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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

Instituto de Economia

CE 792 – Desenvolvimento Econômico Contemporâneo

Professor: Marcelo Proni

AS ATUAIS RECOMENDAÇÕES CEPALINAS PARA O DESENVOLVIMENTO

Alunas:

Beatriz Varolo RA: 167462

Letícia Suzane Araújo RA: 182075

Campinas – Novembro, 2019


SUMÁRIO
1. Introdução ........................................................................................................... 3

2. Objetivo ............................................................................................................... 3

3. Desenvolvimento ................................................................................................ 4

3.1. O Estado e o desenvolvimento ......................................................................... 4

3.2. A Agenda 2030 da ONU e a CEPAL ................................................................ 6

4. Conclusão ........................................................................................................... 8

5. Referências Bibliográficas ................................................................................. 9


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1. Introdução
A CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) tornou-se
uma escola de pensamento focada na análise das tendências econômicas e sociais
dos países latino-americanos e caribenhos. De acordo com a própria Comissão: “O
método, chamado "histórico-estrutural", analisa a forma como as instituições e a
estrutura produtiva herdadas condicionam a dinâmica econômica dos países em
desenvolvimento e geram comportamentos que são diferentes do comportamento
das nações mais desenvolvidas. ”1

São inúmeras suas contribuições, como, por exemplo, no debate da inflação


brasileira, com o conceito de “inflação inercial”, bem como contribuições em relação
ao desenvolvimento sustentável. Além disso, teve a assistência de vários
economistas notáveis como Celso Furtado o qual foi diretor da Divisão de
Desenvolvimento da CEPAL por oito anos (de 1949 a 1957).

Outro importante economista da CEPAL, Ricardo Bielschowsky, realizou um


estudo no qual comparou o padrão de desenvolvimento de 13 países entre os anos
de 1950-2000. “Neste estudo, entendeu-se por desenvolvimento econômico o
processo de crescimento com transformação estrutural e, por padrão de
desenvolvimento, o “ritmo de crescimento” e a “composição setorial e tecnológica da
transformação estrutural”” (Bielschowsky, 2013). Ele conclui que apesar de verificar
dois padrões de desenvolvimento – o latino-americano e o asiático – cada país teve
seu próprio percurso de crescimento com transformação estrutural devido as
características especificas de cada um deles. Assim, os estudos e considerações da
CEPAL tiveram muita importância no passado e continuam pertinentes nos dias
atuais.

2. Objetivo
O intuito desse trabalho é discorrer sobre as atuais recomendações da CEPAL.
Haja vista que desde a sua fundação em 1948 seu objetivo é auxiliar no
desenvolvimento econômico da América Latina. Indubitavelmente, a conjuntura
econômica tem se alterado ao longo desses 71 anos de sua existência, diante disso
é relevante investigar as orientações recentes da CEPAL para o desenvolvimento.

1 Disponível em: https://www.cepal.org/pt-br/cepal. Acesso em: 29/10/2019


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3. Desenvolvimento

3.1. O Estado e o desenvolvimento


Ao se tratar do processo de Desenvolvimento Econômico destaca-se, entre
diversos outros aspectos, a relação entre Estado, mercado e instituições. A partir
desse ponto, pode-se distinguir duas linhas teóricas que tratam do desenvolvimento
econômico de maneiras distintas, como o exposto em Medeiros (2001) e que será
apresentado brevemente a seguir.

A primeira linha de raciocínio está pautada pela NEI (Nova Economia


Institucional) e têm como principal precursor o autor Douglas North, essa abordagem
enfatiza que as instituições moldam as ações dos indivíduos e se desenvolvem
através de princípios racionais e econômicos como consequência da variação dos
preços relativos. Desta maneira, vale ressaltar que as instituições são entendidas
como uma forma de reduzir as incertezas das interações econômicas, dado que, por
conta da existência de informações que são apropriadas assimetricamente pelos
atores econômicos, existe um custo envolvido no acesso às diferentes informações e
que é considerado como custo de transações.

A partir desse constructo teórico, o desenvolvimento econômico é conhecido


como uma evolução das instituições que “[...] amplie a eficiência dos mercados e
reduza os custos de transação” (Medeiros, 2001), e através da promoção do Estado
à medidas de diminuição dos riscos e proteção dos contratos privados, deem
impulso a um movimento que entrelaça as propriedades cumulativas e favoráveis ao
desenvolvimento econômico a partir de inovações institucionais.

Outra linha de raciocínio está associada a um pensamento heterodoxo pautado


pela análise histórica econômica de Diamond que enfatiza o desenvolvimento
econômico como uma produção de excedente social que cria condições ao longo do
tempo para a divisão social do trabalho em conjunto com o desenvolvimento de um
processo de inovações institucionais, que são determinadas por decisões políticas e
econômicas do Estado tendo por trás as estratégias de concorrência entre os
estados nacionais. Mediante essa teoria, o Estado assume diversas outras funções
estratégicas de coordenação do desenvolvimento que não são reduzidas “[...] à
defesa e promoção dos contratos e da propriedade privada [..]” (Medeiros, 2001).
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Diante dessa exposição teórica, podemos lançar luzes para as propostas


cepalinas (Cepal, 2012) de um desenvolvimento integrado proporcionado pelo
Estado a partir de uma noção de mudança estrutural, tendo como objetivo primordial
um padrão virtuoso de desenvolvimento que alinha o crescimento do emprego com o
crescimento da produtividade e do PIB orientados por uma mudança de paradigma
tecnológico com enfoque às questões ambientais e sociais.

Essas medidas só são possíveis a partir de uma conciliação das políticas


macroeconômicas e industriais, em suas dinâmicas de curto e longo prazo, como
forma de promover a estabilidade e suavização do ciclo econômico incentivando o
investimento e diversificação da matriz produtiva almejando aumento dos níveis de
produtividade partindo de uma maior absorção do progresso técnico e diminuição
dos enclaves de produtividade.

No entanto, além de todas essas medidas destacadas acima, é de crucial


importância sob a ótica cepalina, que o Estado assuma políticas fiscais e trabalhistas
que tenham um efeito redistributivo de renda visando em última instância uma
mudança estrutural atrelada à igualdade através de um sistema de proteção social
que cubra as vulnerabilidades dos trabalhadores menos favorecidos, bem como a
promoção de melhorias na capacitação humana.

Desta forma, essas propostas de desenvolvimento necessitam de “[...] uma


institucionalidade robusta e eficiente, capaz de regular, orientar, selecionar e,
inclusive, financiar grande parte das ações que intervêm entre a proposta e sua
efetiva realização ao longo do tempo.” (Cepal, 2012). Com isso, se tem destaque
para a centralidade da coordenação entre política e Estado, como forma de
promover uma associação dos diversos atores da sociedade em prol de concretizar
os pactos sociais assumidos em torno do desenvolvimento pautado por uma
mudança estrutural, mobilizando os anseios populares de bem–estar e cidadania
visando projetos de longo alcance a partir da integração das esferas industrial,
macroeconômica, trabalhista, social, ambiental e institucional.
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3.2. A Agenda 2030 da ONU e a CEPAL

Na atual conjuntura fica evidente as mudanças que estão ocorrendo a nível


global como a iminência de uma crise ambiental, uma nova revolução tecnológica, a
financeirização, com o setor financeiro descolado do setor produtivo, a ascensão
chinesa como uma potencia econômica e geopolítica, os mega-acordos comerciais
os quais criam mercados megarregionais. Ademais, a queda da fecundidade e o
aumento da longevidade que podem ser alarmantes uma vez que podem aumentar
a xenofobia e também com o envelhecimento da população mundial os padrões de
consumo e investimento se alteraram de modo que a saúde ganhará maior
importância. Além disso, o sistema econômico perdeu dinamismo, há mais de duas
décadas a taxa de crescimento da economia mundial tem demonstrado uma
tendência de queda. Tendo tudo isso em vista, é incontestável que o estilo de
desenvolvimento mundial precisa ser alterado.

Assim, surge no debate temas como o combate à desigualdade e a proteção


do meio ambiente. Desde 2010 a CEPAL considera a igualdade como central para o
desenvolvimento, sendo a igualdade não só de meios como a melhor distribuição de
renda, mas também a igualdade de oportunidades, capacidades e reconhecimento.

A desigualdade na educação, por exemplo, perpetua entre as gerações a


desigualdade de capacidades e oportunidades. Além disso, mesmo que todos
tivessem igualdade de capacidade a discriminação, tanto por sexo quanto étnico-
racial, influenciaria suas oportunidades de trabalho. “A mensagem central é que a
desigualdade implica grandes custos de eficiência, o que redunda em que sua
superação seja uma condição necessária para o desenvolvimento. As políticas a
favor da igualdade não só produzem efeitos positivos em termos de bem-estar
social, mas também contribuem para gerar um sistema econômico mais favorável
para a aprendizagem, a inovação e o aumento da produtividade.” (CEPAL, 2018).

Essa noção de igualdade da CEPAL corresponde à visão da Agenda 2030 para o


desenvolvimento sustentável e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Uma vez que o 5º objetivo dos ODS é a igualdade de gênero e o combate à
discriminação. Já o 1º objetivo é erradicar a pobreza e o 10º é diminuir a
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desigualdade nos países e também entre eles. Apesar da maior integração mundial
a desigualdade aumentou, o coeficiente de Gini, que é uma medida da desigualdade
entre os países, tem aumentado nos países desenvolvidos como os Estados Unidos
- de 0,34 em 1985 para 0,39 em 2013 - e até mesmo nos países escandinavos os
quais são considerados os mais igualitários. Na América-Latina a desigualdade
diminuiu, contudo, o índice de desigualdade da região continua entre os maiores do
mundo.

Outro fator que aumenta a desigualdade são os danos ambientais pois a


mudança climática irá afligir mais as pessoas de baixa renda dado que a
dependência dessa classe social dos recursos naturais como meio de subsistência é
maior e além do mais, seu acesso as tecnologias e aos recursos financeiros é
limitado e estes são elementos importantes para a adequação as mudanças
ambientais. A poluição e a mudança climática foram consideradas por Nicholas
Stern como “a maior falha de mercado de todos os tempos” devido suas
externalidades negativas, por exemplo, um país ao aumentar sua produção e
emprego gera poluição, no entanto, esta só é sentida em outros países.

Sendo assim, a CEPAL em “Horizontes 2030: a igualdade no centro do


desenvolvimento sustentável” traz uma leitura crítica da Agenda 2030, apesar dos
notáveis avanços desta, não possui um quadro institucional e uma governança
global eficiente. Ademais, não há um estudo a respeito de como os ODS se
relacionam entre si bem como a relação deles com as variáveis econômicas. A
terceira critica se refere a economia politica, há um receio de que a Agenda 2030
tenha o mesmo fim que os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, isto é, que
sejam apenas afirmações que posteriormente não são realmente colocadas em
práticas devido a dinâmica dos mercados e a politica. Com relação a implantação da
Agenda 2030 na América Latina é necessário levar em consideração suas estruturas
internas que podem limitar o desenvolvimento.

De modo que, “Para atingir os objetivos de uma agenda para 2030 concentrada
na igualdade, é necessária a implementação de políticas econômicas, industriais,
sociais e ambientais alinhadas com a mudança estrutural progressiva. As instituições
e as políticas públicas devem ser articuladas em torno de um grande impulso
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ambiental transformador da estrutura produtiva, que complemente a incorporação de


progresso técnico, sustentabilidade e igualdade.” (CEPAL,2016).

4. Conclusão
Diante do exposto acima, pode-se concluir que a Cepal segue um linha de
raciocínio onde propõe que os Estados nacionais devem seguir um padrão de
desenvolvimento econômico integrado em suas diversas esferas com enfoque para
políticas industriais, macroeconômicas, sociais, entre outras. Esse padrão de
desenvolvimento envolve uma necessidade de coordenação dos diversos indivíduos
em prol da concretização dos pactos sociais assumidos para se chegar a esse
objetivo.

Mediante essas recomendações, fica evidente a preocupação cepalina no


que tange às mudanças observadas a nível global como as formas de interação
econômica, social e politica que caracterizam o momento atual. Uma das principais
mudanças em comparação com o século anterior se refere ao paradigma
tecnológico pelo qual agora se tem acesso a informação e inovações de diversas
formas e com uma rapidez que não se era imaginável há 30 anos atrás. A
tecnologia, portanto pode se tornar um fator de incerteza sob as decisões de politica
econômica, pois os efeitos ainda estão sendo observados principalmente no que
tange ao nível e qualidade do emprego.

Dadas essas considerações os temas centrais que permeiam a discussão


cepalina sobre o desenvolvimento são a desigualdade social e a sustentabilidade
ambiental, como forma de promover um novo padrão de desenvolvimento, sendo
que o Estado precisa estar pautado de instituições que tenham como foco promover
a igualdade social e o sentimento de pertencimento a uma sociedade. Outro papel
de fundamental importância do Estado é o desenvolvimento “estratégias e políticas
que permitam a transição para formas mais sustentáveis de produzir, habitar e
consumir e que, ao mesmo tempo, potencializem a provisão de bens e serviços
públicos de melhor qualidade” (Cepal, 2018).

Com essas medidas, será possível adotar um novo padrão de


desenvolvimento que promova menores lacunas sociais, com enfoque para a
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potencialização da provisão de serviços e bens públicos de melhor qualidade


através da difusão de tecnologias e inovações limpas.

Mediante toda a linha de raciocínio e argumentação que nos levaram a essas


considerações, concluímos enfatizando que a Cepal se consolida como uma das
principais precursoras de temas que consideramos tão essenciais de serem
discutidos no panorama global pelo qual os países, principalmente os periféricos,
estão inseridos com destaque para a importância de serem tomadas medidas
politicas, econômicas, entre outras que sejam eficazes contra a desigualdade social
e que visem um desenvolvimento integrado sustentável.

5. Referências Bibliográficas
MEDEIROS, C. Estratégias nacionais de desenvolvimento. In: BIELSCHOWSKY,
R. (Org.) Padrões de desenvolvimento econômico (1950-2008): América Latina, Ásia
e Rússia. Brasília: CGEE, 2013, v. 1

BIELSCHOWSKY, R. (Org.) Padrões de desenvolvimento econômico (1950-


2008): América Latina, Ásia e Rússia. Brasília: Centro de Gestão e Estudos
Estratégicos, 2013, v 2. Conclusão.

CEPAL. Mudança estrutural para a igualdade: visão integrada do


desenvolvimento. 2012, Síntese.Arquivo

CEPAL. Horizontes 2030: a igualdade no centro do desenvolvimento


sustentável. 2016, Síntese.Arquivo

CEPAL. A ineficiência da desigualdade. 2018,Síntese.Arquivo

Disponível em: https://www.cepal.org/pt-br/cepal. Acesso em: 29/10/2019