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CADERNO DE RESUMOS

MESA 1 – Comunicação, Animação e Infância

Título: Processos criativos da produção independente de animação seriada


infantil brasileira: uma análise de seus condicionantes
Natacha Canesso (Doutorado)
Grupo de Estudos de Comunicação, Política e Redes Digitais (CP-Redes)
RESUMO: A animação infantil integra um dos setores da economia com maior
desenvolvimento econômico global: a indústria do audiovisual. Destaca-se
pela capacidade de transitar em diversos países e pelo seu alto potencial de
gerar propriedade intelectual. Enquanto obra audiovisual é aqui compreendida
como um trabalho coletivo e complexo, no qual os processos criativos não são
exclusivos ao indivíduo criador, nem apenas relacionados às atividades dos
roteiristas e diretores. Está inserida no contexto das indústrias criativas de
mídia e os processos criativos, relacionados à viabilização da obra em sua
totalidade, às experimentações e à inovação. Nesta perspectiva, o trabalho
tem por objetivo apresentar, através de um percurso teórico metodológico e
de um momento empírico, um substrato da pesquisa de doutorado em curso
que investiga os processos criativos da produção independente de animação
seriada infantil no Brasil e seus condicionantes. Para tanto, desenvolve o
conceito de processos criativos como arranjos e organização das variáveis
relacionadas ao indivíduo e ao ambiente que o circunda no processo de
desenvolvimento de uma obra ou projeto, apropriando-se das abordagens
sistêmicas de Gruber (2005) e Csikszentmihalyi (1997). Das teorias sistêmicas
da criatividade foram extraídos conceitos que participam de um diálogo com a
sociologia. Inicialmente três conceitos norteiam a investigação: indivíduo,
campo e domínio (CSIKSZENTMIHALYI, 1997); e subsidiam a dimensão teórica
do trabalho. Como citado, em um segundo momento, os conceitos se
aproximam da sociologia e, na discussão com Bourdieu (2002; 2005; 2011) e
Elias (2004), surgem possibilidades teórico metodológicas para a identificação
de fatores com potencial de condicionamento do processo de criação,

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produção e distribuição de uma obra midiática, nesse caso, da animação
seriada infantil. O trabalho está organizado em referencial teórico, contexto,
procedimento metodológico e observação empírica, além da conclusão e
referências. As questões que emergem são aplicadas ao caso de uma
produtora independente de conteúdo audiovisual que teve um projeto de
animação seriada infantil contemplada na Chamada Pública BRDE/FSA
PRODAV 01/2012. O levantamento de dados foi realizado através de
entrevista semiestruturada e fontes secundárias, possibilitando determinar as
características do campo, domínio e indivíduo e descrição da rede de
empresas da produtora.

Palavras-chave: Criatividade; Processos Criativos; Teorias da Criatividade;


Audiovisual; Animação Infantil.

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Título: Serialização narrativa nos desenhos animados de curtíssima duração
Marcelo Lima (Doutorado)
Laboratório de Análise de Teleficção (A-Tevê)
RESUMO: A produção de séries televisivas norte-americanas vem gozando
de um considerável prestígio em anos recentes. Embalados por essa boa fase,
canais e produtores televisivos têm experimentado novos formatos e
investido na qualidade estética e narrativa dos seus seriados, buscando
destacar seus produtos em meio à imensa gama de conteúdos ofertados hoje
em dia. A preocupação em inovar com a qualidade criativa não fica
circunscrita às obras ficcionais ou aos dramas de uma hora. Em verdade, a
busca pela distinção atinge todos os tipos de produção – afinal criadores de
comédias, reality shows e séries factuais também querem ser reconhecidos
pela sua capacidade criativa e engajar uma audiência. O mesmo pode ser dito
dos criadores de séries de desenhos animados. Os cartoons integram as
grades de programação de TV desde seus primórdios, tendo suas condições
de produção e distribuição intimamente conectadas às transformações do
meio televisivo e do seu público. Autores como Lucena Júnior (2011), Bendazzi
(1994), Mittell (2004) e Denis (2010) descrevem rica e criticamente as

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diferentes fases da animação seriada nos EUA, destacando os desafios
técnicos para produção, o processo de construção de uma audiência
majoritariamente infantil e quais os criadores e obras mais relevantes de cada
período. Essas descrições, porém, se furtam a uma análise sistemática de
aspectos internos das obras, de modo que os elementos narrativos e
estéticos são abordados de maneira genérica. Neste trabalho desejamos
direcionar nosso olhar para a estrutura narrativa e de serialização dos
desenhos animados, por considerar que estes são elementos de suma
importância na discussão sobre a tevê contemporânea. Jason Mittell defende
que um dos principais elementos da poética televisiva contemporânea é a
presença de uma “complexidade narrativa”, “como uma alternativa às formas
episódicas e seriadas que têm caracterizado a TV americana desde sua
origem” (2015, p. 30). A hibridização entre as dimensões narrativas do episódio
e das temporadas tem como efeito “uma representação gradual e complexa
de um mundo” e a construção de tramas que entrelaçam “núcleos que se
expandem e se delimitam de modo muito orgânico” (VIERA, 2015, p. 140). Isso
quer dizer que muitos seriados contemporâneos se distinguem por se expandir
narrativamente e, continuadamente, reelaborar suas estratégias de
serialização e de construção do universo ficcional. A tendência à hibridização
entre formas episódicas e capitulares que surge nos seriados live-actions a
partir dos anos 1980 (ESQUENAZI, 2010), começa a aparecer também nos
desenhos animados, especialmente aqueles que ocupam a grande de meia
hora. Somente a partir dos anos 2000 que a serialização narrativa híbrida tem
se manifestado em séries de cartoons de curtíssima duração (com minutagem
de até 11 minutos). Esses programas geralmente eram associados a tramas
simples e autocontidas voltadas para crianças que, numa visão de senso
comum, não se importam em acompanhar narrativas continuadas e em assistir
segmentos repetidos (MITTEL, 2004). Para além dessa percepção, cremos
haver um desafio para a serialização narrativa híbrida ligada à própria duração
do segmento. Séries de 22 minutos oferecem “bastante tempo para histórias
A, B e C e um bom espaço para as interações entre personagens” (SCOTT,
2003, p. 38), o que facilita a mescla de um fio narrativo episódico com

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tramas capitulares que seguem se desenvolvendo em outros episódios. Nos
seriados de até 11 minutos isso é mais complicado porque, “com onze minutos
você tem tempo para desenvolver um arco de história, entrar em algumas
minúsculas mudanças no personagem e, talvez, desenvolver uma história B
curta” (SCOTT, 2003, p. 38, tradução nossa). Por essa razão, desenvolver
núcleos continuados em meio a narrativas episódicas é um desafio maior para
esses seriados. Neste sentido, desenvolvemos projeto de investigação que vai
analisar duas séries animadas de curtíssima duração para compreender quais
as estratégias de serialização narrativa são empregadas para hibridar formas
capitulares e episódicas na expansão do relato e do universo ficcional ao
longo de vários episódios e temporadas. Nossa questão central de pesquisa é:
posto que todo regime de serialização narrativa híbrida demanda uma
interação entre estrutura dramática de episódios e de temporadas, então
como se dá essa organização poética no interior de uma série animada de
curtíssima duração? As séries animadas escolhidas como corpus do trabalho
são Steven Universo e Hora de Aventura. Estes dois programas são muito
populares e desenvolvidos pela Cartoon Network, canal e produtora de
animação reconhecida por buscar a inovação narrativa e estética com seus
produtos (MITTELL, 2004). A escolha de dois produtos da mesma emissora
vai nos permitir observar e comparar a gestão empresarial e criativa no
tocante à serialização da narrativa híbrida.

Palavras-chave: televisão; ficção seriada; desenhos animados; serialidade;


narrativa

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Título: Brincando de youtube(r): as infâncias na relação com o audiovisual
brasileiro contemporâneo
Elisa Bastos Araújo (Doutorado)
Centro de Pesquisa em Estudos Culturais e Transformações na
Comunicação (TRACC)
RESUMO: O objetivo deste projeto está em investigar a historicidade dos
vínculos entre infância e audiovisual no Brasil a partir do consumo de canais
do YouTube voltados a este público e da sua relação com a produção. Para

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tanto, buscamos refletir sobre como as infâncias se constituem hoje na
relação com o audiovisual brasileiro, especialmente na internet. Partimos da
hipótese de que as relações infantis contemporâneas com as
audiovisualidades configuram novas formas de consumo, por meio de
articulações com os seus modos de ver e de se fazer visto enquanto crianças
nas redes. Tomamos o “novo” como um dos elementos das distintas
temporalidades de Raymond Williams (1979), na medida em que configura um
movimento de mudança dentro de um processo dominante. Propomos como
corpus, a princípio, os canais de Júlia Silva e Lucas Vasconcelos; Lucas Netto;
Brancoala; Palavra Cantada e Mônica Toy. Usaremos como guia analítico a
articulação entre os mapas das mutações culturais e das mediações
comunicativas, propostos por Jesus Martín-Barbero (2009; 2013),
percebendo desenvolvimentos do processo de consumo televisivo infantil, em
seus aspectos de atravessamentos entre a TV em grade e a internet. Do
mapa das mediações, a institucionalidade nos leva a perceber a configuração
dos discursos e como os meios os produzem. Nesse contexto, afirmamos a
importância de olhar o YouTube enquanto uma empresa que não atua como
produtora de conteúdos audiovisuais, mas serve de aporte para as diversas
produções de múltiplos agentes, oferecendo constrangimentos e
potencialidades que se articulam a regularidades de linguagem. Já a
tecnicidade se relaciona à dimensão social da técnica. Acreditamos que a
análise das tecnicidades nos ajuda a ver os silenciamentos e lugares de
disputa na relação com o consumo televisivo infantil, a partir das perspectivas
que negam o seu caráter televisivo, e a historicidade dos produtos televisivos,
suas contribuições e continuidades. A socialidade (ou sociabilidade) representa
o resultado das tramas cotidianas, onde se geram os usos coletivos da
comunicação. A partir desta mediação, observaremos as relações que as
crianças desenvolvem com a plataforma online, elementos que caracterizam
tanto os modos de interatividade com produtos já existentes, quanto o
incentivo às suas próprias produções. Por fim, a ritualidade é a mediação que
reconhece os usos sociais que regulam as formas de olhar o produto. A
ritualidade nos convoca a perceber tanto as novas formas de ver os produtos

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e novos hábitos de interação com eles, quanto as continuidades desse
processo, além das distintas temporalidades que coexistem. Para pensar as
questões das transformações na cultura audiovisual infantil num contexto de
produções globalizadas, propomos articular o mapa das mutações culturais
(MARTÍN-BARBERO, 2009). As transformações históricas se movem entre o
tempo e o espaço, enquanto os movimentos decorrem entre as migrações
(que também constituem os deslocamentos cibernéticos) e os fluxos
informacionais. Neste novo mapa, a ritualidade se dá na articulação entre os
espaços (físicos e virtuais) e os fluxos de informação. A percepção ainda
ocorre em torno dos usos sociais que regulam as formas de olhar o produto,
mas reconhecendo como consumimos os novos produtos em articulação às
formas tradicionais de consumo. A tecnicidade se relaciona aos “modos de
fazer e ver” (GOMES et. al., 2018, p. 142). Entre tempos e fluxos, a tecnicidade
não se constitui apenas na configuração de formatos industriais, mas sim
extrapolando os meios e se mostrando como uma forma mestiça. Na relação
entre tecnicidade e identidade, notamos que o fazer audiovisual das crianças,
na configuração de narrativas de si, também trabalha com construções de
identidades. A identidade se dá entre as migrações e os tempos e se
conforma a partir da relação que estabelecemos com os deslocamentos
(físicos e virtuais) e nossas maneiras de dispor e organizar o tempo. Veremos,
como o público infantil se organiza a partir do consumo dos produtos voltados
para eles, os vínculos com comunidades virtuais, a inserção no consumo
assíduo de certos canais, as formas como configuram os produtos sob
modelos ou suas deserções nas narrativas de si. A cognitividade é uma
mutação que “conecta as novas formas do saber com as novas formas de
sentir” (GOMES et. al., 2018, p. 142). É uma mudança cultural que se relaciona
a novas formas de socialidade, ou seja, novas maneiras de se relacionar nesse
novo contexto. Traremos, pois, a partir da análise dessa mutação, a
observação de questões relacionadas às sensibilidades infantis e a como se
tensionam elementos relacionados ao universo infantil nas produções
audiovisuais na internet. É importante a compreensão das noções de
“infâncias”, a partir do seu entendimento como formação discursiva

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(FOUCAULT, 2008), pois nos permitem perceber os surgimentos,
constrangimentos e interdições dos discursos das crianças e para as crianças.

Palavras-chave: Infância; YouTube; consumo televisivo; historicidade.

MESA 2 – Jornalismo, valores e práticas

Título: Entre o suspense policial e o drama familiar: uma análise do


enquadramento noticioso na cobertura do Caso Marielle
Bruna Couto Rocha (Mestrado)
Análise do Discurso e Mídia (CEPAD)
RESUMO: Com origem na Psicologia Social, e incorporado aos estudos de
Comunicação, o conceito de Enquadramento surge com o objetivo de pensar
como os indivíduos organizam sua percepção da realidade e experiências em
esquemas interpretativos, denominados quadros. O presente artigo analisou a
cobertura do assassinato da vereadora Marielle Franco pelo jornal O Globo,
mesclando abordagens metodológicas indutivas e dedutivas, tomando como
corpus matérias publicadas entre março e setembro de 2018. Os estudos
sobre Enquadramento tem origem na Psicologia Social, com destaque para a
contribuição de Erving Goffman em seu livro Frame analysis: an essay on the
organization of experience, publicado em 1974 pela editora da Universidade de
Harvard. Goffman estava preocupado menos em pensar as estruturas da
sociedade do que em como os indivíduos organizam sua percepção da
realidade e experiências em quadros (frames), ou seja, em determinados
padrões de reconhecimento de fatos, fenômenos e narrativas partilhados
socialmente. Estes padrões são denominados esquemas interpretativos.
Cinquenta e dois anos antes, Walter Lippmann no clássico Opinião Pública, já
se ocupava da inquietação de pensar sobre como as pessoas experienciavam
a realidade a partir das “imagens em nossas mentes”. Enquanto a Sociologia
se dedicava a elaborar sobre as macro-estruturas sociais e a Psicanálise se
dedicava à compreensão do indivíduo em sua dimensão subjetiva, Lippmann
(2010) lançava sua perspectiva pioneira de compreender esses dois pólos da
experiência humana de maneira articulada. Ao longo de mais de quatro
décadas de uso, o conceito de Enquadramento vem sido aplicado de diversas

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formas e se desdobrado em diversas perspectivas analíticas. Em 1993, Robert
Entman propôs uma direção ao que ele denominou como “paradigma
fraturado”, em busca de uma coesão teórico-metodológica em torno dos
estudos sobre Enquadramento. Tentando simplificar ou mesmo identificar o
que havia em comum nas abordagens em torno do conceito, Entman (1993)
afirmou que enquadrar consiste, sobretudo, em um trabalho de seleção de
aspectos da realidade social e colocá-los em evidência em um texto “de modo
a promover a definição de problema particular, interpretação causal, avaliação
moral e / ou recomendação de tratamento para o item descrito” (Entman,
1993, p.52). D’Angelo (2002), para quem “a diversidade teórica e
paradigmática levou a uma visão abrangente do processo de enquadramento,
e não a conclusões fragmentadas em agendas de pesquisa isoladas”3 (2002,
p.871), defende que os quadros noticiosos ativam e interagem com o
conhecimento prévio dos indivíduos. Ele se apropria da concepção
Lakatosiana de Metateoria para contestar a posição de Entman, afirmando
que, ao invés de forçar uma coesão entre as diversas vertentes da pesquisa
sobre Enquadramento na construção de um único paradigma, é preciso
encará-la em sua perspectiva multiparadigmática, construindo um programa
de pesquisa que dê conta da riqueza do campo. Inúmeros trabalhos vêm
sendo desenvolvidos no intuito de aperfeiçoar a formulação teórica e a
aplicação metodológica da Teoria do Enquadramento, mas, ainda assim,
persistem os problemas em torno de sua aplicação empírica (Vimieiro e Maia,
2011). Neste artigo, nos apropriamos de um conjunto de técnicas utilizadas em
outras pesquisas sobre Enquadramento de mídia (Touri e Koteyko, 2015;
Linström e Marais, 2012; Van Gorp, 2007; Vimieiro e Maia, 2011; D’Angelo,
2002; Gamson e Mondigliani, 1989), na construção de uma metodologia mista
(Van Gorp, 2007) para analisar a cobertura do assassinato da vereadora
Marielle Franco5 pelo jornal O Globo, tomando como corpus matérias
publicadas no site do veículo, entre março e setembro de 2018. Nossa análise
revelou que a cobertura de O Globo sobre o caso Marielle se estruturou a
partir de dois quadros principais: atribuição de responsabilidade e interesse
humano. Embora tenhamos encontrado muitas palavras-chave relacionadas, a

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nosso ver, com o quadro da moralidade, a maioria das notícias que
compuseram nosso corpus não evidenciaram este enquadramento.
Descobrimos que os dispositivos de enquadramento do Globo construíram um
percurso interpretativo em torno da personalização e da dimensão policial, em
detrimento das dimensões coletiva e política do Caso Marielle.

Palavras-chave: Enquadramento; Esquemas interpretativos; Caso Marielle.

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Título: Convergência e spreadable media nas narrativas multimídias dos sites
Folha de S.Paulo, The New York Times e The Guardian: uma análise
comparativa.
Ana Virgínia Menezes Torga (Mestrado)
Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line (GJOL)
RESUMO: O presente projeto de pesquisa foca o jornalismo online na
contemporaneidade, à luz das práticas discursivas renovadas e dos novos
fluxos comunicacionais. O tempo atual caminha na direção em que a maior
parte do tráfego digital se dará nos dispositivos móveis como smartphones,
tablets, iPhones etc.. As recentes tecnologias digitais de informação e de
comunicação abrem caminho para novas narrativas e discursividades,
estabelecendo formas inéditas de práticas sociais. Esta investigação se volta
para a narrativa, que é entendida como integrante dos processos de mediação
próprios nas suas dimensões textuais, ideológicas, temporais e estéticas.
Assim sendo, a execução da proposta será ancorada no conceito de
narrativas multimídias, nas quais o fluxo de conteúdos se dá através de vários
formatos de mídia em que cada um deles contribui de forma distinta para a
compreensão do fato, da história. Articulando os níveis teórico-conceitual e
aplicado, esta pesquisa pretende investigar, numa perspectiva comparativa, as
lógicas da spreadable media e da convergência nas narrativas multimídias
presentes nas plataformas de notícias digitais Folha de S.Paulo, The New York
Times e The Guardian, à luz da temática dos direitos humanos, que tem como
alicerce a Declaração Universal dos Direitos Humanos adotada pela
Organização das Nações Unidas (ONU). Essa ideia de integrar o jornalismo ao
aprofundamento da vida cívica não é recente, uma vez que está bem definida

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nas correntes teóricas do Jornalismo Público, Cívico ou Interativo, mas ela se
atualiza no contexto atual, no qual há diversos regimes governamentais de
extrema-direita pelo mundo, que vão na contramão do ideal de políticas
descentralizadas, pluralistas e multiculturais. Com isso, os direitos humanos
civis reedificam-se no espaço de discussão pública e de debate. A capacidade
de agendamento das questões cívicas por parte da mídia afeta os sujeitos,
uma vez que as informações constituem, então, o poder que os cidadãos
querem e podem dispor para o exercício da cidadania. Com o alargamento do
espaço democrático, a mídia põe à vista um panorama de representatividade
de causas civis ao seu público, a fim de convocá-los e posicioná-los frente a
uma agenda cívica. A convergência entre os direitos humanos e a agenda
cívica tem como desdobramento a capacidade cognitiva, gerando
entendimento, decisões e ações por parte do cidadão enquanto indivíduo,
bem como por parte das coletividades que constituem a sociedade civil. A
qualificação no processo de convocar e mobilizar os sujeitos em relação à
agenda cívica é um desafio para o jornalismo digital, já que não basta o
alcance maior do número de pessoas ou a geração da visibilidade dos temas,
é necessário provocar um debate público para definir ou até redefinir
questões de interesse do bem comum e promover o engajamento coletivo
dos sujeitos. Considerando que agenda cívica é o repertório de discursos,
enunciados, expressões, ideias, opiniões, imagens e produtos, que a mídia
assume a respeito de temas ou de acontecimentos sobre as políticas públicas
e o governo com o intuito de garantir e promover a autonomia dos cidadãos
em um Estado Democrático de Direito, pergunta-se: a partir das concepções
da spreadable media e da convergência, como as narrativas multimídias
presentes nas plataformas de notícias digitais se configuram ao convocar e
ao posicionar seu público frente a uma agenda cívica? Para responder à
questão de pesquisa que enseja este projeto de investigação, adotamos a
discussão teórico-metodológica aportada em Henry Jenkins e seu conceito de
convergência, que versa sobre o processo contínuo de mudanças
tecnológicas, culturais, sociais e industriais no modo como as mídias circulam
em nossa cultura. E, da mesma forma, na conceituação de spreadable media

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sustentada também por Henry Jenkins junto com Sam Ford e Joshua Green
acerca do papel ativo que as comunidades em rede desempenham na forma
como os textos da mídia se movem amplamente na ambiência digital
norteados, cada vez mais, pelas escolhas, pelos investimentos, pelas agendas
e pelas ações do público que determina, nesta conjuntura, o que é valorizado.
Tudo isso sinaliza um movimento para um modelo de cultura em rede, que é
mais participativo. Nessa perspectiva se torna possível a investigação sobre o
jornalismo online tendo como corpus da pesquisa as reportagens multimídias
do site brasileiro Folha de S.Paulo juntamente com o site americano The New
York Times e o site britânico The Guardian.

Palavras-chave: Jornalismo online; Jornalismo comparado; Narrativa


multimídia; Convergência; Spreadable media; Análise de Conteúdo Digital.

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Título: Valores humanos como caminho para pensar noticiabilidade: análise no
jornalismo especializado de moda.
Estela Santos Marques dos Reis (Mestrado)
Núcleo de Estudos em Jornalismo (NJOR)
RESUMO: Os estudos dedicados a compreender a noticiabilidade de um
acontecimento ainda se restringem, em sua grande maioria, à reprodução de
listas tidas como cartilhas que orientam a seleção noticiosa. Desde o estudo
de Galtung e Ruge na década de 1960, apontado como precursor da
sistematização dos valores-notícia (à época chamados “fatores de
noticiabilidade”) até o clássico recente de Gislene Silva, publicado em 2005,
limitam-se a ver os valores-notícia como uma lista de atributos que guiam os
jornalistas a decidir o que deve ou não se tornar notícia. Concordamos em
parte com o que foi encontrado até aqui, mas nos inquieta saber que, na
rotina das redações, poucos são aqueles que justificam uma escolha com “é
consonância” ou “é progresso”, para citar exemplos dos estudos mencionados
aqui. A nossa questão é: por que o progresso importa? Por que as pessoas se
interessam por notícias que digam respeito à ruptura da ordem social ou à

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quebra de expectativa? E como estabelecemos o que deve ser padrão ou
não? Qual é o nosso parâmetro? Trabalhamos com a abordagem de Marcos
Paulo da Silva, que recheia a discussão com conhecimento sociológico ao
trazer o conceito de doxa – ou senso comum –, o qual avaliamos como ponto
de partida para pensarmos noticiabilidade. As lacunas que essa abordagem
deixa em aberto, por exemplo, quais valores sociais definem o senso comum,
precisam de respostas. Tentamos obtê-las com o conceito de valores
humanos, objeto de estudo da psicologia social. A discussão aqui é teórica,
portanto, nos apegamos a indícios teóricos de ambos os campos para
estabelecer sua relação: os valores, segundo a filosofia, são símbolos, que
tecem o horizonte de uma cultura e que funcionam como princípios
reguladores da comunicação humana, e são inconscientes (Resweber, 2002);
o impacto dos valores humanos, da psicologia social, nas decisões cotidianas
raramente é consciente (Schwartz, 2012); os valores-notícia são critérios,
muitas vezes inconscientes, pelo qual jornalistas fazem julgamentos
profissionais ao processarem as matérias (BELL apud CAPLE, 2018). Em
trabalho de conclusão de curso apresentado em 2016, buscamos averiguar se
havia relação entre os valores-notícia do jornalismo e os valores humanos da
psicologia social, numa pesquisa exploratória com o portal de um jornal
tradicional e um blog regional. Os resultados mostraram que havia, sim,
proximidade entre ambos os valores. Para a dissertação de mestrado, o
desafio é aprofundar as reflexões acerca desta relação, tendo como pano de
fundo o jornalismo especializado de moda. A escolha não foi à toa, mas
baseada no interesse profissional da pesquisadora, bem como no aspecto
cultural: assim como consideramos o jornalismo produto cultural da sociedade
em que está inserido, a moda também reflete o que está em voga em
determinada sociedade, num dado período do tempo. Neste aspecto, vamos
utilizar como referência de análise o modelo teórico de valores humanos
proposto por Shalom Schwartz, em que são propostos dez tipos de valores
considerados universais. Os objetos de estudo serão um site e uma revista
especializados em moda, e um jornal tradicional. A diversidade dos meios nos

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ajudará a não ter uma amostra viciada, mas também poderá nos dizer o que
muda na cobertura a partir das características de cada produto.

Palavras-chave: valor-notícia; valores humanos; jornalismo de moda

MESA 3 – Tradição e ruptura audiovisual digital

Título: Influenciadores Digitais enquanto novas possibilidades de Mídia.


Allana Gama de Oliveira Santos (Mestrado)
Grupo de Pesquisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade
(GITS)
RESUMO: Neste presente estudo objetivamos investigar se existe a
possibilidade dos indivíduos conhecidos como "Influenciadores Digitais", serem
entendidos como Mídia, considerando o contexto interacional e comercial em
ambientes digitais. A pesquisa guia-se pela questão central: "Formadores de
Opinião podem atuar como Dispositivos Midiáticos no contexto Digital?". O
estudo busca também, dar seguimento às pesquisas sobre a conceituação do
termo "Influenciador Digital". Para isto, realizamos um levantamento
bibliográfico sobre liderança de opinião (Katz; Lazarsfeld, 1966) em diferentes
contextos históricos no campo da Comunicação, assumindo as nuances do
presente cenário da cultura digital. Neste sentido, consideramos como
referenciais teóricos a perspectiva da Teoria Dramatúrgica de Goffman
(1985), os processos de Self-presentation de Schelenker (2003) para a
construção do indivíduo enquanto Influenciador em um contexto de
Midiatização Profunda defendido por Couldry e Hepp (2017). Utilizamos
também o conceito de Mídia de Muniz Sodré (2006) para embasar a pesquisa,
o qual entende a mídia como um bios midiático, associado ao conceito de
Networked Publics de Dannah Boyd (2010), que entende redes sociais digitais
enquanto públicos em rede, abrangendo a compreensão de que neles se
reúnem tanto um conjunto de indivíduos, que configuram audiências, quanto,
paralelamente, compreende que neles se constituem um espaço para a
interação social. Outro objetivo é propor três critérios para a análise do
usuário enquanto Influenciador: a Relação Pura de Giddens, o Capital Social
de Bourdieu considerando a influência exercida pelos algoritmos atuantes

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nestas plataformas em torno dos influenciadores digitais, e o Engajamento
gerado pela movimentação do indivíduo em seu nicho de atuação. A partir
destes critérios, entender como o usuário adquire o ‘poder de mediação’
dentro da plataforma digital que atua, equiparando-se a um dispositivo
midiático. Objetiva-se selecionar perfis específicos de Influenciadores em
diferentes plataformas digitais, priorizando exemplos que migraram de
plataforma, mantendo audiência semelhante em ambas. Somando também a
análise de campanhas publicitárias as quais utilizaram perfis de
Influenciadores como principal veículo, para que seja possível avaliar de
maneira ampla se, independente da plataforma digital utilizada, existe no
Influenciador a possibilidade de mediação, presente em outras formas de
Mídia. Para o desenvolvimento desta pesquisa será necessário adotar uma
metodologia que possibilite a análise do fenômeno dos Influenciadores
Digitais, levando em conta o conjunto de características das práticas
interacionais resultantes dele, associada às peculiaridades do ambiente digital.
Acreditamos que o estudo será desenvolvido a partir de uma metodologia
qualitativa, por entendê-la como a forma mais assertiva de se obter "uma
visão aprofundada dos fenômenos em estudo, por contextualizar e
reconhecer seu caráter dinâmico, próprio da pesquisa social" (FRAGOSO;
RECUERO;AMARAL, 2012). No atual momento, a pesquisa se encontra no
estágio de delimitação metodológica, para que dessa forma se decida a
melhor maneira de obtenção dos dados, amostragem, e da escolha dos casos
que melhor ilustram este fenômeno.

Palavras-chave: Influenciadores Digitais, Mídia, Influência, Redes Sociais


Digitais

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Título: Binge-watching na era da convergência: novas práticas de consumo
no universo transmidiático da Marvel no Netflix.
Ellen Mascarenhas (Mestrado)
Recepção e crítica da imagem (GRIM)

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RESUMO: O desafio de imergir intensamente em um universo ficcional,
através da prática de binge-watching, isto é, assistir episódios de narrativas
seriadas em sequência, está intrinsecamente ligado aos novos modos de
produção, distribuição e consumo das tecnologias da convergência. Sob a
premissa do conceito sob demanda, os serviços de streaming popularizaram o
consumo de séries em maratonas, influenciando fãs e produções. A
possibilidade de assistir uma temporada completa de uma produção seriada,
quando e onde quiser, dá origem a novos comportamentos, modificando a
experiência do receptor com relação a outras épocas. As constantes
transformações da era da convergência, possibilitaram a imersão em universos
ficcionais complexos e interativos, como a exploração de ambientes criados
para histórias multiplataformas. Este projeto tem como objetivo analisar o
comportamento do público que pratica binge-watching, a partir da
observação da experiência de consumo das narrativas transmidiáticas da
Marvel na plataforma de streaming Netflix, e como esse comportamento tem
influenciado a produção de novos conteúdos originais. O consumo de
produtos audiovisuais pela TV, no cinema e pela internet faz parte do
cotidiano das pessoas. Cada vez mais o espectador dedica horas e horas do
seu dia para acompanhar séries e filmes. A internet é utilizada por muitos
usuários como um dos principais meios para assistir produções audiovisuais,
inclusive a programação televisiva. O acesso a plataformas de streaming
cresceu vertiginosamente. A produção seriada norte-americana está entre os
itens mais acessados e buscados pela rede, e são os principais produtos de
exportação da indústria do entretenimento americano. O cenário brevemente
apresentado é consequência de uma revolução tecnológica, que funciona
como uma espécie de extensão na vida das pessoas. A internet é o meio de
comunicação que se estabeleceu mais rápido, por ter, entre outras
características, a capacidade de atender a várias demandas ao mesmo tempo.
Isso não significa, necessariamente, a perda dos outros meios de
comunicação, mas sim um reajuste do papel desses meios na sociedade, onde
são estabelecidas novas formas de utilizá-los. Seu advento permitiu aos fãs
mais uma ferramenta para o conhecimento e a informação. Novas linguagens,

16
interações e formatos surgiram com as novas possibilidades de consumo
ocasionadas pelo boom da rede e toda cultural digital que surgiu em volta
dela. A produção e distribuição de conteúdo passou a sofrer grande
interferência do público. O engajamento online forçou diversas
transformações, que por sua vez atualizaram os modos de consumo e
produção das mídias atuais. As produções originais da Netflix representam
uma grande inovação na produção de conteúdo audiovisual na atualidade. A
plataforma de streaming mais popular do mundo segue na contramão dos
estúdios tradicionais, as mudanças vêm desde o seu modo de operação até
sua adequação as necessidades do receptor e na forma como ele consome e
se relaciona com seu conteúdo original. Este projeto busca analisar as novas
experiências de consumo de narrativas seriadas através da prática do binge-
watching, observando o comportamento do consumidor na era da
convergência midiática, a partir da análise do consumo das séries da Marvel
produzidas originalmente pela Netflix. Em meio as inovações tecnológicas, que
mudaram a forma como o espectador tem acesso a produções audiovisuais,
estabelecer o caminho e as motivações que levam o usuário a maratonar uma
série. As maratonas, que foram facilitadas pelo surgimento dos serviços de
streaming e pela disponibilização de temporadas completas de séries nas
plataformas online, partem da premissa sob demanda, que dá origem a novos
comportamentos e novas experiências em relação a outras épocas.

Palavras-chave: binge-watching; streaming; convergência

***
Título: Binge-watching na era da convergência: novas práticas de consumo
no universo transmidiático da Marvel no Netflix.
Caio Barbosa Nascimento (Doutorado)
Centro de Pesquisa em Estudos Culturais e Transformações na
Comunicação (TRACC)
RESUMO: Sacerdotes e freiras católicas do mundo inteiro que tem acionado
produtos, linguagens e recursos da cultura pop para visibilizar os

17
ensinamentos católicos, dinamizar a evangelização e atrair jovens parar uma
vivência religiosa próxima à instituição. Em tempos de crise da fé e diminuição
do número de fiéis nos principais bastiões do catolicismo, a Europa e a
America do Sul , afinar a relação entre religião, comunicação e cultura parece
ser a estratégia privilegiada pela Igreja de Francisco. Mas, esse fenômeno não
tem se desenvolvido apenas nos países historicamente católicos da America
do Sul da Europa. Também nos Estados Unidos – país majoritariamente
protestante – agentes religiosos utilizam sua arte atrelada ao universo
midiático e pop para sintonizar a mensagem cristã com seu público-alvo. Este
é o caso de “Fr. Pontífex ”, nome artístico do padre e rapper norte-americano
Claude Burns. Ele já lançou, apoiado pela Igreja através de seu bispo, quatro
álbuns entre os anos de 2011 e 2017 e produziu, em parceria com o Spirit
Juice Studios, videoclipes e outros produtos audiovisuais disponíveis em seu
site e no seu canal na rede social Youtube. Nestes clipes, que serão os
objetos de nossa análise, o sacerdote, trajando batina, performa suas músicas
e utiliza os símbolos da religião católica associada aos elementos musicais e
estéticos do rap. Pretendemos abordar nesse artigo como convenções dentro
do campo dos videoclipes católicos são disputadas nas produções de Fr.
Pontífex em seus aspectos imagéticos e sonoros, estéticos e discursivos, na
medida em que há um tensionamento entre tradição e criatividade nesses
vídeos, marcada tanto por acionar elementos mais amplos da religião católica
e da cultura pop, quando pela particularidade do modo como esses elementos
são acionados, o que abre o campo para novas experiências. Desse modo,
nossa intenção é demonstrar que as produções de videoclipe de Fr. Pontífex
são criações inseridas no tempo histórico, que acionam vivências do passado,
falam sobre o presente, e abrem horizontes para compreender algo do futuro
da relação entre catolicismo, a cultura contemporânea e suas linguagens.
Considerando a relação estabelecida entre o catolicismo e a cultura pop como
um fenômeno em transformação no tempo e no espaço, utilizaremos como
metodologia dois movimentos articulados e complementares para a
investigação do texto audiovisual, no seu contexto de produção e movimento
histórico. O primeiro é a abordagem teórico-metodológicas de Raymond

18
Williams (1979) que trabalham com análise da cultura. O segundo, em sintonia
com o outro, será realizado a partir dos conceitos de espaço de experiência e
horizonte de expectativa de Koselleck (2006) que permite investigações
sobre o tempo histórico. Consideramos, portanto, os videoclipes criados por
Fr. Pontífex como uma estratégia midiática e estética da experiência do Pe.
Claude Burns, inserida na prática de evangelização contemporânea da Igreja
Católica. Neste trabalho, queremos identificar quais transformações temporais
estão em curso na comunidade católica norte-americana e evidenciam a
experiência religiosa desse grupo no processo hodierno de divulgação do
catolicismo. Prospectamos que este fenômeno seja fecundo para
compreendermos os dois elementos que compõe a experiência: o que faz
parte do campo, com seus símbolos, história, discurso e modos de fazer
compartilhados, como também o singular, que ao mesmo tempo em que faz
parte do campo, também o tensiona, provoca e rompe pelas escolhas
particulares que revelam um olhar criativo e inventivo diante da tradição e das
convenções estabelecidas. Sendo o catolicismo e a cultura pop dois universos
aparentemente antagônicos, o uso de recursos do pop pelo catolicismo pode
provocar transformações estéticas e políticas distintas, e coexistentes, nos
modos históricos de comunicação entre o catolicismo e a sociedade. A partir
disso, apresentamos como hipótese que – nos vídeos de Fr. Pontífex - há uma
transformação parcial desses elementos, marcada por alteração nas
convenções da linguagem e temáticas usadas para compartilhar as crenças,
mas com uma forte continuidade do conteúdo, havendo tanto rupturas
importantes, quanto continuidades. A partir dessa proposição, buscar-se-á
compreender 1- como os videoclipes musicais criados pelo padre e rapper Fr.
Pontífex, são 2- atravessados e tensionados por determinadas matrizes
culturais do pop e do catolicismo, que podem ser pensadas como 3 -
emergentes, residuais e hegemônicas, dentro de um 4- contínuo processo
histórico onde experiências do passado e expectativas do futuro colocam em
conflito elementos da tradição e criatividade, que se configuram e re-
configuram continuamente esse fenômeno.

Palavras-chave: Tradição, criatividade, catolicismo, cultura pop

19
MESA 4 - Comunicação pública e governamental

Título: Imparcialidade na comunicação governamental: análise das notícias do


Poder Executivo da Voz do Brasil em dois governos.
Lorena Maria Caliman Fontes (Mestrado)
Núcleo de Estudos em Jornalismo (NJOR)
RESUMO: O trabalho a ser apresentado no Comdis versa sobre os resultados
da pesquisa de mestrado, cujo foco esteve pautado na proposição de uma
metodologia para análise de imparcialidade. A avaliação foi montada a partir
das sugestões de Denis McQuail (2012) com foco na objetividade. A
imparcialidade é entendida no trabalho como “aspectos avaliativos da
objetividade”, composta por equilíbrio e neutralidade. O trabalho avalia, com o
método de análise de conteúdo (Bardin, 2016; Herscovitz, 2007) o equilíbrio
através das vozes/fontes destacadas com sonoras nas reportagens, a partir
da classificação de (Guerra, 2007). Os resultados mostraram foco nas vozes
oficiais (por natureza) e promotoras ou autorizadas (por circunstância). A
neutralidade é avaliada a partir da chamada análise de asserção avaliativa ou
análise de avaliação, proposta por (Osgood, 1959), sugerida por (McQuail,
2012) como critério de avaliação de neutralidade e detalhada por Bardin
(2016). O propósito é verificar se as avaliações feitas no texto dos jornalistas
e apresentadores são neutras, favoráveis ou desfavoráveis a objetos de
atitude - fatos, acontecimentos, projetos e atores sob avaliação nas notícias.
Foram encontradas 16 categorias de objetos de atitude, em sua maioria
relacionados ao governo federal. Houve um total de 183 avaliações
encontradas, em sua maioria favoráveis aos objetos de atitude
governamentais e desfavoráveis aos objetos de atitude que denotavam crises
ou questões contrárias ao governo. A análise cobriu dois governos - o
segundo governo Dilma Rousseff (2014-2016) e o governo de Michel Temer
(2016-2018), mostrando similaridades nos critérios avaliados nos dois
períodos. Através de informações obtidas via Lei de Acesso à Informação, o
projeto editorial da Voz do Brasil permanece o mesmo desde 2003, com
adaptações, o que explica a manutenção da forma de tratamento dado às

20
notícias, vozes e temas tratados. Do ponto de vista teórico, o trabalho
perpassa estudos sobre a história da radiodifusão no Brasil, as principais
referências sobre comunicação pública e governamental, e é proposta uma
relação entre as funções da comunicação pública e as funções do jornalismo.
São tratadas também questões sobre novas formas de entender o jornalismo,
como o jornalismo institucional e a mídia das fontes. A pesquisa compreende
a comunicação pública tendo como foco o interesse público, entendido a
partir dos valores da mídia de massa propostos por McQuail, além de discutir
outros entendimentos sobre o interesse público no jornalismo como em
(Gomes, 2009) e (Christofoletti & Triches, 2014). O interesse geral (Zémor,
1995, 2012) é tido como centro da atenção da informação difundida pela
comunicação de governo. Sendo assim, partindo da compreensão de McQuail
(2012), de maneira abrangente, a comunicação pública pode ser avaliada em
seus diversos valores, sendo os principais a liberdade, a igualdade e a ordem. A
objetividade é entendida como derivada da liberdade e da igualdade, de
maneira que pode ser utilizada para avaliar as notícias produzidas pela
comunicação de governo no formato jornalístico para uma avaliação de sua
adequação à proposta difundida para o cidadão.

Palavras-chave: jornalismo; comunicação pública; comunicação


governamental; objetividade; imparcialidade.

***
Título: Portal de Transparência Governamental: instrumento da Comunicação
Pública para formação política e democrática.
Carla Cristina Santos Rodrigues (Mestrado)
Comunicação, Internet e Democracia (CID)
RESUMO: A pesquisa versa sobre a análise interpretativa acerca da
Comunicação Pública como instrumento fundamental na construção do
discurso do portal da Transparência do Governo Federal, enquanto formação
política e democrática na sociedade civil. Para conduzir o objetivo: identificar
as influências a partir de interesses discursivos na construção do diálogo via
portais de transparência como resultado da democracia da informação;

21
mapear as interações das participações a partir dos comportamentos sociais
adquiridos por meio da cultura política no Brasil; analisar os limites acerca da
democracia e democracia digital inserida na cultura política no período atual
de conflitos na imagem política e vulnerabilidade de direitos conquistados; e
verbalizar a construção do portal de Transparência do Governo Federal para
com interesses públicos vinculados à sociedade civil, articulando assim, a
compreensão do fenômeno das particularidades da transparência pública no
espaço de democracia digital. Para a análise dos dados, foram igualmente
realizadas análises de cunho linguístico, argumentativo e textual na
construção do discurso proposto. A Comunicação Pública, neste contexto, é
apresentada como instrumento estratégico que tem como característica a
comunicação plena para todos, o diálogo e a retórica política e pública. No
Brasil aposta-se mais na comunicação pública digital com objetivo de alcançar
todos os públicos, o que significa desafios para concretizar o acesso para
todos os cidadãos, o que isso por si só não basta, pois está alinhado aos
interesses políticos e públicos ligado a consciência do espaço digital para o
fazer política. A associação a participação da sociedade civil nas decisões
políticas de questões que integram a agenda pública está integrada a
Comunicação Pública. As interferências que existem para fazer parte dos
grupos que detém a informação através de portais das instâncias públicas, os
principais enfoques são: renda, escolaridade, gênero e idade dos sujeitos.
Neste sentido, a transparência está voltada à prestação de contas por meio
de abertura de dados públicos e criação de meios que apresentem efeitos e
significados que geram sentimentos positivos e confiança. É compreendida
como estratégia de visibilidade institucional presente nas políticas e
programas de comunicação que são capaz de mobilizar sentidos e construir
ativos intangíveis para as organizações públicas e privadas (WEHMEIER e
ALBU, 2011). A tecnologia é utilizada neste sentido para o aperfeiçoamento da
democracia, mas vale ressaltar que, o cidadão considera os governos como
algo não relacionado à sua vida e preferem ignorar determinados assuntos,
pautas e construções com relação à política e à capacidade dos governantes
de buscar o interesse público. Mais do que simples desinteresse do indivíduo

22
em ser sujeito da ação, muitas vezes a apatia e a falta de formação política
são resultado do cruzamento entre desinformação, falta de oportunidades de
participação e descrédito com a gestão pública. (DUARTE, 2009, p.1). Assim,
faz-se necessário construir reflexões e abordagens que consigam articular e
problematizar os conceitos apresentados aos comportamentos sociais diante
ao que é público e político. Em perspectiva da participação popular,
considerar-se o conceito de Benhabib (p.34) ao apresentar iterações
democráticas. As iterações democráticas apresenta-se como processos
complexos de discussão pública, deliberação e trocas através de
reivindicações de direitos universalistas quando contestados e
contextualizado, invocado e revogado, posicionado ao longo de instituições
legais e políticas, praticadas por associações da sociedade civil, transforma o
sentido de democracia e o enriquece de maneiras sutis. O caráter histórico é
fundamental para compreender questões difusas e intrínsecas que remetem à
interação e participação política dos cidadãos. Identificou-se a falta domínio
pleno da utilização dessas plataformas, o que atinge a participação e
interação, a exploração do potencial da tecnologia e o afastamento de
informações devido à falta de credibilidade da política brasileira. A
participação da sociedade civil é possível a partir da consciência crítica sob a
sociedade política, sendo que, o conceito de participação democrática se
aproxima ao Estado Ampliado gramsciano de que o novo conceito de Estado
se deve ao resultado da composição de elementos políticos e sociais; da força
das instituições e da liberdade dos organismos privados; da inter-relação entre
estrutura e superestrutura; da compenetração do aparelho estatal com a
sociedade civil organizada. (SEMERARO, 1999, p. 75). A utilização da Internet
como espaço democrático é caracterizada como liberdade de expressão e de
manuseio das ferramentas, contudo, para Castells (2005, p. 23), é constituída
por um sistema oligopolista de negócios multimédia que controlam os
discursos e de redes horizontais de comunicação local/global. E, também, pela
interação entre os dois sistemas, num padrão complexo de conexões e
desconexões em diferentes contextos.

Palavras-chave: Comunicação Pública, Democracia, Internet, Participação

23
***
Título: Comunicação Pública mediada por aplicativos: análise do Noa Cidadão
e Cittamobi.
Nayra Veras de Araujo (Doutorado)
Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço (Lab404)
RESUMO: Nos últimos anos, diversas instâncias do poder público federal têm
desenvolvido aplicativos com o objetivo de garantir diversidade de canais para
a oferta de informações e também maior celeridade na prestação de serviços.
Para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) os aplicativos de
dispositivos móveis permitem também ampliar a participação dos cidadãos,
facilitando a adoção de práticas de gestão participativa, sendo possível
verificar a adoção deles em gestões públicas de diversas partes do mundo. O
objetivo deste trabalho é discutir os aplicativos de dispositivos móveis como
canais oficiais de comunicação pela Prefeitura de Salvador, e como tais
aplicativos são utilizados enquanto estratégias de comunicação pública para o
relacionamento com o cidadão. O corpus da pesquisa analisa os aplicativos
Noa Cidadão e Cittamobi. Com a era digital e o constante aperfeiçoamento
dos dispositivos de comunicação, diversos setores têm sido convocados para
pensar a comunicação pública, embora muitas vezes o façam sem se dar
conta disso: designers, programadores, jornalistas, analistas de mídias sociais,
administradores, relações públicas, publicitários, analistas de dados entre
outros hoje fazem parte da rede de comunicação pública. Muitos desses
profissionais atuam de forma isolada sem darem-se conta que sua atuação
interfere diretamente no trabalho do outro. Assim, neste trabalho, argumenta-
se que o conceito de comunicação pública deve ser compreendido numa
perspectiva integrada que compreenda não só o trabalho e a atuação de um
departamento ou setor de comunicação, mas de toda a infraestrutura técnica
e material envolvida, além da parte humana, da parte lógica dos seus
algoritmos, da política e da legislação. Essa compreensão ressalta o caráter
empírico da análise de modo a evidenciar como esses distintos atores se
relacionam. Essa hipótese conduz a pensar que a discussão de comunicação

24
pública no atual cenário traz novos temas para o debate que vão além de
critérios como participação, tais como sua relação com algorítimos,
privacidade e monitoramento de dados. Neste trabalho entende por mediação
o ato de transformar, traduzir e ou modificar significados ou elementos
(LATOUR, 2012). Convocar o conceito de mediação, nesta acepção, para a
compreensão da comunicação pública é fundamental para o objeto da
pesquisa porque entende-se que os aplicativos configuram novas práticas
comunicativas e põem em evidência a discussão de elementos próprios da
cultura digital até então ausentes na discussão sobre comunicação pública,
como a relação com bancos de dados, os desenvolvedores, startups e
questões de privacidade, por exemplo. Esta compreensão implica no
reconhecimento de que a comunicação pública não resulta de um processo
linear entre Cidadão e Estado e sim numa associação complexa entre homens,
coisas e instituições que agem com interesses distintos. Quando reflete-se na
comunicação pública mediada por aplicativos, em vez do questionamento
sobre como os aplicativos facilitam o acesso à informação e à participação
entre cidadão e estado parte-se o questionamento: quem age quando os
aplicativos agem? Só assim é possível atentar para a rede de atores que agem
junto com ele, incluindo legislações, notícias, assessorias de comunicação,
designers, gestores públicos entre outros. A comunicação pública se
manifesta como produto de um aparato complexo de agenciamentos. A
comunicação mediada por aplicativos ressalta o poder de modificação(ou
agência) dos diversos atores no processo comunicativo entre Estado e
Cidadão. Não se trata de um processo linear em que os softwares são
desenvolvidas objetivamente pelo Estado com o interesse em ampliar a
cidadania. A análise em voga tem demonstrado que a percepção dos gestores
públicos de que os aplicativos se tratam de um serviço eletrônico e não um
meio de comunicação, afasta-os da esfera de relacionamento com
profissionais de comunicação. Entretanto, é necessário reconhecer que os
aplicativos comportam uma nova dinâmica comunicativa que funciona não
apenas como transmissores de informações.

25
Palavras-chave: Aplicativos. Dispositivos móveis. Comunicação Pública.
Mediação

MESA 5 - Sociedade, participação política e dados públicos

Título: As apropriações dos dados abertos públicos pela sociedade


Gabriella da Costa (Mestrado)
Comunicação, Internet e Democracia (CID)
RESUMO: Este trabalho pretende estudar as apropriações que a sociedade
faz dos dados abertos públicos para o desenvolvimento de novas iniciativas
tecnológicas. Serão mapeados projetos e iniciativas da sociedade que utilizam
os dados abertos público, em prol da transparência. E a partir daí será
realizada uma investigação detalhada de quais, quem, como, por que, para
quem essas iniciativas são desenvolvidas. Por fim, vamos analisar o impacto
social causado a partir da atuação destas ações. Acredita-se que a pesquisa
oferecerá um panorama geral do arcabouço e da efetividade destas iniciativas
no âmbito dos estudos da democracia digital. Durante a elaboração deste
projeto, para definição do corpus inicial da pesquisa foram selecionados 23
aplicativos e projetos de iniciativa da sociedade que utilizassem dados abertos
para promoção da transparência. Para seleção foram utilizados os seguintes
critérios iniciativas realizadas pela sociedade que utilizam dados abertos e
constem na descrição das suas ações referências a transparência e/ou
accountability. A seleção se deu por meio de levantamento dos seguintes
sites: Dados Abertos do Governo Federal e Democracia Digital da Fundação
Getúlio Vargas. Dentro destes dois espectros as iniciativas selecionadas são:
Gastos Abertos; Cuidando do meu bairro, De olho nas Emendas; Escola que
queremos; Meu município; Orçamento ao seu alcance; Política.me; Radar
Parlamentar; Ranking Político; Reclamações Procon; Gastos Públicos;
Repasse; Observatório da Câmara dos Deputados; Quem me Representa;
Bolsa Família; Aquarela Vortx; Monitora, Brasil!; Meu Congresso Nacional; PAC
Info; Obras do PAC; Para onde foi Meu dinheiro; e Operação Serenata de
Amor. Será traçada uma trajetória de estudo linear partindo das esferas

26
maiores para as mais específicas, de forma que a coesão do texto e a linha de
pensamento fiquem claras. Depois de construída a base bibliográfica dentro
dos campos teóricos abordados por esta pesquisa, se partirá para campo para
coleta inicial de dados. Pretende-se, neste momento, realizar: navegação
orientada nos aplicativos, sites e/ou outros aportes tecnológicos; análise dos
mesmos e a aplicação de pesquisa semiestruturada junto aos responsáveis
pelas iniciativas definidas em busca de compreender como se deu a criação,
desenvolvimento, implementação e divulgação. Para realizar a análise dos
documentos recolhidos durante o período de coleta de dados, na navegação
orientada, serão observados os aspectos da arquitetura da informação e
também os conteúdos, por meio da análise de conteúdo. A pesquisa, portanto,
foi dividida em três etapas complementares com suas respectivas técnicas,
sendo elas a pré-análise, análise e inferência sobre os resultados. Esta
estrutura atende à definição de Bardin (1977), na qual a pré-análise
“corresponde a um período de intuições, mas, tem por objetivo tornar
operacionais e sistematizar as ideias iniciais, de maneira a conduzir a um
esquema preciso do desenvolvimento das operações sucessivas, num plano
de análise”. Pelo ponto de vista qualitativo, será realizada a Leitura Flutuante,
uma leitura fluente sobre todo o conteúdo recolhido durante a pesquisa, a fim
de familiarizar-se com as narrativas e os termos, permitindo que o analista
possa desenvolver uma análise qualitativa de maneira mais acurada.
Posteriormente, serão realizados estudos de casos, que representam uma
investigação empírica e compreende um método abrangente, com a lógica do
planejamento, da coleta e da análise de dados. Pode incluir tanto estudos de
caso único quanto múltiplos, assim como abordagens quantitativas e
qualitativas de pesquisa. Magda Maria Ventura define estudo de caso como:
O estudo de caso como modalidade de pesquisa é entendido como uma
metodologia ou como a escolha de um objeto de estudo definido pelo
interesse em casos individuais (VENTURA, 2007, p.384). Posteriormente,
serão aplicados questionários com usuários e/ou consumidores dos aplicativos
e projetos para que se possa analisar o impacto das iniciativas. O período
total da de coleta de dados será inicialmente estipulado com prazo de 4

27
meses para execução. Na fase de análise, serão avaliadas as respostas
obtidas pela pesquisa tendo o referencial teórico como base para que se
possa inferir sobre os padrões encontrados, traçando de tal maneira um mapa
conceitual das iniciativas. Por fim, objetiva-se entender se sua atuação, quais
efeitos são produzidos por tais ações que visam trazer a sociedade para o
centro das discussões de poder.

Palavras-chave: Democracia Digital, Dados Abertos; Sociedade; Análise de


Conteúdo, Estudo de Caso

***
Título: Inter-relações entre participação política e competências
infocomunicacionais.
Pedro Henrique Dórea Vidotti (Mestrado)
Grupo de Estudos de Comunicação, Política e Redes Digitais (CP-Redes)

RESUMO: A intensificação do uso social das novas tecnologias de


informação e comunicação e os seus impactos sobre o cotidiano de pessoas
em todo o planeta, promovidos por uma extensa e rápida incorporação dos
meios digitais ao modo de vida contemporâneo, têm suscitado reflexões e
práticas em vários campos do pensamento humano, dentro e fora da
academia. A cultura digital, localizada dentro da chamada cultura
contemporânea, vem engendrando mudanças de grande impacto para a
sociabilidade humana, incluindo uma diversidade de implicações para os
sistemas políticos. Interessa à presente proposta os efeitos do avanço das
tecnologias digitais e o seu uso social no âmbito da democracia, situando,
assim, este trabalho no campo de estudos em democracia digital, que “lida
com a complexa relação entre tecnologias digitais de comunicação e as
práticas democráticas.” (SILVA et al., 2016, p. 17). Pode-se dizer que a
literatura no campo citado tem tratado, de maneira normativa, das
potencialidades de novas tecnologias digitais, surgidas e implementas nas
últimas décadas, para o incremento de sistemas democráticos. No plano da
democracia representativa, modelo predominante no ocidente, a participação
política se dá, para a maioria das pessoas, através do voto, ou seja, na escolha

28
de representantes. Uma diversidade de críticas ao modelo tem motivado o
debate em torno da necessidade do aprofundamento da participação política
na democracia, o que, na prática, se constituiria de um incremento da
democracia representativa a partir de uma aproximação dos modelos
chamados de democracia participativa e democracia deliberativa. Os novos
recursos digitais, centralizados na internet, ofereceram novas perspectivas
para esse debate. Como descrito por Gomes (2016, p. 39), há um
entendimento de que “[...] meios e ambientes de comunicação on-line são
capazes de dotar os cidadãos de novos recursos para participar na decisão
política e na vida da comunidade, para a responsabilização do Estado e dos
seus agentes por decisões e condutas [...].” No cenário apresentado, usando as
palavras de Borges (2011, p. 18), “coloca-se um novo condicionante a
conformar este contexto que é o domínio de competências para atuar em
ambientes digitais.” As reflexões em torno dos conhecimentos, das habilidades
e das competências promovidos e demandados no contexto da cultura digital,
sobretudo para lidar com a informação e a comunicação em ambientes na
internet, são tratadas a partir de uma diversidade de conceitos diferentes mas
com ideias que possuem grande convergência entre si, apesar da existência,
também, de particularidades entra elas. Será adotada aqui a expressão
competências infocomunicacionais, formulada por Borges (2011). Assim, esta
proposta de pesquisa retoma uma questão presente e tratada na tese de
doutorado de título “Participação política, internet e competências
infocomunicacionais: estudo com organizações da sociedade civil de Salvador”
(BORGES, 2011). Volta-se, na presente proposta de pesquisa, ao ponto em
que a tese citada procurou verificar os elementos que determinam as inter-
relações entre as competências infocomunicacionais e a participação política
na democracia de organizações da sociedade civil de Salvador. A opção pela
observação dessas organizações faz relação com a posição que vêm
ocupando na contemporaneidade, pois, para além das ações empreendidas em
suas áreas específicas, dão forma e alargam a participação política na
sociedade como um todo (BORGES, 2011). A investigação contida na tese da
autora se empenhou em conhecer as formas de participação política

29
praticadas por organizações da sociedade civil de Salvador, levantar o papel
da internet nessa atuação e verificar as competências infocomunicacionais
dessas organizações. Assim, apesar de tratar de maneira tangencial da
questão central que se coloca aqui, não se deteve de forma mais profunda à
problemática que orienta nossa proposta de pesquisa, a saber: quais são os
elementos que determinam a inter-relação entre participação política de
organizações da sociedade civil na democracia e as competências
infocomunicacionais dessas entidades? Em outras palavras, por um lado, o
que se gera de impactos em termos de participação política para essas
organizações a partir do desenvolvimento de competências
infocomunicacionais e, por outro, o que se gera de impactos em termos de
competências infocomunicacionais no momento em que essas organizações
desenvolvem práticas de participação política? Diante do exposto, se fazem
como objetos da presente proposta de pesquisa a participação política de
organizações da sociedade civil, assim como as competências
infocomunicacionais dessas organizações.

Palavras-chave: democracia digital; competências infocomunicacionais;


participação política, organizações da sociedade civil;

***
Título: ETransparência no poder legislativo: o quadro dos parlamentos
nacionais latino-americanos
Erika Amorim Profeta (Doutorado)
Comunicação, Internet e Democracia (CID)

RESUMO: Considerando a relevância da transparência pública para o


fortalecimento da democracia representativa, as obrigações estabelecida
pelos marcos legais internacionais e nacionais a esse respeito, a demanda
corrente dos cidadãos por informações claras/confiáveis sobre os
atos/decisões do poder público, bem como os estudos atuais de e-
democracia, comunicação política, transparência pública e eTtransparência,
essa pesquisa se propõe a compreender de que maneira os parlamentos
nacionais dos países que integram a América Latina utilizam os seus portais

30
oficiais na internet para promover eTransparência. Para tanto, com base em
parâmetros já assentados em pesquisas anteriores, no papel previsto pelas
constituições nacionais para o Poder Legislativo, na análise do conteúdo
disponível nos portais e em entrevistas semiestruturadas com analistas
responsáveis pelos websites institucionais, pretende-se: a) mapear as
ferramentas de eTransparência disponíveis em cada um dos sites das câmaras
altas e baixas dos países que integram a América Latina; b) categorizar as
informações coletadas em dimensões e subdimensões que serão propostas
pela pesquisa, de modo que seja possível unificar um índice de transparência
do poder legislativo. Na coleta de dados, serão extraídas informações que
fazem referência : a) à atividade-fim do Poder Legislativo prevista em cada
constituição nacional; b) às atividades próprias aos parlamentares; e) à
transparência fiscal, com base em critérios definidos pelas constituições
nacionais; f) aos espaços de participação social oferecidos por cada unidade
de Poder Legislativo e às possibilidades de controle social do (s) parlamento
(s). Os resultados obtidos serão utilizados para compor um índice de
transparência para cada parlamento nacional e um quadro geral para a
América Latina.

Palavras-chave: Internet; Democracia; Acesso à informação; Transparência


pública; Transparência online; Transparência do poder legislativo

MESA 6 - Territorialidades e urbanidades

Título: Narrativas do urbano nos cinemas africanos: propostas metodológicas


Ana Camila de Souza Esteves (Doutorado)
Laboratório de Análise Fílmica (Nanook/ Pepa)

RESUMO: Esta comunicação busca compartilhar as angústias para definir


uma metodologia que dê conta de investigar as narrativas do urbano nos
cinemas africanos, como parte da pesquisa de doutorado em andamento, cujo
objetivo é compreender as narrativas e estéticas da cinematografia africana a
partir de como os filmes convocam dimensões da experiência urbana: os
dilemas da contemporaneidade, as práticas do cotidiano e os modos de se

31
contar histórias nas grandes cidades. O objetivo é, portanto, criar categorias
de análise que deem conta de, primeiramente, mapear o modo como as
cidades aparecem nos filmes e como servem às narrativas. Logo, definir
categorias que permitam, dentro do universo desta cinematografia (a partir
dos anos 1960 até aproximadamente 2020), compreender o que as práticas
do cotidiano e a cartografia da cidade montada a partir das narrativas e
trajetórias dos personagens dizem sobre esta África em cena. Minha ideia é
expor aos colegas três propostas metodológicas que se mostraram
pertinentes ao objetivo desta pesquisa, a fim de compartilhar algumas
abordagens e ouvir suas opiniões. A primeira é a proposta do livro
"Experiências Metodológicas para a compreensão da complexidade da cidade
contemporânea", organizada por Paola Berenstein Jacques e Washignton
Drummond (2015). A segunda é a proposta no livro "Documenting Cityscapes
- Urban Change in Contemporary Non-Fiction Film", de Iván Villarmea Álvarez
(2015). E a terceira é cartografia das controvérsias, proposta pela Teoria Ator-
Rede, de Bruno Latour.

Palavras-chave: Cinemas africanos; cinema e cidade; metodologia

***
Título: Juventudes e cultura digital: estudo sobre competências
comunicacionais e participação política mobilizadas por jovens de Salvador
Daniela de Assis Silva (Doutorado)
Grupo de Estudos de Comunicação, Política e Redes Digitais (CP-Redes)

RESUMO: O Brasil possui um número sem precedentes de jovens no país: são


51,3 milhões com idade entre 15 e 29 anos . Em Salvador (Bahia), primeira
capital do Brasil e quarta capital mais populosa do País, vivem cerca de 319
mil jovens. A maioria da população de Salvador é multirracial e prioritariamente
afrodescendente: 39% dos jovens se declararam pretos, 47,5% pardos, 13,2%
brancos; e 0,3% indígenas ou amarelos. A maioria da população jovem de
Salvador pertence a famílias e domicílios de baixa renda: 10,1% têm renda
domiciliar per capita1 de até ¼ de salário mínimo, 20,6% entre ¼ e ½ salário
mínimo e 32,2% entre ½ e um salário mínimo. A taxa de desemprego é elevada

32
e atingiu 34,2% da força de trabalho nesta faixa etária. Entre aqueles que não
estavam na força de trabalho (cerca de 77 mil jovens), 47,6% não estudavam.
São os chamados jovens “nem-nem”, que não trabalham nem estudam, cuja
maioria é negra, segundo Santos (2018). Em meio a este contexto, pesquisas
apontam insatisfações dos jovens em termos de garantia de direitos: os
jovens brasileiros são os mais insatisfeitos em relação ao funcionamento da
democracia e esta é uma das possíveis explicações para o surgimento de
novas formas de mobilização juvenil, segundo o Inquérito Ibero-Americano de
Juventudes (PAIS, 2016). E as insatisfações expressas pelos jovens brasileiros
não significam omissão diante dos cenários postos. Pesquisa do movimento
Todos Pela Educação “Repensar o Ensino Médio” (2017) aponta que 43% dos
1.551 jovens ouvidos, com idade entre 15 e 19 anos, participaram de algum
movimento social. Em um regime democrático como o brasileiro, a
participação política pode ser exercida de diversas formas, sendo o voto nas
eleições uma das mais conhecidas e vivenciadas. Já a ideia de participação
cívica envolve a noção de deveres e responsabilidades do cidadão (MAIA,
2011). Ao longo da história democrática, novas práticas de participação têm
surgido, assim como os elementos teóricos e conceituais relacionados a essa
evolução. Estudos acadêmicos avançam no sentido de entender os impactos
das inovações introduzidas pela internet sobre fenômenos como a
representação, mobilização e participação política (MAIA; GOMES; MARQUES,
2011). Gomes (2011) reforça que a participação é um dos componentes para a
avaliação da qualidade democrática do universo digital. E essas mudanças
também impulsionam o surgimento de demanda de novas competências para
participação da vida política (Borges, 2013). Entre as competências
demandadas, estão as chamadas comunicacionais propostas por Borges
(2011), que se referem à necessidade de estabelecer relações, negociar,
argumentar, ações fundamentais nos processos de participação política. Em
Salvador, o retrato da segregação racial e níveis altos de desigualdade
socioeconômica (Carvalho & Barreto, 2007) impulsionam o movimento social
liderado por jovens, público cada vez mais conectado, exigindo competências
específicas de comunicação. Interessa, portanto, neste projeto de doutorado,

33
investigar a influência das competências comunicacionais nas ações de
mobilização e engajamento na participação política (online e offline) dos
jovens de Salvador (Bahia, Brasil). Os objetivos específicos são: 1) Mapear as
formas atuais de participação política online e offline dos jovens de Salvador;
2) Verificar as competências comunicacionais usadas por lideranças jovens na
participação política online e off-line; 3) Comparar padrões e níveis de
participação política x competências comunicacionais entre jovens ativistas e
não ativistas. Como metodologia, optou-se por um estudo de natureza
exploratória e descritiva, utilizando métodos mistos, que combinam
abordagens quantitativas e qualitativas (CRESWELL, 2010; YIN, 2016).

Palavras-chave: Competências Comunicacionais; Juventudes; Participação


Política

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Título: Interfaces maliciosas: uma análise do app Cittamobi
Daniel Marques (Doutorado)
Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço (Lab 404)

RESUMO: O presente trabalho propõe discutir o conceito de interface


maliciosa a partir dos resultados de pesquisa realizada com o aplicativo
Cittamobi na cidade de Salvador. Lançado em 2015 através de acordo
firmado entre a Prefeitura Municipal e a empresa Cittati, o Cittamobi
rapidamente se tornou um importante ator na configuração da mobilidade
urbana da cidade. Trata-se de um sistema de gerenciamento em tempo real e
monitoramento remoto destinado a frotas urbanas de ônibus, já implementado
e em funcionamento em diversas cidades brasileiras. Na Bahia o serviço está
disponível em Salvador, Camaçari, Juazeiro, Simões Filho e Vitória da
Conquista. O sistema cumpre, de modo geral, duas funções: a) oferecer ao
órgão gestor de cada cidade uma ferramenta para monitoramento da sua
frota e; b) oferecer aos usuários – através de um aplicativo (app) disponível
em iOS e Android – um sistema inteligente de acompanhamento das suas
linhas preferenciais e rotas desejadas. Em dados divulgados em 2017,
somente em Salvador o app era utilizado por 1,3 milhões de pessoas, sendo o

34
sistema inteligente de mobilidade urbana mais popular da cidade. Dentro da
estrutura da Prefeitura de Salvador, o Cittamobi integra o Centro de Controle
Operacional (CCO) da Semob – Secretária de Mobilidade de Salvador. O
monitoramento é realizado através de georreferenciamento (GPS) e câmeras
instaladas nos coletivos, o que permite que a Semob tenha um aparato
sofisticado de gerenciamento e monitoramento da frota em tempo real. Além
do envolvimento dos atores citados acima (Semob, cidadão, Cittati), o caso do
Cittamobi nos chama a atenção ao mobilizar para sua operação plataformas
digitais como Google e Facebook. O sistema de navegação implementado
pelo app utiliza, por exemplo, a API do Google Maps. Além disso, para que o
usuário realize login no app é preciso conectar sua conta do Google ou
Facebook, obrigatoriamente. As decisões de design que orientam o
desenvolvimento do Cittamobi não são aleatórias. A rede parece apontar para
a emergência de uma plataforma cujo modelo de negócios se dá pela
inteligência extraída dos dados gerados, tendo em vista que a cada nova
funcionalidade implementada o Cittamobi expande sua capacidade –
quantitativa e qualitativa – de coleta e processamento de dados pessoais. O
app não só emerge enquanto uma plataforma específica, mas também
negocia e coloca em fluxo outras plataformas (Google, Google Maps,
Facebook) na mediação do fenômeno de mobilidade urbana em Salvador
(GILLESPIE, 2010; NIEBORG; POELL, 2018). De forma resumida, podemos
afirmar que o Cittamobi coloca em contato e orienta a interação entre
diferentes atores e instituições sociais: a) Prefeitura de Salvador, Semob e
CCO; b) Cittati e seus parceiros comerciais; c) cidadãos e usuários; d) outras
plataformas como Google e Facebook. Ao fazer isso, plataformas como o
Cittamobi não somente facilitam a realização de determinado serviço ou
interação social, mas, como veremos a frente, “they actually shape the way
we live and how society is organized” (DIJCK; POELL; WAAL, 2018, p. 09).
Embora o Cittamobi seja uma plataforma mais ampla, cuja agência toca
diversas instâncias (Prefeitura, outras plataformas, hardware embarcado em
ônibus, CCO etc.), nos interessa observar, mais especificamente, como a
plataforma e seu modelo de negócio se materializa (DOURISH, 2017) a partir

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das mediações (GRUSIN, 2015) que ajuda a (co)produzir em sua interface
central, o app. Acreditamos, portanto, que pensar o fenômeno da mobilidade
urbana em Salvador pressupõe considerar a agência das plataformas digitais
implicadas – processo de plataformização (DIJCK; POELL; WAAL, 2018) –,
bem como sua materialização em interfaces digitais específicas (ASH et al.,
2018b, 2018a). A análise preliminar da interface do Cittamobi revela, portanto,
as negociações e tensões que surgem na rede, principalmente por se tratar do
espaço em que os múltiplos atores e instituições sociais se materializam e
entram em contato uns com os outros. Identificamos, na análise, a presença
de diversos dark patterns (BÖSCH et al., 2016; FRITSCH, 2017; NODDER,
2013), dispositivos interfaciais projetados com o intuito de levar o usuário a
agir contra o interesse próprio. São aspectos das interfaces digitais
desenvolvidos para iludir e enganar o sujeito, levando-o a produzir ações que
beneficiam a plataforma. Nesse sentido, categorizamos o Cittamobi enquanto
uma interface maliciosa, não só a partir da presença de dark patterns em sua
interface gráfica, mas graças às múltiplas camadas materiais do objeto que
corroboram para a formação de uma rede de agências persuasivas e ilusórias
para o usuário e, em certa medida, para a Prefeitura.

Palavras-chave: materialidade, interface, plataformas digitais

MESA 7 - A dimensão do sensível no audiovisual

Título: Cineasta na fronteira: Andrea Tonacci e o cinema brasileiro em


deslocamento à Oeste
Marcela Aguiar Borela (Doutorado)
Laboratório de Análise Fílmica (Nanook/Pepa)

RESUMO: Delimita-se, nessa pesquisa em andamento, condições de


produção, criação e transformação de um cinema brasileiro de chave
periférica em relação a modelos industriais, um cinema minoritário, latino-
americano, ora inscrito em formas documentais e ora experiência de ficção.
Observa-se os efeitos de sentido (estéticos, históricos, políticos) tanto nos

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filmes escolhidos quanto nos documentos possíveis de serem acessados do
processo criativo, produzidos no deslocamento dos interesses do cineasta
Andrea Tonacci (1944-2016) após a realização de Bang Bang (1970-1971), seu
primeiro longa-metragem, até o lançamento de Serras da Desordem (1998-
2006). Envolvendo-se de maneira pioneira com as tecnologias de captação
do vídeo e do som sincrônico magnético nos anos 1970 no Brasil, Tonacci, de
alguma maneira, desiste da manutenção de um projeto autoral de cineasta
urbano moderno, referência do emergente Cinema Marginal brasileiro do qual
faz parte, e sai em longa viagem pela América Latina com uma câmera portátil
nas mãos a filmar a luta indígena em vários países. O cineasta torna-se um
dos primeiros no Brasil a do documentário americano de cinema direto,
sobretudo, se considerarmos o uso do som sincrônico à imagem (a partir de
gravação direta), associada ao total abandono da voz over (voz do saber ou
voz off). Tonacci começa um filme chamado Conversas no Maranhão em 1977
com os Canela Apãniekrã, abrindo-se à auto-mise-en-scène dos índios
(BRASIL e MESQUITA, 2012) e posicionando-se ao lado deles no conflito que
envolvia a demarcação de suas terras. Ele viria a lançar um longa-metragem
novamente apenas em 2006, com Serras da Desordem, o qual conta a
história de Carapiru, indígena Ãwa Guajá que vaga dez anos pelos cerrados
após o massacre de sua família. Antes, entre 1980 e 1983, Tonacci filma Os
Arara, série de TV com três episódios de 60 minutos cada (o último
inacabado), onde ele acompanha o primeiro contato com essa etnia de tronco
linguístico Caribe no Pará (PA), ao lado do sertanista Sydney Possuelo. As
inovações tecnológicas que permitiram que câmeras mais leves e
equipamentos de som portáteis chegassem ao Brasil motivaram Tonacci a
fazer filmes de modos diferentes. Ao mesmo tempo, a ditadura militar
brasileira fez com que o realizador desejasse sair de São Paulo. Surge aí um
cinema fortemente marcado por tensões territoriais e existenciais, que se abre
à experiência da fronteira brasileira, tal como foi apresentada pelo o sociólogo
José de Souza Martins. Nas histórias dos Estados-nação latino-americanos há
“um movimento de expansão demográfica sobre territórios não ocupados ou
insuficientemente ocupados pelo capital” (MARTINS, 2009, p. 133), portanto,

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seriam considerados lugares de fronteira regiões como o oeste brasileiro e a
Amazônia, nas quais, em certos momentos da história, diferentes
temporalidades e ideias de humanidade se encontram e conflitam em
ambiente pós-colonial. Andrea Tonacci filmou esses espaços, deslocando-se a
oeste para registrar comunidades indígenas e envolvendo-se em processos de
demarcação de terras, assim como em dramas humanos relacionados ao
processo histórico mais amplo. Diversas situações de fricções interétnicas
(CARDOSO DE OLIVEIRA, 1962) surgem, na fronteira, em processos que
culminam na realização desses três projetos: Conversas no Maranhão (1977), a
trilogia Os Arara (1980-1983) e Serras da Desordem (2006), aos quais essa
pesquisa se atenta. Trabalhando com a análise fílmica (de imagem e som) e
reconhecendo as formas da mise-en-scène de Tonacci, investiga-se as
relações entre cinema e indigenismo e o modo como os filmes dialogam com
uma tradição mais precisa, observacional, repleta de ambiguidades do cinema
direto (RAMOS, 2008). Com foco na singularidade artística, discute-se como
os filmes se situam no campo de construção de experiência e de cena no
cinema brasileiro, no encontro radical com o outro. Relaciona-se pesquisa
historiográfica, em cinema brasileiro moderno e contemporâneo, explorando-
se possibilidades de diálogo com a antropologia. Nesse sentido, no limite,
investiga-se a maneira a partir da qual Tonacci constrói um pensamento sobre
o Brasil e a América Latina no cinema.

Palavras-chave: Documentário, ficção, cinema direto, som direto, fronteira.

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Título: Jornalismo imersivo em realidade virtual: a sensação de presença e a
compreensão do conteúdo pelo público
Luciellen Souza Lima (Doutorado)
Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line (GJOL)

RESUMO: O ciberespaço viabiliza a incorporação de novos formatos do


jornalismo que representam novas formas de contar histórias da vida real e

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buscar uma conexão com o público. Um desses formatos é a realidade virtual,
que, através de equipamentos tecnológicos, busca ludibriar as percepções
humanas e fazer com que o indivíduo acredite fazer parte de um mundo
criado virtualmente. A tecnologia, inicialmente, foi desenvolvida para a
indústria de jogos eletrônicos. Porém, várias outras áreas passaram a utilizar a
ferramenta, inclusive o jornalismo. Atualmente, grandes empresas, como
Google, Samsung, Facebook e Apple, investem no desenvolvimento, na
disseminação e na popularização dessa tecnologia, incluindo produção,
distribuição e consumo. Considerado um fenômeno em emergência, o
jornalismo em realidade virtual apresenta iniciativas em todo o mundo e nos
últimos quatro anos a produção cresceu, de forma que hoje, várias empresas
de comunicação desenvolvem projetos do tipo, como The New York Times,
BBC, The Gardian e CNN, no exterior, e organizações Globo, Folha de S.
Paulo, Revista Veja e Estadão, no Brasil. A realidade virtual é vista como mais
um desafio para as redações, pois traz transformações significativas ao
jornalismo imersivo. Pesquisadores relatam que esta tecnologia, quando
utilizada pelo jornalismo, faz as pessoas terem a sensação de presença, o que
as levam a compreender o conteúdo de uma forma diferente das conhecidas
até então. Como consequência dessa sensação de presença, desenvolvem
uma forte conexão (reconhecida como empatia), como se fossem
testemunhas, como se coabitassem com os fatos. No entanto, há uma
carência de pesquisas, sobretudo empíricas, que abordem e aprofundem mais
essa discussão. No contexto das possibilidades trazidas pelo desenvolvimento
da realidade virtual para o jornalismo, esta pesquisa tem como objetivo
investigar a relação entre a sensação de presença e a compreensão do
conteúdo na perspectiva do espectador. O corpus será formado por
reportagens jornalísticas imersivas em vídeo em 360°, visto que é a forma de
utilização da realidade virtual mais explorada pelas organizações jornalísticas
até o presente momento. Para tanto, este trabalho pretende realizar uma
pesquisa bibliográfica para aprofundar conceitos centrais e tangenciais ao
jornalismo imersivo em realidade virtual. Além disso, visa investigar o objeto no

39
momento da experiência do público. A metodologia inclui a realização de
pesquisa exploratória e pesquisa experimental.

Palavras-chave: Realidade Virtual, Jornalismo Imersivo, Imersão, Presença,


Compreensão.

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Título: Biografando o Inimigo: controvérsias, querelas e congruências em
torno dos da Trilogia do Terror do diretor Barbet Schroeder
Vilma Carla Martins Silva (Mestrado)
Laboratório de Análise Fílmica (Nanook/Pepa)
RESUMO: Os produtos biográficos, tanto na literatura, quanto no cinema, têm
sido importantes temas de debates políticos e éticos. Uma biografia não é um
mero registro ou fala sobre a vida do outro, é a sua história, é o sujeito
representado por meio das mais diversas linguagens. No cinema, no chamado
documentário biográfico e as cinebiografias, prevaleceu, assim como na
literatura, a concentração de biografias de pessoas com reconhecidos
destaques e historicamente importantes. Entretanto, com as novas práticas e
novos formatos, as biografias deixam de tratar de histórias apenas de pessoas
ilustres para direcionar-se à vida privada de pessoas comuns, com o biógrafo
ganhando mais liberdade e podendo usar de uma maior criticidade e mesmo
da sátira em relação aos seus biografados. Não se trata somente de pessoas
comuns, ou figuras públicas, construídas visando eternizar um fato histórico
ou problematizar uma causa social, como as mais recentes e/ou premiadas
cinebiografias, no Brasil e no mundo. Quando esse outro é alguém que
provoca as mais acirradas polêmicas e/ou é caracterizado como moralmente
“problemático” a interpretação ética e política se complica ainda mais.
Retratar esse tipo de personagem também não é algo novo, principalmente no
contexto da cinebiografia, ou do jornalismo, como por exemplo, os casos de
assassinato. No documentário, o ato de filmar o outro ou os outros que
possuem uma posição política, ideológica, ou moral contrária ao do cineasta,
ganhou o nome, pelo documentarista e crítico francês Jean-Louis Comolli, de
“filmar o inimigo”. Não refere-se a uma categorização convencional, como os

40
gêneros. Não existe essa definição nas sinopses dos filmes, o que existe é a
investigação e defesa desse procedimento em alguns filmes, porém, tal
concepção ainda é carente de trabalhos específicos quanto ao perfil
biográfico. Esta pesquisa consta de uma análise dos três documentários do
cineasta Barbet Schroeder: Général Idi Amin Dada: Autoportrait (1974);
L'Avocat de la terreur (2007) e Le Vénérable W (2017), que se enquadram
enquanto biografias de personagens controversos e opostos a posição da
produção do filme. O primeiro trata de uma figura política muito questionável,
o ditador ugandense, Amin Dada conhecido por seu governo autoritário e
atitudes genocidas. O segundo versa sobre o advogado francês Jacques
Vergès, que defendeu criminosos de guerra, soldados da SS e terroristas. Já o
mais recente, Le Vénérable W, apresenta Ashin Wirathu, um respeitado e
extremista monge da Birmânia. Wirathu é líder do partido racialista Ma Ba Tha,
e levanta problemáticas em torno do paradoxo, de um país onde o discurso
de ódio e a islamofobia se desdobram em violência e destruição . Barbet
Schroeder é um cineasta e produtor francês de origem suíça com quase 57
anos de trabalho, reconhecidos e aclamados, mas que é pouco estudado fora
da Europa. Esses documentários receberam a denominação de Trilogia do
Terror, justamente por tratarem de pessoas associadas a violências,
terrorismo, nacionalismo extremo, racismo, etc. Os filmes usam dessas
protagonistas, pessoas influentes, para aludir a conjuntura política-social
maior, seguindo a lógica do individual para o coletivo. O trabalho de análise,
aqui proposto, pretende investigar a construção estética dos filmes,
realizando comparações entre as duas obras, enfatizando os elementos
internos utilizados- um tópica para cada artifício sobresaliente (montagem,
arquivos, narração, entrevistas, música) e elementos externos, como a relação
entre o biógrafo e o biografado, suas convicções e o contexto de produção.
Por hora, não será necessário se aprofundar sobre o que é documentário, e
outras especificidades do ramo. Para a análise, valer-se-á da estrutura
narrativa, examinar o formato e o conteúdo, a mis-en-scene, que no
documentário em geral tem um ponto importante que é uma representação
da realidade. Pretende-se também ponderar sobre os próprios sujeitos dos

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filmes, como se apresentam, sem deixar de dar ênfase na reflexão em torno
das implicações éticas e políticas, com seus efeitos e consequências
resultantes de tais documentários.

Palavras-chave: análise fílmica; documentário; biografia; filmar o inimigo;


ética.

MESA 8 – Experiências e territórios em produtos e práticas


comunicacionais

Título: Cinemas africanos e cultura oral: conexões entre a tradição griot e a


narrativa cinematográfica
Morgana Gama de Lima (Doutorado)
Laboratório de Análise Fílmica (Nanook/Pepa)

RESUMO: A tradição griot é uma prática oriunda do antigo Império do Mali,


estado que existiu na África Ocidental entre 1235 a 1600, e está associada à
contação de histórias, bem como, à transmissão de tradições e memórias de
um povo. Pesquisadores de cinemas africanos, ao tratar sobre as estratégias
narrativas apresentadas por alguns cineastas, já fizeram aproximações
conceituais entre essa prática da cultura oral e narrativa cinematográfica ao
adotar expressões como “narrativas grióticas” (DIAWARA, 2007) e “filmes
grióticos” (BAMBA, 2017). Uma aproximação que vai além de uma alusão
metafórica à figura do cineasta como um contador de histórias
contemporâneo, mas que pode ser percebida através de diversos aspectos
que compõem a mise-en-scène fílmica, sobretudo, a presença de referências
alegóricas. Nesta comunicação pretendemos compreender o funcionamento
dessa prática, desde o seu contexto de origem, e possíveis aproximações
conceituais com estrutura narrativa em filmes realizados por cineastas
africanos. O termo griot advém do vocabulário franco-africano foi criado
ainda na época colonial para designar o narrador, cantor, cronista e
genealogista que, pela tradição oral, teria a responsabilidade de transmitir a
história de personagens e famílias importantes (LOPES, 2011). O griotismo ou

42
atividade griot está presente sobretudo na África Ocidental, região onde se
desenvolveram diversos impérios medievais africanos como o Império do
Gana, Mali e Songai, e entre os povos mande, fula, hausa, songhai, wolof entre
outros (tais povos estão espalhados entre vários países da África, desde a
Mauritânia mais ao norte até a Guiné ou o Níger mais ao sul). A história ou
repertório mais famoso dos griots é o Épico de Sundiata que narra a história
de Sundiata Keita (também conhecido como Leão do Mali), o fundador do
Império Mali por volta de 1230. Entre os instrumentos mais utilizados nas
performances do griot estão a harpa africana, chamada de kora, ou o balafone
(semelhante ao xilofone), o ngoni (alaúde) e a voz. Elementos que são
recorrentes em filmes realizados por cineastas africanos. Alguns cineastas, em
entrevistas reconhecem a aproximação da cultura griot no cinema. O diretor
senegalês Djibril Diop Mambéty disse que “a palavra griot [...] é a palavra para
o que eu faço e o papel que o cineasta tem na sociedade ... o griot é um
mensageiro do seu tempo, um visionário e o criador do futuro” (GOETHE-
INSTITUT, 2012). O próprio Ousmane Sèmbene (1990), considerado o pai do
cinema africano, teria dito em uma entrevista ao Correio da Unesco que “Um
cineasta, seja do cinema ou da televisão, do mundo da imagem em suma,
possui uma herança muito antiga e sempre viva: a oralidade. A imagem se
identifica com a oralidade na medida em que se dirige a uma massa de
pessoas que no Terceiro Mundo, particularmente em África não tem meios,
nem sequer, tempo de ler”. Com essas afirmações, de alguma forma, os
cineastas assumem a importância da cultura oral no continente africano como
possibilitam uma comparação do cineasta como uma versão contemporânea
desse narrador. A questão, contudo, é: se os cineastas africanos podem ser,
metaforicamente, considerados como uma espécie de “griots modernos” ou
contadores de histórias da contemporaneidade, quais seriam então os elos
possíveis de estabelecer entre a tradição griot e filmes realizados por esses
cineastas? De que modo a compreensão desse traço cultural pode
compreender no processo de avaliação, análise e interpretação dos filmes?
Por essa razão, nosso desafio aqui é ir além de tais associações metafóricas e

43
pensar como a tradição griot da cultura interfere na dinâmica da narrativa
cinematográfica.

Palavras-chave: cinemas africanos; griot; narrativa cinematográfica.

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Título: Seguindo a experiência: uma etnografia da prática de selfie
Leonardo Pastor (Doutorado)
Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço (Lab 404)

RESUMO: Proponho, neste trabalho, discutir em termos teórico-


metodológicos os primeiros resultados de uma etnografia em
desenvolvimento da prática de selfie, colocando em discussão o próprio
processo de investigação em campo, a noção de experiência no pragmatismo
de William James (1912, 2000b) e processos comunicacionais em meios
digitais. Em termos gerais, trata-se de uma etnografia que possui o objetivo
de seguir a experiência – conjugada de maneira híbrida entre humanos,
imagens e algoritmos – relacionada à produção de fotografias digitais
chamadas selfies. O ponto de partida para a pesquisa é pensar a selfie como
uma prática (Pastor, 2017), e não apenas como um tipo de imagem. Tomo
como lugar de início da etnografia uma praça na cidade de Salvador – o
espaço, portanto, se converte em uma primeira referência para a observação
das práticas ali desenvolvidas e de seus praticantes, tanto em ações
presenciais como nos movimentos nas redes sociais digitais. Observa-se,
dessa forma, uma experiência que relaciona tanto a prática realizada em
espaço urbano quanto nas redes sociais, entendendo-as como práticas
conjuntas. Desenvolve-se uma etnografia capaz de seguir essas linhas de
continuidade da experiência envolvendo a prática de selfie – imbricadas tanto,
por exemplo, nos gestos daqueles que se fotografam quanto nas agências e
leituras de algoritmos. Trata-se de uma etnografia que inclui e mescla as
interações entre as pessoas na praça – com abraços, gestos, usos do
smartphone, poses –, as imagens geradas e compartilhadas – com rostos,

44
sorrisos, personagens –, as interações em redes sociais – curtidas,
comentários, conversas –, e formas e práticas envolvendo dados e sistemas –
audiências algorítmicas, práticas de dado, uso de hashtags. Além disso,
através das práticas de selfie observadas a partir da praça, sigo experiências
mais específicas, transformando frequentadores em personagens a ser
observados – e construídos como personagens através da escrita etnográfica
–, buscando perceber as interações em seu cotidiano. Construo, dessa forma,
três movimentos etnográficos que se complementam: observações
diretamente no espaço da praça; extração e observação das publicações
realizadas no Facebook e Instagram associadas à geolocalização, e conversas
com as pessoas que frequentam o espaço. A proposta de “seguir a
experiência”, da forma como desenvolvo, está vinculada diretamente a um
sentido pragmatista — e é a partir dessa lógica, de “seguir a experiência”, que
a etnografia está sendo desenvolvida. Eu evito, portanto, uma busca por
essências, abstrações ou definições a priori e tento perceber as conexões e
as consequências práticas. E “prática”, nesse sentido pragmatista, não se
refere a uma ação em oposição à reflexão teórica, mas considerar a realidade,
o conhecimento e a própria ação no momento em que elas se desenvolvem. A
ênfase, seguindo o empirismo radical de William James (1912), está nas
experiências e nas relações, permitindo enxergar certas vias de continuidade
prática entre as coisas. E por isso, inclusive, a importância também de discutir
uma etnografia que está em processo. É esse, portanto, o sentido de
experiência que me guia na etnografia: uma experiência trabalhada enquanto
processo. É como se eu aplicasse, através da etnografia, uma formulação da
questão em termos pragmatistas: Através de quais processos a prática de
selfie se constrói? Quais as diferenças práticas que se desenvolvem nesse
tipo de cotidiano fotográfico? Não se trata de representar uma realidade, mas
estabelecer as coordenadas para seguir a experiência (Lapoujade, 2007). No
caso dessa pesquisa, o percurso para seguir a experiência, portanto,
desenvolve-se a partir das pequenas relações desenvolvidas na vida cotidiana.
Ou seja, investigar os conhecimentos e ações do senso comum – e através
dele –, como sugere Garfinkel (1967). É importante trabalhar também, por

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exemplo, com uma proposta etnográfica como a descrita por Marilyn
Strathern (2014), conectando o trabalho de campo com a análise e produção
escrita posterior; no entanto, incorporando a ela também uma lógica relacional
que se estabelece na própria experiência — e percebendo, inclusive, as
próprias relações entre as experiências também como experiências. A partir
dessas perspectivas e da própria prática de observação participante em
campo, apresento e discuto nesse trabalho uma proposta de investigação da
experiência – e através dela – que associa aspectos do empirismo radical com
o trabalho etnográfico. Proponho uma etnografia capaz de seguir a
experiência sem delimitações de fronteiras entre as ações e usos do espaço
físico, as práticas em redes sociais, os personagens – humanos ou não –, as
imagens produzidas e as conformações algorítmicas em meios digitais.

Palavras-chave: selfie; experiência; pragmatismo; etnografia

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Título: Experiências e disputas afetivas no contexto musical de Salvador-BA:
articulações de gêneros, territórios e cenas musicais
Daniel Oliveira de Farias (Mestrado)
Centro de Pesquisa em Estudos Culturais e Transformações na
Comunicação (TRACC)
RESUMO: A pesquisa proposta busca compreender de que modo os gêneros
musicais, os territórios e as cenas musicais, no contexto da cidade de
Salvador, estão articulados e interligados nas experiências e disputas afetivas
de críticos e fãs, expressas em discursos, em torno da banda BaianaSystem,
da cantora e compositora Larissa Luz e do grupo Attooxxa - artistas
soteropolitanos que ampliaram a visibilidade e público local e nacionalmente
entre 2015 e 2018. A questão levantada foi construída com base na
observação da emergência de discussões sobre esses temas entre fãs nas
páginas e nos canais dos artistas em redes sociais online, como Facebook,
YouTube e Twitter, e de críticos em textos em veículos variados, que
atravessam o contexto musical da capital baiana e outras problemáticas da
própria cidade. Tais debates ocorrem em um momento de enfraquecimento da
indústria do axé-music, durante muitos anos dominante na cidade, e que a

46
música local ganha projeção internacional quando Salvador recebe, em 2016,
o título de Cidade da Música pela Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Visualiza-se, de maneira inicial e
exploratória, que tanto os artistas – em músicas, declarações e videoclipes –,
como os fãs e críticos – em comentários em plataformas de sociais e textos
em sites e jornais–, questionam e disputam a realidade da cidade de
desigualdade social, de opressões étnico-raciais e de gênero (gender), assim
como o modelo de Carnaval voltado para o negócio e o turismo, a partir de
discursos que entrecruzam gêneros musicais (principalmente relações com
axé-music, pagode, eletrônico e rock), territórios (ideias de “cidade alta e
cidade baixa”, de periferia e centro, favela/gueto e elite) e cenas musicais
(vinculadas tanto a territórios, como a gêneros musicais). Simultaneamente,
BaianaSystem, Larissa Luz e Attooxxa dialogam e reivindicam uma
aproximação com o Carnaval, elementos característicos e considerados
tradicionais, como o trio elétrico e a guitarra baiana, e gêneros associados à
festa, a exemplo do axé-music e do pagode. Esses movimentos dos artistas
geram identificações afetivas de fãs e críticos, mas também processos de
desidentificação expostos em debates e questionamentos em relação a
supostas contradições em suas trajetórias (traduzidas na cobrança de preços
tidos como altos para ingressos de shows, parcerias com empresas
multinacionais e transformações do perfil do público). Para a realização de tal
investigação, recorre-se às noções de gênero como categoria cultural, uma
construção que envolve textos, práticas, valores e discursos (MITTELL, 2001);
de territórios, não como algo estável ou uniforme, mas enquanto espaço
continuamente vivido, experienciado, produzido e reconstruído, com
dimensões materiais e simbólicas (HAESBAERT, 2004); e de cenas musicais,
que englobam gêneros e territórios (FREIRE FILHO E FERNANDES, 2006).
Aciona-se também as formulações de Lawrence Grossberg (2012, 2018) –
autor vinculado aos Estudos Culturais – acerca dos afetos, em ligação com as
experiências cotidianas. De acordo com o autor, os afetos são constituídos e
organizados nas e por meio das práticas discursivas e dos contextos culturais,
gerando processos de identificação e/ou desidentificação e articulando

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sensibilidades, posições políticas e visões de mundo (GROSSBERG, 2012). Ou
seja, os afetos podem contribuir para a reiteração daquilo que é incorporado
no espaço de experiências e horizonte de expectativas (KOSELLECK, 2006)
de fãs e críticos e também para a promoção de rupturas, numa ligação
constante entre o passado e o futuro. Nesse sentido, acredita-se que a noção
de formação discursiva, do filósofo Michel Foucault (1987, 2014), ajuda a
mapear e analisar as regularidades e descontinuidades discursivas, que,
frequentemente, evidenciam objetos e vetores de experiências e afetos de
críticos, explicitados em textos em sites sobre música, jornais locais e de
outros estados, e de fãs, em comentários nas páginas e canais dos artistas no
Facebook e no YouTube, entre 2015 e 2018. Dessa maneira, procura-se
entender também se e como as experiências e disputas afetivas,
manifestadas em discursos que perpassam as temáticas dos gêneros, dos
territórios e das cenas musicais, são capazes de tensionar certas estruturas e
relações de poder opressoras na cidade e de que maneira convocam (ou não)
ligações com diferentes cenas e temporalidades do contexto musical de
Salvador.

Palavras-chave: Experiência, afetos, gêneros, territórios, cenas musicais.

MESA 9 – Desafios teórico-metodológicos em tempos de fake news

Título: Alguns desafios da pesquisa sobre fake news


Frederico Ramos Oliveira (Doutorado)
Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço (Lab 404)

RESUMO: O discurso contemporâneo, particularmente o da cobertura


midiática, parece definir fake news como postagens virais baseadas em
relatos fictícios feitos para parecer textos noticiosos (TANDOC; LIM; LING,
2017, p. 138, tradução nossa ). Definições como a apresentada na frase
anterior são comuns na literatura sobre fake news. Embora pareçam, à
primeira vista, precisas, não conseguem distinguir amplamente fake news de
rumores, por exemplo. Uma abordagem epistemológica interessante é

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apontada por Bakir e McStay (2017) – e corrobora apontamentos de Allcott e
Gentzkow (2017). Os autores apontam que as fake news são
intencionalmente falsas e, como lembram Bakir e McStay (2017), envolvem
uma economia de emoções. Enquanto o rumor como um relato de
determinado evento que alguém acredita ter acontecido, mas que ouviu falar
– não observou diretamente – (BURREL, 2012), as fake news são
caracterizadas por sua intencionalidade. Ao contrário do rumor, que pode ser
fruto de interpretações equivocadas de algo ou de especulações, elas são
criadas por grupos específicos para deturpar a percepção da realidade em
benefício próprio. Os meios em que elas circulam determinam condições
específicas de recepção, compartilhamento e difusão. Elas ainda afetam quem
as consome, separando grupos de adesão. Nesse sentido, só é possível
entender amplamente as fake news como fenômeno social quando se
considera a sua gestão dos afetos, o modo como esses conteúdos alteram os
ambientes em que estão envolvidos – sua agência – e os espaços em que
circulam. A partir dessa compreensão, explicitada em Oliveira (2019), aponta-
se que as fake news operam como um dispositivo agencial de circulação
intencional de mensagens falsas que cria mecanismos de adesão – porque
afetam quem as consome. Elas são um dispositivo pois envolvem um
contexto específico em que a mensagem é compartilhada, a rede envolvida –
essa mensagem pode se tornar um meme – e as suas condições de circulação
– a materialidade dos suportes em que essas fake news são disseminadas.
Tratam-se de um dispositivo agencial, ou seja, a partir de sua associação com
outros atores, modifica o contexto em que está inserido. Por fim, as fake
news envolvem uma economia das emoções (BAKIR; MCSTAY, 2018),
afetando quem as consome e os reunindo em grupos de adesão. Uma última
característica das fake news seria sua intencionalidade: o seu conteúdo, o
contexto de produção e de circulação são estrategicamente pensados. Tudo
isso para garantir uma disseminação maior e beneficiar a determinado grupo.
A hipótese associada é que as redes sociais digitais, por suas características
específicas, são um espaço que alterou definitivamente a circulação de fake
news. Isso porque os algoritmos que fazem a curadoria de conteúdos na

49
internet operam a partir de conceitos como “recência”, de modo que alguns
usuários podem ter informações limitadas sobre determinado ponto de vista
ou assunto. Outras características materiais – como as interfaces, as
possibilidades de compartilhamento e o tipo de rede social digital – também
estariam intrinsicamente relacionadas a um novo modo de se espalhar fake
news. Um desafio, nessa proposição, é a definição de uma metodologia de
análise. Isso porque, a partir dessa compreensão de que as fake news afetam
o contexto em que circulam, parece importante analisar casos relevantes ao
longo da história recente. Uma abordagem genealógica, que aponte as origens
das fake news, parece pouco frutífera: sempre se circulou informações falsas
intencionalmente, nos mais diversos meios. No entanto, há algo que torna
importante essa avaliação histórica: parece existir uma mudança no regime de
“afetação” das fake news ao longo da história. A amplitude em que afetam
parece ter se modificado. Um desafio, nesse sentido, é a definição de critérios
de seleção de casos específicos e relevantes em um intervalo tão grande.
Também deve-se apontar que o caráter intencional das fake news traz novos
desafios: a intencionalidade pode ser avaliada por meio das ações diretas de
um ator, da instrumentalização de sua razão para atingir determinado fim. Sob
a abordagem da Teoria Ator-Rede, a intencionalidade poderia ser analisada –
a posteriori – a partir do modo como um determinado ator altera a rede para
tentar atingir determinado objetivo. No caso das fake news, por exemplo, seria
possível observar intencionalidade pelo fato de alguém ter escolhido o
WhatsApp para espalhá-las, e não o Instagram, em função das características
dessas redes sociais digitais.
Palavras-chave: Fake news; Teoria Ator-Rede; Metodologia

***
Título: Sobre mentira, política e eleições: Proposta metodológica para um
estudo sistêmico da circulação de fake news em mídias sociais
Tatiana Maria Silva Galvão Dourado (Doutorado)
Comunicação, Internet e Democracia (CID)

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RESUMO: Boatos, mentiras, meias-verdades e conspirações têm se
espalhado em volume viral no Facebook, Twitter e Whatsapp a ponto de
serem considerados notícias e fatos legítimos. A difusão de mentiras como
arma de disputa política não chega a ser novidade na história, no entanto a
dinâmica contemporânea tem desafiado a estabilidade democrática de
diversos países, principalmente em períodos eleitorais. A pesquisa em curso no
âmbito do doutorado visa compreender a circulação online de fake news em
uma perspectiva sistêmica, ou seja, no sentido de descrever o objeto, com
suas causas e consequências, como um todo, no esforço de não cair em
determinismos tecnológicos, políticos ou sociais. Por isso, a pesquisa divide
três eixos teóricos que impactam o entendimento do fenômeno: as condições
sociotécnicas, o ambiente informativo e o contexto político. Nesse sentido,
resumidamente, entende-se que o fenômeno contemporâneo das fake news
tem raiz multicausal, que envolvem novas formas de mediação por meio das
mídias sociais, ecossistema informativo plural e diverso, presença de media
alternativos e partidários, formação de redes políticas, contato direto entre
político e cidadão, produção e distribuição horizontal de conteúdo político,
entre outros aspectos. Complementarmente, fatores contextuais como
arrocho econômico, crises políticas e ascensão de lideranças populistas
podem ser sinais de agravamento do quadro social, que causam frustração e
descrença em relação a políticos, partidos e instituições públicas. O objetivo
geral é analisar o fenômeno fake news durante as eleições de 2018 do Brasil
em busca de identificar suas principais características no que diz respeito ao
ciclo de desinformação, aos modos de propagação, à estrutura noticiosa e ao
conteúdo político. Em outras palavras, a investigação se propõe a ajudar a
explicar por que fake news surgem e ganham relevância nas mídias sociais
tendo como base a experiência político-eleitoral brasileira de 2018.
Especificamente, o estudo procurou examinar os processos de emergência
das fake news, quais as redes políticas e plataformas centrais para a
propagação dessas histórias, como elas buscam simular legitimidade para
serem aceitas como verdade e como refletem tendências e disputas políticas.
Para isso, a pesquisa analisa os principais conteúdos que circularam durante o

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período eleitoral (entre agosto e outubro) das eleições gerais de 2018 no
Brasil e que foram classificados como fake news por cinco veículos de
verificação dos fatos: Aos Fatos, Comprova, Fato ou Fake, Lupa, Boatos.org.
A amostra é composta por 475 diferentes histórias, sendo 39 do mês de
agosto, 46 de setembro e 390 de outubro. A amostra será dividida em
famílias temáticas, por exemplo, “fraude nas urnas”, no processo de análise de
conteúdo. A proposta é apresentar a metodologia da pesquisa, especialmente
as categorias que foram desenvolvidas para a análise do objeto. As categorias
foram organizadas no âmbito de quatro dimensões: Ciclo de desinformação,
Propagação, Estrutura noticiosa e Conteúdo político. Em Ciclo de
Desinformação, busca-se identificar o fluxo de boatos, rumores e conspiração
que porventura aconteceram previamente à emergência das fake news,
considerando, portanto, duas categorias: a) boatos prévios e b) promotores de
boatos. Em Modos de propagação, o intuito foi traçar o percurso da fake
news nas mídias sociais no que diz respeito a: c) alcance, d) emissores, e)
plataformas e f) redes políticas. Em Estrutura Noticiosa, serão examinados
quais foram os recursos empenhados para simular profissionalismo e,
portanto, legitimidade e credibilidade à história, o que leva em conta: g)
formato, h) sites distribuidores, i) citação de fontes e j) uso de jargões. Por fim,
em Conteúdo político, pretende-se distinguir as características textuais que
expliquem tendências de polarização e conflitos políticos, tendo por base: l)
atores, m) temáticas e n) viés textual e n) ideia de fato.

Palavras-chave: Eleições; fake news; política online

***
Título: Fake news, fake photos: checagens de imagens e fotografias feitas
por agências de fact-checking
Eduardo Leite Vasconcelos (Doutorado)
Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line (GJOL)
RESUMO: O objetivo da tese proposta é avaliar a eficácia da checagem de
imagens e fotografias por agências de fact-checking. A temática surge do
questionamento recente a respeito das chamadas fake news – boatos

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publicados em sites que emulam formas do jornalismo online e espalhados
através das redes sociais digitais – e do esforço feito por agências de fact-
checking em combater esse tipo de desinformação que já teve influência em
eventos políticos significativos, como o Brexit, a eleição de Trump e, no Brasil,
a última eleição presidencial, que foi permeada pelos mais diversos boatos,
como a falácia do kit gay. Um episódio em específico das últimas eleições deu
força a este projeto: a facada ao então candidato Jair Bolsonaro, que fez
surgir nas redes sociais digitais uma enxurrada de imagens as mais diversas a
respeito do assunto, como uma fotografia do autor da facada ao lado do ex-
presidente Lula ou uma imagem do candidato esfaqueado andando pelo
hospital antes de ser atendido, ambas alegadas como falsas pelas agências
Lupa e Aos Fatos, que fizeram checagem em tempo real das informações a
respeito do caso. Por se tratar de um fenômeno recente, obviamente ainda é
escassa a literatura a respeito das chamadas fake news e grande parte dos
trabalhos sobre assunto foca apenas nas notícias falsas apresentadas em
forma de texto, ignorando formas não-textuais de transmissão de informação,
como a fotografia. Para além disso, o meio fotográfico ainda é dotado de
grande misticismo acerca de seu feitio. Fotografias são tomadas como
evidência de que aquilo que está representado aconteceu na realidade,
mesmo que saibamos das inúmeras possibilidades de manipulação da imagem
fotográfica, desde o momento do clique – já que toda fotografia implica um
recorte ideologicamente orientado de algum aspecto visual da realidade
(MACHADO, 2015) – até sua pós-produção, com manipulações feitas em
softwares de edição de imagens. Ou seja, por mais que a fotografia, de
acordo com o senso comum, não tenha a capacidade de mentir (DUBOIS,
1993), o fotógrafo tem a capacidade de mentir através dela. Porém, como
diferenciar uma fotografia dita verdadeira de uma fotografia avaliada como
falsa? Depois das acusações de que boatos espalhados através do Facebook
influenciaram as eleições presidenciais estadunidenses, foi às agências de
fact-checking que Mark Zuckerberg recorreu para que sua marca não ficasse
atrelada às fake news. De acordo com Amazeen (2015), fact-checking seria
uma forma de jornalismo de prestação de contas, comprometida em divulgar

53
erros ou falseamentos. Essas agências estão diariamente em confronto com a
propagação de boatos e falseamentos tanto por pessoas públicas quanto por
usuários comuns que compartilham esse tipo de informação através de redes
sociais digitais e aplicativos de mensagens instantâneas. No que diz respeito à
checagem de fotografias, esta é uma área que vem ganhando cada vez mais
destaque entre as agências por conta não somente da quantidade de imagens
manipuladas que proliferam nas redes, mas também por ser mais custoso de
checar informações contidas em fotografias do que em textos (ZUBIAGA,
2014). Obviamente as avaliações das agências também são passíveis a
equívocos e enviesamentos, ainda mais em se tratando de um terreno tão
escorregadio como o da averiguação de manipulações em fotografias. Quais
manipulações são aceitas sem que a fotografia seja dada como falsa? Se
toda fotografia nasce de um recorte enviesado de aspectos visuais da
realidade, existe fotografia genuinamente verdadeira? Existem níveis de
falseamento de fotografias? E para além da questão da fotografia, o que há
para além da dicotomia verdadeiro/falso, em si já tão problemática? Para
elucidar essas questões ou pelo menos nos aproximar de suas respostas,
propomos uma metodologia de pesquisa baseada no Estudo de Caso como
Ilustração, nos moldes propostos por Machado e Palacios (2010).
Primeiramente, serão analisadas as metodologias das agências certificadas
pela Rede Internacional de Fact-checking do Instituto Ponyter de Jornalismo.
Atualmente, são 50 agências verificadas pela IFCN, distribuídas em 28 países.
A partir das metodologias descritas pelas agências, conseguiremos discernir
entre agências que fazem checagens de fotografias de modo regular e que
não fazem esse tipo de checagem. As primeiras servirão para a construção
dos estudos de caso, dividindo as checagens em categorias ainda a serem
definidas, de modo a nos aprofundarmos tanto nas formas em que essas
checagens são feitas quanto nos modos de falsificação de imagens que mais
caracterizam fake news. Aliadas aos estudos de caso, propomos, também,
entrevistas em profundidade com jornalistas que trabalham nessas agências
específicas para entendermos como esses profissionais enxergam esse tipo
de checagem e avaliam a importância e eficácia de sua abordagem. Espera-

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se, com isso, elucidar algumas dessas questões e elaborar algumas outras –
por que não? – para pesquisas posteriores.

Palavras-chave: Fotografia, Fotojornalismo, Fake news, fact-checking

MESA 10 – Análises da crítica e da linguagem cinematográfica

Título: A crítica brasileira no YouTube: Demandas de uma retórica audiovisual


sobre o cinema
Wanderley de Mattos Teixeira Neto (Doutorado)
Recepção e crítica da imagem (GRIM)
RESUMO: A partir da compreensão da crítica de cinema como um conteúdo
marcado pela retórica de um ponto de vista sobre as obras em circulação e
sobre o próprio nicho de produção audiovisual em questão, chegamos
também à conclusão de que estamos diante de um discurso socialmente
estruturável e assimilado com o tempo por meio de práticas que já entraram
na rotina da sociedade através de instituições diversas, como o jornalismo, a
academia, a cinefilia etc. (Bordwell, 1991). Ao tomarmos como objeto de
análise a crítica como produção audiovisual, entretanto, compreendemos que
surgem novas demandas na forma desse discurso (ou sua poética) por força
de uma cultura da imagem na internet. A partir dessa reflexão, nos
questionamos: que tipo de relação essa tradição institucionalizada como a
crítica estabelece com a demanda de “audiovisualizar-se”? Que soluções
encontra nesse formato de apresentação discursiva que os meios digitais lhe
possibilitaram? Nosso trabalho parte de um esforço de responder a essas
questões e para isso sugerimos a aplicação de uma metodologia que utilize a
retórica (Perelman, 1997) , tradicionalmente articulada em pesquisas de
recepção que envolve a crítica cinematográfica em sua forma textual
(Bordwell, 1991), adaptada, entretanto, às demandas que surgem para o
audiovisual no YouTube em dois formatos populares de comentário sobre
cinema na plataforma: a review (ou resenha jornalística) e o vídeo-ensaio, a
partir dos casos dos canais Isabela Boscov e Entre Planos. Em um primeiro
momento, compreendemos que surge uma demanda da ordem da linguagem.
Estamos tratando não de um discurso que apesar de trazer traços retóricos

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da sua versão textual, utiliza em prol da sua formulação toda a cartela de
elementos de quaisquer produções audiovisuais que vão além da “palavra
escrita” na produção de uma construção de sentido. Notamos, por exemplo,
como a edição é fundamental na realização de vídeo-ensaios já que a locução
do crítico nos vídeos costuma vir acompanhada de uma edição de cenas do
filme comentado de modo que a mesma favoreça essa “fala” (Monaghan,
2017). Ao mesmo, percebemos como as reviews, formato inclinado para a
crítica “ligeira” jornalística que faz a cobertura das estreias do circuito
comercial, se baseia exclusivamente na performance do crítico para a câmera
(Manzoli, Noto, 2015). Tais elementos são centrais, mas expedientes comuns
do audiovisual como trilha sonora, figurino, cenários e recursos gráficos
também juntam-se à palavra na construção dessa retórica. Há também outras
duas demandas: técnicas ou tecnológicas da plataforma (YouTube) e da
sociabilidade online. Ser viabilizado na internet graças a facilidades
tecnológicas (softwares de edição cada vez mais acessíveis ao público e
equipamentos de mais fácil manuseio) e estar no YouTube, um site que possui
especificidades na linguagem dos seus vídeos, mas também lógicas
mercadológicos (Carlón, 2013), traz para a crítica de cinema audiovisual
questões que afetam a maneira como esse tipo de discurso é formulado. Da
mesma maneira, por estar online e dependente (para a sua popularidade e
longevidade na rede) de atividades do usuário como inscrições, comentários e
likes (Jenkins, 2014), estabelecendo uma maior horizontalização na relação
crítico-público que àquela estabelecida no impresso. A concepção de uma
crítica audiovisual traz para o realizador desse conteúdo um compromisso
com a manutenção de uma relação com os receptores desses conteúdos que
demandam uma captação dos códigos da comunidade (os fãs de cinema), fica
mais saliente o quanto que esse tipo de produção é dependente da instância
da recepção. Assim, entendemos que as três demandas elencadas (linguagem
audiovisual, técnicas e tecnológicas e de sociabilidade online) são
determinantes para podermos pensar numa retórica audiovisual aplicável a
análise de críticas concebidas em vídeo e disponibilizadas em sites como o
YouTube. Acreditamos que a construção desse aparato teórico-metodológico

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nos possibilite compreender o que, do ponto de vista da estrutura discursiva,
existe de continuidade de uma tradição do ofício da crítica de cinema,
interseccionalidades e rupturas em prol da realização de uma prática tão
tradicional no campo cinematográfico.

Palavras-chave: Crítica, cinema, recepção, retórica

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Título: Práticas de análise fílmica em vídeo: o entreplanos e o every frame a
painting
Murilo Nogueira dos Anjos (Mestrado)
Laboratório de Análise Fílmica (Nanook/Pepa)
RESUMO: O modo de produção da análise fílmica sofreu transformações com
as alterações sociais e comunicacionais. Atualmente, a análise fílmica feita em
vídeo, tem sido expressivamente vista pelo público cinéfilo na internet.
Mediante abordagem qualitativa, focada na análise empírica do fenômeno,
esse projeto busca compreender e demonstrar o modo desses trabalhos por
meio de dois objetos ou canais: o Entreplanos e o Every Frame a Painting,
explorando suas potencialidades e particularidades. 1 - INTRODUÇÃO Fóruns,
blogs e sites foram se constituindo em formas de falar sobre os filmes. A
mudança ocorreu nos espaços e também nas ferramentas e dispositivos
acessíveis. Apareceram plataformas de compartilhamento de vídeos que
abrigaram as criações produzidas por diversos usuários. O YouTube e o Vimeo
traduzem bem essas mudanças e selecionamos dois canais: o Entreplanos e o
Every Frame a Painting, para serem nossos objetos de estudo, explorando
como essas mídias alternativas viabilizam novos modos de se falar sobre o
filme na era digital. Assim a problemática se instala na verificação da
potencialidade da análise fílmica praticada nos formatos audiovisuais, com as
seguintes questões: de forma geral, que procedimentos são característicos da
análise fílmica realizada em vídeo no YouTube e no Vimeo? Em que eles
diferem dos métodos mais tradicionais? Como é o trabalho de edição
realizado nesses trabalhos? Como eles dialogam com o público que assiste
aos filmes? 2 – METODOLOGIA Observando 28 vídeos do Every Frame a

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Painting e utilizando produções do Entreplanos, pensaremos nas perspectivas
apresentadas adotando uma análise-empírica como meio para examinar as
relações entre as referidas variáveis. Aumont e Marie (1988) apontam como
princípios de validades de uma análise fílmica a verificação dos seus critérios
internos e externos. Os critérios internos são a coerência da análise e sua
capacidade de permanência frente a novas informações. No campo externo
eles dizem que o critério de validade mais evidente é a confrontação com
outras análises do mesmo gênero. Realizaremos esse procedimento fazendo
observações entre os dois canais, que atuam de modos distintos frente a
plataforma YouTube. Aumont e Marie também nos farão pensar na
historicidade da análise audiovisual e entender a potência do fenômeno
presente. Bordwell e Thompson nos auxiliarão a pensar no formato vídeo-
ensaio confrontando com a sua forma escrita e sua produção quanto ao
significado fílmico em Making Meaning: inference and rhetoric in the
interpretation of cinema e aos aspectos formais e linguísticos do cinema que
são bases para os vídeos expostos em A Arte do Cinema. Com o propósito de
se pensar no meio onde esses produtos circulam pretendemos trazer as obras
de Henry Jenkins sobre cultura participativa e Jean Burguess e Joshua Green
que abordam a plataforma YouTube e suas implicações no contexto atual.
Para se verificar a montagem dentro desses trabalhos traremos autores que
se debruçaram sobre o dispositivo na construção de filmes, como Noel Burch
e Sergei Eisenstein. RESULTADOS E DISCUSSÕES As análises fílmicas são
feitas, regularmente, na forma escrita. O formato audiovisual traz em seu
cerne a inovação e também novas possibilidades de expressão do material e
diálogo com o público cinéfilo, se baseando nos estudos de cinema,
alcançando, por meios das plataformas digitais, ampla divulgação para eles.
Ainda que possam tratar sobre temáticas diferentes sobre a sétima arte é
manifesto que há uma tentativa de padronização nos vídeos cuja finalidade
seja didática, não só por meio do seu formato adotado, mas também em como
a exposição das suas ideias é disposta. Assim, ainda em estágio incipiente,
realizaremos verificações dos procedimentos, métodos e potencialidades da
análise fílmica, no sentido de averiguar o seu papel e sua validade diante da

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obra ou particularidades fílmicas. CONCLUSÕES A observação analítica, de
modo preliminar nos faz concluir que há um vasto trabalho de pesquisa
realizado por esses canais, que se baseiam nas teorias e estudos sobre o
cinema. Isso se verifica tanto por meio da descrição da teoria quanto pela
escolha temática da abordagem de algumas obras. Outra leitura realizada é de
que compreendendo a contemporaneidade e suas opções, os produtores
realizam esse exercício da análise audiovisual explorando os espaços por onde
sua produção possa ser difundida e também todas as probabilidades de
trabalhar com a obra e seus elementos. Assim as plataformas como o
YouTube e o Vimeo são os meios para que isso aconteça e as ferramentas
digitais de edição e o seu acesso mais facilitado podem ser vistos como base
para essas criações. Também pode-se inferir que o modo do discurso e da
montagem é pensado no sentido expressivo do autor dos vídeos, porém
visando a uma compreensão por parte do espectador. Assim a análise fílmica
tem cumprido o seu papel de fazer pensar e olhar sobre o cinema, um papel
que faz parte dos elementos que fazem o cinema ser movente.

Palavras-chave: Análise, fílmico, vídeo.

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Título: Dois neo-realismos e uma cineasta: um estudo sobre possíveis
releituras do neo-realismo italiano na estética inovadora da obra de Lucrecia
Martel
Diego Martin Haase (Mestrado)
Laboratório de Análise Fílmica (Nanook/Pepa)
RESUMO: A presente pesquisa pretende desenvolver um estudo sobre as
relações entre o chamado novo cinema argentino e o neo-realismo italiano,
através da análise da obra da cineasta argentina Lucrecia Martel. Será
examinada a abordagem, bastante consolidada, que situa a obra de Martel e
de outros cineastas argentinos contemporâneos nos marcos do neo-realismo,
ao buscar identificar e analisar especificidades e inovações trazidas pela
cineasta. Tanto o novo cinema argentino como o neo-realismo italiano
surgiram de uma intensa transformação social que propiciou a origem das
suas expressões cinematográficas realistas, através das quais os cineastas
59
buscavam se reconhecer ante o desamparo e a desolação da sua própria
realidade: a Itália, destruída pelo fascismo e pela guerra, e a Argentina, abalada
pela ditadura militar e pelas consequências das políticas neoliberais que a
levaram a passar por uma das crises econômicas e políticas mais profundas
da sua história. Os filmes destas vertentes estéticas afloraram das ruínas do
seu tempo criando um espaço de distanciamento cultural com as
representações do passado. Ao contrário do neo-realismo italiano, que se
caracterizou como um movimento de expressão coletiva pelas similaridades
estéticas e pelas formas narrativas da sua concepção, contando com forte
elaboração teórica, o novo cinema argentino não parece ter chegado a se
consolidar como um movimento, nem a criar convenções entre os cineastas
que fizeram parte do mesmo. No entanto, é possível considerar que, mesmo
não adotando o modelo neo-realista como uma convenção estética - mas
apenas retomando suas características para “filmar a realidade”. No novo
cinema argentino parece se repetir uma ideia do neo-realismo italiano que é
fundamental para a compreensão da linguagem cinematográfica que o
caracterizou desde seu surgimento. Tal linguagem vem atrelada a um
contexto técnico e político, no qual uma ruptura histórica com o modelo
dominante leva a uma revolução estética da tecnologia e da libertação
humana. Para ambas as cinematografias, esse paradigma se deve ao
surgimento de um cinema feito na rua, com a emancipação em relação a uma
cultura dominante. Tais similitudes neo-realistas, presentes em
cinematografias tão distantes no espaço-tempo dos acontecimentos que as
desencadearam, têm levado a interpretações reducionistas sobre a influência
do neo-realismo italiano sobre o novo cinema argentino, ou ainda o “neo-
realismo argentino”, assim chamado pelos críticos que mais evidenciaram essa
relação. O novo cinema argentino nunca contou com a presença de uma
figura que alimentasse uma fundamentação teórica, como foi o caso Bazin no
neo-realismo italiano, e desenvolveu uma diversidade autônoma de modos de
produção sem enquadramentos que o determinassem como um movimento
ou grupo. O novo cinema argentino não está apenas inspirado no neo-realismo
italiano, que procurava um lugar possível para o homem em um mundo cheio

60
de adversidades, mas também pelo cinema político da América Latina, que
enfrentou o exílio, a perseguição, a tortura e a morte. Longe de se abrir para o
mundo, filmes desapareceram, e outros tantos foram censurados. Diante
dessas reflexões, talvez seja mais adequado pensar, como afirmou o crítico do
Cahiers de Cinema, Serge Toubiana, que: ”O cinema argentino é uma forma
neo-realista reinventada”. Se é assim, resta ainda o trabalho de destrinchar a
natureza de tal reinvenção. Ou seja, para avançar na compreensão das
relações entre as duas cinematografias, a pesquisa pretende identificar e
analisar as especificidades e inovações trazidas pelo cinema argentino deste
período. A obra de Lucrecia Martel, em particular seus três longas-metragens
autorais- O Pântano (2001), A Menina Santa (2004) e A Mulher Sem Cabeça
(2008). Objetivo Geral Investigar as relações entre a obra da cineasta
argentina Lucrecia Martel e o neo-realismo italiano, buscando analisar
possíveis aproximações, mas também especificidades e inovações em relação
a esta corrente cinematográfica. Objetivos específicos a) Compreender de
que modo o neo-realismo italiano e o chamado novo cinema argentino se
constituíram como respostas estéticas aos contextos históricos específicos
nos quais surgiram; b) Analisar em que medida há aproximações técnicas e
estéticas entre a produção neo-realista italiana e o novo cinema argentino; c)
Identificar possíveis especificidades e inovações do novo cinema argentino
com relação ao neo-realismo italiano, a partir da obra de Lucrecia Martel. Será
utilizada uma perspectiva interdisciplinar, que inclua análise fílmica e a análise
das relações entre as obras estudadas e seu contexto histórico e político.
Como defendem Vanoye e Goliot-Lété (2004), a análise de um filme vai além
da decomposição dos elementos que o constituem, mas também situá-lo num
contexto e numa história. Será ainda necessário aprofundar o conhecimento
sobre o neo-realismo italiano, revisitando seus fundamentos teóricos face ao
surgimento de novas cinematografias, Serão centrais na pesquisa aportes
teórico-metodológicos da análise fílmica.

Palavras-chave: Novo cinema argentino; neo-realismo italiano; Lucrecia


Martel

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III Seminário de Discentes do Póscom
Comissão Organizadora

Comissão Científica Assessoria de comunicação


Adalton dos Anjos Allana Gama
João Guerra Enoe Lopes Pontes
Thiago Emanoel Ferreira Marília Moreira
Thiane Barros Tess Chamusca

Comunicação visual Comissão de produção


Daniel Marques Caio Barbosa
Edinaldo Mota Junior Daniela Silva
Genilson Alves Dilvan Azevedo
Laiz Mesquita Hanna Nolasco

Programa de Pós-Graduação
em Comunicação e Cultura
Contemporâneas

Coordenação
Graciela Natansohn

Vice-coordenação
Lia Seixas

Representantes discentes
Dilvan Azevedo (Doutorado)
Caio Barbosa (suplente - Doutorado)
Allana Gama (Mestrado)

Faculdade de Comunicação

Diretora
Suzana Barbosa

Vice-diretor
Leonardo Costa

Universidade Federal da Bahia

Reitor
João Carlos Salles

Vice-reitor
Paulo Miguez

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