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Velhos retratos

Cynthia Freeman

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!

Nota da contra-capa

Uma saga super-romântica em que Cynthia Freeman, que se conta entre as


mais talentosas escritoras da atualidade, cria alguns tipos semelhantes
a personagens de Dickens, fazendo-os vibrar com grande realismo,
especialmente as mulherres. Uma obra-prima da literatura contemporânea.

Nota da orelha do livro

Este romance, fiel à tradição dos memoráveis bestsellers anteriores da


autora, é uma nova e fascinante saga de quatro gerações de uma família
judia na América. Velhos Retratos começa com a história de Esther
Sandsonitsky, que abandona a Polônia na virada do século partindo para a
goldeneh medina - a terra dourada da América - a fim de tentar vida nova
com os seus três filhos. . . e as aventuras de seu filho Jacob, que
consegue chegar também a Nova York para um turbulento encontro com a mãe
no gueto da cidade.

A certa altura, ingressa na história a indomável Sara, mulher de Jacob,


que tenta reter o controle emocional sobre a vida das suas três filhas:
a bela Rachel, que parte o coração de seu pai - e vence o despotismo da
mãe - casando-se com um homem fora de sua religião. . . Lillian, a
caçula, que escandaliza os pais com um segundo casamento. . . e Doris, a
Gata Borralheira da família, que conquista fama e felicidade além dos
seus mais ambiciosos sonhos. Como esposas e mães, as três irmãs
enfrentam a complexidade dos anos 20 e 30, e da Segunda Grande Guerra
até os dias de hoje. . . quando se vêem a braços com uma série de
problemas muito especiais de paixão e poder que cada um dos seus filhos
está vivendo.

Velhos Retratos é a história de um sonho americano, a saga tempestuosa


de uma família de imigrantes, lutando por um ponto de apoio na América,
sem com isso renunciar à sua herança espiritual, de Nova York a
Cleveland, de San Francisco a Los Angeles, narrada inesquecível e
realisticamente como somente Cynthia Freeman seria capaz de fazer. Um
glossário de termos íidiche e hebraico publicado no fim do livro ajudará
o leitor no correr da história.

Cynthia Freeman tem vivido em San Francisco e amado a cidade "desde que
me entendo por gente". É autora de Pode Servir o Vinho, Sem Tempo Para
Chorar, e O Inverno Chegou, já publicados no Brasil pela Record.

Final da nota da orelha do livro

Capítulo Um

Jacob nasceu numa aldeia que não existe mais no mapa. História e guerra
se encarregaram de fazê-la desaparecer. . . Mas, naquele tempo, a aldeia
ficava na fronteira entre a Polônia e a Alemanha. O pai de Jacob morreu
quando ele tinha três anos, deixando sua mãe, Esther, com dois filhos
pequenos - uma menina de cinco anos, Gittel, e o jovem Jacob. Mas Esther
era uma mulher de imensa energia e pouco tempo para sentimentalismos.
Depois de enterrar o falecido e enxugar as lágrimas, ela sabia que uma
viúva só tinha uma coisa a fazer: casar-se de novo. Decorrido um ano de
luto, Esther Dubin Sandsonitsky conheceu Yankel Greenberg na casa da Tia
Chava. E lá se casaram. O que tinha o amor a ver com isso? Ele lhe
proporcionava um teto e ela lhe proporcionava uma mulher, que cozinhava,
lavava e trabalhava da manhã à noite.
Esther não tardou a descobrir que o seu casamento não fora uma solução
feliz, nem mesmo aceitável para uma mulher do seu orgulho e
independência. Logo após as núpcias, viu-se não somente grávida, como
uma escrava de Yankel e seus três filhos, que eram grosseiros,
preguiçosos e exigentes. Enquanto entregue aos seus afazeres, Esther
tomou uma decisão: assim que lhe nascesse o filho que trazia no ventre,
ela partiria com a sua prole. Um teto e uma cama não valiam os
maus-tratos que Yankel e os três rapazes lhe inflingiam e a seus filhos.
Na verdade ela não tinha uma profissão, mas uma coisa sabia fazer:
cozinhar. Podia ganhar a vida e sobreviver, sem a benevolência do Sr.
Greenberg.
Passados os nove meses, viu-se com um filho nos braços. Quando a
circuncisão cicatrizou, empacotou todos os seus pertences, roubou o
dinheiro que Yankel guardava debaixo do colchão, juntou seus três
filhos e partiu sem sequer uma palavra. A lógica se encarregava de tomar
as decisões por Esther.
O pequeno Jacob, agora com quatro anos de idade, ela confiou à família
de um parente distante que residia numa pequena aldeia na Polônia. Não
se pode dizer que esses parentes houvessem ficado radiantes por ter
mais uma boca para alimentar, mas, como Esther lhes entregou uns poucos
zlotys de Yankel, a relutância deles abrandou. Ela lhes garantiu que
não teriam de se preocupar com o sustento de Jacob, pois este lhes seria
fornecido.
Desnorteado, o pequeno Jacob passou aquela primeira noite soluçando,
deitado sobre um fino cobertor estendido no chão a um canto que seria
seu leito nos próximos anos.
Com Gittel e o recém-nascido Shlomo, Esther tomou o trem para a
Alemanha. A lógica, entretanto, não abrandou sua saudade e remorso, e
ela passou dois dias e duas noites sentada, pensando em Jacob. Mas o
que podia fazer? O quê? Para começar, não era fácil ser mulher. Como
poderia cuidar de três filhos e trabalhar? Portanto, pôs de lado seu
sentimento de culpa, concluindo que não tinha outra alternativa.
Quando chegaram a Frankfurt, foram diretamente para a pequena cabana,
situada nas cercanias da cidade, onde viviam os pais de Esther. Exausta,
ela bateu na porta. A casa pareceu-lhe ainda menor do que a lembrança
que guardava do tempo em que se casara com Awirn Sandsonitsky e tinham
ido morar na Polônia.
Após uns dias de descanso em contato com seus pais, Esther entregou-lhes
Gittel, ciente de que a meninazinha seria tratada com amor. Era
diferente o caso de uma menina. Já Jacob acabaria por adaptar-se.
Meninos não necessitavam do mesmo carinho e atenção. Além disso, sua mfe
era muito velha e doente para tomar conta de duas crianças pequenas.
Depois de muitas lágrimas de despedida, Esther tomou de novo o trem,
dessa vez para Berlim.
Pela primeira vez, desde muito tempo, Esther começou a. pensar que
talvez Deus a amasse um pouco e não tivesse esquecido a sua existência,
pois, logo após a sua chegada, ela encontrou um quarto limpo com
kitchenette. Além dessa sorte inesperada, a senhora apaixonou-se pelo
bebê. Não era muita sorte? Declarou que teria imenso prazer em tomar
conta do garotinho, enquanto Esther estivesse trabalhando. Em troca do
kinder gelt (crianças que pedem dinheiro para os festejos), Esther podia
fazer a faxina em seus dias de folga. A senhoria garantiu-lhe que o
trabalho não seria muito difícil - limpar o porão, janelas, móveis,
acender a caldeira, e mais algumas tarefas que surgissem. Uma vez
firmado esse acordo, Esther imediatamente desmamou Shlomo. Mais uma vez
os céus zelaram por ela, pois em menos de uma semana conseguiu emprego
de cozinheira num restaurante kosher (preparo da comida segundo a
religião judaica), não longe de onde morava. De novo, Esther tinha um
plano.
O ano seguinte foi dedicado a esse plano - economizar dinheiro
suficiente para ir para a América. Partiria levando Shlomo, abriria um
pequeno restaurante, estabeleceria um lar e mandaria buscar os dois
outros filhos. A frugalidade da vida que levava, seu salário tão
duramente ganho e o dinheiro que roubara de Yankel finalmente tornaram
possível a partida, e, sem um momento de indecisão, Esther abandonou o
emprego, partiu de Berlim e retornou a Frankfurt, a fim de ver sua
família antes de seguir viagem para a América.
Diante da casa dos pais, Esther sentiu um frio no estômago. Aquela seria
a última vez em que os veria, disso tinha certeza, mas a dolorosa
separação final iria significar, disso tinha certeza, uma nova e melhor
vida para si mesma e seus filhos. A vida era assim, feita de começos e
fins.
#break Capítulo Dois
Esther tornou-se parte da numerosa humanidade rejeitada, que esperava
como gado na Ilha Ellis, em Nova York. Se o grande lema americano era
"dêem-me os seus pobres". . . então o sonho dela se realizara. Os
desprivilegiados do velho mundo estavam no limiar do mundo novo,
esperando a hora de serem abraçados. Eram gente cansada, suja, confusa,
vinda de muito longe, da sua terra de origem. Aquela terra prometida
parecia tão despreparada para eles quanto eles para ela. Eram
arrebanhados de um local para outro e separados em diferentes grupos
étnicos - poloneses, irlandeses, russos, judeus. Bem pouco diferente do
navio de gado, do qual tinham acabado de desembarcar.
O oficial da Imigração leu o nome de Esther na tarjeta espetada em seu
casaco. Puxa, que nome danado de difícil. Sands-o-nit-sky? Por que
aquela gente não tinha nomes que se pudessem pronunciar? Ficharam-na
como Esther Sanders.
O que Esther encontrou na América Maravilhosa foi um quarto escuro,
infestado de ratos, no quinto andar de um prédio de cinco pavimentos na
Rua Vivington. A pobreza era feia em qualquer parte, mas aqui parecia
de uma fealdade irremediável. Pelo menos na aldeia que ela deixara na
Polônia havia uma árvore, um pequeno jardim, um pouco de espaço, um
pedaço de céu azul, um shul (sinagoga). E Berlim fora o paraíso
comparada a essa terra prometida. Entretanto aquela era a terra com que
ela tinha sonhado, que almejara, economizando cada centavo, sem nada
gastar a não ser por uma questão de vida ou morte. O calor, o mau
cheiro, o amontoado de seres humanos, pareciam piores do que nos guetos
da Europa. Ali, todo mundo gritava com um fruteiro por causa de um peni,
com o peixeiro por causa de um meio quilo, e o açougueiro roubava sem
pestanejar qualquer um que não ficasse o tempo todo de olho na balança.
Assim esua era a goldeneh medina (terra dourada), o lugar em que as ruas
eram calçadas de ouro?
Com Shlomo nos braços, ela começou a procurar um local que pudesse ser
transformado em restaurante, mas parecia que a metade da Zona Leste era
formada de restaurantes. Não haveria freguesia para mais um. Além
disso, quando descobriu o que custariam um fogão e equipamentos,
compreendeu que seu plano estava fora de cogitações. Não podia aplicar
seu dinheiro em algo tão incerto; se as coisas não dessem certo, ela
ficaria na miséria. Não. Entrementes teria de fazer outra coisa para se
sustentar. E assim Esther foi trabalhar no Restaurante Kreach, onde
quase desmaiava durante o verão, de pé diante de panelas fumegantes e
preocupando-se com o futuro. As coisas não estavam saindo como ela
sonhara, e por uma vez suas esperanças nos próprios planos vacilaram.
Mas pelo menos Shlomo, graças a Deus, estava sendo cuidado. No mesmo
prédio em que morava, Esther travou conhecimento com uma certa Sra.
Rubinstein, que tinha sete filhos. Por cinco dólares por mês, cuidar de
mais uma criança não era problema.
Esther estava trabalhando no Kreach havia alguns meses quando, às seis
horas da manhã, ao entrar pela porta dos fundos, ela ouviu o choro
desabalado da Sra. Kreach. Alarmada, correu para dentro e viu no chão o
corpo sem vida do Sr. Kreach, com os olhos ainda abertos e uma expressão
de surpresa. Instintivamente, Esther encarregou-se de tudo naquele dia,
ajudando Malka Kreach a tomar as providências mais urgentes, até a
família da viúva chegar.
Quando, exausta, Esther foi embora no final do dia, sabia que seria
apenas uma questão de tempo até a Sra. Kreach fechar o restaurante, e
ela ser obrigada a procurar novo emprego. Ou não? Outro plano começou a
se esboçar em sua mente, e com ele uma nova esperança de ainda poder vir
a reunir a sua família.
Passado o período de luto, Esther foi falar com a Sra. Kreach.
- Agora que Herman se foi, como vai dirigir sozinha o restaurante? Malka
estremeceu à menção do nome de Herman, depois soltou um suspiro
profundo.
- Para dizer a verdade - respondeu ela com os olhos marejados - fico
perdida sem o meu Herman.
- Quer vender o restaurante? - perguntou Esther sem preâmbulos.
Perplexa com a sugestão, Malka apenas arregalou os olhos. Vender, vender
o suor de Herman? Vender algo pelo que Herman trabalhara tão duro? Sem
nunca tirar um dia de folga, exceto no Shabbes (Sabá)? Mas ela se sentia
muito doente agora para administrar o restaurante e, além disso, pouco
sabia a respeito de manejar dinheiro. Herman sempre cuidara de tudo,
desde o momento em que se haviam casado, quando ela contava 15 anos e
ele 17... Quando tinham decidido fazer fortuna na terra das
oportunidades, essas haviam resultado em 10 anos de labuta. Com a morte
prematura de Herman, ela ficara sem nada no banco, pois haviam apenas
conseguido viver dia a dia, com o que rendia o restaurante. O futuro se
apresentava sombrio. O casal não fora abençoado com filhos, que poderiam
cuidar dela na velhice. Malka suspirou. Talvez um dólar na mão fosse
melhor do que. . .
Malka de repente acordou do seu devaneio. Vagamente perguntou:
- O que foi que disse, Esther?
- Que ninguém sabe melhor do que eu o que é ser uma viúva, mas com o
tempo você acabará por se conformar. É ainda uma mulher jovem.
Malka assoou o nariz no avental, enxugou as lágrimas e abanou a cabeça.
- Como jovem? Já tenho 26 anos.
- Ainda não é propriamente uma velha yenta (solteirona), e certamente se
casará de novo.
- Nunca, depois de Herman - protestou Malka, horrorizada.
- Foi o que eu disse, quando morreu meu primeiro marido. Era mais jovem
do que você, com dois filhos pequenos. Sua situação poderia ser pior,
Malka. Eu não tinha um negócio, que pudesse vender.
- Mas teve mais sorte do que eu. Pelo menos tinha seus filhos. - E Malka
recomeçou a chorar.
- Muita sorte mesmo, mazel tov (parabéns). Tive de ser ao mesmo tempo
pai e mãe e ganhar a vida para dar de comer a meus filhos. Malka, vender
o restaurante é a melhor solução para você. Não pode dirigi-lo, e estou
disposta a comprá-lo.
Malka sabia que ela tinha razão, mas sabia que o restaurante era também
a solução para Esther. "Pobre Esther", pensou, "não é fácil ser uma
mulher sozinha, com o problema de duas crianças para mandar buscar na
Europa. Deve ter sido muito doloroso ter de se separar dos filhos.
- Está bem, vou vender - disse Malka, com um suspiro profundo, abanando
a cabeça.
Esther parou de tremer por dentro. Com voz calma, perguntou:
- Quanto você quer pelo restaurante?
Quanto? Por que era tão difícil tomar decisões? Quanto valia o
restaurante?
- Quanto você quer pagar?
- Quinhentos dólares - respondeu apressadamente Esther, num tom
decisivo.
Dez anos da vida de Herman valiam apenas 500 dólares? Malka suspirou,
lembrando-se do dia em que, pela primeira vez, Herman se postara na
calçada para ler: "RESTAURANTE KREACH DE KOSHER." Os dois tinham
pensado, então, que eram donos do mundo.
- Está bem, eu vendo - repetiu ela. - Espero que com isso consiga criar
seus filhos.
Esther ficou radiante, mas conseguiu conter sua excitação e respondeu
calmamente:
- Eu lhe darei 250 dólares hoje, e o resto dentro de seis meses.
Malka quis protestar que queria o dinheiro todo à vista, mas algo na
maneira de Esther a fez conter-se, e ela simplesmente concordou com um
gesto de cabeça.
O local estava imundo. Esther comprou um galão de tinta amarela e um
pincel grosso, e, durante três noites consecutivas, pintou tudo. Depois
mudou o oleado sobre as mesas, envernizou as cadeiras, tirou a tabuleta
dos Kreach e colocou no lugar uma sua. Finalmente, Esther podia
considerar-se uma negociante.
Três meses depois de se tornar proprietária, mandou buscar Gittel.
Quando viu a menina passar pelos portões da Ilha Ellis, seu coração
começou a palpitar. Gittel não era mais uma meninazinha, estava com 10
anos. Incrível - tinha crescido tanto que Esther mal podia acreditar em
seus próprios olhos. Por que as lembranças são tão fora da realidade?
Só conseguia lembrar-se de uma garotinha de oito anos, acenando-lhe
adeus, e agora via uma menina bem comportada caminhar na sua direção.
Logo as duas estavam abraçadas, misturando lágrimas e palavras, e,
subitamente, a preocupação e a solidão daqueles últimos anos
desapareceram. Estavam juntas agora. Esther controlou-se, enxugou as
lágrimas e afastou a filha para vê-la melhor. Engolindo em seco,
disse-lhe:
- Venha, Gittel, vamos para nossa casa.
#break Capítulo Três
Jacob não sabia ao certo se estava com sete ou oito anos de idade, mas
de uma coisa tinha certeza: ninguém o amava. Durante todos os anos em
que vivera com seus parentes, nunca ouvira uma palavra afetuosa, nunca
recebera um beijo ou um abraço. Ninguém lhe enxugava as lágrimas,
consolava-o ou lhe suavizava as noites de desespero. O dinheiro que a
mãe remetia para seu sustento e as breves cartas em nada aliviavam a dor
de sentir que ninguém precisava dele nem o queria. Por que mandara ela
buscar Gittel mas não a ele? Será que nada representava para a própria
mãe? No que lhe dizia respeito, considerava-se órfão de pai e mãe e
indigente. Assim, teria de ser um homem e contar só consigo mesmo.
Jacob era maior e mais forte do que os outros meninos de sua aldeia e da
sua idade, e seus espessos e crespos cabelos louros e profundos olhos
azuis certamente o faziam o mais bonito. Se alguém se tivesse dado ao
trabalho de observá-lo naquelas últimas semanas, teria notado uma
mudança nele. Havia ainda em seus olhos uma expressão acuada, que o
fazia parecer mais velho do que o comum das crianças, mas adquirira
agora um ar de resoluta calma. Desde algum tempo vinha pensando
seriamente em sua vida e, embora lhe restassem ainda muitas incertezas,
não tinha dúvidas sobre o que agora devia fazer.
Uma noite, quando todos estavam dormindo, ele se levantou sem ruído, foi
à parca despensa, tirou um bom pedaço de pão preto e o guardou numa
pequena sacola. Depois pulou a janela dos fundos e, uma vez do lado de
fora, calçou os sapatos e correu pelo campo afora até alcançar uma
grande árvore com uma cavidade onde escondera uma faca afiada. Abrindo
rapidamente a sacola, ele enfiou a faca no pão. Mal começava a sua
jornada, mas nem uma vez Jacob olhou para trás.
Durante três dias ele caminhou, repousando apenas quando se sentia
exausto demais para prosseguir. Mas a urgência da fuga impelia-o a
continuar quase além da sua resistência física. Dormia apenas umas
poucas horas por noite, num palheiro, numa campina, numa floresta, onde
quer que encontrasse. Mantinha-se vivo roubando uns poucos ovos, que
quebrava e engolia inteiros. A princípio quase vomitava, mas conseguiu
conter-se, e o ronco em seu estômago cessou. Quando encontrava um
riacho, curvava-se, punha as mãos em concha na água fria e bebia até
sua barriga estufar. Certa vez teve a sorte de espetar uma truta com sua
faca, embora tivesse depois de comer o peixe cru.
Finalmente, sentiu-se um pouco menos apreensivo, tendo percorrido muitos
quilômetros de distância entre ele e seus captores. Mas Jacob não
precisaria preocupar-se tanto. Passaram-se diversos dias antes que
alguém percebesse o seu desaparecimento, e a preocupação que ele causou
não foi pelo receio que algo lhe pudesse acontecer, mas porque tinha
tido o chutzpah (atrevimento) de roubar pão de seus benfeitores, que
preferiam ignorar o fato de que não o tinham sustentado por caridade e,
sim, com o dinheiro tão duramente ganho por Esther. Contudo a
indignação deles desapareceu quando, logo após a fuga de Jacob, chegou
uma passagem e um pouco de dinheiro destinados à sua viagem para a
América. Infelizmente, Jacob não podia ser o beneficiado. E assim eles
escolheram seu filho Mottel, para levar a tocha da liberdade às plagas
douradas da América.
Mas o júbilo de Mottel e sua família com a sua iminente partida não foi
menor do que o de Jacob naquele momento. Finalmente atingira a estação
ferroviária. Não importava quanto tempo lhe custara ou as agruras por
que passara; estava agora no limiar da última fase da sua jornada rumo à
liberdade.
Esperou na sombra até o trem pôr-se em marcha; então saltou para bordo e
correu, sem ser visto, até a primeira fila de assentos desocupados.
Encolhido a um canto, rezou para que não o descobrissem. Daquela
posição tudo o que via eram pés e tudo o que ouvia era o ruído das rodas
gigantescas ao longo dos trilhos.
Durante horas Jacob permaneceu imóvel; depois algo horrível aconteceu.
Teve vontade de urinar. Não podendo mais conter-se, molhou as calças, e
passou a noite com frio e inconfortável, mas consolou-se com o
pensamento de que, à medida que a noite avançava, mais ele se aproximava
do seu destino.
Na manhã seguinte, ao acordar com o ranger dos freios, estava em
Frankfurt. Passara a noite inteira quase sem mudar de posição, e
sentia-se entorpecido. Mas, por puro instinto, forçou-se a esticar as
pernas, e o mesmo instinto o fez esgueirar-se para fora do seu
esconderijo no momento oportuno. Quando acabou de ver os últimos pés
caminhando devagar pelo corredor, espiou cautelosamente para fora,
levantou-se e colocou-se ao lado de um jovem casal, como se fosse filho
deles. E finalmente encontrou-se na plataforma, em meio de pessoas indo
e vindo, abraçando-se e beijando-se, e sentiu uma onda de felicidade,
como se fizesse parte daquela gente. Sabia que agora estava livre.
Após muitas perguntas, Jacob se viu defronte da casa de seus avós. Com o
pulso latejando e a respiração entrecortada, bateu na porta e esperou.
Chegara afinal a um lar onde amaria e seria amado. Desde muito tempo
sonhava com aquele momento. Avós eram algo. . . muito especial. Nunca os
conhecera, vira-os apenas na foto desbotada que trazia consigo, mas
ainda assim a sua emoção era imensa. Esperou, tornou a bater, mas não
obteve resposta. Começou a esmurrar a porta.
Por um longo momento, ficou olhando para a folha de madeira. Por alguma
razão, que não podia precisar, sua mão tremeu ao girar a maçaneta,
abrindo a porta.
Todos os móveis haviam sido removidos. Apavorado, ele revistou cada um
dos cômodos, abrindo portas, rezando para encontrar algum indício do que
tinha acontecido aos seus avós. Mas não encontrou resposta alguma.
Lentamente, retornou à sala da frente e parou no centro, trêmulo. Então
notou que havia uns papéis velhos e cartas na lareira. Abaixou-se e
apanhou-os. Sentando-se no chão, com o coração em sobressalto, começou a
ler uma carta escrita por sua mãe, mas, como mal sabia ler, só
conseguiu entender umas poucas palavras e a data: 7 de janeiro de 1899.
De repente, percebeu que não estava sozinho. Ergueu os olhos e viu um
velho parado à soleira da porta. Assustado, Jacob pôs-se de pé, levando
a mão à faca que trazia escondida, e perguntou:
- Quem é o senhor?
- Moro na casa ao lado e vi a porta aberta. O que está fazendo aqui, meu
rapaz?
Jacob olhou para o velho, em cujo rosto havia milhares de vincos e
rugas.
- Estou procurando meus avós - respondeu ele, com voz trêmula. Os velhos
olhos se abrandaram. Em tom brando ele comentou:
- Pelo seu aspecto, você deve ter vindo de muito longe.
- Sim, de muito longe.
O velho abanou tristemente a cabeça. Levou tanto tempo para responder,
que finalmente Jacob murmurou:
- Onde estão eles?
- Estão mortos. . . infelizmente - replicou sem olhar para Jacob. Não
podia suportar a agonia estampada nos olhos do menino. Era muito velho,
velho demais, e não conservara a capacidade de compartilhar o
sofrimento humano. Lentamente virou-se e saiu, fechando a porta atrás de
si.
- Eles morreram? - balbuciou Jacob para si mesmo, sem compreender. Então
baixou os olhos para a carta que tinha nas mãos. Correu para a porta e
chamou o velho. - Espere. . . por favor, por favor, quer ler isto para
mim?
O velho olhou para o menino, tomou a carta e leu em voz baixa:
Meus queridos pais:
Senti meu coiação partir-se na nossa despedida sabendo que nunca mais
tornaria a ver os seus queridos rostos, pois nunca poderei economizar o
suficiente para mandar buscá-los. Nova York é uma selva, e duvido de
que jamais me habitue aqui, mas pelo menos sei que Gittel está sendo bem
tratada e amada. Muito me reconforta saber que fui agraciada com bons
pais. Tive sorte sorte numa coisa - encontrei emprego num restaurante. E
Shlomo está bem. Recebo poucas notícias de Jacob na Polônia, mas ele
deve estar bem, já que não se queixa. Espero em Deus que os mantenha em
vida por muitos e muitos anos. Por favor, escrevam sempre. Suas cartas
são a minha maior alegria. O endereço é...
Jacob não estava mais prestando atenção. Apenas ouvia, ressoando em seus
ouvidos, o amor e a preocupação de sua mãe com Gittel e Shlomo. Mas com
ele? Nada.
Agradeceu ao velho pela sua bondade, pegou a carta, guardou-a no bolso e
voltou para a casa do seu bubbe . Ciente de que sua mãe não se importava
com ele; ela não o amava, nem o queria.
Em sua frustração e cólera, Jacob agarrou a faca e enterrou-a na parede,
depois sentou-se no chão e chorou até a exaustão.
Nas duas semanas seguintes, Jacob passou seus dias percorrendo o bairro
judaico de Frankfurt como um gato de rua, mantendo-se vivo com a comida
que conseguia roubar.
À noite, voltava para dormir no chão da casa dos avós. Seus sonhos eram
pesadelos, de que despertava trêmulo, encharcado de suor.
A morte era algo com que desde muito cedo Jacob travara conhecimento.
Seu pai morrera quando ele tinha apenas três anos, mas o terror da cena
permanecera em sua memória, e agora se intensificava através dos
sonhos. Lembrava-se do corpo imóvel, estirado sobre uma tábua, com
moedas cobrindo-lhe as pálpebras cerradas. O rosto era da cor de cera
amarela e os lábios roxos. Jacob assistira ao antigo cerimonial judaico
de sepultamento. Seu pai fora depositado na cova, apenas enrolado numa
mortalha, em seguida punhados de terra foram jogados sobre ele até
cobri-lo por completo. Jacob relembrava em sonhos o tradicional minyon
(grupo de 10 pessoas que rezam pelos mortos), dez homens reunidos numa
sala muito pequena, sentados no chão, com as lapelas cortadas no costume
tradicional de luto, todos descalços. Jacob ouvira o soturno cântico do
Kaddish (Reza para os mortos) glorificando o nome de Deus. A melodia era
tão lúgubre que ele se tinha escondido dentro de um armário, mas não
havia escapatória do desafinado, alucinante som de seus sonhos. Aquelas
eram as recordações mais vividas da infância de Jacob, as imagens
indelevelmente gravadas em sua memória. E agora, com a morte de seus
queridos avós, apossou-se dele a terrível convicção de que, por mais que
desejasse vê-los, eles nunca mais voltariam para dar-lhe aquilo que
tanto desejava. . . amor. Ainda era um menino pequeno, contudo já velho
demais para a sua idade.
Os dias transformaram-se em semanas, e certa hora um homem e uma
entraram inesperadamente na casa. O coração de Jacob bateu com redobrada
força, enquanto se mantinha rígido contra a parede, com a mão pousada
na faca em seu bolso.
- O que querem? O que estão fazendo aqui? - perguntou ele vivamente. O
homem fitou com penetrantes e desafiadores olhos azuis. - É a mim que
pergunta? O que está você fazendo aqui? - Esta casa é minha. Saiam
daqui. Um pequeno dybbuk (diabo) metido a valente. Aquele garoto iria
acabar na cadeia. - Sua casa? Então você a comprou? - perguntou o outro,
com uma risada fria. - Não, mas é minha. - Compreendo. - O homem olhou
para Jacob, que parecia um animalzinho acuado. - Você fugiu de casa?
Jacob fitou-o, sem responder. - Deus vai castigá-lo por trazer tanta
preocupação a seus pais. - Não tenho pais. Eles morreram. Não havia
compaixão na voz que respondeu: - Então é um órfão. Encontrou esta casa
vazia e instalou-se nela. Podia ir parar na cadeia por causa disso. -
Esta casa é minha - replicou Jacob, engolindo o medo. - Pertenceu aos
meus avós. O homem semicerrou os olhos. - Seus avós? Tem documentos
provando que você a herdou deles? É um garoto mentiroso. Eu acabo de
comprar a casa. Vou levá-lo à.. . Antes que o homem terminasse a frase,
Jacob saiu da casa e fugiu correndo pelas ruas e alamedas, tão depressa
quanto lhe permitiam suas pernas musculosas. Passou o resto do dia
escondido num porão desabitado. Tinham-lhe tirado o seu lar. Era sua
herança. Amava aquela casa porque nela estava contida a memória de seu
bubeleh (bolinho de farinha de trigo) e de sua zayde (avó). Prometeu a
si mesmo que um dia, fosse como fosse, ele voltaria para reaver o que
lhe pertencia. Sua casa. Sim, pelo menos isso. . .
#break Capítulo Quatro
Os próximos anos Jacob passou dormindo em becos e soleiras de portas e
sustentando-se com biscates. Trabalhou como entregador de carne para um
açougueiro e sempre dava um jeito de cortar um pedaço de salame e
escondê-lo dentro da camisa. Para o alfaiate, ele entregou um terno
menos o colete - e quando o freguês teve a oportunidade de reclamar,
Jacob já estava a quilômetros de distância, trabalhando numa peixaria.
Seu primeiro emprego de verdade surgiu milagrosamente, quando ele tinha
13 anos. Se havia algo que lhe merecesse gratidão neste mundo, foi o
fato de ver um dia uma tabuleta na janela dos Mendlebaum: "Precisa-se
de um aprendiz."
O Sr. Mendlebaum era um homem pequeno, de ralos cabelos grisalhos,
encimados por um barrete. Em seus óculos de aro de metal havia
partículas de marfim dos cabos de guarda-chuvas que ele esculpia. As
decorações das obras-primas do Sr. Mendlebaum fascinaram Jacob.
A princípio Jacob trabalhou com madeira. Cuidadosa e lentamente, começou
a copiar os desenhos do Sr. Mendlebaum. Trabalhava até tarde da noite,
procurando dominar a técnica do seu mentor, que, na opinião de Jacob,
era o único ser humano bondoso neste mundo, e tinha medo de gostar
demais dele - pois gostar e amar pareciam sempre terminar em decepção,
desilusão e dor. Mas, a despeito de si mesmo, não conseguia conter a
onda de afeição tanto em relação ao Sr. Mendlebaum como à sua mulher.
Em resposta, breve o casal começou a considerá-lo como um neto favorito.
Freqüentemente convidavam-no para jantar.
O melhor dia era o Shabbes, Às sextas-feiras sua boca se enchia de água,
enquanto ele esculpia satisfeito: o aroma de peixe gelfite, canja de
galinha e challah assado chegava até os fundos da loja, onde residiam
os Mendlebaum.
Às três horas da tarde, eram fechadas as venezianas e o Sr. Mendlebaum
descansava e preparava-se para o Sabá. Jacob ia para a pensão, onde
tinha um quarto no sótão, tomava seu banho semanal e vestia a única
roupa decente da tarde, ia com o Sr. Mendlebaum ao shul (sinagoga). Com
que orgulho se postava ao lado do Sr. Mendlebaum, que lhe comprara um
tallis (xale para rezar depois dos 13 anos) e um yarmulkah (solidéu).
Tocando com reverência as franjas do tallis, Jacob olhava dequando em
quando para aquele homem ao seu lado. Parecia-lhe o zayde (avô) , que
lhe fora devolvido. Jacob queria convencer-se de que o Sr. Mendlebaum
era de fato o seu avô. Quando terminava a cerimônia, o novo zayde de
Jacob passava-lhe o braço pelos ombros e desejava-lhe um Shabbat shalom
(Feliz Sabá). Era difícil para Jacob conter as lágrimas. Depois, os
dois voltavam para o jantar de Shabbes (Sabá). Agora, a vida era boa
para Jacob.
Uma manhã, ao chegar, Jacob não encontrou o Sr. Mendlebaum à sua mesa de
trabalho. Por um momento, sentiu-se cheio de apreensão, mas logo seus
receios se dissiparam, quando ouviu a voz da Sra. Mendlebaum chamando-o
dos fundos da loja.
- Jacob, quero que venha conhecer alguém.
Rapidamente, ele se dirigiu para a sala.
- Jacob, quero apresentar-lhe Lotte - disse ela com orgulho, voltando-se
para a jovem. - Esta é a nossa neta. Chegou ontem à noite de Berlim.
Jacob emudeceu, olhando para a linda criatura. Estava a par de muita
coisa na vida, mas até então nunca pensara em amor. Todos os seus
impulsos sexuais se resumiam no esforço de sobrevivência, deixando-lhe
pouco tempo para se entregar a satisfações físicas. Aquela era a
primeira vez em que Jacob sentia um ímpeto de desejo. A sensação ao
mesmo tempo o perturbou e embaraçou,
Lotte tinha 15 anos mas parecia mais jovem do que Jacob, que, embora
contasse uns poucos meses a menos, era uma cabeça mais alto e parecia
ser anos mais velho. Ela era roliça e macia. Seus cabelos de um
castanho-avermeIhado caíam-lhe graciosamente sobre os ombros. Quando os
dois se olharam, Jacob sentiu um estonteante ardor percorrer-lhe o
corpo. Então ela sorriu e ele balbuciou algo, baixando rapidamente os
olhos para o tapete florido.
A manhã inteira Jacob passou trabalhando furiosamente o marfim. Nesse
dia, não compareceu ao almoço dos Mendlebaum. Apesar da gentil
insistência da Sra. Mendlebaum, recusou a refeição, alegando que não
tinha fome, ao mesmo tempo que sentia remorso por estar talvez
magoando-a.
Nessa tarde, pela primeira vez, os instrumentos afiados escorregaram,
cortando-lhe fundo o polegar. Ele se irritou consigo mesmo porque
estivera com o pensamento no fundo da loja em vez de concentrá-lo no
seu trabalho. Apanhou o trapo branco, que lhe servia de lenço, e amarrou
com força o ferimento. Por volta das quatro horas, a dor era quase
insuportável, Jacob nunca fora muito comunicativo, mas nesse dia o seu
silêncio era tão completo que o Sr. Mendlebaum ficou bastante
preocupado.
- O seu dedo está doendo? Deixe-me ver.
- Não é nada.
- Jacob, não seja tão teimoso, tão corajoso. Vá lá para dentro e
mergulhe o dedo em água quente.
- Não está doendo tanto assim - disse Jacob, encolhendo os ombros.
- Não é o que se vê em seu rosto. E mal pode segurar seu instrumento.
- Desculpe. Fui desajeitado.
- Oh, Jacob, Jacob, o que vou fazer com você? Não é pecado ser humano.
Dor é dor.
Como Jacob continuasse a trabalhar, o Sr. Mendlebaum soltou um suspiro e
disse:
- Está bem. Por hoje, basta. O marfim não vai fugir. Agora vá lá para
dentro e coma alguma coisa.
- Muito obrigado, mas não estou com fome.
- Então vá para casa.
Jacob olhou para o Sr. Mendlebaum. Estaria ele zangado? Não. Os olhos
eram bondosos.
- Tem certeza de que não há problema? - perguntou Jacob.
- Nenhum problema. - O Sr. Mendlebaum abanou a cabeça e sorriu. - Se eu
tiver uma encomenda urgente, mando chamar você. E não se esqueça de
mergulhar o dedo em água quente - acrescentou, quando seu aprendiz já
ia saindo. - Coisa que não me convém é um entalhador de nove dedos.
A noite foi dura para Jacob. Levantou-se da cama uma dúzia de vezes e
ficou andando de um lado para outro. Sentia-se tremendamente confuso, e
o calor no sótão era tão opressivo que só servia para piorar-lhe o
estado de espírito. Calçou os sapatos, lutando doloridamente com o
atacador. Havia de ser seu polegar direito e não o esquerdo. Que diabo!
Bateu a porta ao sair, depois desceu de dois em dois degraus os quatro
lances de escada.
Uma vez na rua, ele percorreu correndo vários quarteirões. Finalmente,
sem fôlego, sentou-se num banco sob um lampião a gás até cessar de
arquejar.
Não sabia quanto tempo passara ali de olhos fixos em frente. Quando se
sentiu mais controlado, levantou-se e pôs-se a caminhar com as mãos
enfiadas nos bolsos. Ao passar pelas lojas, viu sua imagem refletida
nas vitrinas. Parou diante da Padaria Frankel e examinou-se mais
atentamente. Era como se estivesse vendo-se pela primeira vez. Já era
um homem! Muito mais forte e mais alto do que os rapazes de sua idade.
O que lhe acontecera hoje era assustador porque se vira frente a frente
com a sua masculinidade. Tinha conhecido o despertar do desejo
reprimido, desde o primeiro momento em que encontrara Lotte. A sensação
de desejar uma mulher o deixara abalado. Agora conhecia uma espécie
diferente de amor; não apenas o amor nascido do coração, mas o amor por
alguém com quem ele sentia uma necessidade desesperada de contato
físico. Mas juntamente com essa revelação surgia a autodisciplina. Nunca
tocaria em Lotte, nunca. Ela era a neta de seu amado benfeitor.
A mudança em Jaoob muito perturbou o Sr. e a Sra. Mendlebaum.
Polidamente, mas com firmeza, ele passou a recusar os convites do casal
para jantar. E não mais compareceu ao shul no Sabá. De todas as
disciplinas que impôs a si mesmo, essa era a que mais o fazia sofrer.
Quando Lotte aparecia na loja, Jacob se mostrava polido porém reservado.
E, quando ela tentou puxar conversa, não obteve resposta alguma, o que a
deixou extremamente frustrada. Estava muito interessada no rapaz, e não
conseguia compreender a aversão que ele parecia ter por ela. À noite,
Lotte chorava amargamente com aquela rejeição.
A moça passou dias evitando entrar na loja. Mas quanto mais ele a
desprezava, mais ela desejava vê-lo.
Finalmente, um dia Lotte sentou-se diante dele e ficou vendo-o
trabalhar.
Era quase impossível trabalhar com ela tão perto, e Jacob não levantou
os olhos. Procurando manter um tom calmo, Lotte disse:
- Jacob, quero ser sua amiga. Por que você me odeia tanto?
- Como posso odiá-la? - replicou ele, continuando a trabalhar e sem
levantar os olhos. - Eu nem sequer a conheço.
- Você age como se me conhecesse e não gostasse de mim.
- Imaginação sua. Sou apenas um empregado. Como deveria eu agir?
- Como uma pessoa, uma pessoa agradável. Além disso, não é apenas um
empregado. Meus avós amam você.
Jacob engoliu em seco, como se estivesse engasgado. Se ao menos ela se
fosse e o deixasse em paz. Meu Deus, como a desejava!
- Eles realmente amam você.
- Não sei por que haveriam de me amar.
- Nem eu. Acho você o rapaz mais desagradável que já conheci! - Com
essas palavras ela se levantou e saiu correndo da loja, deixando Jacob
alagado de suor. Depois desse encontro, Lotte resolutamente se manteve
afastada, embora a separação fosse uma agonia para ela. Por seu lado,
Jacob continuou a manter distância dos Mendlebaum e sua neta, conquanto
se sentisse extremamente culpado com a sua aparente ingratidão para com
o casal.
Um dia, duas semanas depois, o Sr. Mendlebaum limpou a garganta,
enquanto entalhava uma cabeça de leão.
- Jacob.
- Sim, senhor?
- Jacob por que anda ultimamente nos evitando?
Como podia ele mentir para aquele homem? A situação era das mais
difíceis em que se vira até então.
- Lamento estar causando essa impressão, mas fiz amizade com alguns
rapazes e estou saindo com uma menina.
- Oh, está namorando uma menina?
- Sim, estou.
- Que espécie de menina?
- Uma boa menina, muito boa.
- E eu conheço a família?
- Não creio. Ela mora no outro lado da cidade.
- E você gosta dela?
- É uma boa menina.
- Já sei. Você repetiu isso várias vezes. Mas gosta dela? Houve uma
longa pausa.
- Sim.. . acho que sim.
- Acha que sim?
- Acho.
- Pois então, se não está apaixonado por ela, não a leve ao piquenique.
- Que piquenique?
-Minha loja está organizando um piquenique para este domingo e acho que
você vai gostar. Haverá outros rapazes e meninas. Você vai gostar muito.
“Vou morrer", pensou Jacob.
#break Capítulo Cinco
Por mais que Jacob quisesse deter o tempo, chegou o domingo. Estava
acordado desde a madrugada, vendo o sol nascer. O dia de verão se
anunciava glorioso. Lavou o cabelo e fez a barba, cujos fios louros
pareciam mais abundantes naquelas últimas semanas. Depois de pentear o
cabelo, colocou o pente sobre o lábio superior e se olhou num caco de
espelho, que encontrara no lixo do quintal. De bigode, podia passar por
uns 18 ou 19 anos. Talvez devesse deixar crescer o bigode. Isso lhe
daria um ar mais distinto. Devia usar seu terno? Seria a vestimenta
adequada? Nunca estivera num piquenique. Decidiu correr o risco. Se
tivesse cuidado, não iria manchar a roupa.
Às nove horas em ponto, ele bateu na entrada dos fundos da casa dos
Mendlebaum.
Foi Lotte quem abriu a porta. Sem dizer palavra, ela lhe deu as costas e
afastou-se.
Constrangido, Jacob entrou na sala e ficou parado com o boné nas mãos.
- Bom-dia, Jacob, está tão bonito hoje! Sente-se, sente-se. Tenho ainda
mais coisas para colocar na cesta - disse a Sra. Mendlebaum, e
encaminhou-se para a cozinha.
Logo o Sr. Mendlebaum veio saudá-lo.
- Bom-dia, Jacob, é um lindo dia para um piquenique. Não vai sentir
calor com esse paletó?
- Não sei. Acha melhor eu não usá-lo?
- Um suéter seria mais adequado. Espere. Vou buscar um meu.
O número do manequim do Sr. Mendlebaum era pelo menos três vezes menor
do que o de Jacob, mas ele estava disposto a usá-lo de qualquer maneira.
Logo o Sr. Mendlebaum voltou com o suéter, e Jacob o vestiu com muito
custo.
- Dispa-o - disse sorrindo o Sr. Mendlebaum. - Pensei que lhe fosse
servir. Acontece que é um suéter que meu filho me mandou de presente, é
muito grande para mim. Parece que eu encolhi.
- Não encolheu, mas Aaron deve pensar que você é do mesmo tamanho que
era, quando ele tinha de erguer os olhos para vê-lo. Com certeza o
julgava muito alto - observou rindo a Sra. Mendlebaum. - Agora apanhe
uma destas cestas e Jacob pode carregar a outra.
- Não, Sra. Mendlebaum, posso carregar as duas.
- Então você, Max, leva os cobertores e travesseiros.
- Não precisamos de travesseiros.
- Precisamos, sim. Alguém pode querer tirar uma soneca.
- Nesse caso, precisamos - concordou ele.
- Já chegaram! - exclamou Lotte muito animada, vindo do jardim. Em
poucos minutos já todos se tinham instalado no carroção puxado por
cavalos Os cumprimentos foram profusos. Quando Jacob foi apresentado ao
grupo sentiu-se constrangido com os sorrisos maliciosos. Ah, Max
Mendlebaum tinha arranjado um shiddach (noivado), um partido para a
neta. Não havia de ser apenas pela habilidade de entalhador daquele belo
boychik (garoto) que ele o protegia. Claro que não. Os olhares das
senhoras voltaram-se depois para Lotte sentada à direita de sua avó, ao
passo que Jacob se sentara na outra extremidade, ao lado do Sr.
Mendlebaum.
Logo foram esquecidas as idéias de romance, substituídas por conversas e
falaricos, enquanto o carroção avançava aos solavancos pela estrada.
Jacob estava rígido, muito consciente da presença de Lotte, mas as
conversas incessantes acabaram por distraí-lo e fizeram com que o tempo
passasse tão rapidamente que, quando ele se deu conta, já tinham
chegado ao local do piquenique. O carroção parou e todos saltaram.
Jacob nunca vira algo tão magnífico como aquele cenário campestre:
erguendo os olhos, contemplou as árvores em silhueta contra o céu
intensamente azul, em que flutuavam nuvens brancas. Acompanhou os
outros a uma clareira cercada por uma campina e, soltando no chão as
cestas, fixou os olhos na distância. Com um sentimento de reverência,
foi tomado de paz e tranqüilidade. Nunca tivera tal momento, mas este
foi bruscamente interrompido, quando ele ouviu Lotte dizer de repente:
-Bubeleh (bolinho de farinha de trigo) está chamando-o para comer. - E,
sem mais uma palavra, ela se afastou. Ele a seguiu.
Havia uma atmosfera de excitação ao sentarem-se todos em compridos
bancos de madeira. As mesas estavam repletas de comedorias de toda a
espécie. Era evidente que as mulheres deviam ter passado dias
preparando iguarias, e cada uma estava mais orgulhosa do que a outra com
a sua contribuição. Houve um infinito trocar de pratos: galinha, carne
enlatada, peito de peru cortado em fatias finas, ovos cozidos, saladas,
pão, picles de beterraba, tomates, conservas de pepino com endro, frutas
frescas, compotas de abricó, pêras, uvas, cerveja. Depois, grande
quantidade de bolos, biscoitos, torta de maçã, pão de mel, mandelbrot
(pão de avelã). A alegria de comer, o prazer sensual do paladar.
Jacob nunca vira tanta felicidade e afeição. Era como se todos fossem
uma grande família. Não lhe era mais possível deixar de reconhecer que
havia mães que amavam seus filhos, pais que zelavam por suas famílias,
crianças que não eram abandonadas quase ao sair do berço e tinham de
sobreviver por conta própria. Subitamente, Jacob sentiu-se tomado por
um sentimento de solidão e dor. Seria ele um ser tão indigno? Sua
própria mãe nunca o amara. Se ao menos seu pai não tivesse morrido,
talvez sua vida não fosse. . . Santo Deus, por que estaria pensando
agora nisso? Aquilo era um piquenique, em que todos se sentiam tão
felizes. Mas ele não era como os outros. Os outros pertenciam a alguém,
ao passo que ele não pertencia a ninguém nem a nada. Era um estranho
naquele mundo.
- Por que não está comendo? - perguntou o Sr. Mendlebaum.
Jacob fitou nos olhos seu velho protetor, tão bondoso, tão confiante. A
vontade que teve foi de perguntar-lhe por que não era ele seu avô?
- Não está gostando da comida? Por que não come? - repetiu o Sr.
Mendlebaum.
- Estou cheio.
- Cheio do quê? Você mal tocou nos pratos. Vamos, beba uma cerveja. L
’chayim (Saúde) - disse o Sr. Mendlebaum, erguendo o copo.
- L ’chayim (Saúde) - repetiu Jacob.
- Está se divertindo?
- Ah, sim, muito.
- Está vendo? Eu lhe disse que não havia nada como um piquenique. L
’chayim, beba, a cerveja é boa. Foi feita pelo meu amigo, o Sr. Finkel.
Jacob tomou um bom gole, e logo se sentiu de cabeça leve, meio tonto.
- À sua saúde, Sr. Mendlebaum. L ’chayim - disse ele, erguendo o copo.
- Muito obrigado, mazel tov (Parabéns) , mas não beba demais, ou não vai
poder jogar bola.
Enquanto as mulheres tiravam as mesas e guardavam a comida que sobrara,
alguns dos homens começaram a jogar cartas. As crianças brincavam de
esconde-esconde. Casais de braços dados se embrenhavam pelos bosques.
Os rapazes escolheram times para um jogo de futebol. Jacob foi convidado
para ser o goleiro porque era o mais alto de todos. Mas ser o maior não
significava ser o melhor. Nunca tinha jogado futebol, nem mesmo
assistido a um jogo. A princípio recusou, mas o Sr. Mendlebaum insistiu
para que ele participasse.
- Jogando, você aprende. Não é nada difícil. Irving, explique a Jacob
como é simples.
Após lhe serem explicados os rudimentos e regras do jogo, Jacob tentou
manter-se à altura dos outros jogadores. Levou um pontapé na canela. A
bola atingiu-o na cabeça, deixando-o tonto por alguns momentos. Mas não
ia desistir de forma alguma, não ia falhar ao Sr. Mendlebaum.
Após uma meia hora de duras provas, ele começou a compreender do que se
tratava. E subitamente sentiu-se poderoso. Ah, que sensação maravilhosa!
Passou a tratar a bola com desenvoltura, sem permitir que ninguém o
atlngisse. Nunca experimentara a deliciosa sensação de competir e
ganhar; sentia-sa como um gigante. Quando terminou o jogo, ele queria
continuar. Os outros jogadores o cumprimentaram. Não gostaria de entrar
para o time? Claro, por que não? No final das contas, a sorte o
favorecia nesse dia. Estava fazendo amigos e, além disso, enquanto
jogara, não tinha pensado uma só vez em Lotte. Sentia um grande prazer
na camaradagem dos rapazes ao descerem juntos até o lago para dar um
mergulho e lavar o suor. Mergulharam com a roupa de baixo. Depois de
nadar, estiraram-se na relva para secar ao sol. Jacob contemplava o
céu. Daquela posição, o mundo lhe parecia lindo.
Agora, com o cair da tarde, eles deixaram o local e em breve estavam
todos de novo sentados às mesas, diante de pratos de queijos variados,
peixe defumado, arenque e creme de nata, pãezinhos. A Sra. Findelstein,
de faces rosadas e sorriso perpétuo, servia sidra de maçã em canecões.
Dessa vez, Jacob não precisou que ninguém insistisse. Comeu com apetite
e bebeu sua sidra.
- L ’chayim! - exclamou erguendo o canecão para o Sr. Mendlebaum.
- L ’chayim! - o Sr. Mendlebaum abanou a cabeça e piscou o olho.
Agora começaram realmente as festividades. Cantavam canções que todos
sabiam menos Jacob, mas ele batia palmas ritmadas. Depois os rapazes e
as moças formaram um círculo e começaram a dançar ao acompanhamento de
uma concertina. Jacob nunca tinha dançado, mas nunca antes jogara
futebol e nunca soubera o que eram risadas de verdade, e assim fez o
que os outros faziam. Curvava-se, a moça fazia uma reverência. Não havia
pares, e Jacob estava muito feliz até ter de fazer a volta em torno de
Lotte. Quando ela estendeu a mão, ele se recusou a tocá-la. Indignada,
ela achou que aquilo era realmente demais. Ele era rude, arrogante,
exasperante. Não podia compreender como seus avós podiam gostar dele.
Contendo a vontade de chorar, ela jogou para trás os cabelos e o olhou
furiosa.
Ele desejou morrer. Não podia mais estar assim tão perto dela, tão
consciente de sua presença. O dia todo esforçara-se por não pensar nela,
mas agora era impossível. Parou de dançar e encaminhou-se para o lago.
Vendo-o retirar-se, Lotte sentiu mais raiva ainda.
Desculpou-se e foi atrás dele. Alcançando-o, ela o chamou:
- Quero falar com você.
Ele parou, mas não conseguiu virar-se para encará-la. Exasperada, ela
continuou:
- Não conheço ninguém mais grosseiro, mais arrogante e ingrato do que
você. Quero saber por que me odeia tanto. Nunca lhe fiz mal. No começo,
tentei ser sua amiga. Você me humilhou na presença dos outros,
recusando minha mão durante uma simples dança. Sou tão horrível assim? -
Ele não respondeu. Lotte insistiu. - Então, sou mesmo horrível? Diga
duma vez.
Jacob se voltou e encarou-a. Nas sombras alongadas do cair da tarde ela
parecia tão linda, frágil e vulnerável. Foi-lhe preciso toda a força de
vontade de que era capaz para não a agarrar e reter nos braços,
torná-la parte do seu próprio corpo. Engoliu em seco e retesou os
músculos do queixo. Respirando com dificuldade, lançou a Lotte um olhar
frio.
- Deixe-me em paz. Está ouvindo? Não quero ter nada a ver com você.
Chocada, ela ergueu o braço num gesto instintivo de esbofeteá-lo, mas
ele lhe segurou o pulso, olhando-a com raiva.
- Você está me machucando - disse ela finalmente, com lágrimas nos
olhos. - "m bruto, um estúpido e eu o odeio. Odeio! -Jfi eu amo você,
sua tola. - Ele nã~o tivera intenção de falar, mas deixara escapar e
agora nada poderia mudar suas palavras. Soltou o pulso de Lotte, que
ficou imóvel, fitando-o em absoluta descrença e confusão.
- Você o quê? - murmurou afinal.
- Amo você. Eu não queria, mas amo.
- Então por que tem sido tão mau comigo?
- Porque era o único jeito de me manter afastado de você.
- Não o compreendo, Jacob. Se me ama, por que quer ficar longe de mim?
- Porque eu tinha maus pensamentos.
- Que maus pensamentos? Não é nenhuma maldade amar alguém, querer beijar
alguém.
- É mais do que isso. Quero mais do que beijá-la. É assim que são os
homens quando amam.
Lotte tinha apenas uma idéia vaga das relações sexuais entre homens e
mulheres. Mas o que estava sentindo por Jacob era algo que nunca antes
sentira, tão forte que queria ser envolvida nos braços dele, tocar os
lábios dele com os seus. Na ponta dos pés, ela esticou o pescoço e
beijou Jacob. Houve um momento de inocência, quando os lábios de ambos
se juntaram. Um desejo inelutável destruiu a relutância de Jacob, e de
repente sua reação foi impetuosa e ávida. Enfiou a mão por dentro da
blusa da moça, sentiu o seio macio e redondo, o pequeno bico
entumescido. Apesar do seu ardor, algo o fez recuar diante do que seria
irremediável. Santo Deus, ele a tocara, sentira-lhe a maciez! Violara a
confiança, depositada nele. Aquela era a neta do Sr. Mendlebaum. Com
grande dificuldade, Jacob soltou-a.
- Venha, Lotte - disse ele, fitando-a nos olhos. - Não é direito
ficarmos aqui juntos.
- Você me ama, Jacob?
- Sim, mas me envergonho do que fiz. Espero que me perdoe. Eu tinha
prometido a mim mesmo que nunca. ..
Ela pousou um dedo nos lábios dele.
- Não me envergonho. Eu amo você, Jacob... Naquela noite, Jacob tomou
muitas decisões. Queria casar-se com Lotte, mas como? Como iria poder
sustentá-la, dar-lhe um lar? Mal ganhava o suficiente para suas
próprias necessidades. Se ao menos não o houvessem prlvado de sua
herança, ele teria podido ter carregado nos braços Lotte para dentro da
casa de sua zayde, a casa que de direito lhe pertencia. Mas reaver a
herança estava tão fora do seu alcance, quanto casar-se naquele momento
com Lotte.
Quando chegou a madrugada, todas as dúvidas tinham cessado. Agora, ele
se via forçado a lidar com as realidades da vida. Se ficasse e
continuasse a ver Lotte, não poderia conter-se indefinidamente, como o
fizera hoje. Amanhã, no dia seguinte, na semana seguinte, eventualmente
algo aconteceria. Era apenas um ser humano, feito de carne e sangue, e
havia um limite de resistência. Sabia a resposta. . . Apenas uma
alternativa. Só lhe restava partir para a América. Era o único lugar no
mundo onde poderia realizar o plano de suas esperanças futuras. Somente
na América.
Às pressas, ele arrumou seus parcos pertences num saco e deixou o sótão,
que havia sido seu lar, um local onde vivera contente, mas agora se via
obrigado a seguir caminho. Era a única maneira de poder dar a Lotte o
que julgava que ela merecia.
Bateu de leve na janela dela. Lotte levantou-se da cama e vestiu
rapidamente seu penhoar. Sem fazer ruído, passou diante da porta fechada
do quarto onde dormiam seus avós e foi encontrar-se com Jacob no
alpendre dos fundos da casa. Ele não tentou beijá-la. Ela lhe estendeu
os braços, mas ele segurou-lhe delicadamente a mão.
- O que está havendo, Jacob?
- Lotte, passei a noite toda acordado.
- Por que, Jacob? Parece tão perturbado. Você me ama, não é mesmo?
- Claro que sim. Lotte.. .
- E então?
- Quero casar-me com você, Lotte, mas preciso partir e quero saber se me
ama o suficiente para esperar por mim.
- Esperar, Jacob? - disse ela, perplexa. - Está referindo-se às nossas
idades? Quando meus pais o conhecerem e virem que excelente rapaz você
é, eles hão de consentir.
- Não tem nada a ver com minha idade, nem com o seu futuro. Não posso
ganhar a vida aqui. Não tenho nada para lhe oferecer. Por isso, preciso
ir para a América. Lá posso ganhar dinheiro.. .
- Oh, não, por favor não vá, Jacob! Vá para Berlim. Lá irá conseguir um
emprego. Sei que vai conseguir.
- Não, Lotte. Preste atenção. Não há futuro algum aqui na Europa para
alguém que não tenha uma profissão. Serei a vida toda um homem pobre. Só
na América poderei ganhar dinheiro. ..
- Jacob, não vá, por favor, não vá! - E ela começou a chorar.
- O quanto você me ama? - perguntou ele, segurando-lhe o rosto com ambas
as mãos.
- Com todo o meu coração, Jacob.
- Acha que me ama o bastante para esperar? Pode levar algum tempo.
- Sim... mas eu lhe peço, Jacob, não vá.
- É preciso, Lotte, é a nossa única chance. O tempo passará depressa, e
não vou demorar muito em mandar buscá-la.
- Oh, Jacob, vou sentir tanto sua falta!
- E eu contarei os dias, mas não há outro jeito. - Tirando do bolso uma
carta, ele a entregou a Lotte. - Entregue esta carta aos seus avós. O
amor que sinto por eles é mais do que palavras podem exprimir. Vou
escrever-lhe todos os dias.
Os dois se abraçaram com ardor, depois Jacob afastou-se decididamente e
virou-se para partir. Lotte ficou olhando, enquanto ele jogava o saco
por cima do ombro e descia a rua até desaparecer de vista.
#break Capítulo Seis
Era dezembro de 1907, e o velho navio balançava e se retorcia como um
brinquedo ern meio do poderoso Atlântico. O oceano parecia hostil e
ameaçador naquele dia, as ondas gigantescas se erguiam como garras
brancas, depois desabavam em cascatas gélidas sobre a proa.
Nos porões, hordas de imigrantes eram atiradas de um lado para outro na
agitação do mar tempestuoso. Alguns se contorciam de dor e fome,
segurando seus estômagos inchados. Outros, fracos demais para gritar,
jaziam no chão, inconscientes da miséria ao seu redor. Outros desejavam
que a morte os livrasse de tantos sofrimentos, e outros ainda rezavam
pela sua sobrevivência.
No fundo das entranhas do navio, Jacob, munido de uma pá, alimentava de
carvão a caldeira, cujo apetite parecia insaciável. Assim que acabava de
dar de comer ao monstro, ele fechava com força a portinhola de ferro.
Ofegante, enxugava o suor da testa com o seu braço enegrecido. Quando
terminava seu turno, ele se agarrava às grades da escada e subia ao
passadiço; então, titubeante, esgueirava-se pelo corredor estreito até
chegar ao seu alojamento. Exausto demais para se lavar, caía em sua
rede e adormecia profundamente.
Durante as duas semanas, desde que se engajara em Hamburgo, Jacob não
vira a luz do dia. Quando a tempestade abrandava, ele subia ao convés
para respirar o fresco ar da noite. Apoiado ao parapeito, sonhava com
Lotte. Era ela quem o sustentava durante aquela provação; a sua simples
lembrança o fortificava. Sim, conquistaria o mundo para ela, apesar de
todas as dificuldades que teria de enfrentar.
A longa jornada finalmente terminara, e o velho navio lançou âncora no
porto de Nova York. Começou então a mover-se lentamente, enquanto a
chuva torrencial fustigava as vigias. O vento gemia tenebroso.
Homens, mulheres e crianças, fracos e encharcados, famílias que até
então haviam sido criaturas informes e anônimas, começaram a emergir dos
porões. Muitos choravam de alívio depois das agonias que tinham
sofrido. Alguns, atônitos com a realidade de haverem sobrevivido,
mantinham-se mudos no convés, sem ter consciência da chuva e do frio.
Outros, fracos demais para se manterem de pé, apoiavam-se uns contra os
outros.
Por um breve instante, Jacob fitou a massa humana da qual fazia parte, e
naquele momento sentiu algo especial por aquela gente. Mas também
advertiu a si mesmo. A vida não o tratara com privilégios especiais:
conhecera privações, fome, a luta pela sobrevivência e suportara tudo
sozinho. "Não se esqueça disso", disse para si mesmo...
Rapidamente, apanhou seu saco de lona, jogou-o por cima do ombro e
desceu a prancha de desembarque. Dirigiu-se ao escritório da companhia
de navegação e esperou na fila para receber seu salário. Olhou para o
dinheiro, que lhe colocaram nas mãos calosas. Um dólar por dia, aqueles
miseráveis. Enfiou no bolso os 21 dólares.
Encontrou um quarto num albergue no bairro de Bowery por 25 cents por
noite. Despindo as roupas encharcadas, deixou-se cair no catre de ferro.
Pela manhã, quando abriu os olhos para o sombrio dia de inverno, sentiu
a boca seca e o estômago vazio, mas não conseguia juntar energia para se
levantar. Olhou em redor para a escória humana tão inerte quanto ele.
Para alguns, aquele era provavelmente o habitat natural. Subitamente,
aquele espetáculo deprimente lhe deu energia para se levantar, dar
início à sua vida.
Pulando da cama, começou a vestir-se. Ao enfiar as calças,
instintivamente procurou o pequeno maço de dinheiro, porém não o
encontrou mais no bolso. Apavorado, espiou debaixo do catre de ferro e
descobriu que seu saco de lona fora roubado.
- Malditos calhordas que roubaram o meu dinheiro! - berrou ele, furioso.
Os homens mal ergueram a cabeça. - Eu mato, se não me devolverem o meu
dinheiro. - Ninguém respondeu. Olhou para o homem a seu lado, depois
agarrou-o pelo pescoço. - Eu te mato! Roubou meu dinheiro! - O homem,
apavorado, balbuciou algo em sua embriagada incoerência. Pela primeira
vez, Jacob percebeu que estava falando numa língua que ninguém parecia
entender. Ofegante de raiva, soltou o homem. Felizmente não lhe tinham
roubado o capote. Vestindo-o, saiu bruscamente do albergue.
As ruas estavam cobertas de um lençol branco de neve e gelo tão
escorregadio que lhe era quase impossível caminhar. Tremendo de frio,
ele se encolheu na soleira de uma porta, sem saber o que fazer. Perdera
tudo: dinheiro, papéis de imigração. . . nada mais possuía além da velha
carta, rasgada, desbotada, que Esther escrevera a seus pais havia muito
tempo e um retrato de Lotte no seu bolso interno. Tomou o retrato e
contemplou-o. "Tudo bem, Lotte, mas não vão me vencer. Já cheguei até
aqui. . . Foi uma dura lição, ninguém vai fazer isso de novo comigo."
Tornando a guardar o retrato no bolso, ele se sentou, esfregando as mãos
para aquecê-las. Gastar sua energia em raiva não lhe devolveria o que
perdera, portanto voltou seus pensamentos para as coisas mais imediatas.
Como iria comer hoje, e onde dormiria essa noite? Estava tão mergulhado
em seus pensamentos que não notou estar sob o escrutínio de uma
corpulenta figura uniformizada.
- O que está fazendo aí, menino? - perguntou o desconfiado policial
irlandês.
Jacob ergueu os olhos para o rosto rubicundo, abanou a cabeça e fez um
gesto de que não estava entendendo.
- Ah, então você é um desses poloneses ou judeus ignorantes? Não não
pode ser um semita. Muito louro e de olhos azuis. . . não tem um nariz
adunco.
Jacob estava mergulhado na mais absoluta frustração: não entendia uma só
palavra do que o homem dizia, nem podia fazer-se entender. Tentou com
gestos explicar que seu dinheiro fora roubado. Bruscamente, foi erguido
por baixo dos braços e empurrado contra a parede. O homem de pesado
capote azul-marinho com lustrosos botões dourados passeou as mãos pelo
corpo de Jacob, depois examinou o interior de seus bolsos, mas tudo o
que encontrou foi o retrato de Lotte e a carta de Esther. Depois de
examinar o retrato, tornou a colocá-lo no bolso do rapaz. Jacob viu seus
lábios se moverem.
- Então não tem nenhum documento! Já vi muita gente como você que pensa
que é fácil ser clandestino e desembarcar de um navio. Pois olhe, meu
rapaz, vai ver que as coisas não são bem assim. - E, apanhando um par
de algemas, fechou-as nos pulsos de Jacob.
Jacob percebeu então que o policial o julgava um criminoso, mas seus
protestos não foram atendidos, e ele foi conduzido à delegacia.
Esperou por muito tempo, sentado num banco duro. Finalmente, viu-se
diante de outro homem sentado a uma escrivaninha.
- Como é seu nome? - perguntou o homem, olhando para Jacob. Jacob
sacudiu a cabeça, mudo.
- Perguntei qual é seu nome?
Jacob estendeu as mãos e encolheu os ombros.
- Ah, então você não está entendendo uma só palavra. Devia haver uma lei
obrigando vocês, estrangeiros, a falarem inglês. O’Toole - chamou ele.
- Pois não, chefe.
- Ponha este sujeito aí no xadrez e comunique-se com o Departamento de
Imigração. Ele não tem documentos.
Jacob foi levado para uma fria e úmida sala de detenção. Sentou-se,
apavorado, sem entender qual era o seu crime e qual seria a sua pena.
Não era o único. A sala estava cheia de desembarcadiços clandestinos:
italianos, poloneses, russos.. .
Às quatro horas da tarde, Jacob foi levado mais uma vez por um longo
corredor e empurrado para dentro de uma sala. Seu coração bateu mais
apressadamente, quando ouviu a porta ser trancada. Perfilou-se diante
de dois homens - um funcionário da imigração, o outro um intérprete
sentado a uma escrivaninha folheando um maço de papéis.
Jacob olhou para um, depois para o outro, cada vez mais alarmado,
esperando que eles rompessem o silêncio. Santo Deus, o que ia acontecer
com ele? Quando finalmente lhe fizeram sinal para que se aproximasse,
parecia-lhe que estava ali parado havia horas. Adiantou-se sem
hesitação.
O intérprete entregou a Jacob uma grande tabuleta, em que estava escrito
em letras garrafais: “Sou Polonês, Sou Russo, Sou Grego, Sou"... Quando
os olhos de Jacob pousaram nas frases, ele quase desfaleceu de alívio.
Sacudindo a cabeça, com os olhos azuis fixos no intérprete, ele disse:
- Ya, ich bin Deutsch.
O interrogatório começou em alemão.
- De onde vem você?
- De Frankfurt.
- Qual é o seu nome?
- Jacob Sandsonitsky.
- Mas esse não é um nome alemão.
- Não, sou judeu.
- Diga-me como chegou aqui.
Jacob narrou sua história, desde a partida de Hamburgo, como tinha pago
a passagem trabalhando como foguista, terminando com o roubo do dinheiro
e documentos. Tremia, enquanto o interrrogatório prosseguia.
Quando deixara Frankfurt e chegara a Hamburgo? Jacob não teve
dificuldade em recordar o mês: tinha sido depois do piquenique naquela
linda tarde de fim do verão, em agosto. Mas o pensamento foi
interrompido pela necessidade urgente de responder: 18 de agosto de
1907. Por que permanecera tanto tempo em Hamburgo e como se tinha
sustentado? Respondeu que o navio estava sendo reparado e preparado para
a viagem, e nesse intervalo ele tinha trabalhado como marinheiro e
estivador. O interrogatório continuou. Qual tinha sido, então, a data
da partida do navio de Hamburgo? 22 de novembro. E a chegada? 10 de
dezembro. Tinha alguma família nos Estados Unidos?
Essa foi a única vez que Jacob hesitou, mas a resposta podia ser
crucial. Até então não tinha sabido qual era o seu crime, mas agora
compreendia que era suspeito de entrada ilegal no país. Teve, então, de
abandonar a promessa feita a si mesmo de não procurar sua mãe.
- Sim, tenho mãe, irmã e um irmãozinho aqui.
- Onde vivem e qual é o endereço deles?
Dessa vez, Jacob titubeou. Ao tirar do bolso a velha carta e entregá-la
ao intérprete, pediu a Deus que sua mãe estivesse vivendo no mesmo
endereço. Engoliu em seco e sentiu como se uma faca tivesse sido
enterrada em seu peito. Nesse momento, a confiança em Deus era tudo o
que lhe restava. Rezou para que a verdade o redimisse, e recomeçou a
narrar os eventos de sua vida até aquele momento. Sua mãe era pobre e
ficara viúva, quando ele era ainda pequeno. Viera para a América,
deixando-o entregue aos seus avós em Frankfurt. Apenas nesse pormenor
ele mentiu. Rapidamente, continuou sua narrativa. Após a morte dos avós,
ele perambulara de um lugar para outro, e dessa forma perdera contato
com sua mãe.
Sabia ele se sua mãe ainda era viva?
Se estava viva? Como podia Jacob saber? A pergunta precipitou uma
torrente de culpas. Embora tivesse certeza de que ela nunca o amara, a
idéia de que pudesse estar morta era algo que não podia encarar.
Durante um breve momento, projetou-se em sua mente um rosto amarelo de
cera, um corpo imóvel, olhos fechados, moedas, Yis-gad-dal
v’yis-kaddash... Teve ímpetos de tapar os ouvidos com as mãos para não
ouvir o cântico fúnebre. - Não - respondeu ele, trêmulo. - Ela está
viva, sei que está viva. Hei de encontrá-la. Terminara o interrogatório.
Disseram-lhe que ele ficaria detido até os fatos serem investigados, e
que o notificariam sobre o resultado. Levaram-no da sala e o conduziram
a uma cela escura. À medida que passavam os dias, ele oscilava entre
sentir-se completamente desamparado e abandonado a uma amarga raiva.
Muita coisa lhe acontecera em sua curta vida, mas ao menos sempre fora
livre. O confinamento, o mau cheiro e a promiscuidade o torturavam.
Durante duas semanas, o velho pesadelo da morte voltou a atormentá-lo
e, uma tarde, quando tinha mergulhado em outro sono perturbado, foi
acordado bruscamente. - Jacob S-a-nd-s-o... - Jacob não compreendia
inglês, mas sabia o seu nome. Rapidamente, levantou-se do frio chão de
cimento e respondeu: - Já, das ist meins Name, Jacob. O guarda fez-lhe
sinal que o acompanhasse. Ele foi conduzido para a mesma sala, em que
estivera 15 dias antes, na presença dos mesmos homens. Jacob, porém, mal
parecia o mesmo rapaz. Tinha o cabelo sujo e desgrenhado, a sua barba
crescera, e as calças pareciam largas demais. . . perdera pelo menos
cinco quilos. Parecia 10 anos mais velho. Teve de reunir todas as suas
forças para manter-se de pé, enquanto os homens continuavam remexendo em
papéis. Por fim, o intérprete estendeu-lhe um documento para assinar,
explicando que tudo havia sido verificado e que Jacob podia permanecer
temporariamente no país. Deram-lhe uma lista de instruções: tinha de
arranjar imediatamente um emprego, localizar sua mãe, e apresentar-se à
Imigração dentro de duas semanas, e, no decorrer desse período seria
decidido se ele podia ficar permanentemente no país. Tinha alguma
pergunta a fazer? Como não tivesse dinheiro algum, Jacob perguntou onde
poderia dormir naquela noite.
Pela primeira vez, quase a contragosto, o intérprete olhou realmente
para Jacob. Ele odiava seu emprego, repugnava-lhe ver como o mundo
tritava um rapazinho como aquele. Que diabo, ele não era mais um
rapazinho. Talvez o fosse duas semanas antes. Mas não restavam mais
ilusões naqueles límpidos olhos azuis.
- Procure o Exército da Salvação - respondeu o homem em alemão. Eles lhe
darão comida e um lugar para dormir.
- O exército? - perguntou Jacob, espantado.
- Não é um exército regular, é uma organização cristã de caridade que
ajuda as pessoas.
- Mas sou judeu.
- Não lhes importa o que você é - respondeu o intérprete, e quase
acrescentou. . . porque são cristãos. Como o era também o país, fundado
e orientado na ética cristã. Ora bolas! Decididamente, ele entregou um
cartão a Jacob. - Aí tem o endereço, em inglês. Mostre o cartão a
qualquer pessoa. Todo o mundo sabe onde fica o Exército da Salvação.
Jacob olhou curiosamente para o cartão e guardou-o no bolso. Ao sair,
disse "Obrigado" em alemão. O homem abanou tristemente a cabeça. Sim,
muito obrigado. O rapaz tinha mesmo muito motivo para agradecer!
A neve cessara. Agora as ruas estavam escorregadias e o ar úmido e frio,
mas Jacob não se importava. Estava livre. Deus lhe devolvera a
liberdade. Ele queria ir para o shul; uma lembrança voltou-lhe à mente.
O Sr. Mendlebaum, seu zayde, costumava ir com ele ... O filho de uma
cadela que roubara suas coisas merecia ir apodrecer no inferno. Perda
maior que o dinheiro havia sido o saco de lona, onde havia guardado a
única coisa que tinha um significado para ele: seu tallis e yarmulkah, o
legado de seu querido Sr. Mendlebaum.
Na manhã seguinte, Jacob foi informado onde ficava o setor judaico da
Zona Leste. As ruas eram atulhadas de prédios sujos, mas pelo menos ele
estava entre sua gente, e falar a própria língua tinha em sua boca o
sabor do mel. Foi até a casa onde calculava que Esther vivia e bateu
numa porta. Uma mulher espiou apreensivamente para fora.
- Por favor, minha senhora, posso lhe fazer uma pergunta?
- Que pergunta? - quis ela saber, desconfiada, apertando os olhos.
- Meu nome é Jacob Sandsonitsky. Minha mãe é Esther.
- Sua mãe é Esther?
- Sim, sabe onde ela está morando?
Tranquilizada, a mulher adotou uma expressão mais branda.
- Não lhe posso dizer, mas posso ajudá-lo. Não a vejo há anos. Uma
mulher engraçada, se me permite dizer, nunca vem ver seus velhos amigos.
Entretanto, quando morava aqui, todos foram muito bons para com ela.
Jacob voltou mentalmente ao tempo em que era um garotinho perplexo. Não
podia se lembrar se sua mãe o beijara ao desperdir-se dele. Mas aquele
não era o momento para recriminações. Se queria permanecer na América,
tinha de encontrar a mãe, a decisão não era sua e, sim, da vida.
- Está dizendo que me poderia ajudar a encontrar minha mãe? - perguntou
Jacob, ansiosamente.
- Sim, posso. Este bairro é muito grande, mas as pessoas sempre falam.
Ouvi dizer que ela é proprietária de um restaurante.
- Onde?
- Não sei, mas se você for ao mercado de peixes, na Rua Fulton, sei que
lá eles poderão informá-lo.
Jacob cumprimentou-a com um gesto de cabeça, depois perguntou onde
ficava o mercado. Ela respondeu que, se não estivesse fazendo tanto
frio, o acompanharia até lá. Depois de escrever em iídiche o nome das
ruas, a velha senhora sentiu uma tristeza ao despedir-se de Jacob. Um
rapaz tão simpático. Não gostaria ele de voltar a visitá-la? Sim,
muito. Mas, ao se despedirem, ambos sabiam que ele nunca voltaria.
#break Capítulo Sete
Como previra a velha senhora, o mercado de peixes fornecia sua
mercadoria para Esther. Onde estava localizado o restaurante? Na Rua
Canal.
- Pode escrever o endereço? - pediu Jacob.
- Escute, estou ocupado. Pergunte, logo adiante vai encontrar a rua. - O
homem apanhou um caixote de peixes.
- Não pode pelo menos me dizer como chegar lá? - insistiu Jacob,
irritado.
Soltando o caixote no chão, o homem olhou, aborrecido, para Jacob. O que
pensava que ele era - catálogo de endereços? Logo hoje, quinta-feira, o
dia mais movimentado da semana, é que esse momzer (enfeite) resolvia
tomar o seu tempo? Relutantemente, o homem indicou a Jacob a entrada,
onde lhe informariam a direção. Depois, desapareceu no interior do seu
escritório, batendo a porta, antes de Jacob ter tido tempo de perguntar
o nome do restaurante.
De quando em quando, ele abordava um transeunte. Era sempre siga à
direita, siga à esquerda - ninguém parecia dispor de tempo. Jacob
percorria lentamente as ruas, incapaz de decifrar as indicações.
Parecia-lhe ter caminhado quilômetros. Mas, afinal, se tinha conseguido
encontrar a América, haveria de encontrar a Rua Canal.
Continuou andando, parando em cada restaurante que via. De repente, seu
coração bateu com força. Lá estava! Restaurante Kosher Esther
Sandsonitsky. Pôs-se a tremer de medo, ao atravessar a rua. Uma sineta
soou quando ele abriu a porta, e tornou a soar ao ser fechada. Jacob
ficou parado entre as mesas e cadeiras vazias. Não havia fregueses.
Logo uma mulher emergiu dos fundos. Enxugando as mãos no avental branco,
ela o convidou a escolher uma mesa. Então os olhos dos dois se
encontraram. Não era sua mãe. Sua mãe era muito mais alta do que aquela
mulher. Era loura, e aquela tinha os cabelos totalmente brancos
Contudo...
- Jacob?...
Meu Deus! era sua mãe. Ele abanou a cabeça, atônito.
- Sim, meu nome é Jacob.
Então ela parou diante dele, trêmula. De repente deu-lhe uma bofetada.
Jacob ficou tão chocado, que perdeu a fala. Imediatamente uma tremenda
raiva se apossou dele... "Honrarás pai e mãe", essa era boa!
Rapidamente, ele se voltou e caminhou para a porta da frente, mas ela
correu atrás dele.
- Espere, Jacob! - exclamou ela, abraçando-o e agora soluçando.
Totalmente aturdido, ele se manteve imóvel.
- Venha, Jacob, venha sentar-se - disse ela, enxugando os olhos com o
avental.
Era então assim? Não dissera "Estou feliz por vê-lo aqui"? Mas o que
podia ele esperar? Sempre soubera que sua mãe não o amava...
- Não, não posso ficar - respondeu ele, amargo.
- Desculpe. . . desculpe, se o esbofeteei. - Ela mordeu o lábio, Jacob
virou-se para sair, mas ela o agarrou pelo braço. - Foi por causa de
todos os anos de preocupação, porque fugiu e nunca mais me deu
notícias.
- E isso a preocupou muito, gostava tanto assim de mim? - disse ele
quase cuspindo as palavras. -Porque me abandonou, e levou Gittel e
Shlomo?
- Porque Gittel era uma menina e Shlomo um bebê.
- E eu não era nada? Uma cadela trata os filhotes melhor do que você me
tratou. Por que não me mandou buscar?
- Eu mandei.
- Mandou? - Jacob sentou-se após um longo e perplexo silêncio.
- Sim. Mandei uma passagem e o dinheiro para sua viagem.
- Quando foi isso? - perguntou ele, descrente.
- Há uns seis, sete anos. Não me lembro mais.
Há uns sete anos? Justamente na ocasião em que ele fugira de casa.
Custava-lhe acreditar... ela tinha mandado buscá-lo?
- E você recebeu de volta a passagem e o dinheiro? - perguntou,
desconfiado.
- Claro que não. Quem vai devolver passagens e dinheiro? Venha, Jacob,
sente-se. Você está com cara de quem precisa de uma boa refeição. Temos
muito tempo para conversar e muito sobre o que conversar.
Quando pensou no funcionário da Imigração, Jacob obedeceu
relutantemente.
Esther sentou-se do outro lado da mesa, vendo seu filho comer. Havia nos
olhos dele profundo ressentimento e hostilidade, e ambos sabiam que
seria difícil ao filho perdoar a mãe. Mas o fato era que os anos haviam
marcado a ambos. Quem pergunta a alguém, ao nascer, o que ele deseja?
Cada qual aceita o que lhe é dado. Esther sabia como era funda a
ferida, e que aquele primeiro encontro não iria cicatrizá-la, mas o que
poderia ela ter feito na ocasião? Nada, e não ia permitir que Jacob a
fizesse sentir-se culpada. Se a vida lhe tivesse sido mais suave, ela
teria sido uma mulher diferente, uma mãe diferente.
Os sentimentos de Jacob se acalmaram. Ao observar a mãe enquanto tomava
café, ele notou mais uma vez o quanto ela estava mudada. Eram os cabelos
brancos que o perturbavam. O que sentia por ela? Não saberia dizê-lo.
Mas aquela mulher era sua mãe e, talvez, com o passar do tempo, ele
pudesse esquecer os longos anos de solidão e amargura. Por enquanto
seus sentimentos jaziam submersos.
Quando ele terminou de comer, os dois ficaram sentados um diante do
outro, constrangidos, sem saber como e por onde começar. - Então, Jacob,
gostou do jantar? - perguntou Esther, pigarreando. - Estava muito bom -
respondeu ele à estranha sentada à sua frente. - Diga-me, Jacob, há
quanto tempo está aqui? - Há pouco mais de duas semanas - respondeu ele,
numa voz sem inflexão. - Oh? Todo esse tempo? O que esteve fazendo? -
Nada. - Não arranjou emprego. Sei que é muito difícil. - Creio que sim,
mas não precisei de emprego. O Governo dos Estados Unidos me sustentou.
Esther inclinou a cabeça e olhou de esguelha para Jacob. Não sabia se
ele estava brincando, mas o pensamento desapareceu imediatamente quando
ela notou o maxilar cerrado e a linha dura da boca.
- O que aconteceu?
Quando Jacob narrou sua provação, Esther ficou quase sem fala, mas a sua
preocupação provocou nova onda de ressentimento da parte do filho.
- Por que está tão chocada? A maior parte de minha vida, passei-a em
lugares assim ruins. A única diferença foi que pelo menos não me puseram
atrás das grades. - Jacob retesou os músculos do rosto. - Foi na prisão
que tive o meu primeiro contato com esta terra prometida.
Outro silêncio prolongado entre os dois, como uma barreira. - Quer tomar
uma xícara de chá? - Claro, isso é sempre bom. Ajuda a engolir a raiva,
não é mesmo, mamãe? - Jacob, você está muito amargo e não posso
censurá-lo, mas isso não ajuda nada. - Não, não ajuda. Mas o que ajuda,
mamãe? - Desabafe de uma vez, Jacob. Você me odeia. Os olhos dele de
repente faiscaram, fitando-a por um longo momento. Mas manteve-se
calado.
Silêncio. Rapidamente seus olhares se cruzaram, depois Esther baixou os
olhos e afastou as migalhas de cima do oleado.
- Mas, ainda assim, você veio para cá... e me encontrou.. .
- A verdade é que há muito tempo eu tinha tomado a decisão de nunca
procurá-la, mas o pessoal da Imigração disse que eu tinha de ter uma
família na América. Do contrário, eles me mandariam de volta.
Esther mordeu o lábio.
- Bem, pelo menos você é honesto. Mas, ouça-me, Jacob. Quer me castigar
por algo de que não tive culpa? Paciência, pense você o que quiser, o
fato é que fiz o melhor que pude.
- Não acho - replicou ele. - Mandou Gittel para bubeleh e zayde, mas me
entregou a estranhos. Eu não significava nada para você.. .
- Não é verdade. Meus pais eram velhos. Minha mãe estava doente, e duas
crianças teriam sido demais para ela.
- Claro, minhas necessidades eram tantas...
- Muito bem, agora chega. Pense o que quiser. Nada que eu diga vai
adiantar.
Ele a viu levantar-se e servir-se de um pouco de conhaque num copinho.
Ao levar a bebida aos lábios, sua mãe tremia ligeiramente e a bebeu de
um só trago. As emoções de Jacob tornaram-se confusas. Esther parecia
tão frágil, tão vulnerável, que ele odiou a si mesmo por ter sido tão
cruel. Soltou um profundo suspiro. Talvez, ter dado vazão à sua raiva
tornaria o passado mais aceitável, menos áspero. Quando Esther voltou e
tornou a sentar-se, ele quis pedir-lhe desculpas, mas não conseguiu
pronunciar as palavras.
Tentando falar seu rancor, Esther perguntou com grande dificuldade:
- O que o fez decidir-se a vir para a América?
- Estou gostando de uma moça. Queríamos casar-nos, mas eu não poderia
sustentá-la. Que chances tem um judeu na Europa? Bubeleh e zayde viveram
e morreram naquela pequena cabana, e duvido que jamais tenham tido
comida suficiente.
Até aquele momento, Esther evitara fazer muitas perguntas, mas agora não
importava mais. Parecia que nada iria fazer com que Jacob deixasse de
condená-la. Perguntou por que tinha fugido, como conseguira sobreviver
sozinho, e Jacob lhe contou toda a história. O desabafo fez com que ele
se sentisse melhor. E terminou:
- Em toda a minha vida, as únicas pessoas que me trataram com bondade
foram o Sr. e a Sra. Mendlebaum. Eu achava que o mundo inteiro era podre
até o dia em que os conheci. Isso devo agradecer a Deus.
Quando ele terminou sua história, Esther suspirou, levantou-se, encheu
de chá um copo que lhe estendeu.
- Agora me conte a seu respeito - disse Jacob, depois de sorver um gole
do chá.
- Não há muito para contar - respondeu ela, encolhendo os ombros. - Vim
para cá, morei com Shlomo num quarto, onde tinha de me defender dos
ratos com um pedaço de pau. Não estou falando com pena de mim mesma,
simplesmente foi o que aconteceu. Então fui trabalhar para o casal
proprietário deste restaurante, ele morreu, e eu comprei o restaurante.
- E está conseguindo ganhar a vida? Esther baixou os olhos cansados.
"Ganho o bastante para alimentar meus filhos e mandar dinheiro para
você", pensou ela, mas disse apenas:
- É um meio de vida. Pelo menos moro agora num lugar melhor. Não lhe
mostrei ainda, mas nos fundos do restaurante há um apartamento.
- Onde está Gittel? - perguntou Jacob, mexendo o chá.
- Onde está Gittel? - Ela suspirou. - Gittel está casada.
- Você não parece muito feliz com o casamento.
-O que é ser feliz? Ela não quis esperar. Aos 16 anos, teve medo de mais
tarde não conseguir um partido tão brilhante. Eu queria que ela pelo
menos terminasse os estudos.
- O que faz ele?
- O que ele faz? - Ela soltou uma risada irônica. - Faz o menos
possível.
- Como vivem?
- Num lindo apartamento na Rua Delaney, dois cômodos. Ajudo a pagar o
aluguel, e eles comem aqui. Exceto agora, porque é meio difícil para
Gittel. Dentro de umas duas semanas, ela vai ter um filho, por isso
levo comida para lá todas as noites.
- E Shlomo?
- É um bom menino, freqüenta a escola e o cheder (escola para crianças).
Está agora com 10 anos.
- Dez anos? - repetiu Jacob, incrédulo. Meu Deus, para onde teriam ido
todos aqueles anos? Jacob não conseguia em absoluto lembrar-se do irmão.
Sim, podia, vagamente. Uma coisinha pequena embrulhada em cobertas, que
parecia estar sempre chorando até Esther lhe dar o peito. Jacob recordou
seu ressentimento contra o pequenino ser tão carinhosamente tratado.
Teria sido ele tratado da mesma maneira?...
Levantou-se e foi até a janela. A neve começara a cair levemente. Por
alguma razão que não conseguia articular, sentiu uma estranha ansiedade.
Teria querido odiar sua mãe, tentara odiá-la. Era a sua única defesa, a
única arma que o fortalecera. Mas agora que a tinha visto, a sua guarda
parecia abalada - mas só até certo ponto. Não era possível ter
alimentado todos aqueles ressentimentos durante tanto tempo,
subitamente, esquecê-los. Ainda assim, a sua hostilidade parecia mais
abrandada, e ele teve uma sensação de paz como nunca antes sentira.
Jacob estava tão mergulhado em seus pensamentos que o som da sineta
tocando na porta da entrada o assustou. Um meninozmho passou correndo
por ele e foi beijar o rosto de Esther. Shlomo andava sempre com
pressa. Antes de sua mãe ter tempo de chamar-lhe a atenção, ele já
estava em seu quarto, desafivelando a correia dos livros e tirando o
capote e o boné molhados. Esther foi atrás dele.
- Venha, Shlomo, tenho uma surpresa para você. Shlomo acompanhou-a.
- Este é seu irmão Jacob...
Jacob viu os olhos do garoto se arregalarem, depois se encherem de
lágrimas. Shlomo tinha sonhado com aquele irmão mais velho. Precisava de
um homem a quem admirar. Amava sua mãe e Gittel, mas um menino devia
ter um homem com quem falar, um homem que o guiasse.
Jacob baixou o olhar para o menino de grandes e melancólicos olhos
castanhos. Os dois não se pareciam em nada. Shlomo era menor do que
Jacob o fora na sua idade. O fato de serem de pais diferentes não
ocorreu a Jacob. Só o que o interessava no momento era ser aquele menino
seu irmão. Esther mantinha-se um pouco afastada, com lágrimas nos
olhos. Shlomo agarrou-se a Jacob, e Jacob o apertou nos braços. Aquele
era um amor diferente do que Jacob jamais conhecera. Slüomo ergueu os
olhos para o irmão.
- Eu sabia que um dia você viria. Mamãe sempre disse que você viria.
- Acho que mamãe tinha razão - disse Jacob, suspendendo Shlomo nos
braços.
Do seu canto, Esther murmurou para si mesma: "Eu vos agradeço, meu Deus,
pela vossa infinita bondade. Finalmente vejo minha família reunida." Foi
até a porta da frente, trancou-a, depois virou a plaqueta "Fechado".
Hoje não queria saber de fregueses. Em seguida, dingiu-se para os fundos
do restaurante e começou a preparar as coisas para Gittel. Quando
acabou de encher o cesto, vestiu seu capote e chapéu e foi ter com os
filhos.
- Venham - disse ela. - Vamos ver Gittel. - Então notou que Jacob estava
mal agasalhado. - Shlomo, vá buscar para seu irmão o cachecol de lã e as
luvas de couro. E em minha gaveta vai encontrar meu gorro de tricô. -
Esther estava de novo no comando, a Esther forte de antigamente, a
destemida, a indestrutível Esther.
Shlomo voltou e entregou a Jacob o comprido cachecol de padrão escocês,
com que seu irmão agasalhou o pescoço. Esther parou diante dele. Jacob
era uma cabeça mais alto do que ela, o que a obrigou a ficar na ponta
dos pés para ajeitar o cachecol. Então sorriu, coisa que há muito tempo
não fazia, mas seu filho era tão bonito e sentia tanto orgulho dele.
- Assim pelo menos você não vai sentir frio no pescoço. Veja se as luvas
lhe servem.
Jacob sentiu um súbito desejo de tomá-la nos braços e beijá-la, mas se
conteve. Ao invés, sorriu e apanhou o cesto, e os três partiram através
a fria noite de inverno para a casa de Gittel.
Ofegante com a subida de quatro lances de escada, Esther parou diante do
apartamento da filha. - Esperem aqui - disse ela. - Quero primeiro
entrar e contar a Gittel. Estão compreendendo? - Jacob fez que sim com a
cabeça. Esperou, tenso, enquanto Shlomo erguia os olhos em adoração
para o irmão.
Após o que pareceu um tempo interminável, a porta se abriu e Gittel
surgiu na soleira. Por um momento, permaneceu imóvel; não conseguindo
acreditar nos próprios olhos. Depois jogou-se nos braços de Jacob, com
as lágrimas rolando-lhe pelas faces. Erguendo os olhos para ele, ela
afagou-lhe o rosto com ambas as mãos.
- Oh, Jacob, nosso tão querido Jacob, finalmente voltou para nós. Mamãe
sempre disse que você viria. Nunca se passou um dia sem que falássemos
em você. j
"E nunca se passou um dia sem que eu esperasse que o nosso reencontro
fosse assim", pensou ele, tão engasgado pela emoção que não conseguia
falar. Com as costas da mão, enxugou as lágrimas dos olhos.
- Venha, meu maravilhoso irmão, venha - disse Gittel, levando-o para
dentro da cozinha escassamente mobiliada.
O marido de Gittel estava sentado à mesa. Levantou-se para a
apresentação .
- Jacob - disse Gittel, este é meu marido Hershel.
Lembrando-se do que sua mãe lhe dissera sobre Hershel, Jacob sentiu uma
pontada de ressentimento. O que Gittel vira nele? Era um rapaz baixo,
franzino, tristonho, de uns 25 anos, que parecia nunca ter visto a luz
do sol. Por que Gittel não tinha querido esperar um pouco? Ela era tão
linda, com cabelos cor de mel e olhos de um azul intenso. Mesmo agora,
com o ventre estufado, havia nela uma delicadeza esguia. Olhando um e
outro, Jacob pensou com desprezo que o marido de Gittel nunca a
sustentara e protegera, como ele faria com Lotte. E o shnorrer (esmola)
deixava até que a sogra, que trabalhava tão duro, pagasse o seu aluguel.
Mas Jacob foi arrancado desses pensamentos, pelo chamado de sua mãe.
- Agora, sentem-se, vamos comer. Jacob, você diz a oração de
agradecimento a Deus.
Gittel e Shlomo não conseguiam tirar os olhos de Jacob. Pouco se
conversou durante a refeição, mas, quando chegou a hora do chá e do
bolo, houve uma avalanche de perguntas.
Jacob procurou não mencionar as passagens penosas de sua vida, o que só
lhe deixou o tempo de convivência com os Mendlebaum e Lotte.
- Então vocês dois vão se casar? - disse Gittel, sorrindo. - Não consigo
acreditar.
- E você, Gittel, é difícil acreditar que vai ter um filho. - E como se
estivesse falando consigo mesmo, ele acrescentou: - Parece que ainda
ontem éramos crianças.
- Sim, Jacob, mas agora, graças a Deus, estamos juntos. A vida é boa...
- Sim, acho que há uma razão para tudo neste mundo.
Quando Esther abriu a porta do restaurante e levou-o para o apartamento
nos fundos, Jacob sentiu que o passado estava encerrado e que só o que
importava era o presente. Enfim ele tinha um lar.
Rapidamente, Esther colocou lençóis limpos na estreita cama de ferro do
quarto de Shlomo, enquanto Jacob a observava. A primeira cama que lhe
pertencia, uma cama e um lar que eram seus.
Quando se deitou nessa noite, Esther ficou muito tempo de olhos pregados
no teto escuro, com o coração cheio de gratidão. Deus lhe devolvera seu
filho.
Foi uma noite de paz e contentamento para mãe e filho.
#break Capítulo Oito
Sendo sexta-feira o início do Shabbes, mau dia para procurar trabalho,
Jacob empregou seu tempo dando uma limpeza no apartamento e lavando a
gordura acumulada nas paredes da cozinha.
À noite, foram ao apartamento de Gittel para o Shabbes.
Jacob sentiu uma alegria profunda, ao ver sua mãe acender as velas e
dizer a oração de graças. Até o seu desagrado de Hershel foi esquecido
naquele momento de regozijo. Ninguém cozinhava como sua mãe - o
cardápio de gefilte, sopa de galinha com Kreplach (espécie de ravióli),
kugel (bolo doce de macarrão), challah (trança de pão para a noite de
sexta-feira), fígado ensopado, galinha assada era um verdadeiro
banquete.
Na manhã seguinte, quando Jacob tomava café com Shlomo, sua mãe lhe
entregou uma sacola de veludo encarnado bordada com o Torah (o livro
sagrado) dourado. Ele não teve dúvida sobre o que havia dentro da
sacola. Tomando o tallis (xale) nas mãos, tocou com reverência nas
franjas. O tempo havia amarelado a seda. Ao erguer a cabeça, viu
lágrimas nos olhos de Esther.
- Isso pertenceu a seu pai. Use-o, Jacob, com tanto orgulho quanto ele o
usou.
Sem conter as lágrimas, ele abraçou sua mãe. Isso a fez sentir-se muito
reconfortada e, ao mesmo tempo, perceber a força interior que havia
nele.
No sábado, na hora da oração no pequeno shul da Rua Hester, recordações
voltaram à mente de Jacob. Ele olhou para sua mãe e a viu sorrir, depois
retornou ao seu dovening (reza), erguendo a voz para se equiparar aos
mais velhos que cantavam a bela liturgia, há dois mil anos ouvida.
Shlomo orgulhosamente acompanhava o ritmo do seu irmão.
Às três horas da madrugada, ouviram-se fortes pancadas na porta do
Esther. Jacob quase colidiu com sua mãe, quando os dois correram para a
entrada do restaurante. Abrindo a porta, depararam com Hershel
apavorado e meio enregelado. Limpando a neve das pestanas, ele entrou
arfante e disse afobadamente:
- Gittel... Gittel precisa de vocês.
Sem uma pergunta sequer, Esther e Jacob foram vestir-se às pressas. - O
que aconteceu? - perguntou Shlomo, ao ver Jacob enfiar as calças.
- É Gittel. Mas está tudo bem, durma de novo. Vou sair com mamãe.
- Eu também - anunciou o menino, saltando da cama.
- Não, Shlomo, não é necessário. Trate de dormir.
- Mas eu quero ir.
- Se precisar de você para alguma coisa, venho buscá-lo, está bem?
Relutante, Shlomo tornou a deitar-se. Jacob aconchegou os cobertores no
irmão e passou afetuosamente a mão no seu rosto.
As contrações de Gittel se repetiam com tanta rapidez, que Esther
compreendeu que tinha de agir imediatamente. A parteira que deveria
encarregar-se do parto adoecera com uma pleurisia. Não havendo tempo
para encontrar outra, Esther assumiu o comando. Da cozinha, chamou
Jacob, que andava de um lado para outro do estreito corredor diante do
quarto de Gittel.
- O que é, mamãe? - respondeu ele, nervoso.
- Vá com Hershel à casa da Sra. Goldstein. Ela é parteira. Conte-lhe o
que está havendo com Gittel e peça-lhe emprestado seus instrumentos.
Em menos que 15 minutos os dois estavam de volta com uma sacola de
papel. Jacob sentiu uma onda de náusea ao ver Esther jogar o bisturi e
as tesouras na água fervendo. Hershel foi para o corredor, fechando a
porta atrás de si, e apoiou-se contra a parede, pingando de suor. Tapou
os ouvidos com as mãos para não ouvir os gritos de dor da mulher.
Jacob entrou rapidamente no quarto de Gittel, puxou uma cadeira e
segurou a mão da irmã. Enxugou-lhe o suor do rosto com um pano úmido,
enquanto ela se contorcia em agonia.
- Aperte minha mão... com força, mais força. . .
- Jacob? - gritou ela.
- Sim, sou eu. Estou aqui. Aperte minha mão.
Esther irrompeu no quarto com os instrumentos da parteira e espiou por
baixo do lençol para examinar a filha. Santo Deus! Seu neto estava
prestes a nascer.
- Jacob, ajude-me a mover Gittel mais para a beira da cama. Enquanto
Esther arrumava o travesseiro sob a cabeça de Gittel, Jacob ouviu o
último grito, como se tivesse saído de sua própria boca, e viu o filho
de sua irmã sendo impelido para a vida. Finalmente, estava tudo
terminado. Logo a criança foi libertada do seu véu de placenta, erguida
no ar, recebendo uma palmada nas pequeninas nádegas.
Jacob sorriu quase com tristeza ao ouvir o primeiro choro da criança. Se
tinha por sua mãe sentimentos de desamor, naquele momento compreendeu
que ela também sofrerá para trazê-lo ao mundo. Naquele momento,
especialmente, via-a com olhos diferentes. Após limpar a criança, passar
uma esponja úmida em Gittel, trocar os lençóis e dar uma ordem no
quarto, Esther parou um momento, com a bacia nas mãos.
- Muito bem, Gittel, você já é mãe.. . agora durma, mein kind. Quando
ela se voltou para sair do quarto, Jacob tomou-lhe a bacia das mãos,
colocou-a no chão, e apertou a mãe nos braços.
- Você é um bom homem, Jacob. . . como seu pai, que Deus o tenha - disse
ela, e saiu do quarto.
- Jacob? - chamou Gittel com voz fraca, estendendo a mão.
- Sim, Gittel - disse ele, aproximando-se e sentando-se na beira da
cama.
- Obrigada por ter sido tão forte. O pobre Hershel estava tão apavorado.
"Não foi medo, mas fraqueza", pensou Jacob, e beijando a irmã de leve
saiu do quarto.
Ao abrir a porta da frente, ele deparou com Hershel sentado num degrau
da escada, olhando-o com um ar de expectativa. Jacob teve de fazer um
esforço para conter sua raiva.
- Então? - A boca de Hershel estava frouxa.
- Você tem um filho - disse Jacob, após uma pausa silenciosa. - Quando
morrer, vai ter alguém para dizer o seu Kaddish. - E desceu as escadas
de dois em dois degraus.
Aquele foi um dia em que Jacob se sentiu muito feliz. Tinha conseguido
um emprego. O trabalho era duro, mas ao ar livre em vez de em algum
palheiro mal ventilado. E o salário era bom - nove dólares por semana.
Quando foi jantar em casa de Gittel nesta noite, encontrou Esther já
despindo seu capote. Pela expressão no rosto do filho, ela perguntou:
- Nu?
- Arranjei um emprego. - Mazeltov (parabéns), onde?
- Nas docas.
- Nas docas, trabalhando neste mau tempo? - perguntou ela, vestindo o
avental branco. - Jacob, aqueles homens não prestam. Com gente assim
você não deve...
- Está bem - disse ele, interrompendo-a. - Não preciso fazer amizade com
eles.
Ela riscou um fósforo para acender o forno, e ele ficou vendo o palito
se apagar.
Escute, Jacob, não quero que você...
- Já aceitei o emprego, mamãe. Não adianta mais falar. Sabe quanto vou
ganhar?
- Não me interessa quanto. Mesmo assim...
- Nove dólares por semana. Mais do que eu ganharia numa fábrica. - Nove
dólares por semana? - repetiu Shlomo. Ele nunca tinha ouvido falar em
tanto dinheiro.
- Isso mesmo, Shlomo, e vou ganhar ainda mais. Vou poder mandar você
para uma universidade, e a você, mamãe, toda semana vou dar metade do
meu salário.
- Quer me dar metade? Não aceito dinheiro de meus filhos. Shlomo pode se
casar com uma moça rica. Ela lhe pagará os estudos, e você economizará
dinheiro para poder se casar - Todos riram.
- O que é tão engraçado? - perguntou Gittel, entrando na cozinha com seu
filhinho de seis dias. - Shlomo vai se casar - disse Jacob. - Não, não
vou - retorquiu o menino, corando. Depois acrescentou entusiasmado: -
Jacob arranjou um bom emprego, nove dólares por semana! - Oh, mazel tov
! - exclamou Gittel.
- Sem dúvida, um bom mazel tov. Vai trabalhar como um goy (gentio), nas
docas, com vagabundos. Vagabundos, é o que eles são - disse Esther, com
certa raiva.
Jacob não lhe deu atenção, e olhou para o bebê da irmã. Tão lindo! Era
espantoso, um pequeno ser humano, resultante de toda aquela confusão da
semana anterior. Inacreditável!
Quando Hershel entrou no quarto, Jacob olhou para os chinelos dele.
- Descansou bastante, Hershel?
Hershel olhou-o com azedume. Não tinha se esquecido das congratulações
que recebera na noite do nascimento de seu filho.
- Sim, eu estava um pouco cansado, quando voltei para casa.
- Posso imaginar. É duro o trabalho num salão de bilhar. Juntar todas
aquelas bolas é o bastante para deixar qualquer um...
- Está bem, agora vamos todos sentar e comer - disse Esther, quando viu
Gittel engolir em seco. Depois abanou a cabeça para Jacob, fazendo-lhe
sinal para que se calasse.
Quando estavam todos sentados à mesa, Shlomo virou-se para Hershel:
- Jacob arranjou um bom emprego.
- Trate de comer antes que a comida esfrie - disse bruscamente Esther,
desejando que a refeição já tivesse terminado. Mais tarde, advertiria
Jacob para que não antagonizasse Hershel. Isso só fazia Gittel sofrer,
e ela sabia que Jacob não ia querer magoar a irmã. E, naturalmente, tudo
o que Jacob fazia, Shlomo achava que podia também fazer.
Nessa noite, depois de prometer à mãe que seria mais educado com
Hershel, Jacob sentou-se e escreveu uma comprida carta a Lotte.
11 de fevereiro, 1907
Querida Lotte:
Não se passou um dia sem que você estivesse em meus pensamentos. Durante
aquela longa viagem, eu ficava acordado no escuro e sentia como se você
estivesse a meu lado. Isso tornava mais suportável para mim a
separação. Guardo seu retrato junto ao meu coração e contemplo-o todos
os dias.
Tanta coisa aconteceu desde que cheguei que não sei por onde começar.
Acho que é melhor contar-lhe primeiro a respeito de minha família. É
como se tivéssemos morado juntos toda a nossa vida. Mal consigo
acreditar que encontrei minha família. Você vai gostar muito de minha
mãe, e tenho certeza de que ela vai tratá-la da mesma maneira como
trata minha irmã Gittel. Meu irmãozinho Shlomo, que está com 10 anos,
fala em você, como se já a conhecesse. A semana passada minha irmã teve
um filhinho. É uma linda criança.
A América é um bom país e mal posso esperar pela sua vinda para cá. Sei
que não vai demorar muito porque arranjei um bom emprego. Vou economizar
quase todo o meu dinheiro porque estou morando com minha mãe, que é
dona de um restaurante. Todos estão muito contentes com o nosso noivado.
Sou o homem mais feliz do mundo porque tanta gente me ama,
especialmente você. Por favor, responda assim que receber esta carta.
Oh, quase me esqueci de lhe contar, o nome do meu sobrinho é Avrum, em
memória de meu pai. No domingo ele vai ter o seu bris (circuncisão), e a
festa vai ser em casa de minha mãe. A única coisa que lamento é que você
não esteja aqui.
Peço-lhe que transmita minha grande afeição aos seus avós. Tenho muita
saudade deles e nunca me esquecerei de como foram bons para mim. Meus
respeitos à sua mãe e seu pai e espero que eles saibam o quanto gosto
de você. Por favor, diga-lhes que não terão de se preocupar com o seu
futuro.
Muito bem, Lotte querida, vou encerrar esta carta, mas antes quero mais
uma vez dizer-lhe que a amo muito.
Com profundo respeito, Jacob
Antes de colocar a carta no envelope, ele a releu. Não dizia realmente o
que ele sentia. Mas aqueles eram sentimentos que nenhum homem decente
expressava francamente para a mulher com quem se ia casar. E além do
mais, ele nunca poderia transmiti-los em palavras. Pois para certos
sentimentos, não existiam palavras.
Jacob dobrou a carta e selou o envelope.
As neves do inverno tinham vindo e ido, e o calor do verão chegou com
fúria.
Jacob já se acostumara às cenas da Zona Leste, àquele aglomerado de
humanidade empenhada na luta pela sobrevivência. Não era a pobreza que o
incomodava, pois nunca conhecera outra coisa. Mas seu desejo ardente de
ter Lotte a seu lado tornava-se cada dia mais difícil de suportar.
Era de uma frugalidade absoluta com o seu dinheiro, mas ao fim de seis
meses pouco tinha conseguido economizar. Muito simples: teria de ganhar
mais dinheiro. Mas como?
À tarde, quando tocou o apito, Jacob dirigiu-se para o lado da sombra ao
depósito, enxugou o suor da testa, depois sentou-se no concreto e apoiou
as costas no muro. Fazia tanto calor que não lhe deu vontade de comer.
Ao invés, tirou do bolso uma pequena cartilha de inglês e começou a
estudar.
- Então vai ser professor? - perguntou o corpulento irlandês,
sentando-se a seu lado.
- Bem que gostaria - replicou Jacob, sorrindo. Estava freqüentando a
escola noturna três vezes por semana para aprender inglês. Com aquelas
lições e seu desejo de aprender, ele agora pouca dificuldade tinha de
falar ou compreender a língua.
- Pois olhe, professores não são melhores do que gente como você e eu.
Trabalhamos duro para ganhar a vida, e não há vergonha nenhuma nisso.
- Vergonha eu não tenho, mas um pouco mais de dinheiro não me faria mal
- disse Jacob.
- Não vou censurar você por isso. É uma luta, e muito duro sustentar uma
família. Mas não é nada comparado com a fome que passei na minha terra,
quando era pequeno.
Jacob concordou com um gesto de cabeça. Sabia bem o que era fome e
penúria, mas o fato era que nessa terra das oportunidades ele não estava
fazendo muitos progressos, e sua necessidade de Lotte tornava-se cada
vez mais pungente. Do jeito que estavam as coisas, ia levar muito tempo,
e isso ele não podia aceitar.
- Em todo caso - disse o irlandês, olhando para os musculosos ombros e
braços de Jacob - não deveria ser muito difícil para um cara do seu
tamanho ganhar um dinheirinho extra.
- O que o meu tamanho tem a ver com isso? Não me pagam mais por minha
força.
- Dê uma olhada nesses punhos. Eles valem uma fortuna, meu rapaz disse o
outro, rindo.
- Os meus punhos?
- E não estou mentindo.
Jacob estava começando a interessar-se.
- Explique isso melhor.
- Já esteve numa luta de boxe? - Não, nunca.
- Pois bem, rapaz, gostaria de ir assistir a uma luta comigo? Vou todas
as noites, isto é, às terças e quintas-feiras.
- Por que eu iria ganhar dinheiro assistindo a uma luta?
- Deixe que eu diga qual é minha idéia. Acho que você devia entrar nessa
jogada. É coisa que dá muito dinheiro.
Jacob olhou para suas mãos. Ganhar dinheiro com elas? O homem estava
dizendo que valiam uma fortuna. Se estava dizendo a verdade, então isso
significava que ele podia logo mandar buscar Lotte. E o que era isso
comparado com freqüentar a escola?
- Onde é esse lugar? - perguntou Jacob, ansioso.
- Na Rua Chrystie há um grande ginásio. Não é como o de Madisom Square
Garden, mas ali começaram grandes pugilistas.
Pensativamente, Jacob pegou seu sanduíche de carne enlatada e ofereceu a
metade ao irlandês. Enquanto os dois comiam, Jacob pensou que esse era
realmente um país maravilhoso. Em que outro lugar no mundo podiam um
judeu e um irlandês se tornarem amigos? Embora Jacob ainda não soubesse,
Patrick Michael O’Leary e Jacob Sandsonitsky acabavam de se tornar
sócios num novo negócio.
Quando finalmente chegou a terça-feira, Jacob sentia-se cheio de vários
complexos de culpa. Sabia que sua mãe se oporia à ida dele a uma luta de
boxe... ela era contra lutas de qualquer tipo. Tampouco gostaria de
vê-lo envolvido com homens que ela considerava vagabundos e
desclassificados, e certamente lhe proibiria ter contato social com
goyim (gentios). Era gente que bebia uísque, fumava cigarros, dormia com
mulheres decaídas, em resumo, gente sem moral. Durante dois mil anos,
os judeus tinham obedecido a um rígido código de moralidade, mas os
goyim eram tão promíscuos que nem sabiam quem era Deus. Adoravam ídolos
pagãos, como no Egito.
Jacob despediu-se da mãe e foi, bastante preocupado, encontrar-se com
Patrick.
Sentou-se num banco de madeira ao lado de Patrick, ouvindo a gritaria e
repugnado com o que estava vendo. A platéia pôs-se a urrar, quando um
dos pugilistas acertou com tal força um direto em seu adversário, que
este ficou pendurado como um boneco nas cordas, depois tombou na lona.
Os dois novos competidores substituíram os últimos. De novo tocou a
sineta e os pugilistas se enfrentaram. A luta foi brutal.
A Jacob pareceu que o árbitro não teve muita pressa em separar os
boxeadores. Um golpe à direita, um à esquerda, socos rápidos nos rins,
depois um direto no queixo, e estava terminada a luta, com o vencedor
erguendo os braços, juntando as mãos acima da cabeça. Saltando
graciosamente de um pé para o outro, ele sorriu em triunfo. Os
espectadores deliraram.
Jacob sentiu desprezo pela cena. Não era uma competição; era um selvagem
ritual pagão, era uma arena romana, os pogroms. Olhou à sua volta o
prazer perverso nas fisionomias do público. Todos queriam ver sangue. E
era isso que os homens faziam por dinheiro?
- Então, meu rapaz - disse Patrick a caminho da saída - agora viu a sua
primeira luta de boxe. - Como Jacob não respondesse, Patrick sorriu e
continuou: - Achou um pouco demais, não é mesmo? Mas deixe-me
dizer-lhe, meu jovem, que a vida não é exatamente um circo. - Rindo, ele
cutucou o braço de Jacob e acrecentou: - Da primeira vez pode parecer
muito violento, mas da próxima vez não...
- Não vai haver uma próxima vez - replicou Jacob em voz baixa.
- Ora, ora, meu rapaz. Não foi você que no outro dia estava dizendo o
que queria ganhar mais dinheiro?
- Sim, mas não pensei que uma luta de boxe fosse...
- Espere um pouco. O que você viu hoje foi a arte viril da autodefesa.
Vamos, trate de pensar um pouco no assunto. A vida inteira andei metido
com boxe, e posso garantir-lhe que, se tivesse o seu corpo e essas
mãos, eu estaria esta noite naquele ringue. Não quero dizer que não
tenha força, basta ver como trabalho. Mas você tem uma coisa que não
tenho: tem o estofo para ser um campeão. Sou capaz de farejar campeões
de longe.
- Não quero ser...
- Espere aí, espere até eu terminar de falar. Com um bom treinamento e
um empresário competente, você nunca iria parar na lona. Os pugilistas
que viu hoje não prestam. Talvez não saiba, mas eu o tenho observado
trabalhar, e você não é um cara como os outros.
- Não vou lutar.
- Bem, se não quer, paciência, mas está perdendo uma grande
oportunidade. Sabe quanto aqueles dois ganharam esta noite?
- Não estou interessado.
- OK, mas mesmo assim vou lhe dizer. - Patrick aproximou-se mais de
Jacob e quase sussurrou. - Dez dólares. Não acha que é muito dinheiro?
Dez dólares por uma noite de trabalho.
- O que recebe quem perdeu a luta?
- O que ele mereceu, uns três dólares. Como costumo dizer, existem os
ganhadores e os perdedores. Você é um ganhador. Vá para casa e durma
pensando nisso. Poderia ficar rico em três tempos.
Jacob foi para casa, mas não dormiu. Ficou acordado no escuro, sem
sequer ouvir a respiração de Shlomo. O pensamento de Lotte não deixava
em paz sua consciência. Se queria Lotte tanto quanto dizia, não era
certo que lutasse para tê-la? Mas o que diria sua mãe? - Não lhe poderia
contar a verdade. Já podia ouvir os argumentos dela; judeus não lutam,
é contra a nossa religião e um pecado contra Deus. Mas 10 dólares por
luta, duas noites por semana, perfaziam 20 dólares, multiplicados por
seis meses... mais dinheiro do que era preciso para mandar buscar Lotte.
Se continuasse do jeito que estava, levaria anos para juntar o dinheiro
necessário. Esse pensamento o apavorou. Patrick dissera que ele era um
ganhador. Se ganhasse o suficiente em pouco tempo, poderia não somente
casar-se com Lotte como economizar o bastante para se estabelecer no
comércio. O boxe era considerado uma arte viril de autodefesa. Se
tivesse sabido lutar, não teria perdido sua herança, a casa de zayde e
bubeleh...
Na manhã seguinte, Jacob foi procurar Patrick. - Fiz o você disse.
Pensei no caso. Como posso me tornar um pugilista? Patrick sorriu
pensando que dinheiro era o maior causador de prostituição no mundo,
dinheiro, inveja e luxúria.
- Encontre-me no ginásio esta noite, e começaremos o seu treinamento.
Não quero que faça nada até estar pronto.
- Quanto tempo isso vai levar?
- Uns poucos meses.
- Meses?
- Talvez antes. Deixe por minha conta, confie em mim. Tenho um instinto
apurado...
Todas as noites, depois do jantar, Jacob encontrava-se com Patrick no
ginásio. A princípio, gastava horas pulando corda, depois passou a
treinar os punhos no saco de couro. Nas manhãs de domingo, após a missa
de Patrick, os dois se encontravam no Central Park e o irlandês
cronometrava os quilômetros que Jacob corria. A resistência de Jacob
era maior do que Patrick calculara. Ele ia fazer daquele judeu um
campeão.
Chegara o momento da primeira luta de Jacob. Ele esperou pela sua vez,
andando nervosamente de um lado para outro. Os pesos-pesados eram sempre
os últimos. Era o que o público realmente queria ver, os pesos-pesados.
Ao subir ao ringue, os temores de Jacob eram bem maiores do que os do
seu adversário - estava apavorado porque sua mãe e sua família ignoravam
o que ele estava fazendo, apavorado porque podia perder a luta. Ganhar
era tão importante! Significava sua vida, sua vida com Lotte.
Então começou o primeiro round com o toque da sineta. Inseguro, ele
enfrentou seu adversário, saltitando na sua frente.
Patrick, junto às cordas, gesticulava, dando instruções a Jacob... um
soco na costela, outro, recue e não permita nunca que o safado se
aproxime demais. Esmurre os rins, recue. Chegue mais para perto e
mantenha a direita para cima, a cabeça protegida. Procure cansá-lo, não
pare de esmurrar. Não tenha pressa, calma, calma. Um soco e recue.
Quando a sineta anunciou o fim do round, Jacob sentou-se no seu canto,
suado e ofegante, e Patrick estendeu-lhe um copo d’água. Jacob
bochechou, cuspiu a água no balde, e recolocou a boquilha.
Começou o segundo round, e Patrick continuou sua arenga junto às cordas.
- Mantenha-o afastado, ele está ficando cansado. Agora, dê-lhe uma boa
surra, um direito, um esquerdo, outro direito, outro esquerdo. Pense em
Lotte, meu rapaz, está fazendo isso por Lotte. Continue esmurrando,
mais perto, um no queixo. Está na hora de liquidar com ele.
De repente, o público enlouqueceu. Jacob olhou para o homem inconsciente
na lona. O sangue jorrava-lhe da boca, os olhos entumescidos e cercados
de manchas pretas e roxas com os murros que recebera. Jacob não tinha
um arranhão.
Então saiu correndo pelo escuro e curto corredor, bateu a porta e
vomitou. Ainda podia ouvir os urros da platéia, batendo os pés para
chamá-lo de volta, mas só o que ele queria era apanhar seu dinheiro e
sair dali o mais depressa possível.
Quando O’Leary entrou, Jacob estava vestindo o capote.
- Meu Deus, lutou como um tigre, fez tudo o que mandei. Você é um
autêntico campeão, meu rapaz - disse ele, meneando a cabeça com
admiração.
- Só quero o meu dinheiro - respondeu Jacob secamente.
Patrick olhou atentamente para Jacob. Decidiu que, dessa vez, só ficaria
com uma quarta parte do dinheiro. Nunca vira um sujeito como aquele, e
esperaria até o rapaz se habituar melhor para então cobrar os seus 50
por cento. Lenta e deliberadamente, Patrick apanhou o maço de notas,
sabendo o quanto Jacob estava impaciente, depois separou sete dólares e
colocou-os na palma da mão suarenta de Jacob.
Jacob estava nauseado. Aquele era o preço do sangue. Um homem podia ter
sido morto por sete dólares. Mas ele tinha direito a mais do que sete
dólares.
- Onde estão os 10 dólares que você prometeu?
- Espere aí, meu rapaz. Você não fica com tudo. Tenho direito a uma
porcentagem. Sou seu empresário. Na realidade, eu devia ficar com a
metade. O ginásio também fica com algum. É melhor cair na realidade,
Jackie Sanders, campeão. É preciso gastar dinheiro para ganhar dinheiro.
Jacob apertou com força o dinheiro no punho e saiu correndo, deixando
Patrick no meio do vestiário. Patrick sorriu, nem um pouco preocupado.
Jacob ia pensar melhor. Ia voltar.
Patrick conhecia bem a natureza humana. Jacob nunca teria acreditado ser
capaz de tanta baixeza como nessa noite. O que fizera era repreensível,
vil. Não, havia coisas que um homem não podia fazer por dinheiro. Mas
isso o deixava exatamente na mesma situação de pouco dias antes. Onde
poderia ganhar dinheiro suficiente para mandar buscar Lotte? Mesmo que
arranjasse outro emprego de meio horário, ganharia no máximo mais uns
poucos dólares, e o tempo era tão importante! Seu desejo, sua
necessidade de Lotte tornavam-se cada vez mais obsessivos.
Jacob passou acordado grande parte da noite, descobrindo que a luta para
abrir totalmente mão do dinheiro era bem maior do que a que ele travara
no ringue. Talvez, se pudesse raciocinar que o fim justificava os
meios, então talvez considerasse o boxe como apenas um outro emprego,
outro desafio a enfrentar. Se ao menos pudesse pensar, quando estava no
ringue, que entrava pela sua segurança futura, esquecer que estava
massacrando um homem, excluir isso do seu pensamento... De repente
ocorreu-lhe outra idéia. O homem com quem estivesse lutando teria algum
escrúpulo em usar de toda a sua força para agredi-lo? Por que haveria
ele de se preocupar com o seu adversário, quando nunca ninguém se
preocupara com ele próprio? Subitamente reapareceu a sua antiga
amargura. Quem se importava com o que tinha sido a sua vida? Fora
expulso a pontapés da casa de seus avós, sua herança e depois seu
dinheiro haviam sido roubados, fora preso sem motivo algum. Por que não
teria ele finalmente direito a alguma felicidade, a felicidade de ter
Lotte a seu lado? Por que não agarrar aquela oportunidade? Por que...
Na manhã seguinte, Jacob teve tanta pressa em ir ver Patrick que não
notou as mulheres pechinchando com os vendedores ambulantes, nem pessoas
recolhendo colchões das escadas de incêndio, onde haviam dormido na
noite anterior para se defenderem do calor insuportável. Parou só um
instante para ver um grupo de garotos, brigando uns com os outros.
Pensou que aquilo era estúpido, improdutivo. Já que era preciso lutar
pela vida, ao menos que isso rendesse dinheiro! Lutar por uma
finalidade, lutar por algum ser amado, isso sim tinha uma finalidade.
Jacob colocou mentalmente seus antolhos, e recusou considerar o homem
com quem lutava mais do que um saco de couro. Pôs de lado todas as
repugnâncias que sentia. Não ia condenar o que estava fazendo, não
quando contava o dinheiro. Tinha ganho 30 dólares com a "arte de
autodefesa", e mais 21 dólares com o suor de seu corpo, ao descarregar
fardos num sol abrasador. Seus haveres montavam agora a 51 dólares, e
desta vez ninguém iria roubá-los dele. Mas havia uma pequena questão a
acertar com seu caro amigo, o Sr. Patrick O’Leary.
Depois da luta na noite de quinta-feira, Jacob estava enxugando o rosto
com uma toalha. O corpo lhe doía com os socos que recebera. Nessa noite
o seu adversário era um pugilista possante, não tão rápido quanto
Jacob, mas, quando o acertou em cheio, por pouco não o derrubou.
Com um sorriso largo, Patrick sentou-se na ponta da mesa.
- Escute, meu rapaz, você mostrou àquela gente o que é um pugilista de
verdade. Sua atuação foi linda, a maneira com que manteve sua distância,
esperando por uma brecha e, depois, quando acertou aquele direto, juro
por todos os santos que dava para Brooklyn inteira ouvir. Você vai
ser...
- Quero mais dinheiro - disse Jacob, abotoando as calças.
O sorriso congelou no rosto de O’Leary. Como era safado aquele
judeuzinho ganancioso. Não admira que Jesus os houvesse expulsado do
templo. Tirando do bolso um lenço, Patrick enxugou o suor da testa.
"Calma, O’Leary, não se arrisque a perder a sua fonte de renda." O
sorriso voltou. - Então é mais dinheiro que você está querendo? - Isso
mesmo - respondeu Jacob, vestindo sua jaqueta. - E quanto você está
querendo? - Dez dólares. Patrick deu uma palmada na coxa e soltou uma
risada estrondosa. - Bem, uma coisa é querer, outra ter. De quem pensa
você que vai consegui-los? - De você. - De mim, é mesmo? - Foi o que eu
disse, de você.
O aprendizado americano de Jacob nas docas fora bastante instrutivo.
Aprendera a reconhecer as formas de preconceitos que existiam mesmo
nessa chamada terra das oportunidades, e consequentemente passara a
desconfiar de qualquer um que lhe oferecesse algo como uma
"oportunidade". Essas amargas lições tinham-se completado com a
descoberta de que O’Leary o estava trapaceando, recebendo 12 e não 10
dólares. Jacob se esfalfava e recebia apenas cinco, e aquele irlandês
anti-semita ficava com sete.
Então aproximou-se e encarou Patrick. Este compreendeu que nunca deveria
se meter a besta com aquele tipo de judeu. Lembrava-se de certa ocasião,
em que ele e seu bando tinham encurralado um jovem estivador judeu e
arrancado-lhe as calças para ver o seu pênis lustroso, sem o prepúcio
que Deus lhe dera. O rapaz nunca mais aparecera nas docas, mas Jacob
teria voltado, e disposto a uma desforra.
Patrick levantou-se da ponta da mesa. - Ora, vamos, Jackie, seja
razoável. Por Deus, como posso lhe dar 10 dólares?
- Você terá de perguntar aos céus. É quanto eu quero, ou não luto mais.
- Está ficando maluco, meu rapaz. Escute, Jackie, sou o seu empresário e
tenho direito a...
- Não quando recebo cinco e você recebe sete. Não quando quem leva
pancada sou eu.
Patrick viu que sua tramóia fora descoberta, e tornou-se conciliatório.
- Está bem, Jackie, o que vou propor a você é...
- Meu nome é Jacob, e quero os 10 dólares ou não luto.
- Oito.
Jacob ainda precisava daquele irlandês safado, ainda tinha muito que
aprender.
- Só nas próximas duas lutas. Estou começando a encher a casa. Você não
é meu empresário? Pois bem, então consiga 15 dólares por luta.
- Você tem topete, meu rapaz. - Patrick abanou a cabeça e riu. - Isso
não posso negar. Não tenho muita certeza de que Hallihan vá topar...
- Com a sua lábia irlandesa, vai ser fácil convencê-lo. - E Jacob saiu
batendo a porta atrás de si.
Patrick sorriu, coçou a cabeça. Não podia deixar de admirar a arrogância
do seu pupilo. Pena que ele não fosse irlandês.
#break Capítulo Nove
Jacob, encalorado e suarento após um dia de trabalho duro, entrou pela
porta da frente do restaurante, passando pelos fregueses. Nos fundos,
viu sua mãe enchendo quatro pratos de sopa fria de beterraba.
- Parece que os negócios vão bem hoje, mamãe - disse ele, beijando-a no
rosto.
- Muito bem. Você está cheirando mal. Vá lavar-se e venha comer. Oh,
Jacob, chegou uma carta de Lotte.
Rapidamente, ele foi para o seu quarto, onde Shlomo estava estudando.
- Então, Shlomo, como vão os estudos? - perguntou Jacob, tirando do
bolso traseiro o seu gancho de estivador.
- Muito bem, o meu boletim está bom - disse ele, entregando-o a Jacob.
- Aposto que você é o menino mais inteligente da classe.
- Bem, não o mais inteligente.
- Quem é mais do que você?
- Sei lá, há muitos caras espertos na minha classe.
- Quem? Diga o nome de sete deles. - Os dois riram.
- Aposto que está contente. Chegou uma carta de Lotte para você. Jacob
sentou-se na beirada da cama e rasgou o envelope. Sua expressão mudou à
medida que lia a carta. Era bem curta.
Caro Jacob:
Recebi sua carta. Espero que me perdoe por não lhe ter respondido antes,
mas tenho estado muito ocupada. Arranjei um emprego com uma modista e
gosto muito do meu trabalho.
Bubeleh não tem passado muito bem e minha mãe foi visitá-la. Eu gostaria
de ido também, mas não posso abandonar meu emprego, e tenho de cuidar de
meu pai. Minha irmã ajuda, mas ela ainda está freqüentando a escola.
Além disso, sou a mais velha, e o direito é que eu assuma a
responsabilidade, - enquanto minha mãe está ausente.
Espero que você e sua família estejam passando bem. Presumo que o seu
sobrinho tenha crescido bastante. Espero que o seu emprego seja bom que
você se sinta feliz. Todos aqui lhe mandam lembranças. Realmente, não
tenho mais nada a dizer. Com amor, Lotte
Sentado na beirada da cama, Jacob ficou olhando para a carta. Repassou
mentalmente as cartas anteriores "Querido, meu muito querido Jacob",
começavam elas. "Meu amor, durmo chorando e pensando em você. Está
sempre em meus pensamentos, e conto os meses, os dias, até o momento do
nosso encontro"...
Assim tinham sido as primeiras cartas que tanta alegria traziam a Jacob.
Porém as cartas mais recentes pareciam menos amorosas, e cada vez mais
formais, até que a carta de hoje o deixara totalmente perplexo,
decepcionado. Parecia tão impessoal...
Shlomo olhou para a fisionomia de Jacob, levantou-se e foi sentar-se ao
lado do irmão.
- Jacob - disse ele, com brandura. - Você está triste?
A voz do menino o sobressaltou. Seus olhos se desviaram da carta e
fitaram o rosto sensível do irmãozinho. Como que tentando explicar para
si mesmo o que sentia, ele respondeu:
- Sim, Shlomo, acho que estou triste.
- Por quê?
- Não sei bem.
- É alguma coisa que Lotte disse?
- É mais o que ela não disse.
Shlomo apanhou a carta e leu-a. Depois, entregando-a de volta a Jacob,
comentou:
- É porque ela não disse que sentia a sua falta. Talvez tenha sido isso.
Jacob abanou lentamente a cabeça.
- Sim, tenho a estranha sensação de que talvez ela não esteja sentindo
mais. ..
- Jacob, ela ama você, mas está muito ocupada e trabalhando muito.
Talvez não tenha tempo para...
Jacob mal ouvia o que Shlomo dizia. Havia quase um ano que estavam
separados, e durante todo esse tempo Lotte repetira um sem número de
vezes o seu amor por ele. Estando os dois separados, o que mais podia
ela continuar a dizer? Tinha grandes responsabilidades, e trabalhando
tanto, não lhe sobrava muito tempo para escrever cartas de amor. Além
disso, pensou ele. Sentindo-se culpado, nunca realmente contara a
verdade a Lotte. Dissera-lhe que a vida na América era maravilhosa, que
sua família era esplêndida. Mas nunca lhe contara as provações por que
passara, por ocasião da sua chegada, ou que tivera de recorrer à
brutalidade a fim de economizar o dinheiro necessário para viver e
mandar buscá-la. Nunca lhe dissera o quanto o futuro o preocupava, o seu
medo de não lhe poder oferecer uma vida boa, um lar confortável.
Jacob releu a carta, que subitamente lhe pareceu sensata, amadurecida.
Não havia razão para repetir os sentimentos que haviam sido expressados
tantas vezes. Talvez estivesse apenas dizendo a si mesmo as coisas em
que queria acreditar, pensou Jacob, mas de repente sentiu-se melhor,
muito melhor. Sorriu para Shlomo, abraçou-o.
- Você é o menino mais inteligente de sua classe. Não somente isso, como
é muito mais inteligente do que eu. Agora, vamos nos lavar e vamos
jantar. ..
Depois de servir os filhos, Esther sentou-se diante deles, observando
Jacob que comia. Ele ia completar 16 anos na próxima semana, mas parecia
ter 20. E também parecia muito cansado. Trabalhava o dia inteiro,
descarregando pesados engradados, e todas as noites ia para a escola.
Porém, o que mais preocupava Esther era ele voltar tão tarde para casa.
Raramente chegava antes das 11 horas.
- Jacob, quero que pare de ir à escola todas as noites. Nunca vai ser um
doutor. E já está falando inglês muito bem.
Ele continuou a comer sem olhar para a mãe, mas subitamente a comida
pareceu entalar em sua garganta.
- Jacob, estou falando com você.
- Eu ouvi - murmurou ele.
- Escute, Jacob, não pode fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Todo mundo
precisa de descanso.
- Eu descanso, eu descanso.
- Não teime comigo, Jacob. Podemos estar na América, mas continuo sendo
sua mãe.
- Desculpe, mas não estou sendo teimoso. Apenas quero aprender. - E
desprezou-se a si mesmo por estar mentindo.
- Admiro o seu esforço, mas é duro demais trabalhar o dia inteiro e
depois ir todas as noites para a escola. É muito duro. - Esther sorveu
um gole de chá e olhou para o filho por cima da borda da xícara, antes
de continuar. - E já que tocamos no assunto, por que chega tão tarde em
casa? A aula termina às nove horas.
- Saio com alguns rapazes que conheci - respondeu ele apressadamente,
engolindo com esforço.
- Até as 11 horas todas as noites?
- Preciso de um pouco de distração. Não posso só trabalhar e estudar,
mamãe. Todo mundo tem direito a algum divertimento.
Esther não gostou da maneira como ele pronunciara a palavra
"divertimento". Estaria freqüentando casas de má reputação? Não, não
Jacob, ele nunca faria uma coisa assim. Iria puro para o leito
conjugal. Disso ela tinha certeza. Afastando tal pensamento, Esther
acrescentou: - Está bem, mas não deve voltar tão tarde para casa. -
Escute, mamãe, não quero ser desrespeitoso, mas não sou uma criança. -
Mas é meu filho, tenha você a idade que tiver. Além disso, o que faz até
as 11 horas da noite? Jacob estava ficando nervoso, a conversa
tornava-se mais complicada, a mais difícil. - Vou para a escola, depois
saio com uns amigos para ir a um cinema, tomar um café, jogar cartas, ou
qualquer outra coisa. Não quero mais falar nisso. - E, levantando-se,
Jacob beijou sua mãe no rosto e despediu-se de Shlomo.
- Quero que volte cedo para casa - gritou-lhe Esther, quando ele já ia
abrindo a porta.
- Volto para casa quando bem entender - replicou ele. - Não se preocupe,
depois descanso.
Esther abanou a cabeça. Seria mesmo bom esse novo país? Lugar nenhum era
bom para judeus, mas pelo menos na Europa havia uma certa vida de
família e um respeito que logo desapareciam na América...
Quando Jacob olhava para trás, mal podia acreditar que fazia quase um
ano que chegara à América. Procurava esquecer a recepção que tivera ao
desembarcar, e meditava sobre o quanto já realizara. Sem dúvida, tinha
feito coisas de que não se orgulhava, mas orgulho não lhe teria dado o
que tão desesperadamente necessitava. Com o dinheiro que economizara,
ia poder agora mandar buscar Lotte, e finalmente não precisaria mais
viver com a culpa e a tensão de suas mentiras. Deus fora bondoso para
com ele. Tinha agora 500 dólares, e podia abandonar o boxe. Na
realidade, a noite anterior fora a última vez que deixara seu corpo ser
castigado (mais dolorosamente do que o admitia...). O maior prazer
ainda estava por vir: amanhã, iria dizê-lo a O’Leary. Nessa noite,
durante o jantar, ele se voltou sorrindo para sua mãe.
- Vai gostar de saber, mamãe, que deixei a escola.
- Ah, sim? - Tristemente, ela lhe sorriu de volta. - Pobre Jacob, você
queria tanto se instruir.
- E não vou mais chegar tarde. E também quero lhe dizer que menti. Não
tenho nenhum amigo. Arranjei um emprego à noite para economizar dinheiro
e mandar buscar Lotte. - Depois, continuou, radiante: - Nunca pensei
que chegaria esse dia. Ela significa tanto para mim. Sei que vai gostar
dela, e será para você uma segunda filha.
- Se você a ama, então eu também a amarei. Se alguém merece um pouco de
felicidade, esse alguém é você, Jacob.
- Se mereço, não sei, mas o dia em que a conheci foi um dia abençoado.
- Você merece - assegurou-lhe Esther.
Ao entrar no quarto, ele encontrou Shlomo fazendo seus deveres de casa,
como de costume.
Jacob olhou para Shlomo e sorriu, ao sentar-se para escrever a Lotte,
mal podendo conter sua profunda alegria ao pensamento de que em breve ia
tê-la ao seu lado. A sua solidão estava por terminar.
O dia seguinte amanheceu com as ruas cobertas de neve. Jacob vestiu seu
pesado capote novo - sua única extravagância - e saiu às pressas para
comprar a coisa mais preciosa que jamais imaginara poder adquirir. Uma
passagem para Lotte. Quando olhou para o bilhete, seu coração bateu com
mais força. Ela iria viajar com conforto, na segunda classe, e não na
proa, como gado. Valia a pena pagar os 30 dólares a mais. Colocou a
passagem num envelope, que selou e pôs no correio. . .
Ofegante, Jacob chegou ao armazém e assinou o ponto. Estava um pouco
atrasado nessa manhã, mas era a primeira vez. Além disso, aquele era um
dia muito especial.
Mal tinha começado a trabalhar quando Patrick O'Leary o viu.
- Ora, ora, como ele está bonito esta manhã, todo agasalhado como um
ursinho de pelúcia nesse lindo capote novo. Juro por todos os santos que
você está parecendo um capitão da marinha mercante. Não podia ter
comprado um capote assim com a miséria que ganha aqui nas docas, não é
mesmo, Jackie?
Jacob sabia que o irlandês, sob aquela fachada amistosa, estava
espumando de raiva. Espumando e bufando desde a noite em que Jacob
exigira 10 dólares por luta. Notou rancor nos olhos do irlandês, mas
pouco se importou. Além do mais, o safado também fizera exigências a
Hallihan. Dezessete dólares, tinha ele dito, ou vamos embora. Não
faltam lugares onde Jackie Sanders poderá lutar. Dezessete dólares. E
tinha conseguido.
Jacob apanhou o gancho e o enterrou com força num fardo de algodão.
Quando ergueu os olhos, foi para o rosto de O'Leary.
- Está ficando famoso, campeão, e levantar esses fardos ajuda a
fortalecer os músculos.
Jacob ignorou-o. Ao erguer outro fardo, disse:
- Não vou mais lutar.
O'Leary gelou, apertou os olhos. Então era mais uma extorsãozinha? Mas
não ia contrariar aquele matador de Cristo. Ao vê-lo mudar um enorme
engradado de um lado para outro, comentou:
- Estou ouvindo bem? Não vai mais lutar? Mas Jack. . . Jacob. .. Você
tem um grande futuro pela frente. Vai querer ser um estivador pelo resto
da sua vida? Isso não é vida para um cara como você, rapaz. Tenho
planos para nós dois. O fato é que esta noite um grande patrocinador vai
estar lá, assistindo ao jogo. Eu o convenci a ir ver você lutar. Isso
porque acredito no seu talento. Como eu disse desde o começo, você tem
estofo de campeão.. .
- Não vou estar lá esta noite, nem em nenhuma outra noite.
- Ora vamos, Jacob, isso é o que considero uma safadeza. Especialmente
para um jovem judeu de tanta integridade. A sua Bíblia ensina que você
deve amar o próximo e agir com retidão. O que aprendeu foi a respeitar
os mais velhos e a não trair um amigo. Jacob deu-lhe as costas.
- Olhe, Jacob, sugiro que você lute esta noite. Tive muito trabalho para
arranjar essa luta.
- Eu já disse que não vou mais lutar - repetiu Jacob, agora olhando
Patrick nos olhos.
- Por que não me disse isso na terça-feira? - perguntou Patrick com os
punhos nos bolsos e de dentes cerrados.
- Porque tomei essa decisão ontem à noite.
- Assim, sem mais nem menos?
- Sim, sem mais nem menos.
O'Leary passou a língua nos lábios secos, depois sorriu.
- Pois olhe, meu rapaz, acho que você ainda vai se arrepender muito.
Muito pouca gente tem a oportunidade esplêndida que lhe estou
oferecendo. Podia vir a ser tão famoso quanto Sullivan. Não jogue fora
a sua chance assim com tanta facilidade. Pense melhor. Sou um homem
paciente. Espero uma resposta na hora da saída.
- Não preciso de tempo algum, a resposta é não. - E, virando-se, Jacob
içou-se até a última fileira de fardos de algodão e começou a
descarregá-los.
Quando tocou a sineta do meio-dia, Jacob se encontrava sobre um
engradado no armazém. Embora fizesse um frio intenso, ele desabotoou sua
pesada jaqueta, tirou as luvas de couro e guardou-as nos bolsos. Tinha
trabalhado duro a manhã inteira, mas nunca se sentira mais feliz.
O'Leary estava fora de sua vida e Lotte ia entrar nela. Com os
pensamentos voltados para o futuro, desarrolhou a garrafa térmica e
começou a despejar na caneca a espessa sopa amarela de gordura, com
macarrão e grandes pedaços de galinha, cenouras e aipo. Sorriu, ouvindo
o eco da voz de sua mãe: "Quero que você coma uma refeição quente, e
quero que coma tudo. Não deve deixar nem uma gota." Era um litro. Tinha
começado a comer com apetite, quando viu O'Leary e três dos homens mais
fortes das docas aproximarem-se dele. Bem, parecia que o seu assunto
com O'Leary ainda não estava liquidado. . . saltou rapidamente do
engradado, agarrou o gancho que guardara no bolso traseiro e esperou.
- Então você vai abandonar o ringue, não é? Pois bem, esses colegas e eu
queremos lhe dar uma pequena festa de despedida. - Com isso, ele fez
sinal aos três homens, que se atiraram sobre Jacob. Um agarrou e
torceu-lhe o pulso até o gancho cair por terra. - Ok., agora vocês o
arrastem para o canto. Não queremos que outros tenham o prazer de
assistir a este espetáculo.
Jacob ouviu o irlandês berrando acima dos seus gritos:
- Esperem aí, vou enfiar um trapo na boca deste safado. Ninguém passa a
perna em O'Leary.
Jacob foi surrado até escorrer-lhe sangue da boca. Seus gritos de dor
eram abafados pelos murros que levava no corpo, na cabeça, no rosto. Seu
olho esquerdo de tão inchado fechou por completo, e ele mal podia
enxergar com o direito. A última coisa de que se lembrava foi da voz de
O'Leary...
- Está bem, rapazes, tirem as calças desse calhorda. Quero ver o tamanho
do judeu. Céus! Mais parece um garanhão. - Em seguida, curvou-se sobre
Jacob. - Então, Jackie, que tal se esmagássemos esses seus grandes
tomates? É o que estou com vontade de fazer. Jacob mal podia ouvir; tudo
se estava anuviando... Perdeu os sentidos. O'Leary dava pontapés nas
suas costelas.
- Muito bem, rapazes, agora vamos cair fora daqui.
Estirado no chão, Jacob não podia mover-se. Por um momento ocorreu-lhe
que estava morto. Mas quando se morre, não se sente dor. Tinha os lábios
tão inchados quanto os olhos. Suas costelas deviam estar quebradas,
parecia-lhe que o seu peito afundara. O latejamento em sua cabeça era
uma tortura. Tentou gritar, mas sua voz não lhe obedecia. Vagamente,
ouviu alguém falando. A voz parecia vir de longe, como um eco. Agora
estava mais próxima.
- Pode engolir isso? - disse a voz.
Sentiu um tubo de vidro sendo forçado entre os seus lábios. Tentou
engolir mas não conseguiu. Depois sentiu o toque delicado de uma mão no
seu pulso. Após um tempo, a mão foi retirada.
- Pode me ouvir? - perguntou uma voz bem junto ao seu ouvido. Jacob
balbuciou qualquer coisa que não foi compreendida.
Mais uma vez, o tubo estava sendo forçado entre seus lábios.
- Engula devagar.
Apesar da dor, dessa vez a água escorreu do tubo de vidro para o seu
estômago. Fracamente, ele tentou segurar a mão.
- Sim, o que está querendo dizer?
- Onde estou? - sussurrou ele, esforçando-se para ser ouvido.
- No Hospital Bellevue. Está aqui há três dias.
Três dias! Sua mãe devia estar desesperada. As coisas começavam a se
esclarecer.
- Como vim parar aqui? - perguntou ele, com voz vacilante.
- Numa ambulância. Não fale. Eu lhe conto tudo o que sei. Estava
inconsciente, quando chegou, e muito machucado. - Meio morto, era o que
a voz queria dizer. Por pouco não tinham conseguido estancar a
hemorragia interna. - Meu nome é Miss Hanson. Sou uma das enfermeiras da
Emergência e você está sob meus cuidados. Não fique assustado. Sei que
não pode ver, mas isso é porque seus olhos estão muito inchados. Mas não
sofreram lesão. Está com três costelas quebradas, já enfaixadas; é por
isso que sua respiração está tão dolorida. Agora, procure repousar, e
logo o médico virá vê-lo.
Jacob estendeu a mão para ela.
- Sim? - perguntou a enfermeira, segurando-lhe a mão,
- Tenho de ir para casa. Por favor... - Não creio que seja possível,
pelo menos não nos próximos dias. - Preciso ir para casa. Por favor,
minha mãe deve estar. .. - Compreendo. Não sabíamos nada a seu respeito.
Não havia nenhum endereço em seus pertences. A única coisa que
encontramos foi uma carteira de sócio de um ginásio, em nome de Jackie
Sanders. - Meu nome é Jacob Sandsonitsky. - Sua mãe tem telefone? - Não.
- Então vamos mandar uma de nossas assistentes sociais notificá-la. Pode
me dar o seu endereço? Com um dolorido esforço, ele murmurou o endereço.
Jacob tinha razão. Esther se desesperara, quando ele não tinha voltado
para casa na primeira noite, após o trabalho. Passou a noite inteira sem
dormir, esperando, e, quando rompeu o dia, ela tomou o metrô para as
docas. Lá, dirigiu-se imediatamente para o escritório e perguntou por
seu filho. Os encarregados examinaram a ficha de Jacob e constataram
que ele não tinha comparecido ao trabalho. Era a única informação que
tinham a lhe dar. Ela foi perguntar aos estivadores, mas ninguém parecia
saber o que acontecera com Jacob.
Só restava um recurso, que era pedir o auxílio da polícia. Lá anotaram
todas as informações que Esther podia fornecer-lhes, mas se mostraram
tão frios e indiferentes, que Esther saiu em lágrimas da delegacia.
Sem saber o que mais fazer, foi procurar Gittel. Quando lá chegou,
Hershel estava em casa, e ela lhe disse, desanimada:
- Por favor, temos de fazer alguma coisa.
- Não sei por onde começar. Ele não tinha amigos, ninguém - disse
Hershel, coçando a cabeça.
- Ai, meu Deus, estou apavorada. Jacob nunca faria uma coisa dessas, a
não ser... - Ela mordeu o lábio.
- Espere, vou descer e usar o telefone da Sra. Greenblatt.
- Para quem vai telefonar? - Esther quase teve medo de perguntar, mas
não saber era pior.
- Para os hospitais.
- Hospitais? Meu Deus, se pequei, por favor, não quero ser punida desta
maneira.
Quando Hershel voltou, Esther fitou-o. Soube antes de ele dizer uma
palavra.
- Telefonei ao Monte Sinai e Bellevue. Ele não está lá.
Esther teve certeza de que Jacob estava morto. Levantando-se, disse:
- Bem, vou voltar para casa. Shlomo deve estar preocupado... Esther
fechou o restaurante e sentou-se em seu quarto. A espera era uma
tortura. Jacob, Jacob, onde está você?
Shlomo não foi à escola. Por mais que tentasse acalmar sua mfle, nada
conseguiu.
Às cinco horas daquela tarde, Esther abriu a porta e deparou com um
estranho. Seu coração teve um sobressalto, quando o homem perguntou:
- A senhora é a mãe de Jacob Sandsonitsky? Ela fez que sim com a cabeça.
- Pois bem, Sra. Sandsonitsky, seu filho está no Hospital Bellevue,
recuperando-se de um acidente.
Esther não pôde responder. Foi Shlomo quem perguntou:
- Que espécie de acidente?
- Bem, meu filho, ele foi espancado brutalmente, mas agora está bem
melhor.
Antes que o assistente social pudesse dizer mais uma palavra, Esther
correu ao seu quarto, pôs o chapéu e o capote e encaminhou-se
imediatamente para a porta da saída. Seu filho estava vivo, e era só o
que interessava no momento.
- Como vou saber em que quarto ele está?
- Está numa enfermaria. Dirija-se ao balcão de recepção e eles...
- Muito obrigada. Shlomo, apronte-se.. .
Esther e Shlomo percorreram a longa passagem entre os leitos de ferro
até encontrarem o de Jacob. A única coisa que ela reconheceu do filho
foi o cabelo louro. Com a respiração ofegante, procurou apoio segurando
na grade do pé da cama. O rosto dele estava arrebentado, os olhos tão
inchados que ela teve medo que jamais voltassem a ver, e as mãos
enfaixadas. Mas aquele não era momento para lágrimas. Recompondo-se, ela
falou com voz branda:
- Jacob?
- Mamãe. . . - Ele lhe estendeu a mão, e ela a segurou com força.
- Sim, Jacob.
- Shlomo, onde está Shlomo?
- Aqui, Jacob, do seu lado esquerdo. - E Jacob segurou a mão do irmão.
- Quero ir para casa, mamãe.
- Sim. Sim, Jacob. Vou levá-lo para casa.
- Eles disseram que não posso ir.
- Ali, eles disseram isso? E quem são eles? Você é meu filho, e o que
posso fazer por você ninguém mais pode. Eu volto já. Shlomo, não fale
demais com Jacob, deixe-o descansar.
Esther saiu apressadamente da enfermaria. Parou no posto das
enfermeiras.
- Eu queria que me entregassem as roupas de meu filho. Ele vai para casa
comigo.
- Qual é o nome de seu filho?
- Jacob Sandsonitsky.
- Não tenho autoridade para dar-lhe alta - disse a enfermeira, depois de
consultar a ficha de Jacob.
- Não tem o quê?
- Autoridade. Somente o médico pode lhe dar permissão para ir para casa.
Está compreendendo?
- Claro que compreendo, mas não preciso de um médico para me dizer que
posso levar meu filho para casa.
- Receio que terá de. ..
- Receio que você não conhece Esther Sandsonitsky. Traga as roupas de
meu filho. Eu mesma vou vesti-lo.
- Ouça, minha senhora - respondeu a enfermeira, medindo as palavras. -
Seu filho está seriamente machucado. Só quando o médico disser que ele
pode...
Esther não quis ouvir mais nada.
- Escute aqui, minha jovem, não sou nenhuma principiante. Vá dizer ao
médico que vou levar o meu filho para minha casa. Mas primeiro, traga-me
as roupas dele.
A enfermeira se afastou e voltou acompanhada de um jovem interno.
- Sou o Dr. Lee. Estou sendo informado de que a senhora quer levar seu
filho para casa?
- A informação é correta.
- Sou contra essa medida.
- Talvez seja contra, mas eu não.
Era em momentos assim que o jovem interno se arrependia de não ter
preferido ir trabalhar com seu pai na loja de ferragens. Mães judias
eram obstinadas, tremendas.
- Se tirar o seu filho daqui, o hospital não se reponsabilizará. Está me
compreendendo?
- Claro que estou. Por acaso sou uma estúpida? Sou americana - replicou
ela, indignada.
- O que quero dizer é que ele necessita de cuidados, de cuidados
profissionais. . .
- O que ele pode ter aqui, pode ter em casa. E melhor. Uma mãe não é uma
enfermeira, e uma enfermeira não é uma mãe.
- Muito bem. Miss Williams, traga-me um formulário de alta. - Com aquela
criatura não tinha jeito, não adiantava discutir. Mais uma vez ele se
dirigiu a Esther. - A senhora terá de pagar a ambulância. O hospital
não fornece ambulâncias.
- E quem está pedindo caridade?
Jacob se alegrou por estar em casa, onde o ambiente e os ruídos
familiares tinham tanto significado para ele. O quarto que partilhava
com Shlomo, sua cama com os lençóis tão limpos, o ruído de panelas
sendo postas no fogão e de pratos tirados do armário. . . Mas, acima de
tudo, a sensação de ser amado.
Esther alimentava-o, dava-lhe banho, estimulava-o com a sua devoção.
Todos os dias Shlomo apressava-se em voltar para casa a fim de ajudar, e
à noite lia para Jacob lindos poemas judaicos, e livros sobre os
patriarcas, o desenvolvimento da América, a Guerra Civil, a libertação
dos escravos. Que país! Imagine, sem escravos. Eram todos homens
livres, não como na Polônia e na Rússia, em que os judeus viviam
encerrados em paliçadas ou em guetos. Exceto que era um país, onde um
judeu podia ser espancado por ser judeu. ..
Os dias passavam tranqüilamente, enquanto Jacob readquiria saúde e
forças. Seus olhos estavam quase completamente curados e, embora as
costelas ainda lhe doessem, ele agora podia levantar-se da cama e andar
pela casa. Gittel vinha todos os dias com o seu bebê, que agora começava
a engatinhar e a mexer em tudo. O pequeno Avrum, Avrumchik. Oh, se o
seu avô, de quem ele herdara o nome, estivesse ainda vivo para vê-lo...
#break Capítulo 10 Agora que Jacob estava recuperando tão rapidamente a
saúde, começou a cogitar de um emprego. Era forte como um touro, mas
voltar a trabalhar nas docas estava fora de cogitação. A coragem dele
não ia até aquele ponto. Sua mãe tinha razão; os goyim não prestavam.
Nunca mais confiaria neles. Mas afastou o pensamento, quando se lembrou
de que a carta de Lotte devia chegar nas próximas semanas. Quando a
recebesse, teria de começar a procurar um apartamento.
Assim, a preocupação imediata de Jacob era um emprego. Havia poucas
escolhas e ainda menos empregos. Relutantemente, aceitou trabalhar numa
modesta fábrica na Segunda Avenida. As condições eram péssimas,
indignas de qualquer operário. Ele desprezava o que era chamado o
comércio da agulha, mas aprendeu a manejar as máquinas, fazendo roupas
que seriam usadas por outros homens. Em todo caso, pelo menos estava
agora com sua própria gente. Chegou mesmo quase a convencer-se de que
era a melhor coisa que lhe tinha acontecido. Não trabalhava mais
exposto às inclemências do tempo e estava ganhando seis dólares por
semana. Mais tarde, quando ele e Lotte estivessem com a vida
organizada, abririam um pequeno negócio, talvez uma barraca de frutas...
À medida que se escoava o mês, sua ansiedade ia crescendo até se tornar
quase uma obsessão. Não recebera uma só palavra de Lotte e não tinha
mais capacidade para pensar nem fazer nada direito. Começou a duvidar
que ela tivesse recebido sua carta. Essa idéia deixava-o de estômago
virado. De manhã, partia para o trabalho exausto por ter passado a
noite em claro. Amaldiçoava os correios. Agora só lhe restava uma coisa
a fazer - escrever outra carta a Lotte. Isso não iria apressar nada, mas
por mais que demorasse, pelo menos ele iria saber se ela tinha recebido
a passagem.
Uma noite, quando voltava para casa, Shlomo o estava esperando e
gritou-lhe, excitado:
- Chegou hoje uma carta de Lotte.
Louvado seja Deus! Jacob correu para o quaito, sentou-se na borda da
cama e rasgou o envelope. Suas mãos começaram a tremer. Primeiro olhou
para a passagem, depois para a carta. Engolindo em seco, começou a ler:
Meu caro Jacob:
Por favor, procure entender e me perdoar pelo que vou dizer. Não duvide
que estive apaixonada por você, mas era o primeiro amor de dois jovens
experimentando a vida pela primeira vez. Infelizmente, o tempo faz
muitas mudanças. Talvez, se você tivesse ficado aqui, eu nunca pensaria
em mais ninguém. Sei que isso vai magoá-lo. A verdade é sempre
dolorosa, e eu devia ter-lhe contado antes. Não há palavras para dizer
como lamento, mas encontrei um homem um pouco mais velho, dono de um bom
negócio e que pode cuidar de mim e também ajudar meus pais. Quando você
receber esta carta, já estarei casada. Na verdade, pensar que um dia eu
ina magoá-lo...
Jacob não pôde terminar a carta. Sentia uma dor tão devastadora como
quando o haviam espancado, mas dessa vez não tinha um adversário físico.
Levantou-se e deu um soco na parede. Depois saiu correndo na noite
fria, cego pelas lágrimas. Escorregou e caiu na calçada gélida,
levantou-se e continuou correndo. Queria morrer, matar-se. O que lhe
restava da vida? Como podia Lotte destruí-lo daquela maneira, quando
sabia o quanto ele a amava? Pensou de novo em tudo o que tinha feito por
Lotte, tudo que tinha sofrido por ela, e de repente rogou a Deus que a
punisse pelo mal que ela lhe fizera. E jurou a si mesmo que ninguém
nunca mais o faria sofrer assim, ninguém. E desejava que ela nunca mais
na vida tivesse um momento de paz.
Jacob não sabia em que rua estava, nem em que bar. Pouco importava. Só o
que sentia era ódio e raiva e, pior ainda, a frustração de não poder
vingar-se de Lotte, como não pudera vingar-se de O'Leary.
Tudo o que restava era o mundo.
Na manhã seguinte ele acordou na sombria madrugada cinzenta e percorreu
com os olhos o quarto sujo. As molas do colchão espetavam-lhe as
costelas doloridas. Sua cabeça latejava. Quando conseguiu libertar-se
do seu torpor alcoolizado, viu um corpo nu deitado ao seu lado.
Titubeante, levantou-se da cama, jogando longe as cobertas. Olhou para
a moça. Os braços dela estavam cheios de manchas negras e azuis, havia
um corte em seus lábios e uma placa avermelhada no rosto inchado. Quando
seus olhares se cruzaram, o dela era de medo. Ele se sentou pesadamente
no colchão. Quando Jacob estendeu a mão para cobrir-lhe o corpo com um
lençol, ela se encolheu assustada.
- Está com medo de mim? Por quê?
- Por causa do que você fez comigo a noite passada.
- O que foi que fiz? - perguntou Jacob, apertando os olhos. Ela hesitou,
puxando o lençol para junto do queixo, sem responder. Depois falou
lentamente:
- Encontrei você saindo do bar e perguntei se queria ir para casa
comigo..
- Continue.
- Você estava bastante bêbado. Quando chegamos aqui, perguntou se eu
tinha uísque. Não vai se zangar?
Ele sacudiu a cabeça:
- Só quero que me conte o que aconteceu.
- Bebeu a garrafa inteira e então... ficou meio maluco.
- Maluco?
- Isso mesmo. Sem nenhum motivo, começou a me espancar. Nunca tive um
sujeito assim... muitas outras coisas, mas nunca isso! Pensei que fosse
me matar. Começou a berrar "Lotte, Lotte!". Acho que estava pensando
que eu era Lotte.
Jacob ficou aturdido. Não conseguia lembrar-se de nada. Fechou os olhos
e segurou a cabeça nas mãos. Meu Deus, ele podia ter matado a moça. Era
claro que tinha querido castigar Lotte. Sim, era Lotte que ele tinha
espancado.
O silêncio se prolongou tanto que a moça começou a ter medo do que ele
pudesse estar planejando. Passando a língua nos lábios secos, ela
perguntou em voz baixa, para não irritá-lo:
- Você está bem?
- Sim, estou bem - disse Jacob, erguendo bruscamente a cabeça. - Por que
não tentou fugir?
- Escute, você ê muito forte. Além disso, trancou a porta e jogou fora a
chave.
Jacob suspirou e esfregou a testa latejante.
- O que mais fiz eu?
- Atirou-me na cama. Tenho de dizer a verdade. Nunca um sujeito entrou
com tanta força em mim. Pensei que fosse me arrebentar por dentro.
Jacob não quis ouvir mais nada. Levantou-se rapidamente e começou a
vestir-se.
- Como é que vai sair daqui? - perguntou ela, ainda assustada.
Jacob tirou do bolso um canivete e enfiou-o na fechadura. Com uma volta
da lâmina a porta se abriu. Remexeu então, no bolso, apanhou todo o
dinheiro que encontrou e, sem contá-lo, colocou-o sobre a penteadeira.
Olhou mais uma vez para a moça e abanou a cabeça:
- Desculpe, sinceramente. - E, ao sair às pressas do quarto, lamentou
ainda mais que não tivesse sido Lotte...
Nesse dia, ele não foi trabalhar. Que diferença fazia? Nada mais fazia
diferença.
Depois de passar horas vagueando, voltou para casa. Passou por Esther na
cozinha, sem lhe dirigir a palavra. Ela o seguiu até o quarto e o viu
descalçar os sapatos e deitar-se na cama. Colocando as mão por baixo da
cabeça, ele fixou os olhos no teto. O que via eram as contusões que
infligira no corpo da jovem prostituta. A primeira mulher que tinha
possuído, uma prostituta, e não podia sequer lembrar-se do que tinha
sentido. E fora a sua amada Lotte que o induzira a uma tão horrenda
violência.
Dessa vez Esther não lhe perguntou por que ele não voltara para casa, e
disse apenas:
- Jacob, sei o quanto está triste. E por quê.
Quis tapar os ouvidos com as mãos e não ouvir a mãe. Não podia suportar
aquela voz: era falsa. Voltaram-lhe toda a raiva e desconfiança que
sentia dela... Sim, ela só o aceitara de volta por um sentimento de
culpa...
- Sei que está muito magoado, Jacob, mas acredite... - começou Esther,
tentando consolá-lo.
Ele se recusou a ouvi-la, a acreditar nela. Onde estava sua mãe, quando
ele era um menino sozinho, abandonado? Muito fácil para ela ser uma mãe
carinhosa, agora que ele já era um homem. Mas por mais que tentasse,
não conseguia esquecer seus sofrimentos e angústias. E por que haveria
de esquecê-los?
Jacob levantou-se da cama, foi até o armário da cozinha, apanhou a
garrafa de conhaque e começou a beber.
- Jacob, esta não é a solução - disse Esther, que o observava. E tentou
delicadamente tomar-lhe a garrafa.
Respirando com dificuldade, ele a fitou.
- Por favor, Jacob, deixe-me tentar ajudá-lo. - Já me ajudou bastante.
Faça-me um favor, deixe-me em paz. - E voltando para o seu quarto,
tornou a deitar-se virando o rosto para a parede.
Nos dias que se seguiram, Jacob não comeu, nem se levantou da cama.
Sempre que Esther lhe trazia comida, ele a ignorava. Nem mesmo Shlomo
conseguia distraí-lo. Recusava-se a falar com quem quer que fosse.
Esther não arredava pé do restaurante. Mal dormia à noite, com medo do
que Jacob pudesse fazer. Seu pior, mais secreto medo era que ele se
matasse. Não dizia nada a Gittel, sabendo que isso só iria aumentar as
preocupações da filha. Hershel tinha perdido o emprego, o casal mal
estava conseguindo sobreviver. Mas agora o peso no silêncio era
demasiado grande; ela simplesmente tinha de partilhá-lo com alguém.
Deixando Shlomo com Jacob, Esther dirigiu-se para o apartamento de
Gittel e implorou-lhe que fosse falar com Jacob.
Quando as duas mulheres chegaram, Gittel foi ao quarto de Jacob.
Fechando a porta atrás de si, ela se sentou na beirada da cama e fitou o
irmão. Assustou-se. Não tinha tomado banho nem feito a barba. Os
cabelos estavam desgrenhados e havia nos olhos uma expressão alucinada.
Gittel tomou-lhe ternamente a mão e, tentando manter a voz calma,
disse:
- Jacob, foi uma pena eu não ter sabido antes. Teria vindo mais cedo.
Sabe disso, não é, Jacob?
Nenhuma resposta.
- Jacob, mamãe contou-me tudo. Quero que me ouça. Sei o quanto está
magoado. Amar alguém como você amou e não ser correspondido é muito
doloroso. Mas quando conheceu Lotte era tão jovem! Foi a primeira
mulher a entrar na sua vida. Por favor, procure compreender.
Conheceram-se muito pouco. Na realidade, praticamente não se conheciam.
Talvez, se você tivesse ficado e deixado que se estreitasse o seu
relacionamento com ela, isso não teria acontecido. Mas você partiu, e
mesmo um ano faz muita diferença, sobretudo na vida de uma jovem. Lotte
tornou-se uma mulher. Acho que o que ela fez foi muito cruel, mas não
deve permitir que isso arruine a sua vida. Realmente, ela não era para
ser sua. Se lhe estivesse destinada, isso não teria acontecido. Por
favor, não se deixe dominar pela amargura. Você é muito jovem ainda e
sei que encontrará alguém que o mereça.
Pela primeira vez em cinco dias, Jacob falou. A cólera em seus olhos não
era para Gittel.
- Nunca mais hei de amar mulher alguma, nunca mais vou confiar numa
mulher. Nunca vou me casar... nunca. - Sua voz era monótona, porém
intensa.
Beijando-lhe a mão e depois encostando-a em seu rosto, Gittel disse:
- O que você sente agora é uma mágoa muito profunda, mas o tempo se
encarregará de cicatrizá-la. Não julgue toda mulher por Lotte. Ele
estremeceu ao ouvir o som daquele nome.
- Não vou apurar se isso é verdade. Você é a única boa mulher que
conheço. - Obrigada, mas mamãe também é uma boa mulher. Ela viu os
músculos do rosto de Jacob se retesarem. - Fez o melhor que pôde por
nós, Jacob. Não deve censurá-la pelo que acha que ela deixou de lhe
fazer quando você era criança. Precisa esquecer, Jacob. Se tentar
castigá-la, estará fazendo mal a si mesmo. Esqueça o passado, Jacob.
Esqueça isso, e esqueça Lotte. Para seu próprio bem.
Nada mudara na expressão de Jacob, mas ela rezou para que algo em suas
palavras o atingisse. Houve um longo silêncio entre os dois. Tudo o que
podia ser dito, ela já o dissera. Levaria tempo para Jacob compreender.
Mas em seu coração Gittel sabia que nada perdurava para sempre. As
ameaças que ele fazia hoje mudariam quando encontrasse a moça certa.
Finalmente, Gittel disse:
- Jacob, quer me fazer um favor? - E esperou. Como ele não respondesse,
ela continuou: - Por favor, levante-se da cama, tome um banho e coma
alguma coisa. Vai sentir-se melhor. Quer fazer isso por mirn, Jacob?
Por favor. - Lentamente, ela puxou as cobertas para o pé da cama e
esperou.
Jacob olhou para a irmã. "Sim, ela tem razão", pensou, "Não vou deixar
que ninguém me derrube... nunca mais." Levantando-se, olhou para o seu
reflexo no espelho. Parecia um vagabundo das ruas.
Gittel fechou os olhos e, em sua inocência, agradeceu a Deus quando
Jacob abriu a porta.
Passaram-se os meses, e a aguda amargura de Jacob tomou outra forma. Ele
se fechou dentro de si mesmo. Deixou de ir ao shul e passou a falar o
menos possível com sua mãe. Na realidade, passara a agjr como um
pensionista. Todas as semanas pagava o quarto e a comida. Quando Esther
tentou recusar o dinheiro, Jacob disse-lhe em termos bem claros que não
queria ser sustentado por caridade e que, se ela continuasse a fazer
objeção àquele pagamento, ele alugaria um quarto em outro lugar
qualquer.
Mesmo com Shlomo, não havia mais a intimidade do passado. E, embora sua
admiração e amor por Gittel permanecessem, até com ela Jacob se mostrava
distante e retraído.
Não sentia mais o menor interesse em mulheres, sexo era algo que ele
agora rejeitava por completo.
A única salvação de sua vida era o seu novo emprego. Arranjara trabalho
numa fábrica de vidros em Nova Jersey.
Apesar da distância, era o primeiro a chegar e o último a sair. O
trabalho era duro, mas era exatamente daquilo que ele estava precisando
- trabalhar duro para si mesmo. Queria estabelecer-se no comércio, ser
alguém, seu próprio patrão, sem depender de ninguém, ninguém...
No ano seguinte, Jacob teve seu salário aumentado de nove dólares por
semana para 16. Sua constância no trabalho não passara despercebida.
Nunca chegava tarde, nunca se queixava de trabalhar além do horário,
nunca reclamava das condições, cumpria suas obrigações, mantinha-se
afastado dos outros e recusava-se a aderir aos companheiros para se
organizarem... Embora tivesse apenas 17 anos, foi promovido a
contramestre.
Quando voltava do trabalho à noite, Jacob entrava pela porta dos fundos,
evitando Esther e seus fregueses. Nessa noite, ele estava tirando o
capote, quando, ao olhar do vestíbulo para a cozinha, viu uma jovem
junto à pia, lavando pratos. Por um momento se surpreendeu. Estariam os
negócios indo tão bem, que sua mãe já precisava de ajudante? Encolheu
os ombros e foi para seu quarto, onde encontrou Shlomo estudando. O
menino ergueu os olhos do livro:
- Chegou cedo hoje. Por quê?
- Houve menos trabalho. Onde está mamãe?
- Por que pergunta? Servindo os fregueses. Você não a viu?
- Não, entrei pelos fundos - respondeu ele, despindo a camisa,
- Por que não deu um alô a mamãe? Não custava nada cumprimentá-la.
- Eu estava todo suado. Quero me lavar.
- OK... tudo bem... Mamãe agora tem uma garota para ajudá-la.
- Eu vi - respondeu Jacob e acrescentou, sarcástico: - Agora ela não
terá de trabalhar tanto.
- Não fez isso por este motivo - retorquiu Shlomo, com certa rispidez.
- Não? Então por quê?
- Porque a garota não tem onde morar. E não é apenas uma ajudante, seu
nome é Sara Edelstein.
- O que isso tem a ver com ela estar trabalhando aqui?
- Eu acabei de lhe dizer, ela não tem onde morar.
- Onde ela vai dormir, na cozinha?
- Não, no quarto de mamãe, até poder arranjar emprego. Enquanto isso,
está ajudando.
- Então ela vai morar aqui?
- Sim, mamãe arranjou uma cama para ela.
- Nesse caso, vou-me embora.
- Espere um instante, Jacob. - E Shlomo levantou-se da cadeira, de um
salto. - Devia ficar contente por mamãe ter arranjado alguém para
ajudá-la. E depois, que importância tem isso para você?
- Tem, sim. Não quero uma moça... uma estranha vivendo...
- Ela não é uma estranha. É aparentada com Hershel, e o pai morreu
recentemente .
- Mas não somos parentes deles...
- Ela não tem más ninguém, e Gittel gosta e tem pena dela... um
sentimento que não faria mal a você.
Jacob lançou um olhar irritado ao irmão. Ia responder-lhe, quando Shlomo
continuou rapidamente:
- Sabe qual é o seu problema? Acha que ninguém no mundo já sofreu tanto
quanto você. É o único que teve uma infância miserável, que foi
desprezado por uma namorada. Todos os outros tiveram uma vida
estupenda. . .
- Bem, a sua vida foi um pouco mais fácil do que a minha...
- Sim, muito mais fácil. E a de mamãe também e de Gittel. Todos nós
vivemos no luxo e na riqueza.
- O que isso tem a ver com a moça morar aqui? Por que ela não vai morar
com Gittel?
- Porque Gittel está morando em dois cômodos e vai ter outro filho.
Jacob pareceu aturdido.
- Outro filho? Quando você soube disso?
- Há uns dois dias.
- Por que ninguém me contou?
- Porque você anda com muita pena de si mesmo, e se tem mantido o mais
afastado possível de todos nós.
- Tudo bem. Você já disse o bastante. Acha que não valho nada. Não é
isso que está querendo insinuar?
- Não. Sob essa sua armadura se esconde um bom rapaz com um grande
coração. Você é um mensch (homem), Jacob, e um mensch (homem) é a melhor
coisa que uma pessoa pode ser.
Jacob fitou Shlomo por alguns instantes. A verdade doía, mas não restava
dúvida quanto à veracidade dos fatos: ele tinha agido muito mal - com
sua mãe, com Gittel, com o seu próprio irmão.
Em sua perplexidade, Jacob balançou a cabeça e sorriu pela primeira vez
desde muitos meses. Passando o braço pelo ombro de Shlomo, disse:
- Lembra-se de que uma vez eu disse que você era o menino mais
inteligente da sua classe? Disse, também, que era mais inteligente do
que eu. E é, Shlomo. . . não há dúvida de que é.
- Não sou, não. Você é o mais inteligente e, também, o melhor. Quando
Jacob ia saindo do quarto para tomar um banho, Shlomo acrescentou:
- E Jacob, não lhe faria nenhum mal ir comigo ao shul.
- Sábado - concordou Jacob.
Não que Jacob se interessasse em absoluto por Sara ou qualquer outra
garota, mas não podia deixar de notar que ela não era igual a outras que
conhecera - tão educada, tão. . . não conseguia imaginar como ela podia
vir da baixa Zona Leste de Nova York. Naturalmente, Shlomo contara-lhe
as razões, a morte do pai e tudo o mais, porém, a despeito de si mesmo,
ela era, para ele, motivo de curiosidade. À noite, ficava acordado no
escuro, pensando na vida que dera a Sara elegância e uma auréola de
educação e cultura, mas a vida que imaginava estava bem longe da
realidade. Jacob se teria chocado, se soubesse que o começo da vida de
Sara Edelstein era, sob muitos aspectos, muito semelhante à sua. Apenas
variações de um mesmo tema.
#break Capítulo Onze
Como acontece com muita gente, ela sabia apenas os fatos aparentes da
vida do pai e da mãe. Com o que sabia, conseguiu adivinhar outras
coisas. Sua mãe, então Molly Pollack, era uma jovem de Varsóvia, que
trabalhava numa chapelaria. Toda a família de Molly tinha morrido,
exceto um irmão que imigrara para Oakland, Califórnia, nos Estados
Unidos. Sara sabia que seu pai era de uma família preeminente que
residia em Zurique, mas que se tinha casado com aquela moça apesar dos
protestos veementes da própria família, e fora deserdado. Ao que
parecia, Harry Edelstein era casado, quando conheceu Molly Pollack.
Divórcio era coisa de que raramente se ouvia falar naquele tempo, mas
ainda assim a mulher dele insistiu em se divorciar. Assim, Harry
Edelstein não só caiu em desgraça como ficou sem dinheiro.
Durante o seu primeiro casamento ele trabalhara na ourivesaria do sogro
- não como vendedor, mas como um elegante gerente. Harry nada entendia
de jóias mas, no seu caso, não era necessário. O que importava era o
seu charme e boas maneiras, a capacidade de receber a elite dos clientes
em pé de igualdade social. Pertencia a uma família abastada, que
considerava indispensável que um rapaz entendesse de arte, fosse viajado
e possuísse bons conhecimentos literários, a fim de poder assumir
diariamente o seu lugar na sociedade. Se Harry não fosse tão impulsivo,
esses talentos lhe teriam assegurado o futuro. Mas o que aconteceu foi
que, ao deixar o negócio do sogro, ele estava inteiramente despreparado
para ganhar a vida.
Harry e Molly foram para Bruxelas, onde nasceu Sara pouco menos de nove
meses depois. O pai de Molly tinha parentes em Bruxelas, cujo negócio
era fabricação de linhos, e Harry foi pedir-lhes emprego. Embora não
aprovassem o que ele tinha feito, os parentes se compadeceram da
situação do casal e lhe deram o emprego. Entretanto, Harry não estava
habituado a trabalhos humildes e logo foi despedido. Começou, então, a
trabalhar em vários outros ramos, mal conseguindo ganhar o estritamente
necessário para viver. À medida que a despensa se esvaziava, o amor e a
paixão também foram escasseando e tanto Molly quanto Harry se sentiam
agora muito desiludidos. Molly fora apenas uma chapeleira e certamente
não tinha o nível intelectual dele, mas possuía grande capacidade em
questões práticas - e a sua ambição na vida era deixar de ser pobre.
Harry, por sua vez, deixara-se cativar pela grande beleza de Molly e
tinha imaginado que ela lhe daria o amor e a paixão que ele nunca
sentira em seu casamento anterior. Ambos se tinham enganado. Sara ainda
podia lembrar-se da discussão violenta, que terminara com Molly berrando
que estava tudo acabado, que ele tinha arruinado sua vida e sua chance
de conhecer e casar-se com um homem rico. Agora queria um get judaico,
um divórcio.
Como o casamento fora realizado por um rabino ortodoxo, eles não tinham
de se preocupar com tribunais civis; cabia às leis rabínicas julgarem e
concederem divórcios. Após o cuidadoso exame de todos os procedimentos
possíveis, o casamento de Molly e Harry terminou e cada um seguiu o seu
caminho, Molly transportando seus pertences e sua filha para um pequeno
hotel.
Nos meses que se seguiram, Molly conheceu um belo e elegante rapaz, que
a convidou para os melhores restaurantes, ofereceu-lhe presentes
extravagantes e tomou-se de amores pela pequena Sara. Louie Carr era
tudo o que Molly desejava de um homem, e especialmente de um marido. A
sua única dúvida era a profissão dele. Louie era um jogador
profissional. De muita classe, sem dúvida, mas ainda assim podia ser o
Savoy num dia e no dia seguinte... Bem, mas por que se preocupar? Louie
era um mestre, um gênio na sua profissão.
Logo eles se casaram e viveram luxuosamente nos melhores hotéis,
jantaram nos melhores restaurantes, compraram as roupas mais caras e
foram a todos os teatros. Louie gastava a rodo com Molly e Sara e
adorava fazer isso. Para Louie, dinheiro só servia para uma coisa:
gastar-se...
Após três meses de felicidade completa no casamento, uma manhã bem cedo
Louie entrou na suíte do casal, guardou seu chapéu de feltro cinza-claro
no armário, dirigiu-se para a saleta e se serviu de uma boa dose de
conhaque. Ao instalar-se na poltrona de brocado, o relógio sobre a
lareira soou. Eram três horas da madrugada.
Molly, bocejando, levantou-se da cama e foi até a saleta. Louie ergueu
os olhos e sorriu, aquele sorriso malandro que ela achava tão
irresistível. Levantando-se da poltrona, ele abraçou-lhe a cintura
fina, enquanto ela se punha na ponta dos pés para beijá-lo.
- Sentiu minha falta? - sussurrou ele, mordiscando-lhe o lóbulo da
orelha.
- Claro que sim. Como se saiu esta noite, Louie?
- Bem, para ser honesto. . . perdi muito no chemin de fer. Mas há dias
de sorte e dias de azar.
- Sei que amanhã será melhor. Tomando-lhe a mão, ele a conduziu até o
divã.
- Quer um conhaque?
Ela olhou-o nos olhos e perguntou:
- Por que. .. acha que preciso de um conhaque?
- Não sei ao certo - disse ele, mas serviu-lhe uma dose, tornou a encher
seu copo e sentou-se ao lado dela. - L’chayim.
- Está bebendo ao quê?
- A uma viagem.
- Para onde e por quê?
- O onde é a África do Sul, Joanesburgo, para ser exato, e porque há um
cassino lá que posso comprar. E uma outra fonte de renda... mulheres.
- Está querendo dizer um bordel?
- Oh, Molly, que feio! - respondeu Louie, balançando a cabeça.
- Então como você chamaria?
- Um bordel conjugado com um cassino - respondeu ele, com uma risada. -
Mas muito elegante, muito selecionado.
- Absolutamente não.
- Você me surpreende, Molly. Pensei que fosse civilizada.
- Civilizada eu sou, mas não vou levar minha filha para um bordel.
- Pensei nisso também.
- Ah, sim? Parece que andou pensando em muita coisa.
- Pode acreditar, Molly, que pensei. O jogo não é um meio de vida muito
seguro e realmente não tem muito futuro. O fato é que estou pensando no
nosso futuro. Agora nos surge a oportunidade de um bom negócio...
- E o que faremos de Sara?
- Como já disse antes, estive pensando... e muito, posso acrescentar.
- E então?
- Acho que Sara deve ter tudo do melhor. Sabe o quanto gosto dela...
como se fosse minha própria filha.
- Diga duma vez.
- Bem, a minha opinião é que ela deve ser mandada para o melhor dos
internatos, seja qual for o preço.
- Não vou internar minha filha. A resposta é não.
A cólera de Molly não o preocupou nem um pouco. Tirando-lhe o copo da
mão, ele a tomou nos braços, beijou-a e apertou-a contra o peito,
enquanto continuava explicando-lhe o seu raciocínio.
Molly pensou seriamente no assunto e, de alguma forma, o que ele dizia
fazia sentido. Não era para sempre, disse Louie. Meninas das melhores
famílias - famílias ricas - iam para internatos, e Sara teria uma
educação esmerada. Ela, Molly, devia fazer sacrifícios pela filha, se
realmente a amava. Além disso, havia outro fator a considerar. Louie
disse que se fosse sem Molly, onde ficariam ela e Sara? Ele estava
tentando a única maneira de garantir o futuro das duas.
- Está bem, Louie - respondeu Molly, com grande relutância. Sara foi
matriculada numa das melhores escolas, mas, apesar de todas as
"vantagens", ela se sentiu terrivelmente só e Molly e Louie lhe faziam
muita falta. Freqüentemente chorava à noite até adormecer, e suas
numerosas cartas a Molly sempre perguntavam quando eles viriam
visitá-la. Fazia dois anos que tinham prometido ir vê-la, mas
infelizmente os planos de Louie não coincidiam com suas promessas.
Quando Louie e Molly chegaram a Joanesburgo, constataram que o cassino
estava dilapidado e em péssimas condições, o que custou a Louie uma boa
parte do seu limitado capital para reformá-lo. E quando Louie começou a
auferir lucros, o chefe de polícia local trancou o estabelecimento a
cadeado: jogo era uma coisa, mas prostituição era algo bem diferente.
E, sem a renda extra das suas voluptuosas hóspedes, Louie mal estava
conseguindo sobreviver - o que levou Molly, sentada na beirada da cama,
a perguntar:
- E agora, o que vamos fazer?
Louie, numa cadeira diante dela, passava a mão pelo queixo. Como não
obtivesse resposta, Molly continuou:
- Não há nada aqui para nós, Louie. E, além disso, não vejo Sara há dois
anos. Não suporto mais aquelas cartas patéticas, que me dilaceram o
coração. De qualquer forma, logo não poderemos mais continuar pagando a
escola, portanto, enquanto é possível salvar alguma coisa, venda o
cassino. Eu quero voltar.
- Levantarei dinheiro para subornar a polícia... todo homem tem o seu
preço.
- Não seja tolo, Louie. Mesmo que você pudesse, eles iriam explorá-lo
até a última gota. Ouça o que estou dizendo, venda o cassino, seja lá
pelo preço que for.
Sim, pensou Louie, ela tinha razão. Além do mais, ser proprietário de
cassino não fora uma boa experiência. Ainda tinha a sua capacidade, o
seu talento; isso era algo que ninguém podia tirar-lhe. Sempre podia ir
para Monte Carlo, e não teria problema em arranjar um emprego de crupiê.
Crupiês ganhavam dinheiro, se sabiam como manobrar as coisas - e Louie
sabia.
- Está bem, Molly, comece a fazer as malas.
O rosto de Molly se abriu num sorriso. Era a primeira vez, desde muito
tempo, que ela sorria com sinceridade.
- Quando vamos partir? Quero escrever a Sara.
- Assim que o cassino for vendido. Na realidade, já existe alguém
interessado na compra. Não vamos conseguir reaver o que gastamos nele,
mas paciência. Logo me recupero do prejuízo.
Molly já tinha ouvido tantas vezes aquela frase, que pouca atenção deu
ao otimismo de Louie. Além disso, estava muito feliz no momento para
contestá-lo... ia tornar a ver Sara...
Quando o vapor atracou em Bruxelas, Sara estava esperando-os. Molly
desceu correndo a prancha de desembarque e estreitou a filha nos braços.
Sara estava agora com sete anos e era linda. A predição de Louie sobre
Sara se realizara. Tornara-se uma menina de maneiras finas e mentalidade
amadurecida. Chegava a ser difícil para Molly acreditar que Sara era
tão jovem: falava e agia como uma adulta.
Se Molly estava feliz, a alegria de Sara ao ver sua mãe e Louie era
indizível. O que mais a encantava era não ter de voltar para aquela
detestável escola de meninas; ia morar com os dois num bonito hotel e
se matricularia num externato. Adorava Louie. Ele era tão alegre,
animado, displicente, e sempre tão impecavelmente elegante que Sara
quase o supunha um fidalgo.
Os próximos meses de vida de Sara foram cheios de riqueza, mas o melhor
de tudo era ela não mais sentir solidão. Então, um dia voltou e
encontrou Molly arrumando as malas.
- O que está fazendo?
Molly olhou-a um momento, viu seus olhos assustados, e disfarçou a
própria apreensão, respondendo casualmente:
- Nós estamos nos mudando.
- Nós? Para onde vamos? - perguntou Sara, preocupada.
- Para um apartamento - respondeu Molly, continuando a tirar roupas do
armário.
- Por que não ficamos aqui? - Sara estava quase chorando.
- Eu não... hotéis não são o mesmo que um lar. - Não ia contar a Sara
que Louie estava numa fase de má sorte, e que iam ser despejados.
- Mas vamos morar juntos. Quero dizer... não vai me mandar de volta
para...
- Claro que não. Que pergunta mais tola.
A adaptação foi muito difícil para Sara. Ela tinha feito amigas no
externato de meninas, e agora não poderia mais ir a festas de
aniversário, pois, subitamente, não havia mais novos vestidos bonitos.
Por mais contente que ela estivesse de viver na companhia de Molly e
Louie, eles não pareciam muito felizes. Molly não podia deixar de notar
o ar preocupado de sua filha, mas recusava-se a perguntar se Sara estava
desapontada com o humilde quartinho em que dormia agora ou se Louie
considerava o esquálido apartamento abaixo da sua dignidade. Já tinha
bastante com que se preocupar. Louie tornara-se tão impulsivo nas
tentativas de recuperar as perdas do jogo, que agora só lhes restava
uns poucos dólares.
Visivelmente, Louie estava muito abatido. O outrora encantador e jovial
Louie tornara-se sombrio. Queixava-se constantemente de que a sorte
madrasta estava conspirando contra ele. Jurava que nunca em toda a sua
vida tivera tanto azar; isso ia além da sua compreensão. Os anos
seguintes eles passaram sempre mudando-se de um lugar para outro, cada
vez pior do que o anterior. Sara mudou de colégio três vezes e tornou-se
uma menina muito fechada, retraída...
Às três horas da manhã, Louie deitou-se na cama, tomou Molly adormecida
nos braços e beijou-a ternamente. Ela abriu os olhos. Pelo gesto amoroso
de Louie, soube instantaneamente que a sorte dele mudara.
Depois de fazerem amor, ela disse, ainda nos braços dele:
- Um talento que você não perdeu até agora é o de fazer amor.
- Isso nunca vou perder - replicou ele, rindo. - E outra coisa que
jamais vou perder é a confiança em mim mesmo.
- Realmente? Parece-me que nesses últimos tempos você não tem sido o
Louie de antigamente.
- Pois então me processe - disse ele, sorrindo no escuro. - Tenho o
direito de me queixar de vez em quando, mas não estou mais me queixando.
- Quanto você ganhou?
- Uma fortuna.
- Quanto?
- O suficiente para lhe comprar um lindo guarda-roupa novo e passagens
para Monte Carlo.
A informação não teve de forma alguma o efeito desejado. Molly saltou da
cama e acendeu a luz.
- Quando é que vamos parar de andar de um lado para outro? Estou farta
dessas mudanças, e não posso continuar arrastando Sara de escola em
escola e...
- Fale mais baixo. Agora, de uma vez por todas, Molly, ganho a vida no
jogo. Você sabia disso, quando nos casamos, portanto não procure me
modificar. Sou o que sou... Falei bem claro?
Fez-se um longo silêncio, enquanto Molly, imóvel, fitava-o. De certa
forma, Louie a assustava... era um homem que ela não podia manipular...
não era nenhum Harry. Gradualmente, a expressão no rosto dela se foi
abrandando.
- Como vai ser com Sara em Monte Carlo?
- Vou responder primeiro à última pergunta. Ofereceram-me a oportunidade
de ser gerente de um dos cassinos mais exclusivos da Riviera Francesa, o
que é uma honra... e você poderá andar por lá como uma rainha. Escute,
amo você e amo Sara, mas no meu negócio uma criança vai atrapalhar.
Dói-me muito, tanto quanto a você... mas fatos são fatos.
- Quer dizer que vou ter de mandá-la para um internato? - Não desta vez.
No momento tenho apenas o suficiente para nos instalarmos e comprar-lhe
umas roupas novas. - E, se eu não comprar as roupas, teria com que... -
Não, não tenho dinheiro para pagar o internato... Mais tarde, porém, é
claro que sim.
Molly suspirou, consciente que dessa vez teria de fazer uma opção.
Estaria disposta a perder Louie ,por causa da filha? Amava ambos, mas o
que seria de sua vida sem ele? A triste verdade era que, eventualmente,
os filhos cresciam e deixavam as mães sozinhas. Sara já estava com nove
anos de idade e num piscar de olhos seria uma moça, pronta para
casar-se. E como ficaria Molly? Não estava ficando mais jovem e onde
iria encontrar alguém que se comparasse a Louie? Não havia alternativa,
nem decisões, apenas capitulação.
- Está bem, Louie... o que sugere a respeito de Sara?
Ele lhe sorriu, sabendo o quanto fora difícil a escolha, tomou-a nos
braços e beijou-a.
- Você, Molly, é uma mulher sensata, e não vai lamentar a sua decisão.
Agora, quanto a Sara... O que acho é que deve ir morar com uma boa
família.
Molly pensou por um longo momento. A idéia parecia razoável. Sara
estaria numa atmosfera saudável, teria a estabilidade de um ambiente
familiar, algo que nunca tivera. E, com efeito, a idéia começou a
agradar a Molly... exceto, onde iriam eles descobrir tal ambiente?
Lendo-lhe os pensamentos, Louie explicou:
- Já entrei em contato com uma família com quem Sara se sentirá muito
feliz. São pessoas maravilhosas e têm três filhos, três meninos muito
bonzinhos.
- Que idade têm esses meninos?
- Não tenho certeza - respondeu ele, sentindo a desaprovação de Molly. -
Creio que o mais velho tem uns 13 anos e os outros provavelmente 11 e
nove.
- Não estou gostando nem um pouco...
- Ora, vamos, Molly, o que acha que pode acontecer? Trata-se de uma
excelente família judia.
- Em excelentes famílias judias os meninos viram santos? Meninos são
meninos, quer sejam judeus ou goyim. Nessa idade, sabem tudo a respeito
de meninas.
- Retiro o que eu disse, Molly, você não é uma mulher sensata. Acho até
que tem uma mentalidade muito desconfiada.
- Tenho mesmo... quando se trata de minha filha, certamente que me
preocupo.
- E eu não? Ela é tão importante para mim como para você. Acha que eu
seria capaz de sugerir esse excelente lar, se pensasse por um só momento
que ela não estaria segura? Realmente sinto-me ofendido.
- Porque fui eu que encontrei a família, e você parece pensar que não
levo muito a sério minhas responsabilidades paternais.
Molly olhou para Louie. Ele sempre sabia dizer a coisa certa no momento
certo, sempre apertava os botões certos - nisso nunca falhava.
- Está bem, fale-me desse maravilhoso lar e desses bons meninos e dessa
excelente família, e onde moram eles?
- Você tem um hábito engraçado, Molly. Faz tantas perguntas numa só
frase, que não sei a qual delas responder.
- Sempre dá um jeito. E então?
- O nome deles é Bromberg. Moram numa modesta casa de dois andares no
bairro israelita. Victor Bromberg é proprietário de uma padaria,
pequena, mas muito lucrativa. A Sra. Bromberg, o nome dela é Clara, é o
verdadeiro tipo da mãe judia. A casa e as crianças são imaculadas, e os
Bromberg são muito religiosos. Considero que a situação é ideal para
Sara, e quando você constatar tudo isso...
- Está bem, chega de conversa. Vou apanhar meu chapéu e capote para
irmos ver esse lar maravilhoso...
As preocupações de Molly se acalmaram, quando ela se sentou com a Sra.
Bromberg na sala de estar. As emanações que vinham da cozinha eram
deliciosas e o cheiro de carne de peito assado lhe recordavam o seu
próprio lar.
Depois de tomar um copo de chá, comer torta de maçã e bolo de clara
feitos em casa, Molly saiu com o coração um pouco mais leve - mas só se
sentiria totalmente satisfeita depois de ter visto a reação de Sara.
Nessa noite, Molly conversou com a filha e explicou a situação - ou
tanto quanto achava que Sara precisava compreender. Pediu à filha que
tivesse coragem, mas acima de tudo que se lembrasse de que sua mãe e
Louie a adoravam. Havia coisas na vida que exigiam grandes sacrifícios
e, como eles eram uma família, tinham de procurar agir da melhor
maneira possível. Seria só por pouco tempo, até Louie equilibrar-se em
seu novo cargo, e então voltariam os três a viver juntos... promessa
sagrada.
Mas, apesar de todas as afirmações de Molly, Sara chorou muito.
- Por que não posso ir com vocês, mamãe? Não vou atrapalhar.
Molly enxugou a transpiração da testa e tentou argumentar mais uma vez.
- Não é questão de você atrapalhar. Acabei de lhe explicar os motivos.
Assim que pudermos, mandamos buscá-la... Por favor, Sara, já é uma
menina grande. É tão duro para mim quanto para você, portanto não torne
as coisas ainda mais difíceis. - E, tomando a filha nos braços,
beijou-a. - Por favor, confie em sua mãe.
Sara enxugou as lágrimas.
- Está bem, mamãe... mas manda me buscar logo?
- É claro. Louie e eu queremos tanto quanto você... mais ainda. Afinal,
você é minha filha.
- E você é minha mãe - respondeu com simplicidade a menina. Apoiando em
seu ombro a cabeça da garota, Molly sussurrou:
- Eu sei, minha queridinha... sei muito bem.
#break Capítulo Doze
Se a excelente família judia tivesse correspondido às expectativas de
Louie, Sara talvez se adaptasse com facilidade. A princípio, estava
ansiosa por agradar os Bromberg, mas logo descobriu que a família, que
parecera tão decente e laboriosa, tinha uma mesquinhez de espírito como
ela nunca sequer suspeitara que pudesse existir.
A Sra. Bromberg adquirira não uma hóspede, mas uma espécie de Gata
Borralheira; antes da escola e até tarde da noite, Sara esfregava,
lavava e lustrava para que a casa tivesse aquela limpeza que Molly
tanto admirara. A única recompensa da menina era um pouco de comida, que
ela comia sozinha na cozinha.
Ainda assim tudo isso poderia ser suportável, se a deixassem em paz,
mas, com a sua chegada, os três bons meninos Bromberg fizeram uma trégua
em suas brigas e agora concentravam sua agressividade nela. As
brincadeiras deles iam desde pregar-lhe peças de mau gosto até
esbofeteá-la e beliscá-la e dizer-lhe palavrões - mas, como bons
meninos que eram, tinham o cuidado de esconder de sua carinhosa mãe
essas pequenas diversões.
O evento que provocou a crise foi de tal ordem, que Sara nunca mais se
esqueceu... Certa noite, quando ela estava dormindo, Carl, o menino mais
velho, esgueirou-se para dentro do seu quarto. Sara acordou
sobressaltada, quando ele se insinuou na sua cama, mas, antes que ela
pudesse gritar, já Carl estava em cima do seu corpo, tapando-lhe a boca
com uma das mãos e com a outra tentando suspender-lhe a camisola. Quando
ele segurou um dos seus seios, ela se virou bruscamente, conseguiu
libertar-se e gritou. Antes que ele pudesse abafar o seu grito, Clara,
que viera correndo do corredor, abriu bruscamente a porta e estacou,
trêmula de raiva.
- O que significa isso?
Carl saltou da cama e apontou com virtuosa indignação para Sara muito
apavorada.
- A culpa é dela, mamãe. Foi ela quem me pediu. Eu não queria mas ela
fez tudo para me excitar... É difícil resistir quando alguém se joga em
cima da gente...
Clara olhou ameaçadoramente para Sara. Evidentemente, Carl jamais faria
uma coisa daquelas se não o tivesse sido provocado. Tratava-se de um
jovem judeu de muita moral. Mas já era um rapaz com desejos de rapaz,
e, se sofria uma tentação... Porém, ela não ia permitir que aquela
vagabundinha permanecesse em seu lar e corrompesse seus filhos.
Provavelmente já estivera provocando todos eles, até mesmo o pequeno
Morris...
- Eu não fiz nada, Sra. Bromberg... juro. Carl...
- Não quero ouvir as suas mentiras. Vai sair da minha casa, está
ouvindo? Fora!
- Não tenho para onde ir. - Sara agora estava chorando.
- Devia ter pensado nisso antes de tentar corromper meu filho.
- Mas não fiz isso.... Ele veio...
- Já ouvi o suficiente. Vai escrever hoje mesmo para a sua mãe, está
ouvindo? E terei muito que lhe contar quando ela vier... Você vai acabar
mal, mas, graças a Deus, isso não é problema meu. Enquanto isso, não a
quero ver. Fique em seu quarto e fique longe dos meus filhos. - E, com
isso, a Sra. Bromberg se retirou, seguida de Carl.
Quando Sara finalmente parou de soluçar, sentou-se para escrever à mãe.
Estava rezando para que Molly acreditasse nela. Sentia-se tremendamente
confusa e, sem saber por que, muito culpada...
Era tarde da noite quando Louie retornou do cassino e encontrou sua
mulher muito perturbada, fumando um cigarro atrás do outro. Ela lhe
entregou a carta, e ficou olhando-o rubra de raiva, enquanto ele lia.
A indignação de Louie não foi menor.
- Aquele miserável filho de uma cadela, minha vontade é aplicar-lhe uma
boa surra. Sara não vai mais, em hipótese alguma, viver num lugar onde
haja rapazes. Desta vez será...
- Ouça, Louie, e ouça com atenção. Desta vez vou trazer Sara de volta e
ninguém me fará mudar de idéia.
Ele tentou tomá-la nos braços e acalmá-la, mas Molly se desvencilhou.
- Não desta vez... Conheço todos os seus pequenos truques, mas nada que
você possa dizer vai adiantar. Sara vai voltar, está compreendendo,
Louie?
- Molly, você está muito perturbada...
- E acha que não era para estar?
- Claro que sim, eu estou também indignado...
- Duvido um pouco.
- Isso é como uma bofetada.
- Talvez seja do que está precisando para compreender... Quero a minha
filha e vou buscá-la.
Louie serviu duas doses de conhaque, e estendeu-lhe um copo.
- Sente-se, Molly, não é necessário brigar comigo. Quero Sara tanto
quanto você.
Molly fitou-o por um momento. Teria realmente ganho aquela parada? A
raiva aguda foi diminuindo, ela se sentou e tomou um gole do conhaque. A
expressão no rosto de Louie, ao servir-lhe uma segunda dose, parecia
indicar que ela vencera - e a vitória lhe deu uma grande satisfação.
Embora ainda resoluta, ela começou a se descontrair.
Louie tomou-lhe a mão e beijou-a, depois beijou-lhe os lábios.
- Molly, querida, não sabe quanto gosto de Sara e quanto ela significa
para mim? Claro que sabe. Sei que quer trazer Sara agora para cá, mas
deixe-me perguntar-lhe uma coisa... Sensatamente, logicamente, onde vai
ela viver? Num hotel... num quarto, se isso é...
- Que diabo, Louie! - exclamou Molly com um sobressalto. - Desta vez
você não vai me tapear. Se não jogasse tanto, se se desfizesse daquele
cavalo, que é bem mais caro do que sustentar uma menina, se se
contentasse apenas em dirigir o cassino, você podia viver
confortavelmente. Poderíamos ter um apartamento e viver como seres
humanos. Mas do jeito que fala parece que alguém está apontando uma
pistola para a sua cabeça e forçando-o a...
- Que espécie de vida?
- Melhor do que está tendo agora, quando tudo o que ganha gasta em jogo
ou naquele cavalo...
- Faço isso porque o meu cavalo vai ganhar...
- Você é um idiota, um completo idiota. Quando aquele cavalo ganhou? Nem
uma só vez... Agora, vou dar-lhe exatamente um minuto para decidir.
Livre-se daquele cavalo, pare de jogar, ocupe-se só do cassino, ou
vou-me embora, de uma vez por todas. Não vou passar o resto de minha
vida desta maneira, Louie.
- Está querendo dizer que vai me abandonar?
- Acertou em cheio.
- Ora, Molly, dê-me uma chance de me aprumar...
- O seu prazo já se esgotou. Fique com o seu cavalo e vá para o
inferno... Vou-me embora. Para mim, chega.
- Ótimo, mas vai se arrepender, Molly, de deixar um marido que a ama,
sustentou e vestiu sua filha. Não é culpa minha se as coisas nem
sempre...
Molly não estava mais ouvindo.
Louie continuou sua tirada, enquanto a via fazer as malas. Por fim, ela
enfiou o casaco e o chapéu, apanhou o telefone e pediu que mandassem
alguém apanhar sua bagagem.
- Como é que vai se arranjar sem dinheiro? - perguntou ele. - Não tem
nenhum. Como vai se sustentar?
- Não se preocupe comigo... economizei uns poucos dólares justamente
para uma emergência assim.
- Quanto?
- O bastante para me levar até Bruxelas, e um pouco mais do que isso.
Dará para me agüentar até arranjar um emprego. Não tenho medo... Já fui
chapeleira e posso voltar a exercer minha profissão.
- Molly, você é a mulher mais teimosa que já conheci.
- Espero que a sua próxima mulher não o seja tão...
- Está bem, Molly, está bem.... Não vou implorar. Siga em frente e faça
o que quer. A esta altura não me importo mais em absoluto. - E, enfiando
a mão no bolso, ele tirou um pequeno maço de notas que jogou sobre a
cama.
O gesto era grandioso. O gesto de um grande jogador.
#break Capítulo Treze
Dessa vez, os odores que emanavam da cozinha de Clara Bromberg não eram
tão inebriantes. Molly na sala, com a filha ao lado, ouviu o discurso de
Clara sobre a conduta de Sara - o quanto ela, Clara, sofrera, as
responsabilidades de criar uma menina - especialmente aquela. Sara
praticamente os arruinara de tanto comer, e o dinheiro que Molly e
Louie mandavam mal dava para fazer frente às despesas da hospedagem.
Ao ouvir as acusações infundadas de Clara, a raiva de Molly foi
crescendo até ela não poder mais suportá-las. Sua cólera irrompeu numa
torrente de insultos, que deixaram a outra branca de susto. E terminou,
ofegante:
- Sabe o que eu devia fazer? Mandar para a cadeia esse seu filho nojento
por tentar violentar minha filha, e você por ser uma traficante de
escravas brancas.
Com isso, ela tomou Sara pela mão e saiu, batendo com tanta força a
porta da frente, que o vidro oval se espatifou e despencou em mil
pequenos fragmentos...
Nessa noite, Molly e Sara dormiram juntas no melhor quarto do melhor
hotel de Bruxelas. A alegria de Sara aconchegando-se junto à mãe foi
imensa. Quase teve medo de adormecer e, quando acordasse, não ver mais
Molly a seu lado... não tendo tudo passado de um sonho.
Quando amanheceu, e Sara viu Molly dormindo junto dela, sentiu-se mais
segura. Estava tão orgulhosa da descompostura que Molly passara na Sra.
Bromberg! Sua mãe era a sua protetora. Ninguém nunca mais abusaria dela
ou a faria sofrer.
Quando Molly acordou, beijou Sara e a abraçou.
- O que você gostaria de fazer hoje?
- Gostaria que passássemos o dia juntas, mas tenho de ir à escola.
- Hoje, não. Além disso, vai mudar de colégio... não vai mais morar
naquele bairro.
- Oh, mamãe, gosto tanto de você...
- E eu também gosto muito de você... Agora, o que vamos fazer?
- Qualquer coisa. - Sara sorria de felicidade.
- Muito bem, primeiro vamos mandar trazer no quarto o nosso café, depois
vamos fazer compras. Quero comprar-lhe umas roupas novas.
- Mamãe?
- Sim, meu anjo?
- Tem dinheiro suficiente para tudo isso?
- Uma menina não deve preocupar-se com dinheiro. Isso cabe à mãe.
- Mas disse que os negócios de Louie iam muito mal...
- Eu sei, mas melhoraram. Louie deu-me bastante dinheiro, quando eu o
deixei. - Se, ao menos, fosse verdade. . . Mas Sara ia ganhar roupas
novas, as que Molly lhe enviara de Monte Carlo não lhe serviam mais.
Naturalmente, elas não podiam ficar naquele hotel, mas Sara precisava
ser compensada. E, se ela vivesse frugalmente, os francos que Louie lhe
dera a ajudariam a aguentar-se até arranjar um emprego - sabia que não
teria problemas em consegui-lo. Mas agora não queria pensar nisso. Hoje
ela e Sara iam ter um dia maravilhoso. Nessa noite, quando as duas
comiam um excelente jantar, Molly notou que não havia felicidade nos
olhos de Sara, apesar do sorriso fixo em seus lábios. - Você está feliz,
minha querida? - Estou sim, mamãe - apressou-se Sara em responder. -
Então por que parece tão triste? - Não estou triste, mamãe. Estou muito
feliz. - Quero dizer, bem no fundo... Pode me contar. Sara bebeu um gole
de água. Sabia que algo não estava certo. Não prestara atenção ao ouvir
Molly dizer "quando deixei Louie", mas subitamente as palavras lhe
haviam voltado à mente. - Mamãe... - Sim? - Você e Louie ainda se amam?
A pergunta abalou Molly, mas ela fez um muchocho e respondeu: - Mas que
pergunta! Claro que nos amamos. Por que está me fazendo uma pergunta tão
tola? - Não sei... Acho que é porque pensei que finalmente íamos ser uma
família. - E somos. - Não sem Louie. Molly engoliu em seco. - Escute,
Sara, você já é uma menina grande... por isso posso lhe dizer. Louie
está tentando montar um novo negócio e concordamos que seria melhor se
você e eu ficássemos aqui, enquanto ele põe tudo em ordem. E também,
quero ajudá-lo, por isso pensei que seria bom se eu arranjasse um
emprego. Já fui uma boa modista de chapéus, não se lembra? E acho que
uma esposa deve ajudar o marido. - Mas não podia criar chapéus em Monte
Carlo? - E acha que Louie me deixaria? Não, não em Monte Carlo. Isso
constrangeria Louie e ia feri-lo em seu orgulho porque sua mulher
precisava trabalhar. Os homens são muito orgulhosos, querida. Tive de
implorar Louie para que me deixasse ajudá-lo. Sara não acreditou numa só
palavra... Sua mãe ia divorciar-se de novo, e tudo por causa dela. Era
por sua culpa que sua mãe estava deixando o homem que amava...
sacrificando a própria vida. O pobre Louie tinha sido tão bom para ela,
mandando-lhe lindos presentes de Joanesburgo, quando era aluna naquele
internato tão caro. Louie lhe tinha dado tudo aquilo e agora sua mãe o
deixara. Tinha certeza disso. Se ao menos não tivesse escrito aquela
carta sobre a Sra. Bromberg. Mas o que mais poderia ter feito? Ia ser
jogada na rua. Ainda assim, Sara sentia-se tremendamente culpada... -
Está me ouvindo, Sara? Vai dar tudo certo. Agora coma, o jantar está
esfriando e não queremos chegar no meio do primeiro ato. O Lago do Cisne
é o seu balé predileto. Sara realmente não estava com vontade de ir ao
teatro, não com tudo o que revolvia na mente... Nas semanas seguintes,
Molly e Sara passaram a morar numa pensão de preço moderado num bairro
de certa classe. Sara foi matriculada numa escola e Molly saiu à procura
de trabalho - mas parecia que ninguém precisava de seus serviços. Chegou
mesmo a considerar o emprego de vendedora numa loja de modas, mas após
uma busca exaustiva, nada conseguiu. Agora a sua firme determinação de
deixar Louie começava a desmoronar, e ela passou a lamentar a sua
decisão. Não tinha tido idéia do quanto Louie era importante em sua
vida, como se tornara parte dela. Estava começando a descobrir que a
vida sem Louie era solitária, terrivelmente solitária. Por mais que
adorasse Sara, a filha não preenchia aquele vácuo. Apesar de toda a sua
instabilidade, Louie era alegre, excitante, sociável, carinhoso - e
acima de tudo, amava-a da maneira como um homem devia amar uma mulher.
Molly sentia falta da presença dele, da intimidade entre os dois, das
noites de amor... Decidiu escrever-lhe, mas faria a coisa muito
cautelosamente. Sabia que Louie ficaria radiante de receber sua carta,
mas queria ainda mantê-lo preocupado. Contaria que tinha arranjado um
emprego maravilhoso, e como estava movimentada a sua vida social...
Molly chorou quando recebeu a carta de Louie. Não era em absoluto a
Resposta que tinha esperado; estava certa de que Louie imploraria que
voltasse. Mas, ao assoar o nariz e enxugar os olhos, ela de repente
percebeu que Louie não tinha acreditado na sua conversa, e isso a deixou
irritada. Está bem, Louie ... vamos continuar nesse jogo até o fim.
Louie estava atravessando o vestíbulo em direção ao restaurante, quando
o funcionário da recepção o chamou.
- Uma carta chegou esta manhã, monsieur.
Louie reconheceu imediatamente a letra. Era de Molly. Se ele precisava
de alguém neste mundo, era de Molly. Os meses em que ela estivera
ausente lhe tinham parecido uma eternidade. Mas, quando Louie leu a
carta, ficou chocado. Realmente ela tinha intenção de deixá-lo
permanentemente... Talvez houvesse encontrado alguém. Molly era uma
mulher muito bonita e sensual. Que diabo, ele ia fazê-la voltar de
qualquer maneira. Não mais se importava de sair ganhando ou não naquele
jogo entre os dois. Queria apenas Molly de volta.
Querida Molly:
Já estamos separados há muito tempo e não vou continuar nessa tolice.
Amo você mais do que nunca... no meio da noite estendo os braços,
esperando senti-la junto de mim, depois acordo com a lembrança de que
você me abandonou.
Não fui o pior marido do mundo. E, se não fui o melhor pai, você sabe
que não foi porque eu não o quisesse ser. Já passamos juntos muitos
momentos difíceis, que não vou mencionar aqui. Fiz o melhor que pude, e
no fundo do seu coração você sabe disso.
Não vou implorar, mas se você é a mulher que eu sei que é, voltará para
o meu lado, que é o seu lugar. Nunca faço promessas e não as farei
agora. Tenho feito muitos exames de consciência. Vou vender o cavalo e
prometo nunca mais jogar. Meu cargo no cassino basta de sobra para
termos uma vida confortável.
Só lhe peço uma coisa, e sei que me dará razão. Por enquanto, matricule
Sara num colégio muito bom, depois volte e procure uma linda casinha.
Decore-a como quiser, e então mandaremos buscar nossa querida filhinha.
Assim, de uma vez por todas, seremos uma família. Esta é a minha
promessa. Mas, Molly, preciso de sua força para me inspirar, para me
impedir de voltar ao meu vício. Lembre-se de uma coisa - eu a amo mais,
amo vocês duas, mais do que posso exprimir em palavras. Escreverei a
Sara para garantir-lhe que não vai demorar muito o dia em que estaremos
os três reunidos. É compromisso que assumo.
Com todo o meu amor, Louie
Entre lágrimas e promessas, Sara foi de novo instalada num pensionato.
Não era um colégio tão caro ou seleto, mas tinha um afável ambiente de
família - o que ajudou a abrandar o sentimento de culpa de Molly. Pelo
menos Sara seria bem-tratada e, sobretudo, não abusariam dela.
A reunião de Molly com Louie pôs de lado quaisquer vacilações que ela
tivesse sentido, quanto ao futuro dos dois. Era aquele o seu lugar,
Louie era o seu lar.
Passaram vários meses muito felizes, planejando o dia em que Sara ia
poder voltar. Mas Louie, inevitavelmente, estava se tornando inquieto;
abster-se de jogar era praticamente acima de suas forças. Acumulavam-se
despesas para decorar a casa que tinham comprado; entretanto, ele
continuava comprando mais, querendo mais... sempre mais.
Eventualmente, apesar das promessas, Louie voltou a jogar...
Naturalmente, Sara nunca soube das intermináveis discussões, lágrimas e
reconciliações entre Molly e Louie. No decorrer dos quatros anos
seguintes, ela recebeu cartas de Monte Carlo, Paris, Nova York, e
finalmente ficou sabendo que Louie tinha comprado um pequeno mas
elegante hotel em Seattle, Washington. Foi só muito mais tarde que
soube que o amor de sua mãe por Louie finalmente se esgotara. Molly
agüentara de Louie muitos fracassos e promessas não cumpridas; sem
perspectivas à vista, o charme dele acabou por desgastar-se
completamente.
Quando ela o deixou, dessa vez para rumar para Oakland, Califórnia,
ambos sabiam que a separação agora seria definitiva. Morris, o irmão de
Molly, vivia com a mulher em Oakland, e ela esperava ali conseguir um
emprego. Tudo o que lhe restava era o dinheiro suficiente para pagar a
passagem de Sara para a América e a sua própria até Oakland.
A princípio Sara tinha sonhado com todos os lugares visitados por Molly
e Louie, o quanto seria feliz, quando se reunisse a eles, e em todas as
coisas boas que lhe haviam prometido. Mas suas fantasias e sua fé nas
promessas de Molly foram gradativamente desaparecendo. Com todas as
viagens e despesas que o casal fazia, parecia nunca sobrar dinheiro
suficiente para mandar buscá-la.
Sara nunca imaginara permanecer por muito tempo na escola, e assim
manteve-se afastada das colegas. E, quando percebeu que talvez sua
permanência se prolongasse indefinidamente, já era um pouco tarde para
fazer amizades. Além disso, as visitas que as meninas recebiam dos pais
e o que contavam das férias passadas com as suas famílias só vinham
reforçar a sensação de Sara de não estar sendo desejada.
Quando ela recebeu a carta de sua mãe, com carimbo de Oakland,
Califórnia, EUA, teve mais curiosidade em localizar Oakland do que de
tomar conhecimento do conteúdo do envelope. Havia 10 anos que vinha
lendo variações da mesma carta, e as velhas frases nada significavam se
comparadas à esperança que a vida subitamente lhe oferecia. Finalmente,
Sara estabelecera contato com a única pessoa que talvez ainda a
quisesse, e, por uma vez na vida, recebeu uma promessa que não lhe
pareceu vazia. Atirou de lado o envelope fechado e sentou-se para dar a
notícia à sua mãe.
Querida mamãe:
Não posso continuar vivendo assim, sem esperança alguma. Os parentes de
meu pai aqui em Bruxelas me deram o endereço dele e temos nos
correspondido. Não somente ele me quer, como me remeteu o dinheiro de
minha passagem para a América. Sinto que finalmente terei um lar, onde
serei amada.
Passei toda a minha infância numa terrível expectativa. Entretanto,
agora que sou uma mulher de 15 anos, aceitei o fato de que você nunca
tencionou me ter a seu lado. Sempre soube, no fundo de meu coração, que
você e Louie achavam que eu não passava de um estorvo. Agora é preciso
que eu tente fazer algo da minha vida, e papai vai me ajudar. Só
lamento que isso não tenha acontecido antes.
Quero que saiba que eu ainda a amo e sempre a amarei. Mas agora você e
Louie não terão mais de se sacrificar por mim. Espero que tudo em sua
vida esteja correndo bem. Prometo escrever-lhe quando chegar a Nova
York, que é onde papai mora. Incidentalmente, ele tornou a casar-se e
está muito feliz, como espero que você também esteja. Com o mais
profundo amor e afeto, Sara
Quando Molly recebeu a carta, veio-lhe primeiro o choque, depois as
lágrimas. E mais e mais, até ela pensar que ia morrer de tristeza. Ao
que parecia, sua filha tornara-se uma estranha.
#break Capítulo Quatorze
Sara foi recebida em Nova York por seu pai. Entre as suas memórias e
fantasias, ela o imaginava um belo cavalheiro de cabelos negros, com
lindos olhos sorridentes. Embora a mudança da aparência física dele
fosse mais do que surpreendente, a surpresa da filha desfez-se, quando
os dois se abraçaram, sem tomar conhecimento da multidão à sua volta no
cais.
Logo Sara pôde apreciar Nova York pela primeira vez, ao encaminhar-se
com seu pai para o metrô, que os levaria à Zona Leste da cidade. O
bairro pareceu-lhe um carnaval: vendedores ambulantes em todas as
calçadas, crianças meio nuas ou vestidas de trapos correndo pelas ruas,
judeus vestidos com longos casacos e chapéus pretos de aba larga sobre
os cachos pendentes na frente das orelhas, mães sentadas à soleira de
portas de prédios mal conservados. Havia colchões nas escadas de
incêndio e varais com roupa estendida passando de um prédio para outro.
O ar era permeado do cheiro de lixo fermentado, conserva de pepino,
arenque, e os pretzels retorcidos e salpicados de sal grosso. Os gritos
dos vendedores ecoavam nas ruas, e Sara ouviu cânticos estranhos vindos
de janelas abertas. Como tudo era extraordinário, realmente
extraordinário...
- Sara, antes de levá-la para casa, eu gostaria de uns poucos momentos
com você a sós.
Oh, como ela adorou o sorriso de Harry, suas faces rosadas, seu cabelo
quase prateado, sua afável barriga arredondada... Ele lhe lembrava Papai
Noel na época do Natal em Bruxelas.
- Oh, sim, papai, eu também gostaria muito.
Então entraram no restaurante de Esther Sandsonitsky. Quando esta lhes
trouxe o sorvete de creme e torta de maça, Harry disse:
- Não é incrível, Esther? Esta é minha filha.
- É sempre bom quando os filhos voltam para os pais - comentou Esther,
sorrindo.
Quando Esther voltou para a cozinha, Harry disse:
- Não sei... não sei como explicar esse milagre. Sei que pareço uma
vitrola tocando sempre o mesmo disco... mas como isso pôde me acontecer?
- É um milagre, papai. Mais para mim do que para você... - Ela mal podia
tirar os olhos de cima do pai. Era como se nunca houvessem se
separado... - Milagres acontecem, papai.
- Querida, quero lhe dizer umas poucas coisas, antes de levá-la para
conhecer minha mulher.
- Sim, papai?
- Bem, minha mulher. . . o nome dela é Lisa. . . é realmente uma boa
pessoa. Mas, à primeira vista, parece um pouco distante. É alemã e não
dá muita demonstração do que sente. . . Isso não significa que não seja
afetuosa, mas tem uma espécie de... dignidade, que você poderia
interpretar de maneira errada.
Ocorreu a Sara a lembrança da Sra. Bromberg, e ela disse:
- Papai, não quer ser franco comigo? Ela não queria que eu viesse, não é
mesmo?
- Isso não é verdade. . . Ficou muito feliz quando lhe contei...
- Então por que acha que tem de explicar-me o temperamento dela?
- Bem, o fato é que. . . sua mãe é uma pessoa muito afetuosa, emotiva e
não quero que você. . .
- Faça uma comparação entre as duas?
- É exatamente o que quero dizer.
- Bem, tem razão a respeito de minha mãe. Mas, como sabe, nunca vivi com
ela o tempo suficiente para sentir o seu grande afeto. Não quero ser
dura, mas a verdade é que ela nunca foi muito mãe para mim, como
calculo que nunca tenha sido muito mulher para você.
Harry tentou não deixar transparecer suas amargas recordações.
- Ouça, meu bem, seja lá como for, acho que ninguém pode ser diferente
do que é. Quero apenas lhe dizer que minha mulher vai ficar muito
contente com a sua vinda...
Pobre Harry, faltava-lhe coragem para dizer à filha que ela não era
bem-vinda.
- Eu compreendo, papai. Pode ficar certo de que serei muito gentil e
obediente. Pretendo, pelo meu lado, fazer tudo para tornar a nossa vida
o mais agradável possível.
O pai olhou para ela. Aos 15 anos, Sara era realmente uma mulher...
compreendia as coisas, parecia ter adivinhado que ele tivera de
persuadir Lisa a consentir na sua vinda.
- Você é urna jovem muito compreensiva, Sara.
- É porque tive o privilégio de conhecer toda espécie de pessoas. Não se
preocupe, papai. Vou me dar bem com a sua mulher... confie em mim. -
Confio, querida... - respondeu ele, sorrindo. - Acho que já lhe disse
que ela tem uma loja de delicatessen na Rua Rivington, e depois da
escola talvez você pudesse ajudá-la. Sara sorriu-lhe. Ao que parecia, a
Sra. Bromberg tinha revivido e estava morando na Rua Rivington...
- Claro, papai, terei muito prazer em ajudá-la...
A descrição que Harry tinha feito de sua mulher era bastante precisa.
Embora fosse bem mais bonita e talvez menos temível do que Sara
imaginara, ainda assim a nova Sra. Harry Edelstein era uma mulher que
não tolerava desafios à sua autoridade. Sim, era de novo a Sra.
Bromberg, um pouco mais magra, porém. . .
A vida em família não tornava mais fácil a adaptação de Sara, que não
conseguia habituar-se aos ruídos e odores. . . Mais uma vez, era forçada
a ter paciência. Dentro de poucos anos, dizia para si mesma, poderia
arranjar um emprego e viver fora dali. A baixa Zona Leste não a
agradava. Queria vir a ser alguém. Começou a estudar datilografia...
mas esse sonho era para um futuro distante. Seu pai a aceitara, e por
enquanto isso devia bastar-lhe.
No primeiro sábado, quando ela compareceu ao shul e sentou-se ao lado de
Lisa, sentiu-se estranhamente deslocada. Não era como as sinagogas que
conhecera antes; parecia mais uma loja com uma galeria alta para as
mulheres se sentarem, separadas dos homens instalados na parte de baixo.
Tudo era estranho, tudo, exceto o outro lado da cidade. Por muito tempo
ela não conseguia imaginar como gente, vivendo tão perto da grande arte
e do que havia de melhor em teatro, não demonstrasse interesse em
freqüentá-lo. Era verdade que custava dinheiro, mas as pessoas, com quem
tinha contato agora, nunca faziam nada, mesmo as coisas gratuitas, como
caminhar pelo Central Park. Ela era uma recém-chegada e já vira mais de
Nova York do que seus novos conhecidos. Naturalmente, seu pai era
diferente. Já vira muita coisa em outros tempos, mas agora passava os
dias cortando em fatias salames e carne enlatada para Lisa. Pobre
homem... Que trabalho lhe seria adequado? "Oh, papai", pensava Sara,
"se pelo menos não houvesse sido tão impetuoso quando jovem, eu podia
muito bem ser agora uma moça rica em vez de uma criada." Mas ela sabia
que existia um mundo lá fora e que um dia ele seria seu...
Sara completava 16 anos naquele dia, quase um ano depois, porém não foi
uma data feliz. Abriu o embrulho que sua mãe lhe mandara e olhou para o
chapéu e a carta. As palavras na carta eram sempre as mesmas, e sua mãe
também sempre a mesma. Isso nunca mudaria. Mas outras coisas tinham
mudado. E como, meu Deus!
No dia anterior, seu adorado pai fora espezinhado pelo cavalo de um
vendedor ambulante. O cavalo empinara, quando Harry atravessava a rua. A
única bênção fora ele ter morrido instantaneamente. Com sua morte,
todos os sonhos de Sara foram enterrados dentro do caixão de pinho do
pai.
Depois dos dias de luto, Lisa disse:
- Agora que seu pai se foi, Sara, preciso do quarto. Vou alugá-lo a um
hóspede.
- O que sugere que eu faça. . . quero dizer, onde posso ir morar? -
perguntou Sara.
- Gittel gosta de você. Talvez ela lhe arranje um lugar em casa. Sara
hesitou um instante, antes de perguntar:
- Meu pai deixou alguma coisa para mim? Quero dizer...
- Sei o que quer dizer. Mas devo informá-la, minha cara, de que seu pai
não era meu sócio. A loja era minha, quando me casei com ele, e tudo o
que ele possuía vinha de mim. Desde os sapatos que calçava à comida que
comia...
Hershel era aparentado com Lisa e, quando Sara contou a Hershel e Gittel
o seu problema, eles ficaram indignados e persuadiram Esther a receber a
jovem.
E foi assim que aconteceu estar ela diante da pia da cozinha de Esther,
quando Jacob a viu pela primeira vez.
#break Capítulo Quinze
Apesar da curiosidade que Sara despertara em Jacob, ele não tinha
correspondido à sugestão de Shlomo para que tivesse mais caridade e
compreensão em consideração aos problemas da moça.
Todas as manhãs, eles se cruzavam no corredor estreito, quase colidindo,
e aquele contato só fazia acentuar o seu antagonismo. Ao jantar, sentado
diante dela, ele se irritava pensando que sua mãe a tratava como se
fizesse parte da família. . . O que fazia ela para morar e comer à custa
do suor de Esther? Lavar os pratos, servir as mesas? Grande vantagem! E
não só tinha casa e comida gratuitas como ainda cinco dólares por mês.
Uma moça de 16 anos não podia arranjar emprego? Sara e Hershel eram da
mesma raça, vivendo à custa do esforço alheio. Jacob fazia questão de
ignorá-la, mas perturbava-o estar constantemente pensando no quanto ela
o desagradava.
Até no trabalho, ele pensava em Sara. Por que ela não prendia os cabelos
num coque em vez de deixá-los soltos, quase roçando nos pratos? Por que
tinha de fitá-lo, quando ele erguia os olhos da comida? Aqueles olhos
castanhos, tão grandes, tão inocentes. . . Já uma vez na vida ele
encontrara uma jovem de olhos inocentes. . . E por que tinha ela tantas
roupas bonitas - o elegante chapéu e especialmente os bonitos penhoares
e camisolas? Desfrutava até o luxo de usar o banheiro da família. A
maioria das mulheres freqüentava os mikva, os banhos públicos. Até mesmo
Gittel, e tinha de dar banho no pequeno Avrum e no recém-nascido
Benjamim na pia, e ou ir até o fim do corredor para usar a privada ou
servir-se do urinol debaixo da cama. A todos esses absurdos
acrescentava-se o de que, embora morando na casa dele e sendo apenas
uma criada, ela o ignorava por completo. Mas que chutzpah (atrevimento).
Nem sequer ia ao shul rezar o Kaddish pelo pai. Teria uma conversa com
Gittel a respeito de Sara.
Um domingo, quando Jacob se achava sentado na cozinha da irmã, tomando
um tônico de aipo, Gittel foi atender a porta. E quem haveria de ser. .
.?
Lá estava ela, vestida como se fosse para uma festa - com um chapéu de
palha debruado de fitas de veludo roxo e flores do campo, uma blusa de
organdi e renda, uma saia azul-marinho e elegantes sapatos de camurça
bege amarrados com cordões de seda. Se Gittel se vestisse assim,
pareceria também uma princesa. . . mas a verdade era que Gittel tinha
classe, mesmo quando usava o seu desbotado vestido de algodão azul.
Jacob levantou-se, deixando por terminar a sua bebida, e despediu-se
beijando a irmã e os sobrinhos. Disse que tentaria vê-la a sós no
próximo domingo, e saiu sem uma palavra para Sara.
As duas moças sentaram-se uma diante da outra.
- Está linda, Sara.
- E você também, Gittel. .. parece tão feliz. É isso que ter um bebê faz
a uma mulher?
- Sim, uma família e um marido carinhoso são as coisas mais importantes
na vida de uma mulher. . . Sara, se eu lhe perguntar uma coisa, você não
vai se ofender?
- Não. O que me quer perguntar?
- Notei que você e Jacob parecem tão... não sei como me expressar...
- Distantes?
- Sim, isso mesmo. Por quê?
- Para ser franca, Jacob tem feito questão de me ignorar. Não entendo o
motivo, e me dá muita raiva. Quem pensa ele que é?
Gittel olhou para Sara. Sabia por que Jacob estava hostilizando Sara:
via Lotte em todas as moças. Mas sabia também que Sara era muito altiva
e independente para tentar uma aproximação. Sara não era como ela.
Quando Hershel entrara na sua vida, tinha sido ela, Gittel, quem, embora
timidamente, rompera as defesas do rapaz. Mas Sara era diferente.
Contudo, Gittel bem gostaria que Jacob começasse a se interessar por uma
jovem... seria tão bom para ele! Finalmente, declarou:
- Ele não a odeia, Sara. Acho até que Jacob gosta de você. Sara riu e
abanou a cabeça.
- Oh, Gittel, se um rapaz gosta de uma moça, ele não se esforça
deliberadamente por ofendê-la. As pessoas não precisam se amar para
serem educadas.
- Sara, um drama aconteceu na vida de Jacob. Estava muito apaixonado por
uma moça, e os dois iam se casar. Então trabalhou dia e noite juntando o
dinheiro suficiente para mandá-la buscar na Europa. Mas ela encontrou
outro homem. Agora ele não confia em mulher alguma. É uma velha
história. Sei que ele está errado, mas se sente ainda muito magoado e
tem medo de tornar a se magoar. Se alguém o compreendesse. . . quero
dizer, uma moça. - Nesse ponto Gittel mordeu o lábio, lembrando-se das
conseqüências do rompimento com Lotte.
- Lamento o que está me contando - disse Sara, parecendo quase
interessada. - Creio que isso explica muita coisa da atitude de Jacob
para comigo, mas ainda assim não acho que ele deva descarregar seus
ressentimentos em mim. Por que haveria de me castigar pelo que aquela
moça lhe fez? Acha isso direito?
- Claro que não, mas parece que Jacob não consegue esquecer-se. Bem,
pelo menos sabe agora que não é porque ele não goste de você
especialmente.
- Sei o que é amar alguém que não nos ama - disse Sara, encolhendo os
ombros. - Ninguém nunca se habitua a essa idéia, mas a vida tem de ser
vivida...
- Já amou alguém?
- Não um homem, mas há muitas espécies de amor, e dói muito quando não
se é correspondido...
- Então você compreende?
- Mais do que compreendia antes. Estou me referindo a Jacob, é claro...
- Então estou feliz por lhe ter contado. . . as coisas ficam mais
fáceis, quando se compreende por que as pessoas agem de determinada
maneira.
- Em alguns casos - replicou Sara, pensando em Molly...
Nessa noite, ela ficou acordada no escuro ouvindo a respiração regular
de Esther e pensou em Jacob. Embora não pudesse ainda reconhecer, Jacob
era o primeiro rapaz que a atraía. Contudo, Sara tinha muitas
restrições com respeito ao sexo oposto, da mesma forma que Jacob, mas
por motivos bem diferentes. Nunca se esquecera daquela noite odiosa, em
que Carl Bromberg tentara violentá-la, e por esse motivo ficara mais do
que grata por Jacob não lhe dar atenção alguma, quando ela fora morar
com Esther. Seus temores logo se dissiparam, ao constatar que Shlomo
era extremamente gentil e delicado, e Jacob o mais rude e arrogante
possível. Agora que compreendia a frieza de Jacob, não lhe desagradava
a idéia de tornar-se sua amiga. Não tinha motivo algum para temer que
ele... Não, na realidade, o que ela sentia era exatamente o oposto...
No sábado, quando voltavam do shul para casa, Sara decidiu que aquele
era o dia de quebrar o gelo entre os dois. Simplesmente, o rapaz
obstinava-se na sua petulância, e, se ela fosse esperar que ele desse o
primeiro passo, isso só ia acontecer quando ela estivesse de cabelos
brancos. Assim, durante o almoço resolveu convidar Shlomo:
- Não gostaria de ir esta noite ao nickelodeonl
Shlomo tinha conversado com Gittel sobre Sara e Jacob e aprovado os
planos da irmã para os dois. O papel da shadchen, a alcoviteira,
assentava bem em Gittel.
- Tenho um compromisso - respondeu ele. - Se eu tivesse sabido antes,
teria desmarcado.
- Fico feliz em saber que tem um compromisso - replicou Sara, sorrindo.
- É bom ter alguém com quem sair. Você gosta dela?
- Bem, eu não diria exatamente que estou louco por ela. Para dizer a
verdade, teria preferido sair com você.
Jacob continuou comendo. Como podia uma mulher como Sara sair com um
menino como Shlomo? Ela já tinha 16 anos...
Nessa tarde, Sara perguntou a Esther se gostaria de ir ao cinema, mas
Esther desculpou-se. Não gostava de Charlie Chaplin, embora soubesse que
ele era judeu. Como podia um ator iídiche representar tais papéis? Para
ela, ator de verdade era Boris Thomashefsky. Se Sara não fizesse
questão, Esther prometia levá-la ao teatro iídiche na semana seguinte.
Jacob partiu com força a perna de galinha. Sem dúvida sua mãe a levaria
ao teatro, e a princesa judia permitiria que ela pagasse as entradas.
Mas, de repente, vieram-lhe à mente as palavras de Shlomo: "Você é um
mensch e um mensch é a melhor coisa que uma pessoa pode ser". . .
Realmente, não iria fazer mal a ele. Como o mais velho da casa, podia
pelo menos zelar para que ela voltasse da rua sã e salva. Sara era muito
criança para andar por aquela vizinhança perigosa. Realmente não devia
ir sozinha ao cinema. Não que ela fosse da sua responsabilidade, mas
ele faria isso por Shlomo. . . Numa voz nada entusiasmada, Jacob
anunciou:
- Está bem, venha. Vou levá-la.
Na penumbra da sala, Jacob olhou de soslaio para Sara. Ela estava
obviamente se divertindo com a comédia, mas ele sentia raiva de fazer o
papel de ama-seca. Não estava sequer olhando para a tela. Mas logo o
espetáculo terminaria, e ele não iria continuar sendo o protetor da
moça. Nem mesmo por Shlomo.
Quando as luzes se acenderam, Jacob teve um rápido sobressalto. Teria
ela notado que ele a estivera olhando? Mas, afinal, que importância
tinha isso? Ao saírem do cinema na noite quente, Jacob perguntou, sem
maior entusiasmo:
- Gostaria de tomar um sorvete?
- Sim, mas eu quero pagar.
Isso foi o bastante. Ele parou e olhou-a de alto a baixo.
- Deixe-me dar-lhe um pequeno conselho. Quando sair com um homem, nunca
queira pagar a despesa, ou ele jamais tornará a convidá-la.
- Obrigada pelo conselho, mas, quando saio com um homem, nunca me
ofereço para pagar.
Ele engoliu em seco. Não muito delicadamente, segurou-a pelo cotovelo e
encaminhou-a pelas ruas movimentadas até chegarem ao restaurante de
Esther. Então correu para o seu quarto e bateu a porta.
- Divertiu-se, Jacob? - perguntou Shlomo, sorridente.
- Olhe aqui, Shlomo, esta noite não quero ouvir as suas teorias
filosóficas. . .
Nos dias que se seguiram, a raiva de Jacob se foi abrandando. Não se
mostrava especialmente amistoso, quando passava por ela na cozinha a
caminho do seu quarto para se lavar depois do trabalho, mas Sara não se
aborrecia com a carranca dele. Uma noite, ao jantar, ela decidiu fazer
nova tentativa.
- Deve ser divertido tomar todos os dias o trem para Nova Jersey.
- Sim, eu gosto - replicou ele, sem levantar os olhos do prato.
- Vou a Coney Island este domingo. Dessa vez ele levantou os olhos da
sopa.
- Coney Island? Sozinha?
- Não, com Gittel, Hershel e as crianças. Por que ninguém o convidara?
- Como é que Gittel vai levar um bebê para a praia?
- Muito simples... de bonde.
- Não foi isso que eu quis dizer.
- O que quis dizer, então?
- Ela... bem, sabe como ela amamenta o filho...
- Mães que amamentam não precisam passar anos dentro de casa, não é
mesmo, Sra. Sandsonitsky?
- Claro que não. Por que não vai, também, Jacob?
Não o tinham convidado, portanto ele não queria aderir ao grupo.
- Não gosto de praias cheias de gente.
- Por que não vem conosco, Jacob? Talvez você goste - disse Sara.
- Não.
- Bem, você é quem sabe.
- Por que não vai, mamãe? - perguntou Jacob.
- Porque a Sra. Lipsky está fazendo shtvah por sua mãe. Do contrário, eu
iria.
- Oh... E você, Shlomo, já que a família...
- Tenho de estudar para as provas finais.
Na manhã de domingo, Jacob decidiu ir. Por que só os outros haveriam de
se divertir? Especialmente Hershel - o trabalhador incansável, o grande
esteio da família. Se alguém precisava de um pouco de distração era
ele, Jacob. Agora estava decidido a ir - e a se distrair de qualquer
maneira.
Hershel e Jacob vestiram os calções de banho listrados, que tinham
alugado, e esperaram na praia pelas moças. Mas elas estavam demorando
tanto que Hershel entrou no mar, segurando Avrum que esperneava e
espirrava água para todos os lados.
Juntamente com as duas cestas de comida, Esther incluíra um pote de
gordura de galinha como proteção contra o sol ardente. Jacob estava
desatarraxando a tampa quando viu Gittel e Sara aproximarem-se. Mas foi
em Sara que ele concentrou o olhar.
A roupa preta de banho dela tão colada ao corpo, tão reveladora... Mas,
ao mesmo tempo, a saia pregueada e o decote oval debruado de branco
davam-lhe um ar de grande distinção. O olhar de Jacob percorreu toda a
silhueta da jovem descendo até os sapatos pretos de borracha amarrados
nos tornozelos de suas pernas esguias, e tornando a subir. Mechas
crespas dos longos cabelos escapavam-lhe da touca fofa, e ela girava no
ombro uma sombrinha. Santo Deus. . . era a criatura mais perturbadora
que ele jamais conhecera. E subitamente desapareceu a lembrança de
Lotte.
- Quer dar um mergulho comigo? - perguntou Sara.
Ele procurou mostrar-se mais calmo e pediu a Deus que o protegesse de
quaisquer sinais do latejamento que sentia entre as coxas. Levantou-se,
espanou do corpo a areia, aceitou a mão que ela lhe estendia e os dois
correram para o mar.
Gittel sorriu. Não a haviam convidado para ir também. . .
Depois do almoço as crianças foram postas a dormir, e Gittel e Sara
arrumaram as sombrinhas para protegê-las do sol. Hershel dormiu logo - o
que não era surpreendente, pensou Jacob. Ele perguntou a Gittel por que
não ia dar um mergulho, dizendo-lhe que se encarregava de vigiar as
crianças. Ela hesitou, depois correu para as ondas, contente de ter uns
poucos momentos de liberdade.
Sara olhou para Jacob.
- Suas costas estão, vermelhas... deixe-me passar um pouco de vaselina
em sua pele antes de você se queimar de verdade.
- Mamãe diz que schmaltz da galinha é melhor.
- Perdão, mas vaselina é melhor.
Jacob fechou os olhos, enquanto ela passava a palma da mão lambuzada de
vaselina pelos seus ombros e lhe fazia uma massagem.
- Obrigado... acho que chega.
- Tem certeza de que não...
- Sim, tenho certeza. - Jacob estirou-se e cobriu de areia o corpo até o
pescoço.
Sara deitara-se tão perto que quase dava para tocá-la. Por entre as
pálpebras semicerradas, ele a observou enterrar a sombrinha na areia
para proteger os rostos de ambos, depois cobrir de areia as pernas, o
estômago e o busto.
Jacob estava bastante intranqüilo. Seus pensamentos eram conflitantes.
Realmente queria antipatizar com ela, realmente... mas. . .
- Não está contente de ter vindo, Jacob?
- O quê?
- Perguntei se não está contente de ter vindo? -É...
- Acho que podia demonstrar um pouco mais de entusiasmo. Por que não
quer confessar que está se divertindo?
- Quem não quer confessar?
- Você. Tem medo de se divertir.
Aquilo era demais. O som da voz dela, deitada na areia tão perto. Jacob
não pôde conter-se mais tempo.
- Sara.
- Sim, Jacob.
- Acho que devíamos nos casar.
- Acha mesmo? - Acho.
- E quando foi que tomou essa decisão?
- Há um minuto atrás. - Ele esperou. - E então?
- Acho que poderia ser uma boa idéia.
- Foi o que pensei.
Jacob saltou para fora da sua coberta de areia, e subitamente estendeu a
mão a Sara e a fez levantar-se. Com seus corpos ainda cobertos de areia
tomou nos braços e a beijou com uma força que surpreendeu a ambos. Era
difícil, bem difícil, mas ele conseguiu dizer:
- Amo você... Sara.
Tornou a beijá-la. Aproximando-se, Gittel compreendeu de relance a cena
e sorriu.
- Avrumchik - disse Jacob, erguendo nos braços seu sobrinho mais velho -
diga alô a Tia Sara!
Sara beijou a face gorducha e então virou-se para Gittel: as duas se
abraçaram.
- Está vendo? - disse Gittel. - Eu não lhe tinha dito?
- Disse, sim... Gittel. Estou tão feliz...
Sara e Jacob esperaram o bonde que levaria Gittel e a família para casa.
Os dois namorados iam completar a noite no parque de diversões de Coney
Island.
Jacob segurou-lhe a mão no carrossel e a abraçou com força, quando
despencavam num carrinho da roda-gigante. Os lábios dela tinham um gosto
melhor do que o algodão-doce, e ele a beijava entre uma e outra lambida
no sorvete.
Que dia maravilhoso, pensou Sara. Poucos momentos preciosos ela tivera
na vida, e subitamente veio-lhe o desejo de partilhá-lo com sua mãe.
Tarde da noite sentou-se para escrever a Molly.
Querida mamãe:
A vida funciona de uma maneira misteriosa. Parece que, quando nos priva
de alguma coisa, nos concede outra. Pensei que era o fim de todos os
meus sonhos, quando papai morreu. Enquanto ele estava vivo, eu podia
alimentar minhas fantasias. Como sabe, a minha ambição era tornar-me
secretária. Acho que herdei algo de você - minhas ambições - e, como
você, não suporto mediocridade ou pobreza. Mas não há necessidade de
recordar o passado. Espero que esteja sentada, lendo esta carta. Vou me
casar. Jacob é filho da Sra. Sandsonitsky. Se quer saber se estou
apaixonada. . . sim, muito. Jacob não é o tipo de rapaz que pensei que
me atrairia. É uma pessoa bastante complexa, muito difícil de se
conhecer no começo, menos culto do que eu, mas acho que seremos muito
felizes.
Há algo estranho nele que me atrai. Talvez seja porque sei que também
ele tem grandes sonhos e, com a sua ambição, não duvido que se realizem.
É o rapaz mais bonito que já conheci. Sei que fomos feitos um para o
outro e que juntos, teremos a vida que ambos merecemos. Preciso de um
lar e de alguém que me ame e me proteja.
Lamento saber que você está separada de Louie e em dificuldades
financeiras, e lamento também que não possa vir assistir ao meu
casamento. Mas, por favor, continue me escrevendo. Suas cartas
significam muito para mim. Com amor, Sara
Molly ficou desolada ao receber a carta de Sara. Não ia ter a alegria de
ver a filha no dia do seu casamento. Suas emoções nesse dia lhe
trouxeram de volta muitas recordações penosas. Sabia que Harry abrira
mão de muitas coisas por ela, pensou, com tristeza. Se houvesse sido uma
boa esposa para ele, como o fora para Louie, Harry talvez houvesse
mudado, as coisas poderiam ter dado certo. Se ela não houvesse
abandonado Harry, talvez a vida de Sara fosse bem diferente. A família
de Harry era abastada e talvez tivesse aceito uma neta...
Mas que tolice ficar pensando no que poderia ter sido. Quando ela se
casara com Harry, seus pensamentos eram fantasiosos, turvados como de
costume pelas visões de grandeza, e continuava sempre a mesma. Quando
abandonara Louie e se mudara para Oakland, Califórnia, para estar perto
de seu irmão e cunhada. . . também isso fora fruto de ilusões. Não se
tendo mais visto desde que eram crianças, Molly e Morris praticamente
não se conheciam. Molly não estava habituada a viver na casa de outra
pessoa, e a numerosa prole de Rose lhe irritava os nervos.
Assim, Molly se tinha mudado e alugado um quarto sombrio numa casa de
pensão, mas o emprego que encontrara numa fábrica de chapéus não era
sequer suficiente para manter esse modesto tipo de vida. Pesando o seu
atual destino, Molly começou a arrepender-se de ter deixado Louie. E
remoía uma litania: Louie era bondoso, agradável, a solidão em que ela
vivia, insuportável, sua penúria intolerável... As lágrimas jorravam,
enquanto escrevia a Louie, mas dessa vez foi tarde demais. Ele tinha
morrido de um ataque do coração. O que podia restar da venda do hotel
seria dela, mas nesse momento a única coisa que possuía no mundo era um
par de pequenos brincos de diamante.
Na manhã seguinte ela os foi empenhar e mandou um edredom para a sua
filha Sara, como presente de casamento.
Pelo menos, isso fez com que se sentisse um pouco mais mãe.
#break Capítulo Dezesseis
O casamento veio na hora certa para Jacob. A situação cada vez lhe era
mais difícil com Sara dormindo no quarto contíguo, do outro lado da
parede.
Esther tomou as providências para o casamento, e o shul ficou marcado
para o sábado seguinte, logo depois do cair da tarde.
Os dias pareciam-lhes uma eternidade, mas chegou finalmente o sábado, em
que os dois, sob o pálio de veludo azul, juraram amor eterno. Jacob
ergueu o véu da noiva... que rosto, que rosto! Ela bebeu do copo de
vinho, que o noivo lhe oferecia. Em seguida ele tomou um gole, depois
pisou no copo.
-Mazel tov... mazel tov... - O restaurante de Esther estava repleto de
vizinhos. Um casamento estupendo, uma linda noiva, um garboso noivo, que
gente feliz...
O casal passou o domingo e a segunda-feira de lua-de-mel em Coney Island
- o patrão de Jacob lhe deu um dia de folga com sua bênção e um presente
de casamento de 10 dólares. Depois da lua-de-mel Sara e Jacob
continuaram morando com Esther até encontrarem um apartamento.
Os recém-casados ficaram com a cama de casal de Esther, que passou a
dormir no quarto com Shlomo. O arranjo, embora temporário, não lhe
agradou. Não lhe parecia direito uma mãe estar dormindo no mesmo quarto
que o filho adolescente. Corando no escuro, com o ruído da respiração
ofegante e as molas da cama rangendo do outro lado da parede fina, ela
pensava que ficaria bem contente quando o novo casal arranjasse um lugar
para se mudar. Era como deviam ficar os casais. A sós...
Esther disse uma oração em silêncio, quando Sara lhe informou: - Mamãe,
encontramos um apartamento no bairro residencial de Washington Heights.
Só dois lances de escada e justo ao lado do banheiro. Ficará lindo
quando o arrumarmos, e Jacob gostou muito. Não é mesmo, Jacob?
- É bonito, sim - respondeu ele, sorrindo.
- Onde fica Washington Heights? - perguntou Esther.
- Um bairro muito bom - informou Shlomo.
- Espere só até ver, Shlomo - disse Jacob. - Sara tem tantas idéias
boas. Nunca vi nada tão lindo.
A princípio, Jacob se preocupara com o aluguel. Mas, afinal, ele não era
propriamente um homem pobre, não com 600 dólares no banco, em dinheiro.
. . na caixa-forte. Tinha um bom emprego, seu salário era de 17 dólares
semanais e recentemente seu patrão prometera-lhe um aumento. Assim, por
que não haveria ele de subir na vida? Devia agradecer a Sara por tudo
isso. Ela lhe mostrara um mundo diferente, a que ele tinha direito. Se
não fosse ela, provavelmente acabaria casando-se com alguma moça cujo
mundo era limitado às Ruas Rivington, Ludlow e Delancey. A boa esposa
mostrava a um homem como viver. Quanto a isso não havia dúvida.
Quando o Sr. e Sra. Jacob Sandsonitsky passaram a primeira noite em seu
lar, a casa ainda cheirava a tinta fresca. Sara era realmente espantosa,
pensou Jacob, passando em revista o apartamento. A cozinha era
verde-clara, com esquadrias pintadas de branco, e cortinas de organdi
cruzadas acima da pia. Na borda da janela havia quatro vasos de
gerânios cor-de-rosa, e acima do reluzente linóleo amarelo ficava uma
mesa de pedestal de carvalho claro com pesados pés de garras. Em redor
da mesa, cinco cadeiras de espaldar alto, entalhadas com as almofadas
presas por parafusos de madeira. Jacob estava fascinado com o trabalho
de entalhe. Por um momento se viu de volta a Frankfurt, os cabos de
guarda-chuvas, as lascas de marfim e madeira sobre a mesa da oficina.
Lotte...
Rapidamente, ele entrou no quarto, e o que viu apagou suas recordações.
Percorreu com os olhos as cortinas de imitação de renda verdadeira e o
papel de parede florido, com que eles tanto se tinham divertido
escolhendo e colando, a penteadeira e o espelho oval preso por dois
suportes em forma de meia-lua, o pente, a escova e o espelho de mão
colocados sobre o pano branco bordado. O coração de Jacob teve um
sobressalto, quando ele olhou para a cama alta de metal dourado. Tocou
na colcha de cetim cor-de-rosa, tão convidativa e macia, como o corpo
de Sara. Como Sara.
Essa noite ele iria pousar a cabeça nos travesseiros de pluma dentro das
fronhas brancas de ilhó. Tinha sido caro, mas o que eram 200 dólares
comparados ao que estava recebendo? Em seus sonhos mais grandiosos,
Jacob nunca imaginara viver com tanta elegância. Sara não só despertara
nele o auge da paixão, como lhe apresentara um mundo de cuja existência
ele nunca suspeitara.
O prazer de Jacob só era ultrapassado pelo de Sara. O primeiro
pensamento que lhe ocorrera quando ele a pedira em casamento era que
precisava de um lar e de ser amada. Mas tinha pensado que Jacob era um
rapaz pobre, e agora, que ela adquirira tudo pelo que ansiara durante
tantos anos, sua devoção para com ele crescera ainda mais. Se ao menos
sua mãe pudesse ver como ela estava vivendo...
Na primeira noite de sexta-feira, depois de o jovem casal estar
instalado em seu novo lar, a família foi jantar com eles.
Sara trouxe para a mesa a carpa cozida numa grande travessa de desenhos
azuis. O peixe parecia delicioso, com cenouras cortadas em tiras
dispostas em cima e cercado de salsa. Mas quando Sara começou a servir
seus convidados, o choque foi geral. Ela se tinha esquecido de destripar
a carpa. Contrafeita, tratou logo de tirar a travessa da mesa e trouxe
a sopa de galinha. Mas estava aguada e os bolinhos matzo duros como
pedras. Depois serviu a galinha, mas estava meio crua. O kugel parecia
uma cola, e os tsimmes... Ai, meu Deus, o jantar inteiro era um completo
fracasso! Ela tinha trabalhado desde cedo aquela manhã, pensando em como
Jacob se sentiria orgulhoso. A única salvação foi o bolo de claras, que
provavelmente saíra certo por acaso.
Frustrada e encabulada, ela mal ouvia a conversa da família em seu
redor, tomando chá.
- Eu sabia que era linda, Sara, mas não sabia que era tão prestimosa. O
apartamento está uma beleza, como você - comentou Gittel. Sara sorriu
amarelo. - Então, Jacob, como se sente morando nesta mansão? - perguntou
Shlomo. - Como me sinto? Maravilhosamente bem. - Sara, você é uma tão
boa dona-de-casa! Tudo está tão limpo e arrumado. Ver meu filho vivendo
com tanto conforto e feliz faz transbordar de alegria o meu coração -
disse Esther. De alguma forma, o passado nessa noite lhe parecia bem
próximo e, lembrando-se das provações de Jacob, ela se sentia profunda e
sinceramente feliz por ele. Hershel nada disse. Desejava-lhes o que
eles lhe desejavam. Jacob era um convencido, um pretensioso e ele,
Hershel, estava verde de inveja. E pensou em como devia estar se
sentindo Gittel, vivendo em dois cômodos com dois fíIhinhos.. . Nessa
noite, Sara chorou nos braços de Jacob. - Estou tão envergonhada. O
jantar foi horrível, e eu queria tanto que tudo tivesse saído certo. -
Não foi assim tão ruim - disse ele, enxugando-lhe as lágrimas. - Estava
horrível. - E daí? Foi apenas uma refeição. Você fez tudo pelo melhor e.
. . - Aposto que sua mãe acha que eu o faço passar fome. - Minha mãe não
se importa com essas coisas... bem sabe que ela não é assim. - Mas,
afinal, o nosso primeiro jantar. . . - Como podia você saber cozinhar? -
Pois vou aprender. E serei tão boa cozinheira quanto sua mãe. Vai ver! -
E se não for, continuarei sentindo o mesmo que sinto por você. - Ainda
assim, vou aprender. Nunca mais você poderá dizer que a comida de sua
mãe é melhor do que a minha. - Acha que eu iria jamais fazer
comparações... - Sim, maridos tem o hábito de... - Agora chega, Sara...
Breve as lágrimas secaram... Tudo ficou esquecido quando a colcha de
cetim escorregou silenciosamente para o chão.
#break Capítulo Dezessete
Sara não somente aprendeu a cozinhar, como a agarrar a borda da cama
quando se queria virar. Em seu sexto mês, seu ventre era maior do que o
fora o de Gittel no nono. Tinha as pernas inchadas e engordara 14
quilos. Sentia-se tão mal com a gravidez e o calor opressivo do verão
que ficava de cama a maior parte do tempo.
A gravidez deixara Sara tão abatida que ela escreveu, chamando a mãe.
Jacob, alarmado com o estado de sua jovem esposa, ajudava-a em tudo o
que podia. Sim, ela amava a família do marido, mas de qualquer forma,
nessas horas mãe é sempre mãe .
A resposta que Sara recebeu nada fez para amenizar-lhe a depressão.
Minha querida Sara:
Acredite que nada me deteria, se me fosse possível ir vê-la. Mas abri
uma pequena loja, com o dinheiro que finalmente recebi da venda do
hotel, e não tenho ninguém para me substituir. Querida, se eu não
trabalhar, não como. Espero em Deus que, se as coisas melhorarem e eu
ganhar algum dinheiro, a primeira coisa que farei será ir conhecer o
meu neto.
Espero que quando você receber esta carta, esteja se sentindo melhor. Dê
minhas lembranças ao seu maravilhoso marido. Não me canso de olhar as
fotos do casamento. São a minha maior felicidade. Que Deus continue
protegendo-a. Amo-a tanto e sinto tanto sua falta! Você é agora tudo o
que tenho na vida. Sua mãe
Você é agora tudo o que tenho na vida. . . Quando ela, Sara, jamais
tivera Molly? Sara chorou nesse momento pelas mesmas razões que tinha
chorado na infância. Mamãe nunca estava presente. . . nunca. Mas, pobre
mamãe - viver sozinha devia ser duro, especialmente porque Louie tinha
sido realmente toda a sua vida. Sara experimentou sentimentos confusos
de anseio e de culpa. A vida de sua mãe era mais dura do que a sua. Pelo
menos ela tinha um lar. Tinha Jacob. Chegou novembro e com ele um frio
intenso, que penetrava até no aconchegante apartamentozinho. Sara estava
enrolada no pesado roupão de flanela de Jacob, quando ouviu a porta se
abrindo. Desajeitadamente, conseguiu levantar-se da cama e caminhar
penosamente até a cozinha para receber o marido. Jacob despiu o capote e
pendurou-o no pequeno armário. Sara se pôs na ponta dos pés e beijou-o,
depois notou-lhe uma expressão estranha no rosto. - Jacob? Ele não
respondeu. - Jacob, você está cansado. Venha sentar-se. Vou servir-lhe o
jantar. Ele ficou imóvel, apoiando-se na pia. - Teve muito trabalho
hoje? - Trabalho? Despediram-me. Estou desempregado. .. - Por quê? -
perguntou ela, sentando-se pesadamente. - Por quê? Porque o meu patrão
tem um sobrinho, que chegou sei lá de onde, e tomou o meu lugar. - Mas
você trabalha lá há tanto tempo. - E o que isso significa? O sangue
sempre fala mais alto. Não me deram nem um só dia de aviso prévio. - Não
podia ter aceito por algum tempo um ordenado menor? - Acha que não pedi?
Meu patrão desculpou-se muito, mas disse não, os negócios não iam tão
bem assim para ter mais um empregado. Sabe o que o chutzpah queria
fazer? Dar-me uma carta de recomendação. Eu lhe respondi que podia
limpar o seu traseiro com a carta. Não preciso recomendação de uma
fábrica vagabunda. Oh, Deus, aquele apartamento tão bonito! - Vai
encontrar outro emprego.. . - Com que ordenado? - Paciência, se for um
pouco menos. - Muito menos... não podemos morar aqui, Sara. Ela não
estava ouvindo. O apartamento era o seu primeiro lar. Jacob também
sentia isso, mas a sua amargura era ainda maior quando se lembrava de
como tinha perdido o lar de seus avós, como tinha lutado tanto tempo,
sem que ninguém se preocupasse com ele. Sua experiência de injustiças
não o ajudava a suportar mais aquela injustiça. Pelo contrário... -
Jacob, por favor, não se apresse. Podemos ficar aqui e ver se... A
resposta foi um não, sem rodeios...
Jacob encontrou um apartamento de dois cômodos na Rua Rivington por nove
dólares mensais. Sem dúvida, o apartamento no Heights era lindo, e ele
podia pagá-lo, enquanto estava ganhando um bom salário. Mas agora era
um luxo que não seria mais possível manter. Havia somente 300 dólares
entre sua família e a penúria. Ninguém poderia saber o desgosto que
sentia ajudando Sara a subir os três lances de escada. A humilhação era
tão grande que ele mal podia olhá-la nos olhos.
A cozinha era cinzenta, com manchas de gordura nas paredes. O quarto era
pequeno e dava para uma ruela. Os móveis e pertences do casal pareciam
ridículos naquele ambiente, sobretudo a colcha de cetim e as fronhas
debruadas de renda. O toalete ficava no final de um corredor estreito.
Um prédio como aquele merecia ser destruído por um incêndio, pensou
Jacob. Os milionários dos bairros elegantes estavam ficando mais ricos à
custa da miséria de gente como ele.
Em 30 de novembro de 1910, Sara deu à luz uma meninazinha loura e de
olhos azuis, após 18 horas de dores tão insuportáveis, que a fizeram
jurar nunca mais ter outro filho.
Jacob nunca tivera dúvida de que um homem de sua virilidade pudesse ter
senão um filho homem. Até Hershel podia fabricar filhos. Mas quando
tomou nos braços a garotinha, sua decepção desapareceu - ela era sua, e
o amor que sentiu foi o maior que jamais experimentara. Para grande
irritação de Sara, a menina recebeu o nome de Rachel, em homenagem à
avó de Jacob. Ela argumentou com Jacob que sua filha devia chamar-se
Denise, mas a vontade dele prevaleceu. Quando olhou para a criança
mamando em seu seio, ela sentiu quase ciúme da afeição que Jacob
demonstrava pela filha. Mesmo no auge da paixão, ele nunca lhe dera
tanta ternura. Sara sentiu-se abandonada, rejeitada. Tinha suportado a
longa gravidez e as dores do parto por causa de Jacob, mas agora, o
prazer de ser pai parecia tê-lo roubado dela...
Nas semanas que se seguiram, Jacob passou todos os dias procurando
emprego. No final de uma tarde, voltou para casa e encontrou Sara como
de costume, vestida com um pesado suéter, junto à pia, preparando o
jantar. Ela ergueu os olhos. - Então.. . arranjou emprego? - Arranjei. -
Mazel tov. Onde? - Numa fábrica de cabos de guarda-chuva. - A presença
do Sr. Mendlebaum estava viva na memória de Jacob. - Calculo que esteja
contente. . . já que costumava ser o seu ofício. Quanto é o ordenado? -
Nove dólares por semana. - Gosta do emprego? - Se gosto? É um
trabalho... O que temos para o jantar?
- Almôndegas. Onde é o emprego?...
- Na Zona residencial onde moramos antes.
E foram cada um para o seu lado, ela para o fogão, Jacob para ver a
fiIhinha...
Os dois anos seguintes escoaram lentamente para Sara e Jacob, mas se mal
notavam a passagem do tempo, não era porque a vida houvesse melhorado. A
infelicidade de Sara resultava em discussões, depois em silêncio
absoluto. Jacob mostrava-se agora mal-humorado e retraído. Suas
esperanças, seus sonhos, iam-se reduzindo assim como os de Sara. Ambos
achavam que aquela situação nunca ia melhorar, e de certa forma culpavam
um ao outro.
Sara começou mesmo a punir Jacob - a punição era inconsciente -
recusando-se a ele. À noite, dava-lhe as costas e ficava de olhos fixos
na parede. E ele cada vez mais procurava consolo na filha.
#break Capítulo Dezoito
Surpreendentemente, a vida de Hershel e Gittel melhorara. Hershel tinha
agora um emprego numa loja de penhores na Rua Ludow. Todos os dias ele
saía com uma pequena pasta cheia de brincos de diamantes, alianças e
relógios de ouro, e provava ser muito bom vendedor.
Gittel deu à luz mais um filho, e o casal mudou-se para um apartamento
de três cômodos. Gittel estava feliz. Hershel ganhava bem, e até tinham
conseguido economizar um pequeno capital. Aqueles pareciam os melhores
anos da vida de Gittel.
Esther sentia-se ao mesmo tempo feliz e infeliz. Estava contente com a
sorte de Gittel, mas chorava por Jacob e Sara. Conhecia bem o orgulho
feroz de seu filho e as necessidades de Sara. Se o seu negócio
estivesse melhor, ela lhes teria dado algum dinheiro. Para aumentar sua
preocupação, Shlomo abandonara os estudos secundários no primeiro ano e
fora trabalhar no Mercado de Peixes Fulton. Esther tentara convencê-lo a
terminar o curso, mas ele lhe respondera que sentia-se na obrigação de
ajudar no sustento da família.
Jacob ficou furioso com o insulto que Shlomo lhe fizera, oferecendo a
sua ajuda. Mas quando Shlomo comprava coisas para Rachel, que ambos
adoravam, Jacob fingia não ver.
Foi uma oportunidade inesperada que caiu na cabeça de Hershel. E mais
uma vez coincidiu com o desastre de outra pessoa.
Uma manhã ele entrou na Loja de Penhores Abrams para reabastecer a sua
pasta e encontrou seu patrão caído sobre o balcão. O homem tinha os
olhos abertos, mas, pelo jeito como sua cabeça tombara, Hershel viu que
o Sr. Abrams estava morto. Tomou-lhe o pulso para ter certeza... nenhum
sinal de vida. Hershel ficou ali parado, olhando para o morto, enquanto
sua mente funcionava. . . O Sr. Abrams nato tinha família, nenhum
parente. Quem iria herdar o fruto de seu trabalho? O Governo, mas Tio
Sam não podia ser considerado um parente.
Hershel trancou a porta da loja e baixou a persiana. Depois começou a
encher os bolsos e a pasta com anéis, brincos, relógios, broches - tudo
o que lhe caía nas mãos. Abriu o cofre de metal, tirou todo o dinheiro
que encontrou e colocou-o por cima das jóias em sua pasta. Nervosamente,
fechou a pasta e correu para casa.
Apesar do dia frio, ele chegou ao seu apartamento encharcado de suor.
Gittel estava tão ocupada com os filhos que não o viu entrar. Hershel
correu para o quarto, onde podia ficar sozinho. Tinha muitas perguntas
urgentes a responder para si mesmo. O que devia fazer com a pilhagem?
Onde escondê-la? A polícia suspeitaria dele e o interrogaria? Hershel
advertiu a si mesmo. . . por que estava tão perturbado com tudo aquilo?
Quem sabia a quantidade de mercadoria que o Sr. Abrams possuía? Nem ele
próprio, apesar de ter trabalhado para o Sr. Abrams. O seu pátrio não
tinha uma relação da mercadoria em sua loja, e Hershel estava certo de
que só se apossara de jóias, cujo prazo de resgate já se esgotara havia
muito tempo. Talvez ele não devesse ter agido tão apressadamente, mas o
que estava feito estava feito. Porém, onde esconder as jóias? No
armarinho sob a pilha de roupas usadas? Não era seguro, mas seria um
esconderijo provisório. Hershel foi para a cozinha e sentou-se à mesa.
Benjamim subiu no colo do pai e encostou a cabeça no peito dele.
- Quando vai lavar as roupas do armarinho, Gittel? - perguntou ele.
- Quando eu tiver tempo. Para dizer a verdade, tenho estado tão ocupada
que quase me esqueci, mas vou lavá-las amanhã. Você tem bastante... -
Nenhum problema. . . Ouça, Gittel, tenho uma coisa para lhe dizer.
Sente-se. - O que há com você, Hershel? Espere um pouco, vou dar um chá.
- Não. Preste atenção, Gittel. Tenho uma coisa muito triste para lhe
contar. O coração de Gittel disparou. Seria a sua mãe? - Triste,
Hershel? O que... - O Sr. Abrams faleceu. Quando fui apanhar as jóias
esta manhã, encontrei o pobre homem morto. - Oh, meu Deus, ele era uma
pessoa tão boa. Coitado, não tem ninguém nem para dizer o Kaddish por
ele. É triste quando não se tem filhos. Que sorte nós tivemos... As
palavras de Gittel fizeram com que ele se lembrasse da noite do
nascimento de Avrum, quando Jacob se debruçara na escada e lhe dissera:
"Você tem um filho. Quando morrer terá alguém para dizer o Kaddish no
seu enterro." Mas olhou para Gittel e continuou a falar apressadamente:
- É triste mas o Sr. Abrams teve uma boa vida. Se não tomou
providências, farei isso por ele. Agora, naturalmente, Gittel, terei de
arranjar outro emprego. - Ela não tinha pensado nisso e de repente
entrou em pânico. - O que vai você fazer? - Não se preocupe, Gittel. Vou
ganhar minha vida. Confie em mim. Não passaremos fome. - Aconteça o que
acontecer, Hershel, nada importa, desde que continuemos todos juntos. -
Sim - concordou ele. - Agora tenho de ir cuidar do Sr. Abrams. Que
descanse em paz, um homem tão bom. Depois de entrar na loja, Hershel
saiu correndo e aos gritos chamou um policial. - Meu Deus - disse ele. -
Mal posso acreditar. Ontem ele parecia tão bem... - Assim é a vida -
retorquiu o policial. - É do que morrem as pessoas ... de viver. - O que
vai acontecer agora? O que devo fazer? - Não faça nada. . . não toque em
nada. Conhece a família do morto? - Ele não tem ninguém. Mas eu era como
um filho e gostava muito dele. - Sim, é duro, mas todos temos de morrer
um dia. - O que vai acontecer com a loja? - Suponho que o delegado ponha
um cadeado na porta, mas primeiro tenho de notificar meu chefe para
chamar o médico-legista. - O Sr. Abrams e eu nunca tocamos no assunto,
mas não sei nem se ele cuidou... - Sim, dos detalhes para o enterro. Já
conheço a sua gente bastante para saber que certas providências têm de
ser tomadas. Dê-me o seu endereço no caso de precisarmos entrar em
contato... Hershel assistiu ao funeral do Sr. Abrams, depois esperou uns
dias cheio de medo e ansiedade.
A quantidade de jóias que o Sr. Abrams tinha armazenado deixou perplexos
os policiais, que fizeram o inventário. Somente as moedas de ouro valiam
uma fortuna, informaram eles a Hershel. Hershel quase morreu de raiva
por ter sido tão honesto, mas finalmente pôde suspirar de alívio.
Ninguém o interrogou nem suspeitou dele. E por que haveriam de
interrogá-lo? Certamente não se tratava de um crime. Fora um ataque do
coração.
Quando se encerrou o caso do Sr. Adams, Hershel considerou que era
seguro levar sua mercadoria para um receptador e convertê-la em
dinheiro. A quantia causou-lhe um choque - 570 dólares, não incluindo o
dinheiro vivo que apanhara no cofre. Sentiu-se um milionário.
Nessa noite, ao jantar, ele disse:
- Gittel, economizei algum dinheiro. Sempre me preocupei com a
possibilidade de perder o meu emprego, e um homem só deixa de se
preocupar quando se torna o seu próprio patrão.
- Isso é bem verdade - disse ela, com um suspiro.
- Pois bem, agora vou ser o meu próprio patrão.
- Você? Oh, Hershel, isso me deixa tão feliz. Conte-me...
- Calma. Vou lhe contar. Vou me estabelecer num pequeno negócio e vamos
nos mudar.
- Quer dizer para um apartamento mais barato até. . .
- Não. Vamos nos mudar de Nova York.
- Mudar de Nova York? Por que, Hershel?
- Que tipo de negócio poderia eu estabelecer aqui? Outra delicatessen?
Não tenho uma profissão definida e não posso. . .
- Mas a minha família. . . a sua família, Hershel. Como podemos partir e
deixá-los para trás?
- Pensei nisso, claro que pensei. Mas o nosso futuro não é aqui.
Silêncio. Gittel estava com medo de perguntar, com medo da resposta.
- Para onde, então?
- Para Cleveland.
Enquanto Gittel se recuperava do choque, Hershel pensava na decisão que
tomara. Se se estabelecesse ali, as pessoas iam se perguntar onde tinha
ele arranjado tanto dinheiro, e não podia correr esse risco. Às vezes,
acordava durante a noite encharcado de suor, com medo que a polícia
descobrisse a pilhagem.
- Escute, Gittel, estou pensando nos nossos filhos. Aqui não é um bom
lugar para criá-los. Vão crescer sem nunca ter visto uma árvore. Que
chance temos aqui? Nenhuma. Pensei em Cleveland porque não é muito
longe para a sua mãe tomar um trem. Ela pelo menos poderemos viver como
seres humanos.
- O que o fez pensar em Cleveland? - perguntou ela, curiosa.
- Conheço um homem que se mudou para lá. Encontrei-o por acaso no outro
dia, quando veio visitar os pais, e ele disse que Cleveland tinha sido a
melhor decisão de sua vida. É uma cidade esplêndida e a sua mulher está
muito feliz.
Oh Deus!, pensou Gittel. Ela teria de deixar sua mãe, os irmãos, Sara e
a pequena Rachel... Por que a vida era tão complicada?
- Quando vamos partir?
- Eu vou primeiro. Quero arranjar um lugar para morarmos e organizar
meus negócios.
- E quando você vai?
- Amanhã.
Gittel estava sentada diante de Esther no restaurante, e as crianças
brincavam numa mesa ao lado. - Não estou me queixando, mamãe, mas não
consigo entender por que Hershel nos quer levar para Cleveland. Não acha
que ele poderia ter um pequeno negócio aqui?
- Sim, podia, mas no fundo do meu coração sei que Hershel tem razão. Não
creio que exista um lugar pior do que este. Quando cheguei da minha
terra, odiei isto aqui. A Zona Leste serve só para vagabundos... e não
gostei nada de ter de criar Shlomo neste ambiente. Se ele deu boa coisa,
foi só pela graça de Deus...
- Há também boas famílias aqui, mamãe.
- É verdade, mas estariam melhor em algum outro lugar. Escute bem,
Gittel, sou inteiramente favorável a Hershel. É maravilhosa a
preocupação que ele demonstra ter pela família. No final das contas, é
um bom marido, um homem muito bom. Vá de coração leve. Hershel tem
razão.
- Eu sei, mas é que gosto muito de você e da minha família, mamãe, e
pensar que não vai mais ver meus filhos me dói o coração.
Esther tinha pensado também nisso e chegara a uma decisão.
- Sabe de uma coisa? Quando vocês estiverem instalados, vou vender o
restaurante. O que ganho aqui, posso ganhar em Cleveland. Economizei uns
poucos dólares durante esses anos. E quando estivermos morando lá,
Jacob poderá também se mudar. Por que não? A família estará de novo
reunida. Sabe de uma coisa, Gittel?
- O que, mamãe?
- De repente sinto-me cheia de esperança. É incrível que seja Hershel o
causador de uma tão grande mudança na vida da família. . .
Três semanas depois, Hershel mandou buscar Gittel e os filhos. Ao
chegarem, ficaram parados na calçada diante de uma loja nova, e Hershel
apontou-lhes a placa acima da porta - "ARMARINHO HAROLD".
- Por que Harold? - perguntou Gittel, derramando lágrimas de felicidade.
- Por que não? Uma vida nova, um novo nome... estamos na América. Harold
Jablon tinha emergido, e Hershel Jablonsky desaparecido. Gittel abraçou
o marido, enquanto ele enfiava a chave na fechadura e encaminhava sua
família para os fundos da loja, em direção a um apartamento de cinco
peças.
Dois anos depois Esther vendeu o restaurante. Do momento em que a venda
foi completada até a hora da partida, ela não se cansou de repetir a
Shlomo que as suas oportunidades eram em Cleveland. Só vendo como
Hershel estava se saindo bem. As crianças viviam ao ar livre e
juntamente com a nova filhinha, Bertha, iam crescer entre pessoas
civilizadas. Não estava Shlomo ansioso por ver os filhos de Gittel?
Sim, mas se Jacob não podia ir, ele tampouco iria.
- Algum dia Jacob irá para Cleveland. Por que está sendo tão teimoso,
Shlomo? - Porque Jacob também precisa de uma família. Se todos se forem,
ele vai se sentir muito só. Esther abanou lentamente a cabeça. Como de
costume, Shlomo tinha razão. O pobre Jacob se sentiria abandonado.
Naquele momento, pareceu a Esther que seus filhos eram mais
inteligentes do que ela jamais o fora...
Antes de tomar o trem na Estação de Pensilvânia, Esther olhou de um
rosto para outro. Sentia-se dividida e de repente se lembrou da primeira
vez em que deixara os filhos. Teria Jacob realmente a perdoado? Às
vezes, ela tinha dúvidas. Mas não podia estar em dois lugares ao mesmo
tempo. Mais uma vez, a vida lhe traçara um rumo...
A despeito de si mesmo, Jacob também estava se lembrando daquela
primeira separação. Gittel sempre vinha em primeiro lugar.
Os pensamentos de Sara estavam voltados para Hershel, que sempre fora
alvo das críticas da família. Agora, enquanto Hershel estava dando uma
vida confortável aos seus, Jacob, forte como um touro, continuava
entalhando cabos de guarda-chuva e ganhando nove dólares por semana. Não
havia justiça neste mundo. Apesar de sua educação esmerada, Sara vivia
na penúria, e Gittel, que nunca freqüentara uma escola, estava tendo
tudo do bom e do melhor. Sara e sua mãe tinham algo em comum - ambas
estavam sempre escolhendo o homem errado.
Três semanas depois, eles receberam uma carta de Esther, em que ela
incluía uma foto da fachada de uma loja e a tabuleta acima da porta:
"ARMARINHO ESTHER SANDERS."
Em que outro lugar do mundo isso poderia acontecer senão na América?...
#break Capítulo Dezenove
No dia em que Sara descobriu que estava grávida, Jacob lhe contou que a
Alemanha declarara guerra à França e à Inglaterra. E ela chorou não por
causa da guerra mas porque não queria aquele outro filho. Tivera tanto
cuidado de não engravidar, chegando mesmo a desencorajar os ardores de
Jacob. Mas algo estava errado na sua vida. Na verdade, tudo lhe saíra
errado desde o dia em que nascera, e por que haveria de ser diferente
agora?... Quando ela escreveu à mãe a respeito da sua situação, e Molly
respondeu que os filhos traziam sorte, Sara teve vontade de gritar. Se
traziam tanta sorte, por que Molly desdenhara no seu caso essa sorte?
Depois censurou a si mesma. Molly lhe mandara algum dinheiro, embora
mal conseguisse sustentar-se com a pequena loja que dirigia, e doía a
Sara pensar em sua mãe vivendo nos fundos de uma loja.
Sara deu à luz uma segunda menina em 10 de janeiro de 1915. Por mais que
tentasse, simplesmente não conseguia aceitar o fato de que tinha apenas
22 anos e já carregava o peso de duas crianças e de um marido sem
futuro. Engordara tanto depois de ter suas filhas, que jurava que nunca
mais teria outro filho. Não tinha nada em comum com as mães que se
sentavam nas soletras de portas e discutiam a vida de todo mundo menos
as delas próprias. Sara ansiava por se libertar daquele ambiente. Assim,
de quando em quando, por puro desespero, tomava o metrô com Rachel e a
filha mais nova e ia dar uma volta no outro lado da cidade embora mal
tivesse o dinheiro das passagens.
Caminhando pela Quinta Avenida, ela pensava como Deus podia selecionar
certas pessoas para possuírem as riquezas e as coisas boas da vida e
destinava outras a sofrerem privações de toda a espécie. Essas
excursões só faziam aumentar seus anseios, tornando quase uma tortura
voltar para casa. O contraste entre seu mísero apartamento e Central
Park, as governantas cuidando de crianças, vestidos de organdi com
largas faixas de cetim cor-de-rosa, as mulheres elegantemente trajadas,
que viviam em mansões - tudo aquilo trazia de volta as promessas que
Louie e Molly lhe haviam feito e as esperanças que ela tivera nos
primeiros tempos de casamento. Mas seu casamento não passava de outra
promessa fracassada.
Jacob não podia deixar de perceber o ressentimento de Sara, mas isso o
fazia sentir-se traído. Ela deveria ser o seu consolo e ajudá-lo a
expulsar de sua mente aquele mundo mesquinho. Ao invés, fazia-o
sentir-se menos do que um homem, um impotente. Era culpa dele, se as
coisas não tinham dado certo? Negara-lhe algum dia qualquer coisa que
estivesse em suas mãos dar-lhe? Não, mas tudo o que ela tinha feito era
tornar a vida ainda mais dura para ele.
Uma noite, o ressentimento de ambos explodiu numa discussão. Sara mais
uma vez se referira aos sucessos de Hershel.
- Estou farto de ouvir sempre a mesma coisa. - Jacob empurrou de lado o
prato, levantando-se da mesa e se colocou de pé diante dela. - Você
devia ter-se casado com um milionário. Tem mesmo muito do que se
queixar. Quando nos casamos, que dote me trouxe? Comprei-lhe até o
vestido de casamento. O que sua mãe jamais fez por você. . .
- Não fale mal de minha mãe.
- Porque a verdade dói?
- Sabe tão bem quanto eu que ela não tem nada.
- Tinha o bastante para sustentar um gigolô. Sara deu uma bofetada em
Jacob.
Ele lhe segurou o pulso e tentou acalmar-se. Após um momento de tensão,
disse: - Preste bem atenção no que vou dizer. Nunca mais faça isso.
Estou avisando, Sara, não me pressione demais. . . Quanto à sua mãe, é
engraçado que depois de me ter contado como sua vida foi dura, a de uma
menina sem mãe, agora venha defendê-la com tanto ardor. - Não importa o
que ela tenha feito, mas é minha mãe. Você não tem o direito de falar
mal dela... - Mas sou seu marido. Onde fica a sua lealdade para comigo?
- Sou tão leal quanto qualquer outra esposa. Vivo com você em nosso lar
e. . . - E também faz da minha vida um inferno.
- Então por que não me deixa?
- Não pense que já não cogitei disso.
- O que o prende aqui?
- Minhas filhas. . . - E ele saiu correndo da sala, desceu as escadas e
pôs-se a caminhar pelas ruas. Quando chegou à margem do rio, sentou-se
num banco e analisou seu casamento...
Enquanto isso, Sara começou a fazer as malas. Já agüentara tudo o que
podia, e se era só isso que ia ter para o resto da vida... iria para a
Califórnia morar com a mãe.
De repente, ela se sentou pesadamente na borda da cama e começou a
chorar. Devia ter enlouquecido. Onde iria arranjar o dinheiro para ir
para a Califórnia e como iria sustentar as filhas? Ocorreu-lhe, então,
um pensamento mais sensato. . . Tinha sido egoísta. Afinal, Jacob estava
sofrendo tanto quanto ela; sua vida fora uma provação desde o dia em
que ele nascera, e estava fazendo o máximo que podia. Se ela pensasse um
pouco menos em si mesma e um pouco mais no marido, a vida seria quase
suportável. Porém, sempre estivera vacilando entre o amor e o
ressentimento. Orou para que Deus a ajudasse a mudar a sua natureza...
Quando Jacob voltou, ela estava sentada à mesa da cozinha, à sua espera.
Ele se dirigiu, sem uma palavra para o quarto.
Ela o chamou, mas ele bateu a porta. Então foi até o quarto e o viu
descalçar os sapatos deixá-los cair no chão.
- Desculpe, Jacob... realmente sinto o que aconteceu. Nenhuma resposta.
As calças foram atiradas sobre a cadeira.
- Foi injusto da minha parte descarregar em você minhas frustrações. Ele
jogou a camisa por cima das calças e deitou-se de camiseta e ceroulas.
Sara aproximou-se da cama. - Eu o tratei mal, reconheço. - Não lhe foi
fácil dizer isso, mas Jacob sempre custava a fazer as pazes. - Desculpa,
Jacob.. .
Nenhuma resposta. - Jacob, por favor, que mais posso dizer senão que
estou muito arrependida?... - Pode me deixar em paz - respondeu ele,
virando-se para a parede. Ela nunca se sentira tão abandonada e
solitária desde o tempo em que era uma meninazinha, implorando a sua
mãe que não a deixasse, e então começou a chorar, baixinho, e assim
continuou a maior parte da noite, deitada ao lado de Jacob.
A grande alegria da vida de Rachel era ir todas as tardes de verão
esperar o pai na estação do metrô. Como se orgulhava, agora que já tinha
seis anos, de poder ir sozinha. Todo mundo dizia que ela se parecia com
o pai, os mesmos cabelos louros e olhos azuis... e seu pai era tão
maravilhoso. Ele a levava a um lugar onde se vendia charlotte russe.
Papai sempre sorria vendo-a comer, mas ele nunca comia. De mãos dadas,
rumavam para casa pelas ruas cheias de gente. Rachel gostava muito que
Doris fosse ainda muito pequenina e não pudesse partilhar aqueles
preciosos momento com o pai. . . e também às vezes era bom ficar longe
de mamãe. Não sabia por que sua mãe tantas vezes a fazia sentir-se
culpada, como se tivesse cometido alguma má ação. "O motivo de você não
comer o seu jantar é porque sempre come doces antes", dizia-lhe a mãe.
Mas Rachel não se importava, gostava mais do charlotte russe do que do
jantar. Mais importante era ir ao encontro de papai, a coisa melhor da
sua vida, e não deixaria de ir, mesmo que mamãe ficasse furiosa. E como
mamãe ficava brava. As coisas que dizia para papai. . . embora brigassem
menos depois do nascimento de Doris. Ela não gostava nem um pouco de
Doris. As únicas pessoas de quem realmente gostava eram papai e o Tio
Shlomo...
Felizmente, Rachel não podia ver o que estava acontecendo entre Jacob e
Shlomo. Pela primeira vez na vida, havia um desentendimento entre os
dois, o que fazia Jacob sofrer muito.
No dia em que a América declarou guerra à Alemanha, Shlomo foi ter com
Jacob e lhe comunicou que ia alistar-se na Marinha. Após o primeiro
choque, Jacob disse:
- Não, você não vai alistar-se em coisa alguma. Tem apenas 19 anos.
- Jacob, não vim perguntar a sua opinião, mas dizer que vou me alistar.
- E eu estou dizendo que você não vai.
- Jacob, está havendo uma guerra. . .
- Não precisa me dizer. Leio os jornais.
- Então, se lê os jornais, deve saber que de qualquer modo eu vou ser
convocado. Não quero ir para o Exército.
- Que diabo, não está me ouvindo? Eu disse que não.
- Como posso deixar de ouvir se você está berrando tanto. Mas isso não
muda nada.
Jacob se enfureceu. Agarrando Shlomo, deu-lhe um soco no estômago,
depois esbofeteou-o. Shlomo cambaleou e caiu no chão.
Quando Jacob viu o sangue pingando do lábio partido de Shlomo,
imediatamente se ajoelhou, abraçando-o como se Shlomo fosse uma criança
e limpando o sangue.
- Meu Deus, Shlomo, não quero que nada aconteça a você. Isso mataria
mamãe... e a mim também, se alguma coisa... não faça isso.
Shlomo, ainda inseguro, pôs-se de pé. Olhou para Jacob, depois abraçou o
irmão.
- Nada vai me acontecer...
No dia em que Shlomo partiu, Jacob ficou tão aniquilado como no dia da
morte do pai. Quando chorou por Shlomo, e rezou para que ele voltasse
são e salvo, estava também, naturalmente, chorando por seu pai. . . por
seu pai que nunca tinha voltado.
#break Capítulo Vinte
Pela primeira vez na vida de Molly, aconteceu ela estar no lugar certo e
na hora certa. Com o advento da guerra, as fábricas de material bélico
em Oakland fervilhavam de atividade, e o fluxo de gente na cidade
precisava do que Molly vendia - móveis de segunda mão.
Seis meses após a declaração da guerra, ela já tinha ganho dinheiro
suficiente para comprar dois apartamentos na Zona Leste de Oakland.
Assim que se viu com as escrituras na mão, mandou uma carta para Sara e
incluiu passagens e dinheiro. . .
No dia em que Sara recebeu a carta, pendurou-se no pescoço de Jacob,
quando ele chegou a casa e cobriu-o de beijos. Entretanto, quando lhe
mostrou a carta, ele não compartilhou em absoluto do seu entusiasmo.
- Jacob, o que há com você? Pensei que ficaria tão feliz!
Ele estava pensando em Hershel que permitira que Esther lhe pagasse o
aluguel e fornecesse as refeições. E agora Jacob estava prestes a fazer
o mesmo que tanto desprezara em Hershel.
- Jacob, olhe só para as passagens e o dinheiro. Não percebe que chance
maravilhosa vamos ter?
Ele fixou os olhos no rosto de Sara. Doris veio sentar-se no seu colo e,
quando ele passou a mão pelos macios e crespos cabelos escuros da
cabecinha apoiada ao seu peito, pensou que não tinha muita escolha.
- Não o compreendo, Jacob. . .
Ele pôs Doris no chão e tomou Sara nos braços.
- Não procure me compreender. Ninguém pode ver dentro da cabeça dos
outros. Estou feliz, mas só lamento não ter sido eu...
- Oh, Jacob, isso é um orgulho tolo. Não ajudaria os seus filhos, se
eles precisassem?
Mas isso era diferente, ele era um homem, um pai. Ainda assim, Sara
tinha razão - estava sendo egoísta. Portanto, engoliu o seu orgulho, e
aceitou os 100 dólares. Sara estava radiante de alegria.
O único momento de tristeza para Sara foi quando viu os seus lindos
móveis sendo retirados do modesto apartamento e colocados no carroção do
comprador. Mas por que apegar-se ao passado? Os velhos sonhos haviam
sido substituídos por novos. E, finalmente, sua mãe estava realmente
esperando por ela.
Sara e as crianças estavam excitadas com a longa viagem de trem e
passaram grande parte do tempo se extasiando com a paisagem campestre
que viam das janelas. Mas Jacob não se deixou entusiasmar. Não gostou
da comida, que não era kosher, e aborrecia-lhe o confinamento. A viagem
estava se tornando cansativa e a sua inquietação fazia com que se
mostrasse irritável.
Quando o trem parou finalmente na estação de Oakland, Sara correu para
sua mãe, que a esperava de braços abertos. Ela estava tão mudada. Os
cabelos eram agora grisalhos, o rosto marcado por vincos... Sara
lembrou-se do dia, num cais em Bruxelas, em que vira a elegante Molly
descer pela prancha de desembarque, vestida com um costume de veludo
cinza-claro e um toque de plumas. Mas todos os sonhos e decepções da
infância - o misto de amor e ódio - se dissiparam quando Sara caiu nos
braços de Molly. Finalmente as duas estavam juntas.
- Mamãe, este é Jacob e estas são suas netas - disse Sara com lágrimas
de alegria.
Molly abraçou afetuosamente Jacob, mas ele se sentia constrangido. Não
era só a vergonha de aceitar caridade. Tinha ressentimento do que aquela
mulher fizera com Sara, deixando-a sozinha no mundo. Sua mãe fizera
coisas que ele nunca poderia perdoar completamente, mas pelo menos não o
abandonara por um amante. Esforçara-se por reunir seus filhos. . .
Jacob apanhou Doris nos braços e balbuciou um cumprimento.
Molly notou a secura dele e lembrou-se da carta que Sara lhe escrevera
contando que ia se casar. Descrevera Jacob como "uma pessoa bastante
complexa", a Molly porém ele deu a impressão de ser frio e indiferente.
Mas era o marido de Sara, e o momento não parecia adequado para analisar
a sua natureza sombria.
Molly tomou Doris dos braços de Jacob e devorou de beijos a criança,
depois pegou na mão de Rachel e conduziu-os para fora da estação, a fim
de tomarem uma condução.
Quando estavam todos sentados no ônibus, Rachel olhou para seu pai e não
pôde compreender por que ele não parecia satisfeito. Até mamãe estava
feliz. Ria e chorava, e vovó estava dizendo o quanto se alegrava de
agora irem morar todos juntos depois de tanto tempo. Rachel gostaria bem
que o pai não estivesse de cara fechada. Isso a deixava inconfortável,
como se a culpa fosse dela.
Desceram do ônibus na Rua Sete e Rachel esqueceu-se de sua preocupação,
quando começaram a percorrer aquelas estranhas ruas novas. Passaram por
uma igreja como ela nunca vira antes - não um shul. Uma grande cruz
erguia-se acima de um telhado pontudo, e havia também uma estátua na
fachada. As casas de madeira, cada qual com um lance de escada, que
levava à porta principal, pareceram-lhe também estranhas. Mas as flores
eram bonitas e ela sabia que as manchas verdes diante das casas eram de
grama, porque tinha brincado nos gramados de Central Park. Subitamente,
tudo lhe pareceu muito estranho, tudo tão quieto e quase ninguém nas
ruas... Mas a coisa mais esquisita era a casa da vovó. Não era em
absoluto como as outras. Tinha dois andares e duas portas de entrada
lado a lado. Mamãe explicou que uma família vivia no andar térreo e
vovó no de cima. Mas como é que as duas portas ficavam na mesma altura?
A confusão de Rachel se dissipou depois de vovó abrir a porta. As
escadas no interior iam subindo e subindo. Por fim eles chegaram a um
vestíbulo com balaústre de madeira. Era muito grande, como também o que
mamãe chamou de sala de visitas. Rachel gostou especialmente dos cupidos
pintados na mesa redonda e no abajur. Mas o melhor de tudo era a sala
de jantar. No centro da mesa havia uma tigela de vidro lapidado com
frutas de cera, que não pareciam de cera. . . Pareciam de verdade. Ela
teve vontade de dar uma mordida na banana. Depois seus olhos pousaram no
guarda-louça. Puxa, vovó devia ser rica, Rachel nunca vira coisa igual.
. . cheio de pratos colocados a prumo no fundo, com uma profusão de
xícaras e pires. E também bonequinhas, que não eram de brinquedo, pois
mamãe avisou que eram de porcelana. . . Ela mal pôde acreditar em seus
ouvidos, quando vovó disse a mamãe que praticamente tinha roubado de uma
velha viúva o serviço de jantar. Sua avó roubava! Bem, vovó tinha dito
"praticamente", mas roubo era roubo. Fora o que lhe dissera mamãe quando
ela se apossara da bola de Izzy Greenblatt. Ainda podia sentir o ardor
da mão de mamãe no seu traseiro, embora aquilo houvesse acontecido
havia muito tempo, quando ela tinha quatro anos...
Mamãe pôs a mesa e vovó esquentou a comida na cozinha. Rachel notou o
buraco no linóleo, mas não queria aborrecer ninguém, por isso nada
comentou. Agora estava vendo vovó tirar coisas de dentro da grande
geladeira de madeira marrom. Vovó estendeu-lhe uma travessa de fígado
picado e outra de kosher com endro, que ela levou para a sala de jantar
e colocou sobre a mesa.
Logo estavam todos comendo e conversando... todos, exceto papai... que
comia em silêncio.
Nessa noite, depois de estarem deitadas, Rachel disse para Doris:
- Está tudo tão quieto que até dá medo...
Não havia ruído de sirenes nem de carroças passando sobre
paralelepípedos. . . nada.
- Não acha isso esquisito, Doris? - perguntou Rachel.
Nenhuma resposta. Doris dormia a sono solto.
Na semana seguinte Jacob arranjou um emprego na fábrica de carros
Chevrolet, mas sua sogra tinha exagerado um pouco o grande sonho
americano. Era muito fácil conseguir um emprego, mas o salário não era
muito maior do que o que ele percebia em Nova York. Sara estava muito
feliz porque as crianças pareciam mais saudáveis; Jacob, porém,
detestava a Califórnia. Não ia ser fácil ser judeu em Oakland,
Califórnia. Em Nova York ele estava sempre tão cercado de sua própria
gente e por reminiscências de suas tradições, que o ambiente quase lhe
parecia natural. Mas ali vivia cercado de goyim. Quase se sentia ele
próprio um goy. . .
A princípio Rachel adorou a Califórnia. O único senão era a escola.
Inscreveram-na no segundo ano, quando deveria estar no terceiro, e isso
a constrangia por ser um pouco mais alta que as outras crianças e um
pouco mais velha. Outra coisa que a aborrecia era que mamãe a obrigava a
vir almoçar em casa, quando ela teria preferido comer na escola com
seus colegas. Invejava-lhes as lancheiras de metal e sanduíches de
manteiga de amedoim, garrafinhas de leite e bolachas. Mas não!, tinha de
acompanhar Doris até a casa. . . "Cuide de sua irmã, Rachel, você é a
mais velha". . . Era culpa sua ser a mais velha? Por que mamãe não ia
buscar Doris?
Quando descobriu a razão - que mamãe ia ter outro filho - Rachel ficou
muito excitada com a idéia, mas também se sentiu vagamente inquieta. De
certa forma, isso a embaraçava e ela pediu a Doris que não contasse
para ninguém da vizinhança. Mas Doris vibrou tanto com a notícia que não
conseguiu guardar segredo. Ia ter um irmãozinho ou irmãzinha, embora na
realidade preferisse um irmão.
Quando Rachel descobriu que Doris tinha revelado o segredo, ficou
furiosa. Nesse dia, ela permaneceu no pátio da escola depois das aulas e
brincou um pouco no balanço, depois simplesmente se sentou e ficou
olhando as crianças na caixa de areia ou pendurando-se nas argolas de
metal. Quando, finalmente, fecharam o portão, começou a andar ao acaso
pelas ruas, depois parou diante de uma igreja.
As portas estavam abertas, e ela pôde ver no interior pessoas de cor.
Chegou até a porta e ouviu as belas vozes que cantavam. Espantou-a que
batessem palmas e balouçassem o corpo - quase dançando - acompanhando
as melodias e que, de vez em quando, se erguesse urna voz acima das
outras cantando "Aleluia".
Quando Jacob voltou para casa, Sara estava preocupada com o
desaparecimento de Rachel.
- A que horas costuma chegar? - perguntou Jacob.
- Logo depois das duas e meia.
- Não se preocupe, vou encontrá-la.
Desceu correndo as escadas do apartamento de Molly, e começou a
percorrer as ruas. Finalmente avistou Rachel na entrada da igreja.
- Rachel.. .
Quando ela se voltou e deu de cara com o pai, seu coração bateu mais
rápido. Não devia realmente estar ali; aquela gente era goyim.
- O que é, papai...
- Venha, sua mãe está muito preocupada. Ele não estava zangado.
- Desculpe, papai. . .
- Está bem, mas de agora em diante vá direto para casa depois da escola.
Ela adorava o pai. Dando-lhe a mão, sentia o mesmo que costumava sentir,
quando ia esperá-lo no metrô e os dois iam comer charlotte russe.
Quando Sara ouviu a porta da entrada abrir, sua ansiedade acabou sendo
substituída por um acesso de raiva. Rachel estava realmente arrependida
por ter preocupado a mamãe naquele estado, mas Sara a agarrou, desceu
suas calcinhas e deu-lhe violentas palmadas, que só cessaram quando
Jacob interveio, gritando mais alto do que Rachel.
- Deixe-a em paz. . . Está me ouvindo? Deixe-a em paz e nunca mais bata
nela...
Molly veio correndo da cozinha.
- Não se atreva a berrar com a minha filha. Quem pensa você que é? Desde
que o casal estava morando com a mãe de Sara, nunca conseguia trocar uma
palavra sem que Molly não interferisse. Fazia insinuações, lembrando a
Jacob suas responsabilidades e dizendo o quanto era difícil sustentar
sem dinheiro uma família. E Sara nunca a contradizia, nunca tomava a
defesa do marido contra uma mãe que praticamente a havia abandonado,
quando mais precisava dela... Jacob agarrou umas roupas e enfiou-as numa
valise. Não agüentava mais. Sara chamou-o, mas a porta da frente bateu.
Ela ficou imóvel e apavorada no vestíbulo. - Não chore, Sara, conheço os
homens, ele vai voltar.. . Sara virou-se para a mãe. - Você conhece os
homens? Mas o que conhece de mim? Pensa que não sei como está
arrependida por nos ter mandado buscar? A tensão é demais para você, as
crianças a incomodam. . . da mesma forma que eu a incomodava. A única
pessoa de quem sentia falta era de Louie, Louie... - Como ousa falar
assim comigo depois de tudo o que fiz. . . O que espera de mim?
- O que sempre recebi de você. Nada. Não devia ter se metido na
discussão. Era entre Jacob e mim.
- Eu não podia deixar que ele falasse daquele jeito com você e ficar
calada.
- A sua preocupação é comovente...
Sara foi para o seu quarto, deitou-se pesadamente na cama e chorou até
suas pálpebras fecharem para um sono infeliz.
Rachel não dormiu nada. O seu sentimento de culpa era demasiado forte...
Tudo por causa dela!
Jacob tampouco dormiu, trancado num modesto quarto de hotel. Não devia
ter-se descontrolado daquele jeito, não com Sara naquele estado. Mas
estava farto da mãe de Sara e sabia que só havia uma saída. Tinha de
ganhar mais dinheiro para se ver livre de Molly de uma vez por todas.
No dia seguinte soube que os estaleiros estavam precisando de
rebitadores competentes. Foi à Pacific Iron Works, preencheu urna ficha
e esperou para ser entrevistado. Naturalmente, Jacob não sabia
distinguir um rebite de um macaco, mas conseguiu o emprego.
No primeiro dia, ficou observando enquanto trabalhava. O que o homem a
seu lado fazia, ele também fazia. Após uma semana tinha adquirido tanta
prática que foi com muita segurança ao escritório e pediu um aumento.
Disse que, se não o aumentassem, largaria o emprego. Um homem de sua
experiência não precisava trabalhar por uma ninharia e podia arranjar
emprego em qualquer outro lugar. Com a guerra no auge, havia urgência de
pessoas experientes.
Jacob não somente conseguiu o aumento, como foi promovido a
contramestre. Trinta dólares por semana era mais dinheiro do que ele
jamais pensara ganhar.
Na tarde de sexta-feira deixou cedo o trabalho, foi para o hotel trocar
de roupa, depois dirigiu-se à escola de Rachel, onde esperou a hora da
saída das aulas. Quando a viu, sentiu um aperto no coração. Duas
semanas. Ela parecia tão pequenina...
- Papai! - gritou Rachel, correndo ao seu encontro. - Oh, papai, estou
tão feliz por ver você. Pensei que nunca mais fosse voltar e chorei
muito.
- Venha. . . - disse ele, emocionado. - Vou lhe comprar um sorvete. Era
como em Nova York, esperando papai e indo comer charlotte russe...
Os dois se sentaram a uma mesa redonda na sorveteria.
- Rachel, como vai mamãe? - Bem.
Jacob notou que Rachel baixara os olhos.
- Ela está bem mesmo?
- Eu acho...
- O que está querendo dizer?
- Bem. . . ela chora e chora e chora. Briga o tempo todo com vovó. Dizem
coisas horríveis uma para a outra.
- É mesmo?
- Sim, mamãe falou que ela não tinha o direito de se meter entre marido
e mulher.
A fisionomia de Jacob se abrandou.
- Ela... quero dizer, sua mãe falou que... - Falou. Rachel sentiu um
calor no coração, quando o pai sorriu. - Escute bem, Rachel, quero que
você vá para casa e conte à sua mãe que arranjei um emprego muito bom e
estou ganhando uma porção de dinheiro. Diga-lhe que assim que eu
encontrar um bom apartamento, mando avisá-la.
- Oh, papai, está mesmo falando sério?
- Claro que sim. Quero que você tome muito cuidado de não perder isso -
disse ele, entregando a Rachel um dinheiro dentro de um envelope. -
Agora é melhor ir logo para casa, antes que sua mãe comece a se
preocupar.
- Por que você não vem comigo?
- Não, Rachel. Não vou voltar para a casa de sua avó. Mas dentro do
envelope há o nome e o endereço do hotel onde estou hospedado. Diga à
mamãe que se ela quiser me ver, estou lá todas as noites depois do
trabalho.
Esquecendo o cone meio derretido sobre a mesa, Rachel levantou-se e pôs
os braços em redor do pescoço do pai.
- Amo você, papai. ..
Ele apenas sacudiu afirmativamente a cabeça. Não conseguia dizer que
também a amava, mas Rachel bem o sabia.
No domingo, Sara e as crianças foram ver Jacob. Agora não havia mais
amargura. Não importava quem tivera ou não tivera razão. Tudo o que
importava era eles saberem que precisavam um do outro.
Jacob mostrou a Sara a nova casa que tinha alugado. A sala de estar
precisava de uma pintura, mas era melhor do que a da Rua Rivington. E
Sara gostou da cozinha ampla e da varanda envidraçada nos fundos.
Havia um pequeno jardim e um pé alto de malva-rosa crescia junto à cerca
de madeira.
Subiram as escadas para os dois quartos de dormir. Sara gostou. Era uma
pena que não tivessem mais os móveis de Washington Heights, mas. . .
Lendo-lhe o pensamento, Jacob disse:
- Se você estiver se sentindo bem, há uma loja de móveis na Rua
Quatorze. Podemos escolher lá o que precisamos.
- Mas como vai pagar?
- Eles vendem à prestação. Gostou da casa?
- Gostei, Jacob. Gostei muito.
#break Capítulo Vinte e Um
Mais uma vez suas vidas começavam a se harmonizar. Sara parecia muito
feliz. O único senão era que Jacob se recusava a permitir a entrada de
Molly em sua casa. Sara e a mãe tinham suas diferenças, mas ambas eram
capazes de esquecer e perdoar facilmente. O mesmo não acontecia com
Jacob, que guardava os seus rancores.
Sara tentou explicar o temperamento de sua mãe, mas Jacob não quis
ouvir. Então Sara manteve a paz em seu lar não tocando mais no assunto.
Ia ver a mãe sempre que podia e rezava para que eventualmente Jacob
perdoasse Molly.
Ao aproximar-se a hora do parto de Sara, ela escreveu compridas listas
para Rachel. 1) Troque todos os dias as calças de Doris, senão ela vai
esquecer. 2) Não se preocupe de fazer os cachos de Doris. 3) Não use
muitas toalhas para não ter muita roupa que lavar. As toalhas de banho
podem ser usadas diversas vezes. 4) Veja que a sopa esteja quente,
quando papai voltar do trabalho. Ponha a carne na mesma sopeira. 5)
Doris pode ajudar a fazer as camas. Mande-a pendurar as roupas no varal.
Ela tem idade suficiente para isso. 6) Rachel, lave os pratos e faça
Doris subir num caixote para enxugá-los. 7) Mantenha limpa a cozinha e
tire o pó da sala. Use a vassoura de tapete duas vezes por semana. 8)
Limpe a banheira depois do banho.
Sara considerou que deixara tudo acertado. Tudo exceto a gravidez. Em 25
de dezembro de 1917, Lillian Sanders nasceu no Hospital Peralta em
Oakland, Califórnia. Quatro quilos e uma cabeça coberta de penugem preta
combinando com a cor dos olhos. Ia ser muito parecida com Sara. Jacob
tinha agora certeza de que nunca teria um filho, porque sabia que Sara
se recusaria a engravidar de novo. Mas a filhinha era sua e ele a achou
uma coisinha linda.
- Ela é uma gracinha, não acha, Jacob? - Sara sabia como era duro para
Jacob, mas não era sua culpa se não conseguiam ter um filho.
- Claro que é uma gracinha - concordou Jacob.
- Como vai tudo em casa?
- Tudo bem. . . tudo funcionando como um relógio, mas vou me sentir
feliz, quando você voltar para casa.
E era verdade. Não ia contar a Sara sobre a noite anterior em que Doris
tinha delirado. Sua febre era tão alta que ela se punha a divagar,
deixando-o apavorado. Passara a metade da noite enxugando-a com
toalhas. Graças a Deus, ela amanhecera melhor.
- Acho bom agora eu deixar que você descanse um pouco.
- Fique mais uns minutos.
- Bem que eu gostaria, mas acho que não devo deixar as crianças muito
tempo sozinhas.
- Tem razão. Diga-lhes que estou com saudades.
- Vou dizer. - E, dando-lhe um beijo, ele se retirou.
Um dia antes de Sara voltar para casa, Molly apareceu com uma pesada
cesta de comida, trocou os lençóis e as toalhas, lavou o chão da
cozinha, limpou o banheiro... e chorou. Por que Jacob estava tão
zangado? Ela não devia ter interferido, mas não fora por mal. Molly não
queria contar a Sara que uma noite fora vê-lo em casa para fazerem as
pazes, e ele quase a expulsara. Ela não tinha sido a melhor das mães,
mas agora, que estava tentando recuperar o tempo perdido, Jacob não lhe
dava oportunidade. Por que pretendia ele proteger Sara de sua própria
mãe? Molly simplesmente não compreendia.
Paradas na varanda, Rachel e Doris, com a respiração em suspenso, viram
papai ajudar mamãe com a nova filhinha a subir os degraus de madeira.
Doris tinha colhido malmequeres no quintal e ofereceu o buquê à mãe.
Sara aceitou o buquê, embora retendo a respiração. Como podiam flores
tão bonitinhas cheirarem tão mal? Mas estava radiante de voltar para
casa e abraçou Doris agradecendo-lhe a gentileza.
A porta fechou-se e a família subiu atrás de Sara para o quarto.
Rachel olhou com pouco caso para o bebê. Meu Deus, que criança feia! Nem
mesmo o cobertor azul, que a envolvia, fazia com que ela parecesse
bonita. Doris, no entanto, estava fascinada... apaixonada pela
irmãzinha. Passara a sentir-se muito adulta; afinal, tornara-se uma irmã
mais velha...
Nas semanas que se seguiram, Sara trabalhou, tomou conta das filhas,
cuidou da casa. Uma grossa sopa de cevada e kugel de talharim eram os
principais alimentos.
Empurrando o bebê no carrinho, ela subia a Rua Sete e comprava carne de
peito no açougue kosher. Era quase tão bom como em Nova York. Porém, não
o peixe. Em Nova York havia peixe branco, boas carpas, mas ali ela
comprava o que podia encontrar para o gelfilte. Conforme prometera a
Jacob após aquele jantar desastroso de recém-casada, tornara-se uma
excelente cozinheira e, na verdade. . . o seu challah era tão bom quanto
o da mãe de Jacob, e até melhor...
Noites de Shabbes eram comemoradas com pensamentos contraditórios.
Acendendo as velas de Shabbes, Sara sentia tristeza porque estava tio
perto de sua mãe, entretanto... Porém, quando olhava em redor de sua
mesa e observava as filhas, sobretudo os olhos redondos de Doris fixados
no pai rezando o baruch e o motzim, sentia-se abençoada...
Jacob sentia-se culpado por ter de trabalhar no sábado, o dia da semana
que deveria estar passando na companhia de sua família. Com se podia ser
judeu ali? Aquela era uma terra nova, diferente da Zona Leste, onde não
havia problema alguém se declarar judeu. Era um milagre eles guardarem
as noites de sexta-feira. Jacob Sandsonitsky estava vivendo como um
goy. Adotara até um nome goy - Jack Sanders - e como um goy, ele se
servia de veículos no sábado e levava dinheiro no bolso. Qual o judeu
religioso capaz de tais coisas? Deus simplesmente teria de perdoá-lo
porque sua família precisava de comida e de roupa. Se soubessem que ele
era judeu, poderia até perder o emprego. Os homens com quem trabalhava
debochavam dos judeus, mas Jacob fingia não ouvi-los. Jacob Sandsonitsky
lhes teria dado uma surra, mas Jack Sanders não reagia.
Jacob tinha de admitir que, embora não defendendo suas convicções
religiosas, pelo menos comprava com isso alguma segurança para sua
família. Sua mãe sempre guardara o Sabá, mas de que adiantara isso para
os seus filhos? Os filhos de Jacob nunca teriam de lutar como ele
lutara. Financeiramente, sua situação era melhor do que ele jamais
sonhara. Tinha economizado 700 dólares e comprado um Dodge por 50
dólares de um rapaz que ia entrar para a Marinha. Possuíam alguns
móveis, um lar confortável. No geral, as coisas corriam bem. Nunca mais
ele pusera os pés num shul, mas nunca sua vida fora melhor. E Sara
mudara em muita coisa. Parecia mais satisfeita, cuidava das filhinhas
com dedicação e lhes dava três refeições fartas por dia. Crianças
precisam de comida, dizia Sara, e quem concordava com ela era Doris que
mal podia esperar a hora de sentar-se à mesa. Era uma garotinha
gorducha, com escuros cabelos encaracolados.
Rachel era a única magrinha e isso parecia preocupar muito Sara; era
também tremendamente susceptível e... diferente das outras.
Sara lamentava ter de admitir que Rachel não tinha o mesmo temperamento
afável de Doris e Lillian. Era extremamente sensível, às vezes sombria,
e não mostrava a menor afeição pela irmã mais nova ou por Doris. Sim,
havia algo de estranho em Rachel. Tudo era uma questão de vida ou morte.
Ela tinha de estudar, tinha de tirar a melhor nota, e não suportava
usar a mesma calça mais de uma vez. . . A quem teria saído? Devia ser à
família de Jacob. Bem, talvez ela estivesse apenas atravessando uma
fase. Doris sofria mais à mãe... flexível, alegre, afável... Dava gosto
ver como ela voltava correndo da escola para casa, todos os dias, para
levar a pequena Lillian a dar um passeio em seu carrinho. Era como se
fosse a única irmã do mundo. Quanto a Lillian, sua única exigência era
ser bem alimentada.
Até mesmo Jacob mudara. Dedicava sua vida a manter um teto sobre a
cabeça das filhas e sapatos em seus pés. Orgulhava-se de pensar que elas
nunca teriam de passar pelo que ele passara, e Sara ficava feliz por
vê-lo tão satisfeito.
Ainda assim, Sara gostaria que seu marido fosse mais demonstrativo em
seu afeto. Mas não tinha dúvida de que ele a amava e amava sua família.
Era apenas a sua maneira de ser.
#break Capítulo Vinte e Dois
Jacob ficou tão emocionado como o resto do mundo com a notícia de que a
guerra terminara, mas a paz teve o seu preço para ele. Foi chamado ao
escritório e lá lhe informaram que o estaleiro ia despedir empregados.
Jacob foi o primeiro a ser demitido. Seus serviços como contramestre não
eram mais necessários, e ele só continuaria no emprego o resto da
semana.
A princípio Jacob não contou para Sara. Faltou-lhe a coragem e
preocupava-o a injustiça da sorte - justamente quando sua vida ia indo
tão bem...
Poucos meses depois, veio a Gripe Espanhola, e Sara fez máscaras de gaze
que, Doris notou alarmada, cobriam o nariz e a boca. Mamãe recomendou a
Doris e a Rachel que depois do colégio corressem diretamente para casa
e nunca, nunca tirassem a máscara. Doris não podia levar Lillian a
passear por causa daquela doença terrível vinda de um lugar chamado
Europa, e, segundo mamãe, as pessoas caíam mortas como moscas. Como
podiam pessoas cair mortas como moscas? Mas, se mamãe tinha dito, devia
ser verdade... mamãe sabia tudo...
Sara começou a notar a mudança em Jacob: ficava calado durante o jantar
e mal comia. Levantava-se durante a noite para descer à sala da frente e
sentar-se no escuro. Isso a preocupava, mas ela presumia que seu marido
provavelmente estava trabalhando demais e cansado.
Certa noite ela não pôde mais se conter.
Jacob estava deitado na cama com as mãos por trás da cabeça e de olhos
fixos no teto.
- Jacob, não estou me queixando, mas você tem andado tão quieto
ultimamente. Pensei que, terminada a guerra e Shlomo prestes a voltar,
você estaria. . .
- Feliz?
- É claro.
- Estou feliz com o fim da guerra e a expectativa da volta de Shlomo...
mas também estou desempregado.
- Por quê?
- Porque o país não precisa mais de navios. Tem navios suficientes, mas
não empregos suficientes.
- Deve haver alguma outra coisa que você possa fazer - disse Sara,
finalmente.
- Acha mesmo? Pois tenho procurado, só que não há empregos. Parece que é
preciso haver guerras para que um homem possa sustentar a sua família...
- Jacob, o que vai ser de nós?
- Escrevi à minha mãe e...
- Contou à sua mãe, mas não me contou?
- Por favor, não comece agora com as suas queixas. Eu tinha esperança de
uma resposta a respeito de como estavam as coisas em Cleveland, antes de
contar a você.
- O que pode sua mãe fazer?
- Como ainda não recebi resposta da minha carta, não sei...
Ela mordeu o lábio para conter as lágrimas, depois disse com brandura:
- Jacob, sei como se sente com relação à minha mãe, mas ela é minha mãe
e realmente uma boa mulher. Por favor, deixe-me perguntar-lhe se. . .
- Sara, não a quero aborrecer, mas não aceitarei nada que venha de sua
mãe.
- Por que você a detesta tanto? Afinal, Jacob, ela não lhe fez nada de
tão terrível.
"Há gente de quem você simplesmente não gosta", pensou Jacob, repugnado
à idéia de uma ajuda de Molly. Além do mais, ela mal se consegue
sustentar. - Jacob, se ficássemos aqui, talvez com as economias suas e
de mamãe pudéssemos abrir uma loja de móveis. Jacob olhou-a atentamente.
Claro que ela queria a mãe, era a sua primeira chance na vida de viver
perto de Molly que, pensando bem, não era realmente uma má pessoa. Às
vezes pensava se não estaria se desforrando nela de todas as suas
frustrações quando menino em relação à própria mãe. . . "Pense nisso",
advertiu a si mesmo. . . Sara e as crianças adoravam a Califórnia. Ele
sentia muito a falta de sua própria família, mas talvez fosse importante
para uma mulher ter a seu lado a mãe. Sara sentia tanta falta. . .
Talvez Deus os ajudasse, se ele e Molly juntassem forças, a conseguir
algum sucesso. Assim, poderia de vez em quando ir com Sara visitar sua
família no Leste...
- Sara, acha que sua mãe tem algum dinheiro? Sara sorriu.
- Ela tem os apartamentos e, se vendesse a loja... Acho que ela ficaria
radiante, Jacob.
Jacob não estava radiante. Molly estaria contribuindo com a maior parte
do capital e isso o deixava constrangido. Mas por outro lado...
- Está bem, Sara, converse com sua mãe e veja se ela...
- Oh, Jacob, meu amor, muito obrigada. Mas, por favor, venha comigo.
Esqueça o passado.
Orgulho não era fácil de engolir. Não para aquele homem que fora
humilhado tão cedo e tão freqüentemente... Mas, por Sara e pelas
filhas...
Molly conseguiu 900 dólares pelos apartamentos e 300 dólares pelos seus
trastes velhos, mas estava tão feliz por sua família não se mudar e por
Jacob estar de novo falando com ela que o dinheiro era o que menos a
preocupava.
A única coisa que importava nesse momento era a grande tabuleta acima da
porta: "SANDERS E CARR - MÓVEIS FINOS."
Jacob pensou em seu pai ao ver a tabuleta sendo içada. O nome deveria
ter sido Sandsonitsky...
O dia da inauguração chegou, mas nem um só comprador.
- É o primeiro dia - disse Sara. - Esperem até a loja ficar mais
conhecida. Jacob esperou nos três meses que se seguiram, três meses de
mau tempo constante. Choveu durante quase todo o mês de fevereiro e
março, mas o pior era que não se fazia um só negócio. Ele pensou que ia
enlouquecer, andando de um lado para outro da loja, com apenas algum
freguês ocasional para distraí-lo. Por falta do que fazer, começou a
jogar paciência. Molly e ele começaram a desentender-se. Ela sugeriu que
em vez de ficar sem fazer nada, ele passasse o aspirador na loja,
lustrasse os móveis, fizesse os consertos. Ao que ele perguntou,
enquanto estivesse fazendo aquilo tudo, o que iria ela fazer?
Coisas sem importância começaram a transformar-se em discussões. Jacob
pensou que, se as coisas continuassem daquele jeito, acabaria esganando
a mãe de Sara e todos morreriam de fome. O melhor era sair agora...
- Sara, eu realmente tentei, mas não posso continuar dessa maneira. O
contato com ela é realmente impossível.
- Por favor, Jacob, dê outra chance...
- Não. Chega de chances. Não é boa idéia ser sócio de parentes. Diga à
sua mãe que me dê os meus 600 dólares. Quero sair da sociedade. Ela que
fique com o resto.
- Jacob, ela vendeu a própria casa e a loja para que você pudesse ganhar
a vida e nos sustentar. . .
- Está dizendo que não sustentei minha família?
- Você está torcendo as minhas palavras.
- Claro, e sua mãe é um anjo, não existe ninguém melhor. Diga-lhe que
quero meus 600 dólares de volta...
No dia seguinte, Sara, muito infeliz, foi procurar a mãe. - Não tenho o
dinheiro, Sara - disse Molly. - Está tudo empregado nos móveis e na
loja. Quanto a seu marido, deixe que eu lhe diga...
- Não quero que diga uma só palavra contra ele, está ouvindo?
- Mas você deixa que ele fale mal de sua própria mãe?
- Ele nunca fala mal de você.
- É claro, ele me adora. Sacrifiquei minha velhice para que você e as
crianças tivessem o suficiente para comer, e é assim que me agradecem.
- É por isso que Jacob está tão aborrecido. Você fica o tempo todo
jogando isso na cara dele.
- Ah, então ele fala de mim?
- Pelo amor de Deus, mamãe, fique quieta. Estou farta de ficar entre
vocês dois. E, além do mais, não foi uma mãe assim tão perfeita...
No mesmo instante em que disse isso, Sara se arrependeu. Sua mãe tinha
razão - vendera tudo o que possuía por causa deles. E Jacob também tinha
razão. Era impossível lidar com Molly. Nunca se sabia como ela ia se
portar.
- Mamãe, por favor, venda a loja. . . ou sei que Jacob vai me deixar...
- Está bem, está bem - suspirou Molly. - Vá para casa e diga ao seu
maravilhoso marido que vou vender...
Sara encontrou Jacob esperando na sala de visitas.
- Jacob, mamãe disse que vai vender.
- É muita bondade dela, mas, se conseguir vender aquela loja, dou a
minha cabeça a cortar.
- O que quer de minha rnãe, Jacob? Ela é uma mulher pobre procurando
fazer o melhor.
- Quero que ela liquide tudo.
- Liquidar?
- Isso mesmo...
O capital inicial havia sido os 1.200 dólares de Molly e os 600 de
Jacob. Depois da liquidação restaram 700 dólares.
O que Jacob queria era o suficiente para viajar para Cleveland; 300
dólares bastariam. Apesar de tudo, Molly ficou desolada. Queria que eles
ficassem com tudo. Saberia se arrumar sozinha. . . voltaria a trabalhar
na fábrica de chapéus. Mas Jacob disse que ela já se tinha sacrificado
muito pela sua família. De agora em diante ele tomaria a si a
responsabilidade.
Nessa noite Jacob releu a carta que sua mãe escrevera vários meses
antes. Seus olhos desceram até. . . "Por favor, venha, Jacob. Não tenho
muito, mas podem morar comigo até terem o seu próprio lar. Lembre-se,
sou sua mãe". . . Jacob mergulhou em pensamentos, lembrando-se do dia em
que recebera aquela carta. Se então tivesse ouvido o seu coração,
estaria com 300 dólares a mais e um milhão de vezes menos desnorteado.
A partida foi muito dolorosa, e Jacob observou a angústia de Sara, ao
ver mãe e filha abraçadas com lágrimas nos olhos.
Por fim, Molly veio ter com ele.
- Sei que sou uma pessoa de difícil convívio, Jacob, mas espero que não
guarde ressentimentos contra mim. Realmente minha intenção foi boa.
Jacob concordou com um gesto de cabeça. De boas intenções o mundo estava
cheio!
#break Capítulo Vinte e Três
Sara tinha a impressão de que aquela viagem era uma volta ao passado. No
momento, todas as discussões com Molly pareciam tão sem importância ...
Mais uma vez ela estava indo para um mundo desconhecido.
Ao desembarcarem do trem, a família toda de Jacob estava presente para
recebê-los. Naquele dia as portas do Armarinho Harold e do Armarinho
Esther Sanders exibiam a tabuleta "Fechado".
No jantar da família em casa de Esther, Jacob olhou em redor da mesa.
Como todos tinham mudado. A mãe estava mais velha, os cabelos mais
brancos, e os olhos de Gittel pareciam muito cansados. Hershel
mostrava-se tranqüilo. Continuava sempre enfadonho, mas agora com um ar
de arrogância.
Jacob olhou para os filhos de Hershel. Estranho, pensou ele, os filhos
de Hershel iam ser altos - como Jacob. Por um momento, o pensamento o
entristeceu, mas quando olhou para as filhas, não pôde deixar de
sorrir.
Os pensamentos de Sara não eram tão felizes. Estava - era bom confessar
- com inveja de Gittel e dos seus filhos bem vestidos. Hershel não era
tão alto e bonito como Jacob, mas pelo menos sustentava com fartura a
sua família.
Gittel achou que Sara mudara muito. Sempre se lembraria dela como a
jovem encantadora de quando a conhecera, amadurecida para a sua idade. .
. Sara em Coney Island. . . linda naquela roupa de banho preta. Agora
parecia haver algo de amargo nela. Nada que Gittel pudesse definir com
precisão. . . talvez fosse sua sua imaginação, a longa viagem de trem
com três crianças, Jacob sem emprego. Naturalmente, Sara tinha de estar
preocupada. E deixar sua mãe para trás devia ter sido bem difícil. Ela
se lembrava bem de quando deixara Esther para vir para Cleveland...
Doris estava deslumbrada com tio Shlomo. Nunca vira nada mais
maravilhoso do que aquele homem com seus botões de metal dourado na
farda azul-marinho, a listra encarnada dos lados da calça azul-clara,
os lustrosos sapatos pretos e o boné branco com a viseira negra, que ele
agora tirara da cabeça. Só vira homens como tio Shlomo nos filmes
documentários nas poucas vezes em que ela e Rachel iam ao cinema no
sábado.
Olhando à sua volta na mesa, Rachel sentia-se quase tão inconfortável
quanto sua mãe com todos aqueles parentes, especialmente com os meninos,
seus primos. Olhou para Bertha. Teria gostado muito de uma fita larga e
fivelas no cabelo como sua prima. Mas a sua linha de pensamento se
perdeu quando ela começou a prestar atenção à conversa entre o pai e
tio Shlomo. Papai parecia muito perturbado; ela sempre percebia o que
seu pai estava sentindo.
- Por que não escreveu para contar que tomou a entrar para a Marinha?
- Porque achei melhor contar-lhe quando estivéssemos todos reunidos -
replicou Shlomo.
- Mas por que resolveu se engajar por mais quatro anos?
- Porque achei que seria impossível arranjar um emprego.
- E o que vai fazer quando terminarem os quatro anos e você continuar
sem arranjar emprego? Não pode fazer dessa profissão uma carreira. Isso
é bom para vagabundos goyisher. ..
- Não querem mais um chá e um pouco de strudell - apressou-se em
interromper Esther.
Ambos os irmãos ignoraram a tentativa de Esther de mudar a conversa.
- Não há vagabundos no corpo da Marinha, Jacob. Acontece que a Marinha é
a mais respeitada entre as Forças Armadas. Além disso, já que não fui
para uma universidade, não tenho exatamente uma profissão. Os
honorários da Marinha são bons.
- Mazel tov. Para onde vai ser designado, para Washington com o
Presidente?
- Não, para as Filipinas.
- Não podia, pelo menos, ter ficado nos Estados Unidos?
- Vamos para onde somos mandados. Além disso, gosto muito da idéia. De
que outra forma poderia eu conhecer o mundo?
- Para quê? É um mundo assim tâ*o lindo?
- Não sei ainda, não conheço tudo. Quando voltar, eu lhe contarei.
Agora, bem-vindos ao lar, Jacob, Sara e as crianças.
- Obrigado, Shlomo Sandsonitsky, quero dizer Sandy Sanders. . . que
nome! Só mesmo na América. . . de Shlomo da Polônia para Sandy da
Marinha dos Estados Unidos.
- Com muito gosto, Jack Sanders...
- Agora chega - disse Esther. - Shlomo está aqui de folga, portanto
vamos ter um pouco de paz. Gittel, está ficando tarde e as crianças
devem estar cansadas.
Gittel levantou-se e foi ter com Sara.
- Querida, estamos muito felizes por tê-la aqui.
- Eu também - mentiu Sara, com um suspiro.
- Amanhã vocês irão jantar em minha casa. Agora quero beijar minhas
lindas sobrinhas. - Ela se curvou, depois ergueu os olhos para Sara e
Jacob. - Vocês ainda são muito ricos. ..
Esther passou acordada grande parte da noite. Tremia pensando na reação
de Jacob quando ele descobrisse que não era Hershel e sim Gittel quem
sustentava a casa. Ela trabalhava na loja e tomava conta da casa e dos
filhos, ao passo que Hershel fazia o menos possível. Iam sair muitas
discussões... E preocupava-a o futuro de Jacob. De bom grado ter-lhe-ia
dado sua loja, mas os poucos rolos de tecido em suas prateleiras mal
davam para o seu próprio sustento, e ela não tinha dinheiro algum para
oferecer-lhe. Depois seus pensamentos voltaram-se para Shlomo. . .
Ficara também muito perturbada, quando ele tinha voltado para casa
depois da guerra e contado que se realistara. Contudo, quanto mais
pensava no caso, mais compreendia que Shlomo era mais realista do que
Jacob para aceitar situações. Quando Shlomo decidira que não havia
futuro para ele no mundo civil, tratara de fazer o que melhor lhe
convinha. Bem, talvez de manhã as coisas parecessem um pouco mais
animadoras.
Três semanas depois Jacob encontrou uma loja.
Ficava longe, nas circunvizinhanças de Cleveland, num local chamado
Collingwood, mas o aluguel era barato.
Com os poucos dólares que lhe restavam ele tinha abastecido a loja com
um mínimo de tecidos, na maioria algodões, passamanaria, linha,
alfinetes e uma variedade de fitas. Hershel foi de opinião que Jacob
nunca conseguiria ganhar algum dinheiro com tão pouca mercadoria. Jacob
ouvia, enquanto Hershel expunha o seu ponto de vista:
- O que você não tem nas prateleiras, não pode vender. O que vai fazer,
se entrar um freguês na sua loja e pedir sarja azul?
Jacob se conteve. Sabia que a aparente preocupação de Hershel era com a
intenção de fazê-lo sentir-se mais inseguro do que já se sentia.
- Quando eu estiver no negócio o tempo que você está, terei sarja azul
para vender.
Hershel estava se divertindo. Sabia que Jacob morria de inveja dele.
Sentira isso desde a noite em que a família fora jantar em sua casa.
- Eu já lhe disse que não há razão para recusar a oferta que lhe fiz,
Jacob - disse Hershel, depois de tirar uma baforada do charuto. - Você
pode me pagar quando puder. Eu não ia cobrar mais juros do que o banco.
- O fato era que Hershel se sentia tranquilo a respeito do oferecimento
por saber que Jacob jamais aceitaria.
Jacob decidiu que o seu dia chegaria. Não ia morar o resto da vida nos
fundos de uma loja. Se tivesse o dinheiro de Hershel, sua mulher e suas
filhas pelos menos morariam numa casa...
Não demorou muito, depois de ser sido afixada a tabuleta "TECIDOS E
MIUDEZAS - JACK SANDERS", para Jacob e Sara se darem conta de que
estavam residindo numa vizinhança muito anti-semita.
Sara ficou muito nervosa quando uma freguesa, notando seu ligeiro
sotaque, perguntou-lhe qual era a sua nacionalidade. Quando Sara
respondeu que era belga, a freguesa disse que devia ter sido um lindo
país antes da guerra. Lindo, respondeu Sara. A afável senhora realmente
só tinha perguntado porque não tinha bem certeza e, queria que Sara
compreendesse, Collingwood orgulhava-se de não alugar nem vender a
judeus. Graças a Deus não havia ninguém daquela raça pelos arredores. .
.
Jacob perturbou-se muito com esse incidente. De todos os lugares que
poderiam ter escolhido para morar, havia de ser logo um com aquele bando
de inimigos dos judeus. Tinham medo que se descobrisse a verdade, e
viviam muito longe dos açougues kosher na Rua Euclid para manterem uma
alimentação kosher em casa. Quer gostassem ou não, eram forçados a
viver como goyim. Parecia que só era possível ser Jacob Sandsonitsky na
baixa Zona Leste de Nova York. Suas filhas cresceriam meio judias e
meio goyim. . .
Ela adorava as botas de borracha preta que cingiam a barriga de suas
rechonchudas pernas. Adorava o cachecol escocês em torno do seu pescoço
e o gorro de jérsei que lhe cobria o feio cabelo preto. Mas o melhor de
tudo era caminhar na neve até a escola. Na hora do almoço as crianças
sentavam-se em volta do aquecedor redondo e tiravam de suas lancheiras
os sanduíches de pasta de amendoim e geléia com pão branco. Doris achava
ruim porque sua mãe não mais fazia os grossos sanduíches de carne com
pão preto ou lhe dava um bocado de fruta e uma garrafa térmica com sopa
quente de galinha. Quando ela perguntara por que, mamãe respondera:
"Como o que as outras crianças comem e não fale mais nisso... não faça
tantas perguntas, Doris."
Doris gostava dos jogos que as crianças brincavam até soar a sineta e
ela ter de voltar com relutância para as aulas.
De todas as coisas que Doris gostava, a aula não era uma delas. Na
realidade, detestava a sua professora, que fazia as perguntas mais
tolas. Se você cortasse uma maçã e desse à sua amiga metade da maçã,
então obviamente lhe restaria a outra metade para comer. E tampouco lhe
interessava que Jack e Jill tivessem subido a colina para apanhar um
balde d’água. Doris sabia também que Cinderela não era judia. Nenhuma
judia teria perdido o seu sapatinho de vidro. Sua mãe a mataria. E se a
mãe de Joãozinho e Maria fosse judia, nunca deixaria os filhos passarem
fome. Papai sempre dizia que as crianças tinham de ter um teto sobre
suas cabeças e comida no estômago, e o armário da cozinha da casa de
Joãozinho e Maria estava sempre vazio... A professora de Doris parecia
sempre vagamente ofendida com as suas perguntas e dizia que a resposta
ficaria para quando a classe estivesse mais adiantada. Assim, Doris se
entediava e passava boa parte do tempo inventando respostas para as suas
próprias perguntas. Havia uma, especialmente, que a preocupava, e uma
noite ela a mencionou durante o jantar. - O que é um gringo? Sara e
Jacob pararam de comer e se entreolharam. - Onde você ouviu essa
palavra? - perguntou Jacob. - Na escola. As crianças estavam dizendo que
não gostavam de gringos nem de católicos. Um católico é a mesma coisa
que um gringo? - Não, agora coma e fique calada - disse Jacob. Doris
ficou intrigada com a atitude dos pais e frustrada por não ter resposta
à sua pergunta. Ainda não sabia o que era um gringo ou um católico, mas
tinha a ver com alguma coisa ruim, disso tinha certeza. Aos sete anos
de idade, tudo era bem confuso. Quando chegou a primavera, os cinco
tomavam o bonde cada domingo e iam passar o dia em casa de Esther, onde
a família toda se reunia. Jacob notou que Hershel estava mais gordo e
parecendo muito próspero. Um anel de diamante faiscava em seu dedo
róseo, e ele fumava compridos charutos escuros. "Vinte e cinco cents",
dizia, soprando a fumaça para o lado de Jacob. Sempre as mesmas
perguntas. Como iam as coisas em Collingwood? Muito bem, ótimas.
Realmente? De qualquer forma, se Jacob precisasse de alguma mercadoria,
ele, Hershel, teria o maior prazer em vender-lhe tudo que fosse
necessário,pois sabia que Jacob não tinha crédito na praça. A seguir,
Hershel passava a gabar-se de possuir três máquinas - um automóvel, uma
máquina de lavar e um aspirador.
- Jacob, você realmente devia comprar uma máquina de lavar para Sara.
- Sim, certamente. Talvez na próxima semana. . . - Deus, em sua
sabedoria, devia secar a língua na boca de Hershel.
O verão desabou sobre eles como uma fornalha.
Aos sábados Doris ia com Rachel tomar uma aula de piano por 25 cents, e,
para economizar a passagem de bonde, iam a pé.
Quando terminava a aula, compravam sorvetes de casquinha e iam tomá-los
sentadas em algum túmulo num velho cemitério. Delicioso, dizia Doris. Na
próxima semana ela ia escolher um de chocolate. Rachel não lhe dava
atenção. Doris, muito feliz lambendo o seu sorvete, pousou os olhos na
lápide de 100 anos meio encoberta pelo musgo e leu o nome e a data.
- Quem terá sido Fanny Pride?
Como Doris era tola, sempre fazendo perguntas malucas!
- Como posso eu saber? - respondeu Rachel.
- Eu não perguntei se você sabia. Só estava pensando. Oh, Deus, que
garota chata.
- Suponho que tenha sido uma mulher.
- Bem, disso tenho certeza. . . Fanny é nome de mulher... Mas gostaria
de saber se ela foi mãe de alguém.
- Pare de divagar e tome seu sorvete, que já está derretendo.
- Gosto muito deste lugar, tudo tão tranqüilo.
- Você nunca pode ficar calada? Não pára de falar o tempo todo.
- E para que serve a boca da gente?
- Para comer. Coisa que para você não é problema.
"Que coisa mais antipática dizer aquilo", pensou Doris. "Quando iria
Rachel comprender que ela já era uma pessoa. . . Afinal, estava com
quase oito anos"...
Jacob sentara-se nos degraus da pequena escada que levava aos quartos
dos fundos. O calor estava insuportável e as moscas ainda piores. Nem
que se privasse de tudo o mais, uma porta de tela ele tinha de comprar.
Sara estava oferecendo-lhe um refresco, quando uma freguesa entrou.
- Boa tarde, Sr. Sanders. Já viu uma coisa dessas? Juro que é o mês de
julho mais quente de que tenho lembrança.
Jacob concordou com um gesto de cabeça.
- O que posso lhe oferecer?
- Preciso de meio metro de fita de cetim vermelho.
Jacob apanhou o metro, mediu a fita, colocou-a num pequeno saco de papel
que entregou à freguesa.
- Quanto é?
- Dez cents.
A freguesa pagou e soprou um fiapo de cabelo caído em sua testa úmida.
Jacob ficou parado no meio da loja, vendo a mulher sair. Dez cents...
que completavam mais ou menos um dólar que tinha ganho naquele dia, e já
eram quatro horas da tarde. Olhou para suas mãos, aquelas mãos enormes.
. .
Dirigindo-se para a porta da frente, fechou-a, trancou-a e chamou Sara.
Ela logo apareceu à soleira da porta dos fundos com Lillian nos braços:
- O que houve, Jacob?
- Não houve nada. De repente está tudo certo... vamos dar o fora daqui e
voltar para a Califórnia.
- Oh, meu Deus, Jacob, está falando sério?
- Acha que sou como Hershel? Não vendo fitas por 10 cents.
- Como vai arranjar o dinheiro?
- Vou pedir emprestado, mendigar ou roubar, mas tenho de sair desta
maldita loja. ..
Por ter um bom coração, Hershel comprou o estoque de Jacob na base de 25
cents o dólar. ..
Jacob conseguiu reunir 80 dólares. Instalou Sara e as crianças na casa
de sua mãe até encontrar um emprego e um apartamento em Oakland. Logo
mandaria buscar sua família...
#break Capítulo Vinte e Quatro
Dessa vez a viagem de trem foi um pouco diferente da primeira.
Continuava interminável e exaustiva, acrescida de uma tremenda solidão
sem Sara e as filhas. Quando chegou a Oakland, parou na plataforma,
vendo os outros passageiros tomarem cada qual seu rumo com as famílias e
amigos que os tinham vindo esperar. Jacob estava sozinho e sentiu a
sombra do passado pesar em seus ombros. Já uma vez, em sua vida, ele
tinha parado numa plataforma, sem ninguém para recebê-lo. Que idade
tinha então? Sete anos? Fora em Frankfurt, mas agora estava em Oakland,
Califórnia, Estados Unidos. Carregando sua mala de papelão, caminhou
para fora da estação. Encontrou uma pensão na Rua Jackson, que sabia ser
habitada pela escória da população. Mas, depois de comprar a passagem
de trem por 30 dólares, restavam-lhe apenas 50... não podia ser muito
exigente. Na manhã seguinte, dirigiu-se à fábrica Chevrolet, onde já
trabalhara no passado. Não estavam admitindo ninguém. Não era mais tempo
de guerra. Passou uma semana inteira vagueando: parecia que simplesmente
não havia mais empregos. Sua solidão era tão insuportável, que no fim da
semana foi visitar Molly. Ela abrira outra loja com o dinheiro que
salvara da liquidação dos móveis, e mais uma vez voltara ao seu padrão
habitual. Jacob sentou-se com ela à mesa redonda nos fundos da loja e
tomou um chá. - Para certas pessoas, simplesmente nada na vida dá certo
- disse ela, pensando em Louie. - Meu Deus, os erros que cometemos e
quanto nos arrependemos. - É verdade - respondeu Jacob. - Mas as pessoas
procuram suas próprias oportunidades, e eu vou encontrar a minha, pode
ter certeza. Molly abanou a cabeça. Se Jacob tivesse lido a carta que
ela recebera de Sara justamente na véspera, não estaria tão confiante. A
carta começava.. .
Querida mamãe:
Estou tão infeliz, que às vezes tenho vontade de morrer. . . Que espécie
de vida é esta? Minha sogra não é o anjo que Jacob pensa que ela é, e
sei que não está satisfeita por nos ter aqui. Os filhos de Gittel são
mais importantes para ela do que minhas filhas, e naturalmente isso me
magoa. Hershel diz coisas odiosas sobre Jacob. Sei que faz isso de
propósito para me indispor com meu marido. Diz que Jacob nunca será nada
na vida, que não tem ambição, que não devo esperar mudanças, que Jacob
não tem jeito. Embora eu tente não acreditar, isso deixa dúvidas em
minha mente. Estou simplesmente desesperada, mamãe. Por quanto tempo vou
continuar assim? Se puder me ajudar, eu lhe imploro, mamãe. . .
- Jacob, tem tido notícias de Sara? - Claro. - O que diz ela? - Que
sente minha falta e espera que logo estejamos reunidos. - E o que mais?
- Mais nada. Por quê? - Nada. . . Acha que vai demorar para encontrar um
emprego? - Escute, estou fazendo o máximo que posso. - Por quanto tempo
Sara vai agüentar? É duro para ela, Jacob. - E eu? Acha que não sinto
falta de minha mulher e minhas filhas? Estou sozinho, e pelo menos ela
está com a família em Cleveland. Quem tenho aqui? - Jacob, se eu lhe
perguntar uma coisa, você não vai se zangar? Ele não respondeu. - Tenho
uns poucos dólares. Deixe que eu lhe dê o dinheiro para mandar buscar
Sara. . . - Muito obrigado, mas quero fazer isso sozinho, sem
empréstimos de ninguém. - Não se trata de um empréstimo. - É muita
bondade da sua parte, mas sei também como é sua vida. Poupe seu dinheiro
para a velhice. Além disso. . . de uma ou de outra forma sei que vou
conseguir. . . - Então, mazel tov, ninguém ficaria mais feliz do que eu
com isso...
Voltando ao seu quarto de pensão, ele parou diante do salão de bilhar e
viu homens entrando. Por pura solidão, entrou também, sentou-se e ficou
assistindo a uma partida. Então virou-se para o homem sentado a seu
lado. - Você joga? -Jogo, e você? - Já joguei uma ou duas vezes. - Quer
jogar uma partida? - Não, obrigado. Acho que eu me iria dar mal. Mas
gosto de ver os outros jogarem. - Pois eu gosto de jogar. Limpa a minha
cabeça de um dia duro de trabalho. - Em que trabalha? - Numa fábrica de
carnes enlatadas. - Eles não estão precisando de gente? Estou
desempregado. - Não sei, mas por que você não experimenta? - É o que vou
fazer. É um trabalho de que eu nunca tinha cogitado. Meu nome é Jack
Sanders - disse Jacob, estendendo a mão. - O meu é Smitty. Prazer em
conhecê-lo. Não quer tomar uma cerveja comigo? - Quero, sim. - Jacob
tirou do bolso 10 cents e entregou-os ao seu novo amigo, que logo voltou
com duas canecas espumantes. Quando começaram a beber, Jacob sentiu-se
um pouco melhor. Interrogou Smitty a respeito do seu emprego e do nome
da companhia onde trabalhava. - Companhia de Carnes Enlatadas Hayward. -
Há quanto tempo trabalha lá? - Desde que eu era garoto. - Acho que vou
amanhã de manhã. Por falar nisso, é importante ter experiência? Smitty
começou a rir. - Quando conduzem aqueles bois para a rampa, tudo o que
você tem a fazer é acertar-lhes uma marretada na cabeça. A idéia não
fascinou muito Jacob, mas em todo caso. . . - Muito obrigado, Smitty.
Realmente fico grato. . . talvez veja você amanhã. - Claro, Sanders. Eu
almoço no terreno baldio dos fundos. Vou querer saber como as coisas
correram. Jacob deixou a cerveja, disse um boa-noite e voltou para a sua
pensão. Mal podia esperar que amanhecesse.. . Deus teve compaixão dele.
Jacob conseguiu emprego na Companhia de Carnes Enlatadas Hayward com um
salário inicial de 25 dólares por semana. Por mais que levasse uma vida
frugal, era-lhe impossível mandar buscar Sara e as crianças. Como alugar
uma casa e mobiliá-la? Por menos que gastasse consigo mesmo, tinha de
pagar o aluguel, três refeições por dia e a passagem de bonde. Todas as
semanas, mandava um pouco de dinheiro a Sara, mas, quando chegava o fim
do mês, considerava-se com sorte, se lhe restavam 15 dólares. Após três
meses, ele não suportava mais a separação, e as cartas de Sara eram cada
vez mais tristes. Finalmente, ele se forçou a ir procurar Molly. - Se
ainda está disposta, vou aceitar o seu oferecimento, mas com uma
condição. O dinheiro é apenas um empréstimo. Tenho de mandar buscar Sara
e as crianças, tenho de... Rapidamente, Molly levantou-se, foi até uma
gaveta e de lá tirou 200 dólares, que entregou a Jacob. - Que Deus o
abençoe, Jacob - disse ela. Jacob olhou contrafeito para o dinheiro em
sua mão. Teve vontade de devolvê-lo e fugir correndo. Mas a solidão
venceu a sua relutância em aceitar a caridade da sogra. Enfiou o
dinheiro no bolso e a contragosto lhe agradeceu.
#break Capítulo Vinte e Cinco
A solidão de sua infância nunca realmente o abandonara. Quando ele viu
Sara e as crianças desembarcando do trem, compreendeu mais do que em
qualquer outro momento de seu exílio o quanto sentira falta da família.
Alugara dois quartos e finalmente tinha Sara e as filhas ao seu lado...
Quando Sara matriculou Rachel e Doris na escola, ficou chocada. Se eles
tinham medo de admitir que eram judeus em Collingwood, ali ela sabia que
era um medo que podia eliminar. A zona era mais da metade composta de
negros, com uns poucos chineses e apenas um pequeno número de brancos.
Internatos elegantes pareciam coisas remotas. Como era estranho, pensou
Sara, voltando a pé para a pensão com Lillian pela mão. Depois de ver a
escola, ela começou a duvidar se tinha sido assim tão maltratada. Mas,
ao lembrar-se da tristeza que sentira e da sua frustração por não ter
ninguém para guiá-la, concluiu que crianças estavam sempre melhor na
companhia de suas mães, por mais modestas que fossem as condições de
vida da família, do que sozinhas num colégio luxuoso. Suas filhas
cresceriam mais bem ajustadas, com menos temores do que ela tivera...
A única glória que Jimmy Smith podia reivindicar para si mesmo era a
notícia de seu nascimento no Tribune de Chicago. Sua infância se passara
numa casa com crianças demais, dinheiro de menos e uma mãe cujas
afeições se concentravam nas mercadorias do contrabandista local de
bebidas. Seu pai trabalhava num matadouro e, aos 10 anos de idade,
quando Jimmy decidiu que já estava em tempo de cuidar de si mesmo,
seguiu os passos do pai.
Aos 19 anos de idade, pouco havia sobre o comércio de gado que ele não
soubesse. Jimmy nunca planejara sair de Chicago, mas tampouco planejara
casar-se e constituir família. A seu pai ele confessou que fizera "mal
a uma moça" e tinha de sair às pressas de Chicago. E com a bênção do
pai, Jimmy tomou um trem de carga e foi parar em Oakland, Califórnia.
Em Oakland, ele procurou emprego no único ramo de negócio que conhecia
indo trabalhar para a Companhia de Carnes Enlatadas Hayward.
O dia mais importante na vida de um certo Jacob Sandsonitsky, mais
conhecido como Jack Sanders, foi a noite em que entrou num salão de
bilhar e ficou conhecendo Jimmy Smith, mais conhecido como Smitty...
Depois de trabalhar três meses para a Companhia Hayward, Jacob decidiu
que não ia passar o resto da vida batendo na cabeça de bois. Certo dia,
durante o almoço, ele disse a Smitty:
- Você gostaria de ser meu sócio? Vou me estabelecer no ramo por conta
própria.
- Deve estar ruim da cabeça - respondeu Smitty, rindo. - Não sabe o que
é preciso para se entrar no negócio de gado. Que diabo de capital pensa
que eu tenho?
- Não é de dinheiro que preciso, mas de alguém que conheça o negócio a
fundo.
- Você está maluco. O que poderíamos fazer sem grana?
- Tenho umas economias, o bastante para começar.
- Começar o quê?
- Tenho estado vendo e escutando. O mais barato é comprar bezerros, e é
por aí que devemos começar.
Smitty agora não estava mais rindo. Após um longo momento, disse:
- É muito arriscado, mas o que tenho a perder? O dinheiro é seu, e um
emprego como este posso arranjar em qualquer parte. Está bem, Jack, já
tem o seu sócio.
No dia seguinte seria o Dia de Ação de Graças. As lágrimas arderam nos
olhos de Sara quando ela olhou para o fogão de duas bocas e para o
desenho de um enorme peru que Doris fizera para seus pais. Pôs de lado
o desenho assim como sua tristeza, quando a porta se abriu.
- Chegou mais cedo hoje, Jacob?
Ele a beijou, despiu a jaqueta, foi até a pequena pia de canto e começou
a lavar o rosto.
- Jacob, por que voltou tão cedo para casa? Enxugando as mãos numa
toalha, ele a olhou e sorriu.
- Eu me demiti do meu emprego.
Por um momento, ela pensou ter perdido a fala.
- O quê? Jacob, o que há com você? Deve estar maluco.. . Ele se sentou
ao lado de Sara e tomou-lhe a mão.
- Não, não estou maluco. Esta é a primeira vez na vida que estou em meu
juízo perfeito.
- Não sei do que está falando. Como vai ganhar a vida?
- Vou me estabelecer no comércio.
- Com o quê, e que espécie de negócio?
- Já lhe contei que trabalho com um sujeito chamado Smitty. Você sabe a
história de como consegui o emprego. Smitty e eu vamos nos associar.
- Não pode estar falando sério, Jacob. É preciso dinheiro para alguém se
estabelecer.
- Tenho de começar de alguma maneira. Vamos comprar bezerros no
interior, matá-los nós mesmos, e vender a carne aos açougueiros
chineses. Eles não são exigentes com o que compram.
- Acho que é uma loucura, uma total loucura. Enquanto isso, como vamos
viver?
- Com sua mãe.
Isso significava mais outra escola para as filhas... e outra mudança
para um fundo de loja. Por um momento ela olhou para Jacob e viu o rosto
de Louie. Jogadores...
- Tem certeza de que sabe o que está fazendo, Jacob?
- Sem a menor dúvida. Sara, acredita no destino?
- A esta altura, não acredito em nada.
- Bem, talvez você não acredite. A maior sorte que me aconteceu foi
conhecer Smitty. Sara, tão certo como há um Deus no céu, não vou apenas
ganhar a vida, vou ficar rico.. .
Sim, era Louie falando, de Joanesburgo, Bruxelas, Monte Carlo...
Dessa vez, ele não se sentiu culpado nem envergonhado, quando pediu a
Molly que lhe emprestasse mais 300 dólares. Ela ia receber todo o seu
dinheiro de volta e mais os juros.
Depois de comprar um caminhão Dodge de segunda-mão, levou Sara e as
crianças para ficarem com Molly.
Doris e Lillian adoravam a movimentação de morar nos fundos da loja da
avó - sobretudo Doris. Gostava de perambular por entre o emaranhado de
quinquilharias e inventar histórias sobre as pessoas nos velhos
porta-retratos com molduras douradas, ovais. Gostava de levar Lillian ao
Parque Fremont para exibi-la, depois ir à Companhia de Biscoitos, onde
se podia comprar por um níquel enormes sacos de biscoitos quebrados.
Quebrados ou não, os biscoitos eram deliciosos.
Mas o melhor de tudo eram os domingos, quando ela arrastava Lillian ao
cinema, onde os filmes em série começavam às 10 da manhã. Doris era
sempre a primeira na fila, segurando o saco de papel pardo cheio de
sanduíches, bolo e frutas para serem comidos ao meio-dia enquanto
William S. Hart e seu cavalo despencavam de um rochedo. Ela estava
terrivelmente apaixonada por William S. Hart porque ele era muito
corajoso. Desafiava os índios - pelo menos 20 de cada vez - enquanto
pulava de um lado para outro do seu cavalo. Seria William S. Hart
judeu? Se ao menos ela pudesse se parecer com Mary Pickford. Seria Mary
Pickford judia?. . . A única nuvem sombria na vida de Doris era a
escola. Continuava a aborrecer-se na classe. E pior ainda, a reação da
professora às suas perguntas não era mais de contrariedade, mas de uma
estudada indiferença. Quem sabe no próximo ano as coisas melhorariam?
Doris não era a única a carregar suas cruzes. Sara não podia compreender
como Rachel saíra tão diferente das outras crianças, de convívio e
temperamento difíceis. Rachel gostara ainda menos do que Sara de ter
sido obrigada a mudar-se. Detestava dormir com Doris e desagradava-lhe
morar nos fundos da loja da avó. Não havia dignidade alguma em viver
rodeada de toda aquela velharia. Lembrava-se dos lindos móveis que sua
mãe vendera, antes da primeira viagem para a Califórnia, e como lhe
custara desfazer-se deles. Mas tudo tinha mudado, principalmente a mãe.
Se Rachel dissesse a menor coisa que lhe desagradasse, era esbofeteada,
porém o que mais irritava mamãe era Rachel não lhe dar a satisfação de
chorar, por mais que a bofetada a tivesse magoado. Quando chorava, era
sozinha. Como podia sua mãe criticá-la tão francamente com vovó? Se sua
própria mãe não lhe dava valor, então o que podia Rachel valer para os
outros? Mamãe a criticava constantemente, nunca a elogiava e considerava
que tudo o que ela fazia não passava de sua obrigação. Ninguém sabia o
quanto Rachel se sentia só.. . Ninguém parecia compreendê-la. E desde
que ela crescera, tinha perdido contato até com o pai...
Aos 13 anos, o único consolo em sua vida desprovida de alegria e afeição
era o Teatro Fulton, aonde ia aos sábados. O mundo imaginário lhe
parecia mais real do que o seu próprio. Sentia uma estranha ligação com
os atores no palco, como se tivesse mais parentesco com eles do que com
a própria família, e ela se sentia incorporada àquelas vidas
imaginárias.
Quando terminava a matinê, saía do teatro com uma estranha melancolia.
Voltar à loja de móveis usados de sua avó a deprimia, após a empolgação
dos lugares mágicos que acabavam de deslumbrar seus olhos e assim
costumava atrasar o mais possível a volta para casa. Descia a rua até a
esquina Quatorze com Harrison, entrava na Lanchonete Clinton e esperava
na fila com uma bandeja. Caminhando junto ao balcão, ela olhava para as
diferentes cores das gelatinas reluzentes, encimadas por uma bola branca
de creme batido, e as saladas frescas enfeitadas com pequenos tomates
redondos e azeitonas pretas. Havia enchiladas em grandes panelas
oblongas de ferro, creme de galinha e ervilhas no balcão de comidas
quentes. Era tudo tão sereno, tão tranqüilo, tão diferente do seu lar..
.
Dessa vez ela escolheu creme de galinha e uma fatia de pão de milho.
Valia a pena a longa caminhada de ida e volta da escola todos os dias a
fim de economizar os níqueis para aquele prazer. Quando finalmente
voltou para a loja, foi diretamente para seu quarto, sem dirigir a
palavra a ninguém e fechou a porta. Queria preservar a sensação de
calma e sonho, mas a sua paz durou pouco. Sara surgiu na soleira da
porta.
- Como se atreve a não me avisar quando chega em casa? Pouco lhe importa
o duro que dou nesta casa? Agora levante-se e venha jantar...
- Não estou com fome.
- Não está com fome? Ótimo. Acha que assim está me castigando? Bem,
veremos... espere só até seu pai voltar para casa.
Sara bateu a porta e foi para a cozinha, onde encontrou Molly.
- Ela é impossível, completamente impossível, mamãe. Como é que eu pude
ter uma filha assim?
- Ela só tem 13 anos...
"Quando eu tinha 13 anos", pensou Sara, "daria o mundo para ter uma mãe
que se preocupasse em saber onde eu estava e como passara o meu tempo."
Sara sentia como se sua vida a estivesse sufocando. Continuava com a
intenção de ser uma mãe melhor do que Molly o fora, mas não ia se
envolver mais do que já se envolvera. Estava grávida, mas decidida a
não ter aquele filho.
Nessa noite, quando Jacob chegou em casa encontrou Molly muito
preocupada, esperando-o na porta.
- Jacob, não sei o que fazer, Sara se trancou no quarto e se recusa a
falar comigo ou a abrir a porta.. .
- Por quê? O que aconteceu?
- Não sei. Ela se exalta com qualquer coisa...
- Vocês brigaram novamente?
- Não. Rachel a irritou, mas realmente não achei que a menina tivesse
feito nada de grave. O fato, Jacob, é que Sara anda muito nervosa nestes
últimos tempos. Sei que não é fácil vivermos aqui nestas condições...
Jacob correu ao quarto e bateu na porta.
- Sara, abra! Nenhuma resposta.
Jacob ia insistir, quando ouviu a chave girar na fechadura. Abrindo a
porta, notou os olhos vermelhos de Sara e a viu atravessar o quarto e
sentar-se na cama. Não era Rachel, realmente, que a deixava naquele
estado. Será que ela não podia compreender o quanto ele estava
trabalhando para dar uma vida melhor à família, que aquele período ruim
não ia durar para sempre? Bem no fundo de seu coração, sabia o que sua
mulher estava sentindo. . . afinal, ele já sentira o mesmo muitas vezes.
..
- Sara, estou me esforçando, as coisas vão melhorar...
- Não tem nada a ver com os seus esforços.
- Então o que fez Rachel para deixá-la tão deprimida?
- Ela me contraria a maior parte do tempo, mas não é o meu problema mais
importante.
- O que é, então?
- Estou grávida - disse eía, olhando-o fixamente.
Por um breve momento Jacob teve vontade de estreitar Sara nos braços e
dizer-lhe o quanto estava feliz, mas o momento se perdeu na próxima
frase de Sara.
- Amanhã vou fazer um aborto.
Jacob se imobilizou, emudecido. Ela ia destruir. . . não, matar algo que
era também parte dele? Que diabo, a decisão não era só dela.
- Não vai não, isso eu juro. Se fizer um aborto eu nunca a perdoarei...
estou falando sério. . .
- Então vou ter de viver sem o seu perdão. Não vou ter esse filho nem
nenhum outro. Três é o suficiente. Já sofri bastante pelas minhas
filhas. Não quero mais me sacrificar. Nunca mais. . .
Jacob pôs-se a andar de um lado para outro do quarto, depois virou-se,
olhou para Sara e pediu:
- Por favor, Sara, não faça isso... pode ser que seja um menino. . .
Era só isso que ele tinha a dizer? Esperava que ela continuasse tendo
filhos até o seu desejo se realizar?
- Não, Jacob, não vou ter essa criança.
Ele se sentou na cadeira e tapou os olhos com as mãos para que Sara não
lhe visse as lágrimas.
- Preciso de 50 dólares, Jacob.
Por um longo momento ele pensou na noite em que Gittel tivera o primeiro
filho e de suas palavras a Hershel. "Você tem um filho. Quando morrer
haverá alguém para dizer Kaddish por você." Levantou-se, contou o
dinheiro, colocou-o sobre a penteadeira e saiu do quarto, sem dizer
palavra.
Jacob passou três semanas longe de casa, percorrendo o interior,
tentando vencer a amargura que lhe causara a decisão de Sara, e durante
três semanas Sara não fez nada senão chorar.
O aborto fora feito nos fundos de uma suja barbearia, e durante vários
dias a perda de sangue foi tão grande, que Molly pensou que Sara ia
morrer. Também ela implorara a Sara que não tomasse tal providência,
mas de nada haviam adiantado seus argumentos.
Quanto a Jacob, pelo que se podia deduzir de seu aspecto, era um homem
de grande força física e emocional; ninguém poderia suspeitar de seu
profundo, intenso medo e solidão. Quando finalmente voltou, Sara sentiu
um grande alívio. Sentia-se tão perdida e desamparada sem ele, quanto
ele sem ela. Embora não o admitisse, tinha dúvidas se agira direito
tirando uma vida que Jacob tanto queria e agora vivia com a consciência
pesada. A criança teria sido um menino - mas naturalmente ela jamais
deixaria que Jacob soubesse.
Jamais poderiam revelar um ao outro seus verdadeiros sentimentos, e
levou mais de uma semana, depois da volta de Jacob, até conseguirem se
olhar nos olhos ou trocar palavra. Aos poucos, conversas à mesa com as
crianças fizeram com que começassem a trocar algumas palavras
rotineiras.
Se as suas vidas nem sempre eram harmoniosas e se havia ocasiões em que
se afastavam um do outro, nada poderia mudar a grande necessidade que
sentiam um do outro.
#break Capítulo Vinte e Seis
Smitty ensinou a Jacob todos os truques: onde havia melhor gado, de que
pecuaristas comprar, e o que verificar, ao avaliar um boi.
Bezerros custavam três dólares por cabeça, portanto os 200 dólares de
Jack deram para comprar urn caminhão deles. Havia só um senão. Smitty
disse a Jacob que eles teriam de fazer uma coisa meio irregular:
montarem seu próprio matadouro. O custo de mandar os bezerros para
outros matadouros comeria os lucros, e eles poderiam acabar com
praticamente nada. Smitty sugeriu que alugassem um galpão ou uma garagem
em algum local afastado, para evitarem problemas com a lei.
Encontraram o local perfeito em Emeryville, por trás de umas colinas.
Smitty e Jacob atavam os bezerros, depois de mortos, e os penduravam o
tempo suficiente para o sangue escorrer e o corpo esfriar, e, no dia
seguinte, vendiam as carcaças inteiras aos açougueiros chineses, que se
importavam tanto quanto Smitty e Jacob com as regulamentações do
Governo.
Os couros eram vendidos a um curtume por quatro dólares cada, as
entranhas por um dólar o quilo a uma fábrica de ração e os corações,
fígados, rins, cabeças e cascos rendiam ainda mais de um dólar o quilo.
Isso é que era formidável no negócio de gado, nada se desperdiçava. Do
preço inicial de três dólares por cabeça, o lucro total era de 28
dólares.
Ao fim de três meses, Jacob pôs 750 dólares na palma da mão suada de
Smitty e disse-lhe que a sociedade dos dois estava desfeita.
A princípio Smitty ficou furioso, mas não podia realmente dizer que
Jacob estava sendo incorreto. Smitty ganhara muito dinheiro, embora não
tivesse investido um só níquel. Além disso, não estava disposto a se
amarrar a grandes responsabilidades, e o trabalho e as condições de vida
eram estafantes. Jack era um sujeito exigente no trabalho. Tudo tinha
de ser feito à sua maneira, e ele parecia uma máquina que nunca parava.
Smitty sentia falta do salão de bilhar e de um ocasional copo de
cerveja. Assim, levando-se tudo em consideração, não achava que tinha
sido tratado de maneira injusta. A sociedade terminara, mas não a
amizade.
Jacob concluiu que tinha aprendido tudo o que Smitty lhe podia ensinar,
o resto viria de sua própria experiência. Smitty voltou a trabalhar na
Companhia de Carnes Enlatadas Hayward e Jacob passou a fazer o trabalho
de dois. Matava e esfolava sozinho seu gado, fazia as entregas ao
comércio, viajava pelo interior até Salinas, Modesto, Watsonville. . .
parava em cada fazenda ao longo do caminho.
Nos poucos meses seguintes, aprendeu tudo o que lhe restava saber sobre
o negócio. Finalmente Jacob estava saindo do túnel escuro para o quente
sol da Califórnia.
Ainda que Jacob sentisse algum remorso por haver terminado a sociedade
com Smitty, sabia que fora uma decisão acertada. Agora o lucro todo era
seu. Ganhara dinheiro e agora ia usá-lo. Finalmente, teria uma casa
própria.
Foi um grande momento para Jacob quando ele anunciou:
- Sara, encontrei uma casa na Zona Oeste de Oakland.
O coração de Sara teve um sobressalto. Seria possível que ela ia parar
de viver em fundos de lojas? Estava muito atordoada para responder, mas
não era difícil ler os pensamentos em seu rosto.
- É verdade - disse Jacob, sorrindo. - Venha, Sara, chame as crianças e
diga à sua mãe que feche a loja. Quero que vocês vejam a casa.
Era tal a excitação da família, ao entrar no caminhão, que Jacob pôs-se
a rir. Enquanto percorriam o Bulevar Fruitvale, Sara perguntou-lhe:
- Como encontrou essa casa?
- É engraçado como as coisas caem nas minhas mãos, como foi o caso da
sociedade com Smitty. Parei para tomar um café e encontrei um açougueiro
meu conhecido. Por acaso, ele mencionou que sua mãe tinha morrido e lhe
deixara de herança uma casa. Perguntei se queria vendê-la e ele
respondeu que sim, o mais rápido possível, para não pagar os impostos
da municipalidade. Fui ver a casa e só o que posso dizer é que é a casa
mais linda que jamais vi.
- Se é uma casa tão estupenda, por que seu amigo quer vendê-la? -
perguntou Sara, com o coração batendo com mais força.
- Porque ele é um solteirão e não precisa de tanto espaço. Sara suspirou
de alívio.
- Quanto você pagou por ela?
- Dois mil e quinhentos dólares.
- Jacob, não temos todo esse dinheiro...
Jacob tinha, mas por precaução não contava exatamente a Sara como
estavam suas finanças. Os gastos de Washington Heights ainda estavam
frescos em sua memória.
- É verdade, mas vou dar uma entrada e assinar uma promissória. . .
Sara não mais o estava escutando. A única coisa em que pensava era que
seria dona de sua própria casa e estaria livre do inferno de viver
amontoada com sua mãe e as crianças, sem nunca um momento de
privacidade, sem um canto seu - exatamente como quando fora morar com
Esther. Já era tempo de ela assumir sua própria vida.
Mergulhada nesses pensamentos, teve um sobressalto, quando Jacob parou
diante da casa. Todos desceram do caminhão. Sara não podia acreditar nos
seus olhos. As modestas habitações da vizinhança só serviam para fazer
sobressair o encanto da linda casa de madeira, de dois andares. Quatro
escadas largas ladeadas por corrimões levavam ao alpendre da entrada. O
telhado pontiagudo era ornamentado com cornijas de filigrana.
Jacob tirou do bolso a chave e abriu a porta.
No momento em que entrou na casa, Sara teve vontade de se ajoelhar e
beijar o assoalho. Com a respiração em suspenso, relanceou um olhar ao
redor.
O vestíbulo quadrado era forrado com lambris de madeira. Ela olhou para
a pesada coluna e o corrimão em caracol das escadas que levavam ao
segundo andar.
Cheio de orgulho, Jacob fez sua mulher e sogra percorrerem a casa.
A sala de estar era espaçosa, com uma alta lareira sustentada de cada
lado por colunas redondas. Entre as colunas um espelho refletiu a imagem
de Sara. Ela podia imaginá-la acesa no inverno, quase sentir o cheiro
de toras ardendo. Seguiu Jacob até a sala de jantar, onde os painéis de
madeira erguiam-se até quase o teto com um pé-direito de quatro metros
de altura, terminando numa cornija que cercava a sala toda. Que lindo,
pensou Sara. Já podia imaginar os pratos decorativos ao longo da
parede. A cristaleira embutida com portas de vidro chumbado devia ter
guardado as melhores porcelanas do proprietário anterior.
Jacob conduziu Sara e Molly à enorme cozinha. O linóleo pardo teria de
ser substituído, pensou Sara, mas sorriu ao lembrar-se do primeiro
apartamento do casal, com a cozinha verde-clara e linóleo amarelo. Isso
era bem diferente de Washington Heights.
Jacob levou-a ao alpendre envidraçado dos fundos, onde ainda se achava
uma velha máquina de lavar roupa. Molly chamou-a de volta à cozinha.
- Veja, Sara - disse ela, fazendo deslizar o estreito painel da parede.
Sara olhou da cozinha para a sala de jantar.
- Jacob tinha razão, é uma linda casa - comentou Sara, sorrindo para a
sua mãe.
Molly concordou, lembrando-se da casa em Monte Carlo. Teria realmente
jamais se esquecido? "Sara pensa que é a única que se viu despojada",
pensou ela, "e me lembro também de ter tido de vender os meus
apartamentos para que Sara pudesse ter isso." Mas tentou afastar do seu
pensamento a inveja. Queria que Sara tivesse aquela casa. Mas o fato
era que Jacob nunca tocara no assunto de lhe pagar o dinheiro que lhe
devia...
Podiam ouvir Doris e Lillian correndo de quarto em quarto no andar de
cima. Ao ver sua mãe subir ao segundo andar, Doris disse entusiasmada:
- Cinco quartos! Qual é o que pode ficar para mim, mamãe?
- Veremos depois. . . - disse Sara passando por ela, mal lhe dando
ouvidos, pensando no passado, no futuro...
"Isso é bem do feitio de mamãe", pensou Rachel. "Como seria bom, se
mamãe dissesse: De que quarto você gostaria, Doris, qual é o que
prefere?" Mas mamãe estava muito preocupada consigo mesma. Pobre papai.
. . bem, pelo menos ela não teria de dormir mais no mesmo quarto com
Doris. Qualquer quarto que lhe coubesse, seria só seu e ninguém
invadiria a sua privacidade.
Rachel fez uma careta quando ouviu Sara erguendo a voz para Lillian, que
entrara na banheira e estava espirrando a água da torneira aberta.
- O que está fazendo? Oh, meu Deus, só o que me faltava agora era você
apanhar um resfriado. Já não tenho bastante trabalho. . .
- Subam todos depressa - chamou Doris do sótão. - Vejam. - E ergueu a
tampa de um grande baú forrado de cretone.
A família espiou dentro do baú. Havia vestidos de cetim, chapéus de aba
larga com plumas, véus, contas e leques. Era o tesouro de Doris... só
dela.
- Jacob, teremos de jogar fora essa velharia.
- Não! - exclamou Doris. - É meu. Quero para mim... por favor.
- É um monte de trapos velhos - retorquiu Sara. - Sabe Deus há quanto
tempo estão aqui. . .
- Não me importa.
Hesitando um momento, Sara disse finalmente:
- Está bem, mas não toque em nada antes de eu examinar tudo. Pode ser
que haja aí dentro traças ou baratas, ou sabe Deus o quê...
Sara não ouviu o "obrigada" de Doris. Estava olhando em redor, de um
objeto para outro. Quatro cadeiras de vime pintadas de branco, uma velha
cadeira de balanço, três mesas ovais com tampo de mármore, um sofá de
veludo vermelho com uma perna quebrada, uma penteadeira, molduras
douradas e retratos de família... Era assim que terminava a vida de uma
pessoa, um punhado de retratos antigos? Mas tratou de afastar aqueles
pensamentos de sua mente, estava filosofando demais.
- Jacob, o seu amigo vem apanhar todas essas coisas?
- Não, a casa foi comprada com tudo que contém.
- Ah, sim. . . bem, o que acha que devemos fazer com tudo isso?
- Ficar com as coisas, é claro.
- Mas só até podermos comprar coisas novas.
- Naturalmente. Gosta da casa, Sara? - Ele sabia que ela gostava, mas
queria ouvi-la dizer.
- Gosto, sim, Jacob. A mobília não é bem o que quero, mas darei um jeito
em tudo...
- Sei que você sempre teve bom gosto, Sara. Mas ainda não viu tudo -
disse ele e desceu as escadas seguido da família. Conduziu-os ao caminho
de entrada de automóvel e mostrou-lhe a garagem e o prédio adjacente
que fora antes um pequeno estábulo. Ao lado havia um jardinzinho. Embora
estivesse agora cheio de mato, Sara podia ver as rosas e narcisos.
- É lindo, Jacob. Finalmente você teve o seu pequeno mazel - comentou
Molly.
- Cada um faz seu próprio destino - respondeu Jacob.
- Mas a sorte também ajuda um pouco - disse Sara, defendendo sua mãe.
- Pense você o que quiser, mas toda a sorte que Jacob Sandsonitsky teve
foi ele quem a fabricou...
O resto da semana, Sara e as meninas passaram esfregando e limpando cada
recanto da casa. Os velhos potes e panelas foram esterilizados e depois
guardados no armário da cozinha.
Louça e prataria não eram problema. Molly tinha mais do que poderia
vender. Nada combinava, mas Sara, enquanto esperava, satisfez-se com o
que havia.
As janelas foram lavadas com água e vinagre e enxugadas com jornais.
Lavando o vitral da porta da frente, Sara lembrou-se de como Molly
espatifara a porta de vidro da Sra. Bromberg. Como ela odiava a Sra.
Bromberg e sua hipocrisia, Hershel era igualmente hipócrita e, se
pudesse ver a casa de Jacob, ia se ralar de inveja. Pois apesar de toda
a gabolice de Hershel, Gittel continuava morando nos fundos da loja.
Sara sorriu. Ela tinha se casado com o homem certo. Por enquanto...
#break Capítulo Vinte e Sete
Sara começou a preparar-se para a Páscoa judaica. Embora desde muito
tempo ela não guardasse o kosher, a Páscoa tinha um significado
especial.
Jacob trouxe para casa um engradado de ovos frescos de fazenda, um saco
de cebolas e batatas. Levou Sara no caminhão até a Klein, na Rua Sétima,
onde ela comprou matzo e vinho. Depois foram à Rothstein para comprar
galinha e peixe.
Naquela tarde, enquanto ferviam no enorme caldeirão cenouras, cebolas e
cabeças de peixe, ela parou um momento para se sentar, tomar um chá e
comer um pedaço de torta de maçã. Quando terminasse o dia, todo o pão e
bolos teriam de estar prontos ou seriam jogados fora; pois na semana
seguinte só podia ser usado o matzo.
Depois do chá ela começou a fazer com a pasta de peixe croquetes de um
perfeito oval. Terminado o serviço, jogou -os cuidadosamente num caldo
fervente, tapou a panela e baixou o fogo. O aroma era delicioso. Em
seguida, começou a fazer os bolos. Com uma batedeira manual, bateu as
claras até se transformarem numa espuma dura, depois misturou as gemas
e acrescentou açúcar e farinha de matzo. Enquanto os bolos estavam
assando, ela limpou as galinhas que cozinharia no dia seguinte.
Sara estava feliz. A vida era boa e prometia vir a ser melhor.
Finalmente tinha um lar.
Ao ouvir a campainha da porta, enxugou as mãos no avental e dirigiu-se
para a porta da frente. Ao abri-la, mal pôde acreditar no que via.
- Shlomo, meu Deus. . . quando chegou?
- Esta manhã - respondeu ele rindo, e estreitou nos braços o mais do que
amplo corpo da cunhada.
- Oh, Shlomo, como estou contente. . .
- Então, não vai me mandar entrar?
-Entre, entre! - E, tomando-o pela mão, levou-o para a cozinha. -
Sente-se, Shlomo, vou lhe dar alguma coisa para comer. . .
- Obrigado, Sara, mas já almocei.
- Uma xícara de chá?
- Isso seria bom. Faz muito tempo que não me sento numa cozinha para
tomar chá. . . Você está ótima, Sara.
- E você, também - respondeu ela, pondo água para ferver. - Conte-me a
seu respeito. Quero saber tudo. . .
- Tudo? Tem certeza de que quer saber tudo? - Os dois riram.
- Sabe o que eu quis dizer - acrescentou Sara, com um ar malicioso. -
Por que não nos avisou da sua volta?
- Porque quando vocês recebessem a carta eu já estaria aqui.
- E vai ficar?
- Sim, vou.
- Isso quer dizer que deu baixa da Marinha?
- Não. Apenas fui transferido de volta para os Estados Unidos. Fui
transferido para a Ilha Maré.
- Quanto tempo vai ficar aqui?
- A Marinha não nos costuma dar confiança - retorquiu Shlomo, rindo. -
Vamos para onde somos mandados. Mas tenho a impressão de que vou passar
algum tempo aqui.
- Mas não tem de voltar hoje?
- Não, estou de licença por três dias.
- Oh, louvado seja Deus. Então vai ficar aqui conosco, Shlomo.
- Eu gostaria muito...
Sara serviu o chá e colocou na mesa um prato com torta de maçã.
- Por favor, coma o strudel, detesto ter de jogá-lo fora. Deve estar
lembrado de que amanhã é a Páscoa. ..
- Sim, eu sei. - Tomando um gole de chá, Shlomo relanceou um olhar pela
cozinha. - Posso ver que você está muito feliz, Sara.
- Sim - suspirou ela. - Esta é a primeira vez na minha vida que
realmente tenho um lar.
- É ótimo, e você o merece.
- Obrigada, Shlomo. A verdade é que a vida não tem sido fácil para
nenhum de nós.
- E Jacob?
- Creio que ele é o homem mais feliz e mais ocupado do mundo.
- Isso me alegra. Eu sempre soube que Jacob acabaria vencendo.
- Ele está ganhando bom dinheiro. É claro que nada é perfeito, Shlomo.
Jacob é um tanto difícil, quando se trata de dinheiro.. .
- Suponho que quando se foi pobre a vida inteira, Sara, deve ser muito
assustador abrir mão de dinheiro.
- Para certas pessoas. ..
- Não sei, Sara. Sempre vi em Jacob algo de muito especial.
- Se ele é especial, não sei, mas garanto a você que ninguém trabalha
tanto. Eu realmente não pensei que ele fosse tão capaz. Imagino que tem
razão, Shlomo. À sua maneira, ele é especial. Mas você também o é. Se
as coisas tivessem sido diferentes, você teria ido longe. Sei que sempre
quis ir para uma universidade...
- Fale-me das crianças.
- Bem, são meninas muito boazinhas... embora Rachel seja um pouco
difícil. . . É incrível que uma mãe não seja capaz de compreender a
própria filha. Mas a verdade é que ela é. . . bem, muito rebelde,
teimosa e retraída. . . Não sei a quem puxou, mas sob certos aspectos é
bem parecida com o pai. .. Não sei, Shlomo, todas três têm muito mais
do que jamais tivemos. Uma mãe e um pai para zelar por elas.. .
- E as outras duas?
- Doris é. . . o que posso dizer? Detesta a escola, não gosta de
estudar... Doris tem dois amores.. . falar e ir ao cinema. . .
- E a pequenina?
- Não mais tão pequenina. Já está no jardim da infância... Mas o que
mais posso dizer? Elas são crianças. Agora, fale a seu respeito, Shlomo,
já encontrou alguém?
- Encontrei uma porção.
- Mas ninguém especial?
- Na Marinha não se encontra o tipo de garota que se pode levar em casa
para conhecer mamãe. Além do mais, não estou com intenção de me amarrar.
E sua mãe? Deve ser uma grande emoção para você tê-la finalmente a seu
lado.. .
À medida que Sara falava, Shlomo pensava o quanto ela estava diferente
da triste e linda jovem que viera morar com eles. Embora ainda gostasse
muito da cunhada, havia nela um descontentamento latente que o
perturbava. Sara amava as filhas, porém falava nelas como se fossem um
peso - ao contrário de Gittel, que achava que o sol e a lua brilhavam
só para seus filhos. Sara não tivera uma vida mais dura do que Gittel,
mas insistia sempre em falar de suas provações e sacrifícios. Shlomo
esperava que fosse apenas sua imaginação, mas desconfiava que não...
Sara ouviu o ruído de um caminhão entrando na garagem.
- É Jacob. A surpresa que ele vai ter vendo você!. ..
Quando Jacob entrou na cozinha e viu Shlomo, ficou sem fala. Soltou no
chão as caixas que trazia, segurou Shlomo pelos ombros e os dois se
abraçaram. Por um momento, sentiram-se de volta no restaurante de
Esther. . . "Eu sabia que você voltaria: Mamãe sempre disse que você
voltaria". . . Jacob soltou o irmão e olhou para a sua nova farda.
Todos os seus pensamentos de aversão pela Marinha foram esquecidos na
alegria de ver o irmão.
- Quando chegou?
- Esta manhã. - Não posso acreditar. Veio para ficar?
- Bem, não exatamente, mas vou ficar nos Estados Unidos por um tempo.
Jacob deixou transparecer sua decepção.
- Bem, qualquer dia, quando você se cansar dessa maluquice, pode vir
trabalhar comigo.
A maluquice não era tanta, pensou Shlomo, melhor do que se ele tivesse
permanecido no mundo civil. Se continuasse na Marinha teria uma pensão
para o resto da vida e as experiências por que passara eram algo que
dinheiro algum poderia comprar. O mundo era grande e ele ficara
conhecendo muitos lugares. . . nesses últimos anos, as Filipinas,
Cingapura, Sião e o Oriente. Sua vida se ampliara, mas isso não
interessaria muito a Jacob...
- Sara estava me dizendo o quanto você gosta de seu negócio e que está
ganhando bem.
- Melhor do que jamais pensei. Paguei a casa assim como o empréstimo que
fiz com a mãe de Sara. A coisa importante é não fazer dívidas. É preciso
ter dinheiro para fazer dinheiro e, se tivermos cuidado, e se houver um
Deus no céu, vou ficar rico.
- Quer dizer que o negócio da carne dá dinheiro mesmo?
- Claro que sim, mas o dinheiro grosso não está nos bezerros, está no
gado. A semana que vem vou comprar as minhas primeiras vacas.
- Você parece realmente entusiasmado, Jacob.
- Por que não? Olhem só para o sócio que vou ter... - Jacob sorria
radiante para seu irmão caçula.
- Que sócio! Com o meu grande capital, vai ficar mesmo milionário da
noite para o dia.
- Vou ficar milionário de qualquer maneira. E é de você que preciso, não
do dinheiro.
A conversa foi interrompida por Doris que entrou correndo na cozinha
seguida de Lillian.
Vinha atrás do cheiro delicioso, mas, quando ela viu o tio, esqueceu-se
da festança da Páscoa.
- Tio Shlomo! - gritou, atirando-se nos braços dele. Shlomo beijou-a e
abraçou seu corpinho rechonchudo.
- Você está tão crescida e tão bonita. Eu nunca a teria reconhecido. Ela
era bonita? Ninguém lhe dissera isso antes.
- Obrigada, que bom você estar aqui, tio Shlomo.
- Eu também acho. E esta é a pequenina?
Por um momento, Doris sentiu uma ponta de ciúme. Quando crescesse, ia se
casar com ele. Amava-o mais do que amava William S. Hart. E além disso,
ele era seu parente...
Quando Rachel abriu a porta da frente e se encaminhou para o seu quarto,
Sara chamou-a:
- Rachel, tenho uma surpresa para você.
- Deixe-me primeiro guardar os meus livros.
Sara fez uma careta. Será que Rachel nunca podia fazer logo o que lhe
pediam?
- Deixe seus livros na escada e venha cá.
Relutantemente, Rachel obedeceu. Ao ver o tio, a expressão de seu rosto
foi de genuína surpresa. Era o homem mais bonito que ela já vira - com a
exceção do pai. Seu coração bateu de maneira estranha e seus joelhos
quase dobraram, quando ele a apertou nos braços. Meio assustada com o
que estava sentindo, ela retribuiu timidamente o abraço, depois
fitou-o, sem saber o que dizer.
Ele a fez recuar para vê-la melhor. Era linda, alta e esguia. Tinha os
cabelos louros e os olhos intensamente azuis de Jacob, e sua pele era
translúcida como uma porcelana fina.
- Não posso acreditar nos meus olhos, Rachel. Não só está linda como já
é uma moça. Quase me esqueci de que você tem só 13 anos.
- Vou fazer 14 este ano - respondeu Rachel, baixando os olhos,
encabulada.
- Está bem, Rachel, vá trocar de roupa e volte aqui. Preciso de sua
ajuda - disse Sara.
Olhando nos olhos de Shlomo, por uma vez ela ficou grata com a ordem de
sua mãe. E subiu correndo as escadas.
No dia seguinte Jacob mostrou a Shlomo os estabelecimentos para os quais
vendia sua mercadoria e explicou como o negócio funcionava. Contou-lhe
como começara com Smitty, os problemas que tivera, as suas dificuldades
e como as vencera. Revelou que, embora fosse ilegal, matava os seus
próprios bezerros.
- Não que alguma coisa tivesse sido fácil para mim, mas dessa vez,
Shlomo, trabalhei de verdade. No começo não tinha dinheiro para alugar
um quarto, e assim mesmo, em pleno inverno, dormia dentro do caminhão e
quase morria de frio. Mas valeu a pena. Sabe quanto tenho no banco?
- Não, Jacob, quanto?
- Cinco mil dólares.
- É muito dinheiro.
- Em outra época, eu teria achado que era uma fortuna, mas dinheiro é
uma coisa estranha. Quanto mais você ganha mais precisa ganhar, se
quiser progredir, ir em frente. . . Não é realmente muito, Shlomo. Não
posso considerar-me um homem rico.
- A mim parece que possui uma fortuna.
- E é, mas não comparado ao que ainda vou ganhar. E isso eu lhe prometo,
Shlomo, não importa o que tenha de fazer, um dia terei a minha própria
fábrica. O meu único problema é Sara.
- Como assim?
- Ela se recusa a entender que esse dinheiro é o capital de que
necessito para progredir. Quer mobiliar a casa, mas isso é um luxo que
não lhe posso dar agora. Para ser franco, Shlomo, a nossa vida em comum
não é muito fácil. Ela não compreende que um negócio precisa crescer,
primeiro, tem de nos dar certa segurança antes de começar a ser gasto.
Por isso tenho de ter o cuidado de não lhe contar os meus negócios.
- Você mudou, Jacob.
- Claro que mudei. Sabe de uma coisa, Shlomo? Nunca contei isso a Sara,
mas vomitei quando matei o meu primeiro bezerro. . . Passei uma semana
nauseado. Porém eu tinha de esquecer, não podia pensar nisso. - Por um
momento voltaram os ecos do passado. . . "esqueça que está lutando como
um homem, lute pelo amor, lute por Lotte". . . - Tinha de me lembrar
que estava fazendo aquilo pelas crianças e por Sara e por nosso futuro.
- E agora?
- Agora é mais fácil. É preciso ser muito duro para sobreviver. Ora. ..
quem sabe disso melhor do que você? O que me diz da guerra? Aposto que é
terrível matar um homem, mesmo que ele seja o inimigo. ..
Shlomo não respondeu. Não ia dizer nada a Jacob agora, mas não ia ser
seu sócio. Ia tornar a se alistar.
#break Capítulo Vinte e Oito
A vida prosseguiu inexorável como sempre.
A morte de Molly afetou Jacob mais do que ele teria imaginado. Não era,
verdade seja dita, que sentisse tanto a falta dela, como o fato de que o
medo da morte de sua infância voltasse a persegui-lo. E começou a
pensar em sua própria condição de ser mortal. Lembrando-se dos seus
pesadelos de menino, não permitiu que as filhas assistissem ao funeral.
Sara estava tão arrasada que não teve forças para protestar, e o seu
abatimento durou mais do que o normal. Estava inconsolável, e agora só
se recordava de Molly como a mãe que queria que ela tivesse sido.
Com a morte de Molly, Sara só tinha as filhas em quem se apoiar. Jacob
estava inteiramente empolgado pelo seu trabalho e, quanto mais se
aproximava do objetivo que queria atingir, mais se afastava de Sara.
Estava ausente a maior parte do tempo, ora em Oregon, Nevada, Wyoming e
Montana, onde comprava gado, que depois ia vender nos matadouros de San
Francisco.
O fato era que Jacob andava tão atarefado que pouco tempo tinha para
notar que suas filhas estavam se desenvolvendo em direções um tanto
estranhas. E tampouco parecia sentir a mesma devoção para com sua mãe e
Gittel. Respondia com menos freqüência às cartas delas, embora sempre se
lembrasse de incluir um pequeno cheque...
As quintas-feiras eram especialmente difíceis para Sara. Assim que as
crianças partiam para a escola, ela iniciava uma pesada faxina, depois
tomava um banho, vestia-se e ia à Rua Sete fazer compras para o
Shabbes, voltando em geral com uma pesada sacola no fim da tarde.
Mas, nesse dia, ela se sentia tão cansada e fazia tanto calor, que
decidiu adiar as compras para a manhã seguinte. Deixaria de assar o
challah. A família podia passar sem esse prato por uma semana. Às vezes
não entendia por que se dispunha a ter tanto trabalho só por causa de
uma refeição. Rachel parecia ser a única de suas filhas para quem isso
tinha importância, e provavelmente era só por birra. No que se referia a
Sara, tratava-se apenas de um dia da semana como outro qualquer, mas
Jacob insistia que pelo menos aquela pequena parcela da tradição fosse
mantida, embora estivesse ausente a maior parte do tempo. A verdadeira
tradição para ele era a comida de sua mãe, pensava Sara, e não a
comemoração do Sabá. ..
Quando finalmente terminou de esfregar o chão da cozinha, apanhou um
copo grande de suco de laranja e um livro e foi para o quintal dos
fundos descansar, olhando para os galhos de tflia contra o céu,
pensando nos anos passados. A morte da mãe deixara um vazio em sua vida,
apesar de todas as brigas. Agora não era mais filha de ninguém e
perdera a sua única confidente. As crianças estavam crescendo, e ela,
não havia como negar, cada vez se sentia mais cansada. Apesar de sua
fina educação, continuava esfregando o chão e vivendo numa casa que
ainda não estava mobiliada. As viagens de Jacob e despesas com os
negócios nunca deixavam sobrar dinheiro para gastar na casa. Era como
Louie e Molly, sempre viajando, sempre gastando... chega de pensar no
passado, advertiu a si mesma, isso só a deixava mais infeliz. Era um
bom conselho, mas Sara nunca fora de aceitar conselhos... Nem de si
mesma. Assim, não era de admirar que reconhecesse a mesma característica
em Rachel como uma herança sua. ..
Levantando-se, ela entrou em casa, e mal havia começado a descaroçar
ervilhas, quando ouviu a porta da frente abrir. Eram só três horas da
tarde, um pouco cedo para as crianças já estarem de volta da escola.
Entreabriu a porta que dava da cozinha para o vestíbulo, quando ouviu a
voz de Rachel. Rachel não estava sozinha. Lenta e cautelosamente, Sara
alargou o vão da porta e gelou quando viu Rachel sendo beijada por Joe
Cantino, filho de um comerciante da redondeza.
Rachel, de olhos fechados, deixou-se beijar novamente por Joe. Depois
disse:
- Acho que é melhor você ir embora. Minha mãe pode voltar para casa...
- Só mais um beijo, Rachel.
- Não, por favor, vá embora...
- Gosta dos meus beijos, não é mesmo?
- Gosto, mas agora chega. Vejo você amanhã.
Depois de Joe sair, Rachel apoiou-se contra a porta, recordando o gosto
dos lábios dele nos dela. "Adoro seus beijos deliciosos", murmurou para
si mesma. Nunca antes fora beijada e estava descobrindo que coisa
incrivelmente maravilhosa podia ser um beijo.
Mal tinha entrado no quarto para trocar de roupa, quando Sara escancarou
a porta e ficou ali parada, olhando-a.
Rachel se surpreendeu ao vê-la. Nas quintas-feiras a mãe nunca chegava
em casa antes das cinco...
- Há quanto tempo isso vem acontecendo? - perguntou Sara, com uma
brandura quase excessiva.
- O quê? - Santo Deus. . . mamãe devia ter visto.
- Não finja comigo, menina.. . e, por favor, apague do seu rosto esse ar
inocente. Agora me diga quando começou a se envolver com aquele
vagabundinho?
- Joe não é um vagabundo - retorquiu bruscamente Rachel. - E acho
ofensivo o seu emprego da palavra "envolver". Soa sujo...
- Sujo? Acha que não sei o que acontece com...
- Mamãe, nada está acontecendo, como quer insinuar. Ele simplesmente me
acompanha até em casa, quando volto da escola...
Sara aproximou-se mais de Rachel.
- Por que voltou tão cedo para casa hoje?
- Tivemos uma assembléia e saímos mais cedo.
- O que fez mais cedo?
- Por que não diz duma vez o que está pensando?
- Vou lhe dizer o que estou pensando. Você é bonitinha demais e atrevida
demais, mas não vai acabar como Ruby Fox. Ah, não! Não uma de minhas
filhas. Trabalhei muito duro para criar você como uma menina decente,
sacrifiquei minha vida para...
- Tem uma mentalidade bem estranha, mamãe. Que espécie de mãe é você
para confiar tão pouco em suas filhas? Oh, vá para o inferno, eu a
odeio, odeio... - Ela agora chorava abertamente.
Sara a agarrou e empurrou contra a parede.
- Ah, então me odeia? Lamento que seu pai não esteja em casa para ouvir
isso. Não saia do seu quarto! - E voltando-se, Sara saiu, batendo a
porta.
Rachel atirou-se na cama, soluçando. Sua mãe era louca. . . fora tudo
tão inocente. "Oh, meu Deus, se pelo menos ela pudesse fugir. Por favor,
meu Deus, quero morrer. Qualquer coisa seria melhor do que isso." E
realmente era o que estava sentindo...
Sara foi para o seu quarto. Do lugar onde se sentara na cama, podia ver
sua imagem no espelho da penteadeira. O que via era uma garotinha num
quarto gritando por socorro. Mas sua mãe não estava ali para
protegê-la. Ninguém estava ali a não ser Carl Bromberg, tentando
violentá-la. A lembrança a fez estremecer. Mas Rachel não era uma
menina de 10 anos e não estava sendo violentada. Sara não podia
compreender. Sexo era algo a que uma mulher se submetia, mas pela sua
própria experiência era também algo a que uma mulher decente nunca se
referia, ou sentia prazer. Rachel era muito bonita e muito impetuosa, e
isso era inquietante. Sara teria de tomar alguma providência a
respeito. Não tinha meios para mandar Rachel para um internato.
Portanto, o que lhe restaria fazer?
Na manhã seguinte, Rachel, muito nervosa, ficou sentada num banco do
lado de fora do gabinete da madre superiora da Escola Paroquial St.
Frances, esperando por Sara, que entrara sozinha.
- É um prazer conhecê-la, Sra. Sanders. Sente-se, por favor.
Sara sentou-se numa cadeira de espaldar reto do outro lado da mesa da
freira.
- Primeiro, quero explicar que tenho um problema. Como pôde ver, a minha
filha é muito. . . digamos, atraente? Isso pode ser um problema na idade
dela, e tenho certeza de que a senhora compreende. E está começando a
interessar-se muito por rapazes. Quero que ela freqüente um colégio só
de meminas. É uma menina bastante obstinada e difícil, precisa de
disciplina e deve ser orientada. . . - Sara sentiu interesse genuíno nos
olhos de Madre Teresa. E continuou: - Agora, antes de prosseguirmos em
nossa conversa, devo dizer-lhe que somos uma família judia. Isso
representa algum problema?
- De forma alguma. Como lhe disse ontem pelo telefone, Sra. Sanders,
recebemos crianças de todas as religiões. Existe, naturalmente, a
questão do grau de escolaridade de sua filha. Nossos padrões são
bastante elevados. . .
- Nesse ponto, a senhora não terá problemas. Ela é muito boa estudante,
na realidade, excelente. Mas há uma outra coisa, Madre Teresa, que tenho
certeza que compreenderá. Embora não tenhamos uma severidade excessiva
com respeito à nossa religião, somos fiéis às nossas crenças. . . Não
gostaria que Rachel participasse de qualquer ato de culto católico.
- Quanto a isso, não há necessidade de se preocupar. Temos muitas
meninas de diferentes religiões.
- Então muito obrigada pela sua compreensão. Sei que Rachel lhe dará
plena satisfação.
- Não duvido. Agora eu gostaria de ver Rachel a sós...
Sara não teve problema com Rachel, que pareceu aceitar a mudança com
total indiferença. A princípio, tudo o que a preocupava era como passar
os próximos anos até poder sair de casa, mas, com o passar do tempo,
começou a amar a serenidade do convento.
Os problemas de Sara foram com Jacob.
- O que se passa aqui, quando estou ausente? Chego em casa e sou
informado de que você matriculou Rachel num colégio católico! Quero que
ela saia de lá imediatamente. Você enloqueceu, mandando-a para um
convento?
- Sente-se, Jacob, não grite. Infelizmente, tenho de tomar decisões,
quando você não está aqui. Agora espere, deixe-me terminar. Sabe por que
tive de tomar tal providência?
- Não, pode me dizer por quê?
- Rachel andava namorando um menino. Por acaso, descobri os dois se
beijando...
- Beijando? Onde?
- Aqui em casa. Rachel está com mania de homens.
- Quem é o menino?
- Que diferença faria se eu lhe dissesse?
- Eu lhe daria uma surra e...
- E se desse uma surra nesse, haveria outro menino. Não está
compreendendo? Rachel é uma garota que atrai rapazes. É linda...
- O que realmente aconteceu, Sara? Por acaso ele. . .
- Não, felizmente. Não chegou a esse ponto. Mas ele e Rachel não estavam
se beijando como crianças inocentes. Não sou tola, Jacob. Ela anda
encontrando-se com esse menino às escondidas.
- Mas precisava mandá-la para um convento?
- Achei que ela devia ir para um colégio de meninas, mas há o velho
problema d dinheiro. Mandá-la para o convento foi a solução mais barata.
E deixe que eu lhe diga, Jacob, é a melhor coisa que poderia ter
acontecido. As freiras sabem como disciplinar...
- Não gosto da idéia, Sara. Vou ter uma conversa com Rachel. Vou
estabelecer regras...
- Acha que isso vai adiantar? Não seja tolo. Se ela quiser fazer algo,
arranjará um meio. Mas pelo menos agora a tentação será menor. Farei com
que volte para casa diretamente do colégio. Deixei instruções para me
notificarem imediatamente, se ela faltar às aulas.
Jacob pôs os cotovelos na mesa e apoiou a cabeça nas mãos.
- Meu Deus, o que está acontecendo com a nossa família... Contra isso,
Sara não tinha muitos argumentos. . .
- Nada está acontecendo com a nossa família. Rachel simplesmente precisa
ser vigiada, e é o que estou fazendo. Se ela não se tornar uma mulher
decente, pelo menos não será por culpa minha. Fiz o que devia fazer,
Jacob.
- Mas um convento? - E ele abanou a cabeça.
Junho chegou para grande alívio de Doris. A escola fechava para o verão
no dia 15. Era a época de ajudar mamãe a fazer as geléias, e de produzir
pequenas peças que ela própria escrevia. O baú no sótão fornecia a
maior parte do guarda-roupa de teatro de Doris, mas Sara nunca tinha
certeza se ia encontrar as suas cortinas de imitação de renda na janela
ou em Doris. Entre todos os papéis que Doris representava, o da sua
preferência era o de noiva. Só quando era impossível encontrar um
garoto no quarteirão para fazer o papel do noivo é que Doris abria mão
de seu papel predileto e se transformava no noivo. Nos dias de
espetáculo, Doris arrumava os assentos de caixotes de laranja diante do
palco improvisado, e depois assumia a função de cobradora para arrecadar
os alfinetes de fralda e bolas de gude que eram o preço da entrada.
Melhor do que tudo, o verão era a época em que ela ia ao pequeno córrego
que descobrira e ali passava um tempo sozinha. Não era realmente um
córrego, mas um rego em que as chuvas da primavera deixavam uns poucos
centímetros de água estagnada. A terra dos dois lados tinha
desbarrancado de forma que as raízes das árvores ficavam expostas como
gigantescas pernas de aranha. Mas para Doris era o lugar mais perfeito
do mundo.
Gostava de deitar-se de costas no chão e ficar olhando os desenhos
rendados dos galhos das árvores contra o céu. Ali podia sonhar e pensar
e procurar pôr em ordem a confusão de seus sentimentos e pensamentos,
meditar nos motivos que teriam mamãe e Rachel para parecerem tão
infelizes a maior parte do tempo, ao passo que ela achava tudo
divertido e bonito. Seria errado sentir como ela se sentia, quando os
outros pareciam tão infelizes?. . . Oh, também tinha seus problemas, só
que ninguém parecia notar, o que se por um lado a preocupava, do outro
lhe agradava. Fazia com que ela sentisse menos investigada na sua vida
particular e disso gostava. A escola era o seu problema especial, por
muitas razões. Mamãe a julgava pouco inteligente por causa de suas notas
baixas, mas na verdade era tão mais inteligente do que as outras
crianças que os simples deveres de casa a impacientavam. Outro problema
era que passara a ser objeto de curiosidade e rejeição por ser a única
judia na escola. Nunca era convidada para as festas dos colegas, apesar
de na hora do lanche as outras meninas falarem abertamente nas festas a
que iriam depois da escola. E como se isso não bastasse, seu peso e
seus escuros cabelos encaracolados lhe tinham valido o apelido de
"gorducha" "pixaim". .. Por ser gorda, encaracolada e judia, ela passou
a pensar em si mesma como uma figura excêntrica.
As coisas não eram melhores em casa. Assistira à cólera despejada sobre
Rachel por reagir, e tinha medo terrível de desagradar a mãe, de não ser
amada. Mas, ao contrário de Rachel, que se recusava a abaixar a crista,
Doris nunca reagia. A rebeldia só podia aumentar as tensões já
existentes.
Sara tinha um papel de destaque no emaranhado de confusões de Doris, já
que era uma criatura de altos e baixos. Ou censurava e gritava, ou se
mostrava terrivelmente protetora, brigando com Jacob sempre que ele
repreeendia as crianças. Era nesses momentos que Doris achava que mamãe
gostava mais das filhas do que papai.
Se papai reclamava que ela devia perder peso e tirar notas melhores,
mamãe dizia-lhe que não se metesse onde não era chamado. Ele ficava
tanto tempo ausente, segundo mamãe, que ela assumia sozinha a
responsabilidade de educar a família, não lhe dando o direito de
interferir. As emoções de Doris oscilavam. Papai a amava, papai não a
amava; mamãe a amava, mamãe não a amava...
Papai parecia uma figura vaga que ia e vinha no segundo plano da vida
familiar. Sentia-se contrangida na sua presença, mas secretamente teria
gostado que ele a abraçasse de vez em quando, como faziam os pais de
outras crianças. Havia coisas em papai que a faziam sentir remorsos
sempre que secretamente se zangava com ele. Jacob nunca deixava de
cumprir uma promessa. Quando ela lhe pedira um cachorrinho, papai se
lembrara de trazer-lhe um ao voltar de uma viagem. Ao contrário de
mamãe, que raramente mantinha sua palavra. "O que quer que eu lhe traga
da cidade?", perguntava a Doris e Lillian. As duas meninas esperavam
pacientemente depois da escola, e quando ouviam a chave girar na
fechadura corriam para receber mamãe e ajudá-la com os embrulhos.
Esperavam até ela guardar tudo, mas não havia livros para Doris, nem
bonecas para Lillian. . . Mamãe se esquecera, como tantas vezes
esquecia... Quem podia acreditar nela?
Doris lembrava-se muito bem de como mamãe se queixara tantas vezes à
vovó da dificuldade de criar filhos, dos sacrifícios e despesas que isso
representava. Mamãe costumava dizer que se sua infância tivesse sido
diferente, ela nunca se teria casado tão cedo. Isso sempre irritava
vovó, que declarava estar farta de ouvir Sara se queixar de que fora
abandonada na infância, e saía de casa, deixando mamãe em lágrimas. Mas
assim que vovó saía, mamãe se queixava de viver tão sozinha. . . de não
ter ninguém no mundo exceto sua mãe, que agora a tratava daquela
maneira...
Aquelas queixas Doris jamais poderia compreender direito. Mamãe não
tinha papai? E as filhas? Parecia tão estranho. Depois daquelas brigas,
mamãe corria para-o telefone e implorava a vovó que não se zangasse.
"Desculpe, mamãe, com quem mais posso falar senão com você?". ..
Mas era Rachel o principal alvo da cólera de mamãe. Por quê? Rachel era
tão boazinha. Doris nunca se esqueceria do que lhe acontecera há alguns
meses, quando ela fora ao banheiro e descobrira que suas calças estavam
manchadas de sangue. Ficara tão apavorada que saíra da escola sem pedir
permissão e correra todo o percurso até a casa...
Sara tinha ouvido a porta da frente bater e chegou ao vestíbulo a tempo
de ver Doris subir correndo as escadas para o seu quarto.
- O que aconteceu? Por que voltou tão cedo?
Doris entrou no seu quarto e deitou-se na cama, chorando.
Sara entrou e olhou-a. Subitamente Doris atirou-se nos braços da mãe.
- O que houve?
Mas ela se sentia envergonhada demais para contar; tinha a ver com um
lugar que meninas bem-educadas nunca mencionavam. Sabia apenas que era
alguma coisa feia e que mamãe ia odiá-la.
- Conte-me, Doris - disse Sara, em tom calmo.
- Quero falar com Rachel, mesmo que ela esteja gripada e de cama.
- Por que Rachel?
- Não posso lhe dizer, mamãe.
- Mas pode dizer a Rachel?
- Sim...
Logo Rachel veio vê-la.
- O que aconteceu, Doris?
- Você não conta para mamãe?
- Não. O que foi?
- Estou perdendo sangue.. .
- Onde?
- Lá no fundo das minhas calças. Vou morrer, Rachel. Sei que vou morrer.
- Doris você não vai morrer. Isso acontece com todas as meninas. Só que
com você aconteceu um pouco cedo. Não ocorre com muita freqüência aos 10
anos, mas é normal, Doris. Ficou menstruada. Apenas isso.
- Fiquei o quê?
- Menstruada. Acontece com todas as meninas.
- E não aos meninos?
- Não, só às meninas.
- Por quê?
- Porque foi assim que Deus quis. Tem algo a ver com filhos, depois que
você se casa.
- E você fica... menstruada?
- Sim, comecei minha menstruação aos 13 anos.
- Por que nunca me disse?
- Porque é uma coisa. .. de que não se fala.
- Mamãe ficou zangada?
- Não, por uma vez ela não ficou zangada.
- Estou tão envergonhada, Rachel.
- Não tem de que se envergonhar. É melhor eu lhe avisar que você vai ter
uma menstruação todos os meses. Agora venha ao meu quarto e eu lhe direi
como cuidar de si mesma.
Rachel fora falar com mamãe dizendo-lhe que ela devia ter explicado às
filhas a respeito do processo de se tornarem mulheres, e mamãe com sua
habitual aspereza replicara que nunca ninguém a avisara de nada e que
ainda assim ela tinha sobrevivido. Além do mais, não precisava que sua
própria filha viesse lhe passar um sermão. Doris perturbou-se um pouco
com a discussão, mas estava tão entusiasmada com a idéia de que se
tornara uma mulher, que mal podia esperar pela sua próxima menstruação.
Nunca se esqueceria de como Rachel fora maravilhosa com ela naquele dia,
pensou Doris estirada no chão, olhando as árvores acima que sombreavam o
seu abrigo secreto. A vida tinha seus altos e baixos, mas havia
ocasiões deliciosas - como esse momento - quando ela podia isolar-se e
sonhar que um dia seria uma grande estrela de cinema como Gloria
Swanson. Tinha decidido que ia ser atriz, e nada a demoveria. Iria para
Hollywood, ou talvez entrasse para o teatro. Tio Shlomo ia ajudá-la; ele
sempre dizia que ela era uma atriz nata. Tio Shlomo.. . realmente o
amava e talvez ninguém no mundo a houves- se amado tanto como ele.
Quando chegava de licença, dava-lhe dinheiro para ir ao Teatro Orpheum,
onde ela passava horas assistindo de novo a todo o espetáculo. Teve
oportunidade de ver os artistas mais importantes : Fanny Brice, Al
Jolson, Belle Baker, Ted Lewise Sophie Tucker. Quando voltava para casa,
subia ao sótão, colocava na cabeça o chapéu de cetim de aba larga com
plumas e o vestido de cetim bordado de missangas e, então, representava
quase palavra por palavra tudo o que tinha visto no palco.
Despertou dos seus sonhos, ao notar que já era tarde. Levantou-se,
espreguiçou o corpo, depois suspirou. Não tinha realmente vontade de
voltar para casa. . .
Sara entrou no quarto e sacudiu de leve Doris e Lillian.
- É melhor que se levantem. Temos um longo dia pela frente.
As duas meninas saltaram da cama e rumaram para o banheiro, mas estava
trancado. Rachel estava lá dentro e ia levar a vida inteira para sair.
Impaciente, Doris olhou pela janela dos fundos e viu Shlomo e papai
limpando o caminhão. Papai era tão bonito e alto, pensou ela. O Sr.
Hanson que morava mais abaixo na rua se parecia muito com papai. Bem,
nem tanto, mas ambos tinham cabelo louro-escuro e olhos azuis. Papai era
tão alto e forte como o Sr. Hanson, e ela tinha certeza de que papai
poderia ter dado uma surra no Sr. Hanson por tê-la humilhado no dia em
que ela fora lá para brincar com Gerta.
- Você não tem nada que fazer aqui, vá para sua casa. Gerta não pode
brincar com você.
Mas Gerta gostava de Doris, por isso no dia seguinte a caminho da escola
ela a alcançou.
- Lamento que meu pai lhe tenha dito aquelas coisas, Doris. Gosto de
você mesmo que seja judia.
Mesmo que seja judia! O que fazia os Sanders tão diferentes dos Hanson,
e o que ser judia tinha a ver com isso? Era feio ser judeu? Papai não
era nada feio. . .
- Tenho de entrar no banheiro, Rachel. Não estou agüentando mais -
gritou Lillian, apertando as pernas.
Nenhuma resposta.
Lillian bateu com força na porta.
- Deixe-me entrar, Rachel.
Rachel abriu a porta, e Lillian passou correndo por ela.
- Pelo amor de Deus, não se pode nem ir ao banheiro em paz? - disse
Doris.
- Paz? Essa é boa, faz uma hora que você está aí dentro - protestou.
- Não é verdade. Por que você sempre exagera tudo?
- Quase uma hora. Há outras pessoas que também precisam fazer pipi.
- Você é positivamente obscena. Os termos que usa são revoltantes.
- Não sei o que é obscena, mas você não tem consideração pelos outros.
- Andou de novo lendo o dicionário? Consideração é uma palavra meio
difícil para alguém tão pouco letrada.
Doris sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. Havia um limite para agüentar
tais insultos, embora Rachel tivesse sido bastante boazinha dizendo-lhe
que ela podia ter filhos, quando se casasse.
Sara chegou justamente nesse momento ao topo das escadas.
- Vejo que já começaram as brigas. Parem com isso, estão me ouvindo?
- Foi Rachel quem começou.
- Não fui eu.
- Foi você quem.. .
- Agora chega. Rachel, vista-se e desça para me ajudar.
Que feriado, aquele 4 de julho, pensou Sara. Será que não se passava um
dia sem que as filhas brigassem? Gostaria de não ter de levar as
crianças para o piquenique. Pelo menos, por uma vez. Apressadamente foi
buscar no armário uma toalha e cobertores. Ao descer as-escadas, gritou:
- Apresse-se Rachel, preciso de você.
Preciso de você, Rachel. Mamãe não precisava de Rachel - precisava de
uma escrava. Por que havia ela de ser a mais velha, pensou Rachel
carregando a comida para fora. Sara tinha preparado carnes, saladas,
pão, bolos e tortas que dariam para um ano. Tanta fartura provocava
náuseas em Rachel.
Doris e Lillian sentaram-se juntas no fundo do caminhão e Rachel
sentou-se diante delas.
- O que você tem aí? Uma lata com minhocas? - perguntou ela a Doris.
- Não. Bombinhas...
- Bombinhas? Você tem aí o suficiente para fazer explodir o mundo.
- Ela as vem juntando há muito tempo - disse Lillian.
- Deve estar juntando-as há alguns anos.
- Não é verdade. Comecei o mês passado.. .
Suspendendo a grade traseira do caminhão, Jacob olhou severamente para
as três.
- Antes de começarmos este passeio, vou logo avisando: não quero brigas
hoje.
- É Rachel quem sempre começa.
- Eu sei, Doris, você é um anjo.
Ele parecia sempre defender Rachel, pensou Doris. . . por que tinha de
ser ela, Doris, sempre a culpada?
Sir Lancelot, o cachorrinho que Jacob dera a Doris, latiu e ganiu
correndo pelo jardim. Doris sentia um aperto no coração cada vez que o
deixava sozinho.
- Papai, por favor, não podemos levar também Sir Lancelot! Jacob olhou
para o vira-lata de nome elegante.
- Por favor, papai... - pediu também Lillian.
- Absolutamente não - decretou Sara.
Jacob deu partida no motor e deixou-o funcionando por um momento.
- Deixa, papai? - perguntou Doris, ignorando a recusa da mãe.
- Será melhor não o levarmos. Ele pode se perder no mato.
Bem, pelo menos papai era mais gentil em seu argumento. E, de certa
forma, papai não deixava de ter razão. Ela morreria, se alguma coisa
acontecesse a Sir Lancelot...
Ao percorrerem o Bulevar Fruitvale, passando por lindos pomares de
abricós, pêras e maçãs, Doris pensou que não podia haver um dia mais
maravilhoso. "A terra pertence a Deus e todas as coisas nela contidas".
. . Era o que o pastor tinha dito no dia em que Doris fora a uma aula de
religião com Jennie Harrison. Doris achara o hino que estavam cantando
tão bonito, que cantou também. "Sim, Jesus nos ama. . . Sim, Jesus nos
ama. . . e Jesus é o Senhor." Doris cantava mentalmente a melodia.
Qual era a diferença entre Senhor e Deus? Na Páscoa papai tinha lido no
Haggadah que o Senhor era um e que no próximo ano eles iriam a
Jerusalém. Ela queria ir a Jerusalém porque era de lá que viera o seu
povo havia 5 mil anos, mas talvez não fosse um lugar muito bom. Fora lá
que Jesus expulsara os judeus do templo, o que era meio estranho,
considerando que Jesus e sua família eram judeus. Os Hanson amavam
Jesus embora ele fosse judeu, mas não queriam que Gerta brincasse com
Doris por ser ela judia. Era tudo muito confuso.
Jennie Harrison convidara-a a ir à igreja batista na última Páscoa e
Doris se emocionara tanto com o convite que usara o vestido branco
bordado que mamãe fizera com uma das suas anáguas de quando era menina
e vivia num lugar chamado Bruxelas. Doris estava se achando muito
elegante, ao descer correndo as escadas. Sara voltara-se e
perguntara-lhe aonde ela ia. O coração de Doris bateu mais rápido,
quando mentiu:
- Vou ver a parada na Broadway...
- Leve Lillian também - fora a resposta.
A idéia não agradou muito a Doris porque às vezes Lillian deixava
escapulir as coisas, e ela sabia que mamãe não ia gostar de que as
filhas fossem à igreja batista - mesmo sendo Jesus judeu. Mas ela
queria ouvir as músicas... Além disso, Jesus as amava. Relutantemente,
chamou Lillian.
Foi durante o culto da Páscoa que Doris ficou sabendo que os judeus
tinham matado o Filho de Deus e que, por isso, tinham sido dispersados
pelos quatro cantos do mundo e iriam arder no inferno por toda a
eternidade. Embora os Sanders nunca houvessem matado ninguém, ela se
sentiu terrivelmente culpada, e a perspectiva de ir para o inferno era
apavorante. Não podia compreender que embora os Sanders acreditassem em
Deus, não acreditassem no seu filho judeu. Certamente havia muito a
aprender.
A caminho da casa, Jennie disse que tinha sido bom Doris e Lillian terem
assistido ao culto, pois ainda que fossem pagãs, Jesus as salvaria, se
acreditassem nele. Seriam perdoadas, se se convertessem e fossem
batizadas. Insistiu com Doris para que se convertesse antes que fosse
tarde demais para salvar sua alma. Doris não queria perder a amizade de
Jennie portanto disse que ia pensar seriamente no assunto, embora
soubesse que nunca faria o que a amiga lhe pedia. Jennie ficou tão feliz
que abraçou o corpo rechonchudo de Doris e disse que o Senhor iria
recompensá-la no céu por ter ela, Jennie, salvado uma alma. Estava tão
feliz que fez grandes elogios a Doris e disse-lhe que gostava mais dos
judeus do que dos negros. Mas o presunto assado servido no jantar de
Páscoa dos Harrison foi decisivo para Doris. Quase engasgou quando viu
o presunto. Não ser kosher era uma coisa, como dizia sua mãe, mas comer
presunto era estritamente proibido. Podia provocar uma terrível
doença...
O aroma do delicioso quitute na assadeira de ágata despertou Doris de
seus devaneios, juntamente com Lillian gritando para papai que parasse o
caminhão porque ela precisava saltar. Jacob estacionou no acostamento
da estrada, enquanto Lilian descia suas calças atrás de um arbusto. Sara
estendeu-lhe um rolo de papel higiénico, que sempre levava nas
excursões ao campo, e um pano úmido para limpar as mãos. Quando Lillian
e mamãe voltaram para o caminhão, papai disse que se alguém mais queria
fazer alguma necessidade, que fosse agora porque ele não ia mais parar
até chegar a Elum Rock. Rachel teria preferido morrer a passar por tal
indignidade, e Doris felizmente não estava precisando.
Mais uma vez na estrada, os pomares agora tinham ficado para trás. Ali
as colinas eram de um dourado pardacento e pareciam estar morrendo de
sede. Mas não tinham ido muito longe, quando mais uma vez papai parou o
caminhão, saltou para fora e comprou um cesto de ameixas e outro de
figos Verdes numa banca na beira da estrada.
Quatro olhos espiaram pelos painéis de tela de aço e viram papai
comprando as frutas. Quando ele voltou e colocou os cestos no chão junto
a Lillian, Sara ordenou:
- Ninguém coma a fruta antes de ser lavada.
Doris reclamou. Teria adorado fincar os dentes numa ameixa suculenta.
Estava com fome, o que era uma condição crônica nela...
Finalmente terminou a jornada, e Jacob guiou o caminhão para fora da
estrada e o estacionou sob um grupo de eucaliptos. Todos saltaram para
fora estirando os membros, e Shlomo apanhou os cestos e desceu uma
ligeira rampa até a margem de um riacho.
Em poucos minutos Sara e as meninas tinham estendido a toalha e os
cobertores. Todos estavam com fome e encheram seus pratos de comida
antes de se sentarem para comer e rir.
Depois de as meninas terem descansado, Sara disse que podia vestir as
roupas de banho e ir brincar no riacho. Guardou a comida que sobrara e
então estirou-se na relva para ler, enquanto Shlomo e Jacob jogavam uma
partida de pinocle.
O piquenique e a paisagem tinham evocado na memória de Jacob um
piquenique diferente num mundo diferente. Como iria Lotte, e os
Mendlebaum estariam ainda vivos? Ao olhar na direção das filhas,
reconheceu que, embora não fossem filhos homens, elas o deixavam muito
feliz. Na realidade, era a Lotte que ele devia todas aquelas bênçãos.
Sara estava longe de ser uma esposa perfeita, mas certamente era
superior a Lotte. Sara não era uma yenta. Nunca permitiria que ela
soubesse, mas invejava-lhe a educação e havia ocasiões em que se sentia
inferior a ela. . . Sara era uma boa mãe e queria que as filhas se
tornassem mulheres boas e decentes, ninguém poderia censurá-la por
isso. Ele estava contente com sua família e muito orgulhoso do que
realizara em tão pouco tempo. Tinha dado uma boa vida às filhas.
Certamente elas nunca passariam fome ou teriam medo ou se sentiriam
sozinhas como ele, quando criança, pensou, ouvindo as vozes alegres que
vinham da água e vendo Doris que boiava de costas, Rachel nadando com
uma touca de borracha que quase lhe tapava as sobrancelhas e Lillian
sentada numa pedra, observando os peixes que fugiam rápidos.
Ao cair da tarde, prepararam a exibição de fogos de artifício. Shlomo
encarregou-se de acender os pavios e todos ouviram deliciados o estrondo
de bombinhas e assistiram aos chuveiros e foguetes faiscando na
escuridão.
Quando voltaram para o caminhão e começaram a viagem de volta, estavam
cansados mas muito contentes, especialmente Sara. Não houvera nenhuma
briga, Jacob não tivera de gritar. Guiando o caminhão ele até chegou a
cantar Juanita, e Doris e Rachel fizeram coro em harmonia com a voz do
pai.
O dia estava findando. Suas recordações seriam guardadas para mais tarde
serem relembradas - como os antigos retratos no sótão.
#break Capítulo Vinte e Nove
O primeiro dia de aula pareceu uma tortura a Doris, após os últimos três
meses de folga. Mas para Rachel era uma bênção fugir aos conflitos do
lar. Amava o convento. No St. Francês não tinha de assistir à
relutância de Doris em voltar para enfrentar a escola. As freiras eram
bondosas e delicadas e o Padre McDougall o homem mais bonito que ela
jamais vira, incluindo Tio Shlomo... Exceto que era estranho ele não
poder nunca se casar.
A única ocasião em que ela se sentia diferente era quando as outras
meninas iam para as orações. Então ficava junto às portas abertas da
capela e ouvia os sons da "Ave Maria, cheia de graça". Era tão lindo
que lhe dava vontade de participar...
Um dia ela reuniu coragem suficiente para entrar na capela. Quando viu
as alunas ajoelhadas, orando, ficou impressionada com o grande silêncio
que reinava no recinto e se sentiu muito isolada. Teria permanecido
ali, mas alguém lhe bateu de leve no ombro. Voltando-se, viu a Reverenda
Madre Teresa chamando-a. Rachel seguiu-a até o vestíbulo e entrou no
seu gabinete.
- Sente-se, Rachel. Sabe que sua mãe não aprovaria isso, não é mesmo?
Rachel fez que sim com a cabeça.
- Bem, então temos de agir de acordo com os desejos dela. Uma lágrima
escorreu na face de Rachel.
- Por que está chorando?
A princípio ela não conseguiu desabafar seus confusos sentimentos.
- Sente-se infeliz, Rachel?
- Sim, estou. - Com a cabeça curvada, ela fixou os olhos nos ladrilhos
sob seus pés.
- Gostaria de falar sobre isso?
Rachel tirou o lenço do bolso e enxugou os olhos.
- É pecado a gente odiar a mãe?
- Sim, é, Rachel. Os ensinamentos da sua religião são os mesmos que os
nossos: honrar pai e mãe.
Um longo silêncio se estabeleceu entre as duas, antes de a freira
recomeçar a falar.
- É errado odiar, Rachel. A pessoa mais prejudicada é a que odeia. E
você, minha filha, é muito bonita para abrigar tais sentimentos.
- Mas como posso amar alguém que me trata sem nenhum respeito ou
bondade?
- Não estará você, Rachel, sendo excessivamente sensível?
- Acho que não. É minha própria mãe quem me repete sempre que é muito
jovem para ter uma filha da minha idade, que não consegue se entender
comigo. Nada que eu faça parece agradá-la. Está sempre zangada. . . E
meu pai se ausenta tanto, que é como um estranho na casa. Não sei se ele
realmente me ama. Quase se retrai quando tentamos beijá-lo. - Rachel
estava de novo chorando.
- Rachel, eu gostaria que sua mãe viesse me ver.
- Oh, por favor, não. . . Se suspeitasse que comentei sobre ela com a
senhora, ficaria muito zangada. Não compreenderia em absoluto. Ela acha
que é a mãe perfeita, que não fez outra coisa senão se sacrificar por
nós. . .
- E você acha que não foi assim?
- Acho. Ela se julga a única sofredora da família. Mas, se a sua
infância foi tão ruim, não acha que ela deveria querer que a nossa fosse
melhor?
Madre Teresa engoliu em seco.
- Bem, o que sugere que façamos para que ela perceba o quanto você se
sente infeliz?
- Nada. Ela nunca vai mudar. . . - Rachel tremia em seu íntimo. Então
respirou fundo. - Reverenda Madre, quero ser freira.
Madre Teresa esperou um pouco para perguntar:
- Quando pensou nisso?
- Há já algum tempo...
- Quais são as suas razões, Rachel?
- Não gosto de ser judia.
- Por que acha que vai gostar mais de ser católica?
- Porque é tão lindo! E, além do mais, as pessoas nos odeiam porque
somos judeus. Todos em nossa vizinhança nos odeiam...
- E suas irmãs sofrem com isso tanto quando você?
- Não. Doris não se deixa perturbar por nada, e Lillian é muito pequena
para compreender.
- Rachel, deixe que eu lhe diga uma coisa. Venho de um país que não
gosta nada dos católicos. Pertencer à religião católica lá significa
também sofrer, e muitas vezes morrer. Significa não conseguir emprego,
mal ter algum alimento para sobreviver, e tudo isso só porque somos
católicos.
- Que país é esse?
- A Irlanda do Norte. E o pior é que são irlandeses lutando contra
irlandeses. Essa situação perdura há séculos, e rogo a Deus que esteja
errada, tenho muito pouca esperança de que as coisas mudem. . . Rachel,
acho que as suas razões não são das mais válidas para se tornar freira.
- Se eu dissesse que é mais do que isso, a senhora acreditaria em mim?
- Acreditarei em tudo o que me disser.
- Eu senti o chamado.
Madre Teresa tirou os óculos de aro de metal e limpou as lentes antes de
perguntar:
- E quando sentiu esse chamado?
- Sinto isso há muito tempo, mas esta manhã, senti algo tão espiritual
no fundo do meu coração. . . Tem de me acreditar. . . senti a presença
de Deus.
- Rachel, minha filha, sei que é sincera, mas quero que me ouça com
atenção. A razão de estar sentindo tudo isso é uma necessidade
espiritual e um anseio de encontrar o que lhe falta em seu lar.
Catolicismo é uma religião muito difícil. Exige tanto, que católicos
nascidos na fé nem sempre conseguem cumprir o que a Igreja exige deles.
Qual é o nome de seu rabino?
- Não temos um rabino. Não temos sequer uma sinagoga. A única tradição
judaica em nossa casa é a comida, e somente em dias muito especiais.
Essa é a maneira de minha mãe e meu pai serem judeus.
- Não são guardados os seus dias santos?
- Não. Só a Páscoa. Temos uma cerimônia, se é que pode chamar-se
assim...
- A Páscoa Judaica.
Causou espanto a Rachel que uma freira soubesse a respeito da Páscoa
Judaica.
- A senhora sabia?
- Sim, é claro. Não viu o quadro pendurado na parede da capela? Aquilo,
Rachel, é a Última Ceia, mas é mais do que isso. Aconteceu em Jerusalém
e a Páscoa Judaica estava sendo celebrada por Cristo.
- Realmente?
- Sim. Quer fazer uma coisa por mim? Rachel olhou para o rosto bondoso
da freira.
- Eu farei qualquer coisa pela senhora, Reverenda Madre.
- Então, de iniciativa própria, quero que procure uma sinagoga e passe a
assistir ao culto das noites de sexta-feira. Quero também que assista às
aulas de religião no domingo. Pode fazer isso?
Rachel ficou em silêncio por um longo, longo momento.
- Sim, Madre Teresa. E obrigada. . . Se não é irreverência, posso dizer
que amo a senhora?
A freira conteve as lágrimas.
- Ser amada por você é uma grande dádiva. Esse sentimento guardarei num
lugar muito especial em meu coração. - E quando Rachel já ia saindo,
Madre Teresa acrescentou: - E, Rachel, procure lembrar-se de que, se
Deus pode nos perdoar, então temos de aprender a perdoar-nos uns aos
outros.
- Vou tentar. . . mas não sei muito a respeito de Deus - murmurou ela,
fechando a porta atrás de si.
Madre Teresa não conseguiu tirar Rachel de seu pensamento. A beleza
íntima daquela jovem estava sendo esmagada, e era compreensível que uma
criatura da sua natureza se sentisse atraída para a Igreja. . . O
catolicismo era uma religião compulsiva e tinha todos os atrativos para
envolver uma jovem que não se sentia amada e não tinha virtualmente
nenhuma fé em que se apoiar. Era difícil resistir aos olhos compassivos
de Jesus, quando Ele nos olhava do alto da cruz, difícil não se
emocionar à vista do filho nos braços de sua mãe, ora como homem ora
como criança. . . da manjedoura à cruz. Evidentemente Rachel se deixara
afetar por aquilo tudo e interpretara seus sentimentos como uma saída
para os seus problemas; mas isso não era razão para tornar-se freira.
Madre Teresa julgou que tinha agido acertadamente mas implorou a Deus
que iluminasse o caminho de Rachel. . .
Rachel procurou esquecer o momento do que considerava a sua libertação,
quando sentira a vocação para a vida religiosa num convento católico, e
tentou buscar consolo na religião do seu povo. Não encontrou afinidades
pessoais, mas constatou que havia uma grande beleza na história dos
judeus e de suas lutas pela sobrevivência no decorrer de 5 mil anos. E
encontrou, também, muitas novas confusões sobre sua família. Seu pai
freqüentemente dizia como era difícil para um judeu americano manter-se
fiel às suas crenças e perpetuar sua fé vivendo entre cristãos. Como ele
estava enganado. Parecia inteiramente ignorante do fato de que todas as
noites de sexta-feira os judeus iam com as suas famílias assistir ao
culto no templo - até mesmo em Oakland, Califórnia. Tanto quanto Rachel
soubesse, ele nunca fizera qualquer esforço para reaver a fé, da qual
tantas vezes dizia ter sido privado. Durante os meses de estudo, ela
começou a compreender que não se tratava de seu pai não ter podido
manter a sua religião. A verdade é que não fora apenas a América que o
modificara, mas ele é que tinha abandonado a tradição devido a outras
necessidades, que ela não compreendia bem.
Rachel começou a sentir que uma pessoa tinha de ter fé e conhecer a sua
própria religião, se queria compreender quem e o que era. Sabia que
permaneceria sempre uma judia, independentemente de para onde fosse ou
com quem estivesse, apesar de não haver nada em seu lar para sustentar a
sua fé.
#break Capítulo Trinta
Em dezembro as casas na rua dos Sanders se transformaram com ramos de
azevinho enquadrando as janelas e perfumadas coroas com fitas de cetim
vermelho penduradas nas portas. Através das janelas podiam-se ver
árvores que cintilavam com fios prateados. Era uma ocasião para
presentes, Papai Noel, fraternidade, boa vontade, Missa do Galo e bolo
de Natal.
Doris e Lillian andavam de um lado para o outro do quarteirão,
fascinadas com aquele mundo de fantasia e encantamento. Doris amava a
beleza, e ansiava por apossar-se de tudo aquilo de que, em seu íntimo,
achava que estava sendo privada...
Quando ela levava Lillian ao centro comercial e via o movimento de
compras de Natal, sentia uma grande solidão.
As lojas todas rebrilhavam de estalactites prateadas.
A um canto um homem vestido de flanela encarnada com uma longa barba
branca tocava uma sineta de prata e gritava "Feliz Natal" para os
transeuntes.
Pais e filhos apinhavam-se nas lojas, com os braços carregados de
embrulhos de fitas verdes e vermelhas e papéis coloridos.
As duas meninas tomaram o elevador para o departamento de brinquedos,
onde Lillian brincou com lindas bonecas, depois deu corda num bonequinho
e o viu, abismada, afastar-se andando, depois voltar-se e cair de lado.
A coisa mais divertida era o automóvel amarelo e vermelho, onde cabia só
uma criança. Lillian pedalou-o acima e abaixo até ser erguida pelos
ombros e advertida severamente para que saísse do departamento.
- Tire as mãos de cima de minha irmã - disse Doris, erguendo a cabeça
para o que parecia ser a gerente de três metros de altura. A mulher
retorceu os lábios e semicerrou os olhos.
- Então, minha jovem, diga à sua irmã que a acompanhe e saia
imediatamente daqui.
Doris não se deixou intimidar.
- Sairemos se quisermos. Este é um país livre...
- Mas os artigos deste Departamento não o são. Doris lançou-lhe um olhar
raivoso.
- Está bem, Lillian, não vamos comprar os patins e o carro nesta loja
vagabunda. - E, com toda a dignidade de que era capaz, deu a mão a
Lillian e acertou um pontapé na canela da gerente.
As duas correram por entre a multidão, desviando e esquivando-se até se
verem na rua defronte de outra loja. Ainda ofegante, Lillian olhou para
Doris e perguntou:
- Você vai mesmo me comprar os patins e um automóvel?
- Não. . . não é bem isso. Eu só queria mostrar àquela mulher horrenda,
que ela não podia maltratar você.
- Eu gostaria tanto. . . - disse Lillian, com a decepção estampada no
rosto. - Mas foi bom você me defender.
- Talvez no ano que vem. . . - Depois com um ar mais animado. - Sabe de
uma coisa, Lillian?
- O quê?
- Tenho dinheiro. Vamos tomar um sorvete.
As duas se sentaram a uma mesa e examinaram o cardápio. Os preços eram
um pouco mais altos do que Doris calculara: sundaes com calda de
chocolate quente, 25 cents, marshmallow e chocolate, 25. . .
- O que as meninas vão querer? - perguntou a garçonete.
- Quero um banana split - respondeu Lillian, sem hesitação.
Trinta e cinto cents. . . Doris quase desmaiou, não ia sobrar dinheiro
para as passagens de bonde.
- Lillian, acho que é melhor escolher outra coisa. Depois não vai poder
jantar.
- Que nada, isso não vai me tirar o apetite.
- Você o que vai querer? - perguntou a garçonete, relanceando um olhar
para o corpo rechonchudo de Doris.
- Um copo d’água, por favor.
Doris ficou vendo Lillian devorar seu sorvete. Primeiro a cereja de
marasquino, depois uma colherada de sorvete de baunilha, em seguida o
chocolate, depois o morango e uma lambada de creme batido.
- Está bom? - perguntou ela, com água na boca.
- Muito bom. Quer um pouco?
- Bem, talvez um pouquinho. - Estendeu uma colher e se serviu de cada
coisa um pouco.
- Por que não come mais?
Doris ia aceitar o oferecimento, mas nesse momento ergueu os olhos e viu
a garçonete passando.
- Não, vai estragar o meu apetite. - E bebeu a água.
Depois de Lillan ter raspado o fundo da taça, limpou a boca e perguntou:
- O que vamos fazer agora?
- Vamos a pé para casa.
- A pé!
- Claro, não é muito longe.
- Doris, não podemos ir a pé. Não vamos chegar nunca...
- Claro que vamos.
Lillian suspirou. Afinal, Doris era mais velha, e se ela dizia que
podiam... Mas depois de percorrerem 17 quarteirões, Lillian sentou-se no
meio-fio, arquejante.
- Não posso mais andar.
Doris sentou-se ao lado da irmã, sentindo uma bolha no calcanhar.
-Descanse um pouco. Agora vamos fingir que somos exploradoras ou
batedoras índias.
- Não quero ser uma batedora índia. . . vamos tomar o bonde.
- Estamos perto de casa. Vamos chegar logo, Lillian.
-Está bem, vou tentar - disse Lillian, fazendo uma careta. - Mas se eu
não conseguir, podemos tomar o bonde?
- Certamente.
Os últimos 12 quarteirões foram quase insuportáveis e Lillian começou a
chorar.
- Você está sendo má, Doris.
Doris tirou do bolso um lenço e enxugou o nariz de Lillian.
- Desculpe. Vamos sentar um pouco no meio-fio.
- Por que não tomamos o bonde?
- Porque perdi o dinheiro da passagem.
- Perdeu? Onde?
- Quando saímos da sorveteria.
- Ai, meu Deus! Desculpe.
- Não precisa se desculpar, mas não diga nada ou vão achar que não sou
uma pessoa responsável.
- Não vou dizer nada, Doris.
- É que às vezes você se esquece e fala.
- Desta vez não vou esquecer, prometo.
- Está bem, agora vamos para casa. Finja que você é uma índia
atravessando um floresta.
- Prefiro ser Becky Thatcher.
- Está bem, seja Becky Thatcher.
Doris percorreu os últimos quarteirões sem sapatos. A bolha tinha
arrebentado. . . Era uma tortura.
Quando chegaram em casa, mal puderam subir as escadas. Deixaram-se cair
na cama no quarto de Doris. Nunca uma cama fora tão boa, pensou Doris, e
nunca se sentiu mais aliviada do que naquele momento, por mamãe estar
fazendo compras.
- Viu como ajudou você fingir que era Becky Thatcher? - disse Doris.
Mas Lillian já estava dormindo a sono solto.
No domingo à noite, a família estava se sentando para jantar, quando
Doris perguntou:
- Mamãe, será que podemos ter uma árvore de Natal? Jacob pousou o garfo
na mesa e olhou para Doris.
- Não, e nunca mais mencione isso. - Inexplicavelmente, surgiu em sua
memória a figura de Patrick O'Leary. - Nunca mais.
- Por que não, Jacob? Elas vêem árvores por toda a parte. Onde estamos
vivendo? Na Palestina?
- Que diabo, Sara, quando digo não, é porque é não!
- Isso me assusta muito. Vivemos entre goyim, portanto elas...
- Eu disse que não quero que elas tenham árvore de Natal. Cabe a você
incutir um pouco de religião em suas filhas.
- Realmente? Com Padre Gallagher e Pat Heanny e todos os nossos outros
vizinhos goyl
- Por que você não frequenta a sinagoga e participa das atividades para
conhecer outros judeus?
- Vestindo o quê? As lindas roupas que você compra para mim? Além disso,
quando disponho de tempo nesta casa enorme? Minha religião é cozinhar e
lavar. Não vamos sequer a um cinema ou tiramos urnas férias. . .
Rachel achou que bastava.
- Deviam ouvir a si mesmos. Doris pediu uma árvore de Natal e em vez de
responder-lhe, começam a sua briguinha particular. Por que nenhum dos
dois explica as razões a Doris? Acho que ambos são odiosos. . .
Sara levantou-se e deu-lhe uma bofetada.
- Nunca mais se atreva a falar desta maneira. . .
A bofetada doeu mas Rachel aguentou firme. Ao invés, saiu correndo da
sala, subiu as escadas, bateu e trancou a porta do seu quarto. Só então
atirou-se na cama e chorou como se nunca mais fosse parar.
Jacob estava perplexo com o comportamento de Rachel, mas também muito
perturbado com o fato de Sara a ter esbofeteado.
Doris tinha vontade de morrer. Era tudo sua culpa. Se pelo menos Deus a
fulminasse ou a tornasse surda e muda. . . Por que não aprendia nunca a
ficar de boca fechada?
- Não quero uma árvore de Natal.
- Se você quer uma árvore, pode tê-la - disse Sara inflexivelmente. - É
apenas uma árvore. Não tem nada a ver com o Natal.
Jacob levantou-se e subiu as escadas, com Doris atrás dele. Quando ela
entrou no quarto de seus pais viu que ele estava jogando umas roupas
dentro de uma mala.
- O que está fazendo, papai?
- Vou-me embora. . .
- Não quero uma árvore. Por favor, papai.. . Mas Jacob não lhe deu
ouvidos.
Doris ouviu bater a porta dos fundos, depois o ruído de pneus guinchando
na curva apertada na saída do caminho da garagem. Depois. . . nada. Nada
a não ser o som de seu próprio medo. . . Ela foi bater na porta de
Rachel.
- Sou eu, Rachel. Posso entrar? - pediu ela. Então ouviu o ruído da
chave.
Quando a porta se abriu, ela olhou para o rosto molhado de lágrimas de
sua irmã.
- Rachel, papai foi-se embora, e tudo por minha culpa...
- Não, não foi por sua culpa, Doris. Se eles dois fossem mais
compreensivos nada disso teria acontecido...
- Mas eu não devia ter falado na árvore.
- A árvore não tem nada a ver com o que aconteceu. . . não chore. Eles
acabam fazendo as pazes. Precisam um do outro. Acredite em mim. . .
- Não, não vão fazer as pazes, Rachel. Papai estava furioso, e se eles
se divorciarem, será minha. . .
-Escute, Doris. Se fizerem isso, a culpa será deles. Estão descarregando
seus problemas em cima de nós.
- Não estou compreendendo nada, Rachel.
- Como poderia? Se eles próprios não compreendem.
- Mas já tenho 11 anos.
- E eu 16... e daí? Venha sentar-se. .. Doris sentou-se na beira da
cama.
- Ouça, Doris. A razão de não termos uma árvore de Natal é porque somos
uma família judia e os judeus devem ser fiéis à sua religião. O Natal é
para os cristãos, e ter uma árvore de Natal seria como roubar uma coisa
que não nos pertence. Está compreendendo?
- Não exatamente. . . Sim, mais ou menos. Mas é uma árvore tão bonita,
Rachel, e não temos nada... quero dizer, nada que seja bonito.
- Temos, sim, Doris, só que papai e mamãe não procuram mostrar-nos.
- Mostrar o quê?
- Chanukah. Não é enfeites em árvores, Doris, mas tenho ido ao Templo
Sinai e sei que há muita coisa bonita em nossa religião.
- O que é Chanukah’!
- É uma espécie de Natal. Temos um menorah, um candelabro, e se acende
uma vela cada noite, durante oito noites.
- Sim, mas isso não é como o Natal, Rachel. Na cidade, todo mundo está
comprando presentes.. .
- Bem, no Chanukah também damos presentes. De fato, as meninas que
assistem às aulas preparatórias para a confirmação trazem seus presentes
para mostrá-los na classe.
- Elas ganham presentes?
- Sim, um por dia durante oito dias.
- Formidável. E por que não ganhamos também?
- Porque nossa família é judia só no nome, e nossos pais não parecem
compreender do que nos estão privando.
- Isso tudo me deixa muito confusa. Como é que você sabe tanta coisa?
- É que, graças a mamãe, aprendi isso com Madre Teresa no St. Frances.
Devo isso a ela. Sabia, Doris, que eu até queria ser freira?.. .
- Ai, meu Deus, papai teria ficado furioso. Se não queria nem uma árvore
em casa. .. puxa, Rachel!
- Não precisa se preocupar. Essa minha fase já passou.
- Como é que você nunca me contou que ia ao curso de confirmação? E o
que é isso, afinal?
- É um pouco como quando Gina Soracchi fez sua primeira comunhão,
lembra-se? Você disse que ela parecia uma noivinha - lembrou Rachel,
sorrindo. - Você gosta de noivas. . . A nossa confirmação não é bem
assim, mas é muito bonita e todas as meninas se vestem de branco.
- Com véus?
- Não, mas é uma cerimônia muito bonita.
- Você ainda não disse por que nunca contou a mamãe e papai.
- Porque achei que ninguém se interessaria.. .
- Onde arranjou o dinheiro?
- Com o meu emprego no verão. Economizei quase tudo que ganhei.
- Você é formidável. Eu também gostaria muito de ser confirmada. ..
- Você é ainda um pouco jovem. A verdade é que sou mais velha do que
deveria ser, mas o rabino é um homem notável e me ajudou muito.
- E você nunca disse uma palavra sobre isso. . .
- Quem ia se importar?
- Eu me importo.
- Então por que não diz a mamãe que você quer frequentar a aula de
religião e que quer levar Lillian, também?
- Acha que eu devia?
- Acho. Já está em tempo de sabermos por que as pessoas não gostam de
nós. Uma das razões de nós gostarmos de ser judias é porque os outros
fazem com que nos sintamos inferiores, mas o rabino diz que o mundo
inteiro nos copiou, e que devíamos nos orgulhar de nossa herança. Demos
a todo mundo os Dez Mandamentos, e a Bíblia também.
- Como sabe coisas, Rachel! Gosto muito de você.. . embora nem sempre
tenha gostado. Além disso, você é uma pessoa formidável.
- Obrigada, Doris, e você também. É uma pena que ninguém nos tenha
ensinado a gostarmos mais uma da outra. . .
- Pensei que não fosse preciso a gente aprender a gostar de alguém.
Ninguém me ensinou a gostar de Lillian.
- Bem, a gente tem de ter exemplos. . . a maioria das pessoas não trata
os filhos do jeito que nossos pais nos tratam. Quem fala mal das
próprias filhas como mamãe? Dá a impressão de que ela tem as piores
filhas do mundo. Se crescermos com um complexo de inferioridade, a culpa
não será exclusivamente dos cristãos. - Rachel olhou um momento para
Doris. - Vou passar os dias santos. . . no templo.
- Eu posso ir?
- Se quiser.
- Eu adoraria ir.
- Então podemos ir juntas.
- Acha que mamãe e papai ficariam aborrecidos7
- Se ficarem, é problema deles.
- Podemos levar Lillian?
- É claro.
- Onde vamos arranjar o dinheiro?
- Simplesmente vamos entrar. Para termos lugares marcados, teríamos de
ser membros. Mas arranjaremos lugar.
- Acha que eu devia falar com mamãe sobre o curso de religião, esta
noite?
- Eu esperaria até amanhã, Doris.
- Sabe, Rachel, às vezes tenho. . . pena dela.
- Eu também tenho, porque ela está tão confusa, mas não gosto dela.
Lamento, Doris, mas não gosto.
- E de papai, você gosta?
- Costumava gostar. . . muito. Quando eu era pequena, pensava que ele
também gostava de mim. Isso foi antes de você nascer. Mas ele mudou, ou
talvez mamãe o tenha mudado. Não sei. De qualquer modo, vou ser maior
de idade daqui a um ano. ..
- O que vai fazer, então?
- Vou para a universidade.
- Universidade?
- Sim, quero ser alguma coisa na vida. Não quero ser como mamãe.
- E eu vou ser atriz de teatro.
- Se é o que você quer, espero que consiga.
- É o que eu quero. . .
Doris ficou acordada muito tempo naquela noite, pensando nos pais e nas
coisas que Rachel lhe dissera. Continuava achando tudo muito confuso,
mas quando finalmente adormeceu foi com o pensamento feliz de ir no
domingo à aula de religião.
Embaixo, no vestíbulo, Sara estava sentada sozinha no escuro, também com
muitos pensamentos confusos. Sentia uma tremenda falta de Jacob e
censurava-se por não ser capaz de dobrar-se à vontade dele, mas não
podia ceder da maneira como Gittel cedia a Hershel. Às vezes, achava que
tinha de lutar para impedir que os membros de sua família lhe anulassem
a identidade, mas ao mesmo tempo amava todos eles profundamente e queria
protegê-los e darlhes um bom lar. Estava sempre em casa quando as
meninas chegavam da escola, mas elas pareciam apreciar tão pouco o que
Sara fazia por elas. . . Sobretudo Rachel. Não queria magoar a filha,
mas Rachel tinha idade suficiente para tentar, pelo menos,
compreendê-la.
Por que Jacob não enxergava o quanto ela precisava do seu apoio, quando
se tratava das filhas? As idéias dele eram tão antiquadas. Imagine, sair
de casa porque Doris tinha pedido uma árvore. Eles viviam num mundo
cristão, e o fato de terem uma árvore de Natal não faria mal nenhum. Do
seu ponto de vista, tratava-se apenas de uma coisa bonita, que nada
tinha a ver com religião. Meu Deus, ela sabia mais sobre o Natal do que
Jacob sabia sobre o Chanukah. Mas o tempo que passara num internato
cristão nunca a havia corrompido. Em seu coração era tão judia como o
resto do seu povo. Que valor tinha estar sempre indo à sinagoga? Uma
pessoa era boa ou era má. Essa era a única religião que contava. Suas
filhas sabiam que eram judias. Ela fazia tudo para que as meninas
tivessem consciência de sua yiddishkeit. Na Páscoa Judaica, era só ver
o que ela apresentava na mesa. . . e como trabalhava duro para celebrar
os dias santos. Meu Deus, por que não a compreendiam? Oh, minha mãe,
minha mãe. . . eu amava você, mas tentei ser tudo o que você não foi. .
. A única coisa que eu queria era dar à minha família um lar bom e
confortável...
Chorando em seu travesseiro, Sara pensava: "Oh, Jacob, estou tão
infeliz! Procuro ser uma boa esposa e mãe e lutar ao seu lado, mas você
não compreende que a vida não é só isso. . . Há um mundo em que não
posso penetrar porque você diz que não temos dinheiro para tanto. . .
Como posso ir ao templo, quando não possuo um vestido decente? Não
compreende, Jacob? Não posso ser como as outras mulheres judias, por
isso tenho de ficar na minha cozinha e cozinhar. Será que pensa que não
sei que a vida não é só isso? Por favor". . .
Após uma noite de insônia, Sara teve dificuldade em levantar-se da cama.
Parecia muito abatida ao sentar-se à mesa da cozinha para tomar uma
xícara de café.
Doris não estava interessada em seus ovos mexidos, não nesse dia. Sabia
que sua mãe tinha chorado na noite anterior e, apesar de Rachel ter
procurado tranqüilizá-la, ela ainda se sentia responsável. Se ao menos
houvesse alguma coisa que pudesse fazer para acabar a briga entre seus
pais...
- Posso lhe servir outro café, mamãe?
- Não, obrigada, Doris. Coma seus ovos.
Lillian nada disse. Nem tampouco Rachel, mas por motivos diferentes.
Rachel sentia falta do pai, mas quase desejava que ele continuasse
ausente o tempo suficiente para sua mãe realmente ter medo de nunca
mais vê-lo. Qaro que ele voltaria, mas ainda assim. . . ele tivera razão
a respeito da árvore, o que provava que ainda lhe restava alguma
consciência de ser judeu.
- Está se sentindo bem, mamãe? - perguntou Doris.
- Sim, estou bem, Doris. Fez-se um silêncio constrangido.
- Mamãe, se não se importa, eu gostaria de ir à aula de religião no
domingo - disse Doris num tom ameno.
Sara lançou-lhe um olhar melancólico. Primeiro uma árvore e agora aula
de religião.
- Tudo bem.
- Por que nunca fomos antes?
- Porque não me pareceu necessário. Sabemos que somos judias. . .
Realmente não estou com vontade de falar nisso esta manhã. Mas pode ir.
Seu pai vai gostar.
- E Lillian, pode ir?
- Claro que sim. E você, também, Rachel.
- Eu já freqüento as aulas.
- Ah, sim? - Sara mordeu o lábio. - Sim.
- Compreendo. E por que não me disse?
- Teria se interessado, mamãe?
- Se teria me interessado? O que se passa com você, Rachel? Por que está
sempre me provocando? O que fiz para merecer isso de uma filha?
"Talvez eu devesse perguntar o que fiz para merecer uma mãe como você?",
pensou Rachel.
- O que está pretendendo? - continuou Sara. - Castigar-me, Rachel? Não
lhe dei tudo do melhor? Não a mandei para um colégio particular, a fim
de que recebesse uma fina educação? Fiz grandes sacrifícios para pagar
as taxas escolares e comprar uniformes, e é esse o agradecimento que
recebo?
Mamãe não podia ter dito, eu me orgulho de você, Rachel? Não, ela não
entendera nada e torcia as coisas para se fazer de mártir.
- Por favor, responda quando eu falar com você, Rachel.
- Não tenho nada a dizer. - Rachel levantou-se e deixou Sara chorando
com a cabeça entre as mãos.
Doris e Lillian continuaram ali sentadas, com pena da mãe. Ela era boa à
sua maneira. Tinha se sacrificado para mandar Rachel para um colégio
particular. Talvez Rachel devesse ter sido um pouco mais
compreensiva...
Jacob olhou pela janela a melancólica manhã de dezembro. Desagradava-lhe
aquela época do ano. Significava não trabalhar e isso o deixava inquieto
e irritado. Só o trabalho duro lhe trazia alegria. . . Naquele momento,
porém, seus pensamentos estavam na cozinha, onde se achavam Sara e as
meninas. Após dois dias de solidão, sentia tanta falta da família que o
peito chegava a doer-lhe. Estranho, pensava ele, quando estava ausente,
trabalhando, nunca sentia solidão. O lar estava sempre lá, à sua
espera. Mas isso era diferente.
Sara não estava assim tão errada. Vivendo entre goyim, que espécie de
judeus podiam eles ser? Subitamente, sentiu-se um hipócrita. Quanto
tempo fazia que não ia a um shul? Mesmo em Cleveland, eles tinham
vivido como os goyim. O que na realidade significava a árvore? Para eles
não significava mais do que um ornamento. Não valia a pena uma família
se desentender por tão pouco. E mais estranho ainda foi quando ele se
lembrou de que o aniversário de Lillian era no Natal. . . dia 25 de
dezembro, quando supostamente nascera outro judeu.
Fez a mala e pagou a conta do hotel. Já bastava. A caminho de casa,
comprou um pinheiro de um metro e pouco...
Doris pensou que estava sonhando, quando ouviu o caminhão parar defronte
da garagem. Saltou da cama, correu para o vestíbulo e olhou pela janela
dos fundos.
- Papai voltou! - gritou ela e desceu aos saltos as escadas.
Sara estava junto à pia, quando ele entrou carregando a árvore. Graças a
Deus...
Quando se voltou, os dois ficaram olhando um para o outro, não sabendo o
que dizer. "Eu teria morrido, se você não voltasse", pensou Sara.
Se pelo menos ela tivesse falado em voz alta aquela frase, quanto teria
significado para ele, para ambos. As palavras dela, naquele instante,
talvez os houvesse aproximado. Mas nunca diziam coisas assim um para o
outro. . . nunca sabiam como dizê-las. ..
- Onde está Doris?
- Estou aqui, papai. - Ela o abraçou, ofegante. - Oh, papai, estou tão
contente por você ter voltado.
Ele se sentiu contrafeito até mesmo com a demonstração de afeição de
Doris. Teve vontade de tomá-la nos braços. Mas, naturalmente, não o fez.
- Obrigado, Doris. Aqui tem a sua árvore.
- É. . . bonita, papai. Obrigada. - Agora ela também estava embaraçada.
Ele sacudiu a cabeça, depois se dirigiu à sala de estar e colocou a
árvore diante da janela. Mal podia olhar para a árvore... Goyim,
América, Sanders ... Quando Rachel voltou de seu emprego de vendedora de
uma loja de artigos para o Natal, ficou decepcionada ao ver a árvore na
sala de estar. Papai tinha tão pouca convicção quanto mamãe. Ela o
admirara por ter proibido uma árvore em casa, mas agora...
Quando Jacob a encontrou no vestíbulo do segundo andar, notou de repente
o quanto ela tinha crescido. Desaparecera a meninazinha que ele tanto
tinha adorado. Ela continuava com os seus belos cabelos louros e olhos
azuis, mas não era mais uma garotinha. Era uma jovem. . . Como ele não
notara isso antes? Não podia mais estreitá-la nos braços, por mais que
fosse essa a sua vontade. Só quando suas filhas eram pequeninas, tinha
ele conseguido expressar sua afeição. Naquele tempo elas pareciam tão
desamparadas, tão dependentes...
- Como está, Rachel?
- Como estou? Estou desapontada, papai. No outro dia eu o admirei muito,
mas lamento dizer que agora não sinto mais o mesmo. Somos judeus, papai.
Devia saber disso melhor do que qualquer uma de nós. Não compreende
como é desconcertante para crianças não saberem o que são? Árvores são
para goyim, não para judeus.
Que diabo, naturalmente Rachel tinha razão. Ele tinha querido fazer
Doris feliz e mostrar a Sara que era liberal, mas devia ter-se mantido
fiel às suas convicções. Nesse momento desprezou a árvore quase tanto
quanto desprezava a si mesmo.
Por acaso, o dia 25 de dezembro era, também, o aniversário de Lillian; o
primeiro prazer do seu dia foi lamber a cobertura de chocolate que
restara na tigela, depois de Sara ter coberto o bolo de aniversário.
Depois do jantar, ela abriu os presentes. Rachel comprara-lhe uma
boneca, e Doris, um par de patins com o dinheiro que tinha economizado
privando-se de sorvetes e barras de chocolate e não tomando o bonde
sempre que era possível. Mas o melhor presente foi o par de sapatos de
verniz com laços de gorgorão preto, presente de papai e mamãe. Fazia
muito tempo que ela sonhara com esses sapatos, mas mamãe sempre dizia:
"Não temos dinheiro para gastar com tolices. Você precisa é de sapatos
de colégio."
O prazer de Lillian, calçando-os, quase superou seu sentimento de culpa
com o sacrifício dos pais.
- Oh, mamãe, papai, muito obrigada. São lindos!
- Cuide bem deles - respondera Sara, e estava falando sério. Suas filhas
deviam crescer sabendo que não podiam ter tudo o que queriam. Tinham de
compreender que os seus pais se sacrificavam por elas. Não podiam achar
que tudo lhes era devido. Lembrou-se, então, dos lindos vestidos que
Louie lhe tinha mandado de Bruxelas e roupas e chapéus elegantes de
Monte Carlo, mas isso não fora bem um sacrifício - não um sacrifício que
tivesse real significação. De bom grado ela teria trocado todas aquelas
lindas roupas pelo amor e devoção que dava às próprias filhas.. . Sim,
suas filhas iam compreender que os cuidados e proteção dos pais era mais
importante do que terem suas vontades satisfeitas. . .
Na manhã seguinte, Lillian mal podia esperar para exibir seus sapatos
novos. Com a boneca nova no braço, ela foi até a casa de Haley Welch e
tocou a sineta.
Haley sempre a tratara com gentileza, embora não fossem realmente muito
amigas. A curiosidade de Lillian fora despertada ao saber que Haley
havia nascido com algum tipo de "deformidade" e tinha um pino de prata
na perna esquerda, o que a fazia andar de uma maneira meio estranha. As
duas meninas se encontraram no portão da frente da casa dos Haley.
- Veja o que ganhei - disse Lillian, apontando para seus sapatos e
sentindo-se uma Cinderela.
- São bonitos. O que mais você ganhou de Natal?
- Patins e uma boneca - respondeu Lillian, continuando a olhar para os
seus sapatos reluzentes.
- Eu ganhei 19 presentes.
- Eu ganhei 20. - Lillian sabia que não devia ter mentido, mas estava
embaraçada. Era tão esquisito ter nascido no mesmo dia em que todo mundo
estava comemorando também o aniversário de Jesus. Mas o fato era que
isso a fazia sentir-se meio especial...
- Bem, tenho de voltar agora para casa - disse Lillian, hesitante, na
esperança de que Haley a convidasse para entrar. E sorriu entusiasmada,
quando Haley perguntou:
- Quer ver os meus presentes?
- Quero, sim.
Seguiu Haley escadas acima e deu de cara com uma árvore estupendamente
enfeitada, tão diferente da árvore sem enfeites de sua própria sala de
estar. Não conseguia tirar os olhos da neve de algodão ao redor da
base, dos enfeites cintilantes, do Papai Noel de pão de mel, das balas
de bengalinha listradas. . . E o Menino Deus lá no alto da árvore,
olhando para baixo. As provas das festividades da véspera eram bern
evidentes - caixas contendo presentes, que não haviam sido guardadas,
fitas amassadas e papéis coloridos na lareira.
A irmã mais velha de Haley entrou na sala, calçando macios chinelos de
pelúcia. Era tão bonita, quase tão bonita quanto Rachel.. . Tinha um
namorado, e Haley contara a Lillian que eles iam se casar.
- Olá, Lillian. Sua boneca é muito bonita.
- Obrigada, Alice. Estes são meus sapatos novos. . .
Haley ia mostrar a Lillian todos os presentes que tinha ganho quando a
Sra. Welch entrou na sala.
- Ora, então é Lillian. Parece que Papai Noel foi bom com você. A mãe de
Haley falava diferente das outras pessoas. Alguém dissera que era seu
sotaque irlandês.
-Oh,foi sim, Sra. Welch.
- Haley. . . é melhor mandar agora sua amiguinha para casa e vir tomar o
seu café da manhã.
- Está bem. .. Vou mais tarde até lá para ver os seus presentes. Lillian
concordou com um gesto de cabeça, sem dizer palavra. Por que tinha dito
que ganhara 20 presentes?... O que ia fazer agora?
Começou a chover o que só veio aumentar o seu dilema. Ficou parada uns
momentos no alpendre de Haley, pensando em sua boneca nova e nos sapatos
novos. Tinha prometido a mamãe que cuidaria bem deles "porque custaram
muito dinheiro". . . Despiu o suéter e embrulhou nele a boneca e os
sapatos.
Quando chegou em casa, tinha as roupas coladas ao corpo como uma segunda
pele e seus cabelos pingavam. Subiu correndo as escadas, deixando nos
tapetes floridos as pegadas de suas meias molhadas. Seu nariz escorria
e ela estava tremendo de frio, mas nem notou isso. Pelo menos os seus
preciosos presentes estavam intactos.
Depois de pendurar as roupas molhadas no banheiro, vestiu roupas secas,
e olhou apreensivamente pela janela, vendo a chuva bater contra a
vidraça. Pediu a Deus que continuasse chovendo o dia todo, a fim de que
Haley não pudesse aparecer e descobrir a sua mentira.
- Aonde foi você?
Lillian voltou-se da janela, assustada ao ouvir a voz de sua mã~e.
- À casa de Haley. Eu queria que ela visse meus presentes. Depois
começou a chover... mas não molhei os sapatos.
Sara olhou para a filha que estava fungando.
- Deixe-me pôr a mão na sua testa. Você me parece quente. Está se
sentindo bem?
- Sim, mamãe...
- Vestiu o seu suéter?
- Sim, mamãe, mas... mas tive de despi-lo para embrulhar minha boneca e
meus sapatos.
- É por isso que deve ter apanhado um resfriado. Por que fez uma coisa
dessas, Lillian?
- Mamãe, você me disse que cuidasse bem deles. . . dos sapatos, quero
dizer...
- Pelo amor de Deus, Lillian, use a cabeça. Eu não queria que você
saísse correndo pelas ruas praticamente descalça nessa chuva. Isso é
simplesmente uma estupidez.
Lillian mordeu o lábio.
- Agora vá para a cama e eu mando Doris brincar com você.
- Obrigada, mamãe.
Sara sacudiu a cabeça e sorriu... um esboço de sorriso, mas ainda assim
um sorriso.
Quando Sara já ia saindo do quarto, Lillian chamou-a:
- Mamãe, se Haley aparecer, quer dizer-lhe que estou doente de cama?
- Está bem. Vou lhe trazer uma sopa quente.
Lillian sentiu-se mais feliz naquele instante do que durante o seu
aniversário. Mamãe era boa, e ela estava tranqüila porque Haley não iria
poder vê-la e porque Doris vinha brincar com ela. . . Afinal, a vida
não era tão terrível. #break Capítulo Trinta e Um
Anunciava-se uma primavera gloriosa. Doris notou que os narcisos e íris
tinham começado a florir nas bordaduras do gramado da Sra. Cleary, e nas
poucas aceráceas, que arborizavam a rua, começavam a brotar folhas
verdes. Ela achava lindo quando as folhas adquiriam uma cor
vermelho-pardacento ou dourada, gostava de andar sobre elas
esmagando-as com os pés. Ambas as estações eram bonitas, mas março era
uma época de antecipação.
Em janeiro completara 12 anos, e agora talvez pudesse arranjar um
emprego de verão, ganhar um dinheirinho para comprar presentes de
aniversário para a família e também no aniversário de casamento de
mamãe e papai. Naturalmente, era ainda muito jovem para ser lanterninha
do Tivoli como Rachel, ou para trabalhar como vendedora em alguma loja,
mas devia haver alguma coisa que pudesse fazer. Sem dúvida, ter 17 anos
tinha as suas vantagens. Rachel podia trabalhar e comprar coisas para si
mesma que mamãe e papai não lhe dariam - como a anágua de crepe-da-china
azul debruada de renda bege. Contudo, mesmo quando fosse mais velha,
Doris nunca teria a coragem de responder a mamãe como Rachel fazia.
Aquela anágua tinha sido a causa de uma briga. . .
- Você só gasta seu dinheiro em luxos. Que tal se comprasse sapatos de
colégio? - dissera Sara.
- Cabe aos pais suprir as necessidades dos filhos.
- Está querendo me dizer quais são minhas responsabilidades?
- Seria bom que alguém lhe dissesse.
A bofetada que Rachel levou ainda ecoava nos ouvidos de Doris.
Subitamente quis partir para a escola.
Ao atravessar o terreno baldio que ficava defronte da escola, ela viu um
aglomerado de gente diante do prédio. Fato estranho. Em geral as
crianças ficavam no recreio esperando o a sineta tocar. A curiosidade a
fez apressar o passo.
Olhou para os rostos dos colegas.
- O que houve? - perguntou a Irene Fratis.
- Isabelle Larson morreu atropelada por um carro que fugiu.
Ela vira Isabelle na véspera... Isabelle era uma boa menina, sempre
falava com Doris... Na verdade, todos gostavam de Isabelle.
- Quando foi que isso aconteceu?
- Ontem, depois da escola.
Nunca soubera da morte de alguém jovem. Vovó estava tão velha quando
morrera. Papai não permitira que elas fossem ao enterro. Mas Doris tinha
descido a rua para assistir ao funeral da velha mãe da Sra. Shields, e
a vira estirada sobre uma tábua, cercada de uma porção de flores e velas
altas. Ninguém parecia triste e, na sala de estar, estava sendo servido
um lanche. "É uma bênção morrer tão tranqüilamente", comentavam as
pessoas. "Ela teve uma vida longa e compensadora e deu 10 filhos à
Igreja, duas freiras e três padres." "Oh, sim, Maureen McDermont merece
sua recompensa no céu". . . Então a morte tinha suas compensações...
Isabelle seria enterrada no Cemitério da Sagrada Cruz na quinta-feira, e
toda a escola ia comparecer.. .
Nesse dia, após a escola, ela perguntou a Rachel o que devia usar no
funeral.
- Quem morreu? - perguntou Rachel.
- Uma aluna da escola... Isabelle Larson. O pai dela é dinamarquês e a
mãe espanhola. O que é apropriado usar num funeral?
- Você não vai ser a rainha de uma festa, portanto não deve se preocupar
muito.
Doris não gostou muito da resposta de Rachel, e queria se apresentar
bem, portanto ignorou o conselho.
- Acha que fica bem eu usar o meu vestido cor-de-rosa pregueado?
- Creio que sim.
- Você nunca esteve num enterro?
- Nunca. . .
- Nunca conheceu ninguém que tivesse morrido?
- Oh, pare de ser macabra, Doris.
- Não há nada de macabro nisso. A mãe da Sra. Shields morreu e eu fui ao
funeral.
- É bem do seu feitio.
- O que quer dizer com isso? Quase todo mundo da vizinhança foi.
- O que você usou nesse dia?
Rachel estava sendo realmente irritante... podia ser bem agressiva
quando queria.
- O meu vestido de todos os dias - respondeu Doris - mas não era um
enterro. Parecia mais uma festa. Todo mundo estava bebendo e comendo
sanduíches.
- É mesmo? Aposto que a mãe da Sra. Shields não estava se divertindo
muito.
- Às vezes, Rachel, odeio você.
- E daí? Você tem outras companhias nesta casa.
- Oh... vá lamber sabão. . .
Na quinta-feira, Doris levantou-se bem cedinho. Queria tomar um banho e
vestir-se antes de mamãe acordar. . . sabia que haveria objeções ao uso
de seu melhor vestido na escola. Mas aquilo era algo especial.
Segundo as crianças, Isabelle estava uma beleza. Algumas tinham ido
vê-la.
Carregando numa das mãos seu chapéu branco e na outra os sapatos, ela se
esgueirou escadas abaixo e foi para a cozinha. Apanhou a caixa de flocos
de milho, açúcar e leite e comeu rapidamente, depois passou manteiga em
três torradas, cobriu-as com geléia de abricó e fez um sanduíche de três
andares, que embrulhou em papel impermeável. Calçou os sapatos e pôs o
chapéu na cabeça, sentindo-se muito elegante. Não interessava o que os
outros usassem, não ia dar satisfação a ninguém...
Não havia ninguém defronte do colégio, quando Doris chegou. Era uma pena
ela não ter um relógio de pulso. Mas compraria um quando começasse a
trabalhar. Ou talvez papai se decidisse a dar-lhe o relógio.
Jacob contara que havia ganho um dinheiro por causa de uma coisa muito
triste... Todos os bois da Califórnia tinham contraído uma doença
terrível chamada febre aftosa; então papai fora comprar gado em Nevada
e o mandara para os matadouros do sul de San Francisco. Fora muito
divertido esperar o trem em que papai ia chegar. Ela gostou muito do
aspecto dele, quando desceu do trem, de botas e chapéu de cowboy. Ele e
mamãe tinham tido uma briga tremenda. Mamãe perguntou por que ele não
podia lhe dar um pouco de dinheiro que tinha ganho para mobiliar
decentemente a casa - e, meu Deus!, como papai ficara furioso.
- Sara, eu não devia lhe contar nada. É só saber que ganho algum
dinheiro, e você já quer gastá-lo em móveis. Não posso fazer isso agora,
está entendendo? Meu negócio exige capital, e não móveis.
- Mas dinheiro para um carro novo você arranjou!
- O que quer que eu faça? Tome um ônibus? Preciso de um carro para meus
negócios e o velho estava a ponto de se desfazer em pedaços.
- Escute, Jacob, quanto tempo pensa que vou continuar vivendo dessa
maneira?
- O tempo suficiente para eu juntar dinheiro e abrir uma pequena
fábrica. Você não é a única que tem uma vida difícil. Acha que é fácil
para mim estar sempre viajando por este país, chova ou faça sol? Se eu
lhe fizesse a vontade, já teria falido...
- Sabe o que você é, Jacob? O homem mais mesquinho, mais avarento do
mundo. Se suas filhas significassem alguma coisa para você...
Mas papai já tinha saído correndo de casa e tomado o seu carro. ..
Não, pensou Doris, era melhor ela não pedir. . .
Logo alunos e professores estavam todos reunidos, e havia ônibus
especiais esperando-os. Às nove horas, já todos tinham tomado seus
lugares e a excursão começou. Havia uma atmosfera de grande excitação
no ônibus. Não que alguém parecesse especialmente alegre ou coisa
parecida; apenas estavam todos muito gentis e comedidos. Doris não teve
de ouvir nenhuma das piadas que em geral gostavam de dizer-lhe.
Evidentemente, exceto as crianças do seu quarteirão, ninguém nunca a
vira tão bem vestida, e o chapéu escondia-lhe o cabelo, o que ajudava.
Fazia com que ela se sentisse. . . bem, uma menina distinta.
Quando o ônibus chegou ao cemitério, Doris achou o silêncio lúgubre, e
os grandes túmulos de mármore eram ao mesmo tempo belos e assustadores.
Aquele cemitério em nada se assemelhava ao outro em Cleveland, pequeno,
velho, maltratado e deserto, onde ela e Rachel costumavam ir tomar seus
sorvetes. Ali havia um gramado que era como um tapete verde-escuro e
que se estendia por uma imensidão. Os cordeiros e anjos de pedra lhe
causavam arrepios.
As crianças foram conduzidas apressadamente para uma capela, onde se
sentaram em compridos bancos estreitos. A música do órgão era triste, e
a família de Isabelle chorava baixinho. Doris se abalou com os soluços
de uma senhora com um véu preto cobrindo-lhe o rosto.
Depois entrou o padre vestido com uma longa saia preta e uma túnica de
renda branca, e um tallis estreito à volta do pescoço. Seu sermão foi
pronunciado numa voz monótona, falando naquela criança abençoada que
fora levada porque Deus queria protegê-la do mal. Agora ela estava nos
braços de Jesus. Sua alma habitava o céu com o Senhor, que morrera na
cruz para salvar a humanidade. . .
Doris tentou não ouvir o som da voz do padre. Talvez ela não devesse ter
dado ouvidos a Jennie Harrison. Sua alma provavelmente ia arder no
inferno por toda a eternidade.
Por um momento ela não pôde levantar-se, quando a professora conduziu as
crianças para passarem em fila única, a fim de verem pela última vez sua
amiga Isabelle.
Quando Doris olhou para o esquife e viu Isabelle tão imóvel e pálida,
não conseguiu se conter. . . sentiu uma forte náusea. Suas pernas
tremiam e ela quis apoiar-se em alguma coisa, mas teve medo de tocar no
caixão onde jazia Isabelle. O enjoativo cheiro de cravos, rosas e
gardênias quase a fizeram desfalecer. Quando dobrou o corpo, a
professora rapidamente tirou-a da fila. Sim, devia sair dali. Sentia
frio, medo... um dia ela estaria morta, assim como mamãe, papai, suas
irmãs e tio Shlomo. . . Lágrimas rolaram-lhe pelo rosto. Estava muito
perturbada para ir até o local onde Isabelle ia ser enterrada. Quase
sussurrando, perguntou:
- Professora, por favor, posso me retirar?
- Está bem, espere no ônibus. . .
Depois daquele enterro, durante semanas Doris acordava gritando, banhada
em suor. Trocava então de camisola, mas levava um tempo sem poder parar
de chorar. A escuridão a apavorava a tal ponto que tinha medo de apagar
a luz. Deus também a aterrava, mas ela não falava a ninguém de seus
temores.
Em comparação ao seu apetite habitual, Doris estava comendo muito pouco.
Em geral, era a primeira a sentar-se à mesa e a última a levantar-se. No
passado, a comida preenchera o vazio causado pela falta de afeição, mas
agora. . . Além disso, de que adiantava amar alguém se todos iam morrer?
O ar ausente de Doris preocupava Sara. Estaria ela atravessando alguma
fase de adolescência? Ou começando a se interessar por meninos? Essa
idéia se fixou e cresceu além do normal. Sara lembrou-se do problema
que tivera com Rachel e o filho dos Cantino, e de sua própria
experiência penosa com Carl Bromberg metendo-se na cama dela. . .
procurando abrir caminho entre as suas pernas. Até agora a lembrança a
fazia estremecer. Seria isso a causa da reação que tivera com Jacob?...
No começo do seu casamento, ela o rejeitara com muito cuidado, sem
deixar que ele percebesse por quê. . . sexo era algo que lhe causava
arrepios de repugnância. . . Naturalmente ela teria três filhos, mas
isso nada tinha a ver com os prazeres do amor - pelo menos não da sua
parte. Como qualquer homem saudável, Jacob tinha fortes necessidades
físicas, e também queria uma família. . . um filho. Sara reprimiu o
remorso que ainda sentia por ter abortado...
Tanto tempo investido, tantos anos gastos e tantas desilusões. Mas ela
amava sua família e a considerava da sua responsabilidade. Quando Doris
começou a menstruar, Rachel a censurara por não ter preparado as filhas
para esse fenômeno natural. Agora ela simplesmente presumiu que não
havia outro motivo para Doris ter-se tornado tão retraída; na certa
tinha a ver com a descoberta de seu próprio corpo. Intimamente Sara
sentiu um ressentimento que era quase raiva, mas devia procurar agir com
habilidade...
- Doris, não estou gostando da maneira como se tem comportado
ultimamente. Está mudada... por quê?
Doris ficou um momento calada. Por quê? Porque nós todos vamos morrer,
era o que queria dizer. Olhando agora para sua mãe, era-lhe impossível
aceitar tão dolorosa realidade. Lembrou-se do luto prolongado de sua
mãe, e da relutância do pai em deixá-la ir ao funeral de sua avó. Agora
compreendia a morte muito melhor do que antes. Mas sua hesitação foi
interpretada por Sara como um indício de que talvez tivesse razão em
suas deduções...
- Você fez alguma coisa de que deva envergonhar-se? - perguntou sua mãe.
Doris sentiu como se os olhos penetrantes de sua mãe quase pudessem ver
o seu íntimo. Mas o que queria mamãe dizer com... envergonhar-se? Ela
não estava envergonhada, apenas muito, muito triste. - Então, Doris?
- Não, mamãe. De que posso eu me envergonhar?
- O que os meninos e meninas fazem depois das aulas?
- Jogam basquete, futebol, ou vão para casa, creio eu...
- E você?
- Venho para casa.
- Mas às vezes chega atrasada... Por quê?
- Vou até a biblioteca.
- Só isso?
- Sim, gosto muito da biblioteca.
- E gosta de meninos?
Doris nunca tinha pensado no assunto. Sim, as meninas falavam muito em
coisas que aconteciam nos cinemas escuros, dentro de carros, nos
bosques. . . Mas ela reprimira sua própria curiosidade, sabendo que
ninguém ia querer namorar a gorducha Doris. Ninguém nem mesmo a
convidava para dançar nos dias de festa. Ela sempre servia o ponche e
fazia parte do comitê de recepção. Sentia-se posta de lado e
naturalmente sonhava, mas...
- Você gosta, Doris?
- Gosta do que, mamãe?
- Perguntei se você gosta de meninos. Se gosta, diga.
- Acho que sim... mas...
- Doris, não vou prolongar esta conversa. Sou sua mãe e é meu dever
dizer-lhe que meninos podem causar muitas complicações a meninas.
Ela sabia ao que sua mãe se referia. Ruby Fox tinha tido um filho
ilegítimo e agora todo mundo a desprezava. Pobre Ruby, tinha sido
expulsa da escola. Todos sabiam que Mike Dugan, o campeão de futebol da
escola, era o pai, mas ele continuava sendo o capitão do time e ainda
era carregado nos ombros dos companheiros quando terminava um jogo...
- Eu sei, mamãe...
- Diga a verdade, já teve alguma coisa a ver com um menino? Doris podia
sentir suas faces corarem de indignação.
- Não, nunca...
- Não use esse tom de voz comigo, menina.
- Eu não estava usando nenhum...
- Estava, sim. Sabe a respeito de meninos e meninas?
Doris teve vontade de chorar. Nunca discutira isso nem mesmo com Rachel.
- Sei...
- Ah, sabe? Então quero lhe avisar, Doris. Nunca deixe um menino tocar
em você. Nem mesmo beijá-la. Beijos de certos meninos podem transmitir
doenças terríveis.
Doris não tinha a menor idéia de que doenças eram aquelas e pouco se
importava. Nunca lhe haviam pedido um beijo, portanto essa era uma
preocupação que sua mãe podia pôr de lado. Por que sua mãe achava que
tinha de falar num assunto que a envergonhava e fazia sentir-se impura?
- E não dance muito agarrada com os meninos.
Quem quer dançar com uma bolota?, pensou Doris, furiosa. Levantou-se da
mesa.
- Estou muito cansada. . . estou com dor de cabeça. Se não precisa de
mim para nada, eu gostaria de ir deitar-me...
- Por que está tão cansada?
- Simplesmente estou.
- Acho que está ficando muito preguiçosa, Doris.
- Sinto muito que pense assim, mamãe.
- Uma coisa devo dizer a favor de Rachel, ela não se importa de
trabalhar. É por isso que tem boas notas, e você não.
Por que sua mãe não calava a boca e a deixava em paz? Fazia uma semava
que não dormia, desde que Isabelle. . . Teve vontade de bater em sua
mãe, mas a cólera imediatamente foi abafada por outro pensamento. Se
sua mãe morresse, ela nunca se perdoaria pelo que estava sentindo.
- Está bem, mamãe, o que quer que eu faça?
- Que lave a roupa. Não posso cuidar de tudo. Vá tomar uma aspirina. E
lembre-se do que eu lhe disse há pouco...
Os Sanders pareciam sempre estar separados. Quando Jacob estava em casa,
ia para a cama às oito horas e Sara lia ou costurava. Rachel e Lillian
estudavam, ao passo que Doris se ocupava escrevendo peças. Em
conseqüência, tinha de estudar dobrado para os exames, mas sua
inteligência era tão viva e sua memória tão fotográfica que ela podia
lembrar-se de praticamente cada parágrafo de uma página inteira. . . O
único momento em que a família se reunia era na hora das refeições.
Logo antes dos feriados judaicos, Rachel olhou em redor da mesa em
silêncio, enquanto a família comia. Hesitou um momento, depois criou
coragem.
- Vou ao templo no Rosh Hashanah e Yom Kippur.
Jacob lembrou-se do discurso que lhe fizera Rachel, após o incidente da
árvore de Natal. Sentira-se um hipócrita, mas continuara achando
desculpas para si mesmo, dizendo que vivia muito ocupado tendo de
ganhar a vida, dar segurança à família. De repente suas recordações de
infância se tornaram muito nítidas, e lhe causaram um nó na garganta,
quando lhe veio à mente a imagem do Sr. Mendlebaum a seu lado no pequeno
shul. Quando sua mãe lhe entregara o tallis no estojo de veludo vermelho
com o Torah bordado a ouro, dizendo: "Use este tallis, com a dignidade
com que seu pai o usou." Fora preciso a observação de Rachel para
mostrar-lhe o quanto ele se tinha afastado das tradições. Quando
perdera aquela necessidade espiritual? Mas não havia judeus no seu mundo
e, como não tinha contatos sociais de espécie alguma, duvidava de que
fossem muitos os judeus vivendo na América, sobretudo em Oakland, que
conseguiam permanecer fiéis aos antigos princípios de sua religião.
Parecia que somente no gueto de Nova York era possível ser um autêntico
judeu; no resto do mundo ser judeu significava permutar sua própria
existência. Como poderia ele continuar a ser Jacob Sandsonitsky? Não
fora por vergonha que tinha trocado de nome; o novo nome simplesmente
tornara mais fácil fazer parte daquela mistura de raças. A América era
um grande país, mas exigia concessões...
Sara nunca sentira a mesma perda que Jacob sentia. Crescera num conjunto
de circunstâncias totalmente diverso. Seu elo com o judaismo só se
formara quando ela fora morar com Esther, e mesmo assim era mais
gastronômico do que espiritual.
Jacob podia compreendê-la, pois em criança ela tivera pouco contato com
a religião. Ele próprio, quando menino, tivera contato com o judaísmo,
porém sem um pai que o orientasse na religião. Talvez, se tivesse tido
filhos homens, Jacob teria tomado mais consciência da necessidade de
transmitir os ideiais judaicos. Contudo, envergonhava-se de ter
negligenciado as necessidades espirituais de suas filhas...
- ... e eu gostaria de um vestido novo, papai - estava dizendo Rachel.
- Quanto vai custar?
- Não sei.
- Quanto? Mil dólares? Com todas as roupas que você compra, quer dizer
que não sabe? - comentou Sara.
- Uns 15 dólares, papai.
- Pois vá comprar o vestido. Diga-me, Rachel, a que shul pretende ir?
- Não é um shul. É um templo.
- Qual é o nome do templo?
- Monte Sinai.
- Sara, iremos todos.
- Tem de ser um membro, papai, e tem de pagar.
- Sara... procure saber quanto vai custar.
- Por que quer tornar-se um membro do templo, Jacob? Quando irá
freqüentá-lo?
- Quando eu estiver aqui. Senão, você irá com as meninas.
- Elas já estão indo, Jacob.
- Só à aula de religião, papai.
- Fique quieta, Rachel, isso é entre seu pai e mim. Amanhã vou procurar
saber. E, incidentalmente, Jacob, já que está num estado de espírito tão
generoso, todas nós precisamos de roupas. . . e você, também.
Rachel estava muito satisfeita consigo mesma. Tinha vencido a sua mãe...
Quanto a Doris e Lillian, não podiam acreditar no que ouviam. Iam ter
seus primeiros vestidos comprados em lojas. Mas suas esperanças duraram
pouco. Sara tirou a coberta da máquina de costura Singer e em quatro
dias os vestidos estavam prontos.
As meninas se sentiram ainda mais desapontadas, quando Rachel chegou em
casa com uma jaqueta azul e uma blusa de bolas com um grande laço no
pescoço. Ela parecia um anjo, e seu corpo esguio despertou inveja em
Doris. O mais engraçado é que ambas comiam as mesmas coisas. Então por
que Rachel era tão esbelta e ela tão gorda? Doris se aborreceu ainda
mais quando mamãe comprou um lindo vestido de seda marrom e um chapéu
enfeitado de penas cor-de-rosa, além dos mais deslumbrantes sapatos de
camurça marrom e uma bolsa combinando. Devia ter custado uma fortuna.
Por um milagre, papai não disse nada, quando ela lhe apresentou a conta
de 49 dólares e meio pelo vestido, 50 pelos sapatos e bolsa. Quando
papai experimentou seu terno e chapéu de feltro cinza, ele, mamãe e
Rachel estavam tão elegantes que Doris achou que ela e Lillian estavam
sendo tratadas como enteadas. Sentia-se constrangida em seu vestido
escocês com uma graciosa gola e punhos brancos. Não somente parecia um
balão, como também uma menina de não mais de 10 anos.
Lillian parecia satisfeita com seu vestido de seda amarela. Mas, afinal,
ela não passava de uma garotinha. Que noção podia ter?...
Na véspera de Rosh Hashanah, o jantar foi servido cedo. Os pratos foram
raspados e empilhados dentro da pia com água ensaboada porque mamãe
queria aprontar-se logo.
As meninas esperavam na sala de estar, quando mamãe e papai desceram as
escadas.
Rachel arregalou os olhos quando viu seu pai segurando a sacola de
veludo encarnado com o Torah bordado a ouro. Bem, não adiantava
protelar.
- Papai, não precisa disso. Ninguém usa um tallis e yarmulkah. Jacob
espantou-se.
- Que espécie de lugar é esse aonde vamos?
- É a religião reformada.
- Reformada do que, do judaísmo? Se me tivesse dito, eu não teria
querido ir a esse templo.
- Acho formidável o seu súbito interesse, Jacob. Com você é tudo ou nada
- comentou Sara.
- Nunca faço minhas orações sem um tallis.
- Deus o perdoará. Há tanto tempo não reza, que um tallis a mais ou a
menos...
- Eu lhe pedi para ser membro de uma sinagoga, não foi?
- Por favor, pelo menos desta vez não vamos brigar. É Rosh Hashanah -
pediu Rachel, quase em lágrimas.
Jacob deixou de lado a sacola de veludo e saiu rapidamente da sala,
seguido da família.
Em muda reverência, eles ouviam o órgão tocar acompanhando o canto do
coro. Os enormes arranjos florais de gladíolos e crisântemos
ornamentavam o púlpito, e mais adiante viam-se imensos candelabros
dourados. Painéis de carvalho delicadamente esculpidos recobriam uma das
paredes. Do teto pendia a luz eterna de vidro vermelho defronte das
portas, que mais tarde se abririam para revelar os Torahs com suas
coroas de prata.
Jacob percorreu com os olhos a galeria, os tubos dourados do órgão e o
coro vestido com becas pretas, depois os vitrais das janelas. Sua
atenção foi atraída para o rabino, que se colocara diante da
congregação parecendo um professor de Harvard ou mesmo um juiz, a não
ser pelo tallis cuidadosamente dobrado sobre sua longa túnica negra.
Jacob não só se sentia inconfortável como totalmente sem inspiração,
quando o rabino começou a falar.
A congregação ouviu-o em silêncio, enquanto ele lia um texto em inglês
do livro de orações. Quando o solista substituiu o rabino e cantou como
acompanhamento do órgão, as pausas em seu canto foram pontuadas pelos
"améns" do coro.
Então era isso um templo? Se alguma coisa necessitava de reforma, era o
Templo Sinai. Aquilo não era judaísmo, aquela gente não era judia. Sem
chapéu! O que havia ali que sugerisse que se tratava de uma casa judia
de orações? Jacob sentia-se deslocado, um estranho. Era um templo tão
judaico como aquele de onde um dia ele tirara Rachel. A única diferença
era um silêncio tão grande que, se caísse um alfinete no chão, o órgão
cessaria de tocar. Nem sequer chamavam o homem ali em frente de rabino;
dirigiam-se a ele como doutor. . . Doutor em quê? Não admirava que
Rachel gostasse tanto - devia ser exatamente como uma igreja católica.
Jacob estava odiando encontrar-se ali e sentia de novo raiva de Sara
por ter mandado Rachel para um convento.
Sua raiva não era maior do que os temores de Doris. As flores, o órgão e
as velas tremulando faziam-na quase desfalecer. Pediu a Deus para não
vomitar como quase lhe acontecera no funeral de Isabelle. Tomara que
acabe logo. Não queria estar ali, não era em absoluto como a aula de
religião dominical.
Rachel observava sua mãe e sorria para si mesma. Se as luzes se
apagassem, mamãe adormeceria. A única coisa importante para ela nessa
ocasião era estar usando um traje novo. Era de se ver como descera
majestosamente as escadas, tal uma rainha.
Lillian remexia-se em seu assento. Abria e fechava a bolsa, ajeitava as
luvas de algodão branco e olhava em redor do santuário para os rostos
solenes. Seus lindos olhos castanhos se erguiam para o teto abobadado,
depois para a galeria. Contou as senhoras vestidas de vermelho, depois
de verde, lilás e azul. As vermelhas predominavam. De repente sentiu o
braço de sua mãe no dela.
- Fique de pé, quando os outros se levantam.
Lillian levantou-se de um salto, depois olhou para mamãe para saber o
que devia fazer em seguida. Subitamente a congregação tornou a
sentar-se.
O presidente do templo ergueu-se para anunciar os próximos eventos.
Depois o rabino desejou-lhe um feliz Rosh Hashanah, apertou-lhe a mão e
o presidente foi sentar-se ao lado do solista. Em seguida o rabino
entoou a bênção, o solista adiantou-se e a congregação toda - exceto os
Sanders - cantou o hino final.
"Ó Senhor Todo-Poderoso, que reinou supremo, Antes de surgir a primeira
forma da criação; Quando tudo terminou por vontade Sua, Seu nome
Onipotente foi proclamado"...
O cântico continuou com mais quatro estrofes. E por aquilo Jacob tinha
pago 125 dólares pelos lugares. Que espécie de templo cobrava dinheiro
da entrada? Era como ir ao Orfeão.
Lá para o fim do culto foi pronunciado o Kaddish.
Lillian ia pôr-se de pé, mas foi detida por Sara. Era certamente tudo
muito confuso. Primeiro mandavam que ela se levantasse como todos os
outros, e agora mamãe e papai estavam de pé e uma porção de gente dizia
coisas numa língua estrangeira: "Yis-ga-dal, v’yis-ka-dash."
- Primeiro mamãe quer que eu fique de pé, depois que eu me sente -
sussurrou ela para Rachel. - Por que estamos sentadas e papai e mamãe de
pé?
- Porque não devemos nos levantar, se nossos pais estão vivos. É uma
oração para os mortos.
Doris ouviu e intimamente estremeceu. Sentiu-se mal durante todo o tempo
que durou o Kaddish e o hino de encerramento. Nunca sentiu um alívio tão
grande como quando o rabino pronunciou a bênção, e ela viu a
congregação levantando-se dos bancos e saindo pela nave do templo. Uma
vez fora, ela respirou fundo. As pessoas se agrupavam nas grandes lajes
de pedra entre belas colunas de mármore, trocando saudações com parentes
e amigos. Por uma vez, ela não se sentiu triste por não estar
participando das conversas.
Abrindo caminho entre as pessoas, os Sanders subiram a rua até o
estacionamento e entraram em seu sedã Dodge.
Jacob pôs o motor em funcionamento e partiu. Silêncio completo. Nada de
desejar um feliz Rosh Hashanah, nada de beijos ou abraços, nada...
Na escuridão do carro, Rachel fez um muxoxo. O que podia ter esperado?
Seus pais simplesmente não se deixavam tocar pela sua religião. O
dinheiro era o deus de papai, e o de mamãe o martírio. Ou seria
impressão de sua mente jovem?
A meio caminho de casa o silêncio foi rompido, quando Jacob anunciou:
- Não vou voltar ao Templo Sinai. - As palavras saíram-lhe da boca, como
se as estivesse cuspindo. - Se isso é reforma, eles não são melhores do
que um bando de goyim. Que espécie de religião é aquela?
- Achei muito imponente - disse Sara.
Rachel riu para si mesma. O belo templo e as roupas elegantes das
senhoras tinham impressionado mamãe. Ela não entendera o significado do
culto dessa noite. Ouviu seu pai dizendo:
- Foi uma cerimônia tão religiosa quanto a de uma igreja batista, e sem
nada de judaico.
- Isso é porque sua mente está fechada. Se não é como o pequeno shul na
Rua Hester com todos os yiddles e seus tallises e yarmulkahs, gemendo e
batendo no peito, não é judaico. É tanta a confusão e o barulho que não
se pode ouvir nada. É uma tal estupidez as mulheres lá no alto das
galerias, separadas dos maridos. É tudo tão arcaico. Se o marido e a
mulher podem dormir na mesma cama, então acho que também podem sentar-se
juntos no templo.
- "Igreja", é o que você quer dizer. Escute, Sara, quero participar de
um shul...
- De forma alguma. Não vou criar as minhas filhas com todos aqueles
rituais meshuggeneh (idiota). Estamos na América.
- Você freqüentava um shul, quando morávamos em Nova York.
- Claro. O que devia eu fazer? Ficar em casa sozinha, enquanto a família
inteira ia ao shull? Mas eu não gostava. Não fui criada dessa maneira.
- Eu sei, você foi criada como uma princesa.
- Fui mesmo, e acho que os meus valores espirituais são tão grandes
quanto os seus. Você nunca teve um bar mitzvah, nunca freqüentou um
cheder, nem sequer compreende hebraico. Então por que todos esses
protestos? Continua vivendo na sua velha terra, mas o fato é que não
está mais lá.
- E você está vivendo como uma rainha. Quando em toda a sua vida teve
tanto? O que lhe deu sua mãe?
- Não fale de minha mãe. Pelo menos herdei dela uma mentalidade aberta.
- Não vou voltar lá, está me ouvindo? Não vou gastar o dinheiro ganho
com o suor de meu rosto para sentar-me ao lado de um bando de goyim, que
nern cobre suas cabeças. Não quero que nenhuma de minhas filhas volte
lá. Que religião!
Rachel mordeu o lábio. Continuaria indo quer papai gostasse ou não. A
discussão continuou até chegarem a casa. Um feliz Rosh Hashanah. . .
Eram três horas da madrugada, quando Sara se levantou da cama, percorreu
o corredor escuro até o banheiro e viu uma fresta de luz debaixo da
porta de Doris.
Doris tinha um sono tão leve que se sentou bruscamente na cama, quando
ouviu a maçaneta girar. Talvez fosse o anjo da morte que viera buscá-la.
. .
- Doris, o que está fazendo com a luz acesa?
- Não gosto de dormir no escuro.
- Não gosta de dormir no escuro? Você ê por acaso um bebezinho? Apague a
luz. As contas de eletricidade já são bastante altas. - E Sara apagou a
luz, fechando a porta atrás de si.
Doris encolheu-se debaixo dos lençóis. Cobrindo a cabeça, implorou:
- Meu Deus, se estais aí, por favor escutai. Não quero morrer, não quero
morrer. . . - E chorou até adormecer de exaustão.
No Yom Kippur (Dia do Perdão) , Rachel veio à mesa vestida com a sua
jaqueta azul.
- Por que está vestida assim? - perguntou Sara, servindo o kugel de
galinha e macarrão.
- Porque vou ouvir o Kol Nidre (reza na véspera do Yon Kippur).
Sara esperou que Jacob respondesse, mas ele nada disse. Tendo
advertido-as no Rosh Hashanah que ninguém tinha permissão para voltar a
freqüentar a sinagoga reformada, ela pensou que o marido fosse proibir
a saída de Rachel. Para seu espanto, Jacob não fez qualquer comentário e
continuou a comer.
Quando terminou a refeição, ele anunciou:
- Vistam-se vocês todas, vamos ao templo. Doris correu para a pia e
dessa vez vomitou.
- Não sei o que há de errado com ela ultimamente - disse Sara, apanhando
um pano úmido e limpando o rosto em fogo de Doris. - Está se sentindo
melhor? - perguntou em seguida com genuína preocupação.
- Não, não estou, mamãe.
Sara examinou-a. Ela tinha perdido peso, seus olhos estavam encovados e
sem brilho.
- Na semana que vem vou levá-la ao médico.
Doris nunca antes tinha ido a um médico. Mamãe devia ter calculado que
ela ia morrer.
- Não, não quero ir a um médico. Não estou tão doente assim...
- Veremos.
- Não posso sair esta noite, mamãe. Meu estômago está doendo.
- O que está dizendo... onde? - perguntou Jacob.
- Por toda parte. Por favor, posso ficar em casa? Quero ir para a cama.
Jacob lembrou-se de como Doris estivera tão doente na ocasião em que
Sara dera à luz Lillian. Naquele tempo ele podia debruçar-se sobre sua
filha, beijá-la e tomá-la nos braços. Agora, por mais que quisesse, não
podia mais fazer nada. Só conseguiu articular:
- Vá para a cama, Doris. Vai sentir-se melhor.
- Obrigada, papai. Desejo a papai e mamãe um feliz Yom Kippur, e também
a Rachel e Lillian.. .
Doris ouviu o ruído da porta da frente sendo fechada e depois apenas o
silêncio. Nunca antes se vira sozinha naquela grande casa, que
subitamente se tornou ainda mais ameaçadora do que o Templo Sinai. Ia
ficar de luz acesa até mamãe voltar. . .
Nessa noite, quando Jacob ouviu o som do shofar (chifre de carneiro),
inesperadamente todo o seu desencanto desapareceu para dar lugar a uma
profunda tristeza. Santo Deus, nunca se veria livre da solidão? Nessa
noite, sentiu uma tremenda falta de sua mãe, e o pensamento de Shlomo e
Gittel só fez aumentar a sua carência. Sara. . . cada vez parecia haver
menos compreensão. . . não podia sequer fazê-la sua confidente. . . mas
essa noite era a Véspera da Expiação e devia afastar da mente tais
pensamentos.
Forçou-se a esquecer imergindo no culto e, subitamente, descobriu que o
emocionava o violino tocando bela e obcecante melodia do Kol Nidre.
Nunca lhe soara tão comovente, e em seu coração abençoou Rachel por ter
despertado nele aquele sentimento. Nessa noite, os ressentimentos haviam
desaparecido, os velhos dias do shul desfeitos no passado. E juntou-se
à leitura dos responsos.
Como se a congregação e o rabino fossem uma só voz, entoaram todos: "Vós
sois minha esperança, meu inabalável rochedo, meu baluarte. Ó Deus,
dai-me forças e amparai-me. Escutai-me neste dia solene, em que Vós
prometestes purificar o pecador e apagar a sua culpa." Então a
congregação sentou-se e ouviu o coro cantar com o acompanhamento do
órgão.
Seguiu-se a meditação:
"Ó Deus, meu Pai, venho à Vossa benigna presença para erguer a minha voz
em penitente oração. Este Dia da Expiação é um mensageiro das alturas
chamando-me de volta ao Vosso seio. Que seja feita a Vossa vontade. Ó
Soberano do universo, que eu possa ouvir e seguir a Vossa voz. Vós me
destes a compreensão para distinguir o bem do mal e me concedestes a
liberdade de escolher um ou outro. Freqüentemente negligenciei Vossas
palavras e desviei-me do Vosso caminho. Mas em Vossa mercê destes-me os
meios de renunciar aos meus erros e retomar o Vosso rumo"... Nessa noite
Jacob sentiu quase como se o rabino estivesse falando diretamente com
ele. "Temos deixado de cumprir Vossos mandamentos e Vossas ordenanças
benéficas, sem proveito para nós. Fostes justo em nos castigar, pois
merecemos ser punidos pelo mal que praticamos. "O que devemos dizer
diante de Vós e Vossa sabedoria, e o que devemos contar de novo a Vós
que estais no céu? Não sabeis todas as coisas, tanto as recônditas como
as reveladas? Sabeis os segredos da eternidade e os pensamentos secretos
de cada ser vivo". . .
Às 10 horas da manha" seguinte, Jacob estava sentado com Rachel na
sinagoga. Gostaria de ter partilhado aquele momento com Sara, mas ela
dissera que ia ficar em casa com Doris e iria depois para assistir ao
culto da comemoração.
Ele permaneceu o dia todo. Nem uma só gota de água lhe tocara os lábios.
. . sentia a boca seca. Em seu íntimo havia a necessidade de recordar
suas privações do passado e pensar como, desde então, a vida fora boa
para com ele. Hoje não se sentia onipotente. Hoje sentia-se purificado.
. .
Às três horas, Rachel deixou o santuário e Sara agora viera sentar-se ao
lado do marido. As portas estavam fechadas e só ficaram os que tinham
vindo chorar os seus mortos. Iniciara-se o culto solene do Yiz kor
(Reza para os mortos).
Quando o coro parou de cantar, o rabino ficou um instante diante da
congregação, depois começou: "Ó, que é o homem, o filho do pó? Ó meu
Senhor, que é o homem? O olho nunca se satisfaz de ver; infindáveis são
os desejos do coração. Nenhum mortal jamais julgou que lhe bastassem
riquezas, honrarias e sabedoria até que a morte encerrasse a sua
carreira. O homem arquiteta novos esquemas sobre a sepultura de mil
esperanças fracassadas. O descontentamento habita tanto o palácio como a
choupana, amargurando tanto o príncipe como o indigente. A morte
finalmente encerra a luta, e tudo termina, desgosto e alegria, sucesso e
fracasso. Como uma criança que adormece sobre seus brinquedos, o homem
só perde o controle dos bens terrenos quando a morte o leva. O amo e o
servo, o rico e o pobre, o forte e o fraco, o sábio e o ignorante,
todos se eqüivalem na morte; a sepultura nivela todas as diferenças e
torna iguais todos os homens."
O culto continuou com a devoção silenciosa de cada um dos presentes
relembrando a memória dos seus amados seres falecidos.
Jacob pranteou a memória do seu pai , ao recitar trechos do Livro de
Orações. . . "Tua memória, meu querido pai, enche minha alma nesta hora
solene. Reaviva em mim pensamentos de amor e da amizade que me
concedeste. A tua lembrança me inspira a uma vida virtuosa e, quando
terminar a minha peregrinação sobre a terra e eu chegar ao trono da
graça, espero ser digno de ti aos olhos de Deus e dos homens. . . Que o
nosso misericordioso Pai te recompense pela bondade com que sempre me
trataste; e que te conceda a paz eterna. Amém."
E Sara sussurrou, saudosa:
- Lembro-me de ti nesta hora solene, minha querida mãe. Lembro-me dos
dias em que viveste sobre a terra e do terno amor com que velaste sobre
mim, como um anjo da guarda. . .
O choro abafado parecia ecoar na sinagoga silenciosa.
Mais uma vez a congregação uniu-se ao solista e ao coro e todos ergueram
suas vozes. . . "Abri para nós, ó Deus, as portas da graça divina, antes
de se fecharem os portões, ao terminar o dia. O dia desaparece, o sol
se põe; deixai que entremos pelos Vossos portões."
Agora o rabino entoou: "A tarde vai caindo, o sol desaparece; o silêncio
e a paz da noite descem sobre a terra. Concedei repouso, ó Deus, aos
nossos corações inquietos; erguei a alma que se afundou. Voltai-vos, em
Vosso magnânimo amor, para Vossos filhos, que anseiam pelo Vosso perdão;
voltai-vos, ó nosso Pai, para todos os corações pusilânimes, para todas
as almas oprimidas. Que esta hora nos traga a garantia de Vosso perdão,
de que caímos em Vossas graças. Santificai nossos corações e
transformai-os em altares vivos, nos quais se reacenderá a chama
sagrada da devoção a Vós."
Jacob e Sara puseram-se de pé com os outros devotos e ouviram a ação de
graças. "Que o ano em que estamos entrando seja de bênção e
prosperidade". ..
Jacob e Sara se entreolharam. Ambos com o mesmo desejo - que se
tornassem mais compreensivos, mais afetuosos e indulgentes. Naquele
instante especial foram esquecidas todas as hostilidades.
- Um feliz ano para você, Sara - disse Jacob, beijando-a.
- E para você também, Jacob, um bom ano...
Juntos retornaram a casa e pelo menos nessa noite especial a família se
reuniu, em amor e paz.
#break Capítulo Trinta e Dois
Rachel achou que tinha realizado um milagre. Mal podendo conter-se, foi
procurar Madre Teresa e contou-lhe o que acontecera.
E se houve alguém que partilhasse de sua alegria, foi Madre Teresa.
- Está vendo, Rachel? A fé pode mover montanhas.
Rachel acreditou piamente no poder da fé - por um tempo. Mas,
gradualmente, sua mãe pareceu perder a paz que tinha encontrado e, de
novo, tornou-se tão irritável como dantes. . . Voltaram as mesmas
velhas queixas. E papai retornou também aos seus antigos padrões.
Trabalhava mais do que nunca e se ausentava por períodos cada vez mais
longos.
Como tinha sido ingênua, pensou Rachel. Ir ao templo, para assistir a um
culto não modificava uma pessoa. Era necessário para isso devoção e
dedicação constantes. O rabino dissera que o judaísmo era a árvore da
vida, um sentimento vivaz, que necessitava ser diariamente alimentado,
adotado como um sistema de vida, uma diretriz de moralidade. A natureza
das pessoas não mudava apenas com um olhar de relance para a
bem-aventurança. Sua mãe não tinha culpa de ser como era. Rachel vira o
quanto seu pai se comovera no Dia da Expiação, mas apesar disso e
apesar de lamentar viver entre goyim, era um homem a quem faltava a fé -
ou que a trocara por algo mais? Aquela noite despertara a fé de Jacob e
de Sara, mas somente suas vidas futuras poderiam mantê-la.
Agora Rachel só pensava em sair daquele ambiente, em ir para a
universidade. Graças a Deus, dentro de três meses ela estaria se
formando.
Mas o velho sentimento por seu pai continuava vivo. Ele já estava
ausente havia muito tempo, e quando ela ouviu o ruído de rodas no
caminho da garagem, desceu correndo as escadas para ir ao encontro,
abraçando-lhe o pescoço e beijando-o.
Jacob sentiu-se constrangido com aquela inesperada demonstração de
afeto, mas conseguiu dar um beijo de leve no rosto da filha.
- Estou tão feliz com a sua volta, papai. Mal podia esperar,
- Eu, também, Rachel.
Quando entraram em casa, Sara voltou-se da pia para receber o marido
pela forma do costume.
- Por que não telefonou? Esteve ausente durante 10 dias.
- Estive no fim do mundo, sem nenhum telefone. Ela abanou a cabeça.
- Vá se lavar. O jantar está pronto. . . Enquanto comiam, Rachel disse;
- Sabe, papai, vou me formar em junho.
Jacob não podia acreditar. Ela estava agora com 18 anos. Imagine só,
aquela garotinha que costumava esperar por ele na estação do metrô...
A terna lembrança foi bruscamente interrompida, quando Rachel continuou:
- Quero ir para a universidade.
- Universidade? Não precisa ir para a universidade...
- Não preciso, mas quero.
- O ensino superior não é necessário para uma moça.
- Por que, papai?
- Porque. . .
- Diga por que, papai. - Rachel não só estava nervosa, mas com raiva,
- Porque uma moça não precisa desse tipo de instrução. Você já está
suficientemente instruída.
- Ninguém é suficientemente culto.
- Mesmo assim, não vou mandá-la para a universidade.
- Ainda não me respondeu, papai.
- Pois agora vou responder. Por que hei de gastar todo esse dinheiro?
Depois você se casa, e meu dinheiro ficará desperdiçado.
- Oh, meu Deus, simplesmente não posso acreditar. Como sabe que vou me
casar?
- Ora, o que vai fazer então? Ser uma solteirona?
Sara ouvia em silêncio, enquanto Rachel fervia de indignação.
- Mas se eu fosse seu filho, você me mandaria para a universidade, não é
mesmo?
- Sim, se fosse um filho, seria diferente.
Rachel não se conteve e começou a chorar, o que, naturalmente, era a
última coisa que ela havia de querer. . . mostrar-lhe o que ele
consideraria a sua fraqueza feminina. . .
- Acho que você é o homem mais incrivelmente egoísta do mundo. Só
dinheiro o preocupa, só isso. Nunca teve instrução e devia saber mais do
que ninguém o quanto é importante estudar. Tantas vezes falou em sua
infância infeliz e como...
- Agora chega. - Pela primeira vez na vida, ele ergueu a mão para uma de
suas filhas, mas se conteve e continuou. - Não sou sua mãe, não pode
falar comigo desse jeito e nunca mais levante a voz para mim, mocinha.
.. Sim, tem razão, é o dinheiro, pelo menos em parte. Não tenho de me
desculpar... Trabalhei muito duro para lhe dar o que não tive, e se não
basta. . .
Mas Rachel não estava mais ouvindo, pois saíra correndo de casa para a
rua. Meu Deus, se ao menos pudesse fugir, mas para onde e com o que.. .
Jacob, que Deus o perdoasse, estava sinceramente surpreendido com o
rompante de Rachel. Voltou-lhe à mente a memória de sua infância... Que
diabo, ele tinha passado fome, dormido no chão e em becos, passara por
tantas privações que seu estômago encolhera. Não tinha sido nenhum
piquenique conseguir chegar ao ponto em que estava. E agora descobria
que as filhas achavam que tudo lhes era devido, da mesma forma que Sara.
Ele era alguém que lhes trazia conforto, porém no mais não contava em
absoluto para elas. E Deus era testemunha de que ele nunca lhes havia
negado nada que seus corações desejassem...
- Não compreendo. . . - disse ele, voltando-se para Sara. - Se tivesse
tido um pai como pelo menos tento ser para minhas filhas, eu beijaria o
chão que ele pisasse.
- Agora deve estar me entendendo, Jacob. Sempre que procurei dizer-lhe o
quanto Rachel era difícil, você se virou contra mim...
- Como pôde ela falar comigo daquela maneira. . . - disse ele, quase
falando consigo mesmo. - Sem nenhum respeito. Eu nunca antes tinha
notado isso...
- Claro que não notou. Nunca fica em casa o tempo suficiente para notar
alguma coisa em suas filhas.
Doris e Lillian ouviam caladas os pais se referirem a elas como as
"filhas". . . Seriam realmente filhas tão más e difíceis?. . . Sem tomar
conhecimento da presença delas, Jacob continuou:
- Estou me matando para que elas tenham o que precisam. Por que estou
fazendo tudo isso, se não é para garantir o futuro de minhas filhas? Não
importa o que eu tenha dito, mesmo que não tivesse o dinheiro, eu a
teria mandado para a universidade, se achasse que devia. Mas será que
ela precisa de um diploma universitário para lavar fraldas? Estou
errado, Sara?
- Não. - E Sara sacudiu afirmativamente a cabeça. - Veja o proveito que
eu tive de uma fina educação. Posso citar Shakespeare, enquanto lavo
pratos. O que Rachel precisa é de ir trabalhar e descobrir a dureza que
é ganhar um dólar. Vou dizer-lhe uma coisa, Jacob. Rachel tem tendência
a ser muito extravagante. Gasta o seu dinheiro só em luxos, e isso é
uma coisa que ela nunca vai ter de mim.
Doris ouvia a conversa, mordendo o lábio. Por fim perguntou em tom
calmo:
- Por que quer que eu tire boas notas, papai? Se acha que instrução é
uma coisa desnecessária.. .
Jacob voltou-se para a filha, ao mesmo tempo confuso e irritado.
- Não preciso de filosofias da sua parte, mocinha. Se terminar o curso
secundário, já me darei por satisfeito.
Doris conteve as lágrimas, depois levantou-se em silêncio e saiu da
sala, seguida por Lillian. ..
Chegou junho e Rachel se formou. A ocasião nada teve de alegre. A
maioria das suas outras colegas ia para as universidades, e algumas
estavam noivas, mas ela não tinha nem uma coisa nem outra.
Rachel estava compreensivelmente deprimida apesar da excitação de
beijos, congratulações, fotos de formatura e famílias radiantes com a
cerimônia.
Jacob recusou-se a comparecer porque continuava desaprovando que a filha
tivesse estudado num convento. Mas Sara lá estava, achando como achara
desde o começo que tinha salvo Rachel da tentação mandando-a para o St.
Frances.
Doris e Lillian estavam muito orgulhosas da irmã mais velha, que se
formara com distinção, e a abraçaram e beijaram.
- Oh, Rachel, você estava tão linda - disse Doris.
- Obrigada...
- Estava sim - disse Sara. - Eu tinha razão, não é mesmo? Um dia,
Rachel, você vai me ser grata pela providência que tomei. Uma mãe tem de
guiar os filhos. Seu pai e eu estamos muito felizes por você. - E
beijou Rachel. Muito felizes.
- Sim, eu sei, mamãe... - respondeu Rachel.
Se Sara notou que Rachel mal estava conseguindo fitá-la nos olhos, isso
não foi levado em consideração.
- Agora vamos todos almoçar e comemorar, minhas filhas, esta ocasião
maravilhosa.
E nem um só suspiro lhe escapou dos lábios.
Depois da formatura, Rachel evitou o quanto possível a família. Quando
seu pai estava em casa, ela raramente lhe dirigia a palavra.
Praticamente ignorava a mãe, e nada lhe contava a respeito dos seus
planos. Sabia que tinha de trabalhar, mas não ia vender vestidos para
outras mulheres. Isso nunca. Assim foi temporariamente trabalhar numa
grande loja durante o dia e matriculou-se numa escola noturna para
aprender a lidar com máquinas de calcular.
Ao passar em revista os anúncios de "Precisa-se", ela descobriu que não
só havia procura para esse tipo de especialização como eram excelentes
os ordenados, com promessa de aumentos. Pelo menos havia algum futuro
naquele tipo de trabalho.. .
Após terminar o curso de seis semanas, Rachel candidatou-se a um emprego
na companhia telefônica em San Francisco e foi contratada. Pela primeira
vez, sentiu-se livre. O fato de tomar a barca para ir trabalhar lhe
dava uma sensação de euforia. Sua emancipação, porém, não ia muito além
daquilo. Secretamente, planejava sair de casa e viver sozinha, mas
sabia a reação que tal medida iria causar. E, apesar de toda a sua
bravata, tinha medo de cortar por completo o cordão umbilical. Seus
sentimentos a deixavam perplexa, mas não era possível negá-los. . .
Todas as semanas comprava roupas novas para si mesma. . . gostava de
coisas elegantes e tendo tido até então tão poucas, agora não se privava
de nada.
Um dia, quando limpava o quarto de Rachel, Sara encontrou um recibo de
25 dólares por um par de sapatos. Estaria Rachel ganhando tanto dinheiro
assim? Espiou dentro das gavetas e encontrou muito bem dobradas
camisolas de crepe da China e de cetim e chinelos. Sara examinou as
etiquetas - Leibes, Ranschoff, I. Magnin. . . Sim, tinha de ter uma
longa conversa com Rachel.
Nessa noite, Sara não esperou ser convidada a entrar. Abriu a porta,
quando Rachel estava desabotoando a blusa. Vendo a imagem de sua mãe
refletida no espelho, ela se voltou, levantou o queixo e esperou.
Claro, que mamãe tinha algo em mente.
- Você tem umas coisas muito bonitas, Rachel.
- Obrigada. Herdei o meu bom gosto de você, mamãe.
Sara apertou os olhos. Naquele momento, estava disposta a ir direto ao
assunto. Sem hesitação, perguntou:
- Quanto você ganha?
- Que diferença isso faz?
- Estou avisando, Rachel, não me provoque. Eu lhe fiz uma pergunta.
- Ganho o suficiente para cuidar de mim mesma. . .
- Realmente? Deve ser muito dinheiro para comprar coisas tão caras.
- Eu ganho o dinheiro, portanto tenho o direito. . .
- Tem o direito? Tem mesmo? Pois então, senhorita, de agora em diante
vai ter também o direito de pagar o seu quarto e comida.
- Está com inveja, mamãe?
Sara perdeu o controle e deu-lhe um tapa na boca.
- Não torne a falar assim comigo, está ouvindo?
Rachel quase soltou um grito de dor, mas enterrou as unhas na palma da
mão, puxou debaixo da cama uma caixa de papelão e começou a arrumar suas
coisas.
- E aonde pensa que vai?
Rachel tirou as roupas do armário, dobrou-as, colocando-as depois na
caixa de papelão.
- Eu perguntei. ..
- Para a Associação Cristã dos Moços, embora você não tenha nada a ver
com isso.
- Se sair desta casa, nunca mais porá os pés aqui dentro, isso eu lhe
garanto.
Apesar de sua demonstração de valentia, Rachel estava apavorada, mas
forçou-se a continuar arrumando suas coisas na caixa. Quando terminou,
fechou a tampa, tirou 20 dólares da bolsa e jogou-os sobre a
penteadeira. Depois, sem mais uma só palavra, saiu do quarto e desceu as
escadas.
Sara ouviu bater a porta da frente. . . Santo Deus, o que fizera ela
para ser assim castigada? Como poderia lidar com alguém tão intratável?
Como era possível uma moça - uma moça decente - abandonar o seu lar?
Quando Jacob chegou de viagem, encontrou Sara em lágrimas.
- Rachel saiu de casa. ..
Ele ainda estava magoado com a explosão de Rachel, na noite em que ela
pedira para entrar numa universidade. Mas, de qualquer forma, era sua
filha, e ele o seu pai, quer ela o amasse ou não. Não ia deixá-la
sozinha no mundo, abandoná-la como sua mãe fizera com ele.
- Saiu de casa? E você permitiu que. ..
- Não se volte contra mim, Jacob. Já sofri bastante. Esta última semana
foi um inferno. . .
- Por que ela se foi?
- Ainda não conhece Rachel? Perguntei-lhe quanto ganhava. Afinal, não é
uma pergunta normal? Não tenho o direito de saber? Eu estava tentando
fazer com que ela compreendesse que não devia gastar tudo, que devia
economizar um pouco.
- Onde está ela? - perguntou Jacob.
- Na Associação Cristã dos Moços.
- Você lhe telefonou?
- Sou a mãe. Ela é quem devia me telefonar.
- Mas Rachel é apenas uma criança.
- Uma criança? Dezoito anos é uma criança? Na idade dela eu já era mãe e
cuidava de uma casa. Nem que o inferno congele vou ceder desta vez para
Rachel. Além disso, se eu fizesse uma coisa dessas, não teria mais
condições de viver com ela. . .
- Não seja tola, Sara. Está magoada, eu compreendo, mas temos de ir
buscá-la.. .
- Eu não. Se quiser, vá você. É de você que ela gosta.
- Rachel acha que cometi uma grande injustiça. Mas vai acabar se
conformando.
- Você não a conhece, Jacob. Ela é teimosa como uma mula e muito
egoísta. Nunca se ofereceu para contribuir com dinheiro algum.
- Ela não tem de contribuir com nada. Este é o seu lar.
- Está bem, Jacob. Como de costume, você toma o partido dela...
- Oh, pelo amor de Deus, Sara. Tudo o que eu digo está errado. Sempre
acaba assim... nós dois brigando. Vou trazê-la de volta.
- Faça isso. E diga-lhe que da próxima vez ela pode pisar-me em cima! -
gritou Sara, enquanto Jacob batia a porta dos fundos...
Jacob encontrou sua filha sentada na beira de um catre de ferro
encostado à parede, num quarto que mal dava para mais uma cômoda e uma
cadeira.
- Sua mãe me disse que você saiu de casa. Qual a moça decente que faz
uma coisa dessas? Uma moça nascida numa boa família judaica? Agora
arrume suas coisas, e espero por você lá na portaria.
- Não vou voltar...
Ele começou a perder a paciência.
- Escute aqui, Rachel. Você não é a pessoa mais fácil de se lidar deste
mundo, e sua mãe também é difícil. Mas o seu lugar é em nossa casa, e é
para onde irá. Portanto, vista-se.
Rachel queria resistir, mas aquela última semana fora de uma solidão
insuportável. Por pior que fosse sua casa, havia coisas de que sentia
falta. Talvez a mera familiaridade do ambiente? Ali ela sentia um
isolamento e uma desorientação, que a haviam deixado apavorada. Apesar
de todos os problemas, um lar era um lar. O que mais lhe restava? Não
tinha amigos a quem procurar. Imagine, 18 anos, e ela nunca tinha sido
beijada de verdade. Mamãe se encarregara disso havia muito tempo. Seria
horrível se ver de novo cara a cara com sua mãe, mas...
Se Sara sentiu alívio, não deu demonstração, nem Rachel esperava que ela
desse. Mas Rachel disse a si mesma que revidar a agressão não ia
solucionar nada. Porém não ia em hipótese alguma capitular. Era apenas
uma questão de autopreservação.
Rachel terminou contribuindo com 25 dólares por mês. Papai protestou
violentamente, mas ela não cedeu. Assim mantinha o respeito de si mesma
e sentia-se um pouco mais independente. Meu Deus, como era possível
eles não verem...
Só no dia que Rachel voltou para casa do trabalho e encontrou Shlomo,
que viera de licença, foi que o seu espírito se desanuviou. Como ele
estava bonito com a sua magnífica farda. .. quase estremeceu, quando
Shlomo afastou-a um pouco para vê-la melhor.
- Rachel, você está uma mulher, uma linda mulher. Como cresceu tão
depressa?
- Não foi tão depressa, você é que ficou muito tempo longe.
- Obviamente, um grande erro da minha parte... - Ele a beijou na testa e
a estreitou nos braços. Quando a soltou, abanou a cabeça. Ela era
verdadeiramente maravilhosa, tão fina, com um cabelo louro que parecia
de seda e aqueles olhos azuis...
- Quanto tempo vai ficar aqui? - perguntou Rachel.
- Uma semana.
- Estou muito contente que tenha vindo. - Oh, Deus, se ao menos ela
pudesse dizer-lhe o que realmente estava sentindo.. .
- Estou contente, também, Rachel. Depois quero que me conte tudo a seu
respeito e o que anda fazendo.
- Acho que não seria muito interessante - disse ela com um sorriso. - É
de você que todos nós queremos saber.
- Depois do jantar - disse Sara. - Seu pai está se lavando.
Durante o jantar Shlomo não conseguia tirar os olhos de Rachel. Sara
tinha feito um bom trabalho, disso não havia a menor dúvida. Mas Sara
não ia poder tê-la por muito mais tempo. Disso Shlomo tinha certeza.
Mais tarde, a família se reuniu na sala de estar e ouviu Shlomo falar
dos lugares exóticos onde estivera, as diferentes culturas com que
entrara em contato. As meninas estavam fascinadas. Ele podia falar
chinês, japonês, filipino. . . Queriam que não parasse mais de falar,
mas já passava muito da hora de Jacob ir dormir e, relutantemente,
Doris e Lillian disseram boa noite e foram fazer os seus deveres de
casa. Rachel gostaria de ter ficado, mas sentia-se constrangida. O fato
era que não se passara um momento desde a chegada do seu tio que ela
não tivesse consciência da presença dele...
Doris sempre sonhara ser uma noiva. Comprava revistas e era uma
autoridade no assunto. Em sua fantasia, via-se sempre alta e esguia,
caminhando leve pela nave envolta em nuvens de véus e rendas. Depois,
partia com o noivo para uma ilha romântica, flutuando no Pacífico azul.
Tinha planejado todo aquele maravilhoso romance. A recepção seria ali
em casa, e mamãe faria toda espécie de saladas e sanduíches
maravilhosos. Mas o bolo seria comprado fora. Teria três camadas, com um
casalzinho de noivos lá no alto. . . Nessa noite, quando ela e Lillian
estavam deitadas, perguntou:
- Lillian, pode guardar um segredo?
- Claro que posso. Essa pergunta é quase uma ofensa.
- É que às vezes você se esquece. Mas não vai contar? Promete?
- Prometo.
- Pois bem, vou me casar com tio Shlomo. Senhora Sandy Sanders...
Lillian sentou-se na cama e acendeu a luz de cabeceira.
- Isso é uma loucura. Você não pode se casar com um parente.
- Posso, sim. Então a nossa prima Bertha, de Cleveland, não se casou com
o primo, por parte do tio Harold?
- Bem, isso talvez seja diferente, mas um tio? Além disso ele já é
velho...
- Não é, não, Lillian. Você não entende nada de romances.
- Bem, um pouco eu sei. Billy Hines me acompanha todos os dias a casa -
protestou Lillian, indignada.
-- Isso é diferente. E por falar no assunto, ele já a beijou?
-- Oh, Doris! Claro que não. Não costumo sair por aí distribuindo beijos
aos meninos. Lembra-se do que mamãe disse a respeito de se apanhar
doenças...
- Como sabe disso?
- Porque a ouvi falando com você. Não sou tão burra assim.
- Eu não disse que você era burra. O que eu disse.. . não sei mais o que
eu disse. Só o que sei é que vou me casar com Sandy.
- Sandy? Está se referindo a tio Shlomo?
- Bem, ele vai ser meu tio só até nos casarmos.
- Corro sabe que ele quer se casar com você?
- Por causa da maneira com que ele me beija. É uma coisa que a gente
percebe logo.
- Pois o que eu vi foi ele olhando o tempo todo para Rachel. Doris vira,
também.
- E daí? Eu não o vi beijar Rachel como me beijou, quando saímos da
sala. . . De qualquer modo, não quero mais falar nisso. - E, apagando a
luz, ela fechou os olhos e ficou acordada no escuro por muito tempo.
Rachel ficou muito tempo de olhos fixos no teto. Nessa noite,
simplesmente não sabia onde se esconder de si mesma. Shlomo despertara
nela sentimentos que nunca antes experimentara, sentimentos que eram
perturbadores, excitantes, confusos. . . Sonhava como devia ser estar
nos braços dele, ser acariciada por ele e ouvi-lo dizer o quanto a
achava bela e desejável. Estava tão apaixonada por Shlomo que se
convenceu de que nunca poderia haver outro homem em sua vida. Tinha a
impressão de que o conhecia desde muito tempo, mas só agora se dera
conta disso. Afinal, ele lhe havia enviado cartas e presentes especiais
de todos aqueles lugares. . .
Acendendo a luz de cabeceira ela foi ao seu esconderijo especial e
apanhou um maço de cartas que Shlomo lhe escrevera no decorrer daqueles
anos. Leu agora a última, a que ele lhe enviara antes de deixar
Cingapura.
Minha muito querida Rachel:
Não faz idéia do prazer que tive ao receber o convite para a sua
formatura. Fiquei cheio de orgulho de ver que minha pequena Rachel se
tinha tornado uma linda mulher. As fotos que me mandou fizeram com que
eu percebesse o prejuízo que foi para mim não vê-la crescer. A perda foi
minha.
Contudo, devo dizer que, quando mostrei sua foto a meus companheiros,
eles pensaram que você era minha namorada. Eu lhes disse que você era a
minha doce Rachel, com a auréola de cabelos louros e olhos de safiras
azuis.
Não deixe que ninguém a conquiste, Rachel, não sem o meu consentimento.
Preocupo-me muito com quem você vai se casar. Não tenha pressa há todo
um mundo para ser visto e explorado. Amo todos os meus sobrinhos e
sobrinhas, mas sinto algo especial por você. Parabéns, minha querida,
doce Rachel, e que Deus a ame, como eu. Sandy
Ela apertou no seio a carta, desejando que fosse Sandy em seus braços.
Ele estava dormindo no quarto de Lillian, do outro lado do corredor.
Quais seriam os seus pensamentos? Estaria sentindo o mesmo que ela?
Rachel tinha certeza de que sim, ao recolocar a carta dentro do
envelope.. .
Após passar quase toda a noite acordada, Rachel acordou com o
despertador. Fechou o alarme e ficou um momento sonhadora antes de
saltar bruscamente da cama. . . Eram seis e meia e ela tinha de apanhar
o trem das sete que fazia conexão com a barca.
Tomou correndo o banho de chuveiro. Quando saiu do banheiro, seu coração
disparou, quando quase se esbarrou com o hóspede.
- Bom dia.
- Por que tanta pressa? - perguntou Sandy, sorrindo.
- É que dormi até tarde, coisa que nunca me acontece.
- Você até parece que está na Marinha - riu ele.
Ela só conseguir sorrir, murmurar algo sem sentido e correr para o seu
quarto, onde se apoiou contra a parede. Será que ele percebera. .. que
suspeitara? Ela pediu a Deus que não - depois que sim...
Nessa noite Rachel apressou-se em voltar para casa, mas sofreu uma
dolorosa decepção. Jacob tinha levado Sandy para o interior por uns
poucos dias. Rachel mal pôde comer, dormir era quase impossível.
Retraiu-se num silêncio total. Imediatamente após o jantar, foi para o
quarto e lá ficou andando de um lado para outro. Por que tinha ele ido
embora com papai? Não sabia o que ela estava sentindo? Ou talvez tivesse
partido porque apenas uma fina parede separava o seu quarto do dela?
Na noite seguinte, Rachel sentiu que simplesmente lhe era impossível
voltar para jantar em casa. Os dois últimos dias haviam sido
insuportáveis, e ao invés decidiu jantar numa pequena casa de chá que
só recebia moças. Ao esperar pela salada, seus pensamentos estavam todos
voltados para Sandy. . . Olhou a sala em seu redor. . . Quando eles
tivessem o seu lar, seria assim, com cadeiras e mesa coloniais, papel de
parede florido e cortinas combinando. Por trás das janelas havia
jardineiras com flores da primavera. Sim, sua casa seria parecida. . .
Deprimia-a a maneira como vivia a sua família, entre horríveis móveis
velhos. Por que papai não gastava um dinheiro para arrumar a casa? Pelo
menos ela não teria vergonha de convidar alguém para visitá-la. Mas a
verdade era que não tinha amigos para convidar, portanto que diferença
fazia? Se sua família queria viver daquela maneira, que vivesse - era da
conta deles. Mas era da sua fazer com que sua vida tomasse um rumo
diferente.. .
Eram oito horas da noite, quando ela abriu a porta com sua chave e já
estava a meio caminho nas escadas, quando Sara abriu as portas da sala
de estar e sem preâmbulos perguntou:
- Por que você não veio jantar em casa?
Rachel olhou-a, perplexa. Para sua mãe ela ainda era uma garota de
convento, que precisava ser muito vigiada.
- Porque não tive vontade.
- Devo dizer que você está ficando uma mulher muito independente.
- Sim, é o que pode dizer - replicou Rachel. A raiva de Sara começou a
crescer.
- O que fez depois do trabalho?
Rachel teve vontade de dizer: "Perdi minha virgindade esta noite." Ao
invés:
- Decidi jantar fora.
- Onde?
- Num restaurante.
- Ah, sim... E com quem foi jantar?
- Alguém do meu serviço...
- Oh, fez amigos lá?
- Claro, mamãe, as pessoas gostam de mim. Sou muito popular.
- Calculo que especialmente com homens.
- Especialmente. - Não ia dar à sua mãe a satisfação de saber que não
havia homens no seu escritório. Apenas moças tristes, todas elas dentes
de uma engrenagem bombeando números para a Companhia de Telefone, mas
por nada nesse mundo ia deixar a mãe saber disso. Gostaria bem de
dizer-lhe que ela estava era com inveja do seu emprego, e exasperada
por não poder mais dominá-la.
Sara passou a língua nos lábios secos.
- Estou avisando, Rachel, não vou mais admitir que me fale nesse tom de
voz. De agora em diante quero saber aonde você vai e quero que me avise.
Está me ouvindo?
- Seria difícil não ouvir. ..
Sara subiu as escadas correndo e ia dar uma bofetada em Rachel, quando a
porta da frente se abriu.
Jacob e Shlomo estavam de volta.
Rachel sentiu-se tão humilhada que correu para o seu quarto, bateu a
porta, depois socou a parede até lhe sangrarem as juntas dos dedos.
Sara, muito agitada, desceu as escadas.
- Eu só gostaria que vocês tivessem chegado um pouco mais cedo. Jacob
empalidecera. Tinha proibido a Sara bater nas filhas. Uma vez quase se
separara dela por causa disso.
- O que aconteceu? - perguntou, com evidente cólera.
- Devia ter ouvido o tom com que ela falou comigo...
- Como?
- Como se eu fosse uma estranha intrometida, só porque tive a temeridade
de perguntar por que sua alteza imperial não tinha vindo jantar em casa.
Ela sequer cogitou de que eu podia estar preocupada que algo lhe
tivesse acontecido. É uma falta de consideração absoluta, não vou mais
suportar isso, Jacob. Quero que fale com ela.
- Mas estava prestes a lhe dar uma bofetada. Você não foi bastante
espancada em sua infância? Já se esqueceu?
- Por que está falando agora nisso? Eu não merecia. Não era como Rachel.
. . Estou lhe dizendo, Jacob, há um limite para a minha tolerância, não
sou nenhuma santa. - E, com essas palavras, ela se retirou para a
cozinha, apoiou a cabeça na mesa e desatou em pranto.
Jacob olhou para Shlomo e abanou a cabeça.
- Não sei, não posso compreender. O que há de errado com a juventude de
hoje?
- Suba e vá falar com ela, Jacob.
- Não, não posso. Agora não... estou muito abalado.
- Jacob, ela precisa de você...
- Rachel não precisa de ninguém. Sara não está de todo errada,
acredite... Você devia ter visto como ela falou um dia comigo.
- Jacob, Sara é excessivamente emotiva. . . e Rachel é uma jovem muito
sensível.
- Como sabe você tudo isso? Avise se estou enganado, mas chegou aqui há
apenas uns poucos dias. Além disso, o que sabe a respeito de se educar
filhos? - E, dirigindo-se para a sala de estar, ele se deixou cair
pesadamente numa poltrona. ..
Shlomo abanou a cabeça, subiu as escadas e bateu na porta do quarto de
Rachel.
- Sou eu, Rachel.
- Por favor, vá embora. Por favor.
- Só quero falar com você.
- Não agora, não posso. ..
Mas era o que ela queria mais do que tudo no mundo.. .
A casa estava em silêncio. Rachel vestiu seu penhoar estampado com
flores, dirigiu-se para o banheiro e lavou o rosto e penteou o cabelo,
depois fitou a sua imagem no espelho. A vermelhidão desaparecera dos
seus olhos. Maquilou levemente as faces e os lábios, depois caminhou sem
ruído pelo corredor escuro até o quarto de Shlomo. Bateu de leve na
porta.
A porta se abriu.
- Posso entrar? - perguntou ela, trêmula.
- É claro.
Quando Shlomo fechou a porta, Rachel atirou-se nos seus braços. Agarrada
a ele, beijou-o com tal ardor, que ele sentiu seu membro enrijar.
Delicadamente, soltou os braços dela do seu pescoço e a fez recuai.
- Rachel, acho melhor conversarmos amanhã. ..
- Não. . . agora.
- Não esta noite, Rachel, não aqui. . .
- Por que não? Você me ama. Nós nos amamos e quero que faça amor...
- Não, não diga isso.
Desesperada, ela deixou o penhoar cair-lhe dos ombros. Seu corpo esguio
era como um marfim delicadamente esculpido. Os seios eram macios,
firmes. Ele apanhou o penhoar e o entregou a Rachel, dizendo-lhe com
brandura:
- Vista-o, Rachel.
- Você não me quer? - perguntou ela, perplexa. - Não me acha desejável?
Eu pensei. . .
- Rachel, sou o irmão de seu pai. . .
- Meio-irmão. Além disso, que importância tem? Amo você, Sandy. Por
favor, leve-me com você. ..
- Rachel, não sabe o que está pedindo.
- Sei, sim. Não tenho pensado em outra coisa senão em nós, você e eu.
- Não é a mim que está procurando, Rachel. O que procura é uma fuga.
Acredite que é realmente isso. . .
- Como pode me falar assim depois das cartas e presentes que me mandou?
- Que cartas?
- Cartas de amor. . .
Oh, Deus! Ela lera nas cartas o que precisava ouvir.
- Rachel, não foram cartas de amor. Eram cartas escritas a alguém de
quem gosto muito, como gosto de todas vocês. . .
Lentamente Rachel vestiu o penhoar e amarrou a faixa na cintura.
- Então, todos esses anos estive esperando por nada. Pensei que, se
havia uma pessoa no mundo com quem eu poderia contar, era você. Minha
mãe tem razão. Não sou nada, sou uma idiota. . .
- Não deve falar assim. Você é uma linda jovem e vai encontrar um rapaz
de muita sorte que a amará como você merece.
Ela ficou em silêncio por um longo momento.
- Está bem, meu querido tio, deu-me uma lição muito valiosa esta noite.
.. Nunca mais vou amar ninguém.
- Você está magoada e...
Mas ela já se tinha voltado e saído do quarto antes de ele ter
terminado.
Shlomo sentou-se na beira da cama. Era melhor confessar. Ele tinha
querido estreitá-la nos braços e não apenas consolá-la. . . Mas aqueles
sentimentos eram não só perigosos, como sem importância. O que realmente
o preocupava era que ela realmente estava acreditando no que tinha
dito, que nunca mais permitiria a si mesma ser vulnerável com quem quer
que fosse, e isso era em parte culpa dele. Mas o que podia fazer a
respeito, exceto agradecer por, inconscientemente, não ter ajudado a
destruir o último pequeno vestígio de amor que restava em Rachel. . .
Vestiu-se apressadamente, arrumou a mala e escreveu um bilhete que
colocou sobre o travesseiro. Percorreu com os olhos o quarto, ciente de
que jamais poderia voltar ali. ..
Jacob não apenas ficou desnorteado, como também irritado com a brusca
partida de Shlomo. Tinha sonhado que os dois finalmente iam poder ser
sócios, e agora Shlomo ia voltar para a Marinha. Jacob precisava de
alguém de sua confiança para ajudá-lo em seus negócios. Se ao menos
tivesse um filho. . . O que mais o intrigava era que naqueles últimos
dias, quando viajavam juntos pelo interior, ele tivera a impressão de
que, finalmente, Shlomo mostrara certo entusiasmo pelo seu trabalho.
Agora, subitamente, ia tornar a alistar-se por mais dois anos. Shlomo
era um mistério. Que tão grande atração exercia a Marinha sobre o seu
irmão?
Felizmente, no que se referia a Shlomo, Jacob nunca iria descobrir.
#break Capítulo Trinta e Três
Era o ano de 1928, e a América estava em plena ascensão, A nação era
rica e poderosa, a economia sólida. Os negócios prosperavam e todo mundo
estava comprando ações - até mesmo o barbeiro de Jacob.
Jacob estava envolto num pano branco e sentado numa cadeira giratória,
enquanto Guido Razinni aparava-lhe o cabelo louro. Observou o rosto
sorridente de Guido no espelho.
- Tenho uma casa que está totalmente paga. Um Chevrolet novo em folha,
verde, da cor do dinheiro. Sou um homem feliz, Jack. Meus filhos vão ter
o que nunca tive. Joey vai para a faculdade... ele quer ser médico.
Nada mal para um barbeiro que não sabia ler nem escrever, não acha? De
mim e de Maria, dois jovens ignorantes de Nápoles. Com estas tesouras e
um pouco de sorte eu me saí muito bem. Mas fiz um negócio realmente
espetacular no outro dia.
-Ah, sim? Como?
- Comprei ações da Goldman Saks. Nunca tinha ouvido falar nessa
companhia, nem sei do que se trata, mas meu corretor me disse compre,
portanto Guido comprou. Muito esperto, o meu corretor.
- Quem é ele?
- Um homem formidável, seu nome é Joseph Calla. Devia ir procurá-lo,
Jack.
- Não gosto de ações.
- Você é maluco, todo mundo está ganhando fortunas. Ganhei 300 dólares
num só dia. Já ouviu falar numa coisa dessas? Eu podia ter trabalhado
como um doido o resto da minha vida e jamais ganharia o que ganhei o
ano passado. Aprendi o jeito com Calla, compro e vendo, guardo a maior
parte do dinheiro, deposito-o no banco e compro com o lucro.
- Continuo não gostando de ações.
- Um judeu esperto como você não quer ganhar uma bolada?
O comentário não aborreceu Jacob porque ele sabia que não era com
maldade. O fato era que Guido os colocava todos no mesmo barco.
Carcamanos e gringos tinham de se unir, era o que ele sempre dizia.
- Claro que gosto - respondeu Jacob. - Quem não gosta? Mas só sei como
comprar gado. Não gosto de investir em nada que eu não possa controlar.
- Isso é tolice. Os homens mais ricos do mundo estão no mercado e o
podem controlar tanto quanto você.
Jacob sabia que todos estavam ganhando muito dinheiro, mas tinha medo de
investir. Seu próprio negócio era um jogo tanto quanto o mercado de
ações, e até mais arriscado sob certos aspectos. A verdade é que embora
ele soubesse que era importante comprar em quantidade, nem sempre tinha
o dinheiro vivo para comprar o gado de que precisava. A maior parte do
tempo operava com saques bancários, quando na realidade não dispunha da
quantia em sua conta. Mas felizmente fizera amizade com o gerente do
banco local que lhe dava cobertura porque nem uma só vez Jacob faltara
aos seus compromissos. Ainda assim, muitas vezes ele passava a noite
acordado rezando para que na hora de vender o gado pudesse cobrir o
saque e sair com lucro da transação.
Os tempos haviam mudado desde que Jacob começara o seu negócio. Os
preços flutuavam com tal rapidez do momento da compra para o momento da
venda que, se não fosse pela incrível capacidade de comprar certo, ele
podia muito bem ter prejuízo. Sim, sem dúvida os tempos haviam mudado.
Hoje os agricultores possuíam rádios e estavam a par dos preços
vigentes. Mas Jacob sabia como manobrar os pecuaristas e poucos se saíam
melhor do que ele. Sabia como manobrar as percentagens. Muitos dos
bezerros eram magros, mas ele os comprava deliberadamente. Depois,
providenciava para que seu gado ganhasse peso em trânsito, porque cada
quilo ganho significava mais dólares. Era por isso que ele viajava com
o gado e até dormia num vagão de carga...
Quando Guido removeu o avental branco do pescoço de Jacob, salpicou
talco numa escova redonda e começou a espanar os pedacinhos de cabelo,
insistiu:
- Vá procurar Calla. Ouça o que estou dizendo, Jacob, aproveite a onda.
Depois de sair da barbearia, Jacob ficou muito tempo sentado no seu
carro, pensando. As palavras de Guido lhe tinham, causado mais impacto
do que queria admitir. "Eu poderia trabalhar a vida inteira. . . Sou um
homem feliz. . . dois jovens napolitanos ignorantes. . ." Jacob não era
um homem assim tão feliz, mas de certo modo a vida lhe fora boa,
também. Não era rico, é claro, mas tinha mais do que a maioria, mais do
que as pessoas imaginavam, inclusive Sara e as filhas, e com boa razão.
Tornara-se tão reservado, embora receasse agora ter cometido um erro,
que nem a Shlomo contara a sua verdadeira situação financeira. . .
Talvez, se lhe houvesse contado, Shlomo teria ficado, em vez de se
alistar de novo na Marinha.. . Mas o que Jacob tinha visto e aprendido
era que não se podia confiar em ninguém. . . a vida toda não tivera
provas disso? Às vezes doía-lhe a consciência. . . embora nunca se
animasse a admiti-lo. . . por esconder as coisas de Sara, mas depois se
lembrava de que, se a deixasse fazer o que queria, ela não tardaria em
arruiná-lo com a sua alucinação por móveis, sua recusa em compreender
que o dinheiro de que ele precisava para comprar o gado não nascia nas
árvores. . . Muito bem, talvez exagerasse um pouco, talvez pudesse
soltar mais dinheiro, mas achava que se fizesse isso, não teria como
parar. . . Para ele o fato predominante era que com o seu suor, suas
mãos e sua inteligência dera segurança para a família, e estava decidido
a fazer com que a fonte de sua prosperidade fosse aumentando. Um dia
ele seria dono de sua própria indústria. . . Mas "vá procurar Calla,
aproveite a onda" continuava martelando em sua cabeça. Às vezes era
preciso arriscar um pouco para progredir. . .
Jacob estava agora no escritório de Calla, no Edifício do Banco da
América.
- A fim de ganhar dinheiro, Sr. Sanders, sabe tão bem quanto eu que tem
de investir uma boa soma de dinheiro - explicou o corretor.
- O que é uma boa soma de dinheiro?
- Bem, todas as coisas são relativas, mas digamos que possa dispor de 5
mil dólares. Seria o começo de uma boa carteira de ações.
Jacob gemeu intimamente. Sem dúvida ele tinha o dinheiro, mas arriscar 5
mil dólares?
- Sugiro que invista 3 mil na Goldman Saks - continuou Calla. - A 12
dólares a ação, é a melhor compra no mercado. E também há uma nova
emissão de uma companhia aérea. . .
- Ações de companhia aérea? Eu não investiria meio dólar nisso.
- Está bem. Há uma outra ação fabulosa, da AT & T. E também. . . Jacob
não estava mais ouvindo. Goldman Saks era o que lhe servia.
Doze dólares em 5 mil significavam ter 416 ações. A mão de Jacob tremeu
quando ele assinou o cheque.
Passou a ler todas as noites a página financeira. Estava subindo,
subindo.
Após oito meses, Jacob começou a ficar nervoso. As ações no mercado
tinham saltado para 65 dólares cada. Dos 27 mil dólares, ele separou 22
mil que guardou num cofre no banco e reinvestiu os 5 mil dólares
originais, mais o que comprara à margem. Agora possuía ações de estrada
de ferro, petróleo e AT&T. Nada mal. Jack Sandsomtsky passaria a ter
uma verdadeira participação na América dos goyim.
Possuir uma fábrica de carnes enlatadas era ainda o objetivo máximo, e
agora estava quase na palma de sua mão. O Sr. Fratis, proprietário e
diretor da Companhia de Carnes Enlatadas Hayward, tinha morrido, sem
deixar filhos para tomar conta do negócio. Era uma companhia há muito
estabelecida e respeitada, e o preço de venda era convidativo.
Quando Jacob tinha trabalhado na Hayward, a sua preocupação máxima fora
garantir a segurança de sua família, fazendo com que ele vencesse a sua
repulsa de abater bois. A idéia de que algum dia poderia ser o
proprietário teria parecido tão fantástica como ir à lua. E agora?
Estava doido por possuí-la. A fábrica e os cinco hectares de estábulos
e silos eram a sua escada para o sucesso - não queria mais saber de
especular nos currais. Mas comprar a companhia significava vender as
ações que lhe haviam rendido 225 mil dólares. A escolha ficava entre as
riquezas prometidas pelo mercado e a realização de um velho sonho. Jacob
gostaria de ter ambas as coisas, mas a Sra. Fratis queria o pagamento à
vista. Era uma velha durona, com quem não adiantaria pechinchar. E assim
Jacob vendeu suas ações para comprar um sonho.
Em 5 de janeiro de 1929, Jacob vendeu as suas ações e comprou a
Companhia de Carnes Enlatadas Hayward. Pagou 70 mil dólares à vista à
Sra. Fratis e usou o resto do dinheiro para estabelecer uma linha de
crédito. Com um empréstimo do banco, modernizou a fábrica e contratou
alguns empregados de escritório. Smitty, que ainda trabalhava na
fábrica, passou a ser chofer de caminhão. Jacob contratou mais dois
motoristas e comprou três caminhões novos.
Esse teria sido, deveria ter sido, o momento mais feliz na vida de
Jacob, exceto por duas coisas. Shlomo continuava na Marinha e ele
precisava de alguém para zelar pelos seus interesses. Não podia estar
em toda parte ao mesmo tempo. . . E Sara continuava atormentando-o. . .
querendo mobiliar a casa e tudo o mais. As discussões eram cada vez
mais freqüentes, mais exacerbadas. Mas ele não podia, não queria mudar
sua posição. . . Ela não ia dominar sua vida por mais que tentasse. Já o
privava de muita coisa, privava-o de si mesma. Agora ela teria de
esperar até que ele estivesse disposto. Já o magoara mais do que ele
próprio imaginava. Voltara-se contra o marido naqueles tempos, quando
parecia que tudo na vida conspirava para prejudicá-lo. Agora, o dinheiro
pelo menos ajudava. E a companhia ajudaria ainda mais.
Pouco depois de Jacob ter-se firmado na companhia, outra visão passou a
obcecá-lo - possuir uma grande fazenda em Klamath, medindo 450 hectares
de pastos perfeitos e 200 hectares de plantações de alfafa. Mas a maior
qualidade da fazenda era a que todo criador de gado mais prezava - água.
As valas de irrigação já estavam lá, e mais uma vantagem era que um
ramal da Estrada de Ferro Santa Fé cortava a propriedade. Isso não só
significava menos despesa no transporte do gado, como a estrada de
ferro tinha de arrendar o terreno para ter acesso ao ramal. Ele não mais
seria obrigado a comprar gado em Montana, Wyoming, Oregon e Nevada, e
uma vez que tivesse o seu rebanho formado os lucros poderiam ser
enormes. O gado podia ser embarcado para a Companhia Hayward, engordado
em seus estábulos - e o lucro seria só seu.
Ia sentir falta da camaradagem de se sentar em torno de uma mesa de
pôquer com os rancheiros, de quem comprava o gado, e tomar uns tragos de
uísque. Nunca discutiam negócios quando jogavam, mas, quando terminava
o jogo, começavam as transações. "Está bem", dizia Jacob, "quanto quer
por cabeça?" A resposta era sempre a mesma: "Faça uma oferta." E fosse
qual fosse a oferta, nunca era o suficiente. Mas Jacob gostava daquelas
discussões.
Gostava, também, de ver o ferro em brasa deixar sua marca no lombo de um
touro, de ver os carvões ardendo enquanto eram aquecidos os ferretes, o
chiado do pêlo queimado e o odor pungente da fumaça. Sim, o melhor
momento era o rodeio.. . "Não apressem o gado", gritava ele para os
homens. A gordura do boi valia mais do que o ordenado dos poucos
vaqueiros que tocavam a boiada. "Vão com calma, não deixem que os bois
fiquem nervosos ou cansados. Não os derrubem com muita força." Sim,
aquela era a aventura que Jacob amava. Nunca se sentia tão feliz como
quando estava a cavalo atrás de um rebanho de gado gordo. Esse era um
lado de sua personalidade que Sara nunca conhecera. Era um lado secreto
e lhe rendera muitas boas lembranças. Mas essas coisas já estavam
desgastadas, e precisavam ser substituídas por algo novo, por um futuro
mais brilhante.
Acabou comprando a fazenda por 500 dólares o hectare e deu uma entrada
mínima. O banco emprestou-lhe o restante, mas dessa vez Jacob não teve
medo. Tinha como pagar a dívida. ..
Quando contou a Sara o que havia feito, para ela aquilo significou que
iriam viver ainda mais afastados um do outro. Mas não era de esperar?
Sua mãe, seu pai, e por fim Jacob - cedo ou tarde sempre a abandonavam.
Agora mais do que nunca Jacob passava a maior parte do tempo fora de
casa. Sem dúvida, ele a convidara a ir conhecer a fazenda, dissera-lhe
que ia gostar, que a casa era linda, que de quando em quando devia
deixar as filhas e ir ficar com ele. Mas o que iria Sara fazer lá
sozinha naquele ermo? Jacob estaria trabalhando o dia inteiro. . . Sara
se recusou até a ir conhecer a fazenda.
À medida que o mundo de Jacob se ampliava, o de Sara ia se restringindo,
concentrado no único interesse que lhe restava. Jacob a estava
expulsando de sua vida. Assim, era mais do que natural que ela se fosse
tornando cada vez mais possessiva com as filhas, mais sujeita a
ansiedades e ressentimentos, de mais difícil convivência...
Jacob andava tão ocupado que não tinha muito tempo para se preocupar com
o que estava acontecendo no mercado das ações. Assim, em setembro de
1929 foi tomado de surpresa pelos acontecimentos que lhe haviam trazido
a sua atual prosperidade - o colapso da economia, que desabou como um
relâmpago, trazendo consigo o pânico.
Guido Ranzinni em sua barbearia, estava em estado de choque. Ontem ele
era um homem rico, hoje um indigente...
Pessoas saltavam das janelas de edifícios. Os suicídios eram uma
ocorrência diária, e os que tinham criticado Jacob por não ter
permanecido no mercado das ações começaram a considerá-lo um gênio das
finanças.
Jacob tinha consciência de que por uma vez na vida a sorte o favorecera.
Poderia estar na situação de Guido, se Fratis não houvesse morrido na
hora certa. Além do mais, apesar da Depressão, sua indústria
sobreviveu. A propriedade estava totalmente paga, e ele tinha dinheiro
suficiente guardado na caixa-forte do banco. Então começou a pensar que
a sorte tivera menos a ver com aquilo tudo o que ele imaginara de
início, ao saber do colapso da Bolsa. Afinal, a melhor escola do homem
era a própria vida, que lhe ensinara não somente a reconhecer os seus
erros, como a sobreviver. Se não tivesse sido roubado naquele albergue
no Bowery, talvez nunca chegasse a compreender a importância de uma
caixa-forte. Procurava sempre ter certa quantia em dinheiro à mão.
Bancos eram instituições necessárias - só para empréstimos.
A Faculdade de Economia de Harvard não precisava ensinar-lhe isso.
#break Capítulo Trinta e Quatro
Rachel estava parada na esquina das Ruas Montgomery e Market, esperando
por um bonde que a levaria à estação das barcas para fazer a travessia
de San Francisco a Oakland. Começara a chover, e ela estava sem
guarda-chuva. Esperou no vão de uma porta, cansada e aborrecida.
Que rumo estava tomando sua vida? Nenhum. Tinha economizado um pouco, na
esperança de que talvez nesse verão pudesse ir a Vancouver, mas a
Depressão se encarregara de cortar-lhe a oportunidade. Ainda assim, ela
podia considerar-se com sorte. Seu salário fora drasticamente reduzido,
mas muitas das moças em seu escritório haviam sido despedidas. Naquele
último ano, tinha saído com uns poucos rapazes, mas ninguém por quem
sentisse um real interesse. Ultimamente, vinha saindo com Maury Cohen,
que estava louco de amor por ela e lhe implorara que se casasse com ele,
mas Rachel não queria nem sequer ouvir falar em casamento. Maury não
passara de um pretexto para ela sair de casa, mas não gostava realmente
dele. Maury era pobre e chato - uma combinação que não lhe agradava
muito. . .
Vendo o bonde aproximar-se, correu para o meio-fío. Não viu o carro que
justo nesse momento dobrou a esquina, e ficou tão surpreendida com o
banho de água espirrada da valeta, que perdeu o equilíbrio e
esparramou-se no chão, encharcada e aturdida. Sua bolsa se abriu
despejando na calçada todo o seu conteúdo. Seu lindo chapéu adernou e
seu melhor capote ficou imundo. Ela quase chorou de raiva.
O motorista do carro estacionou-o, saltou e começou a ajudá-la a
levantar-se.
- Está machucada?
Rachel enxugou os olhos com a mão, sem responder-lhe. Com a chuva
pingando da aba do chapéu, ele continuou:
- Desculpe, machucou-se?
- Não, mas será que preciso agradecer a você por isso? - retorquiu ela,
olhando para seu capote.
- Escute, peço desculpas e insisto em pagar o seu prejuízo.
Rachel não estava ouvindo. Acabava de ver o bonde passar pela sua
parada, e sacudiu a cabeça irritada.
- Não sei realmente o que dizer. Sei que parece uma ousadia, mas me
permite que eu a leve no meu cano para onde ia?
Tremendo de frio, ela olhou para o rapaz bem-vestido, depois para o
Cadillac conversível. Ele devia ter uns 40 anos, e o tom de sua voz era
gentil, sincero. Ela hesitou um instante, depois:
- Está bem.
O rapaz a ajudou a entrar no carro, depois recolheu sua bolsa e o
conteúdo. Quando ela tirou o chapéu para sacudir a chuva, já ele estava
ao volante.
- Aonde devo levá-la?
- À estação das barcas.
- Eu gostaria de me apresentar - disse ele, enquanto percorria a Rua
Market. - O meu nome é Jim Ross.
- Meu nome é Rachel Sanders - respondeu ela, olhando dentro da bolsa
para ver se faltava alguma coisa.
- Posso chamá-la simplesmente de Rachel?
- Não vejo nenhuma razão.. .
- Mas há uma razão, pois tenciono substituir o seu capote.
- Não seja ridículo. Eu não aceitaria. . .
- Mas insisto. Fui eu que o estraguei.
- Ainda assim, não posso permitir que faça tal coisa. Silêncio. Depois,
meio contrafeito, Jim disse:
- Quero de novo pedir desculpas. Está inteiramente encharcada, e a queda
que levou deve tê-la deixado abalada.
- Não posso dizer que tenha sido exatamente divertido. - Ele relanceou
um olhar para aquele belo rosto, enquanto ela prosseguia. - Se não nos
apressarmos, vou perder a barca.
- Onde mora?
- Em Oakland.
- Ah, sim? Bem, de novo quero dizer-lhe o quanto lamento. ..
- É muito gentil da sua parte. Se não se importa, quer me deixar debaixo
da marquise?
Jim Ross estava tão impressionado com a beleza de Rachel que não tinha
percebido que estavam diante da estação. Ajudando-a a descer do carro,
ele perguntou:
- Como posso entrar em contato com você?
- Para quê?
- Insisto em substituir. . .
- Por favor, esqueça isso, Sr. Ross. Foi muito gentil. - E saltando do
carro, ela correu para dentro da estação.
Jim pôs-se a rodar sem destino pela cidade, e finalmente foi para casa.
Não era nenhum garoto, nem dado a dramas e muito menos a melodramas. Mas
não havia como negar que nunca sentira antes o efeito que Rachel
Sanders lhe causara.
Mais tarde em seu quarto, tentando ler, começou a recordar os eventos
daquela tarde. . . ela. . . Que jovem extraordinariamente bela.
Levantou-se e foi até o seu gabinete de leitura, serviu-se de um
uísque, sentou-se e olhou para o fogo da lareira. Raios, sua vida tinha
sido um desastre, mas até essa noite estivera disposto a se conformar.
Agora, porém, sentia que algo importante lhe acontecera. De repente,
aquela jovem simplesmente entrara em sua vida, e assustava-o a noção de
que estava começando a questionar os compromissos que tinham dominado
seu passado. ..
Jim Ross conhecera Kelly Richardson quando estava na Universidade de
Harvard e ela na de Radcliffe. Kelly era a garota mais popular,
desejável, solicitada na Universidade. Sua família era tradicional de
Boston e a dele vinha da Pensilvânia. O pai dela estudara em Princeton,
como o avô, ao passo que o pai e avô de Jim tinham trabalhado em usinas
de aço. Não era que os Ross não tivessem dinheiro, é claro. O pai dele
juntamente com seis irmãos tinham juntado seus recursos e aberto uma
pequena usina de aço e, quando Jim atingiu a idade de se matricular em
Harvard, seu pai tornara possível ele ser aceito num clube de categoria.
No dia de seu casamento, Jim ainda mal acreditava que alguém como Kelly
se casasse com ele. Mas não era Jim quem iria questionar o que ela vira
nele.
Pouco depois da lua-de-mel do jovem casal, o Sr. James Ross abriu uma
usina subsidiária em San Francisco para Jim.
Os primeiros anos do casamento haviam sido felizes. Kelly era a
dona-de-casa perfeita, a esposa perfeita e a mãe perfeita. Ambos
adoravam Maureen, a filhinha do casal; na opinião deles nunca existira
uma criança mais adorável.
Então, uma noite, todo o seu mundo desabou sobre ele. Ao voltar
inesperadamente para casa de uma viagem de negócios, descobriu que
Kelly, a esposa dedicada, lhe era infiel. Efetivamente, ele a encontrou
fazendo amor no mesmo quarto, na mesma cama que partilhara com ela
durante todos aqueles anos. Ficou parado no meio do quarto, sem
acreditar nos próprios olhos. Não era outro homem... Kelly estava
apaixonada por Jennifer Holme, uma colega de Radcliffe.
Quando finalmente Jim saiu de sua imobilidade, bateu a porta, correu
para o banheiro e vomitou.
Durante duas semanas, ele se manteve afastado de casa. Mas a pobre
Maureen, sua filhinha, ficou sozinha na mansão da Avenida Pacific com
sua mãe e a amante.
Não restava outra opção senão voltar, e tentar fazer o que pudesse por
sua filha. Então estabeleceu para Kelly suas condições.
- Estou me danando para as suas aberrações. A única coisa que me importa
é Maureen. Infelizmente, ela adora você, e seria um desastre se a
verdade a seu respeito aparecesse no divórcio. Seria um escândalo.
Portanto, ouça com atenção. Eu lhe darei o divórcio quando Maureen
atingir a maioridade. Então você pode ir para o inferno. Mas até lá vai
ser a espécie de mãe que Maureen merece ter. Será uma mãe dedicada e,
aparentemente, os Ross serão uma família. Já vi muitas crianças sofrerem
por causa de casamentos fracassados. - E quando se curvou sobre ela, a
sua vontade foi apertar-lhe a garganta até sufocá-la.
Jim mudou-se para um dos muitos quartos da casa e manteve-se o quanto
possível afastado de Kelly, que passou a ser sua mulher apenas
nominalmente.
Quando Maureen completou 15 anos foi para um internato, o que pelo menos
tornava mais simples a estranha situação dos pais... que só tinham de
representar seus papéis durante os feriados e férias de verão.. .
Maureen estava prestes a completar 18 anos e era uma jovem feliz e
equilibrada. Não tinha ele agora direito a alguma compensação para si
mesmo? Levantou-se, serviu-se de outra dose de uísque e olhou pela
janela a escuridão da noite.
Ele sentira, desde quando tinha ajudado Rachel a levantar-se da calçada,
que tinha toda a intenção deste mundo de tornar a vê-la. Pense... ela
estivera esperando um bonde por volta das cinco e trinta, na esquina da
Montgomery e Market, o que significava que ela devia trabalhar na zona
comercial, e também tomara a barca das seis para Oakland. Encontrá-la
de novo não devia ser muito difícil.. .
Na tarde seguinte, Jim estacionou seu carro pouco depois das cinco e
esperou. Quando viu Rachel atravessar a Rua Montgomery, seu pulso bateu
mais rápido, como se ele fosse um colegial.
Rachel levou um susto, quando ouviu alguém chamá-la pelo nome.
- Como vai, Rachel?
- Bem.. . Sr. Ross, e o senhor?
- Bem. Espero que esteja refeita do incidente de ontem.
- Já, obrigada...
- Rachel, isso pode parecer um tanto audacioso, mas eu gostaria de
convidá-la para jantar esta noite.
Rachel pensou um momento. Já deixara um estranho dar-lhe uma carona na
véspera, e o que podia acontecer num restaurante? Afinal, não era uma
ousadia tão grande assim. Talvez fosse o fato de ele ser mais velho o
que a tranqüilizava.
- Não sei se estou vestida adequadamente para um jantar, Sr. Ross...
- Acho que está linda.
- Devia mandar examinar os seus olhos.
- Foi o que fiz recentemente, e não há nada de errado com eles. Então,
aceita o meu convite?
De novo Rachel hesitou.
- Está bem - concordou afinal.
- Aonde gostaria de ir?
- Não conheço os restaurantes de San Francisco, por que não decide por
mim?
Rachel, naturalmente, já ouvira falar no Solarfs. Era um dos
restaurantes mais famosos de San Francisco, mas ela nunca tinha estado
lá.
A sala era tudo o que ela tinha imaginado que devia ser. Lambris de
nogueira, candelabros de cristal derramando uma luz suave, toalhas de
uma alvura de neve, garçons de smoking, rosas, velas, quadros, tapetes
persas - um deslumbramento.
- Boa-noite, Sr. Ross - disse Émile, o maîttre, ao encaminhá-los para
uma mesa.
Depois de estarem sentados, Rachel disse:
- Com licença, mas preciso telefonar para casa.
Detestava ter de avisar a mãe, mas, se não o fizesse, estaria provocando
outra guerra...
- Mamãe? - Sim?
- Sou eu, Rachel...
- Sei quem é. Rachel mordeu o lábio.
- Perdi a barca, por isso vou chegar mais tarde.
- E onde é que vai jantar?
- Como qualquer coisa. Há uma lanchonete na estação. Vou esperar lá pela
próxima barca.
- Está bem... seu pai voltou.
Isso devia agradá-la? Querido papai, que nunca lhe dava um vintém, muito
menos um sorriso ou qualquer mostra de interesse pela sua vida?. . .
Quando ela voltou à mesa, o garçom apresentou-lhes um enorme menu. Os
preços eram assustadores.
- O que gostaria de comer? - perguntou Jim.
- Por que não faz o pedido?. . . - Ela não teria coragem para tanto.
- Gosta de miolos? Eles preparam muito bem aqui.
- Acho que está bem. .. - Ela nunca havia provado miolos.
Primeiro foi servida uma salada de alface e camarão, consomê e uma
pequena porção de aletria. Depois os miolos na manteiga queimada vieram
acompanhados de aspargos e encimados por sauce hollandaise. A sobremesa
consistia de doces de massa folheada e café.
Jim pousou na mesa a xícara de café e comentou:
- Alguém com a sua aparência deve ter muito trabalho para manter rapazes
a distância. ..
- Acontece que não aprecio muito rapazes, portanto é um problema que não
me preocupa muito.
Ele sorriu com a candura da resposta, que também lhe trouxe mais
esperanças.
- Fiquei muito contente por você ter aceitado o meu convite para jantar.
- Bem, já que nos encontramos por. . . coincidência - respondeu ela,
cônscia de que não tinha sido uma coincidência.
Ele riu, sabendo o quanto era transparente o encontro "acidental" dos
dois nessa noite.
- O que faz você?
- Está perguntando onde trabalho? Na Companhia Telefônica.
- Você? Uma garota como você?
- Por que não? Existem milhares de moças como eu, Sr. Ross, mas tenho
mais sorte do que elas. Estou empregada.
Ele continuou com os olhos fixos nela.
- O que pensou que eu era a noite passada, Sr. Ross? Uma moça da
sociedade fingindo de pobre?
Ele acendeu um cigarro e soprou o fósforo.
- Não sei realmente o que pensei, exceto, se me permite dizer, que a
considerei a mulher mais bonita que já vi na vida.
Ela o olhou por cima da xícara de café. Seus profundos olhos azuis e
espessos cílios castanhos formavam um lindo contraste com o cabelo
louro.
- Você é.. . telefonista?
- Isso tem importância?
- Claro que não, apenas curiosidade. Não sei porque perguntei.
- Trabalho no departamento de contabilidade, máquinas de calcular. . .
um trabalho empolgante, Sr. Ross. Já sabe tudo a respeito de minha vida
fascinante, e agora fale-me do senhor.
- De mim? Bem, tenho uma filha com quase 18 anos. - Ele fez uma pausa e,
pela primeira vez, Rachel notou amargura em sua voz. - Sou casado.
- Um casamento feliz?
Ele lhe lançou um olhar. Não somente linda como observadora.
Transparecia tanto assim?
- Não, Rachel. Há muito tempo meu casamento não é feliz. - Estranho,
pensou ele, nunca tinha falado com ninguém sobre o seu casamento. Apesar
do rosto angelical, ela parecia impressionantemente amadurecida. Não
experiente, muito ao contrário, e por alguma razão ele teve a estranha
sensação de que tampouco a vida dela fora um mar de rosas .. - Estamos
sentados aqui, conversando como velhos amigos.
Ela se permitiu um sorriso, depois:
- Por que continua casado, Sr. Ross?
- Obrigado, esta é uma pergunta que uma velha amiga faria. - Ele puxou o
lóbulo da orelha, depois tomou um gole de café. - Creio que permanecemos
juntos por motivos que realmente não têm sentido, embora na ocasião eu
achasse que tinham. . . Não sei, Rachel, talvez um sentimento de
fracasso, de responsabilidade. É uma longa história, e você tem de
apanhar a barca. Melhor ainda, confiaria em mim para levá-la a casa?
- Sim, mas moro em Oakland.
- Eu sei. Já me disse. Eu a levo de carro.
Rachel sentiu uma estranha excitação, quando o conversível azul saiu da
barca para o cais. Viajaram em silêncio até chegarem a um quarteirão da
sua casa.
- Se não se importa - disse ela - eu gostaria de descer aqui.
- Por quê?
- Bem, esta é também uma longa história. Se o seu carro fosse visto
defronte de minha casa, acho que eu teria de dar muitas explicações.
Ele concordou. Afinal, sem dúvida reagiria da mesma maneira, se visse
Maureen saltar do carro de um desconhecido.
Dando a volta para o outro lado do carro, ele abriu a porta para Rachel
e estendeu-lhe a mão, ajudando-a a descer.
- Foi uma noite bem curiosa, não é mesmo, Rachel?
- Muito...
- Não vou me esquecer desta noite.
- Nem eu. Obrigada pelo jantar.
- Obrigada. Você é uma pessoa incrível.
- Isso é discutível. Boa-noite, Sr. Ross.
- Boa-noite, Rachel.. .
Na tarde seguinte, quando Rachel saiu pela porta giratória do edifício
da Telefônica, não se surpreendeu realmente por ver Jim esperando por
ela.
- Algum plano para esta noite?
- Não - disse sorrindo.
- Jantar?
- Ótimo. ..
Ele sorriu de repente, e Rachel também. Acionando o motor, ele partiu
sem perguntar a Rachel sobre sua preferência. Há muito tinha tomado a
decisão.
O Castelo de Julius ficava no alto de urna colina, descortinando a
cidade. A vista era deslumbrante.
Quando se sentaram à mesa, Jim observou Rachel que olhava para a baía.
Estava encantada com a vista, e ainda mais com o seu companheiro. A
chuva que ela estivera amaldiçoando uns segundos apenas antes de
encontrar Jim Ross agora lhe parecia uma bênção. Como pudera ter tanta
sorte? Era certamente algo novo. Bem, cavalo dado não se olha...
Subitamente, sua expressão mudou.
- Quase me esqueci. Tenho de dar um telefonema.
Quando ela voltou, Jim notou uma expressão diferente em seus olhos.
- O que houve, Rachel?
Rachel procurou conter as lágrimas. Mordendo o canto do lábio, sentou-se
e ficou um momento tentando recuperar o controle. Finalmente, respondeu.
- O que houve foi minha mãe. ..
- Quer falar sobre o problema?
- Não devia, mas vou falar. Minha mãe não consegue aceitar o fato de eu
já ser uma adulta.
- Acho que as mães são assim, Rachel. .. um pouco protetoras. E no seu
caso, posso compreender muito bem.
- Pode mesmo, Sr. Ross? O fato é que minha mãe não é exatamente
protetora. Dominadora seria a palavra mais adequada. Não é uma mãe como
as outras...
- Não a está julgando com muita severidade?
- Madre Teresa me fez a mesma pergunta. Acho que não. Levaria um ano
para explicar minha mãe, por isso nem vou tentar. Além do mais, não
quero estragar a nossa noite.
- Combinado.. . Agora, o que você quer?
- Simplesmente estar aqui.
Enquanto Jim fazia o pedido ao garçom, ela o observou atentamente e
espantou-se de não ter notado antes que ele era um homem
excepcionalmente bonito. Talvez não houvesse pensado muito a respeito.
. . por causa da idade dele? Na noite anterior, francamente, o que mais
a impressionara tinha sido o Cadillac azul, o contato com o requintado
estofamento de couro, o Solari’s, a viagem de volta para casa, a
gentileza dele... Mas, enquanto comiam à luz de velas, ela não pôde
deixar de notar-lhe os suaves olhos e cabelos castanhos, o ar saudável
da pele queimada de sol e a voz grave.
- Não dormi a noite passada, Rachel - disse ele depois do café. Ela
sabia por que, mas perguntou:
- Tem dificuldade em dormir?
- Não habitualmente...
- Então o que o manteve acordado? - Ó, Deus, quanta dissimulação.
- Você.
- Lamento...
- Pois eu não lamento. Você é a mais linda razão para me manter
acordado.
- Isso é provavelmente a coisa mais gentil que já ouvi em toda a minha
vida - replicou ela, com um sorriso.
- Não posso imaginar alguém que não diga as coisas mais gentis a seu
respeito.
- Realmente, Sr. Ross? Creio que, como se costuma dizer, são os seus
bons olhos.
- Certamente bons com relação a você. . . Vou dizer-lhe uma coisa muito
estranha, Rachel. Quando voltei para casa, comecei a pensar em minha
vida. E depois de pesar todos os prós e os contras, cheguei à conclusão
de que devo algo a mim mesmo.
- O que, Sr. Ross?
- Um pouco de felicidade, que diabo. Estou com 42 anos, Rachel, e tenho
de recuperar meu tempo. - Ele tomou um prolongado gole de café e, como
se tivesse pensado cuidadosamente no assunto, disse: - Rachel, quero
lhe pedir que se case comigo.
Meu Deus, tanta rapidez. .. E no entanto era exatamente o que ela queria
ouvir.
- Isso a chocou?
- Sim, especialmente por me ter dito que não se divorciaria até a
maioridade de sua filha.
- Era essa a minha intenção, mas o fato de conhecê-la mudou minha
decisão. Além disso, Maureen está com quase 18 anos. O ano que vem ela
irá para Paris estudar na Sorbonne.
Que diferença do seu pai, pensou Rachel, que achava que a universidade
para mulheres era um desperdício de dinheiro. . .
- Rachel, eu a amo. Mas se você precisa de tempo para pensar melhor...
Realmente ela não precisava, mas sentia-se atordoada com a rapidez com
que as coisas estavam acontecendo.
- É assim que as pessoas se apaixonam?
- As pessoas se apaixonam de muitas maneiras, mas você não me respondeu.
- A resposta é. . . sim.
Ele tomou nas suas a mão dela, sentindo-lhe o calor e a maciez.
- Não exijo a mesma coisa de você, Rachel. O amor é algo, calculo, que
talvez leve mais tempo para você sentir.
- Não tenho tanta certeza, Sr...
- Jim, por favor. Não sou tão velho assim. Ambos se puseram a rir.
- Não sei se sabe que sou judia - disse Rachel, após uma hesitação.
- Faz muito tempo que deixei de pensar em religião. Não sei o que sou.
- Bem, no que se refere à minha religião, eu sei. O fato é que nunca
pensei em me casar com alguém que não fosse judeu.
- Faz mesmo alguma diferença? Eu me converterei, se isso a fizer feliz.
- Não. .. eu não ia querer isso, não seria justo.. .
- Mas eu me converteria, se você quisesse. ..
- Não, não pode abraçar a religião judaica para fazer a vontade de
alguém. Mas. . . bem, meus filhos teriam de ser criados como judeus.
- Rachel, minha querida Rachel, tudo que a fizer feliz está bem para
mim.
Ela sorriu.
- Imagine, só porque estava chovendo. .. Acho que vou sempre amar a
chuva.
- Sem dúvida, é o nosso elemento. . . Rachel, eu gostaria de conhecer
seus pais. . .
- Não ainda.. .
- Por quê? Vai ter algum problema com eles?
- Tenho certeza. Mas, primeiro, como vai ser com o seu divórcio?
- Vou contar imediatamente a Maureen e à mãe dela.
- Como acha que sua filha vai reagir com a notícia?
- Vou dizer-lhe com toda a delicadeza de que sou capaz que no mundo todo
há pessoas que se amam. .. ou que deixam de se amar. Ela tem idade
suficiente para compreender.
- E se ela compreender. .. mas não no seu caso?
- Vai compreender, conheço Maureen. Vou sair de casa e me mudar para o
Fairmont. Só isso muda tudo para mim.
- E para mim também.. .
- É incrível - disse ele. - Eu tinha me esquecido por completo como era
sentir o que estou sentindo agora.
- E eu nunca pensei que isso fosse possível. - Em tom quase veemente,
ela acrescentou: - Jim, vou fazer de você um homem muito feliz.
- Já me fez, minha querida.
Quando ele parou o carro no mesmo lugar da noite anterior, desligou o
motor, tomou Rachel nos braços e beijou-a. O beijo não despertou nela o
desejo - só conseguira isso com Sandy - mas era terno, quase reverente
e de certa forma maravilhoso. Na verdade, melhor do que todas as
frustrações da paixão ardente que sentira por Sandy e que ele
repudiara. Estava convencida de que aquela era a melhor espécie de amor
- sem complicações. De qualquer modo, talvez viesse a amá-lo tanto
quanto ele a amava. Até lá, a afeição bastaria, e ela seria uma boa e
dedicada esposa. Fora o que sinceramente prometara a Jim. . .
Depois de ajudá-la a descer do carro, ele a estreitou nos braços, e ela
se apoiou nele como nunca tinha podido apoiar-se em seu pai.
- Amo você, Rachel.
Ela lhe respondeu com um beijo.
- Boa-noite, querida.
- Boa-noite - respondeu Rachel, com um sorriso. Quando ela já ia se
afastando, ele a chamou:
- Esqueci-me de uma coisa.
Abrindo a mala do carro, ele lhe entregou uma grande caixa de I. Magnin.
- Oh, Jim, obrigada, mas não precisava, sabe. ..
- Não sei nada, a não ser que a amo.
Pela primeira vez desde muitos anos, Jim falou a sós com Kelly.
- Vai ficar satisfeita de saber que quero o divórcio.
Kelly curvou a cabeça de lado e ergueu as sobrancelhas. Sabia que teria
sido impossível para um homem tão viril e atraente como Jim não ter
dormido com mulheres, mas ele era muito discreto para jamais se
envolver publicamente com alguém. Os dois tinham mantido a imagem do
casal ideal, e ele não ia querer que Maureen soubesse que o seu querido
pai andava partilhando a cama de outra mulher. .. muito feio. Por que
outro motivo teria continuado com ela? Mas o querido James devia
finalmente ter encontrado a mulher dos seus sonhos. Bem, certamente
isso tardara muito a acontecer, mas antes tarde do que nunca. Que
sacrifício tinha sido a espera para Kelly.
- Céus - disse ela, finalmente. - A vida é cheia de surpresas. Quer
dizer que se cansou do celibato?
- Quero que você peça o divórcio - disse ele, ignorando a observação.
Quanta nobreza! Graças a Maureen, ele queria fazer tudo tão
corretamente. .. tão decentemente.
- Está bem, Jim. Tem alguma preferência quanto a advogados? Sem olhar
para ela, ele respondeu.
- Procure quem você bem entender.
- E quanto a Maureen? Já falou com ela?
- Se eu tivesse falado, ela já não lhe teria contado? Não se faça de
tola comigo.
- Como acha que ela vai receber a notícia, depois de ter um pai e uma
mãe tão bem-casados?
- Não se preocupe com ela. Maureen tem o equilíbrio que eu quis lhe dar.
- Eu sei, Jim. Foi preciso muita abnegação da sua parte.
- Prepare-se para ir para Reno.
Ao que parecia, o Sr. James Ross Jr. estava com uma considerável pressa.
Mas ia pagar por todos os anos em que a fizera sofrer de frustração.
- Não vou para Reno.
Os músculos do rosto de Jim pareciam cordas retorcidas.
- Não tem muita escolha.
- Acho que está enganado. Se eu fosse dizer a Maureen o que causou o
rompimento entre nós, imagino que ela ficaria bastante chocada. Não sei
se o equilíbrio que lhe deu agüentaria o baque. - Kelly jamais contaria
a verdade à filha, mas era-lhe doce como mel ver a expressão no rosto do
marido.
- Cadela pervertida é o que você é. Não hesitaria em destruir Maureen,
não é verdade? E capaz de tudo.
- Bem, ela na certa se voltaria contra mim, e isso não daria a você
muita satisfação?
- Eu não tinha idéia do quanto você é podre.
Kelly riu consigo mesma. Bastaria ele perceber o seu blefe, e ela teria
de tomar o trem da noite para Reno.
- Pelo menos, agora você já sabe bem como sou. Um ano não é tanto tempo
assim. Passa mais depressa do que pode imaginar. Parece que foi ontem
que você mudou de quarto.
Ele bateu a porta e foi fazer suas malas.
Jim apertou a mão de Rachel, ao dizer-lhe que teriam de esperar um ano,
mas não se animou a dizer-lhe a razão. Desesperava-o sentir-se com as
mãos amarradas, mas não podia deixar que Maureen soubesse quem
realmente era Kelly.
Rachel se decepcionou mais do que gostaria de demonstrar. Mal podia
esperar para sair de casa e sinceramente queria Jim Ross. Mas sabia que
para ele tampouco a coisa estava sendo fácil.
- Sei o quanto vai ser difícil, mas não há nada que se possa fazer e,
simplesmente, teremos de nos conformar com a espera.
- Oh, Rachel, juro que não tinha a menor idéia de que isso
aconteceria...
- Querido, um ano não é tanto tempo assim.
Para ele era. . . Quarenta e dois anos e queria um filho, o filho de
Rachel . . . Um novo começo de vida surgira para ele, mas não podia
aproveitar a oportunidade: aquela cadela tinha um trunfo na mão.
- Rachel querida, vou a Santa Barbara para ver Maureen, mas é claro que
telefonarei...
- Não, por favor. Não quero ainda que meus pais saibam a nosso respeito.
- Por quê?
- Porque minha família é muito complicada e sei que, eventualmente, vai
haver uma batalha. Por favor, Jim. . . vamos esperar um pouco mais.
Ela sentiu falta de Jim mais do que tinha imaginado. Procurava não
pensar nele, mas não conseguia. Se ao menos pudessem ter viajado juntos.
E os pensamentos de Jim eram semelhantes aos seus. Deixá-la tinha sido
difícil, mas a provação que tinha pela frente ia ser bem pior. . . Ao
ver Maureen correndo ao seu encontro, a brisa esvoaçando-lhe os lindos
cabelos castanhos, pensou que tinha de haver uma maneira melhor do que
aquela. Mas agora Maureen estava na sua frente, abraçando-o. Ele fitou
aquele rosto - os grandes olhos cor de âmbar, confiantes. . . como os de
Rachel, inocentes porém perspicazes. Amava tanto ambas. . .
- Oh, papai, como estou contente de vê-lo.
- Eu também, meu amor.
- Fiquei tão nervosa quando me avisaram que você estava aqui...
- Aonde gostaria de ir?
- Você é danado, arranjou um jeito de eu ter este dia de folga. Que tal
irmos à praia?
- Boa idéia.
- Eu sabia que você aprovaria. Conheço um pequeno restaurante
especializado em frutos do mar. Isso lhe agrada?
- Muito.
- Então vamos em frente.
Ao seguirem de carro, margeando o mar, Maureen disse:
- Papai, não gostaria de levar uma parente muito próxima para a
Argentina em sua viagem de negócios?
Jim sentiu gotas de suor se formarem em sua testa.
- Gostaria muito, Maureen, mas acho que você não deve abandonar seus
estudos.
- Tudo bem, papai. Estou muito adiantada...
- Vamos conversar sobre isso no almoço.
- Espere. . . diminua a marcha, papai. É aquele lugar lá adiante, com o
toldo verde e branco.
Jim pôde prorrogar o assunto até terminarem a refeição. Quando chegou o
café, Maureen perguntou:
- Bem, e agora sobre. . . Jim fechou o rosto.
- O que há, papai? Abra-se comigo. . . pode me dizer tudo o que quiser.
- Algumas coisas não são tão fáceis assim.
- Experimente.
- ... Isso é algo que eu tinha esperança de nunca ter de lhe dizer, mas
creio que não há outro jeito. Sua mãe e eu concordamos em nos divorciar.
- Acho que já foi tarde - disse Maureen, com um suspiro.
- Você sabia? - perguntou ele, espantado.
- Há muito tempo. Eu só tinha esperança de que algum dia vocês chegassem
a se entender. Ambos são formidáveis. Por que duas pessoas maravilhosas
não podem se ajustar?
- Não sei, Maureen, mas parece que será melhor assim.
- Como mamãe está encarando o caso?
- Tão sensatamente quanto seria de se esperar. . .
- Eu lamento muito, papai.
- E eu também, minha querida.
- Papai, acho que eu devia acompanhá-lo em sua viagem à Argentina. Ela
julgava que a mãe suportaria melhor a provação do divórcio do que o pai,
e que ele talvez precisasse de uma companhia naquela viagem. Ficou
esperando, mas, não obtendo resposta, continuou. - Papai, você está a
léguas de distância.
- Não, realmente, Maureen. . . Só que não sei como encontrar as palavras
certas para o que tenho a dizer.
- O que, papai? Pode me dizer tudo o que quiser. Ele a fitou durante um
momento.
- Está bem. Meu amor. . . encontrei uma mulher adorável. . . vou me
casar com ela.
Maureen se imobilizou. Era esse o motivo para o divórcio depois de
tantos anos? Recuperando a voz, ela perguntou:
- Como ela é?
- É linda.
- Estou perguntando quem é ela?
- O seu nome é Rachel, Rachel Sanders.
- Como a conheceu e há quanto tempo se conhecem?
- Há vários meses - mentiu ele - e eu a encontrei por um acaso.. .
- Por acaso? Onde?
- Ela estava esperando por um bonde na chuva e aconteceu eu dobrar uma
esquina. . .
- Você a encontrou na rua? Que romântico!
- Não posso explicar direito, meu bem. Sei que soa meio estranho, mas
essas coisas acontecem.. .
- Que idade tem ela?
Ele passou a língua pelos lábios secos.
- Dezenove anos.
- Dezenove anos! Isso é praticamente sedução de menor... - Ela estava
sentindo o estômago revirado. - Papai, acho realmente que você devia ir
consultar um psiquiatra.
Ele se retesou e voltou os olhos para o oceano azul e as ondas
rebentando na praia. Rachel não tinha apenas 19 anos. Era uma mulher,
uma linda mulher, que ele adorava...
- Maureen, sei que isso é muito difícil de compreender, mas nem sempre a
idade é importante para duas pessoas. . .
- Duas pessoas que se amam?
- Sim. ..
- E acha que ela o ama?
- Acho. Julga que é tão difícil assim alguém me amar?
- Não, posso ver que você seria muito atraente para uma. . . mas ela é
uma criança, papai.
- Apenas cronologicamente.
- Vou ser tão franca com você como foi comigo. Você é um homem mais
velho tentando provar que ainda está em plena forma, e acho que ela o
está aceitando por tudo o que possui.
- Isso é injusto, Maureen, e, francamente, nunca esperei ouvir tal coisa
da sua boca.
- Desculpe, papai, mas use a cabeça. Por que uma garota iria casar-se
com um homem com idade suficiente para ser seu pai?
Jim olhou para a filha e pensou como se tinha enganado. Maureen recebera
a notícia do divórcio sem pestanejar, mas o fato de ele poder estar
apaixonado por uma mulher e ela por ele estava sendo desnecessariamente
deformado. Estaria Maureen com ciúme porque Kelly ia ser substituída por
alguém quase da idade de sua filha? Se ele tivesse se apaixonado por
uma mulher mais velha, teria ela aceito isso com mais facilidade? Ou a
verdade era que não queria que ninguém tomasse o seu lugar na vida
dele?...
Maureen estava transformada. Iria ele levar aquela. . . criatura
infantil para a Argentina em vez dela, que sempre o adorara... Na sua
cabecinha o pai era o homem ideal, o tipo de homem por quem ela ia
esperar. E agora isso...
- Espere até eonhecê-la, Maureen.
- Não quero magoá-lo, papai, mas isso eu nunca farei, nunca. ..
- E diz que não quer me magoar?
- Desculpe, desculpe. . . - E ela saiu correndo do restaurante e
sentou-se no carro.
Estava soluçando, quando Jim entrou no carro. Então ele a tomou nos
braços e deixou que a cabeça dela se apoiasse em seu ombro.
- Eu gostaria que pudesse ser diferente.
- Oh, papai, eu também. Sempre gostei tanto de você. E ainda gosto. ..
mas acho que está cometendo um terrível erro ao deixar mamãe por causa
dela...
- Não é esse o motivo de você ter-se zangado, meu bem, e sabe muito bem
disso.
- Eu sei, mas por que ela? Por quê?
- Conheça-a, meu bem, e você verá. Vai conhecê-la?
- Vou pensar no assunto.
Obrigado, meu bem, por isso. .. - E era o que ele estava sentindo.
#break Capítulo Trinta e Cinco
Jim encontrava-se com Rachel todas as noites depois do trabalho. A
princípio Sara reclamou violentamente contra as idas e vindas da filha,
mas Rachel não lhe deu importância. Simplesmente disse que estava
freqüentando cursos noturnos e voltaria para casa quando quisesse.
As moças com quem Rachel trabalhava notaram que toda tarde um belo carro
vinha buscá-la e, naturalmente, não faltaram especulações a respeito de
ela estar sendo sustentada e de ter um caso com um homem mais velho...
Rachel sabia o que diziam pelas suas costas e isso a incomodava tanto
quanto o ressentimento silencioso de Sara. Um novo estratagema contra
algo novo e maravilhoso em sua jovem vida...
Rachel estava muito calada, quando entrou com Jim na Joalheria Sheves na
esquina de Post e Grant. Muitas vezes se demorara diante das vitrinas da
famosa loja, admirando as jóias e pedras preciosas. Mas agora estava lá
dentro, e lhe mostravam bandeja após bandeja com as mais lindas pedras.
Quando o vendedor lhe mostrou um diamante de cinco quilates, ela se
deslumbrou com as facetas cintilantes sob a luz artificial. Seria a
mesma Rachel que tinha trabalhado em lojas de artigos baratos, que fora
lanterninha no Teatro Tivoli, Rachel que nunca tivera um vestido decente
até ganhar o suficiente para comprá-lo com o seu próprio dinheiro? Não
podia ser a mesma garota que havia pouco tempo tinha estado parada numa
esquina numa noite chuvosa, pensando que nada de alguma importância
jamais aconteceria em sua vida. Parecia irreal, incrível, que Jim
estivesse colocando o anel no dedo dela. Rachel estremeceu... era apenas
um sonho...
- Querida, está gostando?
Ela ergueu os olhos para Jim. Não era um sonho. Se gostava? Era-lhe
difícil manter a respiração norma...
- Oh, estou adorando!
- Então, meu amor, isso significa que estamos oficialmente noivos. Ambos
riram e Jim tomou-a nos braços e beijou-a sob os olhos do vendedor que
sorria.
- Parabéns, Sr..Ross. E também a Miss Sanders.
Eles subiram a Rua Post e entraram no Gump’s. Rachel seguia Jim como uma
sonâmbula. De novo a sensação de irrealidade a invadiu. A beleza das
magníficas antiguidades, a porcelana e prata, o cristal Baccarat - tudo
aquilo era simplesmente incrível.
Finalmente Jim levou-a ao departamento de crédito.
- O que estamos fazendo aqui?
- Quero abrir uma conta em seu nome para você poder comprar aqui. Rachel
meneou a cabeça. Incrível.
Estavam noivos havia dois meses, quando Jim recebeu uma carta de Maureen
dizendo que, já que ele parecia estar mesmo com intenção de se casar, o
mínimo que ela podia fazer era conhecer a jovem felizarda.
Imediatamente telefonou à filha e lhe disse o quanto estava contente e
desejava que ela e Rachel se tornassem amigas. . .
O encontro começou com certo constrangimento. Maureen limitou-se a falar
quase só com o pai.
- O que decidiu, papai, sobre levar sua única filha para a Argentina?
Não chegamos a combinar direito em Santa Barbara.
Rachel pareceu atônita.
- Vai viajar para a Argentina, Jim?
- Tenho de fazer a viagem, querida - disse ele tomando-lhe a mão. Mas
será só por umas poucas semanas. Negócios. ..
Maureen gostou de ver que Rachel não tinha sido posta a par da viagem e
que estava contrariada. Lançou um olhar ao anel faiscante no dedo de
Rachel. Era capaz de apostar tudo como ela não ia casar com seu pai por
amor.
- Papai não lhe contou? Estou chocada com você, papai. Isso não é
maneira de começar vida nova com uma nova mulher. Não sabe que segredos
podem ter um efeito bastante negativo numa relação saudável?. . .
Jim sabia, e também estava vendo Maureen sob uma nova luz. Ela era a
quintessência do charme, mas também, lamentavelmente, herdara muita
coisa da natureza de Kelly. Agora ele teria preferido muito mais não
ter insistido, teria sido melhor que as duas se conhecessem só depois do
casamento. Mas não supusera em absoluto que Maureen se portaria daquela
maneira.
- Não escondi nada de Rachel!... O fato é que eu tinha esperança de não
precisar fazer essa viagem.
- Mas parece que vai ter mesmo de viajar.
- Creio que sim.
- Muito bem, que tal eu pegar uma carona com você?
- Não desta vez, Maureen.
- E você, Rachel? Vai deixar o nosso bonitão partir sozinho? Sabe o que
dizem que acontece, quando o gato não está por perto - disse ela, com um
sorriso cheio de malícia.
- Bem, Maureen, receio não estar muito a par do que fazem os gatos.
Contudo, acho que conheço Jim, e isso basta para mim. - O apego de Jim
por sua filha ia se modificar, se é que ela tinha alguma influência; e,
na verdade, tinha.
Cadelinha esperta, pensou Maureen, e replicou:
- Que maravilha ter tanta certeza. Mas acho que eu me preocuparia um
pouco.
Jim achou que bastava, chamou o garçom e pagou a conta. Depois de
deixarem Maureen em casa, os dois ficaram em silêncio no carro. Foi
Rachel quem interrompeu os pensamentos de ambos.
- Não foi um encontro muito feliz, não acha? Pelo que notei, Maureen não
está gostando nada da idéia.. .
- Não foi exatamente como eu esperava - retorquiu Jim com um meio
sorriso - mas creio que com o tempo ela vai mudar de opinião. Está
magoada. Isso é natural...
- Talvez... Por que não me disse que estava planejando viajar?
- Porque, meu amor, eu sinceramente esperava evitar essa viagem.
- Por que Argentina?
- Estamos construindo lá uma usina de aço e parece que tenho de fazer
pessoalmente as negociações.
- Por quanto tempo vai se ausentar?
- Dez dias, duas semanas no máximo. Oh, meu Deus, Rachel, sei que isso
vai ser bem difícil.
- Quando pretende partir?
- Na quinta-feira. ..
Ela mordeu o lábio. Subitamente, sentiu como se a corda do salva-vidas
se tivesse rompido. Especialmente, quando pensava em suas noites em casa
com a mãe.
- Já estou sentindo falta de você.
Ele a puxou para junto de si e a beijou.
- Querida, quando estivermos casados, garanto que nunca vamos nos
separar. Provavelmente vai enjoar de mim, mas isso de nada lhe
adiantará. Estará amarrada, para o que der e vier, ao velho Jim Ross.
..
Ainda assim, foi com tristeza que Rachel subiu nessa noite para o seu
quarto. Mal tinha começado a despir-se, quando Sara abriu a porta.
- Quero falar com você.
A coisa que Rachel mais queria naquele momento era ficar sozinha.
- Não sei o que anda fazendo, e quero que me diga, chegando assim a casa
à hora que bem entende.
- Não tenho de lhe dizer nada.
Sara ia retrucar, quando notou o anel no dedo de Rachel.
- Onde arranjou isso?
Rachel ficou furiosa consigo mesma por ter se esquecido de tirar o anel.
- Perguntei onde você arranjou isso!
- Um homem me deu. ..
- Sua vagabunda, sua ordinária... Eu sabia que você acabaria mal, apesar
do convento.
Rachel estava tremendo, quando começou a vestir-se de novo. Não ia
permanecer naquela casa e se submeter nem mais um minuto a insultos.
Sara puxou-a pelo braço e obrigou-a a voltar-se e a encará-la.
- Aonde pensa que vai?
- Estou noiva, raios! Você e sua mentalidade. Vou me casar, pode
compreender isso?
- Por quê? Está grávida?
- Você é louca, realmente uma louca. .. - Os olhos de Rachel estavam
cheios de lágrimas.
- Se estou louca é por sua causa. E, se está noiva, por que não contou a
seus pais como uma moça decente!
- Porque não tenho a espécie de pais que. ..
- E esse seu amante...
Rachel agarrou seu capote e bolsa, as lágrimas quase fazendo-a tropeçar
nas escadas.
Na rua correu até encontrar um telefone. Jim assustou-se com a sua voz.
- O que houve, querida?
- Preciso de você, Jim. Por favor, venha me buscar... por favor.
- Pode me dizer o que aconteceu?
- Minha mãe descobriu a nosso respeito e fez uma cena terrível.
- Querida, não vai haver uma barca antes das duas da madrugada. Deixe-me
pensar. - Que azar, estava agora em San Francisco e Rachel precisando
dele nesse momento. - Querida, vou telefonar ao Oakland Hotel e fazer
uma reserva para você. Tome um táxi e eu estarei lá assim que possível.
Eram quase três e meia da manhã, quando Jim bateu na porta de Rachel,
que estava com os olhos vermelhos de tanto chorar. Ele a abraçou e a
levou até o sofá, em que Rachel se sentou agarrando-se a ele.
- Agora me conte o que aconteceu - disse ele, afagando-lhe os cabelos.
- Foi terrível. . . estupidez minha. . . Pela primeira vez, esqueci-me
de tirar o anel. Quando cheguei a casa, ela invadiu o meu quarto e
começou a sua tirada habitual. Sinceramente, acho que ela tem algum
desequilíbrio. Disse-me coisas, que tenho vergonha de repetir a você.. .
- Não importa. Vou falar com seus pais. Eu já devia ter feito isso
antes.
- Eu não queria que você se magoasse. Não posso explicar meus pais.
- Escute, já enfrentei algumas pessoas difíceis pela vida afora.
- Mas não como eles!
- Não se preocupe e deixe-me agir a meu modo. Agora durma um pouco
Rachel. Vou tomar um quarto para mim e amanhã de manhã iremos ver os
seus pais.
- Você não pode ficar comigo?
- Não, querida, deixe-me fazer as coisas à minha maneira. E depois de
beijá-la, ele saiu do quarto...
Sara estava em seu quarto, quando ouviu o carro parar defronte da casa.
Espiando através das cortinas viu o Cadillac azul e quase perdeu o
fôlego. Estava inegavelmente com inveja, ao observar Jim ajudar Rachel
a descer do carro.
Rachel destrancou a porta e por um momento, ao entrar no vestíbulo,
pensou que ia desmaiar, mas sabia que não havia jeito algum de evitar
aquilo. Tomando Jim pela mão, ela disse:
- Por favor, espere-me na sala de estar. Tenho de avisá-los de que
cheguei.
Mas Sara já descera as escadas e agora se postara diante deles,
esperando ser apresentada. Rachel quase soltou uma exclamação, quando
notou que Sara estava com o vestido que usara para ir ao templo. Desde
então, nunca mais o vestira, não tivera nenhuma ocasião para usá-lo. Por
um momento, apesar de si mesma, Rachel teve pena dela.
- Este é meu noivo, Jim Ross.
- Sr. Ross - disse Sara, forçando-se a responder polidamente.
- Sra. Sanders, é um prazer para mim conhecer a mãe de Rachel.
"Certamente", pensou Sara. Podia bem imaginar o que Rachel teria dito a
seu respeito. Mal podia agüentar vê-los ali, julgando que tinham passado
a noite juntos... afinal, para onde Rachel podia ter ido exceto...
- Obrigada, Sr. Ross. Com licença, vou chamar o pai de Rachel. Rachel
começou a tremer. Tinha motivo para tanto. Sara não deixara Jacob dormir
a maior parte da noite com suas histórias sobre Rachel, e de manhã ele
mal podia esperar para ver Rachel e o tal homem. Estava preparado para a
batalha.
Jacob entrou na sala de cara fechada, o queixo para frente, e seus frios
olhos azuis se fixaram nos noivos.
- Papai, este é meu.. .
- Sou Jim Ross, Sr. Sanders - disse Jim, estendendo a mão. Jacob não
tomou conhecimento do gesto.
- Sente-se. Está bem, agora quero saber de tudo. Jim permaneceu de pé.
- Rachel e eu vamos nos casar.
- Qual é sua idade, Sr. Ross?
- Quarenta e dois anos. ..
- E sabe que idade tem Rachel?
- Sei.
- E acha que ela o ama?
- Sim, acho, Sr. Sanders.
- E quanto tempo acha que isso vai durar?
- Para o resto de nossas vidas, espero.
- Não tenha tanta certeza. Pense um pouco. Quando o senhor tiver 65
anos, ela terá 42. Acha realmente que um casamento assim pode durar?
- Depende das pessoas.. .
- Ah, acha mesmo?
- Sei que é possível. Há pessoas da mesma idade, cuja vida em comum é um
inferno.
Ele ignorou o comentário, mas não o desprezou.
- Já deve saber que somos judeus.
- Sim, sei.
- Não quero que minha filha case fora de sua religião.
Sara estava sentada, ouvindo e vendo Rachel torcer um lenço em suas mãos
trêmulas.
- Olhe, Sr. Sanders, eu gostaria de dar-lhe essa satisfação, mas as
pessoas não escolhem a religião em que nascem.
- Um comentário muito inteligente, mas permanece o fato de que eu proíbo
Rachel de se casar com o senhor.
- Sr. Sanders, lamento, mas receio que o senhor não esteja em situação
de proibir nada. Ela é maior de idade. Mas deixe que eu lhe diga uma
coisa. Tenho uma filha, portanto vou dar-lhe um pequeno conselho. Se
quer perder Rachel para sempre, então continue a agir como age. Posso
garantir-lhe que Rachel nunca mais vai querer vê-lo.
- Por que não veio falar comigo, Rachel? - perguntou Jacob, voltando-se
para a filha.
- Sabe por que, papai? Porque tive medo.
- Mas não lhe ocorreu que você nos devia alguma coisa, à sua mãe e a
mim? Trabalhamos para educá-la como uma moça decente, e esta é a paga
que recebemos? Fazendo as coisas às escondidas?.. .
- Se você e mamãe fossem pais com quem eu pudesse me abrir, teria ido
procurá-los. ..
- E não somos?
- Não, papai, não são - respondeu ela, sem olhar para Jacob.
- Está bem, Rachel, você pode subir e fazer suas malas e ir se casar na
igreja. . .
- Estou me divorciando, Sr. Sanders. Jacob levantou-se, sacudindo a
cabeça.
- Compreendo. E daqui a quanto tempo estará divorciado?
- Daqui a uns oito meses.
- Que espécie de homem é o senhor para comprometer uma mocinha e.. .
- Sr. Sanders, disse muitas coisas que eu não ouviria de ninguém mais, e
que só ouvi pelo que Rachel significa para mim. Quero adverti-lo, Sr.
Sanders, para que não afirme algo de que depois se arrependerá. Rachel
vai ser minha esposa. De homem para homem, estou certo que compreende o
que quero dizer.
Era óbvio pelo tamanho do anel de Rachel e a maneira com que Jim Ross
estava vestido que Jacob não podia perguntar como ele ia sustentar a sua
filha. Mas restava saber como Rachel o havia conhecido. Bem, isso
ficava para ser apurado mais tarde...
- Rachel, você tem oito meses para mudar de idéia. E é bom que esteja
bem segura do que vai fazer, porque uma vez que se case, minha jovem,
nunca mais porá os pés nesta casa, e tenho certeza, Sr. Ross, que
compreende o que quero dizer com isso.
Jim pegou Rachel pelo braço. Olhando Jacob nos olhos, replicou:
- Eu não me preocuparia muito com isso, Sr. Sanders. Agora, se nos dá
licença. .. Venha, minha querida.
Na saída, Jim voltou-se mais uma vez para Sara e Jacob.
- Sr. e Sra. Sanders, foi um prazer conhecê-los.
Rachel passou o jantar em silêncio, e Jim também. . . Ambos sofriam
igualmente. Jim não compreendia como pessoas daquela espécie podiam ter
uma filha como Rachel. Talvez devesse fazer a mesma pergunta a si
mesmo. .. Tinha sacrificado grande parte de sua vida por Maureen e ela o
decepcionara profundamente, quando ele mais precisava dela.
- Meu bem, não vou para a Argentina.
- Mas você disse que era muito importante - observou ela, erguendo os
olhos.
- E é, mas existem coisas mais importantes. Encarregarei outra pessoa de
fazer a transação. Não sou assim tão indispensável... É evidente que
você está atravessando uma fase muito penosa, e não quero deixá-la
sozinha.
- Parece-me estar interferindo entre você e sua filha e seus negócios. .
.
- Nada para mim é tão importante quanto você, Rachel, nada.
- Tenho amor por você, Jim Ross, realmente tenho. A princípio tive medo
de amá-lo. . . mas não agora. Pode agüentar essa situação?
A resposta dele foi tomá-la nos braços.
Os meses que se seguiram foram cheios de uma alegria e arrebatamento,
que Rachel nunca teria acreditado que poderia vir a sentir.
Nessa noite eles foram a uma estréia na ópera. Antes tinham jantado com
alguns amigos de Jim e, pelas expressões nos rostos deles, Jim sabia que
mais tarde comentariam que ele tinha ido buscar sua noiva num berço.
Mas isso não o incomodava em absoluto, a única coisa que queria era
olhar para a mulher mais linda do mundo, vestida como convinha a
Rachel, com um modelo de Schiaparelli que ele lhe comprara.
Os dois escolheram juntos o enxoval dela, mas a coisa mais excitante
para Rachel era decorar o seu futuro lar - finas porcelanas, faqueiro de
prata, cristal Baccarat, pratarias. Rachel ajustava-se ao seu novo
papel como se houvesse nascido para tudo aquilo. Recusava sentir-se
culpada, não importa o que sua mãe dissesse. . .
Quando as caixas começaram a chegar da Gump’s para a casa em Oakland,
Sara abria-as, tomada de frustração e inveja. Imagine Rachel recebendo
aquilo tudo. Durante anos lutara com Jacob para mobiliar a casa, e ele
continuava recusando. Ela não valia nada? O seu ressentimento cresceu,
não apenas contra Rachel, mas contra Jacob. E dia após dia, à medida
que as caixas iam chegando, mais deprimida Sara se sentia.
Rachel não gostou que as caixas tivessem sido abertas, mas nada disse. A
atitude de Sara para com ela era quase intolerável, e Jacob mostrava-se
frio, indiferente. Sara, naturalmente, nunca lhe repetira as coisas que
dissera a Rachel naquela noite; contara-lhe apenas que Rachel certamente
estava tendo uma aventura. A indignação de Jacob se transformara numa
profunda hostilidade , aumentada pelo fato de Jim Ross ter feito com que
ele se sentisse bastante desconfortável. Não o alegrava em absoluto que
Rachel estivesse subindo na vida. Graças ao Maravilhoso Sr. James Ross..
. rei dos goyim. . .
Três meses antes da sentença final do divórcio, Jim insistiu que Rachel
parasse de trabalhar e se concentrasse em mobiliar o apartamento no
Brocklebank, e contrataram Arnold Delacourt como decorador.
Na tarde em que deviam se casar, percorreram as peças do apartamento que
logo iriam compartilhar, admirando a vista da baía azul e a costa
distante de Oakland.
De repente, Rachel sentiu-se totalmente arrasada. Não era possível que
aquilo estivesse acontecendo. . . logo tudo desapareceria, e ela ia
acordar e ver-se de novo na casa dos pais. ..
- Está tremendo, Rachel.
- Eu sei.
- Por quê?
- Porque estou tão feliz, e ainda não tenho certeza de que tudo isso é
real.
- É real, Rachel. E nervosismo pré-nupcial é uma reação bastante comum.
- Não, não é isso. Mal posso esperar para me casar com você. Eu o quero
tanto. Mas calculo que isso não seja um segredo - disse ela, sorrindo.
- Não foi fácil para nenhum de nós dois, Rachel. Sou feito de carne e
osso. . .
Dois dias depois Jim e Rachel estavam diante do juiz e o casamento se
efetuou. Apesar de tudo, Rachel tinha convidado seus pais, mas eles não
compareceram.
A primeira noite da lua-de-mel eles passaram na suíte em que Jim estava
hospedado no Fairmont. Ele tinha recebido uma garrafa da melhor
champanha de um amigo, e juntos os dois beberam à saúde do seu futuro.
- Ao começo. - Bateram as taças e se beijaram. Jim prendeu-a nos braços
por um longo momento, depois soltou-a. Rachel mudou de roupa e logo Jim
estava ao seu lado. O contato dele a emocionou. Suavemente ele a levou
para o quarto. Valera a pena esperar por ela.. .
E Rachel sentia o mesmo a respeito dele.
Na noite seguinte, logo após o jantar, Sara disse a Jacob:
- Vamos mobiliar nossa casa de uma vez por todas. Desta vez, Jacob, não
vou ser preterida.
Ele viu, pela expressão nos olhos de Sara que, finalmente, estava na
hora de ceder.
Sara não ia ficar atrás de sua filha. ..
- Ela está começando com mais do que eu tive em 21 anos. Não vou mais
viver desse jeito.
- É uma pena que você não tenha esperado e se casado com um homem rico.
Rachel não encontrou o Sr. Ross junto à pia da mãe dele.
- Você não é mais um homem pobre. Eu não só quero mobiliar a casa como
quero um carro.
Antes que ele tivesse tempo de responder, Sara saíra da sala e subira
correndo as escadas. No quarto, sentou-se na cama e olhou para a sua
imagem refletida no espelho. Estava gorda e com quase 40 anos. O que
tinha ganho em todos aqueles anos? Mas agora bastava.
No dia seguinte ela entrou na W. & J. Sloane e comprou tudo o que quis,
sem se incomodar com o preço. Quando Jacob recebeu as contas, ficou
furioso.
- Não precisamos de quartos tão luxuosos. Para que gastar dinheiro em
algo que é só para os olhos? Doris e Lillian não podem dormir a não ser
em camas de baldaquinos? - Mas os seus protestos de nada adiantaram.
O casamento rico de Rachel reavivou a determinação de Sara também em
outra direção. Quase diariamente recebia cartões-postais e fotos da
viagem de lua-de-mel, de lugares exóticos como Hong-Kong e Tóquio,
mostrando sua filha maravilhosamente vestida num quimono japonês, com o
obi cerimonial cingindo-lhe a cintura. Mas o que a impressionou
especialmente foi o guarda-sol japonês. . . evocando recordações daquele
dia, havia tanto tempo, em que Jacob a pedira em casamento na praia de
Coney Island, e ela também tinha uma sombrinha. . . quando era jovem, e
delicada, e magra...
Sara prontamente adotou uma dieta rígida. Em menos de três meses, perdeu
15 quilos. Sentiu-se renascida... bem, pelo menos na carne. Admirou no
espelho sua nova silhueta. Esse era o corpo que levara para a cama de
Jacob. E esse corpo seria adequadamente vestido, disse para si mesma, ao
sair para um banho de loja, adquirindo roupas finas que, infelizmente,
não tinha onde exibir. Bem, Jacob teria, também, de tomar providências a
esse respeito...
- O que está pretendendo? - perguntou ele. - Uma viagem ao Japão?
Freqüentar ópera todas as noites? - E por que não? Já está em tempo. É a
minha vez agora. Você não precisa ir para a cama todas as noites às oito
horas e levantar-se de madrugada para fazer mais dinheiro do que jamais
vai gastar. Olhe para mim, Jacob. Olhe bem para mim...
E então ela rapidamente se afastou não querendo que ele ouvisse a mágoa
que afogara a raiva, que a deixava mais nua e vulnerável do que nunca...
apesar de todas as roupas novas, apesar de seu novo corpo...
#break Capítulo Trinta e Seis
Impossível acreditar - havia três meses que Rachel e Jim estavam
casados, mas as lembranças da gloriosa lua-de-mel eram constantemente
revividas por Rachel enquanto se entregava com entusiasmo à tarefa de
instalar-se no apartamento ainda mais lindo do que se recordava.
Racheli não tinha ilusões a respeito de algum dia chegar a um pleno
entendimento com sua mãe, mas algo a impedia de um rompimento total.
Sara era, afinal, sua mãe, e agora que sua filha era uma mulher casada
ela talvez pudesse aceitar a sua independência, esquecer-se de mágoas
passadas. . .
Finalmente, resolveu telefonar-lhe.
- Mamãe, como vai?
- Bem, Rachel, e você?
- Estou muito feliz, mamãe.
- Ah sim? Isso me alegra.
Houve uma longa pausa constrangida.
- Mamãe, Jim e eu queremos que você e as meninas venham jantar conosco.
- Não sei, Rachel. . . somos gente muito simples, como você sabe. . .
- Por favor, mamãe. . . por favor. Pelo menos esta vez não vamos. . .
- Não vamos o que, Rachel?
- Não vamos nos irritar uma com a outra.
- Irritar? Por que haveria de me irritar? Na realidade, eu a admiro,
Rachel, por ser tão segura de si mesma. Certamente mais segura do que
jamais me senti.
- Como vão as meninas, mamãe?
- Muito bem. É muito louvável você ainda se lembrar de que tem uma
família.
- Naturalmente que me lembro, mamãe.
- Isso é bom, porque certas pessoas que, de repente, ficam ricas. . .
Rachel respirou fundo. Mamãe, ao que parecia, continuava a mesma.
- Mamãe, eu gostaria que todos vocês viessem jantar.
- Bem, Rachel, vou ser muito franca. Não sei se seu pai receberia bem o
convite. Ele está muito magoado. O seu casamento foi um duro golpe para
ele, especialmente tratando-se de sua filha mais velha.
"Apesar de que, sendo eu a filha mais velha, ele sequer se ofereceu para
fazer o meu casamento. E ambos sabemos por que", pensou Rachel. .. "Não
é que ele esteja aborrecido com o casamento. . . é que se sente
ameaçado por Jim. E você não está propriamente radiante com a felicidade
do meu casamento, porque não foi feliz no seu. . . Quer que eu me sinta
culpada. . . pois bem, mamãe, não estou, nem vou me sentir culpada".. .
Sara interpretou o silêncio de Rachel como contrição, o que a levou a
acrescentar:
- Contudo, Rachel, vou ver o que posso fazer para convencer seu pai a ir
ao jantar.. . Está ouvindo, Rachel?
- Sim, estou.
- Está bem, Rachel, eu lhe telefono dentro de um ou dois dias. - A linha
silenciou.
Rachel atirou-se na cama e chorou até não ter mais lágrimas. Quando Jim
chegou a casa, tomou-a nos braços e a reteve por muito tempo junto ao
seu peito, antes de perguntar:
- O que aconteceu, Rachel?
- Telefonei à minha mãe.
- E então?
- Ela tentou me punir, como de costume, fazer com que eu me sentisse
culpada... e o pior é que, de certa maneira, conseguiu.
- Por que se deixa afetar tanto por ela?
- Você me abriu os olhos para muitas artimanhas de minha mãe e pensei
que estava preparada para enfrentar qualquer investida dela. .. Mas a
verdade é que mamãe consegue evocar sentimentos com que convivi todos
esses anos. Não é fácil uma pessoa libertar-se de sua infância.
- Mas você pode, Rachel.. . Contou à sua mãe que está grávida? - Não.
- Por quê?
- Acho que tive medo. Sei, sei muito bem que não faz sentido...
- Meu Deus, Rachel, não pode permitir que ela a afete dessa maneira, que
afete a nós dois.
- Jim, vou tentar. . . mas seja como lor, continue me amando... Você é
toda a minha vida. . .
Sara sorriu, relembrando a conversa. Não tinha intenção alguma de deixar
de ir conhecer o apartamento de Rachel, mas não queria render-se com
tanta facilidade. Tinha, também, o seu orgulho. Nessa noite, na cama,
disse a Jacob:
- Rachel telefonou hoje.
Apesar do seu ressentimento contra Jim Ross, Jacob sentiu um alívio.
- Ah, sim? E o que disse ela?
- Que está muito feliz e que seu marido é muito generoso e que o
apartamento é uma beleza. . . mas, como eu sempre disse, Rachel não saiu
à sua mãe. Toda a vida soube o que queria, e acabou conseguindo.
A insinuação atingiu o seu alvo - a cabeça de Jacob.
- Não a censuro, alegro-me por ela. - E, apesar de sua raiva de Ross,
Jacob estava sendo sincero.
- Eu, também. Quantas mães têm uma filha que se casa com um milionário?
Bem, mas o fato é que Rachel nos convidou para jantar.. .
- E daí?
- Você quer ir?
Jacob não se tinha esquecido da ameaça de Jim. "Se quer perder Rachel".
. .
- É difícil recusarmos. Ela está casada.
- Já se conformou por ela se ter casado com um goy?
- Por que me faz uma pergunta dessas? O que está feito está feito.
- Acha que devíamos comprar-lhes um presente de casamento?
- Acho que sim.
- Quanto você quer gastar?
Ele riu para si mesmo. Quando se tratava de roupas ou móveis, Sara não
perguntava, mas para um presente de casamento. .. mas pelo menos tinha
perguntado. . .
- Não entendo de presentes. Compre o que achar bom.
- Então, vou telefonar amanhã de manhã e dizer que aceitamos o convite.
- Está bem. - E virando-se na cama, ele adormeceu.
A raiva de Rachel por ter-se deixado impressionar por sua mãe perdurou o
dia inteiro, e nessa noite custou a conciliar o sono. Quando o telefone
tocou na manhã seguinte às oito e meia, ela acordou cansada e
assustada.
- Alô - respondeu em voz baixa.
- Rachel, sou eu, sua mãe. Imediatamente ela se sentou na cama.
- Parece muito sonolenta, Rachel. Deve ser formidável poder dormir até
tarde...
- Sim, formidável. .. como vai?
- Bem. Falei com seu pai a noite passada e lhe contei que você nos tinha
convidado para jantar. - Sara fez uma pausa. - A princípio, não foi
fácil, Rachel, mas expliquei que o que passou passou e que é preciso
ser flexível. Como sabe, seu pai não se deixa convencer com facilidade.
Infelizmente, ele tem o hábito de guardar rancor; mas eu lhe fiz ver
que se tratava de uma filha sua. Finalmente, ele concordou em ir.
- Fico muito feliz. Que noite é mais conveniente para vocês? Sara soltou
uma risada.
- Com todas as minhas atividades sociais, qualquer noite que você
queira.
- Então vamos marcar para sexta-feira?
- Não, sexta-feira, não. Sempre faço o Shabbes. Já se esqueceu?
- Está bem - disse Rachel com um suspiro. - Domingo está bem?
- Sim, está bem. A que horas?
- Seis e meia.
- É melhor que seja por volta das cinco para que as meninas possam
voltar cedo para casa.
- Está bem.. . Dê minhas lembranças a todos.
- Sim, darei, e obrigada por nos convidar.
Rachel desligou e apoiou as costas no travesseiro. Mamãe continuava
sempre querendo levar a melhor. Teria Rachel forças suficientes para
resistir-lhe?...
- Sara? - chamou Jacob, entrando em casa. - Venha até cá. Quero
mostrar-lhe uma coisa.
Ela tirou o avental e passou a mão no cabelo curto.
Jacob não se conformara ainda com a transformação. Não gostava do corte
curto do cabelo, mas, paciência, era a moda. E Sara ultimamente parecia
fazer questão de andar na moda. Tinha emagrecido muito... demais. Logo
estaria mais magra do que Jean Harlow. Contudo...
- O que é tão urgente?
- Venha cá fora e olhe.
- Olhe o quê?
- O carro novo...
Por uma vez, ela perdeu a fala.
Estacionado junto ao meio-fio estava um Pierce Arrow de segunda mão,
azul-marinho e reluzente. O estofamento era cinza-azulado e dentro havia
um painel de nogueira que continha um pente, escova e espelho de prata.
De cada lado das portas traseiras havia pequenos vãos de vidro. Parecia
ter saído diretamente de uma vitrina.
- Comprou este carro? - perguntou Sara, atônita.
- Claro que comprei.
Jacob tinha enlouquecido. Um Pierce Arrow naquele bairro?
- Então, o que acha do carro? - perguntou ele ansioso.
- É simplesmente lindo, mas não o acha demasiado elegante para esta
zona? Meu Deus, o que irão dizer os Welche e os Heamys? Poderão pensar
que os Sanders estão sendo muito pedantes. .. e muito judeus.
- Para o inferno os goyim! Você está gostando?
- Eu já disse, é lindo.
- Pois é seu.
- Meu? Vou ter de guiar este carro? Por que não me arranjou um chofer?
- Vamos, entre. - Jacob teve de sorrir, ao ver o prazer dela.
Sara ligou o motor, que ronronou como um gatinho. Não podia negar que
era o carro mais maravilhoso que já vira. Quando deram a volta do
quarteirão, ela se sentiu como uma rainha. Sim, uma rainha. Jacob
certamente estava recuperando o tempo perdido.
- Quanto pagou pelo carro, Jacob?
- Eu o roubei.
- Por quanto o roubou?
- Dois mil e duzentos dólares. O que acha deste bom negócio?
- Acho que é um carro estupendo, apesar da roubalheira. A sua Sara, de
repente, com senso de humor...
- E então?
- Então o quê?
- Você agora tem o seu carro.
- É uma beleza. Não sei o que dizer.
- Bem, podia dizer obrigada.
- Obrigada, Jacob.
- As meninas estão em casa?
- Ainda não.
- Depois do jantar, vamos levá-las a dar uma volta... Espere até que a
sua filha rica e o seu elegante marido vejam este carro!
- Foi por este motivo que comprou o carro, Jacob?
- Claro que não, acha que quero impressionar? Mas você tem de admitir
que não é todo mundo que tem um carro assim.
- Tem razão, Jacob, só milionários.
Poucos meses antes do seu casamento, Rachel convidara a mãe, em espírito
de conciliação, para ir ver o apartamento, que estava mobiliando, mas
Sara não aceitara, já que no momento estava representando o papel da
mãe que não interfere.
- Rachel, não precisa de meus conselhos. Está sendo ajudada pelo melhor
decorador de San Francisco. . .
Todavia, sem que Rachel soubesse, os Apartamentos Brocklebank não eram
desconhecidos de mamãe. Um dia Sara atravessara a baía de San Francisco,
tomara o bonde na Rua Califórnia até a Rua Mason, depois se dirigira a
pé até a Rua Sacramento e ficara parada numa esquina, inspecionando a
magnífica arquitetura. Parecia com muitos dos edifícios que ela se
lembrava de ter visto em Bruxelas. E recordava-se ainda de ter levado
Rachel e Doris, quando ainda eram muito pequenas, à Park Avenue em Nova
York, onde contemplara de fora as mansões, exatamente como estava
fazendo agora, pensando em todas as coisas que deixara de ter por causa
de outras pessoas... Harry, Louie, Molly. . . Tinha levado uma vida
decente, respeitável, a que faltara muita coisa. . . especialmente amor.
E agora a sua refinada filha, que andava metida com um homem casado,
com idade suficiente para ser seu pai, ia ser contemplada com tudo
aquilo. . . Não que ela estivesse invejando a filha. Só que a vida
poderia ter sido menos injusta para com ela...
Afinal de contas, fora educada para ser a dona de um solar assim. Tinha
instrução, falava várias línguas, podia servir chá com elegância,
recitar Hamlet desde os 11 anos... Ah, as peças que a vida pregava!
Sara atravessou a rua e transpôs majestosamente o pátio calçado de
pedras.
O porteiro, trajando um belo uniforme, perguntou se podia anunciá-la.
- Não, vim para perguntar se há algum apartamento para alugar no
edifício.
- Há sim, madame - respondeu ele, abrindo as portas imponentes e fazendo
Sara entrar no magnífico vestíbulo. Sob seus pés se estendia um macio
tapete vermelho. Uma enorme tapeçaria cobria uma parede e sofás e
poltronas de veludo cinza-escuro completavam a elegante decoração.
- Sim, madame, sou o administrador. Meu nome é Sr. Lawson. Fui informado
de que a senhora está interessada em ver um apartamento.
- Sim, se for possível.
- Temos quatro apartamentos disponíveis. Se quiser esperar, irei buscar
as chaves.
Sara esperou, nervosa. O que iria dizer Rachel, se aparecesse naquele
momento? Ao entrarem no elevador, o Sr. Lawson informou:
- Temos um apartamento no terceiro andar com uma vista panorâmica da
baía.
- Que tamanho?
- Três quartos principais, uma copa para o mordomo, dois quartos de
empregada. . . ah, cá estamos. - As portas deslizaram para os lados e
Sara seguiu o Sr. Lawson pelo corredor, esperou enquanto ele
selecionava a chave, enfiava-a na fechadura e, quando a porta se abriu,
Sara pensou que ia desmaiar, ao ver o belo vestíbulo e mais adiante a
enorme sala de estar. De uma extremidade descortinava-se o mais
extraordinário panorama que ela jamais vira - a cintilante baía azul.
Alcatraz erguia-se como uma cidadela. Depois seu olhar voltou-se para
as colinas de Marin e mais adiante para a Baía Leste. A casa em Oakland
ficava lá. Lentamente, ela percorreu com os olhos o consolo da lareira,
as cornijas de madeira e o teto alto. Mentalmente retornou ao hotel em
Bruxelas, onde Molly e Louie tinham vivido naquela espécie de
esplendor. Em seguida, encaminhou-se para a sala de jantar. Os antigos
moradores tinham deixado vestígios de como deviam ter vivido ali. As
paredes eram forradas de damasco cor-de-rosa. Ela mal ouviu o Sr.
Lawson dizendo:
- Naturalmente, Sra. Sanders, o apartamento será redecorado a seu gosto.
- Naturalmente. .. - E ela o acompanhara até os quartos, lindos, amplos,
ensolarados. Uma bandeja de café da manhã trazida por uma criada de
uniforme preto e avental branco engomado...
Sua fantasia foi interrompida pelo Sr. Lawson:
- E agora, Sra. Sanders, gostaria de ver as outras peças?
- O que? Sim, é claro. ..
Cada uma mais linda do que a outra.
- De quanto é o aluguel? - perguntou Sara quando terminou a inspeção.
- Bem, vejamos. - Ele folheou sua prancheta. - O do segundo andar é 250
por mês.
- E quanto é o do quinto andar?
- O quinto andar. . . ah, aqui está. É de 475 dólares. É o da sua
preferência?
E era.
- É um apartamento muito bom, Sr. Lawson. Mas eu gostaria que o meu
marido viesse vê-lo antes de nos decidirmos...
Sara se apoiara no parapeito do tombadilho de cima da barca, mas a brisa
fresca não podia dissipar o que ela sentia. . . "Eu gostaria que o meu
marido viesse vê-lo antes de nos decidirmos".. .
Que piada!
Quando chegou o domingo e o Pierce Arrow parou defronte do Brocklebank,
imediatamente veio à memória de Sara aquele outro dia da vistoria
secreta. O porteiro, ao ajudá-la a descer do carro, naturalmente não a
reconheceu. Aquele rápido encontro fora-lhe totalmente indiferente, ela
era apenas uma das muitas pessoas que vinham pedir informações sobre os
apartamentos. E estava tão diferente com a perda de peso e o cabelo
curto que mal se reconhecia a si mesma.
Naquele dia ela tinha usado o seu vestido marrom e chapéu de plumas, e
sabia que seu aspecto era amatronado. Agora usava um vestido de seda
cinza manequim 42, chapéu cor-de-rosa, bolsa e sapatos cinza-chumbo e
finas meias de seda. Uma maquilagem bem aplicada a favorecia.
Doris estava com o seu vestido de padrão escocês, e Lillian com o
amarelinho de seda, feito pelas carinhosas mãos maternas.
Jacob impressionou-se com o edifício e ficou mais satisfeito do que
nunca por ter comprado o carro.
- Quer ligar à Sra. Ross e avisar que sua família está à espera? - disse
Sara ao porteiro.
- O seu nome?
- Sr. e Sra. Sanders.
O porteiro apanhou o interfone.
- Sua família está aqui, Sra. Ross. - Depois apertou o botão do elevador
e abriu a porta para a família. O elevador parou no quinto andar.. .
Rachel esperava-os nervosa no vestíbulo, com o marido ao lado. Quando a
campainha tocou, Jim procurou tranqüilizá-la.
- Rachel, você é minha mulher. Não se esqueça disso.
- Vou tentar - disse ela, e abriu a porta.
Não pôde acreditar que aquela mulher era a sua mãe. Recuperando a voz,
exclamou:
- Estamos tão contentes por terem vindo. . .
- E nós, também, Rachel - disse Sara, entregando-lhe o presente de
casamento.
Doris beijou Rachel e apertou a mão de Jim.
- Está linda, Rachel - disse Lillian.
- Obrigada, Lillian. Oh, mamãe, o que fez consigo mesma? Não posso
acreditar que seja você.
- Isso é bom ou mau? - perguntou Sara.
- Está tão bonita, mamãe. Quando perdeu tanto peso?
- Enquanto você estava explorando o mundo.
- Obrigada por ter vindo, papai - disse Rachel, olhando para Jacob.
- Foi gentil da sua parte nos convidar, Rachel. Jim apressou-se em
estender-lhe a mão.
- Seja bem-vindo, Sr. Sanders.
A resposta de Jacob foi um cumprimento de cabeça e um ligeiro aperto de
mão.
- Por que estamos todos parados aqui? Vamos para a sala de estar - disse
Rachel animadamente.
Sara olhou em seu redor os móveis magníficos. Nada lhe escapava... os
tapetes persas, as paredes de damasco verde-claro, um par de poltronas
estofadas de petit-point e uma coleção de jades e marfins numa vitrina
que poderia ter pertencido à imperatriz da China. Pequenos sofás de
veludo flanqueavam a lareira, e contra uma parede via-se um grande sofá
diretório. Porém a coisa mais estupenda era um piano de cauda Steinway.
Sara nunca vira nada igual.
Todos se sentaram. Fez-se um silêncio. Finalmente, Rachel disse:
- Estou tão excitada que nem abri ainda o presente. - E correndo até o
vestíbulo, voltou com a caixa. Sara observou a filha desembrulhar o
rescaldeiro de prata folheada.
- É lindo, mamãe, papai. Muito obrigada.
- Bem, não foi fácil comprar um presente para você. Fui à Gump’s, mas
parece que você já tinha comprado tudo o que havia na loja - comentou
Sara, rindo.
- Gostei muito - disse Rachel, com um sorriso.
- Tenho certeza de que não pode se comparar com o que você tem, mas,
como sabe, não somos propriamente ricos.
Jacob gostaria bem que ela tivesse calado a boca. Estava embaraçando-o
diante de Jim Ross. Como ousava Sara dizer que os Sanders não eram
ricos? Aquele presente ridículo custara 150 dólares.
Havia poucas pessoas de quem Jim não gostava, mas, por mais que tentasse
compreendê-la, a mãe de sua mulher estava bem perto de encabeçar a
lista.
- Não é preciso uma pessoa ser rica para ter bom gosto, Sra. Sanders, e
o seu é impecável. Agora, que tal um conhaque ou xerez? O que prefere,
Sr. Sanders?
Antes que Jacob pudesse responder, Sara interveio:
- Sr. Sanders? Meu Deus, isso faz Jacob parecer tão velho... A
insinuação era demasiado clara...
- Espero que me perdoe. Agora, o que prefere. . . mamãe? Xerez ou
conhaque?
Sara apertou os olhos, mas respondeu em tom afável:
- Xerez, creio.
- E você... Jack?
- Um conhaque.
- E você, querida? - perguntou ele a Rachel.
- Nada, Jim. Doris, Lillian, vou buscar um refrigerante para vocês.
Rachel dirigiu-se para a cozinha e voltou com uma bandeja de hors
d’oeuvre e dois copos de refrigerantes; depois passou nervosamente a
bandeja ao redor. Sara olhou para os hors d’oeuvre depois recusou,
sentindo-se muito virtuosa.
- Papai? - perguntou Rachel, estendendo-lhe a bandeja.
- De que são feitos?
- Frutos do mar, caranguejo, camarão...
- Não, obrigado. Não como coisas do mar, você devia saber disso.
Meu Deus, pensou Rachel, há séculos que a família não se mantinha
kosher.
- Eu gostaria de provar um - disse Doris.
- Você não tem de provar nada - interferiu imediatamente Sara. - Por
mais que eu tente, Rachel, não consigo que ela faça dieta.
Doris, naturalmente, estava prestes a desatar em pranto, e Lillian,
depois daquilo, não ousou aceitar nada da bandeja. Mamãe e sua mania de
dieta - parecia que a dieta tornara-se agora o eixo de toda a vida
familiar. . . Na falta de algo melhor para dizer, Lillian comentou:
- Esta é a sala mais bonita que eu já vi, Rachel.
- Obrigada, Lillian. Gostariam de ver o resto do apartamento, mamãe?
- Mais tarde. - Ela sabia como era o apartamento. - Acho que ainda não
tive a oportunidade de lhe dizer que o seu tio vai se casar.
Rachel deixou cair a bandeja. Jim imediatamente foi socorrê-la.
- Sente-se, meu amor. Pode deixar que cuido disso. Ela lhe deu um olhar
vago.
- Você está bem, Rachel? Gostaria de um pouco de xerez?
- Sim. .. acho que sim.. .
- Não anda se sentindo bem, Rachel? - perguntou Sara. Jim podia ter 42
anos, mas ainda parecia muito viril. Ela não podia deixar de pensar como
teria sido a vida sexual dos dois durante aqueles românticos três meses
de lua-de-mel. Estaria Rachel gostando! Provavelmente. . . abandonou
suas cogitações quando ouviu Jim dizer:
- Não, Rachel não se tem sentido muito bem. . . - Depois sorriu para
Sara. - Já sabia que vai ser avó?
Sara quase engasgou com a bebida. Avó? Ela só tinha 37 anos. Estava
começando a sentir-se de novo jovem, e agora. ..
Que alívio, pensou Rachel, quando a criada veio anunciar que o jantar
estava servido.
O jantar foi solene, com poucas conversas.
Jacob comeu sem prazer. Sara lançou olhares furibundos a Doris que tinha
enchido o prato com a ótima comida, e Lillian fitava sua mãe, que mal
tocava no prato. Rachel estava com uma tremenda dor de cabeça, e Jim só
queria ver terminada aquela reunião familiar.
Quando retornaram à sala de estar e Rachel estava servindo o café, Doris
perguntou:
- Podemos ver o resto do apartamento?
Dessa vez seria difícil Sara recusar. E além disso, ela agora estava
muito curiosa.
O apartamento era uma perfeição. Um quarto decorado em tons róseos. O
segundo fora transformado em escritório para Jim, tudo em couro e
carvalho com gravuras de caçadas. Na cornija da lareira em estilo
georgiano alinhavamse trofeus de golfe, e toda uma parede era forrada de
fotos de Jim pescando no México e Guatemala, caçando no Canadá. Havia
ampliações do casal em lua-de-mel em Tóquio, Hong-Kong, Bancoque e
Saigão. Para Sara chegava de escritório de Jim.
Quando Rachel a conduziu à suíte principal, Sara teve de conter uma
exclamação. A cama fora feita sob encomenda e nela poderiam caber
facilmente quatro pessoas. Reposteiros de seda amarela enquadravam as
janelas e um espesso tapete cinza-pérola se estendia de rodapé a rodapé.
O grande toucador de marchetaria, a chaise-longue, a escrivaninha,
papel de carta azul com o monograma R.R. marcado em relevo, o quarto de
vestir e o banheiro com uma profusão de perfumes franceses e sais de
banho - tudo aquilo era demais para Sara.
- É lindo, Rachel, realmente lindo.
- Obrigada, mamãe, que bom você ter gostado.
- Mamãe mobiliou nossa casa - disse Doris.
- Agora basta, não vamos falar esta noite sobre a nossa grande mansão.
Rachel verá quando for visitar-nos.
Quando finalmente eles saíram, Rachel caiu - desabou - nos braços de
Jim, com a cabeça apoiada no peito dele. Quando ergueu os olhos, havia
lágrimas em seus olhos. Ele tomou seu rosto entre as mãos, enxugou-lhe
as lágrimas.
- Foi um desastre, não foi?
- Como o dilúvio - replicou ele, rindo.
- Preciso ir me deitar.
- Isso não me surpreende.
Rachel despiu-se, entrou debaixo das cobertas, e Jim sentou-se na beira
da cama, segurando-lhe a mão.
- O que ela quer de mim?
- Sua mãe quer ser você, Rachel.
- Acho que está enganado, meu querido. Ela não me quer de forma alguma.
- Não foi exatamente o que eu disse. . . Escute, não é preciso ser
Sigmund Freud para ver que a única válvula de escape que ela tem para as
suas frustrações são as filhas.
- Eu sei. Pobre Doris, não foi horrível? Mamãe não tem a menor idéia do
que está fazendo com ela. Doris está com 15 anos, Jim, e este deveria
ser o período mais feliz de sua vida. Mas ela já perdeu parte do
espírito e animação que costumava ter. Ambas minhas irmãs ficaram ali
sentadinhas sem ter coragem de abrir a boca. Sobre o que você e papai
conversaram, enquanto eu estava mostrando o apartamento?
- O assunto predileto dele... indústria de carne.
- O que realmente pensa dele, Jim?
- Acho que ele é um pouco autoritário, mas.. .
- Ele não foi sempre assim, não quando éramos pequenas. Embora pense que
é, ele não é realmente o mais forte. É mamãe quem o influencia, sem que
ele sequer se dê conta disso.
- Não vamos mais falar neles. .. você, minha princesa, foi magnífica
esta noite. E o jantar estava esplêndido.
- Eu não fiz o jantar.
- A comida era o que menos importava. É a maneira com que faz as coisas,
Rachel. Soube realmente enfrentar uma situação muito difícil. Mas vou
libertá-la por um tempo disso tudo. Vai viajar comigo para a Argentina.
- Nós mal chegamos de viagem.
- Eu sei, mas tenho de fazer outra viagem, desta vez de negócios.
- É esta a única razão?
- Em parte. Acho que chegou a hora de você cortar o cordão umbilical
duma vez por todas. É uma mulher maravilhosa, já está em tempo de
assumir a posse de si mesma... totalmente libertada de mamãe...
Ela o fitou um momento.
- James Ross, futuro pai. . . Creio que o amo. Agora cale a boca e faça
amor comigo.
No dia seguinte, Sara telefonou.
- Rachel, quero lhe agradecer pela noite agradável. Foi tão gentil de
sua parte nos convidar.
- Foi um prazer receber minha família.
Aquilo se parecia mais com a antiga Rachel, pensou Sara.
- Mas da próxima vez não precisa ser tão elegante. Do jeito que nos
recebeu, seu pai e eu nos sentimos como dois estranhos.
"Vocês são estranhos", pensou ela.
- Bem, eu quis tratá-los tão bem como trataria meus outros convidados -
disse Rachel, aplaudindo a si mesma. Dessa vez, não estava se sentindo
muito nervosa.
- Sua intenção foi ótima, porém desnecessária. Contudo, acho que seu
marido não foi muito receptivo. Oh, sem dúvida, ele se mostrou muito
educado, mas às vezes tenho a impressão de que ele acha que é bom
demais para gente como nós.
- Lamento que tenha essa impressão. Não é verdade em absoluto. . .
- Não precisa assumir uma atitude defensiva, Rachel. Eu estava apenas
dizendo que realmente ele não fez com que nos sentíssemos muito a gosto.
..
- Isso tem muito a ver com as atitudes causadas pela situação... Quero
mais uma vez lhe agradecer o lindo presente, mamãe.
- Espero que tenha gostado. Agora, diga-me, Rachel, há quanto tempo está
grávida?
- Há umas seis semanas.
- Oh. Bem, não que seja da minha conta, mas talvez você devesse ter
esperado um pouco. Filhos são uma grande responsabilidade.. .
"Tem razão no que disse, não é em absoluto da sua conta", pensou Rachel.
Mas respondeu:
- É que decidimos logo constituir família e.. .
- Pensando melhor, posso compreender que na idade de Jim. . . ele já
será um velho, quando. . .
- Mamãe, não quero parecer indelicada, mas esse é um assunto só nosso,
meu e de Jim...
- Eu não estava tentando interferir, apenas comentando.
- Eu sei, obrigada, mamãe. .. Eu gostaria de lhe falar sobre Doris.
- Doris? Falar o que sobre Doris? Ela é muito difícil de ser controlada.
Eu a levei a um me’dico, e ele disse que o apetite dela é compulsivo.
Rachel teve muita vontade de dizer que, talvez, se mamãe lhe desse mais
amor e compreensão, Doris não necessitaria de escapismos, mas de nada
adiantava insistir no assunto.. .
- Está gostando dos seus novos móveis?
- Servem. Você conhece a grande generosidade de seu pai. Lembre-se, ele
lhe recusou dinheiro para continuar seus estudos.
"E eu me lembro de que você nada fez para demovê-lo."
- Bem, a verdade é que acabou sendo desnecessário. Vou viajar para a
América do Sul.
- Mas você acaba de voltar de uma longa viagem.
- Jim tem de viajar a negócio.
- Então cada vez que ele tiver de viajar, você vai junto? O que vai
fazer quando tiver um filho?
- Pensarei nisso, quando chegar a ocasião.
- Tem sua vida muito bem planejada, Rachel.
- Na verdade não sou eu. Quem planeja é meu marido.
- Isso é ótimo, mas deixe que eu lhe dê um pequeno conselho, Rachel.
Nunca permita que um homem, até mesmo seu marido, tenha controle
absoluto sobre você.
Rachel não sabia se ria ou chorava. ..
- Vou pensar nisso, mamãe.
- Por quanto tempo vai se ausentar?
- Um mês, talvez menos.
- Espero que esteja de volta para o casamento do seu tio. Pelo que sei,
ele vai se casar com uma moça ótima. É judia e de muito boa família.
Eles tinham dinheiro antes da Grande Depressão. E por falar nisso,
Rachel, como vai educar seus filhos?
Rachel ainda estava se recuperando da memória de Shlomo, do
surpreendente efeito que a notícia do seu casamento produzira nela.
Pensava que não mais seria afetada...
- O que disse, mamãe? Oh, a religião dos meus filhos? Ainda não
decidimos. - Mas sabia que uma filha sua não iria saber por uma freira
católica o que era ser judia. Se tivesse um filho, ele iria ter um bar
mitzvah.
- É o que sempre acontece em casamentos mistos. É por isso que em geral
não dão certo.
- Não se preocupe demais, mamãe. Meus filhos serão educados tão
religiosamente quanto o fomos.
- Sinceramente espero que sim. Eu não gostaria que você tivesse
problemas nessa questão.
- Não vou ter...
- Diga-me, como está se dando com a filha do seu marido? Considerando
que ela é quase da sua idade? É difícil pensar em você como uma
madrasta.
- Nós nos damos lindamente - mentiu Rachel. Desde o casamento, eles não
tinham mais tido notícias de Maureen.
- Ao que parece, tudo em sua vida está dando certo. Você tem muita
sorte, Rachel.
- Obrigada, mamãe. Reconheço.
- Só o que é preciso é um pouco de mazel, e isso você tem.
- Obrigada, mas o que não me falta é mazel. Foi muito bom falar com
você, mamãe. Gostei do seu telefonema. ..
Quando Rachel recolocou o fone no gancho, ficou um momento olhando para
o aparelho e pensou "finalmente, estou crescendo".
#break Capítulo Trinta e Sete
Shlomo tinha tido não poucos romances durante seus anos na Marinha, mas
nunca pensara seriamente em casar-se. O serviço o expusera a um mundo
que ele jamais suspeitara existir, e gostava da liberdade de
explorá-lo.
De todos os lugares em que estivera, Manila era o mais exótico. A vida
era boa, ele vivia como um rei. Fora promovido ao posto de
primeiro-sargento, a posição mais alta que podia atingir um homem
engajado. O posto e o trabalho lhe permitiam uma pequena casa, um
ajudante chamado Juan, um carro próprio e também uma amante eurasiana.
Mônica, uma mistura de sangue inglês, português e filipino, era não
somente educada, como linda. Sua pele era lisa como o marfim, e os
cabelos negros caíam-lhe até a cintura como pesados fios de seda. A
boca era terna, os olhos profundos, uma mulher ao mesmo tempo delicada e
sensual.
Os dois se conheceram numa festa de véspera do Ano-Novo, em que logo
Mônica se viu dançando o tempo todo nos braços do Sargento Sandy
Sanders. À meia-noite as sirenes tocaram, as bolas de gás flutuaram no
ar, o champanha borbulhou e, entre gritos de "Feliz Ano-Novo", Mônica
foi beijada pelo seu ligeiramente embriagado par.
Às três horas da madrugada, Sandy tomou Mônica pela mão e a conduziu do
salão de baile para o terraço.
- Onde andou você se escondendo? - perguntou ele, ao mesmo tempo em que
percebia que não estava sendo muito original.
- Onde esteve você me procurando?
- Obviamente nos lugares errados. Alguém já lhe disse que você é a
mulher mais. . . mais deslumbrante do. . .
- Ocasionalmente - replicou ela, rindo. Ele a estreitou nos braços.
- Quero fazer amor com você.
- E o que vai acontecer no dia 2 de janeiro?
- Isso só vai ser amanhã. - Ele lhe beijou o ombro macio, depois se
aventurou até o decote entre os seios dela. - Por favor, agora, tenho de
possuí-la...
Mônica tinha certeza de que ele devia já ter repetido muitas vezes a
mesma frase, mas havia algo em Sandy Sanders a que ela não podia nem
queria resistir. Acompanhou-o ao carro.
Ele guiou em silêncio, uma mão no volante, outra em redor da cintura
fina de Mônica. Quando abriu a porta de sua casa, ele a apanhou nos
braços e a carregou até o seu quarto. Despiu-a e acariciou cada parte
daquele corpo magnífico. Ela era diferente de todas as outras mulheres
que ele possuíra. O gosto e o cheiro. . . um incrível prazer. Deitados
lado a lado na escura e silenciosa noite, ele disse:
- Você me perguntou sobre 2 de janeiro. E o que acha de 4 de julho? - -
Ou 5? - Sim, ou 5. - Dê-me um minuto. . . não, dois... para pensar. - Eu
lhe dou um minuto. - Você não está sendo fácil - isso dito com um ar de
seriedade. - Está bem, nesse caso a resposta é sim. - Você é não somente
a mulher mais linda como a mais sensata que já conheci. Eu nunca teria
desistido. Se não houvesse dito logo sim, pense em todo o tempo que
teríamos perdido.. . Literalmente, a partir daquele momento, Sandy não
quis mais saber de nenhuma outra mulher, e não era necessário Mônica
dizer-lhe que ele era o único homem da sua vida. Até Sandy entrar em
sua vida, ela era uma mulher em expectativa. Seu cargo de intérprete no
Governo fora compensador por ocupar-lhe todo o tempo, já que seu marido,
um piloto inglês, tinha morrido na guerra, deixando-a viúva aos 22 anos.
O mundo fragmentara-se em pedaços que não mais podiam ser reunidos. E os
poucos homens que Mônica permitira em sua vida estavam muito longe de
ser o que ela procurava. Mas agora sua vida estava completa. Sandy
tornara-se o centro do seu mundo. A procura terminara.. .
Duas semanas depois, a mobília de palhinha da casa de estuque de Sandy
na base foi retirada e substituída por antigas peças francesas, inglesas
e chinesas de Mônica. Numa das paredes foi colocado um biombo alto, de
10 folhas, em laça preta, decorado com jade e quartzo róseo - um
tesouro, uma herança de família. Um tapete chinês dourado cobria o chio
de terracota e havia uma bergère de cada lado da lareira.
Por um momento ela ficou calculando onde o sofá devia ser colocado,
depois chamou Juan, o criado, que deixou seu trabalho na cozinha e veio
para a sala.
- Por favor, Juan, ajude-me a mudar o lugar do sofá. Acho que ficaria
melhor de frente para o mar, não concorda?
- É muito romântico - sorriu ele.
- Eu também achei, especialmente para se ver o pôr-do-sol.
Depois de pendurar o último quadro, ela recuou para apreciar o conjunto.
Mentalmente viu Sandy sentado numa das bergères, lendo à noite, enquanto
ela trabalhava em sua tapeçaria. Então, tiraria o livro da mão dele,
sentaria no seu colo e o beijaria, e apoiaria sua cabeça no peito dele.
. . Oh, como o amava. .. morreria se o perdesse. Seus pensamentos foram
interrompidos pelo carrilhão do relógio. Eram quatro horas, ele logo
estaria de volta.
Ela tinha acabado de enfiar um vestido de seda, quando ouviu os passos
de Sandy no jardim. Correu para recebê-lo. Na verdade era o começo de
suas vidas em conjunto. Ela o tomou pela mão e conduziu para dentro de
casa, ansiosa por ver a sua reação.
- Mônica, não posso acreditar que seja a mesma sala. Meu Deus, que
beleza. Você é incrível. Parece o Palácio de Buckingham. - Estreitando-a
nos braços, ele lhe disse a verdade. - Mônica, eu amo você. - Ela o
levou até a bergère e sentou-se em seu colo. A fantasia tinha-se tornado
realidade. - Sabe, minha querida, esta é a primeira vez em minha vida
que tenho um lar meu. Significa tudo para mim. .. Acho que você não
imagina o quanto.. .
- Para mim, basta ouvir isso.
- É mais do que eu disse. Não tenho palavras para descrever o que sinto,
minha bela Mônica.
Se ela tivesse olhado para o rosto de Sandy naquele momento, veria as
lágrimas brotando-lhe dos olhos.
Desse dia em diante, Mônica dedicou-se às necessidades e desejos do seu
homem. Dispensou Juan de cozinhar para ter certeza de que os seus
jantares seriam exatamente como ela queria, acompanhados de velas e
vinhos. Abrira um mundo inteiramente novo para Sandy, e ele para ela.
Sabia receber à perfeição nos pequenos jantares que ofereciam a amigos.
Os domingos se passavam agradavelmente tranquilos, com o café da manhã
no terraço e depois uma ida à praia. Os dois pescavam e navegavam a vela
e dançavam até de madrugada. Quando Sandy tinha alguns dias de folga
eles tomavam o carro e iam a Baguio, onde se hospedavam num hotelzinho
especial. O amor de um pelo outro parecia crescer dia a dia.
As únicas vezes em que Mônica se sentia insegura eram quando Sandy
recebia cartas de sua família, especialmente do seu irmão Jacob. As
cartas sempre pareciam perturbá-lo, e batiam sempre na mesma tecla:
quando ele ia deixar aquela maluquice e voltar para o lugar a que
pertencia, entre sua própria gente? Jacob continuava achando impossível
compreender como um judeu podia gostar de permanecer na Marinha. Aquilo
era para os goyim. E sua mãe Esther também se preocupava. Não o havia
criado para ser um fuzileiro naval. As fotos das crianças o
perturbavam. "Meu Deus, Mônica, elas estão tão crescidas e eu não estava
lá para vê-las crescer. . . é incrível que ainda se lembrem de mim."
Sim, era preciso encarar a verdade, e nesses momentos ela sabia que, de
certa forma, Sandy ansiava por voltar. Mas esses momentos de confusão e
saudade em geral duravam pouco. Os temores de Mônica sempre passavam,
substituídos pela tranqüila felicidade a dois.
Continuavam ainda muito unidos um ano depois e mais uma vez se beijaram,
desejando um ao outro um feliz Ano-Novo.
- Você me deu tudo o que eu queria neste mundo, meu querido - disse ela,
e estava sendo sincera.
- Obrigado, mas se for a mulher inteligente que sei que é, devia estar
procurando um homem melhor. . .
Comentários assim a assustavam, mas só por um momento.
Quando ele a tomou nos braços aquela noite, ela não tinha dúvidas, não
existiam sombras se interpondo à felicidade deles. Mônica podia
afastá-las com o seu amor. . .
Em agosto, Mônica constatou que estava grávida, e ficou radiante. Sandy
havia de querer aquele filho. Tinha certeza disso. Uma mulher sabia
quando era adorada por um homem. As palavras dele na noite anterior,
quando estava sentado no sofá, abraçado a ela eram uma prova do seu
amor.
- Querida, acha que gostaria de morar no Havaí?
- Havaí? - Ela aprumou o corpo.
- Sim, estou sendo transferido.
- Quando?
- Em janeiro.
- Parece que janeiro é o melhor mês do ano para nós.
- Todos os meses são melhores a seu lado.
- Oh, Sandy, meu amor por você é tão grande...
Ao recordar a cena da noite anterior, ela ficou em dúvida se aquele
seria o momento oportuno para contar-lhe a novidade. Não sabia ao certo
porque estava relutante, mas algo no seu íntimo lhe dizia que a hora
não era apropriada.. .
Nos meses seguintes, ela sentiu o filho dentro do seu ventre. Embora não
desse ainda para se notar sua gravidez, sabia que logo teria de contar a
Sandy. Finalmente, uma noite, deitada ao lado dele, ela disse:
- Sandy, nunca falamos sobre isso.. . mas quero ser sua esposa.
- No que me diz respeito, você já é minha esposa.. .
- Eu sei, mas não é bem a mesma coisa. ..
Ele se levantou e sentou-se na beira da cama, acendeu dois cigarros e
ofereceu um a ela. Como poderia dizer-lhe que a adorava, mas que não
podiam se casar? Algum dia teria de voltar para os Estados Unidos, para
um mundo que não os aceitaria. Como apresentá-la à sua mãe, a Jacob?
Ali, eles eram aceitos, estava tudo certo. . . Mas como não lhe
ocorrera que uma mulher não podia continuar indefinidamente uma ligação
como aquela sem querer se casar? Era egoísmo, estupidez, não se dar
conta de algo tão fundamental. Uma mulher, mesmo apaixonada, queria,
precisava da segurança que só o casamento trazia. Mas ele não podia
desposá-la. . . não só por ele, como por ela. Mônica não podia imaginar
o que seria a vida para ela nos Estados Unidos. Pessoas apaixonadas
iludem-se. . . Talvez por isso dissessem que o amor é cego. Mas,
infelizmente, ele estava vendo tudo bem claro, e desprezava-se por ter
de magoar a criatura que mais amava no mundo. Mas não chegara o momento
ainda, por isso evitou dar uma resposta positiva.
- Mônica, meu amor, vamos esperar um pouco.
- Quanto tempo? Sandy, diga-me agora: você quer se casar comigo?
- É claro que quero. . .
- Então?
- Mônica, não conversamos sobre isso, mas um dia terei de voltar para a
minha terra. Os Estados Unidos não são o Oriente. Já é bastante duro ser
judeu lá, mas um casamento inter-racial faria de nós uns párias. Você
acabaria me culpando, me odiando. E isso nos destruiria. - Ele lhe tomou
a mão fria e a afagou. - Procure compreender. .. ninguém pertence só a
si mesmo, não neste mundo, e se quisermos sobreviver temos de viver de
acordo com algumas de suas regras e, se tivéssemos filhos, iriam sofrer
terrivelmente. . . embora a culpa não fosse deles. Mas por nossa causa.
. . - Sandy a fitou, e os olhos dela diziam mais do que palavras.
Subitamente, ele tapou o rosto com as mãos, consciente do quanto a
magoara.
Ela o puxou para junto de si e apoiou a cabeça dele no seu ombro.
- Por favor, não fique assim. . . não importa. Você já me deu mais do
que pode imaginar. ..
- Importa, sim. Importa porque eu a amo, Mônica, mas, que diabo, não
posso mudar o mundo. Nem mesmo por você. . .
- Venha deitar-se, meu querido. Estamos juntos agora. Isso é que
realmente importa. Será o bastante.. .
A frase dela soou como um julgamento.
Ele acordou às quatro da madrugada. Levantando-se cautelosamente da cama
para não incomodá-la, foi até a sala de estar, serviu-se de uma dose de
uísque e instalou-se na bergère. Na obscuridade da sala, recordou os
anos que ele e Mônica haviam partilhado. Quem j amais lhe dera o
contentamento e a alegria que ela lhe dera? Em seu desejo de
protegê-la, sentia que tinha de ser totalmente honesto sobre o que
aconteceria às suas vidas, se se casassem. E o que tinha dito era a
realidade; eles não seriam aceitos. Mas a verdade tinha dois gumes.
Fora honesto só por causa dela, ou os seus próprios temores o haviam
influenciado? Sua mãe? Jacob? Não, ele nunca conseguiria que aceitassem
Mônica como parte da família, nunca. Mas que importância tinha tudo
aquilo? O que viver nos Estados Unidos significava realmente para ele?
Quanto da sua vida ele passara lá? E por acaso fora um período assim tão
bom? Seria tão importante, se nunca mais voltasse? O Oriente fora o seu
mundo e agora percebia que se sentia ali mais em casa do que em
qualquer outra parte. "Voltar" seria uma fantasia, apenas isso. Era
simplesmente uma pressuposição baseada em seu desejo infantil de ver
sua família reunida. Sim, continuava amando-os e sempre os amaria, mas
estavam há tanto tempo afastados que viviam em mundos diferentes, e era
mais do que a distância a separá-los. Não tinha esperança alguma de que
Esther ou Jacob compreenderiam ou aprovariam o seu casamento com Mônica
e, por seu lado, no fundo compreendia também as razões deles. Mas não
tinham vivido suas vidas como bem entendiam? Por que não teria ele o
direito de fazer o mesmo?. .. Ficariam magoados, o que ele lamentava,
porém lamentaria muito mais perder Mônica. Não ia abandoná-la, não
podia. Ela fazia parte dele. . .
Subitamente, Sandy sentiu uma sensação de paz e de pronta decisão.
Levantou-se sem ruído e foi ao banheiro para se barbear e vestir. Eram
seis horas da manhã, quando parou junto à cama e olhou para Mônica. Ela
era o seu mundo, e nada se comparava a tê-la ao seu lado. Controlou o
impulso de acordá-la. Essa noite ele lhe diria. Beijou-a no rosto,
voltou-se e saiu do quarto.
Mônica passou a manhã pensando em alternativas. Se fizesse um aborto, o
que isso iria solucionar? Sim, eles podiam ir para o Havaí e ser amantes
como até agora, mas um dia ele a deixaria, voltaria para a sua terra.
Ela não era sua terra; era apenas um ponto a meio caminho. Sabia que
Sandy se casaria com ela, se soubesse do filho que ia nascer, mas
acabaria por odiá-la, achando que ela lhe preparara uma armadilha. Só
havia uma saída. . . já sabia disso desde o começo. Os pequenos
temores, a relutância em contar-lhe - ela os afastara do seu pensamento,
como se o fato de não enfrentá-los os fizesse desaparecer.
Deixou-se ficar muito tempo sentada, revivendo os momentos que tinham
vivido juntos. Sabia que nada lhe restaria, quando ele se fosse, e sabia
também que seria em breve. Ninguém mais poderia participar da sua vida
com ele participara. Mas a maior dádiva fora o filho que ele lhe dera.
Logo estaria tudo terminado, mas o filho seria seu para sempre.
Sentando-se à escrivaninha, ela pegou calmamente um papel de carta e
começou a escrever.
Meu muito querido:
Eu o amei como nunca mais poderei amar. Há tantas lembranças que me são
caras, e essas ninguém pode tomá-las de mim. Nem mesmo você. Se tivesse
de viver de novo a minha vida, eu agiria do mesmo modo, só para saber o
que era ter estado em seus braços.
Por favor, perdoe-me, meu amor. Não há outra escolha. Como todo o amor
que possuo, estou devolvendo você a si mesmo. Seja feliz, querido, por
favor, por mim.. .
Dobrou a carta, colocou-a dentro de um envelope, que deixou encostado ao
abajur. Parou um momento, olhou para a cama que eles tinham partilhado,
depois se encaminhou lentamente para a porta e atravessou o jardim em
direção ao mar.
Sandy tomou o telefone, quando estava folheando uma pasta de papéis em
sua mesa. - Sim?
- Quem fala é o Capitão Rodriguez da polícia de Manila. Quer fazer o
favor de vir até cá?
Sandy sentiu um estranho calafrio.
- Por quê? O que aconteceu?
- É melhor que venha até cá, Sargento. - Está bem, vou já.
Entrou e sentou-se apreensivamente numa cadeira diante do Capitão
Rodriguez.
- Sargento, conhecia a Sra. Mônica Hill?
- Se eu a conhecia? - disse Sandy, franzindo a testa. - Conheço
perfeitamente a Sra. Mônica Hill.
Uma pausa.
- Sargento, a Sra. Hill. . . o corpo dela foi encontrado na praia,
trazido pelo mar, no princípio desta tarde. ..
O choque e a dor foram demais. Ele foi tomado de uma fúria de desespero,
socando as mãos contra as paredes até suas juntas sangrarem. Queria
gritar, estraçalhar o mundo em mil pedaços. E então vieram as lágrimas,
e a vida pareceu esvair-se do seu corpo. Ele tornou a sentar-se.
- Tome isto... - disse o Capitão Rodriguez, estendendo-lhe um conhaque.
Ele empurrou o copo, que se fez em pedaços no chão de ladrilhos. Enxugou
o rosto e ficou de olhos fixos para fora da janela. Não viu o lindo
jardim florido, nem as palmeiras que a brisa balançava. Só tinha
consciência do rosto de Mônica, da dor em seus olhos, da sua voz
sussurrando-lhe "não importa. Você já me deu mais do que pode
imaginar". Oh, ele imaginava. Imaginava agora. . .
- Precisamos do senhor para identificar o corpo, Sargento.. .
O corpo? Mônica era um corpo? Ele fechou os olhos. Quantos homens já
matara? Mas fora durante a guerra. Agora queriam que visse Mônica
estendida numa laje, sem vida. Na noite anterior ela o tinha
consolado... Oh, Deus, ele fizera isso com ela. . .
- Sargento, precisamos do senhor.. .
Mas ele já se levantara e estava se encaminhando para a porta.
Conduziram-no pelo corredor a fora até a asséptica sala branca. Um
lençol cobria o contorno do que restava dela. Rodriguez esperou um
momento, depois descobriu o rosto.
De alguma forma misteriosa, ele já sabia, quando pegara o telefone.
- Esta é a Sra. Hill?
Ele não pôde articular uma palavra.
- Sargento, esta é. .. - É.
O lençol tornou a cobrir o rosto, e ele foi conduzido para fora da sala.
- Manteremos contato com o senhor, Sargento. Haverá uma autópsia. Ele
sacudiu a cabeça e saiu para a terrível claridade do sol.. .
Três dias Sandy não saiu de casa, tentando anular a verdade com a
bebida. Juan aparecia de quando em quando, mas ele lhe atirava em cima
uma garrafa vazia de uísque e mandava-o embora aos gritos. Finalmente,
Juan voltou, encontrou-o esparramado na cama, despiu-o e o fez deitar
debaixo da cobertas e, pela primeira vez, ele dormiu.
O toque do telefone acabou por despertá-lo. Hesitante, com a mão
trêmula, ele apanhou o aparelho. Duas vezes tentou falar, nenhum som
saiu de sua garganta. Engolindo em seco, ouviu a própria voz rouca.
- Alô?
- Sargento Sanders? Quem fala é o Capitão...
- Eu sei, que corpo quer que eu identifique hoje?
- Quer ter a bondade de vir...
- Não, não quero ter a bondade de ir. O que tem a dizer, pode dizê-lo
agora.
- Estou sugerindo que venha até cá.
- Raios! O que mais quer de mim?
- Por favor, Sargento, precisamos que assine uns documentos. Ele
respondeu está bem e desligou.
Mal podendo levantar-se da cama, chamou Juan, que nos últimos quatro
dias estivera dormindo do lado de fora do quarto.
- Juan, preciso de um banho, e terá de me barbear. Minhas mãos estão
tremendo tanto que sou capaz de cortar meu pescoço. - O que, no momento,
ele achava que não seria má idéia.
Abatido porém apresentável, Sandy sentou-se na mesma cadeira. Como
convinha a um membro da Marinha Americana. Um homem que honrava as suas
insígnias. Sandy Sanders, artilheiro de primeira classe. Ele tinha uma
medalha para provar sua competência. . . Engula a medalha, Tio Sam. Ele
quase riu da coincidência. Em inglês, era esse o seu nome... os papéis
de cidadania diziam Sam Sanders. . . Uma ova que era. Seu nome era
Shlomo Sandsonitsky, mas isso não era suficientemente americano. Mônica
não era suficientemente americana para viver na terra da liberdade.
- O que quer que eu assine?
- Sargento Sanders, a Sra. Hull e o senhor eram. . .
- Amantes. Apaixonados... - Sim. Bem, pode me dizer qual era a religião
dela? Judaica, ele teve vontade de gritar.
- Não sei, nunca discutimos o assunto. Por quê?. ..
- Bem, presumo que ela fosse cristã.
- Imagino que isso vai fazer muita diferença no céu. Está bem, desculpe.
Creio que ela era. . .
- Presumo que o senhor queira tomar as devidas providências. . . - O
Capitão Rodriguez limpou a garganta. - Recebi o relatório do
médico-legista.
Sandy fechou os olhos. Suicídio.. .
- A Sra. Hill estava grávida.
Os ombros dele se curvaram. Oh, meu Deus, ela estava esperando um filho,
enquanto ele dissertava sobre. . . como podia ele. . . como iria viver
sabendo que ela se matara com o filho deles em seu corpo? Por culpa
sua. . .
O Capitão Rodriguez estendeu-lhe um conhaque, e dessa vez ele aceitou,
engolindo a bebida de um só trago.
- Obrigado - disse, devolvendo o copo e levantando-se para sair. - Vocês
já me sugaram mais do que tinham direito.
E, saindo da sala, fechou a porta. . .
Sandy viu o caixão sendo colocado na cova. Apenas ele e o sacerdote. Não
quisera mais ninguém ali. Tinha encomendado duas coroas. Uma para ela.
Uma para o filho.
- Vamos agora, Sargento? - disse o sacerdote.
- Não, eu gostaria de ficar um pouco mais. Obrigado, obrigado por tudo.
O sacerdote cumprimentou-o com um gesto de cabeça e afastou-se entre os
túmulos.
O Sargento Sanders pediu para ser transferido o mais breve possível para
a Ilha Maré. Estava na hora de voltar para sua terra.
#break Capítulo Trinta e Oito
Seis meses depois, o seu período de realistamento terminou, e dessa vez
ele resolveu voltar à vida civil. Não queria mais saber da Marinha, de
viajar e ver o mundo. Jacob tinha razão; o mundo não era tão bonito
assim.
Contudo, quem quisesse sobreviver nele tinha de encontrar um antídoto
para a dor da perda irreparável. Gradualmente, Shlomo optou pela
sobrevivência. E Nadine Blum de Oakland, Califórnia, uma encantadora
judia, foi o antídoto.
Nadine não era o que se poderia considerar uma grande beldade - isso,
naturalmente, ele não poderia tolerar. Mas os cabelos dela eram da cor
de folhas do outono, de um castanho dourado. Tinha um rosto meigo, com
olhos da tonalidade do âmbar e um nariz que fora graciosamente esculpido
pelo Dr. Friedman. O corpo era esguio mas arredondado nos quadris. Na
realidade, ela era bastante sensual. A principal vantagem de Nadine era,
porém, sua capacidade em aceitar uma situação que lhe fora imposta. Em
resumo, ela constituía um saudável bálsamo para Shlomo. ..
Na ocasião do seu nascimento, sua família tinha herdado uma cadeia de 27
lojas de calçados. Parecia que nunca faltaria nada a Nadine e seu irmão,
mesmo que vivessem até os 90 anos, mas em 1929 Charles Blum não só
perdeu as lojas como a mansão em Seacliff, habitada pelos Blum desde o
dia em que Charles, 29 anos antes, passara pela porta da entrada
carregando Mildred nos braços. Mas mesmo tendo perdido uma fortuna,
Charles e Mildred haviam decidido não se amargurarem por isso.
Alugaram um apartamento na Rua Geary e Mildred arrumou-o com as poucas
peças de mobília que não haviam sido leiloadas. E também arranjou um
emprego no departamento de porcelanas da Gump’s, onde freqüentemente
fora freguesa. Através de uma longa e amistosa associação com a família
Leibes, Charles conseguiu um emprego de vendedor de calçados, e Nadine,
pelas mesmas circunstâncias, empregou-se como balconista na Ranshoffs.
Logo antes de se desencadear a Depressão, Neal, o outro filho dos Blum,
se tinha Casado com a sua namorada de infância, Jean Morris, e o jovem
casal tinha agora um filhinho. Quando Charles e Mildred tomaram nos
braços o seu primeiro neto após o bris, de repente não lhes pareceu mais
importante ter perdido as lojas. Sentiam um grande, muito grande
orgulho por ser o pequeno Freddy um americano de quinta geração.
Quanto a Neal, sentia tão profundamente as alegrias da paternidade que
quase o faziam esquecer a sua passada abastança. E, com efeito, era
grato por poder levar para casa todas as semanas o seu ordenado ganho
na Sapataria Florsheim da Rua Market. O ordenado permitia-lhe pagar seu
apartamento no distrito de Richmond e fortificava o sonho de que um dia
ele e seu pai teriam a chance de recomeçar tudo. Afinal, nada durava
eternamente, a Depressão passaria.
’’ Entrementes, a democracia chegara finalmente à América. A Depressão
era uma grande niveladora. Não era nenhuma desgraça ser pobre.
Não para a família de Nadine, e não para Shlomo, que acabou indo
trabalhar para seu irmão, e não na posição que poderia ter presumido na
ocasião da sua volta. Antes de seu realistamento, Jacob insistira com
ele para ser seu sócio. Mas agora que era o proprietário absoluto da
companhia de carnes enlatadas, não mais queria abrir mão do seu título
ou poder. Shlomo só se decepcionou momentaneamente. Não podia realmente
censurar o irmão. Jacob tinha estabelecido sozinho o negócio e ele nunca
demonstrara o menor interesse-pela companhia. Assim Sandy Sanders,
ex-sargento da Marinha e artilheiro de primeira categoria, passou a ser
motorista de caminhão a 35 dólares por semana, que ainda assim era mais
do que muita gente estava ganhando. E pôde mesmo alugar um quarto,
apesar dos protestos de Jacob.
- Por que gastar, quando temos um quarto, agora que Rachel está casada?
- Não acho que seria direito, só iria atrapalhar os costumes da casa.
- O que quer dizer com isso?
- Bem, não sou exatamente um temperamento doméstico. Minha tendência é
voltar tarde para casa, você sabe como é... Fico grato pelo seu
oferecimento, mas acredite que é melhor assim.
Jacob concordou. Shlomo sempre fora teimoso.
Era comum agora Sandy sentir solidão, mas fazia o possível para se
manter ocupado. As mulheres não eram mais uma panacéia - isso ficara
enterrado num pequeno cemitério em Manila. Assim, entrou para um curso
de ginástica em San Francisco e passou a freqüentá-lo quatro noites por
semana. Agradava-lhe a rotina de tomar um banho, jantar cedo,
atravessar a baía. E o esforço físico o revigorava, ajudava a abrandar
os pensamentos dolorosos. Exercitava-se na barra, levantava pesos,
depois esperava sua vez na quadra de voleibol.
E assim que conheceu Neal Blum. Os dois formavam uma boa dupla. Neal
nunca devolvia a bola com a mesma intensidade do saque de Shlomo, mas
era muito rápido e ágil.
Depois da primeira partida, os dois sentaram-se num banco de madeira
para descansar.
- Puxa, você é mesmo fogo - disse Neal, enxugando o suor da testa.
- Obrigado, e você também não é nada sopa.
- Talvez, mas então como é que me deixou de língua de fora?
- Sou diplomado em voleibol - retorquiu Sandy, rindo. - Foi assim que
consegui fazer carreira na Marinha.
- Você pertenceu à Marinha?
- Sim. Alistei-me durante a guerra, e quando Tio Sam disse "preciso de
você" eu o levei a sério e me realistei. Só recentemente é que voltei a
ser civil.
- O que faz agora, Sanders?
- Trabalho para meu irmão como motorista de caminhões. Ele tem uma
fábrica de carnes enlatadas.
- Ah, sim? Calculo que seja um bom negócio, mesmo com a Depressão.
Melhor do que o ramo que era nosso antes. ..
- Que ramo?
- Calçados. As pessoas podem se arrumar só com um par, forrar o sapato
com papel, quando se abre um furo na sola ou mandar consertá-lo por um
dólar, mas todo mundo precisa comer.
De saída, Neal gostou de Sandy Sanders. Havia nele algo. . . não que
Neal fosse um esnobe, mas Sanders não lhe parecia de forma alguma ser um
motorista de caminhão, mesmo que fosse aquele o seu ganha-pão.
- Onde você mora?
- Em Oakland.
- Casado?
Sandy levou um tempo para responder.
- Não. .. e você?
- Sou sim, e é melhor que seja. Já tenho um filhinho. Seria um menino o
seu filho com Mônica?. ..
- Isso é ótimo. Meus parabéns. Bem, agora preciso ir. Tenho de apanhar a
barca. Até quinta-feira.
Vendo Sandy afastar-se, Neal pensou se Nadine iria gostar dele. Não que
ela precisasse de ninguém para arranjar-lhe um namorado, mas alguma
coisa acontecera com Nadine. Os rapazes com quem ela costumava sair
pareciam não mais interessá-la. . .
Na noite de quinta-feira depois da partida, os dois começaram, como de
costume, a conversar.
- Sanders? Que nacionalidade é essa?
- Qua tal sueca?
- Você é sueco?
- Eu, meu amigo? - E Sandy pôs-se a rir. - Sou judeu. Minha mãe heresse
nome americano cem por cento quando chegou à Ilha de Ellis. Antigamente
era Sandsonitsky, mas o agente da Imigração não sabia pronunciá-lo, e
assim ela passou a ser Esther Sanders. E ficou uma semana com a etiqueta
do nome presa no casaco até descobrir que havia sido rebatizada pela
Imigração americana.
Sendo um americano da quarta geração, Neal não passara por tais
experiências, mas já tinha ouvido aquelas histórias de imigrantes.
- Isso é fascinante...
- Acha mesmo? Bem, acho que nossa família é bastante pitoresca. Pode
imaginar alguém se alistando na Marinha com o nome de Shlomo
Sandsonitsky? E meu irmão que é um autêntico cow boy judeu? Yankel ou
Jacob Sandsonitsky fazendo negócio com pecuaristas de Wyoming. Meu
cunhado de Cleveland passou a chamar-se Harold. Uma boa substituição
para Hershel, não acha? Sem dúvida é um bom país, mas será melhor quando
nos livrarmos da ilusão de que todo mundo se funde nesse caldeirão de
raças. Os negros não se fundiram e nem os chineses ou os judeus. A
única diferença é que os judeus são brancos e nomes podem ser trocados,
mas a cor da pele não muda e olhos não deixam de ser amendoados. . .
Neal percebeu a amargura latente.
- Você já teve problemas? Quero dizer, por ser judeu?
- Claro, e você não teve?
- Para ser franco, não.
- Pois tem sorte. Quando eu estava na Marinha tinha de lutar em duas
guerras. . . uma contra os alemães e outra com os meus camaradas nas
trincheiras. Quando eles não estavam atirando no inimigo, eu era um bom
alvo para aliviar um pouco a tensão.
- Devo parecer ingênuo, mas nunca tive esse tipo de problema. Que diabo,
freqüentei escolas e trabalhei com todo tipo de gente e nunca me senti
diferente. ..
- Pois tem sorte, meu amigo. . . Acho que estou procurando um mundo
perfeito demais que respeite pessoas e não etiquetas. - Shlomo consultou
seu relógio. - Preciso ir andando, se quero apanhar a próxima barca.
Esperando na mesma esquina, cada qual pelo seu bonde, Neal disse: - Se
não estiver ocupado este sábado à noite, eu gostaria que você conhecesse
minha mulher. Que tal jantar conosco?
- Obrigado, com muito prazer.
Neal rabiscou o endereço numa caixa de fósforos.
- Sete horas está bem para você?
- Ótimo. Eu o vejo no sábado.
O toque de campainha de Shlomo fez com que aparecesse uma jovem
atraente, que ele calculou ter vinte e poucos anos. Os olhos eram do
mesmo azul profundo do seu vestido, o cabelo emoldurando-lhe o rosto
oval era castanho-claro Emanava dela um calor humano que imediatamente
fez fiom que ele se sentisse a gosto.
- Sra Blum. Sou Sandy Sanders
- Eu sei Neal me disse que você o derrota implacavelmente Entre, sou
Jean. Neal chegou um pouco tarde a casa e esta tomando um banho Queira
me desculpar, tenho de ir cuidar de algumas coisas, mas por favor,
esteja a vontade. Vou avisar a Neal que você chegou
Sandy olhou ao seu redor. Embora o apartamento fosse modesto, havia
indícios de que os seus novos amigos em outros tempos tinham vivido mais
luxuosamente. Muitos dos moveis pareciam valiosos. O tapete francês
havia sido salvo, bem como umas poucas peças raras de porcelana Dresden.
Acima do puído sofá Luís XIV, de seda luas, havia um retrato grande da
mãe de Jean. Defronte do sofá estava colocada uma mesa baixa de tampo de
mármore cor-de-rosa com uma estatueta de bronze dourado. De cada lado
da mesa havia os restos de duas cadeiras de tapeçaria heranças de
família, pensou Sandy, e na parede oposta, um armário alto quase tomava
a sala inteira. Parecia uma incongruência que peças tão finas
estivessem num apartamento de aluguel de 40 dólares por mês
Seus pensamentos foram interrompidos quando Neal entrou na sala
carregando no braço esquerdo o filho
- Fico contente que tenha vindo, Sandy.
- Eu, também. Deixe-me ver a ferinha.
Cheio de orgulho, Neal ergueu no ar a criança que se parecia muito com a
mãe. Com quem se teria parecido o seu filho? Com Mônica? Ele abafou
essas perguntas inevitáveis. Isso ficava para depois, quando viessem os
pesadelos...
- Eu gostaria de ver você jogando vôlei com ele - disse Neal
-Provavelmente me dana uma sova - respondeu Sandy, sorrindo - Olhe, eu
lhe trouxe um presentinho.
- Nem tão pequeno, meu amigo - disse risonho Neal, apanhando a caixa no
sofá - Obrigado.
Jean entrou na sala, desembrulhou a caixa. Dentro havia um coelho de
brinquedo do tamanho do garotinho.
- É maravilhoso. Muito obrigada, Sandy - disse ela, e voltou se para
Neal - Agora quer me entregar o menino? Se ele chorar até as 10 horas
esta noite, já sabemos de quem é a culpa - Ela fez, esse comentário
sorrindo, depois tornou a dirigir-se a Sandy - Não deixe que ele encha
os seus ouvidos sobre as glorias da paternidade, ou não vai se livrar
nunca.
Sandy acompanhou Jean enquanto ela levava o garoto de volta para o
quarto, depois retornou ao presente, quando Neal disse:
- Eu gostaria bem que o Congresso se esquecesse dessa maldita Lei Seca
O que o país realmente precisa e de umas biritas. Felizmente, acontece
jque tenho umas poucas garrafas de conhaque guardadas dos bons velhos
tempos.
Quando Neal estendia o copo a Sandy, a porta da frente se abriu, e
Nadine entrou.
- Desculpe o atraso - disse ela, beijando Neal - Mas os bondes andam tão
difíceis nos dias de hoje.
- É a mim que você diz isso? Temos o mesmo problema com mordomos ...
Apresento-lhe Sandy Sanders. Sandy, esta é minha irmã Nadine.
Estava tudo bem claro. As maquinações de Neal não eram sutis, mas Shlomo
não se sentiu constrangido ou ofendido. O que devia Neal ter dito? Tenho
a oferecer-lhe uma atraente judia, que acontece ser minha irmã...
- É um prazer conhecê-la, Nadine.
- Qbrigada. Neal me disse que você lhe dá surras tremendas.
- Ela está exagerando o que falei. Não acho que você seja tão bom assim,
o que tem é muita sorte.
Jean entrou com um prato de canapés quentes, curvou-se e beijou Nadine
no rosto:
- Alô, querida. Está um pouco atrasada.
- Eu sei... posso ir ver o meu homenzinho favorito?
- Se der só uma espiada. O seu irmão vive tumultuando os horários... -
disse Jean, depois voltou-se para Shlorno - Coma um destes, enquanto
ainda estão quentes, Sandy.
Oh, Deus, há quanto tempo ele não via um lar assim? Aquela gente não era
pobre, apenas não tinha dinheiro.
- Que tal um drinque para mim? - disse Nadine - Talvez alivie a dor de
meus pés. Não faz idéia, Jean, de como as mulheres podem ser difíceis.
Tive uma freguesa hoje que levou duas horas experimentando tudo que
tínhamos na loja, e depois disse que ainda ir procurar um pouco mais
adiante. Por acaso você já sentiu um desejo irresistível de espancar
alguém com um cabide?
- E satisfez o seu desejo? - perguntou Jean.
- Não. O freguês sempre tem razão, por isso fui para a sala dos fundos e
bati em mim mesma.
- Não quer outro conhaque, Sandy? - - perguntou Neal.
- Obrigado, é mesmo urna delicia, não admira que tenha sido a bebi-da
predileta de Napoleão.
- Vou tomar mais um ou dois goles... ou talvez três É preciso manter
feliz a classe trabalhadora - disse Nadine.
Enquanto Neal enchia o copo de sua irmã, Shlomo notou que ela era
realmente muito atraente. Ou seria o efeito do conhaque?
Após um jantar delicioso, eles retornaram à sala de estar.
- Neal me disse que você serviu na Marinha, Sandy. Deve ter sido
fascinante - disse Jean. - Sente falta daquele tempo?
- Bem, não foi muito fácil voltar à vida civil. A princípio, eu
costumava ficar acordado de manhã, esperando pelo toque da alvorada.
- E você, Neal? - perguntou Nadine.
- Nenhum problema, calçados são calçados. Jean é a única mimada na
família.
- Só entre as mimadas. E por falar nisso, acho que alguém está me
chamando. - E, levantando-se, ela se dirigiu para o quarto.
- Vou com você - disse Nadine.
Apanhando o filho, Neal desabotoou a frente do seu vestido e sentou-se
na cama. Sorriu para Nadine, enquanto alisava com a mão a cabecinha da
criança.
- Ele não é incrível? - disse Nadine.
- Sim, é incrível. - E Jean beijou a mãozinha rechonchuda do bebê.
- O que acha dele?
- Acabei de dizer que o acho incrível.
- Oh, sabe muito bem de quem estou falando. Nadine sorriu de leve.
- É simpático, interessante. Você gostou dele?
- Acho-o deslumbrante.
- Mas gostou dele?
- Assim de saída, creio que gostei. E você?
- Como posso saber? De saída, como você diz...
- Veja só, o nosso Freddy já está ferrado no sono. Espere, vou pô-lo no
berço.
Quando as duas cunhadas voltaram à sala, Nadine disse:
- Detesto comer e sair correndo, mas estou realmente exausta. Graças a
Deus amanhã é domingo, o dia mais especial da semana. Vou dar-me ao luxo
de dormir até o meio-dia. Está vendo, Jean? Ser solteira tem suas
compensações.
- É o que você acha? - falou Jean, olhando para Neal.
- Bem, em certos casos - retorquiu Nadine, voltando os olhos para o
casal. - Agora tenho mesmo de ir. - E vestiu o capote. - Jeanie, foi
maravilhoso, muito obrigada por me ter convidado. Sandy, foi bom
conhecê-lo. E Neal, acho bom você ir amanhã à casa de papai, ou corre o
risco de ser deserdado. Ele resmungou a semana inteira porque você não
tem aparecido.
- Posso levá-la a casa? - perguntou Sandy, pondo-se de pé.
- Não, obrigada. Não quero de maneira alguma interromper essa reunião. .
.
- Mas está ficando tarde, e tenho de apanhar uma barca para Oakland.
- Obrigada, Sandy, mas isso iria tirá-lo do seu caminho...
- Não, em absoluto. . . Jean, Neal, esta foi a melhor noite que tive
nesta últimos tempos, mas não quero abusar de sua hospitalidade...
- O prazer foi nosso, Sandy. Por favor, venha ver-nos de novo -
apressou-se Jean em dizer.
- Vejo-o na terça-feira à noite, Neal, e tudo o que você disse sobre sua
mulher é a pura verdade.
No bonde, Sandy e Nadine conversaram descontraidamente sobre vários
assuntos sem importância, até se verem defronte do edifício da moça; ela
lhe deu boa-noite e disse que tinha sido um prazer conhecê-lo. A
gentileza foi retribuída, mas não houve menção de ele lhe telefonar.
Pouco depois, Shlomo, apoiado ao peitoril da barca, olhou para o
azul-escuro da baía e rememorou aquela noite. Fora extremamente
agradável. O casal era muito simpático e tinha um lindo garotinho.. .
Ele tivera muita vontade de segurá-lo nos braços. E Nadine? Uma pequena
atraente, muito atraente. Uma personalidade marcante com bom senso de
humor. Uns 22 anos? Ela não era afetada nem pressurosa. Na realidade,
não demonstrara interesse especial por ele. Talvez fosse engano seu
supor que o jantar fora uma manobra para colocar os dois em contato.
Quando ela lhe dera boa-noite na porta do seu edifício, o tom tinha sido
absolutamente casual. Pensando melhor, era muito chutzpah da sua parte
pensar que alguém com a formação e educação dela poderia se interessar
por ele. Quem era ele afinal? Um ex-sargento da Marinha, um motorista
de caminhão. Mas tudo bem.. . ele tampouco estava realmente interessado
nela...
Nas semanas que se seguiram, Sandy encontrou-se várias vezes com Neal,
sem que fosse mencionado o nome de Nadine. Mas, a cada encontro,
reavivavam-se nele todos os pequenos detalhes daquela noite de tanto
calor e domesticidade.
Uma noite, sentiu-se especialmente deprimido. Não podia mais ignorar os
fatos de sua vida. Morava num quarto de pensão, e não tinha âncoras, nem
raízes ou amor. . . Para onde estava indo? Por quanto tempo o seu "lar"
seria o quarto solitário, ao qual retornava todas as noites? Que diabo,
quando iria passar a ter uma vida normal? Se continuasse assim,
terminaria como um velho solteirão, eventualmente esticando as canelas
sem deixar vestígio de sua passagem pelo mundo. Neal tinha dito: "Esse
meu garotinho faz com que eu ache que vale a pena trabalhar por ele."
E de repente Nadine começou a ocupar mais e mais os seus pensamentos.
Mas por que cargas-d’água haveria ela de querê-lo? Trinta e cinco
dólares por semana? Provavelmente, podia escolher sujeitos muito
melhores. Era nascida e criada em San Francisco, com uma fina educação.
Ainda assim, valia a pena tentar. Sim, quanto mais pensava em Nadine,
mais achava que ela poderia ser a resposta. . . Ele não podia continuar
vivendo com um fantasma. Mônica permaneceria sempre no lugar especial
que lhe fofa reservado, mas ele sabia que jamais tornaria a encontrar
aquela espécie de amor. Portanto, o que tinha a fazer era virar a
página, ou desistir. . . recomeçar a viver ou esperar pela morte. . .
Esperando agora que o telefone dela tocasse, Sandy pensou que não tinha
muito cabimento ligar para ela. Tinham-se encontrado apenas uma vez, e
durante quase um mês não fizera tentativa alguma para se comunicar com
ela, que talvez nem se lembrasse mais dele. . .
- Alô.
- Alô. . . aqui é Sandy Sanders.
- Oh, como vai? Ela se lembrava.
- Muito bem, e você?
- Muito bem,..
- O que vai fazer sábado à noite? - Como um colegial imbecil. . .
- Nada.
- Que tal jantarmos juntos?
- Não posso, Sandy, mas muito obrigada pelo convite. Ele se sentiu
rejeitado.
- Mas não disse que não tinha nada que fazer?
- Foi o que eu disse? - Havia agora um sorriso na voz dela.
- Então, que tal sábado? - Lamento, Sandy... - Por que não? - Bem, hoje
é sexta-feira. - E que importância tem isso? - É um convite meio de
última hora. . . faz com que uma pequena se sinta como a última da lista
em seu caderninho de endereços. .. - Desculpe, realmente sinto muito. Eu
lhe disse que ainda não tinha aprendido a ser um civil. E se eu lhe
contar que não possuo sequer um caderninho de endereços, mas quê, se o
possuísse, você estaria encabeçando a lista? - Pois olhe, para um novo
civil, você está se saindo muito bem no departamento dos galanteios. ’ -
Então, e o meu convite? E se nós fizéssemos de conta que hoje é
segunda-feira? Agora, Miss Blum, quer me dar o prazer de sair comigo no
sábado à noite?
Nadine nunca permitia, que alguém dispusesse da, sua pessoa, mas ele
parecia ser um bom sujeito. Talvez estivesse sendo muito severa.
- Nunca antes aceitei um convite assim, Sandy, mas, por favor, se houver
uma segunda vez. . . - Prometo. A que horas posso ir apanhá-la?
- Aonde gostaria de ir? - Naqueles dias era mais do que justo pergunta.
. . Um dólar e meio por um copo de ponche no Mark podia fazer com que um
sujeito atrasasse o seu aluguel. - Gosta de dançar? - Adoro. - Que tal
o Saint Francis? Acho que a orquestra de Freddy Martin está tocando lá
esta semana. Sandy Sanders era obviamente o último dos grandes
perdulários.
- Sete e meia é uma boa hora para você? - estava ele perguntando. Sete e
meia... isso significava jantar. Fazia muito tempo que ela não recebia
um convite assim.
- Sim, está bem.
- Ótimo, vejo-a amanhã. E Nadine, por favor me perdoe, se lhe pareci
muito confiante. ..
- Bem, considerando que hoje é segunda-feira, não tenho nada a perdoar.
No sábado de manhã cedo, ele comprou um Chevrolet verde-garrafa de
segunda mão em prestações não muito pesadas. Depois comprou por 30
dólares um terno azul-marinho, uma camisa branca e uma gravata
listrada. "OK", disse para si mesmo, "seja bem-vindo de volta ao mundo
dos vivos..."
Quando Nadine lhe abriu a porta, ele a achou maravilhosa. O seu vestido
era de gaze róseo com uma faixa de um rosa mais escuro na cintura, e
finas meias de seda lhe moldavam as pernas esguias.
Ao entrar, ele entregou a Nadine uma caixa e viu os olhos dela se
iluminarem ao depararem com duas orquídeas brancas.
- São lindas. .. agora, venha conhecer meus pais.
Ele a seguiu para dentro do apartamento, que era mobiliado no mesmo
padrão que o de Neal. A Sra. Blurn levantou-se para apertar-lhe a mão,
enquanto Nadine fazia as apresentações. Era uma senhora alta, de porte
nobre, olhos azuis e o mesmo rosto oval de Nadine. Sandy tinha certeza
de que as mechas brancas em seus cabelos se tinham ampliado com as
provações daqueles últimos anos, mas não havia no rosto dela nenhuma
amargura.
- Sandy, este é meu pai. Papai, Sandy Sanders...
Charles Blum espiou por cima dos aros de metal de seus óculos e examinou
o rapaz. Então as coisas tinham chegado a esse ponto, pensou ele.
"Realmente tempos duros. . . Nadine saindo com um ex-fuzileiro. Ao
diabo Hoover, aquele idiota que nos meteu nessa encrenca, e eu que votei
no imbecil."
- Sim. . . sim, é um prazer conhecê-lo - disse ele, tornando a apanhar o
seu jornal.
O que o Sr. Blum pensava dele não era nenhum segredo, mas Shlorno não
podia realmente censurá-lo por achar que sua filha era especial. Além
disso, sabia que se não fosse pelas circunstâncias atuais, ele nunca
teria tido acesso àquela casa. Não que se sentisse inferior, mas Blum
era um homem imponente, que ainda transmitia a sensação de estar
instalado atrás de uma escrivaninha num escritório luxuoso.
Nadine despediu-se dos pais com um beijo e saiu do apartamento, seguida
de Sandy. No elevador ela teve dificuldade em prender as flores no
vestido.
- Deixe que eu a ajude. . . - Ela lhe entregou o alfinete e logo as
orquídeas estavam bem seguras no seu ombro.
A orquestra tocava uma melodia romântica no salão pouco iluminado,
quando Shlomo lhe perguntou o que queria jantar.
Poucos anos antes, ela nunca teria olhado para os preços, mas agora... o
filé custava seis dólares e meio, a galinha, cinco.
- Escolha você, Sandy. - Filé?
- Ótimo. - Ela não se tinha permitido um filé desde a Depressão.
Enquanto esperavam pela entrada dançaram ao som da música não de Freddy
Martin mas de Ted Fio Ritto, e a voz de uma loura de pernas longas
chamada Betty Grable. Sandy dançava muito bem. .. ela podia sentir os
músculos duros de suas costas sob o paletó. Jean tinha razão. . . Ele
era muito especial... Sandy notou que o garçom estava colocando na mesa
os filés.
- Acho que é melhor irmos nos sentar, ou nossa comida vai esfriar.
- Às suas ordens, Sargento.
- Está tudo perfeito - disse Sandy, de novo sentado defronte dela. - A
única coisa que falta é uma garrafa de bom vinho. É uma loucura, um país
que proíbe vinho.
- É mesmo.. .
Não mais precisavam puxar assunto de conversa, e olhar um para o outro,
dava-lhes mais prazer do que a comida. . . Quando a música recomeçou,
Nadine viu-se de novo nos braços dele, rodopiando pela pista de dança.
Gostava do que estava sentindo, do contato com o seu par. ..
Dançaram até o salão fechar. Quando ele a levou de volta à porta da
entrada do apartamento, dessa vez olharam longamente um para o outro,
ele sem saber se devia beijá-la, ela esperando que ele a beijasse.
Nadine entregou-lhe a chave, que ele fez rodar na fechadura e abriu a
porta. Agora estava do lado de fora e ela do lado de dentro.
- Foi uma noite maravilhosa, Sandy. Obrigada. . .
- Para mim, também. E já que hoje é sábado, que tal o próximo sábado?
- Acho que vou poder - disse ela, rindo.
- Ótimo. A que horas?
- Mesma hora, mesmo local. Boa noite, Sandy. Ele já ia se afastar,
quando ela o chamou.
- Sandy, quer devolver a minha chave?
Ele olhou para sua mão, depois soltou uma risada, ao entregar-lhe a
chave.
- Será que aqui nos Estados Unidos seria considerado um gesto
precipitado, Miss Blum, se eu lhe desse um beijo de boa-noite?
- Acho que aqui é a mesma coisa que na maioria dos outros países.
Tomando-a nos braços, Sandy beijou-a delicadamente, mas com firmeza...
Depois que ele se retirou, ela fechou a porta e ficou um momento parada.
“Acho que gosto de você, Sargento Sanders, acho que mais do que gosto de
você. Não estudou em Stanford ou Harvard, mas isso não é problema para
mim. . . porque acho que muita coisa se passa na sua cabeça que eu
gostaria de saber. E creio que vou acabar sabendo..."
Chegou a noite de sábado, e Nadine esperou, meio ansiosa. Quando a
campainha tocou, ela sentiu quase uma tonteira.
- Está pronta, Miss Blum?
- Desde as seis horas. - Ambos se puseram a rir.
Nos meses que se seguiram, eles passavam juntos os sábados e domingos,
fazendo longos passeios a pé ou almoçando em Salsalito e jantando no
Cais do Pescador. Uma noite, durante o jantar, Nadine perguntou:
- Gosta de San Francisco, Sandy?
- Adoro. É um dos lugares mais bonitos que já conheci.
- E certamente já conheceu muitos lugares...
- Se você acredita em posters. . . "Aliste-se na Marinha e conheça o
mundo."
- Era uma vida dura?
- Não, na realidade uma boa vida. Vi e fiz uma porção de coisas que, de
outra forma, nunca teria tido a chance de ver ou fazer, especialmente
quando rememoro o passado e penso de onde vim...
- E de onde veio você? Nunca falamos a sério sobre o passado.
- Talvez às vezes seja melhor não falar. . . O caso é que nasci na
Polônia. Minha mãe veio para a América. .. - Ele não ia contar-lhe que
logo após o seu nascimento, sua mãe fugira do seu pai... - onde abriu
um restaurante e ganhou modestamente a vida. Já lhe falei de meu irmão e
de sua família. E tenho, também, uma irmã, Gittel.
- Gittel? Esse é um nome que eu nunca tinha ouvido.
- Ela foi a única que não precisou modificar seu nome. Não posso
imaginar chamá-la de Greta.
Ele sorriu, e Nadine julgou o seu sorriso irônico, amargo mesmo.
- Bem, o fato é que, quando a guerra foi declarada, me alistei na
Marinha. Achei que era a classe de serviço militar com a farda mais
elegante. . . - Recordou a ocasião em que se alistara e Jacob lhe dera
uma ’surra.’ Para encurtar a história, quando a guerra terminou, não
consegui um emprego, por isso decidi fazer carreira na Marinha. - De
novo fez uma pausa, lembrando a lápide que encomendara. . . " À Amada
Esposa de..."
- O que o fez mudar de idéia, Sandy?
- Acho que me cansei de estar sempre viajando. Um dia acordei e decidi
que era hora de voltar para o meu lar. - Encurtara bastante a história.
Mas não seria melhor assim?. ..
- O que considera seu lar, Sandy? Agora ele a olhou atentamente. - Acho
que você é meu lar, Nadine.
Ela desviou os olhos e rolou entre os dedos umas migalhas de pão.
- Você nunca mencionou a palavra amor, Sandy. Ele lhe segurou a mão por
cima da mesa.
- Eu te amo, Nadine. ..
- Realmente me ama, Sandy? Não sei, mas tenho a sensação de que houve
alguém muito importante na sua vida, de quem você não se esqueceu...
"Não minta", disse ele para si mesmo.
- Houve sim, mas o que passou passou, e a vida continua.
- Isso ainda o faz sofrer?
- Sim. Ela morreu...
- Acha que pode voltar a amar alguém da mesma maneira?
- Provavelmente não. . . Mas o que sinto por você é amor, também. Pode
acreditar. . . Quero você, preciso de você...
Ela não respondeu.
- É claro que, delicado como sou, nem sequer perguntei a você se me
quer, também. Concordo que não sou um bom partido, mas de qualquer
maneira quero me casar com você e passar o resto de minha vida ao seu
lado. Quero tentar fazei de você a esposa mais feliz do mundo...
Nadine começou a chorar baixinho. Ele se chegou para junto dela,
ergueu-lhe o rosto e beijou-o.
- Case-se comigo, Nadine...
- Sim, Sandy. Meu maravilhoso, querido Sandy. . . Ele ergueu a xícara
de chá numa saudação. - Estou bebendo à Saúde de Sandy, um rapaz de
muita sorte, que vai acordar de manhã ao lado de Nadine, e não vai
entender por que teve tanta sorte. . . - Está bem, Sr. Soítudo. Agora,
por favor, cala a boca e leve a sua futura esposa para casa. Já
desperdiçamos muito tempo. . . Um mês depois eles se casavam no Templo
Emanuel. O casamento foi modesto - o Sr. Blum teve de fazer um
empréstimo - festejado com todo o charme e a graça que se poderia
esperar de Charles e Mildred Blum.
Esther, Gittel e respectivas famílias compareceram. Não tinham condições
de comprar as passagens porque a Depressão os deixara praticamente sem
naa. Mas Jacob mandou o dinheiro. A lembrança da maneira pela qual
Hershel os tratara em Cleveland não se tinha apagado, mas Jacob não ia
permitir que Esther deixasse de assistir ao casamento do seu caçula
querido.
Shlomo esperou junto ao altar por Nadine que se adiantava na nave pelo
braço de seu pai. O vestido dela era de organdi branco e o chapéu de
filó com fitas de cetim descendo-lhe pelas costas. A ocasião não era
para vestidos luxuosos. Shlomo a estreitou nos braços, quando foram
declarados marido e mulher. Nesse momento ele sentiu que realmente
voltara ao seu lar.
Doris chorou porque o seu bem-amado tio Shlomo a havia abandonado. E
Rachel mal podia olhá-lo, ao lembrar-se do momento horrível no quarto de
dormir, naquela noite alucinada. . . Apoiou-se no braço de Jim,
sentindo-te embaraçada e pensando que seria bem melhor se não tivesse
vindo ao casamento de Shlomo...
Por motivos sentimentais, o almoço nupcial foi servido no Saint Francis,
onde realmente começara o romance dos dois.
Durante o almoço Sara, do outro lado da mesa, não tirava os olhos dos
Blum. Apesar de suas roupas elegantes, ela não se sentia a gosto. Sabia
que jamais seria como a família de Nadine - Jean Morris era de uma das
consideradas melhores famílias de San Francisco. E "melhor" não era
pouca coisa... ’’ Esther chorou pensando que agora, depois de ter
presenciado aquele casamento, podia morrer em paz, e Gittel abençoou
Jacob pela sua bondade mandando buscá-los. Hershel, naturalmente, não
teve uma só palavra de agradecimento. Estava agora bem menos falante...
O almoço não demorou muito, e logo todos se enfileiraram nos largos
degraus do hotel para ver os recém-casados partirem em seu Chevrolet
verde para uma lua-de-mel de três dias em Carmel. . . De volta da
viagem, eles se instalaram num apartamento mobiliado na Rua Jones.
Nadine guardou seu lindo vestido de organdi em bolas de naftalina. Às
nove horas da manhã seguinte, ela compareceu ao trabalho na Ranshoffs e
Shlomo atravessou a baía, rumando para Hayward, mas os dois se sentiam
as pessoas mais ricas do mundo.
#break Capítulo Tinta e Nove
Às seis horas da manhã, Sara desceu apressadamente as escadas para
atender o telefone no vestíbulo.
- Sara, sou eu, Jim.
- É sobre Rachel? - perguntou ela, sobressaltada.
- Sim, você tem um neto.
- Não estou compreendendo - disse Sara com a mão trêmula. - Ainda
faltavam dois meses para Rachel. . .
Jim estava muito cansado, não queria explicar todos os pormenores. Mas
tratava-se da mãe de Rachel...
- Ontem à tarde ela entrou em trabalho de parto e o médico decidiu fazer
uma cesariana às três horas da madrugada.
- Uma cesariana? E você não me avisou de que Rachel estava no hospital
desde ontem? Jim, sou a mãe dela...
"Sim", pensou Jim, "como se eu não soubesse disso..."
- Achei que seria muito penoso para você e não vi razão para
incomodá-la...
- Oh, já entendi. - Ela se esforçou por controlar sua irritação. - Como
está Rachel?
- Muito bem, graças a Deus.
- E o bebê?
- É pequeno mas saudável.
- Acha que não há inconveniente de eu ir com Jacob ao hospital?
perguntou ela, cautelosamente.
Jim apertava com tanto nervosismo o fone que as juntas de seus dedos
pareciam brancas.
- Venham, sim, mas é melhor não hoje. . . Foi muito penoso para Rachel.
Será bom se vierem amanhã...
- Muito obrigada, é muita generosidade de sua parte.
Ele desligou, sem se despedir.
Então Rachel tinha tido um filho prematuro? Sara tinha suas dúvidas.
Suspeitava de que Rachel já estivesse grávida antes do seu casamento com
Jim Ross. Telefonou para o escritório de Jacob. - Companhia Hayward de
Carnes Enlatadas. - Quero falar com o Sr. Sanders. - Quem está falando?
- A Sra. Sanders.
- Lamento, Sra. Sanders. Ele está lá fora separando o gado. Pode levar
algum tempo...
Eram 11 horas quando Jacob telefonou para casa.
- Sara?
- Quem mais poderia ser?. . .
- Hoje foi um dia daqueles, Sara. Sim, o que houve, Sara? Estou muito
ocupado.. .
- Quando você não está muito ocupado? Sabe pelo que eu estou passando
desde as seis e meia da manhã?
- Está bem, Sara, qual é o problema?
- Rachel teve um filho.
- Um filho! - exclamou ele. - Isso é formidável. Como está Rachel?
- Muito bem...
- Então, qual é o problema?
- O problema? Rachel foi para o hospital ontem à tarde e o médico fez
uma cesariana às três horas da madrugada. Não me lembro de quando me
senti mais preocupada.. .
- Uma cesariana? Mas ela está bem?
- Muito bem... pelo que disse o seu genro.
- E o bebê?
- Pequeno, porém saudável.
- Oh, graças a Deus.
- Foi o que disse o seu genro. . .
Ele realmente não podia compreender Sara. Era o seu primeiro neto e ela
parecia aborrecida.
- O que há com você, Sara?
- Não sabe?
- Sei o quê?
- A criança é de sete meses. Não sabe o que isso significa?
- O que significa?
- Que ela devia estar grávida quando se casou. Talvez seja por isso que
não nos avisou logo que foi para o hospital, mas ainda assim. .. Nós
somos os avós, e ele não achou que devíamos estar presentes no
nascimento de nosso primeiro neto. Mas o que se pode esperar de um velho
goyl
Sara estava estimulando o ressentimento que Jacob já alimentava contra
Jim; mas ele tentou abafá-lo.
- Jim não deu uma razão para não nos ter avisado antes?
- Claro. Achou que seria muito penoso para mim, Não foi uma grande
consideração?
- Essa agora.. .
- Bem, pelo menos você já sabe o motivo de eu estar tão contrariada.
- Sim, compreendo.. ,
- Eu queria ir ao hospital hoje, mas fui aconselhada a não comparecer.
Você já imaginou uma coisa dessas? Manter os avós afastados? É a coisa
mais cruel de que já tive notícia.
- Pois se é isso que ele quer, é isso que vai ter. Não irei ao hospital.
- - Concordo com você, Jacob. É o agradecimento que recebemos por termos
sido bons pais. O Sr. Jim Ross acha que não estamos à altura dele. - Ele
vai ver que não é bem assim. . . e Rachel devia ter insistido para que
fôssemos. . .
- Mas agora você já sabe.
Jacob ficou tão contrariado que mal pôde trabalhar o resto do dia. Tinha
um neto, e sua filha e o marido não queriam que ele compartilhasse o
prazer daquele nascimento. Era difícil acreditar. Terrível...
Sentado numa cadeira ao lado da cama de Rachel, Jim estava esperando que
ela acordasse. Abrindo os olhos, ela lhe estendeu a mão.
- Está feliz, meu querido? - perguntou corh voz fraca.
- Mais do que nunca em toda a minha vida - disse ele, afagando-lhe os
cabelos. - Temos um filhinho lindo e ele tem uma linda mãe.
- Telefonou para minha mãe?
- Telefonei. ..
- E então? Ela ficou feliz? - perguntou Rachel, com um meio sorriso.
- Muito, muito feliz, meu amor. . .
- E ficou contente de ser um menino?
- Radiante.
- Ainda bem. . . E sei que meu pai se sentirá orgulhoso. Sempre quis que
fôssemos meninos.
- Pois fico bem contente de ele não ter tido o que queria.
O quarto de Rachel estava cheio de flores enviadas por amigos e relações
de Jim, mas, estranhamente, nada de sua família. Nem mesmo um
telefonema. Ela e Sara nunca tinham tido uma relação fácil, mas que sua
mãe a ignorasse nesse momento era incrível, Quem sabe ela estaria
doente, e ninguém tivesse querido lhe contar? Passaram-se três dias. .
. Rachel pediu à enfermeira que lhe passasse o telefone. Após seis
toques, finalmente Sara atendeu.
- Mamãe, sou eu, Rachel.
- Oh, Rachel... que amabilidade sua me telefonar.
- O que houve, mamãe? - Rachel estava em lágrimas.
- Você não sabe? - Sei o quê?
- Que seu marido nos disse que não fôssemos ao hospital?
- Não acredito. .. - disse Rachel, engolindo as lágrimas. - Ah, então
está dizendo que é mentira minha?
- Não posso imaginar Jim dizendo...
- Os pais têm sentimentos como qualquer outra pessoa, como você um dia
ainda irá constatar.
Rachel estava trêmula. - Deve ter havido um mal-entendido.
- Não creio. Quando pedi para ir vê-la, seu marido disse que eu não
fosse. Além do mais, sempre pensei que fosse uma questão de cortesia os
pais serem chamados quando uma filha é levada para o hospital...
- Mamãe, tudo aconteceu tão de repente. Não tivemos tempo para nada...
- Não importa, Rachel. É óbvio que deixamos de ter importância na sua
vida.
Apesar de si mesma, Rachel sentiu-se culpada.
- Peço desculpas por não ter avisado a vocês. Acho que foi errado. . .
Silêncio.
- Por favor, mamãe, venha ver o meu filho.
- Terei de falar com seu pai. Tenho de levar em conta, também, os
sentimentos dele. Mas, diga-me, Rachel, como está passando?
- Muito bem, mamãe, muito bem.,.
- Folgo muito em saber disso. E o bebê?
- É lindo.
- Iremos vê-la esta noite.
Quando Rachel desligou, estava chorando quase histericamente e só se
acalmou com um sedativo.
Quando Jacob viu o bebê pela vidraça do berçário, mal conseguiu resistir
ao desejo de tomá-lo nos braços. Seu neto. . . Parecia que era ontem que
Rachel ia esperá-lo na estação do metrô. . . Meu Deus, como tinham
passado os anos? Olhando para Jim, ele pensou "velho de sorte ter um
filho e uma linda e jovem mulher como Rachel". Mas, que diabo, essa era
uma situação diferente, época diferente. .. Eles nunca tinham conhecido
a fome e as necessidades de uma mera sobrevivência. Ninguém lhe deixara
de herança uma usina de aço. Ele tivera de- lutar para sair da sarjeta e
o fizera com as suas duas mãos e a, sua cabeça. . . Mas não era bom que
o seu neto não tivesse de lutar como o avô?
No dia seguinte Doris foi ver Rachel. Beijou-a e sentou-se na poltrona
de couro amarelo.
- Está tão linda, Rachel, com essa liseuse azul. ’
- Obrigada, Doris. Por que esperou tanto tempo para vir ver-me?
- Ainda não sabe como são mamãe e papai, Rachel? Quando eles se zangam,
nós temos de os acompanhar.
- Eu sei. . .
- Desde que você se casou, ela simplesmente não me deixa em paz - disse
Doris, com um suspiro. - Você teve sorte de escapar. . .
- Tive sorte em tudo, mas um dia você irá encontrar, também, a pessoa
certa e. . .
- Eu? Quem vai querer se casar com a gorda Doris? Estou com 17 anos e
até hoje não tive um namorado. Na semana que vem vou receber meu diploma
do curso secundário e todo o mundo foi convidado para o baile de
formatura exceto esta sua irmãzinha.
- Não vai aborrecer-se se eu lhe disser uma coisa, Doris?
- Sei o que vai dizer. Por que não emagrece, Doris? Não era isso?
- Sim, era. . . Por que não tenta?. ..
- Já tentei, Rachel, juro que tentei. Mas, toda a vez que mamãe começa a
me perseguir por causa da minha dieta, saio para comprar uma dúzia de
barras de chocolate.
- Não faça dieta por causa dela, Doris, mas por você mesma.
- Por mim mesma. . . certamente. E quanto a você, Rachel? Como é que,
agora que está casada e não precisa deles para nada, ela continua
perseguindo você? Teve de implorar para que eles viessem ver o próprio
neto. E até me dá vontade de rir. Supostamente, é papai quem manda, mas
manda coisa nenhuma. . . Ela faz dele gato e sapato. Pode torcer
qualquer coisa que lhe convenha, e ele nem percebe. Não os compreendo de
forma alguma.
- Eu sei. . .
- Então por que você ainda agüenta isso?
- Jim, também, me faz a mesma pergunta, mas não posso explicar, Doris.
Eu nunca devia ter telefonado para mamãe. Tenho raiva de mim mesma por
estar sempre cedendo, sempre me sentindo culpada. . . mas não vai
tornar a acontecer. Desta vez decidi. . .
- Você tem mais fibra do que eu jamais tive. Pensei que a minha única
chance de sobreviver era ficar de boca calada. E é o que continuo
fazendo, embora não adiante muito. . .
- Oh, esqueça-os, Doris. O que vai fazer depois de se diplomar?
- Isso é o que não sei. Lembra-se de que eu ia ser uma estrela de
cinema? - E Doris soltou uma risada. - Agora esta gorducha vai procurar
um emprego. Engraçado, não tenho ambição de fazer coisa alguma. E mais
engraçado ainda é que eu tenha conseguido terminar o curso secundário. A
verdade é que sou a mais moça da classe porque mamãe mentiu a respeito
de minha idade, quando entrei para a escola. Imagine só, a burra da
Doris conseguiu passar nos exames.
- Doris, por que não entra para o curso de secretariado?
- Sim, e quem vai pagar o curso? Papai? Estou farta de ter de pedir
trocados. Propus uma mesada de cinco dólares por semana...
- E então?
- E papai disse: "Para que precisa você de uma mesada, não tem comida
suficiente?" E continuou repetindo as mesmas coisas que temos ouvido a
vida inteira. Ele continua sem compreender. Finalmente eu disse: "Tem
toda a razão papai." Para que discutir?
- Por que não se matricula numa escola noturna e faz um curso? Foi o que
eu fiz.
- Você tinha mais ambição. Seja lá como for, acabarei arranjando um
emprego qualquer. Basta de vida dura para Doris Sanders... Você está
mesmo feliz, Rachel?
- Mais do que lhe posso dizer. ..
- E realmente ama Jim. Isso eu posso ver.
- Achou que eu não o amava?
- Não, a princípio. ..
- Pois bem, fique sabendo que adoro Jim
- E sempre o adorou?
- Não no começo, mas logo depois. Ele é a melhor coisa que jamais
aconteceu na minha vida. Ou jamais acontecerá...
- Fico contente por você. Deve ser formidável.
- É sim, e vai acontecer com você... Doris estourou numa risada.
- Quer apostar?
- Quero.
- Está bem, seis barras de chocolate.
- Feito.
#break Capítulo Quarenta
Na noite do baile de formatura, Doris, deitada ria cama, pensou nas
colegas em seus longos vestidos brancos, esperando pela chegada de seus
acompanhantes.
- Puxa vida, Gladys, você está maravilhosa. . . aqui tem o seu buquê.
- Oh, Howie, que lindo! Amarre-o no meu pulso.. . Boa noite, mamãe,
papai.
- Divirta-se, Gladys, e você, Howie, guie com cuidado. - A porta da
frente se fecha.
- Ela não estava bonita, Willie?
- Imagine nossa filhinha... igualzinha à mãe.
- Oh, foi o que você me disse, quando veio me buscar para o nosso baile
de formatura. ..
- Você está com o carro de seu pai!
- É, papai é formidável. . . Mas, Gladys, você está mesmo uma beleza.
- Oh, Howie...
- Gladys, vamos parar um pouco na alameda dos namorados. Estou com um
frasco cheio da bebida predileta de meu pai.
- Está pingando no meu vestido. .. Howie! Tire as mãos de meu...
- Não fale agora, Gladys...
Doris começou a chorar. Sua vida não tinha jeito. Era sem finalidade e,
embora não lhe faltassem desejos, não havia nenhum Howie no horizonte...
Doris arranjou um emprego na loja de roupas Goldman’s com horário de
nove às cinco. Passava seis dias da semana de pé, e a única coisa que
tornava a vida tolerável era a sua hora de almoço e o cinema aos
domingos. Nos sábados à noite ela voltava para casa, comia, tomava um
banho, e ia deitar-se para ler revistas de cinema. Era melhor do que
ser vista sozinha na tradicional noite dos namorados.
Quando chegou o seu aniversário em janeiro, ela já sabia mais sobre
Hollywood do que a colunista Louella Parsons. Mas o fato é que não era
Louella Parsons, continuava sendo a gorda Doris e passava mais uma
solitária noite de Sábado. Já com 18 anos, continuava sem nenhuma
perspectiva de romance. Aos 40 anos, provavelmente ainda estaria
morando na casa dos pais. Meu Deus, o que iria acontecer, se mamãe e
papai morressem? Tinha medo até de pensar nisso. Ficaria completamente
só. Rachel tinha Jim e o pequeno Larry. Lillian estaria casada, e
provavelmente nessa época já avó. E a gorda tia Doris estaria indo da
casa de uma à outra para as ceias de domingo, porque todo mundo teria
pena dela. E quando saísse, iriam suspirar de alívio, solteironas são
tão chatas...
Desceu à cozinha e se serviu de um grande copo de leite, apanhou uns
biscoitos de chocolate, que guardava escondidos, e devorou-os. Pelo
menos essa noite não tinha de temer represálias. Mamãe e papai tinham
ido a uma boate com Nadine e Sandy para comemorar o aniversário de
casamento do Sr. e Sra Blum. A toalete de mamãe essa noite era
realmente o máximo. Se ela emagrecesse mais um pouco poderia tomar um
banho de chuveiro sem se molhar. E Lillian fora à reunião das
bandeirantes.
Ao terminar o último biscoito de chocolate, ela sentiu como se sua vida
fosse uma longa noite de solidão. Ao diabo tudo...
Doris estava almoçando macarrão com queijo na sua lanchonete habitual.
Sentada diante dela na longa mesa em comum, viu uma jovem de mais ou
menos sua idade, mas com no mínimo uns 15 quilos a menos que tomava um
sorvete com calda quente de chocolate e creme Chantilly. Meu Deus, que
injustiça. Como era possível que certas pessoas pudessem comer de tudo
e nunca aumentar um quilo? Tinha de ser glandular, não havia outra
explicação. Rachel tinha sido criada com dieta de amido e gorduras, que
mamãe costumava fazer quando comida era o centro da existência da
família, e jamais aumentara de peso Doris estava convencida de que a
gordura era uma doença, que nunca havia sido pesquisada pelos médicos.
- Puxa, aposto que você nunca teve problema com o seu peso - disse ela à
jovem na sua frente.
- Na verdade, foi justamente o contrário. Tenho de comer para manter a
minha pele sobre os ossos. Detesto ser tão magra assim.
Na certa Deus se confundira, quando andava distribuindo os corpos. A
jovem tinha de comer? Que castigo...
- Sim, deve ser duro.
- E é mesmo. Odeio vestir uma roupa de banho. Sinto-me como Olívia
Palito, a namorada de Popeye.
- E eu odeio vestir uma roupa de banho porque pareço um zepelim.
- Por que não existe nunca um meio-termo?
- Nunca ouvi uma observação mais acertada. ..
- É, mas agora tenho de voltar ao trabalho.
- Então, até logo. Gostei de conhecer você.
A jovem magra fez-lhe um gesto de despedida e Doris suspirou, vendo
desaparecer Tamanho 36. ..
Desde então, as duas se encontravam frequentemente ao almoço e ficaram
se conhecendo bem. Espantosamente, descobriram que faziam anos no mesmo
dia. Mas era a única similaridade. Murial nascera em Oakland, e sua
família era muito conhecida na comunidade judaica. Os Silverman eram
membros preeminentes do Templo Sinai, sendo que o avô de Murial
estivera presente na ocasião em que fora colocada a pedra fundamental do
Templo.
Mas os desníveis sociais das duas garotas muito pouca diferença faziam à
sua amizade. Doris finalmente encontrara uma amiga, e sua devoção a
Murial não tinha limites.
O Sr. Silverman era um homem de fala mansa, esbelto, educado. A Sra.
Silverman era uma mulher suave, cuja natureza compreensiva fazia com que
as suas quatro filhas sentissem o valor de suas individualidades.
Sylvia, a mais velha, parecia em suas maneiras com o pai. Tinha 23 anos
e não era especialmente atraente, mas o amor de seus pais lhe haviam
dado uma compostura interior e exterior que compensava o seu físico.
Namorava Henry Levin, um médico, havia três anos, mas sua família
continuava garantindo-lhe que cedo ou tarde ele lhe faria o pedido.
Tudo o que precisava era estabelecer-se com uma clientela particular.
Afinal, tinha apenas 33 anos, e médicos eram sempre os primeiros a serem
chamados e os últimos a serem pagos. A família aconselhava Sylvia a ter
paciência, e Doris achava que era um bom conselho. Doris nunca chegara a
conversar com o médico, mas ele lhe parecia uma boa pessoa. Sempre a
cumprimentava, quando a encontrava na casa dos Silverman, e parecia
apreciar as suas piadas.
Janice, 18 meses mais moça, era muito solicitada pelos rapazes, mas
ninguém ainda lhe propusera casamento. Apesar do fato de ser ela a
beldade das quatro irmãs.
Alice, de cabelos ruivos, era namorada de Martin Gold, o filho do
peleteiro. Não havia intenções da parte dele, mas a época era da
Depressão e em geral os rapazes não pensavam ou não podiam pensar em
casamento.
Murial tinha muitos amigos, dava muitas festinhas, mas a sua vida social
não ia além disso. De quem ela gostava era de Sidney Stein, mas embora
houvesse pouca chance de algo concretizar-se nesse sentido, Murial
continuava tentando. . .
Doris adorava as noites que podia passar na companhia de Murial. As duas
deitavam-se na cama de Murial e davam vazão às suas fantasias sobre os
rapazes.. . sobre a delícia de ser a Sra. . .
Agora Doris tinha uma amiga com quem partilhar seus sonhos, e toda uma
família que gostava dela e ria de suas brincadeiras. A sua vida
decididamente adquirira novos interesses. Passou a fazer dieta de
verdade, e, milagre dos milagres, perdeu cerca de 10 quilos. Foi uma
tortura, mas ela conseguiu.
Mamãe disse que, perdendo mais uns 15 quilos, ela iria assumir uma forma
humana.
Murial trabalhava na camisaria de seu pai e tinha folga aos sábados, mas
isso era um problema para Doris, que trabalhava seis dias por semana e,
em conseqüência, não podia ir ao chá dançante no Hotel Saint Francis
nas tardes de sábado.
Depois de ouvir as histórias de Murial e de Eva Kahn sobre aqueles pares
maravilhosos que as faziam rodopiar pelo salão, Doris estava desesperada
para ir aos chás dançantes. Finalmente, avisou num sábado de que estava
doente - azar se lhe seriam descontados três dólares - e juntou-se a
Murial e Eva.
Paramentada num vestido estampado marrom e verde-claro e um chapeuzinho
com véu, ela se sentou muito excitada à mesa e ficou vendo os rapazes
virem tirar as moças para dançar. Ignorou o prato de pequenos
sanduíches sobre a mesa. Estava esperando por alguém que iria entrar em
sua vida.
A magricela Murial foi levada para a pista de dança, em que Eva, a Clara
Bow do novo círculo de amigas de Doris, já estava voltejando nos braços
de um rapaz alto com os vestígios de acne adolescente.
De repente Doris sentiu que era apenas uma espectadora. Não estava com
inveja de nenhuma de suas duas amigas, não realmente com inveja, só
muito aborrecida. Para que diabo tinha perdido 10 quilos! Era essa a
sua recompensa pelos sofrimentos da fome e pelas noites passadas quase
em claro, quando seu estômago se punha a roncar insistentemente?
Diminuíra dois números em seu manequim e pesando 54 quilos, embora
tivesse apenas l ,56m e ossos grandes como seu pai, julgava-se
razoavelmente esbelta. Todos tinham elogiado o seu esforço - exceto
mamãe, naturalmente. Mas nesse caso, talvez mamãe tivesse razão.
Engolindo lágrimas de raiva, ela estendeu a mão para os apetitosos
sanduíches de pepino e maionese. Murial estava tão entretida dançando,
que na certa não teria tempo de comer o seu. . . Devorou-os juntamente
com chá com açúcar. O que havia de errado com ela? Tinha até mandado
cortar o cabelo curto e ondulado em pequenas ondas e aprendera
cuidadosamente a usar o batom escuro como Joan Crawford. "Bem, Doris",
murmurou para si mesma, "não adianta você se enganar " E continuou
ignorada em sua cadeira, vendo passarem pela sua mesa quadris e pernas
e braços que se movimentavam. ..
- Imagem só - disse Eva, quando elas se achavam na barca de volta a
Oakland. - Um sujeito me convidou para sair e me deu o seu cartão.
- E você aceitou? - perguntou Murial.
- Está maluca? Dê só uma espiada no nome...
Murial apanhou o cartão, e Doris espiou também conseguindo ler: "Timothy
McCarthy, Advogado."
- Como é que ele conseguiu entrar nessa profissão? - disse Muria rindo.
- Pensei que fosse proibida a judeus.
- Azar, o certo é que tomou o bonde errado. - Eva picou o cartão em
pedacinhos e deixou-os voar na brisa salgada. - Aí se vai a minha última
chance de ser mãe.
Doris sorriu, apesar de sua depressão.
- Com a sua sorte e seu físico, eu não me preocuparia... Nessa noite,
ela resolveu não passar em casa de Murial. Puxa, ela tinha direito a uma
compensação.
Dirigiu-se a uma lanchonete, onde pediu um banana split com uma fatia de
bolo de chocolate e café. Esperava que aquela farra gastronômica fosse
uma maravilha após meses de dieta, mas não o foi. Tomou um bonde e,
quando chegou a casa, foi para o seu quarto e passou o resto da noite
chorando. No dia seguinte recomeçaria a dieta. Nessa noite comeu até
não poder mais.
Em fevereiro, Muriel anunciou que ia dar uma festa de aniversário de
surpresa para Sylvia. - Mas como é que vamos enfeitar a casa com bolas
de gás e serpentinas, sem que ela perceba? Não vai ser fácil...
Doris pensou cautelosamente.
- Se eu conseguir o consentimento de minha mãe, acha que poderíamos dar
a festa em minha casa?
- Que boa idéia! Podíamos levar de manhã a comida para lá, trabalhar o
dia todo e você diria a Sylvia que está preparando uma festinha. Oh,
Doris, você é um gênio!
- Preciso primeiro perguntar à minha mãe...
- Acha que ela vai deixar?
- Bem, vou tentar. ..
- Obrigada, e diga-lhe que ela não tem de fazer absolutamente nada.
Deixaremos tudo limpo antes de sair.
- Claro, bem, vou falar com ela.. .
Sara começara um regime severo de exercícios. Sentada na beira da cama
de sua mãe, Doris assistia à ginástica, enquanto lhe explicava a
respeito da festa.
- Não seja ridícula, Doris. Acha realmente que vou permitir que uma
garotada venha aqui estragar os meus móveis?...
- Mamãe, não se trata de garotos. Sylvia vai fazer 24 anos. Além disso,
Muriel e sua família têm sido muito bons comigo. Acho que é o mínimo que
posso fazer.
Sara enxugou o suor do rosto e olhou para Doris que continuava falando.
- Além do mais, mamãe, nunca tive uma festa. - Bem, mas a culpa não é
minha. Você nunca teve amigos. - Pois agora tenho. Posso dizer a Murial
que você permite? Sara hesitou. Devia cobrir os móveis? Doris, na
realidade, pedia tão pouco...
- Se eu der permissão, pode me garantir que ninguém vai fumar ou se
portar mal?
- Sim, dou minha palavra.
- Está bem. Com uma condição... não deixe ninguém pôr os pés sobre as
poltronas.
- Prometo. Muito obrigada, mamãe. Muito obrigada mesmo.
As moças tinham ido à casa de Doris para ajudar nos preparativos da
festa e, no final de um dia de correrias, todas se apressaram em voltar
a suas casas para tomar um banho e se vestirem.
Doris ficou pronta meia hora antes em seu vestido longo de gaze bege com
uma faixa de tafetá cor-de-rosa na cintura, que terminava nas costas com
um comprido laço. Algum entendido em modas dissera que laços grandes
disfarçavam muitos pequenos pecados...
Às sete horas em ponto a campainha tocou; Doris desceu correndo as
escadas e cumprimentou nervosamente seus convidados à primeira festa de
sua vida.
A campainha continuou tocando, e Sara, no alto da escada, não podia
prever quanto tempo aquilo iria durar...
Finalmente, Murial chegou com Sid e, entrando na sala de estar, reuniu
todos à sua volta.
- Agora, quando a campainha tocar e Sylvia e Henry chegarem, esperem até
Doris apanhar seus capotes e, quando eles entrarem na sala, todo mundo
vai cantar "parabéns pra você".
Dali em diante, tudo aconteceu conforme planejado. Sylvia e Henry
chegaram às sete e meia; a aniversariante ficou sinceramente surpresa e
contente por a festa lhe ser oferecida. Estava mais do que nunca
consciente de que continuava solteira, especialmente depois de abrir
muito excitada uma caixinha, que Henry lhe entregou, e encontrar
somente um pequeno broche de turmalina. Mas era o seu aniversário, e ela
estava decidida a divertir-se com a família e os amigos que lhe haviam
preparado aquela homenagem. A sua surpresa e satisfação animaram a
festa. A vitrola começou a tocar as últimas músicas de dança. Alguém
trouxera os discos daquele maravilhoso novo cantor, Bing Crosby, e
antes que Doris pudesse protestar o ponche foi batizado com álcool. Ela
rezou para que sua mãe não se lembrasse de provar o ponche. Mas,
pensando melhor, era pouco provável. Mamãe sair de sua dieta? Nem mesmo
se estivesse recebendo o Príncipe de Gales. Os sanduíches não tardaram
em ser devorados, e as moças foram para a cozinha preparar uma outra
leva, enquanto Doris montava guarda para vigiar que ninguém fumasse. A
sala estava à meia-luz e, como não fosse bastante grande para 20 pessoas
dançarem ao mesmo tempo, havia um pouco de agarramento pelos cantos.
Pearl Grossman, sentada graciosamente no sofá sobre uma pema, ria,
enquanto Ben Schwartz tentava alcançar seus lábios. Quando ele
finalmente conseguiu, sua respiração tomou-se ofegante, como se ele
estivesse sofrendo um acesso de sinusite. O mais diplomaticamente que
pôde, Doris pediu a Pearl que tivesse a bondade de manter os dois pés
no chão - um pedido que visivelmente desagradou a Ben Schwartz que
estava justamente se preparando para enfiar a palma suarenta no decote
de Pearl.
A noite não estava sendo nada divertida para Doris. Queria muito que a
festa fosse um sucesso, mas a preocupação com as advertências de sua mãe
tornavam-na mais policial do que anfitriã. Exausta, pôs-se a tomar
copos e copos de ponche. . . Ao diabo a dieta, pensou, hoje ia comer um
pedaço de bolo.
- Quer dançar? - perguntou Henry.
Doris olhou em redor para ver a quem Henry se estava dirigindo, mas só
podia ser para ela. Sylvia dançava com Mel Harris, que era o único par
de sobra. E Mel, como ela própria, não estava vencendo a competição.
Usava óculos grossos e era muito magro para a sua altura. Mel e Doris
tinham-se tomado conhecidos como os reservas.
- Quer dançar, Doris?
Ela o fitou. Era alto e devia pesar menos de 60 quilos. Um peso que ela
não tinha há muitos anos. Tinha os cabelos pretos encaracolados e um
bigode bem-aparado, além de um rosto simpático e um sorriso meigo.
Nessa noite, vestido com uma roupa azul-marinho e camisa branca, não
parecia ter 33 anos. E tampouco parecia deslocado na festa, embora os
outros rapazes tivessem apenas 20 e poucos anos. Talvez fosse apenas o
ponche que Doris tinha tomado, mas sentiu que as coisas começavam a
melhorar para o seu lado.
- Com muito prazer - respondeu ela. E como. . .
De repente, sentiu o braço de Henry em redor de sua cintura, e milagre
dos milagres, estavam dançando.
- Está bonita esta noite, Doris.
Devia ser a penumbra, ou talvez ele fosse muito vaidoso para usar óculos
e preferia tropeçar pela vida afora. Se era esse o caso, Doris
certamente não iria querer que ele lhe arrancasse as amígdalas.
- Obrigada, Henry. É muita gentileza sua dizer isso. . .
- Mas é a verdade, e eu sempre achei isso.
Talvez fosse Henry que tivesse tomado muitos ponches. Ou talvez os
homens aos 33 anos começassem a se tornar senis. Agora ela se sentia
tremendamente embaraçada, e repetiu as mesmas palavras.
- Obrigada, Henry. . .
- O que vai fazer amanhã?
Ela lhe pisou o pé e imediatamente receou ter-lhe quebrado um dedo. Ele
não iria poder operar nenhum paciente na segunda-feira. - Desculpe,
Henry. . . - Não doeu.
- Ainda bem. . .
- Mas a respeito de amanhã. Eu gostaria de sair com você.
Devia haver casos de insanidade na família dele. Ela olhou para Sylvia,
que dançava aquela rumba ao som de um disco de Paul Whiteman. Os
Silverman há três anos vinham preparando o enxoval de Sylvia a fim de
que ela estivesse pronta no mesmo instante em que Henry, num momento de
fraqueza, a pedisse em casamento.
- Acho que não, Henry.
- Por quê?
- Porque você está noivo de Sylvia. . .
- Quem disse isso?
- Bem, há muito tempo vocês estão namorando a sério.
- A sério? Quem lhe disse isso?
- Não é verdade?
- Não que eu saiba. . .
Seria possível que Sylvia nada tivesse dito a ele?
- Você está namorando firme Sylvia há três anos, Henry - disse ela,
indignada.
- Firme? Simplesmente saio às vezes com ela.
- Bem, de qualquer forma, Henry , não posso fazer isso.
- Por causa de Sylvia?
- Sim. . . Além disso, Murial é minha melhor amiga e não seria direito.
- Se eu tivesse alguma intenção a respeito de Sylvia, não levaria três
anos para me decidir.
Se Doris algum dia sentiu gratidão pela mãe, foi naquele momento, quando
ela murmurou ao ouvido da filha:
- Está na hora de acabar a festa. Seu pai está reclamando do barulho.
- Tudo bem, mamãe. . . Com licença, Henry. Sara retirou -se e Doris foi
procurar Murial.
- Escute, meus pais acham que já está na hora de acabar a festa. Lamento
muito.
-Nenhum problema, de qualquer modo todos querem ir agora ao Checker’s
para comer waffles.
Murial subiu na poltrona de mamãe, o que quase fez Doris desmaiar, e
anunciou:
- Muito bem, minha gente, acabou a festa.
Doris ficou contente por tudo ter corrido bem na festa. Mamãe e papai
tinham sido muito camaradas. Mas agora ela estava exausta, e
sinceramente aliviada por se ver livre de Henry. - Você não vem
conosco, Doris? - perguntou Murial. - Não, acho que não, Murial. - Ora,
vamos - Não, sinceramente não - Você foi formidável Não sei como lhe
agradecer... e Sylvia ficou tão feliz... Ao saírem, todos disseram que a
festa tinha sido ótima, Doris ótima, o ponche ótimo... Sylvia beijou-a,
depois disse: - Nunca hei de me esquecer de como foi maravilhosa esta
festa. Você é um amor, Doris. Amanhã a gente se vê. - Sim... boa noite,
Henry.
- Boa noite Tem certeza de que não quer ir conosco?
- Sim, tenho certeza, Henry, mas obrigada.
Quando a porta se fechou, Doris apoiou-se nela, tentando lembrar-se do
gosto dos waffles com manteiga e geléia. Afastou o pensamento, apagou as
luzes e trabalhou até quatro horas da manhã pondo a casa em ordem.
Finalmente, às quatro e meia, foi para a cama, pensando que mau-caráter
era o Dr. Henry Levin. E tinha de ser ele o primeiro homem que a
convidara para sair...
Eram 10 horas da manhã, quando Lillian entrou no quarto de Doris.
- Doris, levante-se - anunciou ela - Tem um homem no telefone que quer
falar com você.
Ela se sentou bruscamente na cama.
- Qual e o nome dele?
- Dr. Levin.
Ela hesitou, depois
- Está bem, diga-lhe que vou atender.
Foi até o banheiro lavar o rosto para livrar-se do sono, depois desceu
vagarosamente as escadas e apanhou o fone.
- Lamento, mas já temos um médico de família.
- Você não está sendo muito gentil, Doris. Telefonei para convidá-la
para sair comigo.
- A resposta continua sendo não, Doutor.
- Escute, Doris, se eu achasse que estava cometendo algo errado, não lhe
telefonaria. Mas não estou namorando a sério Sylvia nem ninguém mais.
- Mas vem saindo com ela há três anos.
- E muitas outras moças. Sylvia sabe disso.
Doris fez uma pausa, realmente desejando aceitar o convite, mas ainda se
sentindo muito culpada. Lillian estava bastante perto para compreender o
que se passava, e sussurrou.
- Aceite, aceite...
Doris fez-lhe sinal para que se calasse. Queria ter tempo para pensar.
- Telefone-me dentro de meia-hora. Estou acabando de acordar.
- OK., daqui a meia hora
Doris encaminhou-se a passos lentos para a cozinha, onde sua mãe estava
comendo sua toranja, sentou-se à mesa apoiando-se em ambos os cotovelos,
pensando em como mamãe podia comer uma fruta tão ácida, sem açúcar.
- Quero cumprimentá-la, Doris. A casa estava imaculada esta manhã. Eu me
preocupei, mas devo dizer que você cuidou de tudo melhor do que eu
poderia imaginar.
Talvez mamãe estivesse se abrandando em sua idade magra. Era o primeiro
elogio de que Doris podia se lembrar na vida. - Obrigada por dizer-me
isso, mamãe.
- Mas é verdade, e acho que suas amigas foram formidáveis por terem
ficado para ajudá-la, como tinham prometido.
- Sim, elas foram formidáveis.
- O que houve? - perguntou Sara, continuando a comer sua toranja Como
Doris permanecesse calada, Lillian respondeu por ela.
- É o tal médico que quer sair com Doris, e ela não quer...
- Urn médico a está convidando e você não quer ir? Doris lançou um
olhar furioso a Lillian. - Você é uma linguaruda, Lillian. Este é um de
seus defeitos mais lamentáveis. - Eu ouvi direito? - insistiu Sara. -
Você não quer sair com um médico?
- Isso mesmo. ..
- Mas por quê? Recebeu algum convite de Cary Grant?
- Não está compreendendo, mamãe. A linguaruda aqui não lhe disse que ele
está praticamente noivo de Sylvia Silverman.
- Praticamente! Ern vez de levar você a um médico dietista, eu devia
levá-la a um psiquiatra para examinar sua cabeça. É assim tão popular
que se dá ao luxo de desprezar um convite, e ainda por cima de um
médico?
- Mamãe, eu acabei de dizer.
- Sei o que você disse, Mas, se ele estivesse tão louco por Sylvja, não
estaria telefonando para você. Há quanto tempo eles vêm saindo juntos?
- Três anos.
- Três anos! Meu Deus, como pude ter uma filha com tão pouco miolo?
Quando um homem quer se casar com uma moça, não fica shlep com ela
durante três anos
- Mas Murial é minha melhor amiga e não seria direito.
- Ao diabo com o que seria direito, Murial não vai ser seu marido. Doris
se chocou. Marido? Ela não tinha nem saído com ele...
- Mas não vou aceitar.
- Vai, sim, Doris. Certamente que vai...
Quando o telefone tocou, Doris recomendou a Lillian que dissesse a Henry
que ela estava doente.
- Vá até aquele telefone, Doris, e diga-lhe que aceita com muito prazer
o convite.
Doris continuou sentada, olhando para sua mãe. Será que ela nunca tinha
ouvido falar em lealdade para com os amigos?
- Pense bem - disse Sara. - Quando você finalmente se decidir a ir até o
telefone, ele é capaz de ter mudado de idéia e resolvido convidar
Sylvia.
"Eu é que devo tomar minhas decisões", pensou Doris, mas sabia que sua
mãe não lhe daria um momento de paz, se ela não saísse com Henry.
Impacientemente, apanhou o fone.
- Alô, quem fala? - Como se ela não soubesse...
- Henry. Henry Levin.
- Ah, sim. Dr. Levin?
- Você me disse para telefonar de novo...
- E daí?
- Como eu já disse, gostaria de convidá-la para sair. Não vou dizer de
novo...
- Está bem, Henry...
- O que? Oh, muito bem. .. O que gostaria de fazer?
- Qualquer coisa. . . - "O que se faz com um homem numa tarde de
domingo?" Lillian linguaruda. Mamãe sempre forçando. Pobre Sylvia. . . -
Não sei, Henry, prefiro que você sugira alguma coisa.
- Bem, pensei que seria agradável ir de carro pela costa até Santa Cruz
e almoçar lá.
Tudo parecia girar em tomo de comida. O que devia ela fazer, sentar-se à
mesa e ficar olhando? Tinha certeza de que depois da noite passada devia
ter ganho uns quatro quilos. Meu Deus. .. mas tinha de lhe dar uma
resposta.
- Parece uma boa idéia.
- A que horas posso apanhá-la? "Dentro de vinte anos."
- Ao meio-dia está bem?
- Ótimo.
- Sim, ótimo. Bem, então até mais tarde.
- Estou ansioso por vê-la, Doris...
O sujeito positivamente não regulava bem da cabeça.
- Obrigada. Então até o meio-dia.
Doris voltou-se e viu sua mãe e sua irmã de sentinelas atrás dela. Sua
mãe estava toda sorrisos. O diálogo devia ter saído exatamente de acordo
com o seu roteiro.
- Oh, Doris - disse ela. - Estou tão emocionada. Agora suba e veja em
que vestido você consegue se enfiar.
"Que maneira gentil de se expressar! Vamos passar em revista o meu vasto
guarda-roupa. Acho que vou usar o meu vestidinho simples de seda, o
atraente e adorável modelo, que todos os rapazes admiraram no Saint
Francis, enquanto esperavam a sua vez de dançar comigo."
#break Capítulo Quarenta e Um
Ao meio-dia do domingo, o Sr. Henry Levin foi convidado a entrar na sala
de estar e ser apresentado a mamãe, papai e Lillian.
- É um prazer, Doutor - disse Sara com o seu modo mais gracioso. Notou
com surpresa que era um bonito rapaz, muito elegante numa calça de
flanela branca e jaquetão azul. Imagine ele convidando Doris para
sair...
- E este é meu pai - disse Doris. - Papai, apresento-lhe o Dr. Levin.
Jacob trocou um aperto de mão, pensando que pelo menos desse podia
orgulhar-se - não somente judeu como também médico. Doris devia
agarrá-lo.
- É uma satisfação conhecê-lo, Doutor.
- Henry. É um prazer, Sr. Sanders.
- O prazer é meu...
Disso Doris não duvidava. Não teria papai notado que ele era um pouco
maduro? Mas não se podia ser muito exigente, quando se tratava da
pequena Doris. Papai queixara-se de que Jim era muito velho para
Rachel, mas o eminente médico era apenas 10 anos mais moço. Por outro
lado, mamãe nunca deixava as filhas se esquecerem de que ela era apenas
17 anos mais velha do que Rachel. Mas pelo menos o médico superara
mamãe; era uma mera criança, só 15 anos mais velho do que Doris.
- Henry, esta é Lillian, minha irmã predileta.
Lillian ignorou o sarcasmo de Doris; afinal, ela tinha realizado um
mitzvah.
- Como vai, Doutor?
- É um prazer conhecê-la, Lillian. Por favor, me chame de Henry.
Por uma vez, mamãe tivera razão, pensou Lillian. Doris estava precisando
de um psiquiatra. O médico era bonito, parecido com Clark Gable. Bem,
mais ou menos.. .
Depois de todas as apresentações, Sara perguntou, como qualquer mãe
judia normal:
- Quando vai estar de volta, Doris, meu bem?
- Não sei. Isso tem importância?...
- Não, mas só pensei que, se o Doutor...
- Henry.
- Sim, Henry, se prefere, gostaríamos que depois jantasse conosco. Mamãe
não estava perdendo tempo em iniciar o médico - Henry - na intimidade do
estreito círculo familiar dos Sanders.
- É muito gentil de sua parte, Sra. Sanders.
- Sara...
- Sara. Eu gostaria sim, se Doris quiser.
Qualquer coisa para trazer um pouco de sol na vida de todo mundo.
- Claro, a que horas nos quer de volta, mamãe?
- Oh, sete horas daria a vocês tempo suficiente?
- Mais do que suficiente. Acho melhor seis horas, mamãe.
- Então seis... Divirtam-se, Doris... Henry.
- Foi um prazer conhecê-los - disse Henry.
- O prazer foi nosso. - Sara sorriu muito sinceramente. Quando a porta
se fechou, Sara soltou um profundo suspiro.
- Se Doris conseguiu um convite para sair, nós ainda veremos uma ponte
ser construída de um lado ao outro da Baía. O que achou do aspecto dela,
Jacob?
- Bonitinha.
- Bonitinha? - ecoou Lillian. - Ela estava linda.
- Quem diria! - disse Sara. - O vestido parecia ter saído de uma loja de
segunda categoria.
Lillian teve vontade de protestar contra a injustiça, mas calou a boca.
- Está bem, Lillian, vá trocar de roupa. Quero que você me ajude. - O
que é melhor fazer, sopa ou salada? Sopa. Todo bom judeu gosta de sopa.
Seria galinha, o seu macarrão kugel, ervilhas frescas. . . E de
sobremesa? Torta de morangos. Espere! Seria ele kosherl Nesse caso,
convinha fazer também um pão-de-ló.
- Lillian, apanhe a louça das visitas... Jacob, vá colher umas rosas.
- Por acaso sou jardineiro?
- Esqueça. Lillian, vá colher as rosas.
- Não posso fazer tudo, mamãe. O que quer que eu faça primeiro?
- Ponha a mesa... e não seja atrevida. Depois vá colher as rosas.
Lillian já estava tirando a louça da cristaleira.
Henry ajudou Doris a entrar em seu novo De Soto, e ela se sentou muito
impertigada no assento da frente. Quando ele pôs o motor em
funcionamento Doris pediu:
- Por favor, não vá pela Rua Webster.
- Por quê?
- Porque eu morreria, se alguém da família Silverman nos visse.
- Doris, por favor, deixe de se preocupar. Não tenho compromisso algum
com Sylvia.
- Mas eu tenho... ela é irmã de Murial, e Murial é a minha melhor amiga.
- A culpa era de mamãe por colocá-la em tal situação. Se Murial viesse a
saber, seria o fim da sua amizade.
Seu constrangimento aumentava a cada quilômetro. Não notou o céu nem as
lindas ondas que vinham arrebentar contra os rochedos que se projetavam
no mar. Só conseguia pensar em sua traição, forçada ou não. . .
Respondia a Henry por monossílabos, e nada perguntava.
Finalmente, eles chegaram a Santa Cruz e caminharam em silêncio no
passeio que deram ao longo da praia. Henry já estava começando a
preocupar-se com o mutismo dela. Observara-a na casa dos Silverman,
onde Doris se mostrava expansiva e alegre. Mas talvez ela levasse um
tempo para se abrir com as pessoas. Estava decidido a dar-lhe todas as
chances.
- Doris, não quer almoçar? Já são quase duas horas.
- Se você quiser...
- Eu já comeria, se você está disposta.
A única esperança de Doris era que Deus a deixaria ir para o céu de
barriga cheia...
- Sim, Henry, podemos ir.
- Há um grande restaurante na extremidade do cais. Vamos ver se é bom...
Sentados a uma mesa próxima às janelas, eles depararam com uma vista
espetacular.
- É lindo, não acha, Doris?
- Sim, lindo.
- Está gostando?
- Sim, muito.
- Ainda bem que está gostando, Doris.
O homem devia estar desesperado. O que havia de errado com ele?
- O que gostaria de comer? - perguntou Henry depois de consultar o menu.
- Os camarões fritos são uma especialidade da casa.
Isso iria significar mais uma semana de tortura.
- É o que você vai pedir?
- Acho que sim.
- Está bem. . .
- Dois camarões fritos - disse Henry à garçonete.
- Batatas fritas ou salada de repolho? - perguntou a garçonete.
- Doris?
As duas.
- Salada de repolho.
Quando a garçonete se afastou, Henry passou uma generosa camada de
manteiga no pão francês, enquanto Doris o observava atentamente.
- Fale-me de você, Doris.
- Por onde gostaria que eu começasse, pela minha vida nos palcos?
- Você já esteve num palco?
- Não. Eu só estava fazendo graça, ou tentando ser engraçada.. .
- O que faz você?
- Trabalho numa loja de roupas.
- E gosta do seu trabalho?
- É um emprego...
- Tenho a impressão de que é qualificada para algo melhor.
- O quê? Além disso, como pode você saber? Esta é a primeira vez que
temos um contato maior do que o de meros conhecidos.
- Eu a observava todas as vezes que a via em casa dos Silverman.
Oh, Deus! Tinha ele de estragar aquele momento falando nos Silverman?
Mas a garçonete chegou com os pratos e poupou a Doris ter de responder.
- É uma pena que não possamos tomar uma cerveja gelada com essa comida -
comentou Henry.
- Nunca em toda a minha vida tomei uma cerveja.
- Estou sempre me esquecendo de que você tem 18 anos. Parece tão
amadurecida para a sua idade. O fato é que a Lei Seca existe há quase 18
anos.
Seria isso um elogio? Amadurecida? "Imagino que o fato de ser gorda faz
com que uma pessoa pareça inteligente, jovial e também amadurecida."
- Obrigada pelo elogio. . . O de parecer amadurecida. Quero dizer. .
Agora fale-me de você.
- Bem, minha mãe e meu pai vieram da Rússia, mas meus três irmãos, minha
irmã e eu nascemos todos na Zona Leste de Nova York, onde papai e mamãe
viveram...
- E depois?
- Meu pai negociava com peixarias, e até os 11 anos eu pensava que não
existia outro negócio. Foi quando meu pai conseguiu mudar da Zona Leste
e fomos para Syracuse.
Henry prosseguiu, falando de suas lembranças de Nova York, e Doris,
involuntariamente, começou a interessar-se. Finalmente, Henry notou a
hora e disse que era melhor voltarem.
De volta a Oakland, ele continuou narrando a saga da família Levin, que
se livrara da pobreza em apenas uma geração.
- Como eu já disse, mudamos para Syracuse e depois para Denver porque
meu pai tinha parentes lá. Meu irmão Al, ele é o mais velho, entrou para
o comércio. E, por incrível que pareça, aos 26 anos já tinha ganho mais
de meio milhão de dólares. Doris sabia que Henry não estava
vangloriando-se, porque o seu tom era de sincera admiração.
- O que fazia ele? Assaltava bancos?
Ambos puseram-se a rir, e Henry notou com satisfação que ela agora
parecia mais à vontade.
- Quase. Adquiriu uma bolada no mercado, de ações, vendeu na hora certa
e passou a dedicar-se ao ramo de empréstimos. Acabou tendo um cofre no
banco cheio de jóias, além de umas propriedades numa época em que
ninguém tinha condições de pagar seus empréstimos. E até comprou a
residência do prefeito para nós, uma grande casa de alvenaria no
Bulevar Spear. Que figura! Era o sujeito de melhor coração do mundo.
Comprou um tapete persa para minha mãe. Quando ela perguntou quanto
custara, ele disse 300 dólares, embora tivesse custado 3 mil. Ela disse
que não devíamos pisar um tapete tão caro e por isso o vendeu.
- Constrange-me perguntar por quanto.
- Quatrocentos dólares. . . achando que tinha feito um negócio da China.
Depois foi o cachorro que ele lhe comprou. ..
- Que raça?
- Um spaniel com pedigree.
- Teria ela desmaiado, se ele lhe dissesse o preço?
- Teria, se ele lhe houvesse dito. De qualquer forma, o cachorro nunca
entendeu nada a não ser iídiche. Você pode imaginar um cão chamado
Yankel? A não ser que se falasse iídiche com ele, não se deitava, ou
fazia qualquer proeza. Minha mãe está na América há 45 anos, e continua
sem saber uma palavra de inglês. Que Deus a guarde.
Doris estava fascinada. Adorava histórias, e um dia, dizia intimamente
para si mesma, escreveria sobre coisas assim. . .
- E o que aconteceu depois?
- Estávamos na década dos anos 20 e o meu irmão era uma das poucas
pessoas em Denver que, na ocasião, dispunha de dinheiro. Meteu-se na
política e logo em seguida conseguiu eleger o prefeito, o chefe de
polícia e o governador. Tinha mais influência do que o Papa. Gastava
dinheiro como confete.
- E daí?
- Bem, ele teve a brilhante idéia de achar que Denver estava precisando
de uma boate. Assim, tornou-se empresário e abriu a primeira boate que
já existira em Denver. Era chamada Jardim Florido. Em seguida foi para
Chicago e contratou os números de cabaré mais caros que conseguiu. Al
Jolson, acredite se quiser, Ted Lewis, Belle Baker... uma porção de
artistas de quem provavelmente você nunca ouviu falar.
- Ouvi falar de todos eles. Passei a melhor parte de minha vida indo ao
Orpheum. Eu sempre quis ser uma nova Fanny Brice ou Sophie Tucker. -
"Pelo menos o corpo delas eu tinha."
- É mesmo? Eu sabia que você era diferente...
- Obrigada. E o que aconteceu depois?
- Ele ganhou montanhas de dinheiro, mas a bebida, as mulheres e as
cantorias faziam com que gastasse mais depressa do que ganhava. E
contabilidade não era o forte de Al. Todo o mundo o roubava. A boate
fechou e ele terminou sem nada.. .
- Imagino o desgosto que você teve com tudo isso. ..
- No começo, sim, mas Al é um sujeito muito displicente. O único
problema é que a sorte só vem para a pessoa uma vez na vida, e a verdade
é que ele nunca mais conseguiu nada que desse certo. Assim, perdeu
tudo, e os Levin se viram de volta ao ponto em que haviam começado ao
chegar a Denver.
- Como você conseguiu se formar?
- Trabalhando em espetáculos de variedades, vendendo pipoca, amendoim e
chiclete, sendo garçom... Mas eu pertencia a um bom grêmio estudantil.
..
- Tinha dinheiro suficiente para pertencer a um grêmio?
- Trabalhei muito duro para conseguir e, como eu tinha feito o curso
secundário com a maioria dos estudantes, ninguém fez pouco em mim. Foi
um tempo ótimo. Na verdade, foi o período mais feliz de minha vida. O
pior foi quando meu pai morreu dois meses antes de eu me formar. Foi
duro. ..
Sim, devia ter sido. Doris nunca ia esquecer-se da face da morte...
- Como veio parar na Califórnia?
- Quando me candidatei a um cargo de interno, escolhi Fresno, na
Califórnia, porque eles tinham um curso de urologia que me interessava.
Recebíamos 10 dólares por mês.
- E por que não começou a clinicar em Fresno?
- Gastei dois dólares numa passagem de ônibus, e pode-se dizer que isso
mudou a minha vida. Um dia tomei um Greyhound para San Francisco e,
quando vi as colinas, o bairro chinês, a baía, disse para mim mesmo:
"San Francisco, eu te amo. É aqui que quero ficar."
- E então?
- Assim, depois do meu estágio de interno, cheguei a San Francisco com
12 dólares no bolso e me hospedei num hotelzinho. No dia seguinte,
aluguei duas salas num edifício comercial, depois comprei uns móveis de
segunda mão para a sala de espera, alguns instrumentos a crédito... e
estava pronto o meu consultório.
- Você parece muito empreendedor.
- Não sei se fui tão empreendedor assim. . . Foi uma luta dura, mas
acredite se quiser, depois de cinco meses, mandei buscar minha família.
Aluguei um apartamento na Avenida 38, na zona de Richmond.
- O que fazem os seus irmãos?
- Vendem artigos de armarinho, e minha irmã trabalha no Emporium.
- Vocês parecem ser uma família muito unida... - Ela pensou em sua
própria família "unida", e decidiu explorar mais o assunto. - Há quanto
tempo está clinicando?
- Há uns cinco anos.. .
Ele devia estar ganhando uma fortuna com um carro De Soto novo e.. .
- Meu Deus, não acredito, Doris. Já percebeu que estamos de volta a
Oakland?
"Oakland. .. Os Silverman..."
- Não é da minha conta, mas por que você nunca se casou com Sylvia?
- Porque não a amo.
- É uma moça ótima e os Silverman são gente tão boa. . .
- Sei que são.
- Mas então, por que você está há três anos saindo com Sylvia?
- Doris, foi neste ponto que começamos. Eu já disse que apenas saio com
ela de vez em quando. .. Bem, já chegamos à sua casa.
"Sim, já chegamos."
Sara era a própria gentileza, ao recebê-los à porta da entrada.
- Que tal é ele? - perguntou ela, quando finalmente encurralou Doris na
cozinha.. .
- Muito simpático. ..
- Leve isso para a sala de jantar, Lillian. Onde foram, Doris?
- Fomos de carro a Santa Cruz e lá almoçamos.
- Doris, espero que não se tenha esquecido da sua dieta.
- Sim, tive muito cuidado. Pelo menos não comi um só pedaço de pão com
manteiga.
Doris seguiu Sara, que anunciou imperiosamente o jantar.
Graças ao Dr. Henry Levin, essa noite foi como nos velhos tempos: a não
ser pelo fato de mamãe ficar o tempo todo de olho pregado no prato de
Doris.
- Posso lhe servir mais um pouco de kugel, Henry?
- Não, obrigado, mas estava ótimo. Há muitos anos não como assim.
- Oh, Henry, como pode dizer uma coisa dessas tendo uma mãe judia?
- Adoro minha mãe, mas ela não sabe cozinhar como a senhora. Quando um
rapaz dizia que alguém cozinhava melhor do que sua mãe,
isso quase equivalia a uma proposta de casamento. Sara foi buscar os
dois bolos.
- Quer bolo de morango ou simples?
- De morango, obrigado. . . Foi mesmo a senhora quem fez esses bolos? -
perguntou Henry, com sincera admiração.
- Claro queí fui.
- Pois nunca comi um bolo melhor.
- Obrigada, Henry. Doris é também muito boa cozinheira, sabe? "Meu Deus,
não sei nem ferver água, sem queimá-la’’, pensou Doris. Jacob comeu como
de costume, sem elogios ou comentários. Mas estava
gostando daquele rapaz e, quando terminou o jantar, sugeriu que
passassem todos à sala de estar.
- Há quanto tempo exerce a medicina?
- Há cinco anos. . .
A história era fascinante, mas por hoje bastava. Doris estava louca para
a mãe sair da cozinha dando-lhe a chance de roubar uma fatia do bolo de
morango, que não lhe fora servido ao jantar.
Finalmente, quando viu Sara voltar à sala, Doris pediu licença,
atravessou o vestíbulo e encaminhou-se para a cozinha. Mas, ao passar em
revista a geladeira, descobriu que mamãe fora mais esperta. .. Tinha
jogado fora o bolo de morango.
Frustrada, voltou à sala e sentou-se numa cadeira o mais longe possível
de Henry. Estavam ainda todos ouvindo a sua saga.
Jacob parecia positivamente satisfeito.. . tinha encontrado um patrício.
- Disse que nasceu na Rua Christie?
- Exato.
- Este mundo é mesmo pequeno. Eu costumava lutar boxe num gin.. .
- O quê? Você nunca me contou que lutava boxe - disse Sara, espantada.
Ele lhe lançou um olhar, depois tornou a voltar-se para Henry.
- Então, Doutor.. .
- Henry.
- Sim, Henry, acho formidável que tenha mandado vir a sua família à sua
custa, e sustente todos eles.
- Não é bem assim. Simplesmente tornei possível morarmos todos juntos.
- Mas continuo achando que é muito louvável da sua parte, além disso,
ter conseguido formar-se trabalhando. Está vendo, Sara? Quando alguém
quer muito uma coisa, acaba conseguindo. E uma vez você me disse que
tudo dependia só da sorte.
- O que o decidiu a tornar-se médico, Henry? - perguntou Sara, ignorando
a observação do marido.
- Sempre quis ser médico, mas sobretudo quando vi como era penoso meu
pai e meus irmãos trabalharem sem uma profissão.
- Admirável, Henry - disse Sara, com um sorriso.
Aquilo podia continuar pela noite afora, pensou Doris. Sua mãe era
demasiado óbvia. . . até parecia que ela estava sendo cortejada por
Henry. Antes que se pudesse refrear, bocejou. Sara escancarou os olhos
para ela com uma expressão nada incomum numa mãe judia. Significava
várias coisas tais como: pare de bocejar, mostre-se interessada ou vamos
ter depois uma conversa - e foi exatamente o que mamãe fez...
Quando Doris finalmente disse boa-noite e se apoiou contra a porta, Sara
perguntou:
- Quando ele vai lhe telefonar?
- Não disse e, além do mais, não podemos sair de novo juntos.. .
- O quêl - exclamou Jacob. - Será que ouvi direito?
- Eu disse que não podemos mais sair juntos, papai.
Jacob começou a bater rapidamente com o pé, sinal certo de que estava
prestes a explodir.
- Pela primeira vez, você conhece um cavalheiro distinto. .. não apenas
isso, mas um médico judeu... e não vai mais vê-lo? Só o que tenho ouvido
de você é que vai acabar solteirona. E sabe duma coisa? É o que vai
acontecer. O que há de errado com você, Doris? Sua mãe tem razão,
devíamos mandar examinar sua cabeça. Que diabo, na velha pátria os
filhos ouviam seus pais. Aqui na América, os filhos fazem o que bem
entendem, arruinam suas vidas, e os pais que se danem.
- Mas não é você que vai sair com ele, sou eu.
- Pensei que tivesse acabado de dizer que não ia mais sair com ele.
- Não sei o que eu disse. - E Doris começou a chorar. - Vocês dois estão
me deixando confusa.
Quando ela subiu correndo as escadas para o seu quarto, Jacob
gritou-lhe:
- Se não estivesse confusa, não diria incoerências.
Ela bateu a porta, e Jacob voltou-se exasperado para Sara:
- Primeiro, temos uma filha que se casa com um goy com idade suficiente
para ser seu pai, e agora temos uma que é uma total meshugge. Não
entendo nada disso. - Subindo as escadas, ele continuou a resmungar. -
Só podia acontecer na América...
- Agora está vendo o quanto sofre uma mãe - disse Sara, seguindo-o. - Só
queremos o melhor para elas, mas estão sempre contra nós.
Ele concordou. Pelo menos nesse ponto, estavam solidários.
Agora Doris sabia o que Jennie Harrison tinha querido dizer naquele
domingo de Páscoa, quando lhe falara sobre o purgatório. Mas a alma de
Doris não estava queimando no inferno; estava queimando em Oakland,
Califórnia.
Na segunda-feira, ela se sentou defronte de Murial na lanchonete
Clinton, e dessa vez o queijo branco grudou em sua garganta.
- Aonde foi ontem, Doris? Tentamos falar com você para agradecer a festa
e desculpar-nos por não termos ficado para ajudá-la depois.
Doris finalmente conseguiu engolir um bocado do queijo.
- Tudo bem, não me importei de fazer o trabalho sozinha. Era pouca
coisa. - Ela esperava que com isso desviaria Murial da primeira parte de
sua pergunta, mas nada feito.
- O que fez ontem?
Era como a Inquisição Espanhola.
- Fiquei em casa e arrumei os armários... Murial franziu a testa.
- É engraçado. Sua mãe disse que você tinha tido um convite para sair.
Doris bebeu um grande gole de água.
- Minha mãe disse isso? - Disse...
- Ela não me disse que você tinha telefonado.
- Telefonei. Por volta da uma da tarde. O que você fez? Oh, como ela
gostaria de sumir da face da terra!
- Fui dar um passeio.
- É mesmo? Com quem? "Oh, pense depressa, Doris!"
- Com um primo de minha tia.
- Que tia?
- Minha tia Nadine.
- Você nunca me falou nesse primo de sua tia.
- Ah, não? - O tom de Doris era exageradamente displicente.
- Sua mãe disse: "Doris não está, teve um convite especial." Fiquei logo
toda contente, imaginando quem poderia ser.
- Não foi muito divertido e, além disso, minha mãe tem o hábito de fazer
com que as coisas pareçam o que não são.
- Oh, acho que ela é um amor, Doris.
Doris engoliu em seco.
- Sim, minha mãe é um amor. Mas, me diga, a que horas você voltou para
casa depois da festa?
- Por volta das três da manhã. Fomos todos ao Checker’s, exceto Sylvia e
Henry. Ele disse que estava cansado e queria apanhar a barca de uma e
meia. Pobre Sylvia, quando será que ela vai acordar? De qualquer forma,
fomos todos para a casa de Eva e lá dançamos um bocado de tempo. Os pais
dela estão fora, em Los Angeles, e como nos divertimos! Sid estava
muito confiado... - Murial soltou uma risadinha. - E Pearl começou um
namoro meio escandaloso com Marty... escandaloso mesmo. Ben bebeu
demais e quis brigar, mas os rapazes o fizeram deitar-se no carro.
- Está parecendo que foi uma noite bem agitada e. . Ai, meu Deus!
Murial, tenho de sair correndo, estou atrasada.
- Falo com você esta noite, Doris.
- Sim, me telefone.. .
Após o expediente na Goldman’s, Doris foi chamada ao escritório.
- Sim, Sr. Goldman.
Ele olhou por cima dos óculos, e Doris soube sem sombra de dúvida que
ele estava furioso.
- Dê uma olhada nessas etiquetas de vendas.
Doris examinou as etiquetas, depois olhou para o Sr. Goldman.
- Qual é o problema, Sr. Goldman?
- Não sabe somar, Doris? Não somos uma instituição de caridade. Some
estas notas.
Doris conferiu as notas. Quando as somou, o total era de 73 dólares, mas
a sua soma anterior totalizava 51 dólares. Meu Deus, como pudera cometer
um erro daquele tamanho? Passara a tarde toda muito perturbada, depois
de seu encontro com Murial. E essa manhã não fora muito melhor. Mamãe
tinha começado o dia ignorando-a ao café da manhã. Não apenas
ignorando-a, mas hostilizando-a. O único pequeno consolo era papai ter
saído às quatro horas da manhã para trabalhar e, assim pelo menos ela
não tivera de encará-lo.
- Oh, Sr. Goldman, nem sei o que dizer. Nunca cometi um engano desses.
..
- Pois eu sei o que vou dizer. Você vai cobrir a diferença.
- Tem razão, Sr. Goldman. ..
- Muito bem, vamos descontar a quantia no seu salário desta semana e que
isso não torne a acontecer.
- Não tornará a acontecer, Sr. Goldman.
Mas com relação a seu pai ela não se saiu tão facilmente. O jantar nessa
noite decorreu em silêncio e, se olhares pudessem matar, Doris já
estaria morta.
E Lillian não ajudou muito. Simplesmente jantou, sem dizer uma palavra
nem ousar olhar para ninguém.
Finalmente Jacob rompeu o silêncio.
- Shlomo quer comprar uma casa.
- E daí? Por que não compra? - perguntou Sara.
- Precisa do dinheiro para a primeira prestação.
- Ah, compreendo. E ele quer que você lhe dê o dinheiro?
- Não dar, emprestar.
- Por que Nadine não vai pedir ao pai?
- Eles não têm dinheiro, você sabe muito bem disso, Sara.
- E quem é você? Rockefeller? Se alguém precisa de uma nova casa, somos
nós. Nunca pensou em como me sinto morando neste mausoléu?
- Não é um mausoléu, é uma linda casa. ..
- Linda? Então por que não a vende a Shlomo? Pelo amor de Deus, temos de
pensar em nossas filhas. Essa vizinhança é tão ruim, que não admira que
o Dr. Levin não tenha dito quando tornaria a procurar Doris.
Pelo menos seus pais se tinham lembrado de que ela tinha um nome, embora
não parecessem notar que ela estava ali presente.. .
- Não foi por causa da casa, Sara, e sabe muito bem disso. Não me casei
com você porque você tinha uma bela casa.
- Não vamos recomeçar essa história, sim? Escute, Jacob. Não é nem
próprio para um homem da sua posição morar desse jeito. Que diabo, você
é rico.
- Não sou rico. Além disso, não era de nós que estávamos falando. Falei
em emprestar dinheiro a Shlomo.
Jacob continuava temeroso quando se tratava de dinheiro... Quanto mais
ganhava, mais temia perder o que ganhara. Claro que queria ajudar seu
irmão, mas ao mesmo tempo.. .
- O que acha, Sara?
- Por que me pergunta? Você só faz mesmo o que quer. Preocupa-se mais
com o filho que Nadine vai ter do que com as suas próprias filhas. Se
tivesse a mesma consideração pela sua família, perceberia que Doris
precisa de um lugar decente onde convidar um rapaz. Assim talvez ela
tivesse uma chance de se casar. Talvez, se tivéssemos uma casa decente,
Rachel não se teria casado com um goy. Pelo amor de Deus, Jacob, quando
compramos esta casa, consideramos uma sorte ter um teto para nos
abrigar, mas as coisas agora são diferentes.. .
Doris levantou-se e saiu da sala sem ser notada. Seria possível que a
sua vida toda dependesse de uma casa? Não pensavam eles que talvez
alguém pudesse gostar dela simplesmente porque ela era Doris? Não,
mamãe estava usando-a apenas para seu próprio benefício.
Na noite de quinta-feira o telefone tocou e Sara correu para atender.
- Como vai, Sra. Sanders? Sou Henry.
- Maravilhoso, Henry... - balbuciou ela. - Que gentileza sua telefonar.
- Eu devia ter telefonado antes para agradecer-lhe o jantar, mas andei
tão ocupado que não tive um momento. . .
- Posso imaginar como é a vida de um médico.
A verdade era que ele tivera esperança de que não telefonando daria a
Doris uma chance de sentir sua falta.
- Doris está em casa?
- Bem. . . não tenho certeza. Ela tem um compromisso para esta noite,
mas talvez ainda não tenha saído.
- Obrigado, eu espero.
Sara subiu correndo as escadas e irrompeu no quarto de Doris.
- O médico está no telefone.
"Imagine só, mamãe, ele telefonou apesar do mausoléu.. ."
- Diga que fui à biblioteca.
- Você vai descer imediatamente.
Aquela era a primeira vez em quase uma semana que sua mãe lhe dirigia a
palavra. . . Ela se levantou da cama e desceu as escadas, com Sara nos
seus calcanhares. Quando pegou o fone, o olhar de mamãe dizia: "Se ele
convidar, você diz sim."
- Henry?
- Alô, Doris, que bom você ainda estar em casa.
- Ainda em casa? Ah, sim, foi uma sorte.
- Como vai você?
- Muito bem, e você?
- Tem algum compromisso no sábado?
Um olhar na direção de mamãe e ela respondeu:
- Não, o sujeito com quem eu tinha combinado sair quebrou a perna.
- Oh, lamento... Então posso vê-la? Doris podia ouvir a respiração de
mamãe.
- Claro, seria ótimo, Henry.
- Aonde gostaria de ir? Que tal o Mark Hopkins?
"Que tal o Palácio de Buckingham? Foi lá que estive, da última vez que
me convidaram."
- Gosto muito do Mark Hopkins.
- Eu também. Sete e meia?
- Ótimo. - Doris desligou e ia subir para o seu quarto quando Sara a
deteve.
- Quero falar com você, Doris.
Anda bem que mamãe se lembrava de que ela tinha um nome.
- Sim, mamãe, sobre o que quer conversar? - "Como se ela já não
soubesse."
- Vamos para a sala de estar.
Puxa, isso era muito especial. A sala de estar era reservada à realeza.
- Agora me conte o que ele disse? - perguntou Sara, abruptamente, toda
sorrisos e solicitude.
- Parece que Dr. Levin quer me levar no sábado à noite ao Mark Hopkins.
- Oh, Doris, estou tão contente... Está vendo? Há uma diferença entre os
rapazes com quem Murial e as outras saem, aqueles estudantes de direito
que gastam ao todo um dólar para levar uma moça ao Clairmont Hotel para
dançar e tomar um copo de ponche.
"Isso só podia acontecer comigo", pensou Doris.
- Acho que isso não tem muita importância quando a gente se está
divertindo e gosta da companhia do rapaz.
- Escute aqui, Doris. Henry gosta de você. É óbvio.
- Por que é óbvio?
- Não seja idiota, Doris. - Por uma vez não havia agressividade em suas
palavras, apenas preocupação maternal. Até mesmo cansaço.
- Por que é idiotice minha?
- Se ele não gostasse, por que haveria de lhe telefonar?
- Penso, mamãe, que talvez ele esteja desesperado. - Mamãe estava
realmente pressionando-a. Ainda assim, a sua preocupação parecia
sincera... - Desculpe, eu não queria ser sarcástica. Imagino que ele
pensa que sou. . . oh, não sei o que ele pensa...
- Escute, Doris, por uma vez na vida seja inteligente, use sua cabeça.
Quando quer, você até pode ser bem esperta.
- Muito obrigada, mamãe. Então me diga agora como ser inteligente.
- Ele não é um rapazola com um entusiasmo momentâneo, e você, Doris, não
é a garota mais popular de Oakland. Não quero dizer que não seja
simpática ou atraente, sobretudo quando se veste com mais capricho. Mas
Henry telefonou porque gosta de você. Acha que todas as judias solteiras
da cidade não estão atrás dele? Feio, ele não é. A própria Lillian
disse que ele se parecia com Clark Gable.
- Mas a verdade, mamãe, é que não estou à procura de alguém que se
pareça com Clark Gable.
- Está à procura do quê?
- De alguém de quem eu goste.
- E você não gosta de Henry? - perguntou Sara com total, genuína
consternação.
- Gosto dele. . . Mas, em primeiro lugar, por mais sem graça que possa
ser, tenho certos padrões. Sou grata por ele me ter convidado para sair,
mas também sinto como se se tratasse de um tio, e devo alguma lealdade
a...
- Doris, por favor, não seja tola. Estou lhe implorando. Rachel casou-se
com um homem da idade de seu pai e vive dizendo que está felicíssima.
- Mas não sou Rachel, mamãe. Estou tentando ser Doris.
- Então seja Doris, e não seja tola. Quantos homens solteiros há nos
dias de hoje, que podem sustentar uma mulher? Quantos?
- Creio que no último recenseamento eram quatro-ponto-dois na escala da
comunidade judaica.
- Doris, estou procurando ser paciente. Sou sua mãe e quero o melhor
para você. Será que não sabe disso?
Fitando os olhos suplicantes de sua mãe, Doris sacudiu afirmativamente a
cabeça.
- Então, por que não me ouve? Se você desse a si mesma uma chance e se
empenhasse de verdade, iria constatar que bom partido é Henry. Há três
anos que Sylvia reza para que ele a peça em casamento, e você diz que
os Silverman são uma das melhores famílias da comunidade judaica em
Oakland.
- Tudo isso é verdade. Mas, mesmo que eu gostasse dele, não seria um
namoro a sério. ..
- Por que não?
- Porque, como eu estava começando a dizer, sou muito amiga de Murial,
que acontece gostar de sua irmã. Simplesmente, não é direito, mamãe. Eu
nunca mais poderia andar de cabeça erguida. Viveria sempre
envergonhada.
Sara agora estava começando a perder a paciência.
- Escute bem, Doris. Se você tivesse um namorado de quem Sylvia
gostasse, acha que ela hesitaria um só momento em tomá-lo de você? Se
acha isso, está vivendo num mundo fora da realidade. No que me diz
respeito, os Silverman, inclusive Murial e Sylvia, podem ir para o
inferno. Se perder esta chance, você vai se arrepender o resto de sua
vida. Tanto o seu pai quanto eu achamos que Henry é perfeito para você.
- É muito bom, mamãe, quando os pais aprovam. Mas você e papai parecem
ter-se esquecido de uma coisinha. ..
- O quê?
- Ele não me pediu em casamento.
- Isso depende da mulher. Se ela sabe como agir, pode conseguir qualquer
homem que queira. A lisonja é importante. . . os homens são vaidosos.
Não se vanglorie ou exiba a sua inteligência. Concorde com o que ele
disser.
Oh, isso tinha graça, dito logo por sua mãe.
- Foi assim que você agarrou papai? Sendo tímida e recatada?
- Exatamente. Seu pai pensou que eu era a jovem mais ingênua e submissa
do mundo.
- Então, supondo que uma mulher queira depois firmar sua personalidade
deve ser um choque para o pobre marido que se deixou enganar. . .
- Deixe essa preocupação para mais tarde. Agora, Doris, ouça-me com
atenção. Estou lhe dando os conselhos que toda boa mãe deve dar.
Doris de repente se apavorou de ver sua mãe assim, tão calculista,
fossem quais fossem seus motivos. Sempre quisera amar sua mãe, sentia
necessidade de amá-la, que em parte era a razão de ela adotar uma
atitude sarcástica, para encobrir a mágoa que sentia. . . Mas, às vezes,
mamãe simplesmente ia longe demais para o seu gosto, e era isso o que
mais doía.. .
- Vejo que está pensando seriamente no caso, Doris.
- Pode ter certeza de que sim. Há muita verdade no que está dizendo.
- Obrigada, Doris. É bom quando os filhos ocasionalmente ouvem os seus
pais. Amanhã, quero que você compre um vestido novo. Escolha um preto
longo. . . isso afina a silhueta. E uma cinta bem apertada. . . Não,
acho melhor um modelador, não vai fazer um rolo acima da sua cintura.
Tenho uma bolsa preta de miçangas, por isso não vale a pena gastar
dinheiro comprando outra. E faça as compras na Goldman’s para ter os
seus 10 por cento de desconto.
- Sim, uma boa economia...
- Ainda bem que você não é extravagante como Rachel.
Imagine se mamãe soubesse quanto ia ser o seu salário da semana com o
dinheiro que ela ia ter de repor. Mas talvez lhe permitissem pagar só no
fim do mês.
- Doris, é realmente maravilhoso quando mãe e filha podem se entender
tão bem. . . como agora. É como sempre deveria ser. Agora suba e vá
tomar um banho. Você parece cansada.
Realmente ela estava morta de cansaço.
Nesse sábado, quando Doris chegou a casa depois do trabalho, Lillian a
estava esperando na porta.
- Você recebeu orquídeas!
- Como é que sabe?
- Porque não resisti e dei uma espiada dentro da caixa.
Pela primeira vez na vida, Doris teve vontade de dar um tapa no rosto de
sua irmã.
- Como ousou fazer uma coisa dessas? Não lhe ocorreu que eu poderia
gostar de desamarrar as fitas e abrir o meu próprio presente?
- Desculpe. Não tive má intenção.
- Ninguém nunca tem má intenção. Se um dia, sei lá como, eu recebesse um
presente ou uma carta, mamãe iria abrir na certa. Estou cheia disso
tudo.
- É melhor não usar essa linguagem na frente de papai e mamãe.
- Eu aprendi com eles. - E então Doris deu um sorriso rápido a Lillian.
Era difícil continuar zangada com ela. Sua irmã era o alvo errado, e
disso Doris sabia. ..
#break Capítulo Quarenta e Dois
A campainha tocou às sete e quinze. Naturalmente, era o divino Henry.
Muito bem, mas ela não ia se apressar. Papai gostara muito dele. Os dois
podiam conversar sobre a Rua Christie e o ginásio onde ele tinha
lutado.
Às sete e vinte e cinco, ela entrou na sala de estar, sentindo-se como
se estivesse enfiada numa camisa-de-força. O modelador estava matando-a;
se respirasse muito fundo, as costuras do vestido podiam estourar.
Adiantou-se até o centro da sala. A vendedora lhe aconselhara o vestido
de gaze preta porque a saia rodada disfarçaria os quadris, mas o fato
era que Doris gostara muito do vestido. A renda em torno do pescoço e
punhos a favorecia, os botões de strass de seu corpete faiscavam e até
a faixa em sua cintura ajudava. Mamãe tinha razão - era preciso sofrer
para ser esbelta. E o modelador certamente a estava fazendo sofrer, mas
o fato era que sua cintura parecia bastante afinada. Havia cortado e
ondulado o cabelo, e as unhas estavam pintadas de vermeIho-rubi.
Ela soube que seu aspecto era bom pela expressão no rosto de Henry.
- Doris, você está linda...
- Obrigada, Henry. Agora, com licença, volto já. Por favor, continue
conversando com papai. - E ela se dirigiu para a cozinha onde sabia que
sua mãe estaria esperando para examiná-la.
E tinha razão.
- Deixe-me vê-la, Doris.
Doris sujeitou-se ao escrutínio, sentindo-se um objeto.
- Você parece uma pessoa diferente.
- Diferente do que ou de quem? Está aprovando?
- Sim, o vestido é perfeito. Só um pouco menos de batom.
Mamãe era a Elizabeth Arden das judias. Doris passou o dedo sobre os
lábios.
- Melhor assim?
- Perfeito.
Doris abriu a porta da geladeira para apanhar as flores.
- Doris! Você não vai comer agora?
- Só as minhas orquídeas.
Ela abriu a caixa e deparou com duas das mais lindas orquídeas brancas
que já vira.
- Está vendo? - disse Sara, com um sorriso. - Isso é que chamo um homem
de classe.
Doris não ouviu o comentário da mãe, sentia-se genuinamente emocionada.
As primeiras flores que recebeu na vida. . . orquídeas. E começou a
prendê-las com um alfinete no vestido
- Por que não deixa que Henry coloque as flores? - disse Sara. - Os
homens gostam de pensar que nos estão fazendo um favor, isso os faz
sentirem-se mais masculinos.
Doris estava mais do que disposta a deixar que Henry se sentisse
masculino. Carregando as flores na mão, voltou para a sala, seguida de
perto por sua mãe e Lillian.
- Obrigada pelas orquídeas, Henry. São realmente lindas.
- Alegra-me que tenha gostado.
Doris tentou prendê-las com um alfinete no vestido, mas como mamãe tinha
predito, Henry disse:
- Posso ajudá-la?
- Obrigada, Henry. Que gentileza...
Mamãe sorriu. . . Doris sorriu. Papai parecia radiante e Lillian estava
achando tudo muito romântico. Estava secretamente apaixonada por Henry.
Tão parecido com Clark Gable...
No Mark Robins, eles foram para uma mesa na Sala dos Doris. Ninguém
poderia adivinhar que o país passava por uma Depressão. Todos os
presentes estavam muito bem vestidos e dançando ao ritmo da banda de Al
Kavelin, com Carmen Cavallaro ao piano.
O jantar era composto de uma salada, filet mignon, batatas duchesse e
ervilhas, e como sobremesa sorvete de baunilha com calda de chocolate.
Doris não teve problema em tomar cuidado com o que comia; o modelador
não a deixava esquecer.
Tinha de admitir que Henry era um grande dançarino para um homem da sua
idade - na realidade, para qualquer idade. Era simpático e agradável e
continuava repetindo que ela estava linda. Talvez, se insistisse mais
um pouco, ela era até capaz de acreditar. . .
Quando saíram do Mark Hopkins, Henry perguntou-lhe se ela algum dia já
estivera num speakeasy, como eram chamados os bares ilegais da época da
Lei Seca. Um speakeasyl Essa era a primeira vez que saía com um rapaz.
Quem ele pensava que ela fosse, Carole Lombard?
- Não, Henry, nunca.
- Gostaria de conhecer um?
- Gostaria, mas acho que não devo.
- Por quê?
- Porque, pelo que sei, a polícia está constantemente dando batidas
nesses bares.
Ele soltou uma risada.
- Isso é só no cinema. Conheço um lugar, acredite-me, em que a polícia
nunca entra.
- Tem certeza?
- Pode confiar em mim.
Eles foram recebidos por um homem que os examinou por detrás de um
olho-mágico no alto das escadas de um edifício na Rua Ellis.
- Sou o Dr. Levin - anunciou Henry,como se fosse o dono do edifício.
A porta abriu-se e Doris se viu numa sala com muita fumaça, muita gente
e muita bebida ilegal. As coristas estavam vestidas com lantejoulas
róseas e plumas de avestruz em seus traseiros, e sapateavam
vigorosamente ao ritmo de Mississippi Mud.
Em seguida uma senhora corpulenta, com o cabelo de um vermelho como
Doris nunca vira antes, apareceu coberta de lantejoulas roxas e se pôs a
cantar um blue.
Doris sentiu a mão de Henry em seu braço, conduzindo-a a uma mesa num
reservado de cortinas abertas.
Henry notou que Doris se sentara o mais longe possível dele e, quando
cruzou a perna, essa estremeceu nervosamente sob a gaze do vestido
preto. Ele ia tranqüilizá-la, quando o garçom chegou para servi-los.
- Doris?
- Oh, quero apenas uma água tônica pura com três cerejas. Henry pediu um
uísque, e logo o garçom voltou com as bebidas.
Ela estava realmente bonita nessa noite, pensou Henry. Nunca conhecera
ninguém tão divertida quanto ela e, se de vez em quando lhe notava certa
tristeza, isso parecia torná-la ainda mais atraente. Ele tiniu seu copo
contra o dela.
- A você, Doris, por uma noite maravilhosa.
Ela sorriu, vendo que ele estava sendo realmente sincero. Mas continuava
sentindo-se inconfortável. Sabia que a polícia poderia entrar a qualquer
momento, e papai teria de ir buscá-la na delegacia. Estava doida para
sair dali...
Deus ouviu a sua prece. Até speakeasies fecham a determinada hora, e
mais uma vez eles se viram em território seguro, no De Soto de Henry.
Quando parou na porta da casa de Doris, ele se voltou para ela:
- Doris, não sei bem que palavras usar, mas... acho que estou apaixonado
por você...
E esperou. Doris nada disse. Ele se aventurou um pouco mais.
- Sabe o que fiz na noite de domingo? Ela sacudiu a cabeça
negativamente.
- Quando voltei para casa, disse à minha mãe "Mamãe, conheci a moça com
quem vou me casar", e ela respondeu "Henry, se você a ama, eu também a
amarei".
Doris não sabia se ria ou chorava. Ele tinha dito à mãe que conhecera
uma moça? Será que não lhe ocorria que Doris talvez dissesse não? Era
óbvio que não lhe ocorrera, ao abraçá-la pela cintura e começar... meu
Deus, a beijá-la.
Ela recuou bruscamente.
- Eu costumava rir, quando as moças nos filmes sempre diziam "foi tudo
tão de repente", mas não estou rindo agora, Henry. Na realidade, nem me
conhece.
- Sei tudo o que preciso saber. ..
- O que sabe?
- Que você é linda, meiga, inteligente, maravilhosa. ..
- E gorda e...
- Ninguém se apaixona por gordura ou magreza, Doris. A gente se apaixona
por uma pessoa.
Doris não podia acreditar nos próprios ouvidos. Para Henry ela era uma
pessoa? Uma pessoa de verdade? Linda, meiga, inteligente, e ele a amava.
Aquilo, de alguma forma, abalou todas as velhas inseguranças.
- Pois olhe, Henry, você podia realmente me ter enganado. Posso garantir
que não sabia que era todas essas coisas até esta noite. ..
- É difícil de compreender, mas não lamento ser o primeiro a dizer-lhe.
Os homens de minha família não acreditam em casamento, e tampouco eu
acreditava, mas, quando a conheci, mudei de idéia. - Tomando-a nos
braços, ele a beijou, e dessa vez Doris não resistiu.
O beijo não despertou os desejos que ela tinha imaginado, mas foi terno
e agradável, e Henry era um homem tão delicado, um cavaleiro. Fazia-a
sentir-se uma mulher, e talvez ela viesse a acreditar em todas as
coisas que ele dissera a seu respeito. Sim, por Deus, Henry ia ser a
resposta às suas preces, Mamãe tinha razão - ela era uma idiota. Ao
diabo o romance e os sinos repicando. Pelo menos com Henry, ela não
ouviria gritos e imprecações. Finalmente, seria a Sra. de Tal e não a
mera filha de Sara e Jack Sanders. .. Seria Doris Levin. Ou melhor,
como mamãe não deixaria logo de salientar, a respeitável esposa do Dr.
Henry Levin... Dr. e Sra. Henry Levin.
- Quer se casar comigo, Doris?
Ia levar um tempo para se habituar à idéia de que alguém pudesse amá-la,
mas... - Sim... quando você quiser, Henry.
Ele a beijou com mais ardor do que antes. Os sinos ainda não tinham
repicado, mas ela podia esperar. ..
Quando a conduziu até a porta da entrada, ele disse:
- Não suporto a idéia de esperar para vê-la de novo, Doris. Gostaria de
falar amanhã com seus pais.
- Eles vão aprovar, isso eu garanto.
- E minha família, também. Minha mãe está ansiosa por conhecer a
maravilhosa jovem judia que lhe vou apresentar. Espere até ela ver você.
Ela o beijou para não ter de dizer que o amava. O que no momento sentia
por Henry era mais afeição do que jamais sentira por alguém em toda a
sua vida, exceto Lillian, e isso era diferente...
Doris dormiu até as 11 horas da manhã de domingo e, quando finalmente
desceu as escadas, Sara estava num nervoso terrível.
- E então?
- Então o quê?
- Como foi a noite passada? Fez tudo o que recomendei?
- Tudo, mamãe.
- Mesmo? Conte-me o que houve?
Ela lançou um olhar frio à mãe, depois disse:
- Estou noiva.
- Noiva!
- Acho que é assim que se diz, quando um homem pede a gente em
casamento.
- Meu Deus, não posso acreditar. Jacob! - gritou ela. - Venha aqui
depressa.
O marido entrou na cozinha, com um ar preocupado.
- Alguma coisa errada?
- Errada! Pela primeira vez, tudo certo. Doris. .. a nossa Doris... está
noiva.
Jacob pareceu perplexo.
- Não posso acreditar. O médico pediu você em casamento?
- Sim, papai, o médico. Será que pode acreditar? Ele acha que sou linda,
meiga, inteligente e maravilhosa. Que posso fazer, se ele é cego?
- Escute, mazel tov, você é uma boa menina. Uma filha deve sempre ouvir
seu pai.
- É verdade, papai. Sem o seu amor e os seus conselhos, eu nunca teria
conseguido chegar a isso.
Os dois sorriam radiantes. Lágrimas rolavam dos olhos de Sara.
- A nossa Cinderela.
- Cinderela? Oh, mamãe, ela não era lá essas coisas. . . e não podia ser
judia. Uma judia jamais perderia o seu sapatinho de cristal.
Todos riram - Doris, não bem pelas mesmas razões, mas deixou que se
sentissem felizes. Não ia morrer por isso.
- Doris, com o seu senso de humor, você poderia ter sido uma comediante.
- E sou, mamãe. A propósito, Henry virá esta tarde pedir a minha mão.
Por favor, papai, não esqueça de lhe dar a esquerda.
Sara sacudiu a cabeça.
- Não posso acreditar, a nossa Doris. . . Vá atender o telefone, Doris,
provavelmente é ele.
Na noite do sábado seguinte, Sara e Jacob levaram os dois ao Palace
Hotel para comemorar o noivado.
Durante o jantar, Jacob continuou a relembrar a baixa Zona Leste de Nova
York. Henry contou a Jacob como a sua maravilhosa mãe judia dava banho
nos filhos numa barrica de picles, e como eles dormiam todos num mesmo
quarto; e sobre o incrível sistema de contabilidade de seu pai, quando
era proprietário de uma peixaria e deixava que seus fregueses
"pendurassem" a conta. Ao que parecia, o Sr. Levin escrevia sua
contabilidade na parede, e todo o mundo na vizinhança sabia que a Sra.
Rubinowitz devia 45 cents, que a Sra. Cohen não pagava há cinco
semanas. . . havia dúzias de contas. Então, deu-se a catástrofe. Um dia,
quando o Sr. Levin estava em casa com um forte resfriado, a mãe de
Henry decidiu que a peixaria precisava ser pintada. E assim desapareceu
o sistema de contabilidade do Sr. Levin, coberto com uma caiação.
Quando todo mundo negou o que devia, o Sr. Levin recusou-se a continuar
a vender fiado, e assim as senhoras passaram a freqüentar a peixaria de
Farber - que confiava nelas.
Jacob riu tanto que seus olhos se encheram de lágrimas. E, graças a
Deus, Sara estava tão entretida com Henry que não notou Doris comendo
disfarçadamente pedaços de uma torta de morangos...
Depois do jantar Henry perguntou se os seus futuros sogros gostariam de
ver o seu consultório; era óbvio que aquele era o momento que ambos
estavam esperando.
Quando Sara entrou na sala de espera, mostrou-se claramente
impressionada. A sala era toda decorada em estilo chinês. Contra uma
parede havia um canapé alto de madeira preta com os braços entalhados
em forma de dragões estilizados. Um console coberto com um pano de cetim
estava colocado contra a parede oposta, e flanqueado por duas cadeiras
de madeira clara entalhada, tão bonitas que causaram inveja a Sara. Mas
a pièce de résistance era um tapete chinês creme com uma borda
azul-vivo. Sara não notou que a sala de consultório fazia também as
vezes de sala de tratamento e que não havia espaço para uma enfermeira.
Simplesmente, deixou-se impressionar tanto pela decoração da sala de
espera que não reparou em mais nada.
- Oh, Henry, estamos tão orgulhosos de você.
O que tornou completa a noite de Henry.
Doris pediu que não fosse colocado nenhum anúncio de casamento na seção
social do domingo, mas assim mesmo Sara colocou o anúncio - sem nada
dizer à filha.
Na segunda-feira de manha", Murial irrompeu na casa dos Goldman e diante
de todo mundo declarou que Doris era a criatura mais repugnante e falsa
que ela jamais tivera o desprazer de conhecer. Doris sabia que Henry
nunca amara Sylvia, mas a denúncia de Murial realmente a magoou. Murial
tinha sido a sua única amiga. Era disso que ela tivera tanto medo. ..
Quanto a Henry, tornou a tranquilizá-la e ofereceu-lhe uma pedra azulada
de três quilates que comprou por 700 dólares de Jerry, um amigo seu que
trabalhava em jóias por atacado.
Não querendo ficar atrás, Sara obrigou Jacob a comprar-lhe um anel, só
um pouco maior, quase do tamanho do de Rachel.. .
Agora o noivado entrara em pleno vapor. A mãe de Henry convidou os
Sanders para jantar, depois os Sanders retribuíram o convite. Rachel
recebeu-os, mas excluiu Nadine e Sandy. E Nadine, Sandy, Jean e Neal
ofereceram um jantar de família em um restaurante, excluindo Rachel e
Jim.
E Sara já começara intensamente a planejar. Escolheu a louça - um
serviço para seis, já que a noiva não iria tão cedo receber grupos
maiores de amigos. Os talheres de prata poderiam ficar para mais tarde.
Dois jogos de lençóis e fronhas, um edredom, um jogo de toalhas e a
quantidade mínima de utensílios de cozinha. Os móveis foram escolhidos
por Sara e Jacob -mais pelo preço do que pela beleza.
O importante era o casamento propriamente dito, e Sara tomou a si o
planejamento da cerimônia. A data escolhida foi o dia 7 de junho. O
casamento seria realizado no Templo Sinai, oficiado pelo Dr. Coffee, e
a família viria de Cleveland.
O vestido de Doris foi escolhido na seção das noivas da Goldman’s, com a
ajuda dos seus 10 por cento de desconto. Mal pôde acreditar em seus
olhos, quando se viu no vestido de cetim branco com pequenas pérolas em
redor do pescoço, e o comprido véu preso a uma touquinha que lhe cobria
os cabelos. Meu Deus, isso era exatamente o que ela costumava conversar
com Lillian à noite, quando sonhava em se ver percorrendo a nave da
igreja até o altar. Estava começando a amar o amor, e Henry não poderia
se mostrar mais apaixonado. . .
Sara comprou um vestido de tafetá branco no mais recente estilo de
Paris. Fora uma noiva bem modesta com o vestido de 15 dólares que Jacob
lhe comprara, e a recepção no restaurante de Esther. Que importância
tinha que tanto ela como Doris estivessem vestidas de branco?
Lilliam mostrava-se extasiada. Pela primeira vez na vida tinha um
vestido comprado numa loja - um longo de organdi cor de pêssego com uma
faixa de veludo, e seus sapatos de salto baixo eram prateados.
Jacob contentou-se com um smoking alugado. A única coisa que o aborreceu
foi ter de comprar botões de pérola e sapatos de verniz preto. Jacob
levou o De Soto de Henry e trocou-o por um Reo azul novo em folha.
Pagou a diferença de 700 dólares, o seu presente de casamento. As flores
foram encomendadas, o fotógrafo contratado, os convites enviados, e
finalmente Sara pôde descansar e esperar pelo glorioso acontecimento.
#break Capítulo Quarenta e Três
Uma noite em que tinham combinado jantar juntos, Doris foi encontrar-se
com ele em seu consultório. Estavam esperando na garagem, onde Henry
estacionava todos os dias o seu carro, quando sua irmã Rosalie passou
de volta do trabalho.
Doris achava Rosalie uma ótima pessoa, e sabia que ela aprovava a noiva
do seu irmão caçula.
Enquanto o garagista trazia o carro, Rosalie disse a Doris:
- Acho que Henry não parece bem. Para Doris, Henry nunca parecera
melhor.
-Por quê, Rosalie?
- Acho que essas horas tardias o estão abatendo.
- Que horas? - perguntou Henry.
- Refiro-me a todas essas idas a Oakland. Estão lhe dando olheiras.
- Eu não tinha notado - disse Doris.
- Pois acho que devia notar, Doris. Se eu der uma sugestão, você não vai
achar que estou interferindo?
- De forma alguma, prometo.
- Pois bem, acho que casamentos luxuosos são uma estupidez, um
desperdício de dinheiro. E não vejo por que duas pessoas que se amam
devem ficar esperando. Sobretudo com você morando em Oakland e Henry
indo vê-la todas as noites. Por que não tomam o carro e vão se casar
longe daqui?
A intenção de Rosalie era boa, mas ela estava positivamente
interferindo, pensou Doris. A vida inteira sonhara ser uma noiva. Isso
era quase a coisa mais importante do casamento - ser rainha por um dia,
ter um momento de glória...
- Você, minha irmã, é um gênio. Por que não pensamos nisso antes em vez
de estar perdendo tanto tempo? - Henry falava, como se tivesse acabado
de descobrir petróleo no seu quintal.
- Estamos noivos há apenas três semanas, Henry. ..
- Eu sei, minha querida, mas pense um pouco. Quando chegarmos a 7 de
junho já poderíamos estar casados há mais de um mês. O que acha disso?
Ela olhou para o rosto sorridente de Rosalie, depois para o suplicante
de Henry.
- Dê-me uma moeda para que eu possa ligar para minha mãe e perguntar o
que ela acha da idéia. ..
Quando sua mãe atendeu, ela sentiu quase os joelhos dobrarem.
- Mamãe?
- Sim, Doris. Silêncio. - Doris, ainda está falando? - Acho que sim.. .
Mamãe, por favor, sente-se.
Meu Deus, tinha havido um acidente, o carro novo fora destruído; ou
talvez Henry resolvera desistir do casamento...
- Sim, estou sentada.
- Muito bem, mamãe. Encontramos por acaso Rosalie, e ela acha que a
saúde de Henry está prejudicada por causa de tantas idas e vindas... Oh,
estou tão confusa...
- Pelo amor de Deus, diga duma vez.
- Bem, ela sugeriu que fôssemos casar longe daqui, e Henry está tão
entusiasmado que não tenho coragem de desapontá-lo...
Sara ficou calada por um momento. O vestido de noiva e o véu - isso
podia ser cancelado. O seu próprio vestido? Bem, nisso ela pensaria mais
tarde. A roupa de Jacob fora alugada. O vestido de Lillian podia ser
devolvido, portanto não havia problema. E com o que o casamento ia
custar, eles poderiam pagar os móveis e ainda sobrava dinheiro. Jacob
não teria a despesa de mandar buscar toda a sua família de Cleveland. E
afinal de contas para que aquilo tudo? Era apenas um espetáculo. Todo
aquele dinheiro gasto numa noite só...
- Doris, o quanto isso significa para Henry? "E para mim, mamãe?"...
- Bem, ele prefere casar-se agora. Diz que é uma tolice esperar, e
Rosalie obviamente acha que não tem sentido gastar tanto dinheiro.. .
- Deixe-me falar com o seu pai.
- Está bem. Quer que eu torne a telefonar?
- Sim, dentro de uma hora. Quero que ele coma e descanse... telefone
daqui a uma hora e meia.. .
Quando Jacob soube da notícia, ficou furioso.
- Que diabo, por que todos os pais, menos eu, podem ter um pouco de
prazer com os filhos. Os filhos de Gittel tiveram um casamento de
verdade, e Shlomo, também. Mas Rachel se casou com um juiz, e Doris. .
. não sei que espécie de filhas eu tenho.
- Acalme-se, Jacob. Não é o fim do mundo. Eles estão apaixonados, querem
se casar. Lembra-se de quando me disse em Coney Island...
- Sei o que eu disse, mas a época era diferente.
-Jacob, seja razoável, eles querem se casar logo. Acha isso assim tão
terrível?
- Eu não disse que era terrível. Só queria o naches de percorrer a nave
dando o braço à minha filha.
- Pois bem, ainda lhe resta Lillian. Escute, temos de encarar esta
situação. Doris conseguiu alguém com quem jamais poderíamos imaginar que
ela se casaria. A verdade é que devíamos cair de joelhos e agradecer a
Deus um genro como Henry. Imagine, Doris vai se casar com um médico. . .
Yocê devia estar feliz, Jacob. Como se sentiria, se ele recuasse e
desmanchasse o noivado? Acho que eu não suportaria isso. E você?. ..
- Mas. . . e todas as providências que já tomamos? Os convites já foram
enviados e minha família provavelmente está comprando as roupas. O que
vamos fazer agora?
- Posso escrever dizendo que eles fugiram para se casar. E as pessoas
sempre podem devolver as roupas compradas...
- Só espero que ninguém pense que eles tinham de se casar às pressas.
- Sei como você se sente. Eu gostaria tanto quanto você de assistir ao
casamento de minha filha, mas temos de aprender a aceitar certas coisas.
. .
- Muito bem, então está decidido. Quando Doris tornou a telefonar, Sara
disse:
- Foi uma grande decepção para seu pai e para mim. Sempre sonhamos em
ver você sob o chuppah. . . mas estamos na América, onde os pais têm de
aprender a compreender. Além do mais, Rosalie tem razão. É difícil para
Henry estar todas as noites viajando de San Francisco para cá e dormindo
tarde. Escute, ele é um médico e precisa de repouso. Embora não seja o
nosso desejo, vocês têm nossa bênção. Contudo, cabe a você e Henry
tomarem a decisão.
Cabe a você e Henry tomarem a decisão... Que piada! Por que ela, Doris,
não tinha a coragem de dizer: "Escute, Henry, a vida inteira sonhei em
percorrer uma nave, usando cetim branco e véu comprido, segurando um
buquê de lírios-do-vale, ser fotografada, e todo o mundo bebendo à minha
saúde com champanha, depois trocando o meu vestido por um costume de
viagem e correndo para o carro, enquanto todos nos jogavam punhados de
arroz. E usando algo emprestado, algo azul".. .
Voltou para a mesa e Henry puxou a cadeira para fazê-la sentar-se.
Quando ele lhe segurou a mão por cima da mesa, viu lágrimas nos olhos
dela e achou que a decisão devia tê-la aliviado.
- Sei que está feliz, minha querida. É tão mais romântico nós dois
fugirmos para casar. . . O que disseram seus pais?
- Bem, naturalmente eles ficaram desapontados.
- É claro, mas essa decisão é muito mais razoável, Doris. E para dizer a
verdade, não aprecio muito casamentos pomposos. - Ele lhe apertou a mão.
- Pense só. Amanhã a estas horas estaremos casados. Bem, já que estamos
deste lado da Baía, vamos até o meu apartamento e arrumo a minha mala,
depois iremos até a sua casa.
Não era possível que aquilo estivesse acontecendo com ela.
- Você está querendo dizer que vamos viajar esta noite?
- É claro.
- Para onde iremos?
- Para Reno.
Reno? E ela tão tola que tinha imaginado que se casaria no gabinete do
rabino no templo, na presença de seus pais e da mãe de Henry, e então
seguiriam viagem.
Como ela era tola. ..
Enquanto Henry arrumava sua mala, Doris olhava ressentida para a
virginal Rosalie. Já com 40 anos, sem nunca ter sido beijada, na certa
ela iria passar o resto da vida com sua mãe e seus irmãos. Não
precisava de um marido; já tinha quatro maridos. Que família judia -
kosher e celibato. Pelo menos Henry estava rompendo a tradição dos
Levin...
Em iídiche, que Doris mal podia compreender, a adorável mãezinha de
Henry estava dizendo:
- Oy, ver o meu Hershela casado!
Doris conseguiu sorrir, enquanto Rosalie traduzia.
Como Roosevelt tinha declarado uma moratória bancária no dia anterior,
Henry estava com muito pouco dinheiro vivo e pediu a seu irmão Al que
lhe emprestasse tudo de que pudesse dispor.
Os irmãos Irving e Meyer deram tímidos parabéns aos noivos - não era de
admirar que nunca se tivessem casado, e Al, o personagem mais pitoresco
da família, teve a ousadia de apertar a mão de Doris.
Mamãe derramou algumas lágrimas ao abraçar o seu caçula de 33 anos, e um
beijo para a querida Doris, que ia ser para ela como uma filha, oy que
naches.
Com a mala de Henry no carro, eles seguiram agora para Oakland. . .
A cena na casa dos Sanders foi um pouco diferente. Jacob estava
carrancudo e mal olhou para Doris e Henry. Mas quando Doris e Sara
subiram, ele se decidiu a olhar para Henry sentado ali na sala e pensou
que talvez o médico tivesse razão, já não tinha mais 21 anos. Mas Jacob
estava decepcionado.
Sara já tinha arrumado o imenso enxoval de Doris de dois vestidos de
seda, uma camisola de núpcias e umas roupas de baixo. Mamãe, pensou
Doris, certamente parecia ter tomado providências rápidas. . .
Carregando sua pequena valise, ela foi ter com Henry. Mas quando o olhou
e imaginou o passo definitivo que ia dar naquele momento, teve vontade
de chorar. Por mais difícil que tivesse sido crescer naquela casa, ainda
assim fora o seu lar - e não mais o seria. Ela ia partir com um estranho
que conhecia há uns poucos meses, e subitamente tudo aquilo lhe parecia
irreal. .. Dirigiu-se ao pai e abraçou-o com força.
Era difícil para ele retribuir o gesto, mas foi o que fez.
- Não podia ter esperado, Doris?
Ela teve vontade de dizer que lhe faltara a coragem, não era forte como
seus pais, mas ao invés pôs-se a chorar.
Noivas sempre choram, pensou Henry sabiamente. Sara abraçou e beijou a
filha.
- Doris, estamos tão felizes por você.
Quando Doris lançou um olhar ao pai, viu que ele estava desapontado.
Pelo menos mamãe ainda continuava com seu vestido de tafetá cinza-claro
e sapatos vermelhos e a pelerine com gola de raposa. Tenha um bom
casamento, mamãe.
Então Lillian começou, também, a chorar. Afinal, sem Doris em casa, só
restaria ela em quem mamãe descarregar suas frustrações. Além disso, ia
sentir falta de sua irmã predileta. ..
Quando Henry ajudou Doris a vestir o capote, ela viu que tinha uma
mancha de gordura na frente. Que noiva!
Terminadas as despedidas, Doris e Henry seguiram para Sacramento, a meio
caminho entre Reno e San Francisco.
Henry registrou-se no Capitol Hotel, conduziu Doris ao seu quarto,
deulhe um beijo de boa-noite, depois foi para o dele. Queria dormir bem
essa noite. Tinham de partir às sete da manhã, e Henry queria estar
bem-disposto e animado. Amanhã seria o seu casamento.
Eram 11 horas quando Doris leu a tabuleta na estrada. "Bem-vindos a
Reno, a Maior Pequena Cidade do Oeste".. .
Henry estacionou do outro lado da ponte - onde divorciadas em geral
atiravam no riacho as suas alianças. Ao entrarem no Palácio da Justiça
Doris percebeu que ainda estava faltando um detalhe.
- Henry, não temos alianças.
- Ai meu Deus! Eu estava tão agitado que não me lembrei.
- E o que fazemos agora?
Ele não tinha no bolso dinheiro suficiente para um anel. Além disso,
quando voltassem para San Francisco podia comprar de Jerry com desconto.
Justo nesse momento, Doris avistou uma loja Woolworth, que só vendia
artigos de baixo preço. Percebendo o dilema de Henry, ela sugeriu:
- Podemos comprar uma aliança na Woolworth. Que diferença faz?
- Ah, como você é compreensiva, Doris - disse ele, abraçando-a.
- É uma das minhas grandes virtudes. . .
Doris escolheu um estreito aro dourado que dava a impressão de que ia
esverdear antes de terminada a cerimônia do casamento. Entraram na fila,
esperando para tirar a licença de casamento, que lhes foi entregue com
a pompa e circunstância de quem estivesse obtendo uma assinatura de
jornal. Doris passou os olhos no papel enquanto assinava o seu nome,
depois notou a data - 10 de maio de 1933. Certamente aquela era uma
maneira sensata, segundo as palavras de Henry, de realizar um
casamento.. .
- O próximo casal - interrompeu uma voz.
Eles se viram diante de um juiz de paz maneta, que disse apressadamente:
- Aceita, Henry.. .
Doris estava olhando para os retratos de George Washington e Abraham
Lincoln pendurados na parede. Nada mau. Não era qualquer uma que podia
se gabar de dois presidentes estarem presentes ao seu casamento.
- E você, Doris, aceita este homem como seu legítimo marido, na doença e
na...
O estômago de Doris começou a revirar, mas seus joelhos tremiam tanto
que não mais lhe seria possível fugir. Com voz quase inaudível ela
respondeu:
- Sim...
- Eu agora os declaro marido e mulher. Minhas congratulações. Ao sair
paguem dois dólares ao escrivão. O próximo casal...
No vestíbulo, Henry tomou-a nos braços.
- Sabe que agora passou a ser a Sra. Henry Levin?
Ela não sabia o que dizer, porque não existia mais Doris. Finalmente
estava extinta. O que teria mamãe dito?
"É maravilhoso, Henry, e obrigada." Sim, era o que mamãe teria dito. Ele
a beijou...
Quando estavam comendo o seu almoço nupcial no Riverside Hotel, Doris
olhou do capote bege com a mancha de gordura para Henry. Não se sentia
casada, não sentia praticamente nada. O almoço era uma comida simples
de todo dia. Não tinha bolo com um casalzinho de noivos, nem arroz, nem
sapatos - apenas Henry sentado diante dela, agora seu marido porque um
juiz de paz maneta assim o tinha determinado.
Depois do almoço, Henry sugeriu que deviam partir, se quisessem fazer o
caminho de volta num só dia.
- Não seria divertido dar uma volta e ver o jogo nos cassinos?
- Querida, sou contra o jogo, e tenho certeza de que você é da mesma
opinião. Além disso, acho que realmente devemos partir. A viagem vai ser
longa.
Henry assinou o registro no William Taylor, um dos melhores hotéis de
segunda categoria de San Francisco, e levou-a para um quarto no oitavo
andar.
Depois de ele abrir a porta, Doris parou constrangida no centro do
quarto, esperando até Henry dar uma gorjeta ao empregado.
Com a porta fechada, Henry aproximou-se dela, estendeu os braços e
disse:
- Então, querida, será que pode acreditar? Estamos casados...
- É.. . emocionante, Henry. - Você é...
Ela estremeceu. A escolha da palavra fora errada; ela devia se lembrar
de nunca mais tornar a dizer "emocionante".
- Doris, querida... gostaria de... de ir ao banheiro?
Ela se estirou mergulhada na banheira durante o que lhe pareceu quase
uma hora, e finalmente Henry bateu na porta.
- Tudo bem, querida?
- Tudo bem.
- É que... eu gostaria de usar o banheiro.
- Vou sair. - Ela destampou o ralo e desejou poder desaparecer pelo cano
com a água. Infelizmente, a ciência ainda não tinha dado aquele passo
gigantesco.
Quando saiu do banheiro vestida no seu négligé, Henry disse:
- Nunca vi nada mais lindo.
Ela agora era qualquer coisa, não alguém ou mesmo ninguém.
Ele a beijou, depois foi para o banheiro e fechou a porta. Ela ficou
sentada, ouvindo a água encher a banheira. Estava não apenas nervosa,
mas a ponto de desatar em pranto. Apanhou o telefone e pediu à
telefonista que ligasse para Ashbury 34842. Sentia o pulso em disparada.
Sara atendeu.
- Mamãe. - Doris estava contendo as lágrimas.
- Doris, onde está você?
- Em San Francisco, no William Taylor Hotel.
- Estou tão contente por você ter me telefonado. Como foi o casamento?
- Lindo. ..
- Oh, eu gostaria de ter tido o naches de assistir.
- Você teria gostado, também, mamãe. ..
- Como está Henry?
- Ótimo.
- Imagino que ele esteja nas nuvens.
- No momento, ele está na banheira. Sarah soltou uma risada.
- Oh, Doris, você está feliz. Posso perceber pelo tom de sua voz. Como
deveria estar uma noiva em sua noite de núpcias.
- Como está papai?
- Como está ele? Como de costume. Ainda está contrariado.
Doris mordeu o lábio. Naquele momento a culpa e o medo lhe eram quase
insuportáveis.
- Posso falar com ele?
- Espere, meu bem, vou ver se ele quer falar com você. Seja feliz,
Doris. E me avise onde vai ser a sua lua-de-mel.
- Aviso sim, mas para dizer a verdade, não sei para onde vamos. Henry e
eu nunca chegamos a discutir o assunto.
- Está bem, minha filha, desejo-lhe uma esplêndida lua-de-mel.
- Obrigada, mamãe. Deixe-me falar com papai.
Henry saíra do banheiro e estava entrando debaixo das cobertas. -"Com
quem está falando, querida?
- Papai?
A voz do seu pai não escondia o seu ressentimento.
- Sim, Doris?
- Papai, quero que saiba que gosto muito de você.
- É muito bom ouvir isso, Doris.
- Por favor, papai, não fique zangado.
- Então, se você me pede que não fique. . .
- Sinto muito, sinto do fundo do meu coração, se o magoei, papai.
- Está bem, está bem. E agora que está casada, seja feliz.
- Obrigada, papai, espero que sim. Posso falar com Lillian? Doris ouviu
papai chamando.
Henry fechou os olhos, e Doris rezou para que ele tivesse adormecido.
- Doris! - exclamou Lillian. - Parabéns, é tudo maravilhoso. Mas estou
sentindo falta de você.
- Eu também, Lillian...
- Vai estar ausente por tanto tempo quanto Rachel?
- Não creio. Cuide-se. Falo amanhã com você.
- Tenha uma boa noite, Doris. Fez-se uma longa pausa, depois:
- Sim, vou ter, Lillian. Até amanhã. Henry abriu os olhos.
- Meu bem, acho que precisa descansar um pouco. Foi um dia. ..
cansativo.
Os Levin deviam levar a sério o descanso. Era por isso que ela estava
ali essa noite, porque Rosalie tinha dito que Henry parecia cansado.
- Vou já, Henry. Só quero dar uma palavra a Rachel. Não lhe telefonei
para dizer o que íamos fazer.
- Tenho certeza de que sua mãe já deve ter contado a Rachel.
- Eu sei, mas gostaria de lhe telefonar.. .
Querida, pode telefonar amanhã. Lembre-se, Doris, esta é a nossa noite
de núpcias - disse o seu marido, estendendo-lhe os braços.
Ela apagou a lâmpada da escrivaninha, depois a lâmpada da
mesa-de-cabeceira, despiu o penhoar e esgueirou-se cautelosamente para
debaixo das cobertas. Logo Henry aproximou-se dela, estreitou-a nos
braços, beijou-a, depois sussurrou-lhe:
- Querida, venha para o meio da cama.
Ela obedeceu docilmente e se imobilizou. A respiração de Henry era agora
mais apressada, e algo estranho a estava tocando. . . Delicadamente,
Henry puxou-lhe a camisola para cima.
- Querida, abra as suas pernas.
O mais suavemente que podia, ele tentou penetrar nela, mas Doris soltou
um gemido. A dor. .. Oh, meu Deus, por que ela jamais pensara em se
casar? Agora ele a estava penetrando aos poucos.
- Sei que isso é um pouco doloroso, mas é só a primeira vez. Pronto,
querida, agora não se mexa.
Mais uma ou duas investidas, e estava tudo terminado. Tão depressa
quanto o seu próprio casamento.. .
Era isso, então, que motivava tantos cochichos? Era por isso que Ruby
Foz tivera um filho?
- Amo você, Doris - murmurou Henry, beijando-a. E antes que ela pudesse
pensar no que ia responder, ele se tinha virado na cama e adormecera
imediatamente.
Ela se levantou da cama e foi ao banheiro. A vista de sua camisola
lembrou-lhe aquele dia, havia muito tempo, em que tinha corrido para
Rachel.. . "Minhas calças estão com sangue"... Mergulhou a camisola na
pia e encheu a banheira. Ao deitar-se na tranqüilizante água quente,
pensou se alguém daquela gente que escrevia românticas canções de amor
tinha jamais...
#break Capítulo Quarenta e Quatro
De manhã, Doris foi despertada do seu agitado sono pelo roçar delicado
de lábios nos seus. Lentamente abriu os olhos e viu o rosto e o bigode
de Henry. Por um breve momento, não entendeu o que ele estava fazendo
em sua cama e por que ela se achava naquele quarto desconhecido. . . Ah,
sim, casara-se na véspera e Henry estava reivindicando os seus direitos
- pelos quais tinha pago dois dólares. Entre beijos ele disse:
- Bom dia, meu amor. .. dormiu bem? - O sono ia tornar-se um assunto
muito importante no repertório dos dois.
- Como uma pedra, Henry, e você?
- Nunca dormi melhor. . .
E logo a respiração de Henry foi num crescendo e o que tinha acontecido
na noite anterior estava recomeçando. Enquanto Henry funcionava, Doris
lançou um olhar ao relógio de pulso dele sobre a mesa-de-cabeceira.
Eram sete horas da manhã". Exercício de noite e também de manhã". Mas
pelo menos não estava doendo tanto essa manhã e, felizmente, não levou
muito tempo para Henry se satisfazer.
- Doris, não sabe como é maravilhoso fazer amor com você.
- Oh, está exagerando, Henry...
- Que diferença é fazer amor com a minha própria mulher,
- Qual é a diferença, Henry?
- Há uma grande diferença entre simplesmente ir para a cama com alguém e
fazer amor com uma pessoa a quem se ama.
- Você foi para a cama com muitas mulheres?
- Tenho 33 anos, Doris, e nem só de pão vive um homem - replicou ele,
rindo.
- Estou começando a descobrir muita coisa a seu respeito, Henry. Você
deve ter feito muitas conquistas.
- Eu não diria tanto. Andei com muitas mulheres, mas nunca amei ninguém
antes de você.
- Quando foi a primeira vez?
- Era uma senhora para quem eu fazia a entrega de peixes, uma loura
rechonchuda que gostava de brincar com meninos.
- E você teve prazer?
- Não, não de verdade.. . Ela me convidou a entrar no seu quarto e
baixou as minhas calças, e eu não sabia o que fazer. O fato é que eu
estava apavorado. Ela pegou no meu pênis e começou manejá-lo e
naturalmente eu tive uma ereção. Antes que eu me desse conta, ela me
jogara na cama e estava me contando sobre os fatos da vida.. . ou
antes, me mostrando. ..
- E você não se sentiu embaraçado?
- Claro. E também com medo de que o marido dela voltasse inesperadamente
para casa, mas ela disse que ele trabalhava até as seis.
- Quanto tempo levou seu treinamento básico?
- Uns três dias. Depois eu disse a meu pai que não queria mais fazer
entregas na casa dela.
- E então?
- Então, o quê?
- Como se desenvolveu a sua vida sexual?
- Bem, na faculdade sempre havia algumas colegas.. .
- Está querendo dizer que havia colegas suas que faziam isso?
- Oh, minha querida inocente Doris. . . sexo é uma coisa que sempre
existiu. . .
- Sim, ouvi dizer. . . mas você não tinha medo de engravidar uma moça?
- Meu amor, a sua educação sexual foi realmente muito negligenciada.
Então não sabe nada a respeito dos fatos da vida?
- Bem, não era um dos tópicos à mesa do jantar, mas honestamente não sou
assim tão ignorante. Conheci uma pequena que teve um filho fora dos
laços matrimoniais, como os vizinhos tão sutilmente diziam. Eu não
tinha certeza de como aquilo acontecia até a noite passada. .. Como
dizem os romances, você acha que posso já estar fecundada?
- Não.
- Por quê?
- Porque. .. veja isso.
Ela olhou para o órgão enrugado de Henry. Poucos momentos antes,
estivera inchado como uma pequena salsicha, mas agora parecia um recheio
de cachorro-quente, e na ponta havia um fluido. . . Essa era a primeira
vez que ela via um pênis, enrugado ou não, e isso a embaraçou. Teve de
lembrar a si mesma que Henry era seu marido e que ela tinha o direito
de olhar e fazer perguntas.
- O que é isso?
- Isso se chama uma camisa-de-vênus.
- Ah sim? E é como eu sei que não estou grávida?
- É como eu sei - disse ele de novo rindo. - Quando voltarmos para casa
depois da lua-de-mel, vou levá-la a um amigo meu para lhe colocar um
diafragma.
- O que é um diafragma?
- É um disco de borracha que é inserido na vagina para cobrir o
cervix... - O cervix! Ela não estava disposta, essa manhã, a entrar no
terreno da anatomia. Presumivelmente, tinha toda uma vida pela frente
com esse tópico de conversa. ..
- Henry, nunca falamos sobre a nossa lua-de-mel.. .
- Achei que seria uma boa idéia irmos de carro pela costa até Los
Angeles. Tenho muitos colegas que saíram de Denver para clinicar lá. Sei
que gostariam de conhecê-la, e que você vai gostar muito deles.
Henry sabia tantas coisas.
A estrada margeando a costa era comprida e esburacada, e para piorar
ainda mais as coisas, o carro começou a dar problemas. Ao cair da noite,
entrou com o motor falhando em San Luis Obispo, onde Henry
imediatamente descobriu uma oficina. Ficou chocado quando o mecânico
disse que ele se tinha esquecido de colocar óleo no cárter e que a
transmissão se estragara. Henry fumegava, o carro fumegava e Doris
pensou que papai iria fumegar se o Reo novo não pudesse ser consertado.
Mas um homem apaixonado esquece muita coisa como comprar um buquê de
margaridas para a sua noiva ou uma aliança ou levá-la a um restaurante
bonito para lhe oferecer um jantar nupcial.
- Que diabo vai custar esse conserto? - Ela não ouvira antes aquele tom
na voz dele.
- Pode custar uns 80 ou 90 dólares - disse o mecânico, limpando as
mãos no seu macacão.
Henry calculou que, se ficasse sem dinheiro, sempre poderia conseguir
algum emprestado com um dos seus colegas em Los Angeles.
- Está bem - replicou ele, bastante aborrecido. - Comece o conserto logo
de manhã cedo. Estamos a caminho de Los Angeles.
- Farei o melhor que puder. . . Agora me dê o seu nome.
- Sr. Levin.
Sr. Levin! É claro! Doris descobriria logo que Henry nunca usava o seu
título de médico quando lidando com comerciantes. O título sempre fazia
subir o preço. Médicos eram milionários. . .
Quando John Steinbeck. . . ou teria sido Bobby Burns?. . . escrevera com
tanta profundeza "the best lay schemes of mice and men..." Doris não
tinha a menor dúvida de que ele devia ter em mente os recém-casados
Levin.
Três dias em San Luis Obispo não era exatamente a idéia que Doris fazia
de uma lua-de-mel. Hospedaram-se no Mission Hotel, uma construção de
argila que parecia datar do tempo do Império Espanhol, e sua atmosfera
de mosteiro fazia com que Doris sentisse que talvez alguns dos monges
ainda estivessem espezinhando uvas nos porões.
A temperatura de 39 graus à sombra era arrasadora, e a única sombra era
dentro do Mission Hotel. Os dois vestidos que ela tinha eram não só
inadequados como impossíveis de usar no calor por causa do peso do
tecido e das mangas compridas, por isso ela ficou no quarto e leu
revistas de cinema e escreveu bilhetes para casa.
Depois de se ter abrandado a raiva de Henry com o carro, ele se mostrou
muito solícito e pronto a satisfazer todos os desejos dela. Ou quase
todos. Pediram o café da manhã no quarto, mas o almoço e jantar eram um
pouco caros, e assim Henry voltava com sanduíches na hora do almoço e
deticatessen para o jantar. As latas de sardinha eram cuidadosamente
colocadas dentro dos sacos de papel juntamente com as caixas de papelão
de salada de batatas e levadas pela escada dos fundos, onde Henry tinha
encontrado uma lata de lixo...
Quando finalmente chegaram a Los Angeles, Doris olhou para o Biltmore
Hotel e compreendeu que finalmente ia ter a espécie de lua-de-mel com
que sempre sonhara. O quarto era verdadeiramente lindo, e todas as
noites a criada arrumava a cama para que se deitassem e deixava acesa na
mesa-de-cabeceira uma luz suave. O ambiente era apropriadamente
romântico.. .
Henry passou a maior parte do primeiro dia telefonando para os seus
colegas.
- ... Benjie, adivinhe quem está falando?
- Cookie! Que diabo está fazendo aqui?
- É melhor você se sentar. .. Eu me casei - informou Henry, radiante.
- Seu pilantra, e nem me avisou? Sou seu colega desde o ginásio...
- Estou louco para apresentar você à minha mulher. Vamos nos encontrar
esta noite, Benjie?
- Claro. Tenho, também, uma notícia para você. Estou noivo. Onde quer se
encontrar comigo?
- Aqui no hotel. Estou no Biltmore. Vou arranjar umas bebidas. Esses
criados de hotel sabem onde arranjar tudo. . . quando ganham boa
gorjeta.
- Puxa, Henry, estou doido para vê-lo. E por falar nisso, telefonou a
Jerry?
- Não, você foi o primeiro. Tem o número do telefone dele?
- Tenho, espere um pouco. Vou procurar. .. Aqui está. - Benjie deu o
número a Henry. - Espere até ver Jerry. Lembra-se de como ele era
tímido? Pois bem, Jerry perdeu a timidez quando se casou com Pamela
Rose. .. da cadeia de cinemas do mesmo nome, simplesmente. Graças às
relações do pai dela, Jerry conseguiu uma clientela no Bulevar
Wilshire. E, para completar, uma casa no vale.
- Mas ele já era um menino rico.
- Eu sei, mas nada com o que se compare agora. Temos mesmo muita coisa
que conversar. Meus parabéns, e estou ansioso por conhecer a noivinha.
Vejo-o às sete.. .
Ben Schwartz e sua noiva, Elaine Halpern, chegaram pontualmente às sete
horas. Doris achou-a parecida com Betty Boop. Elaine tinha l,55m de
altura, olhos azuis e um corpo perfeito. Estava com um vestido de
tafetá amarelo sem laços, e sapatos combinando.
Depois, chegou Jerry com a sua nova mulher rica, mas qualquer semelhança
entre Pamela Rose e seu nome era pura coincidência. Impossível não notar
o quanto ela era desprovida de atrativos. O cabelo preto e opaco, os
olhinhos delineados exoticamente. Entretanto, tinha o corpo bem-feito, e
o vestido de cetim preto acentuava-lhe as curvas e fazia com que as
pessoas esquecessem a sua feiúra. Com a sua fortuna, não precisava
preocupar-se com a popularidade, o que era uma boa coisa. Mas não era a
pessoa mais simpática que Doris já conhecera. O máximo que se podia
dizer a seu respeito era que tinha um arzinho esnobe.
Pamela estendeu a mão crivada de diamantes para Doris.
- Meus parabéns - disse de dentes cerrados, pronunciando as palavras de
uma maneira a não deixar dúvidas que cursara os melhores e mais caros
colégios.
Davy Marks bateu nesse momento na porta, gritando:
- Detetive do hotel, abram e ponham para fora o mulherio! -
Positivamente metido a engraçado.
Henry abriu a porta e passou o braço pelo ombro de Davy, depois trocaram
o aperto de mão especial de sua confraria na faculdade, com o dedo
mindinho e o indicador engatados.
- Davy, esta é a minha mulher, Doris. Eu não lhe disse que ela era
deslumbrante?
- Disse mesmo. Doris, você é uma belezinha. . . Parabéns. Esta é minha
mulher, Ethel. . .
Subitamente, o quarto se encheu de "confrades" e suas esposas, e começou
tudo a parecer uma reunião de confraria. Pareciam todos moldados na
mesma forma, e Doris não conseguia guardar a metade dos nomes. Henry
estava ocupado enchendo os copos. As risadas eram muitas, e enquanto
isso ele levou várias cutucadas nas costelas...
- Então, garoto, que tal acha a vida de casado? - Uma piscadela e outra
cutucada na costela.. .
Doris entrou no banheiro, sem ser notada, e trancou a porta. Aquilo
nunca fora uma lua-de-mel e logo, quando ela estava começando a pensar
que talvez tivesse Henry para si mesma, não o podia ter.
- Meu bem? - Era Henry batendo na porta.
Ela engoliu as lágrimas. -Sim?
- Você está bem?
- Estou ótima.
- Saia daí, minha querida. Estão todos querendo ir jantar.
- Eu saio já. . . - Ela limpou o rosto com uma toalha úmida, pôs um
pouco de maquiagem, passou um batom na boca e deu o braço a Henry,
quando todos saíram do quarto a caminho do elevador.
Fora para o Cotton Club, um lugar muito elegante, disseram eles. Doris
sentou-se a uma mesa comprida, vendo todo mundo dançar com suas lindas
roupas e sentiu-se como uma crente do Exército de Salvação. As outras
moças praticamente a ignoravam e, com sua autoconfiança, a intimidavam.
Henry estava tão empolgado com Benjie, Davy, Jerry e os outros
companheiros que ela teve dúvidas se ele se lembrava de que ela era sua
mulher há apenas quatro. . . não, cinco.. . dias. ..
Nessa noite, ao tomá-la nos braços, Henry disse:
- Então, eu não lhe tinha dito que eles eram gente de verdade? Eu sabia
que ia gostar muito de todos, Doris. .. e todos a adoraram.
Quando tinham chegado a Los Angeles na noite anterior, Doris quase
esperara com prazer fazerem amor e a ternura de se ver nos braços dele.
Mas não a noite de hoje. Na noite de hoje ela estava cansada e
desapontada, e acrescentou uma nova tática aos seus crescentes
conhecimentos sexuais:
- Henry, realmente estou com uma dor de cabeça insuportável.
- Ah, está, meu bem? Que pena, e não tenho uma só aspirina. Que médico
sou eu.. . mas ponha só a cabeça no meu ombro e descanse.. .
No dia seguinte eles tomaram um ônibus de turismo para ver onde moravam
todas as estrelas de cinema e, quando voltaram às cinco horas para se
refazerem, Henry sugeriu que fossem jantar no Brown Derby.
Eram oito e meia quando saíram do famoso restaurante, o ponto alto da
noite.. .
- Que tal darmos um passeio a pé pelo Bulevar Wilshire? As lojas são
lindas, Doris.
- Que tal um cinema, Henry?
- Numa noite como esta? O ar está tão quente e perfumado. ..
- Tem razão, deixaremos os filmes para as frias noites de inverno. . .
Ele lhe deu a mão e os dois caminharam e caminharam e caminharam. . .
Finalmente Doris viu um cartaz que devia ter caído do céu. Confeitaria
Van Camp’s.
Henry, vamos tomar sorvete?
- Claro, meu bem.
Uma vez sentados, ela mudou de idéia. Decidiu pedir um milkshake de
abacaxi.
- Quero bastante calda, e não poupe o creme chantilly - disse, erguendo
os olhos para o rosto do anjo da guarda que acabava de salvar a sua
lua-de-mel.
- Querida, acha que deve?
Ela o fitou. "A gente não se apaixona por gordura ou magreza, mas por
uma pessoa, Doris. ..", dissera-lhe ele certa vez.
- Por que não, Henry? Vamos aproveitar ao máximo. Esta vai ser a única
lua-de-mel de minha vida, e quero me lembrar desta noite. Docemente.
- Tem razão, minha querida - disse ele, segurando-lhe a mão por cima da
mesa.
Quando ela tinha quase terminado o seu milkshake, finalmente criou
coragem para perguntar:
- Henry, não gostaria de voltar amanhã para casa? - E quando viu o rosto
dele se iluminar com a proposta, quase suspirou de alívio.
- Sabe, eu não tinha intenção de dizer nada porque queria que este
momento fosse seu. Mas gostaria, sim, de voltar. O consultório está
fechado há uma semana, e está na hora de começarmos a nossa vida
juntos.
- Mas, Henry, por que não disse isso antes?
- Não sei. É que eu não queria. . .
- Não queria estragar o meu prazer. Isso é muito gentil - disse ela, e
estava falando com sinceridade.
Tomaram o ônibus de Wilshire de volta ao hotel.
Nessa noite Henry fez amor com ela, e Doris se sentiu aliviada porque
estava começando a doer cada vez menos, mas o que especialmente ajudava
era pensar naquele delicioso milkshake. ..
#break Capítulo Quarenta e Cinco
Os recém-casados chegaram a Oakland às nove horas da noite seguinte.
- Meus filhos estão de volta! - Foi como Sara os recebeu à porta da
entrada. A primeira coisa que sugeriu foi que eles comessem alguma
coisa. Mamãe estava emagrecendo, enquanto Doris estava engordando. Mas
mamãe não parecia mais tão preocupada com isso, agora que Doris estava
casada.
- Mamãe, obrigada, mas comemos no caminho.
- Vocês têm certeza de que não querem nada depois de uma viagem tão
longa?
- Realmente, não.. .
- Deixe-me olhar para vocês dois. - Ela suspirou com naches. - Parecem
dois pombinhos. Está bem, vão para o seu quarto, devem estar cansados.
Eu os vejo amanhã de manhã.
Subindo as escadas com Sara ao seu lado, Doris perguntou:
- Papai ainda está zangado?
- Não, a raiva passou. Até amanhã, minha filha.
Doris entrou em seu quarto com Henry e fechou a porta. Quando Henry
começou a despir-se, ela de repente se sentiu constrangida. Eles não
podiam fazer nada em sua cama virginal, não com papai e mamãe e Lillian
nos quartos ao lado. Simplesmente teriam de encontrar um apartamento, e
quanto mais cedo melhor.. .
Henry não tinha consultório aos sábados e, assim, logo depois de tomarem
o café da manhã, atravessaram a Baía de San Francisco com Sara. Henry
tinha um amigo, cujo pai era proprietário de um prédio de apartamentos
na Avenida Pacific e, felizmente, estava por alugar um apartamento no
segundo andar. Tinha uma sala de estar, uma combinação de copa e
cozinha, um quarto e um banheiro. O aluguel era de 42 dólares e meio por
mês, mais taxas.
360
Pela primeira vez desde que conhecera Henry, Sara ficou um pouco
aborrecida com ele.
- Eles não têm um apartamento de dois quartos, Henry?
- Para que precisamos de dois quartos?
- Bem, onde iria eu dormir se viesse passar uma noite com vocês? Doris
olhou para o marido e começou a ficar nervosa.
- Bem, receio não poder pagar um aluguel mais caro. .. Ele, um médico,
não podia pagar um aluguel mais caro?
- Henry, não gosto de tocar no assunto, mas tínhamos a impressão de que
você podia sustentar Doris com um pouco mais de largueza...
- Lamento ter-lhes dado uma impressão falsa, mas vou sustentar Doris da
melhor maneira que puder. Estou clinicando há apenas cinco anos, e
formar uma clientela leva tempo. Estamos em meio de uma depressão, e
não sou exatamente uma sumidade famosa.
- Não era necessário dizer isso, Henry. Eu estava apenas mencionando que
Jacob e eu pensávamos que você estava ganhando muito bem.
- Lamento, mas estou labutando para pagar o que devo agora. - Henry
voltou-se para Doris. - Gosta do apartamento, meu amor?
- Sim, Henry, gosto muito. Sinto, mamãe, que você não.. .
- Por que tem de se desculpar? É você quem vai viver aqui. Só que não
poderei vir ficar com vocês. - Estranho, pensou Sara, duas filhas
casadas, e ela não podia passar a noite com nenhuma das duas. No caso
de Rachel, sabia que não era bem-vinda, mas não esperava isso na casa de
Doris. Tinha pensado que teria um lugar onde passar uns poucos dias
quando Jacob viajava; seria uma excelente mudança e aliviaria a solidão
que freqüentemente sentia. A vida era assim mesmo, só dar, dar, dar.
Tinha comprado os móveis para esse apartamento, a fim de que o médico
pudesse desfrutar deles, mas a mobília do segundo quarto teria de ser
devolvida. . .
Doris gostou realmente do apartamento. Era alegre e a vizinhança uma das
melhores no Morro de Pacific. Sentia-se culpada com a contrariedade de
mamãe a respeito do espaço, mas estava mais do que feliz com a escolha.
Pobre Henry, devia ser duro fazer uma clientela. Ocorrera-lhe
superficialmente que Henry estava ganhando bastante dinheiro, mas seus
pensamentos não tinham ido muito além disso. Sua grande preocupação fora
escapar da casa paterna, e isso conseguira. ..
O silêncio era completo na travessia de volta a Oakland. Quando Henry
estacionou o carro diante da casa, Sara saiu do assento traseiro e
dirigiu-se de cara fechada para a porta de entrada, com Doris e Henry
seguindo-a.
Doris pensou que talvez fosse melhor eles irem para um hotel essa noite.
Quando mamãe falasse com papai, ia sair toda espécie de discussão. E
para piorar as coisas, ele ia voltar hoje do interior.
Sara estava pendurando seu capote no armário, quando Doris perguntou:
- Mamãe, não seria melhor se eu e Henry fôssemos para um hotel até os
móveis serem entregues?
- Acha que Henry pode fazer essa despesa?
Doris mordeu o lábio e quando olhou para Henry viu que ele estava
magoado.
- Escute, Sra. Sanders, não aceito isso de ninguém.
- É mesmo? E o que diz da mobília e do carro? Não se importou de aceitar
isso.
- O carro? Pois bem, quero lhe lembrar que mais da metade do carro foi
paga com o que rendeu a venda do meu carro. E também, por favor,
lembre-se de que nunca pedi nada nem quis nada. Doris, eu a espero no
carro.
Doris sentiu-se mal. Ninguém falava assim com mamãe, exceto papai. Henry
não tinha a menor idéia da fúria que descandeara sobre sua cabeça. Oh,
Deus! Pobre Henry tão confiante. Se ao menos ela tivesse explicado que
a personalidade de mamãe estava a léguas do que parecera durante o seu
noivado. ..
- Ouviu como ele falou comigo?
- Ele não fez por mal, mamãe. ..
- Tome o partido dele. Quem sou eu? Apenas sua mãe. Vá duma vez ter com
o seu maravilhoso marido.
Doris tentou beijá-la, mas ela virou o rosto.
Quando se sentou ao lado de Henry no carro, Doris estava desesperada.
Ele a abraçou com força.
- Desculpe, Doris. . . desculpe se sua família pensou que você estava se
casando com alguém como Jim Ross, de quem eles também parecem não gostar
muito. De qualquer forma, sou um médico esforçado. É tudo o que sou,
mas não vou permitir que ninguém fale comigo do jeito que ela falou. Não
consigo compreender. Até parece que sua mãe tem uma dupla
personalidade. ..
- Minha mãe é realmente uma pessoa muito tensa, e não sente nem a metade
do que diz. ..
- Talvez, mas como pode ter sido tão gentil antes do nosso casamento, e
depois dizer as coisas que ela disse hoje?
- Acredite, Henry, não foi por maldade...
- Acho que foi, Doris. E já que estamos falando no assunto, não posso
entender por que seu pai ficou tão aborrecido por termos ido casar longe
daqui. Nunca vi tanta raiva.
- Não pode entender a decepção dele?
- Claro, mas uma tal hostilidade? Você tem uma família bem estranha,
Doris.
Por mais infeliz e assustada que ela estivesse, de certa forma Henry
conquistara o seu respeito. Não era o cordeirinho que ela pensara que
ele ia ser com sua mãe. Não cedera um milímetro, e Doris gostara
disso.. .
- O que vai fazer a respeito do apartamento?
- O que quer dizer?
- Se por acaso minha mãe cancelar os móveis?
- Então, simplesmente teremos de alugar um apartamento mobiliado por um
tempo. E até prefiro muito não aceitar nada deles.
- Onde vamos passar a noite?
- Em casa de minha mãe. Talvez ela não saiba falar muito bem inglês, mas
não é do seu hábito magoar as pessoas.
Quando Doris telefonou no dia seguinte, papai foi direto ao assunto.
- Eu soube do que aconteceu, Doris.
- Acho que não sabe direito, papai. Mamãe não lhe contou que insultou
Henry, só o que Henry disse a ela. . . Sinto muito, papai, mas houve um
mal-entendido.
- Então acha que é apenas um mal-entendido quando sua mãe é insultada?
- As coisas aconteceram tão inesperadamente. ..
- Seu marido retirou-se da nossa casa.
- Não foi exatamente isso o que...
- É melhor você mesma falar com sua mãe.
- Sim, Doris?
- Mamãe, quero pedir desculpas por ontem - disse Doris. Paz a qualquer
preço...
- Não sei se vou aceitar as suas desculpas.
- Henry lamenta, também, e gostaria de falar com você.
Henry estava sentado ao lado dela na cama, e pôs a mão no bocal do
fone.
- Não lamento nada, e não peça desculpas por mim.
- Por favor, Henry. Por favor. ..
Se ele não amasse tanto Doris, diria ao pai e à mãe dela que fossem para
o inferno, mas vendo-a tão perturbada amoleceu sua raiva. Finalmente,
pegou no fone.
- Eu. .. lamento o desagradável incidente de ontem, Sra. Sanders. Sara
calou-se um momento, depois respondeu: - Sim, muitas coisas têm sido
desagradáveis, Henry. Vendo os olhos suplicantes de Doris ele disse:
- É verdade... Como hoje é domingo, Doris e eu gostaríamos de ir passar
o dia em sua casa.
Doris beijou-o, enquanto Sara tapava com a mão o bocal do fone.
- Eles querem vir aqui esta tarde. O que acha, Jacob?
- Diga o que quiser.
- Está bem, Henry... se é o que vocês querem.
Henry pensou, faria qualquer coisa para não deixar Doris infeliz.
- Sim, nós gostaríamos. Bem, então até mais tarde...
Quando eles chegaram por volta das duas horas, Sara e Jacob mostraram-se
frios, mas à medida que passava o dia Sara começou a parecer mais
afável, agora que tinha um público disposto a ouvir seus outros
queixumes. Enquanto preparava o jantar, ela e Doris conversaram sobre
Rachel - ou antes, Doris ficou sentada ouvindo o discurso de Sara. Nada
do que ela estava dizendo era novidade. . . queixou-se da extravagância
de Rachel, e que Rachel dera uma festa e não os convidara. A verdade,
informou Sara, é que não falava havia mais de uma semana com a sua
filha esnobe, e não ia dar a Rachel a satisfação de lhe telefonar. E
continuou batendo nessa tecla, enquanto Doris ouvia e ouvia. Na
realidade, estava com pena de sua mãe, embora fosse ela própria a
causadora daquela situação.,.
Ao final de um dia muito tenso, Doris e Henry finalmente voltaram para a
casa da mãe dele. Quando estavam deitados na cama, Doris disse:
- Mamãe me disse que os móveis vão ser entregues na terça-feira.
- Fico satisfeito por sua causa, mas vou pedir a você que me faça um
favor.
- Pode dizer, querido...
- Por favor, não tome a pedir desculpas por mim. E não me peça para
passar os domingos com sua família.
- Henry, procure entender. Eles não têm mais ninguém...
- E por que não Nadine e Sandy?
- Mamãe não gosta de Nadine. Além disso, eles estão habituados a ter as
filhas ao seu lado.
- Mas os filhos crescem e têm vida própria.. .
- Eu sei. Não iremos todos os domingos, mas temos de vê-los de vez em
quando, Henry.
- Espero que o mínimo possível. ..
Na manhã seguinte, a primeira coisa que Doris fez foi telefonar para a
mãe, para dizer como tinham gostado do domingo, agradecer-lhe por ter
sido tão amável com Henry. E, por favor, será que podia pedir a papai
que não se mostrassse tão frio com ela e Henry?
Mamãe disse que estava contente por Doris ter telefonado e, sim, ia
falar com papai.. .
Quando desligou, Doris sentou-se na beira da cama, desejando fugir para
uma ilha desconhecida. . . desconhecida de todos. . . e então telefonou
a Rachel.
- Desculpe não ter telefonado desde que voltei, Rachel, mas tem havido
tanta confusão. ..
- Não tem em absoluto de se desculpar. Você está começando uma nova vida
e isso requer muitos ajustes.
- Obrigada pela sua compreensão, Rachel.
- Não seja boba. O que vai fazer hoje? - Nada...
- Por que não vem me ver?
- Você quer mesmo?
- Que pergunta! Venha almoçar comigo.
- Eu realmente não devia almoçar.. .
- Almoçaremos queijo branco e frutas. Garanto que você estará livre de
tentações.
- Estou louca para ver você e seu filhinho, Rachel.
Na elegante sala de jantar de Rachel, Doris sentou-se para comer seu
queijo branco e abacaxi em pratos de porcelana Minton. Era como estar em
outro mundo, sobretudo depois do dia anterior.
- É tão bonito e tranqüilo aqui.
Rachel notou certa expressão nos olhos de Doris.
- O que está havendo, Doris?
- Ai meu Deus! Não sei por onde começar.. .
- Bem, como foi sempre assim, desde o berço, conte-me qual é a novidade.
- Não é novidade, Rachel, apenas a continuação da mesma velha história.
É mamãe. Ela e Henry tiveram o seu primeiro confronto e o pobre coitado
não estava preparado para enfrentá-la.
Era uma lembrança doída, mas Doris contou à irmã a história do
apartamento, e a tempestade que se seguira com o pai.
- Ela ainda me deixa apavorada, Rachel, e papai também. ..
- Pois bem, devo dizer-lhe, Doris, a hora da reação é agora. Você está
casada e tem de aprender a romper o cordão.
- É engraçado você dizer isso, Rachel. Há pouco mais de um ano, quando
Larry nasceu, eu lhe disse a mesma coisa e lembra-se do que me
respondeu?
- Eu sei, Doris, isso foi há bastante tempo e Jim me ajudou.. . me fez
crescer. Não vou mais permitir que eles dominem a minha vida. O fato é
que cheguei a um ponto, em que cada vez os vejo menos. E um desses dias
vai ser só um cartão de Natal enviado da Espanha.
- É fácil para você essa atitude, mas eu me sinto tão insegura; será
falta de confiança em mim mesma?.. . Oh, não sei direito o que sinto. ..
- Você ama Henry?
- É outra coisa de que não tenho certeza.. . Sim, acho que amo Henry,
mas não sei como vai ser a nossa vida. . . Escute, posso dizer isso a
você porque é minha irmã. A verdade é que eu não queria realmente me
casar com Henry. Mas eles criaram uma tal barragem para me convencer de
que eu era gorda e indesejável, que acabei convencida. E então Henry
disse uma coisa que fez com que eu gostasse tanto dele, o achasse um
homem bom e decente. .. e creio que vi nele a minha melhor chance de
escapar. . . está compreendendo? Não foi exatamente um casamento de
amor de minha parte, mas há uma compensação. .. Henry me ama. Disso não
tenho dúvida. - Ela sorriu. - Ele certamente não se casou comigo por
causa do meu dote. .. portanto não é tampouco o pior casamento do mundo.
Ele é muito bom e amoroso... delicado. E por mais estanho que pareça,
até me acha bonita. . .
- Mas você é bonita, Doris.
- Não sou, e você sabe muito bem disso. Por que me tapear?
- Sabe o que você tem, Doris? E seria um milagre se não tivesse.
- O quê?
- Um tremendo complexo de inferioridade. Quando ficaram martelando em
sua cabeça que você era feia, desde o primeiro dia em que teve idade
bastante para compreender o significado da palavra, como podia você
deixar de acreditar neles?
- Acho que tem razão, mas como posso superar esse complexo?
- Dizendo a si mesma que você não é nada disso. Meu marido me ajudou a
vencer os meus complexos.
- Henry tenta. É engraçado, não acha? Temos de crescer com a ajuda de
nossos maridos. Sabe o que Henry disse sobre mamãe? Que ela. . . não é
realmente muito equilibrada. . .
- E tem razão, creio eu. Você pode também dizer-lhe que ela é
tremendamente invejosa e uma das mulheres mais neuróticas do mundo. E
papai não tem tempo para pensar se não há dois lados nas histórias
dela.
- É como diz, ela conta as coisas à sua maneira e ele parece acreditar..
. Mas o que dói, Rachel, é que eles me empurraram para esse casamento, e
agora estão zangados porque Henry não é rico como imaginavam que fosse.
. . Isso faz sentido?
- Nada neles faz muito sentido. Sabe que não falo com nenhum dos dois há
mais de uma semana?
- Ela me disse ontem.
- É óbvio. E o que mais disse?
- Que você deu uma festa e não os convidou.
- Não é verdade. Eu os convidei, mas mamãe queria vir à tarde dirigir
tudo. Agradeci o oferecimento, mas disse que tinha contratado os
serviços de um bufê e queria que ela se sentisse apenas uma convidada,
como as outras pessoas. Pois foi o bastante. Replicou que era a mãe, não
uma convidada, e que, se não era bem-vinda em minha casa como tal, eu
podia ir para o inferno. Não é como mamãe sempre torce as coisas?
- Sem dúvida...
- Mas estou decidida a não aturar mais. Não posso continuar implorando o
perdão dela... e o seu amor.
- Mamãe disse que você não permitiu que ela visse Larry.
- Oh, Doris, não conhece mamãe e o medo que ela tem de envelhecer? Não
quer nem ser chamada de "vovó". Quer que Larry a chame de "titia".
Não é engraçado? Você pode imaginar mamãe levando Larry ao parque? Ela
me disse uma vez que nunca iria tomar conta de neto. Tinha criado
sozinha a sua família e ninguém nunca a ajudara. - Rachel agora estava
se exaltando. - É uma boa piada essa de não lhe ser permitido ver o
neto. Quando nos falamos, ela se esquece até de perguntar por ele. Sabe
do que falamos? Dos problemas dela com você e Lillian, sua saúde e como
papai é sovina, e a sorte que tive. . . Meu Deus, tenho raiva de ainda
me aborrecer, mas pelo menos não preciso mais dela como costumava
precisar, e nem você precisa realmente, agora que tem Henry.
- Mas não sou você, Rachel. . . ela exerce um tal domínio sobre mim que
não posso sequer tomar uma decisão qualquer, por simples que seja, sem
consultá-la. Falo grosso, mas ainda dependo muito dela.
- Vai acabar aprendendo.
- Espero que sim. Posso ver o garoto?
Doris tirou-o do berço para pô-lo no seu colo. Larry estava com quase um
ano e meio e era um garotinho lindo, de cabelos louros e olhos azuis
como Rachel e papai. O bebê riu e disse as mais incríveis coisas
inarticuladas.
- É lindo, é um amor. Jim deve estar louco por ele.
- Você pode imaginar o quanto.
- O que a filha de Jim acha dele?
- Nunca o viu. A verdade é que ela e Jim não têm mais quase nenhum
contato. Ela ainda não o perdoou por ter-se casado comigo, mas
felizmente vai agora para Paris estudar na Sorbone. Mas mesmo que não
fosse, eu não iria ceder. Não estou mais disposta a ser simpática e
gentil com ninguém que não me aprove. Com ou sem a filha de Jim, não
vou mais aceitar as coisas que tive de suportar a vida inteira.
- É, quando se trata de família, nós temos sido mesmo. . .
- Pois olhe, não vou mais permitir que ninguém interfira em minha
felicidade. E isso inclui a filha de Jim e a nossa mãe.
- Eu queria ser forte como você.
- Pois trate de aprender.
- Vou me esforçar. . . Agora é melhor eu ir indo. Foi um dia esplêndido,
e obrigada pelo conselho. Não creio que eu leve mais do que uns 100 anos
para me refazer.
- Com o seu senso de humor, não vai ser difícil. Estou apostando em
você...
Doris foi ao consultório de Henry e sentou-se na sala de espera. Era o
fim do dia e havia só um cliente na sala.
Logo a porta se abriu, e Henry surgiu na soleira. Sorriu para Doris,
depois convidou o cliente a entrar no consultório.
Agora sozinha, ela estava livre para admirar a sala de espera, que Henry
tivera tanto trabalho para decorar.
Depois que o cliente se retirou, Henry veio ter com ela.
- Como estou contente de vê-la, minha querida.
Ela o beijou e entrou na sala do consultório. Quantos clientes teria
Henry atendido hoje? Sobre a mesa dele havia apenas três fichas, mas ela
não quis perguntar.
Depois de ter arquivado as fichas, ele sorriu e perguntou:
- O que a fez vir à cidade, meu bem?
- Fui almoçar com Rachel. Foi tão bom conversar de novo com ela, como
antigamente.
- Como está Rachel?
- Muito bem, mandou lembranças. E Jim e o garotinho estão ótimos. Foi
mesmo um dia muito agradável.
- Ainda bem. Será que gostaria de completar o dia jantando na cidade?
Além disso, amanhã temos de nos mudar para o nosso apartamento.
- É mesmo, Henry? Que bom!
Ia ser um alívio ver-se livre de todas as famílias. Agora ia ser o
verdadeiro começo do casamento deles. Ia ser maravilhoso, disse Doris
para si mesma. .. desejando desesperadamente acreditar no que dizia...
#break Capítulo Quarenta e Seis
Às nove horas da manha seguinte, Henry colocou as malas no carro. Doris
gracejou com a mãe do marido e agradeceu-lhe tudo o que tinha feito por
eles. A Sra. Levin, com seu arzinho tímido, disse que fora uma alegria
hospedá-los.
Quando entraram no apartamento, Henry tomou-a nos braços.
- Aqui estamos nós. Este é o verdadeiro começo.. . Gostaria de não ter
de ir ao consultório hoje, mas à noite vou ajudá-la. Se precisar de
alguma coisa, telefone.. . Amo muito você, Doris.
- Eu também o amo, Henry. - Estava sendo mais fácil dizê-lo agora, e ela
falava sinceramente. Exceto que no momento em que ele fechou a porta
atrás de si, Doris não se sentiu como uma recém-casada em seu primeiro
ninho de amor. Que diabo havia de errado com ela? Devia estar
completamente feliz, mas bem no fundo algo chorava.
Dirigindo-se para a cozinha, começou a forrar as prateleiras com papel,
depois abriu o caixote de louças que tinham trazido da casa de mamãe.
Lavou tudo e colocou no guarda-louça, mas sua mão tremia e ela deixou
cair uma xícara que se espatifou.
Sentou-se no chão e ficou olhando os cacos. "Doris, o que há de errado
com você? Habitue-se à idéia que a vida é assim. Só porque Henry colocou
uma aliança no seu dedo, será que pensou que ia se transformar numa
princesa de conto de fadas? Foi o que pensou, sua tola. .. pensou que o
casamento seria um toque mágico na sua vida, que faria de você uma
pessoa totalmente diferente.. . Acorde, Doris. Cresça". ..
Às 11 horas, a campainha da porta soou. Era da loja Redlick’s. Um dos
dois homens robustos perguntou:
- Onde quer que coloque isso? Doris olhou para o sofá.
- Traga-o cá para dentro e veremos o lugar.
Eles tentaram fazer o sofá entrar pela porta, torcendo-o e revirando-o,
mas não conseguiram.
- Vamos ter de soltar a porta das dobradiças, minha senhora. Tirada a
porta, entrou o sofá. Mamãe e papai tinham escolhido o sofá, enquanto
ela estava no trabalho, portanto não o vira antes. Tinha o formato de um
rim, era cor de caqui, grande demais. . . O tapete de dois e meio
metros quadrados não era melhor. Depois apareceu uma ampla poltrona
combinando com o sofá e duas cadeiras menores verde-vivo. As três
mesinhas eram de mogno vermelho. Pelo menos a mesa de jantar pintada de
cinza com quatro cadeiras do mesmo estilo eram do tamanho certo. Então
ela conduziu os carregadores ao quarto. . .
Quaado os carregadores se foram, Doris andou de uma peça para a outra,
sacudindo a cabeça, sem acreditar no que estava vendo. Em sua fantasia
tinha imaginado tecidos floridos, gravuras coloridas, cobre, metal
dourado e.. . a campainha estava tocando.
Foi abrir. Era mamãe, com montes de comida.
- Tome isso, Doris.
E foi levando o caldeirão de sopa para a cozinha. Depois voltou para
apanhar o resto das coisas.
- Como vai, mamãe?
- Exausta. Essas coisas são pesadas e tive de andar dois quarteirões
carregando-as. Não encontrei uma vaga para estacionar.
- Não devia ter feito tudo isso - disse Doris, beijando sua mãe. Não
devia mesmo.
- Mas você tinha de ter alguma coisa para comer, não é mesmo? Deixe-me
dar uma espiada nos móveis.
Sara examinou a sala de estar, depois se voltou para Doris.
- Não é uma beleza?
- É tudo lindo, mamãe. ..
- Gostou mesmo? Seu pai e eu sabíamos que você ia gostar. Bem, deixe-me
dar um arranjo nesta sala.
- Não está muito cansada, mamãe?
- Estou acostumada a dar duro, portanto, qual é a novidade?
Elas puxaram e empurraram os móveis, e finalmente Sara recuou para
examinar a sua obra.
- Perfeito. Está vendo como arranjos fazem diferença? O que acha? Agora
vamos ver o quarto.
Doris acompanhou-a pelo corredor estreito. Sara parou no vão da porta,
apreciando o conjunto.
- Lindo. Não é uma linda mobília?
- Linda, mamãe. Nunca nem em sonhos pensei que ia ter uma mobília
dessas.
- Se fosse esperar por Henry. . . Deixe-me ajudá-la a fazer a cama.
Pronta a cama, ela se voltou para Doris. - Bem, Doris, agora você tem o
seu lar.
- Sim, mamãe, graças a você e papai.
"Pare com isso", ralhou ela consigo mesma. "Não é isso o que o seu
coraçãozinho queria? Mamãe sendo gentil com você, pelo menos tentando
agradar. . . à sua maneira. Não seja ingrata. . . Aprenda a gostar dos
móveis. . . como foi com Henry".. .
E, inesperadamente, Doris começou a chorar e ouviu-se dizendo:
- Eu a amo, mamãe. Obrigada. .. obrigada por tudo.
- Mas, Doris, se eu não fizesse isso, quem iria fazer?
- Ninguém, mamãe, ninguém. . .
- Sei que você está chorando de felicidade. Lembro-me do meu primeiro
apartamento. Nunca hei de me esquecer. Era bem mais bonito do que o que
tenho agora, se me acredita, e seu pai era bem mais pobre, mas acho que
o primeiro lar que se tem depois de casada nunca é esquecido.
Havia duas trilhas diferentes - mamãe falando de sua vida, Doris
tentando acreditar que mamãe estava realmente ali a seu lado,
preocupando-se com ela como Doris queria. . . de tal forma que pelo
menos nesse momento ela realmente acreditou.. .
- Gosto muito de você, mamãe.. . E preciso muito de você. ..
- Pois bem, estou aqui.
De repente a mobília não pareceu assim tão feia, nem muito importante.
Que diferença fazia?. ..
Eram quase cinco horas da tarde quando Sara pôs a comida no forno para
esquentar. Doris, sentada à mesa do café, observava-a. Mamãe parecia
muito feliz.
- Seu pai deve chegar a qualquer instante, Doris.
Doris rezou intimamente para papai ser afável com Henry. Significaria
tanto para ela depois daquele dia bom com sua mãe. Não tinha tido uma só
palavra de desacordo. Naturalmente, ela tivera muito cuidado em fugir
de coisas que pudessem provocar uma discussão - como quando mamãe tinha
perguntado se ela tinha falado com Rachel e ela mentira dizendo que
não.
Henry chegou a casa pouco depois de papai chegar, e ficou
compreensivelmente surpreso em ver Sara e Jacob. Teria preferido passar
a sós com Doris a primeira noite em seu lar. Beijou Sara no rosto,
disse que era um prazer vê-la e apertou a mão de Jacob.
Quando Doris o abraçou, viu que ela estava feliz e não quis estragar a
sua felicidade. Tomando-o pela mão, ela o levou para a sala.
- Não está linda, Henry? - disse, apertando-lhe com força a mão e ele
compreendeu a mensagem.
- Obrigado, Sara.. . Jacob. Fizeram Doris muito feliz.
"Doris ficou muito feliz? E você, doutor, vai desfrutar de tudo isso
também?. . ." Mas essa noite Sara se conteve.
- Sempre procuramos fazer Doris feliz. Não se orgulha, Jacob? Um pouco
diferente de quando nos casamos, não é mesmo?
"Claro, minha sogra deu tanta coisa". . .
- É isso que os bons pais fazem pelos filhos.
- Obrigada, papai. Agora venha ver o quarto, e você também, Henry.
- Não demorem. O jantar está pronto - avisou Sara, sempre atenta às suas
prioridades.
Quando Doris e Henry finalmente se viram deitados um ao lado do outro em
sua própria cama - a primeira - Doris disse:
- É bonito, não é, Henry?
- Já falamos nisso antes, meu bem. Estou muito feliz.
- Meus pais, também estavam gentis. Não notou?
- Sim, acho que sim - respondeu ele, mas havia uma nota estranha em
sua voz.
- O que está havendo, Henry?
Ele fez uma pausa, não querendo magoá-la, mas sabendo que tinha de ser
dito.
- Não é uma coisa tão fora do comum assim os pais mobiliarem um
apartamento quando uma filha se casa, mas seus pais querem nos dar a
impressão de que nunca ninguém fez isso.
- Você fala, Henry, quase como que se estivesse ressentido com eles.
- Não estou ressentido. Só acho que não é tão extraordinário assim seus
pais fazerem o que fizeram. Eles têm meios para isso, como você sabe.
"É mais do que você poderia ter feito!". . . Oh, Deus, ela estava
começando a pensar como mamãe.
- Creio que tem razão, meu bem. .. mas só queria que você tivesse dito
que tinha gostado. . .
- E gostei, mas não vou beijar os pés deles, e sinto que é isso que
gostariam que eu fizesse.
Doris começou a chorar, não por causa do que Henry tinha dito, mas
porque sabia que ele tinha razão e isso a magoava.. .
- Pelo amor de Deus, pare de chorar. . . - Sara e Jacob não iam
realmente se sentir satisfeitos até ele lhes beijar os pés. Que sujeito
de sorte era Jim Ross. Tinha dinheiro bastante para dizer a Jacob que
fosse para o inferno, e Rachel se fortificara tanto com a força do
marido que podia simplesmente sair da vida dos seus pais. Mas Doris era
uma garotinha insegura, e Henry tinha medo de ter de passar o resto da
vida cedendo e baixando a cabeça para eles a fim de que sua mulher não
sofresse, não se desintegrasse. . . talvez até o abandonasse. ..
Na noite seguinte, Doris esperou por Henry na porta, toda abraços e
beijos. Estava muito orgulhosa de si mesma. . . tinha limpado o
apartamento, cozinhado, lavado a roupa de baixo dele e umas toalhas. ..
sentia-se realmente uma dona-de-casa. Estava radiante ao servir-lhe uma
sopa de tomate enlatada.
- Meu bem, não fique aborrecida, mas não gosto muito de sopa enlatada,
especialmente de tomate.
Meu Deus, ela nem sequer sabia o que ele gostava de comer.
- Fiz um prato de forno de atum. ..
- Nunca comi isso em minha vida. .. que tal uns ovos mexidos?
- Não quer nem provar?
- Minha querida, realmente não gosto de atum, dentro ou fora do forno.
Então ele não gostava de atum. Ela tinha aprendido tudo sobre sexo. ..
agora era a vez da comida. . . Pensando melhor, agora se lembrava de
que ele gostava de bife, que custava uma fortuna, e galinha, de que
estava cheia até as orelhas, de ter comido durante anos em casa dos
pais.
- Como gosta dos ovos, Henry?
- Mexidos, por favor, bem passados sem vestígios de claras.
Ela pôs um pouco de manteiga na frigideira, bateu os ovos até espumarem,
depois os despejou sobre a manteiga derretida e mexeu-os.
- Pronto, que tal estão?
- Ótimos. Pode me dar umas torradas?
Doris colocou as fatias de pão na torradeira, depois observou-o comendo
enquanto ela remexia o atum em seu prato.
- Desculpe por esse jantar, Henry. Diga-me do que você gosta.
- Uma comida bem simples, nada de molhos nem de muitos temperos.
- E a sobremesa?
- Torta de maçã, pudim de creme. . . Não se preocupe, meu bem, depois
acertamos essas coisas. Corno foi o seu dia?
- Limpei e lavei, depois fiz este suntuoso jantar - disse ela, rindo.
- Escute, não é sua culpa se você tem um marido enjoado que torce o
nariz para certas comidas.
- Tenho o melhor marido do mundo, e o mais bondoso.
- Essa é uma qualidade muito importante para você, não é mesmo, Doris?
- Sem a bondade, o que mais resta? Henry sorriu e segurou-lhe a mão.
- Telefonei esta tarde para sua mãe, agradeci-lhe...
- Telefonou? Foi gentil com ela.. .
- E ela comigo. Creio que ela também tem um problema de insegurança.
Quer que lhe digam que ela é importante.
- Não é o que a maioria das pessoas quer?
- Claro que sim. Eu lhe disse no começo que você era amadurecida. ..
- Para a minha idade, você disse.
- Para qualquer idade. E é também linda. Espero que agora já se tenha
convencido disso.
- Não, Henry, você foi a primeira pessoa que me disse isso com
sinceridade. E sabe de mais uma coisa? Você é a primeira pessoa que me
chamou com um nome afetuoso. Quando me disse "meu bem" pela primeira
vez, levei dias sem poder acreditar no que ouvira.
- E vou continuar chamando você assim para o resto de minha vida.
- Henry. . . você é a pessoa mais. . . agradável que jamais conheci. E
também, Doutor, eu o amo, amo de verdade.
Continue pensando assim, Doris.. .
Nessa noite, ao deitar-se junto dele, ela compreendeu o quanto Henry era
importante na sua vida. . . Não. .. não estava apaixonada por ele, e a
verdade é que nunca estaria. Mas amava-o de todo o seu coração, como se
ama um grande amigo. Do que mais ela necessitara toda a sua vida era de
carinho, e isso, acima de tudo, fora o que ele lhe dera. Talvez ela
nunca fosse além disso com Henry, mas o que tinha era mais do que a
maioria das pessoas conseguia num casamento, por mais que afirmassem e
fingissem uma grande paixão.
- Doris... - Sim? - Doris, pensei muito a esse respeito. Acho que
devíamos ter um filho... "Oh Deus. . . por que não esperar até nos
habituarmos um pouco mais um ao outro? Deixe-me adaptar-me mais a ser
sua mulher e aprender como ser uma. . . pessoa. Preciso de pelo menos um
ano, como posso ser mãe quando não sei nem quem eu sou?". . . Mas então
subiu à tona um resíduo dos velhos temores; se ela não o agradasse,
talvez ele deixasse de amá-la.. . e precisava tanto ser amada. .. -
Tenho 33 anos, Doris, e já está ficando um pouco tarde para mim ouviu
Henry dizer. Mas Jim Ross tivera um filho aos 43 anos e isso não
parecera preocupá-lo. Exceto, lembrou ela a si mesma, que a comparação
não era muito justa. Jim fora casado antes, e já tinha uma filha. Claro
que não se preocupava, mas aquele era o primeiro casamento de Henry, o
primeiro filho.. . - Querida, quero ser jovem o bastante para ver
crescer o meu filho. Vou fazer 34 anos em outubro.
"E se eu ficar grávida esta noite, daqui a nove meses terei 19 anos. . .
Mas devo muito a Henry. Ele me salvou e, quando houver atritos com papai
e mamãe, ele estará sempre ao meu lado".. .
- Eu gostaria muito de um filho - sussurrou ele. - Você não gostaria,
minha querida?
A ternura na voz dele comoveu-a, e talvez fosse a melhor coisa que
poderia lhe acontecer... uma criança a quem se dedicar, uma coisa sua,
alguém para amar e por quem ser amada. .. - Sim, Henry, eu gostaria.
Henry ficou radiante, quando Doris lhe disse: - Não comece desde já a
distribuir charutos, meu querido, mas o teste deu positivo. - Oh, Doris,
sou o homem mais feliz do mundo. . . - Esta parece ser a frase padrão -
comentou ela rindo, feliz por fazer aquilo por ele, sobretudo quando lhe
notou a expressão no rosto. Mas quando Doris telefonou a mamãe, a
história foi diferente: - Você não podia esperar? Henry mal pode
sustentar a casa agora e você vai ter um filho?
- Nós dois conversamos sobre o assunto, mamãe, e decidimos que queríamos
ter um filho logo.
- E vocês conversaram, também, se iam poder aguentar a despesa? Os
filhos custam dinheiro.
- Mamãe, não quero discutir com você, mas os filhos são um tesouro. Você
teve três, não é exato? E apesar de todas as dificuldades conseguiu nos
criar.. . está bem?
Sara suspirou. Mais um neto, ainda por cima. Mas, se fosse um menino,
pelo menos Doris deixaria Jacob mimá-lo - ao contrário de Rachel. Ou
mesmo de mim, pensou Sara, sentindo-se ainda culpada ao lembrar-se
daquele aborto.
- Bem, seja como for, espero que você saiba no que se está metendo.
- Mamãe, sei que a sua intenção é boa, mas não se preocupe. Esta é a
coisa mais maravilhosa que nos poderia acontecer.
De que adiantava falar?
- Escute, Doris, a vida é sua e é você quem vai vivê-la. Se é o que
quer, então desejo-lhe boa sorte.
#break Capítulo Quarenta e Sete
Quando Doris entrou em seu quinto mês de gravidez, ela e Henry
compreenderam que realmente precisavam mudar-se para um apartamento
maior. Porém, como de costume, o problema era o dinheiro. Tudo o que
encontravam parecia acima de suas possibilidades.
Uma tarde, às cinco horas, ela estava dirigindo o carro na Rua Geary
para apanhar Henry no consultório. Isso se tornara um ritual diário, a
fim de que eles pudessem economizar os 25 dólares mensais cobrados pelo
estacionamento.
De repente, começou a chover. Doris achou adorável aquela primeira chuva
do outono. Não tinha sido prevista, mas, na época, as mudanças de tempo
eram tão imprevisíveis como os eventos na vida de uma pessoa. Há menos
de um ano, nunca ainda um homem a tinha convidado para sair, e agora. ..
Atravessando o cruzamento de Hyde e Geary, ela de repente foi sacudida e
seu carro rodopiou, depois derrapou e parou. Ela ficou atordoada e
assustada.
Um homem veio correndo e abriu a porta do carro.
- Está bem?
Doris tremia tanto que não pôde responder.
- Está bem? - tornou ele a perguntar.
- Não sei. . .
- Oh, me desculpe. Com essa chuva, não vi o seu carro até bater nele.
Ela ouvira a batida, mas não sabia que era seu próprio carro.
- Bateu no meu carro? Eu pensei que tinha só derrapado. ..
- Não, a batida foi por culpa minha. Sinto muito. . .
Ela apenas teve um gesto de cabeça.
Quando a polícia chegou, ajudou-a a sair do carro. E quando os policiais
notaram sua gravidez, preocuparam-se mais ainda.
- Talvez seja melhor a senhora se sentar. Procure manter-se calma disse
um dos policiais. Ela obedeceu automaticamente, muito atordoada para
pensar ao ser ajudada a sair detrás do volante.
- Agora, pode me dizer o que aconteceu? - perguntou outro policial
tirando do bolso um bloco e um lápis.
Ela fez que não com a cabeça.
- A culpa foi minha - interferiu o outro motorista.
- A moça estava atravessando o cruzamento, quando o senhor bateu na
traseira do seu carro?
- Sim. Meu pára-brisa estava tão embaçado que não o vi. O policial
tornou a voltar-se para Doris.
- A senhora tem carteira de motorista?
Doris remexeu na sua bolsa e entregou-lhe seus documentos. Mas de
repente teve um acesso de histeria.
- Vou perder meu filho. . .
- E melhor chamarmos uma ambulância.
- Não, telefone a meu marido. - Ela lhe deu o número e ele foi
telefonar.
- É Dr. Levin quem fala.
- Dr. Levin, quem está falando é o policial Johnson. . . Sua senhora
sofreu um acidente.. .
- Um acidente? Ela está machucada? Sabe que ela está esperando um filho?
- Sim, Doutor, e ela mandou chamá-lo.
- Como está ela?
- Muito assustada. Acho que é melhor o senhor vir imediatamente. Depois
de se informar onde ficava o cruzamento, Henry agarrou seu
chapéu e saiu correndo do consultório. Ao chegar a Geary e Hyde, sua
ansiedade era tão grande quanto a de Doris.
- Você está bem, meu amor?
- Não sei - respondeu ela, sacudindo a cabeça. - Estou tão assustada que
não posso parar de tremer.
- Eu sei, meu bem. Procure se acalmar. ..
Quando Henry falou com o homem que tinha batido no carro, mal pôde
conter a raiva.
- Será que percebe a seriedade desse acidente? Minha mulher está
grávida.
O homem era uma cabeça mais alto de que Henry, mas quase se encolheu.
- Claro que sim, Doutor, e não tenho palavras para dizer o quanto
lamento. ..
- Se qualquer coisa acontecer com minha mulher, vai lamentar ainda mais.
- Escute, eu não vi o carro e... O policial interveio:
- Tenho todos os dados necessários, e acho melhor, Doutor, levar sua
mulher para casa...
Henry voltou-se então para Doris, que soluçava histericamente.
- Eu quero ir para casa...
- Está sentindo alguma dor, minha querida?
- Não sei. Só sei que quero ir para a minha casa. ..
Ele ajudou Doris a deitar-se na cama, enxugou-lhe o rosto com uma toalha
úmida e, sentando-se na beira da cama, segurou-a até ela se acalmar.
Pareceu-lhe que ela estava bem, mas ele não queria correr nenhum risco.
Foi telefonar ao seu amigo Gary, que era o obstetra de Doris.
Quando Gary chegou, Henry colocou-se nervosamente ao lado da cama
enquanto Doris era examinada. Terminado o exame, Gary fechou sua maleta
e perguntou:
- Está sentindo alguma dor agora?
- Não, Gary.
- Acho que foi mais o choque do que qualquer outra coisa. Felizmente,
parece estar tudo em ordem, mas quero que fique de cama por uns poucos
dias. Se precisarem de mim, não façam cerimônia.
Já na porta, Henry perguntou a Gary:
- Ela não vai perder a criança?
- Não creio que haja motivo para nos preocuparmos, mas vamos mantê-la em
observação.
- Obrigado, Gary. Fico-lhe muito grato.
- Está tudo bem agora, mantenha-a na cama e eu telefonarei amanhã de
manhã.
Henry voltou para junto de Doris, que agora estava um pouco mais calma.
- Henry, por favor, telefone à minha mãe.. .
- Amanhã.
- Não, meu querido, por favor. .. agora.
Henry suspirou. Só Deus sabia o quanto ele queria distância de Sara,
mas.. .
- Sara, sou eu, Henry. - Sim?
- Sara, por favor, não se alarme, mas Doris sofreu um pequeno acidente.
- Um acidente? Meu Deus, o que aconteceu? Ele lhe contou.
- Vou imediatamente.
- É claro que você é bem-vinda, mas realmente não há necessidade esta
noite. O médico acabou de sair e me garantiu que ela estava bem. Apenas
um pouco abalada.. .
- E você não estaria? - disse ela, mas dessa vez havia mais preocupação
do que azedume em sua voz.
- É claro. O que estou dizendo é que ela está bem e só precisa de um
pouco de repouso. Por que não deixa para vir amanhã?
- Está bem, vou amanhã cedo.
Sara tocou a campainha às sete e meia da manhã seguinte, sendo recebida
com um rápido cumprimento de Henry, que voltou apressadamente para o
quarto, onde Doris ainda dormia.
Henry estava fazendo a barba, quando Sara apareceu bruscamente no vão da
porta.
- Por que você não a levou para um hospital? A navalha escorregou e
cortou-lhe o queixo.
- O médico dela não achou necessário. - Ele se sentiu quase culpado ao
responder, depois percebeu que Sara o estava manobrando também.
- Bem, eu acho que ela precisa de muitos cuidados.
Que diabo achava ela que ele estava fazendo?
- Bem, você está aqui, e estarei de volta às cinco horas.
- Mas tenho de ir-me embora porque nã