiana, mas para uma metafísica viva, empapada de
símbolos. (PCO, A Inocência…, p. 105).

Ora, a Metafísica é a ciência do ser enquanto ser. Ele não é cartesiana. Ela é
aristotélica e tomista. Jamais cartesiana. O cartesianismo foi o início da oposição
moderna ao que é metafísico. E sendo a Metafísica a ciência do ser enquanto ser, ela é a
ciência essencialmente abstrativa, enquanto os símbolos exigem o inteligível no
sensível. Uma Metafísica empapada de símbolos – que exigem materialidade, que
exigem o sensível–deixaria de ser Metafísica. Plínio quer o abstrato-concreto. O
abstrato sensível. O absurdo realizado imaginativamente.

E Plínio falar em Metafísica “viva” lembra a tradição viva de Blondel e dos


modernistas. É um puro slogan de Plínio. Um non sense.

Mais adiante, voltaremos a tratar da doutrina dos símbolos de PCO. Por ora,
basta de tantas confusões plinianas pseudo filosóficas.

165
Capítulo IV - Doutrina Católica sobre os Seres Possíveis em
Deus
Passemos à análise da tese central da Segunda Parte desse livro de Plínio Corrêa
de Oliveira, na qual ele trata da Contemplação Sacral do Universo.

Vimos que, no Credo, em seu artigo primeiro, afirmamos com certeza que o
único Deus, Pai todo poderoso, criou todas as coisas “visíveis e invisíveis”.

No Verbo, “todas as coisas foram feitas, e sem Ele nada foi feito” (São João, I,
3).

Toda a segunda parte do livro de PCO que estamos analisando, se fundamenta


na noção dos “seres possíveis” em Deus, noção que PCO deturpa, caindo
verdadeiramente em desvarios de imaginação por compreensão errônea do que são os
“seres possíveis” em Deus.

O erro metafísico fundamental de Plínio nessa questão é julgar que o que é


possível idealmente, o que está em potência, está também em realmente em ato. O
possível seria existente.

Ora, esse erro é o mesmo em que caiu o modernista Karl Rahner, a alma negra e
modernista do Vaticano II.

Ainda recentemente, a revista Sì Sì, No No, acusou esse erro em Rahner:”O erro
capital de todo, o edifício filosófico-teológico de Rahner é o de transformar
subjetivisticamente o que é possível idealmente no que é realmente existente em ato.
Mas, “a posse ad esse non valet illatio”, ”a passagem do possível ao real não é lícita”;
por exemplo, o fato de que eu possa vir a ser milionário não significa que eu o seja
realmente em ato” (Padre Paride Pacifici, Rahner: Concilio tradito o compiuto?, In Sì,
Sì, No, No, Ano XXXVI , N0 5, 15 de Março de 2010, p. 3).

Plínio incide no mesmo erro modernista do modernista Rahner.

E Plínio “pensa” como Alice. Ele não mergulha no espelho, nem na toca do
coelho. Mergulha em sua imaginação, levado por suas impressões e sonhos, e imagina
estar mergulhando no universo dos possíveis em Deus.

E por isso delira.

166
E com ele deliram, até hoje, tanto os chamados Provectos da velha TFP, como os
Arautos do Evangelho do agora condecorado e Doutorado - quem diria? - Monsenhor
Scognamiglio.

Teria sido esse um impossível realizado?

A questão dos seres possíveis é sutil. Com relação a ela, pode-se cair em dois
erros opostos:

1) negar que existam seres possíveis em Deus, recusando o que ensina até o
Catecismo para crianças: que Deus poderia criar muitos outros mundos, diferentes deste
em que vivemos, mas sempre análogos ao Criador;

2) afirmar que os seres possíveis tem existência atual. Que os seres possíveis em
Deus, seres que Ele poderia criar, existem de fato, ainda que de modo “latente”, como
insinua PCO.

Deus não fez os seres possíveis, pois não considerou conveniente e nem
necessários, para a ordem do Universo, criá-los. E se os tivesse feito, eles já não seriam
seres possíveis. Seriam seres criados em ato.

Outra grande confusão feita por Plínio Corrêa de Oliveira, nessa questão dos
seres possíveis em Deus, foi a de identificar esses seres possíveis em Deus com seres
imaginados pelo homem. (Analisaremos esse erro, mais adiante, de modo mais
completo).

Dr. Plínio, levado por sua mentalidade romântica, elaborou uma doutrina
imaginativa, e sonhou um mundo de seres possíveis, mundo que até teria poder de atuar
sobre os homens, e sobre o qual, nós homens, também poderíamos atuar. A esse mundo
dos seres possíveis–aos quais ele acaba atribuindo, de modo mais ou menos velado,
existência real –ele chamou de mundo da Trans--Esfera.

É o mundo “maravilhoso” de Alice, aquele a que Plínio chegou.

Dr. Plínio fez tal confusão, deslizando lentamente da afirmação correta que os
seres possíveis, de fato, não existem, para depois passar paulatinamente a declarar que
eles existem de algum modo, para, afinal, dizer que eles têm poder de atuar. Que
portanto estão em ato, pois só o que está em ato pode atuar.

Ora, ser possível é o que está em potência de existir. E o que está em potência
não atua. Só pode atuar o que está em ato.

167
Para que se compreenda melhor o que são os seres possíveis em Deus, --tema
metafísico bastante árido, sutil e bem pouco conhecido – somos obrigados a tratar dele,
agora, mais detalhadamente.

Se somos obrigados a levar nossos leitores através dessa região árida do


pensamento, é só para deixar clara a confusão de PCO. A culpa desse parênteses árido
é, pois, a teoria tropicalisticamente “escolástica” de Plínio.

Usaremos, para essa viagem metafísica penosa, o livro Elementos de Filosofia


de Monsenhor Thiago Sinibaldi, 4ª edição, Volume I, Roma, Via del Banco S. Spirito,
12, 1923).

Segundo a Filosofia escolástica, deve-se compreender que os seres se dividem


em seres reais e seres possíveis.

“Possibilidade de ser é a aptidão do ente para existir”


(Mons. T. Sinibaldi, Elementos de Filosofia, Vol. I, p.
365).

Se um ser, hoje, existe, é porque antes ele tinha a possibilidade de existir.

A possibilidade de existir pode ser :

1- intrínseca;

2- extrínseca.

A possibilidade ou aptidão do ente para existir é intrínseca, quando as notas


constitutivas desse ente necessariamente não se excluem mutuamente. São notas
compatíveis entre si. Por exemplo, um círculo quadrado não é possível vir a existir,
porque a quadratura exclui a circunferência. Algo ser, ao mesmo tempo, quadrado e
circular, é essencialmente contraditório. Portanto, círculo quadrado não é um ente
possível.

A possibilidade ou aptidão do ente para existir é extrínseca, quando tem base na


suficiência da causa eficiente. Por exemplo, Deus pode criar outros mundos. Isso é
possível, porque Deus é infinito e onipotente, e então Ele poderia, se quisesse, criar
outros mundos que analogicamente refletissem suas qualidades, que são de grau
infinito. E Deus, sendo onipotente, é capaz de criar tais mundos semelhantes a Si.

Por isso, quando o Catecismo pergunta: pode Deus criar outros mundos? A
resposta é sim, pois Deus é onipotente, e poderia criá-los para refletir suas qualidades de

168
modo analógico, desde que seus componentes não tivessem contradição intrínseca, entre
eles. Deus não pode criar o absurdo.

Mas Deus só pode criar o que for intrinsecamente possível.

Pois está escrito que “no Verbo todas as coisas foram feitas, e sem Ele nada foi
feito” (Jo, I,3).

Como também está escrito no livro de Jó: ”Sua vontade fez tudo o que quis” (Jó,
XXIII 13).

Deus pode fazer muitos outros mundos, sem dúvida, mas só fez o que quis.

Portanto, se Ele não fez os possíveis, foi porque julgou desnecessário fazê-los,
embora pudesse fazê-los.

A possibilidade extrínseca supõe a intrínseca; porque


nenhuma causa eficiente pode produzir o que não é
intrinsecamente possível. (Mons. T. Sinibadi, op cit.,
Vol.I, p. 365).

Há, pois, entes reais (entes atuais),e entes possíveis (entes em potência).

Negar que haja entes possíveis seria negar a onipotência divina. Como seria
também negar a liberdade de Deus Criador.

Os seres possíveis possuem notas constitutivas não contraditórias entre si, e isso
os torna capazes de receber existência atual. Isso é possível porque: a essência e a
existência dos entes reais são coisas reais. A essência e a existência dos entes possíveis
são coisas possíveis.

A essência do ser possível é uma essência de ordem ideal. (Ideal, no sentido de


que existe apenas na mente divina como idéia, e não ideal no sentido idealista,
indicando coisa super-perfeita, como que divina em si mesma, como queriam os
românticos).

A essência do ser possível não é atual, pois não existe na ordem atual, mas pode
receber a existência que presentemente não tem. Pois, se a tivesse, esse ente não seria
mais um ente possível, mas sim um ente real, atual. Ele existe apenas numa ordem ideal,
isto é, na mente divina.

Quando se diz que a essência do ente possível é real, ou


que as criaturas possíveis são dotadas de essência real, a

169
essência se chama real, não porque existe na ordem real,
mas porque é capaz de existir nessa ordem real, isto é,
porque é real em potência, embora não seja real em ato.
(Mons.Thiago Sinibaldi, op. cit., Vol. I, p. 867, nota 1).

O ser possível em Deus difere do ser atual ou real. A realidade pode ser referida
à essência ou à existência. O ser possível não pode ser dito atual ou real, quer quanto a
ter sua essência no mundo real, quer com relação à sua existência.

Possível e atual, quanto à existência, se contradizem. O possível ainda não


existe. O atual existe em ato. A essência só possui o ser atual com o ato da existência. É
contra a razão dizer que um ser possui um ser essencial sem ter existência. Conforme
ensina São Tomás (De Potentia, Q. 3, a. 5, ad 2)., a essência não pré existe ao ser. Deus
dando o ser, lhe dá uma essência junto com a existência.

O possível não está em ato.

Portanto, há seres possíveis que são distintos do nada.

Henri de Gand cometeu o erro oposto ao de negar a possibilidade dos seres


possíveis: ele defendeu que o ser possível teria que ter um ser real, atual.

Esse filósofo, que viveu no século XIII (1217-1293), defendia a tese de que os
seres possíveis possuem um ser atual, real, e ele chamava o ser atual de essência, e que
Deus ao criá-los lhes dava o ser atual da existência.

Ora, se o ser atual da essência do ser possível foi produzido, ele era possível
antes da sua criação. Portanto, ele não tinha ser antes da sua criação. Ou então, se esse
ser não foi produzido, então ele seria ser incriado, ser necessário, sempre em ato. Mas,
então, ele nunca teria sido possível, pois esteve sempre em ato, existindo. E então ele
jamais foi ente possível.

Para fazer engolir a opinião errada de Henri de Gand, alguns seguidores de Duns
Scoto disseram que o ser possível era um ser diminuto, intermediário entre o ser lógico
e o ser real. Se esse ser possível, ser diminuto, fosse real, se cairia no erro de Henri de
Gand. Se se supõe esse ser como uma coisa ideal realmente existente, cai-se no
platonismo, que defendia a existência real das idéias universais, como subsistentes em si
mesmas. Cai-se no realismo ontológico, admitindo um mundo das idéias realmente
existente noutra esfera... que poderia ser chamada de uma Trans-Esfera...

170
Veremos, mais adiante, como se encontram doutrinas semelhantes nas seitas
gnósticas, especialmente, por surpreendente que seja, na Gnose shiita.

171
Capítulo V - O homem e os seres possíveis em Deus
1 - Pode o homem conhecer os seres possíveis em Deus?
Há um fenômeno curioso, a gravidez psicológica, que mais corretamente dever-
se–ia chamar de gravidez imaginária. Uma delas custou a vida de Robespierre, e mudou
a História do mundo.

Certas mulheres, não conseguindo conceber, acabam por se declarar grávidas


sem ter realmente concebido. E é tal a influência da psiquê no ser humano que essas
mulheres pseudo grávidas, apresentam até o ventre realmente entumescido, e,
entretanto, a concepção delas é falsa.

Foi o que aconteceu com uma velha de 69 anos – Catherine Théot –que em 1793
se imaginou grávida do Messias, e que esse messias seria Maximilien Robespierre.

O Maximilien real ficou tão contente com o fato que foi visitar aquela que ia ser
a sua “mamãe”. Quando o deputado Vadier contou o fato na Convenção, quebrou-se o
mito de Robespierre. Foi uma risada só. No dia seguinte a risada – a guilhotina–lhe
cortou a cabeça. Tal é o poder do riso. Tal é o ridículo de ceder à imaginação.

Contamos isso, para lembrar que a concepção humana tem muita analogia com a
concepção intelectual, tanto que a idéia formada por abstração intelectiva se chama de
conceito.

Pois há também “concepção” puramente imaginativa, análoga à gravidez


psicológica, e tão falsa e impossível como ela.Pois imaginar não é conceber.

Conceber os possíveis de Deus é impossível , pois que o homem desconhece o


que Deus é em sua substância divina, como desconhece os possíveis da mente divina,
pois que estes, estando em potência, não podem ser conhecidos. Só se conhece o que
está em ato.

Nossa imaginação capta as imagens sensíveis dos seres reais, podendo até
combiná-las, por exemplo, formando a imagem de um cavalo com chifre. Mas
imaginação não é capaz de produzir conceitos. Ela é voltada para o concreto. O conceito
é abstrato.

A distinção entre imaginar e compreender é muito comumente confundida por


aqueles que são formados de modo romântico, que super valorizam a imaginação e não
compreendem o que é a abstração intelectiva.

172
Seres imaginários que podemos inventar – por exemplo, chifre em cabeça de
cavalo, ou centauros, ou o Pégaso – simplesmente só misturam acidentes de espécies
diferentes. A imaginação não é capaz de conceber uma nova espécie de ser diferente das
existentes no mundo criado.

No mundo feito por Deus, temos minerais, vegetais, animais, homens e


anjos.Estes seres refletem as qualidades invisíveis de Deus.

Cada um dos reinos existentes na criação tem uma gama de seres imensa, que
hiperbolicamente dizemos “infinita”, espelhando qualidades de Deus em diversos graus.
Deus fez o mundo assim, para que o homem pudesse compreender através das coisas
criadas as qualidades invisíveis de Deus. Deus poderia criar muitos outros mundos, mas
só criou o que quis, sempre semelhante a Ele. Poderia fazer outros seres e outros
mundos. Não os fez por não nos serem necessários outros mundos. E embora esse
outros mundos possíveis na mente divina pudessem vir a existir , Deus não lhes deu
existência. E não podemos conceber como eles seriam, pois para isso precisaríamos
conhecer ou a substância divina ou os seres meramente possíveis na mente divina.
Como não conhecemos essas duas coisas, não podemos conceber seres diversos dos
existentes na criação. Quando a imaginação inventa seres inexistentes, ela mistura
apenas acidentes materiais de várias espécies. Inventa monstros ou utopias.

Claro que Darwin quis imaginar um ser intermediário entre o animal e o homem,
-- o chamado elo perdido, um macaco com chupeta – mas isso é sonho “cientifico”.
Também Nietzsche e Hitler imaginaram um futuro Super Homem. Mengele tentou criá-
lo. Foi essa a fonte dos crimes eugênicos do Nazismo, que causou também os massacres
dos campos de concentração. A imaginação humana “cria”, isto é, inventa seres
inexistentes, misturando acidentes de espécies diversas. Jamais é capaz de conceber
uma espécie realmente nova.

Pois Plínio romanticamente confundiu imaginação com intelecção. Possível com


existente em ato. Imaginar com contemplar.

Mas os seres imaginados pelo homem não são os possíveis da mente divina, e os
seres possíveis em Deus nada têm em comum com o fantasiado pelo homem.

Dr. Plínio confunde o que ele imagina com seres possíveis na mente divina.

173
Para desfazer essa confusão -perdoem-nos nossos leitores-depois da travessia do
problema árido dos possíveis, somos obrigados a levá-los através do cipoal emaranhado
do mundo da imaginação.

Vimos que Deus poderia criar muitos outros mundos, sempre análogos ao ser
divino, porque Deus é onipotente, e porque seu ser é infinito. Mas Deus só fez o que
quis. “Sua vontade fez tudo o que quis” (Jó, XXIII 13). Vimos também as duas
condições exigidas para que houvesse seres possíveis em Deus, e como esses seres
possíveis são potenciais e não atuais. Eles não existem em ato. Não são seres reais.

Pergunta-se agora: o homem tem a possibilidade de conhecer como seriam esses


seres possíveis existentes idealmente na mente divina?

Claro que não podemos ter idéia deles.

O homem só pode conhecer os seres criados, a realidade exterior a nós além do


próprio eu. O homem só pode conhecer seres que existam em ato.

São Tomás ensina, repetindo Aristóteles, diz:

“E como claramente ensina o filósofo,nada se conhece


enquanto está em potência, mas só enquanto está em ato”
(São Tomás, Suma Teológica, I, Q. LXXXIV, a. 2).

Concluindo:

Dos seres possíveis em Deus, o homem só pode saber que eles existem na mente
divina como possíveis, isto é, em potência, mas nada pode saber deles, pois não são
seres existentes em ato. Deles, o homem pode compreender apenas que eles seriam
concebidos como análogos às qualidades infinitas de Deus, e que não podem ter
contradição intrínseca.

Mas, nós não sabemos como eles poderiam ser.

Mais não podemos saber, porque não conhecemos a mente divina, e nem
podemos conhecer o que Deus é em si mesmo.

Só podemos cogitar algo a partir dos seres reais que Deus criou e que
conhecemos.

174
2- Que podemos conhecer, cogitar, ou que podemos imaginar, a partir
da realidade criada, que conhecemos?
Vejamos, primeiro, o que conhecemos abstratamente em nosso intelecto, como
também a distinção entre ens rationis e seres possíveis

O que conhecemos por abstração e racionalmente são os seres existentes


atualmente. Deles, por abstração, conhecemos a forma substancial, expressa em nós
pelo conceito que formamos das coisas.

O conhecimento da realidade dos seres reais, nós o temos como idéias abstratas.

Fazemos dos seres de mesma espécie conceitos universais, por exemplo, o


conceito de boi, de asno, de homem etc. Chamamos de universal o termo que engloba
todos os seres de mesma espécie.

O universal existe em nossa mente como ens rationis, ser de razão, e subsiste
nas coisas concretas como forma substancial delas.

Por exemplo, a idéia de homem (animal racional) só existe em nossa mente


como conceito universal. O universal não existe andando na rua. Em concreto,
conhecemos os indivíduos humanos, e conhecemos que neles subsiste o conceito
universal de homem como forma substancial. Mas, na rua só encontramos José,
Antônio, Margarida, Joaquim, Antonieta. Jamais encontramos o homem, animal
racional, perambulando por aí. (E muito menos encontramos o animal racional – o
homem-- na TV, ou em Brasília, essa ilha onírica da ideologia).

Somos, pois, capazes de conceber seres de razão, como o são os nossos


conceitos universais.

Seres de razão são os que existem em nossa mente sem possibilidade de


existirem na realidade concreta.

Exemplos de seres de razão são os universais, a noção de nada, ou a de qualquer


privação de ser, como a cegueira, a ignorância, a surdez etc.

Por isso, também, a idéia de mal enquanto ser é contraditória. Mal é a carência
do que deveria existir em um ser, ou a carência de ordem que deveria existir. Os
exemplos que demos de cegueira, surdez exprimem o mal por carência de ser. O mal
enquanto ser não pode existir, porque existir é um bem, e ser equivale a existir.

175
A diferença de seres possíveis em Deus dos seres de razão (ens rationis), na
mente humana, é que os seres possíveis em Deus têm potência de existir, não existindo
em ato, enquanto os seres de razão não têm possibilidade de existência real, de
existência em ato.

Os seres de razão não devem, pois, serem confundidos com os seres possíveis
em Deus. Os seres de razão, repetimos, não têm potência de existência, e os seres
possíveis em Deus têm potência de existência.

Falando apenas de modo humano, pois em Deus não há nem antes e nem depois,
antes da criação, a idéia de homem, enquanto possível, existia na mente divina. Depois
de criado, o homem deixou de ser um possível em Deus para se tornar um ser criado em
ato. O que é possível não pode estar em ato, e não pode, pois, atuar.

Portanto não há nada em comum entre seres de razão existentes, apenas em


nossa mente, sem potência de existência real, e os seres possíveis em Deus, que têm
potência de existência, mas não a têm em ato. Só um profeta inerrante poderia
identificar ens possibilis e ens rationis.

***

Vejamos, agora, como usamos a imaginação para nos ajudar a pensar, e que
seres imaginários podemos conceber.

O homem, tendo alma racional e corpo material só pode compreender


abstrativamente graças ao auxílio dos sentidos externos e internos. (Cfr.Na IV parte
deste livro, a doutrina do conhecimento de São Tomás). Um desses sentidos internos é a
imaginação que fornece ao intelecto, com a cogitativa, as imagens sensíveis das coisas
existentes. Por ora, nesta parte deste livro, vejamos apenas o que a imaginação pode
conceber.

Com a ajuda da imaginação, o homem pode conceber:

a) invenções;

b) obras de arte ficcionais;

c) ideologias, como as utopias e os milenarismos;

d) seres puramente imaginários, que podem ser congruentes ou incongruentes.

a) Invenções

176
Conhecendo os seres criados por Deus, e conhecendo as leis da natureza, somos
também capazes de imaginar, e depois de conceber um ser artificial, fazendo um
invento.

A mente humana pode ter idéia de um ser artificial possível de ser inventado.
Por exemplo, o homem que inventou o avião, excogitou a possibilidade de inventar um
aparelho que voasse. Quando conseguiu realizar o avião, aquele possível humano, que
esvoaçava por sua cabeça, deixou de ser possível. Passou a voar fora de sua cabeça.
Passou a ser real.

Julio Verne, ao escrever Vinte Mil Léguas Submarinas, concebeu uma artefato
capaz de navegar sob as águas. Aquele submarino do Capitão Nemo era um ser
“possível”, existente em potência na mente humana. Era uma coisa que só foi efetivada
realmente no século XX. Feito o submarino, ele deixou de ser um possível humano,
para se tornar ser realmente existente em ato. Embora sem o capitão Nemo que
continuou ficção, ser imaginário.

As invenções, antes de sua realização em ato, tinham potência de serem feitas


artificialmente pelo homem. Por isso, elas não eram seres de razão, já que tinham
potência de se tornarem reais. Inventadas, tornaram-se reais.

Portanto, um ser possível humano, um aparelho concebido na mente de um


inventor, que se torna uma artefato realmente produzido, não deve ser confundido com
seres possíveis em Deus.

Claro que também os artefatos humanos somente se realizam se obedecem as


leis naturais postas por Deus para reger a natureza. O que contraria as leis naturais não
funciona.

b) Obras de arte ficcionais

Assim também, com base em seres reais e concretos que conhecemos, podemos
conceber personagens fictícios, personagens idealizados, mas que representam certos
modelos ideais humanos, quer do ponto de vista moral, psicológico ou intelectual.

Nosso Senhor nos apresentou a figura do bom Samaritano como modelo moral, e
Eça de Queiroz criou figuras arquetípicas como as de Fradique Mendes, do
Gonçalíssimo Mendes Ramires, e a do Pacheco. Do talentoso Pacheco. Figuras
imaginárias, mas quão instrutivas.

177
Podemos ainda montar fábulas nas quais animais falam exemplarmente,
figurando atitudes humanas, para que retiremos ensinamentos morais preciosos.

Infelizmente, hoje, não se fazem mais fábulas...

Esopo e La Fontaine morreram “il y a longtemps...”E hoje, nem sequer os


homens falam exemplarmente.

Saudades das fábulas... Antigamente, até os animais “falavam”.

Nas fábulas.

Hoje, poucos homens têm palavra.

E há quem faça restrições mentais para enganar com palavras.

Nas obras de arte devemos distinguir aquelas que são feitas inteiramente com
base na realidade, respeitando a coerência constitutiva dos seres criados, das artes
puramente imaginativas, como por exemplo, os rostos humanos imaginados por
Arcimboldo, feitos de legumes, frutas ou verduras, absolutamente impossíveis de serem
reais no mundo criado.

c) Ideologias. Utopias e Milênios

Assim como concebe inventos, o homem também pode conceber sistemas de


organização religiosos, político-sociais, e econômicos.

Todos esses sistemas montados pelo intelecto ou pela imaginação humana só


funcionarão se efetivamente obedecerem as leis naturais impostas por Deus ao mundo
criado.

Uma invenção que não respeitasse as leis naturais não funcionaria. Do mesmo
modo, não funcionam as ideologias, as utopias e os sonhos milenaristas, ainda que
concebidos por algum falso profeta, em Higienópolis, pois as ideologias utopias e
milenarismos não respeitam as leis naturais.

Toda ideologia é subjetivista e parte do erro de julgar que é o pensamento que


cria o real. A verdade é objetiva, e a realidade não muda, se concebemos uma idéia
diferente do que a coisa é.

Uma ideologia é um sistema de conceitos subjetivos que pretende submeter a


realidade objetiva ao pensamento ideal.

O resultado é sempre catastrófico.


178
Os homens podem conceber em suas mentes sociedades ideais, que não
correspondem ao que existe, como existe, ou contrariando os princípios naturais.
Quando o homem faz isso, ele inventa uma utopia, ou sonha um milênio impossível.

O país da Cocanha era sonho de gulosos e de preguiçosos, sonhos do que não


existe e nem poderia vir a existir. E o reino da Utopia, por contrariar as leis naturais, não
podia funcionar. E caso se tente estabelecer a utopia à força, contra a lei natural, se cria
um inferno. É o que constatou Karl Popper, ao dizer que, “sempre que se tentou criar o
céu na terra, se montou um inferno”. É o que comprovaram Auschwitz e os Gulags.

Ainda hoje, deparamo-nos, num jornal, com uma frase brilhante. O que é coisa
rara.

Era num artigo sobre a utopia do progresso dominante nos séculos XIX e
XX, comentando uma obra de Hans Jonas.

Ei-la:

O paradoxo é que o progresso converte o sonho da


felicidade em pesadelo apocalíptico (Oswaldo Gianoia,
Uma heurística do medo, artigo in O Estado de São
Paulo, 3 de Abril de 2010, p. 2).

A utopia do progresso e da liberdade é circundada por cercas de arame farpado e


metralhadoras. E dentro das cidades da Utopia, há câmaras de gás assassinas.
Recordemos que a Utopia marxista cercou-se com o muro de Berlim.

Não se pense que apenas os sistemas totalitários modernos (nazismo, socialismo,


comunismo) são utópicos.

Também a democracia liberal é uma utopia, pois se fundamenta na mentira de


que os homens são iguais, quando eles são apenas semelhantes. A democracia liberal
quer eliminar todos os privilégios a pretexto de acabar com toda hierarquia, destruindo o
que ela considera preconceitos políticos. É o que se defendia, até pouco tempo atrás, na
TV, nos comícios, nas tribunas e nos jornais, junto com o princípio da rotatividade de
quem está no poder.

Até chegarem o Fidel em Cuba e o Chavez na Venezuela, que ficaram. Até


chegar o Evo eleito pelos votos da maioria, e que quer ficar. Porque a igualdade sem
privilégios – aquela pregada por Fidel, pelo Chávez, pelo Evo e pelo Lula do PT-- não
existe, e que ela é impossível de ser implantada, está mais do que provado, pois que ela

179
só se mantém com mensalão para alguns privilegiados, bolsa voto para dar sustento...
aos que as distribuem, para que eles se mantenham no poder, e abafando a justiça.
Adeus rotatividade democrática.

Quem está, fica.

E fica como está.

Pois não são bem simbólicos da mentira da ideologia liberal os prédios do


Legislativo, construídos em Brasília?

Esses prédios do Legislativo em Brasília são bem significativos: de um lado, há


uma cuia para cima; de outro, uma cuia emborcada. A primeira diz: “Me dá um
mensalão”. A outra sussurra baixinho: “Deixa que eu abafo”.

Essa é a democracia sem privilégios.

Um ser “possível”...na cabeça de Rousseau.

E do Ulisses Guimarães com sua Constituição cidadã.

Um sonho.

Ou... um pesadelo.

Pesadelo, sim, pois não foi com o apoio da maioria, democraticamente, que o
genocida Hitler se tornou Chanceler vitalício?

Democraticamente.

Que nem o Chávez.

Que nem o Evo.

Que nem...

É melhor nem pensar.

As ideologias são sonhos idealistas contrárias ao mundo real, às suas leis e


princípios. Elas funcionam tanto quanto uma roda quadrada.

Utopias e Milênios

Sempre que se dá uma crise histórica grave surgem movimentos de fuga que
imaginam sociedades ou lugares absolutamente perfeitos.

180
A Utopia de Thomas Morus foi uma obra desse tipo. Essa tentativa de imaginar
uma sociedade perfeita vai ser uma constante dos movimentos panteístas (utópicos) e
gnósticos (milenaristas), por vezes com tentativas de fundamentação religiosa. É o que
veremos no Shiismo, quando ele fala da terra de Hûrqalyâ.

As utopias são panteístas, racionalistas, mecanicistas, cientificistas e tecnicistas.


Crêem que a ciência e a técnica, no futuro, vencerão todo o mal humano e social: a
doença, a morte, a ignorância a miséria e criarão o reino da felicidade na terra.

Os milênios são as utopias da Gnose. O milenarismo é irracional, organicista,


mágico, e aspira a um retorno ao paraíso terrestre primevo. Sonha –exatamente como
Plínio --com a vida na inocência primeva.

Ambos – utopias e milenarismos -- são revoltas anti-metafísicas contra a


contingência e se manifestam na fuga do real, na fuga do aqui e do agora, isto é, na não
aceitação de que o espaço e o tempo limitam o ser humano e o fixam num lugar, numa
curta existência.

O Romantismo, sendo gnóstico e contra o real, procurava fugir da realidade


através de sonhos, viagens para terras fabulosas distantes. Fazendo isto, ele reconhecia
implicitamente seu caráter de evasão.

O longínquo, o amor do que está longe, e não o amor do próximo, como Deus
manda, é que atrai o gnóstico, assim como o romântico. O romântico prefere a
recordação de um fato mais do que o fato. Daí, se extasiar com diários onde registra
suas recordações.

Prefere recordar o passeio que fez, do que o passeio real.

Na Antiguidade, já se procurava localizar a sociedade ideal em terras bem


longínquas. É o caso da Atlântida de Platão (República, Timeu etc.) a ilha de Panchaia
de que fala Evêmero, as ilhas dos Bem-Aventurados etc.

Thomas Morus cristalizou para sempre essa lição da utopia com a ilha, ao situar
sua sociedade ideal em "algum" lugar (u topos, em nenhum lugar) da América. A Nova
Atlântida de Bacon também estava numa ilha perdida na imensidão do Pacífico (Francis
Bacon, A Nova Atlântida, Abril Cultural, São Paulo, 1973).

181
Campanela, por sua vez, isola a sua Cidade do Sol num oceano de florestas,
numa terra próxima a Taprobana (Tomas Campanela, A Cidade do Sol, Abril Cultural,
São Paulo, 1973).

Nos séculos XVII e XVIII, escreveram-se muitas obras utópicas que deram
continuidade às utopias do Protestantismo do século XVI e prepararam a Revolução
Francesa.

No século XVII , na França: "Lê-se Hobbes, a Utopia de Thomas Morus e


principalmente um certo número de utopias romanescas: A terra austral conhecida de
Gabriel de Foigny (1676), a História das Sevarambos de Denis Veitas (1677), a História
de Clajava ou ilha dos homens razoáveis, de Claude Gilbert (1700), a Idéia de um reino
feliz ou relação de uma viagem do príncipe de Montberand na ilha de Naudely de
Lescovel (1703), as viagens e aventuras de Jacques Massé de Tyssot (1710)(...). Ora,
todos esses Estados imaginários são governados por políticas as mais audaciosas. Elas
ultrapassam as doutrinas mais ousadas de Rousseau ou de Morelly. A propriedade nelas
é desconhecida; tudo é de todos." (Daniel Marnet, Les origines Intelectuelles de la
Revolution Française, Collin, Paris, 1947, p. 20).

À medida que o mundo foi ficando conhecido, o ecúmeno foi empurrando a


utopia cada vez mais "além do horizonte azul". No livro de James Hilton, Horizonte
Perdido, às vésperas da segunda Guerra Mundial, a utopia, fugindo do cataclisma que ia
começar, se refugiou num vale misterioso do Himalaia, o Shangri-lá, lugar de felicidade
e de longa e pacífica vida (James Hilton, Horizonte Perdido, Ed. Record, Rio de
Janeiro).

Hoje, estando toda a terra conhecida, vasculhada e bisbilhotada pelos satélites-


espiões e pelo olho vítreo da televisão, o remédio foi transferir a utopia para as estrelas,
coisa de que faz, com presteza e facilidade eletrônicas, a Science-Fiction.

Com o auxílio dos foguetes modernos ou dos poéticos veleiros antigos, através
do sonho ou de projeção planificada, a utopia ou o milenarismo são sempre fugas de
homens em crise, que não vêem, ou não querem enfrentar, os problemas do seu tempo.

Além de situar a cidade ideal nos antípodas do real, no "u-topos", ou no "no


where", na Neverland, num Neuschwanstein de sonho, os utopistas e milenaristas a
isolam do mundo concreto mau. Não lhes é suficiente a distância: eles querem garantir a
assepsia absoluta do “maravilhoso” sonhado escondendo-a atrás de oceanos, florestas,

182
desertos ou montanhas. Os felizes membros do reino idealizado são enclausurados e
emparedados no Shangri-lá ou na cidade hipodâmica. Fogem do mundo real para um
êremo da fantasia num “Grande Êxodo” imaginativo.

"O país utópico se caracteriza também pelo seu isolamento


que à primeira vista, não é senão artifício literário: ele se
explica muito pela necessidade de descobrir uma terra
totalmente diferente da nossa, da qual jamais se ouviu
falar(...). Entretanto o isolamento não é somente
geográfico, ele é imposto pela própria estrutura da utopia.
Esta tem a fobia da contaminação, porque o contato com
sistemas diferentes seria uma nova infração ao princípio
da uniformidade e poderia fornecer ao indivíduo pretestos
para o ressurgimento de idéias tais como liberdade ou
opção." (Alexandre Cioranescu – L’avenir du Passé,
Gallimard, Paris, 1972, p. 330).

Na realidade, todo país utópico ou todo milênio se situa na alma humana. A ilha
da Utopia está dentro dos sonhadores. Utopia e Quiliasma surgem nos grupos que
vivem em ghetos doutrinários, ilhas da imaginação.

Na TFP, típico gueto sonhador, PCO imaginou fazer um “Grande Êxodo” dos
membros da TFP para algum lugar inacessível, quando viesse a grande crise que ele
chamava de Bagarre, um castigo universal para o mundo revolucionário e do qual
escapariam apenas os melhores membros da TFP. No Reino de Maria, que PCO ia
fundar –e ele dizia que não morreria antes de fundá-lo – o mundo retornaria à inocência
primeva do Éden.

Além disso, nesses movimentos utópicos e milenaristas, há a fuga do tempo. São


comuns os “mergulhos” no “maravilhoso” sonhado que eles situam ou no futuro
próximo, ou no longínquo passado. Ou por trás de um espelho.

Por isso, Plínio imaginou seu paraíso primevo numa Trans-esfera que só existia
mesmo em sua imaginação. Por isso, ele montou uma ordem (durante muito tempo
clandestina) de eremitas e camaldulenses, usando roupas teatralmente medievalescas,
fechados em “ilhas” que ele chamou de êremos. É dessas “ilhas” de sonho que vieram
os Arautos do Evangelho, que, hoje, cansados de viver na solidão de suas “ilhas”, estão
sempre viajando. Física e oniricamente. Voam ao céu, em helicópteros, ou passeiam em
carros de luxo, pensando estar cavalgando corcéis medievais. Sonhando ser cavaleiros
da Távola Redonda.

183
Quantos movimentos românticos fugiram para uma Idade Média de sonho! Os
Arautos do Evangelho, nascidos da imaginação romântica de PCO, perambulam pelas
ruas do século XXI, vestidos – ou fantasiados?-- de cavaleiros medievais, sonhando
proezas de cavalaria andante. Com botas de cavalaria. Sem cavalos. Cavalgando sonhos.

Enquanto buscam avidamente donativos muito reais.

Fugindo do tempo e buscando dólares.

Este tipo de utopia deveria ser chamado de ucronia pois


ele fala, não do lugar, mas do tempo que não existe. O
mundo é mau. As relações ideais ainda não existem ou já
não existem. O correspondente das ilhas comentadas (...) é
aqui colocado, não no espaço, mas no tempo.

(...) A relação dela com o tempo histórico é parecida com


a Utopia de lugar com o espaço geográfico. "Em algum
tempo" não significa "nunca", mas tampouco denota uma
época bem conhecida. Ao contrário, o conhecimento
histórico rigoroso pode ser mortal para a utopia de tempo,
pois ela precisa não da verdade mas da perfeição.
Importante para ela é que o tempo privilegiado, aquele
"quando" feliz, diga não ao tempo presente. (Jerzy
Szachi, As Utopias, Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, p.
49).

Toda ucronia sonha com algo que “era uma vez” num passado indefinido e como
que eterno.Por isso PCO gostava das histórias de fadas. Era uma vez...

E salientamos que a utopia “não precisa da verdade, mas da perfeição”.

PCO que o diga.

Todas as utopias são ucronias (...) uma maneira de


conjurar o tempo (...) um modo de negar a morte situada
também no final do tempo.

A utopia se apresenta ante nós como a descrevem


viajantes ou sonhadores: estática num eterno presente. (...)
Assim a utopia expressa essa noção do tempo oposto ao
Ser, relativo ao Devir, à imperfeição, ao mal - à morte.
(Jean Servier, – História de la Utopia, Monte Ávila Ed.,
Caracas, 1969, p. 235).

Estas palavras de Jean Servier mostram bem o caráter anti-metafísico da ucronia,


pois ela visa eternizar o presente, deter o fluxo do tempo, imobilizar o agora. Ora, isto é
próprio da eternidade, que é o presente fixado. Mas a eternidade só é possível ao Ser

184
Absoluto, e não ao ser contingente. E de novo se manifesta, aqui, a rebelião contra o
estado de imperfeição ontológica, da contingência, e o desejo de ser o Absoluto, ou
procurando forçar Deus a entrar na História (escatologia milenarista e messiânica), ou
paralisando o tempo.

Mannheim cita um texto de Mestre Eckhart que comprova bem essa rebelião
anti-metafísica: "Nada afasta mais a alma do conhecimento de Deus que o tempo e o
espaço." (Meister Eckhart - Schriftenund Predigten, apud Karl Mannheim – Ideologia e
Utopia, Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1976, p. 239).

Gilles Lapouge observa uma curiosa contradição dialética nessa fuga do tempo.

"Uma inclinação secreta conduz a utopia ao nihilismo.


Novo paradóxo da doutrina. Esta nasce do horror ao devir.
Ela se forja contra as obsessões do declínio. Preferir a
eternidade à história, é negar que as coisas passam e que
os homens se substituem. Ora, tudo funciona como se a
morte, expulsada pela utopia dos seus refúgios favoritos
(túmulos, envelhecimento, dor, mal), reintroduzida
contaminaria o conjunto do aparelho." (Gilles Lapouge –
Utopie et Civilisation, Flammarion, Paris, 1978, p. 102).

Todo romântico sentimental foge do real. E a fuga do real é sempre uma fuga
irracional, anti metafísica e, portanto, tendencialmente gnóstica.

d) Seres imaginários possíveis e impossíveis.

Para completar a distinção entre seres possíveis em Deus e o que pode imaginar
o homem, devemos tratar também dos entes imaginários como o saci, a medusa, o
centauro, as fadas de que tanto gostava PCO.

Os seres imaginários, nada, absolutamente nada, têm a ver com os possíveis em


Deus, em que pese a inerrância de Plínio Corrêa de Oliveira.

A imaginação humana é capaz de unir imagens de seres diversos, montando


um ser inexistente na realidade. Tomando a imagem de montanha, e juntando-a à
imagem de ouro, pode-se conceber um Everest de ouro. Que não existe na realidade.

Mas uma montanha de ouro poderia existir, pois os elementos constitutivos dela
não são incompatíveis entre si.

A imaginação pode forjar também coisas incongruentes como o Pégaso, a


Medusa, o Batman, o Saci Pererê, ou o Tocha Humana, o centauro e a sereia. Seres

185
imaginários impossíveis de existir, porque unem idealmente elementos incompatíveis de
serem notas constitutivas de um ser real.

Uma mulher que tenha serpentes vivas na cabeça, em lugar de cabelos é


impossível de existir. Nesse ser, haveria uma incongruência constitutiva que o torna
impossível de ter existência real. Um cavalo com asas é impossível de existir na
natureza, pois a estrutura do cavalo é incompatível com a sustentação por asas.

Os seres imaginários se distinguem dos seres de razão, porque os seres de razão


não podem ser imaginados enquanto seres reais. Dos seres imaginários podemos montar
uma imagem, dos seres de razão nem imagem podemos ter.

O ser imaginário é confundido com ser de razão, porque tanto uns quanto o outro
não podem ter existência em ato.

Dr. Plínio desconhecia todas essas distinções. Daí, a grande confusão que fazia
entre seres possíveis, seres de razão e seres imaginários, lenda e realidade, mundo real e
mundo de sonhos.

Plínio Corrêa de Oliveira, cujos delírios “metafísicos” estamos focalizando,


falava e elogiava os contos de fadas pelos quais ele foi deformado em sua infância. E
atribuía a esses contos grande valor.

PCO gostava de contos de fadas com os quais sua mãe alimentara e envenenara
sua imaginação. Esses contos romantizaram sua mente, pois meteram na alma de Plínio
a idéia falsa de que haveria uma “maravilhosa” ordem ideal inexistente, sonho que ele
iria comunicar aos tefepistas.

E ele justificava esses contos mirabolantes, dizendo:

A criança gosta que lhe narrem contos de fadas, que são


irreais, porque lhe dizem algo que é verdade no reino do
além; é um envelope fantasioso que contém uma verdade
magnífica, oculta.

Através do senso do ser procura-se obscuramente uma


ordem ideal”, imaginando-a realizada em seres análogos
aos que são conhecidos, idealizando seres aqui conhecidos
num grau mais alto, procurando ver em pessoas
imaginárias, idéias e conceitos correlatos a tais seres. (O
Universo é uma Catedral, excertos do pensamento de
PCO, por Leo Daniele, Ed. Brasil de Amanhã, São Paulo,
1997, p. 229. Os destaques são nossos).

186
Já vimos que, por “senso do ser”, PCO entendia uma capacidade inerrante inata
no homem, capacidade recebida junto com a inocência primeva. Ela daria ao homem
um conhecimento interior das matrizes dos seres, e, ao mesmo tempo, um dom inerrante
para escolher o que o completasse ontologicamente, a fim de atingir sua própria
perfeição absoluta num mundo ideal. Mais: permitindo-lhe alcançar a “unicidade” do
ser.

Como vimos, eram sonhos plinianos com o monismo. Aspirações ao pléroma


gnóstico.

Nesse texto acima citado de PCO, se tem a prova do mal que fazem os contos de
fadas, insinuando nas almas infantis idéias de verdades ocultas, de seres irreais com
poderes secretos, num mágico reino do além inexistente, mas sugerido como existente.
Desse modo é que se destrói o princípio de não contradição na inteligência infantil. E
isso cria “profetas”... do além.

E o além pode residir em Higienópolis.

Plínio gostava de contos de fadas...

As fadas são seres míticos com poderes mágicos. Os contos de fadas surgiram
em substituição das histórias dos santos. Estes faziam milagres. As fadas, em vez de
falar ao nome de Cristo, usam varinhas de condão. Seus portentos são preter naturais,
que sugerem verdades e poderes ocultos e secretos.

As fadas são fantasias inventadas pela imaginação humana. O que é humano não
é divino, e vice versa.

Quando Plínio, fundamentando-se na idéia dos seres possíveis em Deus, juntou a


eles, um mundo imaginário, incluindo nele as fadas, fez uma mixórdia metafísica-
imaginária delirante e envenenadora. E dessa mixórdia nasceram a TFP e os Arautos do
Evangelho.

Será preciso provar que as fadas nada tem a ver com os possíveis em Deus?

Por favor, dispensem-nos disso.

Contos de fadas são deformantes, porque substituem o sobrenatural pelo


prodígio mágico.

187
São produtos de imaginações desviadas para um naturalismo esotérico, que
prepara o espírito da criança a acostumar sua mente a buscar, por mera curiosidade vã,
um mundo “mítico” imaginário. E isso conduz rapidamente para a magia e para o preter
natural diabólico.

Aliás, o termo “fada” provem de “facta”, o que está destinado a acontecer. O


factum é o fado, o destino, idéia falsa que nega o livre arbítrio humano. E Plínio vai
falar da maldade do livre arbítrio...Vai falar da dualidade da natureza humana.

Ora, a condenação do livre arbítrio leva diretamente ao anomismo. Leva a


considerar a lei de Deus simplesmente como uma “tabela dos dez mandamentos”...

E os contos de fadas, ademais de serem fantasiosos, eram sensuais.

As fadas, como as sereias, nas mitologias pagãs atraíam pessoas para atos
libidinosos. Como a erótica princesa Dahut, filha do Rei Gradlon, soberano da mítica
cidade de Ys, onde a lenda bretã fixou a “catedral engloutie” musicada pelo romântico
simbolista e gnóstico Debussy, lenda muito estimada pelo romântico e gnóstico PCO.

“No fim do século XVII, um sacerdote escocês, o


reverendo Kirk, de Aberdoyle, compilou um tratado que se
intitula A República Secreta dos Elfos, das Fadas e dos
Faunos. Em 1815, Sir Walter Scott fez publicar esse
manuscrito. Diz-se do senhor Kirk que as Fadas o
arrebataram, porque havia revelado seus mistérios” (Jorge
Luis Borges e Margarida Guerrero, O Livro dos Seres
Imaginários, Editora Globo,São Paulo, 2000, p. 198).

Como Plínio podia então elogiar as historias de fadas com suas pseudo
“verdades ocultas”?

Desse modo, os seres imaginários criados pela fantasia ou pela mitologia não
podem ser tidos como seres possíveis da mente divina, que desconhecemos.

Ligar as fadas, entes míticos imaginários, com poderes mágicos, preter naturais,
aos seres possíveis em Deus, é delírio.

Mitos e fábulas pagãs foram causadores da idolatria.

E muito ingenuamente não se pense que os ídolos pagãos eram estátuas


inocentes. A Sagrada Escritura, nos salmos e nas Epístolas de São Paulo afirma que
“todos os ídolos pagãos são demônios” . omnes dii gentium daemonia”(Ps. XCV,5 ; I
Cor. X, 20).

188
E os mitos pagãos, cheios de seres irreais, física e moralmente monstruosos,
eram imaginações suscitadas pelos demônios, e não seres possíveis de virem a existir.

***

Haveria que falar ainda dos sonhos gnósticos de mundos irreais idealizados fora
deste universo material em que vivemos.

Em todos os sistemas gnósticos se imaginam seres bizarros existentes acima da


esfera real terrena, existindo numa esfera imaginária, ou preter natural, fora da natureza
visível.

Para a Gnose, existir no mundo real, seria o mal.

Isso porque o amor a um ideal inexistente, mas imaginado, é um dos meios para
fugir do real, de escapar das limitações do ser contingente: o espaço e o tempo.

Os românticos, como gnósticos que eram, odiavam o mundo real e imaginaram


mundos ideais.

Como já dissemos, Clemens Brentano, o secretário e redator da pseudo visões e


revelações cabalistas de Anna Katharina Emmerick, –muito estimadas por PCO e pela
TFP–, desde pequeno, imaginou um reino ideal, perfeitíssimo, que chamava de Vadutz.
Nesse país inexistente, que Brentano não queria que existisse, fora de sua imaginação,
no mundo real mau, nesse reino tudo seria admirável. Mas quando um tio mostrou ao
pequeno Clemens Brentano, num mapa, que realmente existia a cidade de Vadutz,
capital do Lichtenstein, o pequeno Brentano chorou copiosamente, pois se a cidade de
Vadutz existia no mundo real e material, então ela não seria boa. Existir seria o mal.
Todo o real seria desprezível e condenável.

Esse ódio do Romantismo ao ser, à existência e ao tempo, ao “aqui” e ao


“agora”, fazem dele um movimento claramente gnóstico. Por isso, Plínio imaginava a
limonada perfeitíssima,-- sem limão e sem limonada--, num mundo ideal da Trans-
esfera.

A mesma fuga do real pode ser encontrada nos livros do gnóstico Lewis Carol:
Alice no País do Espelho, e Alice no País das Maravilhas.

Muitas dessas notas calham perfeitamente para caracterizar o sonho da Trans-


Esfera de PCO e da TFP– mundo dos possíveis ideais inexistentes-existentes–, a ponto
de que aquilo que vamos analisar agora poderia muito bem ser intitulado “Plínio,

189
passando do Real ao país das Maravilhas”, através da “contemplação” admirativa do
sonho.

PCO caiu num desvario desse tipo ao imaginar um mundo maravilhoso, que ele
chamou o mundo da Trans-Esfera, para o qual buscou fundamentação filosófica-
teológica, ligando esse mundo imaginário aos seres possíveis em Deus, tal como se lê,
no livro que estamos focalizando.

O resultado foi um delírio shiita, em que se misturam seres possíveis com seres
de razão, com seres imaginários, com sonhos e divagações milenaristas, com pseudo
teologia do sonho e metafísica manca.

Por que falamos de sonho shiita?

Porque na Gnose shiita – que Plínio nunca leu–existem idéias


impressionantemente paralelas e semelhantes ao que imaginou Plínio na sua “Trans-
Esfera”. Porque todas as fugas do real são parecidas.

Vejamos, então, agora, como exemplo de fuga gnóstica do real, o mundo shiita
de “Hûrqalyâ”, mundo que tanta semelhança tem com os delírios trans-esféricos de
Plínio, da TFP e dos Arautos do Evangelho.

190
Capítulo VI - “Hûrqalyâ”- A Trans-Esfera da Gnose shiita
Todos os sistemas gnósticos detestam o mundo criado por Deus, não aceitando
as limitações dos seres contingentes. Por isso, em todos os sistemas gnósticos se
pretende ser preciso evadir-se deste mundo - tido por mau–para um outro mundo
superior, onde não haveria morte, doença, misérias, limitações do ser. A Gnose é um
pecado anti metafísico. O milenarismo - concepção típica da Gnose-- sonha com um
mundo superior, uma supra realidade, vista como um Reino de Deus, numa terra
espiritualizada. Tal sonho é comum a todas as escolas gnósticas.

Todo mundo imaginado pelos homens em revolta contra o que Deus criou, só
pode pertencer à esfera humana, e nunca aos possíveis em Deus.

Platão e os românticos sonhavam um mundo ideal subsistente em si mesmo, e


não como meros possíveis na mente divina. Um mundo ideal com existência atual.

Também em muitos outros mitos gnósticos se fala de terras ideais, ou de locais


mágicos, como o castelo do Rei Arthur, ou o mundo de Alice.

Essa foi também uma posição típica da Gnose do Romantismo, no qual


encontramos o Vadutz de Clemens Brentano. Ou o Shangri-Lá de James Hilton.

E, nas visões de Anna Katharina Emmerick, se fala da Montanha dos Profetas,


que existiria no Tibet, onde estariam o Profeta Elias e Enoch, aguardando a hora de
voltar ao mundo real, para combater o Anti Cristo.

Junto com Dr. Plínio, claro, pois que ele acreditava que, na Bagarre, ele seria
levado para a Montanha dos Profetas num carro de fogo. A morte do imortal Plínio C.
de Oliveira o impediu de ser arrebatado para a Montanha dos Profetas, no Tibet, onde
ele passaria o tempo estudando Cornelio a Lapide, numa gruta.

Numa gruta confortável, entenda-se...

Ora, essa Montanha dos Profetas amada e desejada por Plínio, é identificada por
Henry Corbin com a montanha Qaf dos shiitas, com o Albors dos persas, com a Terra
do Ocidente, com a Oberland, e com o Mont Salvat das lendas medievais, isto é, com o
Mont Ségur dos cátaros e dos nazistas (Cfr. (Henry Corbin, En Islam Iranien,
Gallimard, Paris, 1978, 4 volumes, IV Vol., pp. 378-379, 406; vol. II, pp. 154, 170, 189,
225-226, 282 etc.).

191
Para lá é que iria Plínio Corrêa de Oliveira.

E esse sonho de ir também para a Montanha dos Profetas, para se encontrar com
Elias, Plínio o teve ao ler textos das pseudo visões de Anna Katharina Emmerick, que
faz longas descrições dessa Montanha irreal.

Citaremos o que diz a Gnose shiita sobre o “mundo imaginal” para que se
compare, depois, com o que dizia Dr. Plínio sobre a sua Trans-Esfera, ensinada,
picadinha e em miúdos, pelo imã Scognamiglio em suas reuniões para os eremitas, na
sede dos Arautos, no São Bento, e no Presto sum, quando dava o Jour le Jour do
Profeta de Higienópolis aos jovens que pretendia fanatizar, para depois iniciá-los na
seita secreta, a Sempre Viva. A seita embutida nos Arautos, e que não foi aprovada pelo
Vaticano...

No Shiismo, se fala do mundo da Hûrqalyâ, terra mágica onde estaria a


Montanha Qaf, numa esfera além das esferas. Portanto, numa Trans-Esfera...Num
mundo “sur-réal”

A doutrina shiita admitia a existência de um mundo imaginal–o mundo imaginal


de Hûrqalyâ – intermediário entre o nosso mundo e a esfera angélica, onde espírito e
matéria se encontrariam, transmutando-se uma no outro.

“Hûrqalyâ”... era um mundo imaginal que ... “Sohrawardi


gostava de chamar pela expressão de Na-Kojâ- Abâd-
(Literalmente, “país do Não-Onde”. (...) Ele é o ”Não-
Onde”, mas ao mesmo tempo é realmente uma Terra, um
país (âbâd) e é exatamente o país onde acontecem os
eventos dos relatos místicos. É um país no qual se é
admitido ver; mas nenhum daqueles que o viram é capaz
de mostrá-lo. Só pode encaminhar para ele, não a
evidência conceitual de uma demonstração teórica, mas a
força de um evento realizado, e este só pode ser dito num
relato. De onde, se ele não dispõe de uma metafísica que
daria direito ontologicamente ao “terceiro mundo” de
Hûrqalyâ, que não é o mundo do intelecto, nem o mundo
da percepção sensível, nossa hermenêutica será incapaz de
lhe dar direito à sua realidade. Ela o confundirá com o
“imaginário”, com o “irreal”, e o relato só lhe proporá
coisas “imaginárias”. (Henry Corbin, En Islam Iranien,
Gallimard, Paris, 1978, 4 volumes, II Vol., p. 188. Os
destaques são do original).

Não podemos deixar de interromper esta citação sem chamar a atenção do leitor
para o flagrante paralelismo dessa concepção shiita com o mundo dos possíveis, que

192
PCO diz não existir, e, ao mesmo tempo, diz que, de certo modo, existe. Como também
do paralelismo do papel do imaginal, substituindo a metafísica, quer na doutrina shiita,
quer na “ontologia” imaginativa exposta por PCO.

Continuemos a ler Henry Corbin:

“Foi por isso que nós insistimos precedentemente sobre a


importância metafísica do esquema dos três mundos em
Sohrawardi e em todos os filósofos místicos a ele
aparentados. Corolariamente, é reconhecer o valor noético
pertencente de pleno direito à percepção imaginativa e à
consciência imaginativa” –[exatamente como lhe dá
PCO]–“a qual não é a “fantasia” (uma metafísica que a
enquadra como aquela que aqui se lhe dá direito, a
preserva justamente das extravagâncias às quais ela está
abandonada, quando a filosofia a considera apenas como
“fantasia” segregando o “irreal”). A percepção
imaginativa é o órgão próprio da penetração num mundo
que não é nem o imaginário, nem o irreal, mas o
imaginal”. (Henry Corbin, En Islam Iranien, Gallimard,
Paris, 1978, 4 volumes, II Vol., p. 188. Os destaques são
do original).

Essa valorização do conhecimento através da imaginação defendida pela Gnose


shiita tem patentes coincidências com o valor noético que Plínio Corrêa de Oliveira
atribui à imaginação em sua concepção do mundo dos seres possíveis, formando um
mundo irreal–mas de certo modo real – do que ele chama de trans-esfera.

É o que veremos.

Prossigamos a citação de Henry Corbin que estamos colocando:

“Esse mundo imaginal não se pode dizer onde ele está.


Quem o viu, não pode mostrá-lo. É por isso que ele é dito
o “Não-Onde” (nâ- kojâ) em persa, no sentido em que
ninguém se orienta para ele utilizando coordenadas do
mundo geográfico ou astronômico, compreendido como a
Esfera das Esferas. Quando se diz que ele ”começa na
superfície convexa desta [esfera], e para sugerir a
passagem “além” da esfera das esferas– [Portanto,
para uma Trans-Esfera, como diz PCO] --, no cume da
montanha cósmica de Qaf. É a passagem do exterior das
coisas (o exotérico, ta éxô), para o interior das coisas (o
esotérico, ta esô), a passagem da história exterior para a
verdadeira história, a interior” (Henry Corbin, En Islam
Iranien, Gallimard, Paris, 1978, 4 volumes, II Vol., p. 188
e 189. Os destaques são do original).

193
Veremos como também Dr. Plínio prefere a história interior – a das lendas, a dos
mitos -- à história exterior dos fatos.

A passagem para o mundo imaginal consiste em mudar-se do mundo


concreto material para um mundo no qual o material se espiritualiza, e no qual o
espiritual se concretiza em duas dimensões apenas, num mundo imaginal. O que sem
dúvida é uma doutrina gnóstica, inimiga da realidade material tal qual Deus a criou e a
disse boa.

“Partir de um ponto qualquer do mundo terrestre visível, o


molk, é progredir em direção a seu ponto de origem, isto é,
antes de tudo em direção desse mundo da Hûrqalyâ, que é
o mundus imaginalis, o intermundo, no qual o espiritual
toma corpo e figura, e onde o que é corporal se
espiritualiza, em Formas e Imagens autônomas, do qual
nossos autores [shiitas] repetem que elas subsistem livres
de toda outra matéria que sua própria luz, à maneira de
imagens num espelho” (Henry Corbin, En Islam Iranien,
Gallimard, Paris, 1978, 4 volumes, I Vol., p. 147).

É lá o “lugar” onde existiria a “limonadérrima” de PCO. Sem limonada e sem


limão...

O Mundo Imaginal da Hûrqalyâ é um não lugar, uma utopia, fora do mundo


geográfico ou astronômico, situado na “esfera das esferas”.

A esfera das esferas do shiismo bem lembra a Trans–Esfera tefepista da qual


veremos, logo mais, a conceituação pliniana...

Ir para o mundo da Hûrqalyâ, seria sair do mundo das dimensões sensíveis,


passando para uma “quarta dimensão” (Henri Corbin, op. cit., vol. II, p.226).

Veremos como, com Dr. Plínio, se assumem doutrinas muito semelhantes.

Por exemplo, relacionando o mundo da Trans-Esfera – o mundo imaginal, a


Hûrqalyâ –com os arquétipos no Verbo divino.

“Hûrqalyâ, é o mundo imaginal, o mundo das formas


imaginais e das imagens-arquetípicas. Os seres e as coisas,
“vistos em Hûrqalyâ”, têm então a profundidade de um
espelho. De nenhum modo se trata de um modo de
conhecimento ainda inferior, precedendo um
conhecimento face a face: mais do que uma reminiscência
pauliniana, o velut in speculo deve sugerir aqui o sentido
verdadeiro e etimológico de toda mística especulativa”

194
(Henri Corbin, op. cit., vol. IV, p.287.Os destaques são do
original).

“Onde está Hûrqalyâ, esse mundus imaginalis que não é


exatamente o mundo das idéias platônicas, mas o mundo
das Idéias-Imagens, mundo das Formas e Figuras do
universo sensível no estado de “matéria sutil”, mundo que
tem extensão, mas que é de pura luz?(...) “é preciso não
esquecer também que ele [o mundo da Hûrqalyâ] está
também no invisível de nosso próprio mundo; mais
exatamente num invisível que se torna visível para a visão
interior, desde que tivermos compreendido como as
Formas eternas pertencem ao mundo da Alma (Malakut)
entram em contato com as matérias perecíveis do universo
sensível.

“Essas Formas aí chegam do mesmo modo que a Forma de


uma pessoa humana “entra” num espelho” (Henri Corbin,
op. cit., vol. IV, p.289. Os destaques são do original).

A doutrina shiita é também messiânica. Os shiitas como muitos gnósticos,


aguardam um Messias – o XII Imam, ou Imam da Ressurreição--, que transformará este
mundo mau num mundo perfeito espiritualizado.

O XII Imam viveria, hoje, no mundo imaginal da Hûrqalyâ, um não- lugar:

“Meditar a invisível pessoa do XII Imam, é penetrar na


“Terra Celeste” de Hûrqalyâ, a qual oferece tanta
semelhança com a Terra da Luz, a Terra Lúcida do
maniqueísmo. “Ver o Imam em Hûrqalyâ”, para retomar
de novo essa expressão de um eminente shaykh shaykhî , é
vê-lo onde ele está de verdade: no mundo ao mesmo
tempo concreto e supra sensível, e com o órgão apropriado
que requer a percepção de um tal mundo, -- mundo
paralelo ao nosso mas de outra natureza” (Henri Corbin,
op. cit., vol. IV, pp. 330-331. Os destaques são do
original).

“Ver o Imam em Hûrqalyâ”, subentende que o mundo


supra sensível de Hûrqalyâ e o mundo material sensível
coexistem, se interpenetram, se contém um no outro;
Hûrqalyâ está, ao mesmo tempo, acima de nós, entre nós,
e no interior de nós. Quando, por nossa inconsciência, ele
não está no interior de nós, ele não pode ser nem
conhecido nem reconhecido por nós “em nenhum lugar”,
porque nada pode ser conhecido exteriormente a não ser
graças a uma modalidade correspondente que esteja em
nós” (Henri Corbin, op. cit., vol. IV, pp. 308-309).

195
Então, como ensinava Plínio, também na Gnose shiita se afirma que: “nada pode
ser conhecido exteriormente a não ser graças a uma modalidade correspondente que
esteja em nós”.

Plínio não dizia diversamente, quando afirmava que os nossos melhores livros
somos nós mesmos.

Em suma, um desvario.

Todas essas citações mostram como é comum à visão gnóstica do mundo a


concepção de um mundo superior a que se poderia aceder por meio da imaginação ou de
uma intuição mágica. O que o shiismo, Gnose persa–concebeu com o mundo da
Hûrqalyâ, PCO concebeu com a sua Trans-Esfera.

Veremos, mais à frente, como a Trans-esfera imaginal de PCO se assemelha a


essas terras de sonho da Gnose.

196
Capítulo VII - Os Inexistentes- Existentes Seres Possíveis de
PCO
Deixemos Dr. Plínio nos falar, enfim e agora, na segunda parte dessa obra
delirante sobre a Inocência Primeva, de outros mundos que ele sonhou e dos quais não
tratam nem a Sagrada Escritura, nem a Geografia, nem a Astronomia. Um mundo ideal,
feito do que ele chama erradamente de “seres possíveis”, confundindo imaginário com
possível.

“Possíveis” seriam as coisas que Plínio imaginava e que ele identificava com os
seres possíveis, na mente divina. E esses entes possíveis, que existiriam apenas na
mente divina, e que nunca foram criados, formariam um universo possível, ideal,
perfeito, inexistente. Mas que seria, pelo menos de certo modo, real, existente. A esse
“universo ideal”, PCO chamava de mundo da Trans-Esfera.

Para Dr. Plínio, imaginando, fantasiando, é que se alcançaria esse mundo ideal, o
mundo “sacral” por excelência.

Esse processo imaginativo e idealizador se iniciaria na infância, quando a


inocência primeva reinaria na alma de todo homem. Portanto, todos os homens -
mesmo sem o Batismo--, através do “senso do ser” poderiam atingir esse
“conhecimento” salvador.

Todos os homens então, pelo “senso do ser” procurariam alcançar uma “ordem
ideal” que eles conheceriam por meio das matrizes universais inatas neles.

Esse universo ideal era imaginado como realizado, num mundo do além, por
seres análogos aos do nosso mundo concreto, porém muito mais perfeitos, pois que não
teriam matéria. O que de melhor haveria em nosso mundo, existiria perfeitíssimo, sem
nenhuma limitação e defeito, sem matéria, nesse mundo ideal. Seria um universo de
puros seres ideais. Com limonadérrimas sem limão e sem limonada. E com o super
chopp ideal.

Entre o mundo real e imperfeito em que vivemos e o mundo ideal do Absoluto,


haveria vários paraísos imaginários, uns análogos aos outros, até o mundo supremo do
Absoluto Absolutíssimo. De grau em grau, cada um desses “paraísos” imaginários,
numa sucessão indefinida de analogados, iria até um mundo totalmente ideal, que PCO
chamava mundo da Trans-Esfera.

197
E Plínio achava que os contos de fadas teriam isto de bom: eles aguçariam esse
imaginado e imaginativo “senso do ser”, na criança, que permitiria a ela chegar ao
imaginário mundo do Absoluto imaterial.

Relembramos o que PCO diz do efeito dos contos de fadas na alma da criança:

“A criança gosta que lhe narrem contos de fadas, que são


irreais, porque lhe dizem algo que é verdade no reino do
além; é um envelope fantasioso que contém uma verdade
magnífica, oculta.

“Através do senso do ser procura-se obscuramente uma


ordem ideal”, imaginando-a realizada em seres análogos
aos que são conhecidos, idealizando seres aqui conhecidos
num grau mais alto, procurando ver em pessoas
imaginárias, idéias e conceitos correlatos a tais seres” (O
Universo é uma Catedral, excertos do pensamento de
PCO, por Leo Daniele, Ed. Brasil de Amanhã, São Paulo,
1997, p. 229. Os destaques são nossos).

E ainda:

“Se a pessoa for fecunda em formar noções ideais, muito


sub-conscientes, mas efetivas, a respeito do que a cerca,
ela vai buscando um universo ideal. Ela sabe que esse
universo ideal não existe, mas tem a noção de que, de
algum modo, deve existir” (O universo é uma Catedral,
excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira” por
Leo Daniele, Edições Brasil de Amanhã, São Paulo, 1997,
p. 233. Os destaques são nossos).

Portanto, o universo que Plínio imagina é:

1) Puramente imaginário;

2) Mas, “imaginando-o realizado, num universo fantasioso que ele chama de


ideal;

3) Universo que ele qualificará com o termo “sacral”;

4) Que formaria o que ele vai denominar de Trans-esfera;

5) Universo absolutamente contraditório, pois que não existe, mas teria que
existir, pelo menos de algum modo.

6) Que os contos de fadas contam coisas irreais aqui, mas que são “verdades no
reino do além”.

198
7) Contos da fadas contariam verdades ocultas.

8) Finalmente, as coisas existentes no mundo atual seriam análogas a esse


mundo da Trans-esfera, e não a Deus. O que faz substituir Deus pela Trans-esfera.

Como estas doutrinas de Dr. Plínio lembram o que vimos do poder noético e
criativo da imaginação admitido pela Gnose shiita de Sohrawardi, como nô-la expôs
Henry Corbin.

Deus, ser absoluto e real, na doutrina de PCO, é então substituído como


analogante primeiro, pelo mundo ideal (inexistente-existente) da Trans-Esfera,
imaginária, irreal, inexistente, apenas “possível”, mas que deveria existir. Um universo
inexistente, portanto vazio, é que seria o modelo analogante de tudo o que existe no
mundo concreto inferior. Desse modo, tudo o que existe realmente seria semelhante, e
participante desse mundo idealizado. Ontologicamente vazio. O existente seria
participação do vazio.

Plínio insiste–inicialmente-- que o mundo dos seres puramente ideais da Trans-


Esfera não existe: ”E à medida que a pessoa vai conhecendo esse universo, vai tendo
em gérmen a idéia-[SIC! Idéia ou imaginação?] --de um universo ideal. Este universo
ideal, ele sabe que tal qual imagina, não existe, mas que de algum modo algo deve
existir” (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do
Universo, ed. cit., p. 161. Os destaques são nossos).

É a Hûrqalyâ da TFP.

Que não existe. Mas que deveria existir. Pelo menos de algum modo.

Isso vai contra o princípio de não contradição. É pois um absurdo.

Já na página 183 desse mesmo livro, Plínio diz: “Como conciliar isso –[a
exigência de objetividade] – com a recomendação de viver continuamente numa trans-
esfera, fazendo transcendências, buscando os absolutos? Não há contradição, pois esse
mundo da contemplação sacral é real sob vários aspectos, e, enquanto real, é que
deve ser vivido. Não se trata de um sonho, de um pensamento sem consistência. São
realidades aparentadas entre si: a da contemplação e a da execução” (Plínio Corrêa de
Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, ed. cit., pp.
182 -183. Os destaques são do autor).

E que cheiro de shiismo nessas palavras de PCO...

199
Passa-se vagamente, num lusco fusco de afirmações e de negações, do
inexistente para o existente. O que permite, se for preciso, negar que se aceita o
inexistente. Como também crer e viver como se, de fato, ele existisse.

Dessa maneira, o que não existia passa a ser realidade. O imaginado é definido
como a realidade da contemplação por exercícios de “transcendências”...

Portanto, o “universo ideal” que Plínio imaginou, seria “real sob vários
aspectos”. O que é bem esquisito. Como algo é “real sob vários aspectos”?

Ou é real, ou não é real. O mundo “transcendente” da Trans-esfera


seria composto de realidades tais que seria possível viver nelas. Viver na Trans-esfera?

De novo, o delírio.

Para chegar a essa conclusão onírica, Plínio vai levando o leitor por onze
capítulos, nos quais mistura trechos de doutrina católica com suas imaginações
descabeladas, deslizando dos símbolos para o idealismo subjetivista, até chegar ao
imaginário delirante. E prevenimos que nesse livro editado pela ex TFP–pela TFP dos
Provectos–se evitou colocar como Dr. Plínio chegou a imaginar a Trans-esfera onde
existiriam desde toda a eternidade-- seres ab aeterno--, possíveis não criados, existentes
não-existentes.

Como na Hûrqâlya shiita.

Porque no imaginário real-irreal de Plínio e da TFP, há também os seres “ab


aeterno”. Que não existem. Mas que existem. Como o comprovariam os semáforos de
São Paulo.

Mas, deixemos, por ora, esses textos semafóricos para mais tarde...

Veremos isso, mais adiante.

Por ora, fiquemos folheando o novo livro publicado pelo Instituto Plínio Corrêa
de Oliveira.

Essa doutrina pliniana, cheirando à Gnose platônica e romântica foi confirmada


pelo volume publicado pelos Arautos do Evangelho Notas Autobiográficas de Plínio
Corrêa de Oliveira. Mons. Scognamiglio, como entende muito pouco do que lê, e menos
ainda do que diz e do que escreve, e como acredita que sempre pode ludibriar os outros,
ousou publicar textos do MNF que os Provectos da TFP censuraram.

200
Nesse livro, é possível colher vários exemplos de exercícios imaginários de PCO
por meio dos quais ele imaginou esse mundo ideal.

Eis alguns:

1) os gramados do Jardim da luz na Belle Époque:

No livro Notas Autobiográficas, à página 259, há uma fotografia de PCO, lá


pelos seis ou sete anos, usando saia, a passear no Jardim da luz. E eis o que ele
“pensava” nesses passeios:

“Havia ali grandes canteiros de grama bem cultivada, que


pareciam imensas esmeraldas (...) E, em certas zonas para
onde ninguém ia, a vegetação fazia sentir seus charmes e
seu bons odores, com uma acolhida afável e sorridente.
Isso fazia-me pensar em parques de uma outra ordem,
numa outra esfera, em jardins etéreos e arquetípicos, que
não existiam, mas eram possíveis...Eu passava por ali
vendo aquelas ondulações e quase fingia que brincava,
enquanto minha alma esvoaçava por outras paragens...

Imaginado esse píncaro de beleza, sentia que era possível


a existência de uma outra ordem universal, mais bonita do
que esta e para a qual eu tendia. Numa palavra só, eram
saudades do Paraíso numa alma inocente” (Plínio Corrêa
de Oliveira, Notas Autobiográficas, Vol. I, p. 254. Os
destaques são nossos).

Para Plínio sentir seria pensar.E nesse texto, é patente o sonhar a irrealidade
como se ela fosse real, e mais desejável que o real. O que é tipicamente romantismo.

2) Passeio no Parque Antártica:

Bem menino ainda, tendo encontrado um local, no parque, “uma espécie de


ilha” de vegetação e de sombra e chão coberto de musgo aveludado, conta PCO que
pensava o seguinte:

“Aquele frescor, aquela penumbra e aquela natureza


verdejante que “cantava” e “brincava” no seu isolamento,
distinta em relação a todo o resto, deixou-me encantado!
Pensei: “O ambiente ensoleirado, a poeirada ordinária com
a bicharada revoltada, fiquem por lá! Aqui estou eu
dominando a natureza como um rei, e protegido por ela
como por um pálio. Este é o meu lugar!”Então declarei:
“Isto é meu!”.

E ele proclamou essa ilha - sempre a ilha-- seu reino, e o chamou de “Baltasar”.

201
“Depois, com o maturar do tempo, voltava-me à mente
com freqüência a recordação dessas impressões e eu
pensava. “Aquele frescor e aquele conjunto me falam de
um valor mais alto do que a soma de todos os aspectos do
“Baltasar”. Aquilo remete para algo de mais elevado. É
como se houvesse ali a presença de um ser etéreo e
impalpável, superior a mim e a todas essas coisas com as
quais ele não se confunde e do qual elas não são senão um
símbolo que, de certa maneira, atua sobre mim. Não sei o
que é esse ser, mas em tudo isso a minha alma precisa
aprofundar-se...” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas
Autobiográficas, Vol. I, p. 370. Os destaques são nossos).

3) contemplando uma pintura renascentista ou barroca.

Veja-se o texto abaixo, longo. Longo, mas bem elucidativo do que Plínio diz que
imaginava, quando era ainda bem pequeno, e publicado por Mons. Scognamiglio, como
coisa séria, e confiante no apoio de alguns eclesiásticos:

[Os textos entre colchetes, assim como os destaques, são de nossa


responsabilidade].

“O mundo dos possíveis e o desejo do céu”

“Eu freqüentava [Plínio deveria ter então uns quatro para


cinco anos] também a mansão de um grande fazendeiro
enriquecido, na mesma avenida Brigadeiro Luís Antonio,
onde havia uma grande galeria que transpunha a casa de
ponta a ponta, dando acesso a todo os quartos e salas do
único pavimento. O teto era pintado à maneira da
mitologia greco-romana e eu, sem saber disso, olhava
aquelas cenas e refletia como podia.

“Aquilo dava a ilusão de que alguém havia rasgado o teto


e se podia ver diretamente o céu azul com algumas bonitas
nuvens. Esse “rasgão” era circundado por uma
balaustrada, também em estilo clássico, atrás da qual
apareciam deuses, deusas, semi-deuses e semi-deusas do
Olimpo, representados como personagens esplendorosos e
bem-ordenados, homens fortes e mulheres bem
constituídas, vestidos com uma simplicidade clássica de
bom gosto, com coloridos lindíssimos e movendo-se num
fundo quimérico e mítico. O conjunto apresentava um
jogo de luzes que me agradava enormemente”

De passagem, note-se que, ou Plínio era um gênio que observava tudo tão bem, e
que se exprimia já, aos quatro anos, como Plínio aos 70 anos, ou que Plínio, aos 70 anos

202
falava como criança de cinco anos, e que desde a infância nada mais havia progredido
na capacidade de se exprimir.

É claro que tudo isso nunca foi pensado dessa forma, e com essa expressividade,
por uma criança que, por mais genial que fosse, não poderia ter esses conceitos. Isso é
pura invencionice retrospectiva, para criar um auto-mito e ser admirado por basbaques e
fanáticos. Ou por espertalhões...

Prossigamos na citação:

“Lembro-me de duas deusas muito bem vestidas. Pareciam-me pessoas excelsas,


conversando num terraço, que eu imaginava revestido de mármores muito superiores
aos da galeria do fazendeiro. Elas estavam num misto de unidade e alteridade que eu
concebia extraordinário. Evidentemente, o autor da pintura não devia ter pensado
nisso, mas o meu senso do ser --[dado pela inocência primeva de PCO] – produzia uma
figura de acordo com a sua própria retidão”.

“Eu imaginava o que elas estariam pensando. Tinha idéia de que as duas eram
primas e travavam uma alta conversa que, depois, passaria a ser mais familiar,
tratando, por exemplo, sobre o frio, que estava causando resfriado a uma delas.[Que
tema elevado para deusas. Vai ver que elas eram tão hipocondríacas como Dona
Lucília!]

“Eu olhava e pensava: “Como isso é maravilhoso! Elas são mais nobres do que
as pessoas em torno de mim! A natureza humana deveria ser muito mais elevada!”.
Percebia serem aquelas cenas irreais, mas achava que a sociedade, à força de se
aprimorar, poderia chegar a algo parecido com aquilo. E concluía que, na ordem do
possível, havia seres com aquela grandeza, os quais hipoteticamente, faziam parte da
criação”.

[Eis aí, Plínio aos cinco anos, desprezando a natureza humana como ela é, e
elaborando a doutrina dos seres possíveis em Deus, coisa que São Tomás só veio a
conhecer bem adulto.

Claro que tudo isso foi inventado por Plínio adulto, mitificando o seu ser
infantil.

…“Et flatteurs d’applaudir...” diria Lafontaine.

203
E depois de idealizar o mundo, começava imediatamente a crítica do mundo real
e concreto:

“E dizia para mim mesmo: “Por que estas pessoas que


andam no corredor não fazem como eu, não olham para
aquilo e compreendem como deveriam ser? Por que não
conversam assim, como essas mulheres? Seria muito mais
agradável... Olha como se relacionam: gargalhadas,
brincadeiras, tratando-se todos de ‘você’. Não seria
melhor que eles vivessem como essas figuras do teto?”

“Além do diálogo das deusas, eu imaginava os jardins, as


casas, a atmosfera e o estilo do mundo que as cercava.
Concebia isso à maneira de uma harmonia, traduzível em
música, com melodias delicadíssimas e altíssimas, de um
som “super-prateado” as quais se requintariam a si
próprias, de maneira a produzir alguns acordes que as
pessoas captariam com o entendimento, mais do que com
o ouvido. Seria uma música extraordinária, mais
compreendida do que escutada.

“Esses pensamentos levavam-me imediatamente a uma


pergunta: “haveria possibilidade de algo mais maravilhoso
do que isso? Como seria? Não se poderia conceber uma
espécie de céu assim, mas muito mais bonito e magnífico
do que este? Onde pára a linha do magnífico e do
maravilhoso? Qual é o ponto em que a minha concepção
se detém e diz: ‘para mim bastou! Cheguei a ver e a
experimentar o ápice do maravilhoso?’ Há, então, uma
ordem de coisas de beleza absoluta, perfeita e imutável?

“Essa ordem encheria a minha alma! Para ela fui feito e


não queria apenas conhecê-la, mas entrar nela. Sinto que
isto me transformaria e faria de mim o Plínio que devo
ser”.

“Esse era o caminhar do meu espírito: tendia para a beleza


perfeita, para a magnificência incomparável e para aquilo
diante do que eu pudesse dizer: “Afinal bastou! Eu
encontrei e possuo. Sou feliz!”

“Era uma consideração global do universo, tendo em vista


que ele não é constituído por um conglomerado de
maravilhas jogadas a esmo, mas, pelo contrário, existe
nele uma ordem hierárquica e monárquica que era preciso
amar. Não sabia, mas essa meditação era essencialmente
religiosa e, imaginando isso, percebia que Deus estava
próximo de mim. Notava em mim mesmo algo de diáfano
e leve, sentindo-me bom e direito, desejando coisas retas,

204
o que me causava uma gáudio semelhante a uma harmonia
interior que, nos seus extremos, tocava no céu”.

“É preciso notar que, pelo medo de me abrir sobre esses


assuntos com qualquer pessoa–por perceber que ninguém
conversava sobre isso e que poderiam considerar-me um
desequilibrado se o fizesse --, eu guardava essas reflexões
para mim mesmo. Essas cogitações davam-me uma co-
naturalidade com o metafísico que tocava os “sinos e
minha alma” o dia inteiro, a largas badaladas. Essa era a
minha vida e, evidentemente, no contato com mamãe, isso
reluzia muito e me encantava...”(Plínio Corrêa de Oliveira,
Notas autobiográficas, editora retornarei, São Paulo, 2008,
I vol., pp. 399 a 403. Os destaques são de nossa
responsabilidade).

Ao par do desprezo pelos homens como eles são, o sonho de um mundo etéreo e
irreal. Tudo movido por impressões e sensações conduzindo à imaginar–a sonhar–com
um outro universo idílico, noutra esfera.

E o palavreado pretensamente metafísico é história da carochinha romântica,


gnóstica e pseudo mística para enganar papalvos ou...

Considerar isso a sério raia pelo teratológico.

205
Capítulo VIII - À Procura do Absoluto.
Esse é o título do capítulo V da segunda parte do livro de Plínio agora editada
por seus sequazes “Provectos”.

Scognamiglio – agora Cônego de Santa Maria Maggiore–já publicara muitos


textos de PCO retirados das discretas reuniões do MNF de Plínio, na revista “Dr.
Plínio”. Um tesouro de... delírios.

O mesmo tema da busca do Absoluto fora exposto pelo Secretário do MNF,


Átila Sinke Guimarães, numa apostila resumindo o MNF, em Dezembro de 1972,
intitulada O Processo Humano. Essa Apostila foi aprovada pelo próprio Dr. Plínio,
quando ela foi publicada e difundida entre os membros do grupo, em 1972. Nela há
principalmente dois capítulos versando sobre esse tema, capítulos que complementam
bem o que foi agora publicado no livro A Inocência Primeva, que estamos focalizando.

Uma análise completa dessa doutrina se teria apenas se fossem estudadas as


43.000 páginas do MNF, pois o que foi publicado sobre o MNF é sempre maquiado
para esconder as heresias mais chocantes. Mesmo assim, muita coisa apareceu,
permitindo afirmar com segurança que a doutrina de Plínio Corrêa de Oliveira sobre o
Absoluto era inteiramente gnóstica.

A doutrina pliniana do Absoluto se fundamente no princípio de que há, inata no


homem, uma noção matriz do Ser Absoluto, isto é, da Divindade.

“O homem tem uma matriz do espírito, que contém os


elementos para a formação da idéia de ser absoluto. Se ele
não tivesse essa matriz, ele não poderia compreender a
noção de ser contingente. E, portanto, o dormir dentro dele
dessa como que noção do ser absoluto é anterior à própria
noção de ser contingente que ele forma” (Átila Sinke
Guimarães, MNF - O Processo Humano ( Resumo),
apostila mimeografada na Editora Vera Cruz, São Paulo,
Dezembro de 1972, p. 35).

Essa apostila foi aprovada por Dr. Plínio e foi vendida a algumas pessoas da
TFP.

Esse texto contém erros bem graves:

1) É falso que haja idéias inatas no homem;

206
2) É falso afirmar que só se compreende o ser contingente, tendo antes a idéia de
Ser Absoluto.

O oposto é o verdadeiro: conhecemos que há um Deus infinito e onipotente, um


ser absoluto, por meio das qualidades visíveis do universo criado. É isso que ensina São
Paulo (Rom., I, 20). PCO ensinava o oposto de São Paulo e do que está na revelação.

3) Afirmar que há inata no homem uma matriz do espírito que contem os


elementos para dar ao homem a formação da idéia do se Absoluto, da qual o homem
retiraria a compreensão de sua contingência, insinua erro bem mais grave que o simples
fideísmo.

Para Plínio, essa matriz da idéia do Absoluto existente inata na alma humana, é
que daria origem à própria noção de contingência, que amarguraria o homem, provando
sua limitação. Ora, PCO afirmará que o ser não pode ter limites. A contingência do ser
criado seria uma anomalia a ser vencida. Por isso o homem teria uma sede inata de unir-
se e fundir-se no Absoluto.(Mais adiante daremos a citação comprovadora disso).

Que o pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, expresso no que se conhece


hoje do MNF, é claramente gnóstico fica mais claro quando ele, tal como o gnóstico
Mestre Eckhart, afirma que o ser humano, sendo contingente, é nada:

“O fundamento da moral sobre o conhecimento é


exatamente de que o exclusivo amor de si não é nada, e
que o seu próprio ser não é nada, e que, portanto, tem que
tender para Deus” (Átila Sinke Guimarães, MNF- O
Processo Humano (Resumo), apostila mimeografada na
Editora Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972,
p.37. Os destaques são nossos).

Ora, essa recusa de aceitar a contingência do ser criado é a raiz da Gnose, e de


seu pecado anti metafísico que repele a analogia do ser. Quer-se ser tudo ou nada. Mas
recusar sempre toda contingência.

Ou há o ser absoluto, ou o nada. Todo ser contingente seria ilusório. Nada.

Insinua-se que, no fundo, o homem teria logo de substancialmente divino. Idéia


que será confirmada explicitamente a seguir.

Com efeito, ficará claro a seguir que, no pensamento idealista de PCO, idéia de
ser é idêntica a ser. Quando ele diz então que há uma idéia inata de Absoluto no
homem, ele entende que essa idéia é o próprio Ser Absoluto. Deus.

207
Deus seria imanente no homem.

Para PCO, o ser não pode ter limites: "O limite é coisa que repugna o ser"
(Apostila O Processo Humano, p. 37). A contingência do ser criado seria uma anomalia
a ser vencida. Por isso o homem teria uma sede inata de se unir ao Absoluto, a sede de
identificar-se com o Absoluto, com a Divindade. E se ao ser repugna ter limites, como
se explicaria a existência de seres contingentes?

Para Plínio, "o próprio ser [do homem] não é nada" (Átila Sinke Guimarães,
MNF - Apostila - resumo O Processo Humano, p. 37). Os seres contingentes seriam
ontologicamente nada, não-seres. O que os tornaria existentes seria a presença do ser
absoluto neles. Daí, concluía Plínio que "Deus é o ser dos seres" (Átila Sinke
Guimarães, MNF - Apostila - resumo O Processo Humano, p. 36).

E é claro que essa matriz inata do ser absoluto, o homem a recebeu com o que
Plínio chama de “o senso do ser”, recebido de modo inato, diz ele, com a Inocência
Primeva. PCO, muitas vezes, prudente e astutamente, omite que esse senso do ser é o
senso do ser Absoluto, da Divindade.

No capítulo V do livro agora editado pelos Provectos, à página 107, se diz


prudentemente que: “Entretanto, há no homem uma ‘sede como que inata do
absoluto’(PCO, A Inocência Primeva..., p. 107). E prova da maquiagem mal feita é que
na página seguinte se tirou o prudente e maquiador “como que”: “2- A Sede inata do
absoluto” (PCO, A Inocência Primeva..., p. 108).

Da verificação de sua contingência face à matriz inata do absoluto que haveria


nele, no homem se daria início a um processo–que no MNF se denomina O Processo
Humano – pelo qual o homem procuraria sanar sua contingência, tida como má, como
injusta carência, buscando completar-se, e tornar-se o Absoluto.

Esse “processo Humano” teria fases, assim resumidas por Átila em sua Apostila
reveladora:

“O processo humano é o conjunto dos seguintes elementos:

a) “a carência do homem”;

b) “a apetência para a satisfação das carências”;

c) “a procura do absoluto para satisfazer essa carência”;

208
d) “a união com o absoluto”;

e) “a transformação [do homem] no absoluto”.

(Átila Sinke Guimarães, MNF- O Processo Humano (Resumo), apostila


mimeografada na Editora Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972, p.37. O
escalonamento dos itens e o que está entre colchetes é de nossa responsabilidade,
visando tornar bem clara as etapas da divinização do homem, pela doutrina pliniana).

Fica evidente que na concepção pliniana do “processo humano”, assim como na


enumeração de suas etapas, a existência do esquema clássico da Gnose.

O homem procura o Absoluto nele mesmo, ou no universo.

Porque no homem existe inata a idéia de Absoluto, o homem começa por


procurar o Absoluto em si mesmo, e, depois, nas criaturas.

Na Apostila O Processo Humano, se mostra que “O homem pesquisa de fato


sempre o absoluto, mas o absoluto que ele pesquisa não é apenas a santidade, a
bondade, mas pode ser também o ser. Quer dizer, o homem, por exemplo, quando ele
ama o absoluto, ele também é o absoluto em si, e a esse título, ele se ama a si mesmo”
(Átila Sinke Guimarães, MNF- O Processo Humano (Resumo), apostila mimeografada
na Editora Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972, p. 47. O negrito é de nossa
responsabilidade).

Amando o Absoluto, o homem se identifica com o Absoluto. O homem se


tornaria divino.

Portanto, o homem não só tem em si a idéia inata do Absoluto, mas ele mesmo é
o Absoluto encarcerado na contingência, buscando libertar-se da finitude e realizar-se,
de novo, na identificação com o ser Absoluto, no final do “processo humano”.

“O elemento integrante à noção de processo é algo


que tem um começo, um desenvolvimento e um fim.
Portanto, o processo por excelência seria algo que começa
e cuja tensão para o fim vai ficando cada vez mais forte à
medida que vai chegando ao fim. E o termo em que o
processo se realiza não é a morte, mas é a obtenção do fim
próprio e a fixação no fim, de maneira que o apogeu do
processo é algo de definitivo. Ele se fixa no apogeu de si
mesmo” (Átila Sinke Guimarães, MNF- O Processo
Humano (Resumo), apostila mimeografada na Editora

209
Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972, p. 30. Os
destaques são nossos).

No final do Processo Humano, o homem se torna Deus. Co Substancial a Deus.

Será preciso deixar mais clara ainda a Gnose pliniana, da TFP e dos Arautos?
Pois agora, Monsenhor Scognamiglio confessou, por escrito, em sua doutoral tese, que
o pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira está na raiz da formação dos Arautos.O que
ele ocultou e negou durante uns dez anos, foi de novo reafirmado. Para sua condenação.

Para suprir sua carência o ser contingente que o homem é agora, usa o que PCO
chama de seletivo, capacidade que lhe foi dada junto com a inocência primeva, que lhe
permite escolher o que, de fato, completa suas carências, e rejeitar o que o afasta do
Absoluto.

“A partir de mim mesmo vou procurando em todas as


criaturas algo que satisfaça a minha carência e que como
que me abro para todas, como um leque. Mas, no contato
com todas, vou percebendo que todas se enfeixam num
ente supremo que é Deus e tudo vai se fechando para outro
ponto. “Há, portanto, uma espécie de abertura e de
fechamento, que é como que o gráfico das relações do
homem com Deus.

“A multiplicidade de minhas apetências é expressão de


uma carência fundamental que há em mim como criatura e
que procura uma porção de satisfações. Depois de ter
procurado todas as satisfações, vou unindo tudo isso numa
satisfação suprema que é destinada à minha carência
fundamental. Isso teria mais ou menos a forma de um
losango” (Átila Sinke Guimarães, MNF- O Processo
Humano (Resumo), apostila mimeografada na Editora
Vera Cruz, São Paulo, 1972, Dezembro de 1972, p.37).

Na busca do Absoluto, na busca do Infinito, já o diziam os românticos com


Novalis, o homem só encontra o finito.

Mas, lembra PCO, “O limite é coisa que repugna o ser” (Apostila citada , p. 37).

Nessa tese formulada por PCO no MNF está a recusa da analogia do ser, a
revolta da contingência, típica da Gnose que é sempre um pecado anti-metafísico.

Portanto, tanto no pensamento de PCO como na Gnose, em toda criatura


contingente geme encarcerado algo do Absoluto.

210
Por isso, PCO, na Apostila-Resumo do MNF, expõe a teoria da alcachofra
metafísica, um símbolo da procura do Absoluto divino na coisas criadas. Deixemos
Plínio expor seu alcachofral pensamento, tal como foi citado sucintamente por Átila
Sinke Guimarães:

“Eu passo daí para uma figura que eu chamaria alcachofra


hipotético. É uma figura destinada a mostrar como, através
de vários contingentes e relativos, a pessoa procura o
absoluto. Eu imagino uma alcachofra com toda a estrutura
que têm as alcachofras que conhecemos, mas com uma
peculiaridade que as alcachofras que conhecemos não
possuem. Vamos imaginar uma [em] que as pétalas da
alcachofra, as mais altas, tivessem sabor mais leve que o
fundo, e que à medida que fôssemos aprofundando, o
gosto das pétalas fosse se tornando mais intenso.

Eu diria que a pessoa, comendo pétala por pétala, levada


pelo gosto, pela apetência de degustar o fundo da
alcachofra, iria comendo pétala por pétala até o fundo.
Então diria que apareceriam os seguintes degraus: o amor
da coisa concreta, o amor da coisa enquanto reflexo de
outra, o amor de uma coisa abstrata e a consideração de
uma coisa puramente intelectiva. Por aí sucessivamente,
chegaríamos a Deus”

Precisão de linguagem.

"A Comissão chegou à seguinte conclusão: a palavra


absoluto para nosso uso pode passar, mas desde que nós a
reservemos para o fundo da alcachofra. As várias pétalas
sucessivas da alcachofra seriam participações
sucessivamente mais densas, ou maiores, do
absoluto”.(Átila Sinke Guimarães, Apostila O Processo
Humano- Resumo do MNF, pp. 43-44).

Se a redação deixa a desejar quanto ao português, do ponto de vista de exemplo


didático da idéia gnóstica de que, em todas as coisas, há uma maior ou menor
identificação com algo ontológico e substancial da Divindade, pela presença de
partículas divinas presas nas criaturas, didaticamente o exemplo do alcachofra é bem
feliz para expor a Gnose.

Mas, doutrinariamente, é uma teologia de quitanda. E de “quitanda” gnóstica.

Portanto, para PCO, em todas as coisas existe algo de divino.

Por isso, PCO dirá, nessa Apostila, que “Deus é o ser de todos os seres”
(Apostila citada, p. 36).
211
Portanto, em todos os seres se encontraria algo do Absoluto.

O homem, no fundo de seu ser alcachofral, seria o Absoluto.

Seria Deus.

Plínio vai fazer distinções entre o paganismo e a sua Gnose – que ele chama de
“Catolicismo’, para ele uma das formas do “espiritualismo”:

“Os antigos pagãos faziam do outono, da primavera, do


verão, da glória, da fecundidade, da agricultura, pessoas.
Eles não estavam errados na idéia de que, em última
análise, isso tem que se personalizar. Eles estavam errados
em admitir que se personalizassem em muitos deuses.
Nós, católicos, sabemos que tudo isso se personaliza num
só Deus. Dentro dessa concepção, podemos dizer que o
absoluto é uma pessoa, Deus Nosso Senhor, que
procuramos dentro de todas as coisas” (Palavras de PCO
na Apostila resumo do MNF, p. 43. Os negritos são
nossos).

Portanto, o “catolicismo” de PCO era uma versão da Gnose para cúmplices e


ingênuos. Daí, ser então secreta. E hoje continuar discreta.

De um lado, Plínio afirma que o ser do homem, sendo contingente é nada, e de


outro lado, ele declara que Deus está no fundo do ser humano e no fundo de todos os
seres contingentes, pois que “Deus é o ser dos seres”.

E não adianta em um livreco com excertos do pensamento de Plínio –


pensamentos maquiados – se dizer:

“Os absolutos –[no plural] na concepção aqui adotada, são


como que imitações do absoluto que é Deus” (PCO,
op.cit., p.113). “Em sentido próprio absoluto é só Deus”
(PCO, A Cavalaria não morre,. Excertos do pensamento
de Plínio Corrêa de Oliveira, feitos por Leo Daneile.
Artpress, 1998, Glossário terminológico de PCO, verbete
Absoluto, p. 235).

Então o Absoluto é só Deus. Mas antes se disse que o homem no final do


processo humano se une e se transforma no Absoluto. Logo, o homem é Deus.

***

Noutro ponto do livro sobre a Inocência Primeva Plínio afirma que “a solução
para essa náusea – [a insatisfação atual do homem] – só pode ser encontrada na

212
procura dos absolutos verdadeiros” (PCO, A Inocência… p. 108). De onde se conclui,
que há absolutos verdadeiros e outros falsos –no plural--, e que os absolutos verdadeiros
conduzem ao Absoluto - ao Absoluto mesmo--, Deus.

Como o Absoluto é Deus, Plínio pergunta se a sede inata de Absoluto existente


no homem é essencialmente religiosa ou não.

E ele responde que sim, mas em “termos”.

Lá vêm as distinções plinianas...

E daí vem que, para satisfazer a sede de absoluto, ele compare a sede de
Absoluto à já aludida sede de um super chopp. O que faz da sede do Absoluto
metafísico identificar-se com sede física saciada num bar. Daí, ele comparar o degustar
um copo de chopp a um ato litúrgico:

“Em termos, porque podem fazer parte dessa sede do


absoluto elementos naturais em proporção maior do que os
existentes nos atos de culto que levam diretamente ao
sobrenatural. Um simples copo de chopp, por exemplo,
pode servir para a procura do Absoluto e nele entram mais
elementos naturais que num ato de culto” (PCO, A
Inocência…, p. 108. Destaque do autor).

E a comparação, além de tola, é escandalosa. Pois é óbvio que no beber um


chopp entram mais elementos naturais do que num ato de culto.

Essa frase de PCO é uma prova de seu romantismo, pois ele faz o que diz
Novalis, para quem romantizar é tratar o vulgar– um copo de chopp–como sublime, e
fazer o sublime, vulgar.

Nessa altura, os provectos seguidores de PCO enxertaram uma citação de São


Boaventura que fala dos vestígios, imagens e semelhanças de Deus no mundo criado.
Doutrina que Plínio parecia não conhecer, pois que logo em seguida diz uma enorme
“batatada” termo com que ele designava tolices de estudante que não sabem a lição,
e se arriscam a dar palpites estapafúrdios, para dar a entender que estudaram.

“Na procura do absoluto, faz-se a busca da semelhança


que todo ser tem com Deus e com os seres ápices em cada
categoria.

“Assim, uma pessoa que nunca tivesse visto uma chama,


vendo-a numa pintura, teria certa idéia do que é o fogo,
porém nunca poderia dizer que dele teve uma idéia

213
suficiente. O maior pintor do mundo não me diz, a respeito
da chama, o que diz um fósforo aceso.(...) Temos aqui,
portanto, dois graus de conhecimento. A pintura e o
fósforo aceso são dois relativos que levam ao
conhecimento de outro relativo, que é o fogo. Mas em
comparação com a pintura e o fósforo aceso, o fogo tem
algo de absoluto. Assim, subindo através de relativos
podemos chegar a ter certo conhecimento de Deus, o único
absoluto propriamente dito” (PCO, A Inocência…, p.
111).

Explicação absurda.

O fósforo aceso não é um símbolo que remete ao fogo. No fósforo aceso, há


fogo mesmo. Não há símbolo do fogo. Basta por o dedo na chama de um fósforo para se
ter uma bolha real e não simbólica.

Mas, para Plínio, “em comparação com a pintura e o fósforo aceso, o fogo tem
algo de absoluto”

Como se no fósforo aceso não houvesse fogo real.

Como se publica essa “batatada” de Plínio como se fosse alta elucubração


metafísica?

Depois desse exemplo infeliz, PCO procura explicar, de modo atrapalhado, a


chamada Quarta Via de São Tomás de Aquino.

***

A chamada Quarta Via de São Tomás é aquela em que ele prova a existência de
Deus pela gradação das qualidades existentes no universo. Se há entes com a mesma
qualidade em graus diversos, isso exige que haja um Ser com aquela qualidade em
absoluto. Se há no universo vários graus de entes vivos (vegetais, animais, homens e
anjos) isso exige que haja A Vida. Por isso, Cristo disse: “Eu sou o Caminho, a
Verdade, a Vida”. Enquanto os entes do mundo tem vida, mas não são A Vida, Deus é
A Vida.

Com exemplo mais simples, para mais fácil compreensão de nossos leitores, se
Rio de Janeiro é mais belo que Guaianazes, deve existir A Beleza em si mesma, da qual
o Rio de Janeiro tem maior participação que Guaianazes. Se Santo Antônio tem mais
bondade do que Luiz das Quintas, então tem que existir A Bondade em si mesma. Deus
é A Vida, A Beleza, A Bondade, A Verdade.

214
Deus é a causa de todas as qualidades existentes no Universo. O que no mundo
existe em graus diferentes, em Deus existe absolutamente. O que as criaturas têm, Deus
é. As criaturas tem bondade ou beleza. Deus é a Bondade, Ele é a Beleza.

Isso é dito e exposto por São Tomás em linguagem metafísica:

“Outros ainda acedem ao conhecimento de Deus a partir


da dignidade do próprio Deus: são os platônicos. Com
efeito, eles consideram que tudo o que é (alguma coisa)
por participação se reporta ao que é tal por sua essência
como ao primeiro e supremo; é assim que tudo o que é
fogo por participação se reporta ao que é fogo que é tal por
sua essência. É então necessário, já que todas as realidades
existentes participam do Ser e são seres por participação, é
necessário que no cume de todas as realidades exista
alguma coisa que seja o próprio Ser por sua essência, de
tal modo que sua essência seja o seu ser. E essa realidade é
Deus, que é a causa absolutamente suficiente,
supremamente digna perfeita de todo ser, e do qual tudo o
que existe participa do Ser” (São Tomás de
Aquino, Prólogo ao Comentário sobre o Evangelho de
São João, n0 5).

Participação não é identificação.

E Plínio vai dizer o oposto do que ensina a Quarta Via tomista, pois ele afirma
que tudo o que existe participa por analogia no Ser Absoluto realmente existente, ato
puro, ser necessário.

Para PCO...

“Tudo o que existe é uma participação nisso que não


existe” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação
Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de
Oliveira, ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 230).

Para aplicar a quarta via tomista aos entes criados, devemos lembrar que, nos
entes criados, o ente é distinto de sua essência.

A essência de um ente é o que torna aquele ente o que ele é. Entretanto, a


essência não tem existência antes da criação. Cada essência é uma possibilidade de ser.
Ela só terá existência quando Deus lhe comunicar o ser por participação, o ente.

Em cada coisa criada, a essência está para o ente como a potência está para o
ato.

215
Então, se cada ente criado tem graus de perfeição diversos, neles há uma
participação maior ou menor no Ser em si mesmo, isto é, no Ser que é sua própria
essência. Enquanto nos entes criados a essência é distinta do ente, como a potência é
distinta do Ato (do ente por participação), então deve existir um Ser no qual o Ato da
existência seja idêntico à sua essência. Noutras palavras um Ser cuja essência exija a
sua existência. Tal ser é Deus. O Ser necessário.

Vejamos como Dr. Plínio explica a quarta via...

Para exemplificar o que é a quarta via, Dr. Plínio afirma que o desejo de bem
que há no homem leva-o a aspirar algo muito superior à natureza (cfr. p., 120 da obra
citada).

“Por bela que seja a natureza – e o é muitíssimo–ela não


sacia o desejo de beleza, nem o desejo de bem estar do
homem. (...) Os contos das mil e uma noites, os contos de
fadas, são artifícios literários para que o homem sinta algo
da magnificência dessa natureza para a qual foi criado, e
que não encontra nesta Terra. Quando o homem olha para
as estrelas–e não sente a insegurança do vôo–ele tem
naturalmente vontade de voar, vontade de se por naquelas
altitudes”. (PCO, A Inocência…, p. 120. Os destaques são
nossos).

As citações não poderiam ser mais infelizes. E não poderiam ser menos
metafísicas.

Em primeiro lugar, a quarta via de São Tomás não se fundamenta no desejo de


prazer e de conforto sem limites, no desejo de bem estar, mas na compreensão de que o
bem finito, em graus diversos, implica que deve existir um Ser que seja o Bem infinito,
fonte de todo bem finito, criado analogicamente a Ele.

Dr. Plínio tem a noção de uma quarta via própria de um sibarita, que busca
conforto, bem estar e prazer sem limite, -- que busca o super-chopp --- e não a de um
católico comum, e muito menos a de um tomista. Por isso ele usa o verbo sentir e não o
verbo compreender. Isso não é transcendência, mas sede insaciável de bens materiais,
de sentir-se bem. Daí, a citação absurda das mil e uma noites, uma obra erótica, e a
citação de contos de fadas, sonhos de maravilha naturalista, raiando pela magia e pelo
esoterismo, dos quais PCO gostava muito pois que sua mãe romanticamente o
“formou”–ou deformou–por meio deles, a fim de buscar o que fosse “verdade no reino

216
do além”; através de “um envelope fantasioso que contém uma verdade magnífica,
oculta”.

O maravilhoso...

Para culminar, veja-se este outro exemplo absurdo dado por PCO:

“Portanto, sempre que existe um predicado em


determinado ser, este predicado participa de um predicado
de outro ser mais alto.

‘Vamos dizer, por exemplo, o vermelho. Existe toda a


gama de vermelhos, mas há de haver em algum lugar da
criação, um vermelho perfeito e ideal, o vermelho
absoluto, arquetípico, que haja a perfeição do vermelho, e
que seja a perfeição do vermelho, e do qual todos os
vermelhos participem. É o monarca dos vermelhos” (PCO,
A Inocência…, pp. 122-123. Os destaques são do autor).

Veja-se bem: o vermelho absoluto –enquanto ser possível- existiria em algum


lugar da criação. Ora, o ser possível não existe em ato em nenhum lugar da criação.
Deus, em seu Verbo, conhece todos os possíveis. Plínio transferiu os possíveis para
algum lugar da criação. Para um Vadutz ou para um Hûrqâlya qualquer. Portanto,
concebe-os como seres reais existentes em ato, e não como possíveis. E isso é
romantismo. Isso nunca foi tomismo.

Plínio nada entendeu da Quarta Via. O que ele imagina é um vermelho “ideal”,
”absoluto”, que teria que existir “em algum lugar da criação”.

Ora, tudo isso é idealismo subjetivista e naturalista. A Quarta Via tomista tem
por finalidade compreender que existe o Ser absoluto, ato puro, que não tem matéria.
Por isso, Deus não ocupa lugar na criação. Deus é transcendente, infinitamente superior
a todo o criado.

Por isso mesmo, em Deus não pode haver o Vermelho absoluto que é uma luz
material a não ser como idéia, em seu Verbo e não como coisa realizada materialmente.
A luz material existente no mundo, e ela permite ver e conhecer o real concreto, que por
isso é símbolo da Verdade, “luz” intelectual, que nos permite conhecer abstrativamente
a verdade das coisas.

Deus não tem matéria. A luz física é simplesmente analógica à luz divina,
infinitamente transcendente e espiritual. Quando a Escritura afirma que “Deus lux est”
(I Jo, I, 5) – Deus é luz –não significa que em Deus haja luz física. Em Deus há apenas a
217
luz da Verdade, luz intelectual. Deus é luz, e nEle não há trevas, ensinou São João (I
Jo., I, 5). NEle, porém, não há vermelho absoluto. Mas só luz espiritual absoluta, isto é
a verdade absoluta.

Plínio, com sua imaginação, impressões e sentimentos, é incapaz de


compreender o que é a transcendência infinita da Divindade. Por isso, ele se alça apenas
ao nível da felicidade mágica dos contos de fadas, ou do bem estar e prazer, da
felicidade erótica das mil e uma noites...

Noutro capítulo, tentando ainda explicar o que é a transcendência, Plínio diz:

“Se um cristal fosse capaz de pensar, poderia imaginar a


existência de um ser de natureza superior à sua”( PCO, A
Inocência…, p. 132. Os destaques são nossos).

Pensar para Plínio equivale a imaginar.

Ele é incapaz de compreender que abstrair não é imaginar. Daí, seu romantismo
naturalista delirante. Tanto que ele vai dizer que ”nós homens, em outro sentido da
palavra nos transcendemos uns aos outros” (PCO, A Inocência…, p. 133).

Totalmente falso. Não existe transcendência de um homem sobre outro, pois que
transcender é estar acima de outro na ordem do ser. Ora, todos os homens têm a mesma
natureza. Logo, eles estão na mesma ordem de ser. Eles não podem se transcender uns
aos outros.

Outra afirmação absurda é que Plínio declara que se pode aplicar a noção de
transcendência ao mal:

A transcendência pode aplicar-se também ao terreno do


mal. (PCO, A Inocência…, p. 137).

O mal não é ser. Logo não existe um mal transcendente.

Se isso fosse realmente possível, se chegaria à conclusão de que assim como


existe o Ser absoluto, o Ato puro, existiria também o mal absoluto. E isso é a tese do
maniqueísmo.

Santo Agostinho refutou essa tolice no livro Contra Manichaeos, ao dizer que,
se o mal absoluto existisse, ele teria o bem da existência. Logo, ele não seria o mal
absoluto.

Não existe o mal como ser.

218
Plínio considerava que a fantasia humana completava a realidade acrescentado-
lhe ‘algumas notas irreais” (PCO, A Inocência…, p. 139).

Notas irreais no real são uma contradição metafísica. São delírio que não muda o
real.

O transcendente, para PCO, era imaginado e imaginário não cogitado e não real.
Daí, as contradições que lhe permitem imaginar o irreal conciliado com o real.

Portanto, ele passava da transcendência metafísica para o irrealismo


imaginativo. Do real, para o desvario. Por isso, ele afirma com toda a seriedade de um
delirante que “É certo, entretanto, que a palavra humana não é capaz de exprimir
adequadamente determinados aspectos da realidade. Estes chegam ao conhecimento do
homem por via não abstrativa e, por vezes pertencem a uma ordem tão elevada que até
superam a força de expressão da palavra”(PCO, A Inocência…, p. 140).

Desse modo, ele colocava o imaginar acima do inteligir.

Ora, é princípio escolástico de que nada há no intelecto que não tenha passado
pelos sentidos. Pode ser que algo conhecido seja inefável, mas sempre o que foi captado
pelo intelecto necessariamente foi abstraído da realidade material.

“Estabelecida uma reversibilidade entre arte e filosofia, o homem se sentiria


explicado no que tem de mais fundo. Assim ele poderia reverter a termos expressos o
que percebeu através da via artística. E, em sentido contrário, poderia encontrar na via
artística o símile do que vê em termos expressos”

“No mundo do pensamento, a partir do instante em que o


homem procurasse habitualmente exprimir o inexprimível,
abrir-se-ia uma intercomunicação entre os dois domínios
da qual poderia nascer um era nova” (PCO, A
Inocência…, p. 140).

Eis aí expresso o sonho do romantismo: exprimir o inexprimível. Conhecer o


absoluto. Eis aí a pretensão renovada de alcançar um conhecimento absoluto que
permitiria ao homem conhecer o bem e o mal. Eis a tentação de Lúcifer renovada. Adão
foi o primeiro romântico.

Plínio foi dos últimos.

Sabe-se como os românticos eram partidários da noite e do mistério, e contrários


à luz, à clareza, à lógica, à razão simbolizada pelo sol, amado pelo classicismo.

219
Novalis escreveu Hinos à Noite. Chopin foi além, pois compôs “noturnos”,
termo adjetivo, não substantivo. Plínio gostava de ambientes à meia luz. Gostava do
obscuro. Veja-se o seguinte texto dele:

“Todas as vias da contemplação sacral vistas até agora


conduzem aos esplendores da luz; o presente caminho, por
paradoxal que seja, leva aos esplendores da escuridão, pois
seu tema é o ignoto. E o ignoto também tem os seus
esplendores” (PCO, A Inocência…, p. 143. Os destaques
são nossos.).

Surpreendente.

Dialeticamente surpreendente, num autor que se proclamava católico. Nada


surpreendente nos românticos dualistas, para os quais os contrários são iguais. Para os
quais o bem equivale ao mal, e o ser ao não-ser.

PCO descobriu os “esplendores da escuridão”. Que simbolicamente seriam os


esplendores do mal. Do demônio, já que São João nos ensinou que “Deus é luz, e Nele
não há nenhuma treva”(I São João, I, 5).

E Plínio escreveu um texto intitulado “Fantasmagorias da noite” (Cfr. PCO,


op. cit., pp. 227-228), colocado nesse livro que analisamos logo depois de um texto do
romântico Chateaubriand, texto intitulado “Os misteriosos murmúrios das trevas”
(PCO A Inocência…, p.226).

Plínio comenta o texto de Chateaubriand e fala em demônios da noite. Como os


românticos, que, com Victor Hugo, fizeram poesia para o sol negro que habita o fundo
do inferno.

E, então Plínio nos diz que a inocência, tal qual ele a concebe, sem mancha,
impoluta, sem pecado original, essa inocência “sacral” é atraída pelo... mistério...das
trevas.

Eis um trecho do texto tenebroso de Plínio:

“Um dos aspectos mais característicos da inocência é a


facilidade de admitir o mistério, em não se sentir insultado
por ele, pelo contrário, conviver com ele e compreender
que o mistério não é um negrume hostil, mas uma floresta,
cuja simples existência é sugestiva para a mente humana.

“Para a alma inocente, o belo do mistério é o auge da


verdade. Pelo contrário, a alma esclerosada pela filosofia

220
das luzes, pelo positivismo e doutrinas congêneres, sente
no mistério algo que a atormenta” (PCO, A Inocência…,
p. 144. o destaque é nosso).

É exatamente a posição dos românticos inimigos da razão e tendentes ao


tenebroso. Portanto, ao mediúnico, ao diabólico. A “sentir o mistério”...

Leiamos Plínio:

“Ora,-- e aqui chegamos ao ponto–a busca da verdade é


uma ascensão. E como toda ascensão, o auge dela é um
pico nevado, coberto de névoa e que se perde nas alturas.
Renunciar a essa névoa é desistir de escalar o pico.
Compreender a amá-la é compreender e amar a ascensão.
É preciso amar a névoa para apreciar verdadeiramente as
alturas” (PCO, A Inocência…, p. 144).

Não é preciso ser especialista em Romantismo para saber que os românticos


amavam a névoa, o obscuro, o impreciso que se percebe através de um nevoeiro.

E Plínio conclui dizendo: “Recusar o mistério é fugir do real”.(PCO, A


Inocência…, p. 150).

221
Capítulo IX - Os seres criados seriam análogos aos seres
possíveis que não existem
E, no capitulo seguinte, PCO introduz o leitor no mundo do mistério: no mundo
dos possíveis.

Contudo, logo na primeira frase desse capítulo, Dr. Plínio faz uma distinção sutil
usando um “também” que facilmente escapa ao leitor menos atento, ou mais apressado:

“Seres possíveis: poderiam existir mas não existem”

“A contemplação sacral também pode ter como objeto o


campo dos possíveis, ou seja, dos seres que poderiam
existir, mas não existem. Assim, quem a ela se dedicar
verá desdobrar-se diante de si um verdadeiro universo,
pois todo ser existente tem analogia com inúmeros seres
que não existem e jamais existirão” (PCO, A Inocência
Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, edição do
Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, Artpress, São Paulo,
2008, p. 153. Os destaques são nossos).

Analisemos mais de perto essa citação fundamental da doutrina de Plínio.

Note-se em primeiro lugar, que aquilo que Plínio chama de “contemplação


sacral” tem por objeto “também” os seres possíveis, que não existem.

A contemplação sacral de Plínio, como a contemplação budista, contempla o


vazio. O Nada. O Nirvana.

A contemplação sacral de Plínio pode ter por objeto quer o mundo real, quer
também coisas irreais: as fantasias delirantes de PCO.

Segundo – e fundamental – “todo ser existente tem analogia com inúmeros seres
que não existem e jamais existirão”.

Falso.

Falso e contrário à doutrina católica revelada.

Todo ser criado é análogo a Deus que existe, e não a seres que não existem.

Os seres criados não são análogos a seres imaginários e nem a seres possíveis
inexistentes. São análogos a Deus, Ser que existe.

Não é possível haver analogia entre o existente e o que não existe.

222
São Paulo, na primeira epístola aos Romanos diz: “Após a criação, as
qualidades invisíveis de Deus, compreendendo-se pelas coisas feitas, se tornaram
visíveis nas coisas criadas”. (Ep. Romanos, I, 20).

Portanto, as qualidades das criaturas permitem-nos compreender analogicamente


as qualidades invisíveis de Deus criador. E não ficar imaginando o inexistente, ainda
que ele fosse apenas possível.

Plínio afirma um absurdo. Para ele, as coisas existentes não são análogas a Deus
que existe, mas a seres possíveis ou imaginários que realmente não existem. Portanto, as
coisas existentes seriam análogas ao inexistente.

Dessa forma, Plínio anula a Quarta prova da existência de Deus de Aristóteles e


de São Tomás. A Quarta Via que Plínio diz ser fundamento de sua doutrina, levaria a
concluir que o mundo seria análogo ao possível não existente, ao vazio. Ao nada. Ao
inexistente.

Os seres possíveis na mente divina, somente são tais, porque Deus os concebe
como tendo possibilidade de existir para refletirem alguma qualidade objetiva e infinita
de Deus. Se não refletissem algo de Deus, eles não seriam possíveis de serem criados.

Mais. Se podemos imaginar um mundo possível puramente “ideal” perfeito,


poderíamos imaginar ainda um outro mundo ainda mais perfeito, e assim
indefinidamente. Ora, isso tornaria a série de semelhanças entre o mundo e Deus
indefinida.

Mas isso contrariaria a primeira e a segunda prova da existência de Deus


formuladas por Aristóteles e São Tomás.

Com efeito, esse filósofos demonstraram que a série de mudanças e de causas no


universo não pode ser sem fim. Que elas têm que ter um fim. E que esse fim deve ser
um Ser em Ato, sem nenhuma potência passiva.

Primeiro, porque o infinito não pode ser dividido. Qualquer divisão no infinito,
produziria o mesmo infinito. O infinito dividido por dois não produz nem meio infinito,
nem dois infinitos. O infinito é indivisível.

Logo, a série de mudanças que há no universo, assim como a série de causas e


efeitos tem que ser finita. Do mesmo modo, a série de analogados não pode ser infinita,

223
tem que terminar num Ser realmente existente, jamais num possível potencial
inexistente em ato.

Logo, é errada a suposição de PCO de que se pode imaginar como analogante


primeiro um mundo irreal da Trans-Esfera perfeitíssimo, inexistente, porque sempre se
poderia imaginar um outro mundo mais perfeito ad infinitum. O que faria essa série
“indefinida”. Isto implicaria praticamente em negar haver, no início, o Ato puro a que
todos os seres criados são semelhantes. Toda a série de analogados a Deus tem que
partir de um ser realmente em Ato, e não de um possível que só existe em potência. O
Mundo é análogo ao Ser Necessário, Deus, que existe, Ato puro e não a uma Potência
pura inexistente.

O mundo não é análogo a seres possíveis inexistentes.

Plínio coloca no início o vazio. A pura potencialidade. E isso não é católico.

Além disto, Plínio confunde seres possíveis com seres de razão.

Já vimos que, na filosofia escolástica, seres possíveis não existem na realidade.


Podem existir apenas na mente divina como essências, mas sem terem o ato da
existência.

Um ser intrinsecamente possível:

1 - tem que ter notas essenciais não contraditórias. Por exemplo, Deus não pode
conceber como possível, em sua mente, um triângulo de quatro lados.

2 - tem que ter uma causa capaz de fazê-lo existir e haver circunstâncias que o
façam, compatível.

Os seres possíveis dependem intrinsecamente do espelhar analogicamente uma


qualidade de Deus.

Não dependem da mera vontade de Deus. Deus não pode criar e nem conceber
como possível, algo que dependa só de sua vontade, sem referência de alguma forma,
analogicamente a seu ser divino.

Por outro lado, os entes de razão não são seres possíveis. Os entes de razão não
existem de per si, fora da mente humana. Eles existem na mente humana como idéias
objetivamente conhecidas.

224
Erra Plínio quando, por vezes, confunde ser possível com ens rationis, ou com
seres imaginários. Papai Noel, fadas, a Medusa os centauros, não são seres possíveis.
São apenas seres imaginários.

Deus poderia conceber muitos outros seres que refletissem suas qualidades.
Estes seriam seres possíveis existentes em sua mente. Não realizados em ato. Não
existentes realmente.

Porque se esses seres existissem de modo real, eles deixariam de ser possíveis.
Seriam entes realizados e não mais possíveis de serem realizados.

Há contradição entre possível e realizado.

Por que Deus não os fez?

Porque não quis fazê-los.

E são os seres possíveis que Deus não quis fazer, que PCO coloca como fonte de
todos os bens dos entes do universo.

E por que Deus não criou todos os seres possíveis?

Aventamos uma resposta.

Todo mestre ensina com exemplos adequados às mentes que quer ilustrar.

E um bom mestre usa apenas os exemplos necessários e mais apropriados para


fazer compreender a verdade que quer ensinar. Também o ensinar é regido pela lei da
economia.

Deus criou o mundo como ele é, criando nele apenas os seres convenientes e
úteis para o homem compreender por meio deles, por meio de suas qualidades visíveis,
por analogia, as perfeições invisíveis de Deus.

Tudo o que existe foi feito por Ele no Verbo, e sem Ele nada foi feito como diz
São João, no Prólogo do seu Evangelho. E no livro de Jó, -- nós já o vimos– se afirma
que Deus só fez o que quis. Se não fez todos os possíveis, é porque Ele não quis fazê-
los, e não os fará. ”Sua vontade fez tudo o que quis”( Jó, XXIII 13).

Para Plínio, “Existe uma escala na qual o primeiro degrau, é o mundo real; o
segundo é o arquétipo do real; e, no terceiro degrau e mais elevado, está o mundo dos
possíveis” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo,
Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 157).

225
Se esta é a escala dos seres reais, que existem, como Plínio coloca em seu ápice,
o mundo dos possíveis que não existem?

Portanto, mais elevados na escala real dos seres estariam os possíveis que seriam
mais que os arquétipos existentes na mente divina e que são os possíveis em Deus, que
são irreais.

Plínio diz que existe uma esfera ápice do real que seria... “o mundo dos
possíveis”. Irreais.

Clara contradição.

Essa escala contraditória do real nunca foi ensinada pela doutrina católica. Só
em sistemas gnósticos se encontram tais esferas “ontológicas” teratológicas e
surrealistas de que não falam nem a Escritura e nem a tradição católica.

Daí, Plínio ter ficado “impressionado” com o filme ET e acreditar que, de fato,
existiam ETs no universo.

Ora, Deus fez o homem social, para que ele pudesse amar a outrem, fazendo-lhe
o bem. Se Deus tivesse criado seres inteligentes extra terrenos, Ele teria que criá-los
com possibilidade de comunicação com os homens, para que houvesse caridade de uns
para com os outros. Por isso, Deus não criou seres com os quais não poderíamos nos
comunicar e nem amar.

Não há extra terrenos. Não há ETS de filmes e nem de Plínio.

Deus nos mandou amar o próximo, real. Não os simplesmente possíveis.

Por isso, não é de espantar que Plínio imaginasse existir, como possíveis, outros
elementos que os quatro encontrados em nosso mundo:

“Os quatro elementos clássicos – terra, água, ar e fogo–


também possuem os seus possíveis. Por exemplo, o mundo
dos fogos e das chamas tem evidentemente possíveis,
como o mundo da água. “E o mundo do ar? Qual o homem
que não tem inveja quando vê um pássaro voar?” (PCO, A
Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo,
Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, ed. Artpress, São
Paulo, 2008, p. 160).

E desejar voar não implica que existam os seres possíveis. Uma coisa nada tem a
ver com a outra.

226
Foi por querer voar que Plínio, um dia, sonhou ser urubu?

Não acreditam?

Veremos isso mais adiante.

Por enquanto, constatemos que PCO imagina todo um universo paralelo como
possível inexistente mas que de algum modo existe.

Também na História, diz PCO, poder-se–iam buscar os possíveis, montando


mitos sobre pessoas e fatos. Daí, Plínio concluir que o mito vale muito mais que os fatos
reais, e que a lenda supera a realidade.

Ao tratar do problema se há “possíveis” na História, PCO vai deixar ainda mais


clara sua doutrina de que o mundo real é uma miragem de um mundo irreal e não de
Deus. E chegará a afirmar que tudo o que existe reflete o que não existe. O tudo seria
imagem do nada. O gnóstico Mestre Eckhart não diria diferente: se o mundo é ser, ele é
reflexo do Nada. Essa é afirmação típica da dialética gnóstica. Logo abaixo, daremos as
palavras de PCO afirmando esse absurdo. Aguardem, por favor, umas linhas.

“Os possíveis e a História

“Quando imaginamos como teria sido a coroação de


Carlos Magno, percebemos que o gosto da História
consiste mais em saborear os possíveis que existiram. –
[Repare-se: os possíveis que existiram! O que não existia
já passou a existir ... na pena de Plínio]–“E creio que a
mais alta cogitação que se deve procurar na História não é
tanto a explicação dos acontecimentos, mas evocar os
possíveis que deixaram de ser [Deixaram de ser? Como
pode deixar de ser o que não era ser atual, ser real?] – cuja
memória ficou e que constitui, por exemplo, o charme dos
cemitérios (quando o cemitério tem charme)” (PCO, A
Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo,
Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, ed. Artpress, São
Paulo, 2008, p. 159).

Até Plínio se assustou com o seu “charme dos cemitérios”.

O que, aliás, sempre foi uma nota do romantismo: gostar de cemitérios...

Mas não se assustou com sua afirmação contraditória de que houve “possíveis
que existiram na História”.

E que absurdo conceber a História não como o conhecimento dos fatos por suas
causas, e sim imaginando o que poderia ter acontecido e não aconteceu, o que poderia

227
ter sido, e não foi. Plínio quer transformar a História em conto de fadas. Com verdades
ocultas.

Plínio ensinava o oposto do que ensinou São Paulo, pois nesse livro de Plínio se
lê :

“Tudo o que existe é uma participação nisso que não


existe” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação
Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de
Oliveira, ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 230. O
destaque é nosso).

Está aí outra prova cabal da Gnose pliniana.

Pensar que o existente participa do que não existe é loucura.

“(...) o universo, para ser plenamente universo–ou seja


universal–deve ser o espelho de todos os possíveis. Deve
ser tal que todos os universos possíveis, de algum modo
nele se reflitam. Estes universos possíveis devem se
postular e se refletir uns aos outros” (PCO, A Inocência
Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto
Plínio Corrêa de Oliveira, ed. Artpress, São Paulo, 2008,
p. 157).

Portanto, o universo real teria que incluir os possíveis inexistentes. Logo, para
Plínio, eles passaram a ser reais.

O universo real é espelho real de Deus e não dos possíveis. Estes só existem
como idéia na mente divina.

Se o universo real necessitasse – para ser plenamente universo– incluir, e ser


espelho, de todo os possíveis, de todos os universos possíveis-- irreais-- que se
refletiriam em nosso universo, esses possíveis estariam postos no lugar de Deus, e os
possíveis seriam realmente existentes.

Outra vez o mesmo absurdo. O universo dos possíveis não existe realmente. E
por isso o universo real não pode refleti-lo. O universo real é feito semelhante a Deus,
Ser por excelência. Deus não é um possível. Existe de fato. É Ato puro, e não um
possível.

Plínio havia dito que o mundo dos possíveis de fato, não existia. Mas, na página
159 desse livro delirante, ele afirma o oposto, porque ele vai lentamente deslizando do
não existente para o de algum modo existente, para enfim afirmar:

228
“Mas este mundo dos possíveis não é uma quimera: à sua
maneira ele tem realidade” (PCO, A Inocência Primeva e a
Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa
de Oliveira, ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 159).

No fundo, para PCO, tanto fazia se os possíveis existissem ou não.

Muito menino ainda, contemplando as cores e decorações de seu quarto, ele


imaginava outras cores e outros adornos. Num mundo imaginário de seres possíveis:

“E na minha inocência, regozijava-me com aquela


harmonia cromática, degustando-a e raciocinando: “Isso
não é ouro, nem medalhão, nem fita, mas figura de ouro,
de medalhão e de fita.Eu, portanto, devo imaginar um
quarto ornado, não com simples papel, mas com
verdadeiro ouro, autênticos medalhões e fitas, sobre uma
verdadeira seda. Que efeito produziria? Como seria uma
casa assim? E como seriam as pessoas que nela
morassem? Que maneiras, que virtudes teriam? Como
seria o resto da decoração da residência? Estou entrando
numa espécie de mundo irreal, com cores incomuns. Estou
me movendo no mundo interior das minhas idéias. Que
lindo é isso!

“Tratava-se da procura de um maravilhoso superior à


realidade cotidiana e colocado numa linha arquetípica de
belezas ideais. Para mim, nem era necessário que elas
existissem, mas bastava-me entender serem
concebíveis”(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas
Autobiográficas, vol. I, p. 301. Os destaques são nossos).

Para PCO, tanto fazia se os possíveis existissem ou não. O que ensinava a


Religião, a Metafísica e o bom senso não interessava. Importava o que ele imaginava,
existisse, ou não, o imaginado.

Tanto fazia ser ou não ser, existir ou não existir, porque, como Bérgson, ele
considerava que a existência era um mero fluxo. Eis o seu comentário vendo um jorro
de água, caindo no mar:

“Assim é a vida! Os fatos vão saindo de dentro do possível


para se tornarem reais e depois se perdem no que já
passou, como essa água que desaparece no mar.É bonito
ver como isso se sucede. E o ruído que faz essa água
caindo no mar é como o rumor dos fatos da vida, quando
acabam de acontecer e se perdem no passado. E o ruído
que vai, vai, e de repente acaba. Assim é a vida... Que
bonito esse jorro! Como é bom que comece, como é bom

229
que dure, como é bom que acabe!”(Plínio Corrêa de
Oliveira, Notas Autobiográficas, vol. I, p. 212).

E Plínio diz que pensou isso aos quatro anos. Sem ter lido Bergson, de quem ele
repete até o termo “jorro” para indicar o fluxo do existente.

Desse modo, fica claro que PCO–aos quatro anos!-- era um gnóstico heraclitano
ou bergsoniano, para quem tudo era fluxo. Portanto, que o ser não existia.

E não se diga que ele se refere apenas a fatos, e não a seres, porque ele se refere
à água que é ser. É verdade que ele compara o jorro da água aos fatos. Mas, depois, ele
vai dizer o mesmo das pessoas que, quando morrem, passam do mundo real e passam
para o mundo dos possíveis...

O que é uma teoria que, nega o ser afirmando que há apenas mudança, e como
conseqüência, leva à negação da imortalidade da alma.

“As saudades são a lembrança de um pequeno possível


que deixou de existir. Assim, quando alguém deixou de
existir, fica para nós como um possível” (PCO, A
Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo,
Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, ed. Artpress, São
Paulo, 2008, p. 159)

Se um possível deixou de existir, era porque antes ele existia em ato.

Logo, ele não era um “possível”.

Para Plínio, então, logicamente, as orações pelas almas seriam orações para os
que deixaram de existir...

Acabou-se o purgatório. Só o purgatório?

As almas dos mortos passariam a ser meros possíveis em Deus? Mas então elas
não existiriam mais em ato. Se fosse assim, ninguém estaria no céu, no purgatório, ou
no inferno.

Mas então não existiriam nem Céu, nem Purgatório e nem Paraíso para os
homens.

Para Plínio, quando morremos passamos a ser possíveis e nos identificamos


então com Cristo na Trans-Esfera.

230
Essa doutrina de PCO, ensinada por ele secretamente no MNF e na Sempre
Viva, assim como é repetida por Mons. Scognamiglio entre os Arautos, é
completamente herética e gnóstica.

É o que dá não estudar seriamente, nem mesmo o Catecismo, e pretender


explicitar o que se tem na cabeça, julgando que a própria cabeça é a fonte do saber
absoluto. Da cabeça sem estudo, e com pretensões à sabedoria inata e primeva, saem
“batatadas”.

***

Para Plínio, então, o mundo real é semelhante ao que não existe em ato mas que
só é possível.

Falso.

Deus existe. Deus é ato puro, E o mundo foi feito por Ele como semelhante a
Ele. E não como semelhante a possíveis.

A imaginação de Plínio, ao invés de examinar as perfeições das coisas criadas


como reflexos de Deus existente em Ato, as despreza, buscando, perfeições imaginárias
ad infinitum, sempre análogas a seres irreais imaginados como mais perfeitos.

Por isso, escreveu Plínio que “nosso universo é uma maquete do mundo dos
possíveis” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo,
Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 156).

O mundo real seria algo semelhante ao mundo dos possíveis inexistentes.

Não. Repetimos: o universo é semelhante a Deus que é O existente. Plínio nega


o que ensina a Sagrada Escritura.

Em vez de buscar conhecer Deus que existe como analogante primeiro e


universal de todas as criaturas realmente existentes, Plínio corre atrás de fantasmas,
sonha seres imaginários como possíveis. Plínio ensina a buscar ilusões, fantasias, mitos,
irrealidades, sonhos, quimeras.

Deus é o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis – mas sempre reais,


existentes em ato – está longe das “cogitações de Plínio”–puras imaginações-- que vivia
para o irreal, para o ideal, para os seres possíveis . Nunca para o real.

Deus não criou ilusões.

231
Mas Plínio ousa escrever que Deus criou ilusões. Ao falar dos mistérios e
fantasmagorias da noite, Plínio afirma:

“Sei que são só ilusões. Mas Deus as criou para falar de


Si. E também do anti Ele”(PCO, A Inocência…, p. 228).

Deus teria criado as ilusões para que elas falassem de Deus e do anti deus? Do
anti Ele?

Que loucura maniqueísta é essa?

Plínio defendia a Gnose romântica.

Amando o imaginário, ele desprezava todo o real concreto. Sobretudo esquecia e


desprezava o verdadeiro real, o real absoluto, necessário, o único infinito. Plínio fez do
sonho do irreal e do mito o seu Deus.

Um “deus” imaginado como pura potência, sem existência. Plínio fazia adorar o
vazio.

O Nada. O Não ser.

O “anti Ele”.

Para ilustrar a noção de contemplação sacral do mundo dos possíveis, Plínio


apela aos quadros de Claude Lorrain, pintor do período barroco, mas cujas paisagens
imaginárias e irreais se poderiam dizer pré-românticas.

Plínio mostra como nos quadros de Claude Lorrain há uma “atmosfera irreal”
(A Inocência…,p. 152) “Nesses quadros de Lorrain não cabe nada de tormentoso, não
há ventania, nem sequer brisa.(...) “As pinturas de Claude Lorrain (...) são tão
magníficas que nos fazem pensar num outro universo, num mundo que pode se afigurar
a nós como irreal, como inexistente, mas para o qual a nossa alma irresistivelmente se
inclina” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação sacral do Universo, ed. cit.,
p. 153).

Ora, a alma humana não é inclinada para o inexistente, e sim para o Bem
realmente existente, isto é, para o que existe em Ato. Para o Ato puro, isto é, para
Deus.É uma deformação do espírito humano – uma deformação romântica – deixar-se
inclinar para o imaginário, para o inexistente. Para o sonho. E Plínio se confessa
irresistivelmente inclinado para o irreal e para o inexistente.

232
“Uma das mais altas expressões da escola filosófica
católica do Vitorinismo é, através do real, nos fazer tomar
contato com os irreais, com os quais nossa alma sonha,
como escalas interiores para atingir o Céu. Quem assim o
faz não é sonhador: esse é pensador” (PCO, A Inocência
Primeva e a Contemplação sacral do Universo, ed. cit., p.
155).

Isso é falso.

A escola dos Vitorinos não fazia passar do real ao irreal, e sim do material ao
espiritual, que é bem real, e daí até Deus que é o Bem absoluto. Ser Real. É falso que o
pensamento católico busque passar do real ao irreal. Isso é negar a existência de Deus e
da ordem espiritual.

Caminhando de possível em possível, Plínio chega a “excogitar” – isto é, a


imaginar-- os possíveis de si mesmo:

“A pessoa percebe os possíveis de si mesmo. Pode


inebriar-se, e quanta fantasia se realiza dos possíveis
internos! Por outro lado, quanto desejo de santidade,
quanta maravilha de heroísmo, de talento, pode ser gerada
pelo senso dos possíveis de cada qual!

“Ái das almas que não têm uma noção do seu possível
interno! Pode até ser uma forma de entretenimento olhar
nas caras que se encontram pela rua e perguntar se a
pessoa tem, ou não, alguma noção de seus possíveis
internos” (PCO, A Inocência Primeva e a Contemplação
Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de
Oliveira, ed. Artpress, São Paulo, 2008, p. 160).

Isso, normalmente, se resolve em paranóia.

O indivíduo começa a imaginar-se Napoleão.

Ou profeta.

Ainda que Profeta só de Higienópolis.

Uma visão de um possível excelentíssimo de si mesmo conduz a pessoa a se ver


de um modo mitificado. E era isso mesmo o que Plínio desejava: mitificar-se e mitificar
tudo.

Veja-se então o que ele diz do mito e dos homens-mitos que existiriam na Trans-
Esfera, que ele sonhou, e de onde eles nos comunicariam a sua “transcendência”.

233
Capítulo X - Mito ou História - Lenda ou Realidade - Os
Possíveis de PCO na História
Plínio considera que pode haver algo de bom e verdadeiro na noção de mito.

Veja-se a distinção que ele faz:

“Mito: sentido mau e sentido bom.

“Na literatura indigenista [Sic?] em voga na segunda


metade do século XX, a palavra mito cobre duas faixas
que se sobrepõem: um histórico maravilhoso,
evidentemente mitológico, e que, portanto, inclui as
respectivas legendas, mas, ao mesmo tempo, uma visão
transcendente das coisas, a qual mostra o aspecto-símbolo
do ser mitificado. Esta segunda componente corresponde a
algo de verdadeiro na noção de mito, em consonância com
a boa doutrina. É neste segundo sentido, legítimo, que será
tomada aqui a palavra mito” (PCO, A Inocência…, p.
168).

O mito falaria de um mundo transcendente...

Quanta anfibologia!

Quanta redundância!

Quanta confusão!

PCO confessa então que considerava aceitável algo da concepção de mito da


escola romântica simbolista, que foi uma escola claramente gnóstica.

E lá vai PCO fatiando a terminologia para se permitir escapadelas anfibológicas.


Haveria uma noção de mito consoante com a doutrina católica no simbolismo. Sri
Paladan que o diga. Só porque PCO o quer. Isto é, só porque PCO o imagina.

Qual é o sentido de mito de acordo com a boa doutrina?

Plínio não o diz claramente.

Afirma que há homens-mito. E nesses homens-mito haveria um aspecto


simbólico verdadeiro remetendo a uma noção transcendente. E vimos com em cada um
desses termos usados por PCO (mito, transcendência, símbolos), há imprecisões e
confusões grosseiras.

“Há um modo de ver o homem-mito que transcende o


próprio homem. Corresponde a uma concepção que

234
freqüentemente se tem a respeito de pessoas que
personificam o que elas simbolizam. Quer dizer, elas
simbolizam uma realidade superior que resulta de uma vue
de l ‘esprit -- um produto de nosso espírito. Tal fato
decorre da necessidade que sentimos da individuação’ ou
personificação de certos princípios ou valores.

“O homem-mito se situa, pois, numa esfera transcendente,


uma super-esfera, da qual ele comunica aos homens a sua
transcendência. Essa transcendência é o mito. Então, a
idéia de mito traz consigo a idéia de uma Trans-
Esfera”(PCO, A Inocência…, p. 168. Os sublinhados são
do autor).

Os homens-mito simbolizariam “uma realidade superior que resulta de uma vue


de l ‘esprit -- um produto de nosso espírito”.

Está aí uma confissão interessante: a realidade superior seria um simples produto


de nosso espírito. Seria uma ‘Vue de l‘espirit”, a imaginação produzindo uma realidade
ontológica superior.

O que é puro idealismo romântico.

Do ser possível, passou-se ao mito como coisa existente na História. Mas ambos
habitando a Trans-Esfera. E isto só porque “sentimos” o homem-mito, personalização
individualizada de certos valores, pura vue de l’esprit, que causaria uma realidade
superior.

Isso é um xarabiá subjetivista e idealista que procura provar o que afirma,


afirmando o que teria que provar: o homem-mito é uma concepção que se tem de uma
pessoa que personifica o que ela simboliza, isto é, simboliza uma realidade superior que
resulta de uma “vue de l’esprit”.

O que é uma besteira posta em francês.

Daí, diz Plínio, o homem-mito situar-se numa esfera transcendente, e essa


transcendência é o mito que traz consigo a idéia de Trans-Esfera. Que ele devia provar
que existe. E dessa Trans-Esfera o homem-mito nos comunica a sua transcendência. E
essa transcendência é o mito.

Um delírio circularmente redundante.

O “autor” do “romance” Dona Lucília, -- Scognamiglio -- no tempo em que ele


era o propagador do culto de PCO e da mãe de PCO, a liberal Dona Lucília, em seus

235
anos de TFP, o agora Monsenhor Scognamiglio, chamava a mitificação de “traço
dominante da personalidade de Dona Lucília...”.

No romance Dona Lucília, que tem como autor de capa João Scognamiglio Clá
Dias, fica evidente que Plínio herdou essa mentalidade romanticamente mitificadora de
sua mãe, Dona Lucília, que segundo Scognamiglio tudo mitificava.

O atual Monsenhor-chefe da banda dos Arautos e grão mestre arautiano da


Sempre Viva, reconhece explicitamente que Dona Lucília gostava de mitificar tudo,
recusando ver as coisas como elas são:

“Tudo nos lábios de Dona Lucília se tornava como que


feérico, legendário”. (J. Scognamiglio, Dona Lucília,
Vol.I, p. 57).

E, numa nota, o “autor” tenta explicar em que sentido usa o termo “legendário” :

“Legendário” se emprega aqui no seguinte sentido


”envolto numa atmosfera de tanta elevação, que parece
tocar na legenda” (J. Scognamiglio, Dona Lucília I, p.54,
nota 2).

O que não explica nada, porque o “autor” usa o termo legenda para tentar
explicar o que é legendário: legendário é o que toca na legenda...E legenda é o que é
tocado pelo legendário... E daí para diante, numa redundância sem fim. Legendária.
Pliniana em sua redundância circular.

“Acusado Doutor Plínio escondido atrás do Scognamiglio!”

Pois essa redundância é típica do verdadeiro autor do romance Dona Lucília: o


próprio Plínio, escondido atrás de Scognamiglio.

Veja-se esta confissão do espírito mitificador de Dona Lucília:“Quando ainda


jovem, [Dona Lucília] ao contemplar as qualidades de alma dos que compunham o seu
ambiente, com instintiva naturalidade as mitificava tanto que chegava a afastar as suas
sempre bem-intencionadas vistas de tudo o que nelas pudesse não ser virtude. Os
senões que encontrava na conduta das pessoas, reputava-os exceção. Era como se num
belo lenço de seda houvesse pequenos furos. Porém, o resto era seda muito boa...” (J.
Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p.52).

236
O Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de
Holanda Ferreira, no verbete mitificar, diz que fazer isto é converter em mito. E no
verbete Mito dá os seguintes sentidos, entre outros, a essa palavra:

- “Idéia falsa sem correspondência com a realidade”.

- “Imaginação simplificada de pessoa ou de


acontecimentos, não raro ilusória, elaborada ou aceita
pelos grupos humanos e que representa significativo papel
em seu comportamento”

- Coisa irreal, utopia”.

Leia-se então agora o que Plínio confessou sobre a mitificação que ele fazia
normalmente com algumas pessoas que estimava:

«Tais cogitações levavam-me também a entusiasmar-me


por determinadas pessoas, mitificando-as. Eu amava
intensamente certos estados de alma que notava nelas,
vendo-as muito conexas com o ambiente em torno de
mim. E percebia que elas mantinham – em alguns
aspectos–uma relação de nível inferior com a inocência e,
por isso, eu desejava respeitá-las, mas com a ilusão de um
menino que ainda não tinha idéia de pessoas em estado de
pecado mortal. E, nessa mitificação – subconsciente e
involuntária, mas coerente – eu fazia uma seleção de todos
os aspectos tradicionais que ainda existiam nestes ou
naqueles conhecidos meus » (Plínio Corrêa de Oliveira,
Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo,
2008, p.222).

Portanto, não era só Dona Lucília que mitificava os parentes. Plínio também
fazia isso, e aprendeu a fazer isso de sua mãe : para os amigos, mitificação. Para os
inimigos, denigramento até a calúnia.

E Plínio confessou, escreveu e Scognamiglio fez imprimir e publicar que Dr.


Plínio mitificou a figura de sua mãe, Dona Lucília :

“Sentia emanar dela--[De Dona Lucília]– tanta retidão,


harmonia, suavidade e firmeza que ela me parecia uma
imaginação, quase uma utopia! Dava –me a impressão de
uma “trans realidade” maravilhosa, como uma miragem no
deserto” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas
Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo, 2008,p.
339. Os destaques são nossos).

237
Ora, essa mitificação da realidade, que fazia recusar ver os defeitos dos seus
parentes e amigos, para ver só seus lados positivos é tipicamente liberal e romântica. É
puro sonho negador do real.

É tipicamente pliniana.

Como considerar santo --- e com virtudes heróicas--, quem se recusava a ver a
realidade tal qual ela era, e que preferia mentir a si e aos outros, ocultando a verdade
sobre aqueles que estimava? Como considerar santo ou santa, quem falseava a
realidade movido por seus sentimentos, simpatias e antipatias, e por sua imaginação?

Como considerar santa uma pessoa que se chamou de liberal?

No romance Dona Lucília, o seu pseudo “autor” Scognamiglio escreveu:

“Esse modo de considerar a realidade, pelo qual a todos


situava numa clave de seriedade, distinção e grandeza
estava muito presente em todas as narrações dela
procurando transmitir uma idéia arquetipizada da vida e do
convívio entre os homens” (J. Scognamiglio, Dona
Lucília, Vol. I, p. 52).

Então ela não mitificava só os parentes. Ela mitificava tudo e todas as coisas. O
que é um traço essencial de uma mentalidade absolutamente romântica. E essa “idéia
arquetipizada da vida” mostra que havia nela – ou em quem falou por ela, nesse livro –
uma característica platonizante, que, como demonstrou Simone de Pétrement, é
fundamentalmente gnóstica. (Cfr. Simone de Pétrement, Le dualisme chez Platon, les
Gnostiques et Manichéens, PUF, Paris, 1947).

Portanto, essa mitificação ou arquetipização do real são então modos de que ela
inventava o que era contrário à realidade, transmitindo uma “Idéia falsa sem
correspondência com a realidade”. O que significa, pelo menos materialmente, mentir.

Portanto, a mentalidade mitificadora de Dona Lucília foi que encharcou a


mentalidade de Plínio de sonhos e mitos. Por isso, ele a chamou de “Mãe da Trans-
esfera”.

Contraditoriamente, o “autor” do romance Dona Lucília faz questão de dizer


que Dona Lucília ficou “incontaminada“ pelo romantismo:

“Lucília, que em relação ao romantismo mantivera sua


alma incontaminada...“(J. Scognamiglio, Dona Lucília,
Vol. I, p. 52).
238
Isso nem é “vero”, e nem é “bene trovato”.

É lorota.

E prova de que isso é falso, é que o próprio Monsenhor Scognamiglio fez


publicar o livro Notas Autobiográficas de Plínio Corrêa de Oliveira, no qual se lêem as
seguintes palavras dele:

“Compreendi bem que as influências de mamãe e da


Fraulein deviam completar-se; e daí resultou uma
composição: eu percebia que minha mãe havia recebido a
educação do tempo do romantismo, na qual a mulher devia
ser o encanto da família, afável e agradável. Eu, como
homem, tinha de ser combativo; mas entendia que não
podia ser uma espécie de leão rugindo no mato...Era
preciso ser amável e educado, como um verdadeiro
católico deve ser” (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas
Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008,vol. I,
p. 278. O destaque é do original).

O resultado parece não ter sido perfeito, pois que o mesmo Plínio afirma, nesse
mesmo livro, que a Fraulein procurava combater “as delicadezas” excessivas de
Plínio:“Está vendo ? Que vergonha! Ela é mulher e devia ser protegida por você. Na
hora de cruzar a rua, o normal é que o menino diga à menina: “Vamos, eu te protejo”.
E aqui acontece o contrário: a menina protege o menino!” (Plínio Corrêa de Oliveira,
Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008, vol. I, p.266).

Foi Fraulein Mathilde quem disse isso. Eu não disse nada, que nem estava lá.
Só citei o que Plínio contou.

E ainda mesma Fraulein criticava Plínio por não agir de modo varonil. E é o
mesmo Plínio quem conta:

“O que é isso? Você, sendo homem, é tratado com todas


as delicadezas. É para você que as mulheres apanham as
coisas no chão? Jamais! De agora em diante, além de elas
não apanharem nada para você, quando alguma coisa delas
cair, eu vou lhe indicar: “Apanhe!” (Plínio Corrêa de
Oliveira, Notas Autobiográficas, edit. Retornarei, São
Paulo, 2008, vol. I, p. 268).

Na composição delicadeza romântica de Dona Lucília, mais força varonil


imposta pela Fraulein Mathilde, parece que prevaleceu a delicadeza romântica, pois o

239
próprio Plínio conta que ao acompanhar uma senhora amiga de sua mãe até a cidade,
esta senhora lhe disse o seguinte:

“Olhe, eu não tenho nada a ver com a sua vida, mas, como
sinto simpatia por você e quero o seu bem, vou lhe dizer
uma coisa: Você não devia deixar-se influenciar tanto por
sua mãe, pois sendo ela uma pessoa dos velhos tempos e
tendo uma mentalidade antiquada, não é capaz de lhe
educar para viver no mundo moderno. Você tem de ser um
homem do futuro, mas querendo tanto bem a ela, ficará em
algo um homem do passado. Então afaste-se de sua mãe”
(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit.
Retornarei, São Paulo, 2008, vol. I, p. 665).

Isso contou Plínio. Mas, a seqüência do texto mostra que a tal senhora se referia
a algo mais delicado de dizer...

“De mais a mais, afirmava ela não ser próprio ao homem


ter tanta meiguice com mulher nenhuma, pois ele deve ser
rígido e de cabeça em pé”. Portanto, eu deveria mudar a
minha atitude em relação a mamãe”.

“Achei aquilo muito estranho e pensei:”Essa mulher é


louca! Eu, querer menor bem a mamãe?! Discutindo,
respondi-lhe que não mudaria, pois queria mamãe além de
todo limite! Ela então continuou:

- “Você é um mariola! Maricas! Só uma menina pensaria


assim! Você precisa resistir à influência de sua mãe!”

- “Mas eu não quero resistir! Estou de acordo com


mamãe”.

-“Homem, então quer saber de uma coisa? Faça o que


quiser”.

(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, edit.


Retornarei, São Paulo, 2008, vol. I, p. 278).

De novo, não sou culpado de dizer isso. Foi Plínio quem contou e Monsenhor
Scognamiglio que mandou imprimir.

Do fracasso da tentativa dessa mulher de tentar salvar Plínio da influência


romântica que Dona Lucília exercia sobre ele, iam nascer a TFP e os Arautos de
Monsenhor Scognamiglio...

E Monsenhor Scognamiglio citou, num Jour le Jour de Dr. Plínio, que ele disse o
seguinte quando começou a freqüentar o Colégio São Luís, saindo pela primeira vez do
240
aconchego do lar, para enfrentar o mundo. Comentou ele, que foi então que se deu conta
do que era a Revolução. E disse de si para consigo:

“Bem essa gente é tão ruim que se eu manifestar a eles


tudo aquilo que eu aprendi junto de mamãe, e me
comportar junto a eles tal qual eu fui educado por mamãe,
eles vão me tratar como efeminado. Porque essa gente não
entende mais isso, então eu preciso adquirir certas
maneiras um pouco brutas. Porque caso contrário vão
pensar que eu sou um efeminado, e isso...”(Plínio Corrêa
de Oliveira, apud João Scognamiglio Clá Dias, Jour le
Jour, em 19 de Abril de 1992 – Domingo).

Não fomos nós que escrevemos isso. Tão somente citamos Monsenhor
Scognamiglio, que citou as palavras do próprio Plínio.

Como finalizava Santa Catarina de Siena suas cartas, nós também dizemos,
finalizando este capítulo:

“E più non dicco...”

***

[No futuro, e se for necessário, estudaremos as fontes da mentalidade e do


pensamento de Dr. Plínio, e então analisaremos mais a fundo o livro Dona Lucília, cujo
verdadeiro autor deve ter sido o próprio Dr. Plínio, Scognamiglio tendo apenas
emprestado o seu nome como “autor–laranja”.

Monsenhor foi “laranja”.

E, como disse PCO, “cada laranja” simboliza algo...

241
Capítulo XI - Dr. Plínio Erigiu a Mitificação em Sistema
O que em Dona Lucília era uma tendência de seu temperamento romântico, o
mitificar pessoas e coisas por sentimentalismo, Plínio erigiu em sistema de
“pensamento”. Isto é, em sistema de imaginação deformadora de tudo. E mitificar,
voluntariamente, é mentir.

Ele também gostava de mitificar, e acabou por mitificar a si mesmo, e a


promover sua própria mitificação.

Sistematicamente.

Disso nasceu o culto delirante que ele montou para si mesmo, usando como
instrumento, como agente mitificador do culto a ele e à mãe dele, o agora Monsenhor
Scognamiglio.

É o que se pode comprovar pelas palavras, quer de Plínio, quer de João


Scognamiglio, que tratou disso num artigo intitulado: “O Papel dos “Fatinhos” na
Formação do Mito”.

Plínio contava continuamente “fatinhos“ de sua vida pessoal, que Scognamiglio


repetia, para criar uma áurea lendária em torno da pessoa do pseudo profeta, a fim de
montar o culto para ele e, mais tarde, para si mesmo.

“Quando o personagem vai se tornado mais velho e o


essencial de sua fisionomia já se destacou com maior
nitidez, tem inicio um esforço, também meritório, para
relacionar com essa linha geral os fatos menores de sua
vida. Então há um ajuste destes últimos para a cognição
inteira do personagem. Depois há um trabalho que é a
composição do quadro: considerar juntos a linha geral e os
fatos menores, uns se enriquecendo pelos outros, obtendo-
se o total da personalidade”.(João Scognamiglio Clá Dias,
O Papel dos “Fatinhos” na Formação do Mito”, in Revista
“Dr. Plínio”, Ano IV, No 43, Outubro de 2001, p. 23).

A seguir, nesse artigo, se diz como vai surgindo o mito, isto é, como Plínio foi
montando a sua auto mitificação através da narração muito imaginária dos fatos miúdos
de sua vida, que ele contava a Scognamiglio, e este os repetia, depois, aos tefepistas,
para fanatizá-los.

Falando da mitificação de um rei santo, São Luís, comentou PCO:

242
“Em geral, quando isso se dá, a pessoa se encontra
próxima ao termo da vida ativa, pública, e assim
permanece durante os últimos anos de sua existência”.

“(...) Porém, começa aí o fato mais interessante: a pessoa


morre e o trabalho anterior se repete ao longo das
gerações. Aquele passado vai se destacando da vida
presente, e uma série de fatos que compunham mais o
presente do que o passado, e mais a vida de todos os dias
do que a grandeza mítica (???) do passado, vão sendo
descobertos pelos historiadores. E dá-se um trabalho de
enriquecimento de dados, de enriquecimento de quadros,
que se soma ao trabalho dos comentadores. Começam os
poetas e os literatos a declamarem a pessoa”.

“Ao mesmo tempo que o quadro é enriquecido com novos


dados, e também analisado por biógrafos, por outros
estudiosos, para formar um grande todo. E aí se constitui
inteiramente o mito.

“Assim uma série de fatos do tempo de São Luís, que em


vida dele não tinham interesse, adquirem-no quando o
monarca parte para a eterna bem-aventurança.

“Por exemplo, que tipo de comida ele mais apreciava?


Podia ser que durante a vida dele isto não tivesse sido
notado, mas depois, quando se tratava de fazer a legenda
do rei, começou a ganhar importância Então saber se ele
apreciava tal vinho, tal pão e tal manteiga, ou que gostava
de carne vinda de tal lugar-- [Exatamente como Plínio
gostava de fazer e de dizer --Plínio está falando dele
mesmo, e não de São Luis] --; saber que São Luís, uma
vez, visitando certa aldeia, encontrou um pobre e lhe disse
tais palavras, agasalhou-o de tal maneira – enfim,
pormenores que em vida dele não faziam parte nem dos
“fatinhos, nem dos “fatões”, porque estavam incorporados
à rotina trivial de todos os dias, nesse primeiro trabalho
post mortem tomam vulto e enriquecem a sua biografia. E
os historiadores se afanam em busca dessa
documentação”.

“Ao mesmo tempo, aparecem as canções populares que


exprimem saudades do rei, ocorrem os primeiros milagres
junto à sepultura dele, - [Plínio está falando de si mesmo
e de sua futura sepultura, assim como de seus futuros
imaginários milagres no cemitério da Consolação. Puro
sonho!] ---cantados por bardos populares, aparece aquilo,
surge aquilo outro, coisas que continuam a engrandecer –
já então com a literatura e, às vezes com a ficção e com
lendas–a figura do rei.” (João Scognamiglio Clá Dias, O
Papel dos “Fatinhos” na Formação do Mito”, Revista “Dr.

243
Plínio”, Ano IV, No 43, Outubro de 2001, p. 23, Os
destaques são meus).

Plínio, falando do Rei São Luís, falava de si mesmo.

Note-se que ele acaba por supor que muito do que se conta do santo Rei de
França, foi, segundo ele, inventado, mitificado, e que, de fato, não teria ocorrido. Foi
ficção.

Loisy, o heresiarca do Modernismo, excomungado por São Pio X, disse o


mesmo da vida de Jesus Cristo: os Evangelhos teriam registrado o mito criado em torno
da figura de Cristo.

Prossigamos na citação -- que é longa--, mas reveladora...

“Começam também a aparecer os quadros, as esculturas,


os esmaltes e as iluminuras, os bordados, as tapeçarias
representando o santo soberano, e assim ele vai enchendo
os espaços da história”.“Esse processo se verifica na
geração posterior a ele”.

“Surgem novos dados e novos interesses.

“Dá-se então como que uma pausa nesse trabalho e aquela


imagem se fixa. Finda essa pausa, reinicia-se a mesma
elaboração. Quer dizer, aparecem muitos fatos da vida
dele que tiveram de ser mantidos em segredo, às vezes até
anos depois dele morrer, enquanto não falecerem todos os
concernidos em ditos episódios.(...) “E esses fatos, mais
uma vez, contém dados enriquecedores da grande linha,
bem como dados menores. Novamente cresce a figura do
mito; depois, há uma outra pausa.(...)

“Nisso, as gerações se sucedem como uma pulsação, em


que a anterior tem apetência de algo, a seguinte tem
apetência do contrário. Quando uma geração tem
apetência das linhas gerais, a seguinte é sedenta de
“fatinhos”. E quando uma geração correu para os fatinhos,
a seguinte presta mais atenção nas linhas gerais. Forma um
balancé harmônico até chegar o supremo silêncio
histórico”. (João Scognamiglio Clá Dias, O Papel dos
“Fatinhos” na Formação do Mito”, Revista “Dr. Plínio”,
Ano IV, No 43, Outubro de 2001, p. 23).

“Quando o personagem não é um santo, o que acontece?


Faz-se o grande sono da história: cada vez mais aquela
figura vai se apagando da memória popular, ficando
apenas para os eruditos. Mas, há também pessoas para
estes conhecerem, que a imagem daquele só será

244
recordada por eruditos mais ou menos fanáticos dela; E
depois, definitivamente, é relegada à poeira de glória dos
museus. E acabou.” (João Scognamiglio Clá Dias, O Papel
dos “Fatinhos” na Formação do Mito”, Revista “Dr.
Plínio”, Ano IV, No 43, Outubro de 2001, p. 24, Os
destaques são meus).

Essa exposição da formação de um mito ilustra bem o conceito romântico de


História adotado por Plínio C. de Oliveira; uma história, como ele dizia, feita de
“plumas e brumas”. Feita mais de lendas e mitos do que de fatos reais. Feita de
mentiras.

E o pior é que ele considerava que a própria vida dos santos canonizados sofreu
esse processo de mitificação.

E Plínio preparou conscientemente, durante toda a sua vida, o seu próprio mito.

Talvez esperasse ele que alguém, um dia, escreveria sua epopéia: a Pliníada.

245
Capítulo XII - Uma Visão Sublimada e Transcendente da
Realidade: a Trans-Esfera Pliniana
Dr. Plínio diz que, quanto maior for a inocência de uma pessoa, mais ela,
olhando uma coisa, conseguirá imaginar como essa coisa seria no limite do imaginável
de sua excelência.

E ele dá um exemplo disso: “Assim diante de uma porta encimada por um arco,
ele pode ter ‘uma finíssima visualização do arco, formar a idéia de um arco dos arcos,
como aquele arco que está vendo deveria ser” (PCO, A Inocência Primeva e a
Contemplação Sacral do Universo, Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, ed. Artpress,
São Paulo, 2008, p. 161).

Mais uma vez, uma formulação imprecisa.

Que significa imaginar um arco dos arcos -- um super arco–sobre uma porta?

É preciso realmente ser imaginativo demais imaginar um super arco. Porque, à


primeira leitura, um arco é uma parte de uma circunferência com determinado raio.
Como imaginar então um super arco? Isso seria o equivalente de imaginar um super
quadrado.

Qualquer quadrado só pode ter quatro lados iguais e quatro ângulos retos iguais.
Não se pode imaginar um super quadrado.

Possivelmente Plínio devia querer falar não de um arco–figura geométrica–mas


de um arco triunfal, como o de Tito, por exemplo, ou o Arco do Triunfo de Napoleão
em Paris. Não apenas de uma arco sobre uma porta qualquer. Mas a imprecisão de
expressão o traiu.

Quem sabe se além da Pliníada ele esperaria que se lhe construísse um Arco de
Triunfo pliniano. Em Higienópolis.

Veja-se, porém, como Plínio, embora redundante e impreciso, era imaginativo:

“Essa noção do arco dos arcos vem através dos sentidos e


de algum modo está viva na pessoa. E isto faz com que ela
tenha a respeito de quase tudo uma fecundidade em formar
noções ideais, muito subconscientes, mas efetivas. E à
medida que a pessoa vai conhecendo esse universo, vai
tendo em gérmen a idéia de um universo ideal. Este
universo ideal, ela sabe que, tal qual imagina, ele não
existe, mas que, de algum modo, algo deve existir. ’Esse

246
algo corresponde a uma visão sublimada e transcendente
da realidade que passamos a analisar” (PCO, A Inocência
Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, Instituto
Plínio Corrêa de Oliveira, ed. Artpress, São Paulo, 2008,
p. 161. O destaque é nosso).

Essas frases são de tal modo sem nexo lógico que fica difícil compreendê-las. A
desconexão entre elas dificulta fazer uma crítica conectada desse parágrafo. Para
começar, que seriam “noções ideais muito subconscientes”?

É possível ter alguma noção consciente do que é muito subconsciente? Plínio, ou


é freudiano, ou surrealista. E pior é que seriam “noções ideais” não só sub conscientes,
mas “muito subconscientes”.

É tal a ilogicidade–o desarrazoado das afirmações emaranhadas–que fica difícil


pegar uma ponta e desenrolar esse aranzel.

Talvez um aluno que não estudou para uma prova pudesse dar essa desculpa ao
professor : “Tenho noção da matéria, mas é uma noção ideal muito subconsciente. Por
isso não lhe respondo”.

Se der essa desculpa esfarrapada, certamente esse aluno levará um solene zero.
Um zero bem consciente e bem real. Nada trans-esférico.

Um zero bem esférico.

E depois está escrito: “E à medida que a pessoa vai conhecendo esse universo,
vai tendo em gérmen a idéia de um universo ideal”.

Como? Como?

Provavelmente ele queria dizer que à medida que se vai conhecendo esse
universo real, vai surgindo em germen a idéia de um universo ideal.

Portanto, é do universo real que PCO vai desenvolvendo a idéia de um universo


ideal.

Vejamos, então, o que seria esse universo ideal de Plínio, a Trans-esfera, que
ele imaginou existir, sabendo que ele não existe, mas que de algum modo afirma que
deve existir.

Garante-nos isso Plínio Correa de Oliveira.

247
“Trans-esfera é uma visão transcendente da realidade que
resulta da contemplação dos possíveis de Deus, a partir do
universo criado ou das obras dos homens, e que produz na
alma que a ela se consagra um élan de união com o
absoluto de Deus” (PCO, A Inocência…, p. 175. Os
destaques são do original) .

A Trans-esfera seria uma “visão transcendente da realidade” existente.

Mas o que é uma visão transcendente do real?

O delírio é uma visão transcendente da realidade?

Numa visão delirante, a pessoa vê o que não existe, julgando que o inexistente
existe. É assim que Plínio vê Trans-esfera inexistente que existe.

E a Trans-esfera pliniana- da qual Dona Lucília foi a Mãe – resultaria “da


contemplação dos possíveis de Deus “, mas “a partir do universo criado ou das obras
dos homens”.

Como se pode contemplar os possíveis de Deus, se o homem não tem acesso a


seres em potência, e, ainda mais, se o homem não pode conhecer a mente de Deus?

E como essa visão dos possíveis na mente divina se faria a partir das criaturas de
Deus e das obras humanas reais?

Pior ainda, um disparate herético estrondoso: a contemplação da inexistente


Trans-esfera causaria “um élan de união com o absoluto de Deus”. E já vimos que, para
PCO, essa união com o absoluto seria divinizadora do homem. Mais: causando a
unicidade com o Absoluto.

A Trans-esfera causaria algo muito superior ao que faz em nós o Batismo. Ela
seria um oitavo sacramento. E sacramento ontologicamente divinizador em sentido
absoluto. E como a Inocência primeva seria inata no homem, ela seria uma graça natural
sobrenatural. E se for a Trans-esfera que causa esse élan de união com Deus, o que ela
daria ao homem que a Inocência primeva não deu?

Que confusão! Que caos! Que desordem mental realmente trans-esférica.

Isso é uma loucura completa.

A Trans-Esfera de Plínio é algo totalmente subjetivo e imaginário. É sonho. É


quimera. Delírio.

Que produz um “élan”.


248
Lembranças de Bergson...

A visão transcendente da realidade leva a buscar a Deus através da abstração, e


dos transcendentais existentes em todos os seres: (ens, res, aliquid, unum, verum,
bonum, aos quais alguns acrescentam ainda o pulchrum) como também através dos
símbolos, que nos levam a ver Deus como Ser absoluto, Ens a se, distinto absolutamente
do mundo, o Unum por antonomásia, o Verum, o Bonum, e o Pulchrum em absoluto.
Mas a compreensão natural dos seres e dos transcendentais não causa união com Deus
que só a graça santificante pode dar.

Uma visão transcendente da realidade não resulta da contemplação dos possíveis


em Deus, desconhecidos para o homem, mas a visão dos transcendentais é fruto
da abstração das coisas que vemos e conhecemos, coisas verdadeiramente criadas.
Nunca das possíveis que podemos entender que existem como seres ideais na mente
divina, mas que não são reais ou atuais, que, por isso mesmo, não podemos conceber e
nem imaginar como seriam.

Os possíveis em Deus–como já vimos–não são possíveis de serem contemplados


e nem imaginados pelos homens. Só podemos saber como eles não são, isto é, que não
podem ser contrários ao que Deus é. Que não podem ter notas constitutivas
contraditórias.

Os possíveis em Deus, não tendo o ato de existir fora da mente divina, não tendo
sido realmente criados, --pois que se fossem criados já não eram possíveis, mas seres
realizados-- e, portanto, não têm poder de atuar. Eles não têm potência ativa. E por
isso, eles não podem ser causas agentes. Eles não podem causar em nós nem mesmo o
élan de que fala Bergson em seus devaneios filosófico-gnósticos, que parecem ter
influído na imaginação de Dr. Plínio, que foi imaginário até em seu título de Doutor.

Pois Plínio só foi Doutor na Trans-Esfera. Nunca fez tese de Doutorado. Nem no
Angelicum. Sua doutoral tese ficou no mundo dos possíveis.

Plínio analisa seu próprio conceito de Trans-Esfera dizendo:

“O que é essa esfera? Não é uma esfera nova da realidade,


mas algo que o espírito humano concebe como um
produto do espírito” (PCO, A Inocência…, p. 173.Os
destaques são nossos.).

249
PCO afirma que a trans-esfera não é uma esfera nova da realidade. Logo, ela não
existe realmente. Mas que é concebida pelo espírito humano.Ela existiria na mente
humana.

Se a Trans-esfera é “concebida” na mente humana, ela só poderá ser tida como


uma coisa imaginária à qual subjetivamente se atribuiu existência, -- como a um saci-
pererê -- e não como um ser real. Ela é puramente imaginária. Mas então ela nada tem a
ver com os entes possíveis em Deus. Que Deus não tem imaginação.

Plínio avança mais em seu cerúleo devaneio “metafísico” trans-esférico:

“[A Trans-Esfera= o Saci-Pererê de Plínio] É uma imagem


que o espírito humano cria para si, de uma ordem irreal,
hipotética, não existente, formando-se às vezes de modo
muito efêmero, por certos aspectos da natureza, por
atitudes dos indivíduos etc., que não constituem,
portanto, uma ordem real. São aspectos fugazes, são
lampejos, que as coisas tomam e com os quais o homem
constitui um modo habitual de ver todos os seres como se
estivessem numa trans esfera” (PCO, A Inocência…, p.
173. Os negritos sublinhados são nossos. O apenas
sublinhado está no original do texto citado).

A Trans-Esfera seria “uma imagem que o espírito humano cria para si, de uma
ordem irreal, hipotética, não existente”.

Mas apesar de não existente, PCO afirmou que a mãe dele era a “Mãe da Trans-
Esfera”. E fez colocar esse “pensamento” como uma jaculatória na ladainha de Doma
Lucília. E diz que essa ordem inexistente nos causaria uma união com Deus.

Como o que não existe pode causar algo?

Essa é uma gagueira trans-esférica!

A Trans–Esfera–da qual Dona Lucília seria a mãe–apareceria e desapareceria,


como luzes fugazes, tal como o Saci-Pererê. Ou como o Boi-Tatá. A Trans-Esfera era o
Boi Tatá de Plínio.

Essas imagens fugazes da Trans–Esfera, -- os flashes de Plínio-- não seriam


conceitos. São puras imaginações. Não são reais, e não constroem um mundo real. A
Trans-esfera de Plínio é tão irreal quanto o Papai Noel ou a fada Morgana. Até o tesouro
nacional é mais real do que a Trans-esfera pliniana.

250
Plínio percebia a Trans-esfera por lampejos fugazes, os flashes de que ele tanto
falava. Como Bergson.

Como visões fugazes, fantasmagorias de alguém que esta com febre alta, ou de
quem perdeu a consciência do real...

E prossegue Plínio, sonhando, vendo o que não existe:

“Ele sabe que essa Trans-esfera, como ele a vê, de fato,


não existe. Mas sabe que, quando os homens todos
caminhando muito rumo a Deus, todas as coisas da
realidade tomam estavelmente aspectos susceptíveis de
serem sublimados, de modo a constituir uma visão
transcendente da realidade, uma trans–esfera. Assim, a
Trans-esfera é um possível existente apenas na mente
divina, que nos compete desenvolver e explicitar, e no
qual vemos muito mais marcadamente os reflexos de
Deus” (PCO, A Inocência…, p. 173).

Então, Plínio sabia que a Trans-esfera “como ele a vê, de fato, não existe”...E
apesar disso, ele acreditava nela.

Ela era o Boi-tatá de Plínio.

Antes ele dissera que a trans-esfera era algo concebido no espírito do homem.
Agora, Plínio diz que a Trans-esfera é um possível existente apenas na mente divina.
Contradição. A menos que o espírito do homem e a mente divina sejam a mesma coisa.

Cabe bem aqui colocar um parênteses, dando uma citação de Plínio, provinda de
outra fonte que o livro em foco:

Que Plínio Corrêa de Oliveira tinha tendência a sonhar e a negar a realidade,


acreditando no que imaginava, se tem a prova no que ele mesmo contou de si mesmo.

“E essa idéia do viver em algo que não é o real, mas que


poderia ser o real algum dia e no qual a minha alma
quereria viver, passou a constituir uma espécie de
tendência freqüente no meu espírito” (Plínio Corrêa de
Oliveira, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de
2.001, No 44, p. 16).

Isso é um estado normal no ser humano?

Atenção, caro leitor, para a seguinte citação:

251
«É uma coisa muito singular que minha imaginação nunca
se mostre muito agradavelmente senão quando minha
situação é a menos agradável possível, e que, ao contrário,
é menos sorridente quando tudo ri ao redor de mim. Minha
má cabeça não pode sujeitar-se às coisas. Ela não saberia
embelezar, ela quer criar. Os objetos reais ali se
reproduzem, mais ou menos como são, ela só sabe ornar
os objetos imaginários. Se quero descrever a primavera, é
preciso que eu esteja no inverno; se quero descrever uma
bela paisagem, é preciso que eu esteja cercado por muros,
e disse cem vezes que se algum dia fosse metido na
Bastilha, lá faria um belo quadro da liberdade ». (Os
destaques desta frase citada são nossos).

Esse texto acima citado, de quem é ?

Poder-se-ia muito bem pensar que é de Dr. Plínio.

Não é.

É de Jean-Jacques Rousseau.

Mas revela a mesma mentalidade...-- digamos caridosamente : mentalidade


imaginativa...-- típica do Romantismo, quer no «tradicionalista» PCO, quer no
revolucionário Rousseau.

O romântico Rousseau tinha um pensamento muito parecido com o de Plínio a


respeito dos seres reais e dos seres imaginários, que Plínio chama de seres possíveis em
Deus, e que seriam a participação no nada:

«C'est une chose bien singulière que mon imagination ne


se monte jamais plus agréablement que quand mon état est
le moins agréable, et qu'au contraire elle est moins riante
lorsque tout rit autour de moi. «Ma mauvaise tête ne peut
s'assujettir aux choses. Elle ne saurait embellir, elle veut
créer. Les objets réels s'y peignent tout au plus tels qu'ils
sont; elle ne sait parer que les objets imaginaires. Si je
veux peindre le printemps, il faut que je sois en hiver; si je
veux décrire un beau paysage, il faut que je sois dans des
murs; et j'ai dit cent fois que si jamais j'étais mis à la
Bastille, j'y ferais le tableau de la liberté». (Jean-Jacques
Rousseau, Les Confessions, Livre IV)].

(A tradução desse texto acima citado, para o português foi tirado do livro As
Confissões, de Rousseau, do prefácio e tradução de Wilson Lousada
Ediouro. Universidade de Bolso, p. 117).

252
O «tradicionalista» PCO era tão parecido com o romântico Rousseau que
também sua «cabeça não podia sujeitar-se às coisas» tais quais são. Como Rousseau,
PCO tinha necessidade de embelezá-las imaginativamente.

Mas quando a mente não pode sujeitar-se às coisas reais, ao mundo real...arautos
começam a pulular pelas ruas, vestidos com roupas medievais. Como o pobre Dom
Quixote, perturbado, usava couraça, mesmo em dias que não eram de carnaval.

E há ainda outra passagem das Confissões de Rousseau que lembra muito o que
PCO contava de si mesmo:

“Como em geral os objetos me causam menos impressão


do que as lembranças, e como todas as minhas idéias são
em imagens, os primeiros traços que se gravaram em
minha mente, ali ficaram e aqueles que se imprimiram
depois combinaram-se com os que se apagaram. Há uma
certa sucessão de afetos e idéias que modifica as
lembranças que se seguem e que é preciso conhecer para
julgá-las acertadamente. Aplico-me em desenvolver em
toda parte as primeiras causas para fazer sentir o
encaminhamento dos efeitos” (Jean-Jacques Rousseau, As
Confissões, prefácio e tradução de Wilson Lousada
Ediouro. Universidade de Bolso, p.119. Destaques são
nossos).

O pré romântico Rousseau–um dos pais do Romantismo francês–afirma que as


lembranças lhe causavam mais impressão do que os fatos de que se lembrava, e que era
preciso estar em situação oposta a algo para poder descrever melhor esse algo, pois as
recordações lhe eram mais importantes que as coisas.

Plínio também disse algo parecido, ao descrever as lembranças que sentia de um


passeio que fez com sua mãe, Dona Lucilia, num pasto em uma colina de Águas da
Prata. Nesse passeio, Plínio se arranhou num graveto e sofreu outros mínimos
inconvenientes. Depois, fazendo a sesta, ele ficou imaginando...Note-se que nessa época
ele tinha menos de dez anos, e é evidente que os « pensamentos » que serão atribuídos
ao menino Plínio, na realidade são de Plínio adulto, que assim se apresentava como
gênio, querendo imitar o péssimo Proust, do qual Plínio adulto admirava o estilo e
certos gostos.

«Muitas vezes eu não tinha sono e permanecia deitado na


cama, vendo os raios do sol que entravam às torrentes
pelas frestas da veneziana fechada. Vinha-me, então, a

253
lembrança de toda a caminhada e pensava: «Que lindo
passeio ! Que bonito aquele alto de montanha ! Que bela
tal coisa e tal outra! ». Depois fazia uma reflexão : «Por
que esse passeio me parece agora mais bonito do que
quando eu estava lá em cima? O que está acontecendo ?
Estou gozando o passeio mais aqui, no silêncio do quarto,
do que lá. Isso será racional ? Não estarei exagerando, aos
olhos de minha recordação, a beleza de um passado que
não foi tão belo ? A minha lembrança é verdadeira, ou está
deformada por algo que surge logo depois do fato
acontecido e que são as saudades ? » (Plínio Corrêa de
Oliveira, Notas Autobiográficas, Editora Retornarei, São
Paulo, 2008, vol.I, p. 451).

Pela cabeça romântica de Plínio, vemos que, nesse momento, perpassou uma
certa lucidez racional... Que ele rapidamente envolveu nas brumas das saudades...

E segue o devaneio...

«Estou aqui na cama e tenho saudades do movimento.


Estou na penumbra e tenho saudades da luz. Estou entre
quatro paredes de um quarto e tenho saudades da
amplitude enorme do horizonte que se abria diante de
mim. Que está se passando em mim? »

«A coisa foi menos boa do que estou sentindo, ou foi tão


boa quanto estou sentindo ? Por acaso fiz uma filtração ?
Esqueci alguns aspectos de segunda ordem, e neste
momento estou vendo o essencial? »

« Não será que agora estou compreendendo bem o


passeio ? O melhor do passeio não são as saudades dele?
Ou seja, o mais real e vivo do fato não se apanha depois
que este se passou ? O que é a recordação. É uma
deformação embelezadora, ou o suco da vida, pelo qual se
vêem os fatos como através de ume lente de aumento? »

«Hoje percebo que, depois de descer a colina, no momento


de reflexão, tudo aquilo que era secundário no passeio – os
insetos, o carrascal, e o arranhão–era esquecido por mim
como algo sem importância. E minha memória por uma
seleção justa e natural, guardava as melhores partes da
realidade e deixava de lado as bagatelas. Eu compreendia
melhor o alto da montanha » (Plínio Corrêa de Oliveira,
Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo,
2008, vol.I, pp. 451- 452).

Exatamente o que faz o romantismo lírico: apagar da memória, desejando


eliminar da realidade, tudo o que é ruim ou defeituoso, para sonhar uma realidade

254
idealizada, tendo apenas os elementos positivos, e ainda assim sublimados, de tal modo
que, em seu sonho, a colina virou montanha, e o pasto carrasquento, pradaria aveludada,
e a vista mais larga, panorama imenso.

Vejamos mais...

«Era preciso lembrar-me da excursão que fizera, pois o


melhor fruto dela, para a formação de minha mentalidade,
não era o subir, mas o descer, parar, pensar e depois
recordar. Tratava-se de idéias infantis que apenas
começavam a se desenvolver, mas era sobretudo o mundo
do pensamento que ia me mostrando, no alto da
montanha, os seus encantos... »

« O resultado é que, apesar de não ter subido mais do que


duas ou três vezes, aquelas excursões foram para mim
altamente entretidas. Era-me muito agradável imaginar
como seria a visão ideal dos panoramas do alto de todas as
montanhas as quais eu não havia subido nem seria capaz
de subir. E um certo valor se acendeu em minha alma : um
padrão ideal das elevações e das altitudes, analisadas por
um determinado ângulo próprio a mim, através do qual eu
via tudo. Isto me dava a convicção de que, cultivando
pensamentos como esse, a respeito de todas as coisas, eu
teria uma riqueza interior muito grande, pois aquilo não
era uma pura divagação ».

« Entretanto, eu recusava a ilusão enganosa de imaginar


que pudessem existir, realmente, homens e mulheres de
carne e osso com a perfeição que eu desejava, ou objetos
materiais sensíveis com a beleza ideal que eu queria. E
sabia que não chegaria a conhecer nesta terra um ambiente
humano que atingisse esse píncaro» (Plínio Corrêa de
Oliveira, Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São
Paulo, 2008, vol.I, p. 452).

Está aí patentemente expresso, embora em oração invertida, que Plínio julgava


ser uma «tentação» supor que a perfeição da sua Trans-esfera comportasse a
materialidade dos corpos e objetos materialmente sensíveis. O mundo dos sonhos de
Plínio recusava a materialidade. A Trans-esfera de Plínio não admitia matéria. Não
admitia seres humanos de carne e osso. Plínio era um gnóstico. Daí, ele ser tão contrário
ao casamento e à reprodução sexual.

Prossigamos lendo as Notas Autobiográficas de Plínio editadas


imprudentemente pelo Monsenhor agora Doutorado...

255
«A partir disso nasceu uma análise em relação ao mundo
que me cercava. Eu via nele coisas belas e também outras
reprováveis, erradas e tortas, mas sentia que, em alguma
medida, as realidades podiam ser elevadas até esse ideal,
de onde surgia a idéia de que o mundo deveria ser
corrigido» (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas
Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo, 2008,
vol.I, p. 452-453).

Mais uma prova da Gnose de Plínio: ele queria corrigir o mundo criado por
Deus. Todo gnóstico quer corrigir ontologicamente o mundo.

Dessa pretensão nascia o desejo de ir para um mundo superior, uma trans-


realidade totalmente espiritual, que Plínio chamou de Trans –esfera, e que seria formada
por seres divinizados : os «possíveis de Deus».

Vejamos como Plínio prosseguia sua meditação romanticamente gnóstica aos


sete ou oito anos de idade.

« E pensava o seguinte: « Eu sou igual a todos ; logo,


todos são iguais a mim e, na mente deles, há o mesmo que
há na minha. Se os outros tiverem honestidade de alma
para fazer essa operação que eu faço, todos levarão os
acontecimentos, junto comigo, para uma situação ideal,
onde eles agora não estão, e os homens serão de um modo
como atualmente não são » (Plínio Corrêa de Oliveira,
Notas Autobiográficas,Editora Retornarei, São Paulo,
2008, vol.I, p. 453. O destaque é nosso).

Plínio julgava que, « pensando » como ele «pensava», isto é, imaginando, seria
possível sair deste mundo material e alcançar uma esfera ideal–uma trans-esfera, na
qual os homens não teriam mais corpo material, nem as misérias que o pecado original
trouxe para o corpo e para a alma do homem. Os homens seriam, espiritualizados,
angelizados, divinizados...

Leiamos até o fim o que Plínio disse secretamente, e que Monsenhor


Scognamiglio agora publicou:

«Eu sentia que o impulso de minha vida consistia em fazer


isso! De maneira que meu primeiro desejo de realizar uma
obra na terra foi a partir dessas reflexões, querendo
caminhar para essa perfeição ideal. Não era ainda a luta
contra o mal, mas a idéia em função da qual, no encontro
com o mal, eu diria mais tarde : « Não ! ».(Plínio Corrêa

256
de Oliveira, Notas Autobiográficas,Editora Retornarei,
São Paulo, 2008, vol.I, p. 453).

Está aí esboçada nessas citações de Plínio a Gnose oculta da TFP e dos Arautos.

A TFP e os Arautos são meros tapumes de uma seita gnóstica, que é a sua alma
secreta:a Sempre Viva, cuja doutrina oculta, e agora publicada, é uma Gnose romântica.

Dr. Plínio era um gnóstico romântico e sonhador. Imortal que morreu.

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, seu discípulo perfeito, –doutorado e


doutrinariamente muito ignorante-- usou a seita secreta da TFP e dos Arautos, para
muito espertamente subir na vida. Ele já alcançou sua recompensa. Triunfou, ora
montado em galopante restrição mental, ora entrincheirado atrás de muralha periclitante
de suas moedas de ouro.

Julga ele que tolo sempre acredita, e que esperto sempre tem preço... Quanto aos
cúmplices, esses sempre poderão ser « pressionados »...

Eis o que mais diz Plínio da sua Trans-Esfera:

“De maneira que a trans-esfera é um possível em Deus,


não criado; porém um possível virtualmente já criado, do
qual nós temos uma certa noção a partir dos seres criados
ou de obras feitas pelos homens. De alguma forma, esse
possível já vive em nós... desde que não sejamos tão
miseráveis que nada em nós tenha restado daquele
possível que nos tornaria mais parecidos com a nossa
própria transcendência. Isto é, com aquele modelo ideal de
nós mesmos para o qual devemos tender” (...) Então a essa
visão sublimada da realidade nós chamamos de Trans-
esfera”.(PCO, A Inocência…, pp. 173-174. Os destaques
são nossos).

Propriamente um deslizar do delírio para o desvario:

A Trans esfera não existe, pois é um possível “não-criado”;

Mas é um possível em Deus “virtualmente criado”;

Possível do qual “temos uma certa noção”;

E que “vive em nós”;

Que atua em nós, fazendo-nos mais parecidos com “aquele modelo ideal de nós
mesmos”, “com nossa própria transcendência”.

257
Como aquilo que realmente não existe pode atuar? Só pode atuar o que está em
ato. Um possível, por definição, está em potência, e não pode ter potência ativa para
atuar. Só o que está em ato pode atuar.

E o mais misterioso está no seguinte trecho: “desde que não sejamos tão
miseráveis que nada em nós tenha restado daquele possível que nos tornaria mais
parecidos com a nossa própria transcendência. Isto é, com aquele modelo ideal de nós
mesmos para o qual devemos tender” (...) Então a essa visão sublimada da realidade
nós chamamos de Trans-esfera”

Que modelo é esse de nós mesmos que seria a nossa própria transcendência?
Com o modelo ideal de nós mesmos para o qual devemos tender? Como?

O “modelo de nós mesmos”–modelo real e não ideal --ao qual devemos nos
conformar é Deus. É Nosso Senhor Jesus Cristo. E Plínio disse que, no Juízo,
encontraremos Jesus Cristo nosso sósia perfeito, nosso modelo transcendente. Nosso
Arqui alter-ego. Um Christus alter Plinius.

Mas para Plínio, esse modelo transcendente de nós mesmos está no mundo dos
possíveis, na Trans Esfera. Desse modo, Cristo estaria Ele também na Trans Esfera.
Deus estaria, Ele mesmo, no mundo dos possíveis. Deus e o Paraíso seriam a Trans-
esfera reunião de todos os possíveis.

A Trans-esfera seria o pléroma gnóstico.

Loucura.

Só podemos passar da vida natural à sobrenatural por meio da graça recebida em


dois sacramentos: o Batismo e a Penitência ou confissão. O Batismo perdoa o pecado
original, (e os pecados atuais se os houver), e nos dá a vida da graça, tornando-nos
filhos adotivos de Deus, membros da Igreja e herdeiros do céu. Quando por cometer
pecado mortal perdemos a vida da graça, a vida sobrenatural, podemos recuperá-la por
meio da confissão. Daí, o Catecismo ensinar que esses dois sacramentos são
absolutamente necessários para a salvação: o Batismo para todos, e a Confissão para os
que perderam a graça santificante pelo pecado mortal, depois do Batismo. Não há outros
meios de obter a vida sobrenatural.

Entretanto, Plínio diz que há outro meio de ser levado à vida sobre natural: a
Trans-Esfera.

258
“Portanto, na trans-esfera, há muito mais que uma vue de
l’esprit com algo vivo em nós, que nos projeta numa
ordem de vida que é a ordem sobrenatural, onde nos
tornamos de algum modo cidadãos da cidade que ainda
não construímos. E onde a cidade que ainda não
construímos de algum modo já vive em nós” (PCO, A
Inocência…, p. 74).

Portanto, a Trans-esfera “nos projeta numa ordem de vida que é a ordem


sobrenatural”.

Plínio inventou um “sacramento” natural novo: a Trans-Esfera. Por meio da


Inocência Primeva e das idéias universais inatas no homem, alcançaríamos e nos
uniríamos a um Eu superior e divino (o Eu de Cristo), modelo-sósia de nós mesmos, e
nos faríamos idênticos a Cristo, e isto é que nos salvaria, e não cumprimento da ‘tabela
dos dez mandamentos”.

A inocência primeva seria um conhecimento salvador anomista. Exatamente


como ensina a Gnose.

Euclides da Cunha, referindo-se ao Antonio Conselheiro, intitula um dos


capítulos de Os Sertões de “Um Gnóstico Bronco”.

De Plínio Corrêa de Oliveira se pode dizer que foi um burlesco gnóstico


romântico do século XX.

Nunca um “Crociato”...

E continua Plínio, delirando:

“De modo que essa “vue de l’esprit” se move em direção a


um futuro existente no além, que atrai o homem.

“Mas esse futuro existe mesmo, ou não existe? Como


possível, como causa agente existe, na medida em que
raízes desse movimento da alma se encontram na natureza
criada. Portanto, essa vue de l’esprit é o ato inicial que nos
conduz ao píncaro da realidade” (PCO, A Inocência…, p.
175. O sublinhado é do original).

Agora PCO foi ainda mais além.

As “raízes” desse movimento salvador “se encontram na natureza criada”.


Portanto, não só no homem, mas em tudo.

259
Um possível – ser não existente em ato–seria causa agente que conduziria ao
“píncaro da realidade”: Deus. A Trans-esfera de Plínio seria o sacramento supremo
que Cristo não instituiu. O inexistente é que conduz ao píncaro da realidade existente.

Os possíveis, que Plínio dizia que realmente não existiam, unidos na Trans-
esfera pliniana, constituiriam o píncaro da realidade.

É delírio demais.

Pior.

É heresia

E quem escreveu isso se dizia “vir catholicus totus apostholicus” !???!

A Trans-Esfera atuaria pois em nós, e nós mesmos poderíamos atuar na Trans-


Esfera.

Plínio dá exemplos de pessoas e fatos históricos trans-esféricos.

“Dom Sebastião (1554- 1578) foi com certeza uma figura


trans-esférica” (PCO, A Inocência…, p. 171).

Pena que, até Plínio, ninguém percebera isso. Nem Dom Sebastião.

E lá vai Plínio a defender Dom Sebastião e o sebastianismo!!!

Mas o auge do ridículo está noutra página:

“Um exemplo brasileiro: a famosa cena imortalizada por


Pedro Américo, em que se vê Dom Pedro I proclamando a
independência do Brasil. Sem dúvida não ocorreu
exatamente como está no quadro. Mas o artista captou
algo da realidade, e essa realidade até hoje nos influencia.
Pode-se dizer, portanto, que a cena, e também Dom Pedro
I, tal como foi visto por Pedro Américo, pertencem a essa
visão transcendente da realidade que denominamos trans-
esfera” (PCO, op.cit., p. 177).

Trans-esfera, visão transcendente da realidade...

Dom Pedro I passou a ser um ente possível da Trans-esfera, sendo ao mesmo


tempo, imperador do Brasil.

Coitado do Dom Pedro. Só essa infelicidade lhe faltava, a ele a quem tanto
faltava, desde educação até dignidade imperial.

260
Plínio dá alguns exemplos de casos estéticos ou naturais, que analisados
conduzem a uma conclusão puramente lógica, a qual ele toma, como sendo prova de
que existe a Trans-Esfera.

O primeiro exemplo probante da realidade da Trans –esfera é que Goethe teria


dito, certa vez que, na torre da Catedral de Estrasburgo, faltariam quatro torreões
pequenos. Então, o conservador do Museu disse a ele que esses quatro torreões
constavam do projeto original.

Ora, isso tem tanta possibilidade de ser concluído, como “prever” que na
seqüência 2 – 4 -- 6 - ? - 10- 12 -14 , falta o número 8.

No gótico, eram comuns esses torreões complementares nos quatro cantos de


uma grande torre. Eram como échauguettes nas torres de um castelo.

O segundo exemplo, PCO o tira do perfil do monte Fuji que parece


absolutamente simétrico, sem que as duas vertentes se encontrem numa ponta aguda
visível, pois que está sempre coberta de neve.

E sobre isso diz PCO:

“Se alguém toma um desenho representando o monte


Fujiyama e procura completar à mão o cone, não consegue
por ali o cone perfeito que daria toda a beleza do
Fujiyama. Quer dizer, percebe-se que seria possível
haver um cone, mas que não é como nenhum dos cones
que se poriam. Dele se tem apenas uma insinuação. Tem-
se algo à maneira de um conhecimento metafísico, que se
conhece mais à maneira de negação” (PCO, A
Inocência…, p. 162).

Não é delirantemente estapafúrdio.

E esse mesmo Plínio, foi quem, num suposto e hiperbólico Auto Retrato
Filosófico, começou proclamando enfaticamente: “Sou tomista convicto” (PCO, A
Inocência…, p. 235).

Tomista que nem sabe como ligou a Metafísica à ponta “inexistente”, mas
coberta de neve do Fujiyama.

E dizer que é impossível fazer um desenho fazendo as duas encostas do


Fujiyama se encontrarem é ridiculamente infantil, pois é lógico que isso é bem possível
de ser feito.

261
O terceiro exemplo que PCO dá para fazer compreender como se pode captar a
Trans-Esfera é o da fachada de Notre Dame que não tem torres. Diz ele que nosso
espírito exige que imaginemos torres lá. E isso seria um sinal da existência dos seres
possíveis da Trans-Esfera.

Ora, as catedrais góticas foram feitas para ter torres. Em Notre Dame de Paris,
elas não foram construídas. Mas é claro que, aplicando as regras do gótico, e
conhecendo as proporções em que foi feita a Catedral, não seria difícil completar a
fachada com as torres que deveriam ter sido feitas.

Portanto, essas torres “possíveis” de Notre Dame de Paris não se equiparam com
seres possíveis em Deus. Elas são tão dedutíveis como o encontro das encostas do
Fujiyama. E não é porque podemos calculá-las, ou mesmo vir a construí-las que a
Trans-Esfera pliniana passaria a ser real.

A seguir, Dr. Plínio vai falar de homens que na história podem sugerir seres
possíveis em Deus, e cita como exemplo Carlos Magno, Joana d’Arc e o Rei de
Portugal, Dom Sebastião.

Para preparar seus leitores, Plínio introduz o problema do Mito e do homem tal
qual foi, de fato, na história.

Essa distinção entre o que foi, de fato, alguém na História, e o um suposto mito
que foi criado sobre um personagem histórico é a distinção básica do método histórico-
crítico introduzido pelo modernista Loisy, distinguindo o Cristo histórico e o Cristo da
Fé, que teria sido criado pela mitificação de Cristo.

Essa distinção condenada por São Pio X no Modernismo, Plínio a aplicou à sua
concepção de História e aos vultos históricos. Como também a ele mesmo, Plínio.

Plínio se preocupou em rebater a possíveis objetantes. E se preocupou


principalmente em refutar antecipadamente a acusação de que sua visão da Trans-Esfera
seria romântica. Uma maneira de “evasão da realidade” (PCO, A Inocência... , p. 179).

A refutação que ele faz dessa acusação absolutamente procedente e


completamente evidente, é que o romantismo desloca a “saudade de Deus”, que Plínio
defende, para o sentimentalismo.

“O romantismo é tristonho, melodramático, com suas


melopéias xaroposas, açucaradas e lacrimejantes”.

262
”Em vez de ter saudades de Deus, o romântico é
eminentemente isolacionista. Românticos seriam dois
solitários, em um local afastado, contemplando-se um ao
outro, e ignorando tudo em torno” (PCO, A Inocência..., p.
180).

Esses dois românticos poderiam dizer um para o outro:

“Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”

Romântico, não?

Pois essa frase, açucaradamente sentimental e de um romantismo meloso era


Dona Lucília que a dizia. (Cfr. João Scognamiglio, Dona Lucília, II, 267).

Noutras palavras, Plínio considerava que romantismo era apenas o namoro


sentimental. Ora, ele condenava o namoro e o casamento.

Logo, o mito e a Trans-esfera que Plínio sonhou não seriam românticos. Pois se
ele condenava o namoro, como ele poderia ser romântico?

Plínio parece que teoricamente ignorava tudo sobre o Romantismo, no sentido


em que não estudara profundamente os filósofos dessa escola. O que não impede que
ele tenha recebido informações sobre os princípios teóricos do Romantismo, em
ambientes que tenha freqüentado, especialmente na Faculdade de Direito do Largo de
São Francisco, ou em algum restaurante, ou em alguma loja de brinquedo, ali perto.
Recebeu, quem sabe,-- discretamente-- uns poucos princípios... Seu talento imaginativo
e a formação que Dona Lucília lhe deu, fizeram-no “elucubrar” o resto.

O Romantismo de PCO certamente foi mais fruto da formação sentimental que


Dona Lucilia nele inculcou, e das “explicitações” que ele fez de seus sentimentos, do
que resultante de um estudo sistemático. Daí, as contradições, as inexatidões, a ausência
de pensamento sistematizado, seu sistema gnóstico vago e difuso em seus conceitos
tortuosos e contraditórios, e nada preciso em suas formulações.

Além disso, o romântico se é normalmente um solitário, nem por isso, por sua
Gnose, deixa de buscar a unidade com o todo universal divino, imanente e metido no
calabouço do mundo real.

Segunda característica que Plínio atribui ao Romantismo seria a inação. E como


ele se afirmava um homem de ação, ele não seria romântico.

263
Como fazer os seguidores de PCO, que,-- estes, sim, ignoravam absolutamente a
doutrina e as características do Romantismo – como fazê-los compreender que as
doutrinas quiméricas de PCO foram sorvidas totalmente dos erros doutrinários do
Romantismo e da mentalidade que a mãe de Plínio inculcou toda a vida nele?

Os argumentos ou citações doutrinárias e filosóficas dos teóricos do


Romantismo, para eles, seriam inúteis, porque, aos argumentos, os tefepistas respondem
com sentimentos. E as citações filosóficas eles repelem sem sequer analisá-las,
chamando-as de “cartesianismo”.

Plínio garante que sua visão não era uma fuga da realidade pois que, “a
contemplação e a execução são duas esferas conexas”(PCO, A Inocência…, p. 182).

E com o maior “cara durismo”, depois de passar o tempo inteiro sonhando e


delirando, ele afirma:

“A contemplação sacral de que tratamos, sem nunca sair


do real, leva em conta o explícito como o implícito, tanto
o patente como o latente. De onde sua excelência”(PCO,
A Inocência… , p. 182).

Ele, que vivia defendendo o sonho, o imaginário, o legendário, o mito, as


impressões subjetivas, a Trans-Esfera, tem a ousadia de escrever o seguinte:

“Devemos ser muito infensos a puras fantasias. Sejamos


homens de ação calmos, meticulosos, sumamente
aderentes à realidade; neste sentido, inimigos declarados
do wishfull thinking (pensamento influído por desejos).

(…) “A mais inteira objetividade é um elemento


necessário da seriedade. O que implica em ver a realidade
inteiramente como ela é, sem véus , nem preconceitos,
nem “torcidas’, nem falta de adaptação” (PCO, A
Inocência…, p. 182).

E, logo em seguida, ele se pergunta:

“Como harmonizar esta exigência de objetividade, com a


tendência para o imaginário, que parece ser o substrato do
quanto exposto neste livro? (…) Como conciliar isso -[a
objetividade mais rigorosa] – com a recomendação de
viver continuamente numa trans –esfera, fazendo
transcendências, buscando os absolutos?“Não há
contradição, pois esse mundo da contemplação sacral é
real sob vários aspectos, e, enquanto real, é que deve ser

264
vivido. Não se trata de um sonho, de um pensamento sem
consistência. São duas realidades aparentadas entre si: a da
contemplação e a da execução“(PCO, A Inocência…, p.
183).

Ele deveria ter dito que ele considera serem duas “realidades” o mundo real e
concreto, e o mundo imaginário, irreal.

E, três parágrafos depois de defender a objetividade, Plínio diz: “De certa


forma, a legenda é mais importante que a História: a história das legendas é mais
importante que a história dos homens.“Dom Sebastião de Portugal, rei de legenda,
virgem e guerreiro: o mais magnífico dele é o seu mito. O mito de que não morreu, e
que há de voltar e recompor todas as coisas” (PCO, A Inocência…, p. 183).

Lá vem Dom Sebastião,

Descendo da Trans –esfera.

Se chega como um leão,

Não passa de uma quimera.

Essa era a seriedade objetivista de Plínio: defender que alenda vale mais que a
realidade. Que o Sebastianismo,-- milenarismo que cabalistas infiltraram em Portugal--,
fazendo de Dom Sebastião, morto, um messias que estaria para voltar e fundar um reino
milenarista, isso é o que Plínio considera seriedade e objetividade.

Sem wishful thinking.

Delírio. Contradição. Paranóia.

“O mais importante é que nasceu na História uma legenda


como essa. Dar origem a uma legenda é, propriamente, o
mais alto, dentro da micro-imortalidade que nessa terra
possa haver”

(…) “O homem nunca se contenta com a reprodução pura


e simples da realidade –[Uái e a objetividade sem
fantasias? ] –É uma lei sem exceção. Neste sentido, a
lógica e o mito se escoram” (PCO, A Inocência…, p. 183).

“Sem o imaginário, o mítico, o imponderável, as coisas


não seriam senão aquilo que elas são…ou parecem ser”
(PCO, A Inocência…, p. 184).

De onde se conclui que, para Plínio, o mito, o imaginário são superiores ao real.

265
É tão delirante a contradição que se tem – não vamos usar um termo pliniano:
a “impressão”–se tem a certeza de que se está diante de um caso de um problema
médico-sectário como poucos houve na história.

Pois há delírios ainda maiores. O que foi publicado do pensamento de Plínio


Corrêa de Oliveira, no livro agora em foco, não é tudo. O que esse livro apresenta é
ainda uma formulação “penteada”, “cosmeticada”, recheada de botox, disfarçada dos
delírios ainda maiores que veremos mais adiante.

Finalmente, por falar de delírios maiores, há que contar alguma coisa sobre os
possíveis habitantes da Trans-esfera, pois que a Trans-esfera inexistente de PCO era
habitada por seres ab aeterno.

266
Capítulo XIII - Um sonho "metafísico"
1 - Os seres ab-aeternos
Uma mentalidade romântica, tendente à Gnose, deve necessariamente considerar
com repulsa e horror o ato conjugal – e veremos, a seu tempo, o que se pensa na TFP
sobre essa questão – como também deve desejar uma espiritualização da natureza,
sonhando com um mundo ideal despojado de toda a materialidade, ou como constituído
por uma matéria sublimada, “glorificada”, uma matéria espiritual (cfr. E. Susini, “Franz
Von Baader et le , Romantisme Mystique”, Vrin, Paris, 1942,vol 1, pp. 352-355, e
366).

Plínio dizia que sempre deu muita importância à “Quarta via” de S. Tomás, isto
é, à prova da existência de Deus por meio dos diferentes graus de perfeição das
criaturas.

Pode-se dizer que toda a cosmovisão católica apresentada publicamente pela


TFP pretendia se fundamentar nessa prova de S. Tomás, que demonstra que um
universo hierárquico é necessário, quer para refletir a sabedoria de Deus criador, quer
para o homem conhecer e amar a Deus através das perfeições das criaturas
hierarquicamente ordenadas.

Tudo isso seria perfeitamente católico, sábio, bom e belo, se fosse realmente
esse o pensamento da TFP.

Só que, como já vimos, para Plínio e para a TFP e para os Arautos, a quarta via
de São Tomás, era mudada para uma via imaginativa trans-esférica, conduzindo ao
vazio.

Acreditamos que a tendência para se desviar da concepção sapiencial do


universo tal como é ensinada pelo Aquinate, para uma visão onírica do universo se
manifestou muito cedo em Plínio, por causa da educação romântica e mitificadora que
lhe deu Dona Lucília.

Coisa que ele confessa.

Veremos mais adiante, que Plínio sonhava ser urubu, imergir no Arno, no mar,
no azul absoluto, imaginar um mundo constituído de quase “não-seres”.

Naturalmente, esta fuga do real levou Plínio a imaginar, como realmente


existente, um supremo grau de criaturas, que estaria acima dos próprios anjos, e pouco

267
inferior a Deus, e que existiria desde toda a eternidade, embora não sendo propriamente
eterno.

Seria o grau das criaturas “ab aeterno”, que existiria no mundo da “Trans-
Esfera”.

Plínio explicava essa doutrina para um círculo mais íntimo, nas reuniões do
MNF, nas quais Plínio revelava seu real pensamento só para alguns. Mais ainda:
manifestava o que ele realmente imaginava que era.

Só conhecemos – e possuímos – partes de textos dessas reuniões


scognalisticamente resumidos por João Clá no Jour le Jour – no diário de PCO–que ele
contava nos êremos que dirigia.

Neles se fala dos seres “ab aeterno”, que seriam seres ontologicamente
superiores à ordem angélica.

Tais seres super-angélicos imaginados por Plínio, mover-se-iam -- no dizer dele


-- numa “trans-esfera” mítica, superior ao inexistente mundo das idéias de Platão. Eles
representariam as qualidades divinas do modo mais elevado possível, para uma criatura
“possível”. Por sua vez, as criaturas materiais, criadas no tempo, representariam, em
grau inferior, as qualidades de Deus refletidas superiormente e de modo mais sublime
nos seres “ab aeterno”.

2- Existência dos seres ab aeterno


Plínio contou que imaginou essa classe de seres “ab aeterno”, quando soube que
S. Tomás não considerava filosoficamente incompatíveis, as noções de criatura e de
eternidade. Ele repetia isso com freqüência, mas não dizia nunca que o Doutor Angélico
negava que, de fato, existissem seres criados “ab aeterno”.

Mais: Plínio omitia dizer que São Tomás afirma ser herético defender a tese de
que outros seres, além de Deus, fossem eternos (cfr. São Tomás, Suma Teológica – I, q.
46, a1; I, q. 46, ª 2; I, q. 61, ª 2 – S. Tomas – Opúsculo IV Sobre la eternidade del
mundo contra los murmuradores).

Como dissemos, não se nos permitiu jamais ler ou assistir as reuniões do MNF.
Alunos nossos, porém, ouviram conferências do MNF, no “Praesto Sum” (Nome da
Sede de um êremo, ou convento da TFP, em Sant’Ana), palestras feitas por João
Scognamiglio, o “fiel intérprete dos desígnios de Dr. Plínio”, atual Cônego de Santa

268
Maria Maior, em Roma, e recém condecorado pelo Vaticano, enquanto certamente
sonha com novas honrarias...

Quod non ascendam?

“Sentar-me-ei acima dos astros, no Trono do Altíssimo”...

É de se supor, então, que a leitura do MNF por Scognamiglio fosse bem fiel,
embora, como é natural nos resumos, falte a totalidade do texto. Em todo caso, o que
Scognamiglio contava no “Praesto Sum”, se encaixava coerentemente no sistema de
pensamento “imaginativo” de Dr. Plínio, e conservava o linguajar típico do “Profeta” de
Higienópolis.

Outros textos do MNF foram publicados pela revista “Dr. Plínio” patrocinada
por amigos e aliados do condecoradissimo Mons. Scognamiglio. Ve-los-emos mais
adiante...

Se os textos que citaremos de Scognamiglio, retirados da documentação do


Jour–le-Jour de Dr. Plínio, não corresponderem exatamente ao que está no MNF, então
a culpa pela infidelidade ao texto não será nossa, mas sim do “fiel intérprete” dele, e
haverá um meio fácil de se corrigir essa infidelidade: publicar ou deixar examinar o
MNF por eventuais visitadores do Vaticano (Sem Censura ! -- sem cortes !–Sem
maquiagens! Sem botox!).

Mas o que Scognamiglio contou, na década de 80, citando o Jour-le –Jour de Dr.
Plínio se harmoniza perfeitamente com os devaneios contados por PCO em suas Notas
Autobiográficas e no livro Inocência Primeva, que estamos analisando.

Teríamos tanta vontade de ler o MNF todinho!...

E Plínio sempre disse que tinha tanta vontade de publicá-lo... Por que não
aproveitar a oportunidade e realizar os anseios dele e os nossos?...

Publiquem-no. Será um sucesso.

Que lhes trará a bagarre!

Vai ser uma diversão!

Vejamos, pois, como o “fiel intérprete” do Profeta de Higienópolis – o agora


Mons. Scognamiglio, Grão Mestre da Sempre Viva, e dirigente da banda dos Arautos

269
do Evangelho – explicava, há anos atrás, a teoria dos seres “ab aeterno”, exposta por
Dr. Plínio no MNF, num telefonema para tefepistas nos Estados Unidos.

[Os textos citados são, de modo geral os que foram retirados das palestras de
Scognamiglio nas reuniões em que contava o dia a dia de Dr. Plínio – o Jour-le-Jour
do Profeta de Higienópolis, inclusive com o resumo das palestras dele no MNF. Era
tudo gravado, e, depois, datilografado, e mandado para as sedes da TFP do exterior.

Não conservaremos nesta edição os erros datilográficos do texto original do


documento do Jour-le- Jour. Eles são divertidos. Os comentários postos entre colchetes
serão de nossa responsabilidade].

Vejamos, então, o que Scognamiglio explicava para fanatizar os jovens da TFP.

***

Neste primeiro texto, é Monsenhor Scognamiglio quem fala na primeira pessoa.

“Vou tentar dar um resumo do MNF de quarta-feira. Não


é bem exatamente o que ele [Dr. Plínio] diz, mas dá uma
idéia para os senhores.Os senhores já viram uns
pedregulhos assim um pouquinho mais bem [sic!]
acabados e mais bem [sic!] constituídos do que os
pedregulhos comuns. Chegam até a transmitir um
pouquinho de luz. São uns pedregulhos branquinhos, que
dá para perceber um pouco de luz do sol etc. Isto, é que é
o comum das criaturas comparado com aquilo que ele
[Esse ele é o Profeta] tem tratado muito no MNF de
criaturas “ab aeternas”. [sic!] O que é “ab aeternae”
[sic!] para ele? Não é um pedregulho, mas é uma pedra
tão preciosa, tão preciosa, que a gente tem a impressão
que a luz nasceu de dentro dela (Exclamações) –
[Significativas exclamações... Adivinhem quem se
imaginava ser uma pessoa, na TFP, que dava a impressão
de que a luz nascia de dentro dela?] E que assim seria uma
criatura “ab aeternae”. Seria tão luminosa, tão luminosa,
tão luminosa, que a gente teria a impressão de que ela
como que teria a luz de dentro dela. Seria como que se
ela fosse as qualidades que tem. Portanto seria muito
próxima de Deus”. (Telefonema de João Scognamiglio
aos Estados Unidos, 20/02/1983, narrando o “Jour–le-
Jour” – o sublinhado e os erros gramaticais são do
original. As frases postas em negrito o foram por nós).

Que explicação confusa!

E como Scognamiglio fala gramatical e literariamente mal!

270
Primeiro nos foi possível compreender que uma criatura “ab aeterno” não é um
pedregulho.

Já é um progresso.

Depois, quando foi dito que a criatura “ab aeterno” é luminosa, tão luminosa
que parece ter luz dentro de si, ficamos inclinados a pensar que ela fosse uma lâmpada.
Graças aos céus, o final deixou a coisa mais clara.

Uma criatura “ab aeterno” seria:

uma criatura que existe desde toda a eternidade;

que como que parece ser as qualidades que tem; [Então, de certo modo, como
Deus, teria as qualidades em grau absoluto?] que seria luminosa; e – ontologicamente --
muito próxima de Deus.

E as exclamações significativas encaminham para um exemplo concreto: não se


disse, na “Ladainha do Profeta” que Dr. Plínio é possuidor de todos os absolutos? E não
se dizia que a barba dele era luminosa?

Como um homem que ensinava tais disparates foi ordenado sacerdote, feito
Cônego de Santa Maria Maior, e condecorado pelo Vaticano?

Será que ele aprendeu português?

E Filosofia? E Teologia? E Direito Canônico? E que ficou doutor?

Como ele foi ordenado sem ter estudado nada disso?

Que seminário ele cursou?

Vejamos outra fiel interpretação scognamigliana:

“Na reunião de quinta-feira, ele tomou o vaso rosa, que


existe naquele salão azul do primeiro andar, junto àquele
espelho, e fez uma reunião inteira sobre ele, contando
como é que o vaso foi escolhido etc. E falou muito sobre
o mundo dos possíveis e das criaturas ab aeternae a partir
do vaso rosa” (Telefonema de João Clá aos Estados
Unidos, contando o Jour -le -Jour, 12/02/1983).

Melhorou.

Criaturas “ab aeterno” seriam apenas entes possíveis e não reais. Ficou menos
errado.

271
[De passagem, convém explicar que o primeiro andar citado é do apartamento do
Dr. Plínio, na rua Alagoas, onde havia um “salão azul”, assim chamado por que lá havia
um conjunto de poltronas estofadas em tecido de cor azul, e não por causa de suas
dimensões. O “salão” é, digamos, um ente de imaginação. Ou aquilo que em sua
confusão metafísica Dr. Plínio qualificava como um ser possível em Deus. O ente real
era uma sala comum. E o mesmo se pode dizer do “salão rosa”. São seres de
imaginação, embora não existentes, “ab aeterno”. E esse vaso seria um- de alabastro–
vaso que teria sido do Imperador, e no qual Plínio desejava mergulhar. Mas não dentro
do vaso. E sim no próprio alabastro. Como teremos ocasião de ler. Em um texto dele,
para se “alabastrizar”].

Vamos ver, agora, o que disse o próprio Plínio, mantendo os erros de


datilografia do documento original:

“Então a distinção entre duas coisas diferentes. Uma coisa


é, a vista de algo paupável [Sic] e sensível, e, em imaginar
algo do mesmo gênero, que seja ainda mais belo do que
isso”.

“Por exemplo eu estou vendo aqui as cerejas (...) eu posso


imaginar super cerejas (...) Eu não estou fazendo se não
imaginar isso que estar [sic!] aqui levado a maior
perfeição que lhe é própria”.

“(...) o rumo do maravilhoso tende a isso (...) a pessoa que


tem esse senso, vendo alguma coisa, tende a imaginar na
sua maior beleza. Por que ela entende qual é a beleza
máxima possível da coisa, se bem que ele não tenha
visto”.

“(...) Bom, agora há uma outra perfeição, um outro senso


de perfeição que vai mais longe. Vendo uma cereja,
imagina como seria uma cereja paradisíaca.

“As frutas do Paraíso, são como não existisse [sic] no


nosso universo. O Paraíso terrestre existe em nosso
universo, está guardado lá, e o que parece Elias e Enoc
estão lá”.

“(...) Agora uma coisa mais alta ainda, é quando a pessoa


cria completamente – não são as cerejas do Paraíso – faz
uma jóia com rubi, com vários rubis, para compor o que
seria uma cereja maravilhosa e ideal, nenhum lugar
existiu. Seria uma verdadeira beleza”.

272
“(...) Isto que eu estou falando a respeito de cereja podia
ser panorama. Então, minha eterna Veneza, e acabar de
degrau em degrau, numa cidade, que não existe nem nas
nuvens, concebida por mim, mas (...) pelo contrário, tão
diferente, quanto possível dessa cidade, continuando a
merecer o nome de cidade. Apenas pertencendo ao mesmo
gênero de cidade”.

“Então, uma cidade em que as pedras fossem constituídas


com raios de sol de “Clodorand”. [Ah! A que
monstruosidade ortográfica trans-esférica foi reduzido, o
nome do pintor maneirista Claude Lorrain...]. E daí pra
frente”.

“Bom, mas construídas essas cidades, o espírito humano


não se contenta. Ele diante dessas coisas, muito
maravilhosas, ele tem certo momento um reflexo, que lhe
faz pensar em algo que não sabe dizer como é. Que são
criaturas ainda, mas que não sabe dizer como é”.

“Algo que tenha um esplendor tal, que ele é obrigado até


imaginar, para existir em função disso, seres angélicos. E
seres angélicos de uma perfeição natural ainda maior do
que os seres angélicos que temos conhecimento.

E a medida que vou falando disso... (Ahhhhhh!!!)

[A exclamação é dos ouvintes embevecidos com a


existência de seres acima dos anjos, dos quais não falam,
nem a Sagrada Escritura, nem o Catecismo. Mas à cuja
ordem de ser se imaginava pertencer o próprio Plínio].

Prossigamos a ler o texto gravado de Dr.Plínio , tal como


foi lido por Scognamiglio na década de 80:

“(...) O espírito humano vai desejando algo, que ainda não


é diretamente Deus. Ou, por assim dizer, pode não ser
diretamente Deus, mas que é outra criatura, outras
criaturas. Com o conviviu [sic] tão, tão alto, tão
extraordinário, tão excelso, tão fabuloso, trocando tais
idéias entre si e tendo uma presença tal, que nos ficamos
assim...” (Plínio Corrêa de Oliveira, gravação do MNF. –
Chá no S. Bento, 27/12/1982, 2a feira. O negrito e
sublinhado são nossos, e os erros ortográficos monstruosos
são do original).

Que dizer deste texto babilônico?

273
Em primeiro lugar que estão evidentemente na linha do que agora foi publicado
no livro que focalizamos: A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do
Universo.

Este livro confirma o que era ensinado há 27 anos atrás, no Jour-le Jour, pelo
agora super trans-esférico Mons. Scognamiglio.

Esse texto não passa de uma elucubração platônico-romântica, na qual se sonha


a existência de um outro mundo criado, mas não material, feito de raios de luz, e
superior ao mundo angélico conhecido. Tal seria o mundo dos seres possíveis, mas
criados “ab aeterno”. E que” poderia não ser diretamente Deus!!!???Por acaso algo
poderia ser indiretamente Deus?

Tal mundo, se parece, evidentemente, com o mundo das idéias de Platão... Com
tudo o que havia de tendência gnosticizante no pensamento platônico.

Como não notar, na exposição gravada e datilografada do que Plínio disse no


MNF, uma tendência a fugir do mundo concreto através do sonho de um mundo
imaterial, ou de uma matéria superior, como dizia Von Baader, ainda que Plínio não
deixasse de comer suas cerejas e “tortijas” muito reais e nada imaginárias?

Não temos dúvida de afirmar que, na doutrina de Plínio Corrêa de Oliveira e na


TFP, havia uma clara manifestação de Romantismo e uma doutrina que leva
diretamente à Gnose.

Compare-se isto que disse PCO com o poema de S. Francisco louvando a Deus
por causa das suas criaturas: “Lodato sia mio Signore, per sora nostra acqua, che é
molto utile, e umile e casta”. Sem sonhos platônicos.

As cerejas “ab aeterno” de Dr. Plínio não são “molto utile”.

São absolutamente inúteis.

E falsas, por serem irreais.

3 - Como Plínio descobriu os seres possíveis criados ab aeterno?


No mesmo chá, entre cerejas e tortijas muito reais, -- porque quando se tratava
de comer, Plínio exigia entes reais e jamais simples possíveis, ele queria comer só
coisas bem concretas e bem temperadas, e não seres só idealmente possíveis, PCO disse
coisas incríveis.

274
Aliás Dr. Plínio explicou que o modo mais comum e fácil para ele ter idéia da
Trans-esfera e de seus seres ab aeterno, era comendo coisas excelentes:

“Em que momentos, eu sentia que apanhava melhor essa


espécie de mistério de sublimidade e de luz, que queria
alcançar nas coisas?

“A resposta revela uma peculiaridade singular: era


sobretudo comendo. Como eu disse, algumas melodias
causavam-me encantos, mas nunca com a intensidade dos
que me eram proporcionados pela culinária. Isso,
entretanto, não acontecia pelo mero gosto de comer – o
qual, aliás, eu também tinha muito – mas porque certos
alimentos se me apresentavam conjugados com
impressões muito elevadas, e eu tinha a sensação de que
só as aprendia comendo aquelas coisas.“Por isso, não
hesito em dizer: fui sensível aos gáudios gastronômicos a
prima pueritia mea [desde a minha infância].”(Plínio
Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas,Vol. I, p. 375.
Os destaques e os colchetes, desta vez, são do original e
não nossos).

Plínio não foi apenas um filósofo que conversava sentado, enquanto Aristóteles
era peri patético. Plínio era um filósofo que filosofava sentado, e especialmente
comendo.

Plínio era guloso. É o que se depreende do que ele mesmo conta, nesse livro
editado pelos Arautos. A Inocência primeva era compatível com a gula. E também com
a preguiça, pois Plínio relacionava a virtude com a sua cama. E a Inocência Primeva
exigia uma modéstia e uma humildade muito singulares.

E Padre Royo Marin aprovou tudo isso...

Como Plínio teve a impressão da existência das criaturas “ab aeterno”?

Ele contava que duas impressões o levaram a concebê-las. A primeira foi no


dentista. A segunda... é uma surpresa, que deixamos para depois.

Vamos à impressão que ele teve no dentista, entre boticões e angústias infantis,
contemplando um quadrinho “muito ordinário” de Veneza.

É o próprio Profeta de Higienópolis quem fala:

“E tinha um quadrinho muito ordinário, pintado a fresco


na parede.

275
[Sic! Um quadro “à fresco”?? Mas isso é uma coisa
absolutamente extraordinária! Um quadro “à fresco”!
Seria uma criatura pintada “ab aeterno”?].

“E eu me lembro que eu ficava olhando para aquilo e


ficava extasiado”.

“Mas a sensação que eu tinha, era tão mais alta do que


qualquer Veneza real, ou qualquer outra coisa assim, que
eu reconheço hoje em dia, que eu sonhava com uma
ordem de coisas mais adequadas – nem eram anjos – mas
as criaturas criadas ab aeterno”.

[Note-se: ele sonhava com seres inexistentes. Contra o que


afirmou Leo Daniele no livro A Cavalaria não Morre].

“Mas como é que eu reconheço isso? Por uma certa forma


de frêmito que isso causava em minha alma. E em que
fremia, nos mais altos, nos mais altos, nos mais altos da
minha alma. E é uma arqui-Veneza, uma ultra Veneza,
extra Veneza, super Veneza, da qual aquela Veneza, que
eu admiro tanto, não era capaz de ser nem sequer o
arrabalde. Não era capaz de ser o arrabalde operário, a
favela.” (PCO – chá no S. Bento, 27/12/1982 , 2a feira – o
sublinhado e o negrito são nossos).

No texto acima, é claríssima a tendência romântica revelada pelos termos


“imaginar”, “sensação”, “sonhar”, “fremir”. Dr. Plínio não compreendeu a existência
dos seres “ab aeterno”: teve a sensação deles.

Ele sonhava uma ordem de coisas irreal que estaria para o mundo atual, como
Veneza estaria para uma favela. Ou, em outras palavras, um mundo tão fabuloso que,
aquilo que há de mais espetacular no mundo concreto (Veneza, por exemplo)
comparado com ele, seria uma favela.

Note-se, pois, a desvalorização do mundo concreto e material, se comparado


com o imaginário mundo “ab aeterno” de Plínio, mundo feito de luz.

Se isso não é sonho, o que seria sonhar?

Finalmente, esse mundo causava um frêmito em Plínio.

Está aí a “prova” da existência desse mundo etéreo: vendo um quadrinho


ordinário de Veneza, Plínio Corrêa de Oliveira fremia, “nos mais altos, nos mais altos,
nos mais altos” píncaros de sua alma.

276
Logo, os seres “ab aeterno” tinham que existir, já que só eles poderiam explicar
os tais frêmitos, nos mais altos píncaros da profética alma de Plínio. Mesmo que a
Revelação nada diga sobre os seres ab aeterno.

Azar da revelação!

Vamos, agora, à segunda impressão que permitiu a PCO descobrir os seres ab


aeterno.

É a surpresa que prometemos.

E ela é inacreditável.

Adivinhem o que foi que causou em Dr. Plínio a sensação da existência de seres
“ab aeterno”?

Adivinhem...

Não. Não adivinham.

....................????????....................

Os semáforos de S. Paulo!!!

Como? Como??

Os semáforos de São Paulo???

Que têm eles a haver com os seres ab aeterno???

Sim, os semáforos de S. Paulo!

Não acreditam, os caros leitores, no poder ab aetérnico dos semáforos de S.


Paulo?

Pois vejam lá.

Scognamiglio vai fazer o gravador tocar as palavras de Dr. Plínio.

“Bom, uma outra sensação tão mais ao alcanse [Sic] dos


Srs. – Veneza está ao alcanse [Sic] de todos os Srs. – mas
tão ao alcanse [Sic] que eu não sei o que dizer, é o que eu
contei na reunião de MNF, que me produziu ver as luzes
dos sinais luminosos de SP [São Paulo] que ainda
concidero [Sic! Ái! Ái! Ài!] bonitos.

“É uma coisa fantástica sinal luminoso. Como é que essa


beleza resiste a tanta feiura. Quem foi o homem que
escolheu aquele grau de luz, para os sinais luminosos de
277
SP? É uma coisa para se verificar numa historieta do
município de SP. Porque, se não foi por coincidência,
houve algum fabricante ou algum técnico que para um
fabricante bosal [Sic!] fez essas cores quintessenciadas, e
que vinheram [Sic!!] rolando para SP, por coincidência, é
perfeitamente possível. Não sei se em outras cidades do
Brasil o colorido não é o mesmo daqui. Mas se os Srs.
prestarem a atenção um lindo colorido.

“Penetrar, ficar olhando para aquela cor mudar, mudar,


mudar, e de cada vez pensar que se estar [sic] entrando
num universo azul, num universo vermelho, num universo
dourado, sucessivamente, e depois aquilo passa...

“Sinal não é nada. A questão é a cor, explorando todas as


variações daquela cor, e habitado portanto [???] por seres,
que já também seria [sic] de uma outra natureza.
Conforme o frêmito que isso provoque na alma, pode ser
um frêmito que chegue a isso, ao que os homens queririam
[sic], se conhecessem criaturas criadas ab eternas.

“Alguém dirá: ‘meditações vãs, meditações tolas, com que


o homem não tem nada com que fazer”.“Na reunião do
MNF, eu procurei explicar isso, repito apenas numa
palavra. A coisa é essa: A meditação não é vã porque Deus
criou na nossa alma, dando-nos a noção de universo,
embora Ele não tenha criado esse universo, com todos os
matisis [sic] possíveis, nem todas as perfeições possíveis,
Ele criou em nós a faculdade de imaginarmos essa
perfeição possível”.

“E evidentemente como tudo o que há em nós, é para o


serviço dEle, é para a glorificação dEle, isto em nós,
precisa ser explorado e tem sua razão de ser.” (Palavras de
Plínio Corrêa de Oliveira– Chá no êremo de S. Bento,
27/12/1982, 2a feira – O sublinhado e negrito são nossos.
– Os erros ortográficos são ab eternamente dos eremitas
plinianos que datilografaram a gravação da fita original).

Por essa o leitor não esperava, temos certeza!

Que Plínio considerasse os semáforos de S. Paulo uma coisa fantástica de


beleza, é absolutamente inesperado. Mais inesperado ainda é ele gostar de ficar olhando
o semáforo mudar, mudar, mudar de cor.

Inesperadíssimo é que os semáforos tão “lindos” de S. Paulo causassem nele o


tal “frêmito de alma” que podia provocar a sensação de um universo azul [Dr. Plínio era
um tanto daltônico], dourado, vermelho. Conforme o frêmito, bem entendido. Não
seria qualquer frêmito que provocaria essa sensação.
278
Frêmito tal que, portanto, – [oh inesperadíssimo “portanto”, de que mundo “ab
aeterno” tu caíste?] – que, portanto, daria a sensação de um universo habitado por seres
de uma outra natureza.

E não vamos perder mais tempo. Não se refuta, nem se responde ao que está
óbvio, pelo texto. Seria desprezar a inteligência de nossos leitores procurar lhes explicar
o que é evidente.

Não se argumenta contra sonhos. Nem, muito menos contra delírios. Ainda que
eles sejam “ab aeterno”. Somente se os conta, para que se os despreze.

Conclusão da Segunda Parte

Analisado o livro A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do


Universo, chega-se à conclusão que Plínio Corrêa de Oliveira foi um sonhador
burlescamente romântico gnóstico, que montou uma seita para ser cultuado em vida, e
para viver, bem concreta e opiparamente, neste mundo, que ele desprezava. Pois e era
preciso viver bem nesta vida...

Seria apenas o viver sibariticamente a finalidade visada por esse falso profeta?

Evidentemente, os graves erros contra a fé que PCO ensinava nas reuniões


“discretas” do MNF e da Sempre Viva indicavam que havia uma finalidade mais
profunda que a do prato que ele gulosamente sorvia.

Para compreender quem foi PCO e o que foi a TFP, seria preciso analisar as
origens desse romantismo delirante que ele praticava por formação pessoal, e que
defendia doutrinariamente.

O romantismo de Plínio tem duas origens principais:

Uma na educação muito estranha que ele recebeu de sua mãe, Dona Lucília,
educação deformadora da realidade, assim como deformante de sua mentalidade.

Isto levaria a outro problema bem importante: Plínio tirou tudo o que fez de sua
própria cabeça romanticamente deformada, visando apenas ser cultuado e viver como
um paxá? Ou havia algo mais sério por trás dele que se aproveitou de sua mentalidade
romântica para fins políticos, ou doutrinários mais profundos?

Cremos bem que a mentalidade romanticamente delirante que ele tinha, foi
aproveitada por grupos doutrinários “Discretos” que o utilizaram para fazer o que ele

279
fez: formar um grupo que atraísse católicos de alguma liderança, desviando-os para uma
seita gnosticizante, para assim esterelizar a ação desses líderes, pela heresia e pelo
ridículo.

Além da mentalidade que sua mãe inculcou nele, haveria outras fontes
doutrinárias, nas quais ele poderia ter abeberado uma doutrina esotérica de tipo
gnóstico, que explica certos pensamentos que o ligam a toda uma misteriosa corrente
“tradicionalista”, no pior sentido que essa palavra pode ter.Ele certamente recebeu os
princípios de um tradicionalismo esotérico que o ligam à direita européia. Muito
provavelmente as sociedades secretas, que ele fundou, estavam ligadas a correntes
ocultas como as do Martinismo e as do Martinesismo, através do bem maçônico Joseph
de Maistre. E provavelmente essas ligações secretas chegariam até a sociedades
esotéricas atuais na Europa e na América.

Os jovens que entravam inocentemente na TFP, ou eram católicos sinceros e de


reta intenção, pretendendo defender a Fé católica, ou eram oportunistas buscando
destaque.

Os moços sinceros que entravam no grupo de Plínio paulatinamente eram


conduzidos a tantas contradições, impossíveis de solucionar, que entravam numa crise
doutrinária e moral muito séria. Então, ou eles saíam desse grupo seleto e fechado, ou
ficavam totalmente desequilibrados. E na TFP, havia tantos jovens que passavam a ter
problemas psicológicos, que Plínio teve que montar asilos e refúgios psicológicos para
eles. E os gastos com remédios para dormir e com estimulantes para acordar, na TFP,
era bem elevados, ficando alguns viciados nesses medicamentos...

O mito causava nesses ingênuos um tal choque com a realidade que, os


psicologicamente mais fracos, facilmente caíam em depressão, ou em desequilíbrios
psíquicos mais graves ainda.

Se os moços tefepistas não eram sinceros, se eram oportunistas, logo ficavam


cínicos, abolindo todo escrúpulo moral. Desapareciam neles os limites entre verdade e
mentira, entre bem e mal, entre lícito e ilícito. O mito tudo aplainava. Importante era
imitar o inocente Plínio...

A Inocência primeva admitia ficar “submersa num mar de pecados”... E mesmo


assim, se poderia alcançar a salvação, porque não seremos julgados “ por uma tabela de
dez mandamentos” .

280
Adeus escrúpulos.

Viva a esperteza.

Foi o que Scognamiglio compreendeu muito bem.

A TFP era um sistema montado apenas por um sonhador romântico, ou foi um


sistema conscientemente usado para destruir promissores líderes católicos?

Foi ela um “sistema montado para espremer laranjas, e depois jogar fora os
bagaços”, como bem disse um moço destruído lá dentro, pois que viveu bem dentro do
núcleo dirigente da seita?

A esterilização através de uma vida que adormecia a contradição no cinismo, e a


destruição psíquica de ingênuos, mais fracos, o ridículo a que a seita levava os seus
membros, eram um fim político conscientemente buscado?

Basta conhecer razoavelmente a História e a seriedade da luta entre a Cidade de


Deus e a Cidade do Homem, para se concluir que a hipótese de haver um sistema
propositalmente montado com esses fins tem tudo para ser verdadeira.

Para compreender, então, realmente quem foi PCO, e porque ele montou a TFP e
a Sempre Viva, deve-se estudar, em primeiro lugar, a sua doutrina do conhecimento.

Depois, a formação de sua mentalidade, muito “inusual”, por sua mãe, que o
dominou a vida inteira de modo bem estranho. Para isso é necessário analisar o livro
Dona Lucília, fonte mais rica e indispensável, para se conhecer a mentalidade de PCO.

O “autor” oficial do livro Dona Lucilia teria sido João Scognamiglio Clá Dias,
cujo nome aparece na capa dessa obra. Ele foi o discípulo perfeito e querido de PCO,- a
sua “menina dos olhos”--, e o principal difusor do culto de PCO e de Dona Lucília,
antes na TFP, e hoje, entre os chamados Arautos do Evangelho. Do “evangelho” de
Plínio, entenda-se.

Foi Scognamiglio quem, depois da morte do imortal Plínio, dividiu, diminuiu, e


destruiu a TFP, mas adicionou, somou e multiplicou seus recursos pecuniários e sua
fontes financeiras, tornado-se, atualmente, no muito endinheirado e muito bem sucedido
Monsenhor Cônego da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Ele é aquele que “já
recebeu a sua recompensa” (Mt VI, 2).

281
É praticamente certo que Scognamiglio, o discípulo preferido de PCO, só
emprestou seu nome- etimologicamente tão significativo-- para camuflar o verdadeiro
autor da obra Dona Lucília.

O verdadeiro autor deve ter sido o próprio PCO, que fez palestras contando em
detalhes muito íntimos o que sabia da vida de sua mãe, -- e o que não sabia, ele
inventava -- a fim de fazer uma obra que preparasse o culto dela, na TFP, como degrau,
para ele mesmo, depois, subir mais facilmente aos altares tefepistas.

No futuro, Deus permitindo, analisaremos trechos dessa obra editada em três


luxuosíssimos e imensos volumes. Que compramos, baratinha..., num sebo, porque
“sicut transit gloria”... idolorum mundi..

Para conhecer as fontes das estranhas e bem esotéricas doutrinas de PCO, seria
preciso ter em mãos todos os textos secretos do chamado MNF, textos que tem dezenas
de milhares de páginas.

Esses textos são de conferências praticamente secretas pronunciadas por PCO,


em reuniões reservadas apenas a um pequeno círculo de fanáticos. Essas palestras do
MNF é que deram base para formar a sociedade secreta A Sempre Viva, que cultuava
Plínio com um culto maluco baseado em teorias delirantes, das quais vimos algo na obra
que acabamos de analisar, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do
Universo.

Porém, antes dela ser editada pelos chamados Provectos da TFP, o sucesso,
aliado à imprudência, causaram em Scognamiglio, a ilusão de que ele podia publicar
tudo o que PCO ensinara secretamente. Por isso, ele deu a público muitos textos do
MNF na Revista “Dr. Plínio”, revista de amigos dos Arautos dos quais Scogmamiglio é
o grão mestre. Scognamiglio–que nada tem de intelectual, pois é um simples
oportunista, um arrivista na vida e no clero--nem percebeu que erro foi o de publicar,
sem correção e quase sem censura maior, longos textos do MNF, principalmente nos
cem primeiros números dessa revista de nome absurdo: “Dr. Plínio”. Depois, ele ficou
um tanto mais cauto… e os textos do MNF ficaram mais raros em sua revista…

Os artigos da revista “Dr. Plínio” são “um prato cheio” de delírios descabelados,
confirmadores da doutrina exposta no livro A inocência Primeva e a Contemplação
Sacral do Universo.

282
Essas doutrinas têm tanta relação com as doutrinas das seitas esotéricas
martinistas e da Gnose romântica que apontam em direção de uma bem possível
iniciação de PCO em alguma seita secreta.

Estudaremos textos publicados na revista “Dr. Plínio”, numa terceira parte deste
nosso trabalho.

Depois, veremos o culto delirante que PCP montou para si mesmo e para sua
mãe, culto do qual o grande difusor foi João Scognamiglio Clá Dias.

Este estudo se completaria com a análise do Livro Dona Lucilia e com uma
biografia veraz de PCO, biografia que infelizmente o Professor de Mattei não
fez.Veremos o que poderemos executar desse plano.

283
TERCEIRA PARTE: A MENTALIDADE ROMÂNTICA DE
PLÍNIO

Capítulo I

Qual era a verdadeira religião de PCO?

“Niente più bugiardo che un epitafio”


(Provérbio italiano).

Nada há mais mentiroso do que um epitáfio, diz um


provérbio italiano. Com efeito, a vaidade humana ultrapassa os
limites da vida, e o orgulho faz questão de se manter vivo e
ativo além dos umbrais da morte. O homem deseja manter a
memória de seu prestígio, mesmo estando morto, e, para isso,
por vezes, faz registrar epitáfios que perpetuem sua fama. Ainda
que falsa.
Plínio Corrêa de Oliveira, que sempre aspirou honras,
queria que em seu túmulo fosse registrado que ele foi, em vida,
totalmente católico.
Teria sido isso realmente verdade?

Demonstramos a doutrina errada de Plínio por meio de seus


textos. Vimos como sua doutrina da inocência primeva era contrária à
Fé católica, e como todos os seus demais princípios eram afins com a
Gnose, e especialmente com a Gnose e o subjetivismo idealistas.
Entretanto, quem errou tanto em matéria de Fé, quem tanto
iludiu a outros sobre si mesmo e sobre sua verdadeira doutrina,
quem se auto-proclamava “o varão católico todo apostólico” -
Plinius, Vir Catholicus et Totus Apostolicus, merecia ele
realmente esse epitáfio? Ou seria ele um epitáfio merecidamente...
“italiano”
Ele queria mesmo que essa afirmação, em latim, fosse
colocada como epitáfio, em seu túmulo.
Queria, pois, continuar enganando os crédulos mesmo depois
de morto.
Eis o que sobre ele publicaram os seguidores de Scognamiglio:
“De uma notável humildade, [Dr. Plínio] era insensível aos
louvores. Apenas um elogio era capaz de fazê-lo emocionar-se, por
vezes, até as lágrimas:“Vir catholicus, et totus apostolicus, plene
romanus”. Nada mais do que isto ele pretendia ser: “Varão católico,
todo apostólico, plenamente romano”. São as palavras que, de

284
acordo com seu desejo, constituem o epitáfio inserido no seu túmulo,
no cemitério da Consolação. (Editorial “Vir Catholicus”, in Revista
“Dr. Plínio”, Ano II, n0 15 , Junho de 1999, p. 4).
E católico ele não foi.

Desde moço, ele tinha uma noção heterodoxa da religião da


qual se dizia defensor.
Que era a religião Católica Apostólica Romana para Plínio?
Como Plínio Corrêa de Oliveira, considerava o Catolicismo?

Vimos que PCO, quando se tornou dirigente da Liga Eleitoral


Católica, declarou que considerava o Catolicismo a forma mais
elevada e genuína de espiritualismo (Cfr.Plínio Corrêa de Oliveira,
Liga Eleitoral Católica --- A Postos! Artigo publicado no “O
Legionário”, em 15 de Janeiro de 1933, apud Catolicismo, Maio de
1983, Ano XXXIII, N0 389, p.5).
Quer dizer que, para Plínio Corrêa de Oliveira—o varão que se
pretendia totus catholicus--, o Catolicismo não era tido como a única
religião verdadeira. Era apenas “a mais elevada e genuína forma de
espiritualismo”.
O que não é uma confissão de Fé católica, mas uma afirmação
típica de quem buscava votos sem se definir francamente. Um
candidato maçon, visando votos, não diria diferentemente.
Vimos ainda que ele afirmou num artigo no Jornal da
Constituinte, em 1933- 1934, que ele considerava que não existia
uma única doutrina que pudesse se inculcar como senhora dos
espíritos. Portanto, que o Catolicismo não poderia pretender
converter a todos os homens. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo,
“Jornal da Constituinte”, em 23 de Novembro de 1933, citado no
editorial da revista “Dr. Plínio”, com o título 15 de Novembro de
1933 – Na Abertura da Constituinte, Ano VII, Novembro de
2.004, N0 80, p. 5).
E essa formulação, tipicamente liberal, é bem imprópria para
um “Crociato” do século XX. Ela é, no fundo, negadora de que o
catolicismo seja a religião divina que Jesus Cristo mandou que fosse
ensinada a todos os homens.

Essa frase de Plínio é um absurdo, que só um liberal poderia


defender. E só um Deputado “católico” moderno diria isso num
ambiente liberal, para não desagradar seus colegas membros de
certas sociedades secretas.
E Plínio, na década de 30, logo depois de Pio XI ter condenado
o ecumenismo na encíclica Mortalium Animos (1929) se mostrava
ecumênico ao modo do Vaticano II, isto é, como os modernistas já o
eram desde a Belle Époque.
No jornal O Legionário, órgão católico que ele dirigia, ele se
punha como ecumênico, pois dizia que não queria reavivar velhas
desuniões com os “irmãos de crença”. Isto é, que não queria
285
desagradar aos protestantes. Afinal, eles tinham votos, que mesmo
sendo poucos, convinha cortejar.
Plínio, o “Crociato” do século XX era ecumênico na linha do
Padre Congar e do Abbé Lambert Bauduin:
“Esta é a grande verdade que o fracasso do totalitarismo
revela. Relembramo-la nesta ocasião memorável, não para reavivar
dissídios com irmãos de crenças, mas para declarar que –
excetuada esta grave lição que contem o suco de toda a trágica
experiência destes últimos anos tão ricos em ensinamentos – tudo
esquecemos, que só queremos olhar para o futuro” (Revista “Dr.
Plínio”, Ano II, Setembro de 2.000, N0 30, p.26. O destaque é
nosso).
O “vir catholicus” não queria reavivar dissídios com os “irmãos
de crenças”. Naqueles tempos da Mortalium Animos de Pio XI, Plínio o
varão que tumularmente pretendia ser “totus catholicus”, era irênico.
Já antes, ao tomar posse da direção do jornal “O
Legionário”, em 1928, Plínio escrevera:
“Até então o Legionário tinha uma certa tendência para se
dirigir ao grande público no interesse de conquistá-lo. Era escrito, em
parte, para converter para a religião católica aqueles que não eram
católicos, em parte para afervorar e orientar os que já eram
católicos.
“Lendo o jornal “Sept”, compreendi que isso estava errado,
(SIC!!!) pois um jornal de pequeno formato ou de pequeno tamanho,
ou devia dirigir-se para um público especial, influente e não pequeno,
e através desse público influenciar todo o conjunto, ou não adiantava
para nada.“O Legionário, então, deixou de ser um jornal feito para
converter os não católicos, mas para formar uma mentalidade”.
(Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O “Legionário” Arma de Batalha
pela Igreja, in Revista “Dr.Plínio”, Ano VI, N0 61, Abril de 2.003,
p. 27).

Está aí uma confissão preciosa das finalidades de Plínio Corrêa


de Oliveira: inspirado pelo jornal modernista Sept: o varão
pretensamente todo católico e todo apostólico considerava que era
errado usar um jornal pequeno para converter os hereges e para
afervorar os católicos.
E isso está escrito num artigo cujo título falava em batalhar
pela Igreja!
Ele não visava defender ou difundir a Fé católica, mas difundir
uma “mentalidade”.
Qual?
Qual era, então, a finalidade de Plínio?

Muito vagamente dizia que era difundir uma mentalidade!

286
Veremos, mais adiante, que a mentalidade que Plínio Corrêa de
Oliveira procurou difundir entre os católicos era a mentalidade em
que sua mãe o formara: a mentalidade romântica.
E ele confessou que decidiu fazer assim por influência da
revista modernista Sept.
Naquele tempo, poucos sabiam que era o periódico Sept, e
que pensavam os dominicanos franceses que inspiravam essa revista.
Mas, hoje, é um escândalo vir a saber que Plínio Corrêa de Oliveira
iniciou sua carreira de líder católico, inspirando-se na revista Sept. E
ele vai passar a vida dizendo-se devoto de São Pio X, cuja obra a
revista Sept, sendo modernista, combatia. O líder “ultramontano”
brasileiro era seguidor de uma revista modernista. Tais coisas
acontecem só no Brasil.
Se o imperador Dom Pedro II era republicano, e o Marechal
Deodoro, proclamador da República, era monarquista, porque um
líder que se dizia ultramontano, Plínio, não poderia seguir a
inspiração de uma revista modernista?
Para ele, ser “ultramontano” devia depender de que lado das
montanhas se está. Assim , todo mundo pode se dizer
“ultramontano”...
Prossegue Plínio:
“Transformei então o “O Legionário” num órgão especializado
para o Movimento Católico. Não tinha por fim ajudar os católicos a
converter não católicos, mas formar sua mentalidade” (Plínio Corrêa
de Oliveira, artigo “O Legionário”, Arma de Batalha pela
Igreja, in Revista “Dr.Plínio”, Ano VI, N0 61, Abril de 2.003, p.
27).
Plínio visava então formar os católicos numa certa
mentalidade que não os afervorasse, e nem combatesse, e muito
menos, convertesse, os hereges. Perdão, “os irmãos dissidentes”.
Caso não se tivesse, por escrito, essa confissão ecumênica e
liberal explícita de Plínio, ela seria inacreditável!

Devemos agradecer a Monsenhor Scognamiglio o ter permitido


que os amigos dos Arautos do Evangelho publicassem esses textos de
Plínio Corrêa de Oliveira, nos quais fica patente que o pretenso
“varão todo católico e todo apostólico”, não pretendia nem converter
hereges, nem afervorar os católicos, mas apenas formar os católicos
numa mentalidade diferente da que tinham, na mentalidade de Plínio:
a mentalidade romântica.

Portanto, o que Plínio determinou fazer no jornal O


Legionário – nem converter hereges, nem afervorar católicos – era
o oposto de que faria um homem que desejava ter por epitáfio “Vir
totus catholicus et totus apostolicus”. Daí, se conclui que ele quis
fazer de seu túmulo um out-door de auto propaganda, um elemento
a mais na criação de seu mito.

287
E veja-se que “paradoxo”, ou melhor que contradição: um
homem que se pretendia imortal redigir seu epitáfio!...
Isso foi, pelo menos, um paradoxo...fúnebre.
Só Plínio seria capaz dessa proeza dialética, sem despertar o
bom senso de seus fanáticos.
E tudo isto comprova quanta razão têm os italianos ao
considerar que: “Nada há mais mentiroso do que um epitáfio”.

Capítulo II

A Tradição Romântica na Belle Époque e a


Contra Revolução Pliniana

Acabamos de ver Plínio afirmar que seu objetivo, seguindo o


modelo da revista modernista Sept, era “difundir uma mentalidade”
no meio católico.
Qual era essa mentalidade?

Examinando toda a sua obra—TFP, Sempre Viva, Arautos do


Evangelho – se vê claramente que essa mentalidade foi a do
Romantismo. E o Romantismo é gnóstico e revolucionário. Portanto,
Plínio foi um revolucionário, travestido de católico tradicionalista.
Que essa mentalidade que Plínio desejava difundir era a do
Romantismo se comprova também por inúmeros textos dele. Toda a
revista “Dr. Plínio”, assim como o livro Dona Lucília -- do qual
Scognamiglio assumiu a autoria, o comprovam. Como também agora
288
os livros Inocência Primeva e o Notas Autobiográficas que vimos
citando.

Plínio mostrou que, logo após o fim da Primeira Guerra


Mundial, se registrou uma luta entre a mentalidade americana –
Yankee—triunfante na guerra, e a mentalidade dos derrotados na
Guerra, pois “verificou-se a queda na Europa do que representava a
tradição, hierarquia, esplendor de vida, amor à beleza das formas,
dos gestos e das atitudes. E com o declínio dessas tradições,
simultaneamente, o advento da influência norte americana”. (Plínio
Corrêa de Oliveira, artigo O Transatlântico e o Cais, in Revista “Dr.
Plínio”, N0 65, p.27).
E Plínio tomava posição nítidamente a favor do que ele
denominava “tradição”. Ora, ver a Belle Époque como tradicional e
hierárquica era considerar romanticamente essa época horrenda.
Sem dúvida, é verdade que com o fim da Primeira Guerra
Mundial, em 1918, morreu a Belle Époque, que era a época do
domínio das monarquias amancebadas com o liberalismo, mas que
Plínio absurdamente considerava como sendo o último resplendor da
Idade Média.
Aliás, a defesa da horrenda Belle Époque é repetida várias
vezes por Plínio e por aquele que foi a menina de seus olhos, João
Scognamiglio.

Por exemplo, ao fazer sua auto biografia, Plínio, tratando da


Belle Époque disse de um modo saudosista e deformador do
passado:
“Era tudo diferente! Ainda havia um resto de perfume da Belle
Époque, que trazia consigo um pouco das brisas do Ancien Régime,
que por sua vez tinha uma certa continuidade histórica com a Idade
Média” (Plínio Corrêa de Oliveira, Palestra auto biográfica, in
revista “Dr. Plínio”, Ano VI, Novembro de 2.003, N0 68, p. 28.
Destaques do original).
E também a defesa do Ancien Régime—da Monarquia
Absolutista – sem qualquer crítica religiosa, moral e política, era
sonho de monarquista romântico, que, por saudades sentimentais da
Monarquia, não distinguia o Absolutismo da Monarquia católica, como
existiu na Cristandade medieval.
No livro Dona Lucília, cujo muito provável autor é Dr. Plínio,
sonhadoramente se define a “Belle Époque” como “Período da
História do Ocidente caracterizado pelo requinte da vida de
sociedade, da cultura, das boas maneiras, do vestuário e da
existência em geral, restos preciosos do regime anterior à Revolução
Francesa. Durou desde as últimas décadas do século passado até os
trágicos cataclismos político-sociais provocados pela Primeira Guerra
Mundial” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p.73, nota 2).
Repare-se como se dá valor excessivo às “boas maneiras” e ao
“vestuário”, e não se fala da corrupção moral dessa “Porca Época”. E
289
as brisas do “Ancien Régime” eram moral e fisicamente mal
cheirosas. No Ancien Régime, em Versailles não havia nem banhos e
nem banheiros. Pior ainda, havia escândalos monstruosos numa corte
corrupta.
Essa opinião sentimental sobre a Belle Époque foge
escandalosamente da verdade histórica. Basta lembrar que a “Belle
Époque” foi a época do Modernismo na Teologia, da Arte Moderna, do
Decadentismo de Oscar Wilde, do Anarquismo e do Bolchevismo, do
Néo-Colonialismo, inteiramente econômico, e de uma enorme
decadência moral.
A chamada Belle Époque foi uma época corrupta, -- “La porca
época”, decadente e inconsciente de sua própria podridão, que se
divertia em cabarés à beira do abismo da Primeira Guerra Mundial.
Por isso, um autor a denominou com perspicácia de “o alegre
Apocalipse” (Cfr. João Marcos Coelho, Beethoven e o Romance de
Formação, artigo in Cultura, Suplemento dominical de O Estado de
São Paulo, 8 de Outubro de 2006, caderno D6).

Repetindo a opinião de Dona Lucília e de seu filho PCO,


Scognamiglio, o ““autor”” do livro “Dona Lucília”, não só considera
a “Belle Époque” como escrínio conservador “dos restos preciosos do
regime anterior à Revolução Francesa” – sem fazer, como
dissemos, qualquer restrição à corrupção e ao Absolutismo do Ancien
Régime – como chega ao cúmulo de considerar o período anterior à
Primeira Guerra Mundial como sendo um crepúsculo tornado
majestoso pelos últimos fulgores da Idade Média !
“(...) voltemos nosso olhar para o estado do mundo nos anos
anteriores a essa conflagração [a Guerra de 1914]. Naquele tempo
refulgem ainda, nas nações ocidentais e cristãs os últimos fulgores da
civilização medieval“ (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol.II, p. 9).
Realmente é muita vontade de mitificar o passado, ver
“Fulgores da Idade Média” na Belle Époque. Que luneta romântica
saudosista de lentes cor de rosa usaram Plínio, Dona Lucília e
Scognamiglio para ver fulgores medievais nessa época suja e
tenebrosa?
E sempre que o “autor” do romance “Dona Lucília” faz
referência à corrupta “Belle Époque”, ele coloca algumas expressões
recendentes de romantismo para elogiá-la:
“Cena da qual se exalavam alguns dos delicados perfumes da
Belle Époque “ (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p.109).
“Continuemos a acompanhar Dona Lucília no momento em que
o brilhante mundo da Belle Époque atingia seu apogeu” (J.
Scognamiglio, Dona Lucília, vol. I, p. 137).
“Menor não era a sua admiração pelo esplendor daquela
requintada sociedade dos últimos anos da Belle Époque, que então
atingia seu máximo reluzimento” (J. Scognamiglio, Dona Lucília, vol.
I, p.162).

290
“É contemplar aquele ambiente todo, denso de imponderáveis
da aristocracia, de elevação de espírito, últimos ecos da Belle Époque.
Jamais ela se esquecerá dessas soirées” (J. Scognamiglio, Dona
Lucília, vol. I, p. 170).
O “autor” se atreve até a ver na Belle Époque restos da Idade
Média:
“Naquele tempo refulgiam ainda, nas nações ocidentais e
cristãs os últimos fulgores da civilização medieval” (J. Scognamiglio,
Dona Lucília, vol. II, p. 9). E ousa apresentar, ao lado da monarquia
austríaca, as monarquias russa e prussiana, como “veneráveis” (J.
Scognamiglio, Dona Lucília, vol. II, p. 9).
Até os bailes da Belle Époque seriam admiráveis e castos, já
que Dona Lucília e seu “filhão” os freqüentavam por assim
considerá-los:
“O que restava de pomposo no teor de vida de então ainda
exigia o comparecimento a bailes em elegantes e distintos trajes,
inspirados em geral nos modelos franceses” (J. Scognamiglio, Dona
Lucília, vol. II, p. 15).
E PCO falando ventrilocamente pela “pena” de Scognamiglio,
escreveu sobre o Romantismo:
“Movimento artístico e literário que dominou o século passado,
o romantismo, ao lado de péssimos veios filosóficos, apresentava
interessantes traços culturais e psicológicos. Razão disso foi o fato de
a intelligentzia do movimento ter sido obrigada a contentar uma
sociedade a qual, após passar pelas desventuras da Revolução
Francesa, tendia a abraçar uma posição melancólica em relação aos
infortúnios de que tinha sido vítima, bem como a reagir contra o
racionalismo e a frivolidade do classicismo.
“Se de um lado glorificou-se a tristeza em dramas e óperas
trágicas, de outro propiciou-se o aparecimento de estudos históricos
que reabilitaram a Idade Média, favorecendo a tendência ao sério e
ao maravilhoso. Eis, na conjugação destes elementos, o pano de
fundo de tantos acontecimentos do século XIX”.
(João S. Clá Dias, Dona Lucília, Art Pres, São Paulo, Setembro 1995,
Vol.I , p. 95, nota 1. O destaque é do “autor”).
Vê-se, pelo que diz o “autor”, que, apesar de criticar ele “os
péssimos veios filosóficos” do romantismo, ele via com simpatia o
“maravilhoso”, tal como foi promovido por essa escola literária.
[De onde será que ele retirou o termo “veios”? Creio que sei de
onde...].
Desconhecia o “autor” que o “maravilhoso” do romantismo
tinha fundamento na teosofia de Franz Von Baader e de Novalis, que
a haviam bebido em Jacob Boehme. O Romantismo é uma corrente
artística, doutrinaria e psicologicamente gnóstica. Conforme Alain
Besançon, ele foi o veículo usado para introduzir a Gnose na Igreja.
Por sua vez, Jamil Mansur Haddad, em seu livro “Romantismo
Brasileiro e as Sociedades secretas do tempo” afirma:

291
“Se nem sempre o Romantismo foi maçônico, a Maçonaria foi
sempre romântica”. “O espírito maçônico é o espírito romântico”
(Jamil Mansur Haddad, op. Cit. p. 49).

E, como primeira conclusão de sua obra diz Mansur Haddad:

“– 1 – O Romantismo e a Maçonaria traduzem um mesmo


estado de espírito. Ambos são a tradução de um momento
eminentemente individuado da evolução do espírito humano” (J. M.
Haddad, op. cit. P. 109).

“O Romantismo e Maçonaria traduzem umo mesmo estado de


espírito”. Uma mesma mentalidade.
Ora, Plínio tinha mentalidade romântica.
Logo...
Será tão difícil concluir esse silogismo?
Ora, toda a obra que focalizamos está prenhe de mentalidade
romântica. E o seu “autor” não condena de modo absoluto essa
escola de arte, e se revela completamente embebido de mentalidade
romântica.

Era também verdade que em 1918, o grão finismo corrupto da


Belle Époque agonizou ferido de morte pela “american way of life”.
Ao findar a Guerra Mundial, os Estados Unidos despontaram
como a nação líder na política internacional, e o prestígio de sua
vitória permitiu ao seu Presidente, Wodroow Wilson, impor ao Mundo
a Sociedade das Nações e a “american way of life”.
A SDN fracassou. A “american way of life” está aí.
O cinema, Holywood, o jazz, a mecanização, o automóvel, o
método Taylor, o otimismo, e a democracia liberal americana, eram
as marcas da nova mentalidade yankee, triunfante na Guerra
estúpida:na “Drôle de guerre”.
Da chamada “Belle Époque”, o romântico ““autor”” do romance
“Dona Lucília” – isto é, seu inspirador, PCO -- elimina quer o culto
religioso da Ciência e da técnica, quer o misticismo herético embutido
na Filosofia de Bergson e de Blondell, quer ainda a irrupção da
heresia Modernista.
A admiração positivista da Ciência se manifestou, por exemplo,
na Exposição Universal de Paris, em 1889, para comemorar o
centenário da Revolução Francesa. Para festejar e marcar essa data,
é que se construiu o “monumento ao parafuso” -- a Tour Eyffel –
como verdadeiro “marco fundador da nova ordem científico-
tecnológica” (História da Vida Privada no Brasil República: da
Belle Époque à Era do Rádio, Nicolau Sevcenko et allii, Companhia
das Letras, 1998, p. 10).
Esse mesmo autor mostra que “No fim do século XIX, o
impacto e a difusão das novas máquinas deixavam claro que um
modo de vida mecanizado e acelerado viera para ficar. A Grande
292
Exposição parisiense de 1889 transformou essa constatação num ato
de fé e entusiasmo no século da Ciência e da Técnica que se
abriria”(Sevcenko, op. cit. P. 12).
Estava então na linha dessa “Fé” laica e na esperança de triunfo
de uma Nova Era científica, a instalação de uma paródia elétrica da
estrela de Belém. “A gigantesca estrela iluminada no topo do Pavilhão
da Eletricidade -- [na Exposição Universal de 1889] – portanto, não
apenas simbolizava uma inovação técnica, mas tal qual aquela outra
no início da Era Cristã, era o emblema que guiaria a humanidade na
nova fase histórica inaugurada pelas tecnologias modernas”(
Sevcenko,op. cit., p. 10).
“Por volta de 1900 o poder da tecnologia estava muito além do
que qualquer outro século jamais sonhara. Não havia precedente
histórico para o que se passava... Isso suscitou um otimismo curioso,
uma fé que afirmava, com efeito, que estávamos no caminho
certo (...) o poder do conhecimento resolveria todos os problemas e
nos alçaria a mundos novos e utópicos”( I. Tolstoi, The Knowledge
and the Power”p. 205, apud Sevcenko,p. 514).
Segundo comenta Sevcenko, a respeito do papel do cinema
nessa visão utópico-religiosa da Belle Époque “É o escopo da nova
era, quando as grandes potencialidades da vida não mais dependerão
de fontes religiosas, acadêmicas ou do saco de dinheiro, mas
transbordarão aos rincões mais remotos da terra ao comando do
mais humilde herdeira da inteligência divina”( Sevcenko,op. cit., p.
520).
Essa era a nova “Fé” sobre a qual se fundava o século XX. Essa
era a aurora da Nova Era de Auschwitz e do Gulag, do Vaticano II e
de Picasso.

Mas, em contra partida a esse triunfo da técnica, Plínio afirmou


ainda que, no raiar do novo mundo, em 1918, depois da Primeira
Guerra Mundial, “As riquezas do espírito, as arquetipias, as
maravilhas que nos dariam vontade de fugir da terra para pensar só
nelas, tudo começava a ser posto de lado.” (Plínio Corrêa de Oliveira,
artigo O Transatlântico e o Cais, in Revista “Dr. Plínio”, N0 65,
p.28. O destaque é nosso).
E destacamos, nesse texto, o desejo de “fugir da terra”,
porque isso era típico da mentalidade gnóstica do Romantismo o
querer fugir da terra, fugir da realidade.
Os românticos—como todos os gnósticos—detestavam o
mundo em que vivemos, queriam “fugir da terra” e procuravam
explicar os males relativos existentes no mundo atual, como
resultantes de uma queda da Divindade, e como se esses males
fossem substanciais. Ora, isso contrariava o que Deus diz na Sagrada
Escritura, que “Deus viu todas as coisas que tinha feito e eram muito
boas” (Gen. I, 31).

293
A Gnose – e o Romantismo por ser gnóstico – é uma revolta
contra as penas que Deus impôs ao homem ao ser expulso do paraíso
terrestre, para este vale de lágrimas. Sendo assim, o Romantismo se
constitui como uma recusa à cruz, e como um sonho de recuperar a
inocência primeira e de retornar ao Éden, pelo menos pelo sonho.
Plínio acreditou nesse sonho. É o que vimos em seus textos
sobre a Inocência Primeva.

Plínio disse que até sua própria tão decantada concepção de


Revolução e de Contra Revolução provinham de sua mentalidade
embebida de Romantismo que se opunha à mentalidade yankee:
“Trata-se de considerar, agora, quais foram as impressões
primeiras que determinaram na minha alma essas reflexões e
pensamentos sobre a Revolução e a Contra-Revolução”.
“As impressões que alguém nas minhas condições podia ter
eram de duas espécies diferentes. Umas oriundas do relacionamento
humano de pessoa a pessoa ou num ambiente social; outras vinham
do contato com a natureza. A nota tônica, contudo, era dada pela
impressão do convívio humano, que mostrava esse
entrechoque da tradição romântica do século XIX e da Belle
Époque do início do século XX contra o vento dito “norte-
americano” que começava a soprar e como os homens agiam em
função dele” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Transatlântico e o
Cais, in Revista “Dr. Plínio“, Ano VI, Agosto de 2.003, N0 65, p. 29.
Os destaques são nossos).

Portanto, a mentalidade que Plínio queria defender em 1930


era a mentalidade romântica, vigente ainda na Belle Époque, e que se
opunha à nascente e crescente “american way of life”.
Nessa última citação acima colocada, Plínio afirma
explicitamente que “A nota tônica, --[que determinou suas reflexões
e pensamentos sobre Revolução e Contra Revolução] -- contudo, “era
dada pela impressão do convívio humano, que mostrava esse
entrechoque da tradição romântica do século XIX e da Belle Époque
do início do século XX contra o vento dito “norte-americano”.

A tradição e a Contra Revolução plinianas foram então


gestadas pela mentalidade romântica da Belle Époque!
Está aí confessado: a Tradição e a concepção de Contra
Revolução de Plínio eram fruto de sua mentalidade romântica.
Nesse texto, fica patente que Plínio considerava que a
Tradição, que ele defendia e na qual fora formado, era a expressa
pelo Romantismo da Belle Époque.

Plínio registrava então que, após a Primeira Guerra mundial,


houve um confronto entre duas mentalidades:
a) Uma mentalidade racionalista, técnica, prática, -- que
Plínio chamava de mentalidade Yankee;
294
b) Outra mentalidade, que Plínio chama de tradicionalista, é
reconhecida por ele como romântica, anti racionalista e anti técnica.

Aqui convém lembrar que, durante todo o século XIX, houve


oposição entre os partidários do ateísmo anti clerical da Revolução
Francesa, seguidoras do romantismo chamado realista e naturalista,
de caráter panteísta e esposada pelo Grande Oriente, e uma corrente
mística, intuitiva, de caráter gnóstico, correspondente ao
Romantismo lírico e simbolista, defendida pela Maçonaria mística do
tipo da maçonaria escocesa, ou rosa-cruz.
Os liberais racionalistas, em 1889, para comemorar o
centenário da Revolução Francesa, ergueram a Torre Eyffel, -- o
Monumento ao Parafuso – torre símbolo de sua mentalidade
técnica, e de sua esperança na realização da Utopia, enquanto que os
adeptos da mentalidade romântica lírica, mística e mágica,
construíram, nos Alpes da Baviera, pelas mãos do Rei Luís II,
“discípulo” do nazista “avant la lettre”, Richard Wagner, o castelo de
Neuschwanstein, o Monumento à Lenda.
E Plínio admirava muito o castelo de Neuschwanstein, castelo
de fadas à la Walt Disney, castelo postiço de tijolos e magia feito por
um rei homossexual e suicida. Nos êremos da TFP, havia fotos de
Neuschwanstein envolto em nuvens, e sob essa foto se escrevera:
“Paradisologia”, para indicar o sonho edênico desse castelo de lendas.
Convém registrar, para bem da verdade, que Plínio fazia um
leve reparo ao Romantismo, chamando-o de “entorpecente
psicológico”.

No artigo — O Transatlântico e o Cais – que citamos mais


acima, Plínio faz uma leve reserva ao Romantismo: “Quer dizer, nas
tradições do século XIX e da Belle Époque nem tudo era bom odor,
pois havia nelas uma espécie de entorpecente psicológico: o
romantismo. Era um passado em que apareciam juntos, se quiserem,
os heróis da Contra-Reforma misturados com os românticos, como,
por exemplo, Chopin”. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O
Transatlântico e o Cais, in Revista “Dr. Plínio“, Ano VI, Agosto de
2.003, N0 65, p. 31. Os destaques são nossos).

E Plínio conta, então, como ele era tentado pelo


entorpecente psicológico do Romantismo:
“Vou me descrever a mim mesmo”.”E na hora de me
descrever para mim mesmo, o próprio enlevo pela tradição que eu
amava, e pela Igreja que eu quase diria adorava, levava-me a
perceber o reflexo dessas coisas na minha alma e a ser tentado de
enlevar-me comigo. Era a hora exata em que os estampidos de
Wagner, ou melodias ultra-melosas de Chopin me passavam pela
memória”.
”Eu tinha tendência a identificar minha pessoa com a
tradição – não por minhas próprias qualidades, mas porque em mim
295
se refletia aquela tradição que eu amava. Ora, nessa identificação,
havia o convite para uma posição admirativa e lânguida a
respeito de mim mesmo”.
”Era a tentação para o romantismo: a ilusão de ótica
por onde a pessoa se põe no centro de tudo, põe-se
como foco da tradição, põe-se como o modelo da
Contra–Revolução e já não tem interesse em olhar
para a História, a não ser na medida em que se sente
encaixado ou relacionado ao menos pela fantasia,
com a História”. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Menino e o
Mar, in Revista “Dr. Plínio“, Ano VI, Setembro de 2.003, N0 66, p.
20. Destaques nossos).

Mas foi exatamente isso que Plínio fez a vida inteira: colocar-
se no centro de tudo. Se ele fez alguma coisa na vida, foi identificar-
se com a Contra Revolução, com a Tradição, e, sacrílega e
soberbamente, identificar-se com a própria Igreja, a tal ponto que se
dizia, na TFP: “A Igreja é Dr. Plínio”.
E ele se colocava continua e obsessivamente no centro da
História. Tudo acontecia, em Washington, em Paris, em Roma e em
Moscou, --ou na Barra Funda, -- por causa dele.
E colocamos em epígrafe deste livro o texto em que Plínio
confessa que caiu exatamente nessa tentação:

“Quando a vocação, o thau, se explicita na alma de uma


pessoa, esta é levada a me ver como um todo. Por que me vê
como um todo? Porque eu personifico a Contra Revolução”
(Plínio Corrêa de Oliveira, apud João Scognamiglio Clá Dias, em
epígrafe à sua 10a conferência do Retiro V aos Arautos do Evangelho
sobre a Unidade do Súdito com o Fundador, p. 1).

Prossegue Plínio em sua confissão:

“O mau efeito dessa tentação era como algo lânguido que eu


sentia dentro de mim, e pensava: --- [É típico do estilo romântico de
Plínio inserir falas dele mesmo, ou de outrem, em seus textos,
tornando-os monólogos ou diálogos imaginários] -- “Não posso
consentir nesses pensamentos porque neles há alguma coisa de
mau. O que seja, eu o saberei depois. Mas o fruto é ruim. Eu preciso
ter a serviço dos meus ideais o ímpeto do “hurrah” da cavalaria. E
tudo o que me afastar desse ímpeto é mau. Tais pensamentos podem
ter coisas boas misturadas, mas fundamentalmente têm algo ruim
dentro. Não e não!” Nunca mais ouvi as músicas que eram conexas
com esse estado de espírito. Nunca mais Chopin, Wagner, Liszt, para
não falar de Mendelsohn e Brahms.

296
“Essa introspecção langorosa e derretida de si próprio é a
substância do romantismo. Schumann tem uma música chamada
“Revêrie”. “Revêrie” quer dizer sonho. A gente vai ver, o tema do
sonho é ele, enquanto se admira e tendo entusiasmo consigo” (Plínio
Corrêa de Oliveira, artigo O Menino e o Mar in Revista “Dr.
Plínio“,“, Ano VI, Setembro de 2.003, N0 66, p. 20-21. Os destaques
são nossos).

Eis aí, Plínio confessando o que já provamos: Plínio confessa


sua tendência, e mesmo, a sua queda e assunção da tentação
romântica: a de personificar a Contra Revolução.
Mais uma vez, foi exatamente isso que Plínio fez a vida inteira:
sonhar a respeito de si mesmo, imaginando-se a Contra-Revolução, a
Igreja, O Profeta, O Inocente, O Imortal, o Inerrante. O que Plínio
admirou a vida inteira foi Plínio Corrêa de Oliveira.
E “sonho” sempre foi um de seus termos preferidos. E uma de
suas atividades preferidas. Sonho era termo obsessivo, como
também o uso de termos típicos do Romantismo como “sentir”,
“sentimento”, “impressão”, imponderável”, “imaginar”, sensação,
etc. E não adianta ele fazer um falso exame de consciência auto
ilusório, dizendo:
“Nossa Senhora me ajudou a fazer a escolha de tal maneira
que do romantismo não ficasse nada e, espero eu, que algo tenha
ficado do “hurrah” da cavalaria, da fidelidade à tradição” (Plínio
Corrêa de Oliveira, artigo O Menino e o Mar in Revista “Dr.
Plínio“,“, Ano VI, Setembro de 2.003, N0 66, p. 21).
Da fidelidade à tradição romântica ficou muito nele!
Para não dizer quase tudo.
Do “hurrah”da Cavalaria...
Veremos...

Capítulo III

297
Sonho ou Realidade?

Não cremos ser necessário demonstrar que o Romantismo


colocou a imaginação e o sonho acima da Razão. Inúmeros
especialistas em estudos sobre o Romantismo já demonstraram a
irracionalidade dessa escola de arte, a supremacia que ela dava à
imaginação e o sonho sobre a razão. Tanto nessa escola de Arte,
como na Filosofia Idealista alemã se recusava o real. Citaremos
apenas algumas obras para quem se interesse consultar ou pesquisar
esse tema:
Albert Béguin, L´Âme Romantique et le Rêve—José Corti,
Paris, 1966
Auguste Viatte, Les Sources Ocultes du Romantisme:
Illuminisme et Théosophie – Honoré Champion, Paris,1979.
Georges Gusdorf, Le Romantisme, Payot, Paris, 2 volumes,
1982-1983- 1993.
Dennis de Rougemont, L´Amour et L´Occident.
Gerd Bornheim, A Filosofia do Romantismo, in J.
Guinsburg, O Romantismo, Perspectiva, São Paulo, 1978.
Benedito Nunes, A Visão Romântica, in J. Guinsburg, O
Romantismo, Perspectiva, São Paulo, 1978.
Michael Löwy, Redenção e Utopia, Companhia das Letras,
Edit.Schwarcz, São Paulo 1989
Michael Löwy / Robert Sayre, Revolta e Utopia, Vozes,
Petrópolis, 1995).

1- Plínio vivia sonhando.

Que Plínio Corrêa de Oliveira tinha tendência a sonhar e a


negar a realidade, acreditando ser real o que ele imaginava, se tem a
prova no que ele mesmo contou de si mesmo.
“E essa idéia do viver em algo que não é o real [o mundo
inexistente dos seres possíveis em Deus], mas que poderia ser o
real algum dia e no qual a minha alma quereria viver, passou a
constituir uma espécie de tendência freqüente no meu
espírito” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos
Existe no Céu, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001,
No 44, p. 16. O destaque é nosso).

Esta é uma confissão clara da mentalidade sonhadora e


romântica de Plínio Corrêa de Oliveira.

Nela, Plínio confessa:

1 - Que tendia a negar, a recusar e a fugir do real.


2 - Que sonhava com a possibilidade impossível de viver no
mundo imaginário dos seres possíveis.

298
1- Que esse mundo irreal, um dia, poderia vir a ser real.
4– Que essa tendência era freqüente em seu espírito.

Toda a vida de Plínio e da senhora mãe dele comprovam, à


farta e ad nauseam, esse espírito sonhador e romântico do fundador
da TFP. PCO transmitiu sua mentalidade totalmente fantasista a seus
discípulos. Qualquer observador medianamente inteligente constata
essa mentalidade sonhadora nas manifestações da TFP, em todo o
modo de ser dos tefepistas e dos auto intitulados Arautos do
Evangelho, assim como nas publicações deles.

2- Fuga do Real para o Mundo de Sonhos do Não-Ser

Evidentemente, todas esses sonhos revelam um desejo de


fuga, uma tentativa de sair de si mesmo, de ser outro, identificando-
se com o outro – literalmente a vontade de buscar um
êxtase [Extase significa sair de si] naturalista – de caráter pseudo
religioso, como era típico nos falsos êxtases gnósticos. É uma busca
de êxtase com base na própria natureza, como se o homem pudesse,
por si mesmo, fugir do metafisicamnente contingente, para alcançar o
“Absoluto”, o sobrenatural, a Divindade.
E Plínio transferia essa imaginação de fuga sonhando com
matérias, beirando o “não ser”, chegando também a sonhar as
pessoas como elas não eram e não podem ser.
“Agora essa manifestação de excelências contida naquele
nacarado transparente-- [O tal vaso do Imperador] – transposta para
a ordem dos seres vivos, levar-me-ia a pensar na possibilidade de
existirem almas com uma força pétrea, e almas com uma
ductibilidade e uma transparência de zéfiro. E na possibilidade de
haver puros espíritos diversos entre si como são diversos entre si os
mil estados da matéria. Ora, estes são os anjos, habitantes do Céu.
“E então aquele meu mundo de sonhos, aquele ambiente
mítico onde eu desejava morar não é quimera nem fantasia. É
o Paraíso Celeste”. (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo
de Sonhos Existe no Céu, revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro
de 2.001, No 44, p. 19. O destaque é nosso).

Alguém diria que exageramos ao fazer a acusação de caráter


religioso dessas imaginações delirantes. Mas é ó próprio Plínio que
confessa que essas imaginações tinham caráter religioso:

“Não é difícil entender que essas meditações – [Meditações?


Eram imaginações] – seriam de caráter religioso, e que se fosse
materialmente possível semelhante situação, eu me sentiria
feliz ao extremo, por me ter sido franqueado o conhecimento de
umas tantas coisas muito mais valiosas pelas quais os homens têm
apreço”.

299
“Compreendi, pois, o que era a santidade, a perfeição e a
divindade da Igreja Católica, aplicando aos vitrais o mesmo raciocínio
feito a propósito do órgão” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo
“Flashes” com a Santidade da Igreja, in revista “Dr. Plínio”, Ano
VII, Novembro de 2.004, N0 80, p. 20. O destaque é nosso).

Repare-se, antes de tudo, que esse desejo de morar dentro de


outros seres permitiria a Plínio alcançar um certo “conhecimento” de
caráter religioso.
Note-se também, como o autor dessas frases absurdas
confunde pensamento com imaginação. E uma imaginação delirante.
Sonhos de um homem que desde muito cedo se julgou um ser
extraordinário.
Sonhos de um homem que se imaginou profeta, imortal e
inerrante!
E o pior é que Plínio identifica um céu material com esse seu
sonho de gozo. E que dizer de seus sequazes que tomam esses
sonhos como realidade, e esses delírios como doutrina excelsa,
desejando que esse imaginário “céu” tecnicolor de Holywood fosse
materialmente possível?
***
Um dos escravos de Dr. Plínio, Leo Daniele, o escravo Plínio
Tobias da Sempre Viva, - pessoa de certa inteligência—percebendo o
romantismo sonhador que embebe toda a obra e todo o
“pensamento” imaginativo de Dr. Plínio, tentou defender Dr.Plínio de
nossa acusação de ser ele um sonhador romântico, fazendo
distinções entre sonhar e sonhar, num opúsculo que os Provetos da
TFP publicaram com o título A Cavalaria Não Morre—Excertos do
pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira.
Vejamos seus sofismas.

Capítulo IV

Defesa do Sonhar e dos Sonhos

Em muitíssimos números da revista “Dr. Plínio” aparecem


textos de Plínio C. de Oliveira nos quais as palavras “sonhar” e
“sonho”, são empregadas de modo positivo e simpático, como se
viver sonhando fosse excelente, e não um vício a combater.

Já citamos vários textos do Profeta de Higienópolis que


atestavam sua mania de fugir da realidade através do sonho,
querendo ser qualquer coisa, imaginando mundos de fábula que o

300
levavam, como ele mesmo disse, a criticar o mundo real tal qual ele
é.
Logo mais adiante veremos outros textos de mesmo teor.

Como dissemos, no mesmo sentido, há provas da mentalidade


sonhadora e romântica de Plínio Corrêa de Oliveira, num pequeno
livrinho intitulado A Cavalaria Não Morre, editado pela chamada
TFP dos Provectos, com excertos do pensamento de Plínio, recolhidos
pelo eremita Leo Daniele, membro da seita secreta Sempre Viva,
onde ele responde pelo codinome de escravo “Plínio-Tobias“, livrinho
no qual Leo Daniele procura defender o sonhar de Plínio como
legítimo e não romântico.

Esse livro, em sua introdução “Ao Leitor”, apresenta algumas


restrições ao sonhar e ao sonho, que, entretanto acabam condenando
o que Plínio disse durante sua vida sobre o sonho.

1 – Distinção entre Sonhos e Sonhos

Leo Daniele tenta salvar Plínio da acusação de sonhador


romântico com distinções matizadas entre sonhar e desejar:
“O português é um idioma repleto de matizes. Da mesma
forma como é possível ter sentimento sem ser sentimental, é possível
sonhar sem ser um sonhador. Pois esta última palavra carrega
conotações pejorativas e até censuráveis”.
“O povo lusitano, por exemplo, sonhou com inúmeras
conquistas. E realizou várias delas. Nossa Pátria-Mãe, marcada por
um sólido bom senso, constitui uma nação de sonhadores? Muito pelo
contrário. Poucos povos têm o senso do pão-pão, queijo-queijo, como
o possui o lusitano”.
“É que existe sonhar e sonhar. Na concepção pliniana,
sonhar não é fugir da realidade, mas pelo contrário, encontrá-
la. Nada mais desprezível que sonhar quimeras. Nada mais
respeitável—e necessário – que “sonhar realidades”. Pois nessa
concepção sonhar é desejar, e os desejos são o que move o
acontecer humano” (Leo Daniele, Ao Leitor, Apresentação ao livro A
Cavalaria Não Morre, excertos do pensamento de Plínio Corrêa de
Oliveira, Coleção “Canticum Novum”. O destaque é nosso).
Sem dúvida, todo homem tem sonhos quando dorme. E nem
todo mundo é sonhador.
Sem dúvida ainda, em português, como, aliás, em outras
línguas também, a palavra sonhar pode significar desejar. Mas Plínio,
como já sobejamente provamos por inúmeros textos, sonhava de
olhos abertos e sonhava o que era impossível. Por exemplo, sonhou-
desejou ser -- ser urubu.
Veremos isso, logo mais.
Como também sonhava irrealidades, desejando que fossem
reais. Sonhava seres possíveis inexistentes mas que, de tanto querer
301
que eles existissem, acabava por dizer que eram sonhos de coisas
existentes... De certo modo.... Depois reconhecia que queria viver
num mundo irreal. E isso é ser sonhador no pior sentido do termo.

Para recordar, repetimos aqui um texto já citados, que


desmente rotundamente o que Leo Daniele diz acima.

“E essa idéia do viver em algo que não é o real, mas que


poderia ser o real algum dia e no qual a minha alma quereria
viver, passou a constituir uma espécie de tendência freqüente
no meu espírito” (Plínio Corrêa de Oliveira, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV,
Novembro de 2.001, No 44, p. 16. O destaque é nosso).

E vimos que Dr. Plínio , como Dona Lucília, gostava de


mitificar.

Se Leo Daniel considera que condenar o mundo real e sonhar


quimeras são atos desprezíveis, e que só vale “sonhar” realidades,
então ele condenou Plínio que sonhou quimeras, mitos, e até “quase
não-seres”.
E Leo Daniele afirma: “Nada mais respeitável—e
necessário – que “sonhar realidades”.
Sonhador é quem confunde quimeras com realidades.
Ora, para Plínio os seres possíveis em Deus, seres
inexistentes, de algum modo eram realidades existentes, e, na
Trans–esfera, eles seriam até o ápice da realidade. Logo, seria
possível sonhar esses seres inexistentes-existentes.
Sutilezas redacionais de quem é “sempre vivo”.

2 – Sonhar realidades. Os Sonhos moveriam a História

Sonhar “realidades”, para Plínio era imaginar um mundo que


não existe. Ele sonhava com um mundo que fosse um paraíso
terrestre. Plínio, como todo romântico, queria retornar, por meio do
sonho, ao paraíso da inocência perdida. Daí, ele dizer-se “O
Inocente”, ou aquele que recuperara a Inocência Primeva, julgando-
se sem pecado original. Daí, sua esperança ou crença na sua própria
imortalidade.
Quereria Leo Daniele sonho mais irreal do que julgar-se
imortal? E entretanto, Plínio sonhou com sua imortalidade nos dois
sentidos dados por Leo: sonhou como desejo, e sonhou como sonho
mesmo. Só que morreu, e o sonho da TFP acabou.
The dream is over...

Esse desejo de fugir do real que Plínio professava e defendia,-


- típico da mentalidade romântica - se manifestava, por exemplo, no
que ele dizia dos quadros de Claude Lorrain. O comentário dele dos
quadros desse pintor é exemplo claro de como ele gostava de fugir
302
da realidade através de uma arte que embalava seus sonhos de
irrealidade.

Escreveu Plínio, desmentido Leo Daniele:

“Depois de Zurbarán e do Beato Angélico, o pintor cujas obras


mais me impressionaram foi Claude Lorrain”. (...) “Lorrain é o pintor
do sol. Seus quadros são fantasias em torno do astro diurno(...)”.
“Em geral os temas de suas pinturas são fruto de uma privilegiada
imaginação, misturando-se neles elementos antagônicos e quase se
diria contraditórios”.(...) “Tudo isso é irreal, imaginário e chega
ser inconciliável: escadas de mármore banhadas pela água do mar
(que corrói essa pedra facilmente), ruínas romanas ao lado de torres
medievais, próximas a palácios clássicos, camponeses fazendo festas
a bordo de navios, personagens bíblicos ao lado de homens do século
XVII... Ele toma esses elementos díspares e pinta quadros de
realidades que nunca existiram” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo
Feerias de Sol, Belezas de Deus, in revista “Dr. Plínio”, Ano
III, Janeiro de 2.000, N0 22, pp. 32-33. Os destaques são nossos).

Nesse texto, Plínio confirma seu amor pelo irreal, por um


imaginário que não existe, o que é claramente típico da mentalidade
romântica.Sonhadora.
Para Plínio, a super realidade não era deste mundo, mas a dos
seres possíveis inexistentes, mas que existiriam pelo seu sonho, na
Trans-esfera, que ele também sonhou.
E Dr. Plínio vai ser ainda mais claro na defesa da mentalidade
característica do Romantismo.
“Pergunta-se, então, qual o mérito dessa concepção artística.
A resposta, a meu ver, é que tudo isto convém ao pintor para
iluminar por um certo tipo de luz de sol, também ela mirífica e
transcendente da realidade -- (Sic!?). Ele cria coisas em ordem a
um sol igualmente criado pelo seu talento. Ao término de uma
fabulosa tela, Claude Lorrain terá composto uma situação
natural que ele gostaria muito fosse verdade, e cuja existência
encheria a sua alma. Não se trata, pois, de uma pura fantasia, mas
de uma criação. Ele gerou tudo aquilo para formar um mundo
dourado e irreal, que atrai profundamente o senso artístico de
incontáveis pessoas apreciadoras da arte pictórica” (Plínio
Corrêa de Oliveira, artigo Feerias de Sol, Belezas de Deus revista
“Dr. Plínio”, Ano III, Janeiro de 2.000, N0 22, p. 33. Os destaques
são nossos).

Depois de quase defender o sufrágio universal no campo do


gosto estético, Plínio, como o faziam os românticos, parte para o
ataque contra os que são contra o sonho, e que defendem a realidade
concreta conhecida pelos sentidos e pela inteligência, isto é, pelos
que defendem a verdade no sentido católico:
303
“Algum espírito menos afeito a idealizações poderia
objetar contra o valor e a admiração que se tributam aos
quadros de Lorrain, porque não se deve gostar do que é
imaginário. E nas pinturas dele tudo—incluindo a própria luz do sol,
sans lequel les choses ne seraient que ce qu´elles sont – é imaginário
e, por conseguinte, anorgânico”.
“Esta é uma objeção perfeitamente estúpida, porque faz
parte da organicidade do homem ter uma certa saudade do
Paraíso, perdido após o pecado de nossos primeiros pais. E ter,
portanto, uma necessidade equilibrada, sem descabelamentos, de
imaginar coisas que ele sabe não existirem nesta terra de
exílio, mas que podiam ter existido no Éden, e que poderão
existir no paraíso Celeste. Assim, longe de merecerem nosso
desprezo, os quadros de Claude Lorrain são quase uma pré-visão do
Céu Empíreo.” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Feerias de Sol,
Belezas de Deus revista “Dr. Plínio”, Ano III, Janeiro de 2.000, N0
22, p. 33. Os destaques são nossos).

Leo Daniele nos responderia que sonhar é desejar as


realidades do paraíso terrestre.
O Paraíso terrestre foi real para Adão e Eva, e Deus realmente
os expulsou dele. Por causa do pecado original, estamos exilados do
paraíso terrestre. O Romantismo quer se infiltrar no Éden, para fugir
do vale de lágrimas da realidade concreta. Para fugir da cruz. O
Romantismo sonha com o retorno ao paraíso original pelo sonho do
milenarismo. Isso é fugir da Cruz,e não tomá-la, para seguir a Cristo.
O sonho de recuperar o Paraíso terrestre é uma fuga da
realidade em que Deus nos colocou.

E Plínio não sonhava apenas com imaginários lugares


edênicos. Tinha também sonhos milenaristas, quer sobre uma Idade
Média romanticamente idealizada, quer sobre um futuro Reino de
Maria completamente quimérico com ruas de porcelana ou de cristal,
e homens angelizados.(Veremos isso, mais adiante).

Para Marx é a Economia que move a História. Para Plínio, era


o sonho o motor da História.

O primeiro capítulo do livro A Cavalaria Não Morre tem por


título Sonhar Realidades, e nele se lê o seguinte excerto de Plínio:

“Entre o sonho e o sono...


“A História é, na alma dos homens um movimento pendular
entre o sono e o sonho. (...). Os sonhos e as aspirações são o
motriz da História” (Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de
Oliveira, in A Cavalaria Não Morre, Coleção “Canticum Novum”, p.
18. O destaque é nosso).
304
Se a palavra sonho só é válida quando significa desejo, por
que unir sonhos e aspirações?
Se sonhos = desejos, se aspirações = desejos, então escrever
que Os “sonhos e aspirações são o motriz da História” seria
escrever desejos e desejos são o motriz da História. O que é uma
redundância gagá.
Claro que a palavra “sonhos” na frase de Plínio citada acima
não significa desejo. Quer dizer sonhos mesmo.

3- “Sonho é um alto discernimento da verdade” (Plínio C.


de Oliveira)

Que no texto “Ao Leitor” o escravo Plínio Tobias (Leo


Daniele) procurou apenas fugir da acusação de Romantismo, se
comprova facilmente pelo que está impresso nesse mesmo livro:

“O sonho é uma alta forma de discernimento.


“Não se pode dizer que o sonho seja mera imaginação. O
sonho é um alto discernimento da verdade, pelo que ela tem
de mais razoável, de mais sério e de mais belo” (Excertos do
pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria Não
Morre, Coleção “Canticum Novum”, p. 54. Os destaques são
nossos).
Evidentemente, Leo Daniele não estava aí se referindo aos
sonhos que temos ao dormir, que são puro produto da imaginação,
sem controle da inteligência e da vontade. Ele estava se referindo a
sonhos de olhos abertos.
Ora, crer que o sonho, mesmo o de olhos abertos, permite um
alto discernimento da verdade é contrário à doutrina católica e
tomista e contrário ao bom senso. O discernimento da verdade só o
temos quando nossa inteligência aceita o objeto real tal qual ele é,
sem distorções. A verdade é a adequação entre a idéia do sujeito
conhecedor com o objeto conhecido. E isso só é alcançado quando
nenhum desejo, nenhuma paixão tolda a visão do intelecto. Por isso,
dizia Dante que era preciso olhar a realidade com “occhio chiaro e
con affetto puro”(Dante, Paradiso, VI , 87).
Olhar tudo com olhar claro e com afeto puro, porque o olhar
toldado pela paixão, e o afeto desregrado deturpam a visão das
coisas como elas são. Sonha quem não quer aceitar a realidade que
temos diante de nós, neste vale de lágrimas. Sonha quem quer fugir
da cruz. Por isso disse bem um poeta – poeta até romântico, pois até
o diabo, por vezes, diz : “Ái Jesus!” --: “Quem sabe olhar e sofrer,
sabe tudo”

Agora o senhor Leo Nino Foscolo Daniele – o escravo Plínio


Tobias da Sempre Viva-- cita texto de Plínio no qual sonhar significa
uma coisa, pelo menos em parte, ligada à imaginação, mas que seria
305
algo muito mais elevado, pois seria “um alto discernimento da
verdade”.
Portanto, um ato do intelecto.
Logo, desmentindo e contradizendo a explicação anterior de
que, para Plínio, sonhar seria desejar, que é um ato da vontade.
Que Leo Daniele escolha então: sonhar é ato da vontade ou
ato do intelecto? E o sonhar de olhos abertos pode ser ou não um ato
da imaginação, como defendia PCO?

Noutra página desse opúsculo citado, se afirma que “O Sonho


é que ajusta as cogitações e as vias do homem” (Excertos do
pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria Não Morre,
Coleção “Canticum Novum”, p. 58. O destaque é nosso).
Portanto, seria o sonho --ato de desejar – que ajustaria as
cogitações.
Portanto, se assim fosse, o desejar antecederia o cogitar, o
que é uma gagueira, pois nada pode ser desejado pela vontade, que
não tenha sido antes concebido, cogitado pelo intelecto.
Logo, Plínio nem sempre usava a palavra sonhar como
desejar, como Leo Daniele pretendeu que fosse, mas, usava o termo
sonhar em seu sentido próprio, que não é desejar, e sim imaginar.
E quem imagina algo para fugir do real é precisamente aquele
que sonha no pior sentido palavra. No sentido romântico do sonhar.
E era o que Plínio praticava desde menino, e esse era o
sentido que ele defendia.

4 -- O Sonho prepara a alma para ter Fé


PCO Modernista

Mais além, se lê nesse livro, com excertos do pensamento de


Plínio, que o sonhar estaria ligado à Fé:
“A grande atmosfera de sonho prepara a alma para a fé.
Depois de a alma com fé receber esta preparação, ela voa de
dentro da fé para a santidade” (Excertos do pensamento de Plínio
Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria Não Morre, Coleção “Canticum
Novum”, p. 56. O destaque é nosso).

Se, como garante Leo Daniele, se para Plínio sonhar


significasse desejar, o desejo é que prepararia a alma para o ato de
fé. Ora, isso faz conceber a Fé não como uma virtude intelectual,
como ela é, mas passando a ser exclusivamente uma virtude moral,
dependente da vontade, do desejo, e não da adesão da inteligência a
verdades reveladas por Deus. O que é um erro teológico.
Se sonhar significa exatamente o que quer dizer a palavra
sonhar, então a Fé estaria relacionada ao imaginário, e não a
verdades reais. O que também é herético.

5 - Sonho e Milenarismo
306
Plínio tenta escapar à acusação de milenarismo, dizendo:
“Não se trata de restaurar o paraíso – isto cheiraria a
milenarismo – mas de criar uma ordem de coisas tendente a algo
que, tanto quanto possível, corresponda a um certo desejo do
paradisíaco que há em nós” (Excertos do pensamento de Plínio
Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria Não Morre, Coleção “Canticum
Novum”, p. 25. O destaque é de nossa reponsabilidade).

Mesmo ao tentar escapar da acusação de milenarismo, Plínio


afirma que no homem haveria “um desejo do paradisíaco” aqui na
terra. O que é exatamente o que pretende o milenarismo.
Mas, segundo Leo, desejar para Plínio, pode significar sonhar.
E mais adiante diz Plínio: “De sorte que ficou no homem uma
certa nostalgia do paradisíaco, não só do paraíso celeste, mas
também de uma vida terrena com uma nota paradisíaca”
(Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, in A Cavalaria
Não Morre, Coleção “Canticum Novum”, p. 28. Os destaques são
nossos).
Ora, querer “uma vida terrena com uma nota
paradisíaca”, é exatamente milenarismo.
E não se pode ter saudades daquilo que não se conheceu. Só
Adão e Eva poderiam, ter saudades do Éden.

Mas Plínio vai mais além, pois que coloca na vida humana algo
de angélico:
“A Cristandade seria tanto quanto possível um espelhar
fulgurante da ordem paradisíaca e da ordem angélica entre os
homens” (Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, in A
Cavalaria Não Morre, Coleção “Canticum Novum”, p. 30.
Destaques nossos).
Que significa dizer que a Cristandade medieval foi um espelhar
da ordem angélica entre os homens?
Em certo sentido, muito analogicamente, isso poderia ser dito.
Mas lembrando que Plínio afirmava que o homem pode ser
angelizado, e que, em um sermão, Monsenhor Scognamiglio garantiu
que o homem tem também natureza angélica, essa frase se torna
então bem suspeita. A frase deixa o campo analógico, passando para
o campo metafísico. E aí, então, ela se torna frase bem errada.

Essas concepções sonhadoras e imaginárias, tendentes ao


milenarismo são relacionadas com um imaginário mundo de seres
existentes “ab aeterno” que Plínio Corrêa imaginou descobrir através
da realidade material imperfeita, e que existiriam numa outra esfera
de ser, de que não falam nem a revelação, nem a doutrina católica.
Tais seres ab aeterno estariam acima dos anjos e muito
próximos de Deus, “sendo quase Deus”.

307
Já demos inúmeras citações de PCO defendendo o sonho.
Vejamos, agora, algumas afirmações de PCO, nas quais ele
deixa patente sua mentalidade romântica e sonhadora no pior sentido
do termo. Essas citações são novas provas cabais da mentalidade
romanticamente sonhadora do fundador da TFP, mentalidade
cultivada por ele, e por ele considerada como a visão católica da
realidade.

Capítulo V

Sonhando... Desejando Ser...

1- ... Urubu.

Plínio sonhou até – e no pior sentido, desejou -- ser urubu.


Claro que se afirmássemos isso sem prova material, diriam
que era uma invencionice caluniosa de nossa parte, e calúnia
inacreditável. Damos, então, a prova concreta e impressa do sonho
de Plínio de ser urubu.

“Com o vôo do urubu imersão num mundo de sonhos”

Avisamos Leo Daniele que esse sub-título urubusal não é


nosso. Essa “preciosidade” deve ter sido obra de seu ex colega da
Sempre Viva, o seu muito estimado João Clá, hoje, Monsenhor
Scognamiglio. Pois esse subtítulo consta da revista “Dr Plínio” (Plínio
Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos Existe no Céu,
in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, N0 44, p.16. 1a
coluna).

Plínio confessa que sua mentalidade era a de tentar fugir


constantemente do real para um mundo ideal com o qual ele
sonhava.

Ainda quando menino, -- porque essas tendências más


começam cedo --no Colégio São Luis, em aulas duras, ele ficava
espiando, pela janela da classe, um urubu voando no céu azul, e
sonhava... ser urubu.(Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo
de Sonhos Existe no Céu, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV,
Novembro de 2.001, N0 44 p. 16).

E eis o texto em que ele expõe o seu sonho urubusento,


enquanto sofria de tédio – tédio também tipicamente romântico-- em
uma aula que Plínio mal suportava:

308
“Em certas ocasiões eu via um urubu cortando o firmamento e
não sabia tratar-se de um bicho feio como notei anos depois. Desse
pássaro eu conhecia apenas o lindo perfil, seu vôo gracioso e seu
esplêndido jogo de asas. É verdade que dele se vê apenas a silhueta,
mas as silhuetas têm suas elegâncias e o urubu era uma, deslizando
pelo ar. De vez em quando voava com uma asa que parecia curta e a
outra longa, ou então se virava e era a outra asa que então se virava
e era outra asa que crescia e a anterior parecia menor”.
“Quando percebia que ele planava e não batia as asas, eu
pensava: “ Como deve ser gostoso ser urubu! E como
seria agradável se eu, a esta hora, pudesse desprender-me desta
carteira, deste papel, deste papel onde, com uma letra perenemente
feia, estou rabiscando coisas e sobre o qual, brincando com a bomba
da caneta tinteiro, deixo cair gotas de tinta e fico aborrecido...”
“Então eu imaginava algo diferente. Como era menino, não
sabia dar formulação ao meu próprio pensamento, mas o que me ia
no espírito era: “Ah! Se eu pudesse sair voando pela janela, cortar o
ar como um urubu, e morar dentro do azul muito tempo, sentar-me
sobre as nuvens, dormir um pouco sobre elas e brincar com o vento
de tal maneira que ele me levasse delicadamente para onde eu
queria; ou se eu tivesse o prazer de fendê-lo sem grande esforço –
isso seria uma diversão muito agradável, num mundo de sonho,
mundo que não existe” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu
Mundo de Sonhos Existe no Céu, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV,
Novembro de 2.001, N0 44, p.16. 1a coluna. O destaque é nosso).

Preguiça. Tédio. Fuga através do sonho. Eis Plínio sintetizado


em sua infância. E como ele, menino mimado e cheio de delicadezas,
lembra o Jacinto de Tormes do Eça de Queirós, do A Cidade e as
Serras, morrendo de tédio, bocejando, no luxuoso e requintado
apartamento 202, da Avenida Champs Elysées, em Paris, na Belle
Époque.
Como um típico romântico, Plínio Corrêa de Oliveira queria
fugir da realidade, e, através do sonho, queria viver “num mundo de
sonho, mundo que não existe”.
[Noutro número da Revista “Dr. Plínio”, repete-se essa
narração, mas com algumas diferenças de palavras:
“Às vezes eu vislumbrava um urubu cortando o firmamento.
Não sabia tratar-se de uma ave feia, como depois me foi dado
constatar. Dele eu conhecia apenas a linda silhueta,seu estupendo
jogo de asas e o vôo elegantíssimo. De determinado ângulo, uma de
suas asas me parecia curta e a outra , longa. Quando o pássaro
virava, era esta asa que crescia e a anterior parecia diminuída.
Agradava notar, sobretudo – a mim pouco amigo do esforço físico
-- que o urubu planava e não voava ao sabor das correntes de ar”.
“Diante desse espetáculo da ave deslizando pelo azul do céu,
eu refletia: “Como deve ser gostosa a existência desse urubu! E como
seria deleitável se, a esta hora, pudesse eu me desprender desta
309
carteira, deste vigilante, deste papel em que, com uma letra
perenemente feia, estou rabiscando coisas ou deixando cair gotas de
caneta tinteiro, e sair voando pela janela! Elevar-me no ar como o
urubu, morar dentro do azul, sentar-me ou dormir um pouco sobre as
nuvens, e brincar com o vento de tal maneira que ele me levasse
delicadamente para onde eu quisesse, ou me permitisse desfrutar
do prazer de fendê-lo sem grande esforço! Isso seria para mim
um entretenimento muito agradável, num mundo de sonho, que não
existe” (Plínio Corrêa de Oliveira, Revista “Dr. Plínio”, Ano I, Março
de 1099, N0 11, p. 7. Repetimos o texto, com essas variantes,
para evitar que houvesse tergiversação por parte dos responsáveis
pela Revista “Dr. Plínio”. Os destaques são nossos.].

Busca de prazer através do sonho. Mas desde que sem


esforço. Pois PCO sempre foi “pouco amigo do esforço físico”, isto
é sempre foi preguiçoso. E a preguiça causa sempre o tédio.
Já na infância e gozando da “Inocência Primeva”, Plínio era
preguiçoso a ponto de identificar a virtude com a sua cama. E era
glutão. E era tendente à covardia. E era “modesto” e humilde como
só a Inocência Primeva podia permitir...Pois que ela subsiste mesmo
sob um mar de pecados.

Sonhar viver em deleites num mundo que não existe, eis


Plínio preguiçoso sonhador, querendo viver romanticamente num
paraíso montado por sua imaginação.

2- - Plínio Sonha Mergulhos... em Pedras Preciosas

E Plínio prossegue sonhando:

“Pedras, vitrais, olhares: a vida num ambiente mítico”


“Na mesma época, acontecia-me com freqüência outra
situação que passo a descrever:
“Aqui no Brasil é comum encontrar pedras que nada têm de
precioso, mas cujo colorido é muito bonito. Desde cedo, em passeios
pelos campos, habituei-me a notar essas pedrinhas e a catá-las.
Minha idéia era a seguinte: como seria gostoso morar dentro de um
ambiente que fosse todo da cor daquela pedra, da consistência que
ela parecia ter, onde eu pudesse respirar e ficar sossegado, sem ter
que falar com ninguém, nem ninguém comigo. E colocando meu
temperamento nas condições da pedra, assimilando tudo quanto tem
na pedra, e por assim dizer, “esmeraldando-me”, “rubinizando-
me”, “safirizando-me”, de maneira que algo daquilo como que
se entranhasse em mim e me enriquecesse com aquilo. Era
para mim uma história de fadas sem fadas, em que a fada era o
puro ambiente, era a pura cor dentro da qual eu moraria, e,
durante algum tempo, encontraria meu contentamento”.(Plínio
Corrêa de Oliveira, artigo citado in revista “Dr. Plínio”, Ano IV,
310
Novembro de 2.001, N0 44, p.16. 2a coluna. Os destaques são
nossos).
Eis aí o resultado de ter sido formado por Dona Lucília com
contos de fadas e historietas românticas: querer morar e viver num
ambiente que seria... “a fada”.

Imagine-se viver no ambiente-fada!!!


E esse ambiente ser o interior de uma pedra. E desejando que
algo da pedra se entranhasse nele.
Se isso não é desvario romântico então as palavras não têm
mais significado.
E prossegue Plínio Corrêa de Oliveira:

“Daí o gosto que sempre conservei por esses tipos de pedras.


“E daí, também, meu verdadeiro êxtase quando descobri que
os vitrais de algum modo me satisfaziam esse desejo. Depois, quando
descobri que certos olhares indicavam que determinadas almas como
que vivem numa pedra ou numa água interior, ou num ar interior e
que elas habitam em algo ou algo habita nelas – metafisicamente –
que é como um líquido no qual elas existem e que trás fecundidade,
força, serenidade, inspirações, vôos, que constituem uma espécie de
redoma dentro da qual a pessoa vive. E essa idéia do viver em
algo que não é o real, mas que poderia ser o real algum dia e
no qual a minha alma quereria viver, passou a constituir uma
espécie de tendência freqüente no meu espírito” (Plínio Corrêa
de Oliveira, revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, No 44,
p. 16. Os destaques são nossos).

Que estranha afirmação!


Haveria pessoas cujo olhar indicaria que nelas haveria – ou
que elas habitariam --“uma água”, “um ar” interior, num universo
“metafisicamente” (Sic!) distinto do universo real.
Nessas pessoas habitaria algo, e elas mesmas,
reciprocamente, habitariam também nesse algo, que habitaria nelas.
Metafisicamente!
Que doutrina estranha!
Fica parecendo a história do xoró—coisa inexistente – posta no
avesso, dentro de outro xoró, posto no direito...

Que significava isso, para Plínio?


Se havia pessoas que metafisicamente possuíam algo que
outros seres humanos não tinham, isso faria uma diferença
metafísica na humanidade.
Haveria, então, homens metafisicamente superiores aos
demais? Ou seria apenas uma qualidade acidental nesses homens?
Essa afirmação de Plínio é tão grave quanto “exótica”, mas
está bem de acordo com a mentalidade pseudo-aristocrática,

311
grãfinamente sonhadora de Plínio, e que ele incutiu em seus
adoradores.

Imagine-se sonhar em safirizar-se, esmeraldizar-se...


Como PCO devia julgar ser chato ser Plínio, visto que ele queria
de todo jeito ser outro. Aliás, esse desejo de ser outro foi nele
cultivado por Dona Lucília que o fantasiava no carnaval, dizendo que,
durante três dias ele deveria viver o que representava em sua
fantasia: ser marquês, ser rajá, ser bruxo, ser toureiro, etc. Ser,
enfim, outro. Por três dias. Ele acabou se fantasiando de profeta a
vida inteira.
Mas, dialética e paradoxalmente, Plínio queria ser só Plínio.
Pois humildemente dizia:
“O fato de eu ser eu dava-me muito contentamento. Não me
reputava melhor que os outros” (PCO, Notas Autobiográficas, vol.,
I, p. 123).
Mas Dona Lucília recomendava a ele que jamais se esquecesse
que ele era mais que os outros. Por isso, ele jamais deveria ir no
banco de trás do automóvel. Que os coleguinhas dele se
amontoassem lá atrás...
Ou ainda modestamente dizia Plínio de si mesmo:
“Como isto me diz respeito! Como se relaciona comigo! Que
coisa magnífica! Que bom é isto, e como é bom eu ser eu!” (PCO,
Notas Autobiográficas, vol., I, p. 124).
E falando de suas cobertas e de sua cama, PCO comentou:
“Como isto está bem. E como sou bem aquinhoado!” (PCO,
Notas Autobiográficas, vol., I, p. 300).
E daí, para fora.

3 - – “Starlight in your eyes”.

Esse devia ser o nome de uma langorosa canção de jazz


americano, ao estilo de Holywood nos tempos da Segunda Guerra,
talvez. Devia ser um fox cantado por Frank Sinatra, ou por outro
“crooner” qualquer da década de 40 ou 50.
Horrível!
Mas dela nos lembramos – com pesar -- ao ler o que diz Plínio
de conversas em troca de olhares.

Vejamos, então, um momento, como Plínio misturava o plano


metafísico com o romantismo vulgar, a respeito de olhares...

“E na alma de mamãe havia inúmeros aspectos pelos quais ela


conversava muito mais pelo olhar, timbre de voz, gestos das mãos,
do que propriamente pelo sentido das palavras”.
“A esse propósito, tomo a liberdade de fazer uma comparação
que nos lábios de um filho, pode parecer excessiva, entretanto é a
única que encontro para exprimir minha idéia”.
312
“Quando criança, às vezes eu ficava sozinho, à noite,
contemplando o céu estrelado. Como muitos, tinha a sensação de que
a abóbada celeste não era inteiramente fixa, mas sim como um
grande toldo circular, —[Quem sabe: “um pálio de luz
desdobrado...”?] – dilatando-se ou se encolhendo de modo suave. E
que esse movimento comunicava um certo impulso de fole àqueles
astros, os quais por isso cintilavam. Tomava-me a impressão de que
as estrelas de certo modo dialogavam comigo—[Ora, direis, ouvir
estrelas, poetara o romântico Bilac...] --, e,quando mudavam de
posição, olhavam-me em silêncio”.
“Eu sabia que isso não tinha fundamento, e dizia a mim
mesmo: “É verdade, mas não pode ser mera ilusão, deve haver algo
de real nisso”. [Note-se o sonho romântico arrombando as portas do
bom senso na alma de Plínio: a ilusão tinha que ter algo de real! O
ideal seria real. Exatamente o que crê e diz a mentalidade
romântica!].
“Somente depois de homem feito consegui explicitar o que eu
sentia. Deus criou o firmamento de maneira a causar essa impressão
nas pessoas. E embora não seja a autora desses movimentos,
a abóbada celeste o é dessa sensação. Esta tem como origem
remota e suprema a Deus Nosso Senhor, criador do céu”.
“Esse pensamento me parece elevado e belo, porque exprime
o valor metafísico dessa sensação que nos colhe ao contemplarmos
uma noite estrelada”.

[Atenção! Plínio vai passar do plano poético-“metafísico” para


o plano materno-filial...].

“Ora, de modo análogo ao que ocorria comigo ao considerar o


firmamento, quando conversava com mamãe, muitas vezes tinha a
impressão de estar dialogando com duas estrelas (os seus olhos), as
quais pulsavam e fitavam-me, dizendo coisas sem relação imediata
com os assuntos por nós tratados. E eu sentia que lhe respondia
também dessa forma, e assim conversamos durante quase 60 anos
até a morte dela. Esse foi o contributo que ela me proporcionou para
compreender a riqueza da conversa” (Plínio Corrêa de Oliveira,
Conversa e Amor ao Próximo, in revista “Dr. Plínio”, Ano VIII,
Outubro de 2.005, N0 91, pp. 10-12. Os sublinhados são nossos para
ressaltar os termos tipicamente românticos de Plínio).
Ressaltamos que nada disso que está escrito é de nossa
responsabilidade. Foi PCO quem escreveu isso tudo. Nós só copiamos
o que ele escreveu, e que Scognamiglio publicou. E que Padre Royo
Marin aprovou. Não temos nada com isso.
E ainda bem que foi o próprio Plínio que teve a preocupação
de notar que usou uma comparação excessiva para um filho com
relação à sua mãe.
Realmente, jamais vimos um filho ter tal idéia, que, por
respeito às pessoas em foco, nos abstemos de comentar.
313
Mas pior ainda são as palavras de Plínio, publicadas por Mons.
Dr. Scognamiglio na Autobiografia de Plínio, que já tivemos ocasião
de citar. Aí vão elas, de novo por fins didáticos, ipsis litteris, tais
como foram publicadas, e com as aspas e as reticências postas por
Mons.Scognamiglio:
“Em certos dias tudo começava mais tarde, pois eu
permanecia conversando com mamãe...Minha irmã e minha prima
tinham afazeres de meninas, naturalmente um tanto separados dos
meus, e não participavam dessas conversas. Nessas ocasiões,
mamãe parecia existir apenas para mim! Eu sentia que “ela
penetrava em mim” e eu “penetrava nela” por assim dizer...Então lhe
pedia para contar alguma história”.(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas
Autobiográficas, edit. Retornarei, São Paulo, 2008,10 vol., pp 236-
237).
Se nós tivéssemos publicado tal texto...

E é claro que nós só explicamos esse texto pela doutrina de


Plínio da fusão de todos os eus num só eu, como vimos
anteriormente.

4 - Megulhar no Alabastro

Voltemos aos sonhos e imaginações “metafisicamente”


românticas de Plínio.

Contou Plínio que em sua casa havia um vaso de alabastro que


fora de Dom Pedro II:
“Contemplando os matizes daquele alabastro, eu podia
imaginar toda a sorte de cores possíveis. E, na linha de meus sonhos
de criança, também toda a sorte de mundos, de realidades, de
perfeições possíveis.(...)”Ele [o vaso de alabastro] tinha isso de
próprio: fazia pensar em certas qualidades da matéria, pelas quais
esta às vezes é mais excelente porque é dúctil, é mais, é mais
excelente porque é flexível, é mais excelente porque é transparente.
Ou por oposição, será excelente porque é inductil, é inflexível e é
opaca. São formas de excelências diferentes da matéria. Podemos
imaginar então um objeto cuja perfeição estivesse na flexibilidade e
leveza de um “quase não ser”, como podemos também pensar
numa linda pedra, cuja excelência está exatamente no seu compacto
magnífico” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de
Sonhos Existe no Céu in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de
2.001, N0 44,, pp. 18-19. Os destaques são nossos).

Note-se como a mentalidade de sonho, cultivada por Plínio, o


levava a imaginar “outros mundos, outras realidades, objetos cuja
perfeição fosse quase a de “não ser”.
Para Plínio, como para os românticos o não-ser seria
desejável.
314
O que leva a perguntar se para Plínio--- como dizia o
Romantismo -- o ser era pior que o não ser.

5 - Mergulhar no rio Arno para se tornar o Rio Arno

Contou ainda Plínio que, certa vez, foi jantar num restaurante
ao longo do Rio Arno, em Florença, restaurante que ele diz ser
“Quase lacustre”(Sic!). (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu
Mundo de Sonhos Existe no Céu, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV,
Novembro de 2.001, N0 44, p. 16).
Pobre rio Arno transformado pela literatice de Plínio de fluvial
em lacustre.
O Doutor-sabe-tudo não diferenciava lacustre de fluvial.
Imagine-se então um restaurante “quase lacustre” em um
rio!..

E contou ele:
”Então, pela fenda eu via o rio passar sob o piso do
estabelecimento.
“A água do Arno parece uma pedra líquida (Sic!), não é
transparente como podem imaginar uma pedra preciosa, mas opaca,
de um verde que seria da cor de um azinhavre, pouco escura. Era
como um rio de azinhavre correndo ali por baixo, que me dava uma
impressão ultra deleitável.
“E eu, jantando sobre o Arno, um rio com sua densa história,
com sua tradição, vendo-o correr e admirando aquela substância
líquida, veio-me de imediato o pensamento: “Como seria bom morar
dentro do Arno, quer dizer, num ambiente que fosse como o Arno!”
(Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Meu Mundo de Sonhos Existe
no Céu, revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Novembro de 2.001, N0 44, pp.
16-18).

6 - “É doce morrer no mar”

Em Plínio, havia uma verdadeira obsessão em “mergulhar” em


outros seres,-- pessoas, objetos, paisagens, ou em cores--,
escapando para um outro mundo, para uma outra realidade
imaginada só por ele. Tal qual Alice mergulhando num espelho, ou
num tronco, para chegar ao país das maravilhas.
Veja-se uma narração de Plínio sobre uma tentação ao tomar
banho no mar:
“Tive uma outra tentação muito tempo depois – com uns 15
ou 16 anos – no mar também.
“Estávamos vários moços brincando dentro d´água, em frente
ao Parque Balneário. Era um dia de sol muito bonito. Uma onda me
submergiu e, não sei como, fui para o fundo do mar, e senti aquela
areia sedosa, agradável. Conservei os olhos abertos e a cor da água
me pareceu magnífica. Não senti nenhuma vontade de respirar.
315
“Pensei o seguinte: “Aqui estou num pináculo de bem estar
total, num ambiente maravilhoso. Se eu me deixar ficar aqui – veio-
me à mente meio confusamente – “fico com isso para toda a
eternidade. Se eu morrer afogado, de algum modo engulo tudo
quanto está aqui e realizo um deleite perfeito que a vida não me
dará. Não é melhor eu não respirar, mas segurar a respiração e
deixar-me morrer?
“Mas veio-me logo ao espírito o seguinte:
“O que você fará é uma coisa malfeita. Você sacrifica algo de
muito mais alto e que vale muito mais do que o que você tem aqui”.
E interveio logo a idéia religiosa: “Suicídio é pecado, você não pode
consentir”. No mesmo instante, decidi: “Isso eu não posso fazer,
deixe-me respirar”. Subi e a tentação tinha passado” (Plínio Corrêa
de Oliveira, artigo Encanto sem Medida pelo Mar, in revista ”Dr.
Plínio”, Ano V, Maio de 2.002, N0 50, p. 25. O destaque é nosso).

Note-se a curiosa e pouco normal maneira de narrar um fato.


Plínio fala de si para si, tratando a si mesmo na terceira pessoa,
como se ele fosse um outro. Ele fala consigo mesmo e se chama de
você. Como se ele fosse outro. E ele conta o fato como se suas
imaginações estranhas precedessem até mesmo a reação natural do
instinto de conservação, debatendo consigo mesmo se deveria se
suicidar ou não.
E de novo, ele imagina mudar de realidade, passando do
mundo concreto – ou, nesse caso, líquido: o mar – para um mundo
imaginado de sonho.

7 - Mergulhar no Azul Absoluto dos Vitrais

Numa igreja, ele, ao ver uns vitrais românticos, ao estilo do


século XIX, imaginava-se a mergulhar no azul absoluto, ou no verde
absoluto:

“Admirei aquele esplendor e pensei:


“Que cores! Como seria agradável morar dentro de um desses
vitrais! Se houvesse um espaço habitável, onde tudo fosse como essa
apoteose de colorido, e eu pudesse passear de vitral em vitral por
vários ambientes, sem qualquer empecilho, apenas me alimentando
dessas cores, do ar e do perfume condizentes com elas, eu seria
capaz de perceber harmonias e belezas de uma ordem do ser
maravilhosa, que não pertence a esta terra.
“Se eu pudesse morar nesse espaço, perceberia também que
minha alma se sentiria completamente realizada ao fazer tal excursão
através do mundo dessas cores banhadas pelo sol. Então, penetrar
num verde ou azul absolutos, observar todo o percurso da luz –
desde a aurora até o crepúsculo – através dessas cores que iriam
mudando de tonalidades sem ninguém me interromper nem
perturbar! O tempo todo estaria ali, tecendo reflexões e
316
contemplações baseadas nesses coloridos...” (Plínio Corrêa de
Oliveira, artigo “Flashes” com a Santidade da Igreja, in revista
“Dr. Plínio”, Ano VII, Novembro de 2.004, N0 80, p. 20. O destaque
é nosso).

8- Fazer o verde de uma gelatina trans-esférica


mergulhar em Plínio.

Conta Dr. Plínio que, quando ele era ainda menor de dez anos,
foi introduzida em São Paulo a gelatina. E que ele era entusiasta de
comer gelatina, mais por causa da cor do que pelo gosto da gelatina.
“Em certo sentido – dizia ele—eu “comia a cor”.
“Parecia-me que, ao ingeri-la, entrava em minha substância
pessoal alguma coisa contida naquela cor, de maneira que eu me
sentia enriquecido na minha personalidade e ficava
entusiasmadíssimo com a gelatina. Eu tinha a idéia de que, na ordem
do ser, aquilo simbolizado pela gelatina elevava-me e dignificava-me,
ao entrar em mim. Eu não pensava isso por amor-próprio ou pelo
desejo de outros verem -- sabia perfeitamente que não ia ficar verde
por ter comido uma gelatina dessa cor – mas por sentir que qualquer
coisa do aspecto psicológico do verde entrava em mim e aumentava
a minha familiaridade com aquilo que era bom e digno”(Plínio Corrêa
de Oliveira, Notas Autobiográficas, Vol.I, pp. 365-366).

Que pensamento mais estapafúrdio: engolir o aspecto


psicológico do verde. E o verde tem psicologia?
E engolir isso, que não existia no verde, causaria em Plínio um
enriquecimento da personalidade de Plínio.
Teria sido preciso levar esse menino ao médico.
Ou então explicar-lhe que esse desejo de fusão nos outros e
nas coisas, era uma tentação típica da Gnose romântica, buscando
fundir o próprio eu no todo do universo e nos outros.
Capítulo VI

Sonhos “Císnicos” e “Pavônicos” de Plínio sobre si


mesmo

Que Plínio desde muito jovem se acreditava superior a muitos,


se tem a prova nas suas seguintes afirmações:
“Várias vezes, até fazer quinze anos, veio-me a seguinte idéia
à mente: “Mas, afinal, quem sou eu?” Porque os horizontes para os
quais eu era chamado, eram horizontes maiores que os do comum
das pessoas com quem eu tratava. Sobretudo, eram horizontes mais
elevados. Então, vendo esta diferença de horizontes, e vendo que os
outros não ligavam para essas coisas mais altas, eu me perguntava:
“Mas, afinal, quem sou eu?” Que papel eu tenho? Será que eu tenho
alguma coisa a fazer?” (Plínio Corrêa de Oliveira, O Reino de Maria
na alma do Senhor Doutor Plínio: “Minha Biografia Íntima”,
317
Sagrado Coração de Jesus –XXIX—Curso de Formação São Bento-
Praesto Sum—Saúde, p.5).

Por vezes, um raio de bom senso perpassava por sua cabeça,


e Plínio desconfiava um tanto de seu desvario: “Eu me perguntava o
seguinte: “Essa idéia não será megalice? Afinal de contas, será que
não estou imaginando coisas a meu respeito?”(Idem, p. 6).

Afinal!!! Um raio – um flash -- de lucidez!

Mas essa reação do bom senso durava pouco...

E então ele se convenceu de ser “O Inocente”, o homem que


havia recuperado a inocência primeva, de possuir a inocência de
Adão, sem o pecado original.
Daí, ele se julgar capaz de ver o mundo de modo “inocente”.
E essa maneira de ver era bem semelhante ao modo de ver
romântico, imaginando mundos que não existiam senão em sua
fantasia, mas que, apesar de dizê-los irreais, ele acabava acreditando
que eles realmente existiam.

Vimos que, considerando uma gota de orvalho, ele acabou


imaginado um mundo orvalhal.
Agora vamos ver Plínio sonhando um universo císnico. E
quando ele fala do cisne e da concepção císnica que ele imagina com
que o cisne via o mundo, ele, Plínio, estava, de fato, imaginando-se o
cisne.

“Mais adiante a criança vê um cisne. Ela fica maravilhada! Vê


o modo pelo qual ele se move dentro d´água, e tem a impressão
de que o cisne vê todas as coisas não como elas são, mas
como ele é. De maneira que em vez de o cisne ver o que está
na margem como de fato é, ele vê todas aquelas coisas com
aspectos “císnicos”. Quer dizer, como elas seriam se elas
fossem proporcionais a ele”.
[Devia ser um cisne que lera Schelling...Um cisne idelaista,
pois via o mundo não como o mundo é, mas como ele julgava que o
mundo era].
“Depois, ele vê um pavão e pensa: “O pavão está fazendo
essa roda toda, e está fazendo essa roda no quintal da casa, perto
das galinhas. Ele não está vendo nada disso. Ele tem como que
uma imaginação por onde ele vê um universo “pavônico” que
não existe, mas para o qual ele é proporcionado”

“O inocente tem a impressão -- ele sabe que não é a


realidade – de que as imagens das coisas dão a idéia de que o
pavão vive em função de uma imaginária ordem pavônica, e
que o cisne vive numa imaginária ordem “císnica”, e que
318
assim há muitas ordens possíveis que não existem, mas para
as quais ele homem é todo feito. Portanto, não existe só o
pavão em si, mas um universo pavônico, um universo císnico.
Haveria então, por exemplo, o universo “leônico”, uma coisa
fantástica.

“Vemos então que há vários universos possíveis que não


foram criados, que são muito superiores ao universo que nós vemos,
aos quais tendemos inteiramente” (Plínio Corrêa de Oliveira, O Reino
de Maria na alma do Senhor Doutor Plínio: “Minha Biografia
Íntima”, Sagrado Coração de Jesus –XXIX—Curso de Formação
São Bento-Praesto Sum—Saúde, p.8-9. Os destaques são nossos).

Note-se como Plínio passa sutilmente:


a) de um reconhecimento de que a realidade imaginada não
existe.
b) Para depois admitir que há muitas ordens possíveis de ser
c) E que o homem é feito para essas realidades imaginadas,
irreais, mas possíveis.
d) Que esse universos possíveis são muito superiores ao
universo que vemos.
e) Para enfim concluir: “Portanto, não existe só o pavão
em si, mas um universo pavônico, um universo císnico.
Haveria então, por exemplo, o universo “leônico”, uma coisa
fantástica
Que platonismo gnóstico desbragado!

Essa seqüência de idéias retirada de um texto de Plínio


comprova sua mentalidade completamente romântica e sonhadora, --
muito semelhante ao mundo das idéias do Gnosticismo platônico-- e
tendente a repelir o universo que vemos e no qual vivemos. E isso é
próprio de uma mentalidade gnóstica.

Coitado do cisne! Até o cisne de Plínio tinha megalomaníacos


sonhos, no irrealismo sonhado por Plínio.
Para quem é romanticamente obcecado, até os cisnes e
pavões passariam a ver as coisas não como são, mas como
sonhariam que fossem. É claro que isso ocorre comumente em
sanatórios psiquiátricos.
Evidentemente, Plínio se retratava a si mesmo no cisne e no
pavão, e o modo como ele imaginava como o cisne e o pavão viam o
mundo—não como o mundo é, mas como eles o imaginam—é o modo
como Plínio via a realidade: como um simples trampolim para saltar,
por meio da imaginação, para os mundos “císnicos”, “pavônicos” e
“leônicos”.
Para os mundos plinianos.
Era uma visão onírica da realidade, sabendo que ela não
existe, mas, desejando tanto que ela existisse, que ora ele negava a
319
sua existência, mas sempre afirmando, que era para ela ele tendia
inteiramente.
Plínio é um romântico típico.
Plínio era um gnóstico romântico.

E essa visão onírica do mundo, não como ele é, mas como ele
quereria que o mundo fosse, o levava a desprezar, do modo como
fazem os gnósticos, o mundo real, com os seus galinheiros e
galinhas cacarejantes e sujas. Levava-o a sonhar um mundo
císnicamente pliniano, para depois, ao constatar a realidade, repelir
com nojo a realidade das margens pantanosas, para viver, em sonho,
num lago azul sem lama, onde somente cisnes brancos deslizassem
suavemente à flor da água cristalina e fresca.
Plínio queria corrigir o mundo tal qual Deus o fez,
especialmente tal qual ele se tornou após o pecado original.
Já citamos este texto de Plínio, mas só o repetimos, agora, por
razão didática, e para fazer compreender o sistema do “profeta de
Higienópolis” que pretendia corrigir a obra de Deus.
“Daí vinha a tendência minha a recusar coisas enganadoras,
como a de querer imaginar que realmente existiam coisas assim, mas
com homens de carne e osso, com mulheres de carne e osso, e com
coisas materiais sensíveis. Eu sabia que isso não existia. Imaginar
que eu conheceria nesta terra um determinado ambiente humano que
seria mais ou menos assim, eu também sabia que não seria possível.
Mas eu sabia que em alguma medida as coisas terrenas são
leváveis até lá, de forma que a minha primeira idéia de Contra
Revolução foi a de caminhar para esta perfeição.
“Quer dizer, não era ainda a Contra Revolução, era a idéia em
função da qual no choque contra a Revolução eu disse: “Não”!
“A partir disto, nasceu uma crítica ao mundo real em
torno do qual eu estava – uma crítica do mundo visto fora da
do fundo de garrafa, aquém do fundo de garrafa--, e esse
mundo eu o via com algumas coisas muito belas e que não eram
indignas de estar postas em relação com o fundo de garrafa e, por
outro lado, com coisas muito reprováveis, despiciendas, erradas e
tortas. De onde uma idéia de e que ele deveria ser corrigido e de
que se todos os homens –sempre a idéia seguinte: eu sou igual a
todos os homens, logo todos os homens são iguais a mim --, em
cujas cabeças há a mesma coisa que há na minha, se eles tivessem a
limpeza de alma de fazer essa operação que eu faço, eles todos
puxariam junto comigo as coisas para uma linha onde elas não estão,
e eles seriam de um modo como eles não são”.
“Eu sentia que o impulso de minha vida era fazer isso”.
(Plínio Corrêa de Oliveira, O Reino de Maria na alma do
Senhor Doutor Plínio: “Minha Biografia Íntima”, Sagrado
Coração de Jesus –XXIX—Curso de Formação São Bento-Praesto
Sum—Saúde, p.11. Os destaques são nossos).

320
Contra Revolução, para PCO, seria ser contra o real tal qual
ele existe hoje, após o pecado original.
E essa recusa do mundo tal qual ele é, por vontade de Deus, é
uma revolta revolucionária.
Desses sonhos e dessa recusa da realidade, com seus defeitos,
desse desejo de ”corrigir o mundo” tal como foi feito por Deus, e
mudado por Deus em “vale de lágrimas”, depois do pecado de Adão,
é que nasce a pergunta típica da mentalidade romântica e gnóstica: “
De onde vem o mal? ”
Conta PCO, que, quando ouviu contar a história de Adão e
Eva, e soube da serpente sua reação foi: “Por que Deus não põe essa
porcaria fora? Se tudo devia dar certo, para que a serpente?” (Plínio
Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, vol.I, pp. 605-606).
“Por que Deus criou a serpente?”
“Aquilo me parecia difícil de explicar e eu disse para mim
mesmo: “Não vou pensar mais nisso, até ficar mais velho e ter o
espírito em condições de resolver o problema. Então entenderei”
(Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, vol.I, p. 606).
Unde malum?, diriam os gnósticos.
Por que Deus criou o demônio e permitiu o mal, perguntam os
românticos. Para Plínio tudo “devia dar certo”. Como nos romances e
filminhos românticos.
Lembramo-nos de PCO contando como, no Colégio São Luís,
uns meninos lhe contaram como eram geradas as crianças, rindo dele
porque ele acreditava em cegonhas entregadoras de bebês como por
sedex. Quando ouviu como se concebiam as crianças, ele disse que
respondera: “Vou perguntar para mamãe, se é assim”. E que, depois,
vendo alguns parentes, ele pensava: “Esse fulano --ou essa fulana --
bem que seriam capazes de fazer tal porcaria”.
Assim nasceu o catarismo tefepista. E Anna Katharina
Emmerick completou essa lição, falando em concepção humana pela
palavra e não por sexo. Idéia que encantou PCO...

A mentalidade de Plínio, da TFP e dos Arautos é romântica e


com nítidos traços de Gnose.
E Plínio afirmou que sua noção de Contra Revolução -- nascida
da mentalidade romântica ainda vigente na Belle Époque, e que ele
confundia com a Tradição -- tinha relação com o imaginar um mundo
como ele não é, e que o levava a querer corrigir o mundo.

A Contra Revolução de Plínio não visava defender a Igreja e


restaurar a Cristandade, tal como concreta e historicamente ela foi, e
como deve ser, mas a instituir nas mentes um sonho imaginário e a
viver em função desse sonho imaginado.Numa Belle époque. Com
mamãe.
A Contra Revolução de Plínio, na medida que não era
histórica, era romântica e gnóstica.
Isso é ser revolucionário.
321
A “Contra Revolução” de Plínio e da TFP era revolucionária.
Assim se enganam ingênuos que sonham com “restaurações”
monárquicas e aristocráticas.

Capítulo VII

Efeito do sonhar romântico: desprezo gnóstico da


realidade concreta material.

Mas, pode-se examinar os efeitos desses sonhos e desse


sonhar exacerbado até o desvario da mente.

A admiração pelas perfeições excelsas dos seres possíveis—


entre eles os seres possíveis “Ab aeterno”, o mundo císnico e
pavônico-- levava os seguidores de Plínio a considerar as criaturas
materiais como muito inferiores, tendendo a desprezá-las.
Comparado com o universo císnico sonhado, o mundo
concreto em que vivemos não passava de um galinheiro sujo e
lamacento.
Na TFP, a super admiração pelo ideal inclinava as pessoas a
desprezar o concreto, do aqui e do agora. Como os românticos, eles
tendiam a considerar que apenas “o ideal é o real”.
PCO fugia constantemente do mundo real para um mundo
imaginário platônico, típico da Gnose. E quando, por acaso,
encontrava algo ótimo, logo procurava naquilo um defeito, que lhe
permitisse dizer que poderia haver algo melhor. E no mundo da Trans
esfera, então, haveria aquilo mesmo, mas em estado sublime.
Daí, ele recorrer continuamente a termos idealizantes como
arquetipia, quintessência, arquétipos, protótipos, mito, mítico,
modelos, sonho, impressão, sensação, sentir, etc.
A essas palavras, ele procurava dar um sentido diferente do
normal, para não cair diretamente num idealismo platonizante, mas
logo suas distinções eram esquecidas, e a força do significado
verdadeiro acaba voltando, e se impondo. O resultado era a formação
de uma mentalidade completamente romântica.
Em que pese as justificativas deslizantes de Leo Daniele.

322
Isso ocorria tanto mais facilmente quanto o próprio Dr. Plínio,
na verdade, usava esses termos realmente em sentido romântico e
idealista, sendo suas distinções meras cortinas de fumaça, para não
se reconhecer, de plano, o seu romantismo.
Destarte, é bem compreensível que, na boca dos enjolras,
sonho e mito acabassem significando – tal como na mente de Plínio --
sonho e mito mesmo.
Mito em que se deveria desejar viver. Mito com o qual se
deveria viver sonhando.

Claro que isto levava a opor o mundo real – insuportável—ao


mundo ideal, sonhado. Daí, uma concepção dialética da Natureza.
A natureza, tal qual ela se nos apresenta aos olhos, seria má.
A “natureza”, tal qual Plínio fazia sonhá-la, seria esplêndida.
Assim também era entre os românticos alemães e franceses: a
natureza era, de um lado, um cárcere do espírito absoluto; de outro,
era o medium, o meio, o veículo para alcançar a comunhão com a
Divindade.
Aplicando essa oposição dialética à natureza humana, o
resultado era o mesmo: o homem, tal como o temos, é péssimo, e
cheio de misérias. O homem-mito seria angelicamente “dourado”. Na
Trans–esfera pliniana, o homem não teria nem carne e nem osso,
assim como a limodadérrima não teria nem limão nem limonada.
Como não cair na Gnose, se Scognamiglio – repetindo as lições de
PCO—incutia e incute ainda hoje a seus Arautos--, que eles são
querubínicos e serafínicos?
Os Arautos julgam-se superiores aos anjos. Ora, já diz o
ditado qui fait l’ange...
Quem quer bancar anjo...
....fait la bête.
Essa oposição radical entre mundo real e mundo sonhado é
tipicamente gnóstica. Toda Gnose nasce da recusa de aceitar a
contingência do ser criado, como se ela fosse um mal metafísico.

Os maniqueus já haviam montado a sua Gnose com base


nessa pergunta – Unde Malum? -- que confundia mal moral (as ações
pecaminosas) com o mal enquanto ser (o mal enquanto ser não
existe, pois tudo quanto existe tem pelo menos o bem da existência).
Para os maniqueus, haveria dois deuses: o Deus do Bem e o
Deus do Mal, que teria criado este mundo e o homem com uma
dualidade de bem e de mal.
Santo Agostinho demonstrou em seu Livro Contra Manichaeos
que o Mal absoluto – o Deus do Mal , oposto ao Deus bom—não
existe e nem pode existir. Porque existir é um bem. Existir é melhor
do que não existir. Sendo assim, se o mal absoluto existisse, ele teria
o bem da existência. Então ele não seria o Mal absoluto. Logo, o Mal,
enquanto ser, não existe. O Mal é uma falta de ser, ou uma falta de
ordem num ser. O Mal metafísico não existe.
323
Para a Gnose, em toda natureza haveria uma dualidade de
bem e de mal. O dualismo é típico da Gnose.
Plínio, tendo evidentes elementos gnósticos em sua doutrina,
tinha que afirmar um dualismo na natureza humana.

Capitulo VIII

Dualismo na Natureza Humana

Na revista “Dr. Plínio”, foi publicado um texto do falecido


imortal “Profeta” inerrante de Higienópolis, que fala das tendências
boas e más que existem no homem, artigo no qual ele afirma que as
tendências más “constituem como que um outro homem dentro
dele”. “É o inimicus homo, que tem uma inteligência sujeita a erro e
facilmente claudica, uma vontade tendente ao mal e uma
sensibilidade que lhe faz achar agradáveis muitas coisas contrárias à
finalidade e à natureza dele, bem como à ordem posta por Deus no
universo.
“Então se dá o grande entrechoque dos “dois homens”, dos
dois temperamentos, das duas vontades e duas inteligências. Importa
que o homem bom, o homem novo, vença o homem mau e o velho,
para então, sob o amparo de Nosso Senhora, correspondermos aos
desígnios divinos sobre nós” (Plínio Corrêa de Oliveira, in revista “Dr.
Plínio”, Ano VIII, Fevereiro de 2.005, N0 83, p. 25).

Que São Paulo ensinou que no homem, por causa do pecado


original, há duas “vontades” – dois quereres numa só faculdade
volitiva, e não duas faculdades volitivas--, uma querendo o bem, e a
outra apetecendo o pecado, disso não há dúvida. Sem dúvida, depois
do pecado original, em cada homem há uma luta como se nele
houvesse dois homens, duas vontades: o “homo iniquo et doloso” e o
homem filho de Deus.
Mas esse “homem iníquo e doloso” causado pelo pecado
original, não é um outro homem substancial existente no ser
humano.
Dizer que no homem há realmente dois homens, com duas
inteligências, duas almas etc., isso é completamente novo. É
pliniano. É fábula pliniana.

Na alma do homem, há uma só inteligência e uma só vontade.


Esta vontade, pela corrupção trazida pelo pecado original
tende ao pecado e ao mal. Mas não se pode dizer que na alma
humana haja realmente duas vontades. Essa é uma forma só
analógica de falar que não se pode tomar literalmente. Muito menos
324
se pode dizer que haja na alma humana duas inteligências. No
homem há uma só inteligência, que, por causa do pecado de Adão,
tende ao erro, mas que continua única no homem.

Entretanto, noutro texto, Plínio vai mais longe ainda, pois diz
taxativamente que, no homem, haveria uma parte angélica e outra
humana:
“A parte animal do homem pode sufocar temporariamente as
manifestações de sua parte angélica. Nunca pode, porém, destruí-la
radicalmente” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo O Mundo Precisa de
Santos, in revista “Dr. Plínio”, Ano II, Novembro de 1999, N0 20, p.
26. O destaque é nosso).

Parte angélica no homem???


Aí o erro está exposto escandalosamente: no homem
haveria uma parte angélica. Plínio toma a alma como sendo algo de
angélico aprisionado na animalidade.
Como esse homem podia se dizer tomista se nem sabia que a
natureza humana não é composta de uma parte angélica e outra
animal. Monsenhor Scognamiglio –de firmeza única em São Tomás –
vai repetir essa besteira de boca cheia. Afinal, ele agora é Doutor...
Monsenhor Scognamiglio, depois de se doutorar, num sermão
espaventoso pelo conjunto de absurdos que afirmou, disse que no
homem há seis ou sete naturezas. E as foi enumerando e contando
nos dedos:
“Nós somos bem complicados, porque nós temos leis diferentes
dentro de nós.
“A parte angélica quererá uma coisa, mas a parte animal
quererá outra, a parte vegetal outra, e a parte mineral pesará num
sentido também diferente, então são leis diferentes, que no paraíso
terrestre estavam inteiramente coordenadas, inteiramente ajustadas
com o dom de integridade. Esse dom de integridade fazia com que
tudo no homem, e na mulher, fossem perfeitos e obedecessem a um
princípio mais alto que era o princípio da fé, um princípio ligado com
Deus.
“Perdido o dom de integridade começa a verdadeira bagunça, o
verdadeiro caos.
“Porque São Paulo mesmo vai dizer:”Sinto em mim duas leis”.
Mas ele podia dizer que sentia cinco leis, porque uma é a lei dos
minerais, outra a dos vegetais, outra a dos animais, outra a do
homem enquanto tal, e outra a da graça. Porque ainda não estou
considerando o mecanismo da graça, que seria uma quinta natureza
que existe no homem batizado.
“E, então, como vai o homem saber o que ele deve fazer, e o
que ele não deve fazer?”(Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias,
sermão A Lei do Senhor é perfeita, em 25 de Janeiro de 2010,
HTTP://tv.arautos.org/movie/show/*OcOrxFDbOyozopB

325
Sem dúvida instalou-se a bagunça na cabeça do Monsenhor
Doutorado
E que bagunça! Isso é que doutorar-se em direito pelo avesso.
E esse Monsenhor acabava de receber o título de Doutor, suma
cum Laude, em Roma ! E afirma que no homem há várias naturezas,
inclusive que no homem há uma parte angélica. E esse
“Doutor”garantiu aos membros da banca examinadora de sua tese
que tinha”firmeza única em São Tomás”.
Para sempre mais heréticos atrevimentos!

Monsenhor Scognamiglio aprendeu que no homem há uma


parte angélica. E aprendeu essa tolice no MNF de Dr. Plínio.

Nota Zero para ele!


E para o MNF.
E para Plínio, de quem ele colou essa besteira.

1- Maldade da natureza humana

O Romantismo de PCO vai fazer com que ele veja a natureza


como intrinsecamente má. Se no homem haveria algo de
praticamente divino --(a Inocência Primeva)—por outro lado esse
aspecto divino estaria encarcerado numa natureza também
substancialmente má. Como todo romântico autêntico e consciente
de seu romantismo é gnóstico, todo romântico vai ver especialmente
duas coisas como más na natureza humana: a o livre arbítrio e o
corpo material, E por isso, o romântico condenará, como os cátaros,
a reprodução sexual.
PCO era romântico e gnóstico. Por isso ele dirá que o livre
arbítrio é mau. E ele também sempre manifestou grande ojeriza pela
reprodução sexual e pelo casamento.
Isso chegou a tal ponto que, já por volta de 1958 ou 59, nos
escandalizamos ao constatar que no grupo do Catolicismo de Belo
Horizonte se cantava uma cançãozinha na qual se chamava a mulher
de a “intrínseca”, para dizer que a mulher seria intrinsecamente má...
Entrosadinhos os mineiros, já naquele tempo.

2-Maldade do Livre Arbitrio

Certa ocasião Plínio, deu uma concepção absolutamente


gnóstica do homem:
“Todos os homens recebem graças suficientes para se
salvar. Também isto é de Fé. Mas, de fato, pela maldade humana que
é imensa, muito poucos, se salvariam só com a graça suficiente. É
preciso que a graça seja abundante para vencer a maldade do
livre arbítrio humano” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Vítima

326
Expiatória, in revista “Dr. Plínio”, Ano II, Outubro de 1999, N0 19,
p. 26. O destaque é nosso).

Como? !
Maldade do livre arbítrio?!
Isso nunca foi doutrina católica!
Isso cheira a jansenismo desbragado.

Tomando literalmente o que o autor em foco escreveu, isso é


maniqueísmo. É catarismo. É jansenismo. Isso nunca foi católico. A
menos que o autor não saiba realmente escrever.

Analisaremos mais adiante essa citação (Quarta Parte, Capítulo


VIII, Erros de Plínio sobre a Graça p. 415) mas considerando que o
livre arbítrio é uma capacidade dada por Deus ao homem, capacidade
essa que o torna livre e responsável por seus atos, capaz de ter
mérito ao cooperar com a graça, e de culpa ao pecar, afirmar que o
livro arbítrio é mau, é considerar que há algo com maldade na própria
natureza humana. E isso, tomando a frase como ele a diz
concretamente, é tese gnóstica.
Haveria que considerar a ignorância de Plínio e a possibilidade
de erro de expressão. Contudo o autor era pessoa muito capaz, tinha
possibilidade de vencer sua ignorância doutrinária. Ele teve graça
suficiente para não cair nesse erro. E ele se presumia conhecedor do
assunto.

Ademais, os muito graves erros anteriores de caráter gnóstico


que encontramos em sua doutrina levam seriamente a suspeitar de
que ele tinha uma tática montada – e camuflada --para ensinar a
Gnose com sutileza, Gnose cujo sistema explanaremos mais adiante.
Mais ainda: ele queria ensinar e ser ouvido como se fosse
profeta e inerrante, o que o tornaria culpado, ainda que por simples
ignorância e imprudência no escrever. Deve-se ler essa citação no
contexto de toda a doutrina que Plínio expunha, o que aumenta a
probabilidade de culpa, e não de erro material, no modo do autor se
expressar.

Essas citações mostram de modo patente uma concepção


dualista do homem. E essa concepção é a da Gnose, vendo no
homem duas substâncias, uma boa, e outra má.
Claro que se poderá alegar engano de expressão. Só que as
citações da revista “Dr. Plínio” foram impressas e publicadas anos
depois da morte de Plínio. E podendo ter sido corrigidas, não o foram.
Pois quem se atreve a corrigir um profeta inerrante?

3 - Maldade da reprodução sexual e do casamento.

327
Todos que entravam em contato com a TFP logo notavam
que havia um tema delicado: a questão do casamento, e uma certa
ojeriza pela mulher.
Na gíria tefepista toda mulher—exceto Dona Lucília,
claro—era chamada “fassura”.
PCO denominava “fassur” todos os seus adversários ou
inimigos doutrinários. Essa palavra tinha origem na Sagrada
Escritura, onde se conta que um sacerdote de nome Fassur se opôs
violentamente ao Profeta Jeremias, punindo-o fisicamente (Cfr. Jer.,
XX, 1). Como PCO se julgava profeta inerrante, ele seria como
Jeremias, por isso seus inimigos eram “Fassures”.
Depois, esse nome foi causando todo um vocabulário muito
particular do grupo de PCO—uma verdadeiro jargão esotérico – no
qual fassura era inicialmente sinônimo de prostituta, e afinal se
tornou sinônimo simplesmente de mulher. Fassurar seria agir
pecaminosamente, trair, ou cometer ato sexual. Fassurada passou a
ser ato sexual, e assim por diante.
PCO não se casou e desprezava quem se casasse. Casar, na
TFP, era sinônimo de apostatar. No grupo de Plínio, havia alguns
veteranos que se haviam casado, e que, por isso mesmo eram tidos
como membros de segunda classe: Dr. Fernando Furquim de
Almeida, Dr. Azeredo, Dr. Adolpho Lindenberg, Dr. Arruda, e alguns
poucos mais. Todos os que entraram a partir de 1952, eram solteiros.
Quando um deles quis se casar, teve que fazer isso secretamente,
casando-se numa igreja, mas não comunicando a ninguém seu novo
estado. E quando descobriram que essa pessoa se casara, essa
pessoa foi expulsa sem piedade, seus objetos e roupas queimados, e
essa pessoa nunca mais pode participar do grupo.
PCO era admirador fanático das Visões e Revelações de Anna
Katharina Emmerick. Essa falsa vidente romântica lamentava que
Deus tivesse feito a reprodução humana por via sexual. Ela dizia que
Deus poderia ter feito isso de modo muito menos repugnante. E
sempre que via uma noiva, ela chorava.
“Quando ela tinha 16 ou 17 anos, os pais pensaram em casá-
la, mas ela recusou porque tinha uma invencível aversão pelo estado
matrimonial (25):
"Quando já em minha primeira juventude eu fui instruída de
modo sobrenatural a respeito da geração temporal dos homens, sem
ter que pensar muito sobre o assunto, a minha fantasia, pela graça
de Deus, nunca se preocupou com isso, e, quanto ao que me
concerne, permaneci totalmente inocente a respeito dessas coisas, e
essa questão era para mim mais uma causa de aversão e de
compaixão para com as pessoas do que algo contra o que tivesse que
lutar, como as outras crianças. Ainda muito criança, eu fazia censuras
a meu Deus amado dizendo que podia ter feito essas coisas de modo
diferente. Eu sempre tive aversão pelo casamento. E quando via uma
noiva não podia deixar de chorar (Nota 26)".

328
“Ora, esta aversão ao casamento não é natural, e indicava
nela, ou idéias gnósticas, ou pelo menos, uma mentalidade doentia.
Jamais uma santa pensaria assim”.
(Nota 26- Anton Brieger,Der Gotteskreise, Hans Verlag,
Munschen, 1966, Anna Katharina Emmerick Visionen und Leben
Erich Wewel Verlag, MUnchen- Freiburg, 1974, p. 224, in Tese de
Doutorado de Orlando Fedeli na USP—Elementos Esotéricos e
Cabalísticos nas Visões de Anna Katharina Emmerick, USP, São
Paulo, capítulo III, p. 203 -204).
Essa falsa vidente gnóstica e romântica, fazia entender, como
fora comum em várias seitas gnósticas, que o pecado original teria
sido o ato sexual entre Adão e Eva.
Dizia ela, como dizia o gnóstico Jacob Boehme, autor que está
na raiz do Romantismo, que Adão e Eva, antes do pecado, eram
feitos de luz e sem sexo. A geração humana, antes do pecado, seria
por meio da palavra humana... (Orlando Fedeli na USP—Elementos
Esotéricos e Cabalísticos ns Visões de Anna Katharina
Emmerick, USP, São Paulo, capítulo V, pp. 383-388 e pp 412 -418).
Ora, o Crradeala Ratzinger condenou essa posição gnóstica em
seu livro O Sal da Terra:
À uma pergunta do Jornalista Peter Seewald o então
Cardeal Ratzinger , hoje Papa Bento XVI respondeu:

"Certa vez o senhor classificou a sexualidade como uma espécie de


mina flutuante e como força onipresente. Isso soa mais como uma atitude de
rejeição em relação à sexualidade?"

Cardeal Ratzinger:

"Não, não é o caso, porque seria contra a fé que nos diz que o
Homem é criado por Deus no seu todo, e o Homem foi criado por Ele
como homem e mulher. A sexualidade não é, pois, nada que só
tenha surgido depois do pecado, mas faz realmente parte do
plano da criação de Deus. Porque criar o Homem como homem
e mulher siginifica criá-lo de modo sexuado, de forma que de
fato pertence ao conceito originário da criação e, assim, ao
originalmente bom do ser humano". (Extraído do Livvro " O SAL DA
TERRA", Peter Seewald,
Seewald Ed. Imago,Rio de Janeiro, RJ, 1997, p. 79).

Por isso tudo, a prática da castidade na TFP era algo muito


problemático, gerando mentalidades escrupulosas até o desespero,
assim como graves problemas de ordem moral. E sempre que alguém
queria se casar, era logo posto fora da entidade. Quando, acusamos
na década de 80, essa posição contrária ao casamento e à
reprodução na TFP, PCO fez uma reunião geral, na qual disse, que,

329
desde então, quem quisesse se casar poderia fazê-lo, mas seria
reduzido ao nível de correspondente e esclarecedor. Isto é, era posto
fora da TFP.
Algumas pessoas de bom nível social e muito competentes,
apesar de casadas foram admitidas no grupo, e algumas delas
entraram até na Sempre Viva.
O paroxismo se alcançou quando Dr. Plínio cogitou de que no
Reino de Maria que iria ser instaurado por ele, haveria a restauração
da geração humana como teria sido no paraíso terrestre, segundo a
descrição de Anna Katharina Emmerick: a reprodução humana seria
por meio da palavra, e não mais por via sexual.
Por respeito e caridade, queremos ficar por aqui nessa questão,
respeitando casos pessoais dolorosos, a fim de manter este estudo
apenas em nível intelectual, tratando nesta questão moral somente
no mínimo necessário para completar o quadro doutrinário romântico
que Dr. Plínio criou e desenvolveu até o paroxismo na TFP e na
Sempre Viva.
Mas é bom recordar o ditado francês: “Qui fait l’ange, fait la
bête”...

330
Capítulo IX

Angelização

Relacionada com toda a questão sexual e também com a


teoria dos seres “ab aeterno”, está a misteriosa teoria da
“angelização” dos homens, ou, pelo menos, de alguns homens.
Nunca se nos deu a oportunidade de ler as conferências do
MNF sobre a “angelização”, mas o pouco que filtrou desse assunto é
bem suspeito.

Na apostila elaborada por Átila Sinke Guimarães, -- O


processo humano --à qual já fizemos referência, e que é
apresentada como sendo um arcabouço do MNF, lêem-se coisas
muito estranhas. Por exemplo, de uma teoria das duas cabeças no
homem.
E tratar das “duas cabeças do homem” depois de afirmar a
dualidade da natureza humana, e a maldade do livre arbítrio, leva a
acentuar a convicção de que, com Dr. Plínio, se está em face de um
heresiarca gnóstico.

Ao se referir à “teoria das duas cabeças” – que desagradável e


esquizofrênica expressão! – Átila, reproduzindo o pensamento de Dr.
Plínio, escreveu o seguinte:

“O que chamamos de primeira cabeça corresponde ao que


seria a parte do homem que tem algo de comum com o anjo, ou a
parte do conhecimento ou da ação do homem naquilo que ele tem de
comum com o anjo. Enquanto que a segunda [cabeça] corresponderia
àquilo que o homem tem de comum com o conhecimento, com o
instinto animal”. (cfr. MNF – “O Processo Humano” p. 79 – Editora
Vera Cruz – S. Paulo, 1972).

Dizer que o homem tem “algo de comum com o anjo” é, pelo


menos, ser pouco preciso, pois parece que se afirma que, no homem,
exista algo substancialmente angelical.
Esta imprecisão se agrava quando se vem a saber que no
“Praesto Sum” Scognamiglio ensinava aos pobres “enjolras” que
“nossa vocação é ser anjos”
331
Ser anjos! Como? Como, meu Deus?
E acabamos dever que Monsenhor Scognamiglio ainda agora
num sermão, afirmou que o homem tem também natureza angélica.

Outro erro é o de afirmar que “o homem tem de comum com o


conhecimento, com o instinto animal”.
O conhecimento humano não é animal. O homem tem uma
alma racional. Ele é dotado de intelecto e vontade, que o fazem ser
imagem de Deus. No animal, não há conhecimento intelectual.
O que Átila Sinke Guimarães expõe da doutrina de Dr. Plínio
sobre a natureza humana e seu conhecimento é completamente
contrário à doutrina Católica e é um absurdo inacreditável.
São erros de uma grosseria cornificiana.
Ora, que essa informação sobre a existência de algo angélico
no homem unido a algo animal é procedente, se tem a confirmação
em textos da revista “Dr. Plínio” onde há teses de Plínio beirando o
dualismo.
“Sendo o homem constituído por dois princípios distintos,
corpo e alma (...)”
(Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Sociedade de Almas e o
Conceito de “Temporal”, in revista “Dr. Plínio”, Ano IV, Agosto de
2.001, N0 41, p. 9)

É muito inexato dizer que o homem é constituído por dois


princípios: corpo e alma.
E a coisa fica pior ainda, quando se lê, noutro texto, que a
alma seria de ordem angélica. O que é um absurdo.
Disse Plínio:
“O homem é constituído de dois elementos: a alma e o corpo.
Este pertence ao reino animal, enquanto a primeira estaria na
ordem angélica. Porém não somos centauros de anjo e bicho, um
espírito angélico que penetrou no num mundo animal irracional.
Temos um alma que, por sua natureza, deve estar ligada a um corpo,
e vice –versa” (Plínio Corrêa de Oliveira, artigo Noções Gerais de
Temperamento –I, in revista “Dr. Plínio”, Ano VII, Dezembro de
2.004, N0 81, p. 20. O destaque é nosso).

Dizer que a alma humana estaria na ordem angélica é bem


errado. Ainda bem que o restante da citação corrige o grave erro
expresso no início do parágrafo. Mas, se se notou o erro, teria sido
melhor eliminá-lo, e não dar uma explicação complementar,
mantendo o texto errado. Nota-se um vai e vem contínuo no
significado dado às palavras usadas, e uma variação nas definições,
uma ambigüidade de conceituação que induz a erro.

O que leva à suspeita de que se usava propositalmente uma


tática de afirmar e de negar, de avançar e recuar, típica dos
modernistas e dos gnósticos, em seu esoterismo.
332
Explica-se a asserção tefepista de que, no céu, Dr. Plínio
ocupará o trono de Lúcifer, e que ele será “angelizado”, como seriam
“angelizados” os membros da TFP, que correspondessem
inteiramente ao “Profeta”.
E é de espantar que se lhe tenha querido atribuir o trono de
Lúcifer? Quem no universo quereria ter o trono de Lúcifer?
Só Dr.Plínio mesmo.
Estando vago o trono, pode deixar que ele o ocupa.

Afirma-se que isto é possível, porque alguns homens poderão


alcançar tal perfeição que sobrepujarão os próprios anjos. Que nesses
homens, o lado-anjo que haveria no homem, dominaria de tal modo o
lado-animal, que este seria como que eliminado, tornando-se então o
homem angelizado.
Ensinava-se na TFP que Nossa Senhora, no céu, está acima
dos anjos e é servida por eles. O que é verdade.
Mas que seria mais natural e mais condizente com a natureza
da Virgem Maria, que ela fosse servida por uma corte de seres
humanos... mas uma corte de seres humanos angelizados. O que é
mentira.
Evidentemente, a corte dos Arautos angelizados. A corte da
angelical Sempre Viva.

Nos hospícios, se topa com cada evidência!

Os homens que seriam chamados a alcançar tal perfeição


estariam no céu acima dos anjos. Essa seria a vocação da TFP.
Claro !!!
Daí se dizer, lá, naquele tempo: “Nossa vocação é ser anjos”.

Que Plínio continuou a pensar que era possível um homem se


tornar anjo, se tem a prova numa citação que dele faz Scognamiglio
aos Arautos do Evangelho sobre a Sempre Viva.
Depois de dizer que pertencer à Sempre Viva é mais do que
ser Papa, Plínio C. de Oliveira vai, se possível, ainda mais além ao
dizer que todo membro dessa sociedade secreta alcançaria o nível
angélico:

“Quer dizer isto é ser anjo, é um estado angélico na


terra, e mais não se pode dar” (João Scognamiglio, in Retiro V,
10a Conferência, A Unidade do súdito com o Fundador, p. 10,
letra E. O negrito e o sublinhado são nossos, num texto que nosfoi
dado, e que pertenceu a alguém que esteve presente nessa palestra
secreta).

Ser da Sempre Viva seria ser anjo!!!

333
Com tanta confusão, com tanta ambigüidade, com tantos
delírios é natural que surgisse quem afirmasse rotundamente que, no
Reino de Maria, alguns homens – da TFP , claro-- poderiam vir a ter
asas, e poderiam voar [afirmação do Sr. Ghiotto ao Sr. Luis Cláudio,
em 1983, e testemunho de D.J. P.].

O pobre rapaz apenas tirou uma conclusão de tudo o que


constava que Dr. Plínio dizia a respeito desse tema.
Por exemplo, Dr. Plínio afirmou que “no Reino de Maria,
devido à excelência da graça, o corpo humano terá propriedades que
hoje nem imaginamos” [depoimento assinado por D. J. P.].
Por que, então, não teria ele asas?
Tanto mais que o mesmo Dr. Plínio asseverava que “No Reino
de Maria, o homem poderá voar até a lua, sem espaço-naves”
[testemunho assinado de D. J. P.].

Julgamos que estas afirmações de Dr. Plínio podem estar


relacionadas com outra idéia que ele costumava externar com
freqüência: a da glorificação dos corpos de alguns homens, sem que
eles morram, e sem que eles sejam ressuscitados.
Dr. Plínio acreditava que os homens bons, que vivessem na
época do fim do mundo, não morreriam, nem ressuscitariam, mas
seriam glorificados em seus corpos, diretamente, ainda vivos.
Daí, a idéia de que alguns homens – isto é, ele--- não
morreriam. E ele procurava fundamentar tal idéia abstrusa -- que
justificaria a crença na sua imortalidade -- citando a frase do Credo
católico: “De onde há de vir julgar os vivos e os mortos”. E Plínio
interpretava que a palavra “vivos”, nesse artigo do Credo, significava
que, no fim do mundo, alguns homens seriam preservados da morte
corporal.
Se isto ia acontecer com alguns homens no fim do mundo,
porque não aconteceria com ele, vivo,-- muito vivo-- em
Higienópolis?
Afinal de contas, Higienópolis não é o fim do mundo.

Era o que, evidentemente, ele pensava que ia acontecer com


ele mesmo: não morreria.
Morreu.
Está morto até hoje.
Porque, “quant on meurt, c’est pour longtemps”.
E embora a Editora que publica a revista mensal --“Dr. Plínio”,
editada pelos amigos, que Scognamiglio nomeou para isso,
significativamente se chame Editora “Retornarei Ltda.”, Plínio, morto
em 1995, ainda não retornou.
Já se marcaram vários “retornos” do falecido Plínio. Ele ia
ressuscitar três dias depois de sua morte.
Falhou.

334
Seis meses depois. Houve uma visão de um eremita,
garantindo isso.
Não aconteceu.
Ia ser no ano 2.000.
Não foi.
De 2.005 não passaria.
Passou.
Ia ser em 2.007.
Isso mesmo!
Em 2.007!
Não aconteceu.

Quem diria? Um sebastianismo tupiniquim, no século XX e


XXI...
E, com a “Bagarre”, não poderia dar-se o mesmo?
[Bagarre seria o castigo que Dr. Plínio anunciou para muitas
datas já transcorridas, datas sempre adiadas, mas que seus fanáticos
esperam até hoje. Bin Laden é a atual esperança deles. Bin Laden.
Bin Aids. Hoje deve ser Bin Marcola, ou Achmedinenjad].

Evidentemente, um desses homens – como os do fim do


mundo -- que teria seu corpo glorificado, sem passar pela morte,
seria Dr. Plínio, que se acreditava ou se fazia crer imortal.
Em Higienópolis!
Plínio está hoje no cemitério da Consolação!
E eles acreditam que está intacto.

Ora, os corpos glorificados são luminosos, imortais,


impassíveis, ágeis, e capazes de atravessar a matéria. Por isso esses
homens glorificados não morrerão jamais, brilharão, voarão, etc.
Seria este o ser “angelizado”?

Essas teorias a respeito dos seres “ab aeterno” e da possível


angelização dos membros da TFP servem apenas para acentuar ainda
mais o altíssimo conceito que os tefepistas tem de si mesmos, que os
leva a se considerarem seres superiores a todos os demais homens,
e, quiçá, superiores aos próprios anjos.

Scognamiglio disse que “Dr. Plínio está acima dos Serafins”.


Disse isto sem ficar vermelho.
Dizia-se na TFP que ele só ficava vermelho, quando dizia a
verdade.

Não é natural que este orgulho os leve a desprezar os que não


são da TFP?
Eles são os “filhos da luz”; os demais são filhos das trevas.
Eles são os angelizados; os outros são os empedernidos e
materializados. Eles são a Igreja; os demais são os precitos. Os que
335
não têm salvação. Porque – vários o dizem – “fora do grupo não há
salvação”.

Este orgulho não deixava de ter repercussão e aplicação


dentro da própria TFP, onde os eremitas do “S. Bento” e do “Praesto
Sum” se julgavam e se comportavam como os eleitos, os que
estavam em vias de angelização, desprezando a sabugada que era o
resto do grupo, e muito especialmente os que se casavam, pois que,
enquanto viviam com suas esposas, ficavam impossibilitados de
angelizar-se.
Deste modo, orgulho e desprezo são duas notas constantes,
na mentalidade dos seguidores do Profeta de Higienópolis.

Capítulo X

Conhecimento angélico intuitivo, não racional

Sendo anjos PCO e seus sequazes teriam um


conhecimento intuitivo próprio dos seres angélicos, um conhecimento
a-racional e a-lógico.

336
“Ora, o homem pensa através de três operações
irredutíveis: a simples apreensão, o juízo e o raciocínio. Enquanto os
hegelianos procuram reduzir as três operações ao raciocínio, o
intuicionismo procura reduzir tudo ‘a primeira apreensâo.
Simplesmente não dispomos de tal apreensão angélica” (Mário Bruno
Sproviero, A Verdade e a Evidência, in L. J. Lauanad e Mário Bruno
Sproviero, Verdade e Conhecimento- Tomás de Aquino, Martins
Fontes, São Paulo, 1999, p.100).

É bem conhecida a posição anti intelectual e anti racional da


Gnose e do Romantismo.
A mentalidade romântica de Plínio tinha que levá-lo a uma
ojeriza da razão, e à defesa de um modo de captação do real –
tipicamente romântico --que não fosse intelectual, mas intuitivo,
pelas impressões, pelo sentir, como ele dizia, ou através de um
sentimento.
Na mesma apostila do Jour-le-Jour, que acabamos de citar,
Plínio distingue o modo de conhecer do anjo e o modo de conhecer do
homem.

“O anjo é um ser cognoscente voltado sobre si mesmo, de tal


maneira que ele não precisa de nenhum objeto externo para
conhecer. Ele vê a si mesmo, e, em si, ele vê tudo” (MNF – “O
processo humano”, p.79).
Ora, é exatamente assim que Dr. Plínio dizia que conhecia
todas as coisas e elaborava todas as suas teorias, isto é, examinando
o que ocorria nele mesmo, e não fora dele.
Plínio pretendia ter um modo de conhecer que seria angélico e
não humano.
Dr. Plínio não estudava. Ele, recebendo impressões vindas de
fora, do mundo, ele via e examinava o que elas produziam em seu
espírito, ele notava então o que já havia nele mesmo, as matrizes do
ser que existiriam inatas na alma humana-- e, depois, explicitava o
que tinha visto em si mesmo, socraticamente.
No máximo, ele utilizava as coisas exteriores como acicates
ou despertadores, para explicitar o que ele já tinha, no imo de sua
alma.
Como já vimos, foi examinando-se, que ele constatou ser
“inerrante”.
Depois disso, seria de espantar saber que, na TFP, se dizia que
Dr. Plínio conhecia as coisas ao modo dos anjos? Que seu modo de
conhecimento dispensaria as informações dos jornais e dos livros? Ele
conheceria as coisas pela ”aerologia”.

Para saber, por exemplo, o que pensava a opinião pública do


Rio de Janeiro, ele dizia que lhe bastaria dar umas voltas de carro
pelas avenidas da “cidade maravilhosa”. Com isto apenas, ele saberia

337
perfeitamente o que o carioca pensava de Brizola, ou o que seria
preciso fazer para acabar com o brizolismo.
Ou, mais ainda, dando umas voltas de carro por Itaquera, lhe
seria suficiente para compreender como ia, e para onde ia, a política
internacional.
Eta estupendo poder itaqueral!

O conhecimento de Dr. Plínio não seria humano. Seria


“aerológico”. Seria “trans-esférico”. Seria profético. Seria inerrante.
Seria o conhecimento do homem inocente.
Nessas condições, não é de surpreender que tenha havido na
TFP quem afirmasse que Dr. Plínio era um anjo, ou, pelo menos, a
hipóstase de um anjo. E Scognamiglio dizia que Dr. Plínio estava
acima dos serafins!
Na Quarta parte deste livro estudaremos mais a fundo a
doutrina do conhecimento de Dr. Plínio, para constatar como ela se
opõe à doutrina tomista católica.

Capítulo XI

A teoria dos vários universos plinianos.

Na ladainha de D. Lucília, uma das invocações diz “Mãe da


Trans-Esfera, rogai por nós”.

Como dissemos, nunca nos foi comunicado, nem explicado, o


que seria essa misteriosa Trans-esfera. Como também nunca nos
explicaram o que seria o “Trans-tema”, que, segundo A.B.A. “poderia
ser explorado como sendo algo com relações com a gnose”. Só agora,
com a publicação da obra A Inocência Primeva e a Contemplação
338
Sacral do Universo, é que pudemos conhecer fielmente impressa a
doutrina esotérica de PCO sobre a Trans-Esfera.
Os militantes e eremitas que saíram conosco da TFP ouviram
João Scognamiglio explicar – bem mal--o que era a Trans-esfera nas
reuniões do “Jour-le-Jour”, no Praesto Sum.
Na concepção pliniana, não existiria apenas o nosso universo.
O que é estranho porque universo só pode ser um só. No
Credo se diz: “Creio em um só Deus, Criador do Céu e da Terra, de
todas as coisas visíveis e invisíveis”.
Em vários sistemas gnósticos se concebem vários mundos
entre a Divindade e a natureza material.
Diziam eles que era preciso preencher o intervalo entre a
Divindade e o mundo material.
Ora, Dr. Plnio dizia e Scognamiglio – fiel intérprete dos
desígnios do Profeta – teria explicado que, segundo Dr. Plínio,
haveria, em ordem ascendente as seguintes esferas de ser:
a) – A sub-esfera, dos demônios;
b) - A esfera humana;
c) - A esfera angélica;
d) - A Trans-esfera (talvez a dos seres ab aeterno, ‘chi lo
sa’);
e) - A esfera divina.

Noutra oportunidade, falando a um grupo mais fechado,


Scognamiglio dizia que podia falar sem receio... Abramos pois os
ouvidos para ouvir...
Scognamiglio disse, então, a seus sequazes na seita secreta a
Sempre Viva que haveria três universos...
“Deus criou todo o universo. Além de criar o universo, Ele
ainda cria sobre o universo natural, o sobrenatural. Sobre o universo
sobrenatural, Ele ainda cria o universo da união hipostática, o que é
algo de cair de costas de grandioso, é magnificissimo” (J.
Scognamiglio, Jantar em 3 de Maio de 1998, p. 3).

Há que se observar que Scognamiglio jamais estudou Filosofia,


Teologia, Direito ou qualquer outra coisa senão o MNF do Profeta.
Mas mesmo sendo ele um ignorante, ele deveria conhecer pelo
menos o catecismo. Como pode ele dizer que “Deus ainda cria”?
Deus criou todas as coisas de uma só vez.
Não há disjunção de um “universo sobrenatural” criado sobre
um universo natural.
A graça sobrenatural foi concedida aos anjos e aos homens
que pertencem ao único universo criado por Deus.
E não existiu um outro universo da união hipostática. O Verbo
se encarnou num homem, no seio da Virgem Maria que pertencia ao
único universo criado por Deus. Se houvesse um universo da união
hipostática distinto de nosso universo, Cristo não seria homem como
nós e não teríamos sido redimidos
339
Essa separação de três universos criados um sobre os outros é
um absurdo que jamais pertenceu –e nunca poderia pertencer – à
doutrina católica.
Mas na Cabala, que é a Gnose judaica, assim como no
Shiismo, Gnose do Islam, se fala de várias esferas que a partícula
divina, caíndo do pléroma na materialidade deste mundo, teve que
atravessar. E no Grande Retorno do éon divino, após a morte e
libertação da partícula divina presa no homem, o éon tem que
atravessar várias esferas guardadas por arcontes, e só conhecendo
certos sinais e senhas pode atravessar todas as esferas completando
sua libertação e retornando ao pléroma divino.

Explicava ainda o imã Scognamiglio que, para Dr, Plínio,


qualquer ação que fosse feita por um homem, neste mundo, teria
repercussões nas demais esferas. Assim, se se cometessem pecados
em um lugar, se atrairia para esse lugar uma influência da sub-esfera
demoníaca. Por outro lado, toda ação boa teria repercussões nas
esferas angélica e na “trans-esfera”.
Ora, na Gnose shiita se ensina o mesmo: toda ação na esfera
humana repercute e atua em todas as demais esferas inclusive na
divina.
Agora sabemos que não foi só isso que PCO revelou.

Certo é que João Scognamiglio deu essas explicações aos


eremitas e militantes no Praesto Sum, para formá-los no espírito do
Profeta. E sua autoridade como fiel expositor do pensamento e do
espírito de Dr. Plínio eram totais na TFP.
Tomemos, pois, esses ensinamentos como foram dados por J.
Scognamiglio.

Agora, mesmo com essas revelações scognamiglianas fica


difícil de entender como Dona Lucília poderia ser “Mãe da Trans-
Esfera” como se rezava na ladaínha de Dona Lucília, oficialmente
composta por dois eremitas comparsas de Scognamiglio. Que falou
pela boca deles, assim como PCO falava pela boca de Scognamiglio.
Portanto, o verdadeiro autor da ladaínha de Dona Lucília deve ter sido
o próprio filho dela: Dr. Plínio.
Tomando, pois, as exposições de Scognamiglio como fiéis e
verazes – E como é difícil de fazer isso !!! -- não podemos deixar de
notar uma clara semelhança com as teorias do teósofo romântico
Franz Von Baader.

Para esse teósofo romântico alemão, cabalista e seguidor da


Gnose de Jacob Boehme, existiriam, em ordem ascendentes as
seguintes esferas:
a) - a esfera diabólica, resultante da queda de Lúcifer;
b) - a atual esfera material humana, resultante do pecado
original;
340
c) - a esfera angélica;
d) - a esfera primitiva do homem em que havia uma matéria
espiritual;
e) - a esfera divina;
(cfr. E. Susini, “Franz Von Baader et le Romantisme
Mystique”, vol. II, pp. 283-311).

E Von Baader afirmou que o mundo, tal qual ele se nos


apresenta é um mundo decaído, e que a vida temporal é má em si
mesma, e corrompida. E dizia “o visível não é o verdadeiro, e o
verdadeiro não é o visível” (cfr. Franz Von Baader apud E. Susini
ob cit vol I, p. 275).

E como isso cheira às doutrinas gnósticas sonhadas por Plínio.


Entretanto, Von Baader considerava que o homem atuando no
mundo visível, fazia, ao mesmo tempo, algo no mundo invisível, ou
esfera superior.
Era como se o homem, ao agir, movesse o ponteiro de um
pantógrafo na esfera humana, ou esfera visível, mas, ao mesmo
tempo, fizesse o braço maior do pantógrafo desenhar a mesma coisa,
em escala maior, numa esfera superior (cfr. E. Susini ob cit, vol II, p.
288).
É inegável que estas idéias parecem com o que ouvimos Dr.
Plínio dizer na TFP.

Capítulo XII

Substituição das Causas Segundas pelo Preternatural

Um membro da TFP, inteiramente entrosado e embebido das


idéias e da mentalidade do Profeta, manifesta, no dia a dia, uma
curiosa obnubilação a respeito da atuação das causas segundas.
Qualquer coisa que ocorra de bom seria feita diretamente por
Deus. Tudo o que acontece de ruim e de errado seria resultado da
ação direta do demônio.
Assim, se um tefepista faz uma viagem, e a estrada é
esburacada, se um pneu fura, é o demônio que está metendo a pata
para prejudicar a TFP. Se um gravador emperra, é o capeta que está
agindo para que não se ouça uma palestra do Sr. Dr. Plínio, e, para
combater a ação diabólica, se joga água benta sobre o aparelho. Um
membro da TFP se casa e morre pouco depois: foi castigo por sua
apostasia. Se ele sai do grupo e ganha na loteria: é o demônio que o
está comprando.
Por outro lado, se há um crepúsculo luminoso e colorido, é D.
Lucília que está se manifestando. Se alguém julga ter visto nuvens
em forma de “L” sobre o cemitério da Consolação, é um sinal de que
Deus quer aprovar a devoção a D. Lucília. Se um raio cai num túmulo

341
próximo ao da mãe de Dr. Plínio, foi proteção do céu, porque “quem
está junto dela nada sofrerá”.
E foi um príncipe que nos contou isso.
O que comprova que príncipes podem dizer tolices e serem
contaminados por mentalidade herética e sectária.
Em tudo, na TFP, se tende a ver manifestações sobre, ou
preter-naturais.
Cai um cetro de uma imagem de N. Senhora, é sinal de que
Ela está entregando seu poder à TFP. Um membro da TFP vai a um
restaurante e lá, ao comer, fura o céu da boca. Depois, vai ao médico
e se constata que o ferimento é um câncer que aflorou e a pessoa vai
morrer dessa doença. Foi maldição divina. E outro membro do grupo,
passando em frente a esse restaurante, comenta: “Que castigo!”.
Como se a pessoa tivesse morrido de câncer na boca por ter tido o
“mundanismo” de ir ao restaurante.
E se há lugar que os tefepistas frequentam, quase mais que as
Igrejas, são os bons restaurantes. Dr. Plínio lhes deu o exemplo.
Tais atitudes se assemelham às de Lutero que em tudo – nas
moscas, macacos, papagaios, raios e ventos – via manifestações do
demônio.
Os membros da TFP estão sempre atentos – como os
protestantes pietistas, que deram origem ao Romantismo – aos
“sinais”, que manifestariam constantemente a vontade de Deus.
Neste sentido, a própria história, em todos os menores fatos, seria
uma revelação contínua de divindade. Tanto J. Scognamiglio quanto
Átila ensinaram que Deus se manifesta e se revela na História, o que
é uma idéia típica do idealismo e do romantismo. Repetida pelo
Vaticano II. São os “sinais dos tempos”, que todo modernista julga
saber interpretar, numa espécie de meteorologia teológica.
Estes casos que contamos acima foram reais. Nós mesmos os
ouvimos contar lá dentro.
Especialmente, os membros da TFP se voltam para os “sinais”
e profecias de Bagarre, grande castigo que Dr.Plínio foi profetizando e
adiando, ano após ano, e que viria acabar com o mal do mundo,
eliminar a cafeína do café, a geração humana através do sexo, e mil
outras coisas mais.
Qualquer inundação no Blangadesh, --e como há inundações
no Blagadesh! Até parece a marginal do Tietê! -- qualquer terremoto
no Japão, no Haiti ou no Chile, um buraco na Flórida, um furacão nos
Estados Unidos, uma aurora boreal no Canadá, clamava-se: “É a
Bagarre”.
Contavam-se os mortos em catástrofes naturais ou em
acidentes com uma certa volúpia: quanto maior fosse o número de
vítimas, mais próxima estaria a Bagarre.
“No espaço de dez ou doze anos, vimos e ouvimos tais ventos
e tais rugidos que achamos difícil acreditar que dantes uma época
tenha ouvido ventos tão grandes e tão numerosos, pois nosso tempo
vê o sol e a lua perderem seu brilho, as estrelas caírem, e os homens
342
ficarem angustiados, os grandes ventos e as águas rugirem. Tudo se
acumula”.

Quando Dr. Plínio disse isso?

Nunca.
Parece frase dele, mas não é.
Não se pense que esta frase é de Dr. Plínio, o profeta de
Higienópolis.
Parece, mas não é.

É de Lutero, o profeta de Wittemberg (cfr. “Pecado e Culpa


no Ocidente”, artigo de Gilles Lapouge – Suplemento dominical de O
Estado de São Paulo, N0 196, ano 3 de 11/03/1984 p. 3, 2a
coluna).

O que criticamos na TFP não é a afirmação de que Deus e o


demônio possam atuar nos fatos concretos, e na História, pois isto é
católico. Errada é a tendência a exagerar, vendo, em tudo e sempre,
atuações sobrenaturais ou preter-naturais. Consideramos
completamente exagerada – e tudo o que é exagerado é também
errado-- a concepção de que Deus e o demônio estão constante,
continua e diretamente agindo nos fatos, de tal modo que se tende a
diminuir a importância, e até, por vezes, a negar a ação das causas
segundas, ou pelo menos a deixarem-nas à sombra. No caso à
sombra de Lúcifer.
Em concreto, isto provoca a formação de uma mentalidade de
tendência dualista.

343
Capítulo XIII

A Bagarre

1- Bagarre, Reino de Maria e espírito quiliástico

Estamos num fim de uma época histórica e todos se dão conta


disso. Não há quem não veja que nos aproximamos de uma crise
apocalíptica, quer ela venha sob a forma de guerra atômica ou
nuclear, quer por vitória (muito temporária) do comunismo, quer por
derrocada completa das instituições, instaurando-se a selvageria
universal. A própria Igreja está numa crise jamais vista. Parece que
até “as potências do céu foram abaladas”.
Muitos até, -- pessimistas — falam em Fim dos Tempos, ou
pelo menos em Anti Cristo. Os sede vacantistas não estão longe
dessa tentação.

Houve outras épocas com crises terrivelmente semelhantes à


nossa: a derrocada do império romano no século V, a desintegração
do mundo medieval no século XIV, a era da Reforma. Hoje, porém, a
crise é mais universal e mais profunda do que em qualquer outra
época. A crise é tão terrível que alguns, como João Paulo II, temem
pela sobrevivência da humanidade e da civilização.
Há quem fale no Anti-Cristo. Nossa Senhora em Fátima não
fala em fim da humanidade. A Rainha do Céu e da Terra fala num
terrível castigo no qual haverá o aniquilamento de nações inteiras.
Fala em sofrimentos para os bons e que “o Santo Padre terá muito
que sofrer”.
Qual Santo Padre?
Jacinta, uma das videntes de Fátima, viu uma multidão
atacando o Vaticano, e dentro um Papa chorando e rezando. Tal
ainda não se deu.

344
Das revelações de Fátima, a Igreja mantém, guardado a 7
chaves, o chamado Terceiro Segredo do qual foi publicada apenas a
visão tida pelas três crianças videntes, mas não a explicação da visão
dada por Nossa Senhora.
No final de sua mensagem, Nossa Senhora prometeu: “Por
fim, meu Imaculado Coração triunfará, e será dado ao mundo algum
tempo de paz”. Ela garantiu ainda que “a Fé se manteria em
Portugal” e que “O Papa consagrará a Rússia a meu Imaculado
Coração e a Rússia se converterá”.

É evidente, pois, que o castigo anunciado em Fátima


aniquilará apenas uma parte da humanidade, mas que, assim como a
Rússia e Portugal, outras nações poderão sobreviver.
Tudo indica que haverá uma guerra aniquiladora,
possívelmente atômica.
Caso o Comunismo da Rússia triunfasse – portanto, o
marxismo – seria difícil compreender a prometida conversão da
Rússia.
Uma derrota calamitosa ajudará a convertê-la?
É possível.
Tudo isto está envolto em mistérios que a Providência Divina
não permite aos olhos humanos sondar até o fim.
Nós cremos em Fátima. Cremos que haverá um grande
castigo. Cremos que esse triunfo de Nossa Senhora dará ao mundo
“algum tempo de paz”, isto é, de tranqüilidade na ordem.
Mas não cremos que esse Triunfo do Imaculado Coração de
Nossa Senhora se dê tal como Dr. Plínio dizia com uma
transformação da própria natureza, e da natureza do homem.

* * *

Antes de tudo, convém salientar que é natural que um grupo


perseguido e muito fechado, vivendo num verdadeiro gueto, acabe
caindo em expectativas místico-messiânicas, quando ele deixa de se
ancorar firmemente na Fé Católica.
Foi o que aconteceu com inúmeros grupos e seitas de caráter
místico. Coisa desse tipo ocorreu na TFP, e fez seus membros
deslizarem lentamente para um sectarismo realmente delirante.
Evidentemente, neste deslizamento, teve papel primordial o
processo místico-psicológico que se deu em Dr. Plínio, e que o levou
da posição adotada em público de líder católico “ultramontano”, à
pretensão de ser um profeta chamado a fundar o Reino de Maria de
que falava S. Luis de Montfort.
Não julgamos sem importância no processo interior de Dr.
Plínio, suas tendências místicas, mal influenciadas por deformações
de educação, e por crenças de baixo valor religioso, tais como as
provenientes das Visões gnósticas de Anna Katharina Emmerick, que
fala de uma futura época feliz da humanidade e da Igreja, renovadas.
345
Já vimos que na TFP se vivia na expectativa escatológica e
apocalíptica, de um grande castigo prometido em Fátima, e que, na
gíria do grupo se chamou de Bagarre.
Cronologicamente, na TFP, se acreditava que haveria uma
Grande Conversão geral, o “Grand Retour”; a Bagarre; a glorificação
de Dr. Plínio e de D. Lucília; a instauração do Reino de Maria.
Vejamos o que se dizia – o que sabemos que se dizia – nos
círculos discretos da TFP a respeito desses eventos futuros.

2- O “Grand Retour”

Essa expressão “Le Grand Retour” (O Grande Retorno) fora


usada em certos movimentos esotéricos, no sentido de um retorno da
humanidade a um estado original divino.
Conforme uma versão que se ensinava na TFP, os membros do
grupo tinham a vocação de fundar uma nova Idade Média, super
esplendorosa, que seria o Reino de Maria. Ora, natural e
sobrenaturalmente falando, eles não tinham as capacidades e as
virtudes que os habilitassem a tanto. Deus então proveria as suas
deficiências por um derrame extraordinário de graças, para que eles
se tornassem dignos e capazes de fundar uma nova civilização. Seria
como que um novo Pentecostes que os transformaria – e ACE fala
dele (cfr. ACE – Visiones y Revelaciones Completas, vol. I, p.584, 621
– 622, Ed. Guadalupe e Buenos Aires, 1953). Esse “retorno” daria aos
membros da Sempre Viva, além de graças sobrenaturais
extraordinárias, dons de fazer milagres portentosos, valores naturais.
Fala-se, na TFP, que a própria natureza recuperaria propriedades que
teve no Paraíso. (Testemunho do eremita do Êremo de São Bento, D.
J. P.). E ACE também afirmava que um novo Pentecostes traria
efeitos na própria natureza (ACE - ob cit, vol I, p. 584).
Tais graças e favores – explicava-nos o escravo Plínio Eliseu (
Plínio Xavier V. da S., em tempos idos, vividos e sofridos – não
seriam dados apenas aos membros do grupo. Muitas pessoas
receberiam graças extraordinárias e se converteriam, podendo se
constituir assim na base do “Reino de Maria”.
Não tivemos idéia de perguntar, então, a Plínio Xavier por quê
e como tal distribuição de graças e favores do Céu seria um “Retour”.
Que ele seria “Grand” era fácil de entender. Mas por que “Retour” ?
Não tivemos idéia de perguntar, porque, nesse tempo, confiávamos,
aceitávamos, não analisávamos o que ele nos dizia.
Recentemente, alguns de nossos alunos, que conosco saíram
da TFP, e que foram nela mais entrosados, contaram-nos que a
expressão “Grand Retour” teria “algo mais” que Plínio Xavier, ou não
sabia, ou não nos quis comunicar.
“Grand Retour” seria, sim, uma graça especial concedida
pouco antes da Bagarre, que faria as pessoas retornarem à “inocência
primeva”, isto é, ao mesmo estado de inocência em que Dr. Plínio
346
julga que já estaria hoje, e que lhe permitiria, segundo ele dizia, ter
um domínio completo da natureza, e uma comunicação mais fácil
com o bem.
Seria, aliás, isto o que se pediria na chamada Oração da
Restauração, que Dr. Plínio compusera no Restaurante Giordano,
numa roda grande de gente muito pouco piedosa, “enquanto Dr.Plínio
comia uma pizza”: que se restaurasse a “inocência primeira”. É o que
se pede a Nossa Senhora (ou a D. Lucilia?) na citada Oração da
Restauração, nome tipicamente martinista. Tanto que não se sabe
bem a quem essa oração era dirigida, porque quer Dr. Plínio, quer
Scognamiglio rezavam essa oração, em público, voltados para o
quadrinho de D. Lucilia.

Parece-nos, pois, que a explicação dada por nossos alunos à


expressão “Grand Retour” se enquadra melhor com o estranho
conceito de inocência que Dr. Plínio tem de si mesmo e com toda a
concepção (que se verá, logo mais adiante) de Reino de Maria, dada
pelo profeta de Higienópolis.

3-Fugindo da história: a Bagarre

Por “Bagarre” se entendia na TFP, um grande castigo que a


TFP procurava identificar com o que fora predito por Nossa Senhora
de Fátima. O termo francês significa briga, querela de rua. Por
extensão, confusão.
Vejamos o próprio Dr. Plínio explicar o que seria a tal Bagarre:

“A - O que entendemos por Bagarre

[Pergunta] (O Sr. poderia explicitar melhor o que o Sr.


entende por Bagarre e Grand Retour ? )

“[Bagarre é uma palavra francesa que significa tumulto,


confusão, rixa, motim. Nós, muito brasileiramente, a tomamos num
sentido figurado próprio para designar o que julgamos que serão os
prováveis castigos preditos por Nossa Senhora em Fátima para o
mundo pecador]

“a - Bagarre: a grande destruição da obra da Revolução

“A Bagarre, substancialmente, deverá ser uma grande


destruição. A destruição da obra da Revolução, o que equivale dizer,
de toda a sociedade humana que ela elaborou, dos homens que a
lideraram e da obra material que ela marcou com o seu espírito.
“Essa destruição suporia a convergência de vários cataclismas;
uma crise interna que destrua, por obra dos maus, essa obra em
conjunto; um morticínio tremendo, guerras, guerrilhas, vinganças

347
particulares e, possivelmente, epidemias, catástrofes cósmicas e
termonucleares.
“b - Provavelmente com uma intervenção sensível e oficial de
demônios, com efeitos misteriosos e imprevisíveis
“E tenho a impressão, embora não possa garantir, de que vai
haver uma intervenção direta do demônio, sensível e oficial na vida
da Humanidade, mal se disfarçando, e com efeitos também
imprevisíveis e misteriosos, pois quem nesta base pode prever
qualquer coisa? Mas eu acho que sem isso não vai. Por exemplo, na
liquidação final, tenho a impressão de que se vai ver demônios
levando gente uivando para dentro do inferno. Embora não possa
afirmar isso, eu digo, entretanto, que seria arquitetônico, razoável, e
nada mais” (Plínio Corrêa de Oliveira, Simpósio, Quem somos nós, n0
5, A, p. 68 . ORIGINAL DO site salvemaria.
http://salvemaria.info/images/fbfiles/files/QSN.doc)..

Na TFP esperava-se esse castigo como uma libertação


messiânica transformante da realidade do mundo.E isso nada tem a
ver com a profecia de Fátima.

Já dissemos como, na TFP, qualquer cataclismo natural,


qualquer pequena inundação era vista como “ A Bagarre” que estava
chegando. Vejam-se agora dois textos de Dr. Plínio sobre sinais de
Bagarre: a situação do Brasil [em código, Holanda] e a neblina do
Caminho do Mar.

1° - A situação do Brasil:

É Scognamiglio quem conta o que PCO pensava e dizia:

“E então disseram que a maior prova da vinda da Bagarre


estava não nos fatos que ele [Dr. Plínio] comentou, mas na
indignação que ele manifestou na reunião. Pois ele fazia cada
comentário da situação da Holanda, [Holanda, nome código para
designar o Brasil] e se indignava de ver como é que querem jogar a
Holanda [Brasil] num caos e sem razão nenhuma. O caos pelo caos e
sem argumentação nenhuma. (...)
E ele ainda dizia numa reunião, que estamos tocando com as
mão as águas da B. [Bagarre] e agora ele comentava: eu em outra
ocasião da História da Hol. [Brasil] em que foi muito séria, eu
analisei, e não digo hoje, mas eu sinto que a B está começando. Não
é mais colocar os dedos na B [Bagarre] portanto.” (o sublinhado é do
texto).

Tais frases são do “Jour-le-jour” de 26/06/1983, repetindo


um “Santo do Dia” de Sábado.
Em 1982 já, a Bagarre estava começando. E até agora nada
do apocalíptico anunciado aconteceu.
348
2° - A neblina do Caminho do Mar e a proximidade da
Bagarre:
“Ele [Dr. Plínio] contou que naquele dia tinha ido fazer as
orações na estrada velha de Santos, ‘e me fez lembrar os velhos
tempos que eu ia a S. [Santos] de carro. Só que hoje tudo mudado,
tem agora uma represa que no tempo não havia, com terra
aparecendo, varas espetadas, represa horrorosa. Depois um
castelinho que no meu tempo era um restaurante com comidas
importadas, licores, caviar, etc , e eu era entusiasta das paradas
neste restaurante. [É sempre o mesmo Dr. Sofrimento. Que vida
crucificada, meu Deus!] Pois eu me cansava muito na viagem. Hoje
este restaurante está abandonado e nem se dava pra ver o mirante
da cidade de S [Santos]. por causa da neblina. E de tudo isso eu tirei
uma conclusão da proximidade da B. [Bagarre] tudo dá errado. Só dá
certo combater o erro, isso é a única coisa que dá certo, o resto dá
sempre errado” (Jour le jour. Cartas recebidas de S. Paulo nos USA,
14/2/1983).

Decididamente, o Profeta estava em seus dias pessimistas.


Copiamos esse texto para que não se nos acuse de forçar a nota:
represa horrorosa + falta de caviar + restaurante fechado + neblina
que impedia de ver Santos do alto do mirante da serra = proximidade
da Bagarre.

Lógico!
É assim que são formados os jovens da TFP.
E agora os dos Arautos.

O ET [Extra Terrestre, personagem de um filme que PCO fez


toda a TFP assistir] também foi outro sinal próximo de Bagarre.
Durante a Bagarre haveria um ET em cada esquina, vindo
diretamente do inferno, num disco voador, para ser adorado pelas
multidões satanistas.

Vejamos agora como o Dr. Plínio imagina a Bagarre.


“No MNF de 5° feira comentava-se [sic] os castigos da B.
[Bagarre] e a cólera de Deus na B. ‘Imaginem uma Sra. muito bonita,
muito bela, formosa mas que de repente fica um elefantão. O peso
das gorduras são [sic] tais que ela tem que andar se arrastando pelas
paredes. [?] Mas não é uma feiura só externa, mas um reflexo da
feiura da alma dela. É um horror diferente do que o da pancada, do
fogo, é um horror inteiro.
[Parece pois que além dos castigos físicos – pancada, fogo –
haveria uma transformação física dos corpos dos maus, refletindo a
maldade de suas almas].
“Imaginem um outro exemplo. Um homem que vai dormir, e
que no dia seguinte acorda e se sente uma aranha. Braços peludos,
349
pernas peludas e pretas. É a exteriorização do defeito moral, e todos
notam.
“É assim que e