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O Museu Afro-Brasileiro

da Universidade Federal da
Bahia apresenta:

O mundo do Assobá Gravador


HÉLIO de OLIVEIRA
“ Meus trabalhos encontram no afro-baiano o motivo
para a sua expressão. Procuro transmitir ou traduzir o sentimento
verdadeiro dos adeptos de minha religião


diante de objectos litúrgicos, pegis e Orixás.
HÉLIO DE OLIVEIRA

“ Se a temática do artista deve ser fruto de uma vivência


autêntica; Se a criação exige uma sensibilidade privilegiada;
Se o artista deve apresentar contribuições pessoais e enaltecê-las
para o acervo espiritual da humanidade; Se o artista deve oferecer um
produto insubstituível, ímpar e intensamente expressivo; Então,
Hélio de Oliveira fez, através da xilogravura, obra de arte.

JUAREZ PARAÍSO
Hélio de Oliveira,
herói cultural afro-brasileiro 5

Cláudio Luiz Pereira


(Antropólogo - CEAO/UFBA)

S
e nossa amnésia social cessasse, ainda plásticos, dormitam na liminaridade das
que fosse por um ínfimo de segundo, e reservas técnicas de nossos museus.
nos tirasse um pouco do torpor desta A vida do artista poderia inspirar uma
nova barbárie e do empobrecimento de nossa narrativa romântica, alternando momentos
experiência cultural, dentre os artistas baianos de alegria e dor, de drama e tragédia, como só
do século XX que mereciam ser lembrados, acontece aos homens incomuns. Obscuridade
com interesse e destaque, Hélio de Oliveira e reconhecimento, pranto e riso, devoção e fé,
despontaria como sendo um daqueles que, formam passagens na vida deste trânsfuga,
inegavelmente, deveriam gozar de prestígio com trânsito em dois mundos que naquele
e projeção no cenário da cultura brasileira. instante se encontravam: as artes plásticas
Hélio de Souza Oliveira foi um homem do e o candomblé. Clarival do Prado Valadares,
povo. Negro, pobre, magrinho, tímido, um dos grandes críticos de arte baianos, seu
doente... Seria fácil formar um rol médico durante tratamento de leucemia,
de desvantagens do que poderiam ter sido no Hospital das Clínicas, chegou a esboçar sua
obstáculos no seu itinerário, dificuldades que biografia numa novela, que permanece inédita.
foram superadas pelo artista em vida, e na Geraldo Sarno, um dos grandes cineastas
posteridade que lhe é consequente. Acredito brasileiros, cogita, desde os anos 70,
que, por isso mesmo, Hélio de Oliveira deveria sobre ele fazer um filme.
ser elevado à condição de um herói cultural, Helinho, como ficara conhecido entre os
aquele que é reconhecido como tendo amigos, nasceu em Salvador, no dia 8 de
obstinadamente vencido a tudo, inclusive os janeiro do já longínquo ano de 1932. Seu pai
fatores redutores da cultura, que enfatizam era Ogã no terreiro do Ogunjá, razão pela qual
novidades transitórias e condenam ao ele e sua irmã, D. Edna, se tornaram afilhados
ostracismo nosso patrimônio consolidado, diletos de Procópio de Ogum, personalidade
aquilo que nos foi legado pelas gerações importante do mundo afro-baiano, sendo,
passadas, e que, no caso dos nossos artistas portanto, criado no interior do mundo dos
candomblés, no convívio íntimo com o exposições. No momento em que ele compõe
sagrado, e no respeito estrito a esse. Cresceu sua obra o mundo afro-baiano quase não tem
no medo e no assombro, e no fascínio que nos visibilidade no mundo das artes. E note-se
dão aquelas coisas ocultas que edificaram a que neste período não faltavam artistas negros
6 humanidade do homem. que gozavam de reconhecimento: José de
Dome e João Alves eram pintores; Agnaldo
Ele entrou para a Escola de Belas Artes em
dos Santos, escultor de projeção, morre de
1958, frequentando o curso oficial e, depois,
doença de chagas no mesmo ano que Hélio,
o curso livre de gravura. Situada na Rua 28
o primeiro em abril, o segundo em outubro.
de setembro, quase na Praça dos Veteranos,
José Guimarães, branco, é tido como um
Baixa dos Sapateiros, a velha escola, já filiada
dos primeiros que se dedicou a temas afro-
a Universidade da Bahia e que posteriormente
brasileiros, compondo o emblema para o
se tornaria UFBA, contratara, após a aquisição
II Congresso Afro-Brasileiro, realizado em
de uma máquina de impressão, em 1951,
Salvador, no ano de 1937.
importantes mestres como Mário Cravo
Junior, Henrique Oswald e Hansen Bahia, para Ali era a época dos salões, dos happenings
instruir seus alunos, avalizando toda uma das primeiras galerias de arte moderna em
geração que modernizaria as artes baianas, Salvador, dos críticos que tinham talento como
e cujo efeito de renovação perduraria durante artistas da análise estética. Hélio deles recebeu
décadas, muitos dos quais reconhecidos afortunados elogios. Lina Bo Bardi, por
gravadores: Juarez Paraíso, Sante Scaldaferri, exemplo, que aqui vem fundar um Museu
Calasans Neto, Ângelo Roberto, Riolan de Arte Popular, falava dele com respeito.
Coutinho, José Maria de Souza, Yêdamaria Valadares condenava seu desenho, mas via sua
e Lênio Braga, dentre outros, fizeram parte gravura com entusiasmo. Ademais, simpático
desta geração de modernistas a qual Hélio de e bom companheiro, Hélio acompanhou os
Oliveira pertenceu. Emanoel Araújo, artista colegas tanto aos candomblés quanto ao
negro baiano, importante formulador do circuito das artes locais. Conheceu
conceito de afro-brasileiro no mundo artístico Luis Paulino e Glauber Rocha, tornando-se
nacional, foi seu contemporâneo na Escola de consultor para assuntos de religião afro-
Belas Artes, e tornar-se-ia o principal brasileira para o filme Barravento.
divulgador da obra de Hélio, décadas depois.
Sua trajetória ascendente, entretanto, foi
Vale lembrar que muitos eram os artistas de tolhida pela malfadada sorte. Em 1962, o
talento naquela efervescente Bahia artística infortúnio, na forma de doença,
das décadas de 50 e 60, do Clube de Cinema assombrou-lhe os derradeiros dias. A morte,
da Bahia, da Jogralesca, do reitorado de esta megera indomável também cavalgaria sua
Edgard Santos, da criação do CEAO. Ainda fama, com especulações, interpretações de
estudante, Hélio realizou suas primeiras causalidade, juízos, e esta espécie de paixão
Em cima: Sante Scaldaferri na sua
primeira exposição individual, em
1960, acompanhado de Leopoldo
Amaral Jr., Emídio Magalhães, José
Maria e Hélio de Oliveira.
Em baixo: Hélio na sua primeira
exposição individual, em 1960.
(fotografias do arquivo pessoal de
Sante Scaldaferri)
incerta que parece fundamentar o fascínio babalorixá, com seu protagonismo próprio
pelos artistas mortos prematuros, que é tão naquela encantada Bahia dos meados do
característica de nossa cultura. Por que o século XX, com suas perseguições policiais aos
destino ceifa-o da vida tão precocemente? terreiros e suas humilhações sociais impostas
8 Teria morrido de “coisas feitas” ensejadas ao povo de santo. Hélio vai mostrar
por algum adversário na sucessão de seu avô de um modo diferente este mundo, vai revelar
recentemente morto? Teria sucumbido punido aquilo que publicamente não se via, senão sob
pelos deuses por revelar segredos insondáveis a ótica da intolerância e do preconceito.
para o filme de Glauber Rocha? Teria sido Mostra esta obra o que, no seu mundo,
vítima apenas da fatalidade? Helinho tinha de mais valioso: os símbolos
A obra de Hélio, isto é, suas cinquenta do candomblé expressam o que ele vislumbra
gravuras, aquilo que ele deixou gravado e como transcendental, ou seja, aquilo que
podemos ver amiúde, foi tecida com vigor requer ato de devoção. Expressam, portanto,
pelas mãos hábeis de um artesão extraordinário: a maneira como pode ser visto em traços fixos
são linhas de talhos sensíveis ou contrastes de o que pertence à dimensão da fé. Os símbolos
branco e escuro, elaborados por uma afiada não são apenas o que eles nos revelam a
gilete sobre a superfície da madeira, como primeira vista, bem sabemos. Nem toda cruz,
se fora um bisturi sobre carne viva no seu pois, é crucifixo, podendo ser apenas uma
propósito de talhar beleza, e que compõem, encruzilhada. Tudo depende de com que tipo
no seu todo, uma tecitura, e, pois, evoca um de astúcia municiamos nossas crenças, e da
texto, uma narrativa qualquer que explique maneira como nossos olhos perscrutam nosso
as imagens lá registradas. mundo em busca de verdades etéreas. Acredito
que é isto que a obra de Hélio de Oliveira quer
Esta tecitura se configura por um mundo
nos dizer na sua mais substancial simplicidade.
de aparições que clamam, e discursam,
sobre outro mundo encantado: aquele dos O artista através de sua obra narra, sobretudo,
candomblés da Bahia. São Pejis com seus o que é fruto de sua condição de iniciado no
sacrifícios e oferendas, yaôs em êxtases, candomblé, e do título honorífico que se fez
chamas de velas que queimam e iluminam portador: o de Assobá do Terreiro do Ogunjá.
assentamentos e objetos votivos, vasilhas E, assim sendo, daquele mundo, daquela
de barro, otás, lanças e ferramentas de ferro, vida, que ele viu com seus olhos inocentes de
uma profusão de símbolos religiosos e signos criança, e que compreendeu na sua condição
da nossa cultura afro-brasileira que lá entram de homem já formado, sublimando em traços
em rotação. Expressam imageticamente artísticos o que havia de desígnio na sua vida,
o mundo do artista, do orixá que ele tem já que o contato com o sagrado é por demais
e que o escolheu, assim como o mundo do avô ambivalente, exigindo permanente mediação e
Procópio de Ogum, venerado e temido distanciamento, pois une de forma inseparável
o que é criativo ao que é destrutivo, em uma
dança concêntrica e misteriosa, da qual
homem algum jamais voltou para contar
sua história. Hélio era de Omulu, este Orixá
colérico, cujo nome, quase impronunciável, é 9
fonte de temor e que, uma vez desobedecido,
enseja castigo mortal. Em face da prevalência
de sua obra, pode-se dizer que Omulu fez-lhe
uma justiça derradeira.
A obra de Hélio, nesta perspectiva, discursa
sobre coisas familiares ao artista e ao mundo
do povo e, certamente, estranhas e exóticas
aos seus espectadores de então. Fala de coisas
secretas como se fossem coisas sabidas, nos
dá a noção que as imagens são também
portais, fronteiras que separam mundos. São
instantes sólidos de sua experiência, eventos
íntimos que ele viu e reteve incontinente,
que processou laboriosamente, e arduamente
exprimiu com talhos e cortes. Um mundo
de formas que prescindem cores, de ritmos
que povoam afetos, de ritos de fé e daquilo que
eles descortinam, de ícones em sua forma mais
bruta. São naturezas-mortas de coisas vivas,
conteúdos onde pulsa sua espiritualidade. São,
por excelência, expressões humanas diante do
inevitável, como a doença e a morte. Rogam
aos Deuses, pois, como pura renúncia e esperança.
Um herói cultural como Hélio de Oliveira faz
tanta falta a seu povo...
10

s/título
xilogravura, 54.5 x 37.7 cm
coleção MAFRO
11

s/título
xilogravura, 52.1 x 37.7 cm
coleção MAFRO
12

s/título
xilogravura, 66.3 x 38.8 cm
coleção MAFRO
13

s/título
xilogravura, 42.5 x 55.1 cm
coleção MAFRO
14

s/título
xilogravura, 45.9 x 54.3cm
coleção MAFRO
15

s/título
xilogravura, 77 x 33 cm
coleção MAFRO
16

s/título
xilogravura, 62.4 x 46 cm
coleção MAFRO
17

s/título
xilogravura, 48.4 x 65.7 cm
coleção MAFRO
18

s/título
xilogravura, 48.3 x 60.5 cm
coleção MAFRO
19

s/título
xilogravura, 67 x 48.4 cm
coleção MAFRO
20

s/título
xilogravura, 58.4 x 36.5 cm
coleção MAFRO
21

s/título
xilogravura, 74.4 x 45.3 cm
coleção MAFRO
Hélio na coleção do MAFRO
22

As doze gravuras de Hélio de Oliveira foram Com o passar do tempo e após um longo
doadas, em 1982, ao Museu Afro-Brasileiro período em exposição, as obras sofreram
pelo Reitor Luis Fernando Seixas de Macedo alguns danos provenientes da exposição à luz
Costa, reproduzidas e autenticadas pelos e das condições de temperatura e umidade
artistas plásticos Juarez Paraíso e Franscisco inadequadas à sua conservação, sendo
Liberato de Matos. retiradas e permanecendo guardadas na
reserva técnica. Recentemente passaram
Esta iniciativa, no ano de fundação do museu,
por um processo de limpeza e restauração
representava o desejo da UFBA em dotar
sob os cuidados da Prof. Ana Maria Villar e
o acervo de obras contemporâneas realizadas
retornam nesse momento ao espaço expositivo
por artistas baianos com a temática afro-
para reativar a memória de Hélio de Oliveira
brasileira e, ao mesmo tempo, homenagear
e apresentar ao público a sua linguagem
o trabalho pioneiro realizado por Hélio,
plástica, rica dos símbolos e imagens do
pouco antes de morrer prematuramente
candomblé.
quando ainda era aluno da Escola de Belas
Artes, vinte anos antes da existência do museu.
FICHA TÉCNICA

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA


REITORA

Dora Leal Rosa


VICE-REITOR
Luiz Rogerio Bastos Leal
DIRETOR DA FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
João Carlos Salles Pires da Silva
COORDENADORA DO CENTRO DE ESTUDOS AFRO-ORIENTAIS
Paula Cristina da Silva Barreto
COORDENADOR DO MUSEU AFRO-BRASILEIRO
Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha
CURADORIA
Cláudio Pereira
ASSISTENTES DE CURADORIA
Maria Emilia Valente Neves e Maria do Rosário Pereira
Marcelino
PROJETO GRÁFICO/EDITORAÇÃO
Marta Alves de Oliveira
FOTOGRAFIA
Jorge Antonio do Espirito Santo Batista
RESTAURAÇÃO DO ACERVO
Ana Maria Villar

Museu Afro-Brasileiro
Faculdade de Medicina – Terreiro de Jesus
Centro Histórico / CEP: 40.025-010
Salvador – Bahia
Telefax: (71) 3283- 5540
www.mafro.ceao.ufba.br
mafro@ufba.br
Agradecimentos

Sante Scaldaferri, Juarez Paraíso, Geraldo Sarno, Programa


INOVART - Ministério da Cultura (Portugal), Edufba.

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