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1 Curvas e Trajetórias Ortogonais

1.1 Curvas Ortogonais

Lembrando da Geometria Analı́tica, tem-se que duas retas s e v não paralelas


aos eixos coordenados são perpendiculares se, e somente se, seus respectivos coeficientes
angulares satisfazem a relação: ms · mv = −1. Desse modo, temos a seguinte definição:

Definição 1.1. Curvas Ortogonais em Um Ponto de Interseção. Duas curvas


dadas por y = ϕ(x) e y = ψ(x) que se interceptam no ponto (x0 , y0 ) são ortogonais se
suas retas tangentes naquele ponto são perpendiculares, isto é, ϕ0 (x) · ψ 0 (x) = −1, onde
supõe-se que ϕ0 (x) 6= 0 e ψ 0 (x) 6= 0; e ainda, ϕ0 (x) e ψ 0 (x) são os coeficientes angulares
das retas tangentes às curvas dadas.

Definição 1.2. Reta Tangente à Uma Curva. A reta tangente à curva y = f (x) em
(x0 , f (x0 )) é a reta que passa em (x0 , f (x0 )), cuja inclinação é igual a f 0 (x0 ), ou seja, a
derivada de f em x0 . Logo, usando a forma ponto-inclinação da equação de uma reta,
podemos escrever uma equação da reta tangente à curva y = f (x) no ponto (x0 , f (x0 ))
como y − f (x0 ) = f 0 (x0 )(x − x0 ).

Em resumo, “Duas curvas são ortogonais em um ponto de interseção ⇔ As retas


tangentes à essas curvas são perpendiculares no ponto de interseção ⇔ O produto dos
coeficientes angulares destas retas tangentes é −1, onde esses coeficientes são as derivadas
das curvas no ponto de interseção”.

Exemplo 1.1. Mostre que as curvas y = x3 e x2 + 3y 2 = 4 são ortogonais nos pontos de


interseção.

1
Solução. Primeiramente, denotemos α : y = x3 e β : x2 + 3y 2 = 4 as curvas dadas.
Agora, notemos, pelo esboço dos gráficos de α e β, que as interseções de ambas estão nos
pontos: (1, 1) e (−1, −1). E as inclinações das retas tangentes às curvas α e β são dadas,
respectivamente, por:

dy
α : y = x2 ⇒ = 3x2 ,
dx

d(x2 ) d(y 2 )
β : x2 + 3y 2 = 4 ⇒ +3 = 0
dx dx
dy
2x + 3 · 2y · = 0
dx
dy
x + 3y = 0
dx
dy
3y = −x
dx
dy x
β : x2 + 3y 2 = 4 ⇒ = − .
dx 3y

Para o ponto (1, 1), vem que:

 
dy
(1, 1) = 3 · 12 = 3,
dx α

 
dy 1 1
(1, 1) = − =− .
dx β 3·1 3

     
dy dy 1
Logo, obtemos (1, 1) · (1, 1) = 3 · − = −1.
dx α dx β 3

E para o ponto (−1, −1), tem-se:

 
dy
(−1, −1) = 3 · (−1)2 = 3,
dx α

2
e

 
dy (−1) 1
(−1, −1) = − =− .
dx β 3 · (−1) 3

     
dy dy 1
Logo, obtemos (−1, −1) · (−1, −1) = 3 · − = −1.
dx α dx β 3

Portanto, da resolução obtida, temos que as curvas α e β são ortogonais nos pontos de
interseção.

Poderı́amos descobrir as retas tangentes que passam pelos pontos (1, 1) e (−1, −1),
e desse modo, notar que as retas tangentes são perpendiculares. Vejamos quais são essas
retas.

(1) Tomando o ponto (1, 1), temos que as retas tangentes às curvas α e β nesse ponto são
dadas por

α : f (x) = x3 ⇒ y − f (x0 ) = f 0 (x0 )(x − x0 )

y − f (1) = f 0 (1)(x − 1)

y − 1 = 3(x − 1)

y = 1 + 3x − 3

y = 3x − 2.

β : x2 + 3y 2 = 4 ⇒ y − f (x0 ) = f 0 (x0 )(x − x0 )

y − f (1) = f 0 (1)(x − 1)
1
y − 1 = − (x − 1)
3
x 1
y = 1− +
3 3
x 4
y = − + .
3 3

3
Logo, as tangentes perpendiculares no ponto (1, 1) de interseção entre α e β são y = 3x−2
x 4
ey=− + .
3 3

Fazendo uma observação, tem-se que para encontrar a tangente à curva β no ponto (1, 1)
y. Em outras palavras, tem-se: x2 + 3y 2 √
explicitamos a variável r = 4 ⇒ 3y 2 = 4 − x2 ⇒
4 − x2 4 − x2 4 − x2
y2 = ⇒y =± , porém foi tomado apenas y = √ , cuja derivada
3 3 3
x
é f 0 (x) = − √ √ . Devido o fato do ponto (1, 1) estar no primeiro quadrante da
3 4 − x2
metade da elipse acima do eixo x.

(2) Tomando o ponto (−1, −1), temos que as retas tangentes às curvas α e β nesse ponto
são dadas por

α : f (x) = x3 ⇒ y − f (x0 ) = f 0 (x0 )(x − x0 )

y − f (−1) = f 0 (−1)(x + 1)

y + 1 = 3(x + 1)

y = −1 + 3x + 3

y = 3x + 2.

β : x2 + 3y 2 = 4 ⇒ y − f (x0 ) = f 0 (x0 )(x − x0 )

y − f (−1) = f 0 (−1)(x + 1)
1
y + 1 = − (x + 1)
3
x 1
y = −1 − −
3 3
x 4
y = − − .
3 3

Logo, as tangentes perpendiculares no ponto (−1, −1) de interseção entre α e β são


x 4
y = 3x + 2 e y = − − .
3 3

Fazendo novamente uma observação, tem-se que para encontrar a tangente à curva β no
ponto (−1, −1) explicitamos a variável y. Em outras palavras, tem-se: x2 + 3y 2 = 4 ⇒

4
2
r √
4 − x 4 − x 2 4 − x2
3y 2 = 4 − x2 ⇒ y 2 = ⇒y=± , porém foi tomado apenas y = − √ ,
3 3 3
x
cuja derivada é f 0 (x) = √ √ . Devido o fato do ponto (−1, −1) estar no terceiro
3 4 − x2
quadrante da metade da elipse abaixo do eixo x.

A partir do exposto, vejamos os esboços dos gráficos para confirmar nosso cálculo:

Figura 1: Interseções das Curvas α e β

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Figura 2: Retas Tangentes às Curvas α e β

Notemos pela figura 2 que as retas tangentes à curva α formam ângulos retos entre si, e
da mesma forma acontece com as retas tangentes à curva β, e isso confirma ainda mais o
fato de que essas curvas são ortogonais.

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2 Trajetórias Ortogonais

Já conhecendo sobre curvas ortogonais, agora definamos o que sejam as Trajetórias
Ortogonais.

Definição 2.1. Trajetórias Ortogonais Quando todas as curvas de uma famı́lia G(x, y, k) =
0 interceptam ortogonalmente todas as curvas de outra famı́lia H(x, y, c) = 0, então di-
zemos que as famı́lias são Trajetórias Ortogonais uma da outra.

Em outras palavras, uma trajetória ortogonal é uma curva que intercepta toda a
curva de uma famı́lia de curvas em ângulo reto.

1
Exemplo 2.1. O gráfico de y = − x + 1 é trajetória ortogonal de y = 2x + k. Sendo
2
1
que as famı́lias y = − x + c e y = 2x + k são trajetórias ortogonais uma da outra.
2

1
Figura 2: Reta y = − x + 1 ortogonal à algumas retas y = 2x + k
2

7
1
Figura 3: Algumas y = − x + c ortogonais à algumas retas da forma y = 2x + k
2

Exemplo 2.2. O gráfico de y = 4x3 é trajetória ortogonal de x2 + 3y 2 = k. Sendo que


as famı́lias y = cx3 e x2 + 3y 2 = k são trajetórias ortogonais uma da outra.

Figura 4: Curva de y = 4x3 ortogonal à algumas elipses da forma x2 + 3y 2 = k

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Figura 5: Algumas curva da forma y = cx3 ortogonais à algumas elipses da forma
x2 + 3y 2 = k

Notadamente, algumas aplicações sobre Trajetórias Ortogonais estão presentes e ocorrem


naturalmente na Construção de Mapas Meteorológicos e no Estudo de Eletricidade e
Magnetismo.

(a) Mapa Meteorológico (b) Campo Eletromagnético

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2.1 Equação Diferencial Ordinária (EDO), EDO de 1a Ordem e
Método de Separação de Variáveis

Primeiramente, vamos à definição de Equação Diferencial Ordinária e a partir disso


à definição de Equação Diferencial Ordinária de Primeira Ordem e, por fim, ao seu Método
de Solução por meio de Separação de Variáveis.

Definição 2.2. Equação Diferencial Ordinária. Uma Equação Diferencial Ordinária


(EDO) é uma equação da forma

F (x, y(x), y 0 (x), y”(x), ..., y (n) (x)) = 0,

envolvendo uma função incógnita y = y(x) e suas derivadas ou suas diferenciais. Sendo
que x é a variável independente, y é a variável dependente e o sı́mbolo y (k) denota a
derivada de ordem k da função y = y(x).

Alguns exemplos de EDO’s: y” + 3y 0 + 6y = sin(x), y 0 = f (x, y) e y” + 3yy 0 = ex .

Definição 2.3. Equação Diferencial Ordinária de Primeira Ordem. Uma Equação


dy
Diferencial de Primeira Ordem contém somente a primeira derivada y 0 = , possivel-
dx
mente y e alguma função de x, isto é, é uma equação do tipo F (x, y, y 0 ) = 0 ou y 0 = f (x, y).

Faz necessário notar que uma grande quantidade de EDO’s de Primeira Ordem
pode ser escrita na sua forma normal, dada por y 0 = f (x, y), ou quando f = f (x, y) pode
ser escrita como o quociente de duas outras funções M = M (x, y) e N = N (x, y), ou seja,
M (x, y) dy
y0 = . Como y 0 = , então obteremos a forma diferencial M (x, y)dx − N (x, y) =
N (x, y) dx
0.

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Definição 2.4. EDO Separável de Primeira Ordem. Seja uma equação diferencial
M (x, y)dx − N (x, y)dy = 0. Se M é uma função apenas da variável x, isto é, M = M (x)
e N é uma função apenas da variável y, ou seja, N = N (y), então a equação dada fica na
forma: M (x)dx − N (y)dy = 0, e esta é denominada EDO de Primeira Ordem Separável.

Essa definição é motivada pelo fato de que é possı́vel separar as funções de modo
que cada membro da igualdade possua uma função com apenas uma variável. Desse
modo, podemos realizar a integração de cada membro por um processo “simples”, e então
encontrar a solução desejada, a qual satisfaz a equação diferencial dada.

2.2 Método Geral Para Encontrar Uma Famı́lia de Curvas Or-


togonal à Outra Famı́lia de Curvas

Para encontrar as trajetórias ortogonais de uma dada famı́lia de curvas, primeiro


encontramos a equação diferencial dada por

dy
= f (x, y),
dx

que descreve a famı́lia α. E daı́, a equação diferencial da famı́lia ortogonal β é então

dy 1
=− .
dx f (x, y)

Desse modo, pode-se notar que

   
dy dy
· = −1,
dx α dx β

ou seja, que a famı́lia α de curvas é ortogonal à famı́lia β de curvas, e vice-versa.

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Vamos então aos exemplos sobre o método acima:

c
Exemplo 2.3. Encontre as trajetórias ortogonais da famı́lia de curvas: y = .
x

c
Solução. Notemos primeiramente que c = xy. Agora, derivando y = , e substituindo c
x
obtemos:

dy c
= − 2
dx x
dy xy
= − 2
dx x
dy y
= − .
dx x
y
Dessa forma, tomando f (x, y) = − , a famı́lia de curvas ortogonal à famı́lia de curvas
x
dada no enunciado será obtida através de

dy 1
= −
dx f (x, y)
dy 1
= − y
dx −x
dy x
= ,
dx y

onde podemos usar o método de separação de variáveis para resolução da EDO de 1a


ordem obtida. Temos então,

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dy x
=
dx y
ydy = xdx
Z Z
ydy = xdx
y2 x2
+ k1 = + k2
2 2
y 2 x2
− = k2 − k1
2 2
y 2 x2
− = k3
2 2
y − x2
2
= 2k3

y 2 − x2 = k.

Portanto, obtemos que a famı́lia ortogonal à famı́lia de curvas xy = c é uma famı́lia de


hipérboles, no caso, y 2 − x2 = k.

cx
Exemplo 2.4. Encontre as trajetórias ortogonais da famı́lia de curvas: y = .
1+x

Solução. Procedendo do mesmo modo como no exemplo anterior, temos primeiramente


y + yx cx
que c = . Agora, derivando y = , e substituindo c obtemos:
x 1+x

dy c(1 + x) − cx
=
dx (1 + x)2
dy c
=
dx (1 + x)2
y+yx
dy x
=
dx (1 + x)2
y(1+x)
dy x
=
dx (1 + x)2
dy y(1 + x) 1
= ·
dx x (1 + x)2
dy y 1
= ·
dx x 1+x
dy y
=
dx x(1 + x)

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y
Desse modo, tomando f (x, y) = , a famı́lia de curvas ortogonal à famı́lia de
x(1 + x)
curvas dada no enunciado será obtida através de

dy 1
= −
dx f (x, y)
dy 1
= − y
dx x(1+x)
dy x(1 + x)
= − ,
dx y

onde usando o método de separação de variáveis para resolução da EDO de 1a ordem


obtida, tem-se que

dy x(1 + x)
= −
dx y
ydy = −x(1 + x)dx
Z Z
ydy = −x(1 + x)dx
Z Z
ydy = −x − x2 dx
y2 x2 x3
+ k1 = − − + k2
2 2 3
3y 2 + 6k1 = −3x2 − 2x3 + 6k2

3y 2 + 3x2 + 2x3 = 6k2 − 6k1

3y 2 + 3x2 + 2x3 = k

cx
Portanto, obtemos que a famı́lia ortogonal à famı́lia de curvas y = é a famı́lia de
1+x
curvas dada por 3y 2 + 3x2 + 2x3 = k.

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Referências

[1] FLEMMING, Diva Marı́lia; GONÇALVES, Mirian Buss. Cálculo A. 6a Edição,


Revista e Ampliada, Editora Pearson Education, Florianópolis, Novembro de 2006.

[2] SODRÉ, Ulysses. Equações Diferenciais Ordinárias. Computação, Engenharia


Elétrica e Engenharia Civil. Notas de Aulas – 21 de maio de 2003. UEL – Projetos
– Matessencial.

[3] YARTEY, Joseph N. A.; RIBEIRO, Simone S. Equações Diferenciais. Instituto


de Matemática e Estatı́stica, UFPA, Salvador, 2017.

[4] ZILL, Dennis G.; CULLEN, Michael R. Equações Diferenciais. Vol. 01, 3a Edição.
Loyola Marymount University, São Paulo, 2001. Tradução de Antonio Zumpano, Ph.
D. – Profo Universidade de Minas Gerais.

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