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BIOGRAFIA e notas sobre JOSÉ SARAMAGO

Luísa Lopes

1922- Ano de nascimento a 16 de Novembro, registado a 18, com o nome errado, Saramago era alcunha
da família.

1947- Terra do Pecado- Romance

1966- Poemas Possíveis - Poesia

1970- Provavelmente Alegria- Poesia

1975- O Ano de 1993- Poesia

1977- Manual de Pintura e Caligrafia- Romance

1978- Objecto Quase - Romance

1979- A Noite - Teatro

A acção passa-se na redacção de um jornal, em Lisboa, na noite de 24 para 25 de Abril de 1974. À


medida que os acontecimentos decorrem os jornalistas vão discutindo sem saber o que fazer: “Há um
golpe militar, ao que consta, que certezas ainda não temos, mas não sabemos quem o deu...
-É de esquerda. O golpe é de esquerda.
- Como é que soube? O golpe é militar, não se ouve falar em civis, como é que se pode saber, assim de
repente, se é de esquerda ou de direita? O nosso primeiro dever, a nossa obrigação primordial, é não
cair em precipitações que possam vir a prejudicar-nos no futuro...
(...)
O jornal há-de sair, e sairá com a notícia do que se está a passar. Tanto faz que o golpe seja de esquerda
como seja de direita...
E a revolução acontece também dentro do próprio jornal...

1980- Levantado do Chão- Romance

Que farei com este Livro? - Teatro

É uma peça sobre Camões. O nevoeiro que, na cena de abertura, envolve Almeirim, para onde a corte se
deslocara em Abril de 1570, fugindo à peste que em Lisboa grassa, paira também sobre a capital, em
Dezembro do ano seguinte, quando o ciclo se fecha. E é uma espessa cortina de nevoeiro que Luís Vaz
atravessa ao longo das doze cenas intermédias: a indiferença do rei D. Sebastião, que não se detém
para escutá-lo, o desprezo dos descendentes de Vasco da Gama, que lhe rasgam os versos, a sombra
terrível do Santo Ofício, que manda prender Damião de Góis, os argumentos do censor Frei Bartolomeu
Ferreira, a cujos golpes o poeta astuciosamente se esquiva, até arrancar dele a tão ansiosamente
desejada declaração de que é o “livro digno de se imprimir”, o dinheiro que falta para o livro ser
editado visto que o maior poeta português é pobre, o vencer dos sucessivos obstáculos: a dedicatória
ao rei, a defesa do manuscrito perante o Santo Ofício, a venda do privilégio. E assim se chega ao epílogo.
Impresso o livro, será ele que vai romper a cortina de nevoeiro, ainda que atrás dele volte a fechar-se e
uma “apagada e vil tristeza” crescente alastre pela pátria. Camões segura com ambas as mãos o
primeiro exemplar saído dos prelos, e formula então a pergunta: Que farei com este livro? Mas logo a
transforma noutra pergunta, que é afinal a resposta justa e a única possível: “Que fareis com este
livro?” Camões fez o que devia fazer, o resto é com os leitores.

1982- Memorial do Convento - Romance


BIOGRAFIA e notas sobre JOSÉ SARAMAGO
Luísa Lopes

1984- O Ano da morte de Ricardo Reis- Romance

É a história de Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, que, e segundo o autor da
Mensagem, nasceu na cidade do Porto, em 1887, era médico e entretanto partira para o Brasil em 1919
e nunca mais voltara. Segundo José saramago, Ricardo Reis regressa a Portugal depois da cólica
hepática que vitimou Fernando Pessoa e chamado por um telegrama de Àlvaro de Campos. O livro
começa em finais de 1935 com a chegada De Ricardo Reis a Lisboa, desembarcando no cais de
Alcãntara. È um domingo chuvoso e Ricardo Reis vai instalar-se no Hotel Bragança, na baixa Lisboeta.
Aí conhece duas mulheres: Marcenda Sampaio, filha de um notário de Coimbra, que todos os meses
vem a Lisboa tratar de uma paralisia da mão esquerda e Lídia, a criada do hotel, que mais tarde, e
depois de relações carnais com o senhor doutor, irá ficar grávida. O livro termina nove meses depois
com a morte de Ricardo Reis. A acção recria a celebração do décimo aniversário da implantação do
Estado Novo e a Guerra civil de Espanha

1986- Jangada de Pedra- Romance


1987- A Segunda Vida de Francisco de Assis - Teatro

Saramago imagina uma segunda Vida de Francisco de Assis. A ordem que ele fundara tornou-se uma
imensa empresa que vende tudo, “até aquilo que” poderia ser “dado de graça: esperança, fé e caridade.
Tudo acontece porque “certas palavras perderam os seus significados. Entretanto não faltam por aí
significados que mudam todos os dias de palavras ou que as usam como se pusessem disfarces. Como
diz a personagem Francisco de Assis “o mundo mudou porque nós não soubemos mudar doutra
maneira o mundo. Agora teremos de mudar-nos a nós próprios para que o mundo possa ser mudado”
“Com o tempo, aprendemos a não dar às palavras excessiva importância, às vezes nem a que merecem”,
no entanto “chama-se por um nome, e ele leva consigo a pessoa que o usa, mesmo não querendo ela”.
“As eras mudam, o falar não é o mesmo”. Francisco recorda então: “Quando, para me entregar à
pobreza, renunciei à minha herança, também renunciei a um pai que nada mais tinha para dar-me que
esses bens de vaidade. Para ele, herança e filho eram o mesmo. Porque o filho não quis a herança, a
herança deixou de querer o filho. Oiçam a palavra do dinheiro: “Para me seguires deixarás aqueles que
me não adorem, ainda que teus filhos sejam”. Mas o homem “será homem plenamente quando, tendo
atingido a suprema pobreza, a suprema desnudez, ainda for capaz de sobreviver como homem”
Francisco não compreende a transição de uma ordem religiosa para uma empresa. Alguém lhe diz
então: “ isso a que um dia chamaste pobreza tem hoje nome de miséria. Para sermos reconhecidos
como pobres, teremos de ser miseráveis. Teremos de rebaixar-nos para que nos tomem a sério. E
então, o mais provável, que digo eu, infalivelmente seremos eliminados. Duma maneira ou de outra.”
Francisco recorda a sua vida anterior: “Vivi e fiz viver outros de esmolas, dei o que tive e o que me
davam, fui, ou quis ser, o mais pobre dos pobres. Não recebi a pobreza como uma herança, procurei-a,
conquistei-a, devo-a ao fogo da vocação e ao gelo da vontade. Olhei o mundo e disse: “Serei pobre”.
Tornei pobres os que vieram a mim. Vivemos juntos em pobreza, muitas vezes, sem vestidos, sem pão,
sem tecto. Desdenhámos as riquezas. É certo que Deus, ao criar o universo, criou as riquezas que há
nele, mas Deus não chamou riqueza áquilo que criou. Para Deus não há riqueza nem pobreza, Deus não
mede nem pesa, Deus apenas olha.”
Mas como tudo mudou, o mundo, a pobreza, os homens, Francisco de Assis na sua segunda vida resolve
“lutar contra a pobreza” pois “é a pobreza que deve ser eliminada do mundo”.

1989- História do Cerco de Lisboa- Romance

1991- O Evangelho Segundo Jesus Cristo- Romance

1993- In Nomine Dei- Teatro

1995- Ensaio sobre a Cegueira- Romance


BIOGRAFIA e notas sobre JOSÉ SARAMAGO
Luísa Lopes

1997- Todos os Nomes- Romance

“Imagine-se uma enorme, enormíssima Conservatória Geral do Registo Civil onde vivos e
mortos convivam- embora afastados por um fio invisível que separa os seus nomes. É obra de cinema
esta visão: um edifício gigantesco onde funcionários zelosos cuidam dos nossos nomes, das nossas
datas essenciais, da nossa memória, das datas de casamento e de falecimento e, necessariamente,
então, da mudança de arquivo: das estantes dos vivos, o nosso verbete passa para a estante dos mortos.
Vivos e mortos estão, portanto, separados na Conservatória. Uma personagem solitária enfrenta a
ordem estabelecida. Apenas o conhecemos por Sr. José, um coleccionador de nomes que um dia, depois
de organizar vastos dossiers de pessoas famosas, se decide a coleccionar os dados civis de uma mulher
anónima como ele. Uma mulher desconhecida que acaba por desaparecer enquanto decorre esta
investigação.” Saramago confronta-nos com a ideia de vida e morte e o pouco peso que cada nome tem
quer na gigantesca Conservatória Geral onde trabalha o Sr. José, única personagem com nome, quer no
monstruoso cemitério geral onde todos os mortos são catalogados e onde todos os vivos têm um nome
e um nùmero. Confronta-nos também com a burocracia extrema que domina tudo.

1998- A Ilha Desconhecida- Conto

“Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas portas, mas
aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se,
os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-
se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório,
escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós,
que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que
não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este
chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim
por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a
porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto
é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento
fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os
obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade
do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o
qual, escusado seria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro,
sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza,que despachava sim ou não conforme
estivesse de maré.
Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a
mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de
pedir, como era costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu,
Quero falar ao rei (...)

Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser
porque está a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro
invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas
içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao
seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta com uma seara já
madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na
mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra.
Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ele a ela, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que
não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e
a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda
faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à
procura de si mesma.”