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SRI BRAHMA-SAMHITA

de Sua Divina Graça


Bhaktisiddhanta Sarasvati Goswami Thakura

Traduçäo da Ediçäo da BBT-Bhaktivedanta Book Trust


por Indumukhi Devi Dasi, Curitiba, Dezembro 1997

Na Aurora da Criaçäo

"Näo há nenhuma escritura igual ao Brahma-samhita em termos da conclusäo espiritual final.


De fato, essa escritura é a revelaçäo suprema das glórias do Senhor Govinda, pois revela o
conhecimento mais elevado sobre Ele. Como todas conclusöes säo brevemente apresentadas
no Brahma-samhita, ele é essencial dentre todas literaturas Vaisnavas."
(Sri Chaitanya-charitamrta Madhya-lila, cap.9, textos 239-240)
de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

Conteúdo

Página

1
Introduçäo 2
O Autor 3
Prefácio 4
Sri Brahma-samhita 6
Glossário
Indice

INTRODUÇÄO

O Brahma-samhita é uma escritura muito importante. Sri Chaitanya Mahaprabhu (a Suprema


Personalidade de Deus), conseguiu o Quinto Capítulo do templo Adi-keshava, no estado de
Tamil Nadu, sul da India. Nesse Quinto Capítulo, apresenta-se a conclusäo filosófica de
acintya-bhedabheda-tattva (simultânea unidade e diferença). O capítulo também apresenta
métodos de serviço devocional, o hino védico de dezoito sílabas, discursos sobre a alma, a
Superalma e atividades fruitivas, uma explicaçäo sobre kama-gayatri, kama-bija e o Maha-
Vishnu original, e uma descriçäo específica do mundo espiritual, especificamente Goloka
Vrndavana. O Brahma-samhita também explica os semideuses Ganesha, o Garbhodakashayi
Vishnu, a origem do Gayatri mantra, a forma de Govinda e Sua transcendental posiçäo e
morada, as entidades vivas, a meta mais elevada, a deusa Durga, o significado da austeridade,
os cinco elementos grosseiros, amor por Deus, o Brahman impessoal, a iniciaçäo do Senhor
Brahma, e a visäo de amor transcendental que nos permite ver o Senhor. Também se
explicam os passos do serviço devocional. A mente, yoga-nidra, a deusa da fortuna, serviço
devocional em êxtase espontâneo, as encarnaçöes principiando pelo Senhor Ramachandra,
Deidades, a alma condicionada e seus deveres, a verdade sobre o Senhor Vishnu, oraçöes,
hinos védicos, o Senhor Shiva, literatura védica, personalismo e impersonalismo, bom
comportamento e muitos outros assuntos também säo discutidos. Também há uma descriçäo
do sol e das formas universais do Senhor. Todos esses assuntos säo explicados
conclusivamente numa casca de noz neste Brahma-samhita.
(Sri Chaitanya-charitamrta Madhya-lila, cap.9, textos 239- 240,significado) por Sua
Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

O AUTOR

Srila Bhaktisiddhanta Saraswati nasceu no sagrado local de peregrinaçäo Jagannatha Puri, e


seu pai foi Srila Bhaktivinoda Thakura, um grande mestre espiritual consciente de Krishna
dentro da linha de sucessäo advinda do Senhor Chaitanya. Embora empregado como
magistrado do governo, Srila Bhaktivinoda trabalhava incansavelmente para estabelecer os
ensinamentos do Senhor Chaitanya na India, onde infelizmente, as pessoas tinha chegado a
negar os princípios do serviço devocional ao Senhor Supremo, Krishna. Ele visualizava um
movimento mundial para consciência de Krishna e orava ao Senhor para ter um filho que o
auxiliasse a realizar seu sonho.

A 6 de fevereiro, 1874, na sagrada cidade de peregrinaçäo Jagannatha Puri, onde Srila


Bhaktivinoda Thakura servia como superintendente do famoso templo de Jagannatha, Srila
Bhaktisiddhanta Sarasvati apareceu neste mundo. Deram-lhe o nome de Bimala Prasada.

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Com a idade de sete anos, Bimala Prasada havia memorizado os mais que setecentos versos
sânscritos do Bhagavad-gita e conseguia fazer comentários iluminantes sobre os mesmos.
Srila Bhaktivinoda Thakura, o autor de muitos livros importantes e outros escritos sobre a
filosofia de consciência de Krishna, treinou seu filho na arte da impressäo e revisäo de textos.

Ao chegar a vinte e cinco anos de idade, Bimala Prasada havia adquirido uma reputaçäo
impressionante como erudito em sânscrito, matemática, e astronomia. Seu tratado
astronômico, Surya-siddhanta, angariou-lhe o título de Siddhanta Sarasvati como
reconhecimento por sua imensa erudiçäo. Em 1905, seguindo o conselho de seu pai,
Siddhanta Sarasvati aceitou iniciaçäo espiritual de Gaurakishora dasa Babaji. Embora
Gaurakishora dasa Babaji fosse conhecido como uma pessoa santa e grande devoto do Senhor
Krishna, era analfabeto. Satisfeito com a humildade e dedicaçäo de seu discípulo altamente
educado, Srila Gaurakishora concedeu-lhe suas plenas bençäos e solicitou que "pregasse a
Verdade Absoluta e deixasse de lado qualquer outro trabalho." Siddhanta Sarasvati entäo
provou-se um assistente capaz no trabalho missionário de seu pai.

Ao morrer Srila Bhaktivinoda Thakura em 1914, Siddhanta Sarasvati tornou-se editor do


jornal de seu pai, Sajjana-tosani, e fundou a Bhagwat Press para publicar literatura consciente
de Krishna. Entäo, em 1918, Siddhanta Sarasvati aceitou a ordem renunciada de vida
espiritual, assumindo o título de Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Goswami Maharaja. Com o
propósito de propagar consciência de Krishna pela India, organizou a Gaudiya Math, com
sessenta e quatro ramos através do país. A sede de sua missäo, a Chaitanya Gaudiya Math,
localizava-se em Sridhama Mayapur, local de nascimento do Senhor Chaitanya. Mais tarde
ele enviaria discípulos para a Europa para trabalho missionário.

Srila Bhaktisiddhanta ajustou as tradiçöes da consciência de Krishna para se conformarem


com as condiçöes tecnológicas e sociais do século vinte. Considerava a impressora gráfica
como o meio mais eficiente de espalhar a consciência de Krishna pelo mundo e ele mesmo era
autor de muitas traduçöes importantes, comentários, e ensaios filosóficos. Foi o primeiro
mestre espiritual a permitir que seus pregadores renunciantes (sannyasis) usassem roupas
ocidentais e viajassem em transportes modernos ao invés de a pé.

Em 1922, um inteligente jovem estudante universitário chamado Abhay Charan De veio


visitar Srila Bhaktisiddhanta no centro da Gaudiya Math em Calcutá. Srila Bhaktisiddhanta
imediatamente aconselhou o jovem de que deveria pregar a mensagem de consciência de
Krishna para o mundo ocidental no idioma inglês. Embora näo pudesse executar
imediatamente o desejo de Srila Bhaktisiddhanta, Abhay tornou-se um partidário ativo da
Gaudiya Math. Em 1933, Abhay tornou-se formalmente discípulo de Srila Bhaktisiddhanta,
que lhe deu o nome Abhay Charanaravinda.

Durante a década de 1930, Srila Bhaktisiddhanta expandiu e aumentou seu trabalho


missionário e conseguiu reestabelecer consciência de Krishna como a força de liderança na
vida espiritual indiana. Ansioso que seu trabalho continuasse, induziu seus discipulos a
formarem uma Comissäo de Corpo Governante em conjunto, para administrar a Gaudiya
Math na sua ausência. A 1º de janeiro de 1937, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati fez a
passagem deste mundo. Infelizmente, seus principais discípulos näo se ativeram a suas

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instruçöes de manterem uma Comissäo de Corpo Governante, e como resultado a Gaudiya
Math como uma organizaçäo de pregaçäo missionária gradualmente desintegrou-se.

Abhay Charanaravinda, contudo, permaneceu fiel à visäo de Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati


de que a consciência de Krishna se tornasse um movimento mundial e à ordem que este lhe
dera pessoalmente. Aceitou a ordem renunciada de vida, sannyasa, assumindo o título de
Bhaktivedanta Swami Maharaja, e em 1965 viajou para os Estados Unidos para pregar
consciência de Krishna no idioma inglês. Srila Bhaktivedanta Swami fundou a Sociedade
Internacional para Consciência de Krishna e estabeleceu uma Comissäo de Corpo
Governante, que continua a dirigir o movimento desde sua partida deste mundo em 1977.
Assim, pelos sinceros esforços de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada e
seus seguidores, o trabalho de Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati está continuando mundo afora.

PREFACIO

A conduta materialista näo tem possibilidade de se estender até o autocrata transcendental que
está sempre convidando as almas condicionadas para se associarem com Ele através da
devoçäo ou eterno humor de servir. Frequentemente verificamos que as atraçöes fenomenais
tentam os seres conscientes a desfrutarem da posiçäo variada que se opöe ao monismo
indiferenciado. As pessoas säo muitos inclinadas a se entregarem às especulaçöes transitórias
mesmo quando devem educar-se sobre uma situaçäo além de sua área empírica ou jurisdiçäo
experimental. O aspecto esotérico frequentemente as impele a investigar a imanência em sua
inspeçäo externa de coisas transitórias e transformáveis. Este impulso as leva a fixar a
posiçäo do imanente como uma entidade impessoal indeterminada, da qual näo se pode
discernir nenhum vestígio pelos sentidos orgânicos nem mesmo movendo os céus e a terra.

As linhas deste livreto certamente auxiliaräo tais almas perplexas em sua marcha rumo à
personalidade do imanente que está além da inspeçäo de sua visäo sensorial. O primeiro
verso desta publicaçäo irá revolucionar suas idéias reservadas quando a nomenclatura do
Absoluto for colocada diante delas como "Krishna". A mente especuladora iria demonstrar
uma tendência de dar algum outro nome atributivo para designar o objeto desconhecido.
Segundo sua experiência, prefeririam designá-Lo como "criador do universo", "a entidade
além dos fenômenos" - bem longe da referência a qualquer objeto da natureza e vazio de
qualquer transformaçäo. Assim iräo argumentar que a própria fonte original näo deve ter
nenhuma designaçäo concebíbel exceto para mostrar uma direçäo do objeto invisível,
inaudível, intocável, sem cheiro e imperceptível. Mas näo iräo desistir de contemplar sobre o
objeto com seu pobre fundo de experiência. Em face das alucinadas visöes imcompatíveis
selvagemente demonstradas pelos eruditos sábios, o indagador interessado ver-se-á ainda
ansiando após ler tais registros. Comparando os diferentes nomes apresentados por diferentes
linhas de pensamento da humanidade, determinado juiz se decidiria em favor de alguma
nomenclatura que melhor se adaptasse a seus caprichos limitados e específicos. Sem dúvida a
mentalidade escrava de um indivíduo irá fornecer asserçöes invectivas ao resto, as quais lhe
pareceräo apropriadas pela revelaçäo de sua decisäo. Para remediar esse mal, os hinos do
progenitor aceito dos fenômenos auxiliariam grandemente a embarcar no assunto da
nomenclatura que possui poder adequado para dissipar todas imaginaçöes oriundas de
experimentar fenômenos através de tentativas exploradoras.

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O primeiro hino irá estabelecer a supremacia da Verdade Absoluta, se o substrato Dele näo for
acertado pelas balas do tempo limitado, ignorância e sensaçäo de desconforto, bem como por
reconhecer o mesmo como um efeito em vez de aceitá-Lo como a causa primordial. O
indagador interessado ficará satisfeito ao perceber que o objeto que determina é o
supremamente excelente Senhor Supremo Sri Krishna, que em Sua oni-presença, bem-
aventurança total, e conhecimento perfeito oni-penetrante, Se encarnou eternamente como a
própria fonte original de todas causas primordiais do tempo infinito e sem começo, o criador
que mantém todas entidades, i.e. mundanas e transcendentais.

As linhas que se seguem serviräo para determinar os diferentes aspectos do Absoluto, que säo
apenas emanaçöes da suprema fonte original Krishna, a entidade que atrai todas entidades.
Além do mais, a proclamaçäo derivativa da nomenclatura irá indicar o plano de felicidade
ininterrupta, infindável, transcendental e a nomenclatura em Si, é a fonte dos dois
componentes que säo designados pelos nomes de causas eficiente e material. O mui
transcendental nome "Krishna" é conhecido como a encarnaçäo de todas rasas
transcendentais eternas, bem como a origem de todos conceitos eclipsados de rasas
interrompidas encontradas na mentalidade de seres animados os quais säo sucessivamente
retratados por literatos e retóricos para nossa especulaçäo mundana.

Os versos do Brahma-samhita säo uma plena elucidaçäo da originaçäo dos conceitos


fenomenais e noumênicos. Os hinos da potência primordial encarnada lidaram plenamente
com as especulaçöes henoteístas de diferentes escolas ocupadas em dar uma cobertura externa
de trama esotérica sem qualquer referência ao verdadeiro aspecto eterno da manifestaçäo
transcendental intransformável e imperecível do imanente. Os hinos também lidaram com
diferentes aspectos parciais da personalidade do Absoluto, o qual está bem a parte do
conceito dos desfrutadores deste mundo fenomenal.
Mui intensa atençäo e um estudo comparado de todos pensamentos e conceitos prevalescentes
iräo aliviar e iluminar todos - seja o materialista, o ateísta declarado, o agnóstico, o cético, o
naturalista, o panteísta ou o pananteísta - ocupados com seu conhecimento da três dimensöes
somente via seus esforços especulativos.

Este livro é apenas o quinto capítulo dos Hinos de Brahma que foram registrados em cem
capítulos. O Supremo Senhor Sri Chaitanya pegou este capítulo no templo de Adi-keshava
em Tiruvattar, um vilarejo sob o governo de Travancore, para assegurar todas pessoas que
amam Deus e especialmente Krishna, nesta jurisdiçäo condicionada. Este livreto facilmente
se compara com outro livro conhecido pelo nome de Srimad-Bhagavatam. Embora possua
referência no panteäo dos Puranas, o Bhagavatam corrobora a mesma idéia deste Pancaratra.

Os devotos devem considerar que estes dois livros tendem ao Krishna idêntico que é a fonte
original de todas entidades transcendentais e mundanas e que exibe manifestamente a
variedade plenária.

Aspersöes de calúnias restringem-se ao mundo limitado, ao passo que a transcendência näo


pode admitir tais angularidades sendo um ângulo de 180 graus ou sem quaisquer
discrepâncias angulares.

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O editor transporta-se ao reino da gratidäo quando seus estoques de publicaçöes säo
minuciosamente estudados. Thakura Bhaktivinoda forneceu em Bengali um significado que
elucida o conceito da mais sublime fonte original de todas entidades, e um de seus devotados
seguidores verteu-o para inglês com o fito de propagá-lo. Os significados e as traduçöes
podem ser rastreados aos escritos originais de Srila Jiva Goswami, um seguidor
contemporâneo do Supremo Senhor Sri Krishna Chaitanya. As aspiraçöes emocionais iräo
encontrar jogo limpo ao perscrutarem os textos desta brochura, por todo aquele que tiver
algum interesse em realizaçöes teístas puras. A inspeçäo materialista frequentemente continua
dizendo que o conceito provinciano de teísmo fez com que o retratar da unidade
transcendental tivesse uma face diversa e bem oposta a consideraçäo ética da regiäo limitada.
Mas nós diferimos de tais consideraçöes errôneas quando passamos a ter uma visäo
perspectiva da transcendentalidade manifesta eliminando todas historicidades e esforços
alegóricos. Todo nosso humor desfrutador deve tomar uma direçäo diferente quando levamos
em conta a entidade transcendental que tem obsedado todas fraquezas e limitaçöes da
natureza. Portanto solicitamos o humor mais alegre dos examinadores atentos para prestarem
especial atençäo na importância da transcendência manifesta em Krishna.

Achamos necessário publicar este pequeno livro para utilizaçäo dos povos que conhecem o
idioma inglês, interessados no auge das verdades transcendentais em suas fases manifestas. O
tema delineado nos textos deste livro é bem diferente dos costumeiros montes de literatura
poética mundana, que se confinam as limitadas aspiraçöes de nossos sentidos. O livro foi
encontrado no sul há uns quatro séculos atrás e novamente veio à luz no mesmo país após
passado muito tempo, assim como se adora a deusa Ganges oferecendo-lhe sua própria água.

SIDDHANTA SARASVATI
Shri Gaudiya Math
Calcutá, 1º de agosto, 1932

Sri Brahma-Samhita

TEXTO I

isvarah paramah krishna sac-cid-ananda-vigrahah


anadir adir govindah sarva-karana-karanam

TRADUÇÄO

Krishna, que é conhecido como Govinda é o Supremo Deus. Ele possui um corpo
espiritual eternamente bem-aventurado. Ele é a origem de tudo. Sem nenhuma outra
origem, Ele é a causa primordial de todas causas.

SIGNIFICADO

Krishna é a exaltada entidade Suprema que possui Seu nome eterno, forma eterna, atribuiçäo
eterna e passatempos eternos. O próprio nome "Krishna" infere Sua designaçäo de atrair
amor, expressando por Sua nomenclatura eterna o auge da entidade. Seu belo corpo eterno

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tingido de azul celeste brilhando com a intensidade do conhecimento sempre-existente tem
uma flauta em ambas de Suas mäos. Embora sua energia espiritual inconcebível se estenda a
tudo, Ele mantém Seu encantador tamanho médio através de Seus instrumentos espirituais
qualificantes. Sua subjetividade que tudo acomoda se manifesta agradavelmente em Sua
forma eterna. A presença concentrada do tempo total, conhecimento desvelado e felicidade
inebriante tem sua beleza Nele. A porçäo mundana manifesta de Seu próprio Ser é conhecida
como o onipenetrante Paramatma, Ishvara (Senhor Superior) ou Vishnu (Mantenedor de
Todos). Logo é evidente que Krishna é o único Deus Supremo. Seu corpo espiritual singular
e sem rival, de encanto super-excelente, é eternamente desvelado através de inumeráveis
instrumentos (sentidos) espirituais e insupostos atributos mantém suas significativas
localizaçöes devidamente, ajustando-se ao mesmo tempo através de Seus inconcebíveis
poderes conciliatórios. Esta linda figura espiritual é idêntica a Krishna e a entidade espiritual
de Krishna é idêntica com Sua própria figura.

A entidade mui intensamente matizada da eterna presença da cogniçäo bem-aventurada é o


encantador proprietário ou ícone transcendental. Segue-se que o conceito da indistinguível
magnitude sem forma (Brahman) que é um presentimento indolente, relaxado da bem-
aventurança cognitiva, é meramente uma penumbra do brilho intensamente matizado dos três
concomitantes, i.e., a bem-aventurança, a substância e a cogniçäo. Este ícone transcendental
manifesto, Krishna, em Sua face original é o pano-de-fundo primordial do Brahman de
infinita magnitude e da onipenetrante super-alma. Krishna conforme verdadeiramente
visualizado em Seus variados passatempos, tais como proprietário das vacas transcendentais,
chefe dos vaqueiros, consorte das pastoras, governante da morada terrestre de Gokula e objeto
de adoraçäo das transcendentais belas residentes de Goloka, é Govinda. Ele é a causa raiz de
todas causas que säo agentes predominantes e predominados do universo. O olhar de Sua
porçäo plenária projetado na sagrada água originária, i.e. a super-alma pessoal ou Paramatma,
gera uma potência secundária - a natureza que cria este universo mundano. A energia
intermediária desta super-alma faz surgir as almas individuais analogamente aos raios
emanados do sol.

Este livro é um tratado sobre Krishna; portanto o preâmbulo tem lugar cantando Seu nome no
início.

TEXTO 2

sahasra-patra kamalam
gokulakhyam mahat padam
tat-karnikaram tad-dhama
tad-anantamsha-sambhavam

TRADUÇÄO

(O local espiritual de passatempos transcendentais de Krishna é retratado no segundo


verso.) O local superexcelente de Krishna, que é conhecido como Gokula, possui
milhares de pétalas e uma corola como a de um lótus que brota de uma parte de Seu
aspecto infinitário, o verticilo de folhas sendo a verdadeira morada de Krishna.

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SIGNIFICADO

Gokula, como Goloka, näo é um plano criado mundano - o caráter ilimitado forma o
espetáculo de Sua ilimitada potência e Sua manifestaçäo propagante. Baladeva é a viga-
mestre desta energia. A entidade transcendental de Baladeva possui dois aspectos, i.e.
manifestaçäo espiritual infinita e espaço acomodante infinito para as coisas grosseiras
inconscientes. A delineaçäo uni-quadrantal do universo material será abordada no devido
momento. Há extensöes triquadrantais do campo transcendental infinitário do todo-poderoso,
ilimitadas situaçöes de halo näo-lamentantes, imperecedoras, e incompreensíveis, que säo
majestosa folhagem plenamente espiritual. Esta extensäo muito majestosa retrata a rica
característica imponente da regiäo ilimitada mais vasta ou atmosfera maior que tem sua
localizaçäo inteiramente além do reino da natureza mundana, na margem mais distante de
Viraja, cercada pelo halo de Brahman ou entidade indistinguível. Este poder majestoso de
espírito ilimitado na porçäo superior da esfera luminosa emana na mais encantadora Gokula
ou eternamente existente Goloka, excessivamente embelezada pelo sortido espetáculo de
refulgência. Alguns designam esta regiäo como a morada do Supremo Narayana, ou a fonte
originária. Portanto Gokula, que é idêntica a Goloka, é o plano supremo. A mesma esfera
brilha como Goloka e Gokula respectivamente através de sua situaçäo superior ou
transcendental e da inferior ou mundana.

Sri Sanatana Goswami nos conta o seguinte em seu Brhad-bhagavatamrta, o qual personifica
a essência final de todos livros de instruçöes: "Ele exibe Seus espetáculos aqui nesta terra
assim como costuma fazer em Goloka. A diferença entre os dois planos está apenas em sua
localizaçäo inferior ou superior; isto é, em outras palavras, Krishna interpreta exatamente o
mesmo papel em Goloka, que exibe no plano mundano de Gokula. Praticamente näo há
diferença entre Gokula e Goloka e aquilo que existe na forma de Goloka na regiäo superior é
o mesmo que Gokula no plano mundano onde Krishna mostrou Sua variada atividade ali. Sri
Jiva Goswami também apontou o mesmo no Bhagavat-sandarbha de seus "Seis Tratados".
Determinando o plano de Goloka - Vrndavana é a morada eterna de Krishna e Goloka e
Vrndavana säo identicamente unas, e embora ambas sejam idênticas, no entanto a energia
inconcebível de Krishna fez de Goloka o auge deste reino espiritual e Gokula da província de
Mathura forma uma parte do plano mundano que também é uma manifestaçäo de vibhuti
triquadrantal (majestade condutora). A pobre compreensäo humana näo tem possibilidade de
conseguir perceber como o extenso triquadrantal, que está além da compreensäo humana,
pode ser acomodado no limitado universo inferior que se revela uniquadrantal. Gokula é um
plano espiritual, logo sua posiçäo condescendente na regiäo do espaço material, tempo, etc.,
de nenhuma maneira é restrita mas ilimitadamente manifesta com sua plena propriedade
ilimitada. Mas almas condicionadas estäo inclinadas a afirmar um conceito material com
relaçäo a Gokula devido a seus miseráveis sentidos, de modo a trazê-la abaixo do nível de seu
intelecto. Embora a visäo de um observador se veja impedida por uma nuvem ao olhar para o
sol e apesar da nuvenzinha nunca realmente poder cobrir o sol, ainda assim a visäo toldada
aparentemente observa o sol como estando coberto pela nuvem. É bem dessa maneira que as
almas condicionadas com sua inteligência, sentidos e decisöes obscurecidas, aceitam Gokula
como um pedaço de terra mensurável. Podemos ver Gokula de Goloka a qual é eterna. Isto
também é um mistério. Alcançar a beatitude final é o sucesso em atingir o nosso próprio ser
eterno. Sucesso em identificar nosso verdadeiro ser finalmente se alcança quando a trama de
espirais grosseiras e sutis das almas condicionadas é removida pela doce vontade de Krishna.

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Contudo, a idéia de Goloka é vista como diferindo de Gokula até que se atinja o sucesso na
devoçäo pura sem misturas. O plano transcendental de infinita manifestaçäo espiritual,
possuindo milhares de pétalas e corola como a do lótus, é Gokula, a morada eterna de
Krishna.

TEXTO 3

karnikaram mahad yantram


sat-konam vajra-kilakam
sad-anga-sat-padi-sthanam
prakrtya purushena ca

premananda-mahananda-
rasenavasthitam hi yat
jyoti-rupena manuna
kama-bijena sangatam

TRADUÇÄO

O verticilo desse lótus transcendental é o reino onde habita Krishna. É uma figura
hexagonal, a morada dos inerentes aspectos predominado e predominante do Absoluto.
Como um diamante a figura central sustentante de Krishna auto-luminoso se ergue
como a fonte transcendental de todas potências. O santo nome consistindo de dezoito
letras transcendentais se manifesta numa figura hexagonal de seis divisöes.

SIGNIFICADO

Os passatempos transcendentais de Krishna säo de dois tipos: manifestos e näo-manifestos.


Os passatempos em Vrindavana visíveis aos olhos mortais säo a lila manifesta de Sri Krishna,
e aquilo que näo é täo visível, é lila näo-manifesta de Krishna. A lila näo-manifesta é sempre
visível em Goloka e a mesma é visível aos olhos humanos em Gokula, se Krishna assim
desejar. Em seu Krishna-sandarbha Sri Jiva Goswami Prabhu diz: "Passatempos näo-
manifestos expressam-se em krishna-lila manifesta, e goloka-lila säo os passatempos näo-
manifestos de Krishna visualizados a partir do plano mundano." Isto também é corroborado
por Sri Rupa em seu Bhagavatamrta. A manifestaçäo transcendental progressiva de Gokula é
Goloka. Portanto Goloka é a própria manifestaçäo majestosa de Gokula. Os passatempos
eternos de Sri Krishna, embora näo sejam visíveis em Gokula, estäo eternamente manifestos
em Goloka. Goloka é a transcendental manifestaçäo majestosa de Gokula. As manifestaçöes
de passatempos näo-manifestos de Krishna com relaçäo às almas condicionadas säo de dois
tipos: 1) adoraçäo por meio do canal dos mantras (sons transcendentais, liberantes, auto-
dedicatórios, recitados inaudivelmente); 2) transbordar espontâneo do amor espiritual do
coraçäo por Krishna. Sri Jiva Goswami disse que a adoraçäo através do mantra é possível
permanentemente no devido local, quando confinada a um só passatempo. Esta manifestaçäo
meditativa de Goloka é o passatempo assistido com a adoraçäo de Krishna através do mantra.
Novamente, os passatempos que säo realizados em diferentes planos e em diferentes humores,
säo autocráticos em diversas maneiras; daí a existência de sva-rasiki, i.e. o transbordar

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espontâneo do amor espiritual do coraçäo por Krishna. Este sloka transmite um duplo sentido.
Um sentido é que no passatempo assistido com devoçäo através do mantra consistindo de
dezoito letras transcendentais, transcendentais palavras contidas no dito mantra estando
colocadas diferentemente constituem uma manifestaçäo de apenas uma lila de Sri Krishna.
Como por exemplo klim krishnaya govindaya gopijana-vallabhaya svaha - este é um mantra
hexagonal consistindo de seis palavras transcendentais, i.e. (1) krishnaya, (2) govindaya, (3)
gopijana, (4) vallabhaya, (5) sva, (6) ha. Estas seis palavras transcendentais, quando
colocadas em justaposiçäo, indicam o mantra.

O grande maquinário transcendental hexagonal é desse jeito. A semente principal, i.e. klim,
situa-se no instrumento como pivô central. Qualquer um com uma impressäo de tal
instrumento em sua mente e concentrando seu pensamento em tais entidades espirituais, pode
atingir, como Chandradhvaja, o conhecimento do princípio cognitivo. A palavra sva indica
kshetrajna, i.e. aquele que está familiarizado com seu próprio eu interior, e a palavra ha indica
a natureza transcendental. Este significado do mantra também tem sido corroborado pelo Sri
Hari-bhakti-vilasa. O sentido geral é que quem tiver desejo de entrar nos passatempos
esotéricos de Krishna terá de praticar Seu serviço transcendental junto com o cultivo do
conhecimento devocional relativo a Ele. (1) krishna-svarupa - o próprio Ser de Krishna; (2)
krishnasya cin-maya-vraja-lila-vilasa-svarupa - a verdadeira natureza dos passatempos de
Krishna em Vraja; (3) tat-parikara-gopijana-svarupa - a verdadeira natureza de seus
associados espirituais em Vraja, i.e., as donzelas vaqueirinhas de Vraja; suddha-jivasya cid-
(jnana)-svarupa - a verdadeira natureza do conhecimento espiritual da alma individual pura;
(6) cit-prakrtir arthat krishna-seva-svabhava - a real natureza do serviço transcendental a
Krishna é que a relaçäo esotérica se estabelece ao despertar nossa cogniçäo pura. O sentido é
que rasa é somente o serviço transcendental do refúgio central Sri Krishna, como aspecto
predominante do Absoluto, pelo nosso ego como serva espiritual da metade predominada do
inteiro absoluto, assistida com pura devoçäo na forma de nossa auto-rendiçäo integral. O
passatempo em Goloka ou Gokula durante o estágio de progresso devocional, é a adoraçäo
meditativa através do mantra, e durante o estágio da perfeiçäo os passatempos se manifestam
como as irrestritas jubilaçöes transcendentais. Esse é o verdadeiro aspecto de Goloka ou
Gokula, que tornaremos mais explícito no devido curso. O significado das palavras jyoti-
rupena manuna é que o sentido transcendental é expressado no mantra através do que, ao
adicionar transcendental desejo de amor por Krishna e serviço a Krishna, a pessoa se
estabelece no eterno amor de Krishna. Tais passatempos eternos estäo eternamente
manifestos em Goloka.

TEXTO 4

tat-kinjalkam tad-amshanam
tat-patrani shriyam api

TRADUÇÄO

O verticilo daquele reino eterno de Gokula é a morada hexagonal de Krishna. Suas


pétalas säo as moradas das gopis que säo parte e parcela de Krishna, a quem elas säo
mui amorosamente devotadas e a quem se assemelham na essência. As pétalas brilham
lindamente como se fossem tantas paredes. As folhas estendidas desse lótus säo o dhama

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semelhante a um jardim, i.e. a morada espiritual de Sri Radhika, a mais amada por
Krishna.

SIGNIFICADO

A Gokula transcendental tem a forma como de um lótus. O mundo eterno é como uma figura
hexagonal; nela estäo centradas as entidades Sri Radha-Krishna, aparecendo na forma de um
mantra consistindo de dezoito letras transcendentais. As manifestaçöes propagadoras que
emanam da potência cit ali estäo presentes com as ditas entidades como centro. Sri Radha-
Krishna é a causa primordial ou a Própria semente. Gopala-tapani diz, "Omkara" significa o
Todo-Poderoso Gopala e Sua potência; e "klim" é o mesmo que omkara. Portanto o kama-
bija ou a causa primordial de todo amor, é conotativo das entidades Sri Radha-Krishna.

TEXTO 5

catur-asram tat-paritah
svetadvipakhyam adbhutam
catur-asram catur-murtesh
catur-dhama catush-krtam

caturbhih purusharthaish ca
caturbhir hetubhir vrtam
shulair dashabhir anaddham
urdhvadho dig-vidikshv api

ashtabhir nidhibhir jushtam


ashtabhih siddhibhis tatha
manu-rupaish ca dashabhir
dik-palaih parito vrtam

shyamair gauraish ca raktaish ca


shuklaish ca parshadarshabhaih
shobhitam shaktibhis tabhir
adbhutabhih samantatah

TRADUÇÄO

(O plano externo que cerca Gokula é descrito neste verso.) Existe um misterioso lugar
quadrangular chamado Svetadvipa cercando os arrabaldes de Gokula. Svetadvipa se
divide em quatro partes em todos lados. As moradas de Vasudeva, Shankarshana,
Pradyumna e Aniruddha localizam-se separadamente em cada uma dessas quatro
partes. Estas quatro moradas divididas estäo envolvidas pelos quatro requisitos
humanos tais como piedade, fortuna, paixäo e liberaçäo, bem como pelos quatro Vedas,
i.e. Rg, Sama, Yajur e Atharva, que lidam com o mantra e que säo as bases para se obter
os quatro requisitos mundanos. Dez tridentes estäo fixos nas dez direçöes, incluindo o
zênite e o nadir. As oito direçöes estäo decoradas com as oito jóias de Mahapadma,
Padma, Shankha, Makara, Kacchapa, Mukunda, Kunda e Nila. Há dez protetores (dik-

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palas) das dez direçöes na forma do mantra. Os associados de tons de azul, amarelo,
vermelho e branco e as extraordinárias potências que levam os nomes de Vimala, etc.,
brilham em todos lados.

SIGNIFICADO

Basicamente, Gokula é o assento do amor transcendental e devoçäo. Portanto Yamuna, Sri


Govardhana, Sri Radha-kunda, etc., da Vraja-mandala terrestre ficam dentro de Gokula.
Novamente, todas majestades de Vaikuntha estäo ali manifestadas estendendo-se em todas
direçöes. Os passatempos das quatro manifestaçöes propagadoras estäo todos lá em seus
devidos lugares. Paravyoma Vaikuntha recebe sua extensäo do espetáculo das quatro
manifestaçöes propagadoras. A salvaçäo a partir de Vaikuntha, e piedade, fortuna e paixäo
atinentes às pessoas mundanas, estäo todas nos devidos lugares em Gokula como suas
sementes originais, i.e., causa primordial. Os Vedas também estäo ocupados em cantar a
cançäo do Senhor de Gokula. Existem dez tridentes em dez direçöes para impedir e
desapontar aqueles que aspiram a entrar em Goloka através de meditaçöes sem a graça de
Krishna. Pessoas orgulhosas de si mesmas que tentam alcançar esta regiäo através das sendas
da yoga (meditaçäo) e jnana (conhecimento empírico) säo frustradas em suas tentativas,
sendo perfuradas pelos dez tridentes. A auto-aniquilaçäo tem sua excelência em Brahma-
dhama, que representa a cobertura externa de Goloka na forma dos tridentes. Ashtanga-yogis,
i.e. ascetas que praticam a yoga óctupla, säo os liberacionistas indiferenciativos que, tentando
aproximar-se na direçäo de Goloka, caem de cabeça nas profundezas do desapontamento ao
serem trespassados e dilacerados por esses tridentes colocados nas dez direçöes. Aqueles que
procedem rumo à direçäo de Goloka através do canal da devoçäo misturada a idéias
majestosas, ficam fascinados pelos encantos de Vaikuntha, que é o plano da cobertura externa
de Sri Goloka, ao verem as oito perfeiçöes, i.e. anima, etc., e majestades como mahapadma,
etc. Aqueles que säo menos adiantados em sua inteligência, recaem no mundo setenário
caindo sob controle dos dez protetores (das dez direçöes) sob a aparência de mantras. Desta
maneira, Goloka se tornou incognoscível e inacessível. Somente os divinos seres da
Divindade, os proponentes das dispensaçöes divinas para as diferentes eras, que estäo sempre
à frente ali para favorecer os devotos que se aproximam, buscando entrar no reino de Goloka
através do canal do amor devocional puro. Estas formas divinas de Deus ali estäo rodeadas
por atendentes de suas respectivas naturezas. Svetadvipa em Goloka é o local de sua morada.
Por isso, Srila Thakura Vrndavana, o Vyasa manifesto de caitanya-lila, descreveu o vilarejo
de Navadvipa como tendo o nome de Svetadvipa. Nesta Svetadvipa as porçöes conclusivas
dos passatempos de Gokula existem eternamente como os passatempos de Navadvipa. Assim
a regiäo de Navadvipa, Vraja e o reino de Goloka säo uma só e mesma entidade invisível; a
diferença está somente nas manifestaçöes da variedade infinita de sentimentos,
correspondentes à natureza diversa de seu amor devocional. Existe nisso um princípio muito
oculto que somente as maiores almas que estäo possuídas pelo mais elevado amor
transcendental, säo capazes de realizar pela graça direta de Krishna. A verdade é a seguinte:
Nesse mundo mundano existem quatorze esferas dispostas na ordem graduada de superior e
inferior. Pessoas vivendo com esposas e crianças que anseiam pelo efeito prazeroso de suas
atividades fruitivas, movimentam-se para cima e para baixo dentro dos limites dos três
mundos de Bhuh, Bhuvah e Svah. Brahmacharis de grandes austeridades, ascetas e pessoas
viciadas na verdade hipotética, pessoas de disposiçäo neutra que adotam trabalhos näo-
fruitivos através de uma aptidäo que busca livrarem-se de todos desejos mundanos,

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movimentam-se para cima e para baixo dentro dos limites dos mundos de Mahah, Janah,
Tapah e Satya. Acima destes mundos fica a morada do Brahma de quatro cabeças, acima da
qual fica o ilimitado reino do Vaikuntha de Vishnu, Kshirodakashayi, deitado no oceano de
leite. Paramahamsa-sannyasis e os demônios mortos por Sri Hari, ao cruzarem o Viraja, i.e.,
passando além dos quatorze mundos, entram no reino luminoso de Brahman e alcançam o
nirvana na forma da cessaçäo temporária do ego temporal. Mas o devoto atuado pela aptidäo
devocional pura (suddha-bhakta), o devoto imbuído de devoçäo amorosa (prema-bhakta), o
devoto atuado pelo amor puro (premapara-bhakta), e o devoto impelido pelo amor
arrebatador (prematura-bhakta), que servem a majestade de Deus, tem suas localizaçöes em
Vaikuntha, i.e. o reino transcendental de Sri Narayana.

Só os devotos que estäo imbuídos com amor total e que trilham nos passos das servas
espirituais de Vraja, alcançam o reino de Goloka. Os diferentes locais dos devotos em Goloka
conforme suas respectivas diferenças da natureza de sua rasa, i.e., qualidade de doçura, säo
estabelecidos pelo inconcebível poder de Krishna. Os devotos puros seguindo os devotos de
Vraja e aqueles que seguem os devotos puros de Navadvipa, estäo localizados no reino de
Krishna e Gaura respectivamente. Os devotos idênticos de Vraja e Navadvipa alcançam
simultaneamente os prazeres do serviço no reino de Krishna e Gaura. Sri Jiva Goswami
escreve em sua obra Gopala-campu que "o supremo reino transcendental se chama Goloka,
sendo a morada de go, vacas transcendentais, e gopa, vaqueiros transcendentais. Este é o
assento dos passatempos de rasa do absoluto Sri Krishna. Novamente o reino é chamado de
Svetadvipa devido à realizaçäo de algumas das rasas que säo manifestaçäo inconcebível
derivada da pureza intocada daquele reino supremo. As duas entidades da suprema Goloka e
a suprema Svetadvipa säo indivisivelmente o reino de Goloka." O cerne de todo assunto é
este - Goloka como Svetadvipa é eternamente manifesta porque os prazeres de desfrutar da
rasa näo poderiam se dar em toda sua totalidade nos passatempos de Krishna em Vraja. Ele
aceita a emoçäo e refulgência de Sua metade predominada, Sri Radhika, e cria um passatempo
eterno para ali desfrutar de krishna-rasa. Sri Krishnachandra aceitou tomar Seu nascimento,
tal como a lua, no oceano do ventre de Sri Saci-devi, desejando saborear os seguintes
prazeres, i.e., para realizar: (1) a natureza da grandeza do amor de Sri Radha; (2) a natureza da
maravilhosa natureza de Seu amor o qual Sri Radhika saboreia; (3) a natureza da excelsa
alegria que se acumula em Sri Radha através de Sua realizaçäo da doçura de Seu amor. O
desejo esotérico de Sri Jiva Goswami Prabhu aqui se torna manifesto. No Veda também se
diz: "Permitam que lhes conte o mistério. Em Navadvipa, o reino idêntico de Goloka, na
beira do Ganges, Gaurachandra que é Govinda, a entidade de pura cogniçäo, que possui duas
mäos, que é a alma de todas almas, que possui a grande personalidade suprema como o
grande sannyasin meditativo e que está além dos atributos mundanos tríplices, torna
manifesto neste mundo mundano o processo de devoçäo pura sem misturas. Ele é o Deus
único. Ele é a fonte de todas formas, a Alma Suprema e é Deus manifestando-Se nas cores
amarela, vermelha, azul e branca. Ele é a entidade direta da pura cogniçäo plena da potência
espiritual (cit). Ele é a figura do devoto. Ele é quem concede a devoçäo e é cognoscível só
pela devoçäo. Esse mesmo Gaurachandra, que näo é outro senäo o próprio Krishna, a fim de
provar da rasa dos passatempos de Radha-Krishna em Goloka, está manifestado no reino
eterno de Navadvipa idêntico a Goloka." Isto também fica claro a partir das declaraçöes
védicas asan varnas trayah, krishna-varnam tvi-sakrishnam, yatha pashyah pashyati rukma-
varnam, maham prabhur vai e várias outras declaraçöes das escrituras teístas. Assim como
Sri Krishna tomou Seu nascimento na Gokula mundana por intermédio de Yogamaya que é a

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energia primal do Senhor Supremo, assim com o auxílio dela Ele manifesta a lila de Seu
nascimento no ventre de Saci-devi em Navadvipa neste plano mundano. Estas säo as
verdades absolutas da ciência espiritual e näo o resultado de especulaçäo imaginária sob a
escravatura da energia ilusória de Deus.

TEXTO 6

evam jyotir-mayo devah


sad-anandah parat parah
atmaramasya tasyasti
prakrtya na samagamah

TRADUÇÄO

O Senhor de Gokula é o Deus Supremo transcendental, o próprio Ser dos êxtases


eternos. Ele é o superior de todos superiores e está diligentemente ocupado nos
desfrutes do reino transcendental e näo tem nenhuma associaçäo com Sua potência
mundana.

SIGNIFICADO

Só a potência de Krishna que é espiritual, funcionando como o próprio poder de Krishna,


manifestou Seus passatempos de Goloka ou Gokula. Através dela as almas individuais que
säo constituentes da potência marginal conseguer ingressar até mesmo naqueles passatempos.
A energia ilusória cuja natureza é ser o reflexo pervertido da potência espiritual (cit), tem seu
local do outro lado do rio Viraja, que cerca Brahma-dhama formando a fronteira de Maha-
Vaikuntha como invólucro externo de Goloka. A posiçäo de Goloka é absolutamente sem
mistura com a energia mundana, ilusória, a qual longe de ter qualquer associaçäo com
Krishna, sente vergonha de aparecer diante Dele.

TEXTO 7

mayayaramamanasya
na viyogas taya saha
atmana ramaya reme
tyakta-kalam sisrkshaya

TRADUÇÄO

Krishna nunca se associa com Sua energia ilusória. Ainda assim a conecçäo dela com a
Verdade Absoluta näo é cortada completamente. Quando Ele tenciona criar o mundo
material, o passatempo amoroso no qual Ele se ocupa em associar-Se com Sua própria
potência espiritual (cit) Rama através de Seu olhar que lança sobre a energia ilusória na
forma de enviar Sua energia de tempo, é uma atividade auxiliar.

SIGNIFICADO

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A energia ilusória näo tem nenhum contato direto com Krishna, mas sim contato indireto.
Vishnu, a causa primordial, deitado no Oceano Causal, a porçäo plenária de Maha-
Shankarshana que tem Seu assento em Maha-Vaikuntha, a esfera dos passatempos extendidos
do próprio Krishna, lança Seu olhar para a energia ilusória. Mesmo ao lançar Seu olhar Ele
näo tem contato com a energia ilusória porque a potência espiritual(cit) Rama entäo leva a
funçäo de Seu olhar como Sua impoluta potência sempre-subserviente. A energia ilusória
como serva de potência espiritual (cit) Rama, serve a porçäo plenária manifestada de Deus
associada com Rama, a energia de tempo representando a força da atividade e
instrumentalidade de Rama; por conseguinte constatamos o processo de masculinidade ou a
força criadora.

TEXTO 8

niyatih sa rama devi


tat-priya tad-vasham tada
tal-lingam bhagavan shambhur
jyoti-rupah sanatanah
ya yonih sapara shaktih
kamo bijam mahad dhareh

TRADUÇÄO

(Descreve-se o processo secundário de associaçäo com Maya.) Ramadevi, a potência


espiritual (cit), amada consorte do Senhor Supremo, é a reguladora de todas entidades.
A divina porçäo plenária de Krishna cria o mundo mundano. Na criaçäo aparece um
halo divino que é por natureza Sua porçäo subjetiva (svamsha). Este halo é o divino
Shambhu, o símbolo masculino ou emblema manifestado do Senhor Supremo. Este halo
é o reflexo crepuscular embaçado da suprema refulgência eterna. Este símbolo
masculino é a porçäo subjetiva da divindade que funciona como progenitor do mundo
mundano, sujeito à suprema reguladora (niyati). Com relaçäo à criaçäo mundana, a
potência que concebe surge a partir da suprema reguladora. Ela é Maya, a potência
limitada, näo-absoluta (apara), símbolo da produtividade feminina mundana. O
intercurso de ambas cria a faculdade da cogniçäo pervertida, o reflexo da semente do
desejo de procriaçäo do Senhor Supremo.

SIGNIFICADO

Shankarshana possuído pelo desejo criativo é a porçäo subjetiva de Krishna tomando a


iniciativa em provocar o nascimento do mundo mundano. Deitado na água causal como o
purusha-avatara primordial, Ele lança Seu olhar para Maya (a potência limitada). Tal olhar é
a causa eficiente da criaçäo mundana. Shambhu, o símbolo da procriaçäo masculina mundana
é o tênue halo dessa refulgência refletida. É o símbolo que se aplica ao órgäo de geraçäo de
Maya, a sombra de Rama ou da potência divina. A primeira fase do aparecimento do desejo
mundano criado por Maha-Vishnu chama-se o princípio seminal de mahat ou a faculdade
cognitiva pervertida. E é isso que é idêntico ao princípio mental maduro para a atividade
procriadora. A concepçäo subjacente é que é a vontade do purusha que cria usando os
princípios eficientes e materiais. Eficiência é Maya ou o órgäo feminino produtor. O

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princípio material é Shambhu ou o órgäo masculino procriador. Maha-Vishnu é purusha ou a
divina pessoa dominante que dirije a vontade. Pradhana ou o princípio substantivo na forma
das entidades mundanas, é o princípio material. A natureza personificando o princípio
acomodante (adhara), é Maya. O princípio de vontade personificada que leva os dois ao
intercurso, é a divina pessoa dominante (purusha), porçäo subjetiva de Krishna, o
manifestador do mundo mundano. Esses três todos säo criadores. A semente de desejo
criativo amoroso em Goloka, é a personificaçäo da pura cogniçäo. A semente de desejo
sexual que encontramos neste mundo mundano, é a de Kali, etc., as quais säo sombras da
potência divina. A primeira, embora seja protótipo da segunda, localiza-se muito distante. A
semente do desejo sexual mundano é o reflexo pervertido neste mundo mundano da semente
do desejo criativo original. O processo do aparecimento de Shambhu está registrado no
décimo e décimo-quinto slokas.

TEXTO 9

linga-yoni-atmika jata
ima maheshvari-prajah

TRADUÇÄO

Toda prole da consorte do grande senhor (Maheshvara) deste mundo mundano säo da
natureza de encarnaçöes dos órgäos geradores mundanos masculinos e femininos.

SIGNIFICADO

A plena extensäo quadrantal do Senhor Supremo, é Sua majestade. Desta, as extensöes tri-
quadrantais de situaçöes näo-lamentantes, imperecíveis e incompreensíveis, constituem as
majestades dos reinos de Vaikuntha e Goloka, etc.. Nesse reino temporal de Maya, devas e
homens, etc. - todos estes junto com os mundos mundanos - säo as grandes majestades da
potência limitada. Todas estas entidades säo encarnaçöes dos órgaos de geraçäo masculinos e
femininos pela distinçäo de princípios causais eficientes e materiais; ou, em outras palavras,
säo produzidos pelo processo de intercurso sexual entre os órgaos de geraçäo masculinos e
femininos. Toda informaçäo que tem sido acumulada via as ciências deste mundo, possui esta
natureza de co-uniäo sexual. Arvores, plantas e mesmo todas entidades inconscientes säo
encarnaçöes da co-uniäo do masculino e do feminino. Fato de significado especial é que
embora tais expressöes como "os órgäos geradores masculinos e femininos" sejam
indecorosas no entanto na literatura científica estas palavras, expressando os princípios acima-
mencionados, säo excessivamente benfazejas e apresentam uma utilidade permanente. O
indecoro é meramente uma entidade pertinente ao costume externo da sociedade. Mas a
ciência, e especialmente a ciência mais elevada, näo pode destruir a verdadeira entidade por
deferência ao costume social. Por conseguinte, a fim de demonstrar a semente do desejo
sexual mundano, o princípio básico deste mundo fenomênico, o uso destas palavras idênticas
é indispensável. Através do uso de todas estas palavras só a energia masculina ou a potência
ativa predominante, e a energia feminina ou potência ativa predominada, podem ser
compreendidas.

TEXTO 10

16
shaktiman purushah so 'yam
linga-rupi maheshvarah
tasminn avirabhul linge
maha-vishnur jagat-patih

TRADUÇÄO

A pessoa que personifica o princípio causal material, i.e. o grande senhor deste mundo
mundano (Maheshvara) Shambhu, na forma do órgäo gerador masculino, está unido a
sua consorte feminina, a energia limitada (Maya) como o princípio causal eficiente. O
Senhor do mundo, Maha-Vishnu, está manifestado nele através de Sua porçäo subjetiva
na forma de Seu olhar.

SIGNIFICADO

Na atmosfera transcendental (para-vyoma), onde prepondera a majestade espiritual, está


presente Sri Narayana, o qual näo é diferente de Krishna. Maha-Shankarshana, fac-símile
plenário subjetivo da personalidade extendida de Sri Narayana, também é a porçäo plenária
divina da personificaçäo propagatória de Sri Krishna. Através do poder de Sua energia
espiritual, uma porçäo plenária subjetiva Dele, repousando eternamente na corrente neutra de
Viraja que forma o limite entre os reinos espiritual e mundano, lança Seu olhar, durante a
criaçäo, sobre a potência limitada obnubilada, Maya, que se localiza bem distante Dele
próprio. Em seguida, Shambhu, senhor do pradhana que personifica o princípio substantivo
de todas entidades materiais, e que é o mesmo que Rudra, o pálido reflexo do divino olhar do
próprio Senhor Supremo, consuma seu intercurso com Maya, o princípio causal mundano
eficiente. Porém ele näo pode fazer nada independente da energia de Maha-Vishnu

TEXTO 11

sahasra-shirsha purushah
sahasrakshah sahasra-pat
sahasra-bahur vishvatma
sahasramshah sahasra-suh

TRADUÇÄO

O Senhor do mundo mundano, Maha-Vishnu, possui milhares de cabeças, olhos, mäos.


Ele é a fonte de milhares e milhares de avataras em Suas milhares de milhares de
porçöes subjetivas. Ele é o criador de milhares de milhares de almas individuais

SIGNIFICADO

Maha-Vishnu, o objeto de adoraçäo dos hinos de todos Vedas, possui uma infinidade de
sentidos e potências, e Ele é o avatara-purusha primordial, a origem de todos avataras.

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TEXTO 12

narayanah sa bhagavan
apas tasmat sanatanat
avirasit karanarno
nidhih sankarshanatmakah
yoga-nidram gatas tasmin
sahasramshah svayam mahan

TRADUÇÄO

O mesmo Maha-Vishnu é denominado "Narayana" neste mundo mundano. Daquela


pessoa eterna brotou a vasta expansäo d'água do Oceano Causal espiritual. A porçäo
subjetiva de Sankarshana que permanece no paravyoma, o supremo purusha acima
mencionado de milhares de porçöes subjetivas, repousa no estado de sono divino (yoga-
nidra) nas águas do Oceano Causal espiritual.

SIGNIFICADO

Yoga-nidra (sono divino) descreve-se como um transe extático que é da natureza da bem-
aventurança da verdadeira personalidade subjetiva. Ramadevi acima-mencionada é yoga-
nidra na forma de Yogamaya.

TEXTO 13

tad-roma-bila-jaleshu
bijam sankarshanasya ca
haimany andani jatani
maha-bhutavrtani tu

TRADUÇÄO

As sementes espirituais de Sankarshana existentes nos poros da pele de Maha-Vishnu,


nascem como tantos espermas dourados. Estes espermas estäo cobertos pelos cinco
grandes elementos.

SIGNIFICADO

O divino avatara primordial deitado no Oceano Causal espiritual é täo grande que dos poros
de Sua divina forma brotam miríades de sementes dos universos. Essas séries de universos
säo os reflexos pervertidos da infinita regiäo transcendental. Enquanto permanecem
embutidos em Sua divina forma, personificam o princípio do reflexo espiritual que tem a
forma de ovos dourados. Entretanto, pelo desejo criativo de Maha-Vishnu as diminutas
partículas dos grandes elementos, que säo constituentes dos princípios causais materiais e
eficientes, envolvem-nos. Quando esses espermas dourados, saindo com a exalaçäo de Maha-
Vishnu, entram na ilimitada câmara acomodante da potência limitada (Maya), tornam-se
aumentados pelos grandes elementos näo-conglomerados.

18
TEXTO 14

praty-andam evam ekamshad


ekamshad vishati svayam
sahasra-murdha vishvatma
maha-vishnuh sanatanah

TRADUÇÄO

Este mesmo Maha-Vishnu entrou em cada universo como Suas próprias porçöes
subjetivas separadas. As porçöes divinas que entraram em cada universo, possuem Sua
extensäo majestosa, i.e. elas säo a eterna alma universal Maha-Vishnu, possuidora de
milhares de milhares de cabeças.

SIGNIFICADO

Maha Vishnu, deitado no Oceano Causal, é a porçäo subjetiva de Maha-Sankarshana. Ele


entrou, como Suas próprias porçöes, nesses universos. Estas porçöes individuais todas
representam o segundo purusha divino deitado no oceano da concepçäo e säo idênticas a
Maha-Vishnu em todos sentidos. Ele também é chamado de guia divino, do interior, para
todas almas.

TEXTO 15

vamangad asrjad vishnum


dakshinangat prajapatim
jyotir-linga-mayam shambhum
kurca-deshad avasrjat

TRADUÇÄO

O mesmo Maha-Vishnu criou Vishnu de Seu membro esquerdo, Brahma, o primeiro


progenitor do seres, de Seu membro direito e, do espaço entre Suas duas sombrancelhas,
Shambhu, o divino halo masculino manifestado.

SIGNIFICADO

O divino purusha, deitado no oceano de leite, o mesmo que é o regulador de todas almas
individuais, é Sri Vishnu; e Hiranyagarbha, o princípio seminal, a porçäo do Senhor Supremo,
é o primeiro progenitor, o qual é diferente do Brahma de quatro cabeças. Esse mesmo
Hiranyagarbha é o princípio da energia criadora seminal de cada Brahma pertencente a cada
um da infinidade dos universos. O divino halo masculino manifestado, Shambhu, é a
manifestaçäo plenária de seu protótipo Shambhu, o mesmo que o divino simbolo masculino
gerador Shambhu cuja natureza já foi descrita. Vishnu é a porçäo subjetiva integral de Maha-
Vishnu. Portanto Ele é o grande Senhor de todos outros senhores. O progenitor (Brahma) e
Shambhu säo as porçöes deslocadas de Maha-Vishnu. Logo, säo deuses com funçöes

19
delegadas. Como Sua potência fica no lado esquerdo de Deus, Vishnu aparece no membro
esquerdo de Maha-Vishnu a partir da essência pura de Sua potência espiritual (cit). Vishnu,
que é o próprio Deus, é a superalma interna que guia cada alma individual. Ele é a
Personalidade de Deus descrita nos Vedas como sendo do tamanho de um polegar. Ele é o
alimentador. Os karmis (elevacionistas) adoram-No como Narayana, o Senhor dos sacrifícios,
e os yogis desejam fundir suas identidades Nele como Paramatma, pelo processo de seu transe
meditativo.

TEXTO 16

ahankaratmakam vishvam
tasmad etad vyajayata

TRADUÇÄO

A funçäo de Shambhu em relaçäo às jivas é que esse universo envolvendo o princípio


egoísta mundano originou de Shambhu.

SIGNIFICADO

O princípio básico é o próprio Senhor Supremo que é a personificaçäo do princípio da


existência de todas entidades sem nenhum egoísmo separador. Neste mundo mundano o
aparecimento das entidades individuais como símbolos egoístas separados, é o limitado
reflexo pervertido da potência espiritual (cit) sem misturas; e Shambhu, representando a
divina funçäo primordial geradora masculina, se une ao princípio acomodante, i.e. o órgäo
mundano feminino, que é o reflexo pervertido da potência espiritual (cit) Ramadevi. Nessa
funçäo Shambhu näo passa de mero princípio causal material encarnando a extensäo na forma
do ingrediente da matéria. Novamente, quando durante o curso da evoluçäo progressiva da
criaçäo mundana cada universo se manifesta, entäo no princípio de Shambhu, nascido do
espaço entre as duas sombrancelhas de Vishnu, aparece a manifestaçäo da personalidade de
Rudra; entretanto sob todas circunstâncias, Shambhu encerra plenamente todo princípio
egoísta mundano. As inúmeras jivas como partículas espirituais emanando da superalma na
forma de bastonetes de raios de refulgência, näo possuem relaçäo com o mundo mundano
quando chegam a se conhecer como servos eternos do Senhor Supremo. Incorporam-se,
entäo, no reino de Vaikuntha. Mas quando desejam assenhorear-se de Maya, esquecendo sua
real identidade, o princípio egoísta Shambhu penetrando em suas entidades faz com que se
identifiquem como desfrutadores separados das entidades mundanas. Assim Shambhu é o
princípio primário do universo egoísta mundano e do egotismo pervertido nas jivas que se
identificam com seus corpo materiais limitados.

TEXTO 17

atha tais tri-vidhair veshair


lilam udvahatah kila
yoga-nidra bhagavati
tasya shrir iva sangata

20
TRADUÇÄO

A seguir, o mesmo grande Deus pessoal, assumindo as tríplices formas de Vishnu,


Prajapati e Shambhu, entrando no universo mundano, interpreta os passatempos de
preservaçäo, criaçäo e destruiçäo deste mundo. Esse passatempo está contido no mundo
mundano. Por conseguinte, sendo pervertido, o Senhor Supremo, idêntico a Maha-
Vishnu, prefere associar-Se com a deusa Yoganidra, constituente de Sua própria
potência espiritual (cit) plena do transe extático de eterna bem-aventurança pertencente
a Sua divina personalidade.

SIGNIFICADO

As porçöes deslocadas da Divindade, i.e., Prajapati e Shambhu, ambos identificando-se como


entidades que estäo separadas da essência divina, divertem-se com suas respectivas consortes
näo-espirituais (acit), i.e. Savitri-devi e Uma-devi, os reflexos pervertidos da potência
espiritual (cit). O Supremo Senhor Vishnu é o único Senhor da potência espiritual (cit), Rama
ou Lakshmi.

TEXTO 18

sisrkshayam tato nabhes


tasya padmam viniryayau
tan-nalam hema-nalinam
brahmano lokam adbhutam

TRADUÇÄO

Quando Vishnu deitado no oceano de leite decide cirar este universo, um lótus dourado
surge do väo de Seu umbigo. O lótus dourado com seu caule é a morada de Brahma,
representando Brahma-loka ou Satyaloka.

SIGNIFICADO

"Dourado" aqui significa o pálido reflexo da pura cogniçäo.

TEXTO 19

tattvani purva-rudhani
karanani parasparam
samavayaprayogac ca
vibhinnani prthak prthak

cic-chaktya sajjamano 'tha


bhagavan adi-purushah
yojayan mayaya devo
yoga-nidram akalpayat

21
TRADUÇÄO

Antes de sua conglomeraçäo, os elementos primários em seu estado nascente


permaneciam originalmente entidades separadas. A näo-aplicaçäo do processo
conglomerante é a causa de sua existência separada. O divino Maha-Vishnu, Deus
primordial, através da associaçäo com Sua potência espiritual (cit), agitou Maya e pela
aplicaçäo do princípio conglomerante criou essas diferentes entidades em seu estado de
cooperaçäo. E depois disso Ele mesmo Se associou com Yoganidra através de Seu eterno
divertimento com Sua potência espiritual (cit).

SIGNIFICADO

Mayadhyakshena prakrtih suyate sa-caracaram: "A energia mundana prakrti gera este
universo de seres animados e inanimados através de Minha direçäo." O significado deste
sloka do Gita é que Maya, o reflexo pervertido da potência espiritual (cit), primeiro estava
inativa e sua extensäo da matéria que constitue a causa material, também estava num estado
deslocado separado. De acordo com a vontade de Krishna este mundo se manifesta como
resultado da uniäo dos princípios eficiente e causal material de Maya. Näo obstante, o próprio
Senhor Supremo permanece unido com Sua potência cit, Yoganidra. A palavra yoganidra ou
yogamaya indica o seguinte: A natureza da potência cit manifesta a Verdade Absoluta,
enquanto a natureza de seu reflexo pervertido, Maya, é o envolvimento nas trevas da
ignorância. Quando Krishna deseja manifestar algo nos assuntos mundanos toldados pela
ignorância, Ele o faz através da conjunçäo de Sua potência espiritual com Sua potência inativa
näo-espiritual. Isto é conhecido como Yogamaya e encerra duas noçöes, ou seja, a noçäo
transcendental e a mundana inerte. O próprio Krishna, Suas porçöes subjetivas e aquelas
jivas que säo Suas partículas puras separadas, realizam a noçäo transcendental nesta
conjunçäo, enquanto as almas condicionadas sentem a noçäo mundana inerte. A cobertura
externa de conhecimento transcendental nas atividades conscientes das almas condicionadas,
leva o nome de Yoganidra. Isto também é uma influência da potência cit da Divindade. Este
princípio será considerado mais elaboradamente a seguir.

TEXTO 20

yojayitva tu tany eva


pravivesha svayam guham
guham pravishte tasmims tu
jivatma pratibhudhyate

TRADUÇÄO

Conglomerando todas estas entidades separadas Ele manifestou os inúmeros universos


mundanos e Ele mesmo entrou no recesso mais íntimo de cada conglomerado extendido
(virad-vigraha). Naquele momento aquelas jivas que estavam adormecidas durante o
cataclisma despertaram.

SIGNIFICADO

22
A palavra guha (cavidade oculta) tem várias interpretaçöes nos shastras. Em algumas partes
os passatempos näo-manifestados do Senhor se chamam guha e em outras o local de descanso
do espírito que habita dentro de todas almas individuais, se chama guha. Aquelas jivas que se
fundiram em Hari ao final da vida de Brahma no grande cataclisma durante a anterior grande
era do universo, reapareceram neste mundo de acordo com seus desejos fruitivos passados.

TEXTO 21

sa nityo nitya-sambandhah
prakrtish ca paraiva sa

TRADUÇÄO

A mesma jiva é eterna e por toda eternidade e sem nenhum começo está unida ao Senhor
Supremo pelo elo de um parentesco eterno. Ela é potência espiritual transcendental.

SIGNIFICADO

Assim como o sol está eternamente associado aos seus raios, também o transcendental Senhor
Supremo está eternamente unido com as jivas. As jivas säo partículas infinitesimais de Sua
refulgência espiritual e portanto, näo säo perecíveis como as coisas mundanas. Jivas, sendo
partículas dos refulgentes raios de Deus, exibem em escala diminuta as qualidades da
Divindade. Logo as jivas säo idênticas aos princípios do conhecimento, conhecedor, egoísmo,
desfrutador, meditador e autor. Krishna é o Senhor Supremo oni-penetrante, que se estende a
tudo; ao passo que as jivas tem uma natureza diferente da Sua, sendo Suas partículas
atômicas. Esse relacionamento eterno consiste em que o Senhor Supremo é o amo eterno e as
jivas säo Suas servas eternas. Jivas também possuem suficiente qualificaçäo com relaçäo à
qualidade de doçura da Divindade. Apareyam itas tv anyam prakrtim viddhi me param.
Através desse verso do Gita fica-se sabendo que as jivas säo Sua potência transcendental.
Todas qualidades da alma pura estäo acima das oito qualidades como o egoísmo, etc.,
pertencentees a Sua potência acit. Portanto a potência jiva, embora de magnitude muito
pequena, ainda assim é superior à potência acit ou Maya. Esta potência tem outro nome, i.e.
tatastha ou potência marginal, estando localizada sobre a linha de demarcaçäo entre as esferas
das potências mundana e espiritual. Säo suscetíveis à influência da energia material devido à
sua pequena magnitude. Mas enquanto permanecem submissas a Krishna, o Senhor de Maya,
näo estäo sujeitas à influência de Maya. As afliçöes mundanas, nascimentos e renascimentos
säo concomitantes à condiçäo limitada das almas caídas nas garras da potência ilusória desde
uma época que näo tem início.

TEXTO 22

evam sarvatma-sambandham
nabhyam padmam harer abhut
tatra brahmabhavad bhuyash
catur-vedi catur-mukhah

TRADUÇÄO

23
O lótus divino que brota da cavidade do umbigo de Vishnu está totalmente ligado a
todas almas através do elo espiritual e é a origem do Brahma de quatro rostos, versado
nos quatro Vedas.

SIGNIFICADO

O mesmo lótus divino que se origina da divina pessoa que entrou no recesso oculto, é o plano
superior de agregaçäo de todas almas individuais. O Brahma de quatro rostos, a imagem da
auto-satisfaçäo, deriva sua origem do Brahma protótipo ou Hiranyagarbha, o princípio
seminal mundano, que considera o agregado de todas entidades mundanas como seu próprio
corpo. A divindade delegada de Brahma bem como o fato dele ser uma porçäo deslocada de
Krishna, também säo estabelecidos.

TEXTO 23

sanjato bhagavac-chaktya
tat-kalam kila coditah
sishrkshayam matim cakre
purva-samskara-samskrtah
dadarsha kevalam dhvantam
nanyat kim api sarvatah

TRADUÇÄO

Ao sair do lótus, Brahma, guiado pela potência divina, voltou sua mente para o ato de
criaçäo sob o impulso de impressöes anteriores. Mas näo conseguia ver nada a näo ser
escuridäo em qualquer direçäo.

SIGNIFICADO

O impulso de criaçäo de Brahma surge unicamente de suas impressöes anteriores. Todas jivas
recebem sua natureza em conformidade com suas impressöes anteriores de nascimentos
prévios e assim sua atividade pode ter um início. Chama-se "o invisível" ou o resultado de
nossos atos prévios. Seu impulso natural forma-se de acordo com a natureza de seus atos
praticados num kalpa anterior. Algumas das jivas qualificadas também alcançam o posto de
Brahma desta maneira.

TEXTO 24

uvaca puratas tasmai


tasya divya sarasvati
kama-krishnaya govinda
he gopi-jana ity api
vallabhaya priya vahner
mantram te dasyati priyam

24
TRADUÇÄO

Entäo a deusa dourada da sabedoria, Sarasvati, divina consorte do Senhor Supremo,


disse assim para Brahma, o qual näo enxergava nada além de trevas em todas direçöes:
"ó Brahma, este mantra, i.e. klim krishnaya govindaya gopi-jana-vallabhaya svaha,
certamente irá realizar o desejo de teu coraçäo."

SIGNIFICADO

O mantra, consistindo das dezoito letras divinas com o prefixo do kama-bija, é por si só
superexcelente. Possui um poderoso aspecto duplo. Um aspecto é que tende a fazer a alma
pura correr atrás do totalmente atrativo Sri Krishna, o Senhor de Gokula e as divinas
vaqueirinhas. Esse é o auge da tendência espiritual das jivas. Quando o devoto está livre de
toda sorte de desejos mundanos e quer servir o Senhor, obtém a fruiçäo do desejo de seu
coraçäo, i.e., o amor por Krishna. Mas no caso do devoto cuja atitude näo é sem mistura, este
mantra superexcelente também realiza seu desejo do coraçäo. O transcendental kama-bija é
inerente ao logos divino localizado em Goloka; e o kama-bija refletido de modo pervertido
nos assuntos mundanos satisfaz toda sorte de desejos desse mundo mundano.

TEXTO 25

tapas tvam tapa etena


tava siddhir bhavishyati

TRADUÇÄO

"ó Brahma, pratica associaçäo espiritual por meio deste mantra; entäo todos teus desejos
seräo realizados."

SIGNIFICADO

O significado é claro.

TEXTO 26

atha tepe sa suciram


prinan govindam avyayam
svetadvipa-patim krsnam
goloka-stham parat param

prakrtya guna-rupinya
rupinya paryupasitam
sahasra-dala-sampanne
koti-kinjalka-brmhite

bhumis cintamanis tatra

25
karnikare mahasane
samasinam cid-anandam
jyoti-rupam sanatanam

shabda-brahma-mayam venum
vadayantam mukhambuje
vilasini-gana-vrtam
svaih svair amshair abhishtutam

TRADUÇÄO

Brahma, tendo desejo de satisfazer Govinda, praticou os atos culturais para Krishna em
Goloka, o Senhor de Svetadvipa, durante muito tempo. A meditaçäo dele era a seguinte:
"Existe um divino lótus de mil pétalas, aumentado por milhöes de filamentos, na terra
transcendental de Goloka. Em seu verticilo, existe um grande trono divino sobre o qual
está sentado Sri Krishna, a forma da refulgência eterna da bem-aventuranca
transcendental, tocando com Sua boca de lótus a Sua divina flauta ressoando com o som
divino. Ele é adorado por Suas amorosas vaqueirinhas com suas porçöes subjetivas e
extensöes e também por Sua energia externa (que permanece de fora) personificando
todas qualidades mundanas."

SIGNIFICADO

Embora o objeto de meditaçäo seja plenamente transcendental, contudo devido a sua natureza
permeada da qualidade de anseio mundano ativo, Maya, a potência näo-espiritual de Krishna,
personificando os princípios de sattva, rajas e tamas misturados, na forma de Durga, e outras
forças näo-espirituais, meditaram no Supremo Senhor Krishna como o objeto de sua
adoraçäo. Enquanto houver qualquer vestígio de desejo mundano em nosso coraçäo, o objeto
de adoraçäo de Mayadevi (Durga) tem que ser adorado por tal pessoa; näo obstante a
realizaçäo do desejo do coraçäo da pessoa resulta da adoraçäo do objeto da adoraçäo de
Mayadevi, e näo da adoraçäo da própria Mayadevi. Isto está de acordo com o sloka: akamah
sarva-kamo va moksha-kama udara-dhih, tivrena bhakti-yogena yajetaa purusham param. O
significado deste sloka do Bhagavatam é que embora outros deuses, como manifestaçöes
distintas do Senhor Supremo, confiram diversas bençäos específicas, no entanto uma pessoa
sensata deve adorar o todo-poderoso Senhor Supremo, doador de todo bem, com devoçäo sem
misturas, sem adorar tais deidades que däo recompensas. Portanto, Brahma meditou em
Krishna em Goloka, o objeto de adoraçäo, a uma certa distância, de Mayadevi. Verdadeira
devoçäo é atividade devocional pura livre de todo desejo mundano. A devoçäo de Brahma,
etc. näo é devoçäo sem mistura. Mas existe um estágio de predileçäo sem mistura mesmo na
devoçäo para se obter os próprios desejos egoístas. Isto foi totalmente descrito nos cinco
slokas conclusivos desta obra. Esse é o método mais fácil de serviço divino, antes de obter
auto-realizaçäo, para as almas caídas.

TEXTO 27

atha venu-ninadasya
trayi-murti-mayi gatih

26
sphuranti praviveshashu
mukhabjani svayambhuvah

gayatrim gayatas tasmad


adhigatya sarojajah
samskrtash cadi-guruna
dvijatam agamat tatah

TRADUÇÄO

Entäo Gayatri, a mäe dos Vedas, tendo sido manifestada, i.e. transmitida pelo divino som
da flauta de Sri Krishna, entrou na boca de lótus de Brahma, nascido por si só, através
dos oito orifícios auriculares. Brahma, nascido do lótus, tendo recebido Gayatri,
oriunda da melodia da flauta de Sri Krishna, alcançou o estado de duas vezes nascido,
tendo sido iniciado pelo supremo preceptor primordial, o próprio Deus.

SIGNIFICADO

O som da flauta de Krishna é o som transcendental bem-aventurado; assim o arquétipo de


todo Veda, está presente nele. Gayatri é ritmo védico. Contém uma breve meditaçäo e
oraçäo. Kama-gayatri é o mais elevado de todos Gayatris, porque a meditaçäo e a oraçäo ali
contidas estäo cheias das perfeitas atividades transcendentais lúdicas que näo se encontram
em nenhum outro Gayatri. O Gayatri a que se chega em seguida ao mantra de dezoito letras é
kama-gayatri, i.e.: klim kama-devaya vidmahe pushpa-banaya dhimahi tan no 'nangah
prachodayat. Neste Gayatri, indica-se a realizaçäo dos passatempos transcendentais de Sri
Gopijana-vallabha após perfeita meditaçäo e a oraçäo para alcançar o transcendental deus do
amor. No mundo espiritual näo há melhor maneira de se esforçar para conseguir o
superexcelente amor orvalhado de rasa. Assim que esse Gayatri entrou nos orifícios
auriculares de Brahma, este se tornou duas vezes nascido e começou a cantar o Gayatri.
Quem quer que tenha recebido o mesmo Gayatri na realidade, obteve seu renascimento
espiritual. O estado de duas vezes nascido obtido de acordo com a natureza e linhagem
mundana, pelas almas acorrentadas neste mundo mundano, é bem inferior ao dos duas vezes
nascidos que conseguem admissäo no mundo transcendental; porque a iniciaçäo ou aquisiçäo
do nascimento transcendental como resultado da iniciaçäo espiritual é a mais elevada das
glórias visto que permite à jiva alcançar o reino transcendental.

TEXTO 28

trayya prabhuddho 'tha vidhir


vijnata-tattva-sagarah
tustava veda-sarena
stotrenanena keshavam

TRADUÇÄO

27
Iluminado pela lembrança daquele Gayatri, que personifica os três Vedas, Brahma
tornou-se conhecedor da expansäo do oceano da verdade. Entäo ele adorou a Sri
Krishna, a essência de todos Vedas, com este hino.

SIGNIFICADO

Brahma pensou consigo mesmo: "Pela lembrança de kama-gayatri parece-me que sou a
eterna serva de Krishna." Embora os outros mistérios relativos a essa condiçäo de serva de
Krishna näo lhe foram revelados, Brahma, por força de sua busca de auto-consciência, tornou-
se bem conhecedor do oceano da verdade. Todas verdades dos Vedas foram lhe reveladas e
com o auxílio de tais essências dos Vedas ofereceu este hino ao Senhor Supremo Sri Krishna.
Sriman Mahaprabhu ensinou este hino a Seus discípulos favoritos pois contém plenamente
todas verdades transcendentais referentes a filosofia Vaisnava. Solicita-se aos leitores que
estudem e tentem entrar no espirito deste hino com grande cuidado e atençäo, como uma
funçäo diária regular."

TEXTO 29

cintamani-prakara-sadmasu kalpa-vrksha-
lakshavrteshu surabhir abhipalayantam
lakshmi-sahasra-sata-sambhrama-sevyamanam
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, o primeiro progenitor, que está cuidando das
vacas que satisfazem todos desejos, em moradas construídas com jóias espirituais,
cercadas por milhöes de árvores filosofais. Ele está sempre sendo servido com grande
reverência e afeiçäo por centenas de milhares de laksmis ou gopis.

SIGNIFICADO

A palavra cintamani significa "jóia transcendental". Assim como Maya constrói este universo
mundano com os cinco elementos materiais, também a potência espiritual (cit) construiu o
mundo espiritual com jóias transcendentais. A cintamani que serve como material na
construçäo da morada do Senhor Supremo de Goloka, é uma entidade muito mais rara e
aprazível do que a pedra dos filósofos. A árvore-dos-desejos dá somente os frutos de piedade,
fortuna, realizaçäo dos desejos e liberaçäo; mas as árvores filosofais na morada de Krishna
concedem inúmeros frutos sob forma do amor divino em seus variados matizes. Kama-
dhenus (vacas que realizam desejos) däo leite quando säo ordenhadas; porém as kama-dhenus
de Goloka derramam oceanos de leite sob forma da fonte de amor jorrando êxtase
transcendental que acaba com toda fome e sede de todos devotos puros. As palavras laksha e
sahasra-shata significam de número infindável. A palavra sambhrama ou sadara indica
"estando saturadas de amor." Portanto lakshmi denota gopi. Adi-purusha significa "Aquele
que é o Senhor primordial."

TEXTO 30

28
venum kvanantam aravinda-dalayataksham
barhavatamsam asitambuda-sundarangam
kandarpa-koti-kamaniya-vishesha-sobham
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, que é exímio em tocar Sua flauta, que possui
olhos como as pétalas de um lótus florescente, cuja cabeça está ornamentada por uma
pena de paväo, e cuja bela figura tem a cor das nuvens azuis, e Sua beleza sem par
encanta milhöes de Cupidos.

SIGNIFICADO

Está sendo descrita a beleza incomparável de Krishna, o Senhor Supremo de Goloka.


Krishna, a cogniçäo oni-penetrante, tem Sua própria forma espiritual. A forma de Krishna näo
é uma criaçäo fantasiosa da imaginaçäo, formada após visualizar as coisas belas do mundo. O
que Brahma viu em seu êxtase extático de devoçäo pura, está sendo descrito. Krishna está
ocupado em tocar Sua flauta. Essa flauta através de seu encantador som musical atrai os
coraçöes de todos seres vivos. Assim como uma pétala de lótus proporciona uma visäo
agradável, assim também os dois lindos olhos de Krishna que causa a manifestaçäo de nossa
visäo espiritual, exibem o ilimitado esplendor e beleza de Seu rosto semelhante à lua. A
beleza ornamenta Sua cabeça com figuras de penas de paväo, o detalhe correspondente da
beleza espiritual de Krishna. Assim como uma massa de nuvens azuis proporciona uma visäo
agradável, suavizante, a tez de Krishna analogamente é matizada de azul-escuro. A beleza e
encanto de Krishna säo muito mais encantadoras que a de Cupido multiplicado milhöes de
vezes.

TEXTO 31

alola-chandraka-lasad-vanamalya-vamsi-
ratnangadam pranaya-keli-kala-vilasam
syamam tri-bhanga-lalitam niyata-prakasham
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, em volta de cujo pescoço balança uma


guirlanda de flores embelezada pelo medalhäo da lua. Suas duas mäos estäo adornadas
pela flauta e ornamentos de jóias. Ele sempre desfruta de passatempos de amor, e Sua
graciosa forma de Shyamasundara que se curva em três pontos é eternamente
manifesta.

SIGNIFICADO

29
No sloka que principia com cintamani-prakara temos a regiäo transcendental e os nomes
espirituais de Govinda, e no sloka começando por venum kvanantam, a linda forma eterna de
Govinda; e nesse sloka, foram descritos os passatempos amorosos de Govinda, a
personificaçäo de Suas sessenta e quatro excelências. Todos assuntos espirituais que säo
passíveis de serem descritos na narraçäo da qualidade de doçura extática (rasa) säo incluídos
nos passatempos espirituais amorosos de Govinda.

TEXTO 32

angani yasya sakalendriya-vrtti-manti


pasyanti panti kalayanti ciram jaganti
ananda-cinmaya-sad-ujjvala-vigrahasya
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, cuja forma transcendental é plena de bem-


aventurança, verdade, e substancialidade e portanto está cheia do mais deslumbrante
esplendor. Cada um dos membros dessa figura transcendental possui em Si as plenas
funçöes de todos órgäos e eternamente vê, mantém e manifesta os infinitos universos,
tanto espirituais como mundanos.

SIGNIFICADO

Pela falta de um gosto pelas coisas espirituais, surge uma grave dúvida nas mentes daqueles
que estäo acorrentados pelo conhecimento mundano. Ao ouvirem uma narrativa dos
passatempos de Krishna pensam que a verdade (tattva) com relaçäo a Krishna é uma criaçäo
mental de certos sábios eruditos, criada por seus cérebros imaginativos a partir de material
extraído dos princípios mundanos. Visando remover essa dúvida nociva, neste e nos três
slokas seguintes, Brahma, após fazer distinçäo entre ambas coisas, espírito e matéria, de
maneira racional tentou fazer com que se entenda a pura lila de Krishna, obtida por seu transe
extático sem misturas. Brahma quer dizer que a forma de Krishna é toda existência, todo
conhecimento e toda bem-aventurança, ao passo que as experiências mundanas estäo cheias
de ignorância palpável. Embora haja diferenças específicas entre ambos, a verdade
fundamental é que os assuntos espirituais constituem a fonte absoluta. Especificaçäo e
variedade estäo sempre presentes neles. Por meio deles se estabelecem a transcendental
morada, forma, nome, qualidade e passatempos de Krishna. Somente uma pessoa imbuída de
conhecimento espiritual e livre de qualquer relaçäo com Maya é que consegue apreciar de
todo tais passatempos amorosos de Krishna. A morada espiritual, o assento dos passatempos,
emanada da potência cit e formada de cintamani (transcendental pedra dos filósofos), e a
figura de Krishna, säo todos espirituais. Assim como Maya é o reflexo pervertido da potência
espiritual, a variedade criada por Maya (ignorância) também é um reflexo pervertido da
variedade espiritual. Portanto neste mundo mundano percebemos apenas um mero arremedo
da variedade espiritual. Apesar de tal semelhança ambos säo inteiramente diferentes entre si.
A insalubridade da matéria é seu defeito; porém no espírito existe variedade livre de qualquer
defeito ou contaminaçäo. A alma e o corpo de Krishna säo idênticos, enquanto que o corpo e
alma das criaturas caídas näo é. Na esfera espiritual näo existe tal diferença como a deste

30
mundo, entre corpo e alma, entre os membros e seu proprietário, entre atributos e o objeto que
os possui. Mas tal diferença realmente existe no caso das almas condicionads. Embora tenha
membros, cada membro de Krishna é a entidade inteira. Ele realiza todas variedades de
funçöes espirituais com cada um de Seus membros. Logo Ele é um todo indivisível e uma
entidade transcendental perfeita. Tanto a alma-jiva como Krishna, säo transcendentais.
Portanto pertencem à mesma categoria. Porém diferem em que os atributos transcendentais
existem na alma-jiva em graus infinitesimalmente pequenos, ao passo que em Krishna os
encontramos em sua mais plena perfeiçäo. Tais atributos manifestam-se em sua devida
infinitesimalidade apenas quando a alma-jiva atinge sua posiçäo espiritual inadulterada. A
alma-jiva atinge a maior proximidade com a identidade absoluta somente quando a força
espiritual da energia extática surge nela pela graça de Krishna. Ainda assim Krishna
permanece o objeto de deferência universal por Ele possuir certos atributos singulares. Estes
quatro atributos sem rival näo se manifestam em Narayana, o Senhor de Vaikuntha ou nos
purusha-avataras primordiais, ou nas deidades mais elevadas como Shiva, sem falar nas jivas.

TEXTO 33

advaitam acyutam anadim ananta-rupam


adyam purana-purusham nava-yauvanam ca
vedeshu durlabham adurlabham atma-bhaktau
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, que é inacessível aos Vedas, mas que se pode
obter através da devoçäo pura (sem misturas) da alma. Ele é o primeiro e único, sem
igual, näo está sujeito a deterioraçäo, e é sem um começo. Sua forma é infinita, e Ele é o
princípio de tudo e o eterno purusha; no entanto, Ele é uma pessoa que possui a beleza
da juventude em flor.

SIGNIFICADO

Advaita significa "verdade indivisível que é conhecimento absoluto." Brahman, o infinito,


emana Dele como Sua refulgência e Paramatma (Deus-imanente) como Seu constituente;
entretanto Ele permanece uno e indivisível. Acyuta significa que embora miríades de
avataras emanem Dele como porçöes subjetivas e milhöes de jivas como partículas espirituais
separadas, ainda assim Ele permanece intato como o todo indiviso da perfeiçäo total. Embora
Se entregue a exibir passatempos de nascimentos, etc., ainda assim Ele é sem começo.
Embora desapareça depois dos passatempos de Seu aparecimento, ainda assim Ele é eterno.
Embora sem origem, no entanto Ele tem origem no Seu passatempo de aparecimento; e
embora eterno na essência, ainda assim Ele é uma pessoa no pleno florescer da juventude. A
soma e substância disto é que embora Ele possua qualidades diversas e aparentemente
mutuamente contraditórias, no entanto há uma concordância universal harmoniosa devido a
Sua potência inconcebível. É isso que significa cid-dharma (natureza transcendental) como
distinto do material. Sua graciosa forma que se curva em três pontos com a flauta na mäo,
possui juventude eternamente florescente e está acima de toda insalubridade que encontramos
no tempo e espaço limitados. No reino transcendental näo existe passado ou futuro,

31
mas somente o imutável tempo presente. Na esfera transcedental näo existe distinçäo entre o
objeto e suas qualidades e nenhuma identidade como se encontra na regiäo mundana limitada.
Assim aquelas qualidades que parecem ser aparentemente contraditórias à luz da concepçäo
mundana limitada pelo tempo e espaço, existem em conformidade e em delicada
concordância com o reino espiritual. Como pode a jiva compreender tal existência sem
precedentes? A funçäo intelectual limitada da jiva está sempre contaminada pela influência
do tempo e do espaço e, portanto, näo está numa posiçäo para libertar-se de tal estado
limitado. Se a potência da funçäo cognitiva näo se estende à compreensäo do transcendental,
o que mais conseguiria? Como resposta, Brahma diz que o Absoluto transcendental está além
do alcance dos Vedas. Os Vedas originam-se no som e o som origina-se no éter mundano.
Assim os Vedas näo conseguem apresentar diante de nós uma visäo direta do mundo
transcendental (Goloka). É somente quando os Vedas estäo imbuídos da potência cit que
conseguem lidar com o transcendental. Mas Goloka revela-se a cada alma-jiva quando esta
está sob a influência da potência espiritual cognitiva aliada à essência da energia extática. A
funçäo extática da devoçäo é sem limites e está sobrecarregada de conhecimento
transcendental puro. Esse conhecimento revela goloka-tattva (o princípio do transcendental
mais elevado) em uníssono com a devoçäo, sem afirmar-se separadamente mas como algo
subsidiário à devoçäo pura.

TEXTO 34

panthas tu koti-sata-vatsara-sampragamyo
vayor athapi manaso muni-pungavanam
so 'py asti yat-prapada-simny avicintya-tattve
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, de quem os yogis que aspiram ao


transcendental e se ocupam em pranayama através do controle da respiraçäo, conseguem
se aproximar apenas até as pontas dos dedos de Seus pés de lótus, assim como os jnanis,
que tentam encontrar o Brahman näo-diferenciado pelo processo da eliminaçäo do
mundano, estendendo-se por milhares de milhöes de anos.

SIGNIFICADO

Alcançar os pés de lótus de Govinda consiste na realizaçäo da devoçäo pura. O kaivalya


(estado realizado näo-alternativo) que é atingido pelos astanga-yogis através de praticarem o
transe por milhares de milhöes de anos e o estado de fundir-se na impersonalidade näo-
diferenciada de Deus além do escopo do que é limitado, atingido pelos näo-dualistas após
semelhante período gasto distinguindo entre o espiritual e o näo-espiritual e eliminando coisas
da esfera limitada uma após a outra através da fórmula "näo isso, näo aquilo", säo
simplesmente a periferia dos pés de lótus de Krishna e näo os próprios pés em si.
Basicamente, a questäo é que kaivalya ou fundir-se no Brahman constitui a linha de
demarcaçäo entre o mundo da limitaçäo e o mundo transcendental. Pois, a näo ser que as
ultrapassemos näo conseguiremos ter uma amostra da variedade da esfera transcendental.
Estas condiçöes säo a simples ausência da miséria oriunda da afinidade mundana, mas näo säo

32
verdadeira felicidade ou bem-aventurança. Se a ausência de miséria for chamada de um
pouco de felicidade entäo até mesmo esse pouco é muito pequeno e de nenhuma
consequência. Näo é suficiente para destruir a condiçäo de materialidade; mas o verdadeiro
avanço para a jiva é sua existência eterna no seu estado auto-realizado. Isso só pode ser
alcançado pela graça da devoçäo sem mistura que é essencialmente cit ou de caráter
transcendental. Para esse objetivo a especulaçäo mental abstrata e desinteressante näo tem
utilidade.

TEXTO 35

eko 'py asau racayitum jagad-anda-kotim


yac-chaktir asti jagad-anda-caya yad antah
andantara-stha-paramanu-cayantara-stham
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Ele é uma entidade näo-diferenciada, já que näo há distinçäo entre a potência e aquele
que a possui. Em Seu trabalho da criaçäo de milhares de mundos, Sua potência
permanece inseparável de Si mesmo. Todos universos existem Nele e ao mesmo tempo
Ele está presente em toda Sua plenitude em cada um dos átomos que estäo espalhados
pelos universos. Tal é o Senhor primordial que adoro.

SIGNIFICADO

Krishna é a mais elevada de todas entidades. Nele existe uma entidade chamada de cit
(espiritual) que é distinta do princípio da limitaçäo. Por Seu inconcebível poder, Ele pode
criar por voliçäo um sem número de universos. Todos universos mundanos devem sua origem
à transformaçäo de Sua potência externa. Repetimos porém, que Sua morada está além da
concepçäo mundana; como todos mundos, limitados e espirituais (cit) existem Nele e Ele
reside simultaneamente em Sua plenitude e totalidade em todos átomos em todos os mundos.
Oni-penetrância é apenas um dos aspectos localizados da majestade de Krishna, o Senhor de
tudo. Embora Ele seja oni-penetrante no entanto na Sua existência em todo lugar numa forma
média, Sua Soberania espiritual constitui-Se além do conceito humano. Esse argumento
favorece a doutrina de simultânea e inconcebível distinçäo e näo-distinçäo, e liquida com a
contaminadora doutrina Mayavada e outras aliadas.

TEXTO 36

yad-bhava-bhavita-dhiyo manujas tathaiva


samprapya rupa-mahimasana-yana-bhusah
suktair yam eva nigama-pratitaih stuvanti
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

33
Eu adoro o mesmo Govinda, o Senhor primordial, em cujo louvor homens imbuídos de
devoçäo cantam os mantra-shuktas contidos nos Vedas, assim auferindo sua devida
beleza, grandeza, tronos, conduçöes, e ornamentos.

SIGNIFICADO

Ao discutirmos rasa encontramos cinco tipos de devoçäo ou serviço. Shanta ou desapegada,


dasya ou serviço reverencial com boa vontade, sakhya ou amizade, vatsalya ou amor paternal
e shrngara ou amor juvenil.

Os devotos marcados pelas idéias de seu respectivo serviço, servem Krishna eternamente e
afinal alcançam a meta de seus respectivos ideais. Eles alcançam a verdadeira natureza de si
mesmos conforme suas respectivas rasas, suas glórias, conduçöes, assentos de acordo com
seu serviço sagrado, e qualidades transcendentais dos ornamentos que realçam a beleza de sua
real natureza. Aqueles que advogam shanta-rasa alcançam a regiäo de Brahma-Paramatma, o
assento da paz eterna; aqueles de dasya-rasa chegam a Vaikuntha, a majestosa morada
espiritual de Sri Narayana; aqueles da sakhya, vatsalya e madhura-rasa (amor juvenil)
atingem Goloka-dhama, a morada de Krishna, acima de Vaikuntha. Eles adoram Krishna
através dos shukthas retratados nos Vedas com os ingredientes e objetos condizentes com suas
respectivas rasas, naquelas regiöes. Os Vedas, sob a influência da potência espiritual em
certas passagens falam dos passatempos do Senhor Supremo. As almas liberadas cantam o
nome, qualidades e passatempos do Senhor Supremo, sob a orientaçäo da mesma potência
espiritual.

TEXTO 37

ananda-cinmaya-rasa-pratibhavitabhis
sabhir ya eva nija-rupataya kalabhih
goloka eva nivasaty akhilatma-bhuto
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, que reside em Seu próprio reino, Goloka, com
Radha, que se assemelha a Sua própria figura espiritual e que personifica a potência
extática de hladini, que tem sessenta e quatro atividades artísticas, na companhia das
confidentes Dela (as sakhis), as quais säo extensöes da forma corpórea Dela, permeadas e
vitalizadas pela rasa espiritual sempre bem-aventurada Dele.

SIGNIFICADO

Embora o Senhor Absoluto e Sua potência sejam uma mesma e única existência, ainda assim
existem externamente como entidades separadas, como Radha e Krishna. Tanto na energia
extática quanto no transcendental Senhor Krishna, existe srngara-rasa (amor apaixonado)
cuja qualidade é inconcebível. A vibhava (extensäo) dessa rasa (qualidade de doçura) é de
dois tipos, i.e. alambana (arrimo) e uddipana (estimulo). Destas, alambana tem duas

34
variedades, i.e. ashraya (sustentado) e vishaya (sustentador). Ashraya significa a própria
Radhika e as extensöes de Sua forma e vishaya significa o próprio Krishna. Krishna é
Govinda, Senhor de Goloka. As gopis säo o facsímile ashraya daquela rasa. Com elas
Krishna Se entrega a passatempos eternos em Goloka. Nija-rupataya significa "com os
atributos manifestados a partir da energia extática". As sessenta e quatro atividades de belas
artes e artesanatos säo as seguintes:

1) gita - arte de cantar. 2) vadya - arte de tocar instrumentos musicais. 3) nrtya - arte de
dançar. 4) natya - arte do teatro. 5) alekhya - arte de pintar. 6) visheshakacchedya - arte de
pintar o rosto e corpo com unguentos e cosméticos coloridos. 7) tandula-kusuma-bali-vikara
- arte de preparar oferendas de arroz e flores. 8) pushpastarana - arte de cobrir uma cama
com flores. 9) dashana-vasananga-raga - arte de aplicar preparaçöes para limpar os dentes,
tecidos e pintar o corpo. 10) mani-bhumika-karma - arte de fazer infraestruturas para jóias.
11) shavya-racana - arte de cobrir a cama. 12) udaka-vadya - arte de fazer música na água.
13) udaka-ghata - arte de espirrar água. 14) citra-yoga - arte de aplicar praticamente uma
mistura de cores. 15) malya-grathana-vikalpa - arte de planejar uma preparaçäo de
guirlandas. 16) shekharapida-yojana - arte de colocar praticamente a tiara na cabeça. 17)
nepathya-yoga - arte de se vestir praticamente no vestiário. 18) karnapatra-bhanga - arte de
decorar o trago* da orelha. 19) sughanda-yukti - arte de aplicaçäo prática de aromas. 20)
bhusana-yojana - arte de aplicar ou montar ornamentos. 21) aindra-jala - arte do
malabarismo. 22) kaucumara - um tipo de arte. 23) hasta-laghava - arte de truques e destreza
manual. 24) citra-shakapupa-bhakshya-vikara-kriya - arte de preparar variedades de salada,
päo, bolos e deliciosos alimentos. 25) panaka-rasa-ragasava-yojana - arte de preparar
praticamente bebidas agradáveis e como tingí-las de vermelho. 26) suci-vaya-karma - arte de
costurar, bordar e tecer. 27) sutra-krida - arte de brincar com linha. 28) vina-damuraka-vadya
- arte de tocar alaúde e um pequeno tambor em forma de "X". 29) prahelika - arte de fazer e
resolver enigmas. 29-A) pratimala - arte de fazer citaçöes cada vez melhores (como no canto
de desafio do Nordeste do Brasil) ou recitar verso por verso como teste de memória e aptidäo.
30) durvacaka-yoga - arte de praticar linguagem difícil de ser respondida pelos outros. 31)
pustaka-vacana - arte de recitar livros. 32) nathikakhyayika-darshana arte de encenar
pequenas peças teatrais e anedotas. 33) kavya-samasya-purana - arte de resolver versos
enigmáticos. 34) pattika-vetra-bana-vikalpa - arte de planejar preparo do escudo, aljava e
flechas. 35) tarku-karma - arte de fiar com fuso. 36) takshana - arte da carpintaria. 37) vastu-
vidya - arte da engenharia. 38) raupya-ratna-pariksha - arte de testar prata e jóias. 39) dhatu-
vada - arte da metalurgia. 40) mani-raga-jnana - arte de tingir jóias. 41) akara-jnana - arte de
mineralogia. 42) vrkshayur-veda-yoga - arte de praticar medicina ou tratamento médico, por
ervas. 43) mesha-kukkuta-lavaka-yuddha-vidhi - arte de saber o modo de lutar dos cordeiros,
galos e aves. 44) suka-sarika-prapalana (pralapana?) - arte de manter ou saber a conversa
entre cacatuas machos e fêmeas. 45) utsadana) - arte de curar ou limpar uma pessoa com
perfumes. 46) kesa-marjana-kausala arte de pentear o cabelo. 47) akshara-mushtika-kathana
- arte de falar com letras e dedos. 48) mlecchita-kutarka-vikalpa - arte de fabricar sofismas
bárbaros ou estrangeiros. 49) desa-bhasha-jnana - arte de conhecer dialetos provincianos. 50)
pushpa-sakatika-nirmiti-jnana - arte de saber predizer por voz divina ou conhecer o preparo
de carrinhos de brinquedo por meio de flores. 51) yantra-matrka - arte da mecânica. 52)
dharana-matrka - arte do uso de amuletos. 53) samvacya - arte de conversar. 54) manasi-
kavya-kriya - arte de compor versos mentalmente. 55) kriya-vikalpa - arte de planejar uma
obra literária ou um remédio medicinal. 56) chalitaka-yoga - arte de praticar como construtor

35
de santuários assim chamada por causa dele. 57) abhidhana-kosha-cchando-jnana - arte do
uso de lexicografia e métrica. 58) vastra-gopana - arte de esconder com panos. 59) dyuta-
vishesha - arte de saber jogar especificamente. 60) akarsha-krida - arte de jogar com dados ou
imä. 61) balaka-kridanaka - arte de usar brinquedos infantis. 62) vainayiki vidya - arte de
disciplinar. 63) vaijayiki vidya - arte de conseguir vitória. 64) vaitaliki vidya - arte de acordar
o mestre com música de madrugada.

* trago é a pequena curva de cartilagem e carne onde às vezes crescem cabelos na orelha, logo
acima do lóbulo, que faz proteçäo à entrada do canal auditivo e faz fronteira com a face do
rosto e o lóbulo da orelha. Näo é a concha nem é o lóbulo.

Todas estas artes manifestando suas próprias formas eternas säo sempre visíveis na regiäo de
Goloka como os ingredientes de rasa; e, na esfera mundana, foram generosamente exibidas
nos passatempos de Vraja pela potência espiritual (cit), Yogamaya. Portanto, Sri Rupa diz:
sadanantaih... santi tah, ou seja, Krishna está sempre manifesto em Sua beleza com Seus
infinitos passatempos em Goloka. As vezes a manifestaçäo variante desses passatempos se
torna visível no plano mundano. Sri Hari, o Senhor Supremo, também manifesta Seus
passatempos de nascimento, etc. acompanhado por toda Sua parafernália. A divina potência
lúdica enche os coraçöes de Sua parafernália com os sentimentos espirituais apropriados, em
conformidade com a vontade de Krishna. Aqueles passatempos que se manifestam no plano
mundano, säo seus passatempos visíveis. Todos esses mesmos passatempos existem em sua
forma näo-visível em Goloka além do escopo do conhecimento mundano. Em Seus
passatempos visíveis, Krishna passa por Gokula, Mathura e Dvaraka. Aqueles passatempos
que näo säo visíveis nesses três lugares, säo visíveis em seus locais espirituais de Vrndavana.

Pela conclusäo que acabamos de fazer, fica claro que näo há distinçäo entre os passatempos
visíveis ou näo-visíveis. O apóstolo Jiva Goswami em seu comentário sobre este sloka bem
como no glossário do Ujjvala-nilamani e no Krishna-sandarbha comenta que "os
passatempos visíveis de Krishna säo criaçäo da potência espiritual (cit) Dele. Estando em
conjunçäo com a referencia à funçäo mundana, exibem certas características que parecem ser
verdadeiras através da influência da potência limitante (Maya); mas näo podem existir na
realidade transcendental. A destruiçäo de demônios, casos amorosos ilícitos, nascimento, etc.,
säo exemplos dessa peculiaridade. As gopis säo extensöes da energia extática de Krishna, e
portanto säo excepcionalmente Dele. Como poderia haver conexäo ilícita no caso delas? A
posiçäo de amantes ilícitas das gopis que vemos no Seu passatempo visível, näo passa do
reflexo mundano da realidade transcendental." O sentido oculto subjacente às palavras de Sri
Jiva Goswami, quando se tornar explicito, näo deixará dúvidas nas mentes dos leitores. Sri
Jiva Goswami é nosso pregador da verdade transcendental. Portanto ele está sempre sob a
influência de Sri Rupa e Sanatana. Além do mais nos passatempos de Krishna, Sri Jiva é uma
das manjaris. Portanto ele está familiarizado com todas realidades transcendentais.
Tem pessoas que, incapazes de entender a tendência de suas declaraçöes, däo seus próprios
significados inventados e se entregam a controvérsias inúteis. Sri Rupa e Sanatana dizem que
näo há distinçäo real ou essencial entre as lilas visíveis e näo-visíveis; a única distinçäo está
em que uns se manifestam na esfera mundana enquanto que outros näo. Na manifestaçäo
supra-mundana há pureza absoluta em quem vê e no que é visto. Uma pessoa particularmente
afortunada quando é favorecida por Krishna, consegue libertar-se de todos liames e conecçöes
mundanas, e entra na regiäo transcendental após obter o gosto realizado das variedades de

36
rasa disponíveis durante o período de noviciado. Só uma pessoa assim é que consegue ter
uma visäo e um gosto da perfeita e absolutamente pura lila de Goloka. Tais naturezas
receptivas se encontra raramente. Aquele que existe na esfera mundana, também pode
perceber o gosto de cid-rasa através da graça de Krishna ao ser lhe permitido alcançar o
estado realizado do serviço. Tal pessoa pode ter uma visäo dos passatempos de Goloka
manifestados na lila mundana de Gokula. Certamente há uma diferença entre estas duas
classes de buscadores da verdade qualificados. Até que se alcance o estágio perfeitamente
transcendental suas limitaçöes remanescentes ainda tem de impedir sua visäo dos passatempos
de Goloka. Novamente, a visäo da realidade transcendental varia de acordo com o grau de
auto-realizaçäo. A visäo de Goloka por conseguinte também deve variar.

Säo somente aquelas almas excessivamente viciadas no que é mundano que estäo destituídas
do olho devocional. Dentre elas, algumas estäo enredadas pela variedade da energia ilusória
enquanto outras aspiram ao auto-aniquilamente sob a influência do conhecimento centrífugo.
Embora possam ter uma visäo de passatempos do Senhor Supremo manifestados
mundanamente, só conseguem ter uma concepçäo material desses passatempos visíveis,
estando esse conceito destituído de realidade transcendental. Assim, a percepçäo de Goloka
aparece em proporçäo à qualificaçäo devida ao grau de auto-realizaçäo da pessoa. O princípio
subjacente é que, embora Gokula seja täo sagrada e livre de escória quanto Goloka, ainda
assim ela se manifesta no plano mundano pela influência da potência cit, Yogamaya. Em
assuntos visíveis e invisíveis das regiöes transcendentais näo há impureza, contaminaçäo e
imperfeiçäo inerentes ao mundo da limitaçäo; só existe alguma diferença quanto ao assunto da
percepçäo, que é na proporçäo da auto-realizaçäo dos buscadores do Absoluto. Impureza,
insalubridade, elementos estranhos, ilusäo, burrice, falta de santidade, total inadequaçäo,
insignificância, grossura - tudo isso pertence aos olhos, intelecto, mente e ego estultificados
pela natureza material das almas condicionadas; näo tem nada a ver com a natureza essencial
da transcendência. Quanto mais se fica livre destas máculas, tanto mais se fica capacitado
para perceber o Absoluto näo-qualificado. A verdade que foi revelada pelas escrituras, é livre
de escórias. Mas as percepçöes dos buscadores do conhecimento destas realidades, säo com
ou sem máculas de acordo com o grau de sua realizaçäo individual.
Estas sessenta e quatro artes acima enumeradas, na realidade existem liberalmente somente
em Goloka. Insalubridade, insignificância, grossura, encontram-se nessas artes de acordo
com o grau de auto-realizaçäo por parte dos aspirante ao conhecimento do Absoluto. De
acordo com Srila Rupa e Srila Sanatana, todos esses passatempos que foram visíveis em
Gokula, existem em toda pureza e livre de qualquer toque de limitaçäo em Goloka. Assim o
transcendental amante autocrático também existe em Goloka em inconcebível pureza, a julgar
pelo mesmo padräo e raciocínio. Todas manifestaçöes da potência cit, Yogamaya, säo puras.
Portanto, como o caso de amor entre amantes acima mencionado é criaçäo de Yogamaya,
necessariamente está livre de toda contaminaçäo, e pertence à realidade absoluta.

Façamos uma pausa para considerar o que é em Si a realidade absoluta. Sri Rupa Goswami
diz: purvokta-... saratah. Com relaçäo a esses slokas Sripada Jiva Goswami após madura
deliberaçäo estabeleceu o transcendental caso entre amantes como vibrahma-vilasa, algo
aparentemente diferente do que parece ser; assim säo os passatempos de nascimento, etc.,
realizados via Yogamaya.

37
Pela explicaçäo tathapi... vraja-vanitanam, Srila Jiva Goswami expressou sua profunda
implicaçäo. Passatempos alegres por meio de um aparente erro, vibhrama-vilasa, como
artifício de Yogamaya, também foi admitido nas declaraçöes conclusivas de Rupa e Sanatana.
Ainda assim, como Sripada Jiva Goswami estabeleceu a identidade de Goloka com Gokula,
temos que admitir que há uma realidade transcendental subjacente a todos passatempos de
Gokula. Um marido é quem se une no casamento com uma garota, enquanto um amante é
quem, a fim de conseguir o amor da esposa de outro por meio do amor, passa por cima das
convençöes da moral, pelo impulso do sentimento que considera o amor dela como sendo a
razäo de ser e a meta da existência. Em Goloka näo existe tal funçäo como a relaçäo nupcial.
Logo näo existe a qualidade de casado caracterizada por tal conecçäo. Por outro lado já que
as gopis, que säo entidades reais auto-sustentadas, näo estäo ligadas a mais ninguém dentro do
casamento, elas näo podem estar também em estado de concubinato. Também näo pode haver
entidades separadas nas formas dos estados svakiya (conjugal) e parakiya (adultério). Nos
passatempos visíveis no plano mundano a funçäo na forma da relacäo nupcial passa a existir.
Krishna está além do escopo dessa funçäo. Logo, a dita funçäo do círculo do amor total é um
arranjo de Yogamaya. Krishna saboreia a transcendental rasa semelhante ao amor de amantes
ao passar por cima daquela funçäo. Esse passatempo de ir além do limite da funçäo moral
aparente manifestada por Yogamaya entretanto, também só é observado no plano mundano
pelo olhar encoberto pela cobertura mundana; mas em realidade näo há tal leviandade nos
passatempos de Krishna. A rasa de amantes certamente é o extrato essencial de todas rasas.
Se dissessemos que näo existe em Goloka, seria altamente deprecatório para com Goloka.
Näo é que näo exista nenhum saborear de rasa supremamente saudável no reino
supremamente excelente de Goloka. Krishna, a fonte de todos avataras, saboreia o mesmo de
uma forma distinta em Goloka e de outra forma distinta em Gokula. Portanto, apesar da
parecer, ao olhar mundano, que através da forma de amor de amantes os limites da funçäo
legítima estäo sendo transgredidos, a verdade disso deve estar presente até mesmo em Goloka,
de alguma forma. Atmaramo 'py ariramat, atmany avaruddha-sauratah, reme vraja-
sundaribhir yatharbhakah pratibimba-vibhramah e outros textos das escrituras servem para
demonstrar que a auto-satisfaçäo é a qualidade distintiva essencial do próprio Krishna.
Krishna em Seu majestoso reino cit causa a manifestaçäo de Sua própria potência cit como
Lakshmi e desfruta dela como Sua própria consorte matrimonial. Como esse sentimento de
esposos casados prepondera ali, a rasa se expande de uma forma saudável somente até o
estado de servidäo (dasya-rasa). Mas em Goloka Ele divide Sua potência cit em milhares de
gopis e Se ocupa eternamente em passatempos amoroso com elas esquecendo os sentimentos
de posse. Pelos sentimentos de posse näo pode haver a extrema inacessibilidade da rasa.
Assim as gopis naturalmente tem, desde a eternidade, o sentimento inato de serem esposas
casadas de outros. Krishna também, respondendo a esse sentimento, assumindo o sentimento
recíproco de amante, realiza a rasa e os outros passatempos amorosos com o auxílio da flauta,
Seu cher ami favorito. Goloka é o assento transcendental da rasa eternamente auto-realizada,
além da concepçäo limitada. Portanto em Goloka há realizaçäo da assunçäo sentimental da
rasa de amante.

Novamente, a natureza do princípio da majestade no reino de Vaikuntha é tal que näo existe
rasa de afeiçäo paternal para com a fonte de todos avataras. Mas em Goloka, o assento de
toda delicia superexcelente, näo há mais que a assunçäo sentimental egoísta original da
mesma rasa. Ali Nanda e Yashoda estäo visivelmente presentes, mas näo há ocorrência de
nascimento. Por faltar a ocorrência do nascimento, o sentimento egoísta de afeiçäo paternal

38
assumido por Nanda e Yashoda näo tem fundamento na existência real de tais entidades como
pai e mäe, mas sim é da natureza de assunçäo sentimental por parte deles (compare jayati
jana-nivaso devaki-janma-vadah, etc.) Para o propósito de realizaçäo da rasa, no entanto, o
sentimento egoísta assumido é eterno. Na rasa do amor amoroso se os sentimentos egoístas
de concubina e amante forem meras assunçöes eternas, näo há culpa nenhuma nos mesmos e
também näo será contra as escrituras. Quando essas entidades transcendentais de Goloka se
tornam manifestas em Vraja, entäo ambos sentimentos egoístas se tornam um tanto palpáveis
para a visäo mundana no mundo fenomênico e passa a haver só um pouco de diferença. Na
rasa de afeiçäo paternal os sentimentos de Nanda e Yashoda de que säo pais se tornam
manifestos na forma mais tangível dos passatempos de nascimento, etc., e na rasa amorosa os
sentimentos correspondentes de concubina nas respectivas gopis se torna manifesto na forma
de seus casamentos com Abhimanyu, Govardhana, etc. Na realidade näo existe tal existência
separada como a posiçäo de casadas para as gopis seja em Goloka ou em Gokula. Portanto os
shastras declaram que näo há uniäo sexual das gopis com seus maridos. Também pela mesma
razäo o mestre autorizado do princípio de rasa, Sri Rupa, escreve que na rasa transcendental
amorosa, o herói é de dois tipos diferentes, i.e. o marido casado e o amante - patish
copapatish ceti prabhedav iha vishrutav iti. Em seu comentário, Sri Jiva através das palavras
patih pura-vanitanam dvitiyo vraja-vanitanam reconhece a qualidade de eterno amante de
Krishna em Goloka e Gokula, e a posiçäo de marido de Krishna em Vaikuntha e Dvaraka, etc.
No Senhor de Goloka e no Senhor de Gokula o caráter de amante se encontra em sua forma
completa. O fato de Krishna passar por cima de Sua própria qualidade de auto-satisfaçäo é
causado pelo desejo de uniäo com a esposa casada de outro. O estado de ser a mulher casada
de outro näo passa do sentimento assumido correspondente por parte das gopis. Na realidade
elas näo tem maridos com existência independente e separada; entretanto seu sentimento
muito egoísta faz com que tenham a natureza de esposas casadas de outros. Portanto todas
características, i.e. que "o desejo faz com que o amante transgrida os limites do dever," etc.,
estäo eternamente presentes no assento de todas delícias. Em Vraja tal coisa se revela, até
certo ponto, numa forma mais tangível para pessoas com olhos mundanos.

Por conseguinte em Goloka há inconcebivel distinçäo e näo distinçäo entre as rasas análogas
às de amante e esposa. Também se pode dizer com igual veracidade que näo há distinçäo em
Goloka entre ambas, bem como que sim, existe tal distinçäo. A essência de ser amante é que
cessa a posse e o cessar da possessividade é * desfrutar de Sua própria potência cit na forma
da incerteza do * estado de amante ou desfrutar sem a sançäo do casamento. A conjunçäo das
duas existe ali como uma rasa acomodando ambas variedades. Em Gokula na realidade é a
mesma coisa, com a diferença que produz uma impressäo diferente nos observadores
pertencentes ao plano mundano. Em Govinda, o herói de Goloka, existe tanto a posiçäo de
marido como de amante acima de toda piedade e impiedade e livre de tudo que é grosseiro.
Tal é também o caso do herói de Gokula, embora exista uma distinçäo na realizaçäo causada
por Yogamaya. Se for argumentado que aquilo que Yogamaya manifesta é a verdade mais
elevada sendo criaçäo da potência cit e que, portanto, a impressäo de amante também é
realmente verdade, a resposta é que pode existir uma impressäo de um egoísmo sentimental
análogo no saborear da rasa livre de qualquer ofensa porque näo carece de uma base na
verdade. Mas a impressäo nefanda que é produzida no julgamento mundano é ofensiva e
como tal näo pode existir no reino de puro cit. De fato, Sripada Jiva Goswami chegou a
verdadeira conclusäo, e ao mesmo tempo a opiniäo do partido oposto também é
inconcebivelmente verdadeira. Säo as väs discussöes empíricas sobre esposas casadas e

39
amantes que säo falsas e cheias de verbosidade enganosa. Quem examinar os comentários de
Sripada Jiva Goswami e os do partido oposto com julgamento imparcial näo conseguirá
manter sua atitude de protesto engendrada por qualquer dúvida real. O que o devoto puro do
Senhor Supremo diz é tudo verdade e é independente de qualquer consideraçäo de prós e
contras nefandos. Há, entretanto, o elemento do mistério em suas controvérsias verbais.
Aqueles, cujo julgamento for feito de matéria mundana, sendo incapazes de entrar no espírito
das controvérsias completamente amorosas entre devotos puros, devido a sua própria falta de
devoçäo pura, tenderäo a impor aos devotos seus próprios defeitos de partidos e pontos de
vista opostos. Comentando sobre o sloka do Rasa-panchadhyayi: gopinam tat-patinam ca,
etc. o que Sripada Sanatana Goswami declarou conclusivamente em seu Vaishnava-tosani foi
aceito com reverência pelo verdadeiro devoto Sripada Visvanatha Chakravarti sem qualquer
protesto.

Quando qualquer disputa surgir referente aos puros passatempos cognitivos, tais como
Goloka, etc., faríamos bem em lembrar o precioso conselho dos santos lábios de Sriman
Mahaprabhu e Seus associados, os Goswamis, i.e. que a Verdade Absoluta sempre se
caracteriza pela variedade espiritual que trascende a variedade dos fenômenos mundanos; mas
Ele nunca é sem características. A divina rasa é maravilhosa pela variedade das quatro
distinçöes de vibhava, anubhava, sattvika e vyabhicari e a rasa está sempre presente em
Goloka e Vaikuntha. A rasa de Goloka manifesta-se como vraja-rasa no plano mundano para
benefício dos devotos pelo poder de Yogamaya. Tudo que é observável em gokula-rasa deve
ser visível em goloka-rasa, de forma claramente explícita. Logo, a distinçäo entre amantes e
concubinagem, a variedade das respectivas rasas de todas diferentes pessoas, o solo, água,
rios, colinas, pórticos, bosques, vacas, etc., todas características de Gokula existem em
Goloka, dispostas de maneira apropriada. Só há a peculiaridade de que os conceitos
mundanos de seres humanos que possuem julgamento material, com relaçäo a essas entidades
transcendentais, näo existem ali. A concepçäo de Goloka se manifesta diferentemente na
proporçäo ao grau de realizaçäo dos vários passatempos de Vraja e é muito difícil estabelecer
qualquer critério definitivo quanto a que partes säo mundanas e quais säo sem contaminaçäo.
Quanto mais o olhar da devoçäo é ungido pelo unguento do amor, mais o conceito
transcendental gradualmente se manifestará. Portanto näo há necessidade de maior
especulaçäo hipotética que näo aumenta a apreciaçäo espiritual da pessoa, pois o
conhecimento substantivo de Goloka é uma entidade inconcebível. Tentar perseguir o
inconcebível pelo processo conceitual é como pisar cascas de gräos vazios, o que certamente
terá um final sem resultado. Por isso, é nosso dever refrearmos o esforço por saber, e sim
tentar obter a experiência do transcendental pela prática da devoçäo pura. Qualquer senda
adotada que tenda a produzir a impressäo de falta de características, deve ser abandonada de
qualquer modo. Parakiya-rasa pura, livre de todo conceito mundano é uma realizaçäo muito
rara. É isso que foi descrito na narrativa dos passatempos de Gokula. Aqueles devotos, que
seguem os ditames de seu puro amor espontâneo, devem basear seus esforços devocionais
nessa narrativa. Chegaräo ao princípio fundamental mais benéfico quando alcançarem o
estágio da realizaçäo. As atividades devocionais caracterizadas pelo amor ilícito, conforme
praticado por almas condicionadas de mente mundana, säo iniquidade mundana proibida. O
coraçäo de nosso apóstolo Sripada Jiva Goswami ficou muito comovido por tais práticas e o
induziu a dar-nos suas declaraçöes conclusivas sobre o assunto. É o dever de um Vaishnava
puro aceitar o verdadeiro espírito de suas declaraçöes. É uma grande ofensa desrespeitar o
acharya e tentar estabelecer uma doutrina diferente oposta a ele.

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TEXTO 38

premanjana-cchurita-bhakti-vilocanena
santah sadaiva hrdayesu vilokayanti
yam shyamasundaram acintya-guna-svarupam
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, que é Shyamasundara, o próprio Krishna de


inumeráveis atributos inconcebíveis, que os devotos puros vêem no âmago de seus
coraçöes com o olho da devoçäo ungido pelo unguento do amor.

SIGNIFICADO

A forma Shyamasundara de Krishna é sua inconcebível forma auto-contraditória


simultaneamente pessoal e impessoal. Devotos fiéis vêem essa forma em seus coraçöes
purificados sob a influência do transe devocional. A forma Shyama näo é da cor azul visível
no mundo mundano mas sim da cor transcendental variada que proporciona eterno êxtase, e
näo é visível aos olhos mortais. Ao considerarmos o transe de Vyasadeva como no sloka:
bhakti-yogena manasi etc., torna-se claro que a forma de Sri Krishna é a plena Personalidade
de Deus e sómente é visível no coraçäo de um verdadeiro devoto, onde fica o único assento
real no estado de transe sob a influência da devoçäo. Quando Krishna Se manifestou em
Vraja, tanto os devotos quanto os näo-devotos viram-No com esses mesmos olhos; mas só os
devotos adoraram-No, eternamente presente em Vraja, como a inavaliável jóia de seus
coraçöes. Hoje em dia também, os devotos vêem-No em Vraja nos seus coraçöes, saturados
de devoçäo embora näo O vejam com seus olhos. O olhar da devoçäo näo é nada mais que o
olho do ser espiritual puro e sem misturas da jiva. A forma de Krishna é visível para aquele
olho na proporçäo de sua purificaçäo pela prática da devoçäo. Quando a devoçäo do neófito
atinge o estágio de bhava-bhakti, o olhar puro daquele devoto é ungido pelo unguento do
amor através da graça de Krishna, o que lhe possibilita ver Krishna face a face. A frase "nos
seus coraçöes" significa que Krishna é visível na proporçäo em que seus coraçöes säo
purificados pela prática da devoçäo. A essência deste sloka é que a forma de Krishna, que é
Shyamasundara, Natavara (Melhor Dançarino), Muralidhara (Que Segura a Flauta) e
Tribhanga (Que Se Curva em Três Pontos), näo é uma criaçäo mental mas sim transcendental,
e é visível com o olhar da alma do devoto sob transe.

TEXTO 39

ramadi-murtishu kala-niyamena tishthan


nanavataram akarod bhuvaneshu kintu
krishnah svayam samabhavat paramah puman yo
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

41
Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, que se manifestou pessoalmente como Krishna
e os diferentes avataras neste mundo, nas formas de Rama, Nrshimha, Vamana, etc., que
säo Suas porçöes subjetivas.

SIGNIFICADO

Suas porçöes subjetivas como os avataras, i.e. Rama, etc. surgem de Vaikuntha e Sua própria
forma de Krishna manifesta-Se junto com Vraja neste mundo, a partir de Goloka. O sentido
subjacente é que Krishna Chaitanya, idêntico ao próprio Krishna, através de Seu
aparecimento, também efetua a manifestaçäo direta do próprio Deus.

TEXTO 40

yasya prabha-prabhavato jagad-anda-koti-


kotisv ashesha-vasudhadi-vibhuti-bhinnam
tad brahma nishkalam anantam ashesha-bhutam
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, cuja refulgência é a origem do Brahman näo-


diferenciado mencionado nos Upanishads. Diferenciando-Se da infinidade de glórias do
universo mundano, Ele aparece como a indivisível, infinita, ilimitada Verdade.

SIGNIFICADO

O universo mundano criado por Maya é uma das infinitas manifestaçöes externas que
acomoda o espaço, tempo e coisas grosseiras. O aspecto impessoal de Deus, o Brahman näo-
diferenciado, está bem acima desse princípio da criaçäo mundana. Porém mesmo o Brahman
näo-diferenciado é somente a refulgência externa que emana do muro que limita o reino
transcendental de Vaikuntha, manifestando a glória tri-quadrantal de Govinda. O Brahman
näo-diferenciado é indivisível, portanto também é unico e sem igual, e é a entidade infinita e
residual.

TEXTO 41

maya hi yasya jagad-anda-shatani sute


traigunya-tad-vishaya-veda-vitayamana
sattvavalambi-para-sattva-vishuddha-sattvam
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, que é o princípio substantivo absoluto, sendo a


entidade máxima na forma do sustento de toda existência. Sua potência externa
incorpora as três qualidades mundanas - i.e. sattva, rajas e tamas ou bondade, paixäo, e
ignorância - e difunde o conhecimento védico relativo ao mundo mundano.

42
SIGNIFICADO

A qualidade mundana de rajas faz surgir ou gera todas entidades mundanas. A qualidade de
sattva (princípio manifestador mundano) em conjunçäo com rajas representa a manutençäo da
existência das entidades que säo assim produzidas, e a qualidade de tamas representa o
princípio de destruiçäo. O princípio substantivo, que se mistura com as três qualidades
mundanas, é mundano, enquanto a substância sem mistura é transcendental. A qualidade de
existência eterna é o princípio da entidade absoluta. Só a pessoa cuja devida forma se
conforma nesta essência, é que é uma entidade sem mistura, näo-mundana, supramundana e
livre de toda qualidade mundana. Ela é êxtase cognitivo. É a energia ilusória que elaborou o
conhecimento regulativo (Vedas) que trata da tríplice qualidade mundana.

TEXTO 42

ananda-cinmaya-rasatmataya manahsu
yah praninam pratiphalan smaratam upetya
lilayitena bhuvanani jayati ajasram
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, cuja glória sempre domina triunfantemente o


mundo mundano pela atividade de Seus próprios passatempos, que se reflete nas mentes
das almas que se recordam, como a entidade transcendental de rasa cognitiva sempre
bem-aventurada.

SIGNIFICADO

Só queles que constantemente de acordo com as instruçöes espirituais se lembram do nome,


figura, atributos e passatempos da forma de Krishna que aparece na rasa amorosa, cuja beleza
supera aquela do deus mundano do amor, conquistador de todos coraçöes mundanos, é que
säo meditadores de Krishna. Krishna, que é cheio de passatempos, sempre Se manifesta com
Seu reino somente na cogniçäo receptiva pura de tais pessoas. Os passatempos desse divino
reino manifestado dominam triunfantemente de qualquer maneira toda majestade e beleza do
mundo mundano.

TEXTO 43

goloka-namni nija-dhamni tale ca tasya


devi-mahesha-hari-dhamasu teshu teshu
te te prabhava-nicaya vihitas ca yena
govindam adi-purusham tam aham bhajami

43
TRADUÇÄO

Situada no plano mais baixo, localiza-se Devi-dhama (o mundo mundano), em seguida,


acima desta, Mahesha-dhama (morada de Mahesha); acima de Mahesha-dhama fica
Hari-dhama (morada de Hari) e sobre estas localiza-se o próprio reino de Krishna,
chamado Goloka. Eu adoro o Senhor primordial Govinda, que distribuiu suas
respectivas autoridades ao governantes desses reinos graduados.

SIGNIFICADO

O reino de Goloka localiza-se acima de todos outros. Brahma olhando para cima em direçäo
à posiçäo mais elevada de Goloka, está falando dos outros reinos a partir do ponto de vista de
seu próprio reino: na ordem, primeiro vem Devi-dhama, consistindo dos quatorze mundos,
i.e. Satyaloka, etc.; a seguir, acima de Devi-dhama localiza-se Shiva-dhama, uma parte da
qual se chama Mahakala-dhama, envolta na escuridäo; interpenetrando esta porçäo de Shiva-
dhama brilha Sadashivaloka, cheia de grande luz. Mais acima desta surge Hari-dhama ou a
transcendental Vaikunthaloka. A potência de Devi-dhama, na forma da extensäo de Maya, e
de Shivaloka, consistindo de tempo, espaço e matéria, säo a potência das partículas separadas
permeadas pelo reflexo penumbral da porçäo subjetiva da Divindade. Porém Hari-dhama
sempre resplandece de majestade transcendental e o grande esplendor de toda doçura
predomina sobre todas outras majestades em Goloka. O Supremo Senhor Govinda através de
seu próprio poder direto e indireto constituiu as respectivas potências desses reinos.

TEXTO 44

srsti-sthiti-pralaya-sadhana-shaktir eka
chayeva yasya bhuvanani bibharti durga
icchanurupam api yasya ca ceshtate sa
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

A potência externa, Maya, que é da natureza da sombra da potência cit, é adorada por
todas pessoas como Durga, agente que cria, preserva e destrói este mundo mundano. Eu
adoro o Senhor primordial, Govinda, de acordo com cuja vontade Durga se conduz.

SIGNIFICADO

(Está sendo descrita a deidade acima-mencionada que preside Devi-dhama). O mundo, no


qual Brahma se posiciona e canta hinos ao Senhor de Goloka, é Devi-dhama, consistindo de
quatorze mundo e é Durga a deidade que o preside. Ela possui dez braços, representando a
dezena da atividades fruitivas. Cavalga um leäo, representando sua coragem heróica.
Pisoteia Mahishasura, significando que é subjugadora dos vícios. Ela é mäe de dois filhos,
Kartikeya e Ganesha, que representam a beleza e o sucesso. Posiciona-se entre Lakshmi e
Sarasvati, representando opulência mundana e conhecimento mundano. Vêmo-la armada
com vinte armas, representando as várias atividades piedosas recomendadas pelos Vedas para

44
suprimir os vícios. Segura uma serpente, representando a beleza do tempo destruidor. Assim
é Durga, que possui todas estas numerosas formas. Durga possui durga, que quer dizer cadeia
ou prisäo. Quando as jivas oriundas da potência marginal (tatastha shakti) esquecem o
serviço a Krishna, säo confinadas na prisäo mundana, a cidadela de Durga. A roda do karma é
o instrumento de puniçäo neste local. O trabalho de purificar estas jivas penalizadas é o dever
delegado a Durga. Ela se ocupa incessantemente em cumprir o mesmo pela vontade de
Govinda. Quando, felizmente, as jivas aprisionadas percebem que esqueceram de Govinda,
ao entrarem em contato com almas auto-realizadas, e a natural aptidäo delas para o serviço
amoroso a Krishna desperta, a própria Durga entäo se torna agente da salvaçäo delas pela
vontade de Govinda. Portanto cabe a todo mundo obter a graça sincera de Durga, a soberana
desta prisäo, propiciando-a com serviço abnegado a Krishna. As bençäos recebidas de Durga
na forma de fortuna, propriedade, recuperaçäo da saúde, esposa e filhos, deve ser entendida
como a bondade ilusória de Durga. As alegrias físicas mundanas de dasha-maha-vidya, as
dez deusas ou formas de Durga, säo elaboradas para iludirem as almas apegadas deste mundo.
A jiva é uma parte atômica espiritual de Krishna. Quando se esquece de seu serviço a
Krishna, imediatamente é defletida pelo poder atrativo de Maya neste mundo, que a lança no
redemoinho de atividades fruitivas mundanas (karma), confinando-a num corpo grosseiro
constituído pelos cinco elementos materiais, com seus cinco atributos e onze sentidos,
assemelhando-se à vestimenta de um prisioneiro. Nesse redemoinho, a jiva experimenta
felicidade e misérias, céu e inferno. Além disso, existe um corpo sutil, consistindo de mente,
inteligência e ego, dentro do corpo grosseiro. Por meio do corpo sutil, a jiva abandona um
corpo grosseiro e se refugia em outro. A jiva näo consegue se livrar do corpo sutil, cheio de
ignorância e desejos perniciosos, a näo ser e até que seja liberada. Ao livrar-se do corpo sutil,
banha-se no Viraja e sobe para Hari-dhama. Tais säo os deveres executados por Durga de
acordo com a vontade de Govinda. No Bhagavata sloka, vilajyamanaya... durdhiyah - foi
descrito o relacionamento entre Durga e as almas condicionadas.

Durga, adorada pelas pessoas deste mundo mundano, é a Durga descrita acima. Mas a Durga
espiritual, mencionada no mantra que é a cobertura externa do reino espiritual do Senhor
Supremo, é a eterna serva de Krishna e portanto, é a realidade transcendental cuja sombra, a
Durga deste mundo, funciona neste mundo mundano como serva dela. (Vide significado do
sloka 3)

TEXTO 45

kshiram yatha dadhi vikara-vishesha-yogat


sanjayate na hi tatah prthag asti hetoh
yah shambhutam api tatha samupaiti karyad
govindam adi-purusham tam aham bhajami
TRADUÇÄO

Assim como o leite se transforma em iogurte pela açäo de ácidos, mas com efeito o
iogurte näo é o mesmo que sua causa (o leite), e também näo é diferente do mesmo,
assim eu adoro Govinda, o Senhor primordial, cujo estado de Shambhu é uma
transformaçäo para realizar o trabalho da destruiçäo.

SIGNIFICADO

45
(A verdadeira natureza de Shambhu, a deidade que preside Mahesha-dhama, é descrita.)
Shambu näo é um segundo deus ou outro senäo Krishna. Aqueles que mantém tal sentimento
discriminante, cometem uma grande ofensa contra o Senhor Supremo. A supremacia de
Shambhu é subserviente à de Govinda; logo, eles na realidade näo säo diferentes um do outro.
A näo-distinçäo é estabelecida pelo fato de que assim como leite tratado com ácido vira
iogurte, também Deus se torna subserviente quando Ele próprio obtém uma personalidade
distinta pela adiçäo de determinado elemento adulterador. Esta personalidade näo possui
iniciativa independente. O princípio adulterador mencionado constitui-se de uma combinaçäo
da qualidade estupefaciente da energia ilusória, com a qualidade de näo-plenitude da potência
marginal e um leve grau do princípio cognitivo aliado ao extático da potência espiritual
plenária. Esse reflexo especificamente adulterado do princípio da porçäo subjetiva da
Divindade é Sadashiva, na forma do refulgente deus símbolo masculino Shambhu, do qual se
manifesta Rudradeva. Na obra da criaçäo mundana como causa material, no trabalho de
preservaçäo pela destruiçäo de diversos asuras e na tarefa da destruiçäo, para conduzir toda
operaçäo, Govinda Se manifesta como guna-avatara na forma de Shambhu, que é a porçäo
separada de Govinda imbuída do princípio de Sua porçäo plenária subjetiva. A personalidade
do princípio destruidor na forma do tempo tem sido identificada com Shambhu nas evidências
escriturais que foram citadas no comentário. O significado dos Bhagavata slokas, i.e.
vaishnavanam yatha shambhuh, etc. é que Shambhu, seguindo a vontade de Govinda, trabalha
em uniäo com sua consorte Durga-devi através de sua própria energia do tempo. Ele ensina
deveres piedosos (dharma) como degraus para alcançar o serviço espiritual nos diversos
tantra-shastras, etc., adequados a jivas em diferentes graus da existência condicionada. Em
obediência à vontade de Govinda, Shambhu mantém e encoraja a religäo da devoçäo pura
pregando o culto do ilusionismo (Mayavada) e os agama-shastras especulativos. Os cinco
atributos das almas individuais se manifestam em medida bem mais vasta em Shambhu e
cinco atributos adicionais näo obteníveis pelas jivas também se encontram parcialmente nele.
Assim Shambhu näo pode ser chamado de uma jiva. Ele é o senhor da jiva e no entanto tem
algo da natureza duma porçäo separada de Govinda.

TEXTO 46

diparcir eva hi dashantaram abhyupetya


dipayate vivrta-hetu-samana-dharma
yas tadrg eva hi ca vishnutaya vibhati
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

A luz de uma vela ao ser comunicada a outras velas, embora brilhe separadamente nelas
todas, é a mesma em sua qualidade. Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, que
igualmente Se exibe da mesma maneira móvel em todas Suas várias manifestaçöes.

SIGNIFICADO

As deidades que presidem Hari-dhama, i.e. Hari, Narayana, Vishnu, etc., porçöes subjetivas
de Krishna, estäo sendo descritas. A manifestaçäo majestosa de Krishna é Narayana, Senhor

46
de Vaikuntha, cuja porçäo subjetiva é Karanodakashayi Vishnu, a causa primordial, cuja
porçäo é Garbhodakashayi. Kshirodakashayi por sua vez é a porçäo subjetiva de
Garbhodakashayi Vishnu. A palavra "Vishnu" indica uma personalidade oni-penetrante, oni-
presente e onisciente. Neste sloka enunciam-se as atividades das porçöes subjetivas da
Divindade através da especificaçäo da natureza de Kshirodakashayi Vishnu. A personalidade
de Vishnu, forma personificada da qualidade manifestadora (sattva-guna) é bem distinta da de
Shambhu, que é adulterada pelas qualidades mundanas. A personalidade subjetiva de Vishnu
está num nível semelhante a Govinda. Ambos consistem do princípio substantivo
inadulterado. Vishnu na forma do princípio causal manifesto é idêntico a Govinda no tocante
à qualidade. A qualidade manifestante (sattva-guna) que se acha existente na tríplice
qualidade mundana, é uma entidade adulterada, estando misturada com as qualidades de
atividade e inércia mundanas. Brahma é a porçäo deslocada da Divindade, manifestada no
princípio da açäo mundana, dotado da natureza funcional de Sua porçäo subjetiva; e Shambhu
é a porçäo deslocada da Divindade manifestada no princípio da inércia mundana que possui
similarmente a natureza funcional de Sua porçäo subjetiva. A razäo de serem porçöes
deslocadas é que como os dois princípios de açäo e inércia mundanas carecem totalmente da
essência espiritual, quaisquer entidades que se manifestarem neles, localizam-se a uma grande
distância da própria Divindade ou Seus facsimiles. Embora a qualidade manifestante
mundana seja do tipo adulterado, Vishnu, a manifestaçäo da Divindade na qualidade
manifestante mundana, faz Seu aparecimento no princípio manifestante inadulterado, que é
um constituente da qualidade manifestante mundana. Portanto Vishnu é a porçäo subjetiva
plena e pertence à categoria dos ishvaras superiores. Ele é o Senhor da potência ilusória e
näo Se mistura com ela. Vishnu é o agente da própria natureza subjetiva de Govinda na forma
da causa primordial. Todos atributos majestosos de Govinda, chegando a um total de
sessenta, estäo totalmente presentes em Sua manifestaçäo majestosa, Narayana. Brahma e
Shiva säo entidades adulteradas por qualidades mundanas. Embora Vishnu também seja uma
apariçäo divina personificando uma qualidade mundana (guna-avatara), ainda assim Ele näo
Se adultera. O aparecimento de Narayana na forma de Maha-Vishnu, o aparecimento de
Maha-Vishnu na forma de Garbhodakashayi e o aparecimento de Vishnu na forma de
Kshirodakashayi, säo exemplos da funçäo ubíqua da Divindade. Vishnu é o próprio Deus, e
os dois outros guna-avataras e todos outros deuses säo entidades possuindo autoridade
subordinada à Dele. Da majestosa manifestaçäo subjetiva do supremo Govinda auto-
luminoso emanam Karanodakashayi, Garbhodakashayi, Kshirodakashayi e todos outros
descendentes divinos subjetivos derivados (avataras) tais como Rama, etc., assim como a luz
comunicada que aparece em diferentes velas, brilhando por intermédio da operaçäo da
potência espiritual de Govinda.

TEXTO 47

yah karanarnava-jale bhajati sma yoga-


nidram ananta-jagad-anda-sa-roma-kupah
adhara-shaktim avalambya param sva-murtim
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

47
Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, que, assumindo Sua própria grande forma
subjetiva, que leva o nome de Shesha e está repleta da potência que tudo acomoda,
repousa no Oceano Causal com a infinidade dos mundos nos poros de Seus pelos e
desfruta do sono criativo (yoga-nidra).

SIGNIFICADO

(Descreve-se a natureza subjetiva de Ananta que tem a forma do divä de Maha-Vishnu.)


Ananta, que é o mesmo que o infinito divä sobre o qual repousa Maha-Vishnu, é uma apariçäo
distinta da Divindade que tem o nome de Shesha, possuindo a natureza subjetiva de serva de
Krishna.

TEXTO 48

yasyaika-nishvasita-kalam athavalambya
jivanti loma-vila-ja jagad-anda-nathah
vishnur mahan sa iha yasya kala-vishesho
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Brahma e os outros senhores dos mundos mundanos, surgindo dos poros dos pelos de
Maha-Vishnu, permanecem vivos pelo tempo de duraçäo de uma exalaçäo da respiraçäo
de Maha-Vishnu. Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, de cuja personalidade
subjetiva Maha-Vishnu é a porçäo da porçäo plenária.

SIGNIFICADO

Aqui se mostra a majestade suprema da natureza subjetiva de Vishnu.

TEXTO 49

bhasvan yathashma-shakaleshu nijeshu tejah


sviyam kiyat prakatayati api tadvad atra
brahma ya esha jagad-anda-vidhana-karta
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, cuja porçäo subjetiva separada, Brahma,


recebe seu poder Dele para regular o mundo mundano, assim como o sol manifesta uma
parcela de sua própria luz em todas jóias refulgentes que levam os nomes de suryakanta,
etc..

SIGNIFICADO

48
Brahma pode ser de dois tipos: em certos kalpas quando a potência do Senhor Supremo Se
infunde numa jiva qualificada, esta última atua na posiçäo de Brahma e cria o universo. Nos
kalpas quando näo há disponível nenhuma jiva qualificada, depois que o Brahma do kalpa
anterior se libera, Krishna, pelo processo de distribuir Sua própria potência, cria o Brahma
que possui a natureza do avatara (descendência) da Divindade no princípio mundano ativo
(rajo-guna). Por princípio Brahma é superior às jivas comuns mas näo é a Divindade direta.
A natureza divina está presente em maior medida em Shambhu que em Brahma. O
significado fundamental do que vai acima é que o agregado de cinquenta atributos,
pertencente à jiva, está presente em maior medida em Brahma que possui, em grau menor,
cinco atributos adicionais que näo se encontram nas jivas. Mas em Shambhu tanto os
cinquenta atributos das jivas, quanto os cinco adicionais encontrados em Brahma estäo
presentes em medida maior ainda que em Brahma.

TEXTO 50

yat-pada-pallava-yugam vinidhaya kumbha-


dvandve pranama-samaye sa ganadhirajah
vighnan vihantum alam asya jagat-trayasya
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, cujos pés de lótus säo sempre sustidos por
Ganesha sobre o par de excrecências protuberantes de sua cabeça elefantina para que
possa obter o poder de realizar sua funçäo de destruir todos obstáculos na senda do
progresso dos três mundos.

SIGNIFICADO

O poder de destruir todos obstáculos à prosperidade mundana foi delegado a Ganesha, que é
objeto de adoraçäo daqueles qualificados para o adorarem. Ele atingiu uma posiçäo entre os
cinco deuses tais como Brahma, possuidores de qualidades mundanas. O mesmo Ganesha é
um deus que possui poder delegado via infusäo do poder divino. Toda sua glória repousa
inteiramente na graça de Govinda.

TEXTO 51

agnir mahi gaganam ambu marud dishash ca


kalas tathatma-manasiti jagat-trayani
yasmad bhavanti vibhavanti vishanti yam ca
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Os três mundos säo compostos de nove elementos, i.e. fogo, terra, éter, água, ar, direçöes,
tempo, alma e mente. Eu adoro o Senhor primordial, Govinda, de quem estes se
originaram, em quem existem, e em quem entram na hora do cataclisma universal.

49
SIGNIFICADO

Näo existe nada nos três mundos além dos cinco elementos, dez direçöes, tempo, almas-jivas,
e do princípio mental aliado ao corpo sutil consistindo de mente, inteligência e ego das almas
condicionadas. Os elevacionistas (karmis) fazem suas oferendas de sacrifício no fogo. Almas
condicionadas näo conhecem nada além desse mundo perceptível dos nove elementos. A jiva
é a mesma alma a cujo deleite extático os liberacionistas descontentes (jnanis) aspiram.
Ambos princípios respectivamente retratados como atma e prakrti pelos sistemas de Sankhya
säo incluídos acima. Em outras palavras, todos princípios que foram enunciados por todos
filósofos especuladores (tattva-vadis) estäo incluídos nos nove elementos. Sri Govinda é a
origem do aparecimento, continuaçäo e desaparecimento de todos estes princípios.

TEXTO 52

yac-cakshur esha savita sakala-grahanam


raja samasta-sura-murtir ashesha-tejah
yasyajnaya bhramati sambhrta-kala-cakro
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

O sol, que é o rei de todos planetas, cheio de infinita refulgência, a imagem da alma boa,
é como o olho deste mundo. Eu adoro o Senhor primordial, Govinda, por cujas ordens o
sol realiza sua jornada, cavalgando a roda do tempo.

SIGNIFICADO

Certas pessoas que professam a religiäo védica adoram o sol como Brahman. O sol faz parte
da hierarquia dos cinco deuses. Algumas pessoas deduzem que a origem desse mundo está no
calor e portanto designam o sol, único local quente, como causa-raiz deste mundo. Näo
obstante o que possa ser dito contrariando esta idéia, o sol afinal é a única deidade presidente
da esfera de soma total de todo calor mundano, e portanto é um deus que exerce autoridade
delegada. Certamente o sol realiza sua funçäo específica de serviço pelo comando de
Govinda.

Nota da tradutora: védicamente o sol é visto como o próprio olhar vigilante onisciente de
Vishnu, sempre acima de tudo.

TEXTO 53

dharmo 'tha papa-nicayah shrutayas tapamsi


brahmadi-kita-patagavadhayash ca jivah
yad-datta-matra-vibhava-prakata-prabhava
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

50
Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, por cujos poderes conferidos se mantém as
potências manifestadas que existem em todas virtudes, todos vícios, os Vedas, as
penitências, e todas jivas, desde Brahma até o mais ínfimo inseto.

SIGNIFICADO

Aqui dharma significa as funçöes designadas de varna e ashrama manifestadas pelos vinte
dharma-shastras com autoridade dos Vedas. Destas duas divisöes varna-dharma é aquela
funçäo que é o resultado das naturezas distintas dos quatro varnas, i.e. brahmana, kshatriya,
vaishya e shudra, e ashrama-dharma é aquela funçäo apropriada ao respectivo ashrama ou
posiçäo daqueles que pertencem aos quatro estágios, i.e. brahmacharya, grhastha,
vanaprastha e sannyasa. Todas atividades costumeiras da humanidade foram projetadas
nessas duas divisöes. Pecados significam ignorância, a raiz de todos pecados e desejo
pecaminoso, também das grandes iniquidades e pecados que se originam neles e os pecados
comuns, i.e. toda sorte de conduta sem princípios. A categoria dos shrutis significa Rig,
Sama, Yajur e Atharva e os Upanishads que formam as jóias reais do Veda. Tapas significa
todas práticas regulares que se aprende visando atingir o devido funcionamento do ser. Em
muitos casos, por exemplo, na forma conhecida como pancha-tapas estas práticas säo de
caráter difícil (yoga) com seus oito ramos constituentes e devotamento ao conhecimento do
Brahman näo-diferenciado. Tudo isso säo muitos detalhes distintos dentro da ronda giratória
de atividades fruitivas das almas condicionadas. As almas condicionadas embarcaram numa
viagem de sucessivos nascimentos de 84 lakhs de variedades de órgäos geradores.
Diferenciam-se em diferentes ordens de seres como devas, danavas, rakshasas, manavas,
nagas, kinnaras e gandharvas. Estas jivas desde Brahma até ao mais pequeno inseto, säo de
infinitos tipos. Constituem o agregado das almas condicionadas desde o grau de Brahma até a
pequena mosca e säo características distintas dentro da roda giratória do karma. Cada uma
delas está dotada com poderes distintos como indivíduos e é poderosa em determinada esfera.
Mas esses poderes por natureza näo säo plenamente desenvolvidos nelas. O grau de poder e
natureza da propriedade variam de acordo com a medida de manifestaçäo das posses do
indivíduo, que lhe säo conferidas por Sri Govinda.

TEXTO 54

yas tv indra-gopam athavendram aho sva-karma-


bandhanurupa-phala-bhajanam atanoti
karmani nirdahati kintu ca bhakti-bhajam
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, que queima até as raízes todas atividades
fruitivas daqueles imbuídos de devoçäo e imparcialmente decreta para cada um o devido
desfrute dos frutos de suas atividades, para cada um que anda na senda do trabalho, de
acordo com a corrente de suas obras realizadas anteriormente, desde o pequeno inseto
chamado indragopa até Indra, rei dos devas.

51
SIGNIFICADO

Deus imparcialmente induz as almas caídas a agirem do modo que é consequente aos atos de
seus nascimentos anteriores e desfrutar a fruiçäo de seus labores mas, por Sua grande
misericórdia para com Seus devotos, Ele purifica pelo fogo do tormento, a raiz de todo karma,
i.e. ignorância e desejos maléficos. Karma, embora sem começo, ainda assim é perecível. O
karma daqueles que trabalham com a esperança de desfrutarem dos frutos de seus labores,
torna-se infindável e perene e nunca é destruído. A funçäo de sannyasa também é um tipo de
karma adequado a um ashrama e näo agrada a Krishna quando sua meta é liberaçäo, i.e.
desejo de emancipaçäo. Também recebem fruiçäo de seu karma e, mesmo que seja
desinteressado, seu karma termina em atma-mamata, i.e. auto-satisfaçäo; porém aqueles que
säo devotos puros sempre servem Krishna gratificando Seus sentidos, abandonando todas
tentativas de karma e jnana, e mantendo-se livres de todos desejos exceto o de servir Krishna.
Krishna destruiu completamente o karma, seus desejos e a ignorância desses devotos. É uma
grande maravilha que Krishna, sendo imparcial, seja plenamente parcial para com Seus
devotos.

TEXTO 55

yam krodha-kama-sahaja-pranayadi-bhiti
vatsalya-moha-guru-gaurava-sevya-bhavaih
sancintya tasya sadrshim tanum apur ete
govindam adi-purusham tam aham bhajami

TRADUÇÄO

Eu adoro Govinda, o Senhor primordial. Aqueles que meditam Nele sob a influência da
ira, paixäo amorosa, amor natural amistoso, temor, afeiçäo paternal, ilusäo, reverência,
e serviço condescendente, obtém formas corpóreas próprias à natureza de sua
contemplaçäo.

SIGNIFICADO

A devoçäo é de dois tipos, i.e. 1) da natureza da deferência às regras e 2) constituída de


sentimento natural. Bhakti é despertada por seguir com uma ponta de fé as regras dos
shastras e instruçäo dos preceptores. Tal bhakti é da natureza da lealdade àos regulamentos
escriturais. Continua a ser operativa enquanto o sentimento natural correspondente näo for
despertado. Se uma pessoa ama Krishna por tendência natural, temos o princípio de raga, que
näo é outra coisa senäo um forte desejo de servir, que se transforma em bhava ou sentimento
substantivo. Quando o sentimento substantivo desperta, o devoto se torna um objeto de
misericórdia de Krishna. Leva muito tempo para atingir tal estágio. A devoçäo que é da
natureza do sentimento é superior àquela conectada com regulamentos escriturais, e em breve
atinge o estado realizado e é atraente para Krishna. Seus vários aspectos säo descritos neste
sloka. Shanta-bhava, cheia de reverência pelo superior, dasya-bhava, cheia de serviço para
executar as ordens do objeto de adoraçäo, sakhya-bhava ou amor amistoso natural, vatsalya-
bhava ou afeiçäo paternal, e madhura-bhava ou amor amoroso, estäo todas incluídas na
categoria da devoçäo que é da natureza do apego instintivo. Mas ira, medo ou ilusäo, embora

52
sejam por natureza impulsos instintivos, näo säo devoçäo no sentido restrito do termo, porque
näo säo amistosos mas sim hostis ao objeto. Ira encontramos nos asuras como Shishupala,
medo em Kamsa, e ilusäo nos panditas da escola panteísta. Eles tem os sentimentos de ira,
medo e impulso instintivo marcados pelo completo auto-esquecimento oriundo da
identificaçäo com o Brahman näo-diferenciado. Porém como näo há nenhum sentimento
amistoso para com o objeto de devoçäo, näo há bhakti. Por outro lado, entre os sentimentos
de shanta, dasya, sakhya, vatsalya e madhura, shanta embora indiferente e adormecida em
matéria de raga, ainda é reconhecida como bhakti por ser um pouco amistosa. Há um volume
imenso de raga nas outras quatro variedades de emoçäo. Pela promessa do Gita, ye yatha
mam prapadyante sams tathaiva bhajami aham ("Sirvo a pessoa conforme sua submissäo"),
aqueles que se permitem ficarem atuados pelo sentimento do medo, ira ou ilusäo, obtém
sayujya-mukti (fundir-se no Absoluto). Os shantas obtém formas corpóreas com aptidäo a se
apegarem ao Brahman e Paramatma. As classes dasya e sakhya de adoradores obtém formas
corpóreas caracterizadas por disposiçäo masculina ou feminina conforme seus respectivos
graus de qualificaçäo. A classe vatsalya de adoradores conseguem formas corpóreas
condizentes com sentimentos paternais e maternais. Os amantes apaixonados de Krishna
obtém as formas puras das gopis (vaqueirinhas espirituais de Vraja).

TEXTO 56

shriyah kanta kantah parama-purushah kalpa-taravo


druma bhumish cintamani-gana-mayi toyam amrtam
katha ganam natyam gamanam api vamsi priya-sakhi
cid-anandam jyotih param api tad asvadyam api ca

sa yatra kshirabdhih sravati surabhibhyash ca su-mahan


nimeshardhakhyo va vrajati na hi yatrapi samayah
bhaje svetadvipam tam aham iha golokam iti yam
vidantas te santah kshiti-virala-carah katipaye

TRADUÇÄO

Eu adoro aquele assento transcendental conhecido como Svetadvipa, onde como


consortes amorosas, as Lakshmis em sua essência espiritual pura praticam o serviço
amoroso ao Senhor Supremo, Krishna, como seu único amante; onde cada árvore é uma
transcendental árvore-dos-desejos, onde o solo é feito de pedras filosofais; onde toda
água é néctar, cada palavra é uma cançäo e cada passo uma dança; onde a flauta é a
servente favorita; onde a refulgência é plena de êxtase e as entidades espirituais
supremas säo todas agradáveis e de bom gosto; onde inúmeras vacas leiteiras sempre
emitem transcendentais oceanos de leite, e onde há existência eterna do tempo
transcendental, que é sempre presente e sem passado ou futuro e portanto näo está
sujeito a qualidade de se escoar, mesmo que pelo espaço de meio momento. Este reino
chamado Goloka, é conhecido somente por algumas poucas almas auto-realizadas neste
mundo.

SIGNIFICADO

53
Aquela regiäo que as jivas alcançam através da melhor realizaçäo de seu rasa-bhajana,
embora puramente transcendental, de modo algum é destituída de variedade. A regiäo näo-
diferenciada se atinge por ter se entregado a ira, medo e ilusäo. Os devotos alcançam Goloka,
a regiäo transcendental acima de Vaikuntha, conforme a qualidade da rasa de seus respectivos
serviços. Na realidade aquela regiäo näo é outra senäo Svetadvipa ou a "Ilha Branca", sendo
excessivamente pura. Aqueles que obtém a rasa mais elevada na forma da realizaçäo da
devoçäo pura neste mundo, ao verem a realidade de Svetadvipa em Gokula, Vrndavana e
Navadvipa dentro deste mundo mundano, designam o mesmo como "Goloka". Nesta regiäo
transcendental de Goloka sempre estäo visíveis em sua suprema beleza, todas entidades
características que se incorporam ao princípio cognitivo puro, por exemplo, o amante e Suas
amadas, árvores e trepadeiras, montanhas, rios e florestas, água, a fala, o movimento, a
música da flauta, o sol e a lua, o saboreado e o sabor (i.e., as impensáveis maravilhas das 64
artes estéticas), vacas leiteiras que däo um fluxo nectáreo de leite e o tempo transcendental
sempre-existente.

Descriçöes que fornecem indícios sobre Goloka säo encontradas em vários lugares nos Vedas
e em outros shastras tais como os Puranas, tantras, etc.. O Chandogya diz: "bruyad yavan
va ayam akashas tava esha antar hrda akashah ubhe asmim dyava-prthivi antar eva
samahite. ubhav agnish ca vayush ca surya-chandramasav ubhau vidyun naksatrani yac
casyehasti yac ca nasti sarvam tad asmin samahitam iti.

Resumindo, encontra-se em Goloka a variedade de todo este mundo mundano e muito mais
variedade ainda, além e acima do mundano. A variedade no mundo transcendental é
plenamente centralizada enquanto que no mundo mundano näo é assim e por isso produz
miséria e afliçäo. A variedade centralizada de Goloka é pura e plena de transcendental júbilo
cognitivo. Os Vedas e sadhus que praticam devoçäo revelada pelos Vedas, com o auxílio de
sua capacidade cognitiva individual atuada pela devoçäo, poderäo ter um vislumbre deste
reino divino e pelo poder da graça de Krishna sua pequena faculdade cognitiva obtém a
qualidade do infinito, e assim se lhes é permitido chegar ao nível do plano das diversöes de
Krishna.

Há um sentido oculto na proposta "mesmo o Supremo que também apesar disso é objeto de
desfrute" (param api tad asvadyam api ca). As palavras param api indicam que Sri Krishna é
a única Verdade Absoluta em todos princípios transcendentais extáticos e tad asvadyam api
significa Seu objeto de desfrute. A glória do amor de Radha por Krishna, a qualidade
saborosa (rasa) de Krishna que é percebida por Radha, e o êxtase do qual Radha é consciente
no processo de tal percepçäo, todas estas três bhavas (entidades emocionais) se tornam
disponíveis para Krishna desfrutar, quando entäo Ele obtém Sua personalidade de Sri
Gaurasundara. Também é isto que constitui a bem-aventurança transcendental do delicioso
serviço amoroso (rasa) manifestado por Sri Gaurasundara. Isso também existe eternamente
apenas na mesma Svetadvipa.

TEXTO 57

athovaca maha-vishnur
bhagavantam prajapatim
brahman mahattva-vijnane

54
praja-sarge ca cen matih
panca-slokim imam vidyam
vatsa dattam nibodha me

TRADUÇÄO

Ao ouvir estes hinos contendo a essência da verdade, o Supremo Senhor Krishna disse a
Brahma: "Brahma, se experimentares a inclinaçäo de criar progênie dotada do
verdadeiro conhecimento da glória de Deus, entäo ouça de Mim, Meu amado, sobre esta
ciência exposta nos cinco slokas seguintes.

SIGNIFICADO

O Senhor Supremo tornou-se propício quando Brahma com grande ânsia cantou os nomes
"Krishna" e "Govinda" que expressam forma, atributos e passatempos. Krishna entäo disse a
Brahma como a devoçäo pura sem misturas pode ser praticada pelas almas ocupadas em
ocupaçöes mundanas, combinando as mesmas com o desejo de executar o interesse do Senhor
Supremo. "O conhecimento absoluto é conhecimento da glória de Deus; se quer procriar
progênie dotada de tal conhecimento, ouça atentamente sobre a ciência da devoçäo contida
nos seguintes cinco slokas."

TEXTO 58

prabhuddhe jnana-bhaktibhyam
atmany ananda-cin-mayi
udety anuttama bhaktir
bhagavat-prema-lakshana

TRADUÇÄO

Quando a pura experiência espiritual é excitada por meio da cogniçäo e serviço (bhakti),
devoçäo pura superexcelente caracterizada pelo amor por Deus desperta para com
Krishna, o amado de todas almas.

SIGNIFICADO

Verdadeiro conhecimento näo é nada mais que conhecimento de nosso relacionamento com o
Absoluto. Verdadeiro conhecimento é idêntico ao conhecimento das naturezas subjetivas de
cit (animado), acit (inanimado) e Krishna, e de seu relacionamento mútuo. Aqui näo se alude
à especulaçäo mental já que isso seria antagônico ao serviço (bhakti). O conhecimento que
abarca somente os primeiros sete dos dez princípios básicos (dasha-mula) é o conhecimento
do relacionamento. A natureza substantiiva da funçäo espiritual (abhidheya) inculcada pela
ciência da devoçäo, ouvir, cantar, meditar, servir Seus pés de lótus, adorar através de rituais,
prestar reverências, fazer serviço prestativo, praticar amizade e render-se, säo idênticos a
praticar a busca por Krishna. Isso é descrito especificamente no Bhakti-rasamrta-sindhu.
Devoçäo (bhakti) caracterizada pelo amor por Deus aparece ao despertar através de tal

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conhecimento e prática. Tal devoçäo é bhakti superexcelente e näo é outra senäo o objetivo
final de realizaçäo de todo esforço espiritual da alma individual (jiva).

TEXTO 59

pramanais tat-sad-acarais
tad-abhyasair nirantaram
bodhayan atmanatmanam
bhaktim apy uttamam labhet

TRADUÇÄO

A devoçäo mais elevada se alcança por lentos graus via o método de esforço constante
pela auto-realizaçäo com auxílio das evidências escriturais, conduta teísta e
perseverância na prática.

SIGNIFICADO

Evidência - as escrituras devocionais, por exemplo Srimad-Bhagavatam, os Vedas, os


Puranas, o Gita, etc. Conduta teísta -a conduta de pessoas piedosas (sadhus) que säo devotos
puros e a conduta daquelas pessoas piedosas que praticam devoçäo por Deus atuada pelo
amor espontâneo. Prática - aprender sobre os dez princípios básicos (dasha-mula) pelos
shastras e ao receber o nome de Hari conforme dado nos mesmos, incorporando o nome,
forma, qualidade e atividade da Divindade, praticar o cantar do nome servindo-O noite e dia.
Isto quer dizer o estudo dos shastras e associaçäo com os sadhus. As dez ofensas ao santo
nome cessam por servir o nome de Hari e simultaneamente praticar a conduta piedosa.
"Prática" näo é outra coisa senäo seguir o modo de servir ao nome praticado pelos sadhus sem
ofensa. Pela perseverança em tal prática a devoçäo caracterizada pelo amor que é o fruto do
esforço espiritual passa a aparecer na pura essência da alma.

TEXTO 60

yasyah shreyas-karam nasti


yaya nirvrtim apnuyat
ya sadhayati mam eva
bhaktim tam eva sadhayet

TRADUÇÄO

Estas práticas preliminares de devoçäo (sadhana-bhakti) conduzem à realizaçäo da


devoçäo amorosa. (Devoçäo amorosa) - näo existe maior bem-estar que este, que anda
de mäos dadas com a obtençäo do estado exclusivo de supremo êxtase e que pode levar a
Mim.

SIGNIFICADO

56
A alma-jiva näo possui maior bem-estar que a devoçäo amorosa. Nela se realiza a beatitude
final das jivas. Os pés de lótus de Krishna säo alcançáveis somente pela devoçäo amorosa.
Só aquele que cultiva as atividades devocionais preliminares, ansiosamente mantendo em
vista o estado de devoçäo realizada, é que consegue alcançar aquele objeto de todo esforço.
Ninguém mais consegue o mesmo.

TEXTO 61

dharman anyan parityajya


mam ekam bhaja vishvasan
yadrshi yadrshi shraddha
siddhir bhavati tadrshi

kurvan nirantaram karma


loko 'yam anuvartate
tenaiva karmana dhyayan
mam param bhaktim icchati

TRADUÇÄO

Abandonando todos atividades meritórias sirva-Me com fé. A realizaçäo corresponderá


à natureza da fé da pessoa. As pessoas do mundo agem incessantemente perseguindo
algum ideal. Meditando em Mim, por intermédio de tais atos se pode obter devoçäo
caracterizada pelo amor na forma do serviço supremo.

SIGNIFICADO

A funçäo caracterizada pela devoçäo sem mistura é a funçäo real de todas almas individuais
(jivas). Todas outras variedades de funçäo säo atividades de casos externos. Estes dharmas
(funçöes) säo muitos, por exemplo, conhecimento näo-diferenciado do Brahman visando
extinçäo da individualidade, o astanga-yoga-dharma que tem por meta alcançar o estado de
existência exclusiva (kaivalya), ritualismo fruitivo ateísta visando desfrute material, jnana-
yoga-dharma, que busca combinar conhecimento com atividade fruitiva e a prática da funçäo
do asceticismo estéril. Livrando-te de todos estes, sirva-Me através da devoçäo pura
enraizada na fé. Fé exclusiva em Mim é confiança. Fé na forma de confiança via o processo
de purificaçäo gradual tende a tornar-se um compromisso constante (nistha), um objeto que se
gosta (ruci), se sente apego (asakti) e um verdadeiro sentimento (bhava). Quanto mais
transparente a fé, maior o grau de realizaçäo. Se perguntares - Como será viável a
preservaçäo e conduçäo dos assuntos mundanos se a pessoa estiver constantemente ocupada
no esforço para realizar bhakti? Também, qual será a natureza do esforço para realizar bhakti
quando o corpo perecer por consequência da cessaçäo da funçäo do corpo e da sociedade?

A fim de atingir a raiz desta dúvida o Senhor Supremo diz: "Este mundo subsiste pela
realizaçäo constante de certas atividades. Preencha todas estas atividades com meditaçäo em
Mim. Isto destruirá a qualidade que faz com que tais atividades pareçam atos feitos por ti.
Entäo elas seräo da natureza de Meu serviço (bhakti).

57
"A humanidade vive pela tríplice atividade de corpo, mente e sociedade. Comer, sentar,
andar, descansar, dormir, limpar o corpo, cobrir o corpo, etc. säo as várias atividades
corpóreas; pensar, lembrar, reter uma impressäo, tornar-se consciente de uma entidade, sentir
prazer, dor, etc., säo feitos mentais; casar, praticar o relacionamento recíproco entre o rei e
súdito, praticar fraternidade, comparecer a reuniöes sacrificiais, oferecer oblaçöes, cavar
poços, tanques, etc. para benefício do povo, manter nossos relacionamentos, praticar
hospitalidade, observar a devida conduta cívica, mostrar o devido respeito para com os outros,
säo as várias atividades sociais. Quando esses atos säo praticados para nosso desfrute egoísta,
chamam-se karma-kanda; quando o desejo de obter liberaçäo dessas atividades através do
conhecimento jaz sob estas açöes, chamam-se jnana-yoga ou karma-yoga. E quando se
consegue realizar estas atividades de tal maneira que sejam conducentes ao nosso esforço pela
obtençäo de bhakti, chamam-se jnana-bhakta-yoga, i.e. a prática devocional subsidiária. Mas
somente aquelas atividades que se caracterizam pelo princípio da adoraçäo pura se chamam
propriamente bhakti. Minha meditaçäo é praticada em cada ato quando a bhakti propriamente
dita é praticada no devido tempo enquanto se realiza as atividades devocionais subsidiárias,
em nossa interaçäo com as pessoas irreligiosas deste mundo. Em tal posiçäo, uma jiva näo se
torna apática a Deus mesmo ao realizar estas atividades mundanas. Isto constitui a prática de
olhar para dentro, i.e. voltar-se para o próprio ser verdadeiro, vide Ishopanishad:

ishavasyam idam sarvam


yat kinca jagatyam jagat
tema tyaktena bhunjitha
ma grdhah kasya svid dhanam

O comentário com relaçäo a isso, diz: tena isha-tyaktena visrshtena. O verdadeiro


significado é que se tudo que recebermos, o fizermos considerando como um favor concedido
pelo Senhor Supremo, a atividade mundana deixará de o ser, e transformar-se-á em serviço a
Deus (bhakti). Assim Ishavasya diz kurvann eveha karmani... karma lipyate nare.

Se os atos mundanos forem realizados da maneira acima, a pessoa näo se enredará em karma
mesmo em centenas de anos de vida mundana. O sentido destes dois mantras do ponto de
vista de jnana é renunciar aos frutos de nossas açöes mundanas; mas do ponto de vista bhakti
significam obter o favor de Krishna (prasadam) através de transferir tudo para a conta Dele.
Nesse método, que é a senda de arcana, deve-se cumprir os deveres do mundo atraves da
meditaçäo de adorar Deus via os mesmos. Brahma nutre em seu coraçäo o desejo por criar.
Se esse desejo criativo for praticado aliando o mesmo com a meditaçäo de nisso obedecer ao
comando do Senhor Supremo, entäo será uma funçäo espiritual subsidiária (gauna-dharma),
sendo de auxílio para o crescimento da disposiçäo pelo serviço da Divindade devido a sua
característica de buscar a proteçäo de Deus. Certamente foi adequado instruir Brahma desta
maneira. Näo há ocasiäo para tal instruçäo no caso de uma jiva em quem a aversäo
espontânea por outras entidades sem ser Krishna se manifesta ao alcançar a entidade
substantiva de devoçäo espiritual (bhava).

TEXTO 62

aham hi vishvasya caracarasya


bijam pradhanam prakrtih pumams ca

58
mayahitam teja idam bibharshi
vidhe vidhehi tvam atho jaganti

TRADUÇÄO

"Ouça, ó Vidhi, Eu sou a semente, i.e., o princípio fundamental, deste mundo de objetos
animados e inanimados. Eu sou pradhana (a substância da matéria), Eu sou prakrti (a
causa material) e Eu sou purusha (a causa eficiente). Esta energia ardente que pertence
especialmente ao Brahman, que é inerente a ti, também foi conferida por Mim. É por
portar esta energia ardente que regulas este mundo fenomênico de objetos animados e
inanimados."
SIGNIFICADO

Certos pensadores concluem que o Brahman näo-diferenciado é a entidade máxima e que


submetendo-se à auto-ilusäo (vivarta) exibe a consciência da diferenciaçäo; ou, o próprio
princípio limitante (Maya), quando se limita, é o mundo fenomênico e é o próprio Brahman,
em sua posiçäo ilimitada; ou, o Brahman é a substância e este mundo fenomênico é o reflexo;
ou, tudo é uma ilusäo da jiva. Alguns pensam que Deus evidentemente é uma entidade
separada, jiva é outra entidade diferente, e o mundo fenomênico, embora seja um princípio
singular, existe separadamente como uma entidade eternamente independente; ou, Deus, é a
entidade substantiva e todas outras entidades, como atributos cit e a-cit, säo unas em
princípio. Alguns supöe que pela inconcebível potência às vezes o princípio monista e às
vezes o dualista é percebido como a verdade. Outros ainda, chegam à conclusäo de que a
teoria do näo-dual menos toda potência é sem sentido; portanto o Brahman é a única entidade
eternamente pura investida com a pura potência.

Estas especulaçöes originaram-se do Veda fiando-se no apoio do Vedanta-sutra. Nestas


especulaçöes embora näo haja uma verdade que se mantenha em todas posiçöes, ainda assim
há certa medida de verdade. Sem falar em especulaçöes anti-védicas como Sankhya,
Patanjala, Nyaya e Vaisheshika, ou ainda Purva-mimamsa que adora atividade fruitiva
exclusiva em conformidade com o ensinamento de uma parte do Veda - tais opiniöes
detalhadas acima também passaram a existir fiando se externamente no próprio Vedanta.
Abandonando todas essas especulaçöes, tu e tua comunidade fidedigna devem adotar o
princípio máximo idêntico à doutrina de acintya-bhedabheda (inconcebível distinçäo e näo-
diferença simultânea). Isto o tornará qualificado para ser um verdadeiro devoto. O princípio
básico é que este mundo animado é constituído de jivas e o mundo inanimado de matéria.
Destes, todas jivas foram manifestadas por Minha potência suprema (para) e este mundo
fenomênico foi manifestado por Minha potência secundária (apara). Eu sou a causa de todas
causas. Em outras palavras, Eu regulo todas elas pelo poder de Minha vontade embora Eu
näo seja uma entidade diferente das potências marginal e material (tatastha e acit). Pela
transformaçäo dessas potências distintas, pradhana (o princípio substantivo material), prakrti
(a causa material) e purusha (a causa eficiente) foram produzidas. Assim embora no tocante à
natureza subjetiva de toda potência Eu seja pradhana, prakrti e purusha, entretanto como o
possuidor do poder, Eu sou eternamente distinto de todas estas potências. Esta simultânea
distinçäo e näo-diferença também surgiu de Meu inconcebível poder. Assim, que a obtençäo
do amor por Krishna pela prática da devoçäo pura via o conhecimento da relaçäo mútua
verdadeira que subsiste entre a jiva, jada (matéria) e Krishna baseada no princípio de

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inconcebível distinçäo e näo-diferença, seja Minha instruçäo a ser passada dentro da ordem de
sucessäo discipular em tua comunidade (Sri Brahma-sampradaya).

* * *

60

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