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Confronto entre as duas versões da narrativa Dama Pé de Cabra

Livro de Linhagens do Conde D. Pedro e Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano

Luísa Lopes

Dama Pé de Cabra - Versão do Livro de Linhagens do Conde D.Pedro

Narrador- Não participante- heterodiegético

Personagens:

Dom Diogo Lopes - Personagem principal visto que a narrativa surge incluída na história da sua
linhagem.
Caracterização: "mui bom monteiro", característica eminentemente masculina. Possui a capacidade de
enamoramento a tal ponto que abdica das suas convicções. Defende a linhagem, ou seja, a
transmissão do bom nome de família: casa com a dama porque ela diz que era "mulher de muito alta
linhagem", e impede o filho de ser levado pela mãe quando esta resolve partir ("nom lho quis deizar
filhar"). Revela ser um bom cristão visto que vai combater os mouros, mas falhou como cristão ao
abdicar de se benzer. Não mantem a palavra dada à dama o que é explicado pelo narrador pelo facto
do acontecimento que causou essa quebra ser por ele considerado como um milagre.

Dama Pé de Cabra - Responsável pela infelicidade de D.Diogo Lopes. Possui a capacidade de


encantamento. através do canto ("ouviu cantar muito alta voz"). O seu canto atrai D. Diogo. "Mui
fermosa e mui bem vestida", era segundo palavras suas "mulher de muito alta linhagem". "Era mui
fermosa e mui bem feita em seu corpo salvando que um pé forcado como pé de cabra. Domina a
relação com D.Diogo, impõe-lhe uma condição que ele cumpre. Parte ao ver que D. Diogo não cumpriu
a sua palavra, levando com ela a filha. Não guarda rancor visto que se dispõe a ajudar o seu filho a
retirar o pai da prisão. Protege o filho até ao fim da vida ao dar-lhe o cavalo Pardalo.

Enheguês Guerra- Filho destinado a assegurar a sucessão, por ser homem. Habituado desde cedo a
seguir os passos de seu pai, visto que quando comiam "assentava o pai a par de si o seu filho". O pai
impede-o de partir com a mãe segurando-o. A dívida de gratidão é paga quando o filho resolve salvar o
pai. No entanto não tem capacidade para agir sozinho. Pede conselho "aos da terra", mas é a mãe que
o ajuda. Recebe poderes através do cavalo Pardalo, não os possui por ele próprio.

Filha- Pouco se sabe dela, nem sequer o nome. Destinada a seguir os passos de sua mãe, foi por ela
levada e nunca mais ninguém a viu, nem tão pouco o seu irmão.

Indícios de desgraça para o cavaleiro:


Abdicar do seu dever de fidalgo, que era ser bem cristão, por uma dama que tinha um sinal
demoníaco, uma deformação física. O facto da dama lhe impôr que nunca se santificasse indica já o
lado do mal que a possuía.

Indícios demoníacos manifestados pela dama:


Capacidade de encantamento a ponto de apagar as virtudes do cavaleiro.
Defeito físico estranho, que era na época medieval considerado uma marca demoníaca. Acreditava-se
que os espíritos malignos eram assinalados à nascença.
Capacidades de adivinhação ("bem sei eu ao que vens") e poderes mágicos que a fazem dominar e
"encantar" o cavalo que estranhamente servirá para proteger o filho e o ajudar a salvar seu pai.
Confronto entre as duas versões da narrativa Dama Pé de Cabra
Livro de Linhagens do Conde D. Pedro e Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano

Luísa Lopes

Dama Pé de Cabra - Versão de Alexandre Herculano, in Lendas e Narrativas

Narrador:
Narrador Participante. O narrador assume o papel do "contador de histórias" que pré-anuncia
determinados pontos de interesse da narrativa de modo a criar no ouvinte/leitor o desejo de ouvir/ler.
O receptor está assim presente através da expressão de um vós a quem o emissor se refere. O
narrador apela para a veracidade da narrativa "não me digam no fim: não pode ser", além do mais
porque segundo palavras suas não é uma história inventada porque foi lida num livro muito velho. O
narrador refere-se aqui ao Livro de Linhagens de onde se retirou a história e refere ainda que nesse
livro velho apenas se regista aquilo que se ouviu contar, apelando assim para a capacidade e a força da
tradição. Começa por alertar o receptor para que a história se relaciona com bruxas, almas penadas e
tropelias de Satanás, criando um certo suspense quando pede "silencio profundissimo" porque se vai
iniciar a narrativa.
Ao longo do texto o narrador interrompe frequentemente a narrativa para se dirigir ao receptor: "Dirá
agora alguém... pois sabei que não ia nada"(trova 1,3), "ora deveis de saber"(trova 1,4),

Personagens:
D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia, o barão- "infatigável monteiro" que não temia "neves da serra, no
inverno, soes dos estevaes no verão, noutes e madrugadas". Apresenta-se pois como um homem
destemido e corajoso habituado a tudo o que é difícil. No entanto, nesta versão sabe-se que não
caçava sozinho, ao contrário da 1º versão. O encantamento aparece aqui descrito de forma diferente
sentindo-se D. Diogo impelido a ir ter com a dama não correndo mas voando. Enquanto que na 1ª
versão sabemos desse encantamento por palavras do narrador, nesta versão é o próprio D. Diogo que
diz:"Quem sois vós... que logo me captivastes?". É considerado um "rico-homem illustre, que nada
mais tinha que fazer neste mundo, senão dormir, beber, comer e caçar". Perante a desgraça que sobre
ele se abateu "viveu muito tempo triste e aborrido" até se lembrar de "sair à caça de mouros", talvez
para se penitenciar por ter feito um pacto com o diabo. O filho recorda-o "carrancudo e triste" no dia
em que resolveu confessar-se e em que o abade lhe diz ter ele feito "maridança com alma penada".
Sofre um cativeiro de tantos anos quantos os que vivera com a dama pé de cabra. É salvo pelo filho
mas pouco tempo depois morre.

Dama Pé de Cabra- Tal como na 1ª versão apresenta-se através do seu cantar que era "um lindo, lindo
cantar". Era uma "dama formosa", "senhora tão gentil", "de tão alta linhagem como D. Diogo", de uma
"beleza divina", uma "bella dama", que tinha "os pés forcados como os de cabra". Mostra conhecer
bem o senhor de Biscaia pois conhece todos os seus bens. Torna-se pelo casamento "a nobre mulher
de D.Diogo".
Perante a quebra de juramento de D. Diogo transfigura-se e fica "com os olhos brilhantes, as faces
negras, a boca torcida e os cabelos eriçados". Deixa de ter características humanas pois flutua no ar e
"o braço crescia, alongando-se (...) a mão era preta e luzidia (...) as unhas tinham-se-lhe estendido bem
meio palmo e recurvado em garras". A partir de certo momento é considerada por todos "grande
fada"mas segundo o abade seria um ser lendário cujo poder vinha já do tempo dos godos. Segundo o
abade ela vivia para excomungar por vingança, podendo pois considerar-se uma "alma em pena".
Quando aparece a seu filho é "uma linda mulher", com "gesto amoroso e sorriso d'anjo". Conhece o
filho a ponto de saber que ele a odeia e que só recorreu a ela para salvar o seu pai. Ajuda-o e cativa-o
dando-lhe poderes imensos, acabando assim por recuperar o filho.

Inigo Guerra- "enlevo de seu pae", costumava sentar-se junto de seu pai. É impedido de partir com a
sua mãe quando o pai faz o sinal da cruz. O pai entrega-lhe o "governo de seus castellos" quando parte
visto que ele já era "mancebo e cavalleiro". Mostra-se um ser bastante sensível. Tem desmaios e não
Confronto entre as duas versões da narrativa Dama Pé de Cabra
Livro de Linhagens do Conde D. Pedro e Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano

Luísa Lopes

consegue comer quando se lembra que seu pai está captivo dos mouros. Para o salvar não resiste e vai
procurar a sua mãe mas antes disso "benzeu-se vinte vezes". Recorre a ela mas tenta proteger-se pois
sabe que ela é uma alma demoníaca. Fica enfeitiçado um ano para poder salvar seu pai. Depois de o
salvar vive fazendo grandes façanhas pois também ele fez um pacto com o diabo e não mais entrou
numa igreja. A mãe conquistara-o

Dona Sol- "enlevo de seu pae", costumava sentar-se junto de sua mãe. Nesta versão refere-se que ao
ser levada por sua mãe a filha "muito chorava". Nada mais se sabe dela.

Brearte- Pagem mimoso e privado de D.Inigo. Personagem que aconselha Inigo a procurar a sua mãe,
ao contrário da 1ªversão em que são os senhores da terra a desempenhar este papel. Era humildoso e
de boa raça.

Abade- Possui o segredo da Dama Pé de Cabra. Também ele é um narrador de histórias. É quem
dsevenda todo o segredo que Inigo possui e que apenas conta a Brearte.

Argimiro o Negro- Rico-homem de Biscaia, do tempo dos godos, conde, senhor de um castelo. Quando
o seu pai estava para morrer jura-lhe nunca matar "fera em cama e com cria, seja urso, javali ou
veado". Este homem gostava de guerra, vinho, mulheres e sobretudo de montear. Era casado com uma
linda condessa. Um dia é chamado a combater na mesnada del rei Wamba e decide antes de partir
fazer uma grande caçada. Por querer bem servir os seus convidados mata as crias de um onagro,
esquecendo-se do que prometera a seu pai. É-lhe feito um agouro:"pelo onagro tu ficarás desonrado".
Argimiro mostra-se corajoso e finge não o ouvir. É considerado responsável pela morte da sua mulher
sem se saber bem porquê. Durante muitos anos combateu os mouros e o seu corpo fica repleto de
cicatrizes que provam a sua valentia. Do seu castelo vinham-lhe más notícias o que lhe dava "um
aspecto triste e feroz". Descobre a traição de sua mulher e mata-a. Quando mata Astrigildo aparece-
lhe o onagro e uma voz diz :"por via do onagro ficaste desonrado". Nesse momento Argimiro percebe
tudo o que aconteceu.

Condessa- Mulher de D. Argimiro e por ele morta por se deixar enfeitiçar e trair o marido. Torna-se
uma alma penada que de vez em quando aparece "vestida de branco e vermelho, assentada nas
penhas, cantando lindas toadas". É ela a própria dama pé de cabra

Astrigildo Alvo-" Nobre gardingo, gentilhomem e mancebo", de vinte e cinco anos apaixona-se em
sonhos pela condessa. É enfeitiçado e levado ao castelo do senhor de Biscaia, por um misterioso
onagro. Vive essa paixão e é morto pelo marido enganado. Torna-se no entanto uma alma penada que
vive transformada em Onagro, o mesmo que ajuda Inigo a salvar o seu pai e que o protegerá para o
resto da vida.

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