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OXÓSSI

ASPECTOS PARTICULARES DE OXÓSSI:

Nomes: OXÓSSI; ODÉ; OTÍN; INLÉ; IBUALAMO.


Jêje: nesta nação denomina-se AGUE.
Angola: Gongobira.
Elemento: ar e terra.
Domínio: Floresta e Matas onde há Caça; terra virgem; ar livre; agricultura; alimentação.
Cores: Azul-claro, celeste, turquesa ou esverdeado (Kêtu); Azul-escuro (Batuque); Verde
(Umbanda).
Instrumento: Ofá e damatá (Arco e a Flecha); Eiru ou Irukere (espécie de cetro feito com pêlos
de rabo de touro, presos em um couro duro e revestido por couro fino ornado com contas e
búzios; serve para manejar os espíritos da floresta); Bilala; Oge (chifre de touro; fazem a
comunicação entre o aiye e o Orun, chamado Ologboohun = o senhor escuta a minha voz).
Saudações: Odé Oke Arô (Salve o Caçador); Aro Koke Odé; Boce Arole. Oke Ebamo (Batuque).
Dia da Semana: quinta-feira.
Dia da Semana Iorubá: Ojo Isegun (Dia do Vencedor).
Número: 06
Comidas: Todos os tipos de caça branca e roedores; Tatu; Axoxo (milho cozido com fatias de
coco); Mistura de grãos com molho; frutas variadas; ewa (feijão fradinho torrado dentro de
oberó).
Ligação com outros Orixás: Ossaim, Ogum, Oxum.
Odu que rege: Obará e Odi.
Pedras: turquesa e água marinha.
Ervas: aroeira, peregun, pau d’água; erva pombinho; quebra-pedra; pega pinto; alecrim.
Asé (Força Emanada): Fartura; prosperidade; progresso; riqueza.
Partes do corpo: antebraço, braço, cabelo do corpo e pulmão.
Data: corpus Christi (Bahia); 23 de abril (SP); 20 de Janeiro (RJ).
Sincretismo: São Sebastião (RJ) e São Jorge (BA).
Arquétipo: altruístas, abnegados, sinceros, simpáticos, tensos, austeros e que possuem senso de
coletividade.
O Perfil do Orixá
Numa visão antropológica, os Orixás são vibrações de energia, cada uma numa faixa própria, com
as quais os seres humanos se identificam, o que justifica a existência de filhos de diferentes
Orixás. Assim os filhos de Oxossi, são aqueles cujo metabolismo básico e características de
personalidade herdadas geneticamente mais se identificam com uma matriz, o próprio Oxossi,
que se manifesta em ambientes como florestas cerradas, parques onde animais são preservados,
espaços enfim, de contato entre o homem e os animais.
Numa visão teológica, os Orixás são divindades a serem respeitadas e cultuadas por seus filhos,
que com eles entrariam em contato através de diferentes rituais disseminados na cultura tribal
africana e que no Brasil estão agrupados sob o rótulo de uma religião, a Umbanda e o
Candomblé. Cada divindade possui lendas que justificam seu destino e principalmente o arquétipo
de comportamento a ela associado.
A Umbanda cultuada no Brasil é uma síntese de diversas manifestações diferentes da África,
unindo preceitos e práticas que no continente negro se manifestam em povos isolados.
Há, porém uma corrente predominante, a dos iorubas ou nagôs. Sua visão do mundo material e
sobrenatural foi a que mais se espalhou, tanto no centro-sul da África, como no Brasil, e os Orixás
mais populares são dela originados. Os rituais Jêje, do Daomé (atual República do Benin),
também encontraram espaço, principalmente porque tiveram de lutar contra mitos antagônicos
dos iorubas; na verdade, o Daomé foi, há muitos séculos, dominado politicamente por um povo
de civilização mais recente, os iorubas. Assim como Roma se comportou em relação aos mitos
gregos, assimilando-os gradativamente e adaptando-os as suas próprias necessidades, os iorubas
assimilaram usos, costumes e deuses dahomeanos, como Nanã, Iroco, Omolu e outros. Uma
diferença, porém, sempre existiu para quem se propusesse a analisá-los.
Os mitos iorubas manifestavam grande vitalidade, envolvendo personalidades extrovertidas como
Exu. Já os deuses dahomeanos são mais frios, vindos de uma cultura mais hierarquizada, onde
os deuses são vistos de maneira um pouco ameaçadora e coercitiva; não costuma ter o senso de
humor dos iorubas, sua flexibilidade, onde contendas difíceis às vezes são resolvidas por palavras
hábeis. O mundo dos dahomeanos é mais soturno, discreto, perigoso.

Nesse sentido, dois Orixás iorubas fogem da tradição básica: o mago Ossaim, o solitário senhor
das folhas, e Oxossi, o caçador. Ambos são irmãos de Ogum na maior parte das lendas e
possuem em comum o gosto pelo individualismo e o ambiente que habitam; a floresta virgem, as
terras verdes não cultivadas.
A floresta é a terra do perigo, o mundo desconhecido além do limite estabelecido pela civilização
iorubana, é o que está além do fim da aldeia. Os caminhos não são traçados pelas cabanas, mas
sim pelas árvores, o mato invade as trilhas não utilizadas, os animais estão soltos e podem atacar
livremente. É o território do medo.
Na historia da humanidade Odè representa as formas mais arcaicas de sobrevivência humana, a
própria busca incessante do homem por mecanismos que lhe possibilitem se sobressair no espaço
da natureza e impor sua marca no mundo desconhecido.
A coleta e a caça são formas primitivas de busca de alimento, são os domínios de Odè, Orisà que
representa aquilo que há de mais antigo na existência humana: a luta pela sobrevivência.
Odè é o Orisà da fartura e da alimentação, aquele que aprende a dominar os perigos da
mata e vai a busca da caça para alimentar a tribo. Mais do que isso, Odè representa o domínio
da cultura sobre a natureza.
Astúcia, inteligência e cautela são os atributos de Odè, pois como revela sua história, esse
caçador possui uma única flecha, por tanto, não pode errar a presa, e jamais erra.

Deus da caça, ligado às matas (igbó), irmão mais novo de Ogun (com quem aprendeu a caçar
e defender a si e a tribo), Odé é também parte dos orixás masculinos cujos princípios também
são feitos de ferro. Alegre, jovial, expansivo e irrequieto, tem enorme popularidade na Bahia onde
também é conhecido pelo nome de Oxossi (Òxòósi). É também chamado de Olúaiyé ou Oní
Aráaiyé, Senhor da Humanidade, que garante a fartura para seus descendentes.
Rei da caça, Senhor das veredas, sua história e culto são dos mais ricos. Sua dança é o Aguerê e
é também considerado como Ashéshé: a origem das origens, dos descendentes. Rege as árvores,
a fauna e a flora. Segundo algumas lendas, Osossì é filho de Yemanjá com Oxalá e irmão mais
novo de Ogun. Ele não é o Deus da floresta, como muitos pensam, ele é o rei da caça. Dada é a
deusa da floresta.
Na África teria sido o irmão caçula ou filho de Ogun, com importância, como protetor dos
caçadores; na medicina, pois os caçadores passam grande parte de tempo em contato com
Ossaim na floresta, divindade das folhas terapêuticas e litúrgicas, e, aprendem com ele parte do
seu poder; na ordem social, pois em suas caças e expedições, descobre lugar favorável à
instalação de uma nova roça ou de um vilarejo, tornando-se assim o primeiro ocupante do lugar e
senhor da terra (onílè), com autoridade sobre os habitantes que venham a se instalar
posteriormente; de ordem administrativa e policial, pois antigamente os caçadores (odé), eram
os únicos a possuir armas nos vilarejos, servindo também de guardas-noturnos (òxó).
Oxossi é o Orixá masculino ioruba responsável pela fundamental atividade da caça. Por isso na
África é também cultuado como Ode, que significa caçador. É tradicionalmente associado à lua e,
por conseguinte, à noite, melhor momento para a caça. Oxossi e Ossaim têm na floresta o
próprio fim, nela se escondem. O primeiro para capturar os animais, o segundo para poder
estudar sozinho e recolher as folhas sagradas.
Sua técnica consiste em esperar, pacientemente, a preza aproximar-se para, então, deferir seu
tiro certeiro.
Oxossi e Ossaim representam as formas mais arcaicas de sobrevivência, a apologia da caça em
detrimento da agricultura, a apologia da magia e do ocultismo em detrimento da ciência.
Odè mantém estreita ligação com Osanyín, com quem aprendeu o segredo das folhas e os
mistérios da floresta, tornou-se um grande feiticeiro e senhor de todas as folhas, mas teve que se
sujeitar ao encantamento de Osanyín.

Ao mesmo tempo, Oxossi está mitologicamente muito próximo de Ogum, como conciliando o
novo e o velho, as novas atividades com as tradicionais. Na Umbanda, recebe o título de Rei das
Matas, sendo à ele consagrada a cor verde. Já no Candomblé, a cor verde é consagrada a
Ossaim por sua proximidade com as folhas, ficando o azul para Oxossi, um azul pouco mais
vivo e claro que o de Ogum, numa transição cromática.
Outro dado que identifica e aproxima Oxossi de Ogum, é o fato de ambos representarem
atividades e possuírem temperamentos próprios de uma mesma faixa etária, a juventude ( mas
não a adolescência, pois são mitos adultos, viris), onde a energia se expressa fisicamente.
Assim como o irmão ligado à guerra, Oxossi é um Orixá que vive ao ar livre e está sempre longe
de um lar organizado e estável. Seu combate cotidiano, entretanto, está nas matas, caçando os
animais que vão garantir a alimentação da tribo, sendo por isso consagrado como protetor dos
caçadores e eterno provedor da subsistência do gênero humano. Protege tanto o que mata o
animal como o próprio animal, já que é um fim nobre a morte de um ser para servir de alimento
para outro. Protege os antagonistas, o caçador, e a caça, pois são seres do mesmo espaço, a
floresta. Por isso Oxossi nunca aprova a matança pura e simples, para ele a morte dos animais
deve garantir a comida para os humanos e os rituais para os deuses, sendo símbolo de resistência
à caça predatória. Por isso é a Divindade da harmonia e do equilíbrio ecológico.
O conceito de liberdade e independência para Oxossi é muito claro. Sua responsabilidade
principal com relação ao mundo é garantir a vida dos animais para que possam ser caçados. Em
alguns cultos de Umbanda, também se atribui a ele o poder sobre as colheitas, já que a
agricultura foi introduzida historicamente depois da caça como meio de subsistência.

Segundo Pierre Verger, o culto a Oxossi é bastante difundido no Brasil (também em Cuba) por
seus iniciados terem sido vendidos como escravos para esses paises trazendo consigo o
conhecimento do ritual, deixando o culto praticamente esquecido na África. A hipótese do
pesquisador francês é que Oxossi foi cultuado basicamente no Kêtu, aonde chegou a receber o
título de Alaketú (rei de Kêtu); é considerado asese (principio dos princípios) dos descendentes de
Kêtu. Essa nação, porém foi praticamente destruída no século XIX pelas tropas do então rei do
Daomé. Já no Brasil, o Orixá tem grande prestígio e força popular, além de um grande número de
filhos.
O mito do caçador explica sua rápida aceitação no Brasil, pois se identifica com diversos conceitos
dos índios brasileiros sobre a mata ser região tipicamente povoada por espíritos de mortos,
conceitos igualmente arraigados na Umbanda popular e nos Candomblés de Caboclo, um
sincretismo entre os ritos africanos e os dos índios brasileiros, comuns no Norte do País.
Talvez seja por isso que, mesmo em cultos um pouco mais próximos dos ritos tradicionalistas
africanos, alguns filhos de Oxossi o identifiquem não com um negro, como manda a tradição,
mas com um Índio. Seu objeto básico é o arco e a flecha, o ofá e o damatá.

Seus símbolos são ligados à caça: no Candomblé, possui um ou dois chifres de búfalo ou touro
dependurados na cintura. Os chifres (iuo), símbolos de virilidade e procriação, em especial os de
boi, também lhes são atribuídos e não podem faltar em seu assentamento (igbà).
Na mão, usa o eruquerê (eiru), que são pelos de rabo de boi presos numa bainha de couro
enfeitada com búzios. É um dos principais instrumentos dos caçadores e detém poderes
sobrenaturais. Na África nem um caçador, se aventuraria, a ir à floresta sem seu ìrùkèrè. É
preparado com pós e remédios de diversos tipos, assim como folhas e fragmentos triturados dos
animais sacrificados. Antes de serem presas, as raízes dos pêlos devem durante algum tempo,
ficar imerso num pote com uma combinação de elementos que constituem um axé especial, que
lhe conferirá suas atribuições necessárias. Não é apenas mais um emblema, tem o poder de
manejar e controlar todo tipo de espíritos da floresta. Os pelos do rabo - parte posterior (poente)
- representam os ancestrais, espíritos de animais e de todo tipo de espírito da floresta. O Irukere
também é uma insígnia de dignidade dos reis da África, lembrando sua origem kêtu. O erukerê,
que é detentor de "axé", também serve para espalhar a fertilidade pelo mundo.

Sua principal ferramenta é o ofá (arco) e a flecha, muito utilizados em sua arte. Acredita-se que
esse orixá conhece o segredo do nosso planeta, pois os dois hemisférios (norte e sul), quando
separados, assemelham-se ao seu arco. O ofá, um arco e flecha em ferro forjado (hoje, outros
metais).

Oxossi é o que basta a si mesmo. A ele estiveram ligados alguns Orixás femininos, mas o maior
destaque é para Oxum, com quem teria mantido um relacionamento instável, bem identificado
no plano sexual, coisa importante tanto para a mãe da água doce como para o caçador, mas
difícil no cotidiano, já que enquanto ela representa o luxo e a ostentação, ele é a austeridade e o
despojamento. Está associado com a vida ao ar livre e os elementos da natureza, como bom
caçador é solitário e individualista, mas não dispensa o convívio social e nunca vive sem um
grande amor. Odè é o melhor naquilo que faz, está permanentemente em busca da perfeição.

Em muitas lendas é dado como filho de Iemanjá, irmão de Exu e Ogun e como seus irmãos ele
mora fora de casa. Tem ligação com a arte e a medicina também.
Todas as casas que pertencem a nação Kêtu têm Odé como protetor e patrono.
Odè é rígido, se magoa com pequenas coisas, se contraria facilmente, é um Orisa tão honesto
que chega a ser constrangedor, não admite falhas no cumprimento de suas obrigações, jamais
perdoa.
Orixá poderoso, encantado do maior respeito, suas festas são de grande beleza e opulência. Uma
delas, a das Quartinhas de Oxossi, no candomblé do Gantois, onde reina a veneranda Mãe
Menininha, é inesquecível espetáculo.
Odé também é reverenciado durante os rituais de colheita e de fertilização do solo.
Dança nos Siré (festejos) como quem procura a caça, usando seu Ofà (arco) como se fosse lançar
a flecha a qualquer momento. Usa o ìrùkèrè (espanta mosca), como era costume dos Reis
Yorùbá. Este instrumento é confeccionado com rabo de cavalo e cada fio representa um espírito
da floresta, ao fazer uso deste emblema Òsóòsì assume o controle de todos os espíritos das
matas.
Fontes: Livro Os Orixás, publicado pela Editora Três.

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