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. ," ~d:nÚhd~ l:)'~~màn, em ·seu clássico A Invenção da América,'


Revísté de História afirma que, sem contrndi~o lógica, a América .é, e ao mesmo
versão impressa ISSN 0034-8309 .tempornão-ê'.rEürop_a.(,"condição dramática de sua existência e
c!,l!'n{~. .Q.e..seu-dest!Ró"''{O'Gorman 1958: 94)Í P.E_demos afir.ma.t.
Rcv. hist. n.145 São Paulo de,z. 2001 Igualmente que.:- como:dois pólos que se atra't!m'e se rei;>elem -
. · o~ri-=e- e;=ao mesmo te~o, nãO-é- Ameriça La!!nc1/ Esta,,.
i e'Xistênci~,.contraditoria ' ine leva a propor uma reflexão s7abre o
· di'st:à"nciamento político e cultural entre o Brasil e os demais
ARTIGOS países da América Latina de colonização espanhola. A expllcaç:fo
mais simples para esse fenômeno começa invariavelmente pela
afirmação de que a rultura brasileira está profundamente
marcada por uma tradição eurocêntrica, responsável, portanto,
O Brasi l e a distante América do Sul pelo fato do país estar âe olhos postos na Europa e de costas
para a América Latin~.j(Ainda que esta indicação seja
indiscutível, permanece demasiadamente genérica, fechando-se
nela mesma/

Algumas constatações sobre o passado histórico das duas


Américas - a portuguesa e a e5'panhola - são também
Maria Ligia Coelho Prado inelutáveis. As metrópoles ibéricas desenharam limites não
ap1enas geográficos, mas também culturais e políticos que
Depto. de História-FFLCH/USP dividiram suas colônias e criaram interesses econômicos e
sociais específicos para cada região. E as independências não
solucionaram esse impasse e · não promoveram a tão
proclamada necessidade de união entre todos os americanos do
sul.

Neste texto, pretendo entender, pelo menos em parte, o fosso


que nos separa, fazendo outra abordagem e aceitando, desde
RESUMO já, a complexidade da tarefa. Escolhi dois momentos da história
brasileira para analisar este problema: o primeiro, o da
Este art igo discute a elaboração de um discurso político original, construção do Estado Nacional e das conseqüentes definições de
no Brasil do século XI X, qu e . fundou uma certa intftrprE1J·ac:ã9 seu território. Tomo textos de jornais, de historiadores e
t[D sll~ira sobre o m undo.J:!!!illano-americano, contribuindo para políticos, relacionando-os com a situação peculiar do Brasil,
;, con stltulç[fo de um imag inaria sobre_a_outra América, que ·a ·- naquele período, no concerto dos Estados latino-americanos. A
·,11a:1ocln o 11 !lcp,mi do arasil ~Tom_u dois momentos precisos, a República, instalada no fim do século XIX, que trouxe
r lécndn de 1820 e os primeiros anos da república, lendo textos significativas mudanças políticas para o país, é o segundo
do pol/Ucos e intelectuais. momento. Para esse período, optei por trabalhar com escritos
de historiadores e críticos literários, acompanhando a
Pa la vras-chave: Brasil; América do Sul; política permanência da perspectiva brasileira com relação a seu
distanciamento das demais nações latinoamericanos. Meu
recorte privilegiou as relações entre Brasil, de um lado, e
Argentina e Uruguai, de outro. Entretanto, as reflexões
brasileiras sobre os dois países trabalharam, em geral, com
ABSTRACT id1;mtificações generalizantes que os aproximavam do conjunto
das nações colonizadas pelos espanhóis1 .
This article deals with the elaboration of an original discourse, in
Brazil, during the 19th century, that emphasizes a Brazilian Todos esses autores elaboraram um discurso original -
interpretation about the Hispanic Ameri can world, separating recheado de idéias, imagens e símbolos - que fundou uma
the other Arnerica from Brazil. I take two moments, the decade interpretação brasileira sobre o mundo hispanoamericano. Penso
of 1820, and the first years of the republican regime, reading que a repetição continuada dos mesmos argumentos contribuiu
texts of politicians and intelectuais. para a constituição de um imaginário - que acabou por forjar
uma memória coletiva - sobre a outra América, dissociando-a,
Keywords: Brazil; South America; politics separando-a do Brasil (Nora 1984).

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*** (Sarmiento 1993: 58). Dessa maneira, a diferença era
percebida por Sarmiento em outros termos. A Argentina não
Para acompanhar o movimento de construção de uma maneira deveria ser confundida com essa terra de "deformidades" e
de pensar a história do Brasil, é necessário lembrar a criação do "degeneração".
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (I.H.G.B.), em 1838,
cujas atividades deveriam se pautar - segundo o discurso de Voltando aos textos brasileiros, não encontrei na História Geral
·seu primeiro secretário, Januário da Cunha Barbosa - por duas do Brasil de Francisco Adolfo Vamhagen, Visconde de Porto
diretrizes centrais: a coleta de documentos e o incentivo ao Seguro e sócio emérito do I.H.G.B., que foi publicada entre
ensino da História do Brasil"'. 1854 e 1857, referências tão claras à oposição entre o Brasil e· a
América Espanhola. Uma das raras indicações, que deixava
IIJesse momento, o I.H.G.B. promoveu o célebre concurso entrever sua perspectiva sobre a outra América, pode ser
internacional, "Como se deve escrever a História do Brasil", identificada, quase ao fim do livro, quando diz : "Esquecer a
vencido pelo . alemão Karl Friedrich Philipp von Martius, que nação pela província, [ ... ] é um sintoma de dissolução política: é
visitara o país anteriormente. Afirmava ele, em 1843 - portanto, o princípio de um estado de coisas como o de Centro-América"
quando o Rio Grande do Sul lutava por uma república (Varnhagen 1981: 177).
separatista - em seu artigo, que no Brasil, havia muita gente
com "idéias políticas !maturas". Referia-se às idéias Como já foi indicado pelos analistas de sua produção,
republicanas, que ele repudiava. Entendia que se devia escrever Varnhagen consagrava a monarquia como regime ideal, louvava
a História do Brasil, pensando fundamentalmente nesses a figura de D. Pedro I e invocava a Divina Providência como
republicanos, pois era preciso convencê-los da inexeqüibilidade guardiã da unidade nacional~: O destino unitário do Brasil, nas
de seus projetos "utópicos", da inconveniência dessas páginas do Visconde de Porto Seguro, revelava-se, desde o
discussões e da necessidade "de uma Monarquia em um país período colonial, com a vitória portuguesa/brasileira sobre as
onde há um tão grande número de escravos" (Martius 1844: assim denominadas invasões estrangeiras. O esmagamento das
410}. Para ele, o Brasil apenas começava a entenderse como tentativas radicais republicanas de independência, como na
um todo unido e por isso mesmo, urgia que o historiador Inconfidência Mineira, na Revolta dos Alfaiates ou na Revoluçllo
procuràsse "provar que ·o Brasil; país tão vasto e-·rico· em fontes··- Pernambucana de 1817, também demonstrara t er sido
variadíssimas de ventura e prosperidade civil, alcançará o seu "acertado". Nesses momentos, a República nos espreitara e
mais favorável desenvolvimento, se chegar, firmes os seus poderia ter comprometido a unidade nacional. Afi ,m;iv;J
habitantes na sustentação da Monarquia, a estabelecer, por Varnhagen sobre 1817: "Assim, ainda desta vez (e não foi a
uma sábia organização entre todas as províncias, relações última) o braço da Providência, bem que à custa de lamentáveis
recípro~~s". P~,_t,ll concluir, advertia que o historiador brasileiro vítimas e sacrifícios, amparou o Brasil, provendo em fuvor de
"para prestarorrr- verdadeiro serviw à· soa pátrta-deverá sua integridade" (Varnhagen 1981: 177).
escrever como autor monárquico-constitucional, como unitário
no mais puro sentido da palavra" (Martius 1844: 411). Enfatize- Varnhagen e von Martius eram "autoridades" cujos textos se
se que .este texto teve grande repercussão e fundou uma legitimavam por sua própria condição; o primeiro, "grande sábio.
linhagem interpretativa da História do Brasil, copiada à exaustão alemão" e o segundo, historiador consagrado que "provava" o
em manuais escolares, em artigos de jornais, em discursos que dizia pela pesquisa em documentos "verdadeiros". Esses
políticos etc. · ideólogos do Império, que escreveram a história oficial do Brasil,
defendiam a monarquia que se opunha às "repúblicas caóticas"
A breve referência de von Martius à escravidão me leva a uma da parte espanhola. Dessa maneira, estava dara a diferença
pequena digressão. Em suas "impressões" de viagem ao Rio de que se devia estabelecer entre "nós" e "eles", entre o Brasil e os
Janeiro, Domingo Faustino Sarmiento, figura exponencial do demais países da América do Sul, onde campeavam a
cenário político argentino, expressava sua estranheza diante do desordem, a desunião e a fragmentação, todas alimentadas
mundo brasileiro, tão diferente do que ele conhecia. Em pelas idéias republicanas. O Brasil, ern oposição, era forte, unido
primeiro lugar, ele estava nos "trópicos", sobre os quais tinha os e, portanto, poderoso•·.
mais negativos sentimentos, seguindo a leitura de
Montesquieu1 . Em segundo lugar, o Brasil era a terra da A historiografia produzida pelo I.H .G.B. trabalhava com uma
escravidão, que se apresentava no Rio de Janeiro "em toda sua idéia de identidade interna que deveria ver o Bra sil como o
deformidade":!, Sua visão negativa sobre o Brasil relacionava-se resultado da fusão das "três raças", o branco, o índio e o negro.
ao convívio entre brancos e escravos, já que os negros eram Externamente, corno muito bem já afirmou Guimarães, a
"incapazes de elevar-se às altas regiões da civilização" identidade brasileira, no período, foi construída montando .. se a
(Sarmiento 1993: 59). "A raça branca no Rio de Janeiro está oposição entre regimes políticos antagônicos, a monarquia e a
castigada pelas doenças africanas, que participam do caráter república. Os demais países da América Latina eram potenciais
odioso e deforme das degenerações dos trópicos, nos quais o inimigos políticos do Bra sil e se constituíam na represe ntação da
que não chega a ·ser belo, é monstruoso e repugnante" barbárie (Guimarães 1998: 7).
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Considero fundamental enfatizar que essas interpretações Do lado português/brasileiro, ·as justificativas apresentadas
ganharam enorme projeção e foram difundidas nas escolas, nos pelos contemporâneos, já desde 1808, centravam-se na idéia de
jornais da Corte e das províncias, nos púlpitos, nos banquetes, que o território nacional tinha uma "fronteira natural" que ia do
nos discursos da Câmara e do Senado. Dessa maneira, foram Amazonas ao Prata. Importante assinalar que tal "fronteira
sendo captadas pela sociedade, contribuindo decisivamente para natural", ao sul, havia criado importantes interesses econômicos
a constituição de uma certa · maneira de se pensar a relação compartilhados por proprietários de fazendas na região Oriental
distante entre o Brasil e a América do Sul. Lembrando a anállse e no Rio Grande do Sul, ligados a comerciantes do Rio de
de Girardet, estas são "verdadeiras narrativas míticas" que têm Janeiroll.
uma dupla finalidade, a explicativa e a mobilizadora (Girardet
1987: 162). Ou tomando a idéia de Nicolas Shumway, esses Portanto, não é de se admirar, manifestações públicas que
textos podem ser considerados "fixõesguias", isto é, escritos defendiam a incorporação da Banda Oriental ao Brasil,
necessários para que os indivíduos de uma sociedade aceitem denunciando a "usurpação" dos espanhóis do território que
um sentido de ilação, uma identidade coletiva, u·m objetivo "sempre nos pertencera". Em 1823, urna carta de um leitor do
nacional (Shumway 1991 : XI) 2• Esses discursos ganharam um Observador Constitudonal transcrita no Diário do Governo,
caráter unívoco, articulado em torno de um núcleo central, a afirmava que a Banda Oriental estaria muito melhor sob a
idéia da monarquia unificadora da nação. proteç:io e segurança do .monarca português, pois "o resto da
América Espanhola retalhado em estados diferentes, e muitos
*** d'estes ainda divididos em partidos, mal pode cuidar cada um da
sua segurança e arranjos internos, e muito menos concorrer por
Tal visão expressa nessa produção textual não estava descolada meio de socorros para a dos outros; que nestas circunstâncias
dos acontecimentos recentes da história brasileira e relacionava- é-lhe sem comparação mais vantajosa a sua incorporação ao
se com as rebeliões regionais internas e as guerras externas no Império do Brasil, poderoso, respeitado, e já na sua nascença-
Prata, ganhando sentido e se transformando em explicações solidamente baseado, como ele se acha, do que a outro
perfeitamente compreen síveis e adequadas ao momento qualquer Estado".!l.
histórico.
Nesse mesmo ano de 1823, um artigo do Diário do Governo
É possív el acompanhar a emergência desses argumentos desde enfatizava a superioridade do regime monárquico sobre o
a independ ência do Brasil. Para tanto, faz-se necessário lembrar republicano: "À vista do que fica exposto podemos concluir com
algumas questões desde a chegada de D. João e de sua Corte segurança que, se a América Espanhola abraçar o sistema
ao Brasil, em 1808. A presença do rei no cenário americano Monárquico, modificado por uma Constituição sábia, sistema
aguçou as disputas co loniais entre Portugal e Espanha na cuja utilidade lhe não é desconhecida, e chamar ao Trono a todo
América Meridion al e estimulou as práticas expansionistas da o custo uma Personagem de qualquer das Dinastias Reinantes,
Co roa portugu e~a·1. para desta sorte evitar as funestas conseqüências da ambição
dos naturais mais poderosos, a cujos caprichos tem sido até
Do:,rlr: o Início, c m 181.0, das lu tas pe la independência das agora sacrificada, e segurar ao mesmo tempo ·a contemplação
;o\/) 11\,-1f; or, p,1nh olas, Portuga l (posteriormente também o Bra sil) das Nações Estrangeiras, não só poderá contar com um mais
n A, ncnlln a <ll sput.aram o domínio so bre a Banda Oriental~. Em pronto reconhecimento dos Soberanos da Europa, mas ainda
J.!J:) 1. , C;, li.l foi incorporada ao Brasil, com o nome de Prov íncia com a eficaz cooperação do grandioso Império do Brasil ( ... )"11 •
Ci;,p l;i lfna . Com a ind ependência brasileira , em 1822, o
lmp er<1cJor D. Pedro I seg uiu a política externa já estabelecida. A Assim, as justificativas da anexação já ensaiavam se sustentar
província Cisplatina "pertencia" ao novo país. no delineamento de uma oposição entre regimes políticos
divergentes; de um lado, a fragilidade do regime republicano,
Mas ao lado das armas; outro combate tão importante quanto o "típico" da América Espanhola e, de outro, a solidez do regime
p1·imeiro, o das idéias, também acontecia. Buenos Aires monárquico brasileiro.
enten di a ser "natural" a inco rporação da Banda Orienta l às
Prov íncias Unidas do Rio da Prata, pois significava a No entanto, as ambições brasileiras sobre o território da Banda
pe rman ência da s fronte iras estabelecidas du rante o período Oriental começaram a ser soterradas em 1825. A luta dos
colo nial , indicando urna continuidade histórica. Em 1816, um uruguaios pela reconquista anulou os compromissos políticos
jorna l distinguia as diferenças entre as colonizações espanhola e com o Brasil e reintegrou a Banda Oriental ao território das
portuguesa: "nada es peor que la dominación extranjera; y que Províncias Unidas do Rio da Prata. A guerra desencadeada entre
dom inación' Portuguesa' !! Que sin duda es peor que la Brasil e Argentina terminou sem vitoriosos. Com a arbitragem
espaiiola; pues son sin comparación más ignorantes, más da Grã Bretanha, o Estado Oriental do Uruguai, como país
supersticiosos y más intolerantes, y por eso se han unido para soberano, nascia em 1828.
subyugam os"l.!' ,

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No Brasil, a guerra com a Argentina foi justificada com a A difícil e demorada derrota dos rebelados precisava ser
utilização dos antigos argumentos que entendiam a Província legitimada com o reforço do discurso da unidade. Os círculos do
Cisplatina como parte integrante e "natural" do império poder monárquico insistirão na existência de uma íntima relação
brasileiro. Do ponto de vista político, o embate entre império e entre reg ime monárquico e unidade territorial, utilizando os
repúblfca também despontava. Assim, apoiava o Diário mesmos argumentos anteriores, mas dando-lhes mais
Fluminense a guerra: "Fácil é de se conhecer o extraordinário visibilidade, constância e acabamento. Assim, fechava-se uma
temor, de que os pequenos Soberanos Argentinos estão interpretação que valorizava a monarquia, entendendoa como
possuídos vendo crescer tão desmarcadamente o Império do responsável pela manutenção da "grandeza" do território
Equador. ( ••• ) Nenhum motivo fará com que Ele [S.M.I.] retire o brasileiro, dádiva "natural" da Divina Providência e que
seu escudo, e deixe nas margens do vulcão republicano uma demonizava as repúblicas hispânicas vítimas da "dolorosa
Província, que a natureza fez parte constituinte do Império do fragmentação", fruto de sua "própria História".
Brasil; que nos tratados e convenções das Potências Européias
foi julgada nossa ( ... )"li. Assim, na metade do século XIX, a região que hoje integra o
Mercosul ainda mantinha relações políticas bastante
A guerra demonstrava que .Buenos Aires continuava com suas conflitantes. Defendendo seus interesses na Argentina e
aspirações de formação da "Grande" Argentina. Um dos Uruguai, o Brasil montou urna estratégia intervencionista para
argumentos em defesa da guerra contra· o Brasil se baseava na abrir espaço a governos mais favoráveis aos interesses
associação entre a falta de respeito pelos direitos individuais e o brasileiros na região e foi muito bem sucedido em seus
regime monárquico. O jornal de Buenos Aires, Nacional, objetivosi\
caracterizava a guerra como um conflito entre monarquia e
república, anunciando para breve o desmoronamento do império O autor do plano de intervenção ·- que culminou com a
brasileiro. Associava a idéia de liberdade ao regime republicano, derrubada de Juan Manuel de Rosas, em 1852 - foi Paulino José
indicando o "caráter'' europeu e anti-americano do sistema Soàres de Souza, futuro Visconde do Uruguai, figura
político brasileiro. Em oposição, a república significava o fundamental na construção da política externa brasileira do
rompimento com a Europa e marcava a dimensão de uhla período1f>.Em maio de 1852, expunha os motivos qu e teri am
identidade americana presente em seu país. levado o Brasil a intervir na região do Prata: "Os esforços feitos
pelos generais Rosas e Orlbe para separar do Império a
Nas palavras de Garrido Pimenta: "[ ... ] a figura de D. Pedro é província do Rio Grande do Sul; a maneira pela qual cortej aram
tomada pelos republicanos como a própria personificação da a rebelião de 1835, e contribuíram para que engros sassem as
guerra. As constantes referências depreciativas ao Imperador exageradas pretensões de fazer reviver o nulo tratado de 1777,
enfatizavam o fato de ele ser europeu e conseqüentemente anti- e de recobrar os povos de Missões que conquistamos, e dos
americano ('déspota luso-brasileiro', 'tirano europeu', 'o Nero do quais há tão largo tempo estamos de posse; as continuadas
Continente Americano'), sendo comparado a Fernando VII como tropelias, violências e extorsões cometidas sobre súditos e
inimigo da América e ao execrado Agustín do México, 'tirano' e propriedades brasileiras no território Oriental e na fronteira,
'usurpador'. A guerra; então, se fazia contra o Imperador, e não pondo em agitação a província do Rio Grande do Sul, e tornando
contra o Brasil ou contra os Povos do Brasil que, em sendo iminente um rompimento de um dia para o outro, são
americanos, teriam a mesma causa que os republicanos" circunstâncias que nos deviam fazer desejar e empenhar todos
(Pimenta 1998: 232). os esforços para uma solução definitiva dessas questões, que,
arredando os perigos iminentes da posição em que se ach,wa o
com a abdicação de D. Pedro I, em 1831, abriu-se com a Império, nos oferecessem garantias e nos permitissem viver
menoridade do sucessor ao trono brasileiro, o período conhecido tranqüilos"~- Afirmava aindâ que Rosas pretendia acabar com a
como o das Regências. Nesses anos, o Brasil foi sacudido por monarquia, "planta exótica" no solo americano e promover urna
uma série de rebeliões de forte cunho regionalista, muitas delas rebelião de escravos. A luta contra Rosas e Oribe também tinha
propondo a separação do resto do país, constituindo-se em como justificativa o embate contra "a opressão dos ditadores",
ameaçador perigo da dissolução "da ordem e da unidade" do idêntica à empregada, alguns anos depois, contra Solano López
Império. A mais longa dessas rebeliões foi a Farroupilha (1835- no Paraguai. Note-se, ainda, a importância dada no texto às
1845), no Rio Grande do Sul, que pôs em risco a manutenção ligações entre o Uruguai e a província do Rio Grande do Sul que
das "fronteiras naturais" do sul do país. A tentativa de "havia sido pacificada" fazia apenas sete anos.
separação se alicerçava em propostas republicanas de governo,
concretizadas na criação da República de Piratini. O fantasma da O V.isconde do Uruguai também resumia a política externa do
perda da Província Cisplatina rondava a corte imperial e o Brasil no período do Império. O país deveria ter· urn lugar
envolvimento de grupos uruguaios nas lutas indicava a hegemônico na América do Sul, mantendo distância de seus
permanência de interesses econômicos e políticos comuns, vizinhos, não considerados como "iguais". A monarquia
assim como de fronteiras bastante flexíveis. brasileira havia demonstrado, na ótica desses políticos e
publicistas, sua "natural" superioridade. O Brasil continuava a
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olhar para a Europa, vale dizer Grã Bretanha e França, fonte e começo do XX, manifestações de busca de identidades
irradiadora da "cultura, do progresso e da civilização"_ Tais alicerçadas nas raízes culturais hispânicas e na valorização da
valores. não poderiam ser encontrados nos vizinhos que nos herança da colonização, não ocorrendo, portanto, as mesmas
rodeavam. "afinidades eletivas". ·

As ligações entre os acontecimentos das duas primeiras décadas De fato, no Brasil republicano; aconteceu uma tímida
posteriores à independência e os textos dos historiadores aproximação oficial com a América hispânica. No campo da
citados anteriormente - Vamhagen e von Martius - parecem-me História, é preciso assinalar a iniciativa da realização de um
bastante fortes. Os argumentos que ganharam sua plena forma concurso público para a elaboração do primeiro manual escolar
com esses autores já vinham sendo gestados desde a de História da América . Sintomaticamente, apresentou-se um
emancipação do Brasil. único concorrentEj, Rocha Pombo, que teve seu texto aprovado e
publicado, depois de utn parecer positivo de Manuel Bomfim, um
*** dos raros entusiastas da América Latinali.

Acompanhando os argumentos dos historiadores e publicistas do O encontro intelectual entre autores brasileiros e hispano-
Império, foi possível notar a ênfase dada às diferenças dos americanos, demonstrando os dois universos em dissonância
regimes pol íticos que marcavam o distanciamento entre Brasil e pode ser acompanhado nos escritos de um dos maiores criticos
os demais países da América latina. Afirmo que esses discursos literários do começo do século XX, José Veríssimo. Ele escreveu,
tiveram constâ ncia e vigor, construindo um imaginário sobre a por exemplo, uma resenha do livro de José Enrique Rodó, Ariel,
"outra" América e alargand o o fosso que "nos" separava "del.es". com o título de "Regeneração da América Latina".12.. Começava o
Nessa perspectiva, a derrubada do regime monárquico e a artigo criticando o autor pela escolha do próprio título do livro,
instalação da Rep ública, em 15 de novembro de 1889, deveria / dizendo que "em vez de seu título enigmático de fantasia
em tese, inaugurar uma nova era nessas relações, fazendo o artística, poderia levar o que dei a este artigo" (Veríssimo 1902:
regime republica no mudar seu sinal de negativo para positivo. 23).

Entretanto, as disti nçõe.s entre Brasil e América de colonização Publicado em 1900, Ariel valorizava as tradições hispânicas
espanhola permaneceram pelo período republicano, com a como fonte primordial da cultura latino-americana, e fora
utilização dos mesmos argumentos previamente apontados. inspirado, pelo menos em parte, pela intervenção norte-
Importante ressalta r que a historiografia brasileira mostrou americana na guerra hispano-cubana de 1898. Apropriando-se
como os republica nos não produziram um discu rso que das personagens de Shakespeare em A Tempestade, Rodá
opusesse f'ortemente os dois periodos políticos no país. A construiu metáforas sobre as Américas. Ariel, gênio do ar,
Repú blica, devedora da s idéias positivistas, foi entendida como representava a parte nobre do espírito, o império da razão, a
uma etapa necessária ao maior progress o da nação. A espiritualidade da cultura . Constituía-se, pa,ra ele, em símbolo
monarquia precisa va ser superada,. mas isto não significava da América Latina que se contrapunha a Calibán, o monstro que
desLnJlr o qur. ela havia legado à nação, a começar pela idolatrava a matéria, representação concreta dos Estados
"11 1,-1nutc n~80 CJi'l unicf,J de e g1·a ndeza do território" . A figura de Unidos. A repercussão deste texto em toda a América de
1). Pedro ll rierman ecia im po luta , aparecendo como um colonização espanhola foi enorme, criando-se até mesmo o
mon arca lJem intenr:ionado e preocupado com os grand es substantivo "arielismo".
prnblemas do Bra sil.
Não se imagine que Veríssimo desconhecesse a simbologia dos
Co mo afi rma Maria de Lourdes Ja notti, as críticas à República, personagens de Shakespeare, pois a familiaridade com A
nos anos imed iatamente posteriores à sua instalação, foram Tempestade ficava indicada no decorrer do texto,'.,Q. Suas
rea lizada s po,· grupos de republicanos já desiludidos e diferenças passavam pela não aceitação da defesa das
inconformados com a ti bieza e a lentidão das mudanças. A identidades propostas. Eis a visão de Veríssimo sobre a
República pa recia não haver concretizado as esperanças t ão colonização espanhola : "Por ocasião da guerra hispano-cubana e
almejadas. A idéia do Impé ri o, como uma exceção positiva no da intervenção norte-americana nessa pugna, quem escreve
co ncerto da s nações da Améri ca Lati na , permanecia inalterada, estas linhas, com sua ojeriza pela civilização espanhola, feita de
atravessando a ruptura republ icana (Janotti 1986 : 213) . conquistas sanguinolentas, de inquisição, de fanatismo, e com
seu sincero amor de ver livre o pequeno povo que há vinte e
No entanto, com a República , novas identidades ganhavam cinco anos estava lutando pela sua independência uma luta
consistência. Estabelece,·am-se li nhas de simpatia com relação atroz e desigual, cometeu o grave erro de supor que,
aos Estados Unidos, nesse t empo de afirmação do novo regime, recordando o que elas mesmas sofreram do duríssimo domínio
sign ificando ma is um aprofund amen to nos sulcos da trilha que espanhol, e o que lhes custou libertarem-se dele, as nações
afastava o Brasil dos países hispano-arnericanos. Em hispano-americanas veriam, ao menos com indiferença, senão
contraposição, aconte ciam na. América hispânica, no fim do XIX com satisfação, os Estados Unidos tomarem a parte daquela
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heróica papulação, como elas hispanoamericanas" (Veríssimo brasileira pode dizer-se por tantos motivos haver sido no século
1902: 24). XIX o regime político verdadeiramente adequado ao 'sta tu s'
social da América Latina" (Lima s/d.: 167)u.
Mas para sua surpresa, tal não aconteceu. Pelo contrário, em
outros países da América Latina a intervenção dos Est.ados Para ele, a monarquia representou, "em um período anárquico
Unidos despertou manifestações de hostilidade contra ela . Para para quase todo o resto do continente", a paz doméstica
o brasileiro, que demonstrava dificuldades para entender essas associada à liberdade. (Lima s/ d.: 168) Dizia: "Em t odo o caso
ligações, o livro de Rodó era "um sintoma do despertar do constituiu o Brasil imperial um modelo de liberdad e e de paz
sentimento latino, ou antes, do sentimento espanhol na porção para a América Latina e forneceu pelo menos uma imagem não
ibérica da América" (Veríssimo 1902: 24}. Assim, o Brasil não ilusória de civilização, ainda que refletida no trono, ao tempo
podia ser enquadrado nessa moldura, indicando, mais uma vez, que as sociedades hi spano-americanas se debatiam na
as distâncias que nos separavam. desordem e na selvageria" (Lima s/d .: 126) . .Isto porqu e lá
existia um general caudilho, que ficava muito perto do "povo
Também é interessante seguir os argumentos de Veríssimo na inculto". O caudilho dominava uma "multidão fa scinada e
r esenha de outro livro, o do argentino Rodriguez dei Busto, inconsciente na qual prevalecia, em matéria social, um instinto
Pellgros Americanos, em que este autor advertia para o perigo comunista, e em matéria política , um pendor demagógico"
representado pela expansão dos Estados Unidos e apelava para (Lima s/d.: 127). Para tal pecado original, no entanto, havia
a unidade latino-americana. O crítico brasileiro afirmava: ''Tenho resgate, pela moralização do trabalho e da educação. Al ém do
a fraternidade latino-americana, sinto-a intimamente; nunca, Brasil, cujo passado sob a monarquia, fora "invej ável", a
desde rapaz, participei do preconceito da minha gente, herdado Argentina também saíra do "atoleiro", constituindose em
do português e desenvolvido pelas nossas lutas no Rio da Prata, exemplo para os demais países da América Latina (Lima s/ d . :
contra os povos espanhóis da América. Amo-os a todos e me 149).
revoltam as manifestações hostis a qualquer deles; mas não
consigo ajeitar-me à ·idéia que eles possam sair· tão cedo da Não surpreende_,constatar que a maior parte dos textos hispano-
miséria econômica, social e moral em que, salvo uma ou outra americanos citados por Oliveira Lima - e pelos brasilei ros em
raríssima exceção, vivem" (Veríssimo 1902: 20}. O primeiro geral - foi publicada na Fran ça, em geral, em francês. Como
ponto a ser ressaltado referese à sua constatação da pouca tantas vezes já se afirmou, Paris era o centro difusor de
simpatia dos brasileiros em relação aos hispano-americanos. Em conhecimento sobre as letras latino-america nas. Oliveira uma
segundo lugar, vale assinalar algumas conclusões de Veríssimo apoiava-se, no livro acima citado, em dois clássicos autores
sobre o futuro do continente. Para ele, pela seleção natural, à hispano-americanos, seus contemporâneos: o peruano Fra ncisco
Américà Espanhola "não lhes caberá futuro próprio"; outros García Calderón e o venezuelano, Rufino Blanco Fombona ·...::.
povos assumiriam essa tarefa no lugar deles. Em contrapartida, Para legitimar suas afirmações sobre a situação da s sociedades
o futuro sorria para o Brasil, senhor de seu próprio destino. hispano-americanas, recorria a Perou Contemporain de Garcia
Calderón, afirmando que seu s argumentos, que incluíam as
O mesmo exercício de análise da exposição de semelhantes idéias de anarquia, de constituições políticas enxertada s, de
argumentos poderia ser realizado em diversos textos de outros instintos seculares do povo, explicavam a sit uação "desa strosa "
autores conhecidosli. Entretanto, quero deter-me, por fim, na do Peru, e podiam ser es tendidos a todo o im pério espanhol
análise do consagrado historiador e diplomata, Oliveira Lima, (Lima s/d.: 164). Para criticar o fed eralismo republican o da
que deixou obra extensa, parte dela dedicada a pensar o Brasil Am érica Espanhola, Oliveira Lima, depois de arroi ar exempl os
nas Américas. Considerada figura destacada como articuladora de v ários ditadores hispano- americanos, citava Bianca Fombona
da política externa brasileira, foi comparado a Joaquim Nabuco, que, segundo ele, resumia com felicidade a situa ção da América
com quem formava "o par homérico de nossa diplomacia" Espanhola, onde: "impera o cacique, e sobre est e amiúde o
(Orlando1906: 4). rábul a, o charlatão, que o ch efe in tenso admira e o povo
analfabeto aplaude" (Limas/d.: 170).
Em América Latina e América Inglesa, escrito em 1912, o autor
reproduzia uma série de conferências realizadas nos Estados Nota -se, assim, que a repetiç5o ern seu t exto de um termo
Unidos, nas quais analisava "a evolução brasileira comparada com o "anarquia", para definir a América Espa nhola se
com a da América hispânica e inglesa". De maneira discreta, legitimava na medida em que os próprios hispa no-america nos
porém clara, a defesa da monarquia estava presente. faziam uso dele. Ainda uma vez, eram duas Américas, uma da
Ressaltando a importância do Império na manutenção da ord em, da paz e da unidade e a outra, do individualismo nefast o
unidade nacional, afirmava que com a perpetuação no trono da (o exemplo de Rosas na Arg entina era comurne nte lembrado ),
dinastia portuguesa, "não só se arredava no Brasil a coroa do do caos, da an arquia, da frag mentação. Mesmo em plena
conflito das · ambições, como se dotava a tradição nacional de República, o imaginário sobre a identid ade nacional combinava à
um vigor e de um realce únicos, comparados com o que ocorria idéia de unidade, a de ordem ga rantida pelo reg ime
nos demais países do novo mundo espanhol ... A monarquia mon árquico.
11 12
atitudes demonstraram que apoiou Joaquim Nabuco.
Reveladores dessa decisão foram os postos designados a eles
Interessante é acompanhar o livro de García Merou, muito por Rio Branco: enquanto Oliveira Lima era enviado a Caracas e
citado por Oliveira Lima, E! Brasil intelectual. Impresiones y
notas /iterarias. Publicado em 1900, o autor indagava, logo no
e
Bruxelas, a Nabuco ficavam reservados Londres Washington.
início do texto, das razões do distanciamento entre Argentina e
Brasil, enfatizando a mútua ignorância com relação às Nesse embate, a publicação, em 1907, de Pan-americanismo
respectivas produções intelectuais. Contrariando a regra, o (Monroe, Bolívar, Roosevelt), havia se constituído em marco
conhecimento de García Merou sobre os autores brasileíros do divisor na carreira de Oliveira Uma. Nesse livro, suas posições
período é notável. Em termos de política, entendia que tínhamos de ataque à política externa dos Estados Unidos se
todas as condições para nos aproximar, já que as desavenças apresentaram de forma mais contundente, pretendendo mostrar
do passado não mais encontravam razão de ser. Afirmava que, os perigos futuros que adviriam dela com relação ao Brasil e à
no começo do século XX, enfrentávamos problemas América Latina. Para o autor, era Ingenuidade acreditar que a
se melh antes e nos norteávamos por prinópios políticos comuns. Doutrina Monroe fora pensada em benefício dos países da·
Ent r etanto, ainda que republicano convicto, não escapava da América Latina, para· supostamente defendê-los da Europa. A
interpretação dominante sobre o período imperial brasileiro. doutrina beneficiava os interesses dos Estados Unidos mais
Explicando a ausência de caudilhos no Brasil, afirmava el e: "É claramente identificados, no começo do século XX, com as
um bem apreciável que devem os brasileiros à larga estabilidade atitudes intervencionistas do governo de Theodore Roosevelt.
do regime monárquico, e que, apesar da mudança das Opunha-se ao "rooseveltismo" de Nabuco, para quem os países
instituições, foi estabelecido já um costume e uma necessidade latino-americanos deviam sentir "simpatia e gratidão" diante
pública difícil de quebrar" (García Merou 1900: 439). dos Estados Unidos (Lima 1980: 67)1:i. Tal posição determinou
seu rompimento definitivo com Nabuco e Rio Branco,
Como García Mcrou, Oliveira Lima acredit,va na possibilidade de acarretando-lhe perdas profissionais e levando-o, em 1913, a
um encontro entre as Américas portuguesa e espanhola. No solicitar sua aposentadoria da carreira diplomática. A derrota de
passado, dizia, houvera hostilidades, mas no momento em que Oliveira Lima no plano diplomático significou a perda de uma
escrevia os interesses eram por demais análogos e comuns a possibilidade de aproximação oficial com a os países do ABC e a
ambas, havendo uma recíproc.a conveniência de aproximação, vitória da posição de alinhamento do Brasil nas fileiras do pan-
que para ele, se desenhava a cada dia mais pronunciada e mais americanismo capitaneado pelos interesses dos Estados Unidos.
firme (Limas/d.: 167).
Desse modo, com a República, não se alteraram
Na defesa de suas posições, no .l ivro Na Argentina , editado em substancialmente as relações diplomáticas com os demais
1920, Oliveira Lima citava o estadista argentino, professor d a países da Américà Latina. Esta posição se coadunava com a
Faculd ade de Direito de E>uenos Aires, Estanilaos S. Zeballos, manutenção de um sentimento anti-hispânico bastante
concord and o com sua proposta de união das três maiores acentuado, conforme foi indicado nos textos analisados. A
potê ncias dn América do Sul ·- o Brasil, a Argentin a e o Chil e. República não destruiu as distâncias entre o Brasil e a América
Arirma que o argentino "por ocasião de seu último ministério Hispânica, pois as diferenças, multo mais que as semelhanças,
t:c nl.ou com afinco neg ociar um tratado de comércio com o continuavam a ser destacadas. As visões da distância que nos
Br·as ll , vantajoso para ambas as partes, e esboçou mesmo o separava contribuíram para a construção de um imaginário que
plano drc um a aliança defensiva entre as trê.s nações, qu e não forjou uma memória transformada em senso comum e que
foi por diante porqu e ciúmes nacionais e estrangeiros lh es foram remetia ao passado histórico apresentado como legitimador do
de encontro. Não havia nesse projeto, mais tarde retomado com presente.
o nome de A B C e malogrado por outros motivos, visos de
agressão, quer aos Esi:ados Unidos, quer à Europa: apenas
entendia o estadista argentino que um bloco latino-americano ***
ofereceria vantagens decididas no sentido de fazer respeitar,
não só a integridade territorial como a soberania das nações O historiador, como muito bem já assinalou Marc Bloch, deve
componentes do acordo e conseguintemente do continente estar atento ao presente, a tudo que é vivo e está a seu redor
colonizado pelo esforço ibérico" (Lima 1920: 166-167)·;±. (Bloch 1974). A criação do Mercosul, sem dúvida, colocou
problemas e questões ao historiador da América Latina. Sua
Na carreira diplomática, Oliveira Lima e Joaquim Nabuco existência fez surgir indagações particulares sobre as específicas
representaram duas tendências opostas. Enquanto Oliveira Lima relações - não simplesmente relações econômicas - entre os
entendia que a política externa do Brasil devia tomar a direção países componentes do bloco. Este texto nasceu exatamente de
de aproximação com os países da América espanhola, algumas inquietações criadas por esta nova situação. Olhando
particularmente da Argentina e do Chile, Nabuco era um ·p ara o futuro, cabe indagar se o Mercosul levará a mudanças na
"americanófilo" de primeira hora. O todo poderoso Barão do Rio esfera das relações culturais? Será possível transformar velhas
Branco, na sua qualidade de ministro, aparentava um certo imagens e idéias? Esses novos ventos levarão à elaboração, no
distanciamento entre as posiçõr:;s defendidas. Entretanto, suas Brasil, de outras concepções sobre a América Latina, em

13
14
particular sobre a América do Sul, trazendo-a para mais perto GUIMARÃES, Manuel Luís Salgado. "Nação e civ ilização nos
dos brasileiros? trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto
de uma História Nacional". Estudos Históricos, n° 1, 1998.
Termino com uma certeza e uma dúvida. A primeira se refere à
constatação de como é difíàl pensar a América Latina a partir do JANOIB, Maria de Lourdes Mônaco. Os subversivos da
Brasil, onde não existe uma tradição de estudos latino- República. São Paulo, Brasiliense, 1986.
americanos. Os ricos e férteis resultados que se obteriam, caso
perseguíssemos as trilhas abertas pela História Comparada da LIMA, Oliveira. América Latina e América Ingleza. Rio de
América Latina, parecem-me evidentes. A indagação que Janeiro, Livraria Gamier, s.d.
continuo a fazer refere-se às concretas possibilidades do
despertar de uma nova visão brasileira com relação a essa outra _ _ _• Na Argentina. São Paulo e Rio de Janeiro, Weisflog
América, tão próxima e, ao mesmo tempo, tão distante.
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University of Ca lifornia Press, 1991. de conflitos. Até Oliveira Lima, sobre quem falaremos mais
adiante, admitia que D. João VI levara à frente uma política
VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História da Independência do expansionista: "O reinado brasileiro de Dom João VI foi o único
Brasil. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1940. período de i_m perialismo consciente que registra a nossa
história". (apud Malatian 1998: 147).
História Geral do Brasil. 10ª ed., Belo Horizonte: 2 Quando José Artigas iniciou, em 1811, as lutas pela
Itatiaia; São Pau lo : Ed itora da Universidade de São Paulo, independência do futuro Uruguai, o império português entendeu
1981. que .era o momento apropriado para atingir seus antigos
· objetivos,. mobilizando suas forças para intervir na região. A
VERÍSSIMO, José. "Regener ação da América Latina." in movimentação e as propostas de Artigas eram consideradas
BARBOSA, João Alexand re (org.). Cultura, literatura e política na perigosas particularmente para os objetivos unitários da Corte
América Latina . São Paulo: Brasiliense, 1986. portuguesa, levando à primeira (e frustrada) intervenção
portuguesa, na Banda Oriental, em 1811. Mas, do outro lado do
estuário, Buenos Aires comandava as lutas pela independência
da Espanha. Conquistando rapidamente seguidas vitórias,
projetava manter sua hegemonia sobre os mesmos territórios
que haviam composto o antigo Vice Reinado do Rio ·da Prata.
Desse modo, tanto a Banda Oriental, quanto o Paraguai
.l Embora opiniões e propostas dos dois lados das fronteira s se "deveriam" fazer parte das nascentes Repúblicas Unidas do Rio
entrecruzem, estudo poucos textos de autores argentinos ou da Prata . Assim, as ambições portuguesas e portenhas se
uruguaios. enfrentavam em torno do território do futuro Uruguai. Em 1816,
z Cf. Guimarães 1998: 8 e 10. A análise de Guimarães quando Artigas lutava contra os Unitários portenhos e
demonstra claramente as ligações umbelicai s entre as desagradava, com suas propostas radicais de confisco de terras,
fina li dades do I.H. G.B. e os objetivos centralizadores da a elite mercantil e proprietária da Banda Oriental, os
monarquia brasileira. Sobre o I.H.G.B., ver também (Schwarcz portugueses novamente mandaram tropas por terra e por mar
1993). para a região, culminando suas ações com o cerco a
.;l SarmtcnLo escreveu, em 1845, seu Facundo, se m nun ca ter Montevidéu . Receberam apoio de proprietários rurais e de
v lsl o os pamp~ s e jama is ter pisado em Buenos Aires. Para comerciantes, descontentes com Artigas. Este acabou derrotado
compor o livro , utili zou -se de leituras de viajantes europeus que em 1820, deixando o território da Banda Oriental para sempre.
v isit aram a região . Assim, ele vê o Brasil, j~ com um "quadro Aproveitando-se da debilidade dos portenhos provocada pelas
mental" fortemente construído a partir de leitu ras dos eu ropeus. lutas políticas locais que os dividiam - os portugueses,
1 A historiografia brasileira já discutiu amplamente a questão da temporariamente vitoriosos, incorporaram, em 1821, a Banda
ma nutenção da escravidão e a relação com a vigência da Oriental a seu império, com o nome de Província Cisplatina .
integridad e t erritorial bra sileira. O próprio von Martius indicava 10 La Crônica Argentina, 2ª.ed . do n.30 de 8 de dezembro de
a importâ ncia da monarquia num país com um número tão 1816, citado por (Pimenta 1998: 136).
elevado de escravos. 11 Cf. (Pimenta 1998). Sobre o tema, ver também (Magnoli
5. Em sua História da Independência do Brasil, conclui o livro 1997). Manuel Luís Salgado Guimarães mostra que, no século
com as seguintes palavras: "Terminamos, pois, sauda ndo, com XIX, a revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
ve neração e r everência, a memória do prín cipe FUNDADOR DO tinha, em seus artigos, particular preocupação com a questão
IMPÉRIO" (Varnhagen 1940: 389). das fronteiras, especialmente, ao sul (Colônia da Sacramento),
§ Ent re os pen sadores liberais, na Europa, a mon arquia
ao norte (com a Guiana Francesa) e ao centro-oeste (Mato
constitucion al era comumente vista como o regim e mais Grosso). (Guimarães 1998: 23).
apropriado pa ra os grandes Estados, sendo a República
12 A carta é de 30 de janeiro de 1823, publicada no Diário do
adequada aos pequenos Estados, seguindo a célebre Governo, n.33 de 11 de fevereiro de 1823, citado por Pimenta
classificação de Montesquieu. Vale lembrar, por exemplo, que 1998: 196-197.
Hegel entendia que na monarquia constitucional, forma por 13 Diário do Governo, n.28, de 5 de fevereiro de 1823 (apud
excelência do Esta do Modern o, a liberdade civil estava melhor Pimenta 1998: 202).
protegida. A forma de governo monárquico era "a última" a que 14 Diário Fluminense, n.149, de 28 de dezembro de 1825,
chegara a história universal , não havendo melhor alternativa citado por Pimenta 1998: 209.
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