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Departamento de História

VIOLÊNCIA E CRÍTICA DO PROGRESSO EM GEORGES SOREL

Aluno: Jonas Thobias da Silva Dias Martini


Orientador: Marcelo Gantus Jasmin

Introdução
Foi realizado um estudo sobre o conceito de violência do teórico francês Georges Sorel
(1847 – 1922) e sobre suas concepções acerca do progresso. Inicialmente, foram efetuados
tanto a leitura quanto o fichamento da obra Reflexões sobre a Violência. Neste trabalho,
originalmente escrito em 1906, pode-se perceber que o autor se esforça por ressignificar tal
conceito a partir da apologia ao mito da greve geral da classe trabalhadora.
Em seguida, optou-se por realizar uma busca mais atenta sobre esse pensador. Deu-se,
portanto, prosseguimento à pesquisa em textos e dicionários que permitissem levantar sua
bibliografia, bem como produzir um esboço de sua biografia intelectual. Para essa tarefa,
foram eleitos, sobretudo, o Dicionário de obras políticas e o Dicionário de Política,
organizados, dentre outros, por François Châtelet e Norberto Bobbio, respectivamente.
Por conseguinte, a leitura e o fichamento de outro livro de Georges Sorel, intitulado As
Ilusões do Progresso, compilação de escritos também publicados em 1906, foram importantes
ao andamento da pesquisa, na medida em que proporcionaram tanto uma visão das teorias de
progresso quanto a crítica das mesmas, empreendida pelo autor menos de dez anos antes do
limiar da Primeira Guerra Mundial.

Objetivos
A pesquisa intitulada Conceitos de violência política: a teoria política e a Primeira
Guerra Mundial pretende auxiliar a compreensão das alterações conceituais da violência
através da reflexão política, sobretudo, do começo do século XX europeu, partindo da
experiência da Primeira Guerra Mundial.
Dentro da perspectiva da história conceitual, partiu-se da hipótese de que haveria uma
ressignificação do conceito de violência, pertencente até então à suposição, produzida em
particular pelo pensamento iluminista, de que seu uso seria cada vez mais marginal na
resolução de conflitos políticos. Isso se daria pela ideia de que a humanidade vivia um
processo civilizatório que rumaria sempre em direção ao progresso, onde não caberia o
emprego da violência. A forte presença desta na guerra iniciada em 1914 provocaria uma crise
dessas crenças evolucionistas e, ao mesmo, um esforço de reinscrição da violência na
autorreferência europeia sobre a natureza humana.
Assim sendo, objetivou-se estudar como isso se daria nas obras Reflexões sobre a
Violência e As Ilusões do Progresso. Apesar de se tratarem de textos produzidos às vésperas
da Grande Guerra, esses trabalhos manifestam um pensamento que parece corresponder ao
esforço de mutação conceitual da violência, além de tentar produzir um ponto de vista crítico
sobre as teorias de progresso.
Desse modo, a pesquisa sobre Georges Sorel busca extrair da teorização do sindicalismo
revolucionário, onde suas ideias são comumente associadas, a ressignificação da violência
que Sorel empreende na apologia à ameaça da greve geral operária. Ter-se-ia aí a elaboração
de um sentido político legítimo que justificaria o emprego da violência tal como concebida
por esse autor. Pode-se dizer que a apreensão de como isso se daria constitui o principal
objetivo desta pesquisa.
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Metodologia
A metodologia empregada nesta pesquisa refere-se à mesma utilizada pela chamada
história dos conceitos. De modo geral, essa forma de se fazer história se interessa pela
observância sincrônica e diacrônica do uso dos termos em determinada conjuntura. Através da
significação atribuída aos conceitos por seus atores, poder-se-ia chegar a uma melhor
compreensão da experiência contemporânea ao seu emprego, respeitando as circunstâncias em
que foram formulados e evitando anacronismos e/ou falhas interpretativas.
Diante dessa proposta, optou-se por começar a trabalhar a partir da literatura produzida
no período limiar do século XX. Encontrou-se aí as Reflexões sobre a Violência [4], de
Georges Sorel, texto que pode ser considerado um dos mais importantes do autor, uma vez
que é por meio dele que seu pensamento se fez mais conhecido. O conteúdo dessa obra expõe
de maneira mais profícua a concepção soreliana de violência. Através do seu próprio
arcabouço conceitual, Sorel a distingue da força física bruta a que costumeiramente era
associada e a iguala à ameaça da inação manifesta no mito da greve geral.
Opondo-se ao socialismo parlamentar e expondo suas argumentações anti-estatais,
nutridas, dentre outros, pelo Caso Dreyfus, mobilizador da intelectualidade da época, o autor
propõe o erguimento do sindicalismo revolucionário, do qual ficará conhecido como um dos
principais teóricos.
Observou-se que a preocupação soreliana se concentra na desenergização das classes,
manifesta na ilusão de que houvera o desaparecimento da violência e uma decorrente
pacificação superior aos ódios e aos antagonismos de classe. O socialismo parlamentar
atestaria claramente esse processo, o qual Sorel refuta apostando, em detrimento da
concepção jacobina de ação, no recurso do medo sendo utilizado pela classe operária na
ameaça da greve geral, o que traria impactos mais eficientes sobre a legislação.
O autor argumenta ainda que as ideias sobre a violência no seu tempo estão pautadas em
concepções antigas e não nas condições contemporâneas. Nesse sentido, Sorel se esforça por
expor o papel histórico da violência e afastá-lo das concepções abstratas que a condenam.
Compreende que estas se tornaram inúteis e que a reflexão sobre a violência deve passar para
o plano material, concedendo a tal conceito um protagonismo na salvação do mundo
moderno. Tem-se, portanto, em Sorel, uma apologia da violência.
A caracterização desse conceito como mítico vem do próprio estudo que Sorel
empreende sobre a importância do mito para a eficácia revolucionária, buscando exemplos no
cristianismo primitivo, na Reforma Protestante e na Revolução Francesa, dentre outros
momentos. O autor identifica que esse é o elemento que se deve criar na questão sindical,
tentando o colocar como um meio de ação eficaz no presente, a revelia de concepções que o
relegam às sociedades primitivas, na medida em que os mitos são compreendidos como
expressões das vontades apaixonadas das massas.
Partindo-se dessas considerações iniciais permitidas pelo estudo da obra acima
mencionada, o interesse na recepção do autor pela reflexão política em diferentes momentos,
bem como na teorização do sindicalismo revolucionário, levou à busca de dicionários de
política [1] [2], o que deu prosseguimento à pesquisa.
Através deles, o que mais se pode considerar sobre a figura histórica de Sorel é a
diversidade de pontos de vista assumidos por ele ao longo de sua vida e a decorrente
incompreensão com que será recebido, o que é por ele mesmo afirmado em suas Reflexões
sobre a violência [4].
Em verbete dedicado a esse autor no Dicionário de obras políticas [2], organizado por
François Châtelet, foi eleita a obra Materiais para uma teoria do proletariado para refletir o
pensamento soreliano e não a sua obra mais conhecida. Trabalho de final de vida, esse texto
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condensa o essencial de sua filosofia e apresenta uma sequência de posições diversas em um


mesmo sentido: o de estudar meios pelos quais a classe operária conseguirá ocupar uma
posição hegemônica na sociedade moderna.
Diferentemente do mais conhecido membro de sua família, o historiador Albert Sorel,
Georges Sorel não teve formação acadêmica em filosofia ou em qualquer equivalente, mas
sim em engenharia, pela École Polytechinique. Engenheiro foi até 1892, quando resolveu se
dedicar à filosofia.
O dicionário de obras políticas de Châtelet identifica o filósofo francês nesse período
como um liberal-conservador e o coloca como marxista ao longo do restante da década de
1890. Provavelmente, a revisão do marxismo, empresa da intelectualidade europeia desse
período, teria influenciado tal característica, uma vez que, na interlocução soreliana, nomes
como Eduard Bernstein, Karl Kautsky e Antonio Labriola, críticos do materialismo histórico,
aparecem com frequência, sobretudo na fase do limiar do século XX, em que teoriza o
sindicalismo revolucionário.
Contudo, é inegável também a participação de Proudhon, Bergson e William James na
análise de Sorel, quer seja no diálogo crítico que estabelece com o anarquismo, quer seja na
adoção de ideias do bergsonismo e do pragmatismo, respectivamente. Também é digna de
nota a relação que estabelece com os intelectuais italianos Benedetto Croce e Vilfredo Pareto,
outros estudiosos do marxismo.
A intelectualidade de final do século XIX, se vê atrelada ao Caso Dreyfus e Sorel não
escaparia disso. Apesar de crítico de muitos elementos do Dreyfusionismo, é muitas vezes
visto como um Dreyfusiano. Fato é que L’Affaire Dreyfus aparece frequentemente nas obras
de Sorel, não deixando de contribuir para as críticas do momento à razão de Estado decorrente
da falibilidade deste e do erro judicial, implicando em revisionismos e reformismos ao
pensamento da época.
Segue-se a esse período, um pessimismo mais latente em um Sorel “tradicionalista”
antidemocrata (1909-1912), antimilitarista e derrotista durante a Grande Guerra. As propostas
do nacionalismo integral de Charles Maurras o fazem se aproximar do projeto da Ação
Francesa, de cunho monarquista-conservador, o que parece ser uma das maiores contradições
de que Sorel é acusado.
Apesar de existirem dúvidas sobre a participação do autor no Círculo de Proudhon, que
irá fazer o esforço de aproximar ideias nacionalistas e monarquistas à teoria do sindicalismo
revolucionário, dele surge o principal discípulo de Sorel, a saber, Eduard Berth. Sabe-se, no
entanto, que se posiciona contra a União Sagrada proclamada por Poincaré, não crendo na
“reconciliação” das tendências francesas diante da Guerra. O pessimismo diante do fascismo
italiano de Gabriele D’Annunzio, possivelmente, o leva a depositar esperanças em
Musssolini. Contudo, mais certo é o elogio que faz de Lênin e a saudação que empreende da
Revolução Russa.
Pode-se também observar que, em Sorel, cabe o conceito de dirempção, que nega a
totalidade hegeliana ou marxista. Isso porque focaliza a ideia no momento, não se importando
se ela vai confundir o resto, o que provoca não só a falta de compreensão de muitos leitores,
como também a possibilidade de muitos influenciados que assumem dissemelhança entre si
como Robert Michels e Antonio Gramsci, Walter Benjamim e Carl Schmidt. Assim sendo, a
recepção de Sorel será diversa e promoverá muitas interpretações, ainda que, em variados
casos, se trate de um autor relegado a um segundo plano.
Conforme aponta Marino Regini no Dicionário de Política [1] organizado por Norberto
Bobbio, em se tratando de Georges Sorel (1847 – 1922), tem-se o fundador teórico do
chamado Sindicalismo revolucionário. No esforço de definição do termo Sindicalismo, Regini
apresenta como teorias clássicas o marxismo e o sorelismo no quadro “europeu”, e Perlman e
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os cônjuges Webb no anglo-saxão. Confere o caráter analítico e doutrinário desse plano


teórico, inserindo Sorel na matriz marxista e o diferenciando, ao mesmo tempo, dela.
Em linhas gerais, busca-se conferir o poder de agência representativa e a autonomia dos
sindicatos, entendidos como uma “sociedade total”, negando o parlamentarismo e, ainda, a
filiação dos socialistas a ele. É reafirmada, assim, uma posição Anti-Estatal e estrutural da
sociedade em duas únicas classes tornadas claras pela arma sindical da greve geral. Esta
funcionaria como um mito ameaçador, o papel histórico da violência proletária, defesa
corrente das obras sorelianas.
Tais referências biográficas e bibliográficas de Sorel foram compiladas e transformadas
em um pequeno seminário apresentado na disciplina Violência, história e política ministrada
pelo professor orientador, como introdução a discussão do texto Reflexões sobre a Violência.
Em seguida, utilizou-se como contribuinte às reflexões sorelianas sobre a violência a
obra As Ilusões do Progresso [3], publicada concomitantemente à primeira, e que reflete a
crítica do autor às teorias de progresso, tanto antigas quanto modernas, tidas por ele como
ilusórias e que agradariam somente ao gosto da burguesia conquistadora. Tais ideologias
estimariam generalizar a compreensão de que a política, a moralidade e o direito, através do
que se consideraria uma boa e tranquila administração, identificariam na violência a barbárie
opositora da civilização.
Neste trabalho, Sorel busca rever o pensamento histórico que, segundo ele, não
manifestaria um empreendimento profundo, mas sim “superficial” das condições vigentes no
meio social. Nesse sentido, procura fazer uma história das teorias de progresso remontando à
época da querela entre antigos e modernos, paralela a presença da burguesia como
protagonista dessa visão. Perpassando tais teorias e identificando-as ao pensamento burguês,
Sorel pretende criticar as ideias progressistas e, como ele mesmo afirma, “seguir os conselhos
de Marx”.
Durante todo esse processo, foi de fundamental importância a participação nas reuniões
quinzenais, onde pode haver um maior contado com o andamento geral da pesquisa, além de
uma melhor clareza de seu próprio sentido.

Conclusões
O estudo da teoria soreliana a partir de Reflexões sobre a Violência e As Ilusões do
Progresso veio ao encontro das hipóteses da pesquisa que pretende trabalhar as mutações
operadas no conceito político de violência, incluindo-se aí a sua legitimação e
espetacularização inéditas produzidas pela Primeira Guerra Mundial.
Contrariamente à concepção das filosofias do final do século XVIII, que encaravam
esse conceito como uma característica bárbara e primitiva e que oferecem um campo
favorável para o desenvolvimento teórico do progresso da civilização, empresa corrente no
século XIX, a reflexão política do limiar do século XX revê o conceito de violência diante da
sua experiência histórica.
Assim sendo, pensando na teoria aqui em questão, há uma ressignificação da violência
como forma legítima e justificada de ação, em um esforço intelectual de fundamentação da
sua presença e que denuncia as teorias filosóficas do progresso como ilusórias, o que parece
corresponder, respectivamente, ao mito da greve geral e à crítica da ideologia progressista,
propostos por Georges Sorel nas obras comparadas.

Referências
1 - BOBBIO, Norberto. MATTEUCCI, Nicola. PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de
Política. Vol. 2. 13ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2007.
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2 - CHÂTELET, François. DUHAMEL, Oliver. PISIER, Evelyne. Dicionário de obras


políticas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.
3 - SOREL, Georges. Les illusions du progrès. 2ème ed. Paris: Librairie des Sciences
Politiques et Sociales Marcel Rivière et Cie., 1911.
4 - SOREL, Georges. Reflexões sobre a violência. 1ª ed. b. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

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