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I JORNADA DE ANÁLISE DO DISCURSO DA UFRRJ: SUJEITO E IDEOLOGIA

Coord: Profa. Dra. Rívia Fonseca e Prof. Me. Wellton da S ilva

UM TRAJETO PELAS NOÇÕES DE IDEOLOGIA, ASSUJEITAMENTO E


IDENTIFICAÇÃO NA TEORIA MATERIALISTA DO DISCURSO

Prof. Flavio da Rocha Benayon


UNICAMP/UERJ/CNPq

INTRODUÇÃO

A produção de Michel Pêcheux atravessou diferentes fases e se aproximou de


diferentes campos. Por vezes, sua obra foi empreendida sob o esforço de uma escrita
imbricada a outros autores, compartilhando questões em um pensamento conjunto.
Pêcheux foi uma pessoa de força. Digo isso não apenas pela coragem de uma empreitada
teórica que propôs constituir-se a partir de terrenos áridos, como a Linguística, o
Materialismo Histórico e a Psicanálise, nem por conta dos temas por vezes trabalhados,
que relativizavam os sentidos dominantes, sobretudo, no campo político. Falo da força de
Pêcheux por sua coragem de retornar a formulações e propor retificações onde elas
falhavam.

A potência de Pêcheux com relação a seu olhar para a própria teoria e a posterior
configuração de ajustes está emblematicamente representada na seguinte passagem,
retirada de Só há causa daquilo que falha: “O leitor talvez se surpreenda com essa
insistência na autocrítica, ao que responderei que não se deixa jamais um erro dormir
impunemente em paz, pois esse será um meio seguro para que ele perdure”. E ainda: “é
preciso discernir o que falha não por pretender com isso se amparar definitivamente no
verdadeiro (!), mas para tentar avançar quanto se possa em direção à justiça” (PÊCHEUX,
2009b, p.275-276).

Proponho, neste minicurso, realizar um trajeto que nos possibilite relembrar as


bases da teoria materialista do discurso para, em momento posterior, estudarmos uma das
principais reconfigurações propostas por Pêcheux. Em um primeiro momento de nosso
trajeto, leremos Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado, de Louis Althusser,
atentando para a noção de ideologia. Em uma segunda parte, visitaremos Semântica e
discurso, de Michel Pêcheux, objetivando definir as noções de identificação,
contraidentificação e desidentificação – para isso, devemos compreender, minimamente,
a relação guardada entre ideologia e discurso. No terceiro momento, parte final de nosso
trajeto, leremos o famoso Anexo 3, conhecido também como Só há causa daquilo que
falha, atentando para as retificações propostas pelo autor, sobretudo, ao retornar à noção
de desidentificação para a desmontar, mostrando como sobre ela comparece um grave
problema.

PARTE I: IDEOLOGIA E ASSUJEITAMENTO

O filósofo materialista Louis Althusser, em Ideologia e aparelhos ideológicos de


Estado, empreende a formulação de uma teoria da ideologia em geral. Uma diferenciação
é constituída entre as ideologias em particular e a ideologia, funcionamento estrutural,
omni-histórico. A teorização althusseriana é basilar na Análise do Discurso proposta por
Pêcheux. Não à toa, há um funcionamento imbricado entre as formações ideológicas e as
formações discursivas, como veremos posteriormente. Por ora, sigamos os passos de
Althusser.

A noção althusseriana de ideologia não é a mesma da que se pode encontrar em


Karl Marx, particularmente em A ideologia alemã. Para Marx, a ideologia é concebida
como “pura ilusão, puro sonho, isto é, como o nada. Toda sua realidade lhe é externa”
(ALTHUSSER, 1996, p.124). Essa compreensão sustenta a afirmação de Marx “a
ideologia não tem história”, de modo que a ideologia funciona como um véu que
esconde a história concreta, constitutiva das relações humanas. Assim, Althusser (1996,
p.124) afirma: “Para Marx, portanto, a ideologia é uma montagem imaginária, um puro
sonho, vazio e fútil, constituído pelos ‘resíduos diurnos’ da única realidade plena e
positiva: a da história concreta de indivíduos concretos, materiais, produzindo
materialmente sua existência”. A ideologia, para Marx, não tem história própria, pois é o
reflexo invertido da história real, um falseamento a ser “superado”.

A formulação “a ideologia não tem história” é reafirmada por Althusser, porém


produzindo um deslocamento. O autor propõe duas noções: ideologia em geral e
ideologias em particular. A ideologia em geral é uma estrutura e funcionamento que
corresponde a uma realidade omni-histórica, pois é imutável, isto é, permanece da mesma
forma ao longo de toda a história. Althusser (1996, p.125, grifos do autor) afirma: “a
ideologia em geral não tem história – não num sentido negativo (sua história lhe é
externa), mas num sentido absolutamente positivo”. Diferentemente da noção de
ideologia em Marx, que mobiliza uma história externa, ou seja, real, verdadeira,
escondida pelo véu da ideologia, em Althusser, a ideologia não tem história por se tratar
de um funcionamento imutável e inescapável, que constitui a todos em animais
ideológicos – não há um fora da ideologia.

As ideologias em particular, de forma dessemelhante da ideologia em geral, têm


uma história própria, apresentando uma forma regional “religiosa, ética, jurídica, política”
e expressando “posições de classe”. O aspecto de classe expresso pelas ideologias aponta
para seu caráter contraditório, de modo que o aspecto regional das ideologias, ainda que
orientado pela posição dominante, comporta posições em disputa. Desse modo, é possível
conceber que as relações de produção (de sentidos) não ocorrem apenas por reprodução,
mas também por transformação e deslocamento.

Tomemos o ensino de Língua Portuguesa na educação básica brasileira. Em uma


breve consideração, se durante muitas décadas o ensino formal da língua predominou sem
ser largamente questionado, orientado por uma prática metalinguística, de categorização
gramatical, em meados da década de 80, diferentes questões são levantadas em torno do
ensino de Português, passando a incluir o trabalho com gêneros textuais, voltados para a
compreensão e a produção leitora e escrita. Os Parâmetros Curriculares Nacionais de
Língua Portuguesa, publicados em 1998, marcam essa virada no ensino de Português,
mesmo que, em sala de aula, o ensino metalinguístico ainda seja largamente praticado e
defendido. Deve-se considerar que outras propostas de ensino de língua também disputam
o território das práticas pedagógicas. O interessante é que há disputa no interior de uma
ideologia particular, em seu aspecto regionalizado, como a escolar, e que a disputa
possibilita a transformação, ainda que seus efeitos sejam sempre inesperados.

Aprofundemo-nos nas considerações de Althusser sobre a noção de ideologia em


geral, ou simplesmente, ideologia (no singular). O autor propõe como sua tese primeira:
“A ideologia representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de
existência”. (ALTHUSSER, 1996, p.126). As condições reais de existência têm sua
“existência” para os indivíduos, mas os indivíduos relacionam-se com as condições reais
de existência imaginariamente, de modo que não há exterioridade às relações imaginárias
a ser alcançada, não há um fora da ideologia, não se pega o real. Althusser afirma:

[...] o que “os homens” “representam para si” na ideologia não são suas
situações reais de existência, seu mundo real; acima de tudo, é sua
relação com essas condições de existência que se representa para eles
na ideologia. É essa relação que está no centro de toda representação
ideológica, portanto imaginária, do mundo real. É nessa relação que se
acha a “causa” que tem de explicar a deformação imaginária da
representação ideológica do mundo real. (ALTHUSSER, 1996, p.127)
O mundo real é irrepresentável. Os indivíduos representam na ideologia sua
relação com o mundo real. Esse funcionamento possibilita compreender como um
mesmo “fato” pode produzir diferentes representações, pois ao considerar a
impossibilidade de haver representação das condições reais de existência, já que o que há
é a representação da relação, não há um sentido homogêneo para os acontecimentos. A
representação da relação do indivíduo com as condições reais de existência não é única,
ou seja, há relações, heterogêneas, com o “mundo real”, portanto, há ideologias. Se
houvesse apenas representação, e não representação da relação, haveria um mundo
homogêneo, de sentidos estáveis, e não contraditórios.

A segunda tese de Althusser (1996, p.128) postula: “A ideologia tem uma


existência material”. Afirmar a existência material da ideologia sugere uma contraposição
a uma sua compreensão idealista ou espiritual. O autor afirma: “uma ideologia existe
sempre num aparelho e em sua prática ou práticas. Essa existência é material”
(ALTHUSSER, 1996, p.129). Cada Aparelho Ideológico de Estado, doravante AIE, e
suas práticas correspondentes, são expressão de uma ideologia, em seu aspecto regional.
Ir à missa aos domingos, rezar antes de dormir, ajoelhar quando se está na Igreja, comer
a hóstia são algumas práticas que caracterizam a materialidade da ideologia religiosa,
inscrita no AIE Religioso. Sentar em uma carteira, abrir o caderno ou o celular para anotar
as lições, estudar para a prova, pedir meio ponto ao professor para passar de semestre
(quando necessário), ir ao minicurso que levará horas são rituais que configuram a
materialidade da ideologia escolar, inscrita no AIE Escolar. Essas práticas, que “são
evidentes”, sendo realizadas de maneira automática e inquestionável pelo sujeito, são
rituais sustentados ideologicamente. E mais:

Assim, diremos que, no que tange a um único sujeito (tal ou qual


indivíduo), a existência das ideias que formam sua crença é material,
pois suas ideias são seus atos materiais, inseridos em práticas
materiais regidas por rituais materiais, os quais, por seu turno, são
definidos pelo aparelho ideológico material de que derivam as ideias
desse sujeito. (ALTHUSSER, 1996, p.130, grifos do autor)
A ideologia, sendo representação da relação imaginária dos indivíduos com suas
condições reais de existência, não tem existência ideal ou espiritual, mas material. A
materialidade da ideologia está nas práticas regidas por rituais configurados por
Aparelhos Ideológicos de Estado. Um dos efeitos da ideologia é o de que o sujeito age de
acordo com suas próprias ideias, portanto sendo livre para “escolher”, porém suas práticas
(inclusive as de produção de sentidos) são determinadas ideologicamente. Os rituais que
constituem o sujeito, seu corpo, seus gestos, seu modo de pôr a língua em funcionamento
são ideológicos. A tese central de Althusser (1996, p.131) é: “A ideologia interpela os
indivíduos como sujeitos”.

Há uma concomitância entre a existência da ideologia e a constituição do sujeito,


de forma que o sujeito não existiria sem o processo de interpelação ideológica. A esse
respeito, Pascale Gillot (2018, p.100-101), leitora de Althusser, afirma: “Parece existir,
em ‘Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado’, uma equivalência teórica fundamental
entre a ordem ideológica, o devir-humano e o devir-sujeito”. Para Althusser (1996,
p.131), “não existe ideologia, exceto pelo sujeito e para sujeitos”. A estrutura de
funcionamento é dupla, até mesmo contraditória: não existe sujeito sem ideologia, pois
aquele precisa ser interpelado para se constituir, mas também não existe ideologia sem
sujeito, pois “a ideologia [não é] mais do que seu funcionamento nas formas materiais de
existência desse funcionamento” (ALTHUSSER, 1996, p.132).

A interpelação ideológica produz como efeito a evidência de que somos sujeitos,


de que é óbvia a nossa existência, o mundo em que vivemos, a “realidade” que nos cerca
e os sentidos que produzimos quando falamos:

[...] para vocês e para mim, a categoria do sujeito é uma “evidência”


básica (as evidências são sempre básicas): é claro que você e eu somos
sujeitos (livres, morais etc.). Como todas as evidências, inclusive as que
fazem com que uma palavra “nomeie uma coisa” ou “tenha um
significado” (incluindo, portanto, as evidências da “transparência” da
linguagem), essa “evidência” de que você e eu somos sujeitos – e de
que isso não é um problema – é um efeito ideológico, o efeito
ideológico elementar. (ALTHUSSER, 1996, p.132)
A interpelação ideológica constitui o sujeito, levando-o a reconhecer determinada
“verdade”, isto é, uma ideologia como evidente. É claro que eu sou “eu” e, obviamente,
falo o que, de fato, desejo dizer, isto é, tenho controle do que enuncio. A linguagem é
produzida como óbvia, de modo que os sentidos são transparentes, afinal, para saber o
significado de uma palavra, caso haja dúvidas, basta consultar o dicionário. O aspecto
regional ou de classe das ideologias em particular é apagado do funcionamento da
linguagem, como se as palavras tivessem um sentido homogêneo.

Em junho de 2013, no Brasil, as ruas de diferentes cidades foram tomadas por


inúmeros protestos. Imediatamente, parte da mídia tentou significar as manifestações
como atos de vandalismo; pelas redes sociais, alguns usuários tentavam defender a
legitimidade dos protestos. Alguns meses depois, um novo modo de significar essas
manifestações surgiu: ali residia a origem da arquitetura do golpismo. Outra leitura
possível seria a de ser uma expressão confusa da insatisfação popular com os governos
vigentes. Muitos sentidos são possíveis, mas nenhum totaliza o acontecimento, pois não
existe possibilidade de haver representação do real. Há, tão somente, representação da
relação do indivíduo com suas condições reais de existência.

Ao participar de um dos protestos, ouvi inúmeros manifestantes gritarem:


“Queremos mudança!”. Essa palavra, “mudança”, além de estar na boca das pessoas,
compareceu em cartazes, charges, jornais, entre outros materiais. Em pouco tempo, pelos
diferentes processos de produção de sentidos que se perpetuavam, o caráter paradoxal de
“mudança” estava posto1. Todos gritavam em uníssono por “mudança”, mas uns queriam
um Estado maior, com mais direitos, mais universidades públicas, melhores salários, mais
saúde, mais educação; outros queriam uma privatização generalizada; outros queriam
mudar (de novo) para a ditadura. Todos abraçados, gritando, enunciando a mesma palavra
e pedindo destinos completamente díspares.

A ideologia nos determina as evidências. Althusser nos diz:

Tudo acontece como se, no limite, os papeis fossem completamente


invertidos e não fosse eu a interpelar uma ideia para lhe dizer: “Ei, você
aí, mostre um pouco a sua cara para eu dizer se você é verdadeira ou
não!”, mas como se fosse a ideia, ou o sistema de ideias, que me
interpelasse e me impusesse sua verdade, o reconhecimento da sua
verdade, e, com esse reconhecimento, a função, o que estou dizendo, a
obrigação de reconhecer a sua verdade. É assim que as ideias que
constituem uma ideologia se impõem violentamente às “consciências”
livres dos homens, interpelando-os de tal maneira que eles são levados
a reconhecer livremente que essas ideias são verdadeiras e, portanto,
capazes de reconhecer a verdade onde ela se encontra, isto é, nas ideias
da ideologia. (ALTHUSSER, 2019, p.151)

1
Uma leitura sobre o caráter contraditório de “mudança” posterior a junho de 2013, nas eleições de 2014,
pode ser encontrada em meu artigo, indicado nas referências: “Objetos paradoxais desiguais”.
O sistema de ideias é anterior a qualquer avaliação possível do sujeito. A ideologia
interpela o indivíduo em sujeito, que reconhece a ideologia em particular a qual está
identificado, sendo levado a exclamar: “isso é óbvio, isso é verdade!”. Suas práticas,
inclusive as de discurso, são regidas a partir dessa identificação, de modo que o sujeito se
torna quase um autômato diante dos rituais a serem seguidos. “Quase”, porque “a
interpelação ideológica como ritual supõe reconhecer que não há ritual sem falhas”
(PÊCHEUX, 2009b, p.277, grifo do autor).

O processo de interpelação ideológica, constitutiva do sujeito, ocorre em relação


a uma estrutura de assujeitamento. Pascale Gillot (2018, p.101) afirma que “é
significativo [...] que a tematização da interpelação em sujeito atribua um lugar central a
uma estrutura de assujeitamento, no caso, assujeitamento à ‘Lei’”. Essa “Lei” está
relacionada, segundo Gillot, ao conceito psicanalítico de “Nome-do-Pai”, compreendido
como “a figura da lei”. Assim como a ideologia sempre-já interpelou os indivíduos em
sujeitos, o nascituro é sempre-já sujeito. Antes mesmo de seu nascimento, a criança é
intimada à existência, incorporada em fantasias, dotada de um sobrenome. Há uma lei
simbólica que toma o sujeito. O Nome-do-Pai constitui o suporte de uma função
simbólica. Conforme Gillot (2018, p.103, grifos da autora):

[...] o filhote do homem é, antes mesmo do seu nascimento,


necessariamente assujeitado a uma ordem simbólica preexistente,
sempre-já intimado a ocupar seu lugar de sujeito na ordem humana que
é, em primeiro lugar, uma ordem de linguagem. [...] Se essa passagem
do biológico ao humano implica por definição uma subjetivação, uma
constituição em sujeito, ela se produz sob a égide da ordem simbólica.
A “Lei” à qual o sujeito está assujeitado é a lei do simbólico, mais
especificamente, a ordem da linguagem. Para a Análise do Discurso, consideramos que o
assujeitamento ocorre em relação a mais duas instâncias, a ideologia e o inconsciente.
Assim, o sujeito é enlaçado de forma constitutiva, isto é, é assujeitado, a essas três ordens,
que, apesar de se encontrarem, possuem sua especificidade.

PARTE II: IDENTIFICAÇÃO, CONTRAIDENTIFICAÇÃO E


DESIDENTIFICAÇÃO

A interpelação ideológica, como vimos a partir de Althusser, produz como efeito


elementar a evidência de sermos sempre já-sujeitos, e também a evidência do sentido, de
que aquilo que dizemos é óbvio. A teoria e prática discursivas propostas por Michel
Pêcheux trabalham cirurgicamente a questão do sentido.

Ora, eis o ponto preciso onde surge, a nosso ver, a necessidade de uma
teoria materialista do discurso; essa evidência, da existência espontânea
do sujeito (como origem ou causa de si) é imediatamente aproximada
por Althusser de uma outra evidência, presente, como vimos, em toda
a filosofia idealista da linguagem, que é a evidência do sentido.
(PÊCHEUX, 2009a, p.139)
As evidências do sujeito e do sentido estão imbricadas, sendo um e outro
constituídos mutuamente. Assim, a análise do processo de produção de sentidos é um
trabalho que leva em conta, de forma explicitada ou não, a constituição do sujeito. O
efeito ideológico elementar, produtor da evidência dos sentidos, quando tomado pela
irrupção de uma falha no ritual, concorre para o sentido vir a ser outro, colocando
conjuntamente em risco a univocidade do sujeito, isto é, possibilitando ao efeito sujeito
também vir a ser outro. A relação constitutiva entre sentido e sujeito é apontada por
Pêcheux (2009a, p.140, grifos do autor): “a questão da constituição do sentido se junta à
da constituição do sujeito, e não de um modo marginal [...], mas no interior da própria
‘tese central’, na figura da interpelação”. Não existe interpelação sem relação entre os
sentidos – “evidentes” – que intimam o nascituro à existência: “Você, fulano, meu filho”.

Pêcheux (2009a, p.142) aponta para o funcionamento da evidência da identidade


resultante de “uma identificação-interpelação do sujeito, cuja origem estranha é, contudo,
‘estranhamente familiar’”. A formulação “estranhamente familiar” expõe o paradoxo da
existência do sujeito, ao mesmo tempo tão estranha, pois não há pré-existência nem
origem, e tão familiar, pois é evidente que “eu existo”. Daí a afirmação do autor sobre a
“mistura surpreendente de absurdo e de evidência”. O “retorno do estranho no familiar”
corresponde ao pré-construído – esse “fora situado antes, em outro lugar,
independentemente” –, que retorna sobre o sujeito, constituindo-o2. O efeito de pré-
construído é “a modalidade discursiva da discrepância pela qual o indivíduo é
interpelado em sujeito... ao mesmo tempo em que é ‘sempre-já sujeito’”.

O funcionamento estranhamente familiar constituído pela interpelação ideológica


produz, pelo retorno de um “fora situado antes”, a identificação do sujeito à determinada

2
A leitura por mim proposta sobre o “retorno do estranho no familiar” se atém à obra Semântica e discurso,
de Pêcheux. Poderíamos, de uma outra forma, compreender como a desordem, a falha, o lapso produzido
pelo retorno do inconsciente – esse estranho que nos habita – sobre o ritual dos sentidos que nos constitui
– o familiar.
formação discursiva. Há, assim, uma correspondência entre a interpelação ideológica, as
ideologias – ou formações ideológicas – e as formações discursivas. Conforme Pêcheux
(2009a, p.198): “os indivíduos são ‘interpelados’ em sujeitos falantes (em sujeitos de seu
discurso) por formações discursivas que representam ‘na linguagem’ as formações
ideológicas que lhes são correspondentes”. A interpelação produz como desdobramento
a identificação do sujeito à determinada formação discursiva, de modo a constituir seus
rituais de produção de sentidos. Não vou me ater muito a essa questão, pois gostaria que
estudássemos um outro processo.

Há um outro funcionamento em jogo, resultante da interpelação, configurado pelo


Estado. Não se trata de constituição do sujeito, processo omni-histórico, imutável, mas
de sua individualização pela identificação à forma-sujeito do tempo histórico da formação
social em que vive. Leiamos Pêcheux (2009a, p.198):

[...] todo sujeito é constitutivamente colocado como autor de e


responsável por seus atos (por suas “condutas” e por suas “palavras”)
em cada prática em que se inscreve; e isso pela determinação do
complexo das formações ideológicas (e, em particular, das formações
discursivas) no qual ele é interpelado em “sujeito-responsável”.
A produção paradoxal de um sujeito-responsável, autônomo e dono de si, ao
mesmo tempo submetido a um código universalizante da lei, que pega a todos, configura
a forma-sujeito de nosso tempo3. Conforme Eni Orlandi (2010, p.50): “A forma-sujeito
histórica que corresponde à sociedade atual representa bem a contradição: é um sujeito
ao mesmo tempo livre e submisso”. O imaginário de autonomia próprio do sujeito da
formação social contemporânea também esbarra na impossibilidade de o sujeito escapar
às injunções das dimensões linguística, histórica e inconsciente. Para Orlandi: “Ele [o
sujeito] é capaz de uma liberdade sem limites e uma submissão sem falhas: pode tudo
dizer, contanto que se submeta à língua para sabê-la. Essa é a base do que chamamos
assujeitamento”. O sujeito não escapa à ordem da língua, assim como não escapa aos
lapsos que o movimentam a partir do inconsciente e dos sentidos que já significam, antes,
em outro lugar, na história.

A forma-sujeito contemporânea é caracterizada pelo que é nomeado como sujeito-


de-direito. A produção de um sujeito dono de suas vontades é essencial para a circulação

3
Para uma leitura mais detalhada de aspectos da forma-sujeito de nossa formação social, recomendo meu
artigo: “A condenação de manifestantes nos protestos de 2013: considerações sobre o funcionamento do
discurso jurídico”.
e aquisição de mercadorias. Afinal, o homem deve ser livre em suas escolhas para que
possa adquirir os bens que desejar!

Orlandi chama atenção para a diferença entre o sujeito constituído pela


interpelação ideológica, podendo resultar na identificação a diferentes formações
ideológicas, e a individualização do sujeito pelo Estado. Conforme a autora:

O sujeito-de-direito não é uma entidade psicológica, ele é efeito de uma


estrutura social bem determinada: a sociedade capitalista. Em
consequência, há determinação do sujeito, mas há, ao mesmo tempo,
processos de individualização do sujeito pelo Estado. Este processo é
fundamental no capitalismo para que se possa governar. (ORLANDI,
2010, p.51)
Ainda que a forma-sujeito de nosso tempo seja a que configura o sujeito-de-
direito, sempre há a produção de sentidos em relação de disputa, concorrendo para
rupturas nas formações discursivas dominantes. A possibilidade da transformação, assim
como a submissão à forma-sujeito, pode ser pensada a partir de três modalidades
formuladas por Pêcheux, em Semântica e discurso: a identificação, a contraidentificação
e a desidentificação.

Pêcheux (2009a, p.198) formula um desdobramento discursivo, constitutivo do


sujeito, que ocorre no processo de interpelação. Um dos termos do desdobramento seria
o sujeito da enunciação, a quem é atribuído o encargo pelo que é enunciado, “o sujeito
que ‘toma posição’, com total conhecimento de causa, total responsabilidade, total
liberdade etc.”. O outro termo do desdobramento representa o sujeito universal, “o mundo
das coisas”. Para Pêcheux (2009ª, p.199), “esse desdobramento pode assumir diferentes
modalidades, duas das quais são ‘evidentes’”.

A superposição entre sujeito da enunciação e sujeito universal configura a


primeira modalidade: a identificação. O sujeito enuncia de forma “livremente
consentida” o Sujeito, isto é, “o mundo das coisas”, determinado pela formação
discursiva dominante. Conforme Pêcheux (2009a, p.199): “o interdiscurso determina a
formação discursiva com a qual o sujeito, em seu discurso, se identifica, sendo que o
sujeito sofre cegamente essa determinação, isto é, ele realiza seus efeitos ‘em plena
liberdade’”. Temos aí o bom sujeito.

O mau sujeito é configurado pela segunda modalidade, na qual o sujeito da


enunciação se coloca contra o sujeito universal, por meio de uma “tomada de posição”
que “consiste, desta vez, em uma separação [...] com respeito ao que o ‘sujeito universal’
lhe ‘dá a pensar’: luta contra a evidência ideológica, sobre o terreno dessa evidência”
(PÊCHEUX, 2009a, p.199, grifos do autor). O autor cita alguns exemplos emblemáticos,
como: “aquilo que você chama crise do petróleo”, “tua Santa Virgem”. Poderíamos
acrescentar: “o seu presidente”, “aquilo que você chama de escolha técnica”. Nas palavras
de Pêcheux (2009a, p.199-200): “o sujeito [...] se contra-identifica com a formação
discursiva que lhe é imposta pelo ‘interdiscurso’ como determinação exterior de sua
interioridade subjetiva”. Na contraidentificação ainda funciona a evidência do sentido
fornecido a partir de determinada formação discursiva, que compreendo como a
dominante, porém a partir da rejeição.

Em Semântica e discurso, a identificação e a contraidentificação são


manifestações que ocorrem no interior da forma-sujeito, sendo constituídas a partir da
formação discursiva dominante, de modo que o sujeito da enunciação se liga ou rejeita os
sentidos produzidos como evidentes. “Estamos diante do que P. Henry caracterizou [...]
sob a forma do par acobertamento-rejeição” (PÊCHEUX, 2009a, p.200).

Haveria uma terceira modalidade, a desidentificação, caracterizada por integrar o


efeito das ciências e da prática política proletária sobre a forma-sujeito, produzindo,
assim, uma “tomada de posição não-subjetiva”. Pêcheux (2009a, p.201-202, grifos do
autor) afirma:

o funcionamento dessa “terceira modalidade” constitui um trabalho


(transformação-deslocamento) da forma-sujeito e não sua pura e
simples anulação. Em outros termos, esse efeito de desidentificação se
realiza paradoxalmente por um processo de apropriação dos conceitos
científicos e de identificação com as organizações políticas “de tipo
novo”. A ideologia “eterna” enquanto categoria, isto é, enquanto
processo de interpelação dos indivíduos em sujeitos – não desaparece;
ao contrário, funciona de certo modo às avessas, isto é, sobre e contra
si mesma, através do “desarranjo-rearranjo” do complexo das
formações ideológicas (e das formações discursivas que se encontram
intrincadas nesse complexo). É, segundo o que pensamos, unicamente
sob essa condição que se pode compreender em que consiste a
apropriação subjetiva dos conhecimentos (especificamente, o
funcionamento dos processos discursivos científico-pedagógicos), de
um lado, e a apropriação subjetiva da política do proletariado
(especificamente, o funcionamento dos processos discursivos políticos
do proletariado), de outro.
A desidentificação teria a estranha capacidade de rearranjar a forma-sujeito a
partir da apropriação dos conceitos científicos e da identificação com as organizações
políticas de “tipo novo”. A “tomada de posição não-subjetiva” apaga a singularidade do
sujeito em relação à possibilidade de resistência, produzindo uma espécie de autômato
desidentificado às formações discursivas dominantes. A ideologia, nessa terceira
modalidade, funciona ao contrário, às avessas, supondo uma homogeneidade de um lado
e de outro do avesso. A contradição, noção fundamental para Althusser e para Pêcheux,
para de funcionar na formulação sobre a desidentificação.

PARTE III: INÍCIO DE UMA RETIFICAÇÃO – OUSAR SE REVOLTAR,


OUSAR PENSAR POR SI MESMO

Três anos após a publicação de Semântica e discurso, Pêcheux revisita algumas


compreensões sobre a teoria materialista do discurso ao escrever o texto Só há causa
daquilo que falha ou o inverno político francês: início de uma retificação. Ao apontar a
especificidade da Psicanálise, do Materialismo Histórico e da Linguística, destruindo a
“cidadela da ‘Tríplice Aliança’”, o autor produz questionamentos sobre as noções de
ideologia dominada, desidentificação e sobre a disjunção entre sujeito e ego no
funcionamento da interpelação ideológica. Vejamos a profundidade, e a coragem, da
crítica tecida por Pêcheux sobre sua própria teoria.

O autor remete à conclusão de sua obra de 1975, Semântica e discurso, que


afirmava, resumidamente: “A forma-sujeito do discurso, na qual coexistem,
indissociavelmente, interpelação, identificação e produção de sentido, realiza o non-sens
da produção do sujeito como causa de si sob a forma da evidência primeira” (PÊCHEUX,
2009b, p.271, grifos do autor). Lembremos que, como estudado anteriormente, a
interpelação do indivíduo em sujeito produz sua identificação a determinada formação
ideológica, correspondendo a determinada formação discursiva. A existência do sujeito e
os sentidos são produzidos de modo evidente a partir da posição a que se é identificado.
A relação contraditória constitutiva das diferentes formações discursivas é apagada, como
se não houvesse sentidos em confronto.

A retificação de Pêcheux atua sobre a homogeneização produzida a partir da noção


de desidentificação, e, dessa forma, sobre o apagamento da contradição:

Procurando me esmerar ao responder aos ataques que visam “o


eternitarismo apolítico” dos Aparelhos Ideológicos de Estado, fui mais
longe investigando de que modo, no absurdo círculo de evidência
constituído pela interpelação, “o sujeito é produzido” como
historicamente capaz – sob certas condições essencialmente ligadas à
aparição da teoria marxista-leninista – de se voltar contra causas que o
determinam, porque elas as apreende teórica e praticamente: de bom ou
mau grado, cheguei, assim, no fim de Les Vérités de la Palice
[Semântica e discurso, em português] a delinear o fantasma de um
estranho sujeito materialista que efetua a “apropriação subjetiva da
política do proletariado”. E, apesar de todas as precauções teóricas de
que eu me cercava (em particular com a noção de “desidentificação”
cuja discussão retomarei em outra parte), cheguei finalmente a um
paradoxal sujeito da prática política do proletariado cuja simetria
tendencial com o sujeito da prática política burguesa não era
questionada! (PÊCHEUX, 2009b, p.275)
Em Semântica e discurso, apesar da produção de evidências constituídas pela
interpelação ideológica, o sujeito poderia sofrer a desidentificação das formações
discursivas dominantes a partir da apreensão teórica e prática das causas que o
determinam. A forma-sujeito poderia ser rearranjada a partir da apropriação dos
conceitos científicos e da identificação com as organizações políticas de “tipo novo”.
Em suma, a tomada de consciência da política proletária seria um caminho para constituir
a desidentificação em relação à evidência imposta pela formação ideológica dominante.
Com isso, formula-se um sujeito NÃO dividido, homogêneo, da prática política do
proletariado, quase equivalente inverso do sujeito da prática política burguesa. Essa
formulação teórica tem o forte inconveniente de apagar o non-sens e a contradição.

Pêcheux continua a apontar para os caminhos de suas incoerências:

É que, frente ao sujeito pleno identificado na interpelação da Ideologia


dominante burguesa, portador da evidência que faz com que cada um
diga “sou eu!”, eu me apoiava em uma exterioridade radical da teoria
marxista-leninista para desvendar o ponto em que o absurdo reaparece
sob a evidência, determinando, assim, a possibilidade de uma espécie
de pedagogia da ruptura das identificações imaginárias em que o
sujeito se encontra, logo a possibilidade de uma “interpelação às
avessas” atuando na prática política do proletariado: a exterioridade
teoricista vinha, assim, necessariamente dublada por um pedagogismo
invertido, o que acarretava uma inclinação tipicamente platônica que
consistia em colocar em uma sucessão teórica:
1) O mecanismo ideológico da interpelação-assujeitamento;
2) O apagamento (“esquecimento”) de qualquer traço detectável desse
mecanismo no sujeito pleno que nele se encontra produzido;
3) A rememoração teórica de tal mecanismo e de seu apagamento, em
uma espécie de anamnésia de porte marxista-leninista da qual
resultava a noção de “apropriação subjetiva” a título de efeito
prático. (PÊCHEUX, 2009b, p.275, grifos do autor)
Na teorização sobre as três modalidades de identificação, presente em Semântica
e discurso, ressoa um sujeito plenamente identificado, sem espaço para lapsos. Por isso,
nesse momento da teoria, é possível conceber uma exterioridade da teoria marxista-
leninista que produz uma ruptura no sujeito plenamente identificado à formação
ideológica dominante por meio de um passo-a-passo que resulta na rememoração por via
teórica do mecanismo ideológico.

Pêcheux (2009b, p.276) aponta também para uma falha do lado da Psicanálise, em
relação a seus conceitos, especificamente sobre a relação entre ego e sujeito: “Tudo se
passa, em Les Verités de La Palice, como se o que foi dito do sujeito se confundisse
tendencialmente com o que foi posto relativamente ao ego como ‘forma-sujeito’ da
ideologia jurídica”, e ainda: “à força de levar exageradamente a sério as ilusões do poder
unificador da consciência”. Se ao ego corresponde a forma-sujeito de nossa formação
social, o sujeito não é completamente tomado por essa forma, de modo que a história
singular que compõe seus deslizamentos significantes o movimenta sem que saiba. A
enunciação tropeça no inconsciente, nos lapsos, nos atos falhos... o sujeito é divido, não
cabendo nas curtas margens da forma-sujeito da ideologia jurídica.

Escutemos Pêcheux (2009b, p.276): “levar demasiadamente a sério a ilusão de um


ego-sujeito-pleno em que nada falha, eis precisamente algo que falha em Les Verités de
La Palice”.

Os efeitos da interpelação ideológica são incapazes de produzir uma identificação


plena, um sujeito total. Não há sujeito da ideologia burguesa, assim como não há sujeito
da ideologia proletária. Isso seria desconsiderar o funcionamento da contradição
constitutiva dos sentidos e do sujeito. Sentido e sujeito são produzidos mutuamente, na
possibilidade de um movimento constante de derivas, sustentado pelos lapsos de uma
existência divida. A dimensão do inconsciente não cabe na interpelação ideológica, quero
dizer, é de outra ordem. E com isso, podemos afirmar que não há dominação sem
resistência!

Não existe sujeito plenamente tomado por uma identificação. Algo resiste no
sujeito, pela trilha de seu movimento significante, pelo caminho de seus lapsos. Isso que
fala em nós, sem que saibamos ou controlemos, nos leva por trajetos imprevistos, que
podem nos explodir os sentidos, nos fazendo derivar. Ainda, há a possibilidade de um
gesto, de um ato impensado, em condições específicas de produção, colocar em risco a
ordem social vigente, fazendo alguns sentidos dominantes ruírem. Não à toa o Aparelho
Repressivo de Estado está sempre olhando, sempre vigilante, à espreita. Um lapso, ao se
tornar um acontecimento, pode produzir transformações nas relações de produção (de
sentidos).
O inconsciente, portanto, concorre para a produção de sentidos:

Continua, pois, bastante verdadeiro o fato de que “o sentido” é


produzido no “non-sens” pelo deslizamento sem origem do
significante, de onde a instauração do primado da metáfora sobre o
sentido, mas é indispensável acrescentar imediatamente que esse
deslizamento não desaparece sem deixar traços no sujeito-ego da
“forma-sujeito” ideológica, identificada com a evidência de um sentido.
Apreender até seu limite máximo a interpelação ideológica como ritual
supõe reconhecer que não há ritual sem falhas; enfraquecimento e
brechas, “uma palavra por outra” é a definição da metáfora, mas é
também o ponto em que o ritual se estilhaça no lapso (e o mínimo que
se pode dizer é que os exemplos são abundantes, seja na cerimônia
religiosa, no processo jurídico, na lição pedagógica ou no discurso
político...) (PÊCHEUX, 2009b, p.277).
O inconsciente e a ideologia são instâncias distintas, que não se sobrepõem,
entretanto ambas se encontram na impossibilidade da homogeneidade do sujeito e na
possibilidade da deriva, da resistência, da revolta. Não estaria “sonho-lapso-ato falho-
Witz encontrando obliquamente aqui algo que infecta constantemente a ideologia
dominante, do próprio interior das práticas em que ela tende a se realizar?” (PÊCHEUX,
2009b, p.278). O inconsciente certamente não é a fonte da ideologia dominada, pois
possui outra escritura, entretanto as diferentes instâncias se afetam.

Por fim, Pêcheux (2009b, p.281) conclui sua retificação:

• Não há dominação sem resistência: primado prático da luta de


classes, que significa que é preciso “ousar se revoltar”.
• Ninguém pode pensar do lugar de quem quer que seja: primado
prático do inconsciente, que significa que é preciso suportar o que
venha a ser pensado, isto é, é preciso “ousar pensar por si mesmo”.
O primeiro primado. Toda dominação, toda ideologia dominante só se reproduz
contraditoriamente atravessada pelos germens que possibilitarão sua dissolução. O
sujeito, dividido, está em movimento, caminhando sob as demandas da deriva significante
que o tomam de supetão. As derivas possibilitam afirmar o potencial da contradição, isto
é, o sujeito não é homogêneo. A revolta não é consciente, mas sua origem está na relação
do inconsciente, da linguagem e da ideologia: o non-sens enunciado em determinadas
condições históricas de produção, perpetuando-se pela formação social.

O segundo primado. O sujeito tem uma história singular, a história de seus rastros
significantes e de seus atos falhos. Nenhum lapso é repetível, assim é impossível pensar
do lugar de quem quer que seja. É preciso suportar, é preciso não recalcar, é preciso
fal(h)ar!
BIBLIOGRAFIA
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. In: ZIZEK, Slavoj
(Org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. p.105-142.
ALTHUSSER, Louis. Iniciação à filosofia para os não filósofos. São Paulo: Editora
WMF Martins Fontes, 2019.
BENAYON, Flavio. A condenação de manifestantes nos protestos de 2013:
considerações sobre o funcionamento do discurso jurídico. In: ADORNO, MODESTO,
FERRAÇA, BENAYON, ANJOS, OSTHUES (Orgs.). O discurso nas fronteiras do
social: uma homenagem à Suzy Lagazzi (Volume 1). Campinas, SP: Pontes Editores,
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BENAYON, Flavio. Objetos paradoxais desiguais. Letras, n. 56, p. 185-208, abr. 2018.
Disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/letras/article/view/31077>. Acesso em: 25
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GILLOT, Pascale. Althusser e a psicanálise. São Paulo: Ideias & Letras, 2018.
ORLANDI, Eni. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 9. ed. Campinas, SP:
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PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 4. ed.
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PÊCHEUX, Michel. Só há causa daquilo que falha ou o inverno político francês: início
de uma retificação. In: PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação
do óbvio. 4. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2009b. p.269-281.

LEITURAS FORTEMENTE RECOMENDADAS


1) LAGAZZI, Suzy. Delimitações, inversões, deslocamentos em torno do Anexo 3. In:
LAGAZZI, Suzy et al. (Orgs.). Estudos do Texto e do Discurso. O discurso em
contrapontos: Foucault, Maingueneau, Pêcheux. São Carlos: Pedro & João, 2013.
p.311-331.

2) FERREIRA, Maria. Análise do discurso e suas interfaces: o lugar do sujeito na trama


do discurso. Organon, Rio Grande do Sul, v.24, n.48, 2010. p.17-34.

3) BARBOSA FILHO, Fábio. Espectros do Anexo 3. In: ADORNO, MODESTO,


FERRAÇA, BENAYON, ANJOS, OSTHUES (Orgs.). O discurso nas fronteiras do
social: uma homenagem à Suzy Lagazzi (volume 2). Campinas, SP: Pontes Editores,
2019. p.295-330.

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