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Revista

TORQUATO
___________
Literatura e artes visuais

Ano 1 – out.dez/2019
Revista
TORQUATO

Ano 1 – out.dez/2019
Manaus - AM
4 APRESENTAÇÃO
Por que abrir as gavetas do Norte |
Daniel Amorim e Susy Freitas

6
RESUMÉ
Poemas traduzidos de Dorothy
Parker | Susy Freitas

8 SILÊNCIOS DE
Rafael Ramos

14 PROSA
Nathalie Lourenço | 15
Daniel Amorim | 18
Thiago Roney | 23
Bruno Oliveira | 27

31 POESIA
Priscila Lira | 32
Márcia Kambeba | 34
Susy Freitas | 37
Paulo Monteiro | 41
P. F. Filipini | 43
Carlos Orfeu | 48

51 CHAMADA
APRESENTAÇÃO
Por que abrir as gavetas do Norte?
Daniel Amorim e Susy Freitas

S
pares
omos
invisíveis.
no
Nortistas.

máximo
Nossos
Ilegíveis
póstumos
respingam
e

as
Mais lembrado que Torquato Tapajós é
Torquato Neto. O trabalho do poeta
piauiense, bem mais efêmero e
tentativas de um cânone, enquanto os fragmentado que o de seu xará,
vivos predominam nas próprias gavetas, ironicamente engrandece seu nome.
conscientes da insignificância imposta
Nas ruas do Rio de Janeiro dos anos
às suas palavras. Mas buscamos
1960, Torquato Neto chorou e sorriu.
construir uma rota.
Traçou sua Geleia Geral e atravessou as
*** calçadas pensadas por Tapajós. Mas
sabemos qual Torquato é Torquato. O
Torquato Tapajós é o nome de uma das
doente, o poeta, o jornalista, o produtor
avenidas mais movimentadas de
das coisas “inúteis” é o que sobrevive de
Manaus. Dentre os que transitam ali,
fato na canção tropicalista que rola ao
poucos recordam o homem que a
fundo de um engarrafamento. Prova de
projetou, o qual emprestou seu nome à
que a escrita fala mais que o asfalto? A
via, e lembram muito menos de sua
busca por essa resposta nos move hoje.
carreira literária como poeta. Todos os
A busca por existência, e não
dias, o nome de Torquato se esvazia no
sobrevivência.
engarrafamento e é nada mais que uma
passagem para condomínios de luxo Somos periféricos. Navegamos nas
avizinhados por invasões, uma barreira franjas, em alguma das inúmeras
rodoviária, um shopping. margens nas quais nos alocam. Como
vampiros, nosso reflexos somem nas
Outro projeto de Torquato foi o bairro
representações do tecido social. Mas,
de Copacabana, no Rio de Janeiro.
como vampiros, nossa existência
Cartão postal, cena de novela, passeio
hipnótica suga a força vital do cotidiano.
de turista. Como Torquato escrevia seus
poemas? E por quê? Que Por isso convém nos ler. Temos
transcendência buscava? Será que ele a potência de confronto, força movente,
encontrou antes de ser acometido por narrativas de brechas no isolamento.
uma febre mortal na Amazônia aos 44 Haverá tesouro nas nossas gavetas?
anos?
RESUMÉ

POEMAS TRADUZIDOS DE DOROTHY PARKER


Susy Freitas

Dorothy Parker (22/8/1893 - 7/7/1967) foi uma escritora e crítica estadunidense,


Publicou em revistas como Vogue, Vanity Fair, The New Yorker, Life e Esquire.
Escreveu os livros de poesia Enough Rope (1928), Sunset Gun (1928) e Death and
Taxes (1931), reunidos posteriormente em coleções. Na prosa, foi reconhecida pela
short story Big Loira (1929). Como roteirista, assinou 15 filmes, incluindo Nasce Uma
Estrela (1937), pelo qual foi indicada ao Oscar. Suas posições políticas a fizeram entrar
na lista negra de comunistas de Hollywood após a Segunda Guerra Mundial. Ao
morrer, deixou todos os seus bens para o ativista dos movimentos civis dos negros
Dr. Martin Luther King Jr.

ANEDOTA
FINIS

Tão quieta estive junto ao Amor


Está feito; acabou.
que, bocejando, se afastou.
Por que tudo parece igual?
Lamentos cingem meu avental:
Brilha tanto o bruto sol.
tanto a dizer em mim ficou.
Não percebe que estou mal?
Eles correm, trabalham, xingam,
riem, choram, morrem, casam.
FAUTE DE MIEUX
O amor parte e eles não notam?

Idas, vícios, cantos, arte,


Tão cheia a avenida ocupada.
beijos, vestes, rimas –
Vagões e carros por ela rolam,
nunca disse que bastavam
crianças riem, casais se encontram.
e ainda assim me animam.
Meu amor parte e eles não notam?
Ninguém me dispensa lágrima,
BOA SORTE
para ou chora o meu mal;
até eu voltei ao normal.
Meu amor, tome seu rumo.
Minha dor não será vã.
Enquanto eu tenho o meu ontem,
viva a porra do seu amanhã.
SILÊNCIOS DE

9 FOTOGRAFIA (SEM TÍTULO)


Rafael Ramos
RAFAEL RAMOS é graduado em Cinema pela Academia Internacional de Cinema de São
Paulo (AIC) e atua como diretor e roteirista. Dirigiu “Formas de voltar para casa”, “A menina
do guarda-chuva”, “Aquela estrada”, dentre outros curtas-metragens. As fotografias desta
seção fazem parte de um estudo para seu próximo filme, “Manaus Hot City”.
PROSA

15 ELA É TÃO BONITA DESLIGADA


Nathalie Lourenço

18 PODE APOSTAR
Daniel Amorim

23 O CARALHO-DE-ASAS CHAMADO SOLIDÃO


Thiago Roney

27 MEIA-NOITE EM MANAUS (OU UM WOODY ALLEN


TUPINIQUIM)
Bruno Oliveira
ELA É TÃO BONITA
DESLIGADA
Nathalie Lourenço

C oloquei Joyce no Mercado Livre, mas ninguém comprou. A


verdade é que é um tanto difícil vender objetos em que seu
esperma já tenha tocado. Mesmo que sua avaliação de vendedor
beire os 90% e você esclareça que ela passou por todos os procedimentos de
limpeza necessários. Para as ginóides, a virgindade é ainda mais valorizada
que nas mulheres de carne, não só pelo momento de romper a entrada de
silicone, o equivalente a tirar a película de um novo celular, e sim porque
custam a desaprender os hábitos sexuais de seus antigos donos.

Com a falta de compradores, me resignei a colocá-la no pequeno


depósito que havia no apartamento que aluguei junto com Deborah. Foi uma
coisa triste. No modelo de Joyce (N’Joy 5, wireless, com bateria que recarrega
com o movimento do corpo), o botão de desliga fica na nuca, sob os cabelos
rosa claro, e precisa ser pressionado por quase 20 segundos. É um
asfixiamento, os olhos em segundos perdendo a inteligência, o corpo
endurecendo em uma posição fixa. Fiz isso uma única vez, quando mamãe
veio passar alguns dias em São Paulo, e a escondi debaixo da cama. Tinha um
medo irracional que o corpo começasse a cheirar e Joyce fosse descoberta.
Lógico que não aconteceu. Ainda assim, nunca mais tive estômago para
desligá-la. Outra vez me acovardei. Deixei-a só, junto aos produtos de
limpeza e o resto de caixas abertas da mudança. Deborah tem horror a ela,
perdi a conta de quantas vezes ela deixava espatifar de noite um copo d’ água,
ao topar com Joyce na área de serviço. Agora que o apartamento era terreno
neutro, tive que ceder. Não que Deborah tivesse razões para se preocupar.

No começo, é claro, tivemos uma fase de lua de mel. Abri com uma
faca de serra a caixa onde ela vinha, pedaços imersos em cobrinhas de isopor.
Encaixei tudo às pressas. A comi antes de sequer dar a primeira carga na
bateria. Era tão bonita, desligada. Ainda sem os cílios, as unhas e
sobrancelhas, que fui achar mais tarde no fundo da caixa, passada a urgência.
Por três ou quatro meses fomos loucos um pelo outro. Eu, de verdade, ela,
por causa da opção behavioral número 3. Como Joyce não anda, eu a
carregava da sala para o quarto, do quarto para a cozinha. Fazíamos tudo
juntos. Aos poucos, comecei a deixá-la para dormir na sala. Acabou que
depois de uns seis meses não fazíamos mais do que ver televisão. Eu, fazendo
pequenos comentários, ela, puxando informações sobre os atores no IMDB.
Comecei a achá-la monótona. Tudo que fazia era para me agradar e isso era
justamente o que mais me desagradava. Joyce não podia fazer nada a respeito.
Responder segundo os scripts que tinha acumulado sobre meus gostos por
tantos meses era inevitável. Os scripts não compreendiam que já me irritava
aquele mesmo jeito de rir-olhar-pro-lado-pegar-minha-mão, demoravam a se
reescrever. E então, Deborah. De carne e osso e proporções agradavelmente
assimétricas. Me pareceu curioso como minhas mãos afundavam ao
pressionar suas coxas. Seu calor era discreto e, em vez do zumbido constante,
seu corpo emitia pequenos gorgolejos. Já na segunda vez que saí com
Deborah, tivemos uma briga estúpida sobre a gorjeta do valet. Foi
maravilhoso. Deborah tinha pernas que funcionavam bem e que a levavam
para longe de mim. Agora você a vê. Agora não.

Quando Deborah vinha em casa, cobria Joyce com um lençol e a


deixava na área de serviço. Àquela altura era bastante normal que homens
tivessem ginóides, mas você sabe como são as mulheres. Joyce sempre foi
muito orgulhosa. Nessas horas, não dizia nada e até mesmo silenciava a
função despertador na manhã seguinte. As coisas foram ficando mais sérias,
e a ginóide, quieta, sempre lá. Eu ainda tinha carinho por ela, não via motivos
para me desfazer. Vez ou outra, tirava os casacos e camisas que seriam postas
pra lavar que andavam pendurados em seus ombros e a trazia para ver algum
episódio de uma série favorita. Já não puxava informações e curiosidades da
internet. Foi aprendendo o silêncio. Ontem, Deborah me perguntou se ainda
tínhamos esponjas e amaciante. Topei com Joyce no escuro do quartinho.
Tinha na mão uma garrafa de cloro ativo, que acariciava de forma frenética
para cima e para baixo, da forma que tinha aprendido que eu gostava, tempos
atrás. Os cílios começavam a descolar da pálpebra, mas ainda subiam e
baixavam regularmente. Me pareceu terrivelmente só.

A página no Mercado Livre seguia sem interessados, por isso, reduzi


mais uma vez o preço. Na tela direita, na barra de relacionados, havia anúncio
de um andride, modelo um pouco mais antigo, robusto, pelo preço que eu
pagaria em um jantar, se tomasse café e sobremesa. Chamava-se Caetano e o
estado parecia excepcional para o preço. Androides usados são ainda mais
difíceis de revender. Acabei encomendando. Deborah me ajudou a tirar as
caixas que restavam no depósito (então, era aí que estava a panela de
pressão?) para abrir espaço. Ligamos Caetano e esperamos que algo
acontecesse. Nada. Eram programados para aprender, não ensinar. Alteramos
o modo behavioral para estritamente físico e neste momento começaram a se
entender. Por alguns minutos, de mãos dadas, observamos. Em Joyce o
arranhar, a perna erguida, todos os gestos feitos ainda pra mim. Em Caetano,
um puxar de cabelo, um roçar com as costas da mão, as sombras de uma antiga
dona. Nenhum dos dois se daria conta.

NATHALIE LOURENÇO é redatora publicitária e escritora. Publicou o livro


Morri por Educação (Oito e Meio, 2017), escreve crônicas para a plataforma
escolar Guten News e contos para o projeto Mulheres que Escrevem. Você
encontra alguns textos em: medium.com/@ridicula.
PODE APOSTAR
Daniel Amorim

c
hegamos por volta das 9h e o corpo já estava estirado no asfalto,
coberto por um lençol com figuras de desenho animado. É o mesmo
seriado que Rubinho costumava assistir quando chegava da escola.
Sinto uma mistura de saudade e náusea ao deparar com o super-herói e seu
relógio com superpoderes cobertos de manchas de sangue.

“Dezesseis tiros, pode apostar”, declara o padeiro, oferecendo um copo de


café para Adamastor, o motorista. “Trabalho aqui há vinte e um anos e estou
acostumado a presenciar esse tipo de ocorrência. Pode colocar no seu jornal”,
ele insiste. Adamastor – “Tio Adão” para os íntimos - agradece a gentileza com
o sorriso de dentes encardidos, toma um gole, espirra. “Enfim acordado”, ele
comemora, catando no bolso da calça os cigarros imaginários. “Vai dar, vai dar”.

A primeira pauta do dia. Quase dois anos fora de circulação e a tarefa


inaugural consiste em cobrir a morte de um traficante peruano. Executado à
queima-roupa pelo passageiro de uma motocicleta. Pelo menos foi o que me
disse o magricela com calção de surfe, atento ao enxame de curiosos que não
param de chegar. Seminu, com os braços cruzados, a postura de quem possui
uma informação privilegiada, ele está ali para prestar esclarecimentos, tirar
dúvidas e relatar pela nonagésima vez o que presenciou naquela manhã.

Carlinhos, o fotógrafo, se aproxima bufando. A camiseta branca está


encharcada de suor. Ele mostra as imagens capturadas de diversos ângulos, a
expressão chocada dos populares. Levanto o dedo em sinal de aprovação.
“Preciso ir no banheiro”, diz Carlinhos, esfregando o lenço no rosto. O padeiro
aponta para o corredor. “Última porta à direita”.

“Esses caras fazem pouco caso da vida alheia”, resmunga Adamastor. Sinto
vontade de apontar a ironia daquela frase e percebo que talvez essa seja sua
verdadeira intenção. A viúva está parada ao lado do cadáver, abraçada por duas
mulheres que sussurram ao seu ouvido. Ela parece indiferente. Talvez já tenha
previsto o assassinato, alertado o amante sobre o castigo que recai sobre os
ímpios, aqueles que caminham pela seara do pecado e da morte. Um cachorro
imundo, de farta pelagem negra, observa o lençol esvoaçante enquanto arranha
o pescoço.

“Mal começou e já sentiu a porrada”, diz Adamastor, jogando o copo vazio


na sarjeta. “Minha primeira pauta também foi osso. Mãe e filha vítimas de uma
crise de ciúmes. Logo descobriram que o moleque era filho de barão e
resolveram abafar o caso. Isso quando o conteúdo do jornal era noventa e oito
por cento tragédia. Rendia uma boa grana. Mas é uma situação deprimente”.

A cabeça começa a fervilhar debaixo do sol implacável de agosto. Penso em


Rubens, na mãe e no padrasto curtindo as belas praias da Bahia, andanças no
Pelourinho, o sabor do acarajé preparado por cozinheiras que entendem do
traçado. Clichês que me assombram durante a noite, enquanto me reviro entre
lençóis.

“Comecei trabalhando como atendente na farmácia do meu pai. Daí


estourou a recessão, fomos obrigados a fechar as portas. Por sorte meu velho
conhecia o seu Armínio, que me contratou para trabalhar como chofer de
repórter”.

O burburinho em torno do cadáver cresce. Homens, mulheres, animais e


crianças se revezam na tarefa de velar o falecido. “Não consigo viver com
alguém sem ambições”. A frase de Fernanda ao se despedir. Os sinais estavam
claros, só me deixei levar pela fé na boa vontade alheia.

“E adivinha por que entrei? Seu Armínio flagrou a esposa no motel com o
motorista do jornal, um negão para mais de metro. Dizem que ele abordou o
casal na saída, jogou um pacote com a grana referente aos bens da mulher dentro
do carro e vazou. O cara, obviamente, foi demitido”.
Um período difícil. Passaralho nas redações, corte nas assessorias, “a fonte
secou”, diziam os reacionários não tão enrustidos assim. “Confio no seu talento”,
Fernanda repetia durante as refeições. Links de anúncios para vagas de emprego.
Meu conhecimento sobre mídias digitais era intuitivo, para não dizer nulo. “É só
uma fase ruim”, depois da trepada bêbada nas madrugadas de sábado, comendo
pizza de congelador. Você adormecia nos meus braços, tagarelando sobre
cachorros de rua.

“Era um cidadão justo, o seu Armínio. Não perdoava mancada. O pessoal


ouvia aquela voz fina, o jeito meio tímido durante as reuniões e pensava que
podia faturar às custas dele. Por isso muita gente se estrepou”.

E agora? A gastrite corroendo as entranhas, noites solitárias na varanda do


quarto, baforando. Nenhuma notícia dela nem de Rubens. Os amigos também
não sabiam do paradeiro, ou evitavam se intrometer nessa confusão melancólica.
Tinham razão, afinal de contas. Você me avisou quando já estava de malas
prontas. “Uma oportunidade de subir na carreira”, justificou. Carlinhos ressurge,
esfregando obsessivamente o lenço na cara. “Tudo certo, seu Marcelo?”. Sei o
que significa a pergunta, mas não pretendo arredar o pé dali agora. O padeiro
traz uma dose de café não solicitada para o fotógrafo.

“Já presenciei coisas estranhas. Colegas surtando no meio de uma pauta e


pedindo demissão. Certa vez, durante um temporal, nos mandamos para a Zona
Leste, eu e um repórter verdinho. Comentavam sobre uma casa que havia
desabado, então saímos em busca da dita cuja. Rodamos um pouco e de repente
avistamos uma ambulância parada na frente de uma casa meio isolada”.

Dívida do cheque especial: quatro mil reais, e aumentando. Contas de luz


atrasada (e superfaturada): novecentos reais. IPTU: quatrocentos reais,
acumulados. Conta de água: duzentos, trezentos e pouco. A viúva espantava com
gestos delicados as moscas que sobrevoavam o cadáver.

“Estacionei, o repórter saltou. Uma senhora chorava, amparada pelo marido.


A porta estava aberta e uma boca do fogão, que ficava no cômodo da frente,
estava acesa. Fechei os olhos e rezei. ‘A mãe deles morreu ontem’, choramingou
a velha, assoando o nariz. Então ouvi um pedido de ajuda, alguém precisava
acompanhar os irmãos na ambulância até o hospital, disse a vizinha. Corri até lá,
falei que estava em serviço, precisava voltar para a redação. A mulher fez cara
feia. Deitado na maca, um rapaz respirava com dificuldade, o rosto mais pálido
que cera. Fechei os olhos e rezei”.

O lençol embebido em sangue. Foi a viúva que colocou ali, me informou o


magricela, seu último ato de amor. O calor aumenta, grandes intervalos de azul
entre as nuvens, “um dia perfeito para tomar banho de rio”, você repetia. Sinto a
luz fustigar meus braços queimados de tantas andanças a pé. Esqueci de lhe dizer
que vendi o carro para pagar as prestações do apartamento, mas isso não importa
agora.

“Enfim, a gente tem que estar preparado para o combate. Manter a guarda
levantada porque a vida, em essência, é uma grande batalha. É o conflito, e não
o dinheiro, que faz este mundo girar”.

Ouve-se o choro alto de uma criança, não consigo enxerga-la, a multidão se


fecha numa espécie de muralha de carne, osso e tristeza. Seria o filho bastardo
do peruano, o rebento perdido, como informou o magricela? “Esse maldito carro
tá demorando demais”, reclama Carlinhos, se abanando com vontade. Uma
equipe de TV acaba de chegar ao local, a repórter de cabelo platinado já está
com o microfone diante do rosto, ensaiando a passagem que será exibida na hora
do almoço. A presença da dupla causa uma leve agitação, alguém começa a
discursar em voz alta contra o descaso das autoridades. O cinegrafista tenta abrir
passagem na multidão, e entrevejo os dedos da vítima fora do lençol, reluzindo
sob a luz da manhã. Lágrimas e aplausos.

“Dezesseis balas, pode apostar”.

“...uma luta para largar o vício...”

Naquela noite senti cheiro de sexo atrás de sua orelha esquerda, e percebi
que estava tudo acabado. Planos, viagens, o curso de desenho do pequeno
Rubens. Você reclamava que eu andava de cueca pela casa o dia inteiro e só
resolvia tomar banho à noite, antes de dormir. “Vai me dizer que isso também
faz parte de seu processo criativo?”, você instigava, irônica, largando a bolsa no
sofá.

“A vítima comandava um pequeno grupo de traficantes da área e fornecia


auxílio para os moradores...”

“Ninguém está a salvo”.


“...falar com a esposa da vítima, dona Neida, que está muito abalada”

“Não dá pé, vamos embora”.

Meu pequeno santuário de antidepressivos e tarjas-pretas na estante da sala,


que eu arrumava com cuidado para apaziguar sua frustração, fazê-la acreditar
que dias melhores estavam por vir.

“Uma espécie de benfeitor da comunidade”.

“Ele disse que ia tomar outro rumo na vida, pensava até em mudar de casa”.

“Vai dar, vai dar”.

Uma gargalhada ecoando às três da manhã, você trancada no banheiro


conversando com desconhecidos.

“... fechar as portas e procurar outro lugar, é a única saída”.

“Eita porra”

“Afasta, por favor, afasta...”

“Três minutinhos”

“Muito tempo”

“O senhor está bem?”

DANIEL AMORIM nasceu em Manaus, Amazonas, em 1983. É graduado em


Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Seu livro, Zona
de sombra, foi vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus na categoria
conto em 2018.
O CARALHO-DE-ASAS
CHAMADO SOLIDÃO
Thiago Roney

A
princípio pensei ser uma espécie de charme a escolha pela
solidão, como cerne da vida de escritor, feita por Enzo Juan
da Silva. No entanto, depois descobri ser apenas um chavão
do espírito performático desses seres. Solidão pra lá, solidão pra cá. Não é
sempre a palavra preferida dos escritores? A solidão é a essência da minha
escrita. A solidão é imprescindível para a minha literatura. Não são sempre
esses os jargões em qualquer entrevista? Pois é, sei que essas frases parecem
bonitinhas à primeira vista, era assim também que Enzo falava, mas não
passam de lugares-comuns no teatro literário. Antes eu ficava doidinha após
ver suas entrevistas no Youtube. Aquele ar sublime. Aqueles trejeitos.
Aquelas palavras. Aquela solidão. Tudo era um encanto. Contudo, depois
daqueles encontros, não consigo mais ver nenhum charme na dita solidão. Era
fanzaça do cara. Li todos seus romances e contos. Tive certa dificuldade para
entrar em contato com ele, mesmo não sendo tão conhecido; publicava por
editoras pequenas e quando, enfim, consegui conhecê-lo, putz, uma negação.
Nunca imaginaria que um gênio na literatura pudesse ser tão desprezível.

***

Pensei em convidá-la para o curso sobre o Drummond que estou


organizando, mas ela não deve ter tempo para literatura. Possui apenas uma
folga na semana. Nesse dia, de modo religioso, ela sempre vem beber uma
cerveja aqui no bar do Cabelo. Talvez para poder suportar mais uma semana
naquele ar sufocante do shopping center. Hilda deve ser espetacular na
cama. Pense numa ruivinha linda balconista do McDonald’s. Sempre tive
tara por trabalhadoras de fast-food. Não sei, mas acho que na hora de foder
elas devem fazer um espetacular slow food pra compensar essa vidinha de
pressa, pra não dizer de merda, de vender simulacros de lanche. Hoje Hilda
está radiante. Estamos trocando olhares há meia hora. Com esse olhar, essa
cerveja, como não ficar com um tesão dos diabos? Ela levantou um pouco a
saia e mostrou sua linda perna. Pra que tanta perna, meu deus? Meu pau
começou a ficar duro. Ela insinuou que vai mostrar sua ruivinha. Pego
levemente no meu pau. Ela dá um sorriso malicioso e, por debaixo da mesa,
começa a mostrar a hildinha com um olhar safadinho. Aí não resisto e
começo a bater discretamente uma punheta por debaixo da minha mesa.
Vaivém. Vaivém. Caralho. E no vaivém lembrei de Drummond. Drummond,
não. Do seu poema. O vaivém da vida e da punheta ficou mais vistoso. Poema
de sete faces. Vaivém. “As casas espiam os homens/ que correm atrás de
mulheres./ A tarde talvez fosse azul,/ não houvesse tantos desejos.”
Continuava a olhar a ruivinha por debaixo da mesa com um tesão dos diabos.
Meu imaginário girava como redemoinho, com imagens de mim dentro dela.
Dela me chupando. E da porra do poema do Drummond transfigurado. E o
vaivém ia cada vez mais rápido. O bar estava quase vazio. Nem pegava mais
o aperitivo do perigo. A imagem da poesia era maior. No ápice do gozo, o
redemoinho afunilou na minha cabeça com os malditos versos modificados
do Drummond: “O bonde passa cheio de bucetas:/ bucetas brancas pretas e
amarelas./ Para que tanta buceta, meu Deus, pergunta meu coração./ Porém
meus olhos não perguntam nada”. Gozei. Pingos colaram instantaneamente
na superfície debaixo da mesa, melando ainda minha calça e cueca. A
ruivinha se fechou e acabou o show. Depois do gozo fabuloso, duas coisas
começaram a intrigar-me: por que não consumamos o ato fisicamente e só
ficamos naquele quase virtual? E por que as palavras são carregadas de
pudor?

***
O Enzo me deixava molhadinha só com palavras impressas naquelas
folhas amareladas. Aquele conto safadinho, daquela Hilda que poderia ser eu,
arrepia-me até hoje. Os livros do cara me excitavam até o espírito. Gostava
daquela sua frase da solidão, pois desconfiava que fosse uma espécie de
saudade. “A solidão, às vezes, é uma saudade fudida de nós mesmos”. Achava
genial. Pensava: como não transar com esse cara? Mas o negócio foi broxante.
Estava toda feliz no dia do primeiro encontro. Tinha pintado tudo: unha,
cabelo, alma e o caralho a quatro. Havíamos começado a conversa sobre as
diversas cenas literárias. Estava tudo em sintonia até que o cara começou a ir
de tempos em tempos ao banheiro. Com trejeitos intranquilos começou a não
dar a mínima atenção para mim ali na mesa, mesmo depois de me achar maior
gostosa. Eu puxava o máximo de assunto tentando recompor o bom momento
do começo. Perguntei sobre o processo criativo e sobre o ato de escrever. Foi
quando ele conseguiu deixar o meu espírito molhadinho de novo. Respondeu
parecendo que tinha decorado um escrito. Mas depois disso o resto da noite
foi decepcionante. Parecia que o cara queria transar é com o banheiro. Voltava
se mordendo todo. Foram cervejas e banheiros em cima de cervejas e
banheiros. No final, a coisa foi um fiasco. Pensei que poderia ser apenas uma
noite ruim. Que nada. Descobri que quase todos os dias Enzo estava ali entre
cervejas e banheiros.

***

Não sei o que Hilda queria comigo. A mulher era neurótica. Não parava
de falar. Acho que Hilda não existe, só pode. Devia ter sido paranoia da droga,
associando uma imagem a minha personagem. Não lembro muito bem. A
mulher ficava me perseguindo (ou será que era o conto que não saía da minha
cabeça?). Talvez quisesse que eu fosse seu marido. Aí não rola. A solidão é
imprescindível para o meu fazer literário. Recordo vagamente ela dizendo que
pensava que minha solidão era uma espécie de aura metafísica. “Que porra
nenhuma”, respondi com a intenção de despachá-la, “o mais importante para
um escritor é viver a vida, essa é a sua solidão fundamental, e isso pressupõe
a solteirice”. Depois disso ela ficou furiosa. Mas, porra, a mulher não saía do
meu pé. Se não me engano, foi a última vez que nos encontramos. Sua
despedida foi uma frase digna de colocar num conto: – Enzo, vou te falar,
gosto pra caralho dos teus livros. Amo até. Negócio sublime. Mas tu, cara, é
um cuzão.

***

“Ah, Hilda, preciso da solidão”. Precisa da solidão um caralho! Como


é que o cara inventa tal desculpa pra não ficar comigo? E aquela punheta não
valeu de nada? Pra que então dizer que eu era gostosa e inteligente? Pra depois
ficar com aquele papinho de solidão. Que filho da puta! Admito, no entanto,
que continuo achando-o foda como escritor. Sabe como deixar meu espírito
molhadinho. Mas, porra... só o espírito não vale. Gosto de literatura pra
caralho, mas gosto de pica também. Nosso último encontro foi ridículo. De
novo: solidão pra cá, solidão pra lá. Esse caralho-de-asas não parava de sair
de sua boca. Quem era ele pra ter tanta saudade assim de si mesmo? Não era
isso a solidão? E eu que pensava que a solidão de escritor era uma aura
metafísica como a solidão de Deus. Porra nenhuma. A solidão de Enzo era
composta de cervejas e banheiros. Ele praticamente comia cocaína e vomitava
solidão todas as noites, e ainda dizia que isso era viver. Que cara idiota. Fico
me perguntando: como pode um gênio na literatura ser na realidade um
grande cuzão? E antes que essa imagem afete a impressão que eu tenho de
sua literatura, vou tentar guardar na memória apenas o Enzo Juan da Silva do
meu imaginário, aquele refletido nos seus textos. Já na realidade, na vida
cotidiana, vou atrás de outro cara. Um cara que possa compartilhar o caralho-
de-asas comigo. Quem sabe um dia eu conheça o carinha que escreveu O
estouro da artéria de um cavalo húngaro?

THIAGO RONEY é autor dos livros O estouro da artéria de um cavalo


húngaro (Multifoco, 2013), A merda do mundo (Thysanura, 2015), em
coautoria com Arcângelo Ferreira, e do conto, na coleção Formas Breves,
A panela velha do mundo (E-galaxia, 2014).
MEIA-NOITE EM MANAUS
(OU UM WOODY ALLEN
TUPINIQUIM)
Bruno Oliveira

E
u juro, eu juro pra ti, menina, e de pé juntinho, que isso aconteceu:
eu conheci de verdade verdadeira o Mário de Andrade. É claro que
eu estava um pouco alterado, mas isso não afeta de modo algum a
narrativa.

Foi no início do ano passado, quando eu ainda frequentava os antigos


Galpão e Itaúba, lá no centro da cidade. Geralmente acontecia de sair de um
e entrar no outro, incessantemente, ouvindo funk e dançando rock, pra assim
saciar um vazio, num engajamento existencial. O vazio era só interno, porque
externamente estava eu sempre acompanhado do Casqueta, que na época era
ainda um suicida em potencial – hoje, um morto. A gente se encontrava
principalmente pra falar sobre literatura, política, filosofia, e outras bobagens
intelectuais, mas tudo isso era só fachada pra justificar algo bem mais banal:
estávamos ali por causa de mulher. Um, ele, porque estava com o coração em
retalhos depois de um término; o outro, eu, porque só faz as coisas para
impressionar. O Casqueta chegou com um conto muito bom nesse dia: era
algo sobre um cara que acordava morto, mas ninguém acreditava nesse fato.
Faziam-no ir trabalhar, ir à igreja, a respeitar as leis, a absorver as instituições,
a levantar o chapéu quando a autoridade passava. E mesmo que o morto
lutasse para comprovar que estava morto, e mesmo quando fedia, ninguém
ligava. Ele precisava mesmo era produzir. Mas o Casqueta não conseguia
terminar esse texto. Nunca conseguiu.

Quem mandava o som naquela noite quente era a Pessoa Não Grata, e a
gente já tinha colocado uns seis litrões para dentro. Eles tocavam a última
música, em plena madrugada, quando começamos a discutir para onde
iríamos depois que a casa fechasse; o que fazer agora no centroso?
Cambaleantes, pegamos a Ferreira Pena em direção a Dez de Julho, e em
frente ao que restou da Santa Casa de Misericórdia, eu senti uma espécie de
vertigem, como se olhos nada imaculados nos observassem – podia ser os
viciados? Podia, sim; podia ser alguém comendo um travesti? Podia, sim;
podia eu estar alucinado? Podia, sim; mas eu sabia, no fundo, que esse algo
era o que meu materialismo negava. “Porra de fumaça da desgraça é essa?
Mas que cidade estranha”, eu pensei. Um ar cinzento foi tomando conta, o
grande prédio abandonado me vigiava, e eu tinha um sentimento panóptico
crescente, ao mesmo tempo que era tentado pelo seu encanto a invadi-lo. Eu
gelei com a possibilidade de entrar ali. Já ouvi relatos dos vultos, dos gritos,
das correntes, da dor, do sangue, da carne podre, do osso corroído; ou, o que
era pior, dos vivos que ainda o habitavam. Senti dificuldades para respirar,
para pisar o chão, seguir em frente até chegar ao Teatro. “Por que desgraça
eu ainda fumo tanto, se nem gosto, e faço só por pose?”. Fiquei encarando os
olhos vigilantes do prédio; que tamanha tentação entrar! Porém, a hipnose foi
interrompida. Um guardinha berrou de longe, enquanto ensaiava correr atrás
da gente, dizendo que chamaria a polícia caso não pegássemos o beco.
Fugimos. Mas ainda ouvimos o seu “baderneiros, filhas da puta. Não têm
mais o que fazer, não?”. Não tínhamos.

Cheguei cansado e ofegante em frente ao Arte e Fatos cheio de pocs e


alternativos. Comprei um cigarro numa barraquinha, o que aumentou
desgraçadamente a fumaça. Por sugestão do Casqueta, fomos descansar na
charrete do Teatro. Ouvimos risinhos tímidos, vozes sussurrantes, olhares
dengosos. Erámos dois homens duros para duas garotas suaves. Uma alta;
outra gorda. Aquela magra; essa baixinha. Muitos tecidos, espartilhos,
vestidos e chapéus longos. Recatadas e rebeldes ao mesmo tempo. Eram
roupas do início do século passado. Bonito mesmo eram as suas sombrinhas
para se proteger do sereno. Nunca tirei essa dúvida da cabeça, mas eu sabia
que ali era mais um vestígio do passado se aproximando do presente, num
salto temporal, que só o calor dos trópicos, a floresta ancestral e o realismo
fantástico poderiam trazer. De fato, não lembro do que elas falaram, só dos
seus risos de ratinhos, do beijo na testa, do último trago no cigarro, do piscar
antes do cochilo já dentro da charrete.

O Casqueta, de olhos arregalados que gritavam na argumentação,


envergava gargalhadas de euforias e perplexidades por causa desse homem
calvo, forte de largo e olhos negros profundos. “A ideia é simples. Eu vou
criar uma narrativa épica sobre o povo brasileiro, sem esquecer jamais do
canibalismo intelectual; numa mistureba doida entre o que é nosso e o que é
deles. Mas é claro: a linguagem é a do povo. Esse é o aspecto formal. E é isso
que falta no teu conto: falta a tua cidade, o teu homem de Manaus, falta
verdade, falta... há ausência, entende?” Eu entendia, mas acho que o
Casqueta, não. Era hora de baixar a cabeça, e ele não baixava. “A minha
viagem se justifica por isso: estou colhendo fábulas em todos os lugares do
Brasil. Mas ainda não encontrei o ponto de partida. Nenhuma das que eu
encontrei me agradam. Entende?” Dessa vez, nós dois entendemos. “E o
Amazonas é mesmo o meu último destino. Depois volto para São Paulo”.
Quase em uníssono falamos: “Não!” E eu continuei. “Tu precisas ir até
Roraima. É lá que tu vais encontrar o que tá procurando, Mário”. Ele nos
olhou assustado, mas agradeceu a efusiva indicação. Por fim, falou: “eu me
sinto estranho, como se eu fosse um personagem de um conto ruim”. Nos três
entendemos

Tem mais não

BRUNO OLIVEIRA é professor e graduando em Letras pela Universidade


do Estado do Amazonas (UEA). Compositor e escritor de contos e poesias.
Amante do nada e fazedor de inutensílios.
POESIA

32 PRISCILA LIRA
34 MÁRCIA WAYNA KAMBEBA
37 SUSY FREITAS
41 PAULO MONTEIRO
43 P. F. FILIPINI
48 CARLOS ORFEU
LIÇÃO 6
A bruxaria da ferida é não ter mais que um sentido:
aquele que todos nós sabemos
e do qual não se pode fugir.

Ferida é um pedaço teu que morre, e só.

O fracasso te rasga,
o amor te rasga,
uma queda no asfalto te rasga,
o mundo te rasga

e é lá onde essa palavra se instala: no rasgo.


FE-RI-DA
sem duplos sentidos, sem incompreensões.

Não há para onde sumir,


ela só dói, ela vai doer

até que o teu pedaço apodreça


e vire casca.
LIÇÃO 8 (PALAVRAS MAL COZIDAS)

Cru não percorre apenas o entorno da tua boca:


se infiltra na goela como uma faca, sem tempero
nem cozimento.
Teu paladar renega
e cospe ela fora.

Garganta também:
te sufoca nas três sílabas
para estapear na tua cara o gosto que ela tem.
Gosto de coisa crua, coisa que tem gosto de sangue,
que te arranha três vezes
até a língua vomitar no último
A.

PRISCILA LIRA nasceu em Pitinga, Amazonas, em 1991. É escritora,


professora, mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do
Paraná, artista visual e curadora. Publicou Manual de Feitiçaria (poesia) e
O Barulho do Mormaço (contos), ambos disponíveis no Calaméo.
MINHA PENA VERMELHA

Nas cores das minhas plumas,


minha identidade encena
a sutileza do meu caminhar,
a minha pele morena
pintada de jenipapo,
contrastando com a minha pena.

No brilho dos meus olhos negros,


de formato amendoado,
sai um olhar penetrante
feito bicho acuado.
Quando se sente ferido,
quando se sente afetado

pelo preconceito que impede


nosso povo de crescer,
no olhar de estranheza não posso permitir
que may-tini venha minha alma ferir.
SER INDÍGENA – SER OMÁGUA

Sou filha da selva, minha fala é Tupi.


Trago em meu peito
as dores e as alegrias do povo Kambeba
e na alma, a força de reafirmar a
nossa identidade
que há tempo ficou esquecida,
diluída na história.
Mas hoje revivo e resgato a chama
ancestral de nossa memória.

Sou Kambeba e existo sim:


no toque de todos os tambores,
na força de todos os arcos,
no sangue derramado que ainda colore
essa terra que é nossa.
Nossa dança guerreira tem começo,
mas não tem fim!
Foi a partir de uma gota d’água
que o sopro da vida
gerou o povo Omágua.
E na dança dos tempos
pajés e curacas
mantêm a palavra
dos espíritos da mata,
refúgio e morada
do povo cabeça-chata.

Que o nosso canto ecoe pelos ares


como um grito de clamor a Tupã,
em ritos sagrados,
em templos erguidos,
em todas as manhãs!

MÁRCIA WAYNA KAMBEBA nasceu na aldeia Belém do Solimões, no Alto


Solimões, Amazonas. Indígena do povo Omágua – Kambeba, é mestre em
Geografia, poeta, escritora, compositora, fotógrafa, contadora de histórias
e palestrante. Publicou dois livros de poesia Ay kakyri Tama (Grafisa, 2013)
e O lugar do saber (Casa Leiria, 2018).
MANUAL
Ande com a cabeça baixa.
Cegue o fascista ao seu lado.
Permita o bloqueio do silêncio.
Construa barreiras de ódio.

Olhe por cima dos carros.


A janela do coletivo
dá cena ao proletariado.

Leia um livro escondido.


Alimente o medíocre.
A máscara é um pouco seu rosto –
segredo seguro comigo.

Tenha memória.
Um fantasma é
antes de tudo
uma longa história.

Quebre a sua cara.


Diga que me ama.
Todo coração
rima com lama.

Despedace todas as páginas.


A calçada bebe lágrima.
Entregue o corpo à avenida.
Ultrapasse a faixa contínua.

Olhe pra além dos retângulos.


A janela é só um preâmbulo.
A dor só conhece o que é vivo.
ANATOMIA

Derme.
Epiderme.
Suor.
Nesse embrulho me dou pra ti
e em algum lugar aí
entre os laços
e rasgos
há gestos
que burlam
qualquer economia de precaução.

Abrem meus braços


e fervem.
Em algum lugar aí
entre os laços
e rasgos
eu existo?
Frágil-porém-inteira?

Suor.
Sim.
Toque.
Como se coordena o tráfego
de invasor a convidado?
O que jaz atrás das cortinas?
A que se prendem as cordas
da marionete?
Tu não controlas nada.
Tu te moves graciosamente
como vídeos de demonstração
em expositores de TV.
Repetes histórias coloridas
e um looping de olhos te admira
e te atravessa em alta definição
mas tu não queres dizer nada.

Abrem-se os cílios
e sigo.
Em algum lugar aí,
entre os laços
e rasgos
eu resisto?
Inteira-porém-precária?

SUSY FREITAS nasceu em Manaus, Amazonas. É autora dos livros Véu sem
voz (Bartlebee, 2014) e Alerta, selvagem (Patuá, 2019), vencedor na
categoria Violeta Branca Menescal (poesia) do Prêmio Literário Cidade de
Manaus 2018.
OLHOS DE SERPENTE
figuras penduradas
no tempo
copos quebrados pela loucura
dedos amputados
guardados no congelador
amanhã tentarei costurá-los
minha fome aumenta
o tempo não aguenta mais as figuras penduradas
enquanto os anjos ainda pulam de prédios
e cabeças são perdidas em reuniões
na sexta-feira santa
fazendo sombra na calçada
onde moças caminham
com suas mãos engessadas
ainda há inocência
nos olhos da serpente.
LUSO – CACOFÔNICO EM OITAVA

o espectro azul atravessa a parede


prisão de virgens telepatas
psico-hackers não captaram a mensagem

King Mob viagem astral


na França com cheiro de cu

debates anarco-monarquistas
na pista de minhas orelhas
falácias entregues ao povo faminto
seres invisíveis 365 vezes

servo da cacofonia
beijando a bunda de Ginsberg

nos carrinhos de supermercado


os cartões de crédito estão cheios de cocaína.

PAULO MONTEIRO nasceu em Manaus, Amazonas, em 1991. Começou a


produzir tanto colagens quanto poemas em 2011. Após um tempo,
começou a produzir zines, nos quais publicava textos e colagens. É autor
do livro de poemas Jazz Para Rinocerontes (Moinhos, 2017).
XIX.
Em tudo quanto feri, fui
ferida

porque, quieta, a memória


se exaspera quando

a palavra ou o gesto abre


frestas

na dor do outro

[...]

Todo amanhecer me violenta


E triste, choro o sereno

Mas a tarde cai e eu morro


alegre com a festa de meus
silêncios.
XXXIV.

Tudo em mim se sente como


quem partiu

caminhou, voltou sem os pés


sem as mãos, sem o corpo

só restando a alma, as veias


e o silêncio

Porque não são as cicatrizes


que a pele coleciona

não são os sofrimentos


nem as dores

O que não sara é a inflamação


que a vida deixa em nós.
SOFRO DE ÁRVORES QUE NASCERAM [...]

Sofro de árvores que nasceram


velhas, me cortando o espírito
transformando minha carne
em céu estrelado:
semente de solidão

Sou algo, a mobília do mundo


Mas se eu existo
o vento não pode atravessar
minha existência
tem de fazer a volta em mim.
A VIDA É ESTA FRESTA ENTRE [...]

A vida é esta fresta entre


os pores do sol

que tramam a existência


das coisas

no fim de morrer

[...]

O que é efêmero não dá


trégua.
ÀS VEZES ME PEGO QUERENDO [...]

Às vezes me pego querendo


ser árvore

árvores não machucam


ninguém

seus galhos são seu silêncio

[...]

quem dera ter pássaros


na minha mudez.

P.F. FILIPINI nasceu em Rolim de Moura, Rondônia, em 1994. Escreve. E


nas horas vagas, existe: esta é toda sua substância. Vive através de uma
timidez que lhe parece inerente, e é por isso que escreve: para ordenar
cernes, e tentar penetrar à realidade que sua conjuntura tanto dificulta.
Publicou FOLHAS DOS OSSOS ou o tratado das coisas insignificantes
(Patuá, 2017) e Ensaio sobre a Geografia dos Cernes (Temas Originais,
Portugal, 2017).
DEBAIXO DA PIA [...]
debaixo da pia
um par
de mágoas
envelhece

ratos visitam
a caligrafia das estradas
grafadas na lamúria das solas

no
ato
da
fome

como se fossem restos


de estômagos nos pratos
roem cada parte sentimental do couro

devoram
o tempo
e os endereços
sem o esteio do retorno
da classe social
de
ordinárias
botas
tristes
NO FOCINHO DO FUZIL [...]
no focinho do fuzil
a paz mutilada

nas vielas
o incêndio dos sangues
a chacina dos sóis

o medo é o traje de cada manhã


mais escura que à noite

fuzilam
a cor negra dos corpos
sua honra
concede pétalas de lágrimas
em revoada

sobre o asfalto
o declínio no beijo da mãe
com o fel de grito na articulação das juntas do pai
ajoelha cruzes no rosto do filho

a tragédia solta seus cães


coturnos famintos
desfilam sua pérfida fúria
latem algoz a covardia

o repórter cumpre a ordem do sistema


oculta
da lente
a morte
silenciosa
coletando ossos
o riso canta
na residência de lábios
que sonham amanhecer.

CARLOS ORFEU nasceu em Queimados, no Rio de Janeiro. O poeta


tem textos publicados em importantes revistas e jornais literários
brasileiros, além dos livros Invisíveis cotidianos (Literacidade, 2017) e
Nervura (Patuá, 2019).
CHAMADA
Para a próxima edição, a Torquato aceitará colaborações através do envio de textos
para o e-mail revistatorquato@gmail.com de 15 a 30 de novembro de 2019. Leia as
regras abaixo para saber como participar da seleção:
i. Revise atentamente o texto antes
1. Regras gerais: de enviá-lo.
a. A Torquato tem como norte o
combate ao racismo, lgbtfobia, 2. Para o envio de poesia:
machismo, fascismo e outras a. Aceita-se o envio de até
expressões de preconceito e cinco (5) poemas, que devem
desigualdade. Não buscamos, ser ordenados em um único
obrigatoriamente, apenas textos arquivo, seguindo as
panfletários, mas que discutam, especificações do item “1”.
desprezem, ironizem e/ou reflitam b. Apenas caso o autor
o absurdo de tais práticas. avalie como relevante, as
b. Temáticas mais gerais e/ou que especificações assinaladas em
perpassem as margens de tal linha “1.f” podem ser ignoradas.
editorial também são bem-vindas.
c. Enviamos uma confirmação 3. Para o envio de prosa:
automática de recebimento de e- a. Aceita-se o envio de
mail (o que não significa a apenas um (1) texto em prosa
aprovação para publicação). para avaliação.
d. Não damos parecer dos textos. b. Sugerimos textos de, no
e. Se aceito o texto, informamos ao máximo, sete páginas, dentro
autor via e-mail. da configuração apontada em
f. Os textos devem ser enviados em “1.c”.
arquivo do Word, com fonte Times c. Trechos de capítulos,
New Roman, tamanho 12, contos e crônicas serão
espaçamento 1,5. avaliados, desde que sigam as
g. Ao nomear o arquivo, deve-se diretrizes aqui apresentadas.
especificar o gênero do texto, o
título e o nome do autor, tudo em 4. Para o envio de Artes visuais:
caixa alta (exemplo: POESIA –
Avaliaremos as propostas caso a caso.
DADDY – SYLVIA PLATH.docx).
De maneira geral, sugerimos o envio de
h. O autor deve enviar uma minibio
de até 500 caracteres no mesmo 5 a 10 unidades (fotografia, ilustrações
arquivo. etc.), junto a um arquivo de texto com a
minibio de até 500 caracteres.
A quem se deve a duração da tirania? A nós.
A quem sua derrubada? Também a nós.
Quem será esmagado, que se levante!
Quem está perdido, que lute!

(Bertold Brecht)

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