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José de Anchieta nasceu em S.

Cristóvão da Laguna, na ilha de Tenerife,


arquipélago das Canárias, no ano de 1534. Era filho de João de Anchieta, um
nobre de uma família espanhola de Guipúscua, de origem basca e parente de
Santo Inácio de Loiola, e de uma indígena de nome Mencia Diaz de Clavijo e
Llerena. Passou a sua infância em Tenerife e aos dezasseis anos foi estudar para
Coimbra onde havia então um grande colégio da Companhia de Jesus.

A Companhia de Jesus foi uma ordem religiosa, de clérigos regulares,


fundada por Santo Inácio de Loiola, e aprovada por Bula de Paulo III, em 1540. Os
seus membros eram conhecidos como jesuítas, embora nunca adoptassem
oficialmente esse nome. Esta ordem surgiu com o espírito da reforma que então
animava o mundo, uma reforma sobretudo a nível da Igreja Católica. A Ordem
obteve enorme êxito a nível da Pedagogia e sobretudo a nível das missões.

Portugal tinha como função evangelizar as terras descobertas dentro do


seu Padroado e para esse fim a Companhia de Jesus espalhou pelo mundo
evangelizadores. Os Colégios da Ordem preparavam os seus membros para essa
função, dando-lhes os instrumentos teóricos e religiosos necessários para o efeito.

José de Anchieta frequentou o curso de Lógica onde teve como mestre o


Padre António Correia. Em 1551 entrou como noviço na Companhia e desde então
esteve sempre ao serviço da Ordem. Fez voto de castidade perpétua diante do
altar da Virgem da Sé Velha de Coimbra. Desde muito novo manifestou uma
grande facilidade de aprendizagem das línguas e era mestre em latim.

Em 1553 embarcou para a Baía, integrado num grupo de Jesuítas chefiados


por Luís da Grã, que iriam missionar no Brasil, e que teriam como provincial o
Padre Manuel da Nóbrega. As actividades da Companhia de Jesus, no Brasil,
iniciaram-se em 1549, com Tomé de Sousa, que foi o Primeiro Governador Geral
da Companhia. Com ele viajou o Padre Manuel da Nóbrega.

O Brasil era colonizado havia 17 anos. A catequese dos índios fazia-se já em


Porto Seguro, Ilhéus e em várias povoações do sul. No entanto, só a partir do
momento em que se instalam no Brasil os Jesuítas é que podemos considerar as
informações como abundantes, sistemáticas e fidedignas pois eram recolhidas
por pessoas de boa formação moral e cultural apesar dos desvios inerentes ao
exclusivismo do catolicismo.

Esta recolha de informações deveu-se sobretudo ao hábito que estes


religiosos tinham de enviar regularmente cartas aos seus superiores e a outras
personalidades do reino, dando conta das dificuldades e problemas surgidos.
Estas informações, depois de recebidas em Lisboa eram imediatamente enviadas
a Roma. Inicialmente estas cartas eram manuscritas, mas a partir de 1551
passaram a ser impressas. Algumas dessas cartas foram publicadas e divulgadas
durante o século XVI.

No momento em que surgem os primeiros evangelizadores no Brasil, os


Indios eram ainda antropófagos, polígamos e não possuiam qualquer
conhecimento de leitura e escrita. Os colégios consagraram-se à educação dos
mestiços, filhos de brancos e de índias, os mamelucos, e mais tarde também aos
filhos de brancos e negras, a que se chamavam, moços pardos.
Em menor escala havia os filhos de portugueses do Reino, que chegavam
com os seus progenitores, funcionários públicos. Uma dessas crianças foi António
Vieira. Os colégios de Jesuítas foram, no Brasil, os primeiros colégios públicos e
neles se formaram as primeiras e mais antigas bibliotecas brasileiras. Os
primeiros graus académicos conferiram-se, com grande aparato, no Real Colégio
da Baía, em 1575.
Os meninos índios aprenderam a ler e a escrever nas suas aldeias, e
aprenderam também canto e instrumentos musicais para poderem oficiar as
missas. Um século mais tarde Vieira escreverá, referindo-se aos catecúmenos do
Ceará: “...mas depois que os padres lhes ensinaram a cantar os mesmos mistérios,
que compuseram em versos e tons muito acomodados, viu-se bem com quanta
razão Nóbrega, primeiro missionário do Brasil, com música e harmonia de vozes
se atreveria a trazer a si todos os gentios da América”.
A conversão dos índios implicava a perda de alguns costumes ancestrais,
como eram os de comer carne humana, possuir muitas mulheres e andar
frequentemente em lutas tribais.
Na opinião do Padre Manuel da Nóbrega, os índios não deviam ser
baptizados em grupo. Deviam reunir-se antes do baptismo numa aldeia grande
com padres da companhia para os doutrinar. Assim se formaram as primeiras
aldeias de índios na periferia das cidades, com três finalidades: doutrinária (para
o ensino da religião e prática da vida cristã), económica (para a aprendizagem de
um trabalho regular e estável) e política (para a utilização dos índios cristãos
contra os assaltos dos gentios selvagens e contra os inimigos externos).

O grupo em que se incluía Anchieta, era o terceiro grupo de Jesuítas a


chegar ao Brasil para missionar. O Padre Manuel da Nóbrega exercera já grande
actividade mas encontra em José de Anchieta o seu mais eficiente colaborador.
Os dois arriscaram a vida ao ousarem dirigir-se às terras dos tamoios, raça
inimiga dos portugueses e aliados dos huguenotes franceses na guerra que estes
nos moviam para a posse da baía de Guanabara.

Anchieta foi o intérprete nesta diligência e recrutou índios para a defesa da


região. Assim conseguiu repelir as forças sitiantes revelando-se um homem
destemido. Mas a vitória era precária porque outros ataques se haviam de seguir.
Foi para os evitar que ele e o Padre Manuel da Nóbrega, por entre perigos de toda
a espécie, procuraram os chefes tamoios, de quem obtiveram um acolhimento
pacífico. Manuel da Nóbrega aceitou representá-los junto dos portugueses a
quem propuseram uma paz duradoira. Anchieta ficou durante meses como
refém.

A paz foi estabelecida. Passado o incidente militar e político Anchieta


continuou a sua missão.
A pedido de Manuel da Nóbrega, fica encarregue de redigir as cartas
quadrimestrais ou trimestrais que eram enviadas à Ordem em Portugal, dando
conta do trabalho que se desenvolvia no Brasil.

Numa das suas primeiras cartas, datada de 1554, Anchieta revela já um


grande conhecimento de tudo o que o rodeava, ou porque tivesse um poder de
observação minucioso, ou porque absorvesse rapidamente os conhecimentos que
a ordem detinha. O que é um facto é que , nessa primeira carta conhecida e
divulgada, Anchieta faz uma listagem dos alimentos mais utilizados no Brasil,
aludindo à farinha de pau, carnes de animais silvestres, peixes, legumes e algumas
ervas mais utilizadas na alimentação de base do povo brasileiro. Na sua opinião,
todos estes alimentos eram de fraca qualidade, muito insípidos e de pouca
substância, mas muito bons para a saúde.

Relativamente aos índios afirma que, todos eles comiam na altura “carne
humana, sentindo nisso grande prazer e doçura”. Eram essencialmente guerreiros
e quando guerreavam, logo que capturavam inimigos regressavam aos seus
domínios para fazer uma grande festa em que bebiam vinhos de raízes e comiam
os humanos captivos. Os próprios captivos se orgulhavam dessa morte pois
diziam ser “impróprio de guerreiro morrer de forma que tivessem que suportar o
peso da terra”.

Os índios não tinham nem leis nem autoridade nem conseguiam viver em
paz e em concórdia. Cada aldeia constava apenas de seis ou sete casas, nas quais,
se não fosse o laço e a união de sangue, não poderiam permanecer juntos pois
comer-se-iam uns aos outros. Eram tão bárbaros e indómitos que pareciam estar
mais perto da natureza das feras que dos homens.

Em 1560, Anchieta envia de S.Vicente uma longa carta, em latim, que é um


verdadeiro tratado de história natural. Era a carta que continha “Toda a
Informação da Província do Brasil”, publicada em tradução italiana no século
XVI, e que é considerada um pequeno manual de história natural.
Nela, descreve o clima local, referindo que o Inverno não era demasiado
rigoroso e o Verão não muito quente. Era um clima temperado, sucedendo-se
alternadamente os dias de chuva com os dias de sol. Em alguns anos, porém,
escasseavam as chuvas e os campos tornavam-se estéreis. Outras vezes, pela
abundância das chuvas, apodreciam as raízes que havia para a alimentação.

As informações são mais pormenorizadas quando Anchieta descreve


Piratininga, a actual cidade de S. Paulo. A zona é descrita como uma zona de
grandes calores e chuvas torrenciais. As chuvas, por vezes provocam enchentes
que inundam os campos. Refere também que no Inverno cessam as chuvas e a
força do frio torna-se horrível. Era frequente ver geadas espalhadas pelos campos
a queimarem árvores e ervas e a superfície da água toda coberta de gelo.
Os rios nessa altura esvaziavam-se e baixavam de tal modo que era
possível apanhar grandes quantidades de peixes à mão, por entre as ervas das
margens. Ainda a propósito de peixes, fala Anchieta de dois fenómenos que
permitiam aos nativos capturar facilmente grandes quantidades de peixe: a
piracema, ou saída de peixes, e o piraquê, ou entrada de peixes.
O primeiro destes fenómenos ocorria depois das grandes enchentes dos
rios. Os índios aproveitavam, este fenómeno para se abastecerem e se
compensarem da escassez de alimentos que antecedia este momento. Isto
acontecia duas vezes por ano ou pela descida dos rios e permanência por esse
facto dos peixes nas margens, ou porque algumas espécies se escondiam nos
arbustos para desovar. No estio, saíam das ervas grandes cardumes que eram
apanhados ou à mão, ou em pequenas redes.
O piraquê, o segundo destes fenómenos, ocorria em determinados
momentos do ano em que vinham peixes de diversas partes do mar e se
escondiam em lugares de pouca profundidade perto das margens, a fim de se
reproduzirem. Encurralados pelos índios que fechavam o único canal de entrada,
eram apanhados sem grande trabalho, aos 10 e 12 mil. Os peixes eram de óptima
qualidade e podiam comer-se ao longo de todo o ano. Eram muito usados quando
alguém adoecia.

De seguida, Anchieta elabora uma espécie de catálogo das espécies de


bichos, plantas e alguns minerais existentes em terras do Brasil. Descreve os
hábitos das espécies animais e as propriedades das plantas, incluindo-as em duas
espécies: as benéficas e as maléficas. Identifica algumas espécies animais como os
alces, javalis, panteras, avestruzes, etc, chegando a enumerar mais de 50
variedades zoológicas e mais de dez variedades de vegetais.
Depois de falar nos elementos da Natureza, Anchieta descreve alguns
fenómenos que causavam medo entre os índios. Fala dos curupiras, demónios do
mato, que segundo a lenda atavam os índios com paus, e depois os açoitavam e
matavam. Para que isso não sucedesse, costumavam colocar em certos lugares,
penas de ave, abanadores, flechas e objectos semelhantes, que funcionavam como
amuletos para evitar que lhes fizessem mal.
Em seguida descreve os boitatás, seres que viviam a maior parte do tempo
junto do mar e dos rios e dos quais apenas era visível um facho cintilante, que
corria de um lado para o outro. Estes seres apanhavam os índios e matavam-nos
de seguida.
Termina a carta com a descrição do igpupiara, um monstro aquático que
comia os índios. Os machos eram semelhantes a homens de boa estatura, olhos
muito encovados, e as fêmeas pareciam-se com mulheres belas de cabelos
compridos. Estes monstros matavam as pessoas abraçando-as e beijando-as tão
fortemente que as trituravam inteiras. Quando os monstros sentiam que as
pessoas estavam mortas, davam alguns gemidos e fugiam. Se por vezes levavam
algumas pessoas com eles, comiam-lhes somente os olhos, narizes, pontas dos
dedos e artelhos, bem, como os órgãos genitais, e os corpos eram encontrados
pelas praias sem estes órgãos. O monstro que terá inspirado esta lenda parece ter
sido o leão do mar.

Em matéria de religião, os aborígenes nem adoravam nada, nem


conheciam Deus. Aos trovões chamavam Tupã, que significava “coisa divina”.
Faziam cerimónias, de tempos a tempos, para as quais vinham feiticeiros de
terras distantes, fingindo trazer a santidade.
Antes da chegada destes feiticeiros, os índios mandavam limpar os
caminhos e recebiam-nos com danças e festas e as mulheres andavam aos pares
confessando publicamente as faltas que haviam cometido para com os seus
maridos e pedindo perdão delas.
Quando o feiticeiro chegava entrava numa casa escura e punha uma
cabaça, com a figura humana num local apropriado. Depois transformava a sua
voz e dizia aos índios que não trabalhassem, nem fossem à roça, que o
mantimento cresceria por si, que nunca lhes faltaria comida, pois as enxadas
iriam trabalhar, as flechas iriam ao mato caçar e haveriam de cativar muitos
inimigos.
Muitos deles morreriam de fome mas em santidade.
O feiticeiro prometia-lhes uma vida longa, dizia que as velhas se haviam
de tornar jovens, tudo isso com um voz disfarçada que saía de dentro de uma
cabaça.
Quando o feiticeiro acabava de falar as mulheres começavam a tremer,
com grandes tremores, parecendo endemoninhadas. Deitavam-se na terra,
espumavam da boca, pois segundo o feiticeiro assim lhes entrava a santidade.
Todos lhe ofereciam muitas prendas.
Este, depois do ritual, visitava os doentes e usava de muitos enganos e
feitiçarias: esfregava, chupava e defumava os doentes nas partes que tinham
lesadas.
Os índios aproveitavam ainda a vinda dos feiticeiros para se aconselharem
sobre as guerras e sobre os agouros.
Segundo o Padre Manuel da Nóbrega os índios cristianizados tornavam
muitas vezes a cair nestas práticas, o que levava os Jesuítas a julgarem-nos
homens de temperamento muito inconstante.

Anchieta tece ainda algumas considerações sobre os brasis, nome dado aos
índios, referindo que eram seres de saúde perfeita. Raramente se achava um cego,
um surdo, um mudo ou um coxo e nenhum era nascido fora do tempo. Isto podia
dever-se ao costume índio de enterrar os que nasciam com alguma deformação,
ou os bébés nascidos de adultério, um verdadeiro método de apuramento da raça.
Num outro documento datado de 1560 Anchieta fala do clima e das águas
que são excelentes e que segundo ele são a razão pela qual as pessoas têm uma
longa vida. As pessoas vivem até aos oitenta ou noventa anos embora a terra seja
melancólica. Os escravos e os índios, por esta razão, trabalham pouco e os
portugueses quase nada. Vive-se de festas e convívios. Todos são muito dados ao
vinho e facilmente se deixam tomar por ele. Os portugueses consideram isso
normal e frequentemente o vinho era acompanhado de comeres muito esquisitos.
Relativamente à habitação, Anchieta informa que as casas eram de pedra e
cal, cobertas de telhas, mas também as havia cobertas de palmas e de ervas.
Como havia muito algodão o vestuário era feito à base deste produto. Todos os
outros tecidos iam da Europa e os homens e mulheres portugueses trajavam de
forma muito asseada, usavam panos finos e as mulheres usavam muitas sedas e
jóias, muito mais que as mulheres de Portugal. Todos os portugueses pareciam
senhores e reis por possuirem muitos escravos e fazendas de açúcar e aí reinava o
ócio e o vício da murmuração.

Os índios cristianizados ainda andavam nus e descalços, ou quando muito


vestiam roupa de algodão ou pano grosseiro. Tinham tendência a copiar os
hábitos europeus e faziam-no com alguma graça. Podiam sair só de gorro,
carapuça ou chapéu e num outro dia só de sapatos ou botas e totalmente nus.
Outras vezes levavam uma roupa curta até à cintura, sem mais nada, parecendo-
lhes que iam muito elegantes. Quando casavam iam às bodas de vestidos e à
tarde passeavam nus.

Mas, este documento de 1560 é sobretudo importante pelas descrições que


faz da natureza. Assim, fala das formigas, que considera serem a destruição
daquela terra. Minavam as casas, as igrejas e subiam pelas paredes até ao telhado.
Toda a noite andavam os lavradores com uns fachos de fogo à caça dos insectos,
porque, se os deixassem , em uma só noite não restaria folha nos roçados de
mandioca e nas fruteiras, que sempre tinham de ser mantidas com algum tipo de
defensivo. Nos roçados lhes davam os lavradores de comer, nisto ocupando
muitas pessoas, pois o tinham por mais barato que deixá-las destruir as fazendas.
Fala longamente na vegetação brasileira, considerando o país como um
grande jardim de frescura. Os arvoredos iam-se às nuvens, eram de admirável
altura, grossura e diversidade de espécies. Muitos produziam bons frutos e o que
lhes dava graça era haver neles numerosos passarinhos de grande formosura e
variedade. Eram muito mais espécies que as que era possível encontrar em
Portugal. Havia muitos cedros, sândalos e outras madeiras e tantas flores e folhas
diversas que não se cansavam os olhos de ver.

No documento intitulado “Informação do Brasil e de suas capitanias”,


escrito em 1584 e em que se resumia a história do país e a actividade aí exercida
pela Companhia de Jesus, Anchieta refere a propósito dos indígenas, que todos
eles falavam a mesma língua. Apesar disso havia pelos matos uma raça de povos
bárbaros chamados Tapuias, que sobreviviam apenas da caça e que tinham uma
natureza muito instável. Por essa razão não conseguiam estar muito tempo no
mesmo sítio e mudavam frequentemente. Andavam todos nus ou apenas
cobertos de peles de animais e as mulheres usavam uma espécie de mantas de
algodão, que elas próprias teciam.
Os costumes dos índios, fosse qual fosse a raça, eram muito semelhantes.
Alguns índios tinham apenas uma mulher mas muitos possuíam três ou quatro.
Se era um índio importante podia chegar a ter vinte mulheres. Havia, no entanto,
verdadeiros matrimónios, segundo a lei da natureza. Os jovens em idade de casar,
ainda mancebos, serviam a seus sogros antes que estes lhes dessem as filhas.
Quem tinha mais filhas era mais honrado pelos genros e estes eram muito
submissos a seus sogros e a seus cunhados. No texto “Informação dos casamentos
dos índios”, Anchieta refere que estes tinham um espírito muito aberto pois para
os índios a noção de pecado não existia. O marido não tinha obrigações
matimoniais para com a mulher, nem esta para com o marido, por isso a mulher
não se incomodava se o índio tomasse outra mulher. Se ainda fosse jovem tomava
ela também outro marido, se fosse já velha aceitava. O marido mantinha a
obrigação de alimentar as mulheres que abandonava. Muitos índios tomavam
mulheres em aldeias apenas para terem quem lhes desse de comer, ainda que
fossem velhas e já não pudessem ter filhos.

Os índios de uma mesma nação eram muito pacíficos entre si e raramente


pelejavam. Se por vezes se exaltavam pela quentura do vinho, eram logo
apaziguados pelas mulheres que lhes escondiam as armas para que estes não se
ferissem.

O vinho era feito de raízes de mandioca, de milho e de frutas. Era uma


tarefa da responsabilidade das mulheres. Estas, depois de cozidas as raízes ou o
milho, mastigavam-nas pois diziam que isso dava mais gosto ao vinho e o fazia
fermentar mais depressa. O líquido era metido em grandes potes, fermentava
dois dias e era bebido quase quente. Bebido dessa forma não fazia tanto mal nem
os embebedava tanto. Os velhos raramente se embebedavam, ficavam apenas
alegres e bem dispostos.
O vinho feito de frutas era mais forte mas a quantidade que dele se fazia
era menor. O vinho de raízes e de milho era o mais usado nas festanças e nas
matanças. Durante todo esse tempo os índios bebiam cantavam e bailavam. Esta
bebida servia também de alimento pois era muito grosso e enquanto o bebiam
não comiam mais nada.
Só os adultos bebiam vinho. Quando um jovem se iniciava nesse ritual
faziam-lhe uma grande festa, emplumavam-no e pintavam-no para fazer dele um
homem.

Neste texto Anchieta revela ainda outros conhecimentos. Assim expõe a


localização de cada capitania, o clima, os acidentes geográficos, os núcleos
urbanos, a população, as autoridades seculares e eclesiásticas, as guarnições
militares, edifícios públicos, igrejas, fortificações, principais recursos económicos,
engenhos de açúcar, estabelecimentos jesuíticos, número de religiosos que
exerciam actividades e as aldeias que tinham a seu cargo.
Ao descrever Pernambuco, Anchieta apresenta um local muito rico, de
muitos moradores, com um comércio desenvolvido, enfim, uma nova Lusitânia.
Em relação à Baía, considerava estar esta mal situada por se encontrar num
monte, embora tivesse uma excelente vista para o mar, pelas numerosas ilhas ali
espalhadas que lhe davam uma certa graça.
Aprofunda mais a sua descrição em relação ao Rio de Janeiro, cuja vila
descreve como estando assente em um monte virado para o mar, com uma baía
muito formosa e ampla, cheia de ilhas aprazíveis. Segundo Anchieta era a cidade
mais airosa de todo o Brasil. À entrada da barra havia uma pedra muito comprida
ao jeito de um pão de açúcar. Era uma região muito rica, abastada de gados,
farinhas e outros mantimentos, madeiras preciosas, pescados abundantes, e um
clima muito saudável.

De São Paulo de Piratininga refere ser uma terra de grandes campos, muito
fértil, de muitos pastos e gados, e de muitos mantimentos. Nela davam-se uvas e
fazia-se muito vinho. Havia marmelos em quantidade, romãs e muitas árvores de
frutos.Era um local excelente para o cultivo de rosas e de lírios brancos.
De referir a propósito que a cultura da rosa foi introduzida no Brasil e
desenvolveu-se sobretudo devido ao facto de Anchieta ter criado o hábito de
decorar os altares das procissões sempre com rosas. Também as jovens donzelas
levavam nas procissões pequenas coroas feitas de botões de rosa. Na Carta Ânua,
datada de 1583, referindo-se às Solenidades da Instituição da Confraria de Nossa
Senhora do Rosário, na vila de Piratininga, Anchieta refere: “... Procedeu-se a
seguir a uma devota procissão rogatória, na qual todos traziam à cabeça suas
coroas de rosas (que só aqui florescem), carregando o padre, debaixo do pálio de
seda, uma imagem da Virgem Mãe, também ela emoldurada de rosas vermelhas”.
Sabemos agora que, entre 1560 e 1570, Anchieta se terá dedicado ao cultivo
de rosas, que eram plantadas em terreno contíguo à Igreja e à Escola, e que eram
utilizadas em todas as solenidades religiosas. A cultura desenvolveu-se de tal
modo, que ainda nos nossos dias sobrevive no Brasil uma espécie de rosas a que
se chama “Rosa de Anchieta”, espécie essa desenvolvida depois de aturados
estudos, num local chamado Roselândia que foi criado em homenagem a José de
Anchieta.

Anchieta dedicou toda a sua vida ao ensino entre índios tupi e colonos
portugueses. O processo utilizado para atrair os filhos dos indígenas a um e a
outro foco de aculturação- colégio e igreja- era a doce harmonia do canto. A
música levada da Europa, misturada com a que era trazida da selva, tornou-se
verdadeiramente eficaz na insinuação da nova crença e da nova moral.
Num acto de verdadeira Pedagogia, misturaram-se crianças indígenas com
órfãos portugueses da mesma idade, que eram levados pelos padres para o Brasil.
Permitia-se que os índios ainda não cristianizados frequentassem a missa e
cantassem em louvor de Deus na sua própria língua. Cortaram-se os cabelos dos
meninos portugueses ao modo dos índios porque “a semelhança é causa de
amor”, embora José de Anchieta compreendesse já que eram todos diferentes mas
todos iguais.

Com vista ao desenvolvimento da sua acção missionária, Anchieta fundou


inúmeros colégios entre os quais o Terceiro Colégio Regular, em 1554, conhecido
como Colégio de S.Paulo, no local que viria a dar origem à cidade com o mesmo
nome. António José Saraiva atribui a fundação da cidade ao Padre Manuel da
Nóbrega. O que se sabe ao certo é que Manuel da Nóbrega terá fundado a aldeia
de Piratininga, que deu origem à cidade de S.Paulo, mas o Colégio fundado por
José de Anchieta é que propiciou o desenvolvimento da aldeia e a sua
transformação em cidade.
Nesse colégio Anchieta ensinou gramática e latim a religiosos, índios,
portugueses e mamelucos.
Evangelizou e aprendeu a língua indígena nos seus vários dialectos.
Missionou ainda em S. Vicente, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Para catequizar
escreveu pequenos textos de teatro em quatro línguas: português, espanhol, latim
e tupi, fazendo acompanhar as suas peças de música, dança, pintura, adornos e
até instrumentos musicais dos índios. Toda a sua obra revela uma certa
ingenuidade mas alguma inteligência. As representações teatrais tinham um
carácter medieval mas funcionavam como um excelente meio de comunicação e
uma excelente forma de aprendizagem.

Em 1578 Anchieta foi nomeado provincial do Brasil e a sua actividade


intensificou-se visitando seminários de missionários e colégios de leigos, a todos
comunicando o seu entusiástico apostolado. Escreveu inúmeras poesias de
temática religiosa e dezenas de cartas em que reflectia sobre problemas
pedagógicos, história e linguística. Deixou-nos um poema em louvor da Virgem e
organizou uma gramática da língua tupi-guarani, que foi publicada em Coimbra
em 1595, mas que durante anos foi divulgada em cópias manuscritas.

Esta gramática teve uma enorme importância. Numa época em que “o


encontro duma multiplicidade de línguas totalmente desconhecidas e
indecifráveis põe o homem do século XVI perante a prova vivencial da ruptura
linguística original”, revela interesse e assume particular destaque, todo e
qualquer estudo gramatical. Anchieta sentiu essa preocupação bem como a de
transmitir e deixar escritas todas as informações passíveis de utilidade a qualquer
humanista.
O título da obra é por si bastante sugestivo: A ARTE de GRAMÁTICA DA
LINGOA MAIS USADA NA COSTA DO BRASIL.
Esta obra representa “uma estratégia de abordagem das línguas exóticas
que entram no colóquio universalizante do Mundo descoberto”. Segue
rigorosamente o modelo universal, ou seja a gramática clássica. Anchieta
apercebe-se da imensa dificuldade que é estabelecer regras pois como ele próprio
diz:
“ Isto das letras, ortographia, pronunciação e accento servirá para saberem
pronunciar o que acharem escrito os que começam aprender; mas como a lingoa
do Brasil não está em escrito, em continuo uso do fallar, o mesmo uso e viva voz
ensinará melhor as muitas variedades que tem, porque no escrever e accentuar,
cada um fará como melhor lhe parecer”.
De qualquer forma, a língua tupi foi comparada à língua grega em
perfeição e capacidade abstractizante e é considerada o verdadeiro testemunho
do Génese. Perfeita como a língua do paraíso, a língua tupi alcança, segundo José
de Anchieta, a perfeição que corresponde à pureza do seu povo, considerado
senhor dos reinos utópicos do Continente Americano, novo cenário das profecias,
em particular da profecia de Daniel.
Com efeito, os Franciscanos por um lado e os Jesuítas por outro, haviam
transferido para o continente sul-americano o pensamento milenário anunciador
do Quinto Império, ou Império do Espírito, de que será grande arauto algumas
décadas mais tarde o Padre António Vieira, com a sua História do Futuro.

Os Jesuítas empreendem assim uma recuperação doutrinária, tendo como


referente a pureza genética que se identifica com os índios, em estado de pureza
e não de selvajaria, num cenário que seria o ponto de partida para uma impetuosa
vaga espiritual que levaria à conversão universal, instaurando o Império do
Mundo, subordinado ao Espírito Santo.
Deste modo, a conquista e missionação das Ìndias Ocidentais inseria-se
num projecto universal de sentido escatológico, a que faltavam os “instrumentos”
agora encontrados. E esses instrumentos são, de facto, a dotação semiúrgica de
um alfabeto que, ultrapassando as barreiras do espaço-tempo, se tornará factor
de criação de uma área cultural e da instauração de uma nova ordem.

Assim se virtualizara o conceito de uma Gramática Universal, cujo modelo


redutivo era equivocamente procurado no velho modelo greco-latino,
metamorfoseado num modelo formal e abstractizante. Mas é, através deste
modelo, que é possível, ultrapassando os limites forçados da comunicação gestual
e o paradigma dos comportamentos semióticos, elaborar um discurso novo, um
discurso aberto, através do qual se concebem projectos e traçam programas de
comportamento e esquemas de reflexão perante um Real sempre de novo
encontrado.

José de Anchieta procurou, durante toda a sua vida, atenuar os conflitos


entre colonos e colonizadores. A bondade e o espírito de missão valeram-lhe a
confiança dos indígenas, que lhe chamavam “Pazé-Guassu”, ou seja “Amarra-
mãos”, e o seu heróico trabalho de missionário valeu-lhe o epíteto de “Apóstolo
do Brasil”.

Aos 52 anos, cansado e esgotado Anchieta pede a exoneração de provincial


e recolhe ao Colégio do Rio de Janeiro, donde transitou para o colégio do Espírito
Santo.

Faleceu aos 63 anos em Iriritiba ou Retritiba, hoje Anchieta, no Estado do


Espírito Santo, uma aldeia de índios por ele fundada.
Foi um grande estilista da língua portuguesa, embora escrevesse
igualmente em espanhol e em latim. As suas cartas são notáveis pois constituem
verdadeiros tratados etnográficos, naturalísticos e morais que permitiram revelar
o Brasil e os segredos da sua mentalidade. A ele se deve a descoberta da função da
bolsa dos marsupiais e a descoberta da sede do veneno das serpentes.
Muito conhecedor de toda a fauna e flora do Brasil, deixou preciosas
informações que só viriam a ser utilizadas no século XVIII.

Escreveu sobre temas religiosos, pequenos cantares destinados aos


catecúmenos dos sertões brasileiros e algumas vidas de santos, como por exemplo
a Vida de Santa Ursula. Os cânticos eucarísticos foram muito divulgados e de um
deles se extraem estes versos em que o autor compara a hóstia com o pão dos
anjos:
“Ar fresco de minha calma,
fogo de minha frieza
Fonte viva de limpeza
Doce beijo”

A primeira biografia de Anchieta surge dois anos após a sua morte, na


aldeia de Reritiba, mas desconhece-se o seu autor.
Em 1617, foi publicada em Colónia, com a permissão do Superior da
Sociedade de Jesus, a história da vida de José de Anchieta, biografia esta que será
o ponto de partida para muitas outras feitas no século XIX, momento em que
surge um enorme interesse por esta figura.

Na biografia de Colónia aparece um capítulo intitulado: “José de Anchieta,


o primeiro que ensina no Brasil as línguas latinas”.. donde se extraem as seguintes
passagens:
“Foi por ele fundada uma escola em Piratininga (hoje S. Paulo). que teve desde
logo um número significativo de ouvintes da Sociedade de Jesus e uma grande
quantidade de jovens portugueses.”

Nesses tempos não existia no Brasil quantidade de livros que permitisse


que cada discípulo dispusesse do seu próprio exemplar, por onde aprendesse os
preceitos da Gramática de Língua Latina e pudesse adquirir o conhecimento das
restantes coisas. Esta dificuldade, o mestre, com seu trabalho, tentava remediá-la
e dava-lhes livros escritos sobre papiro, por sua própria mão...” (...)

Anchieta compôs ainda um catecismo em brasileiro e elaborou um diálogo


com perguntas e respostas sobre religião, para que fosse mais fácil aprender.
“Escreveu um drama e dedicou-o ao povo”. Trata-se do Auto de São Lourenço
que, segundo uma técnica vicentina utiliza três línguas: português, castelhano e
tupi. A língua tupi foi objecto de aprendizagem por parte dos europeus mas a
língua portuguesa foi também ensinada às crianças tupi.

Empreendeu a elaboração dum Dicionário e traduziu catecismos e


Diálogos de Doutrina.

Culto, sensível, de grande versatilidade intelectual, Anchieta foi


missionário, administrador, pregador, professor, linguista, etnólogo, naturalista,
epistológrafo, poeta, historiador, biógrafo e depois de morto adquiriu fama de
taumaturgo. Viajou muito pelos estabelecimentos jesuíticos do país e exerceu
funções em vários deles.

Anchieta foi um verdadeiro humanista pois humanistas “são quantos,


mesmo que atentos ao divino, prestam ao Homem nova atenção, mais comovida
de interesse porque mais convicta na sua grandeza. Além de pobre criatura de
Deus, é o homem na verdade continuador da Sua obra pela grandeza que lhe
acrescenta e pelo domínio com que a senhoreia.
Sendo assim, o humanismo tanto podia exprimir-se pelo populismo de Gil
Vicente como pelo aristocratismo de António Ferreira, mas o homem humanista
podia ser capitão de uma nau ou missionário e apóstolo como José de Anchieta,
um homem humilde e tolerante, um homem que conseguiu ver mais longe que o
homem dito civilizado do século XX.
Anchieta catequizou índios, ensinou-os, divulgou a sua língua. O século
da modernidade extinguiu-os e pô-los em reservas.
Anchieta foi, enfim, o verdadeiro sal da terra na terra que Vieira havia de
percorrer