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“A natureza abomina o vácuo.”


Aristóteles

Introdução
Apesar de teorias do éter terem sido propostas antes do século 19, foi primeiramente o desen-
volvimento e aceitação de uma forte teoria ondulatória da luz que fez com que mais atenção
fosse dada ao meio óptico. A princípio, as teorias do éter propunham explicar mecanicamente
as várias leis e fenômenos da óptica mas, ao no final do século 19 com o advento da teoria
eletromagnética, vários cientistas tentaram formular teorias mecânicas do éter para explicarem
a teoria de Maxwell, e a partir dessa, a física óptica.
O método do éter ofereceu meios de se aplicar a elegante formulação Lagrangiana, assim
como a mecânica Hamiltoniana, em óptica e eletromagnetismo. O éter também desenvolveu
papel importante na evolução e revolução das ideias sobre o espaço e o tempo. Como um meio de
atividade óptica, e em seguida, eletromagnética, o éter foi tido por muitos como o constituinte do
ponto de referência absoluto no qual as equações de Maxwell teriam suas formas mais simples.
Como a Terra claramente orbita em torno do sol, efeitos desse movimento poderiam ser
acessíveis experimentalmente. Mas sérias dificuldades apareceram em conexão com uma expli-
cação consistente da teoria do éter para os efeitos da aberração estelar, o arrasto parcial de
ondas de luz por meios transparentes dinâmicos e o resultado nulo do experimento de Michelson
e Morley.
Eventualmente, para acomodar o ultimo resultado, Fitzgerald e Lorentz propuseram uma
hipótese na qual o comprimento de um objeto dependia de sua velocidade através do éter.
Logo em seguida, Lorentz e Larmor desenvolveram hipóteses ainda mais radicais nas quais
certos efeitos compensatórios, incluindo uma alteração do tempo, cooperariam para eliminar os
efeitos dos ventos do éter.
Finalmente, Einstein, sabendo dos resultados nulos de vários experimentos da deriva do éter
e da dependência da indução electromagnética apenas com velocidades relativas, e ciente de
algumas das ideias de Lorentz, tomou um passo revolucionário. Ele articulou um principio de
relatividade sobre o qual construiu uma teoria que mostrou que as ideias Galileanas e New-
tonianas de espaço e tempo estavam erradas, e que uma teoria de eletromagnetismo simples
e consistente requereria a eliminação da noção de um éter inerte e um novo entendimento de
simultaneidade e da maneira como o aspecto temporal e espacial de eventos são conectados.
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Contexto histórico
O éter teve um papel importante na filosofia natural e em física desde tempos antigos até o
início do século 20. Alguns filósofos consideravam o éter o quinto elemento, ou quintessência,
irredutível à combinações dos outros quatro elementos terra, fogo, agua e ar. A indagação sobre
o éter ser ponderado, ou seja, sujeito à forças gravitacionais, era ocasionalmente debatida, sendo
o proponente mais recente de sua imponderabilidade ninguém menos do que Max Planck, um
dos fundadores da mecânica quântica.
Grande parte do tratamento histórico do desenvolvimento da óptica moderna é uma justa-
posição das teorias de Newton e Huygens. Newton deu origem à teoria corpuscular enquanto
Huygens propôs a teoria ondulatória, mas ambos necessitaram da teoria do éter. Huygens usou
o principio para escapar da ideia alternativa de que a luz pode se propagar através do espaço
vazio, o abominável vácuo, ele também usou o éter como uma possível explicação mecânica
para a gravidade, uma ideia que Newton ja havia entretido em 1675. Newton também usou o
éter para explicar a transmissão de calor por um vácuo e, adicionalmente, Newton empregou
um meio etéreo em sua teoria óptica, não como um meio no qual a luz pudesse se propagar,
mas como um meio que pudesse interagir com os corpúsculos de luz para produzir o fenômeno
da refração e dos anéis de Newton.
Huygens não conseguia acreditar que a luz pudesse ser o movimento de partículas materiais
provindas de uma fonte luminosa até nossos olhos, para ele a luz deveria se propagar de uma
outra maneira. Huygens propôs um meio concebido de uma densa coleção de pequenas esferas
rígidas e elásticas, pelas quais a luz se propagava. Essas esferas preenchiam todo o espaço e
até mesmo penetravam corpos materiais sólidos através de suas estruturas “porosas”. Para ele,
ondas luminosas eram muito parecidas com ondas sonoras, pois ele acreditava que as ondas de
luz eram longitudinais.
Em 1717, porém, Newton confirmou sua rejeição da teoria ondulatória quando ele descobriu
que um raio de luz que havia sido obtido por refração dupla diferia de luz ordinária por não
ter uma orientação direcional. Newton refere ao raio obtido por refração dupla como tendo
“lados”, característica de um retângulo, não círculo. Ele se convenceu de que apenas uma teoria
corpuscular da luz seria capaz de explicar esse fenômeno.
É de fundamental importância salientar que uma das partes centrais do Principia era o
problema de distinguir entre movimento real e aparente. Segundo Newton, “lugar é uma parte
do espaço no qual um corpo se move e é, de acordo com o espaço, ou absoluto ou relativo”.
Ainda de acordo com Newton “movimento absoluto é a translação de um corpo de um lugar
absoluto para outro; e movimento relativo, a translação de um lugar relativo para outro”. Após
consideração, Newton fez a seguinte sanção para a questão experimental que Michelson viria a
perguntar anos depois sobre a Terra e o éter:

“É realmente muito difícil descobrir e efetivamente distinguir o movimento verdadeiro do


absoluto de dado corpo, porque as partes do espaço imóvel, no qual esses movimentos
acontecem, não é observável pelos nossos sentidos. No entanto nem tudo está perdido, porque
nós temos argumentos para nos guiar, em parte do movimento aparente, que são as diferenças
dos movimentos reais, e em parte das forças, que são a causa e o efeito dos movimentos reais.”

Apenas uma contribuição para a teoria da física óptica durante o século 18 tem consequência
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direta nos problemas levantados pelo experimento de Michelson-Morley. Nos anos de 1725
e 1726, Samuel Molyneux, sob assistência de James Bradley, tentou fazer um experimento
cuidadoso para detectar traços da paralaxe anual das estrelas fixas. Por 12 meses, eles realizaram
medições da posição da estrela γ Draconis, e uma aparente influência causada pelo movimento
da Terra na direção da estrela foi observada. Entretanto esse não era o resultado esperado pelos
astrônomos. Bradley notou que “esta alteração nos surpreendeu porque foi no caminho contrário
do que deveria ter sido caso houvesse procedido da paralaxe da estrela”. O deslocamento aparente
da estrela, ao invés de estar direcionado para o sol, como esperado, estava em uma direção
perpendicular à orbita da Terra.
Nos anos seguintes, Bradley repetiu as observações, usando um instrumento diferente e
analisando varias estrelas, e novamente encontrou o mesmo fenômeno. Ele propôs que todo
fenômeno observado era causado por uma combinação do movimento progressivo da luz e do
movimento anual da Terra em sua órbita. Bradley explicou seus resultados em termos da teoria
corpuscular, com a qual a adição vetorial de velocidades é bem plausível, a única suposição a
ser feita é a de que os corpúsculos de luz não são afetados pela gravidade terrestre.
Pela teoria ondulatória, o caminho real da luz é mais difícil de ser explicado, pois tal explica-
ção exige que o movimento da Terra pelo éter não afete o movimento do meio luminífero. Young
fez essa suposição quando tentou explicar o fenômeno da aberração da luz: “Após considerar o
fenômeno da aberração das estrelas, eu estou disposto a acreditar que o éter luminífero penetra
as substâncias de todos os corpos materiais com pouca ou, de fato, nenhuma resistência, tão
livre quanto o vento que passa por um arvoredo”.
O fenômeno da aberração fez com que a ideia da velocidade finita da luz fosse aceita no
meio científico, em partes devido ao fato desse fenômeno propiciar um segundo meio indireto de
estimar sua velocidade. A hipótese de Bradley também significou um passo a mais na extensão
do tamanho do universo, uma grande contribuição para a precisão das medições astronômicas
e a primeira evidência astronômica direta do sistema heliocêntrico.
Em 12 de novembro de 1801, Thomas Young se apresentou na Royal Society para relatar
como seu estudo do segundo livro da óptica de Newton, em particular dos anéis de Newton,
“transformou aquela pressuposição que eu antes cogitei sobre o sistema ondulatório da luz em
uma forte convicção de sua verdade e suficiência. Uma convicção que tem sido desde então
confirmada de forma contundente pela analise das cores em substâncias estriadas”. Este anún-
cio, e seu subseqüente uso do principio de interferência para explicar os anéis de Newton, foram
vistos como a primeira grande descoberta teórica em óptica em cem anos.
Entre as quatro hipóteses famosas de Young, citaremos duas: (1) “Um éter luminífero
permeia o Universo, raro e elástico em alto grau” e (2) “Ondulações são excitadas nesse éter toda
vez que um corpo se torna luminoso”. A diferença crítica que Young teve no desenvolvimento
do principio de Huygens, de que cada ponto em uma frente de onda é a fonte de uma nova
onda, foi reconhecer o fato da periodicidade da luz. Young conseguiu ver isso refinando o seu
experimento da fenda dupla e mostrando definitivamente como luz sob condições devidamente
controladas pode demonstrar superposição e interferência, uma propriedade periódica.
Corpúsculos adicionados a corpúsculos não podiam ser vistos como aniquilando uns aos
outros, ja ondas de luz adicionadas a ondas de luz, se cruzadas no mesmo plano e fora de fase,
poderiam facilmente ser vistas como cancelando umas às outras. Se elas se encontrassem em
fase, as ondas reforçariam umas às outras e em seguida continuariam em sua forma original
sem perturbação. Assim nasceu o principio da superposição.
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Nesse meio tempo, Étiene Louis Malus realizou uma série de experimentos sobre a inten-
sidade da luz que era refletida por um corpo transparente. Ele notou que a luz refletida de
tais superfícies possuíam a mesma propriedade de terem “lados” que Newton havia notado em
conexão com raios duplamente refratados. Malus batizou essa propriedade de polarização e
a atribuiu à corpúsculos de luz que tinham seus lados todos virados para uma mesma dire-
ção, em analogia com um corpo magnetizado. Tal fato levantou sérias questões sobre a teoria
ondulatória proposta por Huygens.
Estava claro que polarização era um problema extremamente difícil de ser explicado pela
teoria ondulatória, ao menos enquanto luz era vista em analogia com o som. Young foi o
primeiro cientista a sugerir uma explicação com base em ondas. Em uma carta a François
Arago ele propôs que se as ondas de luz fossem vistas como transversais, elas poderiam admitir
polarização. Arago mostrou a carta a Fresnel e esse rapidamente aproveitou a oportunidade
e usou essa hipótese como a base de seu trabalho mais influenciável em teorias dinâmicas de
refrações duplas, reflexão e refração.
Fresnel aceitou a ideia de Young de que o éter poderia passar livremente pela Terra, ou ao
menos não afetar o movimento do éter na atmosfera onde as observações da aberração da luz
eram feitos. Ele propôs um arrasto parcial do éter no qual corpos transparentes com índices
de refração maiores do que o do vácuo possuiriam uma maior densidade etérea, e que apenas
a densidade extra, acima da densidade do vácuo, seria completamente arrastada junto com o
corpo em movimento.
Entre os anos de 1814 e 1818, Fresnel já havia feito grandes contribuições para a teoria
ondulatória da luz. Embora ele não tenha conseguido desenvolver uma teoria mecânica aceitável
para a luz, suas tentativas são de grande importância devido a sua plausibilidade e simplicidade,
sua compatibilidade com experimentos e habilidade em predizer novos fenômenos experimentais
observáveis. O fato de Fresnel conseguir sistematizar a óptica tão efetivamente tomando a luz
como uma onda transversal pode ser considerado como a contribuição mais importante para o
reestabelecimento da teoria ondulatória e consequente rejeição da ideia corpuscular.
A teoria de Fresnel uniu a óptica ondulatória de Huygens com o principio de interferência
de Young e explicou satisfatoriamente, pela primeira vez, a propagação retilínea da luz e a exis-
tência de franjas de difração alem dos limites geométricos de sombras. Juntos, Young, Fresnel
e François Arago postularam que a luz consiste de vibrações transversais e não longitudinais,
pois experimentos com fenômenos de polarização mostraram que dois raios de luz opostamente
polarizados não se interferem. Ondas transversais não eram conhecidas em nenhum meio fluido,
assim surgiu uma das maiores dificuldades que a teoria do éter encontraria, a de que o éter não
poderia ser visualizado como um fluido mas sim como um solido!
Stokes, em 1845, publicou um artigo no qual ele demonstra como é possível explicar o fenô-
meno de aberração considerando um arrasto total do éter, ao invés de parcial como Fresnel
havia sugerido, com base na teoria ondulatória. Ele assumiu que a Terra arrastava completa-
mente o éter com seu movimento orbital, mas apenas próximo da superfície. A velocidade do
éter, contudo, era dita ser igual em todo ponto da superfície terrestre e aparentemente igual
à velocidade absoluta da Terra em relação ao universo. No espaço porém, não tão longe da
Terra, o éter supostamente estaria em repouso absoluto. Stokes propôs, em efeito, de que alem
da litosfera, hidrosfera e atmosfera, poderia existir uma “éterosfera”. Michelson reverenciou a
hipótese de Stokes acima de todas as outras.
Enquanto isso, nos campos de eletricidade, magnetismo e calor, Michael Faraday sugeriu
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em 1851 que o éter luminoso também poderia ser o transportador da força magnética, porem,
assim como Newton, ele era cético de todo conceito imponderável. Ele preferiu trocar o éter
pelas suas famosas linhas de força, que segundo ele se estenderiam indefinitivamente por todo
o espaço. Mas a síntese que Faraday desejava foi encontrada apenas por Maxwell. Tão logo
quanto 1861, Maxwell passou a acreditar que o meio magnético e luminífero eram idênticos, e
em 1865 ele havia deduzido todas as equações essenciais de sua teoria eletromagnética.
O feito magnifico de Faraday e Maxwell foi incorporar em uma única síntese os fenômenos
de eletricidade, magnetismo e óptica. Enquanto que vários cientistas antes deles achavam
necessário postular um meio separado para cada fenômeno, com as equações de Maxwell, o éter
magnético se tornou o éter luminífero e vice-versa. A luz visível, então, se tornou apenas uma
pequena parte do espectro de radiação eletromagnética e o calor radiante se tornou radiação
infravermelha. Assim que as predições de Maxwell foram verificadas experimentalmente por
Heinrich R. Hertz em 1887, os maiores problemas da física se dividiam em duas categorias: a
física da matéria e a física do éter.
Maxwell escreveu, três anos antes de sua morte, uma pequena introdução para as ciências
físicas intitulada “Matéria e Movimento” no qual ele faz a seguinte reflexão:

“Nós não podemos descrever o tempo de um evento exceto em referência a um outro evento,
ou o lugar de um corpo no espaço exceto em referência a um outro corpo. Todo o nosso
conhecimento, ambos de espaço e tempo, é essencialmente relativo.

(...)A nossa ideia primitiva pode ter sido a de que saber absolutamente onde estamos, e em
qual direção estamos indo, são elementos essenciais do nosso conhecimento como seres
conscientes. Mas essa ideia, apesar de ter sido aceita por muitos sábios em tempos antigos,
tem sido gradualmente removida da mente dos estudantes de física.

Não há nenhum ponto especial no espaço, uma porção do espaço é exatamente igual a toda
outra porção, de tal forma que não podemos saber onde estamos. Nós estamos em um mar
imperturbável, sem estrelas, compasso, sons, vento ou maré, e nós não sabemos distinguir em
qual direção estamos indo. Não temos nenhum registro com o qual possamos apurar onde
estamos; conseguimos computar nossa taxa de movimento em relação aos corpos vizinhos, mas
não podemos saber como esses corpos estão se movendo pelo espaço.”

Mas é realmente impossível saber quão rápido e em qual direção estamos indo? Esta é a
questão que Michelson perguntou, inspirado por Maxwell. A resposta pode ser encontrada se
a própria luz puder ser usada para pergunta-lá.
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O nascimento da Interferometria
A hipótese inicial do experimento da deriva do éter foi explicada no começo do primeiro artigo
que Michelson publicou sobre o assunto:

“A teoria ondulatória da luz assume a existência de um meio denominado éter, cujas


vibrações produzem os fenômenos de luz e calor, e supostamente preenchem todo o espaço. De
acordo com Fresnel, o éter, que é cercado por meios ópticos, participa no movimento desses
meios, proporcional ao índice de refração desses. Para o ar, este movimento seria apenas uma
pequena porção do mesmo e será negligenciado.
Supondo que o éter esta em repouso, a Terra se movendo através dele, o tempo necessário
para que a luz passe de um ponto à outro na superfície terrestre, depende da direção na qual a
Terra se move.”

Seguindo alguns cálculos simples nos quais ele mostrou a possibilidade de medir a velocidade
de dois raios de luz viajando em angulo reto um em relação ao outro, Michelson fez sua grande
proposta: “Nós podemos encontrar a velocidade v do movimento da Terra através do éter”.
Curiosamente, houve certa confusão a respeito do que Michelson realmente queria provar.
Primeiramente, pensou-se que ele queria provar a existência ou não do éter. Outras questões
se originaram: Ele queria medir a velocidade da luz se movendo em direções opostas? Ele
queria medir a velocidade relativa ou a velocidade absoluta da Terra e do éter luminoso? Era
válidocassumir que a velocidade do movimento da Terra relativo ao éter estacionário é a mesma
que a velocidade da Terra relativa ao Sol? Estas e outras questões talvez não tivessem sido
feitas caso o resultado do experimento tivesse sido positivo. Mas os resultados nulos forçaram
uma reconsideração das suposições fundamentais nas quais o experimento foi baseado.
Futuramente, Michelson afirmou que seu propósito original era medir opticamente a veloci-
dade da Terra se movendo no sistema solar, mas isso é mais verdade do experimento de 1887 do
que do primeiro em 1881. Originalmente, ele supôs um éter “omni-penetrante”, fixo no espaço
interestelar e interplanetário ao redor do sol, que, como a fonte de ondas de luz, poderia revelar
a tão desejada distinção entre movimento absoluto e relativo da Terra. Se existisse um éter
estacionário “omni-permeante”, ele deveria prover um padrão cósmico com o qual a medição
de uma deriva relativa etérea seria capaz de revelar o vetor recíproco da resultante dos vários
movimentos da Terra pelo espaço.
O problema de se medir a velocidade da Terra não era tecnologicamente possível antes
da medição terrestre da velocidade da luz. Para se estimar a importância da inovação de
Michelson, é necessário estudar em maior detalhe a historia da tecnologia óptica, prementemente
os instrumentos utilizados para medir a velocidade da luz na Terra. Somente sabendo esses fatos
é possível apreciar devidamente o papel que a precisão do instrumento de Michelson concebeu.
Um dos mais significativos avanços na instrumentação óptica veio com o desenvolvimento
de equipamentos para medir a velocidade da luz usando métodos terrestres. Hippolyte Fizeau
foi o primeiro cientista a medir diretamente, em 1849, a velocidade da luz na Terra. Fizeau
concebeu um experimento que incorporou um dispositivo mecânico oculto com um espelho
semi-transparente de tal maneira a mandar um feixe ininterrupto de luz por um campo de oito
quilômetros e de volta para um observador localizado atras do espelho semi- prateado.
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O valor de V , como a velocidade da luz era conhecida durante o século 19, medido por
Fizeau foi de 315.000km/s, enquanto que o valor atual de c, o símbolo para a velocidade da luz
a partir do século 20, encontrado em parte devido à precisão das medições de Michelson, é de
299.777km/s. O experimento de Fizeau também foi importante por ter encorajado a procura
de métodos melhores, tanto que, apenas dois anos depois, Leon Foucault conseguiu resultados
mais precisos tendo adaptado um espelho rotacional para o mesmo propósito.
Uma característica do aparelho de Fizeau que é de particular importância como precursor
de um dos aspectos mais inovadores do interferômetro de Michelson é o arranjo de um espelho
semi-transparente, ou divisor de amplitude, por onde a fonte de luz e o observador fazem uso
concomitante de um único vidro diagonal para transmissão reflexiva do raio no seu caminho de
ida e recepção refratada no seu caminho de volta.
Em 1856, Jules C. Jamin desenvolveu o primeiro “refratômetro interferencial”, usando dois
espelhos refratores diagonais opacos. Ele usou seu aparato para medir os índices de refração
do ar de da água a diferentes pressões e temperaturas. Inspirado por ele, Michelson enxergou
uma maneira de medir, em efeito, o índice absoluto de refração do éter, assim a razão entre
a velocidade da luz no vácuo (valor teórico) para sua velocidade no éter (meio hipotético)
mostraria a velocidade da Terra.
Em 1881 quando Michelson realizou seu experimento pela primeira vez, a teoria de Fresnel
era amplamente aceita. Se, como previsto pela teoria, o éter realmente fosse estacionário com
a Terra passando por ele, o tempo que um raio de luz levaria para ir de um ponto à outro na
superfície terrestre seria diferente se ele estivesse se movendo na mesma direção do movimento
da Terra ou na direção oposta.
Devido à efeitos de cancelamento envolvidos na passagem da luz na inda e vinda por um
mesmo caminho, o efeito do movimento da Terra é extremamente pequeno, de segunda- ordem
para v/c, uma grandeza de 10−8 . A individualidade do experimento de Michelson, e em fato,
a razão mais importante pelo seu primeiro desempenho, está no fato de que ele foi concebido
para ser capaz de detectar tais efeitos de segunda ordem.
Com valores pequenos assim, muito mais difíceis de serem pensados na época do que hoje
em dia, não é de se admirar que Maxwell pensava que seria impossível encontrar a resposta para
o problema da medição da velocidade do movimento da Terra com um experimento terrestre.
Porém Michelson aceitou o desafio de Maxwell e, sob a patronagem de Alexander Graham
Bell, construiu seu interferômetro que, assim como o microscópio e o telescópio, expandiu nossa
capacidade de medir objetos e eventos em ambas as escalas microscópica e macroscópica. Ao
mesmo tempo, a aparente relutância do éter às medições interferômicas fez com que cientistas
pensassem mais profundamente e radicalmente do que nunca sobre os pilares conceituais da
realidade física.
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Teoria do éter luminífero de Stokes


Sabe-se que Fresnel, em uma carta enviada à François Arago, mostrou-se incapaz de explicar
o fenômeno da aberração estelar com base na teoria ondulatória da luz se fosse assumido que
a velocidade do éter é igual à velocidade absoluta da Terra próximo da superfície planetária
- de acordo com ele, os planetas seriam compostos de materiais suficientemente porosos para
que não causassem variações significativas na velocidade do éter. Porém, em 1845, foi publi-
cado na revista Philosophical Magazine um pequeno artigo, de autoria de George G. Stokes,
que demonstrava um meio de explicá-lo. A teoria de Stokes teve considerável influência na
comunidade científica até o final do século 19, com os trabalhos de Lorentz. Uma parte da
demonstração será explicada a seguir.
As duas proposições iniciais são:

• O éter suficientemente próximo da superfície de um planeta está em repouso em relação à


essa superfície. Sua velocidade varia de acordo com a distância ao planeta até que, numa
certa altura, está em repouso absoluto em relação ao espaço.

• De acordo com a teoria ondulatória da luz, a direção na qual um corpo celeste é visto é
normal às frentes de onda emitidas por ele que atingiram o observador, supostamente em
repouso em relação à porção de éter próxima dele.

Seja V~ = (u, v, w) o vetor velocidade em coordenadas retangulares cartesianas de uma


partícula de éter com coordenadas (x, y, z). Dada a magnitude das distâncias interestelares,
pode-se considerar que as frentes de onda sejam aproximadamente planas, salvo distorções
causadas pelo movimento do éter. Se o eixo z for próximo da direção de propagação da onda,
ele deve satisfazer a equação:

z = K + ct + ξ (1)
onde K é uma constante, c, a velocidade da luz no éter em repouso. ξ é uma função de
x, y, t com valores suficientes pequenos para que termos de ordem superior ou produtos com
diferenciais sejam desprezíveis, definida de modo que
∂ξ ∂ξ
cos(α) = − , cos(β) = − , cos(γ) = 1 (2)
∂x ∂y
onde α, β e γ são os ângulos entre a normal às frentes de onda e os eixos x, y e z, respecti-
vamente. 1
Tomando um segmento de tamanho cdt ao longo da normal, sua extremidade terá coorde-
nadas {x + c.dt.cos(α), y + c.dt.cos(β), z + c.dt.cos(γ)}. Ao somar a contribuição (udt, vdt, wdt)
do éter, os pontos da frente de onda terão, no tempo t + dt, coordenadas:
   
0 ∂ξ 0 ∂ξ
x =x+ u−c dt, y = y + v − c dt, z 0 = z + (w + c)dt (3)
∂x ∂y
1
A quantidade ξ pode ser interpretada como uma medida da aberração gerada pelo movimento em relação
ao éter.
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Substituindo em 1, denotando ξ por f (x, y, t), tem-se:


     
0 0 ∂ξ 0 ∂ξ
z − (w + c)dt = K + ct + f x − u − c dt, y − v−c dt, t (4)
∂x ∂y

Expandindo a expressão, e eliminando dt2 ,

z = K + ct + ξ + (w + c)dt (5)

∂ξ
Porém, avaliando 1 em t0 = t + dt, usando a relação ξ(x, y, t + dt) ≈ ∂t
dt + ξ(x, y, t), tem-se
uma equação idêntica à 5:
 
∂ξ
z = K + ct + ξ + c + dt (6)
∂t

donde, comparando as duas equações, se tem


Z Z
∂ξ 1
= w =⇒ ξ = wdt = wdz (7)
∂t c
Substitutindo esse resultado na equação 2,
Z   Z  
π 1 ∂w π 1 ∂w 2
α− = dz, β − = dz (8)
2 c ∂x 2 c ∂y

Se for assumido que o éter é um fluido irrotacional,isto é, ∇ × V~ = 0, então


∂w ∂u ∂w ∂v
= , = (9)
∂x ∂z ∂y ∂dz

Substituindo nas equações 8 e calculando a variação em cada um dos ângulos, vê-se que
u2 − u1 v2 − v1
α2 − α1 = , β2 − β1 = (10)
c c
Dada a magnitude da distância entre a Terra e as estrelas observadas, pode-se assumir
u1 = v1 = 0. Basta escolher um plano xy que contém a direção do movimento terrestre para
que v2 = 0 e, consequentemente, β2 − β1 = 0. Finalmente, chega-se à expressão
2
Usando a expansão em série

π X (2n)! x2n+1
arcsen(x) = − , x ∈ [−1, 1]
2 n=0 22n (n!)2 2n + 1
10

u2
α2 − α1 = (11)
c

Ou seja, a estrela parecerá deslocada na direção do movimento da Terra. O resultado


concordava com as observações experimentais de Bradley acerca da constante de aberração.
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O experimento de 1881
Em 1881, a explicação de Fresnel acerca do fenômeno da aberração era a mais aceita na comu-
nidade científica. Se a Terra de fato estava se movendo em relação ao éter, então o tempo que a
luz leva para se deslocar de um ponto a outro na superfície terrestre deve depender da direção
em que se encontra a reta que liga esses dois pontos. No entanto, o efeito do deslocamento ter-
restre é pequeno, da ordem de v 2 /c2 . Um novo aparato teve de ser desenvolvido por Michelson
para que tal quantidade se tornasse detectável.

Figura 1: Interferômetro de Michelson

O aparelho construído foi o interferômetro de Michelson (figura 1), que basicamente consiste
num sistema no qual a luz viaja por caminhos perpendiculares até se reencontrar e gerar padrões
de interferência. Uma raio luminoso é emitido em S e, ao passar pelo beam splitter (nesse caso,
um espelho semi-prateado) em A, é dividida em dois raios que atingem espelhos nos pontos B
e C, de onde são refletidos para se recombinarem em A. Um detector em E detecta o padrão
de interferência gerado.
Com a hipótese de Fresnel, segundo a qual a Terra se movimenta pelo éter sem arrastá-lo
consigo, pode-se avaliar a quantidade de franjas a serem detectadas numa rotação de 90◦ do
interferômetro.
Seja c a velocidade da luz, v a velocidade da Terra em relação ao éter, D a distância AB
ou AC, T o tempo que a luz leva para percorrer AC e T1 o tempo necessário para que a luz
percorra CA1 . A distância AA1 se dá pelo movimento do interferômetro no tempo necessário
para que a luz vá de A até os espelhos e retorne (ver figura 2).
Em todo caso, a distância horizontal é D, e a luz possui velocidade c − v na ida e c + v na
volta. Assim, tem-se:
D D
T = , T1 = (12)
c−v c+v
O tempo total para esse deslocamento é, então,
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H
Figura 2: Caminho vertical da luz no referencial do éter de Fresnel

D D 2Dc
T + T1 = + = 2 (13)
c−v c+v c − v2
Assim, a distância total cobrida pelo raio de luz é (ignorando termos de ordem maior ou
igual a 4):

2Dc2 v2
 
= 2D 1 + 2 (14)
c2 − v 2 c

Nesse primeiro experimento, Michelson não considerou o movimento da Terra ao calcu-


lar a distância percorrida pela luz no braço vertical do interferômetro, erro apontado após a
publicação do artigo.
De acordo com as previsões de Michelson, o deslocamento das franjas pelo "vento"de éter
deveria ser no máximo algo próximo de um décimo de uma franja na medida em que o interferô-
metro era rotacionado. A figura 3 mostra uma comparação entre as previsões e os resultados
obtidos.
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Figura 3: Representação gráfica dos resultados previstos (linha pontilhada) e resultados experimentais
(linha sólida). O eixo ordenado representa o deslocamento de franjas e o eixo de abscissas a direção de
um eixo do interferômetro

Nas palavras de Michelson, "Essa conclusão contradiz diretamente a explicação do fenômeno


de aberração comumente aceita, e que pressupõe que a Terra move-se através do éter, este
último permanecendo em repouso.". Os resultados claramente mostravam-se imcompatíveis
com a explicação de Fresnel, o que deu considerável força à teoria de Stokes sobre o movimento
do éter.
No entanto, em 1886, em um artigo publicado por Hendrik Lorentz, severas críticas foram
feitas durante a análise do experimento de 1881. Em primeiro lugar, a não consideração do
movimento terrestre no cálculo do caminho óptico no braço vertical era tal que, caso os valores
corretos tivessem sido usados, o erro experimental seria grande o suficiente para que fossem
rejeitadas quaisquer refutações da teoria de Fresnel. Ademais, Lorentz demonstrou que as hi-
póteses assumidas por Stokes em sua explicação do fenômeno da aberração eram inconsistentes,
desenvolvendo uma teoria que assumia a presença de um potencial de velocidades juntamente
ao coeficiente de Fresnel. 3 No ano de 1887, dessa vez com a assistência de Edward Morley, o
experimento foi refeito com as correções necessárias.

3
Basicamente, Lorentz demonstrou que é impossível que um fluido irrotacional tenha a mesma velocidade
em todos os pontos da superfície de uma esfera imersa nesse fluido.
14

O experimento de Michelson e Morley


As observações dos padrões de franjas no experimento de Michelson em 1881 foram surpre-
endentes, já que a priori mostravam que independente da direção de deslocamento da Terra
em sua órbita e da direção dos raios de luz emitidos, eram produzidos os mesmos padrões de
franjas de interferência. Este fato experimental nos leva a pensar que existe algo de errado na
relatividade de Galileu e na mecânica ou a montagem experimental levava à erros de medição.
Por conseguinte, em 1887, o experimento foi refeito.
A montagem usada no experimento de Michelson em 1881, de fato, era suscetível à erros
experimentais. O sistema estava sujeito a interferências indesejadas devido às dificuldades de se
rotacionar o aparato sem produzir distorções e ,também, devido à perturbações externas. Em
1887, Michelson repetiu o experimento, dessa vez com o auxílio do físico Edward W. Morley -
esse é conhecido como o experimento de Michelson e Morley.
Desta vez, todo o aparato foi montado sobre uma massiva placa de pedra que flutuava
em mercúrio líquido, assim distorções oriundas da rotação do aparato foram corrigidas. Além
disso, o caminho que a luz percorre foi aumentado em dez vezes, o que diminui a relevância das
interferências externas na medição. Também foi corrigido o erro relacionado à não consideração
do movimento da Terra.
A montagem experimental é mostrada em perfil na figura abaixo:

Figura 4

Na figura 5, vemos como o caminho da luz é aumentado. O raio luminoso sai da fonte no
ponto a, uma parte é refletida em b para o espelho em d1 e outra é transmitida para o espelho
em d.
15

Figura 5

O raio transmitido em d, sofre suscetivas reflexões como mostrado na figura, seguindo seu
caminho até o ponto e. Aqui, o raio luminoso retorna para o ponto d e depois b, antes de ir
para o detector em f .
O raio de luz refletido para d1 segue, analogamente ao primeiro, sofrendo reflexões até o
ponto e1 , onde retorna ao ponto d1 , passa por b e também acaba no detector em f .
Os resultados obtidos podem ser interpretados com o auxílio da figura 6:

Figura 6

Aqui, temos as medidas realizadas no período diurno e no período noturno, sendo a curva de
cima referente às medições realizadas ao meio dia. As linhas pontilhadas são curvas teoricamente
previstas, porém representam um oitavo dos valores teóricos.
Considerando o movimento da Terra em sua órbita, o deslocamento deveria ser

v2
2D = 2D × 10−8
c2
Onde D é o comprimento do braço do interferômetro, c a velocidade da luz no vácuo e v é a
velocidade orbital da Terra. A distância D é da ordem de 2 × 107 comprimentos de onda da luz
amarela. Então, o deslocamento esperado seria de 0.4 de uma franja. Contudo, o deslocamento
real observado foi menor que 1/20 desse valor e possivelmente menor que 1/40. Sabendo que
16

esse deslocamento é proporcional à v 2 , a velocidade relativa entre a Terra e o éter deveria ser
menor que um sexto da velocidade orbital.
Para evitar algum erro referente à composição da velocidade orbital da Terra com o des-
locamento do sistema solar, o experimento foi repetido em intervalos de três meses. Disso,
concluiu-se que para haver qualquer movimento entre a Terra e o éter, ele seria suficientemente
pequeno para refutar a teoria de Fresnel sobre a aberração. A teoria de Stokes para explicar a
aberracão assumia que o éter estava em repouso relativo a superficie da Terra, requerindo apenas
que esta tivesse um potencial, mas Lorentz mostrou que essas condicões são incompatíveis.
17

Rumo à relatividade
Após os resultados inesperados trazidos pelos experimentos de Michelson, os anos seguintes fo-
ram focados, para muitos físicos da época, em desenvolver uma nova explicação para o funciona-
mento do éter no universo. Algumas das propostas que chamaram mais atenção da comunidade
científica na época estavam relacionadas à Fresnel, Lorentz, Fitzgerald, entre outros.
A hípotese proposta por Fresnel era basicamente a idéia de um éter estagnado com um
certo coeficiente de arrasto, supostamente dado por 1 − n12 . O éter preencheria todo o espaço
vazio do universo, estando em repouso nessas regiões, e não seria movido pelos corpos que
nele passavam. A velocidade da luz dependeria da pressão e da densidade do meio. Como
a densidade do éter iria variar, a velocidade da luz deveria ser, portanto, diferente em meios
distintos. Toda a hipótese proposta por Fresnel não era limitada a simples especulações do
éter. Analisando dados de diferentes experimentos, principalmente do físico François Arago,
concluiu-se que muitos efeitos acabavam por se anular e que não seria possível medir um efeito
do movimento da Terra no éter.
Hendrik Lorentz, que focava seu trabalho principalmente na teoria do elétron, publicou em
1892 uma proposta que Fitzgerald já havia sugerido 3 anos antes, a idéia de que um corpo
se movendo através do éter sofreria uma contração - encolhimento - na direção do próprio
v2
movimento por um fator de 1 : (1 + 2c 2 ). Ambas as propostas dada pelos dois físicos sugerem

a contração como consequência das forças intermoleculares de forma análoga à força elétrica,
que era dita ser influênciada pelo movimento do corpo no éter.
Neste período de tempo em que havia o fervor para a explicação do experimento de Michelson
e Morley, Lorentz, a fim de demonstrar sua proposta de solução para o problema do éter,
desenvolveu as conhecidas Transformações de Lorentz, das quais relacionam as coordenadas
espaciais e o tempo entre dois referenciais inerciais que podem ter uma velocidade relativa
entre eles. Todavia, era necessário a realização de experimentos para comprovar ou não a
hipótese. Os experimentos de Trouton-Noble e Rayleigh-Brace mostraram que era necessária
uma revisão para o motivo inicial do por que deveria ocorrer a ideia da contração do espaço.
Foi então, em 1905, que Albert Einstein fez os dois postulados que contrariavam o espírito
de explicar o experiemento de Michelson e Morley, opondo-se à ideia de um éter. Motivado
pela suposta "coincidência"de resultados quando pensamos de forma diferente (em diferentes
referenciais) sobre o problema do laço de arame preso em um carrinho que passa entre dois
polos de um imã, Einstein deu seu primeiro passo: "Como é bem conhecido, a eletrodinâmica
de Maxwell – tal como usualmente aceita no momento – quando aplicada a corpos em movi-
mento, leva à assimetrias que não parecem ser inerentes aos fenômenos. Veja como exemplo
a ação eletrodinâmica reciproca entre um imã e um condutor. O fenômeno observável nesse
caso depende apenas do movimento relativo do condutor e do imã, enquanto que a concepção
comum define uma distinção nítida entre os dois casos nos quais ou um ou o outro estão em
movimento. Porque se o imã esta em movimento e o condutor em repouso, é gerado um campo
elétrico na vizinhança do imã produzindo uma corrente nos lugares em que estão situadas par-
tes do condutor. Mas se o imã esta em repouso e o condutor em movimento, nenhum campo
elétrico é gerado na vizinhança do imã. No condutor, porém, encontramos uma forca eletro-
motriz que gera - assumindo uma igualdade do movimento relativo nos dois casos analisados -
correntes elétricas de mesmo caminho e intensidade que aquelas produzidas por forças elétricas
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no primeiro caso. Exemplos desse tipo, juntamente com as tentativas infrutíferas de descobir
qualquer movimento da Terra em relação ao “meio luminoso”, sugerem que os fenômenos da
eletrodinâmica, assim como os da mecânica, não possuem propriedades correspondentes à idéia
de repouso absoluto."
Seguem então os dois postulados da relatividade especial:
1) As leis da física são as mesmas em todos os referenciais inerciais
2) A velocidade da luz é a mesma em todas as direções
A maneira de pensar proposta por Einstein retirou a ideia da necessidade de um referencial
absoluto, que deixa de pedir um éter permeando o universo. Embora tenha sido construída
a fim de explicar o próprio éter, as Transformações de Lorentz são altamentes utilizadas na
relatividade especial. Esta, ainda mais, motivou a formulação da Relatividade Geral, que
trouxe uma nova concepção da gravidade no mundo da física.
19

Correção relativística dos experimentos de


Michelson e Morley
Como já discutimos nas secções anteriores, os experimentos de Michelson e Morley nos levam
a crer que o éter não deve existir e, ainda mais profundamente, levaram ao desenvolvimento
de uma das teorias mais importantes da física contemporânea, a teoria da Relatividade Geral
de Einstein. Mas, naturalmente, surge a sequinte pergunta que ainda não foi respondida:
como explicar fisicamente e matematicamente a não diferença entre os padrões de interferência
luminosa nas duas configurações direcionais em relação à velocidade da Terra do experimento?
A resposta a essa questão se baseia no simples fato de que a velocidade relativa do interferô-
metro em relação ao sol, ou a qualquer obervador, não muda de forma alguma os padrões de
interferência dos dois raios de luz. E é isso que mostraremos agora utilizando alguns princípios
da Relatividade Especial.
Consideremos um observador parado no referencial sol, que denominaremos como referencial
O, e um observador na Terra, denominado de referencial O0 . Consideremos ainda que os braços
do interferômetro, medidos no referencial Terra, tenham ambos comprimento L. Segundo o
observador que está no referencial sol, o interferômetro se move com velocidade ~v na direção do
eixo x, a mesma direção de um dos braços. Tal situação está representada a seguir:

Figura 7: Interferômetro visto do referencial O na configuração 0◦ .

A primeira coisa que devemos notar é que a velocidade da luz para ambos observadores
deve ser c pelos postulados da Relatividade Especial, considerando que o experimento seja feito
no vácuo. Resolveremos agora o problema no referencial O. O tempo necessário para a luz
percorrer o braço 1 pode ser calculado pelo mesmo método empregado por Michelson e Morley,
20

onde consideramos o triângulo retângulo formado c∆t 2


1
, l2 e v∆t
2
1
. Aplicando o Teorema de
Pitágoras:
c∆t1 2 v∆t1 2
( ) = (l2 )2 + ( )
2 2
Isolando ∆t1 e tendo em vista que l2 = L, pois a direção perpendicular ao movimento não sofre
nenhum tipo de contração:
2L
∆t1 = q
2
c 1 − vc2
Para calcularmos ∆t2 devemos levar em conta que haverá a contração do comprimento L
prevista pela Relatividade Especial. O comprimento de fato do braço 2 visto no referencial O
é portanto:
L
l2 = q
2
1 − vc2
Assim ∆t2 é:
l2
∆t2 = 2
c
2L
∆t2 = q
v2
c 1− c2

O que nos leva ao resultado:


∆t1 = ∆t2
Em outras palavras, os dois feixes chegam com mesma fase no anteparo. Isso caso os
dois braços tivessem exatamente mesmo comprimento no referencial Terra, o que por motivos
técnicos não é possível.
Agora vamos imaginar o mesmo problema, porém com o interferômetro rotacionado de 90◦ ,
como representado na imagem a seguir:
21

Figura 8: Interferômetro visto do referencial O na configuração 90◦ .

Nessa nova configuração, o que muda é apenas as posições de l1 e l2 . O braço que sofrerá
contração é l1 e não mais l2 , o que no fim resulta no mesmo resultado:

∆t1 = ∆t2

Diante dos fatos supracitados, podemos concluir que o padrão de interferência independe
da velocidade da montagem em relação a qualquer outro referencial, concordando assim com
os resultados experimentais de Michelson e Morley. Tal resultado pode ser ainda mais genera-
lizado pelo prícipio da relatividade de Galileu, de que as leis da física são sempre as mesmas
em referencias inerciais. Em outras palavras, o movimento absoluto uniforme não pode ser
detectado, tal como Einstein enunciou na relatividade especial.
22

Apêndice
Observação de ondas gravitacionais da fu-
são de um sistema binário de buracos ne-
gros.
Como foi visto nesse presente trabalho, o Interferômetro idealizado pelo físico Albert Michelson
representa uma das montagens mais simples para experimentos que podem ser utilizados em
interferências de luz. De acordo com a montagem do equipamento, o interferômetro pode ser
usado para determinar tanto índices de refração do meio de propagação da radiação quanto
variações do caminho geométrico. Em 1916, um ano após formular sua teoria de campos
da relatividade geral, Albert Einstein previu que objetos massivos acelerados distorciam o
espaço-tempo causando a irradiação de ondas na forma de radiação gravitacional. Também
em 1916, o físico Karl Schwarzschild publicou uma solução para as equações de campo que
foi interpretada posteriormente como buracos negros e, em 1963, Kerr generalizou a solução
de Schwarzschild para buracos negros em rotação. Desde então, astrônomos tem obtido fortes
evidências indiretas de que ondas gravitacionais existem, através de observações de pares de
estrelas em nossa galáxia.

Os detectores LIGO
O Laser Interferometer Gravitacional-Waves Observatory (LIGO) é o maior observatório de
ondas gravitacionais e um dos mais sofisticados experimentos de física do mundo. Composto
por dois gigantescos interferômetros a laser localizados nos Estados Unidos, um em Livings-
ton (Louisiana) e outro em Hanford (Washington), funcionam igualmente ao interferômetro
de Michelson para determinar variações do caminho geométrico (braços de 4km de extenção).
Quando uma onda gravitacional passa, a ampliação e encolhimento do tecido do espaço-tempo
faz com que os braços do interferômetro se alonguem e encolham alternadamente, variando
então o caminho geométrico e fazendo com que os feixes de laser viagem distâncias diferentes,
formando um padrão de interferência devido a diferença de fases. A diferença entre o compri-
mento de ambos os braços é proporcional à intensidade da onda gravitacional e a deformação
causada pela passagem da onda é, aproximadamente, dez mil vezes menor que o diâmetro de
um próton e, ainda sim, o LIGO é capaz de detectar tal amplitude.

A detecção
Em 14 de setembro de 2015 os observatórios LIGO em Hanford e Livingston detectaram um
sinal da fusão de dois buracos negros com massas de aproximadamente 36 e 29 vezes a massa
do Sol, e o buraco negro remanescente teria uma massa de aproximadamente 62 vezes a massa
solar; Esse evento foi chamado de GW150914 ("Gravitacional Waves 2015/09/14"). Se for
23

comparado as massas dos buracos negros antes e depois da fusão, é notável que a fusão con-
verteu aproximadamente três vezes a massa solar (6 × 1030 kg) em energia na forma de ondas
gravitacionais por segundo, a maioria emitida em uma fração de segundo. Em contraste, o Sol
emite cerca de 4 × 109 kg/s de radiação. Então, a energia liberada pelo GW150914 foi mais do
que seis vezes maior do que a luz combinada (isto é, a taxa à qual a energia é liberada como
luz) de todas as estrelas e galáxias no universo observável.

Dados obtidos das observações do LIGO

Figura 9: Evento GW150914 pelos detectores LIGO Hanford (H1) e Livingston (L1).
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Figura 10: Alguns dos resultados principais da GW150914, na qual se compara a amplitude das
ondas gravitacionais estimada (Hanford) com as previsões dos modelos teóricos de ondas mais
semelhantes obtidos da relatividade geral.

Figura 11: Diagrama simplificado de um detector LIGO, nos quais se incluem as principais melhorias
no interferômetro: uma cavidade óptica que reflete o laser de volta e para a frente várias vezes em
cada braço, multiplicando-se o efeito da onda gravitacional na fase do feixe de laser; um espelho de
reciclagem que aumenta a potência do laser no interferômetro como um todo; um espelho de
reciclagem de sinal, que permite otimizar ainda mais o sinal extraído no fotodetector.

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